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Legislação Comentada - Furto - Art.

155
do CP
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Publicado por Leonardo Castro - Forumcriminal.com

há 4 anos

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Furto
Art. 155 – Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel:
Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.
§ 1º – A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o repouso
noturno.
§ 2º – Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode
substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou
aplicar somente a pena de multa.
§ 3º – Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha
valor econômico.
Furto qualificado
§ 4º – A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido:
I – com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;
II – com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
III – com emprego de chave falsa;
IV – mediante concurso de duas ou mais pessoas.
§ 5º – A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for de veículo
automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior.

Introdução: o furto é tema obrigatório para quem está se preparando para


concursos públicos. Apesar da redação simples, o art. 155 do CP traz algumas
“pegadinhas” perigosas, daquelas que se opõem a conclusões “lógicas”. Como
distinguir a coisa de pequeno valor, que não afasta a tipicidade, daquela de valor
irrisório, que pode ocasionar o reconhecimento do princípio da insignificância?
Quem subtrai corpos humanos, pratica furto? A subtração de sinal fechado de
emissora de televisão configura o crime? Estas e outras questões polêmicas serão
vistas ao longo deste resumo.
Compreendendo o furto: o crime do art. 155 do CP consiste em subtrair coisa
alheia móvel. A subtração é o ato de tomar para si aquilo que não está sob a sua
legítima posse ou de que não seja de sua propriedade. A conduta está prevista em
outros tipos penais, a exemplo do roubo (CP, art. 157). Não se confunde com a
apropriação, que se dá quando o agente detém a posse ou a detenção da coisa de
forma legítima, e, sem que lhe seja permitido, inverte a propriedade da coisa,
passando a agir como se dono fosse. A distinção é fundamental para que não se
confunda o furto (CP, art. 155) com a apropriação indébita (CP, art. 168), ou o
“peculato-apropriação” (CP, art. 312, “caput”) com o “peculato-furto” (CP, art. 312, §
1º).
Além disso, a coisa deve ser móvel. O Código Civil, em seu artigo 81, prevê: “Art. 81.
Não perdem o caráter de imóveis: I - as edificações que, separadas do solo, mas
conservando a sua unidade, forem removidas para outro local; II - os materiais
provisoriamente separados de um prédio, para nele se reempregarem.”. Ou seja, o
elevador momentaneamente retirado de um prédio, para nele ser reinstalado, não
perde a qualidade de imóvel.
Para o Direito Penal, no entanto, o conceito de móvel é o natural. Pode ser objeto
material do furto tudo aquilo que é removível de um local para outro, pouco
importando se a coisa está ou não incorporada ao solo. No exemplo do elevador, se o
agente subtraí-lo, praticará o crime de furto. Ademais, aquele que subtrai mudas de
plantas incorporadas ao solo também pratica o crime de furto. Até mesmo
construções residenciais podem ser subtraídas, desde que possam ser desprendidas
do solo – em nosso país, é incomum a transferência de construções, mas sabemos
que não é impossível, pois praticada em outros países. Vale frisar que somente bens
corpóreos podem ser furtados. Não há como furtar, por exemplo, os direitos pessoais
de caráter patrimonial (CC, art. 83, III).
O conceito de móvel gera maiores discussões nas questões referentes à subtração de
energia. No § 3º, o art. 155 afirma que “equipara-se à coisa móvel a energia elétrica
ou qualquer outra que tenha valor econômico”. Em relação à energia elétrica, não se
discute: fazer “gato” é, sim, furto, por expressa previsão legal. As dúvidas pairam, no
entanto, sobre as outras energias que tenham valor econômico. Como é impossível
esgotar o tema (afinal, não há como elencar todas as energias com potencial
econômico existentes), separei, a seguir, os exemplos comumente pedidos em
provas:

a) sinal de TV a cabo: pode ser objeto material do crime de furto. “Assim não fosse,
tomando-se por base apenas os fatos relatados na inicial do mandamusimpetrado na
origem e no aresto objurgado, não se constata qualquer ilegalidade passível de ser
remediada por este Sodalício, pois o sinal de TV a cabo pode ser equiparado à energia
elétrica para fins de incidência do artigo 155, § 3º, do Código Penal. Doutrina.
Precedentes.” (STJ, RHC 30847/RJ, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 20.8.2013).
Obs.: apesar de polêmica, a questão foi exigida em prova recente do CESPE, em um
concurso do MP. Na ocasião, a banca adotou o entendimento trazido no julgado
acima, que entende pela tipicidade da conduta.
b) fornecimento de água: a água fornecida por empresa de abastecimento pode ser
objeto material do furto, não como energia, nos termos do § 3º, mas como coisa
naturalmente móvel: “1. Para a aplicação do princípio da insignificância, devem ser
preenchidos quatro requisitos, a saber: a) mínima ofensividade da conduta do
agente; b) nenhuma periculosidade social da ação; c) reduzidíssimo grau de
reprovabilidade do comportamento; e d) inexpressividade da lesão jurídica
provocada. 2. No caso, o modo como o furto foi praticado indica a reprovabilidade
do comportamento do réu, que realizou ligação clandestina em sua residência,
fazendo com que o hidrômetro não registrasse a quantidade de água consumida, em
prejuízo da empresa estatal de abastecimento de água. 3. Ordem denegada.” (STJ,
HC 179654/SC, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 29.6.2012).
c) sinal de Internet: o tema é complexo. Como há diversas formas de transmissão de
sinal de Internet, vejamos, com base em julgados, a resposta para a questão. Na
hipótese de Internet transmitida por linha telefônica, não vejo muita polêmica, pois
a jurisprudência, de forma unânime, tem dito que o sinal telefônico é coisa móvel
para fins penais: “A energia elétrica que permite o funcionamento de sistema
telefônico equipara-se a coisa móvel, incorrendo na prática do delito previsto no
art. 155, § 3.º, do CP o agente que desvia, mediante fraude, o sinal de linha de
telefone público para aparelho particular, lesando a coletividade, que fica privada de
utilizá-lo, assim como a concessionária do serviço público.” (TJMG, Ap. Cr.
8274983-67.2002.8.13.0024, J. Em 12.5.2010). Portanto, a subtração de sinal
de Internet transmitido por linha telefônica é, sim, furto. Quanto às demais
tecnologias, tendo por base o posicionamento do STJ acerca da TV a cabo, penso que
a conclusão pela tipicidade seja a mais adequada: “O sinal de televisão propaga-se
através de ondas, o que na definição técnica se enquadra como energia radiante, que
é uma forma de energia associada à radiação eletromagnética. II. Ampliação do rol
do item 56 da Exposição de Motivos do Código Penal para abranger formas de
energia ali não dispostas, considerando a revolução tecnológica a que o mundo vem
sendo submetido nas últimas décadas. III. Tipicidade da conduta do furto de sinal de
TV a cabo.” (REsp 1123747/RS, Min. Rel. Gilson Dipp, Quinta Turma, DJe
01/02/2011). Nos Tribunais do país, encontramos posicionamentos controversos. O
TJSP, na Ap. 99009218727/9, julgada em 2010, condenou um estudante de
tecnologia que subtraia fraudulentamente sinal de Internet transmitido via rádio. O
TJDFT, por outro lado, entendeu pela atipicidade, ao julgar a Ap.
159018720108070001, em 2011: “Por analogia, o sinal de internet também não pode
ser equiparado a energia, por não ser capaz de gerar força, nem prejuízo a quem o
gera e por não poder ser objeto de apropriação material. Diferentemente do caso de
TV a cabo (Lei Nº.8.977/95), ainda não há previsão legal que disponha sobre os
crimes de receptação de sinal de internet, porém não pode ser objeto do crime de
furto.”
d) sêmen de animais: o tema já está “batido”, mas não custa relembrar: sêmen é
considerado energia para fins penais (energia genética). Portanto, pratica o crime de
furto aquele que subtrai o sêmen de animais que possui valor econômico. Todavia,
sei o que você está pensando. E o sêmen humano? Como é proibida a sua venda –
somente pode ser doado -, o esperma humano não tem valor econômico, ainda que
seja oriundo de homem de muitas riquezas. Sobre o assunto, transcrevo explicação
do professor Luiz Flávio Gomes: “A Exposição de Motivos da Parte Especial
do Código Penal Brasileiro, por analogia, considera furto comum a subtração da
energia genética dos reprodutores, levando-se em consideração que o sêmen é
passível de apreensão. Mas, a energia referida pelo Código Penal em seu artigo 155 §
3º, que tenha valor econômico, não se refere ao material procriativo do homem. O
esperma não pode ser considerado coisa alheia móvel e nem a ela equiparado. Nem
mesmo res derelicta. Trata-se de bem extra commercium.”. Isso não significa, no
entanto, que não responderá por furto aquele que invade um laboratório e subtrai
amostras contendo sêmen humano. Neste caso, haverá o crime de furto por se tratar
de coisa alheia móvel, nos termos do “caput” do art. 155, e não em razão da subtração
de energia genética.
e) leite ordenhado: “Assim, imagine-se a hipótese daquele que subtrai o sêmen de
um touro reprodutor, com a finalidade de, com ele, fertilizar uma de suas vacas. O
crime praticado, nesse caso, seria o de furto de energia genética, conforme orientação
contida na mencionada Exposição de Motivos. Aqui, entretanto, nem haveria
necessidade de ressalva, pois o sêmen do reprodutor se amolda, perfeitamente, ao
conceito de coisa, tal como seria a subtração do leite ordenhado.” (TJCE, Ap. Crim.
2000.0222.2109-4/1, Rel. Juiz Convocado Wilton Machado Carneiro, julgado em
6.10.2009).

