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IBEROGRAFIAS

34
ANDANÇAS E REFLEXÕES TRANSFRONTEIRIÇAS:
ROTEIRO MIGUEL DE UNAMUNO –
EDUARDO LOURENÇO

Coordenação de
Rui Jacinto
Valentín Cabero

IBEROGRAFIAS

34
Colecção Iberografias
Volume 34

Título: Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Coordenação: Rui Jacinto; Valentín Cabero


Fotografias: Rui Jacinto (RJ); Santiago Santos (SS); Victorino García Calderón (VG)
Cartografia: Ignácio Izquierdo

Pré-impressão: Âncora Editora

Capa: João Guerreiro | Âncora Editora

Impressão e acabamento: LOCAPE – ARTES GRÁFICAS, LDA.

1.ª edição: Julho 2018


Depósito legal n.º 443102/18

ISBN: 978 972 780 655 3


ISBN: 978-989-8676-16-0

Edição n.º 41034

Centro de Estudos Ibéricos


Rua Soeiro Viegas n.º 8
6300-758 Guarda
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www.cei.pt

Âncora Editora
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O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos, não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e
opiniões neles expressas.
A opção ou não pelas regras do novo acordo ortográfico é da responsabilidade dos Coordenadores.

Apoios:
POR TERRITÓRIOS DE MIGUEL DE UNAMUNO E DE EDUARDO LOURENÇO 7

Andanças e Reflexões Transfronteiriças – Valentín Cabero; Rui Jacinto 9

NÓS E A EUROPA: DIÁLOGOS ENTRE MIGUEL DE UNAMUNO E EDUARDO LOURENÇO 41

Sobre la Europeización (Arbitrariedades) – Miguel de Unamuno 43

Nós, a Espanha, a Europa – Eduardo Lourenço 57


A Espanha e nós 57
Fantasmagoria Europeia: Nós e a Nova Espanha 63
A Península como problema europeu 66

ROTEIRO MIGUEL DE UNAMUNO – EDUARDO LOURENÇO: 71


COIMBRA–GUARDA–SALAMANCA, UM EIXO CIENTÍFICO E CULTURAL

Coimbra 73
Coimbra – Miguel de Unamuno 74
Tempos de Coimbra – Eduardo Lourenço 79

Guarda 93
Guarda – Miguel de Unamuno 94
Oito séculos de altiva solidão – Eduardo Lourenço 99

Fronteira, traço de união: espaços e aldeias Raianas 111


Los Arribes del Duero – Miguel de Unamuno 112
Regresso sem fim: S. Pedro do Rio Seco e a fronteira – Eduardo Lourenço 125
O duplo rosto da fronteira 125
As fronteiras que não têm fronteiras 127
Jogos de fronteira, jogos de memória 129
Quem vê o seu povo vê o mundo todo 131

Salamanca 149
Salamanca – Miguel de Unamuno 150
Atardecer de estio en Salamanca 155
Oda a Salamanca 157
O Novo destino da Península – Eduardo Lourenço 162
POR TERRITÓRIOS DE
MIGUEL DE UNAMUNO E DE
EDUARDO LOURENÇO
Andanças e reflexões transfronteiriças

Valentín Cabero
Rui Jacinto

Por ocasião da celebração do VIII Centenário da Fundação da Universidade de Salamanca


(1218 – 2018), o Centro de Estudos Ibéricos (CEI) junta-se com espírito fraterno e com olhar
posto na “comum alma ibérica” à comemoração de tão longa vida académica e da sua frutífera e
precoce presença no mundo peninsular, na Europa, no Mediterrâneo e no Novo Mundo. A sua
dimensão verdadeiramente universal e aberta à defesa dos direitos humanos compromete-nos,
novamente, com o futuro e com a responsabilidade do Centro de Estudos Ibéricos continuar a
ser um lugar de encontro ativo, encruzilhada de saberes, de diálogo interdisciplinar e de partilha
de conhecimentos, solidário com os territórios mais desfavorecidos do interior raiano e com as

9 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


terras mais longínquas dos espaços Ibero-Americanos e da Lusofonia. Os Cursos de Verão têm
sido orientados, por todas estas razões, para constituírem um encontro de culturas, de reflexão
sobre a coesão do território e os processos de desenvolvimento. A edição de 2018 associa a estes
objetivos um itinerário transfronteiriço que tem como fio condutor dois grandes pensadores
iberistas com indubitável capacidade reflexiva e critica: Miguel de Unamuno, que foi Reitor
da Universidade de Salamanca, e Eduardo Lourenço que, além de ser um grande pensador de
Portugal e da sua cultura, foi quem inspirou a criação do Centro de Estudos Ibéricos.
Tomam-se como referências as cidades de Coimbra e de Salamanca e as suas Universidades,
unidas há seculos por fraternos laços históricos e pessoais, académicos e culturais, bem como
a cidade da Guarda, convertida em marco de confluência que, através do CEI, renova os seus
vínculos com o iberismo e a cooperação transfronteiriça. O itinerário que vamos efetuar irá
percorrer territórios com os quais Miguel de Unamuno e Eduardo Lourenço estabeleceram
uma íntima relação, visitar lugares representativos, que lhes são queridos, sem esquecer o
mundo rural e a própria raia, tantas vezes olvidados, que deixou de representar a antiga
fronteira soberana, fechada e impermeável a uma salutar circulação de pessoas, bens e ideias.
1. Relações ibéricas e pensamento crítico no contexto do VIII Centenário
da Universidade de Salamanca

Sabemos bem que as relações entre Espanha e Portugal atravessam um bom momento. Em
maio de 2017, Portugal foi o país convidado da Feira do Livro de Madrid, na qual o pensador
e intelectual Eduardo Lourenço proferiu a conferência inaugural, recém cumpridos os 94 anos.
Perante o Rei de Espanha e o Presidente da República de Portugal, com uma lucidez única expôs
o significado de livro na cultura ocidental, a perda de fé no laicismo e os seus temores ante o
futuro da Europa. Uns anos antes, por ocasião da atribuição do Prémio Extremadura (2006),
Eduardo Lourenço tinha refletido sobre as relações entre Espanha e Portugal: “O iberismo deve-
ria ser o nosso estado natural, é a nossa realidade histórica de muitos séculos. A Península sempre
foi uma confrontação de diversidades que se levaram bastante bem muitas vezes. As dificuldades
de convivência costumavam vir do exterior. Agora vivemos um iberismo prático, sem conotações
centralistas ou imperialistas. Ninguém quer unificar-nos pela força. É admirável como Espanha
maneija dialogando as tentações de fugas separatistas, que por outro lado são irreais. Os portu-
gueses, à nossa maneira suave, arranjamo-nos para impor de forma natural a nossa autonomia,
relativa como todas, àquele velho centralismo intolerável. A Europa e o mundo têm hoje tal am-
bição de uniformidade, que a tentativa de edificar castelos individuais já não coalha facilmente”1.
Neste contexto, devemos recordar alguns feitos recentes e vinculados ao VIII Centenário
da Universidade de Salamanca como a visita de Estado do Presidente da República de Portugal
a Espanha que culminou no Paraninfo da própria Universidade, um lugar sagrado para os de-
fensores do pensamento ilustrado, a sabedoria, a tolerância e a liberdade. No dia 18 de abril de
10 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

2018, o Rei Felipe VI e o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhados de


autoridades portuguesas e espanholas, ladeados pelos Reitores das Universidades de Salamanca e
de Coimbra, Ricardo Rivero e João Gabriel Silva, presidiram a uma ceremónia solene e eminen-
temente académica. O CEI esteve também representado neste acto comemorativo. Os discursos
insistiram nos “laços centenários entre as veneráveis universidades” e nos resultados fructíferos
de ambos os Estudos ao longo dos séculos. Por seu lado, os Reitores de ambas universidades
públicas, além de renovarem os vínculos fraternais e iberistas, incidiram na função de transmis-
são de conhecimento e investigação científica, no compromisso cívico, ético e na reflexão crítica
como nos ensinaram os grandes mestres. No âmbito do VIII Centenário, como feito relevante
e simbólico, o Presidente da República de Portugal condecorou a Universidade de Salamanca
com a Ordem de Santiago da Espada, altíssima condecoração lusa que reconhece e premeia os
méritos literários, científicos e artísticos da universidade mais antiga da Península Ibérica.
No dia 21 de maio, ainda por ocasião do VIII Centenário, o Rei Felipe VI e o Presidente
da República de Portugal presidiram ao IV Encontro Internacional de Reitores Universia
1
Citamos o artigo e entrevista de Miguel Mora a Eduardo Lourenço, El País, 6-09-2006: ¿Qué es Europa?, Nada.
realizado em Salamanca. Mais de 600 reitores ou seus representantes, sob o lema “Universidade,
Sociedade e Futuro”, centraram os seus debates em grandes problemas ou eixos de reflexão:
“Formar e aprender num mundo digital”, “Investigar na Universidade, um paradigma em
revisão?”, temas de indubitável relevância para construir inteligentemente o futuro. Este IV
Encontro Internacional de Universia 2018 também pretende reforçar os laços com os terri-
tórios longínquos com raízes culturais ibéricas, assim colocado no manifesto da sua sessão
inaugural: “Dizíamos ontem, diremos amanhã. O Espaço Euro-ibero-americano do conhe-
cimento e da educação superior” tem pontes entre a Europa e a América. A Declaração de
Salamanca, aprovada e proclamada neste Encontro, aposta numa Universidade para o século
XXI, aberta e solidária, particularmente com os países de língua espanhola e portuguesa.
O Centro de Estudos Ibéricos tem vindo a trabalhar com empenho e entusiasmo,
desde há dezoito anos, nestes compromissos, juntando-se a estes desafios com a sua expe-
riência na cooperação transfronteiriça, apostando e impulsionando ações culturais integra-
doras em territórios de baixa densidade. O CEI tem assumido nas suas atividades aqueles
desafios com energia e responsabilidade, abrindo de maneira específica os seus Cursos de
Verão aos professores e alunos ibero-americanos e lusófonos, nos que participam ativa-
mente, enriquecendo os nossos conhecimentos e atitudes perante o mundo. Recordemos,
por outro lado, que alguns dos galardoados com o Prémio Eduardo Lourenço (Mia Couto,
Jerónimo Pizarro ou Luis Sepúveda) têm esta condição, enlaçando bela e sabiamente nos
seus escritos e trabalhos as raízes ibéricas e as ricas culturas transoceânicas.
Importa sublinhar que os princípios fundacionais do CEI e a definição dos seus objeti-
vos tem claramente fixados os seus compromissos com os territórios e com as pessoas, trasla-

11 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


dando a competência universitária e as suas propostas ou reflexões ao meio rural e urbano do
entorno fronteiriço e interior repartido por Espanha e Portugal. De alguma maneira, estes
pressupostos e estes pensamentos ficaram escritos na Declaração da Guarda2 assinada pelos
2
Foram seus subscritores os Reitores das Universidades de Coimbra (Fernando Manuel da Silva Rebelo), Aveiro (Maria
Helena Vaz de Carvalho Nazaré), Beira Interior (Manuel José dos Santos Silva), Salamanca (Ignacio Berdugo Gómez
de la Torre), Valladolid (Jesús María Sanz Serna), León (Ángel Penas Merino), Burgos (José María Leal Villalba).
Declararam: “(1) As universidades acima referidas mantêm um compromisso histórico, assumindo o seu papel
na construção das ideias e dos valores universais, cuja defesa proclamam uma vez mais, ao confrontarem-
se, hoje, com uma globalização carregada de incertezas e, ao mesmo tempo, de capacidades inovadoras e
surpreendentes. (2) As universidades mais antigas (Salamanca, Coimbra e Valladolid), pioneiras no
intercâmbio científico e cultural dentro da Península Ibérica, da Europa e de além-mar, unem-se aos novos
laços e às energias que incorporam as universidades de León, Aveiro, Beira Interior ou Burgos, na tarefa de um
ensino universitário mais acessível aos cidadãos e aos territórios, conjugando deste modo a própria autonomia
universitária e, ao mesmo tempo, a complementaridade e a colaboração entre povos e regiões. (3) A construção
da União Europeia, alicerçada nos princípios da solidariedade e da subsidiariedade e no exercício dos valores
democráticos, requer o envolvimento das universidades em prol do fortalecimento da cidadania, da difusão do
saber e da melhoria na qualidade de vida. Nesta perspectiva, a procura da coesão social e da equidade territorial
encontra obstáculos particularmente graves nas periferias ou nas regiões desfavorecidas, como naquela em que
nos encontramos, no extremo sudoeste da Europa e no espaço de uma fronteira histórica”.
reitores das Universidades de Castela e Leão e do Norte de Portugal, em momentos chave
para o avanço da cooperação e dos intercâmbios científicos e culturais entre os centros uni-
versitários nos territórios onde se localizam. Aquela Declaração, elaborada por ocasião desta
reunião de carácter interuniversitário, realizada na Guarda, a 12 de abril de 2002, no âmbito
do Centro de Estudos Ibéricos, expresso: (4) “As universidades subscritoras estão conscientes
da contribuição necessária de esforços renovados na resolução dos problemas de formação e
investigação, objetivos primeiros da sua ação, assim como da integração das suas potencia-
lidades e dos seus recursos humanos no âmbito geográfico mais próximo, sem perder a sua
vocação universal e sem diminuir a qualidade do ensino superior. A constituição de redes de
trabalho em comum e de intercâmbio vem demonstrando, nos últimos tempos, as múltiplas
vantagens culturais e científicas que acompanham estes processos. Por isso, apoiam e saúdam
com esperança as iniciativas vinculadas à colaboração interuniversitária e todas as ações coe-
rentes com a aplicação do espírito europeu e das novas modalidades de cooperação”.
Não correm bons tempos para o pensamento crítico. Nos discursos que ouvimos pre-
domina o banal, o cinismo e o conjuntural. E quando as esperanças colocadas ao serviço do
progresso comum e da construção duma convivência e democracia mais equitativa se rom-
pem, o diálogo que se tem vindo a propor com o território e com a própria leitura dos escri-
tos de Miguel de Unamuno e de Eduardo Lourenço coloca-nos, de alguma forma, perante
um conhecimento sem fronteiras, capaz de transformar as nossas atitudes e de reivindicar
uma cultura mais inteligente e políticas mais ativas e solidárias com o meio rural, urbano
e transfronteiriço. Não obstante, sentem-se alguns sinais de otimismo; no IV Encontro
Internacional de Universia em Salamanca ouviram-se vozes dos máximos responsáveis aca-
12 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

démicos, políticos e economistas favoráveis à “excelência académica inclusiva”, à mobilida-


de frente à endogamia, à educação integral e humanista, à universidade aberta ao mundo,
comprometidos com o pensamento crítico, indispensável para avançar na construção dum
futuro mais justo, socialmente mais equitativo e territorial mais coeso a distintas escalas
espaciais. É com estas tarefas que nos sentimos identificados e o CEI plenamente implicado.

2. A procura da comum alma ibérica: Miguel de Unamuno e suas


andanças e reflexões transfronteiriças

Miguel de Unamuno (Bilbao, 1864; Salamanca, 1936) pode considerar-se um dos


grandes pensadores e intelectuais de finais do século XIX e da primeira metade do sé-
culo XX. O seu pensamento continua muito presente entre nós. Apesar de ser catedrá-
tico de Grego, é bem conhecido o seu trabalho como novelista, poeta ou dramaturgo,
importando sublinhar o seu papel como filósofo e ensaísta com uma presença habitual
Miguel de Unamuno em La Flecha (Foto de José Suárez)

na imprensa nacional e internacional. Os escritos de Unamuno enquadram-se, funda-


mentalmente, na crise finissecular de 1898 e bebem em parte na tradição romântica

13 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


que olha a “serenidade do campo” e valoriza a “vida retirada”, sem evitar o debate social
e político. A sua atitude cívica converter-se-á, precisamente, num símbolo da oposição
à monarquia e à ditadura do General Primo de Rivera; por isso, sofrerá vários desterros.
Morre no final de 1936, quando a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) rompe violen-
tamente a vida e a paz na Península, depois de ter mantido um debate e enfrentamento
no Paraninfo da Universidade com militares e representantes do levantamento fran-
quista contra a República, pronunciando aquelas palavras emblemáticas: “Vencereis,
mas não convencereis”.
Unamuno abordou géneros diferentes e problemáticas interpretativas complexa (narrati-
va, poesia, filosofia, religião, política, viagens…) com um estilo próprio e grande transcendên-
cia cívica e política. Não desenvolveremos nesta apresentação uma exposição pormenorizada
das suas obras, da sua poética, ensaios e escritos filosóficos que se aproximam das posições do
existencialismo. Detemo-nos, sobretudo, da sua vertente iberista e das suas relações fraternais
com Portugal, buscando “a comum alma ibérica” que ajustaremos ao itinerário defenido entre
Coimbra e Salamanca, medeado pela Guarda e o entorno raiano e transfronteiro.
Mais que olhar a Europa, “ser europeus e ser modernos”, no sentido mais vago e
impreciso, ou na sua aproximação mais racional e científica ao conhecimento, Unamuno
procura no Sul e na Península a sabedoria e a espiritualidade, propondo – pensamos que
provocadoramente – “espanholizar a Europa”3. E encontrará algumas das respostas em
Portugal, onde viajará com frequência desde Salamanca e entabulará amizade e corres-
pondência com escritores e pensadores vinculados à renascença lusitana e ao iberismo.
A capacidade de reflexão crítica de Unamuno encontrará nas obras e ideias do grande
historiador e iberista português Oliveira Martins (História da civilização ibérica e História
de Portugal) uma âncora de sabedoria e pensamento em defesa da unidade dos povos
ibéricos. A relação de Unamuno com Portugal pode classificar-se de apaixonada. As suas
palavras assim no-lo revelam: “O que terá este Portugal-penso- para assim me atrair? O
que terá esta terra, por fora rente e branda, por dentro atormentada e trágica? Eu não sei;
mas quanto mais lá vou, mais desejo voltar”4.
Na apresentação da sua obra Por terras de Portugal e de Espanha (1911) recorda-nos
como figura magistral Eugénio de Castro e a sua obra lírica Constança, em memória da
que foi esposa do Infante D. Pedro, cuja amada Inês de Castro deixou páginas imortais na
literatura ibérica e lusitana, a começar pelas do próprio Luís de Camões. Não pode sur-
preender-nos, pois, que a partir da imagem de Constança e da triste lembrança de Alcácer
Quibir, Miguel de Unamuno veja Portugal “como uma bela rapariga campesina de costas
voltadas para a Europa, sentada à beira-mar, com os pés descalços na borda mesmo onde a
espuma das ondas cintilantes lhos molha, os cotovelos fincados nos joelhos e a cara entre
as mãos olha como o sol se põe nas águas infinitas. Porque para Portugal o sol não nasce
14 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

nunca: morre sempre no mar que foi teatro das suas façanhas e berço e sepultura de suas
glórias“5. Incorporamos o texto desta obra (pp. 107-115), correspondente à Guarda, es-
crito em Salamanca, em dezembro de 1908.
É talvez no seu livro Andanças e visões espanholas6 no que se recolhem com maior refle-
xão crítica seus pensamentos e ideias sobre a complexidade e rica diversidade da Península
3
Ver amplamente em Miguel de Unamuno: “Sobre la europeización (Arbitrariedades)”, La España Moderna,
1906, nº 216, pp. 64-83. Recordemos que esta posição de Unamuno traria uma polémica intelectual com
o outro grande pensador José Ortega y Gasset que verá na Europa a solução de todas as dores de Espanha.
4
As relações de Unamuno com Portugal foram objeto de investigação precoce entre os estudiosos da obra de
Unamuno. Devemos citar Miguel de Ferdinandy: Unamuno y Portugal, Cuadernos de la Cátedra Miguel
de Unamuno, 1951, nº 2, pp.111-131; também John E. Englekirk: En torno a Unamuno y Portugal,
Hispania, vol 42, nº 1 (Mar.,1959), pp.32-39; uma menção mais próxima e atualizada é a do Professor
Ángel Marcos de Dios: Unamuno, paradigma de las relaciones de España con Portugal, en Aula Ibérica
(Ángel Marcos de Dios, Editor), Aquilafuente, 123, Ediciones Universidad de Salamaca, 2007; mais
recentemente, o jornalista zamorano Agustín Remesal recriou as andanças unamunianas no seu livro, uma
novela de viagens, Por Tierras de Portugal, edición del autor, 2013.
5
Miguel de Unamuno: Por Tierras de Portugal y de España, Biblioteca Renacimiento, Madrid, 1911, pp.6 y 7.
6
Miguel de Unamuno: Andanzas y visiones españolas, Renacimiento, Madrid, 1922.
e suas ilhas. O seu olhar sobre a natureza e as paisagens de terras e vilas, de montanhas,
vales e povoações, alcançam uma grande profundidade e suas descrições merecem uma
leitura pausada e serena. Diz-nos Unamuno: ”a genuina paisagem é de pequenos recan-
tos. Ali é onde se colhe a alma do campo”7. Nas viagens, particularmente as que realiza
a lugares solitários e afastados, como os do Sistema Central (Sierra de Gredos, Sierra de
Francia…), Unamuno procurará a partir da visão do topo e dos cumes “o silêncio re-
criador”, “a majestade da montanha”, “a paz perpétua” ou “acalma absoluta”. Desta obra
propomos a leitura das páginas destinadas a Salamanca (pp. 127-133) e a Coimbra (pp.
134-141), escritas na Figueira da Foz, em agosto de 1914. E com um sentido poético e
também metafórico incluímos os belos versos de “Atardecer de estío en Salamanca” (pp.
278-279), que figuram no final do livro supra citado.
Ao falar aqui das paisagens e das viagens8 de Unamuno não nos podemos esquecer das
suas visitas à raia e aos povos agrícolas e ganadeiros do Oeste salmantino, que ficam resu-
midas no seu texto sobre os Arribes del Duero. Como nos explica nestas páginas recolheu
as notas e experiências de uma viagem realizada em 1898 e de outra em 1902; na primeira
entra por Masueco, na segunda por Fermoselle, atravessando a comarca de Zamora de
Sayago. Deste texto deveríamos sublinhar as manifestações relacionadas com os “senti-
mentos da natureza” que na realidade atravessa toda a obra unamuniana, que em algumas
descrições deste artigo alcança uma alta intensidade e profundidade, dividindo e contras-
tando tais sentimentos com uma aproximação inteligente aos saberes e expressões popula-
res dos lugares da raia9. E não podemos esquecer os contatos e o esboço que nos deixa do
seu amigo, o escritor e poeta português, Guerra Junqueiro, autor de “Os Simples”.

15 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Como escrevemos10, a natureza, além de suporte vital e marco filosófico, constituí para
Unamuno algo mais; através dos seus desenhos mostra-nos um homem profundamente
observador e dotado de certas habilidades técnicas para captar e expressar com sensibilida-
de pormenores do seu entorno próximo. Suas estâncias em Traguntia, em pleno Campo
Charro e muito próximo da zona fronteiriça, permitiram-lhe entender e interpretar a vida
no meio rural e as circunstâncias socioeconómicas de uma parte fundamental da província
7
Ibídem, p. 249
8
Sobre a paisagem e a Geração de 98 apresenta-nos uma valiosa e sólida reflexão Eduardo Marínez de Pisón; ver
Imagen del Paisaje. La Generación del 98, Fórcola Ediciones, Barcelona, 2012; temos também uma recompilação
dos artigos de Miguel de Unamuno em Viajes y Paisajes, La línea del Horizonte Ediciones, Madrid, 2014.
9
Existe uma edição recente deste texto, com estudo e apresentação de Laureano Robles e com fotografias
de Juan Francisco Blanco y Francisco Rodríguez; veja-se, Miguel de Unamuno: Los Arribes del Duero,
Iberdrola, 2ª Edición, Salamanca, 2004.
10
De 22 de junho a 12 de julho de 1998, expuseram-se no Salón Rectoral Casa Museo Unamuno alguns desenhos de
Unamuno, por ocasião do Congresso Internacional Miguel de Unamuno; o texto do folheto (“Dibujos de Miguel
de Unamuno”) de 14 páginas que acompanhou a exposição foi elaborado por: Valentín Cabero Diéguez, Cirilo
Flórez Miguel, Pablo García Castillo e Laureano Robles Carcedo. Em 2011 ampliou-se o conteúdo na exposição
“Miguel de Unamuno, Dibujos” que se converteria em itinerante; o catálogo é de Fernando Rodríguez de la Flor.
de Salamanca nas primeiras décadas do século XX: o mundo das “dehesas” e das “alquerias.
Os desenhos de Unamuno recolhem múltiplas facetas do meio rural e, ao lado dos valores
plásticos, mostra-nos mensagens cheias de sugestões e com grande sentido didático.
A “Oda a Salamanca” que incorporamos neste itinerário foi escrita em 1904, mostrando-
-nos Unamuno nas suas trinta e uma estrofes a sua visão da cidade de Salamanca e da sua envol-
vência. Segundo o amplo e profundo estudo de Luciano González Egido, a Ode a Salamanca “es
la gran metáfora unamuniana y el testimonio más evidente de su identificación con la ciudad”;
além disso, é um bom resumo da sua poética cheia de simbolismos11. Cabe recordar os versos
dedicados a Frei Luis de León, pelo que significam na própria história da Universidade e pela
mensagem que transmitem de sossego e de meditação, longe do “mundano ruido” e do tráfego
urbano, convertendo a Ode numa verdadeira homenagem à cidade de Salamanca e ao campo
que a rodeia, a Frei Luis e ao Renascimento, à vida sossegada que exigem os ensinamentos na
sua Universidade. Quando se cumprem 800 anos da Fundação dos Estudos recreamos com esta
Ode o espírito e as paisagens de Frei Luis de León (1527-1591), fruto da sua vida de retiro e
recolhidos no início da sua obra-mestra De los nombres de Cristo. Aproxima-nos, assim, às para-
gens da envolvente salmantina como “La Flecha”, nas margens do rio Tormes, transladando-nos
desde a beleza do “alto soto de torres” à aprazibilidade da paisagem campesina e natural.

3. Olhar ibérico e universal: a reflexão humanista e crítica de Eduardo


Lourenço
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O ensaísta e pensador Eduardo Lourenço (de Faria) nasceu em 1923 numa aldeia
adjacente à fronteira, S. Pedro do Rio Seco, concelho de Almeida, filho mais velho de sete
irmãos de Abílio de Faria, oficial do Exército, e de Maria de Jesus Lourenço. Reconhecido
pela sua capacidade de interpretar a nossa realidade, enquadra o ambiente filosófico do
existencialismo a partir dum pensamento crítico, recebeu as mais altas honras em Portugal
e França, embora a riqueza de estudos humanísticos e literários se situem para além de
compartimentos estanques e de classificações académicas.
Frequentou a Escola Primária em S. Pedro do Rio Seco, antes de entrar no Liceu da
Guarda e de terminar os estudos secundários no Colégio Militar em Lisboa. Em 1940
entrou para o Curso de Histórico-Filosóficas, da Faculdade de Letras da Universidade de
Coimbra onde concluiu a sua Licenciatura, em 23 de julho de 1946, com uma Dissertação
intitulada “O Sentido da Dialética no Idealismo Absoluto”. Assumiu, então, as funções de
Professor Assistente na Universidade de Coimbra que desempenhou até 1953.
11
Ver el estudio de Luciano González Egido: Salamanca, la gran metáfora de Unamuno, Ediciones Universidad
de Salamanca, 1983.
A longa itinerância que iniciou acabaria por o levar como Leitor de Língua e Cultura
Portuguesa, entre 1953 e 1958, às Universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier.
Em 1954 casou com Annie Salomon. Foi Professor Convidado na Universidade Federal
da Baía (Brasil), em 1958 e 1959, onde ministrou a disciplina de Filosofia. Regressou a
França para ocupar o lugar de Leitor, a cargo do Governo francês, nas Universidades de
Grenoble e de Nice, desempenhando posteriormente as funções de Maître-Assistant, nesta
última Universidade, até à sua jubilação no ano letivo de 1988-1989. Em 1975, ano em que
fixou residência em Vence (Nice), recusa o convite feito por Vítor Alves para ser Ministro da
Cultura. Foi nomeado Adido Cultural junto da Embaixada de Portugal em Roma e, a partir
de 1988, Diretor da Finisterra – Revista de Reflexão e Crítica; desde 2002 é administrador
não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 7 de Abril de 2016, tomou posse como
Conselheiro de Estado por designação do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.
Eduardo Lourenço aborda nos seus ensaios temas complexos que nos interpelam e
desassossegam os nossos dias, problemas bem diversificados de indubitável atualidade, en-
trelaçados pela reflexão filosófica, ensaio social e político, análise literária comparada, reve-
lando sempre uma enorme curiosidade intelectual e um grande compromisso cívico. A sua
vastíssima obra inicia-se, em novembro de 1949, com a publicação dum primeiro livro,
Heterodoxia I, em edição de autor, desencadeando uma torrente produtiva incessante,
amplamente reconhecida como atestam os inúmeros e prestigiados prémios que lhe foram
concedidos, onde relevam o Premio Camões (1996) e o Prémio Fernando Pessoa (2011)12.
A persistente participação em inúmeros eventos académicos e outras iniciativas cultu-
rais, cívicas e políticas granjearam a Eduardo Lourenço enorme prestígio e muitas distin-

17 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


ções académicas, onde se incluem diversos Doutoramentos Honoris Causa, concedidos pelas
Universidades do Rio de Janeiro (1995), de Coimbra (1996), Nova de Lisboa (1998) e de
Bolonha (2007), instituindo a Universidade de Bolonha a Cátedra Eduardo Lourenço de
História da Cultura Portuguesa (2007). É ainda de referir a Medalha de Mérito Cultural
12
Merecem ainda referência: Prémio Casa da Imprensa (1974, pela obra Pessoa Revisitado – Leitura
Estruturante do Drama em Gente); Prémio P.E.N. Clube Português de Ensaio (1982, 2009); Prémio Jacinto
do Prado Coelho (1986, pela obra Poesia e Metafísica; 2013, graças a Tempo da Música. Música do Tempo);
Prémio Nacional da Crítica (1986, devido a Fernando, Rei da nossa Baviera); Prémio Europeu de Ensaio
Charles Veillon (1988, distingue o conjunto da sua obra no ano em que lançou Nós e a Europa – ou as
duas razões); Prémio António Sérgio (1992); Prémio D. Dinis (1995, pelo livro O Canto do Signo); Prémio
Vergílio Ferreira (2001); Prémio da Latinidade (2003); Prémio Autores (2011); Prémio Extremadura a la
Creación (2006); Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural (2016).
Foi ainda distinguido com várias homenagens e condecorações nacionais e internacionais: (i) Portugal:
Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (10 de Junho de 1981); Grã-Cruz da Ordem
do Infante D. Henrique (10 de Junho de 1992); Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada
(21 de Maio de 2003); Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (9 de Junho de 2014); (ii) França: Oficial da
Ordem Nacional do Mérito de França (1996); Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras de França (2000);
Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra de França (2002); (iii) Espanha: Encomienda de Numero
de la Orden del Mérito Civil pelo Rei de Espanha (2009).
do Ministério da Cultura (2008) bem como a Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra
(2001) e a Medalha de Ouro da Cidade da Guarda (2008).
Estas duas cidades, umbilicalmente ligadas ao itinerário pessoal de Eduardo Lourenço,
destacam-se como suas pátrias adotivas, a que ficará premente ligado por indizíveis laços afe-
tivos. Este facto levou-o a legar parte do seu espólio a instituições da Guarda e de Coimbra:
(i) à Câmara Municipal da Guarda, em 2008, ofereceu um acervo de perto de 3.000 títulos
que fazem parte dos fundos da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (BMEL)13; (ii) à
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) entregou o seu fundo bibliográfico
relacionado com Filosofia e História das Ideias e da Cultura, em 2011, ano do Centenário
da instituição onde foi aluno e Assistente; (iii) à Câmara Municipal de Coimbra doou cerca
de 3000 livros, em 28 de novembro de 2015, que se encontram depositados na Casa da
Escrita, na Sala Eduardo Lourenço, criada pelo município para os albergar 14.
Estas razões fazem da Guarda e de Coimbra lugares incontornáveis da geografia real e
imaginária de Eduardo Lourenço, pontos a incluir em qualquer roteiro que vise percorrer os
labirintos da sua obra ou as memórias do seu percurso mais íntimo. Deparamos nestes lugares
com sinais dum passado irrepetível, testemunhos físicos e intangíveis que apontam caminhos
de futuro, onde se destaca a Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, inaugurada em 2008, e
o Centro de Estudos Ibéricos, inaugurado em 2005. O CEI é uma instituição peculiar, criada
em 2000 após um desafio feito por Eduardo Lourenço à Guarda, em 1999, no ano em que
a cidade celebrou o seu VIII Centenário. Apostado em promover a cooperação científica e
cultural, a parceria que esteve na génese do CEI, formada pelas Universidades de Coimbra e
de Salamanca, a Câmara Municipal da Guarda e o Instituto Politécnico da Guarda, interpreta
18 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

o eixo estruturante formado por Coimbra-Guarda-Salamanca como uma geografia estratégica


e inteligente. Assume, por outro lado, o legado de Eduardo Lourenço como um património a
preservar e uma memória que importa divulgar, cuja materialização passa por iniciativas que
se complementam, tais como: (i) promoção o legado do seu mentor, patrocinando estudos
e divulgando a sua obra, onde se inclui o Prémio Eduardo Lourenço, criado em 2005 para
agraciar, anualmente, personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da
cultura, da cidadania e da cooperação ibéricas; (ii) promover a cooperação cultural e a inves-
tigação visando a sua afirmação como plataforma de divulgação científica.
Além de múltiplos ensaios e trabalhos académicos, a vida e a obra de Eduardo Lourenço
tem atraído outros olhares, incluindo diversos documentários, como os que foram recente-
mente exibidos: (i) “Regresso Sem Fim” (2011), documentário autobiográfico, realizado por
Anabela Saint-Maurice a partir duma ideia original de Rui Jacinto, coprodução da RTP e do
13
Cf. CEI (2008): Leituras de Eduardo Lourenço. Um labirinto de saudades, um legado com futuro, livro que
elenca todos os títulos doados e faz uma detalhada apresentação da sua obra.
14
A parte restante do espólio de Eduardo Lourenço, sobretudo manuscritos, estão depositados na Biblioteca Nacional.
Centro de Estudos Ibéricos, estreada em S. Pedro do Rio Seco numa homenagem a Eduardo
Lourenço, quando fez 88 anos. Trata-se dum pretexto para uma visita guiada aos locais da
infância, conta com a participação de vários interlocutores, referindo a sinopse que “inclui
uma incursão à vizinha cidade de Salamanca, onde Eduardo Lourenço fará a evocação de
um intelectual que marcou a sua geração: Miguel Unamuno”; (ii) “Eduardo Lourenço – O
Labirinto da Saudade” (2018), adaptação ao cinema por Miguel Gonçalves Mendes duma
das obras emblemáticas do autor, “O Labirinto da Saudade – Psicanálise mítica do destino
português”, estreada na RTP, em 23 de maio de 2018, dia em que completou 95 anos.
Como alguém referiu, “a obra de Eduardo Lourenço é extensa a perder de vista, “tão
grande como uma paisagem ao longe”, na fantástica expressão de Clarice Lispector”15.
A reconstrução da sua longa e rica trajetória intelectual leva-nos a remeter para a obra
“Tempos de Eduardo Lourenço – Fotobiografia” (2003)16, obrigando o conhecimento
da transcendência da sua obra a consulta de algumas publicações do CEI sobre diferentes
perspetivas dos seus trabalhos e ensaios17. Eduardo Lourenço é considerado, por isso, “o
grand témoin do Portugal Contemporâneo, das suas raízes republicanas, do Estado Novo,
do Portugal do 25 de Abril ao Portugal com a Europa “como destino”, ao Portugal no
limiar do Futuro. Por isso é também historiador e arqueólogo, além de psicanalista do seu
destino. Mas é sobretudo o cronista, o novo Fernão Lopes” (Jorge Gaspar, 2017).
Pelo que mencionamos vale a pena uma breve digressão por alguns dos seus livros e ensaios
de referência, reveladores da sua capacidade de diálogo com os próprios textos que analisa e
pela reflexão crítica sobre os grandes temas que o preocupam. Estamos ante uma obra donde
emanam dois grandes substratos de conhecimento e reflexão; um, entrecruza propostas e leitu-

19 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


ras filosóficas, sobretudo existencialistas (Hegel, Husserl, Nietzsche, Heidegger, Kierkegaard,
Sartre…); outro, integra criatividade literária, de ontem e de hoje, dos clássicos ibéricos e

15
Jorge Gaspar (2017), Saudação a Eduardo Lourenço, Iberografias 13, pp.: 333-336. Intervenção na sessão solene,
em 28 de setembro 2017, que acolheu Eduardo Lourenço como membro da Academia das Ciências de Lisboa.
16
Manuela Cruzeiro e María Manuel Baptista, “Tempos de Eduardo Lourenço – Fotobiografia”, Campo das
Letras, Coimbra Capital Nacional da Cultura e Centro de Estudios Ibéricos, 2003.
17
O Centro de Estudos Ibéricos, na sua Coleção Iberografias, assegurou várias edição sobre Eduardo Lourenço:
(1) O outro lado da lua – Inéditos de Eduardo Lourenço, 2004 (Seleção de textos e entrevistas de Maria Manuela
Batista; Coleção Iberografias, nº 3); (2) Existencia e Filosofia – O ensaísmo de Eduardo Lourenço, 2008 (João
Tiago Lima; Coleção Iberografias, nº 12); (3) Vida Partilhada – Eduardo Lourenço, o CEI e a Cooperação
Cultural, 2013 (Edição comemorativa do 90º aniversario do autor. Compilação de textos de Eduardo Lourenço
entretanto publicados; Coleção Iberografias, nº 21); (4) Falar Sempre de Outra Coisa – Ensaios sobre Eduardo
Lourenço, 2013 (João Tiago Pedroso de Lima; Coleção Iberografias, nº 22); (5) Metafísica da Revolução –
Poética e Política no ensaísmo de Eduardo Lourenço, 2013 (Teresa Filipe; Coleção Iberografias, nº 23).
Por ocasião da inauguração da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (BMEL), em 27 de Novembro de 2008,
o CEI editou duas publicações com outro registo: (1) Leituras de Eduardo Lourenço. Um labirinto de saudades,
um legado com futuro, 2008. Contem uma extensa bibliográfia do autor, publicada até à data, bem como a lista,
com perto de 3.000 títulos, doados ao Município da Guarda e que fazem parte dos fundos da BMEL; (2) Um
(e)terno olhar. Eduardo Lourenço, Vergílio Ferreira e a Guarda, 2008, catálogo de uma exposição homónima.
europeus à modernidade contemporânea e atual (Dostoiesvski, Kafka, Camus…). Não faltam
nesse universo intelectual os seus magistrais estudos e aproximações ao genial Fernando Pessoa,
cuja difusão e conhecimento nos sublinha o próprio Eduardo Lourenço na tradução para
espanhol de Ángel Crespo, reconhecendo e recordando neste preâmbulo a sua honestidade
intelectual e iberismo. Assinalemos, pois, entre estas obras: “Heterodoxia” (1949).
Para um conhecimento mais amplo deve consultar-se a sua obra completa, que começou
a ser publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian18, instituição cultural de referência em
Portugal a que Eduardo Lourenço se encontra estreitamente vinculado. Pelo que acabamos
de ver a obra de Eduardo Lourenço “tem muitas entradas sendo uma possível a do L de local:
um itinerário continuadamente feito e acrescentado, do local para o global – um global feito
de múltiplas visitações locais. Um global sobre o qual Eduardo Lourenço tem muitas dú-
vidas, mormente no plano cultural, pois “uma World culture não é a cultura de ninguém”,
apenas permitiu que se chegasse à Disneylândia planetária” (Jorge Gaspar, 2017).
20 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço. Vence, 2008 (RJ)

18
A obra completa de Eduardo Lourenço, que a Fundação Calouste Gulbenkian está a editar, proporcionou,
até ao momento, os seguintes títulos: (1) Heterodoxias (I Volume), Coordenação: João Tiago Pedroso de
Lima; Carlos Mendes de Sousa (1ª ed., 2011; 2ª ed. 2012); (2) Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista e
Outros Ensaios (II Volume), Coordenação de António Pedro Pita; ed. lit.: João Tiago Pedroso de Lima;
Carlos Mendes de Sousa (1ª ed., 2014); (3) Tempo e poesía (III Volume), Coordenação de João Tiago
Pedroso de Lima; Carlos Mendes de Sousa (1ª ed., 2016).
Em distintas entrevistas recentes, Eduardo Lourenço fala-nos do seu itinerário vital
e recorda-nos que “nessa terra de fronteira – onde nasce – vivi como se estivesse num
pequeno paraíso. Era uma terra naquele tempo muito distante da capital. O País em que
estamos agora é um país que tem muito pouco que ver com aquele. Nesse país estão todas
as minhas raízes, todos os meus passados”. E em relação a este sentimento de “saudade”
que nos permite entender melhor Portugal diz-nos que “é expressão destilada na educação
de Portugal, e não só na sua identidade interna, mas também entre os portugueses que a
levaram consigo ao emigrar. Primeiro a todo o mundo, mas ultimamente para a Europa.
Assim surgiu uma “saudade” que tem menos razão de ser que no passado, porque a dis-
tância é muito menor. Ir para a Europa não é o mesmo que ir para a Índia no século XVI.
Mas é como se os portugueses não se pudessem desprender do signo que os representa no
mundo: o país da “saudade”.19

4. Territórios de Eduardo Lourenço: demanda duma geografia simbólica


e da história das suas ideias

A obra de Eduardo Lourenço, ampla e complexa, por paradoxal que pareça não deixa
de ser “referenciada no tempo e no espaço, desenhando um atlas com aberturas para múltiplos
territórios, que acabam por desenhar as geografias do espírito. Mas prevalecem as geografias
de viagens, da viagem, que são como que o destino de quem nasce na raia: de São Pedro
de Rio Seco à procura do Mundo, ou o Mundo à procura de São Pedro de Rio Seco, de

21 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Eduardo Lourenço. Eduardo Lourenço viaja através do Portugal Contemporâneo e a sua
obra define as grandes etapas dessa viagem” (Jorge Gaspar, 2017).
O itinerário de Eduardo Lourenço segue uma espiral que começa em S. Pedro do
Rio Seco, toca a Guarda e, após uma episódica passagem por Lisboa e antes de se abrir
ao Mundo, acaba por repousar, transitoriamente, em Coimbra. O percurso exterior
que encetou levou-o a França, Brasil e, mais episodicamente, a outros países que farão
dele um verdadeiro cidadão do mundo que nunca rompeu nem abdicou das suas
telúricas raízes raianas e ibéricas. A geografía vivida dum percurso longo em termos
temporais e amplo do ponto de vista espacial, tem como lugares marcantes Coimbra,
Guarda e S. Pedro do Rio Seco.
Depois de 1954 viveu mais tempo fora que dentro de Portugal; se as passagens por
Hamburgo, Heildelberg, Montpellier, Salvador de Bahía, Grenoble, Nice e Vence dão aos
seus ensaios uma perspectiva aberta e tolerante e são referências constantes nas suas

19
Entrevista a Eduardo Lourenço de Alfonso Armada en ABC Cultural, 29-05-2017.
Biblioteca Joanina (Universidade de Coimbra) (RJ)
22 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (Guarda) (RJ)

Biblioteca da Universidade de Salamanca (SS)


reflexões os lugares de Portugal e da Península Ibérica por onde deambulou nunca saíram
das suas preocupações. De algum modo segue, nos seus ensaios, a estrela Unamuniana
ou as ideias do seu admirado Montaigne. Os fundamentos do seu pensamento nascem,
é verdade, em Coimbra, no ambiente e no contexto da sua Universidade; primeiro como
estudante nos anos quarenta, depois como professor de filosofia, movendo-se até 1953
num ambiente intelectual aberto e criativo que foi tecendo com companheiros de jornada.
As raízes intelectuais e os laços criados em Coimbra não o levou a esquecer os anos de
juventude passados em S. Pedro do Rio Seco, Guarda e Lisboa.
A viagem a estes territórios mátrios, feita na companhia de Miguel de Unamuno,
representa um certo retorno simbólico de Eduardo Lourenço, qual “regresso sem fim”,
encetado no sentido inverso ao que fez vai para nove décadas, trajeto semelhante ao que foi
trilhado por inúmeros dos seus conterrâneos. Contudo, temos de levar em consideração
que as viagens de Lourenço e Unamuno, além de distintas no tempo e nas motivações,
foram realizadas por personalidades distintas, proporcionando também, necessariamente,
resultados diferentes tanto na forma como nos conteúdos.

