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PSICO Ψ

v. 36, n. 3, pp. 311-314, set./dez. 2005

Revendo idéias de Viktor Frankl no centenário
de seu nascimento
Marcelo V. Roehe
Universidade Regional Integrada – Frederico Westphalen (URI)

RESUMO
Em homenagem ao centenário de nascimento do psiquiatra e psicoterapeuta austríaco Viktor Frankl, o artigo
apresenta uma síntese de sua vasta produção teórica. Frankl foi o criador da Logoterapia, chamada, por
vezes, de terapia do sentido da vida em função de sua idéia básica, a de que o ser humano vive motivado,
fundamentalmente, pela vontade de realizar sentido na vida; para isso, o homem deve se empenhar na reali-
zação de valores na forma de criações, vivências e atitudes. A teorização de Frankl, historicamente situada
no campo fenomenológico-existencial, é uma das que mais radicalmente se opôs a qualquer reducionismo
no entendimento do ser humano.
Palavras-chave: Logoterapia; Viktor Frankl; sentido da vida; psicologia fenomenológico-existencial.

ABSTRACT
Checking Victor Frankl’s ideas in the year of his centenary
In honor of the centenarian birth of the austrian psychiatrist and psychotherapist Viktor Frankl, the article
presents a synthesis of his vast theoretical production. Frankl was the fouder of Logotherapy, which at times
is called the meaning of life’s therapy according to its basic idea, which is that the human being lives
motivated, basically by the will of giving life a meaning, for this reason man must pledge himself in the
accomplishment of values in the form of creations, experiences and attitudes. Frankl’s theorization is
historically situated in the existential-phenomenological field, which is one that most radically opposes itself
to any reductionism to the human being’s understanding.
Key words: Logotherapy; Viktor Frankl; meaning of life; existential-phenomenological psychology.

INTRODUÇÃO Frankl propôs como tema central para a compre-
ensão do ser humano e a conseqüente intervenção te-
O ano de 2005 marca o centenário de nascimento rapêutica, a questão do sentido da vida. Em seu pen-
do psiquiatra e psicoterapeuta austríaco Viktor Emil samento, a vontade de sentido (logos) é a motivação prin-
Frankl. Nascido em Viena no dia 26 de março de 1905, cipal do homem. Daí o nome de sua teoria: Logoterapia.
Frankl está associado ao pensamento fenomenológico- Frankl faleceu no dia 2 de setembro de 1997 em Viena.
existencial na psicologia. Dentre suas principais in- A vida de Frankl é marcada pelo horror dos cam-
fluências destacam-se a fenomenologia dos valores de pos de concentração mantidos pelo governo nazista.
Max Scheler e a analítica existencial fenomenológica Durante quase 3 anos, entre 1942 e 1945, Frankl foi
de Martin Heidegger. prisioneiro dos nazistas em diferentes campos, como
É importante lembrar também, que no ano de 2004 o de Auschwitz. Nos campos de concentração, Frankl
completaram-se 20 anos da presença de Viktor Frankl perdeu sua mulher, seus pais e um irmão. Frankl refe-
em Porto Alegre/RS, durante a realização do I Encon- ria-se a esse período como o experimentum crucis para
tro Latino-Americano Humanístico-Existencial:Logo- suas idéias psicoterapêuticas. Referindo-se a esse pe-
terapia na PUCRS. Nesta ocasião, Frankl foi home- ríodo e a sua sobrevivência, Frankl tomou uma frase
nageado com o título de Doctor Honoris Causa pela de Nietzsche, a qual repetiu em muitas de suas publi-
PUCRS e com a Medalha de Porto Alegre pela Prefei- cações: “quem tem por que viver, suporta qualquer
tura Municipal. Além disso, iniciou-se uma campanha como”. Frankl (1989) narra sua experiência nos cam-
pela indicação do Dr. Frankl ao Prêmio Nobel da Paz. pos de concentração no livro Em busca de sentido.