→ Fique atento! Embora, para o estudioso do Direito, seja fácil a distinção entre
roubo (CP, art. 157) e furto (CP, art. 155), há uma hipótese que pode se tornar
verdadeira “pegadinha” em provas: se o agente hipnotiza ou entorpece (ex.: “Boa
Noite Cinderela”) a vítima para, em seguida, subtrair os seus bens, o crime será o de
roubo ou o de furto? Se você respondeu furto, cuidado: o roubo pode se dar tanto
pela violência própria, quando há o emprego de força física, quanto pela imprópria,
quando o agente reduz a impossibilidade de resistência da vítima. Portanto, roubo, e
não furto. Contudo, se a vítima tiver provocado a debilidade voluntariamente, por
ato próprio, sem influência do agente, e este, aproveitando-se do momento, subtrair
os seus bens, o crime será o de furto.
Por derradeiro, não basta que a ação seja a de subtrair e que a coisa seja móvel. É
essencial que a coisa seja alheia, ou seja, não pode pertencer a quem pratica a
subtração, tampouco estar sob a sua legítima posse. E mais: a coisa deve pertencer a
alguém. Por isso, em caso de res nullius (coisa que nunca teve dono) ou res
derelicta (coisa abandonada), quem se assenhora da coisa não pratica furto. Quanto
à res desperdicta (coisa perdida), quem dela se apropria pratica o crime de
apropriação de coisa achada (CP, art. 169, II), exceto: a) quando a coisa se encontrar
em local privado: a coisa só é considerada perdida quando extraviada em local
público ou de uso público. Não se pode falar em coisa perdida quando ela se encontra
em local privado; b) quando o agente provoca dolosamente a perda do bem; c)
quando a coisa foi esquecida, e não perdida. Nestas três hipóteses, ocorrendo o
assenhoramento da coisa, o agente responderá por furto.
Agora, imagine a seguinte situação: Tício presencia um acidente automobilístico, e,
ao perceber que todos os ocupantes do veículo estão mortos, subtrai os objetos
pessoais das vítimas. Nesta hipótese, deverá responder por furto? A resposta, é claro,
é positiva. Isso porque, com a morte, os bens são imediatamente transmitidos aos
herdeiros (princípio de Saisine). Portanto, aqueles bens não são considerados res
nullius ou res derelicta, pois possuem proprietário. Da mesma forma, os bens de
valor econômico enterrados com o falecido (ex.: um relógio) não podem ser
considerados coisas abandonada, e podem, sim, ser objeto material de furto.
Quanto aos corpos humanos, em regra, eles não podem ser objeto material de furto,
e a sua subtração configura o crime do art. 211 do CP (destruição, subtração ou
ocultação de cadáver), exceto quando tiver valor econômico e estiver sob a posse
legítima de alguém, a exemplo de corpos em uma faculdade de medicina ou de
múmias em um museu, hipótese em que a subtração configurará o crime de furto.
Entretanto, atenção: a remoção ilegal de tecidos, órgãos ou partes de cadáver
configura o crime do art. 14 da Lei 9.434/97.
As coisas de uso comum não podem ser furtadas, a exemplo da água dos oceanos.
Caso a água seja alheia, o seu represamento ou desvio pode configurar o crime do
art. 161, § 1º, I, do CP (usurpação de águas). Quanto à coisa tombada, a sua subtração
configura o crime de furto, e não o de dano em coisa de valor artístico, arqueológico
ou histórico (CP, art. 165).
→ Subtração de veículo a fim de safar-se de perseguição após prática delituosa:
“Entendeu-se inexistir crime de furto (TACrimSP, ACrim 453.887, JTACrimSP,
92:262)” (Damásio).
O furto é crime comum, podendo ser praticado por qualquer pessoa, exceto na forma
qualificada pelo abuso de confiança (CP, art. 155, § 4º, II), em que o agente deve ser
pessoa em quem a vítima deposite confiança. O proprietário da coisa também não
pode ser autor do crime de furto, ainda que ela esteja sob a posse legítima de terceiro,
situação que pode caracterizar o crime do art. 346 do CP: “Tirar, suprimir, destruir
ou danificar coisa própria, que se acha em poder de terceiro por determinação
judicial ou convenção”. Caso a coisa subtraída seja de propriedade comum do agente
e do terceiro prejudicado, o crime será o do art. 156 do CP: “Subtrair o condômino,
co-herdeiro ou sócio, para si ou para outrem, a quem legitimamente a detém, a coisa
comum”. A lei não exige qualidade especial da vítima.
→ Atenção: o funcionário público que subtrai dinheiro, valor ou bem, público ou
particular, ou concorre para que seja subtraído, valendo-se de facilidade
proporcionada pela qualidade de funcionário, pratica o crime de “peculato-furto”,
previsto no art. 312, § 1º, do CP.
O sujeito passivo do furto é o proprietário ou o legítimo possuidor (pessoa física ou
jurídica). O mero detentor da coisa não é vítima do delito. Por isso, caso uma empresa
tenha um automóvel furtado, o seu empregado, que conduzia o automóvel no
momento do crime, não será considerado vítima. Não é necessário que a vítima seja
identificada para que o agente seja responsabilizado pelo furto praticado.

→ “Ladrão que rouba ladrão”: dois ou mais agentes praticam um furto, e algum (ou
alguns) deles subtrai a coisa furtada. Neste caso, o sujeito passivo continuará sendo
o proprietário ou o legítimo possuidor da coisa furtada, e não os demais envolvidos
no crime.

O elemento subjetivo do furto é o dolo de subtração (“animus furandi”). Contudo, é


essencial que o agente tenha a intenção de apoderar-se definitivamente da coisa
(“animus rem sibi habendi”), e não somente usá-la temporariamente. Imagine o
funcionário de um posto de lavagem de veículos que, aproveitando-se da distração
do patrão, subtrai um dos automóveis, pertencente a cliente, para dar uma volta pela
cidade e, ao final, devolvê-lo. Para a jurisprudência e para a doutrina, nesta situação,
o fato será atípico, por se tratar de “furto de uso”. Pode soar absurdo, mas, por não
existir conduta típica prevista para a hipótese, não há outra opção. Para o seu
reconhecimento, o furto de uso exige alguns requisitos: a) a coisa deve ser infungível
(logo, não se fala em furto de uso na subtração de dinheiro); b) deve existir a prévia
intenção, anterior à subtração, de devolução da coisa (o agente deve, anteriormente
à subtração, ter o interesse em restituir); c) a coisa deve ser espontânea e
imediatamente restituída após o uso, em sua integralidade e em local no qual seja
possível seu titular exercer de imediato seu poder de disposição (restituição “in loco
et integro”), ao seu possuidor originário. O STJ, no HC 94125/SP, impõe, ainda, a
necessidade de que a devolução se dê antes que a vítima perceba a subtração, sob
pena de afastamento do furto de uso:

“In casu, há fortes indícios da disposição da paciente de se apropriar dos objetos


furtados, porquanto sua conduta não preenche os requisitos necessários à
caracterização do furto de uso com o consequente reconhecimento da sua
atipicidade. Da análise dos documentos acostados, verifica-se que a falta das jóias
pela proprietária se deu em momento anterior ao da restituição – que ocorreu
somente após intervenção policial -, aliada, ainda, ao fato de que a quantidade de
artefatos subtraídos foi grande, isto é, cerca de sessenta peças entre correntes,
brincos e anéis, não evidenciando o ânimo da subtração para simples uso a ponto de
ensejar o trancamento da ação penal em comento.”.

