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Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude


que não quer assumir seu racismo

Ana Maria Gonçalves


15 de Fevereiro de 2017, 17h15
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Quase toda cidade pequena – principalmente as de Minas – tem seu louco de estimação. Aquele que
toda a cidade conhece, cuida e por quem zela como uma espécie de patrimônio. Ibiá, onde nasci,
tinha o Zé Tem Dó; e foi com ele que aprendi sobre o valor simbólico de certos objetos. Eu devia ter
uns quatro ou cinco anos. Minha mãe era costureira, e o Zé colecionava carretéis de linha. Portanto,
suas visitas à minha casa eram constantes, porque minha mãe guardava todos os carretéis para ele e
sempre oferecia algo mais, como um refresco, uma roupa, um prato de comida.
Pensando que o Zé estava distraído, certa vez tentei pegar em um destes carretéis. Ele se levantou
com um pulo e, com mais dois, estava parado na minha frente, protegendo os valiosos bens que,
para minha mãe, eram apenas sobras de trabalho. Saí eu correndo para o outro lado, assustada, com
medo. Zé pegou suas coisas e foi embora, conversando com um dos carretéis que ele amarrava na
ponta de uma linha e saia puxando. Era seu animal de estimação ou seu carrinho, algo que ia muito
além do que eu conseguia ou conseguirei ver, a menos que um dia me torne um Zé e vá eu mesma
virar folclore em uma cidade do interior. Mas ali, naquele episódio, aprendi uma coisa da qual
pretendo falar aqui: o Zé não estava brincando com um carretel e nem nós estamos brincando com
um turbante.
Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude pudesse, e ainda possa,
ser mercantilizada.

Boa parte da população branca brasileira sabe de suas origens europeias e cultiva, com carinho e
orgulho, o sobrenome italiano, o livro de receitas da bisavó portuguesa, a menorá que está há várias
gerações na família. Quem tem condições vai, pelo menos uma vez na vida, visitar o lugar de onde
saíram seus ancestrais e conhecer os parentes que ficaram por lá. E os descendentes dos africanos
da diáspora? Quando chegaram por aqui, os traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do
lugar de onde haviam saído, redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os
embarcados na costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento
(ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do Não Retorno, para que
nunca mais sentissem vontade de voltar, separado-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais
diversificados, para que não se entendessem.
Diferente dos brancos, negros parecem não ter o direito de se orgulhar de suas origens
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo católico para que deixassem de ser
pagãos e adquirissem alma por meio de uma religião “civilizatória”, ganhando um nome “cristão”
que se juntava, em terras brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil, não
podiam falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem donos dos próprios corpos e
destinos. Para que algo fosse preservado, foram séculos de lutas, de vidas perdidas, de surras,
torturas, “jeitinhos”, humilhações e enfrentamentos em nome dos milhares dos que aqui chegaram e
dos que ficaram pelo caminho.
Como resultado disto, somos o que somos: seres sem um pertencimento definido, sem raízes
facilmente traçáveis, que não são mais de lá e nunca conseguiram se firmar completamente por
aqui. Temos, como diz a poeta, romancista, ensaísta e documentarista canadense Dionne Brand, em
seu maravilhoso A Map to the Door of No Return, “o próprio pertencimento alojado em uma
metáfora”. Viver na Diáspora Negra, segundo ela, é “viver como um ser fictício – uma criação dos
impérios, mas também uma autocriação. É ser alguém vivendo dentro e fora de si mesmo. É
entender-se como signo estabelecido por alguém e ainda assim ser incapaz de escapar dele (…).”
Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude pudesse, e ainda possa, ser
mercantilizada. E não conseguimos escapar disso porque, de antemão, sem ao menos nos ouvir,
vocês já parecem saber o que somos, o que queremos, o que sabemos. Assim mesmo: a negritude, a
militância, as mulheres negras, esse povo – nunca seres individuais, mas sempre em lotes. E
vivemos nesta metáfora que, a partir de agora, vou passar a chamar de turbante, mas poderia ser
outro símbolo qualquer.
O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado,
invadido.

Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É juntar-se a outro ser diaspórico que também
vive em um turbante e, sem precisar dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele
turbante sobre nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a nossa precária
habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para carregar este turbante sobre nossas cabeças,
tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de
fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado,
desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto
acontecia? Vocês que, agora, quando quase conseguimos restaurar a dignidade dos nossos turbantes,
querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da sala. Onde estão vocês quando a gente precisa de
ajuda e de humanidade para preservar estes símbolos?
Lembro de ter visto um turbante usado por um homem sensível à causa das mulheres negras na
Marcha das Mulheres, que aconteceu há pouco tempo em Los Angeles, que perguntava: “Verei
todas vocês, mulheres brancas legais, na próxima marcha #VidasNegrasImportam, certo?”.
Vocês, mulheres brancas legais que querem se abrigar em nossos turbantes, vão estar conosco
enquanto choramos as mortes dos nossos meninos negros e clamamos por justiça, certo? Vão usar
turbante quando nossas mães e pais de santo são expulsos de comunidades ou entregues aos
formigueiros, certo? Quando reclamamos da dor ao recebermos menos anestesia do que mulheres
brancas durante os partos, certo? Quando denunciamos que sofremos mais violência, mais abuso e
mais assédio do que vocês, certo? Quando reivindicamos equiparação salarial com vocês, certo?
Vão reverberar nossas vozes quando reclamamos que somos preteridas pelos homens (brancos ou
negros), certo? Vão entender e ter uma palavra de consolo quando sentimos culpa por deixarmos os
próprios filhos em casa para cuidarmos dos seus, certo? Vão nos ouvir e nos defender quando tiver
mais alguém querendo invadir nossos turbantes a força, na marra, no grito, certo? Porque aí, o
turbante também já será de vocês. Vão ouvir, entender e falar junto quando tentamos explicar que
nossas reivindicações, distorcidas, não têm nada a ver com pizza, calça jeans e feng shui, certo?
Negros também podem ter suas próprias coisas
Foto: Lula Marques/ Agência PT
Quando vocês dizem “Vou usar e pronto, quero ver quem vai me impedir”, às vezes dá vontade de
pegar vocês no colo, à moda das “mães pretas” que devem ter povoado as vidas de muitos de vocês
ou de seus ancestrais, e dizer que isso não é comportamento de criança educada. E dizer que sim,
algumas coisas são de vocês, porque foram da bisavó de vocês, da avó de vocês, da mãe de vocês e
que, deste modo, a gente também poderia ter algumas coisas que são nossas, herança de família.
Quer ver: Pizza! (“É comida italiana!”). Acarajé – do iorubá akara (bolo de feijão frito) + ijé
(comida) – (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Hashu´al (É israelita!). Congado (É MEU! É
do Brasil! É de todo mundo!). Quimono! (É japonês!). Ojá! (É MEU! É do Brasil! É de todo
mundo!). Kung Fu (É chinesa!). Capoeira! – do tupi ko´pwera ou do umbundo kapwila – (É MEU!
É do Brasil! É de todo mundo!). Abajur (Vem do francês!). Moleque, quiabo, berimbau, samba,
cafuné, zumbi… (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!).
Cansamos de sermos personagens de piadas das quais só vocês riem.

E depois somos nós os divisionistas, os egoístas, os que não têm cultura, enquanto vários outros
povos podem manter, sem controvérsia e sem serem obrigados a colocar na roda (É MEU! É do
Brasil! É de todo mundo!), as “contribuições” que trouxeram para o solo brasileiro. Já entendemos
que vocês acham que é (sempre foi) tudo de vocês. Só que cansamos de ficar só nas cozinhas, nos
quartinhos, nos corredores, nas bordas das piscinas, sem sermos incluídos nisso aí que vocês
chamam de “povo brasileiro”. Cansamos de escutar que não sabemos, não vemos, não entendemos,
não queremos, não podemos. De ter que pedir licença pra tudo, de ter que pedir desculpa mesmo
quando somos os ofendidos. Cansamos de servir quem nem sabe os nossos nomes. Cansamos de
sermos personagens de piadas das quais só vocês riem.
Quase todas as nossas discussões e toda a produção intelectual acontecidas ali, sob nossos turbantes,
são desligitimizadas pela palavra de ordem #VaiTerBrancaDeTurbanteSim!, gritada para nós com a
mesma arrogância e espera de obediência que os donos dos nossos ancestrais gritavam
#NãoVaiTerCoisaDePretoAquiNão!. Coisas mil acontecem dentro desses nossos turbantes, das
quais vocês nem têm ideia: temos que formar redes de apoio, invisíveis para vocês e alheias à sua
existência privilegiada, para socorrer, consolar, orientar e fortalecer vítimas de racismo cometido
por pessoas que se ofendem quando apontamos suas faltas, e viram vítimas.
Debaixo deste turbante orientamos crianças negras a não levarem banana na lancheira porque os
amiguinhos vão chamá-las de macacos. Orientamos nossos jovens a não usarem roupa com capuz,
não correrem, não fazerem movimentos bruscos em público e não parecerem suspeitos, seja lá o que
isso significa para vocês. Sob a proteção destes turbantes, trocamos informações, discutimos teorias,
nos comunicamos com turbantes estrangeiros e até fazemos vaquinhas para pagar enterro de jovens
assassinados pela polícia. Concordamos, discordamos, rimos, choramos, contamos segredos,
gritamos, amamos, odiamos, estudamos, dizemos uns aos outros que temos que ter infinita
paciência para voltar cinco, dez, vinte casinhas do ponto de entendimento em que estamos para
responder a egocentrismos do tipo “EU li Monteiro Lobato e não me tornei racista”, “se EU usar
turbante vou ser chamada de racista?”. Porque sabemos que não são comentários nem perguntas
inocentes, mas são também metáforas. São os muros que protegem aqueles lugares que vocês
habitam e nos quais não somos admitidos, porque na porta sempre teve uma placa dizendo “brancos
somente”.
Vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este da branquitude.

