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Aurora
Capítulo 1 Certa vez, creio, foi a única, minha mãe levou-me a fazer compras. Na loja, uma mulher, cujo nome não me recordo, disse-lhe que eu me parecia com Aurora. Minha mãe, não percebi por que, tomou-me o braço com dureza e deixou a loja sem se despedir do vendedor. Sempre tive medo de minha mãe e não menos de meu pai. Por isso, não perguntei quem era Aurora. À tarde, quando estive com meu avô, fui direto à pergunta: “Quem é Aurora?” Meu avô, com ingênua malícia, respondeu-me, com palavras simples de quem a escola não ensinou a falar: “Aurora é sua prima. Era bonita e, tanto quanto seu pai, orgulhosa. Escolheu seu próprio caminho, sem perguntar o que era certo ou conveniente.” Não entendi muito bem o que meu avô havia dito, porque, ao tempo da resposta, criança, eu me entretinha vendo o de que mais gostava, um espetáculo que sempre me encantava: o ferro em brasa, saindo da fornalha, cantando ao ser jogado na água fria e de repente moldado na bigorna pelo martelo firme nas mãos operárias de meu avô. Meu avô era ferreiro. Nesse tempo, a casa de meus pais era o lugar onde eu dormia. Todas as manhãs, a empregada me punha um vestido bordado, um enorme laço na cabeça e meias de renda e colocava-me na varanda, onde meu avô me vinha buscar. Ele me tomava em seus braços e saíamos pela estrada, onde os ruídos, cheiros e cores não eram mais que a natureza, ela e nós isentos de qualquer civilização. Meu avô me contava histórias de lobisomem, de mulas sem cabeça e até de recém-chegados de outros mundos que, muitas vezes, sem que ele o quisesse, lhe faziam companhia, montados em seu cavalo, quando de suas eventuais e necessárias viagens noturnas. Nunca lhe perguntei se essas histórias eram verdadeiras, porque naquele tempo ninguém me havia falado que existiam mentiras.

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A casa de meus avós, de onde me quiseram tirar, mas para onde me deixaram ir sem que eu o pedisse, era cada vez mais a minha casa. E nesse tempo minha avó já me contava: “ O casamento de sua mãe não teve o meu consentimento. Seu pai sempre trabalhou muito. Apareceu aqui na vila, como um estranho, não se ligou aos importantes, não fez amigos e quando trabalhava exigia bom preço e pagamento na hora. Era desconhecido e não prestava obediência a meus irmãos, coisa que até seu avô parecia fazer.” Não entendia muito bem o que significavam as coisas que me falavam os adultos, mas não lhes questionava porque meu avô já me havia dito que “os adultos são cheios de certezas e que muitas vezes não entendê-los é o melhor”. Meu avô e eu íamos com freqüência à pescaria em que na maioria das vezes não havia pesca. Banhávamos no rio e depois um na mão do outro tomávamos água porque, dizia ele, a água na concha da mão nos faz mansos e submissos e isto nos evita problemas. Ele me dizia essas coisas, e meu pai, que sabia ler, as contradizia. Meu pai sabia ler livros, meu avô lia o céu, as plantas, os gritos das aves e, mais do que tudo, o sol. Meu pai não ficou contente quando meu avô me banhou no sangue de tatu, para que minha pele ficasse bonita, como deve ser a pele de uma mulher que será amada. Meu pai ficou calado. Não disse nada. A esse tempo, um e outro sabiam que eram de mundos diferentes e tacitamente haviam decidido que era melhor que seguissem pôr uma paz sem muitas palavras. Uma tarde de domingo, quando voltávamos da pescaria, o senhor Josué, lembro bem de seu nome, embora o nome não importe, foi à tenda e disse a meu avô que os irmãos de Isaura queriam matar o Jacintho. Quando o senhor Josué foi embora, perguntei a meu avô porque todos aqueles irmãos de Isaura queriam matar o Jacintho, que era tão bonito, o cabelo penteado com brilhantina. Meu avô respondeu que talvez fosse exatamente por causa da brilhantina. O Jacintho com os cabelos penteados havia dado um filho a Isaura, e os irmãos entendiam que um homem que dá um filho à mulher deve casar-se com ela. O Jacintho não queria se casar com Isaura e nem cuidar do filho que havia dado a ela. Os irmãos de Isaura entendiam que isso lhes sujava a honra . E pensavam mais: sangue lava a honra. Aqui se fala muito em lavar a honra, e mesmo quem não se

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convence de que alguma coisa pode sujar ou lavar a honra, continua fazendo a mesma coisa, porque é assim que todos fazem”. * E porque eu não havia entendido como pensavam os irmãos de Isaura e como faziam todos os outros irmãos de qualquer mulher, meu avô, colocando em ordem seus anzóis, disse-me que ele também não entendia daquelas coisas e o que ele desejava é que quando eu me tornasse mulher, não se dissesse que a honra estava em coisas tão pequenas e que ela fosse tão grande que ninguém pensasse que poderia lavá-la. Algumas coisas não são mesmo para se entender. Então, no fogo da grande fornalha da tenda, meu avô assou o queijo e nós o comemos com um bom vinho sem nome, que era bom exatamente porque nós nos preocupávamos com os vinhos de nome. E eu tinha seis anos. Meu avô raramente me falava de pessoas e, mesmo quando por alguma razão se via obrigado a fazê-lo, nunca se detinha no assunto, como se as pessoas lhe fossem supérfluas. Maria Ligória, uma vizinha muito séria e de simplicidade elegante, fugiu com um homem desconhecido, deixando em casa os filhos pequenos. O marido viajante veio a meu avô com muitas perguntas e ele simplesmente respondeu: Dona Maria Ligória não era da minha intimidade”. O marido viajante não fez mais perguntas. A cidade inteira ficou muito tempo falando sobre o assunto e em todo esse tempo meu avô continuou a dizer: “Dona Maria Ligória não era da minha intimidade”. Em seguida, de mãos dadas, caminhávamos juntos e ele me falava de suas caçadas, de seus bichos, de lobisomens e luas cheias. Penso que era exatamente porque ele não falava de pessoas que as pessoas achavam que ele devia ouvir. Sempre falavam de todos com ele. Foi por esse tempo que meu avô ficou sabendo que o preço do café havia subido de treze para trinta e seis mil réis a arroba e quando ficamos sozinhos ele me disse que meu pai havia ganho muito dinheiro. Perguntei-lhe o que acontecia a uma pessoa que ganha muito dinheiro e ele me respondeu que o dinheiro era uma coisa, e que, se a pessoa que ganha dinheiro fica pensando que as coisas são menos importantes do que as pessoas, ela se modifica muito pouco, mas se a pessoa acha que o dinheiro é muito importante, ela pode até se transformar em outra pessoa. Depois disso, continuamos a fazer o que fazíamos sempre e estávamos fazendo naquele momento. Ele forjando o ferro na bigorna e eu vendo o fogo e as fagulhas, tão bonitas e hoje tão raras.

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Uma tarde, quando ninguém ainda havia me dito que eu havia feito sete anos, minha mãe mandou entregar na tenda umas roupas e uns sapatos, dizendo que no próximo dia primeiro de fevereiro eu teria que ir à escola. Sempre via outras meninas indo para a escola, mas pensava que eu poderia escolher aprender as coisas que meu avô sabia, e havia aprendido todas sem ter nunca ido à escola. Mas ainda não se passaram muitos dias e eu estava ali de saia azul, blusa branca, sapatos pretos e de novo, aquele terrível laço de fita nos cabelos. Era a escola: um menino atrás do outro, cada um no seu lugar, porque há um lugar para cada um isto se chama fila, princípio de civilização que me aprisionaria para sempre. A professora vestia mangas, golas, os joelhos cobertos de uma saia muito séria. Falava em disciplina e avisava-nos que teríamos de aprender. Falou que aprendendo as pessoas ficam mais livres e disse o que era ser livre, então eu quis aprender. Até então, ninguém me havia ensinado coisa alguma, mas do saber do meu avô eu sabia muitas coisas: pescar, caçar, forjar o ferro e sabia cantar as músicas cantadas pelos homens que passavam a noite no mercado. Na casa de meus pais, sempre me mostravam que havia um modo especial para falar com as pessoas, um modo diferente daquele que se podia falar na tenda de meu avô. Como não me haviam ensinado o modo de se falar na escola, durante a aula nunca falei com a professora e nem mesmo com as outras crianças, mas, à tarde mostrava aos meus avós todas as letras que a professora me ensinava e minha avó me disse que quando eu aprendesse a juntar letras e fazer palavras, que eu poderia ler livros como meus pais e como muitas outras pessoas... Lendo se fica sabendo o que pensam pessoas que nós nem conhecemos. Pensei: um dia vou ler muitos livros. Durante muito tempo pensei que a professora nem soubesse o meu nome, mas um dia ela me disse: “Irene, você precisa mesmo de estudar muito, porque o seu pai está muito rico e um dia ele a mandará para um bom colégio”. Todas as crianças olharam para mim e no meu rosto chegaram ao mesmo tempo o fogo da fornalha e o vento do fole. Fiquei pequenina. Desde esse dia, a professora tomou-se de cuidados para todas as coisas que de imediato eu não entendesse e no dia do meu aniversário me deu uma boneca e muitas balas. Muitos dias depois, ela me disse que, quando eu crescesse, naturalmente eu seria uma professora e até poderia vir a dirigir a escola.

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Quando cheguei em casa, disse a meus avós: não quero ser professora, não quero vestir aquelas roupas de golas e de mangas. Quando eu crescer, quero ser como as mulheres que dormem com os homens do mercado e deles ganham colares e brincos. Também não gosto do sol, que é muito quente, quero trabalhar à noite com lua, estrelas e homens. * Foi na escola o meu primeiro contato com meninos da minha idade. Minha irmã estudava em outra sala e era tão diferente de mim que nenhuma razão havia para que fôssemos amigas. Seus cabelos eram loiros, olhos azuis, tinha o falar dos adultos e naqueles tempos começava a ter aulas de piano e eu nem sequer conhecia um piano. Minha irmã se assentava como as pessoas adultas, falava baixinho, e suas mãos se colocavam de um modo considerado elegante, eu nem sabia o que era ser elegante. Talvez tenha sido por isso que minhas brincadeiras eram partilhadas com Rizzia e Tereza. Rizzia morava com sua avó e Tereza, que morava com seus pais, me contou que a mãe de Rizzia morava sozinha, numa casa onde não iam mulheres mas vivia cheia de homens e o demônio era o rei de todos eles. Um dia. dona Elgita, mãe de Rizzia, voltou à tenda. Não era a primeira vez que ela aparecia por lá. Suas roupas eram muito simples e muito limpas; ela pedia a meu avô que lhe consertasse algum utensílio doméstico, ou lhe fizesse outros. porque meu avô sabia fazer colheres e garfos. O serviço era feito. Dona Elgita agradecia, pagava e ia embora. Um dia, pediu desculpas à minha avó por ter ido à tenda. As outras mulheres iam à tenda e nunca pediam desculpas por isso. Depois de muitos comentários, Tereza e eu resolvemos ir à casa da mãe de Rizza. A mãe de Tereza não gostou da idéia e a proibiu de falar com Rizzia. Faríamos isso disfarçadamente para que dona Elgita não se sentisse magoada de que eu tivesse ficado curiosa a respeito do que se passava em sua casa. No primeiro domingo depois disso, fizemos, meu avô e eu, o costumeiro passeio pela estrada vazia de tudo que não fosse natureza, e, quando passamos pela casa de dona Elgita, pedimos água. A casa era muito limpa, cheirava a plantas e roupas muito brancas se estendiam nos varais. Não era diferente das outras casas. Meu avô me disse que o demônio não mora em casa porque ele não é visível, demônio mora na cabeça de algumas pessoas, que, tendo certeza do que é certo, pensam que é errado fazer o que elas não fazem e... muitas vezes tinham vontade de fazer. Meu avô me disse que, mesmo se Tereza se afastasse de Rizzia, eu não precisava fazer o mesmo, porque as pessoas não têm nenhuma obrigação de se parecerem umas com as outras . Têm apenas de respeitá-las, “quando você crescer

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você entenderá isso melhor”. Na segunda feira, quando voltei da escola, meu avô não estava em casa. Fora a um sepultamento. O morto era tio de minha avó e se chamava Antônio Macedo. Minha avó então me falou daquele tio que eu nunca vira em sua casa. Ele fora dos primeiros homens que vieram morar na vila. Quando chegaram, ele e outros dois irmãos, um deles pai de minha avó, fizeram a primeira casa do lugar e logo depois uma igreja. Acreditavam que no solo pouco valia plantar, mas debaixo da terra havia fortunas que os homens poderiam arrancar da noite para o dia. O tio Antônio comprou uma lavra e dela extraiu pedras que o fizeram muito rico. Casou-se com uma mulher de outras terras e teve uma filha que se chamava Aurora. A mulher do tio Antônio, cujo nome as pessoas não fizeram questão de se lembrar, comia muito pouco para se manter magra, usava cremes no rosto e seus perfumes e roupas eram buscados muito longe. Não se sabe se pelos perfumes ou pelo sol que ela evitava para se manter branca, ficou muito doente e morreu deixando a filha ainda pequena. O tio Antônio foi ficando pobre, pobre, e quando a filha, tão bonita quanto a mãe, ficou adulta, ele a fez casar com o senhor Eulálio, um homem vindo não se sabe de onde, já muito velho e sobretudo muito rico. O tio Antônio passou por umas coisas muito tristes e nós dizemos que sua filha, a Aurora, enlouqueceu. A família nunca falava do tio Antonio, mas sempre fez questão de dizer que Aurora enlouqueceu. Quando voltou do sepultamento, meu avô estava pensativo e comentou: ninguém quase apareceu no sepultamento de um homem que um dia foi querido de todos. Nem mesmo a filha veio vê-lo. Todos os dias de nossa vida têm de ser muito bem cuidados, porque o que fazemos hoje pode ser o indicativo do que teremos de fazer amanhã. A vida é como uma corrente, um dia é preso ao outro como os elos na corrente. Cada um tem de ser forte para prender o outro, de modo que todos sejam igualmente fortes. Foi nesse mesmo dia que um homem contou a meu avô que meu pai estava perdendo a cabeça e fazendo uns negócios meio estranhos. Ele havia arrendado algumas fazendas da região, mandado cortar todas as árvores, fazendo dinheiro com a madeira, vendendo-a não se sabia para quem. Meu avô não deu importância à informação e disse que meu pai devia saber o que estava fazendo. A professora sabia o que meu pai estava fazendo e não sei se por isso continuava me achando muito inteligente. O tempo passava, eu estava um pouco crescida e meu avô me ensinava que plantar não era apenas colocar a planta na terra: ensinava coisas do adubo, o manejo do ancinho, a importância da água e do tempo. O espaço de que dispúnhamos para plantações era pequeno e com esforço plantávamos milho, tomate e ervilha. Quando

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as plantas cresciam ou a professora escrevia “certo” no meu caderno, se o tempo nos dava o vento, meu avô me premiava com pipas de papel colorido e sozinhos ou com outras crianças subíamos o morro e o céu da cidade ficava cheio de cores, muitas outras que não o azul. Chegou então uma notícia maior de que todos podiam falar sem medo de falar o que os outros não queriam ouvir: uma estrada para automóveis ia chegar à vila. Os homens estavam entusiasmados, porque poderiam vender longe e mais caro o que plantassem e as mulheres também ficaram alegres porque o médico chegaria mais rápido quando elas fossem obrigadas a ter seus dolorosos filhos. Meu avô me disse que ele ainda não estava nem alegre nem triste por causa da estrada. Sabia que as coisas iriam mudar, mas era difícil para ele saber se as boas mudanças seriam melhores do que as ruins: quando a estrada chegasse e um pouco de tempo houvesse passado, ele faria nos dedos a conta e veria se a estrada havia sido boa ou ruim. Um ano e dois meses se passaram, e houve foguetes, bandeirolas e banda de música, nas casas muitas comidas e muitas roupas novas - nesse dia a estrada e os carros iam chegar. E chegaram. Trouxeram muitos homens, que usavam gravatas e que de pé num palanque, sob o sol muito quente, falaram bem de meu pai e de outros homens da vila. Avisaram também que o ditador havia deixado o poder e que haveria eleições. Quando os homens se foram, meu pai os acompanhou e, na volta, trouxe com ele uma coisa nunca vista, nem imaginada: um rádio. Pessoas foram visitar o aparelho que falava, meu avô e eu no meio de todos. Meu pai explicou muitas coisas sobre aquele aparelho que poderia até anunciar o fim do mundo e convidou-nos a ouvi-lo falando à noite. O rádio só falava à noite e por pouco tempo, porque a bateria que o fazia falar precisava ser economizada. Quando começou a anoitecer, roupas limpas, cabelos penteados e como se esperássemos ver um grande espetáculo, lá estávamos todos, cabeças bem erguidas, e o rádio imponente pendurado na janela. Todos o ouvíamos. Alguns só ouviam, não entendiam. mas se admiravam e diziam: rá-di-o. Muitas tardes foram de festa, e o rádio na janela era ponto de encontro: crianças brincavam, namorados se olhavam com os ouvidos ocupados com o rádio, primeiro aviso do futuro. E se ficou sabendo que era mesmo o futuro, quando uma noite, todos ouvindo o rádio, estampidos de bala se fizeram ouvir e, antes que o silêncio chegasse, um grito de susto e medo correu a vila: Mataram o padre!

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Pessoas correram. Meu pai desligou o rádio, meu avô encontrou-me no meio das outras crianças e fomos todos para nossas casas. Minha avó deixou o crochê e, andando de um lado para outro, esperava meus tios, temendo que aquela morte fizesse muitas outras, porque na vila, tanto quanto vidas geravam vidas, mortes geravam mortes. Quando meu tio chegou, ficamos sabendo que o senhor Walter havia matado o padre por causa da mulher do farmacêutico. Meu tio contou que a vila inteira já sabia que a mulher do farmacêutico namorava o senhor Walter e namorava o padre e não namorava nenhum outro porque os outros tinham medo... muito medo, não do farmacêutico, mas dos outros, de todos os outros que não tivessem medo. No outro dia, ainda cedo, um telegrama pedia que viessem de outro lugar muitos soldados que prenderiam o senhor * Walter e outros que fizessem quaisquer coisas pelas quais a polícia costuma prender. Mas ninguém fez coisa alguma. Todos assustados, falavam e falavam baixo, por causa do farmacêutico e desta vez falavam baixo e não era por medo. Quando o telegrama se foi, o senhor Walter estava escondido na casa de meu pai, e quando a polícia chegou ele estava onde ninguém mais sabia. O farmacêutico e a mulher também se foram, e deles na vila nunca mais se teve qualquer notícia. O padre morto foi sepultado dentro da igreja: os homens riam do farmacêutico, do padre e até do senhor Walter. Meu avô não ria de ninguém e me falou que o padre havia prometido a Deus que nunca teria mulher e que é normal que os homens queiram mulheres, e que o padre havia feito uma promessa que não seria de se cumprir. No dia do sepultamento, não houve aulas, mas no dia seguinte, quando voltamos às aulas, as crianças estavam felizes pelo feriado da véspera e porque a vila tinha homens corajosos que seriam capazes de matar até um padre. O farmacêutico que não matou a mulher era idiota, mas não havia nascido na vila. Eu nunca vira o padre, nem o farmacêutico. A mulher, eu sabia, era bonita, e o senhor Walter muitas vezes me dava balas. Porque o padre havia sido morto e o sol não deixava que a chuva caísse, nesses dias se fez penitência: todas as tardes, mulheres e crianças vestidas de branco e carregando grandes vasilhas de água subiam o morro, cantando músicas da terra e jogavam água no cruzeiro de braúna. O cruzeiro ficava no alto em silêncio e era o juiz de tudo. Quando a chuva não vinha, era um castigo do céu que se precisava de abrandar. As mulheres molhavam o cruzeiro e de novo cantando desciam o morro, agora de velas acesas, porque a noite estava chegando. Minhas irmãs não iam à

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penitência. Meu pai dizia que isso era coisa de povo. Meu avô era povo e eu podia ir à penitência. E era bonito porque, muitas vezes, antes que todas as mulheres houvessem terminado de descer o morro, a chuva caía, e todas elas tinham certeza de que a chuva era perdão. Meu avô dizia que não era perdão, que a penitência não impedia a marcha da natureza, mas que era bom que se fizesse penitência, porque acreditar faz bem ao coração.

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Capítulo 2 As eleições se aproximavam e a vila se partiu em duas. Nós, as crianças, não sabíamos que a ditadura havia feito esquecer grandes ódios naquela vila tão pequena. E agora, com a proximidade das eleições, tudo o que estava esquecido voltava, separando até mesmo as crianças que dele não tinham conhecimento prévio. Uma família desconhecida chegou à cidade. Dela, não conheci a esposa, mas na escola fiquei amiga de uma das meninas, que se chamava Piedade. Falava pouco e gostava dos mesmos brinquedos que eu. Era muito apegada ao pai e saía com ele tantas vezes quanto eu saía com meu avô. Um domingo, quando as pessoas deixavam a Igreja, entre elas um primo de minha mãe, acompanhado de todos os empregados de sua fazenda, o som metálico e inesperado de uma arma de fogo atingiu um vaqueiro, exatamente o que estava mais próximo do dono da fazenda, o Natanael, candidato a prefeito. O homem que atirou foi o pai de Piedade, soube nesse dia que o nome dele era Anastácio. Não demorou muitos dias, uma empregada da casa de meus pais encontrou na varanda da casa um embrulho de presente. Levou-o à minha mãe. Houve um susto contido diante do conteúdo do pacote. Um vestido e um véu negros. O sentido das mensagens está na cabeça de quem as recebe e minha mãe em pânico entendeu que alguém pretendia matar meu pai. Davam-lhe roupas de viúva. Soube disso porque minha mãe, em lágrimas, foi se lamentar na casa de meu avô e logo em seguida a casa se encheu de todas as mulheres da família. Falou-se do assunto o dia inteiro, e o senhor Anastácio, pai de Piedade, assassino de um pobre empregado, passeava pelas ruas vazias, o povo em suas casas morrendo de medo. Meu avô tranqüilizava minha mãe, dizendo que quando se avisa de um assassinato, não haverá assassinato, haverá só o aviso. A noite chegava e o medo que sobrevoava a vila durante o dia estendia suas asas fortes durante a noite. Cartas anônimas eram normais. A vida de todos foi alterada, até mesmo das crianças, que agora só brincavam com outras quando os pais eram do mesmo partido. Meu avô e eu não tínhamos partido, e eu podia brincar com quem quisesse. Meu pai se irritava com isso, mas, por qualquer coisa que eu nunca soube o que, não tinha coragem de falar nisso com meu avô.

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Minha mãe não parava em casa. Estava sempre em casa de minha avó e falavam de política, e quando falavam me faziam afastar delas, mandando-me ficar na tenda com meu avô. A tenda escura, iluminada pelas fagulhas do ferro em brasa, era o mundo de minha infância e ele me deixava feliz, talvez porque eu não conhecesse outros melhores. Uma noite, que rendeu um dia de muitos comentários, o senhor Anastácio bebia na venda de meu pai, quando um empregado de um dos meus parentes entrou para comprar um pouco de açúcar. Não houve discussões, mas o senhor Anastácio disse que era forte o suficiente para bater na cara de qualquer homem daquela vila de covardes. E rindo, bateu na cara do empregado. O responsável pela venda, empregado de meu pai, compreendeu a situação, convidou os fregueses a que saíssem e fechou as portas da casa. Na manhã seguinte, a cidade e as pessoas mal acordavam, quando a notícia, vinda não se sabe a partir de quem, chegou a todos: o empregado do meu primo havia matado o senhor Anastácio. Com custo, eu vi a notícia. O corpo do pai de Piedade estendido no chão, seus filhos agarrados a ele, em prantos, dizendo que ele era tão bom. Foi neste dia que eu compreendi que a bondade das pessoas depende do ângulo de quem as vê. Na minha cabeça infantil, o senhor Anastácio era mau e dele a única coisa que me havia ficado era o significado da palavra “carabina”. No entanto, Piedade, minha amiga, amava com ternura aquele homem, que eu pensava não poderia inspirar a ninguém alguma coisa além de medo. Percebia, sem muito entender, que meu pai estava envolvido naquelas coisas de política. Ele não havia nascido naquela vila, nunca antes havia sido muito ligado às pessoas dali, a não ser nos casos em que o comércio o obrigava a isso. Aos poucos verifiquei que o meu pai gastava seu tempo e seu dinheiro naquele lugar, apenas para proteger os parentes de minha mãe, mesmo aqueles que nem tanto gostavam dele. Quando as eleições chegaram, não foi o partido de meu pai o vencedor. Minha mãe e todas as mulheres do partido reuniram-se em casa de minha avó: uma reunião de lágrimas e desespero por uma dor que sempre se esconde - a derrota. Lá fora, o barulho dos foguetes era ensurdecedor. De comum entre um e outro grupo, guardado em silêncio, havia o medo de todos. Meu avô espichava a palha, fazia o seu cigarro, continuava seu trabalho e saíamos pela estrada. Víamos que, longe das pessoas, as plantas continuavam bonitas e o céu calmo. Vem desse tempo o meu apego à solidão.

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Houve um tempo de relativa calma, mas as ruas ficavam vazias e o sol mais quente, anunciando sempre a chuva que não vinha. Meu avô e eu caçávamos marrecos. Ele sempre dizia “nós” caçamos marrecos. Eu acreditava nessa pluralidade, mas eu apenas lhe fazia companhia, encantada com as cores do mundo. O prefeito tomou posse. Muitas festas. Pessoas de minha família viajaram para não assistir às comemorações. Meu avô e eu vimos tudo. À noite sobretudo os foguetes foram lindos, o céu ficou cheio de luzes e eu estava alegre porque até aquele momento nada havia me mostrado o valor de um prefeito... ou o valor que o prefeito pensa que tem. Foi rápido que as coisas começaram a acontecer. Uma carta anônima havia chegado à casa do prefeito. Ele pensou que o autor devia ser um de meus tios. Meu tio era frágil, não era importante, pois que meus avós eram os mais pobres da família. Meu tio foi preso e ficou treze dias na cadeia. Só podíamos vê-lo, ele dentro e nós do lado de fora da janela cheia de grades. Meu avô se entristeceu e desta vez seu sofrimento não era tranqüilo. Nessas noites, minha avó e ele chorávamos juntas, e eu compreendi que o amor é mais forte de todos os traços de união. Meu tio preso, meu avô, humilde como cão, olhava-o pela janela cheia de grades. Meu pai viajou imediatamente e foi falar com o governador, um homem desconhecido, ocupado demais para atender alguém que só era importante numa vila sem qualquer expressão. Um assessor desse homem importante sabia que meu pai era um homem de muitos votos e de dinheiro suficiente para financiar campanhas eleitoreiras na região. Meu pai queria que todo o destacamento militar da vila saísse de lá imediatamente, sem tempo sequer para despedir de ninguém. Tudo aconteceu do jeito exigido por meu pai. Voto não era suficiente para fazer o meu pai amigo do governador, mas era o bastante para que sua vontade fosse ditadora, pelo menos na vila tão distante dos donos efetivos do poder. Houve um tempo de silêncio na vila. Descobriram todos a insegurança do fio que segurava a tranqüilidade de cada um. Minha avó continuava fazendo os seus crochês e seus bolos. Meu avô, mais triste do que antes, continuava o seu trabalho e os nossos passeios tão iguais em diferentes montanhas, rios e trilhos. Foi quando o Seca adoeceu. Na escola, as crianças queriam que ele morresse. Elas e muitos adultos tinham certeza de que o Seca virava lobisomem nas luas cheias das quaresmas. Meu avô e eu visitávamos Seca e lhe levávamos comida.

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As mulheres não gostavam do Seca, porque em novo ele namorava tantas mulheres, que não teve tempo para a sua. Ela o abandonou e seus filhos crianças ficaram soltos na rua, comendo o que lhes dessem aqueles que podiam dar. Não demorou muito e acharam o Seca morto no seu quarto pequeno e imundo. Pessoas conseguiram dinheiro para o seu sepultamento. Quando souberam que meu avô durante muito tempo lhe havia dado comida, mulheres foram à casa de minha avó e a criticaram por isso. Minha avó, fazendo comida para um homem que não havia respeitado o próprio casamento! diziam. Tranqüila, minha avó lembrou-lhes que muitos outros homens faziam a mesma coisa, muitas vezes os próprios maridos daquelas que censuravam o Seca. Uma das mulheres, irritada, disse à minha avó que todos os maridos faziam tudo que o Seca fez, mas o faziam escondido, e o Seca fazia tudo às claras e que minha avó devia saber por que o meu avô também chegava tão tarde em casa. Minha avó, bonita e tranqüila com seus olhos azuis, respondeu: “Lógico que sei, e não me importo; ninguém toma o marido de ninguém, porque marido não é coisa, e gente sabe onde quer ficar. João não me deixará nunca porque eu sou dedicada a ele, respeito sua liberdade e não me esqueço nem um momento que ele é uma pessoa.” As mulheres acharam minha avó mal educada e nunca mais apareceram em sua casa. Quando elas se foram, minha avó me falou: “Quando você tiver um marido, procure saber tudo que ele esteja fazendo, mas não permita que nenhuma mulher venha lhe falar dele... Você nunca sabe o que se passa na cabeça dos outros.” O conselho me era inútil... eu ainda era uma criança. A calmaria política durou muito pouco: não se sabia porque as pessoas estavam sempre em guerra. Um dia, voltando da escola, vi o senhor * Lúcio, o revólver prateado, no sol muito quente, apontando em direção a meu tio. Não fui capaz de correr. Fiquei imóvel. Não era medo; era uma ausência de mim mesma. Alguém o impediu de atirar, e eu nunca soube as razões do acontecimento, nem perguntei a ninguém. As pessoas sempre queriam matar alguém e isso até já não me parecia coisa que se devesse comentar. Mas naquela manhã, indo para a escola, encontrei a empregada de dona Bernadete aos gritos, dizendo palavras sem sentido. Entrei na casa e vi o corpo da mulher, a camisola de renda, sangue nas paredes, no rosto, nas mãos. Fiquei assustada. Na rua mesmo me disseram que o marido de D. Bernadete voltou de uma viagem mais cedo do que esperado e encontrou na mesa de jantar lugares para dois e por isso matou-a. Eu conhecia bem o casal. D. Bernadete era elegante e o senhor

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Amâncio, o marido, me dava balas, dizia até que se casaria comigo quando eu crescesse. Um dia me deu um cavalinho, no qual eu nunca montei porque meu pai não tinha terras onde ele pudesse ficar. Soube que o homem que jantou naquela noite na casa de dona Bernadete era o senhor Gabriel. Contei tudo à minha avó e disse-lhe que sempre que eu voltava da escola costumava passar na casa de dona Bernadete porque lá havia muitos pássaros trazidos das viagens do senhor Amâncio e que o senhor Gabriel estava sempre lá. Minha avó disse que eu não poderia contar isso a ninguém. Este foi o primeiro segredo que era só meu. O senhor Amâncio e o senhor Gabriel sumiram da cidade. Este voltou primeiro, e veio trazendo com ele uma mulher bonita, que em pouco tempo ensinava catecismo na igreja. O senhor Amâncio ficou muitos anos longe da vila. Diziam que meu pai cuidou dos negócios dele. Disso não sei. Continuaram amigos, como sempre foram. A política ia fazendo suas confusões. Uma noite, chovia muito e era escuro, porque sem luar tudo era escuro. Ouvimos o estampido familiar de um tiro e na escuridão a voz de um homem que corria, gritou: “Mataram o senhor Homero”. O senhor Homero era o meu pai. O medo me tirou as lágrimas e fiquei trêmula. Meu avô, mesmo com a chuva caindo, desceu a rua. Foi ver o que era. O morto não era o meu pai. Era um homem de um grupo de ciganos chegados à terra naqueles dias, envolvidos em qualquer coisa relativa à venda de cavalo. Não era nada. Era o susto de todos os dias que fazia minha mãe ficar nervosa, repetindo sempre: “Precisamos mudar daqui, não quero que meus filhos cresçam neste inferno. O mínimo que posso querer para eles é que tenham paz”. Nesses tempos, um menino da escola me disse que eu vivia na casa de meu avô porque na casa de meus pais não me queriam e que eu não devia me preocupar com eles, pois eles não me davam o carinho que se deve dar a uma filha. Fiquei muito triste e pensei que isto era verdade. Fui à minha avó saber do assunto. Minha avó me disse que não era exatamente isso, mas que logo que eu nasci minha mãe estava muito descontente com o próprio casamento. Em razão disso, era muito nervosa e não tinha paciência o bastante para suportar três crianças. Meu avô me via mal cuidada e achava que me faltava afeto. A resposta de minha avó não me satisfez e, ao contrário, fez nascer em meus pensamentos muitas outras perguntas, mas nunca fui de insistir para que as pessoas me dissessem o que elas não queriam dizer. Calei minhas perguntas, e elas muitas vezes passaram a me atormentar, dando-me desde esse tempo noites inteiras não dormidas.

