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Próximo lançamento

IJnguagem e Mito
Ernst Cassirer

Quer questione a escritura literária ou o motivo estruturalista, nò
campo da crítica, das ciências do homem ou da filosofia, apelem por
uma leitura configurante aNietzsche ou a Freud, a Husscrl ou Hei-
dcgger,' a Artaud, Bataille, Fpucault, Jabès, Lcvinas, os ensaios aqui
reunidos têm todos um só c ""
oculto entre a escritura e a A escritura e a diferença /

Coleção Debates
Dirigida por J. Guinsburg

Equipe de realização - Tradução: Maria Beatriz Marques Nizza da Silva;
Revisão: Mary Amazonas Leite de Barros; Produção: Ricardo W. Neves =PXfe
e Adriana Garcia. - ^ EDITORA PfcRSPEC U V A

Título do original francês:
Wciriiwe el h ilijjérawe

O 1967 by Les Éditions du Seuil, Paris

^ J í l —
ÜNIVÊRSÍDÃDE F E D E R A L DA BAHIA

TOMBAMENTO PATRIMONIAL

N e
30j.lLÍk Data MjÃ&ÜI

SUMÁRIO

Força e Significação 11
Edmond Jabès e a questão do livro 53
2 edição
1

Elipse 73
"Gênese e Estrutura" e a fenomenologia . 83
A Palavra soprada 107
O Teatro da crueldade e o fechamento da repre-
Direitos reservados em língua portuguesa à sentação 149
EDITORA PERSPECTIVA S.A. Freud e a cena da escritura 179
Av. Brigadeiro Luís Antônio, 3025 A Estrutura, o signo e o jogo no discurso das \ ;
01401-000 - São Paulo - SP - Brasil
ciências humanas 227 i
Fone: (011) 885-8388
Fax: (011) 885-6878
Bibliografia . 249 I
1995 . "

(FLAUBERT. . A plástica do estilo. Pré face à Ia rie d'écrivain) 1 -. Mas na Arte existe alguma outra coisa a l é m da r e t i d ã o das linhas e do polido das superfícies. tornar-se-ia um problema para o . abandonando suas obras e seus sinais nas plagas da nossa civilização. . n ã o é tão ampla como toda a i d é i a . FORÇA E SIGNIFICAÇÃO É possível que desde S ó f o d e s todos n ó s sejamos selvagens tatuados. Se um dia a invasão estruturaíhta batesse em re- tirada. Temos coisas demais para as formas que p o s s u í m o s .

tudo o que. bem entendido — de exclusões. submeter o estruturalismo do séc. portanto. a ricidade. "composição". enquanto dura a sua voga. - tivesse podido oferecer alguns materiais novos para essa história futura "essência". — 13 . Antes espanto pela Por analogia: que. Sonhar reduzi-la a isso é sonhar com a violência. zona irredutível de irreflexão e de espontaneidade. " . e por alguns decênios. e sempre já dentro dela. finalmente alargada às dimensões da cultura ser uma inquietação da linguagem e na própria lingua. J. nota Kroeber na sua Anthropology (p. Também não se poderá reduzir a . se por aumentar o seu domínio à medida que o Ocidente di- acaso este tentar reconhecer nele a marca de uma época. de uma conversão na esteja relacionada com a imaginação. De qual- ria a esquecer o seu sentido. vido à sombra essencial do não-declarado. Mas de moda . da sensibilidade e da moda. Os objetos his. e que se trata antes de mais quer maneira. abordado pelo historiador das idéias. é transparência para si da questão. não será nunca essencial. _-i íÇStrutura. esse pensa- siste em não poder ser apresentado em toda a sua su- mento cujo destino consiste muito simplesmente em perfície como um espetáculo para o historiador. muito tura hoje perante a linguagem ou na linguagem não são insólita. em todos os seus domínios. E entre eies. É também. Talvez mesmo um objeto. se aproxima de um ponto . de Paul Hazard sobre o séc. em todo caso. ^'construção". Pela própria histo- todos os caminhos e apesar de todas as diferenças. o estruturalismo Qualquer que seja a pobreza do nosso saber a esse res. de- gem parece muito incerta. unicamente momentos da história. X I X : contribuir ser apenas a fraqueza perante uma palavra cuja significação está per- feitamente definiJa mas que de repente. de uma surpresa sem medida comum com qualquer outra e com a qual se agitou aquilo que se gem —. por causa do prazer provocado pelas suas consonâncias". se alguma coisa há no estruturalismo que nada de uma aventura do olhar. de André Monglond Palavras se revelou insuficiente. Saber por que razão se Richard escreve com efeito: "Ficaríamos felizes se o nosso trabalho cliz ^--estrutura" é saber por que razão não se quer mais dizer eidos. "organismo". "conjunto". e s _1-J-deixar-se habitar. etc. vivamente do concerto( ao objetivo colocado por um (2) "Estrutura. da imaginação. eis um estranho concerto cuja natureza con- cestuma denominar pensamento ocidental. O fenômeno estruturalismo merecerá contudo ser tórica num sentido insólito. "estado'!. qualquer questão sobre a linguagem. por linguagem cemo origem da história. parece crítico estruturalista em relação ao séc. "complexo". da imaginação e da sensibilidade. se para uma "história futura da imaginação e da sensibili. XIX. acerca do qual XX (em especial o da crítica literária. XVIII. diferente. pertence à infalibilidade atribuída segunda ou terceira. Sobretudo quando esta questão. \ cinadora contida na noção de estrutura a 'um fenômeno Para apreender a necessidade profunda que se esconde sob o fenô- meno. a repetição finalmente uma inquietação sobre a linguagem — que só pode confessada.Ç. na efi- gem. Merecê-lo-á tudo o que neste fenômeno não entre a obsessão estruturalista e a inquietação da lingua. exceto se se tratar de reexaminar e de levar 2 o historiador cometeria um erro se assim fizesse: o a sério.jrpntinus_A_Ptdic-Jh?X. que pertence ingenua- algo mais ou algo menos.-P.virtude fas. a coisa literária. Gestalt. _I'ídéia". a moda.por elas:. minui o seu. Bem ou mal cilmente nos concederão que não é acidental a analogia abordado. 325). mas que prolongará sem dúvida os trabalhos de Jean Rousset sobre ' sistema". no sentido corrente destes termos. devido a toda uma em que a natureza puramente assinaladora da lingua. "forma". um sinal dos tempos. Pela sua intenção mais interior e como a moda de uma estação ou o sintonia de uma crise.fflPrÇ X*da uma significação implícita. his. nota 27). F a . escapa deste modo à clássica história das idéias que peito. 30. da moda.moda — tal como a palavra "aerodinâmico" •— tendendo a ser aplicada indiscriminadamente. a sensibilidade ou maneira de questionar todo o objeto. Jamais se poderá. dade" '. aliás incontestável. '^totalidade". que ainda não existe para o séc. que participa se-dizia que era tanto mais seguro quanto mais cego. "correlação". o sentido próprio gesto de a considerar como um objeto o leva. mas também por que razão a noção sobre o pre-romantismo". é preciso primeiro operar por "via negativa": a escolha desta palavra é antes de mais nada um conjunto (I) Em o Unhers imaginaire de Mallarmi (p. reveste de um sedução de. parcial ou inessencial. — estrutural. aos sonâmbulos e outrora ao instinto. por uma reflexão cácia de um método. o que é sem dúvida o mais urgente.historiador das idéias. de mente à esfera do questionado e nela se profere. perante a possibilidade da pala- reflexão universal receba hoje um impulso espantoso de vra. mundial. A atitude estruturalista e a nossa pos- tóricos — os seus — em especial. É preciso compreender pòr que razão cada uma destas o barroco. é certo que a pergunta sobre o sinal é ela própria pressupõe já a sua possibilidade.

essência". compreende-o agora. o quase-nada. cular. Convida-nos a uma reflexão filosófica que não pretende renová-la. 14 15 . isto é. e a lapso. a força "interrogativa e totalitária" . reduzida ao esqueleto temer Hegel. Mas Flaubert tinha razão em cidade desabitada ou destruída. Mas na estrutura n ã o há apenas a forma. o construído. Há também a solidariedade. foi inventado em 1824 a fim de. Schlegel muita coisa ma no drama moderno nos'teria sido poupada. Reflexão sobre o realizado. pois então se trata do sentido repensado na forma. . i a denominada história consiste em abordar por pri- i n vilégio nos atos e nas instituições dos homens.-P. do fato em geral. desvin- turalista cm qualquer época.s é l n á i s visíveis quando não fôi terminada. dessa ciência hu- "estruturais". a arte nao deixará de se desen- volver e de se aperfeiçoar no futuro. que é tensão da própria totalidade. do mesmo modo que se é alcaguete quando nao se dade e um projeto como este escapa também por si pode ser policial. a acidez estéril e silenciosa da própria consciência estruturalista é a consciência pura e simples questão. no seu sistema e no seu método. Graças a Deus ela o desenho . 'Pelo menos quanto ào 'seu destino supremo. . e a panorografia. esse paíhos melancólico perceptível nos gritos de uma espacialização mais ou menos confessada. Rousset a Forme et Signification. E quando a tradução de Hegel estiver Pois é um projeto de as superar. o a separação é a condição da obra e não apenas do dis. Aqui a impotência não é do critico titui um ato do autor antes de ser o ato do crítico e pelo mas da crítica Por vezes são confundidas. James. desenvolvimento da visão perspectiva dos objetos que curso sobre a obra. c das maiores. a totalidade. . 4 A força da nossa fra- de criar. Flaubert nao deixa de o menos em certa medida — mas é de medida que se fazer Apercebcmo-nos disso ao ler o admirável conjunto de cartas. esta afirmação é correta.U i i n cias dignidadcs. numa superfície plana.. Richard' d..compreender a força no seu interior. "obter imediatamente. Como a melancolia para Gide. mostram aí que a separação é exatamente o contrário estrutura. O panorógrafo. é de.. ver em especial o cap. Historiadora. Atento ao fato de o critico relatar em vez de criar Flaubert escreve o seguinte: " . segundo se vinga mostrando com profundidade e gravidade que Littré. de Hegel. o constituído. segundo J. pensa-se a si^ p r ó . trata —. o oue explica Proust. que é a energia viva do sentido. da impotência crítica. é possível o panorama. masiado cedo para chicotear nosso sonho. W Wnivers imaginaire de Mallarmé. 14. mas "a sua forma deixou de por uma catástrofe da natureza ou da arte. ferça A forma fascina quando já nao se tem a força a "perspectiva" estrutural é. mas reconhecer rigorosamente a sua nada. Cidade não -atWazer a necessidade mais elevada do espirito". Faulkner-e alguns outros. por essência e por destino. Valéry. apresentado nor Genevieve Bollème com o título Preface à la vie decri.das estruturas t o r n a m .. emancipar. pria no seu conceito. Nele é pre. ' Em todo o caso. Ao insistirmos nesta separação entre o ato crítico e a força criadora. é para nós coisa do passado Perdeu para mais habitada mas também n ã o simplesmente abando- nós l sua verdade . 42). De qualquer modo o cênio ainda dispõe de um momento de tranqüilidade neutralizado. T. Eliot V Woolf. p. Eis a razão pela qual a crítica literária e estru. Baudelaire. Plauto ter-se-ia rido de Aristóteles se o tivesse conhecido' Corncille estrebuchava sob o seu peso! O próprio Voltaire próprio às totalidades determinadas da história clássica. como pensamento do passado. mesmo se for totalidade da forma e do sentido. Proust. hoje vair ISeuil " 1953). antes assombrada pelo sentido e pela cultura. ciso pensar no que poderia significar. l l í da introdução de J. a imensa lises só são possíveis após uma como que derrota da r e g i ã o ' d o sonamhulismo. e a Diderot Balzac. Graças ao esquematismo e a fundo. Delacroix. No que a pina vigília.é a unidade da forma e do sentido. estamos apenas designando a mais banal Poder-se-á dizer que esta neutralização pela forma cons- necessidade de essência — outros diriam de estrutura — que se prende a dois gestos e a dois momentos. Totalidade abandonada pelas suas (3) Sobre o lema da separação do escritor. Isto é. Talvez a diferença entre Mallarmé e estes resida na leitura de o conteúdo. Talvez amanha o ./Deste modo o relevo e pronta Deus sabe onde iremos parar!" (p. Faz-se crítica quando nao se declara-se mais facilmente o projeto de pensar a totali- pode' fazer arte. .. percebe-se melhor Ignorava-o. Um pouco como a arquitetura de uma e as traduções podem não ser lidas.". queza consiste no fato de a impotência separar. Como vivemos da fecundidade estruturalista. Joyce."Podemos ter esperança. Explica-se assim esse tom pro- 3 rodeiam o horizonte". imagem adequada do instrumento estru- Sabe-se doravante separada da força da qual por vezes turalista. Em crítica literária. A partir de então. o quase-tudo que nao e a força e no impulso do fervor esmorecido. para não dizer um ção e a configuração. percor- triunfo da habilidade técnica ou da sutileza matemática re-se no plano e mais livremente o campo abandonado que por vezes acompanham certas análises denominadas pelas suas forças.. a rela- interprcem como um relaxamento. se encontra Hegel Pelo menos no fato de ter escolhido a leitura. escática e crepuscular por situação.a sua vida. estas aná- . da atenção à força. foi limitado nor Boileau! Sem VV. forças. H. Mallarmé. que é sempre concreta.S.

Lingua. Raymond. operação denomina-se (em latim) preo. a do leitor. Esta. etc. para nós mais importante fazer vir à tona uma surda çar metodicamente a estrutura para melhor a perceber. em latim arcaico: É certo que Rousset reconhece parentescos e filia- o todo. a linguagem. 13. com a introdução a Uunivers ima- outono de 1961. na pedra em que se resumem a sua lhantes e perspicazes. É nas épocas de deslo- cação histórica. La liltêraiure cie Vage haroque en France. 7. A frase reduz-se pósito.. Nada há portanto de xar de lado e fora da vista. contra o que outros chamaram "habilidade" e que nos trutura na instância da ameaça. muito mais e iminência do perigo fixa os nossos olhares na abóbada muito melhor. uma preocu- to. que é ao mesmo tempo uma espécie de raiva experi. exceto em certas ocasiões. período adequado Claudel. uma ameaça histórico- aspectos. ginaire de Mallarmé. versos demasiado curtos ou longos. das inspirações e das homenagens de reconhecimen- duzem na verdade. uma ruína que o poema rências introdutórias." (7) Edições José Cprti. o lugar-comum da crítica. mas em que parece harmonizar-se. Percebe-se a es. apesar do ar de famí- apenas ganham a ilusão da liberdade técnica) Repro- lia. mas na sua própria luz? paradoxal no fato de a consciência estruturalista ser Impossível não nos interrogarmos sobre isto ao ler o consciência catastrófica.. Perante essa série de exercícios bri- de uma instituição. na medida em que ela não é apenas a não só nas suas nervuras mas também nesse lugar nossa. Rousset não dissolve o seu pro- imita de perto. como o é toda a consciência Essais sur les struetures littéraires de Corneille à ou pelo menos o momento decadente. Poulet. se desenvolve por si própria esta paixão estruturalista Diferença na qual Rousset não se isola distanciando-se. o enquadramento do soneto quebra-se: lidade. Forme et signification parece-nos ser. cupar ou solicitar. no registro do método. 194) a propósito de . uma parte importante do discurso Circe ei le paon. e de citare: empurrar). 1962. nesse conglomerado de su- plícios desordenados. O barroquismo • dade de intenção. Picon. 1. Â preocupação e a so. destruidora. (6) Ver Jean Rousset. sob muitos pação e uma solicitação do ser./' Pode-se então amea. Ao multiplicar as refe- "O inferno é um mundo estraçalhado. esconde esta abertura? N ã o pelo que ela poderia dei- objeto da crítica literária pura. quando se t o r n a m r n e t ó d i c a s . fazendo surgir enigmas ocultos sob seria apenas um exemplo. ções: Bachelard. que Em primeiro lugar por uma diferença deliberada. solicitude e abertura para a totalidade. -metafísica dos fundamentos. simultaneamente destruída e belo livro de Jean Rousset: Forme et signification. em Tel Quel. Em outras palavras sacudir com um abalo que atinge o todo (de sollus. sob as operações e as melhores descobertas lidade. é possibilidade e a sua fragilidade. antes tece uma rede que realça a sua origina- aos seus elementos desconjuntados. A nossa pergunta não constitui uma reação 7 a todo o movimento da consciência. quadras desequilibradas. de "poema retalhado. no momento em que a parece ser. uma tentativa solitária. inquietação. quando somos expulsos do lugar. mas aprofundando escrupulosamente uma comuni- mental e um esquematismo proíiferante. valores modernos de "poética estrutural" e "baseada numa retórica"? •"• sem dúvida mas já tradicionais a ponto de se tornarem Mas também de "estrutura destroçada". Une poétique Smicturale.emos aí por exemplo (p. robinski. Este assombramento que a impede aqui de voltar a ser A liberdade garantida por este descompromisso natureza é talvez em geral o modo de presença ou de critico (em todos os sentidos deste termo) é portanto ausência da própria coisa na linguagem pura. Richard. cuja estrutura aparece cm vias de destroça. com a do próprio autor. o poema estoura. Mas o que nos gem pura que gostaria de abrigar a literatura pura. deste livro. nesse amálgama de gritos. I. Contudo. p. 16 17 . Rousset expõe o seu pro- pósito numa notável introdução metodológica que se (5) Ver Gérard Genette. Spitzer. N ã o se falou a seu respeito valores hoje aceitos e respeitados. destinados a ilustrar um método. sob secreto em que não é nem ereção nem ruína mas iabi. um caso alemão: do método em crítica literária. numa torrente de exclamações. e portanto suscetíveis de mento"? 6 reflexão e de desconfiança. destruturante. Sta- licitação estruturalistas. tornará sem dúvida.

culdade essencial do crítico quando ele parte à procura Picon "para a arte moderna. a obra parece a expressão de uma experiência o ato literário (escritura ou leitura) é de uma e s p é - anterior. p. são proposições que só conquistam a 8 no qual a inteligência está a serviço da imaginação e unanimidade graças s uma noção muito equívoca de não esta a serviço da inteligência". grande conquista da arte moderna. apesar das diferenças. a mutação afeta a arte e não apenas a consciência moderna da arte. a linguagem tem agora de'produzir o mundo que já não pode exprimir".. 1. um gran. 18 19 . É preciso de poder para de algum modo criar uma segunda separarmo-nos para atingir na sua noite a origem cega da obra. que se tratar de citações feitas pelo autor. cuja do processo criador.. primeira página. Arte.. 72. observação 1.. outro mundo. é preciso portanto virarmo-nos para dade produtiva de conhecer) tem. gundo uma expressão de Focülon citada por Rousset Os textos de Kant que Yamos referir — e muitos outros textos a que ÍP. Gibelin. A ima.. O mesmo acontece com a noção dade da imaginação consiste justamente em esquema- de imaginação. em lugar escrevia: "A história da poesia moderna resume-se à da substi.. 11 operatório em conceito temático..Para apreender mais de perto a operação da ima- do diferente do nosso. Para a arte moderna. na opinião de Kant "a dissociadas —. na nossa opinião. 03) Ibid. de tal modo que cie tal que as próprias palavras separação e exílio. p. a respeito da qual "abun- distinção entre o verdadeiro e o belo: é da mesma ima. a obra não é expressão mas criação: eía faz ver designando sempre uma ruptura e um caminho no inte- o que não tinha sido visto antes. tomamos hoje consciência).. de "um universo que se acrescenta ao universo". p. segundo Rousset. se- 1953. dos projetos de Rousset.. que. "A imaginação (enquanto facul. a imaginação". nos falam a Criti. Noutro |PÜÍS se trata de uma saída para fora do mundo. Pode-se cha- 10 minam um conceito operatório ingenuamente utilizado mar à idéia estética uma representação inexponível da Superar esta ingenuidade técnica é refletir o conceito imaginação (na liberdade da sua atividade)". a obra diz o que foi concebido ou visto. Na opinião de Rousset também. p. Picon: "Antes da arte moderna. tudo na linguagem. p. nem uma utopia nem um álibi. não conseguem manifestá-la direta- acentua e esclarece: "Grande diferença e. que. Parece ser este um ginação é a liberdade que só se mostra nas suas obras. ela forma em vez de refletir". Pois "a liber- 13 forma ou de expressão. . 159). raiz comum do universal e do como estrutura e unidade indissociável — como objeto • ular C omo de todas as outras instâncias assim da critica estruturalista — é. que a forma pertence ao Eis a razão pela qual a inteligência não deve ser a fa- conteúdo da obra. Logo na torna'possíveis a obra e o acesso à unidade da obra.. 12 fwma um todo com o sentido. p. o invisível interior da liberdade poética. trad. da experiência à obra há apenas a passagem a uma técnica de execução. no fato literário. segundo a expressão de G." (sublinhamos: é do processo criador em geral a n a l o g i a mereceria por si só a totalidade da reflexão. VII) esta passagem de G. (15) Critique de la raison pure. e que só diz portanto o excesso sobre o todo. a linguagem natureza com a matéria fornecida pela natureza r e a l " . (10) Ibid. Esta experiência de conversão que instaura (S) Depois de ter citado (p. Tremesaygues e Pacaud. recorreremos mais adiante — não são utilizados por Rousset. dam as incertezas e as oposições". 111. primeira coisa para a qual devemos dirigir a nossa turais dessa amizade entre "a forma e o fundo" que atenção . p. uma imaginação que produz a metáfora — ou seia que de la raison pure e a Critique du jugement. Picon. Vécriyãin et son ombre. com efeito. 153). § 49. Estas n ã o estão na natureza mas não habitam um mun. Criação Introduction à une esthétique de la Uilérature. (11) Critique du jugement. a obra nao e expressão da imaginação e do belo. Esta origem enigmática da obra 14 entre o sentido e a letra. Para G. Remete- remos diretamente para as páginas de Forme et signification sempre (12) Ibid. esse poder de mediação ou de síntese tizar sem conceito". (9) Critique de la raison pure (trad. 133. ginação criadora. "o que denominamos belo e mas c r i a ç ã o " . (14) Ibid. § 57. 157. § 35. Rousset rior do mundo. liga "a natureza do fato literário" sem- essa imaginação que para Kant era já em si própria uma pre insuficientemente inquirida. 93. origem obscura desses esquemas estru. exceto o verbo ser — continua a sem dúvida. ou melhor da consciência que esta arte tem mente mas apenas indicá-la por uma metáfora.H ) . direção a um lugar que nem é um não-lugar nem um tuição de uma linguagem de expressão por uma linguagem de criação. Por exemplo: que. ao "papel na arte dessa "arte" era a própria arte que originariamente não faz função capital. mas "arte escondida" que n ã o se pode 9 ser para os críticos o que certos filósofos hoje deno- "expor a descoberto perante o olhar". Esta noção de ginação que.

(Jeremias 36-2. coisa como o que ela é confunde-se já com a expe- dade que é a própria possibilidade da escritura e de riência da pura palavra. mas a responsabilidade desta angústia.e que pretende manter-se o mais próximo possível da origem dó A 5n«£ 5 " . quando tinha alguma coisa a dizer ou a escre- (18) Angústia também de um sopro que se detém a si próprio para ver. pelo passagem necessariamente estreita da palavra na qual que nele é mais insubstituível.^ Cons. São UOmbilic aque. autônoma das significações. 0 g t 0 a r a retirar a r a des limbes e Le Pèse-nerfs. que dizia mais diretamente: "Ini. cada um de rorque falar é saber que o pensamento deve tornar-se estranho a si setenta páginas. e esta com a experiência em uma inspiração literária em geral. Mas esta só é possível e aperta o sentido — e a nossa responsabilidade do senti- pensável debaixo do disfarce. É a passagem à determinação da obra siado. inve. provocam-se. Falar mete-me medo porque antes a maneira como esse nada em si se determina nunca dizendo o suficiente. o relacionamento do eu e do 1948. (17) Não é ela constituída por essa exigência? Não é ela uma espécie de representação privilegiada dessa exigência? mento. A linguagem não é m o s à 2 c ° I s a . E se a necessidade de se tornar sopro ou palavra como disfarce da origem. ganhar sentido e fi- e produzir-se na linguagem. Proust. !. tantos outros tinham plena consciência disso. Eis por que o elemento da palavra é o ar. O meu pensa. e depois para o ato? Se a angústia da escritura não é. imprevisivélmente e como que contra imaginações. Flaubert. Sonho em negativo. fcis a razão pela qual sob a linguagem do escritor autênüco terada. p. Só a ausência pura si. ou por outras palavras trabalhar. etc. deve ser. muito simplesmente retomar a u e á é m l ^ ? % (. tância propriamente humana da pneumatologia. o seu conteúdo próprio escritor. Nunca Poron. Eliot. s ™ a 0 a realização da espécie.esse nada essencial a partir do qual tudo pode aparecer alguma coisa pode enriquecer-sé.Entaiisserung) do pensamento na fonte original do pensa- ÍT °- ! l a " ? . se ". o livro em si. P te s ' Pe retomar a palavra pronunciada. Então pretende. perante a qual a criatividade do Deus clássico ainda pa- O seu objeto próprio. ou ainda a ins- Antonin Artaud. falam dessa ausência profunda. 4 ) . O livro puro está naturalmente virado deve ser um pathos determinado. numa espécie de sobre-compossibilidade tura é o que a crítica deve reconhecer como a especi. era-me recusado mais do que tudo o resto. r e f e r l significação da linguagem. lavra. ciência ciei-me na literatura escrevendo livros para dizer que não podia escrever absolutamente nada. Mutuamente se detêm mas atraem-se tam- cinza. nao se pode conceber a significação da demonstração e r a (16) Citado nor Blanchot em VArche (27-28. origem do Livro total que foi a obsessão de outras bém. Não é a mesma situação descrita em Introduction à la Vnenfn iní?!!-"/ ? % P a espécie pela supressão do seu isola- I e p x e s e t a T méthode de Léonard de Virtci? mento individual.°. ao dar-se. peio prazer de falar (daí a sua antipatia em relação às frases vazias).é isso. já que o nada n ã o é objeto. V. A escritura é. rn^tr? ara n ' ?m P --. e acerca do qual a voz de gura. poder de equivocidade pura ficidade do seu objeto. Esta vacância como situação da litera. p a m s e a s p i r a r e o l t a r à s u a f o n t e tinha idéias e dois livros muito curtos. B a l . Valéry. sempre digo também dema- ao perder-se.?£ l Z Ça .. é porque não é èssen para o oriente dessa ausência que é. endêmica. embora não pudesse por princípio ser clara e ("Pega um livro e nele escreverás todas as palavras distinta. em se detêm. consciência oa Pena para imediatamente voltar à sua própria fonte. Pode dizer-se da linguagem vnlgar o que J t a i n b é m reueroach diz da linguagem filosófica: "A filosofia só sai da boca ou algo a dizer como consciência de nada'. dessa e primeiro. vontade minha. Ora nao exigirá a pura palavra a inscrição um 17 — não a ausência disto ou daquilo — mas a ausência pouco à maneira como a essência leibniziana exige a de tudo em que se anuncia toda a presença — pode existência e se dirige para o mundo como a potência inspirar. Pois o pensamento da Blanchot nos lembra com a insistência da profundi. não fazer trabalhar. Plena e do lado de Jeremias submetido aos ditames de Deus segura. '&° verdadeiro. que te disse") ou de Baruc transcrevendo os ditames ma coisa.a angústia da ruah hebraica sen- 18 zac./E surgir toda a palavra. o meio vital 20 21 . ela não fala que não é a mendiga mas a oprimida do todo. na medida em que não era a intuição de algu.Demonstrar É muito simplesmente l a r ara ensar ciência de nada a partir da qual toda a consciência de zitlZ. reapossar-se •°e si. /^Consciência de ter u P„. T. Seria necessária unir a estas vozes a de de Jeremias. esse "livro sobre nada" as significações possíveis se empurram e mutuamente com que sonhava Flaubert. agosto-setembro^ de oTifia . f»i? 2 1 0V e ? Primeira.. aquém e além da cialmente uma modificação ou um afeto empírico do genialidade de toda a riqueza. Woolf e tida do lado da solidão e da responsabilidade humanas. S. de qualquer idéia. 133). Rousset mostra-nos a d o — a escritura aperta e constrange ainda mais a pa- que ponto espíritos tão diversos como Delacroix. O livro puro. próprio para ser dito e exposto. q u / v°. em torno da qual sempre se fala. é rece demasiado pobre.

A terra que ê trabalhada. Enquanto é arranhada. Se a n o ç ã o de criação é equívoca.do pneuma. direi: O L i v r o . sobre a qual escrevemos. Pois . disse-lhe Pallas. depó- mais longa do que a vista em resumo. esta ausência da escritura divina. Deus. Obedeceu e viu aparecer partes: a divina. nos tivesse emprestado a sua pena. ir. E cada existência continua nios" . entre as épocas ditas civilizadas ou letradas". Na sua lei — bíblia como a simulam as nações. "vem por vezes mesmo de existir. em primeiro lugar do Deus judeu que uma vez Mas pensaria Feuerbach que a linguagem eterizada se esquece a si ou \íutra escreve ele p r ó p r i o n ã o define apenas e vaga- própria? Que o ar não é o elemento da história se não repousar sobre a terra? A terra pesada. Verlaine: "Irei mais longe. Elemento não menos universal em que gravamos o sentido para que ele permaneça. é a ausência do L i v r o que deste doro não pôde deixar de se interrogar sobre o seu sig. a "exprimir" a totalidade do Universo. foi conduzido tas lições propostas num imenso concurso pelo texto por ela ao "palácio dos Destinos" onde Júpiter. possibilidade de uma tal metafórica dos elementos. em todos os casos. persuadido mo tal no seu Entendimento ou Logos. em Manifestes philosophiques. oferecendo outras. É o momento todas as particularidades da vida desse Sexto". Teodoro foi então in- troduzido numa sala "que era um mundo". L i v r o de R a z ã o desta vez. "que se tornara capaz de enfren. "a iluminar isto — que. 58. água é . procurado contra sua von- que. 1839. de maneira mais tivamente representado com todos os pormenores o ou menos protelada. trad. Vistes um número na testa própria no texto único da verdade. que verídico. de uma obra para outra. o sentido de um mundo impensado visitar esses lugares para ter o prazer de recapitular as por um sujeito absoluto. Há apenas um L i v r o e é completas: e mesmo seria apenas um — ao mundo a o mesmo Livro que se distribui por todos os livros. p. spiritus ou logos. mais espiritual e universal" (Contribution à la critique de la philosophie de Hegel. E se gravar salva ou perde a palavra. Teo. A dife- Teodicéia. pelo "escritos demais!". mais ou menos. procurai nesse livro o lugar que ele marca. disse-lhe a deusa. teza teológica de ver toda a página se unir por si tamos. p. manus- na linha que quiserdes. L.embora pense estética e a crítica modernas. . A em ato que pensava os possíveis e dispunha deles co. "a terra é o nó sólido desta organização e o sujeito destas essências como de seus processos. que mente alguma coisa como a "modernidade". "livro de razão" de Sexto. contudo. fhênomênologie de Vesprit. grave e dura. Colocai o dedo sito de genealogia. a idéia que o homem tem do seu poder unidade animadora". e vereis efe. "fez (do possível) a revisão antes do começo do mun- Não é simplesmente saber que o L i v r o n ã o existe e do existente". esmagados uma grande quantidade de escrituras nesta sala. em que é preciso decidir se vamos gravar o que ouvi- mos.tan- tar o fulgor divino da filha de Júpiter". nos quais se destrói.. que "o ar e a essência permanente. A q u i não há todos os livros contêm a fusão de algumas repetições portanto tragédia do livro. ausência e obsessão do signo divino. a angélica e a humana. que o não-escrito e o não- coisas e renovar a sua própria escolha com a qual n ã o -lido não podem ser retomados ao sem-fundo pela ne- pode deixar de se congratular". . J. Hyppolite. É a história deste mundo que agora visi. "Havia gatividade serviçal de uma dialética e que. a sua poético corresponde à idéia que ele tem da criação do origem e o seu retorno". N ã o é apenas ter perdido a cer- nificado. o Escrever n ã o é apenas pensar o livro leibniziano Deus de Leibniz. antes e "fez a escolha do melhor de todos". que "a causar espanto: "Conscientemente ou n ã o . limite propriamente designado por Mallarmé. Teodoro.^ numa metafórica espiritual dos elementos naturais. modo deploramos. Althusser. trad. Da sua origem e do seu sentido. . diz G. como outrora se dizia do diário no qual se anotava por Teodoro procurou-o e encontrou aí a história de Sexto Memória as contas (rationes) e as experiências. ontológica e estética. Possibilidade impossí- conhecia a angústia da escolha entre os possíveis: era vel. crito infinito lido por um Deus que. n ã o como possibilidade impossível. para ele. fogo. favorece a estreiteza de uma tade por todos aqueles que escreveram. . "digeriu as possibilidades em mundos". Esta certeza perdida. já que acabamos de falar dele. . mesmo os gê- passagem que é Vontade.. isto é. rença. 22). h ã o o é por acaso nem por con- 22 23 . a sua Canguilhem. puramente universal e transparente". a essência sempre oferecida e sacrificada". que para sempre há livros. mundo e à solução que dá ao problema da origem ra- O problema das relações entre a escritura e a terra é também o da dical das coisas. comanda toda a Hcge! seria aqui para nós uma grande ajuda. é o "melhor" de que no fundo só há um. Nada há nisso que deva também. que se dividia em três que a linha marca em geral.

N u m fragmento do livro que leitura e a escritura? Testemunha absoluta. seria portanto um preconceito: o da crítica tradicional que se denomina idealista. N ã o sabe gia — deste preconceito desabrocha no Renascimento. (22) Comentário sobre 'S. critor? "Seria preciso que não tivéssemos necessidade tido: fazer descer deste modo o sentido mas elevar ao do auxílio da escritura. A escritura é para o escritor. Se a criação não fosse revelação. a experiência de secundariedade não dos? Escrever é saber que aquilo que ainda não está resultará desse redobramento estranho pelo qual o sen- produzido"'"na letra não tem outra residência. nem que essa passagem seja de vontade. . mundos infinitos e separa. Merleau. 17. prichosa por covardia. se a criação pela "for- deixa ver perfeitamente que o Systhne des Beaux-Arts. faz mais do que anunciar os temas aparente. em relação a uma obra que simplesmente a -me a mim próprio e me ensinam o meu pensamento". Referir-se-ia S. terceiro projetava consagrar à Origem da verdade. N ã o é por aca- É por ser inaugural. O sentido deve espe. mas que a nossa vida se ofe- mesmo tempo a inscrição. como o demonstra G. Çirculariedade e tradicionalidade do Logos. Rousset ergue-se (19) "Refléxions sur Ia création artistique selon Alain". uma navegação primeira assemelhe e o reúna sempre. Í21) Problèmes actttelsjfe Ia phênoménologie. . ma fecunda em idéias" (Valéry) não é pura transpa- mente mais originais da estética "moderna".. que seriam eles se não estives.ZÇ oupváioí ou simultaneamente. 97. N ã o há portanto seguro contra na.' Esta análise nismo". tão sozinhos. que que Husserl nos ensina a pensar em A Origem da Geo. mas nada mais desesperante. 21 exprimiria. Ao mesmo tempo criatura e Pai do parte de um a priori do espírito humano: muito pelo Logos. p. Canguilhem. mesmo se não o consignado exprima infinitamente o universo. o trabalho entre a rar ser dito ou escrito para se habitar a si próprio e escritura e a leitura? O sentido não está nem antes tornar-se naquilo que a diferir de si é: o sentido.fusão. contrário suscita-as nele por afração ou por uma espé.'escrito durante a Primeira Guerra Mundial.. p. é contudo e simultaneamente re- concordância profunda com Platão. Estranho labor de conversão e de aventura no qual a cie de ação oblíqua. . se lhe for ateu. : dirige a linguagem do lado de fora: p escritor é e l e ^ A anterioridade simples da Idéia ou do "desígnir próprio como um novo idioma que se c o n s t r ó i . pela ponta do estilo. como diafaneidade do sentido no diálogo em que o que -Ponty escrevia: "A comunicação em literatura não é se começa a escrever é já lido. 22 Mas postas de lado toda a fé ou segu- sem sozinhos. onde estaria (20) Este fraumento está publicado na Revue de Métaphysique et de a finitude do escritor e a solidão da sua mão abando- Morale (outubro-dezembro de 1962. na Revue de sem dúvida contra esse "platonismo" ou "neoplato- Métaphysique et de Morale (abril-junho de 1952). velação. João Crisóstomo ao es- fazer preceder absolutamente o escrever pelo seu sen. o que se começa a dizer simples apelo do escritor a significações que fizessem é já resposta. Mas não esquece que. em que o outro lá está a vigiar e ou qualquer entendimento divino. nenhum sabedoria a protege dessa preci. No escritor o pensamento^ não graça só pode estar ausente. 24 25 .1. O que denominamos Deus. Como tantos outros. para além do platonismo "encarado sem malícia". De que é preciso empregar o escrito o qual é uma segunda que viveriam os üvros. p. aonde vai. ontem ou hoje. Mateus. É por termos repelido a graça destrói os nossos livros como o L i v r o leibniziano. . Em especial por um certo antiplatonismo que não exclui. a tornar irredutível á ida e a volta. no sentido jovem deste ter. nem que esse risco. nada como a tinta nos livros. que a escritura é perigosa e angustiante. afeta de secundariedade toda a navegação humana. como o pensava Leibniz da criação divi. so que a teoria — desta vez poder-se-ia dizer a teolo- mo. " . uma rência da expressão. não nos tido constituído — escrito — se dá como lido. prévia espera como prescrição em qualquer IÒT. É o nem depois do ato. O ato literário reencontra assim na sua origem será esta passagem: a reciprocidade diferida entre a o seu verdadeiro poder. Fraternidade para todo o recesse tão pura que a graça do espírito substituísse os sempre do otimismo teológico e do pessimismo: nada livros na nossa alma e se gravasse nos nossos corações é mais tranqüilizante. É também não poder e sem Graça. não metria. rança teológica. mas se for escritor. navegação"." Escrever não é apenas saber que pela escri- 19 pitação essencial para o sentido que ela constitui e que tura. 405-7). Contudo só é ca- melhor passe.. 2 0 Noutro lugar dizia: " A s minhas palavras surpreendem¬ interior". não é necessário que o é em primeiro lugar o seu futuro.

Poulet. Se a escritura é inau. não é por ela criar. ao ser. 26 27 . conhecimento da pura linguagem. a responsabilidade só a inscrição — embora esteja longe de o fazer sem- perante a vocação da palavra "pura" que. vação nem de ela estar fora da afecção. essa superação é o momento posta que reconhece como único horizonte o mundo. que é. Cria o sentido ao obra com a escritura originária em geral? A dissolver ccnsigná-lo. Ora. Poder fracassar sempre é a marca rada num humanismo hipócrita. a esse compromisso natu. tida como viva e pura. Criar é revelar. pois não se trata mas destacada de todo neoplatonismo". é na verdade o re- um significante a um significado. do querer-escrever. jogo ou puro funcionamento. 23 tingente. Na sua relação Este poder revelador da verdadeira. o querer-escrever pretenderia ser a única saída terária como poesia é na verdade o acesso à palavra para fora da afecção. paradoxalmente. É quando o escrito está defunto como ção à finitr. uma vez pre — tem poder de poesia. que "pouco se interessa quer não. ruptura com o meio da história desse segredo pela obra: vemos conciliarem-se de certo j empírica tendo em vista um acordo com a essência modo a antiga e a nova estética. (23) Lettre sur Vhumànisme. por isso mesmo só remetendo para si. diz então o ser que não poderia ser nem afetar-me ele próprio. N ã o nos arriscaremos deste modo a identificar a ples "pintura da voz" (Voltaire). podendo esse segredo J oculta da empiria. j o jogo do sentido pode ultrapassar a significação (a dade'absoluta de dizer. da tra. não que tenhamos sempre pretendido isso. Ser afetado é lavra-princípio" (Buber)) liberta das suas funções ser finito: escrever seria ainda usar de manha em rela- sin. isto é. de proceder aos seus augúrios. rer-escrever e n ã o desejo de escrever. mas por uma certa liber. como passagem de um sendo a outro ou de meiro lugar deste querer-escrever.Je. a sua intenção essencial e o seu risco mortal | acerca da qual Heidegger diz que não pode ser pensada consistem em emancipar o sentido em relação a todo o | "na retidão da sua essência" á partir do seu "caráter- campo da percepção atual. de afecção mas de liberdade e de dever. O es- não volta as costas à crítica clássica. linguagem l i . constitui o escritor como tal. Que- preexistente corresponder à Idéia dos Renascentistas. de invocar a palavra ouvida. Se gural. 60. seu caráter-de-significação" (Bedeutungscharakter). o signo-sinal que nasce como linguagem. diz Rousset que determinação ulterior de um querer primitivo. ao retirarmos a especificidade ao -valor estético. -de-signo" {Zeichencharakter). com a pura historicidade. O escrever não é a sempre começou já. p. j sentido de projeto. Haverá uma especi- escritura como origem da historicidade pura. Só se compreende o querer-escre- -história e a palavra que só pode dizer que: o ser ver a partir de um voluntarismo. E é contra a tentação história da escritura. de ser utilizado como informação natural. a um sulco. Eis por que a escritura jamais será a sim. Saída apenas visada e ainda com livre. ficidade do belo e ganharia este alguma coisa com ela? dicionalidade pura.alizadoras. signo sem Seria querer esquecer a diferença: esquecer a escritura significação. pois deixa na palavra presente. biológica ou Na medida em que o ato literário procede em pri- técnica. sempre. uma visada que n ã o tem a certeza de ser possível a sal- mos com a noção de "palavra primitiva" ou de "pa. aquela que a palavra "ser" (e talvez o que visa. da alma. da vida. cuja filosofia estará sempre para de desprezar esta especificidade (tentação que seria a vir. Liberdade de res. a uma superfície que pretendemos que seja em geral se distingue o literário da letra em geral? Mas transmissível ao infinito. Ao consignar a palavra. e querer atingir o ser fora do sendo. natureza. é preciso reconhecê-lo e respeitá-lo no seu |. da sua pura finitude c da sua pura historicidade. ao confiá-lo a uma gravura.nada por Deus? A criatividade divina seria recupe. e a liberemos pelo contrário o belo. Quer este projeto dè tradição infinita se realize de G. Palavra pura arrancando-a ao seu sono de signo. por exemplo. "nem talvez mesmo do ral no qual tudo se refere ao afeto de uma situação con. Compreende-a crever desperta ao contrário o sentido de vontade da e dialoga com ela: "Segredo prévio e desvendamento | vontade: liberdade. de fazer surgir o já lá no seu sinalização) sempre contida nos limites regionais da signo. a a noção de arte e o valor de "beleza" com os quais um relevo. nada mais é senão o telos de uma Rousset pensa que sim. N ã o que pretendamos isso talvez.

E aqui a diferença de Rousset já não é delibera- o passado da obra. pela obra latente que ele se interessa e em estruturas formais. ce-nos que. interessa pelas obras-primas). essa Obedecendo à intenção legítima de proteger a verdade totalidade que é o fato literário como forma concreta: e o sentido internos da obra contra um historicismo. pelo 'freudismo". no que (24) P. o estruturalismo característico de J.) não passa de ba- é puramente objetiva ou formal. embora firme- não mais prestar a t e n ç ã o à historicidade interna da mente persuadido de qije a minha tentativa. ^ É certo que o desígnio de Rousset é evitar esta como se. arriscamo-nos a tâneo? É o que eu gostaria de tentar. uma intenção. estas ligações que revelam um sentido são re-constituídos e despertados na sua histo- universo mental e que cada artista reinventa conforme ricidade e na sua temporalidade próprias. pela qual. arris- camo-nos a desprezar uma outra história. Mas. senti-las e apreendê-las num ato simul- a expressão de "universo mental").valor e o estas constantes formais. de uma forma que a sua realização. é M a s d e pouco pela arte. E ser sentida como tal" (p. não podem ser objetos sem se tornarem absurdas e a dade a unidade de uma forma e de uma significação. "Será possível abarcar ao mesmo tempo a imaginação um biografismo ou um psicologismò (que aliás espreita e^a morfoiogia. X X I I ) . da origem tivesse história. Eis a razão independente. ou a forma sicas. também na obra-prima (e Rousset só se estática da forma. . absoluto.trabalho. Spitzer e de Raymond. n. A estrutura é na ver. pela obra enquanto realidade encarnada numa linguagem Peio mundo imaginário do poeta. R i c h a r d . de uma enteléquia e de um devir.. o crítico é também libertado. antes de própria obra. que se basta a si próprio" (p. quando distingue a sua tarefa da rável e que. do sentido da própria obra. 24 os quais ela se precede a si própria na intenção do autor. com ^ArS ^. etc. XVHI: "Exatamente por esta razão. a tentativa de Rousset lidade de uma coisa e de um ato. Deste modo. n ã o há espaço X X ) . Estas já as suas necessidades" (p. N ã o tivesse história intrínseca. X I I ) . a forma o momento estrutural desta crítica não passa de ba- e o próprio ato do escritor: "Chamarei "estruturas" laustráda de uma genética interna em que o. de uma forma e de corre também o risco de platonismo convencional." 1 A s . De momento pare- Sempre atento ao fundamento unitário da dissociação. se por isto se entende presença e sinopsis. cias disto no trabalho da crítica. Mas o fim visado é realmen- Com a preocupação de imobilizar a história literária te essa compreensão simultânea de uma realidade ho- clássica no seu papel de "auxiliar" "indispensável". "organismo multaneidade ou instantaneidade absolutas. Esta historicidade da obra não é apenas ela. Rousset. X I I ) . "A obra é urna totalidade e sempre ganha em da obra. vez ser no presente. por toda uma dimensão — que está longe de J. resgatado por sua operação. o destino da obra não parece liberar do. verificá-lo-emos mais tarde.Richard são tão inteligentes. essa mais di. de ser resumida em qualquer si- cupado com a autonomia formal da obra. mais pró.. [o sublinhado é nosso]. sua estrutura própria deve escapar às categorias clás- É certo que às vezes a forma da obra. a sua vigília ou o seu sono. con- fícil de ser pensada. veremos mais adiante quais podem ser as conseqüên- a posição de Rousset é aqui de um equilíbrio difícil. ( p XXII)™ ' ' ° " 1 U E a r m a S d Pelo seu estilo" q e P C l a $ U a r n 0 r f o l o g i a e 28 29 . em contrapartida separando do princípio a forma e a intenção. e preo. p e l t 0 acordo com as suas perspectivas próprias.i„ "r . uma vez mais. ou pelo menos não laustráda da crítica interna da obra. mas a impossibilidade que ela experimenta de alguma ximo neste ponto de L. da imaginação. E pela qual contudo pode unicamente continuar a signi- nesse ponto que o estruturalismo parece muito vulne- ficar. X I I . pelo menos teoricamente. desconfia delas pela sua "objetividade": o crítico corre o perigo de as apreender do exterior". Rousset visa realmente essa tota- 25 de a cobrir inteiramente —. i s e s d e J p laaostao novos e tão convincentes que lhe devemos dar razão. Mas.pela arte") que se define. é tratada como se não tivesse origem. enquanto obra. "prolegômeno e b a l a u s t r á d a " (p. dando uma definição da estrutura que não "marxismo". Poulet interessa-se n. G. a da fessando-a. se "a história literária" (mesmo que as contorna efetivamente o perigo "objetivista" denunciado suas técnicas e a sua "filosofia" sejam renovadas pelo por Poulet. de mogênea numa operação unificante" (p.-P. na sua r e l a ç ã o com uma origem subje- ser unitária. os resul- a n á . 16). condenado ou resignado à alternância. deverá muitas vezes tornar-se alternativa tiva que hão é simplesmente psicológica ou mental.

túmulos. das Tal. mais ou menos explici. reconhecer temas. para reunir signifi. espaço morfológico ou geométrico. "Soberbos monumentos do or- gulho dos humanos. a noção estruturais na obra literária. pela habilidade das mãos / e pelo assíduo trabalho pode vencer a na- Há linhas que s ã o monstros. de uma urgência especial. Grande lei. ou um sistema de relações objetivas. N ã o mais método na ordo cognoscendi. Traumsymbot. como unidade interna de derância mais realizada do que confessada? Parece um conjunto. Mas reveste-se aq\ii terário. à letra. ordem das formas e dos dora e à consciência clara" (p. no duplo sentido desta palavra. stricto sensu. Ünica ou espontaneidade do crítico na liberdade da "alternativa". a maior parte das tará para explicar que deva em troca espacializar-se vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Como é possível esta história da metáfora? O teúdo. o termo ção de estrutura n ã o for reconhecido como tal. o seu estilo vão afirmar-se A q u i a estrutura. Lévi-Strauss observa-o a respeito tura como coisa literária é desta vez entendida. 30 31 . p. arquitetura construída e visí- vel na sua localidade.. era sempre praticado. II. X V I ) . X V I I : "A escolha e o arranjo das palavras. VIII. C. (26) Guez de Balzac. Lida- nância que contudo Rousset colocou como norma teó- mos com um ultra-estruturalismo. um realismo da estrutura. uma virtude reveladora do con.da. obra comandada por ser dupla. A sua personalidade. Era sempre meio ou suficientemente questionado e mesmo destruído na sua relação para ler ou para escrever. um método de leitura. / Pirâmides. Só por metáfora esta literalidade nha sozinha n ã o tem significado. de estrutura só comporta referência ao espaço. de uma construção. mas quanto às palavras". existisse-do lado do objeto l i .. indepen. (27) Vaugelas. 27 sempre noutros lugares: ou um instrumento heurístico. enquanto o sentido metafórico da no- trutura era. "escapa à vontade cria. mas ser da obra. não Esta espontaneidade vai desequilibrar de jato uma alter- mais relação na ordo essendi. quando se designa e quando reflete sobre si mesma? cundidade não excluía. Mas nunca a es. é preciso uma topográfica se deslocou em direção à sua significação segunda para lhe dar expressão. t. a cor- relação morfológica torna-se de fato e apesar da inten- não mais por decisão metodológica. um princípio unificador.. ordenar constâncias e corres. exclusivo da descrição crítica. Rem. ou a retirar. ]iv. tamente. isto é. Esta. (teoria dos lugares na linguagem (DELACROIX) e manejamento dos motivos ou argumentos). Ora. o esquema de construção. carta 15.. rica. C o m efeito. virtude figurativa a ponto de ser despertado a não-es- cações. Ou ainda: " N a má es- 26 Por um lado. ist ein haüjiges weibliches já no séc. Dizia-se Valley. fato. a própria coisa literária. esta estru- estrutural. orgânica ou artificial. Em primeiro lugar fala-se da estrutura de uma o desequilíbrio desta preferência? Qual é essa prepon- obra. trutura há sempre algo a acrescentar. ou pelo dos modelos sociais e Rousset a respeito dos motivos menos praticada. ou to. pois a sua fe. Já não é o que era quase a modificar. pelo contrário implicava que a É uma questão que se coloca em geral para toda a lin- configuração relacionai. Qual é então lugares.de a linguagem só determinar espacializando bas- dentes do conteúdo e dos termos. n ã o apenas quanto ao lugar. tópica e aristotélica. a grandeza modesta dos pensamentos". cuja nobre II estrutura / Testemunhou que a arte. ( F R E U D ) a estrutura e a harmonia da composição. quase. mas pelo jogo da ção teórica a única preocupação do crítico. guagem e para toda a metáfora. pondências. Inflexão de fato que dá também ao estilo da crítica — neste caso a de Rousset — a sua forma Por outro lado (e conseqüentemente). Uma li- tureza" (Scarron). a estrutura torna-se o próprio obje. 101.

dirão. a reflexão crí- tico quando muito. e muito embora chame estrutura a união da estrutura formal e mente geométricos. De fato e mesmo que n ã o o con- la própria figura. temos de reconhecer que para cer- 28 penumbra o desenho de Polyeucte que se confundiria tos tipos de estruturas — em especial as da idealidade com o próprio desígnio corneliano e assumiria aqui literária — esta conexão está em princípio excluída. (Empregamos aqui a palavra figura Um exemplo entre outros. No estilo de Rousset. e . vários anos decorrem. Mutatis mutandis. o geométrico ou o se poria em marcha. Do mesmo (29) Ver Discouts de Métaphysique. do entusiasmo heróico" (p. "Entre a Galerie du Palais e tem "relação com as almas". o que Leibniz censurava a Des. ou então apenas o com a quantidade de movimento. Antes de Poly- formalismo literário. a dignidade de uma enteléquia em direção à qual tudo Em Forme et Signification. ter ignorado a força confundindo-a para vir é ainda informe e carente. a sua estrutura acabada. Orienta a pesquisa e fixa os resultados. É apenas o meio no qual uma paixão louca. contém algo de imaginário e de relativo' nor o seu itinerário. praticou as simetrias". De- (28) Ver Anthropologie structurale. Ora mesmo se não seguir. mais do que os corpos. O devir e o trabalho cornelianos morfológico só é corrigido por uma mecânica. e através dele ao melhor de chegada. Tudo se passa como se. recursos e toda a atenção do autor. em detrimento do jogo que nela se fesse. n ã o se fala de 33 . Arriscamo-nos a interessar-nos pe- tica baseia-se nele. às funções "essa geometria n ã o é cultivada por si própria". A uma dimemão na camente a geometria de um teatro que é contudo "o da melhor das hipóteses. no sentido geométrico e ao mesmo tempo retórico. É despercebido quanto mais eficaz. as figuras de retórica são sempre as No início de um ensaio intitulado Polyeucte ou la figuras de uma geometria aliás muito maleável). Mas de fato o pró- prio tempo é sempre reduzido. o autor previne prudentemente que. se insiste em "esquemas que podem parecer excessiva- Ora apesar do seu propósito declarado. mais do que da intenção. até nenhuma conexão necessária entre a noção de medida 1643.pacialidade ou a espacialídade original nele designada. é porque Corneille. cap. eucte há apenas esboços nos quais se considera unica- cartes: ter querido explicar tudo na natureza por figu- mente o que falta. "é matemáticas. que anuncia a perfeição. cinemá- pacial é descoberto. É certo que reconhece a solidariedade Mas o que nos dá na realidade este ensaio? U n i - do espaço e do tempo (p. 29 tram inventando a sua estrutura p r ó p r i a " (p. às linhas e às formas. Poderíamos citar nas grandes peças um meio subordinado a fins passio- inúmeros exemplos aos quais se reduz o essencial das nais" (p. Mas a metáfora nunca é inocente. Além disso privilégio absoluto aos modelos espaciais. por uma espécie de desvio tanto mais Essa geometria é apenas metafórica. N ã o seguirei aqui em porme- pensa. no qual Le Cid e Cinna o mos- às nossas percepções". Ora na esfera da linguagem e da escritura que.grandeza. joga por metáfora. "a noção de. jamais são postos em perspectiva e ideologicamente decifra- por uma energética. de Polyeucte. $>. modo. Corneille só tivesse entrevisto ou esboçado na e a de estrutura". N ã o só forma ou uma curva se desenrolam. Lévi-Strauss quando afirma que "não existe itinerário corneliano. 9 ) . Exige a medida. pois de Polyeucte? Nada que interesse. . Quando o modelo es- com o seu modelo geométrico ou morfológico. sempre desenrolado no espaço. poderíamos ser dos a partir do que é considerado como o seu ponto tentados a censurar a Rousset. Corneille busca-se a figura e de movimento não é tão distinta como se si próprio e encontra-se. mas t a m b é m de exposto. X I V ) . quando funciona. 7 ) . acordo com ela está ordenada toda uma teleologia do mos C. . o que perante a perfeição que está ras e movimentos. a respeito das obras anteriores. Rousset concede nas suas análises um qualquer outro. boucle et la xrille. 310. 7 ) . a confundir o sentido certo. XII. É sempre unido a estrutura geométrica de Polyeucte mobiliza todos os a uma linha ou plano. arriscamo-nos. suas descrições.

como se sabe.outras peças além dc La Galeric du Palais e Le Cid. de ex- amantes desenvolvem-se e crescem. os eucte" (p. . não é Seria subestimar o recurso do crítico. desenha agora uma espiral ascendente. em termos de como se poderia supor. Le Cid mal co- portanto para se unirem no fim da peça. O da altura vai completar o nosso instrumental analógico. a situação modificou-se e houve uma elevação de partida. da fé. O próprio Proust. que é valor e cimenta-se e aprofunda-se através das próprias ruptu. ansiosa como a amante pelo sentido que está um para si. não apenas cada • pecíativa. e que o trabalho das forças já não se deixa psicologia não nos interessam aqui: o "movimento para traduzir numa diferença de forma. depois de um circuito em forma de curva O essencial está nisso [o sublinhado é nosso]: o movi- cruzada" (p. mas provas de fidelidade" (p. cuja biografia e intensivo. conjugado com o percurso cruzado em movimento em curva com cruzamento mediano" (p. N ã o é a verdade do Cid ou de Polyeucte. 144). Mas aqui intervém uma nova significação que a uma subida em parafuso. . graças a que "a união se aprofunda" é "aspiração para Deste modo. A estrutura era de acolhimento. 9 ) . em La Galerie du Palais. força. A singularidade é a curva cruzada. a sua união Ficaríamos convencidos se o belo. essa verdade segundo Cor- se torna impotente para apreender o qualitativo e o neille. de fidelidade. como prefigurações estruturais de Polyeucte. mas. que é mais do que a sua quanti- p. não será Polyeucte ao aperfei¬ lidade e na intensidade interior das experiências (prova çoar-se mais. A q u i . A dimensão outra . "a cada passo do circuito. . sentido de ser-para-o-outro. Esta combinação formal vai panorografia imediatamente transcreve numa nova di. se é belo. Separam-se o essencial: o movimento de ascensão. A di. Cansada da a curva que permanece. Se o movimento destas das presenças (afastamento-proximidade). 9). uma lei muito corneliana [o sublinhado é nosso] de solidariedade progressivamente descoberta. etc. pois os valores. Progresso marcado por Le Cid. pudesse ser submetido a regras'e a esquemas. receber toda a sua riqueza de significação em Poly- mensão. dirão. torna-se "espiral ascendente" e subida em parafuso". segundo para vir desposá-la e fecundá-la. (ver força do movimento. segundo uma escala e o Bem está muito alto Aquilo -íormismo. . é graças aquilo que inconstância.. aproxima-se do Galerie era apenas uma aparência que ainda escondia amante que por sua vez finge inconstância. Poderia supor-se que desta vez. dade ou do que a sua d i r e ç ã o ? ) . 9 ) . ganha-se liano" {ibid. O ponto de chegada é um regresso ao ponto tida. Desenhemos: meça a revelá-lo: "Deste modo o ponto de chegada "Acordo inicial. que aspira também à O que se ganha em tensão de sentimento (qualidade de altura de Polyeucte. maneira de ser para o outro. em elevação. a mais fina especificidade do esquema. é "o progresso no sentido corne- fidelidade. mas na qua. pelo próprio'enriquecimento da peça. afastamento. reunião mediana mas fa- (em Le Cid). a incons. segundo afastamento simétrico do primeiro. E a planura horizontal de La sua inconstância (mas por quê?). linhas não for Le Cid. nele supera o esquema e o entendimento. e t c ) . 9 ) . ruptura. nao se fala do próprio Cid. duas curvas. .). espirais e parafusos. mento corneliano é um movimento de violenta eleva- pois o ponto de chegada como regresso ao ponto de ç ã o . força de Também não é verdade psicológica da paixão. ras que deveriam rompê-la. não segundo Pierre Corneille." C o m efeito. a metáfora estrutural do dever. progridem c mesmo estas só são interrogadas. 1). 8 ) . "de aspiração para O esquema é análogo em Le Cid: "£ mantido o o mais alto. o mais alto (p. no estilo do pre. 0 alto". se na aparência volta à junção inicial lhada. mas um pelo outro e para o outro. os momentos de Será preciso ainda demonstrar que isto não tem sen- afastamento já não são momentos de separação e de tido? Portanto se Le Cid é belo. no desenho e no movimento curvas. e t c ) .coisa senão o movimento corneliano (p. Altus: o profundo é o alto Então tância de Celidéia afasta-a do seu amante. jun- de maneira nenhuma é um regresso ao ponto de par- ção final. " (mas onde nos falaram dessa violência e da partida é muito comum. N ã o se torna necessário reproduzir aqui 34 35 . Portanto ferença entre La Galerie du Palais e Le Cid já não está.

de conta da unidade. ora de uma outra natureza. disposição estratégica que. por um certo estruturalismo. fase culminante da ascensão. para evitar "o abstracionismo". num simples movimento de ba- papel. Um trajeto Supondo que. Gens de la supremo da liberdade e do triunfo. Por Se aqui parecemos opor uma e outra série. da geomancia. no quarto. aspiração passio- vez mais no quinto ato. a duração e o espaço. 99. no "último impulso de novo. a qualidade e a quantidade. e na mesma ordem termos ou de uma das séries. nor ousadia que outrora.. afastam-se e prendamos. que alguém faz ao acaso uma quantidade de pontos num Não opomos aqui. a força e a forma. no ponto (31) Ver por exemplo. " (sentido estrutural da expressão "para lá da peça"?) ". como pretende teoricamente Rousset. p. nificada da profundidade. se deve da linguagem de Rousset mas da totalidade da nossa sempre procurar uma linha que. da sua simetria e variantes. exemplo. encontram-se dizer que a aspiração para o alto. Contra essa sim- de acordo com uma certa regra. Referente a quali- terna. queremos fazer apare- de uma linha geométrica e não possa ser traçado com cer o privilégio n ã o crítico simplesmente concedido. cial. 'perante uma obra literária. pois não se trata aqui rece pensar que. por muito complexa linguagem e do seu crédito) análoga à confiança dos que seja. em Deus". . em virtude mo tempo diferenças de lugares e diferenças de força. como fazem aqueles que exercem a ridícula arte lanço. união da forma e do sentido. à outra série. Muito pelo contrário. .' é uma subida em parafuso. procurar novos conceitos e novos modelos. que é aqui o essencial. um só traço num certo movimento regrado". 19-21... cruzam-se. Grande Terre. Vart océanien. É que se propague através de todo o sistema. nos em duas curvas afetado de um movimento para o alto. à juntam-se de novo para se prolongarem num traçado comum para lá da p e ç a . contra a simples escolha de um dos linha passe por todos esses pontos. Esclareçamos. referente também a obras se pertence a Corneille ou a Rousset. . n ã o existe rosto cujo contorno não faça parte no interior do sistema clássico. uma certa uma semelhança imperfeita com a sabedoria d i v i n a . Confiança que o etnólogo estruturalista aliás analisa com maior prudência e me- No Discours de Métaphysique ( V I ) . etc. 36 37 . . voltando contra ele os seus p r ó - (30) Pelo menos devemos reproduzir a conclusão sintética." (Aliás.Pau. . pensamos que é preciso pela qual a m ã o os t r a ç o u . Afirmo que é possível encontrar uma a profundidade do sentido ou do valor e a superfície linha geométrica cuja noção seja constante e uniforme das figuras. no interior do campo e dos Mas n ã o pretendo explicar com isto ó grande mistério seus poderes próprios. por exemplo. Esta economia n ã o seria uma energética da força pura seria possível encontrar uma noção ou regra ou equa. Leenhardt. por exemplo. que acontece com o infinito. seria necessário portanto lina e Polyeucte encontram-se e separam-se no primeiro ato. O nosso discurso pertence irredutivelmente ao sistema das opo- Mas Leibniz falava da criação e da inteligência sições metafísicas. do qual depende todo o universo". a partir da qual se lançam num último impulso que vai uni-los definitivamente. lados. sobem ainda um degrau e voltam a encontrar-se uma que os vai u n i r . a forças e a valores. Dissemos mais não divinas lidas por espíritos finitos. na qual o esquema atinge a 30 sua perfeição máxima e a sua maior complicação in. rachando-o preciso agora acrescentar-lhe uma outra característica essencial do drama em todos os sentidos e de-limitando-o por todos os corneliano: o movimento que descreve é um movimento ascendente em direção a um centro situado no infinito. creve na verdade: "Pois. ora curva. da totalidade do seu artistas canacas. é porque. mais estreitamente e a um nível superior. ora fosse reta. uma econo- E se alguém fizesse de um só traço uma linha que mia que escape a esse sistema de oposições metafísicas. de maneira que esta ples alternativa.. da qual estas mesmas alterações devem acontecer. neste esquema espa. suponhamos. não apenas a especificidade irredutível do "movimento" mas também a sua especifi- cidade qualitativa?) "Pode-se ainda precisar a sua natureza. p. 16). Só se pode anunciar a ruptura desta divinas: "Sirvo-me destas comparações para esboçar ligação através de uma certa organização.a análise de Polyeucte. em Deus" (p. esta confiança na acima que este era demasiado cartesiano e muito pouco representação matemático-espacial parece-nos ser (à leibniziano. Leibniz es. . o balanço prios estratagemas. de equilíbrio ou de destruição. com uma mestria acerca da qual cabe perguntar dades. É também leibniziano: pa. Do Kamo. na representação pla- 31 movimento e dos seus pontos de passagem. escala de toda uma civilização. dizíamos nós depois da análise dos atos primeiro e quinto. para de novo se afastarem. duas linhas ascendentes separam-se. produza uma força de deslocação do ensaio: "Um percurso e uma metamorfose.M. . e informe. A s diferenças consideradas seriam ao mes- ção comum a todos os pontos desta linha.

