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25/08/2009

Entenda a Educomunicação
Prof. Ismar fala de educomunicação para a revista Geografia

Ismar de Oliveira Soares, 65 anos, é jornalista, doutor em comunicação pela ECA/USP, com
pós-doutorado na Marquette University, em Wisconsin, nos Estados Unidos. Coordenador
e fundador do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE-
USP), Soares foi precursor dos estudos de educomunicação no Brasil. Leia a seguir trechos
da entrevista concedida à reportagem, na qual ele explica como surgiu e qual é significado
do conceito educomunicação, além de indicar caminhos para os professores que queiram
inserir as mídias em suas práticas de ensino.

CP Geografia - Em que contexto surgiu o conceito da educomunicação no Brasil?

Ismar de Oliveira Soares - Inicialmente, eu queria dizer que eu sou professor de


geografia, formado pela Faculdade Salesiana de Lorena. Durante 16 anos eu lecionei
geografia no Colégio São Luís na Avenida Paulista e em colégios estaduais. Isso foi dos
anos 1970 até meados dos anos 1980. E durante todo esse período eu sempre utilizei em
aula os programas de televisão que faziam coberturas geográficas, que mostravam a
configuração geográfica, a geografia humana, física, política. Globo Rural sempre foi um
programa que eu apreciei muito, depois o Globo Ecologia, e outros canais. E quando veio
canal por cabo passei a utilizar os canais que se dedicavam especialmente à documentação.
E como sou formado também em jornalismo, sempre tentei aproximar a comunicação com
a educação. Quando comecei a me voltar para a relação comunicação e educação, eu
tomava como referência toda a minha prática de uso da mídia em sala de aula quanto à
prática das pessoas que lutavam pela preservação do meio ambiente. E também os grandes
movimentos como Greenpeace, que fizeram o uso da mídia na defesa de seus interesses ou
colocavam a mídia a interesse deles para que fosse divulgado algo relacionado às suas
causas.

CP Geografia - Então, o surgimento da educomunicação tem relação com a geografia?


Ismar de Oliveira Soares - A educomunicação vem surgindo desde a década de 1970 para
representar todo esforço feito pela sociedade na defesa de causas como as dos indígenas.
Ela vem surgindo na América Latina por meio de grupo de pessoas que se reúnem para
usar os recursos da informação na defesa de seus interesses a partir da perspectiva freiriana
da comunicação dialógica. Então, a educomunicação é praticada, inicialmente, por
professores do meio ambiente, por exemplo, que começam a usar tanto a rádio comunitária
quanto o vídeo e outras formas de mobilização como teatro, música, vídeos, formação de
grupos para a defesa do meio ambiente. A educomunicação deu um novo sentido para a
prática comunicativa neste contexto. Em vez de a prática comunicativa estar a serviço, por
exemplo, da indústria cultural, de ser regida pela indústria cultural, ela passava a ser regida
pelos objetos educativos.

No caso, a parte da cidadania passou a ser mais importante que os jogos do mercado. E, ao
longo dos anos, essa prática foi se concretizando em algumas ações específicas. Uma delas
era o que se chamou por muito tempo de leitura crítica dos meios de comunicação. A
primeira prática educomunicativa era observar o comportamento da mídia. Como era
prática educomunicativa também usar a mídia e forma alternativa. Então, a mídia
alternativa e a leitura crítica da mídia eram dois braços, duas vertentes da mesma prática.

CP Geografia - E neste período o senhor ainda dava aulas de geografia?

Ismar de Oliveira Soares - Eu estava em sala de aula, estava em movimento popular e


observava o que os grupos faziam. Como pesquisador, via que as pessoas estavam fazendo
isso. O que vim fazer na USP no final os anos 1990 foi pesquisar e sistematizar tudo isso.
Foi uma pesquisa especial patrocinada pela FAPESP, voltada a identificar o que os
especialistas imaginavam o que acontecia na interface comunicação e educação. A pergunta
era o que acontecia de fato nessa interface?

Eu pesquisei junto a esse público e descobri que o que eles faziam era assumir novas
práticas. Eles faziam uma educação para a comunicação no sentido da leitura crítica da
mídia ou produziam uma comunicação alternativa, que era toda a comunicação feita fora da
indústria cultural para a defesa dos interesses de grupos populares. Agora, o que aconteceu
de diferente naquele contexto é que toda a inspiração de Paulo Freire fez com que os que
produziam comunicação alternativa começaram a observar como eles a produziam. Se, ao
produzirem comunicação alternativa, seguiam as mesmas regras da indústria cultural, que
são as regras de distribuição de funções em que existe um editor, um repórter, o dono do
veículo, e jogos de interesse manejando a definição do que era pauta, conteúdo. A
comunicação alternativa começou, nesse sentido, a examinar se reproduziam essas formas
ou se estavam optando por uma gestão democrática dos processos. Quando se entendia
que o grupo que produzia era um grupo que se autogovernava, se a gestão comunicativa
era uma gestão comunitária, com base em práticas participativas, se entendia que estava
existindo ali um perfil diferenciado de produção de mídia. A mesma leitura crítica passou a
ser uma autoleitura crítica ou leitura da própria comunicação. Então, a educomunicação se
consolida neste contexto, quando grupos de pessoas de vários lugares da América Latina,
Estados Unidos, Índia, tiveram consciência de estarem articulados de forma democrática.
Elas vão, com isso, consolidando um novo modo de produção, que tem referencial
semelhante, metodologias semelhantes, e, por consequência, resultados semelhantes.