23 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Tempos de Coimbra: “nós somos a nova geração de setenta”. Os tem-
pos de Coimbra foram férteis nas coisas do espírito e na história das ideias e, natu-
ralmente, mais parcos em evidências materiais das passagens de ambos pela cidade.
O profundo reconhecimento que Miguel de Unamuno nutria por Coimbra, ex-
presso nos seus textos, coloca a sua relação com a cidade no plano espiritual e
na esfera dos afetos, valoriza o espirito que emanava do lugar e o enorme capital
cultural, académico e científico da sua Universidade. A relação mais imediata que
estabeleceu com a cidade, a par daquele intangível sentimento, passou pela cum-
plicidade pessoal que estabeleceu com Eugénio de Castro20, que havia de tornar
Doutor Honoris Causa pela Universidade de Salamanca, e pelo vínculo com o
Instituto de Coimbra21, prestigiada instituição de que foi um dos mais ilustres sócios
correspondentes estrangeiros.
O imaginário e a praxis de Eduardo Lourenço segue outras coordenadas, assume
azimutes que desenham uma geografia urbana de Coimbra diferente, mais intima, cúm-
plice e intensa. Foi com deslumbramento e desassossego que chegou em 1940 à pacata
cidade, sentimento comum ao de sucessivas gerações de estudantes que nela passaram a
flor das suas mocidades: “Coimbra foi para mim a descoberta de um outro mundo, um
mundo novo de novas amizades e sobretudo de entrar num percurso estranho, primeiro
nas ciências, depois nas letras, e ficar para sempre no círculo encantado desta cidade
universitária, na altura única”. A sua famosa heterodoxia, que se enraizou durante esses
tempos de Coimbra, progrediu paralelamente a uma intrinseca rebeldia que o levou a
contestar, como tantos outros, a visão tradicional de Coimbra, cantada à exaustão em
24 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

languidas canções. Contestavam a cidade comprimida do Choupal até à Lapa, trans-


formada na capital do amor em Portugal desde que o apologético filme Capas Negras,
estreado em Maio de 1947, assumiu a lenda como hino e eternizou Coimbra como lição
20
Eugénio de Castro e Almeida (Coimbra, 4 de março de 1869 – 17 de agosto de 1944), ensinou na
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, depois de se ter formado Curso Superior de Letras em
Lisboa (1889); fundou revistas, colaborou com vários publicações e deixou uma obra poética marcada pelo
Simbolismo.
21
“O Instituto de Coimbra foi uma academia científica, literária e artística, fundada em Coimbra em
1852, no contexto da Regeneração e do Fontismo, e que se manteve em actividade até 1982. A sua
última revisão estatutária (1967) definia o objecto e acção do Instituto como a promoção e o desen-
volvimento das ciências, das letras e das artes e a valorização da cultura portuguesa. Resultou da fusão,
em 1849, dos institutos da Academia Dramática de Coimbra, funcionando inicialmente como um
clube dos docentes da Universidade de Coimbra, mais concretamente como um Clube dos Lentes,
voltado para o academicismo da então única universidade portuguesa. (…) A Associação Académica
de Coimbra, a mais antiga associação de estudantes portuguesa, nascida em 1887, também se encontra
associada ao nascimento do Instituto de Coimbra, com quem partilhou instalações, numa convivên-
cia nem sempre pacífica. Entre as publicações do Instituto de Coimbra conta-se O Instituto: Revista
Científica e Literária, publicado de 1852 a 1981, o qual foi, até cessar a publicação, a mais antiga revista
científico-literária publicada em Portugal”.
de amor. O olhar que concebiam de Coimbra era distinto da visão romântica domi-
nante: “Eu nunca fui muito folclorizante e na minha geração éramos muito reticentes
em relação ao culto da tradição e das praxes. O grupinho em que eu me vim depois a
reconhecer era muito anti praxista, que naquela altura não significava apenas uma coisa
de ordem de ritos académicos com uma certa tradição, era também uma maneira de não
querer comungar da atmosfera “luso oficial” do país; ser anti-praxista era um sentimento
de oposição de algum modo latente”22.
O olhar que lançavam sobre a cidade também correspondia à maneira diferente
e alternativa como liam, interpretavam e pretendiam estar no mundo: “A mitologia
coimbrã existe e eu naturalmente ignorava, quando cheguei aqui, em 1940, que ia
entrar num mundo com outras regras e outros ritos, sobretudo naquela época em que
Coimbra ainda tinha essa espécie de monopólio muito simbólico, porque, na verda-
de, naquela altura só havia mais duas ou três universidades e todas elas muito mais
recentes do que a famosa Universidade de Coimbra” (EL). Vivida com intensidade, a
geografia urbana desta Coimbra corresponde a um mapa cuja legenda inclui, além da
Universidade e dos quartos e casas que habitavam, as tertúlias sediadas em alguns cafés
da baixa ou em espaços mais privados, propícias ao desenvolvimento universo literário
onde se movimentavam.

22
Era um sentimento comungado por muitos colegas seus contemporâneos:
– Alfredo Fernandes Martins (Coimbra, 1919-1982), escreveu o seguinte sobre a sua cidade: “Amo as
gentes e as terras à minha maneira: de coração aberto, olhos nos olhos, retinas presas na paisagem, e
bem atento o juízo valorativo, não vá a correcta atitude psicológica descair em sentimentalismos piegas

25 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


ou descambar em ridículos surtos românticos – que uns e outros são agentes corrosivos do prestígio
emocional dos seres ou do torrão amado. Deste jeito – e se amar é conhecer –, amo a esta Coimbra,
berço meu, de um amor reflectido e sereno, amor que me vem da meditada interpretação plástico-geo-
gráfica da paisagem, do que sei do evoluir do aglomerado urbano no curso das idades, da admiração
pela actividade fecunda dos seus filhos, da inteligência do que tem sido o contributo da cidade para a
vida colectiva da Grei.
Tenho bem presente que se forjou de Coimbra uma visão convencional que implica sempre não sei que
cenário falseado, que rouxinóis; não sei que vulto esguio de tricana, que outros motivos de igual dolên-
cia – voluptuosa caricatura traçada pela sensualidade de observadores apressados e superficiais… Cada
um vê com seus olhos, cada qual sente conforme a sua vida psíquica, cada homem cria as suas paisagens
interiores – e eu, nesta minha condição humana, também trago comigo uma visão de Coimbra, imagem
que bem difere daquela outra cantada por lânguidos trovadores, mas que me parece ser a da Coimbra
que importa amar, seja conhecer. Essa Coimbra…” ( In: Esta Coimbra ..., 1951).
– Eugénio de Andrade (Póvoa da Atalaia, Fundão, 1923-2005) escreveu um poema Ao Eduardo
Lourenço, na Flor da sua Idade, com a cidade sempre em pano de fundo, embora sem nunca referir
Coimbra: “Era bonita mas tão provinciana/ a cidade. Dos seus muros pasmados/ a luz fina caía preguiçosa/
nas areias do rio. Mas o resto/ era vulgaridade e sonolência./ Só as árvores não eram vulgares:/ de tão formo-
sas, tornavam o céu/ de cristal, como se o verão fora/ imortal entre plátanos e choupos./ Ali nos encontrámos
certo dia, / éramos jovens e mais jovem que nós/ era a poesia que nos acompanhava. / Holderlin, Keats,
Pessanha e o Pessoa/ eram então – e não o serão ainda? –/ os nossos amigos. O mais, gente ideias/ costumes,
tudo tinha o mesmo cheiro/ de caserna/ aliada a sacristia./ Dessa cidade em nós nada ficou./ De nós, que
ficará nessa cidade?” (21.10.83).
Coimbra. Vista Geral (RJ)

O quotidiano do estudante de Coimbra girava em torno da universidade; no caso de


Eduardo Lourenço o centro era a velha Faculdade de Letras, onde foi aluno (1940-1946),
depois Assistente (1947- 1953), demolida nos anos 40 quando o Estado Novo decidiu
criar a nova Cidade Universitária. Havia de voltar aos mesmos lugares, como bom filho
26 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

pródigo, meio século depois, em dois momentos capitais: para receber a maior distinção,
quando foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa (1996); para legar à sua
Faculdade de Letras, no ano do Centenário da sua fundação (2011), a parte da sua biblio-
teca relacionada com Filosofia, História das Ideias e da Cultura.
A passagem de Eduardo Lourenço pela Universidade de Coimbra (1940-1953) ocor-
reu quando “era uma universidade ainda muito familiar, e daí cheia de ritos, de gente que
tinha tradições académicas que passavam de pais para filhos. Coimbra era realmente um
núcleo um pouco à parte, mas quando me refiro à mitologia coimbrã penso fundamental-
mente que esta cidade, além de ser o Studium Universalis foi também a cidade da juven-
tude portuguesa que aqui estudava e onde há uma espécie de continuidade não de tipo
ficcional, mas de tipo poético. A poesia em Portugal fazia-se na Universitária”.
Aqui começou o seu envolvimento com a literatura ao comprometer-se com um pu-
nhado de companheiros empenhados na demanda de novos horizontes estéticos, culturais
e políticos, numa altura em que ainda se houviam os ecos da chamada “Questão Coimbrã”:
“a gente sabe que a mitologia coimbrã tem o seu ponto mais alto, sobretudo pelo estatuto
literário, no famoso texto de Eça de Queirós dedicado a memória de Antero de Quental,
onde toda a mitologia moderna do lugar cultural e também de vocação ideológica da aca-
demia de Coimbra é invocada como qualquer coisa de representativa de uma nova leitura
do passado cultural deste país. As conferências tiveram lugar em Lisboa mas foram reali-
zadas por antigos estudantes, quase todos estudantes de Coimbra, entre os quais Antero
e Eça de Queirós. E Eça, nostalgicamente, escreve esse famoso texto em que se identifica
com Antero e instala na nossa mitologia moderna um discurso sobre Coimbra”.
A “Questão Coimbrã” havia sido desencadeada em 1865 quando velhos poetas român-
ticos, onde pontificavam António Feliciano de Castilho e Pinheiro Chagas, censuraram
jovens contestatários, da Escola de Coimbra, acusando-os, entre outras coisas, de falta de
“bom senso e bom gosto”. Antero de Quental, um dos diretamente visados, instituciona-
liza a contenda, que a história fixou como “Questão Coimbrã”, replicando com um texto
que intitulou, precisamente, de “Bom Senso e Bom Gosto”23. A polémica desencadeou um
forte movimento que apostava na modernização e inovação da literatura portuguesa, con-
trapunha o realismo e o positivismo e considerava inevitável a intervenção na sociedade a
partir duma arte independente que rompesse com convenções e comodismos instalados 24.
A geração de Eduardo Lourenço, que se revia nesta herança, também irá lançar um
movimento contestatário, nos anos 40, centrado na literatura e nas artes, embora de al-
cance mais vasto, assim recordado: “na nossa Queima das Fitas, um bocadinho tocados,
íamos no desfile pela Sá da Bandeira abaixo a dizer “nós somos a nova geração de setenta”.
Felizmente não ficou registo daquelas loucuras que, naquela altura, eram compreensíveis.
Mas esta assemelhação era muito interessante porque era para nós estarmos a reivindicar,

27 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


a manifestar contra o que não se podia nomear, embora a não nomeação fosse superior à
nomeação, e até mais interessante do ponto de vista de imaginação”. Talvez fosse este o
verdadeiro espirito coimbrão que o tempo se encarregou de degenerar.
23
Antero de Quental, poeta, filósofo e líder estudantil, foi figura cimeira da Geração de 70; suicidou-se num jardim
de Ponta Delgada a 11 de Setembro de 1891, terra onde nasceu a 18 de abril de 1842. O fim trágico de Antero,
como de outros escritores portugueses, onde se inclui o grande amigo de Unamuno, Manuel Laranjeira, levá-lo-
-ia à seguinte reflexão: «O pessimismo suicida de Antero de Quental, de Soares dos Reis, de Camilo, mesmo do
próprio Alexandre Herculano (que se suicidou pelo isolamento como os monges) não são flores negras e artificiais
do decadentismo literário. Essas estranhas figuras de trágica desesperação, irrompem espontaneamente, como
árvores envenenadas do seio da terra portuguesa. São nossas: são portuguesas: pagaram por todos: expiaram a
desgraça de todos nós. Dir-se-ia que foi uma raça que se suicidou. Em Portugal chegou-se a este princípio de
filosofia desesperada – o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção moral. Neste malfadado país,
tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa» (Por terras de Portugal e de Espanha).
24
Juntam-se a Antero de Quental, Teófilo de Braga e Eça de Queirós, estudantes em Coimbra, Ramalho Ortigão,
Oliveira Martins e Guerra Junqueiro, grupo que ficará conhecido como a Geração de 70, organizadores das
Conferências Democráticas do Casino Lisboense (1871), proibidas pelo Governo por defenderem ideais repu-
blicanos e liberais. Agitaram ideias e colocaram na agenda várias questões civicamente relevantes, fossem temas
políticos, sociais, literários ou religiosos. Vendo que não vingaram em Portugal os avanços sonhados, sem terem
alcançado o sucesso esperado, ironicamente, acabaram por se auto-proclamarem “Os Vencidos da Vida”.
A plataforma de intervenção cultural e cívica, que se reuniria em torno da revista Vértice25,
de reação à geração da Presença, acabou por estruturar o movimento neorrealista que também
foi, à sua maneira, uma questão coimbrã. Eduardo Lourenço envolveu-se nos primórdios da-
quela revista, quando estava prestes a formar-se, estreando-se com um poema para, posterior-
mente, publicar algumas recenções e ensaios que havia de reunir em Heterodoxia I (primeira
edição de autor, 1949). Embora se tenha emancipado cedo deste movimento não ficou inibido
de elaborar o estudo, profundo e esclarecido, “Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista” (1968).
As duas ruturas atrás referidas referidas, 1865 e anos 40 do século xx, ocorridas à som-
bra da velha torre da Universidade de Coimbra, só tiveram paralelo, já nos anos 60, quando
a inauguração do Edifício das Matemáticas, em 17 de Abril de 1969, desencadeou uma
Crise Académica cujas repercursões socio-politicas superaram as iniciais reinvindações es-
tudantis. Todos estes confrontos de ideias acabaram por deixar marcas na geografia urbana:
as intangíveis, embora subtis e quase imperceptiveis, foram profundas e persistentes, conti-
nuam a ser memória viva impregnando o espirito do lugar; os sinais materiais mais signifi-
cativos podem-se encontrar ao percorrer parte do centro histórico de Coimbra.
A Universidade e a Faculdade de Letras, importantes tanto para Unamuno como para
Eduardo Lourenço, pelos motivos evocados, são pontos incontornáveis dum roteiro que
percorre muitos outros locais que passamos a destacar:
(i) Universidade e o Largo da Feira são envolvidos por um conjunto monumental que se inicia
no Paço das Escolas e na Biblioteca Joanina, passa pelo Largo D. Dinis, onde se ergue o Edifício
das Matemáticas, terminando junto às escadas da Sé Nova, onde Eça de Queiroz teve um primei-
ro e impactante encontro com Antero de Quental, onde este poeta declamava ao luar26.
28 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

25
A revista Vértice, fundada em Coimbra em 1942, centrou o seu foco na cultura e arte. A nova direcção, que assumiu
funções em 1945, fez da revista coimbrã a “principal tribuna do movimento neorealista português e um instrumento
de resistência à ditadura do Estado Novo”. Apareceram nas suas páginas alguns dos mais importantes escritores e
artistas da época, onde se destacaram Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Fernando Namora
(Coimbra), bem como Mário Dionísio, Alves Redol, Manuel da Fonseca e Fernando Lopes Graça (Lisboa).
26
O célebre texto de Eça de Queiroz – Um génio que era um santo -, publicado originalmente em 1896, no In Memoriam
de Antero de Quental (ver Notas Contemporâneas), começa assim: “Em Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou
Maio, atravessando lentamente com as minhas sebentas na algibeira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova,
romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava.
A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda à maneira siríaca,
reluziam, aureoladas. O braço inspirado mergulhava nas alturas como para as revolver. A capa, apenas presa por uma ponta,
rojava por trás, largamente, negra nas lajes brancas, em pregas de imagem. E, sentados nos degraus da igreja, outros homens,
embuçados, sombras imóveis sobre as cantarias claras, escutavam, em silêncio e enlevo, como discípulos.
Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssi­mo século
XVIII – mas um bardo, um bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. O homem com efeito cantava o
céu, o infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura e
…os transcendentes recantos
Aonde o bom Deus se mete,
Sem fazer caso dos Santos
A conversar com Garrett!
Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou por entre os lábios abertos de gosto e pasmo:
– É o Antero!…”
(ii) Rua do Loureiro, eixo estruturante de qualquer geografia literária de Coimbra,
tem por extremos os Largos (da Feira e do Salvador) e a Torre do Anto e, a meio, a
Casa da Escrita. É uma rua onde viveram Eça de Queiroz e Virgilio Ferreira; a partir
dela podemos aceder a ruas adjacentes onde é possivel encontrar outras referências do
imaginário literário coimbrão, tais como: (a) Rua das Flores, onde viveu José Régio e
nasceu a Revista Presença; (b) Rua das Matemáticas, onde nasceu Alfredo Fernandes
Martins e se encontra, hoje, a Real República Rás-Te-Parta27, fundada em 27 de Março
1943, na Rua dos Estudos, nº17-2º, donde transitou, em 1949, por altura da demoli-
ção da Alta; (c) Couraça dos Apostolos onde viveram Carlos Oliveira, Fernando Namora
e Afonso Duarte.

(iii) Casa da Escrita, antiga casa de João José Cochofel, situada no encontro da Rua do
Loureiro com a Rua João Jacinto, ponto de encontro e lugar de tertúlia do grupo neor-
realista; numa das salas do edifício foi instalado o espólio doado por Eduardo Lourenço à
Câmara Municipal de Coimbra.

(iv) Sé Velha, centro cívico da Coimbra antiga, tem nas suas imediações o local onde
funcionou o Instituto (Rua da Ilha), a revista Vértice (na antiga Livraria Portugália, que
funcionou ao cimo do Quebra Costas), além doutras referências do imaginário coimbrão,
ligadas às letras e à canção: têm os seus nomes perpetuados em memoriais que assina-
lam as casas onde viveram Artur Paredes (guitarrista), pai de Carlos Paredes, Edmundo
Bettencourt e José Afonso, figuras incontornáveis do Fado de Coimbra, como outros

29 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


poetas e cantores.

(v) Baixa, sobretudo o canal entre a Portagem e Santa Cruz, onde a cidade pulsava,
até aos anos 70, espaço indissociável até esta época da vida académica e literária de
Coimbra. Aqui se localizavam livrarias e cafés, lugares de tertúlia, partilha de cumpli-
cidades e troca de ideias, onde fervilhava um certo modo de vida coimbrão. A Baixa,
entretanto, desertificou-se, ficou despida destas funções e vivências, sem livrarias nem
cafés onde as pessoas possam repousar ou atormentar ideias. A livraria França Amado,
a Atlântida ou a Coimbra Editora tiveram o mesmo destino que o Café Montanha, o
Arcádia, a Brasileira, o Nicola e a Central; os cafés que se tentaram reinventar com o

O filme Capas Negras, estreado em 1947, foi rodado nesta República, com realização de Armando de Miranda.
27

A película ficaria famosa por ter sido o primeiro grande êxito de Amália Rodrigues e por lançar a canção
Coimbra é uma lição de amor. Esta composição de Raul Ferrão com letra de José Galhardo, mais conhecida
como Coimbra, foi eternizada por Amália; em 2004 foi editado um disco com 24 versões desta mesma canção.
Entre muitos estudantes residentes, a República contou entre os seus membros uma das grandes vozes do
Fado de Coimbra: Adriano Correia de Oliveira. Foi ainda nesta “República” que, em 23 de Fevereiro de
1959, foi recebido Erico Veríssimo, de visita à cidade, na companhia de Miguel Torga.
mesmo nome são uma pálida imagem dos seus antepassados. Acrescenta-se a este rotei-
ro, a Portagem, pela memória do consultório médico de Adolfo Rocha, perpetuado no
memorial a Miguel Torga, colocado no edifício e com prolongamento num varandim
sobre o Mondego.

(vi) Locais de residência. No que diz respeito a Eduardo Lourenço assinale-se ainda os
lugares onde morou, a começar pela Rua João de Deus, junto ao Campo de Santa Cruz, Rua
António José de Almeida, Quinta da Ribeira (Casa do Sal) e Bairro S. José. É uma outra
geografia urbana de Coimbra que se começou a consolidar a partir de meados do século XX.

Guarda: altiva solidão. A Guarda descrita por Miguel de Unamuno não coin-
cide com o eloquente retrato de Eduardo Lourenço, feito em 27 de Novembro de 1999,
nas comemorações de Oito séculos de altiva solidão. A impressão que cada cidade nos
deixa difere consoante a maneira como é vivida, se resulta dum encontro passageiro
ou, pelo contrário, a demora foi suficiente para sedimentar fundas memórias que ali-
mentam uma lembrança espetral. As razões que ditaram a nossa relação com os lugares
fazem a diferença na maneira como lhe captamos o espirito. Umas vezes, o que nos
leva ao seu encontro, o que “Siempre me han atraido esos lugares y villas que desfilan
a nuestros ojos segun va el tren ganando tierra, campos adelante. Son los mas de ellos
pueblos sin historia, donde a nadie conocemos. Yo no se si sera que en mi, como en
casi todos los hombres, duerme el nomada, el peregrino andariego y errante, y despierta
30 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

de cuando en cuando. !Ver pueblos! !ver nuevos pueblos, ver los mas posibles! !Poder
decir: tambien ahi he estado! Porque, en resumidas cuentas, el fruto mayor que de mi
visita a Guarda he sacado, es el poder decir alguna vez, cuando de Guarda se hable o se
la mente: tambien la he visto”
O tempo e a geografia, grandes escultores da fisionomia dos lugares e da identida-
de das pessoas, também moldaram a Guarda e o “destino desta velha terra, consagrada
à defesa e vigilância de um pequeno reino, que não sabia ainda que seria grande e dis-
perso como um arquipélago, não era o da viagem mas o da vigília, do ensimesmamen-
to e, em todos os sentidos do termo, da solidão”. Estamos em terra de interior, duma
“efectiva interioridade, mais filha da história do que da geografia, não para assinalar
uma condição de isolamento, difícil de viver e aceitar, mais a mais num espaço tão
pequeno como o nosso, em que tudo está próximo de tudo, mas para a pensar. Só em
termos modernos, o ser interior é vivido e percebido como uma espécie de maldição
ou fatalidade. (…) Estas terras, esta cidade e a muralha intermitente de castelos com
que o céu se emparceirou, não eram ainda a ex-fronteira sem emprego de um país
com os olhos no vasto mundo, mas os guardiães da casa comum que confiava na sua
vigilância”28.
A cidade e as suas funções mudaram; embora pouco reste da sua ascendência militar, o
tempo nunca apagará tão indeléveis marcas: a torre de menagem, as portas de entrada no burgo
medieval, a morfologia da antiga urbe continuarão a denunciar o traçado das muralhas entre-
tanto desaparecidas. Se a posição próxima da extrema com a Espanha determinou a localização
da Guarda, o acidentado do sítio ditou a organização do espaço urbano e a implantação das
principais referências patrimoniais: “Salí á ver la Catedral, por fuera más de ver que por dentro.
Tiene, sin embargo, su adusto carácter de fortaleza, y desde la terraza un hermoso panorama.
Todo el anfiteatro de montañas de la sierra de la Estrella, y al outro lado tierras de España.”

Guarda. Vista Geral (RJ) 31 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

28
O texto de Eduardo Lourenço tão assertivo desculpa uma transcrição mais longa: “Esta Beira foi o Portugal profundo,
o Portugal do arado, da cruz e da espada, confundidas como era lei do tempo, terra e gente em luta com uma natureza
avara, ganhando, com suor e sangue, o que ninguém lhe dava de graça e sempre pronta para ir, não para o mar, mas
além dos mares, para sítios que nem os sonhos avistam, fosse o Brasil, fosse o Oriente, fosse a Austrália, fosse o Canadá.
Nesse mundo e nessa época, ninguém sofria de interioridade. Simbolicamente sede de um dos mais prestigiados bis-
pados do reino, a Guarda não sabia – ninguém se preocupava muito com essas fantasmagorias – que um dia seria por
dentro menos do que era então, uma cidade coroada por uma Sé fortaleza, navio de pedra ao alto de uma montanha.
E esse navio às avessas é ainda hoje o brasão de uma história que só espera de nós que descubra outra vocação, outro
rumo, para ter tanto sentido como o tinha nesse tempo em que a sombra de Castela não nos deixava dormir.
A evocação ou a referência ao passado só é interessante por pôr em causa o presente e explicar as suas nos-
talgias ou o seu mal-estar. Ser interior hoje, ser capital ou cidade de interior é vivido como punição, como
empobrecimento efectivo e simbólico, como fatalidade”.
Miguel de Unamuno visitou a Guarda (1908) poucos anos depois do comboio ter
chegado à cidade, começando a quebrar o secular isolamento, quando a estação ainda era
longe do centro: a Linha da Beira Alta abre ao público e o comboio chega à Guarda em
1882, sendo inaugurado o troço entre Vilar Formoso e Salamanca a 23 de maio de 1886;
a ligação Lisboa a Paris, pelo traçado da Linha da Beira Alta, só permitirá a circulação do
famoso Sud Express, a partir de 1 de julho de 1895.
Depois da partida e várias décadas de itinerância exterior Eduardo Lourenço apro-
xima-se das origens; porque não situar o regresso simbólico aos territórios de infância
e juventude no dia do oitavo centenário (27 de novembro de 1999), quando o milénio
se finava. Este reencontro acontece num tempo novo em que a Guarda vive uma enor-
me ânsia de futuro. O autor ficará irremediavelmente ligado, tanto do ponto de vista
espiritual como materialmente, a este novo ciclo da cidade: espiritualmente pela aposta
estratégica que foi feita na cultura, assumindo Eduardo Lourenço como referência e
como mentor; materialmente porque dois modernos equipamentos, marcantes desta
“nova Guarda”, têm o filósofo como figura tutelar: a Biblioteca Municipal que recebeu
o nome de Eduardo Lourenço (BMEL) e o Centro de Estudos Ibéricos que o assumiu
como Diretor Honorífico.
Além desta marcas impressivas inscritas na cidade, são de incluir em qualquer
roteiro que assinale as passagens de Miguel de Unamuno e de Eduardo Lourenço pela
Guarda29:
(i) Estação da Guarda e Pensão Santos. A estação de caminho de ferro é a porta de
entrada, onde se toma o pulso a cidade e recolhem as primeiras impressões. Passando
32 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

“com frequência pela linha da Beira, Unamuno ficou sempre com a curiosidade de, a
partir da Estação de Caminho de Ferro (Guarda-Gare) subir lá ao alto da cidade que,
“sobre a montanha levanta as suas torres contra o céu.” Assim aconteceu. Num dia
de Outono (em Novembro) subiu até à cidade. “Ali passei um dia, todo um mortal
dia, nessa Guarda fria, ventosa, húmida, feia, denegrida e forte, que vigia a Espanha.“
”Naquela destemperada tarde outoniça”, vagueou pelas ruas da Guarda e deparou-
-se com padres embuçados nos seus mantos negros e também estudantes do Liceu
com as suas capas remendadas, imitando os de Coimbra. Unamuno pernoitou na
Pensão Santos”, edifício encravada na muralha que lhe confere uma identidade pecu-
liar. “Antes de se deitar, aliás bem cedo, provavelmente num quarto da Pensão Santos,
bem perto da Torre dos Ferreiros, onde lhe deu nas vistas a imagem do Senhor dos
Aflitos, no recanto entre os dois arcos, diante da qual, reflexivamente, se quedou uns
instantes. Adormeceu lendo algumas páginas de Camilo, autor que deveras admirava.
29
Um agradecimento especial ao António José Dias de Almeida pelas informações e precioso contributo; o
texto deste apartado entre comas é da sua autoria.
Curiosamente, a rua que, junto à Torre dos Ferreiros desce em direcção ao Jardim,
chama-se Rua Camilo Castelo Branco...”.

(ii) Memoriais a Miguel de Unamuno e Eduardo Lourenço. Da autoria de Florencio


Maíllo, o Memorial a Miguel de Unamuno “A Guarda a Miguel de Unamuno” (2006)
encontra-se na Torre dos Ferreiros enquanto o Memorial a Eduardo Lourenço (2017)
está implantado nos Jardins da Quinta do Alarcão entre a Biblioteca Municipal Eduardo
Lourenço (BMEL) e o Centro de Estudos Ibéricos (CEI).

(iii) Centro histórico e património local. A cidade recorda a visita de Unamuno


com um “memorial colocado na Torre dos Ferreiros. Esta Torre é referida por Tomás
Ribeiro no seu D. Jaime, poema que Unamuno cita logo no início do texto que dedica
à cidade. De manhã saiu “para ver a Catedral e subiu até ao terraço de onde desfrutou
“um formoso panorama. Todo o anfiteatro de montanhas da Serra da Estrela e do
outro lado terras de Espanha.” As Farmácias, onde, pelos vistos entrou, desencanta-
ram-no pois “são novas, modernas, elegantes” e Unamuno sonhava “ver a velha botica
do pai de Tomásia, a heroína de O Filho Natural de Camilo que acabo de ler.” Foi, em
seguida, ao Liceu Nacional que achou uma “coisa deplorável, pobríssima de que o me-
lhor é não falar” e achou detestável o material de Física e de História Natural. Leu O
Combate, um diário republicano dirigido por José Augusto de Castro, também poeta
e que, também curiosamente, residia bem perto da já referenciada Torre dos Ferreiros.
Pensando no que viu e no que leu no referido periódico, apanhou finalmente o auto-

33 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


móvel que o levaria à estação. Já acomodado na sua carruagem e enquanto o comboio
se preparava para sair, voltou a olhar para a Guarda, alcandorada na sua montanha, e
que agora já sabia como era por dentro. Lendo Camilo (sempre Camilo) atravessou
a fronteira e já de noite passou junto a Ciudad Rodrigo que é, no dizer de Miguel de
Unamuno, a Guarda espanhola da fronteira que ainda conserva as muralhas – “umas
ridículas e inofensivas muralhas” – de que na Guarda portuguesa “no quedan sino
menguadíssimos restos.”

(iv) Eduardo Lourenço e a “nova Guarda”. Dois equipamentos culturais ocupam lugar
de destaque na paisagem urbana mais recente :
(a) “Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (inaugurada em 27/11/2008). As principais
salas da BMEL são designadas por títulos significativos da obra do Autor. Assim acontece
com a sala Tempo e Poesia; com A Nau de Ícaro, sala onde, num espaço qualificado, está
organicamente depositado o espólio de cerca de 3000 livros doados à Câmara Municipal
da Guarda. Aí podemos encontrar um magnífico acervo de obras muito representatrivas
de autores da Literatura Portuguesa Contemporânea com dedicatórias muito sugestivas e
que vale a pena consultar; finalmente, a sala dedicada aos mais novos que ostenta o título
Nós Como Futuro” 30.
(b) “Centro de Estudos Ibéricos (CEI) resultou de uma luminosa ideia de Eduardo
Lourenço manifestada no discurso proferido na sessão solene das comemorações do 8º
Centenário do foral dado à cidade da Guarda, cuja sede se situa no Parque Alarcão e tem
Eduardo Lourenço como Director Honorífico”.

(v) Eduardo Lourenço e a cidade vivida. “Eduardo Lourenço frequentou o ensino primário
na escola da sua aldeia (São Pedro de Rio Seco) à excepção da 3ª classe que frequentou numa
escola primária da Guarda (?), mas regressou à aldeia onde frequentou a 4ªclasse e fez o respec-
tivo exame final. Voltou posteriormente à Guarda e aí realizou o exame de Admissão ao Liceu
(então Liceu Afonso Albuquerque – actual Escola de Santa Clara). No Boletim de Matrícula
(1933–34) o pai indica como residência a Rua do Encontro. Terá aí residido quando frequentou
com aproveitamento o 1º ano no Liceu Afonso de Albuquerque. Sendo o pai militar de carreira,
matriculou-se posteriormente no Colégio Militar, em Lisboa, onde completou o ensino liceal.
As férias eram passadas na Guarda, onde residiam os irmãos e a mãe – primeiramente, na Rua
Batalha Reis e posteriormente numa casa no Bairro do Bonfim. Próximo da sua residência na
Batalha Reis, o “célebre Sanatório de onde se escoavam às vezes para as ruas da cidade criaturas
pálidas que atravessavam, desviando-se das pessoas sãs, como fantasmas”. Perto vivia o autor
de Maria Mim. “Dos vivos, vi passar na rua, envolto em soturnidade, Nuno de Montemor,
a caminho do Lactário desta cidade”. Também na Guarda, num edifício já inexistente,
34 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

viu o primeiro filme de cowboys”.


Uns bons anos mais tarde, perto da Batalha Reis, no antigo Convento de S. Francisco,
onde estava instalado o Batalhão de Caçadores 7, em 1947, prestou serviço militar como ofi-
cial miliciano. Recentemente, tem sido bem mais assídua a passagem de E.L. pela Guarda:
em Setembro de 1995 foi-lhe prestada uma homenagem na Câmara Municipal durante
a qual proferiu o célebre discurso “Lembrança espectral da Guarda”. Em Novembro de
1999, na sessão solene das Comemorações dos oiotocentos anos da Guarda, na actual sala
Almeida Santos, proferiu a brilhante Oração de Sapiência “Oito séculos de altiva solidão”
durante a qual lançou a semente do que viria a ser o CEI”.

30
“Na Biblioteca que leva o seu nome, tem participado em diversas iniciativas, v.g. na entrega do Prémio
Eduardo Lourenço a várias personalidades que o obtiveram, nomeadamente, Agustina Bessa-Luís (represen-
tada pela sua filha Mónica Baldaque), Mia Couto, Luís Sepúlveda, Fernando Paulouro Neves, entre outros.
A primeira grande figura da Cultura Portuguesa agraciada com o prémio foi a Professora da Universidade
de Coimbra, Maria Helena Rocha Pereira numa cerimónia que teve lugar na sala da Câmara Municipal da
Guarda, actualmente designada Almeida Santos.”
Regresso sem fim: S. Pedro do Rio Seco, a fronteira e as aldeias
raianas. Terra de fronteira, “São Pedro é uma velha aldeia, anterior mesmo à na-
cionalidade, com séculos sem memória celebrada”. Quem sempre teve as fronteiras
por companhia, fossem as politica, as disciplinares e as do espirito, está habituado a
conviver com a radicalidade de tal presença, contornando-as ou superando-as. Em dife-
rentes momentos que pontuaram a sua (re)aproximação às origens Eduardo Lourenço
recorreu à palavra fronteira até à exaustão, utiliza-a como inspiração para multiplas
metafóricas reflexões: O duplo rosto da frontera; As fronteiras que não têm fronteiras; Jogos
de fronteira, jogos de memoria.
“Na verdade, esta aldeia, como muitas das aldeias de Portugal, não pertence ao que se
chama a grande história, com as suas crónicas memoráveis. Com actores e gente célebre,
celebrizada. Pertence mais aquilo que Unamuno, o nosso famoso vizinho, o autor do
“Sentimento trágico da vida”, o nosso vizinho de Salamanca, chamava a intra-história.
Quer dizer, a não história do comum de todos nós e que é aquela que nós, os meus ante-
passados, viveram durante séculos, sem que isso tivesse constituído para eles uma tragédia
particular”. Estamos na meseta, esse imenso chapadão que Unamuno fixou em inolvidá-
veis páginas (p. ex.: Los Arribes del Duero), essas “terras novas de Ribacoa, que o bom rei
Dinis soube trazer para Portugal, terras de falas diferentes, terras de pontes, no espaço e
no tempo, onde os nomes dos lugares ajudam a escavar muita da História e da Cultura
embebidas no território: Calçada, Castelo Mendo, Cinco Vilas, São Pedro de Rio Seco.
Embebido, um conceito caro a Eduardo Lourenço, um termo que também é relevado
pelos geógrafos. Ora a Geografia, os geógrafos, percorrem, embebidos, a obra de Eduardo

35 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Lourenço, que a descobre noutras paragens, como em Fernando Pessoa “perito em geo-
grafia simbólica” (Mitologia da Saudade). Das geografias da Terra, por onde começou, nos
seus poemas de juventude, às geografias do Corpo que ocorrem dispersas e fragmentadas
nalguns dos seus ensaios” (Jorge Gaspar, 2017).
Estas paisagens foram igualmente percorridas por Miguel de Unamuno num
dos seus regressos a Salamanca: “Leyendo a Camilo atravese la frontera, que por esa
parte no se senala ni por rio ni por montana, ni por demarcacion alguna natural.
Atravese la frontera; a los dengosos acentos de la triste habla portuguesa sucedieron
los recortados de la recia habla castellana. Ya de noche, pase junto a Ciudad-Rodrigo,
que es la guarda espanola de la frontera, y que aun conserva las murallas – unas
ridiculas e inofensivas murallas – de que en la Guarda portuguesa no quedan sino
menguadisimos restos”.
Num dos reencontros de Eduardo Lourenço as suas gentes, em S. Pedro, nesse regresso
sem fim do viagente à materna casa comum, referiu a possibilidade de podermos
S. Pedro do Rio Seco. A aldeia vista do Calvário (RJ)

observar o mundo todo sem sairmos da nossa aldeia (Quem vê o seu povo vê o mundo todo).
Continuemos a visita a S. Pedro do Rio Seco a partir de alguns apontamentos Eduardo
Lourenço: “Os tempos mudaram. Esta aldeia, que parecia tão isolada do mundo, naquela
36 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

época, também o estava: podia passar-se o ano inteiro que mesmo relações de vizinhança,
a cinco quilómetros, não se frequentavam umas às outras. Só por ocasião de uma festa. Os
únicos sítios de relacionamento, já de tipo social, eram Vilar Formoso e Almeida. (…) Em
matéria de invisibilidade, esta nossa aldeia, irmã gémea de tantas da nossa província, ela
própria tão isolada. Naquele tempo a nossa aldeia não estava ainda, digamos, dissolvida
como todas, num mundo real a que pertencia e hoje está talvez dissolvida, como todos
nós, numa espécie de esfera virtual, que de facto é de toda a gente e de ninguém”.
A aldeia é um universo complexo e mutante, vivida e imaginada de modo distinto
pelos que ficam e pelos que partem: se na aldeia paira sempre a presença dos ausentes, a
relação dos que partiram com o lugar donde saíram nunca mais é a mesma, fica irreme-
diavelmente comprometido no instante em que a ausência quebra o vínculo umbilical ao
torrão natal. Em pequenos fragmentos diarísticos escritos durante a breve permanência no
Brasil, Eduardo Lourenço simula através dum dialogo com o vento, num tom melancóli-
co, a tentativa de reatar tais vínculos perdidos pela ausência, fios duma teia que talvez aju-
dassem a (re)encontrar um mitifico caminho de regresso ao paraiso perdido: “num segundo
volto com ele à aldeia parada de granito solto e pobreza unida onde pela primeira vez eu me
encontrei comigo ao encontrar-me com ele” 31.
O diálogo prossegue essa contínua “viagem imaginária” dum regresso sem fim e sempre
adiado: “Tudo o vento deu ao garoto ávido, ardente e pobre de há trinta anos. Exactamente
o que os trinta anos seguintes, mais terrível vento, foram deixando de menos. Neste interva-
lo, os livros, as amizades, as mortes, os pecados inumeráveis, as falências, os deslumbramen-
tos, os falsos paraísos outrora reclamados pela voz do meu futuro, muitas vezes relegaram
o meu companheiro de infância para o rol das coisas abandonadas nos cantos da casa. Mas
eis que súbito o amado imortal, passando por cima dos mares e das montanhas, abre à minha
volta as suas asas de silêncio e num segundo volto com ele à aldeia parada de granito solto e
pobreza unida onde pela primeira vez eu me encontrei comigo ao encontrar-me com ele.
Há trinta anos. A sua voz tem ainda as dimensões do mundo. As crestas dos horizontes
por onde passou ferem de expectativa o impaciente coração. (…) Nos últimos tempos en-
tregara-se aos sonhos que as palavras libertas da nossa cegueira podem conceder-nos. Sua
estranha arquitectura respondia à viagem imaginária interrompida pela fatigante chuva da
cultura. Estava de novo próximo do mundo incorrupto do cardo, do ribeiro, do lilás, da nuvem,
do gaio, do fogo onde jovem habitara cheio de espanto e deslumbramento. O universo conver-
tera-se em palavra sacra. Com silencioso gesto iniciara-se nele a viagem de regresso. Lenta,
circular como os dias antigos e duros da sua raça camponesa. Cada dia o círculo se tornava
mais pequeno e denso. Conheceu que o seu fim estava próximo. As palavras começaram a
ter a dimensão exacta da sua necessária morada. Ficou a pão e água. Estes únicos alimentos
reconstruíam a sua habitação de sempre. O mármore, a seda, o ouro, o livro foram disper-

37 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


sos pelo vento. Iniciou então a construção meticulosa e deslumbrada”.
Em S. Pedro do Rio Seco, como em Vilar Formoso, Almeida e noutros povos da raia
deparamos com o mesmo silêncio parado de terras marcadas pela ausência e pela memória.
Percorrer a aldeia é andarmos por ruas desertas, ouvir o vai e vem de carros fazendo o apoio
domiciliar aos idosos com dificuldade de sair até à soleira da porta apanhar os ultimos
raios de sol. Paradoxalmente, sentimos estar em lugares reabilitados, com as antigas casas
renovadas, embora fechadas, anunciando-nos como é subtil a presença dos ausentes. O
mais são as mesmas ruas, sem o pó da terra batida, os largos, as ruas direitas, as lages de
granitos das antigas eiras e outros pontos fulcrais do mapa mental de cada lugar. Pressente-
se o mesmo sentimento de ausência na antiga escola sem alunos, na igreja fechada por falta
de fiéis, na junta de freguesias transformada em centros de múltiplos serviços; as cruzes
do Calvário continuam a destacar-se como referência intemporal que sinaliza uma viagem
de sacrifícios que muitos fizeram, a apontar um caminho que poucos querem percorrer.