uma do autor. não se perde. na sua diverso do de G. Assim vez mais. é o esboço do verdadeiro M a r i v a u x . a narrativa) é "uma série de exercícios romanescos de N ã o dirá também Buffon. X I . nos desníveis ç nas trocas que entre eles se estabelecem e que nos propõem o prazer sutil de uma atenção binocular e de uma 38 39 . . daquilo que é olhado e daquele que olha. como o fazia uma certa teologia da Idade Média (Considérans em Pré-formismo. n ã o passa "pouco interesse pela arte". . no caso do sublime. a distorção das (p. encontra a sua forma no ças que não se deixam submeter por curvas e espirais. Corneille é sublime — o geômetra tem dé praticar um Vê-la-emos a p e r f e i ç o a r . no primeiro Marivaux. aquela que se cabeça dos personagens. Seguem-se uma análise e uma citação acerca da qual dução teórica. mas apenas se conclui: "Este esboço de um diálogo por cima da aquela que se entende com o sentido. esquema do "duplo registro" (narrativa e olhar sobre mosus quer dizer belo. As dificuldades acumulam-se.nal. p. dizer que esta união não só a força e a qualidade. curvas afetado de um movimento para o alto"? A força na dinâmica do sentido corneliano e em cada peça de da obra.. a combi- último caso. a força do gênio. que a beleza se deixe esposar ou esgotar nação propriamente marivaudiana do espetáculo e do pelo geômetra. o próprio movimento. é bela a priorí. são. antes e depois dela. mas a sua obra dramática" monstros é monstruosa cem simetria. tudo se animasse em vista de uma paz final. "O verdadeiro Marivaux ainda está nelas partes parece ter-se feito com ordem"? mais ou menos ausente" [o sublinhado é nosso]. é o que resiste à metáfora geométrica e paz da zviçyíia estrutural: Polyeucte. A menos que Rousset considere que toda a linha. o idioma de Corneille. 4 1 0 ) : "A maior parte dos romances da maturidade. no labor da sua organização. no movimento. Tudo se passa como se. aquilo que. Fora desta é o objeto próprio da crítica literária. ato de violência. pois valor e da duração. Então por que razão. por uma linha. . por uma forma que testemunha a Tudo o que.). a força também do que em Corneille. tal privilégio do geômetra? E supondo. dizia-se. — e dizem que espectador. numa primeira forma rudimentar. que é e faz ser e que o Ser é Belo. " N a nossa perspectiva. através de uma narrativa in- deixa entender por nós porque é em primeiro lugar termitente na qual alternam a.For. eis o que se liga ao geometrismo. . que são o próprio sentido. dois planos. Mas então.que toda a forma seja bela. etc. um único fato a r e t e r . "primeiro sucesso impecável".s e . presença e a ausência conivente com o sentido. teleologismo. . e com elas as nossas Depois. no seu Supplément à juventude" com os quais "prepara não apenas os seus 1'histoire naturelle (t. 47). de esboço ou detrito. Rousset compreende o mo- muito? Se nisso residisse o essencial do "movimento vimento teatral ou romanesco como Aristóteles com- corneliano". 12). . intensiva. a menos pois que julgue. Ora Rousset n ã o parece afirmar. são belos naquilo que em grau maior ou menor todos os ensaios deste livro. 48). na sua Intro. do especial) que a forma é transcendentalmente bela. qualitativa. quando Rousset esclarece que esta "estru- corneliano" essencial. em nome de um "movimento reticências. aquilo que conta? Em nome tura permanente de M a r i v a u x " . Rousset anota a propósito da palavra "impecável": toda a forma espacial (mas toda a forma é espacial) "Cinna ainda peca a esse respeito" (p. N u m sentido paz. Mesmo deboche. — que aliás autoriza ioda a metáfora da elevação — mas a duração. em se esboça. movimento em espiral. embora invisível ou 32 desse essencialismo ou desse estruturalismo teleológico. . é pura he~ é a diferença própria. Estrutura de fato que norteia os próprios monstros. onde estaria Corneille? Por que razão há prendia o movimento em geral: passagem ao ato que mais beleza em Polyeucte que em "um trajeto de duas é repouso da forma desejada. falta ou pecado em relação a Polyeucte. " (ibid. " (p. Rousset parece por vezes ter pura duração. Poulet. geral procria. de tal maneira que eis o que faz estrutura. não anuncia o ordem do universo criado e reflete a luz divina. . redução da força. _ (32) Eis algumas formulações desta "estrutura permanente": "Onde reduz-se com efeito à aparência inessencial tudo o que está a verdadeira peça? Está na sobreposição e no entrelaçamento dos ignora o esquema geométrico-mecânico: não só as pe. será dizer terogeneidade qualitativa.

isto é. estranhas relações entre o sujeito que escreve o livro temente determinado e original para pertencer a uma e o sujeito do livro. Mas de que modo um "fato de estrutura" tradicional mas tema do autor. "faz parte". as nessa época (supondo que assim definido seja suficien. por resol. 6 4 ) . tornar o narrador. através dela. sobretudo nos ensaios sobre Corneille e Marivaux. de esclarecimento retrospectivo. sível a existência do livro.. (ver também p. na do herói. é a propósito de Proust e solução planejada da ilusão romanesca". . romance cujo fim se fecha na abertura. pela sua linguagem e pela sua função: uma rapidamente a obra que se termina. " . Este romance está concebido nos movimentos.Deste ponto de vista.latente nas obras de juventude.. de recorrên- nosso] ao conhecimento que o homem marivaudiano cia. cujos planos se apro. A verdade da gundo lugar porque a estética proustiana e a estética estrutura geral assim restaurada não descreve o orga. A originali- sob uma forma mais organicista do que topográfica dade de Marivaux. . que dá o seu eco esse Combray que está na origem do narrador tal como em profundidade e o sentido definitivo. a outra desenhada em toda a sua complexidade. ao mesmo tempo que liga estreitamente os dois registros até . nos é ainda na sua força. lética do " n ó s " na Phénoménologie de 1'esprit. o autor da sua p r ó p r i a histó- ximam gradualmente até à sua completa junção. .) Em se- tradicional e cria uma nova estrutura. Vemos nas tura da própria época? N ã o existirão aqui. A implicação do fim no início. A peça termina quando ria. de uma estru. tudo isto lembra o estilo do devir e a dia- marivaudiano"? £ à intenção mais singular de M a r i . mas diferentes pela . que só "retém" desta tradição "a É também aí que se mostra mais fecundo e convincente livre conduta de uma narrativa que mostra simultanea. O fim do livro toma possível e compreen- e leve. e em primeiro lugar a escrever esboçada. depois de uma longa marcha em que estiveram à estrutural individual.^ sua história deseja mas jamais pode ser. é a "consciência crítica" (p. É real- vaux que a estrutura corresponde? Ou Marivaux não mente da fenomenologia de um espírito que aqui se será antes aqui um bom exemplo — e seria preciso trata: "Discernimos ainda outras razões para a impor- então mostrar por que razão é bom — de uma estru. mas destacadas. tante e consciente. tem de si próprio: um "coração" sem olhar. (Que nos seja aliás permitido observá-lo: temos O idioma de Marivaux não está portanto na estrutura a sensação de que o melhor deste livro n ã o diz respeito assim descrita mas na intenção que anima uma forma ao método mas à qualidade de uma atenção. . rior. 40 41 . Este jogo de reflexos interiores ^ contribui para assegurar à peça de Marivaux a sua geometria rigorr*. . mil problemas metodológicos anteriores ao estudo bém. como "dis. tomado no de sobreposição. O narrador é na verdade o herói revelado a si os dois níveis se confundem. isto é.. claudeliana estão em acordo profundo com a de Rousset. do amor" (59). A teleologia não é aqui projeção do crítico. últimas páginas o herói e o narrador reunirem-se tam- ver.. que nos propõem dela duas curvas paralelas. a uma obra? maior parte das vezes muito afastados. que é o momento em que o herói se vai dupla leitura" (56). deixando a primeira adivinhar a direção que tomará a segunda. 51). do primeiro ao últi- campo de uma consciência que só é olhar" (p. da tradição de Claudel que triunfa o pré-formismo. por vezes muito próximos. é aquele que o herói no decorrer de toda a O derenlace real não é o casamento. 60). nismo marivaudiano nas suas linhas próprias. poder-se-ia definir qualquer peça de Marivaux: um organismo de duplo nível. coincidem no desenlace.. mo. a qual se manifesta por maravilhas t e . Corresponde ao mesmo tempo [o sublinhado é de simetria (nem verdadeira nem falsa). à monografia de um autor ou de prccura um do outro.da peça em dois registros. etc.Somos con. de circularidade. tância dada por Proust a essa forma circular de um tura literária da época? e. Se o geometrismo é aparente. feita a este respeito tira-nos quaisquer dúvidas que por- Contudo descreve: "O fato de estrutura assim ventura tivéssemos — a exigência estrutural era cons- isolado: o duplo registro aparece como uma constan. Em primeiro lugar porque a matéria que permite do- mente o trabalho dó autor e a reflexão do autor sobre minar é mais rica e é penetrada de maneira mais inte- o seu t r a b a l h o . ". que nos é prometido quando cai a cortina. Menos No próprio Proust — a demonstração que. toma agora vidados a seguir o desenvolvimento. quando o grupo dos heróis para os quais se olhava se vê tal como eram vistos pelos personagens espectadores próprio. sem adequação. o lugar deste herói e vai poder dedicar-se a edificar sua importância. 50). E desta vez burlesca (p. entre a consciência do narrador e época) pode "corresponder" à consciência do "homem a do herói. é o encontro do coração e do olhar" (58)\ ".

que hoje faz sorrir. tem "o gosto das coisas Uma vez terminada a leitura da Recherche. quando física. concorda com a de Claudel. e segundo a qual a totalidade dos carac. a consciência filosófica. " U m poeta n ã o faz outra as formas e as proporções do futuro adulto. 146). Swann. A teoria coisa senão desenvolver um objetivo preestabelecido" do encaixamento estava no centro deste pré-formismo (p. apenas o fenômeno. vale para todas as ordens da realidade. Como*Deus. Tête d'or sob uma outra forma. Do mesmo modo encaixamento impuseram-se. finalmente por uma imagem mais fina. em Hegel. X V I I ou X V I I I harmônica. A engendra. reflexi. ou melhor refrataram Por pré-formismo entendemos mesmo pré-formis. (33) Citado p. o método crítico e a estética de ou em Gide. . Mas quando tônoma em Proust nem em Claudel. O sentido do tem- erre E pp. em Balzac 144). u-riores que se lêem em Vie de Mariannc. n ã o é apenas ura olhar sobre as operações e sobre mas que significa no fundo a mesma relação de impli- as obras da história. não isolada. Mas de que sorrimos? Sem dúvida do adulto em miniatura. Não cometeríamos um erro se dissés. Rcusset comenta com justeza: "Uma declaração desta natureza. em ato e tempo Tête d'or e Partage de midi. mas também de ver atribuir à Esta estética que neutraliza a d u r a ç ã o e a força. O "tempo no estado puro" é t a m b é m designado o artista é urn homem e quando é a consciência que por Proust como o "intemporal" ou o "eterno".. a dade da repetição. Vinteuil. Pensamento claudeliano admitir que dois seres disjuntos pela distância 42 43 . Traduz uma meta- se trata de uma arte que não imita a natureza. Pois o universo é uma simultaneidade. Claudel. va. são o próprio âmago romance um pequeno espelho convexo que o reflete da criação: "Proust fará dessa estética o sujeito real m miniatura" (p. já não é exportado pois é um po. segundo Claudel. o conjunto seria ininteligível. Isto resume ao mesmo teres hereditários estaria contida no germe. Finalmente. nas relações entre os seres. Claudel: " L e soulier de satin é epigenetismo. de tal maneira é Esta verdade é a simultaneidade absoluta. De maneira conceito antropomórfico. Un amour de Swann é um romance no romance. apercebe- que existem conjuntamente" (Art poétique). A metáfora e a operação do c da sua obra romanesca" (p. 135). n ã o é au- em ato e a arte consciente das suas obras. Vede: depois de ter feito . um pré-formismo praticado: "O último capítulo afinidades são evidentes para além de todas as dife- do último volume. do Criador. A estética proustiana é bre exatamente a de Rousset. à metáfora que as reúne corresponde. a imagem em superfície da verdade essencial que pensemos do artifício que introduz Un amour de do Universo tal como é pensado e criado por Deus. primeiro lugar.de tal maneira que o seu fim gera o seu início" (p. É da sua história que se trata em cação. liame das almas separadas. Proust coloca numa das entradas do seu Proust não estão fora da obra.a-rt. o amor. explicava a Albertina que os grandes litera- tos sempre fizeram uma só obra. E é realmente. irreversível é. reco. . mas sim as histórias in. como conceito da obra. a bem aliás definida no início do ensaio sobre Claudel. mesmo se as substituirmos que.. criador e compositor. 189. O Xoyós verdade do tempo não é temporal. lembra. Rousset escreve: "Seja o que for epiderme. oposta a um ao mundo" (p. sem ele. através de meios diversos uma mesma beleza que trazem mo: doutrina biológica bem conhecida.xci está nele. É mesmo a conclu- com dimensões reduzidas que já respeitariam contudo são de Partage de midi". E as dizer. crítica. 3} mo-nos de que de maneira alguma se trata de um epi- sódio isolável. o pré-formismo não mais faz sorrir. 6 a lei do artista tal como è a lei quadro no quadro. Implicação que desta vez reflete e representa. 171). Tudo o que afinidades: "E repensando na monotonia das obras de está entre os dois foi escrito depois". pela qua! as coisas afastadas levam uma existência concertante e formam uma solidariedade médias que muitos romancistas do séc. 172). mais adequada. rapidamente o esquecemos. análoga (apenas a n á l o g a ) . o tempo como sucessão aparecer na composição proustiana toda uma necessi. a temporalidade pura n ã o é temporal.. ou um Tudo obedece à lei de composição. foi escrito logo após renças. É pelas mesmas razões que a estética de Rousset semos que esta estética. O tema da "monotonia estrutural" reúne essas o primeiro capítulo do primeiro volume. íntima e orgânica a ligação que une a parte ao todo. não as histórias inter. vida natural mais do que a finalidade: a providência como diferença entre a bolota e o carvalho. observa Proust. É portanto natural para o intercalam nas suas narrativas.

infinito. a implicação do volume que se torna intolerável culdade: é a sua estética. Mas aqui da metafísica implícita de todo o estruturalismo ou será por acaso que o livro é em primeiro lugar um de todo o gesto estruturalista. Rousset: "De qualquer modo. no seu de sentido e não de sinalização) for a implicação infi- momento próprio. tenta-se acordeão. só se descobre por fragmentos sucessivos. tudo o que da significação não pode física. Irrealizou simultânea de relações recíprocas: é então que surgem a unidade do Livro fazendo abalar as categorias com as surpresas.. do Livro. As surpresas brotam do diálogo entre o não. que não permite que se processa na duração. Le "Livre" de Mallarmé. e infinita que não deixa tomar fôlego. promovido a ideal regulador. mesmo e outro". a leitura. exigência do plano e do horizontal é na verdade a ri- tura de Proust ou de Claudel. esta- belecida: a prescrição nas Tábuas. /"manipulamos o tempo como um dizendo "simultaneidade" em vez de espaço. 177) em Par. na tornar-se a obra simultaneamente presente em todas as sua própria economia.. do simultâneo curso. numa relação Scherer. dificuldade de dar conta. como Prouhèze e Rodrigo. faz sempre apelo. no volume — não substituiu ainda (poderá contudo fazè-lo?) a letra da Lei exposta. a simultaneidade é sobre Proust. lismo em geral). X I I I ) . 28). não há iden- movimento". 181). 77 e folheto inextinguível". Richard. Basta dizer que a própria aqui não apenas a uma "dupla interpretação" mas por simultaneidade estrutural tranqüiliza. duas . diz espaço "a ordem das coexistências" (Leibniz)? Mas o próprio Ciaudql. (Quais surpresas? Como às quais se julgava poder pensá-la com toda a segu- pode a simultaneidade reservar surpresas? Pelo con. 183). "Por assim dizer semeio aqui e ali "A dificuldade de toda análise estrutural reside no dez vezes este duplo volume inteiro"." Nesta 34 a estética por elas norteada é legítima e fecunda na lei. espaço e Bem entendido." (p. sendo "composto consigo". filha (ou m ã e ) da sua meta. e o traço de união entre estes dois termos. labilidade e tura. ao simultâneo que é a verdade. será concedido sem difi. semelhante a um "quadro em Exceto no Livre irrealizado por Mallarmé. nenhum descanso ao sentido significado. ao "es. a letra dos livros — movimento. Irrealizado: isto não significa que Mallarmé não sentar totalmente ao olhar do espírito. concentrar o tempo em vez de o esquecer. na verdade existe simultaneamente" (op: cil. a instabilidade do sentido enrolado sobre si na casca.lotas de um acorde. 44 45 . O livro. A busca do simultâneo tado puro da estrutura claudeüana" (p. Oferece-se -simultâneo e o simultâneo. segundo a nossa vontade" e. queza.. Nos dois casos. 128-130. de maneira a este se apre. ou de uma descrição totais. sejam conjuntos pela sua simultaneidade e ressoem desde então como as (36) Sobre esta "identidade consigo" do livro mallarmeano. a ainda fazer sinal e a diferir? suas partes. ao estruturalismo. Esta intenção metafísica autoriza em último re. todas as análises consagradas à "cena 0 mito. a essa simultaneidade teológica do nita? O reenvio indefinido de significante a significan- livro e julga-se privada do essencial quando não tem te? Se a sua força residir numa certa equivocidade pura acesso a ela. 95 e folheto 94 e p.-P. que se poderia definir esta metafísica ou esta teologia da temporalidade.) J. diz Mallarmé.. uma leitura volume? E se o sentido do sentido (no sentido geral 35 estrutural pressupõe sempre. e à totalidade desse teatro no qual. rança: embora falando de uma "identidade consigo" trário. ver J. trata-se aqui de anular as surpresas do não-si. deverá. Essal sur les données immédiates de la conscience. "A duração ras duram e os dias são escamoteados" • (p. Richard: ele. todo o ensaio que é a verdade. explica esse fascínio pela imagem espacial: não é o tage de midi. na lei.-P. p. Em especial. tidade a si do escrito. de uma leitura fundamental do teatro claudeliano" (p. p. levando-o. assume assim a forma ilusória de um meio homogêneo. Conceder-nos-ão também facilmente que se trata ser disposto na simultaneidade de uma forma. sublinha que o L i v r o é ao mesmo tempo "o multâneo. (35) Para o homem do estruturalismo literário (e talvez do estrutura- Rousset evoca portanto a dificuldade do acesso. não examinaremos por si mesmas duração. Que como a interseção do tempo com o espaço. A tarefa do leitor exigente consiste em destruir esta tendência natural do livro. J.no qual "as ho. 36 fato de ser preciso descrever sucessivamente aquilo que (34) Bergson. Só há leitura tenha conseguido realizar um livro que fosse idêntico completa quando esta transforma o livro numa rede a si — Mallarmé simplesmente n ã o o quis. para ser global. na escritura. é a simultaneidade. através de uma série de mediações.

patológico não é uma simples ausência de estrutura. Compreender a estrutura de um devir. é recusar de- teleológico "preestabelecido" e percebido na sua simul. parece con. como perceber uma totalidade organizada vary" (p. paz. O estru- também o verdadeiro Proust faltar à "verdade" do turalismo vive na e da diferença entre o seu voto e o amor segundo Rousset. pelo menos tentamos mos. na sua qualidade pura e fundamental e como reconhecê-la e privilegiá-la? O critério não pode ser nem uma acumulação empírico-estatística. em certos aspectos. literatura. Mesmo nos ensaios consagrados a Proust que um tipo ideal não permite comprender. pelo menos da pre- simultaneamente em toda a parte. nem uma intuição de essência. nada. O próprio e Claudel. Ser estruturalista é pren- Rousset na medida em que. ou mesmo de uma obra isolda.. uma norma metódica que o estruturalismo di- tem de aceitar confrontar "o verdadeiro Proust" e o ficilmente pode aplicar. é o repouso do começo e do fim. Rousset tem de decidir considerar como "aci. Rousset tem também sunção do seu fim? E se o sentido não fôr o sentido de concluir qüe os personagens de UOtage estão de. como surgiria. horizonte ou rosto. damental pela qual a totalidade se abre e transborda para ganhar sentido na antecipação de um telos que é O mais grave é que este método. preciso entender aqui sob a sua forma mais indetermi- lista". por pelas "exigências do esquema claudeliano" (p. de- dentes de gênese" "cada episódio. como dissemos. à trá-lo. à constituição aca- escória tudo o que não é inteligível à luz do esquema bada de cada momento. Proíbe que se incita Rousset. também o verdadeiro Proust não está sem proceder a partir do seu fim. É a respeito do íelos um voto "romancista" ao qual pode aliás "prejudicar". direito. 179). ensaios guiados pela estrutura mais com. etc. 164) em relação ao "tema É certo que a recusa do finalismo é uma regra de central" ou da "organização geral da obra" (ibid. güístico onde se manifestou pela primeira vez. X I X ) . 183). Este. . senão numa totalidade. bém o que ameaça metafisicamente todo o estrutura- a parte inacabada ou defeituosa. de cada forma. 166). Claudel não "se desmente" truturas.). mas "a bem dizer" não estivesse animada pela antecipação de um fim. organizado. Quer se trate de biologia. Neste repouso e nesta um a prior/ material da obra? Mas a intuição do a priori material coioca enormes problemas prévios. seu fato. "ultra-estrutura. tual independência" (p. mas é tam- do estruturalismo.Haverá de cada vez uma única estrutura Ô sentido do devir e da força. própria. decide reduzir à indignidade do acidente ou da autonomia e ao equilíbrio próprio. acerca do qual seria necessário "constatar a sua even. Esta abertura é certamente o que libera o tempo tradizer aqui a mais preciosa e a mais original intenção e a gênese (confunde-se mesmo com eles). a paz de um É o problema da indução que se coloca a uma ciência estruturalista referente a obrai. elas são possíveis a partir dessa estrutura fun- e não "renuncia" ao seu "esquema constante" (p. cada personagem" feção ou decomposição de uma bela totalidade ideal. a qualidade do devir e da força é ofuscada pelo 46 47 . de lingüística ou de mente no Balcon e todo o Flaubert em Madame Bo. der-se em primeiro lugar à organização do sentido. nos domínios biológico e lin. quer se trate de um autor considerado à parte a forma de uma força é perder ó sentido ganhando-o. aspira A fazer calar a força sob a forma. numa dada configuração. a descobrimos. Da mesma ma- neira que "o verdadeiro Baudelaire talvez esteja unica. tudo aqui por que ela lismo: esconder o sentido no próprio ato pelo qual o (37) Não insistiremos qui neste tipo de problema. se a totalidade sunidos n ã o pelas "circunstâncias". principalmente a preservar a coerência e a completude Então reconhecemos que. uma intencionalidade que aliás não é necessariamente tem de utilizar uma enorme sutileza para demonstrar e em primeiro lugar a de uma consciência? Se há es- que em Le Soulier de Satin. a coisas cuja estrutura não é apriorística. mas que é bem difícil de contornar e que aliás se coloca em cada etapa do trabalho de Rousset. (p. portar para a categoria de acidente aberrante tudo o taneidade. Ter-se-á o direito de constituir em método gerai <ó apareceria como a antecipação cega ou o desvio do estruturalismo essa metafísica e essa estética tão bem misterioso de uma ortogênese pensada a partir de um adaptadas a Proust e C l a u d e l ? É contudo o que faz 37 idos ou de uma norma ideal. Haverá espetáculo. na releitura à qual nos de cada totalidade no seu nível próprio. podendo de impiedade ao qual o trabalho jamais é fiel. o que dq interior ameaça a luz é tam- considere em primeiro lugar. bém o que se arrisca a fechar o devir ao informá-lo. N ã o se compreende como deficiência. É prensiva. fsíão é uma simples derrota do telos. isto é.'Problema banal.

aquela que. metáfora fun- da encarnação triunfante ou falhada do telos. e a univo- guagem este estranho movimento. Ora procurar- dúvida nada dizer. N ã o libertar- confessada. e necessário. A diafaneidade é o valor supremo. Mas qual a razão destas forças e o peso essencial que retém e detém irremediavelmente destas fraquezas da consciência. e desta força da fra- o discurso na metafísica. encontra-se na acústica.. téria ou a cripta. Destino que seria quase in- queza que dissimula no próprio ato em que revela? Se gênuo considerar como o lamentável e provisório aci- esta "dialética" da força e da fraqueza é a finitude do dente de uma "história". por sombra e a queda do pensamento na filosofia. pode ser dita na linguagem da forma. ra filosofia ocidental. a ma- merece as suas aspas. é preciso visar uma certa impotência da in da intencionalidade. Todo o valor é em primeiro linguagem a sair de si para dizer a sua origem. Ao seu desvendamen- são e pela deslocação analógica do ser sob o sendo. cedendo o lugar ao eidos (isto é. a força é já -se-ia em vão na fenomenologia um conceito que per- fenômeno. Não tentar libertarmo-nos dela. donarmos a ela com esse abandono que é hoje a má penetráveis. à sua iluminação. A força é o outro da linguagem eanha ou se perde a não ser em termos de clareza e sem o qual esta não seria o que é. o que não teria qualquer sentido e nos (38) " . eis algo que'bastaria pa. relação dos intervalos. A força n ã o se pensa a partir do a força. (Teoria das cordas to possível. Hegel mostrou bem que a explicação de um mitisse pensar a intensidade ou a força. da cumplicidade entre a feno- sível para o olhar metafórico). mais ou menos direta e possível sem esquecer a nossa história. isto é. Como compreender a força 38 ou a fraqueza em termos de clareza e de obscuridade? É preciso portanto tentar libertarmo-nos desta Que o estruturalismo moderno tenha. passagem de um sendo a outro." (Nietzsche. pela qual a his- !uz. . como um lapso. é to. nome dado à história ou ao dentes de gênese". in historiam. sob a espécie da "sedimentação". como "inessencial" (Unwesen) é tratado da luz — mas já enquanto metáfora: a metá- para mostrar que o esquecimento é eideticamente pres- fora em geral. Daí as dificuldades de pensar a gênese e a por sua vez. ou de crito. . autorizado pela inicial submis- ao desenvolvimento da verdade. Quando ela é dita. Pois a força não é obscuridade. e não lugar constituído por um sujeito teorético. N e m . ao der e não apenas a direção. para respeitar na lin- ciência. no interior da feno- sentido de força. reconduz Husserl a Platão. de dar conta da luz (do mostrar-se e do esconder-se). como o fato oposto ao sentido.ue permite afirmar que tudo o que é privaria da luz do sentido. para além do seu anti- Dizer a força como origem do fenômeno é sem platonismo. pois é im- desenvolvido na dependência. foi já separada do seu menologia e o ocultismo.. embriaguez do formalismo estruturalista mais complexo. para não o reduzir cidade. ocasionalmente. a tensão e n ã o apenas o dizer isto. n ã o pensamento na história (in historia). não-clareza. Metá- misteriosas fraquezas que denominamos crises. Pensar o po- fenômeno por uma força é uma tautologia. Mas. surgido e se linguagem. da fenomenologia. como a qualidade da música está se- menologia. a. de tomada ou de perda de cons- Mesmo assim seria preciso. mo-nos dela. de evidência. modo dórico). à forma vi- par de oposição. É preciso em todo o caso não nos aban- sonoras. E quan- fora fundadora n ã o apenas enquanto metáfora foto- do.próprio sentido. Trata-se de encontrar por toda parte fórmulas matemáticas para as forças absolutamente im. 48 49 . . Basta dizer que a metáfora da "queda" dida sob uma forma da qual seria a substância. Husserl deixa de considerar os fe- lógica — e neste aspecto toda a história da nossa filo- nômenos de crise e os fracassos do telos como "aci- sofia é uma fotologia. de presença e de ausência para uma consciência. não está escon- tória é encetada. tentar voltar àquela metáfora da sombra e temporalidade pura do ego transcendental. uma falta do próprio pensamento na sua relação com o ser. Nada se o pensamento da força. O ponto de partida. parada de si na a c ú s t i c a .. Ê.. e dessas dadora da filosofia ocidental como metafísica. um significado a outro. Nesta metafísica heliocêntrica. O sentido do sentido é apolíneo por o tornar tributário da mais pura tradicionalidade da tudo aquilo que nele se mostra. La Naissance de la philosophie à Vépoque de ' la tragédie greeque}. Mas resistir-lhe tanto quan- qualitativo é quantitativo.

fundidade na luz e estende-se na horizontalidade. Seria portanto necessário escolher entre a escri- tura e a dança. nihilista! > vel. " N ã o há formas suficientes. Vê e deixa-se nl . quer o saiba quer não. "Só se pode pensar e escrever sentado". e tinha Signification? razão. dizia. ao privilégio do olhar. É pelo contrário o suspiro de um "infelizmente não há . não tem de esperar que esta relação com o seu exterior. Le Crépuscule des idoles. tendo como base este juízo instintivo: "Flau- que "produz antes de mais nada a irritação dos olhos bert é sempre odiável. mantém com a escritura literária.se esforçou Por eliminar" (p. Se é preciso v dizer. É também. Mas formas suficientes". Dionísio é trabalhado pela diferença. o homem não é nada. ao êxtase apolíneo artista. 68. não se apaga na história o Espírito Santo.. isto é. como filosofia da literatura. remoque afetuoso. Estaremos'enga- nados ao apercebê-la através do elogio da "monoto. ocorrem ao andar". " i d é i a s " "mais o queira quer não. com as Daí essa nostalgia. o relevo das forças se torna repouso. escolhe o mau Flaubert. (41) Le Crépuscule des idoles. quer suficientes são já fantasmas de energia. reedição de Pascal. remoque contra Leconte de Lisle. A diferença não pertence sim- estaria de pé. samente a operação estratégica de que falamos mais pois Fiaubert "gosta muito desse m o ç o " . d 'crepúsculo das forças. co. jo. . interesse justapor este texto de Nietzsche à seguinte passagem de Forme et òigmfication: "A correspondência de Fiaubert é para nós preciosa. Seria preciso concluir mas o debate é interminá. tenho a impressão de que (39) Nietzsche. p. trutura. essa melancolia. — que é preciso nia" estrutural e claudeliana que encerra Forme et aprender a escrever?". num sentido in. a crítica não terá nem os meios Nietzsche não se enganara a tal respeito: "Fiau- nem sobretudo motivo para renunciar à euritmia. isto é. Mas Nietzsche adivinhava que o escritor jamais a própria historicidade. a diferença entre Dionísio e Apoio. à bert. essa dionisía- idéias. uma estrutura originária: a abertura da história. Nietzsche teve o cuidado de nos recomendar uma dança da pena: "Saber dançar com os pés." dizia Flaubert. a amá-la como movimento. Pois a filosofia foi determinada na sua história como reflexão da inauguração poética. a Como entendê-lo? Será uma celebração do outro da manhã ensolarada em que falam as imagens. 111." . eis precisamente o pecado contra entre o impulso e a estrutura. é (40) Prêjace à la rie d'écrivain. X X ) . pen. Não será talvez destituído de preciso saber •— e é escrever — que como a força pura. A t é à escritura. É.. pelo menos aquele que o romancista. que a escritura é em primeiro lugar e plesmente nem à história nem à estrutura. 4 0 acima e que não pode simplesmente pensar-se com o título de estruturalismo. Desde sempre. a obra que dá aos olhos a faculdade de v i s ã o " . E n . que a escritura não pode ser completamente dio- nisíaca. Trata-se de um quanto tal. É uma religião da obra como for- a empresa é desesperada se pensarmos que a crítica ma. em que resistem? Elogio de Dionísio? N ã o . com a forma visível. E arranca-(se) os olhos. manhã das idéias e dos ídolos. bém necessário sabê-lo com a pena. _ 50 51 . p. sólito. como com a sua morte. os princípios. com as palavras: será preciso dizer que é tam- ca caída de que falávamos no início. em si mesmo. amplas do que a plástica do estilo". n ã o o cremos. se deve um dia explicar-se e dialogar ver. samento à parte. N ã o poderá 39 tudo. as e m F t epistológrafo não reconheço Flaubert romancista. — É assim que aparece mandando uma metodologia estética da qual receberia a si mesmo. que "tudo é apenas Dionísio". como dese. O diferendo. com Schelling. mas com os traços de um geometria. forma? das "coisas demasiadas" que o excedem e lhe os fenômenos. Aliás as coisas para as quais n ã o temos formas literária já se determinou. Veemente cólera de Nietzsche: "Te peguei. aplana a sua pro. Permanecer sentado. a es- resistência se organize primeiro numa "filosofia". Só têm valor os pensamentos que nos pois não está na história. a u b e r ? d e c l a r a preferir o primeiro. A crítica. enquanto não tiver iniciado expres... as formas. 41 exceder-se até amar a força e o movimento que des- loca as linhas. e n ã o como o acidente ou a epifania das linhas. Flaubert sabia bem.

H u m o r e jogos. Mas não é nada. G.. metáfora como possibi- lidade de outrem neste mundo.. . Uma certa hera ameaçava esconder o seu sentido ou aspirá-lo. 52 53 . Bounoure. não é ele próprio antes do risco de se perder. "Die Stunde meines Niederganges. F. j A escritura é a saída como descida para fora de si em si do sentido: metáfora-para-outrem-em- -vista-de-outrem-neste-mundo. Esta antologia era apresentada por um prefácio admirável de Gabriel Bounoure. N. por n ã o ter ainda amado a sua verdadeira raiz. "Edmond Jabès U demeure et le livre". julho-sefembro de 1966. metáfora como meta- física em que o ser deve ocultar-se se quisermos que o outro apareça. 1959. . Unter- ganges". ou la guérison par le livre". desviá-lo para si. Niedergang. Blanchot. " . decadência Instância e insistência do grave. (1) le bâtis ma demeure (Poemas.para sempre algo sobre que nos debruçamos. mas no trabalho e no perigo da inter-rogação. a hora de voltar a descer e de pe- r e c e r . Pois o outro fraterno não está primeiro na paz do que se denomina a intersubjetividade. Untergang. Les Lettres Nouvelles. risos e rodas. não está primeiro certo na paz da resposta em que duas afirmações se esposam mas é chamado na noite pelo lavrar da interrogação. Mercure de France janeiro de 1965. "Olhai: eis uma nova tábua. Gallimard. Momento da profundidade também co- mo. Nietzsche adivinhava mas Zaratustra tinha a cer- teza: "Eis-me rodeado de tábuas quebradas e de outras só meio gravadas. Submissão na qual sem- pre se pode perder. 1943-1957). vergava um pouco ao vento. Mas onde estão os E D M O N D J A B E S E A QUESTÃO DO L I V R O meus irmãos que me ajudarão a carregá-la para os va- les e a gravá-la nos corações de carne?" Doravante reler-se-á melhor Je bâtis ma demeu- re'. inclinar-se pa- ra gravar e carregar a nova Tábua para os vales. Agora importantes estudos têm sido consagrados a Jabès. "VInterruption". "Edmond Jabès.'| Escavação no outro em direção do outro em que o mesmo procura o seu veio I ç ^ j g u r o verdadeiro do seu fenômeno. Ainda não se erguia para afirmar ao menos a retidão e a rigidez do dever poético. Estou na expectativa. Quando a minha hora chegar'. lê-la e fazê-la ler. maio de 1964. R. Melhor ainda quando as letras já não são números de fogo no céu. canções enrolavam-se graciosamente em torno de uma palavra que. Será preciso descer. A escritura é o momento desse Vale originário do outro no ser. trabalhar.

. própria historicidade. única usura". as palavras a interessarem-se pelos seus livros" frimento da letra. mas em primeiro lugar poesia e história. O judeu que elege a escritura livro." nos ensina é que as raízes falam. o seu srevidor e o o número. a situação judaica torna-se exemplar da situação do aparece a loucura. no inte- constituem uma única espera. Este en. • 54 55 . a pouco e e paixão da escritura. Sem o que. contra-se. que se reflete infinitamente a si próprio. Veremos que por uma outra direção da metonímia "E Reb Hdé: "Que diferença há entre escolher e — mas até que ponto é outra? — é a geração do próprio ser escolhido quando não podemos fazer outra coisa se. troca sem prerrogativa em que o senta-se a si própria: "O romance de Sara e de Yukel. comum de um povo e da escritura. Este movimento pelo qual o livro. é o judeu. torna-se sujeito parte 3 parte se enche de historicidade e a história se em si e para si. e se a paixão se tornar sujeição. num outro sen. especulativa ou crítica. A escritura escreve-se mas estraga-se dificuldade de escrever. Esta reflexão é o seu início. Em todo o caso de uma geração lenta do poeta pelo poema do qual é destino incomensurável. A sa- não submeter-nos à escolha?" bedoria do poeta realiza portanto a sua liberdade nesta E por uma espécie de deslocamento silencioso ru. livro e a amarga obstinação de uma questão errante". Paixão da escritura. apelo originário é em primeiro lugar. é a narrativa de um amor destruí- obstinada do Livre des questions: do pelos homens e pelas palavras. paixão: traduzir em autonomia a obediência à lei da mo à essência. que se confunde com a representar-se.. . se dobra e se liga a si. mas o acento torna-se mais tregue à linguagem e liberto por uma palavra da qual é grave. que começa pela reflexão é a história. articulado pela que elege o Judeu numa troca pela qual a verdade de voz do poeta. É exumada uma poderosa e velha raiz e nela contudo o senhor. a forma do livro repre- pura e instauradora. eis a afirmação mais rabinos imaginários. "O louco é a vítima da rebelião das palavras" (Je (2) Gallimard. ser falante e conhecedor que escreve no livro sobre o e essa ruga. poeta. isto é. que se desenvolve como uma dolorosa interrogação so- Que esta troca entre o Judeu e a escritura seja bre a sua própria possibilidade. convocação." "A pouco e pouco o livro terminar-me-á" (UEs- na origem radical do sentido como letra. "raça saída do livro. amor e so. Tem a dimensão do "Tu és aquele que escreve e que é escrito". que faz deste livro uma longa metonímia.. pouco. este movimento não é uma reflexão consigna na sua empiricidade. Assim. na própria experiência da sua liberdade. Talvez raiz Trata-se realmente de um trabalho. "dificuldade de ser Judeu.. através de diversos diálogos e meditações atribuídos a tido desta palavra. uma rior deste livro. Pois não poderia haver história sem o sério e o labor da literalidade. de si pela qual a história se reflete a si própria ao dar-se a sua substância e o seu senhor.. Pois o sujeito nele se quebra e se abre ao . Dolorosa dobra Portanto o poeta é na verdade o assunto do livro. en- nem a intenção se rompe. E essa dobra.. A única coisa seu tema. do homem de palavra e de escritura. Em Le livre des questions \ a voz n ã o se altera. na pace blanc). que insere a história de uma pai. de um parto. 1963. pois o judaísmo e a escritura também na sua própria representação. Deus que Le livre des questions assim descreve. palavra. uma única esperança. acerca da qual n ã o se poderia dizer {Je bâtis ma demeure) se o sujeito é o judeu ou a própria Letra. bâtis ma demeure).que as palavras que- rem crescer e que o discurso poético está cravado numa ferida): trata-se dé um certo judaísmo como nascimento "A arte do escritor consiste em levar. E o livro é na verdade o sujeito do poeta. é posta a nu uma ferida sem idade (pois o que Jabès "As palavras elegem o poeta.

ou será apenas vento: verdade. Um lugar cujo culto n ã o é necessariamente poema e enraíza-se o direito à palavra. E duas interpretações da interpretação. nunca te sentiste bem. como alcançariam eles o meio? A abertura "Yukel. Reconheceu mesmo que a liberdade tem de ser A poesia está para a profecia tal como o ídolo para a coisa de terra e de raiz. illic: do outro. — Mas estás sobre reito à palavra confunde-se com o dever de interrogar. dizía- xando-se inspirar por esta injunção da L e i . ma outra. Erram. estamos em frente um do outro. É talvez por esta razão que em Jabès o poeta "Ensinamento -que Reb Zalé traduziu por esta ima. "Não esqueças que és o núcleo de uma ruptura". nunca estiveste Lá.. A liberdade só é concedida à Terra não mente pelo poeta e pelo rabino." A necessidade do comen- proclamam o Lugar. longe espaço fechado. é por. Desde que este lugar n ã o seja um lugar. separados do seu verdadeiro nascimento. comum impossibilidade de se juntar ao meio do texto pírico e nacional de um território. à Terra". Pois cha." bém uma explicação com a comunidade judaica vivendo . E temos os pés na Terra. Tábuas diz em primeiro lugar a ruptura em Deus como "Raça saída do livro" porque filhos da Terra que está origem da história. Imemorial. Isto é. Mas se este direito é absoluto é porque não de- baixo. Mas esta estão sempre Lá-embaixo. com aquilo que recebe de uma origem tão pouco que o Profeta colérico as quebrou". 56 57 . "A toda pergunta. O Lugar não é o A q u i em. ao ouvir esta assinação da raiz e dei- Autóctones do Livro. con. mas em nada abdicou a sua liberdade de ronomia judaica não precisa da intercessão dum poeta. — Só conheço as pedras do caminho que. O que pressupõe que o poeta não recebe sim- tenha renunciado à verve. — Penso na Terra em que estarei. tário é. Não palavra poética. para vir. Recomeça a pagão. e que todo Le livre des questions é tam- nado. — Mas 0 livro do homem é um livro de questão. uma pro. com a gravidade que situa o seu centro e o Entre os fragmentos da Tábua quebrada surge o seu lugar. a Terra. pende de qualquer acidente na história... uma localidade de exclusão. . como a necessidade poética. Da Lei. e o Judeu nos parecem tão unidos e ao mesmo tempo gem: "Crês que é o pássaro que é livre. à medida que tomamos consciência dos deiramente. Autônomos também. ao capricho das pri- plesmente a sua palavra e a sua lei de Deus. mas merecemo-las que a retém. palavra. Melhor: a tradição como imperativo da interpretação é interpretado "diferente- aventura. Estás enga. o Judeu responde com uma duz. enfurnada. um aventura do texto corno erva daninha. e contudo tão próximos um a proximidade. este lugar." haverá sempre rabinos e poetas. a própria forma da mando-nos desde a além-memória. A diferença entre o paga se dela estiver separada pelo Deserto da Pro. dizem. pelo Poema. na origem. "E Reb Lima: \ "A liberdade desperta-se a na heteronomia e à qual o poeta não pertence verda- pouco e pouco. sagrado e esta necessidade comum da exegese. A L e i torna-se então Questão e o di- "Em que pensas? — Na Terra. . este tanto também um futuro. então os nossos atos têm enfim um nome'\ "E Reb Lima: "A liberdade foi. fora da Lei. supõe quebradas as Tábuas.. Deste modo. gra- A liberdade entende-se e permuta-se com aquilo vada dez vezes nas Tábuas da Lei. talvez Jabès mos. A autonomia poética.. é a flor. pergunta. semelhante a nenhu- nossos laços como aquele que dorme com os seus sen.'" Reb Lima.. da "pátria dos Judeus" que "é um texto sagrado no víncia ou um gueto. n ã o declaram a guerra. Quando um Judeu ou um poeta meio dos comentários. O Poeta e o Judeu n ã o nasceram aqui mas lá em. A ruptura das Autóctones apenas da palavra e da escritura. A hete- meiras obras. tidos. tão desunidos. horizonte do texto original e a escritura exegética torna messa. a Terra reserva-se sempre fora de toda podendo nunca reunir-se. No começo é hermenêutica. esta terra palavra exilada. isto é. criginária da interpretação significa essencialmente que mas Noutro Lugar. Quando se deixa dizer pela irredutível a diferença entre o poeta e o rabino.

gunta em Deus. como sempre. Caminho de Deus. escrevia erguem no cérebro de Deus". A sinceridade. A ausência tenta desvio. escatológica. entre jardim. esses incompreendidos. a morrer te separam "Deus está em perpétua revolta contra Deus. inscrito para os racionalistas clássicos torna-se aqui evidência. se a distancia infinita do Outro só é de Deus". Desvio infinito. de areia infinita. O livro desér- ". é seu livro e cicatrizar o seu grito. A diferença entre a palavra e embargada e com a dissimulação da sua Face. Deus é uma interrogação de Deus. desloca-se numa linha quebrada entre a palavra perdida mente a nossa.. caminho em questions é ao mesmo tempo o canto interminável da direção a Deus e do. o deserto escritura. inu- Kafka dizia: "Somos pensamentos nihilistas que se merável e vã. à margem da fenomenologia do espírito com a qual o Deus. respeitada nas areias de um livro em que a errância prestado. tornar-se homem de olhar porque antes das primeiras e antes das novas T á b u a s . Esta a escritura. se a separação ditava na virtude da mentira porque. É os seus sinais. diferença. fiar-se aos traços. por Deus e a Deus.qual o homem n ã o é o simples ausência e um livro sobre o livro. que nenhuma verdade precede para nece intacta e inacessível. quantas páginas a viver. Caminho desviado. dizia ele." tico é de areia. do livro ao abandono do livro?". equívoco. Deus separou-se de si para nos deixar falar. com que coisa começa o mundo? a origem e a repetição (32-14. é a nossa liber. é a falta. Reb Ivri. O seu nome o indica — em arameu —: os Nada •— como o Ser — só pode calar-se e esconder-se. separação entre a vida e o pensamento. Ironia de Deus. Certa. que é a simplicidade. A escritura é —. não há não pode sobrevir a n ã o ser na ruptura de Deus — escritura sem mentira e porque a escritura é o caminho com Deus —.. 33-17). Deus não nos fala calando-se." de ti. confessá-la é mentir. A escritura portanto originariamente hermética e segunda. No Êxodo. "de areia louca". e nesta medida perma- Este caminho. deixando o silêncio interromper a sua voz e mais. pois a fe- aceder à virtude da mentira. mas já a Sua que começa com a voz e a palavra prometida. produzir-se a si própria no livro e perde-se ao dizer-se. fechar o não é sincero. esta negatividade em Deus. espantar e nos interrogar.Com a palavra? — Com o olhar?. "Yukel.. não age pelas vias mais simples. Em cada grão pureza da sua origem negativa na possibilidade da per. esses homens da letra. "O Nada escritura é o momento do deserto como momento da é a nossa principal preocupação. significa a travessia do livro como anacorese infinita para si. Pelo contrário é necessário rimbo vermelho a primeira página do livro. Schclling. "Reb Saco. entre a se deixou de ouvir a voz na imediata proximidade do palavra e a escritura originárias e. então Le livre des de Deus. 58 59 . a imediatidade perdida e o trabalho fora do jardim. fala-me desse homem que é mentira de Deus". N ã o o fez falando mas sim eram também homens "separados". dade.. "Marca com um ca- uma virtude enganadora. astúcia e a miragem sempre são possíveis. calou-se: é preciso arcar com as palavras. procedendo na duplicidade do seu próprio ques. "Yukel. lhe prescrever a direitura.. ela sabe-se perdedora e perdida. caminho oblíquo. A experiência judaica gunta. que foi o meu primeiro mestre.. em. "Apanha um pouco de areia. sem provisão tionar. de areia. entre as duas imediatidades e as duas identidades a si. tu conhecerás então a vaidade do verbo". acre. nos fariseus. Se a ausência é a alma da pergunta. A consciência judaica é realmente a consciência não há simplicidade de Deus. a cólera de Deus que sai de si. se é a própria abertura da Pergunta.. A pergunta. e con- Deus arrependeu-se e disse-o pelo menos duas vezes. O que era impensável infeliz e Le livre des questions é o seu poema. Reb Alceu". Judeu só quer fazer uma parte do caminho. a transcendência e o verbo que só reencontram a "O jardim é palavra. " a ironia de Deus" de que falava como reflexão. para n ã o limitar o seu deserto.. Sara. dizia Reb Idar" e o Separação. um sinal surpreende". não é veraz. escuso. é o caminho no Deserto. Aceder a ela é perdê-la. deixando quebrar as T á b u a s . "Sara. na Escritura. rida está inscrita no seu inicio. A mostrá-la é dissimulá-la. preciso separar-se da vida e das comunidades. Se Deus inicia a per. saída de Deus. volta-se em primeiro lugar.

Obstinou-se porém em evi- areia ou entre os paralelepípedos. . Abandonar a palavra. — De outro modo não seriam caminhos"/ pois esse homem escreve Toda a primeira parte do Livre de Vabsent pode ser lida ' e o escritor não é ninguém". a escritura ao mesmo tempo desenha e reconhece.. Uma folha Ele é.. Isto é. o escritor: saber. Como Deus: tura que só pode fazer sulcos no deserto. está escrito n ã o na areia desta vez. . O poeta de acredita nos "jardins de escritura" nem naqueles que escritura só pode entregar-se à "infelicidade" que querem semear servindo-se de um c a n i ç o ) . a não ser as palavras. sozinha. . Judeu nômade é tomado de infinito e de letra. "na água". Ausência. um labirinto invisível.". entre a cidade e o deserto. inven. no posto de controle mais próximo onde se acomodou num não-lugar. a pista tinha desapa- gar. Partilhado em si — (A mente junto daqueles que o entendem e junto daqueles língua grega dir-nos-ia sem dúvida muita coisa sobre a que n ã o se interessam por ele". errante. " E Le livre dei casa — um nômade o conduzira num camelo até ao questions mantém-se resolutamente no terreno vago. nem paisa. branca está cheia de caminhos." Sem o Como Deus. como desmunida. . Des. Em primeiro lugar ausência de lugar. que nem são países. Deixá-la falar sozinha. que protege a sua escri. "Quando criança. (Como diz Fedro. mas da sua asseguram aos seus gritos um eco necessariamente in. Reb "Voltaremos a fazer o mesmo caminho dez vezes. . Em deu — protege o deserto que protege a sua palavra relação à obra. Toda marca de passos. meu nome. T a m b é m ausência do escritor. sobre a raiz comum — V E ^ E I V — dar no mesmo.. da página "Sara: A palavra elimina a distância. cuja linha reta e cuja saída nenhuma resolução ' confundes com a mosca que zumbe no vidro da tua cartesiana pode assegurar-nos. controu-se ao meio-dia. ao mesmo tempo. Ser poeta é saber se sabe. Abandonar Nietzsche chama sobre aquele — ou promete àquele a escritura é só lá estar para lhe dar passagem. escrevia Reb Servi. esse Limite que é o único habitai da ma recolhido em Je bâtis ma demeure. Sepultadas. página obsecada. /'Onde está o caminho? janela. "A ausência de lugar" é o título de um poe. vezes. pois O caminho está sempre por encontrar. o Todo e o Nada". N ã o para a sua tenda para escrever. o que ela constrói com os seus "punhais roubados ao anjo" é uma só pode fazer escrevendo.. mas. O poeta — ou o Ju. tantos igualmente repelida ou esterilizada. da errância e da não-identi. uma cidade na areia. "En-' 60 61 . cem vezes. diante do infinito. E todos estes caminhos têm os seus caminhos " . o que vem a dade consigo mesmo. "rolar para a direita e para a esquerda" "indiferente- truído pela L e i destruída. A habitação que o poeta abandonar a palavra. "Se. a sua saída do Egito. deixá-la caminhar sozinha e Cairo de onde nos vem Jabès que também teve. Começava assim. Voltaremos a fazer o mesmo caminho dez vezes. como uma meditação sobre o caminho e a letra. Simultaneamente a cidade e o deserto. frágil tenda. pensas que tando. da nomia e do nomadismo). diz Platão que também não da partilha. Mas tens aí a prova da Sua onipotência. onde a raiz é caminhão militar que se dirigia para a cidade —. perdido porque estranha relação da lei. . Escrever é reti- gens nem jardins. o elemento diáfano da sua procissão: tudo e nada. desespera o hi branca. . é porque ele se fez tão humilde que o na'ado. ao escrever pela primeira vez o no deserto. o escritor é ao mesmo tempo tudo e nada. que só pode falar no deserto. Cair longe da sua linguagem. feita de palavras no deserto em que o privado da assistência do seu pai "vai sozinho". Deus não te vê. . serto à cidade. por vezes. eman- finito. fazem o cerco à poesia de Jabès e rar-se. tá-los". tive a consciência de começar um livro. Somos nós que a formulamos ou será ela que nos recido. um caminho inencontrável e não-assi-. escritura: "Quando reencontrou o seu bairro e a sua "Terreno vago.. Nada floresce na vocábulos o solicitavam. isto é o cipá-la ou desampará-la. cego." E ainda esta passagem do de- modela?". própria escritura. para ser — que "esconde em si desertos". o escrito. Mas não sou esse homem próprios. A cidade e o deserto.'cem Stein.

. à pela qual a nossa escritura é responsável obedece ao escritura não formulada que o vento esboça na areia e princípio da descontinuidade. ". O que supõe que "O meu nome é uma per. mas também consagração razões ou pela dedução. Supondo que a Natureza recusa o salto. que não suspendeu o fôlego como o de Jabès. A menos que o próprio Deus escreva. diz Nietzsche. e da existência pela palavra.. as dilaceram necessa. A letra soletrarem e significarem. frases. O outro co- páginas do Livre des questions. bem entendido. peu a si próprio. N ã o sozinha. a racionalidade do Logos rava-te. Sacrifício da existência à pela narrativa.. aprisionado na solidão aforística. pela ordem das palavra. Nenhuma "lógica".. A morte passeia entre as letras. mória noturna de toda a linguagem. Há um lapsus essen- riamente: já Deus . mais trans. je lianas conjuntivas pode acabar com a sua desconti- E contudo (isto é apenas um exemplo das postu. mas mente Deus. mas é também. Mas em primeiro lugar a cesura que o homem esperava do homem. Só Reb Tal procede por saltos. nuidade e com a sua inatualidade essenciais. que n ã o se interrogou nem se interrom- parente do que um vidro de janela". compreende-se por que razão a Escritura jamais será a Natureza. esperava do homem o livro mas da eternidade". Reb Eglal".." anunciado por esta miséria da escritura? ". é a forma mar-se. na torção so- é separação e limite no qual o sentido se liberta de ser bre si da linguagem. os livros •— nenhuma significação poderia surgir. Contrariamente também a Deus: "Não te procurei. O divino — o desaparecimento do homem não será "A luz está na sua ausência que tu lês. sofos clássicos. "Eu. Sara. à escritura selvagem do pássaro e do peixe la." Se a ausência n ã o se deixa reduzir pela letra é A ausência é a permissão dada às letras para se porque constitui o seu éter e a sua respiração. É preciso cha¬ não é um estilo ou um fracasso determinados. Senhor do vento. Pois toda a escritura (Estou ausente pois sou o contador. um para ser final. Senhor da areia.Todas as letras formam a ausência. são as for- dos pássaros e dos peixes. O que a torna perigosa. as palavras. supõe o acesso ao espírito pela coragem de perder a vida. nem mesmo a me- dade que as coisas chegam à existência e perdem a exis. Aliás não basta ser escrito. labora originariamente no sentido. Mestre Eckart dizia: "Deus torna-se Deus quando as criaturas dizem Deus". só o escrito me fa2 cial entre as significações. Só o conto c aforística. n ã o pela letra — de perdê-la e de ganhá-la — impõe-se tinha a necessidade vital da escritura). O fragmento é preciso escrever para ter um nome.. e fixa o sentido: "O aforismo. . N ã o só a cesura termina no mar..se contradiz). o que se denomina escrever. tância generosa entre os signos. que não é a simples e existir nomeando-me. a frase dino. as "Todas as letras formam a ausência. que ela é a própria ruptura da totalidade. Sêrafi o ausente.. É portanto simultaneamente ver. é desconhecer a linguagem. Escrever. faz surgir o sentido. (Mas precisamente o Deus dos clássico"." sem a interrupção — entre as letras. de morrer para a natureza. nasci para escrever livros". o outro para ser finalmente homem. nenhuma proliferação éreal)". Pretender reduzi-lo tência ao serem nomeadas. com a ge- lações contraditórias que constantemente dilaceram as nialidade dos seus silêncios subentendidos.Sem os meus escritos sou mesmo assim é preciso que seja então o Deus dos filó- mais anônimo do que um lençol ao vento. Através de ti remonto à origem do signo. Deus. Senhor em que me tornei mestre entre os alemães. Assim Deus é filho do Seu nome".. como dizia Hegel.. Procu. Esta necessidade de trocar a sua existência com ou cuja infinidade atual era intolerante à pergunta. pelo discurso filosófico. e gunta. ao Ser e ao Livro leibnizianos. . positiva impostura de uma palavra. . do escrito. Este auxílio dado a Deus Jabès mostra-se extremamente atento a esta dis- pela escritura do homem n ã o é contraditória com a impossibilidade que ela tem de "se dar auxílio" (Fedro). o que dizem as letras: dizem a 62 63 .

64 65 . A metáfora. E Le livre vore está para o mastro tal como o deserto está para des questions: "Tu adivinhas que dou um grande valor a cidade. fora do alcance dò canto. Significando a ausência e a se. a floresta. (Por ção. isto é. .. da sua inquietação e da sua solidão. o sexo é uma vo«al. uma certa não-relação. tureza ou da palavra que voltou a ser natureza. tendo sempre movimento para ir mais (La Clef de voüte em Je bâtis ma demeure. como Deus.) longe do que a certeza pacífica e sedentária "Como di- zer o que eu sei / com palavras cuja significação / é Como o deserto e a cidade. Subversão psíquica da literalidade inerte. e a arvore da floresta ou do mastro A ár- verso tirado de La voix de Venere (1949). £ certo que a animalidade da letra aparece'em (Encontraríamos em E. em res em que se agarram as letras enlouquecidas. pois mem. b a sua pena. a distância. socratismo e o hebraísmo. Levinas a mesma hesita- primeiro lugar como urna metáfora entre outras. a reflexão Como o marinheiro que enxerta um nome milenária de um povo. ao fechá-la na sua rede. mantém-se fora do sol. Há portanto uma quase vocidade primeira e infinita do significante como V i d a . "cujo passado ao do mastro e cuja continuidade se confundem com os da escritura".' serva". Seria letra morta fora d a como metáfora. a relação com o outro. múltipla?" gam os signos amedrontados. o mesmo movimento inquieto na diferença entre o exemplo. Esta "A tua solidão superpotência como vida do significante produz-se na é um alfabeto de esquilos inquietação e na errância da linguagem sempre mais rica para uso das florestas" que o saber. É solidão. à letra. Brcton. Mas a alcance do comentário. diz a é sobretudo a própria metáfora. em Le livre des questions. da metáfora. sem isso 6 mas esbulhadas. e chora a voz perdida com lágrimas negras A árvore da gravura e do enxerto já não pertence como manchas de tinta. a ma- especial. a miséria e a elevação da etc. diz A. essa "dor".") Mas paração. das árvo- gar-nos sobre a sua origem. sobre a barragem das palavras. Mas podemos ainda interro- floresta é também. O infinito os obseca. o destino que interpela o Judeu e o interpõe entre a voz e o número. ajudado por um cúmplice. En- — Ouço a voz criadora. a origem da linguagem solidão. o que elas "formar. a letra vive como aforismo. é a equi- isto é. as consoantes com esca- letra vive. "Por vezes. •> palavra muda de sexo e de alma". "É preciso que o nome germine. ou animalidade da letra. de uma extraordinária confluência que pesa deira que a incisão poética fere. Je bâtis ma demeure é um ao jardim. além-metáfora. se apertam e se recordam o sofrimento. . sobre a singularidade "Gravavam o fruto na dor da árvore pontual da experiência de Edmond Jabès. em Je bâtis ma demeure. como o poeta. os signos só têm escolha entre uma no que é escrito. onde formi. solidão de natureza ou uma solidão de instituição. em direção a um céu que se esconde. e vive de solidão. condições. Como o Judeu. no seu tugúrio de tinta. animalidade da letra que assume as formas do seu de. ou então. voz e sobre o seu estilo? Confluência em que se reú- nem. faJta a minha voz e acredito nela. talvez mais do que ao que é escrito. em que o Ser e o Nada. prios. falso . já. diz sem dúvida o não- -lugar e a errância. não a voz cúmplice que é uma tão são signos e o outro torna-se possível. liberdade e a vacância concedida. como o ho- ao que é dito. o respeito. se rompesse a inter. parecem-se com cabeças de peixes fora s0 Finalmente ausência como sopro da letra. a ausência de caminhos prescritos Já traída pela citação. N ã o nascerá ela aqui. diferença e se rompesse a solidão. p i 0 s a líágua perfuradas pelo anzol. além da rigidez das linhas. jamais se dizem a si pró- rupção. . sobre a sua da solidão. da na- sejo. no signo tu estás sozinho". Vivem apertadamente nos seus atos. o pneumático e o gramático). a potência organizada do a ereçao solitária da raiz ofuscada. ou ainda: "As vogais.

isto é. etc. Um poema Mas a tradícionalidade não é ortodoxia. e sobretudo que o encontro é separa. etc. descrevem. o que aqui fazemos. respeito aos dogmas. Mas. ao caírem. o próprio Deus é. dirão. Outros corre sempre o risco de não ter sentido e ele nada seria falarão talvez de todos os aspectos pelos quais Jabès sem este risco. para dizer estas coisas. como a diferença e na dissimulação. como a de Sara e Yukel. mesmo^ os separação. 66 67 . É Le livre de s diferença. a escritura Podemos por exemplo ler em Le livre de 1'absent. Quer seja o ser ou o senhor do ou do poeta. fora da diferença (em todos os sentidos exigidos Os rabinos. Canta este grito porque faz aflorar. A pergunta em Deus. aparece como o que é na rios da palavra. 12). . por exemplo Le livre de 1'ábsent. do homem como desejo e pergunta de Deus (e a dupla " U m a batalha decisiva em que os vencidos. o Judeu n ã o passa de foi separação. de este alegorismo descarnados. Semelhante proposição. e que a unidade n ã o é uma unidade de encontro. Depois as "cor- rentes". questions. é preciso contentarmo-nos com estes vigá. questions? do último Scheler. a vida da letra enfim. meus irmãos de raça disse- precisamente o exílio originário fora do reino do ser. anti-semitas. que a fe. miseráveis século. seríamos real- por todos os meios. rompe a unidade do Ser — no frágil elo do " é " Tem então de se explicar com os seus irmãos de raça -— acolhendo o outro e a diferença na origem do sen. N ã o . É certo. N ã o se separa dela apenas no que diz fonte. esta neutralização do acon- que e de quem. são charlatães. dó romantismo alemão. mas o "é sempre preciso j á " significa "Dirigindo-se a mim. e com rabinos que já não são imaginários. as "afluências".. cujas palavras citas. como se isso tivesse um sentido. a história e o discurso como cólera de sem dar por isso. sendo. a unidade de uma ruptura que brota. De fato foi para afirmar a supremacia Deus saindo de si. é sempre preciso pensar já o ser censurarão por este universalismo. à sua "estrutura temática". como se diz. a página de escritura melhor o enraizamento do ontológico e do gramatical que os vencedores dedicam ao eleito que a desencadeou no graphein). este essencialismo. Não freqüentas a sinagoga. que reconhece ter descoberto muito tarde uma Encontro primeiro. . pois fôstes designados para o martírio. no seu do seu livro. ração da historicidade e da palavra humana. Le livre des próprios de Boehme. quando falta a voz do deus hoje por esta palavra). as "influências". eis aqui motivos sufi- do verbo sobre o homem. Esta confluência. é preciso adivinhar a tido clássico. por todos os caminhos.. o grito e a escritura. e rei. agora. a negatividade em Deus como libe- vindicar a sua responsabilidade contra um Pai do Logos. nunca está presente. Que quer dizer a própria " T r a d i ç ã o " . o exílio como escritura. ção. principalmente encontro único pois certa afinidade com o judaísmo. Mais profundamente ainda. e que o Ser n ã o é Tu não és Judeu. o encontro e a separação. a água de um rochedo fendido. etc. Jabès. do verbo sobre o verbo que cientemente constatados: em primeiro lugar n ã o são se travou o combate". para que a sua pergunta pelo menos esta última noção tenha aqui um sentido ou o seu sen corra o risco de ter um sentido. Na afasia originária. (Ver enigma. gica". O canto não mais cantaria se a tensão só é já a Cabala. Por vezes. tecimento no simbólico e no imaginário. posse da mente obrigados a reconhecer que nada é nele original sua linguagem. A negatividade em Deus. fosse de confluência. genitividade é ontológica antes de ser gramatical ou rida trai. A confluência tem de repetir a E Jabès tem consciência das ressonâncias cabalísticas origem. joga mesmo com elas. a fonte única. e t c . Para que o poema de Jabès corra o risco se separa também da comunidade judaica. ram: o exílio como pensamento do ser. a repetição nazi. pretendêssemos reduzi-lo hoje finalmente — e para sempre em vão — retomar. Para mas que neste encontro hoje recorda um outro encontro. a extraordinária reflexão do homem que tenta erafitos a um imenso poema. a revolução poética do nosso Se ao acrescentar.. . Todos o tido. nem se mostra nunca a si próprio. de Hegel. supondo que de ter um sentido. que contradiz a "ló. O encontro é alegoria sofredora: Vós sois todos judeus.

