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Londoriano

Scarlet Caspor e o Mundo Mágico de Arfádia


2017

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No início, só havia o vazio eterno. Escuridão, abismo e silêncio. Aqueles foram os Dias Escuros
e Silenciosos. E assim foi por muito tempo. Mas, aqueles dias chegaram ao fim quando Telur
abriu os olhos. O Pai dos Deuses despertava de seu longo sono.

O Grande Livro da Criação


Capítulo I; Versículo 1
Agradeço a todos que leram minhas palavras e opinaram sobre elas a fim de tentar melhorar
alguma coisa. Em especial, à Tatiana Francisco Silveira e meu já amigo e autodeclarado
admirador, Serg Smigg.

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Para Suelen e Tatiana, que sempre dizem adorar tudo o que escrevo, mesmo o que
ainda não está bom.
Capa: Samuel Marcelino (marcelinosamuel@yahoo.com.br)
Revisão: Serg Smigg (smiggcomcorp@gmail.com)
Registro Biblioteca Nacional: 670923

Todos os direitos reservados

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Londoriano
Sumário
Prefácio .................................................................................................................9
Prólogo ...............................................................................................................10
Capítulo 1 - A Chave de Prata .................................................................................. 11
Capítulo 2 - Arfadianos na Cozinha .......................................................................... 20
Capítulo 3 - A Herdeira de Londor ............................................................................ 30
Capítulo 4 - Feiticeiros na Ponte............................................................................... 36
Capítulo 5 - A Floresta Branca.................................................................................. 42
Capítulo 6 - O Castelo de Londor ............................................................................. 51
Capítulo 7 - Lâmina Londoriana................................................................................ 63
Capítulo 8 - A Herança ............................................................................................. 73
Capítulo 9 - Sereias no Lago Neptar......................................................................... 86
Capítulo 10 - A Face de Éfila .................................................................................... 98
Capítulo 11 - Mar do Fim do Mundo ....................................................................... 110
Capítulo 12 - Noite na Praia ................................................................................... 119
Capítulo 13 - Cento e Trinta e Sete Piras ............................................................... 127
O Autor .............................................................................................................140
Glossário .............................................................................................................141

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Prefácio

Sob aspecto de lógica – lógica clara, quero dizer -, você, leitor, vive num universo
relativamente seguro. Um objeto que deixe sobre algum móvel estará lá nos
minutos seguintes se ninguém mais alterar essa situação; você monta um cavalo e
esse animal extraordinário faz o que se espera dele: cavalga; você caminha por
alguma via e vê esquilos saltitantes, cachorros latindo, plantas de aparência
normal; você se põe diante de um espelho e vê seu próprio reflexo.

Tudo isso é normal. Bem, é normal até você ler sobre Arfádia. Tudo ali degringola
seu conceito de normal de forma tal que você acaba levantando questões sobre o
próprio universo em si, este que até as primeiras páginas de Scarlet Caspor e o
Mundo Mágico de Arfádia parece absolutamente normal, e sobre próprio universo
pessoal, esse que parece tão conhecido até você se apaixonar por Scarlet.

A partir do absurdo, o autor critica o normal. Descamba sua estória para o mundo
da fantasia, mas não aquela fantasia sem fundamento, sem explicações. Tudo em
Arfádia tem um propósito, uma base lógica. E a gente se pergunta como é possível
haver base lógica em situações plenamente fantásticas.

“[...] um esporte onde o objetivo é chegar o mais distante possível com seu cavalo
sem asas, até que este sucumba ao cansaço e morra [...]”. Um esporte em que o
animal morre de estafa para que o esportista obtenha louros. Um absurdo! Uma
ignomínia! Um despautério! Onde já se viu um negócio desses?!

Pois então! É assim que, a partir do absurdo, o autor critica o normal.

Londoriano escreve suavemente, mesmo contando estórias absurdas; teve a


ousadia de discutir um dos maiores problemas da atualidade que você vai notar
apenas nas entrelinhas. Quando der por si, vai estar se perguntando sobre situações
que jamais orbitou sua mente, pois tudo em Arfádia parece seriíssimo a ponto de
tornar o normal algo interrogador.

Esse escrever suavemente denota uma habilidade encontrada em Érico Veríssimo:


detalhes. Londoriano descreve detalhes que dão a impressão de que precisaram de
décadas para ser pensados: quem pensaria, por exemplo, em prender na parede
dois espelhos mágicos que transportam pessoas entre si a fim de que eventual
inimigo não os coloque no topo de uma montanha para causar acidentes quando
alguém romper por um deles?

Comece a leitura. Antes, prepare-se para ser outra pessoa ao terminar. Não se sabe
se pior ou melhor, apenas outra pessoa.

O mundo mágico de Arfádia existe.

Cuidado. Muito cuidado com a maneira como você vai encarar sua realidade depois.

Serg Smigg
Escritor palestrante
Prólogo

Meu nome é Scarlet Caspor. Naquela sexta-feira de estranhos acontecimentos em que


minha vida começou a mudar de maneira drástica, eu tinha doze anos. Uma idade curta para
lidar com todos os desafios que estavam por vir.

Meus cabelos eram lisos, compridos e bem pretos, chegando um pouco acima de minha
cintura. Meu nariz era arrebitado e minha pele era branca. Quando eu digo branca, quero dizer
muito branca mesmo. Talvez fosse porque o sol e eu não nos dávamos muito bem. A meu ver,
a função do sol deveria ser única e exclusivamente a de iluminar o dia e não a de tentar te
cozinhar caso ficasse sob ele por muito tempo.

Enfim, eu não me considerava bonita. As garotas do colégio me achavam estranha e a maioria


dos garotos tinha medo de falar comigo. Some a tudo isso um par de óculos quadrados que eu
usava quase o tempo todo - eu era quase cega sem eles - e terá a fórmula para um desastre social.

Mas eu nunca havia me preocupado com aquilo porque a verdade é que jamais tinha
gostado de ser a engraçadinha da turma, amiga de todo mundo, como Maria Rita. Por isso,
passei a maior parte do colégio sem saber o que era ter amigos.

Minhas únicas companhias e amizades verdadeiras eram as de meus avós. Já vou falar
sobre eles. Antes disso, vou explicar o motivo, pelo menos em parte, de ter sido criada por avós
em vez de ser educada por pai e mãe, como geralmente acontece.

A história que meus avós me contaram, e que na verdade não passa de grande mentira, era a
de que meu pai tinha falecido em um acidente de trabalho que envolvia encostar sem querer na
rede de alta tensão um bastão de alumínio que segurava e eletrocutar-se; minha mãe, por sua vez,
tinha morrido meses depois, após cair da escada e bater a cabeça.

Quanta criatividade de meus avós!

Mas se houve um lado bom naquelas mentiras é que aprendi desde muito cedo a tomar cuidado
com a escada e também que tomadas e aparelhos elétricos não são para brincadeiras.

E foi assim que, até a tarde daquela sexta-feira, eu imaginava ter perdido meus pais. A
história verdadeira vai ser esclarecida nas páginas seguintes. Agora, como prometi, vou falar
um pouco sobre meus avós.

Arteniel e Felícia Wilson eram pais de minha mãe, Alice Wilson. Eles, claro, cuidaram de mim
desde que minha mãe falecera. Minha avó tinha 58 anos. Lembro disso porque havíamos
preparado um bolo surpresa para ela no mês anterior. Meu avô, que eu chamava carinhosamente
de vovô Niel e que sempre estava três anos à frente de minha avó, tinha 61 anos. Pessoas
adoráveis que não cansavam de mimar e fazer a vontade da neta. E eu adorava todos aqueles
mimos.

Eu mostrava ser durona no colégio e sempre retrucava quando me diziam apelidos ou coisas
do gênero, mas, em casa, eu adorava ser a princesinha de meus avós. Não sabia eu naquela
época, mas eu era, no verdadeiro sentido da palavra, a princesinha de meus avós.

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Capítulo 1 - A Chave de Prata

Naquele dia, nada diferente havia acontecido até por volta do início da tarde. Acordei
cedo, como sempre fazia, para ajudar vovó com a arrumação da casa e ir ao curso de
pintura, que ficava no centro da cidade. Eu vivia com meus avós em uma cidadezinha
sossegada chamada Laguna. E com sossegada quero dizer que nada de muito
interessante costumava acontecer.
Era ótimo viver em um local calmo, com poucas pessoas e pouca violência, onde
quase todos se conheciam e se chamavam pelo nome. Por outro lado, o assunto mais
badalado daquele mês entre os lagunenses foi o acidente da dona Elza, uma solteirona
que morava sozinha com trinta e dois cães e que tinha caído da cama e quebrara a
clavícula e a bacia.
Quando retornei do curso de pintura, vovó já havia preparado o almoço. Era macarrão
com carne moída e queijo ralado. Minha comida predileta. Então, lavei as mãos
depressa e me sentei para comer.
— E como foi no curso, querida? Já terminou aquela paisagem que falou? —
perguntou vovó enquanto servia o prato de vovô, que ainda não havia chegado do
trabalho.
— Ainda não, mas já terminei as copas das árvores e o reflexo na água. Agora só
restam algumas pinceladas no céu e na grama.
— Quando terminar, vou pendurar na sala de estar, junto com os outros. A dona
Beatriz ficou quase meia hora admirando aquele seu quadro das ondas do mar. Disse
que poderia pagar bem, se quisesse vender.
— Você sabe que nunca vendo meus quadros. Têm mais valor sentimental do que
financeiro.
— Foi o que falei para ela.

Após comer, subi ao meu quarto para me vestir e ir para o colégio. Meu quarto
era pequeno, mas muito limpo e organizado. Eu sempre detestei bagunça e
sujeira. Além da cama, do guarda-roupa e da mesinha com computador, uma
prateleira empilhada de livros.
Eram alguns de meus pertences mais valiosos. Aprendi a gostar de ler com vovô,
que sempre me falava que o conhecimento era a maior virtude de um homem. “Um
homem de pouca fortuna e muito conhecimento está prestes a prosperar. Um homem
de muita fortuna e pouco conhecimento está prestes a desmoronar”, dizia ele.
Antes de sair do quarto, coloquei no pescoço uma fina corrente prateada que
carregava a única coisa que eu sabia ter pertencido de verdade a minha mãe: uma
minúscula chave também de prata. Para que servia ou o que exatamente ela abria, eu
não fazia ideia. Meus avós me deram de presente em meu aniversário de sete anos e
pediram para que eu a guardasse e protegesse em memória à filha deles.
Eu assim o fiz. Aquela chave era a única ligação que eu tinha com minha falecida
mãe e eu a carregava no pescoço para onde quer que fosse.

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Por fim, vesti o uniforme do colégio e escovei bem os dentes. Quando desci, meu
avô já havia chegado do trabalho e estava almoçando. Mesmo com a idade que tinha,
ganhava um dinheirinho cuidando de jardins. Ele aparava gramas, podava flores, regava
plantas, essas coisas. Ele amava o que fazia.
Às vezes, ficava horas me explicando a diferença entre solos e tipos de adubo. Eu
nunca me interessei por plantas, mas sempre prestei muita atenção ao que ele falava
para não o magoar. E como ele mesmo sempre dizia: conhecimento nunca é demais.
— Boa tarde, minha princesa! — falou, sorrindo, assim que me viu entrar na cozinha.
— Acabei de passar no curso de pintura, mas sua professora disse que já tinha saído.
— Sério? Você não falou que ia me buscar. Eu teria adorado a oportunidade de fugir
do sol — falei, dando-lhe um beijo na testa.
— É que consegui terminar o serviço um pouco mais cedo. Resolvi passar por lá e
ver se conseguia te dar uma carona. Ah! Sua professora me mostrou seu novo quadro.
— Você viu? Mas ainda não está pronto, vovô — reclamei, chateada.
— Pois para mim parecia finalizado. Está tão lindo, querida! Aposto que causaria
inveja naquele tal de Botticelli.
— Não exagera, vovô. Na terça-feira, a dona Cláudia vai ter de arrumar uma grande
desculpa para me explicar por que deixou você ver minha pintura inacabada.
— Mas que mal pode haver em ver um quadro incompleto, querida? — perguntou
vovó.
— Como assim “que mal pode haver”? Tira todo o encanto da obra finalizada.
— Agora é você quem está exagerando. E não foi culpa de sua professora, princesa.
Eu quem insisti para ver — falou vovô, levantando-se e colocando o prato na pia. — Vou
usar o banheiro e já poderemos ir.

Meu avô sempre me levava para o colégio em seu carro. Não sei dizer o modelo
porque sou péssima para diferenciar carros; apenas sei a diferença entre as cores e se
possuem ou não caçamba. Era um carro vermelho sem caçamba. Depois que vovô
disse estar pronto, coloquei a mochila nas costas, dei um beijo em vovó, que começara
a lavar a louça, e saí.
O dia lá fora continuava quente, mas, como o carro de vovô tinha ar-condicionado,
não me importei. Entrei depressa e coloquei o cinto. No minuto seguinte, já estávamos
indo em direção ao colégio. Não demorou muito para chegarmos.
Era muito bom andar pelas ruas de Laguna porque quase sempre estavam desertas.
Não encontrávamos engarrafamentos nem mesmo em horários de pico, ao contrário da
capital Florianópolis, onde era sempre um transtorno ir ao shopping center. Eu ficava
louca quando precisávamos ir para lá, visitar o médico da vovó.
— Por que esta gente não sai de casa de bicicleta? — eu resmungava no carro nessas
ocasiões.
Despedi de meu avô com um beijo, arrumei meu cabelo no espelho retrovisor e saí.
A sensação de abandonar o ar-condicionado e encarar o mormaço da tarde foi
angustiante.
— Bons estudos, princesa! Volto para te buscar às cinco e meia da tarde. — E partiu.
Meu avô buzinou antes de virar a esquina e desaparecer. Eu continuei andando em
direção ao colégio, um prédio antigo que datava do início do século XX, com portas e
janelas imensas. O primeiro sinal de que aquele não era um dia normal foi quando avistei
uma garota estranha em frente ao colégio, olhando fixamente para um objeto em suas

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mãos, como um relógio ou uma bússola. Suas roupas pareciam ter saído de um filme
da idade média, desses que mostram castelos, reis e rainhas.
A estranha pronunciava algumas palavras baixinho quando me aproximei.
— A menos que Ícaro tenha se enganado, ela deverá vir para cá em breve.
A garota chamava a atenção de muitos adultos que passavam para deixar os filhos
na escola e também de outras crianças. Quando passei por ela, meu coração acelerou
ao perceber que suas orelhas eram muito diferentes das de uma pessoa normal. Eram
pontudas e finas, como as de um duende.
Apressei o passo para entrar logo pelo portão e me afastar quando ela de repente
virou e me olhou nos olhos. Eu juro que congelei de medo. Os olhos dela pareciam os
de um gato. Ou ela estava pronta para alguma festa a fantasia ou aquela garota
decididamente não era uma pessoa comum.
Depois, a estranha fixou o olhar por alguns segundos na chave de prata presa ao
meu pescoço e sorriu.
— Scarlet Caspor! Como é bom finalmente conhecer você, Alteza!

Lembro que corri o mais depressa que pude para dentro do colégio, esbarrando no
professor de geografia. Depois, fui rápido para minha sala de aula. Por um instante,
desejei estar em casa, na proteção de meus avós. O restante da turma que já estava
dentro da sala olhava para mim de maneira assustada e risonha ao mesmo tempo.
— O que foi que você viu, esquisita? Alguma bruxa caolha ou múmia assombrada?
— Carlinhos perguntou, um menino pateta e com sardas que sentava na minha frente.
— Relaxa, aposto que ela sentiu mais medo de você do que você dela.
Os outros alunos riram. Normalmente, nessas horas eu atiraria alguma coisa na
cabeça dele, um caderno ou algo parecido, mas eu mal dei atenção a suas palavras.
Meus pensamentos voavam. Quem era e o que queria aquela garota? Como conhecia
meu nome? Por que fixou o olhar na antiga chave de minha mãe? Seria alguma parente
distante de meus avós?
Enquanto eu não possuía as respostas, preferi ficar quietinha no canto da sala
durante toda a primeira parte do meu período escolar. A professora de Língua
Portuguesa me perguntou se eu estava bem. Respondi que tudo estava ótimo, mas ela
pareceu não acreditar. Enquanto explicava sobre acentuação de monossílabos tônicos,
eu me perguntava se a garota de orelhas pontudas já teria ido embora.
Quando o sinal tocou, alertando para o início do intervalo, eu quase saltei de
susto. Enquanto outras crianças correram para fazer fila para o lanche, saí de
fininho e me sentei no banco ao lado da sala, de modo a ser a primeira a en trar
quando o intervalo terminasse. Olhava constantemente para os lados sempre que
alguma criança aparecia correndo.
Eu confesso. Estava morrendo de medo naquele dia. Mas hoje, quando paro para
lembrar, não havia motivos para tanto temor. A estranha, apesar das orelhas, sorriu e

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pareceu bastante amigável. E sabia meu nome. Eu devia ter ao menos perguntado de
onde ela me conhecia ou se sabia algo sobre minha chave.
Falando na minha chave, resolvi tirá-la do pescoço e guardá-la no bolso. Só para
prevenir qualquer tentativa de roubo. Decidi que ligaria para vovó e avisaria sobre a
estranha orelhuda assim que voltasse para a sala de aula, pois, em meu desespero,
acabei esquecendo o celular na mochila.
Finalmente, quinze minutos depois (para mim pareceram semanas), o sinal tocou
outra vez. Eu estava entrando depressa na sala de aula quando alguém chamou meu
nome:
— Scarlet Caspor! Você precisa vir conosco. Depressa.
Olhei assustada. Meu sangue gelou. Era a mesma garota estranha. E estava
acompanhada de outras duas pessoas. Os três estavam encapuzados com longa manta
negra. Aquilo não podia ser algo bom.
— O que... querem?
— Está tudo bem, Alteza — falou a garota que me encarou na entrada do colégio. —
Não vamos te fazer mal. Também somos arfadianos.

Também são o quê? Naquela hora eu mudei meu estado de assustada para desesperada.
— O que querem comigo?
— Queremos ajudá-la. Você está correndo um grave perigo, Alteza. Precisa retornar
à... — A garota foi interrompida pela diretora do colégio e alguns professores, que
vinham em nossa direção. O porteiro do colégio vinha com eles, parecendo muito
abalado.
— Foram aqueles três, Sra. Diretora — apontou o porteiro. — Sopraram alguma coisa
em meu rosto pra me fazer adormecer e conseguirem entrar.
— Ei... vocês — bradou a diretora Claudinéia. — Não têm permissão para entrar aqui.
O que querem?

Então o tumulto começava a chamar a atenção de outros alunos, que se


aproximaram e ficaram em torno dos professores. O maior do grupo invasor, que parecia
ter quase dois metros, dirigiu-se à diretora. Sua voz era alta e grossa como um trovão.
— Precisamos levar Scarlet Caspor em segurança. A princesa precisa retornar ao
reino de Londor imediatamente ou os servos de Serses poderão encontrá-la.
Absolutamente todos ficaram perplexos com as palavras dele. Um misto de confusão
e descrença assolava o rosto de todos nós. Quanta asneira em tão poucas palavras! E
que diabos era Londor ou Serses?
Se bem que ele acabara de me chamar de princesa. Comecei a achar que aqueles
estranhos, por mais loucos que fossem, não tinham a intenção de me causar mal. Olhei
para os lados e reparei, com absoluto horror, que toda a escola já estava a nossa volta.
— Você chamou Scarlet de princesa? — Era Maria Rita, uma menina muito metida
de minha turma. Todos os garotos gostavam dela e isso fazia que tivesse opinião
distorcida sobre si mesma, como se ninguém mais no mundo importasse. Um
comportamento mesquinho e bobo. — Olha só para ela! Se ela realmente fizesse parte
de algum conto de fadas, seria no da Branca de Neve. Com essa cara pálida...
O restante da escola ficou em silêncio. Talvez com medo de o gigante encapuzado
se irritar com a grosseria. Mas nenhum deles retrucou ou falou qualquer coisa. Mais

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tarde, descobri que estavam se perguntando o que era Branca de Neve e como aquela
garota conhecia as fadas que contavam histórias, criaturas muito raras.
A diretora do colégio foi a primeira a quebrar o silêncio. Embora mantivesse postura
autoritária, o tamanho e a voz do estranho a fizeram fraquejar um pouco.
— Nenhum aluno deixa estes portões sem autorização expressa de seus
responsáveis. Agora, peço que saiam ou chamaremos a polícia.
Os estranhos cochicharam entre si numa língua esquisita e complicada. Comecei a
ficar com medo deles outra vez e tive vontade de sair correndo. Depois, a garota de
olhos de gato, que parecia ser a líder do grupo, falou:
— Perdão, senhora. Não queremos causar confusão. Apenas viemos buscar Nossa
Alteza e fazê-la retornar em seguran...
— A senhora diretora já disse que ninguém sai daqui sem autorização do responsável
— bradou a professora Marta, que lecionava Química. Os outros professores pareciam
ter se unido contra o grupo invasor e pareciam bastante incomodados pelas roupas e
modo de falar dos estranhos. — Pelo que eu saiba — continuou —, o responsável por
esta menina...
— Sou eu.
Alguém interrompeu a professora Marta. E fiquei bastante aliviada ao ver minha avó.
Parecia ter voado de casa até o colégio, porque seus cabelos estavam desgrenhados e
ainda calçava o par de pantufas que eu lhe dera de aniversário na semana anterior.
— Senhora Felícia, graças a Deus! — aliviou-se a diretora. — Esses três invasores
querem levar sua neta sem sua autorização.
— Pois eu concedo minha autorização.
Outro longo silêncio. Eu me indagava se acordaria a qualquer hora de um sonho
estranho para ajudar vovó a arrumar a casa. Tentei abrir a boca para perguntar que
brincadeira era aquela que estavam me pregando, mas nenhum som saíra. Foi a
diretora quem quebrou o silêncio mais uma vez.
— Senhora Felícia, a senhora conhece estes indivíduos? — Ela parecia tão
assustada quanto eu.
— Claro que conheço. — Minha avó sorriu para a garota estranha de olhos de gato.
— Como vai, Tarana? Você se tornou uma cópia idêntica de sua querida mãe.

Resumindo, era isso o que estava acontecendo: um grupo de pessoas estranhas,


liderado por uma garota com olhos de gato, estava me chamando de princesa e queria
me proteger de um perigo iminente. Além de falarem uma língua esquisita, aquelas
pessoas usavam palavras como Londor, Serses e Arfádia. Para piorar, minha própria
avó as conhecia.
Eu tinha todos os motivos do mundo para surtar e sair correndo. Mas, por algum
motivo, não foi o que fiz. Antes da chegada de minha avó, já estava convencida de
que era alguma brincadeira tola que a escola inteira combinara para me pregar. Eu
até conseguia imaginar a cara de riso de todos eles quando revelassem a

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brincadeira e gritassem: “Foi só uma piada, esquisita. Não acredito que achou
mesmo que fosse de verdade”.
Mas então minha avó entrou na brincadeira, dizendo que conhecia aquelas pessoas.
Sabia que minha avó não seria capaz de brincar comigo daquele jeito, me pregando
uma peça daquela proporção. Ou seria? Se fosse isso, se tudo realmente fizesse parte
de uma piada e minha avó estivesse sabendo de tudo, eu ficaria muito magoada. A
brincadeira não tinha a menor graça. Porém, por mais inacreditável que tudo parecesse,
no fundo, meus instintos diziam para acreditar e ouvir minha avó. Eu sempre confiara
nela até aquele momento e nunca me arrependera.
— Vovó — indaguei —, o que está acontecendo? Quem são eles? Onde está meu
avô? Como essas pessoas sabem meu nome? Como a senhora sabe o nome deles?
Eram dezenas de perguntas. Eu queria entender tudo de uma só vez.
— Você entenderá, querida — respondeu minha avó. — Mas, primeiro, vamos deixar este
local.
Foi assim que minha avó, aquelas três pessoas encapuzadas de negro e eu saímos
do colégio, deixando todos atônitos. Lembro de ter ouvido alguns murmúrios como: “...
muito esquisita mesmo...”, “...acho que a avó dela também é uma doida...”. E o
comentário invejoso de Maria Rita, dizendo: “Duvido que ela seja mesmo uma princesa.
Ela não pode ser…”
Antes de deixarmos o pátio principal, ouvi a voz da diretora ordenando que todos
voltassem para suas salas e continuassem os estudos. Aquele episódio poderia ter
substituído o acidente da senhora Elza nas conversas matinais dos bares e lojas da
cidade, não fosse o que aconteceria mais tarde na Ponte de Laguna, que provavelmente
ficaria na memória de alguns lagunenses por vários anos.
Descemos as escadas e saímos pelo portão em completo silêncio. Eu procurava ficar
o mais próximo de minha avó e o mais longe dos desconhecidos.
— Onde está sua chave, querida? — perguntou vovó.
Retirei a chave de prata do bolso e a coloquei de volta no pescoço. Na esquina, fiquei
feliz ao avistar o meu avô em seu carro, nos esperando.
Logo atrás havia outro carro com uma mulher loira e de cara carrancuda. Ela estava
aguardando o grupo de estranhos e não parecia nada contente. Quando nos
aproximamos, saiu do carro e proferiu algumas palavras ríspidas. Fiquei feliz por não
ser comigo.
— Imaginem a minha reação ao descobrir que três londorianos entraram no mundo
dos homens e invadiram um colégio infantil à procura da herdeira de Londor! Onde Ícaro
estava com a cabeça quando passou informações sigilosas pra vocês? E o que vocês
estavam pensando? Não acredito que Míriam tenha enviado um rufanonte ao mundo
dos homens. Gâmbia não é mais o mesmo. Tem câmera para todo lado.

— O que é câmera? — perguntou Tarana, intrigada.


— Algo que os homens criaram para complicar nossas vidas. Antigamente, era fácil
rotular de louco alguém que dizia ter visto um dragão. Mas hoje, além de verem, eles
querem provar que viram... afinal, que diabos de roupas são essas?
— Achamos melhor não utilizar nossas verdadeiras roupas, Sra. Dáfila — falou um
terceiro membro do grupo cuja voz eu ainda não tinha ouvido. Era outra garota.

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— Pois as roupas arfadianas teriam chamado menos atenção. Onde encontraram
essas roupas ridículas?
— Em um comércio dos homens. Havia roupas muito engraçadas de esqueletos e
máscaras de monstros. Achamos que estas seriam menos extravagantes.
Naquela hora, senti vontade de rir alto, mas abafei o riso com uma das mãos
enquanto sentava no banco de trás do carro de meu avô. Eles haviam entrado em uma
loja de fantasias para festas e eventos, localizada no centro da cidade, à procura de
roupas que os fizessem parecer menos estranhos. Acredito que acabaram adquirindo
fantasias de Morte.
Fiquei muito curiosa acerca daquelas pessoas. De onde haviam saído? E por que
precisavam parecer normais? Minha cabeça estava a mil. Mas sabia que, se
perguntasse alguma coisa, minha avó diria para aguardarmos a hora certa. Eu mal podia
esperar pelo momento de ter as perguntas respondidas.
Os três encapuzados entraram no carro atrás de nós; minha avó entrou no nosso e
fomos em direção a nossa casa. Todos permaneceram em silêncio, mas senti que meus
avós pareciam mais felizes do que de costume. Eles pareciam estar esperando por
aquelas pessoas havia um bom tempo. Por quê? Eu tentava ao menos imaginar alguma
resposta provável, mas nenhuma surgia.
O carro da mulher loira (preto e sem caçamba) virou numa esquina escura e
desapareceu de nossa vista.
— Achei que estavam nos acompanhando até nossa casa — murmurei, quebrando
o silêncio.
— Eles irão a nossa casa em breve — respondeu meu avô. — Mas primeiro vão ter
de resolver alguns probleminhas.
Os probleminhas a que meu avô se referia, descobri depois, eram os de tentar
reverter o que aconteceu no meu colégio. Eles literalmente fariam a diretora, o porteiro,
os professores e os alunos esquecerem a recente discussão. Também apagariam todos
os meus registros e nenhuma Scarlet Caspor poderia ser encontrada na papelada e nas
planilhas eletrônicas do colégio. Uma vez que aquela tarde foi a última vez que elas me
viram, aquelas pessoas precisavam esquecer que um dia me conheceram.
Fiquei muito feliz com isso, na verdade, mas teria gostado se Maria Rita tivesse
continuado a se perguntar se eu era mesmo uma princesa. E, para minha tristeza, a
professora Cláudia, do curso de pintura, e alguns de nossos vizinhos, também tiveram
a memória alterada.
Quando chegamos a nossa casa, tudo parecia estranho. Eu já não podia mais dizer
que conhecia as pessoas que me criaram. Pareciam muito diferentes. Confesso que
estava abalada e profundamente magoada. Seja lá o que esconderam de mim, o fizeram
por vários anos. Era tempo demais para se manter uma mentira.
E eu não gostava de mentiras. Meus próprios avós, que me ensinaram sobre as
coisas más que aconteciam quando você mentia, como magoar alguém, me enganaram
e me magoaram. Lembro de uma lágrima ter caído quando sentei no sofá da sala e
fiquei olhando absorta para o nada, perdida em pensamentos confusos. Meus avós
pareceram entender o que eu estava sentindo.
— Sabemos como está sua cabecinha, querida — começou vovô. — Você vai
precisar de tempo para nos perdoar. Fizemos o necessário para protegê-la.

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— Eu preciso de muitas respostas. Por que, para que, quem, como e onde... não sei
por onde começar.
— Tudo vai ser esclarecido no devido tempo, Scarlet — falou minha avó. — Só
pedimos para confiar em nós. — Ela se sentou ao meu lado e acariciou meus cabelos.
Meu avô sentou-se no outro lado.
— Apenas me respondam uma coisa por enquanto. Vocês realmente são meus
avós?
Eu temia a resposta.
— Claro que somos, Scarlet — tranquilizou-me vovô. — Somos pais de Alice e
estávamos presentes quando você nasceu. Sua avó foi a primeira a te segurar nos
braços. Mas não fomos totalmente sinceros em tudo. Sua mãe nunca caiu de uma
escada e seu pai não sofreu um acidente de trabalho.
Aquelas palavras foram dolorosas e inacreditáveis, mas foi ainda mais difícil de
acreditar nas palavras seguintes:
— E você não nasceu aqui, querida, no mundo dos homens sem magia. Você nasceu
em um mundo mágico chamado Arfádia. Você é uma arfadiana, como sua avó e eu.
Como seu pai e sua mãe. Como aquelas três pessoas que tentaram falar com você no
colégio. É... eu sei, você deve ficar bastante confusa com o que eu disse.
— Vocês estão mentindo! — gritei, começando a chorar. — Por que estão falando
essas coisas? Eu só queria que hoje tivesse sido um dia como qualquer outro.

Eu jamais teria levantado a voz para meus avós daquela maneira. Muito menos
os teria chamado de mentirosos. Sempre os respeitei, mas naquele dia minha
cabeça estava girando.
Corri para meu quarto e me tranquei. Durante quase uma hora inteira, a única coisa
que fiz foi chorar no travesseiro. Meus avós sabiam que eu precisava daquele momento
sozinha, então me deixaram.
Naqueles minutos de reflexão, percebi que estava sendo uma tola. Meus avós
deveriam ter um motivo sério para esconder a verdade de mim. E, afinal, pertencer a
um mundo mágico não deveria ser assim tão ruim. Comecei a sentir profunda
curiosidade sobre a verdadeira história de meus pais e queria saber mais sobre aquele
tal mundo de Arfádia.
Finalmente alguém bateu em minha porta. Eu decidi abri-la e pedir desculpas aos
meus avós. Então a destranquei e voltei para minha cama.
A porta se abriu e alguém entrou em meu quarto. Mas não eram meus avós.
— Eu sei o quanto deve estar assustada, Alteza. Mas, acredite, apenas nos tornamos
melhores quando enfrentamos o que é diferente ou que nos dá medo.
Era Tarana, a garota de olhos de gato e orelhas pontudas. Ela e os outros dois haviam
chegado após ajudarem a resolver aqueles probleminhas dos quais falara meu avô. Olhei
para ela, ainda com os olhos vermelhos do choro. Ela sorria e tinha uma expressão
acolhedora. Tinha trocado o capuz negro por roupas de gente normal (camisa xadrez e
calça jeans), que estavam bastante largas nela. Finalmente, decidi ser simpática também:
— Você costuma enfrentar seus medos? — perguntei, indicando com a cabeça para
que se sentasse na ponta de minha cama.

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— Todos os dias procuro fazer algo que me deixa nervosa. Você não evolui se
apenas faz o que está acostumada a fazer. Meu pai me ensinou isso quando me levou
para montar a primeira vez em um cavalo com asas — revelou, sentando-se na cama.

Meus olhos arregalaram.


— Você disse cavalo com asas?
Tarana sorriu.
— Acabamos de descobrir que você não sabe nada sobre Arfádia. Achávamos que
você soubesse sobre seu mundo e que ficaria feliz quando disséssemos que éramos
arfadianos — ela confessou. — Sim, cavalos com asas. Arfádia é cheia deles, embora
os cavalos sem asas sejam muito mais numerosos.
— Confesso que começo a me interessar pelo seu mundo.
— E seu mundo também.
Então, resolvi fazer a grande pergunta.
— Desculpe a grosseria, mas é que a dúvida está me deixando louca. Por que suas
orelhas são pontudas?
Tarana riu.
— Porque não sou uma humana como você. Sou uma elfa. Uma antiga raça
arfadiana.
— Uma elfa? — Eu fiquei muito empolgada. — E o que mais de diferente
vocês, elfos, possuem?

Tarana refletiu por um momento.


– Bom, nossos olhos enxergam no escuro e a grandes distâncias. De todas as raças
arfadianas, somos a que tem maior longevidade. Um elfo pode chegar aos quatrocentos
anos. Claro que as falárvores podem viver por mais de mil anos, mas há muita
controvérsia quanto a considerá-las uma raça ou uma espécie de planta.
Eu fiquei boquiaberta por vários segundos. Não entendi nem metade do que ela
dissera. Tarana continuou:
— Agora, Alteza, você pode continuar fazendo as mesmas coisas seguras e fáceis
que sempre fez. Ou pode enfrentar o desconhecido e se tornar alguém que jamais
imaginou se tornar.
A elfa levantou-se e abriu a porta do quarto para sair. Antes, virou-se e falou:
— E se escolher a segunda opção, estaremos esperando na cozinha para tirar
algumas de suas dúvidas.
Tarana fechou a porta e eu fiquei sentada na cama por alguns minutos, me
perguntando que transformação minha vida estaria prestes a ter. Eu estava com receio,
mas sabia que, no fim, acabaria escolhendo a segunda opção.
Aquela foi a melhor decisão da minha vida.

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Capítulo 2 - Arfadianos na Cozinha

Quando desci as escadas e fui para a cozinha, estavam todos lá, a minha espera,
como se soubessem que eu logo desceria. A outra garota do grupo de estranhos estava
sentada em uma das cadeiras da mesa. Também usava roupas de gente comum. Então
finalmente eu podia ver seu rosto por inteiro. Tinha cabelos cor de palha enrolados em
uma trança longa e algumas sardas no nariz. Ela não tinha nenhuma parte do corpo
diferente, como Tarana. Era humana, como eu e meus avós.
Mas confesso que quase gritei ao ver a aparência do outro membro, aquele com voz
alta e grossa que falara com a diretora. Estava de pé no canto da cozinha (talvez porque
quebraria todas as cadeiras em que se sentasse). Continuava usando a fantasia de
Morte, mas tirara o capuz ao entrar em nossa casa, pois não precisava mais fugir de
olhares assustados na rua.
Vou tentar descrever como era aquela coisa (não vou chamá-lo de garoto porque,
com certeza, não era humano. Então, vou chamá-lo de coisa). Ele devia ter uns dois
metros e sua pele era grossa e acinzentada. Havia um chifre no lugar do nariz. A não
ser que estivesse muito enganada, aquela era alguma versão mágica do rinoceronte.
Espetacular, confesso, mas dava medo. Anotei mentalmente para lembrar de nunca
irritar aquela coisa.
— Talvez a aparência de Berbuto a assuste no início — comentou Tarana, como se
lesse meus pensamentos —, mas acredite em mim, ele é o rufanonte mais amigável e
simpático que já conheci.
A criatura me cumprimentou com a cabeça, mas dificilmente conseguiria mudar
minha primeira impressão tão cedo.
— Por que não se senta, querida? Temos muito a conversar. — Era vovó. Por um
instante, me esqueci da presença dos demais, assustada com o rinoceronte bípede.
— Vovó, gostaria de pedir desculpas.
— Tudo bem, querida. Nós sabemos o que deve estar passando em sua cabeça.
Apenas sente-se e escute. Há muito para esclarecermos.
Então me sentei, assim como Tarana, vovó e vovô. Olhei para o rinoceronte,
esperando que ele se sentasse também (mesmo sabendo que nossas cadeiras não
suportariam), ou pelo menos arranjasse um lugar mais confortável.
— Não se preocupe comigo, Alteza. Não gosto muito da ideia de sentar. Quase fiquei
louco dentro daquele carro.
— Tudo bem, vamos começar — falou Tarana, que estava sentada de frente para
mim. — Alteza, neste ponto, você já sabe da existência de um mundo mágico chamado
Arfádia. Foi lá que você e todos aqui nesta cozinha nasceram.

Que ótimo! A hora de perguntar havia chegado.


— Mas não entendo então o que estamos fazendo em um mundo sem magia —
interrompi, apressada. — Por que passei quase toda minha vida em um mundo diferente
do qual nasci?

20
— Chegaremos lá, Alteza.
— E por que estão me chamando de Alteza? É verdade mesmo que sou uma
princesa? Quer dizer, então, que minha mãe era...
— Uma rainha. Exatamente — concordou Tarana. — Mas preciso que apenas escute
ou não chegaremos a lugar algum nesta conversa.

Apenas escutar parecia uma tarefa muito complicada. Minha cabeça estava cheia de
perguntas. Mas prometi não interromper.
— Vamos começar de novo. Arfádia é um mundo mágico antigo criado e controlado
por deuses.
— Deuses? — interrompi, descumprindo a promessa que acabara de fazer. — Igual
à Grécia?
— Não conheço essa deusa. É uma das deusas do Gâmbia?
— O que é Gâmbia?
— Desculpa, Alteza. Tentarei explicar todos os termos que possam vir a causar
confusão. Gâmbia é a maneira como nos referimos ao mundo dos homens. O mundo
sem magia.
— Por que escolheram essa palavra?

Acho que nem Tarana nem meus avós possuíam a resposta naquela hora. Todos se
entreolharam pensativos.
— Não sei exatamente o que significa — comentou vovó. — A maioria de nossas
palavras têm origem em línguas élficas ou centáureas. Talvez signifique “sem magia”.
Mas isso não é importante no momento.
Eu acabei descobrindo mais tarde, lendo um livro intitulado Línguas Arfadianas
e a Origem das Palavras na biblioteca do castelo de Londor, que a palavra Gâmbia
tem origem na antiga palavra centáurea gábea, que significa aproximadamente
“estranho”, “diferente”.
— Como falei — continuou Tarana —, Arfádia existe há muito tempo. Você aprenderá
sobre a criação de Arfádia mais tarde, mas por enquanto apenas entenda esta parte.
— Arfádia existe há muito tempo. E foi criada por deuses — repeti, mostrando que
estava entendendo.
— Existem vários animais e plantas em Arfádia. E que só existem lá. Além disso,
existem criaturas muito diferentes dos homens. Por exemplo, os rufanontes, como
Berbuto.

O rinoceronte bípede confirmou com a cabeça.


— Mas não são apenas os rufanontes. Sereias, fadas, centauros, anões, gigantes,
elfos, como eu, e feiticeiros, como seu avô.
Nessa hora eu realmente precisei interromper.
— Feiticeiro? Meu avô? Você só pode estar brincando. Ele nunca fez mágicas.
Vovô começou a rir. Parecia ter desejado me revelar aquilo havia muito tempo.
— Nós, feiticeiros, somos mais fracos no mundo de Gâmbia — explicou meu avô. —
Precisamos de colares mágicos feitos em Arfádia para conseguir metade dos poderes
que possuímos no mundo mágico. Mas esses colares são muito raros e difíceis de
produzir. Trouxemos três deles quando viemos para cá, mas eles não duram muito.
Após quatro ou cinco dias, começam a perder o poder. Achávamos que ficaríamos
pouco tempo aqui e que logo nos viriam buscar. Um feiticeiro em Gâmbia sem um colar

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desses consegue, no máximo, produzir faíscas para acender um fogão ou esquentar as
mãos para ferver água. Mas nunca fiz isso na sua frente. Preferimos não revelar a magia
para você, pelo menos não no começo.
Eu simplesmente não podia acreditar. Como ele conseguiu esconder aquilo por tanto
tempo? Que outras surpresas aquela tarde me revelaria?
— E por que preferiram não me revelar isso tudo?
Meus avós se entreolharam, procurando uma maneira de explicar.
— Receio que a culpa seja minha, querida — falou vovó. — Quando viemos para cá,
imaginávamos que ficaríamos pouco tempo. E não teríamos o porquê de falar sobre
Arfádia. Você ainda seria muito pequena quando voltássemos para lá e veria com seus
próprios olhos.
— O que deu errado, então?
— Os anos se passaram e não sabíamos o que tinha acontecido — disse vovô. —
Você completou três, quatro, cinco anos e preferimos aguardar. Você completou sete
anos, já teria idade para entender, mas, ainda assim, tínhamos esperanças que em
breve os arfadianos viriam e então você descobriria sobre seu verdadeiro mundo. Mas
eles não chegavam. Então, resolvi procurar Atênia, que é um grupo formado por
arfadianos e gambianos que tem por objetivo controlar a conexão entre os dois mundos.
— Como assim? — quis entender melhor.
— Vários animais de Arfádia acabam vindo parar aqui, no mundo dos homens, e se
tornando um risco para as pessoas sem magia: dragões, gigantes, como aquele que
ficou famoso por aqui como o Abominável Homem das Neves, e várias espécies de
animais que os humanos daqui desconhecem. É trabalho da Atênia fazer o possível
para que ninguém se machuque e também enviar o visitante indesejado de volta a
Arfádia. Mas, enfim, eu estou perdendo o rumo da conversa. Eu sabia que existiam
atenianos aqui, em Laguna, pois minha irmã Míriam me disse isso antes de deixarmos
o mundo mágico, mas não sabia como encontrá-los. Lembro que procurei por sinais
deles durante meses, até finalmente descobrir onde operavam às escondidas.
— Onde?
— Naquela famosa pedra inclinada, na praia. Aquele lugar é a entrada secreta da
sede da Atênia.
— A Pedra do Frade? — Eu estava atônita, mas sempre desconfiei que havia sido
magia que colocara a pedra naquela posição.
— Enfim, conversei com os atenianos e expliquei o que estava acontecendo. Nem
mesmo eles sabiam que a herdeira do trono londoriano estava em Gâmbia. Pedi
conselhos para a presidente da Atênia, Dáfila. Você a conheceu ainda há pouco. Eu não
sabia se deveríamos regressar a Arfádia ou se deveria esperar mais. Ela explicou que,
em suas últimas comunicações com Arfádia, o reino de Londor ainda corria perigo, e
que o melhor mesmo era aguardar, já que Míriam dissera que enviaria arfadianos para
nos buscar. Também pedira para adiar a revelação sobre Arfádia a você, pelo menos
até que tivesse mais idade. E foi o que fizemos.
— Você tinha dez anos quando seu avô me perguntou se já era hora de falar alguma
coisa — revelou vovó. — Insisti para que ele não lhe contasse ainda. No fundo, acho
que eu temia sua reação. Já havíamos esperado tanto tempo que talvez se magoasse
por termos escondido isso.
— Com certeza eu teria ficado bastante magoada. Mas eu ia acabar perdoando,
claro.
— Sim, foi um erro de nossa parte, confesso — falou vovó, quase como um pedido
de desculpas. — Seu avô insistiu para contar no ano passado e eu neguei. Acabamos
concordando em revelar a verdade em seu aniversário de treze anos. Mas, como sabe,
antes disso acontecer, os arfadianos finalmente chegaram.
— E, afinal, por que demoraram tanto? — perguntei, olhando para os outros.

