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Jacques Ribemboim

Nordeste
Independente

Recife - 2002
Ao mulato Agostinho Vieira,
Homem simples,
Prisioneiro que se recusou a enforcar o Frei Caneca,
Nem sob promessas de soltura,
Nem sob coronhadas nas costas.

E a todos os nordestinos que se dedicaram à Luz.


SUMÁRIO

Notas Introdutórias..................................................................................................................................... 3
Capítulo 1: A tese do separatismo do Nordeste ........................................................................................ 5
O cerne da ideia separatista....................................................................................................................... 5
Os argumentos da separação ..................................................................................................................... 5
Política tributária..................................................................................................................................... 18
Conclusões .............................................................................................................................................. 24
Capítulo 2: Neocolonialismo interno e relação de dependência............................................................ 25
Origens do neocolonialismo sudestino ................................................................................................... 25
Acumulação cafeeira ............................................................................................................................... 25
Indústria e protecionismo ........................................................................................................................ 31
Colonialismo, neocolonialismo e neocolonialismo interno .................................................................... 34
Desigualdades regionais.......................................................................................................................... 36
Políticas regionais compensatórias ......................................................................................................... 43
Capítulo 3: História do separatismo no Brasil ....................................................................................... 47
Premissas ................................................................................................................................................ 47
Movimentos e revoltas que poderiam resultar em cisão ......................................................................... 48
A decadência do separatismo no Brasil .................................................................................................. 58
O separatismo ao final do Século XX ..................................................................................................... 61
Separatismo recente no Brasil ................................................................................................................. 63
Alguns comentários finais....................................................................................................................... 72
Capítulo 4: O sonho de um novo país...................................................................................................... 74
Questionando a cisão .............................................................................................................................. 74
Um aparte para reflexão .......................................................................................................................... 74
O sonho de um novo país ........................................................................................................................ 77
Comércio exterior, Mercosul e novas parcerias ...................................................................................... 80
Capítulo 5: A transição para a independência ....................................................................................... 87
Aspectos legais........................................................................................................................................ 87
Separação e repartição de perdas e ganhos ............................................................................................. 87
A divisão do patrimônio comum ............................................................................................................. 88
Indenizações e compensações ................................................................................................................. 93
Capítulo 6: Adenda ................................................................................................................................... 94
A questão populacional ........................................................................................................................... 94
A questão fundiária ................................................................................................................................. 98
Meio ambiente e desenvolvimento sustentável ....................................................................................... 99
Sobre o autor ........................................................................................................................................... 100
Notas Introdutórias
O Nordeste precisa se tornar independente o quanto antes.
Por muito tempo, em nome da unidade e da grandeza nacional, esteve ocupando uma posição
desfavorável no jogo inter-regional.
É preciso que nós, nordestinos, tenhamos consciência disto.
Os irmãos sudestinos, foram eles os maiores agraciados com as vantagens de se viver em um país
vasto e populoso. A história talvez não registre outro caso de tamanho conforto para uma elite regional
dominante.
Não é por isso que lhes devamos guardar mágoas ou requerer revanches. Mas também não nos cabe
nenhuma dívida de gratidão.
Ao lhes estendermos as mãos, estaremos dispostos a relevar esta porção do passado e a convidá-
los para que sejam nossos maiores parceiros econômicos, culturais e afetivos, nesta busca por um país novo,
mais justo e solidário.

***

No decorrer das próximas páginas serão apresentados alguns dos principais argumentos em defesa
do separatismo e da independência, com ênfase na necessidade de se romper o modelo de neocolonialismo
interno que caracterizou o crescimento econômico brasileiro por quase vinte décadas e que tanto tem
prejudicado a região nordestina.
Por outro lado, a grande extensão territorial do Brasil, suas características e peculiaridades
populacionais e regionais, e a diversidade de interesses antagônicos que daí decorrem, dificilmente
poderiam resultar em um projeto de construção nacional consistente, em que as macroquestões sociais
sobrepujassem aspirações eleitoreiras ou dos lobbies articulados na capital. Não há, entre os habitantes do
Brasil, compromisso e solidariedade em intensidade suficiente para a integralização de um país ou de um
pacto federativo que inspire confiança.
Por estas razões, mesmo após décadas de protecionismo econômico e industrialização forçada, o
abismo social entre ricos e pobres e entre centro e periferia regional permanece em padrões desconcertantes.
Muito do que será descrito nas próximas páginas encontra respaldo na história político-econômica
do país, sob um enfoque bastante distinto da “versão oficial” que nos é apresentada nos livros-texto de
História. Como veremos, a unidade territorial brasileira não foi o resultado de um milagre de união de povos
e raças, mas da força coerciva dos fuzis.
Em verdade, é preciso se dizer que a proposta de independência e de criação de uma nova nação
em solo nordestino não é inédita nem recente. Ainda na primeira metade do Século XVII, poderia ter sido
materializada, como resultado do nativismo pernambucano na guerra de expulsão dos holandeses. Mutatis
mutandis, aquele nativismo restaria latente por séculos ulterioris, ressurgindo de tempos em tempos. Tanto
que, quase duzentos anos depois, dar-se-ia, justamente em Pernambuco, a eclosão da Confederação do
Equador, liderada por Frei Caneca, uma das mais notáveis tentativas de independência e insubordinação
aos interesses extrarregionais.
Mais recentemente, já ao final dos anos oitenta, a temática da exploração regional e da pouca justeza
do pacto federativo brasileiro voltaria a ser diversas vezes suscitada. Enquanto no sul do país surgiram
evidentes movimentos separatistas, no Nordeste, aparecia, em 1991, o Grupo de Estudos Sobre o Nordeste
Independente, GESNI, do qual fui o coordenador, reunindo estudantes do curso de Mestrado em Economia
da Universidade Federal de Pernambuco.
Observa-se, então, que, decorrida mais de uma década desde então, o Nordeste continua sendo
dragado pelo Sudeste, exportando matéria-prima e mão-de-obra a baixos preços e importando produtos
industrializados e serviços especializados a preços altos e protegidos.
Enquanto isto, em termos igualmente deletérios, a “indústria da seca” segue misturando a sede de
água (do povo) com a sede de poder (dos políticos), fazendo perpetuar-se este ciclo de dependência e de
subserviência aos interesses das elites econômicas e burocráticas.
Feitas estas considerações, passemos à estrutura deste livro, composto por seis capítulos:
No capítulo 1, estão relacionados os principais argumentos em favor da separação.
No capítulo 2 é empreendida uma revisão da história econômica do Brasil e de como foi propiciado
o atual quadro de diferenciação regional que se observa no país.
Mais adiante, no capítulo 3, está descrita uma breve história do separatismo, com ênfase nos
movimentos separatistas brasileiros dos anos 90.
O capítulo 4 prossegue com algumas reflexões sobre os novos rumos da humanidade e de como a
ideia do Nordeste Independente se ajusta às principais tendências mundiais. Descreve ainda, a importância
da abertura comercial e da busca de novos parceiros internacionais.
O capítulo 5 trata do processo de transição para a independência e de alguns de seus
desdobramentos de ordem prática, incluindo questões legais e de repartição do patrimônio comum ao Brasil
e ao Nordeste.
Por fim, no capítulo 6, são tecidos comentários sobre os temas do controle populacional,
ordenamento territorial, reforma agrária, distribuição de renda, meio ambiente e desenvolvimento
sustentável.
Esperamos, pois, que o texto possa contribuir para uma mudança comportamental dos brasileiros,
nordestinos ou não, desfazendo crenças e descortinando véus. A erradicação da pobreza da privação não
pode continuar à mercê das “tradicionais” políticas regionais paliativas. A variável temporal assume, agora,
um papel crucial, quando estão em jogo a vida e o bem-estar de populações inteiras.
Ressaltamos – talvez, desnecessariamente – que este livro deve ser lido comedimento, moderação
e tolerância. Debatam-no, questionem-no, critiquem-no. É precisamente no atual ambiente democrático
brasileiro, e sob o signo da legalidade constitucional, onde se encontra o espaço propício para uma discussão
deste tipo.
Por mais de dez anos, estive devendo este livro a mim mesmo e ao povo nordestino. Concluí-o,
finalmente, na noite de Natal, primeira deste novo século.
Deposito, nele, muitas esperanças.

Jacques Ribemboim
Recife, 24 de dezembro de 2001.
Capítulo 1

A TESE DO SEPARATISMO DO NORDESTE

O cerne da ideia separatista. Os argumentos da separação. Política tributária. Conclusões.

O cerne da ideia separatista

A tese do separatismo respalda-se na busca de um modelo social, econômico e – por que não? –
psicológico que consiga romper, definitivamente, o ciclo de exploração neocolonial do Nordeste por parte
do Sudeste. A hipótese básica que permeia nossas conclusões é a de que o Nordeste constituído em um país
independente teria muito mais chances e oportunidades de desenvolvimento.
Por mais de cem anos, até o presente momento, o modelo de crescimento brasileiro baseou-se na
exploração de uma periferia depauperada em seus recursos naturais e humanos e dependente de um centro
rico e avançado industrialmente.
Esta configuração econômica identifica-se, de forma muito clara, com o modelo colonial clássico
pós-mercantil e, mais tarde, com o neocolonialismo financeiro e tecnológico das últimas décadas do Século
XX. A única diferença, no caso brasileiro, é que a exploração ocorre dentro do mesmo território nacional,
ocasionando gravíssimos desequilíbrios regionais, sociais e entre fatores de produção.
Tendo sido praticada sui generis, de forma intramuros, a dinâmica colonial brasileira concentrou o
crescimento na região de São Paulo e impediu — ou, ao menos, dificultou – o crescimento das regiões
periféricas, sobretudo o do Nordeste, acarretando um empobrecimento relativo de sua população.
Destarte, o modelo neocolonial interno, ora vivido, impele a Região Nordeste a exportar para o
Sudeste matéria-prima e mão-de-obra barata, em condições mais vantajosas (para este último) do que
aquelas praticadas no mercado internacional
E em contrapartida, o Nordeste prossegue importando do Sudeste produtos industrializados e
serviços especializados a preços protegidos, em condições menos vantajosas do que as praticadas no
mercado internacional, o que resulta em uma injusta, paulatina e descomunal transferência líquida de
recursos da região mais pobre para a outra, mais rica.
Em adição, quase que de forma inconsciente, torna-se cada vez mais acentuado o sentimento de
nordestinidade que pode, até, em determinadas situações, ultrapassar o de brasilidade – principalmente,
quando se observa a existência de uma forte identidade cultural e afetiva entre os nordestinos, e um
arraigado apego à sua terra e aos seus costumes.
Isto – parece-nos – é mais do que suficiente para justificar o nascimento de um novo país.

Os argumentos da separação

Feitas estas considerações, é possível se enumerar alguns dos argumentos que dão sustentação à
tese separatista:

IDENTIDADE NORDESTINA CULTURAL E AFETIVA


Este é o mais importante dos argumentos. Por isso, está sendo apresentado em primeiro lugar. Sem
unidade cultural e afetiva entre os habitantes, torna-se difícil defender a criação de um novo país, mesmo
em tempos de cosmopolitismo e globalização.
Em relação aos nordestinos, não é difícil perceber a existência dessa unidade, que extrapassa a
existência de raízes e costumes comuns, incorporando, ainda, uma rica contribuição de grupos,
nacionalidades e etnias minoritárias e permitindo a existência de uma saudável diferenciação idiossincrática
entre as diversas localidades, cidades e estados da região.

CONCENTRAÇÃO CAPITALISTA INDUSTRIAL E PÓS-INDUSTRIAL NA REGIÃO SUDESTE

Os Estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e, em "menor escala, o Rio Grande do Sul,
detêm a quase exclusividade do poder econômico e político do país e, em decorrência, têm assegurado para
si, desde o século XIX, os maiores quinhões dos lucros das políticas macroeconômicas e setoriais postas
em prática no Brasil.
Assim, desde os primórdios da industrialização brasileira, estes, liderados por São Paulo,
conseguiram concentrar em seus territórios as principais indústrias de base, beneficiamento e
manufaturados, de forma a privar os demais estados do desenvolvimento industrial.
É evidente que, seguindo a concentração territorial das instalações fabris e infraestrutura,
aconteceria, ainda, uma (contundente) concentração espacial da renda e do poder político do país, formando
um ciclo difícil de ser interrompido e sem paralelos no mundo atual (embora a China, a Rússia e o México
se esforcem por fazê-los).
Para piorar, a maior parte dos investimentos do setor público também migraria para o sul, como
frisou o economista pernambucano Clóvis Cavalcanti [1993]

Os investimentos públicos de caráter estratégico, procurando maior rentabilidade,


terminam se reproduzindo mais espontaneamente nos centros do país, fenômeno que não
se limita à esfera estritamente econômica, mas que ocorre também em outros setores como
o da educação, ciência e tecnologia (p.33).

No Brasil, enquanto os Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro já se encontram no começo de


suas eras pós-industriais, concentrando-se na produção de bens e serviços especializados e de alto valor
agregado, o Nordeste ainda ensaia passos na direção de formas arcaicas de crescimento, procurando atrair
indústrias pesadas e de turismo praieiro como panaceia para os seus problemas estruturais.

A FALTA DE UM PROJETO NACIONAL

Este é mais um argumento básico para a tese separatista. Não há e nem nunca houve no Brasil um
projeto sincero e efetivo de integração nacional, diferentemente do que ocorreu em muitos outros países
com dimensões territoriais e populacionais semelhantes. Quando muito, justiça seja feita, poder-se-ia dizer
que, à época da ditadura militar das décadas de sessenta e de setenta, pôde-se presenciar alguma iniciativa
de integração que, infelizmente, esbarraria no caos econômico e inflacionário dos anos de abertura
democrática que acompanhou as disputas políticas pela nova partição do poder.
Em última instância, a carência de um projeto nacional representa, no plano político, a falta de
solidariedade que existe, de fato, entre os cidadãos de diferentes regiões e distintas classes sociais.
À ausência do projeto de integração, pode-se, portanto, creditar, ou até explicar, a maior parte das
desigualdades sociais, econômicas e regionais dos dias atuais, revalidando a ideia de Francisco de Oliveira,
nos anos sessenta, de que o Brasil se assemelha a um “arquipélago nacional” (cujas ilhas regionais só se
articulariam em decorrência da mera expansão capitalista do Sudeste, que requereu, primeiro, a construção
de estradas e, segundo, a construção de malhas televisivas nacionais).
Esta ataraxia crônica da população brasileira reclama, pois, algum tipo de “choque de
solidariedade”. O brado de independência nordestino poderia, inter alia, assumir esta função, de forma mais
ou menos semelhante ao que aconteceu nas ex-repúblicas soviéticas.
Da forma como está, a acentuada concentração de renda ocasiona uma acentuada e perigosa
concentração de poder, o que faz com que as políticas públicas se distanciem dos pobres e se voltem para
o atendimento das demandas dos mais ricos. Não é por menos, alguns dos bons programas sociais criados
nos anos sessenta e setenta tenham sido deturpados para benefício das elites. Exemplos nítidos encontram-
se na degeneração do Sistema Financeiro de Habitação, no caráter exclusivista das universidades públicas,
ou, ainda, no atrapalhado sistema previdenciário nacional.
Talvez tenha sido por estes motivos que o geógrafo pernambucano, Manuel Correia de Andrade,
influenciado pela tese de Chico de Oliveira, afirmou, com muita propriedade, que

o Brasil, desse modo, não constitui uma nação bem característica e amalgamada com uma
solidariedade entre pessoas e culturas diversas, mas um aglomerado de grupos sociais
heterogêneos que, muitas vezes, ocupam uma mesma área, mas não sentem solidariedade
entre si. (ANDRADE, 1997).

AÇÕES A PREÇOS COMPETITIVOS E IMPORTAÇÕES A PREÇOS PROTEGIDOS

Este é o argumento que melhor traduz o que queremos dizer com o termo “neocolonialismo
interno”, que tanto caracteriza as relações econômicas entre o Nordeste e as Regiões Sul e Sudeste do Brasil,
ressaltando-se, em particular, a hegemonia paulista sobre os demais estados da federação.
Em nome da grandeza nacional, o estado de São Paulo conseguiu altíssimos custos sociais ao
Nordeste e torna-se difícil explicar a passividade e a brandura com que os nordestinos aceitaram este modelo
tão oneroso para si e seus descendentes. Chegariam a destinar aos paulistas todo o seu apoio e admiração,
elogiando, com frequência, a sua competência, enquanto guardariam, para si, algum complexo de
inferioridade com relação aos patrícios austrais.
A credulidade dos nordestinos chega ao ponto de fazê-los esperar, até hoje, por algum tipo de
redenção que certamente virá de fora e que os livrará definitivamente da pobreza.
Em infeliz adição, há o problema da desunião política dos mandatários e representantes nordestinos,
que disputam entre si os parcos recursos enviados pela União, de modo a vertê-los em projetos locais
eleitoreiros, de forma estanque e desarticulada.
A desunião política e o mito da “indústria nacional” (e da necessidade de protegê-la contra o
competidor estrangeiro) fizeram com que os nordestinos pagassem, por décadas a fio, um preço mais alto
pelos produtos manufaturados, subsidiando, desta forma, a lucratividade das empresas de São Paulo. Como
ressaltou Sebastião Barreto Campello, o chefe de família da classe média nordestina não hesitava, nos idos
de setenta, em pagar “U$ 3.500 por um Volkswagen que só valia U$ 1.300, ou então, U$ 12.000 por um
Galaxie que só valia U$ 3.500! ” (CAMPELLO [1978], p.21).
Com efeito, foi do Sul e do Sudeste que seguiram os nordestinos a importar desde palitos de fósforo
até pneus, passagens aéreas, sapatos, lâmpadas, cadernos, óculos, enlatados, queijos, manteigas, iogurtes,
fios, remédios, roupas etc. Por aí se entende a ojeriza dos empresários paulistas quando ouvem falar de
abertura comercial.
Assim, estimando-se, grosso modo, em 50% do PIB o quantum de importações nordestinas que
provêm do Sudeste, e estipulando-se uma sobrepreçagem em torno de 30% a mais que os dos competidores
internacionais, é possível que o Nordeste esteja enviando para São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais –
já a algum tempo – um montante entre 15 e 20 bilhões de dólares por ano.
Em contrapartida, os preços da mão-de-obra, especializada ou não, e dos insumos industriais,
sobretudo minérios e energéticos, que são exportados do Nordeste para o Sudeste foram mantidos, na
grande maioria dos casos, a preços abaixo daqueles praticados no mercado internacional, de forma a
favorecer, ainda mais, a produção industrial sudestina.
Tudo isto em nome da “indústria nacional”!

REGIONALIZANDO LUCROS E NACIONALIZANDO PREJUÍZOS

Fortalecendo os efeitos mencionados no argumento anterior, as políticas cambiais e anti-


inflacionárias estiveram sempre direcionadas em favor da produção industrial, transferindo recursos dos
consumidores para os produtores, concentrando os maiores benefícios no setor secundário, localizado no
Sudeste, em detrimento das regiões mais pobres.
Durante as décadas de setenta e oitenta, por exemplo, o governo não titubeou em utilizar os preços
dos derivados de petróleo, especialmente os do óleo combustível e da nafta, como instrumento de política
anti-inflacionária. Durante as crises de abastecimento de petróleo dos anos de 1973 e 1976, o preço do
petróleo foi artificialmente deprimido como garantia do crescimento econômico, ocasionando uma dívida
externa que viria a ser cobrada a brasileiros de todas as regiões (reincidentemente, ônus e bônus seguiram
sempre orquestrados em favor dos estados mais ricos).

NECESSIDADE DE ABERTURA COMERCIAL E INTEGRAÇÃO

Para minimizar os efeitos da sobrepreçagem decorrente do protecionismo, seria interessante para o


Nordeste a abertura gradual da economia ao mercado internacional.
A oposição que fazem alguns setores contra a abertura comercial, tanto por parte de empresários
quanto de trabalhadores, é bastante conhecida da teoria econômica internacional e pode, às vezes, tornar-
se um entrave ao desenvolvimento. Restrições comerciais, no dizer de Dominick Salvatore,

são defendidas por uma minoria de produtores que delas tiram grande proveito à custa de
uma maioria, na maior parte silenciosa, de consumidores (SALVATORE, 2000, p.6).

Trata-se de uma aplicação especial da chamada “lógica da ação coletiva”, a que se referiu Mancur
Olson (OLSON, 1965), em que a vontade de uns poucos pode imperar sobre a de muitos.
Historicamente, os chamados “setores produtivos” sempre foram mais importantes e politicamente
mais estruturados que o conjunto dos consumidores e, assim, sob a ameaça constante de que “precisarão
demitir trabalhadores”, conseguem ditar suas regras aos “ingênuos” governantes. Só muito recentemente,
em algumas economias mais avançadas, este descompasso está sendo corrigido, equiparando-se, em
importância social, os dois lados do mercado (oferta e demanda).
É por isso que tenho defendido, publicamente, desde os anos oitenta, uma maior abertura comercial
brasileira. Nos artigos “Reserva de Mercado de Informática Chega ao Final” (Jornal do Commercio de
27/10/1992) e “A Carta dos Senadores” (Diário de Pernambuco, 1996), ressaltei o prejuízo do
protecionismo generalizado que grassava no país, e afirmei que a abertura era excepcionalmente bem-vinda
e necessária para o rompimento do ciclo de dependência neocolonial do Nordeste. Além disto, poderia
proporcionar significativos ganhos de bem-estar para os consumidores, em geral, e os da região, em
particular, permitindo-lhes escapar da obrigatoriedade do uso de bens e serviços importados do sul (Diário
de Pernambuco, 1996). Esta visão foi compartilhada por outros estudiosos, como Olympio Galvão, Gustavo
Mula Gomes e Sebastião Barreto Campello (cf.: GALVÃO [1999], ALBUQUERQUE e GOMES, 1996,
CAMPELLO, 1978).
Edward Nicolae Luttwak, cientista político norte-americano, chegaria mesmo a afirmar que

a substituição de importações foi ótima para os industriais brasileiros, mas não para o
povo, que pagava caro por um produto ruim.

Em seguida, acrescentou:

Quem paga pelos subsídios (à indústria brasileira) são as famílias famintas do Nordeste”
(VEJA, Edição 1726, p.15).

MIGRAÇÃO E TRANSFERÊNCIA GRATUITA DE MÃO DE OBRA

Particular destaque deve ser conferido à notável transumância por que passou –
desnecessariamente, ao meu ver – o povo nordestino, no decorrer dos últimos cinquenta anos.
A migração em massa é fenômeno dos mais dolorosos e angustiantes para o homem. Não obstante,
milhões de nordestinos foram compelidos, sem a menor cerimônia, para o centro e sul do Brasil, deixando
para trás seus entes queridos e seus costumes. A construção de Brasília, por exemplo, cuja viabilidade
questionamos, ocasionou uma transferência humana dispensável.
É bem verdade que os processos migratórios podem ter diversas causas e origens. Suas forças
propulsoras podem ser tanto de natureza “expulsionista” quanto “atrativista”. No primeiro caso, as pessoas
se deslocam pela necessidade de abandonar o local onde residem, em caso de guerras, secas, enchentes,
epidemias, exaustão dos recursos naturais ou falta de oportunidades. No segundo caso, as pessoas procuram
se mudar na esperança de que as novas terras lhes ofereçam vida melhor.
Portanto, a decisão de emigrar pode ser motivada ora pelo desejo de se “evitar uma piora” ou pelo
desejo de se “assegurar uma melhora”. São contextos psicológicos totalmente diversos. É provável que a
maior parte da migração nordestina do campo para a cidade ou para o sul do país tenha ocorrido no âmbito
do segundo contexto, contrariamente ao que pensa a maioria das pessoas. Neste caso, para que fosse evitado
o êxodo, teria sido necessário que o Nordeste apresentasse taxas de crescimento da renda e do emprego
semelhantes às que ocorreram nos estados da Região Sudeste durante as décadas de cinquenta, sessenta e
setenta do século passado.
Neste período, ao contrário, diversas ocorrências contribuíram para acentuar o fluxo migratório: a
intensificação do processo de industrialização paulista e seu efeito multiplicador sobre o setor de serviços;
e a transferência da capital para Brasília, construída majoritariamente pelas mãos de milhares de nordestinos
que se dirigiram ao Planalto Central.
Ressalte-se, ainda, a necessidade de desmistificar a ideia (tão disseminada) de que as migrações de
nordestinos compunha-se apenas de mão-de-obra desqualificada. Sem desprezo a estes, a formação
profissional e educacional entre os migrantes foi bastante diversificada, envolvendo, também, profissionais
altamente especializados, cientistas, técnicos, intelectuais, atletas e artistas.

MIGRAÇÃO E TRANSFERÊNCIA GRATUITA DE EXCELÊNCIA PROFISSIONAL

Além do problema da migração de trabalhadores, especializados ou não, a amplitude dos mercados


de trabalho no eixo formado por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília acarreta a transferência espontânea de
muitos que se destacam em suas habilidades e profissões.
Dessa forma, é possível afirmar que uma boa parcela da antologia técnica e da intelligentsia
nordestina tenha se transferido para o sul, passando a residir em campos paulistas, cariocas e brasilienses.
Seja por meio de atrativos financeiros ou por melhores condições e infraestrutura de trabalho ou,
ainda, por meio de aprovação nos concursos públicos (frequentes a partir da Constituição Federal de 1988),
dificilmente os estados nordestinos conseguirão reter seus melhores quadros profissionais. Portanto, estaria
a Região incorrendo em um problema de seleção adversa, retendo os profissionais menos capacitados.
Esta contínua transferência da antologia profissional para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília é
excelente para estas cidades, que, assim, recebem a “turma pronta”; mas é péssimo para o Nordeste, que
precisa estar constantemente preparando, treinando e renovando seus quadros profissionais, para em
seguida abastecer os mercados forâneos. (Isto tudo é, para mim, particularmente doloroso, pois me vejo
privado do convívio de inúmeros conterrâneos. Também me foi pesaroso, durante a infância, ver partir os
meus heróis do futebol pernambucano rumo aos clubes do sul).
Está claro que a livre mobilidade de profissionais é pressuposto das democracias modernas.
Entretanto, deve-se pensar em estímulos econômicos, afetivos, culturais e institucionais de forma a suscitar
a permanência de profissionais destacados em seus estados de origem. Caso contrário, o Nordeste
continuará exportando justamente o fator que lhe é escasso: o capital humano.

O CASO DE BRASÍLIA E A TRANSUMÂNCIA FORÇADA

Contrariamente à crença generalizada, Brasília não foi uma página feliz para a história do Nordeste.
Aliás, talvez não o tenha sido nem mesmo para as demais regiões. Seria oportuno repensar a necessidade
de sua construção em um momento de tantas prioridades sociais como aquele do final dos anos cinquenta
e início dos anos sessenta.
Algumas questões referentes ao soerguimento de Brasília ainda não se encontram satisfatoriamente
respondidas. Por que o mineiro Juscelino Kubitschek queria tanto retirar a sede do poder da cidade do Rio
de Janeiro e transferi-la para uma terra de lobos-guarás, longe de tudo e de todos? Por que precisava o
Distrito Federal fazer fronteira com Minas Gerais? Teria valido à pena o sacrifício para a população
brasileira em termos de transumância de mão-de-obra e de endividamento externo? Teria ele, JK, pensado
nas futuras gerações quando gastou além da conta? Será que a interiorização do Brasil foi devido a Brasília
ou a uma inexorável expansão da fronteira agrícola? Fora o posicionamento geográfico da capital
determinado por razões esotéricas, místicas, religiosas ou políticas?
O certo é que, qualquer que tenha sido o motivo, a transferência da capital para o planalto central
enfraqueceu grandemente o poder político do Rio de Janeiro. Indo um pouco além, um simples observar do
mapa do Brasil pode mostrar que o posicionamento de Brasília foi, de fato, cuidadosamente estudado, de
forma a beneficiar prioritariamente o Estado de Minas Gerais.
Talvez fosse oportuno interpretar a transferência da capital, como um processo de mudança
geográfica do centro do poder. Se assim o foi, os planos de JK esbarrariam, contudo, no Golpe de 1964,
que embaralhou o poder dos estados junto ao governo federal.
Curiosamente, ao passarem a ocupar o Planalto Central, os militares lá encontraram o ambiente
propício para a ditadura. Longe dos jornalistas e dos diretórios acadêmicos cariocas, a uma distância
razoável dos centros irradiadores de crítica, identificaram ali, no sossego da poeira fria de Brasília, o ideal
positivista com que sempre sonharam.
Por último, antes de passarmos ao argumento seguinte, caberia uma pergunta a mais sobre a
translação da capital. Por que JK não a localizou em solo nordestino, onde, sim, havia abundância de mão-
de-obra, altas taxas de desemprego e muita pobreza? Teria poupado milhares de famílias de terem que ver
seus parentes partindo para nunca mais voltar. Ali, naquele momento, o Brasil, como nação, perdeu a chance
de resgatar a dívida social contraída ao Nordeste.
Enquanto isto, segue, Brasília, erguida em meio ao nada, transformando-se em cidade aborrecida,
artificial, asséptica. Um imenso condomínio fechado, sirena perigosa para os que ali residem. Faz as pessoas
esquecerem que existe um povo para além dos seus muros: sua burocracia encastela-se e refestela-se,
fingindo, fingindo, tapando os olhos.

NORDESTE DESIGUAL

As mazelas do Nordeste não vêm somente de fora. As desigualdades sociais, por exemplo,
acentuam-se no seio da sua população e é, em parte, explicada pela estrutura herdada à economia rural
açucareira.
À parte deste enorme problema, a ideia do separatismo pode vir a contribuir para a redução das
desigualdades. Isto porque, como será reforçado, os modelos colonial e neocolonial requerem, para o seu
funcionamento, a existência de uma elite local colaboracionista, a qual deve ser particularmente favorecida
com a continuidade do sistema. Sem essa elite, dificilmente a empresa colonial poderia lograr êxito.
Este fato é perfeitamente identificável no caso brasileiro. Há, no Nordeste, uma quantidade razoável
de pessoas que se beneficiam com a empresa neocolonial sudestina. Essas pessoas conhecem bem o
caminho das pedras e são sempre os mesmos agraciados com recursos incentivados e nomeações para
cargos no Governo, isto quando não são, cumulativamente, os prepostos locais de empresas do Sul,
ganhando, desse jeito, bastante dinheiro e vantagens com a perpetuação da dependência regional.
Rompendo o ciclo, a independência do Nordeste poderá despertar uma nova cultura empresarial na
região, mais criativa, mais empreendedora, mais eficiente e menos dependente.

NORDESTE INSUSTENTÁVEL

Consoante o atual modelo explorador dos recursos naturais do Nordeste, sem que haja a
preocupação com a proteção ambiental nem com o uso dos recursos naturais, e não havendo um compatível
“reinvestimento” de parte da receita gerada pela exploração desses recursos, muitos dos pólos econômicos
existentes na região encontram-se em um caminho de desenvolvimento insustentável.
Esta questão foi levantada em entrevista que concedi ao Diário de Pernambuco, em dezembro de
1994, quando pude mostrar que o crescimento econômico do Brasil, como um todo, era sustentável, mas
que o do Nordeste, ou, mais precisamente, de algumas de suas microrregiões, encontravam-se em caminho
insustentável, inexistindo preocupação governamental sobre este aspecto.
Aliás, políticas governamentais dificilmente contemplam a questão da sustentabilidade ambiental
no Brasil, pois concentram seus interesses em um horizonte de tempo eleitoral ou, quando muito, com
benefícios facilmente perceptíveis dentro de um mandato. As políticas ambientais, contrariamente,
requerem anos, décadas, às vezes, gerações, para que apresentem resultados. É tempo demais para a
impaciência dos políticos.
No caso nordestino, um aspecto que acentua esta problemática é que as riquezas naturais são
extraídas, de forma insustentável, para serem exportadas. Assim, além da insustentabilidade econômico-
ambiental, em si, há, ainda, como agravante, o fato de que boa parte dela esteja sendo ocasionada por causa
do consumo das demais regiões brasileiras.
Deste modo, muitas das microrregiões do Nordeste seriam, pois, importadoras de
insustentabilidade e exportadoras de sustentabilidade econômico-ambiental, problema, aliás, não raro no
mundo atual (PROOPS e ATKINSON [1993], por exemplo, demonstram a condição para a ocorrência do
problema).
Para corrigir este desvio, é preciso se estabelecer uma política consistente para o Nordeste, como
um todo, e para as suas microrregiões, que incorpore o princípio da sustentabilidade. Isto só pode ser
conseguido caso seja reinvestida parte das receitas da extração dos recursos minerais e ambientais, em geral.
Agindo desta maneira, as populações locais, por meio de legislação específica, poderiam manter o
capital total constante (incluindo o capital natural e humano), de modo a gerar um fluxo de renda
permanente para ser destinado ao consumo. Esta proposta é conhecida entre os economistas ambientais
como Regra de Sollow-Hartwick-Samuelson.
A atual Lei dos Royalties (Leis 7.990/89 e 8.001/90), que prevê o pagamento de valores a estados
e municípios (onde houver extração mineral e geração hidrelétrica), é omissa, infelizmente, quanto à
destinação financeira destes recursos.

LIDERANÇAS DO EXECUTIVO VERSUS LIDERANÇAS DO LEGISLATIVO

Este argumento procura enfocar a contínua existência de uma super-representação nordestina no


legislativo federal vis-à-vis uma sub-representação no executivo.
Observa-se que, enquanto o número de parlamentares e de lideranças partidárias é favorável ao
Nordeste, os principais postos do Executivo e do Judiciário são ocupados por paulistas, cariocas, mineiros
e gaúchos.
Os parlamentares, infelizmente e por razões as mais diversas, não revertem sua influência na
Câmara e no Senado em benefícios qualitativos para a região. Limitam-se (na maioria) a assegurar DAS's
(cargos comissionados) para os apadrinhados e em propor emendas orçamentárias que contemplem seus
rincões eleitorais com obras de menor envergadura (poços, estações rodoviárias, etc.).
Nos ministérios, porém, seus pares sudestinos logram assegurar entre os ministros da área
econômica (quase sempre sulistas ou sudestinos) amplas vantagens para seus estados e para os lobbies que
os apoiam. É preciso admitir: salvo algumas exceções, os políticos nordestinos estão para o velho
paternalismo anacrônico, assim como os políticos sudestinos estão para a vanguarda estratégica, no jogo
do poder.
Para J.L. Love, brasilianista norte-americano que dedicou boa parte de sua vida profissional ao
estudo da formação política e econômica do Brasil, os estados mais ricos não estariam particularmente
interessados nos favores patrimoniais do governo central, mas cuidando de ocupar diretamente a própria
Presidência da República e os principais cargos do primeiro escalão, de modo a permanecerem no comando
das principais macropolíticas nacionais, principalmente a fiscal, a financeira, a cambial, a monetária, a de
comércio exterior, a agrícola e a industrial (cf. LOVE, 1989, p.198).
Com efeito, se for feita uma avaliação da lista dos vinte e três presidentes que governaram o país
no século XX, apenas quatro, dentre eles, foram nordestinos: Epitácio Pessoa, Café Filho, Castelo Branco
e José Sarney.
Destes, dois eram vice-presidentes que assumiram a presidência por morte do titular (casos de Café
Filho e José Sarney) e um foi indicado pela ditadura militar (Castelo Branco).
Em outras palavras, os nordestinos, que representam 27% da população brasileira atual (no passado
essa proporção foi ainda maior) estiveram, por todo o século XX sub-representados na presidência da
República, principalmente pelo critério de tempo de permanência no cargo. O gaúcho Getúlio Vargas, por
exemplo, sozinho, ocupou a presidência por muito mais tempo que todos os presidentes nordestinos juntos!
Mas isto não é tudo. Se forem feitas contas semelhantes com relação aos titulares das pastas
ministeriais da área econômica, a proporcionalidade se torna ainda menor, particularmente nos últimos anos
e assim também acontece com os titulares das estatais de peso, tais como Banco do Brasil, Petrobrás,
Eletrobrás, Nuclebrás. Nem mesmo os postos-chave do Itamaraty escapam à influência hegemônica do Sul
e do Sudeste.