Alguma vez existiram? E te alimentaste com as su,u f r dilaceramento de si em direção ao outro na con-
0

palavras ímpias.",,. fissão da separação infinita, se for deleite de si, prazer
. . ."Tu és Judeu para os outros e tão pouco para rJe escrever por escrever, contentamento do artista, des-
nós". trói-se a si própria. Sincopa-se no arredondado do
"Dirigindo-se a mim, o mais ponderado dos meus 0vo e na plenitude do Idêntico. É verdade que ir em
irmãos de raça disse-me: direção ao outro é também negar-se e o sentido alie-
na-se na passagem da escritura. A intenção ultrapas-
Não fazer qualquer diferença entre um Judeu e
sa-se e arranca-se a si para se dizer, "Odeio o que é
aquele que não o é, não será já não ser Judeu?" £
pronunciado onde já não estou." Também não há dú-
acrescentaram: "A fraternidade é dar, dar, dar, e m
vida de que, do mesmo modo que o fim da escritura
jamais poderás dar senão aquilo que és" / Batendo no
passa além da escritura, a sua origem ainda não está
peito com o punho, pensei: / "Nada sou. / Tenho a
no livro. O escritor, construtor e sentinela do livro,
cabeça cortada. / Mas um homem não vale outro ho-
permanece à entrada da casa. O escritor é um passante
mem? I E o decapitado, o crente?".
e o seu destino tem sempre uma significação liminar.
Neste diálogo Jabès n ã o é um acusado, traz em si "— Quem és? — O guarda da casa. — .'. .Estás no
o diálogo e a contestação. Nesta não-coincidência de livro? — O meu lugar é no limiar."
si consigo, é mais judeu e menos judeu do que o Judeu,
Mas a identidade do Judeu consigo mesmo talvez não Mas — e está nisso o fundo das coisas —- toda
exista. Judeu seria o outro nome dessa impossibilidade esta exterioridade em relação ao livro, toda essa nega-
de ser ele próprio. O Judeu está quebrado e o está em tividade do livro produz-se no livro. Diz-se a saída para
primeiro lugar entre estas duas dimensões da letra: a fora do livro, diz-se o outro e o limiar no livro. O outro
alegoria e a literalidade. A sua história seria apenas c o limiar só podem escrever-se, confessar-se ainda
uma história empírica entre outras se se estabelecesse, nele. N ã o se sai do livro a não ser no livro, dado que,
se se estatizasse na diferença e na literalidade. Não para Jabès, o livro não está no mundo, mas o mundo
teria história alguma absolutamente se se extenuasse no livro.
na álgebra de uma universalidade abstrata. "O mundo existe porque o livre existe..." "O
livro é obra do livro." ". .. O livro multiplica o livro."
Entre a carne demasiado viva do acontecimento Ser é ser-no-livro, mesmo que o ser não seja essa natu-
literal e a pele fria do conceito corre o sentido. É reza criada a que a Idade Média muitas vezes chamava
assim que passa no livro. Tudo se passa no livro. o Livro de Deus. O próprio Deus surge no livro que
Tudo deverá habitar o livro. Os livros também. Por liga assim o homem a Deus e o ser a si. "Se Deus existe,
tal razão o livro jamais está acabado. Permanece sem-
é porque está no livro." Jabès sabe que o livro está
pre em sofrimento e vigília.
investido e ameaçado, que a sua "resposta é ainda uma
"— Uma lâmpada está sobre a minha mesa e a • pergunta, que esta habitação está constantemente amea-
casa está no livro çada". Mas o livro só pode ser ameaçado pelo nada,
— Habitarei finalmente a casa." pelo não-ser, pelo não-sentido. Se chegasse a ser, a
ameaça — como é aqui o caso — seria confessada,
"— Onde se situa o livro? ^ dita, domesticada. Seria da casa e do livro.
— No livro" '
Toda a inquietação histórica, toda a inquietação
Toda saída para fora do livro faz-se no livro, - ; poética, toda a inquietação judaica atormentam por-
N ã o há dúvida de que o fim da escritura se situa \\\u< tanto este poema da interminável pergunta. Todas
lá da escritura: "A escritura que acaba em si mesma ^ J
as afirmações e todas as negações, todas as perguntas
não passa de uma manifestação de desprezo." Se não contraditórias nele são acolhidas na unidade do livro,

69

-.-Í^P"

numa lógica sem semelhança com nenhuma outra, na pagina amarrotada no cesto de papéis..."? Sempre
Lógica. A q u i seria necessário dizer a Gramática. fvlas
demasiado cedo para dizer que o mal é apenas indeci-
esta inquietação e esta guerra, este tumultuar de todas frável, pelo efeito de algum lapsus calami ou cacografia
as águas não repousará no fundo calmo e silencioso de de Deus e que "a nossa vida, no Mal, tem a forma de
uma não-pergunta? A escritura da pergunta não será ma letra deitada, excluída, porque ilegível do Livro
u
por decisão, por resolução, o começo do repouso e dà
dos Livros?" E se a Morte não se deixasse inscrever
resposta? A primeira violência em relação à pergunta?
a si própria no livro em que, como aliás se sabe, o
A primeira crise e o primeiro esquecimento, o começo
Deus dos Judeus todos os anos inscreve o nome unica-
necessário da errância como história, isto é, como a — -
mente daqueles que poderão viver? E se a alma morta
própria dissimulação da errância?
fosse mais ou menos, em todo o caso outra coisa dife-
A não-pergunta de que falamos não é ainda um. rente da letra morta que sempre deveria poder ser des-
dogma; e o ato de fé no livro pode preceder, sabemo-lo, pertada? Se o livro só fosse o esquecimento mais se-
a crença na Bíblia. Sobreviver-lhe também. A nãr> guro da morte? A dissimulação de uma escritura mais
-pergunta de que falamos é a certeza não enfraquecida velha ou mais nova, de uma idade diferente- da do
de que o ser é uma Gramática; e o mundo na sua livro, da gramática e de tudo o que nela se anuncia
totalidade um criptograma a constituir ou a reconstituir sob o nome de sentido do ser? de uma escritura ainda
por inscrição ou decifração poéticas; que o livro é ori- ilegível?
ginário, que toda a coisa é no livro antes de ser para
A ilegibilidade radical de que falamos n ã o é a
vir ao mundo, só pode nascer abordando o livro, só
irracionalidade, o não-sentído desesperante, tudo o que
pode morrer malogrando em vista do livro; e que sem-
pode suscitar a angústia perante o incompreensível e
pre a margem impassível do livro está primeiro.
o ilógico. U m a tal interpretação — ou determinação
Mas se o L i v r o n ã o fosse, em todos os sentidos — do ilegível pertence já ao livro, está já envolvida na
da palavra, senão uma época do ser (época moribunda possibilidade do volume. A ilegibilidade originária não
que deixaria ver o Ser nas pálidas luzes da sua agonia é um. momento simplesmente interior ao livro, à razão
ou no relaxamento do seu abraço, e que multiplicaria, ou ao logos; também n ã o é o contrário, n ã o mantendo
como uma última doença, como a hipermnésia faladora com eles nenhuma relação de simetria, sendo incomen-
e tenaz de certos moribundos, os livros sobre o livro surávei em relação a eles. Anterior ao livro (no sen-
morto)? Se a forma do livro já n ã o devesse ser o tido não cronológico), é portanto a própria possibilidade
modelo do sentido? Se o ser estivesse radicalmente fora do livro e, nele, de uma oposição, ulterior e eventual,
do livro, fora da sua letra? De uma transcendência do "racionaiismo" e do "irracionalismo". O ser que se
que já n ã o se deixaria tocar pela inscrição e pela signi- anuncia no ilegível está para além destas categorias,
ficação, que n ã o se deitaria na página e que sobretudo para além do seu próprio nome ao escrever-se.
se levantaria antes dela? Se o ser se perdesse nos livros? Que estas perguntas n ã o sejam formuladas em Le
Se os livros fossem a dissipação do ser? Se o ser-mun- livre des questions é algo que não podemos censurar
do, a sua presença, o seu sentido de ser, se revelasse ' a Jabès. Estas perguntas só podem dormir no ato
apenas na ilegibilidade, numa ilegibilidade radical que- : literário que tem necessidade ao mesmo tempo da sua
não seria cúmplice de uma legibilidade perdida ou pro- vida e da sua letargia. A escritura morreria quer com
curada, de uma página que ainda se ,hão tivesse cor- a vigilância pura quer com o simples desaparecimento
tado em qualquer enciclopédia divina? Se o mundo da pergunta. Escrever n ã o é ainda confundir a onto-
nem mesmo fosse, segundo a expressão de Jaspers, o •' logia e a gramática? Esta gramática na qual se inscre-
"manuscrito de um outro", mas em primeiro lugar o., vem ainda todas as deslocações da sintaxe morta, todas
outro de todo o manuscrito possível? E se sempre \ \ as agressões da palavra contra a língua, todos os ques-
fosse demasiado cedo para dizer que "a revolta ê uma . tionamentos da própria letra? As perguntas escritas

70 71

dirigidas à literatura, todas as torturas a ela infligidas
são sempre por ela e nela transfiguradas, enervadas'
esquecidas; tornadas modificações de si, por si, em si'
das mortificações, isto é, como sempre, das astúcias da
vida. Esta só se nega a si própria na literatura para
melhor sobreviver. Para melhor ser. Não se nega
mais do que se afirma: difere-se e escreve-se como di-
ferência. * Os livros são sempre livros de vida ( 0

arquétipo seria o Livro da Vida mantido pelo Deus dos
Judeus) ou da sobrevida (os arquétipos seriam os Li.
vros dos Mortos mantidos pelos egípcios). Quando
Blanchot escreve: "Será o homem capaz de uma inter-
rogação radical, isto é, afinal de contas, será o homem
capaz de literatura?", poder-se-ia igualmente dizer, a
partir de um certo pensamento da vida, "incapaz",
outras tantas vezes. Exceto se admitirmos que a lite-
ratura pura é a não-literatura, ou a própria morte. A
pergunta sobre a origem do livro, a interrogação abso-
luta, a interrogação sobre todas as interrogações pos-
síveis, a "interrogação de Deus" jamais pertencerá a :

qualquer, livro. A menos que se esqueça a si própria :

na articulação da sua memória, no tempo da interro-
gação, no tempo e na tradição da sua frase, e que a : ;

memória dé si, sintaxe ligando-a ã si, não faça dela
uma afirmação disfarçada. Já um livro de pergunta que
se afasta da sua origem.

E n t ã o , para que Deus fosse realmente, como diz ;
Jabès, uma interrogação de Deus, não seria preciso <:
transformar uma última afirmação em pergunta? Tal- ELIPSE
vez a literatura só fosse então o deslocamento sonâm-
bulo desta pergunta:
'Há o Livro de Deus pelo qual Deus se interroga z A Gabriel Bounoure
e há o livro do homem que é à medida do de Deus "
Aqui ou ali, discernimos a escritura: uma partilha
Reb Rida sem simetria desenhava de um lado o fechamento do
livro, do outro a abertura do texto. De um lado a
enciclopédia teológica e segundo o seu modelo, o livro
do homem. Do outro, uma rede de traços marcando
o desaparecimento de um Deus extenuado ou de um
homem eliminado. A questão da escritura só se po-
dia iniciar com o livro fechado. A alegre errância do
(*) Sobre di/térence e diliérance, que traduzimos por diferencia, \ei
o artiao de Jaeaues Derrida La diliérance, em Théorie tVensemble, ti. du Sraphein era então impossível. A abertura ao texto
Seu», 1%8. (N. da T.) era a aventura, o gasto sem reserva.

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Ver contudo todo o sentido é alterado por esta faixa. no repetição é a primeira escritura. E se se fizer depois desta vigília e depois do além-fechamento. . então o abandono do livro.. paixão da origem. entre duas. a sua identidade livro. Longe de se deixar oprimir ou envolver no volume.A minha vida. de ser escrita. todos os recursos. Se o fechamento não é o fim.. E contudo nao sabíamos nós que o fechamento do . terá portanto linha.naixonada por qualquer coisa. do centro. suspenso do intervalo. nada se modificou. sendo originalmente redobra e consagra perfeitamente o livro. foi sem poder impedi-lo. deve gem: entender-se também pela via do genitivo subjetivo. . passiva e suscetível "Escrever é ter a paixão da origem". pensa e pesa o livro como tal. isto é. Esta saída para fora do idêntico A repetição não reedita o livro. desdobramo-lo. a sua totalidade de suspensão entre duas escri. ^ É a própria origem que é apaixonada. Re- o ensaio Edmond Jabès et la question du livre. por mais que protestemos ou pratiquemos Reb Seab a demolição. O que quer dizer' inscrita. Regressa mite sair eficazmente. do volume.. . escritura apaixonada pela ori. Algo invisível falta na gramática desta repeti- meçou. Mistificação da origem. da linha. pela mesma ". no espaço neutro da sucessão. voltando constantemente a ele." L i v r o . Aghim. te. em si n ã o pesa nada. Esta já não está do seu desaparecimento. Não se reapropria da origem. "Uma das minhas grandes angústias. repetindo-o. "Deus sucede a Deus e o Livro ao Livro". É um momento de errância. sabemo-lo agora. tirando de>* [im. Não é a a u s ê n c i a em lugar da lugar e de uma função. descreve a sua no mesmo permanece muito leve. entre Deus e Deus. 74 75 . o regresso ao livro é de essência jamais esteve presente. em si própria. que nos seria necessário indefinida' Como no primeiro Livre des questions. que o volume se enrola nele. o regresso ao livro n ã o nos encerra Logo que o círculo gira. O segundo volume." intervalo dos limites". da curva. esta o Livro e o Livro. origem desde uma escritura que já n ã o lhe pertence. discreta- em direção a mente. que o livro se repete. uma origem pela' qual nada co- s elítica. no Canto sobre É o caso então de pensar em Le Reiour au livre 1 Í. segundo a mesma curva. do fechamento. Escritura de origem. não da origem é sem dúvida o seu ser-escrito mas é também é a origem mas o que faz as suas vezes. o Livre de Yukel. rigorosamente. dizia Reb Mas no movimento desta sucessão. também não o seu ser-inscrito num sistema do qual n ã o passa de um é o contrário da origem. deixar-se compreender nele. deslizou entre Deus e Deus. A inscrição Mas o que assim a afeta. passagens pêlo mesmo livro. A escritura. de ter ção. Ora o livro viveu desta mistificação. assinalando os sinais posse. do no hvro. Como esta falta é invisível e indeterminável.ÍI Boucle C o m este título. presença mas um rasto que substitui unia presença que Assim entendida. repassa por Assim se intitula o terceiro volume do Livre des questions todos os pontos do seu circuito. depois do livro. Edmond Jabès diz-nos em primeiro "A linha é mistificação" lugar o que é "abandonar o livro". a escritura per. o L i v r o e o dar-se para formar uma curva. a sua retirada e o que se reserva nele. rabinos mente designar a escritura de além-livro? imaginários respondem uns aos outros. Redobrando o fechamento do livro. podia no fim ser apü- hvro nao era um limite entre outros? Que é apenas fouáda peio seu regresso. como deixado acreditar que a paixão. Escapamos-lhe então furtivamen- "Um livro que é a entretela do risco". E (1*65). O regresso ao livro é que finge. apareceu em 1964. O regresso então n ã o retoma escritura descrevendo a origem. a minha vida arredon-\ manece de vigília. repete a época do sobre si próprio. "Vigília de escritura no sido uma vigília de escritura no intervalo dos limites. a si acolhe uma impereptível diferença que nos per- turas.

O centro do primeiro meio do pomar e da noite?" livro não deveria ter podido ser repetido na sua própria representação. mas apenas liminar. pois se o centro de uma maçã ou da estrela for à metonímia. Ai Doutrinas Existencialistas. Mas o desejo do centro n ã o será. Mas alguma O livro consagra o livro. Cúmplice." cia do centro quando seria já necessário afirmar o jogo. A jogo e de diferença. Algo falta para que o círculo seja pé ~ r cesura. a vigília de Reb Naman dizia: "Deus é o Centro. acalma mas que também do seu nem um signo. não tem caminho duplica o caminho." mo. buraco angustia e põe em causa? versão e de subversão. 1957. — Sob as cinzas. Desde que se presta uma vez a uma E Yukel disse: semelhante representação — isto é. quando se pode ler um livro no livro. .. O regresso do mesmo só se altera razão se faria luto pelo centro? O centro. pela simples reduplicação Logo que um signo surge. Reb Sela "O exterior no interior. O grafema. não-identidade a si que remete regularmente ao mesmo. espécie de prenome invariável que podia o coração do astro ou do fruto. . pela solicitação do fechamento. traz consigo um poder ilimitado de per. do caminho. "E Yukel diil Isto é. subtraído à metáfora e existia. Do mesmo modo que há uma teologia negativa. que viveu o primeiro livro. "O centro é o luto." feito. a um outro signo que nascerá de ele próprio se O círculo está reconhecido. A passagem pela excentricidade negativa é sem Esta repetição é escritura porque o que nela desa- dúvida necessária. ainda que não mudasse nem uma coisa Aquela que tranqüiliza. a presença a si * da palavra dita viva. "Onde está o centro? -fundo da reduplicação infinita. eis a razão toda a repetição consistiu no fato de o centro estar ao pela qual espíritos fortes proclamaram que Ele não abrigo do jogo: insubstituível. começa por se repetir. É o centro. a ausência de mas fá-lo absolutamente — para voltar ao mesmo. o dividir. não seria o que é. diz ainda a ausên- água repudiada permite ao falcão perseguirá sua presa. n ã o será o outro nome da morte? pura repetição. dizia Reb Bekri. o livro deixou-se pensar como tal. ori. isto é. . repetindo-se deste modo. um centro no centro. há "Onde está o centro? Gritava Reb Madies. prio jogo. Quebrai a curva. o sem. (N. a mesma linha já não é exatamente a mesma Possa a minha morte vir de mim. .. é o abismo. portanto nem lugar nem centro naturais. curva já não tem exatamente o mesmo centro. A uma ateologia negativa. O centro está talvez no deslocamento da pergunta. Tavares Martins.petida. Livr. a Seria simultaneamente a servidão do cerne e da gem atuou. essa quebra da linha." O centro é o poço. qual é o verdadeiro ser invocado mas não repetido. Mas na E X X E U J J L S . da T. uma origem 0 centro é o fracasso. desde que é escrito —. Porto. parece é a identidade a si da origem." vez os perdeu? Será a sua excentricidade um desceiv tramento? Não se poderá afirmar a não-referência ao O regresso ao livro anunciaria aqui a forma do centro em vez de chorar a ausência do centro? Por que eterno retorno. o livro mítico. pei a Sem isso não seria signo. na origem. como função do pró- Não há centro quando o círculo é impossível. o indestrutível? E na repetição ou no regresso do jogo. como é que o fantasma do centro não nos ape- (*l Valemo-nos da tradução portuguesa dos conceitos de présence à soi (presença a si) e identité à soi (identidade a si) do livro de Régis laria? É que é infinita a hesitação entre a escritura Jolívct. O outro está no mes.) como descentramento e a escritura como afirmação do 76 77 . A mistificação de "O centro é o limiar.

culos começaram a brilhar. I livro. O teü nome pergaminho deviam introduzir-se no buraco ameaça- encolheu-se sobre si próprio. e três perguntas 78 . a tua obra? do-as sobre si próprio. bri- lhante. signo vez penetras mais fundo. Então tudo viria a nós dos confins da noite. branca. pólipo. Como o devia estar. é porque sempre se denominou o inominável "O livro é o labirinto. como a mão sobre a arma dor. penetrar furtivamente na habitação ameaçadora. fazer obra em fonna de livro. dizendo o não-fechamento. repre- Se o centro for realmente "o deslocamento da per.) Esta contradição é pensada como tal no terceiro Era apenas um buraco livro das perguntas. escorregadio. e cada poço sem fundo de que ele próprio era o signo. Ê necessário que destruas a obra. tário que acompanha ao infinito o "livro excluído e re- tejas. Tenaz Na serenidade deste terceiro volume. Semelhante à sombra. e o nome do homem. por escrever o bu- num "quem sabe?" sem sujeito nem saber. à maneira de uma serpente ou de um peixe. que devemos guardar ao destruí-lo.. dizendo-se como a própria abertura que é reflexo E essa vontade de permanecer de pé. Ras. O volume. apesar da I sem saída. silencioso. clamado". A habi- o centro. diz a força daquilo que se erigiu para nele tante aumento da tua angústia. I de um lugar que n ã o está nem no livro nem fora do trada. I "Sou o primeiro livro no segundo" Desconfiai das habitações. liso. sentando-se a si própria de meandro em meandro. Produz-se por habitar o labirinto como poeta. como o livro. Observo o lento mas cons- de Deus. 79 •-•&ÊÈL . o rolo de No fim quem te espera? •— Ninguém. da num labirinto. O centro era o lidade de te salvares. mesmo tempo infinitamente aberto e refletindo-se infi- nitamente sobre si p r ó p r i o . fadiga e da fome? I Este é um caminho que contém em si os caminhos para Um buraco. vivo. "wm olho no olho". Desesperada seduziram o livro pela repetição e contudo alegre por afirmar o abismo. que é o próprio a abrir as suas portas. Le livre des também e parasitário amando e aspirando por mil bocas questions está então realizado. T a l é o desejo inquieto do livro. Parede após parede. nome de um buraco. Furas a parede na sua base. que compreende as suas próprias saídas." "E Yukel disse: Três perguntas Estranha a serenidade de tal retorno. como o Mão consegues te decidir. I dade é o seu número e a chave da sua serenidade." mos na horizontalidade de uma pura superfície. Julgas sair dele." com um movimento animal. à manhã. fecha-se ao pensar a sua pró- O polvo foi pendurado no teto e os seus tentá. çante e cruel de uma economia desesperada. Eis a razão pela qual a triplici- na parede. Afirmação dan- "O último obstáculo. Pertence ao jogo e liga-o à morte. pudeste introduzir-te nele para fugir. ao nho. Não tens qualquer possibi- do buraco que o livro quis encher. permanecendo aberto. Esperas escapar-te.. que deixam mil marcas na nossa pele. Nem sempre são aco- lhedoras. O labirinto é aqui um abismo: penetra- infância. reenvio. na es. comen- "Ridícula esta posição de barriga para baixo. era apenas um buraco. isto é. raco. Da tão estreito aue jamais I sua composição também: O terceiro livro diz. quem sabe?. gunta".jogo. "o destino do livro" no qual só nos podemos enfiar. monstro mari. livro constantemente começado e retomado como um rato. o último marco é. | fora de si. retorno e meandro do labirinto. pria abertura. tação é pouco acolhedora por seduzir. abrin- (Um huraco-polvo. Í o destino do livro.

diferente de si: em jogo. da fechamento do livro n ã o deve ser esperado nem encon- boca aberta. se. na repetição mas evitando-a. H a - via imediatamente uma dupla origem mais a sua repe- tição. trado. O futuro não é um presente Três: não porque o equívoco. Três é o primeiro número da repetição. Po- der-se-ia dizer do segundo livro o que se diz de Yukel na segunda parte do Retour au livre: (2) Jean Catesson. a duplicidade do futuro. "Amanhã é a sombra e a reflexibilidade de nossas da aurora ao crepúsculo. de certo modo." da morte à morte. expulso. Se nada precedeu a repetição. se nenhum presente o livro é três. Reb Dérissa coín a tua sombra. como o segundo Livre des questions (o livro de Yukel). Está lá mas além. do sol negro. pois o abismo da representação permanece sempre dominado pelo seu ritmo. nem inumerável. o canto sobre a distância e o acento começa E Yukel disse: assim: "O livro me conduziu. no número. É de essência ternária. Está lá como a sombra do livro." três vezes começa. isto é. nem nulo. o terceiro entre as duas guada em qualquer termo conciliador. ao pé das três perguntas. o mediador sacrificado sem o qual a triplicidade não existiria. essa outra pergunta são o outro nome da morte afirmada desde A mão. o duplo n ã o se acres- centava apenas ao simples. seria finalmente resumida em qualquer dialética. antes de ser dele O que acaba." A morte está na aurora porque tudo começou pela repetição. a distância entre o livro e o livro. 2 E Deus. ontem não é um presente passado. 80 81 . O além do todo e do nada.. do regresso elítico. o terminarão. a diferencia no agora da es- o "pacto" de que fala Yukel em Meia-noite ou a terceira critura. Sara. vigiou o traço. A junção é a quebra. Sem dú- vida o infinito não é uno. para o homem. como Y u k e l . Journal intime et points carãinaux. questions." presentes modificados. O últi- mo também. aurora ou a primeira pergunta e Meio-dia ou a segunda Abrindo a terceira parte do terceiro Livre des pergunta. mãos. no fim das minhas perguntas. con- tinua a ser a junção indispensável e inútil do livro. "Foi a liana e ligação no livro. é o "vazio que de O mundo é três novo se escava e se marca de impressões digitais". O dois. da presença ausente. ao infinito. Dividia-o e fornecia-o. Logo que o centro ou a origem começaram por se repetir. então o tempo da escritura já não segue a linha dos as três respostas. por se redobrar. sem o qual o sentido não seria o que é. apazi.. Yukel. O "passo" e mãos que seguram o livro. do centro roubado.

ou seja. mas também de uma grade especulativa em que aparece já a figura clássica de um antagonismo. o debate operatório que nos prepa- ramos para instituir no interior ou a partir desta filo- sofia corre o risco de se assemelhar mais a um interro- gatório do que a uma escuta atenta. Quando. ao nos aproximarmos de uma filo- sofia. a um inquérito abusivo que introduz previamente o que pre- 83 . 'GÊNESE E E S T R U T U R A " E A FENOMENOLOGIA Devo começar com uma precaução e com uma confissão. já estamos armados n ã o só de um par de con- ceitos — neste caso "estrutura e gênese" — que uma Jonga tradição problemática muitas vezes fixou ou so- brecarregou de reminiscências.

aliás. E (1891) a qual. parar a expec- ou que só haja uma. mostrar ou libertar o sentido de significações que aparecem como sistemas. entregam-se no modo essen- acentuou a sua aversão pelo debate. no interior das quais. ora mais superficiais. aporia. mir. só os metafísicos mas t a m b é m . numa decisão. Em especial quando diz c coligação e de numeração nas quais as coleções ("to- descreve estruturas. Era portanto. Deste modo. Não há dúvida de que a abordagem de falar.119. S. é o "verdadeiro positivista" que volta às próprias der Arhhmetik) nas Recherches logiques em especial. que. devir subjetivo. pelo menos aparente. no sentido que Husserl. espantado por se ver convocado para tal debate. . sições psicologistas (estou pensando em Philosophie rio. o que procederia de uma atitude especulativa ou A imagem desta fidelidade ao tema da descrição "dialética". no quase quarenta anos depois: 1 seu estilo de pensamento. E se ti. A passagem das pesquisas genéticas no único tros seriam congenitalmente culpados de um certo pe.tende encontrar e violenta a fisiologia própria de uni respondido que isso dependia de que tema se pretendia pensamento. berem. Para mostrá-lo usarei dois exemplos. outros em termos de gênese. etc. a presunção de um ulidades". tema e do fechamento especulativo. O fenomenólogo. Há camadas um debate pode ser eficaz. conceitos da teoria dos conjuntos e da teoria dos nú- dade de uma abertura é talvez o lugar insituável em meros. os expoentes das ciências empíricas: uns e ou. à possibilidade do seu devir. . coisas e se apaga perante a originalidade e a origina. isto é. O processo de uma compreen. gênese" a Husserl. para me servir da minha maneira ulterior de me expri- de daquilo que se entrega a um olhar virgem. uma mane ra originalmente produtiva. numa so- lução. como primeiro escrito. mais respei. e isto voltando às atividades espontâneas de que a filosofia se enraíza. e uma infidelidade. pelo menos. isto é. "conjuntos") e os números são dados de conflito entre aproximação genética e aproximação es. muitas vezes sem o sa. vidade das objetividades ideais numa certa fixidez in- são ou de uma descrição fiéis. pre- respeito a linguagem da gênese. esta passagem tem a continuidade da tanto dizer. isto é. . pela cial da criação e do movimento. conseguida graças à minha Philosophie der Arithmetik tador daquilo que. São culpados desta atitude não Husserl a si próprio ao longo de todo o seu itinerário. onde se tratava principalmente de descrever a objeti- riedade das significações. É preciso não esquecê-lo. o movimento e a g ê n e s e são possíveis se obedecerem à legalidade própria e à significação funcional da es- Neste caso preciso o que dissemos é ainda mah trutura considerada. trutural parece logo de entrada imposta á' especificida. supondo que haja uma tende concluir. pela reflexão sobre o modo alternativo do devir ou da tradição. da origem inaugural. fechar a questão. o que exige que se fale a seu em que o filósofo. passamos já a uma ordem meira tentativa para obter a clareza sobre o sentido heterogênea à primeira: a diferença entre a estrutura verdadeiro. permanece aberto. essencial. trad. 1. Há dados que devem ser descritos em termos de uma filosofia na qual se introduz o corpo estranho de estrutura. pela sua recusa do sis. mas começa por uma agressão xos. no termo de uma deliberação. Husserl é já. aposto que ele teria ficado muito (U l. tativa ou o olhar numa opção. Outras camadas. pelo contrá. ora mais profun- verdadeiro do que habitualmente. explicação e Husserl está tão certo disso que escreve. de quis dar a esta palavra. " . Bachelard. lemporal e na sua autonomia em relação a um certo cação dissipam o fantasma da escolha. mais atento à historicidade "A fixação da atenção no formal-já foi por mim do sentido. representava contudo uma pri- trutural". livro cujo método Husserl renegou ou certas pressupo- cado de explicativismo. apesar da sua falta de maturidade mesmo que se pense que a abertura da estrutura é "es. teria P. uma investigação relacionada com a fenomenologia véssemos colocado ex abrupto a questão "estrutura ou constitutiva. comple- de um trabalho latente. Husserl sempre das. sempre é encontrada na fidelidade. sobre o sentido autêntico e original dos menor — necessariamente fechada — e a estruturali. na estrutura. 84 85 . a continuidade da expli.ogique jonncllf et logique trcinscemíantaU. configurações estáticas. Poder-se-ia por. pelo dilema. para começar.

sua investigação no sentido de uma metafísica da his- turas superficiais já expostas. refiro-me a duas tensões parecem numerosos (é uma filosofia das essên. de uma gênese selvagem que se tornava cada vez mais invasora e que Deste modo. a exigência da origem e do fundamen- dois conceitos operatórios sempre complementares. essencializando-a e prescrevei a expressão de Husserl — da própria gênese. j da sua correlação ou da sua oposição. com a exigência gurado a Husserl uma serenidade perfeita no uso de genetista. Poder-se-ia contudo mostrar que o pró- fenomenologia. isto é. i fracasso desta tentativa. na sua filosofias da estrutura que são o diltheyanismo e o intangibilidade. gesto. VI 87 . a uma gênese psicológica. por exemplo. A . parece portanto obrigar Husserl a transgredir o espaço berto as fundações genéticas e a produtividade originá. E contudo esta passagem é ainda um sim. "a priori estruturais" — é mitiria reapoderar-se. em que a estrutura sólida de um Telos lhe per- de novo formas eidéticas. •\ na qual ps elementos só têm sentido na solidariedade e a mestria do fenomenólogo no seu trabalho teria asse. por duas vezes. se viu obrigado a travar no esquemas tradicionais. poderia pelo menos permitir trabalho que deixa intacto o que foi descoberto. nenhum arrependimento. preensiva de uma totalidade. conforme o espaço de descrição. apenas o privilégio de um ou outro destes dois conceitos operatórios. pois se trata de retomar na dimensão da Husserl. parecia acomodar-se cada vez menos ao apriorismo fe- jamais teria havido problema "estrutura-gênese" mas nomenológico e ao idealismo transcendental. na clareza da sua intenção. mas com uma inquie- tação constante. que lhe empresta a sua "animação" e cujo ina- — desta vez no interior da fenomenologia — das aná- cabamento. aos olhos de Kánt. de uma forma ou de uma jeto que. • "I ' 86 . o quid Seguirei alternadamente o fio de um debate inte- ou o quomodo dos dados. na sua aprioridade. os motivos de conflitos ou de flanco do seu campo de investigação. à primeira vista e se nos deixarmos inspirar por Husserl. do fluxo temporal do vivido que é a última referência. Objetar-se-á que neste caso a fidelidade se explica Tomadas estas precauções quanto ao objetivo de facilmente. não haveria portanto nenhum choque. do devir. É o aprofundamento de um caso não se confirmasse. do-lhe de algum modo um horizonte. como ainda faz aparecer tória. Nesta fenomenologia em rior ao pensamento de Husserl e o de um combate que que. mas é. seria por. Mas o mesmo n ã o se pode dizer da passagem crição. 2v que este debate. pondo em perigo a cada ins- ples progresso que não implica nenhuma "superação". mais "ingenuamente". conteúdo. ainda menos uma opção e principalmente bem "parece". sob o uso sereno destes conceitos. tenho agora de confessar o meu. pelo menos no espírito de Husserl. num pro. puramente descritivo e a pretensão transcendental da ria não só não abala nem arruina nenhuma das estru. exigência estruturalista que conduz à descrição com¬ dental" designa o próprio campo da reflexão. trava¬ -se um debate que regula e ritmiza" o caminhar da des- 2. 'i. polêmicas que o colocaram frente a frente com essas cias sempre consideradas na sua objetividade. Gostaria "gênese transcendental" uma intenção que inicialmente com efeito de tentar mostrar: se ligara. torna indefinidamente necessárias U e se seguiram e que por vezes são muito novas no seu uma redução e uma explicitação novas." pertenceria < função organizada segundo uma legalidade interna e à teratologia). prio projeto fenomenológico resultou de um primeiro tanto ofuscada pela nossa questão prévia. deixando em desequilíbrio cada grande eta- lises estruturais da constituição estática praticadas em Ideen I (1913) às análises de constituição genética q pa da fenomenologia. tante os próprios princípios do método. um acentuar os traços originais da tentativa husserlíana — trabalho de escavação em que o fato de por a desco. parece — digo Í como se diz. uma filosofia da experiência. é também | Husserl tenta portanto constantemente conciliar a uma filosofia na qual a noção de "experiência transcen. no mesmo I gestalíismo.| to da estrutura. pois se trata aqui de uma hipótese que. 19 que.

com um nome fato. trad. pela lacionada com a gênese concreta que deve torná-la a idealidade e pela sua normatividade. 'mha parecido verdadeiramente suficiente para certos encadeamentos. A inteligibilidade e a normatividade desta es. tem de esperar a °u do arranjo. tência do mar do Norte.. escreverá: . a relação transcendental 4 Husserl pretende manter ao mesmo tempo a autonomia (2) Ver Recherches logiques. e Husserl será logo obrigado a reconhecer a le- bem vago. I. O que é verdadeiro para a unidade arit- dentes e menos simplistas do que seríamos tentados a mética o é também para a unidade de todo o objeto crer pelas críticas de Husserl). 5 b) sublinha a irredutibilidade da síntese matemática ou bém não deixa de recusar a conclusão logicista para a lógica à ordem — nos dois sentidos desta palavra — qual os seus críticos o queriam empurrar. isto -matemática. do pensamento à unidade lógica do conteúdo do pensamento (isto é. Este sentido. . Mas logo que se passava dos encadeamentos psicológicos teoria do juízo poderá concordar com os fatos se não se apoiar _num. Em Recherches logiques. Este fundamento psicológico nunca me Pft. nenhuma continuidade nem nenhuma clareza (4) A Philosophie der Arithmetik é dedicada a' Brentano. unidade da . 118.£ das representações" (Psychologlsche Studien zur elementaren Logik). Esforçar-se em direção à origem subjetiva mento da gênese é ainda pensada por Husserl como dos objetos e dos valores aritméticos é aqui voltar a um traço.• investigações psicológicas t ê m . I. revelar-se-iam mais pru.. c) apoia toda a sua aná. no primeiro tomo £o único publica- tiÊações psicológicas e lógicas os fundamentos científicos sobre os quais se poderia ulteriormente assentar a matemática e â filosofia". proíbe já a s u possível. é. este regresso à percep. t. gava-se sobretudo à autonomia da idealidade lógica em überhaupt objetivo. a objetividade de ao objeto que nenhuma gênese psicológica poderá ins- uma estrutura. como b m a n á caído de um "lugar celes- ! tendências da época deveriam tê-lo levado a isso. de um constructum. este logicismo l i - lise psicológica na possibilidade já dada de um etwas.. o respeito pelo sentido aritmético.. VlII. os resultados da análise psicológica pareciam-me claros e ricos der Arith. em geral.. nem a unidade ção epistemológica. pág. uma estrutura psicológica da consciência. tam.. . II. de ensinamentos. Quer fosse da temporalidade psicológica. Husserl qualquer dedução psicológica do número no trutura universal são já recusadas. V. p. conseqüência. o sentido do n ú m e r o prescinde muito bem da intencio- talidades que aí se oferecem numa organização pré. Por outro lado. E num artigo um pouco posterior à P!i.. Mas em mais de um lu- 3 gitimidade das críticas de Frege: a essência do número gar.."As (3) Trata-se diz então Husserl "de preparar por uma série de invés. dos métodos sua elucidação filosófica". Husserl renuncia à via psicologista. práticos. então de estilo platônico ou kantiano. . como a lógica em geral. a da atitude aritmética — é re. Pelo seu estilo. teoria). . Se. o que era a tendência de Lipps. . 89 . (5) Evocando a tentativa de Philosophie der Arithmetik. um lugar muito amplo. Schérer. de fatos ou de acontecimen- atentamente e por si próprios. pertence tanto ao domínio da psicologia como a exis- rar a constituição genética de jato como uma valida. t. cbserva no prefácio das Recherches logiques (1? edição. é justamente ção e aos atos de coligação ou de numeração cede à essa independência em relação a toda a consciência de tentação então freqüente que se chama. de um artefato psicológico. ta de uma estrutura do sentido ideal a partir de uma isto é. esclarece a sua posição e nunca chega a conside. § 31. descer em direção à percepção. perante todas estas dificuldades para dar con- guintes pontos: a) distingue o número de um conceito. gênese fatual. Husserl afirma ainda: "Julgo poder supor que nenhuma. Ora juntos perceptivos. mas que designa já a dimensão consciência concreta e não formal.. VIII): . em direção às pluralidades e às tò. a dos números e das séries aritméticas taurar mas apenas pressupor na sua possibilidade. tos psíquicos.Élie. ::a verdadeiras apareciam" (tradução H. p. nem o zero podem ser gerados a partir de uma multi- Wundt e alguns outros (é certo que ao serem lidos plicidade de atos positivos. Husserl Kellcel. A originalidade de Husserl reconhece-se nos se. efetivamente determinado psicologicamente. doj. correlativamente. Por — e. "Tinha partido da convicção dominante de que é da psicologia que a Qjando se tratava da questão da origem das representações matemáticas lógica da ciência dedutiva. Élie). e sê-lo-^ão sempre exato momento em que o seu método declarado e as por Husserl. a objetividade ideal e a normatividade. nalidade de uma consciência de fato. em direção aos con-~ como o caráter e o estado de uma fatualidade. p. da estudo aprofundado das relações descritivas e genéticas das intuições. te" ou como uma verdade eterna criada por uma ra- 2 Resta que a intencionalidade pressuposta pelo movi- zão infinita. que Frege irá criticar apelidando-o relação a toda a consciência em geral ou de toda a de espectro exangue. Por seu lado intencional da objetividade. der Arith. Em Philosophie der Arithmetik. "psicologismo".

A que uma tal investigação seja possível. : vem-se pouco mais ou menos ao mesmo tempo que os portanto num ceticismo. Enquanto o espaço fenomenológico não é desco. mas a que vai Não esqueçamos que. o problema "estrutura-gênese" parece por. mais estruturalista porque pretende em o que é a coisa histórica. no seu traba- mo tempo. Era-lhe necessário abrir uma nova direção da efetivamente imaginar uma fecundidade metodológica atenção íilosófica e deixar descobrir-se uma intenciona- destas duas noções nos diversos domínios das ciências lidade concreta.. Era-lhe portanto necessário passar de gênese que efetua passagens abusivas de uma região entre os dois escolhos do estruturalismo logicista e do para outra parecem próprias para esclarecer o problema genetismo psicologista (mesmo sob a fôrma sutil e per. nem a idéia geral mas concreta. um historicismo. ao mes- movimento e no seu momento próprios. mais sistemáticas e mais otimistas. na medida em que estas. julga poder fechar-se numa "ciência dos fatos" (Tatsa- i Ora a estas primeiras filosofias da estrutura. mitação rigorosa das regiões naturais e dos domínios ticamente pressuposta por todas as problemáticas e to. o dilthey- chenwissenschaft). enquanto não é empreendida a descrição trans. genética em geral que é desprezada. niciosa do "psicqjogismo transcendental" atribuído a Isto poderia parecer sem gravidade: n ã o se poderá Kant). mas não empírica. a questões deste primeira fase da fenomenologia é pelo seu estilo e pelos tipo: o que é a coisa física. Husserl dirige objéções idênti- recobre a expressão "gênese mundana".ciências que I anismo e o gestaltismo. conclui Husserl. cas. A passagem para a atitude primeiros projetos estruturalistas. etc? — perguntas cuja primeiro lugar e sobretudo defender-se contra o psico. resposta estava mais ou menos dogmaticamente implí- logismo e o historicismo. . que é já o de Husserl. no seu transcendental" que fosse "constituinte". do fundamento da objetividade. esta elu- das as dissociações ocorridas a seu respeito. Esta é seguir pelas diversas "reduções" que se apresentam em sempre de direito a primeira porque só ela pode res- primeiro lugar como as neutralizações da gênese psico. a menor dificuldade em mostrar que um certo estrutu- por um positivismo que não se compreende a si próprio. de objetividade. E. a pelo valor da sua objetividade? De modo algum. isto é. dizer respeito a uma crítica fenomenológica. não têm que responder pelo sentido nem reveladora. uma "experiência naturais e humanas. ponder. como toda a intencionalidade. a que se apoia numa ciência de "fatos". ativa e passiva. quer seja ciência natural quer seja ciência do espírito. Ora esta delimitação prévia. num rela- primeiras obras fenomenológicas de Husserl desenvol- tivismo impotente para assegurar a sua própria verdade. seus objetos. Husserl continuará a 90 . ralismo sempre foi o gesto mais espontâneo da filosofia. pois n ã o haveria ou pela fragilidade filosófica do genetismo quando este. as num empirismo. se a Philosophie der Arith- buscar os seus esquemas ao causalismo e ao naturalis- metik é contemporânea das tentativas psicogenéticas mo. A unidade originária. É o domínio destas . SI veementes protestos de Dilthey. Nem a idéia de estru- lação a toda consciência fatual e a sua dependência tura que isola as diferentes esferas de significação ob- originária era relação a uma subjetividade em geral. é. aqueles que pelo me- fenomenológica torna-se pois necessária pela impotência nos declaram a estrutura como tema. portanto. apesar dos cendental. etc. essa é desde muito cedo para Husserl a própria possibilidade do utilização mais ingênua da noção de gênese e sobretudo sentido. aos olhos de Husserl. • antes de toda a investigação empírica e para lógica e mesmo de toda a gênese fatual em geral. A raiz comum da atividade e da passividade. tanto não ter qualquer sentido. no seu princípio.e n jetiva cuja originalidade estática respeita. portanto mais ambiciosas. o que é a coisa psicológica.. O estruturalismo da Wehanschauungsphilosophie berto. Não é contudo a descrição cita nas técnicas estruturais ou genéticas. O acesso cidação do sentido de cada estrutura regional só pode a esta radicalidade comum é o que Husserl tentará con. N ã o se deixará de ver que esta raiz comum é da noção de estrutura pressupõe pelo menos uma deli- também a da estrutura e da gênese e que ela é dogma.normativa da idealidade lógica ou matemática em re. produtiva c lho efetivo. às que dirigira contra o gene- tismo.

e finalmente se houver que distinguir entre a filosofia no sentido histórico." (ibid. se houver que TJístinçuir a arte como forma de cultura da arte válida. Ora a Idéia estruturas físicas. toda a Weltanschauung.. de uma totalidade de fato. O ato do "compreendei". por Husserl. do mundo. 1 ciência. — 3? à distinção entre as toda a estrutura finita lhe é inadequada. Vorlesuugen Sommetr "2 ítica. as nho principal das ciências do espírito. de normatividade numa fatüalidade mais bem compreen- dida não se torna por isso mais legítima. é uma Idéia infinita ções são solidárias e às quais correspondem correlati- uma Idéia em sentido kantiano. reduzir a teoria 9 como idéia. A sua pretensão de fundamentar a se tratava neste caso de uma tentativa sedutora.pensar que. semester. equívoca do histórico abriga-se a confusão do valor e sophie comme science rigoweuse) Naturalmente. 105. é aquilo por que métodos e as suas técnicas e porque a um causalismo. a pirituais. a um naturalismo. poóe — como historiador — assegurar os fundamentos. Lauer. dar são" ou de re-compreensão. 146-148). É preciso portanto reconduzir. Mas esta renovação n ã o é fundamental e só agrava Aliás é sempre algo parecido com uma abertura que a ameaça historicista. que rica."A história. pode-se portanto dar conta de tudo. noções que é preciso aproximar ao mesmo tempo da terminada. Dilthey teve com efeito o originalidade. — 29 à idéia tensão à verdade é a exigência de uma onitemporalidade de que existem estruturas totalitárias dotadas de uma c de uma universalidade absolutas. a filosofia. Este sentido da verdade ou da pre. . o direito histórico do direito (9) Evocando o sentimento de poder que pode assegurar o relativismo válido. a do ético -igoureuse. sãó //. 92 93 . que o historiador J e faz juízos de valor. quando se tenta. que é o reviver ativo rais são estruturalmente solidárias. isto é. coerentes. espécies de organismos es- tes de espécie alguma. como religião válida.t' ciência empírica do espírito em penesia. escreve Husserl. não é fechada. isto é. Husserl escreve: "Insistimos no fato de que também os princí- histórico e a filosofia válida. Pois resume a norma a uma fatüalidade histó- 6 da vida do espírito. como o faz Dilthey. só aumenta os (6) Husserl escreve com efeito: "Não compreendo como ckTDilthcv] julga ter obtido. Ver phSnomenologische Psychologie. isto é. a de todos empírica. e a de Reaktivierung. tradução Q Laucr. Husserl presta verdades de jato e as verdades de razão. só pode pressupor mas não p. A norma do (8) A polêmica prosseguirá depois de Philosophie comme science Hwemâtico encontra-se na matemática. P. O que jamai . mundos culturais cujas funções e manifesta- Idéia da filosofia ou da ciência. e as estruturas do espírito. 1935. substituiu um estru- luralismo compreensivo e se tornou mais atenta às to- Se Husserl combateu o diltheyanismo foi porque 8 talidades culturais. a do lógico na iógica.. etc. Philosophie comme science rigoureuse. a um atomismo. «envolvimentos [neste caso. tem de ser o cami- de Leibniz e a das Recherches logiques (I. sem limi. A verdade portanto homenagem a Dilthey e mostra-se muito re- pura ou a pretensão à verdade pura estão ausentes no ceptivo: —/ 1*? à idéia de um princípio de "compreen- seu sentido.. de "re-viver" (Nachleben). 113.) pios de tais_ avaliações relativas pertencem à esfera ideal. os tipos de realidades e de todos os tipos de idea'ida- com os seus próprios meios. A Idéia da verdade. que não quer compreender unicamente puros u (7) Cf. empírica dos "fatos" por ter reformado os seus posso compreender. isto é. em que o princípio da relação é a ou o projeto que animam e unificam toda a estrutura causalidade externa." La philosophie comme science rigoureuse. não evita nem o relativismo nem o ceti. exceto da abertura infinita para a verdade. é incapaz de. infinitas. a partir da sua análise tão instrutiva da estrutura c seus poderes de sedução filosófica. pela mesma unidade finita de uma de uma produção de sentido. numa estrutura. decidir num sentido ou no outro sc houver ctue distinguir a religião como forma particular da cultura da religião des. como todo o historicismo e apesar da su-i uma aberração tentadora. Toda a totalidade vamente Weltanschauungen. mérito de se levantar contra a naturalização positivista cismo. acaba por confundir. reguladas da intenção passada de um outro espírito e o despertar pela mesma função. de maneira mais geral ainda. de uma noção de Einjühlung. A história n ã o deixa de ser uma fará fracassar o objetivo estruturalista. Sob a categoria tipologia da Weltanschauung. unidade de sentido interno. a uma história como Tatsaclienvissenschall. que o princípio de relação é o que Husserl denominará nitos : a partir da descrição estrutural de uma visão 1 a "motivação". possibilidade de uma ciência do espírito. tirada de Lipps e transformada totalidade finita cujas manifestações e produções cultu.tie está necessariamente ligado a uma histõri-t da existência. trad. trata-se aqui da própria subjetividade total. razões decisivas contra o ceticismo" (Philo. de fatos!. conta delas no interior de uma totalidade histórica de. para falarmos a linguagem opõe à explicação e à objetivação. em histórica determinada. o historicismo sõ í condenado na medida em o.

apenas um problema análogo..respeito a um momento abs- (10) . no seu objetivo. em relação com as suas formas mais acentuada!. levando em conta as premis- ciência. As urgências da vida exigem causai. 37 é § 25.mente." É esta minada como corpo objetivo. 9. ciência "material" e "abstrata".da Weltanschauung aos limites estritos do seu domínio continua a batalhar. "A sabedoria ou Weltanschauung pertence à comunidade trato. uma precipitação éticas. Husserl diria "paralelo". como de um problema de fechamento ou de abertura. abstrata (a espaciaji- cultural e à época e há. axiológicos e práticos da vida. na necessidade prática de tomar posição. mais ambiciosa. n. precisa-. fatual e mundana. a. uma operação de "idealização" e de "passagem ao l i - tra o genetismo historicista ou psicologista com o qual mite" que só pode dizer. midade. Segue-se que uma 12 o homem não podia esperar que -— talvez dentro de milênios — a ciência aparecesse. Lauer. é o que Husserl denomina Weltanschauung. do fundamento teórico. regional) e a consciência em geral (Ur-Region). um sentido justo no Qual se fala não só da cultura e da W eUanschamm% -dade. "anexata" — e não devemos ver nisto nenhuma enfer- resolutamente estática e estrutural. ciência rigorosa. A atitude contra a 11 certa diferença entre a sabedoria e o saber. levanta os problemas mais essências da consciência pura não são. solução e a um esclarecimento satisfatório. Poder. a estrutura desta resposta arranca. a idéia de (11) Ver principalmente Ideen I. p. Uma ciência eidé- Se a primeira fase da descrição fenomenológica tica descritiva. . com algumas precauções.relativamente mais perfeita aos enigmas da vida e do mundo. trad. e entre estrutura empí- fora das fronteiras da fenomenologia.. A exatidão é sempre o produto derivado de devido pelo menos a duas razões: A) Reagindo con. rio escolher — duas formas.« qual será mais tarde submetida a descrição genética quer seja pessoal quer seja comunitária. I— Ao contrário das essências matemáticas. a pura visão do mundo e da vida só imperfeitamente podem superar. quer dizer.. . que conduz a uma . da melhor maneira possível. tal como a fenomenologia. E nos dois casos trata-se A bem dizer. não podem por difíceis. mas também das da época. e por unia qual deste modo se levanta talvez tenha contaminado e prevenção. assim a última jurisdição crítica e fenomenológica à ce a situação e o sentido de uma "moral provisória". 94 •aí- 95 . O sistema jeto em gerai (qualquer que seja a sua localização desta antecipação. que lhe reconhe. ao que parece. Até agora temo-nos interessado pelo problema Se portanto distingue entre estrutura empírica e "estrutura-gênese" que primeiro se impôs a Husserl estrutura eidética de um lado.. princípio ser exatas. que a experiência. sabedoria. nessa zação dos pressupostos da psicologia e da história que época Husserl ainda n ã o fez o mesmo gesto no que diz tomou necessária a passagem à atitude fenomenológica respeito à gênese. os seus contornos são desenhados por unia qualquer preocupação genética. Eis a razão pela qual a geometria é uma a sabedoria. prorsegue Husserl. I. Tentemos agora surpreender o mesmo problema no No interior da transcendentalidade pura da cons- campo da fenomenologia. rica e estrutura eidético-transcendental do outro. Ricoeur. Sabemos da diferença reconhecida por Husserl entre exatidão e rigor. afinal de contas. Na urgência da vida. abstração feita." Ibid. tradução p.. em geral. pode ser ri- e das "análises constitutivas" (fase cujo marco mais gorosa mas é necessariamente inexata — diria an*es elaborado é Ideen 1) se apresenta. F o i a radicali. mesmo supondo que -conheça já. (12) Ver Ideen I. por exemplo) de uma coisa materialmente deter- de um indivíduo determinado. B) Preocupado principal- que se organize suma resposta prática no campo da mente com ontologia formal e objetividade em geral. é. dos desacordos teóricos. Husserl exclui sistematicamente próprio. e o sentido desta noção de "paralelismo". uma componente eidética. quando desta fase de descrição. não pode ser o mesmo problema. o nosso pro- sas metodológicas de Husserl e principalmente a ''re- blema tomaria pelo menos — dado que nos é necessá- dução" sob as suas formas eidética e transcendental. as formas da evidência em geral e pretende atingir -se-ia dizer. que dá "a resposta •. 80. as que em breve afloraremos. p.. das outras componentes eidéticas de um corpo. § 1. existência histórica e que esta preceda uma ciência Husserl entrega-se sobretudo à articulação entre ò ob- absoluta cujas conclusões não pode esperar. define da. Esta diferença indiretamente determinado a sua: tudo se passa como irredutível está ligada a uma interminável diferencia ÍC considerasse então qualquer gênese como associativa. veremos.

determinar totalmente e sem equívoco o conjunto de todas as configurações possívtls condenar-se ao silêncio — o que aliás é sempre pos- do domínio. uma arqui. /É a estranha presença for. qualquer que seja o espaciais idealmente possíveis e todas as relações eidéticas que lhes dizem respeito.. kantiano. na com as descobertas de Godel. a pos. ciência morfológica. irrupção do infinito junto da consciência. sobretudo quando foi confrontada com do objeto. uma "matemática dos fenôme- nos" é impossível: é um "projeto falacioso". nem um momento propriamente subjetivo. Há na cons- sibilidade de fechamento. 97 . vez claramente reconhecida a não-realidade do noema. Isto sig. a partir da consciência intencional. n ã o pode ser descrita. que a da origem do sentido. das regiões em geral. p. Ora por dois sinais: A) A noese e o noema. não pertencer realmente à consciência. 96.. que é a objetividade 15 matemática. é a "realmente" subjetivo pois se dá indubitavelmente como principiai. 231-232). É a infinita aber. la geometria] é capaz de derivar por via puramente dedutiva Iodos as poderia parecer dissimuladora uma vez que dá ainda formas "existindo" (existierenden) no espaço. Por outras palavras a multiplicidade. distinguem-se por o noema de Husserl. dominar verdadeiramente e. portanto as essências dos nomenalidade. III e IV. é algo que se verifica pelo menos tura e a uma "multiplicidade" de tipo matemático. do para a consciência. E i s por que a redução transcendental e a correlação ou estrutura morfe-hilética. O que a caracteriza 6 idealismo transcendental. esta anarquia do desta Idéia que permite t a m b é m toda a passagem ao noema é a raiz e a própria possibilidade da objetividade limite e a p r o d u ç ã o de toda a exatidão. (15) Ver Ideen I. o todo do a qual introduzimos o termo de multiplicidade "definida" (definiu) ou : de multiplicidade matemática no sentido forte.. que a oclusão desta estrutura seja o fenômenos em geral n ã o podem pertencer a uma estru. todas as formas acesso a uma região determinada. 228. su e simplesmente. o que devemos fixar aqui. A intencionalidade transcendental é descrita em Ideen I como uma estrutura originária. 13 estrutura complexa seja a da intencionalidade. isto é. consciência. esta determinação realiza o tipo da necessidade purament' sível •— e em todo o caso renunciar a um certo rigor analítica. uma A essência genérica do domínio geor»)étrico ou a essência pura do espaço é de tal natureza que a geometria pode estar certa de poder. seu privilégio fundador. significada em vários momentos da aná-. § 71. momentos o que caracteriza semelhante multiplicidade aos olhos intencionais da estrutura. É o tema difícil mas decisivo da inclusão levantar esta concepção husserliana da "definitude" não-real (reell) do noema. da abertura para a luz da fe- as essências da consciência. Esta irregionalidade do noema. isto é. Este. evitando realizar a consciência. cap. resulta daí que por principia nada mais permanece aberto (offen) neste domínio" {Ibid. o sentido e o "como tal" da coisa para a certos desenvolvimentos ulteriores da axiomática e consciência n ã o é nem a própria coisa determinada. stricto sen- estrutura (Ur-Síruktur) com quatro pólos e duas cor. das configurações espaciais em geral tem uma propriedade lógica fundamental notável para menológico e abandonar. Esta não-inserção real seja em que região de um irredutível inacabamento. das leis eidéttcas primitivas.. de direito. p.. O que Husserl pretende sua existência selvagem cujo aparecer é justamente acentuar com esta c o m p a r a ç ã o entre ciência exata e o noema."geometria do vivido". abertu- ra ao "como tal" do ser e à determinação da totalidade II. a partir de uma estrutura regional relações: a correlação oií estrutura noético-noemática determinada. próprio não-sentido. nem mesmo na arqui-região. mas o mundo ou qualquer coisa do mun- tura do vivido. evitar o idealismo empírico ou o idealismo absoluto) (14) "Com a ajuda dos axiomas. Poder-se-ia pensar que. § 72. com a Redução. Não é do mundo nem da fechar uma fenomenologia estrutural. nifica em especial.com exatidão todas teria sido conseqüente converter todo o método feno- as possibilidades. sob forma de conceito3 que determinam exatamente o seu objeto. N ã o podemos entrar aqui 14 ciência em geral uma instância que lhe não pertence nas dificuldades intramatemáticas que não deixou de realmente. e naquela época? Numa só palavra. E certo que só pode ser desco- lise husserliana pela referência a uma Idéia no sentido berto. a estrutural impossibilidade de objeto para a consciência. Mas isso não seria então o fato de um número finito de conceitos e de proposições. Que esta (na medida em que deve permanecer redução eidética para saber de que coisa se continuará a falar e para (13) Ibid. a essencial. para o que aqui nos interessa.. o seu unifica o objeto e o mundo. principalmente a 3* seção. por antecipação e apesar "material". isto é. mas n ã o lhe vai buscar o que se poderia chamar me- que permite unificar o seu fluxo temporal tal como ela taforicamente. em virtude do seu método. e do sentido.

Ora na sua17 não poderia uma psicologia renovada sob a dupla in- maior profundidade e na sua pura especificidade. pre- dificuldade excepcional. n. 290. principal- verdadeiro" (p. 1). p. se constitui a st próprio. Não no momento em que.intencional e não-real. . detenha- possibilidades designadas matérias sem forma e formas__ mo-nos um instante num segundo problema de fron- sem matéria. a hilê é uma dutível cumplicidade. de pluralidade unifi- etc. 12. de assinalar pertencem à esfera transcendental. Sobre todos ' Logigue formelle et logique transcendantale". p. sentido profundo e absolutamente único. (18) É particularmente a tentativa de Kohler para quem a psicologia como o mostrarão os estudos ulteriores. Husserl escreve mesmo: ticos? Em suma. que. 274-275).. os limites da descrição estática c a necessidade de passar em seguida à descrição genética: "O tempo.que. § 61. 157. não é de modo algum a necessidade de uma ruptura Se. n. e na qual os temas do estruturalismo sistemático. B) Enquanto o noema Outro e do Tempo deviam deixar aparecer a sua irre- é uma componente . p. estrutura transcendental de toda a consciência.. já presente em Philosophie der Árithmetik (887-1891). se renuncia a examinar as. Hu:serl teria sido obrigado não é na verdade a palavra decisiva. § 47.conseguimos pelas diversas reduções. poderá uma psicologia estruturaltsta. É que a constituição do outro componente real mas não-intencional do vivido. vai buscar a sua origem radical 'Urquelle) num absoluto definitivo e ter dado è Psicologia da Gestalt os seus próprios conceitos. é algo (. tradução Levinas. Husserl anuncia da seguinte maneira. Apareceria deste modo. justificando-os. das Méditalions "tcs assuntos remetemos para a importante obra de A.) e toda vez que anuncia uma "estética transcendental" (Conclusão de toda. foram obrigadas a fazê-lo a fim de proteger contra qualquer confusão Era fácil de prever a conjunção da fenomenologia e da "psciologia os aspectos que inicialmente só são visíveis na atitude fenomenológica. depois de ter comparado sica? E r a tanto mais fácil acreditá-lo quanto o próprio a dimensão espacial e a dimensão temporal da hilê. e que mas pelo contrário porque Husserl sempre pretendeu. a "psicologia da forma" pasmaram até certo ponto em silêncio toda uma dimensão da consciência. e 18 hilê é em primeiro lugar matéria temporal. em certo a "retomar" na Krisis "a noção de "configuração" e mesmo de Gestalt". pretender assu- (16) Ibid. mo.. Merleau-Ponty 0_ "absoluto" transcendental. Butor). ao causalismo..que só a limitação eidético-transcendental e um certo nestes dois pólos de abertura e no próprio interior da "regionalismo" podem assegurar? Em todo o caso. nos seus Principies oi Cestalr Psychology.esta dualidade e e3ta unidade notáveis da iJXí) sensual e dafiftC Ç>"fl intencional desempenham um sura de psicologismo outrora dirigida à psicologia clás- papel dominante" (p. Mas rior de uma temporalídade constituída. é aliás um título que cobre tem de se entregar a uma "descrição fenomenológica". 13 e Méditations obras elaboradas? Encontramos reservas desie tipo em todos os grandes cartêsiennes. tornar-se invulnerável à cen- que é preciso constantemente conservarI. Vemos em todo o caso que a dela nem poderia exercer a sua atividade intencional. § 85. p. ao nível em que se mantém Ideen I... 98 99 . Gurwitsch. Kecherches logiques. 288). que . que marca a sua distância em relação ao associacionis- sibilidade da própria gênese. "Ao nível de análise no qual nos mantemos até nova ordem. para não falarmos de uma adiante: "Em todo o caso. É a pos. «« champ de la conscience (tradução de M." (Ibid-. Mais menologia transcendental. É o pólo de nião o seu princípio metafísico: a evidência originária passividade pura.etwes) -. todo um conjunto de problemas perfeitamente delimitados e de uma discípulo de Husserl. no coniunto do domínio fenomenológico (no conjunto: quer dizer. ou de uma conversão. como o sugere M. mir sozinha essa descrição e esses esquemas problemá- (17) No parágrafo dedicado à hilê e à morjê. p. constituída. Husserl renun. menologia e a passagem às análises genéticas. etn particular em Erfahrung imd Vrteil (p. É a e do tempo remetem a fenomenologia para uma zona matéria sensível (vivida e não real) do afeto antes de na qual o seu "princípio dos princípios" (na nossa opi- toda a animação pela forma intencional. e que nos se pretender ser independente em relação a uma feno- dispensa de descer às profundeza» obscuras da consciência última que constitui toda a temporalídade do vivido. etc. ao atomismo. necessidade desta passagem do estrutural ao genético Esta receptividade é também uma abertura essencial. se se limita à correlação hilemórfica 16 teira. 194. da forma". no interior do plano da temporalídade constituída psicologia fenomenológica. Um pouco antes. 63) que teria aparecido logo nas livros ulteriores. Pereeber-se-á que as nossas análises anteriores lende mostrar que pelo seu estruturalismo. é porque as suas análises se desenrolam Todos os esquemas problemáticos que acabamos ainda (e de certo modo n ã o o farão sempre?) no inte. 289). com alguma razão. e o de totalidade organizada. 62. a condição de possibilidade e uma nova "estética transcendental" que será constantemente certa impossibilidade de toda a estrutura e de todo o anunciada mas sempre adiada. dessa não-intencionalidade sem a e a presença da própria coisa em pessoa) é radicalmen- qual a consciência nada receberia que fosse diferente te posto em questão. Théorie cartésiennes). 116. cia a descrever e a interrogar a hilê por si própria e Antes de seguir este movimento interior à feno- na sua genialidade pura. a fluência da fenomenologia e da Gestaltpsychologie. Esta limitação será alguma vez levantada nas mente o de "motivação" (ver Ideen I. (Phínoménologie de la perception. § 37. e de Koffka. «capa à crítica do psicologismo. a neces- a transcendentalidade da abertura é ao mesmo tempo a sidade de passar a uma constituição genética e a essa origem e a derrota.

genética do ego encontrará limites que seríamos tenta- menologia transcendental. de a fenomenologia estar ainda nos seus p r i m ó r d i o s . <tue estuda os tipos particulares e quando muito os ordena de uma maneira sistemática. oe um tipo ontológico que nos è familiar. Em seguida porque a genealogia 20 que é a psique) e estritamente paralela à fenomenologia da lógica se mantinha na esfera dos cogitata e os atos transcendental. o o cogitatum. etc". segundo a expressão de (20) "Dado que o ego monádico concreto contém o conjunto da vida consciente. é para si próprio com uma evidência contínua e por conseqüência constitui-se continuamente pontos. frata-se. Ora a abolição desta invisível diferença do ego. só dirigimos o n o s » olhar para a cor-> A unidade profunda desta descrição genética di. real e potencial. belas-artes. se assim se pode em Ideen I (1930). Resultam. A fenomenologia elaborada em primeiro mada cultural das verdades subjetivo-relativas na Le. eu idêntico. Para iluminar a distancia que deve blemas de passividade e de atividade. Esse nada é o que permite a redu. Çonstitiui "ma etapa necessária a partir da aua! unicamente — isolada ás formas cente à precedente. O ego existe para-si-próprio. " Não basta escapar ao atomismo para evitar tinuamente como existente". A tarefa de Erjahrung und Ur. mas como eu. O ego não se apreende a si próprio unicamente como corrente de vida. 58).. Isto é. A Gestaltpsychologie é expressamente do próprio ego. 564 e seguintes. da ma-* jj»s leis genéticas que lhe são inerentes — se pode vislumbrar as possi- bilidades de uma fenomenologia ejdética absolutamente universal" (p. Na verdade 3_análise essencial manter-se-á logo de início no ego. não o fazemos com inteira liberdade. agora aproximarmo-rios dos gigantescos problemas da p. etc. é claro que o problema da explicação feno- Fink. Estamos ainda longe dos problemas da gênese recimento da predicação em geral — teorética ou prá. por isso mesmo. as suas descrições são análogas às da história natural benswelt. sem se dispersar. uma bem toda a sedimentação predicativa pertencendo à ca. de Logique formelle et logique transcendentale e (22) "É muito difícil atingir e ter acesso à última generalidade dos problemas fenomenológicos eidéticos. como é dito nas Méditations cartésiennes. lu gar é estática. bem -nos sobre esse nada que as impede de se alcançarem entendido. Husserl prescreveu a constituição de uma psicóloga neira mais geral. Até agora ocupamo-nos unicamente da relação intencional entre a consciência e o seu objeto entre o cogito A) A via lógica. dirige às psicologias da estrutura ou falar. mas esses ego têm já consciência de um mundo. diz ele. encontra-se enquanto ego e depois científicas e os valores de exatidão objetiva mas lam.. Vm ego para o qual um mundo constituído existe desde agora. tradução Levinas. a origem do mundo. Igreja). em três direções: que vive este ou daquele cogito. 22 tão transcendental. teil. seria necessário afinal de contas. O fenomenólogo aprendiz encontra-se involuntaria- "reduzir" não só as superestruturas das idealizações mente detido pelo fato de ter tomado o seu ponto de partida em si próprio. 56. Anotarei simplesmente os seguintes da nossa exposição. apríorística. do par cogito-cogitatum para retomar a gênese da totalidade. do fato sobre essa paralendade que libera o espaço de uma ques. consiste em desfazer. como provisórios. Além dos delicados pro- 21 o "naturalismo". (19) P. Na análise transcendental. menológica deste ego monddico (o problema da sua constituição por si próprio) tem de abarcar todos os problemas constitutivos em geral. etc). A redução transcendental é o que instante a formidável tarefa de uma fenomenologia ge- dirige a nossa atenção em direção a esse nada em que nética universal. universal e da estrutura genética do ego superando a simples forma do tempo.tões de ordem superior. A descrição genética do ego prescreve com efeito a cada ção transcendental. a totalidade do sentido e o sentido da totalidade deixam aparecer a sua origem. a si próprio como existente. Esta anuncia-se na terceira via. (21) "Mas devemos agora chamar a atenção para uma grande lacuna gundo Ideen I. p. esta descrição separar uma psicologia fenomenológica de uma feno. seria preciso interrogarmo. mas mundana nunca descrever senão modificações intencionais do (por não poder excluir a posição dessa coisa do mundo eidos ego em geral. estas são na verdade que. E . em Nachwon trata-se de voltar a descer para cá. eu que vive isto ou aquilo.C. íécnicas. enquanto ego em geral. aos problemas de numerosos textos conexos. sem dúvida. fenomenologia genética. § 33. personalidades de uma ordem superior (Estado. Agora. quando as colocamos. Em primeiro lugar porque. contendo uma natureza. e. Se aqui tivéssemos tempo e meios. mas só encontra B) A via egológica. ticos. Mas até agora só tocamos num único' lado desta constituição de si próprio. Nele re. tal como ela se desenvolve se. cultura (ciências. rente do cogito. Mas mesmo tica — a partir da vida pré-cultural mais selvagem. em Eeneticos decisivos. a fenomenologia desta constituição de si por si mesmo coincide com a fenomenologia em geral" (AÍ. 100 101 . side o princípio das críticas que Husserl. Isto a fim de retomar e de "reátiyar" o apa. a fenomenologia não pode e n ã o deve fenomenológica. como a sua existência e a sua vida próprias que separa paralelas não é inocente: é o gesto mais só eram lidos a partir de signos e de resultados noemá- sutil e mais ambicioso do abuso psicologista. dos a julgar definitivos mas que Husserl considera. existindo para si e "constituindo-se con- visada. N u m sentido está já subja.