22
— Tudo será explicado, Alteza — falou Tarana. — Mas há algumas coisas básicas
que você precisa entender. Então, vamos continuar. O que sabe sobre Arfádia até
agora?
— Que foi criada por deuses e que possui plantas, animais e criaturas mágicas como
anões, sereias, elfos e gigantes — falei, mostrando que compreendera.
— Perfeito! Mas também há humanos que nasceram em Arfádia. A Liquita, por
exemplo — ela apontou para a garota de cabelo cor de palha, que levantou a mão e
sorriu —, assim como você, Alteza, e seus avós.
— Achei que humanos só nascessem aqui, no mundo sem magia — afirmei,
interrompendo outra vez. Era impossível segurar minhas dúvidas.
— Por muito tempo, não existiram humanos em Arfádia — explicou a elfa. — Não há
registros de humanos no mundo mágico durante quase o nosso primeiro milênio. Mas
acredito que sempre houve portais que se abrem e fecham subitamente, como hoje
acontece, e que criam uma estranha conexão entre os dois mundos. Os primeiros
humanos que entraram nesses portais tiveram filhos em Arfádia. Nasciam os primeiros
humanos arfadianos. Uma criança que nasce em Arfádia pode ter sua essência alterada
pela magia do mundo mágico e acabar desenvolvendo certas habilidades especiais,
vindo então a se tornar um feiticeiro, como seu avô.
— Espere aí... você está dizendo que há feiticeiros em Arfádia porque houve
humanos que tiveram filho lá? — Eu começava a entender o assunto.
— Exatamente. E nós, arfadianos, devemos muito a eles. Pós mágicos como o que
utilizamos para adormecer aquele humano em seu colégio não existiriam sem os
feiticeiros. Sem falar nas poções, feitiços e outras habilidades que nenhuma criatura
arfadiana possui, embora as fadas sejam também feiticeiras poderosas.
Olhei para meu avô, que descobrira havia pouco ser um feiticeiro, e percebi que ele
se sentia orgulhoso de sua própria raça. Senti inveja. Também queria ser uma feiticeira
com poderes especiais.
— Mas houve muitos feiticeiros cruéis nos últimos séculos arfadianos — continuou
Tarana. — Algurnina, por exemplo, mergulhou Arfádia nos longos anos gelados. Quase
tudo permaneceu em gelo por quase três décadas. Agora, por exemplo, estamos
vivenciando anos horríveis por causa de Serses.
– Quem é esse tal de Serses?
– Falaremos sobre Serses em breve, Alteza — informou Tarana. — Mas ainda temos
que esclarecer outras coisas.

Poxa! Nunca pensei que um mundo mágico pudesse ser tão complexo e complicado.
Nas histórias que costumava ler na infância, era tudo tão simples.
— Não pense que apenas os humanos entram em Arfádia — continuou a elfa. —
Alguns dos animais e máquinas humanas aparecem por lá vez ou outra. Como é mesmo
aquele negócio que os humanos fizeram para conseguir voar? Isso mesmo, avião.
Existe um museu no reino de Entrios que exibe dois desses para quem quiser ver. Tem
várias bugigangas dos homens.
— Mas como essas coisas acabam indo parar lá?
— Os portais de conexão Gâmbia–Arfádia são imprevisíveis, Alteza. — Dessa vez
quem falou foi Berbuto, o rufanonte. — Surgem em lugares improváveis em períodos
irregulares. Às vezes levam meses, outras vezes surgem a cada hora. Imagine: um
humano está voando em uma daquelas máquinas e de repente um portal de conexão
abre bem a sua frente. O pobre do humano vai parar em Arfádia com todas as suas
bugigangas, que ficam desreguladas e param de funcionar assim que entram em
contato com a magia arfadiana.
— E como seu avô Arteniel falou, algumas criaturas arfadianas também acabam
entrando no mundo dos homens — explicou Tarana. — Esses portais também surgem

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de maneira misteriosa em Arfádia. São os portais de conexão Arfádia–Gâmbia. Suspeito
que nem mesmo Telur, o Pai dos Deuses, entenda essa estranha conexão entre os dois
mundos.

Por um instante, lembrei de um artigo que li na escola sobre um local no oceano


Atlântico onde costumavam desaparecer navios e aviões sem explicação aparente.
Será que estavam todos em Arfádia?
— Acho que agora podemos começar a falar de seu pai e da história que envolve
sua mãe, você e a espada Zárfia.
— A espada o quê?
— A espada Zárfia — repetiu Tarana. — Você entenderá.
— Vou fazer um café para nós — anunciou vovó.
— O que é isso? — perguntou Tarana, desconfiada.
— Uma bebida maravilhosa dos homens de Gâmbia. Vocês vão adorar.

Então vovó foi colocar a água no fogo e retornou.


— Pode continuar, Tarana. Tem que esperar a água ferver.
— Tudo bem. Scarlet, seu bisavô, Emanuel Caspor, entrou em Arfádia ainda muito
jovem.
— Você conhece a história do meu bisavô? — perguntei, muito surpresa.
— Todos em Londor conhecem — falou. — Emanuel Caspor entrou em Arfádia e
caiu em um dos piores lugares para um humano aparecer em Arfádia: o reino de
Rambur.
— Por que em um dos piores? O que há por lá?
— Além das espécies mais venenosas de plantas, Rambur é conhecido como Reino
dos Dragões; há muitos por lá. Dragões são criaturas mortais e detestam quem invade
seu território. Além disso, há algumas tribos de centauros ramburianos que comem
carne humana e caçam humanos sempre que encontram um. Some a tudo isso um calor
sufocante durante o dia e um frio mortal durante a noite. Rambur decididamente não é
para qualquer um, muito menos para gambianos.
— Mas o que aconteceu com meu bisavô?
— Por incrível que pareça, Emanuel Caspor atravessou o reino de Rambur, passando
pelas Montanhas dos Gritos e cruzando o Rio dos Afogados, enfrentando centauros,
dragões, monstros marinhos e sabe-se lá o que mais.

Eu fiquei muito orgulhosa naquele momento. Não conhecera meu bisavô, mas já o
admirava. Era claro que eu queria ouvir mais.
— E depois, o que aconteceu?
— Ele alcançou o reino de Londor.
— E lá foi bem tratado, não é? Aposto que foi.
— Na verdade, naquele momento, Londor enfrentava a tirania do rei centauro Adabul.
Ele mantinha escravos na Prisão de Salazar para construírem obras e realizarem tarefas
em troca de resto de comida. Seu bisavô permaneceu como prisioneiro por quase dez
anos.
— Dez anos? — gritei exasperada.
— Dez anos em Arfádia não significam dez anos de Gâmbia, querida — falou vovô.
— Os dias e anos são contados por lá de maneira diferente; você descobrirá isso quando
chegar a hora. Acho que deve equivaler a uns seis anos de Gâmbia. Ainda é muito
tempo para alguém permanecer escravo, claro, mas seu bisavô teve sorte, coragem e
audácia. Ele conseguiu fugir da prisão, libertar os escravos e, juntos, invadiram o castelo
de Londor. Emanuel Caspor acabou com a tirania de Adabul e se tornou rei de Londor.

A minha admiração pelo meu bisavô crescia a cada instante.

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— E meu pai? Onde entra na história?
— Já vai entrar, Alteza — tranquilizou-me Tarana. — O reinado de Emanuel durou
cerca de trinta anos arfadianos. Seu bisavô morreu de peste draconiana, uma doença
perigosa que matou muita gente em Arfádia até o feiticeiro anoliano Alicarim produzir a
poção que diminui os sintomas, mas essa história não vem ao caso. Seu bisavô já era
pai e Olívio Caspor, seu avô, sentou-se no trono de Londor no dia seguinte.
— Aposto que meu avô também fez coisas grandiosas — falei, orgulhosa.
— Fez sim — confirmou Tarana. — Uma delas foi ter assinado acordo de paz com o
reino de Entrios. Londor e Entrios viviam em guerra desde que a filha do rei entriosano,
Inadora Cápio, fugira de um casamento forçado para se casar com seu bisavô Emanuel
e se tornar rainha de Londor.
— Deixe ver se entendi: a princesa desse tal reino de Entrios fugira para não se casar
com alguém de quem não gostava e casar-se com meu bisavô? E por isso Entrios
declarou guerra ao reino de Londor?
— Na verdade, Londor declarou guerra ao reino de Entrios quando o rei, pai de
Inadora, recusou-se a conceder a mão da filha para Emanuel. Ele tinha planos para que
a filha se casasse com o príncipe do reino de Rambur, casamento que lhe renderia um
forte exército aliado na conquista pelo reino de Fília.
Agora tudo estava complicado demais para eu entender. Quanta confusão!
— Resumindo, meu avô morreu e deixou o trono para meu pai?
— Não. Seu tio Sajael Caspor era o filho mais velho. Assumiu o trono, mas foi
assassinado alguns anos depois por um feiticeiro cruel que tentava subjugar toda Arfádia.
— Serses — completei.
— Ele mesmo — confirmou vovó. — Serses começou a matar desde o instante em
que percebeu estar acima da maioria dos feiticeiros e das criaturas arfadianas.
Começou a reunir seguidores e a destruir vilarejos em Londor. Seu tio morreu quando
tentou acabar com o perigo que surgia em Arfádia.
“Como Sajael não tinha herdeiros, Alexandre assumiu o trono e convocou um
conselho para acabar com Serses. Líderes de vários reinos estavam lá. Ninguém
permitiria que outro feiticeiro subjugasse Arfádia. Vendo-se encurralado, Serses deixou
o reino de Londor, onde nasceu, e partiu para o leste.
Por anos seguidos, procuraram por ele. Quase vinte anos arfadianos haviam
passado quando Serses resolveu dar as caras outra vez, muito mais poderoso e cruel.
Então, ele possuía um exército inteiro a seu comando. Na verdade, o reino inteiro de
Fília havia se reunido a Serses, que passou a se chamar reino de Sérsia. O reino de
Sérsia, que antes possuía florestas e rios belíssimos, transformou-se num lugar horrível,
com cinzas e sombras. As piores criaturas de Arfádia foram para lá e se reuniram ao
feiticeiro. Arfádia entrou em estado de alerta e alianças foram formadas. O mundo
mágico mais uma vez corria perigo. ”
— Que horror! — exclamei, assustada. — E como terminou essa guerra?
— É aí que está — falou Tarana. — A guerra não terminou, embora seu pai tenha
destruído o feiticeiro Serses na batalha de Azulbar.
— Mas então, o que houve? Por que a guerra ainda continua? — perguntei, sem
entender.
— Vamos do início, Alteza — continuou a elfa. — Estávamos perdendo feio quando
aconteceu algo que nunca antes havia acontecido na história de Arfádia.
Lembro de ter prendido a respiração, ansiosa.
— Um dos deuses interferiu na guerra — falou Tarana. — A intervenção de um deus
nas guerras arfadianas é estritamente proibida pelo próprio Telur, Pai dos Deuses e
criador de Arfádia. Claro que todos os deuses ajudam suas criaturas com conselhos e
coisas do tipo, mas Góriom, o mais novo dos deuses arfadianos, que recebeu a tarefa
de proteger e orientar os humanos...

25
— Há um deus dos homens em Arfádia? — interrompi, curiosa.
— Havia. Góriom descumpriu a ordem de Telur, fornecendo a um humano uma arma
divina capaz de destruir Serses.
— Uma arma? A quem? — quis logo saber.
— Góriom deu a seu pai, Alexandre Caspor, a sua própria espada, a espada Zárfia.

Aquilo tudo era inacreditável. Se meus avós não estivessem ali, com certeza eu teria
rido de toda aquela história.
— Lembro de tê-lo pedido para recusar o presente porque sabia que aquela era uma
infração gravíssima — respondeu meu avô. — Mas os inimigos estavam em todas as
partes, infiltrados até mesmo no castelo real de Londor. Seu pai desejava mais do que
tudo proteger o reino e também sua esposa, Alice, sua mãe, que por sinal acabara de
descobrir estar grávida.
“Alexandre tomou posse da espada e marchou em direção ao reino de Sérsia,
varrendo os inimigos. Era incrível o poder da espada. Uma nova esperança surgia.”
— A batalha final aconteceu nos campos de Azulbar, no reino de Sérsia — continuou
Tarana. — Seu pai não teve dificuldades para destruir o feiticeiro. Serses jamais poderia
imaginar o tamanho do poder que o aguardava quando se dirigiu ao campo de batalha.
— Tudo bem. Entendi — falei. — Meu pai aceitou o presente de um deus e destruiu
Serses. Mas você disse que a batalha ainda continua.
— Sim, mas antes vamos falar das consequências da intervenção de Góriom.
“Quando o Pai dos Deuses descobriu o que fizera um de seus bisnetos, ficou muito
irritado. Tempestades assolaram Arfádia por vários meses, o frio tornou-se pior e as
noites mais longas. Toda Arfádia sofreu quando Alexandre aceitou a espada. Muitos reis
o ameaçaram. Mas não se preocupe. Seu pai ainda é visto como herói em Arfádia por
ter destruído o feiticeiro. A fúria de Telur foi severa, mas terminou. E Arfádia estava livre
de Serses e de seu exército, pelo menos por um tempo. ”
— E aquele deus... como é mesmo o nome?... Góriom, o que aconteceu com ele?
— Góriom está preso em Agnomídia, o Reino dos Mortos e submundo de Arfádia.
Perdeu seus poderes e foi amaldiçoado por Telur, tendo de passar a eternidade como
apenas mais uma alma em Agnomídia.
— Credo! Esse tal Telur não é um deus bom — falei, com muita raiva.
— Telur criou Arfádia e todos os deuses. Você vai precisar respeitá-lo quando voltar
para lá, Alteza — alertou Berbuto. — Telur não se envolve nas ações dos mortais e
ordena que todos os deuses façam o mesmo.
— Mas Serses estava destruindo Arfádia. Góriom ajudou a vencê-lo.
— Mas nem todos os deuses queriam a derrota de Serses, querida — falou vovó. —
Todas as raças arfadianas possuem um deus guia e protetor. Os centauros possuem
Centúrio, as fadas oram para Ediana e os anões para Xaptar. Se cada um dos deuses
interferir por sua raça arfadiana, as guerras dos mortais se tornarão as guerras dos
deuses e isso seria catastrófico.

Eu ainda não gostava daquele Telur mesmo assim.


— Mas, por favor, continue — pedi à Tarana. — Por que a guerra não terminou com
a destruição de Serses?
— Porque Serses não morreu naquele dia.
— Mas você disse...
— Serses havia realizado um poderosíssimo ritual de magia negra meses antes da
Batalha de Azulbar.

Eu não esperava nada mais daquele feiticeiro vil.


— Um ritual usado para transferir sua alma para um animal arfadiano após a sua
morte. É como se pudesse estender a sua existência por mais alguns anos.

26
— E ele retornou como um animal?
— Mais especificamente sob a forma de um dragão. Serses realizou o ritual em um
ovo de dragão negro ramburiano. Serses estava de volta. Com menos da metade de
seus poderes, é claro, mas ainda forte o suficiente e com a mesma ambição: dominar
Arfádia.
— E meu pai? O que fez? Ele ainda tinha aquela espada, não é mesmo?
— No começo, ninguém sabia do retorno de Serses, apenas seus seguidores mais
próximos. Arfádia ainda comemorava a destruição do feiticeiro. Seu pai, que havia sido
odiado por ter aceitado o presente de Góriom, então era herói. Uma enorme estátua
para ele foi construída em Entrios e outra em Anólia, embora a de Anólia já tenha sido
derrubada por seguidores do dumragão. O plano de Serses era o de voltar à forma
humana.
— Mas isso era possível?
— Nunca ninguém conseguiu tal feito nem sabemos ser possível — explicou Tarana.
— Mas Serses acreditava em poder retornar a sua forma original se pudesse reunir
poder suficiente. Ele precisava de um objeto muito poderoso. E sabia onde encontrá-lo.
— Que objeto? — Antes de perguntar, eu sabia a resposta.
— A espada Zárfia. Os rumores de que a espada pela qual foi destruído pertenceu a
um deus chegou aos ouvidos do dragão Serses. Ele soube que a espada era poderosa
demais durante a batalha, mas jamais imaginou ter sido entregue a Alexandre pelo
próprio deus Góriom. Agora, Serses, sob a forma de dragão, se fortalecia para atacar
Londor e roubar a espada.
— E ele atacou — revelou vovô. — Durante a madrugada, o dragão Serses destruiu
vilarejos e queimou boa parte do reino. Você tinha apenas alguns meses de vida. Ainda
me lembro daquela noite horrível como se fosse ontem. Grito, choro, fogo e fúria.

Eu não conseguia me lembrar de absolutamente nada daquilo, claro, mas conseguia


imaginar o desespero das pessoas ao serem acordadas sob ataque de um dragão feroz
e seus seguidores.
— Por pouco, Alexandre não morreu naquela noite — continuou vovô. — Fenir, um
feiticeiro que um dia fora amigo meu, mas que hoje é meu pior inimigo, foi o primeiro a
invadir o castelo real. Fenir causou sérios danos físicos a seu pai, perguntando onde
estava a espada. Alexandre costumava protegê-la em seu próprio quarto. Foi naquele
momento que percebemos o interesse de Serses na espada.
Eu havia me agarrado à toalha da mesa, tão nervosa estava com aquela história.
— Mas o que aconteceu depois?
— Seu pai foi salvo dos ataques de Fenir por ninguém menos que seu avô — falou
Tarana, olhando orgulhosa para vovô. — Ele não parece, mas é um feiticeiro e tanto.

Vovô ficou enrubescido com o comentário e vovó o abraçou.

– Lembro-me de estar ainda sonolento quando ouvi os gritos no castelo — narrou


vovô. — Sabia que estávamos sob ataque, mas nunca imaginei que fossem os
seguidores de Serses nem que o próprio Serses estava lá fora, sob a forma de um
dragão, sobrevoando o reino e cuspindo fogo para todos os lados.

Eu estava apavorada só de imaginar.


— Encontrei meu arqui-inimigo atacando meu rei — continuou. — Acertei-o com um
feitiço explosivo e ele soltou seu pai. Alexandre me ordenou que protegesse você e sua
mãe e depois correu para buscar a espada Zárfia. E, com a espada em mãos, pôs fim

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ao ataque. Derrotou dezenas de servos de Serses e feriu o próprio dragão, que
desapareceu nos céus prometendo voltar para destruir Londor.
— Alexandre então tinha de escolher entre permanecer com a espada ou proteger
sua família — esclareceu Tarana. — Escolheu a última.
“Com a prisão de Góriom em Agnomídia, a espada não poderia ser entregue ao dono
nem cair nas mãos erradas. Um Conselho foi reunido para decidir o que fazer com a
espada porque, se Serses por pouco não vencera a guerra sem a espada Zárfia, se
retornasse com a espada em mãos seria o fim da vida em Arfádia como a conhecemos.
Sobraria apenas destruição e caos. ”
— Não era mais fácil usar a espada outra vez para destruir o dragão? — perguntei.
— Talvez — respondeu vovô. — Mas achávamos que podíamos vencer Serses como
dragão sem usar a espada Zárfia. E Alexandre não podia confiar a espada a ninguém,
porque traidores surgiam de todos os cantos. Não podíamos correr o risco de Serses
ter a espada. Sabíamos que, se isso acontecesse, seria o fim.
— Seu pai não dormia mais direito — contou vovó. — Vigiava a espada o tempo
inteiro. Duas vezes a espada quase foi roubada, enquanto seu pai dormia, por
empregados do próprio castelo que queriam o poder da espada para si. Alexandre
precisava fazer alguma coisa.
— O que ele fez então?
— Esperem — pediu. — A água já está fervendo.
Então, vovó foi fazer café e ficamos na mesa aguardando. Liquita pediu para usar o
banheiro e vovô precisou explicar para ela como utilizar a privada. A garota voltou
admirada com o objeto.
— Você precisa ver aquilo, Tarana — comentou. — É como um depositório-
corrente de Arfádia, mas menor, e tem um botão que você aperta para a água ir
embora. É muito engraçado.
Vovó voltou com seis xícaras de café numa bandeja e um pote de biscoitos. Todos
se serviram. Berbuto foi o único que pareceu gostar do gosto do café. Tarana e Liquita
fingiram gostar, mas só bebericaram uma vez e fizeram caretas. Mas todos adoraram
os biscoitos de mel.
Após o lanche rápido, vovó recolheu a mesa e pudemos continuar.
— Após alguns meses de longas reuniões, decidiu-se esconder a espada em um
local que ninguém encontraria — continuou Tarana. — E para isso foram necessários
os maiores feiticeiros que ainda lutavam ao nosso lado. A espada Zárfia desapareceu
de vista e todos os envolvidos, incluindo Alexandre, realizaram um pacto de morte para
não revelarem o local nem mesmo sob as maiores torturas.
— Um pacto de morte?
— Sim — respondeu vovô. — Um pacto de morte é um ritual de magia para guardar
um segredo realizado entre duas ou mais pessoas. Caso uma delas quebre o segredo,
todos os que fizeram o pacto são mortos pela deusa Éfila.
— Que horror! — exclamei, apavorada. — Como papai saberia que os outros
envolvidos eram de confiança?
— Naquele momento, eram as únicas pessoas em quem confiar. Todos os quatro
haviam lutado contra Serses durante anos e todos tinham perdido alguém por causa
dele. Era muito improvável uma traição e, naquele momento, a única forma de garantir
que a espada não cairia em mãos erradas.

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Eu não podia acreditar que meu pai colocara a própria vida nas mãos de outras
pessoas.
— E o que aconteceu depois? Houve uma traição e papai morreu?
— Não houve traição. Porém, os quatro envolvidos foram mortos um a um pelos
seguidores de Serses, inclusive seu pai — revelou Tarana.
Aquela foi a primeira vez que me falavam sobre a verdadeira morte de meu pai. E,
pela primeira vez, meus olhos se encheram de lágrimas.
— Como foi?
— Um grupo de quase vinte centauros atacou seu pai e a guarda real de Londor
próximo à Floresta Sombria. Após lutar bravamente e derrotar cinco deles sozinho, seu
pai foi alvejado por flechas e pisoteado até a morte.

As palavras dela haviam entrado em meu corpo e rasgado cada pedacinho dele.
Então, foi daquela maneira que meu pai morrera? Morto por centauros que se uniram a
um dragão maligno? Morto por tentar proteger seu reino e sua família?
— Então o segredo se perdeu? Ninguém sabe onde está a espada? — perguntei, me
sentindo enjoada.
— Havia uma quinta criatura, de identidade desconhecida pelos demais, que sabia
do segredo e não participou do pacto de morte — explicou vovó. — Sua missão era
passa-lo para outras pessoas confiáveis, caso acontecesse o que aconteceu. Era o
anão Miquenael. Pequeno demais para receber uma missão tão grande, mas ele a
cumpriu como devia. Após a morte dos quatro primeiros, outro ritual seria realizado para
manter o segredo vivo. E, dessa vez, erraram na escolha dos membros.
— Houve uma traição?
— Houve — continuou vovó. — O rei do reino de Egélia, o elfo Jarfim, havia se
aliciado ao dragão anos antes, mas manteve segredo. Quando o escolheram para o
novo ritual, quebrou o segredo, revelou o que sabia para o inimigo e todos que fizeram
parte do pacto, inclusive ele próprio e também o anão Miquenael, foram mortos pela
deusa Éfila, como sabíamos que aconteceria.
— Que traidor sujo e nojento! — gritei. — Então acharam a espada?
— Não — respondeu vovó. — O segredo transmitido para os novos guardiões, e que
Jarfim revelou, foi que um objeto mágico que levaria até a espada estava escondido no
castelo de Londor sob a proteção da rainha, sua mãe. Mas ele também revelou que a
espada só poderia ser retirada do esconderijo com o sangue de Alexandre Caspor. Esse
foi um dos truques brilhantes dos feiticeiros e dos anões. Sem o sangue de Alexandre,
a espada jamais seria tocada por outro arfadiano.
— Mas meu pai já estava morto. Como poderiam recuperar a espada?
— Foi então que os inimigos perceberam que precisariam de outra pessoa com o
sangue de Alexandre Caspor nas veias — revelou Tarana. — E essa é a razão de você
ter vindo parar no mundo dos homens.

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Capítulo 3 - A Herdeira de Londor

Houve um silêncio prolongado na cozinha enquanto eu olhava assustada para todos


eles.
— Quando sua mãe percebeu que você corria grave perigo, aceitou a missão de vir
para Gâmbia com você em segredo e aqui permanecer o tempo necessário, até que
fosse seguro retornar – continuou a elfa.
— Mas minha mãe não veio comigo. Por quê?
— Outro ataque ao castelo de Londor tirou a vida de nossa filha — declarou vovó,
com os olhos úmidos. — Então, seu avô e eu aceitamos fazer o que nossa filha faria:
trazer você para o mundo dos homens. Fugimos para a Floresta Branca e lá seu avô
utilizou seus poderes para tentar abrir um portal. Nós viemos com você para cá
segundos antes de o inimigo nos encontrar. Mas, graças aos deuses, ninguém
descobriu para aonde pudéssemos ter ido.
— Somente uma pessoa sabia que vocês haviam vindo para cá: a feiticeira Míriam,
irmã de seu avô — disse Tarana. — E o segredo permaneceu guardado este tempo
todo.
— E a partir de então não tivemos notícias de Arfádia — falou vovó. — Sabíamos
que viriam nos buscar quando fosse seguro; não podíamos correr o risco de levar você
de volta sem antes ter certeza disso.
— Mas, nos últimos anos, Londor sofreu ataques seguidos — continuou Tarana. —
O máximo de tempo que permanecemos sem ataques foi de quatro a cinco meses
arfadianos. Nenhum deles com a presença de Serses, mas todos com servos leais ao
inimigo, procurando a única coisa que permitiria que tivessem a espada: você.

A ideia de que havia um exército inimigo a minha procura era assustadora.


— E somente agora conseguiram vir?
— Não teríamos vindo hoje se não fôssemos obrigados a fazê-lo, Alteza. Míriam
desejava aguardar um pouco mais antes que viéssemos buscá-la. Porém, os inimigos
descobriram o paradeiro da herdeira de Londor e podem estar vindo para cá a qualquer
momento. Poderiam até tê-la encontrado antes de nós.

Aquelas palavras causaram impacto tanto em mim quanto em meus avós.


— Mas como isso aconteceu? Temos de voltar para Arfádia o quanto antes — vovó
falou exasperada. — E como poderiam saber o nosso local exato? Gâmbia é um mundo
gigantesco, muito maior do que Arfádia.
— A feiticeira Míriam era a única que sabia que Scarlet Caspor estava em Gâmbia
com os avós — explicou Tarana. — Ela decidiu revelar o segredo para uma equipe de
busca, que foi chamada de A Guarda e que seria bem preparada para entrar mais tarde
em Gâmbia. Quatro pessoas foram escolhidas.
— Mas vocês são apenas três — falei, imaginando onde estaria o quarto.
— O quarto membro, o anão Jercuti Damaiã, foi torturado por seguidores de Serses
até revelar o que sabia. Jercuti nada revelou sob tortura, mas, quando ameaçaram matar
seus filhos, o anão indicou a localização exata de Scarlet e até mesmo a maneira para
localizá-la. Por sorte, Míriam se recusou no último instante a fazer um pacto de morte
conosco ou receberíamos a visita da deusa Éfila.

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— Pelos chifres de Telur! Como foi que descobriram que Jercuti fazia parte d’A
Guarda? — gritou meu avô, se revirando na cadeira.
— Ainda não descobrimos se sabiam ou acertaram na captura — explicou a elfa. —
Os centauros estão sempre torturando prisioneiros, como se todos soubessem de
alguma coisa; poderiam ter capturado Jercuti ao acaso. Serses possui espiões por todos
os lados; é difícil saber como suspeitaram de alguma coisa. Enfim, Jercuti conseguiu
sair com vida e alertou Míriam para agir depressa, antes de levar esposa e filhos para
as montanhas de Rambur. Disse que lá ficariam mais protegidos. Míriam não pode
evitar; o anão estava apavorado.
— Tadinho! — falei, com coração apertado.
— Os servos de Serses sabiam onde estava a herdeira de Alexandre e encontrariam
uma maneira de entrar em Gâmbia — continuou a elfa. — Por isso, foi preciso adiantar
nossa vinda para cá e fazer tudo às pressas.
“Berbuto, por exemplo, teve de substituir Roxana no último instante, que na verdade
já estava designada para vir antes dele, mas atualmente está em outra missão,
negociando com as fadas da Floresta de Sirlíbia. Míriam não teria enviado um rufanonte
para Gâmbia se tivesse escolha. ”
— Disse que minha aparência assusta os humanos de Gâmbia — falou Berbuto,
parecendo chateado.
— Ela exagerou — consolei, mas sabia que não era nenhum exagero. — Mas ainda
não sei como descobrirão nossa localização exata.
— Não será difícil — falou a elfa. — Eles encontrarão você da mesma forma como a
encontramos, Alteza.

Tarana procurou em sua bolsa e retirou uma espécie de bússola, minúscula, com um
ponteiro, e colocou em cima da mesa. Era o objeto que estava olhando quando a
encontrei em frente ao meu colégio.
— Isto é um magigneto, um objeto antigo criado pelos elfos — explicou. — Foi feito
para encontrar qualquer coisa que queira esconder. Quando um magigneto é produzido,
é enfeitiçado para apontar para um objeto. Depois disso, enquanto existir, o magigneto
nunca parará de apontar para a localização dele, não importa onde quer que esteja
escondido.
Percebi que o ponteiro da estranha bússola apontava em minha direção.
— Então, esta coisinha está sempre apontando para mim?
— Não para você, Alteza. Magignetos só apontam para objetos. Ele foi enfeitiçado
para apontar para a chave em seu pescoço.

Retirei a chave de prata que herdei de minha mãe e coloquei ao meu lado, na mesa.
Instantaneamente, o ponteiro do magigneto mudou a sua direção.
— Nós conseguimos este com a Atênia — informou Tarana. — Faz algum tempo que
Míriam entregou este objeto para eles para poderem vigiar você de vez em quando e
ajudá-la, se precisasse. Míriam nos deu algumas dicas para localizar a sede de Atênia
e encontramos, assim como seu avô, naquela pedra inclinada. O ateniano Ícaro nos
entregou este magigneto e indicou o local em que você estudava. Ele também nos deu
um pouco de dinheiro dos gambianos e pediu que comprássemos algumas roupas ou
poderíamos chamar atenção demais.
— Mas, se o magigneto está aqui, como poderiam me encontrar?
— Para nosso azar, a feiticeira Míriam estava de posse de dois magignetos que
apontavam para a chave. Ela entregou um para a Atênia, como sabe, e ficou com o

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outro porque sabia que viríamos te buscar em breve. Assim que A Guarda foi formada,
entregou o segundo magigneto para...
— Jercuti — concluiu vovó, de olhos arregalados.
— Exato — confirmou a elfa. — Ela entregou para Jercuti, que era o líder do nosso
grupo. O magigneto caiu nas mãos dos servos de Serses quando o capturaram.
— Temos de sair daqui — vociferou vovó. — Terminaremos esta conversa sob a
proteção do castelo de Londor.
— Ou podemos deixar a chave em outro lugar para os seguidores nunca me
encontrarem — falei, mesmo sabendo que eu detestaria o fato de me desafazer da
chave de minha mãe.
— Nunca! — falaram Tarana e vovô juntos.
— Vamos precisar desta chave para descobrirmos o local exato da espada — instruiu
Tarana.
— Esta chave não pode cair nas mãos do inimigo, Scarlet — falou vovô.
— Já entendi — acabei me rendendo.
— Temos de retornar a Arfádia — anunciou vovó.
— Já providenciamos isso, Sra. Felícia — tentou acalmá-la Berbuto. — É impossível
provocar portais aqui em Gâmbia, onde não temos magia. A Atênia está tentando
monitorar possíveis portais pela região desde que chegamos. Assim que encontrarem,
virão nos buscar.
— E quanto tempo esses portais permanecem abertos? – perguntei.
— Por pouco tempo, mas a Atênia consegue monitorar o portal bem antes de ele
abrir, pois há crescente quantidade de magia no local — explicou Berbuto.
— Seja como for, devemos estar preparados quando acontecer. Vou separar
algumas coisas — falou vovó. — E você, Scarlet, ainda quer conhecer o mundo em que
nasceu?

Eu seria uma mentirosa se dissesse que não estava com medo da mudança de rumo
que minha vida estava prestes a tomar. Mas, após ouvir a verdadeira causa da morte
de meus pais e a maneira pela qual tentaram me proteger, eu seria idiota se recusasse
a entrar em Arfádia. Era óbvio que eu queria ir para lá.

Após arrumar algumas coisas, entrei para tomar um banho. Deixei que a água caísse
em minha cabeça enquanto refletia sobre tudo o que havia escutado durante a conversa
na cozinha.
Como eu poderia imaginar quando acordei aquela manhã que aquelas coisas
aconteceriam tão de repente? Eu jamais teria acreditado que meu avô fosse um feiticeiro
e que meus pais foram reis em um reino mágico chamado Londor.
Scarlet Caspor, a princesa londoriana. Tudo ainda parecia um sonho. A ideia de que,
a qualquer momento, centauros malignos ou outras criaturas bateriam na minha porta
para me capturar, me levar para Arfádia e usar meu sangue para encontrar uma espada
que havia pertencido a um deus era totalmente inacreditável.
E, talvez porque eu ainda não era apaixonada por Arfádia naquele instante, não
estava convencida a dar meu próprio sangue para salvar um mundo desconhecido.
Claro que, após conhecer as hilárias sereias do Lago Neptar, voar em cavalos alados e

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conversar com árvores falantes, eu estaria mais do que disposta a fazer o possível para
salvar o mundo mágico e todas as suas criaturas fascinantes.
— Você está, aí, querida? — Era vovó. — É melhor se apressar. Não sabemos
quando a Atênia virá, ou se virá hoje. Mas vamos precisar estar prontos quando
chegarem.

Então me sequei e coloquei roupas limpas. A noite lá fora começava a surgir. Depois,
desci as escadas para me juntar a meus avós e aos três arfadianos, que conversavam
acaloradamente. Meus avós tentavam matar um pouco da saudade que tinham do
mundo que deixaram para trás.
— E o velho Troncocom? Como está de humor? — perguntou vovô.
— Continua o mesmo tronco rabugento — falou Liquita.
— Quando éramos mais novos, costumávamos namorar embaixo da sombra de
Troncocom enquanto ele dormia, não é mesmo, querida? — Vovó concordou sorrindo,
olhando para o nada, como se estivesse recordando velhos e bons tempos. — Quando
ele acordava, costumava bater com seus galhos em nossas cabeças e soltar palavrões,
gritando que ali não era lugar para namoricos. Então corríamos rindo e voltávamos no
dia seguinte e ele nos cumprimentava alegremente. A memória das falárvores nunca foi
das melhores. Esquecem de coisas pequenas, mas sempre recordarão o seu nome.

Aproveitei o momento para aprender um pouco mais sobre o mundo que me


esperava. Perguntei sobre tudo que gostaria de saber.
— Você disse que contam o tempo de maneira diferente em Arfádia, vovô. Como
posso saber as horas quando estiver por lá?
— Ótima pergunta, querida! Você aprenderá a reconhecer a posição do sol e das
luas.
— Luas? No plural?
— Sim. Ao contrário do que acontece aqui, você verá duas luas no céu arfadiano:
Diana e Diágira. As duas sempre estarão cheias e brilhantes para iluminar Arfádia
durante a noite, embora às vezes verá muitas nuvens cobrindo o céu. Diana e Diágira
iluminarão Arfádia enquanto o sol estiver debaixo dela.

Aquilo ia contra tudo o que eu havia aprendido em geografia.


— Mas como... o sol se mexe? E como assim debaixo de Arfádia?

Todos riram da minha cara de espanto.


— Exatamente, querida. Arfádia não é redonda como Gâmbia, mas plana — explicou
vovô. — É como uma mesa voando no infinito. E o sol e as luas giram em torno dela
graças aos deuses. Quando o sol está por cima, as luas estão em baixo; no fim da tarde,
quando o sol está em uma das pontas, já é possível ver Diágira na outra ponta. Como
Diana e Diágira são menores e sua luz mais fraca que a do sol, as noites são sempre
mais escuras que o dia.
— Isso tudo é muito esquisito. É sério.
— Imagino que seja muito estranho para você agora, mas vai se acostumar —
tranquilizou-me vovô. — E, continuando, um ano arfadiano possui 7 meses de 5
semanas de 8 dias cada, o que dá 40 dias por mês, 280 dias por ano.

Depois, perguntei mais sobre as criaturas de Arfádia. Vovó me explicou que


falárvores eram árvores que falavam e que viviam apenas no reino de Londor, na
Floresta Branca, e Entrios, na Floresta de Sirlíbia. Cada falárvore tinha uma

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personalidade própria, mas a maioria era alegre e amigável (com exceção talvez de
Troncocom).
Descobri também que áculas eram enormes pássaros, que voavam bem acima das
nuvens e viviam havia séculos em guerra com os dragões. Fiquei sabendo que os cavalos
eram os únicos animais gambianos que conseguem se reproduzir e são domesticados no
mundo de Arfádia. Alguns dos cavalos que nasceram em Arfádia ganharam asas (eu
estava doida para voar em um deles). A maioria dos animais gambianos que acabavam
indo parar lá se tornava infértil e morria sem se reproduzir, o que tornava raros esses
animais e, consequentemente, um sinal de luxo. Vovô falou que uma rainha londoriana
anã de muito tempo atrás tinha uma pantera negra em sua corte.
A noite já havia se estendido e vovó decidiu fazer e servir o jantar. Liquita não parou
de elogiar o sabor do frango.
— Que delícia este animal de Gâmbia! — exclamava. — Vou levar alguns para tentar
criar em Arfádia.
— Salabin, o caolho, fez diversas tentativas — informou vovô, com vontade de exibir seu
conhecimento —, mas os frangos nunca se adaptaram à magia arfadiana. Ele tentou com
as galinhas, os porcos e até com algumas frutas e verduras. Está tudo registrado em seu
livro Maravilhas Gambianas: O Paladar dos Humanos no Mundo Sem-Magia. Ele conseguiu
plantar bananas e tomates, mas o reinado de gelo de Algurnina destruiu sua plantação.

Aproveitei para perguntar o que comiam no mundo mágico.


— Diversas aves, como popros e terfúlios. Pratos como hinus, félula e siabo.
Comemos sementes e frutas também — falou vovô —, mas cada reino tem sua maneira
típica de se alimentar e algumas raças também.
— Nós, rufanontes, por exemplo, preferimos a comida com muito tempero.
— Os elfos preferem peixes, os anões não trocam carne por nada e as fadas só
comem folhas — falou Tarana.
— Você vai conhecer a alimentação londoriana em breve — continuou vovô. — Sua
mãe adorava as alpáxias, frutinhas brancas do reino de Entrios. São muito adocicadas,
excelentes para fazer sucos.
– E papai? O que gostava de comer?

Vovô colocou um pedaço de frango na boca e refletiu, tentando se lembrar.


— Alexandre gostava muito da carne dos popros, uma espécie de galinha gigante
com asas que não voa, embora o gosto seja bem diferente dos frangos que temos aqui.
Ele também comia muito faizim, sementes semelhantes às nozes gambianas.
— E o que se bebe em Arfádia?
— Nossa principal bebida é a água, pura e simples, e, por sinal, idêntica à que temos
aqui. Bebemos também leite de popros — que apesar de serem aves, as fêmeas da
espécie produzem leite —, leite de drideões e em festas bebemos ádica, bebida forte
que nos deixa embriagados e felizes, feita com adulimas. Há outras bebidas consumidas
por outros reinos de que não estou lembrando, mas você conhecerá boa parte delas.
— Parece que há muito para aprender sobre Arfádia. Vou morrer sem saber de tudo.
— Sempre haverá coisas novas para ver e experimentar em Arfádia, querida — falou
vovó. — Nem mesmo seu avô e eu conhecemos tudo, mas você vai pegar o jeito do
básico bem rápido. Vai estar pronta quando se tornar uma rainha.

Após o jantar, foi a vez de Tarana, Berbuto e Liquita perguntarem sobre o mundo
sem-magia. Eu havia esquecido de que eles estavam ali pela primeira vez na vida.

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— Então Gâmbia é redondo e o sol daqui não se mexe? — perguntou Tarana,
bastante curiosa. — E as criaturas lá de baixo não caem?
— Ainda não entendi o que faz este vidro brilhar e iluminar esta sala, sem magia e
sem fogo — comentou Berbuto, acerca das lâmpadas.
— E aquela máquina com quatro rodas para transportar pessoas, hein? Como é
mesmo o nome? Isso mesmo... carros — falou Liquita, admirada.
— Vocês viram os animais daqui? — Tarana indagou aos outros dois. — Fiquei
encantada com aquele peludo e com bigodes no rosto que vimos em cima daquele
muro. Os olhos dele pareciam com os meus.

Eu nunca havia imaginado que o mundo dos humanos pudesse causar tanto fascínio.
Já era perto da meia-noite quando vovó decidiu que os três dormiriam na nossa sala.
— Parece que nenhum portal foi aberto na região — falou. — Ou alguém da Atênia
já teria vindo nos informar. É melhor que vocês descansem e talvez amanhã de manhã
tenhamos boas notícias.
Então vovó subiu para buscar algumas roupas de cama para os hóspedes. Tarana e
Liquita fizeram camas improvisadas com cobertores, mas Berbuto ficaria acordado para
caso acontecesse algum imprevisto durante a noite; se alguém da Atênia viesse ou
(para meu horror) caso fôssemos atacados por seguidores de Serses.
Meia hora depois, eu estava em minha cama no meu quarto escuro refletindo em
silêncio. Eu me perguntava quando finalmente eu iria para Arfádia. Imaginava como
seria estar dentro do Castelo Real do Reino de Londor, com todas as suas torres e
escadarias. Como deveria ser ter serviçais, me chamando de alteza e perguntando se
eu precisava de mais alguma coisa. “Mais uma xícara de chá, por favor”. “Preparem
meu banho quente”. “Com que roupa deverei me vestir para o baile? Ajudem a escolher
entre estes cinquenta vestidos e quarenta pares de sapatos.” “Por favor, Alteza, deixe
eu segurar esta sombrinha para que não se queime neste sol.” “Que música gostaria de
ouvir, Alteza?”.
Demorei a conseguir dormir, nervosa demais com que estava por vir. Era difícil dormir
sabendo que em breve iria para um mundo mágico no qual quase tudo é diferente do
que já havia visto ou com o que estava acostumada. Mas, após quase uma hora,
finalmente adormeci.
Lembro de ter tido um sonho muito estranho no qual um enorme dragão tentava me
devorar. De repente, meus avós chegavam voando em um cavalo com asas e me
entregavam uma espada brilhante. “Pegue a espada Zárfia, querida. Mate este dragão
de uma vez por todas”. Eu tentava levantar a espada para acertar o dragão, mas ele se
esquivava e lançava baforadas de fogo ardente, que chamuscavam meu cabelo. De
repente chegou a diretora Claudinéia e alguns alunos da minha turma, que riram do meu
esforço. “Olhem só para ela, a princesa pálida de Londor!”, gritou Maria Rita. Então eu
larguei a espada, sentei no chão e comecei a chorar. Tarana se aproximou e falou que
eu precisava ser corajosa se eu quisesse evoluir e amadurecer. Quando me levantei
para enfrentar o dragão outra vez, alguém me acordou no escuro de meu quarto.
— Querida, temos que ir logo. Um portal deverá se abrir aqui por perto.
Era vovó e, pela sua voz, percebi o quanto estava animada.

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Capítulo 4 - Feiticeiros na Ponte

Acordei assustada e acendi as luzes. Olhei para o relógio em cima de minha


estante e percebi que eram quase cinco horas da manhã. Havia um certo tumulto na
cozinha lá embaixo.
— Deixaremos todas as nossas coisas para trás? — perguntei a vovó, bocejando.
— Sim querida. Vamos ter tudo de que precisamos no Castelo de Londor. Só
levaremos uma mochila com toalha de rosto e garrafas de água, caso apareçamos em
Arfádia muito distantes do castelo.

