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Em defesa do verdadeiro futebol brasileiro

Comentários a respeito do futuro de Tite na seleção


Rodrigo Abreu Pinto
13/06/2018

É terrível embora não surpreendente que, após a derrota, o futebol se moralize tão facilmente,
e a culpa naturalmente seja atribuída à essência perdida da seleção brasileira. É certo que todos
concordam a respeito da permanência de Tite, mas o sintoma está nos ajustes que exigem a partir
de então. Sobre isso, o artista e escritor Nuno Ramos, um dos que melhor refletiu sobre nossas
derrotas1, afirmou algo que não podemos esquecer: “A crise que vivemos não me parece dar-se
tanto em relação ao que efetivamente somos, mas ao que queremos ser. Há um desvario em nossa
cultura futebolística que precisa ser atacado antes de qualquer limitação técnica em campo.”

Perdemos porque insistimos em jogar um futebol que não é propriamente nosso, não
cansaram de afirmar vários comentaristas esportivos. Qualquer derrota do Brasil se torna um
convite a revisitarmos nossas neuroses quanto aos problemas da má formação nacional - ou seja,
o problema seria que não nos tornamos suficientemente brasileiros ainda. Paulo Calçade, da Espn
Brasil, chegou ao ponto de afirmar que precisávamos regularizar nossas escolinhas e centros de
treinamentos segundo os preceitos característicos do “nosso” futebol. O que desejo questionar aqui
é esta intuição brasileira que traduz qualquer derrota em problema genético.

A Federação Brasileira de Treinadores de Futebol publico uma carta em defesa de Tite, não
atacando o nervo fundamental da questão, mas retrucando que Tite recuperou “a imagem
internacional do futebol arte” e o “futebol raiz jogado pelo Brasil”. Provavelmente tinham em mente
o futebol que jogamos, por exemplo, contra o Uruguai nas Eliminatórias, única partida de Tite (fora
a da Bélgica) em que saímos perdendo e viramos para 4x1 com três golaços que tão bem
confirmariam quem verdadeiramente somos. Ou talvez o talento individual que sobressaiu de modo
tão decisivos nas oitavas contra o México. Ainda assim me pergunto a razão da associação cerrada
entre “futebol arte/raiz”, já que esta Copa do Mundo tão bem revela aquelas amostras plásticas
estão longe de serem um privilégio brasileiro.

Seja para atacar ou defender a performance do Brasil na Copa, a verdade é que vários
partiram da questão: o que faz o futebol brasileiro ser brasileiro? O problema é que essa é
provavelmente uma má questão. Pois o que tal indagação da singularidade nacional institui é, na
verdade, uma vinculação defensiva com a ideia de identidade. Daí giramos até a idiotia em busca
da natureza profunda do nosso futebol, enquanto os europeus se apropriam dos treinamentos em
campos de futebol de salão ou até mesmo terrenos irregulares, sem falar na quantidade de ex-
jogadores brasileiros que abriram escolas para jovens talentos no exterior.

Após a Copa de 2010, Dunga foi demitido justamente pelas críticas ao futebol burocrático que
supostamente não teria nada a ver com o futebol brasileiro. Contratou-se Mano Menezes que, logo
na primeira coletiva, prometeu resgatar o “futebol bonito” da seleção brasileira. A seleção
impressionou nas primeiras partidas mas depois apresentou um futebol modorrento, eliminada
prematuramente na Copa América e Olimpíadas, e até Romário resolveu abrir a boca contra o

1
Nuno Ramos publicou dois textos na revista Piauí após grandes derrotas do futebol brasileiro -
Alemanha 7x1 Brasil (2014) e Barcelona 4x0 Santos (2011). Estão ambos disponíveis no site da
revista.
treinador: “Me lembro que lá atrás você falou o seguinte: Eu vou resgatar o futebol brilhante que o
Brasil teve. Não fez porque não tem capacidade, inteligência, segurança, hombridade para fazer
isso. Você é medroso, você é pior treinador de todos os tempos da Seleção.” Mano então é demitido
e chega Felipão sob a promessa de restaurar o futebol da seleção que deu certo… 10 anos atrás.

