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SEMINÁRIO CONC~RDIA

Diretor
Paulo Moisés Nerbas
Professores
Acir Raymann. Ely PI-ieto.Gersori Luís Linden. Leopoldo Heimann,
Norberto Heinc (CA4PP). OrlandoN. Ott. Paulo Gerhard Pietzsch,
Paulo Moisés Nerbas. Vilson Scholz.
Professores Eméritos
Arnaldo J. Schmidt. Arnaido Schucler 9,Donaldo Schuelei-,Otto A. Goerl 9,
Johannes H. Rottmann, Martim C. LVarth

IGREJA LUTERANA
I
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela
Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica
I
Luterana do Brasil (ELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.

Conselho Editorial
Acir Raymann (editor), Vilson Scholz

Assistência Administrativa
Janisse M. Schindler

A Revista Igreju Luteruim está indexada ern BibliogrzBa Bíblica


Latino-A~l~encana e Old Testu17lenrAbstrncts.
Os originais dos artigos serão devolvidos
quando acompanhados de envelope com endereço e selado.

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I
Correspondência
Revista I G W A LWXRANA
Semináio Concórdia
Caixa Postal 202
I
L 93.001-970-São Leopoldo, RS
ARTIGOS
A Oração da Igreja: Vem, Senhor Jesus -Um Estudo de Apocalipse 22.17,20.
Gersori Luis Linden .................................................................................... 0
3

Teologia da Cruz versus Teologia da Glória no Salmo 1


Gersori Luís Flor e Acir Raymann ............................................................... 19

Importância da Música no Culto Divino


Paulo Gerhard Pietzsch ............................................................................. 42

RECENSÃO BIBLIOGRÁFICA
Inícios: Chaves que Abrem os Evangelhos.
Por Morna D. Hooker.
Vilson Scholz ..............................................................................................
142

Pós-modernismo- Um Guia para Entender a Filosofia do nosso Tempo.


Por Stanley J. Grenz.
Gerson Luis Linden ................................................................................ 144

Os Imigrantes Alemães no Rio Grande do Sul e o Luteranismo.


Por Walter O. Steyer.
El\, Pi.ieto .... ............................................................................................ 146
"Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e,
considerando aterltamente o$m da sua vida, imitai a fé que tiveram."
Hebreus 13.7

Contou-nos o Dr. Goerl que, quando menino, o pastor Wilhelm Mahler, ao se des-
pedir de seus pais numa das suas visitas pastorais, dirigiu-se também a ele, e lhe impôs
carinhosamente as mãos e lhe perguntou: "Tu não queres um dia ser pastor?" (Wilst du
nicht eirtmal Pastor werden?). Na hora, colhido de surpresa, ele não soube o que
responder. Mas a partir de então sentiu-se atraído ao santo ministério e a pessoa do
pastor Mahler lhe ficou gravada para sempre no coração.

Natural de Jaguari (RS), onde nasceu no dia 02 de outubro de 1905, a crônica da sua
vida confunde-se com a da própria história da Faculdade de Teologia do Seminário
Concórdia (fundado em 1903), e da Igreja Evangélica Luterana do Brasil - IELB -
(fundada em 1904).

Sua infância e juventude passou-as em Porto Alegre, no bairro Navegantes, onde


também frequentou a escola, mantida pela Congregação Evangélica Luterana "Cristo"
- (Colégio Concórdia). Formou-se em teologia pelo Seminário Concórdia de Porto
Alegre (RS) em 1925.Exerceu inicialmente por sete anos o ministério e magistério na
paróquia de Toropi (RS), vindo depois a transferir-separa a capital de São Paulo, como
missionário e professor no bairro Indianópolis, isto até 1940,quando foi chamado para
ser o Diretor da Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia de Porto Alegre (Av.
Lucas de Oliveira, 894).

Sua gestão caracterizou-se pela expansão na construção de prédios no campus do


Seminário, como a capela, a ampliação do Edifício Mahler, a construção do Edifício
Hartmeister e de duas residências para professores. Ao longo dos anos, além da dire-
ção, também lecionou as mais diversas disciplinas teológicas, mas notabilizou-se na
área da Homilética, Sistemática, Confissões Luteranas e Religiões Comparadas. Nos
anos em que respondeu como diretor, formaram-seum total de 104 pastores e 48 profes-
sores sinodais.

No anos de 1963 - devido a seus relevantes serviços prestados, tanto na sua


função como docente, como na área da literatura teológica, foi agraciado pela Faculda-
de de Teologia de Saint Louis, Missouri, USA, da Lutheran Church-Missouri Synod,
com a distinção de Doutor Honoris Causa.
3
Igreja Luteranã-3--1-9

Em 1973,na 44" Convenção Nacional da IELB, foi eleito 2" Vice-presidente da Igreja.

Além da docência, reitoria, vice-presidênciada IELB, o Dr. Goerl exerceu inúmeras


outras atividades na Igreja, destacando-sesua atuação no exercício de membro da Comis-
são de Publicações; Comissão Revisão Hinário Luterano, Redator da revista teológica
"Igreja Luterana" e do anuário "Lar Cristão". É autor também de diversas obras didáticas e
teológicas, além de centenas de artigos para as revistas da Igreja. Foi sem dúvida também
um dos maiores oradores sacros da IELB. Seus sermões primavam pela correta distinção
entre Lei e Evangelho.Conseqüentemente também suaobra máxima, os quatro volumes de
Homiléticareferente ao Ano Eclesiástico,são um marco na teologia luterana brasileira.

Requereu sua aposentadoria aos 75 anos de idade, mas numa entrevista dada à revista
NostraVita (maio 1980)declarou: ''Parao cristãonão existeaposentadoria Existe, sim, descan-
so, modemção nas atividades pesadas, mas não existe ociosidade, raiz de muitos males."

Sem dúvida deixou às gerações presentes da IELB e, principalmente para o seu


corpo ministerial, o exemplo de trabalho, abnegação, desprendimento e uma inabalável
firmeza doutrinária. A propósito, numa entrevista ao Mensageiro Luterano (abril de
1965) foi enfático ao declarar: "Uma escola de Teologia- Seminário Concórdia- vive
em função de Mateus 28.18-20. Não visa fins próprios dentro de um isolamento intelec-
tual e científico. Deve integrar-se na vida da Igreja e visar os objetivos que esta se
propõe, tomando-se uma célula viva dentro de um corpo vivo. O Seminário Teológico
tem a sagrada incumbência de formar os futuros constnitores da obra da Igreja - os
pastores. É condição básica que não se considere a teologia uma ciência equiparada
aos diversos ramos do saber humano, como filosofia, medicina, direito, e sim, que se a
coloque num nível todo especial, como diz Melanchthon: "Estejamos sempre lembra-
dos que a teologia não é uma cienciazinha como as demais ciências, que só têm valor
para esta vida, e sim, uma sabedoria revelada por Deus".

Esta SABEDORIA o saudoso Dr. Goerl nos legou como pastor, professor, diretor,
conselheiro e amigo.

O mundo constrói estátuas para os seus heróis, que passam a ornamentar praças,
avenidas, prédios. Deus na sua infinita bondade também, mas não estátuas de pedra,
mármore, ferro ou aço. As estátuas de Deus são vivas, pois redimidas pelo sangue de
Jesus, receberam o dom da ressurreição e passam a brilhar como as estrelas do céu, com
um brilho que nunca se apagará (Daniel 12.3).Assim no dia 05 de novembro de 1998,
enquanto familiares, sua querida esposa Da. Amália e sua filha Rosi e seus netos, e
toda a IELB, choraram saudosos a partida do esposo, pai, avô e amado mestre, acendia-
se na Igreja Triunfante mais umaestrela a brilhar sempre e eternamente.

"Os mestres sábios, aqueles que ensinaram muitas pessoas a fazer o que é
certo, brilharão como as estrelas do céu, com um brilho que nunca se apagará"
Danie112.3

WalterO. Steyer
Arnaldo Schuler, filho de Carlos e Olga Schuler, nasceu no dia 15 de agosto de 1925
em Três de Maio, RS, e foi transferido para o Reino da Glória no Domingo de Páscoa, dia
4 de abril de 1999,em Porto Alegre, RS.

Vocacionado para o santo Ministério, ingressou no Seminário Concórdia em 1940,


onde formou-se Bacharel em Teologia no ano de 1949. Durante seus estudos em teolo-
gia, ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde iniciou o curso de
Filosofia. Foi professor do Pré-Seminário em Porto Alegre, lecionando a cadeira de
Português durante o ano de 1950. Atendendo chamado da IELB, foi o primeiro missio-
nário luterano na cidade do Recife, capital doEstado de Pemambuco. Exerceu o minis-
tério pastoral nesta nova missão da Igreja Evangélica Luterana do Brasil de 1951-56.
Nesta mesma cidade, concluiu sua graduação em filosofia. Exerceu o ministério pasto-
ral também em Córrego Grande, ES, em 1956-57. Em 1958 aceitou chamado como
professor de tempo integral no Pré-Seminário de Porto Alegre, onde lecionou até 1968.
De 1969-1971 exerceu o magistério no Instituto Concórdiade São Leopoldo. Em 1957
contraiu núpcias com Glenda de Castro Pires, nas Minas Gerais. Deus abençoou o
casal com quatro filhas: Minam, Natércia, Ingrid e Heloisa, as quais se casaram respec-
tivamente com Heraldo Schneider,Marcos Karro, Cláudio Flor e Carlos Lange. Além da
alegria da paternidade, desfrutou a alegria e o carinho de onze netos. De 1971-72, no
Concordia Serninary de Saint Louis, Missoun, EUA, dedicou-se ao estudo e tradução
do Livro de Concórdia para a Língua Portuguesa. Além de traduzir as Confissões
Luteranas para o português, salientamos seu trabalho notável e especial de pesquisa
própria escrevendo todas as notas de rodapé, tão importantes para a pesquisa teológi-
ca em nossos dias. Por sua dedicação ao ministério e como teólogo capaz e perspicaz,
foi merecidamente honrado com o título de Doutor Honoris Causa em Teologia, pelo
Seminário de Fort Wayne, EUA. Trabalhou, ainda, como tradutor de obras teológicas
para a IELB. Por muito tempo dedicou-se ao estudo da Parapsicologia na perspectiva
da Cura d'Almas. Alguns estudantes, hoje pastores, tiveram o privilégio de receber
segura orientação para seu ministério, através das aulas ministradas pelo mestre. Mui-
tos pastores se valeram de seus conhecimentos, aconselhando-se junto ao Prof.
Arnaldo, na procura de soluções para fatos da ainda desconhecida ciência
parapsicológica, que, por vezes, envolviam e angustiavam seus paroquianos.

Encerramos com uma nota constada em seus dados biográficos, no programa


litúrgico de seu sepultamento: "Ontem [4.4.99], no dia da Ressurreiqão, Deus o chamou
para junto de si na eternidade".

Orlando Nestor Ott


1 Tessalonicenses5.17

O movimento hesiquiasta (do grego hêsykhia = repouso) provém de um certo


misticismo do império bizantino. Até hoje alguns cristãos ortodoxos orientais praticam
a assim chamada "oração do coração" ou "oração das entranhas". É a "oração de
Jesus". V. Keller, em Die Zeichen derzeiautherische Monatshejie No10,1998,p. 13ss,
relata da prática atual, que se desenrola especialmente no monte Athos, na Grécia. O
artigo convida à reflexão: o que sabemos nós, ocidentais, de um "orai sem cessar"? O
que sabemos nós de meditação e contemplação? O que têm as horas diárias de oração
de Lutero a ver conosco, luteranos da virada do milênio? Em contexto de "nova era",
em que o meditativo e o místico sincretista são revalorizados em nosso ocidente,
precisamos aproveitar ocasiões para conhecer formas cristãs de meditação oriental:

A oração do coração (das entranhas) é simples. A primeira condição: "aprenda a


meditar como uma montanha", receita um líder religioso. O que vem a ser? O hesiquiasmo
procura o repouso físico e fisiológico total. Em repouso, como uma montanha, repetem
a oração: " Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem compaixão de mim". Prece conhe-
cida. É a prece dos "sem tudo": sem saúde, sem santidade, sem justiça, sem paz. É a
prece do devedor. É a prece do cego, do leproso, a prece do publicano. É prece de
pecador buscando perdão. Keller explica: os crentes do monte Athos, sentados em sua
cama, olhando para seu umbigo, ao inspirar repetem interiormente a primeira parte:
"Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus". Quando expiram, dizem mentalmente a segunda
parte: "Tem compaixão de mim". A oração pode ser abreviada e resumida na palavra
central: "Jesus", dita com a expiração. Conhecemos esta característica: um bem espiri-
tual tem de ser simples, sua repetição possível, e exercitado. O que é nossa assimilação
do Catecismo Menor senão isso? Keller lembra que também espiritualmente gotas
regulares acabam furando a pedra dura. Através da repetição - Lutero falava no "rumi-
nar" - o conteúdo é assimilado interiormente. Não desdenhe-se demasiado rapidamen-
te preces repetidas. A edificação da vida cristã não contém fundamentalmente este
elemento? Veja-se Dt 6. Nesta meditação, o praticante grego apaga gradativamente a
dicotomiaentre sujeito e objeto. Com o orar, o conteúdo "cai da sua língua para dentro
do seu coração (entranhas), e é como se não fosse mais ele quem ora: a oração 'acon-
tece dentro dele'. A oração se lhe torna um dom, um presente".
O estressado, o cansado, o sobrecarregado e preocupado de nossos dias aprende
a soltar suas preocupações e se concentra neste único: o Senhor misericordioso.
Concentração, integridade e calma instalam-se. "O rítmico tem forte poder de ação
sobre as camadas profundas do espírito" (G. Frei). A oração adapta-se à respiração. A
oração toma-se ritmo natural. Corpo e alma oram.

Esta oração de Jesus "engloba tanto o momento da adoração, quando erguemos


nosso olhar à glória de Deus e o procuramos com amor, bem como o momento de
contrição, o saber de nossa indignidade e pecado" (Abade Emmanuel Junclaussen). O
que ora experimenta ao mesmo tempo a alegria por causa de Deus e a vergonha por
causa de si. A certeza da salvação está assegurada no nome de Deus ("Jesus"). O
hebreu bem o sabe: "o nome não é só som e fumaça, mas representante poderoso do
seu portador. Quem entra na esfera do nome de Deus, tem de contar com a própria
manifestação divina". Lembro da explicação de Lutero do 2" mandamento. O nome
Jesus, com tudo o que significa, resumindo a oração, desliza da língua, da mente, para
o "meio" da pessoa, e torna-se a oração do coração. Ali ora o Espírito Santo. É Deus
quem dá tanto "o querer como o realizar" (Fp 2.13). Não é obrigatoriamente mecânico
nem mágico, nem significa necessariamente dispor de Deus. Também não é atividade
"entusiasta" ou "carismática". É a piedade cristã oriental. E merece, por isso, nosso
conhecimento e respeito. Eu não a conheço; não a pratiquei. Mas ela me faz pensar.
Keller lembra da piedade dos pais do deserto, dos patriarcas e suas orações rítmicas:
"Senhor, apressa-te em me ajudar". Keller qualificou a oração hesiquiasta como o
"presente da cristandade oriental para a cristandade ocidental." Minha primeira im-
pressão: num mundo cada vez mais marcado pelo esoterismo, e toda astrologia, e
magia, e bruxaria, e práticas de zen despidas de real conteúdo, a meditação cristã
oriental, tão desconhecida e exótica para nós ocidentais, que não sabemos mais aqui-
etar-nos diante de Deus em simples postura e pensamentos, mais parece um oásis no
deserto do que uma prática ou doutrina a serem combatidas em nome de uma compre-
ensão nossa de espiritualidade. Eu desejo que muitos contemporâneos amantes do
esoterismo da "nova era" descubram a meditação cristã e venham a receber tudo o que
está contido neste nome: Jesus Cristo, em cujo dia, aliás (1" de janeiro), foi meu próprio
batismo.
Gerson Luis Linden

A Igreja Evangélica Luterana do Brasil está estudando o livro de Apocalipse em


seus Concílios e nos estudos bíblicos em grupos (conformeo Programade Evangelização
e Mordomia - PEM). Neste ano de 1999, a temática da Igreja está definida a partir do
lema "Cristo para Todos" e do destaque do ano, "Esperando com Fidelidade a Deus."
Há um contínuo interesse da Igreja em estudar, discutir, planejar e atuar no campo
missionário. O livro de Apocalipse apresenta um enfoque escatológico. A oração que
se encontra ao final do livro, "Vem, Senhor Jesus", mostra a Igreja na sua oração pela
vinda do Senhor. Como se relacionam estes dois temas - escatologia e missão? A Igreja
que aguarda com expectativa a vinda do Senhor de fato se preocupa e atua na obra
missionária? Estas são questões que pretendemos abordar neste estudo. Para tanto,
consideraremos a oração da Igreja em Ap 22.17,20 à luz do ensino da escatologia no
Novo Testamento. Em primeiro lugar procuraremos determinar a importância do tema
da "vinda" de Cristo, como evento escatológico central na Escritura.

Nas páginas do Antigo Testamento temos passagens claras sobre a vinda do


Salvador (Gn 3.15; 1s 7.14; 9.2s; etc.). Dois textos podem ser especialmente menciona-
dos. O primeiro é o de Danie17.13,onde o profeta fala do Filho do homem, que vem com
as nuvens em grande glória. Chama a atenção que na versão de Teodoto, na Septuaginta
(LXX), ao Filho do homem é associado o verbo ? p ~ o p c v o- ~o título rabínico utilizado
para o Messias - Aquele que vem.' O segundo texto é o Salmo 117.26 - "Bendito o que
. ~ passagem é especificamente aplicada a Jesus na Sua
vem em nome de J a ~ é " Esta
entrada triunfal em Jerusalém (Mt 23.39 e paralelos). O tema da "vinda" no Antigo
Testamento é empregado muitas vezes nos Salmos e nos Profetas referindo-se à vinda
dos dias escatológicos, dias de salvação e j~lgamento.~ É exatamente este enfoque, de
salvação e julgamento, que caracteriza a expectativa dos crentes pela vinda do Senhor.
Ele vem para salvar Seu povo, mas vem também para julgar o mundo. Tal julgamento

Rev. Gerson Luís Linden é professor de Teologia Exegética do Novo Testamento no


Settiinário Corzcórdia

' Este é também o título que João Batista utiliza referindo-se ao Messias - Mt 3.1 1; 11.3.
' Onde a LXX traduz K?:! por o' É p x ó p ~ v o ~ .
' J. Schneider, ' " ' p ~ o p a ~ "Theological
, Dictionary of the New Testament, v. 2, p. 667.
significa separação, em que crentes serão distinguidos dos descrentes. Este fato impli-
ca que apenas os crentes podem orar e esperar por aquele dia com alegria, porque para
eles somente será dia de redenção (cf. Lc 2 1.28).

O Novo Testamento é rico em passagens que tratam da vinda de Jesus. Há diversas


passagens do tipo "Eu vim", em que o próprio Senhor fala sobre arazão de Sua primeira
vinda. Ele veio para proclamar o reino de Deus (Mc 1.38); para chamar pecadores ao
arrependimento (Mc 2.7; Lc 5.32); para cumprir a Lei e os Profetas (Mt 5.17); para lançar
fogo sobre a terra (Lc 11.49);paradividir os homens em dois grupos, pela Sua mensagem
(Mt 10.34s~; Lc 12.5lss); para trazer luz e vida (Jo 10.10; 12.46); para libertar o mundo da
destruição (Jo 12.47); não para condenar o mundo (Jo 12.47), apesar de que Sua vinda
implicajulgamento (Jo 9.39); para dar testemunho da verdade (Jo 18.37); para procurar e
salvar os perdidos (Lc 19.10);paraservir e dar Sua vida em resgate por muitos (Mc 10.45;
Mt 20.28). O evangelista João acentua a importância da "hora" decisiva dentro da vinda
de Jesus (Jo 7.30; 8.20; 12.23; 13.1; 17.1)."A&a é o tempodeteminado por Deus, antes
do qual ninguém pode tomar qualquer passo decisivo contra Jesus. Fundamentalmente,
não é a hora da história humana, mas a hora da história da salvação de deu^."^

Em diversas parábolas há referências à vinda de Deus para o julgamento. Ele virá


paraacertar as contas com Seus servos (Mt 21.40; Lc 13.6s;Mt 25.19; Lc 19.13s~).Em
grande parte destas passagens, há uma dupla ênfase no que se refere à vinda do
Senhor: salvação e julgamento. Quando Jesus veio a primeira vez, trouxe em Sua pes-
soa e obra o reino de Deus (Mt 4.17; 12.28; Lc 17.21), com julgamento para toda a
humanidade. A situação do homem perante Deus é definida a partir de féldescrença
nele (em Jesus). Assim também, em Sua segunda vinda, espera-se julgamento (conde-
nação) para aqueles que não crêem, mas alegria e exultação para os crentes (Lc 21.17s).
Fica claro, pois, novamente, que orar pela vinda do Senhor é, sobretudo, uma confissão
de fé na obra de Jesus, a redenção realizada por nós neste mundo em Sua primeira
vinda. Aqueles que não crêem nesta salvação não podem orar com alegria, "Vem,
Senhor Jesus", pois para estes tal dia é terrível.

Em Apocalipse, fica claro (como em todo o NT), que a Igreja vive em constante
expectativa pelo retomo do Senhor, pois este é certo, próximo e decisivo (1.7; 2.5; 2.16;
2.25; 3.1 1; 22.7; 22.12; 22.20). Nas palavras de Donald Guthrie, "aindaque a vinda não
é realmente descrita até o capítulo 19, pode ser dito que o livro todo prepara para este
evento, desde a primeira menção, em 1.7."5 Vale notar ainda que quando a vinda de
Jesus é anunciada em Apocalipse, isto não é feito unicamente para mostrar que a
históna do mundo está chegando ao fim. Tal fato é aplicado dinamicamente para cha-
mar homens ao arrependimento e perseverança na fé. Apocalipse acentua a vinda de
Jesus como um evento de julgamento: salvação para os que guardam Sua palavra (no
sentido de fé nele, como o Cordeiro de Deus, que tirou o pecado do mundo), mas
condenação para os que se mantém descrentes.

' TDNT, 2: 673.


' Neiv Tesramenf Tlieology, 813
2.1 - Oração com fé/esperança
Como foi observado acima, para um correto entendimento da oração, "Vem, Senhor
Jesus". é preciso ter em mente o que significa que Jesus esteja vindo brevemente. Para
a Igreja aquele dia é dia de alegria, de tal forma que o povo de Cristo vive com a
permanente esperança pela Sua vinda. Oscar Cullmann, em seu estudo sobre a volta de
Jesus. dá uma contribuição importante ao tema, ao criticar aqueles que colocam ênfase
na data da vinda de Cristo. Estes estão ignorando que a esperança cristã está direta-
mente vinculada ao passado e ao presente da vida da Igreja:

No Novo Testamento, a esperança se baseia na fé que se deposita em parte nos


fatos históricos da morte expiatória de Cristo e em Sua ressurreição, e em parte
no fato presente do reinado invisível de Cristo. Qualquer esperança que não
seja o elo final desta corrente, a segurança final baseada nesta história da
salvação, não é esperança como entendida pelo Novo Te~tamento.~

Por um lado, poderíamos questionar o uso do "em parte", considerando que a


esperança cristã está totalmente fundamentada na obra objetiva de Cristo. Por outro
lado, porém, fica claro que a intenção de Cullmann é acentuar que a esperança
escatológica ancora-se naquilo que já temos e vivemos pela fé. Isto significa que, ao
orar "Vem", a Igreja não está negando o passado, mas pressupondo-o. Ela também não
está se alienando do presente tempo, mas vivendo-o sob o gracioso senhorio de
Cristo, atuando na Sua missão. A oração da Igreja pela vinda do Senhor demonstra que
toda sua esperança está em Cristo e que ela não tem nada neste mundo onde coloque
sua confiança. A Igreja confessa que Cristo é o centro de sua história e vida e a única
razão para sua existência.

2.2 - Oração da Igreja e orações pagãs


A oração "Vem" aparece também em preces pagãs. Estas se caracterizam pelo uso
da fórmula fiM3q p o ~(Vem a mim). J. Schneider mostra que "com esta invocação, a
divindade é chamada a fim de cumprir desejos egoísticos do homem."' A diferença
radical destas orações para a oração de Ap 22.20 pode ser vista no fato que aquelas
forçam a divindade a atuar. A Igreja, porém, ora em humildade e expectativa esperanço-
sa. A Igreja ora, colocando-se sob as promessas de Deus e suplica que Deus a ensine
. ~ dos grandes pressupostos da escatologia bíblica é
a orar por aquilo que c ~ n v é mUm
que reconhece o senhorio de Deus. O homem não pode trazer o dia do Senhor por sua
própria força ou esforços.' Isto está na base da súplica para que o Senhor venha e
venha brevemente. Não há aí um esforço manipulador ou mágico, mas confiança base-
ada nas promessas de Deus.

h "The Return of Christ". 142.


' TDNT, 2: 666.
" T D N f , 2: 674.
' O. Cullrnann, "Eschatology and Missions in the New Testarnent", 410,411
O próprio Espírito Santo associa-se à Igreja, ensinando-a a orar assim (Ap 22.17). A
oração cristã fundamenta-se na graça de Deus, que misericordiosamente trata Sua
Igreja neste mundo e a convida a buscá-lo com confiança. A explicação de Martinho
Lutero para a segunda petição do Pai Nosso vem nesta direção: "O reino de Deus vem,
na verdade, por si mesmo, sem a nossa prece; mas suplicamos nesta petição que venha
também a nós." Lutero coloca sua atenção especialmente na vinda do reino da graça,
através do evangelho, mas o que ele diz se aplica a volta de Jesus em glória: a Igrcja
coloca-se humildemente sob as promessas de Deus na Escritura e diz "Amém" aquelas
palavras, com confiança e alegria.

-
2.3 Maranata
No estudo da oração, "Vem, Senhor Jesus", de Ap 22.20, é importante considerar
outra oração, de Paulo ao final de sua primeira carta aos Conntios - "Maranata" (1 Co
16.22). Esta palavra aramaica referc-se à vinda do Senhor. O que se pode discutir é o
pano de fundo da expressão, seu uso pela Igreja e seu exato significado.l0 A mesma
palavra é encontrada ainda apenas "nas orações que se associam com a oração do
Senhor no Didaquê (10.6, c. 100 A.D.), mas todas as referências subseqüentes se
baseiam em 1 Co 16.22."" Matthew Black chama a atenção para o contcxto de 1 Co
16.22que, em sua opinião, éimprecatório. Cita, então, palavras de C.F.D. Moulc:
Maranata significava "que o Senhor venha logo em julgamento para condenar
o erro e estabelecer o direito." Isto harmoniza com o apelo ao arrependimento
no Didaquê 10.6, que seria reforçado pela expectativa da vinda do Senhor no
futuro próximo.12

Desta fonna, Black faz uma ligação entre o "maranata" e a palavra anterior, "anáte-
ma". O autor utiliza Judas 14,15 e o livro de Enoque 1.9, citado por Judas, onde se
encontram as palavras "Eis que veio o Senhor". Black mostra que estas palavras faltam
no texto aramaico de 1 Enoque, mas argumenta com base na tradução grega que as
palavras perdidas poderiam ser exatamente "maran atha"; então conclui:

o contexto original da fórmula ntaranata em 1 Enoque 1.9, onde se refere ao


julgamento divino sobre os ímpios, não apcnas suporta a referência a parousia

R. P. Mnrtin traz um comentário iiiiporranre sobre o uso desta oraçZo, por Paulo. rrii I
Coríntios: "O emprego de uma frase aramaica somente pode ser explicado d r rnodo satisfatório
conforme a suposição de que Maruna ttru seja uma senha antiga que remonta aos dias mais antigos
da igreja na Palestina onde o aramaico era a língua falada. porque dificilmente podemos imaginar
por que Paulo se daria o trabalho de incluir um temio (numa língua que era desconhecida aos crentes
conntios) numa Epístola escrita àqueles que falavam e entendia111grego a não ser, na rçalidade, que
Muruilu thu tivesse sido aceito como termo litúrgico desde os dias mais primitivos da Igreja. Hoje
fazeirias livrc uso de uiria palavra tal como Amétn nas orações, sem parar para lembrar que nós
estamos empregando um termo hebrnico antigo. Mururiu rhu tornara-se uma parte aceita d o
\.ocabulirio religioso dos coriniios assim coirio Aniéiii (= 'Que assim seja') veio a ser parte do
nosso." (AdoraçÜO tia Igreja Prjmitivu, 37).
'I W. Muridle,"papava8a", NDITNT, 3: 668,669. O texto do Didaquê diz: "Venha a graça e passe

este inundo. Hosana a o Deus de Davi! S e alguim é santo, aproxiiiie-se; se nZo o é. arrependa-se:
'tarin atha'. Amém." (O Didaquê, São Paulo, Imprensa Metodista, 1980. p. 77,78.
' I Matthew Black, "The Maranatha Invocation and Jude 14,15 (1 Enoch 1.9)", 192.
no Novo Testamento, mas também pode explicar seu uso como um reforço ao
b c r & p : nenhuma fórmula prestar-se-iamelhor ao propósito de uma imprecação
ou excomunhão. Ao mesmo tempo, seria igualmente apropriado no contexto da
eucaristia, visto que a eucaristia contém, como um elemento integral em sua
estrutura, a proclamação da morte do Senhor, "até que Ele venha."13

Black chama a atenção para um aspecto importante, qual seja, o contexto eucarístico
da expressão "maranata" e sua ligação com o "anátema" de 1 Co 16.22. De fato, na
celebração da Ceia do Senhor há sempre uma espécie de 'Ijulgamento", no sentido que
nem todos são admitidos a ela. Certamente este é um dos elementos do uso do
"maranata" naquele contexto.

Entretanto, há que se questionar se este é o aspecto central daquela expressão


como oração daIgreja. Se em 1 Co 16.22 temos, por um lado, a proximidade do "anáte-
ma'', por outro lado, as palavras que seguem "maranata" são "A graça do Senhor Jesus
seja convosco" (1 Co 16.23). Tendo isto em mente, "maranata" pode ser entendido
também como uma oração jubilante que lembra ao crente que ainda vivemos no tempo
da graça de Cristo, aguardando pelo tempo quando Sua glória será demonstrada plena-
mente ao mundo e quando seremos reunidos comEle. Beasley-Murray também aponta
para este aspecto, tendo por base o contexto da passagem do Didaquê:

O contexto é de antecipação alegre da vinda do reino, vislumbrado pela Ceia do


Senhor, e o aspecto central da passagem é "Venha a graça". McrpcrvcrBcr teria
originalmente expressado um sentimento semelhante - o desejo ardente da
Igreja pelo retomo do Senhor. E esta súplica soaria acima de tudo na Ceia, onde
a presença do Senhor era reconhecida com ação de graças e a promessa "até
que Ele venha" era vividamente lembrada.14

Archibald Hunter considera "maranata", a partir de seu uso eucarístico, como


intimamente ligada à presença do Senhor com Seus discípulos após a ressurreição,
abençoando sua refeição (Lc 24.35; At 10.41). Hunter propõe que os cristãos da Igreja
primitiva utilizavam esta oração "quando invocavam seu Senhor vivo para agraciar sua
refeição com Sua presença"; o autor conclui:

Desta forma, esta pequena frase aramaica aponta para um tríplice referente: ( 1)
volta-se para o primeiro dia de Páscoa; (2) invoca a presença do Senhor ressus-
citado, através do Espírito, quando os cristãos se reúnem para "partir o pão"; e
(3) invoca o Senhor para que venha em glória."

Concluindo estas considerações sobre o significado e uso de "maranata", pode-


mos apontar que esta oração: 1) está ligada à Ceia do SENHOR; 2) refere-se à vinda do

" Black, "The Maranarha Invocation ...", 195.


" G. R. Reasley-Murray, The Bouk of Revelntion, 349.
'' A. M. Hunter, Prubing fhe Ne~vTestnment, 98.
Senhor na Ceia (não apenas para abençoar os participantes, mas para dar Seu corpo e
sangue, para serem comido e bebido com o pão e o vinho); 3) aponta para o fato de que
o Senhor virá novamente; 4) tem um certo caráter de juízo (a separação na Ceia do
Senhor e a grande separação que ocorrerá na segunda vinda); 5) tem um tom claramen-
te jubilante, por parte da Igreja, que celebra o fato de que o Senhor está presente com
Sua graça e voltará para dar a ela eterna glória.

2 . 4 . Opapel do Espírito Santo


"O Espírito e a noiva dizem: vem!" (Ap 22.17). "Noiva" é uma designação para a
Igreja, especialmente em um contexto escat~lógico.'~ Quanto à referência ao "Espírito",
a maior parte dos comentaristas concorda ser feita ao Espírito Santo. Swete propõe que
a referência seria entendida mais acuradamente como sendo feita ao "Espírito da profe-
cia, o Espírito na ordem profética" (cf. Ap 19.10). Desta forma, sem negar que o Espírito
Santo esteja pessoalmente presente, Swete entende que "o Espírito e a noiva" sejam
uma expressão figurada para "os profetas e os santos.""

Certamente o Espírito Santo pode ser sempre entendido à luz de Sua missão de
atuar através dos profetas. No entanto, a referência em 22.17 parece ser muito claramen-
te feita diretamente à pessoa do Espírito Santo. Cullmann comenta sobre o papel do
Espírito Santo na era vindoura:

É a ação do Espírito Santo que testifica que desde agora estamos vivendo nos
últimos tempos ... é o Espírito Santo que nos vestirá com um corpo espiritual.
Ele dará vida aos nossos corpos mortais (Rm 8.1 I), mas Ele já está atuando na
Igreja ... O Espírito é as primícias, o penhor (2 Co 1.22; Rm 8.23) ...A vitória de
Cristo sobre o pecado introduziu este reino do Espírito Santo na terra. Este
reino ainda pertence à era presente, mas ao fim desta era, já que o Espírito Santo,
que pertence à era vindoura, já está atuando nele.'"

Além desta presença e papel fundamentais do Espírito Santo na era vindoura, a


Escritura também mostra que há uma conexão entre Sua obra e a oração da Igreja. Rrn
8.26,27 deixa isto claro. O contexto tratada glória do céu, comparada a esta era (v. 18),
onde vivemos por esperança (v. 24), porque temos as primícias do Espírito (v. 23), e este
mesmo Espírito ora conosco, em nossa fraqueza, pois não sabemos realmente pelo que
orar. Sua intercessão pelos santos é "segundo a vontade de Deus" (v. 27).

'"obre este ponto comenta Beasley-Murray: "O ternio (noiva) não tem a necessária conotação
da consuniação da era vindoura, como 21.19s~podem implicar, mas mostra a Igreja destinada para
a felicidade da relação com Cristo no mundo por vir, como 19.7 sugere. No presente contexto, a
Igreja, antecipando seu futuro glorioso com seu Redentor. pode ser vista ... a paitir de sua existência
celestial em Cristo, o que vem a determinar sua existência empirica na terra. A Igreja de Cristo já é
essencialmente aquilo que está destinada a ser no dia de Cristo. A revelação de Sua glória será
também a revelação da glória da Igreja." (The Book of Revelation, 345)
" Henry B. Swete, The Apocalypse of St. John, 310. A mesma posigão é adotada por F. F. Bruce,
apesar de que ele não chega a separar de qualquer forma o Espírito Santo do "Espírito de profecia".
("The Spirit in the Apocalypse", 343).
'W. Cuilniann. "The Return of Christ", 155,156.
Em Ef 5.18-20, Paulo nos exorta a que estejamos cheios do Espírito, de modo que
possamos falar de uns para com os outros com salmos, hinos e cânticos espirituais,
sempre louvando a Deus através de Jesus. Neste texto proclamação da palavra e
oração estão lado a lado, sendo o Espírito Santo aquele que nos capacita a fazê-lo. Sem
o Espírito não há proclamação da palavra (fato que facilmente reconhecemos), mas sem
Ele também não há louvor, culto e oração.

É em um Santo Espírito que a Igreja tem acesso ao Pai, não importando de que
origem somos (gentios ou judeus) - Ef 2.18. Assim a Igreja ora em todo o tempo, "no
Espírito" (Ef 6.18; Jd 20). A oração da Igreja, portanto, é sempre uma oração "no
Espírito". É ensinada pelo Espírito e Ele mesmo ora por nós e conosco. Desta forma,
quando a Igreja ora, "Vem, Senhor Jesus", csta não é uma reação emocional da Igreja
ante todos os cventos tristcs que ocorrem no mundo que a cerca. Esta oração não é
uma fuga dos pcrigos destc mundo, movida por medo. É, de fato, cxpressão da Igreja
movida pelo Espírito, que tem a mentc de Deus e que sabe pelo que é necessário orar,
ou seja, pcia volta do Scnhor. Ao orar assim, a Igrcja está realmente dizendo "amém" à
palavra do próprio Senhor ( 2 2 . 2 0 ~"Venho logo"), reconhecendo que a vontade de
Dcus C perfeita, boa e misericordiosa. A Igreja não está só ao orar pela volta de Jesus.
O próprio Espírito Santo, enviado pelo Pai e pelo Filho, e que move a Igreja no testemu-
nho (Jo 15.26,27), se coloca com a Igreja e atua também nesta obra, de louvar a Deus c
suplicar pela brcve vinda de Cristo.

2.5 - O conteúdo da oração - "Vem"


Diferentemente do que acontece com Ap 22.20, não há concordância entrc os
estudiosos a respeito do referente do "vem" no v. 17. O verbo 'ípxopm é utilizado três
vezes no texto. A questão é: Quem é chamado a vir? Alguns intérpretes são da posição
que as duas primeiras cláusulas devam ser interpretadas pelas outras duas, assim que
"o Espírito c a noiva", bem como "aquele que ouve" estariam chamando o inundo
(aquele que tem scdc) a vir c rcccber a sa1vac;ão. Em outras palavras, todo o v. 17 seria
um chamado evangelístico."No entanto, também é possível Icr as duas últimas clhsu-
Ias do versículo à luz das duas primeiras. O Espírito c a Igrcja oram pela vinda do
Scnhor; aquele que ouve a mensagem (aqui focaliza-se o indivíduo) faz a mesma ora-
ção; ante o fato seguro da vinda do Senhor, o mundo C chnmado a vir c rcceber de graça
a salvação. Desta forma, as duas últimas cláusulas seriam evangelísticas, calcadas
sobrc a certeza escatológica da Igreja. O contexto aponta nesta direção. Desde o v. 12,
Jesus está falando ("Venho sem demora"). As duas primeiras frases do v. 17 são uma
resposta à prome~sa.~"

I y Esta é a opiniiío de L. Moms, The Book of Revelution, 254; G. B. Caird. A Commentury on

lhe Revellitioii of SI. John the Divine, 286; Siegberí Becker, Revelution - The Distunt Triumph Song,
369; Robert Mounce. The Book of revelution, 294.
O
' Entre os intérpretes que sustentam esta explicação, citamos: H. B. Swete, The Apocalypse of
SI.Joliii. 3 10; C. H. Little, Expluncrrion oj' the Book «f Revelotion, 23 1; Luther Poellot, revelutio~i.
ihe Lrrst Book i17 the Bible. 299; Johannes H . Rottmann, Vem. Senhor Jesiis, 315, 316; Martin H.
Franzinanii. The Revelutio~ito Johri, 146; Ricardo Foulkes, E1 Apoculipsis de Suri Juun, 236;
Picrre Prigcnt, O Apoctllipse, 425.
A oração da Igreja é feita em meio aos múltiplos desafios que ela enfrenta no
mundo, o que fica bem claro nas páginas anteriores de Apocalipse. Tal oração é feita na
confiança de que apenas Deus, através do retomo do Senhor, pode fazer uma mudança
real na ordem das coisas. Esta não é apenas a última nota do último livro da Bíblia, mas
um desejo ardente pelo retorno de Jesus, expresso em diversos outros lugares do
Novo Te~tamento.~' Robert Mounce enfatiza este mesmo aspecto, dizendo:

Ao final do livro está a confissão de que as respostas aos problemas da vida


não estão na habilidade do homem em criar um mundo melhor, mas no retorno
daquele cujo poder soberano controla o curso da humanidade ... A história da
redenção permanece incompleta até o retorno de Cristo. É pelo último ato do
grande drama da redenção que a Igreja aguarda e s p e r a n ~ o s a . ~ ~

Ao suplicar pela vinda do Senhor, a Igreja está confessando que não há outra espe-
rança para o mundo. Assim sendo, quando o ponto de referência para a Igreja é sua
situação atual (no mundo, mas não do mundo) aquela oração manifesta confiança de quc
o Senhor, pela Sua vinda, operará uma mudança radical nas coisas. No entanto, a Igreja
tem da parte do Senhor promessas claras de que Ele virá e que, por ocasião dc Sua vinda,
haverá julgamento e condenação sobre muitos. É digno de nota que oração de João (c da
Igreja) vcnha no final do livro de Apocalipse, após terem sido declaradas muito clxamen-
te as terríveis conseqüências que virão sobre os ímpios. Tendo isto em mente, a oracão
apresenta-se com uma conotação de um humilde "amém". João sabe (e assim a Igreja)
que Deus estará atuando em Suajustiça, quc pode aos olhos humanos parecer excessiva.
Mas não há questionamento aos caminhos divinos. Não se tenta racionalizar diante do
que se ouviu. Simplesmente é feita a prece: "vem!" A Igreja, em todos os tempos, tem a
garantia de que, mesmo sem entender racionalmente os caminhos de Deus, pode colocar
nele sua confiança e orar por aquilo que o Senhor prometeu.

Há que se reconhecer a importância no diálogo registrado no v. 20: "Sim, venho


logo!" - "Amém. Vem, Senhor Jesus!" O tom não é ditado por informações que se
trocam entre os interlocutores. Há, sim, um clima de promessa e confiança, que alegre-
mente se apega na promessa. Tais palavras, ao final do livro, mostram que o leitor e os
ouvintes (1.3) do livro têm todo o motivo para suplicar pelo retorno do S e n h ~ r .Neste
~'
sentido, a Igreja não apenas diz "amém" às palavras de Jesus sobre Sua volta. Ela
também se coloca, cheia de alegria, nesta oração, reconhecendo que Deus dará a coroa
da justiça a "todos quantos amam Sua vinda" (2 Tm 4.8).

3.A ORAW
DA IGREJA E SUA MISSÃO

O livro de Apocalipse (e a Escritura como um todo) conclui com a oração pela vinda
do Senhor. É apropriado perguntar: que relação há entre esta oração da Igreja e sua

" L. Morris, The Book of Revelarion, 255.


" Robert Mounce, The Book of Revelarion, 396.
" H . B. Swete, The Apocalypse of Sr. John, 313.
missão de proclamar a palavra de Cristo? Colocada de forma mais abrangente, a ques-
tão fica: que relação há entre escatologia e missão'?

Há quem pense que a Igreja vive por demais "no céu", esquecendo-se da vida, com
seus desafios, aqui e agora. Esta não é, porém, a visão escatológica do Novo Testa-
mento. Nas palavras de Cullmann, "para a fé cristã, o tempo presente é mais do que uma
passagem de tempo trivial e indiferente. É, sim, o tempo da g r a ~ ao, tempo do fim."24Se,
por um lado, o povo de Deus neste mundo é chamado a pensar "nas coisas lá do alto"
(C1 3. lss), por outro lado, o Novo Testamento apresenta com freqüência os imperativos
da ação da Igreja neste mundo, particularmente na obra missionária (Mt 28.19,20; Lc
24.47,48; 1 Pe 3.15; etc.). De fato, a expectativa escatológica e missão não são mutua-
mente exclusivas:

A determinação escatológica do presente não contém uma paralisia na ativida-


de da Igreja; pelo contrário, inspira e encoraja a Igreja da forma mais efetiva.
Temos evidência disto na simultaneidade entre a esperança viva e a intensa
preocupação missionária da Igreja

Podemos reconhecer que a Igreja recebe incentivo para seu trabalho no fato de que
Deus trará, em Sua onipotência e bondade, a nova criação. A vinda do reino em sua
plenitude não depende da Igreja, mas de Deus. Isto traz a Igreja a liberdade evangélica
de vivei-e trabalhar alegremente neste mundo, pois Deus mesmo, em Sua graça, dirige
o curso da história deste mundo, tendo em vista o benefício de Sua Igreja e a missão.

Visto neste contexto, o trabalho missionário da Igreja expressa a convicção de que


evangelização é um elemento constitutivo do plano escatológico de Deus. A esperan-
ça bíblica pelo fim fica sendo, pois, um incentivo vigoroso à ação da Igrejaz6Afinal,
Deus traz o fim deste mundo e a concretização de Seu reino, não sem antes fazer
anunciar ao mundo Sua graçamanifesta em Cristo, no qual se reconciliou com o mundo
objetivamente.

Já tivemos a ocasião de reconhecer que escatologia e missão são vistos lado a lado
em Ap 22.17. A Igreja como um todo, movida pelo Espírito, e cada cristão individual que
ouve as palavras sobre a vinda do Senhor, oram: "Vem!" Mas aqueles que ainda não
desfrutam da água da vida são chamados a receber, gratuitamente, a salvação. A Igreja,
que oraconfiante pelo iminente retomo de Jesus, emprega o tempo que ainda tem neste
mundo para anunciar o evangelho da reconciliação. Assim convida os pecadores a
participarem das bodas do Cordeiro (19.9,lO). É significativo que a Igreja, chamada a
estar pronta para a vinda do Senhor, tem sua atenção dirigida aos que ainda não o
aguardam com fé. Não é próprio, portanto, separar a expectativa pela parousia do
trabalho de proclamação ao mundo. Oração e proclamação andam lado a lado. Vale aqui

'' O. Cullinann, "TheReturn of Christ", 159.


'' Id..160.
'' O. Cullmann, "Escathology and Missions in the New Testament", 409.
a observação de C. H. Little, de que os convites apresentados na segunda parte de
22.17 "são convites enfáticos à participação na promessa dada em 21.6. Trazer as
pessoas para esta participação é o propósito final deste livro."27

Há ainda outra conexão entre a oração da Igreja e o trabalho missionário. Esta


oração acentua dois aspectos na missão: 1) a urgência do trabalho; 2) a completa
dependência ao Senhor. Jesus mesmo prometeu voltar brevemente. O tempo é curto e
precisa ser bem aproveitado. Da mesma forma, a missão nestes tempos do fim é vista
como, antes de mais nada, obra do próprio Deus. É Ele que fala ao pecador nas palavras
da profecia; Ele se coloca como responsável pela seriedade das palavras anunciadas
(Ap 22.1 8,19). O Senhor Jesus se apresenta como a "Palavrade Deus" (19.13) e chama
os homens ao arrependimento (o que fica muito claro nas cartas às sete igrejas). A
Igreja, por isso, se coloca fielmente diante do Seu Senhor e atua como instrumento,
reconhecendo que o trabalho e os resultados são dele.

A oração da Igreja é um exemplo de uma súplica baseada na promessa de Deus.


Afinal, ela está fundamentada na declaração, muitas vezes anunciada, de que o Senhor
voltará brevemente. Ela não é, então, um clamor desesperado em busca de paz. É, sim,
o "amém" solene do povo de Deus diante de uma promessa clara. A vinda do Senhor
implicajulgamento (6.17; 11.17; 14.7,15; 18.10),mas também, e esta é uma palavraespe-
cial para a Igreja, alegria (19.7). Desta forma, a oração ao final de Apocalipse (22.17 e 20)
é um "amém" muito próprio para o livro de Apocalipse, e para a Bíblia como um todo.
Afinal, o Crucificado e Ressurreto, de quem toda a Escritura dá testemunho de Sua obra
redentora, é o mesmo que voltará para julgar vivos e mortos, trazendo ao pleno cumpri-
mento o reino de Deus. O Espírito coloca estas palavras na boca da noiva e é o mesmo
Espírito que opera no mundo a fé no Senhor.