Usei o banheiro, certifiquei-me de que não havia esquecido de nada importante e


desci para a cozinha. Berbuto, Liquita e Tarana já estavam com suas roupas arfadianas,
que mais pareciam com trajes medievais. A de Berbuto era semelhante a uma armadura
prateada, com ombreiras de metal e um unicórnio em alto relevo na parte do peito.
Liquita usava um vestido verde com camisa branca por baixo e Tarana, a mesma saia
preta e um casaquinho azul escuro com fios entrelaçados na frente, que vi usando em
frente ao colégio. A menos que eu tivesse um casaquinho igual àquele quando chegasse
ao castelo de Londor, ia acabar pedindo emprestado para a elfa. Era tão lindo!
Percebi que havia também um garoto de cerca de dezessete anos, com cabelos
loiros e pele branca; quase tão branca quanto a minha. Ele usava na testa óculos
especiais, como aqueles que os nadadores usam para nadar. Estava conversando
acaloradamente com meu avô na cozinha. Ao perceber minha presença, o rapaz sorriu
e me cumprimentou.
— Bom dia, Scarlet. Parece que finalmente vai conhecer o mundo mágico de Arfádia.
Meu nome é Ícaro, sou gambiano, mas já estive em Arfádia duas vezes. Apenas no
reino de Londor, mas quero um dia visitar Entrios. — O garoto falava muito depressa.
— Quer conhecer uma das criaturas de Arfádia? Precisei trazer uma ácula para chegar
aqui a tempo. Não há problemas em usá-las durante a madrugada; são criaturas rápidas
e silenciosas. Os gambianos não as percebem e, quando percebem, acham que são
apenas águias enormes.
Quando espiei lá fora, apreensiva, pela janela da cozinha, avistei a maior das águias
que já havia visto em minha vida, empoleirada em nosso muro. Suas penas eram
verdes, vermelhas, azuis e amarelas. Suas garras pareciam ter força e tamanho para
agarrar e levantar um cavalo. Era com certeza uma criatura fascinante.
— Essa é Firbídia, uma ácula arfadiana — anunciou Ícaro.
— Ela é linda! — elogiei. — É sua?
— Não, é da Atênia. Há duas áculas e um cavalo alado na sede da Atênia lagunense.
Precisei voar até aqui para alertar vocês sobre a abertura do portal. Falando nisso, estão
todos prontos? Não teremos muito tempo após o portal se abrir. E ele não está tão perto.
Acreditamos que abrirá próximo à Ponte de Laguna. Vou entregar a vocês um destes
dois anéis de kaizar, que, como devem saber, vai ficar mais quente e brilhante quando
se aproximarem do portal. — Entregou um dos anéis para vovô. — Terão de ir de carro
para não chamar a atenção dos gambianos. Quando avistarem o portal, deverão entrar
depressa antes que feche. Não sabemos quando abrirá outro portal aqui pela região.

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Para ser sincero, tiveram sorte de esse aparecer em tão pouco tempo de espera.
Geralmente os arfadianos precisam aguardar duas semanas ou mais por um portal de
conexão.

Após trancarmos toda a casa e apagarmos as luzes, entramos no carro de meu avô.
Como não caberiam todos, Tarana foi voando com Ícaro na ácula.
— Apenas me sigam — falou o membro da Atênia, baixando os óculos de voo.
Então ele e Tarana subiram nas costas da ácula, que abriu as enormes asas e voou.
Eu fiquei encantada com aquela criatura. Era linda com as asas fechadas e maravilhosa
com elas abertas.
Logo depois, estávamos na estrada. Mesmo sem Tarana, o carro ficou apertado,
uma vez que Berbuto ocupava quase dois assentos. O veículo de meu avô chegou
perto do chão quando ele entrou. O rufanonte não gostou da ideia de estar outra
vez em um carro.
Meu avô usava o anel mágico que informaria a proximidade do portal e, de vez em
quando, olhava para cima, procurando acompanhar a ácula que voava nos céus de
Laguna.
Meu coração batia acelerado. Uma mistura de medo, alegria e esperança me
dominava. Como minha vida pode ter se transformado tanto em tão poucas horas?
Cerca de dez minutos se passaram e estávamos nos aproximando da Ponte de
Laguna, em direção à cidade vizinha. Meu avô confirmou que estávamos na direção
certa, porque o anel começava a aquecer.
— Deve ser mesmo por aqui. Há um grande acúmulo de magia nas proximidades —
comentou.
A Ponte de Laguna é uma construção magnífica. Com pouco mais de dois mil e
oitocentos metros de extensão, a Ponte Anita Garibaldi fica sobre a Lagoa do Imaruí, no
município de Laguna. Os cabos em formato de pirâmide no centro da ponte se iluminam
durante a noite, o que faz que a construção cause profunda admiração nos motoristas
que por ali passam.
Havia poucos carros na rua àquela hora. Mas ainda assim, tentamos não chamar
muito atenção. Porém, quando estávamos na metade da ponte, algumas coisas
estranhas aconteceram. Os carros da frente pararam e buzinaram desvairadamente.
Formou-se uma fileira de sete ou oito carros. O que estava acontecendo? Por que
haviam parado em plena travessia?
Foi quando um dos motoristas do carro da frente abriu a porta do veículo e saiu
correndo, gritando, que percebemos que havia algo muito errado. Liquita abriu a sua
bolsa e retirou um colar com enorme pedra verde incrustada e entregou a meu avô.
— O senhor vai precisar disto, Sr. Arteniel. Os seguidores de Serses sabem que a
chave de prata está neste carro.
Vovô colocou o colar depressa antes que dois centauros surgissem próximos ao nosso
carro. Não eram como os centauros dos contos de fadas, com metade homem belo, com
seis gomos de abdômen, e a outra metade um lindo alazão. Aquilo era um monstro com
verrugas em toda a metade de cima e cauda que mais parecia a de escorpião. Tinham
chifres como os de carneiros e apenas um olho no meio da testa. Que coisa medonha!

37
— Protejam Scarlet e a chave — bradou meu avô, abrindo a porta do carro.
O que aconteceu em seguida ficaria na memória de muitos lagunenses, que
contariam suas histórias para muitos outros, embora os que acreditariam nelas fossem
bem poucos.
O centauro, ao olhar para mim, empunhou uma espada e berrou alguma coisa em
estranha linguagem, como se avisasse aos outros que a herdeira de Alexandre estava
no carro.
— Vocês não vão tocar na minha princesa! — gritou vovô, erguendo as mãos e
fazendo surgir imensa bola de fogo acima de sua cabeça.
O centauro da frente partiu para cima de meu avô com a espada em punho, mas a
bola de fogo chocou-se contra seu peito e incendiou seu corpo. Tentou
desesperadamente apagar as chamas saltando e urrando, mas se desequilibrara no
parapeito da ponte e seu corpo caiu lagoa abaixo.
Naquela hora, alguns motoristas saíram do carro e atravessaram a ponte a pé,
correndo. Alguns se jogaram na água; outros aceleraram o carro e chocaram-se contra
o carro da frente. Eu estava em completo pânico.
— Fica tranquila, Alteza. Tudo ficará bem — tentou me acalmar Liquita.
Vovó segurou forte em minhas mãos. O outro centauro partiu para cima de meu avô,
que iniciou outra bola de fogo. Mas, antes que pudesse lançá-la, o centauro o acertou
com forte murro na cabeça. Meu avô caíu e a bola de fogo desfez-se no ar.
— Arteniel! — berrou vovó, entrando também em pânico.
Comecei a chorar. O centauro fez menção de pisotear meu avô, mas, antes disso,
uma enorme massa prateada chocou-se contra ele e o derrubou. Era Berbuto, que já
havia saído do carro e demonstrava toda sua força bruta. O rufanonte desferiu quatro
socos na cabeça do centauro e ele não voltou a se mexer outra vez.
Eu já não estava mais olhando; fechei os olhos e tentei apertar os ouvidos. Liquita e
minha avó não paravam de tentar me acalmar. De repente, enquanto Berbuto ajudava
o meu avô, um terceiro centauro abriu a porta do carro e puxou forte meu ombro, falando
na mesma linguagem esquisita do primeiro.
Os berros que soltei naquele instante poderiam ter sido ouvidos a quilômetros. Mas,
antes de qualquer coisa, Liquita, usando uma adaga, cortou o braço do centauro
desferindo um rápido golpe. O centauro urrou de fúria e puxou sua espada com a outra
mão. Naquele instante, achei que morreria. Uma flecha perfurou seu pescoço e outra
entrou fundo em seu crânio. Antes de tombar na ponte, outras três flechas entraram em
seu tronco. Que nojo! Sangue de centauro na minha roupa.
Em pé, nas costas da ácula em movimento, Tarana realizara os disparos. Era
surpreendente a pontaria da elfa. Ela e Ícaro haviam percebido o que estava
acontecendo e retornaram para ajudar.
— Fica calma querida. A gente vai entrar em Arfádia com segurança e tudo ficará
bem — previu vovó.

Com muito esforço, saímos do carro. Parecia ter acabado. Meu avô se levantou e
veio correndo perguntar como estávamos.

38
— Assustadas — respondeu vovó. — E você, querido? Por um instante pensei que
aquele centauro te mataria.
— Estou um pouco velho, querida. Há muito tempo que não levo murros de
centauros.

A ácula veio se empoleirar na ponte próxima de onde estávamos.


— Precisam atravessar. O portal vai abrir em poucos minutos — falou Ícaro. — Meu
anel está fervendo. Vão logo.
Então, todos corremos para atravessar a ponte. Todos os carros já estavam vazios
e os motoristas haviam corrido. Antes de alcançarmos o fim da ponte, no entanto, nosso
caminho foi bloqueado por um homem encapuzado. Paramos de chofre ao perceber
que também usava um colar como o de meu avô. Seria outro feiticeiro?
— Fenir, o traidor de Londor — anunciou vovô.
Eu lembrava daquele nome. Fenir tentara roubar a espada de meu pai durante um
ataque a Londor, mas meu avô o impedira. O feiticeiro retirou o capuz. Um rosto
marcado por cicatrizes e uma barba negra trançada. Não parecia uma pessoa amigável.
— Ora, ora... você envelheceu, Arteniel.
Confesso que estava esperando uma voz cruel, mas tinha uma voz doce, que poderia
confundir quem o ouvisse pela primeira vez. Então, olhando em minha direção, falou:
— E esta só pode ser a pequena de Alexandre. Então era aqui mesmo que estava
se escondendo, não é garotinha? Nós a procuramos pelos quatro cantos de Arfádia e
também no mundo dos homens, mas jamais poderíamos tê-la encontrado sem isso. –
Ele mostrou o magigneto, antes de voltar a guardá-lo em um de seus bolsos. — Aqui é
o fim para vocês. Não passarão deste ponto.
O feiticeiro produziu ondas de fumaça com movimentos rápidos e estranhos de
suas mãos. Berbuto ligeiramente prostrou-se a minha frente. Liquita sacou sua
espada e Tarana já atirava algumas flechas. Nenhuma acertou Fenir. As flechas
pareciam mudar de direção no último instante devido a alguma proteção mágica
que circundava o feiticeiro.
— Aposto que está enferrujado, Arteniel, após todo este tempo no mundo de Gâmbia
— riu o feiticeiro, mostrando dentes tortos e amarelos. E fez movimentos curtos com as
mãos, lançando raios vermelhos em nossa direção.
Mas nenhum dos feitiços nos atingiu porque vovô havia materializado um enorme
muro de pedra a nossa frente, bem a tempo. Os raios do inimigo apenas ricochetearam.
Vovô então, com outro feitiço, lançou o muro de pedra contra Fenir, mas este o partiu
em milhares de pedregulhos com magia. O vilão gargalhou e disse:
— Até que seus reflexos continuam bons, velhote.
As flechas que Tarana lançava não faziam efeito algum. Liquita não ousaria enfrentar
o feiticeiro e Berbuto estava preocupado em me proteger. Vovó, que não tinha poderes
nem sabia usar espadas, apenas me segurava com força e rezava aos deuses de
Arfádia. Eu suspeitava de que eles não poderiam ouvi-la no mundo dos homens.
— Quando eu mandar, corram e tentem encontrar o portal — ordenou vovô,
entregando o anel mágico a Liquita. — Eu cuidarei de Fenir.
— Mas querido, você precisa vir conosco — implorou vovó.

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— Não podemos correr o risco de Fenir entrar no portal atrás da gente.

Vovô realizou alguns movimentos com as mãos e, em seguida, duas cópias idênticas
dele surgiram ao seu lado. Agora havia três de meu avô.
O feiticeiro inimigo soltou uma risada alta e cruel que me fez apertar mais forte a mão
de vovó.
— Eu estava me perguntando quando você faria esse seu feitiço barato — revelou.
— Você sabe que seus clones não possuem nem mesmo um terço de seus poderes. Já
são débeis em Arfádia, imagina no mundo dos...
Antes de o feiticeiro terminar de falar, os três vovôs iniciaram uma chuva de raios
contra ele. Fenir precisou criar uma bolha protetora em torno de si, que absorvia os
ataques.
— Agora. Corram todos vocês! — mandou meu avô. — Ele não poderá fazer nada
enquanto estiver realizando o Feitiço de Gárculo.
Berbuto me ergueu e colocou-me em suas costas. Prendi os braços em seu
pescoço musculoso.
— Segure firme, Alteza. E não se preocupe com nada. Meu corpo será seu escudo.
Foi naquele instante que Berbuto mudou minha primeira impressão. Como não
adorar aquele rinoceronte mágico?
Enquanto vovô e seus clones continuavam com a chuva de raios, corremos para
finalmente sair da ponte. No fim dela, viramos à esquerda e saltamos por sobre
algumas pedras.
— Por aqui — indicou Liquita, apontando para algumas cercas de madeira. O anel
começara a brilhar. — Acho que estamos muito pertos.
Atravessamos as cercas e corremos em direção a um grande campo aberto, com
algumas vacas.
— Olhem só para aqueles animais. Que tetas enormes! — exclamou Liquita, mas
Berbuto bufou e olhou carrancudo para ela, informando que aquela não era uma boa
hora para admirar os animais de Gâmbia.
A ácula Firbídia sobrevoava o campo à procura de algum portal. Logo depois, Tarana
gritou e apontou para frente. Havia um pequeno morro com algumas árvores. E entre
elas, via-se uma luz verde brilhante.
— Mas, o Arteniel… — lamentou vovó, preocupada.
— Ele ficará bem, Sra. Felícia. Arteniel já enfrentou problemas piores que este —
tranquilizou-a Berbuto.
Então corremos em direção à luz brilhante entre as árvores. Eu segurava forte nas
costas de Berbuto. Meu coração batia acelerado. Aproximamo-nos e lá estava ele: o
portal. Um espelho verde de magia flutuando entre as árvores, sugando o ar ao redor.
Tarana desceu da ácula, com seu arco ainda em mãos, e se juntou a nós.
— Um por vez. Depressa! — gritou Ícaro.
Meu coração parecia estar querendo sair pela boca.

40
— Ei, você! — apontou para Liquita. — Tire o anel de Kaizar ou ele vai derreter seu
dedo se entrar em Arfádia com ele.
Liquita então retirou o anel e o devolveu a Ícaro. Depois, correu em direção ao portal.
Seu corpo foi sugado e desapareceu de vista. Tarana foi a próxima e também
desapareceu.
— Vá, querida! Eu irei logo atrás — encorajou-me vovó.
Então, tomando muita coragem, corri e pulei para dentro do portal. Em instantes, tudo
ficou no mais profundo silêncio e escuridão. Senti como se meu corpo tivesse diminuído
e, por um segundo, me senti como um minúsculo ponto no meio do nada. Depois, caí
em sono profundo.

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Capítulo 5 - A Floresta Branca

O primeiro de meus sentidos a retornar foi a audição. Gradativamente, comecei a


ouvir alguns pássaros cantando. Meu tato voltou em seguida e percebi que estava com
o rosto encostado em um solo frio. Senti também leve brisa balançar meus cabelos.
Algumas pedrinhas machucavam minha bochecha, mas não consegui mover meu
corpo; meus músculos não me obedeciam.
Que sensação desagradável! Consegui abrir os olhos e confirmei o que havia
imaginado: eu estava caída no chão do que parecia ser uma floresta densa. Havia folhas
coloridas no solo, caídas das árvores em volta. Raios de sol entravam timidamente por
entre os galhos.
— Como está se sentindo, Alteza? — Ouvi a voz de Tarana, embora não conseguisse
vê-la. — É bastante estranho, não é mesmo?
Com ajuda da elfa, consegui finalmente me mexer e levantar. Sacudi a areia do rosto
e das roupas.
— Meus óculos — falei, percebendo que não estavam em meu rosto. — Devem ter
caído.
Procurei em volta e os encontrei quebrados próximos a algumas raízes.
— Que droga! Estão quebrados. Eu sou quase cega sem...
Então, olhei fixamente para Tarana. Eu conseguia ver cada detalhe de seu rosto
élfico como se estivesse de óculos.
— Que estranho! Estou conseguindo enxergar normalmente.
Tarana sorriu e disse:
— Sinta a magia de Arfádia, Alteza. — E me convidou a olhar em volta.
E então, pela primeira vez desde que me levantei, prestei atenção na floresta que
nos cercava. Centenas de plantas, flores e árvores incomuns. Plantas de cores e formas
que nunca havia visto. Havia árvores vermelhas, azuis, brancas e até algumas
prateadas. De formato espiral e algumas em formas de cone. Algumas flores tinham
uma estranha luz azul em volta e outras eram repletas de espinhos brilhantes finos.
Alguns insetos estranhos voavam próximo às flores.
Cheguei mais perto para olhar um deles pousar em uma delas que havia crescido em
cima de uma pedra suja e enrugada. Mas, para meu assombro, uma língua rosa e
pegajosa o enrolou e levou para dentro de uma enorme boca abaixo da flor. Então reparei
que a pedra enrugada era na verdade um animal esquisito com uma flor na cabeça.
— Sigário Cabeça-de-Flor — explicou Tarana, percebendo minha reação. — Não é
uma flor de verdade; ela faz parte do corpo deles. Serve para atrair insetos desavisados.
— São venenosos? — Afastei-me do animal.
— Não te atacam de maneira nenhuma; apenas comem insetos e alguns pássaros
pequenos. Mas podem ser venenosos se resolver comê-los.

42
Eu não tinha nenhuma pretensão de comer aquela coisa.
— Eu odiei estes portais — falou alguém atrás de nós. Era Berbuto. Eu havia me
esquecido dos outros.
— Vovó? Onde está vovó?

Mas vovó e Liquita já estavam caminhando em nossa direção. Pareciam ter surgido
a poucos metros de nós.
— Querida, você está bem? — perguntou vovó, preocupada. Havia alguns arranhões
em seus braços e pernas.
— Eu estou. Mas a senhora está machucada.
— Isto não é nada. Onde estão seus óculos?

Então expliquei o que havia acontecido com os óculos e também que não precisava
mais deles.
— Parece que a magia de Arfádia retirou sua miopia, como imaginávamos que
aconteceria — explicou. — É comum a magia daqui revitalizar e curar pequenos males
gambianos. Olhe só para mim.
O que vovó fez me deixou de queixo caído. Ela se abaixou e, sem dobrar os joelhos,
tocou as pontas dos pés, demonstrando flexibilidade juvenil.
— Isto é incrível! — gritei, surpresa. De repente, me lembrei de vovô. — O que será
que aconteceu com...
Vovó ficou séria e preocupada.
— Tenho certeza de que teremos boas notícias de Arteniel em breve, Sra. Felícia —
tentou tranquilizar Berbuto.
— Afinal, onde estamos exatamente? — perguntou Liquita.
— Com certeza na Floresta Branca, a mesma da qual saímos para encontrar Scarlet
— instruiu Tarana. — Mas desta vez estamos bem no centro, no coração da floresta.
Temos de sair daqui e chegar ao castelo de Londor.

Então, começamos a andar por entre as árvores.


— Fique próxima de nós, Alteza — pediu Tarana. — Apesar de a Floresta Branca
não representar perigo para quem a conhece, algumas plantas e insetos são venenosos
e, mesmo quando não são, sua picada é bastante dolorosa.
Aquilo foi o suficiente para eu colar em vovó. Mas, ainda assim, olhava para tudo a
nossa volta e perguntava sobre cada planta, árvore e animal que encontrávamos. Queria
aprender o máximo que pudesse sobre Arfádia. Tentei memorizar os nomes de algumas
plantas, como a víria-espinhenta, a pápola, a moega-londoriana, o viz-prateado, a
lágrima-de-Xiva, a pinéulia, o sargiz e a lágrifa-andante, mas eram muitos nomes para
eu conseguir decorar.
Depois de alguns minutos caminhando, pulando por cima de algumas raízes,
chegamos a uma clareira, onde foi possível ver o sol por completo. O sol arfadiano era
maior que o sol gambiano, mas tive a impressão de sentir menos calor ao ficar debaixo
dele. Normalmente, três minutos sob o sol de Gâmbia e minha pele estava suada e
avermelhada. O arfadiano, por sua vez, não ardia meus olhos quando o olhava e não
era agressivo a minha pele branca. Adorei!
Tarana olhou para o sol por alguns segundos e comentou:

43
— O sol já está no Terceiro-Dil.
— Terceiro o quê?

Então a elfa explicou:


— Para contar o tempo, costumamos dividir o céu arfadiano em oito pedaços
imaginários. O centro do céu é chamado de Neréia. Quando apontar sua mão direita
para a Estrela-de-Xiva, aquela pequenina lá...
Olhei e percebi com espanto que havia uma estrela no céu, mesmo durante o dia.
— ...terá a sua frente os primeiros quatro pedaços de céu. Atrás de você, estarão os
últimos quatro pedaços. Cada pedaço desses é um dil e o sol se encontra no terceiro
deles. Você pegará o jeito rápido.
— Acho que será mais fácil que entender a posição dos ponteiros de um relógio
gambiano — falei, entusiasmada. — Mas não há contagem de minutos ou segundos?
— Acredito que estes sejam as frações menores do tempo gambiano, não é? —
raciocinou a elfa. — Em Arfádia, utilizamos meio-dil para nos referirmos ao tempo
necessário para o sol e as luas percorrerem metade de um dil. Além disso, dizemos um
flu para metade de meio-dil. E meio-flu para a metade de um flu. Existem unidades
menores, mas quase não são usadas porque são impossíveis de perceber apenas
olhando para o deslocamento do sol e das luas. Você vai encontrar, em Londor e em
outros reinos, objetos mágicos que informam a exata posição do sol e das luas, mas
não pode contar com eles o tempo inteiro quando estiver em Arfádia. Deve aprender a
diferenciar os dils e reconhecer se o sol ou as luas já percorreram ou não meio-flu.
— Esquece o que eu disse sobre os ponteiros do relógio — resmunguei.
Tarana, que no início parecia não estar segura de para onde estava nos levando,
agora caminhava com confiança.
— Já estive aqui antes, caçando com papai — relatou. — Talvez meio dil até
chegarmos no castelo.
Mais à frente, alcançamos algumas árvores que tinham olhos e bocas em seus
troncos, como um rosto esculpido na madeira.
— Olha, Alteza. Falárvores — apontou Berbuto.
Algumas das falávores bocejavam como se tivessem acabado de acordar.
— Quem está aí? — perguntou uma delas, curiosa. — E por que estão fazendo tanto
barulho?
— Galho-Verde! — exclamou vovó, mostrando verdadeira alegria. — Há muito tempo
não vejo você!

A falárvore encarou minha avó por alguns instantes, tentando se lembrar de quem se
tratava.
— Acredito que já conversei com a senhora antes — falou, com certa dúvida.
— Sou eu, Felícia!

A falárvore então expressou felicidade tremenda. Até seus galhos começaram a


vibrar de excitação.
— Felícia, é você mesmo? Onde está Arteniel?

44
— Chegará aqui em breve. Tivemos alguns imprevistos na viagem.
— E onde estavam mesmo? No reino de Entrios? Por que não veio me visitar?

Vovó explicou que estava em uma missão nesse tempo todo com vovô e não poderia
revelar sua localização, mas disse que morreu de saudades de seu amigo falárvore. Por
fim, falou:
— Quero que conheça uma pessoa, Galho-Verde. — Vovó me chamou para
aproximar-me. — Esta é Scarlet Caspor.

A falárvore me olhou profundamente nos olhos. Senti como se ela pudesse ler meus
pensamentos e enxergar minha alma.
— Caspor, não é? Conheço este sobrenome de algum lugar.
— Ela é a herdeira de Alexandre e Alice Caspor. Princesa de Londor — anunciou
vovó.

De repente, houve um murmúrio entre as outras falávores.


— Ela disse herdeira de Alexandre Caspor? — perguntou uma.
— Princesa de Londor? — indagou outra.

Galho-Verde, por sua vez, parecia estar tendo um treco. Não conseguiu expressar
sua alegria.
— Pelo testículo de Telur! As lendas eram verdadeiras. A herdeira de Londor voltaria
para assumir o trono do pai.
Precisei cumprimentar todas as falávores que estavam ali plantadas antes de Tarana
informar que precisávamos voltar a andar. A elfa pediu que guardassem segredo quanto
ao retorno da princesa.
— Pode deixar, Srta. Alvinadare — falou Galho-Verde, pronto para provar que era de
confiança. — Este será mais um segredo entre tantos que protegemos.
Aquele foi meu primeiro assédio no mundo de Arfádia. Comecei a me sentir
importante, mas tomei cuidado para não me tornar uma menina boba.
— Os deuses sabem o quanto senti saudade daquela falárvore — confessou vovó,
depois que seguimos andando. — Quando pequena, sempre que discutia com meus
pais, corria para cá e ficava horas conversando com Galho-Verde. Mas, no dia seguinte,
ele já havia esquecido quase tudo o que eu havia dito.
Aquela confissão me obrigou a imaginar como fora a infância de minha avó. Indaguei
sobre isso a ela, em seguida.
— Deuses! Aqueles eram tempos mágicos e felizes. Eu cresci durante o reinado de
seu avô, Olívio Caspor. Após o tratado de paz com Entrios, o reino de Londor viveu
tempos maravilhosos. Sempre havia bailes no castelo de Londor e sempre arranjei um
jeito de entrar, mesmo sem ser convidada. Quando eu tinha 32 anos, conheci seu avô
em um desses bailes. Ele já fazia parte da Guarda Real, juntamente com a irmã Míriam.
Feiticeiros que protegiam o reino em qualquer situação de perigo. Ele tinha longo cabelo
loiro preso em um rabo de cavalo. É claro que me apaixonei. Ainda me lembro da
primeira canção que dançamos juntos.
— Há música em Arfádia? — fiquei aliviada. Um mundo não poderia ser mágico se
não tivesse a música, a mais mágica das artes.

45
— Claro que sim, querida. Nossos instrumentos musicais são bem parecidos com o
violino, harpa e a flauta. Acredito até que esses instrumentos de Gâmbia tenham dado
origem aos nossos forfaiom, gamú e flopa. Arfádia deve muito aos primeiros homens
por trazerem algumas maravilhas para cá.
Antes de sairmos da floresta, topamos com outra falárvore. Seu tronco era grosso e
cheio de musgo. Parecia ser uma falárvore muito velha. Ela nos encarou com um olhar
carrancudo e eu já suspeitava de quem se tratava.
— Troncocom — falou vovó. — Quanto tempo!
— Quem deixou que invadissem meu território? — quis saber, agressiva.
— Sou eu, Felícia. Lembra de mim?

A falárvore se esforçou para lembrar. E lembrou, mas a recepção não foi das
melhores.
— Então retornou a Londor?
— Sim. É uma longa história. Talvez um dia volte aqui para lhe contar.

A falárvore não pareceu muito interessada em ouvir a história.


— Quem são estes? — perguntou, olhando para mim, Tarana, Berbuto e Liquita. —
Espere, eu conheço alguns. Tarana Alvinadare, filha de Seilos Alvinadare, o atual rei de
Londor. Berbuto Bradaboque, filho de Espíbruto Bradaboque. Liquita Seixas, filha de
Arthur e Mília Seixas. — Troncocom me encarou por alguns segundos, tentando se
recordar se já me conhecia. — E quem é esta cara pálida?
Ele havia acabado de me chamar de cara pálida. Eu não estava acreditando que
havia sido insultada por uma árvore.
— O que foi que você disse? Quem você chamou de cara pálida? Liquita, me
empresta a sua espada — pedi, morrendo de raiva por causa das gargalhadas que a
falárvore soltava. — Eu vou cortar alguns galhos dessa árvore velha.
— Tudo bem, Alteza. Você vai se acostumar com o velho Troncocom — tentou me
acalmar Berbuto.

Aquilo não ia ficar assim.


— Esta é Scarlet Caspor, herdeira do trono de Londor — falou vovó.

A falárvore então ficou séria.


— A filha de Alexandre Caspor finalmente retorna a Arfádia?
— Como assim... “finalmente retorna”? Você sabia onde ela estava? — indagou
Tarana, desconfiada.
— Há muitos segredos que nós falárvores conhecemos, Srta. Alvinadare — falou
Troncocom, numa voz sombria. — Principalmente aqueles que acontecem na Floresta
Branca. Não escapam aos nossos olhos, embora muitos escapem a nossa fraca
memória.

Tarana pareceu preocupada.


— Seja como for, o retorno da princesa é altamente secreto e não pode jamais ser
comentado com outras criaturas. Para o bem de todo o reino de Londor e também de
Arfádia — falou a elfa.

46
Troncocom não gostou da insinuação.
— Saiba que o maior princípio de uma falárvore é sua honra, Srta. Alvinadare. Não
vá pensando que sou uma fada enxerida e fofoqueira. Agora, peço que saiam de minhas
terras e só voltem quando eu tiver esquecido de sua grosseria.

Então fomos embora. Eu não sabia se havia gostado de conhecer Troncocom.


— Você aprende a gostar dele, Alteza — disse Liquita, adivinhando o que eu
tinha em mente.

Lembrei-me de algo que a falárvore havia dito e que havia me deixado curiosa.
— Tarana, aquela falárvore disse que seu pai é o atual rei de Londor.
— Sim, mas ele é apenas um rei temporário. Foi escolhido para ocupar o trono após
a infeliz morte de Alexandre Caspor. E ficará nele até você completar vinte e oito anos
arfadianos, quando finalmente se tornará uma rainha.

Aquilo me assustou de verdade. Eu adorava o fato de ser uma princesa, mas ser uma
rainha significava assumir várias responsabilidades. E Tarana percebeu.
— Não se preocupe. Quando chegar a hora, você estará muito bem preparada.
— Espero que sim. Você disse vinte e oito anos arfadianos? Quantos anos arfadianos
tenho agora?

Tarana refletiu por um momento.


— Você nasceu no ano de 3433. Atualmente estamos em 3455 após o Calendário
Centáureo. Você já completou 22 anos arfadianos, mas não lembro a data em que
nasceu — confessou a elfa.
— Scarlet nasceu na data de Arno-38, o que fez dela uma Esculpida por Lítria —
falou vovó. — Estamos a quase três meses de seu aniversário de 23 anos.
— Eu tenho 22 anos? — perguntei assustada. — Vou precisar entender essa maneira
de se contar os anos. Então você não tem 58, vovó. Qual a sua idade de verdade, em
Arfádia?
— Bom, se Tarana diz que estamos em 3455, então estou com 96 e seu avô tem 116
anos arfadianos.
— Caramba! Vou chamá-lo de centenário quando ele voltar. Quanto, em média, um
humano vive em Arfádia? — perguntei.
— Geralmente você morre em guerras ou doenças arfadianas, mas, se tiver saúde e
proteção dos deuses, pode chegar a 250 anos arfadianos — informou vovó. — Lembro
de um caso raro de uma mulher que alcançou 289 anos. Não lembro o nome dela, mas
sei que era do reino de Anólia.
— Eu também quero viver até quase trezentos anos — falei.

Antes de finalmente deixarmos a floresta, conheci mais algumas criaturas arfadianas.


Os gogros eram semelhantes a ovos de avestruz, com olhos pequenos e pés de pato.
Caminhavam enfileirados pelo chão da floresta, fazendo algazarra de grunhidos. Tarana
explicou que eram inofensivos e que só não eram devorados por outros animais devido
ao gosto horrível de sua carne.
— As únicas criaturas que ouvi dizer que comem gogros são as mandráculas, plantas
carnívoras que, felizmente, você não encontrará mais em Londor — explicou Berbuto.
— Xiva ouviu as preces do rei Carnazu há uns duzentos anos para retirar as
mandráculas do reino, após o rei ter perdido dois de seus três filhos devorados pela
planta.

47
— Minha nossa! Que triste! — fiquei chocada. — E quem é Xiva?
— Xiva é esposa de Telur e também deusa das plantas. Ela é a deusa protetora do
reino de Londor. Você poderá rezar para ela quando estiver em apuros. Ela sempre te
ouvirá, embora nunca interfira nas ações de outras criaturas e nas de outros deuses,
como ordena Telur.
Eu sinceramente não me via orando para deuses arfadianos. Na verdade, meus avós
nunca nem sequer me ensinaram a rezar. Então, esse era um hábito que nunca tive.
Mais tarde, levei um susto quando vi uma planta da minha altura retirar as raízes do
solo e caminhar alguns metros, usando as raízes como pernas. A planta chegou até
debaixo de outra árvore enorme e voltou a enterrar as raízes no chão.
— Télula Cata-Sombra — explicou Tarana. — Como o nome já diz, ela não gosta
muito de sol e sempre sai à procura da sombra mais próxima, sempre que alguns raios
de sol começam a bater em suas folhas.
— Sei bem como ela deve se sentir — falei.

Então, finalmente deixamos a Floresta Branca e tive uma primeira visão do reino de
Londor. Havia montanhas e árvores ao longe. Sob um penhasco não muito distante, um
gigantesco castelo medieval com torres e bandeirolas. Uma construção de encher os
olhos.
— Aquele será seu novo lar, querida! — mostrou vovó, com os olhos úmidos ao rever
o local em que morou durante maior parte da vida, provavelmente desde que sua filha
se casara com o rei.

Não tenho palavras para descrever como eu estava me sentindo naquela hora. Havia
um lindo castelo a minha frente, no qual eu viveria o resto de minha vida. Era como nos
contos de fadas.
Tarana então retirou seu arco e flecha das costas e abaixou-se, preparando alguma
coisa. Eu olhei para os lados assustada, achando que estávamos sendo atacados. Ela
retirou algumas bolinhas estranhas da sua bolsa e espetou-as na ponta da seta.
— Estejam preparados para possíveis ataques — alertou a elfa. — É muito
improvável, mas Serses possui aliados onde nem imaginamos.

Fiquei próxima à vovó.


— O que você está fazendo, Tarana? — perguntei.
— Uma flecha sinalizadora. Você vai ver o que ela faz.

A elfa então colocou a flecha no arco, apontou para o céu e disparou. A flecha subiu
alto, e no caminho, deixou um rastro de fumaça vermelha, como um daqueles aviões
em Gâmbia. A flecha fez uma longa cauda vermelha no céu que, acredito, poderia ser
vista de muito longe.
— Estamos alertando alguém de nossa chegada? — perguntou vovó.
— Sim. Há uma patrulha aérea que vai nos acompanhar até o castelo — informou
Tarana. — É arriscado demais levarmos Scarlet desprotegidos até lá. Ordens de Míriam.

Confesso que me senti muito especial. Uma patrulha aérea para proteger e
acompanhar a princesa até o castelo? Alguém, por favor, conte isso à Maria Rita.

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Então, avistamos algumas áculas deixarem o castelo e voarem em nossa direção.
Voavam em formação de “V”, como os bandos de pássaros em Gâmbia, para que a ave
da frente bloqueasse o vento e facilitasse o voo da detrás.
Quando se aproximaram, desceram até nós. Eram sete no total. Todas as áculas
estavam ocupadas com um membro e três deles usavam capuzes para cobrir o rosto.
Só conseguir ver o rosto dos demais. Um deles era um anão com barba e cabelos ruivos
trançados. Havia também uma anã com cabelos ruivos, um garoto com cabelos cinza e
também uma elfa, com olhos de gato e orelhas grandes, como Tarana.
A elfa foi a única a sair de cima de sua ave e caminhar até nós. Ela era mais
velha e com feições menos acolhedoras do que Tarana. Aparentava ter dezessete
anos gambianos.
— Vocês são apenas cinco — falou, dirigindo-se à Tarana. — Onde está Arteniel
Wilson?
— Houve problemas em Gâmbia — Tarana esclareceu. — Fenir e alguns centauros
apareceram. Arteniel não pode entrar no portal a tempo.
— Mas está vivo? A feiticeira Míriam esperava poder rever o irmão.
— Ainda não sabemos. Mas ele estava em vantagem no conflito quando entramos
no portal. É provável que, em breve, com a ajuda da Atênia, ele retorne a Londor.
— Vamos torcer por isso. Agora, deixe eu me apresentar. Scarlet Caspor, bem-vinda
ao mundo mágico de Arfádia — falou a elfa, dirigindo-se a mim. — Sou Catara
Alvinadare, elfa londoriana. Acho que você já conhece bem minha irmã, Tarana.

Fiquei encantada em saber que Tarana tinha uma irmã mais velha.
— Sua irmã salvou a minha vida — falei. — Assim como Liquita e Berbuto.
— Estou orgulhosa. Tarana cumpre bem missões mais simples — respondeu a elfa,
não demonstrando nenhum pingo de orgulho na verdade.

Tarana fechou a cara e nessa hora reparei que havia um clima muito ruim entre as
irmãs elfas. Alguma coisa no passado havia afastado as duas. Preferi não falar mais
nada.
— Agora é hora de irmos — anunciou Catara. — É arriscado demais ficarmos
aqui parados. Vamos nos separar em duplas e retornar ao castelo voando. Tem
medo de altura, Scarlet?

Respondi que não. Mas menti. A verdade era que eu estava apavorada. Ninguém
havia me dito que eu precisaria voar em meu primeiro dia em Arfádia.
Fomos divididos em duplas, mas Berbuto teve que ficar com uma ácula sozinho para
não sobrecarregar a ave. Fiquei com Tarana, vovó com o anão ruivo e Liquita com
Catara. A anã e o garoto que eu ainda não conhecia foram juntos em uma ácula. Dois
dos encapuzados foram juntos e o terceiro também foi sozinho na sétimo ácula.
Tarana subiu primeiro; depois me ajudou a montar na ave. Uma linda ácula de penas
roxas. Eu estava com muito medo.
— Apenas segure bem forte e não olhe para baixo, Alteza. Essas pessoas estão aqui
para protegê-la e dariam as costas para amortecer sua queda se fosse preciso.

Não sei se aquilo me ajudou. Segurei firme nas costas da elfa e então a ácula subiu
voo, fazendo que o vento balançasse forte meus cabelos pretos. As outras aves também
subiram e juntos voamos em direção ao castelo de Londor.

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Acho que, no fim das contas, minha alegria e entusiasmo eram maiores do que meu
medo. Eu estava retornando para casa.

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Capítulo 6 - O Castelo de Londor

Levou pouco para alcançarmos o castelo. Permaneci de olhos fechados a maior parte
do tempo e, quando os abri, percebi que estávamos muito próximos da muralha, que
então se transformara numa gigantesca construção de pedras, quase impenetrável.
Havia soldados a postos em vários locais que com certeza teriam iniciado uma chuva
de flechas se fôssemos invasores. Mas, permitiram que as aves sobrevoassem e
atravessassem para dentro dos terrenos do castelo. Quanto mais nos aproximávamos
da construção, mais o castelo se tornava maior do que parecia. Percebi então que
começávamos a descer.
— Segure-se mais forte agora, Alteza — alertou Tarana, fazendo inclinar a nossa
ave.

Segurei o mais forte que consegui. Uma a uma, as sete áculas entraram na torre
mais alta do castelo, através de larga e comprida janela. Tarana fez a ave pousar
próxima às outras. Finalmente desci de cima da ácula e olhei para o ambiente. Ali
dentro, pelo que consegui ver, era o local onde as aves ficavam antes de sair para
missões do reino de Londor. Havia cerca de vinte delas, além das sete que acabaram
de entrar, empoleiradas em diferentes cantos da torre. Provavelmente quase toda a
frota aérea londoriana.

O chão da torre estava sujo de penas, fezes e ossos de animais pequenos que
haviam sido devorados. Não era um local agradável para ficar, mas preferi não
demostrar isso. Havia barulhos constantes de rufar de asas e, vez ou outra, um som
semelhante ao das águias gambianas.
Assim que Tarana desceu da ave, a ácula voou para se juntar às outras. Os outros
membros da patrulha também deixaram suas aves e vieram me cumprimentar. Fizeram
reverência e saíram um a um, até que finalmente ficamos vovó, Tarana, Catara e eu.
Berbuto e Liquita apertaram minhas mãos e confessaram estar ansiosos para rever os
pais; então também deixaram a torre. A irmã mais velha de Tarana se dirigiu a mim.
— Bem-vinda ao Castelo Real de Londor, Scarlet Caspor! — anunciou. — Este é seu
novo lar. Na verdade, antigo lar. Sei que não se lembra, mas já dormiu entre estas
paredes algumas vezes.
— Catara, será que a princesa pode ir para seus aposentos banhar-se e descansar?
— pediu vovó. — A herdeira de Alexandre presenciou muito em pouco tempo.
— Receio que ela terá de aguardar, Sra. Felícia. Recebi ordens para levá-la até a
feiticeira Míriam assim que entrasse na propriedade.
— A feiticeira aguardará o tempo necessário até que a princesa esteja pronta para
mais uma reunião e outras revelações — respondeu vovó, deixando claro que essa seria
sua palavra final.

Catara não gostou de ser contrariada, mas cedeu.


— Tudo bem, Sra. Felícia. Tarana mostrará onde Scarlet e a senhora ficarão.
— No quarto real, claro — retorquiu vovó, como se fosse algo óbvio.

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— Não poderá, Sra. Felícia — avisou Tarana. — O retorno da princesa ao
castelo deve ser tratado com absoluto zelo. Ninguém que não esteja na Lâmina
Londoriana poderá ter conhecimento deste fato. E, por motivos de precaução, a
princesa não ocupará seus aposentos.
— Entendo — disse vovó, reflexiva. — Mas muitos saberão que se trata da herdeira
de Alexandre quando puserem os olhos nela. Scarlet tem o rosto do pai e o
temperamento da mãe. Não será difícil para possíveis espiões ligarem os pontos.
— Quanto a isso, a feiticeira já se adiantou — informou Catara. — Ela enfeitiçou
todos os ocupantes do castelo para enxergarem um garoto sardento sempre que
olharem para Scarlet. Aliás — continuou a elfa, olhando para mim —, seu novo nome
é Rafael Seixas, um primo de Liquita que mora em Entrios.
— O quê? Todos vão me ver como um menino com sardas?

Aquela não seria a recepção calorosa que eu estava imaginando. Em minhas


imaginações anteriores sobre o momento em que chegava ao castelo, sempre havia
festas e brindes a minha saúde, seguidos de um coro coletivo de “Vida longa à Princesa
Scarlet!”. Mas, ao que parecia, boa parte dos londorianos não saberia sobre o retorno
de sua princesa. Muito chato.
— E quanto a mim? — quis saber vovó. — Muitos moradores ainda se lembram de
mim, mesmo tendo envelhecido bastante neste tempo que passei em Gâmbia. Que
desculpa poderei dar quando indagarem meu sumiço?
— Não se preocupe, a feiticeira também realizou um feitiço para você. Ninguém se
lembrará de você até que o feitiço seja retirado.
— Então não poderei rever meus amigos? — Vovó pareceu realmente triste.
— Somente aqueles da Lâmina. Caso perguntem quem você é, diga que é avó do
Rafael — instruiu Catara, apontando para mim.

Para sair da torre, era preciso descer uma enorme escadaria em espiral. Na metade,
minhas pernas já estavam doloridas. Catara voltou a nos alcançar.
— Mais uma coisa. Eu buscarei Scarlet em seus aposentos mais tarde para
conversar com a Lâmina Londoriana e também para descobrirmos finalmente o que
tem naquele baú.
— Que baú? E, afinal, o que é Lâmina Londoriana? — perguntei, curiosa.
— Em breve descobrirá, querida. Agora vamos descansar da viagem para você se
acostumar mais com Arfádia.