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Também não perguntei sobre isso ao meu avô. Sabia que a resposta era alguma verdade que se queria ocultar e pensei que um dia haveria de descobrir, por mim mesma, algumas coisas a respeito das quais os adultos não queriam falar. Na verdade, minha infância tinha tantas coisas para que minhas noites fossem mal dormidas que eu já compreendia que ninguém teria condições de me ajudar, nem mesmo meus avós, que eu sabia me queriam tão bem. Não entendia, por exemplo, por que meu pai nunca era candidato a qualquer cargo e mesmo assim as pessoas do outro partido o odiavam tanto. Tinha certeza desse ódio porque muitas vezes sua morte havia sido encomendada e porque as crianças me diziam na rua que ele tinha parte com o demônio. Não sabia exatamente o que era ter parte com o demônio, mas sabia que só pessoas muito más poderiam entrar num pacto desse. Meu pai não ia à casa de ninguém e em sua casa só entravam pessoas que precisavam tratar de algum negócio, e uns poucos que gostavam de jogo e música. A tenda de meu avô, pobre, enfumaçada, e às vezes de um calor insuportável, sempre recebia visitas. A casa de meus pais, cheia de móveis bonitos e de tudo o de mais moderno que se encontrava nas cidades grandes, era vazia, não freqüentada. Não entendia essas coisas, mas não tinha a quem perguntar. Na escola, as professoras eram atenciosas comigo, mas uma atenção estranha que não parecia espontânea. Esperaria o tempo para resolver minhas dúvidas. O medo das coisas imediatas, dos assassinatos e atritos políticos levavam para meu inconsciente os problemas que eu julgava adiáveis. A vida começava desde cedo a exigir de mim mais do que eu tinha condições de oferecer. Foi por esse tempo que homens estranhos começaram a chegar em nossa cidade. Não causavam medo. Pareciam sérios. Conversavam com o prefeito. Ninguém de nossa família conseguia saber a que vieram. Desapareceram. Não houve comentários ou, ao contrário, houve muitos, mas nenhum deles parecia viável. Quando voltaram, foram à casa de meu primo. Depois à casa de meu pai e só depois meu avô soube quem eram os estranhos bem vestidos que andavam pela cidade e tomavam cerveja na hora das refeições. Eram engenheiros e vinham iluminar a cidade com luz artificial. Queriam que o trabalho tivesse cunho político, porque a cidade, sendo muito pequena, o dinheiro dividido seria insuficiente para os gastos que se fariam necessários. Meu pai ficou de acordo em financiar o projeto, desde que cada mês se prestassem contas do dinheiro gasto.

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O assunto gerou discussão entre os nossos porque a iniciativa era do prefeito, de quem a família não gostava, mas entendiam que isso seria um progresso para a cidade. A família de minha mãe decidiu colaborar com o que pretendiam os outros. Meu pai entendeu de financiar os gastos. Juros escorchantes, mas o município pagaria, com o aval do prefeito. O negócio era muito seguro, porque o prefeito sabia que meu pai era homem capaz de executar a dívida, tomar-lhe todos os bens, ainda que depois disso morresse assassinado. A cidade seria iluminada. A lua tão bonita, que meu avô me mostrava nas noites também cheias de estrelas, perderia o seu sentido, assim como as noites no mercado, cheias de homens alegres e mulheres felizes haviam desaparecido com a chegada do automóvel. A vida sempre caminha para a frente, deixando pessoas e coisas que nos são queridas e nos trazendo pessoas e coisas necessárias. O encanto de minha infância começava a morrer. Iluminada a cidade, as eleições tiveram microfones e alto-falantes. O arroz e o café que meu pai vendia para outras cidades começaram a ser cuidados pela eletricidade. Ninguém precisava me dizer que meu pai ganhava dinheiro. Todo mundo via. A família se tornava mais distante da vila, meu pai menos amado e minha mãe mais sozinha. Não percebiam que o dinheiro os fazia menos felizes. As eleições se aproximavam. Meu pai recebia pontualmente o dinheiro com que financiou a colocação da luz elétrica, da qual se beneficiava para fazer funcionar suas máquinas. Meu avô me levava para vê-las funcionando e me falava de um mundo em que quando crescesse eu haveria de ver: as máquinas realizariam sonhos impossíveis de homens que pudessem dispor delas e dos outros tirariam o emprego, como começavam a tirar o seu. Meu pai já vendia em sua loja muitas coisas que antes meu avô fazia em sua tenda. ele agora trabalhava pouco e ganhava quase nada. Em breve não existiriam mais ferreiros. Não falava disso com tristeza. Agora, num pouco espaço de terra, ele aumentava suas plantas e sempre tínhamos o de que comer. Todas as outras coisas nos eram desnecessárias, e minha mãe e meu pai sempre cuidaram de que nada nos faltasse. Vieram as eleições. Meu pai agora se metia nessas coisas. Não pretendia nada para ele, mas via o risco que a família de minha mãe, e até ele próprio corriam se perdêssemos as eleições. Os alto-falantes agora eram armas temíveis na política. O dia inteiro e às vezes até à noite coisas graves ou ridículas eram gritadas pelos aparelhos indiferentes. As mulheres da família choravam. Minha mãe dizia que não queria criar os filhos num lugar igual àquele, Meu avô a tranqüilizava e meu pai continuava cuidando de seus negócios e, tanto quanto possível, tentando comprar a tranqüilidade que não tínhamos nem nós nem os outros. A família de minha mãe foi vitoriosa nas eleições. Sabia-se

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que a maldade dos nossos era menos violenta que a dos outros e, mesmo que a cidade não progredisse, seria melhor se pudéssemos dormir em paz. Tanta festa. O prefeito era casado com a sobrinha de minha avó. Meus pais não participaram de nenhuma comemoração. Só muito mais tarde eu compreendi por que meu pai se afastava de tudo naquele lugar e que nada para ele era mais importante do que os seus negócios. Passadas as eleições, meu pai se recolheu aos seus negócios, minha mãe à casa e, praticamente, eu não via nem mesmo de longe os meus irmãos. Íamos à escola, mas nossas salas de aula eram diferentes. No recreio, tinham eles seus amigos e eu os meus. A cidade era tranqüila e o sol muito quente a fazia quase deserta. Meu avô e minha avó ficavam sempre juntos à tarde. Quando o sono se aproximava, eu colocava a cabeça nos joelhos de qualquer deles e me contavam histórias ou cantavam músicas do campo e eu dormia, confiante como aqueles que se sentem amados. Foi um tempo de paz, até o dia em que minha avó percebeu em meu avô um certo estado de cansaço. Deu-lhe uns chás. Fez-lhe mingaus. Banhou-lhes os pés com água morna, mas ele continuava cansado e em certa manhã não se levantou. Minha avó levou-lhe o café na cama, o que nunca acontecia. Mandou-me avisar minha mãe de que ele estava doente. Minha mãe veio depressa e à noite meu pai também apareceu e se assustou. No dia seguinte, chamou o médico. Os adultos conversavam baixinho e à tarde minha avó me disse que eu precisava ir dormir na casa de meus pais. Também fiquei preocupada. Não queria sair dali. Foi então que minha mãe me chamou e disse que era uma ordem e que ela não podia perder tempo em conversas comigo e que eu fosse para a casa deles imediatamente, porque crianças são sempre incômodas mais ainda quando alguém está doente. Fui para a casa de meus pais e tão preocupada estava com meu avô que a maneira ríspida de minha mãe não me causou nenhum espanto. Continuei indo à escola. Depois da aula, passava no quarto de meu avô. Ficava olhando, ninguém me falava nada. Mandavam minha avó se deitar um pouco e ela continuava sempre acordada, atenta, não saía do quarto, onde também eu ficava sempre que os adultos não me obrigavam a sair. Meu avô me tomava as mãos, os olhos vidrados, não tenho certeza se ele ainda me via. À noite, levavam-me para a casa de meus pais. Dormia só num quarto como na casa de meu avô, mas ali eu me sentia só, não tinha com quem contar. Pela manhã, perguntava notícias de meu avô e alguém, qualquer pessoa, respondia “está do mesmo jeito” e eu ia para a escola sem direito a ir vê-lo. Às vezes, nem ouvia o que falava a professora. Sentia uma inércia e, se fosse capaz de querer alguma coisa naqueles dias, teria querido que o mundo dormisse e não acordasse nunca mais. Certa manhã, quando me levantei fiz a pergunta já repetida há dez dias: e o vovô? As empregadas

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me olharam assustadas, meus irmãos interromperam o que faziam, e meu pai de seu quarto gritou indiferente: “Seu avô morreu”. Com os cabelos despenteados, a roupa recém-saída da cama, corri pela rua até a casa de meus avós. O chão de meu primeiro mundo havia afundado, e todos sabiam disso. Não me aproximei do corpo de meu avô. Nem fui à minha avó. Fiquei parada na sala. Naquele dia, fiquei sabendo que a dor pode ser infinita no coração humano. E sofri um sofrimento maior do que tudo que se pode imaginar.

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Capítulo 3 Estava eu na casa de meus pais. A casa era enorme para mim, maior do que efetivamente era, porque junto de mim não existia ninguém. Meus irmãos, Otávio e Sara, mais velhos do que eu, viam em mim uma menina pobre e mal vestida, de hábitos diferentes dos deles. Sofia não se aproximava nem deles nem de mim, brincava sozinha, com suas bonecas, algumas muito feias, de pano, feitas pelas empregadas, outras muito bonitas, que, eu soube mais tarde, meu pai lhe comprava em suas viagens a grandes cidades. Raquel era ainda muito pequena e, se não estava no seu berço, estava nos braços de alguma das muitas empregadas. Minha mãe tomava café no quarto, não sabia eu se sempre ou se apenas naqueles dias da morte de meu avô. Nós, os filhos mais velhos, já de manhã devíamos estar bem vestidos e penteados. Tomávamos o café da manhã em companhia de meu pai. Se havia tempo, ele nos levava ao colégio. Se não, íamos todos juntos a pé. Tudo é tão perto nas cidades pequenas. Meus irmãos não falavam comigo e se o faziam era sempre me recriminando por alguma atitude que consideravam própria de alguém mais atrasado do que eles. Mas íamos juntos. Não podia me afastar deles, era recomendação de meu pai. O tempo me fez entender que recomendação de meu pai tinha de ser observada, ainda que para isso corrêssemos risco de vida. Ao fim de alguns dias, pensei em voltar para a casa de minha avó. Procurei minha mãe. Perguntei-lhe sobre a possibilidade. Ela mandou-me falar com meu pai. Em casa de meus avós, as decisões podiam ser tomadas por um ou por outro, na casa de meus pais, mesmo minha mãe não tinha o direito de fazer coisa alguma se não tendo perguntado a meu pai. Ele decidia como um rei. Se não tinha tempo, nem mesmo para nos ouvir, esperávamos quando o tivesse. Procurei meu pai e lhe falei do meu desejo. Não lhe dei minhas razões e ele não as pediu. Respondeu-me apenas: “Mesmo se seu avô não tivesse morrido, já era tempo de você vir para casa. Aqui você receberá uma educação que a preparará para ir para o colégio, porque os hábitos da casa de seu avô não são de forma alguma condizentes com os que devem ter as minhas filhas. E você é minha filha”. Havia na casa uma professora. Ensinava minha irmãs a tocar piano. Refazia com todos os deveres de aula e reclamava com minha mãe sobre o comportamento de Otávio. Minha mãe passava o dia numa enorme sala de costura e fazia todas as roupas da casa, desde cortinas e roupas de cama até roupas de vestir. Quando aparecia em qualquer outro lugar da casa, ficava nervosa com as empregadas que não haviam feito os trabalhos de limpeza e alimentação rigorosamente do jeito que ela queria que

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fossem feitos. As empregadas sempre erraram porque minha mãe não dizia como era o jeito certo. Certo era o que ela pensava e cada dia ela pensava de maneira diferente. Alguma coisa naquela casa me fazia muito triste. A ausência de meus avós me era muito penosa, mesmo que desde os primeiros dias houvessem dado licença para visitar minha avó todas as tardes quando voltasse da escola. A casa de meus pais era terrivelmente opressora, e uma vez minha mãe, ao me ver chorar, me disse:“ Aqui não é a casa de seu avô, onde se pode chorar e rir à vontade. Procure alguma coisa útil para fazer. Há mais de um mês que seu avô morreu. Já houve tempo para se esquecer dele.” Minha mãe falava esquecida das muitas vezes em que eu a tinha visto chorar, quando, em época de eleição, ela sentia medo dos males que poderiam acontecer. No entanto, recriminava o meu choro pela morte de meu avô. Muitas vezes eu iria vê-la em desespero, chorando por alguma coisa não dita e dizendo : “Não agüento mais esta vida! Qualquer dia eu me mato!” À noite, na casa de meus pais, tudo mudava. Visitas eram recebidas. Homens da cidade. Não os parentes de minha mãe. Homens que, como meu pai, nasceram em outros lugares: o dentista, o médico, o advogado e o homem da loja de louças. Sim, porque havia uma loja de louças e porcelanas que não eram vendidas para ninguém. O dono era um estrangeiro que recebia dinheiro de seu país e durante o dia ficava sozinho na loja, como suas louças sempre no mesmo lugar. Para nos afastar dos temores da política, ou por razões que não foram faladas, meu pai decidiu que naquele ano iríamos para o internato, Otávio, Sara e eu. Otávio iria para um colégio de rapazes, Sara iria para um internato onde houvesse um curso onde pudesse se preparar para futuramente estudar medicina, profissão que meu pai teria dado a todos os filhos se tudo dependesse apenas dele. Como eu ainda acabava o curso primário, poderia estudar num colégio de custo mais econômico. Ficou determinado que me seriam dadas, no mesmo período de férias, aulas suplementares, porque haviam concluído que meus conhecimentos não eram suficientes para o curso que eu iria iniciar. A professora seria D. Deolinda, a mesma que ensinava piano às minhas irmãs e que, aliás, ensinava tudo a todo mundo. D. Deolinda era uma empregada especial que seria dispensável em qualquer outra casa. Quando não estava dando aula para nós, ajudava minha mãe nas costuras e bordados feitos à mão. D. Deolinda sabia tudo que era certo e tudo que era errado. Errado era o que fosse diferente do que ela achava certo. Todos da casa me achavam muito estranha, mas especialmente ela. Minha estranheza estava no fato de que muitas vezes

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saía do meu quarto antes de pentear o cabelo ou andava descalça dentro de casa. Dizia que uma moça bem educada não fazia coisas assim. Havia sempre uma norma para cada situação, ali éramos realmente padronizados. Meu pai se encantava com os regulamentos de D. Deolinda. Era a forma pela qual ele nos preparava para freqüentar o mundo que ele pensava seria o nosso quando crescêssemos. Ao contrário do que esperava, D. Deolinda informou ao meu pai que o meu grau de conhecimento estava excelente, que era lamentável apenas que eu parecesse um bicho do mato e nunca me houvessem falado de normas de etiqueta. Na verdade, eu não sabia que existiam aquelas normas. D. Deolinda jamais imaginaria que aquelas regras me pareciam absurdas e ridículas e que a mim o que importava era apenas que eu não incomodasse as pessoas, como meu avô me ensinava. Para mim, alguém poderia saber todas aquelas normas e continuar sendo má. Aquelas normas me pareciam coisas de rico desocupado e quando eu fosse grande haveria de me esquecer de todas elas. Minha mãe se mantinha distante das filhas. Às vezes era carinhosa com Otávio, com quem meu pai era terrívelmente duro. Talvez quisesse compensá-lo pela maneira injusta com que meu pai o tratava. Creio que em razão de eu não haver morado naquela casa anteriormente, elas quase sempre se esqueciam de mim, o que era bom, pois, quando me viam, se lembravam de que eu era desajeitada, com modos e pensamentos de menina pobre. Quando chegou fevereiro, fomos para o colégio. Fiquei contente, mesmo sabendo que sentiria falta de minha avó. Imaginei que a única maneira de me libertar de tudo que me aprisionava na casa de meus pais seria estudando muito. Meu pai costumava dizer que o saber era a liberdade. Então, eu iria estudar muito para me libertar especialmente dele e daquela casa. Não entendia bem como o estudo poderia fazer minha liberdade, mas sabia que não teria outra forma de consegui-la. Minha mãe se encarregou de fazer as roupas que usaríamos no internato, e nesse tempo sempre me dizia que meu corpo não tinha proporções adequadas e que nada me ficaria bem. Um dia, tão cedo quanto me levantava para passear com meu avô, saímos, meus irmãos e eu, em viagem para o colégio. A distância era grande, e meu pai percebeu o meu silêncio. Faltava-me assunto para falar com ele ou com meus irmãos. Eles também não tinham o que falar comigo. Meu pai então se esforçou para se aproximar da filha desconhecida. Senti isso. Sabíamos tão pouco um do outro. Eu tinha onze anos. Morávamos na mesma cidade e tão poucas vezes havíamos nos falado.

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Quando paramos na estrada, meu pai mandou que Sara me desse o lugar junto dele, e foi a partir daí que ele começou a me mostrar as árvores e as muito pequenas cidades por onde passávamos. De minha parte. evitei perguntas ou comentários. Tinha medo daquele homem, que em casa não me falava e quando estávamos a sós sempre era mau para com meu irmão. Meu pai me mostrava coisas na estrada e me falava do que eu veria numa cidade grande. Não tinha coragem de lhe fazer perguntas, porque imaginava que me achariam, ele e meus irmãos, ainda mais ignorante do que efetivamente eu era. De toda forma, isto foi bom, porque me serviu para saber ao menos que eu era percebida por alguém daquela família, que de uma hora para outra resolveram que devia ser minha. Chegando à cidade onde ficava o colégio, fomos a um restaurante, o primeiro de minha vida. Depois do almoço, meu pai me entregou no colégio, fez os necessários pagamentos e recomendações. A freira me fez elogios superficiais, desses que costumamos fazer a quaisquer crianças e garantiu a meu pai que eu seria bem cuidada. Ele se foi e minha solidão não aumentou por isso. Escolheram, entre as roupas especiais que minha mãe me havia mandado, aquelas que eu deveria vestir naquele dia e informaram-me de que a cada manhã eu encontraria no lugar que haviam escolhido como meu escaninho a roupa que devia vestir. Cortaram-me os cabelos e já naquela primeira noite a palavra pecado entrou no meu vocabulário e foi repetida tantas vezes que se tornou sem qualquer sentido em minha vida. O sino era o feitor de meus dias. Sino para levantar, sino para almoçar, sino para todas as ordens, não faladas mas imperativas para aquelas moças e meninas, cujos nomes, muitas vezes esquecidos, se transformaram em simples números. Os dias sempre iguais, tudo acontecendo em horas certas, mas aos poucos, nós, os números, íamos readquirindo nossos nomes. Minhas colegas me achavam muito delicada e a menos agressiva de todas, mas não lhes passou despercebida a minha ignorância de quase todas as coisas que elas consideravam conforto, e isto lhes dizia que eu era uma menina muito pobre. Júlia foi a primeira de minhas colegas a se aproximar de mim. Sua pele era muito branca, rosto sem sinais de sol. Para mim, criança, ela era quase uma moça nos seus quinze anos. Ajudava-me em meus cuidados pessoais, com o que evitava que eu estivesse sempre atrasada nos horários excessivamente rígidos. Os dias me fariam

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aproximar de outras colegas com quem eu poderia brincar. Mas Júlia, quatro anos mais velha do que eu, foi um pouco mãe para mim, naquele lugar onde todos os vínculos anteriores devem ser esquecidos. Uma tarde de domingo, estávamos todas na sala de estudos, quando Júlia, magra, esguia, cabelos e olhos da mesma cor, se levantou e pediu à supervisora Irmã Silvia, que a permitisse sair da sala. Não se sentia bem. O pedido não foi aceito e ela voltou ao seu lugar. Várias vezes Júlia repetiu o pedido, que várias vezes foi recusado, até que a religiosa entendeu que a menina devia ir para a sala do castigo. A sala do castigo era um cubículo sem janelas, onde, sem cadeiras ou bancos, não se podia assentar e um espaço pequeno demais para que se pudesse deitar. Trancada na sala de castigo, Júlia ficou o resto da tarde e, quando foram buscála, armou-se entre as freiras um alvoroço não explicado às demais alunas. Durante uma semana, não tivemos notícias de Júlia. Perguntas a respeito recebiam respostas evasivas. Dias depois, tivemos a resposta e ela nos veio pelos gritos mal educados do pai de Júlia na sala de visitas. O pai viera tirar a filha do internato e no parlatório gritou: “Se você, Irmã Firmina, quiser continuar nesse antro, fique, mas Júlia não voltará aqui. Irmãs de caridade! Sem caridade alguma! Deveriam todas morrer.“ Uma freira constrangida lhe pedia que falasse mais baixo, mas isso de nada adiantou e ele só se foi quando lhe trouxeram os pacotes e malas que, soubemos depois, eram os objetos de Júlia. Não se sabe como, o colégio inteiro ficou sabendo que Júlia era irmã da Irmã Firmina, uma freira humilde, responsável pela cozinha, por quem Irmã Silvia, importante no escalão do internato, sentia grande desprezo, e Júlia, colocada na sala de castigo quando tinha uma crise de apendicite aguda, estivera muito próxima da morte. O tempo passava e eu continuava apenas um número: 121. Tão igual a todas, tão sem expressão, que nem eu mesma me percebia. Os horários de recreio eram preenchidos com muitos jogos e a presença de várias freiras, de modo que as conversas eram controladas e os pensamentos dificultados. Tínhamos aula de Religião, assuntos de que não me haviam falado antes e aos quais eu não era muito afeita. A solidão e a inutilidade do tempo me faziam estudiosa. O uniforme nos fazia iguais a todas. As provas escolares e as aulas de religião me colocavam em evidência, porque me deram as melhores notas do colégio. Aquela menina de hábitos de camponesa pobre tivera nota dez em quase todas as disciplinas e na aula de Religião fazia perguntas atrevidas que às vezes nem mesmo a freira conseguia responder. E como o conceito de inteligência não é muito definido, não demorou muito tempo me tinham como muito inteligente.

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No entanto, o teatro escolar me trouxe de novo à realidade: eu não passava de uma menina da roça, não era igual às outras que sabiam se vestir adequadamente e se portar em qualquer lugar onde estivessem. Na encenação de uma peça, não usamos uniformes, e Consuelo, menina da minha idade e tamanho, precisava de um vestido para se apresentar no palco. Ofereci um dos meus que ficaram guardados no colégio para usar na viagem de volta. E, sem querer, ouvi a irmã de Consuelo dizer-lhe: “De forma alguma, não aceite, você não pode vestir uma roupa dessa menina idiota, deve ser um vestido horrível.” Afastei-me para que ninguém soubesse que eu havia escutado. Já nesse tempo, comecei a perceber que existem vários mundos, um para cada forma de ser, e que o mundo de cada um de nós pode chegar a ser tão único, que estaremos definitivamente a sós. Diziam-me inteligente, mas o meu mundo não era o de minhas colegas: eu pertencia a uma classe inferior. Meus estudos não eram suficientes para me colocar como igual à maioria, e sobravam-me poucas meninas que me queriam como amiga. O mundo me parecia cada vez menor. No tempo de meu avô, as pessoas brancas e negras, ricas e pobres, simples ou não, eram realmente iguais entre si e eu me sentia igual a todas. Na casa de meus pais, as diferenças começaram a aparecer e no colégio se tornavam gritantes, e eu me colocava sempre no meio daqueles que eram inferiores: gordinha, desajeitada, pobre e sem entender nada daquilo que no colégio chamavam de religião. Minhas notas escolares, sempre as melhores da classe, não constituíam um valor que me fizesse sentir amada. Até pelo contrário, muitas vezes se referiam a mim como exemplo de que uma pessoa inteligente pode ser muito boba. Uma noite, pela ausência de meus avós e por todas as coisas agora presentes em minha vida, eu estava chorando. Todas as noites eu chorava baixinho a dor que havia sufocado durante o dia. Naquela, Irmã Benigna, professora de Literatura, ouviu meu choro e foi até minha cama. Perguntou-me se eu sentia saudades de meus pais e respondi-lhe que não, dizendo que eu sentia saudades era de meu avô, que havia morrido. Foi então que ela conversou comigo e foi tão boa quanto há muito tempo eu não via ninguém. Deixou-me falar. Acariciou-me os cabelos e esperou-me adormecer. No dia seguinte, no horário de estudo, chamou-me ao seu gabinete. Considerada uma das mais cultas professoras do colégio, Irmã Benigna era muito respeitada, dispunha de uma sala cheia de coisas bonitas, onde podia ler, estudar e até simplesmente ficar sozinha se o quisesse. Pediu-me que lhe falasse de minha vida, com a naturalidade de meu avô, e creio que eu o fiz, ou porque ela me inspirou confiança, ou porque, tão sufocada, eu falaria com qualquer pessoa que me quisesse

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ouvir. Falei-lhe que as meninas me discriminavam porque eu vinha de uma cidade pequena e não conhecia as coisas de cidade grande e que quando havia chegado à casa de meus pais, lá também não me queriam, porque eu não conhecia as coisas da casa. Foi na casa de meus pais que eu conheci torneira e chuveiro, porque na casa de meu avô, como em muitas outras que eu conhecia, lavava-se o rosto numa bacia pequena e tomava-se banho na bacia grande. Irmã Benigna me disse que conhecer ou não coisas não é tão importante quanto as pessoas normalmente pensam, mas que, se isso constituía um problema para mim, que ela me ajudaria a resolvê-lo. Disse também que ela não me faria esquecer a ausência de meu avô mas que poderia me ajudar a transformar essa ausência numa presença agradável e que para isso ela contaria com o tempo e comigo mesma, porque a pessoa mais importante para cada um de nós somos nós mesmos, que nós podemos nos ajudar e nos prejudicar mais do que qualquer outra pessoa. No entanto, agora viriam as provas e que, logo em seguida, tanto eu quanto ela viajaríamos de férias, mas que no próximo semestre ela levaria muito a sério suas promessas. E vieram as provas e depois as férias, sem imprevistos. Irmã Benigna viajou. Cada aluna esperava que seu pai viesse buscá-la. Todos os pais chegavam, menos o meu, que só podia acertar sua vinda de acordo com seus negócios. Ficava dias no colégio sem ter o que fazer, dormindo sozinha naquele imenso dormitório, e até que alguma freira mais bondosa me permitisse abrir a janela e ver de minha solidão, os carros e pedestres passarem apressados, mulheres bem vestidas ou não, homens jovens e bonitos . E eu pensava na liberdade de que eles dispunham, sem imaginar que também eles, tanto quanto eu, poderiam estar sós, moídos de dor e cansaço. Sempre pensamos que os outros são felizes, não pensamos que as histórias podem ser quase iguais e que as diferenças sempre são simples detalhes.