A oração final de Apocalipse é, por assim dizer, a resposta que o "Revelador"


espera naquele que lê e naqueles que ouvem (1.3). Ao mesmo tempo, a Igreja reconhe-
ce que não há contradição entre seu desejo pela volta breve do Senhor e a necessidade
de proclamar o evangelho durante todo o tempo de que dispõe, com o devido seiiso de
urgência e sabendo de sua dependência ao Senhor.

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Gerson Luís Flor e Acir Raynlann

O Salmo 1, por sua posição, é geralmente considerado uma introdução a todo o


Saltério. Assim sendo, sua teologia reveste-se de especial importância. Visto que a
temática dos dois caminhos e dois destinos pode facilmente levar a um "evangelho da
prosperidade", uma das muitas facetas contemporâneas da teologia da glória, este
estudo pretende analisar o salmo e sua relação com a teologia da cruz de Lutero,
partindo de uma análise dos pontos principais da teologia da cruz. Esta análise preten-
de contribuir para o estudo dos salmos a partir de uma hermenêutica comprometida
com a verdade bíblica e os princípios daReformae, como tal, um instrumento a dispo-
sição de todos aqueles que buscam na Palavra de Deus a única mensagem que verda-
deiramente consolae vivifica: Cristo Jesus, e este crucificado (1Co 2.2).

TEOLOGIA
DA CRUZ
EM LUTERO
Se se quisesse realmente fazer justiça a Lutero, uma análise da sua teologia da cruz
deveria levar em conta toda a sua obra. Afinal, ao contrário da visão difundida por Otto
Ritschl no início do século XX,' que considerava a teologia da cruz como a fase
monástica, pré-reformatória de Lutero, hoje há mais consenso quanto i fidelidade de
Lutero à sua teologia da cruz em todo o seu percurso como reformador.?

No entanto, devido às limitações deste estudo, nossa análise ficará restrita à teolo-
gia da cruz conforme colocada por Lutero no Debate de Heidelberg, de 1518.3 A formu-
lação ali apresentada, além de definir com toda a clareza a proposta do reformador,
permanece inalterada e subjacente em todos os seus escritos posteriores. Afinal, o
Debate de Heidelberg não só expõe a teologia da cruz de Lutero como também, de
acordo com Heinrich Bomkamm, do ponto de vista da formulação teológica, seria o
evento inaugural da Reforma.4

Rev. Gerson Luís Flur é pastor em Vila Prugresso, RS. Rev. Acir Raymatiti é professor de teologia
exegética do Antigo Testamento nu Seniináriu Concórdia. Este artigo é resultado da munografia
de conciusão de curso de teologia escrito pelo primeiru ein 1998 e orientadu pelu segunda
I Apud LOEWENICH, Walther von. A Teolugia da Cruz de Lutero. Ilson Kayser e Walter
Schlupp, trad. São Leopoldo, Sinodal, 1988, p. 9-10, n. 2.
Ibid., p. 11-2; EBELING, Gerhard. O Pensanientu de Lulero. Helberto Michel, tnd. São Leopoldo,
Sinodal, 1988, p. 181; PRENTER, Regin. Lutherk Theolugy of the Cruss. Philadelphia, Fortress,
1971, p. 3.
LUTERO, Martinho. O Debate de Heidelberg. In: Obras Selecionadas. Walter Schlupp, trad. São
LeopoldolPorto Alegre, SinodaiíConcórdia, 1987, v. I, p. 35-54. Doravante indicado por OS.
BORNKAMM, Heinrich. The Heari of lhe Reforrnaiion Faiih. New York, Harper and Row,
1965, p. 46-7.
Na exposição do Debate de Heidelberg, podemos apontar para três pilares de
sustentação da teologia da cruz: a vontade cativa, a relação entre Deus abscôndito e
revelado, e a relação entre fé e vida sob a cruz.

A VONTADE CATIVA
Os comentaristas de Lutero geralmente se concentram nas teses 19-21 do Debate
de Heidelberg ao analisar a teologia da cruz." distinção entre as duas teologias,
porém, não se restringe a esta seção do Debate, mas é de fato o seu conteúdo central.
Nesta perspectiva, as primeiras 18 teses, que estabelecem a vontade cativa (principal-
mente as teses 13-16), são um aspecto básico da teologia da cruz.

Isso fica especialmente claro na tese 13, cuja exposição é encerrada com a citação
de Oséias 13.9, mostrando que toda a argumentação da teologia da cruz pressupõe a
incapacidade do homem em conhecer ou justificar-se diante de Deus. Assim, a teologia
da cruz coloca o homem na dependência completa de Deus, visto que por iniciativa
própria não se pode ter conhecimento verdadeiro de Deus.

DEUS
ABSCONDITO E REVELADO
Aqui encontramos o coração da teologia da cruz (teses 19-20). Não tendo sido
adorado pelos homens em sua glória, Deus escolheu ocultar-se no escândalo e na igno-
riiínia da cruz; onde ninguém iria procurá-lo, ali ele revelou-se e quer ser reconhecido.

O homem, por si próprio, busca a Deus através da contemplação da sua glória


manifesta na criação. Mas "o conhecimento disto tudo não o torna digno nem ~ á b i o " , ~
como Romanos 1 evidencia. Este conhecimento não leva à salvação. Conhecimento
verdadeiro de Deus, o homem só pode receber da mão do próprio Deus.

E Deus revelou-se criando um paradoxo: o Deus revelado é um Deus abscôndito,


que se esconde atrás de máscaras, que se disfarça para que não possamos ver a sua
face, mas apenas o seu oposto. Paul Althaus afirma que

Toda verdadeira teologia é "sabedoria da cruz." Isso significa que a cruz é o


padrão pelo qual todo conhecimento teológico é medido, seja da realidade de
Deus, de sua graça, da sua salvação, da vida cristã ou da Igreja de Cristo. A cruz
significa que todas estas realidades estão ocultas. A cniz oculta o próprio
Deus. Pois ela revela não o poder, mas a fraqueza de Deus. O poder de Deus não
se mostra diretamente, mas, paradoxalmente, sob a fraqueza e a b a i ~ e z a . ~

- - - - - - - - - - - --
i DREHER, Martin. In: OS I, 37; LOEWENICH, op. cit., p. 15-24; KADAI, Heino. Luther's
Theology of the Cross. In: Accents in LutherS Theologv. Heino Kadai, ed. Saint Louis, Concordia,
1967, p. 239.
" O S I, 49.
ALTHAUS. Paul. The Theology of the Cross. In: Theology of Martin Luther. Robert Schultz,
trad. Philadelphia, Fortress. 1966, p. 30.
O ocultamento de Deus mostra ao homem que não é ele quem busca a Deus através
da especulação ou das obras, mas Deus o busca pela revelação e pela cruz. Como
coloca Karl Wegenroth, "a cruz é o sujeito, e não o objeto da Te~logia".~
Em suma, o
Deus abscôndito anula toda a possibilidade do homem conhecê-lo e estabelece a sua
revelação como único ponto de contato entre ambos.

Loewenich resumiu esta relação entre o Deus abscôndito e o Deus revelado da


seguinte maneira: "Teologia legítima precisa estar plenamente consciente de ser teolo-
gia da revelação. Deus falou, por isso podemos falara respeito de Deus. Deus mostrou-
se, por isso sabemos para onde olharn.9

FÉ E VIDA SOB A CRUZ


Como conseqüência direta do ocultamento de Deus, também a vida do cristão está
oculta sob a fraqueza, a vergonha, o sofrimento. Pois quando Lutero afirma que "Deus
não é encontrado senão nos sofrimentos e na cruz",l0ele quer dizer que a cruz de Cristo
e a do crente são inseparáveis. Não se pode negar uma sem perder a outra:

"Sob a cruz" significa sob a cruz em que Jesus, nosso Redentor, tomou a nossa
punição, e sob a cruz que meu Criador colocou sobre mim em meu sofrimento e
em minha morte. Em ambos os casos estamos falando da mesma cruz. Mas uma
cruz que é unicamente objetiva (alheia a nós) ou subjetiva (nossa, pessoal) não
é a cruz de Cristo, que é o meio da nossa salvação.1~

Isso, porém, não está ao alcance do homem. Só é possível através da fé, que é "a
arte de compreender a Deus no seu oposto".l2 Lutero entendia a fé a partir de Hebreus
1 1 .I, como sendo certeza das coisas ocultas, contrária a toda aparência. Por isso ela é
a única via para se chegar ao conhecimento de Deus, já que o Deus oculto sub contra-
ria specic é escândalo e loucura para a razão. É o que Lutero quer mostrar nas teses 4
e 16do debate, ao afumar que Deus opera em nós a sua obra estranha para poder operar
a própria, fazendo-nos desesperar completamente de nós mesmos para que, pela "con-
fiança nua e crua na sua misericórdia",~3coloquemosa nossa esperança "em Cristo, no
qual está a nossa salvação, vida e ressurreição".~4

Em última análise, "a teologia da cruz é a teologia da fC.15 Fé que desespera de si


mesma para confiar unicamente na graça de Deus; fé que se despoja de toda sabedoria
para agarrar-se à loucura da cruz; fé que vê a mão bondosa de Deus mesmo sob o

WEGENROTH, Karl. The Theology of the Cross. Concordia Theologicul Quarterly 46 (1982): 270.
9 LOEWENICH, op. cit., p. 16.
OS 1, 50.
1 ' PRENTER, op. cit., p. 18.
l 2 ALTHAUS, op. cit., p. 32.
OS 1, 42.
l4 Ibid., 48.
ALTHAUS, op. cit. p. 33-4.
sofrimento, o abandono e a morte. E nesta perspectiva, compreendemos a importância
da teologia da cruz dentro da obra de Lutero e podemos concordar com Regin Prenter
quando afirma que "a teologia da cruz . . . é idêntica à principal doutrina luterana, da
justificação dos pecadores pela fé somente", pois "o conteúdo da palavra sobre a cruz
é sempre a cruz histórica de Jesus Cristo . . . que aponta para a crucificação de todo
pecado e auto-justificação humanos ".I6

TEOLOGIA
DA CRUZCOMO PRINUPIO HERMENÊL~CO
Loewenich, em sua Teologia da Cruz de Lutero, afirma que "teologia da cruz não é
capítulo da teologia, mas é determinada maneira de fazer teologia".~7Esta a f i i a ç ã o ,
quando retirada de seu contexto, coloca a teologia da cruz como um princípio hermenêutico
escolhido de modo arbitrário. Ora, se isso ocorre, então a própria teologia da cruz passa
a ser teologia da glória, visto que se impõe como chave para a revelação.

Qualquer princípio hermenêutico, para ser aceito, deve comprovar sua validade a
luz da Escritura. De outro modo, passa a ser um elemento humano imposto como chave
a revelação. Ou seja, de acordo com o princípio da Reforma de que a Escritura deve
interpretar a si mesma, nenhum modo defazerteologia pode ser aceito se não compro-
var-se também capítulo da teologia, ensinado claramente pela Palavra de Deus.

E este é o caso da teologia da cruz. Aliás, ela não apenas é capítulo da teologia, mas
trata-se do capítulo-chave da Escritura. Seu locus clássico é 1 Conntios 1.18-2.16, onde
Lutero buscou a expressão "teologia da cruz". Mas o que Paulo chama ali de palavra úa
cruz é tema de inúmeras outras passagens, como Gálatas 3, onde a mesma expressão Cristo
cnlcijicado resume a mensagem do evangelho. No próprio Debate de Heidelberg, Lutero
cita vários textos: Romanos 1;João4,14; 2 Coríntios 6; Filipenses 3; Isaías 45,53. A esta lista
poderíamos acrescentar outras passagens, como Marcos 8.31-38 e Filipenses 2.5-I 1, etc.

A afirmação de Loewenich, portanto, precisa de uma simples mas capital alteração -


deveríamos dizer que "teologia da cruz não é apenas capítulo da teologia, mas também
determinadamaneira de fazer teologia". Dessa forma, estaríamos sendo mais acurados na
interpretação do que Lutero compreendeu por teologia da cruz, como mostra Prenter:
"Lutero considerava a teologia da cruz não como meramente uma parte da teologia, mas
como a teologia em sua totalidade, isto é, teologia na medida em que é perfeitamente
capaz de compreender a unidade que está na base das antíteses nas obras divinas".l8

A TEOLOGIA
DA GLÓRIA NAS TEOLOGIAS DE HOJE
A luta de Lutero em defesa da teologia da CNZ não impediu que a teologia da glória
influenciasse o pensamento teológico subseqüente. Diversas "teologias" contempo-

' V R E N T E R , op. cit., p. 4-5.


' 7 LOEWENICH, op. cit., p. 14.
'"RENTER, op. cit., p. 2 .
râneas, inclusive dentro do luteranismo, revelam traços característicos da teologia da
glória. Uma análise rápida de algumas dessas tendências teológicas poderá evidenciar
o quanto o Evangelho pode ser assim obscurecido. Tomaremos por base o paradigma
sugerido por Prenter, de que a teologia da glória pode assumir duas faces - uma
teologia da cruz sem a palavra, ou uma teologia da palavra sem a cruz.

No primeiro grupo, que prega a cruz sem a palavra, destaca-se o secularismo, como
apresentado por teólogos como Rudolph Bultmann e Dietrich Bonhoeffer. Ambos, em
maior ou menor grau, enfatizam a necessidade do cristão estar crucificado com Cristo.
Mas este estar crucificado com Cristo não significa, como em Gálatas 2.19, abandonar
a justiça própria e confiar na perfeição da obra de Cristo sobre a cruz, e sim que o crente
deve, em sua vida, em meio ao sofrimento, carregar a sua própria cruz.

Em Bultmann, a negação da teologia da cruz é mais visível, na medida em que ele se


propõe a "desmitologizar" o evento da cruz, ou seja, esvaziá-lo do seu significado sacrificial
e forense. Para ele, na cruz de Cristo Deus estabelece a CNZ de cada indivíduo. Crer na cruz
de Cristo não significa, enião, olhar para um evento histórico do passado como algo feito
em nosso favor, mas fazer da cruz de Cristo a nossa própria, sob a qual nos dispomos a
assumir o sofrimento em nossa vida presente.19 O Jesus histórico não tem um papel essen-
cial para o homem de hoje. Este precisa experimentara cruz de Cristo no seu viver concreto.

Embora Bonhoeffer não fale em desmitologizaçãonem rejeite o caráter expiatório da


cruz de Cristo, concorda com Bultmann quanto à necessidade do crente sofrer e ser
rejeitado. Bonhoeffer combate o barateamento da graça enfatizando a impossibilidade
de fé e obediência existirem separadamente. Mas enquanto Lutero deixa claro que "é
sem a nossa obra que a graça e a fé são infundidas, ao que, de imediato, se seguem as
obras . . . que não são nossas, mas de DeusW,20Bonhoeffer afirma algo bem diverso:

Se, porém, se procurar estabelecer cronologicamente que primeiro se há que


crer, seguindo, depois, a obediência, então a fé e a obediência são separadas
uma da outra, ficando em aberto o seguinte problema eminentemente prático:
Quando deve começar a obediência? (. . .)
Só o obediente é que crê. É necessário prestar obediência a uma ordem concreta,
para que a fé não se transforme numa piedosa ilusão ou na graça que chamamos
barata. Tudo depende do primeiro passo, que se distingue qualitativamente de
todos que seguem. A fé só é possível nesta nova obediência que se criou. (. . .)
Esse passo pode-o qualquer pessoa dar, todo homem tem liberdade para dá-lo.
É um ato situado dentro do âmbito da "iustitia civilis", em que o homem é livre.21

Bonhoeffer ainda afirma em seguida que "o primeiro passo como ato puramente

BULTMANN, Rudolph. Novo Testamento e Mitologia. In: Crer e Compreender. Walter


Altmann, trad. São Leopoldo, Sinodal, 1987, p. 40-1.
2U OS 1, 52. Embora use o termo infundir, Lutero rejeita o conceito escolástico de grariu inj'usu.
2' BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Ilson Kayser, trad. São Leopoldo, Sinodal, 1984, p.
25-6.
externo, constitui e permanece uma obra morta da lei, e que, em si, nunca conduz a
Cristo"22, mas isso não altera nada. Se uma obra, mesmo que morta, é requisito para se
receber afé, então o livre arbítrio está instituído. Tal idéia afronta a teologia da cruz, na
medida em que afirma que através de um pecado o homem se torna apto para receber a
graça, não chamando de pecado o que é pecado, nem de mal o que é mal, o que é
exatamente o que define o teólogo da glória.23

Tanto em Bultmann como em Bonhoeffer, portanto, a cruz de Cristo exige uma


i~~lirario,
uma militância que não só é observável, mas, embora evite-se afirmar com
clareza, gera mérito, no sentido que serve de comprovação à fé.

Também a Teologia da Libertação pode ser descrita como teologia da cruz sem a
palavra. Na sua base, está a mesma pergunta que gerou a teologia desmitologizante de
Bultmann: "Qual a relevância do evangelho para o homem de hoje?"24 Como no
secularismo, sujeita-se a importância da mensagem bíblica para o homem à sua utilida-
de no processo de busca de justiça neste mundo. Não se pergunta por salvação ou
perdão de pecados, mas pelo bem estar aqui e agora. Não é na sua Palavra que Deus se
revela, mas na luta dos oprimidos por pão e justiça. Não é a Palavra de Deus que dirige
os caminhos do povo, mas o povo é quem determina onde quer ir e então procura na
Palavra um estímulo para a caminhada.

O movimento ecumênico também corre o risco de identificar-se com uma teologia


da glória na medida em que, na busca da superação das divergências existentes entre
os diversos grupos cristãos, esquece "que a doutrina pura é crucialmente importante e
que a unidade eclesial não deveria ser obtida às custas das ~erdade".~SIsso, em outras
palavras, seria colocar algo humano - o desejo de unidade da igreja visível - acima de
algo divino - apureza do Evangelho de Cristo. Heino Kadai coloca a questão ecumênica
na perspectiva correta, ao afirmar que "Deus é capaz e pode atender as orações fervo-
rosas da maioria dos cristãos por uma verdadeira e rápida unidade. Porém, a unidade
não deve ser criada por razões erradas - por theologia gloriae".26

Uma teologia sui generis, onde nem a cruz nem a Palavra permanecem, é o pós-
modernismo teológico, caracterizado por um pluralismo radical que não rejeita credos,
quaisquer que sejam. Todos expressam a verdade religiosa de um certo grupo. Isolar
uma dessas verdades em detrimento das demais é uma violência i d e o l ó g i ~ a Nesta
.~~
visão, a palavra da cruz de 1 Coríntios 1 é apenas uma das muitas possibilidades
religiosas para o homem, e a sabedoria do mundo é tão válida quanto a de Deus.

22 Ibid., p. 26.
2' OS 1, 50.
SCHOLZ, Vilson. A Hermenêutica da Teologia da Libertação. Igreja Luterana 47 (1988): 20.
25 DULLES, Avery. Apud DEPARTMENT OF SYSTEMATIC THEOLOGY - CONCORDIA
THEOLOGICAL SEMINARY. Joint LutheranIRoman Catholic Declaration on Justification:
A Response. Concordia Theological Quarterly 62 (1998): 104.
2h KADAI, op. cit., p. 265.
27 GRENZ, Stanley J. Pús-modernismo: um guia pura entender a filosofia do nosso tempo.
Antivan G. Mendes, trad. São Paulo, Vida Nova, 1997, p. 33-4.
Entre as teologias da palavra sem a cruz, o pentecostalismo ocupa papel de destaque.
Sua ênfase nos dons carismáticos do Espírito transforma a cruz de Cristo em uma etapa
necessária para se atingir o que realmente é distintivo na vida do cristão - a plenitude do
Espírito.Essa plenitude se manifesta em uma vida de obediência à "lei de Cristo" (ou seja,
santificação total) e nos dons do Espírito Santo - glossolalia e curas.28 Logo, a presença
do Espírito precisa ser manifesta através dos dons carismáticos e da vida regenerada.

Isso, porém, outra coisa não é do que enxergar "as coisas invisíveis de Deus
compreendendo-as por intermédio daquelas que estão feitasM.29 É teologia da glória na
sua forma mais cristalina: Deus precisa demonstrar sua presença com poder, glória,
justiça, bondade, e não sob o seu aspecto contrário, revelado na fraqueza, na humilha-
ção, no sofrimento, na cruz. Estas coisas são escândalo e pedra de tropeço.

Mais claramente do que no pentecostalismo, porém, a teologia da glória apresenta-se


no assim chamado Evangelho da Prosperidade. As origens deste movimento remontam
ao Catecismo de Heidelberg, documento confessional das igrejas reformadas. A questão
86 deste catecismo, "por que devemos fazer boas obras?', recebe a seguinte resposta:

Que com toda a nossa vida possamos nos mostrar gratos a Deus por sua
bênção, e que ele possa ser glorificado através de nós; que nos certifiquemos
de nossa fé pelos frutos que ela produz, e que por nosso andar piedoso possa-
mos trazer nosso próximo também a Cristo.30

Ou seja, Deus deve ser glorificado em seus filhos, e o cristão certifica-se de sua fé
quando produz frutos; logo, se o poder e a bênção de Deus não se manifestam através
dele, ele não pode estar certo de sua salvação. O Evangelho da Prosperidade leva esta
questão aos últimos extremos:

Nós, como cristãos, não precisamos sofrer revezes financeiros; não precisamos
ser cativos da pobreza ou da enfermidade! Deus proverá a cura e a prosperida-
de para Seus filhos se eles obedecerem aos Seus mandamentos . . . Deus quer
que seus filhos . . . tenham o melhor de tudo.31

Desta forma, a saúde e a prosperidade são características inalienáveis do cristão


verdadeiro. São um direito que ele possui por ser filho de Deus. Se algo vai mal em sua
vida, é porque algo está mal no plano espiritual - ou sua fé não é suficiente, ou não é
verdadeira. Portanto, é possível distinguir claramente quem são os crentes e os des-
crentes. Basta olhar para a sua aparência. Sofrimento, cruz e humilhação não vêm de
Deus, mas da falta de fé em Deus. Deus que, absolutamente, nada tem a ver com o Deus
de Lutero e da teologia da cruz.

2R MAYER, F. E. Ttze Religious Bodies of America. 2. ed. Saint Louis, Concordia, 1956, p. 317-20.
2y os 1. 49.
SCHAFF, Philip. Creeds of Chl-isfendom.4. ed. New York, Harper & B r o t h e ~ s.d.
, , v. 3, p. 338.
3' Apud PIERRAT, Alan. O Evangelho du Prosperidade. 2. ed. Robinson Malkomes, trad. São
Paulo. Vida Nova, 1996, p. 52.
Como devemos entender a mensagem do Salmo 1, que promete prosperidade ao
justo e destruição ao ímpio, diante deste mosaico de teologias da glória?. Será ele um
salmo da glória, ou um salmo da cruz? De que Deus ele fala: do Deus que se manifesta
visivelmente em suas obras, ou do Deus que se esconde sob o aspecto contrário?
Estas são as questões que nos empenharemos em responder à luz do primeiro livro do
Saltério.

Pos~çÃo
NO SALTÉRIO E AUTORIA
O Salmo 1 é visto quase unanimemente como uma introdução ao S a l t é r i ~Para .~~
Mitchell Dahood, ele "é mais que uma introdução ao Saltério; ele é, na verdade, uma
prévia do Livro dos Salmosfi.3' A principal razão para esta suposição é a ausência de
uma superscrição, o que só ocorre em quatro salmos do Livro I (SI 1-41): 1 , 2 , 1 0e 33.
Mas a afirmação de Dahood mostra que se reconhece também em seu conteúdo algo
especial. Não é qualquer salmo que poderia ser ali colocado; era necessário um salmo
que resumisse a linha de pensamento que perpassa todo o Saltério: somente na comu-
nhão com Deus através da sua Palavra o homem encontra salvação, felicidade e vida
verdadeiras.

Quando se procura investigar a data e a autoria do Salmo 1, as dificuldades são


diversas. A ausência de uma superscrição indicando o autor é apenas a primeira delas.
A linguagem do salmo pode sugerir diversos autores e épocas, pela similaridade do
texto com outras passagens bíblicas. Franz Delitzsch e A. F. Kirkpatrick sugerem que o
salmo seja anterior ao tempo de Jeremias, que o parafraseia em Jeremias 17.8, mas não
ao de Salomão,já que a raiz y-5 é típica da literatura ~apiencial.~4

Os comentaristas, porém, siio praticamente unânimes em atribuir uma data avança-


da para o salmo e em rotulá-lo como um "salmo de sabedoriafl,35por refletir a linguagem
e a temáticados escritos sapienciais, como a Lei como fonte de felicidade e o contraste
entre justos e ímpios. Otto Eissfeld, porém, falando sobre os Salmos 1, 128 e 133,
observa com uma prudência incomum:

32 Por exemplo: DELITZSCH, F. Biblicul Cor>rmenturyon rhe Psulms. Francis Bolton, trad.
Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans, 1952, p. 82; EISSFELDT, Otto. The Old Tesrument - An
Introducrion. P. R. Ackroyd, trad. New York / Evanston, Harper and Row, 1965, p. 449;
sCHOKEL, Luis Alonso e CARNITI, Cecilia. Sulmos. Estella, Verbo Divino, 1992, v. 1, p.
13 I .
" DAHOOD, Mitchell. Psulms I. In: The Anchor Bible. New York, Doubleday, 1966, p. 1
'4 DELITZSCH, op. cit., p. 83; KIRKPATRICK, A. E, ed. The Book qf Psalms. Cambridge,
University Press, 1917, p. 1.
j5 DAHOOD, op. cit., p. 1; KRAUS, Hans-Joachim. Los Sulmos. Constantino Ruiz-Ganido, trad.

Salarnanca, Sígueme, 1993. v. 2, p. 182-3; SCHOKEL, op. cit., p. 131. Outros salmos assim
rotulados sáo: 37. 49, 73, 78, 111, 112, 128 e 133, cf. EISSFELDT, op. cit., p. 125.
Aqui é uma atitude ética e religiosa que é louvada, e não o ideal do sábio, e isto
poderia indicar que a inclusão destes salmos no grupo dos poemas sapienciais
não se justifica. De fato, eles não são verdadeiros poemas sapienciais, mas são
incluídos nesse grupo na medida em que revelam suas características próprias,
embora tenham substituído a sabedoria que é normalmente glorificada nos
poemas do grupo pela fidelidade à lei e o temor de Deus.36

Assim, se admitirmos que a terminologia não é indício suficiente para se fixar a data
de composição de um texto, nada prende o salmo à época sapiencial. Sua posição pode
indicar que por ocasião da composição do Livro I este salmo já fosse bem conhecido,
o que possibilitaria a autoriadavídica ou mesmo anterior. Esses argumentos, evidente-
mente, não pretendem ser conclusivos, mas permitem olhar para o texto de um ângulo
diferente do imposto pela crítica das formas que, como observa Luis Alonso Schokel,
tem sido adotado quase unanimemente, embora totalmente apriorístico.37 A autoria e a
data do Salmo 1 são e continuarão a ser incertas, assim como sua classificação dentro
de um grupo ou categoria específica de salmos.

FELLZ
O HOMEM
O construto plural ~ u éw usado 26 vezes nos salmos, expressando felicidade ou
bênção de forma enfática: "[muitas são] as felicidades do homem, verdadeiramente
feliz é o homem". Possui traços distintos do termo usual para bênção, 717: . Em
primeiro lugar, a pessoa que declara alguém 77uw nunca lhe está conferindo uma
bênção; ela apenas testemunha uma realidade. Isso fica claro no esquema propos-
to por Waldemar Janzen:

~ediador I
Bênção
(rei, sacerdote, etc.) I

Portanto, a fórmula expressa o sentimento do observador, e não de quem é obser-


vado. Para Janzen, o traço distintivo de -7uu é expressar um desejo invejoso: "Louvor,
saudação e admoestação podem todos ser expressos através dele, mas apenas em uma
situação em que um toque de inveja é apropriado e lhes dá o característico sabor
'aSrê".j9Isso não significa que seja um termo mais "secular" do que 117: , como
?YWK

)"ISSFELDT, op. cit., p. 126.


37 SCHOKEL, op. cit., p. 60.
28 JANZEN, Waldemar. 'a.Srê in the Old Testament. Harvard T/zeological Review, 58 (1965):
224.
3y Ibid., p. 225.
sugere Hans-Joachim Kraus.40 mas que didaticamente é mais adequado, por apontar a
pessoa como modelo a ser admirado e seguido, o que explica por que Deus nunca é
sujeito nem objeto da declaração.

Com a exceção de Gênesis 30.13, onde o termo é reflexivo,a fórmula não implica que
a pessoa declarada perceba sua felicidade ou bênção:

Há emoção envolvida, embora não da parte daquele que é declarado 'airê,mas


sim da parte daquele que faz o pronunciamento. (. . .) Ele mesmo seria feliz se
estivesse na situação do outro, e nesse sentido vicário imputa "felicidade" ao
outro. Mas não há razão para supor que aquele que é declarado 'aSrê experi-
mente felicidade ou qualquer outra emoção.41

Exemplo claro disso é I Reis 10.8, onde a rainha de Sabá declara os servos de
~ ; provável que eles tivessem o mesmo sentimento.Também não é
S a l o m ã o * ~é ~POUCO
necessário que o observador perceba no presente a felicidade da pessoa. Essa felicida-
de pode ser futura (Jó 5.17), ou mesmo possuir sentido escatológico (S1 2.12). Nos
salmos, geralmente é difícil fazer esta distinção com clareza.

0 mesmo acontece com o termo p a ~ k ~ usado o ~ , na LXX. No grego clássico,


expressava uma felicidade presente: os pais são parabenizados por causa dos seus
filhos, os ricos por suas riquezas, os sãos por sua saúde, os sábios por seu conheci-
mento, os piedosos por seu bem-estar interior, os mortos por terem escapado à vaidade
das coisas.42 No período intertestamental, há uma bifurcação: a literatura apocalíptica
reveste o termo de uma tonalidade escatológica, o que não ocorre no judaísm0.~3

O uso do termo por Jesus em Mateus 5 "canoniza" essa tonalidade. Nas palavras de
Jesus, a felicidade será manifesta em sua plenitude no futuro escatológico. Os bem-aventu-
rados agora choram, mas no futuro verão a Deus. Eles receberão o seu galardão nos céus,
mas o reino dos céus é deles, e por isso já agora podem ser declarados bem-aventurados.
Como Martino Conti observa, "neste contexto,a 'bem-aventurança' proclamada pelo Sal-
mo 1 se enriquece com um conteúdo todo íntimo e espiritual, e é caracterizada por uma
tensão escatológica fundamental, que será resolvida somente na vida eternau.44

É importante notar que não é a situação de opressão em si que é declarada bem-


aventurada por Jesus. O texto deixa claro que ele fala para seus discípulos. E é na
condição de discípulo de Cristo que alguém se torna bem-aventurado, mesmo que no
presente não o perceba, como testemunha Paulo em 2 Coríntios 6.8- 10.

40 Cf. KRAUS, Los Salmos, p. 184.


41 JANZEN, op. cit., p. 226.
42 BECKER, U. p a ~ k p r o ~In:. Novo Diciortório Internuc~«nalde Teologia do N ( ~ v oTestamento.
Colin Brown, ed. São Paulo. Vida Nova, 1981, v. 1, p. 297.
" [bid., p. 298.
44 CONTI, Martino. La Via della Beatitudine e della Rovina secondo i1 Salmo 1. Antunianurn 61
(1986): 39.
Portanto, com as palavras w - ~ ? - ~ l wovsalmista aponta para o futuro. Não há razão
para forçar uma interpretação imediatista. Os salmos com freqüência mostram o clamor
do justo e sua queixa quanto à prosperidade dos ímpios. Mas o ímpio nunca é declara-
do feliz, porque os salmistas falam de uma felicidade verdadeira, estável, porque firma-
da na fidelidade de Deus. Só esta é indicada por -1wu.

que não anda no conselho dos ímpios,


no caminho dos pecadores não se detém
e na assembléia dos escarnecedores não se assenta;

O caráter do justo é descrito em primeiro lugar negativamente. Em destaque apare-


cem os verbos, todos no completo, precedidos da negação ~ ' 5dando , solenidade à
descrição e enfatizando a estabilidade do caráter do justo, que se mantém completa-
mente afastado da influência dos ímpios.

Os verbos indicam a progressão no envolvimento com os pecadores através de


ações: andar - parar - sentar. O justo evita o seu envolvimento desde o princípio, não se
deixando levar pela aparência de sabedoria e virtude dos ímpios. Esta mesma progressão
pode ser notada nos substantivos: 75" conselho, sugestão, atitude ocasional - 111,
caminho, modo de vida- riyin . assembléia, local onde se planeja o caminho a ser seguido.

Quanto aos adjetivos, G. Anderson4hlega que não se pode sustentar uma diferen-
ça de intensidade entre c9y$1e o - ~ q nvisto
, que são usados de modo intercambiável
por todo o Saltério. Da mesma forma, argumenta que o-y> é usado aqui como mero
sinônimo dos dois termos anteriores. Seus argumentos, porém, não são conclusivos.

O fato de @'Y$l ser O termo preferido para contrastar com 07p'?y nos salmos, (15
vezes contra apenas umade OF'),!. indica que u$! refere-se àquele a quem Deus não
imputa a sua justiça e que, portanto, não está em comunhão com Deus, mas afastado
dele. Isto confere com o significado original da palavra que, segundo L. Kohler, é um
termo f0rense.~6Eà luz do que será dito no v. 2, deve-se entender que é alguém que está
afastado da Lei de Deus, que não busca nela o seu conselho, mas na sua própria
sabedoria. A LXX, com o termo &oc/36v,traduz bem esse sentido.

oyqn, por sua vez, enfatiza a responsabilidade individual e a conseqüência dessa


situação: a pessoa erra o alvo, pecando contra a Lei de Deus. A primeira vista pode
parecer que há uma diminuição na gravidade da falta: mesmo os justos erram, embora
não sejam ímpios. Mas é preciso contrastar o caráter do justo, expresso através de
completos, com o do ímpio, que conseqüentemente seria persistente, constante no seu
afastamento de Deus e no erro, ou seja, em pecar contra Deus. Por isso o - ~ e gpossui
um agravante: a pessoa não só está em inimizade contra Deus, mas vive em constante
transgressão à sua Lei.

45 ANDERSON, C . W. A Note on Psalm I 1. Vetus Testumentum 24 (1974): 231-2.


4h Apud KRAUS, Los Salmos, p. 184: "O uw-, é originalmente uma pessoa a quem um tribunal
declarou culpado de uma acusação que lhe fora feira".
Por fim, os p - y i zombam abertamente da Lei de Deus. Embora o significado da raiz
7-5 seja discutido, aqui a melhor tradução é "escamecedor, aquele que de modo arro-
gante despreza e zomba da Lei de D e ~ s " . ~H.
7 N. RichardsonJ8 parece mais preocupa-
do em evitar o termo "escarnecedor" do que em detectar o significado exato do termo,
pois do seu próprio estudo verifica-se a associação da raiz com o ato de falar.

A LXX confirma a idéia de progressão: &ocpWv - aqueles que não temem a Deus,
al,uapzwÂWv- os que transgridem a Lei de Deus, Lo~pWv- aqueles que causam
problemas, sugerindo que por sua ação podem levar outros a segui-los. Assim,
Kirkpatrick tem razão ao observar que "as três cláusulas com o seu triplo paralelismo
denotam passos sucessivos em uma carreira de mal e formam um clímax".Jg

crrites, no ensino do SENHOR


estú o seu prcizer;
e no seu ensino medito de diu e de noite.

De início, a descrição positiva do justo é caratenzada por uma atitude diametralmente


oposta: DU -3 "antes, pelo contrário", construção rara na poesia, à exceção de Provérbi-
os e Eclesiastes, é a mais forte expressão adversativa do hebraico após uma cláusula
negativa (1s 55.1 1).

Ao contrário dos ímpios, é no ensino de Deus que o justo busca o seu conselho. É
no seu ensino, e não no caminho dos pecadores, que ele se detém, não para fazer dele
objeto de escárnio, mas para nele meditar dia e noite. O ensino do SENHOR,
aqui, contra-
põe-se a todo conhecimento, conselho ou sabedoria do homem.

O termo >!in não deve ser traduzido aqui por "Lei", associando o salmo com a
observância rígida àLei, caracteristica do judaísmo. Também não se limita ao Pentateuco
ou qualquer de suas porções, mas como em outras passagens (1s 1.10;2.3; 42.4) refere-
se ao "conjunto das disposições benéficas de Javé em favor de Israel",so o que inclui
toda a sua revelação, Lei e promessa. Como Kraus observa, a Torú não é uma magnitu-
de estática, mas um poder criador, que dá vida:

É absolutamente seguro que não podemos entender o Salmo 1 como expressão


de uma religião da letra. O rolo da Escritura é uma força que dá vida; assemelha-
se à corrente de água que confere vida e frutos (SI 1.3).O cantor não se encontra
diante de um yp&,u,uaque mata, senão diante de uma força que confere vida.5'

17 BARTH, C. ?.i. In: Theologicul Dictionury of the Old Testument. G. J. Rottenveck et a]., ed.
Geoffrey Bromiley, trad. Grand Rapids, Eerdmans, 1995, v. 7, p. 548.
48 RICHARDSON, H. N. Some notes on y.5 and ils Denvatives. Vetus Testcmrentum 5 (1955): 163-
79.
4y KIRKPATRICK, op. cit., p. 3.
" RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. Francisco Catão, trad. São Paulo, ASTE.
1973, v. I , p. 224.
5' KRAUS, Hans-Joachiiii. Teologia de 10s Salmos. Víctor A. Martínez de Lapera, trad. Salamanca,
Sígueme, 1985, p. 43
A função da Torá era apontar para as promessas de Deus feitas a Abraão, Isaque
e Jacó. Ela não é um instrumento de coação, mas seu propósito é fazer o homem feliz (Dt
33.29) por poder confiar na fidelidade do SENHOR, princípio e fonte da vida do justo. Por
isso, este encontra nela o seu maior prazer, desfrutando com alegria do privilégio da
comunhão com Deus que vem pelo ouvir e deixar-se guiar pela Torá.

717, segundo Delitzsch,52exprime uma atividade não oral. O seu uso freqüente em
paralelo com verbos significando "falar" (Dt 6.7 e Js 1.8,paralelo "não cesses de falar"),
porém, sugere tanto a meditaçáo constante, em voz baixa ou pensamento, quanto o
falar da Torá em público ou no lar, o que inclui o testemunho, apontando assim para
uma relação íntima com a palavra de Deus.

A forma incompleta do verbo contrasta com os completos do verso anterior. O que


o justo não faz é expresso pelo completo -ele mantém-se completamente afastado do
conselho dos ímpios. Mas o que o justo faz é expresso pelo incompleto - o seu prazer
e meditaçáo no ensino do SENHOR são constantes, inintemptos.

A expressão de dia e de noite não apenas reforça essa idéia, mas a expande. As
outras quatro ocorrências da expressão nos salmos (22.3; 32.4; 42.4; 55: 11) se dão em
contextos de aflição do justo, seja por causa dos seus pecados, seja por causa dos
inimigos. O mesmo ocorre em Jeremias (8.23; 16.13; Lm2.18). Assim, aexpressão reforça
a fidelidade do justo, que permanece esperando em Deus mesmo na adversidade.

Ele é como uma árvore plantada junto a correntes de água,


que o seu fruto dá no tettipo certo, e sita folhagem não miircha
E tudo o que ele faz prospera.

, um completo com waw consecutivo, mostra que a ilustração que segue dá


seqüência ao pensamento anterior, expandindo a descrição do justo. Isso também
indica que não há por que traduzir o verbo como um futuro, "e será", pois a subordina-
ção a 737; exige a manutenção do presente. Não se trata, portanto, de uma promessa,
mas de uma realidade, algo que ocorre paralelamente ao descrito no verso 2.53

Como urna árvore plat~tada.Remí Lack mostra que na estrutura semântica do


salmo o contraste entre estabilidade e instabilidade ocupa papel de destaque. Delitzsch
apóia esta interpretação, distinguindo "firmemente plantada", do verbo usual
para plantar, im1.5~Já Dahood e Lutero ressaltam que 5nw significa "transplantar".55
Lutero quer enfatizar que é unicamente Deus quem cria a situação: "o desejo pela lei de

52 DELITZSCH. op. cit., p. 85: "aia (. . .) aqui significa o solilóquio silencioso de alguérn que está
procurando e pensando". Cf. The Brobvri-Dtiver-Briggs Hebrew arid English Lexicon. Peabody,
Hendrickson. 1996, p. 211 (doravante indicado por BDR). Talvez a LXX, que traz pcL<rtjocr,
os tenha influenciado.
53 Cf. LEUPOLD, H. C. Exposition of Psalms. Grand Kapids, Baker, 1959, p. 36.
54 LACK, Rémi. Le psaumme 1 - Une analyse st~cturale.Biblica 57 (1976): 162; DELITZSCH,
op. cit., p. 85.
55 Cf. BDB, p. 1060.
Deus não está por natureza em homem algum. Mas, quando o Pai Celeste planta e
cultiva, e transplanta-nos de Adão para Cristo, ele nos é outorgado do céuV.56Já
Dahood vê aqui um transplante escatológico para o Éden, o que parece ir muito além do
context0.5~

Junto a correntes de águas. Os dois termos no plural indicam uma abundância


incomum de água, mostrando que a ênfase não está na árvore em si, mas na água, o real
motivo da sua fertilidade. É a presença da água que garante a fertilidade da árvore, que
Lack identifica como um dos eixos semânticos do salmo.58 É notável aqui o paralelo
com João 4.

Que o seu fruto dá no tempo certo. Delitzsch afirma que a métrica da frase põe a
ênfase principal em seu fruto, enquanto aênfase no tempo é secundária.59Lack, porém,
analisando a estrutura do salmo, coloca a referência ao seu tempo em destaque.60 Esta
interpretação é preferível, pois que a árvore produza frutos já é esperado; mas a regu-
laridade é o diferencial aqui. A árvore nunca decepciona, retardando o seu fmto ou
produzindo-o fora de época, com qualidade inferior. 1,utero destaca ainda o uso do
verbo Ini. 6' A árvore não produz O fruto para si própria, mas para oferecê-los a quem
passa. Não os produz para gloriar-se, mas para servir. Por isso a tradução no tempo
certo permite uma interpretação ambígua: a árvore produz na estação própria, determi-
nada pela natureza dos frutos; o justo, sempre que necessário, pois é a necessidade do
próximo que determina qual o tempo adequado.

E sua folhagem não murcha. Um emblema da fé,62 a característica constante do


justo. Como em Jeremias 17.8,a folhagem que permanece verde e imperturbável duran-
te a seca ilustra o homem que confia e espera no SENHOR,
demonstrando que o seu vigor
não vem de outra fonte senão das águas correntes para as quais as suas raízes se
lançam.

E tudo o que ele faz prospera. Aqui o salmista volta a falar do justo.63 Esta frase
forma um paralelo com o w'K?-?w~ da abertura e o complementa, encerrando os versos
1-3 dentro de uma inclusio formada pelas duas afirmações. O que foi dito nesses versos
explica por que esse homem é feliz e tudo quanto fizer irá prosperar.

Sh LUTHER, Martin. Psalm I . In: LutherS Works. Jaroslav Pelikan, ed. Saint Louis, Concordia,
1958. V. 14, p. 300. Doravante indicado por LW.
57 DAHOOD, op. cit., p. 3-4.
5n LACK, op. cit., p. 162-3.
sy DELITZSCH, op. cit., p. 86.
LACK, op. cit., p. 164-5.
" LW 14. 300- 1.
" DELITZSCH, op. cit., p. 86.
h' CRAIGIE, Peter C. Psulms 1-50, Waco, Word. 1983, p. 62. Cf. VOGELS, op. cit., p. 58;
DELITZSCH, op. cit., p. 86; KRAUS, Los Salmos, p. 189; LACK, op. cit., p. 157. Outros
entendem esta frase como referindo-se à árvore: DAHOOD, op. cit., p. 4; SCHOKEL, op. cit.,
p. 136.
Por estar em paralelo com uma frase de teor escatológico, devemos compreender
também esta afirmação em sentido escatológico. M. S z b o reconhece esse fato, apon-
tando para a ligação da raiz n5r com a vontade salvífica de Deus, revelada na n?in :

O "êxito" está também unido às ações salvíficas de Deus (S1 118.25, "concede-
nos prosperidade", junto à invocação "salva-nos") e à sua misericórdia (Pv
28.13, perdão dos pecados). Frente à certeza de que o Espírito de Deus e sua
palavra (1s 55.1 1) atuam eficazmente, por vontade de Deus, sendo deste modo
expressão de seu domínio soberano, o "êxito" dos ímpios converte-se em um
problema difícil, diante do qual pode-se exortar à pa~iência.6~

Isso não significa que o justo não seja próspero no presente, mas sim que a sua
prosperidade só será perfeita no futuro escatológico. Por enquanto, ela está oculta,
assim como a soberania de Deus sobre o universo. Ela se manifesta de forma velada, o
suficiente para que ele reconheça a mão de Deus que o ampara, mas não é patente
perante o mundo, como afirma Lutero: "cuidado que esta prosperidade não seja enten-
dida como prosperidade da carne. Este prosperar é oculto; está tão fundo dentro do
espírito que se não te agarrares firmemente a isto em fé, poderias, ao contrário, considerá-
10 a maior adversidade.65

Que a forma r%,como adverte H. C. Leup0ld,~6não possui aqui o traço distintivo do


Hifil, está suficientemente claro no contexto: assim como a árvore depende da comente de
água, o homem depende de Deus, o único responsável por sua prosperidade.

Os ímpios não são assim;


Antes, como a palha que o vento dispersa.

A forma breve e enfática usada para descrever os ímpios sublinha vários aspectos
que o diferem do homem sobre quem o salmista falou até aqui. A frase, em razão de sua
estrutura, especialmente pela ausência do verbo e a presença do artigo, está em paralelo
com o w-u;;I--~wuinicial. Com isso, o salmista estabelece uma diferença diametrai entre o
homem que é abençoado e o ímpio. Uma diferença de caráter, de conduta, de destino.

Ao contrário do que mostra o v. 2, os ímpios não têm o seu prazer nem confiam no
ensino do SENHOR, e por isso não meditam nele. Agem, ao contrário do v. 1, seguindo
seus próprios conselhos, criando seus próprios caminhos, rindo-se da Lei de Deus.
Por isso não podem ser verdadeiramente felizes, pois sua felicidade não está fundada
sobre as promessas de Deus, mas sobre suas próprias expectativas, que no fim revelar-
se-ão frustradas.

SEBO, M. n5r. In: Diccionario Teologico Manual de1 Anriguo lèsramento. Ernst Jenni y Claus
Westermann, ed. J. Antonio Mugica, trad. Madnd, Cristiandad. 1972, v. 2, p. 699-700.
hS LW 14, 304.
LEUPOLD, op. cit., p. 39-40.
Ao invés de ser comparado com uma árvore robusta e produtiva, o ímpio é identi-
ficado com a palha que é levada pelo vento. A força do contraste justifica um novo uso
do adversativo CH -3. Esta imagem, na cultura da época, era tão eloqüente quanto a da
árvore. Após a colheita, o trigo era colocado sobre um eirado em lugar alto, onde a
palha era separada do grão pela ação do vento. Enquanto o grão, mais pesado, perma-
necia no eirado, a palha era dispersa e, não tendo utilidade, era posteriormente queima-
da. Por isso a figura, como em várias outras passagens, aponta para o juízo, onde Deus
separará definitivamente os ímpios dos justos (S135.5; Jó 21.18; 1s 29.5; Dn 2.35; Os
13.3;Lc3.17).