31
Eduardo Lourenço (2015), Do Brasil. Fascinio e Miragem, Lisboa, Gradiva.
A caminho dos Arribes del Duero: encinas no Campo Charro (SS)

Salamanca pela mão de Miguel de Unamuno: um itinerário urbano de


profundo significado cívico e cultural. Salamanca atravessa em pleno a vida e os
escritos de Unamuno; da sua intra-história. Nesta cidade do interior, da meseta, viveu,
38 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

escreveu e trabalhou, segundo as suas palavras. Aqui chegou desde Bilbao em 1891.
Os nomes das suas ruas e praças são verdadeiramente evocadores e baixo os seus “celagens
e céus platónicos” guardam-se a memória do passo dos séculos e dos homens. Também
suas pedras de arenisca, “doces e suaves, douradas pelo sol”, e talhadas com habilidade por
pedreiros e artesãos recordam-nos e ensinam o devir da cidade românica, gótica e plateres-
ca, renascentista, barroca e neoclássica, nas que descobrimos marcas arquitetónicas e sím-
bolos ornamentais capazes de nos fazer sonhar e de acalmar o nosso espírito. Da mão dos
textos de Unamuno, tanto dos seus ensaios como da sua poética, podemos afundar na casa
e no lugar, no seu “genius loci”, a partir de um itinerário e alguns marcos urbanos bem
assinalados na vida e imagem desta cidade Património da Humanidade.
(i) Na histórica Calle Libreros e na envolvente do edifício histórico da Universidade
ou de Escuelas Mayores e seu claustro central, com o Patio de Escuelas Menores, a Reitoria,
a Casa- Museu Miguel Unamuno, configura-se um espaço monumental e académico ple-
namente vinculado à vida de Unamuno como professor e Reitor durante quarenta e cinco
anos. Os sentimentos e pensamentos da sua escrita estão marcados pelo espírito do lugar.
Assim o manifesta ao falar-nos
Salamanca. Vista Geral (VG)

desse pátio frente à fachada plateresca do século XVI: “Não dou por nada do mundo esse
pátio – com seu brônzeo Fray Luis no centro -, preenchido no seu silêncio de rumores
seculares, esse pátio sem ruído de tranvias nem de comboios nem de vã agitação humana”.

39 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


(ii) Muito próximo, envolve-nos o conjunto monumental da Plaza de Anaya, onde o Palacio
de Anaya contrapõe a sua imponente fachada neoclássica à impressionante e grandiosa obra gó-
tica e plateresca da Catedral Nova; a seu lado, outros nobres edifícios vinculados à Universidade
também nos fascinam e nos interrogam. Penetremos no Palacio de Anaya, atual Faculdade de
Filologia, por onde passaram centenas de gerações de estudantes de todo o mundo, y subindo as
suas escadas imperiais, contemplamos o busto de Unamuno do grande escultor da Geração de
98 Victorio Macho, realizado quando estava no exílio, em Hendaya, em 1930; uma escultura
profundamente humana que “pretende chegar ao fundo dos seres para dar com essa famosa
substância que procura – Unamuno – e nem sempre encontra”, em palavras do próprio escultor32.

(iii) A suave descida pela Calle Compañía transporta-nos a momentos intemporais.


O próprio Unamuno expressa-o, respondendo a seu amigo Guerra Junqueiro: “Há velhas
ruas, como a da Compañía, ao pé de palácios e templos dourados pelos sóis dos séculos, em
que se pode ir sonhando numa Espanha celestial, pendurada para sempre das estrelas”. E
chegamos à Plaza de las Agustinas, à Calle Bordadores, e à casa renascentista (casa do Regidor
32
Victorio Macho: Memorias, Madrid, G. del Toro, 1972, p. 309
Ovalle Prieto) onde Unamuno viveu seus últimos anos. Uma placa e uns versos recordam-
-no-lo. E ali, em frente, detemo-nos no recanto único e mágico das Úrsulas e no monu-
mento a Miguel de Unamuno com a magnífica escultura de Pablo Serrano. Recordemos
as palavras de Unamuno sobre o lugar: “E há um recanto, junto ao convento e igreja das
Úrsulas, entre álamos que lá para a primavera, quando brota neles a terna plumagem das fo-
lhas novas, nos dá a sensação de que o tempo se detém e estagna na eternidade, de um passa-
do que é ao mesmo tempo porvir, de uma posta de sol que se confunde com o amanhecer”.

(iv) Chegamos depois à Plaza Mayor de Salamanca, um espaço de encontro e de re-


ferência cívica para a cidade. Para Unamuno, uma “das praças mais harmoniosas”. “Uma
Praça quadrada, – isto é um quadrilátero, não um quadrado,- toda cheia de portais e de ar
e de luz”, onde se entrecruzam a vida e o movimento humano de aqui e de além, conver-
tendo-a numa praça ibérica, europeia e universal. Ali estão os testemunhos da presença de
Unamuno; o café Novelty e a memória das suas tertúlias, o medalhão que representa o seu
rosto, no Pabellón de Petrineros, e a varanda do Ayuntamiento donde Unamuno proclamou,
a 14 de abril de 1931, a Segunda República (1931 – 1936)

(v) Mais abaixo, e do outro lado do arroio de Santo Domingo, no grandioso convento
de San Esteban dos dominicanos, com quase oitocentos anos de vida na cidade, encontrará
abrigo Unamuno nos momentos de crise existencial do “homem de carne e osso” e de de-
sassossego religioso” (1897). Um bom asilo para o diálogo teológico, filosófico, científico
e humano na Academia de Santo Tomás. Boa parte da sua obra Do Sentimento Trágico da
Vida (1912) inspira-se no debate e discussão com os frades, particularmente com o Padre
40 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

González-Arintero, um científico e naturalista com o que troca livros e conversas de alto


conteúdo vital e religioso. Nalguns momentos estes diálogos mudam-se para La Peña de
Francia, ao Santuário e Convento dos Padres Dominicanos, onde Unamuno encontrará
também refúgio espiritual e conhecerá desde ali as paisagens serranas. E atualmente, aí contí-
nua a Academia de Santo Tomás como ponto de diálogo e razoamento com a universidade e
a cidade, abordando periodicamente os problemas contemporâneos que nos desassossegam.
Ao lado da cidade e do seu sossego, devemos contemplar o “campo que a rodeia” e que a
abraça, as terras agrícolas e férteis das campinas ou do vale do rio Tormes e as terras ganadeiras e
pastos das planícies. E aqui, nas margens do rio, há um lugar simbólico e íntimo para Unamuno,
“a deleitosa paragem da Flecha, cujo sossego cantou o mestre Frei Luis de León”. O extraordi-
nário fotógrafo José Suárez imortalizou esta relação de Unamuno com a paisagem e o lugar da
Flecha na sua reconhecida imagem e retrato de 1934. Em recordação dos seus vínculos com a
criação literária, este soto e enclave de Cabrerizos, foi cenário em 1953 de um grande encontro
de poesia. E em junho deste ano, por ocasião do VIII Centenário da Universidade de Salamanca,
celebrou-se o Segundo Congresso Internacional de Poesia Frei Luis de León. Lástima que nas
últimas décadas o entorno ficasse sem efeito e sem a atenção cívica e cultural merecida.
NÓS E A EUROPA:
DIÁLOGOS ENTRE MIGUEL DE UNAMUNO
E EDUARDO LOURENÇO
Sobre la Europeización
(Arbitrariedades)33

Miguel de Unamuno

Conviene hacer uno en sí mismo examen de conciencia nacional, y preguntarse como


español qué valor íntimo y duradero tienen la mayor parte de los tópicos regenerativos que
venimos repitiendo casi todos, unos más y otros menos.
En dos términos se cifra todo lo que se viene pidiendo para nuestro pueblo, todo lo
que para él hemos pedido casi todos, con más o menos conciencia de lo que pedíamos.
Esos dos términos son: europeo y moderno. «Tenemos que ser modernos», «tenemos que
ser europeos», «hay que modernizarse», «hay que ir con el siglo», «hay que europeizarse»;

43 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


tales los tópicos.
El término europeo expresa una idea vaga, muy vaga, excesivamente vaga; pero es
mucho más vaga la idea que se expresa con el término moderno. Y si las juntamos, parece
como que dos vaguedades deben concretarse y limitarse mutuamente, y que la expresión
«europeo moderno» ha de ser más clara que cualquiera de los dos términos que la compo-
nen; pero acaso sea en el fondo más vaga que ellas.
Como se ve, voy procediendo por lo que alguien llamaría afirmaciones arbitrarias, sin
documentación, sin comprobación, fuera de la lógica europea moderna, con desdén de
sus métodos.
Puede ser. No quiero más método que el de la pasión; y cuando el pecho se me hinche
de disgusto, de repugnancia, de lástima o desprecio, dejo que del cogüelmo del corazón
hable la boca y salgan las palabras como salieren.
Los españoles somos, dicen, unos charlatanes arbitrarios, que rellenamos con retórica
los vacíos de la lógica, que sutilizamos con más o menos ingenio, pero sin utilidad alguna;
33
Miguel de Unamuno: "Sobre europeización (Arbitrariedades)", La España Moderna, nº 216, 1906.
que carecemos del sentido de la consecución y la ilación, con alma escolástica, casuistas…,
etc., etc.
Cosas parecidas he oído decir de Agustín, el gran africano, alma de fuego que se
derramaba en oleadas de retórica, de retorcimientos de frase, de antítesis, de paradojas e
ingeniosidades. San Agustín fue un gongorino y un conceptista a la vez. Lo cual me hace
creer que conceptismo y gongorismo son las formas más naturales de la pasión y de la
vehemencia.
El gran africano, ¡el gran africano antiguo! He aquí una expresión «africano antiguo»
que puede contraponerse a la de «europeo moderno», y que vale tanto, por lo menos,
como ella. Africano y antiguo es San Agustín; lo es Tertuliano. Y ¿por qué no hemos de
decir: «hay que africanizarse a la antigua» o «hay que anticuarse a la africana»?
Vuelvo a mí mismo al cabo de los años, después de haber peregrinado por diversos
campos de la moderna cultura europea, y me pregunto a solas con mi conciencia: ¿soy eu-
ropeo? ¿soy moderno? Y mi conciencia me responde: no, no eres europeo, eso que se llama
ser europeo; no, no eres moderno, eso que se llama ser moderno. Y vuelvo a preguntarme:
y eso de no sentirte ni europeo ni moderno, ¿arranca acaso de ser tú español? ¿Somos los
españoles, en el fondo, irreductibles a la europeización y a la modernización? Y en caso de
serlo, ¿no tenemos salvación? ¿No hay otra vida que la vida moderna y europea? ¿No hay
otra cultura, o como quiera llamársela?
Ante todo, y por lo que a mí hace, debo confesar que cuanto más en ello medito más
descubro la íntima repugnancia que mi espíritu siente hacia todo lo que pasa por princi-
pios directores del espíritu europeo moderno, hacia la ortodoxia científica de hoy, hacia
44 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

sus métodos, hacia sus tendencias.


Hay dos cosas de que se habla muy a menudo, y son la ciencia y la vida. Y una y otra,
debo confesarlo, me son antipáticas.
No es menester definir la ciencia, o si se quiere la Ciencia, con letra mayúscula, eso
que tanto se está vulgarizando y que sirve para darnos una idea más lógica y más cabal del
Universo. Cuando yo era algo así como spenceriano me creía enamorado de la ciencia;
pero después he descubierto que aquello fue un error. Fue un error como el de aquellos que
creen ser felices sin serlo. (Claro está que rechazo, arbitrariamente por supuesto, la idea de
que el ser feliz consista en creer serlo). No, nunca estuve enamorado de la ciencia, siempre
busqué algo detrás de ella. Y cuando, tratando de romper su fatídico relativismo, llegué al
ignorabimus, comprendí que siempre me había disgustado la ciencia.
Y ¿qué contrapones a ella?, se me dirá. Podría decir que la ignorancia, pero esto no es
cierto. Podría decir con el predicador, hijo de David, Rey de Jerusalem, que quien añade
ciencia añade dolor, y que el mismo fin aguarda al sabio que al necio; pero no, no es eso.
Ni necesito inventar una palabra para decir lo que contrapongo a la ciencia, porque esa
palabra existe y es sabiduría: la sagesse de los franceses, la wisdom de los ingleses, la Weisheit
o Klugheit alemana. Pero ¿es que se opone a la ciencia?, se me dirá. Y yo, siguiendo mi
método de arbitrariedad, guiado por mi pasión de ánimo, por mis íntimas repugnancias y
mis íntimas atracciones, respondo: sí, se oponen; la ciencia quita sabiduría a los hombres
y les suele convertir en unos fantasmas cargados de conocimientos.
La otra cosa de que se habla a cada paso hoy es la vida, y a ésta sí que es fácil hallarle
contraposición. A la vida se contrapone la muerte.
Y esta nueva contraposición me sirve para aclarar la primera. La sabiduría es a la cien-
cia lo que la muerte a la vida, o, si se quiere, la sabiduría es a la muerte lo que la ciencia
es a la vida.
El objeto de la ciencia es la vida, y el objeto de la sabiduría es la muerte. La ciencia
dice «hay que vivir», y busca los medios de prolongar, acrecentar, facilitar, ensanchar y
hacer llevadera y grata la vida; la sabiduría dice «hay que morir», y busca los medios de
prepararnos a bien hacerlo.
Homo liber de nulla re minus quam de morte cogitat, et eius sapientia non mortis, sed
vitae meditatio est. Así reza la proposición LXVII de la parte cuarta de la Ética de Spinoza.
O sea en romance: el hombre libre en todo piensa menos en la muerte, y su sabiduría es
meditación, no de la vida, sino de la muerte.
En este caso, esa sabiduría, esa sapientia, no es ya tal sabiduría, sino ciencia. Verdad
es también que habría que ver qué es eso del hombre libre. El hombre libre de la suprema
congoja, libre de la angustia eterna, libre de la mirada de la Esfinge, es decir, el hombre que
no es hombre, el ideal del europeo moderno.

45 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Y estamos en otro concepto que me es tan poco simpático como los de vida y ciencia,
y es el de libertad. No hay más libertad verdadera que la de la muerte.
¿Y cuál es el fondo de todo esto? ¿Qué buscan y persiguen los que se agarran a la
ciencia, a la vida y a la libertad, volviendo las espaldas, sépanlo o no, a la sabiduría y a la
muerte? Lo que buscan es la felicidad.
Y creo – tal vez también esta mi creencia sea arbitraria – , creo que estamos en el fondo
de esta indagación. El llamado europeo moderno llega al mundo a buscar felicidad para
sí y para los demás, y cree que el hombre debe procurar ser feliz. Y he aquí un supuesto a
que no puedo hacerme.
Y ahora voy a daros, en estas confesiones, un dilema arbitrario; arbitrario porque no
puedo probároslo lógicamente, porque me lo impone el sentimiento de mi corazón y no el
raciocinio de mi cabeza, y el dilema es éste: o la felicidad o el amor. Si quieres uno, has de
renunciar a la otra. El amor mata la felicidad, la felicidad mata al amor.
Y aquí vendría bien todo cuanto nuestros admirables místicos, nuestros únicos filóso-
fos castizos, los que hicieron sabiduría y no ciencia española – acaso los términos ciencia y
española sean, afortunadamente, dos cosas que se repelen – sintieron, más bien que pen-
saron, sobre el amor y la dicha, y todo el «muero porque no muero» y el «dolor sabroso» y
lo demás en la misma profundidad de sentir.

Y esto, ¿qué relación tiene con el problema espiritual de España? ¿Es algo más que una
posición pura y exclusivamente individual, es decir, arbitraria? Todo eso, ¿lo siento como
español? ¿Es el alma española la que me lo sugiere?
Se ha dicho que con los Reyes Católicos y la unidad nacional se torció acaso el curso
de nuestra historia. Lo cierto es que, desde ellos, y, mejor aún, después de ellos, con el des-
cubrimiento de América y nuestro entrometimiento en los negocios europeos, nos vimos
arrastrados en la corriente de los demás pueblos. Y entró en España la poderosa corriente
del Renacimiento, y nos fue borrando el alma medieval. Y el Renacimiento era en el fondo
todo eso: ciencia, en forma sobre todo de Humanidades, y vida. Y se pensó menos en la
muerte, y se fue disipando la sabiduría mística.
Se ha dicho muchas veces que el español se preocupa demasiado de la muerte; y en
todos los tonos y de todas las maneras, en especial de las más ramplonas, se nos ha dicho
que la preocupación de la muerte no nos deja vivir a la europea y a la moderna. Hasta de
la mortalidad y de la suciedad y de la falta de salud se le echa la culpa al llamado culto a la
muerte. Y a mí, en cambio, me parece que se piensa demasiado poco en ella; mejor dicho,
que se piensa a medias.
Y se piensa y se medita en ella a medias, porque pretendemos ser europeos y modernos
sin dejar de ser españoles, y eso no puede ser. Y hemos hecho una infame mezcla de sabidu-
46 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

ría castiza y de ciencia exótica, de íntimo y sentido sentimiento de la muerte y de pegadizo


cuidado por la vida. Y nos hemos creído cuidarnos del progreso, cuando en realidad se nos
da muy poco de él.
«Desengáñese usted – me decía en cierta ocasión un extranjero amigo mío, creyéndo-
me, aunque español, europeo y moderno – , desengáñese usted: los españoles en general
son incapaces para la civilización moderna y refractarios a ella».
Y yo le dejé frío de estupor cuando le repliqué: ¿Y es eso un mal? El hombre me miró
como quien mira a uno que de repente se pone loco; debió de parecerle como si yo negara
un postulado geométrico, y trató de razonar conmigo, y le dije: No; no se esfuerce usted
en darme razones: creo poder decirle, sin jactancia, pero sin hipocresía de modestia, que
conozco cuantas razones pueda usted aducirme al respecto; esto no es cuestión de razones,
sino de sentimientos.
Insistió, pretendiendo hablarme al sentimiento, y añadí: No, amigo mío, no; usted
tiene lógica, y no es la lógica, sino la pasión, lo que rige los sentimientos. Y me separé de
él y me fui a leer las Confesiones del gran africano a la antigua.
¿No será cierto que, en efecto, somos los españoles, en lo espiritual, refractarios a eso
que se llama la cultura europea moderna? Y si así fuera, ¿habríamos de acongojarnos por
ello? ¿Es que no se puede vivir y morir, sobre todo morir, morir bien, fuera de esa dichosa
cultura?
Y no quiero decir con esto que nos sumamos a la inacción, la ignorancia y la barbarie;
no. Hay modos de acrecentar el espí- ritu, de elevarlo, de ensancharlo, de ennoblecerlo, de
divinizarlo sin acudir a los medios de esa cultura. Podemos, creo, cultivar nuestra sabiduría
sin tomar la ciencia más que como un medio para ello, y con las debidas precauciones para
que no nos corrompa el espíritu.
Así como el amor a la muerte y el sentimiento de que es ella el principio de nuestra
verdadera vida, no debe llevarnos a renunciar violentamente a la vida, al suicidio, puesto
que la vida es una preparación para la muerte, y cuanto mejor la preparación, mejor lo
preparado, así tampoco el amor a la sabiduría debe llevarnos a renunciar a la ciencia, pues
esto equivaldría a tanto como un suicidio mental, sino a tomar la ciencia como una prepa-
ración, y no más que como una preparación a la sabiduría.
Por mi parte puedo decir que si no hubiese excursionado por los campos de algunas
ciencias europeas modernas, no habría tomado el gusto que he tomado a nuestra vieja
sabiduría africana, a nuestra sabiduría popular, a lo que escandaliza a todos los fariseos
y saduceos del intelectualismo, de ese hórrido intelectualismo que envenena el alma. A
fuerza de oír himnos a la ciencia y a la vida, me han hecho cobrarles desconfianza y tal vez
horror, y amar la sabiduría de la muerte, la meditación que, según Spinoza, no medita el
hombre libre, esto es, el hombre feliz.

47 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Hace pocos días he leído un artículo de mi paisano y amigo Pío Baroja, titulado
«¡Triste país!», en que dice que España es un país triste, así como Francia es un país her-
moso. Contrapone la Francia riente, de terreno fértil y llano, de clima dulce, de ríos que se
deslizan claros y trasparentes a flor de tierra, con esta península, llena de piedras, quemada
por el sol y helada en invierno. Hace notar que en Francia los productos espirituales no
pueden compararse con los agrícolas e industriales; que los dramas de Racine no están tan
bien elaborados como el vino de Burdeos; ni los cuadros de Delacroix valen tanto como las
ostras de Arcachón; y que, en cambio, nuestros grandes hombres, Cervantes, Velázquez,
el Greco, Goya, valen tanto o más que los grandes hombres de cualquier parte; mientras
nuestra vida actual vale menos, no que la vida de Marruecos, sino que la vida de Portugal.
Y yo digo: ¿no vale la pena de renunciar a esa agradable vida de Francia a cambio de
respirar el espíritu que puede producir un Cervantes, un Velázquez, un Greco, un Goya? ¿No
son acaso éstos incompatibles con el vino de Burdeos y las ostras de Arcachón? Yo – arbitra-
riamente, por supuesto – creo que sí, que son incompatibles, y me quedo con el Quijote,
con Velázquez, con el Greco, con Goya, y sin el vino de Burdeos, ni las ostras de Arcachón,
ni Racine, ni Delacroix. La pasión y la sensualidad son incompatibles: la pasión es arbitraria,
la sensualidad es lógica. Como que la lógica no es sino una forma de sensualidad.
«Todos nuestros productos materiales e intelectuales son duros, ásperos, desagradables
– sigue diciendo Baroja – . El vino es gordo, la carne es mala, los periódicos aburridos y la
literatura triste. Yo no sé qué tiene nuestra literatura para ser tan desagradable».
Aquí tengo que detenerme. No siento bien lo de identificar lo triste con lo desagradable;
y aunque haya inocente que me lo tome a paradoja, diré que, para mí, lo desagradable es
lo que se llama alegre. Nunca olvidaré el desagradabilísimo efecto, el hondo disgusto que
me produjo la algazara y el regocijo de un bulevar de París, de esto hace ya diez y seis años,
y cómo me sentía allí desasosegado e inquieto. Toda aquella juventud que reía, bromeaba,
jugaba y bebía y hacía el amor, me producía el efecto de muñecos a quienes hubieran dado
cuerda; me parecían faltos de conciencia, puramente aparenciales. Sentíame solo, entera-
mente solo entre ellos, y este sentimiento de soledad me apenaba mucho. No podía ha-
cerme a la idea de que aquellos bulliciosos entregados a la joie de vivre fueran semejantes
míos, mis prójimos, ni siquiera a la idea de que fuesen vivientes dotados de conciencia.
He aquí cómo lo alegre me desagradaba, me era desagradable. Y, en cambio, en medio
de muchedumbres acongojadas que clamen al cielo pidiendo clemencia, que entonen un
de profundis o un miserere, me habré de encontrar siempre como entre hermanos, unido
a ellos por el amor.
Dice luego Baroja: «Para mí una de las cosas más tristes de España es que los españoles
no podemos ser frívolos ni joviales».
48 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Y para mí una de las cosas más tristes para España sería que los españoles pudiésemos
volvernos frívolos y joviales. Entonces dejaríamos de ser españoles para no ser ni europeos
siquiera. Entonces tendríamos que renunciar a nuestro verdadero consuelo y a nuestra
verdadera gloria, que es eso de no poder ser ni frívolos ni joviales. Entonces podríamos re-
petir de coro todas las insustancialidades de todos los manuales de vulgarización científica,
pero nos incapacitaríamos para poder entrar en la sabiduría. Entonces tendríamos acaso
mejores vinos, vinos más refinados, aceite menos áspero, mejores ostras; pero habríamos
de renunciar a la posibilidad de un nuevo Quijote, o de un Velázquez y, sobre todo y ante
todo, a la posibilidad de un nuevo San Juan de la Cruz, de un nuevo Fray Diego de Estella,
de una nueva Santa Teresa de Jesús, de un nuevo Íñigo de Loyola, ortodoxos o hetero-
doxos, que para el caso es igual.
Y acaba diciendo Baroja: «Triste país en donde por todas partes y en todos los pueblos
se vive pensando en todo menos en la vida».
Y esta arbitrariedad provoca la mía, y exclamo: ¡Desgraciados países esos países eu-
ropeos modernos en que no se vive pensando más que en la vida! ¡Desgraciados países los
países en que no se piensa de continuo en la muerte, y no es la norma directora de la vida
el pensamiento de que todos tenemos un día que perderla!

Aquí debo detenerme un momento – si es que puede hablarse de detenciones en una


marcha tal como la que aquí lleva mi pensamiento – y explicar, si es que explicación cabe,
esto de la arbitrariedad.
Los extranjeros, sobre todo los franceses, no toman de nosotros sino lo menos nuestro,
lo que menos choca a su espíritu – y ello es natural – , lo que se acomoda a la idea que de
nosotros tienen, idea que es siempre y forzosamente superficial. Y nosotros ¡pobrecitos!
cedemos a este engañoso halago, y esperamos el aplauso de fuera, de los que en realidad no
nos entienden, y aunque nos entiendan no nos comprenden.
Y yo no sé bien para qué quieren ellos eso que de nosotros toman y que corrobora la
vulgar idea que de nosotros tienen. Yo, en su caso, tomaría de aquí y daría a conocer a mis
compatriotas lo que más hiriera las convicciones de éstos, lo que más les chocara, lo que
más repugnase con su espíritu, lo que más distinto les fuese.
Mas es natural lo que hacen, porque las gentes quieren que se les diga lo mismo que
ellas piensan, que se les corrobore en sus prejuicios, prevenciones y supersticiones: los
hombres quieren que se les engañe. Y así va ello.
Frente a esa actitud de los demás, ¿qué hemos de hacer nosotros? Frente a esa acción
que tiende, conciente o inconcientemente, a descaracterizarnos, a arrebatarnos lo que nos
hace ser lo que somos, ¿qué acción nos conviene emprender? Frente a esas voces que nos
dicen: «si queréis ser como nosotros y salvaros, tomad esto», ¿qué hemos de hacer?

49 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Pero esto del intento de españolizar a Europa, único medio para que nos europeice-
mos en la medida que nos conviene, mejor dicho, para que digiramos lo que del espíritu
europeo puede hacerse nuestro espíritu, es cosa que hay que tratarla aparte.

Todo esto parecerá arbitrario, y para los demás casos lo sea; lo es ciertamente. ¿Qué le
he de hacer?
«Basta – dirá algún lector lógico y europeo moderno – ; ya te tengo cojido: tú mismo
confiesas que tus afirmaciones carecen de base, que son arbitrarias, que no pueden pro-
barse, y a tales afirmaciones no se les debe hacer caso». Y yo le diré a ese pobre lector
lógico, europeo y moderno, enamorado, de seguro, de la ciencia y de la vida, que el que
una afirmación sea arbitraria y no pueda probarse con razones lógicas, ni quiere decir que
carezca de fundamento, ni menos que sea falsa. Y, sobre todo, eso no quiere decir que la
tal afirmación no sea excitadora y animadora del espíritu, corroboradora de su vida íntima,
de esa vida íntima que es muy otra cosa que la vida de que está enamorado el lector lógico
y cientificista.
Aquí dejé este ensayo hace dos días, para continuarlo, reanudando su hilo, así que se
me ofreciera ocasión, cuando he aquí que acabo de leer hoy, 13 de mayo, una frase que
tuerce el curso de mi discurso. Así les pasa a los ríos, que un peñasco que se les presente
les desvía el cauce y puede hacer que vayan a desembocar a muchas leguas de distancia de
donde hubieran desembocado en otro caso, a otro mar tal vez.
Es curioso lo que pasa con las ideas. Tenemos en el espíritu muchas veces una tropa de
ellas que se arrastran vegetativamente en la oscuridad, mustias, incompletas, sin conocerse
unas a otras y huyéndose mutuamente. Porque en la oscuridad las ideas, lo mismo que los
hombres, se tienen miedo. Y están acurrucadas, evitando todo contacto, disociadas. Pero
he aquí que de pronto entra una idea nueva y luminosa, arrojando lumbre, e ilumina aquel
rincón, y al verle las otras, y al verse unas a otras las caras, se reconocen, se levantan, se
agrupan en torno a la recién llegada, se abrazan y forman hermandad y recobran plena vida.
Con una porción de ideas mustias y penumbrosas que tenía yo desperdigadas en un
rincón de mi espíritu, me ha sucedido así al entrar hoy en éste una idea que acabo de leer
en el número de La Correspondencia de España, diario de Madrid, correspondiente al día
de ayer, 12 de mayo.
Es el caso que en un artículo que en él publica Fabián Vidal, titulado «La actualidad –
Cánovas», dice el autor: «Sagasta comprendió a los españoles, pero no a España. Cánovas
no supo jamás de qué madera estaban formados sus compatriotas».
Leí esto, y al punto me di cuenta, por iluminación súbita, de la diferencia que va del
alma de España al conjunto de las almas de los españoles todos que hoy vivimos, a la sínte-
sis misma de estas mismas almas. Y recordé lo que a raíz de la última guerra civil carlista,
50 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

siendo yo un mozo, oí en mi pueblo a un sujeto que decía: aunque todos los bilbaínos
nos hiciéramos carlistas, Bilbao seguiría siendo liberal. Paradoja, es decir, profunda verdad
arbitraria, verdad de pasión, verdad cordial, que no olvidé después nunca.
«Sagasta comprendió a los españoles, pero no a España». Y todos los gobernantes
vulgares, los que se dejan llevar de la corriente y disfrutan de largos años de poder, y todos
los escritores vulgares, los que hacen copiosas tiradas de sus libros y los venden, y todos los
artistas vulgares, y todos los pensadores vulgares, comprenden a sus compatriotas, pero no
a su patria. Así es.
En el alma de España viven y obran, además de nuestras almas, las de los que hoy
vivimos, y, aún más que éstas, las almas de nuestros antepasados. Nuestras propias almas,
las de los hoy vivos, son los que menos viven en ella, porque nuestra alma no entra en la de
nuestra patria hasta que nosotros no la hayamos soltado, hasta después de nuestra muerte
temporal.
¿De qué sirve que queramos hacer pensamiento europeo moderno con una lengua que
ni es europea ni es moderna? Mientras nos empeñamos en hacerle decir una cosa, ella se
empeña en hacernos decir otra, y así no decimos el pensamiento que pretendemos decir,
sino el pensamiento que no queremos decir, ése decimos.
Nos empeñamos – es decir, se empeñan muchos – en deformar su espíritu conforme a
un patrón de fuera, y no conseguimos ni hacernos como aquellos a quienes pretendemos
remedar ni ser nosotros mismos. De donde un hórrido mestizaje espiritual, casi un hibri-
dismo infecundo.
Y aquí viene lo más curioso y más sorprendente del caso, algo que se comprenderá
algún día, si es que llega aquel en que alguien se ocupe en investigar el estado espiritual
de nuestra España en el tránsito del siglo XIX al XX; y es lo más curioso y lo más sorpren-
dente que los que pasan por más españoles, por más castizos, por más a la antigua, por
más genuinos españoles, son los más europeizantes, los más descastados en el fondo de su
alma, los más exóticos; y, por el contrario, hay quienes pasando para muchos inocentes
por espíritus exóticos, anglicanizados, germanizados, afrancesados o anoruegados, son los
que tienen sus raíces más en contacto con las raíces de los que hicieron el alma española.
He observado con cuánta frecuencia una casticidad cortical, de formas exteriores grama-
ticales y retóricas, se acompaña del más profundo desarraigo en el alma patria, y todo lo
contrario. He conocido un solemne majadero, literato en un tiempo reputado, que leía
a nuestros místicos para aprender en ellos castellano y a bien escribir, y a quien no se le
pegó nada del alma ardiente de aquellos casticísimos espíritus, y conozco, por otra parte,
quien no habiéndolos leído, y no cuidándose ni poco ni mucho de seguir ni su tradición
literaria ni su ortodoxia religiosa, ha respirado en el ambiente espiritual de la patria el aire
de aquella mística que en ese ambiente se cierne.

51 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Y esa confusión, ¿en qué estriba? No lo sé, pero presumo que ha de estribar en la
misma causa que hace que las gentes se empeñen aquí en hacer un sabio de quien menos
tenga de ello y pidan lógica a un apasionado y arbitrario.
«Las gentes – me dice un amigo cuando de estas cosas le hablo – , las gentes quieren
y piden cosas, es decir, ideas concretas, conocimientos utilizables, nociones científicas,
noticias, explicaciones racionales, y no puede írseles con sentimientos y con ensueños». Y
al oír esto suelo pensar a primeras: ¡pobres gentes!; mas al punto me rehago y digo: tienen
razón en parte; está bien que pidan eso; pero ¿por qué tantos de ellos han de rechazar lo
otro?; y, sobre todo, ¿por qué no han de pedirle a cada uno lo que tiene y lo que puede dar?
Y aplicando esto a nuestro pueblo, ¿por qué nos hemos de empeñar en torcer nuestro
natural íntimo, y rechazar lo que él nos da para pretender forzarle a que nos dé otra cosa?
Nuestros defectos, los que llaman los demás nuestros defectos, suelen ser la raíz de
nuestras preeminencias; los que se nos moteja como nuestros vicios, el fundamento de
nuestras virtudes. Si el que, sintiéndose avaro, podría convertir esta su avaricia en espíritu
de ahorro y previsión, se deja llevar de la ética del pródigo, como no sabrá ser pródigo, se
arruinará malamente y sin provecho alguno; y, por igual modo, el que, sintiéndose pródi-
go, podría hacer de su vicio fuente de noble liberalidad, si se deja engañar de la ética del
avaro, se arruinará lo mismo y sin provecho. Y como en la ética, sucede, verbigracia, en la
estética, y como en los individuos, en los pueblos.
No es una estética universal, aplicable a los pueblos todos, una estética pura – pues que
tal estética no sé que exista, y acaso ni pueda existir – la que nos ha condenado, pongo por
caso, el conceptismo y el gongorismo, y la que ha declarado de mal gusto nuestro genuino
y natural énfasis. No es una estética universal, valedera para todos los pueblos, sino que
es la estética de otros pueblos, de otro más bien, del pueblo francés, la que ha impuesto a
muchos de nosotros ese canon. Los vicios literarios y artísticos de ese pueblo terriblemente
lógico, desesperadamente geométrico, cartesiano, no son, ciertamente, ni conceptismo ni
gongorismo, y ha logrado en gran parte, al tratar de enseñarnos sus virtudes, enseñarnos
sus vicios. Nada más insoportable que la literatura española afrancesada; nada más falso y
más vano y más desagradable que los escritores españoles formados en la imitación de la
literatura francesa.
¡Énfasis! ¿Y si el énfasis no es natural? ¿Si la expresión enfática es la expresión es-
pontánea de nuestro natural? ¿Si el énfasis es la forma de la pasión, así como eso que se
llama naturalidad es la expresión de la sensualidad y del buen juicio? Lo que yo sé es que
cuando un hombre se irrita de veras, o se entusiasma, no se expresa en frases bien ceñi-
das, claras, lógicas, trasparentes, sino que rompe en estrumpidos enfáticos, en ditirambos
hojarascosos. Lo que sé, y sabe todo el mundo, es que en las cartas de amor, de verdadero
amor, de amor trágico, del amor que no puede ser feliz, todo es un flujo de encendidos
52 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

lugares comunes.
He pensado muchas veces que el gongorismo y el conceptismo son, en cierto modo,
expresiones de pasión. Del conceptismo lo afirmo, desde luego arbitrariamente, por su-
puesto. Casi todos los grandes apasionados que conozco en la historia del pensamiento
humano, contando al gran africano de que hablé antes, han sido conceptistas, han vertido
sus ansias, sus anhelos, en antítesis, en paradojas, en frases que, a primera vista, parecen
no más que ingeniosas. Y acaso ello dependa de que la pasión es enemiga de la lógica, en
la que ve una tirana, pues la pasión quiere que sea lo que ella quiere, y no querer lo que
tiene que ser, y el conceptismo es, en el fondo, una violación de la ló- gica por la lógica
misma. Juega con los conceptos y violenta las ideas aquel a quien los conceptos y las ideas
le estorban, porque no puede hacer con ellos lo que su pasión le pide.
Yo necesito la inmortalidad de mi alma; la persistencia indefinida de mi conciencia
individual, la necesito; sin ella, sin la fe en ella, no puedo vivir, y la duda, la incredulidad
de haber de lograrla, me atormenta. Y como la necesito, mi pasión me lleva a afirmarla,
y a afirmarla arbitrariamente, y cuando intenta hacer creer a los demás en ella, hacerme
creer a mí mismo, violento la lógica y me sirvo de argumentos que llaman ingeniosos y
paradójicos los pobres hombres sin pasión que se resignan a disolverse un día del todo.
El apasionado, el arbitrario, es el único verdadero rebelde, y nada me hace mayor efecto
de grotesquez que el encontrarme con esos sujetos, afrancesados por lo común, que se dicen
emancipados de todas las tiranías, amantes de la libertad, espíritus fuertes, anarquistas a las
veces, ateos con frecuencia; pero fieles devotos de la lógica y del código del buen gusto. Leen
a Moratín y se jactan de ser hombres de sentido común. ¡Buena pro les haga!
Sí; el énfasis, la hinchazón, el conceptismo, el paradojismo, son el lenguaje de la pa-
sión, y, en cambio, nada menos natural, para nosotros los españoles por lo menos, que
eso que llaman naturel los franceses, y que suele ser producto refinado de una exquisita y
artificiosa elaboración.
No sé qué francés ha dicho que la literatura francesa es la que expresa elocuentemente
los grandes lugares comunes humanos; pero lo que yo diría es que en esa literatura, que tan-
tos estragos ha hecho y sigue haciendo en España, se expresan y hallan su forma adecuada
todos los sentimientos medios y todas las ideas medias, y no caben bien en ella ni las ideas
ni los sentimientos extremos. Es una literatura sensual y lógica, y, por lo tanto, luminosa
y alegre. Y nosotros los españoles somos, en general, más apasionados que sensuales y más
arbitrarios que lógicos. Lo somos, y debemos seguir siéndolo. Es decir, debemos volver a
serlo, porque acaso no lo somos tanto, ni mucho menos, como en otros tiempos lo fuimos.
Observad que el espíritu francés no ha dado ningún gran místico, ningún verdadero
gran místico puro. En Pascal, aunque un poco arbitrario y apasionado, la geometría había
dejado profunda huella. Y cuenta que es Pascal uno de los espíritus franceses que mejor po-

53 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


demos apropiarnos, ese profundísimo espíritu atormentado que nos enseñó, entre otras, dos
grandes, dos profundas, dos atormentadoras arbitrariedades: la del pari o apuesta, y aquella
otra de il faut s’abêtir, «hay que embrutecerse», empezando, para creer, por obrar como si se
creyese. Pero un gran místico, un verdadero místico puro, no lo conozco francés. Y aquí de
buena gana diría algo del dulce, reposado, sensual y ló- gico San Francisco de Sales, tan lleno
de sentido común y de medianía espiritual; pero vale más dejarlo para otra ocasión.
Y es la estética de este pueblo, tan opuesto al nuestro, pese a todas esas monsergas de la
hermandad latina – no sé que ellos sean latinos, no sé que nosotros lo seamos, y en cuanto
a mí, personalmente, creo no tener nada de latino – ; es la estética de ese pueblo la que
están deformando nuestra producción en no pocos de nuestros productores espirituales.
¡Latinos! ¿Latinos? ¿Y por qué, si somos berberiscos, no hemos de sentirnos y procla-
marnos tales, y cuando de cantar nuestras penas y nuestros consuelos se trate, cantarlos
conforme a la estética berberisca?
El único modo de relacionarse en vivo con otro es el modo agresivo; sólo llegan a una
verdadera compenetración mutua, a una hermandad espiritual, aquellos que tratan de
subyugarse espiritualmente unos a otros, sean individuos, sean pueblos. Sólo cuando trato
de meter mi espíritu en el espíritu de un prójimo mío es cuando recibo en el mío el espíritu
de este mi prójimo. La bendición del apóstol es que recibe en sí las almas de todos aquellos
a quien apostoliza; esto es lo noble del proselitismo.
No; nada, nada de dejar hacer y dejar pasar; nada de encojerse de hombros ante las
ideas de los demás, y menos ante sus sentimientos, sino tratar de herirlos. Así, y sólo así,
nos herirán ellos en los nuestros y nos los mantendrán despiertos. De mí sé decir que a
quienes debo más es a los que han hecho como que rechazaban, a los que han querido re-
chazar lo que yo les ofrecía. La honda vida moral es una vida de agresión y de penetración
mutua. Cada cual debe procurar hacer a los demás a su imagen y semejanza, como dicen
que a su imagen y semejanza nos hizo Dios.
La condenación del que trata de moldearse por otro es que dejará de ser él mismo para
no llegar a ser el otro a quien toma por modelo, y así no será nadie.
Algo, algos, mucho hay, sin duda, en la cultura europea moderna y en el espíritu
moderno europeo que nos conviene recibir en nosotros para convertirlo en nuestra carne,
como recibimos en el cuerpo la carne de diversos animales y la convertimos en nuestra
carne. Con sesos de buey enciendo mi seso, con lomos de cerdo hago latir mi corazón, con
peces y con aves mantengo a mi carne para que mi espíritu pueda bajar a los profundos
y nadar en ellos, y remontarse a las alturas y en ellas volar. ¿Y no hemos de comernos el
espíritu europeo moderno? Sí; pero a esos bueyes, cerdos, peces y aves de que nos alimen-
tamos los matamos antes, imponiéndoles nuestro dominio, y a ese espíritu hemos de tratar
de matarlo antes de comérnoslo.
54 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Tengo la profunda convicción, por arbitraria que sea – tanto más profunda cuanto
más arbitraria, pues así pasa con las verdades de fe – , tengo la profunda convicción de que
la verdadera y honda europeización de España, es decir, nuestra digestión de aquella parte
de espíritu europeo que pueda hacerse espíritu nuestro, no empezará hasta que no trate-
mos de imponernos en el orden espiritual a Europa, de hacerles tragar lo nuestro, lo ge-
nuinamente nuestro, a cambio de lo suyo, hasta que no tratemos de españolizar a Europa.
Y hoy, vergüenza y desmayo causa el decirlo, cuando a un español le pasa por las
mientes entrar en Europa, es decir, tratándose de literatos ser traducido, de lo que se cuida
es de deformarse, de desespañolizarse, de no dejar a quien haya de traducirle más trabajo
que el de traducir la letra, el lenguaje externo. Y así se oyen cosas como aquello que un
francés me dijo, hablándome de una traducción de una novela española contemporánea,
y afirmándome que estaba en francés mejor que en español, y es que me dijo esto: la han
devuelto a su lengua original.
Cada poder humano tiene su método; es decir, su procedimiento, su modo de condu-
cirse. Lo que llamamos lógica es el método de la razón, el modo de buscar conclusiones
que a la razón satisfagan. Así se hace la ciencia. Pero, cuando ni se trata de hablar a la razón
ni de satisfacerla, no hace falta la lógica. Y, por mi parte, raras veces, muy raras veces, me
dirijo a la razón de los que me oyen o me leen, y esas veces no soy yo propiamente quien les
hablo o les escribo, sino es un sujeto postizo, y por postizo, quitadizo, que me han echado
encima los que me oyen o me leen.
Se ha dicho que el corazón tiene su lógica; pero es peligroso llamarle lógica al método
del corazón; sería mejor llamarle cardíaca.
Y hay también el método de la pasión, que es la arbitrariedad, a la cual no hay que
confundirla con el capricho, como con frecuencia ocurre. Una cosa es ser caprichoso, y
otra, muy distinta, ser arbitrario.
La arbitrariedad, la afirmación cortante porque sí, porque lo quiero, porque lo nece-
sito, la creación de nuestra verdad vital – verdad es lo que nos hace vivir – , es el método
de la pasión. La pasión afirma, y la prueba de su afirmación estriba en la fuerza con que es
afirmada. No necesita otras pruebas. Cuando algún pobre intelectual, algún europeo mo-
derno, me viene con raciocinios y argumentos en oposición a alguna de mis afirmaciones,
me digo: ¡razones, razones y nada más que razones!
«Aquí – diréis – nada se prueba».
No fue español, aunque por ello merecía haberlo sido, sino inglés, el que escribió estos
perdurables versos:
For nothing worthy proving can be proven
Nor yet disproven: wherefore thou be wise,
Cleave ever to the sunnier side of doubt,

55 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


And cling to Faith beyond the forms of Faith!
Fue Lord Tennyson, en El antiguo sabio (The Ancient Sage), el que dijo eso que, puesto
en castellano – lengua en que debió haberse dicho primero tal cosa – dice: «Nada digno de
ser probado puede aprobarse ni desaprobarse, y, por lo tanto, sé prudente y, ateniéndote
siempre a la parte más soleada de la duda, agárrate a la fe más allá de las formas de la fe!».
Estos preñados versos nos dio Lord Tennyson en aquella misma poesía en que nos
dijo que el conocimiento knowledge, es decir, la ciencia, es un sauce a la orilla de un lago,
que ve y agita la sombra superficial en él, pero nunca se ha sumergido en el abismo. Sean,
pues, aquí mis últimas palabras, mientras me preparo a pensar cómo pueda españolizarse a
Europa, que nada digno de ser probado puede ni probarse ni desaprobarse.