Então, não tive escolhas. Continuei descendo as escadas até finalmente alcançar o
terreno do castelo. Era coberto por uma espécie de gramado verde, mas reparei que
em alguns pontos a grama era avermelhada. Eu acho que caberiam dois campos de
futebol ali dentro. Algumas árvores ficavam do lado de dentro da propriedade. Anões,
homens e rufanontes trabalhavam ali perto, podando algumas plantas, cortando troncos
e empilhando madeiras. Caminhamos em direção ao que pareceu ser a entrada principal
do castelo. Tinha duas escadarias compridas que se encontravam na porta principal.
— Lembre-se, Scarlet. Você é um primo de Liquita chamado Rafael Seixas — avisou
Catara. — Veio passar uns dias com os tios no castelo de Londor. Mas não prolongue
muito a conversa. Seja alguém sem graça e passe despercebida.

Subimos as escadas e passamos pela entrada principal. Era uma construção


impressionante. O hall de entrada devia ter uns vinte metros de altura. As criaturas que
mantinham aquilo tudo limpo e organizado faziam um belo trabalho, pois a primeira
impressão era de encher os olhos com tamanho zelo e cuidado. Havia alguns quadros

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na parede que representavam momentos de glória do reino de Londor. Com certeza, eu
iria olhar para cada um com bastante atenção mais tarde, perguntar sobre a imagem
pintada e também sobre os pintores.
— Deuses! Como eu senti saudades destas paredes de pedra — comentou vovó,
quase dando pulinhos de alegria.

Lá dentro, para minha tristeza, mais escadas. Elas se dividiam e pareciam levar a
todas as partes do castelo. Levaria semanas até eu memorizar aonde cada uma delas
me levaria. O chão era coberto de mármore branco (na verdade, era uma pedra
arfadiana chamada de Melita, muito semelhante ao mármore. Mas isso só fui aprender
bem depois) e nas paredes havia candelabros apagados, uma vez que a luz do sol
entrava por diferentes janelas imensas. Toda a construção era muito bem iluminada. Do
teto, pendia uma enorme tapeçaria que tinha um brasão com um unicórnio e alguns
símbolos de estranha linguagem.
— Este é o brasão de Londor, querida. E o unicórnio é a representação de Xiva,
nossa deusa protetora.

Subimos mais escadas. Eu olhava atenciosa para cada detalhe do castelo: as


colunas, os retratos, os vasos com flores, o tamanho das portas e até os detalhes na
maçaneta.
Entramos em algumas portas. Catara se despediu e tomou um caminho diferente do
nosso. Tentei memorizar a sequência caso precisasse voltar sozinha aos terrenos do
castelo, mas me perdi após a quarta porta à direita, na terceira entrada à esquerda. Ou
seria a segunda? Não lembro mais.
Avistamos os primeiros trabalhadores da parte interior do castelo. Uma mulher descia
com bandejas de prata cheias de frutas e um anão lustrava uma das portas. Os dois
cumprimentaram Tarana ao avistá-la e quase que vovó deixou escapar uma exclamação
de surpresa ao rever uma criatura estranha que descia com alguns papéis em mão. Não
tinha como não olhar para a criatura e não se lembrar do bicho-pau de Gâmbia. Era
magra como um palito, dois pares de braços e tinha mais de dois metros de altura. Duas
antenas saiam de sua cabeça. O “bicho-pau” cumprimentou Tarana alegremente e fez
algumas perguntas.
— Não lembro de tê-la visto pela propriedade desde ontem à tarde, Srta. Alvinadare.
Estava em alguma missão longe do castelo?
— Bem longe, para falar a verdade — respondeu a elfa. — Papai está no Salão Real?
— Está. Refazendo a contagem dos tributos e bastante incomodado pelos desvios
de sempre. Algum espertinho cata uma moeda aqui, outra ali. Se juntássemos todo o
ouro e prata desviado por espertalhões desde o reinado de Emanuel Caspor, já teríamos
dinheiro para comprar o reino de Egélia inteiro. — A criatura então reparou em mim e
na vovó. — Temos hóspedes novos? Quem é este bravo jovem?

Caramba, como era mesmo o meu nome de menino?


— Rafael — respondeu vovó. — Meu neto e sobrinho de Arthur Seixas.
— É mesmo? — A criatura fez uma cara bastante desconfiada. — Não me lembro de
haver parentes dos Seixas pelas redondezas.
— Somos de Entrios — apressou-se a responder vovó. — Em todo caso, temos que
ir andando. A viagem foi longa e queremos descansar.
— Espero que a estada de vocês no Castelo de Londor seja a melhor possível.
Também preciso me apressar ou o rei me deixará louco com suas reclamações.

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Então o “bicho-pau” continuou a descer as escadas. Era engraçada a maneira como
ele abria as pernas finas para se locomover.
— Que criatura fascinante! — exclamei, depois de ele haver se distanciado um pouco
de onde estávamos. — O que é?
— Um grifinário — explicou Tarana. — As criaturas mais inteligentes do mundo
mágico. Sabem fazer cálculos com velocidade espantosa e possuem boa memória. O
Victerigo, por exemplo, esse que acabamos de conhecer, fala quase todas as sete
línguas em uso em Arfádia. Só perde para Roxana. Mas não conte com um grifinário se
precisar de força bruta. Eles correm do esforço físico e não sabem empunhar espadas,
embora sejam ótimos como espiões, escondendo-se em lugares que eu e você não
caberíamos.v
— E o que ele faz no castelo? Digo, qual o trabalho dele por aqui?
— Victerigo é a mão direita de papai. Sempre fazendo cálculos e opinando quando o
rei pede conselhos. Ele foi também conselheiro de seu tio Sajael e de seu pai, e o pai
dele foi conselheiro de seu avô e bisavô. Provavelmente ele também será seu
conselheiro, quando for rainha.
— Vou adorar perguntar as coisas para ele — confessei, imaginando futuras reuniões
importantes para o reino de Londor.

Então finalmente chegamos em um corredor largo que, para meu contentamento,


não tinha mais escadas. Como não continha janelas ali, as tochas e candelabros na
parede começaram a acender à medida que caminhávamos, como aquelas lâmpadas
econômicas no mundo dos homens que parecem saber quando você está por perto. Um
fogo colorido e diferente queimava e iluminava boa parte de onde estávamos. Tarana
parou na quarta porta do lado direito.
— Este será seu quarto provisório, Alteza, até finalmente poder ficar nos aposentos
reais. Míriam fez questão de que o quarto ficasse com o maior conforto necessário.

Ela abriu a porta e nós três entramos no quarto. Minha impressão era de estar
entrando em um palácio. Se aquele era meu quarto provisório, eu imaginava como seria
o quarto da rainha. Devia caber quase a nossa casa de Laguna inteira dentro dele. Duas
camas imensas, bem arrumadas; espelhos enormes; a mobília lembrava aqueles
móveis gambianos de séculos passados e as cortinas eram feitas com o mais macio
dos tecidos.
Tudo ali era impecável; o tapete, com o brasão de Londor; o mármore branco
(Melita) no chão; o lustre que pendia do teto e iluminaria o quarto magicamente à
noite; as paisagens londorianas pintadas em quadros pendurados na parede e até
os detalhes dos lençóis e fronhas. Como eu imaginaria que um lugar como aquele
estaria a minha espera?
— Gostou do quarto, Alteza? — sorriu Tarana, notando o brilho em meus olhos. —
Então vai adorar o banheiro.

Uma porta no quarto nos levou ao banheiro e meu queixo caiu. Enorme banheira
redonda com água e espuma ficava ao centro. Mais espelhos pendurados e uma pia
com torneiras de prata em um dos cantos. No outro lado, uma espécie de piscina com
água corrente que não sabia para que serviria. A água só ia até a cintura e o espaço era
o suficiente apenas para uma pessoa. A água ficava o tempo inteiro em redemoinho e
desaparecia magicamente no fundo da piscina, numa eterna e pequena correnteza.

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— E isto? Para que serve? — perguntei, mas, pelas bochechas rosadas de minha
avó, eu imaginei a resposta.
— Este é o depositório-corrente. Você tira a roupa de baixo, entra aí e libera suas
necessidades. A corrente de água se encarregará de transportá-las até a Grande Fossa,
atrás das muralhas — esclareceu Tarana sem o menor pudor.
— Então é uma enorme privada que está sempre dando descarga? — indaguei,
animada. — E você já sai de dentro dela de banho tomado. Adorei! Mas vou ter de tirar
a roupa toda vez que quiser fazer xixi?
— Não. Para urinar, você utiliza o xipé — explicou Tarana, me mostrando um
utensílio que parecia um grande funil. — Você urina aqui e faz o xixi cair no depositório-
corrente. Depois, é só lavá-lo usando a água do próprio depositório.
— Nunca me imaginei urinando de pé — confessei.q
— Veja estas torneiras, querida. — Vovó atraiu minha atenção para o restante do
banheiro. — Basta colocar as mãos em baixo que elas liberam água quente em dias
frios e água fria em dias quentes.
— Bom, então é aqui que deixo vocês duas — avisou a elfa. — Há um quarto aqui
do lado para a senhora, Felícia, mas receio que a feiticeira Míriam tenha destinado todo
o conforto à princesa. O seu é um pouco mais modesto. Eu ficaria neste se fosse você.
Tem duas camas e é grande demais para uma pessoa, não é mesmo, Alteza?

Claro que eu iria querer ficar com a minha avó por perto. Vai que eu escorregasse e
me afogasse naquela privada mágica.
— Tudo bem. Então, pode ir, Tarana. Vá se apresentar ao rei. Ele deve estar
querendo rever a filha — falou vovó.

A elfa fez um último aceno com a cabeça e se retirou. Eu mal podia conter a
felicidade.
— Este lugar é tão legal, vovó!
— Você ainda vai ver muitas maravilhas em Arfádia, querida. Agora, vou deixá-la
sozinha para tomar um banho. Vou separar algumas roupas limpas.

Eu não precisava fazer quase nada para utilizar o banheiro do meu quarto. As coisas
pareciam saber que você ia usá-las. Após entrar na banheira, por exemplo, levei um
susto ao ver o sabonete sair flutuando da pia e cair dentro da água ao meu lado. Havia
algumas misturas cheirosas ali perto que imaginei ser o que os arfadianos colocavam
nos cabelos. Mas, antes de colocá-las nos meus, dei um grito para vovó, perguntando
se eram xampus.
— Sim, querida. Mas chamamos de garmins e não xampus. São feitos pelas fadas
de Sirlíbia e costumam ter um valor elevado — vovó informou atrás da porta. — A
primeira vez que usei garmim nos cabelos foi em meu aniversário de 21 anos, um
presente de minha falecida tia Austácia.
Então voltei a me concentrar em meu banho, refletindo que aqueles luxos não eram
comuns em Londor e que boa parte dos londorianos por certo nunca tinha usado um
banheiro como aquele. Senti uma sensação de pesar. Como futura rainha, era meu
dever saber como viviam os londorianos e fazer o possível para ajudá-los.
Após um demorado banho, sequei-me com panos limpos e macios que flutuaram das
prateleiras até mim assim que me levantei da banheira. Não só eram quentinhos como
cheirosos. Eu ia acabar me acostumando mal. O cheiro delicioso do garmim havia se
espalhado por todo o banheiro.

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Encontrei roupas limpas que vovó tinha separado em cima da cama. Eram roupas
bonitas, mas bastante diferentes, como as que Tarana usava. Uma espécie de camisa
branca apertada por baixo e um tipo de casaquinho marrom que vovó me ajudou a
colocar e me ensinou como entrelaçar os fios à moda londoriana. Na parte de baixo,
usei um tipo de saia verde escura que ia até meu tornozelo, que descobri se chamar
seipla e que você apertava abotoando na parte detrás. Mas o que mais adorei nas
vestimentas foram o par de botas que ia até quase os joelhos. Testei dois pares antes
de encontrar um que me coubesse sem apertar ou ficar largo. Eu teria pago bem caro
se resolvesse comprar algo do tipo em Gâmbia.
— São feitas com couro de famplos, animais de Rambur muito parecidos com os
búfalos gambianos — informou vovó.

Depois, coloquei de volta a corrente de prata com a chave de minha mãe e penteei
os cabelos com pentes que pareciam feitos de concha de algum animal. Incrível como
aquele xampu mágico deixou meus cabelos com brilho e maciez no primeiro uso. Eu
ainda não era, mas já começava a me sentir uma rainha.
— Vovó, estou adorando este lugar — confessei, enquanto ela me fazia tranças. —
Se tivesse falado neste banheiro e nos xampus mágicos, eu teria aceitado vir para cá
no primeiro instante.

Vovó riu, mas em seguida ficou séria.


— Receio que sua vida aqui não será apenas alegrias, Scarlet. Que os deuses
protejam você se eu não puder estar por perto!

Eu estava ciente daquilo. Por isso, tentei não me apegar ao luxo naqueles primeiros
dias no castelo porque provavelmente eu não o teria mais quando deixasse a
propriedade. Mas meu desejo de recuperar a espada e vingar a morte de meus pais era
muito maior que a vontade de continuar sendo tratada como princesa.
Vovó também foi tomar banho e disse que depois iríamos à cozinha para comermos
alguma coisa (oba! Minha primeira refeição arfadiana!). Enquanto ela se banhava, fui
até a janela e fiquei olhando para os terrenos do castelo e para além das muralhas.
Era uma vista maravilhosa. Do quarto, eu conseguia ver um pedacinho da floresta
que acabamos de deixar para trás. A fumaça da flecha sinalizadora de Tarana ainda
podia ser vista no céu, embora estivesse quase desaparecendo. O sol estava bem no
centro do céu arfadiano. Devia então ser meio-dia, que os arfadianos chamavam de
Neréia.
Observei os trabalhadores lá embaixo, os guardas nas muralhas e as aves voarem
ali por perto. Vez ou outra, uma ácula passava por perto da minha janela carregando
alguém. Mas fiquei fascinada mesmo quando vi meu primeiro cavalo com asas voando
ao longe, próximo à Floresta Branca.
Quando saiu do banho, vovó já estava usando um vestido azul celeste com estrelas.
— Um verdadeiro presente dos deuses! Eu podia ficar naquela banheira até o Oitavo-
Dil.
— Nunca vi você com tamanho bom humor, vovó.
— Realmente estou feliz por ter voltado, querida. Mas, no fundo, estou preocupada
com seu avô. Sei que ele já passou por coisas perigosas, mas isso foi quando era jovem.
Estes anos todos em Gâmbia o enfraqueceram e o fizeram envelhecer. Eu daria

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qualquer coisa para descobrir como aquele conflito terminou. Será que a Atênia resolveu
a situação como sempre faz?
— Só nos resta esperar, vovó. Tenho certeza de que ele está bem.

E então, para alegria de meu estômago que já começava a reclamar, descemos


alguns lances de escadas e chegamos a um dos vários refeitórios do castelo. Duas
mesas compridas, capazes de acomodar cerca de vinte pessoas cada, estavam no
centro do refeitório e, nos cantos, vários pratos e panelas quentes repletas de comida
arfadiana. Três homens, duas mulheres e um elfo já estavam se alimentando em uma
das mesas e, na outra, estavam Liquita e um casal, provavelmente seus pais. Assim
que nos viu, Liquita nos chamou para sentarmos com eles.
— Aqui, querida. Vamos nos servir primeiro — murmurou vovó. — Vou te mostrar
algumas das iguarias londorianas.
Os talheres não eram muito diferentes em Arfádia, embora as colheres fossem mais
côncavas, semelhantes a conchas, e os garfos tivessem apenas duas pontas. Os pratos
eram fundos, quase como uma tigela.
Coloquei um pouco de tudo em meu prato, mas não exagerei na porção porque não
sabia que gosto teria. Havia grãos semelhantes a feijão, mas azuis, e que vovó explicou
ser ganá, sementes de uma planta comum em Londor. Havia também uma mistura
branca muito parecida com purê de batata que cheirava a laranjas.
— Siabo — explicou vovó. — Feito com lintim amassado e ovos de popro.

Encontrei também peixes assados, embora nunca tivesse visto peixes como aqueles,
e bastante variedade de carnes. Vovó sempre apontava o que minha mãe gostava de
comer e eu colocava o mesmo no prato. Se minha mãe gostava, eu precisava provar.
Após encher meu prato com um pouco de cada alimento, fui me sentar com Liquita.
Vovó se juntou a nós em seguida.
— Alteza, quero que conheça meus pais — falou Liquita, com a boca cheia de siabo.

Os pais de Liquita me cumprimentaram alegremente e pareceram muito encantados


de me conhecer. Não sabia se estavam me vendo como Scarlet Caspor ou como um
garoto, mas Liquita tirou minha dúvida:
— Não se preocupe. Eles estão na Lâmina Londoriana — confessou, baixinho. —
Sabem quem você é.
— É um prazer tremendo finalmente conversar com a herdeira de Londor. Meu nome
é Arthur Seixas e minha esposa se chama Mília Seixas. Lutamos junto com seu pai na
Batalha de Azulbar — falou o pai de Liquita, que tinha os mesmos cabelos cor de palha
que os da filha.
— Eu é que estou orgulhosa de conhecer os pais de Liquita. Quero que saibam que
a filha de vocês impediu que um centauro me atacasse.

A garota ficou enrubescida e seus pais não podiam ter ficado mais satisfeitos.
— Liquita contou-nos o que aconteceu no mundo dos homens — continuou Arthur.
— Tivemos sorte de Míriam tê-los enviado a tempo. Se os servos de Serses tivessem
encontrado você antes deles chegarem...
— Eu teria ficado muito mais apavorada do que fiquei quando avistei Tarana, com
suas estranhas orelhas. — Eles riram.

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— Melhor deixarem esta conversa para quando estiverem na sede da Lâmina —
alertou vovó. — Infelizmente já tivemos problemas por falarmos demais neste castelo.
Nunca sabemos em quem confiar.
— Esses tempos já se foram, Felícia — rebateu Mília. — Serses não possui mais
tantos aliados. Está fraco e ninguém é tolo de unir-se ao dragão sabendo que o reino
de Londor ainda tem a posse da espada Zárfia.
— E o que houve com Jercuti? Não foi uma traição? — insistiu vovó.
— Ainda não conseguimos saber se houve uma traição, Felícia — rebateu Arthur.
— Mas não podemos dizer que já temos a posse da espada. Então, sejamos
cautelosos — implorou vovó. — Experimente a comida de Arfádia, querida, ou vai ficar
fria.

Então comecei a saborear a refeição. Era ótima. Adorei o ganá e principalmente as


carnes e os peixes arfadianos. Não dá para explicar a sensação de comê-los, apenas
provando mesmo. Mas estaria mentindo se dissesse que gostei de tudo o que estava
no prato. Não gostei das verduras que pareciam cenouras, mas tinham gosto de agrião,
e os molhos eram muito ardidos, como se tivessem muita pimenta ou algo semelhante.
Não era possível que mamãe gostasse daquilo. Para beber, havia um suco de frutas
arfadianas chamadas de afarfas. Era refrescante, mas parecia não ter gosto.
Quando terminei de comer, insisti para que Arthur me contasse mais sobre as
batalhas que lutou ao lado de papai e outras histórias interessantes, mas como o
refeitório já estava bastante cheio, vovó pediu para que parássemos de conversar ou
chamaríamos atenção de ouvidos atenciosos.
Então, nos despedimos de Liquita e seus pais e fomos para nosso quarto outra
vez. Vovó ia me explicar o que os arfadianos faziam para limpar os dentes e manter
um hálito refrescante.
No banheiro, descobri que o fentol, a habina e o sestro eram usados para retirar
restos de comida dos dentes e também para dar um gostinho bom na boca após as
refeições. Vovó explicou que nem todas as criaturas e reinos tinham esse hábito.
Primeiro porque esses produtos de higiene bucal eram um gasto que poucas criaturas
poderiam se dar ao luxo de ter. Segundo porque, em Arfádia, não havia tantos
problemas bucais como existiam em Gâmbia. No máximo, você poderia nascer com
dentes tortos ou com alguma doença que fazia os dentes caírem ou crescerem demais.
Mas sempre havia feiticeiros que curavam esses males e te devolviam um sorriso
perfeito em troca de algumas moedas. O hábito de melhorar o hálito após as refeições
foi levado a Arfádia pelos homens e, atualmente, principalmente em conversas da
realeza ou entre autoridades, era um desrespeito estar com os dentes sujos ou com
cheiro de peixe. Mas vovó me alertou para não esperar o mesmo entre as criaturas mais
humildes. Eu, como futura rainha, deveria entender e respeitar os hábitos (ou a falta
deles) de cada criatura.
Vóvó anunciou, olhando para a sombra da muralha do castelo, que já estávamos no
Quinto-Dil e poderíamos aproveitar para conhecer outras partes da propriedade antes
que Catara fosse me chamar para alguma reunião secreta com a irmã de meu avô. Eu
estava doida para conhecer outros lugares mágicos e especiais do castelo, mesmo que
isso significasse descer e subir escadas.
Então, conheci a biblioteca, no terceiro andar, com seus quase cem mil livros
dispostos em estantes gigantes. Uma elfa e um grifinário cuidavam do local. Vovó
explicou que menos de dez mil títulos estavam em nosso idioma e que a grande maioria
estava em fílix, a língua élfica, e que eu iria começar a aprendê-la em breve.

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— Sério? Eu vou aprender a falar élfico?
— É impossível viver em Arfádia sem falar pelo menos o fílix — explicou vovó. — A
Língua Portuguesa só é falada em Londor e Entrios, após uma rainha que viveu
aproximadamente no ano de 1100, chamada Nan Federici, ensinar o idioma para nosso
reino e declará-lo como idioma oficial. Nan Federici era gambiana e se tornou esposa
de um dos reis londorianos da época. Entrios também adotou o idioma mais tarde a fim
de facilitar as diversas transações que fazia com Londor.
— Tenho muito a agradecer a essa rainha ou eu estaria passando maus bocados
agora. Quando começo minhas aulas de... como é mesmo o nome?
— Fílix. Provavelmente ainda esta semana. Venha ver alguns livros em fílix.

Vovó puxou um livro de capa grossa e com algumas gravuras em baixo relevo do alto
da terceira prateleira. O livro estava bastante empoeirado e fez que eu espirrasse duas
vezes seguidas. Vovó o abriu e percebi que eu não podia compreender nada do que
estava ali. Era uma escrita fina, com muitos riscos que mais pareciam ter saído daqueles
equipamentos médicos usados para saber como está o ritmo de seu coração. Eu não
me achava capaz de aprender aquilo um dia.
— Também fiquei apavorada na minha primeira aula de fílix. Mas confie em mim.
Você vai pegar o jeito.

Então vovó leu algumas das frases do livro e descobrimos que era sobre uma das
guerras ocorridas nos primeiros séculos de Arfádia, entre gigantes e anões.
— Um pouco injusto, não acha? — comentei. — Não tem ninguém para dividir as
guerras por peso máximo, como nas lutas de box da televisão?
— Existem regras na guerra, criadas pelo deus da guerra Falibar, mas peso máximo
não é uma delas — disse vovó, rindo com meu comentário. — Mas aqui diz que os
anões saíram vencedores após produzirem um escudo mágico que suportava e repelia
os socos e murros dos gigantes.
— Poxa, devia ser um escudo bem forte.
— Sim, está aqui. Veja. Vou traduzir para você:
A guerra entre anões e gigantes, que aconteceu nos
primeiros séculos arfadianos, é prova de que uma guerra
nem sempre é decidida por força bruta ou tamanho. O
Escudo de Arnok foi...

Nesse ponto, vovó parou para pensar, como se procurasse a melhor tradução para
a palavra da língua fílix. — Acho que “forjado” seria o mais adequado. Isso mesmo,
vamos continuar:
O Escudo de Arnok foi forjado nas montanhas de Arnok,
no reino de Derdídia, atual Egélia, pelos anões derdidianos
por volta de 3450 antes do Calendário Centáureo.

Usando de magia profunda a que só os anões eram


capazes na época, transmitiram ao objeto o poder de
suportar e repelir qualquer impacto. Um guerreiro anão,
Típaro Vordevalzi, invadiu a tribo dos gigantes durante a
noite e cortou a garganta do gigante e líder Captá. Típaro
jamais poderia ter saído vivo da tribo sem o Escudo de Arnok,
pois todo o resto do grupo já havia acordado com os últimos
urros de Captá.

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No dia seguinte, sem seu líder, os gigantes estavam
desorganizados e guerreando entre si, o que os fez serem
derrotados em todas as batalhas que se seguiram.

Mais tarde, o novo líder Sarpotim rendeu-se aos anões


por volta de 3444 antes do Calendário Centáureo.

— Que legal, vovó! Quero um destes para mim.

Vovó gargalhou, o que fez com que o grifinário que cuidava da biblioteca pedisse
silêncio. Vovó prometeu a ele que nos comportaríamos e quase que o chamara pelo
nome. Ela o conhecia, mas, segundo Catara, nenhuma criatura do castelo se lembrava
dela. Então, voltou a atenção ao livro.
— Receio que não será possível, querida. Diz aqui que o objeto foi protegido por
gerações de anões e nunca mais foi visto em Arfádia. Alguns até afirmam ser lenda e
que os registros verdadeiros da época não incluíam nenhum escudo mágico. E que o
líder Captá, na verdade, foi morto pelos outros gigantes em discussão sobre a comida.
Seja como for, se eu encontrar um desses um dia, darei a você de presente.
Depois, olhamos mais alguns títulos. Entre os de Língua Portuguesa, estavam:

– Cem Maneiras de Cozinhar Popros


– Aventura Gelada nas Montanhas dos Gritos
– Oitocentas e Oitenta e Oito Plantas Arfadianas
– Guerras Élficas
– Aventuras Atenianas no Mundo de Gâmbia
– Como Tratar Mordidas de Pestrálios
– Curiosidades Gambianas
– Vestimentas de Todos Os Reinos: Saiba como Ficar Elegante Aonde Quer Que

– O Reino Submerso De Átila: A Casa das Sereias
– Como Criar Filhotes De Dragão
– Cem Contribuições Magníficas da Raça Humana à Arfádia: Por Que Devemos
Amar Todos os Homens
– Feiticeiros Malignos na História Arfadiana
– Receitas de Peixes e Outras Criaturas Aquáticas
– Contos para Crianças
– Poções e Amuletos Mágicos
– Trinta Maneiras de Envenenar Alguém Sem Ser Descoberto
– Alexandre Caspor e a Batalha de Azulbar
Esse com certeza eu iria querer ler.

– Aprendiz de Feitiçaria: Conheça os Poderes Mais Básicos de um Feiticeiro


– As Quinhentas Invenções Mais Importantes da História Arfadiana
– Línguas Arfadianas e a Origem das Palavras
– A Lenda do Escudo de Arnok
– Deuses Arfadianos
– Cavalos: Como Esses Maravilhosos Animais de Gâmbia Fizeram de Arfádia um
Lugar Ainda Mais Mágico.

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— Vovó, posso levar alguns para ler no meu quarto? — Eu estava doida para
absorver o máximo de conhecimento sobre Arfádia.
— Acho que não poderá, querida. Lembre-se de que você está aqui apenas como
um sobrinho dos Seixas, visitando o castelo. E visitantes não têm permissão para retirar
livros da biblioteca. Mas você poderá vir aqui, sentar e ler o máximo que conseguir.
— Tudo bem. Farei isso assim que acordar amanhã.

Antes do fim da tarde, vovó me mostrou o Salão das Memórias Reais, em uma das
torres do castelo. Lá dentro havia dezenas de pinturas e objetos de diferentes reis e
rainhas da história londoriana. Havia objetos datados de antes do Calendário Centáureo,
ou seja, antes do ano zero, quando o reino de Londor se chamava Londória e os
humanos ainda não haviam começado a entrar no mundo mágico. Roupas, espadas,
bilhetes, penas de escrever, sapatos e (que nojo) até um dente de uma rainha anã de
4000 anos atrás.
Era incrível conhecer a história do reino de Londor através daqueles objetos
pessoais, mas, óbvio, a sessão que mais me deixou fascinada foi a da família Caspor.
Roupas pessoais que pertenceram a Emanuel, meu bisavô; uma pintura de Olívio
Caspor, meu avô; o elmo utilizado por Alexandre, meu pai, na Batalha de Azulbar e até
algumas roupas de bebê que, segundo a inscrição no vidro, pertenceram à Scarlet
Caspor.
— Eu usei isso? — indaguei, mas vovó colocou o dedo nos lábios e pediu para eu
falar baixo. Apenas uma mulher estava na torre conosco.
— Foi eu mesma quem comprou esta roupinha em uma viagem a Entrios com seu
avô. Sua mãe ainda estava grávida, Serses havia sido destruído e não sabíamos de seu
retorno. Eram tempos de festas e comemorações. Estávamos tão felizes.

Depois, fiquei admirando pulseiras e colares de minha mãe.


— São todas lindas. Mamãe devia ser bastante vaidosa.
— Ela não perdia a chance de ficar bonita — lembrou vovó. — Não foi à toa que
Alexandre a pediu em casamento apenas um dia após o primeiro beijo.

Se dependesse de mim, eu ficaria ali pelo resto do dia, mas, como o sol já estava
quase no Oitavo-Dil e a noite logo viria, vovó me levou de volta ao quarto.
Fiquei olhando pela janela a noite se aproximar e vi pela primeira vez as luas
arfadianas subirem no horizonte. A primeira a surgir, Diágira, era menor que a segunda,
Diana. Vovó explicou que, ao contrário de Gâmbia, elas estavam cheias todas as noites.
Claro, porque uma vez que as luas arfadianas possuíam luz própria em vez de refletirem
a luz do sol, não havia motivos para os formatos minguante ou crescente. Era esquisito
ver duas luas no céu a noite, mas confesso que achei muito bonito.
— Que bom que não há mosquitos em Arfádia — comentei, reparando que nenhum
deles havia entrado pela janela aberta.
— Aqueles animaizinhos de Gâmbia me deixavam louca — riu vovó. — Mas aqui em
Arfádia você se incomodará com os gritões, que fazem um barulho chato e comem
madeira. Mas apenas no mês de Cano, quando saem para se alimentar e procriar.
— Isto já é um alívio.

Então bateram na porta. Vovó foi abrir. Não era Catara, como imaginamos que seria.
Era uma senhora alta com roupas verde-esmeralda e os cabelos pretos enrolados em

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um coque e presos com uma agulha. A senhora possuía um grande número de colares
e pulseiras e sorriu ao ver vovó.
— Você envelheceu muito durante estes anos em Gâmbia, Felícia. Deuses, como
está acabada!as

Vovó não se ofendeu. Ao contrário, sorriu de uma maneira que raramente fazia.
— É bom ver você também, Míriam.

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Capítulo 7 - Lâmina Londoriana

Vovó trocou um longo e carinhoso abraço com a feiticeira. Parecia realmente que se
gostavam e que sentiram falta uma da outra.
— Como é bom rever você, Felícia.
— Eu digo o mesmo, Míriam. Sentimos muita falta de sua sabedoria e conselhos.
Arteniel se perguntava “o que Míriam acharia disso?” sempre que estávamos indecisos
sobre qual atitude tomar.
— Soube do que aconteceu com Arteniel — disse Míriam, consolando vovó. — Não
se preocupe. Formarei um grupo para ir buscá-lo e procurar notícias dele em breve.
— Você acha que há alguma chance de ele estar...? Você sabe.
— Morto? Sinceramente acho que seriam necessários cinco ou seis feiticeiros como
Fenir para matar meu irmão.

Vovó agradeceu em silêncio o consolo da feiticeira; depois, se dirigiu a mim.


— Querida, quero que conheça a minha cunhada, a feiticeira Míriam.

A feiticeira sorriu quando me aproximei. Olhando bem, você percebia as


semelhanças entre ela e meu avô. A boca e os olhos eram idênticos.
— Você é a cara de seu pai, Scarlet.
— Vovó me falou — respondi, envergonhada.
— E como se sente em Arfádia? Já se acostumou com esse lugar?
— Acho que ainda vai demorar um pouquinho — brinquei.
— Onde está aquela chave de prata de sua mãe? — perguntou a feiticeira.

Puxei a corrente de dentro da roupa e mostrei a chave pendurada.


— Ótimo. Vamos precisar dela. Mas antes teremos de realizar sua iniciação na
Lâmina Londoriana. Já imaginou fazer parte de uma sociedade secreta? É melhor irmos
andando, venha.

Saí do quarto achando que vovó iria conosco, mas, como ela não saiu, olhei
para ela confusa.
— Eu não faço parte da Lâmina, querida. Apenas o seu avô. Vá com Míriam. Ela tem
esse rosto rude, mas não morde.
Então vovó fechou a porta do quarto e me senti um pouco apreensiva. É estranho
ficar sozinha com alguém que não conhecemos ainda.
— Não tenha medo, Scarlet. Venha.

A feiticeira me deu a mão e caminhamos não para as escadas, como era preciso
fazer para ir às demais partes do castelo, mas em direção ao fim do corredor. Ela usava
uma espécie de tamancos de salto bem alto que faziam barulho sempre que pisava no
chão de madeira. As tochas penduradas na parede acendiam à medida que
passávamos por elas.

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— Quero te mostrar uma maneira mais rápida de ir a diferentes partes do castelo
sem precisar das escadas. São objetos bem raros. O castelo de Londor possui apenas
três pares deles.

Comecei a ficar curiosa. No fim do corredor não havia nada além de um enorme
espelho. O objeto era cheio de detalhes magníficos incrustados na moldura. Algumas
letras em língua estranha e vários desenhos de sol, olhos e espirais. Era possível ver
nossa imagem de corpo inteiro, lado a lado. Aproveitei para arrumar os cabelos.
— Sabe o que é isso, Scarlet? — A feiticeira tinha um sorriso, apontando para nossa
imagem no espelho.
— No mundo dos homens, chamamos de reflexo. Estudei durante as aulas de física;
aparecem em superfícies lisas e polidas, sempre que a luz é reenviada...

Míriam riu da minha resposta. Ela não estava se referindo ao reflexo e sim ao espelho
em si.
— Este é um Espelho de Mago, capaz de te transportar a diferentes locais.
— Poxa! Sério mesmo? Acho que já li em alguns livros infantis em Gâmbia. Você
entra neles e aparece em lugares desconhecidos.
— Não desconhecidos. Os Espelhos de Magos são feitos aos pares. Você sempre
vai aparecer no espelho par quando entrar por este aqui. E poderá voltar para cá quando
entrar no outro.
— E onde está o par deste?
— No alto da Torre Norte. É para lá que iremos agora. Está pronta?
— Talvez. É a mesma sensação horrível de entrar em um portal para Arfádia?
— Aquele é um pouco mais desconfortável.

Respirei fundo e avancei para o espelho.


— Basta seguir em frente?

A feiticeira confirmou com a cabeça.


Então, coloquei minha mão na superfície do espelho e, como esperado, minha mão
afundou. Era como se eu estivesse entrando em um lago gelado, com exceção de não
ficar molhada. Tomei coragem e coloquei a cabeça dentro do espelho. Caramba! Que
calafrio!
Então olhei do outro lado e vi que havia uma sala circular, vazia e bem iluminada.
Alguns segundos e meu corpo estava completamente fora do segundo espelho.
Aguardei pela feiticeira, que surgiu logo depois.
— Gelado, não é mesmo?

Em seguida, pegou minha mão outra vez para me indicar o caminho. Caminhamos
para subir algumas escadas.
— Ainda acho que são melhores que aquelas escadas todas. Esses espelhos
costumam ser caros? Você disse que só há três pares deles no castelo.
— Você não consegue um daqueles por menos de 600 moedas de prata. Existem
alguns Espelhos de Mago ainda mais poderosos, capazes de te levar a lugares
distantes, como a outros reinos, que chegam a custar 2000 moedas de prata. Mas são
difíceis de encontrar e estritamente controlados em Arfádia. Você não ia querer um
espelho desses em seu reino se não tivesse um rígido controle de quem estará entrando

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no espelho par. Nenhum rei aceita isso. Dezenas de ataques em Arfádia aconteceram
após alguém infiltrar um Espelho de Mago em lugares estratégicos.
— Compreendo perfeitamente.
— Além disso, devo pedir para sempre ter certeza de onde está o segundo espelho.
Já houve casos de pessoas que modificaram a posição de um dos espelhos para
capturar ou matar alguém.

Fiquei em choque e olhei para a feiticeira espantada.


— Claro. Se alguém pudesse modificar o local do espelho do qual saímos e pendurá-
lo no lado de fora desta torre, você despencaria assim que o atravessasse. Por isso
prendi o espelho à parede com um feitiço aderente poderoso. Não teremos problemas
com isso aqui no castelo. Em todo caso, você sempre poderá olhar o que tem do outro
lado antes de atravessar por completo um Espelho de Mago.

Chegamos ao que parecia ser o alto da Torre Norte. Uma sala também redonda com
vários troféus e taças de prata, ouro e bronze.
— Chegamos à Sala das Glórias. Prêmios de participação esportivas e medalhas de
guerra entregues a diversos londorianos. Há vários aqui de seus parentes, mas não
vamos olhar nada agora. Não temos tempo.
— Existe esporte em Arfádia?
— Existe sim. Póprula, a famosa corrida de popros; o divertido equinimbus; jianca, a
caça aos ovos de dragão; competições de arco e flecha, como o disputado torneio
Elgun, apenas com participação de elfos; acúbia, a corrida de áculas onde será
necessário mudar de ave em pleno ar três vezes; o horrível cavália, proibido em Londor
desde 1770 do Calendário Centáureo, um esporte onde o objetivo é chegar o mais
distante possível com seu cavalo sem asas, até que este sucumba ao cansaço e morra.
Quando o animal morre, auxiliares marcam o local e calculam a distância do ponto de
partida, comparando com as distâncias percorridas pelos demais competidores.
— Credo! Isto é bárbaro.
— Eu sei. E infelizmente muito praticado em outros reinos, como Egélia, Centúria e
Elfízia. Mas temos um esporte brilhante entregue aos grifinários do reino de Anólia pela
própria deusa Xadra e que sei já ter sido levado para Gâmbia e praticado por lá.
— Sério? Qual é?
— O xadrez.
— Xadrez foi inventado por uma deusa? Eu amo jogar xadrez com vovô. Eu sabia
que aquele jogo era divino.
— Então em breve te chamarei para uma partida em minha sala.
— Vá se preparando. Vovô costumava perder todas.

A gente caminhou entre os diferentes troféus e de repente parou em frente a uma


prateleira de medalhas.
— Estas medalhas foram dadas a guerreiros de Londor após participação na Guerra
da Libertação, durante os Anos Sombrios há pouco mais de um milênio. Agora, são
objetos transportadores que nos levarão à sede da Lâmina Londoriana.
— Transportadores?
— Sim, mas antes de utilizarmos estes objetos, há algumas coisas que precisam
ser ditas: A Lâmina Londoriana é uma sociedade secreta que foi fundada por
Alexandre Caspor para proteger e esconder a espada Zárfia dos aliados de Serses
e de qualquer outro com interesses pessoais na espada que não fossem o de
proteger o reino de Londor.

Confirmei que entendi com um aceno de cabeça.

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— Geralmente há um ritual de iniciação onde o novo membro promete nunca
revelar o que é dito entre os membros da sociedade, mas, sendo você quem é,
poderemos resumir algumas partes, uma vez que qualquer traição sua é improvável
e vai prejudicar você mesma, além de todo o seu reino e os sonhos de seus pais
de ver Arfádia livre do feiticeiro. O objetivo do grupo tem sido o de proteger sua
localização em Gâmbia e em breve será o de localizar a espada Zárfia, nos dando
poder para proteger o reino de Londor e um dia destruir a ameaça de Serses. Você
promete proteger os segredos da Lâmina?
— Eu prometo. Prefiro morrer a trair a sociedade fundada por meu pai.
— Ajoelhe-se.

Obedeci e me ajoelhei no piso frio da torre. A feiticeira pôs uma das mãos em minha
cabeça. Sua mão ficou envolta por uma chama azulada. Abaixei a cabeça,
amedrontada, mas a feiticeira me tranquilizou.
— Relaxe. Este é apenas um feitiço de batismo. Ninguém que não o tenha recebido
poderá entrar na sede da Lâmina. As paredes do local são enfeitiçadas para expulsarem
qualquer intruso.

A feiticeira começou a falar baixinho numa língua estranha e a chama azul


parecia estar entrando em meu corpo. Senti uma leve coceira em cima da cabeça,
por onde a chama entrava.
— Agora, pode levantar-se. Você é o mais novo membro da Lâmina Londoriana.

Míriam retirou duas medalhas da prateleira.


— Lembre-se: você só poderá entrar na sede da Lâmina quando esta torre estiver
vazia. Se houver empregados do castelo por aqui, o que é bastante raro, deverá esperar
que saiam. E apenas as medalhas de honra da Guerra da Libertação são a chave para
te levar até a sede.
— Entendi. Apenas com a torre vazia e somente as medalhas desta prateleira, da
Guerra da Libertação.
— Ótimo, agora quero que memorize estas palavras.

Míriam me mostrou algumas palavras escritas a mão em um pedaço de papel: líbia,


Neptar e adulima.
— O que é isso?
— Apenas memorize.

Li mais uma vez as palavras e memorizei. Quando confirmei ter memorizado, Míriam
incendiou o papel com as mãos.
— Aquelas foram as senhas para entrar na sede. Uma para cada mês, a começar
pelo mês atual. Não sei se sabe, mas estamos a três meses do fim do ano.
— Tudo bem. Devo usar a primeira palavra da lista para este mês e, assim que
iniciarmos o próximo, a segunda palavra?
— E no próximo, a terceira. Assim que iniciarmos um novo ano, crio outras sete
palavras, pois o ano arfadiano tem sete meses, e peço a todos os membros para
memorizarem.
— Entendi.
— Ótimo. Agora coloque a medalha no pescoço e diga: “Sou um membro da Lâmina.
A senha é…” e complete com a senha atual.

Fiz o que ela ordenou.

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— Sou um membro da Lâmina. A senha é líbia.

Mal eu terminei a frase e houve um estalo e um clarão de luz. Tudo aconteceu


depressa e em instantes eu já não estava na companhia da feiticeira. Eu estava
em uma sala redonda, bem iluminada por dois lustres mágicos que pendiam do
teto. O chão era coberto de piso de madeira e havia uma lareira na parede. Uma
enorme mesa circular estava no centro e quase todos os lugares estavam
ocupados. Anões, homens, mulheres e rufanontes começaram a aplaudir de pé
assim que surgi na sala, me dando boas-vindas.
Eu já conhecia várias das criaturas: Tarana, Catara, Liquita, Berbuto e os pais de
Liquita. Também reconheci o garoto de cabelos cinzas, a anã e o anão que tinham ido
nos buscar na Floresta Branca. Estavam todos com medalhas no pescoço, como eu.
Havia um rufanonte adulto, com um chifre enorme no lugar do nariz, capaz de atravessar
um homem forte. Caramba!
E havia também uma elfa de duas cabeças e cada um dos pescoços tinha uma
medalha também. Tentei não ficar olhando.
Aquela recepção me surpreendeu. Lembro de ter ficado com as bochechas rosadas
quando iniciaram o coro: “Scarlet! Scarlet! Scarlet!”.
A feiticeira Míriam apareceu em seguida e pediu que me sentasse em um dos
assentos. Liquita e Tarana abriram espaço para que ficasse entre elas. Fiquei muito
feliz naquele momento.
Sorri para todos na mesa, mesmo para aqueles que ainda não conhecia e fiquei
admirando a sala enquanto Míriam se ajeitava em sua cadeira.
— Bom, quero dar início a mais uma reunião da Lâmina Londoriana — começou
Míriam. — Como sabemos, esta é uma noite especial porque finalmente temos conosco
a herdeira de Alexandre Caspor, a futura rainha de Londor e futura dona da espada
Zárfia. Ela foi o motivo de quase todas as nossas reuniões anteriores, direta ou
indiretamente, e seu nome foi citado nesta sala pelo menos algumas centenas de vezes
desde que partiu para Gâmbia com Arteniel e Felícia Wilson.