Portanto, os ímpios não permanecerão no juízo,


Nem os pecadores na congregação dos justos

O conclusivo p-5p e a presença, lado a lado, de ímpios e justos, indica que este
verso introduz a conclusão do salmo, apresentando as conseqüências do que foi dito
até aqui. Schokel observa que "houve uma mudança na direção da negação: no v. 1 era
o justo quem evitava a sessão dos ímpios, agora são os ímpios que não têm acesso à
assembléia dos justos. É tarde demais, já não é hora de conversão, mas de receber a
sentençan.67

Até aqui, os ímpios eram sempre descritos no plural, enquanto o justo era referido
no singular. Pela primeira vez, os justos aparecem como grupo, reunidos em uma con-
gregação que, em virtude do paralelismo do verso, surge com o juízo.68 Esta é a maior
evidência de que o juízo de que se fala aqui não é qualquer juízo, como sugere a
omissão do artigo pela LXX, mas o juízo final, que no Antigo Testamento geralmente é
refletido na expressão dia do SENHOR, em que os ímpios serão destruídos e os justos
recompensados. É somente a partir do juízo que a bem-aventurança do justo, até então
oculta, se torna evidente.

ai?:-u5. O verbo a p possui aqui o sentido de permanecer de pé, como mostra o


contraste entre a árvore e a palha, em que a estabilidade é o ponto de comparação. Além
disso, o p-5p que abre o verso impõe uma continuidade com o nn m?n do verso
anterior. No entanto, não se pode ignorar que o texto reflete o sentido escatológico do
verbo, claramente expresso em contextos clássicos da ressurreição no Antigo Testa-
mento, como Jó 19.25, Oséias 6.2 e Isaías 26.19. Sawyer comenta que "até onde pode-
mos traçar o significado deste verso, ele tem sido compreendido como referindo-se ao
Dia do Julgamento, quando apenas os justos ressuscitarão dos mortos".69

" SCHOKEL, op. cit., p. 137.


OR KRAUS, Los Salmos, p. 191: "Por conseguinte, demonstrariam estar corretas aquelas concep-
ções que falam do moun como do «juizo final», e da mu como da «comunidade messiânica do
mundo novo»".
OY SAWYER, John F. A. Hebrew Words for the Resurrection of the Dead. Vetus Testanientum 23
(1973): 232.
Portanto, temos aqui mais um indicativo do teor escatológico do salmo, que tam-
bém se reflete sobre a felicidade do homem que ama a palavra de Deus, declarada na
abertura: ele, por contraste com os ímpios, permanecerá no juízo e na congregação dos
justos; essa é a verdadeira razão da sua felicidade, pois indica uma situação perene,
eterna, ao contrário da enganosa felicidade dos ímpios.

Congregação dos justos. Os justos, aqui, não são aqueles que se apresentam
moralmente aprovados diante do SENHOR. O Antigo Testamento ensina que Deus é
justo (Ed 9.15; 1s 45.24), e ninguém pode permanecer diante dele com sua própriajustiça
(SI 14.1-3; 1s 64.6), pois esta não pode ser equiparada à justiça de D e ~ s . Portanto,
7~ a
congregação dos justos será erguida por Deus no juízo, e dela farão parte aqueles a
quem, assim como a Abraão, o SENHOR imputa a suajustiça (Gn 15.6).Mais do que isso,
o próprio SENHOR será a justiça do seu povo, conforme Jeremias 23.6 afirma e o Novo
Testamento explica pela associação com a obra de Cristo. Portanto, o termo p3?snão
está associado a padrões morais, mas ao apego às promessas de Deus, pois "a justiça
de Javé não é uma norma, mas são atos, demonstrações da salvação".7l

Pois o SENHORconhece o caminho dos justos,


mas o caminho dos ímpios perecerá.

Este verso é a justificativa da afirmação feita no verso anterior, e revela que todo o
salmo está baseado em um fato concreto e determinante - a providência divina - pelo
qual Deus reconhece os Seus sem margem de erro e os guia pelo Seu caminho, um
caminho de vida (S1 16.1l), de paz (1s 59.8) e eterno (SI 139.24).72Afinal,o caminhodos
justos, como foi dito no v. 2, é o caminho da confiança na Palavra de Deus, onde vida e
paz eternas são oferecidas ao homem. Em última análise, o caminho dos justos é o
caminho do SENHOR. Eis a razão por que o SENHOR conhece o caminho dos justos, pois
é o caminho que Ele próprio preparou e escolheu, e através do qual Ele quer salvar
todos os homens.

O verbo )-iq ,quando descreve a relação entre Deus e os homens, possui característi-
cas peculiares. O homem não pode conhecer o SENHOR (Êx 5.2; Jr 2.8; Os 5.4), apenas os
seus atributos-EleéDeus(Dt4.35; 1Rs 18.37),~letempoder(Êx7.17)edomínio(Êx9.29);
Ele salva o seu povo (Êx 16.6) e age em favor dos oprimidos (Is 61). Deus revela-se ao
homem (Nm 12.6;Dt 29.3; 1Sm 3.7), porém não hánada que indique que tal revelação seja
completa, a ponto de permitir um conhecimento perfeito de Deus. Isto ocorrerá apenas no
futuro escatológico (1s 11.9;Jr 31.34,cf. também 1 Co 13.12; 1 Jo 3.2).

Deus, por outro lado, conhece o homem. Ele conhece todos os homens, inclusive
o ímpio e seus pensamentos (SI 139.11-12; 1s 29.15- 16; Jr48.30). Mas o conhecimento
que Ele tem do justo é especial: envolve aprovação, cuidado e condução (Êx 11.7; SI

0
' RAD, op. cit.. v. I , p. 363.
7' Ibid, p. 355.
72 KIRKPATRICK, op. cit., p. 5
139.8- 10;Na 1.7).É por Deus conhecer desta forma o seu caminho que o homem que se
fia na palavra de Deus pode ser feliz e ter a certeza de que todos os seus caminhos
prosperam. O verbo no particípio descreve uma ação contínua, perene, pela qual se
identifica o seu sujeito: o Senhor é aquele que conhece o caminho dos just0s.~3

O caminlzo dos ímpiosperecerá. Em relação aos ímpios, o conhecimento de Deus é


simples notitia, não cuidado e amparo. Quando Deus faz o ímpio prosperar, sua intenção
é que ele volte-se para Ele, reconhecendo a sua misericórdia (1s 45.3; S1 130.4). O ímpio
porém, não o reconhece, e prefere seguir o seu próprio caminho. Este, a seus olhos é mais
belo e certo, mas por não ser guardado por Deus, por fim perecerá, como lembra Lutero:

. . . mesmo que floresça de tal forma que pareça ser eterno. (. . .) Porque os
homens em geral desaprovam este caminho do justo e acreditam que Deus
também não o reconhece. Mas porque esta é a sabedoria da cruz, somente
Deus conhece o caminho ciojusto. Ele está oculto até mesmo para o justo; pois
a Sua mão direita os conduz por um caminho tão maravilhoso que não é o
caminho dos sentidos ou darazão, mas da fé somente, que pode ver até mesmo
na escuridão e contemplar o invisível.74

O verbo i2un , da mesma raiz de li-igu , um dos sinônimos de 5iuw, aponta não a uma
mera morte prematura ou ao simples aniquilamento da existência humana, como enten-
de C0nti,~5mas sim à mesma morte eterna a que se refere, por exemplo, Mateus 25.46.

O SALMO
E A CRUZ
Fica claro, pelo visto acima, que a interpretação do Salmo 1 é muito controversa.
Desde o -1%inicial até o i;un final, há uma variedade de interpretações conflitantes,
não havendo dois comentaristas que concordem plenamente sobre o significado do
texto e o caráter de sua mensagem. Diante deste fato, é surpreendente que Botha afirme
"haver consenso quanto ao fato de que o tema do Salmo 1 é o contraste entre o justo
e o ímpio. A antítese entre os dois caminhos é vista unanimemente como a principal
proposição do salmo".76

Na verdade, a unanimidade citada por Botha não existe, embora seja realmente a
O único tema alternativo proposto
expressão da grande maioria dos ~omentaristas.~7

73 CONTI. op. cit., p. 29: "Quando o particípio é usado como predicado e tem Deus como sujeito,
sublinha o aspecto durndouro da ação divina; iiina ação que afunda as nízes no passado, perdura
no presente e prolonga-se por todo o futuro".
LW 14, 309. Sem grifo no original.
75 CONTI, op. cit ... p. 35: "No SI 1.6b, a destniiçáo a que conduz o modo de viver dos ímpios
possui um caráter imanente. O andar em destmiçáo é de fato concebido como um perecer, um
vir a ser destruído nesta terra, um andar de encontro i morte prematura (. . .). o simples
extinguir-se da existência humana".
7QOTHA, op. cit., p. 382.
77 LIPÍNSKI, E. Macarismes et psaumes de congratulation. Revue Biblique 75 (1968): 333, n. 55;
DAHOOD, op. cit., p. 1; KIRKPATRICK, op. cit., p. 1; VOGELS, op. cit., p. 413.
com certa freqüência para o salmo - advogado por aqueles que o consideram como um
"salmo da Lei" - é a Torá como fonte de vida e felicidade.78 Arnbas as propostas têm
em comum o pressuposto de que o salmo é um produto da poesia sapiencial, represen-
tando um penodo tardio do "desenvolvimento" da fé em IsraeL79

Embora não refute a classificação do salmo como sapiencial e tardio,80 Kraus


reage à ênfase imprópria que o destaque dos dois caminhos ou da Torá coloca
sobre a doutrina da retribuição e o legalismo estrito, característico do judaísmo
nomista:

O Salmo 1 não é um sinal indicador de "dois caminhos" no sentido em que o


caminho do uwi fosse também uma possibilidade que se pudesse estudar. Esse
caminho se descarta em absoluto, é um caminho que não conduz a parte algu-
ma, ao qual na realidade não se pode recorrer. (. . .) O ,p3irnão é um imitador
decadente que, na falta de palavra profética viva, caiu em uma "religião da
observância" e que, agora, impulsionado por sua própria piedade, trata de
manter viva uma mensagem que se converteu em letra morta.81

Portanto, não parece correto escolher a separação dos dois caminhos ou o papel da
Torá como o tema central do Salmo. Antes, devemos buscar este tema no verso 6, que
é a justificativa teológica para tudo o que é dito em relação à felicidade do justo, da
perdição dos ímpios e da importância da Torá.Botha observa que a frase c-?- l i 7 m?;i:
pli---> é a única afirmação feita a respeito do SENHOR neste salmo,82e P. Auvray chega
a sugerir que os versos 1-5 teriam sido escritos para ilustrar a afirmação que o encerra.83
Portanto, é a partir desta a f m a ç ã o que pretendemos definir uma "teologia do Salmo 1 "
e confrontá-la com a teologia da cruz.

O SUJEITO DA A ~ Ã O :DEUS
OU O HOMEM?
Vogels, questionando aqueles que sugerem que a Torá seja a personagem principal
do salmo, escreve que "o homem, e não a Torá, é o sujeito da narrativa. A Torá é sua
auxiliadora. O homem encontra o seu prazer na lei e nela medita. O homem, não a lei, é
central. A Torá foi feita para o homem, e não o homem para a Torá".g4

78 CRAIGIE, op. cit., p. 62. Cf. VOGELS, op. cit., p. 414.


7y RICHARDSON, op. cit.. p. 176; SCHOKEL, op. cit.. p. 138.
8" KRAUS, Los Sulmus, p. 182-3.
8' Ibid., p. 192-3.
R2 BOTHA, op. cit., p. 393.
83 Apud WILLIS, John T. Psalm 1 - An Entity. Zeitschriftfur altrestamentliche Wissenschufl 91
(1979): 400.
84 VOGELS, op. cit., p. 414.
A afirmação de Vogels está muito próxima da opinião de M. Noth, para quem o
Salmo 1 revela que "a lei converteu-se em objeto de uma valorização pessoal realizada
pelo homem"." Ambos vêem a ação humana como fator decisivo do sucesso ou
insucesso.

Kraus, porém, mostra que esta interpretação é fruto de uma distorção do significa-
do do próprio termo hebraico: ";iiin não é «a lei», mas «a instrução», a manifestação
bondosa da vontade de Javé que sai ao encontro do homemW.86Conseqüentemente,
nem o homem nem a Torá são sujeitos no salmo, mas unicamente Deus, que revela sua
ação salvífica em favor do homem em sua Palavra, de modo que esta se toma, como diz
o verso 2, fonte de prazer e de meditação constante do homem.

Que este prazer na Palavra de Deus não é algo inerente ao homem, mas dom de
Deus, indica o uso da raiz inw no verso 3: a árvore é transplantada de uma terra árida
para outra, fértil. Lutero comenta: "A natureza humana é desprovida deste prazer, que
necessariamente deve vir do céu. Pois a natureza humana é decidida e inclinada para o
malm.87Também Schokel, analisando o último verso do salmo, inclina-se a concordar
com esta conclusão:

A assimetria está muito bem calculada: do primeiro hemistiquio é sujeitoo Senhor e


complemento o caminho; no segundo hemistíquio é sujeito o caminho. Como se o
êxito dependesse do Senhor, enquanto o fracasso fosse conseqüência imanente de
uma conduta.88

Assim, a linguagem do salmo sustenta uma via de mão única no relacionamento


entre Deus e o homem, em que Deus é o único responsável pela salvação do justo e o
ímpio o único responsável por sua condenação.89 Em outras palavras, o Salmo 1 con-
tém uma visão pessimista da capacidade do homem em relação a Deus -ou seja, é um
salmo que mostra que a vontade do homem é cativa, e não livre, no que está de acordo
com a teologia da cruz.

0 CONHECIMENTODE DEUS
Sob este subtítulo, propositadamente ambíguo, encontra-se o cerne da teologia do
Salmo 1. Conti a f i a que "ao conhecimento que Deus tem do homem deve corresponder
o conhecimento que o homem tem de Deus".90No entanto, a razão humana é incapaz

8' Apud KRAUS, Teologia de 10s Salmos, p. 217.


lbid., p. 217.
" LW 14, 295.
88 SCHOKEL, op. cit., p. 137.
89 Ao contrário do que afirma CONTI, op. cit., p. 30: "15 ele [o SENHOR] quem direta ou indireta-
mente provoca a destruição do ímpio".
90 CONTI, op. cit., p. 30.
de corresponder ao conhecimento que Deus possui do homem. Como observa Botha,
"Javé conhece o caminho do justo, mas não há interação direta entre Javé e o justo, a
não ser através da Toráw.91Deus conhece o homem diretamente, mas só é conhecido
de forma mediata.

O verso 1 deixa isso muito claro: o conselho dos ímpios, o caminho dos pecadores
e a assembléia dos escamecedores, representando tudo o que caracteriza o pensamen-
to, a sabedoria e a organização humana, opõem-se frontalmente à Palavra de Deus, e
não podem proporcionar felicidade, como percebe-se pela seqüência de verbos nos
versos finais: eles são dispersos, não permanecem de pé e por fim perecem. Lutero
comenta:

Então o salmista o chama de conselho, o que soa como sabedoria e o caminho


correto, e portanto livre de erro. (. . .) Realmente este caminho é sempre mais
agradável em aparência do que o caminho do justo. Pois a seus próprios olhos
eles parecem viver uma vida piedosa e brilhar diante dos outros com suas belas
obras.g2

Contudo, apesar de toda esta aparência de sabedoria, eles permanecem sendo


c - i u ~ i que
, não permanecerão de pé no juízo de Deus. Não por não serem pessoas
honestas e honradas no plano da justiça civil, mas justamente por considerarem essa
justiça mais valiosa do que a justiça oferecida por Deus em sua Torá.

A esta sabedoria humana, o verso 2 contrapõe a Torá do SENHOR. A repetição da


palavra indica uma ênfase incomum, a ponto de romper com as regras da poesia, que
evita repetir um termo em dois membros paralelos.93 É na Torá que Deus se revela ao
homem, chamando-o para dentro da sua aliança e declarando-o justo. Por isso o salmista
contrapõe com tanta ênfase o homem que tem o seu prazer no ensino de Deus -que, em
outras palavras, espera somente nas promessas de Deus, e não em si mesmo.

É visível neste ponto o estreito paralelo que 1 Coríntios 1.18-a fonte da expressão
"teologia da cruz" - forma com a mensagem do Salmo 1. Embora não use a linguagem
do salmo, Paulo vai direto ao tema: para os c-uwi do verso 1, o ensino do Senhor é
loucura e objeto de zombaria; para o justo, porém, ele é fonte de prazer e meditação, por
assegurar-lhe que Deus o justifica em Cristo.

Portanto, também a tensão entre o Deus oculto e revelado está presente no Salmo
1. Não de forma explícita, mas pela sua revelação mediante a sua Torá, que, embora
antecipe o perdão e ajustiça concedidos em Cristo para a salvação dos homens, diante
da sabedoria humana é objeto de desprezo e zombaria.

" BOTHA, op. cit., p. 394.


92 LW 14. 288-9.
'3 KRAUS, Lns Salrtins, p. 180.
A FELICIDADE E A PROSPERIDADE DO JUSTO
Visto como o tema central do salmo pela maioria dos autores, a prosperidade do
justo não é entendida uniformemente pelos diversos comentaristas. Peter Craigie, por
exemplo, tem uma visão estritamente imanente dessa prosperidade:

A sabedoria expressa neste salmo está essencialmente relacionada à vida pre-


sente; o salmo não evidencia qualquer doutrina de vida futura. A prosperidade
antecipada ocorre na vida presente, assim como o fracasso dos ímpios é visto
como uma realidade presente.94

No primeiro capítulo, porém, foi visto que a vida do cristão sob a cruz era consequ-
ência direta do estado abscôndito de Deus. Como Deus está oculto sob o aspecto
contrário, também o estado de bênção do justo está oculto sob o aparente abandono.
Pois o mesmo pode ser dito aqui. Assim como Deus não pode ser conhecido pela razão
humana, mas unicamente através da sua revelação misericordiosa através da Torú,
também a prosperidade do justo não pode ser verificada aos olhos do mundo.

Afinal, o salmo não mostra os justos sendo reconhecidos como abençoados diante
dos ímpios. Pelo contrário, o justo vê os ímpios reunidos e precisa afastar-se deles,
isolando-se e entregando-se à meditação paciente no ensino de Deus. Mas no juízo, ali
sim os justos serão separados e congregados na presença de Deus, enquanto os
ímpios não poderão permanecer de pé, mas serão espalhados como a palha ao vento.
É, portanto, apenas no plano escatológico que o salmo mostra a prosperidade do justo
sendo visível e invejada; até lá, ela permanece oculta, a não ser através da fé, que a
coloca em evidência. Exatamente como comenta Lutero:

A bem-aventurança deste homem está oculta no espírito, isto é, em Deus, de


modo que não pode ser percebida a não ser pela fé. Nem é ela encontrada em
qualquer bem que possa ser identificado dentro ou fora do homem, exceto
neste desejo pela Lei. Antes, ela pode ser encontrada no oposto, na pobreza,
no desprezo, na ignorância e em todas as formas de mal que possam ser identi-
ficados dentro ou fora do homem.95

Mas com isso não se quer dizer, caindo-se no extremo oposto, que a prosperidade
do justo é estritamente transcendente, ocorrendo unicamente no plano escatológico.
O justo é próspero aqui nesta vida e, mediante a fé, tem consciência desta prosperida-
de, que é invisível aos olhos do mundo. Novamente as palavras de Lutero são
esclarecedoras:

Assim, és testemunha do maior de todos os milagres quando ouves que tudo o


que este homem faz prospera. Pois o que é mais maravilhoso do que quando os

y4 CRAIGIE, op. cit., p. 61.


'5 LW 14, 298.
crentes aumentam quando são destruídos, multiplicam-se quando são diminu-
ídos, sobrepõe-se quando são subjugados, entram quando são expulsos, são
vitoriosos quando são derrotados? (. . .) Assim Deus exalta os seus santos, de
modo que a medida do infortúnio toma-se a medida da prosperidade. Esta é a
prosperidade do sábio e a vida destes homens.96

É, pois, com toda arazão que Lutero chama estas palavras do Salmo 1 de sabedoria
da cruz,97 pois do início ao fim este salmo prega uma teologia da fé. Oculta aos olhos
do mundo, patente aos olhos da fé. Assim é a vida do justo, que mesmo na adversidade
espera na Palavra do Deus que o conhece, ampara e abençoa em todos os momentos.
Esta é a mensagem do Salmo 1, que resume todo o Saltério e o louvor do povo de Deus.

~ON&O
A luz do que foi discutido acima, pode-se concluir com segurança que o Salmo 1
não só rejeita completamente a teologia da glória como também ensina a teologia da
cruz em todos os seus aspectos. Os três pilares de sustentação da teologia da cruz - a
vontade cativa, a relação entre Deus abscôndito e revelado e a relação entre fé e vida
sob a cruz - estão presentes no Salmo 1.

O Salmo 1 é, portanto, um salmo da cruz. Sua mensagem não pode ser compreendi-
da a não ser à sombra da cruz de Cristo, que interpretou as palavras do salmista: Eu sou
o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14.6). É desta
perspectiva que ele deve ser lido e pregado; de outro modo, não se estará pregando
consolo real, mas ilusões humanas sob a aparência de Evangelho.98 Aos que optam
por ler e pregar o Salmo 1 distanciando-o da teologia da cruz, aplicam-se as palavras de
Antônio Vieira: "Pregam palavras de Deus, mas não pregam a Palavra de DeusU.99

Yh Ibid., 304.
y7 Ibid., p. 305.
YX SASSE, Hermann. The Theology of the Cross. In: We Confess Jesus Chrisi. Norman Nagel, trad.
St. Louis, Concordia, 1984, p. 37.
YY VIEIRA, Antônio. Sermão da Sexagésima. In: Os SermUes. Sjio Paulo, Melhoramentos, 1963, p.
90.
Paulo Gerhard Pietzscli

Um dos assuntos amplamente trabalhados na Igreja Evangélica Luterana do Brasil


em 1998 foi a Adoração, sendo inclusive destaque dentro do lema "Cristo para todos".
Dentro deste destaque a Liturgia ganhou ênfase especial e o canto e a música também
receberam apreciação.

O trabalho em questão quer fazer uma breve reflexão sobre o papel da música e do
canto no contexto cristão, mais especificamente no culto divino. Alguns destaques da
história da música sacra desde a antiguidade até os nossos dias serão apresentados.

Segundo Lutero, a "Música é filha do Céu... depois da Teologia,nenhuma arte ihe pode
ser comparada"'. Por sua importância pedagógica, a música deve fazer parte do aprendiza-
do desde a infância. Referindo-se aos professores, Lutero diz que "Um mestre deve saber
cantar, senão nem o posso considerar como tal".' Para ele, a importância da música para o
pastor é que ela molda os sentimentos,o toma mais sensível, gentil e gener~so.~

Lutero deleitava-se com o ritmo da música que expressa alegria, o que por sua vez
deveria ser a expressão da vida de um cristão. Deus tem anunciado o seu evangelho
também através deste meio tão agradável que é a música. Segundo Lutero, "Música é
uma das maiores m a s para afugentar o mal e é um Dom divino, ela alivia o homem, pois
o homem que canta é alegre. Sendo Dom de Deus, deve servir para louvar a Deus.4

Se o reformador Martinho Lutero reverenciou tanto a música, por que se canta tão
pouco? Haveria outro recurso à altura que a pudesse substituir no louvor a Deus?

I. IMPORTÂNCIA
Amúsica, sem dúvida, é a mais internacional das artes e elemento que identifica os
povos e comunica sua cultura. Segundo os gregos, ela é a arte dos deuses e é um
mistério divino. Os chineses acreditavam que a música exercia influência moral sobre

- - - - - - -

Rev. Paulo Gerhard Pierzsch é projessor de Teologia Prúrica no Senlinúrio Concdrdia e coorde-
nador de arividade.r cúlricas. Esre rrabalho foi apresentado ir conlunidr~deacr~dêmicad o
Scnrinúrio na abertura do uno lerii,o. eirr 2 de inarço de 1999.
' LUTHER, Martin. D. Mrrrriri Lurhers Werke: Tischreden (Weimar Hennann Bohlaus Nachfolger,
1921). v. VI, p. 7034.
' BLUME, ~riednch.Die Musik in Geschiclite und Gegenlicirt (Biirenreiter Kassel, 1960), v. VIII,
p . 1335.
' NETTL, Paul. De Lurero o Bach (Buenos Aires, Casa Unida, 1948), p. 37.
' LUTHER, op. cit . v. XXII, p. 1538.
os costumes e sobre a formação do cidadão. Confúcio dizia: "Quereis saber se um país
é bem governado ou nele reinam bons costumes? Ouvi a sua música". Para muitos, a
música é a arte que fala a linguagem do coração, a linguagem das emoções.

Quando pensamos na Música Sacra. podemos dizer que ela é a arte que brota da
cruz e é levada até a cruz; arte que é dedicada ao serviço de Deus e à edificação da
igreja. Ela não é um fim em si mesma, não é uma arte livre (arte pela arte), mas está a
serviço do reino de Deus, e mais, deixa de ter maior importância, à medida que deixa de
cumprir a sua função de meio (de proclamação do evangelho).

1.1-INFORUAÇÕES ~1~~6~101~
Para os povos primitivos, viver era ser artístico. A arte era, até mesmo, uma forma de
dar identidade à tribo ou clã, de acrescentar intensidade à vida diária e à sua labuta, à caça,
à religião, família ou festividades tribais. Música e Religião tinham tudo em comum, pois
as primeiras manifestações musicais estavam intimamente ligadas à religião, ao divino, ao
sobrenatural. Os primeiros sons musicais podiam ser tanto uma forma de louvor como um
elemento para aplacar a ira dos deuses. Nas religiões pagãs, a superstição, o medo, o
culto à natureza estavam presentes. As forças da natureza influenciavam muito na com-
posição musical. A música também era um elemento de alegria, de comunicação, de
celebrações e até lamentações. Mesmo que todos os membros da tribo compartilhassem
da arte na vida diária, havia especialistas que a compunham e executavam.

I. 1.1-ANTIGO TESTAMENTO
Na Escritura (Gn 4.20-21) é mencionado o nome de Jubal, "pai de todos os que
tocam harpa e flauta". Muito cedo a Escritura faz referência a esta arte, a qual acompa-
nha toda a vida do povo de Deus. A primeira referência bíblica quanto a experiência
musical é um relato de um momento de louvor e ação de graças, dirigido por Moisés e
Miriã, quando da libertação do povo de Israel do Egito: Então entoou Moisés, e os
"

filhos de Israel, este cântico ao Senho c... A profetisa Miriã, irmá de Arão, tomou um
tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com dancas ... "(Êx
15.1 e 20). Esta apresentação foi tanto instrumental quanto vocal, envolvendo tanto
homens como mulheres e foi acompanhada por movimentos expressivos. Momentos
como este encontram-se por todo o Antigo Testamento, especialmente nos Salmos.

A Segunda tradição musical do Antigo Testamento, a música para o templo, era


formal e profissional e foi iniciada por Davi, que era pessoalmente musicista e compo-
sitor de hinos: "Disse Davi aos chefes dos levitas qrie constituíssem a seus irmãos,
cantores, para que, com instrumentos musicais, com alaúdes, harpas e címbalos se
fizessem ouvil; e levantassem a voz com alegria. " ( 1 Cr 15.16)

No tempo em que Israel edificou o templo, para adoração ao Deus Eterno, a organi-
zação de um grupo de musicistas jáestava bem avançada. Em 1Cr 15.22,é mencionado
o nome de "Quenanias, chefe dos levitas músicos, (o qual) tinha o cargo de dirigir o
canto porque era entendido nisso". Em 1 Cr 25 são descritas as diversas funções
dos músicos do templo. Estes "deviam anunciar as mensagens de Deus, acompanha-
dos por música de harpas, liras e pratos" (1 Cr 25.1 :BLH). É impressionante o zelo com
que executavam as suas funções litúrgicas e também o número de integrantes deste
"departamento de música", ou seja, "os músicos treinados para tocar instrumentos e
cantar louvores ao Deus Eterno eram duzentos e oitenta e oito ao todo"(1 Cr 25.7: BLH).
Estes, por sua vez, foram organizados em grupos, para que todos os atos de culto
fossem contemplados por momentos de louvor e adoração através do canto. Como
sacerdotes-músicos, esses artistas dedicavam tempo integral ao seu serviço musical,
escolhidos pelo seu talento (1 Cr 15.22) e eram bem treinados durante os cinco anos de
aprendizado musical, antes de serem admitidos no coro regular.

Os cânticos e salmos do povo de Israel eram acompanhados por diversos instru-


mentos musicais, tais como a lira, flauta, harpa, trombetas e címbalos, sendo também
associados com danças (S1 150). Há uma tradição de que na antiga adoração hebraica,
as palavras da Escritura nunca eram faladas sem melodia; elas eram cantadas em uma
sonora cantilena e acompanhadas por instrumentos. Os judeus tinham muita variedade
de instrumentos musicais, divididos em três tipos básicos (e suas variações): 1- cordas
(kinnor); 2-sopros (shophar) e 3- percussão (toph). Eram cuidadosos em não incluir
certos instrumentos nos cultos divinos realizados no Templo, devido ao fato de não
serem apropriados ou não induzirem à adoração. Estes eram usados em ocasiões festi-
vas ou seculares. De qualquer forma, a ênfase está no fato de insistirem na variedade
de instrumentos, possibilitando, assim, a que um grande número de pessoas comparti-
lhasse da parte musical do culto.

Sem dúvida, seus programas instrumentais eram tão bem organizados quanto os
programas vocais. Incluíam líderes, professores e virtuosos. Aqueles que tocavam
instrumentos eram considerados como inteiramente consagrados e dedicados, assim
como o eram os que cantavam ou serviam ao altar. Nada foi poupado para tornar os
cultos do Templo belos e significativos.

Cremos que na adoração vetero-testamentária possivelmente a norma era o cântico


antifonal, como nos exemplos: S. Seja Deus gracioso para conosco e nos abençoe/C.
E faça resplandecer sobre nós o seu rosto (S1 67.1); S. Rendei graças a o Senhor;
porque ele é bom./ C. Porque a sua misericórdia dura para sempre.

Pergunta-se, por vezes, como deveria soar a música dos Salmos e cânticos de
Israel. Erik Werner, em seu livro "Jewish Music" aponta para uma possibilidade:

O arquétipo do cantochão era semelhante às melodias gregorianas antigas, o


que significa que eles se baseavam em pequenos padrões melódicos de ampli-
tude bastante limitada, não excedendo geralmente uma quarta ou uma quinta.

WERNER, Eric. Jewish Music.1n: GroveS Dictionary (New York, St. Martin's Press, 1971), p.
623.
O livro dos Salmos é considerado como o "hinário do povo de Israel", os quais
eram cantados em seqüências regulares, seguindo os sacrifícios matutinos e vesperti-
nos, em dias de semana para tal especificados, e eram acompanhados por instrumentos
que ocasionalmente tocavam um interlúdio indicado pela palavra "Sela. Os Salmos
apresentam três tipos de expressão de adoração: Louvor (Louvai ao Senhor ...);Peti-
ção (Dá ouvidos, ó Pastor de Israel ...) e Ação de Graças (Aino o Senhor; por que ele
ouve a inirlha voz e as rninhas súplicas). Havia também salmos especiais que se
associavam a ocasiões festivas: salmos reais para honrar o rei (21,45, 101), salmos
processionais (24, 95, 100) e salmos penitenciais para períodos de arrependimento
nacional (130). Os Salmos do "Hallel Egípcio" (1 13-118) eram usados nacomemo-
ração da Páscoa e outros períodos de penitência. Os salmos messiânicos também
tinham grande importância (22).

Quanto à sua forma de apresentação, podemos identificar quatro tipos: 1- Salmo


simples (46.1), cantado por uma pessoa sozinha; 2- Salmo responsivo (67.1,2), em que
um coro responde ao solo; 3- Salmo antifônico, com várias linhas começando ou
terminando com a mesma frase (103.1,2,20-22),cantado por dois coros alternadamente;
4- Litania (80.2,3,6,7,18,19),que incluía um refrão repetido.

Além dos Salmos, vários cânticos do Antigo Testamento eram usados regularmen-
te na adoração dos hebreus e, com certeza, também foram usados na adoração do Novo
Testamento. Eis alguns: 1- Cântico de vitória sobre Faraó, de Moisés (e Miriã), cf. Êx 15;
2- Oração de Moisés antes da sua morte, cf. Dt 32; 3- Cântico de Ana, cf. 1 Sm 2; 4-
Cântico de Habacuque, cf. Hb 2; 5- Cântico dos Anjos em 1s 6; 6- Cântico de Isaías (1s
26); Oração de Jonas no ventre do grande peixe (Jn 2) etc.

Temos assim a descrição resumida de como o Povo de Deus valorizava o canto e a


música instrumental e o quanto investiam para que esta parte da adoração fosse o mais
perfeita possível.

1.1.2-Novo TESTAMENTO
O Novo Testamento não nos oferece uma forma detalhada de adoração e uso da
música no culto. O que se supõe é que os mesmos costumes do Antigo Testamento
continuavam sendo usados pelos judeus. Contudo, mesmo não havendo maiores
detalhes quanto à adoração e à música, há algumas referências sobre cânticos, salmos,
hinos e pessoas que fizeram uso dos mesmos.

Não é mera coincidência que o nascimento de Jesus tenha sido anunciado por uma
explosão de júbilo com o cântico dos anjos. Dessa época em diante a fé cristã tem sido
anunciada com música alegre sem correspondente em qualquer outra religião ou épo-
ca. Os quatro cânticos registrados por Lucas têm o estilo dos Salmos e são conhecidos
tradicionalmente por suas iniciais em latim: Magnificat, ou o Cântico de Maria (Lc
1.46-55),Benedictus, ou o Cântico de Zacarias (Lc 1.67-79),Gloria in Excelsis Deo,
o Cântico dos anjospor ocasião do nasciinento de Jesus (Lc 2.13 e 14),Nunc Dimittis,
ou Cântico de Simeão (Lc 2.28-32). O Cântico de Maria, o de Zacarias, o Cântico dos
Anjos e o Cântico de Simeão têm sido usados mais na adoração cristã histórica do que
quaisquer outras passagens bíblicas, sem contar os salmos. Em Mc 14.26 menciona-se
o fato de que o próprio Cristo tenha cantado com os seus discípulos na Quinta-feira de
Endoenças: "Tendo cantado um hino, saíratti para o Monte das Oliveiras". Sem
dúvida. o que eles cantavam era um Salmo do Hallel Egípcio (1 13-118).

O apóstolo Paulo menciona em C1 3.16, "...louvando a Derts, com salttios, hinos e


ziiirticos espirituais, com gratidão em vossos corações", isto é, três gêneros diferen-
rsç de música para a adoração, mencionando-os em duas diferentes cartas aquelas
novas igrejas (Ef 5.19). Havia nestes gêneros de música, possivelmente, contrastes
quanto a origem, assunto e forma de execução. Egon Wellesz, grande estudioso da
adoração bíblica, assim se pronuncia:

São Paulo certamente estava se referindo a um costume bem familiar ao povo


para quem escreveu. Portanto, podemos presumir que, de fato, três tipos dife-
rentes de cantochão eram usados entre eles, e podemos formar uma idéia a
respeito das suas características, a partir das evidências oferecidas pela música
judaica, e, mais tarde, pelo tipo de cantochão cristão:

1- Salmos: o cântico dos salmos judaicos e dos cantos e doxologias rnodela-


dos segundo aqueles. 2- Hinos: câtzticos de louvor do tipo silábico, isto é,
cada sílaba é cantada com uma ou duas notas da melodia. 3- Cânticos espi-
rituais: Aleluias e outros cânricos de caráterjubiloso ou de êxtase, ricamente
ornamentados. "

Salmos, sem dúvida, eram todos os salmos e cânticos comuns na adoração judaica,
no tabernáculo, no templo e na sinagoga. Hinos poderiam ser expressões novas em
cântico, especialmente com ênfase cristológica. Eis alguns exemplos, citados no Novo
Testamento: 1 Tm 3.16 poderia ser um destes hinos:

"Aquele que foi manifestado na carne,


Foi justificado em espírito,
Contemplado por anjos,
Pregado entre os gentios,
Crido no mundo,
Recebido na glória".

Outros hinos do Novo Testamento poderiam estar registrados em Fp 2.6-1 1,C1 1.15-
20eHb 1.3.X

Pode não haver uma fórmula de adoração específica no Novo Testamento, mas há

" WELLESZ. Egon. Eurly Christiun Mu.rir (London, Oxford University Press), p. 2
' MARTIN. Ralph, op. cit., p. 57.
íbid. p. 58-59.
grande incentivo e exemplos de que a adoração acontecia e que faziam uso constante
da música para expressar a sua fé e sua gratidão.

1.1.3 -IGREJA PRIMITWA


Também da Igreja Primitiva não temos muitos registros das formas detalhadas de
adoração. O que temos são algumas referências de cartas ou relatos de historiadores.
Em uma carta a Igreja de Connto (96 A.D.). Clemente de Roma incluiu uma oração longa
e solene, que se relaciona intimamente com as orações eucansticas dos séculos poste-
riores; faz também referência ao Sanctus (Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exérci-
tos), que era característica comum da adoração judaica. Mais ou menos ao mesmo
tempo, o historiador pagão Plínio (governador da Bitínia em 1 1 1- 113), em uma carta a
Trajano, imperador de Roma, fazendo referência aos cristãos disse que "eles se reúnem
em um dia fixo, antes do romper do dia, e recitam responsivamente um hino a Cristo
como Deus ..." '

No Segundo Século há uma ordem definida de adoração citada na Apologia de


Justino Mártir, destinada ao Imperador Antonimus (aprox. 150A.D.) em que ele descre-
ve um culto de adoração, o qual compunha-se de Culto da Palavra (Leituras dos
Profetas, e memórias dos apóstolos - Epístolas e Evangelhos, um sermão - instrução
e admoestação, orações comuns) e Culto da Ceia do Senhor (ósculo da paz, ofertório,
oração de ação de graças seguida de um amém, e Coniunhão).lo A música não é
mencionada, mas não há razões para se crer que o culto da época fosse desprovido do
canto e da música, tanto salmos, como hinos e cânticos espirituais.

Do Terceiro Século temos um relatório de Hipólito de Roma (+ 236 A.D.), em um


documento chamado de Tradição Apostólica, onde ele descreve uma ordem de culto,
na qual, além dos itens relacionados no Século 11, ele menciona o uso do Sitrsum Corda
(Elevai os Corações) e da Oração Eucarística já bem desenvolvida. É possível que,
após o Sursum Corda fosse cantado o Sanctus.

No Quarto Século jáé descrito algo bem familiar em termos de liturgia e adoração:
Leituras Bíblicas, Salmos, Sermão (Culto da Palavra), e Orações dosfiéis, saudação e
responso, ósculo da paz, ofertório, oração eucarística, a qual compunha-se do Sursum
Corda, Sanctus, Palavras da Instituição (Anamriésis), Epíclesis (Fazei eni memó-
ria...) Oração Dominical, Doxologia e amém do Povo, Conclan2ação à Comunhão,
Gloria in Excelsis, Hosana e Benedictus, Comunhão (com o Salmo 34), ação de
graças, Bênção e despedida. A Adoração Cristã a partir de então podia ser mais
desenvolvida, pois o cristianismo já não era mais religião proibida pelo império, e
estava livre para praticar abertamente os seus atos de adoração.

' GARRET, T.S. Chi.isriui~Worship. (London. Oxford University Press. 1961). p. 47.
'" MAXWELL. William. An Ourliiie of Uiristiuii i.Vor.rhip (London. Oxford University press,
1936). p. I I .
Logo depois do reconhecimento do cristianismo, nos primeiros anos, cada local
desenvolveu a sua própria liturgia e seus costumes dentro da esfera da sua influência
cultural. Cada liturgia era cantada com as suas próprias tradições e melodias, de forma
que temos registros históricos do desenvolvimento de cantochão antioquiano, cóptico,
mozarábico, ambrosiano (Milão), etc. Todas as igrejas primitivas usavam a língua
grega na adoração, até mesmo a igreja de Roma. O Latim começou a ser usado no
século IV, e mais tarde desbancou o grego das igrejas ocidentais.

Depois de 400 A.D., o Império Romano foi dividido em impérios oriental e ocidental.
No oriente, Bizâncio exerceu liderança em questões doutrinárias e litúrgicas. No oci-
dente, Roma exerceu a liderança eclesiástica, e o rito Romano - Gregoriano - tornou-se
posteriormente a liturgia universal. O Papa Gelasius I (492-496) e o Papa Gregório, o
Grande (590-604), fizeram importantes revisões na liturgia. Gregório também fundou a
Sclzola Cantorum, que padronizou o cantochão ocidental. Também fizeram modifica-
ções o Imperador Carlos Magno (742-8 14) e seu associado Alcuíno (735-804). Mesmo
assim, havia diferenças nos costumes de lugar para lugar durante toda a Idade Média,
até que o Concílio de Trento (1562) estabeleceu a uniformidade litúrgica com o Missale
Romanum (1570).

Até por volta de 1500, as seguintes partes da liturgia eram cantadas (pelo coro): Na
Liturgia daPalavra, cantava-se o Intróito, Kyrie Eleison (nove vezes), Gloria in Excelsis,
Gradual (salmodiar), Espaço ou Seqüência (durante o qual são feitas orações, prepara-
ção para a Saudação do Evangelho...) e o Credo (de Nicéia); na Liturgia do Cenáculo
cantava-se o Ofertório, o Sanctus, o Benedictus, o Agnus Dei e o Hino de Comunhão
(que normalmente era um Salmo). ''
Durante a Idade Média a maior parte da arte era dingida a Deus e planejada para
beneficiar a todas as pessoas, quer fossem jovens ou velhos, servos ou nobres. Há
evidências, durante este longo período da história ocidental, de que a expressão artís-
tica existiu em dois níveis: profissional e amador. No fim da Idade Média, canções
folclóricas, hinos macarrônicos (que combinam a língua vemácula e o latim) e hinos
falsificados (paródias de formas seculares) eram comuns no ambiente religioso; cantos
corais gem-iânicose salmos métricos franceses baseavam-se frequentemente em poe-
sia secular e melodias folclóricas. Com o início da Renascença, o surgimento do
humanismo voltou a atenção do artista para o povo comum.

1.1.4- IDADEMÉDIA
Como na Igreja Antiga, os cristãos dividiam-se em três grupos fundamentais: os
sacerdotes, os crentes e os catecúmenos. Na Idade Média tal divisão também foi
aplicada no sentido musical: os solistas, que dirigiam o canto gregoriano, o coro,
artisticamente instruído e o canto congregacional, que existia como um mal necessá-

" HUSTAD, Donald. A Música nu Igreja (São Paulo, Vida Nova, 1981), p. 109.
rio. A participação da congregação na liturgia era quase nula, pois a música litúrgica
havia se afastado do povo. Sacerdote e coro cantavam e a comunidade portava-se
como se fosse uma platéia assistindo a um espetáculo.

Além do Canto Gregoriano, por volta dos Séculos XIII e XIV, estendendo-se até o
Séc. XVI, os Motetos ganharam espaço considerável dentro da Igreja. Tratava-se de
uma adaptação vocal para uma melodia existente. A técnica de composição era uma
constante imitação de uma voz contra a outra (contraponto), formando um todo unido
para refletir a "unidade" de pensamento de uma comunidade que era a "Una Sancta
Catholica Ecclesia". As missas de Palestrina, onde mundo e céu, tempo e eternidade
parecem confundir-se em uma harmonia perfeita, são um bom exemplo deste tipo de
composição.

Convém ressaltar também que, quase a totalidade da produção musical nesse pen-
odo era de conteúdo sacro. Havia sérias restrições com respeito à música profana.

1.1.5 - A MISSAROMANA
Com a padronização da liturgia, estabelecida por Gregório, o Grande, muitos costu-
mes regionais tiveram que ser desconsiderados. Se por um lado houve um enriqueci-
mento nos padrões litúrgicos, por outro houve um empobrecimento, pois o aspecto
cultural foi completamente desconsiderado. Perdeu-se quase que completamente a
participação efetiva da congregação, pois tornaram-se meros espectadores de uma
língua da qual muito pouco entendiam. Depois do Século N, com o crescimento rápido
do cristianismo, a adoração tornou-se quase exclusivamente sacerdotal, os cânticos
foram confiados a um coro de sacerdotes, e a voz da congregação foi silenciada quase
por mil anos.

Durante o período da Idade Média, além de excluir a congregação das melhores


partes da adoração, muitos problemas doutrinários começaram a surgir, especialmente
porque a Liturgia da Palavra tinha pouco significado, as leituras da Escritura eram
muitas vezes omitidas, sendo substituídas por leituras da história da vida dos santos.
A Ceia do Senhor deixou de ser um atojubiloso, sendo usada como meio de amedrontar
os fiéis, o que limitava a sua participação em uma ou duas vezes ao ano. A Ceia
passou a ser administrada sob U m Specie, o reconhecimento da Ceia como sacramen-
to foi esquecida, dando lugar à idéia de sacrifício, e a idéia de "transubstanciação"
substituiu a doutrina da "consubstanciação". Toda a ênfase da Missa estava sobre a
morte de Cristo, esquecendo-se da sua ressurreição.

1.1.6 - O PER~ODODA REFORMA


Martinho Lutero, ao afixar as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg,
marcou oficialmente a Reforma. Além da sua luta contra os abusos das indulgências e
contar os graves problemas doutrinários de sua igreja, Lutero preocupou-se em devol-
ver a Bíblia ao povo, e mais, na sua própria língua. Este período foi marcado por
grandes transformações, não quanto à estrutura da liturgia, pois esta em grande parte
foi mantida, mas na essência, no conteúdo da mesma. As leituras bíblicas (na língua
vernácula) e o sermão voltaram a ter o seu destaque. Erros doutrinários foram "varri-
dos" para fora das orações, o sacramento voltou a ser administrado sob as duas
espécies ... Mudança radical aconteceu na participação da congregação, pois Lutero e
seus colaboradores preocuparam-se desde cedo a traduzir, adaptar e compor hinos
para o culto, para que a congregação efetivamente participasse da adoração.

Os cantos luteranos contribuíram em muito para a difusão da Reforma, pois com


eles o povo participava com entusiasmo do "novo culto" e em público anunci-
ava a mensagem da Reforma. A grande reverberação do canto da Reforma pode
ser avaliada no desabafo de um dos adversários da Reforma: "Os hinos de
Lutero", assim constatava, "levaram à perdição mais almas do que todos os
seus livros e sermões". l2

1.1.6.1-REFORMAS LITURGICAS
A liturgia, no entender de Lutero, apoiava-se na idéia de que a Palavra não devia ser
estática, mas fluente e animada, e ter vida em seu uso na igreja. Por isso, trabalhou
ardentemente a fim de dar a uma liturgia velha novas roupagens, mais sonoras e vibran-
tes, mais atraentes e brilhantes. Ao indivíduo é restabelecido o seu lugar no culto; o
homem sente-se novamente alguém que é alvo do amor de Deus, não de sua ira. É,
portanto, alguém que louva com algo que brota do seu coração cheio de fé e gratidão.
Não repetia mais aquelas velhas frases que ninguém entendia o significado.

Em 1523 duas obras ligadas ao culto foram publicadas: "Von der Ordnung des
Gottesdienstes in der Gemeinde"", enfatizou que todo o culto deveria incluir leitura e
proclamação da Palavra e oração, tudo com muita simplicidade, cânticos em alemão e
corais; "Formula Missae"I4 tratou da Missa Latina não achando que esta estivesse em
contradição com o dogma protestante, a não ser no Ofertório e afins, substituiu-o pela
prédica em alemão, devendo esta ser precedida e sucedida por um coral ou moteto. De
um modo geral, Lutero manteve a ordem na missa, excluindo apenas aquelas partes que
se opunham à sã doutrina da Ceia do Senhor.

Em 1524 começou compor hinos para o culto. Era necessário adequá-los à notação
musical e acentuação da língua alemã. Em 1524 e 1525, a fim de produzir uma ordem
litúrgica totalmente em alemão, Lutero recebeu a ajuda de dois compositores da época,
Johann Walter e Konrad Rupff, e, no Natal do mesmo ano era oficialmente implantada.
Cabe destacar que a epístola e o evangelho também foram providos de uma notação
musical. A Deutsche MessetSfoi muito bem recebida pelo povo alemão, pois todos
agora podiam participar efetivamente da adoração.