→ “O furto de uso divide-se em duas modalidades: próprio e impróprio. O furto de


uso próprio consiste em usar a coisa contra a proibição expressa do seu dono, que a
tinha entregado a alguém, ou utilizá-la para fim distinto do assinalado; por sua vez,
impróprio é o furto de uso que comete quem se apodera da coisa sem maior propósito
que o de utilizá-la e devolvê-la.” (Masson).

Quanto à consumação, muito se discute se é necessário que o agente tenha a posse


pacífica da res furtiva, ou seja, a posse não sujeita aos atos de legítima defesa por
parte da vítima ou de terceiros. Embora já tenha sido o entendimento majoritário,
hoje, é unânime o entendimento de que o furto se consuma no momento em que já a
inversão da posse da coisa: “Os Tribunais Superiores firmaram entendimento no
sentido de que, para a consumação do delito de roubo, assim como no de furto, não
é necessária a posse mansa e pacífica do bem subtraído, sendo suficiente a inversão
da posse, adotando-se, portanto, a teoria da apprehensio ou amotio.” (STJ, AgRg no
AREsp 404293/SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 27.3.2014). Por ser
crime material, é essencial, para a sua consumação, que se alcance o resultado
naturalístico, consistente na efetiva diminuição patrimonial da vítima.
Por se tratar de crime plurissubsistente, a tentativa é perfeitamente possível quando
o agente, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade
dele. Questão interessante e frequentemente surgida em concursos é a hipótese em
que o agente não consuma o crime em virtude de sistema de vigilância eletrônica.
Entenda: imagine que João, enquanto subtrai bens de uma loja, é monitorado pelas
câmeras do estabelecimento, e a sua conduta é acompanhada pelos seguranças, que
o surpreendem assim que a coisa é subtraída. Pergunto: no exemplo, o crime é
impossível, e João não responderá por qualquer delito, ou a sua conduta ficará na
esfera da tentativa, e ele responderá pelo furto? Assim entende o STJ:

“FURTO TENTADO. SUPERMERCADO. VIGILÂNCIA. CRIME IMPOSSÍVEL. NÃO


OCORRÊNCIA. A existência de sistema de monitoramento eletrônico ou a
observação dos passos do praticante do furto pelos seguranças da loja não rende
ensejo, por si só, ao automático reconhecimento da existência de crime impossível,
porquanto, mesmo assim, há possibilidade de o delito ocorrer. Precedentes das
Turmas.” (HC 230953/SP, Relatora Ministra Maria Thereza de Assis Moura, julgado
em 3.4.2014).

Furto noturno: o § 1º do art. 155 prevê que a pena do furto deve ser aumentada em
1/3 (um terço) se o crime é praticado durante o repouso noturno. A doutrina intitula
a hipótese de furto circunstanciado, hipótese de aumento aplicável somente ao furto
simples, do “caput”. A razão do aumento é simples: durante o repouso, à noite e de
madrugada, a movimentação de pessoas nas ruas é menor e, provavelmente, a vítima
não terá qualquer chance de reação. Portanto, quem furta durante o repouso
noturno, o faz valendo-se dessa facilidade. Logo, é justo que a pena seja aumentada.
Não há um horário específico para o período de repouso noturno. Em regiões rurais,
é comum que as pessoas durmam cedo e acordem antes mesmo do nascer do sol. Em
grandes cidades, por outro lado, os costumes são outros. Por isso, não há uma
fórmula exata. Deve o julgador, caso a caso, analisar a situação. Não é necessário que
o local esteja, efetivamente, sem ninguém, na hipótese de estabelecimento comercial,
ou que as vítimas estejam dormindo, no furto a imóvel residencial, para que se
reconheça a causa de aumento. Também é possível a incidência da causa de aumento
em furto praticado contra veículo estacionado em via pública.

O STJ, em julgado de 14 de abril desse ano, entendeu que o furto durante o repouso
noturno, por ser de maior reprovabilidade, impede a incidência do princípio da
insignificância: “A circunstância de o crime de furto ter sido perpetrado durante o
repouso noturno, como ocorreu in casu, denota maior reprovabilidade, o que afasta
o reconhecimento da atipicidade material da conduta pela aplicação do princípio da
insignificância. Precedentes.” (AgRg no AREsp 463487/MT, Rel. Min. Sebastião Reis
Júnior).

→ Não confunda causa de aumento com qualificadora. Nas causas de aumento, pega-
se a pena prevista para o delito e aumenta-se de determinada fração. Um bom
exemplo é o furto noturno, do § 1º do art. 155: a pena do furto simples, de um a quatro
anos, é aumentada de um terço. Nas qualificadoras, a lei traz penas mínima e máxima
próprias, distintas da forma simples. O § 4º do art. 155 é o exemplo perfeito: a pena
mínima é de dois anos e a máxima é de oito anos.

Princípio da insignificância e o furto privilegiado: apague de sua cabeça a


ideia de que, sempre que a res furtiva for de pequeno valor, o princípio da
insignificância será aplicado. Não é porque o agente furtou uma galinha ou um
chocolate que deverá, obrigatoriamente, ser afastada a tipicidade de sua conduta. Há
uma série de requisitos para que se reconheça o crime de bagatela, e um deles diz
respeito ao valor do objeto subtraído, tema de extrema relevância para a distinção do
furto privilegiado, do art. 115, § 2º, do CP, da conduta materialmente atípica, na
hipótese de insignificância. No entanto, para a compreensão do tema, faremos um
breve estudo introdutório:
→ Para a teoria tripartida, o crime é composto por três elementos (é melhor falar em
“substratos”): a) fato típico; b) ilicitude; c) culpabilidade. Para que uma conduta seja
considerada crime, devem estar presentes os três elementos, cumulativamente. O
primeiro substrato, o fato típico, é composto por: conduta, resultado, nexo causal e
tipicidade. Para o nosso estudo, só importa a tipicidade, que é dividida em formal e
material: a) tipicidade formal: é a subsunção da conduta praticada pelo agente a um
tipo penal. Quem subtrai coisa alheia móvel pratica conduta formalmente típica, que
perfeitamente se amolda ao que prevê o art. 155 do CP; b) tipicidade material: é a
lesão ou o perigo de lesão ao bem jurídico tutelado em razão da prática da conduta
formalmente típica. No entanto, é preciso que a conduta do agente seja realmente
lesiva ao bem jurídico, caso contrário, se ínfima, a tipicidade material deverá ser
afastada. É exatamente o que ocorre quando aplicado o princípio da insignificância.
Portanto, a incidência do princípio da insignificância é causa de exclusão da
tipicidade material (e do próprio crime, pois faz parte de sua composição).
→ Como estamos estudando o furto, que tem como objeto jurídico tutelado a
propriedade e a posse legítima, é necessário descobrir qual valor deve ter a coisa
móvel furtada para que a subtração seja considerada materialmente típica (o valor
sentimental também é relevante). Ou seja, deve-se estipular a partir de qual quantia
a lesão deixa de ser ínfima e passa a ser de interesse do Direito Penal. Esqueça o
salário-mínimo ou valores predeterminados (R$ 50, R$ 100 etc.). O princípio da
insignificância deve ser avaliado caso a caso, com base nos seguintes critérios:

Critérios objetivos:

a) mínima ofensividade da conduta do agente;

b) nenhuma periculosidade social da ação;

c) reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento;

d) inexpressividade da lesão jurídica provocada.

Critérios subjetivos:

a) importância do objeto material para a vítima (situação econômica e valor


sentimental do bem);

b) circunstâncias e resultados do crime.