Eu tentei ao menos fingir que não estava me achando. Mas era difícil. Caramba!
Como era difícil ser humilde quando todos te olhavam como se fosse muito especial!
— Então, eu gostaria de mais uma salva de palmas de boas-vindas e à saúde
de Scarlet Caspor.

Toda a mesa mais uma vez bateu palmas. Agradeci a todos, inclusive para ambas
as cabeças da elfa.
— Tudo bem — falou Míriam. — Antes de falarmos sobre o que realmente interessa,
quero que cada um de vocês se apresente a Scarlet, que ainda conhece poucos. A
começar por mim e seguindo pela minha esquerda até completarmos o círculo. Vamos
lá. — E olhando agora para mim: — Eu sou Míriam Mirlin, feiticeira ramburiana, mas seu
avô e eu saímos de lá bem cedo e fomos “adotados” por Londor, por assim dizer. Estou
na Lâmina Londoriana desde que foi fundada por seu pai.

A feiticeira passou a vez e o pai de Liquita se apresentou.

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— Eu sou Arthur Seixas, humano arfadiano e espadeiro do Exército de Londor. É
assim que em Arfádia chamamos aqueles que lutam com espadas. Também estou na
Lâmina desde a fundação.
— Mília Seixas, humana arfadiana, nascida em Londor. Sou enfermeira e médica do
castelo. Acompanho os membros em alguma missão perigosa para tratar possíveis
ferimentos. Entrei na Lâmina com Arthur, convidados pelo próprio Alexandre.
— Seilos Alvinadare, elfo londoriano e líder dos Arqueiros do Exército de Londor.
Atualmente cumpro a missão de governar Londor temporariamente, até que a
verdadeira herdeira assuma o trono. Entrei para a Lâmina após a morte de Alexandre.
— Catara Alvinadare, elfa londoriana e líder da Frota Aérea Londoriana. Tenho
aptidões com arco e espadas, mas minhas principais habilidades são as de voo. Entrei
para a Lâmina há oito anos.
— Dímia Galarde — apresentou-se uma das cabeças das elfas siamesas. Esta tinha
os cabelos amarelos e olhos de gato esverdeados. Era a mais bonita das duas, embora
ambas fossem elfas bonitas.
— Dúmia Galarde — falou a outra cabeça. Era ruiva e seus olhos castanhos. —
Somos irmãs gêmeas siamesas do reino de Entrios. Somos sobrinhas de Seilos e
entramos para a Lâmina há quatro anos.
— Não seja tola — intrometeu-se a outra cabeça. — Não estamos aqui nem há três
anos.
— Sua doida de pedra — respondeu a cabeça ruiva. — Três anos faz que vencemos
o Torneio Londoriano de Xadrez. E já estávamos na Lâmina havia algum tempo.

A cabeça loira então refletiu e concordou. Confesso que nunca tinha visto coisa igual.
Duas elfas grudadas que discordavam entre si e que ainda jogavam xadrez?
Dímia e Dúmia dividiam o mesmo corpo. Duas mãos e duas pernas, embora fosse
um corpo um pouco mais largo do que de um elfo normal. Dímia tinha controle da mão
e perna direita e Dúmia controlava a mão e a perna esquerda. Eu imaginei como seria
uma partida de xadrez com aquelas duas.
— E com que habilidades contribuem para a Lâmina? — perguntei educadamente.
— Eu sou ótima com a espada — falou Dímia, a cabeça loira —, mas nem sempre
posso contar com o escudo da Dúmia para me proteger. Está vendo este corte aqui? —
Indicou uma cicatriz próxima ao cotovelo. — Esta doida ficou com o escudo baixo
enquanto duelávamos com uma ladra em Entrios.
— Eu já disse milhares de vezes que não percebi ela desferir o golpe. Foi muito
rápido — defendeu-se a cabeça ruiva.
— Vamos continuar com as apresentações — cortou Míriam, dando sinal para que
um dos anões se apresentasse.

Eu estava louca para rir daquelas elfas. Eu juro que podia ficar ouvindo-as discutir a
noite inteira. Elas pararam de falar quando o anão começou sua apresentação, mas
permaneceram se cutucando e fazendo caretas, mostrando a língua uma para a outra.
— Barbatão Broncas, anão do reino de Londor e Mestre de Catapultas do Exército
Londoriano. Estou na Lâmina desde a fundação.
— Minja Broncas — apresentou-se a anã, ao lado de Barbatão. — Tenho
experiências com criação de áculas e cavalos e ajudo a cuidar dos animais do Exército
Londoriano. Entrei para a Lâmina um ano após a entrada de Barbatão, meu marido.
— Esmelim Chisto, grifinário londoriano. Sou Líder dos espiões londorianos. Nosso
objetivo é obter informações precisas e rápidas para o reino de Londor nem que para
isso precisemos entrar em fortalezas inimigas escondidos em tubulações e esgotos.
— Liquita Seixas, humana arfadiana. Sou espadeira do Exército de Londor e estou
na Lâmina há cinco anos.

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— Tarana Alvinadare, elfa londoriana. Sou membro dos Arqueiros do Exército de
Londor e estou na lâmina há cinco anos também.
— Espíbruto Bradaboque, rufanonte do reino de Londor. Sou capitão da Linha de
Frente do Exército Londoriano. Nosso objetivo é destruir os inimigos na força bruta e
suportar os piores ataques inimigos. Estou na Lâmina desde a fundação.
— Roxana Natalie, humana gambiana. Entrei sem querer em Arfádia há quase cinco
anos e terminei aqui, me tornando especialista em idiomas arfadianos. Eu já era
poliglota em Gâmbia e sempre fui doida por idiomas. Traduzir os símbolos antigos de
Arfádia é minha nova paixão.

Roxana devia ter vinte e cinco anos gambianos. Era uma jovem loira muito bonita,
com seios enormes e sobrancelhas bem-feitas.
— Você disse que era de Gâmbia? De onde exatamente? — quis saber.
— Eu vivia na cidade de Chapecó quando entrei no portal, mas nasci em Porto
Alegre. Entrei em um portal que apareceu na sacada de meu apartamento. Os meus
primeiros dias aqui foram assustadores.
— Então você traduz idiomas?
— Exato. Não sei se sabe que há sete idiomas em Arfádia atualmente. Além de vários
outros que não são mais utilizados e estão em diferentes documentos e monumentos
antigos. Eu aprendi a falar e traduzir quase todos, mas continuo meu aprendizado e
atualmente tomo aulas de cíccio, a primeira linguagem dos primeiros centauros de
Arfádia. Estou presente em quase todas as reuniões que Londor precisa fazer com
outros reinos, como minha recente negociação com as fadas de Sirlíbia. A propósito,
retornei apenas hoje na Neréia para descobrir que A Guarda já havia ido a Gâmbia e
regressado com a herdeira do trono. Enfim, você começará a aprender fílix comigo
amanhã mesmo.

Fiquei impressionada com a inteligência e simpatia dela. Eu adoraria as aulas de


língua élfica.
— Berbuto Bradaboque, rufanonte londoriano. Trabalho na defesa das muralhas de
Londor e estou na Lâmina há quatro anos.

Agora era a vez do garoto de cabelos cinzas. Ele era tão jovem quanto eu. Devia ser
no máximo alguns meses mais velho e tinha cabelos cinzentos e olhos bem pretos.
Usava uma capa azul escura e tinha pulseiras nos braços. O jovem havia me encarado
quase toda a reunião, o que me deixara um pouquinho assustada.
— Víctor Copas, aprendiz de feiticeiro do reino de Londor. Na verdade, nasci e cresci
em Egélia e vim para cá há dois anos, pois sabia que os melhores feiticeiros são
londorianos. Consegui convencer Míriam a me ensinar alguns truques importantes, mas
aguardo mesmo pelo momento que conhecerei Arteniel Wilson. Seu feitiço dos clones
é lendário entre os jovens feiticeiros de Arfádia. Infelizmente vou ter que adiar meu
encontro com ele. Soube que ficou preso no mundo sem magia.

Eu não sabia se podia confiar naquele garoto. Ele não demonstrava emoções e não
era possível reconhecer suas intenções. Ele atraía minha atenção, com seus cabelos
cinza desarrumados, mas também me causava um certo medo.
Agora, só faltava mais um “bicho-pau”.
— Cascavim Cézaro, grifinário do reino de Londor. Sou responsável pelos cálculos
da Lâmina Londoriana e tenho muita experiência com mapas e representações gráficas
de diferentes regiões arfadianas, além de trabalhar no preparo de refeições na cozinha
do castelo. Estou na Lâmina há nove anos.

69
Então a feiticeira Míriam retomou a fala.
— Como todos sabem, há mais um membro da Lâmina que infelizmente não pode
estar aqui hoje devido a imprevistos que adiaram seu retorno a Arfádia. Esta semana,
um grupo será formado e enviado ao mundo dos homens, para trazer informações e,
talvez, o próprio Arteniel Wilson.
— Já sabe quem enviará para Gâmbia, Míriam? — perguntou Seilos, o pai de Tarana.
— Ainda não verifiquei a disponibilidade dos membros, mas nenhum daqueles
envolvidos com o treinamento de Scarlet poderá se ausentar — respondeu a feiticeira.
— E isto exclui, em princípio, Tarana, Catara, Roxana, Víctor, Arthur e Esmelim. Volto
a falar sobre isso em breve. Agora, vamos falar sobre a herança de Scarlet.

Todos na mesa prestaram muita atenção. Parecia que aguardavam ansiosos por
aquele momento.
— Como deve saber, Scarlet — continuou Míriam —, Arfádia só se livrará da ameaça
de Serses quando o destruir por completo. Seu pai o venceu uma vez, mas o feiticeiro
retornou sob a forma de um terrível dragão e pretende reassumir a forma humana. Isso
não foi feito por nenhum mago da história arfadiana, mas Serses foi capaz de realizar
feitos inéditos, não nos surpreenderia se conseguisse tal feito. O feiticeiro possui
poderes que ninguém aqui nesta sala sonhou ser possível. E pior de tudo, ele é maligno,
cruel e não se importaria em destruir todas as coisas que amamos, como as árvores, os
rios e os animais, se fosse necessário fazê-lo para obter mais poder.

Reparei que Dímia prestava atenção a cada palavra da feiticeira, mas Dúmia, a
cabeça ruiva, verificava as unhas à procura de pontas para retirar. Dímia deu um
cutucão em seu ombro esquerdo, para obrigar a irmã a prestar atenção.
— Alexandre escondeu a espada porque não confiava em quase mais ninguém —
retomou a feiticeira. — E não estava certo de que os poucos em quem confiava seriam
capazes de protegê-la. Pediu ajuda a seus mais íntimos amigos habilidosos em magia
de blindagem e feitiços de proteção: alguns feiticeiros e, principalmente, os anões.

Barbatão e Minja Broncas, ambos anões, concordaram com as palavras ditas, muito
entusiasmados e orgulhosos pelas habilidades anãs.
— Alexandre, alguns feiticeiros e os anões construíram uma fortaleza secreta, ou
uma caverna, não sabemos. Não fazemos ideia da localização da espada. Pode estar
em baixo d’água, no alto das montanhas, em Agnomídia, no gelo, no fogo ou sabe-se
lá onde mais — confessou Míriam. — O que sabemos é que, mesmo com a espada
localizada, somente o sangue de Alexandre Caspor poderá retirá-la de sua proteção.
Ele fez isso para que a espada jamais caísse em mãos erradas, mas também, acredito
eu, já sabia que, em caso de sua morte, a espada poderia ser retirada por um de seus
descendentes. Então, atualmente, você é a única criatura arfadiana capaz de retirar a
espada do local em que se encontra. E nem preciso dizer que precisa estar viva quando
seu sangue for usado para isso.

Aquilo era um alívio. Mesmo que me capturassem, não fariam nada comigo. Pelo
menos não até que eu retirasse a proteção que guarda a espada.
— Você tinha apenas algumas semanas de vida quando Alexandre e os anões
desapareceram para esconder a espada — revelou a feiticeira. — Ele só retornou após
três meses e, sem a espada Zárfia, foi morto por centauros próximo à Floresta Sombria.
— Que Clã o abençoe! — falou Arthur Seixas.

70
— Alexandre sabia que, sem a espada, seu fim era iminente — observou Míriam. —
E deixou tudo preparado. Ele colocou alguns itens em um Baú de Kavala, um forte objeto
construído por, claro, anões. Os baús de Kavala são impenetráveis. Deve existir apenas
uma dúzia deles em Arfádia atualmente. Poucos possuem fortuna para um objeto como
esse. Alexandre me procurou três dias antes de ser morto e me confiou o baú. Ele estava
apreensivo e me fez prometer que somente Scarlet Caspor poderia abri-lo.
— E onde está o baú? — perguntei, olhando para a sala inteira. Não havia nenhum
lugar ali para esconder um baú. — E como poderei abri-lo?
— O baú está sob minha proteção — revelou Míriam. — Quanto a abri-lo, você já
deve ter a resposta. Nunca imaginou o motivo de sua mãe ter lhe presenteado com esta
chave de prata?

Segurei o presente de minha mãe, presa na fina corrente de prata. Era possível que
aquela chavezinha fosse a única coisa a abrir um baú tão poderoso e impenetrável? E
que objetos meu pai gostaria que me fossem entregues? Será que a espada Zárfia
estaria dentro do baú? Comecei a sentir muita curiosidade.
— Quando estiver pronta, Scarlet, iremos juntas a meus aposentos para que
descubra finalmente o que lhe foi herdado.

Era óbvio que eu estava pronta. Por isso, eu e a feiticeira deixamos a sede, recitando
a frase: “Desejo deixar a sede”. Mas, antes de sairmos, Míriam pediu que Tarana
informasse aos outros sobre os detalhes do conflito entre Arteniel e Fenir e possíveis
teorias sobre o que poderá ter acontecido após entrarmos no portal.
Em centésimos de segundos, estávamos outra vez no Salão das Glórias, em meio
às medalhas. Perguntei à feiticeira o que fazer, caso tivesse funcionários do castelo
quando saísse da sede.
— O feitiço de transporte não funcionaria e você permaneceria na sede até que o
Salão das Glórias estivesse vazio.
— E se quem estiver aqui resolver demorar o dia inteiro?
— Não demorará. Assim que o feitiço de transporte for recusado devido a algum
visitante inesperado, este sentirá uma forte vontade de adormecer e deixará a torre. Ou
deitará e dormirá aqui mesmo. Já encontrei vários dormindo a sono solto encostados
naqueles troféus de póprula bem ali.
— Você pensou mesmo em tudo — comentei, colocando a medalha de volta a
prateleira.

Saímos do Salão das Glórias e descemos para onde estava o Espelho de Mago,
passando mais uma vez por ele e voltando para o corredor de meu quarto. Eu já estava
ansiosa para falar com vovó e contar todas as novidades. De como era a sede da
Lâmina e como os outros membros me receberam com palmas alegres. Talvez até
comentasse sobre a inusitada elfa de duas cabeças, que suspeitava que ela não
conhecesse, mas, como Míriam seguiu em frente, subindo as escadarias para outros
aposentos, apenas a acompanhei.
Perguntei se não havia outro espelho mágico daqueles por perto, mas Míriam
respondeu que não. Era preciso andar mesmo. Depois de algum tempo de escadas,
portas e corredores escuros, chegamos a uma estátua de um cavalo dourado com asas.
— Esta é a entrada para meus aposentos. Você poderá vir falar comigo sempre que
precisar, embora nem sempre eu esteja aqui. Basta colocar as mãos na cabeça do
cavalo — ela mostrou colocando a sua — e dizer: “Siabo com molho de félula”.

71
A estátua do cavalo estremeceu e começou a descer, desaparecendo no chão, e
deixando agora visível o que estava atrás: uma porta de ouro.
— Siabo com molho de quê?
— Félula. É minha comida favorita — respondeu, abrindo a porta de seu quarto.

O quarto de Míriam era grande e espaçoso, mas não parecia tão luxuoso quanto o
meu. Pilhas e mais pilhas de livros em todos os cantos. Manuscritos e penas de escrever
amontoados em cima de uma cadeira. E nas estantes, estranhos instrumentos que eu
não fazia ideia para que serviriam. Havia uma mesinha no canto com duas cadeiras e,
em cima dela, um enorme baú de madeira. Míriam me convidou para sentar.
— Deixei o baú aqui, antes de sair, pronto para que você o abrisse. Está preparada?

Sentei-me na cadeira e retirei a minúscula chave de prata do pescoço. Enfim,


descobriria a real utilidade daquela estranha herança de minha mãe. A fechadura era
tão pequena quanto a chave e também toda em prata. Vários símbolos estranhos
estavam gravados na madeira. Míriam informou tratar-se de um provérbio em guinês, a
linguagem dos anões das montanhas de Egélia, e que Roxana Natalie já havia traduzido
como “os maiores tesouros precisam chegar às futuras gerações” ou algo do tipo.
— O que está esperando? — Ela sentou-se na outra cadeira. — Descubra por fim o
que seus pais te deixaram.

Então coloquei a chave na minúscula fechadura e girei. Uma fumaça verde brilhante
saiu pelos lados do baú e, com um forte estalido, o objeto se abriu.

72
Capítulo 8 - A Herança

Olhei para dentro do baú e vi vários objetos aglomerados. Não havia espada alguma,
mas havia um escudo de madeira, um colar com uma pedra preciosa amarela, vários
vidros cheios de líquidos, um tipo de bússola semelhante ao objeto que Tarana utilizou
para me encontrar em Gâmbia, uma correntinha de prata e uma carta lacrada com o
brasão de Londor. Foi a primeira coisa que peguei para olhar.
— Posso dar uma olhada nestes itens? — Ela estava bastante curiosa com o
conteúdo do baú.
— Fique à vontade — falei, sem tirar os olhos da carta.

Estava escrita com uma caligrafia bonita, feminina, e endereçada a “Scarlet Caspor,
nossa amada princesinha”.
Minhas mãos estavam tremendo quando rompi o lacre e retirei um papel fino, com
aspecto nobre, o tipo de papel que apenas reis e rainhas usariam. Havia algumas frases
escritas na mesma caligrafia do envelope. Eu estava com os olhos úmidos quando
comecei a ler:

Querida Scarlet,

Se estiver lendo estas linhas, é porque não é mais a


pequenina que neste exato momento está dormindo na cama
ao lado.

Escrevo esta carta apenas para dizer que nós a amamos


mais do que tudo. Seu pai e eu faremos o possível para que
cresça e se torne um dia rainha do reino de Londor, nem que
para isso precisemos dar as nossas vidas pela sua.

Pode ser que, quando estiver lendo, seu pai e eu não


estejamos mais entre os vivos, mas ainda assim quero que
saiba que a amamos do fundo de nossas almas. Rogo todos
os dias aos deuses, principalmente à Xiva, para que a proteja
caso eu não consiga fazê-lo.

Há, dentro do Baú de Kavala, uma corrente de prata


pequenina que eu costumava usar em meu tornozelo direito.
Foi presente de seu pai no dia de nosso casamento. Quero
que fique com ela. É para dar sorte.

Sua mãe, Alice W. Caspor

Terminei a carta e em seguida a li uma segunda vez. Depois uma terceira e só não
comecei a ler uma quarta vez porque Míriam chamou minha atenção. A feiticeira estava
observando os itens um a um, detalhadamente, e ficou surpresa com alguns deles.
— Você não faz ideia dos objetos que estão aqui neste baú, Scarlet. Conheço
criaturas que matariam para receber isto aqui.

73
Então, tirei um pouco a atenção da carta e olhei para os outros itens, empolgada.
— O que são?

A feiticeira retirou o escudo do baú. Era grande o suficiente para proteger a maior
parte de meu corpo. Tinha a gravura de uma árvore seca e era todo cheio de detalhes
impressionantes. Míriam me explicou que aquele não era um escudo normal.
— Por muitos anos, os arfadianos acharam que este escudo era uma lenda criada
pelos anões. Ele nunca mais foi visto por arfadiano nenhum desde a famosa guerra
entre anões e gigantes.
— Espere aí — interrompi porque, por coincidência, vovó havia lido a respeito dele
em um livro da biblioteca. — Você está me dizendo que este é o mesmo escudo... como
é mesmo o nome?
— Supondo a grande amizade de Alexandre com os anões e a julgar pela árvore aqui
gravada, a famosa árvore seca da montanha de Arnok, estou quase certa de que este
é o verdadeiro Escudo de Arnok, uma das seis grandes relíquias da história arfadiana.
Alexandre nunca me revelou que estava de posse do escudo. Mas apenas após alguns
testes poderei confirmar com absoluta certeza.

A feiticeira estava admirada só em estar perto de um objeto como aquele.


— Scarlet, se este escudo for mesmo o lendário Escudo de Arnok e você obtiver a
espada Zárfia, então se tornará uma guerreira quase imbatível. Poucos reis e rainhas
possuíram poder igual.
— E quando finalmente saberemos se é mesmo o tal escudo?
— Te darei a resposta em breve. A menos que suporte meus maiores feitiços, este
não é o Escudo de Arnok. Vamos manter isto em segredo, por enquanto.

Concordei.
— E quanto a estes outros itens?

Míriam retirou o colar com a pedra amarela em formato de losango.


— Este sem dúvida é um colar sumidouro. São raros, mas ainda se encontram
dezenas deles em Arfádia.
— E para que servem?
— Estes colares foram feitos por fadas para dar a criaturas não mágicas, como
humanos, rufanontes e grifinários, um pouco do poder de um feiticeiro.
— Jura? Então terei poderes como meu avô? — Eu estava esperançosa.
— Apenas o poder de desaparecer e reaparecer em segundos, um teleporte. Assim...
— A feiticeira desapareceu de seu local, com um estalo, e voltou a reaparecer. Mas
dessa vez estava segurando um dos livros que, havia pouco, estava na pilha atrás de
mim.

Fiquei impressionada. Eu queria muito fazer o mesmo.


— Feiticeiros fazem isso o tempo todo. Faz parte dos movimentos mais básicos para
um aprendiz. Víctor Copas, por exemplo, já é capaz de aparecer em outros cômodos do
castelo e atravessar paredes, embora tenha muito o que melhorar. Mas, quanto a você,
vai precisar de um longo treinamento até conseguir esse feito. O colar jamais vai te levar
a distâncias maiores que o tamanho deste quarto, mas é muito útil para se esquivar em
combates. Seu adversário jamais poderá adivinhar em que lado vai aparecer na vez
seguinte.

Eu estava louca para começar o treinamento.

74
— Quando começo a treinar para desaparecer? — perguntei, mostrando que
determinação para o treinamento não faltaria.
— Primeiro deverá receber aulas teóricas sobre Arfádia, os deuses, nossas maneiras
de contar o tempo, um pouquinho da cronologia arfadiana, a flora e a fauna mágica,
essas coisas, para só então iniciar a parte prática, que envolverá tiro com arco e flecha,
com Tarana; mergulho no reino das sereias, com Víctor, que possui grande amizade
com as sereias e tritões; voo com cavalos, com Catara; movimentos básicos de um
espadeiro, com Arthur, e outras coisas mais.
— Não acredito que terei que ler e memorizar coisas chatas até finalmente poder
fazer tudo isso que falou — resmunguei. Aquilo não era justo.
— Só assim fará um bom aproveitamento de seu treino, Scarlet. Não esqueça que,
quando completar 28 anos, será coroada rainha de Londor. Vai precisar estar pronta.

Eu compreendia, claro. Mas era muito entediante ter de esperar para voar com
cavalos de asas. Então, olhei para o restante dos itens.
— E aqui temos algumas das poções mais difíceis de produzir. — Míriam levantou
os cinco vidros com líquidos que eu havia visto. — Acho que foi eu mesma que produziu
estas aqui, a pedido de seu pai. Mas não sabia que eram para colocar no baú.

A feiticeira me mostrou de perto o primeiro dos líquidos; era azul-celeste e


borbulhava.
— Anfra, a poção do sono. Coloque na comida de alguém que deseja fazer
adormecer por quase um dia inteiro.
— Pode vir a ser útil.

Míriam ergueu um segundo frasco, este com uma poção amarelo-ouro.


— Vívera, a poção da ressureição. Lembro que fiquei quase dois anos para produzi-
la. Quase 1200 moedas de prata se decidir comprar um frasco como esse em Entrios.
— Ela ressuscita os mortos? — perguntei depressa.
— Não os mortos. Ela cicatrizará ferimentos profundos e vai renovar forças de quem
estiver à beira da morte. Mas não cura envenenamentos. Use-a com muita sabedoria.

Míriam então exibiu o terceiro frasco, este com um líquido avermelhado, que mais
parecia sangue.
— Cótura, a poção do corpo-roubado.
— Corpo-roubado?
— Antes de beber, misture nela uma gota do sangue de qualquer criatura arfadiana
para assumir sua forma física. Poderá imitar o corpo de qualquer um que desejar, desde
que consiga seu sangue, claro.
— Fantástico! — Mas estava certa de que jamais beberia algo com sangue de
centauro.

As duas últimas poções eram idênticas. Pareciam apenas água.


— Oxíberas. Um gole disso e poderá mergulhar em baixo d’água por cerca de meio
dil. Eu já havia deixado um pouco delas preparado para seu treinamento aquático com
Víctor, mas nunca é demais tê-las por perto.
Quanta maravilha. Meus pais sabiam como me deixar muito empolgada. Aqueles
eram de longe os melhores presentes que já havia recebido.
A feiticeira retirou do baú a correntinha que minha mãe citara na carta.

75
— Este objeto não é mágico. Apenas uma lembrança que sua mãe lhe deixou. Ela
nunca retirou isto do tornozelo desde que Alexandre a presenteara. É prata de fadas,
muito mais valiosa que prata comum.

Peguei a correntinha com cuidado e coloquei em meu tornozelo direito, feliz por ter
um objeto tão pessoal de minha mãe.
— E agora, o que estávamos aguardando. O verdadeiro motivo de termos reunido a
Lâmina esta noite.

A feiticeira retirou o último objeto do baú, uma espécie de bússola, que estava presa
a uma corrente de ouro.
— Isto eu sei o que é. Um “magneto” ou “magicaneto”, não lembro o nome.
— Tem razão. — Ela estava surpresa. — É um magigneto, objeto construído por elfos
para sempre apontar para um objeto.
— E para o que ele está apontando? — indaguei, percebendo que o ponteiro sempre
permanecia apontado para a mesma direção.

A feiticeira Míriam pareceu muito feliz consigo mesma.


— Não tenho dúvidas de que este magigneto nos levará até a espada Zárfia. Aponta
para o sudeste, mas não podemos saber a distância. Pode estar no reino de Londor ou
em Anólia.
— O que faremos?
— Formaremos uma equipe para ir buscá-la. Mas é melhor aguardarmos o retorno
de Arteniel. Será necessário um feiticeiro de nível avançado nesta tarefa e outro para
continuar protegendo o castelo de possíveis ataques. O Víctor não conta.
— Então, após o retorno do vovô, vamos em busca da espada?
— Exato. Mas precisarão ser cautelosos. Serses já deve estar ciente de que Scarlet
retornou a Arfádia e que em breve estaremos em busca da espada. Não poderão ser
vistos. Caminharão longe das estradas comuns e voarão apenas ao anoitecer. Mas,
será preciso aguardar seu treinamento. Pelo menos o básico. Poderá aprender mais
durante a viagem. Recomendo que vá descansar. Amanhã acordará cedo para suas
aulas. Eu retornarei à sede da Lâmina para informar as boas-novas, sem entrar em
muitos detalhes.
— Posso levar a carta de minha mãe?
— Com toda certeza, mas vou pedir para deixar o restante dos itens comigo, por
enquanto. É mais seguro. E vou precisar desta chave de prata, para fechar e abrir o baú
quando necessário.

Concordei, um pouco aflita por deixar para trás um objeto que permanecera tanto
tempo em meu pescoço.

Antes de dormir, contei tudo para vovó, que estava tricotando alguma peça de roupa
na cadeira. Falei sobre a sede da Lâmina, sobre os membros da sociedade, sobre o baú
de papai e a carta de mamãe. Vovó ficou emocionada ao rever a caligrafia da filha e de
me ver usando a correntinha de prata no tornozelo.

76
— Eu achei que havia sido enviada com o corpo dela. — Passava os dedos pela
prata.

Aquilo me fez pensar sobre os restos mortais de meus pais pela primeira vez.
— Vovó, há cemitérios em Arfádia?
— Não querida. Quando morremos, nossos corpos são colocados nos Mares do Fim
do Mundo para despencarem no Grande Abismo. Mas, às vezes, cremamos nossos
mortos. Se não der um fim digno para os restos mortais de um arfadiano, seu espírito
não poderá entrar em Agnomídia e ele se transforma em um grólen, fantasmas errantes
que assombram florestas e cavernas.
— Credo! Que medo!
— Mas tudo volta ao normal se queimar os restos mortais ou dar a eles um fim digno.
Existem caçadores de recompensas que fazem esse tipo de trabalho, procuram pelos
corpos de grólens e os libertam, em troca de moedas oferecidas pelos familiares.
— Esse é um trabalho que eu com certeza não faria. Procurar por restos mortais e
libertar espíritos? Eu morreria de medo.

Diágira, a menor das luas, já estava na metade do céu arfadiano e comecei a me


sentir exausta. Então, arrumei minha cama e adormeci, enquanto vovó permaneceu
tricotando. Eu não sabia do que era feito o colchão, mas era muito confortável. Lembro
de ter fechado os olhos apenas uma vez antes de cair em sono profundo.
Os arfadianos não dormiam muito. Se fosse possível cronometrar, acho que uma
noite de sono em Arfádia (para um humano) duraria entre três e quatro horas. Mas, ao
contrário do que aconteceria se estivesse em Gâmbia, você acordava muito mais
disposto e revitalizado.

A luz do sol já iluminava o quarto inteiro, entrando pela janela aberta. Lembrando que
estava em Arfádia, senti uma alegria imensa e corri para olhar lá fora. O sol estava
subindo no horizonte, por detrás das árvores da Floresta Branca, e, muito
provavelmente, as luas estavam descendo o horizonte na outra ponta, mas eu não
conseguia avistá-las daquele quarto.
Como vovó ainda estava dormindo na outra cama, resolvi descer sozinha para o
refeitório. Será que já havia comida? Achei que seria mais fácil achar o caminho, mas,
entrei duas vezes na porta errada antes de encontrar o refeitório.
Já havia pães e biscoitos de vários formatos, além de uma bebida gelada que
descobri depois ser leite de popro. Não havia ninguém no refeitório quando comecei a
comer, mas, depois de alguns minutos, Dímia e Dúmia entraram, parecendo muito
zangadas uma com a outra. Elas sorriram quando me viram experimentando o pão
arfadiano, que, a propósito, era salgado demais, porém, mais macio que o pão
gambiano.
— Como está, Scarlet? — perguntou Dímia, a cabeça loira.
— Não fale o nome dela, imbecil — reclamou Dúmia. — Não ouviu o que a feiticeira
avisou?
— Tudo bem. Acho que estamos sozinhas — tranquilizei.

77
As elfas sentaram-se no assento de frente ao meu, após entupirem uma bandeja com
pães e biscoitos. Com certeza o estômago delas era maior do que o de um elfo normal.
— Conte-nos como era a vida em Gâmbia — pediu Dímia. — Sempre fomos
apaixonadas pelas histórias do mundo dos homens. E sempre tivemos vontade de ir
para lá, não é, mana?
— Sim, mas Míriam negou nosso pedido de ir buscar você — falou Dúmia, a ruiva.
— Ela disse que não seria fácil esconder nossa aparência, o que poderia assustar os
homens.

As duas ficaram tristes e pensativas, enquanto cada uma comia um biscoito.


— Mas me contem, como souberam da Lâmina Londoriana e quem as convidou para
fazer parte? — tentei mudar de assunto.
— Viemos para Londor para ficar com nosso tio Seilos e nossas primas, Tarana e
Catara — falou Dímia. — A gente percebeu que havia noites que eles desapareciam
juntos e voltavam mais tarde. Depois que entreouvimos falarem sobre a Lâmina, não os
deixamos em paz até que encontrassem um jeito de nos colocarem lá. Míriam não
pareceu muito feliz com nossa participação, mas, como tio Seilos jurou que éramos de
confiança, ela permitiu que fizéssemos parte.

Dúmia assentiu. Pareciam muito contentes e orgulhosas uma da outra, mas o


sentimento durou pouco. Dúmia deu um tapa na mão direita, a de Dímia, quando esta
fez menção de tomar um gole do leite de popro.
— O que acha que está fazendo? Você sabe que leite de popro causa dores em meu
lado do estômago.

As ofensas e reclamações explodiram na mesa.


— Esta boca é a minha e bebo o que eu quiser — berrou Dímia.
— Mas o estômago também é meu. — Dúmia ficou vermelha. — Não me faça comer
sementes de cuobo. Na última vez, você ficou com o rosto todo inchado e com bolhas.
— É melhor se acalmarem, vocês duas. — Alguém entrou no refeitório.

Era Roxana Natalie, a garota gambiana que me ensinaria a língua dos elfos. Mas
Dímia já havia desistido do leite após a ameaça da irmã de comer as sementes.
— Como foi sua primeira noite de sono em Arfádia? — Roxana me perguntou.
— Rápida, mas mesmo assim pude recuperar todas as energias.
— Mas é sempre assim em Arfádia. Graças à deusa Mítria, que, entre outras coisas,
cuida do sono. Quando tiver problemas para dormir, faça uma oferenda à Mítria com
peixes e ovos. Ela adora e seus problemas se resolverão.
— Você parece que sabe muito sobre Arfádia para alguém que está aqui há pouco
tempo — comentei.

Dímia e Dúmia haviam dado as mãos e faziam guerra de dedinho, a fim de disputar
qual polegar ficaria por cima. Roxana sentou-se ao meu lado com uma bandeja de frutas
e um copo de leite. Outras criaturas do castelo começaram a entrar no refeitório. Roxana
pediu para que Dímia e Dúmia apenas se dirigissem a mim como Rafael Seixas.

— Cinco anos não é pouco tempo, Rafael. E a verdade é que, depois das terríveis
primeiras semanas, eu me apaixonei por Arfádia. Devorava livros e tentava descobrir
sobre tudo o que pudesse. Mas você também aprenderá rápido. Nossa primeira aula de
fílix começará depois que acabarmos de comer.

78
Antes de terminarmos, Tarana, Liquita e Berbuto se juntaram a nós. Foi muito bom
fazer uma refeição com aquelas criaturas mágicas. Rimos juntos com as discussões de
Dímia e Dúmia. E Berbuto contou algumas piadas, mas, como falavam de coisas
arfadianas, eu não entendi a maioria:
— ...e o grifinário respondeu: se eu fosse ganhar uma líbia toda vez que isso
acontecesse, eu já seria um rufanonte. — E todos, menos eu, caíram na gargalhada.
Depois, me despedi de todos eles e saí para meu quarto. Roxana disse que me
buscaria lá quando estivesse tudo pronto para minha aula. Não demorou muito tempo e
ela já estava batendo na porta. Dei um beijo na bochecha da vovó, que roncava em sua
cama, ainda adormecida, e fui com Roxana.
Caminhamos até uma sala vazia, em uma das torres do castelo, que já estava
preparada com folhas, livros, penas e tintas. Ali, tive minha primeira aula de fílix, idioma
utilizado em quase todos os reinos de Arfádia. Era muito complexo e diferente do idioma
que eu falava; e parecia que jamais conseguiria falar daquele jeito. Mas Roxana era tão
simpática que nem percebi que permanecemos ali até a Neréia, quando o sol estava no
centro do céu arfadiano.
Ela me dispensou para almoçar e avisou que, após o almoço, o grifinário Esmelim
Chisto me ensinaria sobre as medidas de distância, de tempo, de pesagem e também
sobre as moedas usadas em Arfádia durante as transações de comércio. Aqueles eram
assuntos que eu adoraria, embora estivesse com receio por não conhecer bem o
grifinário.
Depois do almoço (peixes assados e saladas maravilhosas) na companhia de vovó
e Tarana, voltei à sala de estudos, mas antes de achar o caminho me perdi e fui parar
em uma sala cheia de instrumentos cortantes. Pareciam máquinas de tortura e eu fiquei
apavorada. Um anão de barbas grisalhas estava lá e gritou comigo enfurecido.
— Desapareça daqui, garoto!

Ele não precisou falar duas vezes. Desapareci com o coração saltando pela boca.
Depois de algumas tentativas, encontrei a sala. Esmelim já estava lá.
— Você se atrasou, garotinha — disse, mas não estava zangado. Mesmo se
estivesse, não teria conseguido me assustar depois da bronca que levei do anão.
— Eu tive problemas para encontrar a sala — informei, mas o grifinário já estava
folheando dois livros ao mesmo tempo, usando os dois pares de mãos.
— Sente-se, Scarlet. Vamos começar com a contagem do tempo durante o dia
arfadiano, antes de aprendermos sobre o Calendário Centáureo.

Então, passei a maior parte da tarde aprendendo sobre a maneira de contar o tempo
em Arfádia. Vi várias gravuras que ajudaram em meu entendimento.
A primeira coisa que o grifinário me explicou é que Arfádia é plana e fica suspensa
no Grande Abismo, graças a Telur, o Pai dos Deuses. Retirei as imagens a seguir de
um dos livros de Esmelim. Foram feitas por um anão chamado Serpaspau Gárgalos,
havia mais de cinco mil anos.

79
A segunda coisa que Esmelim me explicou, e que na verdade eu já sabia, era que o
sol e as luas, Diana e Diágira, orbitam em torno de Arfádia.

80
Eles giram em ritmos controlados pelos deuses. Gólom é o deus do sol e Mítria cuida
dos movimentos das luas.
Há quatro pontos principais ao redor de Arfádia. O centro do céu é chamado de
Neréia; o lado oposto, em baixo de Arfádia, é a Opuléia. Se apontar sua mão direita
para a Estrela-de-Xiva, que aparece no céu mesmo durante o dia, terá à sua frente a
Parnéia. Atrás de você, do lado oposto, estará Miléia.

O espaço ao redor de Arfádia é dividido em dezesseis partes iguais imaginárias. Oito


em cima, chamado de Espaço Neréia, e oito em baixo, chamado de Espaço Opuléia.
Cada um dos oito pedaços de cima é o que chamam de dil. Cada um dos oito pedaços
do Espaço Opuléia é chamado de brã. Logo, cada oitavo de cima e de baixo tem um
nome, conforme a imagem. Lembrando que essas divisões são imaginárias. Nada no
céu arfadiano indica o início ou fim de um dil.

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Quando o sol se encontra no Terceiro-Dil, por exemplo, Diana está no Terceiro-Brã
e Diágira no final do Quarto-Brã. Ao fim do dia, com o sol deixando o Oitavo-Dil, a lua
Diana está entrando no Primeiro-Dil, dando início à noite arfadiana. E o ciclo se repete
dia após dia, graças aos deuses.

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O dia arfadiano começa após o sol ultrapassar a Opuléia, mas é impossível de ver
essa posição do sol, uma vez que fica do lado de baixo de Arfádia. Mas, como as luas
estão no mesmo ritmo, sabe-se que, se Diana alcançar a Neréia, é porque o sol acabou
de passar por Opuléia, o que seria como a meia-noite arfadiana, embora os arfadianos
nunca usem os termos meio-dia e meia-noite, mas sim Neréia e Opuléia. Assim como
utilizam o termo Parnéia para o nascer do sol e Miléia, para quando este se põe.
O período para o sol e as luas percorrerem um dil é chamado de dil. Para o período
correspondente à metade de um dil, usa-se o termo meio-dil. Para a metade de meio-
dil, usa-se um flu. E para metade deste, usa-se meio-flu. Havia unidades menores, mas
impossíveis de observar apenas olhando para o sol, e que só existiam para uma melhor
compreensão da passagem do tempo. São elas: luna, para metade de meio-flu; meia-
luna, para metade de uma luna; quina, para metade de meia-luna; e meia-quina, para
metade de uma quina.
Esmelim disse para não me preocupar muito com elas e explicou que era muito difícil
de perceber, apenas olhando, se o sol percorreu meio-flu ou até mesmo um flu. Essa
era habilidade para olhos bem treinados. Mas era essencial, ao menos, reconhecer a
posição de todos os oito dils.
O grifinário disse que eu faria vários testes com ele lá fora, nos dias seguintes e em
diferentes horários, para verificar como estava indo minha habilidade de reconhecer a
posição do sol e das luas.
Antes do fim da tarde (o sol estava entrando no Sétimo-Dil, embora Esmelim tenha
me perguntado e eu dissera incorretamente que estava no Oitavo-Dil), Esmelim me
explicou sobre o Calendário Centáureo, uma maneira de organizar os dias e anos muito
eficiente e que foi incorporado por todos os reinos de Arfádia.
O grifinário me explicou que o ano arfadiano, no Calendário Centáureo, possui 280
dias divididos em sete meses de 40 dias. Os meses eram: Arno, Cano, Barboa, Cíclio,
Melusa, Tinfa e Cinauro. E cada mês possuía cinco semanas de oito dias cada. Os dias
da semana eram: Li-Telur, Si-Telur, Ti-Telur, Pi-Telur, Li-Xiva, Si-Xiva, Ti-Xiva e Pi-Xiva.
Esmelim explicou que o dia de Li-Telur era considerado sagrado, destinado a
oferendas e preces aos deuses, sendo proibido qualquer trabalho físico que não fosse
para preparar refeições. Você poderia comer, mas não poderia lavar o seu prato, com
risco de ser punido pelos deuses. Você podia fazer coisas leves como ler (eba!),
escrever ou pintar. Eram permitidas atividades necessárias para salvar uma vida, por
exemplo, os serviços de curas mágicas. Você não podia caminhar longas distâncias,
tocar instrumentos musicais, nem montar um cavalo. Até mesmo as guerras arfadianas
eram interrompidas durante esse dia. O deus da guerra Falibar punia severamente
qualquer um que desferisse um golpe durante Li-Telur.
Eis o Calendário Centáureo, como criado pela deusa Xadra e entregue aos centauros
pelo deus Centúrio, após ter roubado a criação de sua sobrinha:

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ARNO
Li-Telur Si-Telur Ti-Telur Pi-Telur Li-Xiva Si-Xiva Ti-Xiva Pi-Xiva
1 2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31 32
33 34 35 36 37 38 39 40

CANO
Li-Telur Si-Telur Ti-Telur Pi-Telur Li-Xiva Si-Xiva Ti-Xiva Pi-Xiva
1 2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31 32
33 34 35 36 37 38 39 40

BARBOA
Li-Telur Si-Telur Ti-Telur Pi-Telur Li-Xiva Si-Xiva Ti-Xiva Pi-Xiva
1 2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31 32
33 34 35 36 37 38 39 40

CÍCLIO
Li-Telur Si-Telur Ti-Telur Pi-Telur Li-Xiva Si-Xiva Ti-Xiva Pi-Xiva
1 2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31 32
33 34 35 36 37 38 39 40

MELUSA
Li-Telur Si-Telur Ti-Telur Pi-Telur Li-Xiva Si-Xiva Ti-Xiva Pi-Xiva
1 2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31 32
33 34 35 36 37 38 39 40

TINFA
Li-Telur Si-Telur Ti-Telur Pi-Telur Li-Xiva Si-Xiva Ti-Xiva Pi-Xiva
1 2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31 32
33 34 35 36 37 38 39 40

CINAURO
Li-Telur Si-Telur Ti-Telur Pi-Telur Li-Xiva Si-Xiva Ti-Xiva Pi-Xiva
1 2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31 32
33 34 35 36 37 38 39 40

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Esmelim explicou que as datas eram escritas da seguinte forma: Melusa-35, para o
trigésimo quinto dia do mês de Melusa, um Ti-Telur, por sinal a data daquele exato dia.
Também contou que já haviam se passado 3455 anos desde o início do Calendário
Centáureo e que dia e mês eram separados do ano por uma barra vertical. Logo, aquele
dia era escrito da seguinte forma: Melusa-35 | CC 3455. Onde a sigla CC indicava os
anos posteriores ao Calendário Centáureo. As datas anteriores ao calendário recebiam
a sigla -CC. Assim, o ano de 2176 -CC, ano de nascimento de um célebre grifinário
domador de dragões chamado Alivreis Neforjes; aconteceu 2176 anos antes do
Calendário Centáureo entrar em vigor. Como o grifinário nascera em Tinfa-8, a escrita
para aquela data ficava assim: Tinfa-8 | -CC 2176.
Diágira já havia surgido no Primeiro-Dil quando Esmelim permitiu que eu fosse para
meu quarto descansar. A tarde fora cansativa, mas, ao contrário do que havia
imaginado, muito interessante. Tudo bem que estava louca para as aulas práticas, mas
as teóricas se mostravam muito empolgantes. Deixei a sala do grifinário e voltei ao
quarto, ansiosa para contar a vovó o que havia aprendido. Achei o caminho certo sem
errar nenhuma vez.

