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XIX Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica

Geotecnia e Desenvolvimento Urbano


COBRAMSEG 2018 – 28 de Agosto a 01 de Setembro, Salvador, Bahia, Brasil
©ABMS, 2018

Avaliação dos materiais de jazida para revestimento primário do


município de Maquiné-RS e propostas de otimização
Augusto Bopsin Borges
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil, augusto.borges@ufrgs.br

Washington Peres Núñez


Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil, wpnunez@superig.com.br

Luiz Antônio Bressani


Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil, bressani@ufrgs.br

Leandro Olívio Nervis


Universidade de Santa Cruz do Sul, Santa Cruz do Sul, Brasil, leandron@unisc.br

RESUMO: Este artigo apresenta, com base no estudo dos materiais de jazida do município de
Maquiné-RS, uma adaptação do método sul-africano de dimensionamento de camadas granulares de
pavimentos aplicada ao dimensionamento e manutenção de camadas de revestimento primário de
estradas vicinais, que tem como parâmetros de entrada as tensões atuantes na camada granular de
revestimento e parâmetros de resistência do solo. Para tanto, foram determinados os parâmetros de
resistência ao cisalhamento e de comportamento resiliente dos materiais utilizados pelo município
por meio de ensaios triaxiais monotônicos e de cargas repetidas, respectivamente, em condições
ótimas de umidade, e calculadas as tensões atuantes por meio de uma análise mecanística. Com a
análise dos dados resultantes propõe-se a utilização do parâmetro do método que pondera as
condições de umidade/drenagem, como um parâmetro calibrável para seu uso em revestimentos
primários. Tal abordagem é complementar às recomendações gerais propostas por outros autores
quanto à conformação geométrica, sistemas de drenagem, dentre outras, e traz maior racionalidade
ao uso do material, utilizando parâmetros de resistência e de deformabilidade elástica do mesmo.

PALAVRAS-CHAVE: Revestimento Primário, Estradas Vicinais, Mecânica dos Pavimentos,


Mecânica dos Solos.

1 INTRODUÇÃO porcentagem das estradas de revestimento


primário em relação à malha rodoviária
No Brasil, em particular, o escoamento da brasileira.
produção agrícola de municípios rurais, antes de
seguir por rodovias de pavimentos flexíveis, de Tabela 1. Configuração da malha viária brasileira
classe operacional elevada, começa seu Jurisdição (%)
Municipal

percurso por estradas de revestimento primário,


Estadual

Extensão
Federal

chamadas secundárias ou vicinais que são, em Vias


(km)
sua maioria, de responsabilidade dos
municípios.
Pavimentadas 2,11x105 30,7 56,6 12,7
A tabela 1 mostra, com base em dados do
Não pavimentadas 1,35x106 0,9 7,8 91,3
DNIT (2015), a distribuição de responsabilidade
TOTAL 1,56x106
de operação manutenção de tais estradas e a
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Tendo em vista o elevado percentual das


estradas não pavimentadas de responsabilidade
municipal, a importância das estradas vicinais
para municípios rurais e o fato de que as
especificações nacionais e internacionais para o
tema são muito escassas e não poucas vezes
divergentes, neste trabalho propõe-se uma
abordagem racional para o uso dos materiais de
jazida, através do cálculo de um número de
repetições de carga aproximado e calibrável
com emprego do Método Sul-Africano de
dimensionamento de pavimentos flexíveis
(SANRAL, 2014), que se utiliza de parâmetros Figura 1. Localização aproximada da jazida e do depósito
intermediário (CPRM, 2016, adaptado).
de resistência ao cisalhamento dos solos;
extrapolando-o de forma a se tornar uma
ferramenta útil para uso em pavimentos de
revestimento primário. Aplica-se essa
proposição para avaliação dos materiais de
jazida utilizados no município de Maquiné –
RS.
O uso experimental do modelo, extrapolado
para o cálculo de camadas de revestimento
primário de estradas não pavimentadas, já foi
objeto de estudo por outros pesquisadores
(Nervis, 2010 e 2016; Peraça, 2007).

2 MATERIAIS E MÉTODOS

2.1 Material Explorado e Situação Cadastral


da Manutenção das Estradas Vicinais Figura 2. Material da jazida explorada pelo município.