Somente alguém extremamente ignorante não notou que o futebol mudou radicalmente na
primeira década do século. No momento em que o negro finalmente se firmava no futebol brasileiro,
Mário Filho escreveu: “Há quem ache que o futebol do passado era bom. De quando em quando a
gente esbarra com um saudosista. Todos brancos, nenhum preto.” Algo parecido ocorre ainda hoje
quando aqueles que mais criticam os modelos do futebol contemporâneo são figuras que não
ganham nada há séculos como Vanderlei Luxemburgo, Oswaldo de Oliveira ou o próprio Felipão.
Basta falar em compactuação e encolhimento do espaço de jogo (a Itália ganhou a Copa em 2006
jogando com linhas extremamente próximas e concentrando o jogo em um espaço de 20 metros),
aumento da velocidade de jogo (uma vez que seu adversário está escolhido é necessário
movimentações rápidos para abrir espaço) e consequente envelhecimento do jogador lento e pouco
prestativo (tipo Riquelme) e importância adquirida pelo volante moderno que desarma e arma (como
Pogba ou Rakitic das finalistas mundiais), que estes treinadores ultrapassados objetam que as
melhores equipes do mundo vencem porque possuem melhores jogadores, estruturas de ponta ou
inclusive mais sorte, o que não deixa de ser verdade, mas não toda a verdade.

De certa maneira, Tite significou a implementação dos avanços em termos de potência física,
tática e técnica do melhor do futebol mundial na seleção brasileira. Mas nem por isso Tite está isento
de cometer equívocos e nossa missão é apontá-los. A questão é que não podemos errar o alvo, até
porque sabemos (e não deixa de ser ridículo) como Tite vai para a sala de entrevistas cheio de
assistentes, todos prontos a fornecerem dados irretorquíveis sobre as assertivas do comandante,
como se assim expurgassem qualquer possibilidade de erro.

Para tanto, o primeiro passo é não cobrar a mesma coisa que cobramos anteriormente a
Mano, ou seja, o resgate do modelo estático do “verdadeiro futebol brasileiro”. Um amigo
cruzeirense me enviou um email em que criticava o futebol de Tite na seleção e de Mano no
Cruzeiro, afirmando que “o medo de perder faz com que os times desses técnicos se limitem a um
futebol burocrático, eficiente, pragmático, retirando do jogo qualquer possibilidade de poesia e
improviso”. Ainda não o respondi e faço agora: tenho a impressão de que criticas Tite e Mano por
terem achado um jeito de criar equipes competitivas, como se eles mesmos tivessem criado a regra
do jogo e não produzido um conhecimento do jogo praticado hoje de modo a desvendar suas
brechas, os atalhos do campo, as regiões do gramado que estão bem ou mal povoadas. A história
do futebol é marcada por momentos em que as estratégias ofensivas levam a melhor, em outros
são as defensivas, e o erro é afirmar que quando a base do jogo é defensiva o jogo está sem “poesia
e improviso”, em um discurso afinado com a espetacularização amiúde do futebol na esteira dos
mega-eventos, o close das câmeras Hd, as assinaturas pay-per-view.

É um equívoco profundo fixar a singularidade nacional em algo tão volátil como a estratégia
de jogo que depende de circunstâncias tão variáveis. Apelar a determinado modelo em
conformidade com a natureza profunda do país significa, acima de tudo, insiste em algo mesmo que
não seja o mais apto a vencer - o que é um absurdo. Não que eu esteja defendendo a vitória a
qualquer custo, mas negar sua primazia é também negar a regra fundamental do jogo, esta mesma
responsável tanto pela onipotência imaginária no momento da vitória quanto pela frustração e peso
da falta na derrota - ambos sentimentos edificantes que, mediante a disputa lúdica que é o futebol,
nos preparam para os embates materiais da vida.