TRANSFERÊNCIAS SURDAS VERSUS TRANSFERÊNCIAS ALARDEADAS

Recentemente, em 22 de junho de 2001, frente ao anúncio de uma nova seca no Nordeste, o Diário
de Pernambuco exibia a seguinte manchete de capa:

“FHC DESTINA R$ 4 BILHÕES PARA SECA”

Uma leitura atenta da matéria, porém, mostrava que a notícia não correspondia, exatamente, ao que
fazia crer o título.
Isto porque, do total que estava anunciado, cerca de um bilhão de reais já estava previsto de
qualquer forma no Orçamento Geral da União para construção de obras em geral, como acontece
anualmente para todas as regiões que compõem o país, independentemente da ocorrência, ou não, de secas.
Prosseguindo-se naquela matéria, uma vez depurado o texto por completo, podia-se concluir que a
verdadeira quantia liberada como medida emergencial de combate à seca no Nordeste era de, apenas,
quarenta e um milhões de reais, sendo que a maior parte desta verba era destinada ao pagamento de carros-
pipa e à aquisição de cestas de alimentos.
Ora, este dinheiro correspondia a tão-somente 1% do valor anunciado no título da reportagem!
Este exemplo ilustra o que estamos, aqui, chamando de "Transferências Alardeadas versus
Transferências Surdas”. Não se trata propriamente de um argumento, mas de uma constatação, a qual
precisa ser evidenciada para que, de uma vez por todas, evite-se este tipo de propaganda subliminar contra
o Nordeste. Trata-se de um vício que agrada, ao mesmo tempo, aos governos federais, estaduais e
municipais, aos políticos clientelistas e à imprensa, de um modo geral, mas que urge ser corrigida.
Explicando melhor, as transferências alardeadas são aquelas que vêm para o Nordeste,
frequentemente, do governo central, e que são divulgadas de forma intencional, explícita, estanque,
mensurável, ampliadas, citando valores, propagada pelo governo e pela imprensa.
Enquanto isto, as transferências surdas são aquelas que escoam em direção à Brasília e ao Sudeste,
e que ocorrem de forma silenciosa, dissimulada, diminuída, perene, quase às escondidas, sem alarde,
estranhamente ausentes dos jornais, muito embora seus valores sejam maiores que aqueles envolvidos com
as transferências alardeadas.
São bilhões de reais transferidos em silêncio, mimetizados em preços altos, protecionismos, ganhos
de escala, empregos públicos, seguros, fretes, propagandas, impostos, aposentadorias milionárias, socorro
a bancos estaduais, etc.
Será que um dia, haverá, os jornais, de trazer manchetes como estas?

“SUDESTE É BENEFICIADO COM A MAIOR PARTE DOS RECURSOS DA HABITAÇÃO”


“ SÃO PAULO FOI O GRANDE BENEFICIADO DA POLÍTICA CAMBIAL BRASILEIRA”
“ PROTECIONISMO INTERESSA AOS PAULISTAS”
“ MANUTENÇÃO DOS BAIXOS PREÇOS DE ENERGIA ELÉTRICA PRIVILEGIA ESTADOS DE
MAIOR INTENSIDADE ENERGÉTICA”
“ INFLAÇÃO CONCENTRA RENDA EM ESTADOS MAIS RICOS”

Este viés da propaganda federal foi claramente detectado nos idos da década de setenta, por
Sebastião Barreto Campello, que chamava a atenção para o problema.
Em um artigo de sua autoria, escrito em 1976 contra o editorial de um periódico paulista (que
alegava estar havendo sangria de recursos produtivos de São Paulo para fomentar a ineficiência dos
nordestinos), Barreto Campello escreveu:

Primeiramente, as imensas dotações de verbas federais recebidas pelo Nordeste são, na


realidade, ínfimas, A Sudene recebeu, em 1975, para toda a região, 280 milhões de
cruzeiros, quando só a ponte Rio-Niterói, gastaram-se 2.670 milhões em valores
corrigidos para 1975, ou seja, aplicou-se numa única obra, num só Estado, o
correspondente a mais de nove anos de Sudene, em todos os Estados do Nordeste.

E completou:

Mais surpreendentes são as aplicações em irrigações (obras que deveriam ser feitas
prioritariamente para a Região), pois 65% da área irrigada brasileira se encontra no Rio
Grande do Sul e, neste momento, o DNOCS está realizando naquele mesmo estado, a
maior obra de irrigação do país (o projeto Camaquã), no qual beneficiará 177.390 ha, e
gastará 456 milhões, quase a mesma quantia que a Sudene aplicará, sob todas as formas,
na totalidade do Nordeste, em dois anos de atividades! (CAMPELLO [1978], p. 7).

É interessante se observar que, até mesmo, em matéria de subsídios agrícolas, a ênfase recai sobre
a produção de açúcar nordestino, sem que se pese o fato de que os produtores de outros estados fizeram e
continuam fazendo muito mais uso deste expediente. A triticultura nacional, por exemplo, que é
concentrada no Sul e no Sudeste, carreia, em determinados anos, subsídios de 1 bilhão de dólares!
Por fim, apresentamos uma matéria da Revista Veja de 26 de abril de 2000, à página 30, sob o título
“Distribuição de Renda":

Sem que as pessoas percebam, existe uma grande engrenagem de distribuição de renda
no país. Todos os Estados recebem regularmente transferências em dinheiro de Brasília.
Como a União arrecada mais em impostos nas regiões ricas que nas pobres, elas
funcionam como uma ferramenta de distribuição de renda. Há Estados que mandam mais
dinheiro para Brasília do que recebem e outros que recebem mais do que mandam. O
quadro mostra qual seria o impacto no bolso dos moradores de algumas unidades da
federação caso não houvesse essas transferências (valores em reais):

Tabela 1. Transferências entre Brasília e alguns estados brasileiros


Renda per capita
Manda para Recebe de
Estado Renda per capita sem
Brasília Brasília
transferências
São Paulo 57,20 2,00 10.904 12.454
Rio de Janeiro 16,70 0,65 3.777 9.923
Paraná 5,30 1,40 7.069 7.484
Tocantins 0,07 0,66 2.000 1.460
Piauí 0,29 0,80 1992 1.737
Maranhão 0,40 1,40 1707 1525
Fonte: IBGE, Banco Central, Secretaria da Fazendo do Estado de São Paulo

O leitor menos avisado, ao observar o quadro apresentado, conclui que os paulistas alimentam os
estados pobres da federação.
Seria ótimo, de fato, que os 55,2 bilhões de reais em impostos federais recolhidos pelos paulistas
fossem destinados aos estados pobres. Infelizmente, a maior parte deste dinheiro é usada para o custeio das
atividades do governo ou, então, retorna aos estados ricos, como transferências surdas.
Os sudestinos não têm, portanto, culpa em acreditar que São Paulo carrega o Brasil nas costas.
Tampouco, os nordestinos, em acreditar que se não fosse a ajuda dos paulistas e do governo federal, a
penúria seria ainda maior.

CUSTOS DO SEGURO E FRETE

Bens e serviços que são consumidos a grandes distâncias dos lugares onde são produzidos incorrem
em custos adicionais, destacando-se os custos de seguro e frete. Por isso, é costume de distinguir dois tipos
de preços para uma mesma mercadoria: O preço FOB e o preço CIF, que são as siglas para as expressões,
em inglês, free on board e cort of insurance and freight (livre a bordo e custo do seguro e frete).
Em se considerando que a grande maioria das seguradoras e das transportadoras (aéreas, marítimas
e terrestres) tem suas matrizes situadas fora do Nordeste, não é difícil se perceber que ocorre uma trânsfuga
de capitais nordestinos na forma de pagamentos pelos serviços de seguro e frete.
Estes e outros adicionais de preços — fixos, variáveis ou ad-valorem, – tais como pagamento de
royalties, direitos autorais, franquias, impostos estaduais e municipais e encargos financeiros insuflam
ainda mais os (já) altos preços das mercadorias que vêm do Sul.

A INDÚSTRIA TELEVISIVA, DE REVISTAS E PROPAGANDA (MÍDIA)

A enorme influência da indústria televisiva na população é algo já bastante conhecida. Teses as


mais variadas foram formuladas acerca da questão.
Esta hegemonia da televisão nos lares brasileiros é ampliada por aspectos qualitativos e
quantitativos referentes ao público espectador. Em um país grande e populoso, onde as redes atingem
lugares os mais remotos, as empresas de publicidade realizam o sonho de toda empresa, obter ganhos de
escala. Por outro lado, observa-se um público padrão bastante jovem, inclusive, crianças, ou de pessoas
com reduzido quociente educacional.
Pouco a pouco, a mídia está se afigurando a um mercado oligopolizado, onde um número muito
reduzido de empresas inibe o surgimento de emissoras regionais e propicia uma espécie de padronização
do pensamento e do comportamento, alienando e massificando o público consumidor.
Em decorrência da concentração de emissoras no Rio de Janeiro e em São Paulo, ali também se
concentraram as firmas de marketing e propaganda, frequentemente contratadas pelas empresas nordestinas
para suas campanhas publicitárias.
Uma segunda consequência desta concentração espacial de emissoras de televisão e de firmas de
publicidade foi o encolhimento do mercado de trabalho para atores e profissionais das artes cênicas nas
suas regiões de origem, fora do eixo Rio-São Paulo.
Os nordestinos que desejarem ser atores precisam migrar para o Rio de Janeiro ou para São Paulo
e os poucos que decidem permanecer na região, fazendo teatro ou cinema, dificilmente conseguem competir
com os famosos astros da televisão, independentemente de competência ou de talento. Até o tradicional
espetáculo da Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém, Pernambuco, houve por bem inserir atores globais nos
seus papéis principais.
Com referência à imprensa escrita, o cenário não é muito diferente, com algumas editoras e revistas
paulistas e cariocas dominando amplamente o mercado.
As populações nordestinas passam, então, a ser informadas sobre tudo o que acontece nos estados
do sul, inclusive sobre a vida pessoal de artistas e políticos, sobre o futebol daqueles estados, sobre os
acidentes de trânsito. Passam a torcer pelos clubes do Rio e de São Paulo e a gostar de rap paulista.
Com efeito, a mídia, por se tratar de um setor em que economias de escala e de aglomeração são
particularmente lucrativas, restringem as possibilidades de o Nordeste também desenvolver esta indústria.
A importação direta dos serviços de mídia, imprensa e propaganda do sul do país aumentam as
transferências do Nordeste para o Sudeste (lembremo-nos, inclusive, que, em alguns setores, os gastos com
propaganda e marketing ultrapassam 20% dos custos, totais das mercadorias).
Isto ocorreu com as sedes do Banco do Brasil, Petrobrás, Banco Nacional de Desenvolvimento
Social, Caixa Econômica Federal, Eletrobrás, Nuclebrás, Embraer, Embratel, Empresa Brasileira de
Correios, Agências Nacionais (ANP, ANA, ANS, ANATEL, ANEEL, ANVS, ABIN), etc., sem contar,
ainda, com as empresas já privatizadas ou extintas, tais como, Rede Ferroviária Federal, Companhia Vale
do Rio Doce, COSIPA, CSN, USIMINAS, Embrafilme, etc.
As vantagens de sediar uma estatal vão além da geração de emprego direto e indireto. As verbas
publicitárias, filantrópicas, de fomento à cultura, etc., procedentes da estatal, circunscrevem-se, quase que
totalmente, aos estados onde se encontram.
Não é raro se ver a Petrobrás, por exemplo, financiando o time do Flamengo e produções
cinematográficas de diretores sudestinos, usando o dinheiro do contribuinte nordestino.

CONCENTRAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO E PESQUISA

Ao contrário dos norte-americanos, que difundem suas instituições de ensino e pesquisa por todos
os Estados Unidos – o modelo anglo-saxônico reconhece, inclusive, que as pequenas cidades são mais
propícias à difusão acadêmica – o governo brasileiro concentrou os centros de pesquisa no Rio de Janeiro,
São Paulo e Brasília.
Por exemplo, o INPE, IME, Academia Militar, Escola de Cadetes do Ar, Escola Naval, IPEA,
IBGE, FGV, Centros de Treinamento da Petrobrás, Telebrás, Eletrobrás, Nuclebrás, INMETRO,
FIOCRUZ, etc., são todos no Rio de Janeiro.
A ESAF, ENAP, ESAP, filiais do INMETRO, IPEA, IBGE, EMBRAPA, dentre outros, situam-se
em Brasília.
Exceção de destaque é a Fundação Joaquim Nabuco, com sede em Recife.

CONCENTRAÇÃO DO FUNCIONALISMO PÚBLICO FEDERAL

A grande concentração de servidores públicos federais, no Rio de Janeiro e em Brasília é mais outra
causa de transferência de recursos do Nordeste para outras regiões.
Estima-se que dos 462 mil servidores públicos civis ativos do Poder Executivo, apenas 101 mil
estavam lotados no Nordeste, um número aproximadamente igual ao do Estado do Rio de Janeiro, ao final
de 2001, segundo os dados do Boletim Estatístico de Pessoal do Ministério do Planejamento e Orçamento
Geral. Isto sem se considerar que os salários médios dos servidores no Rio são bem maiores do que os dos
servidores nos estados do Nordeste.
Em Brasília, o contingente cresce acentuadamente a cada ano, muito embora o governo afirme que
está tentando “enxugar a máquina administrativa” (uma prova deste aumento de pessoal é a escassez
crescente de estacionamentos na Esplanada dos Ministérios e o trânsito infernal que se forma em Brasília
ao final do expediente de trabalho).
Aos números do governo sobre a folha de pagamento, acrescente-se o pessoal dos “contratos”,
assinados junto ao BIRD, PNUD, etc., e os seus eternos consultores (servidores aposentados que transitam
de ministério em ministério decidindo ganhar um pouco mais ou jovens profissionais que não desejam
prestar concurso público).

POLÍTICA DE CÂMBIO

Durante todo o século XX o governo central pôs em prática uma política de desvalorização cambial
que penalizava a classe consumidora e beneficiava os produtores de bens e serviços exportáveis.
O chamado duplo câmbio foi exemplo disto. Uma taxa de dólar mais baixa permitia a importação de bens
de capital e de insumos primários, de forma a facilitar a industrialização.
Na prática, esta medida fazia com que os consumidores financiassem os produtores. Ora, como
estes se concentravam na indústria de São Paulo, conclui-se que deve ter havido grande escoamento de
dinheiro nordestino para as caldeiras da “locomotiva paulista”.
Um segundo expediente utilizado pelo governo central para proteger a indústria paulista foi o
chamado “confisco cambial”, por meio do qual o câmbio das exportações subsidiava o câmbio das
importações de bens de capital pelo então chamado Centro-Sul. Esta política foi empreendida entre os anos
de 1930 e 1964, e fez escoar das exportações nordestinas 55 bilhões de cruzeiros, em moeda de 1976 (cf:
CAMPELLO, 1978).
O próprio Celso Furtado, principal idealizador da Sudene, já denunciava, em fins da década de
sessenta, que o Nordeste estava financiando parte do crescimento industrial do Sudeste, por meio da política
de câmbio diferenciado.
Quando, finalmente, o governo passou a praticar uma política de incentivo às exportações, de modo
a gerar superávits nas balanças comerciais, o Sul e Sudeste já haviam completado o seu ciclo de
modernização agrária e industrial. Destarte, lograram, uma vez mais, continuar auferindo a maior parte dos
lucros do comércio exterior brasileiro.
POLÍTICA DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES

Além do que foi exposto sobre política cambial, a indústria brasileira recebeu uma série de outros
incentivos.
Dentre estes os mais frequentes estão relacionados a barreiras alfandegárias explícitas, tais como
tarifas ou quotas de importação.
Com o caso da Lei de Reserva de Mercado para a Informática, por exemplo, simplesmente proibiu-
se qualquer importação de computadores pessoais e de seus principais periféricos.
Todo este conjunto de medidas protecionistas visava à substituição de importações por similares
nacionais.
Esta política, que dominaria o cenário econômico do país por todo o seu ciclo de industrialização,
atingiu o ápice no final dos anos setenta, durante o governo Geisel, quando a maioria dos bens de consumo
final podiam ser produzidos pela indústria doméstica, embora com qualidade, geralmente, inferior à dos
competidores estrangeiros.

Política tributária

Apregoa Sebastião Barreto Campello [1978] o dado de que, somente no ano de 1970, o Estado de
São Paulo recebeu, em ICM de outros estados, o equivalente a duas ou três vezes o que receberam os nove
estados nordestinos juntos, sob a forma de incentivos fiscais, naquele mesmo ano!
Em 1976, segundo os dados do Anuário Estatístico do Brasil, o comércio interno brasileiro causou
um déficit para o Nordeste de CR$ 22.829 milhões, o que significa, aproximadamente, um escoamento de
Cr$ 2.511 milhões, em ICM (considerando-se que a alíquota média deste imposto era em torno de 11%).
Em 1974, atendendo a pleito nordestino, o Presidente Garrastazu Médici empenhou-se em vencer
as resistências paulistas e conseguiu determinar a redução das alíquotas interestaduais (cf. CAMPELLO,
1978, p.32). Entretanto, o problema persiste até os dias atuais.
O sistema tributário nacional privilegia os estados e municípios onde se dá o fato gerador da
agregação de valor. Ora, como a maior parte da produção de bens e serviços acontece nos estados mais
ricos, pouco resta para os estados mais pobres.
Por outro lado, os impostos federais que incidem sobre a renda e sobre os produtos industrializados,
IRPF, IRP e IPI (Imposto de Renda sobre Pessoa Física e Jurídica e Imposto Sobre Produtos
Industrializados) que são arrecadados pela União, retornam, de alguma forma, aos seus estados de Origem.
De acordo com a Constituição Federal, em seu Artigo 159, 47% do total arrecadado com estes impostos
devem ser destinados aos Fundos Constitucionais de Participação, em percentuais de 21,5% para os estados
e 22,5% para os municípios, segundo o critério populacional. Apenas 3% devem ser destinados aos fundos
regionais do Norte (FNO), do Nordeste (FNE) e do Centro-Oeste (FCO).
Então, os estados mais populosos são os que retêm as maiores fatias deste bolo.

POLÍTICA ENERGÉTICA E A EVASÃO DA RECEITA DO PETRÓLEO

Por anos, os preços de muitos dos insumos industriais foram controlados e mantidos artificialmente
baixos, com o intuito de incentivar a produção doméstica de bens finais.
Deste modo, os preços do petróleo e da energia elétrica se mantiveram, reiteradamente, abaixo dos
seus custos de produção ou dos preços internacionais, mesmo em períodos de crise mundial, como nos
choques do petróleo de 1973 e 1976.
Como o Nordeste sempre foi, desde os anos setenta, exportador líquido de petróleo, o esvaziamento
das suas jazidas na direção austral pode ser interpretado como uma transferência líquida de recursos para o
sul, na forma de mais um tipo de subsídio à indústria de São Paulo.
Aliás, até mesmo a parcela de petróleo importada foi subsidiada para garantir os baixos preços de
derivados, tais como a nafta e o óleo combustível.
Mas isto não é tudo. Os chamados “subsídios cruzados”, realizados por intermédio da Petrobrás,
apontam para o financiamento dos custos industriais por parte da classe média e baixa, concentrando renda
e beneficiando os estados mais ricos, já que a gasolina, por exemplo, subsidia o óleo diesel e o óleo BPF.
Parafraseando o ex-genro do Presidente Fernando Henrique Cardoso, os nordestinos, desalentados,
poderiam exclamar, perplexos:

“ O petróleo é vosso! ”.

DÍVIDA EXTERNA

A crise da dívida externa que afligiu o país nos anos oitenta, o que continua sendo um dos
calcanhares-de-Aquiles da economia brasileira, teve a sua origem na fase de crescimento acelerado dos
anos JK.
Mais adiante, durante o período do milagre, entre 1969 e 1973, o excesso de liquidez internacional
fez com que os países do Terceiro Mundo tomassem vultosos empréstimos para financiar o crescimento
rápido.
Entretanto, as crises decorrentes dos choques de petróleo de 1973 e 1976, e a estagnação econômica
que dominou o cenário internacional da época, fizeram com que os juros flutuantes subissem, aumentando,
significativamente, o volume da dívida.
Ao final dos anos setenta e no início dos anos oitenta, a dívida externa já se tornava virtualmente
impagável.
Em outras palavras, pode-se dizer que a construção de Brasília, os empréstimos do período JK, as
construções megalomaníacas dos militares, o subsídio do petróleo e a alta dos juros internacionais custaram
toda uma década de sacrifício e amargura para as novas gerações de brasileiros, sobretudo durante os anos
oitenta e o início dos anos noventa, com altos índices de inflação e desemprego persistente.
É preciso se frisar que a quase totalidade da dívida externa brasileira foi gerada para fomentar o
crescimento fora do Nordeste (construção de Brasília, subsídios à indústria, Ponte Rio-Niterói, Itaipu,
Transamazônica, usinas nucleares, etc.).
Pena se constatar, uma vez mais, a nacionalização dos custos e regionalização dos lucros (em favor
do Sudeste).
A pergunta que fica é: seria justo que o Nordeste tenha de pagar uma dívida externa a qual não foi
por ele gerada?

CLIENTELISMO POLÍTICO E ELEITORAL

No Brasil, o clientelismo político remonta às origens da república, tendo sido institucionalizado


durante o mandato de Campos Sales, na virada do século XIX.
A cultura do favorecimento, o sistema federativo e a grande extensão territorial explicam este
fenômeno, havendo um certo desinteresse por grandes projetos nacionais e fomentando a difusão de
micropolíticas que respondem, apenas, às pequenas demandas locais.
Isto se torna mais dramático com relação aos políticos nordestinos. Já que estão mesmo à parte das
grandes decisões nacionais, tratam de, pragmaticamente, assegurar a renovação de seus mandatos,
aproveitando-se, muitas vezes, da credulidade e da ignorância do seu eleitorado.
Com efeito, o cotejo do Orçamento Geral da União permite observar que praticamente todas as
emendas propostas por deputados federais referem-se a projetos locais, puntiformes, nitidamente
eleitoreiros. Estes projetos, na maioria das vezes, não se integram entre si e competem pelos recursos
destinados à região.

DISPUTAS PREDATÓRIAS INTERESTADUAIS

Este argumento é semelhante ao anterior e acontece na medida em que os nove estados nordestinos
quase nunca se unem em torno de um projeto comum regional.
Ao contrário disputam entre si. No caso da guerra fiscal para atrair unidades fabris, por exemplo,
todos saem perdendo.
A esterilidade da estratégia regional pôde ser comprovada, também, no caso da refinaria da
Petrobrás que deveria vir para o Nordeste e foi disputada pelos estados do Maranhão, Ceará, Rio Grande
do Norte e Pernambuco. Acabou não vindo para ninguém, apesar de a proposta está completando mais de
vinte anos de idealização.
Uma estratégia mais convincente teria sido a de, primeiro, assegurar, formalmente, a vinda do
empreendimento para o Nordeste e, só após, estabelecer a sua localização exata, por meio, talvez, de
contratação de consultoria internacional (isto escrevi em artigo no Diário de Pernambuco, em 1996).

A DIMENSÃO TERRITORIAL

A extensão territorial de um país é importante para o seu sucesso internacional, mas não é
imprescindível. Ao contrário, não são poucos os exemplos de êxito entre países pequenos, assim como não
são raros os casos de países grandes cujo desempenho econômico não é satisfatório.
No caso do Brasil, a natureza foi incrivelmente generosa. Além de um considerável estoque de
recursos naturais, o país não sofre com fenômenos climáticos ou geológicos graves, tais como furacões,
vulcanismos ou terremotos.
Com relação aos recursos hídricos, detém, sozinho, cerca de 8% do total de reservas de água doce
do mundo e 18% das suas vazões de águas superficiais.
Estes recursos, porém, não estão distribuídos uniformemente no território brasileiro. O Nordeste,
por exemplo, vivencia escassez crônica de água no interior, não obstante ser cortado pelo Rio São Francisco,
cujo potencial hidrelétrico abastece vários estados e em cujas margens verdejam grandes perímetros
irrigados.
Além disto, a região foi agraciada com uma costa rica e ensolarada durante o ano inteiro e possui
muitos recursos naturais, inclusive terra fértil e propícia à atividade agropecuária.
De qualquer forma, como escreveu John Naisbitt [1994], os fatores determinantes para o sucesso
dos países não estão mais atrelados ao tamanho, riquezas naturais ou armas que possuem, mas, sim ao grau
de amadurecimento institucional, ao acesso a novas tecnologias (inclusive gerenciais), à agilidade das
burocracias e à capacidade de realizar mudanças adaptativas.
É provável que os grandes países do atual mapa-múndi precisem rever, radicalmente, as suas
burocracias internas ou, até, as suas fronteiras, de forma a poderem atender às novas demandas sociais e
competitivas que encontrarão pela frente.
Quanto ao Nordeste, caso se torne independente, a extensão territorial e a população do novo país
não seriam nada desprezíveis. Ao contrário, o Nordeste teria 1.548.672 Km², seria o terceiro maior país da
América do Sul e o segundo, ou terceiro, em população, superior a 42 milhões de habitantes.

A DIMENSÃO POPULACIONAL

Cientistas sociais têm perseguido, com obstinação, uma teoria sobre o tamanho ótimo para as
populações nacionais.
Alguns argumentam ser preferível que os países tenham populações grandes para que possam
fortalecer suas economias e fronteiras. Outros defendem a ideia de que populações muito grandes só
atrapalham e, o que é pior, altas taxas de crescimento populacional podem inviabilizar um caminho de
desenvolvimento sustentável.
De uma forma geral, não estaria errado afirmar que países populosos têm a vantagem de possuírem
mercado interno e produção diversificada. Consequentemente, tornam-se menos dependentes e vulneráveis
a choques externos.
Populações numerosas permitem o surgimento das chamadas economias de escala e de
aglomeração, tão importantes no comércio internacional. Escala e aglomeração permitem grandes reduções
dos custos unitários de produção. Para isto são formados, em última instância, os blocos econômicos,
procurando ampliar os mercados internos e aumentar a competitividade de seus produtos.
Entretanto, a despeito de todos estes os argumentos, países como Luxemburgo, Costa Rica,
Mônaco, Holanda, Noruega, Suíça, Israel, todos com populações relativamente pequenas lograram êxito
em seu desenvolvimento, sem requererem mercados internos muito grandes.
Frente à importância do aspecto populacional para o desenvolvimento de um país, este tema voltará
a ser abordado em seção específica, ressaltando-se alguns aspectos de política migratória e demográfica.

INFLAÇÃO E CONCENTRAÇÃO DE RENDA

A inflação crônica dos anos oitenta, que perdurou até o Plano Real, em 1994, constituiu-se em forte
elemento concentrador de renda.
A alta generalizada de preços e salários deste período foi ao mesmo tempo causa e consequência
do caos político, financeiro e orçamentário que infernizou a vida dos milhões de brasileiros.
Não há dúvidas que, em sua gênese e em sua trajetória espiralada, a inflação esteve fortemente
associada ao déficit fiscal e à insolvência da dívida pública interna e externa do governo.
De fato, foi o governo um dos principais beneficiários financeiros da inflação, embora esta lhe
trouxesse perda de popularidade junto à sociedade.
A inflação faz surgir o imposto inflacionário, uma espécie de ação regressiva, que, embora não se
trate de um imposto formal, faz com que os consumidores recolham parte de sua renda no erário público.
O imposto inflacionário funciona da seguinte maneira: de um lado o cidadão perde parte do seu
poder aquisitivo, por meio da ·deterioração da moeda, e, de outro, o governo, enquanto devedor líquido,
sente algum alívio em poder pagar suas contas com valor real diminuído.
A regressividade do imposto inflacionário, isto é, a sua maior incidência sobre os mais pobres,
advém da constatação de que os mais ricos conseguem se proteger contra a inflação, por meio de aplicações
financeiras no open market, ao passo que os mais pobres, não.
Estes, não tendo acesso ao sistema bancário, procuram gastar logo a sua renda, tão pronto a
recebam, de forma a assegurar algum poder de compra. Agindo assim, não conseguem pesquisar preços e
desperdiçam condições vantajosas, além de incorrerem nos encargos da estocagem.
Ora, como as populações das Regiões Norte e Nordeste são mais pobres, o imposto inflacionário
incidiu mais fortemente sobre estas regiões, acentuando o diferencial de renda regional.

A ELIMINAÇÃO DAS BUROCRACIAS INTERMEDIÁRIAS

O modelo burocrático racional-legal weberiano encontra-se praticamente esgotado em suas


possibilidades, dentro da atual conjuntura mundial.
Este modelo, que ainda predomina amplamente nos órgãos da administração pública brasileira,
caracteriza-se pelo excesso de formalismo burocrático e de rigidez procedimental.
Em um momento em que as economias precisam se tornar mais ágeis, criativas, flexíveis,
adaptativas, decisórias, descentralizadas, voltadas ao cliente-cidadão, o estado brasileiro se mostra incapaz
de proceder às mudanças necessárias e é vítima de seu próprio gigantismo.
De fato, os serviços públicos no Brasil são geralmente deficientes, mal estruturados, e o cidadão,
mal atendido.
Neste ínterim, as burocracias intermediárias preocupam-se, exageradamente, com controles e
processos, esquecendo-se dos resultados. Na burocracia brasileira, os meios parecem ser mais importantes
que os fins.
Com relação ao Nordeste Independente, sob este aspecto – e dentro de uma perspectiva realista –
dificilmente poder-se-ia esperar alguma mudança cultural no curto prazo.
Não obstante, a própria redução do tamanho físico do Estado já seria, por si, um avanço, eliminando
alguns círculos intermediários e melhor aproximando o usuário-cidadão das esferas decisórias.

VISIBILIDADE INTERNACIONAL E ECLIPSE REGIONAL

Até a algumas décadas atrás, qualquer menção internacional no Brasil referia-se ao Rio de Janeiro
ou a Salvador. Só posteriormente, passaram a existir, para o mundo, cidades como São Paulo e Brasília.
Atualmente, o foco internacional é sobre a Amazônia e, no mundo dos negócios, sobre São Paulo.
O Nordeste, aos olhos do mundo é um estranho e ilustre desconhecido.
Este eclipse regional existe porque o interesse dos habitantes de outros países recai, alternadamente,
ora sobre o centro econômico (São Paulo), ora sobre o político (Brasília), o turístico (Rio de Janeiro) e o
ecológico (Amazonas).
Tudo se passa como se a sombra de uma árvore adulta impedisse a plantinha de crescer. Esta sombra
eclipsa a região, fazendo com que cidades como Recife, Fortaleza e Salvador, por exemplo, só possuam
voos diretos com uma ou duas cidades do exterior. La Paz, na Bolívia, cuja população é muito menor que
a dessas cidades, possui voos diretos para dezenas de cidades de outros países.
Ao se tornar independente, portanto, o Nordeste poderia capturar, para si, parte das atenções
internacionais que se dirigem a regiões do Brasil e da América Latina.
Para isto, será preciso que o Nordeste sobreponha-se à sua timidez atávica, e passe a se promover
competentemente na esfera internacional.
É incrível que as pessoas não conheçam o Nordeste brasileiro, cujo potencial turístico envolve,
além de praias e resorts, aspectos relacionados ao folclore, música, história, arte, museus, meio ambiente,
comércio e shoppings, centros de convenções, capacidade hoteleira, vida noturna, carnaval, São João e uma
hospitalidade excepcional por parte do seu povo.
Outro exemplo da falta de personalidade internacional da Região Nordestina pode ser expresso pelo
seu quociente de abertura comercial inferior a 2% (menor, portanto, que o de qualquer país do mundo!).
Ainda, a vinda de embaixadas e consulados para o Nordeste Independente em muito intensificaria
o intercâmbio cultural e econômico com os demais países, o que propiciaria o surgimento de inúmeros
novos postos de trabalho.

O MERCOSUL E O EFEITO-ANDORINHA RUMO AO SUL

Existe um fenômeno conhecido em Economia Internacional com o nome de “efeito-andorinha”.


Ocorre quando um país mais desenvolvido capitaneia um grupo de vizinhos menos desenvolvidos, fazendo
desbordar tecnologia e dinamismo para os mesmos.
De certa forma, é possível identificar a ocorrência deste efeito na Europa Central do início do século
XX, ou, mais recentemente, no sudeste asiático e o Japão.
De forma semelhante, muitos nordestinos esperavam que o crescimento econômico do Sudeste
desbordasse na direção norte. Infelizmente, com o advento do Mercosul, o fluxo passou a ser em direção
contrária, frustrando as esperanças da região.
Por sua vez, o Mercosul é “vendido” como algo benéfico para todos. Entretanto, para o Nordeste,
o resultado não é assim tão inequívoco. Na realidade parece mesmo ser negativo, como será debatido, mais
adiante, em seção específica sobre o tema.

AUTOESTIMA

Uma população sem autoestima e que não acredite em si mesma está fadada ao insucesso.
No Brasil, tornou-se lugar-comum, referir-se ao Nordeste como uma região de desgraçados,
miseráveis, coitadinhos, incompetentes ou, até, preguiçosos. Os sudestinos fazem graça com o sotaque dos
nordestinos e os apelidam de paus-de-arara, baianos, cabeça-chata, bichinho, paraíba, etc.
Os próprios nordestinos começaram a acreditar neste falso panfleto e muitos passaram a ter uma
espécie de complexo de inferioridade em relação aos habitantes do sul.
Estes preconceitos só servem para aumentar a pobreza na Região. Conforme afirma o professor de
Ciências Políticas da UFPE, Michel Zaidan, estas ideias formam um típico “mito regressista”, que
prejudica, ainda mais, o desenvolvimento nordestino (ZAIDAN, 2001).
Aliás, se é para desmistificar crenças, seria preciso, também, desmistificar a do “mito progressista”
que foi criado em favor do Sudeste – segundo o qual os paulistas são mais eficientes e trabalhadores. Pois
se assim o fossem, para que precisariam de tanto protecionismo?
Torna-se fundamental a recuperação da autoestima dos nordestinos, exercendo, com afinco, a
postura de quem sente orgulho de sua terra e de sua gente.
Conclusões

A tese separatista possui argumentos fortes e difíceis de serem contestados.


Para que siga caminhos que merece, o Nordeste precisará, urgentemente, romper com o ciclo
neocolonial interno e isto, certamente, requererá a quebra do pacto federativo em seu atual formato.
A independência não deve, contudo, ser encarada como panaceia para os males da Região, sendo
mais importante que tudo, a recuperação da autoestima do povo nordestino e a correção de desvios
estruturais históricos que dificultam a erradicação da pobreza e a melhoria da distribuição de renda.
É preciso que muito do que foi mencionado neste capítulo passe a se circunscrever, daqui por
diante, nos debates públicos cotidianos e nas reuniões decisórias das esferas federativas, estaduais e
municipais.
Capítulo 2

NEOCOLONIALISMO INTERNO E RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA

Origens do neocolonialismo sudestino. Acumulação cafeeira. Indústria e protecionismo. Colonialismo,


neocolonialismo e neocolonialismo interno. Desigualdades Regionais. Políticas Regionais
Compensatórias.