Os materiais analisados para avaliação do


método são provenientes de jazida em uso no
município de Maquiné-RS. A figura 1 mostra a
localização da jazida no mapa geológico
(CPRM, 2016), assim como o local onde é
depositado parte do material extraído para
posterior utilização em locais mais distantes.
O material de jazida, segundo o mapa
geológico, é predominantemente fruto de
derrames basálticos, o que se confirma in loco
Figura 3. Material, resultado do desmonte de massa de
por processo táctil-visual, sendo um solo solo, sendo recolhido para uso.
saprolítico de basalto vesicular, com torrões
friáveis e baixo teor aparente de finos quando Quando se avançam frentes de exploração de
revolvido, facilmente lixiviável por água da rocha menos alterada, encontram-se blocos de
chuva (figuras 2 e 3). maiores dimensões, claramente impróprios à
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utilização na pista, que são desprezados 2.1.2 Ensaios de Compactação e Massa


intuitivamente, sem maiores critérios; utilizam- Específica Real dos Grãos.
se os materiais de menor dimensão média.
A malha viária do município de Maquiné é, O ensaio de compactação foi realizado em 14
quase em sua totalidade, formada de corpos de prova, segundo a NBR 7182 (ABNT,
pavimentos de revestimento primário e sua 2016d), sendo 5 deles ensaiados no cilindro
manutenção é realizada de forma a responder às pequeno (dois no ramo úmido e três no ramo
necessidades mais urgentes. Não há nenhum seco) apenas com material passante na peneira
sistema de gerenciamento ou método de #4, e 8 ensaiados no cilindro grande
avaliação da durabilidade das manutenções e preconizado pela mesma norma. Nestes e nos
intervalo entre manutenções em um mesmo ensaios triaxiais subsequentes, foi utilizado o
trecho, não possuindo o município qualquer material passante na peneira ¾’’, mais
banco de dados organizado que possa ser representativo da granulometria original e
consultado. Eventualmente seria possível idealmente mais adequado para uso.
pesquisar ordens de serviço ou outros Os materiais preparados com cinco teores de
documentos administrativos, mas os mesmos umidade foram mantidos por 4 horas em sacos
não se encontram facilmente disponíveis e não plásticos reforçados e hermeticamente fechados,
têm o objetivo direto de disponibilizar tais mantidos em sala úmida para uniformização da
informações. umidade. Como não se obtivesse uma curva
clássica de compactação com ramo seco e
2.1.1 Amostragem e Ensaios Classificação e de úmido bem definidos nos pontos ensaiados,
Caracterização compactaram-se outras 3 amostras, nas mesmas
umidades, com tempo de uniformização de 24
O material amostrado para estudo, de forma a horas, para avaliar-se a consistência da curva
ser representativo do utilizado como anterior e efeito do tempo de uniformização de
revestimento primário, foi coletado no depósito umidade. Ademais, um único ponto foi
intermediário, mostrado na figura 1, em quatro ensaiado com a curva granulométrica do
setores distintos do mesmo. material passante na peneira 1’’ (25,4 mm) para
Como na manutenção dos pavimentos os se avaliar a quebra do material quando
materiais não sofrem nenhuma seleção compactado. À exceção deste último, que foi
granulométrica eficiente antes de serem compactado na energia Intermediária e com
aplicados na via, encontram-se agregados de granulometria distinta, todos os outros foram
dimensões elevadas, superiores a 3” (76,2 mm). compactados na energia Normal. As amostras
Para a realização dos ensaios laboratoriais, foi foram preparadas de acordo com os
desprezado, sem escalpo ou substituição, todo procedimentos da norma NBR 6457 (ABNT,
material retido na peneira de 3”, por ser um 2016a) e a massa específica real dos grãos (ρs)
material extremamente grosseiro e inadequado determinada segundo a norma NBR 6458
para uso como revestimento primário, segundo (ABNT, 2016b).
as especificações brasileiras (DNIT, 2005; A curva de compactação utilizando material
DER/PR, 2005; DER/SP, 2006). Para os adequado para cilindro Proctor (pequeno) foi
ensaios de comportamento mecânico, foi elaborada somente para verificar se o formato
desprezado igualmente o material retido na da curva de compactação para correspondente
peneira ¾” (19,05 mm) por limitação do faixa granulométrica ainda mantinha o formato
diâmetro das partículas em relação ao diâmetro não usual.
dos corpos-de-prova (CP’s) dos ensaios.
2.2 Ensaios de Resistência ao Cisalhamento
e Comportamento Resiliente
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2.3 Modelo de Previsão de Desempenho Sul-