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Capítulo 4 Quando comecei a me acostumar ao vazio do colégio, meu pai me veio buscar. Era um homem alto, de cabelos pretos e se vestia com aprumo. Tive a impressão de que era a primeira vez que o via. Antes, eu o via trabalhando e o vi durante a viagem de vinda para o colégio. Era a primeira vez que eu o via de gravata e paletó. Era meu pai. Tinha os poderes para me tirar do colégio e fazia isso especificamente por mim, pois meus irmãos, de férias antes de mim, já estavam em casa há muitos dias. Durante a viagem, ele me perguntou como havia sido o semestre e se eu gostava do colégio. Respondia sempre cheia de medo, procurando acertar a resposta que poderia agradálo. Ele estava sendo bom comigo, mas eu tinha medo do homem que em casa era mau e grosseiro com meu irmão. Paramos para um almoço num pequeno restaurante, e quando ele me perguntou o que eu queria almoçar, respondi “o que o senhor quiser”. Esta resposta era a que eu lhe daria durante muitos anos da minha vida. Chegamos em casa num domingo à tarde. A empregada indicou-me o quarto onde eu deveria dormir e o banheiro que devia usar. No espelho vi meus cabelos vermelhos de poeira. A estrada construída com tanta festa e que considerávamos um orgulho da cidade, não tinha asfalto. Tomei um banho e vi que havia sapatos e roupas novas para mim. Eram roupas feitas sem medidas e que não levavam muito em conta o meu tamanho, mas eram melhores e mais bonitas do que aquelas a que eu estava acostumada. Pedi para ir à casa de minha avó. Minha mãe, que havia continuado o seu bordado quando cheguei, disse-me que eu não poderia ir por duas razões: primeiro, porque eu devia estar com saudade de minha mãe mais do que de minha avó e, se logo eu saísse de casa, as pessoas teriam a impressão de que eu não me importava com a minha mãe. E depois, porque, quando se chega, deve-se esperar que os outros nos venham ver - assim mandam as normas da boa educação. Pensei, na verdade minha avó é mais importante do que mãe e em relação à minha avó eu não achava necessário esse tipo de boa educação. Minha mãe pensava de outro modo e o que ela pensava era ordem. O domingo entardecia. Não vi minha irmãs naquele dia e meu irmão saiu a passeio sem me dizer uma palavra. Não falei com ele que me causava um certo acanhamento porque eu sempre o via nas brigas com meu pai. Sentia uma espécie de medo daquele menino quase homem que meu pai humilhava na presença de todos. Então fiquei assentada na grande varanda de nossa casa, vendo pessoas, as roupas limpas e os cabelos penteados, andando na rua, indo para a igreja. Elas agradeciam a Deus. No dia seguinte, minha avó me veio ver: usava um vestido cinza, comprido até

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os pés; os olhos azuis no rosto sereno eram tristes, de uma tristeza que se sabia não perdera a capacidade de afeto. Trouxe-me, não com a formalidade de um presente, mas com a certeza de que seria entendida, uma pequena caixa, contendo coisas que haviam sido de meu avô: uma tesoura, uma navalha já sem corte e um velho isqueiro, que ao tempo se chamava binga. Nos olhamos: ela talvez feliz, sentindo que eu crescia, despontando para a juventude; eu triste, vendo quanto ela envelhecera, e sua vida num caminho de descida. Minha mãe era jovem, nos seus trinta e dois anos, minha avó envelhecida. Meus irmãos teriam mãe por mais tempo do que eu. Depois, minha mãe apareceu e mandou que servissem na sala adequada, alguma coisa para a minha avó. Conversaram. Falaram de bordados e costuras. Durante todo o período de férias, quando à tarde nos era permitido sair da casa de meus pais, eu ia ver minha avó. Ela me contava, com algumas reservas, histórias de sua vida, falava-me de seus antepassados e de um primo que se apaixonou por ela e com quem não se casou porque os pais entendiam que concentrando-se as características de doenças da família, c,oisas graves poderiam acontecer, como acontecem as maldições. Esse primo deixou a cidade e se tornou um político importante, e muito do que ele pensava foi escrito num livro. Minha avó não dava importância ao que havia feito o primo, ela havia aprendido com meu avô que escrever livros, construir estradas ou ganhar dinheiro pode ser e muitas vezes é o que menos importa quando se analisa uma pessoa. Quando a tarde ia a mais da metade, eu me punha a caminho da casa de meus pais, tão perto da casa de minha avó. Havia um horário certo para que estivéssemos todos em casa e bem arrumados comparecêssemos todos à mesa para o jantar. Quando se fazia noite, muitos homens apareciam e, se não falavam de política, jogavam baralho e às vezes tocavam e cantavam músicas, o que era muito agradável a alguns amigos de meu pai, especialmente o Dr. Ulisses. Nas noites em que havia música, minhas irmãs e eu podíamos ficar na sala. Nas outras noites, devíamos permanecer em outros lugares da casa. Nessas noites, descobri a possibilidade de ficar com Raquel, que ainda não sabia falar, mas sorria alegre ou dormia feliz nos seus dez meses de vida. Agora, suas mãos não eram enrugadas, mas cheias de róseos gominhos e brincavam com borboletas artificiais que os adultos colocavam sobre seu bercinho. Nas noites em que ouvíamos música, minha mãe aparecia bem vestida, usando colares e pulseiras e sempre dava ordem a uma empregada para que, no intervalo entre uma e outra música, servisse alguma bebida aos visitantes. A empregada também servia salgadinhos que devíamos receber obedecendo todas as normas de educação que nos eram passadas por Deolinda. Minha mãe conferia a observância das mesmas, e, se alguma coisa aparecia errada ou inconveniente, ela se zangava com Deolinda ameaçando de dispensa. Nunca entendi porque Deolinda, que sabia tocar piano e fazer

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muitas coisas, fazia tanta questão de manter aquele emprego miserável. Dentre os homens que apreciam em nossa casa nas noites musicais, um deles se aproximou de mim. Mesmo durante o dia, meu pai estando ou não estando em casa, este homem aparecia e até pedia à minha mãe que mandasse uma das empregadas fazer para ele algum pequeno serviço, no que era prontamente atendido. Chamava-se Ulisses e todos o chamávamos Dr. Ulisses. Era um homem bem cuidado, de cabelos bem penteados e vestia roupas impecáveis de linho branco naquela cidade onde a roupa se lavava no rio e as águas eram sempre barrentas. Era só, não tinha esposa nem filhos e seu passado mais distante era sepultado. Meus pais gostavam muito dele. Gostavam pelo que ele era desde quando o conheceram e nunca ninguém perguntou o que fora antes. Era médico, e isto era atestado de idoneidade. Certa vez, não estando minha mãe em casa, o Dr. Ulisses apareceu para tomar um café, o que ele fazia sempre quando havia horário vago entre um e outro cliente. A empregada trouxe-lhe o café e disse-me que substituísse minha mãe nas atenções que se deveria ter para com o visitante especialmente amigo. A missão me era absolutamente estranha, o que de imediato foi percebido pelo médico, que procurou deixar-me à vontade. Fez-me perguntas sobre o meu colégio, sobre meus estudos e me disse que eu deveria me fazer mais alegre, diminuir o meu silêncio, para que as pessoas pudessem ver as boas qualidades que eu tinha. No dia seguinte, voltando da casa de minha avó, passei em frente à casa onde morava o doutor e ele me chamou a que fosse até lá. A casa era grande, e os muitos corredores escuros pelo anoitecer, me levaram ao seu consultório. Quando o doutor acendeu a luz, sem muitas palavras e sem dizer o porquê, examinou os meus dentes e disse: “Faltam os caninos, mas não se preocupe porque isto lhe dá um sorriso bonito e as raças mais aperfeiçoadas têm menos dentes”. Encaminhou-me de novo à porta de saída como se me dissesse “pode ir para a sua casa”. Desde então, o Dr. Ulisses me dava sempre algum presente, bombons que ele trazia de suas viagens, bonecas pequenas e outras pequenas coisas que variavam de acordo com o meu desenvolvimento. Soube depois que foi através dele que meu pai, preocupado com o futuro de tantas filhas, foi incentivado a nos encaminhar a todas para profissões que naquele tempo só homens costumavam exercer. Minha mãe continuava muito distante, não especificamente de mim, mas de todos os filhos. Normalmente ela fazia belíssimos trabalhos manuais e nossos vestidos, que ela fazia com todo esmero , eram etiquetados para que parecessem comprados em lojas de nome. Minha mãe, mais do que meu pai, fazia questão do que pensavam os outros e procurava dar a impressão de que em tudo éramos mais do que realmente éramos. Essa necessidade que a fazia mentir e que sempre dava à nossa

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casa um retrato irreal era o mais difícil de todas as dificuldades que me vieram para me adaptar à casa de meus mais. Às vezes eu dizia alguma verdade e ela me repreendia por isso. Os outros não deviam saber quanto lutávamos para manter a aparência de grandeza e luxo. As férias, que para mim não foram mais do que vinte dias, estavam passando. Aproveitava a companhia de Sofia, mais alegre do que eu, tentando não com muita facilidade, fazer vestidos para suas bonecas. Brincava com Raquel, para fazê-la falar e ela tão pequenina ensaiava algumas palavras numa língua que não era exatamente a de ninguém. Sara e Otávio não se aproximavam de mim. Eram maiores do que eu, e até na agressividade que sentiam em relação à casa, que era mais deles do que minha, reagiam de modo diferente. Sara passava dias em seu quarto, recusava-se a ir à mesa na hora do jantar, porque meu pai nos impedia de sair à rua e até mesmo falar com pessoas de fora de nossa casa. Otávio, que era homem, saía sempre e quando voltava encontrava meu pai acordado para lhe dizer muitos desaforos. Falavam em voz alta, e o medo que me deixavam de suas brigas ficava comigo por muito tempo, afastandome do sono. Quando o calendário me mostrou que as férias estavam terminando, não fui capaz de saber se era melhor estar em casa ou no colégio. Em qualquer lugar era um pouco presidiária . Minha mãe se deu o trabalho de olhar nossas roupas e preparar nossa volta para o colégio e de novo meu pai nos acompanharia. Durante a viagem, tanto quanto possível, mantínhamo-nos em silêncio. Não tinha eu nenhum assunto a ser falado sem medo de recriminações. Meu pai começava a ter algum carinho comigo, mas eu me lembraria sempre que ele era duro com meu irmão, o quase desconhecido Otávio, e que ele não tivera nenhuma pena de me dizer “seu avô morreu”. E sobretudo descobri que, como um Deus, meu pai nos queria à sua imagem e semelhança. Quando chegamos ao colégio, meu pai se antecipou ao que Irmã Benigna me havia falado, e disse à Irmã secretária que eu estava autorizada a me matricular em alguma disciplina extra curricular. Não havia lhe pedido isso e ele não me perguntou se eu o queria. Nesse ano, passei a ter aulas suplementares de francês e me deram também uma professora de dança. Escolhi a dança, porque entendi que os dançarinos não precisam falar e que as pessoas nos vêem mais facilmente do que nos escutam. Quando no início das férias cheguei a casa de meus pais, vi que os dias eram os mesmos, dias repetindo dias, horas repetindo horas e o tempo passando. O colégio

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não era diferente. Os pisos sempre limpos, o barulho das contas de madeira dos rosários anunciando os passos silenciosos das freiras e o sino dizendo o que se devia fazer. Irmã Benigna de novo me orientando nas leituras e conversando comigo para que o tempo se encarregasse de fazê-la substituta de minha avó, que com meu avô havia acumulado de ternura minha infância. Meninas novatas no colégio, substituindo outras que se foram.. O tempo passando. Ângela era novata, mais velha do que eu, e tinha dificuldade em aprender. Disseram que ela não era inteligente. Que era irmã da menor de todas as meninas e que vieram para o internato porque os pais viviam um casamento ruim e que era bom que as filhas ficassem longe de muitas confusões. Ângela era triste e protegia sua pequena irmã de agressões das meninas maiores. Fiquei amiga de Ângela, que me pedia muitas vezes para estudar com ela lições que ela sozinha não seria capaz de aprender. Ela me retribuía ajudando-me a pentear meu cabelo tão crespo que eu não sabia pentear. Um dia, outra menina cujo nome não sei, me perguntou se eu sabia que os pais de Ângela haviam se desquitado. Eu nem sabia o que era desquitar. Ângela não me falava de seus pais. Falava só de suas dificuldades nos estudos e na aula pedia que fizesse aos professores perguntas que ela não tinha coragem de fazer. Sempre eu perguntava, e perguntava até o que não devia. Numa aula perguntei a freira se a fé era um dom de Deus. Ela me disse que sim, então disse a ela que segundo sabia, dom era presente e que Deus não me havia dado aquele presente e disso eu não tinha culpa. Nesse dia, a freira mandou-me para a sala do castigo e o fato foi levado ao conhecimento de meu pai. Foi um susto para as fervorosas freiras quando meu pai lhes disse que se elas quisessem me ensinar as coisas da religião, ele não teria nada a objetar, mas que nem ele nem minha mãe tinham qualquer preocupação com esse tipo de assunto. Perguntaram-lhe então por que me havia colocado num colégio de religiosas, ao que ele respondeu - “É que entre os internatos de que eu tenho notícia, este é o melhor em formação ética e em qualidade de estudos” Poucos dias haviam se passado e fui chamada à sala da Madre Superiora e não tive medo, porque só depois me disseram que esse chamado só ocorre em casos muito sérios. A madre falou, muito solene: “Pelos fatos ocorridos, ficamos sabendo que você não tem nenhuma formação religiosa. Isso, em outras condições, seria o suficiente para que não a quiséssemos em nosso estabelecimento, mas, como é do nosso dever recolher almas para Deus, decidimos mantê-la aqui e para isso será necessário suprimir o seu horário de recreio, para utilizá-lo em aulas de religião. Seu tempo de estudo não pode ser mais restringido, já que você tem aulas de dança e

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pintura. A propósito, quero que você saiba que o seu balé deve ser encarado como uma forma de oração e que não pretendemos ter uma aluna que faça da dança qualquer coisa de profissional. Está entendido?” Disse que sim, e, desde então, enquanto minhas colegas brincavam, uma religiosa ensinava-me orações e muitas outras coisas do gênero, que eu decorava para esquecer logo depois. A idéia de passar meus recreios estudando religião não me foi tão penosa. Os recreios eram sempre destinados a qualquer coisa que dificultasse qualquer conversa, brinquedos de correr e jogar bola, pelos quais nunca tive muito interesse. Agradava-me estar com Irmã Benigna. Ela tentava tirar de mim o estigma da menina quase selvagem que eu era, ensinando-me novos hábitos e dando-me conhecimentos adequados à cidade. Falava-me de tapetes, cristais, pinturas famosas; ensinava-me a andar de um jeito especial, a mim que já havia caminhado tanto pelas estradas e que nunca poderia imaginar que existiam normas regulando o andar, o falar, coisas tão espontâneas da minha infância cheia de uma pureza mais ampla, não conhecida daqueles que se pensam civilizados. Minhas notas continuavam muito boas, mas os meus contatos com minhas colegas diminuíam e eu me tornava cada vez mais diferente do comum entre as meninas da minha idade. Meu mundo não tinha crianças, e as pessoas me eram impingidas, tudo a cada dia mais fechado como um cerco em volta de mim. Foi por esse tempo que Diva, aluna interna, pouco mais velha do que eu e mais adiantada, me veio dizer que Irmã Benigna não tinha vocação religiosa e que estava no convento em razão de uma específica situação familiar. Disse-me Diva: “O pai da Irmã Benigna era governador de um estado, quando estourou uma revolução que o meu pai chama de Golpe. Ele e toda a família foram presos e jogados no porão de um navio, onde um dos irmãos da religiosa morreu e teve o corpo jogado ao mar. Quando deixaram os porões do navio, morto um dos irmãos e enlouquecida a mãe, o pai se negou a colocá-la num hospital psiquiátrico, e a manteve em casa. A família, cujos bens foram seqüestrados pelo governo, passara muitas privações. Irmã Benigna teria uns quinze anos ao tempo, e não se sentia bem vivendo numa casa pobre onde a mãe enlouquecida nem sequer a deixava dormir. Passou, então, a estudar num colégio gratuito, e quando se formou não voltou para casa, onde o pai, um homem inteligente e culto, já havia restaurado a posição familiar. Os irmãos entenderam que ela os abandonara numa situação difícil, e agora, quando tudo estava bem, não tinha o direito de se sentir como membro da família.” E Diva me disse mais: “Ela só gosta de você porque antes de entrar para o convento tinha o mesmo nome que você tem.”

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Poderia ser verdade o que me havia contado Diva, mas se o fosse não haveria razão para que eu mudasse o meu modo de ser com a madre que me ajudava a vencer as pequenas dificuldades. Entendi que não deveria falar do assunto com Irmã Benigna. Ela me falaria disso se um dia confiasse em mim o suficiente para tanto. Os internatos não mudavam nunca, como se tivessem medo de que, afastada a rotina, se instalasse o caos. Tudo era calmo e, depois do caso de Júlia, não sei por que as alunas passaram a ser bem cuidadas. Talvez porque Irmã Silvia, que sempre tratava as alunas do modo como convinha aos nomes de família, houvesse, desde então, sido afastada das alunas e não exercia qualquer atividade fora da clausura. Nesse segundo semestre, talvez o colégio fosse o mesmo, mas eu, diferente, o via de outra forma. Ainda me restavam medo das confusões políticas da minha cidade, lembranças alegres e tristes da casa de meus avós, mas o peso disso não era tanto que me fizesse, como o fazia antes, não perceber o colégio com tudo que de novo ele me mostrava. Não me sentia mais tão inferior a minhas colegas, que viviam num mundo mais sofisticado e elegante que o meu. Estava ali. Presente para ver, observar e até descobrir o mundo novo em que eu vivia. Descobri a palavra caridade, de que tanto se falava e que muitas vezes tem nos atos religiosos um sentido tão diferente daquele que eles mesmo dizem. Aprendi muito nas salas de aula e nas conversas com Irmã Benigna. Minhas aulas extraordinárias de religião se tornaram muito produtivas porque, ao estudar aquele assunto, eu, que não tinha intimidade com o Deus de que me falavam, descobri que as pessoas colocavam em Deus qualidades que elas têm ou gostariam de ter, imaginando um Deus muito menor do que efetivamente deve ser o Deus infinito de que eles mesmos falam. Agradava-me muito ver o luxo que existe nos internatos. Imagens de santos que são verdadeiras obras de arte, pinturas de grandes artistas e sobretudo o ouro, em quantidade que só existe nos objetos do altar. A sexualidade reprimida se torna mais evidente e se vê o sexo em tudo. Mesmo no que foi pensado, e num lugar onde só existem mulheres, nunca se ouve tanto que somos nós, as mulheres, instrumentos do pecado. E então eu me lembrei de meu avô, que me dizia que os adultos têm tantas certezas que muitas vezes é melhor não entendê-los. Minha voz não mais questionava o que falavam. Meu ouvido escutava e meu

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intelecto recusava, e recusava tudo o que me diziam por considerar contraditório que um Deus puro e bom houvesse criado um mundo onde as coisas naturais pudessem constituir erros. Nesse tempo, eu não conhecia bem o que significava a loucura e ninguém me havia falado em neuroses. Terminava o segundo semestre de meu tempo de internato. A professora de balé me veio dizer que não julgava razoável o meu desempenho nas aulas e me aconselhava a não insistir no assunto. Disse-lhe, contudo, que eu gostaria de insistir, exatamente porque a dança era muito difícil para mim. Porque, se não me era fácil, era exatamente o que eu precisava aprender. Ela não teve argumentos em contrário. Continuei. E descobri com o tempo não a beleza da dança, o que era muito para minha capacidade, mas descobri o prazer do domínio do corpo, menor apenas do que a liberdade da cabeça. Minhas provas registraram boas notas, mas antes de encerrar o período letivo a madre orientadora deu-me como tarefa para as férias que eu procurasse ampliar meu relacionamentos, pois que, em um ano convivendo com mais de duzentas alunas, eu não tinha feito nenhuma grande amizade com as colegas. Reconhecia-me como leal e gentil, mas muito distante de todas, o que não lhe parecia normal ou conveniente para uma menina da minha idade. Só então percebi o meu silêncio onde tantas falavam tanto. O ano terminava e de novo eu ficaria sozinha esperando meu pai, que me viria buscar, diferentemente de minhas colegas, e não tinha nenhum desejo de ir para uma casa que me obrigavam a acreditar que era minha. Meu pai chegou quando todos já haviam ido e ficou contente com minhas notas.

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Capítulo 5 Outra vez a viagem com meu pai. Ele falava pouco e agora não me mostrava o que se via na estrada. O caminho já era conhecido e tão igual, não comportava mais quaisquer comentários. Mas ele me contou que meus irmãos já estavam em casa há mais tempo e que sua demora em buscar-me se devia ao fato de que, embora o colégio fosse mais perto de casa, a cidade onde eu estudava não oferecia nada para se comprar ou vender, de modo que lá só se ia para finalidades muito específicas. Falou-me também que a política estava tensa. Eleições só no próximo ano, mas os problemas já haviam voltado. A chuva foi tardia e as mulheres do nosso partido disse: “Lógico que sua mãe não estava com elas, pois não é de nosso hábito nos misturar com o povo.” - bem, as mulheres resolveram fazer penitência e subiram o morro, com suas grandes vasilhas de água e seus cantos, conhecidos na região. Um soldado do destacamento, subornado não se sabe por quem, armado de fuzil, as fez descer o morro correndo e amedrontadas. Amélia, mulher do Quincas, estava entre elas e esperava um filho. Na correria, sofreu uma queda e rolou pelo morro abaixo. A criança morreu e logo depois uma chuva de granizo inundou a cidade. O Quincas quis matar o soldado. Um grupo de homens o impediu. O soldado foi imediatamente transferido da cidade, mas de ambos os lados os ódios se reacenderam. Meu medo começou antes mesmo da chegada. O medo que acompanhou a maior parte da minha infância e adolescência. Quando cheguei em casa, minha mãe recebeu-me com a frieza de sempre. Sofia havia crescido e era bonita no seu colorido tão comum de cabelos e olhos castanhos e pele quase da mesma cor. Falava. Tinha brinquedos solitários e sempre me trazia flores colhidas nos jardins da casa de meus pais. Aos poucos, descobríamos que éramos irmãs, não porque os outros falavam, mas porque nos queríamos bem. Raquel, bem criança, andava pela casa e contava-me as coisas reais e imaginárias de seu mundo infantil. Sara estava bonita, seus cabelos loiros adornavam-lhe os ombros e seu corpo alto e forte, mesmo coberto de roupas, mostrava a todos que ela era mulher. Otávio se tornara um homem, não na idade, mas no tamanho e na voz. Parecia-se com meu pai, e este parecia odiá-lo. Chamava-o de inútil, canalha, cafajeste, por tudo e quase nada. Meu irmão falava pouco e não parecia triste. Era gentil com as pessoas. Os homens que freqüentavam as noites musicais de nossa casa pareciam admirá-lo. Nessas horas, meu pai o tratava muito bem e as vezes até o convidava para estar entre eles. E então era Otávio quem, gentilmente, a pretexto de qualquer coisa, recusava. E eu descobria que a coisa da família pode não passar de um teatro de mentiras.

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Durante o dia, às vezes, minha mãe deixava seus trabalhos, e chorava, um choro de raiva, não de tristeza, e dizia: “Não agüento mais esta vida, um dia me mato”. Outras, vezes, também irritada, falava contra a cidade e dizia que precisávamos sair daquele lugar onde não se podia criar filhos, ela e eles encarcerados. Quando havia alguma festa na cidade, e naturalmente nenhum de nós era ao menos convidado, Sara se trancava no quarto, ficava dias sem sair e sem falar com ninguém. Meu pai a chamava na hora das refeições. Ela não vinha. À noite, ele lhe dava um presente caro, que ela agradecia de mau humor. Quando resolvia aparecer de novo, ou mesmo em sua ausência, meu pai lhe fazia grandes elogios e até dizia que Sara seria o de bom que a velhice lhe reservava, porque Sara sabia lutar por seus desejos. E sempre acrescentava que eu, Irene, aprenderia o que eu encontrasse nos livros, mas era na verdade uma incapaz que não me rebelava nunca. O povo da cidade nos olhava com um misto de admiração e raiva, porque, suponho, as empregadas diziam na rua que meu pai não nos deixava sair porque nos achava superiores aos outros. Tudo me dava a impressão de que todo mundo sabia o que se passava em nossa casa. Ninguém me disse isso, não poderiam dizer, porque eram tão poucas as pessoas com quem podíamos falar. Só aquelas que iam à casa de minha avó, onde me davam licença para ir todas as tardes, com a recomendação de que não me atrasasse para o jantar. Minha avó continuava a mesma. Até o envelhecer estava parado no seu rosto. Falávamos menos a respeito de meu avô de quem tanto ela quanto eu não nos havíamos esquecido. Um dia, minha avó, assentada nas sua cadeira de sempre, perto da janela, aproveitando a luz da tarde, tecia o seu crochê. Pedi-lhe que me falasse de Aurora. Ela se surpreendeu. Não sabia que me haviam falado desse trecho da história, que já não era de ninguém, era um capítulo de nossas vidas. Devagar, como se tivesse medo, escolhendo as palavras, disse: - Um de meus irmãos se chamava Antônio. Enriqueceu. Ao contrário dos outros, a pele cor de chocolate e os cabelos mantinham o mesmo tom. Acreditava-se superior a todos de nossa família empobrecida, quando o trabalho nos começou a

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faltar. Não sei se por capacidade ou sorte, novo ainda, Antônio ganhou muito dinheiro. Nas suas andanças, casou-se com uma estranha mulher, filha de ricos recémchegados à cidade, que usava roupas e perfumes nunca vistos por nós. Tiveram uma filha, a quem deram o nome de Aurora, e a mulher, tão desconhecida como quando chegou, um dia chamou o seu tio e disse que iria embora e que dele não queria nem a filha. Seu tio a matou. Nem mesmo a sua família teve interesse em puni-lo, porque não queriam um julgamento em que seu passado fosse mostrado aos outros. Seu tio se mudou por uns tempos para algum lugar, que não se soube onde era, e quando voltou, empobrecido, com os cabelos já grisalhos, trouxe Aurora, bonita e moça. Aurora namorava um moço, sem nome e sem dinheiro, quando o pai entendeu de casá-la com um rico estrangeiro, já bem velho, que aqui havia aberto uma loja de quinquilharias, onde na verdade não se vendia coisa alguma. Apenas se distraía, enquanto empregados cuidavam de terras e gado que ele havia adquirido desde a chegada. Aurora se recusou a casar, mas estava aprisionada. Foi comunicada de seu próprio casamento quando nem tempo havia para fugir. Na hora do casamento, disse que não queria se casar, e no dia seguinte amanheceu doente. Ninguém sabe como, dois dias depois o escrivão fez o casamento em casa na presença de algumas poucas testemunhas. Uma semana depois desse casamento estranho, Aurora se mudou para a casa do marido e parecia feliz. Ninguém lhe fez perguntas. Aurora era vista com o marido e parecia feliz, como se espera esteja uma recém-casada. Ela e o pai enriquecidos com o dinheiro do velho que, de certa forma, a havia comprado. Tudo parecia normal e esquecidas as mágoas, quando, certa manhã, Aurora não foi encontrada no quarto. A empregada que lhe servia o café deu o alarme. A senhora não estava em casa. Depois de alguma procura, viu-se que suas roupas pessoais haviam sido tiradas do armário e se tornou clara a fuga. Os dias se passaram, e em cada morador da vila a esperança de encontrá-la foi desaparecendo em tempos diferentes. O estrangeiro continuou na cidade e se juntou a uma de suas empregadas, a quem oferecia tudo o de mais luxuoso que existe, mas negou-lhe durante a vida o direito de sair de casa e falar com quaisquer estranhos. Só não era considerada estranha uma das empregadas, por alguma razão incapacitada de falar. Quando o estrangeiro morreu, o que não foi há tanto tempo, descobriu-se que a mulher havia perdido a capacidade de falar. O pai de Aurora, meu irmão Antônio, foi empobrecendo a cada dia e, como se recusou a qualquer contato conosco, não tivemos muito como ajudá-lo. Dez anos depois, o pai de Aurora recebeu pelo correio um grande pacote de dinheiro. A cidade

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nunca teve bancos, o dinheiro era bastante. Dentro do pacote havia uma carta de Aurora, descobriu-se muito depois. A carta dizia que aquele dinheiro ela o ganhara como prostituta num bordel de luxo. Disse que ela havia escolhido essa forma de ganhar dinheiro, o que não poderia chocá-lo, porque havia sido iniciada na profissão com o casamento que ele havia decidido e imposto a ela. Que a profissão não era ruim, mas que, ao contrário do que pensava o pai, ela preferia exercê-la de maneira pública, e não acobertada por um casamento. Meu tio adoeceu pouco a pouco. Ainda não havia luz na cidade. Então, especialmente nas noites de lua, ele saía pelas ruas, um homem muito alto, de pele morena e cabelos brancos, e durante toda a noite ouvíamos o seu grito angustiante: “Antônio Macedo em julgamento nunca mais”. Rodava todas as ruas num cavalo branco, o único bem que lhe restava, e repetia incessantemente a frase que, de certa forma, doía em todos nós. A decadência é sempre triste... Minha avó me indicou o lugar onde ficava a casa do estrangeiro e eu me lembrei de que uma vez meu avô me havia falado dela. Era uma casa bonita, tinha no teto uma pintura diferente, como ainda não havia visto outra igual. Perguntei então à minha avó se ela não sofrera por ver que o irmão que um dia, criança, vivera com ela os tempos de ternura, estava então enlouquecido, como um trapo, andando pelas ruas. E ela me respondeu: “Não, por enlouquecer não. Porque nenhum fato isolado pode servir de base a um julgamento, mas a mim me doeu saber as razões por que ele enlouquecera. E porque, conhecendo as mazelas da família, ele não rompeu com elas e nelas se aperfeiçoou. Vendeu a própria filha, dissimulando a venda com um casamento, e a filha, tão igual a ele, humilhava-me de novo quando perpetuava o que de mau havíamos trazido de muitos anos antes. Entristeceu-me, ainda, quando me humilhei por isso, porque no meu orgulho eu havia pensado que os meus deviam ser melhores do que os outros.” E minha avó continuava tecendo suas rendas. E a boca que falava de tristezas era tranqüila, no rosto já acostumado aos tristes pensamentos. O tempo continuava andando, e eu não o havia notado. Eu já devia estar na casa de meus pais, e foi com sorte que, ao chegar, não haviam dado pela minha ausência, porque um homem que não era dos nossos entrou num bar amigo e a chicotadas quebrou todas as garrafas de bebida. Ao dono ninguém iria pagar o prejuízo, pois que o autor da façanha era pobre e não tinha com que fazê-lo, e o mandante, porque naturalmente havia um mandante, dera suas ordens com tanta sutileza que disso

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provas não se conseguiriam. Em casa, minha mãe falava, ”precisamos mudar deste lugar para que nossos filhos, não vendo o que se faz nesta cidade, sejam amanhã mais nobres de espírito e não tenham consigo tanta maldade”. E eu me lembrei então do que há pouco me havia dito minha avó: a maldade não está na cidade, seria preciso matá-la dentro de nós mesmos. Porque minha avó havia insinuado que o mal do meu tio não era apenas dele, mas de outros de nós que existiram antes. Minha mãe preferia acreditar que o mal estava nos outros, assim é sempre melhor. À noite, não me lembrei do incidente no bar. Começava a me acostumar com a violência que atingia os outros e me contentava quando depois de qualquer incidente podia-se dizer que ninguém morreu, como se a morte fosse a única coisa ruim que nos pudesse acontecer. Lembrei-me de Aurora e de minha mãe, que a odiava. Fiquei contente que ela, entre os nossos, houvesse vivido antes de mim. Parecer-me com ela não me fazia sentir bonita. Minha mãe tantas vezes me havia dito o quanto eu era feia, que ninguém seria capaz de me convencer do contrário. Mas, diferente de minha mãe, eu queria me parecer com Aurora: queria ser capaz de mostrar minha vontade, se precisasse, de agredir. Mas eu era naturalmente submissa, aceitava como minha vontade a de todo mundo. Alguém diria que eu era humilde, meu pai dizia que eu era um tanto idiota e admirava Mira, que tanto quanto eu lhe obedecia as ordens. Mas ela, ao contrário de mim, deixava clara sua revolta e seu ódio contra as ordens tidas como descabidas. Ele dizia que ela era uma pessoa capaz e que um dia seria alguma coisa na vida. Eu pensava: “Um dia me parecerei com Aurora”. Mira mentia e muitas vezes conseguia fazer as coisas de seus desejos. Eu não era capaz de mentir, e como as repreensões tornavam mais tensas as pessoas de nossa casa, eu não fazia nada que imaginasse pudesse dar origem a que meu pai e minha mãe me repreendessem. E foi por isso que sempre que não houvesse jeito de que ela e eu tivéssemos uma situação idêntica, a menos agradável era à que eu devia me submeter, porque eu não reclamava. Percebia isso. Ficava triste e continuava tudo do mesmo modo: eu e eles continuávamos os mesmos. Felizmente, as férias não eram muito longas. E foi nesse tempo, para não se esquecer de que viriam ainda, que, no outro ano de eleições, um dos filhos do mais importante adversário político de meu pai, por exclusiva agressão, disparou seis tiros no retrato de um dos meus parentes que havia

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sido prefeito. Ninguém teve raiva. Retratos não morrem. comentaram.

