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49 MITOS NO JUDAÍSMO

Fernando Chaim Bisker

Revisão do conteúdo religioso:


R’ Shimshon Bisker (Jerusalém)
Edição e revisão de texto:
Márcia Cherman Sasson (Rio de Janeiro) Agradecimento:
Rua Judaica - Sr. Osias Wurman
Email: 49mitos@gmail.com

Introdução
Nos últimos 15 anos tive o mérito de poder dedicar-me profissionalmente, e também de
forma voluntária, a diversos trabalhos comunitários em países distintos. Percebi que,
mesmo em um mundo no qual a informação corre tão veloz, alguns boatos e ideias
errôneas acerca do judaísmo ainda fazem parte do repertório de grande parte das
comunidades. No contato com comunidades judaicas e nãojudaicas em países da América
Latina — nas quais fui sempre muito bem recebido — procurei conversar e entender a
opinião das diferentes pessoas que conheci a respeito de nossa sabedoria milenar. Notei
que muitas das informações citadas eram derivadas de noções nada precisas, cujas fontes
seriam talvez o folclore ou as lendas populares, ou boatos que foram perpetuados ao longo
da história.

Decidi investigar os 49 mitos mais interessantes, compilá-los e publicá-los semanalmente


na coluna de minha autoria no periódico ‘Rua Judaica’ — um jornal on-line enviado a mais
de 110.000 endereços pelo jornalista e cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro, o Sr.
Osias Wurman, a quem devo um agradecimento especial por haver concedido sempre uma
espaço que se dedica a explicar um pouco mais sobre conceitos judaicos. Após ter
completado a publicação virtual dos 49 mitos, achei válido publicar um livro para tornar
acessível a informação em forma de referência.

O formato é breve e conciso, e se pretende apenas como uma leitura rápida e introdutória.
Cada tema abordado dá margem a inúmeras discussões, e a pesquisa detalhada de cada
tema caberá ao leitor que desejar aprofundar-se. Existe hoje em dia um grande número de
publicações, feitas por editoras brasileiras, inclusive pela livraria Sefer, que trazem obras
bastante completas do repertório judaico em língua portuguesa, acessíveis em livrarias e
também na internet.

Disponho-me também a orientar e sugerir as melhores fontes para informação. O leitor que
desejar poderá entrar em contato comigo através do e-mail: 49mitos@gmail.com Agradeço
a família e a todos os amigos que contribuíram neste trabalho.
Obrigado e bom proveito!
49 MITOS
NO JUDAÍSMO
1) A Torá (Bíblia Judaica) é contrária ao progresso
científico.

Falso: Quanto mais evolui o progresso científico, mais fica em evidência a sabedoria dos
ensinamentos da Torá. Um exemplo: Já constava da Torá – em textos que datam em mais de
dois mil anos atrás– em frações de milésimos de segundo, a duração exata do ciclo lunar.
Este número foi confirmado pela Nasa há menos de cinco anos. A observação da quantidade
de estrelas no céu é um outro exemplo. Até 100 anos atrás se acreditava que existiriam um
total de aproximadamente 50.000 estrelas.
Após a invenção do primeiro telescópio já se falava na estimativa de 3 e 4 milhões de
estrelas. A Torá, no tratado Talmúdico de Brachot, cita trilhões de estrelas (‘trilhões e
trilhões’), estimativa que hoje em dia confirma-se ser a mais aproximada.
O mesmo Talmude traz em outros tratados conhecimentos bastante intrigantes, tais como
a cura da raiva canina, que seria alcançada através da elaboração de uma vacina que se
utiliza do próprio cachorro doente; ou a invenção do pararaios— uma patente talvez
tivesse mudado o curso da humanidade, ou pelo menos a vida de Benjamin Franklin...
Diversas invenções tecnológicas, tratamentos médicos, e outras áreas de conhecimento
estão contidas nas nossas escrituras. O desenvolvimento e a busca pelo conhecimento são
elementos intrínsecos à sabedoria milenar judaica.

2) É proibido andar de meias em casa já que este é um


costume exclusivo aos enlutados.

Falso: Existe uma acepção falsa em relação a este costume.


Durante os dias de luto, assim como em Yom Kipur (dia do perdão), não se pode utilizar
sapatos de couro. Por isso, muitos acabam optando por circular de meias pela casa. No
entanto, as meias em si não carregam nenhum simbolismo. As meias não representam o
estado de luto— é apenas uma consequência de não usar sapatos de couro.
Porém, se caminhar de meias em uma situação comum dentro de casa converter-se em
causa para um mal estar entre os membros mais velhos da família, é melhor evitar fazê-lo
somente por respeito a eles.

3) Bater na madeira e fazer fi ga trazem boa sorte.

Falso: Segundo a revista Super Interessante, estes costumes surgiram da seguinte forma:
“Como surgiu o costume de bater na madeira para afugentar o azar”?
O costume de bater na madeira para afugentar o azar nasceu com os índios da América do
Norte e também entre os egípcios; os primeiros batiam no carvalho para chamar as
divindades e os outros na mesa para invocar a proteção dos deuses caseiros.
Há cerca de 4 mil anos, os índios da América do Norte – e, quase na mesma época, os
egípcios– observaram que o carvalho, apesar da sua imponência, era a árvore mais
frequentemente atingida pelos raios. Daí concluíram que o carvalho era a morada dos
deuses na Terra. Por isso, toda vez que se sentiam culpados por alguma coisa, batiam no
tronco do carvalho, com nós nos dedos, para chamar as divindades e pedir-lhes perdão. Já
em Roma, batia-se na madeira da mesa para invocar proteção das divindades caseiras, pois
a mesa era considerada sagrada.
... E o costume da figa? Começou a ser usado durante orgias religiosas, para representar a
união dos órgãos feminino e masculino. Na Europa, se difundiu como algo que afastava a
esterilidade e outros tipos de azar. “Chegou ao Brasil como amuleto, junto com os
portugueses.”
Ou seja, bater na madeira e fazer figa são costumes nada judaicos, e, segundo a Torá,
nenhum destes ‘amuletos’ ou superstições devem ser levados a sério.
Um adendo: deixar o sapato virado ou esquecer as portas do armário abertas não causa
dano algum.

4) Deve-se evitar passar debaixo de uma escada e nunca se


deve cruzar um gato preto.

Falso e Verdadeiro: O Talmud, ao discutir um caso de responsabilidade no caso de danos,


menciona o conselho prudente de que não se deve passar debaixo de uma escada. Existe aí
um alto risco de ser atingido na cabeça por algum objeto. Portanto, por motivos
pragmáticos e nada místicos, de fato é melhor evitar.
Em relação ao gato, existe um tratado do Talmud que traz detalhada uma prática da magia
negra na qual se utiliza um gato preto, cujas três gerações anteriores tenham sido também
gatos pretos. O Talmud narra o procedimento e explica o perigo que este ritual pode
acarretar, suas consequências e a proibição em realizá-lo. Devido à existência desta prática,
e aos desastres que podem ter ocorrido em seu entorno, criou-se a ideia de que não se deve
passar em frente a um gato preto, e que isto traria má sorte. O fato é que, segundo o
judaísmo, o perigo relativo
ao gato em si não existe.