2.2.1 Triaxiais Monotônicos Africano

Foram realizados três ensaios triaxiais Para se avaliar o desempenho de uma estrada
monotônicos do tipo UU (não-consolidado, vicinal ao longo de sua vida útil, fez-se uma
não-drenado) com tensões confinantes de 12,5, análise estrutural do pavimento com a camada
50 e 100 kPa, com o material compactado na de revestimento primário e subleito. Tal
energia Proctor Normal, para determinação dos avaliação dá-se segundo critérios bem
parâmetros de resistência. Como não se obteve conhecidos da Mecânica dos Solos e da
para o material passante na peneira 19 mm um Mecânica dos Pavimentos para cada camada
pico na curva de compactação, adotou-se como individual, quais sejam: os pavimentos devem
ótima a umidade de 11,65% e trabalhou-se nesta ser executados de forma a assegurar que não
umidade, correspondente à aproximadamente rompam por cisalhamento do(s) solo(s) da(s)
80% de saturação. Este grau de saturação camada(s) que os compõem e que as
corresponde a um limite de trabalhabilidade em deformações – permanentes – não excedam
campo, a partir da qual o material se torna limites admissíveis.
excessivamente úmido. O Método Mecanístico-Empírico de
Dimensionamento de Pavimentos da República
2.2.2 Triaxial de Cargas Repetidas da África do Sul (SANRAL, 2014) apresenta
modelos que permitem avaliar a segurança de
Foi realizado um ensaio triaxial de cargas camadas granulares contra a ruptura por
repetidas como preconizado pela norma 134- cisalhamento e contra deformações permanentes
ME (DNIT, 2010) para determinação do excessivas no topo do subleito.
comportamento resiliente do material nas Para materiais granulares, o método propõe
condições já citadas. os modelos das equações 3 e 4 para o cálculo do
Por se tratar de um solo granular, seu número admissível de cargas de eixo padrão,
comportamento resiliente é sensível à tensão de calculado com fatores de equivalência da
confinamento (3) ou à soma das tensões AASHTO (NAASHTO).
principais (= 1 + 2∙3 = d + 3∙3) (Medina e
 K 

  3  tan  45   / 2   1
Motta, 2005). As relações entre os módulos de 
F 2

 1   3 
resiliência dos materiais e os estados de tensões
atuantes são descritos pelos modelos dados nas
equações 1 e 2, sendo o modelo da equação 2 de 2c tan  45   / 2  (3)
particular relevância neste caso por ser o
modelo empregado no software utilizado para o NAASHTO  10 F  (4)
cálculo de tensões por análise elástica linear: o
Everstress© 5.0 (WSDOT, 2000). Nas equações
1 e 2, MR é o módulo de resiliência (em MPa), No modelo 3, K assume valores em função
k1 e k2 são parâmetros do modelo e patm é a da umidade do solo sendo K = 0,65 para
pressão atmosférica (igual a 0,101 MPa). material saturado e K = 0,95 para material no
ramo seco da curva de compactação;  e  são
parâmetros do modelo que variam em função do
MR  k1  3k2 (1)
nível da rodovia e nível de confiabilidade
k2
desejado. Para estradas vicinais de baixo tráfego
   (nível de confiabilidade de 50%)  = 2,605122
MR  k1    (2)
 patm  e  = 4,510819.
Também a deformação vertical admissível
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no topo do subleito está diretamente relacionada Tabela 3. Configuração de cada estrutura avaliada, em
ao afundamento nas trilhas de roda na superfície relação à espessura da camada de revestimento.
Estrutura Espessura do Revestimento Primário (cm)
do pavimento, pois a deformabilidade do
1 15
revestimento primário, granular, depende 2 20
daquela da camada de suporte. Quanto menos 3 25
deformável for subleito, maior será o módulo de
deformação elástica da camada granular. O objetivo da análise computacional elástica
linear foi avaliar as tensões no ponto médio da
2.4 Análise das Tensões Atuantes na camada de revestimento para as combinações de
Camada de Revestimento Primário subleito e espessura de revestimento.
Os resultados das análises mecanísticas para
Para avaliação das tensões atuantes no material todas as combinações de condição de subleito
de revestimento estudado, foi analisado o (A, B ou C) e estruturas de revestimento (1, 2
pavimento de revestimento primário, variando o ou 3), assim como os resultados dos ensaios
módulo do subleito entre 50, 100 e 150 MPa, aqui apresentados e outros mais, estão
faixa para solos de subleito, adotando-se as disponíveis em Borges (2016).
condições mostradas na tabela 2. As cargas e geometria adotadas na análise
mecanística foram:
Tabela 2. Condições de subleito avaliadas. a) carga de eixo padrão de 82 kN,
Subleito 1 (15 cm) Subleito 2 (∞)
Condição distribuída entre as rodas de um eixo
MRsubleito (MPa) MRsubleito (MPa)
A 50 100 simples de rodas duplas (20,5 kN/roda);
B 100 150 b) carga de cada roda distribuída
C 150 200 uniformemente em área circular,
considerando semieixo padrão, distando,
Tais valores são tidos como apropriados, de centro a centro de cada roda, 30 cm
uma vez que há evidências de patologias nas (figura 9);
vias rurais do município devidas à saturação do c) pressão de inflação dos pneus 560 kPa;
subleito por cursos d’água marginais à via e/ou d) pontos de avaliação das tensões devidas
à baixa resistência do solo de fundação em si. ao carregamento nos pontos A(0,0) e
A razão para consideração de duas camadas B(0,15), conforme figura 5, tomando-se
de subleito é meramente computacional, a mais crítica dentre as duas.
requisito do software de análise Everstress© 5.0.
Um corte genérico de exemplo da estrutura
analisada segue na figura 4.