Diciembre de 1906
Nós, a Espanha, a Europa

Eduardo Lourenço

A Espanha e nós34

O estrangeiro pode amar-nos ou odiar-nos: não pode ser-nos indiferente. A Espanha


provocou entusiasmos ou rancores: jamais foi encarada com desprezo ou ironia.
Oliveira Martins, História da Civilização Ibérica

É provável que os futuros cronistas do nosso século de desastres, utopias e metamor-

57 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


foses, retenham a ascensão da Espanha ao primeiro plano das nações europeias, como um
dos grandes milagres deste fim de século. Em 1992 o que é hoje uma hipótese quase con-
firmada adquirirá então plena ressonância universal. Com a próxima festa de Colombo,
três séculos de marginalização (e auto-marginalização) histórica, política e até cultural de
Espanha deixarão de vez de ser aquele espinho da consciência espanhola que ainda no
tempo da Geração de 98 so lhe deixava como saída a oscilação agónica entre o orgulho
e o ressentimento. As famosas «duas Espanhas» de Machado diluir-se-ão numa só, capaz
de conviver pacificamente com as suas próprias diferenças e com essa Europa para quem
sempre olhou com uma mistura estranha de desdém e fascínio. Em menos de cem anos as
visões, na aparência inconciliáveis, de Unamuno e Ortega, hiperespanholista e antieuro-
peia a do primeiro, espanhola e europeísta a do segundo, deixaram de ser irmãs-inimigas
para serem apenas expressão histórica de uma Espanha que, praticamente, já não existe.
Todavia, na óptica desse antagonismo arcaico, em última análise, é a visão não ressentida

Eduardo Lourenço, 1988, “A Espanha e Nós”, Nós e A Europa ou As Duas Razões, Lisboa, Imprensa
34

Nacional-Casa da Moeda, pp.: 79-85.


do “grande europeu”, que foi o autor da Rebelião das Massas que acabou por triunfar.
A nova Espanha é, finalmente, democrática, sobre o plano formal, mas capital, da políti-
ca, e optimista, no plano mais decisivo do seu confronto com todos os desafios culturais,
técnicos e científicos do nosso fim de século.
Seria ingénuo supor que os antigos “demónios” da sociedade espanhola desapareceram
como por magia. O que é novo é que todos os “desejos” desse povo, de uma violência e
de uma vitalidade míticas, estão hoje na praça pública, coabitam, confrontam-se, alimen-
tam-se das suas próprias contradições, sem que o resultado seja o do “sangue e sol” do seu
espectáculo favorito. Por esta nova “pax hispânica” poucos povos terão pago um preço tão
alto. O drama basco não é senão o último sobressalto de uma história convulsiva que pa-
rece ter encontrado o seu ritmo de cruzeiro. A maneira como a Espanha democrática tem
vivido esse drama, a dominar tentações para não as deixar degenerar em tragédia, é apenas
um dos índices da metamorfose profunda da sociedade espanhola e a expressão de uma
nova consciência reconciliada consigo mesma.
Margem da Europa depois de ter sido senhora e responsável pelo seu centro convulso
e caótico, espaço de uma verdade” que Pascal suspeitava ser apenas a da ilusão ou do erro,
Espanha, mesmo na sua fantasmal e realíssima decadência dourada, teve sempre o condão
de fascinar o restante mundo. Um pouco como a Rússia, de Pedro e de Catarina, até aos
dias de hoje. Mas esse fascínio era um pouco mórbido, quase sempre o fascínio do diferen-
te, quando não do exótico, em que se talham os ícones, aliás admiráveis, das “Carmen” e
das “Maria”, de Merimée a Hemingway. É certo que a Espanha nunca deixou de exprimir
essa “diferença” em termos ostentatórios. A esse título se unem umas às outras figuras
58 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

tão distintas como Rodrigo Calderon, Inácio de Loyola, Teresa de Jesus, El Greco, Goya,
Buñuel ou Picasso, incorporações sucessivas do seu evidente agonismo, do seu gosto e
da sua paixão pelo que é extremo. Nos seus grandes indivíduos, que o são não o sendo à
maneira europeia, o povo espanhol é um dos raros povos da terra, se não o único – que é
sujeito da sua própria História. Este traço cultural, que ninguém exemplificou e “teorizou”
melhor do que Unamuno, não desapareceu da cena espanhola. Seria uma tristeza sem
nome que essa vocação para o “incomparável”, única na Europa, essa nota individualista,
mesmo no domínio que menos a consente, como o religioso, soçobrasse no caos resplande-
cente de uma “novidade” suscitada por atrasado mimetismo de culturas que não possuem
a espessura da que criou D. Quixote. Porventura custa sempre caro, para uma sociedade
no seu conjunto, estar como que condenada a suscitar “génios” que, além da excepção que
constituem, exprimem mais a sua “doença” colectiva do que uma certa mediania existen-
cial. Tudo se passou sempre com a cultura espanhola como se ela estivesse disposta a pagar
esse preço. E, quando o não está, desaparece do horizonte, ou conhece misteriosos eclipses.
De qualquer modo, foi sempre o que nela houve – ou há – de excessivo que a instituiu,
mesmo aos olhos de outras culturas dispostas a escandalizar-se ou a ironizar acerca desse
excesso, como uma das poucas culturas míticas do Ocidente.
Cultura agonicamente diferente – mais do que cultura da diferença, como outras –,
a cultura espanhola foi sempre vivida pelo resto da Europa como um fenómeno incon-
tornável, de permanente ambiguidade. Por sua vez, a Espanha especializou-se – ao menos
em certas épocas – em viver a sua relação com o “outro” como uma espécie de “mal neces-
sário”, ou de remédio, não menos necessário, para se salvar dos seus próprios fantasmas.
É por isso que o diálogo dessa Europa com a nova Espanha importa tanto à definição
cultural da sociedade espanhola, como ao destino da cultura europeia no seu conjunto.
Pela primeira vez, desde o século XVI (e ainda parte do XVII) existem as condições de
um diálogo intenso intra-europeu e como componente capital dele, a novidade de um
convívio partilhado e partilhável entre a pátria de Cervantes e de Goya e a outra Europa.
Estranhamente, o pequeno país seu vizinho, o nosso, de portugueses, pensa-se ou
vive-se por dentro, como fazendo mais parte dessa “outra” Europa do que do todo penin-
sular, marginalmente europeu, que a Península tem sido. Seria excessivo dizer que somos
“Europa outra” mas na nossa relação com a Espanha algo disso aflora. Mas chegou o
tempo de repensar a mitologia e o discurso onírico das nossas relações de estranheza, pois
talvez os actores dela estejam sofrendo neste momento uma metamorfose radical. Talvez
ninguém possa medir melhor do que nós, portugueses, o que representa, na labiríntica
história cultural da Europa, esta emergência espectacular da Espanha como nação de refe-
rência em todos os planos e, em particular, no da Cultura, onde, até há pouco, a víamos,
também, como subcultura” em relação ao espaço hegemónico europeu.

59 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Pressentindo, ou tendo uma ideia exacta dessa “promoção”, o reflexo clássico de pâni-
co ou de ressentimento, quer nos planos económico e político, quer no cultural, encon-
trou já, entre nós, algumas expressões. Por mais compreensível que possa parecer, quase
mero reflexo condicionado que se tornou ao longo dos séculos no puro plano político,
esse reflexo seria sempre lamentável. Lamentável, grotesco e vão. Seria a confissão pública
da nossa insignificância histórica e cultural se nos ofuscássemos com uma irradiação da
Espanha em novos moldes, tocando, como é natural que toque, a sua partitura no grande
concerto europeu. Os nossos destinos foram sempre, ou paralelos ou cruzados, nunca
opostos enquanto culturas, pois, como o viu com nitidez Oliveira Martins, fazemos parte
de uma única estrutura, criada séculos antes que os povos que constituem a Península se
definissem como nação. E nunca a nossa cultura foi mais criativa e mais “nossa” do que
na época em que ela era diálogo interno dos centros e das impulsões culturais diversas da
Península, por sua vez imersa na mais vasta trama de uma cristandade orgânica.
Nos termos em que se tem expressado, o antiespanholismo é a doença infantil do
nosso nacionalismo que está já longe de ser o radical amor sem complexos de nós mesmos.
Nada há que justifique a evocação do fantasma “iberista” do século XIX, fantasma con-
sistente que existia até em gente lúcida, que nos conhecia e nos “amava de mais”. Como
solução de desespero, à Antero, fuga à nossa então exacerbada consciência de subalterni-
dade cultural, o fantasma é ainda menos consistente. A nova Espanha é uma Espanha das
“diferenças”, possível apenas porque, do exterior, uma nova forma de auto-identificação
consente que a sua estrutural “invertebralidade” possa ser assumida. Portugal é um espaço
histórico cultural sem “diferenças”, por oposição a um fantasmático “todo” ibérico cons-
tituído por diferenças” de signo diverso da nossa por não serem nações como nós somos.
No espaço europeu onde sempre estivemos, como a Espanha, que em tempos nos tutelou,
tocaremos também a nossa partitura, mas é puro delírio imaginar que contará com a
mesma audiência, a mesma presença ofuscante que a cultura espanhola, até em épocas de
decadência política, teve sempre aos olhos e ouvidos da Europa.
A nossa reacção ao “espectáculo” que a Espanha, de maneira hábil, concertada, “oficial”
está disposta e é capaz de fornecer à Europa – ou que ela é já para a outra Europa – não
pode, nem deve ter o perfil negativo, histerizante, do habitual reflexo ultranacionalista,
reaccionário no plano político e ideológico e caricato no plano cultural. A única resposta
sensata e criativa ao desafio que o dinamismo cultural espanhol (no sentido mais lato) pode
representar para nós é a de o tomar como ocasião para um diálogo mais sério e mais pro-
fundo com a cultura vizinha, como foi o caso outrora. O melhor que nos pode acontecer
é ver nela um estímulo para elevar esse diálogo a uma espécie de “habitus” interpeninsular,
como se fossemos tábuas de um imenso painel, transposição apenas metafórica da primeira
imagem universal que em conjunto, outrora, elaborámos. Em vez de espaço de repulsa, a
60 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Espanha, esta nova e dinâmica Espanha, deve ser para nós um espaço privilegiado, natural-
mente apto e aberto não só para ler hoje Pessoa como nós líamos ontem Lorca ou Machado, a
título de excepção, mas para compreender os nossos jovens criadores em todos os domínios
como nós devemos compreender os jovens ou menos jovens autores espanhóis. Brandir
Gamas contra Colombos, solidificar um presente vivo em torno de polarizações míticas
sem sentido, é uma provinciana e absurda perspectiva. Até porque é fácil manipular o nosso
óbvio benfiquismo patriótico para iludir o sempre carenciado seio lusíada.
A grande questão cultural que temos hoje – embora em termos diversos e até, na apa-
rência, opostos aos de outros – não é com o outro em geral, e o espanhol, o francês ou o
americano em particular. A grande questão, para lembrar um dos poetas mais lúcidos do
seu tempo, é connosco mesmos enquanto sujeitos e actores de uma Cultura que no seu
espaço natural de irradiação – o que fala efectiva ou possível em língua portuguesa – não
alcançou nunca aquela visibilidade e presença que a cultura espanhola ostenta. São essa
visibilidade e presença de Espanha que permite ainda hoje ao seu Rei passear como em
casa, não apenas na “sua” (dele) América Latina, mas no hispânico espaço linguístico do
próprio Tio Sam. Justa reparação do destino para quem tão humilhada foi há um século
por um imperialismo mais jovem do que o seu. Mas mais natural reconhecimento de um
povo por conta de quem Colombo descobrindo-a inventou a América.
Natural e gloriosamente imersos na recordação dos nossos altos feitos, a aventura de
Colombo ocupa um lugar secundário na nossa memória cultural. Num dos seus poemas
menos felizes, Pessoa faz-se eco desse curioso recalcamento. Os “Colombos” são para ele
aqueles que acharam o que nos desdenhámos. Pouco importa aqui a “verdade-Colombo”.
Como mito não apenas espanhol, mas universal, tal como Claudel o celebrou, Colombo
adequa-se mais à figura daqueles a quem toca
a Magia que evoca
O Longe e faz d’elle história
“Emprestada” ou não, é a sua glória que a Espanha, a América e o mundo celebrarão
daqui a seis anos, convictos como os cronistas do século XVI que a sua aventura “é o mais
importante acontecimento da História desde a Encarnação de Jesus Cristo”. Nas celebrações,
o celebrado é um pretexto para o celebrante. É bom que nós, portugueses compreendamos
de uma vez para sempre que não é apenas nem essencialmente Colombo, o mais ditoso dos
homens do Destino, que servirá de pretexto à Espanha para orquestrar a sua fabulosa festa.
O que a Espanha vai celebrar tem menos a ver com o passado do que com o presente.
A Espanha vai comemorar, festejar o seu aggiornamento, recuperar em termos do século XXI a
sua imagem perdida ou diminuída. Esse acontecimento não é apenas espanhol. Todo o mundo
hispânico, a outra América estão envoltos nas consequências do achado de Colombo, em si,
uma peripécia de perfil anómalo no interior da empresa dos Descobrimentos. No fundo, por

61 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


ser de tanta gente, a glória de Colombo não é de ninguém, como a verdadeira glória. O que é
estranho é que nós – e só nós – a vivamos como amuados dela, à maneira de Pessoa, como se
nele o Destino nos tivesse traído. Quando seremos historiograficamente adultos?
Ao contrário de Bolívar – que por amargura o pensou – a Espanha não lavrou o mar.
Nenhuma das nações saídas das suas mãos ou por ela modeladas com feroz energia é maior
do que ela, sobretudo, culturalmente. Espanha não é um povo que se possa esquecer ou se
deixar esquecer. O nosso caso foi – é – um pouco diferente. Por natural fragilidade nossa,
em parte, por uma boa dose de incúria, também. Mas, no fundo, por nos termos literal-
mente fundido, em espaços, sonhos maiores do que nós, espaços ou sonhos descentrados
do seu sujeito criador. Dos dois países, outrora rivais, o mais quixotesco não é aquele que é
o berço do Herói, mas o nosso. É por isso que é tão difícil aceitar o nosso tamanho natural,
ter o sentido das proporções e cumprir dentro da nossa esfera possível o paradoxal destino
de nos ajustar a tão desmedida imagem de nós mesmos.
Nos próximos anos, confessando-o ou não, vamos polarizar-nos, culturalmente, numa
espécie de competição imaginária com Espanha, comemorando os nossos altos feitos
marítimos, mas como certos índices o deixam já prever, na perspectiva de quem só tivesse
emprego no passado. Lá para o fim do século “obrigaremos” o Brasil a associar-se a um
desafio mítico que não tem para ele nenhum dos sentidos que estamos habituados a dar-
-lhe. O “discurso comemorante” já em marcha é de um anacronismo vertiginoso. Não sei
se será possível recuperá-lo, convertê-lo em festa do presente e, sobretudo, do futuro. Se o
não for será uma grande ocasião perdida. Toda a óptica desse discurso, todo o seu enqua-
dramento institucional deviam ser revistos, subtraídos de raiz ao neochauvinismo que está
invadindo – em plumas imprevistas – a atmosfera mental do País, como nos mais oníricos
momentos do Antigo Regime. Como é possível evocar a mais ecuménica gesta em função
de um historicismo fascinado pelo particularismo consciente ou inconscientemente res-
sentido? Aquilo que portugueses e espanhóis (e catalães e italianos e alemães...) fizeram,
modificou a face do mundo. O lógico seria imaginar uma festa comum, não apenas nem
principalmente por conta dessa hora solar, mas do nosso presente de todos na medida em
que tem a ver ainda e sempre com essa hora.
Colombo? Dias? Gama? Cabral? Óptimo. Se calhar, acaso o maior de todos, o mais
solitário, aquele que não pôde realizar o seu sonho dentro de casa, por tão desmedido, não
será celebrado, nem cá, nem lá. Camões já lhe compôs o epitáfio. Chamou-lhe até desleal,
embora português no feito. Não sei quem foi o astrónomo que baptizou uma constelação
com o nome de Magalhães – convertido assim em emigrante astral – e assim reparou com
acréscimos o erro e a fortuna adversa. Que se saiba é o único português cujo nome está
inscrito na esfera celeste. Bem o merece. Sonhou o mais louco e o mais realista dos sonhos.
Foi o primeiro homem a saber com a sola dos pés que a Terra era redonda. Que o começo
62 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

e o fim da nossa viagem peninsular coincidiam e o mundo era um só. Já é tempo de o


reconhecer e proceder em tudo como se o soubéssemos. Que mais ecuménica e fraterna
revelação?
Fantasmagoria Europeia: Nós e a nova Espanha35

De repente, Portugal descobriu Espanha. Podia ser uma excelente ocasião para se desco-
brir a si mesmo como naturalmente “hispânico”, mas os sinais apontam para outra tentação.
Ou antes, para o secular hábito que a nossa classe dirigente sempre teve de poder em paz
consumir sem sobressaltos a magra herança do nosso exíguo jardim. Chama-se a isto patrio-
tismo, nacionalismo, amor natural de preferência pelo que é nosso ou nós somos. Mas as
proporções que o fenómeno está tomando, o pânico real, imaginário e, sobretudo, cultivado,
que a nova Espanha começa a inspirar entre os guardiães desse nacionalismo, merece mais do
que esta simples alusão irónica. Protegido pela Europa de uma eventual absorção – fantas-
ma que, a sério, só durante os anos após a Restauração leva alguma consistência – Portugal
acordou de súbito com o sentimento kafkiano de ter dormido, sem dar-se conta, durante
três séculos, lado a lado, com a avó do Capuchinho Vermelho. Este pânico é uma aberração
e não é por acaso que está sendo encenado neste momento pelos herdeiros de tudo quanto
há de mais reaccionário no plano político e ignaro no plano da cultura. E como se isso não
bastasse, esses cavaleiros andantes da lusitanidade em transe patriótico ignoram que um tal
reflexo é a expressão crua da falta de confiança nas capacidades históricas do país real que jul-
gam promover mobilizando o que há sempre de infantil no chamado sentimento nacional.
Este surto do ultranacionalismo, de puro recorte ideológico e demagógico, surge pre-
cisamente no momento em que a Espanha também nos descobre, não apenas como espaço
(pequeno) de investimento económico, mas como espaço cultural digno de atenção e até

63 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


fascínio. É caso para lembrar o nosso saboroso provérbio: “preso por ter cão e preso por
não o ter”. Durante anos foi uma lamúria permanente, um queixume pelo desconheci-
mento mais ou menos voluntário a que a nobre Espanha nos votava. Agora que os nossos
autores começam a circular na casa vizinha como se fosse própria e às vezes até com mais
sucesso (Pessoa tem hoje mais leitura em Espanha do que em Portugal), surge o temor
diante de tão ecuménica capacidade de nos amar em excesso para nos devorar. Na verdade,
o que devíamos lamentar é o facto de que o conhecimento de Portugal por Espanha, hoje
em fase realmente nova e não apenas retórica, deixe ainda a desejar. Mas como queixarmo-
-nos, sabendo, como sabemos, que o nosso desconhecimento de Espanha é abissal?
As expressões folclóricas que neste momento, da maneira mais artificial, ressuscitam
o anticastelhanismo da época em que Portugal e Castela efectivamente buscaram mutua-
mente hegemonizar-se, é uma aberração, mas é também um sintoma. Dilucidar o sintoma
é mais interessante e mais urgente que tomar a sério o reflexo do pânico absurdo diante de
35
LOURENÇO, Eduardo, “Fantasmagoria Europeia: Nós e a Nova Espanha” (1990/12/4), A Europa
Desencantada – Para uma Mitologia Europeia, Lisboa, Visão, 1994: 83-86.
Espanha. Como se explica que na “hora da Europa” uma certa fracção da classe dirigente –
a mais ligada por atavismo e interesses ao antigo modelo nacional-conservador – descubra
na “cruzada” antiespanhola uma mina de diversão e de potenciais votos? O que seria de
esperar era uma vaga, mais ou menos intensa, de antieuropeísmo como resposta impoten-
te, mas também potencialmente mobilizadora face a uma “nova ordem europeia”, na qual
temos dificuldade em nos ver como protagonistas. Sem falar da distância secular e do não
menos intenso ressentimento (e ufania) de peninsulares diante da outra Europa, mais rica,
mais poderosa e mais tecnicamente evoluída. Na verdade, a amplitude que tomou este fan-
tasmático antiespanholismo é realmente um subproduto de um mais sentido e profundo
reflexo antieuropeu. A Espanha é só “a Europa” que temos – que têm os manipuladores do
sentido nacional – mais perto, uma Espanha mais “europeizada” do que nós alguma vez
podíamos supor, nós portugueses que contraditoriamente sempre gostamos de nos imagi-
nar, em oposição aos espanhóis e, em geral, ao mesmo tempo “marginais” e “cosmopoli-
tas”. De repente descobrimos que o nosso eterno Paris ou a lendária Londres dos séculos
XIX e metade do XX, podiam ser Madrid ou Barcelona... A indolente, a mágica Lisboa
que Pessoa adorava por acordar mais tarde que as outras capitais (tão espanhola nisso
afinal) estremeceu. Estremeceram nela os nossos protegidos yuppies habituados a reger as
suas sinecuras depois das onze horas quando a noctívaga Espanha há muito acertou os seus
relógios pela hora tirânica, mas por enquanto fatal, da fatal Europa. Como reagir diante
de tão inabitual ofensa aos nossos deliciosos, ronceiros modos de gerir a nossa vida caseira,
como diria Eça de Queirós? Vir para a praça pública, alertar as boas almas, gritar que nos
roubaram, que nos roubam aquela mágica substância do nosso ser nacional, essa cultura
64 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

que nunca interessou minimamente os novos histriões do ultranacionalismo? E para maior


êxito, imaginam ou inventam uma ameaça irreal – precisamente no plano da Cultura, onde
só as nossas carências ou impotências nos são inimigas – da parte de uma Espanha que tem
mais em que empregar a sua energia. Em operações financeiras, industriais, económicas
com sentido largo, por exemplo, em suma, acções de lógica imparável dentro de um con-
senso liberal europeu, que é a bíblia desses mesmos arautos do ultranacionalismo cultural.
Negócios, negócios, cultura à parte, pensam esses sublimes defensores da cultura nacional,
mais fácil de defender em palavras que os interesses e o património económico-nacionais
de que conhecem a expressão reduzida e a vulnerabilidade. Na impossibilidade de reforçar
o tecido económico-nacional, e ainda menos de designar “o inimigo” nessa ordem de rea-
lidades ou, na sua ausência, “o amigo” que ajude a consolidar, numa perspectiva nacional,
as nossas estruturas produtivas, proclama-se a cultura amcaçada, a identidade nacional em
vias de dissolução. E ressuscita-se um “antiespanholismo” de pura ficção.
Nestes termos anacrónicos que nem o antigo regime cultivou, este surto “chauvinista”
é burlesco e sem objecto. Este fenómeno tem lugar no mesmo país onde nunca as criações
culturais, precisamente, haviam conhecido tanta visibilidade, tanto reconhecimento e
sucesso na Europa, como hoje. A começar pela Espanha, onde nomes como Saramago,
Vergílio Ferreira, Eugénio de Andrade, Lídia Jorge, Lobo Antunes, Cardoso Pires são co-
nhecidos do grande público cultivado. Pela primeira vez, desde os tempos abençoados de
Garcilaso e Camões, Luís de León e Cervantes, há entre as nossas duas culturas qualquer
coisa que se assemelha a um diálogo inter pares. Desta presença no “mundo” os mesmos
chauvinistas são os primeiros a ressentir a patriótica ressonância e, sempre que calha, a
dourar com ela a lapela estéril do Poder que é só poder.
A cultura de um país vive da permanente revisitação do seu fundo imemorial, dos
seus arquivos imaginários, sem precisar de inventar guerras de ficção para se mobilizar.
A folclorização oficial ou oficiosa dos actores sem palco do ultranacionalismo nada tem
que ver com esse diálogo com o imemorial de nós mesmos. É a sua macaqueação inócua.
Esperemos que passe.
Roma, 4 de Dezembro de 1990

65 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


A Península como problema Europeu36

No livro Nós e a Europa já tive ocasião de abordar tangencialmente a questão da


“Península como problema europeu”, mas aqui desejaria enfocá-la de outra maneira, em
função da totalidade peninsular. Quer dizer, não como o historial da nossa relação comple-
xa com a Europa – a título de portugueses, a título de espanhóis, na sua diversidade de cas-
telhanos, catalães, bascos, etc. – mas como a península no seu relacionamento global com
essa Europa. É uma hipótese de trabalho que pode ser discutida mesmo como hipótese.
É sabido que Michelet resumiu a Inglaterra com um pleonasmo provocante: “a Inglaterra
é uma ilha”. Queria ele dizer que, tendo-se isso em consideração, tudo o mais era mera conse-
quência. A nossa península não é obviamente uma ilha, todavia uma certa perfeição das suas
formas, as que condicionam a nossa imagem dela, faz com que esta imensa península europeia
– o seu ponto extremo da Europa – sugiram uma configuração de ilha sobretudo quando ela
está completa. Quer dizer, quando não é aquela representação que vem nos mapas meteoro-
lógicos da nossa península em que Portugal ou é um espaço, quase virtual, onde não chove,
não correm rios para o Atlântico, ou então aquela outra imagem pura e simplesmente onde a
Espanha se representa a si mesma como aquela famosa pele de touro célebre. Aí, sem o nosso
rectângulo nessa altura temos a impressão de ter caído no Atlântico. Mas quando olhamos o
mapa da Europa e verificamos o que é essa Península, o que nos fascina, o que nos impressiona,
é a sua totalidade, a sua imagem perfeita que se podia imaginar que fosse realmente uma ilha.
Talvez por isso, o mais célebre dos nossos romancistas não fez mais do que ceder à
66 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

inspiração da geografia imaginando a nossa península como uma ilha e pondo-a a derivar
no Atlântico em direcção ao Sul. Com isso, José Saramago sugeria que a península não era
europeia ou que ele talvez não desejava que o fosse. Essa extravagante e original ficção é um
discurso acerca da península (não apenas nem sobretudo de ordem geográfica) suspenso pelo
fio de um certo complexo de ressentimento do que somos ou nos sentimos como peninsu-
lares em relação à Europa mas é igualmente uma reivindicação da nossa autonomia ibérica.
É o que eu nesse livro Nós e a Europa designei como dupla postulação em relação à
Europa: ressentimento e fascínio. No tempo em que nós, peninsulares, tínhamos o senti-
mento de não sermos vistos ou aceites como europeus de primeira, esse reflexo ou sentimen-
to de diferença e de uma certa excentricidade em relação à Europa tinha a sua explicação,
embora não a sua justificação. Isso sucedeu quando a Península entrou no que chamamos
a idade barroca separando-se histórica, e sobretudo simbolicamente, de uma Europa que
36
Intervenção no Colóquio “A Ibéria no Contexto Europeu”, Guarda, 26/11/2001, in Revista Iberografias,
nº 1 (2005). Guarda: Centro de Estudos Ibéricos. Republicado em: Vida Partilhada. Eduardo Lourenço, o
CEI e a Cooperação Cultural. CEI-Ancora, Coleção Iberografias Nº 21, pp. 61-67.
entrava plenamente na era burguesa, que tinha no protestantismo a sua tradução ideoló-
gica e, mais do que tudo, por complexas razões, começava a criar entre a prática científica
além-Pirinéus e aquém-Pirinéus uma distância que tanto nos faria sofrer e tão graves conse-
quências geraria, e que ainda hoje, pelo menos no que diz respeito a Portugal, são visíveis.
Começava então a problematizar-se a nossa relação com a Europa e essa Europa a pro-
blematizar a Península. Na verdade, quando tomámos maior consciência dessa Europa, já
então a duas velocidades, não era tanto a Europa que se constituía num problema para a
península, mas a península que era problematizada por essa Europa.
Hoje percebemos melhor que aquilo que mais tarde se transformou num tópico de que
a península era uma civilização, uma cultura em processo de decadência, quer dizer, em vias
de se afastar do paradigma clássico da modernidade, tinha pouco a ver com o olhar que a
Europa da revolução científica, económica e depois política e ideológica era ou considerava
a península. Era sobretudo o nosso próprio olhar de antigos e naturais actores de história da
Europa do séc. xv e do séc. xvi, conscientes de ter saído dos seus respectivos esplendores. Foi
só bem tarde que um certo discurso das luzes, já nos finais do séc. xviii nos começou a habi-
tuar à ideia e a insistir no nosso famoso atraso e a dar-nos conselhos para que o resolvêssemos.
No séc. xvii – no famoso século do Génio, o de Decartes, Pascal, Leibniz e Newton
– mas, sobretudo, no das sociedades científicas que começavam a marcar a paisagem cul-
tural europeia através das quais a ideia e o sentido de progresso entrava na história, – nin-
guém considerava as pátrias de Cervantes, de Lope, de Calderón, de Gracian, de Francisco
Manuel de Melo como uma ilha em vias de se separar culturalmente da Europa. O século
de Luís XIV não tem leitura sem a osmose profunda entre a cultura peninsular – então no

67 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


seu esplendor – e os seus Corneille, os seus Racine, os seus Mollière; e bastava Cervantes
para que não estivéssemos separados, como depois nos julgámos, da Europa mais vanguar-
dista. A Cultura Europeia caminha, como caminhou sempre, a ritmos diferentes e o que
era novo era essa tendência a afastar-se da aventura moderna por excelência, aquela que
obras como Daniel Deföe ilustraram, mas que vendo bem, provavelmente não existiriam
se antes dele um homem, o autor de D. Quixote não tivesse existido e lançado a Europa
no caminho das suas próprias aventuras ao mesmo tempo reais e oníricas.
Na verdade, mesmo nas épocas de maior distanciação entre as diversas culturas eu-
ropeias, a trama da sua cultura foi sempre mais unida do que podemos imaginar. Hoje e
aqueles que têm uma visão comparatista em geral das culturas e das civilizações – e tenho
aqui ao lado um eminente representante desse tipo de olhar, Claudio Guillén – sabem até
que ponto de facto essas famosos abismos e separações, são muitas vezes mais fantasmáticos
do que verdadeiramente reais.
Esta ideia de que à medida que se constituía, a nova Europa era para a península um
problema, não apenas na ordem política, mas civilizacional e cultural, tem alguma razão
de ser. Se não seria inexplicável que tivéssemos interiorizado tanto a famosa expressão
que havia alguma coisa que separava a Europa de Além-Pirinéus da Europa de Aquém-
Pirinéus. Talvez devêssemos convir que, antes de mais, a Península onde um dos seus
povos ou cada um por sua conta se tinha efectivamente retirado, em parte, da cena euro-
peia, confinando-se ao áquem dos Pirinéus antecipar a fabulosa deriva que, mais tarde, a
Jangada de Pedra de José Saramago vai alegorizar. Essa Península “aquém” dos Pirinéus não
derivou, não fugiu para os seus domínios da América pois que o já tinha feito de algum
modo no século xvi, mas a partir dessa época refugiou-se neles.
Nós, portugueses, usamos muito a expressão definidora da nossa atitude intra-penin-
sular: dizemos que vivemos ou temos vivido de costas voltadas para a Espanha. Bem mais
importante e decisivo foi que cada um de nós mesmos começasse a estar voltados de costas
para a Europa, para essa Europa além Pirinéus. A certa altura tinha que chegar o momento
em que pensávamos que a Europa nos tinha também voltado as costas – relativamente,
entenda-se, pois o fim da colonização espanhola da América – como da colonização menos
acentuada de Portugal no Brasil – foi o de encontrar lá as razões de estar presente na Europa.
O destino decidirá também outra coisa, mas os galeões que a Europa de Morgan
e Surcuf aprisionavam, traziam também prata para investir e nos integrar, da maneira
mais activa possível, justamente nessa mesma Europa. Só nesse sentido, e em termos de
política e de guerra a Europa era problema para nós e nós um verdadeiro problema para a
Europa em ascensão, península na sua face ibérica, transatlântica e asiática era um objecto
de presa ou de contenção. A Península que constituiu questão para a Europa, se isso tem
verdadeiro sentido, foi aquela que desde a chegada à Índia até aos reinos de Filipe II e III
68 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

tentou impor ou jogar um jogo igual com as potências europeias mais representativas: a
Inglaterra ou a França. Portugal, nessa época integrado no projecto político da Casa de
Áustria, é então mais europeu do que nunca mais o será. Sê-lo-á ainda na Guerra dos Sete
anos, onde a Europa, independentemente do seu espaço de colonização se bate entre ela
ou em família. Nessa altura estávamos a ser Europa como um todo à força circunstancial.
Foi a Revolução e as guerras napoleónicas que puseram fim a esse artificial mas simpá-
tico equilíbrio. Com a chegada dessa era numa Europa que era ainda a da guerra de rendas
e com a Revolução, entrámos na época de ferro europeia, a que está terminando sob os
nossos olhos e somos excentrados da história da Europa. É a partir de então que as nossas
relações com a Europa, em todo o caso na vertente guerreira, económica, política e até
cultural, se problematizam. É então que a Europa se torna um problema para a Península.
Nós, portugueses, temos muita dificuldade em conceber como um todo o corpo pe-
ninsular. Como história, como política, mesmo como cultura, em sentido profundo, a
Península foram sempre “penínsulas” que se expressaram quer nos seus conflitos internos,
quer nas suas relações diferentes com a Europa e com o mundo. Portugal e a Espanha
viveram, durante séculos, destinos extremamente análogos, por vezes paralelos, mas sempre
como dois actores. Vivemos juntos, por exemplo, o período do fim da colonização espanho-
la na América? Vivemos juntos, – ou a Espanha viveu a nossa perda do Brasil como qualquer
coisa que a afectasse a ela directamente? Vivemos nós a perda, inclusivé, do fim do grande
império espanhol que tem lugar no fim do século xix em Cuba como se fosse qualquer coisa
que nos atingisse profundamente – e atingia – mas para o vizinho que suportava a dor e o
peso e a reflexão dessa perda? Tomaram os espanhóis as nossas dores quando a Inglaterra nos
enviou um ultimato colocando-nos naquele lugar que em termos de força e de potência e
de poderio ela considerava que era o nosso, quer dizer o mais subalterno realmente possível
e pouco europeu no sentido imperialista em que a Inglaterra se afirmava? – Não.
Como peninsulares, compartilhando a dupla face do conflito, portugueses e espanhóis
só realmente viveram e ressentiram em comum a tragédia espanhola, refiro-me natural-
mente à Guerra Civil. Mas essa tragédia não foi apenas peninsular nem única e verda-
deiramente espanhola. Foi um conflito específico onde a Europa e o mundo já estavam
implicados e que teria as suas consequências. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e
sobretudo o fim do confronto entre leste e oeste, o nosso relacionamento peninsular com
a Europa sofreu uma alteração radical. Não tivemos nisso, nós portugueses nem espanhóis,
nenhum papel de actores, porque o sujeito dela foi a própria Europa.
Embora os traços das antigas querelas, ambições, medos e prevenções permaneçam, o
actual relacionamento do povo europeu, dos povos europeus uns com os outros e neles, os
nossos – de portugueses e espanhóis – essa problematização tradicional da nossa relação
com a Europa, mesmo no que nela havia de onírico ou de absurdo recolheu ao museu da

69 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


história. É aquilo que eu penso. Que mais não fosse porque a Europa, no seu conjunto,
esta nova Europa próspera, continental, empenhada em inventar-se como uma espécie
de Nação-Europa, – quando essa utopia perdeu o seu fascínio – recolheu ela própria ao
museu da história ou antes mais, talvez, real e simbolicamente ela tornou-se no mais mag-
nificente museu da história e é como museu da história que os outros, sobretudo os novos
senhores da política mundial, nos visitam e nos utilizam. Enquanto Península e em termos
políticos, nunca tivemos verdadeiramente grandes contenciosos com a Europa, a não ser
dessa Europa instalada em si mesma como um mito, até pela simples razão que um tal con-
flito, em última análise, era absurdo porque não há, se nós pensamos na história da Europa
no seu conjunto, desde os tempos romanos até hoje, poucos espaços mais europeus, que os
da Península, sendo mesmo uma espécie de Europa antes da própria Europa. Foi aqui que
os conflitos da antiguidade se terminaram ou se jogaram. Foi aqui que César e Pompeu di-
rimiram as suas questões para o domínio do mundo antigo. Fomos integrados cedo nessa
Europa, provavelmente um dos mistérios desse famoso afastamento é que nós fomos um
pouco Europa, antes do que uma grande parte dessa Europa fosse Europa.
Nós podemos imaginar que uma parte dessa Europa, vista do nosso ponto de vista, em
todo o caso, aqui no extremo ocidente, era uma espécie de barbárie definida com vários
graus até chegar ao reino de Moscóvia. Como nós já tínhamos tido os Cartagineses, os
Fenícios, os Gregos e depois os Romanos em nossa casa, nós fazemos parte dessa história.
Não é a história da Europa como modernidade, da sua invenção com a modernidade, é uma
outra história que está firme por trás, no horizonte, no passado dessa mesma história. Mas
mesmo esse contencioso ficcional, com alguns motivos sérios subjacentes já não tem agora
razão de ser, não porque a península se tenha diluído na Europa, mas com mais verdade
porque a Europa, essa tal da modernidade, nos entrou em casa e se diluiu ela mesma na
Península como Europa, a Europa que se propôs homogeneizar o resto da outra Europa.
Esse contencioso e essa problematização não têm hoje razão de ser, em todo o caso não se
podem pôr as relações com a Europa nos mesmos termos em que se punham há apenas 50
anos. Nós entrámos efectivamente para a casa comum, se é que alguma vez estivemos efecti-
vamente longe dela como o supusemos, sobretudo a Espanha, foi sempre tão intensamente
interligada ao destino da Europa e ao destino mais central da própria Europa.
O nosso caso é um pouco diferente porque nós, efectivamente, por vontade dos nossos
dirigentes de outrora, por condições do destino, afastámo-nos dos primeiros dessa Europa.
Simbolicamente isto permite uma outra possibilidade de reler tudo nos aconteceu desde
então e sobretudo esse curioso processo de fascínio e de ressentimento em relação à famosa
Europa, quando ela se constitui como Modernidade. Nós fugimos para outro sítio, ou por
outra, nós derivámos, efectivamente, passámos a inventar uma outra Europa, uma outra
maneira de ser Europa e essa outra maneira de ser Europa está viva. É a América, a América
70 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

no seu conjunto, desde o norte até ao sul da Patagónia. Essa América não é o nosso pas-
sado, é, eu penso, neste momento, de uma maneira muito forte, o nosso futuro, no sen-
tido mais empírico do termo. Agora estamos já normalizados e felizes, de algum modo,
em termos europeus daqui. Mas a Europa não está normalizada nem feliz em termos de
Europa aquela que não tem mais horizonte do que essa própria Europa. Mas nós inventá-
mos, construímos – ou através de nós constituiu-se e inventou-se – uma outra Europa, e
em última análise uma Europa outra, a de um “novo mundo” que não está só no passado.
A famosa problematização do nosso destino que nos causava tantos problemas enquanto pe-
ninsulares que se viam como actores políticos de segunda grandeza, de segunda instância. Se nós
pensamos que, particularmente a América Latina, é filha directa da Península nós não podemos
ser problematizados a esse título. A esse título, já sem o sabermos, essa existência transatlântica
fazia que não sentíssemos tanto as humilhações que tínhamos em relação à “outra” Europa.
Estávamos construindo algo que nós nem sabíamos o que era, maior do que nós e isso não é o
nosso passado, isso é o nosso presente e penso que será realmente o nosso futuro. O nosso futuro
está naquilo que realmente inventámos, trazendo à Europa uma Europa que ela não conhecia.
ROTEIRO MIGUEL DE UNAMUNO –
EDUARDO LOURENÇO:
COIMBRA–GUARDA–SALAMANCA,
UM EIXO CIENTIFICO E CULTURAL
COIMBRA

Coimbra. Vista Geral (RJ)


73 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Coimbra
Miguel de Unamuno37

Mientras arde e incendia la guerra por esa Europa dentro, ¡qué encanto el de vivir en el
remanso de paz de este rincón del pequeñito Portugal, lejos de horrores y junto al mar sus-
pirante! Y desde aquí, desde esta playa de Figueira da Foz, esto es, de la hoz del Mondego,
a ver una vez más la ciudad de encanto, cuyos pies bañan las lágrimas del Mondego,
henchidas de recuerdos de la tragedia de Inés de Castro.
Cuando al acercarme en tren se me apareció la visión panorámica de Coimbra, tre-
pando sus casas por la colina en que se asienta y dominada por la Universidad a que hace
cabeza su torre, la saludé como a una vieja conocida. Es una torre académica, no una torre
eclesiástica, la que corona a la ciudad, académica también, de Coimbra. Ninguna de sus
dos catedrales, ni la vieja ni la nueva, se destaca para lo lejos.
La catedral nueva de Coimbra, iglesia del antiguo colegio de jesuítas, debido a la
munificencia de D. Juan III, es un templo... jesuítico. Nada tiene que admirar. Mas en
cambio la antigua – a Sé Velha – , que recuerda nuestra catedral vieja de Salamanca, es una
especie de fortaleza románica del siglo XII, que produce en el inteligente que se alberga en
la robusta solemnidad de sus naves un sentimiento como de rejuvenecer nuestra vieja alma
cristiana colectiva. Una dulce penumbra de edad media invade al espiritu, que se siente
asentado sobre si mismo al ver la poderosa fábrica asentarse como si arraigara en tierra. Es
una fuerza que desciende y posa, y no una que se levanta como en las catedrales góticas.
74 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Y en el altar mayor un espléndido retablo de madera tallada, obra de flamencos y de prin-


cipios del siglo XVI; una verdadera maravilla. Ya en otro viaje me pasé ante él, dibujando
algunos de sus detalles, buena parte de una mañana.
Y de la catedral, al ver una vez mas la iglesia de Santa Cruz, típico ejemplo de lo que se
llama aquí el estilo manuelino. Como que fue el propio rey D. Manuel, el que dio nombre
al estilo, quien la hizo reconstruir. Era de un monasterio de canónigos regulares de San
Agustín, donde lo fué algún tiempo el gran Taumaturgo San Antonio, de Lisboa, conocido
por San Antonio de Padua. (En cambio la Santa Isabel de Portugal era aragonesa.)
Este manuelino portugués – de que acaso el más genuino ejemplar es el templo de
los Jerónimos, en Belem, cerca de Lisboa – es un estilo... ≪tirabuzonesco≫. Todo está en
rizos. Diríase a las veces que son piezas de ropa blanca cuando después de lavadas se las
retuerce para enjugarles o calabrotes y cordajes de barcos. ¿Tomaron de la jarcia acaso la
inspiración de esos trenzados de piedra?