5) Mesmo para quem só come comida kasher, a ingestão de queijo não-kasher não
tem problema— já que queijo é queijo, e não pode haver nada errado.

Falso: A avaliação da kashrut em queijos duros é complicada, porque a produção do queijo


envolve uma substância chamada rennet — também conhecida como chymosin ou
rennin— uma enzima que separa (ou coagula) a parte líquida (o soro) da parte sólida do
leite (a coalhada).
O rennet pode ser de origem vegetal, porém a maior parte do rennet existente provém de
uma enzima que se encontra na parte interna que reveste o estômago de um animal,
constituindose em um ingrediente não-kasher. O rennet obtido de um animal kasher, que
tenha sido abatido de forma kasher, seria permitido para o consumo e para a coagulação do
leite — já que a enzima em si não seria considerada como ‘carne’, logo, não se estaria
violando a regra de misturar carne com leite. É evidente, no entanto, que na produção em
série de queijos duros em geral não são utilizados apenas restos de animais kasher, e muito
menos daqueles que teriam sido abatidos de forma apropriada.
7) Pela Torá quase nada é permitido em um relacionamento íntimo entre marido e
mulher.

Falso: Na verdade quase tudo é permitido. Existe uma lenda errônea relativa ao sexo,
calcada talvez nas ‘culpas’ teoricamente ‘judaico-cristãs’, que nada têm de judaicas.
Imagina-se que, na visão da Torá, seria um ato estritamente voltado para a procriação. Mas
a realidade é que basicamente a relação sexual deve ser boa para o casal, e satisfazer a
ambos igualmente. Sua função vai muito além do aspecto de procriar: ela deve unir o casal
também. A prova disto é que durante todo o período da gestação relações. Certamente
brachá a ser recitada, e é importante estar de corpo inteiro com seu par neste momento.
Além de não remeter de forma alguma à culpa, muito pelo contrário, a Torá ensina que é
possível alcançar os mais altos níveis de conexão Divina. Feito da maneira correta e com a
pessoa certa, este seria de fato um dos atos humanos mais elevados, que mais nos
aproximam de Deus. é permitido manter

não existe nenhuma

6) A proibição de misturar carne com leite se aplica também ao leite de coco, ao leite
de soja, ao leite de amêndoas ou a qualquer similar.

Falso: A única proibição é a de misturar a carne com o leite de origem animal. Os leites de
coco, de soja, ou similar, não se classificam como leite, logo podem ser consumidos e
cozinhados junto com a carne.

8) O judaísmo não leva em conta a existência de seres


transcendentais

Falso: O nome mais citado no Talmud para defini-los é She-dim, mais conhecidos como
shin-dalet (iniciais da palavra); eles são seres parcialmente espirituais, e parcialmente
físicos. Foram criados por Deus e são controlados por Ele. Existem para colocar em prática
certos decretos Divinos que aos nossos olhos são vistos como punições. Segundo a Torá,
eles não só existem como estão presentes em florestas e desertos, e não podem ser vistos a
olho nu. O Talmud ensina como vê-los, mas adverte das consequências negativas, e não
recomenda que o façamos.
Possivelmente teria sido esta a raiz das lendas populares com personagens que vivem nas
florestas, tais como os duendes, os Smurfs e afins. A Torá adverte, por esta razão, que uma
pessoa não deve caminhar sozinha em uma floresta isolada, ou dentro do deserto.
Caminhar em dupla seria melhor, porém não aconselhável, e certamente não proibido. Um
grupo de três pessoas ou mais seria o ideal e inteiramente permitido nestes casos. Esta
regra aplica-se somente para florestas cujos arredores não sejam populosos.
Hoje em dia, a maioria das florestas próximas às cidades não se encaixam nesta
classificação.

9) O judaísmo não aceita conversos.


Falso: O judaísmo aceita conversos e tem a obrigação de amá-los, respeitá-los e honrá-los.
Refere-se aqui, no entanto, a conversões sinceras, sem interesse.
Não por conveniência ou expressamente na véspera de casamentos, e sim com um tribunal
rabínico reconhecido pelo Rabinato Chefe de Israel, e com um extenso preparo anterior.
Vale ressaltar que um não-judeu não precisa se converter ao judaísmo para se conectar
com Deus. O judaísmo não é uma religião proselitista, e não busca converter ninguém.
Aquele que procura se converter, deve ser instruído a priori de que não há necessidade
alguma segundo a Torá de converter-se ao judaísmo para transformar-se em um ser
humano melhor. Se houver insistência, e prova de reais intenções, os rabinos então devem
ajudar o candidato na conversão. Um rabino que condiciona a conversão a pagamentos não
deve ser levado em conta para o processo verdadeiro, já que a conversão em si é grátis.
Seria aceitável o rabino cobrar caso o candidato deseje ter aulas particulares para aprender
e se preparar.

10) Segundo a Torá, a hipnose é um ato proibido.

Falso: É permitido realizar a hipnose, porém somente como parte de um procedimento


médico. A regressão deve ser feita apenas até alcançar imagens do inconsciente relativas à
infância, e nunca deve envolver a regressão a uma vida passada. Evidentemente,
recomendase sempre procurar um profissional sério e experiente; já que existem
determinados riscos que podem ser evitados.

11) É proibido realizar transfusão de sangue de acordo


com o judaísmo.

Falso: É 100% permitido de acordo com o judaísmo realizar a transfusão de sangue. Além
disso, qualquer procedimento necessário para salvar uma vida é permitido.

12) O divórcio é permitido pela Torá.

Verdadeiro: O divórcio é permitido.


Inclusive a Ketubá (documento assinado pelo noivo ao casar-se) traz todos os
compromissos e deveres a serem assumidos pelo noivo perante a noiva, e, para o caso de
divórcio, já inclui o valor da indenização monetária. Diz a Torá, de forma metafórica, que
Deus derrama lágrimas no momento de um divórcio. Ou seja, trata-se de um momento
triste; porém é totalmente permitido e deverá ser realizado nos casos em que ele se torna
indispensável.

13) Mau olhado tem efeito.

Verdadeiro: O Talmud explica que quando alguém cobiça aquilo que é do outro, a inveja é
lançada à vítima, através de forças invisíveis. Muitas vezes, estas forças podem fazer com
que o objeto da inveja sofra algum dano. Rezar para Deus pedindo que a inveja não lhe
afete é um remédio efetivo, já que não existe nenhuma força além da força Divina. Deus
criou o mundo estabelecendo regras para gerar uma determinada ordem. E todas essas
regras podem ser alteradas por Aquele que as gerou. No entanto, por precaução e
consciência, melhor mesmo é não ostentar, e tentar não tornar público todos os seus
louros. Por um lado, existe a ‘honra’ do reconhecimento de seus atributos e conquistas; mas
por outro aqueles que não conseguem ficar felizes com a alegria alheia irão lançar seus
maus olhares. O Talmud vai mais além e atesta que a maioria das pessoas morre antes do
tempo devido ao mau olhado. Aconselha-se comportar-se provocar o sofrimento em seus
semelhantes exibindo suas qualidades ou aquisições materiais. Também é aconselhável
ajudar o próximo e preocupar-se com seu semelhante como uma forma de proteger-se do
mau olhado, já que aquele que deseja o bem estar dos seus semelhantes também terá seu
próprio bem-estar protegido!
que todos, portanto, devem com muita modéstia, sem

14) É perfeitamente aceitável manter leis estritas de kashrut em casa, mantendo o


hábito de comer peixes que sejam kasher (mesmo que preparados em restaurantes
ou outras cozinhas não-kasher) quando se está fora de casa.