Figura 4. Corte típico considerado. Figura 5. Geometria do carregamento.

Na tabela 3 são apresentadas espessuras do


revestimento primário para cada uma das 3 RESULTADOS OBTIDOS POR
estruturas analisadas. METODOLOGIA EMPREGADA

3.1 Resultados dos ensaios de caracterização


e classificação do material de jazida
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3.2 Resultados dos ensaios de resistência ao


As curvas granulométricas médias, elaboradas cisalhamento e comportamento resiliente
segundo a NBR 7181 (ABNT, 2016c), por
peneiramento do solo nos quatro pontos de As trajetórias de tensões e a envoltória de
amostragem, são apresentadas na figura 6. Com ruptura em termos de tensões totais são
estas características o material é classificado mostradas na figura 8.
como pedregulho mal graduado com areia,
segundo o Unified Soil Classification System
(ASTM, 2017) e como um solo A-1-a, segundo
a classificação da AASHTO (ASTM, 2015).

Figura 8. Trajetórias de tensões totais dos ensaios


triaxiais monotônicos.

Figura 6. Curvas granulométricas médias dos materiais


estudados. A partir de tais ensaios obteve-se um ângulo
de atrito (  ) de 37,31° e um intercepto coesivo
A massa específica real dos grãos foi 2,70 (c) de 30 kPa, em termos de tensões totais, para
g/cm³. Quanto aos ensaios de compactação, as o grau de saturação, umidade e peso específico
curvas obtidas são apresentadas na figura 7. aparente seco estudados.
Os resultados dos ensaios triaxiais de cargas
repetidas são apresentados figura 9, utilizado o
modelo da equação 2 com k1 = 65,292 e k2 =
0,531.

Figura 7. Curvas dos ensaios de compactação executados.

O peso específico aparente seco nestas


condições é 19,35 kN/m³. Figura 9. Comportamento resiliente do solo estudado
segundo o modelo da equação 2.
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modelo sul-africano (equações 3 e 4) a


3.3 Resultados da Análise Estrutural do revestimentos primários, que fornece o número
pavimento admissível de cargas de eixo padrão, NDNIT
(NDNIT ≈ 4∙NAASHTO) em função da espessura da
Os MR da camada de revestimento camada de revestimento, do MRsubleito e condição
(MRrevestimento) e as tensões principais no centro de umidade (K) são mostrados na figura 11,
do revestimento, calculados na análise com faixas destacadas para cada valor de K.
mecanística, seguem, respectivamente, na figura
10 e na tabela 4.