Tendo-os em mente, façamos a seguinte reflexão: para uma grande cadeia de


supermercados, um quilo de carne não representa nada para o seu patrimônio.
Poderia se falar, então, em incidência do princípio da insignificância. Contudo, para
uma família que vive com um salário-mínimo, um quilo de carne pode representar o
sustento da semana, sendo inviável, nesta hipótese, a aplicação do princípio. Por isso,
não se pode falar em um valor x para a imposição do princípio da insignificância.
Não é porque o criminoso subtraiu uma galinha que a sua conduta deverá ser
considerada automaticamente atípica. De repente, o galináceo representa fração
considerável do patrimônio da vítima.

Não se pode, entretanto, confundir valor ínfimo com pequeno valor. Aquele é causa
de exclusão da tipicidade, por força da insignificância, enquanto este é parâmetro
para o furto privilegiado (CP, art. 155, § 2º). A jurisprudência, em reiterados
julgados, tem afirmado que pequeno valor é aquele que não ultrapassa o salário-
mínimo vigente na época dos fatos. Nesse sentido, STJ:
“In casu, o valor do prejuízo suportado pela vítima é superior ao do salário mínimo
vigente à época dos fatos, o que impede o reconhecimento da figura do furto
privilegiado.” (HC 217726/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em
24.04.2014).
“Para a concessão do benefício do privilégio no crime de furto exige-se a
primariedade do agente, bem como seja a res furtiva de pequeno valor, ou seja, a
importância do bem não deve ultrapassar um salário mínimo. Preenchidos os
requisitos legais, e considerando as circunstâncias do crime, de rigor, a aplicação
da causa de diminuição de pena.” (HC 232553/DF, Relatora Ministra Maria
Thereza de Assis Moura, julgado em 6.5.2014).

Portanto, enquanto, para a incidência do princípio da insignificância, não se fale em


valores predeterminados, para o privilégio, vem sendo adotado o critério objetivo do
salário-mínimo. Pode parecer um contrassenso, mas, diferentemente do que ocorre
na insignificância, para o privilégio, é irrelevante o prejuízo efetivamente causado à
vítima. Perceba que o § 2º fala em pequeno valor da coisa, e não em pequeno
prejuízo, como o faz no art. 171, § 1º. Por essa razão, é possível a adoção de fórmula
genérica, objetiva, como o salário-mínimo vigente.

“Não é possível a aplicação do princípio da insignificância ao furto de


objeto de pequeno valor. Não se deve confundir bem de pequeno valor
com o de valor insignificante, o qual, necessariamente, exclui o crime
ante a ausência de ofensa ao bem jurídico tutelado, qual seja, o
patrimônio. O bem de pequeno valor pode caracterizar o furto privilegiado
previsto no § 2º do art. 155 do CP, apenado de forma mais branda, compatível com
a lesividade da conduta. Além disso, o STF já decidiu que, mesmo nas hipóteses de
restituição do bem furtado à vítima, não se justifica irrestritamente a aplicação do
princípio da insignificância, mormente se o valor do bem objeto do crime tem
expressividade econômica. Precedentes citados do STF: HC 97.772-RS, DJe
20/11/2009; HC 93.021-PE, DJe 22/5/2009; HC 84.412-SP, DJ 19/11/2004, e do
STJ: HC 106.605-SP, DJe 20/10/2008.” (STJ, REsp 1.239.797-RS, Rel. Min. Laurita
Vaz, julgado em 16.10.2012).

O privilégio também exige a primariedade do agente. Primário é aquele que não é


reincidente. Ou seja, quem não praticou novo crime depois de ter sido
definitivamente condenado, no Brasil ou no exterior, por crime anterior (CP, art. 63).
Quanto ao “tecnicamente primário” - que, em verdade, é primário -, tendo por base
o entendimento do Supremo, não vejo óbice para a concessão do benefício do
privilégio:
“Pedido de afastamento da agravante da reincidência. Existência de
constrangimento ilegal. Paciente/impetrante, que, à época do crime apurado nos
autos, era tecnicamente primário, na medida em que não tinha em seu desfavor
nenhuma decisão penal condenatória transitada em julgado. Concessão parcial da
ordem, de ofício, para determinar ao Juízo das Execuções que proceda a nova
dosimetria da pena, afastando a agravante da reincidência.” (HC 115.810/SP, Rel.
Min. Gilmar Mendes, julgado em 4.2.14).

Em tempo: tecnicamente primário é “o sujeito que, embora não se enquadrando no


conceito de reincidente, registra condenação anterior. Não é reincidente, seja porque
já se ultrapassou o período depurador da reincidência (5 anos entre a prática do novo
crime e o cumprimento ou extinção da pena resultante da pena anterior), seja porque
o novo crime foi praticado antes da condenação definitiva oriunda do delito
anterior.” (Masson). O registro de maus antecedentes também não pode impedir a
concessão do benefício.

E no furto qualificado, é viável a incidência do privilégio? O STJ, no mês de junho de


2014, “sumulou” o assunto: “É possível o reconhecimento do privilégio previsto no §
2º do art. 155 do CP nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes
a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem
objetiva.” (Enunciado n. 511).
Portanto, no furto qualificado, para o STJ, não bastam a primariedade e o pequeno
valor da coisa subtraída. É imprescindível que a qualificadora seja de ordem objetiva,
e não subjetiva. Qualificadora de ordem subjetiva é a que pertence à esfera interna
do agente, enquanto a objetiva é a atinente ao fato praticado, e não ao aspecto pessoal
do agente. O furto (CP, art. 155), em seus parágrafos 4º e 5o, traz as seguintes
qualificadoras:
No parágrafo quarto:

“I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;

II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;

III - com emprego de chave falsa;

IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas.”;

No parágrafo quinto:

“A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for de veículo


automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior”.

As qualificadoras objetivas dizem respeito ao meio de execução. Veja, por exemplo,


o inciso III do § 4º, que fala em “emprego de chave falsa”. Por outro lado, as
qualificadoras subjetivas são aquelas que levam em consideração a motivação
interna do agente, o “porquê”, a exemplo da torpeza, no homicídio qualificado (CP,
art. 121, § 2º, I). No furto, no entanto, todas as qualificadoras são, aparentemente,
objetivas. Todas, sem exceção, tratam do meio pelo qual o delito é praticado, mas
duas delas levam em consideração o elemento anímico: o abuso de confiança e a
fraude.
Para boa parte da doutrina, contudo, o abuso de confiança é a única qualificadora de
ordem subjetiva. Em concursos, ainda não vi questionamentos acerca do Enunciado
n. 511 do STJ – até porque, é muito recente. Mas, caso surja, creio que a opção mais
segura seja a adotada pelos grandes autores, que, provavelmente, será a mesma da
jurisprudência a partir do enunciado:
“Constituem qualificadoras objetivas, e se comunicam aos demais agentes, com
exceção daquela de natureza subjetiva prevista no inciso II, qual seja, a do abuso
de confiança.” (Capez).
“Com exceção da qualificadora do abuso de confiança (CP, art. 155, § 4.º,
inc. II, 1.ª figura), de índole subjetiva, todas as demais qualificadoras são de
natureza objetiva: comunicam-se aos demais coautores e partícipes que dela
tomaram conhecimento, em consonância com a regra prevista no art. 30 do Código
Penal.” (Masson).

Vale dizer que, em algumas oportunidades, o Tribunal Superior entendeu ser


possível o privilégio em todas as qualificadoras do furto. Veja:

“1. Se a alegação da eventual incidência do princípio da insignificância não foi


submetida às instâncias antecedentes, não cabe ao Supremo Tribunal delas
conhecer originariamente, sob pena de supressão de instância. 2. As causas
especiais de diminuição (privilégio) são compatíveis com as de aumento
(qualificadora) de pena previstas, respectivamente, nos parágrafos 2º e 4º do
artigo 155 do Código Penal. Precedentes. 3. Habeas corpus parcialmente conhecido
e, nesta parte, concedido.” (STJ, HC 100.307/MG, Rel. Min. Cármen Lúcia, DJe
3.6.2011).

Por fim, quanto aos efeitos do privilégio, o CP traz três possibilidades:


a) substituição de pena de reclusão pela de detenção;

b) diminuição da pena de reclusão de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços);

c) aplicação somente de pena de multa.