- - -

'I LUTERO, Martinho. Pelo Evcingelho de Cristo (Porto Alegre/S%o Leopoldo, Concórdia!
Sinodal, 1984). p. 215.
" "A Respeito da Ordem do Culto na Congregação"
l4 Herança da Igreja Romana.
" "Missa Alem%", celebrada pela primeira vez em Wittenberg, a 9 de outubro de 1526.
Lutero preocupou-se em trazer a ordem do culto para a língua vemácula, para que
as pessoas mais simples pudessem entender e participar. Nas universidades, porém,
continuou insistindo que o Latim não deveria ser abandonado. A Fonnula Missae
tornou-se norma para catedrais e igrejas universitárias, e a Deutsche Messe para as
igrejas das pequenas cidades e áreas rurais. Na Formula Missae, o coro cantava os
tradicionais salmos, cânticos e orações em latim, no cantochão gregoriano ou em
acompanhamentos musicais polifônicos.

Na Missa Alemã houve maiores modificações, pois muitos dos cânticos históricos
em latim foram substituídos por versões desses hinos em alemão, usando inclusive
melodias folclóricas alemãs. O seguinte esquema resume o que era feito na Deutsche
Messe: Hino ou Salmo em Alemão (Intróito), Kyrie (em grego, cantado com amelodia
de um salmo), Coleta (curta oração introdutória), Epístola (cantada), Hino Alemão
(hino alemão "Ao Santo Espírito com fervor", substituindo o Gradual, Aleluia), Evan-
gelho (cantado), O Credo (no hino alemão "Nós cremos todos num só Deus), Sermão,
Oração Dominical (uma paráfrase do Pai Nosso), Exortação aos participantes da Ceia
do Senhor, Consagração dos Elementos (Palavras da Instituição), Celebração (durante
a qual podiam ser cantados as formas alemãs do Sanctus e o Agnus Dei, e/ou outros
hinos em alemão), Coleta (ação de graças) e a Bênção Araônica.

Com algumas alterações, a Missa de Lutero continuaem uso na igreja luterana até hoje.

1.1.6.2- REFORMA NO CAMPO MUSICAL


"A vida do cristão não deve ser uma lamentação, mas a mensagem da obra de
Cristo deve refletir alegria e júbilo na face dos crentes".IhNeste afa Lutero aproveitou
várias melodias conhecidas e populares para transmitir o evangelho. Salmos eram uma
das fontes para os hinos de Lutero. Preocupou-se não apenas em criar coisas novas,
mas especialmente procurou conservar a pureza doutrinária.

No período da Reforma, calvinistas e zwinglianos eram contra qualquer expressão


artística dentro da Música Sacra. Isto trouxe algumas dificuldades a mais para Lutero
fazer reformas na música usada na igreja. Calvino e Zwinglio achavam que a música
distraia os fiéis do verdadeiro sentido dareligião. Em Heidelberg não se permitiu tocar
órgão de 1550 até 1657.

O amor de Lutero pela herança litúrgica e musical da Igreja prepararam o caminho


para uma gloriosa tradição musical." A influência de Lutero não marcou apenas a sua
época, mas o seu "Kirchenlied" continuou influenciando grandes personalidades da
Música, culminando com Johann Sebastian Bach.

A grande inspiração para os primeiros hinos de Lutero foram os mártires da Refor-

'O LUTEKO, op. cit, p.215.


" LUTHER, op. cit., p. 12.
ma, expressando a mesma convicção em seus exemplos. Seus primeiros dois hinos
foram "Ein neues Lied wir leben an das Walt Gott unser Herre"lx (1523) e "Nun freut
euch liebe Chri~tengmein"'~ (1523). Neste hino jubilante, Lutero confessa a sua fé no
Deus de Amor. Destaca o desalento da vida longe de Deus e de seu Evangelho e
explode de júbilo ao manifestar que o Deus da Salvação olhou graciosamente para ele.
Este hino parece ser uma autobiografia do próprio Lutero, ou seja, faz um convite a
todos para a exaltação ao Deus de amor, ao qual ele chama de Pai e Benfeitor; segue
falando da sua situação de pecado e perdição e das tentativas frustradas de reconcili-
ação com Deus; foi então que o Deus de Amor teve compaixão, revelando-lhe pelo
Evangelho Jesus, o Deus Forte; faz então uma rápida descrição da obra redentora de
Jesus, concluindo com a promessa de que "quem permanece em mim, não será venci-
do".20

Com o marco inicial da Reforma, em 31 de outubro de 1517, a música constituiu-se


um doce consolo para Lutero em suas horas de amargura, um bálsamo para curar suas
feridas causadas pela tristeza, rancor e solidão. Para ele, música era estímulo e meio de
aproximação com Deus por meio da Palavra. Para Lutero:

Música: Maravilhoso Dom de Deus, inspiração para meus sermões; desperta


as emoções do coração; nada mais apropriado para alegrar aos tristes, para dar
esperança ao que desespera, para fazer humilde o orgulhoso, para reduzir a
inveja e o ódio, do que a m ú ~ i c a . ~ '

Para Lutero, música de toda a espécie deve louvar a Deus. Em qualquer música
deve haver uma motivação de louvor e gratidão. Criticou a música pobre, sem expres-
são artística e sem conteúdo musical. Música era para ele expressão de fé e dom da
graça de Deus, com a qual ele relacionava a música. Assim como o artista expressa seus
sentimentos através da pintura, o cristão expressa sua alegria, liberdade e fé (também)
através da música. Suas composições inclusive sugerem outros rumos para a música
moderna. A musicalidade de Lutero se antecipou por 300, pois o princípio da absoluta
liberdade criadora só se compreendeu 300 anos depois, com Haydn, Mozart e
. ~ ~ Lutero, o compositor é o dono das notas; elas fazem o que ele quer;
B e e t h o ~ e nPara
muitos outros se vêem obrigados a fazer o que as notas querem. Um historiador da
música universal, Otto Maria Carpeaux, assim apresenta o compositor Martinho Lutero:

Dentro do mundo protestante, a arte musical foi salva pelo acaso feliz da
musicalidade de Lutero...Pelo 'coral luterano' entrou na igreja um importante e
infinitamente rico elemento folclórico; ao mesmo tempo salvou-se a relativa

IR "Um novo cântico nós vivemos no reino de Deus, nosso Senhor"


I' "Alegra-te, ó cristandade". Hinário Luterano, hino 376: "Vós Crentes, todos exultai".
?O Hinário Luterano, hino 376.
" NETTL, op. cit., p. 17.
'' CARPEAUX, Otto Maria. Uma Nova História da Música (Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1978).
p. 26.
independência musical do órgão; e pouco mais tarde já não haverá objeções da
parte das autoridades eclesiásticas contra a participação de outros instrumen-
tos e contra a elaboração mais sutil de certos temas corais ... as Cantatas. 23

Uma das maiores contribuições de Lutero foi fazer o povo cantar, principalmente
nas funções litúrgicas da Igreja. O mais fascinante era o conteúdo teológico dos seus
hinos, os quais eram "recheados" do mais puro evangelho, de consolo e de fortaleci-
mento, o que levou o povo a cantar também fora da igreja.

Lutero adaptou as melhores das melodias antigas e canções populares e também


compôs hinos que tocavam os corações. A (re)introdução do canto congregacional
deu a cada membro da Igreja a oportunidade de tomar parte ativa no

Os hinos (Kirchenlieder) tomaram-se o fundamento musical do serviço da igreja e


Lutero sabia que somente os hinos cantados pelos adoradores em língua conhecida,
tinham valor pedagógico. Para ele, as notas davam vida às palavras e serviam para
reavivar o espírito.

Suas primeiras melodias eram bastante simples (todas as notas com amesma dura-
ção) para facilitar o cantar. Depois, Lutero desenvolveu o seu Dom, unindo aptidão
musical com conhecimento teológico.

No hino "Ein feste Burg ist unser Gott" (1528)25,a melodia deveria ter sido compos-
ta por Johann Walter, mas Lutero não se agradou da mesma e, ele mesmo, compôs a
melodia que conhecemos. Baseado no Salmo 46, este é o hino imortal da batalha de
Lutero. No original, os muitos monossíiabos pronunciados dão ao poema uma soleni-
dade singular, algo irresistível, um desafio, um grito de guerra. Na segunda metade da
primeira estrofe é descrita uma luta corporal, com lanças e espadas ameaçadoras. Estas
se estendem ao som rítmico dos tambores de quatro tempos. Com passos curtos e
firmes começa o ataque contra o inimigo. Este hino guiou e acompanhou muitos guer-
reiros protestantes no combate por sua fé. As três notas iniciais repetidas, parecem
indicar a sua confissão de fé. A tríplice repetição da tônica indica o ressoar da trombeta
de um atalaia em sua torre, mostrando que ele sabe dar vida às notas. O hino "Ein Feste
Burg" teve grande repercussão e aceitação. Em 1544 este hino apareceu em quatro
arranjos contrapontísticos diferentes, um a quatro vozes com a melodia no baixo,
arranjo de Rhaw e outro arranjo a cinco vozes, por Stephan Maku. Em 1586, Lucas
Osiander e Johannes Eccard transferiram a melodia para o soprano. No Século XVII
apareceram muitos arranjos do coral de Lutero. Johann Sebastian Bach compôs sua
magnífica Cantata da Reforma baseada neste coral para os festejos do segundo cente-
nário da Confissão de Augsburgo.

" Ibid., p. 17, 18.


'' NETTL, op. cit., p 37.
" "Castelo Forte é nosso Deus" - Hino 165 do Hinário Luterano.
A composição "Aus tiefer Not schrei ich zu D Y Z 6possui uma melodia dramática,
com uma queda de Quinta no modo fngio, que descreve bem o conteúdo do Salmo 130.
Trata-se de um hino de arrependimento e reconhecimento de nossa total dependência
de Deus para a nossa salvação. A melodia retrata muito bem esta realidade.

Um dos hinos de Lutero que não poderia deixar de ser mencionado é "Vom Himmel
hoch da komm ich herMz7, tirado de uma velha canção "Ich kam von fremden Landen
her'lZ8,sendo a melodia do próprio Lutero, que hoje é uma das mais populares canções
natalinas, a qual Lutero chamou de "Ein Kinderlied auf die Weinacht vom Kindlein
Jes~"~'. Ele mesmo usava estamelodia como um acalanto, como se fosse uma canção
de ninar para seus filhos.

Sua colaboração para a música sacra foi além de compor e adaptar. Lutero também
foi um grande "colecionador" de hinos, para futuras publicações.

Em 1524 era publicado o "Geistliche Gesankt B i i ~ h l e i n "contendo


~~, 29 hinos com
harmonizações de Walter, dos quais 24 eram do próprio Lutero e 5 de melodias latinas.
Em 1537jáerapublicada uma ampliação do referidohinário,chamadode "Wittenbergisch
deutsch Geistlich Gesangb~chlein"~',contendo 101 harmonizações de Walter (64
alemães e 37 latinas).

Lutero insistia em ensinar tais melodias às crianças e aos jovens, e, em pouco


tempo, estes hinos seriam o padrão da Reforma. Vários outros hinários surgiram na
época, ampliando os recursos litúrgicos.

O motivo da grande aceitação da música de Lutero não foi a sua erudição musical,
mas o fato de interpretar o texto através da música. Referindo-se à força que represen-
tavam os hinos de Lutero, um jesuíta escreve: "Lutero assassinou mais almas com seus
hinos e canções do que com seus escritos e sermões". 32

Para Lutero, o simples fato de compor uma música tinha um significado todo religi-
oso. Acreditava que a música era o meio de superar as tentações carnais.

2. HINÁRIO
O hinário do povo de Israel era o livro dos Salmos e uma seleção de cânticos.
Grandes hinos registrados na Escritura formaram a liturgia do culto. Lutero, a partir de

'O Traduzido por "Das profundezas clamo, ó Deus" - Hino 349 do Hinário Luterano
" Traduzido por "Eu venho desde os altos céus" - Hino 26 do Hinário Luterano.
"EU vim de uma terra estranha"
" "Um cântico infantil sobre o Natal do Infante Jesus"
"' "Pequeno Livro de Cânticos Espirituais"
" "Pequeno Livro de Cânticos Espirituais Alemães de Wittenberg"
'' LUTERO, op. cit., p. 215.
1523, começou a compor, traduzir ou adaptar hinos para o povo de Deus. Uma coisa
fundamental, à qual Lutero muito bem observou, foi a de produzir material acessível ao
povo e que fizesse parte de seu contexto cultural.

A Igreja Luterana, desde que estabeleceu-se no Brasil, tem seguido uma cultura
musical importada, a qual, na maior parte dos casos, já ultrapassa alguns séculos. Não
queremos, de forma alguma, dizer que tais hinos devessem ser abolidos do uso
congregacional, pois assim estaríamos jogando fora uma riqueza teológica e poética. O
que queremos enfatizar é que mais hinos em estilo e ritmo brasileiro sejam usados em
nossos cultos de adoração, buscando assim uma maior identificação com a cultura
brasileira.

Grandes passos nesse sentido já foram dados. São muitos os talentos musicais
espalhados por este Brasil. Muita beleza musical tem aparecido, especialmente entre
os jovens. Cabe aos pastores, aos teólogos da Igreja, estar ao lado destes talentos,
para que, além da riqueza artística, seja preservada a pureza e riqueza doutrinária.
Também nós podemos ter à nossa disposição salmos, hinos e cânticos espirituais,
incentivar mais o uso do hinário e cancioneiro em nossos cultos, reuniões, estudos e,
especialmente, na vida devocional doméstica.

3.CORAL
Desde os tempos do Antigo Testamento, o coral tem exercido função indispensá-
vel no culto a Deus (1 Cr 6). Já mencionamos a seriedade com que este trabalho era
desenvolvido e o tempo dispensado para o mesmo. O nascimento de Cristo foi aclama-
do com um belíssimo coro de anjos; a própria descrição do céu também não esquece do
coro (Ap 5.12).

É verdade que houve períodos na história em que o coral ocupou o lugar que cabia
a congregação (corais de monges). Mas, apesar destes desvios de suas funções, não
há dúvidas de que o mesmo deve ocupar o seu espaço no contexto litúrgico.

3.1 - UNIDADE
A unidade do culto é salutar para um melhor aproveitamento e retenção da mensa-
gem por parte da congregação. Por isso o coral sempre deveria estar inserido dentro
desta unidade, os textos de suas músicas deveriam estar relacionados com a mensa-
gem central. Seria interessante para os corais providenciarem para o seu repertório
material litúrgicos, os quais poderiam ser utilizados, eventualmente, em lugar de uma ou
outra parte da liturgia. Por exemplo, existem variadas composições que usam o texto do
Kyrie, outros trabalham o Gloria Patri, Pai Nosso, etc. Por que não aproveitar o momen-
to e enriquecer o brilho da liturgia ?!

3.2 - FUNÇÕES
A função principal do coral não é a de fazer apresentações ou shows, mas exerce
importante papel na condução dos hinos cantados pela congregação, ter participações
na liturgia, cantando partes da mesma com outros arranjos ou enfatizando o tema do
dia. O coral pode muito bem ser aproveitado para o ensino de novos hinos à congrega-
ção. Heinz Werner Zirnmermann comenta que "o coral é o suporte e enriquecimento do
cantar dos hinos pela congregação e da sua liturgia. Traz riqueza e variedade ao culto
ao cantar partes da liturgia e ao cantar hinos apropriados para cada Domingo do ano
eclesiástico." 33

Oportunidades de participações em festivais de corais não devem ser desperdiçadas.


O coral da congregação, mesmo participando de programações fora do âmbito da
igreja, sempre terá uma mensagem a transmitir. Participar de festivais missionários,
cantar em casamentos, funerais, hospitais (quando possível), são algumas das manei-
ras do coral ser útil para a congregação, cumprindo com o seu maior papel, o de
proclamar o evangelho da salvação e embelezar os momentos de adoração.

James F. White, em seu livro "Introdução ao Culto Cristão", assim define as fun-
ções do coral:

Se a principal função do Coral é concebida como um compartilhar do ministério


da Palavra - Cantopara a congregação - isto pode requerer uma localização de
frente para a congregação. Se um coral é considerado necessário para embelezar
- cantarpela congregação - uma localização menos conspícua também serviria
bem. Cada vez mais as pessoas se dão conta de que as principais funções do
coral consiste em liderar o canto congregacional - canto com a congregação.
De qualquer maneira, o coral deveria ficar tão próximo da congregação quanto
possível, talvez até misturado com ela. 34

-
3.3 RESPONSABILIDADE COM A TEOLOGIA LUTERANA
O coral de uma congregação luterana tem o compromisso de difundir a correta
pregação da Palavra de Deus. Por isso, não basta o hino ser bonito e agradável ao
ouvido para ser imediatamente colocado no repertório. O cuidado com a pureza doutri-
nária é fundamental, pois através do cantar o Evangelho deve ser anunciado. Cuidado
com os famosos hinos de apelo à fé, ou que meramente descrevem experiências parti-
culares, ou ainda, que confundem Lei e Evangelho. O regente, caso não seja o próprio
pastor, sempre deveria buscar orientação de seu pastor em assuntos teológicos e
também trabalhar dentro de um planejamento, baseado no ano eclesiástico.

3.4 - QUALIDADE
O melhor que nós tivermos a oferecer, ainda é pouco. Para Deus queremos dedicar

" ZIMMERMANN, Heinz Werner. The Music of the Choir. In: Church Music (Saint Louis,
Concordia PubIishing House, 1977). v. 77, p.5.
I4 WHITE, James F. Introduçüo cio Citlto Cristüo (São Leopoldo, Sinodal, 1997), p. 87.
o máximo dos dons, as melhores vozes e um bom investimento também nesta área. Os
corais poderiam optar por um repertório leve, vibrante e, sempre que possível, trabalhar
material atual, dentro da nossa realidade brasileira.

4. I ~ s r ~ u ~ ~ ~ r o s
Jámencionamos que naEscritura não há qualquer restrição ao uso de instrumentos
variados para executar a música na igreja, antes pelo contrário, há somente incentivos
e demonstração de que esta área recebia grandes investimentos. Todos as categorias
de instrumentos musicais, percussão, cordas e sopros faziam parte da adoração.

A tradição luterana tem sido a de que o órgão é o instrumento ideal para a igreja.
Outros instrumentos, por longos anos eram simplesmente considerados inapropriados
para o uso na igreja. Onde está escrito isto ? É verdade que o órgão é um bom instru-
mento, mas, pergunta-se, em campos avançados de missão seria o órgão a melhor
escolha ?

Quando pensamos na realidade brasileira, não queremos descartar o uso do órgão


ou teclado, mas, num país onde o ritmo é uma das coisas mais marcantes, não seria
interessante usar mais instrumentos de percussão, cordas (violão, cavaquinho,
bandolim) e outros variados instrumentos?

Desafiamos os pastores e as congregações a pensarem na possibilidade de formar


conjuntos instrumentais, pequenas orquestras para acompanhar a música na adora-
ção, e, acima de tudo, investir na formação de instrumentistas e dar-lhes o devido valor.

Co~ausÃo
Temos da parte da Escritura tanto a aprovação, como recomendação do uso varia-
do de instrumentos e estilos musicais na adoração. Numerosas são as referências,
tanto do Antigo Testamento, como do Novo Testamento, revelando que o culto com
muita música sempre foi do agrado de Deus. O Senhor Jesus, durante todo o seu
ministério, jamais repudiou os cultos no Templo e sua bela música, antes adotou o
hábito regular de frequentar e participar de tais cultos.35

A eficiência do departamento de música de uma congregação sempre trará alegrias


e, com o som dos instrumentos e a voz de canto, estará cumprindo com a missão de
fazer discípulos, de pregar o evangelho, de anunciar as boas novas da salvação.
Queira Deus abençoar toda a iniciativa das congregações, pastores ou cristãos indivi-
dualmente, na busca de aperfeiçoamento nesta arte que é um dom de Deus.

" McCOMMON, Paul. A Músicci nu Bíbliu (Rio de Janeiro, Casa Publicadora Batista. 1963), p.
99.
Referências Bibliográficas

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ZIMMERMANN, Heinz Werner. The Music of the Choir. In: Church Music.
St. Louis: CPH, 1977, v. 77.1.
A SANT~SSIMATRINDADE
30 de maio de 1999
Isaías 6.1-8

c o m o
1- CONTEXTO HIST~RICO
O profeta é bem específico ao datar sua visão: " No ano da morte do rei Uzias", isto
é, 740 A.C. A determina~ãoexata da data lembra registros importantes da revelação de
Deus: O nascimento de Jesus (Lc 2.1,2);o início do ministério de João Batista (Lc 3.1,2).
Não é um episódio qualquer ou um sonho no ar; mas é um momento exato na história
da humanidade que Deus se revela!

Uzias foi um rei fiel a Deus no início do seu reinado. Começou areinar com 16 anos.
Reinou durante 52 anos em Jerusalém. Mas quando estava bem consolidado em seu
governo, ousou querer queimar incenso na casa do Senhor, tarefa exclusiva dos
sacerdotes. Foi ferido com lepra e ficou recluso até o final dos seus dias (2 Cr 26).
Isaías profetizou durante o reinado de Uzias. Jotão, Acaz e Ezequias (1s 1. I). Al-
guns foram reis que andaram no caminho do Senhor, outros não. O povo andava
bastante afastado de Deus (2 Cr 27.2b). Desafiavam "o Santo de Israel" (1s 5.19).
2 - CONTEXTO LIT~RGICO
Este Primeiro Domingo após Pentecostes é o Domingo da Santíssima Trindade. As
leituras acentuam a SS. Trindade e sua obra por nós:
S1 148 : Um coro de Aleluias, no qual todos são conclamados a louvar ao Senhor.
Ef 1.3-14: Uma exaltação ao Senhor, que em Cristo nos escolheu para sermos dele
e nos selou com o Santo Espírito, garantindo a nossa salvação.
Jo 3.1-8: Na conversa com Nicodemos, Jesus aponta para a necessidade de nascer
da água e do Espirito para entrar no reino de Deus.
1s 6.1-8 : Isaías vê o Senhor sendo aclamado e glorificado pelos anjos, que clamam:
Santo, Santo, Santo é o Senhor!

Lutero baseia-se neste texto para escrever o hino no 234 do Hinário Luterano: " No
templo a Isaías sucedeu", com seu belo refrão: "É Santo o nosso Deus, Senhor Jeová!".
E sugere que este hino seja cantado após a celebração da Santa Ceia (Pelo Evangelho
de Cristo, pág. 229). - Tambcm os belos hinos 146 e 154 baseiam-se neste texto,
complementados por Ap 15.3,4e Ap 4.8. Nesta ligação, o texto aplica-se bem ao Lema
IELBl99: Esperando cotn$delidade a Deus, que projeta o nosso olhar através da história
para dentro do céu, na espera certa e fiel do cumprimento de todas as promessas de Deus.
Lembramos também que neste Domingo é celebrado o aniversário da JELB - Juven-
tude Evangélica Luterana do Brasil (3 1.05.25). O texto, ligado ao Lema IELBl99, pode
ser direcionado a esta festividade.

rn
K I : "Eu vi o Senhorv- Testemunho semelhante deram Maria Madalena no Domingo
da Páscoa e os discípulos (Jo 20.1 8,25). Aqui Isaías vê Deus em sua glória (Jo
1.14;Jo 12.41), como também João em Apocalipse 1 . 1 2 s e~4.1-8, e Moisés e os
anciãos em Êx 24.10.
- "alto e sublime trono" - Termos usados também em 1s 57.15, em que Deus fala
de si mesmo; e em 1s 52.13, referindo-se ao "Servo sofredor".

Y 2 : "serafinsW-Apenas neste capítulo aparece este termo. Serafins são seres


angelicais, muitas vezes relacionados aos "quatro seres viventes" de Ap 4.6-9;
e com a visão de Ez 1 . 5 s e~ 10.15.
-"cobriam o rosto"- porque nem eles podiam olhar diretamente para a santidade
de Deus.
- É bom lembrar, numaépoca de tanta "angeologia", que afunção dos anjos, até
o mais alto escalão, é servir a Deus! Não podem ser invocados nem adorados,
pois isto ofende a glória de Deus e desvia o olhar da fé para criaturas.

K3: "Santo, Santo, Santon- A tríplice repetição, além da ênfase que se quer dar (Cf.
o "Em verdade, em verdade..." dito por Jesus: Jo 3.3,5,1 I), é entendido como
alusão à SS. Trindade. Daí a perícope ter sido escolhida para este Domingo. Ap
4.8b relata o mesmo canto, entoado pelos quatro seres viventes!
- "Senhor dos Exércitosv- "Alnzighty" na New Int. Version; "Todo-Poderoso"
na BLH. - Em 1s 54.5 temos uma outra bela descrição de Deus!
- "toda a terraw-Deus não está limitado a um povo e a um lugar. O "Cristo para
Todos" já é antecipado no Antigo Testamento sempre que Deus é proclama-
do Senhor de todo o universo.

Y4: "se moveramM-ou: "estremeceram"; "encheu de fumaçan- manifestação seme-


lhante aconteceu na entrega dos 10 mandamentos: Êx 19.18; na dedicação do
tabernáculo: Êx 40.34: e em Ap 15.8 ao serem revelados os sete flagelos.

V5: "Ai de mim, estou perdido!"- A reação do pecador diante do Deus Santo! Cf.:
Pedro: Lc 5.8.
- "sou homem de lábios impurosu- É uma sincera confissão da situação pecado-
ra do ser humano!
- "habito no meio de um povo de impuros lábiosv- No cap. 59 Isaías faz confis-
são da maldade nacional. Cf .: 59.3.
- " os meus olhos viram o Rei ..." - Êx 33.20: Deus fala a Moisés: "Não me
poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá!"-
Daí o temor de Isaías!

Vv. 6 e 7: - "tocou a minha boca"- Cf. Jr 1.9 e Dn 10.18. Deus vem ao encontro do
pecador para o purificar e colocar na sua boca as Suas palavras.
- "a tua iniqüidade foi tirada e perdoado o teu pecadov- Evangelho puro! A
brasa viva, tirada do altar do sacrifício, onde eram queimadas as ofertas pelo
pecado, é usada por Deus para purificar os lábios de Isaías.
- Os sacrifícios do Antigo Testamento eram, de certa forma, os sacramentos do
AT. - Deus continua tirando o nosso pecado; não mais pelo sacrifício de
animais queimados, mas pelo sangue de Jesus, vertido na CNZ por nós! Cf: 1
Jo 1.7: "O sangue de Jesus nos purifica de todo o pecado!"

V8: "Quem há de ir por nós?"- O "nós" pode ser ligado a Gn 1.26: É o conselho da
SS. Trindade, aqui cornissionando o profeta.
- "Eis-me aqui, envia-me a mim"- tendo a revelação de Deus e sendo perdoado
pela graça divina, o profeta se coloca à disposição de Deus. "Não podemos
deixar de falar das cousas que vimos e ouvimos"(At 4.20).

PROPOSTA
HOMEÉTICA
Tema: Conhecendo melhor o nosso Deus.
Objetivo: A partir da manifestação a Isaías, refletir sobre o nosso Deus, que é Pai,
Filho e Espírito Santo, e sobre a sua ação misericordiosa em nosso favor.

Empecilhos na busca do objetivo:


- Visões distorcidas de Deus.
-Visão unilateral de Deus.
- Medo de Deus, falta de consolo na revelação de Deus.

A solução de Deus:
Deus, em Cristo, é gracioso e nos purifica de todo o pecado.

Intr-odução:
- Desenvolver estas e outras questões semelhantes, ligadas ao lema: Esperan-
do com fidelidade a Deus:
- Como é que você imagina Deus? Que Deus você espera?
- Um velho bonzinho de barbas brancas? (este é Papai-Noel ...)
- Um Deus vingativo e juiz severo? (Lutero, na sua primeira fase)
- Uma energia dentro de cada um de nós? ...

I - Deus é Santo e Todo-Poderoso!


Vv. 1-4 - Primeiro Artigo do Credo.

I1 - Deus é santo e perdoador!


Vv. 5-7 - Segundo Artigo do Credo.

I11 - Deus é Santo e vem ao nosso encontro na sua palavra.


Vv. 8 ( e 9a) - Terceiro Artigo do Credo.
Conclusão:
Fidelidade aeste Deus, que sempre é fiel a nós. (Jovens, JELB: voto de confumação).

Carlos Walter Winterle


Porto Alegre, RS
6 de junho de 1999
Êxodo 10.1-17

CONTEXTO
Êxodo 10.1-17 está inserido na grande discussão sobre a existência e a essência de
Deus. Encontramos aqui os dez mandamentos, colocado após várias manifestações da
onipotência de Deus, da prova de sua existência, como se pode ver nos milagres que
antecedem o momento em que Moisés sobe ao monte, ou mesmo o que acontece sobre
o monte, antes e após Moisés receber de Deus estes mandamentos. É como se Deus
estivesse apresentando sua credencial, como alguém que tem direito de exigir dos
homens a obediência, pois é o Senhor todo-poderoso. Mas ao mesmo tempo também
nos coloca a realidade de que, junto com a sua onipotência, também está presente o seu
amor e a sua misericórdia, pois ele não usa o seu poder para simplesmente exigir a
obediência, mas usa o seu poder em benefício daqueles a quem Ele ama. Quer dizer:
Deus quer a obediência aos seus mandamentos não como uma simples obrigação ou
por medo, mas quer que o seu povo o obedeça prontamente, perdão do bem que Ele
Ihes faz. Ou seja: como em tudo que o homem faz para Deus, Deus quer que seja movido
pelo amor de Deus; resumindo: Deus quer do homem a obediência movido pela Sua
graça. ( Esta poderia ser uma boa idéia para explorar no sermão).

TEXTO
VI: "Todas aspalavras": Os mandamentos são palavras de Deus, faladas por Ele:
tem sua origem nele. São de natureza divina. Eles são a natureza de Deus. Ele é
um Deus que faz parte da vida da pessoa. Só podemos conhecer corretamente
a Deus de duas formas: saber o que Deus fez e disse.
V2: "Eu sou YHWH... que te tirol{":Exortação para se crer num Deus vivo, que age em
favor do seu povo. Écomo se fosse uma espécie de preâmbulo para dizer do motivo
pelo qual se deve obedecer os mandamentos.Não estamos sendo levados a obede-
cer a um Deus que exige obediência por exigir, mas num Deus que apresentaargu-
mentos positivos, de ação, para levar voluntariamente à obediência.

V3: "Não terás outros deuses".: O que se exige aqui expressamente é a adoração a um
único Deus. Israel vivia no meio de um povo politeísta: e coma enorme perigo, de
ser tentado a buscar outros deuses que os cercavam. Provavelmente hoje a
situação é bem pior, pois há muito mais "deuses" cercando nossa sociedade do
que em qualquer tempo. "diante de mim...":nenhum outro deus pode ser adora-
do cnquanto queremos ser adoradores do Deus verdadeiro. Quer dizer: não po-
demos chegar diante do altar do Senhor com outro deus (ídolos, prazer, etc.) no
coração. Deus quer exclusividade. Ele a merece, pois Ele é único. O único.
V4: "Imagens de escultura". É interessante notar que entre os israelitas não apenas
fazer imagens de outros deuses era proibido, mas também fazer representações
do próprio Deus. O motivo é que nenhuma semelhança seria adequada, poden-
do causar uma falsa compreensão de Deus. O homem fora criado à imagem de
Deus, mas isso não significava que Deus fosse igual ao homem. Se eles quises-
sem fazer uma representação do Deus, com certeza logo isto viria trazer idola-
tria, pois iriam crer que, dependendo onde estivesse a imagem de Deus, ali
também Deus estaria presente. Iriam querer controlar esta presença de Deus
(aliás, assunto bem atual: médiuns, santos, lugares rniraculosos, Brasíiia como
centro esotérico..., controle sobre Deus...).

V5: "UmDeus zeloso ":Apesar da conotação negativa, poderia ser "ciumento". Não
intolerância, mas exclusividade, pois Deus não é um entre muitos. Assim como
Deus não repartiria jamais Israel com um rival, assim Israel não deveria reparti-
lo com um outro. "Atéa terceira e quarta geração ":já que este mundo perten-
ce a Deus, e já que estamos todos envolvidos uns com os outros, qualquer
violação de Deus fatalmente irá afetar as gerações futuras.

V6: "Efaço misericórdias ":Se Deus pune quem não obedece os seus mandamen-
tos (v.5), por outro, Deus abençoa ilimitadamente os que o obedeccm. Ter amor
a Deus é muito mais do que simplesmente emoção: é atitude c atividade. Como
Deus faz conosco: mais do que falar. Ele demonstra seu amor, fazendo miseri-
córdia (aqui pode-se apontar para Jesus, milgeraçóes, pois este termo significa
a extcnsão ilimitada da misericórdia demonstrada por Deus).

V7: "Nüo tomarás ... em vão": A lei permitia abençoar e amaldiçoar em nome de
YHWH. Jurar pelo Seu nome (c não de qualquer outro deus) era um sinal de quc
ta1 pessoa cra um adorador de YHWH, e por isso logo digno dc louvor. O
israclita geralmentc usava a fórmula "rüo certo como vive o Setlhor". Sc al-
guém falassc assim e depois deixasse de cumprir o voto, era como questionar a
rcalidade da própria existência de Deus.

V8-11: "Lembra-te do dia de sábado": É interessante notar aqui que o que se


comemora aqui, como em todas as outras festas religiosas de Israel, é um ato de
Deus. O Sábado devia ser observado como um memorial do descanso de Deus
depois de Sua grande obra criadora. Ressalta-se aqui o fato de que em Cristo a
grande obra de Deus, a criação e formação do seu povo do Antigo Testamento,
tem seu verdadeiro cumprimento ou sentido, pois com Cristo temos um motivo
maior para festejar do que a criação, a libertação do Egito: a comemoração passa
a ser nossa salvação, demonstrada pela sua ressurreição como vitorioso sobre
o mal, e por isso este dia, ressurreição/domingo, passa a ser o dia de comemo-
ração dos cristãos, o dia de adoração, dia do Senhor.

V12-17: Aqui está a assim chamada segunda tábua da lei (embora alguns estudio-
sos considerem que o termo "duas tábuas" signifique todos os mandamentos
nas duas tábuas, sendo uma cópia da outra, como era costume fazer-se). Não
iremos fazer uma análise destes versículos, já que nossa sugestão de esboço
não se refere a eles ao mesmo tempo que cada um deles seria um assunto para
uma pregação exclusiva.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Temu: Qual o lugar que Deus tem em minha vida.

Introdução: Nesta nossa "era liberal", aonde se diz que "tudo é permitido e nada é
proibido", fica difícil falar-se em obediência. Ainda mais em obediência a Deus. Ensina-
se que "os cristãos conseguem as coisas oprimindo as consciências dos fiéis", diz-se
que isto cria complexo nas crianças... Mas qual o resultado destas falsas teorias? Onda
crescente de crimes, drogas, destruição ... O mundo (e nós cristãos também), mais do
que nunca, precisa aprender a conhecer a vontade de Deus, porque:
1. Nosso Deus é um Deus zeloso:
a) Que exige a obediência, pois Ele é o Senhor (v.2)
b) A Ele devemos prestar contas de nossa vida (v.5b; v.7b)
c) Senão sofreremos as conseqüências (relacionar c/introdução v.5)

2. Sua votitade não é ruim para nós:


a) Nos coloca em contato com o único Deus verdadeiro (Vv. 2-6 - 1" Mandamento)
b) Pois podemos falar com Ele (v.7-2" Mandamento. Cfe. Explicação de Lutero no CM)
c) Nos prepara para o grande Culto Eterno (v.8- 11 - 3" Mandamento)

3. Temos motivos para conhecer e obedecer:


a) Ele criou, nos deu a vida (v.11)
b) Ele nos sustenta, protege e guarda (v.2)
c) Ele nos abençoa e salva (v.6)

4. É disto que o mundo e nós precisamos


a) Para livrar o mundo do mal (v.2; v.6)
b) Para salvar eternamente o mundo (v.1; v.6)
c) Para preparar o mundo para sua volta (destaque IELB 99)

Conclusão
Precisamos estar prontos e esperar com fidelidade, anunciando a vontade de Deus
aos que ainda não a conhecem. E sua principal vontade é: SALVAR O MUNDO. E para
isto Ele precisa de nós e quer usar cada um, com seus dons e talentos. Esperar com
fidelidade é esperar com ação.

Romuuldo Henrique Wrasse


Joaçaba, SC
13 de junho de 1999
Deuteronômio 8.11-20

CONTEXTO
O povo de Deus está na irninência de tomar posse da terra que o Senhor prometeu,
sob juramento, aos pais. Deus, através de Moisés, havia trazido a repetição da lei e dos
estatutos. Moisés apresenta, então, uma exortação ao povo para que se lembre dos
benefícios que o Senhor lhes concedeu durante a longa peregrinação de quarenta anos
no deserto; passa a lembrar ainda a riqueza dessa terra prometida e a prosperidade que
dali podia ser esperada. Diante de tudo isso, traz uma recomendação, um aviso contra
o orgulho.

TEXTO
VII: Guarda-te,fica atento a ti mesmo... não te esqueças do teu Deus, esquecendo
os seus mandamentos. O texto faz umarecomendação de fidelidade, de zelo aos
preceitos do Senhor que, por sua vez, foi fiel e zeloso no cumprimento das suas
promessas.

Vi: 12-14; ... para não suceder que se eleve o teu coração - para que o orgulho não
tome conta da tua vida quando tiveres comida, boas casas, quando os reba-
nhos aumentarem e tiveres prata e ouro em abundância e quando, ainda, sobrar
de tudo. Não te esqueças do Senhor que se manifestou bondoso e misericordi-
oso quando te tirou da terra do Egito, da casa da servidão.

Vv. 15-16: Lembra-te da fidelidade do Senhor olhando para os exemplos do passado,


olhando para os cuidados que o Senhor teve para contigo diante dos perigos
do deserto, da falta de água e de mantimentos, o que foi superado com a
manifestação do Senhor.

V17: Não deixe que o orgulho tome conta do teu coração pensando que tudo isso foi
resultado da tua própria força e do poder dos teus braços.

V18: Lembra-te de que tudo provém de Deus, porque é ele que dá a força para que se
possa vencer.

Vv. 19 e 20: Se, no entanto, apesar de toda essa recomendação e do olhar para o
passado de um Deus presente, ainda assim te esqueceres do Senhor, tenha a
certeza, perecerás. Perecerás como pereceram e como perecem todos os que
buscam outros deuses.
PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema: "Esperando com fidelidade a Deus em tempo de prosperidade".

Introdução: "Vencer em tempos de crises, é demonstrar capacidade e de compe-


tência ..." Só isso...?
I - Os perigos:
1- Esquecimento (v.1 la);
2- Desobediência (v. 11b);
3- Auto-indulgência (vv. 12,13);
4- Orgulho (v. 14a);
5- Segurança carnal (v. 17).

I1 - A segurança:
1- A lembrança (v. 18);
2- A fidelidade;
3- A esperança (lema).

Conclusão: "Grande é a misericórdia do Senhor e a sua fidelidade subsiste para


sempre - por isso, louvai-o, todos os povos". Salmo 117.

Ingo Dieter Pietzsch


Porto Alegre, RS
20 de junho de 1999
Miquéias 7.18-20

Co~~nrro
Miquéias foi profeta do oitavo século - cerca de 742-687 a.C.. Profetizou nos
reinados de Jotão (seguiu a Jeová, mas não eliminou os "altos", onde o povo adorava
e oferecia sacnfícios a deuses falsos); Acaz (a influência pagã se fez sentir abertamente.
Entregou-se à idolatria, sacrificou e queimou incenso aos ídolos. Fez o que era mau
perante o Senhor); e Ezequias (mostrou-se servo de Deus. Restaurou o templo e tentou
reorganizar o serviço religioso, e as funções sacerdotais. Apesar de toda a sua piedade
e boas intenções, encontrou dificuldades na sua tentativa de reforma religiosa).

Nenhum segmento da sociedade havia ficado imune à compção da época: a) Os


príncipes e líderes políticos estavam tentando edificar uma sociedade próspera e uma
nação progressista, mas às custas das vidas dos pobres. b) Os profetas e a classe
religiosa guiavam o povo para a perdição. Profetizavam segundo o desejo de seus
ouvintes, pois, recebiam deles o pão e demais necessidades da vida. Nada Ihes diziam
de pecado, da Lei do Senhor, do Dia do Senhor. Anunciavam paz quando não havia
paz. c) O povo em geral sacrificava e oferecia sacrifícios nos "altos" para deuses falsos
e oriundos de povos pagãos. Não queriam um profeta da retidão (Miquéias). Preferiam
um ministério popular no pior sentido da palavra.

Miquéias é profeta do Senhor. Prega a Lei em todo o seu rigor para que o povo
pergunte pela Salvação, que ele (Miquéias) estava pronto a anunciar; pois, Deus, se
repreende ou castiga, nada mais quer do que a salvação. O que Deus exigia era a)
tratamentojusto e eqüitativo do próximo; b) uma vida diligente de fé vivida em comunhão
estreita com Deus. Esperando assim a vinda do Messias prometido.

TEXTO
Depois de anunciar as maldiçóes e os castigos, estes versículos iluminam a escuridão
da ira de Deus, com os raios fulgurantes das promessas divinas animando os homens
piedosos, convidando os arrependidos, oferecendo uma oportunidade de salvação.

Estes versículos formam um salmo de louvor àeternamisericórdia de Deus. Ele tira


as nossas transgressões. Ele as pôs sobre Cristo. Aquele que nasceu em Belém - local
profetizado por Miquéias - Mq 5.2. Deus lança para longe os pecados (nas profundezas
do mar - v. 19), e se aproxima do pecador que é o objeto de seu amor. Deus continua o
mesmo e mantém sua promessa - v.20 "Mostrará a Jacó a fidelidade, e a Abraão a
misericórdia". Em meio às ameaças, o mais puro Evangelho. Evangelho este que Deus
não deixa faltar. Miquéias prega contra o pecado mas não deixa de anunciar o amor de
Deus. O Deus que castiga seu povo é o Deus que perdoa. O Senhor quer animar com
tais palavras os homens piedosos a permanecerem firmes, a lutar e a ter esperança.

O povo estava deixando de cumprir sua missão no mundo, para a qual o Senhor o
tinha chamado (Mq 9.2,7) e, por conseguinte, teria que ser repreparado para o serviço,
mas a força motivadora só poderia estar centrada na "fidelidade e misericórdia do
Senhor".

As demais leituras deste Domingo enfatizam muito bem esta verdade.

Salmo 100: O salmista expressa sua alegria e confiança "somos o seu povo, e
rebanho do seu pastoreio" v.3 e assim o é porque ... "a sua misericórdia dura para
sempre". v.5.

O apóstolo Paulo, querendo consolar os irmãos, exulta de alegria por causa do amor
de Deus. "Transbordou a graça de nosso Senhor" 1 Tm 1.14 e no versículo 15 "Cristo
Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal".

Da mesma forma o filho pródigo - Lc 15.11-32 - após sentir quão desgraçado se é


vivendo longe da casa do Pai -retomou confiando na misericórdia do Pai. E é recebido
com alegria, graça e compaixão.

Realmente, ninguém é como Deus.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema: A misericórdia de Deus nos incentiva a ...
I) Praticar a Justiça
11) Amar a Misericórdia
111) Andar humildemente com Deus.

Urbano Lehrer
Foz do Iguaçu, PR
27 de junho de 1999
Gênesis 50.15-21

CONTEXTO
O texto se encontra logo após o relato da morte de Jacó. José é governador no Egito
e seus irmãos dependem dele para sobreviverem com suas famílias. Pesa sobre eles a
consciência de culpa pelo que lhe haviam feito muitos anos antes. O texto serve bem de
transição entre o relato da vida dos patriarcas para a situação vivida por Israel no Egito.

Considerando-se o contexto litúrgico, as leituras para o Quinto Domingo após


Pentecostes trazem elementos que podem auxiliar na pregação, visto que há um tema
comum envolvido. O Salmo do dia, S1 138, trata da misericórdia do Senhor; Ele atenta
para os humildes; salva os Seus dos inimigos. A Epístola, Rm 12.14-21, nos traz um
conjunto de exortações de Paulo, onde se pode ressaltar o "não torneis o mal por mal";
"não vos vingueis a vós mesmos"; "vence o mal com o bem". De uma certa forma, José
exemplifica o que Paulo aí está exortando. Vale lembrar que as palavras do apóstolo
encontram sua base na misericórdia de Deus (Rm 12.1).O Evangelho do dia, Lc 6.36-42,
também apresenta um assunto muito próximo do que temos na leitura do Antigo Tes-
tamento. Jesus mesmo diz aos Seus: "sede misericordiosos, como vosso Pai é"; "não
julgueis"; "perdoai". Há um claro foco na misericórdia e bondade de Deus [também
presente no texto de Gênesis - v. 201, que nos supre do que precisamos e nos move a
vivermos de forma misericordiosa com o nosso próximo.

TExlro
V 15 - - odiar, opor-se, manifestar animosidade (Almeida R.A. : "perseguir"). É
o mesmo verbo empregado em Gn 27.4 1 (o ódio de Esaú para com Jacó leva-o a
pensar em matar o irmão, pelo que este lhe fez ao receber a bênção do pai, em
seu lugar); S155.3 (o inimigo e o ímpio ... "furiosamente me hostilizam"). Os
irmãos consideram José e uma possível ação sua, a partir do que eles próprios
haviam lhe feito.
- 2-m: - uma forma do infinitivo seguida do mesmo verbo no Imperfeito, o
que se constitui em maneira de enfatizar o que está sendo dito - "José certamen-
te retomará ('dará o troco')" (Almeida R.A.: "retribuir certamente"). O verbo 2im
não tem em si um sentido negativo; significa: retomar, trazer de volta. No texto
em estudo, refere-se a pagar o mal com o mal. O pensamento dos irmãos de José
não tem nada de extraordinário. Dentro dos padrões humanos, "aqui se faz e
aqui se paga" é uma filosofia de vida com muitos adeptos. A bem da verdade,
o Antigo Testamento mostra que Deus algumas vezes traz o mal de volta sobre
o opressor (Jz 9.56; 1 Sm 25.39; 1 Rs 2.44). Assim, do ponto de vista da lei, o
raciocínio dos irmãos de José se justifica. Faltava-lhes entender o evangelho! O
episódio é exemplar, também neste sentido. A lei se percebe, e as suas consequ-
ências, até mesmo sem uma revelação expressa de Deus; o evangelho, no
entanto, precisa ser proclamado; ele não vem de dentro do pecador, de sua
própria experiência de vida; mas precisa lhe ser anunciado. Para as consciênci-
as (devidamente) atormentadas dos seus irmãos, José vem trazer uma palavra
de consolo que, por sua vez, fundamenta-se na obra de Deus, favorável aos
Seus filhos.

Vv. 16-18- Ao que parece, a mensagem em nome de Jacó foi inventada pelos
irmãos de José (ainda que isto não possa ser afirmado). Possivelmente isto,
bem como o constrangimento da situação, tenham levado José a chorar. Os
irmãos de José primeiro enviam mensageiros, depois vão pessoalmente. A
tentação (para o pregador) pode ser de explorar o "arrependimento" daqueles
homens, considerando se era genuíno ou não. Mas isto seria perder de vista o
grande assunto do texto, que vem a seguir, no posicionamento adotado por
José.

Vv.19-21- José dá uma resposta aos seus irmãos, onde se podem perceber três
aspectos, como mostra Derek Kidner: "cada sentença de sua h-íplice resposta é
um pináculo da fé característica do Velho Testamento (e do Novo). Deixar com
Deus todo o acerto dos erros alheios (19; cf. Rrn 12.19; 1Ts 5.15; 1 Pe4.19); ver
a Providência divina na ruindade do homem (20), e pagar o mal não somente
com o perdão, mas também com demonstração prática de afeto (21; cf. Lc
6.27) ..." (Gênesis -Introdução e Comentário, Série CulturaBíblica, p. 207.)