O turbante que habitamos não é o mesmo. O que para você pode ser simples vontade de ser
descolado, de se projetar como um ser livre e sem preconceitos, para nós é um lugar de conexão.
Entre nós mesmos e com algo que perdemos e que nem sempre sabemos o que é e por onde ficou.
Habitar nossos turbantes tem para nós o mesmo significado de “ir conhecer a vila onde meus avós
italianos nasceram”, ou “pude sentir na pele o que meus bisavós viveram naquele campo de
concentração”. Sim, porque, entre muitos outros, ele tem estes dois significados: abrigo e dor.
Nós não tiramos sarro de vocês quando vocês defendem estes lugares que fazem parte da história do
seu povo. Nós não fazemos piadas com os significados que estes lugares têm para vocês. Não não
dizemos que são meras construções de pedras e tijolos empilhados uns sobre os outros. Nós não os
chamamos de burros porque a nossa ignorância não nos permite entender o que vocês falam destes
lugares que lhes são caros porque trazem as marcas de seus bisavós, avós, pais, e que continuarão a
marcar as vidas de seus filhos, netos, bisnetos. E, no entanto, temos que observar calados, sob a
pena de tentarem nos calar à força, como a bestas raivosas que vocês acham que nós somos – não é
ação, é reação! –, vocês meterem os pés nas nossas portas, invadirem nossos turbantes com gritos
de “VaiTerBrancaDeTurbanteSim!. Para vocês é morada provisória, das quais vocês entram e saem
conforme dita a moda e a vontade, porque vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este
da branquitude. Nós não temos, porque nossa existência está cravada na pele, nossa morada está
acoplada às costas, à maneira dos caracóis. Nossa casa, para você, é fetiche, é exotismo, é acessório,
é fantasia. A nossa casa.

O turbante habitado por negras é diferente do turbante habitado por brancas.


Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Na nossa casa, a gente não fala de turbante quando fala de turbante. Dentre muitos dos seus nomes,
o principal é racismo. É racismo quando vocês acham que não sabemos do que estão falando. É
racismo quando vocês deduzem que precisam nos ensinar que pizza é italiana, que o algodão do
pano do turbante é indiano, que num mundo globalizado… etc etc etc. A gente tem que voltar cinco,
dez casinhas na discussão que vocês não estão acompanhando porque não querem – mas se acham
habilitados a dar palpite –, para nos nivelarmos ao entendimento de vocês, só pra dizer: É o
racismo, estúpido! E antes que tenhamos que voltar mais trinta casinhas para ouvir os “eu não sou
racista!”: É o sistema, estúpido! E sendo ele estrutural e estruturante da sociedade brasileira, faz
com que você trabalhe para mantê-lo, quer você queira, quer saiba, ou não.
Sobre apropriação cultural, a gente conversa depois de vocês lerem, por exemplo, o artigo da
filósofa Djamila Ribeiro, publicado muito antes desta briga de vocês pelo turbante virar modinha.
Ou o poema do mestre Nei Lopes, colocado aí abaixo. Neste caso, podem ter certeza de que quando
vocês vêm com o fubá (do quimbundo “fuba” ou do quicongo “mfuba”), a gente já está comendo o
angú (provavelmente do fon “àgun”).
*******
BRECHTIANA (para Abdias Nascimento)
Primeiro,
Eles usurparam a matemática
A medicina, a arquitetura
A filosofia, a religiosidade, a arte
Dizendo tê-los criado
À sua imagem e semelhança.
Depois,
Eles separaram faraós e pirâmides
Do contexto africano
Pois africanos não seriam capazes
De tanta inventiva e tanto avanço
Não satisfeitos, disseram
Que nossos ancestrais tinham vindo de longe
De uma Ásia estranha
Para invadir a África
Desalojar os autóctones
Bosquimanos e hotentotes.
E escreveram a História ao seu modo.
Chamando nações de “tribos”
Reis de “régulos”
Línguas de “dialetos”.
Aí,
Lançaram a culpa da escravidão
Na ambição das próprias vítimas
E debitaram o racismo
Na nossa pobre conta
Então,
Reservaram para nós
Os lugares mais sórdidos
As ocupações mais degradantes
Os papéis mais sujos
E nos disseram:
-Riam! Dancem! Toquem!
Cantem!Corram! Joguem!
E nós rimos, dançamos, tocamos
Cantamos, corremos, jogamos.
Agora, chega!