Falso: A pessoa que está em processo de teshuvá (retorno ao judaísmo) será sempre uma
exceção, já que tudo o que ela começa a cumprir faz parte de um processo a ser alterado
progressivamente, e com o tempo. Mas, uma pessoa que mantém esta prática como
princípio está totalmente equivocada. Nem todos os peixes são kasher, somente aqueles
com barbatanas e escamas. Além da seleção do próprio peixe, existe o problema da panela
na qual se está cozinhando, pois nela também cozinha-se carne não-kasher, camarão,
lagosta, frutos do mar em geral, e derivados do leite. Ou seja, os utensílios que serão
utilizados no preparo deste peixe serão completamente taref (não-kasher), o que
transforma a comida em um prato também nãokasher. Um adendo, para quem ainda não
sabe: O peixe utilizado no preparo do MacFish é um sem escamas, portanto trata-se de um
peixe que não é kasher. O MacFish tem em sua composição o peixe Hoki (cujo nome técnico
é macruronus novaezelandiae), o Blue Hake, que não é kasher. Além disto, utiliza-se
também o leite, sendo preparado em uma cozinha que frita hambúrgueres de carne.

Para a informação do leitor, aqui vão as listas dos peixes que são kasher e os que não são
kasher: (fonte Kasher Brasil)

Peixes kasher: Abrotea, anchova, arenque, atum, bacalhau, badejo, barbado, betara, bonito,
cambucú, cará, carpa, castanha, cavala, cavalinha, cherne, corimbatá, corvina, dourado,
garoupa, gordinho, haddock, lambari, linguado, mandi, manjuba, merluza, mero, namorado,
oliete, pargo, pescada (amarela, branca, do sul, inglesa, maria mole), piaú, porquinho,
robalo, salmão, salmonete, sardinha, serra, sororoca, tainha, tilápia, tortinha, traíra, trilha,
truta, entre outros.

Peixes não-kasher: Entre outros, o anjo, bagre, cação, caçonete, enguia, manchote, moreia,
peixe-espada, peixe-porco, peixe-serra, pintado, polvo, raia, viola, vongole. Todos os frutos
do mar (camarão, ostras, siri, lagosta, e outros) são proibidos. Mamíferos cetáceos como
golfinhos, botos e baleias também são proibidos.

15) Pela Torá, é proibido fazer uma plástica ou realizar qualquer operação com fins
estéticos.
Falso: É permitido, desde que não coloque em risco a vida da pessoa em questão. Como
todo procedimento operatório oferece um determinado perigo, cada caso tem diversos
aspectos, e cada um deve ser analisado separadamente.
Aconselha-se uma consulta com um rabino que seja perito em halachot (leis judaicas).

16) Os casamentos entre os religiosos são armados, e os noivos se conhecem apenas


no dia da cerimônia.

Falso: Existiu uma época (restrita a algumas linhas religiosas em pequenas comunidades)
na qual os casamentos eram pré-acertados entre os ‘chefes’ das famílias.
Porém, a lei judaica determina que os candidatos a noivo e noiva devem decidir juntos,
através de encontros e conversas, se os respectivos cônjuges em potencial parecem ser um
bom par para formar uma família. Para que o casamento aconteça, há uma determinação
bem clara de que deve haver também necessariamente uma atração física, caso contrário
não seria recomendável casar com esta pessoa.

O ‘casamento arranjado’ não perm ite com que se avaliem estas condições, portanto não
deve ser realizado.

17) Posso não ser religioso, e mesmo assim cumprir os Dez


Mandamentos.

Falso e Verdadeiro: Mesmo aquele que se define como religioso terá suas dificuldades em
cumprir com os Dez Mandamentos à risca. Pode ser que um ou outro consiga, porém em
geral é muito difícil. Poucos de nós sabemos realmente quais são os Dez Mandamentos.
Entre eles está: Cumprir Shabat (à risca); não cometer adultério; não cobiçar a mulher do
outro, nem desejar um bem material do próximo; respeitar os pais ao extremo.
Quanto aos outros— não roubar, não matar, não idolatrar — a maioria cumpre, em linhas
gerais. Mas, ao pé da letra, ‘não roubar’ inclui também: não roubar a intimidade do outro;
não espiar para dentro das casas alheias ao passar pela janela; não ler cartas que não lhe
foram endereçadas; não bisbilhotar as minúcias da vida alheia; não perturbar o sono do
próximo; e por aí vai. E ‘não matar’ inclui: Não envergonhar alguém em público; não
difamar, já que com isso estará ‘matando’ a reputação da outra pessoa, exterminando sua
persona pública.

18) Um judeu que trabalha com joias não deve vender a mercadoria a um cliente que
notoriamente as utilizará para adornar um objeto ligado à idolatria.

Verdadeiro: É proibido vender ou extrair benefício de qualquer transação comercial cujo


produto será utilizado para praticar idolatria. Há uma famosa história na qual um grande
rabino, que já não podia ter filhos, começou também a passar por dificuldades financeiras.
Após muitas rezas, encontrou uma pedra preciosa de tamanho bem grande. Ao tomar
conhecimento do fato, o rei anunciou que compraria a pedra por um valor alto. Ao saber
que a intenção do rei era cravá-la no olho de uma estátua, o rabino recusou-se a vendê-la. O
Rei dobrou, e depois triplicou sua oferta — sem êxito. Ao ser ameaçado de morte, o rabino
declarou que aceitaria realizar a transação em alto-mar, dentro de um barco. Negociou
então uma determinada soma de dinheiro, e ao tomar a pedra em suas mãos para mostrar
ao enviado do rei, forjou um tropeço, lançando a pedra ao mar. Ali terminava sua chance de
alcançar a tão sonhada tranquilidade financeira. Nesta mesma noite, ele teve um sonho.
Fora revelado a ele que, pelo mérito de haver decidido abrir mão de uma pedra preciosa
para cumprir com tanto afinco um mandamento da Torá, receberia sua recompensa com
um diamante de outra forma. Seria concebido através dele e de sua esposa um grande gênio
da Torá, que brilharia muito mais que esta pedra, e para toda a eternidade. Um ano depois,
nasce Rashi— o comentarista mais importante da Torá e do Talmud até os dias de hoje.

19) A cremação é permitida pelo judaísmo.