As

pessoas riram e

E mais do que se houvesse sido preso, o moço ficou sentido e deixou a cidade. Foi embora e começou a sério seus estudos. Desta vez deu certo. Mas foi exatamente naquelas férias que eu pude questionar se realmente, para uma mulher, mais do que ser atrevida, era bom ser submissa. Porque se descobriu que um fazendeiro da região, que havia morrido há cerca de um ano, fora assassinado pela mulher, e ficamos sabendo por que certa manhã, mal nos acordávamos, quando chegou à cidade a sua viúva, escoltada por soldados e tendo no peito uma placa de papel onde se lia: Matei meu marido. Quando a mulher, cansada, caía na rua, os soldados a levantavam com chutes e pontapés. Minha mãe mandou que entrássemos, pois, desde aquele tempo, ela se acostumava e até aceitava a violência, mas sempre teve horror à humilhação. Não queria que se fizesse o que faziam com a mulher, conhecida na loja de meu pai em razão de suas grandes compras, para as quais tinha autorização do marido. Queria eu saber por que a mulher, com essa liberdade, teria matado o homem que lhe dava tudo o que ela queria. Não perguntei. Faltava-me liberdade para fazer quaisquer perguntas à minha mãe. Também não foi preciso. Todos os fatos dão origem a tantas conversas que, sem fazer perguntas, se podem saber quase tantas versões da história quantas são as pessoas do lugar. Juntando tudo o que ouvi a respeito, penso que os fatos aconteceram assim: na casa do fazendeiro era de uso que à noite se reunissem para jogar cartas. A mulher teria se apaixonado por um dos jogadores, amigo de seu filho, ambos de idades não distantes. A mulher foi aos poucos dizendo ao filho que o pai pensava em vender todos os seus bens e fugir com o dinheiro, de modo que ela e o filho ficariam na miséria. O pai não era mau, mas no seu conceito, homem não podia ser carinhoso para com ninguém, por isso sua bondade era grosseira e seus possíveis momentos de ternura eram duramente sufocados. O filho se viu sem carinho, mas não suportou a idéia de ficar também sem dinheiro, e propôs à mãe que ambos matassem o pai e marido. Mas o filho entendeu que o tiro mortal devia ser dado pela mãe e, então, provado havia ficado que ela o matara. Foi justamente por esses tempos que meu pai, numa das poucas interrupções em seu trabalho, estava em casa, quando o Dr. Ulisses apareceu para o café e minha mãe se juntou a eles, e falaram os três do que seria aconselhável que meu pai fizesse

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do futuro de suas filhas. Otávio havia escolhido fazer engenharia marítima, nem sei por que, pois creio que ele não conhecia o mar. Soube depois que, nas conversas do colégio, um professor havia lhe aconselhado esse curso. Decidiram eles que Mira não seria professora, porque meu pai não a queria casada com um homem de poucas rendas, ou, até melhor dizendo, meu pai não queria ver as filhas casadas. Minha irmã deveria, segundo a decisão de meu pai, estudar Medicina, um curso de muito prestígio, e que a colocaria bem acima de todas as coisas que as mulheres normalmente pretendem. E até seria possível que eu também, pelas mesmas razões, devesse ser médica. A decisão, entendia meu pai, deveria ser dele, e para isso nossos desejos e habilidades não contavam. Pensei comigo que talvez, quando fosse este o assunto, eu teria de me rebelar, mas desde cedo aprendi a não falar antes do momento exato e não falei disso. Meu pai matriculou minha irmã num colégio onde havia um curso adequado ao que ele pretendia. Continuaria eu no mesmo colégio, pois, estando ainda no ginásio, meu colégio era mais econômico, não seria obstáculo às suas pretensões. Minha mãe ouvia estas coisas, e sabia que nesse assunto sua opinião não era importante e continuava a dizer que precisávamos nos mudar daquele lugar, porque a ela nada mais importava além da paz e de que seus filhos não vivessem sempre ao lado da violência. Meu pai não se preocupava com isso, pois, dizia ele, a violência está em todo lugar, ainda que apareça de formas diferentes. Às vezes, eu queria que as pessoas sempre nos visitassem. Minha mãe e meu pai se davam muito bem na presença dos outros. Quando estávamos a sós, pareciam bem, mas havia na casa alguma coisa inexplicável e tensa que eu nunca entendia. Meus irmãos, se sabiam, nunca me falaram a respeito. Sofia era meiga e silenciosa e muito pequena para entender quaisquer problemas. Mira, independente demais para gastar seu tempo com a irmã que lhe era desconhecida e ela desejava que sempre o fosse. Agradava-me quando as tardes chegavam e eu podia ir à casa de minha avó e conversar com ela sobre as pessoas e as coisas. Talvez se minha mãe tivesse menos filho, ela detestasse menos as crianças. Nunca falava conosco mais do que o necessário, e a casa era completamente entregue às empregadas. Minha mãe trabalhava muito. Fazia todas as costuras de que precisássemos e fazia muitas roupas de tecido de má qualidade e pouco preço que eram vendidas na loja de meu pai, onde homens e mulheres, empregados das fazendas vizinhas,

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compravam tudo o de que necessitavam. Meu pai mandou colocar na loja um lugar adequado para que essas pessoas pudessem lavar os seus pés descalços e calosos e ali mesmo calçassem sapatos e se sentissem importantes e bonitos quando iam à Igreja. Eram homens e mulheres de rosto alegre, a pele curtida de sol e os dentes cobertos de ouro, felizes, montados nos seus cavalos. A eles também a política atingia, mas mesmo assim muitos eram de incrível fidelidade a meu pai, e quando lhes era concedido nos ver, tinham-nos como se fôssemos rainhas. Nossos nomes não tinham para eles a menor importância, chamavam-nos a todas “filhas do senhor Homero”. Meu pai se referia a eles com certo carinho e respeito e ensinava-lhes coisas que lhes eram úteis. O afeto de meu pai por estas pessoas pode ter surgido por razões do seu comércio ou da política, mas, já ao tempo em que eu me lembro, penso eram exatamente eles as pessoas de quem meu pai mais gostava entre todos da cidade. Minha mãe não: o pouco contato que tinha com eles não passava do necessário aos negócios de meu pai. E dizer que era exatamente minha mãe a filha de meu avô. Durante essas férias, algumas vezes, ninguém sabe como, em casas de pessoas de nossa família foram colocados durante a noite caixões mortuários, o que era entendido como uma ameaça anônima de assassinato do dono da casa. Durante a noite, ouviam-se tiros de revólver e no dia seguinte não havia mortos, nem se descobria o autor dos disparos. Faziam isso para inquietar as pessoas que, sem telefone e com medo de sair à rua, dormiam preocupadas. Minha mãe aumentava o seu desprezo pelo lugar onde havíamos nascido. Uma noite, creio, foi nesse período de férias, acordamos e ouvimos vozes de moços que cantavam músicas bonitas à frente de nossa casa. Fiquei a ouvi-los, sem saber o que acontecia com as outras pessoas da casa, pois tínhamos cada um nossos quartos separados. Só no quarto de Isabe é que ainda dormia uma empregada que se encarregava de cuidar da minha irmãzinha. Na manhã seguinte, à hora do café, meu pai tinha o rosto tenso e pela primeira vez o vi falar em voz alta com Mira. Disse-lhe que serenatas são feitas quando se sabe são bem recebidas por alguma das moças da casa e que, como eu ainda era muito pequena, naturalmente Mira era a culpada do interesse daqueles “inconvenientes”. Minha irmã era corajosa e disse a meu pai: “Não sei quem fez a serenata, mas gostei que ela houvesse sido feita, e se eles são rapazes, já sou moça e, quaisquer que sejam

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as razões deles, vejo-as como coisas normais.” Meu pai se calou e, à tarde, minha mãe começou a rever as roupas de Mira, que por decisão do meu pai iria para o internato antes do término das férias. O rosto de minha mãe me mostrava que ela estava descontente, mas tanto quanto eu, descobri mais tarde, ela também tinha medo de meu pai. Eu o tinha de ambos. No dia da viagem, Mira estava contente ou procedia como se estivesse. Ninguém negaria que minha irmã era filha de meu pai, ambos prepotentes e orgulhosos. A antecipação da viagem de Mira deixou-me mais à vontade na casa de meus pais: sua presença irada contra mim fazia-me proceder diante dela como se eu ocupasse parte de um lugar que de direito lhe pertencia. A casa de meus pais era muito grande. Cabia-nos a todos. Mas no espaço imaginário eu havia chegado tarde e foi como se ocupasse algum lugar que não era meu. Sentia o incômodo de todos. Dias depois, íamos nós outros para o colégio. Durante a viagem, meu pai me disse que as pessoas me achavam uma menina triste, o que era inconcebível, pois naquele ano ele havia ganho muito dinheiro e portanto éramos felizes. Não seria capaz nem teria coragem de explicar a meu pai que para mim uma coisa não era de forma alguma conseqüência da outra. Meu pai em suas palavras sempre fazia entender que tudo no mundo se explicava com o ter ou não ter dinheiro, e que o mundo se dividia entre aqueles que tinham ou não tinham poder. Mas o seu rosto envelhecido aos quarenta anos dizia-me que nem mesmo para com ele o mundo era tão simples: ele também às vezes me parecia triste. Otávio raramente falava com meu pai e nunca manifestava querer se parecer com ele; Mira estava no colégio sem ter lhe dirigido a palavra nos últimos dias que esteve em casa. Minha mãe nunca seria considerada como contente com o mundo que a cercava, e a nossa casa como um todo tinha no ar alguma coisa de sombrio que eu creio nenhum de nós saberia explicar. Se um dia tivéssemos coragem de falar uns com os outros o que pensávamos, talvez tudo se tornasse claro. Mas ninguém seria capaz de dar início a esse processo de comunicação. Quando comentei este assunto com Irmã Benigna, ela me disse que eu estava muito adulta para minha idade e me disse que os infelizes amadurecem cedo e que eu devia aproveitar os meus recreios para brincar com meninas da minha idade e me tornar um pouco irresponsável. “Tente se desligar do mundo adulto e não perca sua adolescência”, disse-me, e eu vi que era tarde.

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Capítulo 6 Estava eu de novo no internato. O sino marcando minhas horas. Meu nome substituído por um número. Tudo tão normal. Eu, como todas. Minhas colegas falavam de suas férias, de festas, namorados e presentes de Natal. Também contavam os horrores da política de nobreza tão distante daquela que nos falavam as freiras. Em três meses de férias, havíamos crescido mais do que percebíamos no ano letivo. O colégio era o mesmo. Limpo, paredes brancas, corredores silenciosos, e o tempo passando, pensava-se que sem marcas. Mas foi exatamente quando tudo se pensava igual que, um dia, em sala de aula, Ângela, minha amiga que gastava seu tempo olhando a irmãzinha menor, sentiu-se mal. Levantou-se de sua carteira. O rosto vermelho. O caminhar tão ligeiro que ninguém pôde vê-la. Não pediu licença para sair. Foi por isso que a religiosa professora mandou Gabriela, aluna maior, saber onde fora Ângela. Na capela, a fala desaparecida, Ângela não conseguia explicar. Gabriela chamou por socorro e a doente imediatamente foi para o hospital. As aulas continuaram e mesmo nas outras turmas a inquietação se espalhou. Quatro horas depois, suspenderam as aulas. Ninguém brincava. Falávamos pouco e em voz baixa, e uma ordem, não se perguntou de quem, nos reuniu na sala do teatro. A madre superiora, rosto tenso, uma grande tristeza, nos avisou com lágrimas nos olhos: “O colégio gostaria de poupar a vocês, como gostaríamos de nos poupar a nós mesmas, da dor que sentimos. Ângela, aluna da segunda série, sentiu-se mal na sala de aula. Tudo o que podia ser feito o foi. Não houve recurso válido. Ela está morta. Os pais vieram buscá-la. Sua irmãzinha também nos deixará. As alunas maiores de quatorze anos, se o quiserem, poderão ir ao velório, acompanhadas de religiosas, com quem combinarão o horário. As menores ficarão no colégio. Hoje não estudarão mais. Procurem brinquedos esportivos e evitem assuntos tristes”. Ninguém chorou no momento, mas nos outros dias o colégio inteiro ficou triste. As camas, os lugares no refeitório, tudo mudou de modo a que não se percebessem os lugares que ficaram vagos. Os outros vazios não foram preenchidos e se transformaram em saudade que durou muito tempo. O mundo do internato é menor do que os outros. Ali não existem pais nem avós. As religiosas, que as vezes se dizem mães de todas as alunas, na verdade não o

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são de ninguém. O convento lhes chega muito cedo, sua realidade é parcial. O drama da morte chegou abocanhando nosso mundo, e foi a custo e com muito tempo que pensamos nos ter desvencilhado dele. No entanto, quando acreditávamos que esse horror nos havia deixado, uma tempestade caiu de novo sobre a rotina. Estávamos na sala de estudos, quando a madre apareceu. Vinha tensa como sempre, as mãos agarradas às contas do rosário. Ordenou que as menores de treze anos, nas quais eu me incluía, descessem ao pátio de recreio e fôssemos brincar. No recreio ninguém brincou. Queríamos adivinhar o que motivava a alteração de nosso horário costumeiro. Mil falas, interrompidas minuto a minuto pela freira que nos supervisionava. A madre superiora nos mandara brincar e não conversar. As ordens eram precisas e deviam ser cumpridas como haviam sido dadas. Desceram as adultas da sala de estudos. Silenciosas. Olhos abertos. Algumas em lágrimas. No rosto das menores, espanto e curiosidade. Ninguém falou. As menores não fizeram perguntas, e não se sabe como soubemos: Laura, uma das meninas chegadas ao internato no começo do ano, havia tido um filho. Jogara-o da janela do dormitório, que ficava no terceiro andar, e a criança, porque ainda livre de defesas e de medos, havia sido encontrada viva num dos jardins, tão carinhosamente cuidado pelas religiosas. Já não era o susto doloroso da morte, era o espanto diante do supostamente impossível e inimaginável. Laura estava no hospital, a criança morrera hora depois. Recuperada, Laura foi levada aos pais, que não a receberam. Consideraram-na, em seus quinze anos, indigna da vida em família. O colégio não a quis entre nós, as outras alunas. Atendia-se ao que socialmente era exigido. Mãe solteira não podia estar entre nós, meninas que, se supunha, se casariam mais tarde com grandes homens, e para isso deviam ser imaculadas. Mãe solteira, rótulo da indignidade, não era preciso nenhuma outra informação para que se proferisse tal julgamento. Éramos crianças e não faltou quem entre nós desejasse a sorte de Laura, cuja vida tão cedo se marcava por uma experiência da qual só os seus pais a tinham como responsável. O colégio assumiu o problema e Laura ficou como hóspede e filha de um casal sem filhos, onde lhe ensinaram todos os trabalhos tidos como necessários a uma jovem, a quem um dia, acreditavam as religiosas, Deus poderia dar um marido de presente.

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Aos poucos, as palavras de um e de outros, de alunas internas e externas, e até de visitas, nos contaram a história de Laura. O pai comerciava café e desde cedo Laura ajudava nos serviços de seu comércio, misturando-se com todos os homens que faziam parte do mundo agitado dos negócios. Ela e seus irmãos participavam do plantio, da colheita e venda do café. Foi então que um daqueles homens que passam por estes lugares, quase certos de que ali nunca voltarão, deu um filho à menina, e o deu de presente, sem intenção de nunca retomá-lo e nem mesmo vê-lo. O pai de Laura estava certo de que deixar nascer um filho sem pai é quase sempre culpa, e no caso a culpa era de Laura. O colégio voltava à rotina e as férias chegavam, desta vez nos encontrando a todas menos crianças: as grandes realidades tinham invadido nosso pequeno mundo e delas não havíamos podido fugir, nem mesmo na fracionada adolescência do internato. Continuávamos estudando muito. Aprendíamos um pouco menos, a cabeça às vezes ocupada com os fatos. As religiosas estavam mais tristes e eram maternais. Sempre demorava o dia em que meu pai me viria buscar. Estar no colégio, quando todas se haviam ido, era como uma viagem. Em tempo de aula, íamos sempre aos mesmos lugares, salas de estudo, banheiros, refeitórios, capela e pátios. Sozinha, sem aulas, podia ir a todos os lugares, à biblioteca, à pinacoteca, à sala de música e até mesmo ao restaurante das freiras. Na minha cabeça de interna, todos estes lugares eram descobertas interessantes de um mundo que até poderia ser o meu, se ele não exigisse que tivesse uma religião determinada. Meu pai me veio buscar. Muito tempo das férias já se havia passado, e isso não era ruim. O colégio cheio de tristezas me levava a uma cidade vazia de coisas boas, marcando minha adolescência perdida. Minha irmãs estavam em casa. Mira, mais em seu quarto do que em qualquer lugar, não tinha palavras para ninguém. Isabel andava pela casa, fazia roupas para suas bonecas e às vezes me falava de seus brinquedos. Era alegre, corria e quebrava enfeites da casa, olhando depois no rosto dos outros o tamanho do mal que havia feito. Não se importava pelo cristal quebrado, mas chorava se o rosto adulto lhe dizia que fizera mal. Otávio não viera de férias, falava do muito que precisava estudar, o que talvez fosse verdade. Minha mãe estava mais tranqüila e até se aproximou de mim e quis me ensinar o que sabia de costura. Meu interesse a fez um tanto alegre porque este e outros trabalhos manuais fizeram a marca das finas mulheres da família.

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O presidente da República, o governador, um pouco menos o prefeito, faziam um bom ambiente em nossa casa, porque dessa vez todos eles tiveram o voto do meu pai. Isto era a paz em nossa casa perdida numa cidade sem importância. Mas, mesmo assim, porque tudo que viera antes sempre conta, a casa de minha avó ainda era o meu lugar, e foi numa tarde que minha avó, falando das coisas daquele lugar, me contou. “Quem fundou essa cidade foi o pai do seu avô. Era um homem simples, confiante em que sempre se pode dizer a verdade, certo de que o trabalho é bênção de Deus. Veio aqui com a família, a mulher e o filho ainda pequeno. E numa área de terra plantou uma igreja e avisou a todos que as terras que a rodeavam seriam dadas de graça, não lhe fariam falta. Suas terras eram muitas. E, no meio dos que chegaram para a terra que ele deu de graça, vieram meus irmãos e depois todos nós. Um dia, mataram o pai do seu avô e o tempo fez com que a viúva perdesse todas as terras. Seu avô, ainda muito novo, aqui não tinha trabalho, nem dinheiro, e foi em terras um pouco distantes, cujo dono não conheci, que ele aprendeu tantas coisas que sabem aqueles que trabalham a terra.” Minha avó me contava também os seus dias mais felizes, como o seu primeiro casamento, quando a família ainda fazia jóias para a Coroa. O casamento com o moço rico, que seria amado mesmo se pobre. Ela, a noiva bonita, descendo os degraus da Catedral de mãos dadas com o marido, pois os braços dados não era decente e ela feliz porque a intimidade das mãos já era um prazer muito grande, véspera de outros que seriam maiores. Morto esse marido, ainda sem se esquecer do primeiro, casaram-na com meu avô, pobre, simples, analfabeto, porque viúva sem homem seria um risco insuportável para a honra da família. E um dia, sem mesmo que ela percebesse, descobriu que amava meu avô exatamente do modo como deve ser o amor de verdade. E de novo falávamos de meu avô e do seu grande atributo: era bom. Entardecia e eu voltava à casa de meus pais, e se não ouvia música, nem política, meu pai me levava ao seu escritório para me falar de seus negócios, porque Mira, a mais inteligente, e que ele dizia muito mais capaz do que eu, tinha coragem de responder-lhe: “Seus assuntos não me interessam”. A mim também não me interessavam os negócios. Mas, se Otávio não estava, se Mira não tinha disposição para ouvi-lo, eu fazia como se o assunto me fosse muito agradável, até que um dia eles se incorporaram à minha vida, se não com prazer, ao menos como ciência.

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A política neste tempo estava tranqüila e até parecia que todos haviam se esquecido de tudo que havia se passado. De uma das salas da casa de meus pais, minha adolescência podia ver outras moças e meninas passeando em seus vestidos novos e bonitos, como os que eu vestia para vê-las à distância, sem falar com ninguém. Mira ficava revoltada e, por uma das portas da casa, saía escondida e fazia seus passeios, que, se descobertos, tornavam nossas noites insones, pela nervosia de minha mãe e repreensões de meu pai. E as férias terminavam. O colégio de novo. Do colégio espera-se a rotina. Desta vez, ao chegarmos, encontramos as freiras mais distantes, como alguém que esconde um segredo ou um plano. As aulas, o estudo e todas as outras possíveis atividades, obedecendo os mesmos horários que tiveram sempre. Tudo impessoal. Dormir quando todos dormem, se levantar quando os outros se levantam. Um exército sem armas e sem força. Foi nesse semestre, em que eu tinha certeza de que nada de novo iria acontecer, que, em certa noite, dormíamos, quando uma voz cheia de medo e susto nos acordou a todas: “Um homem”, gritou alguém. As religiosas da vigilância se fizeram atentas. Alunas se levantaram sem saber por que, enquanto outras se tornaram imóveis, e do outro dormitório outra voz disse: “Aqui também há um homem”. Não chegavam a ser exatamente homens: ainda muito novos, eram quatro rapazes que esperaram o adormecer das moças e invadiram-lhes o dormitório. Um deles, na corrida, caiu de uma escada e só por isso foi possível que se soubesse quem eram eles e a que foram naquele reduto feminino e supostamente virginal. Os invasores estavam chefiados e instruídos pelo filho do vizinho do colégio. Pai e filho odiavam a instituição, não pelas mangas e laranjas que às escondidas, nós, as alunas, apanhamos de seu quintal. Odiavam o colégio que havia proposto uma ação que se arrastava há anos e com a qual pretendiam fazer voltar ao colégio uma pequena parte do terreno que teria sido ocupado pelo vizinho. O advogado já havia comunicado às freiras que os juizes disseram que a razão estava com elas. A invasão dos moços não tinha outra razão a não ser a de causar tumulto. Mas, no outro dia, um homem sério no porte e nas roupas, e provavelmente no agir, procurou o colégio e falou com a Madre Superiora: “O rapaz que invadiu o colégio é meu filho e os demais são apenas seus amigos, por cujo comportamento assumo a responsabilidade, como de meu dever. Queria me desculpar diante das senhoras e das moças e espero que todas saibam, de forma alguma eu me insurgiria contra uma ordem judicial e menos ainda, jamais eu o faria de modo tão

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irresponsável, como fez meu filho. É preciso ser pai para compreender que os nossos filhos nem sempre são como desejamos que sejam. A freira respondeu: “Não se preocupe, senhor. Nós, educadoras, sabemos disso”. E o homem, bem vestido, sério e de roupas elegantes, abaixou a cabeça e se foi. E só à noite, quando deveríamos nos dirigir à sala de estudos, nos foi dada a ordem para irmos ao grande auditório porque a Madre Superiora nos iria falar. A Madre Superiora: silêncio e expectativa. Ela apareceu: alta, solene e não segurava as contas do rosário. De cima do palco, tendo nas mãos um aparelho desconhecido de todas as alunas, falou com voz clara, entonação de rainha: “Meninas, o colégio não pôde evitar o transtorno por que passamos ontem. Um homem entrou no dormitório de vocês, profanando a nossa casa. Nada de mais grave aconteceu, mas há coisas que, se faladas, tomam uma dimensão muito maior do que a real. Estou aqui para pedir a vocês que guardem segredo do episódio de ontem. O colégio e vocês correrão menos riscos se o fato for mantido em sigilo. Ponho-me agora à disposição de vocês para quaisquer perguntas e quando saírem daqui não falem mais a respeito do que se passou. Alguma pergunta?” Uma das alunas se levantou. Esperamos, as outras, a sua pergunta, que nos era inesperada ante a clareza do que havia sido falado. Era Sabina, ninguém sabia se ingênua ou maliciosa: “Madre, eu queria saber o nome do aparelho que a senhora tem nas mãos, com ele pudemos ouvi-la muito bem.” A madre respondeu, solene como sempre: “O aparelho se chama microfone, e a pergunta não tem sentido diante da seriedade do assunto de que tratamos. “ Não houve mais perguntas, a madre se retirou e depois cada irmã vigilante da noite ordenava que saíssemos, os grupos divididos de acordo com o dormitório ocupado. No dia seguinte, e em muitos outros que vieram depois, nenhum outro assunto foi tão falado no colégio: com censuras ou com elogios, o filho do vizinho se imortalizou no internato. O vizinho não importava, nem mesmo as razões do pai ou filho. O fato ganhava coloridos irreais e era com o irreal que nos divertíamos todas. Veio depois um período de calmaria: estudávamos, brincávamos, íamos à capela. Tudo sempre no mesmo horário, tudo igual, até as falas, um eterno ritual no qual nada se pode mudar. Mas não poderia demorar muito. Foi então que soube: numa das igrejas da cidade, o Menino Jesus chorava no altar e, do teto da igreja, pedras eram jogadas atingindo passantes impiedosos.

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Falou-se muito do assunto e as próprias religiosas entenderam de seu dever levar todas as alunas até onde o milagre acontecia. As internas, assim em grupo nas ruas da cidade, não seriam menos do que um milagre. Sem que o percebessem as religiosas, e da forma como nos era possível, tentamos todas nos tornar, se não mais bonitas, pelo menos menos feias, porque talvez, enquanto o Menino Jesus estivesse chorando, algum moço da cidade nos pudesse sorrir. E fomos à igreja, e houve uma parte do grupo que se tornou atenta às lágrimas do Menino Jesus, e ao chegarmos ao colégio uma das madres comentou: “Não recebemos pedras; é que Deus está ciente de que, se não somos devidamente boas e puras, pelo menos nos esforçamos para isso.” Falei do assunto à Irmã Benigna, que já me tinha como razoavelmente adulta em meus treze anos, e ela me disse: “Milagres não acontecem assim tão facilmente. É preciso até mesmo saber se eles efetivamente acontecem. Milagre pode ser o que a ciência ainda não explicou.” A cidade, nos contaram as externas, havia se enchido de pessoas ricas e pobres, vindas especialmente para presenciar o milagre, e se comentava com incredulidade o fato de um dos padres da paróquia privilegiada por Deus haver convocado cientistas de uma cidade grande para examinar o fenômeno. E especialistas imparciais chegaram à cidade: mediram, examinaram, anotaram, falaram com os padres e voltaram para a cidade grande. A polícia prendeu o dono de um hotel que ficava ao lado da igreja, de cujo teto tiraram um menino. É que, por ordem do pai, o menino se acomodava entre as madeiras e telhas e jogava pedra nos passantes. Na igreja, o Menino Jesus, marcado de clara de ovo, fazia o espetáculo do milagre que serviu aos mais variados interesses. Terminava mais um semestre. Os meus dias invariáveis, vendo acontecer a vida dos outros, a minha caminhando em passos previsíveis. Foi quando se anunciou, à noite, depois do jantar, que não iríamos para a sala de estudos. Seríamos reunidas todas no grande auditório para ouvir a Madre Superiora. Ficamos ansiosas, a Madre Superiora só nos falava em grandes ocasiões. Assentadas no salão do auditório, éramos o próprio silêncio. Ela chegou. Não segurava as contas do rosário e estava tranqüila, mas o seu rosto era triste e não tinha a imponência de outros dias. Parecia mais próxima de nós, como se fosse uma pessoa. Antes, não havia sido mais do que máquina de falar.

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Disse, solene como sempre fora: “Minhas queridas alunas, faz mais de um mês, tomamos uma decisão que afeta os seus interesses. Tentamos adiá-la até quando nossas forças nos permitiram. Depois de tomá-la, ainda esperamos o possível para comunicar-lhes, o que faremos agora, por entender que providências a serem tomadas por seus pais exigem que essa informação lhes chegue em tempo. Sabemos que internatos apresentam inconveniências para a educação de jovens, mas nesse momento ainda representam uma solução para os pais que não podem, pelos mais variados motivos, ter com eles seus filhos para melhorar-lhes a escolaridade. Foi por isso que este internato sobreviveu até hoje. No entanto, sabem vocês, temos passado momentos dolorosamente difíceis e não encontramos outra alternativa senão fechá-lo. Desta forma, as alunas que não puderem estudar aqui em regime de externato, em casa de parentes ou de amigos, deverão se transferir para outro colégio que, desejamos sinceramente, possa oferecer a vocês a melhor das formações moral e intelectual. Coloco-me à disposição de todas e de seus pais, a quem, por carta, encaminhamos essa informação, para quaisquer esclarecimentos. Boa noite”. Não disse mais nada. Abaixou a cabeça e deixou o auditório. Estávamos todas atordoadas e não podíamos falar. Era horário de silêncio. E nos encaminharam para o dormitório. Devíamos dormir até as cinco horas da manhã. No dia seguinte, falei com Irmã Benigna, e ela me disse que esperava me ver outras vezes. Se isso não acontecesse, ela sempre pediria a Deus que nunca me deixasse só, porque está só é estar desamparado. De novo minha vida sofreria mudanças, e pessoas até então presentes, se perderiam no passado sem volta.