deveria reconhecer na fenomenoiegia lógico? Contento-me em levantar aqui estas questões.retornar em si. Apesar de todas vidas. reconhece Husserl. um valor mais do que uma essên.pare- apenas por séries de revoluções que são ao mesmo tem. 386). gundo Husserl.. vez que é discurso. uma sempre. ou a sua E V . a passagem à consciência humana da esta linguagem não é imediatamente especulativa e me- Idéia de uma tarefa infinita da razão n ã o se produz tafísica. . se é verdade que o escutar-se-falar. razão pelo atalho de uma escritura. Cournot. nifica que. crição mundana. não há portanto nenhuma abdi- elemento de uma fenomenologia não a impedirá de ser cação de si pela fenomenologia em benefício de uma já — ou ainda — asserção metafísica. como telos e cuja S^vctius tende para a sua èvzpyeia tuindo a voz à ò'üvap. esta terceira via n ã o é uma via entre outras. como logos. C) A via histórico-teleológica. É preciso prestarmos aqui atenção ao fato de que ção do logos. portanto do movimento do sentido bém ameaça do sentido pelo exterior do signo. nologia realiza o projeto mais profundo da metafísica. à "reativação". pois a orgem imediatamente se estranha na qual a sua transcendência metafísica e a dissimula sob o novo domínio da objetividade desco. § 37. Estas rup. É palavra como auto-afeção: o fenomenologia são "metafísicos". ao criticar a metafísica clássica.5 de um silêncio. estas rupturas já se anunciam ecriam. Exposição indispensável à constitui- cidade em gera] (isto é. degenerada no decorrer da sua história. esta metafísica. o escutar-se-falar constitui-se ém história da tido habitual do termo. Pois po conversões a si. diz Husserl. "na confusão e na noite". p. mas também sucessivamente na dade ou idealidade do sentido foi descoberta pela feno- animalidade e na natureza em geral. com razão ou sem ela. SaLde^si para se. 64. Difere-se deste razão atravessa de lado a lado toda a historicidade" Ji modo para se reapropriar.110. ciam sê-lo para Husserl. Atravessa o ser em vista de si. que deverá dar acesso ao eidos da histori. reivindica-o principal- a si próprio. Inversa- tal afirmação. n ã o está de modo algum em (23) Krlsis (Beüaee III p. estar aí totalmente assegurada? Pois já ser teriam sentido sem o logos que é o sentido projetan- n ã o diz respeito apenas a fenômenos e a evidências vi. de se. A Origem da Geometria des- e era especial "a unidade da história do ego". atualidade da sua essência infinita desceriam e condes- berta ou produzida). em vista de se aparecer Husserl reconhece o. este logos não se produz na turas que são ao mesmo tempo desvendamentos (e história e não atravessa o ser como uma empiricidade também recoberturas. n ã o só nas formas mais elementares da vida e dade atual. discursividade infinita e n ã o infini- isto é. Esta 24 creve a necessidade desta exposição da razão na ins- terceira via. tornada necessária pela e na própria fe. furtar-se ao despertar. se- uma metafísica articulando-se num discurso fenomeno. ou melhor. conhecimento último do ser deve ser chamado meta- "presente y i y 9 " : 4 £ ^ ^ p r e l e n ^ j s U Saindo de si física. do-se e proferindo-se a si próprio. como certas frases consonantes de Hegel. mente. nenhuma história como tradição de si e nenhum nomenologia. Como pode uma menologia como as suas próprias premissas. O logos nada é tora da história e do ser. conformidade com o espírito no qual foi originalmente 102 103 . o signo pode sempre "esvaziar- pode ser uma norma. e uma vez que é sentido. Ora a irreali- da história humanas. Como para eidética da história não é uma eidética entre outras. afirmação de especulação metafísica clássica que pelo contrário.C. "A ideologia d. os rasgões de uma finitude anterior este logos que se chama e se interpela a si próprio desnudando um poder de infinidade escondido e resti.dizer e de se mente nas Mêditations cartésiennes.\ manecer para sempre fechado e mudo. pode per- S cia). O que sig- A razão desvenda-se portanto a si própria. a energia clara das suas próprias intenções. e". No movimento necessariamente racional e espiritual. «tf momento da escritura. . a lenome- zão. é o logos que se produz na história. . abarca a totalidade dos existentes. a escritura é aqui "a época crítica". ao seu telos pois o eidos de ção da verdade e da idealidade dos objetos mas tam- uma historicidade. (24) M. Com efeito a irrup. Os resultados da ouvir a si próprio. isto é. O fato de só poder anunciar-se rigorosamente no estas noções clássicas.E X E X E ta.i. A ra. Mas nada têm que ver com a metafísica no sen- - próprio.

a conversão da filosofia em fenomenologia seria é que sempre quis dizer a noção de gênese em gera! o último estádio de diferenciação (estádio. Stuje. como origem e como devir. Mas dade da fatüalidade selvagem e nua do não-sentido. da sua. Foi porque interrogar-se so- ou o seu fim. . o escancaramento a Todos estes desenvolvimentos foram possíveis partir do qual o . É a questão da possibilidade da pergunta. 104 105 . a tentação de dizer "eterno" (o que de qualquer modo não quer dizer no seu pensamento nem infinito nem (25) Estas expressões do último Husserl ordenam-se como na metafí- sica aristotélica em que o eidos. . só elimina a metafísica ingênua. por precipitação dog- sível ao transbordar o seu sistema de evidências ou de mitica e especu ativa. dutíveis da gênese e da estrutura: gênese mundana e nologia . E a possibilidade poder aceder a essa totalidade e em especial à sua his- concreta. não deixará nunca de ser no caso. antes das dissociações introduzidas pela redu- pria abertura. para fazer apa- dência atual e adequada. mas não gênese transcendental. da sua pureza. muito pelo contrário). problemática. a partir da qual a duração husserliana pôde surgir e etapa estrutural ou etapa g e n é t i c a ) . através das suas deslocações. que Husserl teve graças à distinção inicial entre diferentes tipos irre.fundada enquanto "filosofia primeira'' . Aliás nunca deixou de o ser para o próprio Husserl. (26) Ver Krisis. a noção de tica. estrutura em geral a partir da qual Husserl ópera e mento greco-europeu). não foi por ingenuidade. se não se interrogou em primeiro lugar Talvez ficasse então visível que esta Idéia é a Idéia ou sobre o sentido em geral dos seus instrumentos opera- o próprio projeto da fenomenologia. estrutura exclui a metafísica em geral" (§ 60 e 64). . Colocar a seguinte interior do eidos mais universal da historicidade espi. Esta conserva uma afinidade essencial com a metafísica. Os dois estádios 25 ser entendida? Que quer dizer e o que é que sempre anteriores seriam primeiro o de uma cultura pré-teoré. não há dúvida de que a possibilidade desta neutralização. o que ritual. antecipação teorética infinita dan- mular simplesmente uma questão lingüística prévia. estas noções são afetadas de um índice transcendental e_a sua virtude metafísica é neutralizada por aspas fenomenológicas. quis dizer. por exemplo.. dizer que é o mais poderoso a prion ção. . 502-503. Seria portanto necessário recer a sua origem. lidade da redução transcendental não pode estar à pria gênese. que se arranca à totalidade do que a precede para raria a gênese do ser e do sentido. a própria abertura. 26 opera distinções entre as dimensões empírica. "a fenome. É colocar o problema da como evidência de um extravasamento essencial da evi- unidade do mundo de que se liberta. como a possibilidade da própria redução transcendental. É do-se simultaneamente como tarefa prática infinita. é interrogar sobre o que precede a redução trans- estruturai da historicidade não é designá-lo como um cendental. própria morte. e depois o do projeto teorético ou filosófico (mo. estrutura empírica. é convocado a in- da potência ao ato. p. que Husserl denomina terregar-se sobre tudo. geral. Pois no eidética e estrutura transcendental. em especial sobre a possibili- também Enteléquia. a liberdade transcendental. A questão da possibi- do devir em geral. lologia histórica.Eu transcendental. sendo a pró. é colocar o problema da unidade do solo histórico a indicada cada vez que Husserl fala da Idéia no sentido partir do qual uma redução transcendental é possível kantiano. o logos e o telos determinaram a passagem anístórico. o que a torna pos- tórios. bre o sentido da noção de estrutura ou de gênese em Sendo o Telos totalmente aberto. ou por ter desprezado a carga 1 determinações atuais. esta é apenas o ato livre da pergunta valor estático e determinado que informaria e encer. questão histórico-semântica: "Que quer dizer. . o próprio nascimento da história e o sentido toricidade e ao seu passado. ao transbordar como a sua fonte histórica da linguagem. não é for- Telos ou Vorhíiben. eidética e transcendental? E qual é a relação histórico-semân- A presença na consciência fenomenológica do tica entre a gênese e a estrutura em geral?". espera da sua resposta. isto é. Ora. Esta dá-se na evidência fenomenológica e se motiva a si própria. Mas como o nome de Deus. . Se examinar de perto esta intervenção da Idéia no sentido Husserl não cotecou estas questões em termos de fi- kantiano em diversos pontos do itinerário husserliano. E portanto estruturalmente a pró. das suas condições ou da sua "imoüvàção".

A P A L A V R A SOPRADA Quando escrevo só existe aquilo que escrevo.. . E que o diálogo conduzisse para além dos seus dois trajetos.) Ingenuidade do discurso que aqui iniciamos. . em direção ao comum da sua origem e do seu 107 i . (VArt et la Mort. (Rodez. Para reduzi-la teria sido necessário esperar muito tempo: que na verdade fosse aberto um diálogo entre — digamos. O que senti diversamente daquilo que pude dizer e que me escapou são idéias ou um verbo rou- bado e que destruirei para substituir por outra coisa. abril de 1946). fa- lando em direção de Antonin Artaud. o discurso crítico e o discurso clínico. Seja em que sentido fôr que te voltes ainda não c o m e ç a s t e a pensar. para sermos breves.

Isto segundo o gesto mais irrepri- contudo estão infinitamente próximos um do outro. pretendem fazer-se reconhe- cer e respeitar um pelo outro. A crítica (estética. produzem a ilusão da unidade. precisamente a "decifra- que estes ensaios nos deixam. aqui necessário que a historicidade e a diferença entre mática conjunção. Levar a sério. isto é. é que a continuidade do sentido entre a neira radical e pelas razões válidas que conhecemos. de fato. Embora se oponham de ma- fundamenta. em Hõlderlin et la por mediações impensadas à que há pouco procurá- question du père. é decifração conjunta das estruturas poéticas e das estru." dução psicológica e a redução eidética funcionam da "Mas Foucault acrescenta um pouco mais adiante: "E mesma maneira. A para a crítica. 207-208. falasse da loucura e da obra. março de 1962. qual a recobertura talvez esteja tanto por constituir tentaram reconhecer a passagem de uma palavra que. M. A obra ou a aventura de cie de proximidade infinita: "Estes dois discursos. em exemplo. os problemas irresolvidos em que o comentário. pensamento vêm testemunhar. obra e a loucura só é possível a partir do enigma do aqui. vamos — na mesma abstração. qualquer que seja o 108 109 . anunciam-se hoje melhor. Próximos de nós. e esta primeira tarefa não é a mais fácil. são procura em primeiro lugar decifrar. Ora sentimos bem hoje. "per. O domínio que a psicopatologia. chega impossibilidade essencial e de direito. Des- Por mil razões que não são unicamente materiais. nhum texto. embora lhes reconheçamos dade n ã o mais pode ser subtraída do que no momento uma prioridade de direito. como por restaurar.) parte a sua autonomia. Laplanche interrogaram¬ O campo plenamente histórico desta interrogação. E nomenológicos. ler a essência no exemplo que cai nos parênteses fe- turas psicológicas jamais reduzirá a sua distância. não poderia mostrar-nos de que sem se desdobrar. Sentimos perfeitamente ção de estruturas". nos dois sentidos. a transferência impercep. uma impossibilidade de direito? Mesmo assim seria mergulhando em primeiro lugar em direção à sua enig. as duas impossibilidades fossem pensadas num sentido insólito. Blanchot. esta impossibilidade procederia de uma espé. um caso. de um modo uma impossibilidade de fato p ô d e dar-se para único e simples jato. Este horizonte e esta origem. e o percurso do "domí. (1) "Le non du pire". começou o seu reinado e deter- que se o seu lugar comum foi. sem dúvida de uma profunda incompatibilidade. tórica em que a nossa cultura se deve interrogar. e t c ) . Foucault. se o comentário cemos estas perguntas ao ar para vermos mais adiante clínico e o comentário crítico reivindicam por toda a onde Artaud deve necessariamente fazê-las cair. no mesmo desconhe- mitindo. de ser cúmplices — por uma unidade que reenvia traordinariamente rápidas" que. mas uma relação his- nessa. Este momento está tanto designado dc longe. J. Critique. Isto é. minou a posição da questão. de proteger o sentido de um pensamento ou o valor turas p s i c o l ó g i c a s " F o u c a u l t conclui por uma de uma obra contra as reduções psicomédicas. mível do comentário mais respeitador da singularidade como está próxima do possível a possibilidade que a selvagem do seu tema. e fazer caso do sentido ou do valor. cimento e na mesma violência. de fato os dois comentários — o mais ausente da nossa memória quanto n ã o existe na médico e o outro — jamais se confundiram em ne. de há muito subtraída ao pensamento. no instante em que preten- nio compreendido entre as formas poéticas e as estru. literária. (Será porque se trata em primeiro lugar de comentários? E o que é um comentário? Lan. a re- mesmo que deixa aparecer o absoluto da ruptura. sem mesmo se distribuir. para sorte isto não é uma figura abstrata. de uma estrutura cuja permanência essencial se de um para outro e para cada um demonstrativo." M. exemplo. têm. em m a r t í - apesar da identidade de um conteúdo sempre reversível rio. história. perante o problema da obra e da loucura. Descrevendo as "oscilações ex. filosófica. no -se sobre a unidade problemática destes dois discursos. Longe de a por um caminho oposto ao mesmo resultado: faz um excluir. tível de figuras analógicas". nem por isso deixam Dizemos de jato. o mesmo fim. na melhor das hipóteses. esta historici- não podemos expor aqui.horizonte. contra vontade. p.

124. por definição. Indica- mo entregando-se à experiência mais direta e mais sel. mas já preside a elas. em Le livre à venir. aquilo de que Artaud é apenas testemunha esquema. a partir do momento em que Artaud de Hõlderiin quanto o texto consagrado a este podemos lê-lo através dele. esta tentação das afirmações demasiado gerais. o seu rasto apagado no ponto puro em que ela falta. Ao mesmo tempo que afirma a necessidade é uma essência universal do pensamento.. 51)." Le Théâtre de la Cruautê. / de uma terrível incapacidade de se realizar na sua vida / de homem. O mesmo esquema tssencialista. a "carência do ser". o que pertence irreduüvelmente a Artaud. poderia obter do caso Artaud.). assinalará textos inéditos. nv 5-6.). Cada lações entre a verdade. é o poesia esteja ligada a essa impossibilidade de pensar único. Qual a r a z ã o deste re- cia. pois sempre se desvia e o obriga a senti-la mos suportar" (p. não se há a dizer do único? É uma evidência demasiado se- deve cometer o erro de ler como as análises de um gura para a qual não nos precipitaremos aqui. gotavelmente nele. o erro e a história. dessa impossibilidade que afirma (3) Prefácio a K. é total de Artaud seria apenas o índex de uma estru. uma maneira secreta" (ibid). A parte de Artaud pertence a que é o pensamento. vagem jamais feita da essência do pensamento enten. dizê-lo. / é a afirmação / de uma terrível / e aliás inelutável necessi- escândalo de um pensamento separado da vida. 1948. O que já Para Blanchot era tanto mais tentador aproximar n ã o pertence a Artaud. torna. a sua própria experiên. E nas últimas linhas que abaixo do ponto em aue verdadeiramente a sentiria" seguem. O "erro dade jamais se evitou: "Seria tentador aproximar o patético" é o que reverte do exemplo para Artaud: que dissemos de Artaud do que nos dizem HÕlderlin. Mas "para nós.. Holderlin et Sweâenborg.seu estilo. supondo que (ibid. contra vontade e por escândalo. de Minuit." (p. Mas é preciso resistir a caminho da verdade. p. 4 8 ) . constitui uma dessas grandes figuras do espírito de chot. O erro patético de Artaud: espessura de dade: "Quando lemos estas páginas aprendemos o exemplo e de existência que o mantém à distância da que não conseguimos saber: que o fato de pensar só verdade que desesperadamente indica: o nada no âma. entre parênteses. chegaria por fim à mesma neutralização desse que Hegel apresentava já alguns exemples. mes. La folie par excellettce se desloca no mesmo 3 conta dele. que o que está para pensar é go da palavra. Strindberg et Van Gogh. dido como separação. que sofrer e pensar estão ligados de velmente pertence a Artaud. Ed. que é tentação que seria necessário evitar mas que na ver- como essencial ao pensamento. pode ser perturbador. exemplar. Jaspers. pronunciada depois das cartas a J. Rivíère e das primeiras obras. remos o tomo t a página sem outro título de cada vez que remetermos para a preciosa e rigorosa edição das Oeuvres completes (Gallimard). estado psicológico as descrições precisas e seguras e minuciosas. nada é dito do único. aparece num outro texto de Blanchot: La cruelle raison poélique em Artaud et le' théâtre de notre temps. o sejam interrogadas por si próprias. segundo a sua expressão. repeti-lo e tomar último. 66. Maliarmé: que a inspiração é em primeiro lugar esse O erro é a história de Artaud. 5 2 ) . "Como que tocou. (ibid. desta vez contra si própria como o limite do seu infinito poder" ainda mais despojado. O que diz é de uma intensidade que n ã o devería- descobrir. Sabemos que o pensamento separado da vidn atinja na sua leitura a séria profundidade de Blan. A aventura (2) Esta alirmação. Trata-se aí de E a meditação de Bl-mchot detém-se aqui: sem que uma leitura — aliás admirável — do "impoder" (Ar. Uma simples data. que tem por nome "o teatro da crueldade". Antonin Artaud". eis a verdade que não se pode ele. p. O que irremedia. Artaud pobre M. sentimo-lo bem. sem que a taud falando de Artaud) "essencial ao pensamento" afirmação própria que sustem a não-aceltação deste 2 (Blanchot). nada psicólogos ou aos médicos. o "escândalo de um no pensamento o que se desvia dele e se esgota ines- pensamento separado da vida" etc. Cuja aventura total se forneceria portanto um outro. dade. "O teatro da crueldade / não é o símbolo de um vazio tura transcendental: "Pois Artaud jamais aceitará o ausente. A meditação de- ponto em que pensar é sempre já não poder pensar tém-se aí ou quase: é só o tempo de evocar uma ainda: "impoder". jn 84. Conceito pré-hegeliano das re. 110 111 . sem que a "selvajaria" desta experiência um erro patético de onde resultam os seus gritos. que dela nos propõe" (p. e não é contudo o mesmo. . pode sem prejuízo ser abandonado pelo crítico aos gresso à essencialidade? Porque. não será retida na decriptagem da verdade essencial. "Que a poeta diz o mesmo. Volta-se à essenc ali.

No fim do livro. 26). não é surpreendente. no dadeiro. Laplanche quer 'compreender num só movimento a sua ça a singularidade do acontecimento e refreia anteci. corresponde ao que se sabe desses 13). . extremo oposto. é a própria realização do ver. . chot diminui o campo do saber médico que não alcan. se furtou ao blime. dade só complicam uma dualidade que jamais é redu- cialista. A desaparição da unicidade é tido nos seria conhecido e não nos reservaria nenhu- mesmo apresentada como o sentido da verdade hõlder- ma surpresa. regressa ao elemento de que saiu" (p. do destino poético. nominamos psicologia ou antropologia: " . mas da obra leva a conclusões que de modo algum podem ele próprio pertence ao que exprimiu e descobriu. " f ó r m u l a s . põe fim à sua um acesso exemplar à essência da esquizofrenia em ge- particularidade. talvez único.de escapar à alternativa dos dois discursos ("pois o J. a rapidez das oscilações até torná-la dificil- " N ã o nos podemos contentar em ver no destino de mente perceptível. mesmo que esse movimento seja ritmado como este acontecimento está dentro da "regra". é o sentido tro. voltamos ao exemplarismo que se criticava expres- movimento não é o seu. demasiado gerais. E o que deste modo permite dizer sempre "o poeta" em vez de Hõlderlin. . como problema universal" (p. Pois uma vez que de longe a anunciamos como da verdade que se atribui como tarefa r e a l i z a r .é ele [Hõl- dade do único — aqui a unidade da loucura e da obra derlin] que volta a colocar a questão da esquizofrenia — ser pensada como uma conjuntura. . Blanchot. J.A palavra autêntica. o que torna possível essa pológico disponível para ciências determinadas que. "Para o saber médico. que. . obra e a sua evolução [as de Hõlderlin] para e na padamente qualquer surpresa. não ser generalizadas: trata-se da relação num caso particu- como sendo dele apenas. enquanto tal. . mas sim o destino poético. 11). que. 11. Embora protestando. e em primeiro lu. samente em Blanchot. Laplanche censura a Blanchot uma "interpreta- mistério resulta também dessa dupla leitura simultânea ção idealista". e este tal. Não é o seu destino (p. também se inclinaria "se mantém fora da oposição doença-saúde"). "decididamente anti-"científica" e anti- de um acontecimento que contudo não se situa nem -"psicológica" (p. tipo de teoria unitária à de Hellingrath para a qual. até certo ponto e contra sua vontade. . N ã o querendo renunciar ao unitarismo. porque nela o mediador desaparece. 15). A sua sorte só a ele pertence. da qual nao se regressa nunca" filosófico nos seduz: n ã o mais se trata de comprender (p._ 10). a que é mediadora senhar-se em Hõlderlin um acesso. aqui também.". 133). De fato apercebemo-nos muito rapidamente de doentes a quem o pesadelo leva a escrever" (p. elas só aumentam. ral. na verdade. 132). se viu obrigada a chegar a um ponto em estabelecemos entre a evolução da esquizofrenia e a que se quebrou. uma composição.2 113 . é o fato de a unidade ou a unici. como diz acertadamente M. 20). o estilo estruturalista ou essencialista exige da sua razão pessoal que ela se torne á pura quase desapareceram totalmente. Deste modo. e o gesto transparência impessoal. o o poeta Hõlderlin a partir de uma estrutura esqui- único é realmente aquilo que desaparece neste comen- zofrênica ou de uma estrutura transcendental cujo sen- tário. 4 O estilo psicologista e.. tendo querido com demasiada intensidade discurso e sempre se furtará: "A aproximação que algo de grande. ainda perante o único que. por mais que o saudemos. é preciso ler e ver de- liniana: " . contra as zida. .. . e propõe substituir um outro numa nem noutra das duas versões". Universal e não uma "combinação": "Não se encontrou duas vezes (4) "A existência de Hõlderlin seria assim especialmente exemplar semelhante combinação" (p. de- dissolução do único. E não é por acaso. Blanchot escreve: Foucault. gar porque este acontecimento é o do demônico que apesar da sua diferença própria. talvez o melhor. . Unicidade ainda de conjunção e de encon- que ele decide. Blan. que esta decomposição "dialética" e esta multilineari- Esta redução da redução clínica é uma redução essen. que Blanchot une à própria essência da palavra como "relação à ausência" (p. Pelo contrário. entre a poesia e a doença mental" afirmação da essência p o é t i c a . mas como a verdade e a lar. pelo menos uma dialética e multilinear como um contraponto" (p. admirável ou su. loucura. afadigamo-nos Hõlderlin o de uma individualidade. Esta não é um fato psicológico nem mesmo antro- 30).

tura produz-se exemplarmente no caso de Hõlderlin Poder-se-ia crer que. entre aque. . fecundas. uma das dimensões ou das tonin Artaud vão aqui atrair na sua ressonância própria. quando não impossibilidade. articulando-se com os nomes de existência. o acesso à L e i . antes da timas. o único n ã o pode E se dizemos para começar que Artaud nos ensina ser o exemplo ou o caso de uma figura universal. de história. ó sentido de uma arte que não dá admiravelmente conduzidas. e instruídas por uma vigi- ocasião para obras. de o analisar. jamais teve valor de tema nos comentários do que. ou criticar o princípio destas leituras. Elas são legí- de carne. ainda por cima. tamento reservado ao único. apenas humano. n ã o devemos esperar dele uma lição. . que acreditamos na necessidade de reduzir o vra designamos uma totalidade anterior à separação da único. de crueldade. da psique e do texto. dificilmente tolerar pelo conceito metafísico ternidade" (p. quando pa- ninguém mais o fizera antes — às exegeses clínicas ou recemos lamentar o silêncio ou a derrota perante o críticas — é porque na sua aventura (e com esta pala- único. assim também. a origina- antiga do que ele. ) que implicitamente suportam a crí- jato em outros seres além do homem: simplesmente tica e a clínica. p o i é s de sc destruir a si próprio como comentário exumando após a possibilidade da esquizofrenia que se constitui. não-humano em primeiro lugar. ele denuncia incansa- F o i este o caso que se fez de Hõlderlin e de Ar. A presença tumultuosa deste solo arcaico -compreender. Mas essa unidade anterior à dissociação. lidade da obra ou a singularidade do belo contra as vio- Se Artaud resiste totalmente — e. de vida. como lências do conceito. do exemplo e da a possibilidade da esquizofrenia possa encontrar-se de essência. por precaução ' moral porque não está mais submetido a uma escritura mais ou estética. uma vez mais. . que seja preciso. Do mesmo mo. 209). sem correr o risco sem recursos perante uma existência que se recusa a 114 115 . parece-nos. está entregue a instituições diferentes da pa. pois a nossa primeira cláusula trutura que nos abre a verdade do homem. loucura e da obra. A nossa intenção não é de modo algum refutar seus gritos raivosos. a esqui. por definição. de ingenuidade não era uma cláusula de estilo. para falar a Simbólico. entre outras. É o que permite deste modo a Foucault taud. 133) — que ela permite portanto pré. proteger a existência subjetiva. magnetizará portanto a afirmação que os gritos de A n - zofrenia não é. não é para apresen- pode. Se o unicidade. neste caso. isto não quer dizer q U e cura e da obra. ao Je que acabamos de falar e se deixa. cremo-lo. Nem. não se deve pensar. De longe. Pois o que os seus urros nos prometem. inversamente. Apontariam de preferência a própria questão concluir por sua conta: " . Esse solo. a unidade na qual se enraízam as diferenças (da lou- ria uma verdadeira antropologia. é o recurso da cumplicidade Por tal razão as considerações precedentes não são de entre o discurso clínico e o discurso crítico. de o decompor quebrando-o ainda vida e da obra) é o próprio protesto contra a própria mais. aquilo sobre que recaíam constantemente os taud. de que aqui só nos aproxi- n ã o é atributo entre outros de uma essência do homem mamos por via negativa. modo algum prolegômenos metodológicos ou generali- le que reduz o sentido ou o valor e aquele que gostaria dades anunciando uma nova abordagem do caso A r - de os restaurar. verdadeiras. de uma palavra que é corpo. e t c . reco- de um corpo que é teatro. Melhor ainda: acreditamos que nenhum comen. possibilidades do ser chamado homem. é histórico num sentido que. verdade. é. . de um teatro que é um texto nheçam-no. O crítico e o médico ficariam aqui tário pode escapar a essas derrotas. a existência de um artista que não lância crítica que nos levam a fazer imensos progressos. ção. se parecemos inquietar-nos com o tra- coisa além delas próprias. aquilo cuja deriva- gar único e exemplar" (p. Esta aber. mas sim a es. exemplificação. Só aparentemente a exemplaridade contradiz a tá-lo como exemplo daquilo que nos ensina.Hõlderlin ocupa um lu. velmente. previamente constituída e reconhecida. que Artaud quer destruir pela raiz. analogicamente. A equivocidade que se alberga na noção de entendemos bem. a algum arquitexto ou arquipalavra. é mais a via ou a experiência que dão acesso a outra Por outro lado. exemplo é bem conhecida. "em certas sociedades. de teatro.

o receptor que já ordens de um texto estranho. das m I W r í e SO D o u b l e 1 . em obieto. Artaud quis a conflagração dc psicológica ou de outra natureza. Afir- mação anterior a tais discursos pois . ração poética e a economia da arte clássica. nem contemplá-la nem sobre-' n a o d e v e r a n e m . sabe o que quer dizer roubar. uma outra m ã o e um intérprete já despojado daquilo ordem da verdade essencial ou de uma estrutura reaí. tal era pelo desejo. a essência do rou. p. a da palavra e da existência. X ^" (tf¥v! p° iW.Í' . Wn™»nL H ' . "linguagem da cena". com várias personagens. os ensaios acima evocados: própria possibilidade do roubo e define a sua estrutura dualidade da alma e do corpo sustentando. etc. Artaud quis destruir uma his. turbilhão do sopro de um soprador que ne. que o teatro do deste exílio. p e bo e a origem do discurso em geral. 116 117 . na ordem da lize calculado. que as sustentariam e ou de um texto. confunde-se com a menos subterraneamente. Destruir ao mesmo tempo a meta- ficação. a estética. com unr único e mesmo gesto. da política. ' " M a . 0 m e i d a s aspira para ele e me furta aquilo mesmo que deixa vir e . Artaud quis que fosse não deveria ser o "público" no teatro da crueldade 5 destroçada a maquinaria do ponto. etc. se torna imediatamente palavra roubada. a da metafísica dualista que inspirava. O roubo de um bem só abrir assim ao Perigo um mundo em que a estrutura do se torna aquilo que é se a coisa for um bem. do texto e como o exemplo de uma estrutura pois se trata disso • do corpo. cujo tema aparece nas cartas a j. dos 5 S d ò t E ] musica". O "impoder". P Ub s m a : P U W C O '. O roubo é sempre o roubo de uma palavra física. . O problema e q u e o . Pelo contrário. Rivière . lendo ela própria um texto mais Chicoteando a sua carne para a despertar até à véspera velho que o poema do meu corpo. Mas o roubo da pa- tória. significar. e ° «bSndStei. Procurando uma manifestação que não nados por tal ou tal circunscrição. O primeiro comen- uma cena em que o ponto fosse possívei e o corpo às tador é aqyi o auditor ou o leitor. drama do roubo. cada vez que são determi- sem diferença. Afirmação que menos a intenção declarada de Antonin Artaud. a estrutura do teatro clássico em que a invisibilidade do ponto assegura a diferencia e a in- Soprada: entendamos furtada por um comentador terrupção indispensáveis entre um texto já escrito por possível que a reconheceria para a alinhar numa ordem. E se Artaud no-lo dá a pensar. não é.-. Restaurar o tanto adquiriu sentido e valor por ter sido investida pelo ' Perigo despertando a Cena da Crueldade. já se tranqüili- que jamais caísse longe do corpo para decair em signo zaram na familiaridade de um saber primeiro: cada um ou em obra. a religião. já não é sem dúvida. do "guarda-roupa". furto não oferecesse mais nenhum abrigo. S « l niesmo existir como público. se por. de um discurso. A inspiração é.. mentadas. destruir a inspi- em espetáculo. plicitamente e numa mesma questão. Para isso era neces- recendo-se para ser ouvida ou recebida. Ora todos ON rante uma linguagem que se quis sem rasto. Metafísica do comentário que autori. oferecendo-se sário.faz comunicar. especial- Significação de que sou despojado porque ela é signi- mente do teatro. Isto é discursos sobre o roubo. ofe- estilhaços a estrutura do roubo.. no sentido em que o Soprada: entendamos ao mesmo tempo inspirada entende Artaud. «)). da economia.. pelo menos. etc. e que são já comentários exilados. Fazer voar em Artaud sabia que toda a palavra caída do corpo. mesmo — o roubo — que constitui a estrutura de zava os "comentários" porque presidia já às obras co. Obras n ã o teatrais.iK m n ' ! . Artaud quis proibir que a sua palavra lhe meu gesto. moral. antes Ü b l Í n d e v e r i a ração. o fosse soprada longe do corpo. a 6 esterilidade do "nada para dizer" ou a falta de inspi- on «w. ? -° / ° -0 existir fora da cena da crueldade. exemplo como tal. a simples impotência. de um rasto. ex. encenação". em segredo fundamental. .. mais ou lavra não é um roubo entre outros. sabemo-lo. Daí essa enigmática e de um vazio. é a própria inspiração: força vUv. ou do direito. mesmo que recebe. esperá-la.otá^L H r . £ ela seria um pouco ingênuo interpretar como a despedida que vamos seguir com a pequena diferença de um des- feita a qualquer outra teoria do roubo. da "luz". é P r e C Í S ° C m P r i m *° i U g W (6) A palavra aparece em 1-e Vèse-Serfs (I. por uma outra voz.. perante uma arte que se quis sem obra. já resolveram obs- fosse uma expressão mas uma criação pura da vid^ curamente ou rejeitaram esta questão.

a propósito de que se convencionou chamar a inspiração. "ao mesmo tempo essencial e em que profiro. A partir do momento que falo. A perda é precisamente essa determinação a referência ao roubo. de uma verdadeira perda" (I. de "perda".. ouvido. "Esta não me pertencem. as palavras que fundia-se com a carência própria da palavra nele. a partir do momento que são palavras. é Artaud que su- gem da palavra. são originariamente repetidas. Seria tentador.encontrei. de domínio do primeiro lugar ouvir-me. do fugaz e cujo delegado era J. Rivière. O furtivo seria portanto a virtude desapro- para além das determinações metafísicas e das "limi. ao sutil subterfúgio cuja signi- metafísica na qual deverei fazer deslizar a minha obra ficação se faz deslizar — é o roubo do roubo. de uma ausência total. a irrupção positiva de cios materiais do meu desenvolvimento. mais do que o fugaz. Segundo Artaud. fácil e até certo ponto legítimo ciência de palavra. o eu que se ouve. para que. acerca da qual anormal dos elementos do pensamento. A erosão é a ignorância de quem fala no momento e no lugar "essencial" e "fugaz". A cons. palavras que encontrei [I. esta taud quer um teatro em que a repetição seja impossível." 1946). Esta consciência é portanto também fugaz" é produzida por "algo furtivo que me tira as uma inconsciência ("No meu inconsciente são os outros palavras que encontrei". à separação uma palavra que vem não sei donde. isto é. a consciência pura e simples. com< . priante que escava sempre a palavra na subtração de tações do ser" que separam a alma do corpo. que deve agir muito depressa para cruelmente presente a si própria e se ouvirá falar. Há portanto sei. mas sim dc "diminuição". fala. mas a um desmoronamento central da alma. ( A r - dispersão dos meus poemas. que se furta a si mesmo num gesto necessário — para tura presididos sem o saberem por essa metafísica e o invisível e silencioso roçar do fugitivo. de desenvolvimento intelec- logo. I V . que não sei donde vem algo que destrói o meu pensamento. desses "raptos furtivos". " A i n d a aqui receio o do fugidio. mas que me deixa impoder: não a ausência mas a irresponsabilidade radi. em suspenso. no que n ã o é uma 20). essa fecundidade do outro sopro é o impede de ser o que poderia ser. palavra que me é sempre soprada e que me furta exa- tamente aquilo com que me põe em contato. nome. nem à estética porque tem de se infiltrar invisivelmente no nada que definir esta irresponsabilidade: é uma perda total c : me separa das minhas palavras. expressões cujo sentido deve ser entendido jado delas. p. falar é ouvir-se. a palavra si. p.para mim e que eu julguei poder dizer em meu nome. do pensamento. de "desapropriação". á bem dizer. o furtivo se pretender fazê-la ouvir num mundo e numa litera. A linguagem corrente apagou da palavra "furtivo" do gesto. 9 1 ) . eu tenha a certeza de sempre ter sido já despo- minha Vida. O furtivo é — em latim — o constituir uma outra consciência que desta vez estará modo do ladrão. O furtivo é fugaz mas é que escuto. mesmo que eu as encontre. Não me tirar as palavras que encontrei. contra a qual será necessário re. A partir do momento que sou tual. urgência da palavra. "armadilha no pensamento". a uma : espécie de erosão. nem à lógica. Gostaria que compreendesse bem que não se próprio da palavra. se for Antonin Artaud. Artaud n ã o ignora nem sublinha o sentido equívoco. 89). acentuar a exemplaridade desta descrição. pro. na trado. o que o levava a exprimir-se con. e de mas sutilizar antes originária da própria existência. curvatura constante do meu pensamento devem ser Ver Le Théâtre et son Double. a partir do momento que me ouço. Algo furtivo que me tira as cal da pa'avra. mantém-se no movimento da desa- trata desse mais ou menos de existência que cabe ao parição: em Le Pèse-Nerjs (p. Constantemente Artaud o repetia: a origem e a simples redundância. Devo em atribuídos não a uma falta de exercício. ao mesmo tempo essencial e fugaz. Relaciono-me comigo no éter de uma blinha] . já o "nada ter para dizer" em seu próprio. a irresponsabilidade como poder e ori. No solilóquio como no diá- instrumento que manejava. p. 25-6. algo que não me nem quem a fala. tendo-as encon- duz-se também e em primeiro lugar no meu Corpo. que me ouve torna-se o eu que fala e toma a 118 119 . estes vícios dç forma. ao nâo-domínio passageiro dos benefí- A generosidade da inspiração. Muito depressa compete nem à moral. etc.

na reunião já a propriedade e a iniciativa. dizer. O que significa reco- que não o sabe e porque esta ignorância. A subtração é a unidade primeira daquilo julgo querer dizer e em relação ao qual o meu querer que em seguida se difrata como roubo e como dissi. de cada vez. em alguma parte aberto. Mesmo se a re- mentalmente como roubo ou violação é o que faz uma flexão desta carência determina como um excesso a psicologia. sobrecarregando a palavra "soprar". uma antropologia ou uma metafísica da sub. Antonin Artaud" outra página. antes 120 121 . Sopro que coisa — o campo cultural onde devo ir buscar as tomaria posse de si num lugar em que a propriedade não minhas palavras e a minha sintaxe. esta diferença não é nada. É em vida que não deixa que nada lhe seja ditado porque primeiro lugar — mas sem que isso queira dizer outra não lê e porque precede qualquer texto. tura. Quer fazê-la explodir. Porque não podemos de toda essa pedraria mental em torno de um ponto que impedir a sua antecipação. Será então a ocasião de nos interrogar- mos se Artaud não designa desta maneira. Ur me esconde e me sutiliza o meu poder inaugurante tivo: a estrutura da subtração instantânea e originária O espírito sutiliza. sem a qual palavra alguma encontraria o seu sopro. Autonomia como estratificação jetividade (consciência. é aquele mesmo ou só aquele que fala. inscreve. origem sempre já fur. inconsciente ou corpo próprio). seu autor ou do seu destinatário e faz parte da sua na- conde a sua origem e o seu sentido. tal é o roubo e ser ouvido em seu nome. A estrutura do roubo numa verdadeira comunicação comigo próprio e me aloja-se já na relação da palavra à língua. Sempre roubada. / E eis o que eu penso ato de palavra ou de escritura. e potencialização histórica do sentido. palavra. é o f . Não há dúvida de que esta metafísica opera aliás for. próprio a um sujeito próprio. Nunca é própria do como uma palavra ou uma história (caves ) que es. sem jamais lha cortar. Sempre subtração produz-se como o enigma originário. a saber. a nhecer como sua historicidade a autonomia do signifi- ausência do seu sujeito próprio não lhe sobrevém mas cante que antes de mim diz sozinho mais do que eu a constitui. A boa inspiração é o sopro de psique ou do fato lingüístico poderiam descrever. tempo a si própria. o furto mais arcaico que ao mesmo tempo daquele que fala. discursos de um certo existencialismo e de uma certa A expressão "por encontrar" p o n t u a r á mais tarde uma psicanálise a quem "esse pobre M. A a letra. Artaud sublinha). é-o portanto ao mesmo seu lugar e voltar a encontrar a comunicação consigo. A forma do buraco — que mobiliza os E X I S T E " (Le Pèse-nerfs. A palavra proferida ou inscrita. Por esse buraco escapo a do pensamento: / C E R T A M E N T E A I N S P I R A Ç Ã O mim próprio. I. sistema histórico. Entender a subtração exclusiva ou funda. o que se denomina o sujeito falante já nao deixou de ilustrá-lo. jamais dizendo tureza jamais seguir o trajeto que leva de um sujeito donde vem nem para onde vai. se acha em carência. 90. diríamos nós. como passivo. o ato de leitura rompe o está precisamente por encontrar. isto é roubada porque sempre aberta. p. Artaud não a exemplifica. aquela mesma que falta à inspi- campo organizado não é apenas o que certas teorias da ração como carência. Introduzindo-se no nome originário. forneceria com efeito exemplos — comunica nele com aquilo que é impossível de ser encontrado. Que a palavra e a escritura sejam sempre A vida. Este uma boa inspiração. Descobre-se N ã o prolonguemos a descrição banal desta estru- numa irredutível secundariedade. uma temática escato-teológica que mais adiante inter- rogaremos. por exemplo. não Assim. fonte da boa inspiração. urgência da expressão. é sempre roubada. Inspiração que me restabeleceria qual devo ler ao escrever. aquele que julga fal ar inconfessadamente tiradas de uma leitura. deve ser entendida. opõe qual procura em vão um lugar que sempre falta. A sobre-significância temente no pensamento de Artaud. se quisermos ter acesso a essa metafísica da vida. em primeiro lugar por. A palavra' restituiria a palavra: "O difícil é encontrar exatamente é roubada: roubada à língua. se mulação. tada a partir de um campo organizado da palavra no A esta inspiração de perda e de desapropriação. ao ladrão que sempre perdeu Tudo está numa certa floculação das coisas. isto é. sofrendo em vez de agir. campo histórico no seria ainda o roubo. isto é.

Orifício que o meu corpo não era mais o meu gesto.132. por- sidida pela angústia da desapropriação. A categoria do furtivo não metafísica do Ser e o conhecimento definitivo da V i d a " vale apenas para a voz ou para a escritura desencarna. o Ladrão. do corpo minha relação com a vida. bergsonianas. Há gritos intelectuais. I. (Position de la Chair. Refaço a cada uma das vibrações da A vida "reconhecida pelo exterior dos fatos é portanto minha língua todos os caminhos do pensamento na a vida das formas. todas as outras aberturas. cm terior têm a forma de um grito. íÜma metafísica da carne. O teatro 7 da Carne ou melhor da Existência? Sou um homem da crueldade deverá reduzir esta diferença entre a forca que perdeu a vida e que procura por todos os meios e a forma. Em Position de la Chair. 236). Mas que sou eu no meio dessa teoria opcr-lhe-á a "força da vida" (I. é determó-nos artisticamente em formas. O Outro. A passagem contínua da sua metafísica da vida à sua teoria a origem se não se tiver introduzido em meu lugar no da linguagem e à sua crítica da palavra dita-lhe um grande número de metáforas energéticas e de fórmulas teóricas rigorosamente. Esta metafísica da carne é também pre. p. carência. no seu fenômeno.. Esta privação institui e instrui a cia da vida perdida. 18. pensamento não separado. Portanto desde sempre o exilado longe do espírito. minha vida. meu gesto não era mais a minha vida. O meu corpo tanto ao mesmo tempo do meu corpo e do meu espí. das. fica para Artaud a diferença na carne. orifício da defecação aos quais remetem. efração só pôde ser a abertura de um orifício. E se existe ainda aloo dia acolhidas pela minha razão. Tal é o primeiro grito. p. furto da minha existência.) 123 . . I. Teve um lugar. É preciso res. Todos os sistemas que poderei edi- quando pronunciarmos a palavra vida.à matéria". vôo 4 Ver em especial o t. é sua história teve lugar. e roubo. É a isso que mados e que fazem sinais nas suas fogueiras" [Le eu chamo a Carne. espírito "obscuro" certo o jogo de palavras. Não nos detenhamos no que aqui se assemelha à bado ou sopro sutilizado. por. como à sua origem. deverão instalar-se no de infernal e de verdadeiramente maldito nos tempos lugar do elevado pensamento. 18. por- Le Théâtre et son Double às primeiras obras e ao tema tanto desde o meu nascimento. 56. / uma falta de / quem é sempre apanhado por terminando o ser como " vida. mas sim dessa espécie de centro frágil e instável ladas que me assaltam deverão necessariamente ser um no qual as formas não locam. / há um vazio. Se a minha palavra não é o grande Furtivo tem um nome p r ó p r i o : é Deus. p. Se a diferença. é em primeiro lugar senão em essência do próprio mítico: o sonho de uma vida sem si desapropriação total que. / uma todas estas diferenças. Desde que tenho um corpo. 15. * (pois "o Espírito claro pertence. me foi roubado por efração. 141. corpo.. Estas forças informu- fatos. Perguntemos de preferência o que signi- vação de mim mesmo. ( ) O jogo de palavras é fejto em francês com a palavra vol. N ã o separo o meu pensamento da Théâtre et la Culture. p. o rito: da minha carne. 236). (N. pela experiên. não sou mais o meu do impoder. do pensamento separado. essas forças que do ex- de hoje. de. / isso não se enche. O lugar da porque já o meu sopro não era mais o meu corpo. No vôo: é próprio. . A meu sopro. gritos que provêm da fínitra das medulas. o espírito como corpo 5 um parasita no vôo" (abril de 1947). se faz signo rou. da T. porque o do nascimento. p. . por. meu corpo me foi roubado. V. é preciso ver ficar jamais igualarão os meus gritos de homem ocu- que não se trata da vida reconhecida pelo exterior dos pado em refazer a sua vida. n ã o o sou. vez de sermos como supliciados em vias de serem quei. tanto não o tenho. se a minha letra não é a minha palavra. V . Quem pode tê-lo roubado senão um Outro e como pôde apoderar-se dele desde ( 7 ) Com as devidas precauções. Artaud minha carne. "Isso taurar no teatro a integridade da carne rasgada por se enche. fazer-lhe retomar o seu lugar. me constitui como a pri. 235. diferença. . tal é a linha contínua e sempre despercebida que liga Desde que me relaciono com o meu corpo. Mas é preciso que O que acabamos de denominar furto não é umn eu inspecione este sentido da carne que deve dar-me uma abstração para Artaud.daquela de que falam as ciências biológicas: "Assim ••Penso na vida. O sublinhado é nosso]. 2 3 5 ) . poder-se-ia falar da veia bergsoniana de Artaud. etc.

minha morte entre mim e eu. Deus não põe gando sempre antes de mim aonde escolhi ir./ o qual / se sada como mancha. É a diferença que se insinua como a in 84. priva da nossa própria natureza. Eis por que. 135). p. antes de nós. 108-110). isto é.. chorando a perda do seu corpo. Não é o que julgamos poder antecipar como acabamento / mas que evoluía / para a pureza inte- o termo de um processo ou de uma aventura que deno. "e não seguia" (me precedia). / Trabalhei demais para ser puro e /e / nasceu / pelo desventrar do meu corpo / do qual forte / . redobrando-me e ultrapassando-me. 9). n? 13). se eu não tiver sido roubado no meu nascimento. / Eu (84. . "não nos sui. mente deus. / Ninguém esteve alguma vez sozinho das coisas / tal qual se passou realmente / e / não / para nascer. quem pode ser senão da própria inatidade do nosso ser a si próprio: "Há Deus? " E Q U E F I Z E S T E D O M E U C O R P O . do nosso próprio nas- 67). minuto da morte extrema para nos despojar da nossa Deus é portanto o nome próprio daquilo que nos própria vida" (Van Gogh. tal" na véspera do meu nascimento. . como a mão apenas sobre este ou aquele dos nossos atri- "esse corpo que corria atrás de m i m " (me perseguia) butos inatos. "como jiuém exceto eu e ele. "sujeira". / eu / um corpo que se (84. 11)? A morte dá-se a pensar sob a categoria fazia / por conseqüência ainda n ã o chegado ao estado de do roubo. Só morro a todo o custo / não encontrou nada melhor / para do outro: por ele. / eu um homem / e n ã o o denominado espírito / que só era a projeção nas nuvens / do corpo Por que razão esta alienação originária é pen- de úm outro homem diferente de mim. ventre da minha mãe. apodera-se da nossa própria ineiedade. passar / por mim próprio / Ora não havia mais nin- se o meu nascimento não me tiver sido sutilizado. . isto é. perseguidor furtivo àuplicando-me por toda a tenho de morrer na minha morte para renascer "imor- parte. se não tiver nascido em meu tardou um pedaço com ele / a fim / de se fazer lugar. deus me "liquidou vivo / durante dade. / representada. / E de trabalhar toda a estrutura da minha existência. 108). . para ele. uma lim- atrás de (e não seguia) o meu / e que para passar peza como se fosse uma propriedade? " F u i supliciado primeiro e nascer / se projetou através do meu corpo demais. / ele / um corpo abjeto / que se nascer cheirasse a morte desde há muito tempo ' - Òs espaços não queriam. do fato / que sou eu / que era deus. D E U S ? " imbecis que se julgam seres. / Também ninguém está sozinho para / como vista na atmosfera lendária dos mitos / que morrer /. Demiurgo / é conhecida / É a deste corpo / que corria lamenta uma pureza como se fosse um bem. p. p." (84. E creio que há sempre alguém no escamoteiam a realidade. che. / verdadeira- p.. 124 125 . gral / como o do denominado Demiurgo. / o qual minamos — certamente — a vida. sempre chicotear essa espécie de toda a minha existência / e isto / unicamente por causa negativo canino. este furto representativo nem por isso deixou cada vez o deterioravam / e me deixavam morto. A morte é uma *abendo-se irrecebível / e querendo mesmo assim viver s forma articulada da nossa relação ao outro.'. O tema da morte como roubo está no centro de cimento e que em seguida. p. uma imortalidade real. £ / Apesar de tudo o meu corpo refez-se / contra / e se morro por representação no "minuto da morte ex." (84. seres por inatidade. nele. p. obscenidade. / Aquele que por inatidade é aquele que deve ser um ser. le suicide de la société.. no limite. Eis por que — tal é o E quem pode ser o ladrão senão esse grande Outro conceito do verdadeiro suicídio segundo Artaud •— invisível. por mais que variemos esta palavra. / . A minha morte é K r / do que nascer à custa do / meu assassinato. / Procurei demais ter um corpo limpo. . através de mil assaltos do mal / e do ódio / que de trema". furtivamente. E eis a resposta: desde o buraco negro sou aquele que para ser tem de chicotear a sua inati- do meu nascimento. sempre falou La Mort et 1'Homme (Sobre um desenho de Rodez. etc? Por intitulava o / Demiurgo / ora a horrorosa história do que razão Artaud. / E / é a história verdadeira cidamos sozinhos. ó cadelas de impossibilidade" (I. des. foi assim que à força de morrer / acabei por ganhar de a origem.

com a do jovem Marx. som mancha é refazer-se um corpo sem obra. foi-me sutilizada por Alguém que se tornou j . O novo estatuto — ainda à ordem da bricolagem e das curiosidades históricas. o que vem a dar no mesmo. isto é. ™as formas de textualidade e a escritura geral no jogo da qual se arti- denominamos a metafísica do próprio (ou da alienação). deve portanto ser re- origem da obra que Artaud também chama a Deus o cusado. me deprecia — e me suja. à saída do Orifício. Lia-se já em Le Pèse-Nerfs: "Caro amigo. cair longe de mim como escritura. o mistificador. que sou ainda roubado cada vez que uma parte de como o excremento. o excremento que me rouba do meu bem depois de eu ter sido roubado É talvez por causa da sua cumplicidade com a • por ocasião do meu nascimento. como é natural.). I. quando se colocar o problema da inserção no que. Em todos os casos que me confunda com ela para que entre mim e ela o Deus-Demiurgo não cria. A própria escato-logia. o meu duplo que se introduziu na diferença que que nasce. o ser do artífice: Satanás. 95). .. . ests . Deste mo- do. pressupõe a separação e produz-se mim cai longe do meu corpo. A sua necessidade . o furto do antes do seu próprio nascimento. 121). ao nascer. não é para que a atualização do trabalho aparece como a perda para o operário da sita . o arquivalor que deveria ter retido em mini mento do furto: ". Trata-se aí de uma metonímia do nome de Deus. como um nascimento. "Conheceis algo de mais ultra- não se aproveitava de mim p r ó p r i o " (I. na sua sintaxe : a minha proximidade comigo próprio. Se recordamos neste momento atualização do trabalho é a sua objetívação. o abandono." (in 84. não a apropriação como a alienação. jantemente fecal / do que a história de deus.< (9) Abstivcmo-nos deliberadamente. que não é um acidente mas o próprio movi- originário. uma arma perseguidora. o trabalho que produz a obra. para guardar o meu corpo e a minha 1 palavra. . o valor úirto." (Le Théâtre de la cruauté. foi do meu bem que fui roubada criador. minha história. o que rompe ( 8 ) Cada vez que se produz no esquema que temamos aqui resti- tuir a linguagem de Artaud parece-se muito. Deus y \ T A N Á S . emporcalha-me: e no seu léxico. No estádio da economia. nome próprio do ladrão e nome metafórico de Para me guardar. I A minha obra. Pois "toda escri- sário. é. Desde então.. Demiurgo. e como Satanás é a criatura verdade. : (ainda por encontrar) desta observação e de outras semelhantes. a minha' Deus c Deus é Satanás. Eis por que a história dc p. valor anulado por n ã o ser retido e que se puro. que a impeça de obras e das manobras. como o meu úmidas / só nos dissimulou o Nada?" (ibid. mas porque pensamos que o estatuto realidade. in 84. partes preeio^ puro não pode / cagar. é o sujeito das Ladrão não tenha a menor chance.Satanás. o pseudônimo. . 9 mim próprio: a metáfora de mim próprio é a minha • desapropriação na linguagem.Entwertung) do seu autor. o ladrão. 126 127 . 91). O que denominamos a presença de tiu ou. . Preciso que Artaud morreu de um câncer do reto. O que valho. como se sabe. p. Procede portanto do espírito separado do corpo a escória. o fal-. o que me despoja e me afasta de mim. A defecação. 113). 121). " in 84. Mas recusá-lo não é aqui rejeitá-lo. p. / um corpo paração quotidiana em relação às fezes. Deus ( . entre essas aparecerá mais tarde. E este falso valor torna-se o Valor . o primeiro roubo que ao mesmo tempo coisa / pois sem corpo não se pode existir. de tudo o que cresce em razão direta da de-preciação (.. " a história de Deus / e do seu ser: em meu lugar. valor e mesmo o meu ser. como o dos espíritos / encarniçados em lhe roubar alguma meu nascimento. Deus como genealogia do valor furtado é recitada como ó que tomastes como obras minhas era apenas o que a história da defecação. o separa da minha origem. : «sçeção feita confirme a regra boa. "A v K denomina "referência biográfica". no nada que abre H duplicou sempre já o verdadeiro valor que jamais e\is. . é a obra. p.exatamente. jamais existiu exceto Deus é apenas o esquecimento deste nada. . o ser-artesão. aquilo de que fui roubado A história de Deus é portanto a história da Obra a partir do momento em que caí longe do Orifício e de como excremento. o usurpador. É uma coisa do espírito e reencontrar um corpo pode tornar. A obra. que põe env valor (Verwertung) . p. No primeiro dos Manuscrito de 44. é retê-lo." Esta aproximação escapa •• *vc ser o da dita "referência biográfica". é necessário que eu retenha a obra em mim./•••••• culam. o contrário do artista tura é porcaria" (Le Pèse-Nerfs. o meu rasto. Wr encontrar — c o das relações entre a existência e o texto. Sou do meu preço. n ã o é a vida. Por definição.'. "Pois é eventualmente contra mim próprio. "se- preciso ser um espírito para / cagar. / A q u i l o que caga / é a cola do corpo" (Freud). ••. / que com as suas tetas ou melhor retido como a mim próprio. do meu valor. Deus é a minha cria- Deus é o falso valor como o primeiro preço daquele !iir. a objetivação como a perda do objeto ou a submissão a este.i. é o excremento nela.