Falso: São dois os pontos a serem analisados: a cremação e o enterro. Vamos tratar antes do
enterro e depois falaremos sobre a cremação em si.
A obrigação de enterrar o morto aprendemos do verso: ‘Se um homem cometer uma
infração e for condenado à morte, você deve enterrá-lo no mesmo dia.’ (Deut. 21:23)
O famoso verso ‘do pó veio e ao pó retornará’ (Gen. 3:19), traz a implicação de que deve
existir o contato entre o corpo e a terra. Aprendemos que no momento da morte, a alma
não pode partir totalmente até que o corpo esteja totalmente desintegrado.
No entanto, uma separação imediata pode causar à alma uma grande agonia. O ritual do
enterro faz com que o corpo passe por este processo gradualmente, e tudo o que é
realizado é voltado ao indivíduo que faleceu. O enterro não é para o benefício dos vivos e
sim para o benefício da alma do falecido.
Todos os patriarcas foram enterrados, e não cremados, conforme pode ser observado em
diversas passagens do livro de Gênesis. Algumas das referências bíblicas: ‘E os filhos de
Isaac enterraram seu pai’ (Gen. 35:29). ‘(...) Abrahão enterrou Sarah.’ (Gen. 23:19) Até
mesmo Joseph que morreu no Egito fez questão que seus descendentes garantissem que
seus ossos fossem levados para Israel para que lá fossem enterrados novamente. (Gen.
50:25) Existem outras inúmeras referências a respeito deste tema, desde o
Talmud até as obras de sábios mais recentes. Para o judaísmo cremar um corpo é
explicitamente proibido, além de constituir uma transgressão comparável a uma desgraça.
Em Amos 2:1 (do Tanach) Deus afirma: ‘Não removerei a punição ao povo de Moav porque
eles queimaram osossos do Rei de Edom.’ O Talmud diz: ‘Tudo que exige um enterro
(Rashi: inclui o corpo em si) não pode ser queimado.

20) No Shabat, utilizar o timer para programar o acendimento e apagamento da luz,


para deixar o fogão ligado, e outros, é uma forma de dar um ‘jeitinho’ e burlar a
religião.

Falso: Um olhar superficial dá margem de fato a essa interpretação. Aquele que ainda não
teve a oportunidade de dedicar um tempo para estudar mais a fundo as leis do judaísmo
tem a impressão de tratar-sede um ‘cambalacho’. Tracemos aqui, porém, um paralelo
(guardando as devidas proporções) com um paciente que recebe uma prescrição médica.
Nós, leigos, muitas vezes não conseguimos entender o que motiva certas determinações
médicas, já que não possuímos suficiente embasamento teórico para julgar cada caso. Nas
decisões em relação às leis judaicas o mesmo acontece. O Talmud é um compêndio bastante
extenso de leis da Torá, constituído de inúmeras deliberações rabínicas e conclusões
diversas a respeito de casos narrados em detalhes. Somente um exímio estudioso do
Talmud (o chamado talmid chacham) tem as ferramentas necessárias para aplicar estas
conclusões aos dias de hoje (não reformá-las e sim adaptá-las com fundamento). O
processo de acender uma luz equivale ao processo de acender uma chama. Portanto, a lei
relativa ao acendimento de luz elétrica é extraída das leis sobre o fogo que constam do
Talmud. Quando se deixa o timer programado antes do Shabat, durante o Shabat nenhuma
‘criação’ está sendo realizada, já que a programação foi feita antes. Não cabe explicar aqui
em detalhes as deliberações relativas a essa lei específica, porém deixemos claro que há
discussões bem densas e complexas que levam à determinação final; e não um mero
‘jeitinho.’

21) Ir à praia, aproveitar o sol, entrar no mar, e ter contato com a natureza são
considerados perda de tempo, e deve-se evitálos.

Falso: Alguns rabinos da época do Talmud tinham o costume, todas as sextas-feiras antes
do Shabat, de submergir nas águas termais de Tibérias com o fim de banhar-se, de relaxar,
e preparar-se fisicamente para o dia santo. Um dos grandes rabinos de Israel, recém-
falecido com mais de 100 anos de idade, e que tive a honra de conhecer pessoalmente,
pedia regularmente a seus ajudantes que o levassem até uma praia deserta, para que
pudesse tomar um banho de mar, e aproveitar os efeitos benéficos do sol.
A troca realizada com os elementos da natureza é vital para o bem estar.

22) Melhor ir à sinagoga de carro no Shabat do que rezar em casa sem participar do
ritual oficial.

Falso: Não se aplicaria a um caso de alguém que vai à sinagoga de carro como parte de um
processo de teshuvá (retorno às raízes), tendo em mente um dia deixar de fazê-lo.
Considerar, no entanto, que esta possibilidade seja primordial seria um equívoco.
Não existe mitzvá em ir para a sinagoga de carro em Shabat. Seria contrário à Torá fazer
disto uma rotina, ou transformar este hábito em uma tradição, e nesse caso é bem melhor
ficar em casa. Se o indivíduo mora longe da sinagoga, a uma distância ‘não-caminhável,’ é
preferível que reze em casa, sem nenhum problema.

23) Subir escadas e andar um quilômetro até a sinagoga é mais trabalhoso que andar
de carro e usar o elevador (que no Shabat não é permitido). Se o Shabat é feito para
descansar, não haveria problema em dirigir o carro até a sinagoga ou utilizar o
elevador para chegar em casa.

Falso: O que a Torá chama de descanso não é exatamente o que nós conhecemos por
‘descanso.’ As leis referentes ao cumprimento do Shabat permitem organizar todas as
cadeiras da sala para receber os convidados, mesmo que elas sejam pesadas, e por outro
lado é proibido carregar até mesmo uma agulha para o lado de fora de um ambiente
fechado (em locais onde não há eruv— espaço delimitado nas ruas por um marcador físico
caracterizando um espaço cercado). O que o judaísmo proíbe no Shabat é o ato de criar.
‘Não criar nada novo’ seria uma definição aproximada para o descanso espiritual do Shabat.
Costuma-se comer três refeições, ir para a sinagoga e descansar durante a tarde. O Shabat
proporciona um momento para a introspecção, para o estudo e a leitura. É uma alteração
na rotina que acaba se transformando em um descanso espiritual, físico e mental, uma
pausa nos assuntos mundanos para dar lugar a momentos em família.

24) Ensinar o seu fi lho desde cedo a rezar, a fazer as brachot para comer, ensiná-lo a
cumprir tudo desde cedo, é uma forma de manipulação e programação
comportamental, privando a criança de critérios para uma escolha equilibrada ao
crescer.

Falso: Todos os pais devem educar seus filhos de acordo com sua fé e tradição. A criança
sempre terá acesso ao mundo, através da internet, vizinhos, familiares, faculdade, entre
outros. A sociedade nos nossos tempos não permite, mesmo que se queira, um
encerramento em uma ‘bolha.’ A maturidade sempre permitirá o questionamento, e os
filhos podem eventualmente questionar a forma de vida dos pais. Assim como muitos filhos
de ‘hippies’ dos anos70 são hoje ‘caretões,’ às vezes filhos de empresários viram rabinos, e
filhos de rabinos viram empresários.
O mundo globalizado permite o acesso a tudo, ou seja, a criança, de qualquer maneira, irá
pesquisar e tentar traçar seu próprio rumo. Assim, é dever dos pais educar seus filhos de
uma forma coerente com a que se vive, transmitindo de forma verdadeira, amorosa e
concreta suas convicções, transmitindo até mesmo o valor do questionamento, estimulando
o enfoque inteligente, crítico e responsável dentro da religião. Com uma base sólida e com
as ferramentas necessárias, aí sim os critérios para escolha serão equilibrados.