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Capítulo 7 O semestre havia sido tempo suficiente para que minhas irmãs crescessem e se tornassem diferentes do que haviam sido. Naquela cidade de pessoas escuras e de cabelos negros, os cabelos loiros de Mira eram o símbolo da beleza, e era por isso que todas nós parecíamos feias aos outros e a nós mesmas. Mira sabia disso, o que a fazia menos feliz, porque, sendo bonita, julgava que o mundo devia fazer-lhe vênia, e a qualquer obstáculo se considerava injustiçada. Meu pai a admirava e temia, mas isso não era suficiente para que ele lhe permitisse sair à rua, participar da vida daquelas pessoas que o tinham como superior a elas. Meu pai acreditava nessa sua superioridade e dela uma parcela era distribuída a todas nós. Apesar disso, eu me havia descoberto igual a todo mudo. Sara queria sair à rua e, impedida, se revoltava contra meu pai e contra todos. Minha mãe, de poucas palavras, mostrava-nos quanto lhe eram incômodos os filhos, e eu tinha medo de aumentar os desequilíbrios daquela casa e me fazia como a pessoa que cada um queria que eu fosse. Anulava-me. Sofia brincava com suas bonecas, fazendo-lhes roupas. Era habilidosa e quase imperceptível entre nós. Otávio não aparecera nos primeiros dias, e quando chegou, um certo dia foi amável comigo e até me falou que o mar era imenso, com muita água verde e que sua escola era um prédio grande e ele e muitos rapazes aprendiam a fazer navios. Fiquei tão encantada com o que ele me disse, e com as várias fotografias que ele me mostrou de moços como ele, bonitos, fortes e tostados de sol. Foi bom depois desse dia. Quando Otávio não estava na rua, conversava comigo e muitas vezes me pedia pequenos favores, como lavar-lhe alguma roupa ou engraxar-lhe os sapatos, coisas que as empregadas só faziam em horários certos. Minha mãe não gostava que Otávio ou qualquer de nós fosse incômodo às empregadas, porque, dizia, se uma delas se demitisse seria para ela que os trabalhos ficariam, quando não estivéssemos lá. Isabel era pequena e, penso, muitas vezes ela me sentia como se eu fosse sua mãe e quando ficava doente era a mm que recorria. Foi então que eu aprendi a gastar as minhas férias em pequenos serviços domésticos, estar com meu irmão e minhas irmãs menores, e na leitura de alguns livros usados que havia na casa, não sei se como enfeites ou como informação aos raros visitantes de que ali moravam pessoas habituadas à leitura. No colégio, eu nem percebia que estava impedida de ir à rua porque lá nossos horários eram bem preenchidos e, no meio de muitas colegas, havia sempre alguém com quem se podia falar. Em casa, não tínhamos obrigações, o tempo se esquecia de

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passar e o calor se tornava mais intenso, o sol nos permitindo ver a solidão. Nossa casa, mesmo nos dias mais claros, era sombria, no ar alguma coisa não bem entendida porque nunca falada. Foi porsso que, numa das minhas tardes com minha avó, fiz-lhe esta pergunta: “O que há de errado com meus pais?” Minha avó, que com o tempo havia adquirido alguma coisa dos modos de meu avô, respondeu-me e eu senti que ela dizia a verdade: “Nunca se pode querer alguma coisa pela metade. Sua mãe quis se casar com seu pai porque ele era trabalhador e ambicioso, mas não o queria porque ele é rígido nos seus costumes e prepotente nas suas ordens. Seu pai se casou com sua mãe porque ela era alegre e sociável, mas não queria que ela gostasse de festas e luxos. Nenhum deles mentiu ao outro, mas nenhum deles também se modificou em nenhum de seus hábitos, Estarão sempre em choque e não se separarão nunca, porque antes deles ninguém da família se desquitou e, como na maioria das famílias, eles também pensam que devem repetir o que fizeram aqueles que vieram antes. Não têm força bastante para se separar, nem desprendimento suficiente para anular nada de si mesmos. Toda convivência exige um pouco a morte de cada um, muitas vezes a morte inteira de um deles”. Minha avó encontrou esta visão das coisas naturalmente em algum sofrimento, sedimentado no fundo de sua alma, já imobilizada e tranqüila. Minha avó não sentia pena de minha mãe e nem de meu pai. Mesmo sabendo de seu casamento enfadonho, ela havia aprendido que a vida de todo mundo tem sempre alguma coisa que a torna triste ou inútil. Minha mãe falava às vezes com meu pai, mas isso não era freqüente. Não se odiavam, se temiam. Talvez até se amassem: muitas coisas costumam se chamar amor. Nessas férias, seguindo o que havia falado minha avó, verifiquei que meu pai continuava progredindo. Progredir para ele tinha o sentido de ganhar dinheiro, e foi quando comecei a perceber que, para mim, progredir era sinônimo de aprender. Meu pai entendia isso e não tardou a me ocupar muitas vezes para escrever suas cartas comerciais. Nesse tempo, ele passou a falar mais comigo e a me dizer que Otávio era desobediente e que não seria ao filho que ele entregaria os seus negócios quando tivesse tanto dinheiro que pudesse descansar. Dizia-me: “Otávio não é confiável. Os homens sentem necessidade de ser espertos e, se meus negócios forem entregues a ele, tenho certeza de que vocês, as mulheres, serão prejudicadas”.

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Ouvindo meu pai, eu pensava: “ Otávio me parece bom, talvez mais do que meu pai. O problema é que eles não pensam do mesmo modo. Para meu pai, quem pensasse diferente do que ele pensava, pensava errado. Meu pai era um homem de números, não de palavras. No entanto, ele me escolheu para sua confiança porque me achava dócil e facilmente moldável”. Senti pena de meus pais, no seu isolamento. E de novo naquelas férias, em que estando na cidade éramos ausentes de tudo, voltei a falar com minha avó, que me parecia sábia, tecendo seus crochês, assentada sempre na mesma cadeira, imóvel, o mundo vindo até ela. Minha avó me disse que eu era muito jovem para querer entender as pessoas e disse mesmo que o esforço é sempre inútil quando se procura entender alguém. “As pessoas que entendemos são aquelas que não precisamos procurar entender”. E disse mais: “Todas as famílias têm um segredo, alguma coisa não falada, que as faz parecer diferentes das outras, mesmo que todas sejam iguais, ou que as diferenças não estejam no essencial”. Então, perguntei à minha avó se ela me contaria o segredo da família que havia sido dela, antes de ela se casar. E ela me disse que sim, e, antes que eu lhe perguntasse, respondeu: “Tínhamos uma família honrada, que todos sabiam ser tão correta que, mais, seria impossível. Porque a todos que não eram da família não deixávamos saber o que para nós era desonra. Mas é até bom que você saiba, porque isso lhe fará ter mais os pés firmes na sua verdade e tirar de seu caminho o mal que lhe deram de herança.” E então, ainda naquele dia, minha avó me contou: “Nossos antepassados vieram a este país e pelo simples fato de aqui estarem tiveram dinheiro suficiente para ser senhores de escravos. E era hábito entre eles aos domingos se divertirem estuprando escravas ou colocando escravos a correr enquanto praticavam tiro ao alvo. Houve até muitos deles que, ao fazerem isso com os negrinhos, mantinham amarradas suas mães, para que estas se afligissem e fosse emocionante ver-lhes o rosto contraído de medo, ódio e ansiedade. Uma vez, uma escrava de belos dentes brancos resistiu a um de meus tios, e ele, que a queria dócil e não estuprada, odiou-a por isso e mandou arrancar-lhe todos os dentes, sem qualquer anestésico, na presença dos outros escravos. E então, um dos escravos, negro forte e jovem, matou o meu tio. Meu avô, envergonhado, não teve coragem de condenar o negro à morte, como naqueles tempos era permitido. Mudamos, então, para essa cidade, onde ninguém, por não o saber, nunca pôde contar essa história”.

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Ficamos as duas em silêncio, e depois ela me disse: “Quando você for adulta, já alguma coisa terá acontecido em sua família, obrigando-a a um segredo. Não é previsão, é a história”. Naquela noite, o sono não me veio e eu pensei em minhas irmãs e em meu irmão e me perguntei por qual de nós teríamos de guardar um segredo. Então, de medo, pensei que minha avó também era uma pessoa, e como pessoa talvez ela estivesse errada. O sombrio tempo de férias passava e meu pai não me falava do novo internato para onde eu devia ir. Mas eu já não me sentia impedida de lhe fazer perguntas e ele então me disse que, assim, na urgência do tempo, não havia outra solução a não ser que eu estudasse num colégio mais simples, porque também, afinal, não seria por muito tempo e ao terminar o ginásio, seria eu levada para uma cidade grande onde, como Mira, eu pudesse me preparar para estudar Medicina. Por que eu haveria de estudar Medicina, isso eu não perguntei, minha coragem não era tanta, e eu já havia começado a entender que até as perguntas têm uma hora certa para que sejam feitas. Minha mãe, rápida, se assentou à máquina de costura e me fez um enxoval, sem rendas e sem bordados. Os cortes também não precisavam ser bem feitos, porque no colégio a vaidade era pecado e todo o feminino era punido. E eu me esforçava para que aquelas idéias não se misturassem em minha cabeça, pois que eu queria que ao menos os meus pensamentos fossem meus, percebendo bem cedo que a liberdade não existe e que a identidade é mentira. E como ser feliz, se não se consegue ao menos ser, se na verdade somos a soma atrapalhada daqueles que foram antes de nós? E ia eu de novo para o internato, ele, meu pai, e eu, mudando todos nós a cada instante. O novo colégio ficava numa cidade de casas antigas, uma cidade cheia de tradições e era preciso que fizéssemos de conta que parecíamos todos com aqueles que antes fizeram a glória da cidade. Logo à chegada, éramos informadas disso e todas as palavras repetiam a história. No entanto, o colégio era diferente do outro. Era por isso que todas as tardes as religiosas nos levavam a passeio e havia até incentivo para que tivéssemos namoradinhos, filhos dos grandes da cidade, porque o colégio dependia do município

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. Não se falava dessas coisas, porque não eram coisas de se falar, mas percebia-se o pacto entre mestras e alunas, tudo tão da conveniência de nós todas. Neste colégio, o destaque não ficava com as meninas mais ricas: prestigiavamse as mais bonitas. Não só as meninas, mas também as coisas, tudo devia ser bonito, porque a beleza se via logo e haviam percebido as religiosas que o presente é mais importante do que o futuro. Assim pensavam elas, e a respeito eu ainda não havia tido tempo para pensar. O colégio não me permitiu ter aulas de dança, e a madre me explicou as suas razões: o colégio não tinha interesse nisso porque suas alunas não seriam bailarinas , e na mulher, a arte só tem sentido quando a faz uma esposa capaz de se mostrar bem em sociedade. Seria melhor que eu estudasse piano. Isso não me agradava, e então me pus apenas sobre os livros, sabendo que ali, naquele colégio, tudo seria mais distante para mim. Respirava-se ali uma alegria sem razões palpáveis. O novo colégio ficava numa cidade de antigos casarões, onde se falava muito de antepassados e nomes de família. Faltava-me ali esse nome, porque naquele lugar nada se sabia a respeito de meus antepassados. E se tinham eles alguma importância, essa eles a foram perdendo com o tempo, descansados que estiveram nos feitos dos mais velhos. Decididamente, eu estava consciente de que minha família não apresentava nenhum sinal que a fizesse mais valiosa do que a generalidade das pessoas comuns. Falando em nomes de família, valorizando o que haviam feito os antepassados, no entanto comportavam-se as freiras e alunas de modo a romper com todas as tradições. Todas as tardes, terminadas as aulas, nos era dado um horário para nos vestir, pentear os cabelos e até mesmo colorir, ainda que ligeiramente, os rostos, já que sairíamos a passeio. Íamos à praça, onde passeavam os moços da cidade, com quem tínhamos tacitamente encontro marcado. Os rapazes falavam com as religiosas e com elas conseguiam o direito de falar com as alunas. Namoros ligeiros eram permitidos e isso quase sempre dava origem a atritos entre nós, as alunas, quando pretendíamos o mesmo parceiro. Tais atritos não eram tão sérios que não os fizessem bastante divertidos para aquelas que neles não estivessem envolvidas. Isso fazia com que os horários de recreio nos oferecessem a cada dia um assunto diferente. Percebi que algumas alunas se ligavam a religiosas, ou até mesmo a outras alunas, de um modo carinhosamente possessivo. Aprendi uma palavra e uma realidade que me era estranha: homossexualismo. E vi que essa realidade ali era

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simples, igual a todas as outras, sem merecer elogios ou censuras. No meio de tantas novidades, aprendi o respeito à sexualidade do outro. Esse colégio, onde o estudo não era valorizado, porque diziam que o saber é inconveniente às mulheres, era indiferente ao fato de termos ou não termos religião, nem mesmo a missa aos domingos era obrigatória, e por isso poucas vezes fui à capela do colégio. E ali estavam imagens religiosas de um barroco puro que a Irmã Benigna me havia ensinado a apreciar. Nesse colégio nunca ouvi sequer referência às obras de arte que ali se guardavam. A única aluna que freqüentava regularmente a capela chamava-se Aparecida. Eu não tinha muito contato com ela, porque de resto ninguém o tinha, cansadas que éramos de sua excessiva religiosidade. Aparecida se destacava de todas as alunas. Censurava as religiosas que nos levavam aos passeios na praça e até mesmo nos deixavam falar com os rapazes da cidade, coisa inocente e excitante, pública, na presença de todos, namoricos românticos, onde a fala era o único meio de comunicação. Soube-se mesmo que Aparecida havia procurado uma das religiosas para falar da excessiva vaidade de Helenice, a quem ela vira depilando as pernas e pintando as unhas. E a religiosa apenas respondeu que nas mulheres a vaidade deve ser considerada normal e que depilar pernas é muito higiênico. Aparecida se desapontou e aos poucos era só naquele imenso colégio. Muitas vezes, durante a semana, não havia missas no colégio, e as religiosas não se preocupavam com isso. No entanto, Aparecida, tão contrita, pediu à Madre Superiora que a autorizasse, nessas oportunidades, a freqüentar a pequena igreja ao lado do colégio, onde o padre - dizia ela - era seu orientador espiritual. Concedeu-selhe essa ordem como quase qualquer outra, porque essa congregação responsável pelo internato era livre de muitas proibições. Aparecida ia sempre à igreja diariamente, e um dia foi e não voltou. O colégio se preocupou inteiro. Não havia muita possibilidade de acidentes: a cidade tranqüila, sem transtornos de muitos automóveis e com povo pacífico e amigo. Fizeram-se buscas, e um silêncio sem perguntas abalou o internato e a cidade, quando se soube que também o padre, orientador espiritual da aluna, não havia voltado para a casa onde morava com muitos outros que atendiam a paróquias e hospitais da cidade. Soube-se depois. O jovem padre apareceu sozinho na cidade onde moravam os pais de Aparecida. Comunicou-lhes o casamento, que seria em cartório, e perguntoulhes se o novo casal seria aceito na família, tendo em vista que uma criança era

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esperada. O pai de Aparecida teria ficado muito irritado, mas depois a mãe ponderou: “Não há mais o que fazer, se falarmos muito a população se sentirá no direito de falar ainda mais que nós. Se nos silenciarmos, os outros também se silenciarão”. O pai achou sábios os pensamentos da mulher. As religiosas procederam da mesma forma, e nós, alunas, tivemos com que preencher o tempo que não gastávamos estudando. Falamos tudo que nos permitiu falar a raiva ou inveja que tínhamos da colega que se casara com o padre. O semestre terminava. Naquele colégio, não se temia reprovação, e o estudar era secundário. Diziam mesmo as religiosas que mulheres não deviam saber mais do que o necessário para serem boas donas-de-casa e boas mães, alegres e capazes de organizar festas. Falei dessas coisas a meu pai ainda mesmo em minha viagem de retorno à casa. Ele me falou da impossibilidade de uma transferência para outro internato no meio do ano e de minha ida para um bom colégio tão logo fosse possível. Mira já havia feito o concurso para a faculdade de Medicina e ele achava de conveniência que eu estudasse no colégio onde ela estivera, como garantia de que também eu seria médica. A profissão me desagradava, porque era óbvia a minha falta de habilidade para ela. Não lhe falei disso, mas nestas férias, eu agora já mocinha, muitas vezes conversava com o Dr. Ulisses, o médico que continuava freqüentando nossa casa para o café da tarde e as noites musicais. Dr. Ulisses me falava de literatura e quando lhe disse que eu não queria ser médica, concordou comigo, dizendo: “Você é muito introvertida. A Medicina poderá lhe fazer muito infeliz, e os médicos têm contato com as doenças do corpo e da mente; eles descobrem o ser humano numa profundidade que é às vezes destruidora para as pessoas sensíveis.” Sem que eu lhe perguntasse, havia ficado sabendo da sua opinião, pela qual, eu tinha certeza, meu pai tinha muito respeito. Isso me seria útil. De minhas férias já nem posso falar, todas tão iguais. A cidade crescia, mas não de pessoas estranhas. Casas recém-construídas serviam de moradia apenas aos filhos das famílias da cidade que se casavam. Ninguém de novo, ao contrário dos colégios, onde a cada semestre meninas e moças chegam e saem. Meu pai nos proibia de ir mesmo às suas lojas e, se as quiséssemos conhecer, ele por vezes nos levaria até elas à noite, quando fechadas para seus clientes. Então, não havia lugar onde ir. O sol sempre muito quente, era um convite a que ficássemos nos jardins de nossa casa, mas a repetição dos dias tão iguais me deixava cansada.

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A casa de minha avó na sua simplicidade, era o melhor lugar para esperar que as férias passassem e era lá que em todas as tardes me eram contadas as histórias que me marcaram para sempre. Então, naquelas férias perguntei à minha avó se as mulheres de nossa família costumavam, mesmo eventualmente, substituir seus maridos por outros homens, e ela me respondeu que não, e me disse: “Isso não é um mérito nem das mulheres nem dos homens. As mulheres não o fazem porque sempre estiveram sob vigilância extrema de todo nosso clã. E foi por isso que, quando Aurora se afastou de casa, e naturalmente teve todos os homens que quis ou que a quiseram, consideraram-na doente e excluída da família, e o seu nome só era pronunciado em público pelos nossos inimigos. Já os homens - disse minha avó - esses sempre tiveram amantes e concubinas, e com elas filhos que se misturavam conosco em nossas casas, nossas mães muitas vezes educando-os a todos com igual carinho, para não serem repudiadas pelos homens que as sustentavam e que oficialmente se intitulavam seus maridos. Quis eu saber, então, da história da família de meu pai, que todos diziam um filho de estrangeiro, aqui aportado não se sabe por quê. Minha avó me respondeu que eu era ainda muito nova para saber dessas coisas e que além disso os segredos da família de meu pai não eram segredos dela, e que, sabendo-os, não os deveria contar enquanto fosse possível que outros membros de sua família pudessem fazê-lo. Meu pai estava vivo e se ele quisesse me contaria histórias daqueles que do mesmo sangue haviam vivido antes. Mesmo quando minha avó não me contava histórias, era com ela que me agradava ficar, pois que na casa de meus pais nada se falava que não fosse do presente, e do presente não queria que me falassem, porque eu o estava vivendo e percebia-o talvez mais do que os outros. A política estava naquele tempo mais calma, porque sempre as coisas nos parecem calmas quando somos nós que determinamos como elas devem ficar. Nesse período, o governador e o prefeito eram aqueles que meu pai queria que fossem. As férias foram, então, muito tranqüilas e cada uma de nós voltou ao seu colégio, tudo de novo como se fazia sempre. As férias foram tão vazias, que delas não tenho mais o que contar, mas o colégio, por causa de Aparecida, havia se tornado bem diferente. Soube-se que a Reverendíssima Superiora da Congregação viera de longe para dizer que fatos iguais não podiam repetir-se num colégio de religiosas. Freiras foram substituídas por outras mais severas, os passeios da praça não foram mais permitidos e, se tivéssemos que ir ao dentista ou ao médico, quem nos levaria seria uma das religiosas recém-chegadas,

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em cujos rostos não se via um sorriso e de cujas bocas nada mais se ouvia a não ser : “Não faça isso”. No entanto, quando, a mando de meu pai, comuniquei à disciplinária que quando voltasse à minha casa queria levar comigo os papéis necessários à minha transferência, pois meu pai não me queria professora, e que, como minha irmã, eu devia estudar Medicina, a religiosa se escandalizou mais do que havia se escandalizado com o amor sacrílego de Aparecida. E, desde então, todos os dias chamava-me a falar uma freira diferente, para repetir tantas vezes a mesma coisa que ainda hoje eu sei de cor: Deus criou a mulher para servi-lo, ou nos conventos como mãe de todos que lhes aparecessem, ou para terem filhos de seus maridos e criá-los bem. Leão XIII tinha razão: o lugar das mulheres era em casa e elas são tão frágeis que outros trabalhos não lhes podem ser destinados. Ainda mais o trabalho de médica, vendo corpos nus, e talvez tendo que ouvir de homens coisas impuras. O corpo é sempre alguma coisa perigosa que Deus nos deu apenas como casa de nossos espíritos. Somente os homens, já de si acostumados ao que é mau e ao que é impuro, podem se dar o trabalho de curar doenças, porque é até possível que doenças e mortes não sejam mais do que conseqüências do pecado. Eu dizia simplesmente: “O meu pai quer que eu seja médica”. E, no dia seguinte, outra religiosa me repetia o que havia sido falado no dia anterior e eu também lhe respondia a mesma coisa, incapaz, por conveniência, de dizer que eu não queria ser médica. Mas, na verdade, nem por isso estava de acordo com qualquer das coisas que elas me diziam a respeito. Quando as férias chegaram e meu pai me veio buscar, a Madre Superiora mandou avisar que precisava falar-lhe sobre um assunto que ela reputava muito sério. Meu pai, preocupado, esperou por ela, e ela lhe falou a respeito do que eu lhe havia dito sobre as razões por que eu iria sair do colégio. Meu pai ouviu todas as objeções que a religiosa apresentou em relação aos meus futuros estudos. Independente e nem sempre preocupado com o recomendado pelo código da boa educação, meu pai respondeu: “Desde que minhas filhas nasceram, nada me preocupa mais do que o futuro das mesmas. Ninguém melhor do que eu para determinar como prepará-las para isso. Não quero minhas filhas dependentes do salário de nenhum homem e muito menos quero que elas fiquem na companhia de qualquer homem por razões de subsistência. Dessa forma, nenhuma delas será professora, porque o magistério, profissão predominantemente feminina, terá sempre profissionais mal pagos e muitas vezes sem estímulo para fazer bem aquilo que fazem.” Enquanto eu apanhava minhas coisas para deixar o colégio, a religiosa, que ficara em silêncio enquanto meu pai falava, veio me dizer que meu pai era mal

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educado, prepotente e que se julgava mais sábio do que todo mundo. Tinha ela certeza, um dia ele se arrependeria de tudo que pensava e concordaria com o pensamento que não era delas mas de um papa, representante de Deus na Terra. Apanhei minhas coisas, beijei como de obrigação as mãos da freira, e fui para minha casa, pensando que, se meu futuro estivesse ali sendo decidido, não era nem meu pai e, menos ainda, a freira, que deveria ter o direito de escolher o que melhor me aprouvesse: era eu. No entanto, nem sequer me fizeram perguntas.

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Capítulo 8 O novo colégio me surpreendeu, pela sua construção física e pelas idéias. O prédio era imenso e sólido, de pisos sempre brilhantes e paredes recobertas de verdadeiras obras de arte, em tapeçarias ou telas, vindas de outros países. Em todas as falas das religiosas, de congregação estrangeira, havia sempre um pretexto para impingir no nosso espírito ainda frágil de meninas-moças a idéia de que estudar naquele colégio nos marcava como pessoas superiores e o mundo se dividia entre pessoas comuns e nós, as alunas daquele nobre estabelecimento de ensino. Tudo conferia bem com as idéias de meu pai, mas foi exatamente lá que eu descobri quanto éramos pobres. A distância que me separava de minhas colegas, filhas de ministros, de grandes industriais, era indissimulável pela igualdade do uniforme. Soube então que a suposta riqueza de meu pai estava diretamente relacionada à nossa pobreza de conhecimentos e ao fato de morarmos numa cidade onde as pessoas, na sua maioria, não eram pobres, eram miseráveis. Com o tempo, descobri que, antecedendo a matrícula de qualquer aluna naquele colégio, muitas informações eram colhidas a respeito de suas famílias: se os pais eram casados no civil e no religioso, se na cidade onde viviam eram tidos como pessoas importantes, e muitas outras informações que mais tarde descobri não informavam realmente nada. Havia um lastro de nobreza maior conferido às alunas que ali haviam estudado desde criancinhas, contrastando com certa inferioridade conferida àquelas que chegavam transferidas de outros colégios. Eu era uma transferida, ligeiramente inferior. Continuei muito estudiosa, pois que. para mim, aprender era sinal de progresso. Minha religiosidade continuava inferior à da maioria de minhas colegas - e nas aulas de religião minhas perguntas se tornaram tão incômodas que um dia fui comunicada de que eu estava dispensada de assistir àquelas aulas. Determinaram que nos horários da aula eu me apresentasse à biblioteca destinada aos professores. Foi nesse lugar que eu pude ler em quinze volumes “Os Sermões de Vieira”. Tiveram pelo menos um mérito: não exigiram de mim apresentar uma fé que eu não tinha. Neste colégio muitas festas comemoravam fatos importantes na vida da congregação religiosa a que pertenciam as freiras. Um luxo da corte era mostrado nos palcos da escola elegante de um país pobre que se procurava ignorar. E foi numa destas festas que o pai de Evangelina apareceu. Evangelina era uma aluna estudiosa e de hábitos muito requintados e se apresentava no palco como excelente harpista. O pai, convidado, viera ouvi-la, como viriam também o governador e outras autoridades. Evangelina tinha pele clara, cabelos castanhos, o corpo esguio bem cuidado, o que não impedia que seu pai fosse negro. E a cor da

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pele desse homem foi a única coisa que as madres conseguiram ver e foi por isso que aquele colégio elitista convidou aquele homem educado e nobre a que se assentasse na última de todas as cadeiras do auditório. Evangelina deixou o colégio antes que o semestre terminasse. Entre as alunas, o fato constituiu escândalo. Para muitas, era triste que a colega fosse filha de um negro mas, para a maioria, o escândalo estava no fato de que uma escola que se pretendia nobre fosse tão imoralmente preconceituosa. Mas ali não eram só os negros os discriminados. De certa forma, éramos todas as alunas, porque havíamos nascido num país ainda sem lastros de importância. Desrespeitando a nossa cultura, nossos hábitos eram considerados selvagens e, veladas ou não, muitas vezes se faziam considerações a respeito. Certa vez, tudo parecia tranqüilo, porque o colégio nos permitia ter notícia do que passava além de seus muros, fomos surpreendidas na sala de estudos pela visita da Madre Superiora, a quem nos dirigíamos como a “Reverenda” e tratávamos como se fora majestade. A Reverenda chegou e nos pusemos de pé, como se esperava, e em absoluto silêncio nos assentamos, comandadas por um gesto de sua mão. O rosto estava tenso, e mesmo as outras religiosas que a acompanhavam pareciam sombrias. E sua fala começou enfática: “Estou aqui para fazer-lhes talvez a mais dramática das comunicações que espero fazer na minha vida. Um sábio pensador, se não por tudo que disse, falou certa vez que cada povo tem o governo que merece. Nisso pelo menos sua afirmação foi certa. Estou aqui para dizer-lhes que, a contragosto, hoje é feriado. Obedeceremos a contra- gosto a ordem do poder. Não haverá aula. O presidente se matou. Somos um povo que aceitou como líder um suicida.” A religiosa se despediu e deixou a sala. A maioria das alunas pensou nas conseqüências do ato do presidente morto sobre a sua família e a cidade, outras se deram por muito contentes, porque as provas do dia seriam transferidas e naquela tarde não teríamos que estudar. Era feriado. Este colégio, que se orgulhava tanto de si mesmo, foi a primeira escola onde me mandaram rasgar páginas de livros novos nos quais estudávamos: a professora de literatura havia determinado que fossem arrancadas as páginas onde estavam escritas poesias de Gregório de Matos e de Guerra Junqueiro, e a professora de biologia queria que extirpássemos do livro tudo que dissesse respeito à reprodução humana.

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O direção do colégio não me considerava bem, porque eu era transferida; não aceitavam bem minhas perguntas na aula de religião e, agora, eu, tão submissa em casa, não aceitaria estragar meus livros. Na verdade, eu sabia que meu pai estaria de acordo comigo neste ponto, porque em casa já havia lido Guerra Junqueiro, um dos poetas preferidos da juventude de meu pai. Não quis arrancar as páginas dos meus livros. O assunto foi parar junto à Reverenda. Entre as colegas, algumas me acharam muito rebelde, e outras, aproveitando outras razões antecedentes, ficaram do meu lado. E, em termos de acordo, a Reverenda concordou em que eu simplesmente cobrisse com adesivo e papéis as páginas por elas condenadas. Foi o que aconteceu. Até mesmo o professor de Química, não sei por que, se referiu a Zola, autor de “O Germinal”, uma obra inconveniente - disse ele - que moças de família jamais deveriam ler. Esse livro, foi a custo que pude ler: durante muito tempo não o encontrava nas livrarias da cidade. Esse colégio me deixou poucas lembranças em fatos, um deles muito triste: a morte da mãe de Carmem, uma de minhas colegas mais próximas. A mãe de Carmem se chamava Ieda, era gentil, e muitas vezes tocava piano nos recitais do colégio. Morava numa cidade bem próxima de onde estudávamos, e por isso, nas festas do colégio sempre se dispunha a prestar alguma ajuda de bom gosto. Dona Ieda tivera um câncer e, durante o tratamento, já magra e abatida, continuara até quando possível a emprestar sua alegria às festas do colégio. Invejava aquela mulher pelo seu amor à vida contraditório com sua indiferença à morte iminente. Quando a mãe morreu, todas as irmãs de Carmem foram para o internato, e nossa colega, aos dezesseis anos, se transformou em mãe de seus irmãos quase de sua idade. O semestre ia pela metade, quando fomos informados de que o colégio havia preparado nossos documentos para nos inscrevermos no concurso vestibular. Meu pai devia ter se esquecido disso e não me havia feito nenhuma recomendação. Sem qualquer informação a ele, inscrevi-me para o curso de Economia. Não tinha muito interesse no assunto e nem ao menos sabia ao certo o que faz um economista, mas de qualquer forma estaria mais perto dos assuntos de meu interesse. Poderia ter feito o curso de Letras, mas, ao que sabia, neste caso eu teria de ser professora. Não era pelas razões de meu pai que eu não queria o magistério. O contraste entre o pensamento de meu avô e o do meu pai levou-me, desde cedo, a questionar sobre a conveniência e o poder de educar, e é apenas por isso que em minha vida nunca entrei como professora numa sala de aula.

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Depois de feitas as nossa inscrições, o colégio organizou uma agenda para que cada uma das alunas que iriam terminar o curso naquele ano tivesse um horário para falar com a Reverenda a respeito de seus planos. Obedecida a ordem alfabética dos nomes, fiquei contente de verificar que, antes de falar com a religiosa, eu teria, através de minhas colegas precedentes, alguma informação a respeito do assunto que seria tratado. Ana, uma colega que estava noiva, foi a primeira a ser ouvida e, como a religiosa não poderia saber que no internato havia uma noiva, Ana falou mentirosamente sobre seus planos futuros e ouviu recomendações absolutamente impróprias para a sua realidade. E todas nós pudemos razoavelmente nos preparar para o que queríamos falar e ouvir. No andar do alfabeto, chegou o meu dia de falar com a Madre Reverenda, e ela me disse: “De todas as alunas, é você a que mais me preocupa. Sei, pelo que me conta, de dois defeitos que lhe atrapalharão a vida. Um deles é o de questionar; o outro, de dizer a verdade. Há sempre um jogo nas palavras para que o não dito fique falado e perguntas tornam esse jogo muito aberto, obrigando todos ao que não querem dizer. Se você não der conta de entender o que lhe falo em palavras, a vida lhe ensinará, mas a um preço muito alto”. Entendi e discordei. Não fiz perguntas. Poucos dias depois, deixava eu mais este colégio. Deveria ficar na cidade para alguns retoques em meus estudos para o concurso vestibular, mas, quando disse a meu pai que havia me matriculado para fazer o curso de Economia, ouvi dele todos os impropérios até então só dirigidos a Otávio, e ele entendeu que eu não teria direito de, às suas expensas, continuar os meus estudos. Eu era menor e ele não me deu licença, e nem tive coragem de pedir para ficar numa cidade tão maior do que aquela onde eu nasci e para onde retornava. A viagem transcorreu em absoluto silêncio. Eu não podia imaginar o que me aconteceria. Mira e Otávio já não iam em casa desde algumas férias. Isabel e Sofia estavam em casa, vindas de seus colégios. Tão logo cheguei em casa, meu pai determinou a uma das empregadas que me mandasse fazer, sob vigilância, os serviços mais pesados que normalmente numa casa são destinados à doméstica. Ele não sabia que, de certa forma, eu já estava habituada a eles.