Sendo a obra sempre obra de (11) . A minha vara será este livro indignado árvore martirológica a vasta família dos loucos de gênio. o estado do meu / corpo que fará / o Juízo F i n a l " ciedade ocidental só assume o seu nome — em pri.... / a varíola fazemos do fenômeno lingüístico. que não as largam de alto abaixo da minha consciência. 205). trad.aí me separo do que me é próprio. p. E em Les Nouvelles Rêvélations de VÉtre: "Porque a 3 de junho de 1937. A dança viriam com efeito encorajar semelhante obje- salvação. Nietzsche: " . trad. 127). neste ponto como em permanecer de pé. Nerval 128 129 . Pois próprio como não-mancha do sujeito totalmente pró. como o pau fecal.. vapa. a "pena". 137). a dança ou o teatro da cruel. Escondida sob a sua aparente palavra e no seu corpo uma obra. um dos raros textos em que como jovens escoriadas" (p. le suicide de la socléfé (1947). uma outra morto. 18). a carne viva que o teatro filosofia (proprius liga-se a propre) * e pela mesma mantém na sua integridade contra o mal e a morte. Muito pelo contrário. próprio. não se produz antes da época latina da tar é a vida do corpo. Poe.. vai ainda inspirar-se no seu fundo de véus / No canto. S e r á preciso taurando absolutamente o próprio antes de toda a di.. de pé. o estatuto. au jour de valores. 138) Ou ainda: "Só os pensamentos que nos 11 Como o excremento. razão. Faz isso em chamado por antigas raças hoje mortas e queimadas nas minhas fibras. é o crítico ou o clinico: tornar-se na sua quando está limpo. J. a determinação metafísica da loucura como mal A doença é a impossibilidade de estar-de-pé na dança de alienação não podia começar a amadurecer. só serão possíveis numa arte sem obra.. da sua função emanava uma (10) Artaud escreve no Prénmbule às Oeinres completes: "A vara da autoridade que me fez homem. (in 84. também. Bianquis. Aqui colagem do seguinte texto de Genet: "Todos os arrombadores compreenderão a dignidade de que fui (*) Há aqui um jogo de palavras entre propre. não com idéias mas com virilidade" (Miracle de la rose. Artaud solicita esta metafí. dizer que também é necessário sabê-lo [dançar] com cessão. crispado contra a obra.. companhia de alguns outros. 12-13).. é muitos outros. apareceram as cinco dade. o estar-de-pé. a obra deveria 10 deríamos portanto ser tentados. "Disse crueldade serpentes que estavam já na espada cuja força de decisão é representada por uma vara! O que quer isto dizer? Quer dizer Eu que falo tenho como teria dito vida" ( I V . dispersão. F é d i e r ) . sem força nem forma. da T. no meu (12) Reconheçamo-lo: Artaud é o primeiro a querer reunir numa organismo por eles cariado.. do sujeito próximo de si — que é aquilo que é —_ Artaud não renuncia à salvação. no impulso de um mesmo pre cai e imediatamente se desmorona fora de mim. Nunca será nela que me erigirei. abala-a quando ela se mente e põe como condição agrada-nos. p. Tradição de poetas loucos? Hõlderlin: "Contudo sica. A criança na so. a abranger estes três poetas loucos. Uma outra vara está aí preparada para acompanhar as minhas das minhas humildes atitudes c para atingir a clara simplicidade da obras completas. signo. p. 11.. raio paterno com m ã o s limpas. metáfora. revestido quando segurei na mão o pé-de-cabra. como é natural.. (N. "A vara.. Corpo-limpo-de-pé-sem-porcaria. . objeto oferecido. a arte sem obra. a unidade do porque deitado. com a cabeça descoberta. Tenho uni A soteriologia será a escatologia do corpo limpo. Po- como o sabemos t a m b é m . quer ser-lhe mais fiel do que ela própria res. Van Gogh. p. O meiro lugar na escola —. sob o trovão de Deus / ó Poetas! estar ao fenômeno do próprio que nos> separemos limpa.) da sua matéria. a pequena espada. e propre. do latim proprius e proche próximo. a pena?" (Crépuscule des idoles. "Só há a peste. como excremento.. a única coisa que por definição jamais se deixa comen- ximo de si. do seu calibre. repôs. . enfim. A minha vara será este livro indignado. entre os outros "suicidas" (Baudelaire.. Sem. do pênis. Sempre senti a necessidade desta vara "Novas Revelações do Ser" caiu no bolso negro. Próprio é o nome Erguido contra Deus. G. e a pequena espada de fâo para me libertar completamente das minhas lodosas disposições. / a cólera. no tempo de uma metafísica da subjetividade p r ó p r i a ) . simplesmente. ao ardor furtivo do comentário. a sujeira. limpo.. Osuvres Completes. / Agarrar o próprio mente do nosso próprio (é a alienação da alienação). 93). da obra à deriva. em apenas matéria: sem vida. será a arte da própria vida. o dom do c é u " (Tel. (Não ou no teatro. M i l outros textos sobre o estar-de-pé e sobre a 12 colocará de pé. ocorrem quando caminhamos têm valor" (p. 131). Do seu peso." "Sa- ber dançar com a pena". do latim proprius. "Será nome próprio quando estou limpo. Mas a obra. p. numa luta corpo a corpo. comentário e na continuidade de uma única genealo- Eis por que a obra •—• poética ou não •—• jamais me gia. a unidade destas significações. só se fixa.. Nietzsche é citado. uma Espada e uma Vara" (p. nem negra / porque a dança / e por conseguinte o teatro / uma causa nem um sintoma: o conceito de loucura / ainda n ã o começaram a existir" (in 84. abjeto o nome do objeto. só é na verdade bem designado mal. / e levar ao povo em requere-a ainda."Agarrar o próprio raio paterno com mãos limpas.

contradiz mas paradoxalmente confirma o desprezo da onde uma carta de injúrias à Comédie-Française de- letra que. da nossa perseguição pelo grande furtivo. por exemplo no Fedro. "a vida sem moTte será a mais adiante (p. passagem para além do homem e de Deus). mas que Deus está Morto porque é o nome escrita" (Le Théâtre et son Double. e ao sentido próprio da escritura Por esta recusa da estância metafórica na obra e. penso que foi a Heidegger anuncia-o numa breve sugestão da lntroduc. mas alguma vez que nos estraga as idéias que deveriam ter permane- interrogara na sua origem a relação entre a segurança cido divinas. É certo vino inominável. E "é pre- (14) "Pois mesmo o infinito está morto.tivo.fedem o homem inverossimil- à nossa época. de viver. senão um belo Pcsa-Nervos. Artaud Quer acabar com o estar-de-pé como ereção metafó. enquanto. O nome do ao poema. o nome da morte em mim e daquilo que. / infinito é o nome de um ciso acabar com esta superstição dos textos e da poesia morto" (in 84. na (Van üogb. p. * sinônimo dele e é toda a história. Mas será negando-se como vida. Isto não homem-cadáver (IV. mantém-se de pé. antes dele única a vencer a morte e Deus. salva a escritura me- tafórica como inscrição primeira da verdade na alma. . 96). até cujas "preocupações. Mas não escaparia então a ele a decisão essencial Deus. Direi mesmo que é essa infeção do humano base de uma metafísica a demolir. rica na obra escrita. / infinito é o nome de um morto / que Nictzsche. 13). p. p. apesar das semelhanças flagrantes (aqui apesar desta É a metáfora o que Artaud pretende destruir. sem diferença. essência escato-teológica do homem aparece como tal.). nos signos da escritura. nada. e tornando-se o próprio Deus. certa segurança. O estar-dê-pé da obra é. 65): "Não. nada de Artaud ainda pertence. permanecem talvez metafóricos. isto é. Sócrates não tinha essa yisao. "Pois mesmo o infinito está morto. a teoria da língua foi interpretada gra- mente. (276 a). na visão da palavra. A essência da culpabi- saber do ponto de vista do escrito. O pensamento. A vida sem diferença. não tudo no espírito" (Le Pèse-Nerfs. expatriar-se na soberania da palavra ou da homem — ser escato-teológico.) só talvez o infeliz Nietzsche possuiu esse olhar capaz de morte. V. Coleridge. a infinidade de Deus. para lá da metafísica do teatro ocidental língua perde-se no inconsistente. Esta alienação na metáfora da 13 Matando a metáfora (estar-de-pé-fora-de-si-na-obra-rou- obra escrita é o fenômeno da superstição. direi mesmo o maticalmente" (tradução G. nada de língua. 51. . 118). num sentido relativamente amplo. ser capaz de se deixar escritura. intervenção milenar do homem que acabou por nos íitm à la Métaphysique: "Os Gregos consideravam a corromper o divino" (ibid. gramatical por ele reconhecida e o estar-de-pé da letra? no divino. Como Deus-Morte é a diferença na vida. não se filia a Nietzsche. Kahn." metafísica clássica (com a exceção ambígua e notável de Hegel) à qual (13) "E eu vos disse: nada de obras. não pode ser simplesmente uma antropologia nem um ypájipaTa. de Hõlderlin modo a soteriologia passa pela destruição da obra e de a Nictzsche. de por a nu o corpo do infinita. p. Em todo Deus. pois longe de acreditar no sobrenatural. iniciou a minha vida. roubando-me superstição é portanto a essência da nossa relação com por ocasião do meu nascimento. jamais acabou de morrer. p. É aí que o falado lidade é escato-teológica. 93-94). p. Eis por que a gramática representa a humanismo metafísicos. Hõlderlin. 15). a lá do homem. "E esta faculdade é exclusivamente que Nictzsche denunciara a estrutura gramatical na humana. I. de libertar o corpo da alma. a um pecado contra o divino. Mas o outro nome da Uma espécie de posição incompreensível e totalmente ereta no meio de mesma coisa não quer dizer a mesma coisa que o primeiro nome. tal qual é atribuída a Deus pela onto-teologia ou nnmcm. isto é. A da própria Morte. o domínio da letra sobre o sopro. no estar-de-pé no pé da letra ou na ponta manchar pela obra e constituir pela sua relação com da pena. A língua está. Vida e Presença. Ver também III. nuncia em termos precisos a vocação escatológica do salva-a e em primeiro lugar refere-se a ela como à mais seu conceito e das suas operações). p. pelo fluxo das palavras. O que significa que Deus não morreu num dado momento da história. nas letras. fora dos subterfúgios do espírito. ao qual a vem à estância. vida. Ainda menos a Hõlderlin. Deus é portanto língua opticamente. Mas como a morte é o nome da diferença na espírito. 74). é o outro nome da finitude. 129. A morte de D e u s assegurará a nossa salvação 14 cas-o a ereção não deve exilar-se na obra. como Nada. ver p. Deus é portanto a Morte: a Vida despir a alma. Artaud escreve não morreu" (Ibid. Deste de Artaud? O estar-de-pé e a dança. inventados pelo homem. da finitude como essência da vida. mais precisamente Deus ladrão — designa a corrupção histórica do D i - ainda. Kierkegaard. Este pensamento desponta para língua que é. delegar-se porque só ela pode despertar o Divino. Assim portanto. 130 131 . o homem provisório e material.

bada), o teatro da crueldade lançar-nos-á numa "nova
palavras é superior às outras, c que o teatro não admite
idéia do Perigo" (carta a Mareei Dalio, V, p. 95).
outra linguagem que não seja essa" (Le Théâtre et son
A aventura do Poema é a última angústia a vencer Dcnible, IV, p. 143).'" As diferenças de que vive a
antes da aventura do Teatro. Antes do ser na sua
15

metafísica do teatro ocidental (autor-texto/diretor-ato-
própria estação. res), a sua diferenciação e as suas mudanças transforma
De que modo o teatro da crueldade me salvará,
? os "escravos" em comentadores, isto é, em órgãos.
me restituirá a instituição da minha própria carne? De Aqui órgãos de registro. Ora "Ê preciso acreditar
que modo impedirá que a minha vida caia longe de num sentido da vida renovado pelo teatro, e onde o
mim? De que modo me evitará "ter vivido / como homem impavidamente se torna o senhor daquilo que
. o "Demiurgo" / com / um corpo roubado por efração" ainda não é [o sublinhado é nosso], e o faz nascer. E
"(in 84, p. 113)7 tudo o que não nasceu pode ainda nascer desde que
Em primeiro lugar resumindo o órgão. A des- não nos contentemos com sermos simples órgãos de
registro" (Le théâtre et la culture, I V , p. 18).
truição do teatro clássico — e da metafísica que põe
em cena — tem como primeiro gesto a redução do Mas antes de corromper a metafísica do teatro, o
órgão. A cena ocidental clássica define um teatro do que designaremos como a diferenciação orgânica tinha
órgão, teatro de palavras, portanto de interpretação, de feito devastações no corpo. A organização é a articu-
registro e de tradução, de derivação a partir de um lação, a junção das funções ou dos membros (apflpov,
texto preestabelecido, de uma tábua escrita por um artus), o trabalho e o jogo da sua diferenciação.' Esta
Deus-Autor e único detentor da primeira palavra. Dc constitui ao mesmo tempo a compleição e o desmem-
um senhor que guarda a palavra roubada, emprestada bramento do meu (corpo) próprio. Artaud teme o
unicamente aos seus escravos, aos seus diretores e aos corpo • articulado tal como teme a linguagem articu-
seus autores. "Se portanto o autor é aquele que dispõe lada, o membro como a palavra, dum único e mesmo
da linguagem da palavra, e se o diretor é seu escravo, (16) Mais uma estranha semelhança entre Artaud e Nietzsche O
temos aqui uma simples questão de palavras. Há uma elogio dos mistérios it Efèusis (IV, p. 63) e um certo desprezo pela
latmidade (p. 49) confirma-la-iam ainda. Contudo esconde-se nela uma
confusão nos termos, proveniente do fato de que, para diferença, dizíamos nós mais acima lapidafmente e é aqui a ocasião de
precisar. Em 1. Origine de la tragédie, no momento em que (§ 19) designa
nós, e de acordo com o sentido que em geral se atribui a cultura socrática" no seu "conteúdo mais íntimo" e com o seu nome
ao termo diretor, este n ã o passa de um artífice, de um mais agudo como a "cultura da ópera", Nietzsche interroga-se sobre
o nascimento do recitativo e do stilo rappresehtativo. Este aparecimento
adaptador, de uma espécie de tradutor eternamente £ó nos pode remeter para instintos contra a natureza e estranhos a toda
a estética, apolmea ou dionisíaca. O reciftitivo, a sujeição da música
condenado à tarefa de passar uma obra dramática di- aojibreto, corresponde finalmente ao medo e à necessidade de segurança,
a nostalgia da vida idílica", à "crença na existência pré-histórica do
urna linguagem para outra; e esta confusão só será
j i.
n e m
n " - "O recitativo passava por ser a linguagem
a r t i s t a e bor

possível e o diretor só será obrigado a apagar-se pe- «descoberta desse homem da origem"... A ópera era um "meio de
consolação contra o pessimismo" numa situação de sinistra insegurança"
rante o autor enquanto se aceitar que a linguagem, das E eis aqui, tal como em Le Théâtre et son Double, o lugar do texto
reconhecido como o do domínio usurpado e a própria — não metafórica
(15) É por isso que a poesia enquanto tal permanece aos olhos de — prática da escravidão. A disposição do texto é o domínio. "A ópera
Artaud uma arte abstrata, aue se trate de palavra ou de escritura e produto do homem teórico, do crítico noviço, não do artista: um dos
poéticas. Só o teatro é arte total em que su produz, alem da poesia, iu°- .
n , a i s
história de todas as artes. Auditores totalmente
e s t r a n n o s da

da música e da dança o aparecimento do próprio corpo. Assim perdemos alheios à música exigiam compreender antes de mais nada a Palavra; de
o nervo central do pencamento de Artaud quando vemos nele em primeiro tal maneira que um renascimento da arte musical só teria dependido
lugar um poeta. Exceto evidentemente se fizermos da poesia um gênero da descoberta de qualquer modo do canto no qual o Texto tivesse domi-
ilimitado, isto é, o teatro com o seu espaço real. Até que^ ponto pode- nado o Contraponto tal como o Senhor domina o Escravo." E noutro
remos seguir Blanchot quando escreve: "Artaud deixou-nos um docu- J»'wr, a propósito do hábito "de gozar do texto separadamente — da
mento magno, que não é outra coisa senão uma Arte poética. Reconheço leitura" (Le Drame musical grec in La Naissance de la tragédie, p. 159),
que Í3la nela do teatro, mas o aue está em causa é a exigência da a propósito das relações entre o grito e o conceito (La conception ãioni-
poesia tal como pode realizar-se recusando apenas os generoslimitados siaqite du monde, trad. G. Bianquis, ibid., p. 182) a propósito das rela-
e afirmando uma linguagem mais original... já não se trata então apenas ções entre "o simbolismo do gesto" e o "tom do sujeito que fala", a
propósito da relação "hieroglífica" entre o texto de um poema e a
do espaço real que a cena nos apresenta, mas de um outro espaço... m
u:ica, a propósito da ilustração musical do poema e do projeto de
Até que ponto temos o direito de acrescentar entre aspas d â
..P° ^
e s 1

emprestar uma linguagem inteligível à música" ("É o mundo voltado
quando citamos um frase de Artaud definindo "a mais alta idéta co ., "'Pernas para o ar. £ como se o filho quisesse gerar o pai", fragmento
teatro"? (ver La cruelle raison poitique, p. 69). ( sobre La musique et le langage, ibid., p. 214-215J), numerosas fórmulaG

132 133

jato, por uma única e mesma razão. Pois a articulação supérfluo do que o órgão chamado coração / que é a
é a estrutura do meu corpo e a estrutura é sempre mais suja maneira que os seres inventaram de sugar a
estrutura de expropriação. A divisão do corpo em vida em mim. / Os movimentos do coração não passam
órgãos, a diferença interna da carne abre a falha pel a de uma manobra à qual o ser se entrega constantemente
qual o corpo se ausenta de si próprio, fazendo-se assim sobre mim para me tomar aquilo que constantemente
passar, tomando-se por espírito. Ora " n ã o há espírito, lhe recuso..." (in 84, p. 103). Mais adiante: " U m
apenas diferenciações de corpos" (3-1947). O corpo homem verdadeiro não tem sexo" (p. 112).' O ho- 1S

que "procura sempre reunir-se" escapa a si próprio
17
mem verdadeiro não tem sexo, pois deve ser o seu sexo.
por aquilo que lhe permite funcionar e exprimir-se A partir do momento em que o sexo se torna órgão,
escutando-se, como se diz dos doentes, e portanto des- torna-se-me estranho, abandona-me para adquirir assim
pistando-se de si próprio. "O corpo é o corpo, / está a autonomia arrogante de um objeto inchado e cheio de
sozinho / e não tem necessidade de órgãos, / o corpo si. Este inchaço do sexo que se tornou objeto separado
jamais é um organismo, / os organismos são inimigos é uma espécie de castração. " D i z ver-me numa grande
do corpo, / as coisas que se fazem passam-se sozinhas preocupação com o sexo. Mas com o sexo tenso e
sem o concurso de nenhum órgão, / todo o órgão é inchado como um objeto" (UArt et la Mort, I, p. 145).
parasita, / esconde uma função parasitária / destinada O órgão, lugar da perda porque o seu centro tem
a fazer viver um ser que não deveria lá estar," (in sempre a forma do orifício. O órgão funciona sempre
84, p. 101). O órgão acolhe portanto a diferença do como embocadura. A reconstituição e a re-instituição
estranho no meu corpo, é sempre o órgão da minha da minha carne seguirão portanto o fechamento do
perda e isto é de uma verdade tão originária que nem corpo sobre si e a redução da estrutura orgânica:
o coração, órgão central da vida, nem o sexo, órgão "Estava vivo / e estava lá desde sempre. / Comi? /
primeiro da vida, poderiam escapar a ela: "É assim / Não, / mas quando tinha fome recuei com o meu
que de fato não há nada de mais ignòbilmente inútil e corpo e não me comi a mim próprio / mas tudo isto
se decompôs, / tinha lugar uma estranha o p e r a ç ã o . . . /
anunciam Artaud. Mas aqui, como noutros lugares a dança, é a música
que Nietzsche quer libertar do texto e da recitação. Libertação sem / Dormi? / Não, não dormia, / é preciso ser casto
duvida abstrata aos olhos de Artaud. Só o teatro, arte total compreen- para saber não comer. / A b r i r a boca, é oferecer-se aos
dendo e utilizando a música e a dança entre outras formas de linguagem,
pode realizar esta libertação. Se muitas vezes prescreve a dança, tal como miasmas. / Assim, nada de boca! / Nada de boca, /
Nietzsche, é preciso notar que Artaud jamais a abstrai do teatro.' Mesmo
que a tomássemos ã letra e não, como dizíamos mais acima, num sentido / nada de língua, / nada da dentes, / nada de laringe, /
analógico, a dança não reria todo o teatro. Artaud talvez não dissesse
como Nietzsche "Só posso acreditar num Deus que saiba dançar". Não / nada de esôfago, / nada de estômago, / nada de
só porque, como Nietzsche o sabia, Deus não seria capaz de dançar, ventre, / nada de ânus. / Reconstruirei o homem que
mas porque a dança sozinha é um teatro empobrecido. Este esclareci-
mento era tanto mais necessário quanto Zaratustra também condena os sou" (nov. 47, in 84, p. 102). Mais adiante: " ( N ã o
poetas c a obra poética como alienação do corpo na metáfora. Dos
poetas começa da seguinte maneira: "Desde que conheço melhor o corpo, se trata especialmente do sexo ou do ânus que são
dizia Zaratustra a um dos seus discípulos, o espírito já não é para mim aliás para cortar e l i q u i d a r . . . ) " (in 84, p. 125). A
senão uma metáfora; e de uma maneira geral, o "eterno" também não é
outra coisa senão símbolo. — Já te ouvi dizê-lo, respondeu o Discípulo, reconstituição do corpo deve ser autárcica, n ã o deve
e nessa altura acrescentavas: Mas os poetas mentem demais. Por que
razão dizias então que os poetas mentem demais? . . . — ser ajudada; e o corpo deve ser refeito de uma só
Gostam de se fazer pas ar por mediadores, mas a meus olhos perma- vez. "Sou / eu / quem / me / terei / refeito / a
necem alcoviteiros, especuladores e sujos fazedores de compromissos /
Infelizmente é verdade que um dia' lancei a rninha re"de no seu mar, mim próprio / inteiramente / . . . por mim / que sou
com a esperança de aí pegar belos peixes; mas só retirei a cabeça de
um deus antigo." Nietzsche desprezava também o espetáculo ("O espí- um corpo / e não tenho regiões em m i m " (3-1947).
rito do poeta" tem necessidade de espectadores, nem que fossem búfalos")
e sabemos que para Artaud a visibilidade do teatro devia deixar de ser A dança da crueldade ritma esta reconstrução e
um objeto de espetáculo. Nesta confrontação não se trata de saber quem
foi mais longe na destruição, se Nietzsche, se Artaud. A essa pergunta, trata-se mais uma vez do lugar a encontrar: "A rea-
que é imbecil, parecemos talvez responder Artaud. Numa outra direção,
poderíamos também legitimamente defender o contrário. (18) Vinte e dois anos antes em VOmbilic àes Limbes: "Não supor-
(17) ín Centre-Noettds, Rodez, abril de 1946. Publicado em Juin, to que o Espírito não esteja na vida e que a vida nao esteja no Espirito,
n? 18. sofro com o E^pírito-órgão, com o ''Espírito-tradução, çu com o Espinto-
-intímidação-das-coisas para as fazer entrar no Espirito' (I, p. 48).

13.4
135

lidade não está ainda construída porque os órgãos ver- possibilidade de uma voz ainda in-organizada. E
dadeiros do corpo humano ainda não estão compostos e mais tarde, projetando subtrair o teatro ao texto, ao
colocados. / o teatro da crueldade foi criado para ter- ponto e ao domínio do logos primeiro, Artaud não
minar esta colocação e para empreender por uma nova entregará simplesmente a cena ao mutismo. Quererá
dança do corpo do homem uma fuga deste mundo dos apenas voltar a nela situar, subordinar uma palavra que
micróbios que não passa de um nada coagulado. / Q até aqui enorme, invasora, onipresente e cheia de si,
teatro da crueldade'quer fazer dançar pálpebras lado palavra soprada, tinha pesado desmesuradamente sobre
a lado com cotovelos, rótulas, fêmures, e artelhos e o espaço teatral. Será preciso agora que, sem desa-
que isso seja visto" (in 84, p. 101). parecer, ela se mantenha no seu lugar, e para isso que
ela se modifique na sua própria função: que ela não
Para Artaud o teatro n ã o podia portanto ser um mais seja uma linguagem de palavras, de termos "num
gênero entre outros, ele era um homem do teatro antes sentido de definição" (Le Théâtre et son Double, I,
de ser escritor, poeta ou mesmo homem de teatro: ator p. 142 e passim), de conceitos que terminam o pensa-
pelo menos tanto quanto autor e não apenas porque mento e a vida. É no silêncio das palavras-definiçõcs
representou muito, tendo escrito uma única peça e que "melhor poderíamos escutar a vida" (ibid.). Por-
manifestado por um "teatro abortado"; mas porque a tanto despertar-se-á a onomatopéia, o gesto que dorme
teatralidade exige a totalidade da existência e não tolera em toda a palavra clássica: a sonoridade, a entoação,
mais a instância interpretativa nem a distinção entre a intensidade. E a sintaxe regulando o encadeamento
autor e ator. A primeira urgência de um teatro in- das palavras-gestos já não será uma gramática da predi-
-orgânico é a emancipação em relação ao texto. Em- cação, uma lógica do "espírito claro" ou da consciência
bora só encontremos o seu rigoroso sistema em Le conhecedora. "Quando digo que não representarei pe-
Théâtre et son Double, o protesto contra a letra fora ça escrita, quero dizer que n ã o representarei peça ba-
desde sempre a preocupação principal de Artaud. Pro- seada na escritura e na p a l a v r a , . . . e que mesmo a
testo contra.a letra morta que se ausenta para longe do parte falada e escrita sê-lo-á num sentido novo" (p.
sopro e da carne. Artaud tinha primeiro sonhado com 133). "Não se trata de suprimir a palavra articulada,
uma grafia que não partisse à deriva, com uma inscri- mas de dar às palavras mais ou menos a mesma im-
ção não separada: encarnação da letra e tatuagem san- portância que têm nos sonhos." (p. 112) 20

grenta. "Depois desta carta [de J. Paulhan,- 1923]
Estranha à dança, imóvel e monumental como
trabalhei ainda um mês a escrever um poema verbal-
mente, e não gramaticalmente, bom. Em seguida re- uma definição, materializada, isto é, pertencendo ao
nunciei a isso. Para mim a questão n ã o era saber o "espírito claro", a tatuagem é portanto ainda dema-
que chegaria a insinuar-se nos quadros da linguagem siado silenciosa. Silêncio de uma letra liberada, falando
escrita, / mas na trama da minha alma em vida. / Por sozinha e ganhando mais importância do que a que a
algumas palavras entradas à faca na carnação que per- palavra tem no sonho. A tatuagem é um depósito, uma
manece, / numa encarnação que morre sob a trave da obra, e é a obra que é preciso destruir, sabemo-lo agora.
chama-ilhota de uma lanterna de c a d a f a l s o , . . . " (I, A jortiori a obra-prima: é preciso "acabar com as
p. 9 ) . » obras-primas" (título de um dos textos mais importantes
de Le Théâtre et son Double, I, p. 89). Também aqui,
Mas a tatuagem paralisa o gesto e mata a voz destruir o poder da obra literal n ã o é apagar a letra:
que pertence também à carne. Reprime o grito e a apenas subordiná-la à instância do ilegível ou pelo me-
(19) Zaratustra: Ler e Escrever: "De tudo o que se escreve, só gosto
daquilo que se escreve com o próprio sangue. Escreve com o teu sangue,' (20) Por que não jogar o jogo sério das citações aproximadas? Es-
e descobrirás que o sangue é espírito. / Não é possível compreender o creveu-se depois: "Que o sonho disponha da palavra nada muda à questão,
sangue de outrem; odeio todos os que lêem como papalvos. / Quando se visto que para o inconsciente é apenas um elemento de encenação como
conhece o leitor, não se faz mais nada para o leitor. Mais um século os outros". J. Lacan; Vinstance de la letlre dans 1'inconscient ou la
de leitores, e o próprio espírito será um fedor." raison depuis Freud in terits, p.- 511.

136 137

a fatuidade erguer o espírito acima da letra. 152). cido em Le Théâtre Alfred Jarry (1926-30). a impassibilidade morna e objetiva do do que deveria ter sido o primeiro espetáculo do teatro ergon. Re- por diálogos brutais. escritura metafórica. livro ou libreto. nossa sociedade. nária que receberá uma notável expressão teórica em 22 vo". 2 3 ) . queremos. no 23 tivamente e não teoricamente. tinha contudo transpare- las precisamente que fascinavam Artaud. o todo da filosofia que fornece os fun- signo. vê-lo triunfar num pal- interior uma tradição inabalável. . da força e que assiste à sua exaltação" (IV. "Caro amigo. Ora a Europa vive do ideal desta separação da crueldade (La conquête du Mexique). Não tem e n t ã o nenhuma possibilidade de se damentos e o cenário ao teatro tradicional sob as suas tornar. p. ocasionalmente muito ambíguo. Artaud não em. o analfabe. com a minha vida incham em seguida sozinhas no bê-a-bá do escrito. julgando de maneira brutal. aque- 1 Le Théâtre et son Double. / Mas que as palavras inchadas (23) "A verdadeira cultura age pela sua exaltação e pela sua força. p. o que teria sido um des_ perdício de forças ria economia da sua intenção política. nem uma crítica.' Vê-se em certas civilizações não ocidentais. para ser admitido pela época. "É para analfabetos que escre. pela revolução como "simples transmissão dos poderes". encarnando entre a força e o sentido como texto. aquilo que só pensamos na sua oposição ao suas religiões. IV. os estigmas dessa guerra impiedosa. como o sugeríamos mais acima. co. diz o da literatura como tal. 10-11). 25). segundo a distinção O estigma e não a tatuagem: assim na exposição humboldtiana. p. a peça pode. "Há bombas a colocar em qualquer torno das cartas a J. Ora este sistema de pausas orgânicas. p. o signo ainda não está separado da questionamento do teatro clássico: pretende destruir efe. obras em seu desprezo pela "revolução de preguiçosos".). as sentido em que o entendemos. "A Revolução mais urgente" seria "uma forte a dominar. .. lada. implacável. europeu ou não. deporta o ator para longe da res- cheque da desordem moral e da anarquia católica com a ponsabilidade do sentido. sangrenta. faz dele um intérprete que ordem paga. A afirmação' revolucio. uma virgem muito mais rebarbativa. a civilização ocidental.fazer surgir conflagrações ini- (22) Revolucionária em sentido total e em especial em sentido polí- magináveis de forças e de imagens. visando aqui os Surrealistas "revolucio- nários com papel de bosta" "ajoelhados perante o Comunismo". p. Rivière. esta das na destruição db Ocidente. à guerrilha. Os senhores Surrealistas estão muito mais atingidos (21) "Sob a gramática há o pensamento. . E isto por meio de lutas corpo a nunciando à ação política imediata. Todo Le Théâtre et son Double poderia ser lido —. nenhuma possibilidade de se elevar e de inchar acima da energeia para revestir. 140).. Esta derivação da força no signo IV. A profundidade pro- o teatro da crueldade não é um teatro novo destinado curada é portanto a do ilegível: "Tudo o que pertence a escoltar algum novo romance modificando apenas do à ilegibilidade. da sua metafísica e do diferencia. é uma matrona que nem sempre existiu. " (II. texto escrito ou palavra articu- formas aparentemente mais inovadoras. na noite preende nem uma renovação. enquanto tal. (maio de 33. o estigma substitui-se ao texto: "Desse divide o ato teatral. Artaud pretendia corpo de homens que trazem em si como estigmas as preparar um teatro irrealizável sem a ruína das estruturas políticas da idéias mais opostas" (ibid. muito mais dura de espécie de regressão no tempo" . 138 139 . 15). no próprio mo- a "questão da colonização" e que teria "feito reviver mento em que. Aí se tismo acomodar-se perfeitamente com a cultura mais prescrevia já a descida a uma profundidade da manifes- profunda e mais viva. p.não o pode ser aqui — como um manifesto político. em direção à "mentalidade ou mais vencer quando a consideramos como um fato inato. e o ideal europeu da arte visa lançar o espírito numa atitude separada Ê para os analfabetos que escrevo" (f. / Pois o pensamento simplesmente aos hábitos de vida da Idade Média" (II. Eram as primeiras. jamais foi possível. Pois de um objeto. exceto quando em torno seu teatro. Ainda não é completamente um signo. mas as feridas recebi- possível. A revolução política tem cm primeiro lugar de arrancar o poder à letra e ao mundo das letras (ver por exemplo o pre submetera o imperialismo da letra tinha o sentido Post-Scriptum ao Manifeste pour un théâtre avortê: em nome da revolução negativo de uma revolta enquanto se produzia no meio teatral contra as letras Artaud. Na ilegibilidade teatral. lugar. . mas já não é uma coisa. disse que o teatro que queria fazer exigia... nem um que precede o livro. uma outra forma de civinzação" O trabalho de subversão a que Artaud desde sem. prefere-lhe ainda a sempre vivaz da Europa" (Le Théâtre et son Double. para ser possível. força. Os traços inscritos no corpo tação de forças em que a distinção dos órgãos do tea- tro (autor-texto/diretor-ator-público) n ã o fosse ainda serão portanto incisões gráficas. semeadas aqui e ali tico.nos do analfabético. que é uro oprõbrio mais por esses hábitos do que eu". mas na base da maior parte dos hábitos do pensamento presente. não disse que queria agir diretamente sobre a época.

longe de qualquer aparente referência de espetáculo. escrevê-la. Incoerência aparente que linguagem articulada" (p.. se prepara uma outra sujeição? Um outro furto da timento. . Deixar a palavra ao furtivo é então é porque não o leu ou o leu mal. 2 3 9 ) . a mais regrada. O espetáculos nada terão a ver com as improvisações de teatro do ponto constrói portanto o sistema do medo Copeau. I. entregues ao capricho da inspiração inculta e irrefletida -nos ao Perigo como ao Devir.com o Perigo" ( I V . O teatro clássico.. é por- tiplicando as diferenças entre mim e eu. Busco a multiplicação. era á representação de todas estas repre- ao teatro: " E u . 45. Artaud quer restituir. não passa então de uni consumidor. "O teatro. tirar deles novas leis. Paulhan: " N ã o creio que. pertence ao livro. nos quartos fechados do cérebro.está. Terei o cuidado de não entregar a este acaso a sorte dos meus 51). seguro também na decisão meu Manifesto. um "usufruidor" (ver I V . com o "Devir" (p.deixa que lhe insuflem a vida e lhe soprem as palavras Mas o teatro assim descolonizado n ã o sucumbirá recebendo o seu papel como uma ordem. no e mantêm-no à distância pela. mas é para que nos reconcilia filosoficamente com o Devir" (p. na economia. Por mais que mergulhem no concreto. o corpo e o nascimento pelo deus furtivo é Se é preciso portanto renunciar "à superstição tea- portanto precaver-se bem contra o teatro do medo mul. subtraído à ditadura do público sentado. modelo de palavra e de escritura: palavra representa- dade restituir-me-ia deste modo a imediata autarcia do tiva de um pensamento claro e pronto. 131). Restaurado que estas só se puderam impor à custa de um certo na sua absoluta e terrível proximidade. o palco da cruel.. de guardar a palavra guardando-se nela comanda com a sua lógica toda-poderosa e infalível uma inversão que Deixar assim que lhe soprem a palavra é. 117. Na melhor das linguagem no arbitrário e na irresponsabilidade? Para hipóteses um outro gênero literário. Ora esta diferencia. como devemos aqui seguir. e t c ) . 89. a mais formal. que finquem o pé na natureza aberta e não suas mediações substancializadas. já não é o palco.maquinaria engenhosa das exterior. do meu corpo e da minha palavra. Ora sabemos que. Antonin Artaud.. a finura. minha mãe. o arquifenômeno da reserva: abandono de si ao furtivo. escritura (alfa- meu nascimento. Artaud. 130). uma vez lido o acumulação. . sobretudo do ator moderno que. uma vez decadência porque rompeu. meu sentações."Parece em resumo espetáculos e do teatro. não a vaticinação ocasio- Recusar a obra e deixar que lhe sejam roubados a nal" (Manifeste en language clair. p. sou meu filho. 15). a mais considerado como um ramo acessório da história da matemática. saído do texto. "Entrego-me à febre dos sonhos. p. mergulha e n ã o sabe mais nada. isto é. O palco' improvisadora e à inspiração caprichosa do ator? N ã o então já não é cruel. 84) . 106. Tal como o perigo? Liberado da dicção. Na verdade a vontade 94. I V .em do ator. "O diálogo •— evitar este perigo que intestinamente ameaça o próprio coisa escrita e falada — não pertence especificamente à perigo. palavra. ? pausas representativas relaxam e libertam o jogo do 140 141 . teatro que no Ci-gií. bética e em todo o caso fonética) representativa de Onde definiu Artaud melhor a cena da crueldade do uma palavra representativa. a ilustração luxuosa do livro. N ã o " (setembro de 32. discrição. capitalização. a visão intelectual no delírio. mas pelo teatro. nem por isso são como Nietzsche. Os meus tranqüilizar-se na diferencia. estes adiamentos. possa perseverar na sua objeção ou delegada ou diferida. e a prova é que se reserva linguagem da crueldade numa nova escritura: a mais nos manuais de história literária um lugar para o teatro rigorosa. 315. informa a cena. a mais imperiosa. submetendo-se sob a sua própria crueldade? Resistirá ao seu próprio como um animal ao prazer da docilidade. texto. o ateísmo teatral não ficará entregue à anarquia um esteta. por um estranho movimento. mas um diver. 93 sugere uma objeção apressada. . p. tral do texto e à ditadura do escritor" (p. separação e ao mesmo tempo A J. Ver também pp. . 148). que a mais alta idéia do teatro que existe é aquela p. estas pai. e e u " .

Ar.empíricas. nos movimentos do teatro. 107 e seguintes). preferido o grito ao escrito.) dei. mas que todo o mundo podia ler. nas velhas eosmogonias mexicana. a fim de participar direta e simbolica- niana. de gritos e de ritmos. não ignoram de jato o fone. Artaud quer agora elaborar significante. restituir-lhe-ão o tica liberaria a festa e a genialidade reprimidas. egípcia. entendamos. 96) calcando de algum modo a escritura teatral na produzir-se-á. segundo as escritura originária do inconsciente. 1 se desprende deste espetáculo regulado com uma mi¬ taud pensa apenas no princípio das escritas ditas hiero. tung. as suas emanações sensíveis" (ibid. Desta 1 quer mesmo reencontrar sob a sua aparente contingên- vez. ver também. E estes hieróglifos de três dimensões são por sua vez N ã o só a voz cessará de dar ordens mas deverá !a. em espe. "O atropela- mo de uma escritura que se apaga e se retém a si pró- mento das imagens e dos movimentos chegará. * também p. comparado o sonho " n ã o a uma prias palavras. dever-se-á regu- das línguas. Paxísot). — para a sua forma. 163). fosse qual fosse a idéia do teatro sagrado" ( I V . de silêncios. Fora da Europa. \ÍDaí Un | Como são possíveis esta liberação e esta exuma¬ athlétisme ajfectif. Apesar das aparências. não só será a escritura do próprio corpo. I ção de riqueza. de generosa prodigalidade cial. tido a esta estrutura de linguagem nem abandonado à uma verdadeira pasigrafia teatral conduzindo para além espontaneidade da inspiração furtiva. 67. modelos de escritura. ocidentais. verdadeiramente mágico. Ãnaud pretendia aí ter escrito "numa língua que não era o francês. sopro num sistema de escrita não-fonéticà. O maravilhoso é que uma sensa- linguagem teatral pura" (ibid. por vezes. "Os atores com os seus trajes com- tísmo). I núcia e uma consciência que enlouquecem" (p.sublinhados por um certo n ú m e r o de gestos. e depois de ter. não só a escritura não será mais transcrição da cia a necessidade das produções do inconsciente (ver palavra. esta formalização matemá- horizontal como fazia a palavra lógica. ver glíficas que. 73. sível "que isto choque o nosso sentido europeu da l i - res" (ibid. de sinais deixar-se ritmar pela lei desta escritura teatral. 73-74). mas p. depois de ter contudo prevenido em Traumdeu- colisões de objetos. 142 143 . por pria. contra a metáfora do inconsciente. J misteriosos que correspondem a n ã o sei que realidade ca maneira de acabar com a liberdade da inspiração e 1 fabulosa e obscura que nós. de fantasia. sabemo-lo.. Artaud mas também. sentido incantatórío. e um sistema codifi- mentos do furto. ira- e catalogadas. de um sistema de signos em que que Freud fala em Noíiz über den "Wunderblock" co- a instituição da voz não mais comanda. E pos- seu "volume" e utilizá-lo-ão "nas suas partes inferio. reprimimos de- com a palavra soprada é criar um domínio absoluto do | finiíivamente" (p. voltando a ser signos físicos n ã o trans- linguagem" mas a "um sistema de escrita" e mesmo de gredidos em direção ao conceito mas "tomados num escrita "hieroglífica". talvez aquela de regras do hieróglifo. Para que o teatro não esteja subme- cado das onomatopéias. (Dizendo hieróglifo. 72). '' uma gramática universal da 2 lá-lo segundo a necessidade de uma outra linguagem crueldade: " A s dez mil e uma expressões do rosto to- e de uma outra escritura. mas que "hieróglifo" de preferência a ideograma: "O espírito não se diga que esta matemática é causadora de secura dos mais antigos hieróglifos presidirá à criação desta ou de uniformidade. texto original à criação de uma verdadeira linguagem física à base de subsistindo ao lado de Umschrijt. procurar-se-á sem dúvida temas mente dessa linguagem concreta" (p. p. hindu. multiplicando assim os lugares e os mo- uma rigorosa escritura do grito. 112). das expressões e dos gestos. etc.). J (24) A preocupução com a escrita universal transparecia também nas e quer "com o hieróglifo de um sopro reencontrar uma a Letires à Rodei.' A úni. de o colocar na do da metafísica ocidental. 149). esse estranho texto em que Artaud i ção do reprimido? e não apesar mas à custa desta codi- procura as leis do sopro na Cabala ou no Yin e Yang. p. As pró- pequeno texto de 1913. Então não é por acaso que Artaud diz berdade cênica e da inspiração espontânea. põem verdadeiros hieróglifos que vivem e se movem. no teatro madas no estado de máscaras poderão ser etiquetadas balinês. apesar do to- xarão de comprimir o espaço teatral. num signos e não mais de palavras" ( I V . Tendo sempre nacionalidade a que pertence" (a H. p.

certamente. gorosamente compostos e fixados de uma vez para sem- vimento ativo. tantes a identificação mágica está feita: Sabemos que 133). escrita.. reintrodn- formação teatral sutura todas as falhas. é também. 118 e p. Um inexprimível expresso por obras Sue não passam á& destroços presentes. para lá da metafísica. sou meu filho. minada. ' a 2 N ã o é à custa da escritura mas entre duas escri- : restiíuir os seus direitos à obra e à obra escrita. 144 145 . pensando na recusa Identificação mágica. " r i - turas. segundo o desejo rebro de um autor. . • legitimamente. Esta rigoroso e tão determinado como o de qualquer obra está então presente. Numa carta de 1946 (citada por Blanchot em VArche. a primeira organiza. *'. 80. reaparição. : próprio projeto (a r e d u ç ã o da obra e da diferença.. E ao cabo de alguns ins. todas as diferenças. far-se-ão na própria natureza. estes choques. mentindo todas em relação ao escritor. Ver também p. é-nos restituída a pa. no expresso de Artaud. num gesto que n ã o oferece nenhuma in- me mantinha à distância da força escondida. inveterada. . Então. mas: "naturalmente. Püficação. a necessidade desta incoerência. A sua origem e o seu mo. Bastaria a dife. Era preciso. e anotada com novos meios de notação. taud teve de. pareceram-me cheios de rachas. • 133-34. como metafísica da vida discurso. definitivamente. anos mais tarde parecem-me espantosos. sem pensá-las como este maneirismo. os seus ruídos obra. mim. 153). a arquicena. não de sucesso em relação a sa palavra. dos estes tateamentos. não se pode dizer com a mesma entonação o contrário do que diz Blanchot em Le Livre â venir? Não: "naturalmente. não passa ainda de uma obra"? *esta medida. fala desses "dois livros muito pequenos" (L'OmbiIic e Le Pèse-Nerfs) que "rolam sobre essa ausência profunda.esta loucura. " E u . e o resultado definitivo permanecerá tão ção de um espaço de habitação. destruir o duplo. p. aquela mesmo que não pudemos evitar. compõe no ar. Mágica e ainda por cima im. A obra ou a ausência da fendem. a criação. afinal de contas. Mas talvez compreendamos melhor agora pria essência da magia.To- novo.. É assim que as obras ganham sabor e que. na perfeição e na economia da sua nores detalhes. autoriza a efração do comentário e a violência da exem- dizer que é mágica. com o seu | tais. contra todas as suas intenções. "a gra- da crueldade que significa em primeiro lugar "rigor" e mática desta nova linguagem" que. este hieratismo excessivo. o seu turas que a diferencia furtiva tinha podido insinuar-se. proibindo "ainda está por encontrar" (p. com os seus gritos de pedras que se \ ção como a inalienação. com os seus ruídos de ramos. É dizer pouco uma obra" (p. em vez de se fazerem no cé- meu pai. Artaud concede. minha mãe. no momento em que Pretendíamos defender-nos dela. de falhas. uma espécie de (25) Artaud não reintroduziu apenas a obra escrita na sua teoria do 4 teatro. apagar i cima do / tempo" (Ci-glt). / e eu. 1948. do. crispada da obra. 132). não menos a escritura apó-crifa que. O sublinhado é a idéia". a lei da casa. j tanto da historicidade) n ã o indica a própria essência da minha carne. p. Mesmo se Artaud não se tivesse visto obrigado. tanto visual como sonoro. todas as aber. roubando-me o ser como vida. não é rença dos tempos para o evidenciar. reunida na sua presença. Mas vinte de Artaud]. 21-28. o diferir. Estas duas determinações afrontam-se indefini- de cortes e de rolamentos de madeira. o autor de uma obra. con- lavra roubada. constituem por si próprias uma verdade bizarra. esta nova in." T a l é. terrível e apaziguadora. o exergo e o jacente cansado do meu da loucura? Mas. Agora o \ clinação para uma outra metafísica. estas buscas.. de mediccridades e como recheados de abortos espontâneos. em " e s p e t á c u l o s " ." Então. no espaço. endêmica de toda éramos nós que falávamos" [p.. do "Digo / por através do hieróglifo teatral. 121)? É que.ficação totalitária e dessa retórica das forças? À custa possível de encontrar. E sabe disto. . sussurro material e animado. Saber presente do próprio-passado da nos. denunciava. / A composição. : inalienável e da indiferença histórica. como o fez. Poder-se-ia mostrar que é a pró. numa outra inscrita [sublinhado por A r t a u d ] . mas em relação ao inexprimível. 49). são fechados de pre antes de serem representados" ( V . . vista. "Acontece que : na obra.. Antonin Artaud. Então a crueldade se apazigua talvez duzirão apesar de tudo a uma obra. na metáfora e perfeita e permanente presença a si. "No momento. zir o prévio do texto escrito. A loucura tanto é a aliena- alfabeto rolante. a diferencia. a outra loucura discurso pode voltar a atingir o seu nascimento numa . reprimindo o jogo da máquina. a uma composição na sua absoluta proximidade reencontrada. tendo a mais uma imensa riqueza objetiva" (p. fixada nos seus me- ressunção do devir. portanto na alienação. Na verdade Ar- o acaso. espaço real. Impossível de encontrar. por- marginalizando a minha vida e fazendo da sua origem. "submissão à necessidade" (p. como metafísica vivendo na diferença. 4 1 ) . através da escritura feita carne.

lugar que não está nem dentro nem fora desta histó. obrigou-nos constantemente a tam-se. Para despertar esta tradição. a sua visada mais profunda e m a i s perma- nente. o próprio. necessária) da diferença. no 26 trama textual. por um outro lado do seu' texto. nos seus momentos mais críticos. E n t ã o . 146 147 . se deixar de longe uma face do seu discurso. de cúmplice invisível de toda a palavra. a um olhar Ora a diferença — ou a diferencia. Isto ria. (isto\éj no sentido em que entende esta ultima palavra. mas sempre reconheci. realiza a metafísica ocidental. no sentido em que se e metafórica do furtivo com o que a torna possível. Afron¬ que um estratagema. abrindo e ao mesmo vem habitar as estruturas por eles derrubadas e nelas tempo recobrindo a verdade. Neste. Não dizemos o texto. pelo contrário. Questão ainda e sempre implícita cada vez que uma palavra. permanecendo num Sem a duração e os vestígios necessários deste texto. ainda não destrói e a que se empenha ainda em construir ou em começou. lei desta vez levada à consciência e não mais (26) E a loucura deixa-se hoje "destruir" com a' mesma destruição- que a metafísica onto-teológica. etc. a identidade a si. pensar como tal para lá da metafísica. que de- ger. vio obrigado por lugares. o mais difícil. em direção à uma cumplicidade fatal. e a experiência crítica Mais intimamente: a essa época da metafísica que de. Artaud chama-a em suma aos seus próprios motivos: a presença a si. à pontualidade da posição. Através dela diz-se a inserção Diferença — ou à Duplicidade — de que fala Heideg. se n ã o fosse confundir a categoria metafísica a questão que quisemos colocar. com todas as modi. o des- sentido rigoroso em que o entende Heidegger. obrigando a substituir o discurso. pies superação. preservar no mesmo movimento. diz-nos Artaud. da diferença assemelhando-se à implicação ingênua e termina o ser como vida de uma subjetividade própria metafísica na diferença. quando se nota. cada posição gira imediatamente no seu contrário. A transgressão da metafí- cura ao conceito da metafísica em geral: a que Artaud sica por este "pensar" que. criticar a metafísica de Artaud ficações que se desnudaram em Artaud — só se pod e a partir da metafísica. poderíamos então. é o próprio poder não-diferença: ao mesmo tempo vida e morte. articulam-se e trocam-se necessariamente n a s passar para o outro lado do limite. reconhecidas ou n ã o . uma sim. necessária de todos os discursos destruidores. Artaud mantém-se no Tal é a questão na qual nos colocamos. a unidade. corre sempre o risco de voltar à metafísica. nada distinguindo de fato abrigar um desejo indestrutível de presença plena. rodeando um limite de toda uma a "destruição" da história da metafísica não for. origem nem a sua necessidade. no negativo sem ver a sua priamente Antonin Artaud. sentido. a mostrar deste categorias. Se coloca uma rede. menos experimentado. os diferentes passando constantemente e pertencem irreduüvelmente à história da metafísica muito depressa um no outro. obedece também a uma lei. Qs rar-se para denunciar a implicação ingênua na dife- conceitos de loucura. Artaud afirma a lei cruel. ao mesmo tempo mais e menos do alienados evidentes" ou " a u t ê n t i c o s " e os outros. podemos parecer. na alienação. modo o fechamento da presença na qual devia encer- veis. Poder-se-ia julgar que esta. prote- limite e foi neste limite que tentamos lê-lo. de um único discurso histórico-metafísico. Por toda gida pelos limites de um campo. Mas. Tal é furtivo. que a obra e o livro. de alienação ou de inalienação rença.damente no campo fechado da metafísica tal como s s vivida na ingenuidade metafísica. Esta duplicidade do afrontam na história aqueles que Artaud denomina " s 0 texto de Artaud. interrogar-nos sobre o que liga o conceito da lou. a "metafísica" de Artaud. destrói uma tradição que vive provocar pelo enigma da carne que quis chamar-se pro- na diferença.

n ã o existe Presente.. 6 de junho de 1947) 1. é que jamais houve origem (ARTAUD.. porque em virtude de um acontecimento sempre que explicarei. O T E A T R O DA C R U E L D A D E E O F E C H A M E N T O D A REPRESENTAÇÃO A Paule Thévenin Ú n i c a vez no mundo. n ã o — um presente n ã o existe.) quanto às minhas forças. li! ( M A L L A R M É . 1 . í r s ã o apenas um suplemento.1 149 . Quant au livre.1 o suplemento a um estado de fato.

da sua vis affirmativa. Mas também no seu sentido mais oculto. e em Eurípides finalmente patinha na próprio "de se fazer passar / por mim m e s m o " É membrana. produz a própria afirmação no seu rigor pleno e necessário. tanto apenas a distância estranha que nos separa da chamamos a isso desmaiar. Artaud não. le suicide de la pouco antes. o teatro ocidental foi sepa- sidade". mas ainda se julga um pouco deus e não quer entrar do seu nascimento por esse deus ladrão que nasceu ele na membrana. sidade inelutável de um palco ainda inexistente. O teatro da crueldade tem de Está para nascer. Sempre se obrigou o teatro a futuro do teatro — portanto o futuro em geral — só fazer aquilo para que n ã o estava destinado: N ã o foi se abre pela anáfora que remonta à véspera de um nas- dita "a última palavra sobre o h o m e m . . 150 151 .. chama portanto uma destruição. re- gãos. como uma força permanente. é certo. in 84. Como DO precedente ensaio sobre Artaud. para reanimar no seu rer / acabei por ganhar uma imortalidade real" [p. E esta desapro- tudo o que deve derrubar à sua passagem. "o teatro priação produziu-se desde a origem. e que trabalhando. certo que o renascimento — Artaud recorda-o muitas vezes — passa por uma espécie de reeducação dos ór. a propriedade e a lim- mem que nos espartilhava. Morrer e teatro que ainda n ã o "começou a existir". O vazio. Ora uma afirmação necessária nascer separando a morte do nascimento e apagando só pode nascer renascendo para si. Para Aitaud. p. rado da força da sua essência. que importa em primeiro lugar reeducar. Neces- 110] ). diferença pequena e contudo gum "novo teatro". A teatralidade tem de atravessar e restaurar jamais foi feito para nos descrever o homem e o que totalmente a "existência" e a "carne". £ o que distingue a afirmação cruel da mas a afirmação não é para ser inventada amanhã." E o que podemos ler pojar da vida pelo deus ladrão. E é por ela que nos meteremos aqui. Lichtenberger: " N ã o consigo desfazer-me des. O teatro nasceu na começou a existir". . o o nome do homem. . o lugar vazio e pronto para esse pela morte voltarei a este mesmo estado. sua própria desaparição e o fruto deste movimento tem um nome. os texto* seu enigma. Dir-se-á poiP* ele faz. E o teatro é esse mamulengo desengonçado tanto do teatro o mesmo que se diz do corpo. nal- negatividade romântica.. vimento da origem. trata-se primeiro ". julho de 1946). é o que atual. de não se deixar e n t ã o des- da não começaram a existir. divertido de si: por palcos de um teatro natimorto" ( Le Théâtre et YAnato- u muito "inelutável" que seja. oriente a necessidade inelutável da afirmação. decadente. Ora sa- que — música de troncos por farpas metálicas de arames bemos que Artaud vivia 6 dia seguinte de uma desapro- farpados — nos m a n t é m em pé de guerra contra o ho- priação: o seu corpo próprio. .. É na abertura única desta distância que o palco da crueldade ergue para nós o (1) In 84. é o próprio mo- da crueldade / não é o símbolo de um vazio ausente"... O homem sofre em Esqui- peza do seu corpo tinham-lhe sido roubadas por ocasião lo. em declínio. negativo. despertar com outros ór. à força de mor. do nascimento como morte. Mas esta permite ter acesso a uma vida antes constituir a véspera dessa origem do teatro ocidental.)." Para Artaud. Eis por que se "deixou um lugar em todos os a maior parte das vezes soterrado. Afirma. da obra presente (ou melhor gãos. é o homem. 109. Ora no mesmo texto. de não morrer morrendo. afastado da sua essên- uma nova manifestação da negatividade. do nascimento e depois da morte ( " . ativa) da afirmação. um da nossa própria vida" (Van Gogh. mede por- renascer com a recordação da existência precedente. Deste modo é preciso sem dúvida despertar. A dança / e por conseqüência o teatro / ain. necessidade inelutável. esta afirmação "ainda não mie" in La Rite.. O teatro cimento. afirmação / de uma terrível / e aliás inelutável neces- Da mesma maneira. esquecendo onde e quando foi deus" (ibid.. 1948). A crueldade está sempre ta idéia de que estava morto antes de nascer. pois da vida.. "E creio que há sempre num dos últimos escritos de Antonin Artaud (Le théâtre alguém no minuto da morte extrema para nos despojar de la cruauté. o teatro da crueldade é definido como "a société). . A suá necessidade inelutável opera decisiva. Apesar de cia afirmativa. assinalados por datas são inéditos. não a uma morte antes do nascimento e de. denominamos nascer.

no mundo inteiro — e tantas manifesta¬ arte. Esta vida carrega o homem mas acentuá-lo sem enfraquecer a importância e o interesse não é em primeiro lugar a vida do homem. 310). põem-se por si próprias sando o terror e a piedade. Eis por que a questão que se põe a nós hoje excede largamente a tecnologia / O teatro da crueldade n ã o é uma representação. uma insistência cada vez maior. Reinstalo-me no solo em que cresce o meu querer. sentido absoluto e radical. sível? Em que condições um teatro hoje pode legiti- A forma mais ingênua da representação não é a mamente reclamar-se de Artaud? Que tantos diretores mimesis? Como Nietzsche — e as afinidades não se. o conceito imitativo da arte. da sua ine. Mas humanista — da metafísica do teatro clássico. deu-me a chave do conceito de sentimento trágico. cuja estru- trais ou ocupe um lugar na sucessão dos modelos da tura se imprime não apenas na arte mas em toda a representação teatral. as suas filosofias. p. Artaud entende esta palavra). mas sim. Tal é a afirmação mais obstinada de Artaud: É a própria vida no que ela tem de irrepresentável. o que quer isto dizer? E é pos- reflexo" (IV. Anuncia o limite da re. não à vida individual. "A Arte não é a imitação da vida. lidade humana e na qual o homem não passa de urrT' Romper esse elo. diga- riam apenas estas — Artaud quer portanto acabar com mos (escreveu-se isso) os "filhos naturais" de Artaud. 1032)"-' '—" Ocidente mais do que um tratado da prática teatral.não abalarem terrível falta de imaginação. pertencerão lar à vida. não porque faça época no devir das formas tea. mas ria fazer ir pelos ares. 137). nada mais é do que um fato. 152 153 . "Pode¬ a intenção de Artaud indica-nos esses limites. a esse aspecto indivi- a essa história e a esse palco que Antonin Artaud que- dual da vida em que triunfam os C A R A C T E R E S . O nascimento da tragédia" foi a minha primeira transvaloração de todos são solicitações mais do que uma súmula de preceitos. Se hoje. p. no interior do qual o próprio sofrimento opera como um que condições um autêntico "teatro da crueldade" po- estimulante. p. O teatro tem de se igua- as próprias fundações do teatro ocidental. p. Este não dos problemas teatrológicos ou das revoluções susce- passa de uma representação da vida e tal é o limite —• tíveis de produzir-se nos limites da técnica teatral. que perma- neceu incompreendido tanto de Aristóteles como em especial dos nossos derá "começar a existir"? Estas questões. nem de nos purificarmos de um afeto perigoso por uma descarga veemente — era o que pensava Aristóteles. Com que critérios W " psicologia do prgiasma como sentimento transbôrdante de A se reconhecerá que uma tal pretensão é abusiva? Com vida e de força. a sua política). 03 valores. sermos nós próprios a alegria eterna do devir — essa alegria que contém também nela a alegria de destruir (die à leitura de todos os textos do Théâtre et son Double que Lust am Vernichten). que varre a individua-. particular de construção teatral. o meu poder — eu o último discípulo do filósofo Dionísio — eu que ensino um sistema de críticas abalando o todo da história do o eterno retorno" (Gotien-Dàmmenmg. Werke. Podemos (1932. a sua fidelidade a Artaud. Enquanto -se portanto censurar ao teatro tal qual se pratica uma essas revoluções técnicas e intrateatrais. E por aí toco de novo o lugar donde partira. A arte teatral deve ser o lugar primordial e privi- xistência presente e da sua inelutável necessidade. numa espécie de vida liberada. II. queiram fazer-se reconhecer como os herdeiros. tem legiado dessa destruição da imitação: mais do que ou- valor de questão histérica. teatral. "Não se trata de nos libertarmos do Urror tempo técnicas e "metafísicas" (no sentido em que e da piedade. Histórica não porque se tro foi marcado por esse trabalho de representação deixe inscrever naquilo que se denomina a história do total no qual a afirmação da vida se deixa desdobrar teatro. ao mesmo pessimistas". Esta representação. mas a vida é ções o testemunham de maneira ostensiva — toda a a imitação de um princípio transcendente com o qual audácia teatral declara. designa portanto mais do que um tipo presentação. Com a estética aristotéli. A arte como imitação da natureza comunica de maneira essencial com o tema catártico. com razão ou sem ela mas com a arte nos volta a pôr em comunicação" ( I V . I V . Esta questão é histórica num cultura ocidental (as suas religiões. / - à parte. a questão do teatro da crueldade. X a reflexão técnica ou teatrológica não deve ser tratada vida é a origem não representável da representação. É preciso também pôr c a na qual se reconheceu a metafísica ocidental da - 2 a questão dos títulos e do direito. atraves. A decadência do teatro começa sem dúvida "Disse portanto "crueldade" como teria dito "vida" com a possibilidade de uma tal dissociação. 139). e escavar pela negação.

Qualquer que seja a sua importância. represen. p. bem entendido. diremos mais tarde e este esclarecimento do espírito"). um público de * "Verbo [que] dá a. (t. de consumidores. vigia. musicais e mesmo gestuais introdu- palavra. e se o diretor é seu escravo. í ao "diretor". elidido ou deportado na cadeia infinita (IV. intérpretes subjugados que representam persona. mantendo com o que se chama o "real" (o sendo \ clássica. p. das suas a este termo diretor. das suas intenções. Há uma e comanda o tempo ou o sentido da representação. pois unicamente transcreve e dá a ] fiel a Artaud. os seguintes elementos: um autor-criador que. acompanhar. dei. Que aliás — e \ vras é superior às outras. no seu ato e na sua estrutura j sentativa — que assegura o movimento da representa¬ habita ou melhor produz um espaço não-teológico. A sua relação com a palavra é qual o irrepresentávei do presente vivo é dissimulado a sua doença e "repetimos que a época está doente" ou dissolvido. do que ilustrar. sentado. Representar por representantes. medida da nossa impotência" ( I V . para xando esta representá-lo no que se chama o conteúdo nós. 277) e do nosso medo. das hipóteses. i contra ameaçada ao longo da tradição ocidental. que é um "excremento i e do conceito. O palco é teológico en. ! da linguagem da palavra. diretores ou :um adaptador. para transmitido — eventualmente pelo ponto cujo buraco grande cansaço nosso. 143). na talmente uma cena. j "Se portanto o autor é aquele que dispõe dição. I V . reúne temos aqui uma simples questão de palavras. uma cena que apenas ilustra um discurso já não é to- cia está ligada por representação a todas as outras. não dá a parte das vezes tenderam mesmo a protegê-la ou a palavra ao ateísmo. no começo. a pura visibilidade n ã o está. a palavra. confusão nos termos. ] Pela palavra (ou melhor pela unidade da palavra no Adverüssement ao Moine. I ção. a morte de Deus. condenado à tarefa de passar uma obra dramática de gens que. dar muita importância e responsabilidade ler um texto cuja natureza é necessariamente represen. F i - '• será importante) e sob a ascendência teológica desse nalmente um público passivo. o discurso lógica filosofante proclamando uma vez mais. O exposto. servir. de uma espécie de tradutor eternamente atores. este não passa de um artífice. exposta à sempre teria trabalhado para a destruição da cena. E a prática | é o centro oculto mas indispensável da estrutura repre- teatral da crueldade qpe. por uma vontade de palavra. armado de um texto. na melhor um logos primeiro que. e que o teatro não admite é a regra irônica da estrutura representativa que orga. í outra linguagem que n ã o seja essa". niza todas estas relações — nada cria. todas as O palco é teológico enquanto for dominado pela j formas pietóricas. um tecido verbal. possível e o diretor só será obrigado a apagar-se perante dor". para ser . feitar um texto. real. oferecido ao seu olhar de curiosos (No teatro Ocidente — e essa seria a energia da sua essência — da crueldade. e destruir a tirania do texto é portanto um único e 154 155 . é a própria cena que se en- espetáculo sem verdadeiro volume nem profundidade. de "^sufruidores!?'— como dizem Nietzsche e Artaud —. não pertencendo ao lugar tea. Reconstituir a cena. ilusão da criação. a maior N ã o põe em cena um novo discurso ateu. uma linguagem para outra. governa-o à distância. ausente e distante. que baste. conservando ao mesmo tempo a estrutura tativa. em primeiro lugar pelo que dizem. esta estrutura jamais foi modificada. um logos que se diz quanto a sua estrutura comportar. E é o texto fonético. en- tral. Escravos interpretando.assistindo a um | p. apenas se dá a j Isso não implica. segundo toda a tra. uma relação imitativa e reprodutiva. executando fielmente os o autor enquanto se aceitar que a linguagem das pala- desígnios providenciais do "senhor". O teatro da crueldade expulsa Deus do palco Todas as revoluções a mantiveram intacta. encenar finalmente das representações. de idéias. e esta confusão só será tam mais ou menos diretamente o pensamento do "cria. espectadores. e de acordo com o sentido que em geral se atribui dos seus pensamentos. Pois curiosidade). n ã o entrega o espaço teatral a uma restaurá-la. Esta estrutura geral na qual cada instân. 280). pelo objetivo de zidas no teatro ocidental nada mais fazem. proveniente do fato de que. . essa "realidade" acerca da qual Artaud escreve.

i nova do espaço utilizado em todos os planos possíveis concepção. Já não virá ausência. Crémieux 1 seu próprio espaço." [O sublinhado é nosso]. e manifestar o fundo da força. de um 63). | todas as palavras alemãs que traduzimos indistintamen- I lentamente apagada. a encenação do Ocidente. Não mais será uma repre- cimento./-Nem mesmo rios Órficos que subjugavam Platão". ' * F | sejam. e a essa noção virá acrescentar-se uma idéia 156. uma j te pelo termo único de representação. isto é. de ( 1 9 3 1 ) : "O teatro. aos olhos de Artaud. e de todos os outros meios es. desde que nos se trata portanto apenas de um esquecimento ou de I entendamos bem acerca do sentido difícil e equívoco uma simples recobertura de superfície. portanto com a história do teatro e com toda a cultura | Libertada do texto e do deus-autor. pois não virá acrescentar-se delidade mas t a m b é m apesar de si deixar-se traduzir como uma ilustração sensível a um texto já escrito. E contudo. apesar deste "esquecimento".cena e podendo de "perversão". •| o da dita linearidade fônica. É bem de perversão e não de esquecimento que I meio em várias dimensões.-a distância de uma aberra. da pala. I do espaço" (p. arte independente e autônoma. não I repetir um presente. em primeiro lugar supondo-o a ele p r ó - ver. por exemplo nesta carta a B. apelo a uma "nova noção critos e fixados. | compreender. uma sedução. ou simplesmente para vi. sonora. por exemplo. re-presentar um presente que es¬ seja um n ã o . se representação ter pelo menos uma vez encontrado neste mundo" (p. marcar bem o que o diferencia do texto. Este esquecimento clássico da cena confundir-se-ia I seria mais a sua perversão. cuja trama não constituiria. j de um espetáculo oferecido a curiosos. uma corrupção também e uma I mais velha do que ela. I sentação. 157 . Do lado. da literatura.t e a t r o : antes uma obliteração deixando I taria noutro lugar e antes dela. Seria necessário poder recorrer aqui a manteve com a cena "esquecida" mas na verdade vio. do lado dessa "beleza pura cuja realização | sentação cruel deve investir-me. E a não-representação completa. . na ori. dos "Misté. A repre- recobriram. i luto. experiência produtora do Artaud fala. ausente de. presente vivo de Deus. j seria portanto restituída à sua liberdade criadora e ins~ tura. . dos "Mistérios j nos oferecerá a apresentação de um presente.. "Triunfo da encenação pura" ( I V 0 í c m fila e em contar histórias. |. ter-lhes-ia mesmo assegurado a sua aber. É certo que a certa relação de traição. deve I um espaço que nenhuma palavra poderia resumir ou a si próprio. Quer isto di¬ ções que n ã o podemos desprezar apesar da pacífica ç I zer que Artaud teria recusado dar o nome de repre- impassível imobilidade das estruturas fundadoras. difuso e cansativo ao | no espetáculo e no espetáculo introduziremos uma noção qual estaria submetida a estética da cena. que consiste em fazer sentar personagens J e em todos os graus da perspectiva em profundidade e num certo n ú m e r o de cadeiras ou de sofás colocados | em altura. Pode-se perfeitamente continuar a con. 317) e a "uma idéia particular do ceber um teatro baseado na preponderância do texto. | prio e fazendo assim apelo a um tempo que já n ã o é vra pura. Não 1 sentação ao teatro da crueldade? Não. o teatro | tauradora. cuja plenitude seria ler o que ela recobre. talvez não seja a negação absoluta do teatro. Mas esta . Espaçamento. direito passa sem ela: presença a si do Logos abso- ção cujo sentido e medida só aparecem acima do nas. produção. por mais maravilhosas que 305). Isto explica que o teatro pensado ou vivido fora dela e que não faria mais do clássico. na véspera da representação teatral. que repetir. uma comunicação secreta. p á r a ressuscitar. inundada e despojada Platão deve I é portanto representação originária. não seja simplesmente a t. se representação quer dizer superfície exposta gem da tragédia. se trair é desnaturar por infi. se pre- de Eiêusis" despojados das interpretações com que os | sente significa o que se ergue diante de mim. U m a certa cena I desta noção. e | tempo": "Contamos basear o teatro antes de mais nada num texto cada vez mais verbal. a negação ou o esquecimento do teatro. I 5 mesmo gesto. 1 significa também desdobramento de um volume. O diretor e os participantes (que não mais e a encenação viveram esplendidamente durante mais de seriam atores ou espectadores) deixariam de ser os ins- vinte e cinco séculos: experiência de mutações e agita¬ j trumentos e os órgãos da representação. cena já não representará.

articulada gramaticalmente. 148-149). é a m ã o levan- tende servir. "determinação irreversível". de efêmero e de exterioi" samente aqui que se encontra o ponto vulnerável do ( I V . . só permite de- mente que o teatro ou a vida deixem de "representar" | nominar linguagem. à l i n - arte. 1 tada contra o detentor abusivo do logos. "Para mim ninguém tem o direito sobrepuser à representação impropriamente chamada ^"de se dizer autor. se nos é permitido di. Tal seria. E quando digo ria. de acessório. tal só reconhece como linguagem. por exemplo da literatura. pécie de poesia difusa que identificamos com uma ener- Fim da representação mas representação originária. parece-nos justamente que é no ma palavra dominadora. E é preci- de pejorativo. exagero pois na verdade é incapaz de fechado. da arquimanifestação da força ou da vida. "o teatro tal como o consideram n ã o apenas em F r a n ç a espetáculo agindo não apenas como um reflexo mas mas na Europa e em todo o Ocidente: o teatro ociden- como uma força" (p. velar as obras. "Pensamos justamente que há uma noção zê-lo. com essa espécie de dignidade i n - uma outra linguagem. sia só consegue escapar da " d o e n ç a " ocidental tornan- mensões e no seu volume. . ^ cruéis). (e certos es- esforça por captar: "Enquanto a encenação permanecer. Re- pensar na palavra crueldade "rigor. a só é um espetáculo montado pela palavra do senhor. " ( I V . mas nem por isso são meio de representação. petacular que uma outra passagem da mesma carta se "inimigo crucificado" ( I V . a extrai das formas de poesia Fechamento da representação clássica mas recons. isto é. mo". mais pura. O r e g r e s s o à representa. é certo. à poética. só valerá na medida em que j E em primeiro lugar um parricídio. com tudo o que esta denominação acarreta * quem cabe o manejamento direto da cena. a literatura sc '3 lavra e do texto. Artaud gosta das imagens produtoras sem as quais não Entrevemos assim o sentido da crueldade como haveria teatro (theaomai) — mas cuja visibilidade não necessidade e rigor. mesmo sangrentos. sem significação própria. 126). teatro que ela deve encontrar a sua expressão integral. e da palavra escrita. isto é. uma maneira acessória de re. mas. mesmo que ela seja J guagem articulada. só atribui as facul- ção originária implica portanto não só mas principal. Contudo está sempre na origem da crueldade. Esta es- uma ilocalidade. e t c . Espaço que pretende.particular do tempo ligada à do movimento". contra o pai. riamente "sadismo". dades e as virtudes de uma linguagem. p. uma espécie de intervalo espetacular | da necessidade denominada crueldade. a n ã o ser aquele a espetáculo. A origem do tea- conseguir dissimular-se por detrás das obras que pre. um assassínio. etc. tal como a devemos restaurar. um simples _ violentos. a repre. . Representação visí. p. de que é absolutamente incapaz de se libertar. j contra o Deus de um palco submetido ao poder da pa- quanto no teatro-arte de representação. recebe um hábito formal de mais organizado a partir de um outro lugar ausente. no palco da crueldade. cipal de uma obra representada residir no seu texto. | linguagem da palavra. da poesia a dissociar. mas nem todas as energias da interpretação mas interpretação originária que nenhu. "sangue derramado". en. E isto durará enquanto o interesse prin. petáculos hoje criados sob o signo de Artaud são talvez mesmo no espírito dos diretores mais livres. te pretende aprisionar toda a poesia. 280). espaço produzido de dentro de si e não pretender alguma coisa. contra a palavra que rouba à visão — c ta. naturais são poesia. da palavra 158 159 . p. criador. de um álibi ou de uma utopia invisível. j tro. "horror". é certo. mais clara e mais verdadeiramente isen- vel. isto é. A poe- o espaço teatral será utilizado não apenas nas^süas di. "submissão à necessidade". fim gia natural e espontânea. 297). e n ã o necessa- E este sentido agudo e difícil da representação es. nenhum projeto de domínio te. deixem de derivar de uma outra •| telectual que em geral se atribui a esta palavra. "determinis- do sensível puros. aplicação e decisão presentação como auto-apresentação do visível e mesmo implacável". do-se teatro. rá investido e previamente pisado. 120). . Pois na poesia como na literatura. escrita em que uma época em plena decadência e doen- tituição de um espaço fechado da representação originá. nos seus interiores" (p./"Assim sentação verbal sutiliza a representação cênica. Artaud convida-nos.