CP Geografia - Assim nasceu o conceito, mas o termo, quando foi utilizado pela primeira
vez?
Ismar de Oliveira Soares - O termo educomunicação já era usado em 1980 pela Unesco
para indicar leitura crítica dos meios e a USP foi ressemantizar esse termo, que não era
muito conhecido, para dar a ele um novo sentido. Que é o sentido de uma prática nova.
Um exemplo é a Revista Viração, prática em que você toma a decisão de fazer uma gestão
participativa de uma revista, de fazer processos dialógicos, e não só isso, mas quando você
cria condições para que isso aconteça. No caso, a Revista Viração se avalia, faz a sua
autoleitura crítica, corrige rumos, vê a sua coerência epistemológica, que é a coerência entre
teoria e prática. Junto com o exemplo da Viração, você pode encontrar uma escola com
suas produções midiáticas.

CP Geografia - Mas como um professor sabe que ele está fazendo educomunicação em
sala de aula?

Ismar de Oliveira Soares - Quando nós começamos a fazer a divulgação do conceito, a


gente sabia que uma prática educomunicativa ideal é aquela que revolucionasse as relações
de comunicação em toda uma escola. Que tornasse mais democráticas as relações e
transformasse aquele espaço escolar em um grande espaço de produção de rádio, música,
revista, jornal, teatro, toda essa produção num processo democrático. Isso, contudo, é uma
utopia, um projeto, é o ideal. Agora, esse ideal só se tornará possível um dia se ele começar
por algum lugar. A proposta para sala de aula que nós trazemos é que o professor, no seu
pequeno espaço, promova a educomunicação. E ele tem, no caso na área da geografia, um
elo com o passado do conceito de educomunicação, que surge junto com aqueles que
estavam preocupados com o meio ambiente, com o espaço. Na prática, o professor de
geografia estará realizando uma prática educomunicativa se conseguir motivar os seus
meninos para que produzam mídia, um programa de rádio, internet, vídeo e assim por
diante, mas discutindo essa produção para que seja coerente com a verdade científica e
coerente com os anseios de cidadania. Porque você pode ter a perspectiva científica e não
ter cidadania nenhuma. Então, tem que associar a ciência com a cidadania e propiciar que
esses meninos e meninas produzam. Ou que eles observem como a mídia está fazendo e
façam uma crítica do comportamento dessa mídia sobre o tema do espaço. Isso é uma
prática educomunicativa.

CP Geografia - E quais são os resultados da aplicação da educomunicação em sala de


aula?
Ismar de Oliveira Soares - As crianças acabam se apaixonando quando elas têm um
microfone ou uma câmera na mão e elas conseguem produzir algo que os colegas possam
ver. E elas passam a se apaixonar por essa prática e por aqueles que propicia essa prática.
Então, o professor ganha frente aos alunos grande admiração e afeição, quando esses
meninos passam a contar com a colaboração de um professor que seja capaz de permitir
que eles produzam. E a geografia é o grande espaço, todos nós temos a dizer do pedaço
onde vivemos. E, na verdade, o grande desafio é salvar o planeta. E isso se faz com
pequenas ações e essas ações podem ser promovidas por essas crianças, por meio de
práticas educomunicativas.

CP Geografia - Mas não falta formação para que o professor de geografia esteja preparado
para trabalhar com educomunicação?

Ismar de Oliveira Soares - O NCE-USP está trabalhando para que a USP tenha a sua
primeira licenciatura em educomunicação em 2010. Então, o que nós vamos formar é um
professor para atender às carências de educomunicação. Só que a gente sabe, isso é um
indício, o que existe na prática são cursos de curta duração, como é o caso do 'Mídias na
Educação', do Ministério da Educação (MEC), curso que foi desenhado na perspectiva da
tecnologia educativa, porém, já discutindo educomunicação dentro de seu conteúdo. No
Brasil, temos 50 mil professores que estarão tomando contato com a educomunicação
através desse curso. Cursos de especialização ou de curta duração têm sido feitos, mas são
poucos. O que é importante para o professor que não tem tido contato imediato com a
educomunicação é perseguir a palavra no Google. Buscar revistas como a Comunicação e
Educação, publicada pela Editora Paulinas, ou consultar o site do NCE-USP. O que ele vai
descobrir são fios de uma meada que ele vai perseguindo. E nessa busca há grande
possibilidade de que ele descubra que muita coisa que ele já faz é educomunicação. E com
isso ele vai ter algumas noções básicas de como continuar. A questão aqui não é só
dominar a técnica de como fazer rádio, software, é a intencionalidade do processo. É a
definição por uma comunicação dialógica, participativa. E isso é mais complicado. Então,
se nós tivermos um professor que se demonstra interessado em desenvolver um processo
democrático e somar a isso o uso das tecnologias, ele vai aperfeiçoando. A
educomunicação chega com teatro, com desenho, com música, com jornal, com rádio.

CP Geografia - O NCE-USP tem interesse em firmar parcerias com os cursos de


licenciatura em geografia?

Ismar de Oliveira Soares - O NCE-USP acaba de fazer parceria de formação com a


Faculdade de Saúde Pública e a mesma parceria pode ser feita com faculdade de geografia,
há muito interesse nisso. E digo isso com base na minha experiência pessoal. Na verdade,
eu nunca abandonei a geografia, só transferi minha atuação, porque nas minhas aulas de
geografia eu já usava a mídia e produzia com os alunos. Naquela época nem se falava em
educomunicação. Como disse anteriormente, o termo só vai ser utilizado a partir de 1999,
há dez anos, quando a USP o ressemantizou. Atualmente, o governo da Bahia está dando
formação em educomunicação para os professores das escolas públicas do Estado, por
exemplo, o que significa que o conceito está se expandindo.

Link da entrevista do Ismar para a revista Geografia –


http://geografia.uol.com.br/geografia/mapas-demografia/26/entenda-a-
educomunicacao-145874-1.asp