Vemos em José um profundo exemplo para a vida cristã no relacionamento com o


próximo. Não se pode, porém, desvincular tal atitude da base. José experimentou em sua
vida, desde que foi maltratado pelos irmãos e levado ao Egito, a garantia da presença
graciosa de Deus. Seus atos em relação aos irmãos, por isso, não precisam (nem devem)
ser vistos como virtude natural. mas como resultado do amor de Deus em sua vida.

A expressão 1-7 seguida do pronome pessoal (Almeida R.A.: "intentastes


o mal contra mim") é usada para referir-se a uma maquinação maléfica dirigida contra
alguém. A mesma expressão é usada em Jr 48.2; Na 1.11; S141.7. O sentido sempre
aponta para uma ação cuidadosamente planejada, para causar mal contra outrem. Des-
ta forma, José não está desculpando seus irmãos, por considerar sua falha coisa peque-
na. Sua atitude não é como aquelamuitas vezes aplicada, com um certo desdém: "Deixa
pra lá; isso não é nada!" O ato de seus irmãos foi de maldade planejada. Isto vem
ressaltar ainda mais a misericórdia mostrada por José. Suas palavras seguintes, porém,
mostram a base de sua atitude compassiva.

"Deus o tornou em bem." O curioso é que o verbo ( - "tomou") é, no original,


o mesmo da frase anterior ("intentastes"). Parafraseando o texto, poderíamos dizer: Os
homens planejaram o mal; Deus planejou o bem! Um exemplo concreto do "todas as
coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados
segundo o seu propósito." (Rm 8.28). José mostra que Deus não somente tomou o mal
em bem para ele próprio, mas também para muito mais gente (inclusive para aqueles que
haviam tido o intento mau!). Aqui se percebe uma importante ênfase do texto. José tem
uma atitude exemplar, sim; mas esta não pode ser diferente, tendo em vista a misericor-
diosa providência divina.

Se olhamos um pouco adiante na história, notaremos que Deus, com Seu ato bom,
não somente preservou José e seus irmãos e familiares. Aquela era a "linhagem santa"
(Ed 9.2), o povo no qual viria a nascer o Salvador. Deus estava preservando não apenas
uma família e um povo, portanto, mas Sua promessa de tomar benditas todas as famíías
da terra (Gn 12.3). O episódio de José e seus irmãos, portanto, não precisa ser visto
simplesmente como um exemplo de amor cristão. É, do ponto de vista teológico, um
testemunho claro da fidelidade de Deus para com os Seus, apesar das aparências
contrárias, e de Sua fidelidade em função de Sua promessa de redenção do mundo.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Deus torna o mal em bem:
I. Ao cuidar dos Seus filhos - mostrando que mesmo em meio ao mal dos
homens, Ele não desampara os que nele confiam;
11. Ao preservar Seu povo - mantendo a promessa de trazer, por meio dele,
salvação para todo o mundo.

Gerson Luis Linden


4 de julho de 1999
Larnentações 3.22-26

Chegou a hora de procurar o livro de Lamentações, pois no sexto domingo após


o Pentecostes somos estimulados a pregar um trecho desse livro do Antigo Testa-
mento. Em traduções modernas da Bíblia, por influência da Septuaginta,
Lamentações aparece logo após Jeremias (sendo também atribuído ao profeta). Na
Bíblia Hebraica aparece entre os cinco Rolos e é conhecido por 77-u (ekah,"Como!"),
que é a primeira palavra do original hebraico (confira também 2.1 e 4.1). No Judaís-
mo, o livro é lido no quinto mês, isto é, por volta de julho ou agosto. Muitos judeus
lêem-no semanalmente junto ao famoso Muro das Lamentações, em Jerusalém.

O livro de Lamentações é uma longa poesia. Aqui se lamenta basicamente a


destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C. Cada um dos cinco lamentos
ou capítulos contém 22 versículos (com exceção do terceiro que tem 66, ou seja, 3 x
22), refletindo o número de letras do alfabeto hebraico. Na verdade, os quatro
primeiros capítulos têm estrutura acróstica. São poemas alfabéticos, em que a pri-
meira letra de cada versículo ou grupo de versículos é uma das 22 letras do alfabeto
hebraico, que aparecem em ordem alfabética. O capítulo cinco não é acróstico, mas
mesmo assim consta de 22 versículos.

Também é digna de registro a diferença no número de linhas (no original


hebraico) para cada versículo. Nos dois primeiros capítulos há três linhas por
versículo (com exceção de 1.7, onde se tem quatro linhas). Passado o capítulo
três, que tem uma estrutura toda especial, vem o capítulo quatro, que é mais breve,
pois tem duas linhas por versículo. O quinto capítulo é ainda mais breve: uma
linha por versículo. A estrutura ensina duas coisas: a) Por mais emotivos que
sejam esses lamentos, foram escritos com muito cuidado. b) O capítulo que fala
de esperança, o de número três, é mais longo do que os capítulos que trazem os
lamentos. Assim, a estrutura do livro parece sugerir que o amor de Deus triunfa
sobre a sua ira.

Uma análise mais teológica revela que um sentimento de tristeza e desesperança


perpassa o livro. O poeta está consciente da ira de Deus (1.12; 2.1,4,6,21,22; 3.43;
5.22). Também confessa que a culpa é toda do povo (1.5,8,14,18,20; 3.39-42; 5.16),
com especial destaque para profetas e sacerdotes (2.14; 4.13). No meio disso tudo,
porém, renasce a esperança (3.21-23,31-32).
Tmo
O capítulo três, que é o centro do livro, consiste e m três partes: a) Desolação e
desesperança (1-20); b ) Lembrança e esperança ( 2 1-39); c ) Confissão e renovação
(40-66).

A perícope assinalada para este domingo é o ponto alto do livro de Lamentações


e por certo a parte que melhor conhecemos. L m 3.22-26 engloba as três linhas que
se iniciam com a letran (chet)e duas das três linhas que se iniciam com a letra a (tet).
Há razões litúrgicas para se omitir o v. 27 (parece não ser u m bom clímax para a
leitura), mas existem outras tantas razões exegéticas para se incluir o mesmo. Além
do v. 27, seria bom tomar todo o parágrafo, do v. 22 ao v. 39. Também o parágrafo
anterior (3.19-2 I), e m especial o v. 21 ("Quero trazer à memória o que m e pode dar
esperança"), é fundamental e m termos de contexto.

Quanto ao texto e m si, cabem alguns lembretes:

N o v. 22, "misericórdias do SENHOR" traduz literalmente o hebraico ;l.!;iy.mn.


E m outras palavras, tcrnos aqui a palavra misericórdia (icn), que conota o amor dc
Dcus no contexto da aliança com seu povo. O plural sugere que Deus foi fiel i s suas
promessas e m mais de uma ocasião, o que forma a base para a esperança presente.
O final do v. 23 ("grande 8 a tua fidelidade") reforça esta noção.

O fato dc as misericórdias de Javé se renovarem "cada manhã" tem paralelo e m


Êx 34.6-7,Is 33.2, e de modo todo especial no Salmo 136.

No v. 24, o poeta confessa que Javé é a porção de sua alma. O u , conforme a BLH,
Dcus é tudo que ele tem. Este é u m tema comum nos Salmos (ver SI 16.5; 73.26;
1 19.57; 142.5). O s dons podem ter desaparecido, mas o Doador não se foi. Mesmo
que só tenham restado escombros, Deus continua sendo Deus.

L m 3.24b ("portanto, esperarei nele") é u m eco quase perfeito de L m 3.2 1, que,


numa tradução literal, diz assim: "isto trarei de volta a meu coração; portanto,
esperarei". A diferença é que agora, no v. 24, o poeta já sabe por quem ou e m quem
ele espera.

Esperar por Javé (v.25a),buscá-lo (25b).aguardar a salvação de Javé e m silêncio


( 2 6 ) 8 u m dos grandes temas desse texto. Trata-se de u m significativo lembrete
neste final de milênio, quando a igreja esta Esperando com Fidelidade a Deus.
Aguardar a salvação é esperar por Deus. Esperar com fidelidade 8 aguardar e m
silêncio, sem queixumes e lamentações. (Soa irônico o poeta propor este silêncio
quando ele próprio irrompe numa longa lamentação!)

PROPOSTA
HOMILÉTICA
N e s t e d o m i n g o o pregador t e m u m e x c e l e n t e " p o n t o d e engate"
(A~iknupfungspuwkt)no nosso incurável hábito de lamuriar. Só que e m geral nos
falta a dimensão teológica: nossa infidelidade, a ira de Deus, a fonte da esperança.
A mensagem de Lamentações nos ajuda a pôr isto na perspectiva correta. Igual-
mente nos incita à confissão, que, no livro de Lamentações (ver Lm 3.40-42),
interessantemente ocorre após a recordação das misericórdias de Deus. Mais uma
vez se sublinha o fato de que toda confissão de pecado é, no fundo, uma confissão
de fé.

Para a pregação, existem no mínimo três possibilidades:


1. Explorar o texto. Como em geral fica difícil "melhorar o esboço do Espírito
Santo", isto é, a estrutura do próprio texto, por que não tomar o tríplice 3in
("bom") que a ARA retém e "pendurar" tudo em cima dele. Se o v. 27 não é
o melhor candidato para a terceira e última parte do sermão, invertamos a
ordem, começando por 27, e terminemos com o v. 25. Neste caso, pode-se
aproveitar o fato de o v. 26 descrever o que soa como um princípio geral
("Aguardar a salvação de Javé em silêncio é bom"), enquanto que o v. 25
individualiza a coisa, ao falar dos que esperam por Javé e da alma que o
busca.
2. Pregar o texto em parceria com Lc 5.1-1 1, que é o evangelho do dia e que, para
começo de conversa, é a razão por que o texto de Lamentações é lido nesse
domingo. Em outras palavras, Lm 3 foi escolhido em função de Lc 5, e nunca
é demais explorar os paralelos.
3. Pregar o texto no contexto maior de Lamentações. Temos aqui um livro
relativamente curto. As palavras de 3.22-26, que trazem a esperança do
poeta, são das mais conhecidas palavras do AT. Por que não deixar o lamen-
to do poeta (espalhado pelo livro) soar através de nós, para só então apre-
sentar sua esperança (aqui no capítulo 3)? Uma opção é dar ao sermão a
forma de um monólogo, em que se seleciona textos de Lm e se deixa o profe-
talpoeta falar, concluindo com a perícope escolhida para este domingo.

Dr: Vilson Scholz


São Leopoldo, RS
11 dejulho de 1999
Jereniias 17.9-13

CONTEXTO
O contexto denuncia vigorosamente o engano trazido pelo pecado e a conseqüente
destruição que a isto sobrevém. Um dos enganos mais traiçoeiros é pensar que a gravi-
dade das transgressões não é tão evidente quanto a denúncia dá a entender que seja.

Judá caíra na armadilha. Em 16.10,Deus previne o profeta Jeremias quanto à reação


do povo diante das palavras do mensageiro divino. Assim reagiriam: "Por que nos
ameaça o Senhor com todo este grande mal? Qual é a nossa iniqüidade, qual é o nosso
pecado, que cometemos contra o Senhor nosso Deus"'? A cegueira, portanto, levou o
povo ao engano fatal.

"Qual é o nosso pecado"'?perguntavam. Estavam insensíveis à maldade que come-


tiam, embora esta estivesse tão profundamente enraizada entre o povo. "O pecado de
Judá está escrito com um ponteiro de ferro, e com diamante pontiagudo gravado na
tábua do seu coração e nas pontas dos seus altares" (17.1). A cegueira era tamanha que
não conseguiam ver maldade na prática da idolatria.

A causa da cegueira parece evidente em 16.12e 17.5, respectivamente: 'pois eis que
cada um de vós anda segundo a dureza do seu coração maligno, para não me dar ouvidos
a mim"; "Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, faz dacarne mortal
o seu braço e aparta o seu coração do Senhor". Não dar ouvidos ao Senhor e andar
segundo a dureza do seu coração deixou o povo de Judá cego para a verdade e o levou
a cair na armadilha do pecado da idolatria. É prova também de que o ser humano não
conhece a verdade sobre o real estado do seu coração e acaba sendo mal orientado por
ele. Judá pagou caro por ter se apartado do Senhor. O texto da perícope dará o seu alerta
para que o engano de Judá não se repita entre o povo de Deus hoje.

'lEXl-0
V9: As razões para o homem não confiar naquilo que brota do seu coração aparecem
aqui. Ele é enganador acima de todas as coisas e completamente corrompido.
Tal verdade é salientada em passagens bíblicas como Gn 6.5, 8.2 1 e Mt 15.19.
Traz consigo as conseqüências do pecado original. Não pode ser fonte de vida,
pelo contrário, corrompido totalmente pelo pecado, dele só pode brotar morte.
É impossível conhecer o enganador contumaz. Ele nunca nos apontará a verda-
de. Não é fácil para o ser humano reconhecer que não deve confiar naquilo que
provém do seu coração. Não é mensagem simpática à época atual, que estimula
o homem a procurar a verdade dentro de si próprio. Quanto mais o homem
mergulha em si mesmo, mais também ele se afasta da verdade que se encontra
fora dele. Conduzido por seu coração enganador, acaba não vendo o pecado
nas suas ações, tal qual aconteceu com Judá.

V 1O:Há no versículo uma palavra de juízo e também uma de conforto. O Senhor


Deus tem a capacidade de "pesquisar minuciosamente" dentro do coração
humano e provar os nossos pensamentos (Ap 2.23). É juízo à medida em
que decreta a supremacia do Senhor sobre o coração dos homens. Ao
Senhor o coração não engana. Podendo enganar a criatura, não consegue,
todavia, ludibriar o seu Criador. Por isso recebe a sentença de condenação
sobre si, trazendo maldição do Senhor sobre quem sucumbe aos apelos das
suas mentiras. O consolo encontra-se no fato de saber que Deus tem o
poder de desmascarar o nosso coração com suas mentiras. Não estamos
condenados a viver sob o domínio da corrupção trazida pelo pecado origi-
nal. A revelação divina, aceita pela fé existente no coração transformado
pelo Espírito Santo, torna-se a fonte de vida que substitui a morte que
antes brotava do coração corrupto. Com a sua lei, o Senhor deixa exposta a
maldade do nosso coração e a sua inclinação permanente ao engano e
morte. Com o seu evangelho, o gracioso Deus oferece a capacidade para
nos levar a confiar nas suas promessas. O arrependimento produzido pela
lei e a confiança gerada pelo evangelho andam juntos, para conduzir o povo
de Deus no caminho a salvo das armadilhas daquele que, por estar no
íntimo de cada um, tão próximo portanto, é tão perigoso.

A recompensa prometida por Deus ao proceder e ações humanas é mencionada


neste versículo. Quando este assunto comparece a um texto bíblico, consegue provo-
car um desconforto inicial na sua leitura, pois traz à tona novamente a questão: "Ensina
a Bíblia a salvação por obras, ou não"? Sem pretender ingressar neste que parece um
emaranhado capaz de prender os teólogos e deixá-los momentaneamente um tanto
quanto sem ação, basta lembrar agora que a recompensa segundo o proceder e ações
humanas, castiga ou premia os resultados provenientes da condição em que se encon-
tra o coração humano. No caso de castigo, ele é justo e merecido; no caso de prêmio, é
pura graça, pois a regeneração do coração foi obra exclusiva de Deus Espírito Santo e
as obras dele nascidas são aceitas como boas por Deus por causa da mediação de
Jesus Cristo, pois ainda continuam manchadas pelo pecado (ver Fórmula de Concór-
dia, Epítome, IV,13e 14).

i! 11: O engano proveniente do coração corrupto conduz a, entre outros tem'veis


resultados, buscar reunir riquezas fraudulentamente. Virá o tempo em que tais
tesouros fugirão das mãos de quem julgava possuí-los, decretando o seu fim
quando ficará evidente a sua insensatez. Apartar o coração do Senhor para
confiar em si próprio gera corrupção. Pode até produzir riquezas por algum
tempo, mas sobre elas pairará a ira divina. Elas deixarão o injusto quando Deus
assim o determinar. A comparação com a perdiz chocando ovos que não pôs.
ilustra a sentença divina sobre a atitude que provém da insensatez. A perdiz
choca os ovos e fica com os filhotes de outras perdizes somente até a vinda da
verdadeira mãe.

Vv. 12,13: Nos dois versículos há a descrição de um procedimento que contrasta


com a atitude insensata e pecaminosa descrita anteriormente, segundo a qual
o homem confia em si próprio e anda de acordo com a dureza do seu coração. O
profeta volta-se para uma ardente adoração ao Senhor, seu Deus. O lugar do
seu santuário não está nos "altos outeiros" (17.2), onde havia altares aos ído-
los, porém sobre o monte Sião, o mais sagrado lugar, sobre o qual o trono da
glória de Deus havia sido estabelecido, o Deus entronizado entre os querubins
sobre a arca da aliança. Jerusalém foi chamada de "trono da glória" (Jr 3.17;
14.21;Ez 43.7). "Enaltecido desde o princípio", não somente porque Deus havia
escolhido a cidade como seu lugar de habitação (Êx 15.17; S1132.13,14), contu-
do porque lá Melquisedeque havia reinado como tipo de Cristo. Lá deveria
acontecer a adoração prescrita por Javé. O perdão dos pecados por meio do
sangue de animais sacrificados, tipificando o sacrifício de Cristo, encontrava-
se lá. Que tem'vel afronta cometia o povo ao abandonar todos aqueles privilé-
gios e escolher a idolatria!

Numa atitude diferente, o profeta confessa sua total confiança no Senhor, a única
esperança de Israel. Fora dele não há salvação. Com total convicção de ser arauto do
Senhor, Jeremias afirma que os que se apartam dele serão escritos no chão, pois estão
se apartando do Senhor. A escrita no chão facilmente se apaga e os nomes são esque-
cidos. Portanto, abandonar o Senhor tem como resultado ser esquecido por Deus.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema: A confiança que não frustra.

Introdução: A importância da confiança na vida humana e os seus resultados.

Palavra de lei: Ataca o engano de quem julga ter mais valor a confiança nos seus
próprios pensamentos, deixando em segundo plano a confiança em Deus e sua palavra.
Os resultados trágicos são denunciados pelo texto. São assim trágicos porque impedem
que vivamos num relacionamento correto com Deus, ou seja, de plena confiança nele.

Palavra de evangelho: por amor ao povo, o Senhor desmascara a mentira que


dirigia a vida deles. Em amor ele também aponta o caminho da restauração: ele próprio,
o Senhor, esperança de Israel, a fonte das águas vivas. É esperança porque, acima de
tudo, é um Deus perdoador em Cristo.

Consolados pelo perdão divino, somos motivados a, em confiança, esperar com


fidelidade a Deus, servindo-o como seu povo.

Paulo Moisés Nerbas

77
18 de julho de 1999
Êxodo 16.2,3,11-18

Como
O principal assunto do livro do Êxodo poderia ser assim resumido: o livro da orga-
nização nacional dos descendentesde Jacó. E um tema que sobressai é o da REDEN-
ÇÃO. Deus, em amor, planeja, dirige e cumpre seus propósitos de recuperação, de
salvação de toda a humanidade. O Senhor serve-se duma variedade infinita de agentes
para realizar seus propósitos inescrutáveis. A mulher de Potifar, o copeiro do rei, os
sonhos de Faraó, o cárcere, o trono, a fome - tudo está ao seu soberano dispor e tudo
serve de instrumento no desenrolar dos seus prodigiosos desígnios, conforme o que
relata o livro do Gênesis.

Agora, no livro do Êxodo, mais específico no apontar para a história do desenrolar


do plano de Deus para resgatar e salvar a coroa da criação - o ser humano, temos a
história do nascimento de Moisés, o libertador do povo descendente de Jacó, com sua
organização nacional e sua liderança junto ao povo no resgate da escravidão no Egito
c ricontecimentos marcantes durante a viagem de peregrinação, pelo deserto, rumo a
Canaã, a terra prometida.

TEXTO
O povo havia descansado junto a Elim "onde havia doze fontes de água e setenta
palmeiras" (Êx 15.27).Num deserto como aquele, Elim fora um oásis prazeroso.

Saindo de Elim, entraram no deserto de Sim. Não se podia esperar do povo grandes
caminhadas, por causa das mulheres e das crianças. O versículo diz que "toda congrega-
ção ... veio para o deserto" subentendendo-se que nem sempre toda ela se podia ajuntar
em um lugar só. Aqui em Sim parece ter havido lugar para todos. No entanto, não foi uma
parada tranqüila. A ansiedade começava amanifestar-se. O desconforto da viagem já era
uma coisa palpável. Já fazia exatamente um mês desde que haviam saído do Egito.

Vv. 2 e 3: "Toda corigregação... murmurou contra Moisés e Arão ... ". Murmuraram
outra vez e agora por causa do pão. Podemos imaginar uma multidão do tama-
nho daquela sem ter o que comer. O mantimento trazido do Egito acabara.
Provavelmente Moisés havia instruído o povo para pôr sobre os animais toda
aprovisão possível. Tudo, porém, acabara. No deserto e sem comida, murmura-
vam. Não houve, propriamente, uma revolta, mas queixumes. Profundamente
humanos. Lembraram idealizadamente das "panelas de carne" do Egito, mas
não mencionaram o "chicote do feitor" que os obrigava a trabalhar sem dó nem
piedade. Foram incrédulos e esqueceram momentaneamente demonstrações da
graça e proteção divina ainda recentes (Pi-Hairote, Mara). Pela terceira vez se
queixam e parecem contar com uma certa compreensão e empatia com o autor
(Moisés): pessoas de idade, doentes, crianças de colo...

Logo, assomadamente, responsabilizaram Moisés e Arão pela situação. Inclu-


sive, por tabela, indiretamente o próprio Senhor. Parece que as coisas não mudaram
muito nos dias atuais. Quando as coisas não vão ou não estão bem nas congrega-
ções, na igreja, logo se apontam irresponsavelmente culpados: pastores, líderes
ou, até, o próprio Senhor. Liderar e dirigir pessoas sempre foi difícil. Que fizeram,
como se sentiram Moisés e Arão? Não sabemos. Deus apressou-se a vir ao encon-
tro da situação e promover libertação aos dois servos fiéis e solução para a multi-
dão faminta.

Não fosse a graça de Deus, todos morreriam. Deus veio ao encontro dando
pão, atendendo dois motivos: um de ordem biológica e outro de ordem moral.
Matar a fome do povo (biológica) e provar sua obediência e fidelidade (moral -
espiritual). Deus nos dá tudo que precisamos, mas nos prova, muitas vezes, sem o
sabermos. Assim como no Éden nossos primeiros pais foram provados em sua
fidelidade, por meio "da árvore no meio do jardim". Se obedecessem, seriam felizes.
Se desobedecessem, seriam mortos espiritualmente.

A prova de fidelidade aqui visava, entre outras: cada pessoa apanharia para
cada dia. A tentação era apanhar hoje para amanhã, quem saberia se amanhã cho-
veria pão outra vez? O povo deveria aprender a viver na dependência de Deus e
não da sua própria habilidade. Se recebessem por um ano teriam a certeza de que
não haveria falta e, provavelmente, esqueceriam de pedir e agradecer. Por outro
lado, é um consolo saber que nosso Deus nos dá sempre aquilo de que precisamos,
dia após dia. "Ruscai, pois, em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, e todas
essas coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6.33). " O pão nosso de cada dia nos
dá hoje ".

Vv. 11 e 12: ... e sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus ". Deveria ser mais uma
"

prova indubitável do poder todo-poderoso do Senhor.

V 13: ... codornizes... ". Aves pequenas de vôo baixo. Ao anoitecer, pousam no
"

chão ou em arbustos. Uma codorniz correndo é presa fácil para uma criança
esperta. No texto, a menção às codornizes é passageira. O foco principal está no
maná. ... cobriram o arraial ... ". Sem dúvida, o grande número caracteriza a
"

ação milagrosa de Deus.

Vv. 14 e 15: ... uma coisa fina e semelhante a escamas...". Maná: A comparação
"

com geada não pela forma, mas pela cor. "Que é isto? " É o milagre, o pão que
vem do Senhor, que foi falado ontem.

Vv. 16-18: "um ômer.. ". Essa medida equivaleria a quase 4 litros. "...não sobejava...
nemfaltava ... ". 4 litros parece muito para ser ração diária. Provavelmente colhe-
ram em mutirão, cada colhedor o quanto podia, repartindo entre os que não
podiam colher. Por este milagroso arranjo, a quantidade colhida era exatamente
suficiente para cada pessoa, família e para todo povo.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Esperando com fidelidade a Deus, pois,
Deus é incansável no distribuir seu AMOR aos seus:
- perdoa a INCREDULIDADE e a INGRATIDÃO sempre de novo;
- providencia soluções, por vezes, milagrosas;
- e isso Ele faz sempre, dia após dia.

Norberto E. Heiize
25 de julho de I999
Gênesis 12.1-4a

CONTEXTO
Não nos é possível restringir o contexto em algumas passagens ou, até mesmo, em
alguns capítulos anteriores ao texto. O contexto de Gênesis 12 tem seu ponto de partida
no capítulo 3. Ali, no episódio da queda, a criatura humana perde sua familiaridade com
Deus. A promessa de seguimento desta familiaridade perdida vai expressa no
protoevangelho apresentado em Gn 3.15. Deus providenciaria alguém, em futuro dis-
tante, para concretização desta promessa. O chamado de Abraão faz parte deste plano
maior anunciado logo após a queda.

Deus não tem pressa. De Adão até Noé desfilam algumas gerações. Vem o dilúvio,
mas uma família fiel é preservada. A terra se repovoa. Uma nova "queda" no episódio
da Torre de Babel. Mais algumas gerações e chegamos até Abraão. Deus "espera" por
este servo fiel. O protoevangelho de Gn 3.15, agora, escolhe uma pessoa e a incumbe de
uma tarefa. O providencialismo, de tempos em tempos, se manifesta através de vasos
escolhidos como parte do plano divino global. Seria assim mais tarde com Moisés,
Paulo, Lutero, só para citar alguns exemplos.

O contexto de Gn 12.1-4a não podemos enfocar senão pela ótica do plano divino
maior em favor do soerguimento da criatura caída.

TM:m
O texto nos oferece o intróito da história de Abraão. É uma narrativa simples, curta,
cristalina, não deixa dúvida; dispensaria comentários. Porém, simples na forma, É rica
em conteúdo e nos tem muito a dizer.

V I : Em dado momento, no decurso do tempo. Havia chegado a hora e "... disse o


Senhor". Estava "maduro". Diríamos: "Na plenitude do tempo" lembrando G1
4.4. Abraão é chamado. O nome significa sublime pai, nobre pai. A mudança
para Abraão reforma a idéia de exaltação, sublimidade. A ordem é imperativa:
"Sai". Não sobra espaço para dialogar, como aconteceria mais tarde em Gn 22 e
também com Moisés em Êx 3.10~s.É um chamamento total. O fato lembra um
pouco Mt 5.20: "Então eles deixaram imediatamente as redes". Parentes, terras
e propriedades deveriam ficar para trás, pois uma nova terra é prometida. Deus
indicaria o caminho. É a presença constante. Mais tarde, no Êxodo (13.21)
durante o dia numa nuvem; à noite numa coluna de fogo. No caso de Abraão,
através da interlocução.
Y2: Aqui começa a história da raça eleita. Abraão é o primogênito do povo escolhi-
do; um povo que seria muito abençoado; um nome (de Abraão) que seria
engrandecido. Veja: Gn 18.18; 24.1 e 35; S172.17 e 112.2,3.

Y3: Na promessa feita a Abraão o protoevangelho começa a tomar forma. O autor de


Gálatas explica: "Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão. Ora, tendo
a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o
evangelho a Abraão (C1 3.6s). Bênção ou maldição. Fé ou falta de fé. Crer ou
descrer. Benditos os que seguirem este exemplo de fé; malditos os que rejeita-
rem. A dicotomia define, com absoluta clareza, os conceitos e os resultados.

Y4: Abraão partiu. Rompeu todos os vínculos humanos e terrestres; parte para uma
terra desconhecida porque Deus o chama e lhe promete bênçãos e posteridade,
que seria grande (Gn 15.5). Uma atitude que demonstra confiança, fé. Abraão
creu (Gn 15.6). Renova sua confiança (22). O futuro do povo eleito dependia
desse ato absoluto de fé. Veja Hb 11.8s~.

Neste intróito biográfico de Gn 12.1-4a aparece um personagem que, saído do


anonimato, se torna o cabeça-de-chave do grande confronto entre Deus e Satanás. No
tempo oportuno o "nascido de mulher" feriria a cabeça do ser hostil a Deus e inimigo do
homem. "Tragada foi a morte pela vitória" (1 Co 15.54-57).

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema: Se você tem fé, você tem bênçãos.
I-Oqueéfé?
a) A certeza de cousas que se esperam (Hb 11.1)
b) A fé de Abraão: creu sem contestar. Fé absoluta.
c) É dom de Deus (Fp 2.13). Vem pelo ouvir (Rm 10.17). Atua pelo amor (G15.6).
Vence o mundo (I Jo 5.4).

I1 - As bênçãos que traz.


a) É um parâmetro, Gn 12.3. Diráem que lado estamos, Mt 25.31s~.
b) Mencione as bênçãos do patriarca. A fé vence tribulações (Paulo). Dá vitória (1
Co 15.54s). Acoroa(Tg 1 . 1 2 ~ ~ ) .
c) Seja fiel (IemadaIELB 1999)Mt 25.21; Ap 2.1O; Hb 10.23;como Abraão (Rm 4).

Terna: Você pode ser uma bênção.


I -Seguindo o exemplo de fé de Abraão.
I1- Esperando com fidelidade a Deus (lema).

Guido Rubem Goerl


Porto Alegre, RS
1 de agosto de 1999
Êxodo 32.1-7;15-20

CONTEXTO
É notória a presença graciosa de Deus junto do seu povo. O Deus "Eu sou o que sou"
(Êx 3.14) não se esquece das suas promessas, mesmo que, aos olhos dos homens, estas
possam parecer demoradas, por vezes, a se cumprirem (como, por exemplo, a libertação
do povo de Israel da escravidão no Egito). Deus, no entanto, não se esqueceu do seu
povo e, no tempo determinado, cumpre o prometido (libertaçãodo Egito).

Deus chama Moisés. Dá-lhe instruções. Opera "maravilhas" em favor do seu povo.
Revela sua glória. Ele é o Onipotente, o Todo-Poderoso,o Onipresente.Nada deixa faltar
ao seu povo. Porém, não obstante a gloriosa manifestação do 'Tu sou o que sou", este
povo é povo de "dura cerviz". Com muita facilidade se esquece dos benefícios recebidos
e "vira as costas" ao Doador, ao Senhor Deus e vai à procura de outros deuses. A quebra
do 1" Mandamento está muito presente na vida das pessoas de todos os tempos.

O que pode acontecer quando o povo de Deus não tem pastor (guias fiéis, consa-
grados) para assisti-lo? (Vejam que Arão também fraquejou). Bastou ao povo ficar por
alguns dias (40 dias - Gn 24.18) sem o seu pastor e líder Moisés, para se "esquecer" de
Yahweh. Por que esta idolatria? Fraqueza na fé? Falta de conhecimento'? Influência do
Egito? Fato é que Deus não aceita a idolatria e promete o castigo (v. 10). Mas Yahweh é
Deus misericordioso e ouve a intercessão de Moisés.

TEXTO
V I : A quem aquele povo devotava maior confiança: a Deus ou a Moisés? Vejam a
sua atitude: "... pois quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não
sabemos o que lhe terá sucedido". Parece que em Moisés está a sua confiança.
E como Moisés não está, ele precisa de "outro deus". Prestemos muita atenção
ao nosso povo: se ele não confiar em Yahweh estará, com certeza, fabricando
"bezerros" para si.

Vv. 2 e 3: Por que Arão, pastor "auxiliar" de Moisés, consente ao pedido de idolatria?
Também ele não confiava o suficiente em Deus? É muito perigoso para o
rebanho quando o líder não está firme na fé, pois facilmente ele poderá ceder a
erros de conseqüências gravíssimas para a fé.

Vv.4 a 6: O "deus" de Israel passa ser uma imagem de ouro fundido. Como chega a
este ponto? Foi este "deus" que aquele povo viu operando todos aqueles
prodígios no Egito? (as Dez Pragas). Foi este "deus" que Ihes abriu o Mar
Vermelho? Foi este "deus" que lhes providenciou comida (maná) e água no
deserto? (Êx 16 e 17). Foi este "deus" que revelou àquele povo a sua glória?

Mas é a este "deus" - a esta imagem criada por mãos humanas - que este povo
edifica um altar, lhe presta culto, adora, oferece holocausto e lhe traz ofertas pacíficas!

Como as pessoas tão facilmente esquecem o que Deus disse, o que Deus fez, o que Deus
pode! Há pouco, aquelas mesmas pessoas tinham ouvido da boca do Senhor: "Não farás para
ti imagem deescultura... não as adorarás, nem lhes darás culto..." (Êx 20.4,5).

Memória curta? Fraqueza? Indiferença mesmo? Esquecer o que DEUS DISSE é


muito perigoso! Vejo que o povo de Deus (congregações) precisa da presença cons-
tante dos seus pastores (e líderes cristãos) para que estes digam sempre o que DEUS
DISSE. Não é a SUA palavra que é importante; mas importante é o que DEUS DISSE, é
a PALAVRA de YAHWEH.
V 7: Deus agora diz a Moisés: ". ..o teu povo..." -comparando ao v. 1 ( "ohomem que
nos tirou do Egito"), dá a impressão que Moisés era o "deus maior" daquele
povo, pois longe do Senhor estivera o seu coração; se assim não fosse não faria
o que fez. Seja como for, vejo também aqui a preocupação de Deus com o seu
povo, mandando então Moisés ("Vai, desce") para cuidar daquela situação.

Deus não se esquece do seu povo. Ele nos envia para dizermos a SUA PALAVRA
àqueles que Ele "amou de tal maneira que deu o seu Filho ...Jesus ..." (Jo 3.16).

Vv.15 n 18:Moisés leva a escritura de Deus -o que Deus disse. Não se pode violar o que
Deus disse. E vem a ira de Deus sobre o povo porque este estava celebrando uma
festa pagã. A expressão "alarido dos que cantam" (v. 18) denota este ritual pagão.

Vv. 19 e 20: a indignação de Moisés não é sem razão. Depois da clara manifestação
de Deus àquele povo, como pôde ele agir daquela forma? Assim quebra a
aliança com Deus. Embora o pecado não possa ficar impune (vv. 27,28 e 33),
Deus, no entanto, recebe o pecador arrependido. E quão importante é a inter-
venção de Moisés, junto a Deus, para que aquele povo não fosse consumido
pela ira de Deus! Esta atitude de Moisés revela o procedimento do bom pastor:
ele cuida do seu rebanho com amor, carinho e muita oração!

PROPOSTA
HOMLÉTICA
a) É muito perigoso esquecer o que Deus disse!
b) Em quem confiamos?
C) OS "bezerros" hoje fabricados.
d) É preciso assistirmos com amor e carinho o povo de Deus.
e) Cuidar bem do povo de Deus: uma tarefa árdua, mas muito necessária.

José Eraldo Schulz


Rolante, RS
8 de agosto de 1999
Daniel 9.15-18

CONTEXTO
Judá, povo de Deus, estava vivendo como povo privilegiado, recebendo de Deus
abundantes bênçãos materiais e espirituais.

O Senhor Deus, amigo sempre fiel, havia proposto ao povo de Israel a vida, o bem
e as bênçãos na condição de serem fiéis e submissos a Ele! Se o povo não levasse a
sério a proposta para uma vida abençoada, sofreriam o mal, a falta de bênçãos e a morte
como conseqüência! (Dt 30.15s~).

Infelizmente a história mostra o povo de Deus geralmente distante do Seu grande


amor. Os reis foram vários, mas pouquíssimos levaram a Santa vontade de Deus a sério!
O povo se desviou constantemente dos caminhos de Deus, pecando gravemente
contra o Senhor e por isso, depois de muito aviso, por meio dos seus profetas, Deus
deixa seu povo sofrer a escravidão, eni grande miséria!

Joaquim era o rei de Judá já três meses, mas era mau perante o Senhor! O rei da
Babilônia, Nabucodonosor, sobe contra Jerusalém e leva cativos o rei, muitos outros
líderes e tesouros de Judá. Mais tarde o rei Nabucodonosor volta a Jerusalém, arrasa a
cidade e leva o restante do povo cativo para a Babilônia, por mais ou menos 70 anos ...

Está ali eni meio ao povo um jovem muito fiel e piedoso: suas principais caracterís-
ticas são a fé, a humildade, o altruísmo e a vida de oração: é o jovem Daniel! Ele
experimentou a presença marcante de Deus na vida, experimentando milagres especiais
de Deus ali na Babilônia! ! Ao mesmo tempo estava preocupado com a vida de miséria
de todo o povo, pois passavam por dificuldades materiais e espirituais! Sentia princi-
palmente a falta dos cultos e estudos bíblicos na vida, já que a igreja fora destruída lá
na cidade de Jerusalém!

Mas o que Deus nos mostra com amor é que Daniel não se preocupava somente
consigo, mas especialmente também com o povo que sofria lá com ele! Ele lembra o
passado marcante, onde Deus tanto abençoou a todos e assim continua fazendo o que
tanto gostava de fazer: orar! Suas orações eram diálogos constantes, sinceros e cheios
de fé, com o Senhor Deus, único Senhor sobre todos! Ele possuía uma fé convicta e
uma vida exemplar diante de Deus e das pessoas. Daniel vive lá naquele país em trevas,
sendo um jovem fiel e uma luz que ensina o povo a esperar com fidelidade o Senhor,
sempre fiel !
TEXTO
A oração de Daniel é uma conversa sériae sincera com Deus, onde o jovem confes-
sa com fé genuína seu Senhor, como único Senhor; e ao mesmo tempo, confessa a Ele
os erros cometidos por todos, esperando convicto uma resposta diante da caótica
situação que todos estão vivendo ali na Babilônia!!

O texto da nossa perícope não é uma oração inteira de Daniel, mas uma parte
sspecial, onde Daniel confessa Seu Deus como o único Senhor poderoso que sempre
batalhou pelo seu santo povo! Ao mesmo tempo Daniel preocupa-se com a situação
deplorável de todos, confessa a Deus que todos são pecadores e esperam pela graça
de Deus!

V15: Daniel reconhece o Senhor como "nosso Deus", com muita convicção, na
certeza de que Ele o ouvirá! Salienta que este é o Senhor, diferente em tudo
dos falsos deuses e é sempre de novo lembrado como o Deus que mostrou
Seu grande poder, livrando o seu povo das garras dos egípcios! Após
confessar ao Senhor quem Ele é, vem a confissão dos erros, mostrando o
contraste: o povo pecador tem sido indigno diante do Senhor santo e pode-
roso!

X16: Daniel deixa claro que Deus é justo, quando, devido à aliança feita com Israel,
livra seu povo de dificuldades, de inimigos, dos ímpios e quando, devido a essa
mesma aliança, vindica Israel diante dos adversários, ou executa vingança so-
bre eles e assim o suplicante tem certeza de que Deus o ouve e a seu tempo
atenderá!

A confissão de Daniel é sincera, confiando que Deus poderá ajudar! Lamenta que
tudo isso está acontecendo também por causa dos erros dos antepassados!

Um povo exclusivo e especial como o povo de Deus precisa continuar sendo uma
luz para tantas nações em trevas, como em tempos anteriores, mas não um OPRÓBRIO
para todos, que no sentido hebraico quer dizer: um povo que vive a ausência de um
estado abençoado ou vive o rebaixamento a um estado inferior, passando a ser motivo
de zombaria ou escárnio para outros povos!

V 17: A oração de Daniel precisa ser ouvida por Deus, isto é, Daniel tem certeza que
o Senhor que sempre ouve, ou melhor, responde as orações, irá ouvir/respon-
der também sua oração! Súplicas são pedidos insistentes, por misericórdia e
graça, diante do único Deus que pode ajudar! Vendo a grande miséria que o
povo vive, Daniel está ansioso pela resposta de Deus! Quer misericórdia do
vitorioso com o derrotado!

Daniel está preocupado e ora pela restauração da igreja que fora destmída lá em Jerusa-
lém, para que cultos e estudos voltem urgentemente a acontecer, pois só assim o povo
poderia ser abastecido com bênçãos espirituais, no único Senhor que nutre! Só assim o
povo poderia SERVIRe SER SERVIDOpelo Único Senhor novamente!
V 18: Quando Daniel pede que Deus incline seus ouvidos para ele, é um pedido
insistente para que o Deus exaltado se incline ao povo humilhado e ouça o
humilde pedido de um servo e seus conservos! Daniel confessa algo que nos
emociona e nos leva a imitarmos seu exemplo: sempre que um cnstão humilde
ora, ele reconhece que não é digno de bênção alguma do Senhor por causa de
boas obras, mas tão somente espera nele, na certeza que sua graça é abundan-
te! Nós, como miseráveis pecadores, uma vez arrependidos diante de Deus,
precisamos esperar com humildade seu perdão e bênçãos, jamais nos colocan-
do como os bons diante dele!

PROPOSTA
HOMILÉTICA
O povo de Deus, também hoje, rejeita e vive indiferente diante de Suas grandes
bênçãos! Por muitos optarem por uma vida distante do Senhor, vêm as dificuldades e a
vida de escravidão! São muitas as pessoas escravizadas pelas forças do mal, passan-
do a viver uma vida miserável e cada vez mais distante de Deus! Sendo cristãos, é
preciso orarmos sempre, como fazia o jovem Daniel! Orar constantemente por nós
mesmos, porque muitas vezes Satanás quer nos aniquilar! Ao mesmo tempo, Daniel
nos ensina que um cnstão ora por todas as pessoas, em todos os tempos, porque são
muitos e muitos que necessitam de nossas orações, a cada novo dia.

Terna - Éfundamental que nós, cristãos, continuemos orando sempre mais:

A - Pornós mesmos
- Satanás, o mundo e nossa carne procuram nos escravizar a cada novo dia!
- Precisamos continuar crescendo no Senhor, o único que pode nos ensinar e guiar

em toda a verdade!
- Precisamos aprender a esperar com fidelidade diante das dificuldades, pois nosso
Deus também está conosco.

B - Pelos outros
- Muitos e muitos estão na escravidão do pecado, longe do Senhor (sem igreja)
- Outros muitos se desviaram do Caminho e precisam de ajuda (relapsos)
- Outros precisam continuar firmes na esperança da Salvação (os fiéis)

C - Deus precisa de servos como Daniel, em cada lugar; fambénz hoje.

D - Deus dá forças para que nós cristãos possamos trabalhar!


Na Páscoa Ele cumpriu com a promessa: Jesus é vitorioso
No Pentecostes o Espírito Santo veio para dar poder à Sua igreja!

Jairo Claro Lange


Cerro Branco - RS
15 de agosto de 1999
2 Crônicas 1.7-12

DO DIA
LEITURAS
Salmo 138: no v. 6já é apontado o tema geral das leituras do dia: a bênção de um coração
humilde diante de Deus. A adoração que provém do íntimo é aceitável diante de
Deus. Ele está atento para os humildes e os soberbos Ele os conhece de longe.
I Pedro 5.5b-11: Vários conselhos são dados às mais variadas classes de pessoas.
Mas quando chega a todos em geral, há um conselho que se sobressai: a
humildade! Todos deviam se cingir de humildade, como um escravo se cingia
com a toalha, para que pudessem servir-se mutuamente. Entregar-se a Ele,
confiar nele e viver paraEle e o próximo é sinal de humildade e sabedoria.
Lucas 18.9-14: Com a parábola do fariseu e do publicano Jesus coloca o espírito
correto de se aproximar de Deus. Jesus aponta para a força e poder que há na
humildade. Aquele que confia em si mesmo, que apresenta as suas próprias
obras parajustificar-se diante de Deus, rejeita a graça e obra de Cristo em favor
do pecador, em seu próprio favor. O coração humilde aceita a Justiça de Deus,
Jesus Cristo, para a sua justificação e este volta justificado para a sua casa.

CONTEXTO
O livro de segundo Crônicas inicia com relato do início do reinado de Salomão.
Durante seu reinado Israel experimentou um dos períodos de sua maior grandeza.
E já no primeiro versículo é mostrado o motivo: "e o Senhor, seu Deus era com ele
e o engrandeceu sobremaneira." v.l E Salomão também vivia em comunháo com
Deus e, por isso, convoca todo o povo e todo o seu exército para um grande
holocausto ao Senhor. "E Salomão e a congregação consultaram o Senhor. Salomão
ofereceu ali sacrifícios perante o Senhor, sobre o altar... e ofereceu sobre ele mil
holocaustos." vv. 5b e 6

Nesta época os utensílios essenciais do Tabernáculo estavam distribuídos entre


Gibeom e Jerusalém, mas depois de pronto o templo, toda a mobília foi reunida no
Templo em Jerusalém, e Jerusalém se transformou no centro do culto a Deus.

Tncro
K 7: Naquela noite, depois de toda aquela adoração de louvor em Gibeom, Deus fala
com Salomão num sonho ou visão. Uma coisa é absolutamente certa: quando
uma pessoa vive em comunhão com Deus, esta pessoa fala com Deus (ora) e
Deus fala com ela (pela Palavra) e Deus fica tão perto que a toca (com o Batismo
e a Santa Ceia). Salomão vivia em comunháo com Deus e ele ouviu a sua voz
que disse: "Pede-me o que queres que eu te dê." Ainda hoje Deus chega perto
do seu povo, de seus filhos e de seus reis e Ihes diz: "Pedi, e dar-se-vos-a;
buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á." Lc 11.9

Vv. 8-10:Nestes versículos é apresentado o pedido que Salomão faz a Deus na sua
oração. E o pedido que ele faz traz em seu bojo o reconhecimento que não merece
e nem é digno da graça e da misericórdia de Deus. E também o reconhecimento da
grandiosidade do seu desafio, da sua missão de governar um povo tão imenso,
algo que estava acima da capacidade humana. Inclui, ainda, uma profunda com-
preensão da tarefa que tem diante de si, de toda a sua atividade pública e da
importância de relação correta entre aquele que governa e os seus governados.

Esta atitude diante de Deus na oração, onde se pede num espírito de sinceridade e
humildade para o Pai, em que reconhecemos que somos filhos ignorantes e inexpenentes,
é agradável a Deus. Ao mesmo tempo que nesta oração podemos colocar corretamente
todas as promessas do Senhor para com os que são seus. Comunhão com Deus, ouvin-
do a Palavra, recebendo os Sacramentos e adorando-o com oração e serviços (culto
racional) é o melhor preparo para recebermos todas as bênçãos de que precisamos para
toda a nossa vida.

Vv. 11-12: Aqui ouvimos a resposta de Deus à oração de seu servo: Porque tinhas
isto no teu coraçáo e não pediste riquezas, poder e honra, todas estas coisas
que, normalmente, os poderosos deste mundo colocam acima de tudo, nem
pediste a vida dos teus inimigos e nem, ainda, longa vida, mas pediste sabedo-
ria e conhecimento, para que pudesses julgar o meu povo, sobre o qual te
coloquei como rei, e que num sentido muito particular é o próprio povo de
Deus; sabedoria e conhecimento vou te dar, e te darei riquezas, bens e honras
as quais nenhum outro rei jamais teve ou terá.

Deus deu a Salomão muito mais do que ele tinha pedido, dando-lhe assim prova
contundente de seu amor e misericórdia para com aqueles que são seus. O Senhor
ouve e atende todas as orações de seus filhos, quando estão em conformidade com a
sua santa vontade, especialmente aquilo que diz respeito a dons e bênçãos espirituais.
E aindamais, a maioria das vezes, Ele acrescenta também todas as dádivas temporais de
que a pessoa necessita para a sua vida aqui no mundo. Quando colocamos em primeiro
lugar o seu reino e a sua justiça, todas estas outras coisas nos serão acrescentadas (Mt
6.33).

