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Critérios de correção – expectativas da banca

Expectativa de resposta para a questão


de área
A questão tem como objetivo principal avaliar se o candidato é capaz de mobilizar
instrumental teórico adequado para sustentação do seu ponto de vista. Isso porque não há
resposta correta para a questão: ao mesmo tempo em que há autores que defendem que
linguagem não é tecnologia, pois é natural, em oposição à técnica, que é deliberadamente criada,
há outros que sustentam a visão contrária, principalmente levando em conta as linguagens
artísticas, uma vez que há, por parte do artista, intenso trabalho sobre a linguagem que toma
como objeto para a criação estética. É de se esperar, evidentemente, que candidatos de
diferentes linhas abordem a questão focando mais ou menos em linguagens artísticas, o que
deve ser levado em consideração pelo avaliador. O que está em jogo, porém, é a capacidade
argumentativa do candidato e o alinhamento do escopo teórico mobilizado com o a visão
adotada.

Entre os aspectos importantes que preferencialmente devem aparecer na resposta,


encontram-se:

 entendimento que a questão versa sobre linguagens, no plural, devendo o candidato


também exibir compreensão de que linguagem não é sinônimo de língua;
 entendimento de que tanto a linguagem quanto a tecnologia caracterizam o ser humano
e são o que transformam o homem de ser natural em ser social;
 estabelecimento de relações entre linguagem e cultura, tecnologia e cultura e
linguagem e tecnologia, concluindo que as duas últimas são inseparáveis das questões
sociais, econômicas, culturais, políticas e até religiosas.
Estéticas- Questão 2
Vou apenas traçar qual era minha expectativa de resposta, embora, como já disse
anteriormente, isso não pretenda restringir a capacidade criativa de nossos candidatos, até mesmo
porque não há uma única via de resposta. O texto do Benjamin é de 1955 e funciona mais como uma
provocação às questões postas hoje pelas artes, incluindo aí a literatura.
Numa época em que não havia internet, blogs etc o que Benjamin está privilegiando como a
proximidade entre autor e leitor talvez se dê pela proliferação de editoras, pequenas editoras, editoras
marginais, jornal, revistas enfim, a imprensa escrita (sem esquecer que o foco doa autor é a época da
reprodutividade técnica). Se naquele ano, o teórico já pressentia esse sintoma, o que dizer dos dias
de hoje em que muitos autores se constroem até mesmo através de relatos nos blogs, sendo depois
convidados por editoras (haja vista a repercussão dos acessos) para publicarem em volumes. Isso
sem falar na imensa quantidade de pessoas que divulgam seus trabalhos pela internet - ou seja, se é
difícil viver do que se escreve, não parece difícil ser escritor - a relação produtor e consumidor
estreitou-se.
Pode-se tb considerar nesse processo o efeito de espetacularização crescente do mundo
literário (e porque não dizer artístico) - vive-se mais a divulgação e trânsito dos artistas em festas
literárias, shows, eventos que a leitura solitária propriamente.
Sobre a metadiscursividade, queria chamar atenção nesse ponto como a discussão dos
processos de produção artística dentro da própria produção se tornaram constantes na Pós-
Modernidade (tenho muitas ressalvas a essa caracterização, mas estou usando só para ser mais
clara).
E, como sustenta Hutcheon, até mesmo a intersecção entre crítica e arte se densificaram -
uma arte que inclui sua crítica, e uma crítica elaborada em forma poética. São muitas as situações de
metaliteratura construídas a partir de protagonistas-escritores ou até mesmo artistas, o que coloca no
centro da discussão a própria arte e seus critérios contemporâneos.

Estéticas- Questão 3
Expectativa de resposta: Espera-se uma discussão sobre a “perda da aura” na obra de
arte: original X falsificação. Por extensão de sentido, esperam-se discussões que tratem da perda
da autenticidade da obra e, com isso, a redução de seu valor enquanto bem cultural “transmitido
pela tradição”. Tal “abalo da tradição”, paradoxalmente, atualiza o objeto artístico reproduzido.

Ou, de outro modo, fazer uma análise sobre como a reprodução técnica pode acentuar
características que potencializam uma determinada interpretação da obra (por exemplo, o
realce das cores ou uma atmosfera mais erótica construída pela fotografia, ou uma
interpretação feminista do trabalho de Cindy Sherman, entre tantas outras possibilidades).