Origens do neocolonialismo sudestino

As origens do neocolonialismo interno brasileiro remontam à segunda metade do Século XIX, com
o início da acumulação cafeeira no Sudeste e o emprego de mão-de-obra assalariada – constituída, esta, em
sua maior parte, por imigrantes europeus recém-chegados.
A partir daquele momento, foi-se tornando cada vez mais acentuada, a predominância dos
interesses de uma região central, o Sudeste, sobre os interesses das regiões periféricas, dentre elas, o
Nordeste.
Rapidamente, os enormes capitais que foram gerados por meio, plantio e da exportação do café
migraram para a atividade industrial nascente e fizeram com que o Estado de São Paulo assumisse a
hegemonia econômica e política do país.
A vinda de centenas de milhares de imigrantes, que se fixaram nos estados das regiões Sul e
Sudeste, preponderantemente, contribuiu de modo significativo para o surgimento e o fortalecimento de um
mercado consumidor interno em dimensões suficientes para permitir o escoamento da produção
manufatureira paulistana que, na época, ainda era incipiente.
No cenário político, a abolição da escravatura e a queda da monarquia refletiam, claramente, a
derrocada da aristocracia rural em todo o país, e no Nordeste, em especial, vis-à-vis a ascensão de uma
burguesia urbana, sobretudo nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Esta burguesia que se fortalecia cada vez mais, esteve indelevelmente atrelada à gênese da nova
elite industrial que era, em sua maior parte, constituída de imigrantes italianos, portugueses e alemães.
Uma vez ocupado o poder central pelos republicanos, após um rápido período de predomínio
militar, passaram a se alternar paulistas e mineiros na presidência da república e, só eventualmente,
contando com a participação de cariocas e gaúchos no primeiro escalão, havendo, neste período, muito
pouca representatividade de nordestinos, particularmente daqueles oriundos de estados situados ao norte da
Bahia.

Acumulação cafeeira

É possível se afirmar que o capitalismo moderno só chegou, de fato, ao Brasil, com o


desenvolvimento da lavoura cafeeira no estado de São Paulo. Isto porque, enquanto as relações de produção
no restante do país ainda se caracterizavam pelo trabalho escravocrata, na expansão cafeeira já se contratava
largamente empregada a mão-de-obra assalariada, desenvolvendo-se uma cultura empresarial voltada ao
lucro financeiro.
Esta transição para o trabalho assalariado e para a empresa financeira, ocorrida, principalmente,
durante a segunda metade do século XIX, foi o principal catalisador das mudanças sociais e econômicas
que transformariam o Brasil, de um país primário-exportador, para uma economia moderna e
industrializada.
Não obstante, os estados que partiram na frente deste processo canalizaram, para si, praticamente
todos os investimentos nascituros, constituindo um ciclo retroalimentado, que viria a conformar o atual
perfil de concentração regional e social do Brasil.

O ESTERTOR DA ESCRAVIDÃO

O combate organizado contra a escravidão negra no Brasil originou-se a partir da iniciativa dos
próprios negros, que se organizaram em quilombos ainda no século XVII.
Durante os séculos XVIII e XIX, contudo, o ideal, abolicionista prosseguiu conquistando adeptos
entre os brancos, principalmente no meio urbano, tornando-se, aos poucos, componente inextricável do
pensamento republicano, lendo integrado a bandeira de importantes movimentos revolucionários, tais como
a Inconfidência Mineira de 1789, a Conjuração Baiana de 1798, a Revolução Pernambucana de 1817 e a
Confederação do Equador de 1824.
No cenário internacional, contudo, o Brasil seria a última grande nação do ocidente a decretar
extinta a escravidão negra (alguns pequenos países caribenhos e africanos ainda a mantiveram por mais
algum tempo), mesmo tendo recebido fortes pressões dos interesses ingleses que, desde 1845, por meio da
Bill Aberdeen, tentavam coibir o tráfico negreiro no Atlântico.
A Lei Áurea, que aboliu oficialmente a escravidão no país, sucedeu uma série de avanços e
conquistas legislativas em prol da abolição, tais como: a Lei Euzébio de Queirós, de 1850, que proibia o
tráfico de negros; a Lei do Ventre Livre, de 1871, que declarava livres as crianças nascidas a partir de 28
de setembro daquele ano (embora as mesmas permanecessem sob tutela do senhor de sua mãe até que
completassem oito anos, quando então o proprietário optaria por receber uma indenização do governo ou
explorar o trabalho do negro até que completasse 21 anos); e a Lei dos Sexagenários, de 1885, que declarava
livres os escravos com mais de 65 anos (o que, para alguns, foi, na verdade, um ato de crueldade, não de
complacência - já que os pouquíssimos negros que conseguiam chegar àquela idade transformavam-se em
fardos para os seus proprietários e, uma vez libertos, dificilmente encontrariam alternativas de sustento).
Na defesa da abolição, muitos nordestinos tornaram-se célebres em discurso e ação, destacando-se
nomes como os de Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Castro Alves. Antes mesmo da libertação oficial no
país, os governos do Ceará e do Amazonas já haviam banido a escravidão em seus territórios, desde o ano
de 1884. A própria Lei Áurea, assinada pelo poder moderador, fora articulada e preparada por um
nordestino, o ministro conservador, João Alfredo.
Quando foram libertos, os negros constituíam uma população de um e meio milhão de indivíduos,
o que, na época, era o equivalente a cerca de dez por cento da população total brasileira, um contingente
humano bastante considerável, então.
Não obstante, conforme destacou Celso Furtado [1987], o crescimento daquela população se dera
muito mais pela intensidade de importação de escravos africanos, do que pelo seu crescimento vegetativo,
haja vista que, no Brasil, a taxa de mortalidade entre escravos, por muitos anos, excedeu a de natalidade (é
provável, inclusive, que a mortalidade infantil tenha, até, piorado, durante os primeiros anos da abolição).
Uma vez libertos, aos ex-escravos havia três possibilidades: permanecerem desocupados,
mendigando um sustento mínimo e fazendo pequenos biscates; tornarem-se empregados do antigo dono,
recebendo mais ou menos o equivalente ao que recebiam; ou, por último, em havendo terras disponíveis na
vizinhança, lançarem-se à agricultura de subsistência. É possível que em regiões do Rio de Janeiro, São
Paulo e Minas Gerais tenha prevalecido esta última alternativa enquanto que no Nordeste, as duas primeiras.
Qualquer que fosse o caso, muito pouco aconteceu em termos de redistribuição de renda,
permanecendo a população negra, por décadas a fio, no limite da pobreza absoluta.
Além de não ter acarretado modificações substanciais na estrutura social do Nordeste, o advento
da abolição em muito desorganizou a já decadente produção da região, fato que não ocorreria nos estados
cafeeiros, onde já era utilizada mão-de-obra assalariada em larga escala.
A abolição, portanto, foi ao mesmo tempo causa e consequência do atraso crônico que estava sendo
criado e que afastaria cada vez mais a economia nordestina do centro dinâmico que se formava no sul do
país.

O IMIGRANTE E O TRABALHO ASSALARIADO

A dificuldade para a obtenção de mão-de-obra, principalmente a partir da proibição de importação


de escravos, e a consequente elevação do preço dos mesmos, tornaram a utilização de assalariados a opção
mais viável para os novos empreendimentos.
Entretanto, mesmo a mão-de-obra livre não era fácil de ser encontrada, sobretudo para o
preenchimento das inúmeras vagas que surgiram com a intensa expansão da lavoura cafeeira ao final do
Século XIX. O ponto de estrangulamento da economia brasileira – utilizando-se a terminologia de Celso
Furtado e Maria Conceição Tavares – era, portanto, a escassez de mão-de-obra.
As opções de mão-de-obra livre, todavia, eram assaz escassas. Havia o roceiro, agricultor simples,
dedicado à economia de subsistência. Mas este não poderia abastecer o mercado de trabalho de forma
razoável, posto que a sua dispersão e rarefação no território nacional dificilmente permitiriam um
recrutamento em massa. Além disto, estava comumente atado à figura do coronel local e à rígida estrutura
social do interior.
Por sua vez, os habitantes das cidades tampouco se afiguravam atraentes para solucionar o
problema da escassez de mão-de-obra para o plantio e colheita do café. Seria néscio acreditar que poderiam
se adaptar à rígida disciplina das fazendas e ao trabalho rural, bem mais pesado do que os costumeiros
biscates que costumavam exercitar.
Aventou-se, ainda, que se trouxessem trabalhadores asiáticos, em regime de semiescravidão. Estes
se encontravam em abundância e ávidos por escapar da desgraça em suas terras de origem. Não obstante, o
caminho de viagem era demasiado longo e oneroso. Tampouco seus costumes eram entendidos dentro do
universo cristão do proprietário rural brasileiro.
Destarte, a melhor alternativa continuava, mesmo, a vinda de imigrantes europeus, à época, tão
disponíveis quanto sequiosos para virem trabalhar no Novo Mundo, ainda que fosse para o Brasil.
As circunstâncias econômicas e políticas na Europa Central e do Leste, de extrema pobreza, e a
unificação da Itália, que ocasionou um grande desemprego no sul daquele país, foram determinantes para
o êxito da política migratória brasileira ao final do século XIX e começo do século XX. Entre os anos de
1890 e 1900, vieram para o Brasil seiscentos e nove mil imigrantes oficialmente recenseados,
principalmente italianos, cuja maioria se fixou no Estado de São Paulo.
Oxigenada, desta forma, por mão-de-obra e pelo espírito empreendedor dos recém-chegados, a
economia paulista acelerou o seu passo de desenvolvimento e, rapidamente, diversificou os seus interesses
para a indústria, fazendo com que São Paulo passasse a deter o poder político do país até o final da década
de 1920, quando ocorreria o golpe de Getúlio Vargas.

REPÚBLICA E EMERGÊNCIA DA SOCIEDADE URBANA

Com o trabalho livre assalariado e a vinda dos imigrantes europeus, os núcleos urbanos se
multiplicaram e se fortaleceram. Isto favoreceu o aparecimento de uma classe média urbana com razoável
poder de compra, o que fortaleceu o setor de comércio e de serviços em geral.
Em decorrência, a indústria de têxteis, alimentos e calçados cresceu rapidamente, bem como a
indústria de Metalmecânica e de transportes, associadas à expansão da rede ferroviária urbana e de
escoamento do café.
Neste ínterim, o capital financeiro internacional passou a destinar uma maior atenção ao Brasil,
encontrando um cenário propício para investir em setores tais como o de transportes e energia, iluminação
pública, bancos, agências de importação e exportação, etc.
Em meio a este cenário, a República surge como o resultado natural dos novos tempos, apoiada
pela maioria da elite cafeeira de São Paulo e pela maioria da população urbana do país.
O mercado internacional do café era, naquele momento, francamente favorável ao aumento da
produção, e, assim, os preços permaneceram crescentes até os primeiros anos do século XX, quando a
situação se inverteu, passando a haver excesso de oferta, devido à entrada de novos concorrentes no
mercado, pressionando os preços do produto para baixo, fato que se agravou, ainda mais, com o advento da
I Guerra Mundial e com a crise de 1929. A esta altura, porém, os senhores do café já haviam se tornado os
“novos donos do Brasil” e passaram a ditar as regras da política nacional.
Para se ter uma ideia do poder daqueles homens, o governo federal e os estaduais passaram a
instituir, sistematicamente, políticas de valorização do café, que consistiam em tentativas de sustentar
preços, por meio da compra dos excedentes para posterior queima e inutilização dos estoques.
Pari passu, a presidência da república passou a se alternar entre paulistas e mineiros, que, cedo,
perceberam as possibilidades que teriam com a aliança e com a instituição de um sistema de governo que
ficou conhecido como “Política do Café com Leite” – alusão às principais riquezas de São Paulo e Minas
Gerais.
Este ciclo só seria rompido pelo golpe de Getúlio Vargas, em 1930, que mostrava, de certa forma,
o descontentamento do país contra a hegemonia crescente de São Paulo. Naquele ano, o então presidente
Washington Luís, paulista, apoiou um outro paulista, Júlio Prestes, para a sucessão, não passando, portanto,
o bastão para os mineiros.
Sentindo-se traída em seus interesses, Minas Gerais se aliou ao Rio Grande do Sul e à Paraíba e
apoiou Getúlio Vargas para o cargo presidencial. Passadas as eleições, e derrotado nas urnas, Getúlio
Vargas toma o poder à força e se mantém como presidente até o ano de 1945, voltando, ainda, à chefia do
governo, no período de 1951 a 1954, quando então comete suicídio, por motivos até hoje não muito claros.

POLÍTICA DE VALORIZAÇÃO DO CAFÉ

Sao Paulo tried to convince the non-producer states that coffee was a national
resource, not a regional problem (Wirth, 1977).

Ao se observar a conjuntura nacional e internacional do final do século XIX, pode-se distinguir o


café como um produto cada vez mais apreciado pelas populações urbanas que cresciam em todo o mundo,
particularmente, por aquelas localizadas em países como os Estados Unidos, a França e a Inglaterra.
Para atender à expansão da demanda, a oferta de café brasileiro aumentou de forma desordenada.
Na Tabela 2, pode-se observar que a produção, que era de 3,7 milhões de sacas, em 1880, aumentou para
vinte e oito milhões de sacas, no ano de 1930. Esta produção em muito superava o consumo mundial daquela
época.

Tabela 2: Produção nacional de café entre 1880 e 1930

Ano Milhões de sacas de 60Kg

1880 4

1890 6

1900 9

1910 16

1930 28
Fonte: Celso Furtado, Formação econômica do Brasil

Foi por meio de lucros excepcionais em anos de alta de preço e prejuízos mínimos em épocas de
crise que os senhores do café acumularam dinheiro suficiente para a manutenção dos principais cargos no
governo central. Privatizando lucros e socializando prejuízos, os paulistas se habituaram a este tipo
comodidade.
Na virada do século XIX, durante o governo de Campos Salles, que era, ele próprio, filho de ricos
fazendeiros do café, ficou estabelecida a “Política dos Governadores”, que descentralizava o executivo
nacional em favor dos estados, fazendo com que São Paulo não só passasse a deter a cadeira presidencial
como, também, uma maior autonomia administrativa.
As oligarquias locais e estaduais, assim consolidadas, propiciaram o surgimento do coronelismo,
peculiar forma de dominação local, comum no Nordeste, caracterizada pela troca de favores entre o poder
central e o pequeno oligarca rural, vício mantido até os dias atuais.
Deste modo fortalecidos, os cafeicultores conseguiram com que os governos dos estados de São
Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro celebrassem, no ano de 1906, o “Convênio de Taubaté”, que garantiria
preços mínimos para o café. Esta e outras iniciativas que, em seu conjunto, receberam o nome de “Política
de Valorização do Café”, custaram caro à população brasileira, mas permitiu a continuidade do processo
de acumulação nos estados produtores, pois, pelo Convênio, o Governo Central comprava os excedentes,
por meio de empréstimos externos, cujos juros eram pagos por um imposto incidente sobre a saca exportada.
O plano, como de resto toda a Política de Valorização, foi um fracasso, pois os governos dos estados não
conseguiram coibir a expansão das plantações e a geração de novos (e ampliados) excedentes.
Os estoques cresceram de tal forma que ao Governo e aos plantadores não restou alternativa senão
a queima e inutilização dos excedentes, última e desesperada tentativa de segurar preços.
Ao que tudo indica, a Política de Valorização apenas empurrava o problema para adiante, e as
consequências viriam a eclodir nas décadas subsequentes, nos anos de trinta e quarenta, com o aumento da
inflação e da dívida externa.
Quadro 1: Valorizações do café

“Política de Valorização do Café”

1ª valorização → 1906 (Convênio de Taubaté, Governo de Rodrigues Alves)

2ª valorização → 1917 (Governo de Wenceslao Bráz)

3ª valorização → 1921 (Governo de Epitácio Pessoa)

Na prática, a pressão dos cafeicultores e a Política de Valorização foram estéreis. Não produziram
os resultados esperados, serviram para retroalimentar o problema e, embora tenham assegurado os lucros
dos plantadores, induziram uma indesejável expansão da lavoura e estimularam a entrada de novos
concorrentes internacionais. No balanço de perdas e ganhos só houve uma certeza: a de que o Nordeste
havia perdido expressão política e econômica.

AS CRISES EXTERNAS DO INÍCIO DO SÉCULO XX

As crises mundiais decorrentes da eclosão da Primeira Guerra e da quebra da bolsa de Nova Iorque
repercutiram positivamente para o processo de industrialização brasileira em curso, muito embora tenha
ocasionado forte recessão na economia como um todo.
Estas crises provocaram grande retração nos mercados de bens de consumo e uma acentuada queda
nos preços dos exportáveis do país, além de ter sido acompanhada por um quase que total vazio de novos
investimentos nacionais e estrangeiros.
A balança comercial se deteriorou em curto espaço de tempo, pois, com a crise mundial, os pedidos
de exportações brasileiras foram imediatamente cancelados, enquanto que as importações seguiram uma
trajetória de retração paulatina.
Um dado curioso aconteceu naquele momento: em países com forte quociente de importação, como
era o caso do Brasil, a dependência do setor externo era intensa, de forma que as crises mundiais poderiam
ter acarretado danos muito maiores que os verificados. Isto porque a compra dos excedentes do café, por
parte do governo, e a sua posterior destruição, permitiu a manutenção do nível do emprego e arrefeceu o
efeito da depressão. Na prática, a compra de excedentes constituiu-se em típica política keynesiana, décadas
antes que o próprio Keynes publicasse a sua Teoria Geral (John Maynard Keynes publicou “A Teoria Geral
do Emprego, do Juro e da Moeda” em 1936, onde propõe uma atuação anticíclica, por parte dos governos,
de forma a neutralizar os efeitos da recessão ou da superprodução). Ao tentar defender o lucro dos
capitalistas, o governo conseguiu inconscientemente – manter um certo nível de emprego durante os anos
de recessão.
Foi por isso que tanto a Primeira Guerra quanto à crise de 1929 não repercutiram internamente de
forma tão avassaladora quanto nos Estados Unidos. No Brasil, a renda caiu em cerca de 30% no auge da
depressão e a recuperação começou em fins de 1932. Nos Estados Unidos, a renda caiu em mais de 50% e
a recuperação só se iniciaria a partir de 1934.
Mais curioso ainda é se notar, como será explicado na seção seguinte, que a crise internacional foi
um dos artífices da industrialização brasileira, muito embora o tradicional “menosprezo” do país ao cenário
internacional tenha sido o causador de crises de endividamento externo, inflação e concentração de renda.
Não se pode dizer que os anos vinte tenham tido um resultado líquido inequívoco. Os avanços da
indústria brasileira foram acompanhados de desequilíbrios macroeconômicos internos de grande
envergadura. No cenário político e social, foi um período de intensa concentração de renda e de revoltas
civis e militares, com particular destaque aos movimentos tenentistas, encetados por oficiais de baixa
patente e da classe média, (cite-se, dentre as revoluções tenentistas desta época, a Revolta do Forte de
Copacabana, em 1920, a Revolução Gaúcha de 1923, a Revolução Paulista de 1924, a “Coluna Prestes”,
que percorreu algumas localidades do interior do Brasil entre os anos de 1924 e 1927).

A MIGRAÇÃO DOS CAPITAIS DO CAFÉ PARA A INDÚSTRIA

A acumulação conseguida com o plantio do café propiciou o surgimento da indústria no Estado de


São Paulo.
Os capitais do café foram migrando para a indústria infante, na medida em que as possibilidades
de lucros naquela cultura pareciam estar esgotadas.
Por outro lado, a vontade de vencer e de fazer fortuna dos imigrantes azeitava. O mercado de mão-
de-obra que abastecia as fábricas. Muitos destes imigrantes, inclusive, recebiam apoio de conhecidos ou de
parentes ricos que permaneceram na Europa.
Cedo, São Paulo percebeu as vantagens e possibilidades da industrialização, em um país que, àquela
altura, já possuía um mercado interno promissor. O redirecionamento dos investimentos foi rápido: nos
anos quarenta, o PIB industrial já superava o PIB agrícola nacional.
No plano político, entre 1898 e 1930, como foi citado, o Brasil foi governado por uma sucessão de
paulistas e mineiros, os quais, obviamente, procuravam atender os interesses de seus estados. Mesmo após
o golpe de 1930, a influência do capital industrial paulista não se arrefeceu, muito embora tenha assumido
uma retórica mais nacionalista.
Assim, de tempos em tempos, sob a ilusão de que seria preferível consumir menos a mais, desde
que isto fosse um sacrifício em prol do crescimento da nação, o capital industrial paulista conseguiu iludir
a população brasileira. Esta, de forma ingênua, até, desenvolveu uma espécie de xenofobia ao capital
internacional, em benefício do capital nacional (paulista).
Em consequência, a população brasileira assumiria um perfil de extrema desigualdade social e
espacial, concentrando o poder político e econômico em estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de
Janeiro e, mais tarde, em Brasília.
A respeito disto, escreveu o economista pernambucano, Olympio Galvão, logo no primeiro
parágrafo de seu “Federalismo Desigual, Políticas Cafeeiras e Equilíbrio Espacial Paretiano”:

O desenvolvimento espacial de um país qualquer – e, sobretudo, daqueles que têm


características de continentalidade, como o Brasil – é fortemente influenciado pela
capacidade que cada área do seu território tem de fazer valerem os seus interesses junto
ao governo central. (Galvão, 1999(a))

Indústria e protecionismo

Os lucros (artificiais, ou não) obtidos no setor exportador de café migraram em passo rápido para
a produção de manufaturas. Em princípio eram umas poucas fábricas que produziam itens de consumo de
fácil execução e que dispensavam tecnologias de ponta, por exemplo, têxteis, calçados, alimentos
semimanufaturados, etc.
Além da existência de um mercado interno atraente, resultante da vinda dos imigrantes e da
urbanização acelerada, a industrialização brasileira encontrava um cenário internacional favorável: alta de
preços para bens de consumo importados e queda de preços para bens de capital e equipamentos de segunda
mão, ambos os efeitos decorrentes do curso da I Guerra Mundial.
É importante lembrar que muitos dos equipamentos adquiridos para a produção de manufaturas
encontravam-se abandonados em uma Europa semidestruída pela guerra.
A migração dos capitais do café para a indústria respondia, portanto, de um lado, à saturação do
mercado internacional pelo produto agrícola e, de outro, as incríveis oportunidades de lucros da indústria
voltada ao mercado interno.
O esquema apresentado na página seguinte sintetiza as ideias aqui discutidas.

COMPRA DOS EXCEDENTES DO CAFÉ


(manutenção do emprego e da renda)

DISPONIBILIDADE DE CAPITAIS
(busca de alternativas lucrativas, que não o café)

DESVALORIZAÇÕES FREQUENTES
(encarecimento e redução relativa das importações)

CRISE INTERNACIONAL
(disponibilidade de equipamentos ociosos no exterior)

NOVOS PERFIS POPULACIONAIS


(crescimento, migração, urbanização, classe média assalariada)

POSSIBILIDADE DE PROTECIONISMO
(superpoder dos paulistas)

CONDIÇÕES PROPÍCIAS À INDUSTRIALIZAÇÃO NO BRASIL


(leia-se: à industrialização de São Paulo)
Com efeito, foi, nas três primeiras décadas do século XX, que a “indústria nacional” passou a
assumir o perfil concentrador dos dias atuais.
Registre-se que, até 1910, o número de operários que trabalhavam na indústria têxtil no Nordeste
era praticamente o mesmo que havia em São Paulo. A partir daquele ano, os nordestinos passaram a deter
uma participação cada vez menor na indústria nacional (até chegar a menos de 10%, em meados dos anos
oitenta, havendo uma tênue recuperação a partir de então).

DESCONTINUIDADE TECNOLÓGICA

Ao contrário das metrópoles europeias, cujo desenvolvimento industrial se deu de modo endógeno,
em resposta à espiral “acumulação-tecnologia”, as economias latino-americanas (lançadas na aventura
industrial com quase dois séculos de atraso) importaram “pacotes tecnológicos” praticamente prontos,
fazendo com que os avanços conseguidos na produção de manufaturas se dessem aos saltos, cada vez que
era importada um novo pacote.
Na Europa, a acumulação capitalista industrial propiciava o reinvestimento dos lucros em novos
processos fabris o que, via de regra, aumentava os lucros em decorrência de uma maior produtividade. A
mão-de-obra, por sua vez, era constantemente substituída por máquinas cada vez mais eficientes, mas, ao
que, em um primeiro momento, poderia parecer um processo gerador de desemprego, podia-se perceber
justamente o contrário; novos postos de trabalho surgiam por causa da expansão da economia e eram
ocupados justamente por aqueles que haviam sido deslocados de seus antigos empregos.
Diante disto, os assalariados movimentavam-se internamente entre os diversos novos nichos
econômicos que se formavam, mas estavam sempre ocupados, atuantes, gastando seus salários, mantendo
firme a demanda interna, organizando-se em sindicatos, ao ponto mesmo de lograrem capturar, adiante,
parte dos lucros, fosse na forma de maiores salários, fosse na forma de participação nos resultados das
empresas.
Nos países “periféricos”, isto não ocorreu. O modelo agroexportador não permitia a diversificação.
Tampouco este tipo de desenvolvimento endógeno, ocorrido na Europa e nos Estados Unidos poderia
acontecer, uma vez que não havia, ainda, uma classe média capaz de manter um mercado interno razoável.
Constituindo-se em economias “voltadas para fora”, os esforços de produção concentravam-se em
uns poucos produtos agrícolas para a exportação. Os bens de consumo manufaturados eram praticamente
todos importados, à exceção de alguns tecidos, alimentos, calçados, móveis – artigos considerados de fácil
fabricação. A industrialização dar-se-ia, portanto, de forma descontínua, concentrada, obtida pela simples
transposição de modelos pré-existentes e obsoletos adquiridos aos países mais desenvolvidos.
A economia brasileira não seguiu destino diferente. Apenas acrescentou a este processo, como
característica própria, o fato de ter sabido bem aproveitar os períodos de crise internacional para acentuar a
substituição de importados. Para isso, o governo desvalorizou, frequentemente, a moeda nacional, e passou
a promover diversas políticas protecionistas, as quais viriam a se acentuar ante as décadas de sessenta,
setenta e oitenta do século XX.

O MODELO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES

Como frisou TAVARES [1986] o termo “substituição de importações” pode induzir o leitor a
imaginar que as economias periféricas poderiam estar se “libertando” das economias centrais, simplesmente
produzindo o que antes era importado.
A realidade não foi bem assim. Primeiro, os países passavam produzir os itens mais “fáceis” de
serem fabricados, tendo que, a isto, importar as máquinas e os equipamentos necessários.
Apenas mais adiante, gradualmente, o país podia se aprofundar na produção de bens de consumo
duráveis, bens intermediários e bens de capital.
De qualquer forma, é razoável se supor que a “domesticação” das etapas finais da cadeia produtiva,
mesmo de itens mais fáceis, propicie alguma retenção extra do valor agregado, antes localizado fora das
fronteiras. Dessa forma, o modelo de substituição foi, na verdade, uma alternativa auspiciosa para as
economias retardatárias, como o Brasil, ressaltando-se, contudo, o equívoco da concentração territorial de
que foi acompanhado.
Mesmo durante o período intervencionista do Estado, nos governos de Getúlio Vargas, justamente
aquele que houvera rompido o ciclo do café-com-leite, o aprofundamento da produção industrial continuou
se concentrando nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com a criação de grandes
empresas estatais de siderurgia, energia, petróleo, as quais requeriam montantes de investimentos cujos
risco e envergadura ainda não eram compatíveis com as disponibilidades privadas de então.
No Nordeste, contudo, quase nada foi instalado em comparação com os estados acima citados.

Colonialismo, neocolonialismo e neocolonialismo interno

O colonialismo caracterizou o desenvolvimento econômico do Ocidente desde a aurora do


capitalismo e perdura até os nossos dias, após adquirir novos contornos, sendo, agora, bem mais tolerante
quanto aos métodos de dominação, embora, continuando com a mesma avidez por lucros.

COLONIALISMO

As primeiras movimentações tipicamente colonial-capitalistas foram exercidas pelas potências


europeias dos Séculos XV e XVI, logo após a consolidação de seus estados nacionais. Países como Portugal,
Espanha, Inglaterra, França e, mais tarde, Holanda, tiveram seu crescimento ligado a conquistas de terras
distantes, que serviam como suprimento de metais e matérias-primas.
Naqueles tempos, prevalecia a crença de que uma nação só poderia crescer e se tornar forte, se
subjugasse as demais e conseguisse assegurar para si o maior acúmulo possível de ouro e prata. As colônias,
portanto, eram imprescindíveis àquela doutrina.
É importante salientar que o colonialismo e o mercantilismo não poderiam obter êxito, sem a
colaboração de uma elite, residente na própria colônia, e particularmente beneficiada pelo sistema (como
frisamos, este aspecto é importante para caracterizar o modelo neocolonial interno do Brasil de hoje).
O economista sueco Gunnar Myrdal resumiu com propriedade o contexto psicológico da relação
metrópole-colônia, afirmando que:

Os interesses econômicos das antigas potências coloniais não iam promover, por certo, a
independência econômica e a diversificação industrial das colônias, mas se esforçariam
por conservá-las como extensões de seus próprios mercados nacionais, por estabelecer e
proteger seus próprios núcleos coloniais, principalmente nas indústrias extrativas, e por
fomentar os interesses de seus colonos. Seu interesse político era, primordialmente,
manter a paz e a estabilidade, evitando transtornos sociais (Gunnar Myrdal, 1967, p.303).
NEOCOLONIALISMO

O neocolonialismo é um aperfeiçoamento do antigo sistema. Como antes, continua a forte


dependência dos países periféricos em relação às potências centrais, cujo poder emana, não da força de suas
armas, mas da pujança de suas economias e, sobretudo, da sua supremacia tecnológica e financeira.
Assim, enquanto que as economias periféricas exportam desde matérias-primas até produtos
sofisticados, as neometrópoles tratam de fortalecer setores financeiros, tecnológicos, comerciais e de
expertise, transferindo para o Terceiro Mundo indústrias pesadas, intensivas em energia, e poluidoras. Além
disto, impõem padrões comportamentais e culturais estranhos aos países dependentes.
A dinâmica de trocas envolve, também, empréstimos financeiros que, embora necessários,
amarram, ainda mais, os países dependentes. Desta forma, o neocolonialismo baseia-se, agora, na
acumulação de capital financeiro e tecnológico.
No novo jogo do comércio internacional é possível um resultado positivo para todos, mas a partição
dos ganhos e dos prejuízos é que parece não ter respaldo ético. De mais a mais, e de forma quase cínica, as
sociedades dos países mais abastados continuam tolerantes e muito pouco sensíveis à pobreza
extrafronteira.

NEOCOLONIALISMO INTERNO

O sistema neocolonialista foi aplicado internamente, isto é, dentro das fronteiras de um mesmo
país, na formação histórica de muitas nações ocidentais, destacadamente, Itália, Espanha, Estados Unidos,
México e Brasil, resultando em excessiva concentração territorial da renda.
Todavia, enquanto que nos três primeiros, esta concentração foi se arrefecendo durante todo o
século XX, até, praticamente desaparecer, no Brasil e no México ela persistiu ou se intensificou.
No México, a hegemonia das províncias centrais e a migração de capitais para as cidades próximas
à fronteira norte-americana acentuaram as diferenças com o sul, deflagrando, inclusive, o conflito armado
no Estado de Chiapas.
No caso brasileiro, o processo de industrialização baseou-se em clara exploração sobre o Nordeste.
A chamada “política de proteção à indústria nacional”, que foi implementada no decorrer de todo o século
passado, deveria, antes, cognominar-se “política de proteção à indústria sudestina”.
Isto implica em dizer que, quando um nordestino da classe média adquire um carro paulista, ele
está, na verdade, pagando um preço bem acima dos similares do mercado internacional. Deste modo,
pagando mais por menos, sacrifica-se em prol dos bolsos sudestinos.
Tomando-se, mais uma vez, as palavras do cientista político Edward Nocolae Luttwak:

os ricos foram os que mais ganharam com as políticas industriais do Brasil (apud, VEJA,
Edição 1826, p. 14, 2001).

Nos anos sessenta, Paulo Haddad, ainda aluno de graduação, quase chegou a formular uma teoria
da exploração, por meio de seu artigo “O Colonialismo Paulista e a Integração Nacional”, publicado no I
Encontro Nacional de Estudantes de Economia, acontecido no Recife, em 1962. Acuado pelos colegas
paulistas explicou que o termo colonialismo era ali utilizado “no bom sentido”.
De fato, não é difícil perceber, a essência da dinâmica explorativa do neocolonialismo interno, no
caso brasileiro: O Nordeste exporta para o sul matéria-prima e pessoal a preços competitivos ou depreciados
e importa, compulsoriamente, do sul, produtos industrializados, a preço e qualidade pouco competitivos no
cenário internacional.
Somente sob esta ótica é possível se explicar a persistência das desigualdades regionais em um país
que contou com um rápido crescimento industrial como o brasileiro. Outras teorias (de economia regional),
como a clássica e a neoclássica, ou aquelas baseadas nas hipóteses de Weber, Isard, Losch e Perroux, não
são adequadas para explicar o fenômeno do atraso econômico do Nordeste.
Em adição ao que acaba de ser exposto, excetuando-se alguma reação ocasional, o Sudeste segue
impondo sua cultura e seus valores aos nordestinos, algo semelhante ao que acontece no cenário
internacional, entre países ricos e pobres. É por isso que as crianças nordestinas de hoje entoam, quase que
exclusivamente, as canções que aprendem na TV e torcem (fanaticamente) pelos times do Flamengo, do
Grêmio, do Corinthians, esquecendo-se das equipes de seus estados, as quais não mais conseguem ser
competitivas e cujos jogos não são transmitidos pelas emissoras televisivas. Em recente videocassete de
uma grande apresentadora infantil brasileira, sucesso nas lojas, com quase um milhão de cópias vendidas,
os nordestinos aparecem estigmatizados como esquálidas e estranhas figuras de pouca inteligência. As
criancinhas brasileiras do Sul e do Sudeste, ao verem esta deturpação, aceitam-na como verdadeira (ainda
que de forma involuntária, a apresentadora ajudou a fomentar o preconceito).
O modelo de neocolonialismo interno reúne, portanto, condições excepcionalmente favoráveis para
as regiões-centro, as quais detêm o controle político e econômico do país e contam com mercados cativos
para sua produção.
Isto é mais confortável, para a metrópole, que o processo ocorrido no modelo colonial clássico, já
que, no novo modelo, não existe oposição nativista nem xenófoba. Agora, em nome do protecionismo
nacional, a região-centro conquista a simpatia e a cumplicidade da periferia.
É provável que a história da humanidade não registre mamata maior para uma elite nacional.

Desigualdades regionais

Com o passar do tempo, os lucros acumulados no Sudeste, resultantes dos ciclos do café e da
industrialização, propiciaram o agigantamento econômico e político da região, o qual propiciou mais
acumulação que, por sua vez, propiciou mais poder.
Como consequência deste “efeito bola-de-neve” verifica-se, atualmente, que o Nordeste passou a
ter uma renda per capita, ao final do século XX, de pouco mais que um terço da dos sudestinos.
Com efeito, o modelo de crescimento a qualquer custo adotado no Brasil desde as origens da
industrialização, e que se acentuou durante as décadas de sessenta o\e setenta, embora tenha logrado êxito
no intento de diversificar e modernizar a produção nacional, rompendo com a vocação primário-
exportadora, ocasionou profundas e inquietantes desigualdades sociais, regionais, raciais.
Uma breve consulta ao Almanaque Abril de 2000 permite uma reflexão sobre a intensidade das
discrepâncias relativo ao Nordeste:

É a região mais pobre do país: 50,12% da população nordestina tem renda familiar de
meio salário mínimo. Esse índice representa quase o dobro do nacional, de 27,21% de
acordo com o Ministério da Saúde. Os nove estados do Nordeste lideram as maiores taxas
de mortalidade infantil do país. O índice da região é de 57,91 por mil nascidos. De acordo
com levantamento feito pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância),
divulgado em 1999, as 150 cidades com maiores taxas de desnutrição do país estão no
Nordeste. Nelas, 33,66% das crianças menores de 5 anos estão desnutridas.