As duas primeiras são cumuláveis. É possível a substituição da pena de reclusão pela


de detenção, sem prejuízo da diminuição de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços). A
multa, no entanto, por não ser compatível com as duas outras opções, deve ser
aplicada isoladamente.

Informativos do STJ a respeito do furto e a incidência da insignificância:


“Ainda que se trate de acusado reincidente ou portador de maus antecedentes, deve
ser aplicado o princípio da insignificância no caso em que a conduta apurada esteja
restrita à subtração de 11 latas de leite em pó avaliadas em R$ 76,89 pertencentes
a determinado estabelecimento comercial. Nessa situação, o fato, apesar de se
adequar formalmente ao tipo penal de furto, é atípico sob o aspecto material,
inexistindo, assim, relevância jurídica apta a justificar a intervenção do direito
penal.” (HC 250.122-MG, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 2.4.2013).
“Aplica-se o princípio da insignificância à conduta formalmente tipificada como
furto consistente na subtração, por réu primário e sem antecedentes, de um par de
óculos avaliado em R$ 200,00.” (AgRg no RHC 44.461-RS, Rel. Min. Marco Aurélio
Bellizze, julgado em 27.5.2014).
“Não se aplica o princípio da insignificância ao furto de uma máquina de cortar
cerâmica avaliada em R$ 130 que a vítima utilizava usualmente para exercer seu
trabalho e que foi recuperada somente alguns dias depois da consumação do crime
praticado por agente que responde a vários processos por delitos contra o
patrimônio.” (HC 241.713-DF, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em
10.12.2013).

Furto famélico: é causa de exclusão da ilicitude (e do próprio crime) pelo estado


de necessidade. É a situação em que o agente subtrai alimento para manter-se vivo
ou para assegurar a sobrevivência de terceiro. Não é necessário que o alimento
escolhido seja o mais barato ou que integre o grupo de alimentos tidos como básicos
para o sustento (ex.: arroz, feijão etc.) – digo isso porque, ao ouvirmos a notícia de
que alguém furtou, por exemplo, chocolates, é natural que a ideia de furto famélico
seja imediatamente afastada, mas a reflexão não é correta, pois, de repente, a
subtração do doce foi mais fácil do que a de um frango, e, por mais que não seja muito
nutritivo, não deixa de ser alimento. O STJ, em julgado de 2012, não reconheceu o
furto famélico na hipótese em que o agente subtraiu bens não comestíveis para a
venda e posterior aquisição de alimentos com os ganhos auferidos: “Para a
configuração do crime de furto em estado de necessidade, ou furto famélico, é
necessário que os bens subtraídos tenham o propósito único de saciar a fome daquele
que se encontra sem alimentação necessária a suprir sua subsistência.” (HC
179618/MG). A reflexão é correta, pois se amolda ao que prevê o CP, em seu art. 24:
“Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo
atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito
próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se.”.
Ademais, importante dizer: o estado de necessidade não se confunde com o estado
de precisão. Imagine o agente que, em razão de pobreza, tem dinheiro suficiente
apenas para a compra do arroz, mas não para a aquisição de feijão. Embora a
alimentação pouco nutritiva seja prejudicial à saúde, ele não está autorizado a
subtrair o alimento que não pode adquirir. Portanto, caso furte o feijão, deverá
responder pelo crime, não havendo o que se falar em estado de necessidade, haja
vista não existir perigo atual (ele não morrerá de fome caso coma somente o arroz).
Furto qualificado: o furto é qualificado em oito hipóteses, distribuídas em dois
parágrafos (4o e 5o):
a) com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da
coisa: destruir é desfazer, fazer com que o obstáculo deixe de existir (ex.: a explosão
de um “caixa eletrônico”). Romper está mais para afastar, tornar inútil o obstáculo
imposto (ex.: arrombar a porta com pé-de-cabra). A violência que qualifica o delito
pode se dar em qualquer momento da execução, e não apenas previamente. Imagine
o ladrão que, após subtrair a coisa do interior do imóvel, tem de arrombar uma porta
para abandonar o local. É inegável que o ato está diretamente ligado ao furto
praticado, não existindo razão para o afastamento da qualificadora. No entanto, caso
o agente, após consumada a subtração, destrói algum objeto, sem que isso seja
necessário para a prática do furto, haverá o crime de furto simples em concurso
material com o delito de dano (CP, art. 163). Acerca da qualificadora, alguns pontos
merecem atenção:
→ Incidência do princípio da insignificância: o STJ, em mais de uma oportunidade,
entendeu pela impossibilidade da insignificância no furto qualificado pela destruição
ou rompimento de obstáculo: “Ao contrário do disposto na insurgência recursal,
entendo inadequada, in casu, a incidência do postulado da insignificância,
porquanto, a despeito do reduzido valor da ressubtraída, o furto, em concreto, faz-se
qualificado pela destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa” (AgRg
no REsp 1415739/MG, julgado em 10.4.2014).
→ Necessidade de perícia: “A Jurisprudência desta Corte consolidou-se no sentido
da necessidade de perícia para a caracterização do rompimento de obstáculo, salvo
em caso de ausência de vestígios, quando a prova testemunhal poderá suprir-lhe a
falta, conforme a exegese dos arts. 158 e 167do Código de Processo Penal. 2. Na
espécie, a inexistência da perícia restou justificada no fato da vítima ter efetuado o
reparo da porta violada, dando causa, assim, ao desaparecimento dos vestígios do
arrombamento em sua residência. 3. Tratando-se, in casu, de causa idônea de
desaparecimento de vestígios - inclusive reconhecida na doutrina e em precedente
da Sexta Turma -, é o caso de admitir o depoimento da vítima e a confissão do
acusado como meios de prova da qualificadora prevista no inciso Ido § 4º do
art. 155 do Código Penal. 4. Ordem denegada.” (STJ,. HC 188718/DF, Relator
Ministro Sebastião Reis Júnior, DJe de 21.03.2012).
→ Mero afastamento do obstáculo, sem dano: prevalece o entendimento de que não
qualifica o crime pelo rompimento de obstáculo. É o caso da retirada de telhas para
o acesso ao imóvel. No exemplo, o furto será qualificado pela escalada.

→ Violência contra o objeto material: há diversos julgados que entendem que a


violência empregada contra a própria coisa furtada não qualifica o delito. No entanto,
esse posicionamento gera situação curiosa: aquele que quebra o vidro de um
automóvel para subtrair um objeto em seu interior, pratica o crime de furto em sua
forma qualificada. Mas, quem quebra o vidro para subtrair o automóvel, responde
por furto simples. É a posição do STJ: “Em se considerando que o crime de furto foi
cometido com o rompimento dos vidros e portas de veículos para a subtração de
objetos que se encontravam em seu interior e não dos próprios veículos automotores,
resta configurada, na espécie, a circunstância qualificadora do rompimento de
obstáculo, prevista no art. 155, § 4.º, inciso I, do Código Penal. Precedentes. 2.
Ordem denegada.” (HC 104316/SP). A doutrina, entretanto, diverge desse
entendimento: “Seria incoerente, exemplificativamente, punir por furto qualificado
aquele que destrói o vidro de um carro para subtrair uma camiseta que estava em seu
interior, e, ao mesmo tempo, imputar o crime de furto simples ao sujeito que destrói
a porta de um veículo automotor para furtá-lo. A aplicação da lei penal estaria fora
da realidade e levaria à descrença generalizada e à banalização do Direito Penal.”
(Masson).
→ “Ligação direta”: há duas posições: 1ª) não configura a qualificadora da violência
contra obstáculo à subtração de veículo (JTACrimSP, 55:342, 21:48 e 41:320; RT,
558:359, 563:322 e 435:379); 2ª) configura (RT, 442:453, v. V.).

→ Cão de guarda: “Em relação ao cão de guarda, há duas posições: (a) pode ser
definido como obstáculo, razão pela qual sua morte enseja a qualificadora, pois atua
como entrave à prática da conduta criminosa; e (b) não se pode considerá-lo
obstáculo no sentido técnico da palavra, e sua morte poderá caracterizar crime de
dano, mas não a qualificadora em estudo.” (Masson).

b) com abuso de confiança: para boa parte da doutrina, é de ordem subjetiva.