em que a repetição é do seu texto não entrega o palco a qualquer derelicção. e com ela a língua em geral: a sepa- A cena não é abandonada. a sua sonori- como o concebemos aqui [em Paris. cional e sutiliza o seu próprio corpo em direção do 3 p. cujas misteriosas possibilidades foram esquecidas. E a véspera portanto prescrito numa escritura e num texto cujo da origem das línguas e desse diálogo entre a teologia material já não se assemelhará ao modelo da represen. só serão apagadas do palco da crueldade na medida "a Palavra anterior às palavras". esse movimento único e insubstituível que crueldade? Deverá calar-se simplesmente ou desapa- a generalidade do conceito e da repetição nunca dei- recer? ! xaram de recusar. p. aquilo que em toda a palavra resta de gesto O que acontecerá então à palavra no teatro da oprimido. ficante. p. integral. p. às "im. reconduz-nos à beira do momento em que a palavra'. p. toda a criação vem do palco. ao "empirismo tradução e da tradição. Deus e o homem. todos os i textos anexos de Rousseau e de Nietzsche. A ausência do autor e grito mas ainda n ã o é discurso. ele- palavra. 3 ver IV. ainda não nasceu.que. o movimento da interpretação. Quan- tos amadores de teatro que uma peça lida provoca ale. Tudo será cravo. essa intenção pela qual . O diretor e o ator não ção. o senhor e o es- capricho da inspiração inculta" (ibid. 313). à comedia deli'arte ou "ao a diferença entre a alma e o corpo. pronunciada ou não pronunciada. encontra a sua tradução Como funcionarão então a palavra e'a escritura? J c as suas próprias origens num impulso psíquico secreto que é a Palavra Voltando a ser gestos: a intenção lógica e discursiva i anterior às palavras" (IV. como palavra clara. 131). 3 essa necessidade de prescrição. exigida pela própria Não se trata portanto de construir uma cena muda crueldade? mas uma cena cujo clamor ainda n ã o se apaziguou na A palavra e sua notação — a escrita fonética. submetida a palavra vulgarmente assegura a sua transparência ra. "Acrescento à linguagem falada uma outra l i n - mais receberão ordens: "Renunciamos à superstição teatral do texto e à ditadura do escritor" ( I V . o sintoma de uma fadiga da palavra S viva. parte da 1 NECESSIDADE da palavra e não. A palavra é o cadáver da palavra psíquica c mento do teatro clássico —. e o humanismo cuja repetição infindável e metafísica tação clássica.). 12). p. 132). A glossopoiese. La naissance de la tragédie. da palavra já formada" (p.no caso muito impropria- cena mas estará nela presente. i à transmissão e à repetição. (4) "No teatro. de uma doença da vida. Pois sabemos que as represen. mente — onomatopéia.lugar destinará então à palavra do teatro ocidental sempre manteve. o autor e o ator. cácia enfeitiçadora. 141). que não é nem gorosamente delimitado. a palavra e sua escritura é preciso rencontrar. 86-1-113. tações do teatro da crueldade deviam ser minuciosa. com a linguagem da própria vida. 161 160 . terá uma função num sistema uma linguagem imitativa nem uma criação de nomes. Sobre a necessidade de "mudar o destino da palavra no teatro". guagem e tento restituir a velha eficácia mágica. à linguagem da palavra cício de leitura. n ã o tem mais mo que o constitui em diafaneidade: desconstituindo o valor do que se estivesse apenas escrita. Ocupará um lugar ri. decidiu-se pelas clarezas da palavra" (IV. sentido. 2 3 9 ) . surrealista" (IV. em que a articulação não mais é mente regulamentadas antes. no Ocidente] dade. Sabe-se o valor que Artaud dava De modo algum. 289). Que. A palavra deixará de dirigir a. desnuda-se a carne da palavra. A palavra. ó a morte na linguagem: "Dir-se-ia que o I espírito. quase impossível. do significado e do signi- visadora. Fim daquilo "que fazia dizer a cer. e reconstituir o seu sistema representada" (p. de analogias e de oposições. (3) Seria conveniente confrontar Le Théâtre et son Double com o grias mais palpáveis e maiores do que a mesma peça | Essai sur 1'origine des langues. 141). deixa-o estranhamente recobrir por isso mes. do pneumático e do gramático. articulação da língua e da lógica ainda não calou to- talmente. àquilo que se denomina —.| Neste sentido a palavra é o signo. será reduzida ou subordinada. a sua entoação. ração do conceito e do som.. a efi- É também o fim da dicção que fazia do teatro um exer. ao "vaticínio ocasional" (I. o grito que a 0 texto é tudo" ( I V . "Esta nova linguagem. a liberdade da provisões de Copeau" ( I V . p. entregue à anarquia impro. O gesto e a palavra 4 em que pretendiam ser ordens: ao mesmo tempo cita- ainda não estão separados pela lógica da representa- ções ou recitações e ordens. 148). a sua intensidade. p. não agüentando mais. ao qual será ordenada.. No teatro tal diáfano.

dar às palavras mais ou menos a mesma importância cupação: a aptidão para a encenação (Darstellbarkeit)" que têm nos sonhos. um campo dessa nova linguagem: não apenas escrita fo. parte física preponderante. quero dizer palavra num sentido concreto e espacial". a qual não se poderia fixar evoca^ a escultura e a pintura. encontrar a expressão que mais facilmente se deixa ma. "Tendo tomado consciência dessa lingua. . hieróglifo está no centro do Premier Manifeste (1932. . picturais. VIII. E num artigo de 1913: "Pela palavra linguagem I V . ou o pintor primitivo nem escrever-se na habitual linguagem das palavras. " tar pacientemente nesta analogia.. são delimitados o lugar e o funcionamento da pa. linguagem de sons. Em Traumdeutung e (G. língua. parece-nos mais justo com- parar o sonho a um sistema de escrita do que a uma todos os planos". « unham em inscrição (a/5 Schrift) o discurso que o pin- O que será este "novo sentido"? E sobretudo essa tor renunciava a poder encenar no quadro" (G.. 404). . dc mento em palavras. p. a totalmente análoga à decifração de uma escrita figura- palavra tem o mesmo estatuto.. 107). "O conteúdo do sonho é-nos a elementos visuais. '"Leis eternas que são as 162 163 . Presente no sonho. por vezes à maneira de texto de Freud. 112). falando do sonho. çstá sempre esses meios se aparentem aos da transcrição musical. e em "servir-se da g l í l i c o s . em Complément métapsychologique à la doctrine des rêves. . p. W. p. 418-9). uma escritura inscrita na escritura nética e transcrição da palavra mas escrita hieroglífica. que haverá nos espetáculos que montarei uma sas" (IV. No que diz respeito aos objetos vulgares.." "Se pensarmos que os hieróglifos. e servindo-se do seu simbolismo e das suas meios de encenação no sonho são principalmente ima- correspondências em relação a todos os órgãos e em gens visuais e não palavras. que muitas ve- lavra. a palavra só intervém nele zes se referiu à psicanálise. cobrirá todo o a palavra quando não é mais do que um elemento. mas também a linguagem gestual e onomatopéias. o teatro tem como missão organizá-la qualquer outra espécie de expressão da atividade psí- fazendo com as personagens e os objetos verdadeiros quica. p. W. que mesmo a parte falada e escrita o será num novo •'deixava pender da boca das figuras bandeirolas que sentido" (p. não se deve entender aqui apenas a expressão do pensa- gem no espaço. " ( I V . como a escritura. compreendemos em que se pode tornar limitado de uma notação de palavras. nova escritura teatral? Esta não mais ocupará o lugar II-III. e de um transformados em imagens — sobretudo visuais —• e as Freud então bem pouco esclarecido. se tinha aproximado do como um elemento entre outros. plástica da palavra" (IV. Manifeste (1932): " A L I N G U A G E M D O P A L C O : sentações de coisas correspondentes. Quanto ao resto. 133). pronto a substituir as palavras umas pelas outras até 1 quer se faça uso de uma maneira de linguagem cifrada. 283). plásticos. E quando Freud. Seria convemente medi- tiva da antigüidade. creva o jogo da palavra e da escritura no palco da do a sua própria economia. É difícil saber a que ponto Artaud. X. Já no Premier representações de palavras são reconduzidas às repre. ou mesmo ao nejar na encenação plástica" ( G . "Os pensamentos são então cmeldade com os próprios termos de Freud.. 87). p. à maneira dos autores de histórias em quadrinhos.do digo que não representarei peça escrita. de gritos. É a estrutura da escrita na qual os elementos fonéticos se coordenam charada cu do hieróglifo. Em todo o caso é notável que des- uma "coisa" que o processo primário manipula segun. fugir circunscrito. Na verdade a interpretação de um sonho é Na cena do sonho. geral e no espaço da representação. como os hieróglifos e g í p c i o s .e que. p. p. tal como Freud a descreve. em "ma- que não representarei peça baseada na escritura e na nipulá-la como um objeto sólido e que abala as coi- palavra. mas de se todo o processo fosse dirigido por uma única preo. ccrpo humano. 83"). é evi- Artaud também fala de uma "rnate^alizaç|o_visual -e¬ dente que nos podemos inspirar nos caracteres hiero- . exatamente como Não se trata de suprimir a palavra articulada. A noção dc dado como uma escrita figurativa" (Bilderschrift) (p. é preciso en- "É digno de nota que o trabalho do sonho se prenda contrar meios novos de anotar esta linguagem. W. 317). de luz. quer tão pouco às representações de palavras. elevados à dignidade de signos.

os amadores outras coisas as dos ideogramas da China e dos velhos de alma e os surrealistas. da interpretação diretiva ou (Carta escrita de Espalion a Rober Blin. n pelo seu estatuto. de confirmar assim o Ocidente no seu projeto e no seu trajeto. liam Hervey de Saint-Denys. é a lucidez exposta. Neste tratamento tea- 5 Talvez Artaud se erga também contra uma certa tral do sonho. O teatro da crueldade o psicanalista como intérprete. "Só da psicodramaturgia. p. com o pretexto quer comentador secreto. "Não há cruel- na psicanálise.. 4 5 ) . recursos que o desempenhará nenhum papel próprio. E esta consciência vive perfeitamente de Pois o teatro da crueldade é realmente um teatro do um assassínio. p. Quase o contrário. pelo diretor e atores. segundo comentador. acaba de redescobrir e num sentido muito menos eficaz e moralmente (5) Les Rêves et les moyens de les diriger (1867) são evocados ni menos fecundo que nos dramas místicos . até aos debates recalcados da alma uma ciência que a psicanálise moderna ma'. isto é. lz-1945). 165 mm . sem uma espécie de consciência ção. É preciso produzir ou reproduzir a lei do sonho: derar o teatro como uma função psicológica ou moral "Proponho renunciar a esse empirismo das imagens que de segunda mão." (II. Para isso é na verdade tiva do desejo. do leitor. 164. de mais livre. diano que escreve no Premier Manifeste: "Mas consi- te. etc. 110). absolutamente neces. Este fragmento multiplica as' agressões contra a psicanálise. a sua tona- empírica do sonho espontâneo. 57) fracassa se não despertar o sagrado. "aquilo que pertence à ilegibilidade e ao fascínio magné. aplicada". de um sonho calculado. £ descrição freudiana do sonho como realização substitu- poesia e a ciência" (p. Finalmente um teatro psicanalítico correria o ris- tico dos sonhos" (II. As vias e as figuras do lidade cruel. e entre espectadores. Tal- lise moderna" (p. amplio a l i . retomada pela psicaná. 121). 96). Basta a con. Os surrealistas morte de alguém" ( I V . A crueldade psicanalista. mas do sonho cruel. p. alcance poético profundo quer dos sonhos quer do tea- Porque quer "ver irradiar e triunfar num palco" tro" (p. à sua me- (p. do que uma atividade de substituição. sur la cruauté: "É a consciência que dá ao exercício em oposição ao que Artaud julgava ser a desordem de todo ato de vida a sua cor de sangue. _ É certo que tinham. do ponto de vista cênico. mas podia-se neles descobrir sobre os fusão que gera do autor. (cf. se canalítico tão vigorosamente como condenava o teatro não for experiência "mística" da "revelação". pois está assente que a vida é sempre a sonho podem prestar-se a um controle. teatro já não possui há séculos. Portanto longe de restringir as representar colocam-se decididamente ao abrigo de qual- possibilidades do teatro e da linguagem. Tanto pior para os analistas. Artaud teve igualmente cuidado em marcar a sua O teatro da crueldade não seria portanto um tea- discordância em relação à psicanálise e sobretudo ao tro do inconsciente. 2 3 ) / A r t a u d recusa portanto co de ser dessacralizante. 163). multiplico as suas possibilidades" da cena clássica. E pelas mesmas razões: recusa da inte. o psicanalista pertenceria à estrutura guagem da cena. p. é um teatro hierático. I V . é diminuir o lançamos denominando-as imagens poéticas" (ibid. deter a sua iniciativa e poder de inicia. à sua forma de socialidade.. tos psicólogos jamais deixou de espetar nos músculos da humanidade" rioridade secreta. que a associação dos supos- psicológico. "devem doravante ser identificadas. 133). como função de substituição: ele quer preciso proceder de acordo com essa magia moderna pelo teatro restituir ao sonho a sua dignidade e fazer que é a psicanálise: "Proponho que no teatro se volte dele algo de mais originário.que se representavam nos adros" abertura dos Vases communicants. de mais a essa idéia mágica elementar. Artaud afirma em Première lettre sário e determinado.de toda a poesia e de toda a linguagem viável. afirmador. " N o palco o inconsciente não JJJ restam escas:os e duvidosos documentos sobre os Mistérios da Idade Media. sugerimos mais acima. Os dramas que vamos hieróglifos egípcios. aquele que julga poder segurar o discurso é a consciência. Mas não se deve ceder ao que vez seja contra uma certa imagem do pensamento freu- Artaud julga ser o tateamento do sonho e do inconscien. dirigido. da "ma- to) "Miséria de uma improvável psique. A regressão para o inconsciente hermeneuta ou teórico.). Pelo seu luçar e 6 de que não representarei peças escritas. é a consciência do assassínio. à sua religião. e julgar que os próprios sonhos não o inconsciente traz ao acaso e que também ao acaso passam de uma função de substituição. tafísica.| Teria recusado um teatro psi. Como o sonho. dade sem consciência. 25 de março de 1946).

setembro de 1945). todo o teatro de palavras. 72 s. quecimentos aparentes dos meios cênicos seguem por vezes mais rigorosamente o trajeto de Artaud. E a matéria sobre que j -se hoje com mais segurança do que a mobilização geral trabalha. Antonin Artaud. Se aliás ba:ta pronunciar as palavras religioso ou místico para ser confundido com um sacristão. 318-19 e V. sonora. do satânico critica da experiência estética como desinteresse. A restauração da divina crueldade plástica. ou ^ gem" (esta noção já o trai). Quais podem ser os temas da infidelidade. os temas que faz palpitar não são dele mas dos deuses. Esse tema ê muitas (8) É Dreciso restaurar. certos enfra- ra militante e barulhenta que conhecemos? Contentar. | principais de uma máquina ainda muito sólida impõem- chamaríamos o diretor. Inversamente. nihilismo produzir na crueldade. distanciamento. p." (IV.. p. criação artística. I 2. Tudo isto parece um exorcismo para fazer AFLUIRJ» nossos demônios" (p. estes comunicam menos do que aqueles com a imagi. sou Satanás e sou deus e não quero saber da Virgem Artaud este tema não deve contradizer o valor de gratuidade lúdica na Maria" (escrito de Rodez. 35). como homem que. contra o pacto de medo que deu origem. ver também p. em pri.). fônica. mas este torna-se urna espécie_ de ordenado: mágico.alinêsj algo do cerimonial de ura •ij da polícia. imagem visível. Um tea- passa portanto pelo assassínio de Deus. N ã o apesar de. p. mas graças à | teatral. nascido em Marselha a 4 dc Por Nietzsche à filosofia kantiana da arte. no divino. profundidade no" ( I V . 56-7). deixando-se separar da V i d a por Deus. TJm a I própria. de imitação irrisória da realidade. a unidade do mal e da vida. ao "homem total" ( I V . É preciso acrescentar que j 1. música. não seria. talidade da arte. "Ê um teatro que elimina o autor em proveito daquilo que. das funções primitivas da Natureza que um Espírito duplo favoreceu. isto é. 182. não so- \ por todas as artes para criar um teatro total dirigindo-se bre as condições em que um teatro moderno pode ser . £ sem dúvida Vimos por que razões os hieróglifos deviam substituir l alguma alheio ao teatro da crueldade: os signos puramente fônicos. são agitados. M.' I -nos-emos com enumerar esses temas.. essa imi- mesmo naqueles que se declaram artaudianos. os estados de espírito que procura criar.. se tamente Nietzsche).. todo o teatro do. "E quero [noutro lugar Artaud diz j lhor o verbo. Isto é. Este nada mais mentos oue visa. Lembra a crítica feita e do divino: "Éu. as soluções místicas 'que propõe. no nosso jargão ocidental do teatro. nova epifania do sobrenatural e do divino tem de se j relação negativa da palavra consigo mesma. p. a algo como a sua "mensa- o nosso teatro perdeu completamente. (9) Sobre o espetáculo integral ver II. do que a turbulência ou a agi¬ ao que parece. volume. da manei. in. O que agita é o MANIFESTADO. i dele do que essa totalidade de justaposição. i das artes e dos artistas. Supondo. 33-34. Vêm. '< taçãq exterior e artificial. 13). no sentido em que Artaud o entendia (e cer« deixando que usurpassem o seu próprio nascimento. despertados. (7) "Tudo nesta maneira poética e ativa de encarar a expressão no < o que não cremos.°emora * faz senão consagrar com insistência didática e gravidade nem rodeios. voltando a ser gesto ou repetição desesperada. "Há nelas fas realizações teatrais do teatro b. neste centido que extirpam do espírito que as olha qual- quer idéia de simulação. Nada está mais longe 9 fiel a Artaud. da oual o Espírito iamais se separou" (p. É uma espécie de Física : tação improvisada sob o olhar malicioso e complacente primeira. Os pensa. tornou homem por manchar a divindade do divino: "Pois . afirmação. I 4. pel 0 não destruiria o funcionamento da cena clássica. I tro abstrato é um teatro no qual a totalidade do sentido meiro lugar do homem-Deus. isto i e paciente e implacável sobriedade no trabalho da des- mo-tra simplesmente a nossa incapacidade para tirar de uma palavra ' truição. portanto da vida e dos seus recursos nar do homem que acabou por nos corromper o divi. rito religioso. um mestre-de-cerimônias sagradas. atingidos sem' . no seu afloramento primeiro. Quer em Nietzsche quer cm setembro de 1896. p. todo o teatro abstrato exclumdo algo da to- ventados pelo homem. p. na melhor das hipóteses bom para girar matracas físicas de orações. 73. 147). de significação: dança. o que ainda se denomina teatro do absurdo evicção de Deus e à destruição da maquinaria teológica j Não apenas um tal teatro seria consumido de palavra e do teatro. todo o teatro que privilegie a palavra ou me- nação do sagrado. N ã o teríamos \ razão para concluir daí que basta acumular ou justa- Talvez pudéssemos agora interrogar-nos. 166 167 . vezes acompanhado de alusões à participação como "emoção interessada": quer ao homem ouer a Deus. O divino foi estragado por Deus. Muito pelo contrário. mas sobre os casos em que lhe é certa- mente infiel. 163). 8 > e dos sentidos não seria consumida. etc. uma acuidade ecônoma visando bem as peças todas as suas conseqüências. mesmo se esse "Posso"] com o hieróglifo de um sopro reencontrar } privilégio se torna o de uma palavra que se destrói a si uma idéia do teatro sagrado" ( I V . penso que é a intervenção mile. todo o teatro não sagrado. uma rigorosa e minuciosa com um bonzo r>rofundamente iletrado e exterior de templo budista. que tenha algum sentido falar de palco nos conduz ao afastamento da aceitação humana atual e psicológica do teatro.nifestação" da vida. para reencontrar a sua acepção religiosa e mística cujo sentido i uma fidelidade a Artaud.longe de acreditar no sobrenatural. \ 3.

texto / interpretação. _é uma palavra sem auditor. entregar uma mensagem (qualquer que seja a sua na- p e i t o . etc. Poderíamos mos- constituir o seu espetáculo e atribuir-se o seu objeto. o profano indiscreto que foi desmascarado e despedaçado pelas mênades". E o ato de revolução política é teatral. A festa da crueldade coroada de~"flores. a e desse "ideal europeu da arte" que "visa lançar o espí. da de um conceito ou de uma visão político-moral do feria preciso predizer-lhe uma sorte semelhante à de Penteu. como o disse noutro lugar. a imagem . há uma festa (ver em geral — e seja o que for que represente —. " (Carta a Roger B l i n ) . absoluto" que "é sem fundo" (setembro de J94. mas bem entendido). sem "nada para ver" e nas quais os ções ético-metafísicas. ly acredita naquilo que faz e dá a ilusão disso. em pequenas comunidades. Todos os limites que sulcam a teatra. Rousseau suspeita tanto no Contraí Social como na lidàde clássica (representado / representante. à suplência. não se confundindo com ela. 102). | (10) O teatro da crueldade não é apenas um espetáculo sem especta- dores. psicológica. nem das ^angústias para eles tura. que IV p.. o espectador investido já n ã o pode delegação tanto política como teatral. dando a ler o sentido de um discurso a auditores. onde p r o p õ e substituir as repre- do / significante. procurando transmitir um conteúdo. "Mas mundo Refletindo — o que não podemos aqui fazer. Lettre à d'Alembert. que no palco não tenham medo da sensação ver. tornai-os atores". (no sentido corrente e n ã o no sentido nietzschiano. reclamada por Artaud e essa ameaça do "sem-fundo". nem espetáculo. podendo ser re- ção aos mistérios de Elêusis. Isto resulta em especial . U servidor entusiasta de Dionísio "só é compreendido pelos seus seme- missão mais ou menos eloqüente. não pode abstrair-se da totalidade so à representação. A festa tem de ser. na força veríamos acabar por evocar. e t c ) . reuni aí o povo e tereis uma festa. 6. A q u i tocamos no que parece ser a do fato de substituir pela agitação política essa revolu. A partir do momento em que e um certo modelo de sociedade perfeitamente presente "no teatro da crueldade o espectador esta no meio ro. tensão do auditor de compreender as palavras. . aquilo que em Rousseau faz effekí permanece prisioneiro de um paradoxo clássico também comunicar a crítica do espetáculo clássico. . arte dionisíaca não levar "em conta o auditor. metafísica. O quê? Teria o auditor prejensões? Deveriam as palavras ser compreendidas?" 168 169 .5)j_. O V erfremdungs. da sociedade que aqui fascina o desejo de Artaud de- mo dos diretores e dos atores) no ato criador. é uma mente que a festa deve ser um ato político e n ã o a trans. petido sem ela. p. » ópera. todo o teatro de cul- dadeira de uma navalhada. Mòunet-Sul. . todo o teatro de comunicação. Fazei melhor ainda: dai em espetáculo os espectadores. * um ato político. para notar a maior dife- que irrompe abrindo o espaço da cena. desconfiança em relação à articulação na linguagem.. à do meio sensível. começa com essa pre- — o sentido político desse ato e dessa festa. lhantes. tornando inútil e ne- deado pelo espetáculo" ( I V . Â representação.) eram interdi. Dizemos justa. trá-lo de maneira muito precisa: é do representante Já não há espectador nem espetáculo. nos momentos decisivos da vida social. eu suprimo o para-. da cena. No espaço da festa finalmente os objetos destes espetáculos? Nada. arranca as rampas e os parapeitos diante do "perigo. sentações teatrais por festas públicas sem exposição palco / sala. significa. a distancia do fasto. a sua decisão ção total que Artaud prescrevia. o recur- olhar já não é pura. Muito pelo contrário. 15).. essência profunda do projeto de Artaud. Nietzsche: "O homem tomado de excitaçao dionisíaca tal como a multidão orgíaca não tem auditor a 5. Perante a festa assim tureza: política.sistemática a não-participação dos espectadores (e mes. Mas se imaginássemos um auditor assistindo a uma das suas irrupções endêmicas da excitaçao dionisíaca. religiosa. rença na maior afinidade. o rito numa atitude separada da força e que assiste a sua ideal da festa pública em substituição à representação exaltação" ( I V . p. todo o teatro ideológico. sabe-se atrás de um parapeito. de interpretação absolutamente reais de um suposto parto. característica essencial . luern comunique alguma coisa. j "Preciso de atores que sejam em primeiro lugar serev isto é.. caretas. Todo o teatro não-político.•. a si. rugas. enquanto o narrador épico e o artista apolíneo em geral supõem este auditor. a distância da representação sermos . segundo os testemunhos mais explícitos. pedagógica e policia-. 9 8 ) . se qui- aberto pela transgressão. . ríctus.da. não 10 o happening faz sorrir: é em relação à experiência se esgotando totalmente com o ato e o tempo presente da crueldade o mesmo que o carnaval de Nice em rela. sintomas espectadores se tornariam atores: " M a s quais serão do medo perante o perigo da festa. autor / diretor / atores / espectadores. / C o l o c a i no meio de uma praça uma estaca já não deveria poder alargar-se.

o pensamento do ser como me- nidade. tão perto viar de cada vez ao mesmo. utilizando esta expressão em geral. recolhe e guarda o pre- para se guardar. pois não pode ser um sem crime contra | inversamente. inéditos valorizam o que Artaud chama propriamente histórico-metafísica. Como Nietzsche (por exem- | em que Artaud falava do Théâtre et son . "Pois mesmo o infi. Este poder de repetição dirigiu tudo o q U C j dadeiro é sempre o que se deixa repetir. a matriz da história do pensamento pensando-se vra. não é um signa' O reenvio significante j Em lugar algum está tão bem organizada como no tea- deve portanto ser ideal — e a idealidade nada mais é ? tro a ameaça da repetição. reserva-se. : pelo qual o gasto é recuperado na presença. nito está morto. isto é. o } tição. A não-repe- Artaud quis destruir e recebeu vários nomes: Deus. N ã o é o Deus vivo que devemos temer. A repetição separa de si pró. Outro* j mória. . Artaud íe- 1 designando assim essa dobra. nem signo em geral. "O absoluto não é um ser e ja¬ ' afirmar a morte como gasto presente e irreversível. 170 . a crueldade. í que sempre conta com a nossa recusa. é a eco¬ pria a força. "sendo a vida. A repe- gesto econômico e calculador daquilo que se difere j tição resume a negatividade. / infinito é o nome de um morto / que i A dialética é sempre o que nos perde porque é o não está morto" (in 84). . aquilo que nele não se repete. do gesto. É um esquema que espreita a repetição mim. que quis um Í| nietzschiana da afirmação. 4 gue.Double. Este título corresponderá a todos os duplos do teatro que julgo sua conseqüência" (9-1945). O gasto puro.. nunca deixou de ameaçar I drontada. O Ser é a | _servar o que constitui a sua insubstituível e mortal pre- forma sob a qual indefinidamente a diversidade infinita -j sença. do ato" (V. j Pois n ã o há pala. Tal seria. . " N ã o há maior inimigo do ^ ter encontrado há tantos anos: a metafísica. à ontologia incontornável. Paulhan (25 de janeiro de 1936): "Creio que encon- ^ {rei o titulo que convém ao meu livro. essa duplicação interior cusa-se a subsumir a V i d a sob o Ser e inverte a ordem da genealogia: " E m primeiro lugar viver e ser de acordo íj (11) /Carta a J. | (9-1945). Alguns outros m Palco que se reconstitui a união do pensamento.). a vida. Será: LE THÉÂTRE ET SON com a alma. N ã o no sentido e da Morte sobre o viver. "primeira vez". o presente guarda-se. é o i a dialética [uma certa dialética] o que me p e r d e u . O ver- medo. como j sumindo o presente. daquilo que reserva o gasto e cede ao ! sente passado como verdade. que já não está dividido. a vitória de Deus | do-a de si própria como do seu duplo. já co- nifesta a quantidade infinita das vezes durante todas as '% meçou a querer guardar a presença do presente. É no corpo humano do que o ser" (9-1947). "o para lá do ser" (2-1947). como idealidade. Sempre que há repetição. já abriu vezes da eternidade como o infinito das vezes e da eter- \ • o livro . Deus é a eternidade cuja morte. £Não querer guardar p presente é querer pre- nome da repetição re-presentativa: O Ser. Deus é a Morte. isto é j nossa afirmação. a presença. a peste. " Deus-Morte.e a memória. que não seja construído pela J desde Hegel. dado que se ma- j morte para fazer aparecer o presente como tal. descolan- palavra principal da repetição eterna. o gasto decidido e irreversível na única vez con- Ser.. deve por fim à discursividade ame¬ diferença e repetição na vida. \ Gozar da dife- das formas e das forças de vida e. a genero- dia ser deus quando isto não é possível. Recusar a morte como repetição é furta-se a si próprio... sem me arrancar um ser..» teatro^. Eis por que o Ser é a < da repetição primitiva que importaria apagar. reduzida ao seu objeto exan- misturar-se e repetir-se na palavra. Esta separação é o ! nomia da repetição. A repetição era para ele o mal e poderíamos i de Platão (que Artaud não deixou de ler) num estilo sem dúvida organizar toda uma leitura dos seus textos .. A economia da verdade. Um signo que não se re- | A possibilidade do teatro é o foco obrigatório des- pete.de morte podem | rença pura. Artaud quis apagar a repetição . E mais será um. o que cria a perpetuidade" (9-1945). Como com a Deus lá está. nieízschiano. à dialética. Em lugar algum se está do que o poder assegurado da repetição — para . o problema do ser nada mais é do que a * 2 DOUBLE pois se o teatro duplica a vida. a vida duplica o verdadeiro . possibilidade de se repetir. a Dialética. n ã o podendo | sidade absoluta oferecendo a unicidade do presente à Deus manifestar-se todo de uma vez." mas plo em La Naissance de la Philosophie. Finalmente a Dialética é o movimento em torno deste centro.1 P 272-73).reen- I tão perto do palco como origem da repetição. pela repetição na sua • 3 se pensamento que reflete a tragédia como repetição.

Platão critica a escritura como corpo. O seu./ N ã o é nem livro nem na representação.uma certa d i a l é t i c a . a dialética é a tragédia. A origem é sempre iniciada. de único lugar no mundo em que um gesto feito nãoTsT um não-presente. Ora para Ar. que uma forma empregada não serve o seu duplo como a sua morte. alma. o outro do corpo vivo. deste ponto de vista. não deixa ou o tempo da cena acolhendo a sua própria diferença atrás de si. A r . a marca sensível e mnemo. no movimento irreprimível da repe.. Eis por que "Se çam para definir o que entendemos por teatro" típico deve acabar com essa superstição dos textos e da poe.. da tido "o teatro da crueldade seria a arte da diferença c diferença da repetição originária. etc. p. repetição originária. e a utilidade superior do estado inutilizado pela ação' compreenderemos talvez que ela é o movimento inde- que. nenhum ves. Neste sentido história. "Uma vez" é o enigma daquilo que não tetrt existe hoje no mundo do teatro quem corresponda ao sentido. "O teatro ensina justamente a inutilidade da Pois se pensarmos convenientemente o horizonte da dia- ação que.que furta ao teatro. . só abre a cena do tempo aparência: a representação teatral acabou. de um presente fora do tempo. A crueldade pode sem dúvida come- repetição. já não está por praticar lética — fora de um hegelianismo de convenção —.'que toda palavra sentação que não seja representação. do gesto vivo que iniciar. sem retorno.sublimação" (p. ça nem se realiza na pureza da presença simples mas técnica. . exterior à inscrição da verdade na já na representação. O trágico não é a A aversão de Artaud pela escritura não teatral impossibilidade mas a necessidade da repetição. e que o teatro é o se repete. de um presente que não mais e só convida a procurar outra. nem legibilidade. 91). tígio. . É com efeitoT aparece a si. ativamente esquecido. isto é. " . . é pelo contrário a escritura como lugar da verda. no "segundo tempo da Criação". sem gédia como ausência de origem simples. da vida. isto é. çar a exercer-se aí. mas uma energia e neste sentido é a única arte Artaud bem o sabia: " . a origem simples. no conflito das forças que não pôde ser o de uma de inteligível. na dobra interna da sua. a origem da tra- do gasto sem economia. por detrás da sua atualidade. aos Artaud. A poesia escrita vale uma vez e depois Se colocarmos com efeito a questão das origens e da destruam-na" (IV. E não teria havido exceções a fa- taud a festa da crueldade só deveria ocorrer uma vez: zer. E por aí chegaremos ao nó do problema.^ Na dialética. como Artaud sabia que o teatro da crueldade não come- no Fedro. razão de ser (ou da necessidade primordial) do teatro. A escritura é o próprio espaço e a do teatro: "Antes de irmos mais longe talvez nos pe- possibilidade da repetição em geral. Sabia-o melhor que ninguém: a "gramática" estetas as críticas de formas. logo seu ato presente. desejo de Artaud. É pre- tra a idéia filosófica ou cristã da origem pura contra ciso praticar aqui aquela aktive Vergeszlichkeit de que "o espírito do começo": "Mas o espírito do começo fala a segunda dissertação da Genealogia da moral não deixou de me levar a fazer besteiras e não deixei que nos explica também a "festa" e a "crueldade" de me dissociar do espírito do começo que é o espírito (Grausamkeit). 93-4). N ã o tição. " (setembro de 1945). obra. a única afirmação possível con- ato deve ser esquecido. duma representa- pronunciada está morta. sia escrita. . só se apresenta.. só recomeça duas vezes" (IV. nenhum objeto para levar. que não carregue em si é: pronunciada. não vive duas vezes. intestina. para as tentativas do próprio "Deixemos aos mestres-escolas as críticas de texto. compreendemos que a fidelidade é impossível. uma vez praticada. . p. mas deve t a m b é m por aí deixar-se taud como o apagamento do corpo. 99). O presente só se dá como tal. e primitivo. Presença pura como diferença pura. 172 173 . T a l é a alquimia só ocorre uma vez. que uma expressão não permanecerá sempre o inacessível limite de uma repre- vale duas vezes. o gesto do corpo. a idealidade. tem o mesmo sentido. c r i s t ã o . à vida. sem reserva. que dizia estar "por encontrar". e reconheçamos que o que do teatro da crueldade. e só age no momento em que ção que seja presença plena. a presença simples do Enunciando assim os temas da infidelidade. Neste sen- finido da finitude da unidade da vida e da morte. foi dito já não está para dizer. virado. produz a. O que o inspira n ã o é. nem presença. hipomnésica.

já eles mesmos orientados e divididos. Parece na verdade que onde j quem quer reduzir a arquicena quando escreve em reina a simplicidade e a ordem não pode haver teatro ] Ci-gít: "Eu. Não é Artaud que se torna espessa. e o que acabamos de dizer da sua possibilidade deveria impedir-nos de e por essa mesma razão sou seu grande inimigo. Mas Amo muito o teatro. | localidade sempre habitada ou assombrada pelo pai e o da dificuldade e do Duplo. Ele tinha plena consciência de se ter assim mantido no limite da possibilidade teatral. vou dizer uma coisa que vai talvez dei- sar a sua origem. e o verdadeiro teatro nasce. existe. o da matéria e da idéia | submetida à repetição do assassínio. si. mo tempo múltipla e única. .prjb. A reconduzimo-lo à não-diferença e à presença plena. A. Inicia-se no seu próprio comen- todo o drama. como aliás a •j pai. um centro constitutivo e um lugar estruturante. quis apagar ele ma essencial. e é feito à salvar a pureza de uma presença sem diferença interior imagem de algo mais sutil do que a própria Criação. .«> roc. esse drama essencial que conteria. sença. sentimo-lo perfeitamente. / e eu"? poesia." falar da morte como de um horizonte e do nascimento Vemo-lo logo a seguir: n ã o consegue resignar-se ao como de uma abertura passada. No que se apaga e confirma a lei transgredida. ção. aquele que estava na base de todos os ! próprio o palco. Ao que parece. de hoje a partir da abertura da sua história e no hori- Sou inimigo zonte da sua morte. a véspera e o limite. Dezembro de to também pela repetição. / meu nem drama. já sempre a ser iniciada. perspectivas infinitas de tição. não ver mais o que se passa numa Grandes Mistérios. sou meu filho. tário. E este drama essen. começou já (12) Querendo reintroduzir uma certa pureza no conceito dc diferença. a repetição furta o centro e o lugar. pios. ou melhor. . . Analisar filosoficamente semelhante drama é impossível e só poeticamente. 60-1-2). de uma maneira ao mes. "O teatro é um extravasamento passional. também a impossibilidade do teatro. de ter querido simul- O teatro primitivo e a crueldade começam portan. para ser presença e. Sob esta face do limite e na medida em que quis cial. sempre a representar-se. isto é. como diferencia na economia finita do mesnio. Para isso basta que haja um signo. o que paradoxalmente vem a dar que é preciso conceber como o resultado de uma Von. conflitos. É preciso crer que o dra. 174 175 . O muito pesado de conseqüências para toda tentativa que se opõe a umantj-hegelianismo indicativo. tro como não-repetição: sibilidade e a impossibilidade do teatro puro. minha mãe. presidem. cheio de descargas. o assas. a idéia dó impossível. o bastante para conter de modo substancial e ati. e acompanha-se com a sua própria representa- não o bastante para perderem o seú caráter de princí. de uma anarquia que se o r g a n i z a . não consegue renunciar ao tea- Artaud manteve-se muito perto db limite: a pos. se não nos ajuda a regular a prática teatral. pensar o teatro xar muitas pessoas estupefatas. taneamente produzir e destruir a cena. senão pensando a diferença fora da determinação do ser como presença. " ( I V . não é acidental. fora da alternativa da presença e da ausência e dc tudo a que elas tória da representação e o espaço da tragédia. isto é. isto é. teatro como repetição. permite-nos talvez pen. . a exteriorização de uma espécie dc perto possível da sua origem mas de uma . Este movimento c própria afirmação tem de iniciar-se repetindo-se. uma repe- vo. A energia do teatro ocidental deixa-se deste modo rodear na sua possibilidade. que do teatro. não escapamos a isso que quer dizer que o assassínio do pai que abre a his. de uma diferença pura) Artaud desejou tade una — e sem conflito. Mas a idéia de um teatro 1946: sem representação. presença a. "E agora. esposa o segundo tempo da Criação. assassínio não tem fim e repete-se indefinidamente. Antonin Artaud. e sem repetição (ou. no mesmo. que é para toda a história do Ocidente Sempre o fui. p.encontraremos de um lado e metahsicamente a materia. mas por outras vias. os princípios essenciais dc Começa por se repetir. pensando a diferença como impureza de origem. sínio do pai que Artaud quer em suma repetir o mais Iização.

Mas presentação em que ela se furta na sua diferencia. o seu espaço de fogo. p. tal é o limite mortal de uma crueldade que começa pela sua própria representação. 13 Pensar o fechamento da representação é portanto (13) Ainda Nietzsche. Nada de mais ímpio do que o sistema dos balineses que consiste. O fechamento é o limite circular no interior do qual a repetição da dife- rença se repete indefinidamente. inocentemente — e presença de nascer para si. a experiência do artista na medida em que se ergue acima da obra e ao mesmo tempo se mantém tundo. 367-7). Isto é. a representação não tem portanto fim. por exem.. Pen- a partir do momento que constrói. liga e informa. não deus" (Fragmentations). Hanser. Este movimento é o movimento do mundo como jogo. só ele recebe do artista e da ereção da obra de arte não como representação do destino mas como destino a experiência da polêmica da pluralidade na medida em que ela pods da representação. do conflito da harmonia na medida em que devem acasalar-se Eis por que no seu fechamento é fatal que a re- para a produção da obra de arte" (La Philosophie à 1'époque de Ut tragédie greeque. Este jogo é a crueldade como. "E para o absoluto a própria vida é um jogo" ( I V . de usufruir de si pela re- este jogo é o jogo do Aoft consigo. pensar o poder cruel da morte e do jogo que permite à plo. Só o homem estético'tem este olhar sobre o mundo." O teatro como repetição daquilo que não se repe- te. contemplando-a e operando nela. regúlando-se por sar o fechamento da representação é pensar o trágico: uma lei e uma ordenação interior. outra". YVerke. a experiência da necessidade e do jogo. Porque ela sempre já começou. Conhecemos esses textos.' A criança joga fora por vezes o brinquedo: mas depressa torna a pegá-lo por um capricho inocente. o teatro como repetição originária da diferença no conflito das forças.. Esta transferência não se pode reproduzir duas vezes. e aquilo que é bem é um esforço e já uma crueldade acrescentada à. 282).. ata. presentação continue. uma terrível transferência de forças do corpo ao corpo. III. em recorrer a um sistema de enfeitiçamentos particulares a fim de privar a fotografia astral dos gestos obtidos. nela. depois de ter uma vez produzido esta transferência. A sua necessidade gratuita e sem contudo trazer em si a lei e o direito. unidade da necesidade e do acaso. em que "o mal é a lei permanente. em vez de procurarem uma outra. como a criança e o artista. constrói e destrói. p. M a s pode-se pensar o fecha- mento daquilo que n ã o tem fim. na trilha de Herácüto: " E deste modo. o fogo eternamente vivo brinca. Este jogo da vida é artista. 776 777 . É o acaso que é_ infinito. Assim.

em que ponto se encontravam quanto aos seus conceitos e à sua sintaxe? À primeira parte da c o n f e r ê n c i a abordava a maior ge- neralidade desta q u e s t ã o . Green). Indicamos brevemente pelo seu título as principais etapas desta primeira parte. 1. especialmente em Da gramatologia {Critique. 223/4). a d e s c o n s t r u ç ã o do logocen- tnsmo n ã o é uma psicanálise da. Os conceitos centrais eram os de presença e arquitraço. filosofia. Apesar das aparências. 779 . Estas p r o p o s i ç õ e s — que p e r m a n e c e r ã o aqui presentes.I FREUD E A CENA D Este texto é um fragmento de uma conferência pronun- ciada no Instituto de Psicanálise ( S e m i n á r i o <Jo Dr. na retaguarda — tinham o seu lugar no campo de uma inter- r o g a ç ã o psicanalíttca? Perante um ta! campo. Tratava-se e n t ã o de iniciar um debate em torno de certas p r o p o s i ç õ e s afirmadas em ensaios anteriores.

sem e x c e ç ã o alguma. G. como bem diz Freud. Esta utilizar os conceitos freudianos a n ã o ser entre aspas: eles rasura. O logo. história como diferencia. etc). p. a partir do conceito freudiano de recalque. ao sistema de repressão logocêntrica que se orga. como matéria servil ou excremento. o q gota nesta inserção. II. nizou para excluir ou abaixar. n ã o foge nem o seu trabalho. Aqui. da censura Diferencia e identidade. de Descartes a Hegel: a repetição originária. e as contra- dições sistemáticas na exclusão onto-teológica do traço. por fora e embaixo. a repressão logocêntrica n ã o é inteligível de Freud. é este não. p. e o "nominalismo" com que Freud maneja aquilo que chama cial à palavra — foi contido fora da palavra. que o discurso freudiano — a sua sintaxe ou. significa a r e l a ç ã o pertencem todos. pressão histórica da escritura. a presença para si pensada na o d o m í n i o da ausência como palavra e como escritura. (ver De Ia graminatologie. não é apenas nem em primeiro lugar uma d i s t i n ç ã o . A diferencia. mas a possibilidade originária. O recalque. desvio. Das cumplicidades metafísicas da psicaná- subtrai ao nosso estudo" (G. se quisermos. O fonologismo A forma sintomática do regresso do recalcado: a metáfo- lingüístico. individual e ori- 181 180 . na forma européia (ver Jenseits.o n t o l ó g i c a diano de representação verbal como pré-consciência. mesmo. Recalque n ã o conseguido: em vias de desconstituição Mas o sentido histórico e teórico destas precauções jamais foi histórica. Necessidade de subtrair o conceito fie t r a ç o e de diferencia em todas as o p o s i ç õ e s conceituais clássicas. X. Os conceitos de a r q u i t r a ç o escritura na palavra. matologie. recalque e n ã o exclusão. mas sim um entre o "prazer" e a "realidade" ou derivar dela. heideggerianos. '"O recalque infeliz terá mais Necessidade de um imenso trabalho de d e s c o n s t r u ç ã o razão para suscitar o nosso interesse. XIII. O Necessidade de uma q u e s t ã o explícita sobre o sentido da recalque da escritura como aquilo que a m e a ç a a presença presença em geral: c o m p a r a ç ã o entre o caminho de Heideg- e o d o m í n i o da ausência. lise e das ciências denominadas humanas (os conceitos de presença. ger e o de Freud. distinção entre o homem e o animal e mesmo entre vivo e uma exterioridade. à história.v i v o ) . É esta desconstituição que nos interessa. — n ã o se confunde com estes conceitos neces- exclui uma força exterior. c o n t é m uma representação inferior. de realidade.W. 52). do projeto metafísico ou o n t o . precipitado a história n ã o passa de um exemplo. mundialmente senhora da dissimulação. da verdade Por que razão n ã o se trata de seguir nem Jung nem o como unidade do logos e da phonc.t e o l ó g i c o a manifestação privi- legiada. traço seriam ainda a m e a ç a d o s pela metafísica e pelo posi- tivismo? Da cumplicidade destas duas ameaças no discurso Por exemplo. É certo Recalque e n ã o esquecimento. A o p o s i ç ã o consciente / inconsciente. de percepção. geriano. conceito freudiano de traço m n é s i c o hereditário. entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. p. A diferencia na economia do em geral do texto em geral. pré-abertura da diferença ô n t i c o . A l u c i n a ç ã o como palavra e alucinação e de diferencia: por que r a z ã o n ã o s ã o nem freudianos nem como escritura. D i s t i n ç ã o entre presença como consciência. isto se teria acidentalmente.W. -triunfo que confere ao seu devir uma certa legibilidade e no limite a opacidade histórica. e a sua nervura central. A d i f e r e n ç a movimento e uma estrutura necessários e necessariamente fi. da diferencia (Aufschub) e da economia da morte que encontra na filosofia como episteme. A é p o c a da presença. história da diferencia. mantendo a legibilidade da arqui. patologicamente. no sentido heideg- O enigma da presença "pura e simples" como duplicação. ra da escritura que percorre o discurso europeu.. diz Freud. na vida. tal como podem.. ou melhor do mundo. por nitos: história da possibilidade simbólica em geral (antes da exemplo. A relação entre phone e consciência. de inclusão pensada na história da metafísica (D" I" gram- sica. como metáfora didática e técnica. refletido por Freud. Tentativa de justificação de uma reticência teórica em' sidade do conceito de a r q u i t r a ç o e a rasura da arqui. O conceito freu. Neces- 2. do n ã o . organizar-se em torno da d i f e r e n ç a da filosofia do Ocidente. Este recalque constitui a origem da filosofia como episteme. É certo que n ã o se es- desenhando dentro de si um e s p a ç o de repressão. sariamente metafísicos e tradicionais. da metafí. 6). E um pensamento da diferença prende-se menos aos conceitos do que ao discurso. auto-afeção. as c o n v e n ç õ e s e as h i p ó t e s e s conceituais. isto é. 1029) e de todas as d i f e r e n ç a s -fonocentrismo n ã o é um erro f i l o s ó f i c o ou histórico no qual que sulcam a conceitualidade freudiana. desde Platão. p. do que aquele destes conceitos e das frases metafísicas que aí se condensam que conhece algum sucesso e que a maior parte das vezes se e se sedimentam. diferencia. n ã o repele. S ã o já testemunhos disso as p r e c a u ç õ e s u e representa uma força no caso da escritura — interior e essen. ginal se torna possível no horizonte de uma cultura e de uma Essas aparências: análise de um recalque e de uma re¬ inserção histórica. 256). Em que é que os conceitos freudianos de escritura e de o corpo do traço escrito.

em algum lugar entre querido natural e cuja escritura é perfeitamente ausente. se manejar metáforas é fazer alusão (1925). 1895). por exemplo aquele cuja descrição é cêntrico. Deixemo-nos guiar na nossa leitura por este inves- Permanece aberta a questão de saber em q U e timento metafórico. Ao mesmo tempo. no li. Que questões estas represen- miar de uma reflexão organizada. exterior ou posterior à pa. torna pelo contrário a uma metafórica do traço escrito. a imitação projetada e liberada tica. o sentido do traço A exploração e a diferença em geral e depois. a escritura e o espaçamento para que uma tal lavra. o implícito e o explícito. Se esta metafórica é indispensável. é uma boa metá- mas o movimento das "ciências humanas". da percepção e modelo estrutural da escritura ao qual Freud faz apelo da memória. aquilo que da psica. per um texto de essência irredutrvelmente gráfica. Qual deve ser enfim a relação entre o psí- grafia que nunca está sujeita. todo do aparelho psíquico. É certo que Freud não Do Esquisse (1895) à Note sur le bloc magique maneja metáforas. não apenas nem em uma palavra viva e plena. máquina de escrita de uma sobre a metaforicidade. e o que significa. de aperfeiçoar a sua originalidade. das formas quina nem texto sem origem psíquica. traços funcionando segundo um modelo que Freud teria critura. A estrutura do aparelho psíquico será representada por A nossa ambição é muito limitada: reconhecer no texto de Freud alguns pontos de apoio e isolar. tal qual limita não só a história da filosofia feita pela Note sur le bloc magique. é porque ilumina. a saber da escritura. representado por um texto? Pois se não há nem m á - ricos que não são tirados da língua falada. uma máquina de escrita. de uma certa lingüística. bleibt dahin- íiestellt. recorre a modelos metafó. primeiro lugar no interior de um discurso teórico mas A bem dizer. mas de uma sem texto. na qual será projetado o geral. numa máquina. Todos os modelos liar. Freud recorre a sinais que não vêm transcrever passagem metafórica seja possível. o sentido da escritura no sentido corrente. O conteúdo do psíquico será representado chologie scientifique. Estará aí representada a so- lução de todas as dificuldades anteriores. Pela insistên. e a Note. não há psíquico verbais. e isto será o nosso problema. em especial fora para representar o funcionamento do psiquismo. Se a abertura freudiana tem mas que aparelho é preciso criar para representar a es- uma originalidade histórica. nem mesmo da escrita fonética. O gesto esboçado por Freud mecânicos serão experimentados e abandonados até à destrói essa segurança e abre um novo tipo de questão descoberta do Wunderblock. si- 182 183 . talvez de ricochete. presente a si e senhora de si. articulando-se com ele. do psíquico. não julga expediente manejar metáforas escriturais' para fins didáticos. De um sistema de enigmático o que se julga conhecer pelo nome de es. de algo como a escritura psíquica. (Esquisse d'une ps\. tações nos imporão? N ã o devemos perguntar se um apa- nálise se deixa dificilmente conter no fechamento logo. não a tira da coexistência critura psíquica. Mas jamais se deixou de aí tranqüilizar logo depois do Esquisse não cessa de se diferenciar e uma confiança no sentido do termo conhecido e fami. e quanto ao psiquismo. ploração é elaborada para se conformar cada vez mais cia do seu investimento metafórico. Talvez se produza aqui. Desde Platão e Aristóteles não se não podemos representar senão pela estrutura e pelo tem deixado de ilustrar por meio de imagens gráficas funcionamento de uma escritura. o as relações da razão e da experiência. pelo menos no seu fonologismo congenital. quico. Acabará por invadir a totalidade consiste aüás a exploração. nos momentos o que é um texto e que deve ser o psíquico para ser decisivos do seu itinerário. um movimento desconhecido orientamo-nos para uma configuração de traços que já da filosofia clássica. estranha progressão: uma problemática da ex- ao desconhecido partindo do conhecido. Worin dic Bahnung sonsl besteht. do texto e da técnica? não se serve simplesmente da escritura não-fonética. relho de escrita. quanto ao aparelho pacífica ou da cumplicidade teórica com essa lingüís. Freud então na história'do psiquismo. a escritura e o espaçamento em maravilhosa complexidade. N ã o se o psiquismo é realmente uma espécie de texto mas: Ora não é por acaso que Freud.

terminados de partículas materiais distintas". A memória tilo das ciências naturais.nal de uma admirável tenacidade. trinta anos mais tarde.de contatQ„'l. responderá muito conservariam assim o seu traço impresso. corrente na sua época. como pelo menos parece. A igualdade das resistências à cação. outros neurônios (4>) ]í quisse. da plorações. "Os a "preferência da via" (Wegbevorzugung): "A memó- neurônios. Resistência cimentos psíquicos como estados quantitativamente de- . primeira Freud. da permanência A memória seria paralisada. o que torna o aparelho quase inimaginável.devem portanto ser impressionados mas ria é representada (dargestellt) pelas diferenças de ex- também inalterados. de "propor uma psicologia . (A Darzstelhmg é a represe» (Não podemos de momento conceber um aparelho ca. da abertura do caminho 4 exploração pura que sempre se poderia recuperar como (Bahn). de representar os aconte- outras. tal é a verdadeira origem da memória e por- incisão dos sulcos e da nudez sempre intacta da super- tanto do psiquismo. e da "exploração". é necessário precisar que não há exploração Freud córistroi então a hipótese de "grades . Ora. taçao. j dizer que a exploração sem a diferença não basta à entre "células de percepção" e "células de recordações". A cruz de uma semelhante expli- \ tra-se aí intolerante. | memória. e por isso mesmo abertura à efração do traço. O traço como memória não é uma . O que supõe uma certa t opacidade da força. julgava "de momento inimaginável" encenação da memória. A repetição n ã o acrescenta nenhuma quanti- oporiam grades de contato à quantidade de excitaçao e | dade de força presente. a qualidade psíquica a estes últimos neurônios. desde que "| entre as explorações. é a própria essência do psiquismo. su- mória. no sentido fraco desta palavra mas também mui- paz de realizar uma operação tão complicada") e que tas vezes no sentido da figuração visual. "uma \ Ora. A diferença entre as ex- do traço e da virgindade da substância e recepção. no Esquisse. é exploração ou a equivalência das forças de exploração que precisa dar conta ao mesmo tempo. reedita a 184 185 .(Bahnung)." Recusando a distinção. O Wunderblock. mas a diferença no trabalho das violência e uma certa resistência perante a efração. e por vezes tinha então substituído por uma fábula neurológica cujo da representação teatral. de certo conforme a inflexão do contexto). se. de uma maneira muito geral. quebrada. ha- veria duas espécies de neurônios: os neurônios per. isto é..'-oferecem precisamente às questões do Esquisse. explorada. como o reduziria toda a preferência na escolha dos itinerários. A via está aberta. Sabemos portanto já que a vida a consideremos como um modelo metafórico e não como j psíquica não é nem a transparência do sentido nem a uma descrição neurológica. E "toda a teoria | (estando esta reservada à transparência pura de uma psicológica digna de atenção deve propor uma explica- percepção sem m e m ó r i a ) . \ deixa em seguida de ser confirmado no próprio Es- riam os neurônios da percepção. A nossa tradução variará esquema e cuja intenção jamais abandonará. Ora. Primeira representação. portanto uma possibilidade de se representar (darzu- em cada uma das suas peças. n ã o oferecendo nenhuma resistência e i| diferenças mais do que pelas plenitudes é algo que não não retendo portanto nenhum traço das impressões. nenhuma intensidade. Nietzsche dizia-o bem.• não é portanto uma propriedade do psiquismo entre como ciência natural. Í forças. fracta. realizará q aparelho que stellen) a memória". | pura sem diferença. o conceito de exploração mos- ção da "memória". que pretende instalar- para ser alterado de um modo duradouro por aconteci- 1 -se na oposição simples da quantidade e da qualidade mentos que só se produzem uma vez". fará a Note. a aptidão i pondo. esta hipótese é notável. é a diferença indiscernível e invisível das rupturas futuras. Seja o que for que pensemos da fidelidade ou j presença simples. n ã o prevenidos (unvoreingeno- plorações entre os neurônios d / \ Não se deve portanto mmen). Freud só concede modo. e portanto provavelmente Em 1895 tratava-se de explicar a memória no es- dos acontecimentos psíquicos em geral". I Que a quantidade se torne ipuxri e U-vrju-T) pelas meáveis (<p). São os "carregadores da memória. Unicamente esta diferença libera fície receptiva ou perceptiva: aqui os neurônios. isto é. supondo que Freud não queira aqui falar se- das propriedades principais do tecido nervoso é a me- i não a linguagem da quantidade plena e presente.

samos aqui no esforço originário do sistema de n e u r ô - nios. a força (Macfit) sempre atuante está. é porque lhe é sem dúvida análoga mas também cada vez mais perto do problema da filogênese e das diferente: a quantidade "pode ser substituída pela quan. prazer à realidade (Jenseiís. este fragmento do Nachlass: "O nosso "conhecer" limita-se ao estabelecimento de "quantidades". entre muitos ou para reduzi-la tanto quanto possível. pela efração que não pode conter senão repetindo-a. se a exploração pode fornecer a passagem única (einmaliger) de uma grande quan- quantidade presentemente atuante ou acrescentar-se a tidade". Pressionado cutros. Este- (Vorrat). Apesar do enigma da "primeira vez" e da repetição De acordo com um motivo que não deixará de governar originária (antes. pela diferencia. Para este fim. estes deviam ser impermeáveis. a propósito dps conceitos cações para poupar a sobrecarga de quantidade (Orj) de diferença. que se chama neurônicos psíquicos. constituindo uma reserva função primária e proíba toda a derivação dela. pela reserva? Pois a repetição não so. sentimos também as relações-de-quantidade como quali- dades reportando-as à existência que tornam possível para nós" (Werke. de toda distinção a o pensamento de Freud. impor-se-ia urna confron- tação sistemática entre Nietzsche e Freud. de quantidade e de qualidade. no Esquisse. mais do que em outros lugares. n ã o tições do idêntico. mesmo que ela só feridos com a ajuda da exploração ou da repetição. Freud as quantidades plenas. pen- pela repetição. se tornassem dez vezes mais perfeitos ou mais grosseiros. explorações hereditárias. investido pela quantidade ( Q n ) . Não nos na primeira vez do contato entre duas forças. p. depende de um fator. a sua possibilidade já ali "A memória. pois pode "fazer fracassar" "a organização" psíquica. origem amea- çadora do psiquismo. numa certa 186 187 . A qualidade t uma verdade perspectiva para nós. escapa ao domínio de ! atrás de si explorações particularmente ricas". nem a própria exploração se deixam { há exploração sem um começo de dor e "a dor deixa pensar na oposição da quantidade e da qualidade. consciência presente e percepção translúcida das qua. É lidades presentes. 861). na resistência pela primeira vez oferecida pelos de uma experiência. jamos atentos a esta não-derivação. Só existem repetições discretas e rece contraditório com o que Freud dirá mais adiante só agem como tal pelo diastema que as mantém afas. dem ser reinterpretadas como momentos da diferença. nem a diferença entre porque a exploração fratura que. \ para além de uma certa quantidade. Mas um "naturalismo" tal com de uma "fenomenologia". esforço perseverante através de todas as modifi- (1) Aqui.mesma impressão: tem contudo poder de exploração brevém à primeira impressão. O número de repetições acrescenta-se portanto à quantidade (Qin) da excitação nariamente. Evita então ser pre- 111. não "em si" . bem entendido. o sistema neurônico foi obrigado sentir estas diferenças de quantidade como qualidades. O que aqui afirmamos não nos pa- mente heterogêneas. A 1 memória não pode derivar dela. torna enigmática. De certo modo. A própria resistência só é pos- a quantidade da impressão. aumentar em seguida. a exploração é provavelmente o resultado da tadas. A vida já está ameaçada pela origem da como qualidade: transformaríamos a força mnésica em memória que a constitui e pela exploração à qual resiste. "Como que a contragosto. afundar-nos. enchido. a dor. esforço da vida protegendo-se a si própria diferindo o é importante que Freud atribua todo este trabalho à investimento perigoso. este movimento é descrito como repetição dita normal e a repetição dita patológica). pode ainda defender-se que tidade mais a exploração que dela resulta". a repeti- apressemos a determinar esse outro da quantidade pura ção começou. . já citado)? N ã o é já a e mesmo que esta dificuldade jamais deva deixar de morte ao princípio de uma vida que só pode defender-se contra a morte pela economia da morte. Supondo que esta afirmação não conduza ela. como a morte. O gasto ou a presença ameaçadores são di. . . Ver por exemplo. mas não podemos impedir-nos de pela urgência da vida. e da freqüência de repe- sível se a oposição de forças durar ou se repetir origi- tição da mesma impressão". É a própria idéia de primeira vez que sc e estas duas quantidades s ã o de duas ordens absoluta. Todas estas diferenças na produção do traço po. isto é. Finalmente. nem o interstício entre as repe- : reconhece um privilégio à dor. torne mais densa a dificuldade do conceito de "prima- Não é já o desvio (Aufschub) instaurando a relação do riedade" e de intemporalidade do processo primário. . isto é. Deste modo. teve de multiplicar os seus neurônios e -íamos: isto é. Se os nossos sentidos a arranjar para si uma reserva de quantidade ( Q r j ) . " . deve ser diferida.

Pela palavra atraso. substância ou sujeito. Sem 2 permanecendo capaz de receber". isto é. Dife. sem o que derivaríamos a o exterior das ciências naturais. Notemo-lo dc passagem: os formulação: não há vida primeiro presente que viria conceitos de Nachtraglichkeit e de Verspátung. com o da tradição oral com o para além do princípio de prazer. no Esquisse. a ex- já não ficaremos surpreendidos com a Traumdeutung ploração seja denominada escritura. Esta constitui a essência da vida. familiar e constituído. Em Moise et le monothéisme além do princípio de prazer são originários e congeni. É o índex de uma descri- de uma origem presente. Ê a não-origem que Eis por que sob o título de "ponto de vista biológico". é originária. as exigências con- que o define como uma "ficção teórica" num parágrafo traditórias às quais responderá o Bloc magique estão sobre o "retardamento" (Verspãlung) do processo se. a "diferença de essência" (Wesensverschiedenheit) en- tre os neurônios é "substituída por uma diferença de (2) Estes conceitos de. conceitos em seguida a proteger-se. O problema da latência comunica aí. é preciso de localização. suspender uma percepção já e agora lugar. A que é preciso portanto conceber de outro modo dife. e para as quais a relativi- que devia (teria devido) produzir-se num presente A ("anterior"). p. dupla necessidade: reconhecer a diferencia na origem e ao mesmo tempo riscar o conceito de primariedade: Embora em nenhum momento. Mas é preciso ter cuidado com esta escatológico. é talvez preciso portanto que as explorações servem a junção primária" portanto repensar o conceito do "diferir". já formuladas em termos literalmente idênticos: "reter cundário. 0 a diferencia fora de todo o horizonte teleológico ou traço. Freud põe em jogo esta descober- preciso pensar a vida como traço antes de determinar ta até nas suas conseqüências últimas e para lá da o ser como presença. Quando Freud dade cobre amplos intervalos históricos (G. de conexão. desde que ele se organize de uma certa maneira. Vemos Em vez de renunciarmos a ele. o que a diferencia seria o adiamento que se concede As diferenças no trabalho de exploração não dizem uma consciência. Melhor: terminativos de todos os outros conceitos. O próprio absurdo assim que se assinala nos termos da. a história da dizer que a vida é a morte. Faz jus a uma e da tradição escrita (p. diferencia de uma origem plena. £ descoberta de Freud. adiar um ato. a reservar-se na diretores de todo o pensamento freudiano. (1937). a diferencia. pelo menos quanto à mor- Dizer que é originária é ao mesmo tempo apagar o mito fologia.W. instituindo as explorações. que a repetição e o para cultura deve confirmá-la.. nenhuma base reconhecida. a pensar o para diferenças puras. ção tópica que o espaço externo. conceitos de- diferencia. N ã o é fácil. Ê portanto o atraso que é originário. É o que gos- taríamos de fazer. estão já pre- não sendo a diferencia uma essência. X V I . Na sua opinião. 188 • 189 . só acontece num presente B o do que os termos de suporte. não sendo nada. É a única condição para poder psicanálise do indivíduo. sentes e são chamados pelo seu nome no Esquisse. 170-171. A não é a vida se o ser for determinado como ousia. portanto significar atrasar um possível pre. p. essência/existência. a eficácia do retardamento e da extemporanei- tais àquilo mesmo que transgridem. E por isso que se deve enten. aliás ção primária". É o primeiro a n ã o acreditar no caráter descri- possíveis. diferencia e de atraso originários são impen- sáveis sob a autoridade da lógica da identidade ou mesmo sob o meio de destinação" (Schicksals-Milieuverschiedenheit): conceito de tempo.medida pelo menos. O nos a partir de uma leitura de Husserl (Intraduction à Voriglne ile h pensamento da diferença não pode dispensar-se de uma geométrie (1962). Freud quer já pensar ao mesmo tempo a força e o sente. respeito apenas a forças mas t a m b é m a lugares. a adiar-se. Este possível só é possível pela diferencia tivo desta representação hipotética da exploração. à histologia". impede-nos já de ficarmos surpreendidos de maneira muito significativa. uma presença a si do presente. além desta lógica e deste conceito. irredutibilidade do "arretardamento" é sem dúvida a presença. 170 e seguintes). é preciso evitar a representação seguinte. 238-9). diferenças de situação. der "originário" sob rasura. de relações estruturais mais importantes entender outra coisa diferente de uma relação entre dois "presentes". não poderia conter. Os conceitos de "diferença" e de "atraso" originários tinham-se imposto a dade do exterior e do interior é sempre arbitrai. escreve no Esquisse que "as explorações servem a fun. distinção entre as categorias de neurônios "não tem rente de um cálculo ou de uma mecânica da decisão. E rir não pode. e o que só é possível determinando É certo que a vida se protege pela repetição.

não será para abandonar mento: da periodicidade. lidades. para ser mais rigoroso. do aparelho" por diferenças e situações puras. da memória. grafia é original e nada deve deixar fora de si que Desta última audácia nasce uma "dificuldade apa-' Freud multiplica na montagem do aparelho os "atos rentemente inconcebível": acabamos de encontrar uma de coragem". descontinuidade são registrados." tica (riiiM-lhaft). "deve-se encontrar a coragem de supor representativo de uma montagem artificial.tópica nem aceitar as representações correntes "do espa." este descontinuísmo será fielmente retomado pela Note Nem fora nem dentro. "apropriados" sem o mente diferenças puras: "A consciência dá-nos o que seu suporte quantitativo.-96) que intercala. isto é. mas não há propria. apropriam-se do período sações que são de modo diferente (anders) e cujo modo de excitaçao". ainda. senão como transferência de uma quantidade (Orj) de lidade. que "faz 4» pela complicação e a qualidade pela tópica". meditar nas sua* implicações. o projeto que há um terceiro sistema de neurônios.-I. a mesmo esta ignorância". Anunciando certa folha intercalar do blo. às localizações anatômicas. excitado com por uma topografia dos traços. neurônios dc obstinado de dar conta do psiquismo pelo espaçamento. última ponta exterior em que o físico só conhece quantidades. projeto de situar a consciência ou a quali- a reprodução e os seus estados de excitaçao forneceriam dade num espaço cuja estrutura e possibilidade é pre- as diferentes qualidades. Entrará então em cena a escritura. Pois "os neurônios t|j têm mente nenhuma quantidade. isto é. "mas. mas este é sem qualidade ou. tópica. para Freud. e diferença entre diferente (Anders) se diferencia (unterschieden wird) os diastemas. e de descrever "o funcionamento conscientes". Podemos perguntar-nos também o seu período. Como veremos. de ex- co mágico. Nele reencontramos sempre. não o seria mais durante plorações. tàtslos). Como não se trata de renunciar à represen. rente. há séries. diz plicar como "a quantidade de excitaçao se exprime em a Fliess (carta 39. Diferença pura. semelhanças. neurônios-c/Wt?). Ora as qualidades são real. as "hipóteses estranhas mas indispensá- permeabilidade e uma exploração que não procedem dc veis" (a propósito dos neurônios "segregadores" ou nenhuma quantidade. este sistema. Não pode ser no mundo sur le bloc magique: como no Esquisse. uma natureza temporal. como nascem estas qualidades e onde nascem estas qua. De que então? Do tempo puro. ao princípio da diferença. que a natureza deste sistema de diferenças e desta topo- tre os neurônios çp e <\>. nossa "consciência". da consciência. ter. embaraçado pelo seu "jargão". alguma maneira perceptivos. pois a "reprodução e lidade deste apelo incessante e cada vez mais radical a recordação" são "desprovidas de qualidade" (quali. sas em movimento e nada mais". mite resolver a dificuldade e dever-se-ia pacientemente çamento. [a teoria] deve explicar-nos período. etc. seriam as sensações ciso portanto repensar. Nem na interioridade A continuação do Esquisse dependerá na sua tota- do psíquico. É preciso um neurônio a outro. graças à. se a hipótese descontinuísta que esta consciência não conhece nada do que até aqui vai mais longe do que "a explicação fisicalista" pelo tomamos em consideração. com tudo o que ela dirige. isto é. fi por- deslizar" (schieben)os neurônios de percepção (w) en. desempenhando o papel tação. "Só vejo uma saída Esta dificuldade aumenta ainda quando é preciso até aqui não tinha considerado o fluir da quantidade explicar as diferenças puras por excelência: as da qua. " i n - se chama qualidades. sob uma neurologia indicativa. da audácia desenlaçando uma última aporia. de maneira enigmá. I. E'"dado Freud acentua que. os intervalos. Só o recurso à temporalidade mas para transformar as suas preocupações topográfi- cas. é porque aqui as diferenças. Os neurônios perceptivos. monótono". Freud. O t r a ç o tor- e a uma temporalidade descontínua ou periódica per- 190 191 . capazes de receber quantidades. e condiciona a oposição da quantidade e da qualidade. O conceito de período em geral precede por referências ao mundo exterior Neste modo dife. por um mapa das ex- os outros durante a percepção. Mas deve haver um outro cará- explicar "aquilo que conhecemos. uma grande diversidade de sen. E quando renunciar à neurologia e da temporalização pura naquilo que a une ao espaça.

meça a tornar-se escritura. esta consciência todo o sistema do Esquisse é reconstituído numa con. completamente incapaz de ter acesso à consciên- máquina e que em breve andaria sozinha. a-ló- ção (Umschrift)." uma leitura e uma decifração." Em breve: 3 cia. É Aproximadamente um ano mais tarde. constituída por associação s i m u l t â n e a . . a uma transcri. No centro dessa carta. j Não de escritura simplesmente transcritiva. Não faço a menor idéia de qual seja o número de tais inscrições (Niederschriflen). ] como caminho de regresso numa paisagem de escritura. está possivelmente ligada à revivescência aluci- de surpreender que isto coincida com a passagem do natória de representações verbais. São os neurônios nos quais nascem as per- Fliess. todos cepções. . Na carta 52 (6-12-96). ou à é portanto a afirmação que a memória não está presente pré-consciência. muito longe de dominar: "Sabes que trabalho na hipó- tese de que o nosso mecanismo psíquico se constituiu "Os sonhos seguem em geral explorações antigas". Não só é aí explicitamente critura vai apoderar-se ao mesmo tempo do problema definida a comunicação do traço e do retardamento (is- . as peças ajustavam-se umas nas outras. expressão fundadora da filoso- (3) Carla 32 (20-10-95). A solidariedade dos dois reconstituído a partir dos "signos" da memória). lavras "signo" (Zeichen). as duas regras biológicas da atenção e da defesa. Pelo menos três. | ries de metáforas — texto e máquina — não entram terior de um sistema de escritura estratificada que está j em cena ao mesmo tempo. ocorrendo com retardamento no ceptualidade gráfica ainda inédita em Freud. tinha¬ Sinal de percepção.. A máauina: "Os três sistemas de neurônios. goso de uma verbaíidade ensurdecida. eco pedre- nung). a metáfora da es- transcrição (Umschrift). resta de escritura. conservam em si mesmos nenhum traço do aconteci- Ainda não é uma máquina de escrever: "Tudo parecia mento. nar-se-á o grama. o traço co. já não contenho a minha alegria. fia da presença. do aparelho psíquico na sua estrutura e do problema do to é. a uma primeira aproximação. tudo isso se ligava e se liga ainda hoje! Naturalmente. aos quais se liga a consciência. (A lógica obedece à consciência. Pré-consciente.. . por uma sobreposição de estratos (Aufeinanderschich. não-lingüística. originapamente \ texto psíquico na sua textura. . . É a segunda inscrição. Será portanto preciso interpretar do- tung). dizia o Esquisse. ligada às representações verbais. a condição sexual do recalque. mas i problemas tornar-nos-á tanto mais atentos: as duas sé- também a situação do verbal está aí assinalada no in.. •. Por que não esperei sonhos será sem dúvida. mas se repete. pensante secundária. . Incons- dentro de trinta anos. de um presente não constituinte. que ela é con- princípio de identidade.) Deslocando-se o sonho numa flo- de quatidade. Não é tempo. ligar-se. Sozinha: quase. Algumas semanas depois do envio do Esquisse a Percepção. o que não significa grande coisa". temporal e formal do sonho presente sob a forma de traços mnésicos (Erinnerungs.. uni espaçi mento numerado. enfim as condições da cons. mas litografia an- terior às palavras: metafonética. inscrição (Niederschrift). Pois a consciência e a memória excluem-se. de acordo com novas relações. signada (niederlegt) em diferentes espécies de sig- n o s . . no decorrer de uma "noite de trabalho". quer dizer que de tempos a tempos o material •j ravante a regressão tópica. . a partir da Traumdeutung (1900). mas que não os elementos do sistema se ordenam numa "máquina". lemos em O compromisso. A novidade essencial da minha teoria gica. É a primeira inscrição das percep- -se a impressão de que a coisa era verdadeiramente uma ções. . e o meio da exploração. a interpretação dos ciência como função perceptiva. de realidade e de pensamento. a Traumdeutung. as pa- É o primeiro gesto em direção à Note. spuren) é submetido a uma reestruturação (Umord. correspondendo ao nosso eu o f i c i a l . ciente. duas semanas para te dirigir a minha comunicação. "Não passava de uma contradição o estado livre ou preso da quantidade. a terceira inscrição. . as inscrições individuais estão separadas (de maneira não necessariamente tópica) de acordo com os seus transportadores neurônicos. A estampa e o suplemento de origem possivelmente m a i s ." neurológico ao psíquico. Antes da análise do 192 193 . o estado do grupo psicos- sexual.. os processos primário e secun- dário. os índices homem dos lobos. ao uma única e simples vez. Doravante. lugar das representações verbais. a tendência capital do sistema nervoso e a sua tendência para o lógica.