Frente a isto, é possível corroborar o que descreveu Clóvis Cavalcanti, da Fundação Joaquim
Nabuco:

(...), percebe-se uma certa sensação de que talvez o Brasil, do jeito que é, comporta de
fato mais de uma nação em seu interior (CAVALCANTI, Clóvis, 1993).

A DESIGUALDADE REGIONAL NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL

A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988, preconiza, logo em sua


abertura, no Artigo 3°, inciso III, “a erradicação da pobreza e da marginalização e a redução das
desigualdades sociais e regionais”.
Contudo, não obstante os dados divulgados pela Sudene desde a década de oitenta – que apontam
uma leve reversão da tendência à concentração territorial, indicando taxas de crescimento econômico do
Nordeste superiores às do Brasil – a persistência do acentuado abismo regional reflete a timidez dos
nordestinos e o desinteresse do governo central em resolver, de vez, o problema, estabelecendo políticas
regionais consistentes e eficazes.
Diante disto, os nordestinos se deparam com a seguinte questão: esperar por uma homogeneização
natural da renda per capita (que, convenhamos, ao passo atual, levaria décadas) ou procurar acelerar a
equalização, atuando de forma ativa, tomando iniciativas próprias e cobrando ao governo metas regionais
claras e inequívocas.

INDICADORES SOCIAIS

Segundo Paulo de Martino Januzzi [2001], um indicador social é uma medida, em geral,
quantitativa, dotada de significado social substantivo, usado para substituir, quantificar ou operacionalizar
um conceito social abstrato, de interesse teórico (para a pesquisa acadêmica) ou programático (para
formulação de políticas). É um recurso metodológico, empiricamente referido, que informa algo sobre um
aspecto da realidade social ou acerca das mudanças que estão se processando na mesma.
Sendo assim, os indicadores sociais dão uma ideia, o mais aproximado possível, da realidade social
vivenciada por uma população.
Dentre os indicadores socioeconômicos, destacam-se aqueles referentes à renda e ao produto, tais
como o PIB e a renda per capita, e os que explicam como se opera a distribuição, de recursos entre a
população, tais como o índice de Gini e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).
Nas seções seguintes, estão destacados alguns destes indicadores, comparando-se a Região
Nordeste com o Brasil. O leitor irá perceber que houve progressos significativos na grande maioria dos
indicadores sociais, excetuando-se aqueles referentes à distribuição de renda, poluição e proteção
ambiental, violência urbana e congestionamentos.
Isto é importante de ser observado, pois seria injusto negar avanços sociais obtidos nos últimos
anos. Dizer que a miséria está aumentando e que a classe média está desaparecendo é desvirtuar a realidade
dos dados.
Com efeito, o discurso simplório e oportunista, empregado por muitos dos partidos de oposição, e
a crítica pela crítica, desprovida de propostas factíveis, são tão estéreis quanto o silêncio.
O Brasil e o Nordeste apresentam excelentes oportunidades de investimentos e, neste caminho, a
independência nordestina serviria como catalisador e acelerador de um processo irreversível e inexorável.

PIB BRASILEIRO E PIB NORDESTINO

Indicadores de desempenho nacional e regional tais como o PIB, o PNB, o PIL, a Renda Nacional
e a renda per capita foram, durante muitos anos, os índices sociais de maior serventia para a análise
econômica do crescimento.
Estes indicadores são calculados consoante metodologia única, recomendada pelo Sistema de
Contas Nacionais das Nações Unidas, estabelecido na década de cinquenta, de forma que possam ser
comparáveis, uns com os outros, entre diferentes nações e em diversos cortes temporais.
Desde a década de oitenta, porém, muitas críticas foram levantadas contra estes números, dentre
elas, o fato de encobrirem importantes aspectos de distribuição de renda e da qualidade de vida de um país.
Por isso, muitas nações passaram a adotar um sistema de contas satélites em paralelo ao das contas
tradicionais, incorporando, inter alia, questões ambientais e distributivas.
Apesar disto, até mesmo pela metodologia tradicional, é possível se evidenciar intrigantes
desigualdades nas contas nacionais do Brasil. No que refere à renda per capita familiar, por exemplo, alguns
municípios nordestinos possuem aviltante desvantagem em relação aos do sul.
Em artigo publicado no Diário de Pernambuco de 8 de maio de 2001, o economista Leonardo
Guimarães, utilizando dados do IPEA/PNUD, afirmou, por exemplo, que o município de Traipu, em
Alagoas, tinha, em pleno ano 2000, uma renda per capita familiar inferior a 7% da encontrada para a Grande
São Paulo.
A propósito, a Tabela 3 relaciona o PIB a preços de mercado e o PIB per capita para os estados
nordestinos e para as regiões Nordeste e Sudeste, comparando-os aos do Brasil, como um todo.

Tabela3 – PIB a preços de mercado, em 1998, segundo o IBGE e a SUDENE

Estado PIB a.p.m. (em bilhões de US$) PIB per capita (em US$)

Maranhão 11,4 2.113

Piauí 5,10 1.812

Ceará 20,0 2.803

Rio Grande do Norte 8,00 2.996

Paraíba 8,20 2.340

Pernambuco 21,3 2.797

Alagoas 7,20 2.569

Sergipe 4,60 2.735


Bahia 39,1 3.048

NE 124,9 2.690

SE 586,2 8.374

Brasil 781,5 4,793

Fonte: IBGE SUDENE, Apud Almanaque Abril 2000 e Região Nordeste do Brasil em Números – Edição
da Sudene de dezembro de 1999.

Por exame da tabela, pode-se concluir que, ao final do século XX, o PIB nordestino representava
apenas 16,1% do PIB nacional, enquanto que a população representava 28% da total. Observe-se, ainda,
que o PIB per capita do Sudeste é cerca de três vezes maior do que o PIB do Nordeste!
Apesar disto, a taxa média de crescimento do PIB per capita nordestino, entre 1970 e 1999, foi de
3,2% ao ano, o que é cerca de 40% maior que a taxa média brasileira no mesmo período. Isto fez com que
a participação do PIB nordestino no PIB brasileiro, que era de 12% em 1970, tenha se elevado para 16%
em 2000.
Muito disto, contudo, deveu-se à extração mineral e à atuação de empresas sediadas no sul do país
e que para lá remetem parte dos seus lucros. Seria importante proceder a um levantamento das contas
regionais satélites, de forma a se avaliar o quanto do crescimento do PIB nordestino se deu às custas de
migração, depredação ambiental, esgotamento dos recursos naturais, sobretudo de petróleo e alumínio,
concentração de renda e remessa de lucros, royalties e serviços financeiros.
Por outro lado, pode estar havendo, ainda, na Região Sudeste, um fenômeno típico das economias
pós-industrializadas, que transferem para o Terceiro Mundo suas indústrias pesadas e poluidoras, mantendo
para si, a esfera decisória, as matrizes financeiras e os centros de pesquisa.

O ÍNDICE DE GINI E OUTROS INDICADORES DE DESIGUALDADE

No ano de 1912, o estatístico italiano C. Gini desenvolveu um índice quantitativo que procurava
medir desigualdade social, em termos de concentração de renda. Este índice foi obtido a partir da curva de
Lorenz, a qual relaciona porcentagens da população com porcentagens da renda por elas detidas.
O índice de Gini situa-se sempre entre zero e um, e é tanto pior, isto é, denota uma desigualdade
social maior, quanto mais próximo for da unidade. O índice de Gini para o Brasil, como um todo, é em
torno de 0,6, enquanto que para a Suécia é de apenas 0,25.
Desafortunadamente, se o Nordeste fosse um país independente, disputaria, com o Brasil, o recorde
em má distribuição de renda do planeta. Segundo os dados do IBGE divulgados em 2001, o índice de Gini
do Nordeste é de 0,57.
Esta enorme desigualdade, em uma região pobre como o Nordeste, pode ser explicada, em parte,
pela existência de uma elite colaboracionista nordestina que, como já frisamos, é necessária ao êxito da
empresa neocolonial, aí inclusos alguns servidores públicos hiper-remunerados (várias teorias econômicas
foram desenvolvidas para explicar esta drástica segmentação do mercado de trabalho e podem ser usadas
para o caso nordestino).
Existem ainda, outros indicadores de desigualdade social além do índice de Gini. Um deles
relaciona o quanto da renda nacional é capturado pelos 20% mais ricos. Com respeito a este índice, o Brasil
detém o pior escore em todo o mundo. De acordo com as estatísticas do Banco Mundial em seu “Relatório
sobre o Desenvolvimento Mundial”, editado em 1995, os dados mostram que os 20% mais ricos da
população brasileira detêm nada menos que 67,5% da renda gerada no país!

CRESCENDO O BOLO PARA DEPOIS DIVIDIR?

A ideia de que crescimento rápido, em países subdesenvolvidos, só seria possível se acompanhada


de concentração de renda foi, e continua sendo, compartilhada por inúmeros economistas.
Isto porque os investimentos necessários ao desenvolvimento dificilmente poderiam advir do
esforço de poupança da classe média. Além disto, educação e saúde universal e de boa qualidade
requereriam décadas de esforço do setor público,
Assim, os formuladores de políticas econômicas que defenderam o crescimento rápido da América
Latina, nos anos sessenta e setenta, contando com o apoio dos governos militares de então, alegavam que
seria necessário crescer o bolo para depois dividir, isto é, depois de passar por um período de altas taxas de
crescimento econômico é que os países deveriam se preocupar com a questão distributiva. Otávio Bulhões
e Delfim Neto aderiram a esta escola, sob influência da chamada Escola de Chicago.
Entretanto, ao definirem suas estratégias de crescimento, as economias latino-americanas se
esqueceram de definir quando seria o ponto de inflexão, ou seja, em que momento diminuiriam o ritmo de
crescimento para cuidar de seus pobres.
Para piorar o contexto, os anos oitenta foi de crise internacional e alta dos juros internacionais, o
que impediu qualquer tentativa de aplicação do welfare state nos países endividados e, mesmo depois,
quando a dívida externa parecia já estar sob controle, foi a dívida interna que passou a ser o dragão da
economia, juntamente com sua filha mais ilustre, a inflação.
Ora, é sabido que déficit público gera inflação que causa concentração, haja vista que a alta de
preços, em última instância, constitui-se em imposto inflacionário, fortemente regressivo, incidindo mais
sobre os que têm menos.
Finalmente, quando, nos anos noventa, o Plano Real trouxe esperanças de ruptura nas espirais
inflacionária e concentradora, foi apenas com a derrubada da inflação que teve êxito. Ao mesmo tempo,
com relação ao Nordeste, um fato novo viria a surgir em detrimento da região, que foi o advento do
Mercosul e o enfraquecimento e a extinção dos órgãos de política regional.

O ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO - IDH

O IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, é utilizado pelas Nações Unidas para avaliar a
qualidade de vida dos países e é obtido a partir de uma composição de quatro indicadores básicos referentes
à educação, anos de estudo, nível de consumo e saúde.
Como proxies para cada um destes indicadores, utiliza-se a taxa de alfabetização entre adultos (peso
dois), a taxa combinada de matrículas no ensino fundamental, médio e superior (peso um); a esperança de
vida ao nascer, e a renda per capita calculada pela “paridade do poder de compra”, isto é, ajustada para
preços locais. Todos os indicadores assumem valores entre zero e um, tomando-se benchmarks como
referência.
Com relação ao IDH, O Brasil apresenta um valor de 0,797 caracterizado pelo Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) como sendo um país de alto desenvolvimento humano. Em
contrapartida, o Nordeste apresenta um IDH de apenas 0,548.
Enquanto que as Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam IDH superiores a 0,82, portanto
superiores ao IDH médio da América Latina e não estão distantes do IDH médio relativo aos países de alto
desenvolvimento humano e mesmo do valor referente aos países industrializados, os estados das regiões
Norte e Nordeste possuem um IDH sofrível.
A Tabela 4, na página a seguir, reproduzida do “Relatório do PNUD sobre o Desenvolvimento
Humano no Brasil – 1996”, indica a posição relativa dos estados do Nordeste vis-à-vis alguns outros estados
e países.
O IDH, apesar de procurar explicitar as condições de vida da população de um país, ainda encontra-
se sendo aperfeiçoado e não é, até o momento, um indicador confiável. Ao se observar a tabela, conclui-se
que países como a Índia, o Egito, a Bolívia ou a Guatemala, têm IDH’s superiores aos do Ceará e de
Pernambuco, o que, para aqueles que visitaram aqueles países, não parece ser crível.

Tabela 4: Ranking de países e estados segundo o IDH

Estado ou País Classificação hipotética IDH


(ranking)

Canadá 1 0,950

Estados Unidos 2 0,937

Japão 3 0,937

Rio Grande do Sul 41 0,871

Distrito Federal 48 0,858

São Paulo 52 0,850

México 53 0,842

Rio de Janeiro 57 0,838

Colômbia 57 0,836

Equador 68 0,784

Minas Gerais 68 0,779

Sergipe 101 0,663

Nicarágua 109 0,611

Bahia 110 0,690


Pernambuco 117 0,577

Rio Grande do Norte 117 0,574

Marrocos 117 0,554

Maranhão 125 0,512

Papua - Nova Guiné 126 0,508

Ceará 128 0,506

Piauí 128 0,502

Alagoas 128 0,500

Paquistão 128 0,483

Lesoto 131 0,473

Paraíba 132 0,466

Fontes: PNUD - Relatório sobre o Desenvolvimento Humano no Brasil 1996

OUTROS INDICADORES

Alguns dados são muito alentadores, em termos de melhoria da qualidade de vida na Região
Nordeste. A taxa de analfabetismo entre adultos, por exemplo, era, em 1991, 20% no Brasil, 12% no Sudeste
e 38% no Nordeste, e, em 1996, em cinco anos, apenas, foi reduzida para 15% no Brasil, 10% no Sudeste
e 29%, no Nordeste (IBGE (1997), PNAD 1996] e SUDENE [1999]).
Outro fato animador é a redução, em cerca de 35% para o Nordeste, da taxa de analfabetismo entre
crianças e adolescentes (de 7 a 14) no período de 1994 a 2000,
Apesar de tudo isto, a taxa de analfabetismo do Nordeste ainda é inferior à da Bolívia, à do Peru e
à do Paraguai, que são os países mais pobres da América do Sul.
A taxa de mortalidade infantil, uma das mais prementes a serem reduzidas, também melhorou
significativamente, conforme pode ser avaliado na Tabela 5.

Tabela 5: Mortalidade Infantil (por mil nascidos vivos)

Região 1970 1980 1998

Nordeste 146 138 58

Sudeste 81 68 25
Brasil 99 87 36

Fonte: SUDENE [1999] e Unicef, apud Almanaque Abril de 2000. O EMPOBRECIMENTO RELATIVO
DO NORDESTE

Um olhar atento sobre a história do Brasil a partir de meados do século XVIII constata um
empobrecimento relativo do Nordeste, que passou a perder importância política e econômica no cenário
nacional.
Na verdade, este empobrecimento relativo está intimamente relacionado ao ocaso da sociedade
escravocrata rural na lavoura Canavieira e ao surgimento de uma nova elite empresarial, primeiro na lavoura
cafeeira e, depois, na indústria nascente.
Para acelerar o deslocamento do centro dinâmico da economia brasileira, chegaram ao sul do país,
centenas de milhares de imigrantes, de bolsos vazios, mas cabeça cheia e, acima de tudo, muita disposição
para trabalho e novos empreendimentos,
Não é difícil inferir que o elemento europeu, mesmo não representando a vanguarda europeia
daqueles tempos, possuía muito mais solidez educacional que o brasileiro e representava vantagens na
produtividade física e intelectual do trabalho,
É louvável que a nova sociedade, formada de homens livres, representasse grandes avanços para a
produção nacional e para a consolidação de uma classe média. Deletério foi, porém, o fato de que a nação
brasileira não tenha conseguido estender os benefícios dos novos tempos por todo o território nacional,
restringindo-os ao lugar onde surgiram.
Foi assim que a Região Nordeste, segundo especialistas, que detinha, no começo da segunda metade
do Século XIX, cerca de 65% da produção nacional; em 1939, participasse com apenas 14,4%.
De acordo com Sebastião Barreto Campello [1979], em 1870, a renda per capita regional era 144%
da nacional e em 1970, cem anos depois, era inferior a 39%. Em 1919, o orçamento de Pernambuco, por
exemplo, era igual ao de São Paulo e, ao final dos anos setenta, era tão-somente de 5%.

Políticas regionais compensatórias

No Capítulo 1, foi citado o argumento das transferências alardeadas versus transferências surdas e
citados exemplos, hipotéticos ou não
Neste sentido, contrabalançando algumas tímidas políticas regionais compensatórias, alardeadas
por jornais da época, transcrevemos alguns exemplos da década de setenta citados no livro Idéias e Posições,
de autoria de Sebastião Barreto Campello (Campello, 1978):

1. Os gastos do DNOCS para regularização do Rio Guaíba entre 1951 e 1955 foram equivalentes a
todos os recursos deste órgão para o Nordeste em seus primeiros 43 anos de funcionamento.
2. Existem no Rio de Janeiro e em São Paulo 298 mil funcionários públicos civis, enquanto que, no
Nordeste, apenas 127 mil.
3. Os gastos com a Ponte Rio-Niterói e com o Aeroporto do Galeão custaram, juntos, o equivalente a
16 anos de aplicações na SUDENE, incluindo os seus gastos de custeio.
4. O orçamento da União em 1969 destinou 85% para o Centro-Sul e apenas 6,9% para o Nordeste.
Os fatos acima contribuem para desmistificar a crença de que é o Nordeste que captura a maior
parcela dos recursos federais.
Em adição, o que se costumou chamar de políticas compensatórias, nunca chegou a compensar as
populações carentes nordestinas pelo sacrifício em prol do desenvolvimento do sul. Estas políticas não
cumpriram os seus objetivos e tampouco internalizaram, no sul, as externalidades negativas impingidas aos
nordestinos.

A FAMIGERADA INDÚSTRIA DA SECA

Desde há muito, a imagem do Nordeste está associada a cactos espinhentos, esqueletos de animais
e solo lanhado pela seca. O resultado deste quadro desolador é a figura de magros retirantes que migram
para a cidade grande.
Esta imagem marcou o imaginário brasileiro, inspirando artistas, poetas, escritores, cineastas.
Correspondeu, de fato, à triste realidade dos habitantes do semiárido, mas não se presta mais para
caracterizar a sociedade atual, multifacetada e heterogênea, inclusive na região das secas.
Esta nova realidade aponta, muito mais, para um complexo sistema sociocultural, com população
predominantemente urbana, dedicada ao terciário, e onde convivem, lado a lado, bolsões de miséria e
setores econômicos modernos e competitivos.
Entretanto, a ideia do homem retirante perdura, enriquecendo obras artísticas e embotando a
eficácia de eventuais políticas regionais. Os tomadores de decisão, em Brasília, ingenuamente ou não,
continuam mantendo uma estratégia de ação voltada, primordialmente, para o atendimento emergencial,
assistencialista, circunstancial e de curto prazo.
A partir da década de sessenta, com a criação da SUDENE aumentou o esforço coordenado para o
crescimento da região. Infelizmente, querendo, talvez, imitar o que ocorrera no Sudeste, apostou-se
demasiado alto na industrialização forçada, por meio da instituição de incentivos fiscais,
Não se aproveitaram as vantagens comparativas regionais nem se investiu em capital humano. Tão
somente, foi criado, mais tarde, o Fundo de Investimento para o Nordeste – FINOR – na busca por unidades
fabris, quaisquer que fossem.
Com o correr dos anos, ao invés de se tornar um instrumento de indução do crescimento econômico,
geração de emprego e desconcentração da renda, O FINOR passou a servir os interesses de uns poucos
integrantes de antigas elites políticas locais.
O DNOCS e a CODEVASF, por sua vez, alimentaram por décadas a fantasia de que a redenção
nordestina adviria do controle das estiagens – ideia que causa, continuamente, danos à economia regional,
desviando recursos de setores onde há vantagens comparativas para setores menos eficientes.
Gustavo Maia Gomes, Diretor do IPEA e professor da UFPE, critica as políticas assistencialistas
empregadas no Nordeste, afirmando que:

Os instrumentos de política regional “explícita’ (FINOR, Programa de Integração


Regional/Proterra, PAPP e FNE) tiveram grande parte de sua eficácia potencial esvaziada
e se transformaram, em larga medida, em instrumentos de ‘preservação” das estruturas
sociais e econômicas e, portanto, em instrumentos de preservação da miséria. (Contos
Nordestinos - Final, Jornal do Commercio, 28/11/1995).

A SUDENE
A Sudene foi inaugurada em 1960, a partir das boas intenções de uma equipe de intelectuais
liderada por Celso Furtado, que assessorava o presidente JK – acusado por muitos de ter sido negligente
com relação à política regional e ter inaugurado o período de “crescimento a qualquer custo”.
Um estudo mais apurado do Plano de Metas, por exemplo, mostra uma atenção federal quase
exclusiva aos estados do Sudeste. Até mesmo as rodovias de integração nacional construídas no período
pareciam estar respaldadas na necessidade do escoamento da produção sudestina,
A Sudene, quando inaugurada, tinha status de um superministério, ligado diretamente à presidência
da república. Seu conselho deliberativo, integrado pelos governadores e por representantes da sociedade e
do governo, podia discutir questões amplas de política regional e detinha um orçamento bastante vultoso,
atrelado a um percentual da arrecadação federal.
Este conselho, porém, foi se desvirtuando de suas funções típicas de planejamento, passando a ser
um mero repassador de recursos do FINOR e do FNE – Fundo Constitucional para o Nordeste, legitimando
projetos da iniciativa privada, previamente acertados.
Sobre isto, Gustavo Maia Gomes escreveu:

O FINOR é controlado por um colegiado onde têm forte presença os interesses políticos
tradicionais, e que nunca resistiu a aprovar mais e mais projetos, até chegar à situação de
hoje (1995), na qual os recursos já comprometidos somam quase oito anos de receita do
Fundo. Com esta perspectiva, até mesmo os projetos bons se tornam ruins, submetidos a
um cronograma financeiro tão lento que os inviabiliza(...) No Nordeste, o controle dos
incentivos pelos esquemas tradicionais de poder transformou em moeda de troca
clientelista o que deveria ser um instrumento de desenvolvimento. (Contos Nordestinos
(1), Jornal do Commercio 22/11/1995).

Com efeito, nas reuniões em que participei do conselho deliberativo, na qualidade de representante
do ministro do meio ambiente, muitos colegas de mesa estranhavam quando, tomando a palavra, discursava
sobre desenvolvimento sustentável para o Nordeste e aguardavam, impacientes, pelo momento de votar os
projetos incentivados.
Para dificultar ainda mais a sua atuação, as fronteiras sob jurisdição da Sudene foram
paulatinamente estendidas e passaram a envolver o norte de Minas Gerais e o Estado do Espírito Santo,
contribuindo, desta forma, para a perda de foco da entidade (a área de atuação da Sudene chegou a ser de
1.760.000 Km², um território cinco vezes maior do que o da Alemanha).
A questão a ser posta é: teria sido melhor para o desenvolvimento do Nordeste se a Sudene nunca
tivesse existido ou se houvesse, de fato, se dedicado às suas funções típicas de planejamento?
Sem dúvidas, a liberação de recursos para projetos de pouca visibilidade social e baixa geração de
renda e emprego não está entre as prioridades regionais. Afora este problema, como muitos dos projetos
incentivados provêm de matrizes do Sul, eles terminam por carrear parte dos lucros de volta às regiões de
origem.
Uma Comissão Parlamentar de Inquérito apurou desvios estimados em R$ 2,2 bilhões e o seu
relatório final recomendou a completa suspensão da liberação de verbas para 272 projetos incentivados, na
maioria inviáveis economicamente, cujos recursos seriam da ordem de R$ 3,4 bilhões de reais (cf. Diário
de Pernambuco, 25 de abril de 2001, pág. B3).
Para se ter uma ideia da pressão política em Brasília pela manutenção do FINOR e da SUDENE,
O Presidente da República editou, em pleno curso da CPI criada justamente para a apuração de fraudes, a
Medida Provisória 2.058 que anistiou os devedores do fundo. Em compensação, seria também por Medida
Provisória que decretaria a extinção da entidade.
O novo órgão que se está criando para substituir a Sudene deve, urgentemente, assumir o papel de
planejador de um desenvolvimento regional sustentável e integrado, destacando uma preocupação maior
com a desconcentração da renda, com o aumento do estoque regional de capital humano e com políticas
consistentes de comércio exterior e de fortalecimento do terciário. Quiçá, possa ser, ainda, o órgão de
gestação da independência e da transição para um novo país.
Capítulo 3

HISTÓRIA DO SEPARATISMO NO BRASIL

Premissas. Movimentos e revoltas que poderiam resultar em cisão. A decadência do separatismo no Brasil.
O separatismo ao final do Século XX. Separatismo recente no Brasil. Alguns comentários finais.

Premissas

Ao longo da história do Brasil, foram muitas as iniciativas que contestaram o status quo e a unidade
territorial do país, o que não poderia ter sido diferente, dadas as dimensões espaciais envolvidas e a
diversidade dos interesses locais.
Curiosamente, a versão oficial, que nos é apresentada nos livros de História do Brasil, tenta mostrar
a unidade política e territorial do país como o resultado de um milagre de união de raças, povos e credos.
Enquanto a América Espanhola se fragmentava, a América Portuguesa permanecia unida.
Este capítulo se dedica, portanto, a uma revisitação deste passado, procurando salientar que a
unidade territorial brasileira só foi conseguida mediante forte repressão aos movimentos revolucionários
que se sucederam a partir do século XVII.
Indo mais além, serão descritos, ainda, os movimentos e grupos com ideias separatistas do século
XX, os quais se multiplicaram no país durante a décadas de noventa.
De pronto, passemos, então, a enumerar as revoltas, movimentos, grupos e iniciativas, que guardam
relação com o separatismo ou que poderiam ter ocasionado, direta ou indiretamente, algum tipo de ruptura
da continuidade territorial e política brasileira.

CISÕES PRIMEVAS

Na época do descobrimento, Portugal precisava consolidar o seu domínio sobre as novas terras e
ensaiou uma série de modelos administrativos para a colônia. Estes iam desde a instauração de um governo
geral centralizado até a divisão da colônia em capitanias hereditárias e sesmarias.
Na tentativa de administrar aquele gigantismo territorial, que lhe era completamente estranho, até
mesmo a unidade colonial houve ser cindida em algumas ocasiões por iniciativa do próprio rei.
Assim foi que, entre 1572 e 1577, e entre 1608 e 1612, o Brasil dividiu-se em dois governos, o
primeiro com sede em Salvador e, o segundo, no Rio de Janeiro.
Também houve a bipartição oficial da colônia entre os anos de 1621 e 1774, com a formação de
dois estados: Maranhão e Brasil.

O DESPERTAR DO SENTIMENTO NATIVISTA BRASILEIRO

É provável que o surgimento do sentimento nativista brasileiro tenha ocorrido com a insurreição
pernambucana entre 1645 e 1654. Contra brasileiros e portugueses, havia o inimigo comum, o invasor
holandês.
Sobre isto, disse Gilberto Freyre: “O endereço do Brasil foi escrito em Guararapes”.
De fato, foi naquela batalha que primeiro pôde-se discernir a ação do povo brasileiro, em uma
aliança incomum para a época, lutando, lado a lado, portugueses e descendentes, ameríndios e negros, na
maioria, escravos.
Está claro que, para muitos daqueles guerreiros, não foram dadas alternativas senão a de lutar. Mas
isto não esmaece a bravura daqueles homens que, pela primeira vez, procuravam defender sua terra e seus
valores.
Com a expulsão, até hoje muitos se perguntam se não teria sido melhor, para os pernambucanos,
caso os holandeses houvessem vencido a guerra.
Para esta pergunta, contudo, não há resposta. É verdade que, enquanto os holandeses residiram em
Pernambuco, entre os anos de 1630 e 1654, empreenderam consideráveis avanços urbanísticos e
desenvolveram os setores de engenharia, comércio e finanças.
Por outro lado, a colonização flamenga alhures, inclusive na própria América do Sul, não foi assim
tão auspiciosa.
Sem embargo, não é possível se saber, ao certo, se a feliz administração holandesa em Pernambuco
fora consequência de uma nova metodologia específica para a capitania, ou se o resultado da maneira
pessoal de Maurício de Nassau à frente do governo local.
De qualquer forma, para os nativos de antanho, era preferível serem tutelados pelos portugueses, a
quem já haviam adquirido a língua, a religião, os costumes, as idiossincrasias, o jeito amistoso e
paternalista.
Liderados pelo branco paraibano Vidal de Negreiros, o rico português, senhor de engenho,
Fernandes Vieira, o índio Felipe Camarão (o Poty), e o negro Henrique Dias, a sociedade colonial logrou a
expulsão definitiva dos holandeses na famosa Batalha dos (Montes) Guararapes. De um lado, reafirmara-
se o pacto colonial português, e, de outro, iniciava-se o apego de um povo à sua terra.

Movimentos e revoltas que poderiam resultar em cisão

A seguir, estão relacionados revoltas e movimentos que poderiam, de uma forma ou de outra,
ocasionar a cisão do território brasileiro, ainda que, em muitos casos, o separatismo não tivesse sido
explicitamente defendido.

A REPÚBLICA GUARANI

Este episódio não propunha o separatismo. Mesmo porque, a República Guarani floresceu quase
que à parte da consolidação das colônias portuguesas e espanholas na América do Sul.
A “república” existiu entre os anos de 1610 e 1768, como decorrência da atuação dos jesuítas, em
um extenso território, onde hoje se encontram o Uruguai, o Paraguai, o norte da Argentina e o sul do Brasil.
Singular experiência de vida comunitária, chegaria a contar com trinta e três cidades, cujas
populações eram, em sua maioria, de origem indígena.
Não é por menos, que o declínio dos guaranis e a ocorrência da chamada guerra guaranítica tenham
coincidido com o período do Marquês do Pombal, à frente do governo português. Como se sabe, Pombal
foi ferrenho opositor da Companhia de Jesus.

AMADOR BUENO, REI DE SÃO PAULO


Em 1641, Amador Bueno, rico fazendeiro de São Paulo foi aclamado Rei de São Paulo, mas
recusou a receber o título.
É provável que este episódio, que não teve maiores consequências para a história brasileira, tenha
sido deflagrado, tão-somente, como um reflexo do descontentamento dos fazendeiros em relação à Coroa
Portuguesa.
Não havia, portanto, indicativos da existência de um sentimento nativista colonial ou de algum tipo
de orientação ideológica de cunho separatista.

A REVOLTA DE BECKMAN NO MARANHÃO

Liderados pelos irmãos Manuel e Tomás Beckman, alguns comerciantes e fazendeiros


maranhenses, descontentes com a política de monopólio da Coroa Portuguesa na região, revoltaram-se, no
ano de 1684, contra o sistema (não contra a Metrópole).
Esta revolta, sem maiores consequências, é típica de um período da história, em que moradores da
colônia revoltavam-se com esta ou aquela atitude da metrópole, mas não se configura como algum tipo de
movimento nativista, separatista ou nacionalista.
De qualquer forma, a reação da Coroa foi violenta, ficando determinada a morte dos líderes da
rebelião.

A REVOLTA DOS EMBOABAS EM MINAS GERAIS

Como nos movimentos deflagrados por Amador Bueno e os irmãos Beckman, esta movimentação
origina-se também no descontentamento contra as decisões da Coroa Portuguesa.
Esta revolta, que aconteceu em Minas Gerais, no ano de 1709, deveu-se à chegada de portugueses
para exploração de ouro na região, prejudicando, assim, os tradicionais mineradores paulistas.
Em nenhum momento, a guerra contra os emboabas, como eram chamados os recém-chegados,
questionava o Pacto Colonial ou possuía alguma orientação separatista.
Entretanto, se não fosse a vitória dos portugueses, muito provavelmente haveria a instauração de
um território autônomo nas regiões das minas, o que poderia resultar em um futuro país.
Neste conflito, durante a batalha do Capão da Traição, que impôs o término da revolta, morreram
cerca de trezentos Paulistas, em confronto com os recém-chegados, apoiados por Lisboa.

O QUILOMBO DOS PALMARES EM ALAGOAS, 1602-1695

Uma das páginas mais dignificantes da luta dos negros pela liberdade em solo brasileiro é contada
pela existência do Quilombo dos Palmares.
Infelizmente, a história de Zumbi e do Quilombo foi negligenciada por décadas e, praticamente,
esquecida dos livros didáticos.
No interregno 1602 a 1694, os negros foragidos das fazendas construíram um arraial em terras de
Alagoas, conhecido como Quilombo dos Palmares, chefiado por Zumbi, ele próprio um negro foragido, e
com uma provável ascendência nobre entre as lideranças tribais africanas.
Pretendiam, os quilombolas, libertar todos os negros do cativeiro e proclamar uma nova nação de
homens livres e foi assim que, por quase um século, a fuga para o quilombo tornara-se o sonho dos negros
cativos.
Para a aristocracia rural da colônia, a destruição do Quilombo e a morte de seu novo líder, Zumbi,
tornara-se uma obsessão. Não obstante, somente em 1694, o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho
destrói o quilombo e, um ano depois, consegue emboscar Zumbi, cuja cabeça foi exposta em praça pública,
para que servisse de exemplo.
A destruição do Quilombo, contudo, não esmaeceu o sonho de liberdade e muitos outros quilombos
foram formados.

GUERRA DOS MASCATES EM PERNAMBUCO

A guerra dos mascates decorreu do confronto entre a aristocracia rural da colônia, sediada em
Olinda, e os comerciantes portugueses (mascates), concentrados em Recife. Provavelmente, foi, ainda, uma
reação contra a cobrança de dívidas contraídas junto aos portugueses.
Alguns historiadores atestam que o líder Bernardo Vieira de Melo teria proclamado uma república
em Olinda, no dia 10 de novembro de 1710. Isto, porém, não está confirmado materialmente. De qualquer
modo, a luta armada se estenderia até o ano de 1714, quando as tropas portuguesas conseguiram render os
pernambucanos.
Para Manuel Correia de Andrade [1997], a Guerra dos Mascates, junto com a Inconfidência Mineira
e a Revolta dos Alfaiates, na Bahia, teriam sido as revoltas de maior conteúdo ideológico da história do
Brasil no período colonial.

A REVOLTA DE VILA RICA

Mais uma vez, a revolta de Vila Rica, em 1720, foi o reflexo do descontentamento contra a
exploração portuguesa em terras do Brasil.
Não contestava a soberania portuguesa, nem se propunha a qualquer tipo de independência.
Ao final, quando debelada, um dos seus líderes, Filipe dos Santos foi enforcado e esquartejado.

INCONFIDÊNCIA MINEIRA

Este sim, um movimento de libertação nacional, ainda que tenha eclodido em resposta às
circunstâncias econômicas daquele momento, tais como a instituição da “derrama”, cobrança de impostos
atrasados.
Pretendia a instauração de uma república nas imediações de São João Del Rei. Era, portanto, um
movimento separatista localizado, e não possuía abrangência em toda a colônia, muito menos, preocupação
com a sua unidade territorial.
A rigor, dificilmente poderia ser interpretado como tendo sido o precursor da independência do
Brasil, como afirmam muitos, em que pese haver uma clara proposta de ruptura completa com a Coroa
Portuguesa.
Não é difícil inferir, a partir das ideias de alguns de seus líderes – Tiradentes, Tomás Antônio
Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Alvarenga Peixoto – que, se a Inconfidência Mineira houvesse
triunfado, o país que iria surgir estaria confinado a parte do território de Minas Gerais. Assim, o “Brasil
Uno” teria deixado de existir no século XVIII.
O desfecho da Inconfidência é conhecido. Tiradentes foi enforcado e esquartejado e os seus colegas
presos ou condenados ao degredo.