37
Miguel de Unamuno (1922), Andanzas y visiones españolas. Renascimiento, Madrid, pp.: 134-141.
Allí, en Santa Cruz, y en un magnífico túmulo, duerme, sin oir ahora el fragor de la
conflagración europea, don Alfonso Enríquez, el fundador de la monarquia lusitana.
En este viaje no cruce el río para ir a ver la sepultura de la reina santa, Isabel de
Portugal, la aragonesa. Y lo sentí.
Deseaba volver a ver la hermosísima imagen en talla de madera y policromada de la
santa reina, obra de este maravilloso escultor, Teixeira Lopes, que aún puede producir
nuevas obras maestras. Recuerdo que esa imagen, cuando la vi por primera vez, hace unos
años, me hizo la impresión de algo aéreo, de algo sólo línea y color, sin tangibilidad, de
algo que se elevaba como una llama dulce.
Y como no pasé el puente, tampoco volví a ver la Quinta de las Lágrimas, la de la
leyenda de Inés de Castro, la que inmortalizó con una estrofa eterna Camoens, la que
Mauricio Barrés no quiere morirse sin baber visitado.
Visité, en cambio, el monasterio de Celias, cuya última monja, benedictina, murió
en 1883. En aquel recojido claustro, hoy desierto, todo luz y reposo, entre aquellos his-
toriados capiteles del siglo XIV, !cuán lejos nos encontrabamos de la brutal tragedia que
está asolando a Europal Pero en medio de una silenciosa tragedia también, de una tragedia
mansa e idílica, a la portuguesa. Acompañábanme mis tres hijos mayores y el gran poeta
portugués Eugenio de Castro, con el mayor de los suyos. Y yo espero algo de la pluma de
Castro sobre ese humilde claustro benedictino de pobres monjas.
Mas en Coimbra lo que hay que ver, ante todo y sobre todo, es su Universidad, aunque
no sea, como monumento arquitectónico, lo mejor, ni mucho menos, que la ciudad tiene.
Pero es la verdadera razón de ser de ésta, su hogar.

75 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Lo mejor del edificio de la Universidad es su emplazamiento, en lo alto de la ciudad,
dominando os saudosos campos do Mondego, que dijo Camoens. El paisaje que de allí se
abarca es de lo más hermoso que en paisaje he visto en parte alguna. Al fondo el Mondego,
el río portugués, la gran cuerda de la inmensa lira que es este pequeño pueblo que suspira y
canta a la vera del mar tenebroso. (Así le llamaron ellos a este tan luminoso mar.) Ahora, en
pleno estío, medio seco, parecía, como dijo de él Eugenio de Castro, un camino de gigan-
tes. Y Allende el río saadoso, allende el río de lágrimas suspirantes, mansas colinas vestidas
de olivos y de pinos, rebaños de colinas ondulantes, un mar de verdura. Y a lo lejos el cabo
Mondego, perdido entre la bruma.
No hay modo de penetrar en el alma elegíaca de la poesia portuguesa – y en Portugal
toda la literatura es poesia – , no habiéndose dejado ganar del hechizo, uu poco triste, de
su paisaje mimoso.
Coimbra cabe decir que concentra la historia toda leyendaria y poética de Portugal;
Coimbra ha sido la iniciadora de sus movimientos espirituales. Hasta la reciente implan-
tación de la república no hubo otra Universidad portuguesa. Lisboa y Oporto, puertos
ambos, ciudades mercantiles, vivían otra vida, y Braga, la ciudad archiepiscopal, dormi-
taba. En Coimbra quemaron sus mocedades, y tal vez se iniciaron en el amor – ésta, la
casi unica tragedia portuguesa – los más celebrados ingenios lusitanos. Alli despertaron
Camoens, Ferreira, Sa de Miranda, Almeida Garrett, Feliciano Castilho, y allí, en tiem-
pos mas modernos, canto la muerte de Raquel, cuya casa se muestra aún, el mayor lírico
portugués, Joao de Deus; allí empezó a profetizar victorhuguescamente Guerra Junqueiro;
allí se ensombreció, tal vez meditando la muerte en el Penedo da Saudade (la Pena de la
Morrina), Antero; por allí paso Eça de Queiroz. La renovación literaria de Portugal, des-
pués de la época romántica, se debe a la llamada escuela de Coimbra.
Visitando la Universidad ahora en verano, a princípios de agosto, cuando aún arrastran
los primeros exámenes de prueba de curso y los bedeles, con sus ociosos espadines al cinto,
bostezan en los bancos del patio, no cabe darse cuenta de lo que este hogar intelectual de
Portugal es en tiempo de estudios, cuando pululan por las rúas y cruzan con las “tricanas”
de ojos cazadores los estudantes en pelo, con sus negras levitas, alborotada la melena al
aire y su flotante capa, llevando en la mano la “seventa”, los apuntes o una carta de amor.
En una papeleria de la parte baja de la ciudad se vende una postal ilustrada con el
retrato de Diego Polonio, el decano de los estudiantes en algún tiempo, uno que alcanzó a
tener por condiscípulos, dicen – aunque lo creo exagerado – , a los hijos de los que con el
empezaron a estudiar. ¡Polonio era una celebridad coimbricense! – o mejor, coimbrana – y
hasta portuguesa. Fué el Sócrates de los estudiantes, verdadero filósofo, amante del saber,
y como tal, convencido de que no sabía nada.
Líbreme Dios de negar que los estudiantes portugueses hayan estudiado y estudien;
76 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

pero asi como a este Pueblo no se le conoce por sus filósofos, sabios, técnicos o eruditos – y
eso a pesar del formidable comtista Teófilo Braga, a quien he visto hace poco apodado, y
no sin gracia, homo sapiens lusitanus – y si por sus grandes descubridores, por los heroicos
marinos que abrieron las islas Orientales y buena parte de las Occidentales, y por algunos
de sus poetas – aunque estos menos conocidos que merecen – ; asi creo puede asegurarse
que en el genuino estudiante de Coimbra el amor era más que el estudio. El amor a mujer,
quiero decir, no el amor a la ciencia.
Aunque, ¿es que en el fondo son cosas tan distintas? ¿No serán mas bien una sola? ¿No
habrá algo de mas profundo que algunos creemos en aquello de identificar la tentacion del
conocimiento, de probar la fruta del árbol de la ciencia del bien y del mal, con la tentacion de
la carne… de mujer? He protestado más de una vez de esta identificacion y del sentido grosero
que por lo común se da a la profundísima leyenda de la calda paradisíaca y del pecado original,
pero no habrá en ello algo mas sabio de lo que creemos los que contra ello nos revolvemos?
En la ciencia, en el conocimiento de las razones de las cosas, de la ley de los movi-
mientos, en la matemática, en fin, buscan unos hombres y unos pueblos el secreto del
universo, de la vida y de la muerte. Otros le buscan en la religión y rogando a Dics que
nos lo revele, rogándole tal vez – ! tremenda paradoja! – que nos diga si existe y es algo
más que nuestro anhelo de divinización, pidiéndole, como los judíos, señales. Y hay quien
busca en el amor el secreto de la vida, de la muerte y del universo, y su razón de ser.
Tal creo, aquí, en Portugal.
Quien haya leido en los poetas portugueses, y sobre todo a su gran lírico erótico y
elegíaco – ¿pero es que cabe ser lo uno sin lo otro? – Joao de Deus, sabrá bien que no hay
otra literatura alguna en que el amor haya hablado una lengua tan directa, tan sencilla, tan
pura, tan libre de pedantería. Como que aquí apenas hay otra pedanteria que la del amor.
Y el amor hermano de la muerte, el que cantó Leopardi, el que cantó también Antero,
el portugués, el poeta suicida, en aquel admirable soneto Mors-Amor.
En un negro corcel, tenebroso y sublime, a quien le estremece no se sabe que horror
en las agitadas crines, cabalga un caballero de expresión potente, formidable, pero de porte
plácido, vestido de reluciente armadura, y el negro corcel dice ser la muerte y el caballero
responde que es el amor. Amando se suicida Portugal, buscando en el amor, en el amor a
la mujer, el secreto de la vida. Ahora, deslumbrados por lo que oyen de la gran tragedia de
la guerra europea, y para hombrear con su alianza con Inglaterra, hablan a las veces de dar a
ésta tantos o cuantos miles de hombres – ! hay que ver estos soldados! – pero eso es para
pasar el rato. Lo mismo en república que en monarquía el gran problema portugués es o
namoro, el amorío. ¿La guerra? Todos pueden decir aquí lo que Antero en aquel soneto:
Em quanto outros combatem:

77 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Ya nao veria dessipar-se a aurora
de meus inuteis annos, sem umha hora
viver mais que de sonhos e anciedade!
Ya nao veria com minhas maos piedosas
desfolhar-se, umha a umha, as tristes rosas
d esta pallida e esteril mocidade!

Esto no es decir, claro está, que aquí no interesen a nadie los grandes problemas fi-
losóficos, religiosos, científicos y artísticos. Es mas, la escasa producción intelectual por-
tuguesa hace que les sea aquí necesario conocer otras lenguas, y entre los estudiantes hay
aquí muchos más que en España que conozcan bien el francéss y aún el inglés aunque en
esto se haya adelantado enormemente en estos últimos años en mi patria. Coimbra tiene
menos población que Salamanca, aunque el contingente académico sea en aquella mucho
mayor que en esta. Coimbra es una ciudad predominante y casi exclusivamente acadé-
mica de comercio e industria parasitarias, mientras que en Salamanca, centro agrícola y
pecuario, hay un comercio activo y hasta alguna industria. Pues bien, Coimbra, siendo
menos populosa que Salamanca, se encuentra mejor surtida de libreria. Ahora sí, en las
dos o tres grandes librerias de Coimbra se encuentran libros franceses, ingleses – españoles
muy pocos, poquísimos, y ellos malos, “de esas infames bibliotecas económicas y la mayor
parte malas traducciones de libros malos – y, fuera de los de texto pocos, poquísimos libros
portugueses.
Y es que el libro portugués tiene una circulación limitadísima, sobre todo si es clásico.
Los grandes clásicos portugueses, sus cronistas, sus historiadores de Indias, sus poetas re-
nacentistas, apenas si se los lee. Un editor tiene aquí que contar con el Brasil, y en el Brasil
no interesan las cosas clásicas; en el Brasil – me dicen aquí – apenas se lee sino superficia-
lidades frivolas o esas cosas científicas hediendo a pedantería positivista, noveluchas bule-
varderas o elucubraciones sociológicas, y yo no se que es peor, si la bagatela o la sociología.
Estuve un rayo oyendo las quejas del benemérito editor coimbrano Franca Amado.
Me regaló, entre otras cosas, la vieja crónica del condestable Nunalvares Pereira, y la estoy
leyendo. Pero cuántos habrá que lean estas cosas, y más en estos dias? Y, sin embargo, para
límpiarse la vista y los oídos de lo que se lee y se oye de esta guerra, hay algo mejor que
leer cosas asi? Cabe mayor descanso de la baraúnda periodística acerca del combate de
Lieja que leer la Peregrinaçam, de Fernan Mendes Pinto, aquel aventurero portugués que
anduvo por el Extremo Oriente cuando eran aquellas tierras un misterio todavía?
No, no, nada de vivir al día; hay que vivir a los siglos.
Coimbra, Coimbra, tierra de encanto, ciudad bautizada por las lágrimas de Inés, vive-
ro de la poesia de un pueblo que vive por el amor y por el amor muere, Coimbra posada
78 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

como una paloma junto al Mondego, ! qué remanso en la corriente!


Hay algo de dulce y sosegador, y sobre todo de sabio, de muy sabio, en eso que
los hombres de mundo llaman aburrirse. Y el que quiera saber lo que es la dulzura del
aburrimiento, la miel de la modorra, que se venga a Portugal.

Figueira da Foz, agosto de 1914.


Tempos de Coimbra
Eduardo Lourenço

Por ordem deste curioso colóquio centrado não sei porquê na minha pessoa, tenho que
cumprir este exercício narcísico de estar aqui, direta ou indiretamente, a referir-me a parte
do meu percurso de vida.
Quero, antes de mais agradecer a todos os que tiveram a gentileza de vir até aqui nesta
manhã um pouco sombria, em particular à grande Helenista, Doutora Maria Helena da
Rocha Pereira, de que tive a sorte de ser o primeiro condiscípulo na Universidade que nós
frequentámos já há longo tempo, e que tem sempre a gentileza de ter acompanhado de
uma maneira ou de outra o percurso deste amigo voador, difícil de localizar e mesmo de
algum modo in-localizável.
Também queria agradecer ao Senhor Prof. Fernando Rodríguez de la Flor, grande pro-
fessor universitário de Salamanca, especialista do Barroco e que tem tido a gentileza de par-
ticipar nos trabalhos do Centro de Estudos Ibéricos e dar, com outros, a presença concreta
a esta ideia que esteve na génese do Centro, uma espécie de três pólos sobre os quais nos
se inscreve o conceito do CEI. Três pólos não será uma figura geométrica muito correta,
mas é a realidade, e desses pólos, dois são as duas universidades mais importantes da penín-
sula, podendo mesmo dar uma ordem de prioridade, e sobretudo, de eficácia no tempo,
à Universidade de Salamanca, que foi um dos grandes centros universitários, não apenas
ibéricos mas europeus, que uma parte dos nossos estudantes frequentou, da Idade Média

79 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


até ao Renascimento. A Universidade de Salamanca pertence ao espaço cultural matricial
universitário ibérico e mesmo europeu, portanto é uma grande honra que a Universidade
de Salamanca se tenha querido associar à velha Universidade de Coimbra, que foi, durante
tantos séculos “a Universidade” (não havia outra em Portugal e nos espaços de presença
portuguesa até à independência do Brasil). Congratulo-me que esta pequena utopia de
uma atenção particular para com a civilização ibérica no seu conjunto tenha um começo
de realização e de atividades como tem feito até hoje, embora a mim se deva apenas o facto
de ter lançado essa ideia. Quero agradecer ao Dr. Virgílio Bento e à Dr.ª Alexandra Isidro o
interesse e o cuidado com que têm acarinhado e dado forma concreta a este pequeno sonho
de um Centro preocupado com o pensamento ibérico e a cultura ibérica em geral.
E também quero lembrar que está nesta mesa um jovem professor de filosofia, o Dr.
João Tiago, que só por tempos da minha própria exegese, se assim se pode dizer, tem
acompanhado o meu percurso e ultimamente é ele o responsável pela publicação do pri-
meiro volume das chamadas “Obras completas”. Estou-lhe muito grato pela generosidade
de se ter encarregado desse género de funções.
Coimbra: a Baixa e os Campos do Mondego vistos da Universidade (RJ)

O assunto deste colóquio deixa-me perplexo “Colóquio Eduardo Lourenço, as paisa-


gens matriciais e os tempos de Coimbra”…. A mim o que me apetecia era falar de uma coisa
de que é raro falar, sobretudo aqui na presença tão amiga e simpática de jovens colegas e
80 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

grandes universitários, que seria a “mitologia coimbrã”.


A mitologia coimbrã existe e eu naturalmente ignorava, quando cheguei aqui, em
1940, que ia entrar num mundo com outras regras e outros ritos, sobretudo naquela
época em que Coimbra ainda tinha essa espécie de monopólio muito simbólico, porque,
na verdade, naquela altura só havia mais duas ou três universidades e todas elas muito mais
recentes do que a famosa Universidade de Coimbra. Esta Universidade que eu já conhecia
antes de conhecer, porque, como dizia Platão, é sempre assim que as coisas começam. Na
minha aldeia havia três estudantes que eram estudantes de Coimbra e que eram uma espé-
cie de aparições quando vinham de férias e nos traziam notícias do que nós não sabíamos e
contavam grandes aventuras, sobretudo aventuras de adolescência ou de começo de idade
adulta que nos deslumbravam; além disso eram uns grandes campeões de futebol e joga-
vam com uma bola verdadeira – a primeira bola de futebol que eu vi no mundo – e não
uma daquelas bolas de trapos com que a gente se entretinha na aldeia. Portanto, falavam
desta Coimbra e o que é curioso é que referiam alguns nomes de professores famosos, sem
eu nunca imaginar que, um dia, iria ser não só aluno da Universidade mas assistente na
Faculdade de Letras de um desses famosos professores, cujo nome tinha chegado à minha
aldeia e que tinha uma reputação de ordem cultural e também um pouco ideológica, al-
guém que, estamos nós no início do Estado Novo, passava como um liberal, e que mantém
ainda grande tradição portuguesa, o Prof. Joaquim de Carvalho.
Eu nunca imaginei que um dia viesse a ser assistente dele, tanto mais que ele nunca
me tratou como outra coisa que “menino”. A Universidade de Coimbra era uma univer-
sidade ainda muito familiar, e daí cheia de ritos, de gente que tinha tradições académicas
que passavam de pais para filhos. Coimbra era realmente um núcleo um pouco à parte,
mas quando me refiro à mitologia coimbrã penso fundamentalmente que esta cidade,
além de ser o Studium Universalis foi também a cidade da juventude portuguesa que aqui
estudava e onde há uma espécie de continuidade não de tipo ficcional, mas de tipo poé-
tico. A poesia em Portugal fazia-se na Universitária. Toda a gente andou em Coimbra até
finais do século xix e, portanto, esta era a cidade dessa ordem poética. Eu nunca fui muito
folclorizante e na minha geração éramos muito reticentes em relação ao culto da tradição
e das praxes. O grupinho em que eu me vim depois a reconhecer era muito anti praxista,
que naquela altura não significava apenas uma coisa de ordem de ritos académicos com
uma certa tradição, era também uma maneira de não querer comungar da atmosfera
“luso oficial” do país; ser anti-praxista era um sentimento de oposição de algum modo
latente mas eu não comunguei de uma coisa nem de outra. Eu vinha de Lisboa, de um
colégio militar, uma coisa fechada, e Coimbra foi para mim a descoberta de um outro
mundo, um mundo novo de novas amizades e sobretudo de entrar num percurso estra-
nho, primeiro nas ciências, depois nas letras, e ficar para sempre no círculo encantado

81 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


desta cidade universitária, na altura única.
É claro que a gente sabe que a mitologia coimbrã tem o seu ponto mais alto, sobretudo
pelo estatuto literário, no famoso texto de Eça de Queirós dedicado a memória de Antero
de Quental, onde toda a mitologia moderna do lugar cultural e também de vocação ideo-
lógica da academia de Coimbra é invocada como qualquer coisa de representativa de uma
nova leitura do passado cultural deste país. As conferências tiveram lugar em Lisboa mas
foram realizadas por antigos estudantes, quase todos estudantes de Coimbra, entre os quais
Antero e Eça de Queirós. E Eça, nostalgicamente, escreve esse famoso texto em que se
identifica com Antero e instala na nossa mitologia moderna um discurso sobre Coimbra.
Curiosamente, quando cheguei a Coimbra ainda essas imagens, esse mito coimbrão
centrado na Geração de Setenta, estava muito vivo. Lembra-me muito bem que na nossa
Queima das Fitas, um bocadinho tocados, íamos no desfile pela Sá da Bandeira abaixo a
dizer “nós somos a nova geração de setenta”. Felizmente não ficou registo daquelas lou-
curas que, naquela altura, eram compreensíveis. Mas esta assemelhação era muito interes-
sante porque era para nós estarmos a reivindicar, a manifestar contra o que não se podia
nomear, embora a não nomeação fosse superior à nomeação, e até mais interessante do
ponto de vista de imaginação.
Curiosamente quando eu cheguei inaugurava-se outo tipo de mitologia coimbrã que
foi muito eficaz e que teve grande tradução na ordem da poesia e da ideologia, uma geração
que mais tarde recebera o nome de neo-realista, que é relativamente tardia, e que era, pura e
simplesmente, toda uma geração cujas raízes se encontram nos anos trinta. Penso que uma
das coisas mais importantes para a minha geração, mesmo de adolescente, foi o que se passou
em Espanha, em trinta e seis. A juventude portuguesa identificou-se com uma das partes
em luta e outra provavelmente com outra parte do país e do mundo. E Coimbra era conhe-
cida nessa época pelas lutas que se faziam quando havia eleições; uma luta entre a direita e
a esquerda fundamentalmente, com forças mais ou menos iguais. O que era novo naquela
altura não era o discurso oficial dominante, mas uma nova geração que reclamava numa
nova utopia na ordem ideológica, uma utopia cheia de esperança em que a história e o futuro
se identificavam com as suas próprias ilusões políticas e sociais e que deixou uma marca na
cultura coimbrã que ainda persiste até hoje. A famosa geração neo-realista foi uma espécie de
cultura dominante de Coimbra, com manifestações noutros pontos do país, traduzindo uma
geografia cultural cujo enraizamento histórico ou cultural se encontrava nesta Coimbra.
Coimbra ainda era uma espécie de ilha naquela época. Curiosamente nós, e eu pelo
menos, embora até conhecesse pessoas que tinham estado ligadas a essa geração como o
poeta Miguel Torga, famoso dissidente, já não era uma coisa muito viva em Coimbra,
nessa época. Esta nova geração era uma geração que conhecia essa presença e que estava em
diálogo com ela mas também com atitudes críticas em relação à atitude considerada ainda
82 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

muito subjectivista e romântica, uma vez que a geração de que eu estive próximo em certo
momento estava muito implicada numa luta já de um novo tipo, ideológico e político, que
se reclamava das tradições europeias e até universais. Desde a revolução de 1917 a Europa
continuaria, durante mais de setenta anos, a ser confrontada com essa ideologia que pre-
tendeu, pretende e continua a pretender ser uma ideologia de alcance universal. Na minha
geração muitos dos meus amigos conheciam e eram influenciados pelas teorias Marxistas
e o que havia ali era a ideia de que o país onde a revolução se tinha dado era um novo
horizonte, não só ideológico, mas até cultural, e que durante mais de cinquenta anos foi
um dos pólos em torno dos quais girou toda a cultura não só a europeia, como a universal.
Em Portugal estas coisas eram muito atenuadas mas a verdade é que essa geração
deixou marcas, bem patentes no famoso texto do Antero em que se refere à “primeira
geração que teve consciência que saía dos carris de tradição”, que, a par do texto de Eça,
ficou como uma das referências culturais para a minha geração. Nos anos setenta quando
se celebrou o centenário da Geração de Setenta vim a Coimbra fazer uma conferência e
sugeri que esta Coimbra devia ter uma lembrança de Antero de Quental completa, viva,
erigindo-lhe uma estátua. Até hoje. Antero teve realmente que pagar aquele atrevimento,
aquela audácia, aquele desafio a todo um passado cultural, para além do desafio a si mesmo
que pagou como se sabe. Antero de Quental continua à espera que seja um dia homena-
geado nesta terra como merece. Para a minha geração ele pertence aquelas referências, aos
ícones culturais e de memória, para além de ser um grande poeta.
Ainda que promovamos a adolescência a primeira juventude ao momento mítico do
silêncio, a verdade é que cada geração se reinventa e se remitifica, sobretudo numa cidade
como esta, uma cidade com todo um passado cultural extraordinário e ao mesmo tempo
uma cidade de onde partiam iniciativas e movimentos, quer poéticos quer ideológicos, de
grande importância.
Nos anos sessenta, quando o país é confrontado com uma das maiores crises da sua
história, quando o império português é ameaçado pela onda da descolonização e se apro-
xima o seu crepúsculo, também há uma geração e que deixou marcas na história por razões
de ordem ideológica e política. As universidades são sempre focos de contestação poten-
tes, mas eu já não vivi cá esse tipo de mitologia, mas em França, no famoso Maio de 68.
Mas aqui são razões nacionais, de uma juventude académica que vai ser confrontada não
só com o desafio genérico em relação ao estatuto do país como país independente e dos
últimos países colonizadores.
Coimbra tem todo esse percurso e quando começam a aparecer outras universidades
pelo país, sobretudo depois de Veiga Simão, o paradigma continua a ser, às vezes caricatu-
ralmente, o paradigma coimbrão – tudo quer ser a sua Coimbra. O meu período coimbrão
foi, do ponto de vista cultural, decisivo e foi aqui nesta cidade que aprendi alguma coisa.

83 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Eu era um aluno relativamente aplicado, creio eu, – aplicado aquilo que me interessa-
va e pouco aplicado aquilo que não me interessava – mas não só conheci aqui pessoas
que tiveram no meu percurso uma influência capital, entre as quais o meu amigo Carlos
de Oliveira, um dos grandes poetas que ainda hoje tem um estatuto de memória muito
vivo, como outros camaradas daquela época que partilhavam um certo ponto de vista
ideológico, bem como de outros que representavam uma outra tradição nossa.
Uma das essências da mitologia da ordem ideológica, aqui por influência da França, é
a de que a esquerda tem uma espécie de monopólio ideológico daquilo que é socialmente
mais critico ou mais revolucionário, deixando à direita o papel de “mau da fita”. Naquela
altura dava-me muito bem com muita gente que não partilhava as minhas ideias porque
uma colectividade, e sobretudo uma colectividade académica, é também uma espécie de
todo, um parlamentarismo. Havia apostas diferentes de ordem ideológica e cultural, mas
a verdade é que naquela altura em Coimbra toda a gente se conhecia e a cidade ainda
tinha essa característica de ser fundamentalmente “a universidade”. Coimbra é não só a
cidade da primeira geração romântica, a Geração de Setenta, – uma dimensão até então
desconhecida na ordem do tempo – mas também a Coimbra da República e a Coimbra
do Estado Novo. É necessário revisitar nostalgicamente a memória para ser um pouco mais
justo com os tempos que se viveram e com as suas dissensões e rivalidades. Uma época é
sempre de ordem cultural, extremamente complexa e dialéctica. A história de um povo e
de uma cultura é uma história dos seus tempos, tempos diversos, em que os tempos não
se seguem uns aos outros como por continuidade, mas cada tempo recomeça a totalidade
do passado que está atrás dele e de outra maneira. O inevitável Pessoa disse esta coisa ma-
ravilhosa “cada época lega a outra aquilo que ela não foi”. Portanto o tempo, esse tempo
mítico de Coimbra em que nós vivemos está encerrado numa espécie de cápsula temporal
em que as oposições e as contradições faziam sistema.
O passado tem que se compreender em função de uma coisa irrepetível e única que
cada presente significa. A ideia que nos vem do século xix, uma espécie de uma linha que
assegura a ideia de progresso – ideia mítica excelente – é a ideia da humanidade que visa
uma perfeição da herança daquilo que se passou. Mas os desmentidos do século xx, e já
agora do século xxi, são de tal ordem que nós não podemos viver nessa ilusão que foi
uma ilusão das luzes no seu conjunto, mas sobretudo da época positivista. Estamos numa
espécie de uma encruzilhada estranha em que o mundo não tem aquela certeza, aquelas
evidências que, durante quase duzentos anos, guiaram a marcha das sociedades ocidentais.
O que realmente aconteceu de extraordinário é que esse monopólio mítico do ocidente em
geral e da Europa em particular já não é aquilo que era. Esses mundos até existiam antes
do próprio ocidente, sete ou oito, fechados em si mesmo como o Japão, mas não tinham
outra visibilidade que não a leitura que o Ocidente lhe dava.
84 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Existe uma leitura plural do mundo em vivemos e, portanto, os tempos de Coimbra


estão no passado e são o que são. Estão no passado porque é onde tudo está, porque o
presente é a única coisa em que nós estamos, sendo o presente a negação desse passado.
Hoje não vivemos naquela convicção de que o mundo ocidental e a Europa em particular
são os atores da história por excelência e que os outros são subalternos. Ou todos fomos
atores da história ou todos somos subalternos, pouco importa. Daí esta ideia de que o
sentimento que temos neste momento é de que entrámos num mundo muito diferente
daquele que existia, pelo menos até a queda do muro de Berlim, o que nos deixa perplexos
e provavelmente inquietos, mas que tem uma necessidade tão forte de se impor à nossa
atenção como todos os outros passados.
A verdade é que não podemos viver senão com esta ideia de que o tempo em que a
gente vive era o tempo – a famosa e misteriosa expressão do evangelho “naquele tempo”.
Naquele tempo era o tempo da revelação e cada época que vem é aquele tempo, que é
o emblema de um dos livros mais populares da mitologia coimbrã, “In ilo tempore”. É o
tempo de uma geração. O resto ou é morto, ou puro sonho.
85 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
86 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Rua da Ilha (RJ)


Universidade (RJ)

Rua Ferreira Borges (RJ)


Faculdade de Letras. Perfil (RJ)
Largo D. Dinis. Estátua do Rei fundador da Universidade e Edifício das Matemáticas (RJ)

87 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Sé Nova. Escadaria (RJ)


Casa da Escrita (Casa de João José Cochofel; Rua João Jacinto) (RJ)
88 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Rua do Loureiro. Rua do Loureiro. Traseiras da Casa de


Casa onde viveu Eça de Queiroz (RJ) João José Cochofel, hoje Casa da Escrita (RJ)

Rua da Matemática. Num destes prédios nasceu Rua da Matemática.


Alfredo Fernandes Martins (RJ) Real República do Ras Teparta (RJ)
Torre do Anto (Rua Sobe Ribas, no prolongamento da Rua do Loureiro).
Casa onde viveu o poeta António Nobre (1867 – 1900) (RJ)

89 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Rua das Flores. Couraça dos Apóstolos.


Casa onde viveu António Régio e Casa onde viveu Carlos de Oliveira, em quarto
fundou a Revista Presença (1927) (RJ) partilhado com Fernando Namora, perto da
residencia do poeta Afonso Duarte (RJ)
Sé Velha. Memorial a José Afonso
na casa onde viveu (RJ)
90 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

O Largo, a Sé Velha e a Torre da Universidade Sé Velha. Memorial a Edmundo


vistos da Rua dos Coutinhos (RJ) Bettencourt
na casa onde viveu (RJ)
Rua Ferreira Borges. O Nicola e, ao lado,
onde funcionou a Central (RJ)

Largo da Portagem e inicio da Rua Ferreira Borges. Rua Ferreira Borges, no cruzamento para a Porta de 91 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Sobre a esquerda o Memorial a Miguel Torga sob a Almedina. No edificio de esquina funcionou a livraria
janela que foi do seu consultório (RJ) Coimbra Editora (RJ)
Coimbra: lugares onde viveu Eduardo Lourenço

Rua João de Deus Rua António José de Almeida


92 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Quinta da Ribeira Bairro de S. José (encruzilhada da Rua dos Combatentes


da Grande Guerra com a Ladeira das Alpenduradas)
GUARDA

Guarda. Vista Geral (RJ)


93 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Guarda
Miguel de Unamuno38

Entre los diez y siete lugares de Portugal que merecen ser visitados, según reza en el
mapa excursionista que en los vagones de primera de los trenes ha hecho fijar la Sociedad
Propaganda de Portugal – cuyo lema es pro patria omnia – , no figura Guarda. Pero siem-
pre que había yo pasado por la línea de Beira, ya al ir, ya al volver, habíanseme ido los ojos
tras de aquella ciudad que allá en lo alto, sobre la montaña, levantaba sus torres contra el
cielo. El que la Sociedad ésa no nos la recomende era razón de más para que me escociera
el visitarla. Y allá fuí, de vuelta de Lisboa, á quedarme un día.
¿Guarda, Guarda, de qué? Oigámosle á Tomás Ribeiro, en su lamentable Don Jaime.
Dice: «No cimo de monte inhóspito – junto da nevada Estrella – , se ergue urna cidade e
n’ella – que vamos, leitor, entrar. – E fría, ventosa é húmida – feia, denegrida e forte – que o
reino, contra a má sorte – era obrigada á guardar – . Por isso é guarda ó seu nome – pois sem-
pre voltada á Hespanha – , de pé na sua montanha – á espía no seu lidar – . E hoje, rotos os
muros – veterano sem guarita – , ja sem farda e sem marmita – mas sempre firme aguardar!»
Y allí pase un día, todo un mortal día, en esa Guarda fría, ventosa, húmeda, fea,
denegrida y fuerte, que vigila España. Tiene razón la Sociedad Propaganda de Portugal.
Pero cuando se llega a un sitio hay que sacarle el jugo, sobre todo nosotros los forza-
dos del cálamo. Es cosa terrible esto de ver algo para escribir de ello más bien que escribir
porque se ha visto. Pero el oficio... y, una vez allí, no iba a perder el viaje.
94 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

A ratos tuve momentos de desfallecimiento y llegue a decirme: ¡si tuviera aquí un


amigo!... pero rechace al punto la tentación. Viajar en compañía no es viajar, pues quita al
viaje su más íntimo encanto: la soledad. ¡No conocer a nadie! ¡No ser conocido!
Y allá me fuí, en aquella destemplada tarde otoñiza, a vagar por las calles de Guarda.
Pronto las recorrí casi todas, pues es una pequeña ciudad, de unos 6.000 habitantes.
A trechos, los canónigos, embozados en sus mantos negros, con sus bonetes, engullidos
por las negras puertas de aquellas viejas casuchas; luego, estudiantes del Liceo, rapazuelos
de once años, en pelo, con sus levitas y sus remendados manteos negros, imitando a los
de Coimbra. Me paro en el escaparate de una tienda de todos géneros donde también se
venden libros; entre el Bobo de Herculano y una traducción de La Feria de las Vanidades
de Thackeray, la Historia de un beso de Pérez Escrich. Parece mentira la popularidad de
que este novelista, olvidado ya en España, goza en Portugal. Es, sin duda, porque les hace
llorar, y Portugal tiene sed de lágrimas.

38
Miguel de Unamuno. Por tierras de Portugal y de España, 1911.
Voy á ver la puesta del sol; un incendio volcánico entre montañas de ceniza. Y luego
me envuelve la melancolía otoñal de una villa desconocida. Pensando en cosas melancóli-
cas voy á comer, que es una brutalidad fisiológica independiente del alma, según Camilo.
Por fortuna, los últimos días de Noviembre son muy cortos y pude acostarme á las
siete, con una novela de Camilo á la cabecera de la cama. No sin antes dar un paseo por la
villa y pararme ante la imagen del rincón del arco para pensar: ¡de qué tragedias calladas
habrás sido mudo confidente!
Y luego, ¡qué encanto el que le despierte á uno el sol en un silencio puesto de relieve
por lejanos y apagados toques de corneta militar, por campanadas de la iglesia próxi-
ma. Incorporarse y leer otra vez Camilo. Leer Camilo es viajar por Portugal, pero por el
Portugal de las almas.
Salí á ver la Catedral, por fuera más de ver que por dentro. Tiene, sin embargo, su
adusto carácter de fortaleza, y desde la terraza un hermoso panorama. Todo el anfiteatro
de montañas de la sierra de la Estrella, y al otro lado tierras de España.
Uno de mis desencantos fueron las farmacias. Son nuevas, modernas, hasta elegantes.
Yo soñaba con ver la vieja botica del padre de Tomasa, la heroína de “O filho natural”, de
Camilo, que acabo de leer, y en esa botica el tierno practicante enamorado.
¡Estos personajes camilescos!... Los llevo tan grabados como los de Dickens; éstos están
pintados a la flamenca, botón por botón y pelo a pelo, y los otros a cuatro brochazos; pero
en vida no les ceden.
Fuí a ver el Liceo, un Liceo nacional donde se cursan los cinco primeros cursos, con
unos 150 alumnos. Cosa deplorable, pobrísima, de la que lo mejor es no hablar.