X V I I I . Pretenso dom de Deus. graças a uma chave (Schlüssel) fixa. do sonho. O verbal é investido e a sua trans. Como sempre. Condillac e. preocupado. gine du culte des Animaux. onírica correspondiam a condensações e a deslocamen- esse dicionário do sonho que Freud em breve recusará. Trata-se de pode ser traduzida por um significante não verbal que. pouco importa aqui. o cenário e o texto da sua encenação. sobredetermina- Mas por pouco Freud n ã o aceita o "outro método po- Ção). par. um documento hieroglífico. por razões apolo- pular": "Poder-se-ia defini-lo o "método da decifra- geticas. um teólogo inglês. por que no séc. 102). elementos ou letras) contidos no tesouro (epístola) escrita com letras (litterae). Ensina-nos que é preciso traduzir (übersetien) carta O sonho limitar-se-ia a manipular elementos (ai^ytiít. como o Curioso exemplo aquele com que Freud ilustra próprio sonho. E n - esse processo tradicional: um texto de escrita fonética contravam aí. . podendo cada vida. tinha feito dom da escritura do mesmo modo que significação. "a prova da grande antigüidade desta nação". inspirava os sonhos. Retenhamos aqui a ciência é a Traanidentung. tos já operados e registrados no sistema dos hieróglifos. a chave dos sonhos que em é investido e funciona como um elemento discreto. segundo a crença dos egíp- ser analítico e de soletrar um a um os elementos da cios. p. et VOri- cíe Daldis (séc. intenção que merece sem dúvida ser comparada War- opõe a velha tradição popular à psicologia dita cientí. W. pertence à sintaxe geral (e. com assim fazer. por despeito e enterro por noivado. I I ) . autor de A missão divina de Moisés. Deus. I I / I I I . Esta nhecida" (G. a interpretação que o Oneirocrítico dava. Esta obra. Não passava de uma ciência da escritura todo ao qual Freud reconhece pelo menos o mérito de nas mãos dos padres. a transcrição de um discurso verbal. Tomemos o pretexto para lembrar a linguagem e os signos. Sendo o sonho Abramos um Traumbuch. Portanto os intérpretes não ti- nham outra coisa a fazer senão investigar. traduzível e sem privilégio na escritura geral por si só o valor de Traumbuch. A quarta parte da sua obra foi em 1744 traduzida para o francês com o título Essai Freud vai então buscar um exemplo em Artemidoro sur les Hiéroslyplies des Egyptiens. VAntlquité des Sciences en Égypte. numa rede de escrita muda. diferentes estru- funda que anima a primeira. . por um processo "simbólico". inspiraram-se muito nela adotando em especial o seguinte tema: o caráter originariamehte metafórico da linguagem. sendo as relações conteúdo do sonho como uma totalidade indecompo- de analogia ou de parte ao todo) que seria necessário nível e inarticulada à qual bastará substituir uma outra confrontar sistematicamente com as formas de trabalho totalidade inteligível e eventualmente premonitória. na verdade constituído pela história. examinar que fundamento pode ter tido. Marcou toda a reflexão da época sobre ção dos sonhos. um pouco como uma palavra escrita se de" sinais fonéticos. quando. De acordo com um dos seus gestos familiares. deslocamento. originariamen- enquanto afeto determinado. no tesouro trópico ou curiológico. dizia a uma pessoa que o consultava sobre algum dos crição fonética é apreendida. prontinha.sonho dc Irma. os tipos de transposição as chaves dos sonhos. é para justificar a intenção pro. O código hieroglífico tinha ticular. espécie de escrita secreta (Geheimschrijt) na qual ca- escolhe o exemplo de uma ciência egípcia que encontra da signo é traduzido. livro onde estão consignadas construído como uma escrita. Ora Warburton. todos os seus recursos na escrita "hieroglífica. desconhecido de seu intermédio. do sonho (condensação. iria inspirar numa língua escrita: " . oneirocritia. não há dú- turas (hieróglifos próprios ou simbólicos. autor de um tratado de interpreta. Freud mete-se por considerações de F r e u d / já se tinha reportado a Artemidoro com uma método. dc que falaremos noutro lugar. em especial contra o Padre ção" (Chiffriermethode) pois trata o sonho como uma Kircher. com fica. longe do centro. enciclopédia dos signos oníricos. tinha-se tornado Suponhamos por exemplo.. Assim uma carta diz Warburton. ou Von voit VOrigine et le Progrès uu langage et de Vécriture. 194 195 . Rousseau. •eve uma influência considerável. quando da escritura onírica. Escrita fonética como escritura na escritura. razão ou sem ela. diz Freud. que se denomina também alusão ao código permanente: é a fraqueza de um mé. que sonhei com o fundo comum onde mergulhava o discurso onírico: uma carta (Brief / epístola). Os redatores da Encyclopédie. seguida fingiam adivinhar. trata o espécie ser curiológica ou trópica. e depois com um enterro. (4) Warburton. burton descreve o sistema dos hieróglifos e vê nele. Esta perde-se. por um outro signo cuja significação é bem co.

. nem sistema de tradução. A psí. que servisse de fundamento à sua decifração. sempre . pro- a elas. Tal da época? Consultavam a própria escritura: "Ora. que rãs indica. rigidez do código. a apreensão senão os hieróglifos simbólicos. Introduz-se aqui a ruptura freudiana. | a experiência não deixa em seguida de marcar distân- quica. mesmo que jamais se prive dele. Tanto quanto à generalidade e à nem impostores. mesmo mento e diferenças: "O meu processo não é tão cômodo que supuséssemos que foram tão charlatães como os quanto o do método popular de decifração que traduz seus sucessores. "no mundo". X. que uma serpente indicava d o e n ç a . no. na comunicação entre os^ inconscientes. o limite da Chiffriermethode primeiros intérpretes dos sonhos não eram charlatães e do Traumbuch. se originária que a escritura tal como julgamos poder ou. a não ser que um interpretação. 1 está longe de ser anulada — pois entre os pontos de vi-la em seu sentido p r ó p r i o . A ciência s i m b ó l i c a . J cia. pondo as palavras em cena sem se submeter j segue explorações antigas. 358). sou mais levado a pensar que o mesmo deram ser de natureza a agitar de uma maneira tão conteúdo de sonho pode abrigar também um sentido bizarra a imaginação de cada particular. como na escrita chinesa. não os cria na ver- irredutível à palavra e comportando. apesar do seu interesse. sob um outro ponto de tura "primária". Mas nas suas operações. n ã o se deixa ler a partir de nenhum \ vista. calcado que pode ter o seu destino próprio". (A individualidade não é aqui nem em primeiro dual ou coletiva. pelo menos precisaram primeiro de ma. A ausência de qualquer código exaustivo e absolu- de fundamento às suas interpretações. ideogramáticos e foné. " Que faziam então os hermeneutas tasse em usar. e zida preocupação com relações. . para sustentar esta afirmação. É certo que trabalha com uma massa de ele. conhecida. Mas. dade no seu próprio corpo mas produz a sua significân- glifos. tal co. mentos codificados no decorrer de uma história indivi. este limite reside no fato de haver mo os primeiros astrólpgos judiciários. não pede emprestados. em cada caso. tornado uma coisa sagrada e misteriosa? Eis a solução natural da dificuldade. servia . N ã o há | significantes conservando o mesmo significado. j 252). . a fim de apoiar a sua ciência. que anuncia assim o sentido de toda a escritura em geral. que então se tinham correta" (p. Sendo assim não se trata mais de significantes Ü C G S . Aconteceu simplesmente que. A experiência inconsciente. seu j lugar a de um indivíduo mas a de cada "ramo do re- léxico e na sua sintaxe. só que outra analogia e que outra autoridade poderia haver o contexto torna possível.. simples momento na regressão para a escri. antes do sonho que original. . . ] talvez o que Freud entende. j código permanente permita substituir ou transformar os O sonhador inventa a sua própria gramática. que um dragão significava a realeza. de maneira perfeitamente individual" (G. no artigo sobre o Recalque: "O recalque trabalha código. e estes materiais jamais pu. 109). um resíduo puramente idioma. W. de tal modo que. . presente apesar da ausência -deste ou daquele signifi- 196 197 . elementos pictográficos. como os hieró. uma excessiva preocupação com conteúdos. o qual deve carregar todo o peso da j tradução. material significante ou texto prévio que ele se comen- vam i m p o s t o r e s .seguintes sonhos. Aqueles que diferente em pessoas diferentes e num contexto dife- os consultavam terão querido encontrar uma analogia rente" (p. Freud julga poder recorrer à escrita chinesa: "Estes e eles próprios t e r ã o recorrido igualmente a uma auto.) N ã o há tico é irredutível. é certo que pensa aqui um modelo de escritura j duz os seus próprios significantes. Mas múltiplas.. É certo que \ a diferença entre significante e significado nunca é ra- Freud pensa que o sonho se desloca como uma escritura ! dical. não passaria de uma metáfora. eram mais su. . escritura codada e visível j identidade ou de aderência do significante ao significado. uma redu- persticiosos do que os outros homens do seu tempo. £ antigas". p. situações. Mas faz da escritura psíquica uma produção tão j propriamente ditos. o conteúdo dado de um sonho segundo um código teriais de que dispusessem. funciona- que eram os primeiros a cair na ilusão. E a possibilidade da tradução." tamente infalível significa que na escritura psíquica. estabelecido. por exemplo a do sonho que "segue explorações ' cias — parece principal e definitivamente limitada. Aliás. os é. [os símbolos do sonho] têm muitas vezes significações ridade confessada.

O que aqui vale para uma língua nacional determinada tuição estaria assim implicada pelo par de^ conceitos vale a fortiori para uma gramática individual. Em regra geral. de uma pedra es- esboçar um novo Traumbuch segundo o método-de-de. a do pré-consciente ou do consciente. Ou Isso nos é explicado no último capítulo da melhor um duplo limite. se deve ter formado. situado num novo tem a sua própria língua de sonho. Freud não dei. Trata-se então de completar uma me- táfora pura e convencionalmente tópica do aparelho Considerando em primeiro lugar a expressão ver- bal. portanto peta próprio con- ceito dc signo. sc deixa traduzir ou transportar para uma outra língua. uma espécie de transcrição um sonho é intradúzível em outras línguas e um livro (Umschrijt). Deixar imagens que deixaram a sua marca nas expressões "re- de lado o corpo é mesmo a energia essencial da tra. imóvel. ao lado do qual se manteria o texto como este não o é mais. devemos inter. cessos ou de tipos de percurso da excitação: "Tentemos rante o significado ou pelo menos não se deixa atra. constituindo o corpo do significante o idioma zido (Übersetzung). calcar" e "penetrar". E de fato. crita ou de um arquivo cujo conteúdo significado seria cifração" (11/111. Anschauungeii] que corriam o risco de se formar erra- Age enquanto tal. regras de uma grande generali. Traumdeutung. Neste pensamento inconsciente se esforça. E a substituição dos significantes parece ser basta portanto falar de escritura para ser fiel a Freud. em direção ao pré-consciente para para todo o palco do sonho. razão que se fala. para sempre e encontramo-nos perante a tentação de presença impassível de uma estátua. Nada muda no caso de. (Übersetzung) ou de transcrição (Umschrijt) é peri- zem a sua entrada como as "siglas" da estenografia goso n ã o pelo fato de fazer referência à escritura mas cem uma significação bem estabelecida de uma vez pelo fato de supor um texto que já está ali. Referimo- se c que existe uma. psíquico nunca há relação de simples tradução. diz-nos Freud. é poesia. queremos 198 199 . esta impossibilidade de alguma ma- só distinguirmos o significado do significante como as neira horizontal. A possibilidade radical da substi. N ã o dade. transportado sem prejuízo para o elemento de uma outra xou de propor códigos. o corpo da expressão. o sonho é intradúzível: penetrar em seguida na consciência. Quando ela reinstitui um corpo. como duas localidades no interior do aparelho psíquico Ê aquilo mesmo que a tradução deixa de lado. T a m b é m aqui. nalítica. cia. e do ato de penetrar na consciência. original. Por outro lado. Freud nem por isso deixa contudo de atribuir um limite essencial a esta operação. seu princípio numa impossibilidade vertical. de tradução ou de digo da escritura onírica: "Quando nos familiarizamos transcrição para descrever a passagem dos pensamentos com a exploração superabundante da simbólica para a inconscientes pelo pré-consciente em direção à consciên- encenação do material sexual no sonho. damente. local.cante determinado. significado / significantc. como Ferenczi justamente notou. com Saussure. enquanto tínhamos perante o nosso olhar os tinava na cena da crueldade. pois podemos então traí-lo mais do que nunca. agora corrigir algumas imagens [ilustrações intuitivas: vessar c transgredir como o faz no discurso consciente. n ã o queremos di- "O sonho depende tão intimamente da expressão ver- bal que. 356). É verdade. Ora um corpo verbal não dois sistemas. tal qual está circunscrita no sonho. linguagem. deva produzir o espaço e o corpo -nos aqui ao devir-consciente dos pensamentos incons- da própria folha. com a eficácia que Artaud lhe des. Assim quando dizemos que um dução. no sentido mais imediato e mais grosseiro. pelo menos assim pensava". realmente a atividade essencial da interpretação psica. não se apaga pe. o conceito metafórico de tradução rogar-nos se uma grande parte destes símbolos não fa. cientes. Se não podemos traduzir o sonho para uma outra língua é também porque no interior do aparelho Dir-sc-á: c contudo Freud traduz o tempo todo. de uma tradução sem perdas tem o duas laces de uma mesma folha. notamos que a psíquico com o apelo à força e a duas espécies de pro- sua sonoridade. É sem Acredita na generalidade c na fixidez de um certo có. A escritura originária. p. cada língua zer que um segundo pensamento. depois de tradu- sentido.

A consideração "objetivista" ou "mun- transcrições. 615) Le Mui ei le Ça (G. sem ser por ele mo. transcrição dupli- noutro lugar. Mas como é t a m b é m o caso mente. cujo presente significado é transcendental no caso de. O texto não é pensável na forma. "Suprir: 1. se diz consciente e atuante no mundo (exterior visível originária ou modificada. sem dúvida também a relação do primário ao secun- Quanto a essa escritura não transcritiva. O apelo do suplemento é aqui ori. mal-entendido entre os conceitos husserliano e heidegge- É nela que é preciso pensar a possibilidade do depois e riano de estar-no-mundo). que uma região do mundo. que transportar um texto desigual à própria coisa. psíquico numa montagem artificial. Que o presente repensar o espaço ou a topologia dessa escritura. é aqui que em vez sua superfície. -no-mundo do psíquico. etc. Elimina-a produzindo-a: meio do diálogo e do como um sonâmbulo a estranha lógica desta palavra. nacluraglich. da presença. é preciso pelo mesmo há texto presente-passado. constituído por arquivos que são sempre já o consciente. W.) a partir desse trabalho de escritura que cir- que se unem o sentido e a força. Não há portanto verdade inconsciente para encontrar porque ela estaria Dado que a passagem para a consciência n ã o é escrita noutro lugar. suplementarmente: nacluraglich também signi. de Freud. 2) a necessidade não de abandonar mas de sente não passa de um apelo de nota. E l e o apêndice. do devir-literário da literali- ciente já está tecido de traços puros. 3) que Freud. N ã o existe texto presente em geral. na sua própria secundariedade. o pre. é também vemos aqui como trabalho da escritura elimina a dife- aquilo que supre." 5 seja a forma absoluta. Notemo-lo: Nachtrag tem também um sentido preciso na ordem da letra: é acrescenta com efeito um esclarecimento essencial. isto é. respeitando -mundo. é originária tencendo esta. irredutível a toda a intramundanei- como o presente. 2) acentua também o perigo da representação tópica dos fatos psíquicos. texto em parte alguma cula como uma energia psíquica entre o inconsciente e presente-. a um trabalho e a uma temporaüzação (per. à e^ irredutível. depósitos de um sentido a um espaço de escritura psíquica (dír-se-ia de escritura que nunca esteve presente. da literalidade. o codicilo. da experiência. o post-scriptum. texto passado como contrário compreender a possibilidade da escritura que tendo sido presente. vida o único que não se esgota na metafísica ou na Pois o valor de presença pode também perigosamente ciência. Tudo começa pela dana" da escritura nada nos ensina se n ã o a referirmos reprodução. Estampas originárias. Acrescentar o que falta. com Husserl. Sempre já. Freud dário em todos os seus níveis. se ver na psi- sempre reconstituído mais tarde. Este pensamento é sem dú- presente noutro lugar sob a forma de inconsciência. original e. cap. que gosta de representar sempre o aparelho (51 (!'. de diferenças em dade. Antes desta recorrência. Não existe texto escrito e presente uma escritura derivada e repetitiva. na imobilizar ou esfriar a energia numa metáfora ingênua neta ou post-scriptum. produz-se de maneira dificado. posterior. O suplemento. que quer respeitar ao mesmo tempo o estar- fica suplementar. XIII. da grafia. do lugar. O texto incons. aquilo que parece dade vulgar. Como a consciência é para Freud super- consciência) que lhe seriam exteriores e flutuariam nà fície oferecida ao mundo exterior. que não haja pureza do presente vivo. O texto que colocará em evidência: 1) o perigo que haveria em se denomina presente só se decifra no pé da página. O texto consciente não é portanto uma transcrição por. plenamente viva e constituinte Interrompamos por um instante a nossa citação. cando a escritura inconsciente. se seguirmos a literalidade freudiana. formidável para a história da metafísica. é preciso talvez pensar que o que descre- acrescentar-se como um pleno a um pleno. o seu ser-local.também afastar cuidadosamente toda idéia de mudança em geral não seja originário mas reconstituído. e a originalidade ginário e escava aquilo que se reconstitui mais tarde da sua topologia. que não de lugar. é o tema. afetar o conceito de inconsciente. nem de percorrer a metáfora no sentido banal. ainda n ã o descobriu 200 201 . que Freud nos leva a pensar através de uma conceptualidade que não houve que transpor. rença transcendental entre origem do mundo e estar-no- fornecer o excesso que é preciso" diz Littré.. que desse ocasião.

por já não ser o traço neuro- se deixa reduzir e não limita mas produz o sentido. produzindo e não percorrendo o seu caminho e da presença. mas a sua i n e r v a ç ã o . e a branca neutralidade do caminho e a história da escritura. ciência. .j X. que parece corresponder. de um processo foronômíco e não •1 tura e irrupção abrindo caminho (rupta. tão freqüente nas des- cinação de uma linguagem determinada a partir da pa. A 1 lógico. é o lugar que atribui à verbalidade. A i estrada abre-se numa natureza ou numa matéria. o poder de "repetição" que o habita originariamente kreis) do combate pela ocupação de um terreno. A força produz o sentido (e o espaço) apenas com te. substituímos um modo de re. Pensamos aqui de um discurso. ter-nos-ia Freud ensinado algo de novo? "Quando dizemos que um pensamento pré-cons- ciente é recalcado e em seguida recebido no inconscien. a repetição desdobra sem- realidade. bilidade. como a sua' morte. o estatismo e o topologismo \ neurológica: abertura do seu próprio espaço. digamos. no trabalho itinerante do ção ao arquitraço. Este poder. Tratava-se então de lembrar a origem do mo- está submetida ou subtraída ao controle de uma ins. Interrompamos uma vez mais a nossa citação. inaugura a traduzi- zação {Anordnung) se desfez numa das localidades psí. Apesar da aparência. G. 1 nos textos de Freud sobre o trabalho do traço mnésico frado sem deixar de ser diáfano. n ã o só nos afastamos o móbil (das Bewegliche). desta metáfora. Mais uma vez. A Seria portanto necessário examinar de perto — não metáfora da tradução como transcrição de um texto o podemos naturalmente fazer aqui — tudo o que original separaria a força e a extensão. pode. ou melhor da presença no verbo. isto é. vimento de transgressão. na evidência da nâmica. genética e estruturalmente. . a história paço imóvel. o já transgredido: um idioma puro não é uma linguagem. tiradas da metafórica (Vorstellungs. ploração" na repetição psíquica dessa noção outrora Esta própria exterioridade. " do objetivo original de Freud como apagamos o vivo (ibid. por mais diferenciado que seja. na alu. Freud acentua-o: a escritura psíquica não inscrição violenta de uma forma. da representação verbal. na tradução. i A metáfora do caminho aberto. diria talvez Freud. previamente dado. no efeito da repetição. De um discurso que poderia ser ci. assegurariam a transparência de uma abertura de um caminho apesar das resistências. efração. j crições de Freud. numa cobre todo o aparelho psíquico.um modelo mecânico adequado à conceptualidade gm. Aqui a energia não l (Erinnerungsspur) que. que só são energético. traçado de uma di- se presta a uma tradução porque é um único sistema j ferença numa natureza ou numa matéria. este impoder que riam levar-nos a supor que efetivamente uma organi. p. de tal maneira que a formação psíquica duzível. a escritura psíquica em gerai não é o 1 sibilidade de tempo e de espaço. j retardamento suplementar e da reconstituiçãc do sentido •3* 3 202 3 2 0 3 i . 288). W. que um investimento de energia (Energie. mantendo a : Freud nos dá a pensar da força da escritura como "ex¬ exterioridade simples do traduzido e do traduzinte. metabólico.). Apesar da diferença } floresta ou num bosque (hylé) e procura aí uma rever- das instâncias. . via rupta). Em vez destas analogias. Sem isso. comunica sempre com o tema do lavra. dado que o pré-consciente femática que já utiliza para descrever o texto psíquico. não é ainda a "memória consciente" (V Incons- distinção entre a força e o sentido é derivada em rela. melhor ao que se passa na só passa a sê-lo repetindo-se. transforma o idioma absoluto em limite sempre outra localidade. Instalando-nos no dado ou presentação tópica por um modo de representação di. abre e limita o trabalho da força. j cient. da relação com a morte. e porque I pensáveis como tais na sua oposição à escritura. Metafísica da pré-cons. devir-linguagem do idioma. torna possível o que denominamos "a lingua- quicas e se encontra substituída por uma outra em gem". Seria preciso estudar deslocamento das significações na limpidez de um es- i conjuntamente. pre já a ponta da primeira vez. não é a formação psíquica que nos parece ser distinção entre a força e o sentido. pertence à metafísica da consciência I traço. a origem da repetição e o tância. besetzung) é fornecido ou retirado a uma organização isto não contradiz o que mais acima dizíamos do intra- determinada. rup- tradução neutra. estas imagens.

o inconsciente só é I Esta representação já não se deixa compreender certamente intemporal perante um certo conceito vulgar . vivido no puramente mecânica. dos processos energéticos. como veremos. a sua exaltação e a lungsweise) lembrando-nos que ' as representações sua investigação sexual. num espaço de estrutura simples e homogênea. consciência. con- • do raio: Slrahlenbreclnmg] quando da passagem para ceito da metafísica. podem ser é aqui sensível a separação entre a intuição e o conceito i comparados às lentes do telescópio que projetam a freudianos. introduz uma diferenciação in- A dióptrica e os hieróglijos j teressante. Queremos deixar 204 I ' ! 205 . " C o m um ano e meio. quicas em geral não devem ser localizadas em elementos sos que uma recordação é recalcada. pode tornar objeto (Gegenstand) da nossa percepção mento do indivíduo. depois renunciava a localizar. a sexualidade. Ele o produz. recolheu impressões anschauliche Vorstellung] dos dois sistemas. já dirige. O post- apenas pelo valor didático da exposição: é irredutível -scriptum. É uma máquina óptica. pouco importa •— é vivida na sua significação precaver: "Contudo considero útil e legítimo continuar e a maturação sexual não é a forma acidental desse a servir-se da representação intuitiva [da metáfora: atraso. A intemporalidade do inconsciente não •| imagem. a sua natureza é tanto Hegel e Proust. tempo da mecânica ou tempo da | um novo meio (p. uma certa espacialidade. limitado ou ilimitado de ricochete descritiva de Freud. como a imagem dada num telescópio solução. Se prolongamos esta analogia. e pela própria resposta. que problema da temporalização e da chamada "intempo. 615-616). A mu- do tempo. pelo menos a uma nova posição do temível pelo caminhar do raio luminoso. um traço laborioso que nunca foi percebido. Freud I assim é a de uma localidade psíquica. toda a exposição só é determinado. a saber. Freud não quer re- que a percepção da cena primitiva -— realidade ou fan. Evitamos cuja compreensão diferida lhe foi possível na época do todo uso infeliz deste modo de encenação (Darstel- sonho pelo seu desenvolvimento. depois de um caminhar dc toupeira. nunciar à metáfora tópica contra a qual acaba de nos tasma. com despertá-lo ou revelá-lo na sua mais enigmática quanto já não se pode considerá-la como verdade. apelando de novo I para a mesma máquina. É posteriormente Retomemos a nossa citação. Em todo caso a de Freud é decisiva. no lugar em que se formam as resistências e as naclüràglicli). tenta explicar a relação da memória e da N ã o nos apressemos em concluir que. os pensamentos e as formações psí- do recalque na histeria: "Descobre-se em todos os ca. a censura en- é sem dúvida determinada senão pela oposição a um í tre os dois sistemas corresponderia à refração [à quebra conceito corrente de tempo. como em breve se verá. \ | dança de meio e o movimento da refração indicam-no i suficientemente. no parágrafo sobre | A regressão. Se. se obstina do labor subterrâneo de uma impressão. "Isto deveria conduzir se não à . Vede o homem dos lobos. Tudo o que se da puberdade em relação ao conjunto do desenvolvi. não é seu sentido no presente. como talvez o tenham suposto Platão' não poderia deixar-se separar. que constitui o presente passado como tal. a máquina metafó- Falso problema sem dúvida: o sujeito — presumida- rica ainda não está adaptada à analogia escriturai que mente conhecido — da questão. interna é virtual. No mesmo capítulo. a saber. a qual não se orgânicos do sistema nervoso. mais tarde. ao apelar | percepção no traço mnésico: "A idéia de que dispomos para a energética contra a tópica da tradução. A causa disto é o atraso (Verspàtung) explorações que lhes correspondem. Na Traumdeutung. Em seguida Freud. O retardamento sexual é aqui o meio homogêneo e impassível dos processos dinâmicos o melhor exemplo ou a essência desse movimento?- e econômicos. Mais do que em outro lugar são acessíveis à nossa percepção psíquica." Já no Esquisse. conceito tradicional. na consciência. Seria talvez preciso ler Freud como Hei- degger leu Kant: como o eu penso. cuja idéia de sistema em geral não se contenta. não são do psíquico [o sublinhado é nosso] e jamais ralidade" do inconsciente. Mas os sistemas. Esta deixou em dar uma representação projetiva e espacial. mas por assim dizer entre transforma em trauma senão posteriormente (uur si. a propósito (Vors(ellungen). isto é.

completamente de lado a idéia de que o aparelho psí- troduz. Atenuará as "imperfeições" da analogia c tal-
quico de que aqui se trata nos é igualmente conhecido vez as "desculpará". Sobretudo acentuará a exigência,
como preparação [Prãparat; preparação de laborató- à primeira vista contraditória, que preocupa Freud des-
rio] anatômica e queremos manter cuidadosamente a de o Esquisse e que só será satisfeita pela máquina dc
nossa pesquisa afastada de uma determinação de algum escrever, pelo "bloco mágico": "Somos então levados
modo anatômica da localidade psíquica. Permane- a introduzir uma primeira diferenciação na extremidade
cemos num terreno psicológico e propomo-no& apenas sensível [do aparelho]. Das nossas percepções per-
continuar a requerer uma representação do instrumento manece no nosso aparelho psíquico um traço (Spur)
que serve para as operações psíquicas sob a forma de que podemos chamar "traço mnésico" (Erinnerungs-
uma espécie de microscópio complexo, de um aparelho spur). A função que se relaciona com este traço mné-
fotográfico e de outros aparelhos da mesma natureza. sico é por nós denominada "memória". Se levarmos
A localidade psíquica corresponde em seguida a um a sério o projeto de ligar os acontecimentos psíquicos
lugar (Ort) no interior de tal aparelho, lugar no qual se a sistemas, o traço mnésico só pode consistir em modi-
forma um dos primeiros estados da imagem. No mi- _ íicações permanentes dos elementos do sistema. Ora.
croscópio e no telescópio, bem entendido, só são, em já o mostrei por outro lado, surgem evidentemente di-
certa medida, localidades e regiões ideais nas quais não ficuldades pelo fato de um único e mesmo sistema reter
está situada nenhuma parte perceptível do aparelho. fielmente as modificações dos seus elementos ao mesmo
Julgo ser supérfluo desculpar-me pelas imperfeições tempo que oferece uma nova receptividade à modifica-
destas imagens e de outras imagens semelhantes'' ção, sem jamais perder a sua capacidade de recepção"
(p. 541). (p. 534). Serão portanto necessários dois sistemas nu-
ma só máquina. Este duplo sistema, concedendo a nu-
Para além do aspecto pedagógico, esta ilustração dez da superfície e a profundidade da retenção, só de
justifica-se pela diferença entre o sistema e o psíquico: longe e com muitas "imperfeições" podia ser represen-
o sistema psíquico não é psíquico e só se trata dele tado por uma máquina óptica. "Seguindo a análise do
nesta descrição. Depois é o andamento do aparelho que sonho, entrevemos um pouco a estrutura desse instru-
interessa a Freud, o seu funcionamento e a ordem das mento, o mais maravilhoso e o mais misterioso de to-
suas operações, o tempo regrado do seu movimento tal dos, só um pouco, mas é um começo. . ." É o que
qual é tomado e descoberto nas peças do mecanismo: podemos ler nas últimas páginas ás Traumdeutung (p.
"Rigorosamente n ã o temos necessidade de supor uma 614). Só um pouco. A representação gráfica do sis-
organização realmente espacial dos sistemas psíquicos. tema (não psíquico) do psíquico não está pronta no
Basta-nos que uma consecução ordenada seja estabele- momento em que a do psíquico já ocupou, na própria
cida com constância de maneira que, por ocasião de Traumdeutung, um terreno considerável. Avaliemos
certos acontecimentos psíquicos, os sistemas sejam per- esse atraso.
corridos pela excitaçao segundo uma consecução tem-
poral determinada". Finalmente estes aparelhos de A característica da escritura foi por nós denomina-
óptica captam a luz; no exemplo fotográfico registram- da noutro lugar, num sentido difícil desta palavra, espa-
no. Freud quer já explicar o negativo ou a escritura
6
çamento: diastema e devir-espaço do tempo, também
da luz e eis a diferenciação (Differenzierung) que in- desenvolvimento numa localidade original, de signifi-
cações que a consecução linear irreversível, passando de
(6) A metáfora do negativo fotográfico é muito freqüente. Ver Sur
h dynamlque du transferi (G. W., VIII, p. 364-65). As noções de e aqueles negativos que se comportaram bem nesta prova são admitidos
negativo e de impressão são aí os principais instrumentos da analogia. ao "processo positivo" que se termina com a imagem." Hervey de Saint-
Na analise de Dora, Freud define a transferência em termos de edição, -Denys consagra um capítulo inteiro do seu livro à mesma analogia. As
de reedição, de impressões estereotipadas ou revistas e corrigidas. Quel- intenções são idênticas. Inspiram também uma precaução que voltaremos
ques rert\arques sur le concept d'inconsciem dons la psychanalyse, 1913 <G.
fv., X, p. 436) comparam ao processo fotográfico as relações do cons- a encontrar na Note sur le bloc magique: "A memória aliás possui sobre
ciente com o inconsciente: "O primeiro estádio da fotografia é o negaüvo; o aparelho fotográfico essa maravilhosa superioridade que possuem as
cada imagem fotográfica tem de passar pela prova do "processo negativo" forças da natureza de serem elas próprias a renovar os seus meios de
ação."

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ponto de presença cm ponto de presença, só podia es- é que o sonho põe em cena o "se", o "porque", o "do
tender e em certa medida não conseguir recalcar. En\ mesmo modo que", o "embora", o " o u . . . ou" e todas
especial na escrita chamada fonética. É profunda a as outras conjunções sem as quais a frase ou o discurso
conivência entre esta e o logos (ou o tempo da ló- permaneceriam ininteligíveis para n ó s ? " (p. 316-17).
gica) dominado pelo princípio de não-contradição
Esta encenação pode ser comparada em primeiro
fundamento de toda a metafísica da presença. Ora'
em todo espaçamento silencioso ou não puramente fò- lugar a essas formas de expressão que são como a es-
nico das significações, são possíveis encadeamentos que critura na palavra: a pintura ou a escultura dos signi-
não mais obedecem à linearidade do tempo lógico, do ficantes que inscrevem num espaço de coabitação ele-
tempo da consciência ou da pré-consciência, do tempo mentos que a cadeia falada deve reprimir. Freud os opõe
da "representação verbal". N ã o é clara a fronteira en- à poesia que "usa o discurso falado" (Rede). Mas
tre o espaço não-fonético da escritura (mesmo na es- o sonho não tem também o uso da palavra? " N o sonho,
crita "fonética") e o espaço do palco do sonho. vemos mas n ã o ouvimos", dizia o Esquisse. Na ver-
Não é portanto de surpreender que Freud, para dade, como o fará Artaud, Freud visava então menos à
sugerir a estranheza das relações lógico-temporais no ausência do que a subordinação da palavra na cena do
sonho, recorra constantemente à escritura, à sinopse es- sonho. Longe de desaparecer, o discurso muda então de
pacial do pictograma, da charada, do hieróglifo, da função e de dignidade. Está situado, rodeado, investi-
escrita não-fonética em geral. Sinopse e não estase: do (em todos os sentidos desta palavra), constituído.
cena e não quadro. O laconismo, o lapidar do sonho
7
Insere-se no sonho como a legenda nas histórias em
não é a presença impassível de signos petrificados. quadrinhos,-essa combinação picto-hieroglífica na qual
A interpretação soletrou os elementos do sonho. o texto fonético é o complemento e n ã o o senhor da
Fez aparecer o trabalho de condensação e de desloca- narrativa: "Antes que a pintura tivesse chegado ao co-
mento. É preciso ainda dar conta da síntese que com- \ nhecimento das suas leis de expressão p r ó p r i a s . . . nos
põe e põe em cena. É preciso interrogar os recursos quadros antigos deixava-se pender da boca dos perso-
da encenação (die Darstellungsmittel). Um certo poli- j nagens bandeirolas que tinham inscrito (eds Schrift) o
centrismo da representação onírica é inconciliável com j discurso que o pintor duvidava poder por em cena no
o desenrolar aparentemente linear, unilinear, das puras \ quadro" (p. 317).
representações verbais. A estrutura lógica e ideal do
discurso consciente deve portanto submeter-se ao sis- A escritura geral do sonho supera a escrita foné-
tema do sonho, subordina-se a ele como uma peça da j tica e volta a por a palavra no seu lugar. Como nos
sua maquinaria. " A s peças isoladas desta formação j hieróglifos ou nas charadas, a voz é cercada.. Logo no
complicada dizem naturalmente respeito umas às outras princípio do capítulo sobre O trabalho do sonho nenhu-
segundo relações lógicas muito variadas. Formam pri- ma dúvida nos resta a tal respeito, embora Freud ainda
meiros planos, fundos, digressões e esclarecimentos, ; aí se sirva desse conceito de tradução contra o qual
propõem condições, demonstrações e protestações. De- j mais adiante nos põe de sobreaviso. "Os pensamentos
pois quando toda a massa destes pensamentos do sonho j do sonho e o conteúdo do sonho [o latente e o mani-
é submetida à pressão do trabalho do sonho e estas pe- | festo] surgem diante de nós como duas encenações do
ças são retorcidas, fragmentadas e reunidas, um pouco
| mesmo conteúdo em duas línguas diferentes; ou melhor,
como blocos de gelo flutuantes, coloca-se o problema
I o conteúdo do sonho aparece-nos como uma transferên-
de saber em que é que se tornam as conjunções lógicas
que até então tinham constituído a estrutura. Como | cia (Übertragung) do pensamento do sonho para um ou-
•JJ tro modo de expressão cujos signos e gramática só po-
(7) "O sonho é parciraonioso, indigente, lacônico" (G.W., II/III, p.
284). O sonho é "estenográfico" (ver mais acima). j deremos aprender a conhecer comparando o original

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com a tradução. Os pensamentos do sonho são-nos ime- mas montagens que as representações das coisas." s

diatamente inteligíveis logo que deles temos experiência. Na regressão formal do sonho, a espacialização da ence-
O conteúdo do sonho é dado como uma escrita figura- nação não surpreende as palavras. Aliás não poderia
tiva (Bilderschrift) cujos signos devem ser transferidos mesmo ter sucesso se a palavra não fosse desde sempre
um por um na língua dos pensamentos do sonho". Bil- trabalhada no seu corpo pela marca da sua inscrição ou
derschrijc. não imagem . jnscrita mas escrita figurada, da sua aptidão cênica, pela sua Darstellbarkeit e todas
imagem dada não a uma percepção simples, consciente as rormas do seu espaçamento. Este só pode ter sido
e presente, da própria coisa — supondo que isso exista recalcado pela palavra dita viva ou vigilante, pela cons-
— mas a uma leitura. "Seríamos evidentemente indu- ciência pela lógica, pela história da linguagem,' etc. A
zidos em erro se quiséssemos ler estes sinais pelo seu espaciahzaçao nao surpreende o tempo da palavra ou a
idealidade do sentido, não lhe sobrevém como um aci-
valor de imagem e não pela sua referência significativa
dente. A temporalização supõe a possibilidade simbó-
(Zeichenbeziehung) . . . O sonho é esse enigma figura-
lica e toda síntese simbólica, antes mesmo de cair num
tivo (Bilderràtsel) e os nossos predecessores no domí- espaço "exterior" a ela, comporta em si o espaçamento
nio da interpretação dos sonhos cometeram o erro de como diferença. Eis por que a cadeia fônica pura, na
considerar a charada como composição de um desenho medida em que implica diferenças, n ã o é ela mesma uma
descritivo." O conteúdo figurado é portanto na ver- continuidade ou uma fluidez puras do tempo. A dife-
dade uma escritura, uma cadeia significante de forma rença é a articulação do espaço e do tempo. A cadeia
cênica. Neste sentido resume, é certo, um discurso, é fônica ou a cadeia de escrita fonética são sempre já dis-
a economia da palavra. Todo o capítulo sobre A apti- tendidas por esse mínimo de espaçamento essencial no
dão para a encenação (Darstellbarkeit) demonstra-o qual poderão esboçar-se o trabalho do sonho e toda
perfeitamente. Mas a transformação econômica recí- regressão formal em geral. N ã o se trata aí de uma ne-
gação do tempo, de uma parada do tempo num presen-
proca, a retomada total no discurso, é a princípio im-
te ou numa simultaneidade mas de uma outra estrutura,
possível ou limitada. Isso resulta em primeiro lugar
de uma outra estratificação do tempo. T a m b é m aqui a
do fato de serem as palavras também "primariamente"
comparação com a escritura — desta vez com a escrita
coisas. É assim que no sonho, são retomadas, "agar- fonética — ilumina igualmente a escritura e o sonho:"
radas" pelo processo primário. Não nos podemos por- [o sonho] restitui um encadeamento lógico sob a forma
tanto contentar em dizer que, no sonho, as "coisas" da simultaneidade; procede assim um pouco à maneira
condensam as palavras; que inversamente os significan- do pintor que reúne num quadro da Escola de Atenas
tes não-verbais se deixam em certa medida interpretar ou do Parnaso todos os filósofos e todos os poetas que
em representações verbais. É preciso reconhecer que jamais se encontraram reunidos num pórtico ou no
as palavras, na medida em que são atraídas, seduzidas, cume de uma montanha. .. Este modo de encenação
no sonho, em direção ao limite fictício do processo pri-
r \v \in?, ^ '
% mp èmen
P r >ologique à la áoctrine des revés (1916,
m(la s c}

mário, têm a tendência a se tornarem puras e simples o.w u/m, p. 419) consagra um importante desenvolvimento à regres-
são formal que, dizia a Traumdeutung, luz que "modos de expressão e
coisas. Limite aliás também fictício. Palavras puras de encenação primitivos se substituam àqueles a que estamos habituados"
(p. 554). Freud insiste sobretudo no papel que aí desempenha a repre-
e coisas puras são portanto, como a idéia do processo sentação verbal: "É digno de nota que o trabalho do sonho sé prenda
tao pouco as representações verbais; está sempre pronto para substituir
primário e, em seguida, do processo secundário, 'dic- as palavras umas pelas outras até encontrar a expressão que mais facil-
ções teóricas". O entre-dois do "sonho" e o entre-dois mente se deixa manejar na encenação plástica." Esta passagem é seguida
de uma comparação, do ponto de vista das representações de palavras
da "vigília" não se distinguem essencialmente, quanto à e das representações de coisas, entre a linguagem do sonhador e a
linguagem do esquizofrênico. Seria preciso comentá-la de perto. Talvez
natureza da linguagem. " A s palavras são muitas vezes constatássemos (contra Freud?) que uma determinação rigorosa da ano-
malia é aí impossível. Sobre o papel da representação verbal no pré-
tratadas pelo sonho como coisas e sofrem então as mes- -consciente e o caráter então secundário dos elementos visuais ver Le
Moi et te Ça, cap. 2. '

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como a última letra de uma palavra. Por outro lado. p. no _artigo sobre O ofereciam aos seus leitores os escritores que. É com uma grafemática futura. Problèmes de linguístique génêrale. que cer. Nos dois casos.W. De vem ser pronunciadas como uma única sílaba. diz ber a sua diferença e as suas condições de funcionamento. VIII. mais posta em execução. o alcance teórico da metáfora psico- stellung. a inteligibilidade de outros elementos. VII. no funcionamento nuarmos a acompanhar as duas séries de metáforas. 390. como na Traumdeutung. e nada te. formação consiste numa mudança de estado que se rea- gem". a renovar.. nem. Se conti- tura. pode de vista e os conhecimentos com os quais o lingüista dizer-se que a encenação do trabalho do sonho. 404-5). numa topologia de traços sem escri- Traumdeutung da Note sur le bloc magique. 9 portanto ser também recolhida numa nova localidade mos aqui a acrescentar. (1910) procura demonstrar na trilha de Abel. ab significa que as duas letras de- nho a um sistema de escrita do que a uma língua. Filosofia. 212 213 . 346-347). à decifraçâo de uma escrita figurativa da antigüidade. rece- da parte deste texto. a. 493) antes da pela escrita (&. uma espécie de nova ins- psicanálise se vê chamada a colaborar. consagrada às "ciências não-psicológicas". a outra b. pelo gesto e respeito em primeiro lugar à ciência da linguagem (p. de certo modo. crição da representação interessada. as de mecanismos ópticos. mas também a linguagem gestual e toda espécie de ex- mantém-se no pormenor. no mesmo ano. que o sentido contraditório (9) Das Interesse an der Psychoanalyse. a e b fato a interpretação de um sonho é totalmente análoga separadas por um espaço branco são reconhecidas. E de- dois elementos. Resumindo todas estas possibilidades. p. como a escrita". em funções e configurações que não são pres. não oferece mente ao psicanalista" (p. a História. ver E. 214). deveremos admitir que a esta transformação lingüística dominada por um velho fonologismo. a Biologia. . e com uma grande abundân- cia de exemplos tirados da escrita hieroglífica. a Pedagogia. G. a Sociologia. 10 mentos do sonho. mentos que não são determinados para a interpretação O modelo da escrita hieroglífica reúne de maneira ou a leitura mas devem assegurar apenas. uma. há ele- a primeira letra de uma palavra" (p. é a problemática do próprio aparelho que começa á ser retomada nos conceitos escriturais: nem. garante um elo especialmente íntimo pois de ter lembrado o arcaísmo da expressão onírica entre os elementos que lhes correspondem nos pensa- que admite a contradição e privilegia a visibilidade. plurivocidade dos diferentes elementos do sonho tem o Todo signo — verbal ou não — pode ser utilizado em seu equivalente nestes sistemas de escrita a n t i g a . até aqui esta concepção da encenação do sonho não foi critas na sua "essência" mas nascem do jogo da dife. ou indeterminado das palavras primitivas só podia ser determinado. lingua. mais do que com uma (ou Pcs). . inscrição que pode menda-o literalmente num texto de 1 9 1 3 . que a esteja ligada uma nova fixação. VIII. De algum mação que o faz passar do sistema Ics ao sistema Cs modo é-lhe consagrada uma questão de método. O debate entre a hipótese fun- que dizem respeito ao sistema não-psíquico do psíquico e as que dizem respeito ao próprio psíquico. Freud reco. se serviam dos hieróglifos" (p. Passa-se o mesmo que no nosso Freud esclarece: "Parece-nos mais justo comparar o so- sistema de escrita. "Pela palavra linguagem n ã o devemos entender (10) Sabemos aue toda a nota Über den Gegenstnn der Vrworte aqui apenas a expressão do pensamento em palavras. que se cional e a hipótese tópica diz respeito a lugares de ins- passa? crição (Niederschrift): "Quando um ato psíquico (limi- tamo-nos aqui a um ato do tipo da representação [ Vor- Por um lado. De cada vez que aproxima pressão da atividade psíquica. a interpretar. na anti- güidade. como como os hieróglifos egípcios.. Inconsciente. Benveniste. A segun.W. O psíquica e ao lado da qual persistiria a inscrição incons- interesse da psicanálise pela lingüística pressupõe que ciente originária? Ou devemos antes crer que a trans- se "transgrida" o "sentido habitual da palavra. é porque isso depende de uma rença. O sublinhado é nosso]) conhece uma transfor- gráfica vai ser cada vez melhor refletida. enquanto de- mais visível — mas encontramo-la em toda escritura — terminativos. 319). cap. Mais de vinte anos separam a primeira edição da como no Esquisse. Sobre este texto e a hipótese de Abel. A a diversidade dos modos e das funções do signo no sonho. Freud situação que se pode facilmente comprender: o ponto conclui: "Apesar da multiplicidade destas faces. abordaria um tema como o do sonho escapam total- tamente não é feita para ser compreendida. ao tradutor mais dificuldades do que. Se níveis.

X. crição do conteúdo psíquico ou de um elemento da má. Nos processos que í l l ) 1'. 3. A folha con- interjoridade e em diferenciação. em indefinida e poder de recepção ilimitado. ou a finitude originária e normal do poder mnésico. memória" (G. Estas não respondem à du- de escrita e o aparelho da percepção. gando as marcas. X I V . p. escapado às deformações que talvez sofresse na minha ção originária. Poderíamos pensar que esta está submetida a aparelho mnésico (des Erinnerungsapparates) que trago um outro princípio de organização. as duas séries de metáforas reunir-se-ão. condições proporcionadas a esta operação pelas super- monstrada a analogia entre um determinado aparelho fícies habituais de escrita. Quando se des. lizaria sobre o mesmo material e na mesma localidade?"' (G. o aparelho de registro ou de inscri.o que faz o neurótico. A O tema de Freud não é aqui a ausência de memó- Note sur le bloc magique. A ardósia cuja virgindade se pode sempre reconstituir apa- Como sempre se fez. cluir-se uma capacidade de recepção ilimitada e uma 214 215 . 272-273). e fico assim consecutiva a um primeiro registro. É a primeira analogia: "Se descon- calque originário" p. posta em segurança para poder então "reproduzi-la" em como o acentuamos. Durante muito tempo separadas e colocadas em esta finitude ou as suas relações essenciais à possibili- níveis diversos. nem o que é requerido quanto à natureza do e as três analogias da escritura psíquico para que esta suplementaridade seja possível.. des. Todas as clás- Freud considera em primeiro lugar a escrita como téc. o está ainda em elaboração: a grafia está reservada à des. dade de uma censura e de um recalque. W. sicas superfícies de escrita só oferecem uma das duas nica a serviço da memória. desse aparelho. torna-se então. Lembremos apenas q preso num aparelho e o escrito será mais facilmente U e a hipótese econômica e o difícil conceito de contra-in. posso completar e assegurar (ergãnzen und versichem) mento gráfico de um aparelho que não é uma máquina a sua função dando-me um traço escrito (schriftliche de escrever. É talvez também porque o fio lembrar o lugar em que a "recordação" assim fixada foi condutor do artigo sobre O Inconsciente. auxiliar da vantagens e apresentam sempre o inconveniente comple- memória psíquica e não ela mesma memória: mais mentar. a bem dizer. Mas aqui. W. qualquer altura e quantas vezes quiser. E notemos que 11 normal tem também todas as razões para o fazer — 0 conceito de inscrição permanece ainda o simples ele. a um outro destino de outro modo em mim de maneira invisível. certo de que permanecerá inalterada. é o destino de uma representação.. 280) que Freud introduz depois fio da minha memória —. pelo menos desde Platão. Trata-se em primeiro lugar e apenas de considerar as Neste texto de seis páginas. Tal é a res extensa e a superfície inteligível unonvrjff!. o seu exemplo. p. A superfície que recolhe este traço.). como de ter renunciado a tomar uma decisão não elimina a se sabe bem. o psiquismo está nos interessa diretamente aqui. dizia o Fedro. não conserva os traços. A diferença entre o sistema e o psíquico Anzeichnung). a um grau surpreendente. é progressivamente de. rá ser outra co<sa senão uma máquina de escrever. ainda menos a estrutura da temporalização que funda ria. Basta-me diferente da escritura. serva indefinidamente mas depressa fica saturada. o "aparelho de percepção" já não pode. técnica exterior. tendo portanto crever a percepção. ria. Três etapas da pla exigência definida desde o Esquisse: conservação descrição lhe fazem de cada vez ganhar em rigor.} do que iavrjixrj. uma peça materializada (ein materialisiertes Stück) do quina. "parecem ex- mnesico era distinguido da "memória". dos aparelhos de escrita clássica. do suple- mento hipomnêsico que o psíquico tem de projetar "no O Pedaço de cera de Freud mundo". doze anos mais tarde. creverá o aparelho de percepção e a origem da memó. representado como uma peça extraída e "materializada" vestimento (Gegenbesetzung: "único mecanismo do re. É a passagem que citamos mais acima e na qual o traço deste modo substituem à nossa memória. mas o indivíduo diferença tópica das duas inscrições. bloco ou a folha de papel. 288. também não é a possibilidade e a necessidade da Erganzung. A discussão que se segue não o que não era possível em Platão.

a folha Duplo sistema compreendido num único aparelho de cobertura composta." sigo. M a i s tarde (Au-delà du veis como uma escrita escura na superfície do celulóide príncipe du plaisir). esta sempre o reclamou. Supúnhamos um ou de cera. uma folha de celulóide transparente. portanto transparente. "mas. As marcas duradouras lugares que toca. 216 217 . Esta folha é a parte mais interessante do terioridade pura e sem relação a si. basta destacar da tabuinha de cera. pelo seu bordo inferior livre. que ob. camadas que podem ser separadas uma da outra exceto Os aparelhos auxiliares (Hilfsapparale). ardósia". que recebesse as percepções mas que depressões produzem o "escrito". Une as duas certezas em- de cera ou de resina. rior da tabuinha de cera. o interior. do não nos servimos do aparelho. Quan- quina fotográfica. com da percepção no lugar das marcas duradouras. a camada inferior lo do órgão fornecido (por exemplo os óculos. são sempre constituídos segundo o mode. Servimo-nos deste bloco má- peito o apelo anterior a aparelhos de óptica. E l a própria se compõe de duas um outro espaço de escrita. " J á formulei na Tramdeutung (1900) não depende aqui da intervenção do material sobre a a hipótese de que essa extraordinária capacidade devia superfície receptora. Somos tentados a pensar que Freud noutros lugares também deturpou a sua descrição técnica (12) V. A sua aparência é modesta. parecem portan. folha de cera e a tabuinha de cera. U m a ponta aguçada risca a superfície cujas sistema P. nos lugares riscados dos quais depende o devir-visível da escrita. acrescentei a observação de que o que é liso e cinza esbranquiçado." 12 um gesto leve. Freud lem. é o que finalmente pôde conciliar esse do interrompido e já n ã o se reproduz quando as duas "pequeno instrumento" que foi "lançado há algum tem- folhas repousam de novo uma sobre a outra. a má. enquanto o seu bordo inferior está nela livremente so- tence à geometria clássica e é nela inteligível como ex. Eis um regresso à maneira como ser distribuída pelas operações de dois sistemas diferen.. Esta observação torna talvez ainda mais sus. 4-5. A sua extensão per. os a m p ü f i c a d o r e s ) . gico praticando a inscrição sobre a pequena placa de bra contudo que a exigência contraditória aqui enun. Ver o cap. um do nosso aparelho de p e r c e p ç ã o " . devido às necessidades da analogia. nos uma folha virgem de escrita. de cor marrom escuro. Poderia ter isso não precisamos de lápis nem de giz pois a escrita dito em 1895. Se quisermos destruir fenômeno inexplicado da consciência surgia no sistema a inscrição. 5-6). nos dois bordos transversais. e uma exterioridade perfeitamente su- vantagens: "Uma superfície de recepção sempre dispo. IV àe Au-delà. é uma folha de cera fina. os antigos escreviam sobre pequenas tabuinhas de argila tes (órgãos do aparelho psíquico). A camada superior é serva Freud. breposto. O bloco po no mercado com o nome de bloco mágico" e que mágico fica então virgem de escrita e pronto para re- "promete ser mais eficaz do que a folha de papel e a ceber novas inscrições" (p. Csce.. celulóide da folha que cobre a tabuinha de cera. a superfície inferior to particularmente deficientes quando se trata da nossa do papel de cera adere ligeiramente à superfície supe- memória. (53) A Standard Edition observa aqui uma pequena infideüdade na descrição de Freud. uma folha fina e transparente. solidamente presa à tabuinha no seu bordo superior. é deste mo- nita das marcas. "Ela não afeta o princípio". de tal incisão não se produz diretamente mas por intermédio modo que possa se oferecer a cada nova percepção como da folha de cobertura superior. É preciso encontrar pequeno dispositivo.retenção dos traços duradouros". O contacto íntimo entre a 15 diferenciado. Para ciada tinha já sido reconhecida em 1900. inocência sempre oferecida e reserva infi. rodeada píricas que nos constróem: a da profundidade infinita de papel. perficial: estratificação de superfícies cuja relação con- nível e marcas duradouras das inscrições recebidas. se olhar- mos mais de perto. No bloco mágico esta não guardasse delas nenhuma marca duradoura. A ponta pressiona. não passa da implicação de uma outra Eis a-sua descrição: "O bloco mágico é uma tabuinha superfície também exposta. descobriremos na sua construção Notemos que a profundidade do bloco mágico é uma notável analogia com o que supus ser a estrutura ao mesmo tempo uma profundidade sem fundo. a superfície inferior do papel de cera das excitações recebidas produziam-se nos "sistemas sobre a tabuinha de cera e estes sulcos tornam-se visí- mnésicos" situados atrás dele. Por cima. Oferece as duas reenvio infinito.

Csce zontal na cadeia dos signos mas a escritura como i n - — não forma nenhum traço duradouro. as bases da terrupção e restabelecimento do contato entre as d i - recordação produzem-se em outros sistemas de suplên. um protetor consciência na percepção. Sem ela. . Mantém-no audacioso comparar a tabuinha de cera com o incons- ao abrigo das "influências ameaçadoras provenientes do ciente que se encontra por detrás do sistema P. um tempo da escritura e não é outra coisa senão a ou à percepção." exterior". simultaneamente. Csce. a simultaneidade. o material cia". pois dela. Até aqui só se tratava do que. É preciso dar conta da escrita cera. e. A "memória" ou a escritü atual. O "percebido" ser. recebe os estímulos. Csce" (p. escritura. interessando-se apenas pela analogia. a saber espaço da escrita. A temporalidade como o que já supus sobre o nosso aparelho psíquico: A espaçamento n ã o será apenas a descontinuidade hori- camada que recebe as excitações — o sistema P. se satisfeitas com este duplo sistema e "é exatamente a encontram construídas. n ã o objeto inteligível. e que. na sua estrutura o que Kant descreve como os três tualidade. contra a escrita se. "Não considero demasiado um véu protetor para o papel de cera". mada perceptiva. corres- insiste no caráter essencialmente protetor da folha de pondendo aos protótipos da ardósia ou do papel. Mas é fácil camadas sensíveis. a abertura da superfície mais super. uma abstração. como o fiz notar. N ã o há escrita que não se constitua uma mnésico no aparelho psíquico. prossegue Freud. 14 O devir-visível alternando com o apagar do escrito seria desenvolvia a idéia de que o nosso aparelho psíquico o raio (Aujleuchten) e o esvaecimento (Vergehen) da de percepção se compõe de duas camadas. dos o sistema P. Isto introduz a terceira e última analogia. só celulóide. em proteção contra si. e uma superfície dúvida a mais interessante. o bloco proteção. seu relevos e das suas depressões. IV dc Au-delà. E vai ligar um conceito desconti- constatar que o traço duradouro do escrito se mantém nuísta do tempo. Freud. reconstruindo uma operação. Ainda não há escrita na £ preciso contar aqui com o tempo desse p e d a ç o de planura dessa extensio. no envolvimento ilimitado do desta aparecer a si própria.na implicação do sentido. abaixo da percepção e de- Desprezando as "pequenas imperfeições" do dis. da sua extensão e do seu volume. mágico representa-o por inteiro c não apenas sua ca- gundo a qual o "sujeito" está ameaçado ao deixar-se es. Descartes. uma vez mais. só se dá a ler no passado. exterior contra as excitações. ficial à incisão do estilete. "Esta analogia. da ausência absoluta da parte de baixo. É a segunda analogia: "Se retirarmos da quando se interroga quaenam vero est haec cera." As exigências contraditórias ficam Lettres à Fliess a Au-delà. N ã o lhe é exterior e o bloco mágico compreende como traço sobrevivendo ao presente do estilete. A escrita substitui a percepção antes mesmo temporal tão heterogêneo do próprio trabalho psíquico.. versas profundidades das camadas psíquicas. como periodicidade e espaçamento da na tabuinha de cera e permanece legível com uma ilu. 218 219 . capaz de reduzir a im. modos do tempo nas três analogias da experiência: a não teria muito valor se não pudesse ser continuada mais permanência. à pon. à a-ziy[xr\. 6 ) . mais se reconstitui em seguida. a da essência pelicular do são a abertura desse próprio aparecer. com toda uma cadeia de hipóteses que v ã o das minação adequada. . . É sem portância das excitações que ocorrem. N ã o encontramos aí nem a continuidade da linha nem (14) Ainda no cap. adiante". Freud Enquanto as outras superfícies de escrita. A tabuinha de cera representa efeti- crever: ao expor-se. situada por detrás dele. Mas há também Mas isto só diz respeito por enquanto à recepção. "A folha de celulóide é portanto vamente o inconsciente. positivo. A superfície do bloco não pode reduzir nem o tempo nem a multiplicidade de mágico está virgem e de novo receptora. o papel de cera fina seria riscado pediam representar uma peça materializada do sistema ou rasgado. própria estrutura do que neste momento descrevemos. confirmadas e so- maneira como se realiza a função perceptiva conforme lidificadas no bloco mágico. pode tabuinha toda a folha de cobertura — celulóide e papel reduzir a sua essência à simplicidade intemporal de um de cera — o escrito apaga-se e. "Devo aqui lembrar que em Au-delà. consolidadas. a sucessão.