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Na cidade, a morte do presidente dera início a um novo processo eleitoral. Ali, onde a importância de um presidente não é maior do que a de um monarca estrangeiro, trazia à nossa casa muitos problemas. Voltaram os tiros nas ruas, as cartas anônimas, espancamento e morte de empregados de nossa família, vindos dos chamados adversários. Se as mesmas coisas aconteciam com pessoas de outro partido, eu não poderia saber, porque não tive a menor possibilidade de ouvi. Estando eu naquela situação que se assemelhava a um castigo, minha mãe recebeu uma carta de Otávio. Falava de sua formatura no final do ano e, comentando seu sucesso escolar, avisava que já estava empregado numa grande empresa, com escritório em vários países do mundo. Meu pai, que até então parecia ter ódio de Otávio, fez dessa carta um troféu, que foi mostrado a todos os seus amigos. Falava também de Mira que, já estudando Medicina, haveria de descobrir um remédio para todos os males que afetam a humanidade. Referia-se carinhosamente a minhas irmãs menores, ainda no início dos anos colegiais, e não fazia nenhuma referência a mim. Isso pouco me importava, porque, na verdade, eu não havia, já depois de tanto tempo vivendo em sua casa, assimilado a idéia de que ele era meu pai. Aquela família me era praticamente estranha, e meu pai pouco passava de um senhor de escravos. No entanto, uma tarde o Dr. Ulisses apareceu em nossa casa para o café da tarde. Encontrou-me com roupas adequadas a uma empregada, fazendo algum trabalho que em condições normais não teria sido atribuído a uma filha de meu pai. Perguntou as razões daquilo, e meu pai, com seu modo prepotente, contou-lhe o que se passava. E o médico, bem mais velho do que meu pai e com a autoridade de sua competência e integridade moral, foi categórico, acredito, no que eu ouvi: “Seu autoritarismo sobre as pessoas da cidade, compreendo, porque elas são livres, podem se afastar do seu jugo, mas sua filha, uma menina, ainda! Sinceramente, choca-me, tanto que ponho em dúvida como pude me tornar amigo de alguém assim”. O médico se levantou e, quando ia sair, meu pai o interceptou, tentando se desculpar, e o médico lhe disse: “Se você não tem dinheiro para pagar os estudos da menina, se me permite, posso financiá-los”. Não pude continuar ouvindo o assunto de meu maior interesse, mas o certo é que naquela mesma tarde meu pai mandou providenciar minha viagem, e no outro dia, a cinco dias do concurso, eu me encontrava solta numa cidade grande, sem a proteção

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do internato, sem amigos ou conhecidos, e deveria fazer as provas que em muitas famílias eram preocupação de todos. A casa onde fui morar era um pensionato dirigido por freiras, recebia moças e velhas solteiras. Tínhamos toda a liberdade desfrutada pelas outras moças em suas casas, com duas restrições apenas. O horário de chegar em casa era o mais tardar oito horas da noite, e nossas visitas, homens ou mulheres, não poderiam ir além de uma sala a elas destinadas. O pensionato admitia como hóspedes moças e velhas solteiras. Em casa nos misturávamos todas no horário das refeições ou de algum eventual descanso. Mas aos poucos, quando começamos a nos dar o direito a algum passeio, as mais velhas eram individualistas e saíam sozinhas. Mas nós, as mais novas, saíamos em grupo. Não passávamos nunca de um número entre seis e oito ao todo, fora as religiosas que aí eram apenas três e com quem pouco podíamos falar, pois estavam sempre ocupadas na cozinha ou na limpeza da casa enorme. Neste pensionato, ficamos por muito tempo, Helena, Graça e eu, e nos fizemos amigas. Certa vez apareceu, morando por uns dias no pensionato, uma moça um tanto estranha, cuja história ela nos contou. E tão estranha que até hoje duvidamos de sua veracidade. Chamava-se Judith a moça, e disse-nos que em sua cidade ela havia matado um homem. Descrevia a noite em que, estando em casa com seus pais, eles na cozinha e ela num quarto no andar superior, o homem havia chegado e ameaçado sua família. Do segundo andar da casa, ela teria visto o perigo e, usando uma carabina, com um tiro certeiro matou o estranho. Imediatamente e no escuro da noite teria ele sido enterrado em sua casa. Verdade ou não, tivemos medo dessa moça e, enquanto ela estivera no pensionato passamos todas a evitar a sua presença. Fora este fato, o pensionato foi um dos bons lugares de que me recordo. Aceitávamos bem o horário de chegada em casa e algum desconforto por que passamos, e as três mais jovens nos tornamos amigas, eu tendo lucro do convívio com minhas amigas mais alegres e menos tímidas do que eu. Graça veio de sua cidade para fazer um curso superior, e já nesse tempo era noiva. Seus pais não lhe permitiam usar aliança porque o casamento seria retardado até o término de seus estudos. Com ou sem alianças, Graça era noiva, fidelidade a toda prova e, bastava que um homem se aproximasse de nós que, sendo apropriado ou não, ela encaixava nas suas frases as palavras indicativas “o meu noivo”, e aquele que talvez pensasse em pretender uma aproximação sentia logo que o terreno já estava tomado. Este noivo, por nenhuma razão poderia vir até a cidade onde morávamos. Se alguém viesse a

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saber que ela e o noivo estavam , sem a presença dos pais, numa cidade grande, ela ficaria definitivamente mal vista entre as famílias de onde vieram. No entanto, o moço, não se sentindo muito bem, procurou um médico de sua cidade e foi aconselhado a que, com urgência, procurasse um centro maior para uma cirurgia de risco. Graça nos convocou, as mais novas, para decidir conosco. Amava o noivo, queria mais do que tudo se casar com ele e doía-lhe pensar que ele estaria doente no hospital sem a presença de uma pessoa que se dedicasse a ele mais do que por razões profissionais. Conversamos. Discutimos possibilidades e riscos. E decidimos que, sob o maior segredo, Graça ficaria no hospital com o noivo e mentiríamos todas que a doente, e não o doente, era uma tia queridíssima. Tudo deu certo, mas durante muito tempo o grande medo esteve presente entre nós, que nunca mais falamos no assunto. O fato de eu ter sido aprovada no vestibular não havia feito meu pai se aproximar novamente de mim. Mandava-me dinheiro através de Mira, e eu prestava contas aos dois. Mira e eu não morávamos juntas. Ela não o quis. A casa onde ela morava era uma república de moças de sua escola, e ela não me quis entre elas. Nem eu o quereria. Minha irmã controlava o quanto de dinheiro poderia me dar, ficava sempre com a maior parte, seu curso era mais dispendiosos. Além de minha irmã, meu pai pedia que lhe mandasse todo mês o relatório de minhas despesas, e eu o fazia com um rigor extremo. Nunca pude me dizer se eu o fazia porque era uma filha obediente ou rebelde. Esse rigor poderia ser uma forma de dizer a ele que ele era mais exigente comigo do que com os outros filhos e, se um dia eu me rebelasse contra ele, a culpa não seria só minha. O castigo que meu pai me impôs porque eu não havia feito o curso de sua escolha havia me mostrado a impossibilidade de lhe ser sempre obediente. Não diminuíra o medo que sentia, mas abalara, e muito, o respeito que ele poderia me inspirar. De certa forma, exteriormente, isso não se tornava muito claro, porque o tempo todo o ambiente em que se vivia era profundamente repressor e eu nunca fui tão ousada a ponto de enfrentar o mundo. Mas, a partir desse tempo, me dava o prazer, nas tardes de domingo, de ir ao cinema com minhas amigas ou até mesmo dançar em algum clube de estudantes. Notei aí que minhas roupas eram inadequadas e que seria bom ter outras melhores. Ninguém me daria dinheiro para tanto, e mulheres da minha idade e condição não eram bem vistas no mercado de trabalho. Ofereci meus serviços como professora particular de francês e inglês, o que foi aceito. Em pouco tempo, o número de minhas alunas era grande e como esse dinheiro era desconhecido de meu pai, minha liberdade deu um pouco de colorido à minha juventude cheia de esforços.

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Ouvimos nas faculdades diferentes a notícia de que um aparelho já existente na casa de pessoas ricas transmitia a imagem de uma pessoa enquanto ela aparecia numa tela. Não teríamos, Helena, Graça e eu, acesso a nenhuma dessas casas, mas fomos informadas de que uma loja da cidade permaneceria aberta no domingo para que um jogo de futebol pudesse ser visto por quem se interessasse. Vestidas com roupas de domingo, descemos até o centro da cidade e sob um sol escaldante, no meio de muitos homens já bem mais velhos do que nós, pudemos ver esse aparelho, cujo nome nos era estranho e novo. Televisão. Houve de nossa parte um encantamento. E quando falamos do assunto com as moradoras mais velhas do nosso pensionato, elas, já escandalizadas por nós que seríamos mais tarde profissionais de algum trabalho inadequado a mulheres, tiveram a certeza de que aquele aparelho seria um instrumento desagregador da família. Quando nós, as mais novas do pensionato, começamos a ir ao cinema, as mais velhas se posicionaram. Uma aposentada, nos seus quarenta anos de idade e que passava todos os dias usando sempre o mesmo agasalho, os braços cruzados à frente do peito como se fosse morrer de frio, qualquer que fosse a temperatura, comentou que estávamos tendo um comportamento muito censurável e arriscado, porque, além de nos expormos às imoralidades da tela, ficávamos numa sala escura onde homens poderiam entrar e até se assentar ao nosso lado. Clara sugeriu que o governo deveria tomar providências no sentido de que a televisão não entrasse em casas de família, pois, do contrário, mães e professoras teriam todo o seu trabalho inutilizado por esse invento desnecessário. E, não demoraram muitos dias, Eva, uma senhora gorda, alta, de cabelos ruivos, que vivia de uma pensão deixada pelo pai, comunicou-nos o seu noivado com o presidente da república. Todos os dias, ela dizia receber cartas amorosíssimas, que eram lidas em voz alta no horário das refeições. A história, absolutamente inverossímil, nos trouxe uma grande curiosidade, que veio a ser esclarecida quando o cônsul de um país estrangeiro veio procurá-la, munido de uma ordem judicial. Eva tivera os pais mortos na guerra e não se sabia ao certo como se salvara. Tudo o que ela falava a respeito da própria vida era fantasioso. Conhecera o presidente pela televisão e a partir de então escrevia cartas para si mesma como se fosse o presidente apaixonado. Ficamos tristes por ela, que já havia perdido tantas coisas na vida, e agora perderia outras num hospital psiquiátrico. Tranqüila, nunca nos incomodava, se dava bem com todo mundo, apenas dizia mentiras que ela inventava para ocultar uma realidade que não lhe era agradável.

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Razões começaram a aparecer para que desejássemos mudar de pensionato. Nesse tempo, fora no horário de aula, estávamos sempre juntas. Clara não ia ao clube, continuava noiva. Quando chegávamos, contávamos a ela tudo o que havia nos acontecido naquelas tardes dançantes, românticas e inocentes. Procurávamos um lugar para morarmos, o que não era muito fácil, quando uma noite, na hora do jantar, Nadir, uma moça de quarenta anos, velha para os nossos dezoito anos, bonita, de pele e cabelos sempre bem cuidados, constrangida, nos disse: “Não sei como contar-lhes uma coisa, penso que muitas me censurarão, mas sou sozinha, então,” - ela engoliu seco, olhou nossos rostos, e continuou como se temesse alguma coisa, - “encontrei um homem, honesto, trabalhador e “, - parou e pensou, “vou me casar com ele”. Nós, as mais novas, ficamos contentes por ela. As demais fizeram comentários os mais variados, todas alertando-a sobre os perigos e a inutilidade de um casamento tão tardio. Nadir se sentiu segura com o que lhe dissemos e a partir desse dia muitas vezes nos falava do homem com quem se casaria. Pensávamos em deixar o pensionato apenas porque muitas vezes não podíamos ir a alguma festa, ou mesmo conferência, se essas terminassem depois das oito horas da noite. Mas o casamento de Nadir nos trouxe outras razões. As moradoras do pensionato acirraram uma vigilância sobre nós, não sobre nossos atos ou comportamentos, que elas desconheciam, mas sobre nossas palavras. O almoço e o jantar se transformaram em horas de doutrinação, e nós, que passávamos horas estudando, já não tínhamos disposição para ouvir e nem para contradizer aquelas idéias que nos pareciam de outro mundo. Conseguimos um lugar, uma república, onde, com exceção da empregada, éramos todas universitárias ou recém-formadas em curso superior.

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Capítulo 9 Decidimos mudar depois de terminadas as provas. Nossos objetos seriam deixados na chamada República de Moças, enquanto iríamos cada uma de nós para sua cidade. Não falei disso a meus pais, ou se falei não lhes disse a verdade inteira. Em casa, encontrei de novo meus irmãos menores. Isabel, o olhar amedrontado, era mocinha de seus quatorze anos que, por medo de meus pais, escondia sua adolescência e ainda brincava de boneca. Sofia, menor e sempre mais acariciada, era o único sinal de espontaneidade naquela casa, onde se tinha a certeza de que as atitudes por si só nada diziam. Sempre que possível, eu aproveitava a presença do Dr. Ulisses, com quem podia falar e sobre tudo mostrar-me grata pela sua intervenção em minha vida. Nesse tempo, aproximei-me um pouco de minha mãe, que me parecia mais acessível e sem muitos medos, de vez que minha família havia sido vitoriosa coincidentemente em todas as eleições. O presidente da República, muitas vezes criticado por professores de minha escola, fazia a alegria incontestável do povo simples da minha cidade. Nossos adversários políticos estavam silenciosos. Ninguém fazia ameaça, porque as eleições eram recentes, e, contentes ou não, teriam de suportar por quatro anos aqueles homens que a maioria inconsciente havia eleito, a mando de outros muitos inconscientes e em proveito de uns poucos que, sempre diziam, lutariam pelo interesse de todos. Meu pai andava, contudo, muito preocupado, e percebi que ele vivia algum problema que ultrapassava os limites de nossa casa. De toda forma, eu não teria condições de descobrir o que se passava com ele, mas via que seu relacionamento com minha mãe estava bem melhor do que antes. Verdades mesmo, eu poderia falar com minha avó, mas era certo que, a respeito de meu pai, ela não saberia coisa alguma . E foi na casa de minha avó que pela primeira vez verbalizei o que de novo encontrei na minha Faculdade. Ela não havia imaginado a possibilidade de moças e rapazes estudando na mesma escola, e muito pouco havia ouvido falar do que se poderia estudar numa escola de onde não sairiam professores, médicos ou advogados. E eu disse: “Sobre certos aspectos, minha escola não difere do colégio: alunos

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que devem estudar, professores que devem ensinar. A maioria cumpre sua função. Alguns, nem tanto. Onde houver ser humano, hoje percebo, nada tem sentido absoluto. Os moços da faculdade são sempre bons amigos, mas ainda não os conheço bem. Suas vozes, mais do que suas atitudes, me surpreendem. Até então, nas minhas escolas só havia escutado vozes femininas e por isso ouvir me surpreende tanto que às vezes tenho medo de falar. Por isso, na verdade,, só tenho entre meus colegas uma nova amiga, a Silvia, porque é muito alegre e com quem os moços conversam. Eles são bem educados e às vezes falam também comigo. Com o tempo aprenderei a lidar com eles.” Minha avó queria saber mais e me perguntou se se aprendia muito numa escola onde os alunos já tinham idade para se casar e em que escola haviam estudado aqueles que sabiam tanto que poderiam ensinar aos adultos. Respondi-lhe as perguntas e vi que seu interesse e entusiasmo pelo assunto era maior do que o meu, ela, cujo grau de escolaridade não ia além de três rápidos anos que a prepararam para lecionar em escolas rurais e, apesar disso, por razões de brigas políticas, não encontrara numa cidade analfabeta uma escola onde pudesse ensinar. Foi a propósito disso que lhe perguntei por que ela não tivera interesse de ensinar algumas coisas a meu avô. Agora minha avó e eu, adultas, conversávamos trocando informações uma com a outra, e foram interessantes as razões que ela me deu em resposta à minha pergunta: “Seu avô era um homem de muito saber. É que às vezes o saber do outro corre por caminhos tão diferentes dos nossos que pensamos que não é saber. E, além do mais, não importa tanto o que se sabe, importa o que se fará com o que se sabe. Nunca me interessei que seu avô aprendesse coisas de leitura. Não tenho certeza se é maior a maldade que vem do sangue ou aquela que os homens aprendem na leitura. Meus irmãos tinham leitura e nem por isso foram menos maus, de uma maldade silenciosa que os outros nunca tiveram certeza se ela existia. Seu avô sem livros era puro e bom, e só porque eu não tinha certeza se o mal vem dos livros ou do sangue eu tive coragem de ter filhos e, mesmo assim, a cada um que nascia sempre me esforçava em pensamento, para que neles não houvesse mais que o sangue do pai, uma vez que, de tudo que vier do meu, eu terei sempre medo.” Desde sempre ouvi minha avó, mas o que ela me dizia agora era surpresa, e eu, com todo cuidado para não feri-la mais do que ferida já estivera, lhe fiz muitas perguntas, para que respostas tivesse, sobre aqueles de cuja corrente eu não podia deixar de ser um elo.

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E nesse dia fiquei sabendo. Nunca se disse ao certo quem havia matado e aos poucos tomado todos os bens que foram do pai de meus avós, porque há coisas de que não se falam, mas era quase certo que os assassinos do meu bisavô eram os irmãos da minha avó. E assim também, sem que ninguém tivesse certeza, um acidente matou a irmã de minha avó, boa nadadora que se afogou num rio, na casa de seus irmãos, no dia seguinte em que, no mesmo rio, seus pés tocaram numa pedra que, levada à mão, era muito bonita e seus irmãos souberam que era um diamante. Calou-se tudo que se podia sobre esse afogamento e sem palavras os irmãos se tornaram distantes um do outro, mantendo como convinha a aparência de uma união que não existia. E essa aparência era tão sólida que nem mesmo quando Antônio morreu sem que nenhum de nós tentasse tirá-lo de sua loucura, ninguém teve coragem de dizer que não estávamos nós interessados em ajudar um irmão enlouquecido. De segredos vive muitas vezes a honra das famílias, e isso é tão sério que se transformou em norma entre aqueles que se pretendem pessoas educadas. Naquele dia, quando voltei à casa de meus pais, eu me perguntava os muitos segredos que eu haveria de guardar à medida que de minha casa novas famílias nascessem e me assustava a hipótese de um dia eu ter um filho. Neste ano descobri que meu pai, tão consciente de seus conhecimentos que se julgava no direito de dirigir com mão pesadas a vida de todas as pessoas de nossa casa, era de muito pouco conhecimento, quando ele me chamou para dirigir o balanço de suas empresas, porque eu já havia cursado o primeiro ano numa faculdade de Economia. Meu primeiro semestre naquela escola, no meu entender, havia sido muito produtivo, mas o que eu havia aprendido não se assemelhava sequer com o que, suponho, meu pai pensava que eu sabia. Dirigi minhas perguntas ao contador, e o que fiz naquele balanço não foi mais do que faria uma secretária interessada em que as coisas corressem realmente bem. O resultado me deixou muito preocupada : o resultado positivo de algumas lojas estava longe de cobrir o prejuízo de outras. Meu pai já esperava por isso, mas de maneira alguma imaginava a gravidade da situação. Minha tarefa mais pesada era informá-lo disso e, ao sabê-lo, a única coisa que ele me pediu foi que mantivesse segredo a respeito do assunto, do qual nem mesmo minha mãe devia tomar conhecimento.

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Minhas férias não passaram disso, já que, mesmo estando na faculdade, meu pai não me permitia sair a não ser para a casa de minha avó. É certo que eu poderia desobedecê-lo, mas se o fizesse ouviria naturalmente suas reprimendas, nas palavras que ele costumava dirigir a Otávio e que além de tudo atingiriam também minha mãe e até mesmo minhas irmãs. Neste ano, Sofia iria para o colégio. Nenhum dos filhos estaria em casa. As despesas teriam um grande acréscimo. Meu pai teria mais uma razão para ficar muito irritado. Então, tudo o que eu poderia fazer era tentar obedecê-lo, até nas ordens não verbalizadas. Minha mãe se ocupava de preparar nossas roupas, todas feitas por ela, ainda não se pensava na hipótese de se usar roupas compradas prontas nas lojas. Agora, quando à tarde voltava à casa de minha avó, guardava para ela o segredo a respeito dos negócios de meu pai. Falávamos de novo de sua família, que se perpetuava nos filhos de minha mãe e haveria de continuar nos meus filhos e nos de meus irmãos. Perguntei-lhe por suas irmãs, que por vezes apareciam em casa de meus pais em dias de aniversários, mas com quem eu nunca tivera mais do que palavras de cortesia. Minha avó me deu a resposta, marcada por suas dolorosas experiências: “Quando se sabe que seus irmãos, educados na casa de seus pais, são capazes de matar até mesmo uma de suas irmãs que não teve culpa de encontrar quase dentro de casa uma pedra de valor, mesmo que suas irmãs sejam as melhores que se conhece, você nunca fica sabendo se nelas a bondade não é mais do que a impotência para serem más”. Minha avó estava se tornando amarga, e eu não podia censurá-la. Tantas vezes eu estivera em sua casa e em nenhuma delas encontrei meu tio ou minha mãe. A cidade era pequena, o tempo ali pouco se ocupava e os filhos de minha avó não eram vistos em sua casa. Disto ela não se queixava. Dias depois de terminado o balanço, meu pai me chamou em seu escritório e pela primeira vez manifestou confiança em minha capacidade, diríamos, profissional. Falou-me que o resultado do balanço havia sido ruim, mas o meu trabalho havia sido bom. Disse-me de suas esperanças de eu lhe dirigir os negócios e pediu-me que na minha escola procurasse obter informações de utilidade prática para o problema de seus negócios. Meu pai naturalmente começava a perder a confiança em si mesmo; em outros tempos, tenho certeza de que ele jamais me falaria coisas assim.

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Procurei mostrar-lhe que meus livros não me fariam em tão pouco tempo capaz de substituir-lhe a experiência. Mesmo que em meu pensamento eu discordasse do que dissera, naquele momento era o que poderia ser dito. Começava naquele dia a entender que nem sempre se diz o que se pensa, precisamos dizer o que é de conveniência. Tínhamos ao tempo um presidente da República de espírito jovial. Automóveis começaram a ser fabricados no País. Construía-se uma capital de onde se acreditava cairiam sobre todos bênçãos que nos fariam eternamente felizes e a (*? cap. 9 p.6). Estudantes, tínhamos quase todos um mundo pequeno de livros, escolas, colegas e festas. E foi um grande susto quando uma de nossas colegas comprou um tecido e, quando voltou de novo na loja para comprar o que lhe havia faltado, verificou que o preço já não era o mesmo. Não se pensou em quaisquer conseqüências daquilo que na minha escola já estudávamos teoricamente e que se chamava inflação. Estávamos todos tão felizes e cheios de esperança e nada nos interessava além de nossa casa, nossa escola e, sobretudo, o clube onde aos domingos podíamos dançar. Nem mesmo quando em outra região do País rompeu-se um açude e a água jorrou sobre casebres, desabrigando milhares de pessoas e, estudantes, fomos todos à rua pedir remédios, roupas, dinheiro e alimento para o nosso povo sofrido, tivemos em nosso pensamento a idéia do sofrimento. Nas praças, estudantes faziam pedidos e eram felizes no seu momento tão individualista. Ao final do dia, nos reuníamos todos muitas vezes com um inocente novo amor. Valia a juventude do presidente e principalmente a nossa. Foi por esse tempo que um dos irmãos de uma colega da república comprou um automóvel e nos veio convidar a todas da casa para um passeio pela cidade. Fomos seis, o carro absolutamente lotado, e, no dia seguinte, vizinhos passaram a nos considerar como moças de hábitos inconvenientes, e que, quando nossos namorados também pudessem ganhar de seus pais um carro, em nossa casa muitos deles viriam estacionar. Mesmo se nunca saíssemos sozinhas no carro de um homem, passamos a ser vistas como incômodas às “pudicas famílias de um bairro conservador”. E isso não nos importava, porque também dispúnhamos de um título ao tempo valioso: éramos universitárias. Jacira, uma de nossas colegas de república, estudante de Odontologia, namorava há muitos anos um de seus colegas. Pensavam ambos em casamento e em vista disso devia ela ser apresentada à família do noivo em potencial. Os preparativos

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foram como se o dia fosse o do casamento, e todos nós pusemos à disposição de nossa colega colares, brincos e tudo mais que a pudesse fazer uma mulher de sonhos. E não faltaram mesmo aquelas mais preocupadas com a ocasião, a ensinar-lhe várias normas de como proceder na ocasião. No entanto, quando uma das tias do suposto noivo soube que a moça estudava numa faculdade, e, pior do que isso, exerceria a profissão e não seria odontopediatra, percebeu-se o mal-estar criado entre os presentes. Definitivamente, não seria um bom casamento para um jovem, e não se passou muito tempo para que o namoro tivesse fim. Fora do meio universitário, o ambiente nos era inteiramente hostil. Rompíamos com uma barreira, nós, que o tempo viria mostrar, éramos ainda conservadoras e até certo ponto preconceituosas. Fatos desse gênero mostravam um mundo diferente do que vivíamos na escola e em nossa casa. Isoladas do bairro, nos tornávamos a cada dia mais independentes. Nossa liberdade crescia até o limite de nossos curtos pensamentos. Em geral, estudávamos muito, pensávamos em nosso futuro profissional, mas mesmo isso se colocava num plano irreal de meninas obedientes a seus pais, moradores a quilômetros de distância. Aqui não havia o pai. Havia o professor, cujas palavras e idéias não eram questionadas, e foi assim que chegamos ao término de nossos cursos superiores, no mesmo ano em que terminaria o mandato de nosso alegre e ousado presidente. Meu pai me mandava cartas e não me falava de seus negócios, nem de política. Suas cartas eram normas de vida por escrito, normas que me vinham de uma cidade ainda mais repressora do que esta em que eu vivia. Selecionadas, eu obedecia quase todas, descumpria todas que me indicavam o caminho para meus estudos e minha profissão. Não tinha a menor intenção de deixar que ele interferisse nisto e nem mesmo pensava em, na cidade pequena, cuidar de seus negócios. Desde que estivera na Faculdade, aprendi com Otávio e Mira a dizer a meus pais que passaria férias longe de casa, em razão dos meus estudos. Meu pai, não sei se acreditando nestas alegações ou se por conveniência, fazia como se acreditasse. Mas naquele ano uma de suas cartas me levou a entender que minha ida à casa seria necessária. Meu pai tecia comentários sobre o comportamento de minha irmã, que lhe comunicara, através de um simples recado, sua ida para um país estrangeiro. Informações faziam-nos acreditar que minha irmã havia se formado, mas ela não havia falado nisso, e agora, de repente, comunicava uma viagem da qual também não se tinha conhecimento anterior. Otávio não fizera questão de nossa presença em sua formatura, mas toda sua disposição havia sido acertada com a família e, tendo se casado recentemente, entendeu ser melhor que ele fosse até nós para que lhe

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conhecêssemos a esposa do que exigir nossa ida a uma cidade distante, onde a viagem de toda a família seria, se não muito dispendiosas, bastante incômoda. Reuniríamos em casa, todos, menos Mira, que já há tanto tempo não se fazia contar entre nós. Uns em dias diferentes dos outros, acertados cada um de acordo com o respeito às suas conveniências, estávamos em casa em dezembro. A mulher de Otávio estava despreparada para viver, ainda que por poucos dias, na cidade onde morávamos. A terra vermelha de uma cidade sem calçamento a incomodava muito. Horrorizava-se com a simplicidade do lugar, onde, com freqüência, víamos cavaleiros na rua. E tanto falou disso que em certa hora meu irmão, mesmo estando apaixonado, lhe disse com certa aspereza que sua admiração não passava de jogo para nos impressionar, ou se não fora isso era sinal de ignorância, porque no País havia muitas cidades sem calçamento. De início, censurando o fato de as irmãs de Otávio estarem procurando profissões masculinas, envergonhou-se depois vendo que, apesar de tudo, sabíamos todas nós fazer trabalhos domésticos tão bem quanto receber pessoas de cerimônia, o que ela comprovou quando à nossa casa chegaram os que movimentariam as eleições do próximo ano. Aqueles estranhos que apareciam em nossa casa quando se pensava em eleições se foram depois de acertarem com meu pai estratégias para o pleito que ocorreria dez meses depois. Meu pai chamou-me a mim e ao Otávio e nos falou de seus negócios em decadência. E não eram apenas os negócios. Meu pai estava envelhecido, era quase outro homem, parecia agora consciente de sua possibilidade de errar. Já não era tão seguro e não interferiu quando Isabel lhe disse que, a todas as profissões, preferia ser advogada. Fizemos os três mais que um balanço comum aos negócios: visitamos e contabilizamos sua loja de tecidos e armazém, verificamos o movimento comercial da firma beneficiadora de café e arroz, estivemos em todas as fazendas alheias, onde o gado bovino e eqüino eram de propriedade do meu pai. Havia um bom patrimônio mas, quando verificamos a sua dívida em bancos fora da cidade, compreendemos o envelhecimento estampado no rosto do meu pai. O que nos restava era muito pouco. Meu pai tinha empregados bons e amigos . Podíamos contar com eles e aos mais próximos a situação foi comunicada, com o pedido de sigilo absoluto. As férias terminavam e eu nem sequer havia tido tempo de estar com minha avó, ainda agora presença mais importante do que qualquer outra em minha cidade ou em minha casa.

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Fui estar com ela um dia inteiro antes de minha viagem. Estava menos triste. Mostrou-me sua casa. Pintada de novo. O jardim bonito, e ela forte, parecia mais jovem, tecia suas rendas, mas não por tanto tempo como antes. Havia compreendido a ausência já longa de meu avô e agora fazia muitas coisas que eram sempre feitas por ele. Perdera um pouco da quietude que sempre estivera com ela, mesmo quando eu era criança. Era jovem nos seus sessenta anos. Parecia feliz, embora, que eu saiba, não tivesse razões para isso. Depois de feitos alguns planejamentos para os negócios de meu pai, deixamos a casa todos nós que nela não éramos permanentes.