— Já chegou, querida? E como foram as aulas? — Ela havia acabado de sair do


banho.
Eu contei tudo o que tinha aprendido. Sobre os dils, os brãs, a Opuléia e os meses.
— Em breve você conhecerá os maiores segredos deste mundo mágico, querida.
Talvez até me ensine algumas coisas que eu ainda não saiba.
— Vai demorar para isso acontecer, vovó. Ainda estou aprendendo as coisas mais
simples, que qualquer criança arfadiana de cinco anos já sabe.
— Todo sábio começou com a primeira aula, querida. Confie em mim. Você vai pegar
o jeito rápido. Acabei de lembrar, Míriam esteve aqui.
— E o que ela queria?
— Disse que amanhã cedo você vai ao Lago Neptar com Tarana. Conhecer as
sereias.
— Jura? Que legal, vovó!
— Ela disse que precisa ser aceita pelo grupo antes de iniciar suas aulas aquáticas
no reino de Átila. Estou com inveja, querida. Nunca visitei o Reino Submerso.
— E o que impede de ir até lá? Vamos juntas.
— Não dá, querida — ela riu. — Somente alguns felizardos são convidados a entrar
em Átila. Míriam disse que tem um aprendiz de feiticeiro novo no reino que tem
permissão para entrar lá. É um dos poucos. E ele vai tentar fazer que você também seja
aceita pelos tritões.
— Mas, se por acaso eu for aceita, faço que te aceitem também.
— Vou esperar por isso, querida. Agora, vá logo tomar um banho. Você precisa
comer alguma coisa e ir dormir. Tarana vem te chamar bem cedo.

Então fui para o banheiro. Enquanto estava na banheira, imaginava como seriam as
sereias arfadianas. Seriam como nos contos infantis que eu lia em Gâmbia? Será que
iriam me aceitar como uma amiga das sereias?
Eu mal podia esperar pelo dia seguinte.

85
Capítulo 9 - Sereias no Lago Neptar

Acordei assustada um pouco antes do nascer do sol. Na verdade, foi Tarana quem
me despertara.
— Desculpa, Alteza — falou baixinho, no escuro do quarto. — Sua avó avisou de
nossa visita às sereias?
— Que horas são? Digo, em que dil o sol está? — Eu estava sonolenta.
— Na verdade, ainda está no Oitavo-Brã. Em breve será Parnéia. Temos que ir cedo
para encontrar as sereias no lago. Elas vão submergir antes do Segundo-Dil e só
voltarão amanhã.

Então pulei da cama e me espreguicei. Eu não ia perder a chance de ver as sereias.


— Use o banheiro e me encontre no refeitório. Faremos um lanchinho rápido antes
de irmos.

E assim eu fiz. Lavei os olhos na torneira de prata da pia e usei o xipé, o estranho
utensílio para criaturas fêmeas urinarem. Calcei as botas, dei um beijo em vovó e fui
para o refeitório.
— Coma algumas torradas, Alteza. — A elfa era a única criatura presente no
refeitório, que estava com seus lustres mágicos acesos, pois nenhuma luz entrava pelas
janelas ainda. — Eu fiz um pouco de berbabão. Quer?

Berbabão era uma espécie de batida com leite de drideão e suco de berbaba, fruta
verde muito doce do tamanho de um abacate com várias sementinhas dentro.
— Que delícia! Você que fez? — Minha boca estava cheia de espuma.
— Geralmente eu peço para a dona Sássara fazer para mim, mas nenhum
funcionário do castelo trabalha antes do Segundo-Dil. Então, entrei na cozinha e fiz eu
mesma.

Tomei todo meu copo de berbabão e peguei mais da jarra de prata. E depois enchi o
copo de novo.
— Ainda bem que não entraremos no lago hoje, Alteza — falou Tarana ao me ver
tomando tanto da bebida —, ou correríamos o risco de você urinar na água. As sereias
te expulsariam de lá no mesmo instante.
— Como assim? Elas sabem que você fez xixi? — preocupei-me.
— Não me pergunte como fazem isso, mas elas sempre sabem o dono da urina. E
você seria banida do Lago Neptar para sempre.
— Elas guardam rancor por tanto tempo assim?
— Para ter ideia, a Liquita é proibida de entrar no Lago Neptar porque urinou na água
quando tinha quatorze anos de idade.

Eu fiquei chocada.
— Então não será nada fácil conquistar a amizade delas.
— Pelo contrário. Sereias adoram conhecer gente nova. Mas tão fácil quanto ganhar
a amizade delas é perder a amizade delas. São criaturas muito sensíveis. Se ofendem

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muito fácil. Em Arfádia, usamos a expressão “estar de sereísse” para quando alguém
faz muito drama ou se ofende por coisas mínimas.
— Sério? — eu ri. — Conheci muita gente em Gâmbia que “ficava de sereísse” o
tempo todo.
— Mas as sereias também originaram outra expressão bastante comum, embora
apenas no reino de Londor: sereiar, que é sinônimo de interessar-se exageradamente
por outras pessoas como se fossem muito especiais. Quando chegar ao lago, as sereias
vão sereiar você. E quero que também as sereie. Elas adoram quando as tratam com
carinho e atenção.
— Prometo que vou sereiá-las sem ficar de sereísse — falei, mostrando que
entendera as expressões. — Mas então por que preciso realizar meu treinamento
aquático com Víctor se é tão fácil conquistar a amizade das sereias? Por que não treino
com você?

Eu estava apreensiva com o treinamento com Víctor, pois não gostava do garoto. Ele
me dava medo.
— Ter amizade com as sereias não significa poder entrar no reino de Átila, Alteza.
Você sempre pode banhar-se com elas, desde que não urine na água. Mas, para entrar
em Átila, precisa da permissão dos tritões. E eles quase nunca aceitam outras criaturas
em suas águas. Víctor e seu pai foram dois dos cinco únicos londorianos a entrar lá nos
últimos cem anos.
— Meu pai entrava lá? — animei-me.
— Sim. Por isso Míriam acha que vale a pena tentar fazer que você entre. — Ela
levantou-se e colocou nossos copos e bandejas em uma das pias da cozinha. — Uma
rainha que tenha amizade com tritões pode fazer diferença. Seu pai, por exemplo, foi
alertado da movimentação de exércitos inimigos com semanas de antecedência. Isso
porque todos os lagos de Arfádia estão ligados. Um tritão pode viajar submerso de
Londor a Anólia em apenas dois dias.
— Poxa! Que maravilha!
— Mas em geral os tritões não se envolvem em guerras de outras criaturas. O que
fizeram para seu pai foi inédito e inexplicável. Não sei como Alexandre conseguiu
convencê-los a ajudá-lo — confessou a elfa. — Enfim, é apenas uma tentativa de Míriam
fazer você ganhar permissão dos tritões. Ninguém vai culpá-la se não conseguir. Afinal,
ninguém nunca consegue. Está pronta?
— Pronta e ansiosa.
— Vista essa capa, Alteza. — A elfa me entregou uma longa capa azul-escuro. —
Além de aquecê-la, vai impedir que olhares atentos vejam a filha de Alexandre. Lembre-
se que o feitiço ilusório de Míriam foi lançado aqui no castelo apenas. As criaturas das
aldeias vizinhas te enxergarão como realmente é.

Então, vesti a capa e coloquei o capuz. Ficou enorme em mim, mas me aquecia. O
clima naquela manhã estava bastante gelado.
— Vai poder tirar quando chegarmos ao Lago Neptar, se quiser. Vamos?

Todo o castelo estava em silêncio. Vez ou outra encontrávamos algum guarda elfo
de prontidão, mas a maioria dos moradores estava dormindo. Saímos finalmente para
os terrenos e eu morri de frio, mesmo com a capa. Ainda era possível ver Diana no céu,

87
embora estivesse quase se escondendo atrás das montanhas ao longe, descendo para
descansar embaixo de Arfádia.
Tarana e eu caminhamos bastante até alcançarmos o estábulo, que ficava na parte
de trás do castelo. Era um local imenso. Fiquei doida ao ver a quantidade de cavalos
ali. Entre cavalos comuns e alados, acho que o número de animais ultrapassava
quinhentos. Eu nunca havia visto tantos cavalos juntos nem mesmo em Gâmbia. Cada
animal ficava em um compartimento só seu e muitos deles estavam dormindo; deitados
e em pé.
Dezenas de funcionários do castelo costumavam trabalhar no estábulo, alimentando,
dando banhos, escovando a crina e preparando os animais para grandes distâncias,
mas, naquele momento, apenas uma elfa de tranças prateadas. Ela trouxe um
maravilhoso cavalo negro em nossa direção. O animal já estava com sela e outros
equipamentos para montaria.
— Ele está bem descansado, Tarana — falou a elfa. — Faz quatro dias desde que
eu mesma cavalguei neste aqui. Veloz, mas receio que ele canse depressa se o forças
demais. Como você disse que não sairia do reino, achei que Ango seria a melhor
escolha.
— Eu achei ele um lindo — falei, com toda sinceridade.
— Concordo com você, garoto. Ango é um animal muito belo — falou, acariciando o
pelo do cavalo.

Então Tarana subiu no cavalo e tomou as rédeas.


— Vamos, Rafael. — Ela me ofereceu a mão para subir também. — Você vai adorar
o Lago Neptar.

Tarana guiou o cavalo enquanto eu segurava em suas costas, levando o animal em


direção aos portões. Dois rufanontes estavam ali com imensas lanças nas mãos.
Deixaram-nos passar tranquilamente.
Uma vez no lado de fora, seguimos para o leste do reino, o caminho oposto à Floresta
Branca. O céu estava com muitas nuvens iluminadas pela luz de Diana e muitos sons
da fauna arfadiana sobressaíam ao barulho dos cascos do cavalo Ango.
E vi as constantes mudanças na paisagem. Primeiro um espaço aberto de poucas
plantas; depois, várias árvores vermelhas enfileiradas na borda da estrada; subimos e
descemos colinas, antes de adentrar em pequeno bosque com árvores fechadas.
O sol surgiu em uma das pontas de Arfádia e sua luz deixou o céu todo alaranjado.
Era a Parnéia e com certeza estava entre os fenômenos arfadianos mais lindos que já
vira. Pouco a pouco, a luz do sol expulsava a escuridão. Gólom, o deus do sol, estava
assumindo o controle e Mítria, deusa da noite e das luas, passando o bastão.
Depois disso, chegamos a uma das aldeias do reino de Londor. Nenhuma das casas
estava com as janelas abertas, mas vários animais que pareciam avestruzes de penas
amarelas bicavam o chão comendo alguma coisa. Ali, Tarana ordenou que o animal
diminuísse o ritmo para que pudéssemos observar ao redor com mais calma.
— Esta é a Aldeia dos Ventos Indecisos. É uma de nossas aldeias mais antigas.
Antes mesmo do castelo de Londor ser construído, já havia moradores por aqui. Acho
que a explicação para o nome é o fato de os ventos de Londor, em alguns dias do ano,
virem de todos os lados, mudando de direção em menos de meio dil. Um fenômeno

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estranho, que não acontece em Entrios nem em Rambur e acredito que em nenhum
outro lugar de Arfádia.

Havia casas de todos os tipos e Tarana explicou que cada raça costumava construir
suas casas de maneiras peculiares.
— Os elfos, por exemplo, gostam de construções grandes e luxuosas. Quando
podem pagar por elas, claro. Os grifinários gostam da Arquitetura Elfiziana, como estas
torres cheias de escadas em espiral a sua frente. Os rufanontes dão preferência por
pequenos castelos de pedra grande, como aquele lá no fim da estrada. E os anões não
se importam com uma casa modesta, desde que seja aquecida e protegida da chuva,
do vento e da neve.
— Tem neve em Arfádia? — Eu me animei. Nunca havia visto neve durante meus
anos em Gâmbia.
— A neve cai em Arfádia inteira em 13 dias consecutivos do ano: de Cíclio-11 a
Cíclio-23. Mas há neve o ano todo em alguns lugares específicos de Arfádia, como as
Montanhas da Neve, aqui em Londor. Ficam a três gralhas do lago Neptar, caso queira
ir lá depois. Você nem sabe o que é uma gralha, né? Esmelim vai lhe explicar. Quis
dizer que não fica muito longe do lago.
— Eu imaginei. Adoraria visitar estas montanhas — confessei com o coração
acelerado.
— Mas ficaremos apenas na encosta da montanha. Há muitos perigos para quem se
arrisca a subir até o topo e eu não vim preparada para enfrentar uma tribo de gigantes.

Ao ouvir a palavra gigantes, percebi que meu desejo de ver neve nem era tão grande.
— A gente pode deixar para outro dia — falei.

Deixamos a Aldeia dos Ventos Indecisos e a paisagem começou a ganhar uma


coloração esverdeada. O terreno então era repleto de grama bem verde e as árvores ali
eram menos estranhas se comparadas com as outras que conheci durante meu primeiro
dia em Arfádia. Eram mais parecidas com as árvores de Gâmbia, embora às vezes
passássemos por uma ou outra que me faziam virar o pescoço para olhar melhor.
O cavalo Ango realmente era muito veloz e ás vezes eu tinha de segurar forte em
Tarana para não cair para trás. Mas, quando queria me mostrar ou explicar algo, a elfa
fazia o animal parar ou apenas trotar.
— Olha, Scarlet. Porolhos — apontou, ao avistar alguns animais semelhantes a
lebres atravessando a estrada.
— Que lindos! — Os animais pareciam bolas de pelo. — É impressão minha ou
possuem quatro orelhas?
— Sim. Por isso é tão difícil capturá-los. Captam sons de todas as direções e de
longas distâncias.
— Não deviam se chamar porolhos, mas porelhas.

Tarana deu uma escandalosa gargalhada. Quando finalmente avistamos o Lago


Neptar, com algumas sereias sentadas em pedras na margem, a elfa ainda ria de minha
piada.
— Porelhas! Eu vou ter que contar isso a Liquita mais tarde.

Ao nos aproximarmos do lago, as sereias se viraram assustadas e entraram na água.


Depois, ficaram nos observando com apenas os olhos de fora. Antes de sairmos do
cavalo, perguntei a Tarana sobre o que fazer ou falar para não ofender aquelas
sensíveis criaturas.

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— As sereias, durante uma conversa, só falam sobre duas coisas: sobre a criatura
com quem conversam e sobre elas mesmas. Se perguntar ou comentar qualquer coisa
sobre uma terceira criatura, elas se ofendem e vão para o fundo do lago. Sereias, ao
contrário das fadas, odeiam fofocas.
— Já gostei delas.

As sereias arfadianas eram bem diferentes das que costumavam descrever em filmes
e livros de Gâmbia. Ao passo que uma sereia no mundo dos homens tinha metade peixe
e metade mulher, as arfadianas mais pareciam metade peixe e metade elfa, embora
fossem muito mais orelhudas que um elfo. E os olhos, diferentes dos olhos de gato de
Tarana, eram como enormes bolas de golfe, ocupando boa parte de seus rostos finos.
Não tinham cílios nem sobrancelha, mas os cabelos delas eram lisos e compridíssimos.
Tarana me explicou mais tarde que os tritões costumavam escolher uma sereia para
acasalamento pelo tamanho do cabelo, ao passo que as sereias davam preferência a
tritões com longos cavanhaques.
Elas vieram até a margem ao perceberem que uma das “invasoras” era Tarana, mas
estavam tímidas com a minha presença.
— Srta. Alvinadare, sentimos falta das manhãs que passávamos conversando —
falou uma sereia de cabelos negros.

Ela tinha um forte sotaque, como se tivesse aprendido a falar o português


recentemente. Percebi depois que todas tinham o mesmo sotaque estranho. As sereias
não eram acostumadas a falar naquele idioma.
— Também senti muita falta de vocês, Polara — cumprimentou a elfa.
— Você traz uma humana desconhecida a nossas águas.
— Sim, trago. Quero que conheçam uma amiga.

Tarana me puxou para perto das sereias. Eu ainda estava bastante nervosa.

— Esta é Scarlet Caspor. Ela veio de Gâmbia.

As sereias então começaram a cochichar entre si em sua própria língua. As outras


sereias, que ainda estavam com certo receio, começaram a se aproximar da margem
do lago.
— Você é herdeira do trono londoriano — falou outra sereia. Esta tinha os cabelos
loiros e menores que os de Polara. — Você é muito parecida com seu pai.

Agradeci. Então as sereias começaram a fazer muitas perguntas a meu respeito e


pareciam bem interessadas nas respostas. Como Tarana já havia explicado, elas
adoravam conhecer pessoas novas e conversavam com alguém como se fosse a coisa
mais interessante de toda Arfádia. Era isso o que ela quis dizer com sereiar.
Eu e Tarana sentamos na margem. Após retirar e dobrar a capa, coloquei-a em meu
colo. Após a Parnéia, o clima havia esquentado ligeiramente.
— O que gosta de comer? — perguntou Polara.
— Macarrão com carne moída, mas isso é comida gambiana. Aqui em Arfádia gosto
de siabo e ganá.
— E o que mais gosta de fazer? — quis saber outra.
— Gosto de ler e de pintar. Mas nunca pintei aqui em Arfádia.

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E as sereias continuaram com as inúmeras perguntas.
— Quando faz aniversário?
— De que animal gosta mais?
— Conhece boas histórias de aventura para contar? Eu amo ouvir todas elas.
— Qual seu peso?
— Quanto mede?
O mais engraçado é que elas realmente pareciam muito empolgadas em ouvir as
respostas, como se nada mais tivesse importância. Mas eu não ia ficar falando apenas
sobre mim; então, comecei a fazer perguntas também.
— E vocês, o que comem? — perguntei.
— Eu adoro os folipins — disse uma.
— Eu prefiro a carne das trapóias — disse outra.

Aquelas eram espécies de peixes arfadianos, explicou Tarana. A conversa com as


sereias foi bastante agradável para mim e para elas, mas acabei entrando em um
assunto delicado e me arrependi depois.
— Alguma de vocês já esteve em Gâmbia?
— Alguns de nossos antepassados já estiveram em Gâmbia — informou Polara,
parecendo triste. — Ouvimos histórias sobre as inúmeras maravilhas dos fundos dos
mares gambianos, mas também ouvimos histórias horríveis sobre caça e morte de
sereias. Muitos portais já se abriram no fundo de nossas águas, mas as sereias não
retornarão ao mundo dos homens se puderem evitar.

Eu realmente não podia esperar por uma confissão como aquela. Fiquei sem
palavras e com medo de terem se ofendido. A única coisa que consegui dizer foi:
— Eu sinto muito por tudo.

Mas depois, felizmente, voltamos a conversar sobre coisas alegres. As sereias


ficavam felizes com amizades novas. Na verdade, pareciam crianças que tentavam
atrair atenção. Mergulhavam e saltavam na água para mostrar acrobacias e brincavam
de afundar a cabeça da amiga na água quando esta estivesse desprevenida.
Tarana explicou que só faziam isso quando estavam muito felizes, o que era sinal de
que eu havia sido aceita pelo grupo como mais uma amiga das sereias.
Por mais deliciosa que foi a conversa, elas avisaram que precisavam ir.
— Até nosso próximo encontro, Srta. Caspor — falou Polara.
— Não demore a retornar, Srta. Alvinadare — pediu outra.

Então Tarana e eu acenamos enquanto as sereias mergulhavam para o fundo do


lago. Em alguns segundos, éramos só nós duas outra vez.
— Adorei elas, Tarana.
— E elas adoraram você. Mas isso não significa muito, pois elas adoram quase todo
mundo à primeira vista. Vamos voltar?
— Vamos. Mas me responde uma coisa: você disse que as sereias passam a maior
parte do dia submersas no reino de Átila, não é? E o que impede alguém que tenha sido
proibido de entrar no lago, como a Liquita, de vir agora se banhar?
— Todo corpo que cai na água, seja de uma criatura ou de um animal, é sentido
pelas sereias e tritões, que vêm ver de quem se trata.

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— Por que você diz “criatura” e “animal” como se fosse duas coisas diferentes? —
Estava confusa.
— Porque são diferentes — respondeu Tarana, como se fosse algo óbvio, mas
depois reparou que eu estava confusa de verdade. — O quê? Vocês em Gâmbia usam
“criatura” para animal também?
— Apenas para animais. Seria ofensivo falar “criatura” para uma pessoa.
— Verdade? Que estranho isso! — Estava tão confusa quanto eu. — Em Arfádia,
usamos criatura para seres dotados de capacidade de fala e raciocínio, que se movem
e têm consciência de si mesmo, como anões, elfos, humanos e todas as raças que já
conhece. Animais são as áculas, cavalos e porolhos.
— Foi bom ter avisado ou iria me causar confusão um dia desses — confessei,
vestindo novamente a capa e subindo no cavalo com a ajuda de Tarana. — Mas enfim,
o que elas fazem quando encontram alguém que não deveria nadar ali?
— Na melhor das hipóteses, expulsam o atrevido da água com tapas, mordidas e
puxões de cabelo. — Ela me fez ficar de olhos arregalados, incrédula.
— E na pior? — Perguntei-me se haveria coisa pior do que o que ela acabara de
falar.
— Na pior das hipóteses, elas chamarão os tritões para resolver o problema —
explicou, fazendo Ango trotar. — E infeliz daquele que conseguiu ganhar a antipatia de
tritões. Estão entre as criaturas mais perigosas de Arfádia.

Eu não consegui dizer nada, apenas expressar através de murmúrios ininteligíveis o


quanto considerava aquilo inacreditável e assustador.
— Uma vez um grupo de homens egelianos incomodou tanto as sereias do Lago
Neptar que elas reclamaram aos tritões. Eles ficaram indo ao lago vários dias seguidos,
mesmo depois que as sereias os proibiram. Insultavam as sereias e às vezes arriavam
as calças e urinavam na água.
“Depois que as sereias se queixaram aos tritões, subiram à superfície e
arremessaram dezenas de arpões em direção ao grupo. Somente um deles sobreviveu,
com grave ferimento na perna. Ele sabia do risco que corria e nunca mais voltou ao
Lago Neptar. O problema dele foi que decidiu entrar, depois de mais de dez anos, no
Lago de Náctor, em visita ao reino de Anólia. Encontraram seu corpo afogado no fundo
do lago, com um tridente atravessado no peito. ”
— Caramba, Tarana! Agora estou com medo de entrar em Átila. Manda Míriam
cancelar meu treinamento aquático.
— Não tenha medo, Alteza. Tritões são perigosos e agressivos, mas, felizmente não
se ofendem tão fácil como as sereias. Esse raro incidente foi provocado por homens
que ultrapassaram o limite da paciência de um tritão. É difícil tirar um tritão do sério,
mas, se tirar, nunca mais entre ou fique próximo à margem de lagos e rios. A chance de
ser puxada subitamente para o fundo é muito alta. Tritões não esquecem e não
perdoam.
A elfa então fez o cavalo seguir com velocidade e, mesmo assustada com a
agressividade dos tritões, estava feliz por ter conhecido as sereias.
Tive a impressão de que a viagem de volta ao castelo foi mais rápida. Quando
percebi, já estávamos na Aldeia dos Ventos Indecisos. Dessa vez, várias crianças elfas,
anãs e grifinárias corriam brincando pela estrada de areia e algumas pararam para
acenar para nós.
Tarana parou e desceu do cavalo quando passamos por várias barracas de
comerciantes que, agora, já estavam atendendo.

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— Espere aqui, Alteza. Vou lhe comprar um presente. Não tire o capuz e não fale
com ninguém, por favor.

Tarana saiu sem que eu tivesse chance de dizer que não precisava comprar nada
para mim, afinal, não era meu aniversário. A elfa entrou na fila e esperou duas mulheres
e um anão serem atendidos antes que pudesse fazer seu pedido ao grifinário
comerciante. Era um grifinário bastante velho e encurvado.
— Que lindo cavalo, senhorita. Qual o nome dele?

Levei um susto e vi que um homem de rosto tatuado se aproximara e falava comigo.


— É Ango. O nome dele é Ango.

Mas o estranho não pareceu prestar atenção ao que falei. Ele não tirara os olhos de
mim, como que tentando olhar por baixo do capuz. Eu estava começando a ficar com
medo quando ele falou algo que fez meu coração acelerar.
— É um belo nome, princesa. Um belo nome. — E sorriu mostrando dentes bem
amarelados.

Quando percebeu que eu falava com um estranho, Tarana veio correndo em nossa
direção. Não puxou a espada, mas mostrou estar com ela na cintura.
— Afaste-se.

O homem levantou as mãos, demonstrando não estar fazendo nada demais, sorriu
de novo e saiu.
— O que ele falou, Alteza?
— Apenas elogiou e perguntou o nome do cavalo. E eu respondi.

Tarana ainda olhava carrancuda para o estranho que, mesmo depois de ir embora,
olhou duas vezes para nós.
— Se ele olhar mais uma vez para cá eu juro que vou lá arrancar os olhos dele.

Mas o estranho virou algumas vezes entre as casas e não foi mais visto. Eu não tive
coragem de falar que ele me chamara de princesa. Tarana teria voltado lá e agredido o
homem, que talvez pudesse ser apenas um louco e me chamado de princesa por pura
coincidência.
— Nunca vi este homem em Londor antes. Vamos retornar ao castelo.

Então a elfa subiu no cavalo e saímos da aldeia. Em pouco tempo, conseguíamos


ver a enorme construção sobre o rochedo.
Os portões foram baixados e pudemos adentrar as muralhas. Tarana guiou o cavalo
de volta ao estábulo, que agora estava cheio de empregados cuidando dos animais. A
mesma elfa de tranças prateadas veio em nossa direção.
— Voltaram rápido. Ango não deve ter se cansado tanto.

Tarana saiu do cavalo e depois me ajudou a descer também.


— Muito obrigada, Xarina — agradeceu. — Ango foi uma ótima escolha.

93
— Ele sempre é uma ótima escolha para curta distância. Como está, amigão? —
perguntou a elfa para o cavalo, acariciando a cabeça do animal e levando-o consigo.

Então retornamos caminhando para o castelo.


— Eu já ia me esquecendo, Alteza. Toma, seu presente.

A elfa me entregou o que parecia ser uma maquete de Arfádia, com cerca de vinte e
cinco centímetros. Em volta da miniatura do mundo mágico, circulavam um sol e duas
pequenas luas. Um círculo de prata em torno deles, onde estava gravado os nomes dos
dils e brãs, informava a posição exata dos astros. O sol estava quase entrando no
Terceiro-Dil e Diana, sempre o oposto do sol, entrando no Terceiro-Brã. Diágira estava
um pouquinho além do Quarto-Brã. Aquelas eram as posições reais do sol e das luas.
— Que maravilha, Tarana! — Eu fiquei empolgada. — Sempre posso saber quanto
tempo falta para o fim da tarde olhando para cá? Qual o nome disso?
— Sim. Ele vai te informar a exata posição do sol e luas — falou a elfa. — E o nome
é dilógio.
— Dilógio? Seria por acaso uma junção das palavras dil e relógio?
— Exatamente. O dilógio é um objeto mágico criado por homens. Alguns humanos
que entraram em Arfádia sentiram falta de um objeto como o que eles tinham no mundo
sem magia. E eis que criaram o dilógio. Um detalhe: ele vai liberar alguns sons de sinos
quando o sol passar pela Parnéia. Não muito alto, mas o suficiente para acordar.
— Que ótimo! Como um despertador. Mas e se eu quiser dormir até o Terceiro-Dil?
— Infelizmente você não pode alterar isso e fazê-lo tocar em outras posições, Alteza.
Não com este modelo de dilógio. Tem alguns mais carinhos que permitem isso, mas
receio que só poderá comprar em Entrios. Eles nunca trazem para cá por terem pouca
saída. Quase todo mundo desperta na Parnéia.
— Amei. Vou deixar no quarto para não me atrasar para as aulas. — Ainda admirava
o objeto. -— Isso foi muito caro? Não precisava ter comprado.
— Não foi nada, Alteza. Apenas um agrado a minha futura rainha.

Eu não parei de agradecer pelo presente até entrarmos finalmente no castelo.

Naquele dia, eu teria aulas apenas de tarde, após o almoço. Mas ainda tinha bastante
tempo até a Neréia. Então, após colocar meu presente no quarto e conversar um pouco
com vovó, contando para ela como foi minha visita até o Lago Neptar, decidi passar o
restante da manhã lendo na biblioteca.
Aprendi muita coisa sobre o reino de Átila no livro O Reino Submerso de Átila: A Casa
das Sereias. Átila era um dos nove reinos de Arfádia e sua entrada estava no fundo de
lagos e rios. Totalmente submerso, nenhuma criatura terrestre vivia por lá por muito
tempo. Utilizando algumas poções e outros equipamentos mágicos, era possível
permanecer de um a quatro dils lá embaixo, dependendo de cada criatura, claro. Das
raças arfadianas (excluindo sereias e tritões), os humanos e elfos eram os que mais
tempo permaneciam submersos, com ligeira superioridade dos elfos. As fadas, por sua
vez, eram as que menos suportavam a falta de oxigenação, morrendo afogadas com
pouco mais de uma quina.

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Além de não serem capazes de viver em Átila por muito tempo, as outras criaturas
precisariam da permissão dos tritões para entrar lá e, como Tarana explicou, não era o
tipo de coisa que faziam frequentemente. Pouquíssimas criaturas visitaram o reino das
sereias e aqueles que já foram narraram em dezenas de documentos, ao longo da
história arfadiana, as maravilhas que encontraram por lá. Monumentos gigantescos e
luxuosos, montanhas de pedras preciosas (muito bem protegidas por tritões e sereias),
deslumbrante flora e fauna e inexplicáveis fenômenos naturais que só existiam por lá.
Quase todos os registros falavam a mesma coisa: Átila era um mundo mágico dentro de
Arfádia.
Após o almoço no refeitório com Tarana, Berbuto e vovó, subi à torre de estudos para
minha aula de fílix com Roxana. Fiquei tentando traduzir alguns textos que a garota me
entregara. Depois, lemos e relemos em voz alta para que eu praticasse a pronúncia
correta das palavras.
Não era um idioma simples, mas Roxana tinha uma metodologia que simplificava
tudo. A própria Tarana me dissera tempos depois que, apesar de ter aprendido fílix mais
cedo e praticado durante muito mais tempo que Roxana, ela não seria capaz de ensinar
o idioma tão bem quanto a garota, que havia tido uma formação especializada em
Gâmbia para educar aprendizes de novas línguas.
No meio da tarde, com o sol iniciando o Sétimo-Dil, Roxana deixou a torre para que
Esmelim pudesse realizar sua aula. Naquela tarde, o grifinário falou um pouco sobre os
deuses e a criação de Arfádia.
— Como já deve saber, Alteza, Arfádia foi criada por Telur. E toda a história da
criação e o que aconteceu depois dela foi narrado pela deusa Xiva aos primeiros elfos,
que escreveram tudo no Grande Livro da Criação.
“Os primeiros documentos do livro foram, claro, escritos em fílix, o idioma dos elfos,
e que você está aprendendo com a senhorita Natalie. Esses documentos originais já se
perderam após tantos conflitos entre os próprios elfos e entre elfos e outras criaturas.
Não se sabe se foram roubados, escondidos ou destruídos durante incêndios ou coisas
do tipo. Porém, antes de terem um fim, já haviam sido copiados e traduzidos para vários
idiomas, desde o cíccio, dos centauros, ao serêico, das sereias. Aqui, eu tenho um
recente exemplar do Grande Livro da Criação traduzido para a Língua Portuguesa, o
idioma oficial do reino de Londor, desde que a rainha Fernanda Federici, conhecida
entre os súditos por Nan Federici, decidiu ensinar seu idioma gambiano para os
londorianos.”

O grifinário colocou o exemplar em minha mesa. Era enorme e tinha linda gravura
em baixo relevo na capa, mostrando Arfádia suspensa no Grande Abismo, com o sol e
as luas ao redor.
– Abra-o — pediu Esmelin. — E pode ler em voz alta se quiser.

As folhas já estavam bem amareladas e havia vários buraquinhos de traças nos


cantos. Então comecei lendo o versículo primeiro do capítulo um e continuei lendo até
o fim da tarde.

No início, só havia o vazio eterno. Escuridão, abismo e


silêncio. Aqueles foram os Dias Escuros e Silenciosos. E
assim foi por muito tempo. Mas, aqueles dias chegaram ao
fim quando Telur abriu os olhos. O Pai dos Deuses
despertava de seu longo sono. O Senhor de Arfádia havia
vencido a Grande Batalha dos Deuses e então poderia

95
governar seu próprio mundo, criando suas próprias criaturas
vivas. Telur, então, deu início a sua tarefa...

— Espere aí — interrompi a leitura. — Ele venceu uma batalha entre deuses? Não
entendi.
— Infelizmente, não há muitas explicações sobre essa primeira batalha divina —
falou o grifinário. — Mas alguns sábios elfos das eras atuais informam que houve uma
batalha entre centenas de deuses, onde o único sobrevivente ganharia o direito da
Criação. Poderia criar seu mundo mágico, outros deuses e criaturas mortais para
viverem nele. Ele seria adorado e respeitado.
— E Telur foi o único a sobreviver?
— Parece que, no final, restaram apenas Telur e um deus maior e mais forte que ele,
chamado Escalavário. E pior: ele tinha quatro olhos, um em cada canto de sua cabeça
quadrada, o que lhe permitia ver em todas as direções. Telur sabia que, para vencê-lo,
teria de lhe tirar a vantagem dos quatro olhos. Conseguiu ludibriar o outro deus
presenteando-o com um maravilhoso elmo quadrado que, Telur dizia, lhe ajudaria em
suas futuras batalhas com outros deuses, caso seus futuros filhos e netos tentassem
usurpar seu trono. Escalavário tinha um defeito: era muito orgulhoso. E Telur apelou
para seu ego, fingindo render-se e agradando o deus com um presente.
— E o que aconteceu depois? — Eu estava empolgada com tudo aquilo.
— Escalavário colocou o elmo na cabeça e percebeu, tarde demais, que então perdia
a visão de seus outros três olhos. Tentando tirar o presente, percebeu também que Telur
havia feito o elmo na medida certa para entrar e nunca mais sair.
— Mas isso foi trapaça — ri.
— Talvez, mas somente então Telur lutava com um adversário que, como ele, só via
o que estava a sua frente. Apenas agora a luta era justa.
— E Telur venceu a batalha, não é?
— Sim. Telur destruiu Escalavário e, em seguida, adormeceu para descansar. E por
muitas eras ele permaneceu adormecido. E é aí que inicia o Livro da Criação. Toda a
história de Escalavário e o elmo apertado não passa de especulação e teorias. Jamais
poderemos saber o que houve antes de Telur despertar. Agora, continue a leitura,
Alteza. Temos muito o que ver ainda.

Então continuei lendo e aprendi sobre a criação do mundo mágico, do sol, das luas
e dos mares. Fiquei chocada ao ler sobre como Telur usou um de seus chifres para criar
Xiva e sobre como criou seus filhos a partir de um de seus testículos. O Grande Livro
da Criação era uma obra encantadora, e, se eu voltasse um dia ao mundo de Gâmbia,
publicaria uma cópia com o título de Mitologia Arfadiana. Mas duvido que a Atênia
permitiria.
Já era Miléia quando o elfo anunciou o fim da aula. Fui direto para o refeitório porque
estava morrendo de fome. Não havia muitas criaturas lá, mas reconheci o casal de
anões Minja e Barbatão Broncas. Depois de encher uma bandeja com algumas fatias
de pão londoriano e um copo de leite de popro, sentei-me com eles. Eu ainda não os
conhecia bem.
— Boa noite, Alteza — cumprimentou-me Minja, baixinho. — Sabe que Míriam já
escolheu as três criaturas que irão à Gâmbia procurar seu avô?

Aquela notícia me deixou muito feliz.


— Jura? Estou morrendo de saudades dele. Quem são?
— Eu, Barbatão e Liquita Seixas — revelou a anã.
— A Liquita outra vez?
— Sim. Na verdade, Míriam não tinha muitas opções porque a maioria dos membros
vai estar ocupada com seu treinamento. Uma viagem à Gâmbia pode durar dias,

96
semanas ou meses. Mas Liquita ficou empolgada em ir. Disse que gostou do mundo
dos homens.
— Eu agradeço muito a todos vocês. E serei eternamente grata se trouxerem meu
avô de volta.
— Faremos tudo o que pudermos, Alteza — falou Barbatão.

Então continuamos a refeição conversando de variados assuntos e depois finalmente


retornei ao quarto, onde encontrei vovó na cama costurando alguma coisa.
— Boa noite, querida. Eu já estava com saudades suas. Esmelim te prendeu até
agora?
— Não. Na verdade, fui comer algo depois que ele me dispensou. — Dei-lhe um beijo
na bochecha. — Eu estava morrendo de fome.
— Já comeu o suficiente? Porque tem algumas frutas para você ali naquela cesta.
Eu fui até a Sala do Rei conversar um pouco com Seilos e quando voltei elas estavam
ali. Acho que foi Míriam quem enviou.

Havia uma linda cesta na estante, cheia de frutinhas de várias cores. Amarela, roxa
e algumas brancas. Havia um cartão com os dizeres: “Para Rafael Seixas e somente
para ele”. Decidi tomar um banho antes de comer alguma delas.
— Estas branquinhas são as alpáxias. Prediletas de sua mãe. E minhas também. Eu
ia comer algumas, mas, como dizia ser só para você...
— Fica à vontade para comer quantas quiser, vovó. Tudo o que for meu também será
seu. Agora, vou tomar um banho e provar destas delícias.

Então tomei um banho demorado. Para ser sincera, adormeci na banheira de tão
cansada que estava. Só acordei quando ouvi vovó derrubar alguma coisa no quarto. “A
cesta de frutas”, eu pensei.
— Deixe algumas para mim, vovó — gritei, rindo, mas achei que ela não havia me
escutado porque não respondeu.

Quando me levantei, mais uma vez as toalhas vieram ao meu encontro, flutuando.
Sequei meu corpo e sai do banheiro enrolada na toalha. Mas, assim que voltei para o
quarto, percebi que algo estava errado. As frutas ainda estavam espalhadas pelo chão
e vovó estava caída.
— Vó! — gritei, correndo para erguê-la com o coração acelerado.

Quando virei seu rosto, percebi que estava espumando e tremendo. Aquilo não era
normal. Uma das frutas no chão estava mordida. A menos que eu estivesse muito
enganada, aquela fruta estava envenenada.

Abri a porta do quarto e gritei por socorro com todas as minhas forças. Eu estava em
pânico e em prantos.

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Capítulo 10 - A Face de Éfila

Aos poucos, chegaram alguns moradores do castelo. Uma anã, um elfo, Catara e as
gêmeas siamesas. Não lembro o que falaram; eu estava em estado de choque e apenas
gritava coisas como: “minha avó...aconteceu algo...frutas...”. Lembro que Catara me
pediu para ficar calma várias vezes. Eu tremia e soluçava sem parar. Em alguns
minutos, cerca de quinze criaturas estavam no local, tentando socorrer vovó. Míriam
chegou e ordenou que dessem espaço para ela passar.
Lembro também de ser puxada por alguém e levada até o quarto ao lado do nosso.
Era Roxana Natalie. Mas eu não queria falar com ela naquele momento. Eu só queria
ver a minha avó.
— Se acalma. Está tudo bem, a feiticeira Míriam vai resolver tudo. Agora preciso que
se acalme, Scarlet.
— Eu quero ver minha avó! — gritei.

Eu tentei empurrá-la com toda a minha força, mas Roxana era muito mais forte que
eu. Por fim, em meu último esforço, acabei tentando mordê-la para que tirasse as mãos
de mim.
— Você vai vê-la, mas precisa se acalmar e colocar uma roupa. Você pode chamar
atenção.

Eu não dava a mínima para o fato de o castelo inteiro descobrir que a herdeira de
Londor regressara, se fosse preciso para salvar minha avó. Tarana e Liquita entraram
no quarto. Roxana falou que ia buscar algumas roupas porque eu ainda estava de toalha
no corpo. Meu estresse chegou ao máximo. Sentei-me no chão e comecei a soluçar
com a mão no rosto.
— Eu devia ter comido primeiro. Foi culpa minha.
— Alteza, olhe para mim. — Tarana levantou meu rosto e me fez olhar dentro dos
olhos de gato dela. — Seja o que for que aconteceu com Felícia, a culpa não é sua.
— Quero ir ver minha avó.
— Ela será levada para a Ala Medicinal e Míriam está investigando o que aconteceu.
Você receberá permissão para ver sua avó assim que o estado de saúde dela se
estabilizar.

A elfa ficou acariciando meus cabelos enquanto eu chorava em seu colo. Liquita
apenas me encarava com pena, sem entender o que havia acontecido. Mais tarde,
Roxana voltou com algumas roupas e as três ajudaram a me vestir.
— Foi um trabalho árduo conseguir entrar lá e pegar as roupas — falou Roxana
enquanto me ajudava a amarrar a parte detrás da seipla (espécie de saia que ia até os
tornozelos). — A feiticeira Míriam quer que tudo fique intacto para descobrir o que
aconteceu.
— Desculpe a mordida, Roxana — falei, reparando que havia marcas de meus dentes
na mão esquerda da garota. — Acho que exagerei.

A porta do quarto se abriu. Era Míriam. E parecia preocupada.

98
— Preciso conversar com Scarlet a sós.

Logo que Roxana fechou a porta ao sair, levando Tarana e Liquita com ela, eu
perguntei:
— O que vai acontecer com a vovó?
— Estamos fazendo o possível para que ela fique bem. Mas, primeiro, precisamos
entender o que aconteceu. Tem algumas perguntas que preciso fazer — disse a
feiticeira. — Scarlet, você sabe quem deixou a cesta de frutas em seu quarto? Felícia
comentou alguma coisa?
Neguei com a cabeça.
— Eu voltei do refeitório e, quando cheguei em nosso quarto, a cesta já estava lá.
Vovó disse que havia ido conversar com o rei na sala dele e que, quando voltou,
percebeu que haviam me deixado um presente.

A feiticeira ficou séria e pensativa.


— A sua avó já havia comido alguma das frutas antes de você chegar? Você chegou
a comê-las também?
— Não. Vovó disse que não comeu porque eram para mim, mas eu falei que ela
podia comer à vontade e fui para o banheiro tomar banho. Ouvi um barulho no quarto e
quando voltei ela estava caída, com espuma na boca e tremendo.

Míriam ficou preocupada.


— Então não resta dúvidas de que as frutas estavam envenenadas. E foram enviadas
para você. Alguém sabe que a herdeira de Alexandre está no castelo e tentou eliminá-
la. Farei uma reunião de emergência com alguns membros da Lâmina Londoriana. E
você vai precisar de proteção o dia inteiro. Não poderá mais ficar sozinha. Tenho que
levar as frutas para minha sala e realizar algumas poções para descobrir de que veneno
se trata para curarmos Felícia.
— Eu quero ir ver minha avó — insisti mais uma vez, mas Míriam foi firme na
resposta.
— Receio que não poderá até que consigamos amenizar o estado dela. Não saia
deste quarto até amanhã de manhã, Scarlet. Vou pedir para que Tarana e Roxana
fiquem aqui com você.
— E a Liquita também?
— E a Liquita também — confirmou.