25) É hipócrita aquele que, durante toda a sua vida, tenha se assimilado e tenha
vivido de forma totalmente laica, negando a existência de Deus, e ao descobrir uma
doença fatal— e ao saber que tem seus dias contados — ‘retorne a Deus’ e se torne
totalmente religioso.

Falso: Uma decisão como esta seria tomada com base no medo da morte, para isentar-se de
culpa, baseado na suspeita de que Deus talvez exista e que talvez a Torá seja divina. Este
‘retorno’ é perfeitamente válido, caso seja um ato sincero, e que a decisão seja definitiva no
momento em que seja tomada. A Torá afirma que o retorno ao judaísmo, mesmo que
aconteça apenas durante o último minuto antes da morte, é uma aproximação de Deus
totalmente legítima. É claro que restarão contas a serem prestadas, que podem gerar a
necessidade de novas reencarnações, mas esse último sopro eleva bastante a condição da
alma na pós-vida. Este indivíduo será considerado um baal teshuvá. Um jovem de 22 anos,
que está na flor da idade, em ‘plena forma,’ e que decide inclinar-se para um modo de vida
mais espiritualizado, tem um mérito também muito grande, possivelmente até superior, a
julgar pela maturidade de suas decisões, e o sacrifício realizado em tão tenra idade. Por
outro lado, a Torá também afirma que aquele que viveu como um religioso durante toda
sua vida, e que renega a Torá até mesmo um minuto antes de morrer, sofrerá as
consequências inversamente.
26) Religiosos fazem contrabando e cometem centenas de
barbaridades.

Falso: O indivíduo que comete tamanha atrocidade não pode se considerar uma pessoa
religiosa. O próprio termo preconiza o cumprimento com os preceitos básicos morais e
éticos, tais como: como não roubar, não matar, não contrabandear (cumprir a lei do país).
Logo, se o ‘pseudorreligioso’ atua de forma equivocada, não se deve apontar o dedo para a
religião, e sim para a pessoa que decide cumprir alguns mandamentos e deixar alguns
outros de lado. Entretanto, aquele que se define como religioso, vestindo-se e
identificando-se como tal, ao cometer um erro sofrerá consequências muito mais graves do
que um não-religioso. A Torá chama este ato de chillul Hashem, difamação do nome de
Deus. A sociedade tem, naturalmente, expectativas bem altas em relação um religioso, já
que este decidiu carregar a bandeira da moral e dos princípios. Determinados
comportamentos incorretos darão margem a comentários do tipo ‘veja só, estes religiosos…
prefiro não cumprir nada a ser igual a estes hipócritas!’ Ou seja, aquele que decide colocar
kipá (solidéu) na cabeça deve estar consciente de que sua individualidade estará
totalmente subjugada ao fato de ele ter se tornado um representante oficial da coletividade.

27) Segundo a Torá, é importante afastar-se do materialismo como uma forma de


aproximar-se de Deus.

Falso: Ao realizar o Kidush (a reza na qual se utiliza uma taça de vinho ou suco de uva) toda
sexta-feira no jantar de Shabat, ergue-se com a palma da mão uma taça que contém uma
substância que tem o poder de embebedar. Aprende-se daqui uma lição - é possível elevar o
mundano utilizando-se do próprio objeto de desejo. Enquanto toda a materialidade estiver
sob controle, na palma das mãos, é possível dosá-la, e controlar a medida de sua influência.
De fato, ser escravo da matéria - do dinheiro, do julgamento alheio, de marcas, de rótulos
da sociedade é prejudicial à integridade do espírito, e afasta o indivíduo de sua meta
espiritual. Por outro lado, a fim de alcançar o equilíbrio e a plenitude física e espiritual, é
crucial saber utilizar este veículo - saber usufruir da matéria moldando-a de forma a
alcançar metas nobres; como por exemplo, o sustento, a saúde, o amor, a caridade, e muitos
outros valores fundamentais.

28) Segundo a Torá, para evitar a atração e a sensualidade, a mulher judia deve
abdicar do cuidado com a beleza.

Falso: A mulher tem a obrigação de cuidar-se, e deve preocupar-se em ser bonita e


apresentável. No entanto, existe uma linha a ser traçada entre a beleza e a sensualidade
vulgar. A beleza deve ser traduzida em cuidados com o corpo e com a mente. A
sensualidade deve ser direcionada exclusivamente para o casal. Sem perceber, aceitamos
verbal. A linguagem interpessoais, e leva muitas vezes mulheres e meninas adolescentes a
comportarem-se como objetos de desejo. Quem não se lembra da material girl? São
parâmetros que guiam o comportamento em sociedade, e que de fato entram em choque
com os valores que a Torá deseja preservar. Resumindo: abdicar do cuidado com a beleza é
proibido, mas dosar e direcionar a sensualidade nos meios sociais e profissionais, e dentro
do relacionamento do casal é necessário.
certas formas de linguagem nãosedução tornou-se parte de uma

subliminar nos relacionamentos


29) O suicida não pode ser enterrado na área comum de
um cemitério judaico.

Verdadeiro e falso: Aquele que comete suicídio deve ser enterrado em uma área especial do
cemitério. No caso de suicídio, o shivá, os 7 dias de luto, não devem ser observados pelos
familiares, a roupa não deve ser rasgada. Porém, em casos de suicídio devido a condições
emocionais ou físicas extremas— tais como depressão profunda, abuso de drogas, estado
de doença terminal e outros — parte-se do pressuposto que o indivíduo estava impedido
de utilizar de um julgamento pleno ao tomar a decisão de terminar sua vida. É muito
importante frisar que cada caso deve ser devidamente analisado por uma autoridade
rabínica. Caso
processo de
seja considerado inocente, o

luto deve ser cumprido normalmente, e o suicida pode ser enterrado na área comum do
cemitério.

30) Um judeu que foi enterrado em um cemitério não-judaico deve ser relocado para
um cemitério judaico.