CONJURAÇÃO BAIANA DE 1798

Finalmente, aparece, aqui, pela primeira vez, um movimento de características populares, com
ampla participação do povo simples.
Mais do que nunca, estava sendo proposta a criação de um novo país, em separado, não apenas de
Portugal, mas do restante do Brasil. A linguagem utilizada pelos líderes revoltosos era sempre dirigida ao
“povo baiense”, e não ao povo brasileiro.
O comando do movimento separatista era dividido entre os alfaiates João de Deus e Manuel
Faustino dos Santos Lira e os soldados Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens
Não é preciso dizer que estas lideranças foram impiedosamente rechaçadas, sobretudo as
pertencentes às camadas mais baixas da população. Os acima citados, por exemplo, foram enforcados e
esquartejados.
A Bahia dava início à sua vocação separatista e à formação de um típico sentimento nacional
atrelado às fronteiras do estado.

A REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

Os ideais maçônicos anticolonialistas, nativistas, republicanos e abolicionistas encontravam, na


insatisfação popular em relação à metrópole e na sua forma de exploração colonial, fortes aliados.
Entre os intelectuais da época, mormente os que se reuniam no chamado Areópago de Itambé e no
Seminário de Olinda, difundiam-se, secretamente, os ideais iluministas franceses e despertava-se o sonho
da emancipação política e do fim do colonialismo.
Lembremo-nos que, à época, o Brasil estava sediando a Coroa Portuguesa e fora promovido à
categoria de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (decretado em 1815).
Desconhecendo esta proximidade da Corte, o burburinho separatista assanhava-se em Pernambuco,
mais precisamente no Engenho Suassuna, onde tomava lugar uma conspiração dirigida por membros da
família Cavalcanti de Albuquerque, no ano de 1801, que procurava levar a província à independência de
Portugal.
A revolução pernambucana de 1817 pode, até certo ponto, ser considerada uma extensão da
Conspiração do Engenho Suassuna, e contou com a adesão de parte do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande
do Norte, reunindo intelectuais da maçonaria, do clero e de círculos militares, aliados à incipiente classe
média e às camadas mais pobres da população provincial.
Em meio as lideranças do movimento, destacaram-se nomes como Domingos José Martins, Frei
Miguelinho, Padre Roma e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.
No Ceará, mais precisamente no Cariri, a figura enérgica de uma mulher, Bárbara Alencar,
trasladava os ideais aprendidos no Seminário de Olinda, onde estudaram dois de seus filhos. Sobre a história
de Bárbara, avó do grande romancista José de Alencar, escreveu um de seus biógrafos, Francisco Tadeu
Barbosa de Alencar:

É notável a passagem em que – repercutindo a revolução deflagrada em Pernambuco no


dia 06 de março – após a missa na igreja da Sé do Crato, em 03 de maio de 1817, à frente
a figura lendária de Bárbara de Alencar, uma pequena multidão sai da igreja em direção
ao Paço Municipal e afirma a soberania tantas vezes vilipendiada pela Corte, proclamando
a República 72 anos antes que Deodoro o fizesse, num memorável episódio de afirmação
nativista em que se substitui a bandeira do Império português e hasteia-se com fogos e
gritos a bandeira branca da república (BARBOSA DE ALENCAR, F. Tadeu, 2001)

Bárbara seria presa e transferida para Salvador, junto com outros líderes da revolução. Uma vez
anistiada, adere à Confederação do Equador, em 1824, e dois de seus filhos são mortos, Tristão Araripe e
o Padre Carlos.
A revolta de 1817 terminou sendo sufocada pelas forças da Coroa e seus líderes presos e
condenados à morte, tendo, alguns, obtido o perdão, anos mais tarde, e, como Bárbara Alencar, conseguido
retornar a seus estados a tempo de cerrar fileiras de uma nova revolução, a Confederação do Equador.

A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL EM 1822

A insatisfação lusófoba dos brasileiros, que crescia à proporção dos impostos cobrados pela Coroa.
Em 1785, a rainha de Portugal, D. Maria I, inspirada no que os ingleses haviam tentado em suas ex-colônias
da América do Norte, editou lei que proibia a manufatura têxtil em solo brasileiro, excetuando-se a
fabricação de tecidos rústicos destinado ao uso dos escravos.
A iniciativa régia baseava-se no velho argumento mercantilista que alegava ser, a atividade
industrial da colônia, prejudicial à metrópole, pois aumentava a concorrência dos produtos fabricados em
Portugal (e na Inglaterra).
Mais tarde, com a transferência da família real para o Rio de Janeiro e com a abertura dos portos
em 1808, atendendo aos interesses dos ingleses, a independência passou a ser cogitada pelos próprios
monarcas, tanto é que, foi o príncipe D. Pedro quem declararia a ruptura definitiva com Portugal e receberia
as honras de imperador do novo país.
De fato, a família real, de um lado, e os políticos nacionalistas pró-independência, de outro, usaram-
se, mutuamente, na condução do processo de separação.
Pelo lado dos nacionalistas, coube a José Bonifácio, um aristocrata conservador da época, liderar a
campanha pela instauração de uma monarquia absolutista no Brasil. Esta parecia ser a única forma de
manter a unidade territorial brasileira após a independência, dadas as condições de distâncias entre a nova
capital, o Rio de Janeiro, e os centros estaduais e regionais irradiadores de opinião.
Com efeito, nos meses que antecederam a independência, a situação na colônia tornava-se cada vez
mais dramática. Em Pernambuco, em 5 de outubro de 1821, as tropas portuguesas já haviam sido expulsas
da província e o governador pernambucano, Gervásio Pires Ferreira, hesitava em se submeter às ordens do
Rio de Janeiro, como atesta Manuel Correia de Andrade:

Pernambuco temia que, com a independência, apenas fosse substituída a submissão a


Lisboa pela submissão ao Rio de Janeiro e fazia um jogo duplo, retardando as decisões à
espera do desfecho da luta entre as cortes e o príncipe regente (Andrade [1997]).

Gervásio Pires (1765-1836), integrante da junta governativa provincial salientava, inclusive, que
os interesses de Pernambuco não coincidiam nem com os de Lisboa, nem com os do Rio de Janeiro.
Portanto, uma vez decretada a independência, o imperador tratou logo de assegurar a sua soberania
por todo o país, uma vez que, além das costumeiras agitações republicanas, restavam algumas regiões fiéis
à Coroa Portuguesa.
Na Bahia, foi onde se deu a maior resistência, que contou coma fatos lancinantes, como foi o
assassinato da madre superiora Joana Angélica, por parte de tropas leais a Portugal, no Convento da Lapa,
em Salvador.
Em Oeiras, no Piauí, houve uma resistência forte contra a independência, e o governador da
província, Cunha Fidié, ameaçou, até mesmo, invadir o vizinho Ceará e ampliar a área de insurreição.
Na verdade, para a corte imperial recém-entronada, a cidade de Oeiras (assim como todo o Piauí)
só tinha alguma importância por ser zona de criação de gado para corte, cuja carne salgada abastecia as
mesas cariocas.
Foi por isso, ou talvez como demonstração de força, que o imperador mandou tropas para subjugar
o lugar – fato que se encontra, inclusive, gravado em placa comemorativa naquela cidade, em um
monumento inaugurado por Ernesto Geisel. Graças à carne salgada, o Piauí se manteve Brasil.

A CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR EM 1824

Os 15 anos que se sucedem à vinda da família real até o ano de 1824 foram dentre os mais
turbulentos da história do Brasil.
Neste período, além da própria instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro e da elevação do
Brasil à categoria de Reino Unido, ocorreram a revolução de 1817, a independência do Brasil, as reações à
independência, e a primeira tentativa eficaz de estabelecimento de uma república no país, a Confederação
do Equador.
Muitos dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817 ainda continuavam, sete anos depois,
ativos militantes da causa republicana, abolicionista, antilusitana e federativa.
Dos antigos ideais, apenas a independência fora conseguida, mas ao custo da instituição de um
regime totalitário e monárquico, de forma que, não hesitaram em participar de novo movimento, alguns dos
líderes veteranos de 1817 que já haviam cumprido pena nos presídios de Salvador. Entre estes, Cipriano
Barata, Paes de Andrade e o Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca.
A situação de penúria dos nordestinos (na época, chamados de nortistas) parecia tornar-se ainda
pior, pois as distâncias até o Rio de Janeiro não possibilitavam, ao Imperador, conhecer de perto a situação
das províncias.
Por outro lado, D. Pedro I tornava-se cada vez mais tirânico e repressor. A alegria inicial advinda
da independência transformou-se, rapidamente, em desencanto.
A ideia de formar uma república livre nos “estados do norte” avançava e tomava vulto. Em
dezembro de 1823, Manuel de Carvalho Paes de Andrade foi eleito, em Pernambuco, presidente de um
governo provisório revolucionário provincial e, em princípios de julho do ano seguinte, proclama-se a
república.
A Confederação do Equador obteve o imediato apoio das massas populares e uma rápida adesão
dos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.
Após as primeiras derrotas frente às forças legalistas, muito mais fortes e organizadas que os
revoltosos, estes criam a Divisão Constitucional da Confederação do Equador, uma coluna que durante 71
dias percorreu várias cidades do interior de Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.
Em Juazeiro do Norte, a coluna deveria se encontrar com uma outra, formada por cearenses e
comandada por José Pereira Figueiras. Qual não teria sido o desespero daqueles idealistas quando, ao
chegarem na cidade, perceberam que quase todos os combatentes aliados, cerca de 150 homens, já haviam
sido mortos pelas forças imperiais.
A repressão aos pernambucanos seria igualmente violenta, sempre nos moldes de reação de D.
Pedro I, em situações onde lhe fosse contestada a Soberania.
Assim, por ordem de Sua Alteza, os focos separatistas ou de anti-independência foram sendo
rechaçados pela força da espada e do fuzil: muito sangue foi derramado na Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão,
Pernambuco. Nem mesmo os dissidentes da própria capital carioca foram poupados.
Em rito sumário, o Frei Caneca foi condenado à forca. E como nenhum algoz de ofício estivesse
disposto a levar a termo a ordem de execução, procuraram um prisioneiro comum, o mulato Sul, uma nova
tentativa de secessão, a República do Piratini, proclamada por Bento Gonçalves em 1838, e, em Santa
Catarina, a República Juliana, proclamada por David Canabarro, em 1839.
A Guerra dos Farrapos ou farroupilha, a mais longa guerra civil brasileira, entre os anos de 1835 e
1845, esteve fortemente atrelada a causas econômicas.
Por aquela época, a principal indústria da região era a de produção de charque. O governo central,
elevando os impostos, tornou a charque gaúcha pouco competitiva vis-à-vis a carne importada das
repúblicas platinas.
A República do Piratini não seguiu adiante por causado retrocesso de parte da aristocracia gaúcha
que, após encabeçar a revolução, percebeu, no curso dos fatos, que a separação não iria lhes trazer
benefícios, já que, por um lado, perderiam o mercado brasileiro de uma vez e, por outro, não iriam conseguir
ser competitivos com os países vizinhos.

REVOLUÇÃO PRAIEIRA DE184S3/1849 EM PERNAMBUCO

Pernambuco, mais uma vez, foi o centro das agitações. Juntamente com Borges Fonseca, os
integrantes do Partido Praieiro, ala urbana do Partido Liberal, publicaram, em 1845, um “Manifesto ao
Mundo”, onde reivindicavam o voto livre e universal (que na época era censitário, isto é, estava reservado
apenas aos mais ricos), a liberdade de trabalho e de imprensa, a nacionalização do comércio e a extinção
do Poder Moderador.
Antônio Chichorro da Gama e Pedro Ivo foram líderes dessa revolução, que contou com o apoio
das massas e que procurava derribar o imperador.
Presos, os líderes desta revolta foram anistiados em 1852, por D. Pedro II, cuja estratégia
administrativa era bem mais tolerante que a de seu pai.
Conquanto a revolução praieira houvesse propugnado autonomia provincial como estandarte, suas
manifestações separatistas foram, em verdade, tímidas, mas podem ser vislumbradas nas entrelinhas dos
escritos de seus líderes e em jornais da época.

AS REVOLTAS DOS PRIMEIROS ANOS DA REPÚBLICA

Ao final do século XIX, a maioria das províncias do Brasil já desejava o fim da monarquia.
A abolição dos escravos negros, desejada por ampla maioria da população brasileira, enfraqueceu
a sustentação política do imperador por parte da aristocracia rural, que, de certa forma, sentira-se traída em
seus interesses.
As províncias do sul desejavam o regime federalista porque eram mais ricas e fortes, contavam
com ampla maioria de mão-de-obra assalariada e aspiravam por mais autonomia e liberdade de ação, o que
lhes era, eventualmente, negado pela autoridade do Imperador.
Por motivos inversos, as províncias do norte também desejavam o federalismo, porque eram mais
pobres e se sentiam abandonadas pela monarquia
que as havia privado de recursos em favor do engrandecimento do sul [FAORO, 1975].

Com o advento da República, contudo, pouca coisa mudaria com relação a uma possível
reorganização territorial da representatividade política nacional. Talvez, uma paulatina passagem de poder
das elites cariocas para as paulistas e mineiras.
Esta perda de espaço político da capital, antes sede da corte, agora anfitriã da burocracia,
continuaria gradativamente, até a construção de Brasília, derradeiro golpe no antigo prestígio político dos
cariocas.
Enquanto isso, os demais estados quase nada decidiam na esfera federal, com exceção do Rio
Grande do Sul – que sempre conseguiu manter uma certa autonomia política e uma forte presença no alto
escalão do executivo e das forças armadas. Estados como Pará, Maranhão, Pernambuco e Bahia, eram
ouvidos de vez em quando, enquanto que os demais eram simplesmente abandonados e esquecidos.
Para acentuar a concentração de poder nos estados emergentes, a promulgação da Constituição
Federal de 1891 fez com que boa parte dos impostos que eram de competência do governo central fossem
transferidos para os estados. Assim, os impostos de exportação que se constituíam em expressiva fonte de
recursos federais passaram a ser estaduais, de forma que São Paulo foi excepcionalmente beneficiado com
aquela reforma tributária.
Aliás, para se ter uma ideia da pujança econômica deste estado, já naqueles tempos, basta lembrar
que, sozinho, era o responsável pela metade das exportações brasileiras no início da década de vinte (cf.
Manuel Correia de Andrade, 1992, p.129).
De outro lado, as modificações ocorridas na arrecadação de impostos foram impiedosas para com
os estados mais fracos, fazendo com que, à exceção do Rio de Janeiro, São Paulo, e, eventualmente Minas
Gerais, todos os demais estados da federação vivenciassem uma completa exaustão financeira dos seus
cofres durante a República Velha, não sendo capazes de instalar a infraestrutura necessária ao
acompanhamento do passo econômico dos paulistas (cf. Galvão, [1999b]; p. 50).
Dificultando o cenário, para defender os interesses dos cafeicultores, o governo central não hesitava
em destinar grande parte do orçamento federal para políticas de apoio, incentivo e defesa do café, mesmo
quando os preços desse produto passaram a declinar a níveis alarmantes, durante a crise de 1929.
Naqueles anos, toda a nação brasileira se sacrificava para que os governos pudessem comprar os
excedentes do café que eram estocados indefinidamente ou, então, sumariamente queimados ou destruídos,
de forma a garantir o sono tranquilo dos produtores.
Durante a Primeira República, houve uma séria tentativa de secessão no Centro-Oeste brasileiro e,
por pouco, o Mato Grosso não se tornou independente, no ano de 1892.
Além desta, duas outras revoltas importantes merecem ser registradas. A primeira, a Guerra de
Canudos, acontecida no interior da Bahia e a segunda, conhecida como Guerra do Contestado, ocorrida em
Santa Catarina. Ambas tiveram um desfecho trágico.

A REPÚBLICA TRANSATLÂNTICA DO MATO GROSSO

O ano era o de 1892. No então longínquo Mato Grosso (hoje, em local onde se situa o Mato Grosso
do Sul), algumas oligarquias em dissídio, ligadas ao oficialato do exército e influenciados pelos ideais
maçônicos, entraram em luta armada, e os vitoriosos, encabeçados pelo Coronel João da Silva Barbosa,
tomam a pequena Corumbá e proclamam a República Transatlântica do Mato Grosso.
Foram derrotados em pouco tempo por tropas “contrarrevolucionárias”, lideradas pelo vice-
presidente do Estado, Generoso Ponce.

A GUERRA DE CANUDOS

No sertão da Bahia, ao final do século XIX, entre 1896 e 1897, deu-se a maior revolta popular da
história do Brasil, quando o beato Antônio Conselheiro conseguiu mobilizar uma população de fanáticos
religiosos que, ao que parece, reagiam contra a chegada de novas ideias e costumes na região.
A existência de Canudos, na verdade, só poderia ser explicada pelas condições de extrema miséria
do interior nordestino e que propiciava a formação de grupos de cangaceiros e fanáticos religiosos.
Em 1896, a população do “arraial” era de cerca de vinte mil pessoas que se dedicavam à produção
agrícola comunitária.
Três expedições foram enviadas pelo Governador da Bahia: a primeira com cem homens, a segunda
com quinhentos e cinquenta, e a terceira, com mil e trezentos soldados, todas elas, derrotadas pelos jagunços
de Canudos.
Após estes fracassos das forças estaduais, o presidente Prudente de Moraes decidiu se empenhar
no conflito e enviou uma expedição de seis mil soldados, inclusive com uso de canhões, que conseguiram
dizimar o arraial e matar quase todos os seus integrantes, contabilizando, ainda, cerca de três mil e
quinhentas baixas entre os soldados.

A GUERRA DO CONTESTADO

Em uma região situada entre Santa Catarina e o Paraná, durante os anos de 1911 a 1916, houve um
movimento de revolta contra a miséria do campo, cujos integrantes estavam reunidos em torno de um líder
messiânico, o “monge” José Maria.
Semelhantemente ao que ocorrera em Canudos, somente após algumas expedições fracassadas, o
Governo Federal conseguiu o controle da região, por intermédio de uma tropa formada por seis mil homens
fortemente armados.

O PENSAMENTO DE ALBERTO SALLES

Alberto Salles foi irmão do presidente Campos Salles (cf. José Arthur Rios, 1992, e Jornal do
Movimento, 1992). Foi, também, um ferrenho defensor, primeiro, da causa republicana, e, depois, da causa
separatista.
Em seu livro de 1887, “A Pátria Paulista”, defendia a ideia de que São Paulo deveria liderar o
movimento de secessão formando uma república independente.
Paradoxalmente, acreditava que esta iniciativa seria seguida por outras províncias que, junto com
São Paulo, formariam uma Confederação, a qual confluiria, tal como ocorrera com a América do Norte,
para uma federação de estados, cada qual com administração e legislação próprias, excetuando-se aquelas
leis de caráter mais geral, estas, sim, editadas por um poder central.
Concomitante ao pensamento de Alberto Salles, o gaúcho Assis Brasil, teórico do federalismo
brasileiro, escreveu, em 1885, que:

A ideia de uma grande cisão entre o norte e o sul do Brasil elabora-se há muito tempo,
germina latente não num pequeno grupo, mas na quase universalidade do sentimento
nacional (...) O sul queixa-se de que o norte é um zangão que lhe absorve as riquezas, que
nada produz e que, entretanto, prepondera na política, tirando para si OS melhores
quinhões do Orçamento; por sua parte, o norte acha também seus motivos para o
descontentamento… (cf. José Arthur Rios [1992]).

De fato, aqueles eram tempos de consolidação do ideal republicano. Alberto Salles, como o próprio
Assis Brasil e tantos outros, estavam influenciados pelas ideias positivistas de Comte e percebiam a ordem
republicana como o resultado inexorável de um processo de evolução social.
Alberto Salles, em particular, acreditava que a paz universal só poderia advir da descentralização
dos grandes estados em pequenos países, sempre em tamanho comparável ao de Portugal ou da Suíça.
Para o caso brasileiro, era um pouco condescendente, pois sugeria a cisão do país em três regiões,
uma sendo banhada pelo Amazonas e seus afluentes, outra pela bacia do São Francisco (envolvendo os
estados nordestinos e mais o Rio de Janeiro, o Espírito Santo e parte de Minas Gerais) e a terceira sendo
formada pelos estados do sul e mais a região meridional de Minas Gerais e Mato Grosso.
Em seus escritos, Alberto Salles deixou claro, ainda, que acreditava na superioridade da raça branca
e por isso, defendeu veementemente a vinda de imigrantes europeus, de forma a garantir uma maioria branca
entre a população.
As ideias deste homem influenciaram o seu irmão, quando este veio a ocupar a presidência da
república: Campos Salles desenvolveu a chamada “política dos governadores”, um modelo administrativo
descentralizado, que logo se transformou na política do café com leite, por meio da qual, como já foi visto,
os estados de São Paulo e Minas Gerais passaram a governar o Brasil.
Alberto Sales também exerceu influência entre intelectuais que participaram da Revolução
Constitucionalista de São Paulo, em 1932, e suas ideias permaneceram por décadas.
Mais de um século após a publicação de “A Pátria Paulista”, no final da década de oitenta do século
XX, o ideal de Alberto Salles mobilizou opiniões em movimentos tais como “O Sul é o meu País”, o qual
será descrito mais adiante.

O GOLPE DE 1930 E A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA

Só mesmo um golpe de estado como o que aconteceu em 1930 poderia interromper o ciclo de
mineiros e paulistas no exercício da presidência.
O estopim da revolta, curiosamente, foi ocasionado pelos próprios paulistas, que decidiram não
passar o bastão para os mineiros, ao final do mandato de Washington Luís. Assim, o acordo tácito que
formava a “política do café com leite” havia sido desfeito.
Os mineiros sentiram-se traídos. O presidente, paulista, insistia em indicar outro paulista, Júlio
Prestes, para seu sucessor.
Destarte, Minas Gerais, buscando novas alianças, passou a apoiar o gaúcho Getúlio Vargas, o qual,
uma vez derrotado nas urnas, tomaria o poder à força.
São Paulo, ferido em seu orgulho e receando perder boa parte de seus costumeiros privilégios, não
aceita o comando do ditador, e, em 1932, é deflagrada uma revolução propondo o retorno ao estado de
direito.
Entre os ativistas revolucionários, muitos eram separatistas ou apoiavam a confederação, dentre
eles, Alfredo Ellis Júnior, Monteiro Lobato e Alcântara Machado, sendo que, este último, era francamente
racista e antinordestino.
Em setembro de 1932, após numerosas baixas de ambos os lados, termina a revolução
constitucionalista de São Paulo, com aparente vitória das forças federais.

O PENSAMENTO DE ALFREDO ELLIS JÚNIOR

Sobre o pensamento de Alfredo Ellis Júnior, Manuel Correia de Andrade descreve, partindo de uma
leitura de “A Nossa Guerra”, editado em 1933, e de “Confederação ou Separação”, de 1934, que o escritor
acreditava tão-somente em duas soluções para as mazelas do Brasil: a separação, de fato, de São Paulo,
para formar um país independente; ou a formação de uma confederação, cujos componentes haveriam de
ter autonomia administrativa, legislativa e econômica quase que total.
Para justificar suas ideias, Ellis Júnior comparava o Estado de São Paulo a países da América do
Sul, no tocante às dimensões, às populações e aos recursos disponíveis, mostrando a viabilidade da
independência de São Paulo, e sugerindo, ainda, que o Rio Grande do Sul, comparável ao Uruguai, seguisse
o exemplo e também decretasse a sua independência.
No caso de ser tomada a alternativa da confederação, o poder central deveria cuidar apenas da
defesa, da estrutura financeira e das relações exteriores, restando as políticas setoriais, tais como as
agrícolas, de saúde, transportes e educação, para cada ente confederado.

O PENSAMENTO DE WANDERLEY

Influenciado pelo positivismo e pelas ideias darwinistas, que supunham o evolucionismo natural,
houve um certo escritor de origem paraibana, conhecido como Wanderley, que publicou, em 1935, um livro
intitulado “As Bases do Separatismo”, no qual descrevia a necessidade de uma desagregação do Brasil em
cinco novos países, a Amazônia, o Nordeste, o Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste.
Alegando que o Brasil não possuía unidade físico-territorial, nem cultural, nem afetiva, o resultado
inexorável das pressões internas que se fariam surgir resultando da multiplicidade de interesses, seria a
desagregação do país.
Conquanto as ideias de Wanderley possam parecer ingênuas, A primeira vista, é certo que mantêm
coerência de pensamento lógico e abordam, de forma inédita, a ideia da inexorabilidade (natural) à cisão
administrativa dos grandes países.

A decadência do separatismo no Brasil

A partir da segunda metade do século XIX, pôde-se perceber um arrefecimento dos ideais
separatistas no Brasil, em decorrência de diversos fatores.
Dentre estes, não restam dúvidas que o advento da independência, em 1822, e o imediato
esmagamento das tentativas revolucionárias no país, devem ter sido os principais responsáveis pela
obsolescência das propostas de secessão. Afinal de contas, os brasileiros já tinham, finalmente, o seu país
livre e soberano. Cabia-lhes, agora, torná-lo forte e unido.
Durante o reinado de D. Pedro II, a política de relativa tolerância política pareceu ter despertado
nos brasileiros o desejo de participar da construção do novo cenário.
Havia questões internas e externas urgentes a serem resolvidas antes de se pensar em separatismo.
A questão platina, por exemplo. A Guerra do Paraguai. A dependência comercial do Brasil com a Inglaterra.
A abolição da escravatura. A questão religiosa (levantada desde a regência de Feijó). O debate sobre a
forma de governo. A consolidação de uma sociedade urbana e todas as demandas sociais que isto pode
implicar.
Todas estas questões demandavam muita atenção.
De qualquer forma, o crescimento da economia brasileira, a imigração de europeus em larga escala
e a formação de uma classe média urgiam uma maior descentralização do poder, e isto fortalecia a causa
republicana, que conquistaria o poder em 1989, um ano após a abolição.
Foi uma época para grandes debates nacionais e a questão regional haveria de esperar.

O SEPARATISMO PÓS-1930

O cenário político brasileiro durante as primeiras décadas do século XX fora desenhado pelo
apogeu e crise do café, e pela emergência da indústria e da sociedade urbana, no plano interno.
Externamente, o mundo presenciava conflitos como os da Revolução Russa e a Primeira Guerra
Mundial. Logo após, uma forte recessão mundial acompanharia a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929.
Tudo isto foi acompanhado pelos brasileiros com um crescente sentimento de nacionalismo. As
infinitas oportunidades de trabalho e o aumento populacional e da capacidade de consumo propiciavam um
clima de otimismo e crença em um grande país, onde todos poderiam sair ganhando.
Além disto, a partir dos anos vinte, como consequência da difusão das ideias marxistas na Europa
e da Revolução Russa de 1917, passou a existir no Brasil um maniqueísmo político-ideológico, dividido
entre direita e esquerda, com suas vertentes mais radicais, o integralismo e o comunismo, que perduraria
até fins dos anos setenta, aí, então, como o resultado da guerra fria entre Estados Unidos e a União Soviética.
Este maniqueísmo ideológico tão em voga nos discursos políticos do Brasil pós-1930 por certo foi
o principal responsável pelo desinteresse e esquecimento da questão separatista.
Por outro lado, os regimes totalitários dos anos Vargas e da ditadura militar pós-64 dificultariam o
retorno do debate acerca do assunto.
De fato, os ideais separatistas só seriam retomados, em vários estados brasileiros, ao final dos anos
oitenta, pelas mais diversas razões. A democracia brasileira assim o permitiu.

A TENDÊNCIA CENTRALIZADORA DOS REGIMES AUTORITÁRIOS

O enfraquecimento da monarquia se dá concomitantemente à descentralização política e


administrativa em favor dos estados, que culmina com a política dos governadores, instituída por Campos
Salles, e com a chamada política das oligarquias, que a sucedeu.
A inversão deste processo se deu em 1930, com a tomada do poder por Getúlio Vargas, quando
passa a prevalecer uma tendência centralizadora e estatizante, que culmina com o Golpe de 1937 e a
instituição do Estado NOVO.
O centralismo imposto durante os anos Vargas vai se acentuando nas décadas subsequentes, com
uma presença cada vez mais incisiva por parte do Estado na economia, com o surgimento de grandes
empresas estatais, e com a formação de uma máquina administrativa cada vez mais complexa e distanciada
de seus objetivos-fins.
Em 1960, acontece a transferência da capital para Brasília, afastando o poder decisório para longe
do povo e dos centros irradiadores de crítica.
Finalmente, em 11 de março de 1964 os militares decidem tomar o poder e instalar uma ditadura
que perduraria até meados da década de oitenta, impedindo a formulação de novas propostas e alternativas
políticas para o Brasil.

BRASIL PAÍS DO FUTURO

Nos anos sessenta e setenta do século XX, os militares procuram divulgar uma imagem fortemente
positiva para a nação brasileira, aproveitando a estabilidade interna e a conjuntura favorável no cenário
internacional, que propiciou taxas de crescimento econômico de até 11% ao ano.
Com slogans, do tipo “Brasil: País do Futuro”, “Ninguém Segura este País”, “Brasil, Ame-o ou
Deixe-o” não havia muitos que desacreditassem no futuro do país. Coincidentemente, a este processo de
arregimentação cerebral, advieram as vitórias do tricampeonato mundial de futebol, das corridas de Fórmula
1, e, até, nos concursos de beleza para Miss Universo.
Enquanto isto, e apesar dos inegáveis avanços da economia brasileira, a ditadura militar reprimia
de forma insidiosa qualquer tentativa de livre pensar e as mazelas sociais daquele período de rápido
crescimento só seriam sentidas alguns anos mais tarde.
Não é para menos que o pensamento separatista não houvesse aflorado durante as décadas de
sessenta e setenta.

A TELEVISÃO COMO INSTRUMENTO DE UNIDADE NACIONAL

A Televisão foi, e continua sendo, um forte instrumento de centralização e de alienação.


Desempenha, ainda, um papel decisivo para a criação da imagem de um Brasil grande, belo,
generoso, unido e solidário.
Estando presente em quase todo lar brasileiro, a televisão dá ao telespectador a sensação de estar
participando da vida do país, em condições de igualdade com todos – mesmo quando os esportes
apresentados lhes são completamente estranhos, mesmo quando se observa uma incômoda ausência de
índios e negros nos programas e nos comerciais, mesmo quando as novelas só apresentam atores sudestinos,
até para os papéis de heróis nordestinos o que acarreta aquelas ridículas imitações de sotaque.
Para a mídia televisiva, assim como para a mídia em geral, é importante a ocorrência de economias
de escala, o que acarreta grande redução de custos e considerável aumento de lucros. Para haver economia
de escala na mídia é preciso que exista uma quantidade muito grande de leitores e de telespectadores
dispostos a aceitar os signos e as imagens transmitidas pelo sul.

SEPARATISMO CULTURAL DO NORDESTE

A formação econômica da Região Nordeste esteve sempre atrelada ao poder do latifúndio, e só ao


final do século XX, com o fortalecimento da classe média urbana, esta característica começou a ser
fragmentada.
Em Pernambuco, por exemplo, a economia açucareira sempre indicou as lideranças políticas do
estado. Não seria de se estranhar, portanto, que a grande maioria de seus intelectuais e artistas de expressão
tenham sido integrantes de famílias detentoras de engenhos e usinas.
De forma semelhante, as elites intelectuais nordestinas ativeram-se, por décadas, a reclamar,
orgulhosamente, apenas por autonomia cultural, no que, aliás, obtiveram completo êxito, derivando formas
de expressão e movimentos artísticos e culturais genuinamente regionalistas.
Uma curiosa discussão é feita por Fernando Limo [1999] a respeito das divergências existentes
entre o movimento regionalista de 1926, liderado por Gilberto Freyre, e as tendências vanguardistas
surgidas em São Paulo na década de vinte, não restando dúvidas sobre a originalidade e o sucesso do
movimento pernambucano.
Observando-se, então, os principais nomes do intelligentsia, nordestina do século XX, constata-se
que o maioria (senão a quase totalidade) era composta por integrantes ou descendentes da aristocracia rural
típica destacando-se, além do próprio Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Manuel Bandeira, Luis Cardoso
Ayres, Evaldo e João Cabral de Mello Neto, José Antônio Gonsalves de Mello, Cícero Dias, Marcus
Acciolly, Luís da Câmara Cascudo, todos filhos, netos ou sobrinhos de tradicionais famílias açucareiras.
Diante disto, representam o universo cultural de suas infâncias, ainda que tenham sido, por vezes,
fortes contestadores do sistema vigente, ou, no dizer de Sérgio Buarque de Holanda [1936], “se dando ao
luxo de inclinações antitradicionalistas”.

O separatismo ao final do Século XX

No final do século XX, especialmente nos primeiros anos da década de noventa, surgiram no Brasil
os mais diversos grupos e tendências separatistas.
Em paralelo, na Europa, América do Norte, Ásia e África somaram-se diversos novos movimentos
de independência ou por autonomia, ora motivados pelo desejo de libertação nacional, ora por razões de
ordem ideológica e religiosa, ou então, pelo único desejo de buscar melhores alternativas sociais e
econômicas.
Muitas vezes, não é evidente a distinção entre separatismo e movimento de libertação nacional. De
fato, muitas vezes são usados como sinônimos.
Sem embargo, o século XX viu surgir, como nunca antes, novos países e nações. Mesmo nas duas
últimas décadas, quando muitos pensavam que a globalização faria desaparecer as fronteiras nacionais, o
que aconteceu foi justamente o contrário.
Na Europa e Ásia, foram criados mais de vinte novos países, muitos deles ex-integrantes da União
Soviética ou participantes da antiga Cortina de Ferro.
Na Itália, Espanha, França e Grã-Bretanha, não foram poucas as manifestações separatistas,
algumas, inclusive, fazendo uso de armas.
Na África e no Pacífico, alguns países conseguiram sua independência tardia das antigas potências
colonialistas europeias. Outros cismas derivaram de diversidades tribais e étnicas.
Na América do Norte, houve movimentos intensos pela independência do Québec e, até mesmo
dentro dos Estados Unidos, emergiram iniciativas de secessão em estados como a Califórnia.
Portanto, observando-se o que ocorre no mundo atual, parece estar havendo, sim, uma tendência à
fragmentação dos países grandes e o esfacelamento de suas burocracias.

QUEBEC

No Quebec, o desejo de maior autonomia em relação a Otawa é cada vez mais sentido e, nos últimos
plebiscitos, o “sim” somente não foi vitorioso, graças aos votos dos imigrantes africanos e asiáticos,
temerosos de que, com a independência quebecoise, pudesse surgir algum tipo de ultranacionalismo com
práticas racistas e xenófobas.
CATALUNHA, GALÍCIA, PAÍS BASCO

Na Espanha, o nacionalismo de bascos, catalães e galegos, que permanecera latente por séculos a
fio, voltou a fluir livremente, após o retorno do país à democracia, ao final dos anos setenta.
Desde então, o separatismo só pôde ser contido na Catalunha, Galícia e País Basco, por meio da
concessão de maior autonomia político-administrativa, ajudada por uma conjuntura econômica favorável e
uma acertada política de desconcentração da atividade produtiva em favor de regiões periféricas.
É provável, ainda, que os ânimos separatistas tenham sido amainados pelo ingresso da Espanha no
Mercado Comum Europeu e os seus visíveis benefícios por toda a Espanha.

ESCÓCIA, PAÍS DE GALES, IRLANDA DO NORTE

A Escócia deseja cada vez mais se ver representada como país livre e, em plebiscito realizado em
1997, o povo escocês decidiu ampliar, consideravelmente, a sua autonomia com relação à Inglaterra,
votando a favor da instituição de um parlamento próprio escocês, o qual passaria a legislar sobre política
tributária, fiscal e administrativa.
De mesma forma, o País de Gales apelou para recurso semelhante.
Embora estes países façam parte do Reino Unido e tenham a rainha Elizabeth II como chefe de
estado, ambos possuem, agora, parlamento próprio, autonomia administrativa, moedas regionais e, até,
ensino de suas línguas originais em suas escolas.
Enquanto isto, o caso da Irlanda do Norte é mais complexo e complicado. O sentimento separatista
não está somente atrelado à questão nacional ou econômica, mas, também, à religiosa e à ideológico-
partidária.
Infelizmente, a questão irlandesa tem sido acompanhada pelo uso da violência, em estranho
descompasso com a beleza daquele país e com a alegria de seus habitantes.