Então, passei o resto daquela noite no quarto com Tarana, Liquita e Roxana. Havia
duas camas no quarto; dormi com Roxana e Tarana com Liquita. Elas ficaram em
silêncio a maior parte da noite, pois sabiam que eu não queria conversar muito, mas por
fim Tarana começou a falar:
— Não consigo imaginar quem neste castelo teria coragem para uma coisa dessas.

Míriam já havia informado para elas a tentativa de me envenenarem. E pediu para


que redobrassem a atenção com minha proteção. Tarana havia trancado a porta do
quarto quando entrou e parecia disposta a ficar acordada o resto da noite, além de ter
deixado sua espada próxima à cama.
— E como poderiam ter descoberto a identidade de Scarlet, mesmo com o feitiço
ilusório de Míriam? — refletiu Roxana.
— Será que temos seguidores de Serses no castelo? — perguntou Liquita.

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— Mas não faz sentido Serses tentar eliminar Scarlet — raciocinou Tarana. — Pelo
menos não ainda. Todos sabem que somente Scarlet retirará a espada Zárfia de seu
esconderijo.

As três permaneceram em conversa, criando teorias para o que acontecera. Eu não


estava prestando mais atenção ao que diziam e estava quase adormecendo quando
bateram na porta.
Tarana rapidamente segurou a espada e Liquita foi abrir a porta. Era a feiticeira
Míriam, que entrou e a trancou mais uma vez.
— Comprovei o que já desconfiávamos. Alguém mergulhou as frutas em seiva de
barbacotol, um veneno mortal para quase todas as criaturas arfadianas, só sendo
suportado por rufanontes e centauros. Vamos torcer para que Felícia não tenha ingerido
uma dose letal, o que, infelizmente para o caso do barbacotol, é uma dose
extremamente pequena.

Meu coração ficou despedaçado. E voltei a soluçar no colo de Roxana. Eu não podia
perder minha avó.
— Mília Seixas e sua equipe estão fazendo o possível para salvá-la — tranquilizou
Míriam. — E precisamos saber como a seiva de barbacotol chegou ao castelo, sendo
um veneno encontrado apenas nas florestas de Rambur. Só podemos fazer suposições
por enquanto.
— O que faremos até descobrir o que aconteceu, Míriam? Não podemos permanecer
com um seguidor de Serses no castelo — preocupou-se Roxana.
— Teremos algumas pessoas vigiando constantemente os que vivem aqui, como
também a segurança nas muralhas será redobrada. Acho improvável, mas alguém
poderia ter vindo de fora e entrado ou enviado a cesta por outra criatura.

Então lembrei do estranho que havia me chamado de princesa naquela manhã.


— Tarana, sabe aquele homem que estava falando comigo quando foi comprar o
dilógio? — falei, soluçando. — Ele me chamou de princesa. Acho que sabia quem eu
era.

Tarana e Míriam trocaram olhares preocupados.


— Você não me alertou sobre este homem, Tarana — vociferou a feiticeira, pedindo
explicações. — Quem era ele?
— Eu nunca o vi no reino de Londor — respondeu a elfa. — Ele tem uma tatuagem
no rosto e estava na Aldeia dos Ventos Indecisos. Eu deixei Scarlet sozinha por menos
de uma luna e quando voltei ele estava perto dela. Mas, em minha defesa, Scarlet não
me contou sobre ele tê-la chamado de princesa. Ou eu teria alertado a Lâmina.
— Eu achei que não fosse nada com o que se preocupar — chorei. — E agora vovó
está envenenada. Foi culpa minha.

Roxana e Míriam precisaram me acalmar.


— Não foi culpa sua, Scarlet — consolou Míriam. — Mas precisa informar a Lâmina
sempre que coisas assim acontecerem. Mandarei alguns soldados à Aldeia dos Ventos
Indecisos procurar por esse homem, mas, se for ele realmente quem tentou envenená-
la, não estará mais no reino de Londor.

Eu só queria que vovó ficasse bem. Se acontecesse algo a minha avó, capturar o
culpado não sanaria minha dor.

100
— Como está vovó?
— Agora que descobrimos o veneno, podemos tratá-la melhor — falou Míriam. —
Estou preparando uma poção de Sarinar, que deverá ajudar a retirar o veneno do corpo
de Felícia. Mas infelizmente não poderá ficar pronta antes da Parnéia.
— Não seria melhor deixar estoques prontos dessa poção? — perguntei, um pouco
mais alto do que gostaria.
— A poção de Sarinar não dura mais que meio dil, Scarlet. Ela perde os efeitos se a
deixar estocada. Alguns feiticeiros de Anólia estão tentando mudar isso há uns
cinquenta anos, mas nada muito promissor até agora. Enfim, vou ordenar que tragam
alguma comida para vocês quatro jantarem.
“Scarlet, amanhã de manhã você poderá tomar aulas de fílix aqui mesmo, com
Roxana. Não podemos interromper seu treinamento. Quanto antes deixarmos o castelo
para encontrar a espada, melhor para todos. Preciso mexer a poção de Sarinar. ”

A feiticeira então saiu e Tarana trancou a porta. Mas, minutos depois, alguns
funcionários do castelo bateram, trazendo o jantar em quatro bandejas de prata. O meu
era siabo e ovos de limília, que Tarana explicou ser uma ave de pescoço comprido.
Havia suco de alpáxia e fiquei com medo de tomar.
— Não se preocupe, Scarlet. Com certeza Míriam já verificou todos os alimentos que
estavam no refeitório — tranquilizou Tarana. — Em todo caso, eu já bebi metade do
meu copo.
Então criei coragem e bebi. Era muito doce a ponto de você fazer caretas ao tomar.
A noite foi avançando e já estávamos na Opuléia quando resolvemos ir dormir.
Tarana bateu palmas três vezes para apagar o lustre mágico e o quarto ficou quase em
total escuridão, não fosse pela luz das luas que entrava sorrateira pela janela. Roxana
me abraçou e por fim adormeci.

Quando acordei na manhã seguinte, a lembrança do que havia acontecido me


causou um profundo mal-estar. Por que aquilo estava acontecendo comigo? O que eu
havia feito de errado? O que vovó havia feito para merecer aquilo? Eu estava em um
mundo estranho sem meu avô e com minha avó à beira da morte, rodeada de criaturas
que não sabiam quem eu era e uma das poucas que sabiam estava tentando me matar.
Olhei pela janela do quarto e reparei que até mesmo Arfádia estava em depressão.
Nuvens carregadas no céu bloqueavam o sol e davam ao dia arfadiano um aspecto
melancólico. Fechei a janela do quarto quando começou a cair uma chuva grossa,
gelada, que batia no parapeito da janela e invadia a cama de Tarana e Liquita. As gotas
de chuva golpeavam o vidro e causavam um frenético batuque. As duas acordaram ao
ouvirem a janela batendo quando baixei o vidro.
— Bom dia, Alteza — cumprimentou Liquita.
— Bom dia. Como será que vovó está? Será que a feiticeira já terminou a poção que
vai cura-la?
— Tenho certeza que ela virá nos informar assim que utilizarem a poção de Sarinar
em Felícia.

Que agonia não poder ter notícias de minha avó.

101
— Parece que Zacbar ganhou permissão para regar o reino — observou a garota.
— Quem é Zacbar? — perguntei, pensando se tratar de um funcionário do castelo.
— Zacbar é o deus da chuva — explicou, aproximando-se para olhar na janela ao
meu lado. — Ele e o irmão Gólom, o deus do sol, se detestam mais do que tudo. Vivem
brigando para decidir quem vai reinar no dia seguinte, o sol ou a chuva. Telur ordena
que decidam isso jogando partéia, um dos entretenimentos dos deuses.
— Como é isso? — perguntei, interessada.
— Uma disputa de força onde os deuses juntam as mãos com os cotovelos apoiados.
O objetivo é fazer com que a mão do adversário...
— Queda de Braço?
— O quê?
— Queda de Braço — repeti. — É esse nome em Gâmbia. Você precisa encostar a
mão adversário na mesa.
— Isso mesmo. Queda de Braço? Que coisa esquisita!
— Então o deus vencedor decide se vai chover ou dar sol em toda Arfádia?
— Não em toda Arfádia, mas eles fazem várias rodadas para diferentes regiões. Às
vezes, Gólom reina nos reinos do Norte e Zacbar ao sul. Às vezes Zacbar vence todas
as disputas de partéia e o dia é de chuva em toda Arfádia. Às vezes Gólom aceita um
novo desafio de Zacbar e perde e então, onde antes havia sol, começa a chover.
— E isso não dá briga?
— Quase sempre. Por isso Telur deu a sua neta Ada a tarefa de apartar essa eterna
discussão. Ada é a deusa do arco-íris e ilumina o céu com diversas cores toda vez que
a chuva cai durante o reinado de Gólom ou se um raio de sol se intrometer durante o
reinado de Zacbar.
— Que legal isso! Será que veremos um arco-íris hoje?
— Vamos torcer para que Gólom inicie uma discussão — riu Liquita.
Depois que Tarana foi buscar um tipo de mingau feito com uma farinha rosada para
comermos, sentamos as três na mesma cama (Roxana ainda estava dormindo) e
fizemos o desjejum. Apesar de meu estado de espírito depressivo, era muito bom ter a
companhia delas. Era um pequeno conforto naquelas horas tristes.
Mais tarde, Roxana acordou e reclamou com Tarana por não a ter acordado antes.
— Não posso atrasar as aulas de Scarlet ou Míriam vai descontar em mim.
— Você estava dormindo tão profundamente que não quisemos acordá-la — tentou
justificar Tarana. — E a aula de fílix da Alteza será muito mais proveitosa nesta manhã,
pois ela fará as aulas aqui no quarto com nós três.
— É mesmo? — empolguei-me.
— Sim. Quer uma maneira melhor de aprender fílix do que na companhia de uma
elfa? No fim da tarde já poderá pedir leite de popro em fílix no refeitório.

Todas rimos, inclusive Roxana, que começou a tomar o mingau. Após estar satisfeita,
Roxana saiu para buscar alguns livros e então começamos a aula.
Eu realmente não teria suportado aquela barra sem a ajuda daquelas três. Fiquei mal
em pensar que cheguei a rir em vários momentos daquela manhã, enquanto Tarana me
corrigia a entonação das palavras, explicando que eu estava tentando dizer “muito
obrigada” em fílix, mas na verdade dizendo “sopa de unicórnio”.
Roxana me deu uma lista de quinze palavras escritas em fílix em um pedaço de papel
e disse que iniciaria um diálogo com Tarana e Liquita e que eu riscasse todas as
palavras que conseguisse captar. De dez palavras da lista presentes na conversa,
apenas consegui riscar três (pão, dragão e feiticeiro). Mas Roxana disse que era comum
não conseguir separar as palavras do fílix e entender tudo embolado, como se fosse

102
uma só palavra, e que ela também passou pelas mesmas dificuldades. Já estávamos
próximos da Neréia quando Míriam bateu na porta.
— Agora posso ir ver a vovó? — perguntei, deixando os livros de lado.
— Infelizmente não, Scarlet. Sua avó recebeu a poção de Sarinar e ainda está
inconsciente desde que mordeu a alpáxia. Vamos...

Eu não deixei que Míriam terminasse de falar. Levantei da cama e disse que não
estudaria mais nada sem antes olhar para vovó mais uma vez, mesmo que estivesse
dormindo.
Míriam se assustou com minha teimosia, mas no fim cedeu.
— Tudo bem. No fim da tarde, eu a levarei para passar a noite com sua avó. Mas
quero que prometa que não vai atrapalhar o trabalho das curadoras.

Com certeza eu não atrapalharia aqueles que estavam fazendo o possível para que
vovó ficasse bem.
— Arthur Seixas e seu grupo acabaram de trazer o homem de rosto tatuado que falou
com você ontem — anunciou Míriam. — Ele está agora nas masmorras e o nome dele
é Palato Rimanor.

Aquilo causou um certo alvoraço no quarto.


— E ele confessou? — perguntou Tarana.
— Onde encontraram ele? — quis saber Liquita.
— Encontraram na mesma aldeia em que falou com Scarlet. E não, ele não
confessou. Na verdade, está confuso e assustado. Espíbruto disse que já o viu várias
vezes em Egélia, o que é preocupante. Mas, por outro lado, se fosse o responsável pelo
envio das frutas, ele não estaria onde o encontramos. Vamos mantê-lo lá por enquanto
e ver se conseguimos mais informações a respeito dele.

A feiticeira avisou para Liquita se reunir a Minja e Barbatão após o almoço e se


prepararem para partir para Gâmbia no fim da tarde e, por fim, saiu.
Fizemos a refeição outra vez no quarto, mas dessa vez sem Liquita, que havia ido
almoçar com os pais no refeitório. De todas as vezes que almocei em Arfádia, aquele
foi o de melhor refeição. Pedaços de carne recheadas com farofa e alguns bolinhos
verdes com gosto semelhante ao das batatas cozidas. Havia um molho delicioso com
pedaços de ovos misturados. Comi duas vezes e, quando terminei, estava estufada e
lenta.
— Os funcionários da cozinha capricharam hoje — comentou Roxana, que confessou
não ter comido fáfula (a carne recheada com farofa) havia meses.

Por mais que eu estivesse ansiosa pelo fim da tarde para poder ver vovó, admito que
as aulas com Esmelim foram mais uma vez muito interessantes. Roxana havia saído
para tentar resolver alguma coisa a pedido de Míriam e Tarana pediu ao grifinário para
que presenciasse minha aula. Disse que Míriam gostaria que verificasse o quanto
estava me dedicando aos estudos, mas suspeito que ela tinha ordens de Míriam para
não me deixar sozinha com ninguém, mesmo que fosse alguém da Lâmina Londoriana.
Quando entramos no ambiente, percebi que havia um grande objeto coberto por um
lençol no canto da sala que não estava ali na primeira aula com o grifinário. Havia
também, em cima da mesa dele, um estranho instrumento semelhante a uma balança,

103
com um prato de bronze no centro e cinco bolas de vidro cheias de bolinhas de
diferentes cores. Cada bola de vidro tinha apenas bolinhas de mesma cor.
— Este é um libiador simples, Scarlet — falou o grifinário, percebendo que o
instrumento chamara minha atenção. — Iremos aprender como calcular o peso das
coisas em Arfádia.

Então me sentei, peguei uma folha, molhei a pena no frasco de tinta e esperei pelas
explicações. Tarana sentou-se ao meu lado.
— Antes de começarmos a usar o libiador, é necessário que eu explique para você
o que é uma líbia e toda a história por trás das medidas de pesos arfadianas. Preciso
que preste bastante atenção porque este assunto pode ser um pouco complicado para
gambianos, que estão acostumados com outro sistema de pesagens. — Ele se
aproximou de minha cadeira para garantir que eu entendesse tudo.

Endireitei a coluna na cadeira e fiquei de ouvidos bem atentos.


— Por muito tempo, durante os primeiros anos de Arfádia, as criaturas não possuíam
maneiras adequadas para medir e comparar os pesos das coisas, como alimentos,
pedras preciosas, nem como saber que criatura era mais pesada do que outra. Então,
os primeiros elfos de alguns milênios atrás imploraram aos deuses por um sistema de
pesos que não permitisse erros nem trapaças durante as trocas comerciais entre os
primeiros reinos e tribos. Telur, o Pai dos Deuses, que naquela ocasião estava
resolvendo outros problemas dos próprios deuses (acho que uma disputa entre Gólom
e Zacbar, para variar), passou a tarefa para sua esposa Xiva, a deusa da flora. Xiva,
após refletir um pouco, decidiu enviar uma pequena árvore mágica para os elfos que
pediam ajuda.
— Uma árvore? — indaguei, sem entender. — Como uma árvore ajudaria...
— Eu já vou esclarecer, Alteza — respondeu Esmelim, paciente. — A árvore em
questão era a libieira e ainda hoje está plantada no Palácio Branco, no reino de Entrios,
e desde que Xiva a entregou aos elfos, ela nunca deixou de dar frutos. Mas vamos voltar
para o momento em que Xiva entregou a muda. Os elfos, em princípio, não entenderam
nada e fizeram a mesma pergunta que você acabou de fazer agora mesmo: como uma
árvore irá nos ajudar com as pesagens e trocas comerciais?
— É mesmo. Como?
— E eis que Xiva esclareceu: “Esta árvore dará frutos vermelhos chamados de líbias.
Esses frutos possuem uma característica única: todos, exatamente todos os frutos são
iguais, na forma, cor e tamanho. Vocês nunca encontrarão duas líbias maduras de
pesos diferentes. Para saber o peso de algo, comparem com o peso de uma ou mais
líbias”.
— Então a fruta era a unidade de medida de peso? — perguntei. — Se alguma coisa
tinha o mesmo peso que dez líbias, então podia-se dizer que ela tinha dez líbias de
peso?
— Fico surpreso que tenha entendido tão rápido, Scarlet — falou o grifinário. — A
partir do peso de uma líbia, criou-se um sistema de pesos que vou explicar no quadro
negro para que entenda melhor.

Esmelim então pegou o que parecia ser um pedaço de giz (mas na verdade era a
casca do sargiz, uma árvore toda branca) e começou a explicar o sistema arfadiano de
pesos.
— Uma líbia, como você já sabe, é o peso do fruto da libieira, planta dada por Xiva
aos antigos elfos.

104
— E o peso desta fruta é muito ou pouco? — perguntei. — Como poderei comparar?
— Foi por isso que trouxe uma líbia de verdade. Para que segure nas mãos e sinta
o peso de uma.

O grifinário mostrou uma fruta vermelha pequena, do tamanho de uma ameixa, que
estava em cima da mesa dele. Esmelim entregou a fruta em minhas mãos. Não era nem
um pouco pesada.
— Acho que menos de 50 gramas — falei. Mas nem o grifinário nem Tarana sabiam
o que era um grama.
— É leve, por isso se fez necessário outras unidades — esclareceu Esmelim. — Em
meados de -CC 2000, os anões de Anólia criaram as demais unidades. Uma tara
equivale a mil e trezentas líbias.

Esmelim riscou no quadro: “1T = 1300 L”


— Suponho que você, Scarlet, pese um pouco menos que uma tara, mas depois
faremos o teste. Uma tara já é bastante peso, mas não o suficiente. Por isso, os anões
também criaram a madala, que equivale a mil e trezentas taras.

O grifinário escreveu no quadro: “1M = 1300T”


— E isso já é muito. Apenas monstros como dragões e bardens chegam a pesar mais
que uma madala.
— Legal! Mas e se eu quiser pesar uma folha de árvore? Suponho que tenha menos
que uma líbia.
— Ótima pergunta, Scarlet. Os anões, muito preocupados em pesar suas pedras
preciosas, não se preocuparam com unidades menores que a líbia. Isso só aconteceu
séculos depois do Calendário Centáureo, quando feiticeiros descobriram que as fadas
utilizavam unidades menores para pesar ingredientes para poções. Há quanto tempo as
fadas vinham usando essas unidades, não sabemos. Elas só se espalharam por Arfádia
após o famoso livro de Arfolfo, o cinzento: Pesando Menos Que Uma Líbia, publicado
em CC 373.
— E que unidades são essas? — eu quis saber para poder anotar em minha folha.
— A víria representa um quarto da líbia. Logo, quatro vírias fazem uma líbia.

O grifinário seguiu escrevendo: “4V = 1L”


— A flona, por sua vez, representa um décimo da víria. Assim, dez flonas equivalem
a uma víria e quarenta flonas fazem uma líbia.

Agora, escreveu: “10F = 1V e 40F=1L”


— E a menor unidade de peso arfadiana é a pina, que é igual à centésima parte de
uma flona. Cem pinas fazem uma flona e 4000 pinas fazem uma líbia.

E escreveu no quadro: “100P = 1F e 4000P = 1L”


— Agora, para memorizar essas unidades de peso, vamos fazer alguns exercícios
— anunciou o grifinário, me entregando um livro com vários exercícios a resolver.

Então passei a maior parte da tarde convertendo líbias para taras; taras para
madalas; madalas para líbias; líbias para vírias e pinas para flonas. Eu já estava de saco
cheio daquelas unidades quando Esmelim colocou a balança mágica na minha mesa.
— Agora vamos fazer alguns testes com o libiador. Este é um instrumento mágico
inventado por grifinários, em parceria com os anões durante a primeira década do

105
Calendário Centáureo. Ele utiliza estas bolinhas coloridas, chamadas de líbex, para a
contagem das líbias. Como este é um libiador simples, não informa a tara nem madala,
sendo preciso que faça a conversão de cabeça.
— Muito trabalhoso — reclamei.
— Mas alguns libiadores mais caros informam em tara se for preciso e até em pinas,
flonas e vírias se resolver pesar uma escama de dragão, por exemplo. Mas teremos de
nos contentar com um libiador simples.
— E o que fazem estas bolas de vidro?
— Cada uma destas cinco bolas de vidro são chamadas de faves. Cada fave possui
dez bolinhas cada. Estas bolinhas, como disse, são os líbex. Os líbex verdes
representam uma líbia cada. Se eu colocar um objeto aqui no prato que pesa uma líbia,
o libiador irá despejar aqui nesta bandeja, que chamamos de bandeja de resultados, um
líbex verde. Veja.

O grifinário colocou a fruta vermelha no prato da balança mágica. Uma vez que a
unidade líbia era o peso de uma fruta líbia, o libiador despejou uma bolinha verde,
informando que o objeto tinha o peso de uma líbia. Quando Esmelim retirou a fruta da
balança, o líbex verde retornou magicamente para a fave de bolinhas verdes, como se
tivesse sido aspirado.
— Agora, os líbex azuis representam dez líbias cada. Se o libiador despejar oito líbex
azuis e três verdes, o objeto...
— Terá oitenta e três líbias de peso — respondi, entendendo perfeitamente o uso do
libiador, embora não tivesse achado o objeto nem um pouco prático.
— Muito bem. E aqui temos dez líbex amarelos representando cada um cem líbias.
Quero que responda depressa quanto pesa este meu livro.

O grifinário soltou no prato do libiador um de seus livros mais pesados e o instrumento


liberou um líbex amarelo, quatro azuis e seis verdes. Como cada líbex liberado se
enfileirava na bandeja junto com os demais da mesma cor, era fácil identificar a
quantidade de cada cor.
— Cento e quarenta e seis líbias.
— Viu como é simples? — Esmelim retirou o livro da bandeja com as quatro mãos,
fazendo todos os líbex retornarem para suas respectivas faves.
— E quanto valem as bolinhas brancas?
— Os líbex brancos contam mil líbias cada. E, por último, os líbex vermelhos valem
dez mil líbias cada. Agora, quero que responda rápido: qual a capacidade máxima deste
libiador?

Poxa! Aquilo realmente forçou meu raciocínio. Tarana começou a rir de meu esforço
para pensar.
— Bom, se todas as faves liberassem todos os seus dez líbex, teríamos cento e onze
mil e cento e dez líbias — respondi, depois de quase um minuto.
— Nada mal para uma humana — zombou Esmelim. — E quantas taras este número
representa?

Tive de olhar na minha folha para lembrar quantas líbias faziam uma tara. Mas,
mesmo com a resposta (1300) não fui capaz de responder à pergunta.
— Isso dá 85 taras e seiscentas e dez líbias — respondeu o grifinário. — Mas não se
preocupe muito com estes cálculos. A maioria das tarefas que envolve pesagem e trocas
comerciais são realizadas por grifinários, que te darão o peso total antes mesmo que os
líbex alcancem a bandeja de resultados. Isto aqui é apenas para entender o nosso

106
sistema de pesagem, que provavelmente é um pouco diferente do sistema utilizado
pelos homens de Gâmbia.

Ele realmente não fazia ideia do quanto.


— E, como já havia dito, este é um libiador de cinco faves. Há libiadores com três e
quatro faves, mais simples e baratos, e também libiadores com oito faves, mas são
praticamente inúteis, a menos que resolvesse tentar pesar Diana e Diágira.
— E quanto ao meu peso? Você disse que saberíamos meu peso em Arfádia —
cobrei.
— Verdade, mas para isso vamos precisar de um libiador de grande porte. E está
aqui.

O grifinário retirou o lençol de cima do grande objeto que estava no canto da sala.
Era um enorme libiador, com seis faves, feito para pesar coisas grandes, como
rufanontes e, quem sabe, centauros e filhotes de dragão. A sexta fave possuía líbex
pretos.
— Venha, Scarlet, suba no prato do libiador.

Então me levantei e fiz o que ele pediu. No instante em que subi no prato, os líbex
começaram a cair na bandeja de resultados. Um líbex branco, um amarelo e cinco azuis.
— Mil cento e cinquenta líbias — anunciou o grifinário, batendo palmas com as quatro
mãos. — Menos de uma Tara. Receio que eu não seja muito mais pesado que você.
— Então suba na balança, quero ver.
— Tudo bem, mas não chame de balança, Alteza. É um libiador e somente
gambianos entendem se disser balança.

Esmelim subiu e verificamos que tinha mil trezentos e cinco líbias ou uma tara e cinco
líbias. Mais pesado do que eu, mas mais leve que Tarana, que pediu para verificar seu
peso e tinha uma tara e duzentos e vinte e cinco líbias.
A chuva lá fora já havia diminuído, deixando apenas um fim de tarde úmido e frio,
quando Esmelim anunciou o fim da aula. O grifinário disse que na aula seguinte
aprenderíamos sobre as unidades de distâncias arfadianas.

Saí da torre com Tarana e fomos direto ao refeitório, pois eu estava faminta. Depois
de comer o mesmo mingau servido naquela manhã, dessa vez com algumas frutinhas
pretas no meio, voltamos ao quarto onde estávamos dormindo.
Eu mal podia esperar para que Míriam me chamasse para eu ver vovó. Por isso tomei
banho depressa. O banheiro daquele quarto não era tão luxuoso. As torneiras não eram
de prata e as toalhas não flutuavam magicamente, mas o meu banho ainda foi bastante
agradável.
Então, Míriam finalmente mandou uma auxiliar de enfermagem (na verdade o nome
certo para a função, em Arfádia, é aprendiz de curadora) para me levar até a Ala
Medicinal e ficar um pouco com a vovó. Era uma elfa idosa, devia ter mais de trezentos
anos arfadianos, pois Tarana havia dito que elfos viviam em média quatrocentos anos.

107
Tarana nos acompanhou até a porta do quarto onde minha avó se encontrava. A Ala
Medicinal ficava no térreo do castelo, antes de ir para o salão das escadas que levam
para os demais andares. Acho que isso facilitava quando alguém chegava ao castelo
com dores ou doenças, não tendo que subir escadarias nem entrar por dezenas de
portas.
A Ala Medicinal era uma sala enorme, com mais de cem camas espalhadas, e vários
vidros de poções rotulados espalhados em diferentes prateleiras, além de alguns
equipamentos estranhos posicionados no centro do salão. Cada cama era cercada por
cortinas, mas apenas cerca de dez delas pareciam estar ocupadas. Entre as curadoras,
estavam três elfas e duas mulheres e uma delas era Mília Seixas.
— Rafael, pode vir até aqui — falou Mília ao me ver.

Ela estava sentada próxima à cama de vovó e me indicou uma cadeira para que me
sentasse também. Ao ver vovó naquele estado, imóvel e dura numa cama, voltei a ficar
muito triste.

— Ela vai ficar bem, não vai? — implorei.


— Estamos fazendo o possível, querido. Mas tenho de admitir que seiva de
barbacotol é quase sempre fatal para humanos. Andei pesquisando muito desde ontem
e descobri que a medicina arfadiana registra apenas seis casos de humanos que
sobreviveram a esse veneno em mais de quatro mil anos de humanidade em Arfádia.
Sinto muito mesmo dizer isso, mas o melhor é se preparar para o pior.

Aquilo agravou minha situação. Mília Seixas era tão boa em medicina e cura
arfadiana quanto péssima em psicologia infantil. Mas confesso que uma verdade
dolorosa era melhor do que uma mentira confortável.
— Então é só isso... esperar que ela morra? Onde estão os deuses arfadianos neste
momento? Por que não interferem para salvar uma pessoa inocente?
— Você poderá orar e fazer oferendas à deusa Éfila. Mas, infelizmente, as preces
arfadianas não são nenhuma garantia. As decisões dos deuses são misteriosas e só
podemos rezar e aguardar. A deusa da cura é a mesma da doença, da praga e da morte:
Éfila. Ela surge usando um véu para esconder sua face, que é horripilante e medonha,
e decide se alguém vai ou não morrer jogando uma moeda de prata para o alto. Se a
moeda cair do lado errado, Éfila tira o seu véu e mostra sua verdadeira face antes de
tirar a vida da criatura. Vamos torcer para que a moeda de Felícia caia no lado certo.

Ao ouvir aquilo, eu senti uma mistura de raiva e descrença.


— Então quer dizer que a vida da minha avó depende de um cara ou coroa? — gritei
em lágrimas e desesperada.
— Cara ou coroa? Em Arfádia chamamos de Face ou Véu.
— Que seja! — vociferei. — É um jogo. E a vida de alguém não deveria ser decidida
em um jogo.
— Sinto muito, Rafael, mas é assim que a deusa age. Todos nós, um dia,
receberemos a visita de Éfila. É a nossa sina. Ninguém nunca viu a face de Éfila e
sobreviveu para contar o quão apavorante ela é. Conheço cinco londorianos que já se
encontraram com Éfila e sobreviveram, sem precisar olhar através do véu. Espíbruto foi
um deles. Mas, no fim, ninguém pode sobreviver aos encontros por muito tempo. Agora,
peço que se acalme ou teremos de retirá-la da Ala Medicinal, mesmo sendo quem é.
— Todos vamos jogar cara ou coroa com uma deusa de véu?
— Nem todos. Há casos de morte sem moeda, como chamamos em Arfádia, para
casos de morte violenta onde não há a menor chance de permanecer vivo. A maioria

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dos mortos em guerras arfadianas não tem a oportunidade de jogar com Éfila; então ela
apenas surge para levá-los à Agnomídia sem mostrar a sua face. Uma coisa é certa:
com ou sem moeda, você se encontrará ao menos uma vez com a deusa. Há quem
prefira uma morte certa no campo de batalha que uma chance de permanecer vivo com
risco de ter de vislumbrar a face de Éfila.
— Credo! Que medo! Acho que prefiro uma morte sem moeda também — comentei,
embora não estivesse segura de minhas palavras. — Mas e se a moeda de vovó cair
do lado certo... ela vai acordar?
— Lamento dizer isso, mas não. A moeda cair do lado certo significa que ela não
morrerá naquele instante, mas, dependendo de seu estado, poderá se encontrar com
Éfila várias vezes seguidas e a moeda teria de dar Véu todas as vezes, até que Felícia
finalmente se recuperasse e não tivesse mais encontros com a deusa. Pode ser até que
Felícia já tenha jogado com Éfila algumas vezes desde ontem, quando mordeu a
alpáxia, e vencido todas. Porém, nada impede que sua saúde possa ter recaídas e Éfila
retorne para mais uma rodada de Face ou Véu.

Meu rosto estava cheio de lágrimas depois daquela conversa. Então, passei o
restante da noite ao lado da cama de vovó, acariciando sua mão gelada e implorando
aos deuses (eu estava rezando pela primeira vez em minha vida) para que ela
acordasse e voltasse a falar comigo.
Infelizmente, minhas preces não foram atendidas. Após voltar para meu quarto
(Tarana voltou para me buscar) tarde da noite para adormecer, fui acordada por Míriam
um pouco antes do sol surgir no Primeiro-Dil. Ela me deu a pior notícia que recebi em
toda a minha vida: Felícia, minha querida avó, havia sido levada para Agnomídia. A
moeda havia dado Face.

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Capítulo 11 - Mar do Fim do Mundo

O restante do dia foi extremamente doloroso para mim. O corpo de vovó ficou exposto
em uma espécie de altar que ficava nos terrenos do castelo. Apenas deixei o local com
o sol no Quinto-Dil, depois que Míriam ameaçou me transformar em falárvore se eu não
fosse comer alguma coisa. Obedeci, mas eu estava com o coração despedaçado.
Cheguei ao ponto de implorar para que Míriam abrisse um portal para que eu pudesse
voltar a Gâmbia e procurar meu avô, pois eu precisava de seu abraço. A feiticeira
respondeu que já havia enviado Liquita, Barbatão e Minja ao mundo dos homens para
encontrá-lo.
Os arfadianos colocavam seus mortos em barcos, juntamente com flores e velas,
para que a correnteza os levassem para o Fim do Mundo, que eram os extremos do
mundo mágico. Por isso, no dia seguinte àquela triste Li-Xiva, percorremos vários
quilômetros para o noroeste do reino, levando o corpo de minha avó para o Mar do
Fim do Mundo. Foram necessárias quatro enormes carruagens guiadas por quatro
cavalos cada. A primeira delas carregava apenas o corpo de vovó e as outras três
carregavam os amigos e parentes.
Somente membros da Lâmina Londoriana e alguns poucos empregados do castelo
estavam presentes. Estes últimos, apesar de terem conhecido Felícia e de serem seus
amigos, não sabiam a real identidade da mulher que acompanhavam. Míriam se recusou
a retirar o feitiço que fazia que estes esquecessem de minha avó. Falou que, por mais
doloroso que era ver Felícia partir sem os amigos por perto para uma última despedida,
era de extrema importância não deixarmos a cautela de lado. Alguém descobrira sobre
o retorno da herdeira de Alexandre e o estrago já havia sido assombroso. Não podíamos
correr mais riscos.
Dentro de nossa carruagem, estávamos Tarana, Berbuto, Míriam e eu. Eles não
pararam nem por um segundo de me consolar.
— Ela já está nos braços da deusa Clã, Alteza — informou Berbuto, procurando ser
o mais gentil possível. — Clã sempre trata com gentileza os recém-chegados.
— Achei que fosse uma deusa horrível que utilizava um véu para esconder sua feiura.
— Essa é Éfila, a deusa da morte — explicou Míriam. — Mas após a morte, seu
espírito fica sob a guarda de Clã, a Senhora de Agnomídia, o Reino dos Mortos.

Aquilo me fez pensar a respeito da vida pós-morte em Arfádia.


— E como é lá? O que acontece depois que você morre em Arfádia?

Todos na carruagem olharam para Míriam. Pareciam esperar permissão para revelar
alguma coisa. Míriam suspirou e por fim falou:
— Não era minha intenção falar sobre isso com você em seus primeiros dias em
Arfádia. Vou explicar por que a morte arfadiana não é tão ruim como parece.
— Verdade? Morrer quase sempre me parece um péssimo negócio — respondi. —
Vou passar o resto de minha vida sem conseguir abraçar ou ouvir os conselhos de minha
avó.

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— Nunca mais poderá abraçá-la — falou Míriam —, mas nada impede que continue
a receber os conselhos de sua avó.

Houve um longo silêncio dentro da carruagem enquanto a luz do sol entrava pela
janela atrás de Tarana e iluminava metade do compartimento onde estávamos. Os
únicos sons eram os dos cascos dos cavalos e das rodas que vez ou outra passavam
por cima de pedras e raízes.
— O que quis dizer com isso?
— Eu vou chegar lá, mas antes vou responder a sua primeira pergunta. O que
acontece depois que você morre em Arfádia? O espírito é enviado à Agnomídia.
— E esse lugar, Agnomídia... o que tem lá?
— Só podemos especular, Scarlet — disse Míriam. — Há alguns registros de
criaturas que visitaram O Reino dos Mortos e saíram de lá para contar como é, mas a
grande maioria dos registros é de origem duvidosa. Há quem diga que é uma cópia de
Arfádia, como a vemos aqui, embora tenha uma grande neblina e nunca haja calor. Você
verá todas as construções criadas pelas criaturas vivas, como castelos, pontes e
carruagens, mas nunca encontrará uma criatura com vida.
— Mas isso é horrível. Viver em uma espécie de segundo plano, mais frio e sombrio,
sem nunca poder rever ou falar com seus amigos vivos.

Agora, a carruagem em que estávamos parecia ter entrado em meio a árvores muito
fechadas, pois as folhas de várias delas bloquearam a luz que entrava pela janela.
Míriam fez surgir um fogo mágico azul que iluminou todo o compartimento. O fogo ficou
flutuando no ar.
— E há quem diga que é um lugar muito diferente daqui, com labirintos, montanhas
de fogo e lugares com neve — continuou a feiticeira. — Nunca teremos certeza antes
de ir para lá.
— Você disse que poderei...
— E essa é a razão de eu ter dito que poderia continuar a receber os conselhos de
sua avó: o Dia dos Mortos — falou Míriam, abrindo por completo a janela da carruagem,
porque o sol já se aproximava da Neréia e começava a ficar um pouco abafado ali
dentro.
— E o que acontece neste dia? — Comecei a ficar curiosa, embora meu rosto não
demonstrasse nada além de luto e pesar.
— No Dia dos Mortos, a deusa Clã permite que os espíritos saiam de Agnomídia e
retornem a Arfádia para falarem com parentes e amigos.
— Verdade? — Eu fiquei em pé e tive que me segurar em Berbuto para manter o
equilíbrio. — E por que demorou este tempo todo para me contar isto? Eu vou poder
falar com meus pais?
— Sente-se, Scarlet. Ou poderá se machucar se cair.

Então voltei a sentar.

— Demorei a lhe contar porque não quero que viva em Arfádia à espera do Dia dos
Mortos. Quero que foque em nosso principal objetivo no momento, que é a espada
Zárfia. É muito bom rever os mortos, mas seu principal objetivo como futura rainha de
Londor será o de proteger os vivos. É claro que, quando chegasse a hora, a sua avó lhe
contaria a respeito dessa data especial, mas eu pedi para que ela esperasse o fim de
seu treinamento para que sua ansiedade não prejudicasse seu aprendizado.

Por um lado, a feiticeira estava certa. Que importância tem a espada Zárfia se um dia
poderei conhecer minha mãe e meu pai e voltar a conversar com vovó? Meu coração
batia acelerado de agonia.

111
— Quanto falta para esse dia?
— Quase cinco meses. Quero que me prometa que vai continuar se dedicando ao
treinamento. Conheci pessoas que, após a morte de pessoas amadas, definharam em
solidão, à espera do próximo Dia dos Mortos. A única coisa que faziam era riscar mais
um dia no calendário, desesperados pelo grande dia. Não vou permitir que isto aconteça
à herdeira do trono londoriano — enfatizou Míriam.

Então, prometi que continuaria com o treinamento no dia seguinte. Ainda estava em
luto por saber que minha avó não estaria comigo todos os dias; que eu nunca mais
voltaria a dormir com ela na mesma cama ou pediria para costurar alguma roupa que
rasgara. Mas, então, sabia que a saudade seria amenizada uma vez ao ano.
— Tudo bem. Vou continuar a treinar com muito mais empenho. Para mamãe e papai
terem orgulho quando me virem.
— Tenho certeza que sua mãe ficará orgulhosa de sua filha, Scarlet — disse Míriam,
com um olhar triste.

Eu desconfiei que a frase seguinte não traria boas notícias.


— Mas receio que não poderá ver seu pai no próximo Dia dos Mortos. Alexandre
nunca saiu de Agnomídia.
— Eu pensei que todos os espíritos saíssem de lá no Dia Dos Mortos — revelei,
deprimida.
— Não. Algumas condições, por assim dizer, precisam existir para que um espírito
receba permissão de visitar os vivos — explicou Míriam.
— Que condições são essas?
— Em primeiro lugar, o espírito necessita de um laço no mundo vivo, alguém que
guarde boas lembranças e saudades da criatura que partiu. Enquanto houver quem
ainda deseja revê-lo, o espírito ganhará permissão ano após ano. Mas se uma criatura
morre sem deixar laços, ela nunca regressará. Por isso é importante que alimente boas
relações enquanto estiver por aqui, Scarlet. O número de vezes que receberá permissão
para deixar Agnomídia dependerá do quão forte são os laços de amizade e amor que
deixará.
— Muito bonito! E suponho que uma pessoa má e fria, como o feiticeiro Serses, ficará
preso em Agnomídia para sempre.

Míriam refletiu por um momento.


— Nunca tivemos notícias de amizades verdadeiras do feiticeiro, apenas servos leais
e temerosos. Então é bem provável que Serses fique preso em Agnomídia e por isso se
recuse a deixar o mundo dos vivos, realizando magia negra para prolongar ao máximo
sua entrada no Reino dos Mortos.
— Mas então por que meu pai não pode sair de lá? Aposto que o rei de Londor deixou
muitos laços.
— Correto. A existência de laços não foi o problema de Alexandre Caspor. Mas sim
um ritual macabro chamado de Ritual do Cárcere Perpétuo.
— Caramba! Pelo nome, deve ser algo apavorante. O que fizeram com meu pai? O
que é exatamente esse Ritual da Prisão Perpétua?
— Ritual do Cárcere Perpétuo — corrigiu a feiticeira — é uma oferenda de sangue
que alguém realiza para a deusa Clã. A deusa então aceita a oferenda e, em troca,
proíbe a saída de determinado espírito no Dia dos Mortos. O ritual é muito difícil de ser
realizado e são necessárias sete cabeças de criaturas arfadianas decapitadas durante
o ritual.
— Quanta barbárie! — falei, horrorizada. — A deusa não deveria aceitar esse tipo
de oferendas. Mas por que alguém faria isso? O que ganham prendendo uma alma no
Reino dos Mortos?

112
— Ganham silêncio — falou Míriam. — A maioria dos casos de assassinatos é
resolvida assim que o espírito sai de Agnomídia no Dia dos Mortos e revela seus
assassinos. Para impedir que isso aconteça ou apenas para ganhar tempo, alguns
contratam feiticeiros malignos para realizarem o Ritual do Cárcere Perpétuo. Também
há aqueles que eliminam todos os possíveis laços do espírito, seus parentes e amigos,
para impedirem seu retorno.

Eu estava completamente horrorizada com tudo aquilo.


— Então quer dizer que meu pai não pode deixar o Reino dos Mortos porque alguém
realizou esse ritual horrível?
— Com certeza é essa a razão. Um Ritual de Cárcere Perpétuo pode ser feito em
qualquer lugar de Arfádia, desde as Montanhas de Neve, aqui em Londor, à Floresta de
Sangue, no Reino de Sérsia; desde o Pântano das Luzes, em Anólia, ao Deserto de
Ninguém. Em algum lugar de Arfádia, seja numa floresta, montanha, ou caverna, existe
um Ritual de Cárcere Perpétuo realizado para o espírito de Alexandre Caspor. A menos
que o altar feito para o ritual, com suas sete cabeças decapitadas, seja destruído, seu
pai nunca sairá de Agnomídia.
— E o que Serses ganha prendendo meu pai em Agnomídia?
— Primeiro que ele impede que Alexandre forneça informações importantes ao reino
de Londor — falou a feiticeira. — Segundo que é uma maneira que Serses encontrou
de castigar seu pai. Ele e Alexandre se tornaram grandes inimigos.

Aquilo não era justo. Eu havia acabado de ficar feliz com a possível oportunidade de
falar com papai e agora descobrira que talvez nunca conseguisse.
O fogo mágico de Míriam começava a dar sinais de querer apagar.
— Nunca fui tão boa com fogos quanto Arteniel — comentou. — Os dele ficam acesos
por dias e podem até mudar de cor, dependendo do humor das criaturas ao redor.
Vermelhos, se tiver alguém muito zangado por perto, ou verde, se todos estiverem
felizes.
— E o que podemos fazer a respeito? Por onde começamos a procurar? — tentei
não desviar do assunto.
— Várias missões da Lâmina tiveram por objetivo encontrar o ritual de Alexandre —
enfatizou Míriam. — Encontramos dois Rituais de Cárcere Perpétuo, um em Entrios e
outro em Rambur, mas nenhum deles foi realizado para Alexandre. Temos quase
certeza de que o ritual foi realizado no Reino de Sérsia, mas, a menos que tenhamos a
espada Zárfia e um grande exército, é impossível entrar lá. Esmelim Chisto, nosso
melhor espião, já tentou a façanha uma vez. Mas seu irmão Drogo Chisto foi morto
durante a missão e ele próprio quase perdera a vida.
— Mas precisamos tentar mais uma vez. Deve ter algum jeito.
— No momento, fazer Alexandre retornar no Dia dos Mortos não é nossa prioridade,
Scarlet. Seu pai sabia que isso poderia acontecer e deixou tudo preparado. Você abriu
o Baú de Kavala e temos condições de encontrar a espada sozinhos. Talvez um dia,
após a destruição do dragão, invadamos o Reino de Sérsia e encontremos o ritual.