95 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


¡Que material de física y de historia natural! En una mezquina conserjeria, junto a un
brasero, estuve esperando un rato. Entraron unas muchachitas; luego un rapaz como de
unos catorce años, con su manteo, y bajo el brazo un fajo de tomitos de la Bibliotheque
Nationale, de esos que se venden a 25 céntimos de franco tomo. Le vi Le Sage, Mirabeau,
Rousseau... Se puso a hablar con las muchachas y hablaban de lindas poesías.
El portero me dijo que “os quintanistas falam muito bem ja o francez”. Mejor que
francés hablarán amor... Al salir del Liceo deje mi tarjeta.
En esas pequeñas ciudades no hay nada como el diario local, sobre todo si es de com-
bate. Y O Combate se llama uno de los de Guarda: un diario republicano cuyo lema es: Pela
Justina, pela Verdade, pela Equidade.”
Lo tomé con ansia, dispuesto a exprimirle el jugo. Y en verdad que era jugoso el
número con que acerté a topar. Veámoslo:
Comentaba la frase del rey: «Eu mesmo trabalho» (yo también trabajo), y decía: a
«A raçâo de un conto de reis por día vale la pena». (Un conto de reis son 5.000 francos.)
Copiaba luego de un colega de Oporto, que entre los manifestantes monárquicos de esta
ciudad, con motivo de la visita del rey a ella, se distinguió un cura a «reconocidamente
jesuita». Esto del jesuítismo es uno de los dos cocos de Portugal; en dondequiera suenan
con jesuítas. Y sigue 0 Combate con otros amenos comentarios antimonárquicos y con
juegos de palabras, como el de que una caja de fósforos cuesta dez reisinhos (diez reyecitos).
Había un suelto delicioso en que, a propósito de no sé qué “casos oficiales de atro-
cidades inauditas” en Guatemala, decía que “parece corre aún en aquel pueblo toda la
sangre hedionda de los inquisidores españoles de los siglos pasados y presentes”, y para
justificar esto de presentes recordaba lo de Alcalá del Valle, que fué leyenda de esas que
hincha el anarquismo internacional. El español es el otro coco. Y luego venía un trozo de
prosa henchida de retórica republicana, recordando a Nerón, a Calígula, a Torquemada,
Dreyfus y la Isla del Diablo, Montjuich, Alcalá del Valle, Siberia, y, para que no se diga,
también Timor.
Había también y ¿cómo no? su parte de... poesía. En una sección titulada Halos, el
director del periódico, José Augusto de Castro, publicaba un soneto, el número XXII de
la serie, dirigido a las excelentísimas senhoras de Guarda; soneto, en que les levantaba un
lindo monumento, irguiendo la imagen santa de ellas y juntando estrellas, perlas y rosas.
Luego, el relato de una fiesta escolar en Seixo Amarello y discursos de dos alumnos di-
rigidos al maestro Isidoro Pedro Cardoso. Los discursos parecen arrancados de una novela
de Camilo, y es de saber que estos formidables discursos de los oradores camilescos nada
tienen que envidiar a aquel otro famoso discurso de los comicios agrícolas que figura en
Madame Bovary, de Flaubert.
Y en seguida venía lo bueno, que era un comunicado desde Sabugal, fechado en 27-
96 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

11-908 y firmado Joaquim Martins. (Estos detalles vienen a que se vea que quiero ser pro-
lijo y documentado. Y no se me negara que, aunque escribiendo de cosas contemporáneas,
soy en ellas erudito.) El cual comunicado empieza de esta solemne manera: «todo silencio;
como el gran criminal refugiado en el bosque, donde la menor sombra o el más vago
ruido le amedrenta. Silencio vergonzoso que viene denunciando un pedir tregua para que
no vaya a levantarse la cortina que nos esconde asuntos criminosos, tal vez de la más alta
significación. El asesino, después de consumar el atentado que llevo a efecto con gran pre-
meditación, termina su obra, pónese en huída, y hermánase con el remordimiento; pero
las entrañas ferinas siguen insaciables de sangre. Así el señor presidente de la cámara...»
es decir, lo que en España llamamos el alcalde.
Díganme ahora si este preludio es solemne. Empieza con aquel solemnísimo “todo
silencio” – ¿lo habrá tomado de alguna novela de Pérez Escrich ? – y luego viene lo de
hermanarse con el remordimiento y lo de las entrañas ferinas. Y todo ello es metafóri-
co, altamente metafórico, pues no se trata de asesino alguno, sino solo del pobre señor
presidente de la cámara.
El resto del comunicado es de la misma fuerza cómica inconsciente. Hablase en el de
quien «le escalpele las heridas llenas de pus repugnante» al señor presidente de la cámara mu-
nicipal de Sabugal, por nombre – ¡Quede para siempre en la picota! – José Fernandes Simoes
Junior. Y todo ello, según puede adivinarse, por haber cambiado de partido y caciquear.
Un diario de una de estas ciudadillas perdidas entre campos y aldehuelas, es un te-
soro de humorismo. Su lectura desopila el hígado – y empleo aquí una expresión muy
pintoresca que he aprendido en Portugal, donde aún se usan muchas por el estilo.
¿Qué iba á hacer en aquella Guarda, en aquella terrible Guarda, sino comentar el dia-
rio local republicano? Los compañeros de mesa que me veían tomar notas del modestísimo
periódico, se dirían: ¿quién será este sujeto y para que tomara esas notas? ¿Y no es acaso
uno de los encantos en los viajes el de intrigar a los que nos ven y, si es posible, hacerse
pasar por personaje misterioso?
Y otra vez a correr las calles y ver a aquellos estudiantinos que, dejando en el suelo sus
remendados manteos, se ponen a saltar al burro, agitándoseles los faldones de las levitas.
Suenan acaso en Coimbra, en la hermosa Coimbra, henchida de leyendas estudiantiles.
Y yo también, al verlos, me acuerdo de Coimbra, y de los días que, hace ya unos años,
pase en ella, en aquella encantadora Coimbra, donde resbala el Mondego entre los chopos
sollozando las estrofas que Camoens dedicó a Inés de Castro y murmurando cantos de
Joao de Deus.
¿Qué tendrá este Portugal – pienso – para así atraerme? ¿Qué tendrá esta tierra, por de
fuera riente y blanda, por dentro atormentada y trágica? Yo no sé; pero, cuanto más voy a
él, más deseo volver. He llegado a creer si no será que estos extremos occidentales se han

97 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


dado de manos espirituales con los extremos orientales, los de la India, y han llegado al
triste meollo de la sabiduría, a la comprensión de la vanidad final de todo esfuerzo. Parece
como que allí pesa la lúgubre sabiduría del Eclesiastes. En ese pueblo triste, tristísimo,
la gente se divierte, sin duda, pero se, divierte como si dijera: comamos y bebamos, que
mañana moriremos.
Pensando en cosas de estas tome al fin el coche que había de bajarme del pueblo a la
estación. Ansiaba llegar a ésta e iba contando, reloj en mano, los minutos de kilómetro en
kilómetro. ¿No os ha ocurrido alguna vez yendo en un tren poneros a recitar la numera-
ción, para ir haciendo tiempo, o a contar los postes del telégrafo según van pasando? Otros
hay que en casos tales rezan el rosario.
Cuando me hube acomodado en mi vagón, y mientras el tren esperaba a salir, volví
a mirar a Guarda, encaramada en su montana; esa Guarda que tantas veces atrajo mis
miradas. Ahora se ya como es por dentro. ¿Lo sé de veras?
Siempre me han atraído esos lugares y villas que desfilan a nuestros ojos según va el
tren ganando tierra, campos adelante. Son los más de ellos pueblos sin historia, donde a
nadie conocemos. Yo no sé si será que en mí, como en casi todos los hombres, duerme el
nómada, el peregrino andariego y errante, y despierta de cuando en cuando. ¡Ver pueblos!
¡ver nuevos pueblos, ver los más posibles! ¡Poder decir: también ahí he estado! Porque, en
resumidas cuentas, el fruto mayor que de mi visita a Guarda he sacado, es el poder decir
alguna vez, cuando de Guarda se hable o se la mente: también la he visto.
Leyendo á Camilo atravesé la frontera, que por esa parte no se señala ni por río ni por
montaña, ni por demarcación alguna natural. Atravesé la frontera; a los dengosos acen-
tos de la triste habla portuguesa sucedieron los recortados de la recia habla castellana. Ya
de noche, pase junto a Ciudad-Rodrigo, que es la guarda española de la frontera, y que
aún conserva las murallas – unas ridículas e inofensivas murallas – de que en la Guarda
portuguesa no quedan sino menguadísimos restos.

Salamanca, Diciembre de 1908.


98 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Oito séculos de altiva solidão
Eduardo Lourenço 39

Neste século, há apenas trinta e poucos anos, Vergílio Ferreira consagrou à Guarda da
sua adolescência, fremente e inquieta, a mais espectral evocação que o antiquíssimo burgo
de D. Sancho mereceu até hoje. Não por acaso, esse seu romance se chama Estrela Polar,
estrela álgida, solitária, a quem incumbimos da missão de nos guiar na noite escura do
mundo. A ele voltarei.
O mesmo Vergílio Ferreira, sempre tão presente na minha lembrança, num discur-
so memorável, em Bruxelas, disse que da nossa língua se vê o mar. Ele pensava, como
todos nós, na numerosa corte de poetas, que desde os cancioneiros a Sophia de Mello
Breyner, passando por Camões, Antero, Nobre, Pessoa, envolveram a nossa imagem de
portugueses nas ondas do mar, que nos foi destino. É curioso que o tenha dito, porque
da sua língua natal, da língua desta beira serrana e da sua capital, cercada de um silêncio
de séculos, físicos e simbólicos, não se vê o mar. Sabe-se que existe, pressente-se talvez,
adivinha-se, sonha-se com ele como Adamastor com uma Tétis que o não anda cercando.
O mar é, e foi-nos, porta para o mundo. Mas o destino desta velha terra, consagrada à
defesa e vigilância de um pequeno reino, que não sabia ainda que seria grande e disperso
como um arquipélago, não era o da viagem mas o da vigília, do ensimesmamento e, em
todos os sentidos do termo, da solidão. Da grande solidão das Beiras falou o etnólogo e
antropólogo Jorge Dias.

99 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Falemos nós da sua efectiva interioridade, mais filha da história do que da geografia,
não para assinalar uma condição de isolamento, difícil de viver e aceitar, mais a mais num
espaço tão pequeno como o nosso, em que tudo está próximo de tudo, mas para a pensar.
Só em termos modernos, o ser interior é vivido e percebido como uma espécie de
maldição ou fatalidade. A nossa velha Beira, a sua capital, que hoje se recorda de um longo
e solitário passado, só é interior depois que Portugal se define por um mar que hoje nem
fica longe para ninguém, mas então era como um outro planeta.
Nos seus começos, esta cidade e a velha Beira, que dominava altaneira, foram, não
apenas fronteira, mas coração de Portugal. Então o nosso horizonte vital, o nosso mar de
terra e pedra é a meseta contígua, matriz de onde nos separámos, espécie de deserto de
onde durante séculos, inquietos como no romance de Dino Buzatti, esperávamos, não os
tártaros mas os nossos excessivamente próximos castelhanos.

Oração de Sapiência de Eduardo Lourenço na sessão solene das Comemorações dos Oitocentos Anos da Guarda,
39

26 de Novembro de 1999. Publicado em Baptista, Maria Manuel (2005). O outro lado da lua – A Ibéria segundo
Eduardo Lourenço. Guarda: Campo das Letras/Centro de Estudos Ibéricos.
Guarda. Rua Alves Roçadas e, ao fundo, a Igreja da Misericórdia (RJ)

Estas terras, esta cidade e a muralha intermitente de castelos com que o céu se em-
parceirou, não eram ainda a ex-fronteira sem emprego de um país com os olhos no vasto
mundo, mas os guardiães da casa comum que confiava na sua vigilância. Em nome de
100 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

El-Rei D. Sancho ou do previdente D. Fernando fora criada e amuralhada para ser, em


todos os campos, a guarda desse reino fraco e vulnerável. Não éramos, no sentido preciso,
realmente a Guarda, não éramos o far-west ou o far-east de um país que nos voltava as
costas, mas a sua sentinela, a sua guarda avançada, entrada de reino e saída natural e futura
para a vasta Europa, além da Espanha.
Os oito séculos que celebramos têm muitos tempos. Antes que a história, que não
é fatalidade mas obra nossa, convertesse a fortaleza viva e útil dos séculos medievais em
sentinela espectral, sobre que cairá, insone, a neve dos dias e com ela o desconforto, o sen-
timento de estar parado ou desfasada do resto do país. Esta Beira foi o Portugal profundo,
o Portugal do arado, da cruz e da espada, confundidas como era lei do tempo, terra e gente
em luta com uma natureza avara, ganhando, com suor e sangue, o que ninguém lhe dava
de graça e sempre pronta para ir, não para o mar, mas além dos mares, para sítios que nem
os sonhos avistam, fosse o Brasil, fosse o Oriente, fosse a Austrália, fosse o Canadá. Nesse
mundo e nessa época, ninguém sofria de interioridade. Simbolicamente sede de um dos
mais prestigiados bispados do reino, a Guarda não sabia – ninguém se preocupava muito
com essas fantasmagorias – que um dia seria por dentro menos do que era então, uma ci-
dade coroada por uma Sé fortaleza, navio de pedra ao alto de uma montanha. E esse navio
às avessas é ainda hoje o brasão de uma história que só espera de nós que descubra outra
vocação, outro rumo, para ter tanto sentido como o tinha nesse tempo em que a sombra
de Castela não nos deixava dormir.
A evocação ou a referência ao passado só é interessante por pôr em causa o presente
e explicar as suas nostalgias ou o seu mal-estar. Ser interior hoje, ser capital ou cidade
de interior é vivido como punição, como empobrecimento efectivo e simbólico, como
fatalidade. É verdade que a cidade de D. Sancho pagou caro o seu papel de sentinela, ao
mesmo tempo real e ilusório. Que aceitou com demasiada passividade o destino barroco,
e mais tarde o administrativo, que o século xix lhe proporcionou. E que lhe tem custado
acompanhar a tumultuosa metamorfose de um Portugal que está apanhando ao mesmo
tempo todos os comboios perdidos que nos afastavam da Europa. Não é a única. Mas
talvez como nenhuma se encontra hoje confrontada com um desafio a si mesma, de perfil
desconhecido noutros tempos, mesmo próximos. E, como muitas outras entre nós, mas
de uma maneira aguda, dividida entre o que se pode chamar a miragem folclorizante de
si mesma e a miragem futurante de uma vida contemporânea da Internet, onde, parado-
xalmente, sentir-se isolado do mundo nem é álibi nem desculpa, tão impossível o parece.
Ao menos virtualmente.
Cultivar as nossas raízes, inspirar-se nelas ou delas para sentir-se como uma espécie de
barca que voga no tempo, não é nenhum pecado. A Beira, a nossa Guarda, são terras de
larga e funda memória. A nossa alma arcaica, quer dizer original, e sobretudo imemorial,

101 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


fazem parte de nós mesmos sem saber como a somos e o que somos nela. Mas a tentação
folclorizante é um pouco a perversão desse tempo imemorial e interior, a vontade de
querer voluntaristicamente estar num tempo que já não é o nosso.
É o presente que vivifica todos os passados. O nosso está nas pedras que já lá estavam
antes de sermos reino e cidade querida de reis. Está em costumes que ainda têm em nós ecos
insuspeitados. Faz parte do imenso arquivo de afectos, como diria o actor e poeta Américo
Rodrigues, que fizeram de nós o que somos, particular e fundo, como se fôssemos irmãos
gémeos das pedras que na montanha nos parecem gente viva. É bom não perder nada do
que nos identifica, mesmo o que só se torna nosso por graça dos céus. Se não temos um pa-
trimónio provincial tão rico como outros cantos de Portugal, não é desprezível, é o nosso e
na sua relativa modéstia está certo com tudo quanto somos de nu e depurado. A pequena
capela do Mileu pode ser um símbolo da nossa comovente riqueza de pobres, tão bela
como uma catedral. Nós não somos o Minho e a sua ridente paisagem. Somos assim, sem
seduções exteriores, fiéis a esta inconsciente alma de semeadores de centeio e cortadores de
pedra dura para resistir ao vento, à chuva e ao peso dos anos. Sob os pés temos todos uma
herança mais de granito que de terra e com ela um passado que nunca nos deixará perder
na areia do presente e na confusão prodigiosa do mundo. Podemos incorporar dele tudo
o que precisamos, até tempo dos outros, que não sabemos quem eram e de repente nos
fizeram canteiros pré-históricos. Émulos, diz-se talvez com o costumado exagero lusitano,
dos Miguel Ângelos, de Lascaux e Altamira. Bem precisávamos desta oferenda dos céus,
destas abençoadas gravuras do Côa, outrora fronteira entre nós e Leão, para colmatar o
nosso défice de mitologia cultural, no sentido comum do termo.
As nossas criações, os nossos grandes homens, por culpa nossa ou deles, não tiveram a
fortuna de se tornar ícones nacionais. Nem cronistas ingénuos que, por patriotismo, inven-
tavam cortes não havidas como Bernardo Brito, nem Rui de Pina, culpado por Herculano
de não ser Fernão Lopes, nem um desses conquistadores que fizeram o nosso Império,
nem sequer um Zé do Telhado digno de legenda para nos vingar de tanto esquecimento.
Este sim é que será o tal preço da interioridade. Também não tivemos um Aquilino nem
um Torga para mitificar as nossas terras de Deus e do diabo. Tivemos um Vergílio Ferreira
para apreender como ninguém a solidão sideral e, ao fim e ao cabo, vivificante, dos ermos
e dos páramos onde o destino nos fez nascer. Mas toda a gente se lembra da “Aparição”,
hino ao mais solar, embora também solitário, recanto de Portugal e pouca se lembra de
“Estrela Polar”, elegia da cidade, do luar de Janeiro e suas frias claridades, ao menos por
fora e ardentes por dentro.
A nossa mitologia de beirões é modesta mas não é nada que me desagrade. Ela corres-
ponde a uma interioridade que não é apenas exterioridade, distância onde a vida é suposta
ser melhor (o que não é da ordem da prova, mas realmente mais tumultuosa, mais comple-
102 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

xa e mais divertida, em todo o sentido do termo) mas é uma interioridade que é sobretudo
intimidade, longa conversa de séculos sem eco planetário nem sequer caseiro. Assim foi
no passado ou assim pensamos que fomos, pelo menos quando nos contemplamos nos
espelhos, acaso mais imaginários que reais onde os outros se nos mostram mais satisfeitos
de si do que nós o somos.
No presente, esta Beira e esta cidade multicentenárias e mais jovens do que eram nesse
passado sem regresso, adivinham-se ou apraz-me imaginá-las como um grito suspenso,
uma sufocação insuportável e inconformada com a sua herança insuficientemente parti-
lhada com o resto do país e do mundo, uma espécie de grito contido à espera de hora e vez.
Li, não sei onde, que as gentes desta cidade de alturas se interrogavam seriamente a
respeito do que devia ou deve ser a sua vocação. Creio que o texto não se referia a nenhum
projecto ou programa de vida de configuração pragmática, de tudo quanto é necessário e
urgente para que esta velha e um pouco melancólica capital de distrito ascenda aos níveis
de conforto, de vida, de progresso cultural, dignos de uma cidade moderna neste tempo
e em Portugal. Suponho que a Guarda, ou quem escrevia por ela, sonhava com qualquer
coisa que lhe desse um perfil particular, que lhe definisse, se não uma missão, uma vocação
que desse sentido ao seu futuro.
Estar na fronteira como sempre esteve, mas agora mais próxima da Europa do que o
resto de Portugal, não acordou nela outras exigências e uma outra vocação? A Beira, com
a sua cidade, está mais no caminho da Europa até nós do que de nós até à Europa. Foi
sempre assim. A Europa passa-lhe à porta, mas pouco mais do que isso. Compreende-se
que um genérico projecto europeu a não contente ou exalte ou esteja fora do seu alcance.
Esse é o projecto de Portugal no seu conjunto.
Que resta à Guarda? Mobilar melhor a sua estelar solidão histórico-cultural, sem ter,
enfim, o sentimento de a quebrar?
Só os caros cidadãos egitanienses podem definir os seus sonhos e as suas aspirações.
Para quem de dentro e de fora contempla a nossa altiva solidão, o caso não parece deses-
perado. O mar, que a Beira e a sua cidade não receberam em companhia, está há séculos
diante desta cidade. Como ameaça mais ou menos onírica, mas simbólica para a sua e
nossa identidade. Já não se chama Castela, chama-se Espanha, não porta para a Europa,
mas a Europa vizinha, a Europa próxima, interland natural do nosso rectângulo mágico.
Em suma, que a mais lusitana das fronteiras, no momento em que elas se apagam,
podia ser a mais ibérica e dialogante das terras, a do diálogo aberto e vivificante com o
deserto de que nos separámos e continuou a florir em nós no silêncio. Cumpre-nos a nós
ser o elo natural do novo diálogo em que a invenção da Europa converteu a Península. O
futuro o dirá.
E aqui suspendi o texto porque parecia que estava cometendo uma heresia, ou que as

103 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


minhas palavras fossem tomadas escandalosamente. Não é o caso. Eu creio que esta cidade
está mais vocacionada que nenhuma outra, e este espaço, para ser o lugar de um diálogo,
necessário mais que nunca, com aqueles que foram os nossos adversários durante séculos.
Eu penso que nesta cidade se podia imaginar qualquer coisa como um Instituto da
Civilização Ibérica, onde os nossos laços comuns que só Oliveira Martins foi capaz de
apreender, fossem repensados para que nós soubéssemos efectivamente quem somos e
onde estamos, não tão isolados como imaginamos, mas sempre sob o olhar dos outros,
para sabermos quem é o outro, com quem devemos dialogar e assim nos defender de uma
maneira diferente da que foi a nossa durante séculos.
Essa é a vocação que eu desejo para a Guarda. Que ela seja hoje a sentinela dum futuro
comum para uma Ibéria que é um dos pólos desta Europa onde todos nós queremos estar
e, onde querendo ou não, já estamos.
104 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Estação da Guarda (RJ)

Pensão Santos e Torre dos Ferreiros (RJ)


105 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Memorial a Miguel de Unamuno (2016). Memorial a Eduardo Lourenço (2017). Jardins da
Torre dos Ferreiros (RJ) Quinta do Alarcão (entre o CEI e a BMEL) (RJ)
106 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Porta da Torre dos Ferreiros: Senhora dos Porta do Sol (RJ)


Aflitos e Memorial a Miguel de Unamuno (RJ)
Sé (RJ)

Praça Velha (RJ)


107 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Igreja da Misericórdia (RJ) Paço do Bispo (RJ)
108 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Antigo Convento de S. Francisco onde estave instalado o Batalhão de Caçadores 7 e Eduardo Lourenço,
em 1947, prestou serviço militar como oficial miliciano (RJ)
Liceu Afonso Albuquerque, Rua Batalha Reis (RJ)
actual Escola de Santa Clara (RJ)

109 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Rua do Encontro (RJ) Rua do Encontro (RJ)


Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (BMEL, inaugurada em 27/11/2008 (RJ)
110 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

CEI (Centro de Estudos Ibéricos), instituição de que Eduardo Lourenço é Diretor Honorífico (RJ)
Fronteira, traço de união:
espaços e aldeias Raianas

111 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Desembocadura del río Huebra, Saucelle (SS)


Los Arribes del Duero40
Miguel de Unamuno

España está, en gran parte, todavía por descubrir y no menos en el aspecto pintores-
co que en otros diversos aspectos. Nuestra principal producción lo es de productos en
bruto, de primeras materias, de lo que se llama caldos, por ejemplo, más que de vinos
elaborados com arte. Nos enamoramos fácilmente de lo tosco y bravio, hasta de lo basto,
y tendemos con frecuencia á desdeñar el refino que á la naturaleza presta el arte, que es, á
su modo, una segunda naturaleza. Llévase esto á punto de desdeñar en todo los debidos
trasiegos y decantaciones.
Así sucede con nuestros paisajes, que permanecen en bruto, como primera matéria
de recreo y solaz para el espíritu, por falta de viajeros que los refínen á nuestros ojos con
artísticas descripciones. Porque es indudable que mucho de la belleza de un paisaje está en
los ojos que lo miran y que los educados á mirarlo le sacarán mucha mayor substancia de
beleza que los incultos.
No crea el lector por lo dicho que vengaá descubrirle ningún Mediterráneo ni á embe-
llecer desconocidos paisajes; vengo sólo á indicar el rumbo de uno de tales descubrimien-
tos y quiera Dios que alguien logre sacar á flor de vista hermosuras enterradas en un casi
abandonado rincón de esta provincia de Salamanca.
La Sierra de Francia con su famoso santuario y proverbial retiro de las Batuecas se lleva
112 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

en la provincia de Salamanca la fama del paisaje y casi nadie se acuerda de los arribes de
la ribera del Duero y de su hermosísimo retiro, hoy en ruinas, de Laverde. Y, sin embar-
go, yo, que he visitado una y otra región, no sabria á cuál otorgar mi preferencia como
desinteresado espectador.
Baja el Duero por tierra de Zamora tendido en la llanada y espaciándose por ella, mas
al ir a entrar en la provincia de Salamanca, dividiendo á ésta de Portugal, hacia donde le
rinde el Tormes sus aguas, entre Fermoselle y Villarino, se meten las entrañas de la meseta
castellana para ir a entrar en la tierra portuguesa. Resquebrájase la meseta en hondos des-
garrones, mostrando al descubierto sus berroqueñas entrañas, pedernosos cimientos de la
ceñuda tablada de Castilla. El agua terca, que talla las rocas gota á gota con secular trabajo,
ha ido carcomiendo su peñascoso lecho y buscando salida entre esquinces y revueltas.
A la distancia nadie adivina el hondo tajo por donde el Duero corre: la ondulante llanada
parece ir á perderse suavemente y sin solución alguna de continuidad en las estribaciones
de la sierra de la Estrella, que cierran, hacia Portugal, el horizonte. En uno de los repliegues
40
Notas de un viaje por la raya de Portugal ilustradas con 15 fotografías. In Hojas Selectas. Revista para Todos.
Año Cuarto. Barcelona, Establecimento Tipo-Litográfico Editorial de Salvat Y Cª, 1908.
Fermoselle (SS)
Fermoselle (SS)

113 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


de ese terreno se ocultan los hondos tajos, las encrespadas gargantas, los imponentes
cuchillos, los erguidos esfayaderos, bajo los cuales, allá, en lo hondo, vive y corre el Duero,
ya espumarajeando las rocas que aun no han cedido á su tozuda labra, va despeñándose
en desniveles, ya parándose un momento á descansar en angostos remansos, ya, por fin,
zumbando bajo los peñasos en las espundias. A trechos las paredes y escotaduras del tajo
se adulciguan, y se tienden las pendientes para recibir, sobre revestimento de tierra,
vegetación bravia y cuidados de cultivo. A estos declives que bajan al rio se les llama
arribes en toda la Ribera, es decir, en la región toda salamantina que borda el Duero y
afronta á Portugal. Arribes forman también los afluentes al Duero, que entre escotaduras
y barrancas análogas á las de éste, corren a él.
En dos ocasiones, y á distancia de cuatro años de una á otra, he visitado la Ribera y sus
arribes; la una durante los Carnavales de 1898 y la otra en los primeiros días de Mayo de
1902. La primera vez entré por Masueco, la segunda por Fermoselle.
Fuimos á Fermoselle desde Zamora, atravesando la mísera tierra de Savago, llena de
calvicies, entre enclenques robles. Según se baja hacia la Ribera, las arboledas menudean
más y se hacen más lozanas y de un verde más rico. Y dais vista á Fermoselle, encaramada
sobre peñascos cual para ver cómo se abrazan Tormes y Duero. Diriase que han sido sus
viviendas sembradas á boleo sobre los peñascos, y peñascosas á su vez. Es cosa corriente en
Castilla que parezcan los pueblos brotados de las entrañas de la tierra madre, berroqueños
y pardos como ella, y no fábrica de industria puesta alli por mano del hombre.
Es Fernoselle pueblo de gente ingeniosa en buscarse la vida, que se esparce por todas
partes vendiendo mercaderías: jáctanse los fermosellanos de que alli se reciben cartas de las
114 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

cinco partes del mundo. Sólo en Buenos-Aires, me han asegurado que pasan de cien los
fermosellanos alli establecidos. Cuando pasamos por Fermoselle llenaba aquellos contor-
nos con su fama el Doroteo, de fin trágico, un imitador de Juan Moreira el gaucho, el cual
Doroteo murió cazado por el pueblo un día de Corpus. De el he de escribir.
De Fermoselle, por entre empinados berruecos, bajamos al Tormes para cruzarlo y
pasar á Villarino. Y es inolvidable la paz inmensa de un río que discurre en lecho de pie-
dra, entre árboles que agarran á la roca con sus raíces. El recato del agua en estas soledades
infundem pureza en quien lo mira.
Antes de entrar en Villarino, á poco de haber subido del Tormes, nos desviamos para
montar al teso de San Cristóbal, en que se celebraba aquel día, uno ó dos de Mayo, ro-
mería. Y no la olvidaremos nunca, pues la llevamos agarrada á los hondones de la retina
del espíritu. En aquel teso de piedras, como amontonadas para contemplar más piedra,
crecen azucenas, y allí, ante la ermita, en una explanada, bailan mozos y mozas, á la vista
de las vastas soledades. Ellos de traje pardo, obscuro, y ellas con sus refajos y dengues gual-
dos, rojos, verdes ó morados, parecían al danzar acordadamente, al compás del tamboril,
gigantescas flores de retama, brezo y azucena, sacudidas por un viento loco. Era el palpitar
de la vida en el regazo pedernoso de la ceñuda Castilla. Un enorme berrueco, casi redondo,
coronado por una banderita, presidía la fiesta.
Atravesamos Villarino por frondosas arboledas, camino de Pereña, y hubo un trecho,
en un ancho descampado, en que tuve la sensación inmediata de lo que por noticia reflexi-
va sé, y es que en estas llanuras castellanas todo es cima. Senti hallarme en la cumbre de
una vastíssima montaña, cumbre que se pierde de vista en redondo.
Ya tarde, cuando se derretían las sombras invadiéndolo todo, dimos vista á la cascada
de los Humos, entre Pereña y Masueco. Habíala visitado en mi primer viaje á la Ribera, en
1898. Entonces fuimos desde Masueco por una deliciosa quebrada, festoneada de frutales,
hasta avistar el agreste paisaje, en el tajo de un afluente del Duero. A un lado se alza, do-
minando la barranca, un inmenso cuchillo de roca, y tras él se pierde la garganta del rio.
Vadeando éste y por un senderito de un empinado arribe, se da plena vista á la cascada.
Es singular la atracción del agua. Estaríase uno las horas muertas mirándola fluir y
oyéndola rumorear, dejándose ganar el espíritu por la sensación purísima que su constante
curso nos produce. El agua es acaso lo que nos depara mejor imagen de la quietud en el
movimiento, del reposo supremo que del concierto de las carreras de los seres todos surge.
En un estanque duerme el agua espejando al cielo, pero con no menos pureza lo espeja en
el cristal de un sosegado rio, cuyas aguas, siempre distintas, ofrecen, sin embargo, la misma
sobrehaz siempre. Y en la cascada misma, por donde se despeña bramando, preséntanos
una vena compacta, una columna que acaba por parecer sólida. ¡Enorme fuerza la que, sin
aparato alguno de ella, con la sencillez del coloso, despliega! Hubiérame estado las horas

115 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


muertas contemplando aquel inmenso chorro que salva un desnível enorme del lecho de
las aguas. Es una de las hermosas caídas de agua, ésta que puede verse entre aquellos adus-
tos tajos. Divídese la cascada mayor en dos cuerpos, debido á un saliente de la roca, y va
á perderse en un remanso de donde surge el vapor, ó agua pulverizada por el golpe, que
le ha valido al paraje el nombre de los Humos. Junto á la gran vena liquida, á su abrigo,
en las quebraduras y resquicios de la roca, anidan palomas que revolotean en torno del
rugiente coloso liquido. Este vió desgastado poco á poco el desnivel que lo engendra, y es
seguro que cada año se achica la cascada, aunque sólo sea en un milimctro ú en tracción
de el. ¡Los siglos de siglos que habrá necesitado el agua para excavar tales tajos y reducir
semejantes cascadas!
En mi segundo viaje soslayamos á Masueco, al caer de la tarde, en dirección á
Aldeadávila, mas en el primero fué mi centro de excursión y el primer pueblo de la Ribera
á que llegué. Y lo cierto es que iba con impaciencia por dar vista al negrillo, que era, según
el tío Mateo, nuestro guia, el primero de España y tal vez del mundo, en corpulencia.
No le iba muy en zaga el otro, colosal también, al que conoció de retoño el tío Mateo,
haciéndole bambolear la cabeza como cuando juegan à las migas los muchachos. ¡Lo que
son los árboles! Asi crecen ellos, sin duelos, penas ni cuidados, ahondando sus raices en la
misma tierra en que nacieron, mientras abren su copa al mismo cielo siempre, formando
en el otoño con los despojos de su follaje el mantillo que les nutra de jugos, para reverdecer
en primavera. Como las hojas de los árboles, decia el viejo Homero que son las generacio-
nes de los hombres. Aquel negrillo que junto á la robusta fábrica de la iglesia de Masueco
se desnuda todos los años, para volver todos los años á vestirse de verdura, arraigando más
en su propia cuna cuanto más fuerte se hace, ofrece con su espectáculo á los pobres labrie-
gos que destilan por la vida, obscuro símbolo de la unidad del pueblo. ¡Cuantos al marchar
á la emigración – de los muchos que de esta región emigran al Brasil. – enderezarán sus
últimas miradas á la amplísima copa bajo la cual jugaron sus juegos de niños, á aquella
copa en que resuena la campana cuando congrega al pueblo á misa, cuando toca á fiesta y
cuando dobla á muerto!
De Masueco fuimos á Aldeadávila de la Ribera, la corte de esta región, la villa para
los comarcanos. Y después de hacer en ella noche, emprendimos la marcha al retiro de
Laverde. En esta mi segunda visita, ansiaba volver á verlo.
Al rato de salir de Aldeadávila se llega á unos sobreros ó alcornoques, y desde allí se abre
á la vista el tajo por cuyo seno corre el arroyo del Rupinal, y en el fondo, las escarpadas y
sombrías paredes de Portugal. En aquellas desoladas vertientes del Rupinal, cerca del caño
de Fuentemendo, dicen que hubo un pueblo.
Mientras seguían las caballerías la senda que en ziszás baja al río, cortamos nosotros
camino por los resayos ó atajos que lo cortan. Una vez en el hondón, parece hallarse uno en
116 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

medio de región montañosa, en el interior de algún país alpestre. Nadie diría que ganando
las crestas se extiende á la vista la inmensa meseta ondulada.
Se da vista al Duero y con él á un paisaje dantesco, tal cual Gustavo Doré los ima-
ginara. En lo alto apuntados picos que asoman al abismo, peñas y aserradas crestas: á lo
largo inmensas escotaduras que encajándose de un lado y de otro, en la disposición lla-
mada de cola de milano41, forman la garganta por cuyo hondón corre el rio. Los enormes
cuchillos van perdiéndose en gradación de tintas hasta ir á confundirse en la lontananza.
Allí arribota, arribota, en la cresta del escarpado frontero, verdean trozos de trigo, nun-
cios de una campiña serena, y asoma su copa algún que otro arbolito que denuncia á
un pueblecillo portugués. Juegos de luz animan la dantesca garganta: peñas en claro se
destacan sobre el tono obscuro de las peñas en sombra, y allá en lo alto, dominando al ce-
ñudo paisaje, algún milano se cierne empapándose en luz. Suben del río perezosas nieblas,

El novelista catalán Mariano Vayreda tiene en Sanch nova una expresión muy gráfica para designar esto, y
41

es que las sierras se compenetraban alternadas como los dedos de dos manos en cruz (alternades com els dits
de dues mans en creu).
que se agarran á los peñascos, fingiendo sus almas que de ellos se desprenden con pesar.
El Duero, que dibujando su vena central, su líquido senderillo de espuma, corre encajo-
nado en el fondo de estas gargantas, es el mismo que pasa solemne y amplio, abrazando á
la feraz llanura, y como gozándose en ella, por tierra de Zamora. Todas estas gargantas son
obra de él, labra de la lenta labor del agua. El fuego bosquejó á la tierra su esqueleto, dio el
bloque, y es el agua el artista pacienzudo y tenaz que modela sus contornos.
En el fondo de estos tajos incuba el sol que da gloria. No lejos de Laverde hay en
la garganta un paso llamado de la Bodega, tal vez por esta incubación. El sol caldea los
arribes, resguardados de los vientos y las brisas que hielan la meseta, y saca de ellos una
vegetación potente y propia de otras latitudes. Crecen olivos ingeridos en zambullo ó ace-
buche, tapizan las vertientes oloroso tomillo, flores de monte, nardos; la cubren gamonas,
jaras, madroñeras, anguelgues, jidigueras ó cornipedreras, y retuerce sus recias y nervudas
ramas entre rocas el bravio joimbre (42), cuyas raíces luchan con las entrañas de la peña
para dar de beber á su enmarañada mata luz del sol. La mano del hombre ha acudido á
fomentar la naturaleza. En los repliegues de los arribes dan al sol su tono de verde claro
los limoneros y crecen los naranjos, y aqui y allí salpican al tinte pardo de los escarpes
los blancos copos de los almendros en flor. En poyatas ó tablas talladas en el terreno y
sostenidas por paredones, se alzan olivos.
En una de estas laderas del tajo del Duero, en medio de los restos de una que debió
de ser huerta frondosa, se alzan las ruinas del convento de Laverde, retiro en un tiempo de
frailes menores. En la poterna, sobre la puerta y debajo de un escudo con los cinco estigmas
franciscanos, se lee, enteramente ahumada, esta inscripción: «Entre la vida y la muerte no

117 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


hay espacio ninguno; en un instante se acaba lo que vive en el mundo, AÑO MDCCLXIX.»
Dejadas las caballerías en la que fué iglesia, entramos en las ruinas del convento.
Es una pena lo que ofrece aquella desolación. Las celdas deshechas y á la intemperie;
la hierba creciendo por todas partes; en el claustro y entre maleza un limonero, á cuyo pie
tomaba el sol un marrano, y en el jardín un boscaje de limoneros y naranjos. El convento
no tiene mérito alguno arquitectónico ni nada, sino su ruina, que le dé carácter. Es vul-
garísimo. Por la parte que mira al río presenta algún aspecto de fortaleza. Lo hermoso es
su escenario y su ambiente, los restos de frondosidad de que está rodeado. Frente á él se
alza un gigantesco piñal y en lo hondo zumba el Duero su canción eterna, enfrenado entre
peñascos. Lo más típico es lo que del huerto queda; aquel rincón sombrío de limoneros y
42
Es una de las formas del nombre que dan en la región al enebro (juniperus), y formación tan normal del
latino como la corriente. Como caso típico de lo qué es la lengua popular y de la proteica indeterminación
de que gozan sus términos, cuya forma rara vez alcanza perfiles definidos, apuntaré aqui que en el reduci-
do espacio de cuatro ó cinco pueblos de la Ribera he oído llamar al enebro enjumbre, enjambre, enjembre,
enjimbre. joimbre, juimbre, jumbre, jimbre y jumbrio (en portugués se dice zimbro). A las veces se oyen dos
variantes en un mismo pueblo y hasta á una misma persona.
naranjos, á cuya sombra rezarían los frailes sus oraciones, descabezarían sus siestas y goza-
rían de sosiego los ancianos retirados ya del mundo. Es un rincón que sugiere la idea, algo
antinómica, de un ascetismo horaciano.
Hubo un tiempo, hasta eso de 1830, en que floreció en su retiro este cenobio, ofre-
ciendo en aquella colosal hendidura de la adusta meseta castellana, como en resquebraja-
dura de roca en donde hacen su colmena las abejas, escuela de recogimiento y meditación
á los frailes menores durante algún tiempo del año y refugio para su vejez á los que de ellos
pedían acabar allí sus días, en el vivo silencio, rezando á la sombra de los limoneros y al
compás del susurro del contenido río.
Es, sí, un silencio vivo el que allí reina, vivo porque reposa sobre el sempiterno rumor
del Duero, que en puro ser continuo acaba por borrarse de la conciencia de quien lo re-
coge. Y como se pierde de cuenta ese rumor sempiterno del curso del río, perderíase allí
de cuenta el rumor del curso de las horas, que habrían de desfilar en solemne procesión
monótona, iguales las unas á las otras. Allí, en aquel refugio, libertarianse los espíritus del
tiempo, engendrador de cuidados, yendo cada día á hundirse sin ruido, y llevándose su
malicia, en la eternidad. ¡Siempre el mismo río, los mismos peñascos siempre, todo inmu-
table! Cuando lo que nos rodea no cambia, acabamos por no sentirnos cambiar, por com-
preender que es el vivir un morir continuo, que «entre la vida y la muerte no hay espacio
ninguno,» como reza la inscripción del convento de Laverde.
A este convento iban en un tiempo los riberanos, á los perdones, por la Porciúncula,
y aun hoy algunos recuerdan haberlo oido contar. En denominación de sitios ha que-
dado memoria de los franciscanos que lo habitaron. Hay en el camino un punto que se
118 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

llama el montadero de los frailes: á una peña que forma á modo de asiento, le llaman la
silla del guardián. Alli cuentan también que viniendo Santa Marina perseguida de los
moros y cansada del camino, al llegar á una peña le dijo: «¡Ábrete, peña cerrada, que
viene Marina cansada!» En la peña hendida á tal conjuro se colocó un altar á la santa, y
sobre ella se alzó la capilla de Santa Marina, cercana al convento. La cuadrada torre de
éste, mostrando al descubierto el enladrillado de su cupulilla, mira al contorno y con-
templándola recordé dos hermosísimas estrofas que pone Verdaguer en boca del campa-
nário de San Martín en su espléndida poesía Los dos Campanars. También esta torre vió
marchar á sus frailes y que se volvían para mirarla, y acaso aguarda, hace setenta años, á
que vuelvan. Y eso que hoy buscan las ciudades y poblados, para luchar en el mundo, y
no la soledad, para huir de él.
Hoy en día no habitan la barrancada, fuera del rentero que explota lo que los frailes
dejaron, más que los carabineiros españoles de este lado del río, y del outro los guardiñas
portugueses, vigilando el paso de la barca. El contrabando es lo único que á las veces anima
á la hoz. Algunos desgraciados se ponen de acuerdo, lanzan de un lado al otro del rio un
Dibujos de Unamuno hechos en Traguntía en la misma
época en que visitaba los Arribes del Duero

Dibujos de toros de M. de Unamuno, en Traguntia

119 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Dibujo del pozo de beber de M. de Unamuno, en Traguntia