ITÁLIA E A REPÚBLICA DA PADÂNIA

Na Itália, desde há muito, existe uma forte divisão político-econômica entre o norte,
industrialmente mais desenvolvido, e o sul da Itália, mais pobre, e com o predomínio de uma sociedade
agrária, católica e marcada pelo determinismo familiar.
No sul, onde a renda e poder político estiveram concentrados nas mãos de uns poucos, sempre
houve um ambiente propício para o fortalecimento de partidos e grupos radicais.
Por outro lado, a unificação tardia da Itália, já na segunda metade do século XIX, fez surgir, na
época, um considerável excedente de mão-de-obra entre os habitantes do sul, que detinham inferioridade
tecnológica e industrial, sendo obrigados a consumir bens e serviços importados do norte.
Muito da forte migração de italianos rumo às Américas, ocorrida nos séculos XIX e XX, foi por
causa desta desagregação meridional após a unificação.
Poder-se-ia concluir, então, que, se houvesse motivos para rupturas, ao menos sob a perspectiva
histórica, estes deveriam originar no sul.
Todavia, é oriunda no norte a iniciativa de secessão, fomentada, talvez, pelo desejo das cidades
industriais em se verem livres do intervencionismo estatal e do avanço das esquerdas no poder central.
Em meados da década de noventa, o partido da Liga Norte - LN, de inspiração fascista, assume
uma posição radical e declara, em 1996, a formação de um governo provisório da República Independente
da Padânia, formada pelas regiões da Lombardia, Piemonte, Vêneto, Emília-Romana, Ligúrgia e Vale de
Aosta.
Esta república não chegou a se consolidar, face a ausência de reconhecimento internacional e,
sobretudo, ao enfraquecimento da Liga Norte nas eleições de 1997.

ESTADOS UNIDOS

Os Estados Unidos são frequentemente citados como exemplo de um federalismo que deu certo.
Contudo, antes de se estabelecer quaisquer comparações entre o sucesso norte-americano e o
brasileiro, é preciso lembrar que, lá, diferentemente do que acontece em nosso país, há um inequívoco
sentido de unidade nacional que faz com que o desenvolvimento se dê em todo o seu território, havendo
muito pouca desigualdade regional.
De qualquer maneira, o EUA se constituem na principal potência mundial e lideram tanto a
economia quanto a política internacional, o que, convenhamos, não deve ser o ambiente propício para a
proliferação de ideias separatistas.
A renda per capita, apesar de não ser distribuída com a mesma regularidade europeia, já ultrapassa
o valor de trinta mil dólares, o que significa dizer que um americano recebe e consome o mesmo que sete
ou oito brasileiros juntos.
Além disto, o governo central daquele país sempre optou pela criação de nichos de eficiência e
difusão da infraestrutura de produção, mesmo em estados (outrora) menos desenvolvidos ou com
desemprego estrutural crônico. A Califórnia, por exemplo, concentrou a indústria cinematográfica e a de
componentes eletrônicos, no Vale do Silício. Empresas estatais, complexos universitários, centros médico-
hospitalares, conglomerados financeiros, turísticos, etc. encontram-se dispersos em seu território.
Indo mais além, nota-se, nos EUA, a existência de uma autêntica prática federalista, ou, até, de uma
confederação. Lá, os estados detêm razoável autonomia administrativa, podendo legislar, inclusive, sobre
matéria tributária, penal, trabalhista, etc.
Mesmo assim, a democracia norte-americana houve de conviver com iniciativas separatistas, no
começo da década de noventa, em alguns de seus estados, em particular, na Califórnia.

Separatismo recente no Brasil

Ao final da década de oitenta e início dos anos noventa, o ambiente democrático brasileiro permitiu
a volta do debate separatista.
No plano econômico, persistia a inflação que fustigou o país por toda uma década, associada a um
quadro de relativa estagnação, havendo altas taxas de desemprego, acirramento da concentração de renda e
um incrível quadro de violência urbana.
O Brasil se tornou, ainda, um dos países mais fechados ao comércio internacional e tanto o governo
quanto os sindicatos propagavam que aquilo era importante para a manutenção da atividade econômica
nacional e para se preservar o emprego. Mas, na verdade, somente servia para aumentar as desigualdades
sociais e regionais.
No exterior, o país mudava a sua imagem, de um paraíso tropical de belas mulheres e ótimo futebol,
para uma terra onde se mata menores carentes, queima-se florestas e exporta-se prostituição.
Em 1990, Fernando Collor tomou posse na presidência da república, prometendo fazer uma
mudança completa nas estruturas vigentes. Em seu afã de consertar o país, e respaldando-se nos milhões de
votos que o elegeram (após quase trinta anos sem eleições diretas), precipitou-se na forma com que tentou
conduzir as reformas e subestimou o poder das elites.
Não se pode negar, porém, que foi Fernando Collor quem ensaiou os primeiros passos rumo à
abertura comercial, à livre concorrência e à modernização da administração pública. Combateu o
corporativismo das estatais, a ineficiência do serviço público, extinguiu a obrigatoriedade da contribuição
sindical, fechou órgãos federais inoportunos ou anacrônicos e proibiu a emissão de cheques, ações e títulos
ao portador (que eram uma vergonha, pois oficializava o anonimato do banditismo no país).
Talvez tenha sido por causa destes enfrentamentos que tenha sido submetido ao processo de
impeachment.
Pode-se, com efeito, afirmar que aquele cenário de turbulência, econômica e tolerância democrática
tenham propiciado o ressurgimento de ideais separatistas e, neste sentido, de eventuais lideranças
oportunistas.
Embora a essência dos ideais separatistas não esteja vinculada a fenômenos socioeconômicos
circunstanciais, seria ingenuidade negar-lhe influência no ímpeto dos movimentos separatistas. Tanto que,
com o advento do plano real, o controle da inflação e a conquista do tetracampeonato mundial de futebol,
em 1994, os brasileiros pouco referiram-se a este assunto.
Contudo, antes de 1994, com a continuidade da “estagflação”, os rancores e antigos ressentimentos
fluíam mais facilmente. Em São Paulo e no Rio Grande do Sul, por exemplo, muitos desempregados ou
descontentes com a situação passaram a acusar e a perseguir nordestinos. Lamentáveis grupos neonazistas
ou simples vândalos cometeram excessos que, felizmente, foram repudiados pela opinião pública e pelas
autoridades brasileiras.
À parte destes grupos, outros, com ideias democráticas e melhores argumentos, lançavam novas
ideias ao debate. Neste contexto, surgiu, em Pernambuco, entre colegas do Mestrado de Economia da
Universidade Federal de Pernambuco, o GESNI – Grupo de Estudos Sobre o Nordeste Independente.
A rigor, O GESNI não era um grupo separatista. Seus objetivos principais eram de aprofundar o
estudo da questão regional e elucidar a exploração do Nordeste pelo Sudeste. As propostas do GESNI eram
bem distintas, portanto, das da maioria dos grupos separatistas do sul.

O GESNI

Em fins do ano de 1992, alguns colegas do Mestrado de Economia da UFPE reuniam-se para
discutir a questão nordestina. Cedo, convergiu-se para a ideia de que a região vinha sendo sistematicamente
explorada pelo Sudeste, mais precisamente, por meio de uma lógica protecionista industrial, empregada
pelo governo central, que mantinha São Paulo como centro dinâmico da economia nacional, em detrimento
dos demais estados e regiões.
As reuniões do GESNI se sucediam, ora na própria faculdade, ora no restaurante “Recanto do
Picuí”, situado na Praça do Derby, em Recife. Às vezes, ocorriam na casa de algum dos membros,
Tendo sido o primeiro a lançar a ideia inicial de se empreender um estudo sistemático de evasão de
riquezas regionais, fui eleito coordenador pelo pequeno número de participantes do grupo.
Desde o início, ficou acertado que o GESNI não seria um grupo separatista, mas de estudos e
pesquisas a respeito da problemática de exploração e de miséria existente na Região Nordestina.
Quanto à participação de professores do Departamento de Economia, é preciso se deixar claro que
não houve uma única adesão formal ao grupo, muito embora alguns deles segredassem simpatia e
concordância com as ideias defendidas.
Aliás, quando se tentou cadastrar, por meio de fichas, os nomes dos participantes, notou-se alguma
dificuldade, pois as pessoas se sentiam temerosas em aderir expressamente a um grupo que simpatizava
com o separatismo, um tema tão complexo e que sempre foi tabu no país.
Algum tempo depois da fundação do grupo, muitos dos integrantes precisaram partir para outros
estados de forma a continuarem suas carreiras profissionais.
Naquele momento, viajei para Londres, onde pude concluir o Mestrado em Economia Ambiental,
na University College London.
Maria Cristina Mac Dowell, cujas ideias e comedimento eram sempre respeitados durante as
reuniões, dirigiu-se para Brasília, onde fixou residência e, cedo, ingressou como economista concursada do
IPEA.
Mário Vitorino da Silva viajou para o Estado do Tocantins, onde passou a ensinar economia na
universidade estadual, tendo retornado, anos depois, ao Recife, onde continua lecionando.
Paulo Hamilton Filho, sempre impulsivo nas ações e amável no pensamento, assumiu o cargo de
professor de economia na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. Alguns anos mais tarde,
concluiu o seu Doutorado pela UFPE.
Assim, o cerne daquela organização foi se diluindo, até encerrar oficiosamente suas atividades no
segundo semestre de 1993, tendo tido vida efêmera, de menos que dois anos.
Sobre a existência do GESNI, restam artigos e matérias publicadas na imprensa escrita e televisiva
da época, tais como, Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, O Potyguar, Folha de São Paulo, Jornal
do Brasil e a TV Universitária de Pernambuco.
É preciso que se destaque, neste ponto, que a origem do GESNI não possui relação alguma com o
surgimento de grupos separatistas no sul e não foi, portanto, uma reação à onda de discriminação contra
nordestinos que estava acontecendo no Sul-Sudeste.
Na época, uma pesquisa da Datafolha foi realizada (1993), contando com 5.078 entrevistados, e
afirmava que 15% das pessoas eram a favor de algum tipo de separação entre as regiões ou os estados. Na
pesquisa, Porto Alegre, Curitiba e São Paulo foram as capitais mais favoráveis ao separatismo.

AS IDEIAS DO GESNI

As ideias centrais do GESNI diferiam, substancialmente, das do separatismo que estava sendo
proposto no sul do Brasil.
Para o grupo nordestino, o separatismo poderia ser a única forma de romper o ciclo de
neocolonialismo interno que minava as possibilidades de um rápido desenvolvimento da região.
Muitas das suas teses encontram-se descritas no capítulo primeiro deste livro. Importa, porém,
reforçar a dúvida que havia, entre os participantes, acerca da viabilidade econômica da região, caso viesse
a se emancipar. Alguns achavam que a região, sozinha, não reunia condições de subsistir.
De fato, os dados e estatísticas que se referiam à produção nordestina e ao comércio entre regiões
eram raros e incompletos, impossibilitando maiores elucidações.
Sobre a produção física, por exemplo, havia apenas as estatísticas do IBGE, embora a Sudene já
viesse editando publicações de grande utilidade.
Com respeito ao comércio inter-regional, os dados eram ainda mais raros. Muito pouco havia além
de uma edição, bastante imprecisa, da matriz de insumo-produto publicada pelo Banco do Nordeste.
A matriz de insumo-produto (Matriz de Leontief), contemplava apenas algumas mercadorias.
Muitos bens e serviços não eram abordados em suas tabulações. Dados sobre perdas de capital humano,
ambiental e mineral estavam completamente ausentes. Tampouco, a matriz fazia referência às remessas de
lucros ou aos fluxos de capital entre os estados e as regiões. De qualquer maneira, constituía-se em
importante fonte de informação.
Apesar das vicissitudes ocasionadas pela falta de dados, os integrantes prosseguiram o debate
(realizando visitas a intelectuais, jornalistas e políticos de renome).
Um material fértil para estudos eram os escritos de Sebastião Barreto Campello contra a exploração
da região nordestina, tais como os explicitados em seu artigo “Nordeste e Desenvolvimento”, publicado no
Diário de Pernambuco de 22 de novembro de 1976. Em seu texto, afirmava:

Enquanto pagamos preços exorbitantes pelas mercadorias que consumimos fornecidas


pelo Centro-Sul e protegidas por altas tarifas alfandegárias. Passa-se conosco, mais ou
menos o que se passa com as nações subdesenvolvidas em relação às industrializadas,
com a agravante de não termos barreiras alfandegárias internas, para proteger a nossa
incipiente industrialização.

Muito embora afirmasse não ser separatista, Barreto Campello, professor de Máquinas Térmicas
do curso de Engenharia Mecânica da UFPE, em muito influenciou toda uma geração de jovens estudante
nordestinos, que não se conformavam com a miséria que viam à sua volta, nem com a subserviência da
região aos interesses do sul.

BARRETO CAMPELLO E “O BRAVO PAÍS NORDESTE”

Em 1986, Sebastião Barreto Campello escreveu um artigo, juntamente com o jornalista Carlos
Garcia, que se tornaria leitura obrigatória para todos que se dispusessem a discutir a questão nordestina e o
separatismo, em particular. Com o título “O Bravo País Nordeste”, publicado na revista Reclamo, n° 4, os
autores estabeleceriam as bases de alguns dos principais argumentos em favor da separação.
No artigo, descreviam o Nordeste com uma visão otimista, diferente da que vinha sendo
tradicionalmente apresentada: pontuada de pessimismo e fatalismo, mostrando a região como um produto
exclusivo da seca.
Os articulistas iniciavam o texto com dose de ironia, lembrando que, ainda em 1817, os recifenses,
por exemplo, pagavam uma taxa de iluminação pública que servia para clarear as ruas do Rio de Janeiro,
então capital do Reino Unido. Desta forma, os pernambucanos custeavam parte das diversões principescas:

As fugas noturnas de Dom Pedro I em busca de leitos extranupciais eram iluminadas com
azeite saído do bolso dos recifenses.

As contundentes estatísticas apresentadas no documento não deixavam margens a dúvidas e


mostravam um Nordeste pujante de riquezas naturais, autossuficiente em energia e, até, exportador líquido
de petróleo.
No setor mineral, por exemplo, Barreto Campello e Carlos Garcia citavam a extração de ouro,
cobre, ferro, chumbo, manganês, zinco, níquel, amianto, barita, vermiculite, berilo, gipsita, talco, mármore,
bentonita, tungstênio, zircônio, diatomita, fertilizantes potássicos, magnesita, sal-gema, cromo, titânio,
nióbio (columbita), quartzo hialino, etc.
Na agricultura, mostravam a produção de algodão, arroz, café, soja, sorgo, borracha, banana,
abacaxi, cacau, cana-de-açúcar, cebola, coco, feijão, fumo, laranja, limão, mamona, mandioca, melancia,
melão, milho, tomate, uvas, palmito, inhame, madeira, carvão e lenha, etc.
Na pecuária, descreviam a região como detentora de cerca de 19% do rebanho bovino nacional,
92% do total de caprinos, 29% do total de suínos, 13% do total de bubalinos e 44% da população de muares,
além de criações de galinhas, patos, etc., o que garantia uma produção bastante razoável de ovos, leite, mel,
crustáceos, pescado, etc.
Decorridos anos desde “O Bravo País Nordeste”, Barreto Campello voltaria a escrever artigos
oportunos, como “Desenvolvimento Nordestino” (Diário de Pernambuco, 2000), onde mostra que apesar
dos desmandos constitucionais da atual política federativa, à participação do Nordeste no PIB nacional está
crescendo (tendo passado de 12%, nos anos oitenta, para 17,2% em 1999).
Neste artigo, o eminente professor, atual Diretor do Movimento Pró-Criança, lembra o texto
constitucional para que se exija do governo central uma maior participação nordestina na divisão
orçamentária. Barreto Campello lembra que ajudou na redação do Artigo 165, Parágrafo 7°, da Constituição
Federal de 1988, quando atuava como assessor parlamentar do então deputado federal José Carlos
Vasconcelos,
Sobre os orçamentos da Federação ressalva que:

terão, entre suas funções, a de reduzir as desigualdades inter-regionais, segundo o critério


populacional.

É desta forma, portanto, que o Nordeste recebe apenas 15% do orçamento nacional, conquanto
devesse receber 29%, proporção que corresponde à sua participação na população do país.
Nas disposições transitórias da Constituição Federal de 1988, a participação segundo o critério
populacional deveria ser atingida em até dez anos, fato que não ocorreu até o momento, mesmo decorridos
14 anos desde a promulgação da nossa Carta Magna.
Os parlamentares nordestinos poderiam, de bom direito, entrar com uma ação de
inconstitucionalidade por omissão junto ao Supremo Tribunal Federal.
E por que não o fazem?

A REPÚBLICA DO PAMPA

Este foi um movimento liderado pelo gaúcho Irton Marx e teve seu ápice em maio de 1994, quando
uma matéria televisiva da Rede Globo colocou os holofotes na cidade de Santa Cruz do Sul, sede de
iniciativas separatistas.
Ao que pareceu, aquele movimento continha forte inspiração neonazista, com claros elementos de
intolerância e preconceito.
A bandeira do movimento, por exemplo, em muito se assemelhava ao pendão do “Terceiro Reich”,
pretendido por Adolf Hitler, na Alemanha das décadas de trinta e quarenta. Sobre esta semelhança, Irton
Marx costumava disfarçar, alegando que foi ele, de próprio punho, quem desenhara o estandarte, e o fez
por “inspiração natural”, em abril de 1989, sem que quisesse imitar os símbolos alemães.
A República do Pampa, defendida pelo movimento, reunia os três estados do sul, Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul, e deveria ser referenciada por meio de plebiscito que acabou não sendo
realizado, por óbvias implicações legais.
MOVIMENTO “O SUL É O MEU PAÍS”

Liderados pelo advogado catarinense de Laguna, Adilcio Cadorin, alguns paulistas, gaúchos,
catarinenses e paranaenses reuniam-se em um movimento intitulado “O Sul é o meu País” e passaram a
editar o periódico “Jornal do Movimento”, o qual, inclusive, chegou a noticiar as atividades do GESNI.
Tendo tido suas origens no ideal separatista, o grupo, em determinado momento, passou a
empunhar a bandeira da confederação, e alegava que os estados mais ricos eram sub-representados junto
ao Congresso Nacional
Desta forma, desenvolvendo a sua maturidade institucional, o movimento passou a ter, no ano de
1993, oito comissões regionais e cinquenta comissões municipais, distribuídas entre os estados da Região
Sul e, mais tarde, também entre os paulistas.
Os integrantes do movimento citavam constantemente a República de Piratini e a República Juliana
como precursoras do separatismo do sul e exortavam a “alma combativa” dos habitantes da região.
A título de depoimento, o GESNI recebeu a seguinte carta de Adílcio Cadorin, datada de 23 de
setembro de 1994:
Como V.S.ª pode verificar, nosso movimento é democrático e hoje estará desencadeando
um processo de discussão sobre a possibilidade de darmos maior autonomia aos estados
brasileiros, através da mudança do regime federativo (ou unitário?) para o regime
confederativo, dotando as unidades confederadas de autonomia, podendo redigir suas leis
substantivas e adjetivas, mantendo um mínimo de dependência do Poder central.

O tom ameno empregado na carta não se coadunava, porém, com o de um editorial do Jornal do
Movimento, ao se referir ao Brasil e aos nordestinos:

Apenas uma nação que tenta falar a mesma língua, unida por um hino longo demais e
pelos deboches de três poderosas redes de televisão. Estamos separados uns dos outros
pelas riquezas geradas e unidos pelo patrocínio das misérias políticas (...). As populações
dos estados pobres dirigem-se em hordas migratórias miseráveis Alojando-se como
podem nos centros urbanos inchados e administrados pela impotência jurídica do direito
de ir e vir.

Mais adiante, no mesmo jornal, em uma poesia ufanista de Autoria de Paulino Rolin Moura, com
o título “São Paulo e o Sul é o Meu País”, podia-se ler o seguinte:

Toda riqueza aqui forjada é nossa.


Nas cidades, nos campos e na roça
Vibra toda a pujança do Sulista.
Catarinenses e paranaenses,
O gaúcho dos pagos riograndenses
E o braço e a mente boa do paulista.
O Sul é o Meu País! Vitória à vista!
Aqui se aferra um coração paulista
Engajado com fé no movimento.
Ao Nordeste – que é rico – o seu destino.
Que fique onde nasceu o nordestino
E firme no chão o pensamento.
[Jornal do Movimento, Edição nº 18, p.3, julho de 1994];

AS MOVIMENTAÇÕES DE TUPARETAMA

Reagindo ao preconceito contra os nordestinos que galgava espaço nas Regiões Sul e Sudeste, o
Prefeito da cidadezinha pernambucana de Tuparetama, Pedro Tunu, passou a defender, em princípios de
1993, a ideia do separatismo do Nordeste.
Após percorrer, em princípio de 1993, alguns municípios do Sertão de Pernambuco, Tunu
distinguiu alguns prefeitos que acederam a esta ideia, mas que não ousavam defendê-la publicamente.
Em matéria publicada no Jornal do Commercio de 28 de março de 1993, o prefeito do município
de Solidão, situado no sertão pernambucano, Isaías Serafim, declarava que:

Esta história de separatismo é uma realidade. Não se ouve outra coisa por aqui.

Desta forma, Isaías Serafim e outros prefeitos do Sertão e do Agreste, liderados por Pedro Tunu,
preparavam um plebiscito para saber qual a opinião majoritária dos habitantes.
Em Mirandiba, por exemplo, uma reunião de sindicalistas afiliados ao Partido dos Trabalhadores,
preparava um documento para ser encaminhado ao presidente do partido, Luís Inácio Lula da Silva,
solicitando dentre outras coisas:

um plebiscito para o Nordeste ficar independente do Brasil.

Com o decorrer do tempo, por alguns motivos, as movimentações de Tuparetama foram se


arrefecendo, talvez na medida em que os movimentos do sul também foram esvaziados.

O MOVIMENTO REPUBLICANO DE SÃO PAULO

Os paulistas sempre acreditaram na metáfora, proposta de estudiosos como Lopes Trovão e Joseph
Love, de que São Paulo seria a “locomotiva que puxa o restante do país”.
Não é de se estranhar que criassem, também, algumas vertentes particulares de separatismo, como,
por exemplo, o Movimento Republicano de São Paulo, MRSP
Este movimento descreveu em um “Manifesto Paulista”, que o estado de São Paulo, uma vez
separando-se do Brasil, tornar-se-ia “uma das potências do mundo”, onde os salários se equiparariam aos
do primeiro mundo.
Presidido pelo engenheiro eletrônico, radicado em Rio Claro, Clodoaldo Fontanetti, o grupo
apregoava que São Paulo, liberto de suas amarras:

poderia autorizar a importação de trabalhadores de baixa renda conforme as necessidades


do mercado. Já os excedentes e em situação irregular seriam extraditados (apud Folha de
São Paulo, pág. 1–12, de 21 de fevereiro de 1993).

É curioso lembrar o paralelo existente entre boa parte do ideário de emancipação de São Paulo e as
ideias de Alberto Salles, de cunho racista, descritas em seu livro “A Pátria Paulista”, de 1887, onde o autor
pretendia discutir o separatismo ‘em face da ciência”.
COMUNIDADE DAS REPÚBLICAS INDEPENDENTES DO BRASIL – CORE

Esta ideia foi lançada pelo engenheiro paulistano Braz Juliano, em seu livro editado no começo dos
anos noventa.
Ali, o autor sugere a criação de quatro países:

➢ a República do Brasil Sul seria composta pela Região Sul e mais os Estados de São Paulo e
Mato Grosso do Sul,
➢ a República do Brasil Sudeste reuniria Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo,
➢ a República do Brasil Nordeste reuniria os estados que compõem atualmente a Região
Nordeste, e,
➢ a República do Brasil Norte seria composta pelo Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima, Acre,
Pará, Mato Grosso e Tocantins.

Braz Juliano acreditava que

o Sul do Brasil vinha sendo odiosamente discriminado, particularmente São Paulo

e continuando lembrava o fato de que este estado estava sub-representado na Câmara Federal, de forma
que:

um habitante de Roraima, por singular aritmética eleitoral, valeria trinta e três paulistas,
(...) contrariando o dispositivo constitucional da igualdade perante a lei (apud. José Arthur
Rios, 1991, pp. 28-39).

Mais uma vez, a conotação discriminatória vem à luz, principalmente, quando, em seu livro, Braz
Juliano descreve os nordestinos da seguinte forma:

Marreteiros, violeiros etc., migrantes nordestinos que enxovalham a Praça da Sé e o Pátio


do Colégio, totalmente ignorantes que são das gloriosas tradições que esses locais evocam
nos corações dos paulistanos.

MOVIMENTO BRASIL CONFEDERAÇÃO

Decorriam os anos de 1992 e 1993. Como alternativa à ideia separatista, passou a tomar corpo a
proposta de alguns grupos, no sul do país, de transformar o modelo federativo em uma organização do
político-administrativa que desse mais autonomia aos estados-membros da União, inspirando-se no modelo
norte-americano.
Enquanto em Santa Catarina organizava-se, como já foi descrito, uma reorientação do movimento
“O Sul é o meu País”, no Paraná, a Câmara Júnior Empresarial de Curitiba, filiada à "Junior Chamber
International”, coordenava um segundo movimento, o “Brasil Confederação”.
Tomando emprestada a definição dada pelo movimento “O Sul é o meu País” em um panfleto que
circulou em mala direta, a confederação era definida da seguinte maneira:
Um modelo político-administrativo em que os estados membros são autônomos, e a eles
cabe a tarefa de gerir e normatizar quase todas as suas atividades, desde economia, saúde,
educação, segurança, justiça, saneamento, habitação, etc. Os estados, após se submeterem
a um plebiscito, se unem e formam uma confederação, a quem delegam poderes para a
manutenção da segurança nacional, representá-los nas relações exteriores, administrar os
serviços postais, gerar e distribuir energia, gerir o sistema financeiro e mais alguma outra
atividade essencial à existência da Confederação. Com este sistema, os tributos seriam
estadualizados, não mais sendo recolhidos pelo Poder Central. Os estados apenas
remeteriam o suficiente para a Confederação manter suas atividades. Cada estado membro
tem suas próprias leis, substantivas e adjetivas, em consonância com seus costumes,
cultura e tradições, permitindo que cada região assuma a sua vocação produtiva, sem a
interferência do Poder Central. A Constituição da Confederação tem poucos artigos (a dos
EUA tem doze artigos e a da Inglaterra tem apenas quatro), sem interferir e conflitar com
os interesses regionais. É o sistema que existe na Suíça há cerca de 600 anos, França,
Inglaterra, Espanha, Canadá, Estados Unidos e outros” (sic, Panfleto “O que é uma
confederação de estados? ”, de autoria do movimento “O Sul é o meu País”, cujo endereço,
à época, era na Avenida João Pinho, Laguna, Santa Catarina).

Oficialmente, segundo consta, o Movimento Brasil Confederação foi deflagrado por meio de uma
moção de apoio da Câmara Júnior Empresarial de Curitiba, do dia 16 de outubro de 1991, e passaria a ser
coordenado por Thomas Korontai, o qual, em junho de 1993, enviaria ao GESNI uma carta, cujo teor não
sendo pessoal, permite-nos a sua publicação:

É por intermédio do Sr. Armando Santana de São Paulo que fazemos contato com V. Sª
dentro do assunto “Confederação”, objeto de nosso movimento lançado em outubro de
1991, aqui em Curitiba.

Somos um grupo de jovens empresários e profissionais ligados à Câmara Júnior, entidade


sem fins de lucro com objetivo de desenvolvimento de jovens lideranças, presente em
mais de 10 mil comunidades no mundo. E como não poderia deixar de ser, estamos não
só preocupados com a caótica situação do Brasil, como resolvemos fazer alguma coisa.
Propomos então, a Confederação do país, resgatando o espírito federalista autêntico, a
exemplo dos EUA. Achamos ser essa a única solução, aproveitando inclusive a Revisão
Constitucional que se avizinha. Apresentamos as nossas ideias e o modelo de federalismo
autêntico, através do livro Brasil Confederação, lançado recentemente em nossa cidade.
Esperamos, desta forma, estar contribuindo para o futuro dessa Nação. Nos colocamos à
disposição para maiores esclarecimentos e prosseguimento de contatos, buscando a
divulgação desses ideais.
Com as cordiais saudações,
Thomas Korontai
Coordenação do Movimento “Brasil Confederação”
Câmara Júnior Empresarial de Curitiba.

A solução de Korontai seria, ainda, detalhada em seu livro “Brasil Confederação”, lançado em
1993, onde escreveu:

(...) A descentralização do poder, sua reorganização e transferência para os estados e


municípios, deixando para a União apenas aquelas tarefas de interesse comum aos
estados. À União é indispensável apenas que cuide da fabricação da moeda, comando e
manutenção das Forças Armadas, administração das relações exteriores, controle do
sistema financeiro e bancário, arbitragem dos conflitos entre os estados e outras
atribuições legitimamente aprovadas por um Congresso Nacional, constituído por
representantes em quantidade proporcional às populações de cada estado.

Com efeito, pode-se perceber a grande semelhança existente entre a proposta de Confederação dos
paranaenses e a dos catarinenses integrantes do “Sul é o Meu País”.
Em seu livro, Korontai prossegue detalhando, minuciosamente, como deveria ser o “Brasil
Confederação” e dá sua opinião sobre quase tudo, desenhando a sua própria utopia, parecendo, às vezes,
quase ingênuo, imbuído que estava, em defesa de seus ideais.

ORGULHO PAULISTA

Não tendo se afigurado, precisamente, como um tipo de movimento, o grupo “Orgulho Paulista”
pareceu mais um amontoado de pessoas eventualmente frustradas com as suas situações pessoais, e que,
por isso, pareciam procurar um bode expiatório para as suas mazelas.
Suas ideias passaram a ser difundidas até mesmo na Internet, anos depois do surgimento dos
movimentos separatistas do início dos anos noventa. Em julho de 1998, por exemplo, lia-se em sua
homepage, slogans, do tipo: “São Paulo, Minha Nação” e “Fora os Nordestinos”, enquanto desenhavam
símbolos de antigas revoluções paulistas, como a Constitucionalista de 1932.
Definindo-se eventualmente como skinheads (carecas), procuravam imitar grupos neonazistas
alemães e ingleses e combatiam o que consideravam “estrangeiros”, incluindo os nordestinos. Pela Internet
publicaram o seguinte:

Este site foi feito para te alertar sobre perigo que a nossa região (o Sul Brasileiro) está
correndo (...) com a migração em massa para São Paulo, nossa terra está deixando de
ser ‘paulista’ para se tornar uma terra de ninguém, São Paulo está sendo desfigurada,
destruída! (Site Orgulho Paulista, p.1 de 5, 1998).

O site emitia, ainda, artigos de autores com pseudônimos, em artigos racistas como “Manifesto do
Eixo Sul Livre”, “Orgulho Branco”, e “O Skinhead e Seu Dever”.
Finalmente, a Polícia Federal tratou de rastrear o grupo e de impedir a proliferação daquele ideário,
enquadrando-o na Lei Afonso Arinos e na própria Constituição Federal de 1988, que proíbem a prática do
racismo no Brasil.

Alguns comentários finais

A leitura deste capítulo demonstra que a unidade territorial brasileira não foi o resultado de um
processo tranquilo e pacífico de consolidação de um estado nacional, ou, tampouco, o resultado de algum
milagre ou de alguma engenharia política com tecnologia patenteada pelos lusitanos.
Ao contrário, como vimos, foi preciso que o aparato repressivo estivesse fortemente atuante, desde
a época do Brasil-Colônia, de forma a combater as inúmeras rebeliões que contestaram a soberania do poder
central – em Lisboa, no Rio, em Brasília.
Recentemente, em fins da década de oitenta, após o retorno à democracia e com a crise econômica
e social vivenciada, ressurge o ideal separatista e começam a ser criados diversos novos grupos e
movimentos de notoriedade nacional, particularmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São
Paulo e Pernambuco.
Estes grupos e movimentos possuíam motivações distintas. Enquanto no Sul e Sudeste os
nordestinos eram vistos como um entrave ao desenvolvimento daquelas regiões, no Nordeste, a lógica era
completamente inversa.
Capítulo 4

O SONHO DE UM NOVO PAÍS

Questionando a cisão. Um aparte para reflexão. O sonho de um novo país. Comércio exterior, Mercosul e
novas parcerias.

Questionando a cisão

Muitos dos leitores ainda podem estar se perguntando o porquê de um novo país.
Não seria, isto, avesso às tendências mundiais ao esmaecimento das fronteiras, em um mundo cada
vez mais globalizado e interdependente?
Não estariam, as ideias separatistas, quaisquer que sejam, na contramão da história?
Indo mais além, como é possível defender a proposta separatista, se aprendemos, desde crianças, a
amar o Brasil? Este país lindo e maravilhoso, capaz de conquistar a Copa do Mundo de Futebol, que tem
uma bandeira nacional tão bonita e um hino que nos enche de emoção sempre que é tocado!
Por que nos lançarmos nas incertezas de uma aventura secessionista, cujos resultados não são
totalmente previsíveis? E, afinal, seria, o novo país, econômica, política e tecnicamente viável e
sustentável?
Estes questionamentos não possuem respostas simples. Requerem uma compreensão mais profunda
das inserções que têm os países e povos na economia mundial.
Este capítulo tratará de mostrar que a independência do Nordeste não é um processo contrário ao
fluxo mundial de abertura comercial, mas vem justamente ao encontro desta tendência.
Da forma como está, o intercâmbio de produtos entre o Nordeste e o resto do mundo é desprezível.
Pode-se dizer que a região é, praticamente, desconhecida pela comunidade internacional.
Em primeiro lugar, é preciso que se frise: O sentimento de amor pelo Brasil não é incongruente
com a ideia do Nordeste Independente. É possível continuar mantendo fortes laços afetivos com a nação-
mãe e, ao mesmo tempo, amar o novo país. Um filho quando se casa, não deixa de gostar de seus pais.
Aqueles que residem ou passaram temporada no exterior sabem, perfeitamente, que o Brasil sempre deixa
uma enorme saudade.
Mas, há um momento em que o filho precisa partir da casa paterna e seguir seus próprios rumos. É
assim que deve ser com o Nordeste: precisa romper com o continuísmo que lhe obsta o desenvolvimento.
Atualmente, a metáfora da sombra da árvore eclipsando a plantinha bem retrata o quadro
nordestino. Por isso, é importante o resgate dos valores autenticamente regionais e o despertar do “sentido
de pertencimento”, a que se referiu o filósofo Isaiah Berlim.

Um aparte para reflexão

Antes de prosseguir nas possibilidades de um Nordeste Independente, peço ao leitor um aparte para
algumas considerações que apresentei em uma conferência na Universidade Autônoma do México, na
Cidade do México, em abril de 1997.
UM MUNDO SEM FRONTEIRAS?