Por último, é possível direcionar a resposta para a relação religiosa que a obra de arte
relegada pela tradição possuía (teologia da arte, ideal de arte pela arte) e, desconstruída que é
nos dias de hoje, torna-se objeto de consumo (o que levaria a uma discussão sobre crise da arte
e/ou arte da crise). Com essa “teologia negativa da arte”, ela emancipa-se, deixa de ter uma
função religiosa, deixa de ser parasitária e pode ser reproduzida infinitamente. Além disso,
abandona sua função ritual e torna-se política.
Multiletramentos - Questão 2
O principal objetivo da questão é verificar a capacidade de leitura do candidato. Uma
boa resposta deverá ser capaz de demonstrar os pontos de convergência e de divergência dos
dois autores, tendo por base as citações usadas como textos motivadores. Temos, assim:

Pontos de convergência: ambos os autores entendem que uma tecnologia, por si só, não
é capaz de alterar as formas de comunicação humana, partilhando o pressuposto de que são
necessárias condições favoráveis para que isso aconteça, o que determina o sucesso ou não de
uma determinada TIC. Em outras palavras, uma tecnologia de comunicação só é apropriada em
larga escala se houver uma conjuntura social, econômica, cognitiva e técnica para que a
população se aproprie dela. Ou seja, é necessário um “movimento social geral” que veja em
determinada tecnologia algum potencial para satisfazer uma necessidade humana.

Pontos de divergência: o primeiro autor entende que poucas foram as tecnologias de


comunicação que efetivamente alteraram a ecologia da comunicação humana. Para o candidato
que leu o livro, e não apenas a citação, fica claro que a Internet, por exemplo, não muda
radicalmente a forma de nos comunicarmos, pois a quantidade de informações (grande
característica desse meio) é muito diferente de qualidade. A primeira não assegura a segunda,
nem mantém relação direta com ela. Já Xavier, ao cunhar o termo “modo de enunciação” digital,
deixa entrever a possibilidade de mudança significativa em nossas práticas de comunicação.
Indo mais além, seria muito interessante que o candidato ponderasse sobre a afirmação ingênua
de que a tecnologia, principalmente a Internet, mudou radicalmente as formas de interação
humana, sobretudo destacando a diferença entre o impacto nas formas de interação e no
sistema linguístico em si, preferencialmente com exemplos.

Multiletramentos- Questão 3
A questão exige que o candidato entenda o conceito básico de suporte. Para além disso,
deve relacionar o impacto que os diferentes suportes tecnológicos tiveram/têm sobre nossas
práticas de leitura. Ainda que o recorte feito pela questão seja dos suportes a partir do papel,
deve-se valorizar o candidato que reconhecer na evolução tecnológica dos suportes da escrita
papel decisivo em nossos modos de ler e escrever, desde os blocos de argila, que não permitiam
grande armazenamento, por exemplo, até o modo contemporâneo em que esse aspecto não é
mais um empecilho.

Um fator que deve ter grande atenção do avaliador é a forma dispensada pelo candidato
à comparação entre o suporte em papel e o digital. Uma exaltação do digital (ou, ao contrário,
total repúdio) demonstrará que o candidato fala desde o ponto de vista do senso comum, sem
o respaldo da bibliografia da prova, que pondera de forma comedida sobre as diferenças entre
texto eletrônico e em papel. Dessa forma, alguns pontos que podem figurar na resposta do
candidato dizem respeito a:

 quantidade de informação/armazenamento: muito maior no meio digital;


 qualidade de informação: muitos autores consideram que a possibilidade de publicação
de materiais na internet sem passar pelo crivo de um editor, por exemplo, torna o
conteúdo digital sem qualidade, criando um lixo cultural;
 convergência ou co-ocorrência de linguagens: o hipertexto torna isso mais fácil, mas não
é uma restrição do tipo de mídia. Além disso, o candidato deve se dar conta de que a
Internet, apesar de disponibilizar diferentes semioses, até mesmo simultaneamente,
deu uma visibilidade à escrita nunca antes vista;
 relação com o conhecimento: ter acesso a uma grande quantidade de informação
pressupõe mudanças em nossas práticas de leitura, já que é agora também é necessário
e importante verificar fontes, credibilidade da informação, lidar com grandes
quantidades etc.;
 qualidade da leitura e tipo de texto lido na comparação dos suportes: estudos mostram
que há gêneros de texto específicos que quase não são lidos em ambiente digital (como
grandes romances, por exemplo), além do questionamento sobre a qualidade de
interpretação de um texto lido em suportes diferentes;
 acesso ao conhecimento: tecnófilos pregam certa universalidade no acesso ao
conhecimento, fato normalmente não problematizado, tendo em vista o preço dos
meios técnicos para acesso a esse conhecimento, principalmente em lugares menos
desenvolvidos economicamente. Além disso, o impresso, principalmente o livro e seu
armazenamento em bibliotecas, ainda é visto como símbolo de poder e erudição;
 especificidades linguísticas: o senso comum afirma que a linguagem na internet tem
características peculiares. O candidato deve ser capaz de observar que isso tem mais a
ver com os gêneros que circulam no meio digital do que com a língua em si, comparando
com os gêneros impressos e mostrando semelhanças e diferenças.
 Outros aspectos pertinentes.