Verdadeiro: Infelizmente, muitos judeus que se encontravam casados com não-judeus ao


falecer terminam sendo enterrados em cemitérios nãojudaicos com cerimônias realizadas
por líderes de outras religiões, e às vezes têm até seus caixões adornados com símbolos de
religiões alheias. Há alguns anos, um artista famoso do Rio de Janeiro, por exemplo, foi
enterrado em um cemitério cristão, com cerimônia nãojudaica. Evidentemente, guardamos
todo o respeito às outras religiões, e seus rituais relativos à morte. No entanto, no que se
refere a um judeu, sabemos que este deve ser enterrado de acordo com as tradições da
Torá. No caso deste artista, ou de outros judeus enterrados em cemitérios não-judaicos,
caso as famílias estivessem interessadas, deveriam procurar o Chevra Kadisha para relocar
seus restos mortais para um cemitério judaico. A Torá nos ensina que, independentemente
da quantidade de anos que tenham se passado desde a data da morte, transferir o que
restou, quando possível, ajudará a trazer paz à alma do falecido.
Quem estiver interessado em saber mais detalhes pode entrar em contato com o Chevra
Kadisha de São Paulo ou do Rio de Janeiro para obter maiores informações a respeito do
seu caso em especial.
A comunidade de Manaus fez um levantamento destes casos na comunidade local, para
tentar entrar em contato com os familiares e transferir os restos mortais dos judeus
enterrados em outros cemitérios para o cemitério judaico.

31) O judaísmo aceita casamento homossexual e inclusive vemos rabinos realizando


cerimônias entre pessoas do mesmo sexo.
Falso: O judaísmo não aceita o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Rabinos que
realizam este tipo de cerimônia são em geral rabinos que pertencem a linhas muito
específicas, que contradizem a Torá e fazem uma distorção manipulativa das leis originais.
Um casal homossexual, segundo a Torá, não se caracteriza como tal. A definição de ‘casal’
está ligada à noção de complemento; e as essências feminina e masculina são diferentes, e
através do convívio e da troca, ambas as partes podem atingir seu potencial máximo de
auto aprimoramento.
Não se refere aqui à atração sexual propriamente dita, já que esta pode acontecer de
diversas formas, e no momento em que surge ainda não passou por nenhum filtro moral ou
psicológico. É importante respeitar socialmente, não ofender e conviver com os
homossexuais, porém o judaísmo não avaliza a formação deste tipo de matrimônio.

32) Muitos judeus estão se tornando mais religiosos nestas últimas duas décadas.
Isso é fruto de muita ‘lavagem cerebral.’

Falso: O processo de retorno ao judaísmo em grande número vem acontecendo


principalmente desde o começo da década de 90, com a abertura de centros de estudos
judaicos em Israel e no resto do mundo, como Aish Hatorá, Ohr Sameach. O mundo
globalizado, o avanço da tecnologia, a facilidade de fazer circular a informação e a
popularização da comunicação são todos benefícios dos nossos tempos.
Porém, o estilo de vida acelerado pode levar ao esvaziamento do lado espiritual. E por
vezes faz-se necessário exercitar a reflexão, a introspecção, ao buscar entender o que nos
faz tomar determinadas decisões em nossas vidas. Os estudos aprofundados do judaísmo,
do Talmud e da mística judaica apareceram recentemente como tendência. O judaísmo, que
vinha sendo relegado à condição de ‘religião tradicionalista,’ passou a ser veiculado de
forma diferente pelos próprios meios de comunicação modernos; e percebeu-se que se
trata de um legado gigantesco de sabedoria que pode ser acessada de forma questionadora,
inteligente, revolucionária e atual. A maneira correta de aproximar-se é voluntária e deve
ser a mais honesta possível. A pressão, a coerção e o extremismo são armas manipulativas
do caráter humano, que eventualmente podem acontecer em qualquer meio. De fato,
existem indivíduos que estão envolvidos com a disseminação de valores judaicos cuja
conduta não está afinada com a essência daquilo que a própria Torá determina. É
fundamental frisar que estes indivíduos não são porta-vozes de toda uma geração. A força
da nossa sabedoria milenar é inquestionável e transcende a qualquer rótulo. E isso é o que
se vê nos dias de hoje.

33) O Judaísmo rechaça casamentos mistos por se


considerar uma religião superior.

Falso: O judaísmo é de fato contrário à assimilação e prega o casamento somente entre os


seus. No entanto, a regra em questão nada tem a ver com um conceito de superioridade. Ela
existe com o intuito de garantir a continuidade do nosso povo e das próximas gerações, já
que temos enfrentado duros desafios à nossa subsistência ao longo dos anos. O casal que
pode dividir os mesmos costumes, metas espirituais afinadas e objetivos em comum tem
maior chance de sucesso a longo prazo. O judaísmo é tão contrário ao mito difundido que
seríamos superiores que aqueles que desejam converter-se são inicialmente
desencorajados a fazê-lo, já que se acredita que um não-judeu também pode conectar-se
com Deus e crescer espiritualmente, a sua maneira. O problema só existe quando o não-
judeu deseja casar-se com um judeu. A Torá proíbe a conversão feita por conveniência, por
interesse, a toque de caixa, facilitando o casamento. Evidente que a conversão é aceita e
bem-vinda quando existe uma busca sincera.

34) Aqueles que cumprem a Torá devem rezar o dia inteiro, e é isso que fazem os
judeus religiosos nas yeshivot (casas de estudo).

Falso: Pelo judaísmo existem três rezas diárias: uma reza mais longa de manhã, que dura
em torno de 30 minutos, e mais duas— uma no final da tarde e uma à noite, que duram dez
minutos cada uma. Ou seja, das 24 horas do dia, apenas uma hora é dedicada a rezas.
No Shabat e festividades judaicas as rezas são um pouco mais longas. Aqueles que estudam
nas yeshivot, mesmo aqueles que parecem estar rezando, na verdade estão em sua maioria
estudando o Talmud (o sistema de leis). Cabe a cada um julgar quanto pode, quer ou
consegue estudar. Aquele que passa o dia inteiro estudando, é porque tem interesse em
aprofundar-se no estudo e conhecer mais aspectos e detalhes dentro da extensa
bibliografia existente. De acordo com a Torá, existe uma obrigação relativa ao estudo
diário. Cada indivíduo personaliza essa escolha de acordo com sua disponibilidade de
tempo, sua disposição e seu interesse.
Em relação a outras rezas: existem as brachot, que são as palavras de agradecimento
pronunciadas antes de ingerir qualquer alimento ou bebida (cada uma dura apenas cinco
segundos) que funcionam como um alerta e um lembrete a cada momento, gerando mais
consciência e gratidão a Deus por tudo o que temos.

35) Para que o alimento seja kasher, o rabino deve rezar e praticar rituais para
‘benzer’ os alimentos.

Falso: Para que um produto possa ser considerado kasher devem ser conferidos e
inspecionados os ingredientes utilizados em sua fabricação, verificando se há algum
componente proibido de acordo com as leis alimentares judaicas. No caso do abate, ele
deve ser feito de acordo com as normas. Não é necessário virar o rosto do animal para
Jerusalém e nem fazer benção para que o produto se torne kasher.

36) Alguns religiosos fumam, outros são extremamente obesos. Parece às vezes
Judaísmo dá muito mais ênfase ao aprimoramento espiritual e não à preservação do
bom aspecto físico.

Falso: Existe uma proibição rabínica em relação a qualquer coisa que faça mal para a saúde
do corpo— o cigarro e a comida em excesso estão incluídos.