É preciso então que critiquemos Tite naquilo que realmente importa, sob o risco de
desperdiçarmos o momento e pagarmos o preço daqui a 4 anos. Se a derrota para a Bélgica deve
provocar transformações, a primeira delas deve ser a extinção do estatuto santificado do próprio
Tite, a começar pelas mudanças no contrato a ser renovado. Se não estão lembrados, o contexto
da chegada de Tite foi marcado pela concessão de total liberdade ao treinador, assim oferecida por
Del Nero, naquele momento sem poder de barganha algum já que era perseguido pelo FBI e a
seleção estava prestes ao fiasco de não se classificar para a Copa. Paradoxalmente, isto foi
positivo, dado que os brucutus da CBF não entendem nada de futebol e são escolhidos para o cargo
somente pelas conexões políticas que assentam. Era horrível quando Marin possuía a última
palavra das convocações e inclusive pedia a lista antecipada (a recusa em fornecê-la foi uma das
razões da demissão de Mano), em total conformidade com o projeto de tornar a seleção uma
plataforma de valorização financeira de jogadores, algo categoricamente confirmado quando Marin
contratou Gilmar Rinaldi como coordenador-geral da CBF.

Agora, quando já não há uma situação de emergência configurada (a próxima Copa é só daqui
a 4 anos), é preciso mudar o quadro. Se era horrível ter um treinador (Dunga) contratado por alguém
como Gilmar Rinaldi, ter o coordenador (Edu) indicado pelo próprio treinador também é
questionável. Não apenas isso: dos 64 profissionais que integravam a delegação do Brasil, 17 (26%)
trabalharam ou trabalham no Corinthians. O que não é um problema em si - afinal, aparentemente
eram homens de confiança e demonstraram competência no Corinthians - mas simboliza um
poderio desmedido de Tite. No entanto, em vez de corrigir este desequilíbrio, veicula-se a notícia
de que a CBF ofereceu uma proposta de renovação a Tite em que lhe seria garantido maior
participação nas seleções de base - o que configura o caminho contrário ao realizado por
treinadores como Southgate ou Lopetegui que vinheram subiram base até a seleção principal.

Se não bastasse Tite não ter sido o tipo de treinador que trabalhou cuidadosamente a base
dos clubes por onde passou, a desmesura do poder de Tite certamente auxiliou para que ele fosse
tão cabeça dura em alguns momentos da Copa, e as causas da derrota não estão alijadas disso. É
provável que, de tão isolado no poder, tenha lhe faltado humildade (ou mesmo conselho) para mexer
na equipe durante a Copa como fizeram nossos adversários, inclusive a Bélgica, insistindo até o
fim em Jesus e Paulinho (que acabou de acertar sua volta para a China, atestando como seu futebol
já estava em linha descendente). Sem falar nos demais problemas que apareceram durante a Copa
e sobre os quais até agora ele não se pronunciou como a família de Douglas Costa que reclamou
dos treino fortes que teriam lesionado o jogador, uma sina que também acompanhou outros
jogadores como Fred, Renato Augusto, Danilo, Neymar, Fágner. A questão de quem seria o capitão
sugava energias antes de cada partida e parecia uma discussão cada vez mais enfadonha. Neymar
se tornou piada internacional, o “parça” de Gabriel Jesus divulgou um vídeo do treino fechado,
Thiago Silva disse que ficou “chateado” porque Neymar gritou com ele e não pediu desculpa. São
detalhes que, numa Copa do Mundo, se tornam razões suficientes para o fracasso.

O que devemos cobrar de Tite é um ajuste com seu próprio trabalho, um pronunciamento a
respeito de questões que, embora ainda não respondidas, devem ser sanadas antes que inicie o
novo ciclo. Cobrar que TIte revise criticamente suas próprias convicções nada tem a ver com a
exigência de adequar-se à brasilidade do nosso futebol - precisamos de uma revisão fundada na
materialidade do presente, e não numa origem perdida ou interpretação convencional do que é o
brasileiro. É o mínimo que devemos exigir caso realmente desejemos levantar a taça daqui a quatro
anos.