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Capítulo 10 Era 1960. Um ano de grandes mudanças. Na faculdade, escolheríamos um paraninfo; no País, um presidente. E um professor, isento de política partidária, nos convidou a todos os alunos para conhecer, numa grande construtora, um novo aparelho que havia chegado, não fazia muito, mas que facilitaria em muito todos os trabalhos que dependessem de cálculos. Nem mesmo o professor sabia exatamente todas as excelências daquela máquina, mas podia prever que junto com a televisão, que modificava costumes, aquela máquina seria um princípio de revolução nas relações de trabalho e no mundo dos negócios. O fascínio do professor nos levou a todos para conhecer o novo aparelho. Eram duas enormes caixas brancas, colocadas numa sala de aquecimento controlado e que faziam toda a folha de pagamento de uma empresa em uma noite. Sim, uma noite. Não me lembro por que, preferiam que a máquina trabalhasse depois do sol posto. Aquela máquina enorme chamava-se computador, e o seu preço era tão alto que mesmo grandes empresas preferiam alugá-la para não desembolsar num só aparelho um grande capital. Algumas das mulheres, mais ousadas ainda, fumavam nas ruas e nos cabelos lembravam as mulheres de “Arroz Amargo”; o corte conservava o nome “a la garçon” . Iniciamos com certo orgulho os preparativos para nossa festa de formatura. Não queria participar, porque sabia dos negócios de meu pai. Ele insistiu, já que Mira e Otávio nem o consultaram a respeito do assunto. Meus pais vieram à festa e minhas irmãs estavam aqui. Minha mãe veio pela primeira vez à cidade que não era a sua. Espantou-se com a liberdade dos mostruários das lojas que despudoradamente exibiam roupas íntimas femininas, e não havia imaginado que nenhuma de suas filhas teria coragem de comprar das mãos de um homem desconhecido peças de roupa que só um marido deveria ver. Minha mãe extasiou-se diante da cidade grande, e agora não era para criar filhos que ela queria mudar de nossa cidade. Ela apenas queria ser feliz, vendo uma cidade onde o progresso - ela imaginava - tornava a vida tão simples. No dia seguinte à festa de minha formatura, jantávamos todos num restaurante, e meu pai, derrotado nas eleições para presidente, com seus negócios em decadência, me pareceu de uma felicidade sem manchas e falou-me do seu contentamento. Estava na metade do seu caminho, dizia. A formatura de Otávio não lhe fora tão grata. Mas

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agora Mira e eu éramos independentes e, não demoraria muito tempo, as duas outras. E ele estava feliz, disse, porque se suas filhas não se casassem estariam livres pelo menos de uma pobreza humilhante. E, se casadas, não estariam obrigadas a suportar nenhum marido por um prato de comida. Meu pai estava feliz, e eu não iria lhe perguntar por que, sendo ele homem, nos preparava para um casamento com um homem de quem mais tarde quereríamos nos livrar. Falei-lhe do meu desejo de permanecer na cidade onde eu estava, mostrei-lhe que meus conhecimentos de economia eram ainda muito teóricos e que meu trabalho junto dele não iria alterar o rumo das coisas. Percebi que meus argumentos excediam aos necessários. Ele já mudara de idéia. Agora concordou comigo, sem dizer muito de suas razões. Foram os meus cada um para o seu lugar, e eu estava só numa cidade grande, tendo nas mãos o peso enorme de um diploma. O novo presidente tomou posse de seu cargo. Prometia austeridade. Era um homem feio, de nariz adunco e parecia sempre nervoso consigo e com o resto do mundo. O presidente tinha um cão e uma esposa. Com o cão ele partilhava a maior parte do tempo, mas quando falava dizia sempre o nome da esposa. As oportunidades de trabalho não eram fáceis para ninguém de minha condição. Ser filha de meu pai na minha cidade era alguma coisa de tão importante que lá, creio, nem sabiam meu nome. Eu era filha do Homero, a segunda das moças, porque minhas irmãs eram a primeira, a terceira e a quarta. Aqui, o nome de meu pai não tinha significado e a maioria de meus colegas era filho de alguém, e para eles o nome de família abria todas as portas. Parti à procura de emprego. O mesmo que procuravam meus colegas. Eu era sempre a preterida. Meus colegas eram na maioria nascidos na cidade onde haviam estudado. Tinham família e relacionamentos sociais aqui. Quase todos homens, eu mulher, tímida, não conhecia ninguém. Fazer um favor para a filha de meu pai não interessava muito. Nem mesmo os votos que ele pudesse conseguir em eleição valiam um emprego para a sua filha. E foi por isso que me dirigi aos meus colegas para pedir-lhes a ajuda de que precisava. Enviava meu currículo às mais diversas empresas, lia anúncios de jornal e fui a vários escritórios para as necessárias entrevistas. Um dia, Nicolau, um de meus colegas, de quem eu até havia sido distante

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nos tempos de escola, foi à minha casa e me falou de um emprego, dentro da profissão que eu pensava conhecer. Era um emprego ruim, de salário baixo, mas não tinham restrições a que eu fosse mulher, e perguntou-me se eu me interessaria. Deveria aceitar. Um emprego me bastava, qualquer detalhe era sem importância. Apresentei-me na empresa indicada. Era um trabalho muito abrangente, não apenas de minha área profissional. Aceitaram-me, e eu não cabia em mim de contentamento. Não havia uma jornada de trabalho estipulada. O caminho por onde eu havia passado à procura de emprego me dizia que eu teria de me esforçar ao máximo, tornar-me um elemento de grande conveniência para a empresa e, em razão disso, não poucas vezes trabalhava um número de horas excessivo. As moças de minha idade, trabalhando ali em funções mais simples e com salários mais baixos, olhavam-me com distância, mas sem qualquer animosidade. Os homens se dirigiam a mim, chamavam-me senhora e doutora, e isso me deixava um pouco desconcertada: eu me sentia ainda uma criança. Só eu me achava criança, minha responsabilidade era a de uma profissional. De toda forma, todos me mantinham afastada do restante do grupo. Não era comum uma mulher ocupando meu cargo. Mas eu me fazia toda agradecimentos ao Deus que eu nunca soube exatamente quem era, porque eu tinha um emprego e ganhava dois salários mínimos. Muitos de meus colegas ganhavam dez salários mínimos por jornada de trabalho que era exatamente a metade da que eu tinha que trabalhar. Ã medida que eu me esforçava, a empresa exigia mais de mim, e aos poucos eu percebia que a maioria dos trabalhos que me eram confiados não eram adequados ao profissional de minha área. Fazia-os bem, porque eram elementares, dado que a empresa era pequena, e eu dispunha, na república onde morava, de boas amigas formadas em administração de empresa e contabilidade que me ensinavam durante a noite o trabalho que eu deveria fazer durante o dia. Encontrava outros problemas na empresa, pois meu modo de encarar o trabalho e sobretudo as pessoas que trabalhavam eram muito diferentes de tudo o que poderia imaginar o dono a empresa. Não me lembro exatamente quanto tempo fazia que eu era empregada ali, quando um dia, como muitos, atrasada para o almoço, procurei um pequeno restaurante onde bancários faziam normalmente uma refeição ligeira. Percebi um enorme aparelho de rádio sobre o balcão, além do olhar assustado de todos me anunciando algum acontecimento extraordinário. Não fiz perguntas. Perceberam minha curiosidade, e alguém, que nem cheguei a identificar, informou-me : “O

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presidente renunciou”. Estavam assustados apenas, mas seus comentários não envolviam preocupações maiores. Continuaram a falar: “Esse homem iria dar jeito nesse país”, e outro “Foi bom que deixasse o governo. Vivia sempre junto do cão e só fazia leis sem qualquer importância: onde já se viu presidente da república cuidando de roupa de banho das mulheres e de brigas de galos”. Não demorei. Minha inexperiência profissional não era tanta que não me deixasse ver algumas possíveis conseqüências daquele fato. Quando voltei ao trabalho a notícia já estava lá. O diretor chamou-me em seu gabinete, onde um rádio falava sem parar, na voz de um repórter cheio de medo. A porta da sala foi trancada. O diretor, sua secretária e eu procuramos papéis que pudessem comprometer alguém diante de uma situação que sabíamos exatamente qual seria. Alguém por telefone informou que o Exército estava de prontidão e que não se sabia o paradeiro do vicepresidente. Não entendi bem as razões por que em uma empresa tão pequena seria necessário fazer desaparecer papéis, simplesmente porque haveria mudança no governo mais alto do País. A explicação me veio mais tarde. O proprietário da empresa era ainda criança ao término da segunda guerra mundial. Filho de imigrantes, vira a loja do pai ser praticamente destruída porque o seu país estivera contra os vencedores. Desde então tinha medo de quaisquer mudanças políticas. Fiz o que me era mandado, sem questionar, como sempre. Bancos e lojas fecharam suas portas. Na rua, as pessoas estavam em silêncio. Nas casas de muitos, os telefones, de que poucos dispunham, não paravam, mas aviões e helicópteros foram vistos muitas vezes. Continuei meu trabalho. Quando cheguei em casa, fomos todas para diante de um pequeno rádio de uma de nossas colegas. À pilha, o rádio dava ao repórter uma voz esganiçada, que nos deixou a todas mais felizes e tranqüilas quando disse que o vice-presidente havia chegado e negociações eram feitas para que lhe permitissem tomar posse do cargo que era dele por direito. No meu trabalho, tudo voltou ao normal, mais do que na sala do diretor de quem, sem querer, ouvi o telefonema, cujos termos me esqueci mas de cujo sentido me lembro bem: o diretor convocava outros de seus colegas para, a partir daquele momento, se portarem como homens de esquerda em tudo que não lhes fosse comprometedor.

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Não era esta a primeira vez que este homem me parecia desprezível. No entanto, nos víamos todos os dias e dele eu recebia os maiores elogios profissionais e provavelmente o menor salário que se pagava a alguém com meu nível de escolaridade. Determinou-se que o vice-presidente seria empossado no cargo vago e não demoraria muito deveria ser submetido um plebiscito. Apesar de tudo, era um alívio. O presidente pensava em fazer algumas reformas, muitas foram feitas, outras iniciadas. O diretor da empresa onde eu trabalhava dizia muitas vezes em sua sala ou nos corredores: “Sou um homem de esquerda, mas o presidente é muito moço, um comunista, reformas não podem ser tão radicais, empregados não saberão lidar com tantos direitos. Continuo sendo um homem de esquerda, mas nem por isso imprudente”. Pensei que eu devia sair daquele emprego. Não fazia sentido, para trabalhar na minha função eu precisava de me apresentar bem, queria também aproveitar um pouco minha juventude que eu sentia acabava antes da hora e, com aquele salário, isso era impossível. Minhas idéias continuavam entrando em silencioso choque com as do dono da empresa. Um dia, quando chegava em casa depois do trabalho, percebi um carro com placa da minha cidade, e minhas irmãs, Isabel e Sofia, os rostos assustados falavam com um homem que conhecia como empregado de meu pai. Alguma coisa muito grave havia acontecido. Ninguém precisava me dizer. O empregado, que se chamava Jovino, se encaminhou para mim e falou: “Seu pai sofreu um acidente. Não é muito grave”. Percebi que ele estava mentindo. Sabia que era grave. Minha mãe não nos chamaria por pouco. Deixei que ele continuasse. “Seu pai levou um coice de cavalo. Sua mãe quer vocês todas em casa”. Respondi-lhe:” Estarei pronta em minutos”. Minhas irmãs me acompanharam. Fizeram-me uma pequena mala, enquanto cuidei de mim e ainda tive tempo para comunicar minha viagem à secretária do homem de esquerda. Tomamos o automóvel. Não fiz perguntas para que Jovino não me dissesse a verdade. Não queria antecipar o sofrimento de minhas irmãs. Sabia que meu pai estava morto, porque do contrário ele teria vindo, ainda que de helicóptero ou num

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avião pequeno. Minha cidade não tinha hospital e o nosso grande amigo Dr. Ulisses já estava bem velho para enfrentar um problema cuja gravidade exigia nossa presença. Tenho certeza de que minhas irmãs pensavam a mesma coisa e nos preocupávamos todas. Nunca aquela estrada havia sido tão longa. Jovino deixava escapar uma sombra de verdade, imediatamente voltava atrás com palavras confortadoras. Faltava-me ânimo para convencê-lo de que todas nós sabíamos o que nos esperava. Perguntei-lhe como havia sido o acidente. Ele me disse que meu pai pretendia vender alguns de seus cavalos e ao montar num deles teria sido jogado ao chão. O animal bateu-lhe algumas vezes a pata na cabeça e o pisoteou. Jovino, no seu esforço de nos proteger da dor, chegou a dizer coisas que meu pai teria falado. O relógio dizia que havíamos feito uma viagem muito rápida, mas nossa ansiedade a tornou muito estressante. Ao chegarmos na cidade, vimos nossa casa, na frente da praça, cheia de gente. Não fizemos perguntas. Não era mais necessário. O choro de Sofia, até então silencioso, tomava proporções de gritos desesperados. As pessoas nos cederam o lugar. Minha mãe estava assentada em uma cadeira e as flores da morte exalavam o seu trágico perfume. O rosto de meu pai era dele o que se podia ver. Hematomas no lado esquerdo da testa desciam até o ouvido, a orelha estava cortada. Esperariam Otávio no dia seguinte até quando fosse possível. Mira havia sido comunicada por alguém mandado a outra cidade, porque ali não havia telefones. Minha mãe não chorava. As pessoas insistiam em que ela comesse alguma coisa, tomasse um copo de leite ou deitasse. Ela queria ficar junto do corpo do homem que em tantos anos ela não havia conseguido descobrir se lhe inspirara amor ou ódio, mas que agora, morto, ela daria tudo para que estivesse vivo. Foi inútil ter esperado Otávio. Ele não veio. Ao sepultamento, minha mãe não teve condições de ir. Isabel e minha avó ficaram com ela. Não tive lágrimas, mas minhas pernas perderam a condição de amparar o meu corpo. Sofia ia junto de mim. Mulheres que mal conhecíamos nos deram o apoio de seus braços, e no meio daquela multidão, lojas fechadas, trabalhadores dos campos presentes, o mundo imenso parecia não ter ninguém. Creio que isso se chama dor. E eu a senti. Talvez perguntem por que. Ele era meu pai. Nos dias que se seguiram, minha avó conosco, ficávamos quase todo o tempo assentadas numa sala pequena, como a dizer aos outros que ali não havia lugar para mais ninguém. Falava-se alguma coisa, vazia de sentido, informante apenas de que estávamos vivas. Minha avó por vezes nos oferecia quaisquer coisa que só começaram a ser aceitas no segundo dia. A empregada nos servia em silêncio. As vezes, alguma visita, o que nos fazia agradecidas, mas não felizes.

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Otávio chegou e pareceu um pai de todas, especialmente de minha mãe. Mandou buscar um médico na cidade vizinha, temendo que por falta de alimento e sono ela se enfraquecesse demais. Uma semana depois, começamos a revisar os negócios de meu pai, porque meu irmão se lembrou de que era necessário contratar um advogado. Otávio encarregoume de fornecer ao advogado todas as informações que se fizessem necessárias, porque embora eu nada entendesse, morava mais perto e meu emprego era de pouca importância. Teve o cuidado de procurar pessoas de nossa família e pediu que visitassem minha mãe, principalmente quando nenhuma das filhas estivesse na cidade. Quis levar minha mãe com ele, mas ela se recusou. Meu irmão viajou de volta à casa. Isabel e Sofia aproveitaram-lhe a companhia, porque estavam em tempo de aulas. Fiquei mais uns dias, para cuidar de tudo que se fizesse necessário. Uma tarde, estávamos na sala, minha avó e eu. Minha mãe, sob efeito de remédio que lhe fora receitado, dormia um pouco, minha avó e eu falávamos a respeito de meu pai, um homem honesto e trabalhador de quem ninguém conhecera a família, e menos ainda qualquer lembrança do passado. Indaguei de minha avó a respeito. Acreditava que ela me pudesse falar disso, porque me lembro que certa vez ela se esquivou do assunto, dizendo que aquele segredo não era dela. Naturalmente, ela sabia o segredo e talvez se eu o soubesse entenderia melhor as atitudes de meu pai, que não podiam ser entendidas dentro da normalidade. Minha avó olhou com espanto, ante minha pressa de conhecer o que era mau, mas entendeu que era de meu direito sabê-lo, uma vez que, disse ela, o tempo me faria repositório dos dramas da família, porque mais que meus irmãos eu havia aprendido a ouvir. E foi assim a história que ela me contou: meus avós paternos eram Vitor e Marta. Vítor era muito rude, um homem cheio de valentia e autoritarismo. Quando quis se casar com Marta, a família da moça não concordou, porque ela era meiga e boa, alegre e se comunicava com todos. Mas qual pai pode impedir o casamento de uma filha, quando esta entende estar apaixonada ? E ela se casou. Em um ano, nasceu-lhe um filho que se chamou Homero, o meu pai. Não houve outros filhos e ninguém sabe sequer se havia razão para havê-los, pois que Vítor passava a maior parte do tempo na fazenda, e de lá, fala-se, todas as mulheres um dia foram dele. Quando vinha à cidade, o pai encontrava uma razão para fazer a Marta todas as humilhações que se pode fazer a uma mulher. Separar de um marido, mesmo que dele separada estivesse, era alguma coisa em que não se podia pensar. Homero estava para

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fazer doze anos, quando, um dia, o pai chegou em casa e, com toda a frieza que se pode imaginar, matou a mulher, que nem sequer sabia por que estava morrendo. Acontece que Vítor costumava fazer grandes doações à igreja, e a família de Marta, querida na cidade, não podia tanto. O prestígio do assassino e o apoio do padre não aplacaram a revolta da cidade e marcou-se um julgamento. O padre orientou a criança para denegrir a lembrança da mãe, sob algumas ameaças, até mesmo a perda de direito ao Céu. E, no dia do julgamento, o menino, chorando, falou o que lhe haviam ensinado. Mas, não resistindo, entrou em pânico e disse a verdade. O pai foi condenado a mais de vinte anos de prisão. O menino foi morar na casa de uma tia, cujo marido o maltratava. Um dia fugiu, passou fome, até que passou a morar junto de um casal de velhos e, quando estes morreram, não se sabe por que, escolheu esta cidade, acreditando que aqui ninguém lhe conheceria a história. Mas em todos os lugares do mundo há sempre alguém que ouve e alguém que fala. E aqui tanto se falou e tanto se ouviu, que justamente as filhas eram as únicas pessoas da cidade que nunca haviam ouvido tais falas. Penalizava-me o menino ferido, que se havia feito meu pai. Era tarde para compreendê-lo. Não pude dizer-lhe que ele tinha razão. Só consegui entendê-lo quando ele não mais precisava de minha compreensão. Minha mãe estava descansando. No dia seguinte, eu entregaria ao advogado a relação dos bens que meu pai havia perseguido a vida inteira. Minha mãe assinaria um papel cujo conteúdo ela ignorava por falta de interesse em conhecê-lo, e eu partiria de novo, com tudo apropriado para ser a mulher independente que meu pai me quisera. Ele estava certo de que havia conseguido o seu intento. Tarde eu descobri que viver significa estar mudando. Eu, toda transformações, continuaria o caminho. Ainda não sabia qual, como todos nós.

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Capítulo 11 Minha vida seria agora inteiramente dirigida por mim. Em minha casa,minhas amigas me ajudavam nos meus medos e sofrimentos. Entre o pessoal do meu trabalho, percebi que eu não existia como pessoa. Para os empregados, eu estava ligada aos interesses do empresário que lhes explorava. Para o dono da empresa, eu era a pessoa que trabalhava com perfeição e afinco, se não pelo salário, pelo menos para construir meu nome profissional. Ninguém tomou conhecimento da minha ausência nos dias em que sobre mim pesava a morte de meu pai. Disseram-me apenas que meu serviço estava atrasado. Otávio, voltando à casa de minha mãe para cuidar de negócios que agora eram de sua responsabilidade, informara-me que minha irmã, há tanto tempo ausente, não concordara em ter como seu o advogado por ele contratado para o inventário dos bens de meu pai. Nenhum de nós se preocupou com isso, e até hoje não sei de qualquer conseqüência do fato. Na mesma oportunidade, Otávio pediu a um dos empregados de meu pai que continuasse zelando pelos nossos interesses como costumava fazer nas viagens de meu pai e que, em tanto quanto possível, cuidasse de minha mãe. O empregado, sabíamos, seria zeloso. Havia sido um grande amigo durante trinta anos, e sabíamos que não seria diferente agora. Meu irmão, durante todo o tempo em que minha mãe se recuperava de seu sofrimento, que por muitas razões pensávamos não deveria ser tanto, fazia viagens cansativas, para seguir de perto não apenas os negócios, como também o andamento do processo de inventário. Eu trabalhava, trabalhava, sem parar nunca, nem mesmo para ver que eu devia deixar a empresa e procurar outro emprego. Comecei, no entanto, a pensar nisso, quando percebi que eu me tornara uma funcionária especialmente destacada na empresa. Empregados mais antigos do que eu consideravam que eu lhes tomava o prestígio e o valor do seu emprego. O diretor conferia-me atribuições que, sobre não fazerem parte do meu trabalho específico, me eram muito desagradáveis: avaliar técnica e moralmente o trabalho de outros empregados. No entanto, um dia presenciei um fato que me levou a pedir demissão, sem pesar as conseqüências.

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A esse tempo, os empregados de empresas particulares, quando completassem dez anos de trabalho, adquiriam o direito de não serem demitidos do emprego, a não ser que cometessem falta muito grave. Sem que a direção da empresa percebesse, um funcionário havia completado esse tempo de serviço. Foi então que, estando eu na sala do senhor diretor, pude ouvi-lo ordenar a um gerente de loja que colocasse nos bolsos da roupa do funcionário decente e antigo certa importância em dinheiro, ao mesmo tempo que providenciasse para que um dos cofres da empresa fosse arrombado, e que, em seguida, chamasse a polícia. Assim, aquele empregado, com mais de dez anos de serviço, seria preso em flagrante e sua posterior dispensa não daria qualquer despesa à empresa. O gerente discordou da idéia.Nenhum outro funcionàrio ficou sabendo por que no dia seguinte, aquele gerente, que se chamava Duarte, e eu pedimos demissão daquela casa. Novamente desempregada. Pior ainda, agora não tinha meu pai. Não tinha alunas para aulas particulares. Na cidade, ninguém a quem recorrer. Minhas colegas de casa eram estudantes ou recém-formadas e em nada poderiam me ajudar. O caminho não me era novo: procurar emprego, ler anúncios de jornal, fazer concursos, pedir ajuda a quem quer que seja. Havia desta vez uma vantagem: já havia trabalhado antes e poderia contar com o que chamam experiência anterior. O País votaria na época, um plebiscito. O povo em geral não sabia qual era o sentido da votação, mas todos votaram, para que tudo continuasse do mesmo jeito que sempre estivera e votara muito mais para dizer que aquela eleição era antidemocrática e sem sentido. Não havia qualquer concurso que eu pudesse fazer. Foi um tempo de sindicatos e muitas greves. Fiquei à procura de trabalho e nada acontecia . Minhas roupas envelheciam, meus sapatos estavam gastos e até os cuidados que tinha com o meu rosto e meus cabelos pareciam diminuídos, porque o dinheiro era escasso e eu não sabia quando deixaria de ser. E eu não conseguia nenhum trabalho. Seria mais um dia de desalentada procura de emprego. Meu dinheiro havia acabado há meses, e minha mãe enviava, de seus poucos rendimentos, o suficiente

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para que eu permanecesse viva. Concursos, alguns não pude fazer porque a taxa de inscrição superava minhas possibilidades. E de manhã soubemos que o governo havia caído nas mãos dos militares. Praticamente sem resistência. Havia um susto em cada rosto. E, em nosso bairro, mulheres sorridentes, cujos mundos eram simplesmente sua casa e a instrução quase nula. Esposas de maridos ricos, nos olhavam felizes porque acreditavam que o País estava no caminho da honestidade e do trabalho. Rapazolas socialmente inúteis, com fitas amarradas nos braços, se davam o direito de invadir casas para, orientados pela paranóia não identificada, fazer prisões e destruir tudo aquilo cujo conteúdo não conseguiriam entender. O horror andava nas ruas, e não foi por pouco tempo. Não sei de onde partiu um convite para que os partidários da nova ordem, à noite, pusessem velas nas janelas de suas casas. Na casa onde eu morava nos recusamos a isso. O povo do bairro achou esse comportamento normal, éramos mulheres estranhas que pretendiam exercer profissões masculinas. Na rua, amigos tinham medo de nos dirigir a palavra. Ninguém sabia o que pensava o outro, mesmo que o outro fosse seu irmão ou seu amigo. Prisões se sucediam. Soube que um de meus colegas abandonara o trabalho porque, sentindo-se ameaçado, deixara o País. Quem me deu a notícia falou-me da possibilidade de eu trabalhar onde trabalhara o meu colega que se fora. Apresentei-me. Era uma questão de urgência para aquela firma. Pediram-me documentos que eu sabia onde conseguí-los, mas um deles me era totalmente estranho: atestado de ideologia. Indicaram-me onde eu poderia conseguí-lo e eu o consegui. No dia seguinte, estava de novo no trabalho mas, apesar disso, triste e de certa

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forma revoltada como todo o povo. O lugar onde eu deveria trabalhar era uma grande construtora. Providenciados os documentos, apresentei-me ao trabalho. Foi o próprio diretor que me mostrou todas as instalações da empresa, apresentou-me a engenheiros, arquitetos, desenhistas e datilógrafos. Onde eu passava, olhares curiosos viam a estranheza de uma mulher que ocuparia um cargo até então ocupado por homem. O barulho feminino dos saltos de meus sapatos, creio, incomodava e se tornou um marco da minha presença. As outras moças, ainda que chegassem ao trabalho com sapatos mais finos, tinham o cuidado de trocá-los por sapatilhas. Sapatos altos sempre me foram confortáveis, e em razão disso não precisava daquele cuidado. Atribuíam esse fato à minha preocupação de me manter impecável no trabalho. Não era isso: minhas roupas, já gastas, eram incompatíveis com esse tipo de pretensão. Minha sala, isolada de todos, era ao lado daquela onde ficava o diretor. Deram-me uma secretária. Minha incumbência inicial era a de reestruturar o Departamento de Pessoal. Meu contato com outras pessoas era ocasional, e elas eram gentis comigo. Aconselhava-me um certo instinto de profissionalização que eu me mantivesse um pouco distante das pessoas, para que ninguém me percebesse em minha inteireza. Tinha receio de que meus modos tímidos e minha cabeça tão livre de preconceitos pudesse me trazer incompreensões num lugar onde eu pretendia permanecer até quando me fosse conveniente. Mesmo assim, não pude fugir da alegria e delicadeza de Manuel, um jovem engenheiro chinês. Manuel era um nome que lhe haviam dado em substituição ao que trouxera da casa de seus pais e que se entendia não ser entre nós de uma pronúncia muito fácil. Manuel brincava sempre comigo com uma liberdade de pessoas que se conheciam há muito tempo. Ao fim do expediente, se tínhamos oportunidade de sairmos juntos, levava-me em seu carro, já que a esse tempo eu nem pensava na possibilidade de ter um. Um dia eu lhe falei que me admirava de sua linguagem em Português correto e sem marcas de língua estrangeira. Foi quando soube que ele estava entre nós desde os quatro anos de idade. Nesse dia, Manuel me contou um pouco de sua história. Saíra de seu país aos quatro anos de idade. Viera com um casal, em que a mulher era sua tia. Tinha dois

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primos em casa. Os pais haviam morrido. Ele, morto em combate. A mãe, de inanição. O país de onde vinha estava sujeito a um racionamento não apenas de arroz, mas de tudo. A comida que recebiam era insuficiente para a mãe e os filhos e, para que estes não sentissem a fome que os rodeava a todos, a mãe deixava de comer, dando o que era seu a eles. Adoeceu e, como a fome só se cura com alimentos, ela não se curou. Morreu para que os filhos pudessem viver. Manuel me falou disso sem qualquer mágoa, como se se tratasse de alguma coisa que deve normalmente acontecer. Tinha um grande carinho pela mãe. Esse carinho ele o passava a todas as outras mulheres. A guerra, que se pensava ter acabado há tanto tempo, me trouxe muitas pessoas, cujas vidas tiveram seu curso normal inteiramente desviado, porque um poder adulto numa briga infantil havia se dado direito a isso. Minha secretária era etíope. O pai era general do exército italiano, porque a Etiópia pertencera à Itália. Aqui este homem sofreu terríveis discriminação. Representava um país vencido na guerra. Minha amiga, ao chegar aqui, fora entregue por um organismo internacional a um colégio de freiras, onde a língua era o Francês. Minha amiga falava bem o Italiano, o Francês e o Português, mas não sabia escrever senão o último. Esses estrangeiros conviviam conosco. Eram cheios de amizade e muito gratos ao país que os recebera. Todos os outros funcionários haviam nascido entre nós, e tínhamos todos notícias da guerra entre países porque estudávamos o assunto na escola. A história é sempre a história do poder e quase sempre contada como o poder o determina. Meu trabalho era bem diferente do que eu fizera antes. O diretor, a quem chamávamos Sr. Álvaro, estava sempre aberto para as coisas que ainda não haviam chegado. Era um homem entusiasta e otimista. Aceitava projetos que mesmo os engenheiros achavam arriscados e eram quase sempre estes que rendiam mais lucro para a empresa. Meu salário não era menor do que o dos engenheiros e arquitetos. Isto era um grande privilégio, porque, embora eu já me reconhecesse como uma profissional competente, na maioria das empresas o salário da mulher era sempre inferior. Em pouco tempo pude fazer roupas bonitas, freqüentar cabeleireiros e até fazer limpeza de pele. Depois, pensaria em comprar um carro, e mais tarde um apartamento. Foi quando Otávio me comunicou que o inventário dos bens de meu pai havia terminado e que, segundo havia se informado com Mira, ela exigia que se fizesse a partilha dos mesmos e que lhe fosse entregue o que lhe era de direito. Entre nós, os outros irmãos, combinamos que tudo ficaria entregue à minha mãe e nós a ajudaríamos nos negócios, assegurando a minhas irmãs que ainda

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estudavam a percepção de alguma importância necessária à sua manutenção. Não era muita coisa. Se cada um recebesse o que era seu, minha mãe teria uma renda insuficiente e os estudos das outras irmãs ficariam prejudicados. Mira receberia o que lhe pertencia. Foi inesperada a vinda de Mira. Há tanto tempo ela estivera distante e nem mesmo a morte de meu pai a trouxera entre nós. Agora viera. Hospedara-se num hotel de luxo e, através de seu advogado, pediu que todos fôssemos vê-la. Minhas irmãs, as mais novas, nem a conheciam bem. Otávio estava conosco, e foi bom. Só ele poderia nos livrar da agressividade de minha irmã. Mal a cumprimentamos e ela nos apresentou o papel da partilha e sobre mim e Otávio lançou injúrias não esperadas. Ela estava certa de que meu pai nos havia deixado muito dinheiro e nós a teríamos prejudicado. Sua agressão não tinha o menor fundamento e não passava da imaginação esteada num tempo e numa idéia de que meu pai era um homem rico. Não fui capaz de dizer coisa alguma. Otávio tentou ser paciente, explicando calmamente como as coisas se passaram. Minha irmã manifestava sua desconfiança infundada. Otávio se cansou e disse-lhe tudo o que tinha a dizer: que ela havia saído de casa sem ter tido sequer a delicadeza de dizer para onde ia. Nunca perguntara pelo menos como estavam os nossos e nem estivera presente quando da morte de meu pai. Agora, vinha reclamar direitos que não tinha. Embora as acusações de Mira pesassem sobre mim muito mais do que sobre Otávio, foi ele quem a desafiou a procurar um contador para que fizesse uma perícia sobre os passados negócios de meu pai e verificasse em quanto estaria o suposto prejuízo que nós lhe teríamos dado. Vendo a segurança de Otávio, minha irmã reconheceu que os fatos haviam se passado exatamente como lhe havíamos falado e se desculpou conosco. Em palavras, tudo voltou ao normal. No entanto, dentro de mim alguma coisa fez diminuir o pouco afeto que eu já sentia por aquela irmã que sempre me tivera como uma intrusa em sua vida. Mais do que esse incidente, a mim, e creio que a todos, incomodavam os carros incendiados nas ruas, as greves de empregados cujos direitos eram violados por um grupo de homens que de um dia para o outro havia pela força se intitulado como governo. No trabalho, o ambiente de confiança parecia diminuir, porque nunca sabíamos se nosso melhor amigo não era o mais próximo espião. Meu dinheiro crescia, porque meu salário era bom, minha despesa pouca e com isso eu podia fazer boas aplicações, pois que essas se corrigiam por uma inflação a