Um mundo sem fronteiras é utopia de séculos e remonta aos grandes impérios da Antiguidade.
O atual estágio tecnológico em que se encontra a humanidade permite que as trocas de informação
e produtos transcendam, rapidamente, quaisquer limites geográficos.
A intensificação deste intercâmbio de informações e de tecnologias deverá ter, como consequência,
a uniformização de certos padrões processuais e comportamentais.
Posto isto, é possível que o futuro do homem não esteja, assim, tão liberto das leis básicas da física,
e que a humanidade caminhe para um aumento da entropia social, tal como no esquema a seguir:

CIDADES-ESTADOS
PAÍS GRANDE ➔ PAÍS PEQUENO ➔
(POLIS)

SENTIDO
NACIONALISMO NACIONALISMO
➔ ➔ COMUNITÁRIO
FORTE FRACO
(URBI ET ORBI)

HOMOGENEIZAÇÃO
HOMOGENEIZAÇÃO HOMOGENEIZAÇÃO
➔ DE ➔
DE PRODUTOS CULTURAL
PROCEDIMENTOS

O fluxograma anterior mostra que o aumento de intercâmbio entre pessoas, povos e países deve
resultar em padronização e uniformização, por um lado, mas, por outro, no surgimento de novas propostas
comunitárias e de autodeterminação, além daquelas restritas ao estado nacional moderno.
As novas alternativas sociais devem surgir a partir de um processo de “clivagem geopolítica”,
segundo o qual, o mundo se acomodaria às novas exigências sociais, econômicas, tecnológicas e
administrativas.
Nesta marcha inexorável, as sociedades passariam de um contexto evolucionista social, à la
Spencer, para um momento de prevalência das leis da termodinâmica, particularmente, a Segunda, a qual
projetaria, para o futuro distante, a existência de uma única raça, uma única língua, uma única classe social,
uma única legislação abrangente. Mas não sem antes ter ocorrido uma retomada dos valores locais, em
contradição à globalização, que é, precisamente, o estágio em que se encontra a humanidade.
No fluxograma, a primeira transição é genuinamente spenceriana, com as nações e povos
procurando diferenciação e integração. É o momento de formação de blocos econômicos e do surgimento
de novos países.
A segunda transição, de longo prazo, dá-se sob predomínio termodinâmico, desaparecendo as
componentes de diferenciação.

O PENSAMENTO DE JOHN NAISBITT

Em relação à fragmentação das atuais fronteiras nacionais e ao surgimento de novos países, John
Naisbitt, escritor norte-americano, escreveu o livro intitulado “Paradoxo Global”. Escreve o autor (cf.:
Naisbitt, 1994, p.20 e capa):

Quanto mais universais nos tornamos, mais tribalmente agimos. (...). Esse tribalismo
trará à existência centenas, talvez milhares, de países novos e dotará de poder milhares
de grupos diferentes e tribalmente afiliados.

O pensamento de Naisbitt prevê a cisão de grandes países em pequenos, como forma de adequação
aos novos tempos e como ajuste geopolítico às demandas sociais do mundo atual, onde diversos povos e
etnias reclamam autodeterminação.
Suas ideias são, em parte, um prolongamento do que previu o sociólogo francês J.F. Gravier, em
1970, quando escreveu o texto “La question regionale”, afirmando que o sentimento regionalista em várias
partes do mundo era difuso, mas, em intensidade crescente, com as populações buscando uma personalidade
enraizada em um território e uma história.
Nos últimos anos, a União Soviética deu origem a quinze repúblicas independentes. A Iugoslávia
cindiu-se em cinco novos estados e a Tchecoslováquia, em dois. Andorra proclamou sua independência
plena. Na África surgem novos países a cada ano. É possível que outros tantos surjam na Europa e na China,
tão logo este país complete a sua transição democrática.
Com esta proliferação de países, surgem ideias excêntricas, como as do historiador inglês Cyril N.
Parkinson e o industrial holandês Freddie Heineken, que sugerem a divisão da Europa em setenta e cinco
países de tamanhos semelhantes, de acordo com a proximidade geográfica e identidade cultural de seus
habitantes. No Japão, o escritor Kenichi Ohmae e o político Ichiro Ozawa advogam a fragmentação do país
em um número de regiões autônomas que poderia chegar a trezentas!
Afirmando que “quanto mais democracia, mais países” o enfoque do autor recai sobre a necessidade
de se buscar e se aplicar novos paradigmas administrativos e burocráticos.

CONTESTANDO O CAPITAL MONOPOLISTA

A hipótese de que o capitalismo convergiria para uma concentração monopolista do capital,


segundo a qual, as multinacionais governariam o mundo e engoliriam as pequenas firmas, foi defendida por
muitos marxistas do Século XX, dentre eles, o sindicalista alemão, Harry Braverman.
Esta ideia, contudo, não encontra respaldo na realidade à nossa volta.
Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 90% da economia é movimentada por pequenas ou
médias empresas. Sobre isto, escreveu Naisbitt:

os empreendedores individuais estão criando a grande economia global.

De raciocínio equivalente, os estados pequenos não são sinônimos de estados fracos. Os livros-
texto de economia internacional costumam apresentar seções intituladas: “as vantagens de ser pequeno”.
Com efeito, ao menos sob os argumentos da teoria clássica do comércio internacional, são as pequenas
nações que asseguram os maiores ganhos.
Tudo isto reflete a nova realidade econômica. Nos anos oitenta, influenciados pelas máximas de
Tólstoi, os slogans eram do tipo “pense globalmente, aja localmente”. Nos anos noventa, retomando as
formulações de Spenser para inserção com integração, os slogans se transformaram de ponta-cabeça:
“pense localmente, aja globalmente”. Talvez, na primeira década do século XXI, mudem novamente:
“pense local e globalmente, aja local e globalmente”.
O sonho de um novo país

A rigor, como atesta Durval Muniz de Albuquerque Júnior [1999], em sua tese de doutorado em
História na UNICAMP, o Nordeste não existia até meados da década de 1910.
Ao menos, com esta denominação e com a clara delimitação geográfica e humana que possui hoje
em dia. Os habitantes da região eram então chamados de nortistas, simplesmente.
Paulatinamente, a região vai se configurando até chegar ao que hoje a define geograficamente o
IBGE com suas atuais peculiaridades (e multiplicidades) regionais, estaduais e locais.
E onde seria, então, o novo país? Qual a sua limitação geográfica, os seus símbolos nacionais, a
sua organização administrativa? Quais seriam os seus habitantes?
Estes aspectos, e outros mais, devem estar instigando muitos dos leitores, mas não se imagine
encontrar respostas prontas. Com efeito, não iremos reincidir, como fizeram escritores separatistas do
passado, no equívoco de minudenciar o novo país ou a sua sociedade.
O que será sugerido, a seguir, não passa, portanto, de meras divagações, com o intuito de iniciar
um debate mais intenso.

A GEOGRAFIA

O melhor mapa para o novo país deveria ser o da Região Nordeste, tal como é nos dias atuais.
Entretanto, talvez, para os estados da Bahia e do Maranhão, fosse melhor outro tipo de separação,
tornando-se, eles próprios, independentes.
Esta possibilidade se deve ao fato de que ambos os estados têm vasto território e peculiaridades
populacionais e políticas sui generis.
A integração destes estados ao Nordeste Independente poderia perpetuar antigos problemas de
distâncias, diversidade de interesses e eventuais disputas predatórias entre suas oligarquias.
Países menores, mais ágeis e coesos, menos burocráticos, parecem estar em vantagem no mundo
atual. Por isso, sugiro que a distância máxima a ser percorrida por via terrestre não ultrapasse o tempo de
um dia, o que permitiria, maior frequência de visitas a familiares, amigos e turismo interno, além de facilitar
diversos tipos de negócios.
Uma vez ausentes a Bahia e o Maranhão, ainda assim seria necessária uma partição dos atuais
estados, talvez retomando-se o conceito de unidades provinciais. Isto facilitaria a nova administração,
eliminando níveis hierárquicos intermediários e corrigindo os atuais desequilíbrios políticos e econômicos
entre os estados.

AS PROVÍNCIAS

Alguns estados do Brasil são demasiado grandes para serem administrado desde uma única sede.
No Nordeste, isto acontece com o Piauí, o Ceará, e até mesmo Pernambuco, dado seu formato latitudinal.
O Piauí poderia ser dividido em três províncias, uma com sede administrativa em Teresina, outra
em Picos, e a terceira em Gurguéia.
O Ceará poderia ser dividido em mais duas províncias, uma com capital em Fortaleza e a outra com
capital em alguma das cidades do Cariri.
Os estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Sergipe passariam a ser províncias,
enquanto que o estado de Pernambuco poderia dar origem a outras três: a primeira, sediada em Recife, a
segunda, em Petrolina; e a última, em Fernando de Noronha.
Após esta reorganização administrativa, o Nordeste passaria a ser integrado, então, não mais por
estados, mas por doze províncias, cada qual, com seus municípios e com sede administrativa própria.
Como você, leitor, idealizaria esta divisão?

A CAPITAL DO NORDESTE INDEPENDENTE

Certa vez, em artigo de jornal, no começo dos anos noventa, defendi a localização da capital
nordestina em uma cidadezinha do sertão.
Algum tempo depois, modifiquei a minha posição, talvez para não incorrer no mesmo erro de
Juscelino Kubitschek, quando escolheu Brasília.
Hoje, acredito que se deva aproveitar a estrutura já existente em alguma cidade de maior porte,
desde que fosse geograficamente bem posicionada e que não pertencesse a algum dos estados mais fortes
politicamente, como Pernambuco e Ceará (os que leram a Bíblia irão identificar, aqui, a estratégia do profeta
Samuel, quando escolheu um rei para Israel, que fosse oriundo de uma tribo menor).
Cidades como Natal, Mossoró, Campina Grande ou João Pessoa seriam excelentes candidatas a
abrigar a sede do governo nordestino.
A partir de qualquer dessas cidades, o percurso por terra para quase todas as localidades do
Nordeste se faz em menos de doze ởu catorze horas, desde que haja boas estradas.

O NOME DO NOVO PAÍS

Está aí um difícil exercício: sugerir um nome para o novo país.


Quem sabe, simplesmente, Nordeste. Ou, então, alguma variante como República do Nordeste,
Estados Unidos do Nordeste, etc.
Alguém, contudo, poderia alegar que esta denominação estaria demasiado arraigada ao passado,
justamente, àquilo que se intenta mudar. Além disto, há nordestes em todos os lugares e países e isto poderia
suscitar alguma confusão.
Uma outra opção de denominação seria aludir a algum representante da fauna ou da flora regional,
ou, até, a algum herói do passado: República do Mandacaru, País do Frei Caneca, Zumbi, Pindorama,
Pasárgada, etc.
Como se percebe, encontrar um nome adequado ainda requererá grande debate. A República
Tcheca, por exemplo, passou anos tentando se autodenominar, até assumir de vez o nome República Tcheca
(cogitou-se Chéquia, Tcheclândia, Boêmia, Checóvia, etc.).
Talvez, seja necessária a realização de um plebiscito para decidir algo assim tão importante.

SÍMBOLOS NACIONAIS, BANDEIRA, HINO, BRASÃO

Para a definição dos símbolos nacionais, sugere-se a instituição de concurso público seguido de
plebiscito.
Uma proposta interessante seria estabelecer bandeira e brasão que representassem solidariedade,
tolerância, paz, justiça, proteção ambiental, etc., ao invés de emblemas que representem força ou grandeza
nacional.
Aliás, esta seria uma excelente ocasião para se desenhar símbolos com formato e cores modernos,
algo que chamasse a atenção de quem examina aquelas páginas de enciclopédia onde estão reunidas
bandeiras nacionais.
Para hino nacional, que tal “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense, “Asa Branca”, de Luiz
Gonzaga e tantas outras incríveis canções tipicamente nordestinas.

EXECUTIVO E LEGISLATIVO

No Nordeste independente, poderia ser desejável a existência de um legislativo unicameral,


composto por representantes provinciais.
Deve-se limitar o número de representantes por província, de forma a se constituir uma câmara
legislativa nacional com, no máximo, uma centena de deputados.
Desta forma, seria possível para a população nordestina, conhecer o nome e comportamento de
todos os seus representantes legislativos e, consequentemente, aumentar a cobrança por mais trabalho e
realizações.
O executivo, por sua vez, poderia ser composto por presidentes, governadores de províncias e
prefeitos. Os municípios, contudo, para se autodeterminarem, precisariam se mostrar política e
administrativamente viáveis, de forma a se evitar problemas de finanças municipais tais como os apontados
por MAIA GOMES e MAC DOWELL [1997], que mostram municípios brasileiros cuja arrecadação não é
suficiente, sequer, para cobrir os custos do executivo e do legislativo locais.
Por outro lado, seria importante que o executivo nacional mantivesse representação em cada
província, de forma a aproximar o Estado do cliente-cidadão, evitando-se a distância constelar entre os
órgãos decisórios e o povo, a qual predomina, hoje, no Brasil.

JUDICIÁRIO

De Platão a Kant, de Kelsen a Nozick, de Rousseau a Rawls, seria difícil enumerar grandes
pensadores e filósofos que se debateram (debalde?) na busca por uma definição plena de “justiça”.
Alguns postulados, contudo, adquiriram consenso. Dentre eles, o de que a justiça deve ser
accessível a todos e destinar tratamento igual a casos semelhantes.
No Brasil, infelizmente, o Poder Judiciário mantém-se incrivelmente distanciado do cidadão
comum.
Ao contrário dos demais Poderes, os chefes representantes do Judiciário se mantêm em cargos
vitalícios e seus servidores recebem salários bem maiores que seus pares do executivo e do legislativo.
Recebem, ainda, um estranho auxílio-moradia e gozam de férias dobradas, diferentemente dos demais
cidadãos do país: “todos são iguais perante a lei, só que uns são mais iguais” – diria o velho George Orwell,
desencantado de vez com o gênero humano.
Na prática, o que se observa é que o equilíbrio entre os três poderes já não existe mais, havendo
inequívoca supremacia do judiciário sobre os demais.
Da forma como está sendo encaminhada, a justiça brasileira, em pouco tempo, poderá ser reduzida
a uma mera arena para pseudodisputas entre poderosos escritórios de advocacia e o erário público, estando
este, não raro a mando dos próprios juízes, com grande disponibilidade para indenizações milionárias que
afetam a integridade financeira do Estado. Enquanto isto, as disputas entre cidadãos comuns e a condenação
de criminosos ficarão aguardando ad infinitum.
Diante deste quadro, algo precisaria ser feito. Para começar, os servidores do judiciário (e dos
demais poderes) não poderiam perceber mais do que um limite pré-estabelecido e acordado junto à
população, havendo, assim, uma frenagem à legislação em causa própria.
Além disto, há a necessidade de se enxugar a parafernália de leis, instâncias e tribunais, que só
servem para complicar a vida do cidadão.
Mesmo sendo leigo em Direito, não é difícil perceber a necessidade de modernização do Judiciário
de forma a utilizar uma linguagem que possa ser compreendida pelo povo, adotando padrões de eficiência
e de transparência que sejam compatíveis com as demandas sociais do século XXI.

DEMOCRACIA E ESTABILIDADE

Democracia e estabilidade são características imprescindíveis ao equilíbrio de qualquer nação e ao


bem-estar de seu povo.
Sem estabilidade social, política, econômica, fiscal e monetária, a sociedade não pode evoluir e a
economia permanece estagnada.
Democracia e desenvolvimento sustentável são conceitos que caminham juntos. Sem um não existe
o outro. Isto implica que as políticas econômicas, sociais e setoriais devem, sempre, incorporar aspectos
relativos à preservação da democracia, redução das desigualdades, proteção ambiental, e respeito às demais
nações.

A QUESTÃO DISTRIBUTIVA

Proudhon, Marx, Engels e Webber foram alguns pensadores que chamaram a atenção sobre o
perigo do excesso de poder por parte das elites e chegaram a estabelecer teorias a respeito.
Como foi destacado por Proudhon [1840], o excesso de poder resulta de má distribuição de renda
e da falta de informação e educação das camadas sociais mais pobres.
Destarte, uma distribuição de renda mais equânime é fortemente desejável para a consolidação de
uma sociedade solidária, justa e sustentável e isto é possível, unicamente, por meio da universalização da
educação e do conhecimento.

Comércio exterior, Mercosul e novas parcerias

A globalização é um fenômeno que se intensifica em nossos dias. Desnecessário dizer que as


inovações tecnológicas na área de telecomunicações, transportes e informática encurtaram enormemente as
distâncias entre países, propiciando a multiplicação do comércio e das trocas internacionais.
Para se ter uma ideia do crescimento do comércio mundial nos últimos cinquenta anos, basta se
comparar o valor total das mercadorias transacionadas entre países no ano de 1950, que era da ordem de
US$ 60 bilhões, com o atual valor, em 2001, que gira em torno de US$ 6 trilhões, segundo avaliação da
Organização Mundial do Comércio – OMC. Isto equivale a um crescimento de mais de 25 vezes,
descontando-se a inflação em dólar no período.
Observa-se, ainda, que, ao mesmo tempo em que se intensificam as relações comerciais entre os
países, aumenta, em escala considerável, a mobilidade dos fatores de produção, especialmente, a do capital.
E a chegada deste capital internacional em países menos desenvolvidos deve ser, em princípio,
auspiciosa e desejável, mormente quando se constata que este aporte pode contribuir para a democratização
da economia e a redução do poder oligárquico local.

ABERTURA COMERCIAL

Abertura comercial pode se tornar um poderoso instrumento de reversão do modelo de exploração


interna brasileiro.
Contudo, de forma aparentemente paradoxal, acompanha-se, no país, uma curiosa associação de
empresários do setor industrial e de partidos de esquerda, todos se posicionando contra a abertura comercial,
muito embora por motivo distintos.
As pressões em cima do executivo nacional fazem com que permaneçam políticas que privilegiam
o lado da oferta em detrimento do lado da demanda. É preciso mudar esta forma arcaica de fazer política
econômica e escolher o equilíbrio na partição de lucros entre produtores e consumidores.
Tome-se o recente exemplo da reserva de mercado para computadores brasileiros, que engessava a
economia e inibia a pesquisa no país. Com o fim da reserva, a comunidade acadêmica comemorou e
centenas de pequenas empresas nacionais foram criadas e fortalecidas.
Sobre a reserva de informática, publiquei o seguinte artigo, no Jornal do Commercio, em 27 de
outubro de 1992:

Uma das leis mais nefastas da história recente do país está com seus dias contados. No
próximo dia vinte e nove, após quase oito anos de despotismo, deixa de existir a Lei
7.232/84, conhecida como a lei da reserva do mercado de informática.
(...) A reserva de mercado de informática contraria toda e qualquer teoria econômica de
comércio internacional, quer em moldes clássicos de Smith e Ricardo, quer em moldes
neoclássicos de Hecksher e Ohlin, quer, ainda, em moldes das chamadas ‘novas teorias”,
de economistas como Vernon, Linder, etc.
(...) Entretanto, o maior deslize cometido pelos parlamentares que aprovaram a obsoleta
lei, foi não terem atentado para o fato de que a informática é um insumo econômico, um
bem de capital de primeira necessidade. Ao votarem pela lei 7.232/84, os parlamentares
condenaram os setores industrial e de serviços à obsolescência e ao descompasso
tecnológico. Infernizaram a vida de milhões de estudantes, pesquisadores, professores,
microempresários e profissionais liberais, que se viram impossibilitados de adquirir
equipamentos tão caros.
(...) A reserva de mercado prejudicou até mesmo subsetores da informática, como é o
caso da produção de softwares, onde efetivamente temos um grande potencial, que se
viu impedido de se expandir devido à reduzida base de microcomputadores instalada no
país (RIBEMBOIM, 1992).

Este enfoque foi corroborado, mais tarde, por economistas como Olympio Galvão, professor da
Universidade Federal de Pernambuco:

A revogação das leis de reserva de mercado e da exigência de índices de nacionalização


para a indústria de informática (através de lei do Congresso Nacional de 1991) e para a
automobilística, constituem outro tipo de benefício gerado pelo processo de abertura em
curso, a afetar o consumidor do país como um todo e, de modo especial, o das regiões
periféricas. Segundo avaliações de vários estudos técnicos, o programa de liberalização
no setor de informática já teria resultado em substanciais diminuições de preços e
aumento na variedade e qualidade de bens informáticos à disposição do consumidor
brasileiro e teria, inclusive, atraído para o Brasil um número expressivo de firmas
estrangeiras para atenderem ao mercado nacional tanto de hardware quanto de software
(GALVÃO, 1999).

FORMAÇÃO DE BLOCOS ECONÔMICOS INTERNACIONAIS

A ampliação das possibilidades de comércio internacional requereu um redesenho de fronteiras


econômicas, de forma a tornar os países mais competitivos e a facilitar o ingresso dos mesmos em um
mercado cada vez mais exigente, abrindo caminho para a formação de blocos econômicos, tais como o
NAFTA, a União Europeia, a ASEAN e o Mercosul.
Em última análise, a formação de blocos econômicos corrobora o antigo conceito de vantagem
comparativa de David Ricardo, em simbiose com as teorias de mercado interno. Assim, globalização e
regionalização não são fenômenos antitéticos, mas mutuamente complementares. Sob este prisma, a
integração em blocos parece ser o caminho natural para o crescimento das economias modernas e pode
trazer ganhos alvissareiros para os países-membros.
É bem verdade que sempre há os que ganham mais e os que ganham menos, com a associação do
bloco, mas, dificilmente, algum país sai perdendo, uma vez que é livre para assinar o contrato. Por isso se
diz que a formação de blocos econômicos é Pareto-ótima.
As experiências têm mostrado que o ônus do ingresso de países em blocos econômicos, quando
existem, são decorrentes de desequilíbrios de curto prazo em alguns setores de produção, sobretudo no de
bens exportáveis, mas cessam tão logo as economias se adaptam ao novo cenário competitivo.
Apesar disto, a globalização vem sendo questionada por causa de possível ocorrência de
desemprego estrutural, intensificação da volatilidade do capital internacional e, ainda, persistência da
pobreza em países menos desenvolvidos.
Entretanto, muitos destes problemas podem decorrer exatamente da pouca integração do país na
comunidade internacional ou por conta de instabilidades internas, sejam de cunho político, fiscal ou
distributivo. A pobreza do chamado Terceiro Mundo sempre existiu, não é o resultado da globalização, nem
das iniciativas de integração regional.
De qualquer forma, existe a possibilidade de que algumas regiões pertencentes aos países-membros
se vejam prejudicadas com a formação de blocos, ressaltando antigas diferenças e instando novas tensões.
Neste sentido, exemplos não são poucos, e podem ser citadas as ocorrências em Chiapas, no sul do
México, e no Quebec, porção de língua francesa do Canadá. Outros casos de integração econômica com
desigualdade interna aconteceram na Alemanha, na época do Zollverein; e na Itália, com a “Questão
Meridional”. Ainda, mutatis mutandis, o caso da União Soviética e seus satélites.
Infelizmente, parece que este é o caso, também, das Regiões Norte e Nordeste, em decorrência do
ingresso do Brasil no Mercosul.

MERCOSUL E TRÂNSFUGA DE CAPITAIS

O Mercado Comum do Cone Sul, Mercosul, é formado pela integração econômica do Brasil,
Argentina, Uruguai e Paraguai, a partir da assinatura do Tratado de Assunção, em 26 de março de 1991.
Mais recentemente, países como a Bolívia e o Chile têm demonstrado interesse em aderir, muito embora as
crises da Argentina durante o segundo semestre de 2001 tenham posto em xeque a continuidade do acordo.
Em princípio, trata-se de uma União Aduaneira, isto é, uma zona de livre comércio dotada de uma
tarifa externa comum, que deve se situar em torno de 15% para a grande maioria dos itens importáveis em
meados de 2002.
Eventualmente, o Mercosul poderá evoluir para um Mercado Comum ou até mesmo para uma
União Econômica e Monetária, semelhante à União Europeia, onde além da livre circulação de mercadorias,
existe, também, a livre circulação dos fatores de produção e uma moeda única, sob a coordenação de uma
espécie de banco central supranacional.
Os ganhos propiciados por uma ampliação de mercados para a indústria sudestina brasileira são
muito positivos, principalmente, quando se observa o descompasso tecnológico das indústrias dos demais
países integrantes do Mercosul.
Uma rápida observação dos índices de comércio intrarregional (entre países), após a instituição do
Mercosul, elimina as dúvidas acerca da intensificação dos mercados:

Tabela 6: Exportações e importações brasileiras no Mercosul

Exportações brasileiras para países do Importações brasileiras de países do


Ano
Mercosul Mercosul

(Bilhões de US$) (% do total) (Bilhões de US$) (% do total)

1992 4,1 11,4% 2,2 10,8%

1994 5,9 13,6% 4,6 13,9%

1996 7,3 15,3% 8,3 15,5%

Fonte: IPEA, apud. Alexandre de Andrade Fonseca, 1998

A tarifa externa comum, TEC, só será implementada, para bens de capital, a partir de 2001 e, para
informática e telecomunicações, a partir de 2006. Atualmente a TEC envolve 85% do universo tarifário,
com uma média de 14% e um máximo de 20% e, para os demais produtos, tarifas que variam entre 0% e
35%, dependendo de cada país.
Da observação individual de cada país-membro, o Mercosul se apresenta benéfico para todos.
Para o Nordeste, contudo, o resultado não é inequívoco:

O Nordeste, situando-se na projeção mais oriental do subcontinente sul-americano,


encontra-se geograficamente deslocado do esforço de macrorregionalização representado
pelo Mercosul, sendo compreensível que a área de atração locacional de novos
instrumentos produtivos orientados por esse mercado se situe, no país, principalmente no
Sudeste e no Sul (ALBUQUERQUE E GOMES, 1996).

O que se vê, na verdade, com o advento do Mercosul, é o deslocamento do investimento para o


eixo que se forma ao sul de São Paulo, envolvendo os Estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do
Sul e o norte da Argentina (com algumas possibilidades interessantes para o Rio de Janeiro, Minas Gerais
e Goiás).
Desta forma, o chamado “efeito-andorinha” – segundo o qual uma região desenvolvida desborda
tecnologia e investimento para seus vizinhos – parece estar deslocando em sentido contrário ao do Nordeste.

MERCOSUL E NORDESTE

Muitos economistas consideraram razoáveis as taxas de industrialização e de formação bruta do


capital fixo nos estados do Nordeste a partir dos anos oitenta.
De fato, a participação do setor industrial na economia passou de pouco mais de vinte por cento,
no início dos anos sessenta, para cerca de trinta por cento na década de noventa.
O professor de economia, Maurício Romão, desenvolveu um consistente trabalho de pesquisa,
compilação e divulgação dos índices de crescimento do PIB do Nordeste, mostrando que a região é capaz
de crescer, mesmo frente às conhecidas vicissitudes climáticas ou culturais.
A tabela a seguir apresenta uma síntese dos trabalhos deste professor e dos economistas Leonardo
Guimarães, J. Lima, Jaime Katz, onde se observa que existe uma certa rigidez tanto de crescimento quanto
de contração da atividade da Região Nordeste, se comparada à do Brasil, como um todo. Isto, talvez, possa
ser atribuído ao seu relativo isolamento para com o resto do mundo.

Tabela 7: Brasil e Nordeste: Taxa Média Anual de Crescimento do PIB Real (1960 a 1995)

Período Brasil Nordeste

1960 a 1970 6,1 3,5

1971 a 1980 8,6 8,7

1981 a 1990 1,6 3,3

1991 a 1995 2,7 2,6

Fonte: SUDENE

Acerca dos efeitos do MERCOSUL no Nordeste, o economista Alexandre de Andrade Fonseca,


em sua Dissertação de Mestrado para o Departamento de Economia da UFPE, avaliou como positivos.
Entretanto, este pesquisador se ateve à análise da pauta de exportações nordestinas para os países do
Mercosul, que, de fato, aumentaram de 4,9% para 13,5% do total exportado pela Região. A participação
das exportações para os países do NAFTA e da União Europeia, contudo, decresceram, o que indica um
redirecionamento da pauta de exportações e não, necessariamente, um aumento.
Isto significa que o Nordeste não está apático em relação às possibilidades do Mercosul, mas que
os custos de oportunidade com relação a este redirecionamento de interesses precisam ser melhor avaliados.
De qualquer forma, os coeficientes de abertura dos estados nordestinos são tão desprezíveis, entre
0,03% e 1,02% do PIB (nenhum país consegue ter coeficientes de abertura assim tão baixos!!!) que parece
ser ingênuo, senão estéril, discutir-se o êxito do Mercosul em relação aos estados nordestinos à luz, apenas,
de suas exportações e importações.
São procedentes, portanto, as preocupações de economistas como Roberto Cavalcanti de
Albuquerque e Gustavo Maia Gomes, quando afirmam que a inserção internacional do Brasil corre o risco
de vir a ser “regionalmente desigual, fragmentada, diacrônica e divergente” (CAVALCANTI E GOMES,
1996).

NOVOS E VELHOS PARCEIROS

Em reunião na Sudene ocorrida em 1996, o então Ministro do Desenvolvimento Regional, Beni


Veras, político cearense de prestígio, afirmou que o Nordeste deveria buscar a integração com parceiros do
Norte, tais como Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela e Guianas, formando uma espécie de
“MERCONORTE”.
A ideia pareceu estapafúrdia, mas não se pode negar o mérito da sua originalidade e da desconfiança
dos nordestinos em relação ao MERCOSUL.
De fato, o Nordeste deve direcionar seus interesses também para outras nações, dentre elas, algumas
relacionadas a seguir.

POSSIBILIDADES DA ALCA

A proposta para a criação de uma Área de Livre Comércio das Américas – ALCA, foi apresentada
durante a Reunião de Cúpula das Américas, ocorrida em Miami, em 1994, contando com a presença dos 34
países, que, em conjunto, possuem uma população de quase 800 milhões de habitantes e um PIB de
aproximadamente 10 trilhões de dólares.
O Itamaraty assumiu, de início, uma posição refratária às condições lançadas pelos norte-
americanos, os quais têm fortes interesses para que o bloco se consolide o mais rápido possível, por diversas
razões.
O Governo Fernando Henrique Cardoso, contudo, aventou a adesão do Brasil ao acordo, desde que
a discussão sobre a eliminação de tarifas se inicie a partir de 2003, e, assim mesmo, de forma gradativa até
o ano de 2015, quando 85% dos produtos comercializáveis circulariam livremente dentro do bloco.
Se fosse independente, o Nordeste seria o 35° país a assinar a ALCA.

PORTUGAL E OS DEMAIS LUSÓFONOS

Portugal possui sólidos laços históricos, culturais e afetivos com o Brasil e o potencial de
intercâmbio econômico com o Nordeste é enorme, assim como entre estes e os demais países de língua
portuguesa.
Isto, eu pude sentir quando estive em Luanda para assina representando o governo brasileiro, um
acordo de cooperação entre os países lusófonos na área de pesca. Naquele encontro, faziam-se presentes,
além de Portugal e do Brasil, os integrantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa – PALOP
Um exame das economias de Portugal e demais países lusófonos, Angola, Moçambique, Guiné-
Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, mostra grandes possibilidades em setores como
pesca, petróleo, gás natural, minérios, turismo, televisão, finanças, têxteis, tecnologia, aspectos culturais,
etc.

ESPANHA

O potencial de intercâmbio com a Espanha é tão extenso quanto o de Portugal. Até em relação à
geografia e à distância ao Nordeste Além disto, o espanhol é língua bastante compreensível para os
nordestinos e tanto Portugal quanto a Espanha podem auxiliar a economia nordestina como autênticos
portais para o restante da Europa.
Adicionalmente, as comunidades de portugueses, galegos e espanhóis são numerosas no Nordeste
e, de forma recíproca, também são muitos, os nordestinos que residem na Península Ibérica.
Os espanhóis são reconhecidamente competitivos em sua indústria automobilística, serviços
financeiros, comércio, turismo e hotelaria irrigação, pesca e maricultura, geração de energia elétrica e em
diversos outros setores, e já possuem tradição de investimento no Nordeste. Aliás, juntamente com Portugal,
Estados Unidos, e Holanda, a Espanha está entre os países que mais investiram, recentemente, na região.

HOLANDA

A herança deixada pelos holandeses no Nordeste é expressiva. Como se sabe, os flamengos


estiveram neste local, quando invadiram a Bahia, entre 1624 e 1625, e, mais demoradamente, quando
invadiram Pernambuco, entre 1630 e 1654, estendendo uma zona de influência bastante vasta.
Para Pernambuco, aquele foi um período particularmente interessante. O Príncipe Maurício de
Nassau, preposto holandês na colônia, decidiu - talvez, por iniciativa pessoal - empreender muito mais que
uma simples exploração do açúcar, melhorando a infraestrutura do lugar, fundando novos núcleos urbanos,
construindo jardins e palácios e convidando artistas europeus a retratarem o exotismo e a beleza das Índias
Ocidentais. Neste período, floresceram importantes comunidades judaicas, resguardadas pela tolerância
religiosa do protestantismo holandês, tais como as de Recife, Maurícia, Igarassu e Itamaracá.
Atualmente, a Holanda é um dos países que mais investem no Nordeste e vem mostrando interesse
crescente na Região, não somente econômico, mas, também, cultural e afetivo.
Capítulo 5

A TRANSIÇÃO PARA A INDEPENDÊNCIA

Aspectos legais. Separação e repartição de perdas e ganhos. A divisão do patrimônio comum. Indenizações
e Compensações.

Aspectos legais

O Art. 1° da Constituição Federal em vigor estabelece que a República Federativa do Brasil é


formada pela união indissolúvel dos estados e municípios e do Distrito Federal e, em seu Art. 60, S 4°, que
a forma federativa de estado é cláusula pétrea. Em sendo assim, parece que nem mesmo por Emenda
Constitucional poderia ser modificada, sendo, talvez, preciso uma nova Constituinte para que a cláusula da
indissolubilidade possa ser revista e o processo de separação ocorra dentro da legalidade.
Entretanto, mesmo considerando que a atual Constituição Federal já se encontre com tantas
Emendas que mais se afigure a uma nova Carta, a materialização de uma Constituinte é algo extremamente
custoso e que requer muito tempo para a sua preparação.
Seria desejável que, antes de qualquer iniciativa, fosse deflagrado um plebiscito entre os
nordestinos de forma a coletar a opinião majoritária quanto à questão da independência, até para determinar
o contorno geográfico do novo país, facultado a estados como Maranhão e Bahia a opção por sua
autodeterminação.
Mecanismos similares têm sido adotados no Canadá, acerca da independência do Québec, na
Escócia, no País de Gales, etc.

Separação e repartição de perdas e ganhos

Processos que levam à ruptura com o status quo correm o risco de serem traumáticos. Por isso,
devem ser amplamente debatidos e intermediados junto às partes envolvidas. As condições de transição,
para o caso de separatismo entre duas regiões que compunham um mesmo país, precisam atender aos
critérios legais estabelecidos durante o período de passagem entre o velho e o novo. Respeito mútuo e
tolerância são os ingredientes essenciais para que a mudança aconteça de forma tranquila e ordeira.
Durante a transição, os critérios adotados para a repartição de perdas e ganhos devem ser
diferenciados conforme a natureza da disputa.

O CRITÉRIO RAWLSIANO

Pode-se optar por critérios que levem em conta o conceito de justiça proposto pelo filósofo norte-
americano John Rawls.
Segundo Rawls, uma transformação só deve ser defendida se for para benefício do menos
favorecido.
Diante disto, para o caso da independência do Nordeste, utilizando-se o critério rawlsiano, em
havendo dúvidas sobre o julgamento de uma questão, a região deve ser sempre a beneficiada, haja vista que
é a mais pobre.

O CRITÉRIO POPULACIONAL

Um segundo critério que pode ser utilizado para a divisão do patrimônio da União, (portanto,
comum a todas as regiões), é o da proporcionalidade populacional.
Sabe-se, da teoria das externalidades, um campo de estudo da economia, que o ônus dos efeitos
negativos que recaem sobre terceiros, precisa ser internalizado, isto é, arcados por aqueles que estão
causando o dano, não pelos que o estão sofrendo.