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Temu: O poder e a força que a humildade tem!
I- As ansiosas buscas por coisas deste mundo provêm de um coraçáo orgulhoso.
11- A busca por sabedoria do alto provém de uma coração humilde.

Mario Lehenbauer
Porto Alegre, RS
22 de agosto de I999
Isaias 19.18-21

C o m o
Nestes versículos 18ss, a expressão proverbial e figurada do v.17 é ilustrada: O
Líbano se transformará em pomar e o pomar em bosque. Em poucas palavras, as
coisas naturais são fiéis à natureza e no final se manifestarão. O que for bom em sua
essência se manifestará como frutífero e o que não for bom, por sua vez, também se
manifestará exteriormente e na aparência em seus resultados. O v. 17 é base para enten-
der os seguintes, pois faz uma espécie de ligação da acusação anterior com a promessa
que segue. A imagem da transformação da natureza pode ser lida então como o começo
dos anúncios seguintes. E é da transformação da natureza que se passa para as muti-
lações físicas que se seguem, onde os surdos ouvirão, os cegos verão, os pobres se
alegrarão. Os surdos irão naquele dia (no dia indicado) ouvir as palavras do livro, e
os cegos, livres da escuridão e das trevas, as verão.

Quando os limites dos sentidos dos surdos e mudos puderem se abrir livremente,
quando o amor da vida, guardado na miséria e infelicidade, puder expor-se sem impedi-
mentos, o Líbano, os extensos montes de madeira, se tomarão em campos férteis, e a
natureza se transformando, de uma situação de desordenada negligência, numa bem
organizada condição de cultivo. Quando é dito que os surdos ouvirão as palavras do
livro se torna claro que o Profeta não está falando de surdez física. E foi ali declarado de
que sobre o povo no presente o Senhor derramou o espírito do sono (onde todos
conhecem, mas alguns não ouvem), e limitou de tal forma seus olhos que a profecia era
para eles como as palavras de um livro selado (lacrado). E quando o Líbano se transfor-
mar num campo frutífero, e a natureza tiver dado lugar à graça, então os ouvidos das
pessoas que estavam surdas, serão abertos e eles entenderão as palavras do livro, as
palavras das profecias procedentes do Senhor através dos seus profetas, irão sair "da
escuridão e das trevas" onde estiveram até agora, por isso irão perceber também os
erros de seus planos de ação, e verão que as palavras do profeta, que Ihes chocaram,
apontaram para o caminho fiel da salvação. Os que estavam surdos e cegos serão
infelizes, justamente por isso. Quando ouvirem e verem, então serão pessoas felizes,
livres de opressão e angústias. E cheios de regozijo no Senhor, obterão regozijo, não
apenas uma vez, mas continuamente, um aumento de regozijo, e isso não merecidamen-
te, mas NO SENHOR, por causa do Senhor, isto é, os que estiverem enraizados e
fundamentados no Senhor. O Senhor é, portanto, a base de todo aumento de regozijo.

Não é o objetivo destes 2 vs. reproduzir as palavras de Cristo de Mt 11.5,onde: Os cegos


ouvem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os nwrtos ressuscitam
e a Boa Notícia do Evangelho é anunciada aos pobres. Mas não se pode negar que as
idéias aqui contidas apontam para as ali presentes e em outros textos também.

E partindo disso, então, quando o Senhor realiza o intercâmbio com João, que tinha
dúvidas sobre a sua Messianidade, descreve sua obra apontando para essa passagem,
não estaríamos suficientemente justificados em dizer que este texto é claramente
Messiânico? Claro que precisamos admitir que Mt 11.5 não é uma citação exata do
nosso texto. O regozijo dos mansos tinha a condição de remover o mal, que se desen-
volve descontroladamente como a deterioração dos campos produtivos em florestas.

Conseqüentemente os vv. 20 e 21, que explicam o v. 17b: Os jardins voltarüo a ser


mato, estão conectados com o que vem antes. Os que acusam os outros falsamente
serão colocados abaixo, derrubados, não por provas atuais mas merecidamente pelas
palavras mentirosas que proferiram. Aqui tudo está ao reverso. Antes ele tinha dito, os
sábios serão cegos. Aqui ele diz, o cego verá. O resumo de tudo é que os que estavam em
seus ofícios, os que foram chamados Sacerdotes e Levitas, junto com a multidão de
pessoas, foram cegadas por causa da incredulidade. Por outro lado, as pessoas pobres,
miseráveis que não têm profissão nem reputação,juntamente com o pagão, serão chama-
dos, e serão as pessoas de Deus que verdadeiramente conhecem Deus e invocam o nome
dele, e têm alegria, conforto e ajudadele. É o alcance e Universalidade da Salvação.

A menção enfática do Santo de Jacó e o Deus de Israel, após a perícope, como o


objeto ser santificado, implica uma relação que ainda existe entre todos os crentes e
seus antecessores. Como a luz do sol que não ilumina, mas repentinamente aparece e
deslumbra, sendo então necessário fechar os olhos para se adaptar e poder receber
esta claridade, assim também a palavra de Deus é para os que não nasceram de Deus e
não podem receber o Espírito de Deus.

Todo homem tem a tarefa dele nesta vida. Alguns, porém, são inclinados a levar a
vida, a tocar os seus negócios sem Deus. E por não acreditar que há um Deus, ou se até
acreditam, mas desejam ser independentes dEle. Desejando executar tudo de acordo
com a própria mente e suas próprias vontades. Imaginam que podem levar a cabo os
seus planos como se estivessem atrás, nas costas de Deus, sem serem percebidos por
Ele, mas não pode ser assim.

A fé murcha, morre e se transforma em ideologia para manter a perversidade, quan-


do ela não crê na ação decisiva de Deus na história.

Por outro lado, os que fazem todas as coisas com Deus, participam das bênçãos mais
amplas: os surdos ouvem, os cegos vêem, os mansos se regozijam, os pobres se alegram.

A fé cristã autênticatem se nutrido dessa fume expectativadeque Deus não permitirá que
o estado de coisas se peqxtue. Sim, ela vive da convicção de que tudo pode mudar, pela
confiança na promessa divina de que tudo vai mudar, Esperando cotti Fuielidade a Deus.

Adilson Schiinke
Blumenau, SC
29 de agosto de 1999
Gênesis 4. (1-7)8-16a

LEITURAS
DO DIA
As leituras do dia querem nos mostrar como o pecado afastou os homens de Deus
e corrompeu as relações humanas.
Salmo 142 - O SENHOR é refúgio, quinhão na terra dos viventes (v.5). Em Gn 4.14
lemos: ... da tua presença hei de esconder-me". Parece que Caim entendeu que
"

a verdadeira questão de seu exílio está no seu exílio da presença de Deus. Ele
não mais viveria sob a divina providência. O SENHOR não mais seria seu
refúgio, seu quinhão na terra dos viventes.
I João 4.7-11 - "Amar uns aos outros". Parece que João quis ensinar qual deveria
ser a atitude correta de Caim frente a seu irmão.
Lucm 10.25-37- A história do bom samantano: o mais claro exemplo bíblico de amor
ao próximo. "Vai e procede tu de igual modo". v.37. Essa deveria ser a atitude de
Caim.

CONTEXTO
I ) Contexto de Gn 4.1-16: As experiências de Caim e Abel revelam as condições
do homem em seu estado alterado. Que estado era esse? O estado de corrupção (o
pecado) em que a humanidade havia caído. O resultado desse estado foi a revoltante
tragédia que enlutou o lar de Adão e Eva, fazendo-os experimentarem a desgraça
provocada pela queda. De tal forma o pecado dominou o primeiro homem nascido
neste mundo (Caim) que o induziu a inveja, a irae ao fratricídio.

2 ) Contexto da IELB: "Esperar cotllfidelidade a Deus" é, em todos os tempos,


buscar ser fiel aos preceitos que Deus estabelece em sua Palavra, especialmente no que
se refere ao respeito à vida humana.

TEXTO
V I : O primeiro homem nascido neste mundo recebe o nome de Caim. "Caim" em
hebraico soa parecido com a palavra que quer dizer "tive". Eva teve seu primei-
ro filho: "Adquiri um varão com o auxílio de Deus" - aqui, Eva confessa ser
Caim um dom de Deus.

V2: O seu segundo filho recebe por nome Abel. Também há algum significado no
nome "Abel", que significa "neblina" ou "vapor", como também "vaidade".
Isto bem pode ser evidência de uma consciência da vaidade da vida agora
nascendo em nossos primeiros pais.
V3: "... uma oferta ao SENHOR": uma ação espontânea, uma atitude de gratidão e
reconhecimento a Deus por parte de Caim.

V4: "... das pritnícias do seu rebanho e da gordura deste ":dá-nos a idéia de uma
oferta escolhida. Sendo assim, Abel foi sincero em seu culto, enquanto que a
oferta de Caim foi um simples formalismo. Por isso "agradou-se o SENHOR de
Abel e de sua oferta". Hb 11.4 nos dá a razão pela qual Deus agradou-se da
oferta de Abel: foi uma oferta motivada pela fé.

V5: "Irou-se... Caim, e descaiu-lhe o semblante": esta é uma expressão um tanto


estranha, mas a entendemos perfeitamente, pois podemos ver diariamente a
repentina mudança de expressão numa pessoa que se torna extremamente ira-
da, especialmente quando esta sofre um impacto.

Vv.6-7: Nestes versículos Deus avisa a Caim: Cuidado! O pecado está à porta, pronto
para entrar e tomar posse. Mas Deus avisa Caim de forma amorosa da necessi-
dade de dominar o mal ameaçador, o tem'vel ato pecaminoso que estava perigo-
samente próximo.

V8: "... o matou ":o furacão do pecado, infelizmente,já se havia instalado em Caim e
revelou-se no assassinato de seu irmão. Com este ato, Caim aliou-se à semente da
serpente e Abel se tomou símbolo dos justos (Mt 23.35; Lc 11.51; 1 Jo 3.12). Aqui
podemos ver a verdade das palavras que Jesus pronunciana mais tarde, em Mt 15.19.

V9: Aqui também o furacão do pecado é revelado na resposta insensível de Caim à


pergunta feita por Deus a ele: "Acaso sou eu tutor de meu irmão"?

V 10: " A voz do sangue de teu irmüo clama... ":A resposta do SENHOR ao derrama-
mento do sangue de Abel é um testemunho solene à santidade da vida. Isto
demonstra o destaque que a Bíblia coloca sobre o sangue como base da vida.
Isto mais tarde se tomaria a base das leis da antiga aliança que proibiriam comer
o sangue (Dt 12.23).

VI:11-12: O castigo de Caim não é amorte física. Em vez disso, ele é conduzido fora
de sua terra para tornar-se um "fugitivo e peregrino", e para quem a terra não
mais daria os seus frutos.

Vv.13-14: Aqui vemos que, apenas o castigo perturbava Caim, e não seu pecado.
Mas Caim sabe que a verdadeira razão de seu exílio está no seu exílio da presen-
ça de Deus ( "da tua presença hei de esconder-me..."). Ele não viveria sob a
divina providência.

V15: "Epôs o SENHOR um sinal em Caim..." : a graça de Deus é evidente mesmo


diante do criminoso. A marca de Caim é, na verdade, um ato gracioso pelo qual
o SENHOR protegeu mesmo a este homem daqueles que iriam tomar a lei em
suas próprias mãos.
V16; "Retirou-se Caim da presença do SENHOR...": este é o verdadeiro resultado
que o pecado traz: separação de Deus.

OBJETIVO
Reconhecer que todos pecamos e carecemos da redenção que há em Cristo Jesus.

MOLÉSTIA
A atrocidade do pecado humano manifestou-se de forma muito rápida. A voz do
Senhor fala a toda a humanidade pecadora: "Onde está Abel, teu irmão?", e com isso
Deus transmite a responsabilidade do nosso pecado em relação aos nossos semelhan-
tes. Muitas vezes temos respondido: "Sou eu tutor do meu irmão". Muitas vezes a
palavra do SENHOR para todos nós deve ser: "Que fizeste"? Especialmente hoje,
quando fazemos tantas guerras e em algumas outras de nossas evoluções, temos
buscado somente fortalecer-nos contra o clamor do sangue humano e as necessidades
de ouvir a palavra do SENHOR que nos diz: "Que fizeste?"

ME10
O sangue derramado de Abel também nos traz à lembrança que Alguém viria para
oferecer Seu próprio sangue voluntariamente para pagamento dos pecados de toda
humanidade. Este alguém, conforme diz Hb 12.24, é Jesus, aquele que derramou seu
sangue (Rm 3.25; 5.9; Ef 1.4; etc.) em nosso favor para nos dar vida, e vida eterna.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tenia: O sangue de Cristo nos purifica de todo pecado.

I- Com a queda em pecado, o sangue humano jorrou pela terra:


a) Trazendo maldição ao próprio homem (v. 11);
b) Tornando o homem "fugitivo e errante" pela terra (v. 12);
c) Privando o homem da providência divina (v. 14).

11- Para nos livrar do pecado, o sangue de Cristo jorrou na cruz:


a) Estabelecendo entre Deus e o homem nova aliança (Mc 14.24; 1 Co 11.25);
b) Reconciliando o homem com Deus (Rm 5.8-1 1;Ef 2.13);
c) Tornando o homem santo, para que pudesse oferecer a Deus sacrifício de louvor,
que é o fruto de lábios que confessam o seu nome (Hb 13.12- 16; 1 Jo 1.7).

lldo Reisner
Marcelino Ramos, RS
5 de setembro de I999
Gênesis 28.10-19a

PRELIMINARFS
Sonhos e visões são meios pelos quais Yahweh instrui Seu povo na Sua vontade
no Antigo Testamento. Uma vez revelada plenamente Sua vontade e climaticamente
encarnada na pessoa de Seu Filho, este meio de comunicação de Deus deixa de existir.
A visão narrada nesta perícope é universalmente tida como tipológica, embora poucos
tenham apresentado essa relação de maneira satisfatória. Esta é mais uma tentativa.

E COMENTÁRIO
TEXTO
Quando tão impressionante revelação é feita a um ser humano como a "escada de
Jacó", pode-se concluir que alguma finalidade está nela imanente. O objetivo da visão
dada por Deus a Jacó parece ser, em primeiro lugar, o de eliminar os medos de Jacó
causados pelas suas ações abusivas e extravagantes na constelação familiar. Jacó está
consciente de que agira de forma trapaceira e que, por isso, se enquadrara na esfera do
desprazer divino e ao mesmo tempo causara um rancor eruptivo e assassino no cora-
ção de Esaú. Ele agora fugia da ira fumegante do seu irmão e, com razão, receava um
justo castigo da parte de Deus. Mas Yahweh, que é soberano e gracioso na distribui-
ção do Seu favor divino, e não raras vezes o concede sazonalmente quando, em nosso
modo de ver, é menos esperado, aparece a Jacó, com gestos de amor e misericórdia.
Deus assegura ao fugitivo a reconciliação com Ele, a Sua presença pessoal, o envio dos
Seus anjos a protegê-lo e a guardá-lo e a garantia do retorno (v. 15).

Um segundo aspecto que a visão pretende é confirmar a Jacó a esperança das


bênçãos prometidas. Afinal, Jacó havia recebido a promessa do direito da primogenitura
desde o ventre materno (cf. 25.22-23) e, sem dúvida, aguardava seu cumprimento. Mas,
ao ver seu pai morrendo e sabendo que pelo código de leis sociais da época esse direito
seria conferido a seu irmão mais velho, sua fé vacilou. Por isso, procurou obter de
maneira ardilosa o que, se esperando com fidelidade o tempo de Deus, teria obtido de
maneira bela e honrada. (Atitude precipitada e infiel, aliás, copiada de seus pais Abraão
e Isaque). Entretanto, embora esperasse maldição, Jacó recebe bênção da parte de
Deus. A promessa que lhe fora dada por seu pai Isaque há poucas horas atrás, Deus
lhe renova quase nos mesmos termos (compare os vv. 13 e 14 com vv. 3 e 4). A
promessa não se limita apenas a numerosa descendência e herança daTerra Prometida.
Envolto, embrulhado e o mais esperado no direito de primogenitura na perspectiva da
fé está o próprio Cristo vindo, tornando-se carne do próprio corpo de Jacó. A
primogenitura no Antigo Testamento está diretamente ligada a encarnação do Messi-
as, o Primogênito de todas as coisas. Daqui em diante a vida de Jacó se transforma.
A visão da escada (ou antes do zigurate) era um tipo e como tal prefigurava o
testemunho que os anjos dariam de Cristo. O próprio Senhor Jesus clareia esta passa-
gem. No Seu diálogo com Natanael Jesus afirma ao neoconvertido que ele, Natanael,
veria um dia cumprir-se o que fora antecipado na visão de Jacó (Jo 1.51 ).Em relação a
isso, vemos os anjos atuando na vida e ministério de Cristo, do início ao fim (Mt
1 . 1 126.53;Lc 22.43; 24.4-7,23). A correspondência entre o tipo e o antitipo está no fato
que Jesus, não obstante ser diferente de Jacó por ser justo e santo, também era um
homem de dores, expulso de entre Seus irmãos, ameaçado de morte (Lc 20.14). Mas
Deus não permite que Seu Filho seja abusado e por isso abre uma comunicação entre
o céu e a terra para que os anjos o assessorem, permanecendo Deus mesmo "no topo
da escada".

As circunstâncias de Natanael e Seus outros discípulos a quem esta demonstração


ocular foi dada, não eram muito diferentes das circunstâncias vivenciadas por Jacó, a
quem a visão foi proporcionada. Criam em Jesus, mas sua fé foi duramente testada.
Contudo, o apoio sazonal foi-lhes dado da parte de Deus por meio dos anjos na hora da
morte de Jesus (Jo 20.12) e da Sua despedida final como também na feliz notícia de um
alegre reencontro com Ele na escatologia (At 1.11;cf. Mt 25.31; 1Ts 4.16). E o resultado
é que "voltaram para Jerusalém, tomados de grande júbilo"(Lc 24.52).

Por mais estressante que seja a nossa situação, Deus tem milhares (não apenas um)
de anjos da guarda que ele designa para "serviço, a favor dos que hão de herdar a
salvação"(Kb 1.14). Embora por vezes nos sintamos como Jacó (e por que não dizer
como Cristo) desamparados, tendo o chão como nossa cama, uma pedra como nosso
travesseiro e coberta nenhuma senão a amplidão dos céus, ainda assim a certeza da
presença de Deus e do ministério dos Seus anjos, nos farão ver a "casa de Deus, a porta
dos céus" (v. 17).

PROPOSTA
HOMILÉTICA
A Visão de Jacó: um tipo do ministério dos anjos a Cristo e Sua igreja.

Acir R a ~ m a n ~ i
12 de setembro de 1999
1 Reis 17.8-16

Salmo 4: Neste salmo encontramos uma oração de confiança em Deus. O Salmista


designa nesta oração o Senhor de "Deus da mirilzajustiça" (v. 1). Nestaexpres-
são está contida a identidade de Deus. Os ídolos do paganismo não se identi-
ficam como divindades justas. Pelo contrário, são deuses que se identificam
essencialmente como divindades punitivas, e por isso necessitam ser aplacadas
em sua ira. Estas divindades criadas pelos homens a partir de suas necessida-
des, necessitam, como no Monte Camelo ocorreu com os profetas de Baal, que
seus adeptos se flagelem em seu favor. Bem diferente é com o Deus da justiça,
pois em sua misericórdia Ele preserva os seus em meio as suas angústias e
ansiedades. Ele no dizer do salmista: "distingue para si opiedoso" (v.3). Por
sua ordem preserva seu profeta tomando uma viúva gentia como instmmento
de sua ação amorosa. O grande destaque neste salmo é a justiça e a misericórdia
de Deus. A justiça e a misericórdia divinas produzem no coração do homem
completa mudança. A partir da ação graciosa de Deus, o homem passa da
confiança na criatura e no seu poder realizador, para a confiança irrestrita e
eficaz realizada nele pelo amor salvador. Nada no mundo e do mundo pode
trazer-nos segurança. Esta verdade fica muito bem traduzida na versão da
Bíblia na Linguagem de Hoje: "A alegria que me dás é muito maior do que
daqueles que tênz comida a vontade. Quando me deito, durmo em paz pois só
tu, ó Deus Eterno, me fazes viver em segurança"(vv.7 e 8 BLH).

2 Corintios 6.1-10: O apóstolo se dirige aos que foram distinguidos e chamados por
Deus para o ministério da reconciliação. Designa-os de embaixadores e
cooperadores de Deus. Também Elias é enviado por Deus à viúva em Sarepta
como seu instrumento e cooperador na proclamação do plano redentor a se
concretizar no futuro. Ali estava a oportunidade, "o tempo sobremodo
oportuno, ...o dia da salvação" (v.2), para aquela mulher e seu filho. Existem
muitas singularidades que são próprias dos embaixadores e cooperadores de
Deus. Destacamos apenas as que julgamos mais importantes no texto: "...no
Espirito Santo, no amor não jingido, na palavra da verdade, no poder de
Deus ..." (vv.6 e 7). São ao todo vinte e quatro (24) peculiaridades citadas no
texto que distinguem um ministro de Deus. Estas marcas são facilmente
identificadas nos autênticos profetas de Deus. Com certeza não foi o vestuário
ou outra coisa qualquer que deu à viúva de Sarepta a certeza de estar na
presença de um profeta do verdadeiro Deus, mas seu espírito, seu amor, sua
palavra e o cumprimento de suas profecias, cumprimento milagroso que só o
Deus verdadeiro é capaz de levar a efeito.

Mateus 6.25-33: Uma das maiores preocupações da humanidade em todos os tempos


diz respeito à sobrevivência.Guerras, violências, tumultos,revoltas, de uma ou de
outra forma estão ligados com a questão da sobrevivência. Não é sem razão que
o Salvador Jesus chama atenção no texto para o perigo de trocar o Deus verdadei-
ro por ídolos falsos. Tema este que recebe o título de: "A ansiosa solicitude pela
vidaN(ARA).A ansiedade facilmente leva as pessoas e especialmente o cristão a
desviar seus olhos do amor provedor de Deus. As preocupações pela sobrevi-
vência tomam o lugar de Deus no coração dos homens. De uma formamagistral o
Salvador toma o exemplo das aves e dos lírios do campo para mostrar o quanto
Deus nos valoriza: "Porventura, não valeis vós muito niais do que as aves?"
(v.26) e "...quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?" (v.30). A medida
divina com respeito a nossa vida é incapaz de ser avaliada em termos humanos.
Deus no entanto valorizou a cada um dos seres humanos, na pessoa do Senhor
Jesus Cristo e na sua obra redentora em favor e em lugar de todos. Por isso.
salienta Jesus em seu "Sermão do Monte" que aquele que é o único capaz de nos
agraciar com a bênção da Vida Eterna, não seria capaz de diariamente suprir o
necessário para nossa sobrevivência aqui neste mundo?

O valor que Deus dá a nossa vida só pode ser medido quanto temos como parâmetro
seu reino e sua justiça, concretizados no "Está consumado" (Jo 19.30) e no "Eu vivo,
vós também ilivereis" (Jo 14.19) do Salvador Jesus Cristo. Deus em e por Cristo realiza
o grande milagre, a nossa redenção. Por certo que os pequenos milagres como o
alimento, vestimenta e abrigo para nossa vida temporal serão diariamente supridos por
sua providência.

TEIITO
De Acabe, que reinou vinte e dois anos (22) sobre Israel, é dito: "Fez ... o que era
mau perante o Senhor, mais do que todos os que foram antes dele" (1 Rs 16.30).
"...Tomou por mulher a Jezabel (umarainha pagã, no meio do povo de Deus)," ...e serviu
a Baal, e o adorou" (16.31) Baal, ídolo dos fenícios. Seu nome significa: "Senhor,
possuidor". O deus-sol, exibindo os diferentes aspectos da energia solar. "Nos dias do
rei Acabe e Jezabel, o culto a Baal quase suplantou o de Jeová" (John D. Davis,
Dicionhnoda Bíblia. 3. ed. I. R. Carvalho Braga, trad. Rio de Janeiro: C. P. Batista, 1970.
p. 67). Seguidamente a idolatria importada dos povos vizinhos encontrava eco no
coração do povo de Deus. No entanto, nunca antes fora promovida a adoração a um
ídolo, como nos dias do rei Acabe. Devido aidolatriareinante, Deus envia seu profeta.
Elias testifica em forma de profecia contra o rei e arainha idólatras dizendo: "...Tão certo
como vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja face estou, nem orvalho nem chuva
haverá nestes anos, segundo a minha palavra" (1 Rs 17.1). Deus protege seu profeta
em meio a grande seca e conseqüente penúria que se abateu durante três anos e seis
meses (Lc 4.25) sobre a terra de Israel e toda aregião circunvizinha. Fugindo da perse-
guição dos governantes idólatras, Deus o protege e o alimenta junto a um ribeiro,
alimentando-o com pão e carne trazidos por corvos (1 Rs 17.2-7). Quando secam as
águas do ribeiro, novamente Deus conduz seu servo a um lugar seguro: "Então lhe
veio a palavra do Senhor, dizendo" (v.8). A ordem é segura, Deus manda que se dirija
para Sarepta, pequena vila portuária pertencente a Sidom, pois lá uma mulher viúva iria
sustentá-lo. Uma longa viagem, do leste do Jordão a Sarepta no norte, às margens do
Mediterrâneo. Uma caminhada de aproximadamente oito dias. A viúva hospedeira do
profeta preparava-se junto com seu único filho paramorrer, pois devido à seca prolon-
gada não tinham mais alimento. Como ordenara o Senhor, Elias encontra a mulher
apanhando gravetos de lenha para preparar aquela que, segundo ela, seria a sua última
refeição juntamente com seu filho. O profeta pede à viúva "água" (v. 10) e um "bocado
de pão" (V.11). Um pedido que demonstra insensibilidade, pois todo o alimento que a
viúva tinha ela o declarou nestas palavras: "um punhado de farinha numa panela, e um
pouco de azeite, numa botija" (v. 12). Mas, mesmo depois de declarar aescassez de seu
alimento, a insensibilidade de Elias parece ir às raias da loucura. O profeta diz a ela para
preparar primeiro para ele um bolo pequeno, depois poderia preparar o alimento para ela
mesma e seu filho. Mas, não é um homem insensato que dirige este pedido. É um
enviado de Deus, um profeta do Senhor Criador de céus e terra. Alguém que não se
encontra lá em Sarepta por sua própria vontade. Alguém que fala e procede de acordo
coin a ordem recebida do Todo-Poderoso Deus. A viúva reconhece em Elias um
profeta de Deus e o declara dizendo: "Tão certo como vive o Senhor teu Deus" (v. 12).
Continuando, ela descreve seu drama, justamente estava preparando a última refeição
para ela e seu filho. Dura e triste realidade, assim descrita: "...comê-lo-emos, e morrere-
mos" (12). Assim, o profetado Senhor declara em nome de Deus: "Não temas" (v. 13) e
acrescenta: "Porque assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha de tua panela não se
acabará, e o azeite da tua botija não faltará, até o dia em que o Senhor fará chover sobre
a terra" (v. 14). Cresce mais o reconhecimento da mulher com respeito a ser Elias um
homem de Deus, um profeta do Deus verdadeiro, pois sua palavra se provou verdadei-
ra. E assim como o profeta falou sucedeu, enquanto houve seca não faltou mais alimen-
to naquela casa.

Do relato do profeta Elias, seu encontro e sua permanência em Sarepta junto a


viúva gentia e seu filho, enumeramos alguns ensinamentos:
a) Na obediência à ordem do profeta, reconhece a mulher em Elias um homem de
Deus (v. 15);
b) O piedoso ato da mulher gentia, que reconhece com simplicidade estar por trás
do profeta o Deus verdadeiro, serviu de grande consolo para Elias em sua fé
titubeante, diante da crescente idolatria em Israel;
c) Se Deus é reconhecido em sua palavra entre os gentios, sua obra em Israel
jamais sofreria descontinuidade;
d) A viúva certamente não recebeu através do profeta de Deus apenas bênçãos
materiais, mas especialmente bênçãos espirituais;
e) Cristo, ao citar o exemplo do envio do profeta à viúva gentia,em detrimentoa tantas
viúvas do povo de Israel (Lucas 4.25 e26), nos quer alertar como povo de Deus a
não desprezarmos a palavra de seus enviados pastores e mestres em nossos dias;
f) O milagre da farinha e do azeite na casa da viúva, evidenciaram o milagre, o
poder e a misericórdia de Deus na realização de um milagre bem maior, a nossa
redenção (v. 16);
g) Ao suprir as necessidades corporais da viúva e seu filho, Deus estava prepa-
rando o caminho para supri-los de sua maior e mais urgente carência, o vazio
espiritual.

PROPOSTA
HO~ÉTICA
Tema: Nós temos um Deus que sempre ajuda - um Deus único e Salvador.
I - Nos ajuda em nossas necessidades corporais:
a) O milagre de nos conceder o necessário para nossa sobrevivência neste mun-
do, assim expressa pelo salmista: "Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu
tempo, lhes dás o alimento. Abres a tua mão e satisfazes de benevolência a
todo vivente"(S1 145.15 e 16).
b) Lembramos Lutero ao explicar o Primeiro Artigo do Credo Apostólico: "Creio
em Deus Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra" e a Quarta petição da
oração do Pai-Nosso: "Opão nosso de cada dia dá-nos hoje" (Mt 6.1 1). O que
significa isso? (Cm pp. 370 e 373-374 e CM pp. 448-450 e 467-469). Deus é o
Criador, Supridor, Protetor, Conservador e Preservador de toda humanidade.

I1 - No seu grande amor nos supre de nossa maior carência, a carência espiritual:
a) Em nossa estrutura natural somos cegos e mortos espiritualmente (SI 51.5; Rm
7.23; Ef.2.1-3).
b) Deus intervém em nosso favor humanando-se em Cnsto Jesus (G14.4 e 5).
C) Pela fé em Cnsto somos redimidos de nossos pecados (At 16.31; 1 Pe 1.18 e 19).

I11 - Deus realiza o grande milagre - a nossa salvação (Ap 5.9):


a) "Não temas" -pois Aquele que é poderoso para suprir todas as nossas neces-
sidades materiais dia após dia, supriu de forma plena e total no Senhor Jesus
Cristo nossa maior carência, a salvação de nossas almas (Rm 8.32).
b) Que o pequeno milagre de Sarepta nos recorde dos pequenos e diários milagres
divinos em nossas vidas.
C) Que os pequenos milagres em nossas vidas nos levem a recordar com profunda
gratidão o grande milagre de Deus em nosso favor - a nossa redenção em
Cristo Jesus nosso Senhor (2 Co 5.15).

Orlando Nestor Ort


I9 de setembro de 1999
1 Reis 17.17-24

O texto trata de uma época aproximadamente 900 anos a.C. O local da história é uma
pequena vila de nome Sarepta, que se localizava entre as cidades de Tiro e Sidom, na
Fcnícia, às margens do Mediterrâneo. Como em todos os textos bíblicos, o personagem
ccntral é o próprio Deus; secundado pelo profeta Elias, uma viúva pobre e seu filho menor.

A situação política, social e econoinica era caótica. Havia uma grande e prolongada
scca na região. A falta de colheitas significava fome, desemprego e inflação. A causa?
Alterações meteorológicas? Sim, mas como desígnios de Deus, como castigo devido à
impiedade, à desobediência aos mandamentos divinos, e principalmente pela prática
do culto idólatra a Baal, o deus-sol, que exigia o sacrifício de crianças, além de outras
cerimônias lascivas ( 1 Rs 14.24).

A idolatria era liderada pela ímpia rainha Jezabel, esposa do perverso rei de Israel,
Acabe (I Rs 16.30-33). Repreendidos e chamados ao arrependimento pelo profetaElias,
(1Rs 17.1) passaram a persegui-lo ( I Rs 18.10). Deus, no entanto, protegeu seu fiel
profeta. Assim a mando de Deus, Elias inicialmente refugiou-se junto a um riacho de
nome Querite (I Rs 17.2-7); e, quando este secou, Deus o mandou hospedar-se na casa
de certa viúva pagã na vila de Sarepta ( 1 Rs 1 7 . 8 ~ ~Assim
) . o astuto rei Acabe, apesar
de todo seu esforço em localizar o profeta, não conseguiu descobrir o paradeiro de
Elias (I Rs 18.10). O poder de Deus sempre é mais eficaz do que qualquer "polícia
secreta", "serviço de inteligência" ou "agência de espionagem". Assim também quan-
do esta viúva alegou que não tinha condições de hospedar o profeta, por absoluta falta
de recursos ( 1 Rs 17.12), o profeta, em nome de Deus, lhe assegurou: "Não temas ... Por
que assim diz o SENHOR Deus de Israel ( Elias se identifica aela como profeta do Deus
de Israel, portanto, não como um profeta de Baal ...): A farinha da tua panela não se
acabará, e o azeite da tua botija não faltará, até ao dia em que o SENHOR ( e não Baal)
fará chover sobre a terra." (1 Rs 17.14). E de fato, assim aconteceu! O sustento estava
garantido, e a segurança do profeta ass5gurada. Assim os dias correram normalmente,
até a tragédia que sobreveio a esta pobre viúva. O seu único filho, em quem ela via
assegurado o seu futuro, repentinamente adoeceu e morreu.

Na concepção pagã desta viúva, a morte do filho significava um castigo do Deus de


Israel, devido à sua vida pregressa. O Deus de Israel igualara-se a Baal, que exigia o
sacrifício de crianças. Tudo o que o profeta lhe ensinara a respeito do Deus de Israel,
para ela agora não tinha mais significado. Restava-lhe apenas uma grande desilusão.
Daí a agressão verbal ao profeta (I Rs 17.18).

O próprio Elias sentiu-se confuso diante da acusação desta mãe e desabafou sua
inconformidade ante os "insondáveis juízos" e "inescrutáveis caminhos" ( Rm 1 1.33)
de Deus ( 1 Rs 17.20).Era preciso vencer a Baal. Provar que o Deus de Israel era diferente
de Baal. Era preciso restabelecer a credibilidade do povo no Deus de Israel, caso
contrário, todo o trabalho do profeta teria sido em vão. Podemos assim entender o
clamor do profeta por uma ação enérgica, sui generis, peculiar de Deus. Daí a ousadia
do seu pedido: "Ó SENHOR meu Deus, rogo-te que faças a alma deste menino tornar a
entrar nele" (1 Rs 17.21).

O SENHOR atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tomou a entrar nele, e


reviveu ( 1 Rs 17.22). O maior milagre do Antigo Testamento!

Agora podemos compreender os propósitos de Deus. Para revelar o seu poder, a


sua misericórdia, o seu amor - permitiu que este menino morresse - para então nova-
mente o reviver!

Jamais acontecera algo igual. O poder onipotente de Deus revelara-se a esta mãe
pagã, que agora definitivamente convertida dá seu testemunho de fé ( 1 Rs 17.24). Baal
por sua vez fora derrotado, como o seria definitivamente depois no monte Camelo pelo
próprio profeta Elias ( 1 Rs 18.20s~).

Na explanação da homilia, dentre outros, podemos destacar tópicos como: a idola-


tria e o juízo de Deus ( I Rs 16.30-33 e 17.1) - o cuidado de Deus para com o seu profeta
(1 Rs 17.2-9) - a obediência e resignação do profeta ( 1 Rs 1 7 . 3 s e 17.9) - a promessa de
Deus de garantir o pão de cada dia ( 1 Rs 17.13) - a preocupação do profeta para com a
desgraça alheia e sua intervenção ( 1 Rs 17.19-21) - o atendimento de Deus à oração
de Elias (1 Rs 17.22) - o testemunho da mãe convertida (1 Rs 17.24)- a salvação universal
( 1 Rm 2,3,4 e Lc 4.25,26) - e principalmente o poder de Deus demonstrado pela ressurrei-
ção ( 1 Rs 17.22).

O MAIOR MILAGRE DO ANTIGO TESTAMENTO


1. amorte súbita (1 Rs 17.17-18)
2. a ousada, mas humilde oração do profeta (I Rs 17.19-21)
3. a manifestação da onipotência de Deus (1 Rs 17.22)
4. o feliz testemunho de uma mãe convertida ( 1 Rs 17.23,24)

Walter O. Steyer
São Leopoldo, RS
26 de setembro de I999
Gênesis 8.18-22

Como
De Gn 6.9 a 9.29 encontramos a história de Noé. Antecedem o texto da perícope a
preparação para o dilúvio, a ocorrência do mesmo, a diminuição das águas e o solo
iicando enxuto. O dilúvio começou no 17" dia quando Noé estava com 600 anos e dois
mescs e terminou no 27" dia quando ele estava com 601 anos e dois meses. Deus
ordenou que Noé saísse da arca com a família e todos os animais, e renovou a bênção
da criação (comparar Gn 1.22 com 8.17).

TEXTO
Vi! 18-19:Noé obedeceu a Javé a ordem de sair da arca com a família e todos os animais.

V20: "Levantou Noé um altar a Javé". Este é o primeiro altar (mizbeah) mencionado
na Bíblia, mas não significa que fosse o primeiro a ser construído. Os sacrifícios
por Abel e Caim em Gn 4.3-4 pressupõem um altar.
"tomando de cada animal puro e de cada ave pura" - trata-se de animais cuja carne
era comestível na época.
"e ofereceu ofertas queimadas (olâ = holocaustos) sobre o altar". A palavra holocausto
deriva-se da palavra hebraica que significa subida. A idéia é de que, quando a
oferta é queimada, a fumaça sobe a Javé, levando, em certo sentido, a gratidão
e a adoração do ofertante (Moody). Agradecer a Javé de modo especial foi a
primeira coisa que Noé fez ao sair da arca, já que tão milagrosamente ele e a
família haviam sido preservados nas vidas física e espiritual. Com este ato
também queria Noé pedir bênçãos para o futuro. Igualmente expressou Noé o
desejo de permanecer em comunhão com Javé e de continuar tendo o favor
divino. A pessoa que sabe ser amada por Deus espontaneamente espera com
fidelidade a Ele dando generosas ofertas de gratidão. Agradecer a Javé e adorá-
lo logo que recebe bên~ãosespeciais é bela atitude de filhos agradecidos. Javé
muito se agrada quando seus filhos lhe agradecem pela proteção graciosa de
males e desejam continuar comunicando-se com ele.

V 21: "E Javé cheirou ( iarah ) o cheiro ( rêah ) suavizante" - Javé graciosamente
aceitou os sentimentos e as atitudes do ofertante crente elevados a ele pelo
aroma sacrificial.

"e disse Javé em seu coração" - Von Allmen a f m a que em hebraico pensar é falar ao
seu coração. O coração, que é o grande regulador, é que dita a conduta moral do
homem e lhe dirige sua vontade e desejo. Mas, o coração de Javé é santo, bom
e perfeito, enquanto que o coração do homem é pecador, mau e imperfeito.
Então em "seu coração" ( leb libô ) Javé decidiu não amaldiçoar mais a terra nem
destruir mais a humanidade porque o "coração" ( leb ) do homem, de onde
provém os seus pensamentos e desejos, é mau desde a sua mocidade, ou seja,
desde o tempo que começa a agir com consciência, pois o mal é inato no ser
humano. O dilúvio não purificou a terra da maldade humana nem resolveu o
problema do pecado. Logo depois do sacrifício, o justo Noé ficaria bêbado e um
filho seu iria zombar dele. A promessa divina de não haver outro dilúvio era para
tranqüilizar os apavorados seres humanos a fim de não temerem quando viesse
chuva pesada como também para demonstrar sua graça para com a humanidade
caída. O ser humano precisa sempre da clemência de Deus.

A história do dilúvio é relatada não para enfatizar a ira de Deus, mas sim para
enfatizar especialmente a sua graça (Broadman). Embora Deus seja justo e promete
castigar todo pecador impenitente, ele quer muito mais ser o Deus de amor perdoando
o pecador arrependido e confiante em Jesus Cristo para lhe conceder bênçãos espiritu-
ais e materiais. Devido à obra redentorade Cristo, Javé é clemente e misericordioso para
conosco.

PROPOSTAHOMILÉTICA
Tema: Esperando com fidelidade a Deus.
I - Por quê? Ele nos preserva a vida (espiritual e física)
a) Noé e sua família
b) Nós

I1 - Como? Dando generosas ofertas de gratidão


a) Noé
b) Nós

Tema: Deus não amaldiçoará mais sua criação.


I - Razão negativa: É mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade -
v.2 1c
11-Razão positiva: Graciosamente Deus aceita com alegria os frutos da fé produ-
zidos por seus filhos - v.21a.

Leonerio Faller
Rio de Jar~eil-o.RJ
3 de outubro de 1999
Deuteronômw 6.4-15

LEITURAS
DO DIA
Salmo 103.1-14: É um hino de gratidão ein que o salmista louva a Deus como
Salvador e Criador, Pai e sustentador, misericordioso e poderoso. O perdão é
uma dádiva iiicondicional doada por Deus, que quer curar e sarar, dar fartura e
proteçáo segundo a sua justiça. Deus não olha a situação humana para exercer
sua longanimidade, sua misericórdia, sua repreensão. "O Senhor faz justiça"
para com os que "esperam com fidelidade a Deus" enfrentando o mundo na fé
em Jesus.

Romanos 13.1-10: O apóstolo conclania os cristãos à sujeição à autoridade, a toda


a autoridade, não apenas a ideal, sob pena de quem não se sujeitar estar se
opondo ao próprio Deus. Deus não tolera a desobediência que é reprimida e
castigada por quem de direito, a autoridade. Nossa sujeição não deve ser
"somente por causa do temor dapunição, mas também por dever de consciência".

Marcos 12.28-34 ou Mateus 22.34-40: O Evangelho do dia fala do "Grande


mandamento". Jesus responde aos escribas que o queriam contradizer dizendo
que o principal mandamento é o amor ao único Deus e o segundo é o amor ao
próximo. Quem cumpre estes mandamentos faz muito melhor do que trazer
animais para serem queimados no altar e oferecer outros sacrifícios a Deus.

TEXTO
Moisés, falando ao povo para lhe mostrar que a lei foi dada para ser obedecida,
lembra o grande e principal mandamento, do qual fala o evangelho do dia. Pede que
este "Grande Mandamento ( 4 3 " seja lembrado sempre, ensinado aos filhos com
insistência,testemunhando para todos, e seja também um sinal, umamarca, uni diferencial
para a vida dos filhos de Deus que senipre receberam toda atenção, proteçáo e dádiva
do "Senhor, nosso Deus, que é o único Senhor", que é Deus zeloso, ciumento e não
admite ser substituído por outros deuses.

Vv. 4-5: Único Senhor: A palavra que é empregada para "único" não exclui o
conceito cristão da trindade, a tri-unidade. Temos aqui uma advertência
contra a tentação de exaltar a posição que somente Deus pode ocupar. A
idolatria emergia na volta e entre o povo de Deus, fazia-se necessário a
chamada à fé. Esta também foi a intenção de Jesus em advertir os escribas
que estavam se colocando com a lei e acima do próprio Deus, como o faz em
Mt 23.8-12 para mostrar que Deus não divide espaço com nada e com
ninguém. O primeiro mandamento é claramente enfatizado por que tudo que
ocupa o lugar de Deus é outro Deus. O amor a Deus é resultante de uma fé
na unidade de Deus que não se encontra nas religiões pagãs. A palavra
"todo" quer salientar a consagração total que Deus exige dos seus servos.
Em suma, Deus exorta o povo que observe os mandamentos e fuja da idolatria
amando a Deus de todo o coração. Este é o Grande Mandamento que Jesus
em Mt 2 2 . 3 7 s ~mostra aos fariseus. Dele depende toda a nossa vida e,
principalmente, o cumprimento de todos os outros mandamentos. Deus
quer um compromisso de cada um de nós, um compromisso que baseado na
fé nos faz levar Cristo para todos esperando com fidelidade a Deus.

VL!6-9: As palavras que Deus ordena, que Deus dá, não são simples regras, mas são
a sua santa vontade, a revelação do seu amor que a cada dia e todos os dias
Deus quer que sejam conhecidas, compreendidas e entendidas pelo povo e.
sobretudo, ensinadas aos filhos, à descendência. A instrução no lar era de
fundamental importância para que a vontade de Deus fosse verdadeiramente
de Deus. Esta palavra deveria estar bem visível e em tantos lugares para que
muitas pessoas as pudessem ver.

Vv. 10-12: As bênçãos de Deus se cumprem quando o povo toma posse da terra
prometida e recebe todo tipo de dádivas para a vida. Na verdade Deus deu tudo
o que o povo precisava para o sustento, para as necessidades da vida.
Exatamente o que no Primeiro Artigo do Credo nós compreendemos e
entendemos ao dizer "Creio em Deus Pai todo-poderoso, Criador do céu e da
terra". "Creio que Deus me criou a nlini e a todas as criaturas; nie deu corpo
e alma... e ainda os conserva ... além disso me dá vestes, calçados, conzida e
bebida, casa e lar.. ". Isto também compreendemos e entendemos, parajamais
nos esquecermos de que Deus é que nos dá estas dádivas, na quarta petição do
Pai Nosso "O pão nosso de cada dia nos dá hoje. " "Tudo que pertence ao
sustento e às necessidades da vida... comida, bebida, vestes, calçados, casa,
lar.. ". É importante que sempre sejamos lembrados de que Deus é quem nos dá
a vida e a sustenta e por isso lhe sejamos sempre agradecidos e não nos
esqueçamos das amorosas providências de Deus para sustentar nossa vida,
mas especialmente para liberdade que recebemos de Deus através do perdão,
quc nos libertada servidão do pecado, e nos coloca no servir com fé. A libertação
de Deus é completa, total e absoluta e é nossa por graça mediante a fé.

Vv. 13-15: Deus quer a fidelidade e o temor do seu povo, dos seus filhos como
resposta à sua fidelidade. O temor a Deus é uma atitude de reverência que
mistura honra, respeito, medo, pavor, colocando Deus acima de todas as coisas.
Este temor vem seguido de um servir sincero e comprometido a Deus, que se
desvia dos falsos deuses criados pelo ser humano. Deus é zeloso, isto é, ele é
ciumento e ele não quer, e não vai dividir com nada e com ninguém a adoração
que lhe é devida. Deus é zeloso, ciumento, exclusivo entre o seu povo, onde ele
está através dos seus meios. A ira de Deus se acende quando o filho de Deus
desvia a atenção principal dele, quando não o coloca ern primeiro lugar e, assim,
estará sujeito à destruição fulminante, isto é, a morte neste mundo e
principalrilente para a eteinidade.

OBJETIVO
Temos um objetivo de vida, que claramente no texto depende da confiança em
Deus e de tê-lo em primeiro lugar, acirna de tudo. Pelo ensino da palavra vamos tomar
conhecido e conhecer o único Deus verdadeiro, Pai, Filho e Espírito Santo, que nos
salva com o perdão e cuida bondosamente de nós, dando-nos todo necessário para o
corpo e para a vida.

MOLÉSTIA
A idolatria, a falta e o desleixo no ensino e no conhecimento da palavra, a ingratidão
a Deus e a ignorância com relação à vontade de Deus e o seu desejo zeloso de ser o
único e principal em nossas vidas.

mt4
Ouçarnos ao Senhor nosso Deus
1. Aprendendo e ensinando a sua palavra;
2. Compreendendo e testemunhando a sua palavra;
3. Reconhecendo e recebendo as dádivas de Deus
a) As espirituais (perdão);
b) Materiais (sustento).
4. Temendo e confiando em Deus acima de tudo.

Horsr Siegfded Musskolíf


Cuiabb. MT
10 de outubro de 1999
Êxodo 34.1-10

CONTEXTO
O povo de Israel havia sido libertado da escravidão do Egito e está acampado ao pé
do Monte Sinai (Êx 19.1-2). Moisés sobe ao monte para falar com Deus e receber as
duas tábuas com os 10 Mandamentos (Êx 19.3).Moisés ficou 40 dias em cima do monte
(Êx24.18).