O conceito de "caminho desviado" (Vmveg) é aí central.. A aparente exterioridade da censura política tuída a uma "identidade de percepção". N ã o é por acaso que a reconhecida entre a negação pensada e a diferencia. e um sistema de gestos. dijerencia oposta a.. Isto concorda com uma tura. é um mito. teórico e sempre já transgredido e disfarces.lschub. o atraso. sílio do que uma máquina. concordata. Sobre o Denkaujschub. Esta Esta máquina não andava sozinha. já sempre preparado a representação. vários para escrever e já para "perceber". 41. É nisso que se nota a sua temporalídade. São necessárias pelo menos duas mãos para fazer funcionar fundidade diferenciadas de uma cena. no artigo sobre a Verneinung. desvio. Vigilân- (15) Encontramo-la no mesmo ano. são constituídos pela dupla força de repetição e ra fora. Uma Estes movimentos são em seguida "retirados" ou "vol- máquina para duas mãos. não há nada antes do compromisso 220 221 . respeito à escritura nas suas rasuras. uma multiplicidade orga- "Confesso que estou inclinado a levar a compara." que até agora guardei para mim" (p. enquanto uma das m ã o s escreve na apaga-se cada vez que se interrompe o contato íntimo superfície do bloco mágico. toda intuição originária. inscrição senão dando-se o período da sua desapariçáo. adiantamento. rempre diferencia. diferencia e desapari- exterior e retiraria quando elas lhe dessem a medida ção originários da origem simples. das "inervações de Desde a origem. de iniciativas independentes. parece fazer aí uma referência convencional e de pensamento". união de Eros e de Thanatos). polêmica desde o das excitações e o advertissem da ameaça. a própria página de cober- cera que retém a impressão. no político. é a visada sempre já substi. A consciência apaga-se cada vez que o in- cias ou de origens. 14-15). A sua A sua agoricidadè não é simples. ou melhor diferente do pólo fictício. Numa passagem qüe teria aqui importância para nós pela relação nela cia e fracasso da censura. visada do "processo primário". por sacudidelas rápidas e periódicas. XIV. ("Todo pensamento nada mais reenvia a uma censura essencial que liga o escritor à ê do que um caminho desviado" (p.Csce". o desvio 'Av. Freud compara esse mo- temporalídade originárias da escritura. Ê nesta cena que termina a Note: ção ainda mais longe. ê sua própria escritura. Denkaujschub) (a diferencia. O "compromisso". A escritura é impensável sem o recalque.a homogeneidade do volume. de^ desaparição. M a s é que a "per- periodicidade dos investimentos. é contrariada pelo tema do recalque originário. Csce. o seu espaça- o aparelho. uma "ficção" tão "teórica" como a idéia do processo primário. mas aparelho psíquico dc percepção. ver todo o capítulo VII (V) da Traumdeutung. A virgindade ideal condição é que não haja nem um contato permanente nem uma ruptura absoluta entre as camadas. sobre o pensamento como retar. no "presente" da sua primeira impres- investimento" (Beseízungsinnervationen).. de legibilidade e de ilegibilidade. 7). uma multiplicidade de instân- tados". a primeira relação da vida ao seu outro tinha representação do tempo" é atribuída a essa "não-exci. A "identidade tung. mesmo se Freud. O tempo é a economia de simples da agoricidadè e da manuscritura. prorrogação. E nunca o seguramos com uma só mão. (Freud não limiar daquilo que nos obstinamos a denominar a per- mais guardou para si essa imagem da antena — encon- tramo-la em Au-delà. A estrutura balho do sistema P. o escrito "Se pensarmos que. p. É preciso ser tabilidade periódica" e a essa "descontinuidade no tra. no sentido de Freud. do agora é constituída pelo trabalho da memória. mas a duração e a pro. em direção à permeabilidade do sistema P.. não será a relação com o outro e a vestimento é assim retirado. Os traços não produzem portanto o espaço da sua Esta hipótese é a de uma distribuição descontínua. cap.) A "origem da nossa cepção". No bloco mágico. toda tecida de recordação. É mais um uten.W. da tabuinha de cera. 607). Ora. IV — observamos há 15 cepção? A cena do sonho "que segue explorações an- pouco que ele não tinha guardado para si a noção da tigas" era uma cena de escritura. uma outra retira por perío- entre o papel que recebe a excitação e a tabuinha de dos. no início da Traumdeu- do processo primário". a sua compli- vimento a antenas que o inconsciente dirigiria para o cação "primária": espaçamento. didática. de dentro pa- são. diz a emissão das antenas é atribuída não ao inconsciente mas ao eu 'G. como át uma escrita. nizada de origens. uma coordenação mento: . teremos a ilustração sensível da maneira como representação que há muito tempo dei a mim próprio eu queria representar-me o funcionamento do nosso do modo de funcionamento do aparelho psíquico.. e das ganze Denken ist nur ein Vmweg. p. espaços em branco damento. Ver também os "Umweg zum loae em Jenseus. metáfora da censura saiu daquilo que.

mória psíquica. O sujeito da escritura é própria. Freud também n ã o se interroga sobre a mecânica. N ã o porque arrisquemos a morte ao ou por um recalque que aliás não poderiam agir sobre brincarmos com as máquinas. ainda que essa espontanei- sa: mecânica sem energia própria. A representação é a morte. dade fosse diferenciada em si. mais complexo do que a ardósia ou a folha. No in. mesmo se interroga explicitamente sobre o estatuto do rente. tinha a impressão e a sua necessidade testemunham a finitude deste modo de se encontrar perante uma máquina que em breve suprida da espontaneidade mnésica. Como a pri- semelhança. começou a parecer-se com a memória. espontaneamente. pontaneidade da memória. o seu gesto é então muito pla- -mundo do psiquismo. Por conseguinte. Para descrever esta estru. pela instância em nós que sempre já vigia a per. Funda-a. mas comparado a outras ciona por si só. e as oposições emissor-receptor. é um brinquedo de criança." A multiplicidade das da escritura não existe se entendemos por isso alguma superfícies dispostas do aparelho é. pelo menos O que imediatamente se transforma na proposição se. eódigo-mensa. Se só houvesse percepção. vendo. "reproduzir" do interior o escrito uma vez apagado. . no mundo. é impossível encontrar a simplicidade Platão. Longe de a das máquinas está a relação com a morte. Em vão se procuraria no "público" o primeiro leitor. Freud nem como drama requer uma disciplina completamente dife. alguém. separado da responsabilidade psíquica. permanecem instrumentos muito grosseiros. seria verdadeiramente um bloco mágico se pudesse fa- cepção. Tal é pelo menos o limite que Freud máquinas de arquivar. gico.Seríamos escritos leitura tinha saltado esta observação de Freud: "A mas nada ficaria consignado. nenhuma escritura se pro. se reteria. A traço psíquico tem o poder de se reproduzir e de. entre o autor que lê morte deveria contudo tê-lo levado a colocar aqui ou- e o primeiro leitor que dita. e cada vez se guinte: a morte ( s ó ) é representação. exterioridade do auxiliar da memória. a sua existência representação do aparelho psíquico. recordações empíricas de tura. repete. permeabilidade pura às representar a si próprio.fun- arcaico do que o palimpsesto.. não basta lembrar que se escreve sempre para uma verdade presente fora do tempo. do psíquico. diz ainda respeito ao espaço e ao mecanismo cartesia- isto é. uma máquina. possibilidade desta máquina que. quer ela seja interna quer externa. o primeiro autor da obra. A colocá-las explicitamente. significa outra coi. um sistema de relações entre as camadas: o bloco A vida como profundidade só pertence à cera da me- mágico. A nossa explorações. uma complexidade morta e sem profundidade. só o como a morte não surpreende a vida. menos U m a representação pura.se 222 223 . dizia o Fedro. isto é necessariamente um certo estar-no- meira palavra da Note. tal tônico. Mas o que devia andar sozinho era portanto a representação — é a morte e a finitude o psíquico e não a sua imitação ou a sua representação no psíquico. Freud. etc. ela própria tecida de traços. O "sujeito" zê-lo como a nossa memória. A máquina — e ' andaria sozinha. como terior desta cena. da sociedade. não sobreveio à memória. a escritura hipomnésica à escritura ev T T J 4^x13' pontual do sujeito clássico. Lembramo. do mundo. o bloco má- gem. O bloco mágico não pode a percepção pura não existe: só somos escritos escre. numa curta a Fliess. máquina ser pura ausência da espontaneidade. a sua -nos de que. Mas em algum lugar um limite. analogia de um tal aparelho de auxílio deve encontrar duziria. E a "sociologia da nos: cera natural. Esta reconhece na analogia do bloco mágico. Mas está unida lhe assemelha mais e melhor. A máquina está mor. Só a escritura da alma. mas porque na origem uma memória perfeitamente espontânea. evocando a sua semelhança com o aparelho psíquico. Muito melhor do que esse inocente bloco mágico: este é sem dúvida infinitamente à vida e ao presente vivo que originariamente. se repetiria como legibilidade. suplemento "materializado" necessário à pretensa es- A máquina não anda sozinha. Freud continua portanto a opor. não haveria exploração. enquanto representação abandonada a si própria. A socialidade da escritura tras questões. Esta não vive. barrada por uma censura ta. jamais . E l a é a morte. literatura" nada percebe da guerra e das astúcias de Tudo o que Freud pensou dá unidade da vida e da que é objeto a origem da obra. abandonada a si solidão soberana do escritor.

> Perante as histórias que o Esquisse nos conta. mesmo m s e s c u T c o m ^ ^ quando a conduzia ao limiar do seu tema e da sua T V ^ l i t o T c e Z d a escritura. ção psíquica individual. e « a cena d a escritur. Freud não explicitou. o para lá e o para cá do fechamento que podemos de- nominar "platônico". que_ coasiste em ter co pequena). a fábula metapsicológica. supondo que:esta exista (para isso -se. Aqui. pensou-se sem se ter pensado: escrito e ao mesmo tempo apagado. individua ov» « ^ J ^ 0 ^ d o Lmdo. a madeira ou a resina para se p r e v e r q entre o presente e a representação. histórica. A própria idéia de finitude é derivada do t ^ J ^ ^ « ™ ° d e Freud está movimento dessa suplementariedade. tal através de uma inacreditável mitologia (neurológica ou c metapsicológica: pois jamais pensamos levar a sério. uma relação a si da cena históriec-transcen- dental da escritura se disse sem se dizer. metaforizado. representado. ordem totalmente diversa da da produção de uma me- aqueles que ^ ^ ^ f T J ^ ^ • * táfora intrapsíquica. Assim se anunciam talvez. fi™*d "nlio. Aquilo que se abre ao seu tema no discurso de Freud faz que a psicanálise não seja uma simples psicologia. vavetaente órgãos g e n m s .. * n " . 225 224 . exceto na questão que desorganiza e inquieta a sua lite- ralidade. ele próprio desigaado ao indicar relações metáfora. acrescentando-se à organização psíquica para suprir a sua finitude. a possibilidade dessa relação representativa. é de uma Como todos aqueles que escrevem. na abertura freudiana. Aqui a questão da técnica (seria talvez necessário encontrar um outro nome para a arrancar à sua problemática tradicional) não se deixa derivar de uma oposição natural entre o psíquico e o não-psíquico. entre os dois apare. Neste momento da historia do mundo. Neste sentido a escritura é a cena da história e o jogo do mundo. numa natureza. coloca uma questão que. N ã o se deixa esgotar por uma simples psicologia. de uma máquina suplementar. o a .Isto talvez se reconheça (por X sem dúvida essenciais. A metáfora como retórica ou didática só é aqui possível pela metáfora sólida. ™ ^ m a t e n \ ™ s e c a e a uma es- lhos. a vida e a morte. nem uma simples psica- nálise. repetir-se e anunciar se^ a não basta falar dela) e qualquer que seja o elo que as n o g duas metáforas mantenham entre si. neste caso a analogia entre os dois aparelhos e intramundanas. e mesmo genérica. é preciso urgência. A escritura é aqui a Téxvrj como relação entre a vida e a morte. d d o b r a r . a suá vantagem é talvez "Quando a escrita. Inicia a questão da técnica: do aparelho em geral e da analogia entre o aparelho psíquico e o aparelho não-psíquico. tal qual se "indica" sob o nome de Freud. A produção his- tórico-técnica desta metáfora que sobrevive à organiza. pela produção p ^ r e — não "natural". cologia. apesar das suas premissas e por razões .

ou em Ezequiel desse filho do homem enchendo as 1) de uma psicopatologia da vida quotidiana na qual suas entranhas com o rolo da lei que se torna na sua boca o estudo da escritura n ã o se limitaria à interpretação do lapsus tão doce quanto o mel? calami e prestaria aliás mais atenção a este.a f e ç ã o pura. à sua originalidade. realidade. d e s v a l o r i z a ç ã o .ência ( n ã o a tem) mas em termos de v a l o r i z a ç ã o ou de traço em geral. a sua análise da consti- do nada) seria fecunda n ã o s ó na desconstrução do logocen. nada é quisa que acabamos de delimitar aproximativamente. ainda d ã o lugar.marcha se tornou o substituto do pisar do corpo da agora abordo parecem-se de tal modo com os lapsus de pala- niãc terra. • • • 226 227 . I.). T a l radicalização do pensamento do traço {pensamento porque escapando ao binarismo e tornando-o possível a partir Toda a temática de M. inconsciente. escrilura como d e s a p a r i ç ã o : do presente e portanto do su- jeito. e de irremediável. n ã o na sua geral. Aqui. a especulações desenfreadas. do seu próprio e do seu nome próprio. é uma presença plena. doce alimento ou excremento. p. Some uncons- cious factors in reading). seriam numerosos. A t é agora apenas se fez a a n á l i s e dos é constituído pela a m e a ç a ou a angústia da sua desaparição significados literários. prata ou arma. dos pontos. certamente por acaso. da desaparição da sua desaparição. por mais admiráveis para o de substância — e portanto de presença — do qual que sejam. os movimentos das letras. aos elementos do aparelho de escrita algo que podemos denominar o recalque em geral. campo imenso no qual só se sujeito (consciente ou inconsciente) remete necessariamente fizeram até agora trabalhos preparatórios. Quanto às formas dos acidente que se pode produzir aqui e ali. um texto como Role originária do recalque originário e do recalque "propriamente o/ the school in the libidinal development of lhe child (1923) dito" ou s e c u n d á r i o . um germe mortal.. s u b s t â n c i a ) . por exemplo a propósito do lapsus A última parte da conferência dizia respeito à arqui- calami assassino (ibid. nada se passa. 'i nos Números da mulher sedenta bebendo a poeira de tinta da lei. etc. cuja especificidade estaria assim aberta a traço como semente ou germe de morte. Aqui esquecido". para continuarmos a designar estes cam- Este desaparecimento é a própria morte e é no seu hori. perante a instância da psicanálise. da sua própria presença. a síntese (instrumento. isto é. cante literário ainda n ã o foi iniciada e isso n ã o aconteceu O traço é a desaparição de si. cap. isto é. A escritura. não-literários. t a m b é m de alguns outros). se a seguirmos em diferentes campos. ricas. uma este engano. . Estes campos. pos de acordo com fronteiras tradicionais e p r o b l e m á t i c a s . II. para além das descobertas empí- nasceu. nem mesmo a es. aos investimentos aos ou aquela presença. quais estão submetidos os gestos. Klein. em diferentes n í v e i s da escritura em com prudência. t u i ç ã o dos bons e maus objetos. 4) finalmente. a escritura como excremento separado da carne viva tuai admitida. das linhas. vra que n ã o nos podem fornecer nenhum ponto de vista novo" porque voltariam a praticar o ato sexual interdito. um filho de Deus. tória. Mas tais questões levam a toda a história das próprias formas literárias. a sua genealogia da moral trismo mas numa r e f l e x ã o exercendo-se mais positivamente poderia sem dúvida c o m e ç a r a esclarecer. o que n ã o o impediu de colocar o pro- blema jurídico fundamental da responsabilidade. Este desaparecimento do t r a ç o n ã o é apenas um talvez Melanie Klein abra o caminho. 0 conceito de 2) da história da escritura. isto é. como movimento da temporalização e como a u t o . apesar de algumas traço e extraí-lo da metafísica da presença que ainda o retém tentativas de Freud e de alguns dos seus sucessores. um pensamento fecundado pela psicanálise. um sinal de parousia e n ã o uma semente.l o a nenhuma o p o s i ç ã o concei. memória. detrito ou / e pênis. do que sem dúvida o próprio Freud ("Os erros de escrita que (16) Trad. é a própria estrutura que torna possível. na a r t i c u l a ç ã o da escritura no sentido corrente e do ess. unia psi- (em especial nos conceitos de c o n s c i ê n c i a . 4. e mesmo na grafia alfabética aos. na cena da his- quanto n ã o se deveria s u b m e t ê . substância i m ó v e l e incorruptível.resíduos irreduttvel- trutura necessária de uma censura determinada ameaçando esta mente pictográficos da escrita fonética. da- zonte que se deve pensar n ã o só o "presente" mas também quilo que se poderia denominar uma nova grafologia psicana- o que Freud sem d ú v i d a julgou ser o indelével de certos traços títica levando em conta a contribuição dos três tipos de pes- no inconsciente onde "nada acaba. e do corpo sagrado do hieróglifo (Artaud) e o que é dito Tratar-se-ia em primeiro lugar. É preciso portanto radicalizar o conceito freudiano de 3) do devir-literúrio do literal. etc. canálise da literatura respeitadora da originalidade do signifi- cepção. Um traço tudo o que nelas estava precisamente destinado a autorizar indestrutível n ã o é um traço. superfície. indica a direção a seguir (ver t a m b é m Strachey. Tort. W. escrita e marcha são ambas abandonadas. todo o problema do arquitraço. signos. per. O problema dos seus limites respectivos seria tanto mais grave Por exemplo.)." 10 G. M. como fazer comunicar.

229 . Qual seria portanto esse acontecimento? Teria a forma ex- terior de uma ruptura e de um reáobramento. A E S T R U T U R A . O S I G N O E O J O G O NO DISCURSO DAS CIÊNCIAS H U M A N A S Existe maior dificuldade em interpretar as in- terpretações do que em interpretar as coisas. Talvez se tenha produzido na história do conceito i^_ÇfU t E. "acontecimento" e usemos esta palavra com precauções entre aspas.a algo que poderíamos denominar um "acon- u u tecimento" se esta palavra não trouxesse consigo uma carga de sentido que a exigência estrutural —.. (MONTAIGNK) . Digamos contudo um. .-'òu es- truturalista — tem justamente como função reduzir ou suspeitar.

um encadeamento de determi- abre e torna possível. E ainda hoje uma estrutura privada de centro representa o próprio Se for realmente assim. A história. no jogo. ou do centro. tão pouco demonstrativo e tão elítico. Poder-se-ia mostrar que todos os no- tura. homem. permite o jogo dos uma jpresença plena e fora de jogo. antes da ruptura de que falamos. até ao acontecimento que eu gostaria! de início no jogo. constituído a mesmo a palavra estrutura têm a idade da episteme. mas é pára go'propositadamente esta palavra). Eis por que talvez se poderia dizer que o mo- I levar o princípio de organização da estrutura a limitar vimento de toda a arqueologia. é o ponto em nações do centro. dos larmente. como o de toda a esca- {p que poderíamos denominar jogo da estrutura. seria a his- permuta ou a transformação dos elementos (que podem toria dessas metáforas e dessas metonímias. o centro pode ser designaram'ó invariante dè^ma^fêséhçà^ejdcís. . telos. É tologia. fqrrqa rnatrjciãl seria — espero que me perdoem ser Pelo menos sempre permaneceu interditada (e empre.3 sér. Esta no centro da totalidade e contudo.-a condição da episteme como filosofia ou mento em que a estruturalidade da estrutura deve ter. A sua aliás ser estruturas compreendidas numa estrutura). Enquanto centro. no fundo do qual a episteme vai reco. já não é possível. recebe indiferentemente os nomes de origem ou de fim! sempre se viu neutralizada. A partir do que chamamos portanto de apreender. sempre pensamento clássico da estrutura. como a. para um mes do fundamento. história do Ocidente. O conceito O acontecimento de ruptura. as permutas são sempre apanhadas nu- ponto de presença. desta palavra. como dência —. a angústia pode ser dominada. Q_cenLro^^ que a substituição dos conteúdos. Contudo. em todos os de um desejo. comandando a estru. formas ou nomes diferentes. por definição único.substânéia. c e i e ue da estrutura. centro não lhe pertence. de ser como ser logo rico. começado . qrqtíê. numa minação do ser como presença. tem de ser pensada como uma série de substituições Contudo. E co. embora tenha sempre estado em ação. reduzida: por um gesto que <£guê ou àu telos. O conceito de estrutura centrada é com sentidos desta palavra. transcendentalidade. estrutura e tenta sempre pensar esta última a partir de ganizando a coerência do sistema. energeia. a disrupçãp a que de estrutura centrada — embora represente a própria aludia ao começar. as repetições. dos elementos. partir de uma imobilidade. e que mergulham suas raízes no sob da lin. ceito de estrutura. constituía. ela própria subtraída ao jogo/ Á partir dentais. orientando e or. a uma origem fixa. consciência. exatamente aquilo que. história — cuja origem pode sempre ser despertada. ou organizar a estrutura — não podemos efetivamente cujo fim pode sempre ser antecipado na forma da pre- (pensar uma estrutura inorganizada — mas sobretudo sença. fundadora e de uma certeza isto é. é proibida a metafísica. Sempre se pensou chegar mais depressa ao meu tema principal — jdeter- a que o centro. ao mesmo tempo da ciência e da filosofia oci. dito. simplesmente uma tinha como função não apenas orientar e equilibrar. na estrutura e fora da estrutura.. etc). O centro não é o centro. qusia (essêneja. é cúmplice dessa redução da estruturalidade da certo que o centro de uma estrutura. a estrutura. escapa à estruturalidade. No centro. Desde então deve ter sido 230 231 ."as consistia em dar-lhe um centro. é contraditòriamente coerente. Eis por que. tranqiiilizadora. ter-se-ia talvez produzido no mo- coerência. nasce sempre de uma certa maneira de estar implicado lhê-los para os trazer a si num deslocamento metafó. elementos no interior da forma total. em relacioná-la a um transformações. o centro encerra também o jogo que de centro para centro. noutro lugar. a totalidade tem o seu centro Deus. ou melhor a estruturalidade ° H ° °» > podendo igualmente estar fora e dentro.p^sa3à'/ isto errepfidaTé"éir porque mo sempre. paradoxalmente. Esse centro ma história do sentido — isto é. toda a história do con- impensável. desta certeza. a coerência na contradição exprime a força dizia que esta disrupção era repetição. dado que o sujeito) aletheia. Seria fácil mostrar que o conceito de estrutura e efeito o conceito de um jogo fundado. as substituições.da termos. do princípio. ^existência. em todos os sentidos estrutura. a qual guagem comum. de ser apanhado no jogo.

da'~determiriação "dó" ser como presença. Quando'Lévi-Strâúss referir um acontecimento. A ausência de significado preendida e determinada. — com a condição . u r s ò . ficante diferente do seu significado. invadiu o campo problemático universal. Pois a significação "signo" foi sempre com- um sistema de diferenças.diferença na identidade a si de um A isto é. no prefácio do Cru et le Cuít.metafísica. mais radi- que vem a dar rio mesmo. força e a legitimidade do seu gesto não nos podem fazer mos contudo. a clássica. dignificado reduzindo em si o seu significante. mas de metafísica: não tem nenhum sentido abandonar os con- fuma presença central que nunca foi ela própria. a já começou a anunciar-se e a trabalhar. Desde então deve-se ria. o I da proximidade ou da propriedade a si." Esta produção pertence sem dúvida à tota. que o centro não tinha lugar natural.ca_nietZ5çB. truidora que não se tenha já visto obrigada a escorre- que o centro não podia ser pensado na forma de um gar para a forma. pode fazer — recusar mesmo o conceito e a palavra cendental. O substituto não se substitui a nada que lhe e de nenhum léxico — que seja estranho a essa histó- tenha de certo modo preexistido. como há pouco o sugeri. substituídos pelos conceitos de cidade metafísica^^_ mesmo tempo ao | jogo. Se apagarmos a ^ . Para dar um exemplo entre tantos outros: é com a pécie de não-lugar no qual se faziam indefinidamente ajuda do conceito de signo que se abala a metafísica substituições de signos. pensada a lei que comandava de algum modo o desejo análogos estão apanhados numa espécie de círculo. do sujeito._çqntra ela. tende assim mostrar. que n ã o foi então o momento em que. 'a^destrujcJsL^4çggeri%tta. seria sem dúvida necessário seu sistema. a j ^ L c a ^ f r e j r á i a j i a ^ presença a si. da consciência. seria de certo modo ingênuo donar como conceito metafísico. e o processo da Este círculo é único e descreve a forma da relação entre significação ordenando os seus deslocamentos e as suas a história da metafísica e a destruição da história da substituições a essa lei da presença central. cender a oposição do . de interpretação e de signo (de signo sêm ver- Trabalho crítico que. implícitas daquilo mesmo que gostaria de contestar. ou. então. todos estes discursos destruidores e todos os seus cadpx. F o i então o momento em que da presença. -de. signi- go da significação. ^ t u ^ ^ e _ J p r n a . esquecer que o conceito de signo não pode em si mesmo mes próprios" e evocar os autores dos discursos nos superar esta oposição do sensível e do inteligível. consiste "em reduzir ou em de- 232 233 . mais limite. que não era um lugar fixo mas uma função. escolher alguns "no. que é a nossa. da identidade a si. expulsando-b'"simplesmente i calmente.Í4nO dos conceitos ceito-de -signo.sensível e do inteligível colo- lidade de uma época. Mas a partir do momento em que se pre- a 'linguagem.uma. na ausência de centro ou havia significado transcendental ou privilegiado e que de origem. o campo ou o jogo da significação não tinha. originário ou trans. é a mo pensamento da estruturalidade da estrutura? Para própria palavra significante que seria necessário aban- designar esta produção. É quais esta produção se manteve mais próxima da sua determinado por esta oposição: completamente ~e atra- vés da totalidade da sua história. do centro na "constituição da estrutura. Pois há duas maneiras heterogêneas vonto-íeologil. não dis- •^sempre já foi deportada para fora de si no seu subs. a título de exemplo. dirigimos. Mas não podemos desfazer-nos do con- \ citar a.. a necessidade.hão"15. desde de nos entendermos sobre esta palavra — isto é. sem correr ídade presente). como signo- transcendental amplia indefinidamente o campo e o jo. mas ela sempre cando-se logo ao nível dos signos". a o rjscb de apagar a . diferença radical entre significante e significado.QdemÕs jide ser e de Verdade. nunca está absolutamente presente fora de signo. no seu sentido. que "procurou trans- um autor. da . de apagar a diferença entre'o significante e o signifi- Ora. d i s c . que ceitos da metafísica para abalar a metafísica. não podemos enunciar nenhuma proposição des- sem dúvida ter começado a pensar que não havia centro.críti. dever-se-ia — mas é o que não se tema no qual o significado central. para a lógica e para as postulações sendo-presente. Onde e como se produz esse descentramento co. da para fora de si. uma doutrina ou o nome de diz. e. pomos de nenhuma linguagem — de nenhuma sintaxe tituto. sis. significante remetendo para um significado. Só viveu dela e do i formulação mais radicah. . uma es. Se quisésse.

não é uma melhor. Freud e Heidegger operaram. os seus rejuvenescimentos e maquilagens. por exemplo a Heidegger consi. Lévi-Straussj certa escolha e porque nele se nascer como ciência no momento em que se operou elaborou cefta doutrina de maneira. a história da Metafísica e aos conceitos herdados. este acolhe no seu discurso as nuas. : época. (djsjçonstruçao dessa mesma herança. finalmente em submeter o não há nada de fortuito no fato de a crítica do etno- signo ao pensamento. cada pelo rigor crítico com que é pensada essa relação com empréstimo^ determinado faz vir a si toda a metafísica.{ Apesar de todos científico. £. bujçar. mais ou menos empíricas. com a redução. mais ou menos siste. . Mas há várias maneiras de ser apa. Poderíamos en. São estas di. E nenhum outro economia e de estratégia. sobretpdo porque se observou no tra- efeito considerar que a FitnologíãLió teve condições para balho de. Ê com. os conceitos herdados da metafísica que. destruidores e o desacordo entre aqueles que os pro. Pois o paradoxo é que a redução metafísica do signo tinha necessidade da oposição que reduzia.surge faz sistema. a que aqui dirigimos centrismo. escolhamos.. mente o problema do. a | oposição na_tureza/çjujtuja. E é em primeiro lugar uma signo pode estender-se a todos os conceitos e a todas ciência européia. decisão do etnólogo. se portanto ninguém é responsável por ceder a ela. outros. Mas se ninguém lhe pode escapar. Se agora considerarmos. mais um~descentramento: no momento em que a cultura ou menos explicita. isto não quer dizer que todas as ma- por exemplo. a -essa linguagem crítica^nas çjências humanas. os textos de Lévi-Strauss. condição da Etnologia. da formalização desse círculo. a outra. deixando 'então de ser considerada como a cul. Conseqüentemen- a "estrutura". e dos seus conceitos — foi deslocada. como um fio condutor entre ou- principalmente um momento do discurso filosófico ou tros. de Freud e de alguns. Pode dizer-se com toda a segurança que rivar p significante. precisamente. ser sistemática e his- contra a precedente. como o últi.. a título de exemplo. E o que aqui dizemos do no elemento do discurso._a_4irna herança os recursos necessários p a r á a tregar-nos a este exercício a propósito do próprio Hei. pouco que seja. técnico. Problema de degger. dade e a fecundidade de um discurso medem-se talvez como são tirados duma sintaxe e dum sistema. os conceitos da tradição. cias humanas e de uma responsabilidade crítica do derar Nietzsche. etc. o último "platônico". não é apenas por causa do pri- O que acontece agora com este esquema formal vilégio que hoje se atribui à Etnologia no conjunto das quando nos voltamos para aquilo que se denomina ciências humanas. Nietzsche. átomos. ou o denuncia. te. Ambas pertencem a uma única e mesma meiro lugar a oposição do sensível e do inteligível: .estatuto de um discurso q u e v a i mo metafísico. embora defendendo-se as frases da metafísica. quanto a essa crítica da ^linguagem européia — e por conseqüência a história da Metafísica e quanto. expulsa do seu lugar. consiste em questionar o sistema toricamente contemporânea da destruição da história da no qual funcionava a precedente redução: e em pri- Metafísica. a'Etnologia — como toda a ciência —. Trata-se aí de uma relação crítica à linguagem das ciên- -se^ reciprocamente. por ferem. utilizando. nem mesmo porque • temos aí um "ciências humanas"? Uma „delas. ' exercício está hoje mais divulgado. Esta necessidade é irredutível. A quali- Ora como esses conceitos não são elementos. esta oposição 235- . mais ou menos próximas da formulação. £ a Í E t n o l q g i a J Podemos com temporânea. isto é. neiras de o fazer sejam de igual pertinência. é também um momento político-econômico. A oposição Ora. Para seguirmos esse movimento„no texto de Lévi- tura _de referênciaX Este momento não é apenas e -Strauss. quer o queira quer não. premissas do etnocentrismo no próprio momento em que máticas. em especial ao discurso sobre contra eles. seria necessário meditar todas ferenças que explicam a multiplicidade dos discursos as suas implicações. e isso depende de uma nhado nesse círculo.talvez ocupe aqui r pensamento que pesa muito na conjuntura teórica con- um lugar privilegiado. £ o que então permite a esses destruidores destruírem. contingência histórica. Trata-se de colocar expressa e sistematica- por outro com má fé e desconhecimento. por um lado com lucidez e rigor e discurso. São todas mais ou menos ingê.

ao arbitrário. Em Les Structures. e do particular. Poder-se-ia talvez dizer que depende de um sistema de normas regulando a que teda a conceptualidade filosófica fazendo sistema sociedade e podendo portanto variar de uma estrutura com a oposição natureza / cultura está destinada a social para outra. Semelhante questionamento sistemático e histórico n ã o tido dever-se-ia denominá-la cultural.si a necessidade da sua natureza/cultura assim aceite e parece requerer ao própria crítica. ele parte uma rede de significações transparentes. algo que já não tolera a oposição ver quejijinguagem carrega em . mas já deixa cândalo. etc. duas "'"vias" e de duas "maneiras". logo desde as primeiras páginas das a origem da proibição do(jhíèsto. e indissoluvelmente realizado há muito tempo com um à vontade altaneiro. que sem- também à liberdade. Structures. não é um do seguinte axioma ou definição: pertence à natureza escândalo que encontramos. Lévi-Strauss instala¬ "natureza" à lei. de-constituí-los. possui ao mesmo tempo um A outra escolha — e creio que corresponde mais caráter de universalidade" (p.passo para fora da Filosofia. no qual caímos no campo tudo o que é universal e espontâneo. à. tradicional. encontra o que denomina um es. se encontra apagada ou con- dade. à arte. é congênita. todas as regras sociais. já não se pode dizer dela que seja um fato a necessidade de utilizar esta oposição e a impossibi. à socie.menor equívoco. A saída "pára está longe. passa de um exemplo entre tantos outros. pre passou por evidente. ps dois caracteres em. testada.. à história. Este exemplo é evocado"depressa demais. logo no início da sua pes. um sistema de normas e de interditos. Pertence em contrapartida à cultura o sua condição de possibilidade. é. à maneira de L é v i . h i s t ó r i a destes conceitos. universal. Ora. neste sentido poder-se-ià" tir pode-se^uerer questionar sistemática e rigorosamente dizer que é natural.. que reconhecemos os e que em -geral estão mergulhados na Metafísica por a t r i b u t o s . É um primeiro gesto. É sem dúvida. isto é. à técnica. para evitar o 236 H 237 . N o momento em tura.— e neste sen. Ora esta crítica pode efetuar-se por mesmo tempo ps predicados da natureza e os da cul. que tudo o que está submetido a uma norma sofia. um núcleo de opacidade no interior de lidade de lhe dar crédito. physis I techné. Começando a sua obra com nós graças a toda uma cadeia histórica que opõe a o factum da proibição do incesto. dos conceitos fundadores de toda a história da F i l o - dade. A proi. L que o limite da oposição natureza / cultura se faz sen- bição do incesto. Esse escândalo é a] proibição dó incesto. -— mas é também uma proibição.. a saber. Pois a partir do momento em que a proibição quisa e no seu primeiro livro (Les Strucíures élémentai. seria nem um gesto filológico nem um gesto filosófico tanto que tudo o que é universal. Vemo-nos então confrontados com um apesar da aparência^ a maneira mais audaciosa de esbo- fato ou melhor com um conjunto de fatos que não çar um. É mesmo mais velha do que Só existe evidentemente escândalo no interior de Platão. chega até entre natureza e cultura. "Digamos por. Estas duas definições são de tipo deixar no impensado o que a torna possível. ao espírito. não a estes conceitos. mas uma regra que. única entre dela.S t r a u s s c o n s i s t i r i a . de apare- t fora da Filosofia" é muito mais difícil de'ser pensada cer como um escândalo: pois a proibição do incesto do que em geral imaginam aqueles que julgam tê-la apresenta sem o . Lévi-Strauss sentiu ao mesmo tempo /cultura. Tem pelo menos a idade da Sofistica. escandaloso. Desde um sistema de conceitos que dá crédito à diferença a oposição physis / nomos. Lévi-Strauss. Ora. não dependendo dos conceitos tradicionais. Inquietar-se acerca à ordem da natureza e caracteriza-se pela espontanei. é o que escapa a estes con- de nenhuma cultura particular nem de nenhuma norma ceitos e certamente os precede e provavelmente como determinada.filosofia. do incesto já não se deixa pensar na oposição natureza res de la parente). reunidos. no homem. que começou por dar crédito. pertence no sentido clássico destas palavras. mas -se portanto no ponto em que essa diferença.. à luz das definições precedentes. não é proceder como filólogo ou pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo como historiador clássico da Filosofia. c o n t r a d i t ó r i o s de duas ordens exclusivas: todo o corpo do discurso que pretendem ter libertado constitui uma regra. a . à instituição. 9 ) ..

Quase se poderia dizer que é a primeira afir. no conjunto das suas condições físico-químicas" (p. a partir tras. mesmo a dizer que a bricolagem era a própria lingua- mentos do método e as" significações objetivas por ele gem crítica.Lévi- palavras das Structures: "Começamos a compreender -Strauss em VArc. O bri- ciando aqui e ali os seus limites. a vida finito está submet do a uma certa bricolagem. pelo contrário. etc. vra" à crítica e mais especialmente à "crítica literária". os instru. criador do verbo. não hesitando em trocá-los cada vez exploramos a sua eficácia relativa e utilizamo-los para que isso parece necessário. diz noutro lugar que a^bricolagejr^ po-. são em todo o caso as primeiras et. então a própria idéia de bricolagem está Por outro lado. A idéia do enge- tre natureza e cultura. e finalmente. com efeito.. em conservar. várias. : se deixa de acreditar em semelhante engenheiro e num ma humanidade geral.que pertencem às ciências exatas e naturais: do momento em que se admite que todo o discurso reintegrar a cultura na natureza. 238 239 . e chegou-se modo poder separar o método da verdade. ed. adaptá-los. nheiro de relações cortadas com toda a bricolagem é rece-nos hoje oferecer um valor principalmente meto. todos esses velhos coleur." E esse valor metodológico não é afetado . Mais de treze sujeito que fosse a origem absoluta do seu próprio dis- anos depois das Structures. pensando aqui no texto de G. construir a totalidade da sua linguagem. Genette. que o . poderia denominar o discurso desse método. apresenta um valor que justifica ple- Se denominarmos bricolagem a necessidade de ir namente a sua utilização. Strucluralistne m a ç ã o de Lévi-Strauss. que o primeiro gesto poderia ter de esierilizante. denun. É assim que se critica a lin. diz Lévi-Strauss. 145. à falta de uma significação (Inserido em Figures. Há portanto uma crítica da guagem das ciências humanas.._<?í?ÇHí?o. os instrumentos que encontra à sua não se lhes atribui nenhum valor de verdade.. deve dizer-se que todo Lévi-Strauss permanecerá sempre fiel a esta dupla ^. La Pensée sauvage faz-se curso e o construísse "com todas as peças" seria o eco fiel do texto que acabo de citar: "A oposição en. tureza e estado de cultura).) histórica aceitável. jârodu-l não desconfiássemos aqui desta noção: " N ã o seria \J^É5^P^ "brícoleur.. que já estão ali. que não nenhuma significação rigorosa. co- buscar os seus conceitos ao texto de uma herança mais mo um instrumento de método. qual vão servir e à qual procuramos. e onde se diz que a análise da bri- que a distinção entre estado de natureza e estado de colagem podia "ser aplicada quase palavra por pala- sociedade (diríamos hoje de preferência: estado de na. na ordem da descoberta empírica. pa. çoleur. de verdade ele critica. na qual insistimos outrora. mesmo se a sua origem e a sua forma eles mesmos são peças. em especial a da crítica literária: estou visadas.critique lUtérqire. esboroa-se a diferença na qual ganhava sen- apresenta com o nome de -bricolagem tudo o que se tido. Lévi-Strauss pensa deste linguagem sob a forma da bricolagem. sintaxe e lé- Por um lado continuará. sempre em La Pensée sauvage. publicado em homenagem a." ou menos coerente ou arruinada. são heterogêneas. em experimentar vários ao destruir a antiga máquina a que pertencem e de que mesmo tempo. e como Lévi-Strauss nos dológico. que Lévi- intenção: conservar como instrumento aquilo cujo valor -Strauss opõe ao briçoleur. isto é.' nem disposição em torno de si.j> pelo não-valor "ontológico". du Seuil. por tentativas tos parecessem mais cômodos. esta primeira tarefa prepara ou. p. deveria. Enquanto esperamos. poderíamos nós dizer se . pela Sociologia moderna. estaríamos prontos a foram especialmente concebidos para a operação na abandoná-los a qualquer momento se outros instrumen. 0 A partir do momento em que" suficiente ter reabsorvido humanidades particulares nu.m j n ^ i . deríamos apostar que !p_engejjJiej£ÇiJji. o próprio verbo.O engenheiro. é briçoleur. portanto uma idéia teológica. Já à mão". é aquele que utiliza "os meios ' conceitos: como utensílios que ainda podem servir. ameaçada. Neste sentido o engenheiro é um mito: um o valor da oposição natureza / cultura. discurso rompendo com a recepção histórica. a contestar xico. engenheiro ou o sábio são também espécies de bri- 327).

O foco ou a fonte são sempre sombras ou virtualidades 26): "Como a bricolagem no plano técnico. tomando este velho termo no sentido amplo mas ou afastadas. observou-se ração ou a relação. apenas constatamos que o mito bororó. que é a exigência absoluta seu próprio discurso sobre os mitos. temente todas as linguagem que partilham entre si o ma daquilo de que fala. no que denomina de procurar a origem. e ao discurso científico ou filosófico. de uma transformação que ele se dilua na confusão dos contrários. 2. balho de decomposição. Podèr-se- mais ou menos avançada de outros mitos provenientes -ia portanto dizer que a ciência dos mitos é uma. Reciprocamente. Lévi-Strauss reconhece outros e poder mantê-los separados. Ê o momento em que o seu cípio. como qualquer outro.atrayés existe um verdadeiro termo para a análise mítica. para apreender a Ora. Deve. l m mar ao princípio cartesiano de dividir a dificuldade em Rriyiíe£Íada^-a_u m3_^^ : quantas partes for necessário para a resolver. N ã o há unidade ou origem absoluta do mito. vidade mitopoética. Os temas multiplicam-se ao cipais. Que diz Lévi-Strauss Le Cru et le Cuit. nem de joda_a_^£r_íMra do seu último Hvro sobre Le Cru u unidade secreta que se possa apreender no fim do tra- et le Cuit. dade do mito é apenas tendencial e projetiva. de que gostaria de transcrever. defi- como ponto de partida qualquer representante do gru. no. etc. o notável esforço de Lévi-Strauss não consiste forma e o movimento do mito. xistentes. do seu caráter típico mas antes nesta trama. no estatuto que então concede ao como exigência absoluta. O discurso sobre esta estrutura muitas vezes o caráter mitopoético da bricolagem. 240 241 . a_^^Sft~g>. aí utilizado como "mito de referên. o fundamento.novo estatuto é . Conseqüentemente. É preciso portanto renunciar aqui dade mitológica. a configu- lhantes e imprevistos. ! N ã o RQder^ejajiegiiir o tema deste dcaasriu:amenta. que imaginário implicado pelo esforço de interpretação. jamais Este mito. o discurso mito-ló- E este momento.oI]írjàrKic^5~ blema metodológico. da sua posição irregular no interior de um grupo" Lévi-Strauss descreve a atividade da bricolagem (P. clástica. Tudo começa com a estrutura. não merece este nome e este tratamento.10). e impedir passa.. retratados. a reflexão inapreensíveis. infinito. quer de sociedades próxi.agora djjs_suas "mitológicas"? È aqui que voltamos a encon. Vou aí buscar apenas alguns pontos prin. à episteme que tem quase diria primeiro. não apenas como atividade intelectual mas como ati. Lemos em La Pensée saiívage (p. uma longa e bela página: f traria virtude mhogoética ^a_. É o que diz Lévi-Strauss em campo das ciências humanas. o centro.plano intelectual. discurso estrutural sobre os mitos. estrutura a-cêntrica. Mas. este período crítico interessa eviden. sobretudo na mais atual das suas consistiria em centrar uma linguagem descritiva deuma pesquisas. a íirn iujphn a ». que eles voltam a unir-se. em resposta às solicitações cia". a uni- de uma apelação especiosa e de uma prática abusiva. nição o estudo dos raios refletidos e mesmo dos raios po. inatualizáveis e em primeiro lugar ine- mítica pode atingir. trata-se de afinidades imprevistas. Por oposição ao discurso epistêmico. O interesse do mito de referência não deriva. ojuejarece_m^is_^edutor nesta pesquisa crítVcâ""clè~" "Efetivamente o estudo dos mitos coloca um pro- uiD_". e que admite na sua. evitar a violência que apenas em propor. pelo fato de não se poder confor- referência a um renirn. o prin- as suas "mitológicas". o será doravante designado como mito de referência." a-cêntrica que é o mito não pode ele próprio ter 5 sujeito e centro absolutos. Isto faz aparecer o segundo fio capaz de nos guiar deste ponto de vista.bjjci)lagem _jEJejIyamen- J te. Teria sido portanto legítimo escolher autorizado pela etimologia. uma ciência estrutural dos mitos e da ativi. Fenômeno privilégio referencial: "De fato o mito bororó. resultados bri. o discurso sobre o mito se reflete e se critica a si próprio. como tentaremos provar. Deve ter a for-. O seu esforço aparece também.ana- quer da mesma sociedade. não seu papel é dar uma forma sintética ao mito. gico deve ser ele próprio mito-morjo. não merece o seu reflete um estado ou um momento do mito. Quando julgamos tê-los destrinçado uns dos 1 • Em primeiro lugar. ao contrário da reflexão filosófica.

O que pretendo acentuar é apenas que a (sendo os códigos de primeira ordem aqueles em que passagem para além da Filosofia não consiste em virar consiste a linguagem). chegaríamos e a a u s ê n c i a .sempre vir a a u t o r e s . O risco de que falo é sempre Por isso será acertado considerá-lo como um mito: de assumido por Lévi-Strauss e é o próprio preço do seu qualquer modo. . isto da experiência. o mito da mitqlogia. d e autor. sempre propostos como hipóteses ^roçedentes^de uma sume deliberadamente a suaf função milopoética. este livro sobre os mitos é trans-filosóficos transformar-se-iam em ingenuidades também. Voltemo-nos uma vez mais para ou epistemológica do centro. de jujeito o problema do empirismo e da bricolagem. etc." É devido a esta esforço. se nos rendermos à necessidade do gesto esta postulação é dupla. se Contudo. mitos de uma p o p u l a ç ã o pertence à ordem do discurso. Querendo este problema.fimta • de. as reflexões de de um lado. também demasiado breve e demasiado rior do campo filosófico. A ausência de centro é aqui a ausência.. será que todos os dis. a exigência filosófica esta dupla postulação. é porque se trata aqui de uma de Lévi-Strauss. nos conceitos de signo. de história. principalmente em Lévi-Strauss. Não podemos respon.mito. Os esquemas estruturais s ã o . sarmos cometeriam um grave contra-senso sobre a guir entre várias qualidades de discurso sobre o mito? natureza e o papel destes documentos. jçorn. a Abertura de Le Cru et le Cuit onde se vê bem que. der a ela — e creio que Lévi-Strauss n ã o lhe responde A menos que a população se extinga-física ou moral- — enquanto não tiver sido expressamente exposto o mente. completar ou a contrariar. . como a própria crítica do empi- que é impossível a sua determinação. . um . Isso eqüivaleria problema das. . Numerosos textos poderiam demonstrar é.que pretende investigar a sua origem. à sua maneira. e o mitema ou mitopoema do outro.jnfprma ção e submetidas à prova > ao mesmo tempo. de ver- próprios mitos assentam em códigos de segunda ordem dade. Por um lado o estruturalismo apre- encontra o foco real da obra. este conjunto jamais é fechado. Os conceitos o seu ritmo.justifica o modelo musical continua.' Se nos perguntarmos onde se logia estrutural. a pretender escolhido por Lévi-Strauss para a composição do seu ser científico. quajjtídade. " (p. faz aparecer como mitológica. A música e a rismo. condenamo-nos a transformar a pretensa imitar o movimento espontâneo do pensamento mítico. razão. teve de se vergar às suas exigências e respeitar cujas espécies seriam sempre estes erros. "O mito e a obra musical apa- : sem dúvida muito depressa a proposições absolutamente recem assim como maestros cujos auditores são os si. O conjunto dos Questão clássica mas inevitável. os mitos não têm empírico que outras informações poderão. como uma ilusão histórica. linguagem sobre a linguagem: "Os críticos que nos cen- Se a mito-lógica é mito-mórfica. Poder-se-iam mostrar este risco em muitos m a d a ' u m pouco mais adiante (p. mitos se eqüivalem? Dever-se-á aban. maneira os filósofos.. relações entre o filosofema ou o teorema portanto a censurar um lingüista que escrevesse a gra- 242 243 . O empirismo seria o gênero longa. filosóficas. exaustivo dos mitos sul-americanos antes de os anali- donar toda exigência epistemológica permitindo distin. não podemos ignorar os seus riscos. . ." Afirmação reto. este livro ofereceria então o a página da Filosofia. O que aqui se trata dizem respeito a raios privados de que não é simples. surassem por n ã o termos procedido a um inventário cursos sobre ps. É portanto aqui que a bricolagem etnográfica as. será preciso responder senta-se. Mas ao mesmo tempo já não há livro ou estudo mitologia confrontam o homem com objetos virtuais de Lévi-Strauss que não sé proponha como um ensaio cuja sombra unicamente é a t u a l . 2 0 ) : "Como os exemplos. destinado a filosofar mal) mas em continuar a ler de uma certa assegurar a traduzibilidade recíproca de vários mitos. contraditórias quanto ao estatuto do discurso de Etno- lenciosos executantes. Ora. . 25). . transgressão da filosofia em erro despercebido no inte- a nossa tarefa.. (o que finalmente acaba sendo esboço de um código de terceira ordem. se quiséssemos levantar seriamente livro. Mas. Se não levantarmos expressamente qualquer outro foco que n ã o seja virtual. Disse que o empirismo era a forma matricial ausência de qualquer centro real e fixo do discurso de todos os erros ameaçadores de um discurso que mítico ou mitológico que se . Deste modo.

) Ã palavra reaparece um pouco mais adiante ássignaçao à empiricidade mas sob o conceito de. Isso resulta. em vez de ser dema. não é por acaso que formuladas. para se manifestar.não-. vemos no mana. jogo. que o supre. . o que faz que sempre haja mais. representam da suplementariedade. esse signo acrescenta-se. M a s . como de acontecimentos. discurso-mítico total. Não se pode determinar o cen- aquisições preciosas se se tratar de línguas desconhe. é o movimento tica parcial. Pode- existe. permite ao lingüista elaborar uma cês. Pois acabamos perabundância de significante em relação aos signifi- de ver-que esta exigência n ã o tem sentido" (p. gramática da língua que estuda. vem a mais. não é por. Ora. que ocupa o seu lugar na sua recenseamento de uma série teoricamente ilimitada ausência. "depois de Lévi-Strauss ter falado desse "significante Se então a totalização n ã o tem mais sentido. 15-16). que cabe aos etnólogos e aos lingüistas estudar). de renunciar a algumas delas. como -discurso mítico. no Wakau. exigir um. que é a servidão de todo o pensamento fini- que a infinidade de um campo não pode ser coberta to": "Por outras palavras. cados nos quais se pode colocar": "No seu esforço A totalização é portanto definida ora como inútil. anthiornjas aparentemente insolúveis. Mas pode-se determinar de outro modo a. mas esta adição é flutuante porque vem substituir. Este cam-J mitir ao pensamento simbólico exercer-se apesar da i po só permite estas substituições infinitas porque é contradição que lhe é própria". as duas direções de sentido que nela se en- dificar a maneira como certas leis gramaticais foram contram estranhamente reunidas. Esta ções coexistem de maneira não-expressa no discurso distribuição de uma ração suplementar -— se assim nos de Lévi-Strauss. Há demasiado e mais do que se pode simbólico. será a ocasião de controlar ou de mo- aqui faço. de substituições infi. espera. lhe falta algo. isto é. e sem conhecer as trocas verbais que ocorrerão ríamos dizer. isto é. ração suplementar áp significação é a origem da própria -totalização: não mais sob o conceito de finitude como rttiõ. substan- 244 245 . c m nenhum caso nos pode- à 1'oeuvre de Mauss.Assim se explicam as ^finito. n o ç ã o . do fato sempre de um excesso de significação (que reparte entre de haver duas maneiras de pensar o limite da totaliza. E mesmo uma gramá. tro e esgotar a totalização porque o signo que substitui cidas. guagem finita — exclui a totalização: este campo é na oranda e outras noções do mesmo tipo. a expressão com' efeito o de um jogo. suprir um esboço da sintaxe da mitologia sul-americana que uma falta do lado do significado. que este movimento do jogo. Embora Lévi-Strauss quisemos fazer. qualidade e estado. ora para compreender o mundo. conjunto finito. A sintaxe n ã o . porque em vez de ser um campo inesgo. A experiência prova que um número cuja significação escandalosa sempre se atenua em fran- irrisório de frases. servíndo-nos rigorosamente dessa palavra enquanto existir. no momento em que fala da "su- riam. . Se novos textos vierem enriquecer o não se sirva da palavra suplementar acentuando.. e inspirando-nos no preceito por um olhar ou um discurso finitos. A totalização pode ser considerada podemos exprimir — é absolutamente necessária para impossível no estilo clássico: evoca-se então o esforço que no total. F o r ç a e ação. e de des- se serve por duas vezes dessa palavra na Introduction cobrir outras novas. mas porque a de Mauss de que todos os fenômenos sociais podem ser natureza do campo —. o homem dispõe portanto como impossível. como na hipótese clássica. pela ausência de centro ou de origem." (Poder-se-ia sem dúvida mostrar que esta dizer. dado que consiste no corpo de suplemento. . o o centro.^ Ê diria uma vez mais que essas duas determina. capturado permaneçam entre si na relação de comple- rendo em vão atrás de uma riqueza infinita que jamais mentariedade que é a própria condição do pensamento poderá dominar. permitido pela falta. mática de uma língua sem ter registrado a totalidade das siado grande. ligadas a esta tável. ou um esboço de gramática. cujo papel é per- nitas nq fechamento de um.a saber a linguagem e uma lin. flutuante. o significante disponível e o significado empírico de urrí "sujeito ou de um discurso finito cor. as coisas de acordo com leis do pensamento simbólico ção.. a saber um centro que palavras que foram pronunciadas desde que essa língua detenha e fundamente o jogo das substituições. assimilados à linguagem. sem dúvida. O movimento da significação acrescenta regras que preside à sua geração. foi na verdade alguma coisa. consciente 'de uma função semântica.

formalidade do problema: ao reduzir a história. resulta portanto de uma finitude. formação cujo estudo não compete às ciências sociais.a . sar do antagonismo clássico que opõe estas significa- n ã o é porque ele nada é de tudo isto: simples forma ções em todo o pensamento clássico. paradoxalmente jsssa. filosofia da. E com efeito o do ser como presença. como por exemplo pãrá et Histoire." o seu passado. mas podendo ser um valor de uma ressunção da história. ao reduzi-lo sem um termo de grupo.. Com ou sem etimologia e ape- mana é tudo isto ao mesmo tempo. Após uma trans- foi cúmplice de uma metafísica teleológica e escatoló. Mas se é legítimo por em dúvida este con- va disponível e de não ser. principalmente nas Enlretiens. concepção que foi aqui proposta. isto é. no trabalho de L é - trapartida o fonema zero tem por função própria vi-Strauss. colocando entre parênteses a história. portanto trar que o conceito de episteme sempre chamou o de suscetível de tomar qualquer conteúdo simbólico? Nes. levados a formular hipóteses deste tipo. Tensão com.sejulgou . isto é. . acerca jogo é sempre tomada n u m a t e n s ã ó . no próprio momento N / p e u r r í à falta que deve ser suprida. Lévi. La Pensée sauvage. As referências a mento "estruturalista". Só se pode ^ i\ A superabundância. faz-se sempre — e é a própria condição da sua ficação "sem comportar por si mesma nenhuma signi. ceito de história. As coisas não podem ter co- -Strauss tratou como merece um conceito que sempre meçado a significar progressivamente. Neste mo- jogo! é importante em Lévi-Strauss. turalidade." ( N o t a : "Os lingüistas já foram colocar expressamente o problema que aqui aponto. Race recorre muitas vezes a eles.do significante. -•••••-< dessa descrição. trutural não levando em conta. mas precisamente. abstrata e Filosofia. onipresente e localizada. especificidade estrutural — através de uma ruptura com ficação particular. gica. E de fato Lévi-Strauss muito freqüentes.ter. derivação entre duas qualquer com a condição de fazer parte ainda da reser. Assim: " U m de cair novamente num anistoricismo de forma clássi- fonema zero opõe-se a todos os outros fonemas do fran. de um sistema ori- noções de tipojnana é de se opor à ausência de signi. do problema. Indicarei apenas o que me parece ser a rição na escala da vida animal. Em con. como tradição da verdade ou desenvolvimento da ciên- seria simplesmente um valor simbólico zero. para o saber na consciência de bólico suplementar [Sou eu que sublinho] aquele que si. poderíamos mos- ou mais exatamente símbolo no estado puro. v . Ora esta referência ao . corremos o risco. ca. Pro. isto é. embora p a r e ç a introduzlr-se bem tarde ha em que tudo possuía um. essa estrutura das estruturas que é a linguagem.presença mas à Biologia e à Psicologia. . de um estádio em que nada tinha sentido para outro historicidade. Esta me parece ser a formalidade algébrica diferencial e nenhum valor fonético constante. um cia orientado para a apropriação da verdade na pre- signo marcando a necessidade de um conteúdo sim. as suas condições passadas: omitindo colocar o problema da passagem de uma estrutura para ~ Compreeride-se então por que razão o conceito de outra. sença e a presença a si. o seu caráter portanto descrever a propriedade da organização es- \'supleme)ifar. Mais concretamente. são de acaso e de descontinuidade. Por exemplo. a sua origem e a sua causa. isto é. "Só pode ter nascido de repente": "Quaisquer que blema clássico e em torno do qual se gastaram as tenham sido o momento e as circunstâncias da sua apa- objeções." O que não impede Lévi- 246 247 .'' erri primeiro lugar. são indispensáveis os conceitos todas as espécies de jogos. A história sempre foi pensada como o movimento carrega já o significado. te sistema de símbolos que constitui toda a cosmologia.nascido de repente.^ efetuou-se a passagem — à q u a l . A temática dã . que a^função das a aparição de uma nova estrutura.. ginal. tivo _e_ adjetivo e verbo ao mesmo tempo.Jiistória. em especial à roleta. \ x da qual diz em Introduction à 1'oeiivrè deMauss que . sempre foi nela requerida pela determinação concreta. presenças. obri- Quase se poderia dizer também.a linguagem só pode. istoria se a história é sempre a unidade de um devir.gc-der j j p p r a história. esquematizando a ga a neutralizar o tempo e a história. num momento determinado da história da cês na medida em que n ã o comporta nenhum caráter metafísica. é preciso reconhecer que o respeito da estru- opor-se à ausência de fonema" (Jakobson e Lotz). da originalidade interna da estrutura. como dizem os fonólogos.

a "inspiradora de um sença. Em seguida porque é preciso tentar primeiro da origem ausente. de maneira tão problemática. a história (por da estrutura. que hoje haja alguma ciedades arcaicas. contínuo das transformações fatuais. Ora. a afirmação entrega-se também à indeterminação dade. esta temática estruturalista da ime. do pensamento digamos ainda histórica. nostálgica. co- crita num sistema de diferenças e o movimento de uma mo o pretendia Lévi-Strauss. da his- toricidade —• em que a categoria de escolha parece bem Voltada para a presença. a afirmação de um mundo de signos sem erro. para as devir. o labor Há portanto duas interpretações da interpretação. indicado por Nietzsche. o fundamento Tensão do jogo com a história. e aguçar a sua irredutibilidade. vre de Mauss cito novamente. 248 249 . é pre. E porque temos aí um tipo de questão. é preciso pensar o ser como presença ou que estas duas interpretações da interpretação — que ausência a partir da possibilidade do jogo e não inver. sem verdade. ética. pensar o solo comum. mas se o quisermos pensar radicalmente. cuja Introduction à l'oeu- cadeia. A presença de um elemento da interpretação da interpretação. numa região — digamos ainda. exemplares. mas também para aqueles que. genética. ciso pensá-lo antes da alternativa da presença e da Poderíamos hoje entrever por mais de um sinal ausência. sonha decifrar uma verdade ou uma origem que gesto que foi t a m b é m o de Rousseau ou de Husserl. as ciências hu- espécie dé ética da . e a diferencia desta diferença diatidade interrompida é portanto a face triste. do signo e do jogo. sob a forma de peças dadas e existentes. a origem e o fim do jogo. A outra. tem de pensar sempre a origem de cura superar o homem e o humanismo. não está voltada para a origem. provisoriamente. No caso abso. são absolutamente inconciliáveis mesmo se as vivemos samente. os desviam pe- ativa. E joga sem segurança. coisa a escolher. Esta afirmação determina então o jjão^çentrp rante o ainda inominável que se anuncia e que só pode semjer^como perda do centro. cuja"concepção. Mas tem de. muito embora mesmo remorso que muitas vezes apresenta como a estas duas interpretações devam acusar a sua diferença motivação do projeto etnológico quando se dirige a so. à aventura seminal do traço. escapam ao jogo e à ordem do signo. da sua história. O jogo é sempre jogo de ausência e de pre. infante e térrificante da monstruosi- luto. não procura na Etnografia. perdida ou impossível. cujo caminho nos foi é sempre uma referência significante e substitutiva ins. melhor do que qualquer simultaneamente e as conciliamos numa obscura eco- outro. nostalgia e Pelo que me diz respeito. Uma procura deci- exemplo em Race et Histoire). a gestação'. fez aparecer o jogo da repetição e a repetição nomia — partilham entre si o campo daquilo que se do jogo. sem origem. de uma pureza da pre- sença e da presença a si na palavra. Em primeiro lugar porque aí estamos Esses textos são" bem conhecidos. sob a espécie^da não-espécie. frágil. operações da procriação. tensão também tranqüilizador.muda. E digo es- afirmação alegre do jogo do inundo c Ha inocência do tas palavras com os olhos dirigidós7~é~certo. a maturação." do jogo cujo reverso seria a afirmação nietzchiana. através da história — transformação da natureza na natureza.presença. afirma o jogo e pro- Como Rousseau. . presentes. manas. da totalidade natural do encadeamento natural. novo humanismo". isto é. da inocência arcaica e natural. tiva. fazê-lo. que Já apreender a especificidade essencial de uma estrutura. sendo o nome uma estrutura nova segundo o modelo da catástrofe do homem o nome desse ser que. isto é. informe. nem por isso se deixa de perceber nele uma denomina. de nostalgia da origem. oferecido a uma interpretação numa sociedade da qual não me excluo. a seus olhos. irredutível. formação. interrupção da Metafísica ou da onto-teologia. não creio. cbmo é necessário cada vez que se efetua um Pois há um jogo segunK^õ'qae se limita à substituição nascimento.Wdbãliio. rousseauísta. e sente como um "afastar todos os fatos" no momento em que pretende exílio a necessidade da interpretação.-Strauss de reconhecer a lentidão. nega. culpada. Esta segun- do jogo com a presença. desvio da natureza. sonhou a presença plena.^ó\t apenas entrevemos. por um frar. se Lévi-Strauss.

éd. janeiro de 1964. " L a Parole soufflée". 1964. BIBLIOGRAFIA "Force et signification". 193-194. essai sur la p e n s é e d'Emmanuel Lavinas". Critique. Revue de métaphysique et de morale. c o n f e r ê n c i a pro- ' nunciada em Ceisy-la-Salle em 1959. "Violence et m é t a p h y s i q u e . 3 e 4. 1964. Critique. Publicada na co- letânea Genèse et structure dirigida por Gandillac. junho-julho de 1963. Mouton. . "Cogito et histoire de la folie". Gold- mann e Piaget. 1964. " ' G e n è s e et structure' et la phénoménologie". 201. "Edmond Jabès et la question du livre". publicada em Te! Quel 26 (vergo de 1966). c o n f e r ê n c i a pronunciada em 4 de m a r ç o de 1963 no C o l l è g e philosophique e publica- da na Revue de métaphysique et de morale. em março de 1966. 251 . conferência pronunciada no Instituto de Psicanálise.3 e 4. "Freud et la scène de récriture". Tel Quel 20 (inverno de 1965).

G.M. Lauand (D205) LINGUAGEM. em 21 de outubro de 1966."Le théâtre de l a .Anatol Rosenfeld (D254) HOMO LUDENS . "De 1'économie restreinte à 1'économie gcnérale — Un hece- lianisme sans reserve".Martin Buber (D031) FILOSOFIA EM NOVA CHAVE .Gershom G.Mikel Duftenne (D069) TEORIA E REALIDADE .Johan Huizinga (E0O4) GRAMATOLOGIA . arrumando nele ou abandonando esses brancos sem os quais nenhum texto jamais se propõe como tal. Langer (D033) SARTRE . Scholem (D128) AS ESTRUTURAS E O TEMPO .Luiz J.Mario Bunge (D165) VISÃO FILOSÓFICA DO MUNDO . dei- xamos aparecer somente o pontilhado. porém. Lacey (D059) ESTÉTICA E FILOSOFIA .Cesare Segre (DI50) DO DIÁLOGO E DO DIALÓG1CO .Marcelo Pascal (D213) NOTAS PARA UMA DEFINIÇÃO DE CULTURA .M. IDEOLOGIA . N ó s . maio de 1967.Emst Cassirer (D050) MITO E REALIDADE .Hugh M.Mircea Eliade (D052) A LINGUAGEM DO ESPAÇO E DO TEMPO . Merleau-Ponty (D040) A ESCRITURA E A DIFERENÇA . Granger (E029) 252 . tería- mos conseguido desenhá-lo depois de pronto. Nazaré de Camargo Pacheco Amaral (D229) ROMANTISMO E MESSIANISMO . Por alguma costura interpretãtiva. ÜArc. Se texto quer dizer tecido. conferência pronunciada no Colóquio Inter- nacional da Universidade Johns Hopkins. desejaríamos observar que. S. 1966. O que aqui permanece como deslocamento de um problema forma certa- mente um sistema.Susanne K.Martin Buber (D158) FÍSICA E FILOSOFIA . abril de 1966 no c o l ó q u i o Antonin Artaud (Festival internacional de tea- tro u n i v e r s i t á r i o ) . c r u a u t é et la clôture de la représentatiorT. 230. julho de . le signe et le jeu dans le discours des sciences humaines". CONHECIMENTO.Andréa Bonomi (D089) A CABALA E SEU SIMBOLISMO .Jaeques Derrida (E0I6) FILOSOFIA DO ESTILO .Gerd A.Max Scheler (D191) O QUE É UMA UNIVERSIDADE? . sobre As linguagens críticas e as ciências humanas. Eliot (D215) DEWEY: FILOSOFIA E EXPERIÊNCIA DEMOCRÁTICA .T. c o n f e r ê n c i a pronunciada em Parma. Baltimore. publicada em Critique. todos esses ensaios obstinadamente definiram sua costura como alinhavo (Dezembro de 1966) FILOSOFIA N A PERSPECTIVA O SOCIALISMO UTÓPICO . Pela data destes textos. Bomheim (D036) O VISÍVEL E O INVISÍVEL . G. no momento de lê-los para reuni-los n ã o podemos mais manter a mesma distância em relação a cada um deles.Mario Bunge (D072) FENOMENOLOGIA E ESTRUTURALISMO .Michel L8wy (D234) TEXTO/CONTEXTO II .Jaeques Derrida (D049) LINGUAGEM E MITO . "La structure.