Essa conclusão tem duas importantes consequências: 1a) não é possível o
reconhecimento do privilégio (Enunciado n. 511 da Súmula do STJ); 2a) a
qualificadora é incomunicável no concurso de pessoas, só devendo responder por ela
quem, de fato, abusou da confiança depositada pelo ofendido. A qualificadora é
aplicável na hipótese em que o agente trai a confiança da vítima para subtrair seus
bens. A confiança deve ser oriunda de relação anterior à preparação do delito. Caso
o agente conquiste a confiança da vítima com o intuito de praticar o crime (ato
preparatório), o furto será qualificado pela fraude. Exemplo comum de furto
qualificado pelo abuso de confiança é o intitulado famulato, que é aquele praticado
pelo empregado, aproveitando-se de tal situação, de bens pertencentes ao
empregador. Frise-se, no entanto, que a mera relação empregatícia não configura,
automaticamente, o abuso de confiança, que deve ser analisado no caso concreto.
Ademais, não é preciso que a relação seja de longo prazo: “O furto praticado por
agente-diarista, contratada em função de boas referências, a quem se entregou as
próprias chaves do imóvel, enquanto viajavam os patrões, caracteriza a forma
qualificada prevista no artigo 155, parágrafo 4º, inciso II, do Código Penal. 2. Ordem
denegada.” (STJ, HC 82828/MS). Questões importantes:
→ O agente deve efetivamente se valer da confiança depositada. Se o agente pratica
o crime de forma pela qual qualquer pessoa poderia ter praticado, não se fala em
incidência de qualificadora por abuso de confiança. Ademais, é essencial que o agente
saiba que está tirando proveito da confiança depositada.

→ Cuidado para não confundir o furto qualificado pelo abuso de confiança com o
crime de apropriação indébita. Em ambos os delitos, há quebra de confiança. No
entanto, no furto, a coisa móvel não é entregue voluntariamente, pela vítima, ao
agente. Ex.: o amigo que, valendo-se do acesso facilitado à residência, subtrai os bens
da vítima. Na apropriação indébita (CP, art. 168), por outro lado, a vítima entrega o
bem, e o agente dele se assenhora. Ex.: um amigo empresta ao outro coisa móvel, e
este não devolve o bem.
c) mediante fraude: o agente pratica o furto mediante artifício, ardil, ou qualquer
outro meio fraudulento. Não há como confundir com o estelionato (CP, art. 171).
Embora, em ambos, exista o emprego de fraude, no furto, o agente subtrai a coisa,
enquanto, no estelionato, a vantagem é obtida. Exemplo de furto qualificado: o
agente, para subtrair determinado bem, conquista a amizade da vítima – a amizade,
neste caso, é ato preparatório do delito -, e, valendo-se da confiança depositada,
subtrai os seus bens. Exemplo de estelionato: o agente se apresenta como
proprietário de um automóvel em um “lava-jato”, e o funcionário, induzido em erro,
a ele entrega o bem. Não há, portanto, subtração, mas obtenção do veículo. Vejamos
alguns pontos relevantes:
→ Furto qualificado e estelionato [1]: “No caso, cumpre anotar que o furto mediante
fraude não se confunde com o estelionato. Segundo Damásio, "[n]o furto, a fraude
ilude a vigilância do ofendido, que, por isso, não tem conhecimento de que o objeto
material está saindo da esfera de seu patrimônio e ingressando na disponibilidade
do sujeito ativo. No estelionato, ao contrário, a fraude visa a permitir que a vítima
incida em erro. Por isso, voluntariamente se despoja de seus bens, tendo consciência
de que eles estão saindo de seu patrimônio e ingressando na esfera de
disponibilidade do autor'.” (STJ, HC 217545/RJ, Relatora Ministra Laurita Vaz,
julgado em 19.12.2013).
→ Furto qualificado e estelionato [2]: “O furto mediante fraude não se confunde com
o estelionato. A distinção se faz primordialmente com a análise do elemento comum
da fraude que, no furto, é utilizada pelo agente com o fim de burlar a vigilância da
vítima que, desatenta, tem seu bem subtraído, sem que se aperceba; no estelionato,
a fraude é usada como meio de obter o consentimento da vítima que, iludida, entrega
voluntariamente o bem ao agente.” (STJ, REsp 1412971/PE, Relatora Ministra
Laurita Vaz, julgado em 25.11.2013).

→ Furto praticado por manobrista: “Na hipótese em tela, a vítima entregou as chaves
de seu carro para que o Paciente, na qualidade de segurança da rua, o estacionasse,
não percebendo que o seu veículo estava sendo furtado. Conforme ressaltado pelo
Tribunal de origem, a vítima 'não tinha a intenção de se despojar definitivamente de
seu bem, não queria que o veículo saísse da esfera de seu patrimônio', restando,
portanto, configurado o furto mediante fraude.” (STJ, HC 217545/RJ, Relatora
Ministra Laurita Vaz, julgado em 19.12.2013). Comentário: caso o agente se faça
passar por manobrista com o intuito de se apoderar do bem, entendo que o delito
seja o de estelionato (CP, art. 171), e não o de furto qualificado pela fraude.
→ Fraude eletrônica na Internet [1]: “O delito de furto mediante fraude, previsto no
art. 155, § 4º, inciso II, do CP, consistente na subtração de valores de conta-corrente
mediante fraude utilizada para ludibriar o sistema informatizado de proteção de
valores mantidos sob guarda bancária, deve ser processado perante o Juízo do local
da conta fraudada. Precedentes.” (STJ, CC 119914/DF, Relatora Desembargadora
Convocada Alderita Ramos de Oliveira, julgado em 12.12.12).
→ Fraude eletrônica na Internet [2]: “Esta Corte firmou orientação de que o saque
efetuado em conta corrente de terceiro por meio da internet trata-se de crime de furto
mediante fraude e que portanto, segundo a regra prevista no art. 70 do CPP, deve ser
processado no local em que houve o desapossamento dos valores, ou seja, a sede da
agência bancária. Recurso especial provido.” (STJ, REsp 1163170 / SP, Rel. Min. Félix
Fischer, julgado em 20.9.2010).
→ “Cartão clonado”: “Esta Corte firmou compreensão segundo a qual a competência
para o processo e julgamento do crime de furto mediante fraude, consistente na
subtração de valores de conta bancária por meio de cartão magnético supostamente
clonado, se determina pelo local em que o correntista detém a conta fraudada.” (STJ,
AgRg no CC 110855/DF, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 22.6.2012).

→ Adulteração de medidor de energia elétrica: “In casu, a Corte a quo, após análise
das provas constantes dos autos, reconheceu o crime de furto mediante fraude
porque a concessionária de prestação de serviço público não tinha conhecimento da
fraude perpetrada quanto às trocas dos transformadores, que passaram a registrar
consumo de energia elétrica a menor, situação típica do crime descrito no art. 155 do
Diploma Penalista, razão pela qual conclusão em sentido contrário quanto à
caracterização do delito tipificado no art. 171 do mesmo Estatuto Repressor,
demandaria o revolvimento do material fático/probatório, o que é vedado pela
Súmula n. 7/STJ.” (STJ, AgRg no REsp 1279802/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado
em 8.5.2012).