O povo, impaciente, faz um bezerro de ouro e comqa a adorá-locomo deus (Êx 32.1-6).
Moisés, ao descer do monte e ver a idolabia do povo, quebra as duas tábuas da Lei e queima
o bezerro (Êx 32.19-20). Os idólatras são mortos e Moisés intercede pelo povojunto a Deus.
Moisés recebe a ordem de Deus para preparar outras tábuas iguais às primeiras que ele
havia quebrado (Êx 34.1). Deus novamente faz aliançacom o seu povo (Êx 34.10- 17).

TEXTO
V I : Deus ordena que Moisés faça outras tábuas para escrever nelas outra vez os 10
Mandamentos. Nos vv. 27 e 28 vemos que é Moisés quem escreveu, mas é
Deus quem "dita" as palavras. Portanto, não há contradição entre estes dois
textos, mas apenas mostram que Deus escreve de maneiras diferentes, mas é Ele
quem continua falando e fazendo aliança com seu povo.

V2: Moisés precisa sair do meio do povo para ouvir o que Deus tem a lhe dizer.
Ninguém poderia ir com ele. Vemos que muitas vezes também Jesus se retirava
do meio da multidão para falar sozinho com seu Pai. Um bom exemplo encontra-
mos em Lucas 5.15- 16.

V3: Como em Êxodo 19 onde Moisés subiu pela primeira vez ao monte, aqui Deus
ordena que ninguém suba com ele. A razão disto é que aquele monte era santo
por causa da presença de Deus. Onde Deus está falando este lugar é santo.

V4: Estas segundas tábuas da Lei não foram dadas prontas como as primeiras.
Moisés precisou prepará-las e escrever nelas os 10 Mandamentos.

V.5: É Deus quem vem ao encontro de Moisés, descendo na nuvem. A aliança que
Deus faria com seu povo não seria de igual para igual, mas sim, de um superior
para com um inferior. Este padrão era caractenstico das alianças seculares do
império hitita, especialmente dos chamados "tratados de suserania" entre gran-
des potências e as nações que lhes eram tributárias.
"... e proclamou o nome do Senhor" -Esta é uma proclamação que Deus faz de si
mesmo, ou uma "autoproclamação". Deus mostra tudo que Ele é e tudo o que Ele faz.

Vv. 6-7: Primeiramente Deus se autoproclama como um Deus gracioso, perdoador,


misericordioso e cheio de graça, lealdade e fidelidade (que são palavras do
relacionamento da aliança entre Deus e o seu povo). No contexto da aliança
renovada, esta autoproclamação tem significado ainda mais profundo, mos-
trando a maravilha da graça de Deus para com a nação perdoada do seu pecado.
A misericórdia e o amor de Deus para com o pecador arrependido é eterna.
Israel tem plena consciência que Deus pode perdoar pecados. O papel que o
perdão dos pecados desempenhava na fé e no culto daquele período eram
muito grandes. A história do povo de Deus é sustentada pela atividade
perdoadora de Deus.

K6: Hesed - compassivo. Significa "comportamento correto segundo a aliança. A


solidariedade que os participantes da aliança devem um ao outro. Por causa da
superioridade de Deus como o parceiro na aliança que permanece fiel, sua mise-
ricórdia era entendida, de modo geral, como dádiva graciosa. Prometeu esta mise-
ricórdia ao fazer a aliança, e constantemente a renova. Logo, Israel poderia pedir
da parte dEle misericórdia e perdão quando a nação quebrasse a aliança.

V.6: 'Erek - longânimo, lento em ira. Esta palavra tem a ver com a idéia de ira refreada,
de tolerância. Os israelitas se referiam frequentemente à clemência de Deus e até
apelavam para ela quando tinham consciência da sua culpa. Sabiam que Javé,
sendo Deus clemente, estava disposto a conceder graça ao seu povo. Ao
mesmo tempo, porém, o israelita piedoso tinha consciência da tensão entre
graça e a ira: é possível esgotar a paciência de Deus e fazer irromper a sua ira.
Consideravam que o propósito de Deus, ao exercer clemência, era levar os
homens à regeneração e ao arrependimento.

V.7:A autoproclamação de Deus também mostra um Deus que é justo e "não inocenta
o culpado", embora a sua ira nem se compare com o tamanho de sua misericórdia.
O que Deus quer é que o povo o leve a sério, senão recairia sobre eles a sua ira.

V.8: Moisés, entendendo a mensagem que Deus lhe dá, curva-se e o adora.

K9: Moisés reconhece que "o povo é de dura cerviz", pecador. Só lhe resta interce-
der em favor do povo implorando o perdão de Deus, a Sua companhia ( prote-
ção, bênção e guia no caminho) e a tomada do povo como herança de Deus.
Moisés não pode recorrer perante Deus mediante as obras do povo que eram
más, mas unicamente mediante a misericórdia de Deus que perdoa e aceita o
pecador arrependido.

KlO: Deus responde a oração de Moisés fazendo uma nova aliança com o seu povo.
Assim como Ele fez maravilhas no Egito, Ele fará "maravilhas que nunca se
fizeram em toda a terra, nem entre nação alguma". Estas coisas que Deus fará
pelo seu povo deixarão os homens impressionados, que por meio dos juízos
que Deus fará, quer por meio dos atos de salvação do seu povo. Mas para que
Deus pudesse manter a aliança com seu povo seria necessário que o povo
permanecesse fiel a ele e à aliança. Se o povo quebrasse a aliança, tudo o que
Deus prometeu seria anulado.
-Aliança. O significado original é "obrigação", derivando da palavra hebraica
berith (atar). Uma aliança significa o relacionamento entre duas partes, em que
cada uma delas se obrigava a cumprir certo serviço ou dever em prol da outra.

No AT, uma característica geral da aliança é o seu caráter inalterável e permanente-


mente obrigatório. As partes de uma aliança obrigavam-se a cumprir seus respectivos
compromissos, sujeitos à pena da retribuição divina, se posteriormente procurassem
c\,itá-10s. Mas quando uma das partes contratantes tinha poder ou autoridade muito
superior a outra, a situação era um pouco diferente: o soberano ou o homem de autori-
dade, ao promulgar a aliança, simplesmente comunicaria seu decreto ou constituição
governainental que achava melhor impor sobre as pessoas sujeitas a ele, e estas, por
sua vez, expressavam sua aceitação e disposição de conformar-se com aquilo que ele
ordenara. No caso da promulgação de uma aliança da parte de Deus com Seu povo
escolhido, este aspecto unilateral ficava ainda mais aparente, visto que as partes con-
tratantes estavam em níveis inteiramente diferentes. Neste caso, a aliança constituía-se
em proclamação divina da santa vontade de Deus no sentido de estender os benefícios
da Sua graça imerecida aos homens que estavam dispostos a recebê-los pela fé, e que?
assumindo um compromisso pessoal com Deus, vinculavam-se a ele pelos laços do
compromisso total. O relacionamento entre as partes da aliança se expressa por "hesed',
a lealdade divina à aliança. Somente Javé, como fundador desta aliança, poderia garan-
tir a continuidade de uma aliança e, juntamente com ela, o culto no seu sentido verda-
deiro. Somente Ele poderia renovar a aliança que fora rompida pela desobediência
humana. O relacionamento da aliança se resume na promessa: "Eu serei o vosso Deus,
e vós sereis meu povo" (Êx 6.7).

Setzho>;segue em nosso meio


perdoando a nossa iniqüidade
- porque somos povo de dura cerviz;
- merecemos o castigo;
- mas confiamos no teu amor perdoador.

Ton~ando-nostua herança
- fazendo aliança conosco;
- adotando-nos como teus filhos em Cristo;
- fazendo maravilhas em nosso meio;
- guiando os nossos passos para que esperemos com fidelidade a Deus.

Retiato Stadler
Capitão Leô~zidusMarques, PR
17 de outubro de I999
Êxodo 33.1 7-23

Contexto litúrgico
Todas as leituras do domingo sempre mostram a mesma coisa: Deus ouve os seus
fiéis e dá sinais da sua presença na vida deles.
SI 34.1-8 - Davi se alegra em poder dizer que sentiu a mão do Senhor sempre que
estava em situações difíceis e pode afirmar com entusiasmo que o "anjo do
Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra". (v. 7) Deus promete
estar sempre presente para salvar.
Rm 10.9-17 - Paulo afirma que também no que diz respeito à salvação Deus ouvirá a
todos. Citando Joel ele declara: "Todo aquele que invocar o nome do Senhor
será salvo."
Mt 15.21-28 - É a clássica história da mulher que, mesmo não sendo do povo de Israel,
teve seu pedido atendido e a filha curada. Deus promete estar presente para
ajudar e abençoar.

Contexto Izistórico
O povo de Deus vive um momento de turbulência. Está há cerca de quatro meses
no deserto e aguarda, ao pé do Monte Sinai, a volta de Moisés. Como ele estava
deinorando. fizeram para si um bezerro de ouro. Alertado por Deus. Moisés desce e
encontra uma grave situação de idolatria. Imediatamente Moisés toma as providências:
a. Intercede pelo povo junto a Deus pedindo que não o castigasse. É exitoso nesta
iniciativa pois "se arrependeu, o Senhor, do mal que dissera havia de fazer ao
povo" ( 32.14 );
b. Manda matar boa parte dos idólatras e morreram cerca de três mil pessoas
naquele dia;
c. No outro dia se dirige ao povo e chama a atenção para o erro que eles comete-
ram;
d. Moisés se dirige a Deus e pede que, apesar do pecado grave, continue acompa-
nhando o seu povo rumo à terra prometida.

Deus promete continuar acompanhando o seu povo. O anjo de Deus irá adiante
dele. Mas parece que Moisés fica meio desconfiado e pede algo mais consistente do
que a promessa. Deus entende a situação de Moisés e lhe mostra a sua glória para lhe
dar a certeza absoluta de que está e estará com ele, o líder, e com o povo e que realmente
quer Ihes dar a Terra Prometida. Sempre é bom lembrar que naquele tempo, como no
tempo de Jesus, Deus operava sinais e milagres para dar as devidas credenciais aos
seus líderes para que o povo acreditasse e os acompanhasse. Assim é possível enten-
der melhor porque Moisés não estádesafiando a Deus ao pedir um sinal, uma prova, do
que estava prometendo.

TEXTO
V 17 - Moisés havia pedido a Deus que Ele continuasse presente no povo, apesar da
idolatria cometida, a fim de que o povo percebesse que Deus ainda estava
contente com ele. Deus promete fazê-lo porque se agradou de Moisés e o faz em
consideração a Moisés.

V18 - Moisés implora para ver a glória de Deus. A palavra "glória", in2 , quer dizer
"aparência", "a impressão que alguém causa em outra pessoa". Na maioria das
vezes, é usada no sentido de ser a "manifestação de Deus", "é a manifestação
visível de Deus." Por isso, BLH traduz assim: "deixe que eu veja a luz brilhante
da tua presença". Moisés quer ter uma prova visível da presença de Deus em
meio ao seu povo para continuar na liderança rumo à Terra Prometida. Depois
de ludo que aconteceu é fácil entender a preocupação de Moisés em saber se
Deus, de fato, continuaria acompanhando o seu povo. Diante da idolatria é
perfeitamente compreensível que Deus deixasse este povo. Mas Deus, que
ama o seu povo, sabe perdoar quando este se arrepende.

Também nós, em nossa jornada rumo à Canaã Celeste, precisamos, sempre de


novo, ter a certeza de que Deus continua conosco apesar de nossos pecados e
falhas. Muitas pessoas já chegaram a duvidar se Deus realmente perdoa sem-
pre de novo. Por isso, também nós, de vez em quando, precisamos e queremos
ver a glória de Deus. Queremos ver se realmente ainda somos o povo abenço-
ado e guiado por Deus. Mas Deus não se mostra mais a nós como nos tempos
de Moisés ou de Jesus quando atuava por milagres e sinais para fortalecer a fé
do seu povo. Hoje vemos a Deus na sua palavra que nos conta as maravilhas
que Deus fez e como guiou o seu povo e como prometeu também guiar o seu
povo do Novo Testamento, a Igreja Cristã. E na Bíblia que, hoje, vemos a glória,
a manifestação de Deus ( SI 119.105). Por isso, como Moisés, sempre de novo
precisan~osver a glória de Deus para que nossa fé se fortaleça e tenhamos
condições de rumar firmemente à Canaã Celeste.

Outra preocupação de Moisés em ter a certeza de que Deus estava com ele e o
povo era por causa dos diferentes povos que eles encontrariam. Certamente
eles teriam que enfrentar um ou outro com guerra. Moisés queria ter a certeza de
que estes povos soubessem que o Deus que afundou todo o exército dos
egípcios no mar era o Deus que estava com eles. Assim seria mais fácil chegar
%TerraPrometida. Os outros povos já ficariam com medo só de ouvir falar neste
Deus. Um exército inimigo certamente pensaria duas vezes antes de atacar o
exército do povo que tem o Deus verdadeiro como seu Deus.

V?. 19-22 - Deus atende o pedido de Moisés e lhe mostra a sua glória. Moisés vê a luz
de Deus e desde aquele momento tem a f m e convicção de que Deus realmente
está com o seu povo e, assim, animado continua liderando o povo pelo deserto.
Não é isso que acontece conosco quando nos sentimos fracos em nossa fé?
Quando lemos as fortalecedoras histórias bíblicas de como Deus tratou o seu
povo a nossa fé se fortalece, somos reanimados e, felizes, continuamos trilhan-
do os caminhos que Deus coloca diante de nós.

~UODU~ÁO
Na Índia, em meio ao deserto, existem pequenos oásis chamados, na língua deles,
de Samatanga. Neles os viajantes param para refazer as suas forças para continuar a
sua viagem. Todos nós caminhamos rumo à terra prometida, assim como o povo lidera-
do por Moisés. Assim como com o povo de Deus também nós, vez por outra, comete-
mos as nossas falhas e cansamos em nossa caminhada. Nesta horas, como os india-
nos, precisamos achar um refúgio para refazer as forças e recobrar a coragem. Precisa-
mos ver a glória de Deus.

TEMA
Precisamos ver a glória de Deus!

PARTES:
1 - Para termos a certeza de que estamos no caminho certo.
2 - Para que tenhamos a certeza de que Deus está conosco.
3 - Para que possamos seguir firmes na fé mmo à Canaã Celeste. ( Lema da IELB este ano)

CONCLUSÃO
Para podemos trilhar o nosso caminho com fidelidade a Deus até o fim, é preciso
sempre de novo voltar a ver a glória de Deus, manter um contato intenso com a palavra
de Deus. Só assim teremos a certeza de que estamos no caminho certo. Só assim
saberemos que Deus realmente estará conosco em todos os momentos. Só assim
chegaremos à Canaã Celeste. Só o que nos pode animar na vida cristã é ver a glória de
Deus. Foi isso que fez Moisés levantar a cabeça e seguir firme na liderança do povo de
Israel.

Sidriey Lessing
Novo Cabrais, RS
24 de outubro de 1999
Josué 24.1-2a, 14-18

DO DIA
LEITURAS
Salmo 119.1-8: O Salmo apresenta alguém totalmente apaixonado pela palavra de
Deus e envolvido com a mesma. Alguém que humildemente reconhece sua
condição pecaminosa e sabe que somente em Deus e com Deus é que poderá
viver e andar de acordo com a sua lei. Somente sob a graça e movido por ela, o
homem pode servir a Deus. Atos 4.23-3 1 apresenta em seu contexto o testemu-
nho de fé de Pedro e João, diante de um sinédno altamente hostil e incrédulo.
Mesmo frente a essa situação difícil, os apóstolos confirmam sua intenção de
continuar falando a respeito das coisas que viram e ouviram, intenção essa
reafmada por toda a igreja de então. O evangelho: Mateus 5.38-48 - faz parte do
sermão do monte, onde Jesus se dirige àqueles que já se arrependeram (4.17),
estando agora numa correta relação com Deus, por meio da fé. Desta forma.
conclui-se claramente que só é possível viver uma vida de serviço ao próximo
como conseqüência de uma vida de serviço ao Senhor, o que, aliás, é a proposta
de Josué no texto em estudo.

TEXTOECONTEXTO
A cena é memorável. Os filhos de Israel haviam acabado de entrar na terra prome-
tida. Reunidos em Siquém, Josué Ihes dirige a palavra e diz: "escolhei hoje a quem
sirvais" (v. 15). Depois de ter resumido todas as grandes coisas que Deus havia feito
por eles (vv.1-13), Josué urge o povo a dedicar-se ao Senhor, temendo-o, não só
externamente, mas também internamente (v.14). E para demonstrar sua sinceridade, eles
deveriam deitar fora os falsos deuses (v. 14). Quanto a Josué, este já havia tomado sua
decisão, "eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (v. 15).

Agora o povo responde, ciente das bênçãos que Deus havia demonstrado - quan-
do os libertou de seus inimigos e proveu todo o necessário (vv. 17- 18): "longe de nós
o abandonarinos o Senhor para sen~irnlosa outros deuses" (v. 16).

Josué contiriua o seu discurso, apontando para a seriedade da resolução do povo


e, ao mesmo tempo, lembra que essa resolução não deve ser feita de forma irrefletida e
precipitada. Josué aponta para as responsabilidades do povo com relação à decisão
tomada, bem como para as suas conseqüências (vv.19-20). Ele diz: "não podereis
servir ao Senhor" (v.19), ou seja, única e exclusivamente por sua própria decisão, sem
a graça de Deus. Pois Deus é santo e zeloso, de forma que não irá admitir qualquer outro
deus em meio a Seu povo (cf. Êx 20.5; Dt 4.24). Josué fala abertamente das hom'veis
conseqüências, se por acaso o povo vier a quebrar a sua promessa. Então o Senhor
não os perdoará, mas irá consumi-los (vv.19-20). Eles sabiam da seriedade de sua
promessa, e então a repetiram: "serviremos ao Senhor" (v.21).

Esse texto exorta os cristãos a confiarem na graça de Deus, ao devotarem suas


vidas ao serviço de Cristo. Tendo em mente as tem'veis conseqüências do que significa
abandonar o Senhor, por outro lado, lembra o fato que eles podem contar com o poder
de Deus que os encoraja diariamente a declarar: "serviremos ao Senhor". Nesse sen-
tido, a oração do dia aponta para essa verdade, quando diz: "te rogamos que tua graça
sempre nos váadiante e nossiga... " (cf. PrecisoFalar, Vol. 6, 1986,p.84). Como povo de
Deus, os cristãos recebem o dom da fé por graça, aprendem a conhecer a Deus em
Cristo, e nEle, recebem todas as boas dádivas do Pai. O Intróito (cf. Preciso Falar, Vol. 6,
1986, p.84) por sua vez, ratifica a idéia de um Senhor poderoso, criador de céu e terra.
Um Senhor que guarda e vigia os seus, que socorre em momentos de fraqueza e dúvida,
garantindo assim um caminhar seguro. O Senhor que guarda, é um Senhor fiel e na sua
fidelidade, providencia meios (Palavra e Sacramentos) para que os Seus recebam alen-
to e conforto e possam permanecer fiéis.

Em termos de persuasão, o objetivo do sermão deveria orientar os ouvintes para que


esses "temam" ao Senhor e o sirvam, assim como Israel o fez. A moléstia a ser atacada,
sem dúvida, é a idolatria. Os santuários dos ídolos a serem destruídos são numerosos e
variados. O texto também adverte para a ira de Deus sobre o pecador (vv. 19-20). O
evangelho está no fato de Israel se alegrar na proteção de Deus, não porque fossem
melhores do que os outros, mas unicamente porque Deus, em sua graça, os escolheupara
ser o Seu povo. Da mesma forma, o favor de Deus para conosco é completo, é graça
redentora. manifestada na cmz de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Antes da proposta homilética, seria interessante olhar mais de perto a palavra "te-
mor" 1Ni3,queaparece no texto (v.14).Temer não significater medo do Senhor, ou mesmo
tremer diante dele. Essa impressão nos é sugerida devido às muitas versões do texto em
português (cf. BLH, ARA e BJ). A idéia original é na verdade um chamado à fé e à
confiança. Fazendo um paralelo com o Novo Testamento, seria o convite: "Crê no Se-
nhor Jesus ... " (At 16.31). A fé no Antigo Testamento era expressa com a frase: "temei ao
Senhor". Após ter ouvido a respeito da graça de Deus e dos Seus grandes feitos, Israel
era convidado a "temer ao Senhor" (cf. Dt 5.6,10 e 6.13; Js 24.1-25). É digno de nota que
o "temor do Senhor é o principio dasabedoria " (cf. Pv 1.7;9.10) e mais, esse "temor do
Senhor éfonte de vida (cf. Pv 14.27) e conduz à vida (cf. Pv 19.23). "Temer ao Senhor",
assim como "crer em Jesus" é o início da relação do homem com Deus. Esse temor
claramente se define como sendo filial, ou seja, é um temor unido com a fé, isto é, onde a
fé consola e sustenta o coração atemorizado. Já o temor servil, por estar separado da fé,
não pode sustentar o coração assombrado (cf. Apologia XII.38).

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Introdução
O pregador pode chamar a atenção do ouvinte para a fidelidade de Deus. A nossa,
infelizmente, é instável. A graça de Deus é certa. Nossos caminhos são incertos. Que o
Espírito Santo lios mova a sempre respondermos com o antigo Israel: "serviremos ao
Senhor".

I - Servimos um Deus fiel


A. Deus abençoou Israel (vv. 17-18).
1. Guiou o povo da escravidão para a liberdade.
2. Preservou o povo no deserto.
3. Os livrou de seus inimigos.

B. Deus nos abençoa hoje.


1. Chamando no Batismo.
2. Livrando do pecado, morte e diabo.
3. Guiando e sustentando na Palavra e Sacramentos.

I1 - Servimos a Deus em fidelidade


A. Deixando de lado ídolos estranhos.
1. Israel teve seus deuses (vv. 14,15,22),também temos os nossos (prazer, egoísmo,
mâmon, etc.)
2. Servir deuses falsos significa estar sujeito à ira de Deus (vv. 19-20;Hb 10.26-27).

B. Temendo ao Senhor e servindo-o (v. 14).


1. Temor é a resposta interna do cristão.
2. Serviço é aresposta externa (1 Pe 2.9; Ef 2.10; 1 Co 6.20).

Conclusão
Deus provou o seu amor por nós quando ainda éramos pecadores, oferecendo
Jesus para morrer por nós, resgatando-nos assim da morte e do poder do diabo. (cf. Rrn
5.8,10). Amamos e servimos a Deus porque Ele primeiro nos amou e entrcgou Sua vida
como resgate por todos nós (1 Jo 4.19; 1 Tm 2.5-6).

Ely Prieto
31 de outubro de 1999
Miquéius 6.6-8

CONI'EXTO
Salmo 51.10-17: Súplica por um coração puro, um espírito bem firmado, a presença
do Espírito Santo, o retorno a uma fé alegre e uma disposição de servir dando
testemunho para que os pecadores se convertam ao Senhor. Uma vida assim é
melhor que qualquer sacrifício.

Epístola: At 6.1-7: A igreja de Jerusalém auxilia os necessitados. Se organiza para


bem fazê-lo. Cada um ocupa a sua função. Aos apóstolos cabe consagrar-se a
oraçúo e ao ministério da palavra. O resultado é uma igreja viva que experimen-
ta grande crescimento.

Evangelho: Mc 12.41-44: Deus se agrada de uma vida inteiramente consagrada a


ele. Ele quer ser nosso único Deus e espera de nós, com tudo o que somos e
temos, sejamos seu povo. Vivamos inteiramente para ele.

mxm
Miquéias é profeta do oitavo século a.C., contemporâneo de Isaías, atuou no Reino
de Judá, em Jerusalém, e também na Samaria. Judá corria o risco de sofrer o mesmo
castigo do Reino do Norte. O profeta condena os pecados do povo e aponta para a
bondade de Deus. O Deus que castiga é o mesmo que perdoa.

Neste texto é descrita a simplicidade da verdadeira religião ao coração e consciên-


cia do homem, como em poucos textos do AT. Nos versículos iniciais (1-5) é feito um
apelo evangélico ao povo. O Senhor convida o povo a apresentar as suas queixas,
mas antes ele quer relembrar os sinais da misericórdia divina na sua história. Israel é
agora desafiado a contra-argumentar.

V 6 e 7: É uma confissão do povo. Sua confissão é apenas exterior e não vem do


coração. É apenas um argumento de defesa, em que se acusa Deus de exageros,
nas suas exigências. É como se quisessem dizer: Já estamos levando tanta
oferta ao templo. Deus ainda não está satisfeito? Ainda quer mais? Milhares
disso e dez milhares daquilo? Ao nosso ver fizemos o bastante, e mais do que
necessário.

Consideram que já fizeram muito. Reconhecem terem pecado, mas não foi tanto.
Seus muitos esforços, seus cuidados, suas boas ações já pagaram pelos seus
pequenos erros. Seu sentimento de autojustiça e orgulho incapacitam seus cora-
ções a qualquer penitência e humildade. Não há neles um reconhecimento sincero
de serem pobres pecadores, perdidos e condenados. Por isso não se confessam a
Deus nem pedem o seu perdão. Não é esta sua suposta justiça que os haverá de
salvar. Apenas a justiça divina, criada por Deus e confiada ao cristão pelo sangue
do Cordeiro pode sarar. Em Lucas 18.9ss, dois foram ao templo orar. Somente o
humilde penitente publicano recebeu o perdão.

L? 8: Segue a resposta de Deus. Não importa o número de ofertas meramente


ritualísticas. Elas são totalmente vãs quando não expressam um sincero
movimento do coração em direção a Deus. Um andar santo perante Deus é
a melhor evidência da genuína religião. O sistema de sacrifícios nunca foi
dado para ser uma finalidade em si mesmo, mas sempre teve a intenção de
inover o homem a um andar santo e fiel a Deus. Este v. 8 é a reprodução da
simplicidade da verdadeira religião. Esta palavra de Miquéias é uma regra
suficiente para a vida do povo de Deus.

PROPOSTAHOMILETICA
No início do século XVI a Igreja Cristã está afundada num pensamento de auto-
justificação, distanciada da doutrina divina que aponta para o sangue do Cordeiro
como a única justiça aceitável por Deus. O povo se julga capaz de agradar a Deus com
suas ações, porque desconhece sua real situação de pecadores perdidos e condena-
dos. Em conseqüência, não vê a necessidade de ter um Deus que o salve por completo.
No fim da Idade Média a Igreja estava esvaziada da doutrina que apontava para Cristo.
O povo infeliz com uma religiosidade que não trazia alívio e consolo ao coração. Religi-
osidade era oferecer sacrifícios como nos dias de Miquéias. Pelo movimento da refor-
ma Deus restabelece o ensino do único meio de salvação. Não há nada no homem que
possa agradar a Deus ao ponto de justificá-lo. A misericórdia divina está revelada na
graça de Deus, em Cristo.

Neste fim de milênio, como vai a Igreja? Como vai a nossa IELB? Esperando com
fidelidade a Deus, em verdadeira fé e na prática de uma vida cristã saudável, que se
alegra em servir a Deus e ao próximo?

Uma reflexão sincera, acompanhada de uma análise de vários aspectos da


nossa IELB, certamente nos levarão ao reconhecimento que estamos distantes
de sermos um povo que busca um coração puro, um espírito alegre, uma firmeza
de fé pela palavra, uma disposição de servir com um espírito voluntário. Nem
crescemos como a vibrante congregação de Jerusalém que chamava a atenção
pelo amor revelado em suas atitudes. Nem nos assemelhamos à abnegada viúva
que ofertou-se inteiramente a Deus. Mais semelhantes somos aos infiéis do Rei-
no de Israel e de Judá. A pobreza espiritual condiciona uma grande parte de
nossos congregados a viverem apenas um cristianismo formal. Buscam agradar a
Deus com pequenas migalhas de suas vidas, por não enxergarem a vastidão do
seu pecado.
A IELB precisa conclamar seu povo a "praticar a justiça, amar a misericórdia, e
andar humildemente com o seu Deus. (Mq 6.8), pois só assim estará esperando com
"

fidelidade a Deus.

'IEMA
"O que é bom e o que é que o SENHOR pede do seu povo"
I. Por boca de Miquéias declarou: "pratica a justiça, ama a misericórdia, e anda
humildemente com o teu Deus."

11. Pelos reformadores apontou: 'bratica a justiça, ama a misericórdia, e anda


humildemente com o teu Deus."

111. Pela IELB quer reafirmar: "pratica a justiça, ama a misericórdia, e anda
humildemente com o teu Deus."

Paulo Edmundo Jung


iujeado,RS
7 de novembro de 1999
Êxodo 32.1-20

CONTEXTO
Moisés havia subido ao Monte Sinai, por ordem de Deus, a fim de receber das
"mãos" do próprio Senhor toda a Lei que deveria reger o seu povo escolhido. Na
referida Lei estavam todos os preceitos que mostravam ao povo de Israel como deve-
riam viver de forma a agradar a YHWH e como deveriam cultuar àquele que os libertara
e com quem haviam feito uma aliança, àqual deveriam manter-se fiéis.

Como Moisés tardava em descer do Monte, o povo impaciente resolve agir. Resol-
vem fazer um bezerro de ouro para o adorar. O culto ao bezerro de ouro, o incrível
pecado de Israel. Incrível porque aconteceu logo depois de Deus ter estabelecido uma
aliança com seu povo, seu escolhido. Wemer Franzmann diz que "O maior pecado só
é possível para pecadores corruptos ... Agora, o que é realmente incrível nesta história
é a graça de Deus". Israel não tinha desculpas para agir como agiu. O povo e seus
líderes pecaram vergonhosamente. Muitos estudiosos da Bíblia tendem a escusar
Israel por entenderem que este imaginava estar adorando e cultuando o verdadeiro
Deus, só que de outra forma.

Mesmo que Arão tenha usado o nome de YHWH, os israelitas tinham em mente o
culto ao ídolo. O apóstolo Paulo, fazendo referência a este incidente, claramente chama
os israelitas de idólatras. Veja também At 7.41 e SI 106.19-21.

Como poderiam eles abandonar tão rapidamente o seu Deus-Salvador, que os


guiara em segurança por tantos caminhos ? Veja o que o apóstolo Paulo diz a respeito
disso em 1 Co 10.12.

A atitude de Israel foi um possível reflexo da experiência de Israel no Egito: o deus


Apis era um jovem touro, símbolo de poder e sexualidade. Não raras vezes os israelitas
viram os egípcios cultuarem tal divindade. "Era justamente o que eles procuravam", era
um deus visível, que não impunha regras nem condições, nem códigos morais. No
entanto, este ídolo está com as horas contadas, até que Moisés desça do Monte. Deus
era sabedor do que se passava e a seqüência nos dá a reação de Deus diante do pecado.

A reação de Deus está expressa nas palavras "Teu povo ... e não Meu povo". "O
teu povo, que tu tiraste do Egito, Moisés". YHWH, que conhece todas as coisas em
todos os tempos, mostrou a Moisés o que este Israel corrupto fez. Deus mostra a que
ponto chegou a corrupção de seu povo, provocando a Sua santa ira, conforme expres-
so no versículo 10. Com estas palavras o Senhor põe Moisés à prova. Queria Deus de
fato destruir Israel? Seria Moisés realmente o único a levar adiante o plano de Deus
para a Salvação da humanidade? Apesar de todas estas questões nos virem à mente,
notamos que o Deus da Graça jamais teve prazer na destruição de seu povo.

Com a expressão "agora, pois, deixa-me"(v. 10),parece que Deus deixa nas mãos de
Moisés a decisão se Deus deveria ou não destruir o povo. E Moisés passou no teste !
Serviu como um autêntico mediador entre o justo Deus que estava irado e o povo
pecador. Moisés "devolve" a expressão "teu povo" ao próprio Deus, ao dizer "Por que
se acende, Senhor, a tua ira contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com grande
fortaleza e poderosa mão 'Y Moisés, como um verdadeiro mediador, continua: "Porque
hão de dizer os egípcios: com maus intentos os tirou, para matá-los nos montes e para
consumi-los da face da terra"? Moisés age como um "Tipo" do perfeito Mediador, o
Messias Salvador. "Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaque e Jacó, a quem juraste
fazer deles uma grande nação ..." Lembra-te, Senhor, das promessas que fizeste aos
pais deste teu povo.

O Deus, que é fiel às suas promessas, "voltou atrás" de sua intenção de destruir
este povo, mesmo que este fosse de "dura" cerviz. Ele, o Deus da graça, o qual prome-
teu atender as orações de seus filhos, vai ao seu encontro para que confiem em suas
promessas. Ele nos procura para que façamos o mesmo em nosso respectivo tempo.
Nós temos um Mediador que é superior a Moisés, que "tomou sobre si os pecados dos
homens e faz intercessão pelo transgressor", conforme Isaías.

Moisés, após a oração, age. Descendo do monte com as tábuas da Lei, as quais
quebrou ao pé do monte, como demonstração de que este povo quebrara o acordo, a
aliança feita com YHWH. Quanto ao bezerro de ouro, derreteu-o no fogo e, rnisturando-
o com a água, fê-los beber. Onde estava agora o poder de tal deus, que com o fogo é
destruído? Provaram literalmente o quão amargo é para os homens viverem distantes
do Deus da aliança, da graça e da salvação. Este povo não "esperou com fidelidade a
Deus" e, por isso, teve que ser reconduzido ao caminho da fé.

TEXTO
K 1: "Levanta-te,faze-nos deuses que vão adiante de nós... " - Na raiz do pecado de
Israel está a impaciência; "deusesn-eles precisam de deuses visíveis. O plural
deuses é exigido pela pessoa do verbo: caso contrário "deuses" poderia ser
traduzido por Deus, encarando o plural como um plural majestático. Neste caso
o verbo estaria no singular. Qualquer que tenha sido o pensamento de Arão, os
israelitas não pensavam em YHWH, nem em monoteísmo.
"Este Moisés que nos tirou do Egito" - Eles ainda não consideravam de fato o ato
libertador como obra de Deus, mas como um ato de Moisés.

K 2: "Argolas de ouro "- possivelmente parte do despojo que trouxeram do Egito.

i?4: "Trabalhou o ouro com buril" - bezerro fundido - trata-se de um jovem touro
no auge do seu vigor e força, seja como reflexo da influência egípcia do Boi
Apis ou o touro em que Baal costumava se transformar, de acordo com o ciclo
das lendas de Ras Shamra.

V 5: "Edificou um altar" - A esta altura ainda não existia um altar do sacrifício, mas
Arão mostrou que este não era um incidente ocasional, mas agora tratava-se de
um culto organizado com estátua, altar, sacerdote e festa religiosa.
"Festa a YHWH" - Não havia nenhum "bom princípio" por trás daquelas palavras,
pois foi precisamente esta identificação de YHWH com Baal o "maior pecado
cometido naquele dia": até mesmo a completa apostasia e o culto aberto a Baal
teria sido "menos imoral e mortal" do que aquele sincretismo.

V 7: "Teu povo, quefizeste sair do Egito" - Aqui Deus parece estar deserdando o
seu povo, pois este deixarade agir como filho e portador da aliança, afastando-
se de seu Benfeitor.

V 9: "Povo de dura cerviz " - Trata-se de uma metáfora tiiada da linguagem do agncul-
tor, o qual descreve um boi ou cavalo que não responde quando as rédeas são
puxadas. Israel não reagia como esperado à correção, era "obstinado".

V 10: "De tifarei uma grande nação" - Uma tentação para Moisés; ele poderia ser
o novo "patriarca"!? Poderia dar nome a nação, ou seja "filhos de Moisés" em
vez de " filhos de Israel". O preço era apenas abandonar a sua vocação de
pastor e deixar Israel receber o seu justo castigo.

V 11: " O teu povo" - Moisés apela a Deus em nome de sua relação voluntária para
com Israel e de tudo o que fizera por eles no passado. Apela para a honra de
Deus e, especialmente, para as promessas feitas no passado.

V 14: "YHWH se arrependeuv - Uma forma antropomórfica pela qual a atividade de


Deus é explicada em termos estritamente humanos. Deus adota "um novo cur-
so de ação", diferente daquele que havia anunciado como uma possibilidade.
Não devemos pensar que Moisés alterou o propósito de Deus em relação a
Israel através de sua oração, mas que levou a cabo este propósito. Moisés
nunca foi tão "semelhante a Deus" como durante sua oração, pois comparti-
lhou os pensamentos e o propósito amoroso de Deus.

Vv. 19-20: "Quebrou as tábuas ao pé do monte " - A destruição das tábuas da Lei
por Moisés apontam para o seu repúdio a tudo o que acontecera. Devido à
violação dos termos por Israel, a aliança fora quebrada e estava anulada. Uma
"nova aliança precisava ser estabelecida".
"Queimou-o no fogo ... reduziu a pó ... deu de beber aos filhos de Israeln- A água
que Israel tinha de beber nos lembra a "água amarga" que deveria ser bebida
pela esposa suspeita de adultério. Já que Israel tinha sido, de fato, infiel a
YHWH, seu fiel esposo celestial, e se tomara merecedora de sua ira. No entanto
Deus os poupa e a todo que se arrependeu de seu pecado, Deus perdoou,
firmando novamente a sua aliança.
PROPOSTA
HOMILÉTICA
Introdução: Apesar do sincretismo religioso de nossos dias, assim como no tempo
de Moisés, Deus continua a buscar a comunhão com a sua criatura, através de Cristo,
o qual estabeleceu uma nova aliança, perfeita e permanente.

'rmA
YHWH ÉUM DEUS GRACIOSO
I- Apesar da infidelidade de seu povo

11- Atende a oração do Justo

111- Perdoa o pecado ao que se arrepende

IV- Renova constantemente a sua aliança

CONCLUSÃO
Não somos diferentes do povo de Israel. Assim como eles, também nós caímos,
também seríamos merecedores de juízo, mas, pela obra de Cristo, somos alvo da graça
e do perdão de Deus.

Paulo Gerhard Piet~sch


14 de novembro de 1999
Jeremias 8.4-7

c o m o
Jeremias iniciou seu ministério durante o reinado de Josias, por volta de 626 a.C.
Apesar de não termos maiores informações sobre os primeiros anos de seu ministério,
é certo que Jeremias tenha apoiado e cooperado ativamente na reforma religiosa empre-
endida por Josias. Com o advento dos reinados de Jeoacaz e Jeoaquim, porém, a
idolatria voltou com toda a força. O pecado, qual câncer, minava o coração do povo.

A perícope está inserida no sermão do templo (capítulos 7- 10). Mesmo sendo um


material difícil de ser datado, muitos estudiosos têm este texto como dirigido ao povo
durante o reinado de Jeoaquim, pelo fato de o capítulo 26, um texto similar ao que se
inicia no capítulo 7, datar do início do reinado de Jeoaquim. De qualquer forma, a
presente pregação de Jeremias poderia ser enquadrada em qualquer período de seu
ministério, devido à trágica situação espiritual do povo de Judá.

A perícope estáconectada com a que aprecede. Um julgamento terrível, conforme


descrito em 7.32-8.3, virá sobre Judá, porque o povo afunda-se cada vez mais teimosa-
mente em seus pecados. Por outro lado, a grande polaridade julgamento-salvação, lei-
evangelho, resumida no chamado de Jeremias para arrancar e dembar, destruir e arra-
sar, edificar e plantar (1.10), também pode ser encontrada neste texto.

'IFxm
V4: O povo de Deus é aqui apresentado como dotado de grande insensatez. Existem
atitudes que são naturais no comportamento humano. Se alguém cai na lama ou
dentro de um buraco, prontamente não tentará levantar-se? O mais cuidadoso
viajante pode errar o seu caminho. Mas, tão logo esteja ciente doerro, não retomará
o caminho correto? E certamente será grato ao que lhe mostrou o seu engano.
Assim os homens agem naturalmente na vida diária. Judá, entretanto, não agia nos
assuntos espirituais com a mesma pmdência com que agia em outras coisas.

V5: As verdades universais do v.4 são agora aplicadas de modo específico para o povo
de Judá. Há um duplo caminho aqui apontado: desviar-se de alguém e retomar
novamente para aquele de quem se desviou. Judá escolheu permanecer na primeira
parte do caminho: desviou-se e não voltou. Nenhuma pessoa de sã consciência
prosseguiriapor um caminho que ela própria sabe estar errado. O próprio Deus não
consegue entender e pergunta: Por quê? Por que eles se recusam a abandonar os
ídolos e retomar às realidades eternas, para aquele que é vida e dá a vida?
Assim é a natureza do pecado: a apostasia. É o andar no caminho contrário ao
correto. É a passagem do caminho que guia para a vida para um caminho que leva
à destruição. E esta apostasia, não permitindo a ação misericordiosa de Deus,
será uma apostasia continua, perpétua. O pecador não apenas desvia-se, mas
prossegue para a ruína.

O pecado é um grande engano, e Judá "persiste no engano". O livro de Jeremias


aponta para os muitos pecados praticados por Judá: afastamento de Deus
(2.13,21), idolatia (1.16;8.2,19;11.13),descrença (5.12), iniqüidades (5.26-28),
desobediência (7.23,24), confiança própria (8.8; 18.18).

Judá não quer voltar. Os textos de Jr 10.1-10 e SI 115.4-8 mostram a tolice e


insensatez de afastar-se da comunhão com Deus e adorar outros deuses.

V6: Não há qualquer sinal que indique a mudança de locutor neste discurso. É
Deus quem continua falando. O Senhor ouve atentamente, como sempre tem
feito (S1 11.4;2 Cr 7.14-16). Ele, que não deseja amorte do pecador, estaria alegre
em ouvir qualquer palavra ou ver qualquer atitude que demonstrasse uma
mudança de rumo. Se isto tivesse acontecido, Deus teria logo respondido com
uma palavra de perdão, assim como fez ao ouvir a confissão de Davi (SI 32.5).

Mas as expectativas foram desapontadas: nenhuma palavra de arrependimen-


to, de lamentação pelos pecados. Aqueles que pecam falam o que é reto quan-
do falam de arrependimento. Deus nada disso vê. Judá nem sequer deu o
primeiro passo para o arrependimento. Nem chegaram a dizer: "Que fiz eu?" O
verdadeiro arrependimento começa com uma séria e imparcial investigação em
nós mesmos, quando permitimos que o espelho da lei de Deus mostre quem
realmente somos e o que temos feito.

Judá está cada vez mais longe do Senhor. O afastamento dá-se numa velocidade
comparável à do cavalo que, na batalha, corre célere ao encontro do massacre e da
morte.

Dentre as muitas formas de idolatria neste final de século, não poderíamos dizer
que também as multidões correm desenfreadamente para os templos de consu-
mo e diversões, onde oferecem seu dinheiro e seu tempo para os ídolos deste
mundo?

V7: É um exemplo de total insensatez. Como povo de Deus, Judá deveria entender a
vontade de Deus e o seu aviso. Porém, o povo "não conhece o juízo do Se-
nhor". Conhecia, nele foi instruído. Não conhece mais porque o pecado o
cegou. Não compreendem mais o significado da misericórdia divina. Não mais
sabem aproveitar as oportunidades de graça que Deus concede quando envia
seus profetas.

A situação de Judá se agrava quando se observa que há mais sagacidade no


comportamento de criaturas inferiores. As cegonhas conhecem o tempo certo
para movimentarem-se. A rola, a andorinha e o grou, por um instinto natural,
mudam seus ninhos, conforme as estações. As aves do céu agem prudente-
mente, mas Judá não se preocupa com o julgamento de Deus.

Também hoje muitos não sabem discerniros sinais dos tempos nem compreen-
dem como Deus está preocupado com eles. Não conhecem o caminho da obe-
diência e da submissão que Deus prescreveu para eles, embora esteja escrito
em seus corações e na palavra que nos foi revelada.

O final do ano eclesiástico e a proximidade de um novo século e novo milênio


servem de pano-de-fundo para uma reflexão do povo de Deus a respeito de sua
vida cristã, a respeito dos falsos deuses que procuram tomar conta de suas
vidas e a respeito do contínuo amor de Deus sempre disponível chamando o
pecador ao arrependimento e ao serviço consagrado no reino de Deus.

TEMA:Volta,POVO meu!

I- Porque vocês escolheram um caminho de morte, para longe de mim


a) Não atendem aos apelos da razão (vv. 4 3 )
b) Não atendem aos apelos da consciência (v. 6)
c) Não atendem aos apelos da providência (v. 7)
d) Não entendem a voz de Deus (v. 7)

I- Porque ainda estou com os ouvidos atentos à espera de vocês (v.6)


2 Pedro 3.9
2 Crônicas 7.14

Jonas Roberto Flor.


Maia. Portugal
21 de novembro de I999
Isaías 65.17-25

O pregador tenha em mente de que prepara uma mensagem para o último domingo
do último ano eclesiástico do século, do milênio (em 2001 entramos no século XXI e no
terceiro milênio). Retrospectiva? Alguns flashes, talvez. Na virada do milênio anterior
esperava-se tempos melhores para o futuro. Os anos eram difíceis, as invasões no
ocidente devastadoras, a igreja estava em grande confusão, sendo joguete na mão da
nobreza. As rupturas sociais no fim do século X, num sistema feudal em crise, castiga-
va especialmente a grande massa popular, na Europa, sobrecarregada com as corvéias,
redevances, capitação, taxas, prestações e as muitas outras formas de tributos que
deviam à classe dominadora. As rupturas sociais e espirituais também se manifestaram
na Igreja: o grande cisma bizatztino de 1054 preanunciava uma era de estilhaçamentos
eclesiásticos, seguido pelo grande cisma ocidental no século XIV e pela r-eforma
protestante no século XVI.

A porta do novo milênio a humanidade também espera um futuro melhor. Os tem-


pos são difíceis. O comunismo, de curtacarreira, deixa escombros e rastros de miséria
em muitos lugares; o capitalismo, inaugurado na última virada do milênio, revela-se
semelhantemente opressor, mergulhando milhões na miséria, ainda sobrecarregados
com múltiplos tributos e açoitados com baixa remuneração, favorecendo o grande
capital. Não somente em nosso país. Na Europa, "a pobreza está ganhando terreno",
desabafou recentemente uma doutora francesa que nos visitava na universidade.

E à Igreja é dado este texto de Isaías paraproclarnação, neste momento. Este profeta
vivia mais de meio milênio antes da era cristã. Social e politicamente, a sua época
também não era o paraíso. Já havia as invasões, as injustiças, as corvéias. E a ele é dado
anunciar à nação castigada de Israel não somente um novo tempo, mas um novo céu e
uma nova terra. A mensagem de Isaías não necessitará para seu povo ingeniosa inter-
pretação e hermenêutica. Assim como a revelação de João também não as necessitou
para a Igreja flagelada de seu tempo (confira o texto paralelo de Ap 21. 1-8). O povo
sempre soube o que significava a profecia que lhe era dada então. E hoje também
saberá, se abrir os olhos e ouvidos. Os seus detalhes interpelavam o seu contemporâ-
neo de maneira imediata. Nós, hoje, os colocamos no contexo maior da mensagem
global e unívoca que deste(s) texto(s) flui com força não diminuída e interesse não
empalidecido: nosso tempo é tempo que voa com poder em direção do Reino de Deus,
e nosso Deus é Deus que vem com força em nossa direção. O encontro desses dois
sentidos é a explosão vivificadora da criação divina. Quando Deus "encontra" o tem-
po, é tempo de criação. A primeira criação está sendo chamada a cumprir-se - por
intermédio da vinda criadora do Filho de Deus - na última criação. Criação e eschatoti
estão ligados. O elo chama-se Jesus Cristo, o Filho. É ele o prisma que para nós
perspectiva compreensivelmente este(s) texto(s). Temos aqui a oportunidade de anun-
ciar um Cristo salvador no qual vem, para o novo milênio, o tempo derradeiro do
reinado de Deus num mundo novo.