Comer 5kg de carne kasher no churrasco acompanhados por 1 litro de vodca casher não
seria exatamente uma mitsvá — muito pelo contrário. É fundamental cuidar do corpo, fazer
ginástica, cuidar da saúde. É um dos mandamentos da Torá. O religioso que não cumpre
estes preceitos está cometendo um erro, sendo ele próprio responsável pelas
consequências.

38) Quem tem tatuagem não pode ser enterrado em


cemitério judaico.

Falso: Esse comentário já foi erroneamente difundido diversas vezes, e é absolutamente


infundado.
Busquemos entender a origem do boato: A Torá não permite a tatuagem. Porém, nos dias
de hoje, muitos são baalei Teshuvá, ou seja, pessoas que se tornaram religiosas quando
adolescentes ou já em idade adulta. Aquele que já tinha tatuagens realizadas antes não tem
obrigação de remover a tatuagem, só não devem seguir tatuando-se. A realidade é que ter
ou não tatuagem não impede ninguém de executar nenhuma tarefa em vida, e muito menos
de ser enterrado após a morte em um cemitério judaico.

37) É proibido ter animal de estimação e a Torá não dá


importância aos animais.

Falso: Grandes sábios e líderes judeus da antiguidade foram escolhidos por Deus para
desempenhar tais papéis na sociedade segundo seus tratos com os animais.
Aquele que se preocupa em fazer bem a um animal também seguirá a mesma tendência no
trato com os homens. Existe até mesmo uma proibição denominada tzar baalei chaim, que
determina que é proibido causar sofrimento gratuito a qualquer animal.
Quando nos sentamos para comer, devemos alimentar primeiro os animais domésticos,
antes mesmo de começarmos a comer.

39) No judaísmo está claro que a pessoa deve morrer para não deixar de cumprir um
mandamento da Torá.

Falso e verdadeiro: Segundo o judaísmo a vida está acima de tudo.


Se um médico receita gordura de porco para sobreviver, até mesmo em Yom Kipur, no dia
do jejum, é permitido comer, se for necessário para salvar uma vida. Ir para o hospital de
carro no Shabat, acender a luz ou cozinhar, ou qualquer outra ação que normalmente não
se faria no Shabat, são permitidas, e devem ser realizadas, para salvar uma vida. Porém esta
regra tem três exceções. Somos obrigados a colocar a vida em risco para não transgredir os
seguintes preceitos:
a) Idolatria - se somos colocados à prova quanto a praticar a idolatria, mesmo que
ameaçados de morte não podemos fazer idolatria.
b) Relações ilícitas: se formos ameaçados e obrigados a levar a cabo uma relação proibida,
como por exemplo, com um familiar direto, não devemos fazê-lo em nenhuma hipótese. c)
Se nos for dada a opção de matar alguém ou ser morto, somos obrigados a morrer. Em
todos os outros casos que não se encaixam nestas três classificações, somos obrigados a
fazer tudo o que for necessário para salvar uma vida.

40) O judaísmo não preconiza o conceito de vida após a morte e não considera viável
a reencarnação.
Falso: A base do judaísmo e da prática da Torá gira em torno da noção de continuidade
espiritual em uma outra dimensão. Segundo a Torá, em inúmeras fontes, Deus decide
quantas chances, e quantas reencarnações, cada pessoa terá para completar sua meta.
Neste mundo tudo permanece oculto— aquele que faz uma mitzvá (cumpre um ato
positivo), ou uma averá (uma transgressão) permanece idêntico na superfície; não é
possível distinguir pela face quem é um assassino e quem é um benfeitor.
A própria palavra em Hebraico para ‘mundo,’ olam, vem da raiz neelam, que significa
oculto.

41) Comida kasher é mais cara do que comida não-kasher.

Falso e Verdadeiro: Hoje em dia estão disponíveis milhares de produtos verificados por
rabinos— eles visitam as fábricas e revisam os ingredientes.
Utilizando listas, é possível encontrá-los em qualquer supermercado do Brasil sem
nenhuma diferença de preço. Existem websites (www.bdk.com.br; www.lkp.com.br;
www.bka.com.br) nos quais se encontram estas listas de produtos. As carnes kasher ainda
são mais caras do que as não-kasher, e este custo adicional deve-se ao método utilizado no
abate do animal. De acordo com os preceitos da Torá, o animal não pode ser submetido a
nenhum tipo de sofrimento, e deve-se realizar uma checagem completa dos órgãos internos
após o abate a fim de determinar se o animal está kasher para o consumo. Além disso, nem
todas as partes podem ser consumidas, e a carne que é selecionada para ser consumida
deve ter parte do sangue devidamente extraído. Toda essa operação encarece um pouco o
produto, mas aquele que consome carne casher pode ter certeza de que está comprando
uma carne mais saudável, além de estar cumprindo um preceito da Torá. Comer alimentos
kasher pode ser bom para a alma e bom para o corpo.

42) As mulheres menstruadas são consideradas impuras pelo judaísmo, e por esta
razão a mulher fica proibida de tocar no marido e tocar em outros homens.

Falso: Antes da chegada do período menstrual, existe um óvulo não-fecundado e um


potencial de gerar uma vida. Ao iniciar-se a menstruação, finaliza-se um ciclo no qual o
potencial de vida não foi concretizado.
Segundo o judaísmo, existe uma energia espiritual diferente que se associa à mulher e que
não permite a relação sexual com seu marido (a lei rabínica estende a proibição para o
toque para prevenir que se chegue ao ato). A mulher é normalmente o receptáculo, e o
homem o seu complemento; e durante esse período ela se transforma, em sua fisiologia (o
pH muda) e campo energético. A mulher pode tocar seus filhos, netos, pais e avós, sem
problema algum. Do ponto de vista do período menstrual, a mulher também não está
proibida neste período especificamente de tocar em outros familiares. O ciclo menstrual e
suas ramificações são assuntos pertinentes a ela e a seu marido, e este período dura até que
a menstruação termine e se conte mais sete dias sem nenhum vestígio de sangramento.
Após esta contagem, a mulher vai para o mikve banho ritual - e já pode ter contato físico
com o marido. A ciência hoje comprova que durante a menstruação a proteção natural da
mulher contra infecções
facilitando a
diminui —o
proliferação
pH se altera,

de células contaminadas. O pH volta ao seu equilíbrio natural dentro de exatos sete dias
depois de cessada a menstruação. A restrição da atividade sexual durante este espaço de
tempo reduz comprovadamente o índice de câncer de colo de útero. Foram realizados
diversos estudos comparativos em comunidades onde a prática de abstinência durante o
período menstrual era vigente, e foram publicados inúmeros artigos científicos em obras
de prestígio a respeito deste assunto. Existem também interpretações místicas mais
extensas, que podem ser exploradas por quem tiver interesse em conhecer.

43) As mulheres são consideradas inferiores. A prova disto, entre outras coisas, é
que não precisam colocar tefilin e nem talit, e não são levadas em conta para formar
um minyan.