→ Subtração de veículo de test drive: “Resta-nos, enfim, uma relevante questão a ser
enfrentada: o crime envolvendo o test drive de veículos automotores. Trata-se de
furto qualificado pela fraude ou de estelionato? Vejamos. Imaginemos uma situação
hipotética, mas extremamente frequente na vida cotidiana: 'A' vai a uma
concessionária, mostrando-se interessado na aquisição de um automóvel. Após
colher informações sobre o bem, preenche uma ficha cadastral e apresenta um
documento falso ao funcionário da empresa. Sai sozinho com o veículo para testá-lo,
mas não retorna. Não há dúvida nenhuma, com base na técnica jurídica, que se cuida
de estelionato. De fato, o sujeito se valeu da fraude para ludibriar o representante da
concessionária, que voluntariamente lhe entregou o bem. Não houve subtração. A
jurisprudência, entretanto, consolidou o entendimento de que se trata de furto
qualificado pela fraude.” (Masson).
→ Outros exemplos em que a qualificadora da fraude foi reconhecida pelos tribunais:
agente que pede à vítima para que mostre a coisa e foge com ela; sujeito que engana
a vítima, fazendo-a se afastar do objeto material; agente que se diz policial para
penetrar no local da subtração; agente que distrai o vendedor enquanto o comparsa
subtrai bens; puxar a chave com arame para abrir a porta; agente que se finge de
doméstica para furtar etc.

d) mediante escalada: é o que ocorre quando o agente invade um ambiente


fechado por vias anormais, não destinadas a esse fim. É preciso cuidado, pois, ao se
falar em “escalada”, imaginamos somente o agente que sobe em uma estrutura
(muro, poste etc.). No entanto, a qualificadora é aplicável a qualquer forma de
ingresso extraordinário no recinto. Por exemplo, há escalada na escavação de túnel
subterrâneo que dá acesso ao interior do imóvel. Caso o agente empregue violência
contra a coisa, o crime será qualificado pelo rompimento ou destruição de obstáculo,
e não pela escalada. Entenda: o agente que remove telhas para invadir uma
residência pratica o crime de furto qualificado pela escalada. No entanto, caso o
agente destrua o telhado para adentrar, a qualificadora será a do rompimento ou
destruição de obstáculo. Vejamos alguns pontos importantes:
→ Princípio da insignificância: “A tentativa de furto realizada mediante escalada e
rompimento de obstáculo impede a aplicação do princípio da insignificância, uma
vez que o modus operandi revela a reprovabilidade do comportamento do agente.”
(STJ, AgRg no REsp 1438176/MG, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 27.6.2014).

→ Necessidade de perícia [1]: “A qualificadora do crime de furto 'rompimento de


obstáculo e escalada', quando deixa vestígios (crime não transeunte), exige, de regra,
o exame pericial para a sua comprovação, nos termos do art. 158 do Código de
Processo Penal. Precedentes.” (STJ, AgRg no AREsp 352699/RJ, Relatora Ministra
Regina Helena Costa, julgado em 19.5.2014).
→ Necessidade de perícia [2]: “É prescindível o exame pericial, pois nem sempre a
escalada deixa vestígios. Geralmente a escalada é reconhecida pela só descrição do
fato criminoso. Assim, a própria narrativa do réu no sentido de que removeu telhas
para adentrar na residência, que pulou um muro muito alto, ou que passou por uma
galeria subterrânea já configura a qualificadora em tela. A prova pericial somente
será necessária se a escalada deixar vestígios.” (Capez).

→ Obstáculo contínuo: “Além disso, o obstáculo deve ser contínuo, não oferecendo
alternativas à execução do crime sem o recurso à escalada. Se, exemplificativamente,
o muro contém buracos pelos quais pode passar uma pessoa, ou se não cerca todo o
prédio em que o furto é cometido, não incide a qualificadora.” (Masson).

→ Invasão pela janela: há duas hipóteses: 1ª) janela rente ao solo: não incide a
qualificadora (JTACrimSP, 69:456, 26:71 e 27:44; RT, 539:315 e 542:372); 2ª) janela
alta, exigindo esforço físico: incide a qualificadora (JTACrimSP, 54:250 e 35:219).

e) mediante destreza: é o uso de habilidades especiais para a prática do delito.


Exemplo comum é o punguista ou “batedor de carteira”: “Não é cabível o decote da
qualificadora da destreza, no caso em que o apelante, de forma bastante astuta,
subtraiu o aparelho celular que se encontrava no interior da bolsa da vítima, com
mãos tão 'leves' que a ofendida sequer percebeu a ação do meliante, somente
tomando conhecimento do fato quando já se encontrava em sua residência.” (TJMG,
3260283-25.2012.8.13.0024, Rel. Des. Marcílio Eustáquio Santos, julgado em
25.11.2013).
→ Trombadinha: cuidado para não confundir o “batedor de carteira” com o
“trombadinha”, termo adotado para a situação em que o agente atira o seu corpo
contra o da vítima, para, valendo-se do empurrão e da distração por ele causado,
subtrair os seus bens. Nesta hipótese, o crime será o de roubo (CP, art. 157), e não o
de furto.
→ Vítima inconsciente: não se fala em destreza quando a vítima está adormecida,
embriagada ou, por outra razão, tem a sua capacidade de resistência reduzida. Isso
porque, nesta situação, o agente não precisa empregar destreza para a prática do
delito.

→ Tentativa: “(a destreza) Consiste na habilidade física ou manual do agente que lhe
permite o apoderamento do bem sem que a vítima perceba. É a chamada punga. Tal
ocorre com a subtração de objetos que se encontrem junto à vítima, por exemplo,
carteira, dinheiro no bolso ou na bolsa, colar etc., que são retirados sem que ela note.
Importa dizer que se a vítima perceber a subtração no momento em que ela se realiza,
considera-se o furto tentado na forma simples, pois não há que se falar no caso em
destreza do agente (p. Ex., a vítima sente a mão do agente em seu bolso). Se, contudo,
a vítima se dá conta da falta do objeto instantes após o bem-sucedido apoderamento
pelo agente e antes do afastamento deste do local da subtração, há tentativa de furto
qualificado, já que presente está a destreza do agente. Se terceiros notarem a
subtração, haverá ainda tentativa de furto qualificado, já que presente está a
habilidade do agente, na medida em que a própria vítima não se deu conta da retirada
do bem.” (Capez).

f) com emprego de chave falsa: a qualificadora é aplicada quando o agente


emprega instrumento, com ou sem forma de chave, para a abertura de mecanismo
de fechadura ou semelhante. A chave falsa pode ser uma cópia não autorizada da
original, uma chave modificada para se adequar à fechadura ou outro instrumento
construído ou modificado para tal fim (gazua, grampo, chave “mixa”, chave de fenda
etc.). O uso da chave verdadeira, obtida com ou sem autorização pelo agente, não
qualifica o crime pelo uso de chave falsa.
→ Chave “mixa”: a chave “mixa” é um instrumento utilizado por chaveiros para a
abertura de fechaduras em geral. Há quem sustente que o seu uso não qualifica o
crime de furto, pois não seria chave falsa. No entanto, o STJ entende de forma
diversa: “A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça tem admitido o uso da
chave 'mixa', para qualificar o crime de furto, pelo emprego de chave caracterizada
como falsa.” (AgRg no AREsp 304151/DF, Relatora Ministra Assusete Magalhães,
julgado em 13.9.2013).

→ Necessidade de apreensão da chave falsa: “Ainda que não apreendida a chave


falsa, havendo outros elementos probatórios capazes de comprovar o uso do artefato,
não há que se afastar a qualificadora, à luz da melhor interpretação do
art. 167 do Código de Processo Penal. No caso dos autos, ao contrário do que
afirmado na inicial, o laudo pericial afirma, categoricamente, que foi utilizada chave
falsa ou similar para adentrar no veículo, razão pela qual é despicienda a apreensão
do objeto no caso.” (STJ, HC 181036/SP, Relatora Ministra Laurita Vaz, julgado em
21.6.2012).
→ ”Ligação direta”: há duas posições: 1ª) há furto simples: RT, 522:424; RF,
257:305; 2ª) há furto qualificado: RT, 542:347; RF, 279:330. Prevalece o
entendimento de que não configura chave falsa.