Figura 10. MRrevestimento em função da espessura da camada Figura 11. NDNIT em função da espessura do revestimento
e do MRsubleito. primário para várias condições de umidade (K) e de
MRsubleito.
Tabela 4. Tensões principais resultantes da análise
elástica no plano médio do revestimento, para as A interpretação da figura 11 dos resultados
estruturas analisadas.
Condição do  A B C
aplicados ao modelo sul-africano é imediata,
Subleito (kPa) (kPa) (kPa) tanto do ponto de vista qualitativo quanto
 1 = 446,23 459,49 463,77 quantitativo. Do ponto de vista qualitativo não é
Estrutura 1  surpresa que o número admissível de repetições
 3 = 17,50 23,81 26,12
da carga de eixo padrão, NDNIT, aumente, tanto
 1 = 383,10 390,51 395,49 com o MRsubleito quanto, até certo ponto, com
Estrutura 2 
 3 = 10,77 15,55 17,44 menor grau de saturação.
1 O uso destas conclusões para o planejamento
 = 322,32 327,87 331,47
Estrutura 3  da manutenção das estradas vicinais se faz
 3 = 5,28 8,93 10,44 muito interessante pois, uma vez conhecendo as
características de resistência ao cisalhamento e
Os módulos mostrados na figura 10 estão de comportamento resiliente dos materiais
dentro do intervalo de variação obtido no ensaio empregados e inferindo uma faixa de variação
de MRrevestimento, mostrando consistência, assim para o MRsubleito, a aplicação do modelo, com uso
como há consistência na tendência de queda do adaptado à camada de revestimento primário, se
MRrevestimento com o aumento da espessura de resume a um ajuste do parâmetro K para as
revestimento primário. condições de umidade/drenagem da pista.
Esta abordagem permite ainda definir um
espaçamento adequado entre atividades de
4 PROPOSTA DE ADAPTAÇÃO DO manutenção (NDNIT) de um trecho em campo
MÉTODO SUL-AFRICANO A ESTRADAS menos dependente, para efeitos práticos, do
VICINAIS MRsubleito. Observa-se na figura 11 que o número
admissível de operações do eixo depende muito
Os resultados, de forma gráfica, da aplicação do mais de K do que do MRsubleito.
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É proposta então a definição, por análise consistentes de NDNIT para estradas vicinais,
qualitativa, de um valor para o parâmetro K em deve ser calibrada com observações e medidas
função de uma NOTA entre 0 (péssima de campo para cada situação em particular, com
condição de umidade/drenagem) e 10 parâmetros geotécnicos de resistência ao
(condições aparentemente ótimas de cisalhamento e comportamento resiliente
umidade/drenagem da via) que avalia as correspondentes ao material utilizado.
condições de umidade/drenagem. Tal abordagem, porém, mesmo que
O valor de K a ser utilizado no modelo adequadamente calibrada, é complementar e
adaptado pode ser calculado então de acordo não objetiva substitui recomendações gerais de
com a equação 5, em função da NOTA conformação geométrica da pista, sistemas de
conferida, mantendo assim sua variação entre os drenagem, limitação de dimensões
valores originais propostos no método sul- granulométricas e outros pontos elucidados por
africano (entre 0,65 e 0,95). outros autores e órgãos nacionais e
internacionais como Nervis (2010 e 2016),
3  NOTA  65 Baesso e Gonçalves (2003), DNIT (2005),
K (5)
100 DER/SP (2012), FHWA (2015), Keller e Sherar
(2003), dentre outros.
Tal avaliação deve, idealmente, ser A qualidade das vias de revestimento
empregada em conjunto com procedimentos de primário está, tanto no caso do município de
manuais de manutenção e gerenciamento de Maquiné-RS como em muitos outros
estradas vicinais, como o proposto pelo municípios predominantemente rurais,
Department of the Army (1995), traduzido ao intrinsecamente ligada ao potencial de
português por Baesso e Gonçalves (2003). desenvolvimento do município, pois as estradas
vicinais são a forma inicial e muitas vezes
crítica de escoamento da sua produção agrícola.
5 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES Mais atenção deve ser dada à otimização dos
gastos de manutenção de tais vias; segundo
Este artigo propõe que seja utilizada na estudo do Banco Mundial (Heggie e Vickers,
manutenção de estradas vicinais uma 1998), quando se permite que uma rodovia de
abordagem racional baseada na Mecânica dos revestimento primário se deteriore de uma
Solos e na Mecânica dos Pavimentos, condição boa para ruim, cada dólar
utilizando-se do Método Sul-Africano adaptado “economizado” por parte do poder público na
à avaliação da camada revestimento primário. manutenção destas estradas implica gasto de 2 a
Tal procedimento baseia-se no conhecimento 3 dólares por parte dos proprietários dos
dos parâmetros de resistência ao cisalhamento veículos de carga em manutenção veicular, pela
do material de revestimento, do seu má condição de trafegabilidade, além da perda
comportamento resiliente e de uma análise financeira por dano à carga de produtos
mecanística para o cálculo das tensões atuantes. agrícolas, muitas vezes extremamente sensível a
Esta análise, conjuntamente com uma avaliação vibrações e choques excessivos (Steyn, 2016a;
das condições de drenagem da pista pelo corpo 2016b). Já o gasto com ensaios dos materiais
técnico de campo, responsável pela empregados, implementação de sistema de
manutenção, fornece uma estimativa de gerenciamento de manutenção e treinamento de
números de operação de cargas de eixo padrão mão-de-obra, a médio prazo, certamente traz
que a camada granular suportará, antes de economias consideráveis tanto na manutenção
romper por cisalhamento. dos veículos que por estas vias trafegam quanto
Esta adaptação proposta do método sul- para o município, por gastar de forma racional
africano, embora tenha resultado em valores na manutenção de suas estradas.
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Este trabalho avaliou o material de jazida AGRADECIMENTOS