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cada dia maior. Assim, antes de comprar um automóvel, decidi comprar um pequeno apartamento. Não era esse o meu desejo. Sentia que era o caminho mais sensato. Minhas irmãs moravam cada uma perto de sua escola e, mesmo que continuássemos cada uma em seu lugar, teríamos mais liberdade se nos encontrássemos numa casa que fosse só minha. Isabel namorava um de seus colegas e entre eles havia uma liberdade impensável no tempo em que eu tivera a idade dela. Sofia também namorava um de seus colegas, e ambos me pareciam muito revoltados com a situação política. Isso me preocupava muito e me dava pouca oportunidade de fazer qualquer coisa para evitar algum problema. Na verdade, eles nunca me falaram nada a respeito. Nesse tempo, estudantes desapareciam e até a casa onde eu morava foi várias vezes invadida pela polícia, que nos subtraiu livros considerados inconvenientes ao regime político. A inconveniência de tais livros devia ser descoberta por algum processo adivinhatório, pois percebia-se que entre aqueles invasores ninguém lia coisa alguma. Manuel comprou o apartamento que era meu, e eu o paguei. Foi ele quem verificou a validade dos papéis, idoneidade da firma vendedora e até mesmo me aconselhou sobre as conveniências da localização de minha morada. Na empresa, ninguém entendia o nosso relacionamento. Nem eu o entendia. Tinha medo de fazer algum questionamento e perder além de tudo a amizade dele, que já me era imprescindível. Muitas vezes, de modo vago, ele me falava de problemas, e minha discrição não pedia esclarecimentos maiores. E tudo continuava como sempre estivera desde o primeiro dia em que o conheci. Éramos amigos, dizíamos sempre. Não sei se algum de nós acreditava nisso. Estando de férias, decidi por uma visita à minha mãe e à minha avó, há tanto tempo não vistas. Queria que ambas me viessem visitar, já que eu tinha uma nova e exclusiva moradia. E, quando lhes fiz a proposta, ambas a recusaram, porque se sentiriam em dificuldade fora de suas casas. A casa de minha mãe, que não era a de meu pai, havia mudado. Estava cheia de gente, a cada hora uma amiga, muitas daquelas que lhe foram amigas desde a infância e que os hábitos de meu pai fizeram fugir de nós. Minha mãe era agora uma pessoa alegre, e isso me fez pensar que a morte de meu pai não teria sido um pesar para ela. Isso me entristeceu. Meu pai, sabia eu, havia nos amado muito a todas e se dava o direito de determinar com mão de ferro o caminho de nossas vidas. Outra não era a razão, além daquela de ter encontrado em nós a figura de sua mãe querida, e brutalmente

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assassinada. Queria tirar de nossas vidas a possibilidade de nos acontecer o mesmo. Mas minha mãe estava feliz, e agora muitas vezes visitava minha avó, levavalhe pequenos agrados, como se, de repente, aquela mulher cheia de nervos houvesse se tornado jovem e feliz. Como viver é difícil! Meu pai e minha mãe se fizeram infelizes e ambos eram cheios de amor. No dia seguinte, não fui à minha casa para o almoço. Esperei Sofia na porta de sua escola, o mesmo prédio onde eu havia estudado, e eu me sentia tão longe daquele mundo feito de estudantes. Minha irmã me viu de longe e veio até mim. Seus olhos, de um azul cinzento, a boca sorrindo inocência. Almoçamos num restaurante, onde almoçavam pobres comerciários cuja jornada de trabalho, aumentada de horas extraordinárias, não lhes permitia almoçar com a família e nem se alimentar num lugar decente. Falávamos baixo e em códigos. Disse-lhe de minhas preocupações. Ela me disse que, com um nome suposto, estava mesmo ligada a um movimento que tinha por fim a queda do governo ditatorial. Dei-lhe minhas razões para que se afastasse de tamanho perigo. Foi quando ela me disse: “Estou nesse movimento porque entendo de meu dever, e mesmo se me afastasse agora continuaria da mesma forma correndo muitos riscos”. E depois, com ternura me disse: “Pobre Irene, sua liberdade foi sempre tão reprimida que você nem sequer sabe que ela vale mais do que a nossa própria vida. Fique tranqüila. Veja, eu não tenho nenhum sinal de medo”. Tentei tomar para mim um pouco da tranqüilidade de minha irmã, mas éramos pessoas muito diferentes. O medo foi meu companheiro por tanto tempo, que eu não conseguiria me separar dele nunca. Nos despedimos. Vi no meio da multidão minha irmã que se perdia em sua juventude, a calça jeans, os cabelos cor de mel, a bolsa de pano jogada nas costas. Se confundiria com tantos jovens daquela época, crianças ainda, que a um grito voltariam ao seio de suas mães, e muitos deles estavam algemados no fundo das prisões, se não mortos ou torturados. Voltei ao meu trabalho. Não disse a ninguém de meus medos. Todos eram meus amigos, sabia. Mas isso não impedia que algum deles fosse um delator. O governo do alto do seu poder, havia minado qualquer forma de confiança. E dizíamos estar num país democrático. Além do meu trabalho, ocupava-me agora em fazer do meu apartamento um lugar de morar, e nele coloquei coisas simples, mas que o fizeram agradável como gostaria que fosse a minha casa. Manuel ajudava-me e, quando tudo ficou pronto,

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convidei minhas colegas de casa para uma visita. Vieram todas e eu fiquei feliz de saber que naquele lugar onde passei tantos anos fizera eu tantas amizades. Dias depois, convidei minhas irmãs, seus namorados e Manuel para que viessem jantar comigo. Tantos desconhecidos se fizeram tão íntimos num instante e estivemos tão felizes que muitos de nós não nos lembrávamos de que, na rua, aconteciam carros incendiados, greves, prisões. O governo era duro e entendia que só a sua cúpula sabia pensar. Depois do jantar, Sofia quis ver o noticiário. De nós todos, era ela a que mais se interessava pelo que se passava além de seus domínios. Nós, os mais adultos, já sabíamos que os fatos neste lugar e neste tempo não sofriam variações dos personagens, poder ou povo: a única coisa que mudava era o aspecto físico, tudo o mais era sempre o mesmo. Até a novidade nos parecia velha. Foi quando Sofia nos alertou: “Seqüestraram um embaixador e não se sabe quem são os autores da bravura”. Ela ficara feliz e, logo em seguida, junto com o namorado, nos deixou, como se o acontecimento a houvesse atingido num interesse imediato. Isto me preocupou e creio que também aos outros, os que estavam em minha casa. Quando a noite ia pela hora em que se lembra o levantar do amanhã, meus convidados se despediram e, sem me lembrar da desordem em que se encontrava a minha casa, tentei dormir, no que fui impedida por meus pensamentos relacionados à minha irmã que, indisfarçavelmente, estaria ligada, se não por atos, pelo menos por idéias, a algum grupo que ousava estar contra o poderoso governo que se intitulava revolucionário. Minha preocupação com as idéias e atos de Sofia aos poucos ia se diluindo com o manuseio de papéis e cálculos que eram os meus dias. Quando o tempo me permitia, a lembrança de minha irmã, criança idealista, chegava até mim e eu ia procurá-la em sua casa ou na escola. Em qualquer dos lugares, encontrava alguém que me falava que ela estava em outro lugar e sempre diziam o que ela estaria fazendo e convencendo-me de que só muito tarde da noite eu poderia encontrá-la. Todos tinham tanta certeza da normalidade de sua vida de jovem estudante que, apesar de minhas desconfianças, eu conseguia me pôr tranqüila. Uma noite, depois de um dia de muito trabalho e acumulando todo o desgaste de uma semana, adormeci, a aparência tranqüila, mas sempre no íntimo aquela preocupação que nunca mais me deixara desde o último dia em que almocei com minha irmã. Eram provavelmente três horas da manhã e eu sonhava com ela: era criança e eu brincava com ela, dizendo-lhe que queria tanto vê-la em seu vestido cor de rosa. O telefone interrompeu meu sono e meu sonho. Uma voz masculina, grave e ríspida me disse: “Sofia foi presa”. Não tive tempo de fazer perguntas. O aparelho desligou. Faltavam-me pessoas a quem eu me desse a liberdade de acordar no meio da noite para falar de um problema com o qual eu não sentia que os outros estivessem

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envolvidos. Andei mil vezes pelo meu quarto que, agora eu percebi, era tão pequeno. Assentava-me em minha cama e tentava raciocinar sobre uma situação que me era desconhecida. Quando o dia amanheceu, liguei para Otávio. Ele gastou um tempo enorme censurando o comportamento irresponsável de minha irmã e só ao final me aconselhou a procurar um bom advogado, o melhor possível, que quanto antes conseguisse a liberdade de nossa irmã. Ele me mandaria o dinheiro, pois que, em face de minhas últimas despesas, grandes para o meu orçamento, ele sabia que me faltavam condições. Quando o dia acabou de amanhecer, fui à casa onde morava minha irmã. Lá ninguém sabia de nada. Postei-me diante da escola onde ela estudava, não vi ninguém que eu pudesse imaginar fosse amigo, meu ou dela. Um caminho longo e duro era o que estava à minha frente. Isabel seria minha companhia, e juntas conheceríamos a dor. E a dor dos outros tem um tamanho que nos é desconhecido.

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Capítulo 12 A impossibilidade de obter qualquer informação a respeito de minha irmã levou-me ao trabalho. Minha hora normal de chegada havia passado, e meu rosto denunciando minha aflição provocara perguntas de meus colegas. Para os mais distantes, disse simplesmente: estou com um problema em família. Aos mais íntimos, contei o que se passou e percebi a aflição de todos. Aconselharam-me a que procurasse o diretor e lhe pedisse alguma ajuda, não se sabia qual. Ele me tratou como se fora meu pai. Telefonou ao advogado da empresa, que lhe indicou um profissional especializado e de sua própria iniciativa procurou amigos que, envolvidos nas redes do poder, pudessem ao menos nos informar onde se encontrava minha irmã. Procurei o advogado. O senhor, de uns quarenta e cinco anos, se chamava Tobias. Esse homem foi de uma honestidade a toda prova ao informar-me o pouco que poderia fazer por mim na qualidade de profissional. Direitos estavam cerceados por normas autoritárias e tudo o que os ditadores fizessem não poderia sequer ser analisado pelos tribunais. No entanto, o Dr. Tobias procurou e conseguiu descobrir que minha irmã já não se encontrava na cidade. Fora levada para uma repartição do exército, e o muito que se pôde obter, depois de dois meses de esforços, foi permissão para que a visitássemos. Isabel, no seu último ano de faculdade, estava noiva e foi o seu noivo que se dispôs a nos levar as duas para uma visita a Sofia. Na portaria do presídio, no horário determinado, nossas bolsas e embrulhos foram revistados, tudo feito com uma cortesia absolutamente ridícula em pessoas que auxiliavam o governo, máquina de fazer violência. Um guarda portando fuzil assistia à visita e escutava nossa conversa. Falamos pouco e desse pouco todas as palavras eram desnecessárias. Minha irmã estava magra e os sinais de noites mal dormidas estampavam-se em seu rosto. Choramos. Choramos as três. Lágrimas por tudo. Pela nossa infância, pela vida de tantos sacrifícios, sempre subjugadas por alguma forma de poder. Chorávamos a impotência de sempre e a inutilidade de quaisquer reações, mesmo que estas não passassem de um simples grito. Poucos e longos dias se haviam passado, quando o Dr. Tobias chamou-me a seu escritório. Deu-me informações até então não sabidas, a respeito das razões pelas quais minha irmã, sem julgamento formal, havia sido condenada a um tempo não determinado de prisão, torturas e a tudo mais que a maldade humana pode imaginar. O grupo a que ela se ligava havia alugado uma casa num bairro distante, onde se reuniam para discutir idéias e fazer planos, nem sempre executados. A casa havia sido

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cercada por um batalhão de militares. Houve tiroteio. Morreram estudantes e um policial. Descobrir a autoria das mortes era desnecessário. Ressaltava-se que o militar morto era um homem casado, pai de seis filhos. Não se questionou se bom marido ou bom pai. Não se falou que todos eles eram seres humanos. Os policiais se transformaram em heróis de passado ilibado e todos os estudantes envolvidos considerados monstros, autores de crimes hediondos. Minha irmã, menina idealista, era um deles. Foi por isso que o Dr. Tobias não encontrou para ela, nem poderia ter encontrado, solução melhor do que conseguir que ela fosse expulsa do País, e isso o quanto antes, pois que alguma doença forjada poderia oficialmente matá-la, quando seu corpo frágil não mais resistisse às muitas formas de tortura. Pedi ao advogado que tentasse fazer alguma coisa nesse sentido e me ensinasse os caminhos para que eu pudesse também tentar alguma coisa . Procurei o Sr. Álvaro, diretor da empresa onde eu trabalhava, e não posso negar o grande esforço de que ele foi capaz. Solidariedade não me faltou, mesmo quando o medo me cerrava praticamente todos os caminhos. O tempo de angústia caminhava a passos lentos. Isabel entendeu que era hora de se casar. O noivo era Rodrigo, o namorado de todos os anos em que ela estivera na faculdade, de onde ela saiu sem qualquer ânimo para festas, logo nos dias em que Sofia havia sido encarcerada. O casamento de Isabel nos trazia, entre muitos, o problema de ter que falar com minha mãe a respeito de Sofia. Tínhamos o cuidado e a esperança de podermos deixar que minha mãe não tomasse conhecimento de nossas vidas: nossa realidade era muito diferente de tudo que ela vivera. Nenhuma ajuda nos viria de sua parte. Seu grau de conhecimento e de afeto por nós, suas filhas, faziam-na uma pessoa distante, e ela não poderia, no caso, ter outro sentimento senão o de uma culpa inútil. Apesar disso, pensávamos que a vida reservasse aos pais um tempo certo para sofrer. Esse tempo, para ela, acreditávamos, já devia ter passado. No entanto, minha mãe viria ao casamento. Notaria a ausência de Sofia e era melhor que tudo fosse falado, não só para ela, mas a todos que quisessem ouvir. Minha mãe se preocupou um minuto com as notícias, e logo no dia seguinte indagou quem de nós poderia levá-la para ver de novo a cidade e, se possível, comprar alguns vestidos. Então compreendí que minha mãe era feliz independente de quaisquer fatos... O casamento não passou de uma cerimônia muito simples, no apartamento onde os noivos iriam, pensava-se, viver por muito tempo. Isabel queria filhos, e deles seria mãe indispensável, não querendo repetir nossa

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mãe que, de tanto se pensar inútil, passou realmente a sê-lo. Tudo voltou em seguida ao normal, cada um em seu trabalho, minha mãe de volta à casa. E de novo, fazer alguma coisa por Sofia era tudo a ocupar minha cabeça e a do próprio Otávio, cuja distância de nós era apenas de espaço. Uma angustiante alegria nos veio quando formos informados de que o governo havia assinado o decreto de expulsão de minha irmã. Tentamos descobrir o dia em que minha irmã deixaria o País. Vinte anos, jogada numa terra estranha, sem documentos, sem dinheiro, sem ninguém, sem nada. Tudo muito rápido como se quisessem depressa dispor de um elemento cuja presença fosse danosa até ao ar. Minha mãe se encontrou conosco e todas nos encontramos com Otávio, apenas para ver Sofia desaparecer num aeroporto, sem esperança ao menos de poder falar com ela. Mira estava ausente, mas sua ausência tão antiga não passava de uma lembrança vaga e sem muito sentido. Por que ela era tão diferente de nós? No entanto, era certo que também ela era um ser humano, alguma coisa lhe havia feito tanta falta que naturalmente longe de nós ela a buscava, sem tempo sequer para estar junto dos seus. Não sabia quem era mais infeliz, Mira, que nos deixara por querer, ou Sofia, que era obrigada a nos deixar. No aeroporto, ficamos todos parados, quando vimos minha irmã, uma mochila nos ombros, as mãos algemadas, ser colocada no avião como um pacote qualquer, os olhos como que perfurando a distância, tentando nos ver. Como nos doía! A todas as dores somava-se a impotência de alguma coisa se poder fazer. De novo em casa, no trabalho tudo igual a esse presente novo, inconsolável prêmio de um passado cheio de sacrifícios. Trabalhávamos todos, e uma esperança infundada servia de assunto em nossas horas de encontro. Isabel quis um filho e às vezes ficava contente. Dizia que a vida tinha de continuar, e que ela seria continuada pelo filho que haveria de ser tão bom quanto o seu marido, e teria um País livre como não haviam tido seus pais. Às vezes, quando deixava o trabalho, passava pela casa de minha irmã e a encontrava bordando panos simples, ou preparando o berço do filho que iria nascer. Éramos diferentes, Isabel e eu. Eu teria medo por um filho que me viesse, mesmo que supostamente de um ato de amor. O ser humano já me causava dúvidas, e o mundo me parecia de cores apagadas e de poucas luzes. A empresa onde eu trabalhava havia crescido, o número de funcionários

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aumentado. Por esse tempo, Manuel chegara de férias e pedira sua demissão. Nós nos havíamos afastado muito, porque o trabalho e sobretudo meu envolvimento com os problemas de Sofia não me permitiam sequer pensar em outras coisas. O governo mudava o corpo do seu dirigente, mas a cabeça e a alma de um não era mais do que a continuação do outro. Tudo continuava igual, e o progresso e a ordem que serviam de justificativa para tanto desrespeito não haviam chegado. Homens e mulheres que se orgulhavam de seu espírito prático afastavam-se do poder político ou com ele faziam acordos. Uma multidão de indiferentes caminhava pelas ruas, cuidando de uma aparente e imediata acomodação. Faltavam-me notícias de minha irmã Sofia. Meus sonhos se povoavam de pesadelos. Foi tanto tempo que se passou assim, que nele não tenho certeza se vivi. Atentados continuavam e, mesmo quando as evidências diziam que eles vinham do poder, conseguiam eles uma prova de que o mesmo havia sido provocado por outras pessoas inocentes, cuidadosamente escolhidas para receberem a culpa. Apesar de tudo, na guerra do poder contra a sua própria incapacidade, esse começava a ser o grande derrotado e algumas liberdades cheias de medo começavam a despontar. Como obcecada, meus pensamentos repetiam incessantemente: “Onde está Sofia?” Sua volta ou simplesmente uma notícia me faziam falta. Um dia recebi uma visita. Viera sem avisos. Era uma garota de nome Débora. Vinha de um curso de música em Paris. Falou-me de minha irmã como de uma pessoa muito triste e envelhecida. Tomava conta de crianças numa casa de pessoas abastadas. Pensava em estudar de novo. Faltava-lhe dinheiro e documentos adequados para suas pretensões. Débora me disse que se eu pudesse deveria ir ver minha irmã. A moça se despediu em seguida, sem deixar endereço, desculpou-se, dizendo que não ficaria na cidade. Nunca soube se era verdade, mas ela me trouxe as preciosas informações sobre o paradeiro de minha irmã. Era uma esperança. Uma viagem para ver Sofia me daria tempo para entender melhor as razões não ditas que levaram Manuel a se demitir de uma empresa onde era querido e bem pago. Dele recebi um cartão amigo e nenhum outro. Para os outros não havia dúvida, simplesmente meu amigo, ele se fora e se perderia no tempo como muitos outros. Não me agradava acreditar nisso, e uma mulher tem sempre argumentos para não acreditar nas verdades óbvias que não lhe são agradáveis. Quando as férias me viessem, e antes dela chegasse o filho de Isabel, eu poderia viajar. Falei disso com Otávio e ele considerou acertados os meus planos. Foi por isso que, logo depois do nascimento de André e de ter brincado muitas vezes com suas mãozinhas enrugadas e de me ter dito muitas vezes que era lindo o filho de

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minha irmã, recolhi fotografias de todos nós, preparei documentos e embarquei para um país distante, há muito querido pelos seus gritos em favor da liberdade e agora especialmente amado, porque acolhera minha irmã, quando sua pátria lhe havia faltado. A alegria estava morta em Sofia, e ela, que me falou tão pouco, se desculpou pelos transtornos que o seu sonho jovem nos havia causado. Foi então que eu lhe disse que, se acaso se devesse pedir desculpas, seria eu a me desculpar por ter assistido a prisões, torturas e mortes, e em todo esse tempo não ter sido capaz de pensar em qualquer coisa que não fosse em mim mesma. Andávamos juntas pelas ruas que não víamos, o céu cinzento e o frio pedindo agasalho, e falávamos de esperanças. Mas eu vi aflita que ela não mais sabia o sentido de palavras que a levassem a um futuro. Levei-a a um médico, esperando que ele pudesse ressuscitar a irmã alegre, brincalhona e bonita que eu havia tido. O tempo me disse que eu devia voltar. A vida continuava e de novo eu teria a rotina do meu trabalho, onde o entusiasmo de meus primeiros anos cedia lugar a um cansaço entediante. Íamos ao meio de mais um dia de trabalho, quando o Sr. Antônio me disse que estava cuidando de alguns papéis e depois precisava falar comigo. Nosso trabalho não tinha coisa alguma em comum, e sua comunicação não me apresentava um sentido evidente. E só quando todos os outros funcionários deixaram seus postos ele me disse estar em condições de me receber em sua sala. A porta se fechou logo que eu entrei. O Sr. Antônio me falou com cerimônia e sem objetividade: “Tenho algumas filhas... Alguma experiência como pai... e quero lhe mostrar uma coisa que nos chegou ontem, e que me parece não lhe será agradável”. Estava sobre a mesa um grande envelope que me foi entregue, com delicada ordem: “Abra”. Não fui capaz de imaginar o conteúdo. O estranho nome de Manuel me assustou. O convite de casamento com uma mulher que não era eu. Não me lembro como me senti. Sei que não fiz comentários, e quando deixei a empresa não fui para a minha casa. Andei pela rua, procurei recompor o meu rosto. Aquela dor era diferente e não devia ser pública, ninguém haveria de saber que eu a senti. Não havia culpados. Manuel teria me falado se eu o tivesse permitido. Era uma nova perda no meio de tantas outras. Quando criança, minha mãe me havia dito que chorar é um luxo, eu não deixaria que minhas lágrimas tão íntimas fossem vistas por ninguém. Voltei ao trabalho para o segundo expediente e naquele dia, mais que em qualquer outro, fui gentil e alegre no meio dos meus colegas que, cientes de tudo, não compreenderam como eu me sentia, e foram discretos o suficiente para me garantirem

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a liberdade do silêncio. Meus dias de trabalho eram compensados nos finais de semana, quando em casa de Isabel eu sentia que eles eram felizes e se amavam e me dava paz tentar fazer com o meu rosto o mesmo sorriso inocente do pequenino André, agora que, prenunciando uma repetição de todas as vidas, suportava pequeninas quedas e à cada uma delas se compensava tentando andar de novo. Meu mundo começava a ficar vazio de quaisquer vínculos e minhas pequenas quedas se tornavam freqüentes e demoradas. A dor não nos pergunta se pode insistir nas incômodas visitas que nos faz. Certa manhã, quando acreditava que pensando em mim mesma me havia esquecido de Sofia e de todos os tropeços que a acompanhavam naquele país estrangeiro, alguém tocou a campainha de minha casa. Dir-se-ia uma campainha que, à falta de visitas se tornara praticamente inútil. Um jovem soldado, bonito, uniforme impecável, falando de cor e sem emoção, começou o discurso do absurdo: “De ordem de meu superior trago à Senhora um comunicado que diz : - O comando militar das forças armadas informa à família de Sofia Lopes de Macedo que na noite do dia 15 de dezembro, estando a mesma fora de seu país, jogou-se diante de um trem, tendo morte imediata. O comando militar autoriza a família, se esta o quiser, que providencie a remoção do corpo para este país. E pesarosamente apresenta aos familiares os mais sentidos pêsames.” Não vi, não sei por que, vizinhos vieram à minha casa. Um deles apanhou minha agenda e telefonou para meus irmãos, cujos nomes nunca soube se eles sabiam. Eu os olhava a todos e esperava... ainda hoje não sei o que esperava. Mas esperava e todos os meus irmãos chegaram para que juntos testemunhássemos todos o absurdo sofrimento de cada um. Alguém se lembrou de minha mãe. Era melhor que ela viesse até nós. O tempo não nos permitia sair. Otávio providenciava a remoção do corpo e ainda não nos havia permitido qualquer sinal de sofrimento. Assentados em minha casa, estivemos muitos dias esperando. A maior parte do tempo ficávamos a sós. Uma semana não é tempo que se possa esperar pelos outros. Nós, os irmãos, podíamos, porque esperávamos um pedaço de nós mesmos, tirado a força em nome de todas as mentiras. Minha mãe chegou e sem palavras se assentou junto de nós. Otávio retornou da rua e disse que alguém cuidaria de tudo e na hora exata em que um avião chegasse, viriam nos buscar. Não se necessitava de maiores informações, nem mesmo de frases completas.

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O homem chegou e na porta aberta do apartamento disse: “O carro está à disposição”. Descemos a escada, Otávio amparando minha mãe e cada uma de nós prestava atenção para que a outra houvesse entendido o comunicado. No carro, fomos em silêncio. No aeroporto, esperamos até que a madrugada nos trouxesse o avião. Para as providências, meu irmão envelhecido de dor e de cansaço, não teve outra ajuda senão a de Mira. Fomos ao cemitério, dois carros. Um nos levando, a nós que os outros acreditavam estarmos vivas. O outro levava o corpo de minha irmã, que ninguém se preocupou em ver. Sepultamos primeiro à noite, porque os sepultamentos são solenes e se fazem à luz do dia. Mas sua solenidade não teve testemunho de padres, pastores ou rabinos, nem mesmo de quaisquer amigos. Rodrigo estava conosco, mas ele havia em tudo se tornado um de nós, não era apenas um amigo. Quando tudo passou, voltamos para a casa de Isabel, o mundo exterior só fazia aparecimento quando o pequenino filho de Isabel, andando pela sala, falava a língua ingênua que os adultos sempre pensam que entendem. Há um dia marcado para o término do sofrimento e quando ele chega, cada um vai para sua casa e retorna ao seu trabalho. E foi assim que, como todos os outros, também nós fizemos. Quando cheguei de novo ao meu trabalho, meus colegas, mesmo estranhos, abraçaram-me e disseram-me as coisas que também devem ser ditas nessas ocasiões, e eu lhes respondi como respondem os outros. O mundo não parecia entender que minha irmã estava morta, tinha vinte anos e seu único desejo era o de que todos estivessem livres. Não sei se eu queria que me ouvissem. Mas era preciso que alguma coisa acordasse o mundo emudecido que me deixava tão só mergulhada em sofrimento. Foi por isso, não sei, talvez tenha sido, que de repente abri meus braços sobre minha mesa de trabalho e muitas coisas caíram pelo chão, os lápis e canetas espalhados, um copo cheio de água molhou o que estava por perto. Meus colegas vieram até mim e depois chegou um médico e eles se foram. O médico chegou e, em silêncio, ficou me olhando muito tempo e depois me perguntou se eu sabia meu nome, se sabia que minha irmã estava morta. Não sei por que me perguntava essas coisas, e por isso não lhe quis responder. Ele, o médico da empresa, me via todos os dias e nos parecia tão bom, mas poderia estar a mando da polícia, e talvez quisesse saber o que eu pensava para contar aos homens maus que

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trabalhavam para o exército. Não lhe respondi, e quando ele insistiu, eu disse que me chamava Sofia, porque se quisessem me matar, matariam minha irmã que já estava morta há muitos dias. Ele disse que eu estava doente e quis levar-me para o hospital. Meus amigos acreditaram que o médico estava certo, e eu exigi que um deles me acompanhasse, porque o médico, pensando coisas sem sentido, poderia querer me matar e dizer aos outros que, como minha irmã, eu me matei porque estava doente. Puseram-me para dormir, porque o sono é a morte e, a morte, o descanso. E quando me acordaram, o médico estava lá de novo, segurava minha mão e sorria, e foi aos poucos me falando muitas coisas, cujo sentido tento agora organizar. Ele me disse que não se pode ser feliz onde estamos, mas se desempenharmos o papel de alegres artistas, e os outros pensarem que somos felizes, felizes seremos mais amados. Disse-me também que eu devia me portar como uma pessoa capaz, porque os incapazes são marginalizados. Se dissermos que somos capazes, os outros não acreditarão, mas como são gentis e não têm tempo para discordar, todos dirão conosco que somos realmente capazes. E os capazes são admirados. Feliz e capaz é uma questão de saber fazer o jogo da conveniência no meio de todos, que outra coisa não fazem a não ser se portarem bem diante dos jogos de suas vidas. E em quarenta e cinco dias e no mesmo número de noites, o médico me falou dessas coisas e com elas me disse que eu sou muito inteligente, não podia deixar de compreender tudo que ele me disse, outros são mais inteligentes e não é preciso gastar tanto tempo ouvindo um médico lhes dizer coisas tão óbvias. O médico disse que eu era inteligente e capaz e então entendi o jogo dos felizes e vitoriosos. Quando deixei o hospital, pedi demissão de meu emprego e numa loja comprei vestidos elegantes, e uma clínica de estética completou o quadro da mulher que o médico me disse que eu devia ser. Os anúncios de jornal me indicaram um conjunto de salas onde a mulher vitoriosa, descrita pelo médico, e independente como me queria o meu pai, pôde abrir um luxuoso escritório de consultoria empresarial. Comprei móveis e dei ordens autoritárias a todos que me vieram servir. Tudo se fazia rápido, porque as pessoas importantes têm urgência do tempo e é preciso que se lhes dê importância. Lá fora, os homens do governo se disfarçavam cedendo seus espaços para que distraidamente outros lhes ocupassem o lugar. As ruas continuavam cheias de gente, cada uma no seu espaço, não tinham idéia de que poderiam estar juntas.

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Quando poucos dias se haviam passado e eu estava só, sem risco de prejudicar minha nova imagem, me vi cansada, o rosto velho, a vida inútil e perdida, deixei-me cair numa poltrona porque outro lugar mais perto não havia. Chorei minhas verdades ocultas pela imagem de uma nova mulher, e foi quando, de dentro de meu escritório, vi que a praça estava cheia de gente unida e todos gritavam uma palavra cujo sentido eu agora podia compreender. De pé lembrei-me de que um dia, minhas roupas envelhecidas, procurava emprego em portas que se fechavam, de minha irmã que me acusara de roubar-lhe a herança de meu pai, e de Sofia, a mais querida de todas, que, não tendo mais forças para lutar pela liberdade, se jogara na frente de um trem. Lágrimas desceram no meu rosto, e, no equilíbrio que nos leva a nos assumir que somos nós mesmas, gritei com todos os outros uma palavra que rompendo o tempo daria frutos de liberdade. A noite havia terminado. ERA A AURORA...

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