Encina en el camino al pozo de beber, en Traguntia; dibujo de Miguel de Unamuno


bramante ó cogiéndolo con los dientes lo pasa alguno á nado: con él tienden una maroma,
y pendiente de un barzón pasan, mediante una guindaleta de un reino al otro, género
prohibido. Es el modo de contrabandear allí donde no hay puente alguno, á lo sumo una
manotera y alguna vez un paso á saltos. La frontera natural se halla profundamente mar-
cada, pareciendo haberse desgarrado violentamente los dos reinos. Y arriba nadie lo diría;
desde Masueco parece Ventosello un pueblecillo de Tras-os-montes, como si estuviera en
la misma llanura, sin más que leves ondulaciones del terreno en el intermedio.
Emprendimos la subida á Mieza desde Laverde, por un angosto sendero en resayos,
entre peñascales. A trechos iban las mulas invertidas alternativamente, mirando cada una
en sentido opuesto al de la de abajo y al de la de encima; tan pequeño era cada trozo recto
del ziszagueo. Y una vez arriba, de nuevo la meseta. Al volver la vista, camino de Mieza,
vimos á lo lejos la hoz del Duero como un hondo surco abierto en la meseta, como una
gran hendidura de sombra. En aquella sombra quedaba Laverde. Y antes de entrar en
Mieza nos asomamos á la Code, que presenta el más imponente mirador de la Ribera. Es
un saliente sobre el río, cortado, no ya verticalmente, sino casi en línea entrante, un gran-
díssimo promontorio en que se hacinan los berruecos. Discurriendo entre ellos, echando el
cuerpo hacia dentro por miedo al vértigo, se ve á un lado y á otro el Duero como larga an-
guila que se acurruca entre peñas moteadas de verdura, y parece un río humilde y manso.
En Mieza compramos una lamprea, – las de esta región tienen fama, – para ir á co-
merla en Vilvestre. Nunca la había probado y aun hoy no sé sino que aquélla sabía á laurel.
Vilvestre es un pueblecillo despejado y limpio, que abre su calle tras una cruz, y se tiende á
la falda de una colina coronada por las ruinas de un castillo. Fuimos á los picos que domi-
120 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

nan los arribes y aun encontramos en alguna calleja bolilleras ó encajeras, que hacen encajes
al bolillo, industria que tuvo su época de florecimiento, llevando tras de sí el comercio de
encajería que hacían los fermosellanos por villas y lugares. En Bilbao hay uno que habiendo
empezado por vender de casa en casa los encajes, acabó por establecerse y ha hecho un buen
capital. Pero las fábricas han matado esa pequeña industria, más que doméstica, callejera, así
como la filoxera, matándoles las viñas, les ha obligado á emigrar al Brasil.
Desde los altos de Vilvestre que dominan los arribes, Peño Corvo y el Castillo de
Narbona, – extraño nombre para un desnudo berrueco, se abarca con la vista, como desde
elevada cornisa, un sitio en que la hoz se ensancha, adulciguándose el paisaje. En las ver-
tientes portuguesas fronteras empiezan ya los tan famosos vinos de Oporto, procedentes
no pocos, y no de los menos ricos, del Duero alto. En el fondo, entre floridos almendros,
el rio se perdía á trechos de vista en repliegues del terreno, para reaparecer más adelante,
de un verde obscuro á la sombra, y brillando al sol con el tono con que á éste refleja la hoja
del maíz. Allá abajo, en un vallecito, cantaba un gañán, llevando la mancera del arado, y
su canto subía limpio, espontánea eflorescencia del trabajo.
Masueco (SS)

En mi primera visita á la Ribera, al retirarme de aquellas alturas hacia el pueblo, se


ponía tras los oteros portugueses la roja rueda del sol. Fué una de las más hermosas puestas
que he contemplado. El inmenso bolo candente, de rojo cereza, se ponía en paz y sin herir

121 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


la vista, entre nubécillas que á ratos le ocultaban en parte, fingiendo en su encendida esfera
paisajes de adustos peñascos, remedo de los que teníamos en derredor. Parecía otras veces
partirse para refundirse al punto, y cuando se ocultó, dejó en el campo la serena calma de
su luz derretida.
En esa mi primera visita me volví á Salamanca desde Vilvestre. Atravesando en terreno
de Barrueco-Pardo unos berrocales que me sugirieron el espectáculo de algún paisaje ante-
diluviano de gigantescos hondos, pues tal remedan los enormes peñascos, de redondeadas
formas, que cubren su campo. Y más adelante, en Cerralbo, se alzan aún, dominando el
pueblecillo, las ruinas del castillo del marquesado. En mi segunda visita, desde Vilvestre
continuamos, siguiendo la Ribera, á Saucelle, donde presenciamos uno de los espectáculos
más hermosos, y fué el de un cura, ecónomo de un pueblecillo, al que contra la voluntad
del Pueblo se le había trasladado de coadjutor á Saucelle, y en demostración de cariño le
acompañaba el pueblo todo, camino de dos ó tres leguas. Junto á él su anciana madre, ro-
deada de viejas y mozas, y viejos y mozos, chicos y grandes, en sus caballerías, escoltando
al cura amado.
De Saucelle emprendimos marcha á la Hinojosa á tomar el tren de Salamanca. El tra-
yecto es también de desquiciados peñascales, con algún que otro oásis de verdura, y ofrece
singular atractivo el panorama de la garganta en que la carretera pasa el puente sobre el
Huebra, cerca de donde éste va á rendir al Duero sus aguas batidas entre rocas.
Más allá de la Hinojosa, – pueblecillo más retirado del río que los demás riberanos, –
se encuentra la Fregeneda, en el picón que forma la confluencia del Águeda y el Duero. En
la Fregeneda estuve en otra ocasión, antes de lá primera de las excursiones de que aquí he
hecho mención, bajando desde ese pueblecillo al primero de Portugal, á Barca de Alva, á
la orilla misma del Duero.
En Barca de Alva he estado dos veces; la segunda á visitar á Guerra Junqueiro, que allí pasa
buena parte del año cuidando de sus viñas y rimando oraciones al trigo, á la luz, al vino, á la
vida, á Dios. Tiene allí el poeta portugués una vivienda sencillísima, con un desnudo cuarto de
estudio en que reposan sobre unas tablas unos centenares de libros, y por todo ornato un gra-
bado representando el Hijo pródigo, de Durero, y un retrato de Tolstoi. Esto es en el miserable
pueblecillo, vera del Duero, en la Beira alta. Al otro lado, en Tras-os-montes ya tiene sus viñe-
dos y allí estaba haciendo una casa donde se proponía vivir con sus obreros, en hermandad.
Guerra Junqueiro es riberano también de nacimiento, de la ribera portuguesa, de
Freixo de Espadacintas, en Tras-os-montes, frente á Vilvestre, Duero por medio. En su
libro de poesías más íntimas y más jugosas, Os simples (Los Sencillos), hay piezas de ins-
piración miñota, de las rientes márgenes del Miño, y otras transmontanas, del lar saudoso
da minha meninice, como dice él mismo. Entre éstas se halla O Tastor, en que aparece el
paisaje riberano de que he venido contando:
122 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

A deserta, inmensa, rustica paizagem.


Y es que, en efecto, no todos los paisajes son rústicos: no toda la campiña es campo. El pastor
fez-se moço e grande pelas serras brutas onde as aguias pairam, onde o roble medra, e onde
os fragaredos bárbaros, com grutas, se encastelan crespos, infernaes, em lutas, tal como tormen-
tas de trovões de pedra!
Y en esas sierras brutas en que posan las águilas y medra el roble, y por fulvas, ingremes
ladeiras, pastorea su ganado el pastor nonagenario:
Só rochedos tristes, nus como caveiras, e zambullhos, zimbros, tojos, cornalheiras, acres
como pragas d’ una boca má!
Pero estas rocas tristes y desnudas, entre las que crecen esos acebuches, enebros, tojos
y cabrahigos, acres como plagas de una boca mala, esos peñascosos «monte cenobitas, de
huesos y burel,» cuando llega Marzo «vístense de tréboles y romero.»
Precisa leer toda esta hermosa poesia para comprender lo que pueden inspirar los de-
solados berrocales que rodean al Duero en esa región en que la vida es dura y el hombre se
edurece entre los duros peñascos.
Masueco (SS)

Mucho habría que decir del paisanaje de la Ribera, de sus costumbres, de su traje, de
su carácter; de su interesantísima habla sobre todo, pero no cabe ello en impresiones como
éstas.
Ofrece la provincia de Salamanca, en el aspecto antropológico, amplísimo campo de

123 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


estudio. Profundas diferencias separan, dentro de la unidad que los abarca, al charro pro-
piamente dicho, – pues es un error el de creer que todo salamanquino sea charro, – con
sus internas diferencias, al armuñés, al serrano, al riberano, al peñarandino, al bejarano.
En el mismo distrito de Vitigudino, á que pertenece la Ribera, se señalan diferencias entre
la Ribera misma, la llamada Aldea, el Abadengo y la Ramajeria.
Apenas si empieza á florecer en España el estudio, hecho en vivo y del natural, del
pueblo. No está sino encentado todo género de folklore ó demótica; ni las tradiciones
ni los cantares, ni las costumbres ni el derecho consuetudinario, ni la medicina popular,
ni el habla han hecho sino iniciarse á estudio. ¡Y no es poca la mies! Llevo algún tiempo
recogiendo elementos para un estudio del habla popular, ó mejor, de las hablas populares
de la región salamanquina, y cuanto más material agavillo, más vasto me parece el que
queda fuera de mi diligencia. Lo que en la historia de la literatura española se conoce con
el nombre de dialecto sayagués, el lenguaje en que están escritas las farsas y églogas que á
fines del siglo xv escribieron Lucas Fernández v Jua del Encina, el habla rústica del famoso
Auto del Repelón, no es más que leve muestra de un dialecto que abortó aquí, y del que aun
hay rastros. Queda más de él en Portugal, en lo que llama dialecto mirandês el señor Leite
de Vasconcellos, Conservador de la Biblioteca Nacional de Lisboa, que ha publicado dos
fuertes volúmenes de Estudos de Philologia Mirandesa.
Dentro de la región salamanquina, el territorio más rico en cosecha linguística especial
es, por lo que llevo trabajado, la Ribera. Formas dialectales se recogen á porrillo recorrien-
do los hermosos campos de Salamanca.
Si Dios me da vida y salud, pienso dedicar á esta habla un estudio, y entonces se verá
qué precisos giros, qué briosas expresiones, qué dichos decideros, – como aqui se dice, –
qué característicos vocablos corren de boca en boca del pueblo, inadvertidos de los doctos,
y qué luz tan viva puede arrojar este estúdio sobre el conocimiento de nuestra lengua cas-
tellana literaria, esmirriada y encanijada por la vida de ciudad.
124 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Regresso sem fim: S. Pedro do Rio Seco e a fronteira
Eduardo Lourenço

O duplo rosto da fronteira43

O Prémio que este ano o Centro de Estudos Ibéricos, através do seu júri luso-espa-
nhol, atribui ao homem da fronteira e jornalista de televisão, Agustín Remesal, tem um
significado muito particular. É o primeiro que é concedido a um homem dos “media” e,
ao mesmo tempo, a um intelectual que, ao longo do seu percurso, se tem interrogado de
uma maneira apaixonada acerca da vivência singular de um dos espaços “raia” da nossa
Península, o que, desde há séculos, separa Portugal de Castela e, mais latamente, Portugal
de Espanha. A História da nossa Península não é propriamente a história de Penélope,
uma espécie de tela misteriosa em perpétua urdidura histórica.
Na Europa, “a raia quebrada” a que Agustín Remesal consagrou um excelente e inédito
documentário, é um autêntico paradoxo. Ela não é propriamente os Pirinéus ou o Reno,
ou o Elba ou o Vistúla, realidades separadoras e obstáculos de densidade palpável, histori-
camente quase intransponíveis em termos guerreiros.
Fisicamente – geograficamente – nada, nada de diferente separa Portugal da fronteiri-
ça Espanha. É a mesma meseta que nos continua, a mesma planura da Extremadura e com
mais força simbólica, os mesmos rios que, como se soubessem onde está o mar deles, recor-

125 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


tam o nosso País e se perdem no Oceano. Geograficamente, somos um todo. É a História
multi-centenária que nos divide. E essa História é a de uma separação política cultivada e
mantida, não sem dificuldade, durante séculos, com as suas peripécias conhecidas e cuja
compreensão deve mais às comoções intermitentes da política europeia do que às rivalida-
des e relações de força do nosso destino comum intra Peninsular.
Há um drama peninsular e nós fazemos parte dele. Mas quando comparamos o nosso
destino ao de outros espaços conflituosos da Europa, ao fim e ao cabo, os nossos dra-
mas – e em particular, o de Portugal – têm um lado lírico que outros nos podem invejar.
A periferia tem-nos preservado da grande “tragédia europeia”. Uma precoce partida para o
largo de toda a tragédia digna desse nome.
Pode pensar-se que esta fuga para o outro lado do Atlântico, onde repetimos a cisão
peninsular – relativizou, afinal, a dramaticidade da nossa famosa “fronteira”. Como se
entre Portugal e Espanha, de Toro mais do que de Aljubarrota – tivéssemos decidido, não
ver, não ter em conta «a nossa “raia quebrada”». Nós sabemos que está lá – aqui mesmo ao
43
Intervenção na Sessão de Entrega do Prémio Eduardo Lourenço 2006 a Agustín Remesal, in Revista
Iberografias, nº 2 (2006). Guarda: Centro de Estudos Ibéricos.
Almeida (RJ)

lado – como se não estivesse. Tradições culturais de milénios, religiosas, falas tão próximas,
deviam tornar, por assim dizer, invisíveis as nossas mútuas fronteiras – e penso que, simboli-
126 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

camente, e não apenas como bem vindos turistas, os nossos amigos espanhóis assim a atraves-
sam. Paradoxalmente, fizemos da “semelhança” e do mimetismo, para lembrar René Gérard,
a mais sólida das fronteiras, feita de quase nada, apenas da vivência secular de uma diferença
local que o estatuto de Nação, na Europa e fora dela, universalizou com o nome de Portugal.
Tudo isto podia ser apenas coisa do passado, já sem importância, no momento em
que a Europa se desenha como espaço comum – ou assim se sonha – e em que por
definição a problemática da fronteira ou os seus problemas – deixam de ser preocu-
pação politica ou militar, como durante séculos. Somos um continente em paz. Isto
parece um dado adquirido. Mas que paz? A antiga paixão que a fronteira assinalava
como signo de confronto mortal está, sem dúvida, adormecida. É uma boa ocasião para
pensar o que é uma fronteira, e não apenas imaginar que desapareceu, magicamente.
Mesmo um pequeno país, como a Bélgica, a fronteira pode ser ainda a rua vizinha da
Flandres. A nossa, assumida há muito como algo natural, não nos interpela ou nos
preocupa como drama virtual.
Temos, agora, todo o tempo para revisitar a fronteira que fomos e ainda somos, ane-
xando como algo familiar e positivo, como faz o nosso premiado Agustín Remesal. Temos
sobretudo, tempo para pensar e viver a fronteira como algo positivo. Não apenas o que
separa ou ameaça. Mas como algo que nos põe limites que são de espaço e de memória.
E que, por isso, paradoxalmente, nos define. E bem pensada é já um diálogo em si mesma.
Devemos estar gratos a Agustín Remesal por ter ilustrado, tão concretamente, com a sua
paixão pela raia que nos separa e une, a virtude nova em folha deste diálogo de fronteiras
em terras da Europa que bem precisa dele.

As fronteiras que não têm fronteiras44

Somos nós todos, em particular, eu, que lhe agradeço o ter tido a gentileza e a hu-
mildade de aceitar este Prémio. Bastava este discurso de agradecimento do premiado para
que eu tivesse consciência da razão de ser deste Centro de Estudos Ibéricos, consagrado ao
diálogo dos dois países: colmatar, não o diálogo mítico que nunca existiu, mas um certo
obscurecimento dele, sobretudo nos dois últimos séculos.
O Premiado de hoje é ao mesmo tempo um poeta, um grande jornalista, um escritor,
um cronista, e coisa que é um pouco o sonho, mais ou menos escondido e inconsciente, de
todos os intelectuais, que é quererem ser homens de acção. Alguns o são, mas não muitos.
E no caso dele é não só um escritor, no sentido forte da palavra, um poeta, um gran-
de cronista, um grande humanista, como se viu, mas foi, uma parte da sua vida, um dos

127 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


maiores animadores culturais que a Espanha se deu a si mesma. Primeiro como Director
do Círculo de Belas Artes de Madrid onde tive ocasião, em tempos e a seu convite, de
apresentar uma pequena comunicação. Em seguida, Director do Instituto Cervantes, que
é uma instituição extraordinária que qualquer país do mundo invejaria, se a conhecesse ou
se a conhece, e sobre o seu consulado conseguiu uma afirmação e uma presença no mundo
realmente extraordinária. E por último, foi Ministro da Cultura da vizinha Espanha.
Portanto, ele reúne duas coisas dificilmente conciliáveis: um autor, de pleno direito,
um poeta e, ao mesmo tempo, um homem de acção. É claro que, apesar de todo o seu
sucesso e todo o seu destino de homem público e político, eu penso que aquilo que é mais
importante para ele é a criação literária, o facto de ser o autor das obras de que é autor.
A primeira obra que eu conheci dele é um livro, famoso, sobre El iberismo y outros escritos
de literatura portuguesa, em que tive a surpresa de ver que também figurava nessas páginas.

Intervenção na Sessão de Entrega do Prémio Eduardo Lourenço 2010 a César António Molina, in Revista
44

Iberografias, nº 7 (2011). Guarda: Centro de Estudos Ibéricos.


Todos os autores gostam de sair do espaço onde são mais ou menos conhecidos para
atravessar fronteiras. César Molina foi uma das pessoas que me ajudou a passar este tipo de
fronteiras mais difíceis de contar que são as fronteiras que não têm fronteiras, as fronteiras
de um texto, de encontrar autores que nos leem realmente numa outra língua, embora
próxima, como o castelhano.
Mas além disso, ele é autor não só de poemas, mas de livros que são de um grande
autor. As suas “Memórias de ficção” são obras de um ficcionista e cronista a tempo inteiro,
são uma espécie de diário/crónica, em que vemos a quantidade e a qualidade dos interes-
ses, não apenas literários, mas artísticos, de tudo quanto diz respeito realmente à criação
de César António Molina. São obras que se lêem não só com grande encanto literário, mas
que nos dão um conhecimento profundo, não só da cultura espanhola, das suas obsessões,
mas da cultura europeia em geral e da cultura universal.
César António Molina tem esta visão ao mesmo tempo intensa do particular onde ele
está centrado, de alguém que tem uma “pátria chica” que é a Galiza, que é a mãe cultural
da nossa, e uma pátria maior que é, no fundo, a cultura universal.
É um autor que se interessa e que tem um sentido inato da universalidade. E univer-
salidade é sempre a universalidade de uma particularidade e não de um cosmopolitismo
abstrato, de um interesse abstrato, realmente, por aquilo que os outros fazem, que os ou-
tros criam, que os outros são.
Portanto, enquanto pessoa que dá o nome a este Prémio, eu é que não posso fazer mais
do que regozijar-me pelo facto de um autor como o César António Molina tenha aceitado
receber este Prémio.
128 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Evocou-se aqui Ángel Crespo, que também foi alguém que procurou, com uma
forte exigência, dar expressão ao conjunto das criações de tipo peninsular e que talvez
tenha experimentado essa necessidade com mais violência por ter estado na América,
propriamente espanhola, durante algum tempo. Dali ele viu, perfeitamente, que a
Península Ibérica não era apenas esta espécie de ilha, um pouco paradoxal, em relação
à restante Europa, mas que era, de facto, uma ilha mundo e uma ilha que marcou o
mundo pela sua presença.
Portanto, é este iberismo aquele que está presente em toda a obra escrita de César
Antonio Molina, não um iberismo narcísico, mesmo se, historicamente, a Ibéria foi, com
as suas duas nações, Portugal e Espanha, uma nave que deu a volta ao mundo. Uma Ibéria
que é em si mesma, realmente, um mundo, com uma autonomia cultural, uma alma, uma
cultura e, esperemos, um futuro que é uma das grandes apostas que a humanidade tem
sobre si mesma, sob a forma das nossas duas línguas. A César Antonio Molina os meus
agradecimentos por ter aceitado este Prémio.
Vilar Formoso: Edificios da Fronteira; Antiga Alfândega; Estação de Caminho de Ferro; Vilar Formos, Fronteira
da Paz. Memorial aos refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes (RJ)

129 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Jogos de fronteira, jogos de memória45

Em termos americanos onde é a nossa fronteira? Em parte nenhuma, nem naquela que
temos à vista e atravessamos a pé enxuto, como César o Rubicão. A verdadeira fronteira é
simbólica, não natural, como essa mesma do célebre riacho italiano que separava a ordem
de Roma, da desordem do capricho ditatorial. As fronteiras chamadas naturais pertencem
mais à geografia que à história. Nelas não se joga o destino, individual ou colectivo, sob
imperativo ético. Como dizia Hegel, uma montanha é só o que é. Não deixa passar ou só o
consente através do esforço incomum. Só porque eles eram Aníbal e Napoleão, a travessia
dos Alpes foi história e não mera geografia.
Uma fronteira é um paradoxo incarnado: “natural” deixa de significar, simbólica
nem precisa de se materializar. A ordem humana é uma ordem de olhares e os seus
conflitos dirimem-se, como num “western”, em campo árido para que a violência se
45
Introdução ao catálogo Fronteira, emigração, memória (2004). Guarda: Centro de Estudos Ibéricos.
exprima, se exorcize e, acaso, se redima. De quê? Da original realidade da violência
que institui a cidade pondo à sua volta uma fronteira como fez Rómulo. É estra-
nho pensar que o nascimento do paradigma da urbe é um “ghetto” voluntário. Só
tenho casa minha, só tenho interioridade, inventando a exterioridade, o território
do outro como inimigo do meu. Pelo menos é essa a escolha do sedentário. Uma
escolha oposta à de Ulisses, o nómada, o que não tem casa ou a perdeu e erra para
voltar a ela. As aventuras da interioridade, as do simples homem ou da humanidade
terminaram há muito. Ninguém tem casa, ou tudo se passa como se a não tivesse.
Como um deus de ficção, estamos em toda a parte e em nenhuma. É o refúgio que
se tornou inconcebível. Ou só acessível aos raros que o podem mandar vigiar, como
o velho Marlon Brando, na sua ilha de nómada insone. Já no berço é-nos concedi-
do o dom da ubiquidade. Somos enfim aqueles deuses de que o texto sagrado se ri
e agora se riem de todo o texto sagrado, mistério esvaziado junto do mistério em
plena luz da Internet.
O que é fronteira no tempo da Internet? Todas as mensagens são conexas como
rizomas, proliferação insensata num espaço virtual sem lugar para qualquer vivência
que possa assimilar-se a uma fronteira e, muito menos, a um repouso. Estamos num
rio-tempo que corre em todas as direcções até para a nascente. E é agora que nada nos
prende e nada nos detém – mas também nada nos chama ou nos fascina como a antiga
fronteira – que a sua falta nos interpela e nos inquieta. Que somos sem fronteiras? E
que novas fronteiras podemos imaginar para ter de novo uma casa (a casa), uma cida-
de (a cidade), uma pátria (a pátria), sem perder a humanidade que com tanto custo
130 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

construímos, abolindo fronteiras?


Só casas-tempo, vida como memória, que são as que não se definem por fronteiras
naturais mas nos separam dos outros, não de maneira contingente e reversível como
o espaço, mas as que se talham nesse rio-tempo onde o mundo corre e nós permane-
cemos numa paradoxal imobilidade. Cada um de nós é essa casa-tempo que por fora
o leva ou é destinada a qualquer porto e, por dentro, está parada. Tudo o que conta
é feito à nossa imagem, a cidade, o bairro, a nação, o vasto mundo. Nada são se não
são memória viva, ir e vir dentro do nosso próprio barco para aquele porto onde nada
nos espera senão carregamentos dos sonhos que nos sonham. Se não fosse assim, como
suportaríamos o peso insuportável de fronteiras que nos tornam inacessível um mundo
onde devíamos respirar como se estivéssemos no paraíso? A fronteira é o sinal de que
fomos expulsos do paraíso, de todos os paraísos, salvo o da casa-tempo da memória,
nossa e alheia, onde nos refugiamos para existir como os anjos que não somos. Mas
é também o sinal de que, transpondo-a, estamos tentando recriar, por nossa conta e
risco, o paraíso perdido.
S. Pedro do Rio Seco (RJ)

Quem vê o seu povo vê o mundo todo46

131 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Afinal o tempo, que ameaçava chuva, “escampou”, como se diz aqui, em terras do
Riba-Côa – daquelas frases que realmente são daqui e não de outro sítio, ao mesmo tempo
portuguesas e ibéricas.
Eu devia ficar calado, mudo e quedo como um penedo, segundo a imagem célebre
dos Lusíadas, porque na verdade isto é tão excessivo, tão desproporcionado àquilo que eu
realmente sou, penso ser e sinto ser, para merecer este tipo de homenagens que, realmente,
só o silêncio seria conveniente para agradecer da maneira mais singela, do coração, tanta
simpatia e tanto afecto, para alguém que nasceu nesta terra, há longos anos.
Antes de mais, começo a agradecer àqueles que tiveram a ideia desta homenagem, que me
parece realmente um pouco pleonástica, porque já fui suficientemente homenageado. É ver-
dade que do mel as pessoas nunca se cansam e eu tenho alguma afinidade com o mel porque,
uma tia que eu referirei aqui, a quem eu chamo a “tia dos provérbios” – a Sra. Conceição dos
Santos, mulher sem letras mas de uma dignidade extraordinária – dizia um dos provérbios que
Transcrição da intervenção na Homenagem em S. Pedro do Rio Seco, organizada pela Associação Rio Vivo
46

e pelo Centro de Estudos Ibéricos, 06/08/2011.


eu apliquei a mim próprio ou ela me aplicava a mim mesmo: “Quem de mel se faz as abelhas
o comem”. Desta vez as abelhas não me devoraram mas rodearam-me de tanta doçura, que eu,
de facto, fiquei sem raciocínio, sem palavras, para comentar um acontecimento desta ordem.
Quero agradecer à Associação Rio Vivo e ao Dr. Luís Queirós, eles sim merecedores
de reconhecimento, pela acção de mecenato para reanimar, quase no termo clínico, uma
aldeia que, apesar de ter séculos de história, é hoje um espaço tão carente.
Agradeço, igualmente, ao caro amigo Guilherme d’Oliveira Martins, que, de algum
modo, tutelou cultural e afectivamente a ideia desta homenagem.
Agradeço ao Centro de Estudos Ibéricos, uma ideia e uma sugestão minha de há al-
guns anos e que é hoje uma realidade. Essa ideia que surgiu quando eu tinha uma crença
ainda na sua plenitude, e que continua a existir de outra maneira, de que tínhamos entrado
num outro tempo europeu, em que as antigas rivalidades, as antigas hostilidades, mais ou
menos justificadas nos seus tempos, tinham desaparecido e que portanto era preciso uma
outra leitura, um outro comportamento no interior da Península Ibérica e além do mais
no interior daquilo que nós pensaríamos que estava à nossa vista e em vias de se cumprir:
uma Europa sob o mesmo modelo, o modelo da democracia, espaço de paz e espaço de
sucesso. Sonhos comuns às gerações praticamente desde o século xviii, que têm sonhado
umas atrás das outras, sonho de que não se pode desistir sem se desistir de tudo, do sentido
da nossa história, do nosso passado, mas que têm dificuldade em cumprir-se e nós sabemos
porque estamos numa dessas horas, em que o futuro é menos luminoso do que nós imagi-
návamos apenas, há dez anos, por assim dizer.
Agradeço ainda a toda a Comissão que deu o seu apoio a estas cerimónias; não vou no-
132 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

meá-los, de nenhuma maneira, mas queria destacar algumas pessoas, os ausentes e os que
se deram ao trabalho de vir de tão longe: o Presidente da Fundação Gulbenkian, em que
tenho a honra de ser Administrador Executivo, Emílio Rui Vilar, os meus colegas, Marçal
Grilo, Diogo Lucena e o antigo Ministro, e meu amigo, Mariano Gago, Isabel Alçada e
outras pessoas ilustres que estão nesta assembleia. Queria igualmente saudar, com particu-
lar afeição, a presença de alguém que me é muito caro, Pílar del Rio, que muito admiro e
que está aqui por ser quem é e só por estar ela também está a presença de alguém que pôs
Portugal no mapa do mundo.
Saúdo igualmente o Sr. Bispo da Guarda, D. Manuel Felício, e agradeço-lhe a sua
presença. Eu sou um baptizado e nasci na cristandade, nesta terra de grande história cristã,
pelo que não vejo razão nenhuma para me renegar, naquilo que é superior a mim, que me
foi transmitido por pessoas, gerações inteiras que estão atrás de mim, que testemunharam
uma certa fé, comportamentos e que obedeceram a certos valores.
Vejo também nesta sala muitos intelectuais, que são, digamos, da mesma família so-
ciológica a que eu pertenço. Não é a melhor das famílias, mas é a nossa. Não os vou
nomear todos, mas estou a olhar aqui para o Prof. Gomes Canotilho, estou a ver os meus
amigos das letras, escritores, o Almeida Faria, que embora seja de nova geração é como
se fosse um irmão mais novo, Manuel António Pina, o meu amigo Manuel Alexandre e
muitos outros que estão nesta sala e que eu realmente saúdo e perdoem-me, realmente, os
respectivos esquecimentos.
Naturalmente que os meus familiares que estão aqui não precisam que eu lhes agrade-
ça porque eu sou eles e eles são eu, sobretudo nesta circunstância. Vejo que está também
nesta sala alguém para quem tenho uma dívida muito especial, a antiga Governadora Civil
da Guarda, Dra. Maria do Carmo Borges, a quem eu devo a minha interiorização cívica,
a minha adopção como alguém que tem alguma coisa a ver com o distrito da Guarda, se
não em particular com esta aldeia que aqui está. Provavelmente sem aquela cerimónia da
Guarda, nada disto, nada desta espécie de coisas teria, realmente, acontecido.
Agradecimento por fim para aqueles a quem não sei como agradecer, que são a maio-
ria dos que estão também nesta sala, gente de estatuto social, que é o estatuto social mais
próximo daquele que era o meu e dos meus na minha infância e ainda hoje.
Eu tinha um texto preparado, só que uma das minhas irmãs, sem o ler, decidiu que
seria muito chato. De maneira que nem sei se terei realmente a coragem de o repetir. E
o texto intitulava-se e vai intitular-se, provavelmente, “Quem vê o seu povo vê o mundo
todo”, que é também uma expressão dessa minha tia dos provérbios. Ela falava como o
Sancho Pança pois tinha provérbios para tudo. O texto tinha um subtítulo, e vai ter, natu-
ralmente, que eu vou começar a ler:
“Quem vê o seu povo vê o mundo todo” ou “As andorinhas” (esta parte, a segunda

133 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


parte, é mais interessante).
A cerimónia desta tarde lembra-me um episódio dos meus tempos de Coimbra, quan-
do era aí estudante e conheci um jovem poeta e escultor, de ambições desmedidas como
se devem ter naquela idade, chamado Aureliano Lima, que queria homenagear e glorificar
alguns dos vultos culturais literários de Coimbra do nosso tempo, dos meados dos anos
40. Entre eles, gente de reputação nacional, como Miguel Torga, Paulo Quintela e gente
que deixou o seu nome na literatura contemporânea. Mas não só esses vultos de Coimbra,
mas também Beethoven – era muito ambicioso – Beethoven e Nietzsche, acho que foi
a primeira vez que eu vi uma representação de Nietzsche, com os seus famosos bigodes,
apoteóticos e desafiadores.
E Aureliano Lima, que era meu amigo, conheci-o nessas idades, pensou que eu tam-
bém era glorificável, naquela idade! Provavelmente naquela idade, seria o tempo mais
justo. E fez-me um busto, um famoso busto. Esse busto, o meu irmão Adriano, mostrou-o
um dia a essa minha tia que estava em Coimbra, que recuou, horrorizada, como se tivesse
visto um fantasma. Reacção sã, reacção clássica, que é a que tem toda a gente que ainda
não está contaminada e corrompida por um certo processo de edificação cultural. Nós não
temos imagens, realmente, como Deus. E a verdade é que nunca se soube o que fazer de
tal busto, sobretudo eu. E que nunca foi objecto de exposição artística – talvez realmente
o Aureliano o merecesse – mas sobretudo não teve o futuro supremo, que seria para mim
impossível de aceitar, de se exibir numa praça pública.
Porque aceitei, então, agora, que essa homenagem se fizesse em torno da bela estela
de Leonel Moura? Que é uma estela que me lembra o começo daquele filme famoso do
Kubrick, uma espécie de tábua da lei, do começo, onde estaria contido o mistério do
universo e que abre para aquela fulgurância extraordinária do 2001 Odisseia no Espaço.
Esta é mais modesta, naturalmente, e não tem realmente a pretensão de ir fazer a volta
do Cosmos. Mas é de um excesso já, nessa sua modéstia, que nada me preparava ou me
prepara para aceitar, embora o meu primeiro gesto seja de o agradecer.
Então, por que é que eu corri o risco, sabendo que isso ia ser feito, de me ver ali mate-
rializado, ou semi-materializado, já é melhor, correndo o risco de me converter em morto-
-vivo ou vivo-morto, quer dizer, em fantasma de mim mesmo? Talvez apenas por isto, por
tudo isto se passar nesta pequena aldeia da minha infância, provincial como eu, mas sem
foguetes, que seriam realmente despropositados. Mas sobretudo por me ser ocasião, não
premeditada, de aproveitar para pagar, não uma dívida, propriamente dita, mas sobretudo
um remorso, um remorso que ninguém tem, nem seria lógico que adivinhasse.
Eu sou autor de alguns livros, chamados ensaios. Com alguns leitores no meu país,
sobretudo no que se chama o meio intelectual e que na minha infância era mais reduzido
do que é hoje. Sem vã glória, nem má consciência incluo-me, ou os outros me incluem,
134 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

nessa sociedade miticamente sem classes, que a si mesma, em certo momento e em língua
russa se auto-designou, a si mesma, como a “inteligencia”.
A mera lembrança de Diógenes ou de Rousseau, para não me lembrar de Grouxo Marx,
bastaria para não tomar essa pretensão a sério. Mas nenhuma ironia me redime de ser o
que se chama um autor nada popular, naturalmente, é um eufemismo. Em nada isso im-
portaria se não significasse, como significa, que as poucas pessoas que me lerão ou ainda
lêem, só ocasionalmente pertencerão, fundamentalmente, aos meus, aos da minha raça,
aos da minha tribo dessa época, com algumas excepções. Separados de mim, e eu deles,
por aquilo que, mais do que tudo, nos devia ligar, unir, nós que comungámos, em tem-
pos, desse famoso tempo da infância, do mesmo húmus, do mesmo espaço, que bebemos
das mesmas fontes.
A cultura, a chamada cultura, não é apenas aquela música celestial, onde nós vivemos
ou somos vividos, como se fossemos os anjos de nós mesmos. A cultura também é o que
separa e misteriosamente desfaz os laços daquelas vivências sem verbo, que as letras das
coisas visíveis, do tempo de criança, em silêncio, nos ensinavam.
S. Pedro do Rio Seco. Casas e ruas da aldeia (RJ)

Em suma, não soube ou não pude tanto quanto me pedia a exigência do meu coração
infantil comunicar com os meus, por serem do mesmo tempo, herdeiros do mesmo passado,
amassados no bairro obscuro, de uma terra obscura e luminosa como todas, de uma aldeia igno-

135 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


rada do mundo, e quase de si mesma, e que era o coração do mundo, como todas as infâncias.
Nem toda a gente teve o privilégio de nascer na cidade de Ulisses, na nossa bela capital,
Lisboa, e ainda o maior, de passear ou de ser o passeante imortal da Rua dos Douradores,
como Fernando Pessoa. Mas, mesmo para ele, o sítio celeste do seu nascimento tinha a fi-
gura de uma aldeia. O mesmo Pessoa, em versos que parecem prosa, encontrou para todos
o S. Pedro do mundo e o seu rio anónimo, o estatuto sublime, só por ser o estatuto da di-
ferença. Comparando esse rio anónimo com vantagem, com o rio dos rios nossos, o Tejo,
que vai para o mundo, que é universal, mas que é demasiado de toda a gente para ser só,
de algum modo, de nós mesmos e de um só. Como todos sabemos, o sonho às avessas do
maior dos nossos sonhadores virtuais era de que os nossos sonhos, e o Sonho, com maiús-
cula, não fossem de ninguém. Parece o cúmulo da modéstia ou a suprema astúcia como a
de Ulisses, desejando-se ninguém, dizendo-se ninguém, para não ser devorado vivo pelo
seu mítico carcereiro, que é simplesmente o próximo que nos não vê.
Em matéria de invisibilidade, esta nossa aldeia, irmã gémea de tantas da nossa provín-
cia, ela própria tão isolada, nós estamos servidos. Naquele tempo a nossa aldeia não estava
ainda, digamos, dissolvida como todas, num mundo real a que pertencia e hoje está talvez
dissolvida, como todos nós, numa espécie de esfera virtual, que de facto é de toda a gente
e de ninguém. São Pedro é uma velha aldeia, anterior mesmo à nacionalidade, com séculos
sem memória celebrada. Terras de Riba-Côa, que foram, como as do Algarve, as últimas
a fazerem parte do nosso território. Nós somos, portanto, os mais jovens dos portugueses,
de algum modo, neste território que é uma parte da raia, que nos separa do nosso secular
vizinho. Vulnerável, tantas vezes franqueado por ele, e apenas há dois séculos pelas tropas
de Massena. Na minha infância, a lembrança dos franceses, das suas invasões ainda estava
muito viva. A minha avó, para nos mandar para a cama, quando nós queríamos ficar com
os adultos, dizia frequentemente: “Alons alons, vamos à cama!” Uma surpresa, como é que
a memória, sem memória, é tão dura e tão persistente.
Na verdade, esta aldeia, como muitas das aldeias de Portugal, não pertence ao que se
chama a grande história, com as suas crónicas memoráveis. Com actores e gente célebre,
celebrizada. Pertence mais aquilo que Unamuno, o nosso famoso vizinho, o autor do
“Sentimento trágico da vida”, o nosso vizinho de Salamanca, chamava a intra-história.
Quer dizer, a não história do comum de todos nós e que é aquela que nós, os meus ante-
passados, viveram durante séculos, sem que isso tivesse constituído para eles uma tragédia
particular. Estavam no mundo e tinham, naquelas épocas, um sentido apurado do que
esse mundo significava, o que lhes pedia e, portanto, essas questões de hierarquização, de
glórias no sentido histórico, mundano do termo, eram para eles secundárias.
Desta terra, já aqui disse o Dr. Luís Queirós, que era uma terra de grandes carências,
naquele tempo. E todavia viva, muito mais viva do que é hoje, verdadeiramente. E isso é las-
136 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

timável. Esses 700 habitantes eram gente que vivia no limiar da pobreza, alguns confiados
na pobreza. Não havia, propriamente, mendigos. Os mendigos não existiam. Os mendigos
vinham de fora, como no poema do Guerra Junqueiro. A pedir, com grandes barbas, na-
quela altura. Mas não havia propriamente pobres de pedir, realmente, entre nós, mas havia
grande pobreza, mas havia também um sentimento do que era uma comunidade e que essa
comunidade tinha um certo sentido, que espero que ainda hoje tenha, de outra maneira.
Os tempos mudaram. Esta aldeia, que parecia tão isolada do mundo, naquela época,
também o estava: podia passar-se o ano inteiro que mesmo relações de vizinhança, a cinco
quilómetros, não se frequentavam umas às outras. Só por ocasião de uma festa. Os únicos
sítios de relacionamento, já de tipo social, eram Vilar Formoso e Almeida.
Em Vilar Formoso aparecia o comboio, o comboio que nos trazia a Europa, o com-
boio que trazia as stars da época, pintadas, que nós dizíamos ir ver como quem ia ver anjos,
quando calhava. E Almeida era a nossa capital distrital, providencial.
A tantos anos de distância, os poucos anos, apenas dez, que vivi verdadeiramente nesta
terra, com um ano que saí para a Guarda, parecem cada vez mais meus… uma espécie de férias
grandes, prolongadas. Mais tarde tomaria consciência de que a minha situação era uma situa-
ção um pouco privilegiada: eu era filho de um militar modesto, um sargento, mas um sargento
era já a passagem para qualquer coisa que eu só mais tarde, quando se começou a falar das
classes e das suas hierarquias, soube que era a “pequena burguesia”. Eu era um pequeno bur-
guês, nem era burguês, nem era pequeno, as duas coisas ao mesmo tempo, situação realmente
inconfortável, mas que constituía uma espécie de privilégio. Mas o privilégio maior foi eu ser
filho de alguém que, num oceano de gente pouco letrada, tinha o gosto das letras, que ele tinha
cultivado por si próprio, solitariamente, como o filho maior de uma família que o tinha deixa-
do aqui nesta aldeia, justamente com essa famosa tia, que lhe terá ensinado alguma sabedoria.
E esse pai que fez estudos de Comércio, ao mesmo tempo que era militar no Porto,
tinha uma mala pois saía muitas vezes para fazer os seus tirocínios para seguir na carreira.
Todos temos a nossa mala, não é só o Pessoa, eu também tenho a minha malinha, ou antes,
a malinha do meu pai. E nessa malinha havia o tesouro dos tesouros, de toda a infância: um
livro. Não era a Bíblia propriamente dita, era só As Pupilas do Sr. Reitor e A Morgadinha dos
Canaviais, de um autor delicioso, maravilhoso, chamado Júlio Dinis. Que era um autor que
se dava nas escolas porque não era indecente, não era escandaloso e porque, de algum modo,
dourava um pouco a pílula das dificuldades, das realidades grosseiras e cruéis do verdadeiro
mundo, do verdadeiro mundo real. Encontrei aí, caí nele como Astérix na famosa poção, caí
no Júlio Dinis, com algum Júlio Verne à mistura, que também existia na arca, o que foi cair
numa coisa que eu só mais tarde soube que se chamava literatura. Mas aquilo não foi realmen-
te a literatura, mas antes entrar num universo mágico, de onde nunca mais sairía, nem quero
sair, nem há saída possível quando se entra nesse reino de uma vez por todas e sobretudo cedo.