A REPARTIÇÃO

Muitos outros critérios plausíveis poderão ser sugeridos para a divisão de custos, benefícios e
patrimônio comum.
O mais importante é se ter em mente que haverá custos para ambos os lados, mas que o balanço
final será positivo. A forma com a qual serão distribuídos os benefícios e arcados os custos é que precisará
ser detalhadamente discutida e acordada, para que injustiças não sejam ser cometidas.
De qualquer forma, a realização de um novo país, a autodeterminação do povo nordestino e o
resgate da autoconfiança no futuro são ativos que dificilmente poderão ser avaliados tão somente pela ótica
econômica.
Nas seções seguintes, iremos considerar algumas dessas possibilidades de divisão aplicadas a casos
concretos.
Entretanto, durante o processo de transição, tornar-se-á imprescindível a composição de uma
equipe multidisciplinar, dividida em grupos de trabalho, e integrada por pessoas idôneas das mais variadas
profissões, para proceder ao inventário físico e à avaliação monetária de ativos e passivos pertencentes ao
Brasil e ao Nordeste.
Por fim, para garantir a neutralidade do julgamento de casos omissos ou duvidosos, deve-se contar,
eventualmente, com especialistas internacionais e arbitragem externa.

A divisão do patrimônio comum

Atualmente, sob influência dos avanços da ecologia e da economia ambiental, e aproveitando-se o


conceito de desenvolvimento sustentável, é possível dividir-se o patrimônio de um país ou de uma região
em seus diversos tipos:

➢ Capital físico, de infraestrutura ou man-made,


➢ Capital humano, cultural e tecnológico,
➢ Capital natural e ambiental

Por exemplo, além das formas tradicionais de estoque dos chamados bens de capital, tais como
máquinas, equipamentos, edifícios, e da chamada existência de infraestrutura pública ou privada, tais como
hospitais, escolas, estradas, serviços de água, saneamento, energia, etc., existe, ainda, uma série de outros
ativos capazes de assegurar um fluxo positivo e permanente de renda e bem-estar social para o país, como
por exemplo, os recursos naturais, minerais e ambientais, bem como saúde e escolaridade da população.
O capital humano pode ser aferido, de uma forma genérica, pelo grau de saúde e nível educacional
de uma população e pela tecnologia disponível e aplicável. Ainda, o patrimônio cultural, artístico e afetivo
e a estabilidade institucional, política e democrática do país devem ser considerados no cômputo da riqueza
do país.
Como capital natural e ambiental, por sua vez, devem ser considerados ativos de fauna, flora,
biodiversidade, recursos genéticos, paisagens, recursos hídricos, solos, recursos energéticos, minérios, etc.
Com efeito, não será tarefa simples relacionar e repartir o imenso tesouro físico, humano e
ambiental existente no Brasil de hoje. Prudência, comedimento e boa vontade deverão estar presentes todo
o tempo.

A PARTILHA DO CAPITAL FÍSICO

O capital físico e de infraestrutura é o mais imediato a ser quantificado e repartido.


É composto por uma miríade de máquinas, equipamentos, edifícios, usinas, redes de transmissão,
estradas, portos, aeroportos, automóveis, aviões, navios, equipamentos militares, etc.
Mais adiante, serão detalhadas as possibilidades de partição desses ativos.

A PARTILHA DO CAPITAL HUMANO

Este item é dificílimo de ser equacionado. O Brasil possuía, ao final do ano 2000, em torno de cento
e sessenta milhões de habitantes, sendo o número de nordestinos aproximadamente um quarto dessa
população.
Acredita-se, todavia, que mais de 5 milhões de nordestinos ou seus descendentes tenham emigrado
e habitem estados situados fora do Nordeste.
Deverão ser considerados nordestinos, consoante prática internacional de reconhecimento de
cidadania, todos aqueles que tenham nascido em algum estado do Nordeste, ou os seus descendentes diretos,
até a segunda geração.
A estes deverão ser ofertados nacionalidade e passaporte do novo país, passando, os mesmos, a
deter todos os direitos e deveres da nova cidadania, mesmo se continuarem morando no exterior.
Infelizmente, muito do capital humano acumulado entre estes nordestinos não deverá retornar ao
Nordeste, que foi, durante décadas, exportador líquido de mão-de-obra em todos os graus de qualificação
profissional.
Pode-se, contudo, aventar a hipótese de instaurar formas de indenização por conta da migração de
capital humano a partir da independência, muito embora, do ponto de vista prático, seja de difícil
consecução, além de questionável do ponto de vista ético.

A PARTILHA DO CAPITAL NATURAL

De uma forma mais abrangente, é possível se defender o critério uti possidetis para a divisão do
patrimônio natural. Assim, os recursos naturais e ambientais devem permanecer sob posse daquele que
mantiver o território onde se situam os mesmos.
Algumas exceções, contudo, devem ser estudadas. As águas, por exemplo, cujas vazões à montante
das novas fronteiras devem continuar sendo as mesmas que à jusante nos anos anteriores à divisão. Desta
forma evita-se que o país detentor das nascentes, restrinja o fluxo do país situado à jusante, a menos que se
garanta uma plena indenização ao prejudicado.
No caso de outros ativos, tais como estoques minerais e biológicos, que envolvem matas, cardumes
e biodiversidade, deve-se assegurar que estes sejam explorados de forma sustentável, qualquer que seja o
país que permaneça com a sua posse.
Em tratando-se de parques nacionais, sítios de interesse ambiental, jazidas minerais, ou recursos
biológicos, situados em áreas fronteiriças, estes devem ser divididos conforme a parcela incidente em cada
território, mas, preferencialmente, o sistema de gestão destes recursos deve ser concebido de forma conjunta
entre os dois países, atuando de forma cooperativa.
Uma ideia que deve permanecer após a separação é a da obrigatoriedade de pagamento, a título de
royalties, para as províncias onde estiverem situadas jazidas, reservas ou potenciais hidrelétricos.
Diferentemente da atual Lei dos Royalties, deve passar a incluir uma cláusula de garantia para que as
receitas recebidas pelos municípios ou províncias sejam destinadas, exclusivamente, ao investimento, de
forma que o patrimônio total se mantenha não-decrescente com o tempo.

UNIVERSIDADES, ESCOLAS TÉCNICAS E CENTROS DE PESQUISA

As universidades, escolas técnicas, centros de pesquisa, hospitais públicos, etc. pertencentes à


União representam um considerável estoque de capital físico, humano e natural.
Do total destes ativos, cerca de um quarto deve ser repassado ao Nordeste, durante o processo de
independência, ressalvadas algumas peculiaridades, atendendo, prioritariamente ao critério populacional e
complementado pelo critério rawlsiano.

TESOUROS ARTÍSTICOS E CULTURAIS MOBILIÁRIOS

Cada tipo de ativo contém características próprias e, consequentemente, devem atender a critérios
diferenciados.
Desta forma, tesouros artísticos mobiliários pertencentes à União, tais como quadros e obras de arte
famosas, por exemplo, devem ser locados no país em que nasceram seus autores, mesmo que estes tenham
vivido parte de suas vidas fora da terra natal.
O que pode ser aceitável, ainda, é a troca de obras de arte entre as regiões de forma a enriquecer e
diversificar os seus acervos.
Destarte, obras de arte e demais itens de valor cultural, regional, arqueológico ou afetivo, de autoria
de nordestinos ou fortemente ligados à história nordestina, e que se encontram em museus ou instituições
nacionais devem retornar imediatamente aos museus e instituições públicas do Nordeste.
Por outro lado, há, ainda, a serem consideradas as obras de vulto que tenham representatividade e
importância nacional. Estas devem ser rateadas de acordo com o critério populacional. Por exemplo, “O
Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo, e outras obras consagradas cuja dimensão nacional prevalece sobre
a regional, poderá seguir para qualquer região, ou permanecer em Brasília, de acordo com uma repartição
justa.
Os acervos de museus e instituições nacionais tais como a Biblioteca Nacional, o Museu Imperial,
a Cinemateca Nacional, etc. devem ser rateados de acordo com o critério populacional e levada, a parcela
ao Nordeste, para museus situados em estados desta região.
Em suma, o que se está querendo dizer é que tesouros artísticos e culturais pertencentes à União e
com representatividade nacional devem ser rateados, enquanto que aqueles com conotação regional devem
permanecer nos países onde se encontram ou nas regiões de origem dos seus autores.

TESOUROS ARTÍSTICOS E CULTURAIS IMOBILIÁRIOS

Palácios e edifícios pertencentes à União, e que tenham relevância nacional maior que regional,
sejam eles tombados ou não pelo Patrimônio Histórico Artístico e Cultural compõem estoque de capital
físico e humano pertencente a todos os brasileiros e, portanto, devem ser rateados entre os novos países.
Edifícios históricos como as igrejas antigas de Salvador, Outro Preto e Olinda se constituem em
claros exemplos de ativos que devem restar com nacionalidade das regiões onde se situam.
Por outro lado, edifícios como o Palácio do Planalto ou a sede do museu imperial, devem entrar em
uma lista de bens a serem rateados bilateralmente, entre o Brasil e o Nordeste. Como a transposição física
destes edifícios é impossível de ser executada, a partição deve ser conduzida admitindo-se compensações
financeiras.

BRASÍLIA

Seguindo a linha de raciocínio exposta, a repartição do Distrito Federal, cujos custos de construção
foram arcados por todos os brasileiros haveria, então, de ser distribuída, de modo equânime, a todos eles,
segundo o critério populacional.
Como a transposição dos ativos existentes em Brasília, tais como estradas, viadutos, edifícios
públicos, museus, apartamentos funcionais, lagos artificiais, etc., é impraticável, haveria, então, uma clara
necessidade de indenização, em dinheiro, para o Nordeste, no valor de um quarto do patrimônio público
existente no Distrito Federal.

DEFESA NACIONAL

O Nordeste deve pleitear o rateio, pelo critério populacional e rawlsiano, de todos os ativos
integrantes do patrimônio das forças armadas do Brasil.
Isto inclui desde itens simples e de menor valor, até navios, aviões, tanques, carros e equipamentos
pesados.
Há, ainda, nos ativos das forças armadas, um grande estoque de capital humano, que inclui desde
tecnologias de defesa, até centros de pesquisa e universidades integrantes dos ministérios do exército, da
marinha e da aeronáutica.

ESTATAIS E ÓRGÃOS PÚBLICOS FEDERAIS

O patrimônio dos órgãos públicos federais, autarquias, fundações e empresas públicas e de


economia mista também devem ser rateados, com a exceção de ativos naturais, de acordo com o critério
populacional, rawlsiano – atendendo aos mais pobres.
O patrimônio a ser rateado deve ser independe do lugar onde se situa a sede da entidade, visto que
a maioria dos órgãos federais situa-se em Brasília e Rio de Janeiro e já beneficiaram bastante estes lugares,
chegando a hora de beneficiar, também, o Nordeste.
Como, na prática, é improvável a divisão de todos os bens integrantes destes órgãos (como dividir
o edifício-sede de uma estatal?), deve-se instituir o critério de compensação física ou indenização
pecuniária.

SISTEMA VIÁRIO FEDERAL

A malha rodoviária federal brasileira haveria de ser quantificada e, em seguida, rateada entre o
Nordeste e o Brasil, respondendo ao critério populacional ou ralwsiano.
De forma semelhante, cerca de um quarto das ferrovias ainda públicas ou do dinheiro da
privatização da malha federal também deveria migrar para o Nordeste, bem como do total de aeroportos e
portos federais, privatizados ou não.

DÍVIDA EXTERNA

A dívida externa deve ser rateada de acordo com a destinação prioritária para onde foram os
empréstimos originais, isto é, tomando-se por base o critério histórico: estados que foram mais privilegiados
devem ter uma participação maior na dívida externa.
É verdade que boa parte desses recursos não possam ser facilmente separados e identificáveis, por
região de destino, depois de tantos anos de contração de dívidas.
Uma forma prática de se iniciar o processo seria listar as cem maiores obras realizadas durante as
décadas de cinquenta, sessenta e setenta – período em que foram grandes os investimentos realizados por
meio de empréstimos externos – e, em seguida, contabilizar os benefícios por região de aplicação.
Na década de oitenta, muitos dos empréstimos contraídos foram feitos simplesmente para amortizar
ou financiar o serviço da dívida.
De qualquer modo, a gênese da dívida externa que infernizou a vida dos brasileiros por mais de
vinte anos, foram destinadas, em sua grande maioria, para a construção de obras corno, Brasília, Ponte Rio-
Niterói, Via Dutra, Ferrovia Norte-Sul, Usinas Nucleares de Angra dos Reis, Hidrelétrica de Itaipu, etc.
Também não foi pequena a parcela da dívida que foi destinada para manter os subsídios à indústria
sudestina, tais como câmbios favorecidos ou manutenção dos preços baixos do petróleo durante as crises
mundiais.
Neste ponto cabe uma ressalva. Se os ativos construídos a partir de empréstimos externos, forem
repartidos entre as futuras nações, então seria justo repartir, também, a dívida por eles gerada, evitando-se
uma reincidência dos mesmos encargos,
Contudo, via de regra, como não foi a o Nordeste o principal gerador da dívida externa não haveria
de ser o principal pagador.

DÍVIDA INTERNA

Se o rateio da dívida externa, tal como foi apontado acima, já é difícil de ser contabilizado, imagine-
se o da dívida interna, cujas destinações são as mais imbricadas possíveis.
Isto porque a maior parcela da dívida interna brasileira foi formada para financiar os sucessivos
déficits orçamentários que aconteceram nas últimas cinco décadas, especialmente nos períodos pós-JK,
durante os anos setenta e oitenta, de alta dos juros internacionais e da inflação e, mais tarde, durante o
primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.
Estes déficits decorreram, quase que integralmente, do desrespeito aberto ao orçamento federal e
de estrambóticas inequações que regiam o sistema financeiro de habitação e o da previdência pública.

Indenizações e compensações

Muito se têm discutido no direito internacional sobre a necessidade dos países desenvolvidos
indenizarem suas ex-colônias pelo uso de escravos ou pela expropriação de riquezas naturais, artísticas,
históricas, etc. A recente Conferência de Durban, na África do Sul, ocorrida em 2000, e que discutiu a
questão do racismo, gerou muita polêmica a respeito.
O conceito de desenvolvimento sustentável defende o argumento de que não se deve
responsabilizar as gerações presentes ou futuras pelos erros cometidos pelas gerações passadas.
Contudo, o reconhecimento dos erros de outrora e um pedido formal de desculpas por parte da
nação que se beneficiou ajudam a dirimir ressentimentos e a estabelecer as bases da nova relação, baseada
na cooperação, na paz e no respeito entre os povos.
De uma forma geral, indenizações relativas ao passado remoto devem ser esquecidas e os erros
desculpados. Não obstante, indenizações referentes a danos materiais e psicológicos causados em décadas
recentes precisam ser materializadas.
Capítulo 6

ADENDA

A questão populacional. A questão fundiária. Meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

A questão populacional

A questão do crescimento populacional vem inquietando sociólogos, demógrafos, economistas, por


séculos.
O Reverendo Thomas Malthus, um dos pais da economia clássica, propôs, em 1798, a sua famosa
teoria, segundo a qual, a produção de alimentos crescia a taxas menores que as de crescimento populacional
(em progressão geométrica e aritmética, respectivamente), o que requereria, de modo inexorável, processos
de autorregulação das populações, tais como, fome, doenças e guerras. A única forma para se evitar estas
nefastas consequências seria mudar radicalmente os padrões reprodutivos da espécie humana, por meio de
comprometimento moral ou abstinência sexual, adiando-se a idade para os casamentos, por exemplo, de
forma a reduzir o tamanho da prole familiar.
A crítica maior à teoria malthusiana, tal como foi originalmente concebida, deveu-se ao fato dela
subestimar o papel do desenvolvimento tecnológico no aumento da produção física de bens e serviços,
inclusive os da terra.
Esta teoria tem o mérito, contudo, de ter sido a pioneira em perceber a diferença entre “crescimento
econômico” e “desenvolvimento sustentável”, conceitos estes que, até hoje, são, às vezes, confundidos.
Mais recentemente, os neomalthusianos corrigiram aspectos da teoria inicial e passaram a
incorporar a variável tecnológica em suas análises.
Mesmo assim, autores como Donella Meadows et alii [The Limit to Growth, 1972), ainda previam,
nos anos setenta, um futuro sombrio para a humanidade, acreditando no colapso completo dos recursos
naturais que adviriam do crescimento populacional e do consumo per capita.

CRESCIMENTO POPULACIONAL

Uma vez levantadas dúvidas sobre a viabilidade e a desejabilidade socioeconômica do crescimento


populacional, passemos a tecer alguns comentários, com aplicabilidade prática ao caso nordestino.
Se observamos o passado, verificamos que as populações tendem a arrefecer seus ritmos de
crescimento na medida em que se desenvolvem. Esta inclinação pode ser explicada pela teoria neoclássica
de planejamento familiar: a relação custo-benefício de ter filhos aumenta na medida em que se torna maior
a renda dos pais.
Quando os casais são mais ricos, a mulher geralmente está inserida no mercado de trabalho e o
custo de oportunidade de criar filhos passa a ser alto. Quando, porém, a renda familiar é muito baixa, os
custos de oportunidade de um filho adicional são relativamente pequenos e os benefícios, altos, sobretudo
quando chegada a velhice dos pais, ocasião em que os filhos passam a funcionar como uma espécie de
“seguro de aposentadoria”. Esta realidade ainda é, infelizmente, muito comum na Região Nordeste,
especialmente no interior.
Diante disto, as intenções do casal sobre o seu futuro profissional e o grau de informação acerca de
métodos anticoncepcionais ajudam e propiciam uma redução nas taxas de fertilidade nos países
desenvolvidos.
Entre os pobres, contudo, a propensão é a de se ter prole numerosa. Este fato, associado aos avanços
recentes da medicina, dos cuidados materno-infantis, e, consequentemente, da redução da mortalidade
infantil, resultam em taxas elevadíssimas de crescimento populacional, fenômeno conhecido como
“transição demográfica incompleta”, quando a população apresenta baixas taxas de mortalidade infantil
combinadas com altas taxas de fertilidade da mulher. Estas taxas muito altas de crescimento populacional
acarretam vários transtornos ao país.
Cabe, portanto, indagar se deveriam, as autoridades públicas brasileiras e nordestinas adquirir uma
política populacional ativa ou aguardar até que a transição demográfica se complete e que a população se
estabilize naturalmente, no decorrer do processo de desenvolvimento.
Ressalte-se que não se está, aqui, aventando nenhuma hipótese de controle coercitivo, mas da
aplicação de políticas de desincentivo à reprodução, por meio de instrumentos econômicos, informativos,
educativos, políticos, democráticos e responsáveis. Desta forma, as microdecisões familiares devem estar
inseridas nas macrodecisões da sociedade.
E, enquanto no universo micro a teoria neoclássica do planejamento familiar explica o tamanho das
famílias, no universo macro, a relação entre o tamanho da população e a qualidade de vida e bem-estar foi
investigada por pesquisadores como Coale e Hoover [1958], que propuseram uma teoria da população
ótima.
A explicação desses autores é simples. Uma população muito pequena utiliza, de modo ineficiente,
os seus recursos, por não ter um número suficiente de trabalhadores. Por outro lado, uma população muito
grande também o faz, mas, desta vez, porque tem trabalhadores em excesso e passa por problemas de
congestão.
De uma forma geral, a redução das taxas de crescimento populacional em países menos
desenvolvidos tem, de imediato, três efeitos positivos e superpostos: reduz a razão de dependência, permite
que o setor público possa ser ofertado com qualidade e reduzir a pressão sobre o meio ambiente.
Razão de dependência é convencionada como sendo o número de habitantes com idade menor que
15 anos e maior que 65 anos dividido pelo número de habitantes com idade entre 15 e 65 anos. Quanto
maior a razão de dependência maior é a sobrecarga nos trabalhadores ativos.
Uma interessante reflexão estas questões incluindo mudanças do perfil etário da população, é feita
pelo filósofo J. S. Fishkin [1992], que conclui ser na constância numérica populacional onde se pode
conseguir justiça entre as gerações presentes e as futuras.

FUNDAMENTOS ÉTICOS PARA UMA POLÍTICA POPULACIONAL ATIVA

Stuart Mill, contemporâneo de Malthus, em seu “Principles of Political Economy”, publicado em


1848, afirmava que ninguém tem o direito de trazer seres ao mundo para serem sustentados por outras
pessoas.
Apesar dos exageros da afirmação de Mill, a proposta de controle encontra amplo respaldo na teoria
econômico-ambiental e possui uma fundamentação ética bastante robusta.
Para começar, é preciso lembrar que os estoques de recursos naturais em muitos países estão
próximos à exaustão. Assim, cada nascituro trará uma externalidade negativa a todos: a redução do estoque
per capita destes recursos. De fato, na ausência de qualquer tipo de política populacional, as famílias tendem
a agir como free riders, isto é, tendem a maximizar seus benefícios pessoais, sem dar atenção aos possíveis
efeitos externos de suas decisões.
Entretanto, problemas de crescimento populacional desequilibrado têm ocasionado fome,
epidemias, degradação ambiental, falência social e conflitos armados. Muitos países, em especial, na Ásia
e na África, têm o seu desenvolvimento ameaçado pelas altas taxas de crescimento demográfico.
Os fundamentos éticos e econômicos para o intervencionismo do Estado na questão populacional
envolvem desde questões humanitárias (famílias pobres que desejam evitar filhos e não possuem meios
para isto) até questões sociais e distributivas, provisão de infraestrutura pública, justiça intergeracional e
proteção ao meio ambiente.
De qualquer forma, como aponta Gillis et alii [1992], a participação da sociedade e a necessidade
de transparência na construção de políticas populacionais são imprescindíveis na tomada de decisão sobre
o controle populacional (Gillis et alii, p.157).

URBANIZAÇÃO

Paralelamente ao crescimento populacional, um outro fenômeno típico da segunda metade do


Século XX foi o da urbanização acelerada.
Em 1950, apenas 28% da população mundial residia em cidades. Hoje esta percentagem sobe para
48% e em 2025, o contingente citadino deverá ser superior a 62%. No Brasil, este fenômeno foi ainda mais
intenso: 77% dos brasileiros vivem hoje nas cidades e, mesmo no Nordeste, 65% dos habitantes já residem
em áreas urbanas.
A urbanização contribui em muito para o aumento da produção e do consumo, na medida em que
permite aos indivíduos e às firmas ter acesso ao que Marshall chamou de “economias externas de escala”,
ou “economias de aglomeração”. Como firmas e indivíduos estão mais próximos, nas cidades, uns dos
outros, torna-se relativamente mais fácil ter acesso aos mercados. Em adição, a produção e o consumo
ampliado permitem custos médios menores. Assim, torna-se mais fácil, prover as populações urbanas de
infraestrutura social, tais como escolas, hospitais, transportes, etc. (é bem mais fácil para um morador da
área urbana chegar a um hospital ou a uma escola, do que para um morador da área rural).
Entretanto, se a urbanização ocorrer de forma acelerada e desordenada, tal como aconteceu no
Brasil e no Nordeste, produz uma série de subprodutos indesejáveis, tais como poluição, violência urbana,
congestionamentos, exclusão social, estresse (subprodutos que o economista alemão Christian Leipert
chamou de “custos sociais do crescimento econômico”).
Observando-se o inchamento das grandes cidades do Nordeste, é possível se afirmar que o pior já
passou, ao menos em relação ao binômio crescimento populacional com urbanização acelerada.
O êxodo rural e a migração inter-regional já se encontram praticamente exauridos. O ritmo de
crescimento populacional arrefeceu em todo o Brasil e a taxa de fecundidade, que era de 5,6 filhos por
mulher na década de sessenta, diminuiu para 2,8 filhos em 1993.
Apesar disto tudo, é preciso se evitar um otimismo exagerado, pois as taxas variam por localidade
e por extrato social. Os pobres continuam tendo mais filhos, e isto contribui para a já perversa concentração
de renda no país.
Portanto, ao mesmo tempo em que se implementem políticas de controle populacional e de
migração, é preciso investimento maciço em educação universal, integração da mulher no mercado
trabalho, melhoria da distribuição de renda e ordenamento territorial (devendo-se procurar fortalecer as
cidades de pequeno e médio porte).
MIGRAÇÕES INTERNAS:
EXPULSIONISMO DETERMINISTA OU ATRATIVISMO POSSIBILISTA?

Sir Arthur Lewis, Prêmio Nobel de Economia de 1979, desenvolveu um modelo de crescimento
onde a migração do trabalhador rural para a cidade ocorre até o ponto em que os salários urbanos não mais
excedam o produto médio do campo acrescido dos custos da migração.
Este modelo, desenvolvido em 1955, explica o fenômeno migratório como resultado único do
“atrativismo urbano”, relevando o problema do “expulsionismo rural” que decorre da extensão do latifúndio
ou de quebras de safras, ocorrências bastante frequentes nas zonas rurais nordestinas.
Desta maneira, é preciso uma investigação mais profunda acerca das causas de migração regional
ocorridas no Brasil durante as décadas de sessenta, setenta e oitenta para se descobrir as causas
determinantes desses fenômenos: se prevaleceu alguma espécie de “atrativismo urbano possibilista” ou
algum tipo de “expulsionismo rural determinista”.
É bem provável que a grande transumância nordestina para o sul do país, bem como o êxodo rural,
tenha sido ocasionado mais por resultantes atrativistas que por forças expulsionistas (contrariamente ao que
pensa a maioria das pessoas).

O PAPEL DA MUNICIPALIDADE

O espaço urbano é onde se concentrará a quase totalidade da população do futuro. É nele, também,
onde se encontram as grandes possibilidades de mobilização social e onde devem ser depositadas as nossas
esperanças para a erradicação da pobreza absoluta.
A urbanização facilita a agregação social, a participação democrática e a transparência do comando
político e decisório. Além disto, como já mencionamos, a vida na cidade propicia o acesso a bens e serviços
públicos que dificilmente poderiam ser ofertados no meio rural com a mesma intensidade e eficiência.
Portanto, o papel da municipalidade deve se concentrar no aproveitamento deste potencial
agregador e em catalisar o processo de integração social. Uma forma inteligente de se conseguir isto, é por
meio da geração das chamadas “externalidades positivas”.
No artigo “Duas Idéias para o Recife”, que publiquei no Diário de Pernambuco, encontra-se
descrito o conceito de externalidade positiva aplicada ao contexto da administração urbana. Também se
refere, o texto, à criação, no Recife, de um Museu do Rio e do Mangue e à revitalização de algumas ruas
do centro da cidade, dois projetos promissores tanto em termos de geração de renda quanto de multiplicação
de externalidades positivas:

Para nós, economistas ambientais, propor medidas para a produção de externalidades


positivas torna-se tão importante quanto propor a internalização das externalidades
negativas. (RIBEMBOIM, 2000)

Contudo, a ideia de que um prefeito deve estar atento às possibilidades de internalização das
externalidades negativas e de multiplicação das positivas, apesar de ser do ponto de vista lógico de fácil
aceitação, não é frequente, nem mesmo em literatura especializada, onde prevalece a discussão sobre o
problema das externalidades negativas (imperioso reconhecer que o universo acadêmico prefere analisar
problemas a propor soluções).
Em decorrência, não é raro se observar muitas prefeituras tomando para si encargos e
responsabilidades que deveriam pertencer a instâncias administrativas superiores. Em questões de políticas
sociais, o planejamento municipal deve se ater à função complementar ou informativa.
O prefeito deve estar atento em cuidar para que a atividade econômica e a vida social e comunitária
em suas cidades possam fluir da melhor forma possível e isto se consegue por meio de melhoria do trânsito
e do transporte coletivo, de embelezamento da cidade, de segurança a seus moradores e visitantes, de
serviços públicos de água, saneamento, eletricidade e iluminação pública.
Ao querer empreender políticas sociais mais abrangentes, como saúde e educação, os prefeitos
esterilizam potenciais ganhos de escala existentes nestes setores. Por isso, políticas de saúde, educação e
habitação devem ser cobradas do planejador federal ou regional.
Empreendendo políticas de outras alçadas, as prefeituras podem induzir comportamento estratégico
e atividades de vítimas por parte dos habitantes e administradores de cidades vizinhas, Por exemplo, se um
município investir em saúde, construindo hospitais, etc., irá ocorrer que os municípios vizinhos não o farão,
de forma que os seus doentes sejam tratados à custa do orçamento municipal daquele que investiu de
regional.
Por outro lado, um prefeito que anuncie que irá destinar casas novas para os que moram em terrenos
invadidos pode suscitar novas invasões ou a atração de moradores de outras cidades que percebem a
possibilidade de, assim, receberem casas novas e gratuitas.

A questão fundiária

Este tema é frequentemente discutido sob o calor das paixões e ideologias e pode levar as pessoas,
muitas vezes, a enveredarem por conclusões precipitadas, anacrônicas ou sectárias.
Este aspecto foi ressaltado no artigo “Unanimidade e Reforma Agrária”, de minha autoria,
publicado no Correio Braziliense, em 1997. Na época, estava em curso, a novela “O Rei do Gado”, que
tinha grande audiência e que mostrava a questão agrária de forma simplista e idealizada.
Ocorre que, para o tratamento correto de um tema assim tão complexo, no mínimo três aspectos
devem ser ressaltados e aprofundados:
Em primeiro lugar, a reforma agrária não deve ser discutida ou proposta em um contexto de
polarização ideológica, em termos de pró ou contra, certo ou errado, esquerda ou direita, latifúndio ou
pequena lavoura. Isto pode dificultar o próprio processo de transformação social no campo, haja vista que
o assunto prescinde destas vertentes maniqueístas e deve ser tratado de forma ética, técnica e econômica.
Um segundo aspecto é o de que, embora a reforma agrária tenha galgado avanços sociais em países
como Japão, Coreia, Taiwan, durante as décadas de quarenta, cinquenta e sessenta, tornou-se, nas
circunstâncias atuais, uma das formas mais dispendiosas e menos eficientes de erradicação da pobreza.
Consoante a Revista Veja, Edição no 1.431, avalia-se em trinta e cinco mil dólares o custo direto
para se assentar uma família. Esse valor é em muito ampliado, caso se pretenda dotar as famílias de
tecnologias competitivas, treinamento, moradia, eletrificação, água corrente, tratamento de lixo e de
dejetos, assistência médico-hospitalar, assistência jurídica, educação básica, acesso ao ensino superior,
serviços financeiros e de seguros, escoamento da produção, acesso a mercados, etc.
Por fim, um terceiro aspecto relevante concerne ao chamado “mito da terra improdutiva”, o qual
pode causar sérios danos ao meio ambiente, à economia e à sociedade como um todo, inclusive, à
credibilidade de suas instituições. Em outras palavras, o não aproveitamento da terra no presente para uso
agrícola não é sinônimo de terra social ou economicamente improdutiva.
Sob a ótica intertemporal, incluindo-se as futuras gerações, determinada terra pode, às vezes, ser
guardada virgem ou sem uso para o futuro. O economista americano Hotelling desenvolveu esta ideia ainda
na década de trinta, quando estabeleceu as bases da teoria da mina e da exploração ótima dos recursos
naturais.
De qualquer forma, o problema maior do Brasil de hoje, não é a geração de alimentos, mas a sua
distribuição. Muitas terras podem ser guardadas para o amanhã, sem que sejam chamadas de improdutivas.
Não há nada de pecaminoso nisto.
Estranhamente, no imaginário do homem urbano, e até entre intelectuais de renome, persiste a ideia
de que a reforma agrária é a panaceia para as mazelas sociais. Trata-se de conturbação romântica que em
muito pouco ajuda as famílias desamparadas.

Meio ambiente e desenvolvimento sustentável

Os recursos naturais e ambientais encontram-se próximos à exaustão em muitas regiões do planeta.


Nos países ricos, e entre os ricos dos países pobres, a depredação ambiental advém do aumento substancial
da capacidade de produção e de consumo. Nos países pobres, a depredação decorre do uso direto e
desesperado do meio ambiente por parte das populações cada vez maiores.
Para contornar o problema, é preciso que ricos e pobres modifiquem os seus hábitos e padrões
cotidianos de produção, consumo e reprodução. Somente assim será possível se conseguir caminhos de
desenvolvimento que sejam social e ambientalmente sustentáveis.
No Nordeste, um dos problemas mais frequentes é exatamente o do mau uso (ou uso insustentável)
das riquezas ambientais e naturais da Região. Muitos minerais encontram-se mal explorados em diversas
microrregiões que, cedo, verão cessar a atividade econômica por causa da exaustão de suas jazidas. No
Sertão, a caatinga e a pequena produção familiar estão encolhendo, por diversos motivos, dando lugar ao
surgimento de enormes áreas desertificadas. Enquanto isso, no litoral, algumas colônias de pescadores já
não conseguem mais obter o seu sustento e praias de rara beleza cênica encontram-se congestionadas e
poluídas.
Como vimos, no capítulo primeiro deste livro, a chamada Lei dos Royalties, conquanto embasada
em boas intenções, não consegue assegurar a aplicação da “regra de Hartwick”, a qual afirma que o
desenvolvimento sustentável só é possível de ser conseguido se houver reinvestimento da renda gerada pela
venda e liquidação do patrimônio natural (por exemplo, minérios, florestas, biodiversidade).
No Brasil e no Nordeste, a receita gerada pela venda desses recursos é utilizada para o pagamento
do funcionalismo, custeio e consumo por parte das prefeituras e governos estaduais.
Com a independência do Nordeste, o planejamento ambiental dar-se-á de forma mais aproximada
das populações locais, conhecendo-se-lhes melhor as necessidades. Além disso, não estará havendo o
escoamento de sustentabilidade que hoje acontece rumo ao sul, por meio da venda do petróleo, por exemplo,
sem maiores preocupações com o desenvolvimento sustentável regional e microrregional.
A atividade econômica precisa se ocupar mais com qualidade e menos com quantidade. Precisa se
ater a questões de justiça social, democracia, ética e meio ambiente.
Se isso aí se tornar realidade
E alguém do Brasil nos visitar,
Neste nosso país vai encontrar
Confiança, respeito e amizade.
Tem o pão repartido na metade.
Tem o prato na mesa, a cama quente.
Brasileiro será irmão da gente,
Vá pra lá que será bem recebido.
Imagine o Brasil ser dividido
E o Nordeste ficar Independente.

Estrofe de “Canção Nordeste Independente”, de Ivanildo Vilanova e Bráulio Teixeira, 1985


Sobre o autor
Jacques Ribemboim nasceu em 1960.
Iniciou a sua vida profissional como engenheiro de petróleo, chefiando campos da Petrobras no Rio
Grande do Norte. Em seguida, após um curto de período no Leste Europeu, passou a residir em Israel,
trabalhando como voluntário no kibbutz Maabarot. Depois disto, viveu em Londres, onde concluiu o
Mestrado em Economia Ambiental na University College London.
Retornando ao Brasil, atuou como Assessor Especial do Ministro do Meio Ambiente, em Brasília,
entre 1995 e 1997. Durante este período, representou o Brasil junto às Nações Unidas em Nova Iorque,
como delegado na IV Sessão de Desenvolvimento Sustentável. Também foi chefe da delegação brasileira
na OCDE – Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, em Paris, durante as conversações
sobre meio ambiente com países não-membros. Foi, ainda, relator oficial dos encontros internacionais
acerca do tema “Padrões de Produção e Consumo Sustentáveis”, nas cidades de Seul e Brasília.
Participou de diversos encontros acadêmicos ou oficiais no Brasil e no exterior, em cidades como
Londres, Washington, Santiago, Viena, Hafilax, México, Luanda, Oslo e, em 1997, foi nomeado pelo
Presidente da República membro da comissão Nacional de População e Desenvolvimento.
Dentre os seus trabalhos publicados, destaca-se a organização do livro Mudando os Padrões de
Produção e Consumo: Textos para o Século XXI, editado pelo IBAMA.
De volta ao Recife, Jacques Ribemboim obteve o grau de Doutor em Economia pela Universidade
Feral de Pernambuco e tomou parte no Governo do Estado de Pernambuco, entre 1999 e 2000, como Diretor
da Secretaria de Produção Rural.
Atualmente é professor de economia em faculdades do Recife e consultor na área de Economia
Ambiental.