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Para que serve o professor?

(2007)
Umberto Eco

Na avalanche de artigos sobre bullying nas escolas, li a respeito de um episódio que não definiria
propriamente como bullying, mas no máximo como impertinência — trata-se, contudo, de uma
impertinência significativa. Vamos lá: para provocar o professor, um aluno teria perguntado:
“Desculpe, mas na época da internet, o que o senhor faz exatamente?” O aluno estava dizendo
uma meia verdade, que aliás até os professores dizem há pelo menos vinte anos, ou seja, que
antigamente a escola precisava certamente transmitir formação, mas sobretudo noções, das
tabelinhas no primeiro segmento do ensino fundamental às informações sobre a capital de
Madagascar, no segundo segmento, à data da Guerra dos Trinta Anos, no ensino médio. Com o
advento, nem digo da internet, mas da televisão e até do rádio (talvez já com o advento do
cinema), grande parte dessas noções eram absorvidas pelos jovens no decorrer da vida
extraescolar. Quando pequeno, meu pai não sabia que Hiroshima ficava no Japão, que
Guadalcanal existia, tinha notícias imprecisas sobre Dresden e da Índia só sabia o que Salgari
contava. Eu aprendi estas coisas desde os tempos da guerra com o rádio e com os mapas
publicados nos jornais, enquanto meus filhos puderam ver na televisão os fjords noruegueses, o
deserto de Gobi, o modo como as abelhas polinizam as flores ou como era um Tyrannosaurus
Rex e, enfim, um jovem de hoje sabe tudo sobre o ozônio, sobre os coalas, sobre o Iraque e sobre
o Afeganistão. Talvez este jovem não saiba dizer precisamente o que é uma célula-tronco, mas
pelo menos já ouviu falar, enquanto no meu tempo não eram mencionadas nem pela professora
de ciências naturais. E então, para que servem os professores? Ponderei no início que o aluno em
questão tinha dito apenas uma meia verdade, pois o professor, mais que informar, deve acima de
tudo formar. O que transforma uma aula numa boa aula não é ensinar datas e dados, mas
estabelecer um diálogo contínuo, um confronto de opiniões, uma discussão sobre as coisas que se
aprende na escola e aquelas que acontecem fora dela. É claro que as coisas que acontecem no
Iraque aparecem na TV, mas o motivo pelo qual certas coisas acontecem sempre lá, desde os
tempos da civilização mesopotâmica, e não na Groenlândia, é algo que só a escola pode dizer. E
se alguém argumentasse que muitas vezes essas explicações são dadas por pessoas até bastante
autorizadas no talk show Porta a porta, diria que a escola deve discutir o Porta a porta. Os mass
media [meios de comunicação de massa] dizem muita coisa e até transmitem valores, mas a escola
precisa discutir o modo como tudo é transmitido e avaliar o tom e a força das argumentações
apresentadas em papel impresso ou na TV. E há também a questão do controle da veracidade das
informações transmitidas pela mídia, por exemplo: quem senão um professor pode corrigir a
pronúncia equivocada daquele inglês que todos pensam que podem aprender na TV? Mas o aluno
não estava dizendo ao professor que não precisava dele porque o rádio e a televisão já informam
onde fica Timbuctu ou o que se discute sobre a fusão a frio, ou seja, não estava dizendo que sua
função tinha sido preenchida por informações por assim dizer soltas, que circulam de modo casual
e desordenado dia após dia nas várias mídias — e que o fato de sabermos muito sobre o Iraque e
pouco sobre a Síria depende da boa ou má vontade de Bush. O aluno estava dizendo que hoje
existe a internet, a Grande Mãe de todas as Enciclopédias, onde estão a Síria, a fusão a frio, a
Guerra dos Trinta Anos e a discussão infinita sobre o mais alto dos números ímpares. Ele estava
dizendo que as informações que a internet coloca à sua disposição são imensamente mais amplas
e muitas vezes mais profundas do que aquelas de que dispõe o professor. Mas esqueceu de um
ponto importante: a internet nos diz quase tudo, exceto como buscar, filtrar, selecionar, aceitar ou
rejeitar as informações. Todo mundo é capaz de armazenar novas informações, desde que tenha
boa memória. Mas decidir quais devem ser guardadas ou descartadas é uma arte sutil. E isso faz
a diferença entre quem fez um curso de estudos regulares (mesmo mal) e um autodidata (mesmo
genial). O problema mais dramático é que certamente o professor também não sabe como ensinar
a arte da seleção, pelo menos não sobre todos os capítulos do conhecível. Mas pelo menos ele
sabe que deveria saber e se não é capaz de dar instruções precisas sobre o modo de selecionar,
pode dar o exemplo de alguém que se esforça para comparar e julgar caso por caso tudo o que a
internet coloca à nossa disposição. E pode, enfim, pôr em prática cotidianamente um esforço para
sistematizar o que a internet lhe transmite em ordem alfabética, quando informa que Tamerlão e
as monocotiledôneas existem, mas não qual é a relação sistemática entre estas duas noções. Só a
escola pode dar sentido a estas relações, e se não for capaz, deve buscar os instrumentos
necessários para tanto. Do contrário, o trio Internet, Inglês e Empresa continuará a ser a primeira
parte de um relincho de asno que, como diz o ditado, não sobe aos céus.

Pape Satán Aleppe – Crônicas da sociedade líquida