Mensagens apocalípticas não faltaram nos últimos anos. Tudo devido à "magia"
da passagem do milênio. Apenas um exemplo: no ano passado ouvia-se uma "profetisa"
alemã, vivendo nos confins da Floresta Negra, anunciar para o verão de 1998 catástro-
fes naturais, econômicas, políticas e de saúde, e o fim do mundo, que seria apressado
pelo ataque de OVNIS, seguindo-se "mil anos de tempos paradisíacos". Uriela - assim
se chama a vidente - aponta o caminho da salvação: haverá salvação na Floresta
Negra, com os preparados de ervas e energias cósmicas que ela, Uriela, terá para
oferecer. Apocalipses esotéricos, "rnilenismos" cristãos e não-cristãos, tudo teve e tem
o direito à credibilidade a-crítica. Como ficar "com os pés no chão" e não cair no (auto-
)ludíbrio de tantos, como já os tessalonicences em sua visão apocalíptica errônea?
Nossa tarefa é dirigir os olhos de nossos contemporâneos exclusivamente ao porvir, ao
"além", e interpretar este texto em termos espirituais? Como tirar a escatologia do
ambiente exclusivo das paredes de uma igreja ornada neste domingo com o branco
reluzente e integrá-la na vida comqueira, com suas cores menos alegres, com o colorido
do seu pecado, de suas corrupções, e com a ausência de cor de seus lutos? Como
substituir expectativas futuristas frenéticas e forçosamente decepcionantes por uma
atitude de constante e serena alegria (v. 18) pelo Reino de Deus que está advindo?

A resposta não está pronta. Ela tem de ser forjada e moldada trabalhosamente pelo
teólogo e pregador em sua época e seu contexto. Ela só poderá sê-10 quando o teólogo
e pregador sair ao encontro do seu contemporâneo e este mundo, colocar-se a caminho
com ele, sentar-se à mesa com ele, compartilhar sua alegrias e misérias, buscá-lo lá onde
se encontra; se ele "ler o tempo", se ele estiver atento às questões sociais e o religioso
nelas inerente. Este velho texto se lhe tomará, então, mensagem viva e atual de Deus,
que traz esperança certa para hoje e amanhã. Esta esperança é capaz de moldar no
presente a vida do homem, da Igreja, do mundo. A esperança de "uma nova terra" não
pode cegar para a busca de um mundo melhor e mais de acordo com o destino que Deus
deu ao homem. Muito se tem, erradamente, polarizado e antagonizado a esperança
cristã e o labor por um "mundo melhor" aqui. Jesus laborou para Izumanizar a vida já
aqui (sendo ele o "novo homem", ou "novo Adão"), num sinal concreto e anunciador
da comunhão dos homens na economia trinitária no eschaton. Então, a pregação da
esperança por um novo céu e uma nova terra no último dia deve incluir ou acarretar a
abordagem das questões de nosso tempo, que afligem nosso ouvinte, que mostram o
quanto essa "velha terra" tem de renovar-se em Cristo Jesus, até Aquele Dia. E o
"velho céu" também, essas nossas concepções às vezes errôneas da vida com Deus,
errôneas porque por demais espiritualizadas e omissoras dos compromissos com a
vida quotidiana, suas misérias e desafios. Escatologia contextualizada pode evitar o
sentimento de distância do ouvinte entre a mensagem deste texto e sua própria vida.
Pode dar um significado real e existencial ao homem quando (se lhe) diz: "Deus está
vindo, e viverei em seu novo Reino em grande alegria e felicidade". Escatologia
contextualizada levará os ouvintes à comunhão sacramental na Igreja, e ao labor pela
reconciliação, pelo direito, pela justiça e pela paz lá fora, realidades que esta comu-
nhão já prefigura.

NOTAS TEXTUAIS
V 17: "Eis que crio"! (-3) O poema escatológico começa com esta potente palavra do
Deus que vem em seu Reino: ele é o criador. Seu povo - e toda a humanidade -
tem de saber que o tempo do reinado imediato de Deus, quando enfim o direito
e a decorrente justiça e paz serão realidade entre os homens, exigirá a destrui-
ção de toda a realidade marcada pelo pecado (o nosso universo) e uma nova
criação (Veja 5 1.6;SI 102.25-26; 2 Pe 3.10- 13). Nesta nova criação toda criatura
viverá em abundância diante de Deus, de tal maneira que o precendente já não
será lembrado. O adjetivo nqi ("passadas") tem o sentido de "primeiras",
tendo a mesma raiz da primeira palavra do Gênesis. Todo o anterior, quando
rebelião contra Deus, será esquecido. Compreenda-se esta "amnésia" divina
em Jesus Cristo, que une em si a primeira e a última criação. Quando nascer o
Messias, o povo saberá. Na sua ressurreição está revelado o fim aqui descrito,
e nele já antecipado. O fim que significa um novo começo. A paz decorrente da
reconciliação, eis aimagem que transmite o poema. Pois Deus só cria novo céu
e nova terra porque possibilita reconciliação com e no seio de um povo rebelde.
E isto já é realidade. Deus está criando o novo. E sua Igreja participa desta ação
enquanto sinal da comunhão vindoura, porque Cristo nela está presente. Vida
sacramental intensa e plena, testemunho vivo e ação de amor em favor deste
r?iundo e dos que nele sofrem são ações transformadoras e criadoras de Deus
que se cumprirão perfeitamente no último dia descrito por Pedro em sua segun-
dacarta(3.1 1- 13).

Vv. 18-19: Esta perspectiva e esta mensagem possibilitam real alegria para o povo.
Aplicando a nós: em tempos de crise e mau humor, há perspectivas de alegria
não efêmera: Deus não esqueceu o seu povo, não esqueceu a nossa nação,
nem este mundo. Sua força criadora já está em ação. E a alegria maior é de Deus,
porque ama e precisa de sua criatura.

Vv.20-25:Nós vamos nos abster da aplicação dos detalhes: nesta profecia, elemen-
tos de épocas diferentes se confundem. Coisas serão realidade antes do evento
descrito por Pedro, outras coisas somente virão corn o - ou "depois" do -
eschaton. Haverá sinais da nova criação já aqui e agora. Mas os sinais apontam
para o perfeito que está por vir. No Antigo Testamento, a promessa sempre
indicou, quando do seu cumprimento, a necessidade de uma promessa ulterior,
levando a uma consciência geral da esperança escatológica. A última, definiti-
va e insuperável promessa é a realidade do Cristo ressurreto, em quem se
cumpre isto aqui, e nas palavras que disse: "eu vivo, vós também vivereis!" Se
viver até quase cem anos (alusão aos patriarcas), v.20, podc se tomar mais c
mais realidade graças aos avanços da medicina, da qualidade de vida (os gover-
nos e a ciência cumprem aqui, mesmo inconscientemente, os desígnios do
Reino de Deus e o destino do homem), este fato aponta para a promessa do
túmulo vazio e do Cristo redivivo: vós vivereis. Lembre de 1 Co 15: "Tragada foi
a morte pela vitória". A "árvore", v. 22, simboliza neste sentido a vida estável e
duradoura (Veja Jó 14.7-17).

Portanto os versiculos aqui indicam sobretudo que a vida no novo Reino de Deus
(novo céu e nova terra) será vida abundante, sem privações (veja v. 13), sem tristeza e
mau humor (v. 19), sem insegurança e violência (vv. 20-23), e em comunhão imediata
com o Criador, na sua paz (vv. 24-25). Esta esperança e alegria escatológica é, para o
povo de Deus, motora da açáo de graças, e da ação da fé no amor neste mundo. A açáo
social e diaconal, a açáo científica e política responsável, a ação empresarial humana e
"eco-consciente", eis os campos de atuação do cristão em nome daquele (=testemu-
nho) que vem com força criadora encontrar e transformar nosso tempo e nossa realida-
de. O Deus de Israel, o Pai de Jesus Cristo, o nosso Deus e Pai. Sim, as perspectivas
para o novo (e, quem sabe, último? At 1.6-7) milênio são das melhores!

PROPOSTAHOMILÉTICA
Deus "esquece" o passado e cria um mundo novo (Na "escatologia aplicada"
anuncie justificação e santificação [esperança, fé e amor]).

DI: theol. Manfred Zeuch


Canoas, RS
SANTOS
SEREIS
Levítico 19.1,2,15-18

Querido povo de Deus:


Na nossa vida aprendemos que não basta ser genérico; é preciso estarmos atentos
aos detalhes. Nas últimas eleições aqui no Rio Grande do Sul, a diferença final entre os
dois candidatos ao governo chegou ao que as pesquisas caracterizam como empate
técnico (algo em torno de 1,5por cento)! Mais perto de nós, aqui no Seminário, vimos
que os detalhes são importantes. No Azul e Branco, competições coletivas, que envol-
vem mais gente, mais tempo e mais pontos são as que normalmentc mais chamam a
atenção. Mas foi por um segundo e meio (um detalhe!) que a competição acabou se
dccidindo. É claro que em qualquer caso o todo sempre conta, mas os detalhcs são
importantes.

Quanto mais isto é verdade no que se refere as palavras de Deus ao Seu povo.
"Santos sereis, porquc eu, o SENHOR VOSSO Deus, sou santo." Ser santo é ser perfeito;
é prcstar atenção nos detalhes, pois "qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em
um só ponto, se torna culpado de todos" (Tg 2.10). Diante de nós está um texto que não
pode ser encarado de forma genérica. Deus não está dizendo: "tentem ser santos, tanto
quanto possível!" Nem: "Ao menos tenham a boa intenção de serem santos". Dcus
simplesmente diz: "Sede santos"! E todo o capítulo 19 de Levítico trata do ser santo!

A escolha da pciícope só se justifica na medida em que se tem em vista o contexto


litúrgico (a passagem foi escolhida na forina como está para combinar com outras
Icituras da série trienal). O texto é a leiturado AT para o 23" Domingo após Pentecostes,
na Trienal A. O Evangelho, Mt 22.34-40, trata do "grande mandamento", isto é, o
"amarás o Senhor teu Deus" e "amarás o teu próximo como a ti niesmo". Esta última
frase vem do nosso texto. Assim, os vv. 15-18 parecem ter sido escolhidos como parte
da perícope (deixando de fora os vv. 3-14) por tratarem especificamente do tema do
amor ao próximo, que então exemplifica o viver santo ordenado no v. 2.

Os vv. 15-18 tratam basicamente dos temas do 5" e 8" mandamentos - o respeito a
vida e à reputação do próximo: "Não farás injustiça no juízo ... com justiça julgarás";
"Não andarás como mexeriqueiro"; "Não atentarás contra a vida do teu próximo";
"Não aborrecerás a teu irmão no íntimo"; "Não te vingarás nem guardarás ira".

Ser um povo santo tem tudo a ver com o amor ao próximo, que se reflete no cuidado
com a vida do semelhante e ao respeito ao seu bom nome (reputação). Coisas sobre as
quais o povo santo sempre precisa novamente ser orientado, também dentro de um
Seminário!

Não podemos ser genéricos, pois Deus não é. Deus fala de detalhes. Não fala de
boa intenção, nem de alta porcentagem de acerto. Ele fala de 100 por cento de santida-
de! O detalhe é fundamental.

Por isso gostaria de convidá-los a olhar dois "detalhes" do texto, se os podemos


chamar assim.

Primeiro. "Santos sereis" - o verbo não é, rigorosamente, um imperativo. É, antes,


uma afirmação quanto ao futuro. Na verdade, a linguagem é muito semelhante com a
dos mandamentos, em Êx 20. No que se refere aos 10 mandamentos, Deus não estava
dando as regras de como Israel poderia se tornar Seu povo. Afinal, no início dissera:
"Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão." (Êx
20.2) As palavras dos mandamentos estão calcadas sobre o grande indicativo da
libertação. A vida futura do povo se fundamenta no ato passado de Deus, em cumprir
a promessa que fizera aos patriarcas e em agir com misericórdia com Seu povo. A
promessa gerou o povo; os mandamentos, antes de ser palavra opressora (que acaba
sendo, devido ao pecado humano), é palavra de carinhoso guiar de Deus ao Seu povo.

Segundo. "Santos sereis" - a palavra "santo" pode ter duas conotações. Na primei-
ra. tem a ver com a ética. Refere-se a alguém puro no seu falar e agir. Pelo que se vê no
texto que segue ao v. 2, não se pode perder de vista este aspecto. Outra referência
possível é a um ato de "santificação" que ocorre, por exemplo, com objetos, indepen-
dentemente de princípios éticos. Exemplo disto temos em nossa linguagem ao dizermos
"Santa Bíblia", "Santa Ceia", etc. Também é linguagem do AT. Por exemplo, em Ed 8.28,
quando Esdras passa às mãos dos sacerdotes as ofertas que vieram para a reedificação
do templo (seiscentos e cinqüenta talentos de prata, e em objetos de prata cem talen-
tos, e cem talentos de ouro; e vinte taças de ouro de mil dracmas, e dois objetos de
lus~rosoe fino bronze, tão precioso como ouro), e diz: "Vós sois santos ao SENHOR, e
santos são estes objetos, como também esta prata e este ouro, oferta voluntária ao
SENHOR Deus de vossos pais."

A analogia é importante. Os objetos são santos não por seu caráter ético, mas
porque foram separados do seu uso comum para um uso especial, um uso cúltico ao
único Deus verdadeiro. Os objetos continuam sendo o que eram antes. Não é uma
mudanqa na natureza deles que os toma santos, mas o fato de Deus os querer para o
Seu culto. Pessoas são santas porque são separadas para pertencerem a Deus ou, para
continuar na analogia, separadas para o culto a Deus. E este é um ponto particularmen-
te verdadeiro no caso das palavras que Deus dirige ao Seu povo. Afinal, este povo foi
libertado do Egito para servir "a Deus neste monte" (Êx 3.12), "para que me sirva" (Êx
4.23), "para que me celebre uma festa no deserto" (Êx 5.1). Não é exagero dizer que o
povo de Israel foi libertado do Egito a fim de que pudesse dar culto a Deus, livre de seus
inimigos, como povo separado de Deus. As palavras a serem ditas por Moisés dirigem-
se à "congregação dos filhos de Israel". A "congregação" é o grupo congregado pelo
Senhor. Tais palavras não são proclamação evangelística, mas pregação àqueles que já
são povo de Deus.

A afirmação inicial encontra eco eni Lv 20.26: "Ser-me-eis santos, porque eu, o
SENHOR, sou santo, e separei-vos dos povos, para serdes meus." Neste texto, vem
uma explicação adicional, que estava implícita em 19.2 - o povo é santo e deve viver de
forma santa, porque foi separado (santificado) por Deus. O apóstolo Pedro, em sua
primeira carta, cita o "Santos sereis", e nos traz um importante paralelo: "não foi medi-
ante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil
procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cor-
deiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo". (1 Pe 1.18,19)

Somos povo santo de Deus porque fomos separados por Ele para pertencemos a
Ele. O preço pago foi Seu próprio Filho. No nosso Batismo fomos santificados, trazidos
para o povo de Deus. Pela Palavra que recebemos, e muito especialmente na Santa
Ceia, Deus nos sustenta como povo santo, povo que pertence exclusivamente a Ele,
povo que vai herdar o céu. Por isso mesmo, temos todo o motivo para vivermos vida
santa. Não para conquistar algo (que já temos!). Mas simplesmente porque é próprio
que assim seja.

Ainda um último "detalhe". Nocapítulo 19 de Levítico,em meio às palavrasdirigidas


ao Seu povo, por quinze vezes Deus anuncia: "Eu sou o SENHOR"! Mais do que um
mero refrão, estas palavras repetidas tantas vezes nos fazem lembrar quem nos fala - é
o SENHOR, é Yahweh, o Deus que se faz conhecido nos grandes atos de salvação. O
Deus que quer ser conhecido como o Deus salvador, o Deus fiel às promessas. Viver
uma vidcl santa não é algo que esteja ao alcance de nossas f o r ~ a sou boas intenções.
Mas é obra de Deus em nós. Por isso, querido povo de Deus, povo que é chamado a ser
santo: busquemos a santidade que Deus nos dá lá onde Ele prometeu fazê-lo - no
Batismo, que diariamente lembramos por arrependimento e confiança em Cristo; na
palavra, lida e anunciada, e no corpo e sangue de Jesus, que nos consagram para
vivermos como povo santo de Deus. Amém.

Devoção proferida na capela do Seminário Concórdia no


dia 4 de novembro de 1998pelo Prof: Gerson Luis Linden.
UMSALVADOR
DE CARNE
E OSSO

Hebreus 10.5-7

É falta de criatividade iniciar o sermão de Páscoa dizendo, "Hoje é Páscoa", mas


talvez não seja tão descabido iniciar o de hoje lembrando que 25 de março é a festa da
Anunciação de Nosso Senhor. É uma festa antiga. No Ocidente, as notícias mais anti-
gas a respeito desta data são do sétimo século. Por que 25 de março? Ora, porque
estamos a nove meses do Natal.

A festa da Anunciação nos traz um gostinho de Natal em plena Quaresma (por isso
também a cor branca). Num certo sentido a anunciação do Natal e a conceição sobrena-
tural de Jesus Cristo (que celebramos hoje) é tão importante (ou talvez mais importante)
do que o próprio Natal.

Ao ser concebido Jesus passa a ser aquele que vai nascer no Natal. Ali começa a
encarnação. Ali ele começar a ser um corpo. E a partir daí se fala em conceber, estar
grávida, dar à luz -coisas que, se bem me lembro, me faziam corar ao serem recitadas no
programade Natal. (Afinal, algumas décadas atrás não se falavade gravidez com amesma
naturalidade com que meus filhos o fazem hoje...). Agora, porque tudo isso? Por que um
Salvador humano? Por que um Jesus de carne e osso? Por que era necessário que ele, tal
como confessamos no Credo, encarnasse "pelo Espírito Santo, na Virgem Maria"?

A gente poderia falar disso por horas a fio. Aqui só podemos dar um leve toque. à
base de Hebreus 10, que ensina que ele veio na carne para ter um corpo a sacrificar, para
poder nos santificar.

Em Hebreus 10 se lê: Por isso, ao entrar no mundo, diz: Sacrifício e oferta não
quiseste; antes, um corpo me formaste; não te deleitaste com holocaustos e ofertas
pelo pecado. Então, eu disse: Eis aqui estou (no rolo do livro está escrito a meu respei-
to), para fazer, ó Deus, a tua vontade ... Nessa vontade é que temos sido santificados.
mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas.

Quem é "ele" (e "eu") no texto? Quem está falando? É Jesus. O autor aos Hebreus
está citando Jesus. Não, não é um dito de Jesus tirado dalgum evangelho apócnfo.
Nada disso. O autor aos Hebreus vê Jesus citando o Salmo 40. Ao entrar no mundo
Jesus fala o Salmo 40: "Sacrifício e oferta não quiseste; antes, um corpo me formaste ...
Então, eu disse: Eis aqui estou, para fazer, ó Deus, a tua vontade".

Por que um corpo? Por que um Salvador de carne e osso? Ora, isso tem a ver com
a ação de Deus no mundo desde os tempos do AT. Deus é Espírito, isto é claro, mas ele
vem a nós em e através de meios visíveis. Deus, o Deus verdadeiro, não é contra a
matéria. (E o infinito é capaz de conter o infinito, mesmo que não o compreendamos). O
AT está repleto do que se pode chamar de "ensaios de encarnação". Basta lembrar o
episódio da sarça ardente e o sistema sacrificial. Tudo aquilo é corporal, material, tão
material quanto um bebê se mexendo na barriga da mãe dele.

Muita gente, é bem verdade, acha que Deus e religião não têm nada a ver com a
matéria. Isso é uma noção grega (ao menos no mundo ocidental) e não tem nada a ver com
o ensino bíblico. Muitos cristãos na igreja antiga se desviaram e enveredaram pelos
caminhos da heresia pensando que a matéria é essencialmente má e que Deus não tem
nada a ver com ela. Não admira que negaram a encarnação de Deus. Elocubraram toda
sorte de explicação, como a de que Jesus apenas parecia ter um corpo humano, etc. etc.

Hoje, é bem verdade, temos a impressão de que muitos cristãos são por demais
materialistas. Existe o que se chama de teologia da prosperidade. Existe também o que,
talvez, conhecemos um pouco melhor, e que se pode chamar de materialidade da salva-
ção, tão presente em muitos grupos neo-pentecostais. Salvação é para aqui e agora.
Tudo que quero é me livrar da enxaqueca ou arrumar o dinheiro em quatro dias para
pagar a minha dívida. O problema é que esse é o tipo de materialidade errada. Como
alguém disse certa vez, o problema de muitos pentecostais é que o adiáforo passa a ser
obrigatório (a cor e a largura da gravata, por exemplo) e o que foi instituído (santa ceia)
passa a ser adiáforo ou opcional.

Mas, deixando isso de lado, acho que ainda se pode dizer que existe muita
pseudoespiritualidade por aí. Cristãos tendem a fugir da matéria que Deus criou e
elegeu. Há uma fuga da criação. Tudo tende a ser espiritualizado. Os símbolos litúrgicos
são jogados fora. A cruz toma o lugar do crucifixo porque, afinal aquele Cristo pendu-
rado nela é por demais material, como se ressurreição fosse sinônimo de perda da
materialidade. Além disso, busca-se servir Deus com meditações especiais e a noção
de que o marceneiro que prega a tábua faz um serviço tão agradável a Deus quanto o
pastor que prega a palavra passa a quilômetros da mente da maioria ...

Mas, voltando à pergunta inicial: Por que um Salvador de carne e osso? Porque é
assim que Deus vem a nós. O Criador assumiu a forma da criatura. E ele ainda vem a nós,
não na brisa da floresta, mas em, com e sob a materialidade da palavra, a "fisicalidade"
da água, e a concretitude do pão e do vinho. Palavra e sacramentos são extensões de
sua encarnação. E estes são tão ofensivos ao homem secular e religioso quanto a
própria encarnação.

Por que um Salvador de carne e osso? Para que ele pudesse fazer a vontade de Deus
em nosso lugar.O contexto de Hebreus 10é um de sacrifício. Portanto,podemos dizer que
ele veio de um corpo para que tivesse o que sacrificar. Ele se encarnou (evento que
celebramos hoje), e nasceu no Natal, para tornar possível a Sexta-feira Santa.

Explorando um pouco mais o texto de Hebreus, vemos que ao sacrificar seu corpo
Jesus nos santificou. Também isto é linguagem sacrificial (assim como justificação é
linguagem jurídica). Somente o que é santificado, puro de pecado, pode permanecer na
presença de Deus. O sacrifício de Cristo, possibilitado pela encarnação, tornou possí-
vel a nossa santificação ou purificação.

Hebreus diz mais. Diz que, ao sacrificar seu corpo, ele o fez uma vez por todas. Um
só sacrifício. Sacrifício definitivo, em nosso lugar e a nosso favor.

Esta a razão por que Ele veio. Esta a razão por que veio na carne. Esta a razão por
que, ao entrar no mundo, Deus lhe preparou um corpo. E é isto que celebramos no
Natal, mas também e acima de tudo nesta festa da Anunciação. Entender sua importân-
cia e alcance é projeto para o resto de nossas vidas e por toda a eternidade. Amém.

Devoção proferida pelo DK Vilson Scholz na capela do Seminário Concórdia


no Dia da Festa da Anunciação, 25 de março de 1999.
Assim como boa parte de vocês, eu costumo ler jornal e assistir ao noticiário na
televisão. Mas ultimamente esse hábito tem-se transformado em suplício. As notícias,
por alguma razão, só mostram o que há de mais vil e desumano na humanidade. São
pessoas que são sequestradas e mutiladas. São pais que, aterrorizados, vêem seus
filhos serem mortos por colega de colégio. São as atrocidades cometidas em Kosovo
onde famílias são separadas, e os homens acima de 16 anos invariavelmente fuzilados.
Noticias como estas entristecem, repugnam e revoltam. Parece que o mundo e a vida no
mundo estão cada vez mais enfermos, desestruturados, fragmentados.

Mas, ao olhar para um texto como o nosso e ligando-o com os acontecimentos que
culminam nesta sexta-feira, o que vemos na TV e lemos nos jornais é algo ainda ameno. O
que o Servo Sofredor padeceu ninguém jamais padeceu; o que o Messias, o Redentor
sofreu,ninguémjamais sofreu,espontaneamente,sem se rebelar interiormente.Nosso texto
é o 3" cântico do Servo. Ele é um prelúdio daqueles acontecimentoshediondos que ocorrem
no 4°cântico no cap. 53. Mas por serem prelúdios não são menos chocantes e pungentes.

Na história da Paixão, o Getsêmani demarca o fim da curva ascendente e início da


curva descendente da vida do Servo. Getsêmani é a borda do cálice. Ali não apenas o
cálice do Servo transborda em amargura, como também é o ponto de reviravolta no seu
ministério de uma obediência ativa para uma obediência passiva. Chegava o clímax do
que ele tinha a fazer. Era a hora das trevas, como Ele mesmo afirmou.

Nosso texto antecipa 3 castigos que lhe são impostos e, que não aparecem em 1s 53.
O primeiro castigo, diz o texto: "Ele ofereceu as costas aos que o feriam". Açoites não
faziam parte do castigo daqueles que seriam crucificados. Os ladrões que foram cruci-
ficados com Cristo não foram açoitados. Pilatos não queria a crucificação de Cristo.
Curiosamente, Cristo foi açoitado exatamente para se impedir que fosse crucificado. A
crueldade desses açoites está ilustrada no messiânico salmo 129, onde se diz: "sobre o
meu dorso lavraram os aradores: nele abriram longos sulcos."

No segundo castigo: o Servo oferece as "suas faces aos que lhe arrancavam os
cabelos, ou seja, a barba". No AT a honra e a dignidade da pessoa estão em primeiro
lugar. A riqueza ocupa o segundo lugar. Ter dignidade é mais importante que ser rico.
Em 2 Samuel 10 há o episódio em que o rei Davi manda mensageiros ao rei de Amon.
Mas houve problemas na comunicação e o rei de Amon ordenou que as barbas dos
mensageiros de Davi fossem raspados pela metade. Este era um gesto que atentava
contra a dignidade e a honra do ser humano. Ao invés de voltarem a Jerusalém, Davi diz
a seus mensageiros que permanecessem escondidos em Jericó até que as suas barbas
voltassem a crescer. O Servo, que nascera em pobreza e que não tinha lugar onde
reclinar a cabeça, só possuía honra e dignidade; e estas lhe foram tiradas.

Além dos açoites e do arrancar da barba, o texto nos diz que cuspiram em sua face.
Talvez para nós brasileiros o cuspir não seja coisa tão séria. Afinal nos habituamos a
isso especialmente nos jogos de futebol que são transmitidos pela televisão. Parece
que no exato momento em que o jogador é focalizado pela câmara, ele resolve cuspir.
Um observador estrangeiro disse certa vez: "Agora sei porque a grama dos campos de
futebol do Brasil é sempre tão verde: ela sempre está sendo irrigada." Mas, nos países
orientais, é um grande insulto cuspir, mesmo no chão, na presença de uma pessoa.
Imaginemos então o que significa cuspir em seu rosto! O livro de Números cap. 12
atesta que se uma pessoa passasse por essa degradação, ou seja, fosse cuspida na
face, ela tinha de ser excluída do arraial de Israel. O cuspe estava selando a sorte do
Servo: o seu destino iria se materializar fora da cidade.

O quadro do Servo pintado profeticamente por Isaías é doloroso e contundente.


Mas não é o fim. Por detrás das cores escuras há uma réstia de luz. O fim não é a
vergonha, como o próprio Servo diz. Porque Ele não está só. Deus está com Ele. Deus
não o desamparou. Por 4 vezes e unicamente neste texto o Servo refere-se ao Adonni
Yahweh, ao Senhor de todos, Yahweh, que o ajudou, que o ajuda, que abre o seus
ouvidos para que ele obedeça e que lhe dá língua de eruditos para que saiba dizer boa
palavra ao cansado. O Servo veio para com a sua obra dizer boa palavra ao cansado.
Suas palavras são espírito, esperança e vida a um mundo espiritualmente desestruturado.

Certo pastor foi convidado a palestrar numa congregação do interior e decidiu levar
consigo o seu filho de 7 anos. Como não era longe, foram de ônibus. No trajeto o pastor
quena repassar os pontos básicos de sua palestra, mas o filho, muito esperto, queria saber
de tudo o que via pela janela do ônibus: O que é aquilo, pai? 6 uma fazenda, filho. E isso?
É uma plantação de trigo. E aquilo?Éum silo para se armazenar cereais. Como as perguntas
não paravam, o pastor abriu a sua pasta, tirou de lá uma revista e folheando-a, encontrou
numa página um mapa do mundo. Destacou a página da revista e rasgou-a em vários
pequenos pedaços. Depois disse ao filho que se sentasse no outro banco que estava vazio
e que recompusesse o mapa do mundo. Achou que o menino iria levar pelo menos meia
hora para montar o quebra-cabeça. Mas 3 minutos depois e o garoto já estava pronto.
Surpreso o pai pergunta: Como é que conseguiu montar tão ligeiro? E o garoto respondeu:
Pai, do outro lado da página tinha uma cruz e pela cruz foi fácil montar o mundo.

É somente pela cruz e pelo Servo crucificado que o mundo cansado, fragmentado e
desestruturado pode encontrar vida, forma e identidade. Talvez a violência, a indigni-
dade e a tristeza nunca sejam banidas, mas de uma coisa estamos certos: pela Sua boa
palavra o Servo está conosco e com Ele o Senhor de todos, Yahweh - e isto é confortador;
esta é, sem dúvida, a melhor notícia.

Devoçáo proferida pelo Pro5 Acir Rayrnann na capela do Seminário Concórdia


no dia 31 de março de 1999, Qiror~a-feirada Semana Santa.
Números 21.4-9

Carl Ferdinand Wilhelm Walther gostava de afirmar que a doutrina dajustificação é


a mais importante de todas as doutrinas e, em segundo lugar, para ele, estava a arte de
lazer separação entre Lei e Evangelho. (Cf. Lei e Evangelho, Concórdia, 1998, p. 17).

Pois hoje temos diante de nós uttl texto onde o Senhor mais uma vez reafirma sua
intenção de amor para com Israel - oferecendo uma justiça por meio da FÉ, e para
que isso se concretize, Ele age por meio de unta obra que lhe é estranha - a LEI, de
forma que possa realizar a obra que lhe é própria - o EVANGELHO.

Israel está às bordas da terra prometida, mas agora vem a notícia que terão que
retomar e ir por outro caminho. O rei de Edom não permite que Israel passe pelo seu
país (Nm 20.21);desta forma, o povo tem que contornar a terra de Edom (v.4).

Certamente essa notícia não deve ter agradado o povo, afinal, estavam tão pertinho
da terra prometida, e, agora, teriam que trilhar um caminho mais longo. Não demorou
muito para a impaciência surgir entre o povo e, com ela, veio o falatório. Então, começa-
ram a falar contra Deus e contra Moisés (v.5).

Eles diziam: "Por que Deus e Moisés nos tirarani do Egito? Será que foi para
niorrerttlos no deserto, otzde não há páo nem água? Já estamos catzsados desta
comida horrível! " (BLH, v.5).

Deus não entra na deles, não responde as suas perguntas, mas simplesmente envia
serpentes abrasadoras para o meio do povo e estas, literalmente, abrem suas bocas e fazem os
israelitas fecharem as suas, pois como diz o texto "emorreram muitos do povo de Israel " (v.6).

A punição de Deus leva o povo a uma reflexão profunda e, conseqüentemente, ao


reconhecimento de seu pecado. Então, eles se dirigem a Moisés e confessam o seu
pecado, dizendo: "Nós pecamos, pois falamos contra o Senhor e cotztra ti; ora ao
Set~horque tire de tzós as serpentes. " (v.7)

Moisés intercede pelo povo junto ao Senhor. E o Senhor prontamente responde,


provendo libertação para seu povo. A solução? Uma serpente de metal colocada sobre
uma haste e quando alguém era mordido por uma serpente, bastava olhar para a ser-
pente de bronze e ficar curado (vv.7-9).

Mas alguém dirá: "só isso?" Que coisa simples! Mas espera aí, onde entra a Justi-
ficação pela FÉ,e a Lei e o Evangelho? Bem, se esse é o caso, vamos lá.

O texto, à primeira vista, apresenta um povo alegre e disposto. Em sua caminha-


da pelo deserto, sob a liderança de Moisés, Israel havia presenciado feitos maravi-
lhosos do Senhor e o seu grande poder. Só para citar alguns: a travessia do mar
Vermelho (Êx 14.15-22) - a água amarga que tornou-se doce (Êx 15.22-27) - o maná e
as codornizes (Êx 16.1-21) - água da rocha em Refidim (Êx 17.1-7) e, ainda, as muitas
vitórias sobre os inimigos.

Mas bastava uma coisa não andar como o planejado, e lá vinha a cobrança, vinha
a reclamação. Em nosso texto não foi diferente. O maná, que tanto alimentara o povo, já
não serve mais, o povo tem 'yastio deste pão vil" (v.5).

Ah! o Egito! O Egito que agora era um passado distante, se toma algo belo e róseo.
Nesses momentos, a lembrança recai apenas sobre os potes de carne, melões e alguns
pepinos (Nm 11.4), nunca as chicotadas e os tijolos de barro! Antes, tinham que
trabalhar duramente pelo seu alimento, agora, ele cai do céu gratuitamente! Mas isso
não bastava! Os resmungos e as reclamações eram frequentes! Ao agir assim, Israel
estava desdenhando a graça de Deus.

As serpentes enviadas por Deus foram uma dura pregação de Lei para o povo. Um
chamado ao arrependimento. E surtiu efeito. O povo reconhece seu pecado, se arre-
pende, e pede que Moisés interceda junto a Deus.

A serpente de bronze, por sua vez, foi um ato gracioso do Senhor - puro Evangelho!
Olhar para serpente era garantia de cura e libertação do veneno mortífero das serpentes.

Mágica? Não! A cura não emanava magicamente de um metal retorcido em forma de


serpente - a cura dependia de um ato de fé no poder da Palavra de Deus. Cada vítima
viveria se aceitasse a PROMESSA DE DEUS de que, se olhasse para a serpente, seria
curado. Olhar para serpente de bronze, era, em primeiro lugar, um reconhecimento do
pecado e um desejo ardente de libertação, mas acima de tudo -um confiar nos meios
designados por Deus para a cura. Num bom "teologuês" luterano isso se chama:
Justificação por GRAÇA, por meio daFÉ.

Bem, aí está a pregação de Lei e Evangelho e a Justificação pela Fé. E nós, onde
entramos nessa história? Começamos a fazer parte dela a partir do Novo Testamento,
mais precisamente em João 3.14- 15, quando o Senhor Jesus interpreta esse episódio e
o aplica a nós! "E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim
importa que o Filho do honlem seja levantado... (e agora, notem bem) ... para que
todo o que nele crê tenha a vida eterna. "
Cá estamos nós - o Novo Israel. Novo, por causa de CRISTO, mas intimamente, o
Antigo e rabugento Israel que aprendemos a conhecer em nosso texto. Velhos
resmungões, boca dura. Sempre prontos a "sentar najanelinha" e curtir a viagem, mas
na primeira dificuldade, se tomam impacientes (v.4) e faladores (v.5).

Para um Israel assim, também há pregação de Lei. Há uma chamado ao arrependi-


mento. E da mesma forma como o primeiro teve que voltar seus olhos para a Serpente
de bronze em fé e total confiança à Palavra do Senhor, para se livrar do veneno mortal
das serpentes, assim também nós devemos olhar com fé para o Filho do homem levan-
tado na cruz, para sermos libertados da mordida da antiga serpente - o diabo e conse-
qüentemente: do pecado, da morte e do inferno.

A Serpente de bronze tinha a forma de uma serpente real, mas era na verdade uma
serpente sem veneno, portanto, inofensiva. Da mesma forma, Deus enviou Seu Filho
ao mundo em figura humana - homem como nós, mas sem pecado. E como diz Paulo:
"aquele que não conheceu pecado, (Deus) o fez pecado por nós; para que nele
fôssemos feitos justiça de Deus. " (2 Co 5.21).

Estamos na Quaresma. Tempo oportuno de volvermos nossos olhos para Cristo e,


em sincero arrependimento, buscar o perdão (HL 35 1.2).

Olhar para a Serpente de bronze não deve ter sido tarefa fácil para o povo de Israel.
As serpentes estavam ali, rodeando seus pés, movendo-se lentamente, prontas para o
bote mortal. Mas as palavras de Moisés ecoavam forte em seus ouvidos: "não olhem
ao redor; tentatido achar unz caniinho para escapar! SinlplesmenteJiquenl parados.
NrSo olhem as serpetites ao seu redor Olhem adiante. Olhem para aquela que estrí
sobre a haste!"

Para nós, o novo Israel, não há solução diferente. Precisamos nos desembaraçar de
todo peso, do pecado que fortemente nos rodeia e assedia, e olharmos firmemente para
o Autor e Consumador da fé (Hb 12.1-2),aquele que foi levantado na Cruz no alto do
Gólgota.

Isso é fé. Isso é confiança em Deus e em suas Promessas. Isso é Evangelho! Isso é
certeza do perdão e vida - a vida eterna. Que assim seja conosco. Amém.

DevoçBo proferida pelo ProJ Ely Priero no dia I7 de março de 1999,


rla Capela do Semirlário Corlcórdia.
CHAVES
INÍCIOS: QLIE OS EVANGELHOS
ABREM
PORMORNA D. HOOKER ~AMBERT. São Paulo:
Edições Loyola, 1998. 87 páginas. R$ 5,00

Este livrinho reúne quatro preleções ou conferências proferidas pela Dr." Hooker,
no Canadá, em 1996. A autora parte do princípio de que "no mundo antigo, era neces-
sário fornecer nos parágrafos iniciais todas as informações dadas hoje por titulo (do
livro), apresentação, sumário, prefácio e introdução" e que "nossos evangelistas nos
deram esse tipo de informação e é bom dar atenção a ela". (p. 12). Naconclusão (p.83),
somos lembrados de que as informações contidas na introdução de cada evangelho
têm notável semelhança, mas que ao mesmo tempo são diferentes. Vale dizer que a
chave de Marcos não serve para entender João e vice-versa.

Ainda na conclusão Morna Hooker aponta para algo que é muito explorado em
estudos dos evangelhos canônicos à luz da análise literária (enredo, personagens,
pontos-de-vista, etc.). Constata ela que as introduções aos evangelhos fornecem "in-
formações privilegiadas" ao leitor, algo que os personagens da narrativa não tinham.
Isto resulta no que se conhece por ironia literária (embora a autora não mencione este
conceito). Os personagens não têm clareza quanto a quem é Jesus. O leitor culpa os
personagens e até sorri ante a ignorância dos mesmos. Acontece que o leitor sabe
quem é Jesus, pois leu a introdução ao evangelho. Os personagens, no entanto, não
leram e por isso estão tateando no escuro. O evangelho de João é o melhor exemplo
disso. Marcos tem algo semelhante.

Cadacapítulo deste interessante livrinho trata de um evangelho. Assim, sendo, tem


um estudo sobre Marcos 1.1-13, intitulado "Chave Dramática". O segundo capítulo
considera Mateus 1 a 2, descrito como "Chave Profética". Lucas 1-2, analisado no
capítulo 3, leva o nome de "Chave Espiritual". O estudo de João 1.1-18 leva o título de
"Chave Gloriosa".

Dá para perceber que, indiretamente, a autora revela acreditar (como de resto a


maioria, embora não a totalidade, dos biblistas acredita) na prioridade de Marcos. Isto,
no entanto. não tira o mérito do livro. Além do mais, os capítulos são independentes um
do outro e podem ser lidos em qualquer ordem.
Examinemos em parte o capítulo sobre Lucas. Além de afirmar que Lucas gosta de
escrever introduções (existe de 1.1-4;tem outra em 1.5;Lucas parece começar de novo
no capítulo 3; e o evangelho como um todo é a introdução aos Atos!), a Dr.=Hooker
também compartilha dados exegéticos que ajudam a melhor compreender o terceiro
evangelho. Examina a diferença entre a resposta de Zacanas (1.18) e a de Mana (1.34)
(página 52). Destaca que, embora nunca cite o Antigo Testamento, Lucas traz, nos dois
primeiros capítulos, "um emaranhado de alusões veterotestamentárias", num texto
escrito num estilo que recorda muito o Antigo Testamento (p.60). Isto leva àpergunta,
feita à p.58, por que o chamado "evangelista para os pagãos" é tão judeu?

Inicios: Chaves que Abrem os Evangelhos parece estar bem traduzido (só uma
comparação com o original permitiria ser mais conclusivo) e é de fácil leitura. Hooker
adota uma postura relativamente conservadora, embora nem todos os leitores concor-
darão com tudo que ela diz. O texto apresenta coisas velhas e coisas novas, leva à
reflexão, e é valioso mesmo para quem acha que já leu tudo que se pode ler sobre os
evangelhos, ou, ao menos, sobre as introduções aos mesmos.

Klson Schob
Pós-MODERNISMO:UMGUIA PARA ENTENDER
A FILOSOFIA
DO NOSSO
TEMPO
PORSTANLEYJ. GRENZ.
Tradução de Antivan Guimarães
Mendes. São Paulo: Vida Nova, 1997. 250p.

Que interesse pode um livro como este despertar no pastor, abarrotado de compro-
missos práticos: visitas, sermões, estudos bíblicos, departamentos, formação de líde-
res, etc.? Se o interesse do leitor for o de obter respostas prontas a perguntas pragmá-
ticas, "Como resolver este ou aquele problema?', "Como lidar com uma situação tal na
Igreja?", então o livro se revelará de pouca ajuda. Seu interesse é tratar de princípios
que subjazem à prática. Como está expresso no título, visaclarear para os cristãos o que
anda dominando as "cabeças pensantes" na sociedade. E isto importa à Igreja, interes-
sa muito aos pastores.

O autor mostra, sutilmente, que a igreja tende a tomar temas próprios da sociedade
secular, fazendo-os parte de sua linguagem, preocupações e discussões. A própria
visão de mundo vigente é, por vezes, de tal forma assimilada pela igreja, que para
alguns passa a ser dogma. O alerta de Grenz é importante: se a igreja "canoniza" uma
detenninada visão filosófica de mundo, acaba por se colocar em uma situação difícil
quando das mudanças de paradigma - defenderá, com unhas e dentes, uma visão
filosófica? Ou reconhecerá que esteve ingenuamente atrelada a um referencial ideoló-
gico humano?

O autor, um estudioso do Pós-modernismo, divide o livro em sete capítulos. Segun-


do o próprio autor, o assunto pode ser entendido a partir da leitura do primeiro e do
sétimo capítulos. Nestes, ele dirige o assunto mais propriamente ao interesse
evangelistico da Igreja. Nos capítulos intermediários, Grenz oferece uma visão panorâ-
mica de alguns dos principais movimentos filosóficos da Idade Média até hoje.

Alguns pontos de destaque nas reflexões de Grenz são agora mencionados. Con-
forme a Modernidade, o conhecimento é "exato, objetivo e bom" (p. 20). A Pós-
modernidade vem questionar tal idéia. Grenz aproveita para mostrar que, conforme a
visão cristã (bíblica) do homem, o conhecimento não é inerentemente bom e a resolu-
ção dos problemas do homem não se dá pelo avanço tecnológico. É preciso, sim, que
haja uma mudança mais profunda no ser humano. (p. 242) A Pós-modernidade dá um
elevado valor ao conceito de "comunidade", ao passo que a Modernidade celebrava,
até certo ponto, o individualismo. O homem pós-modemo valoriza o grupo. Não é difícil
perceber as implicações disto para a vida da Igreja.

Grenz vê com simpatia a chegada da Pós-modernidade. Ao contrário de outros


autores, não a considera um inimigo declarado da Igreja e da mensagem cristã. Isto não
o impede de denunciar equívocos, do ponto de vista cristão, inerentes à visão pós-
moderna. Isto vale especialmente no que tange à rejeição a uma verdade absoluta:
"Diferentemente do pensamento pós-modemo, cremos que a realidade possui um
centro unificador. Mais especificamente, reconhecemos em Jesus de Nazaré, a Palavra
eterna presente em nosso meio, a manifestação deste centro." (p. 238)

Dos muitos pontos que merecem reflexão neste livro, gostaria de destacar um,
quando o autor oferece dicas para a igreja, na proclamação do evangelho ao homem
pós-modemo. Não se trata de adaptar o evangelho, mas em pregar com conhecimento
do "auditório", no caso o mundo. Grenz fala de "contornos de um evangelho pós-
modemo" (pp. 242-250). Esta parte, no final de seu livro, traz considerações importan-
tes a todos quantos querem ser fiéis à mensagem imutável da graça de Deus, em Cristo,
presenteada no evangelho, e que consideram necessário ao proclamador ter conheci-
mento da sociedade contemporânea.

Gerson Luis Linden


Os IMIGRANTES
ALEMÃES
NO RIO GRANDE
DO SULE O LUTERANISMO
PORWALTER O. STEYER.Porto Alegre: Editora Singulart
Ltda., 1999, 168p. R$ 12,00

O livro (com as devidas adaptações) é o resultado de uma pesquisa conduzida pelo


Prof. Walter O. Steyer junto à Universidade do Vale do Rio dos Sinos, RS, para obten-
ção do grau de Mestre em História.

Apesar deste trabalho ter um cunho científico, ele não deixa de ser uma crônica
palpitante da religião dos imigrantes alemães no Rio Grande do Sul. Com urnacaracte-
rística que lhe é própria, o Autor consegue tornar atraente e cativante uma história que
parecia estar tão distante de nós. Usando uma linguagem simples e ilustrativa, o Prof.
Steyer faz com que essa história, ocorrida há tanto tempo atrás, se torne atual e bem
nossa.

A obra, composta de dez capítulos, é um relato histórico dos fatos ocomdos entre
1900 até 1904, data da fundação oficial do Distrito Brasileiro do Sínodo de Missoun,
hoje Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Destaca também a iniciativa até certo
ponto ousada, para época, de um grupo de pastores do Sínodo de Missouri na funda-
ção de um Instituto para a formação de professores e pastores nacionais (hoje o
Seminário Concórdia de São Leopoldo), justamente num período em que todos os
obreiros e missionários vinham do exterior. Segue então, com uma apreciação crítica a
respeito do relacionamento do Distrito Brasileiro do Sínodo de Missouri (hoje IELB)
com o Sínodo Rio-Grandense (hoje Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
- IECLB) na conquista espiritual do imigrante alemão e seus descendentes teuto-
brasileiro.

Diante da carência de obras desse cunho em língua portuguesa, a obra do Prof.


Steyer vem preencher uma lacuna, especialmente no que se refere à história daquela
parte dos imigrantes determinada pela Igreja Evangélica Luterana do Brasil. A obra
certamente encontrará leitores atentos, não somente entre historiadores e teólogos,
mas também entre todos aqueles que têm interesse pela história da imigração alemã no
Rio Grande do Sul.

Ely Pneto
A*

A CONCÓRDIA APESENTA NOVO T ~ ~ ~ U L O

E-OS 1~0~661~08

Diversos autopes
Diferentes temas r

Para dar it~iciods eoraoraçdes


ilos 95 anos & &ahCICo, o Semhtlrio
1
Conddia h $ o u .Mroba. f d v o
com m s &professores cpm&res
1
ligados a RPta h i h i ç d o .

a IELB abriga, e o ~ v a n ~ e lfaculrh


ho

Temas quepermitem situar, em parte:


o momento atuo1 ak igreja;
O seu crescimento feuIógico;
o seu amarlurecimenfopasto~uL
C
É um trabalho que mostra ~Iuramenteque os dons
&vivos e presentes na igreja.

Pedidos:
CONC~RDIAEDITORA LTDA
A * c s b w m , ~ - D d w 4 ~ O # d d o
POMI -
e s r ~ l w ~ w m A u ~ - w
msii w s - 2 ~ 1 ~ 1 MMSM
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Podo A i W , R S . Fone /051)3el 0455

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