compactado com energia Normal e condições
controladas de umidade, o que nem sempre é Agradeço ao grupo de pesquisa, colegas, corpo
possível na prática com devido rigor, embora técnico e professores do Laboratório de
ideal. Pavimentação (LAPAV) e do Laboratório de
Há formas, uma vez determinado o Geotecnologia (LageoTEC) da Universidade
comportamento resiliente do material nas Federal do Rio Grande do Sul por terem tornado
condições ótimas de compactação, de se estimar possível este trabalho, assim como ao prefeito
o acréscimo ou decréscimo do MRrevestimento e municipal de Maquiné-RS no período da
MRsubleito, para as condições reais de campo. Por pesquisa pela disponibilização do acesso
exemplo, o modelo da ARA (2000) que necessário.
considera a influência da flutuação da umidade
que ocorre sazonalmente nos solos. Há modelos
para solos finos e para solos granulares. Para REFERÊNCIAS
estes últimos tem-se o modelo da equação 6.
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas
(2016a) NBR 6457: Amostra de solo - preparação
 MR  ba
log    a    b 
(6) para ensaios de compactação e ensaios de
ln   a   k m SSÓT 
caracterização. Rio de Janeiro, 8 p.
 MR ÓT 
1 e    
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas
(2016b) NBR 6458: Grãos de pedregulho retidos na
peneira de abertura 4,8 mm – Determinação da
A utilização deste modelo ao material
massa específica, da massa específica aparente e da
estudado, considerando parâmetros para absorção de água. Rio de Janeiro, 10 p.
materiais granulares, a = –0,3123 – valor ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas
mínimo de log(MR/MRÓT) – b = 0,3 – valor (2016c) NBR 7181: Solo - análise granulométrica.
máximo de log(MR/MRÓT) – e km = 6,8157 Rio de Janeiro, 12 p.
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas
(parâmetro de regressão), propostos por Zapata (2016d) NBR 7182: Solo - ensaio de compactação.
et al. (2007) e derivados de extensivos dados Rio de Janeiro, 9 p.
experimentais, fornecem a tendência ARA – Asset Recovery Associates (2000) Guide for
apresentada na figura 12. mechanistic-empirical design of new and
rehabilitated pavement structures. Transportation
Research Board (Org.) Washington, D.C.
ASTM – American Society for Testing and Materials
(2015) D3282 - 15 - Standard Practice for
Classification of Soils and Soil-Aggregate Mixtures
for Highway Construction Purposes. West
Conshohocken, PA, 6 p.
ASTM – American Society for Testing and Materials
(2017) D2487 - 17 - Standard Practice for
Classification of Soils for Engineering Purposes
(Unified Soil Classification System). West
Conshohocken, PA, 10 p.
CPRM - Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais
(2016) Mapa geológico do Estado do Rio Grande do
Figura 12. Estimativa de variação de MR em função das Sul. Disponível em: <https://goo.gl/oVCDje>. Acesso
diferenças entre os teores de umidade de campo e ótimo em: 21 abr. 2018.
de compactação. Baesso, D. P. e Gonçalves, F. L. R. (2003) Estradas
rurais: técnicas adequadas de manutenção.
Florianópolis: Departamento de Estradas de Rodagem
Tais modelos devem ser utilizados com
do Estado de Santa Catarina – DER/SC.
cautela e não substituem o conhecimento das Borges, A. B. (2016) Avaliação dos Materiais de Jazida
propriedades do solo em diferentes condições. para Revestimento Primário de Maquiné e propostas
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de otimização. Trabalho de Diplomação, Grande do Sul, Porto Alegre, 152 p.


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