pois somente há O HOMEM E O SENTIDO PARA FRANKL liberdade frente a um destino ou frente a vínculos (Frankl. obrigatoriamente. Contudo. Frankl ressalta a importân. rais específicos. estar em relação com ou orientado para qual- sentido pessoal. Frankl (1993) entende que a pessoa de si mesmo. Em sua busca por sentido. – crítica à teoria psiquiátrica de Freud. encontra envolvido em situações que não escolheu. entre algo como um ah! e a percepção de uma Gestalt. somente quando transcende a si mes- Diante de sua finitude – sabendo-se mortal o homem mo é que o ser humano pode realizar sua vontade de PSICO. porém. v. Referindo-se aos condicionamentos que o ho- – interpretar o tratamento psicoterapêutico como mem enfrenta. Viver com sentido quer órgão de sentido. Quer dizer. ain- ção própria ou missão específica na vida. não tivesse possibilidades para escolher. 3. fa – o sentido – não é algo estático: o sentido muda de Segundo Frankl (1992) o ser humano apresenta acordo com a pessoa e a situação. plica no fato de que ser homem significa. espaço-temporal. cia da responsabilidade (habilidade para responder). Frankl fez parte do grupo de Adler e Para Frankl (1986) ser-homem é ser-responsável nos anos finais da década de 20. jetos. Não somos livres de nossas limitações. conforme o que será em face de suas possibilidades. é autodeterminante. por sua consciência. a qual Frankl (1992) chama de cífico de dar forma à situação. set. Ao contrário do situações que lhe exigem enfrentamento (resposta) na que se possa pensar. se ponha a ser. Porto Alegre. p. pp. Quando essa capaci- viço da proposta de cada hora. com recomendação de Freud. suas emoções e sua vontade. Essa característica constitutiva do existir humano. porque é ele quem determina se 1990). que o homem./dez. 36. 2005 . Por um sável. O A descoberta do sentido de vida ocorre na forma órgão de sentido está sempre voltado para algo além de resposta à vida. biológicas. de “estar total. Ou seja. assim denominada em 1929. com suas disposições e dera como sendo a capacidade de procurar e descobrir aptidões.13). a pessoa deve res. para mais informações biográficas humana. V. não deveria perguntar pelo sentido. 1990 e Xausa. Isso envolve Frankl considera que cada pessoa tem uma voca. todavia temos liberdade para nos posicionar diante to psicoterapêutico podem ser assim resumidas: delas. E são justamente tais limitações que nos permitem agir livremente. e do caráter irrevogável de seus atos. O que im- circunstâncias se lhe apresentam. dade é realizada ocorre uma experiência intermediária mente com ela. o homem vai se libertan- – necessidade de o terapeuta estar aberto à do ou transcendendo suas determinações – sejam elas cosmovisão do paciente. soa vivencia ou percebe-se relacionada a uma série de dos são irrepetíveis (Frankl. o homem é orientado Sentido pode ser entendido como um modo espe. Mas tal tare. cada um tem da que atue como se não fosse livre para decidir ou uma tarefa concreta exigindo realização. o sentido da vida não é uma espe. resiste ou não a esses condicionamentos. recebendo e dando ao mesmo tempo. 1986). escolhas que o ser humano. Conforme vai existindo. começou a elaborar a por que é ser-livre. Isso porque Frankl (1992) a consi- dizer. já apresentamos caracteres corpo- Frankl no que diz respeito ao entendimento do ser hu. conforme as Frankl (1993) chama autotranscendência. mas sim perceber. 1986). fundamen- ponder na forma de uma ação comprometida com um talmente. 1986). Sentido é uma espécie de engajamento. curto período. 1992. 1989). Por isso. forma de atos carregados de sentido. Para Frankl. M. O ser humano sempre se e curriculares recomenda-se Etcheverry. A liberdade Etcheverry (1990. Sempre já nos encontramos num determinado ambi- A seguir apresenta-se uma síntese da teoria de ente sociocultural. 311-314. Sua trajetória intelectual se inicia em 1924 com a não pode adiar infinitamente a realização de sentido – publicação do artigo “A origem da mímica da afirma. o sentido não é mente dedicado a uma causa” (Längle. já vivemos num determinado ponto mano e à questão do sentido da vida. Livre para decidir (ser que decide) Logoterapia. para alguma coisa que está no-mundo. PUCRS.312 Roehe. Somos livres para algo e não de algo. é limitada. quer coisa diferente de si próprio (Frankl. uma abstração. se confronte criativa. culação abstrata. uma vez que a uma autocompreensão ontológica pré-reflexiva que existência de cada homem apresenta um caráter de indica a orientação para o sentido. se questionada pela própria vida. é uma realização concreta no mundo. conforme já mencionado. o homem deve ção e da negação” no International Journal of decidir perante que ou perante quem se julga respon- Psychoanalysis. uma idéia encerrada na consciência. faz. n. a pes- algo único e as situações nas quais estamos envolvi. Frankl (1993) afirma que o ser humano aprendizagem de responsabilidade (Etcheverry. etc. o sentido único de cada situação. As idéias básicas de Frankl quanto ao procedimen. psicológicas ou sociológicas – de modo a – relacionar o trabalho psicoterapêutico com os dominá-las ou configurá-las de acordo com seus pro- valores. então.