Falso: A mulher no judaísmo é vista como um ser com mais elevação espiritual; o Talmud
diz que a mulher tem um sexto sentido, um ‘olho espiritual’ capaz de entender e sentir as
pessoas. Também diz que uma boa mulher tem o poder de transformar um mau marido em
uma pessoa boa, ao passo que uma má mulher será capaz de transformar um bom marido
em uma pessoa má através do convívio. A mulher não precisa rezar em um minyan
(quórum de dez pessoas necessárias para formar um grupo de rezas) e nem colocar tefilin
ou talit, já que essas obrigações ‘extras’ fazem com que o homem alcance uma conexão
maior com Deus, enquanto as mulheres já têm esta conexão mais forte involuntariamente.
A Torá também isenta a mulher de praticamente todos os mandamentos ligados à
temporalidade, já que ela não necessita estar limitada, e naturalmente necessita mais
flexibilidade para estar com os filhos, trabalhar, ser o centro da família e do lar. Sua
conexão transcende ao tempo e espaço. Mais um ponto que precisa ficar claro: A mulher é
quem determina se os filhos serão judeus ou não, já que segundo as leis judaicas filho de
mãe judia é judeu; ou seja, a base para a continuidade do judaísmo está totalmente
centrada na figura feminina.

44) O judaísmo é contra o aborto.

Verdade: Definitivamente, o judaísmo não permite o aborto. De acordo com a Torá, dentro
do ventre materno já existe uma alma divina, um ser humano cuja vida não pode ser
interrompida desnecessariamente. A única exceção é o caso em que pode ser comprovado
que o bebê colocaria em risco a vida da mãe. Neste caso sim, é permitido fazer o aborto. No
decorrer das fases preparatórias de um parto de risco— durante as contrações e a
dilatação cervical— se existe a necessidade de optar entre preservar a vida do bebê ou da
mãe, a vida da mãe prevalece, e o feto é abortado. No entanto, quando a cabeça do bebê já
pode ser vista e ele já está saindo do corpo da mãe, a vida de ambos já tem o mesmo valor, e
já não se pode mais sacrificar o bebê para salvar a mãe.
Existe uma entidade em Israel que dá apoio a mães despreparadas que desejam abortar,
convencendo-as a não fazê-lo. Essa organização (http://www.efrat.org.il/en/) oferece às
mães inclusive a opção de dar à luz, précondicionando o bebê à adoção imediatamente após
o nascimento. O dado curioso neste caso é que em 99% dos casos as mães reivindicam a
maternidade de seus bebês ao ver pela primeira vez o rostinho de seus filhos.

45) Os judeus religiosos têm relação sexual através de um lençol com um furo no
meio (assim pelo menos o guia turístico nos explicou quando fomos conhecer o
bairro de MeaShearim em Israel).

Falso: De acordo com a lei judaica, o ato sexual entre o marido e sua esposa deve ser
realizado sem nenhuma separação entre os dois.
Origem do boato: Os tzitziot— aquela roupa que os judeus religiosos usam embaixo da
camisa com fios, que em alguns casos, dependendo da massa corporal do sujeito, pode ser
muito grande. Este sim, tem um furo no meio para poder ser vestido. De longe, e
dependurado no varal, pode parecer um lençol com um furo no meio.

46) A Torá é contra a doação de órgãos.

Falso: A Torá é a favor, porém existem certos requisitos.


Segundo as leis da Torá, a morte só acontece de fato após a morte cardíaca e cerebral. Se o
coração ainda bate, apesar de constatada a morte cerebral, o paciente não é considerado
morto, e não é permitida a remoção de órgãos para doação. Apenas nos casos em que não
se tem certeza de que os médicos seguiriam estas determinações, a doação de órgãos é de
fato proibida.

47) Os religiosos não podem evitar filhos e a relação tem caráter estritamente
reprodutório.

Falso: A relação sexual, segundo as leis judaicas, tem uma finalidade muito maior do que a
mera reprodução da espécie. A união física entre marido e mulher representa uma conexão
espiritual e emocional, cuja função é unir o casal. A prova disto é que é permitido— e
recomendável — ter relações inclusive durante a gravidez. Quanto a evitar filhos, permite-
se em casos de necessidade emocional, física e até mesmo financeira, dependendo da
análise específica da situação que cada casal se encontra.

48) Os ultraortodoxos são a favor da Liga Árabe Antissionista e se encontraram com


Mahmoud Ahmadinejad em Teerã e têm até representação política dentro da
Palestina.

Falso: Este grupo que visitou o Ahmadinejad e tem representação na Palestina é composto
por menos de 300 pessoas. São judeus que se auto definem como ultraortodoxos, vestem-
se desta forma, porém agem completamente em desacordo com os preceitos da Torá. São
considerados pelo judaísmo como Existe um estatuto no Judaísmo herem, no qual o
tribunal rabínico proíbe que a comunidade cumprimente determinadas pessoas e proíbe
que os aceitem em um minyan, considerandolhes totalmente excluídos do povo. Este grupo
a que nos referimos recebeu um herem de toda a comunidade judaica, religiosa e
ultraortodoxa. Eles não são aceitos nas sinagogas, e ninguém dirige a palavra a eles.
traidores. chamado São considerados traidores. O fato de vestirem a tradicional veste
chassídica transforma os outros 500.000 chassídicos existentes no mundo em vítimas, que
recebem má fama devido a um pequeno grupo de 300 pessoas que faz questão de aparecer
com destaque na mídia. Esta atitude causa repugna e revolta em todos os judeus ortodoxos
no mundo inteiro.

49) É obrigatório o uso de barba, peiot (aqueles rolinhos atrás da orelha), roupa
preta e branca e chapéu para se considerar um judeu observante.

Falso: De acordo com a Torá, existe de fato a proibição de fazer a barba com lâminas de
barbear, sendo necessário utilizar o aparelho elétrico, e a costeleta deve ser deixada até
mais ou menos o nível da parte inferior da orelha (no ‘estilo David Beckham’).
Deixar a barba e os peiot longos são costumes que têm seus fundamentos místicos, mas
que não constituem por si só uma lei judaica. Não é uma obrigação do judeu ortodoxo
deixar crescer a barba nem deixar de aparar (com a tesoura) os cabelos na região da
costeleta. Em relação à roupa preta e branca e ao chapéu: a única obrigação deve ser a de
usar uma roupa modesta e bem apresentável. Se a pessoa deseja usar uma roupa preta e
branca para identificar-se como parte de um grupo e compartilhar de sua ideologia; ou se,
para sentir que pertence e comportar-se de acordo com os códigos de determinados
grupos, essa pessoa deseje usar uma kipá preta de veludo ou um chapéu, essa kipá poderia
também ser branca, poderia ser bordada, ou preta de couro, e o chapéu poderia ser um
chapéu panamá. Se o estilo da vestimenta levará o indivíduo a aprimorar sua forma de
estudar e rezar, é válido.
Porém o estilo em si não constitui nenhuma lei e nenhuma obrigação.
Resumindo, aos judeus: os mitos nem sempre vêm de fora de nosso povo. Muitos deles são
gerados pela nossa falta de conhecimento em relação a nós mesmos.
Assim, da próxima vez que se deparar com algum destes mitos, não tenha medo de
perguntar ao seu amigo ou vizinho religioso, para verificar na realidade se não se tratava
mesmo de um boato.