g) mediante concurso de duas ou mais pessoas: o furto é crime unissubjetivo


ou de concurso eventual, que pode ser praticado por uma única pessoa. Contudo,
também é possível praticá-lo em concursos de pessoas, e, nesta hipótese, a conduta
deve ser punida com mais severidade. Não é necessário que todos os agentes sejam
imputáveis. Caso o furto seja praticado por um maior de idade em concurso com um
menor de idade, dois delitos serão imputados ao adulto: o de furto qualificado pelo
concurso de pessoas e o de corrupção de menores, do art. 244-B do ECA, que, frise-
se, é crime formal, não sendo necessária a prova de efetiva corrupção do menor.
→ Concurso de pessoas e associação criminosa: parte da doutrina sustenta que,
reconhecida a prática do delito de associação criminosa (CP, art. 288), não é possível
que os agentes respondam por furto qualificado mediante concurso de pessoas, sob
pena de bis in idem. Contudo, a reflexão não parece adequada, pois o furto e a
associação criminosa são delitos distintos, que tutelam bem jurídicos diversos, e a
pluralidade de agentes é averiguada em momentos diferentes. É o posicionamento
do STJ: “Quanto ao mais, a decisão deve ser mantida incólume porque proferida em
conformidade com a jurisprudência assentada nesta Casa Superior de Justiça, no
sentido da possibilidade de coexistência entre os crimes de quadrilha ou bando e o
de furto ou roubo qualificado pelo concurso de agentes, porquanto os bens jurídicos
tutelados são distintos e autônomos os delitos.” (AgRg no REsp 1404832/MS,
Relatora Ministra Laurita Vaz, julgado em 31.3.2014).
→ A desproporção entre o concurso de pessoas no furto e no roubo: não há como
negar que o roubo é delito mais grave do que o furto, pois há emprego de violência
ou grave ameaça. No entanto, no furto, o concurso de pessoas dobra a pena, enquanto
no roubo faz com que a pena seja aumentada de 1/3 (um terço) até metade. Em razão
disso, começou a se questionar se o furto em concurso de pessoas não deveria se
sujeitar, por questão de proporcionalidade, ao limite máximo imposto ao crime de
roubo. O STJ rechaçou a tese e “sumulou” o assunto: “É inadmissível aplicar, no furto
qualificado, pelo concurso de agentes, a majorante do roubo.” (Enunciado n. 442).
→ Presença no local do fato: “Há duas orientações: 1ª) só há a qualificadora quando,
no mínimo, duas pessoas executam o crime, pelo que se exige sua presença no local
do fato: RTJ, 95:1242; JTACrimSP, 84:262 e 60:55; RT, 518:366, 430:395 e 441:401;
2ª) basta que concorram para o fato, não se exigindo a presença material delas: RT,
447:361; RJTJSP, 22:502; Julgados, 57:235. Nossa posição: o Código Penal,
descrevendo a qualificadora, fala em “crime cometido mediante duas ou mais
pessoas”. Não diz 'subtração cometida'. Entre nós, comete crime quem, de qualquer
modo, concorre para a sua realização (art. 29, caput). De maneira que o partícipe ou
coautor também comete crime.” (Damásio).
→ Absolvição do coautor: “Absolvição do coautor. Importante mencionar que a
absolvição do coagente acarreta a desclassificação do furto do outro agente para a
forma simples. Tal não ocorrerá se restar incontroverso nos autos que houve a
presença de um segundo participante, o qual não se conseguiu identificar.” (Capez).

h) se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado


para outro Estado ou para o exterior: em razão do imenso número de veículos
furtados e enviados, principalmente, para países vizinhos ao Brasil, o legislador
incluiu, em 1996, o § 5º ao art. 155, que pune com mais rigor a conduta de enviar
para outros estados ou países veículos automotores. Das formas qualificadas, é que
possui pena mais alta, de 3 (três) a 8 (oito) anos de reclusão. Não foi incluída ao § 4º
por não ser forma de execução do crime de furto. Em verdade, esta qualificadora
trata de ato posterior à subtração, consistente no envio da coisa furtada para outro
país ou estado. Vejamos alguns pontos importantes:
→ Veículo automotor: “Abrange aeronaves, automóveis, caminhões, lanchas, jet-
skis, motocicletas etc. Código de Trânsito Brasileiro, Lei n. 9.503, de 23 de setembro
de 1997, Anexo I (DOU, 24 set. 1997, p. 21229) — conceito de 'veículo automotor':
'todo veículo a motor de propulsão que circule por seus próprios meios, e que serve
normalmente para o transporte viário de pessoas e coisas, ou para a tração viária de
veículos utilizados para o transporte de pessoas e coisas. O termo compreende os
veículos conectados a uma linha elétrica e que não circulam sobre trilhos (ônibus
elétrico)'. 'Art. 96: Os veículos classificam-se em: I — quanto à tração: a) automotor;
b) elétrico; c) de propulsão humana; d) de tração animal; e) reboque ou
semirreboque.' Veículo automotor é todo aquele que não se enquadra nas alíneas b a
e.” (Damásio).
→ Partes do veículo: o transporte de partes do veículo automotor para outro estado
ou país não qualifica o crime.

→ Efetiva transposição: para a incidência da qualificadora, é imprescindível que o


veículo efetivamente cruze a fronteira entre os estados ou entre o Brasil e o exterior.

→ Possibilidade de tentativa: a consumação da forma qualificada é independente do


furto simples. Se o agente subtrai um veículo, com o intuito de levá-lo ao exterior ou
outro estado, mas é preso antes disso, deverá responder por furto simples,
consumado, e não por tentativa de furto qualificado. Como já dito, só é possível a
incidência da qualificadora quando o veículo ultrapassa, de fato, a fronteira entre os
estados ou entre o Brasil e o exterior. Capez exemplifica a única hipótese em que será
possível a tentativa de furto qualificado do § 5º: “se o veículo subtraído estava
próximo da divisa do Estado, e o agente, ao ser perseguido, transpõe essa divisa, não
tendo sequer a posse tranquila da res — há tentativa de furto qualificado; este não se
consumou, mas houve a configuração da qualificadora”.
O furto qualificado tem pena de reclusão de 2 (dois) a 8 (oito) anos, sem prejuízo da
multa, exceto na última hipótese (§ 5º), em que a pena é de 3 (três) a 8 (oito) anos,
sem previsão de multa. As penas são inegavelmente graves. Para se ter uma ideia, a
pena é a mesma da concussão (CP, art. 316), um dos delitos funcionais mais graves
do CP. Em virtude das penas a ele aplicadas, a ação penal para o julgamento do furto
qualificado, em todas as suas formas, não é passível de suspensão condicional (Lei
9.099/99, art. 89).
É possível a cumulação de qualificadoras (ex.: com rompimento de obstáculo e
concurso de pessoas). Contudo, o juiz, ao fazer a dosimetria da pena, considerará
apenas uma delas para qualificar o crime, e as demais serão adotadas como
circunstâncias judiciais desfavoráveis, nos moldes do art. 59, “caput”, do CP. Caso o
concurso de qualificadoras ocorra entre as do § 4º e a do § 5º, cujas penas são
diversas, será adotada a do § 5º, com penas mais altas, para qualificar, e as demais,
do § 4º, servirão como circunstâncias judiciais.
Erro de tipo: no erro de tipo (CP, art. 20), o agente não quer cometer a conduta
tida como crime, mas, por falsa percepção da realidade, por erro sobre elemento
constitutivo do tipo, acaba praticando conduta típica. No furto, é fácil imaginar um
exemplo: enquanto conversam, João e seus amigos deixam os seus celulares no
centro da mesa. Na hora de ir embora, por equívoco, João leva o celular de um dos
amigos, imaginando ser o seu. Apesar de ter subtraído coisa alheia móvel, a sua
conduta é atípica, por erro de tipo – nem se discute a inescusabilidade, haja vista não
existir o furto culposo. Para saber mais sobre o erro de tipo, clique aqui.

Ação penal: crime de ação penal pública incondicionada, que não depende de
representação da vítima, exceto nas hipóteses previstas no art. 182 do CP: “Somente
se procede mediante representação, se o crime previsto neste título é cometido em
prejuízo: I - do cônjuge desquitado ou judicialmente separado; II - de irmão, legítimo
ou ilegítimo; III - de tio ou sobrinho, com quem o agente coabita.”. O art. 182 não
será, no entanto, aplicado nas seguintes situações (CP, art. 183): a) se houver
emprego de violência ou grave ameaça à pessoa (o que, em verdade, afastaria o crime
de furto); b) ao estranho que participa do crime; c) se o crime é praticado contra
pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.
Causas de isenção de pena: “Art. 181 - É isento de pena quem comete qualquer
dos crimes previstos neste título, em prejuízo: I - do cônjuge, na constância da
sociedade conjugal; II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo ou
ilegítimo, seja civil ou natural.”. O art. 181 não será aplicado nas seguintes situações
(CP, art. 183): a) se houver emprego de violência ou grave ameaça à pessoa (o que,
em verdade, afastaria o crime de furto); b) ao estranho que participa do crime; c) se
o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.
Suspensão condicional do processo: só é possível na forma simples, do “caput”,
em que a pena mínima não excede 1 (um) ano. Nas demais formas, não é viável a
suspensão condicional do processo, nos termos do art. 89 da Lei 9.099/95.