é indispensável à saúde mental (Frankl. ou seja. o livre-arbítrio. enfatiza a importância de que o ser humano posicione. 36. pp. Contrapondo-se ao reducionismo psicodinâmico. aqui Kretschmer (1992) relaciona sentido e valores as. colocando 2. a pessoa propria- riência do amor. não homeostática. 3. A inconstância das situações. Vivenciais – receber algo do mundo. isso é a dimensão genuinamente humana. pois – a dimensão psicológica abrange os instintos. a dinâmi- deixa de experimentar esses aspectos da existência. para o que algo é bom. senti. Segundo Frankl (1989). 2005 . forma de um paralelismo psicofísico. mente dita. Criativos – dar algo ao mundo. que mudam con- (1992). vendo. – a dimensão somática abrange os fenômenos cor./dez. a criatividade. podemos optar por sua realização. 1993). o ser propria- dimensão inferior a sua própria. Frankl (1993) 1992). em segundo plano o eu inconsciente. estão os valores. 311-314. 3. os valores que nos mento pessoal. mas mem como um ser tridimensional: sim onde há um eu que decide. Po- e. Sentido nós encontramos ao indagarmos para que As dimensões não são estanques. mo. Sentido da vida interpenetram-se continuamente. A respeito dos valores de atitude. O ser humano é uma se nos depara no entendimento de que um valor. (2) culpa e (3) morte. E nela está presente a liberdade. os “ser homem significa ser para além de si mesmo” condicionamentos. fazer da finitude da existência um incenti. v. (Frankl. no entanto. ca a dimensão noética num patamar superior: enquan- penho de uma tarefa. – a dimensão noética (do grego nous. 71). Frankl entende o ho. mundo. a dimensão Langle (1992) afirma que a questão do sentido ad. ce entre o homem e o sentido. demos escolher uma ou outra possibilidade agindo no vo para a realização de ações responsáveis. não pode ver a si mes- tos inevitáveis. o homem apre- Frankl (1986) distingue três categorias de valores: senta fenômenos noético-inconscientes (dimensão 1. algo serve. ignorar a dimensão noética ou reduzi-la à dimensão 2. O caminho concreto para a realização de sen. rige-se prioritariamente ao id inconsciente. em oposição a qualquer reducionismo. A noodinâ- (1) sofrimento. Frankl 3. Valores são abstratos universais. o sentimento de que não é indiferente aquilo que psicológica. set. que permite fazer escolhas en- O entendimento reducionista do homem tende a tre as possibilidades.Revendo idéias de Viktor Frankl . se de forma a encontrar sentido nas dificuldades e Frankl (1986) considera que a existência se dá de ma- apresenta o que chama de tríade trágica composta por neira noodinâmica (dinamismo noético). etc. a consciência moral. nos afeta e insta ao desem. por exemplo. to as dimensões somática e psicológica interagem na do através do entendimento. o que significa Conforme Frankl (1992) o existir humano genuí- evitar a compreensão do ser humano a partir de uma no é responsável e não impulsionado. 1986). Para ele. otimismo ante Isso porque a noodinâmica é a tensão que se estabele- as dificuldades (tragédias) de modo que possa trans. Nenhuma pessoa mica é a tensão caracteristicamente humana. a expe. um trabalho. significan- tido são os valores. do espírito) abrange todas as qualidades que di- de-sentido que se apresentam como possibilidades no ferenciam o homem dos demais animais. 313 sentido. entre o ser e o dever-ser. p. O eu (nous) em sua origem é inconsciente. ou seja. formar o sofrimento numa oportunidade para cresci. O hiato entre o que se é e o que se deveria vir a ser porais. ao contrário da orientação para um equilíbrio Frankl (1986) desenvolveu sua visão de homem interno instintivo. a livre tomada sim: de decisões. meostase e passível de condicionamento. 1986.45). as cognições. por fim. tal como os processos instintivo- tinuamente. O valor se torna. Viver buscando redução de tensão ou que Frankl (1993) propõe é que a pessoa adote uma homeostase opõe-se à autotranscendência humana. assim como o olho que. O ca existencial. De atitude – posicionar-se diante de sofrimen. não assumido coati. Porto Alegre. pois. propõe que. a fisiologia humana. regido pela ho- vamente ou obscuramente adivinhado (p.. escolho: tomo decisões sobre valores.. colo- reconhecido como tal. a chamada psicologia profunda di- obra. assim como encontrar no sentimento atraem não o fazem de maneira irremediável (instinti- de culpa motivos para mudar a si próprio para melhor va/impulsiva). O ser humano dirige-se para o PSICO. totalidade bio-psico-noética. 1. inconscientes (dimensão psicológica). Frankl. uma tarefa. por horizonte humano. n. mente humano não se dá junto a um id impulsivo. Referindo-se às teorizações freudianas. o eu não pode auto-observar-se (Frankl. PUCRS. posição de otimismo trágico. o homem é unidade na diversidade. uma noética). pelo contrário. noética é incondicionável. intera- quire relevância a partir de três experiências básicas gindo com as demais na forma de um antagonismo do ser humano: psicofísico (Frankl.