137 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Eu não sabia nessa altura que esse Júlio Dinis era uma espécie de Jane Austen, que nós
não sabíamos que tínhamos. E que continua a ser, com Garrett e uma parte de Camilo,
aquilo que mais retratou com fidelidade esse país, que era um país que estava na sua transi-
ção e que estava a entrar numa modernidade tardia. Estava no século que inaugurou entre
nós o liberalismo e portanto estava a europeizar-se lentamente e docemente, à portuguesa
e sobretudo a Júlio Dinis, como diria o seu irónico admirador Eça de Queirós. Portanto,
eu vivi nesse universo; a minha Alice no País das Maravilhas foi realmente o encontro com
Júlio Dinis e com a literatura.
Apesar de tudo, apesar desse encontro, apesar dessa paixão pela leitura eu nunca serei,
nunca fui outra coisa na minha vida que um leitor, um leitor de tudo. Um leitor compul-
sivo, opressor de nada, de nada de sapiências particulares, de saberes particulares. Fui um
leitor e sou realmente um leitor. Mas, talvez por ser realmente esse leitor eu não fui outra
coisa, que provavelmente teria gostado de ser. Ser alguém que deu a esta terra alguma coisa
que ela não tinha, um suplemento de imaginário, como só os poetas ou os romancistas são
capazes de dar. Como os grandes nomes da minha geração, a Agustina, Vergílio, Eugénio
de Andrade, Jorge de Sena ou José Saramago deram aos países, aos pequenos países, às
pequenas aldeias, onde eles nasceram.
Ou outros, de gerações mais novas, que também, cada um deles, não para aldeias, já
são filhos de vilas, deram, como Almeida Faria ou a minha amiga, a autora de Adoecer, a
Hélia, querida Hélia, que está aqui. É sempre isto.
Portanto, é justamente isso que eu me sinto, a dívida que eu sinto para este povo onde
eu nasci, sobretudo para estes que estão agora aqui e que, conhecem-me de uma certa
reputação, provavelmente exterior, que eu tenho esse sentimento, realmente, de dívida.
Porque na verdade, além desse encontro com a literatura na minha infância, que foi real-
mente decisivo para mim, foi também decisivo ter visto aqui o primeiro filme, que ainda
era de cinema sonoro, na adega desta casa que está aqui, que era a casa nobre cá do sítio,
a casa da família Afonso. Havia uma adega por fora, parecia um daqueles ambulantes que
tinham os pequenos filmes, que passavam ainda no tempo do sonoro.
Lembro-me desse primeiro filme, como se fosse hoje. Tratava-se da vida de Cristo, eu
penso que devia ser um do Cecil B. De Mille, qualquer coisa desse género. Eu sei é que o
filme era projectado num lençol que já estava muito riscado. Eu pensei que tinha chovido
durante toda a vida de Cristo e tinha muita compaixão, além da paixão, além da comise-
ração pelas dores, e por aquela tragédia divina, tinha uma compaixão particular porque era
tanta chuva sobre Nosso Senhor Jesus Cristo, que era a pessoa mais importante da minha
terra e mesmo do mundo.
Mas na verdade, o que eu aprendi aqui, fora das letras, foi muito mais importante que
tudo o que eu podia aprender nas letras. O que eu aprendi aqui foi a vida anterior às letras. A
138 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

vida, o que se vê, o que se sente, os únicos momentos em que uma pessoa tem um sentimento
de que existe verdadeiramente e não por procuração, e não ao segundo grau ou terceiro grau,
em que eu sou grande especialista. Não, eram coisas simples. Um tanque que era uma espécie
de silêncio em vez de ser um volume de água. Os pássaros que enchiam a aldeia. Os estorni-
nhos que nos eclipsavam os crepúsculos violentos, quase tropicais, de certos dias. O cuco que
pontuava como um relógio. Este ar transparente que nos cerca. As nuvens, as nuvens sobre-
tudo, que eram de cinema divino, um cinema sem autor onde nós podíamos escrever todos
os sonhos, todas as revelações, todos os fantasmas que se podem ter numa vida de criança.
E sobretudo, aqui é que vêm as andorinhas, eu não podia esquecer as andorinhas. As
andorinhas, que foram mestras não sei de quê, mestras de uma coisa que não pode ser
nomeada e que nós nomeamos chamando-lhe felicidade. Era como se fossem umas dança-
rinas de Deus. Que todas as Primaveras voltavam para recuperar, sobre os beirais da minha
casa, o ninho que tinham deixado. Vinham, e era uma festa a chegada e todo o tempo
que elas permaneciam aqui, cruzando-se, descruzando-se, reinventando coreografias que
nenhum coreógrafo pode imaginar, verdadeiramente celestes.
E são essas andorinhas que eu lembrava, que também tinham alguma coisa a ver com
essa arca, para mim mágica, que o meu pai deixou quando saiu da aldeia, ou ia para fora
da aldeia. Nessa arca havia, cuidadosamente guardado, o jornal do dia da morte de Guerra
Junqueiro, o autor sulfuroso de A velhice do padre eterno, celebérrimo, como não se pode
imaginar que alguém tivesse sido nesse país mais do que ele o foi realmente nessa época,
aqui e nos países de língua portuguesa, sobretudo no Brasil onde hoje ainda é autor. Nós
estamos muito mais adiantados, podemos esquecer os Guerra Junqueiros.
O meu pai tinha o jornal cuidadosamente guardado, eu acho que era A Batalha, havia um
dos poemas mais célebres do Guerra Junqueiro, e ainda hoje, um poema que merece ser conhe-
cido e lido, um poema que é um poema de um outro tempo, que já não existe, provavelmente
já existiria quando ele o escreveu. Mas para isso existem realmente os poetas. Que eu pensava
que era um poema dos Simples um dos mais lidos, dos mais famosos dos seus livros, mas não é.
Esse poema foi uma amiga minha aqui presente, que eu saúdo, Ana Maria Almeida Martins,
que me disse que era mesmo um poema que precede “A velhice do padre eterno”.
A minha confusão é ainda maior porque esse poema se chama “Aos simples” e esses
simples são uma evocação da nostalgia, de alguém que sabe que está traindo uma parte
do seu passado, de uma fé sem dúvidas, de uma espécie de aceitação do sentido pleno do
mundo ainda sem fendas e que vem de algum modo penitenciar-se antecipadamente do
sacrilégio que ele vai cometer escrevendo e provocando um país que está mudando tam-
bém de alma com a famosa “A velhice do padre eterno”.
É nesse poema que estão as andorinhas, as andorinhas de que eu me lembrava, além
das andorinhas reais, que dormiam sob o beiral da minha casa. E leio a última passagem,

139 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


e com ele saúdo todos aqueles que vieram aqui para estar comigo numa hora diferente de
todas as horas:

Minha mãe, minha mãe


Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava
orando ao pé de ti

Caía mansa a noite


e andorinhas aos pares cruzavam-se
voando em torno dos seus lares suspensos
no beiral da casa onde nasci

Estas andorinhas, as da literatura e as da vida, estão suspensas e são o sinal do momen-


to de felicidade que eu vivi graças a esta terra onde nasci.
140 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Casa onde nasceu Eduardo Lourenço Memorial a Eduardo Lourenço.
Tem a seguinte inscrição: “Na família em que nasci, na casa “Eu só tenho um espaço particular, reservado, que é
que foi minha, a nossa, não havia outro senhor, literalmen- o da minha aldeia. Da minha aldeia e desses dez anos
te falando, que Jesus Cristo. Tudo estava ordenando em sua que aí vivi e foram diferentes de tudo o resto que me
honra, o temor e o louvor, os gestos e as horas. Mais tarde aconteceu. Estava no mundo, ou o mundo estava em
compreendi – com a cabeça, nunca com o coração – que mim. Depois, nunca mais soube, realmente, onde estou
vivi nessa casa horas datadas de há muitos séculos. Noutras e nunca saberei” (RJ)
terras os relógios das torres marcavam outro tempo.
O nosso era um tempo sem tempo, alegoria de uma eter-
nidade onde tudo quanto importava já tinha acontecido”
(S. Pedro, verão de 1946) (RJ)

141 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Memorial a Eduardo Lourenço (RJ)


Praça Eduardo Lourenço (RJ)
142 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Edifício da Junta de Freguesia, antiga Escola Primária, frequentada por Eduardo Lourenço.
O edifício tem as seguintes lápides:
Fronte: “A Eduardo Lourenço/ Figura cimeira da cultura e do pensamento portugueses e
europeu contemporâneos /Homenagem de seus conterrâneos lembrando
a escola onde aprendeu as primeiras letras / Dia 8 de Setembro de 1995)
Topo: “Praça Eduardo Lourenço / Eduardo Lourenço de Faria / Escritor” (RJ)
Hortas (RJ)
Igreja de S. Pedro (RJ)
S. Pedro (RJ)

Hortas (RJ)
S. Pedro: o tempo e o modo (RJ)
143 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Arribes del Duero

Desembocadura del río Huebra, Saucelle (SS) Río Duero. Mirador de Mafeito, La Fregeneda (SS)
144 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Bancales en los Arribes del Duero. Antigua vía férrea. La Fregeneda (SS)
Polares (SS)
Río Duero. Vilvestre (SS) Almendros en flor. Vilvestre (SS)

145 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


Arribes del Duero. Vilvestre (SS) Palomar en “El Castillo”. Vilvestre (SS)

Vilvestre (SS) Monte Gudín. Vilvestre (SS)


146 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Berrocal. Saldeana (SS)

Chozo y cortinas de piedra. Vilvestre (SS)


Villarino de los Aires. Salamanca (SS)

147 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Dehesa de encinas en el Campo Charro. Provincia de Salamanca (SS) Villarino de los Aires. Salamanca (SS)
Paisaje con cortinas de piedra. Mieza (SS)
148 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Traguntía. Pozos de Hinojo (SS) Villarino de los Aires. Salamanca (SS)


Salamanca

Salamanca. Vista geral (VG)


149 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço
Salamanca47
Miguel de Unamuno

Si, ya sé que un publicista se debe a su público, un escritor a sus lectores, y hasta a


cada uno de ellos. Pero esto tiene, como es natural, sus límites. No puede llegar a que se
escriban artículos, crónicas o correspondencias criptográficas, quiero decir con clave, cuyo
último sentido sólo un lector o un pequeño grupo de lectores comprenda, y tampoco se
puede llegar a ponerse el escritor a merced de uno cualquiera de sus lectores que le diga:
«Escriba usted sobre esto o lo otro.»
Traigo esto a cuento de las cartas que de vez en cuando recibo, en que éste o aquél de
mis lectores me invita y ruega a que escriba sobre tal o cual asunto que a el le interesa, sin
considerar si me interesa a mí o ha de interesar a otros lectores. Esas cartas suelen serme
preciosas, en cuanto me dan de ordinario interesantes datos y noticias, que aprovecho
cuando la ocasión se me presenta; pero no creo que los que me las escriben pretendan
dictarme los argumentos de mis correspondencias.
“Si, usted mucho de alardear de independencia de criterio y de franqueza – venía a decir-
me en una segunda carta uno de esos espontáneos corresponsales-, “!pero qué poco ha dicho
usted, nada, de lo que le indiqué que dijera!”. Pues bien: sepa, señor mío, que no me gusta
sa­car a otros las castañas del fuego, como suele decirse, y que si he dicho y repetido cien veces
aquellas palabras de San Pablo, de que hay que decir la verdad oportuna e inoportunamente,
de la oportunidad o de la inoportunidad de decirla he de juzgar yo y no los demás. Cierto que
150 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

debe decirse la verdad, pero hay muchas más verdades que decir que tiempo para decirlas, y si
digo las verdades a, b, c y d, que usted quiere que digo, dejaré de decir las verdades x, y y z, que
son las que quiero decir. Y no cabe decir dos cosas a un tiempo, ya que la palabra se desarrolla
en tiempo y no en espacio. No es, pues, que yo tema decir lo que usted quiere que diga; es que
tengo que decir otras cosas que me parecen de más momento o por ahora me interesan más.
Y voy ahora a lo que otro me dice, y es cómo, habiendo escrito aquí de tantos pueblos como
en mis correrías por España y Portugal he visitado, no he dedicado una sola correspondencia
a describir a mis lectores esta Salamanca en que vivo y trabajo. La cosa me parece sencilla. En
primer lugar, los otros pueblos los visito y los describo como turista o viajero curioso, y éste, en
que vivo, no lo visito; éste es mi hogar. Además, ¿no están mis correspondencias todas llenas de
esta Salamanca en que vivo y escribo y trabajo? ¿No vibra en ellas su ambiente todo? Porque si
no es así, os declaro que estas mis correspondencias no valen nada, absolutamente nada.
Más de uno me ha reprochado la personalidad de mis escritos; el que me pongo en
ellos; el que siempre se me ve allí; el que yo, el yo que unos llaman impertinente y otros
47
Miguel de Unamuno: Andanzas y visiones españolas, Renacimiento, Madrid, 1922.
satánico, se mueve y agita en sus líneas todas. Confieso, en efecto, que no profeso las
doctrinas de Flaubert respecto a la impersonalidad en el arte; es más, que creo que esas
doctrinas no son sinceras y que si gusto tanto de los escritos de Flaubert, de sus novelas, es
porque veo en ellas a Flaubert mismo y mucho más desde que leí su extraordinaria corres-
pondencia privada. Los únicos escritores perfectamente impersonales son los que carecen
de toda personalidad, y entre ellos los puros eruditos y los meros informadores.
No puedo evitar el ponerme en mis escritos, y como nadie es más que el producto de
la sociedad en que vive y de la que vive; como todos somos condensación del ambiente en
que vivimos, todo el que acierte a ponerse en sus obras pone a su patria, chica y grande,
en ellas. Y yo os digo que quienes sigan con alguna atención mis escritos conocen esta mi
Salamanca mucho mejor que cuantas ciudades haya descrito en ellos. Permitidme una
comparación aunque a alguien pueda parecerle presuntuosa. Hay cuadros de Velázquez y
del Greco en que apenas hay fondo de paisaje, pero a través de aquellas figuras de hom-
bres, de hombres solos que llenan todo el cuadro, se ve el paisaje castellano, se ve su celaje.
Recuerdo un cuadro moderno, de pintor vivo, que representaba un viejo marino mirando
desde una atalaya al mar. En el cuadro no se veía ni el más pequeño retazo de mar, pero a
los que conocemos a éste os aseguro que el mar se nos presentaba allí mucho más vivo que
pintado. En los ojos del viejo marino, en su mirada, veiámos el mar.
Sí, yo podía describiros esta ciudad y ejercitar mi mayor o menor virtuosidad en la
descripción literaria. Podría deciros cómo esta ciudad de Salamanca, asentada en un llano,
orillas del Tormes, es uná ciudad abierta y alegre, sí, muy alegre. Cómo el sol, que sobre
ella brilla, ha dorado las piedras de sus torres, sus templos y sus palacios, esa piedra dulce y

151 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


blanda, que recién sacada de la cantera se corta como el queso, a cuchillo, y luego oxidán-
dose toma ese color caliente, de oro viejo, y cómo a la caída de la tarde es una fiesta para
los ojos y para el espíritu ver a la ciudad, como poso del cielo en la tierra, destacar su oro
sobre la plata del cielo y reflejarse, desdoblándose, en las aguas del Tormes, pareciendo un
friso suspendido en el espacio, algo de magia y de leyenda.
Podría hablaros del follaje de piedra de sus fachadas, de la riquísima ornamentación de
sus tallas platerescas y de cómo nació aquí el plateresco. Estilo, sin duda, recargado, gongori-
no, aunque no tanto como el manuelino portugués. Aquí, en esta misma Universidad, junto
a la cual estoy escribiendo, hay una fachada del siglo XVI, que se les invita y enseña a admirar
a los visitantes y turistas; pero yo prefiero otros más antiguos y más ingenuos adornos que
dentro de ella, a su entrada, hay en el techo. La fachada es más talla que arquitectura y peca
de profusión. Prefiero los encantadores patriarcas – Abraham, Salomón, David, Daniel –
que cierran las nervaturas de las bóvedas. Eso sí, la fachada se abre a un patio exterior que es
un encanto y un consuelo. Luego que ha cesado el vocerío estudiantil, cuando están cerradas
y mudas las aulas, en horas o en días de vacación, sobre todo en las tardes lentas del verano,
ese patio de las Escuelas Menores, con su broncíneo fray Luis de León en el centro, sobre su
pedestal, con un eterno gesto de apaciguamiento, es algo que habla al alma de lo eterno y
lo permanente. No doy por nada del mundo ese patio, henchido en su silencio de rumores
seculares, ese patio sin ruido de tranvías ni de ferrocarriles ni de vana agitación humana.
Si queréis bullicio, aunque bullicio moderado y tranquilo y cotidiano, y casi diré do-
méstico bullicio como aquel con que los niños llenan un hogar, acudid en esta ciudad de
Salamanca a su hermosa plaza Mayor, una de las plazas más armoniosas, según me decía el
arquitecto alemán Jürgens. Una plaza cuadrada – es decir, un cuadrilátero, no un cuadrado
– con sus soportales y toda llena de aire y de luz. Una tarde, paseándonos los dos por ella,
me decía mi amigo el gran poeta peninsular, o mejor ibérico, Guerra Juaqueiro: “Me gusta
esta plaza porque en ella la muchedumbre tiene movimientos rítmicos”. Y, en efecto, circulan
bajo sus soportales los hombres y las mujeres en dos filas, separados, dándose cara, ellos hacia
la parte de fuera, en el sentido del reloj, ellas por la parte de dentro, en el otro sentido. Y hay
algo de litúrgico en este circular – mejor sería decir «cuadrar» – de las gentes de la ciudad por
su plaza. Salmantino hay que puede decirse que vive en ella. Es el principal mentídero de la
ciudad; es también su principal escuela de haraganería. Y sin molestias de tranvías.
Fué el mismo Guerra Junqueiro quien otra vez me dijo; “Feliz usted que vive en una
ciudad por muchas de cuyas calles se puede ir soñando sin temor a que le rompan a uno
el sueño”. Y así es. Hay viejas calles, como la de la Compañía, al pie de palacios y templos
dorados por los soles de los siglos, en que puede uno ir soñando en una España celestial, col-
gada para siempre de las estrellas. Y hay un rincón, junto al convento e iglesia de las Ursulas,
entre álamos que allá en la primavera, cuando brota en ellos el tierno plumoncillo de las
152 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

hojas nuevas, nos da la sensación de que el tiempo se detiene y remansa en la eternidad, de


un pasado que es a la vez un porvenir, de una puesta de sol que se confunde con el alba.
Y los sotos de las orillas del río, con su verdura discreta y sobria, sin esa lujuriosa exu-
berancia de los países de selva, con esas dulces perspectivas virgilíanas u horacianas. Ha
sido en paisajes así, limitados, sencillos, al parecer pobres, donde ha nacido la poesía egló-
gica. Aquí se inspiró fray Luis de León. Y los que hablan de la fealdad del campo castellano
no saben lo que se dicen. Tienen la vista vulgarizada por los cromos de comedor de fonda.
Y como los frescos sotos de las márgenes del río, son los sotos de columnas de estas
iglesias y estas catedrales – pues aquí hay dos. También estos bosquecillos de columnas,
con su pétreo follaje de capiteles, con sus bóvedas que se cierran, dejan correr por medio
de ellos un cauce, aunque de aguas invisibles. Cuando el órgano resuena se oye el rumor
de esas aguas del espíritu. Y en medio de la catedral vieja, la románica – ya a comienzos del
gótico – la medioeval, entre sus fuertes columnas elefantinas, se ve cómo nació la patria. Y
allí se sueña con aquel bravo obispo don Jerónimo, el francés, del Perigord, “el coronado”
que vino de la parte de Oriente, según reza el viejo Cantar de Mió Cid, el que acompañó a
Rodrigo Díaz de Vivar en su conquista de Valencia, el que le pedía le otorgase las primeras
acometidas, aquel obispo que quería mojar su lanza en sangre de moros y cuyos huesos,
tan molidos un tiempo, descansan hoy aquí, en Salamanca. Y cerca de donde descansa
el viejo y negro Crucifijo que el Cid llevaba en sus campañas, el Cristo de las batallas.
¡Cuántas cosas no dice ese Cristo de las batallas, que tantas “arrancadas” presenciara!
De la vieja leyenda nigromántica y alquímica de esta ciudad, délo que ha hecho que
el nombre de Salamanca signifique lo que significa en apartados rincones de esa tierra
americana – ¡la Salamanca! – de esa, ¿qué he de deciros? Aun discuten aquí dónde se en-
contraban las famosas cuevas en que el marqués de Villena se dedicaba a sus brujerías y
encantamientos.
¿Y qué de la Salamanca de la Celestina y de la del estudiante de Salamanca de
Espronceda, con su calle del Ataúd, que hoy lleva otro nombre? Estudiantes, aunque no
como aquél, aun quedan, y Celestinas me parece que también.
Y no creáis que con todo eso sea ésta una ciudad muerta que sólo vive de su pasado y
de sus recuerdos de gloria, no. Es una ciudad que crece, aunque lentamente; una ciudad
que extiende su comercio, y aunque en menor escala, también su industria y su agricultu-
ra. Crece sin ruido y sin fantasia. Y una ciudad alegre, intímamente alegre. No juzguéis por
mí, ni atribuyáis a Salamanca eso que algunos llaman, no sé bien por qué, mi misantropía.
Aquí la gente murmura, como en todas las ciudades pequeñas y también en las grandes,
pero murmura de todo, unas veces de lo chico, otras de lo grande, unas de lo humano y
otras hasta de lo divino.
Porque eso de que ésta sea una ciudad levítíca y conventual es una de las más infunda-

153 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


das y ridículas leyendas. No hay nada de eso. A fines del siglo XVIII y principios del XIX,
cuando se educó aqui el general Belgrano, era esta universidad un foco de enciclopedistas
y afrancesados. Aqui profesaba entonces un D. Toribio Núñez, asiduo corresponsal de
Bentham, que en alguna de sus cartas deseaba para Oxford la libertad de espíritu que
aquí entonces reinaba. Más adelante, desde 1814 a la época de nuestra revolución de sep-
tiembre, en 1868, esta ciudad y su universidad corrieron la general suerte, bien triste, de
la nación toda. En la época de la Revolución y de la República esta ciudad fué de las más
cantonales, y durante la Restauración los republicanos dominaron en ella y siempre que
supieron unúse, en su concejo. Cuando yo vine acá, en 1891, los republicanos dominaban
y hoy, aunque acaso todavía sean la mayoría, si no dominan es porque en toda España
están derritiéndose y fundiéndose en no sé qué otras categorías políticas que apenas si
alborean y en que la cuestión de la forma de gobierno significa poco.
Pero... levítica? ¿Levítica Salamanca? Conozco pocas ciudades de mayor tolerancia y
amplitud de espíritu. Cierto es que aquí hay procesiones a cada momento, pero eso es algo
estético, ornamental. La Plaza Mayor parece haberse hecho para celebrar en ella procesiones,
sean religiosas o cívicas, sobre todo a la caída de la tarde, al anochecer, y con cirios y velas.
Los balcones se cuelgan es una verdadera fiesta para los ojos. La gente gusta del espectá-
culo. Y si la procesión va nutrida de ella, sobre todo de mujeres, he visto entierros civiles
concurridí­simos. Y nunca, jamás, he sido testigo de esas violencias de palabra y de obra que
en otras poblaciones – en la mía natal, Bilbao, por ejemplo – ocurren en estos casos.
Me diréis que es porque aquí a nadie le importa nada, porque la gente es indiferente a
esas luchas. No, no es eso precisamente. Es que en este ambiente, bajo este cielo, al pie del
oro secular de estos monumentos, esos motines callejeros serían una discordancia. En esta
plaza, en que la muchedumbre discurre rítmicamente, una refriega sería algo estridente y
atópico. (Atópico, acaso tenga que decirlo, dice en la relación de espacio lo que anacrónico
en la de tiempo.) Y no es que alguna vez no las haya habido.
Y por debajo de todo esto, subterráneamente por asi decirlo, fluye una cierta vida
espiritual en esta ciudad, una vida espiritual mucho más intensa que en otras ciuades es-
pañolas de mayor población y de más activo movimiento mercantil e industrial. No creo
que en los tiempos famosos de esta universidad interesaran aquí las eternas cuestiones más
que hoy interesan.
Cierto es que, en el respecto de la cultura, tiene esta ciudad la desventaja de su lejanía
del mar. Aunque me parezcan exageradas expresiones como aquellas de que la civilización
no llega fino hasta donde llega la marea, y la de que sólo tienen sal en el espíritu los que se
han criado oliendo la sal marina, creo, si, que el mar ha sido el gran elemento civilizador.
Pero civilización es una cosa y cultura otra y acaso la vida intelectual de un puerto tenga
más de bambolla y de apariencia que de realidad íntima. Los fenicios, el gran pueblo na-
154 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

vegante y comercial, trasportó ideas más bien que las creó, las puso en circulación. Fué
un pueblo hierático, sacerdotal, el Egipto, el que realmente inventó el alfabeto, y fué un
pueblo mercantil Fenicia, el que para utilidad de sus letras de cambio, desamortizó y civi-
lizó – esto es, hizo civil-ese secreto sacerdotal.
Nací, me crié, me eduqué y viví hasta mis veintisiete años en un puerto y después me
vine a esta ciudad interior, de la meseta, por donde corre un río que no trae ni lleva más
que sus aguas; pero puedo aseguraros que si allí, en mi nativo Bilbao, se me despertó y
aguzó el sentido de la curiosidad universal, de la inquisitividad – páseseme la palabra -aqui
no me ha faltado materia en que ejercerlo. Y acaso con ventaja.
¿Pero a qué he de hablaros más de esta ciudad? Siempre que os hablo de mi, de mi
España, de cualquier otra cosa, os estoy hablando de ella. No la juzguéis por mi solo, pero
creed que si hay algo en mí y en mis escritos que os satisfaga, a esta ciudad de Salamanca
se debe ello en mucha parte.

Salamanca, abril de 1914.


(VG)

Atardecer de estio en Salamanca48

Del color de la espiga triguera


ya madura

155 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


son las piedras que tu alma revisten,
Salamanca,
y en las tardes doradas de junio
semejan tus torres
del sol a la puesta
gigantescas columnas de mieses
orgullo del campo
que ciñe tu solio.
Desde lo alto derrama su sangre,
lluvia de oro,
sobre ti el regio sol de Castilla,
pelícano ardiente,
y en tus piedras anidan palomas
que arrullan en ellas
48
Miguel de Unamuno (1922), Andanzas y visiones españolas. Renascimiento, Madrid, pp.: 278-279.
eternos amores
al acorde de bronces sagrados
que lanzan al aire
seculares quejas
de los siglos.
Los vencejos tu cielo repasan
poblando su calma
con hosanas de vida lijera,
jubilosa,
las tardes de estío,
y este cielo, tu prez y tu dicha,
Salamanca,
es el cielo que esmalta tus piedras
con oro de siglos.
Como poso del cielo en la tierra
resplende tu pompa,
Salamanca,
del cielo platónico
que en la tarde del Renacimiento
cabe el Tormes Fray Luis meditando
soñara.
Sobre ti se detienen las horas,
156 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

de reveza,
soltando su jugo,
su savia de eterno,
y en tus aguas se miran los siglos
dejando a la historia
colmar tu regazo
con frutos de otoño.
Cuando puesto ya el Sol, de tu seno
rebotan tus piedras
el toque de queda
me parecen los siglos mejerse,
que el tiempo se anega,
y vivir una vida celeste
– quietud y visiones! –
Salamanca!
(VG)

Oda a Salamanca49

Alto soto de torres que al ponerse


tras las encinas que el celaje esmaltan

157 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


dora a los rayos de su lumbre el padre
Sol de Castilla;
bosque de piedras que arrancó la historia
a las entrañas de la tierra madre,
remanso de quietud, yo te bendigo,
¡mi Salamanca!

Miras a un lado, allende el Tormes lento,


de las encinas el follaje pardo
cual el follaje de tu piedra, inmoble,
denso y perenne.
Y de otro lado, por la calva Armuña,
ondea el trigo, cual tu piedra, de oro,
y entre los surcos al morir la tarde
49
Miguel de Unamuno: Oda a Salamanca, 1904.
duerme el sosiego.
Duerme el sosiego, la esperanza duerme
de otras cosechas y otras dulces tardes,
las horas al correr sobre la tierra
dejan su rastro.
Al pie de tus sillares, Salamanca,
de las cosechas del pensar tranquilo
que año tras año maduró en tus aulas,
duerme el recuerdo.

Duerme el recuerdo, la esperanza duerme


y es tranquilo curso de tu vida
como el crecer de las encinas, lento,
lento y seguro.
De entre tus piedras seculares, tumba
de remembranzas del ayer glorioso,
de entre tus piedras recojió mi espíritu
fe, paz y fuerza.

En este patio que se cierra al mundo


y con ruinosa crestería borda
limpio celaje, al pie de la fachada
158 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

que de plateros

ostenta filigranas en la piedra,


en este austero patio, cuando cede
el vocerío estudiantil, susurra
voz de recuerdos.

En silencio fray Luis quédase solo


meditando de Job los infortunios,
o paladeando en oración los dulces
nombres de Cristo.

Nombres de paz y amor con que en la lucha


buscó conforte, y arrogante luego
a la brega volvióse amor cantando,
paz y reposo.
La apacibilidad de tu vivienda
gustó, andariego soñador, Cervantes,
la voluntad le enhechizaste y quiso
volver a verte.

Volver a verte en el reposo quieta,


soñar contigo el sueño de la vida,
soñar la vida que perdura siempre
sin morir nunca.

Sueño de no morir es el que infundes


a los que beben de tu dulce calma,
sueño de no morir ese que dicen
culto a la muerte.

En mi florezcan cual en ti, robustas,


en flor perduradora las entrañas
y en ellas talle con seguro toque
visión del pueblo.

Levántense cual torres clamorosas

159 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


mis pensamientos en robusta fábrica
y asiéntese en mi patria para siempre
la mi Quimera.

Pedernoso cual tú sea mi nombre


de los tiempos la roña resistiendo,
y por encima al tráfago del mundo
resuene limpio.

Pregona eternidad tu alma de piedra


y amor de vida en tu regazo arraiga,
amor de vida eterna, y a su sombra
amor de amores.

En tus callejas que del sol nos guardan


y son cual surcos de tu campo urbano,
en tus callejas duermen los amores
más fugitivos.

Amores que nacieron como nace


en los trigales amapola ardiente
para morir antes de la hoz, dejando
fruto de sueño.

El dejo amargo del Digesto hastioso


junto a las rejas se enjugaron muchos,
volviendo luego, corazón alegre,
a nuevo estudio.

De doctos labios recibieron ciencia


mas de otros labios palpitantes, frescos,
bebieron del Amor, fuente sin fondo,
sabiduría.

Luego en las tristes aulas del Estudio,


frías y oscuras, en sus duros bancos,
aquietaron sus pechos encendidos
160 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

en sed de vida.

Como en los troncos vivos de los árboles


de las aulas así en los muertos troncos
grabó el Amor por manos juveniles
su eterna empresa.

Sentencias no hallaréis del Triboniano,


del Peripato no veréis doctrina,
ni aforismos de Hipócrates sutiles,
jugo de libros.

Allí Teresa, Soledad, Mercedes,


Carmen, Olalla, Concha, Bianca o Pura,
nombres que fueron miel para los labios,
brasa en el pecho.
Así bajo los ojos la divisa del amor,
redentora del estudio,
y cuando el maestro calla, aquellos bancos
dicen amores.

Oh, Salamanca, entre tus piedras de oro


aprendieron a amar los estudiantes
mientras los campos que te ciñen daban
jugosos frutos.

Del corazón en las honduras guardo


tu alma robusta; cuando yo me muera
guarda, dorada Salamanca mía,
tú mi recuerdo.
Y cuando el sol al acostarse encienda
el oro secular que te recama,
con tu lenguaje, de lo eterno heraldo,
di tú que he sido.

161 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço


O novo destino da Península50
Eduardo Lourenço

Raramente o relacionamento – e não apenas as relações – entre Portugal e Espanha


terá sido tão aproblemático, quase apetece dizer, tão natural. Como se começasse a ter
vigência aquela espécie de utopismo peninsular que, a título diverso, embalou gerações de
intelectuais ibéricos desde Py y Margal a Unamuno, ou de Oliveira Martins a Fidelino de
Figueiredo e Torga. Um relacionamento que já não tem tanto a ver com a política e a sua
história atormentada, ao menos do nosso lado, feita do orgânico receio ou desconfiança
em relação a um poderoso vizinho a que, na época hegemónica de Espanha, nos ataram
laços institucionais. Ou depois da Restauração, laços obrigatória e convenientemente di-
plomáticos que passavam, como nas antigas relações com Castela, por alianças de interes-
ses, sublinhadas por uniões de família,
O novo relacionamento, natural e sem grande relevo no plano político com expressão
pragmática e simbólica assumida e explícita, como nos tempos das mútuas visitas reais ou de
Salazar e Franco, parecerá a muitos fantasmático precisamente pela sua natureza espontânea,
que engloba tanto o económico, o financeiro, como, e num grau sem precedentes, salvo nos
tempos míticos de Garcilaso e Camões, o cultural. Mas como nada nem ninguém é perfeito,
este novo estado de coisas, que alguns considerarão mais da ordem do mito que dos factos,
embora sem tradução espectacular, não deixa de acordar, ao menos na nossa memória sensível
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de portugueses, velhos reflexos de defesa, de desconfiança ou até de íntima recusa. Nos últimos
dois anos, sobretudo, e no quadro de uma mais vasta desregulamentação da esfera económica,
industrial e financeira, imposta ou sugerida pela Comunidade Europeia, vários títulos da nossa
imprensa mais influente se tornaram eco desses receios multi-seculares, como se de novo e de
forma mais subtil estivéssemos a pontos de nos dissolver, sem dar por isso, no espaço dinâmico
de maior expressão europeia que o nosso, da vizinha e influente Espanha. Já não é só a propó-
sito de homéricos desafios de futebol que os nossos naturais reflexos de velha nação peninsular
independente se manifestam, mas a propósito de negócios, de questões ecológicas, de instala-
ção espectacular de redes bancárias, de supermercados, de indústrias. Como se se tratasse, ao
menos, sob uma forma mais ou menos cândida, de uma variedade de colonização” que mais
do que antigas tentativas ou tentações, pusesse em perigo a nossa tão cara identidade, vivida,
como tem sido quase sempre, com inextricável mistura de exaltação e fragilidade.
Não é raro constatar nesses títulos um vago pânico diante da “nova invasão espanhola”
que é de facto a de uma presença espanhola de importância indiscutível. Como indiscutível
50
Eduardo Lourenço, “O Novo Destino da Península”, Finisterra, Revista de Reflexão e Crítica, n.º 17, 1995:
7-11 (Revista dirigida por Eduardo Lourenço. Tema do volume, ‘Espanha e Nós’).
é, também, uma presença portuguesa de novo estilo, de acordo com as nossas capacidades,
num espaço económico-financeiro peninsular de nova configuração que impõe a Portugal
e Espanha não só uma revisão de “clichés” sem emprego, como uma estratégia, tanto
quanto possível, inovadora em todas as ordens que a “nova ordem europeia” e internacio-
nal a ambos impõem. Claro que Espanha já tem ocupação suficiente com os problemas
que lhe são próprios e que Portugal nem como nação – hipótese impensável -, nem como
objectivo a qualquer título decisivo para os seus destinos como potência europeia e ex-po-
tência colonizadora, é assunto de qualquer preocupação de relevo propriamente político.
O contrário é menos verdadeiro, como é óbvio, porque Espanha, quer nós o queiramos
quer não, existe mais para nós (apesar da famosa imagem de países de costas voltadas um
para o outro) e daí que não seja tão surpreendente – embora vão e mesquinho – ver a nossa
imprensa sublinhar este ou aquele desvario diplomático espanhol, esta ou aquela vitória
nossa sobre candidaturas vizinhas a postos de relevo internacional, reflexos, no fundo,
sem grandes consequências, como querelas entre primos. Mais justo e mesmo necessário
é reagir contra o que nos parece gravoso em matéria, não só de solidariedade ibérica ou
latamente europeia, em matérias que deviam ser de interesse comum ou ao menos discuti-
das nessa óptica, como a atitude de Espanha no caso de Timor ou da Indonésia em geral.
É natural que Portugal salvaguarde em tudo os seus interesses vitais – quando o são – de
nação independente, mas não menos importante é perceber que Espanha tem os seus
interesses e que nada de pior nos pode suceder do que imaginar-nos na pose heróica do
Quixote que ela inventou.
Em suma, tudo se passa – na mesma medida em que Portugal e Espanha estão inte-

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grados a múltiplos e íntimos níveis numa perspectiva europeia análoga – como se entre as
nossas duas nações tudo evoluísse no melhor dos mundos exactamente por não se passar
nada, passando-se tanta coisa nova e mesmo revolucionária no domínio afectivo das rela-
ções que modificam o quotidiano de ambos e cada dia criam, mesmo sob aquele “hiato”
que nos une pela sua existência, uma nova atmosfera ibérica. Mas essa metamorfose, vivida
ou percebida de maneira diversa de um e outro lado do Guadiana sobre que não queremos
restaurar pontes, não tem expressão simbólica adequada, nem parece, salvo sob rituais
vazios e protocolares, traduzir-se num autêntico novo relacionamento, quer dizer, num
verdadeiro conhecimento do que somos, cada povo para si e no seu conjunto. Como se “o
desconhecimento”, salvo para excepções, cultivado, nos servisse a ambos, mas sobretudo a
nós, de mais préstimo simbólico que o mútuo conhecimento.
Felizmente, nos últimos dez anos e num domínio que, por natureza, escapa aos re-
flexos condicionados que continuam a subdeterminar as relações políticas ou afins, esse
“conhecimento” mútuo, essa presença efectiva de criações espanholas (em sentido lato) e
portuguesas, sem ser o que pode e deve ser, tomou uma amplitude sem precedentes na
época moderna. E não se trata apenas, como sempre foi o caso, de conhecimento e relacio-
namento entre “elites” peninsulares, mas de vivência, convivência, leitura, adopção mútua
de obras, de espectáculos, de mitologias não folclorizantes que aos poucos nos tornaram
senão “hermanos” bem mais familiares do que nunca fomos. Como reconhecimento desta
nova fase da comum vida ibérica e europeia, Espanha manifestou-nos o seu máximo in-
teresse por nós – e por ela, bem entendido – criando em Lisboa um imponente e activo
Centro Cervantes. Se alguns querem continuar a desconhecer a grande Espanha já não
têm a desculpa de a não ter à mão na sua expressão cultural mais dinâmica. Infelizmente,
embora o projecto esteja anunciado há muito, ainda não tivemos tempo para nos instalar,
como nos seria – nos é – tão necessário, no coração de Espanha, ou das Espanhas, em
Madrid como em Barcelona, em Santiago ou em Sevilha, por exemplo. Como portugue-
ses, sabemos ou devíamos saber que a nossa cultura, ao mesmo tempo tão próxima e tão
diversa da espanhola, constitui no diálogo com a cultura vizinha um fermento de algum
modo “exótico” por contrastante, como a espanhola foi em tempos e continua sendo para
nós a mais natural das companhias.
Os acontecimentos, não só políticos, mas, mais largamente, civilizacionais, que depois
da queda do Muro e do despertar do Islão desarrumaram as perspectivas europeias fixadas
em Ialta, colocaram a Península não só numa das fronteiras da Europa, mas num dos
pontos estratégicos capitais do Ocidente. Era bom que, ambos e o mais sintonizadamente
possível, Portugal e Espanha, se dessem conta disso e relativizassem as suas próprias dificul-
dades internas, em função desse novo dado de “guardiães” ou fronteiros do Mediterrâneo.
Há muito que Espanha tem, em sentido lato, não só uma política mediterrânica como
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transmediterrânica. Mais atlânticos, é natural que a nossa preocupação seja um pouco


diversa ou tenha essa outra componente. Mas como Península o nosso destino é um só e
não há razão para o deixarmos definir apenas, nem essencialmente, por aquelas nações que
até agora hegemonizaram a política europeia. O nosso lugar não pode ser ocupado por
mais ninguém. E se o não ocuparmos não ficará vazio, nem deste lado nem do outro lado
do Mediterrâneo. Portugal ainda não se ajustou interiormente a si mesmo como ex-potên-
cia africana. Não é indispensável, nem viável ou inteligente que enfraqueça laços criados
por séculos de presença em Africa. Como Espanha não o fez, antes pelo contrário, com a
América Latina e Marrocos. Mas parece claro que também não ajustou a sua óptica à nova
realidade peninsular e que tanto Portugal como Espanha continuam a jogar, em excesso,
os seus clássicos jogos de nações, no puro estilo dos séculos XVIII e XIX. É exacto que o
exemplo europeu não ajuda muito e que um certo europeísmo suicidário – que é, na práti-
ca, antieuropeísmo, ausência de solidariedade num mundo já de si pouco solidário – ainda
ajuda menos. Mas por isso mesmo, e aproveitando uma daquelas ocasiões que a História
não costuma oferecer duas vezes, a Península como um todo, que não pode esquecer o seu
papel na civilização universal, deve – e oxalá o possa – assumir um novo destino, bem seu,
à beira de um milénio imprevisível e no meio de uma configuração mundial interiormente
descentrada ou perigosamente fragmentada. A Península, desde Numância até hoje, tem
vinte séculos de memória e de resistência. Nem sempre teve os meios das suas naturais
ambições ou, quando os teve, nem sempre lhes deu o melhor emprego. Hoje, não se trata
de vontade de poderio. Apenas de natural senhorio. Para o conservar, dispõe hoje de todos
os meios. Faltará a vontade?

Vence, 10 de Janeiro de 1995

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Calle libreros y casa museo Unamuno (VG)
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Úrsulas. Casa Unamuno (VG)


Úrsulas. Casa Unamuno (VG)
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Palacio de Anaya (VG)


Palacio de Anaya (VG)
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Busto de Unamuno realizado por Victorio Macho presidiendo


la escalinata del Palacio de Anaya y Facultad de Filología (VG)
172 // Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço

Calle Compañía (VG)


Rua Mayor (VG)

Plaza Mayor (VG)


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Catedral (VG)