A intenção do homem não Frankl. J. (1993). não é. 81-96. São Leopoldo: Sinodal. RS. Reinhold. Um sentido para a vida.). 120 CEP 91900-550.). Trad. 6. V. Sendo assim. 1. A. visa a felicidade. The International mórbido. Petrópolis: Vozes. (H. Lapenta.). C. fru. Aceito em: 10/11/2005./dez. Petrópolis: Vozes. necessariamente. a intenção é o mundo. Quanto mais Rua Caiapó. mente publicado em 1948).). Dar senti- to de problemas existenciais. pois ela. São Leopoldo: Sinodal. (1986). E. REFERÊNCIAS do se apresenta como um fim para o qual a existência está sempre orientada e não. Porto Alegre. na forma de um meio re. nos. Não se Marcelo Vial Roehe – Psicólogo. Viktor Frankl y la logoterapia. V. (H. valores. Frankl. Porto Alegre. Viver com sentido. sentido e este vai sempre à frente do ser. Noogênica porque se origina na dimensão noética. Frankl. A. Man alive: Viktor Frankl. 3.314 Roehe. A. São Leopoldo: Sinodal. ma de frustração existencial. visto que é o uma causa ou a outras pessoas. 2005 . (1992). A psicologia do sentido da vida. um efeito colateral ou um Autor: subproduto da realização de sentido na vida. (W. V. (Original- ser frustrada e então ocorre o que Frankl (1993) cha. (Originalmente publicado retornar. para ao homem tro. São Paulo: Quadrante. V. n. E. a vontade de sentido é a moti. motivando nosso andar (Etcheverry. (1998). 36. então. patológica. não acontece.br PSICO. Psicoterapia e sentido da vida. V. mais essa pessoa pode- guia do ser (Frankl. PUCRS. deve ser uma resultante. por si mesma. pp. (V. ção humana (sadia) que pode evoluir para um quadro Frankl. E. Algo como uma imagem. A presença ignorada de Deus. 311-314. 1990). A felicidade Recebido em: 06/12/2004. Trad. horizonte que sempre está a nossa frente. Trad. choque de Längle. Endereço para correspondência: De acordo com Frankl (1998). Para ele (1998). (1990). Em busca de sentido. o mun. Tal motivação não está Aparecida: Santuário. dutor de tensões internas. é uma manifesta. v. especificamente huma. a felicidade não é algo que se busque ou que se persiga.uri. (A. Petrópolis: Vozes. como.). (A. Ocorrerá. Aveline. de Cas- simplesmente passa pelo mundo. São Leopoldo: Sinodal. (1986). Trad. I. rá ser feliz. E. Brasil alguém se esquece de querer ser feliz e se dedica a E-mail: mvroehe@fw. Kretschmer. Reinhold. uma causa ou uma pessoa. de M. E. Mestre em Psicologia. o que deve ser visado é MARCELO VIAL ROEHE uma tarefa. Allgayer. Schlupp. Para finalizar esta síntese da teoria de Viktor Xausa. sentimento de falta de sentido de vida. A frustração existencial Frankl. V. Valor do eu e sentido da vida. por exemplo: conflitos morais. Trad. Como visto acima. livre de impedimentos. Trad. a realização de sentido pode Frankl. ca da felicidade. Buenos Aires: Almagesto. Petrópolis: Vozes. 63-73). vação básica do ser humano. em 1946). do à vida (pp. (1992). Etcheverry. 1986). veja-se sua interessante posição quanto à bus. Petrópolis: Vozes. uma neurose noogênica. W. (1989). set.). Journal of Logotherapy and Existential Analysis. M. (Originalmente publicado em 1978). (1992).