Eu estava tão irritada com aquilo, mas então lembrei que veria mamãe e vovó. O Dia
dos Mortos seguinte seria muito especial, mesmo sem papai.
— E se — e naquela hora fiquei assustada de verdade — a pessoa que envenenou
vovó fizer um ritual desses para que ela nunca mais volte?
— Acho muito improvável — disse Míriam. — Primeiro que, mesmo que sua avó
retornasse como espírito no Dia dos Mortos, ela não saberia a identidade da pessoa
que envenenou as frutas. Então o assassino não tem com o que se preocupar. Segundo
que, nem todo mundo está disposto a matar sete criaturas para impedir que uma única

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alma fique presa em Agnomídia e ainda menos têm dinheiro para pagar um feiticeiro
com talentos avançados em magia negra para realizar o ritual. Não se preocupe, Rituais
de Cárcere Perpétuo são extremamente raros.

Aquilo me deixou um pouco mais tranquila.


— Quem você acha que realizou o ritual para papai?
— Fenir, com toda certeza.

Eu sabia que aquele feiticeiro que nos interrompeu durante a travessia da ponte era
maligno. Naquela hora, eu tive absoluta certeza daquilo.
— Não se preocupe, Alteza. O ritual de Alexandre será encontrado e destruído em
breve — consolou Tarana, embora ela não estivesse muito segura de suas palavras.
— Você disse que não tem certeza de como é Agnomídia — lembrei. — Por que
nunca perguntaram isso aos espíritos que retornam no Dia dos Mortos?
— Isso já aconteceu em Arfádia, Scarlet — informou Míriam. — As criaturas vivas
sempre indagavam os mortos sobre Agnomídia, mas Éfila, a deusa da morte, reclamou
com Telur quando algumas criaturas pararam de temer a morte. Quando Éfila surgia, a
criatura sabia para onde iria, o que havia por lá e que também poderia retornar no Dia
dos Mortos. Acabou-se o mistério da morte e Éfila se recusou a matar enquanto não
voltassem a temê-la.
“Telur permitiu então que Éfila matasse todos os laços do espírito que abrisse a boca
e revelasse o que há depois da morte, a fim de manter o mistério. Aproveite o pouco
tempo com sua avó para conversarem de coisas boas e nunca pergunte sobre a morte
para um espírito. Éfila pode estar à espreita. ”
— Vou lembrar disso.

A carruagem viajou por mais um longo tempo e, quando finalmente descemos, o sol
parecia estar na metade do Sexto-Dil. Havia muitas nuvens no céu, que deixavam o sol
pálido e a tarde cinzenta. As outras criaturas desceram das outras carruagens. Catara,
Dímia e Dúmia se aproximaram de onde estávamos.
— Sinto muito por sua perda, Scarlet — falou Catara, oferecendo-me um aperto de
mãos. — Vamos descobrir quem fez isso, pode ter certeza. Aposto mil moedas de prata
que foi aquele Palato. Se conseguirmos provar, ele será alvejado por nossas flechas na
frente de todo o reino.
— Aceite nossas condolências, Alteza — pediu Dúmia.
— Nós não a conhecíamos bem, mas temos certeza de que, sendo sua avó, devia
ser uma pessoa amável — disse Dímia, a cabeça loira.

Tivemos que caminhar mais um bom pedaço, de difícil acesso para as carruagens.
Havia pedras e a areia era muito fofa, o que com certeza teria atolado as rodas. Berbuto
e o pai, Espíbruto, carregavam o barco onde estava o corpo de minha avó.
Após chegarmos ao topo de imensa duna de areia, finalmente avistamos o mar.
Idêntico ao mar de Gâmbia, porém, parecia mais calmo. Ondas pequenas e sem
espumas vinham tocar a areia.
Tarana explicou que as águas vinham em direção à praia apenas a partir de
determinado ponto no mar, que chamavam de forintal. Se você entrasse no mar e
nadasse até ultrapassar o forintal, a correnteza não te traria mais para à praia, mas te
levaria em sentido ao extremo de Arfádia, ao Fim do Mundo, e você despencaria no
Grande Abismo.

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Para completar a Última Despedida, como era conhecido o ato de dar fim aos mortos
arfadianos, era necessário fazer que a embarcação que leva o corpo ultrapassasse o
forintal, quando então navegaria em direção ao Fim do Mundo.
Finalmente nos aproximamos do mar. Dei um último beijo na testa de vovó e depois
Berbuto e Espíbrito colocaram a embarcação na água. Míriam empurrou o barco com
um feitiço até que este ultrapassasse o forintal. E, com lágrimas na face, avistei o
barquinho ficar cada vez menor, até finalmente desaparecer de vista.
Depois, tirei as botas e molhei meus pés na água gelada.
— A água do mar é ótima cura para a maior parte dos problemas emocionais — falou
Tarana, também molhando os seus pés. — Se estiver se sentindo triste e depressiva,
procure correr para a praia e orar a Neptar, a deusa dos mares. A água vai amenizar
seus problemas.
— Confesso que já me sinto melhor, embora ainda exista um enorme vazio dentro
de mim. Há menos de uma semana, eu estava em minha casa com meus avós, sem ao
menos ter ideia da existência deste lugar. Agora estou aqui, sem meus avós, cercada
por criaturas mágicas e aprendendo a língua dos elfos, me preparando para me tornar
rainha e governar um reino inteiro.
— Confie em mim, Alteza. No fim desta sua jornada, você terá se tornado alguém
que nunca imaginou que se tornaria. Alguém que nunca teria se tornado se tivesse se
protegido de seus medos atrás de uma porta ou cortina.

Acho que Tarana estava repleta de razão. Eu daria tudo para ter minha avó de volta,
mas, já que não podia tê-la comigo, era hora de encarar a realidade e enfrentar meus
medos. Naquele dia, eu jurei me dedicar ao máximo a meu treinamento, a fim de me
tornar uma verdadeira guerreira londoriana, uma rainha capaz de proteger seu reino
com sabedoria.
Arthur e Mília Seixas vieram me oferecer seus pêsames.
— Conhecemos sua avó desde antes de sua mãe casar com Alexandre — falou
Arthur. — Para nós, a partida dela é bastante dolorosa. Perdemos uma amiga e
companheira e agora temos mais um motivo para esperar ansiosos o Dia dos Mortos.
Arteniel ficará arrasado.
— Estamos fazendo o possível para descobrir o responsável por isso — consolou
Mília. — Já interrogamos quase todo o castelo e, infelizmente, ninguém parece ter visto
nada naquele dia. Eu, pessoalmente, não acredito que tenha sido aquele Palato
Rimanor. Ele é um homem estranho, com certeza, mas vi sinceridade nos olhos dele
quando o interrogamos. Não conseguimos verificar nenhuma ligação entre ele e Serses.
Quem envenenou as frutas sabia que seu nome falso era Rafael, pois escreveu no
bilhete. De qualquer modo, não podemos soltá-lo até ter certeza.
— Se não foi ele, quem mais teria sido? Então o verdadeiro responsável não está
mais no castelo — falei. — É bem provável que já tenha partido.
— Os únicos a deixarem o castelo desde aquele fatídico incidente foram os membros
da Lâmina Londoriana, que viajaram ontem para o mundo dos homens — lembrou
Arthur. — Eu ainda acredito que ele esteja no castelo, esperando uma oportunidade de
fazer certo o que tentou e não conseguiu da primeira vez. Por isso, Míriam me ordenou
que iniciássemos seu treinamento com espada amanhã de manhã. Você precisa
aprender a se defender depressa.
— Jura? E minhas aulas teóricas com Roxana e Esmelim?
— Você as fará à tarde e à noite. Receio que, durante as próximas semanas, você
tenha seus dias bem ocupados. Iniciaremos um treinamento intensivo com espadas,
lanças e escudos. Depois aprenderá arco e flecha com Tarana e depois a cavalgar com

115
Cascavim. Mas apenas cavalos comuns. As aulas com cavalos alados serão com
Catara, a líder da Frota Aérea Londoriana e muito experiente com voos.
— E as áculas?
— Nenhum iniciante monta uma ácula, Alteza — informou Tarana. — Elas são muito
velozes e não possuem o mesmo instinto dos cavalos de salvar seu montador caso este
esteja caindo em direção ao solo. Você raramente morre voando em cavalos; eles
voarão em queda livre para colocá-la de volta em suas costas, caso caia. É muito mais
seguro voar em cavalos, embora sejam muito mais lentos. Terá de ficar experiente com
eles antes de experimentar um voo de ácula.
— Ótimo! Eu prefiro os cavalos mesmo.

Míriam então pediu para conversar comigo por um instante e saímos caminhando
pela beira da praia. A feiticeira também estava sem os tamancos e molhava os pés na
água.
— Scarlet, eu preciso ter certeza de que se dedicará ao máximo ao seu treinamento.
Você iniciará algumas aulas práticas com Arthur, amanhã.
— Sim, ele acabou de me falar. Vou aprender a usar espadas, lanças e escudos.
— E a usar o colar sumidouro que recebeu de seu pai, lembra?
— Verdade! — gritei. — Eu já havia esquecido que aprenderia a desaparecer.
— E há outra coisa que preciso te contar: o escudo que estava dentro do baú passou
em todos os testes. Ele é realmente o Escudo de Arnok.
— Que boas notícias, Sra. Míriam! Mal posso esperar para usá-lo.
— Começará a utilizá-lo em seus treinos com Arthur, embora preciso que treine
também com escudos normais ou ficará dependente do Escudo de Arnok. Os escudos
normais não repelem o impacto como o escudo mágico dos anões e precisará se
acostumar com isso. Ou se encontrará em apuros se precisar utilizar um escudo comum
no campo de batalha.
— Prometo treinar com todas as armas possíveis, sejam mágicas ou comuns. Quero
estar preparada quando enfrentar o inimigo.
— Vamos permanecer com seu treinamento até o fim deste ano. Na primeira semana
do mês de Arno, deverão estar prontos para rumar para a direção que o magigneto
aponta. Só os deuses sabem o que poderão encontrar pelo caminho.
— Vamos esperar por vovô, não é mesmo? — Eu morria de saudades dele.
— Sim. Aguardaremos a chegada de Liquita, Minja e Barbatão. Eles trarão notícias
do que aconteceu no mundo dos homens após a entrada de vocês em Arfádia.
— Tomara que vovô tenha dado uma surra naquele tal de Fenir.
— Bem que eu gostaria de ouvir isso, Scarlet. Mas, conhecendo Fenir, ele terá fugido
antes de ser derrotado. Não seria a primeira vez que fugiria de um conflito com Arteniel.
— Covarde!

O sol já havia entrado no Oitavo-Dil e o céu ficou com uma coloração avermelhada.
— Acho melhor voltarmos para o castelo. Uma última coisa: já posso te devolver isto.

Era a chave de prata presa à corrente.


— O Baú de Kavala ficará fechado até o dia de nossa partida. O escudo e o colar já
estão na posse de Arthur, para seus treinos.
Fiquei feliz ao colocar a corrente mais uma vez no pescoço.
Então, voltamos a nos reunir com os demais. Antes de sairmos, troquei um longo
abraço com Roxana Natalie.
— Seja forte, Scarlet! Quero que saiba que ainda tem muitos amigos aqui.

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— Você bem que podia ser minha irmã mais velha, Roxana. — Abracei-a bem forte.
— Já te considero minha irmã caçula.

Sentei em uma pedra para calçar as botas novamente. Víctor Copas, o aprendiz de
feiticeiro, de cabelos cinzas, veio até mim. Ele usava a mesma capa azul-escuro e
alguns braceletes no punho.
— Sinto muito pelo que aconteceu. — Sentou-se ao meu lado.

Eu não me sentia muito confortável com ele ainda, então, apenas aceitei seus
pêsames com um aceno de cabeça.
— Míriam me pediu para ficar de olhos em você depois do que houve. Então, estarei
por perto, mesmo que não me veja.

O garoto tinha um ar metido, como se pudesse resolver todos os problemas.


— Tarana já está fazendo isso. Ela nunca me deixa sozinha.
— Eu sei. Mas Tarana não é uma feiticeira; as habilidades dela têm limite.
— Pelo que eu saiba, você é só um aprendiz de feiticeiro — deixei claro que não
estava gostando da conversa. — E meu avô voltará em breve, como bem sabe. Tenho
certeza de que os poderes dele são bem superiores aos seus.
— Então, até que ele retorne, eu ficarei por perto.
— Agradeço. Agora tenho de ir — encerrei, levantando e saindo para me juntar a
Tarana e Roxana.

O garoto ficou bastante confuso e ofendido. Alguns funcionários do castelo também


vieram me consolar.
— Ela era a sua avó, não é garoto? Sinto muito pelo que houve — falou um anão.
— Ficamos horrorizadas quando soubemos da notícia de uma pobre senhora que
falecera após comer alpáxia envenenada — disseram duas mulheres que eram muito
parecidas.
— Você vai precisar ser forte agora, Rafael — lembrou Victerigo, o grifinário
conselheiro do rei. — Arthur e Mília estão arrasados. Suponho que agora sejam seus
únicos parentes, não é?

Míriam então ordenou que voltássemos para as carruagens. Estávamos caminhando


em direção a elas quando avistamos uma ácula voar veloz em nossa direção.
— Veja Míriam — apontou Arthur. — Deve trazer notícias urgentes do rei.

A ácula desceu rasgando o céu e pousou próxima aos cavalos. Em suas costas, uma
elfa de cabelos vermelhos e orelhas bem grandes.
— O que foi, Sátara? Por que toda esta pressa? — perguntou Míriam, agoniada.
— O castelo de Londor está sob ataque. Um exército de cerca de mil criaturas
marchava em nossa direção antes de eu deixar a muralha. Carregavam uma bandeira
com o brasão de Egélia.

O alvoroço foi instantâneo. Míriam ordenou silêncio.


— Conseguiu visualizar algum feiticeiro na linha de frente?

Eu ainda não sabia naquela hora, mas a presença de um feiticeiro de níveis


avançados em um exército inimigo era motivo suficiente para ficar muito preocupado.
Um feiticeiro experiente poderia equivaler a outras mil criaturas.

117
— Esta é a razão de eu ter vindo tão depressa — informou Sátara. — Fenir lidera o
exército.

Aquilo não era nada bom. Fenir já regressara a Arfádia e meu avô ainda não.
Míriam rapidamente ordenou que todos entrassem nas carruagens. Eu estava quase
subindo quando Míriam me puxou pelo braço.
— Você ficará aqui com Roxana, Scarlet. Mais tarde voltaremos para buscá-las. O
inimigo acha que a herdeira de Londor está no castelo.

Então os cavalos partiram em velocidade. Míriam pediu a espada de Sátara e a


entregou para Roxana.
— Se ouvirem alguém se aproximar, se escondam e só apareçam quando tiverem
certeza da identidade da criatura. Mandarei que venham buscá-las assim que o castelo
estiver seguro.

Então Míriam subiu na ácula e, junto com Sátara, voaram em direção ao castelo. Eu
apertei bem forte a mão de Roxana, nervosa com tudo o que acabara de acontecer.
Depois que a ácula desapareceu de vista, percebi que estávamos sozinhas na praia
e o sol já quase desaparecia, descendo para entrar no Primeiro-Brã.
— Preciso informar que nunca usei uma espada — confessou Roxana, que tentava
esconder o seu medo, mas fracassava em sua tentativa.

Algum animal uivou pelas redondezas, me deixando de cabelo em pé.


— Diga que isto não foi um lobisomem — pedi.
— O que ouvimos foi um pestrálio.
— Eles são bonzinhos, né?
— Alguns deles já foram parar no mundo dos homens e incomodaram muitos
fazendeiros. Ficaram conhecidos por lá como chupa-cabras. Então eu diria que não,
não são bonzinhos.

Que droga. Alguma coisa me dizia que aquela noite não seria nem um pouco fácil.

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Capítulo 12 - Noite na Praia

Decidimos caminhar de volta à praia. Eu estava assustada com a ideia de passar a


noite longe do Castelo de Londor, onde poderia dormir em uma cama quentinha,
protegida por muralhas e paredes de pedras, depois de tomar um banho quente na
banheira mágica. Sem falar na comida do castelo. A última coisa que eu tinha comido
foram alguns biscoitos que Tarana me oferecera dentro da carruagem, quando
estávamos vindo.
— O que vamos fazer?

A garota não estava completamente tranquila, mas, talvez para não me assustar,
tentou parecer no controle da situação.
— Se vamos ficar aqui por alguns brãs, talvez até depois da Parnéia, temos de
acender uma fogueira. Ela vai manter os animais longe de nós — explicou. — Vamos
até aquelas árvores no fim da praia para procurar gravetos.
— Mas não foi de lá que saiu aquele uivo de chupa-cabra? — perguntei. — E aquelas
árvores parecem assustadoras.
— Aquela é a Floresta Sombria. De fato, é bastante assustadora, mas é melhor
fazermos isso enquanto ainda temos um restinho da luz do sol. E não temos muitas
escolhas, pois o vilarejo mais próximo fica a mais de cinco gralhas daqui.

Eu não tinha ideia do que fosse uma gralha, mas, naquele momento, não estava com
nenhuma vontade de aprender. Então concordei em ir até lá, desde que não
entrássemos muito para dentro da floresta.
— Também vamos procurar pela lipla-flamejante para conseguirmos acender uma
fogueira.

Então caminhamos cerca de dois quilômetros de areia da praia. Eu não sabia se


reclamava de fome ou de cansaço. Resolvi não reclamar de nada, pois não queria piorar
as coisas e ser uma companhia desagradável.
— E lá está a nossa janta — anunciou Roxana apontando para a beira da praia.

Demorei a perceber do que ela estava falando. Mas em seguida reparei em alguns
animaizinhos que pareciam cogumelos, que saíam do mar e vinham procurar alguma
coisa na orla da floresta. Eles cavoucavam na areia úmida próxima às árvores e depois
voltavam para dentro d’água com alguma coisa segura nas garras.
— O que são aquilo e o que estão fazendo?
— Chumelicos. Eles saem do mar para procurar lomos enterrados na areia.
— E a gente vai comê-los?
— Você vai adorar o gosto deles. Lembra siri de Gâmbia, mas possuem muito mais
carne.
— E é simples de pegá-los?
— Mais fácil, impossível. Você verá.

119
Então finalmente chegamos à orla da Floresta Sombria. Ao perceberem nossa
presença, os chumelicos pararam no meio da praia e não avançavam mais. Percebi que
o que eles vinham procurar era uma espécie de verme branco, do tamanho de uma
lagarta, que viviam em tocas em baixo da areia.
— Eles voltarão assim que entrarmos na floresta e desaparecermos da vista deles
— avisou Roxana, despreocupada.

Entramos em meio às árvores. Eram árvores velhas e algumas pareciam estar nos
espiando, prontas para nos atacarem. Eu fiquei bem próxima de Roxana, evitando tocar
em alguma coisa que eu não soubesse o que era.
— Ajude a catar galhos secos como esse. — Ela me mostrou um galho grosso que
juntara do chão.

Havia vários deles, mas, dentro da floresta fechada e com pouca luz do sol, eu quase
não enxergava. Duas vezes eu pulei de medo ao tocar em coisas que se mexeram.
— Eu não estou enxergando mais nada, Roxana. — Ao me virar, percebi que ela não
estava por perto. — Roxana?
— Estou aqui, já vou — falou a algumas árvores de distância.

Roxana retornou para onde eu estava, trazendo nas mãos uma pequena muda
prateada fluorescente que iluminava um pouco do espaço ao redor.
— Que isso? — Eu estava admirada com a pequena planta brilhante.
— É um viz-prateado. As fêmeas ficam fluorescentes quando estão no período fértil
para chamar atenção dos machos, que se deslocam até elas para unirem suas raízes e
dar origem a novas sementinhas.
— É sério? — Voltei a catar gravetos, pois Roxana ia segurando a planta próxima ao
chão para iluminar minha busca. — De todas as coisas esquisitas que vi em Arfádia, a
plantinha que fica no cio com certeza está no topo da lista.
— Isso é bastante comum na flora e na fauna arfadiana, Scarlet. As fêmeas da
grágula, uma espécie de ave muito parecida com corujas, ganham um longo penacho
durante o mês de acasalamento. Assim que são fecundadas por machos, o penacho
cai. As sereias, por exemplo, liberam no ar um perfume adocicado toda vez que mexem
nos cabelos. Perfume este que atrai tritões de reinos distantes.
— Achei que as sereias fossem mais sutis.

Eu já estava com o braço cheio de gravetos quando Roxana pediu que eu os largasse
próximo à praia para que procurássemos por outra planta, a lipla-flamejante. Então fui
até a orla novamente e deixei os gravetos lá.
— Ela é um pouco maior do que o viz-prateado, é vermelha e suas folhas são repletas
de bolinhas azuis — explicou, quando estávamos de volta entre as árvores. — Tenho
certeza de que estão presentes na Floresta Sombria; é só questão de sabermos
procurar.
— E ficam no chão?
— Quase sempre, embora às vezes nasçam em troncos de outras árvores.

Às vezes, eu tinha a impressão de que as plantas e árvores ao redor estavam


cochichando baixinho, como se não fôssemos bem-vindas. Eu olhava assustada para
cima vez ou outra, como se alguma árvore fosse me dar uma galhada na cabeça a
qualquer momento.
— Estou começando a ficar com medo deste lugar — confessei.

120
— Eu também, mas sem a lipla ficaremos sem jantar. Vamos encontrá-la e sair daqui logo.

Para meu horror, precisamos entrar mais para dentro da floresta. Roxana encontrou
outro viz-prateado fluorescente. Então, ficamos procurando juntas, cada uma com sua
fonte de luz.
Roxana me viu tocando nas diferentes plantas que encontrávamos e pediu que eu
não fizesse mais isso.
— Além de perigoso, você poderá desperdiçar a lipla-flamejante.
— Como assim... desperdiçar?
— Há um motivo para essa planta se chamar lipla-flamejante.
— Aposto que ela pega fogo — fui irônica.
— Correto. Elas ficam em chamas sempre que forem tocadas de maneira agressiva
ou se sentirem ameaçadas. Após incendiar-se, a planta vira cinzas e renasce.
— Incrível! Como uma fênix?
— Como uma fênix, mas leva de três a cinco dias para renascer e não temos esse
tempo todo. Então, precisamos aproveitar seu fogo quando ela for se defender.
— Entendi.

Avistamos os primeiros insetos da Floresta Sombria (pareciam carochas alaranjadas


e faziam um barulhão quando voavam, como os zangões de Gâmbia), mas Roxana
avisou que não eram perigosos. Ainda assim, fiquei bem longe deles.
— Achei! — avisou Roxana, pedindo para que eu não me aproximasse muito. —
Agora, temos de cavar em voltar e retirar inteira, segurando apenas pelas raízes, sem
tocar nas folhas.

Eu ia ajudar a iluminar a planta quando raízes se enroscaram em minha perna e me


derrubaram no chão.
— Roxana! — gritei, enquanto as raízes me arrastavam.

A garota correu em minha direção de espada em punho. Era uma árvore velha e
negra que estava tentando me erguer com seus cipós. Eu berrava bem alto, tamanho
meu desespero.
Roxana puxou a espada e começou a cortar os cipós, tomando cuidando para não
me acertar. Eu já estava totalmente suspensa no ar e as árvores em volta começaram
a fazer um barulhão, como que dando apoio à árvore para me enforcar.
Finalmente, após Roxana conseguir cortar o último cipó, eu caí estatelada e
apavorada no chão da floresta.
— Você está bem? — perguntou apressada, me ajudando a levantar.
— Vamos sair daqui logo! — berrei, com areia na boca e folhas no cabelo.
— Não sem a lipla-flamejante. — Procurou outra vez pela planta.

Ainda atônita pelo ataque silencioso da árvore, ajudei a iluminar em volta, embora
minhas mãos tremessem, para que Roxana terminasse de cavar e retirar a planta da
terra por inteira.
— Venha, vamos embora. — Estava com a planta nas mãos. — Seus gritos podem
ter despertado coisa pior que a sagoma-carrasca.

121
Então corremos em disparada de volta à praia. Roxana pediu que eu pegasse os
gravetos, que eu quase esquecera na pressa de sair dali. De volta, percebemos que Diana
já estava na metade do Segundo-Dil, brilhando acima de nós e iluminando a orla.
— Venha, Scarlet — chamou aliviada, assim como eu, por estar longe das árvores.
Fizemos um amontoado de gravetos e folhas secas a alguns metros da floresta. Por
fim, Roxana largou em cima a lipla-flamejante que, após a queda em meio aos gravetos,
defendeu-se inflamando todas as suas folhas e galhos. Em segundos, a planta havia se
transformado em uma bola de fogo, queimando os gravetos e acendendo a fogueira.
É claro que vibramos e batemos as mãos ao ver o resultado de nossa pequena
aventura.
— Ela vai ficar muito tempo acesa? — Imaginei se precisaria retornar à floresta.
— Ela vai durar um pouco. Mas, mais cedo ou mais tarde, teremos de buscar mais
gravetos. O que fez com o viz-prateado? Vamos precisar mais tarde.
— Larguei no chão antes de pegar os gravetos. Ele vai morrer?
— Se houver terra por perto, a planta vai voltar a enterrar suas raízes e ficar em pé
outra vez. Então acredito que estará lá, esperando por nós.
— Aquelas plantinhas foram muito úteis.
— Agradeça à deusa Xiva. Ela é muito criativa na hora de criar suas plantas. Vem,
vamos catar chumelicos que estou morrendo de fome.

Para capturar aquelas criaturinhas, Roxana explicou que era preciso ficar sem
se mexer por alguns minutos, até que se esquecessem que nos viram se
mexendo. Quando se aproximassem de nós, agarraríamos pelo cogumelo e
sacudiríamos até que desmaiassem. Não eram muito espertos nem muito
resistentes, mas no começo fiquei com medo porque se mexiam muito, abrindo
os tentáculos, parecendo aranhas gigantes.
Sempre que pegávamos um deles, os outros corriam de volta ao mar. Para voltarem
minutos depois, como se nunca tivessem nos vistos. Em pouco tempo, eu já era
especialista em pegar chumelicos. Você só precisava ser paciente e esperar sem se
mexer.
— Acho que já temos o suficiente. — Roxana indicou o amontoado de criaturinhas
que capturamos.

Como não tínhamos nenhuma bolsa ou sacola, fizemos duas viagens cada para levar
os chumelicos até próximo à fogueira. Roxana procurou um graveto fino e o quebrou
em dois. Depois, ensinou-me a furar as criaturinhas e assá-las na fogueira, como se
fossem marshmallow.
— Você não tem pena? São tão bonitinhos.
— Geralmente eu tenho, mas só com o estômago cheio — respondeu e rimos bem
alto.
— É um bom argumento. Mas vem cá, você não vai lavá-los?
— Já estavam na água. E o mar arfadiano não é salgado.
— Mesmo? Então eu poderia beber a água do mar?
— Fique à vontade.

Como eu já começava a sentir sede, fui até as ondas, me abaixei e bebi um pouco
da água. Era como se fosse água de rio. Quando voltei para perto de Roxana, a parte
de baixo de minha roupa estava encharcada.

122
— Por que não disse logo que eu podia beber aquela água? Eu estava preocupada
que pudéssemos morrer sedentas aqui.

Os chumelicos já estavam liberando um aroma delicioso.


— Pegue um. Estão prontos.

Segurei um nas mãos e arranquei um bom pedaço. Estava com tanta fome que,
mesmo se fossem ruins, eu teria adorado. Mas a verdade era que realmente eram muito
saborosos e, como Roxana havia dito, com muito mais carne que siris de Gâmbia. Com
exceção das patas, que eram ocas e sem carne, podia-se comer todo o resto.
Roxana e eu comemos e conversamos durante bom tempo. Se não fosse meu medo
de ficar tão perto da Floresta Sombria, aquela poderia ter sido uma noite de
acampamento com uma amiga. Rimos muito a noite toda, mas depois conversamos
sobre assuntos sérios.
— Como acha que está indo a batalha?
— Estou bem preocupada. Não que Míriam não seja capaz de proteger o reino, mas,
como estávamos aqui, ela pode ter demorado a chegar lá e Fenir já ter feito estragos.
— Mas Míriam pode desaparecer e reaparecer em outros lugares. Eu a vi fazendo
isso. Por que ela preferiu ir de ácula?
— Nenhum feiticeiro reaparece em lugares tão longes, Scarlet. O feitiço de teleporte
é usado para mudar de cômodos ou em batalhas para enganar o adversário. Ninguém
viaja oito gralhas por teleporte.

Então, de barriga cheia, eu estava mais propensa a aprender. Por isso perguntei:
— O que é uma gralha? Tem a ver com o sistema de distâncias arfadiano, não é?
— Você ainda não sabe? Achei que Esmelim já tivesse explicado, desculpa. E eu
aqui falando gralha o tempo inteiro. Sim, é uma das unidades de distâncias arfadianas.
— Ele iria me ensinar em nossa próxima aula, mas, tivemos o problema com a vovó
e atrasamos. — Voltei a ficar triste ao lembrar de vovó.
— Tudo bem. É bem simples. O sistema de distâncias não era utilizado em Arfádia
antes do homem. As antigas raças expressavam distancias como “dois dias de
caminhada”, “meio-dil de caminhada”, essas coisas. Mas sempre dava problemas, claro.
Nem todas as raças tinham o mesmo ritmo para caminhar. O sistema atual foi inventado
por um feiticeiro há mais de quatro mil anos, bem no início da história humana em
Arfádia. Não lembro o nome dele, mas sei que foi até o reino de Entrios e calculou a
distância entre os pés da famosa estátua de Telur, em frente ao Palácio Branco. Aquele
comprimento seria, a partir daquele momento, a unidade padrão de distâncias em
Arfádia e recebeu o nome de liva.
— Legal! E quanto é uma liva? Quero dizer, se fôssemos passar para as unidades
gambianas?
— Nunca fizeram esse tipo de conversão. Até porque as unidades gambianas, como
o metro e o centímetro, são desconhecidas pelos arfadianos. No entanto, acredito que
cerca de quatro ou cinco metros.
— Mas isso é muito.
— Por isso o feiticeiro quebrou a distância dos pés da estátua em unidades menores.
A tota é o resultado da divisão de uma liva em dez pedaços. E o paco é a divisão da
tota em outros dez pedaços iguais. Para extensões maiores, como as utilizadas para as
distâncias entre os reinos, utiliza-se a gralha, que é igual a 600 livas.
— Entendi.
— Só uma pequena observação: Liva, Tota, Paco e Gralha eram nomes dos filhos
do feiticeiro — esclareceu.

123
Depois entramos em assuntos pessoais.
— Você disse aquela vez que entrou em Arfádia em um portal que apareceu em sua
sacada. Como foi isso?
— Então, eu estava morando sozinha em um apartamento no centro de Chapecó. Eu
tinha 18 anos e estava indo morar sozinha pela primeira vez. Cidade nova, curso novo,
novos amigos; eu estava bem empolgada.
— Que curso fazia?
— O Curso de Formação de Tradutor e Intérprete. Eu sempre amei idiomas e
diferentes escritas. Enfim, era madrugada de sábado, acho, e estava lendo um exemplar
italiano de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, quando ouvi alguma coisa quebrando.
Fui ver o que era e me deparei com um portal mágico bem na minha sacada, sugando
algumas coisas em volta e derrubando meus vasos de flores.
— Nossa! Você deve ter ficado apavorada com aquilo.
— Com certeza fiquei. Mas, mais do que assustada, fiquei curiosa. Teria chamado o
vizinho, se não fosse tão tarde. Por alguma razão tola, decidi tocar no portal e... já
imagina o resto da história.
— Você tem parentes em Gâmbia?
— Minha mãe faleceu duas semanas após eu começar a morar sozinha. E meu pai
e eu não nos falávamos havia alguns anos. Eu ao menos sei se está vivo.
— Sinto muito por sua mãe. Não sente falta de seu pai?

Roxana apenas balançou a cabeça, deixando claro não querer tocar no assunto.
Então, mudei o rumo da conversa.
— E como foi quando caiu em Arfádia?
— Deuses! Eu fiquei apavorada — riu. — Caí no reino de Egélia e ninguém falava
nenhuma das línguas que eu aprendi em Gâmbia. É um lugar sujo e sem leis, sabe.
Você encontra fezes e urina em todos os cantos.

Fiquei agoniada com a narração de Roxana, imaginando o que eu faria se tivesse


acontecido comigo.
— Eu pedi ajuda para um grupo de anões que, na mesma tarde, tentaram me vender
para alguns centauros que pretendiam me cozinhar e comer.

Coloquei as mãos na boca, apreensiva.


— Eu nunca entendia o que eles falavam, então, nunca sabia o que estavam
tramando. Quando percebi que estavam recebendo sacos de moedas e que os
centauros pareciam felizes, olhando para mim com a expectativa de me saborear, saí
correndo e entrei no Pântano dos Enforcados. Imagina meu horror ao ver cadáveres de
várias criaturas pendurados nas árvores! Havia corpos dentro da água e o cheiro era
insuportável. Vomitei e por pouco não morri naquele pântano, após os centauros me
alcançarem.
— E o que aconteceu depois? — Eu estava preocupada.
— Bom, para minha sorte, Espíbruto, o pai de Berbuto, estava no reino de Egélia
negociando algumas mercadorias com os anões e me viu entrando no pântano.
— E ele bateu nos centauros?
— Bateu, mas não sem se ferir. Espíbrito foi pisoteado por meia dúzia de centauros,
mas no fim se levantou e abateu todos eles. Mais tarde fui saber que, naquele momento,
antes de se reerguer cambaleando, Espíbruto jogou com a deusa Éfila e venceu. Se
tivesse perdido, ele, e provavelmente eu também, estaríamos boiando naquele pântano
e nos transformado em grólens.
— Minha nossa! Que horrível isso! E Espíbruto te trouxe para Londor?

124
— Sim. Eu resolvi segui-lo para onde quer que fosse porque sabia que era a única
criatura em que eu podia confiar ali. Ele foi adorável comigo, mas levou quase um dia
para descobrirmos que falávamos o mesmo idioma. Quando percebeu que eu não
entendia fílix, falava comigo em gestos. Quando consegui fazer ele entender, através
de sinais, finalmente, que eu havia entrado ali através de um portal, percebeu que eu
era de Gâmbia e perguntou, em português claro: “Você por um acaso consegue
entender o que eu digo?”. Eu respondi: “É sério que você fala português e só está me
contando isso agora?”. Lembro de termos rido bastante.
— Imagino o tamanho de seu alívio em...
Eu parei de falar ao perceber o horror no rosto de Roxana. Ela olhava assustada para
a orla da floresta. Quando virei a cabeça, percebi que havia um animal negro nos
espionando. Era semelhante a um cão, mas sem pelos e magro, e seus dentes saíam
para fora da boca mesmo quando estava fechada.
— Não se mexa, Scarlet — ordenou. — É um pestrálio. Eles têm medo de fogo.
Então, não nos atacará enquanto ficarmos próximo à fogueira.

Para nosso pesadelo, mais dois pestrálios se uniram ao primeiro, saindo da floresta.
Roxana segurou a espada que Míriam havia lhe dado em uma das mãos e, com a outra,
retirou um dos galhos da fogueira e usou-o como tocha. Ela caminhou até os pestrálios
e tentou afastá-los com o galho em chamas.
— Vão embora. — Ela agitou o fogo na frente deles. -— Voltem para a floresta e não
saiam de lá ou eu vou queimá-los.
Os animais pareciam realmente ter medo do fogo, mas acho que a fome deles era
do mesmo tamanho do medo porque se afastavam um pouco quando Roxana balançava
o fogo, mas logo em seguida voltavam para perto de nós. Eu não me lembrava de ter
sentido medo maior em minha vida. Será que terminaríamos ali? Devoradas por uma
matilha de chupa-cabras?
Corri e me juntei a Roxana, com outro pedaço de madeira em chamas.
— Não, Scarlet. Afasta-se — bradou. — Você vale mais viva do que drenada. Eles
vão beber até a última gota de seu sangue. É morte sem moeda. Corra para o outro
lado da praia enquanto eu os espanto com o fogo.
— Não. Eles terão que drenar nós duas. Não vou sair daqui.
— Sua teimosa. Eu mandei correr.
— Já disse que não irei sem você. Agora, guarde seu fôlego.

Mais dois pestrálios vieram se juntar ao bando que nos cercava. Pareciam felizes
com a refeição iminente.
— Existe algum deus que me daria fôlego para correr até o castelo se eu rezasse
com bastante fé?
— Não me lembro de nenhum que faça isso em específico.

Um barulho de trovão nos alertou que teríamos chuva. Olhando para cima, vi nuvens
negras percorrendo ligeiras o céu arfadiano em nossa direção.
— Não, Zacbar — resmungou Roxana, desesperada. — Não quer ajudar, tudo bem.
Mas não piore as coisas.

As primeiras gotas de chuva caíram em nosso rosto. Eram grossas e geladas.


Segundos depois, uma chuva torrencial caiu sob a praia londoriana.

125
— Vamos ficar sem fogo — choramingou, caindo em desespero.

Os pestrálios criaram coragem e se aproximaram ainda mais. Alguns começaram a


latir e rosnar para a gente.
— Xiva, ajude a gente, por favor — pedi, pois sabia que era a deusa protetora de
Londor.

Em pouquíssimo tempo, as chamas se apagaram. Agora éramos nós duas contra


cinco pestrálios famintos.
O primeiro a criar coragem para nos atacar saltou para cima de Roxana, que gritou
e caiu na areia molhada um pouco antes de enterrar a espada no corpo do animal. O
pestrálio grunhiu de dor e não se levantou mais.
— Scarlet, corra.

Nós não tínhamos a menor chance contra aqueles animais, mas eu não ia correr.
Quebrei o galho que segurava na cabeça de um pestrálio que havia corrido em minha
direção.
Ali, cercada por animais famintos, com a roupa encharcada de água, eu me
perguntava se poderia ver vovó e meus pais em Agnomídia. Aqueles segundos de
agonia pareceram passar em câmera lenta. Roxana gritou de dor após receber uma
mordida e eu caí de rosto na areia depois de ser derrubada por um pestrálio, que pulou
em minhas costas.
Quando me virei, o animal estava em cima de mim e sua boca horrível a centímetros
de meu rosto. Só desejei que tudo terminasse depressa. Mas, talvez porque Éfila estava
bastante ocupada com as mortes na batalha do castelo, eu não morri naquela noite. E
Roxana também não.
Uma chuva de fagulhas caiu sobre o pestrálio, que saiu de cima de mim e correu
ganindo de volta à Floresta Sombria, enquanto mais fagulhas o perseguiam. Olhei para
Roxana e ela estava caída na areia, com a perna ensanguentada. O pestrálio que a
mordera também corria em disparada e desapareceu em meio às árvores.
Eu estava em pânico e meu coração parecia bater em meus ossos do tórax,
descompassado. Sentei depressa e procurei em volta pelo responsável pela chuva
flamejante que espantara os pestrálios e vi, próximo de mim, o rosto de um menino
jovem, de olhos negros e cabelos acinzentados. A primeira vez que fiquei feliz ao ver
aquele garoto. Ele me deu uma dedada na testa com seu indicador.
— Eu disse que estaria por perto — falou Víctor Copas, satisfeito consigo.

126
Capítulo 13 - Cento e Trinta e Sete Piras

Eu me levantei e corri para Roxana, que estava chorando de dor. Uma longa mancha
de sangue na areia misturava-se à água da chuva. Eu estava com o coração apertado
ao ver Roxana chorar daquele jeito. Sua calça estava rasgada e havia diversas marcas
dos dentes um pouco abaixo da panturrilha, onde perfuraram sua carne. O sangue não
parava de correr.
— Você pode ajudá-la? — implorei a Víctor.
— Vou conseguir limpar toda a saliva de pestrálio, que é o que está impedindo o
estancamento do sangue, mas não vou conseguir fechar a pele dela. Vamos precisar
de poções da Ala Medicinal do castelo.

A chuva continuava a desabar, abafando o som de nossas vozes. Víctor tirou um


pedaço da calça rasgada de Roxana abaixo dos joelhos e amarrou a tira de pano acima
dos ferimentos, para evitar mais perda de sangue.
Roxana não falava nada, apenas chorava de dor. Eu estava desesperada ao vê-la
naquela situação. Apertei a mão dela e tentei fazer que se acalmasse, o que era difícil,
uma vez que eu própria estava em estado de choque.
— Vai doer um pouco — avisou Víctor.

O aprendiz de feiticeiro colocou a mão por cima do ferimento e um feitiço azulado


pareceu causar sucção nos ferimentos de Roxana, o que, por um instante, aumentou o
sangramento.
— Tem certeza de que isso vai funcionar? — perguntei, mas o garoto apenas me
encarou como se minha dúvida em suas habilidades o ofendesse.
— Leve este pedaço de pano e lave-o bem na água do mar. Faça algo útil — exigiu.

Juro que, não fosse a urgência da situação, eu teria parado para dar um murro na
cabeça dele. Então, fui até o mar e lavei o pano, que estava sujo de sangue e areia. O
mar parecia estar mais agressivo após a chuva. Suas ondas estavam maiores.
Após limpar bem os ferimentos, Víctor amarrou o pedaço de pano que entreguei
sobre os ferimentos.
— O sangramento vai parar em breve, agora que retirei a saliva de pestrálio. Se não
tivesse chegado a tempo, ela teria sido drenada até a última gota de sangue.
— Nós duas — falei. — A propósito, obrigada pela ajuda.
— É mesmo, obrigada Víctor — agradeceu Roxana com a voz arrastada. — Por que
voltou? Como estão as coisas no castelo?
— Quando chegamos lá, boa parte da muralha e algumas torres do castelo estavam
destruídas. Um feito de Fenir, mas a ameaça do feiticeiro já havia sido contida por
Míriam quando as carruagens chegaram lá. O covarde desapareceu e abandonou os
guerreiros egelianos. Sem Fenir, eles não tiveram nem chance. Míriam os massacrou.
Mas tivemos algumas perdas durante o conflito. Ninguém da Lâmina, mas muitos
soldados da muralha e alguns funcionários do castelo. Quando a batalha estava quase
ganha, Míriam me ordenou que viesse para cá verificar como estavam.

127
— Você veio em uma ácula? — Olhei em volta para verificar se ela estava por ali.
— Vim com o unicórnio de Seilos, mas mandei que retornasse ao castelo, uma vez
que não precisaria mais dele. Vamos ter de ficar aqui provavelmente até a Neréia.
Míriam quer ter certeza de que não há ameaça pelas redondezas antes de mandar
buscar a herdeira de Alexandre. Agora, vamos sair daqui e procurar um local mais
aquecido. Eu conheço uma caverna atrás daquelas montanhas.
— Mas é muito longe. E Roxana mal consegue andar.

Víctor pareceu refletir sobre a situação.


— Ainda assim, será melhor que tentemos. Onde estavam com a cabeça em ficar
tão próximo à Floresta Sombria?

Eu apontei o dedo e joguei a culpa em Roxana.


— Confesso que a culpa foi minha — ela falou. — Achei que a fogueira manteria o
perigo afastado.
— Há muitos perigos na Floresta que não se assustam com o fogo — informou Víctor,
desaprovando a péssima decisão da garota. — Enfim, eu faria um feitiço de levitação
para carregar você, mas ainda não estou confiante para erguer algo com mais de uma
tara. Você poderia cair e seria pior.
— E o que propõe? — quis saber.

Foi assim que Víctor e eu ajudamos Roxana a caminhar, um de cada lado, até depois
das montanhas ao redor. A chuva começava a diminuir.
A garota apoiou os braços na gente e pulava com a perna boa. A verdade era que
não ficava muito longe, mas era de difícil acesso e carregar Roxana dificultava tudo.
Achei que nunca chegaríamos lá, mas, quando minhas costas já estavam pedindo
clemência, avistamos a caverna em meio à montanha. A lua Diágira, a primeira a
aparecer no céu arfadiano, já estava no Oitavo-Dil. Em pouco, o sol nasceria, apesar de
que ficaria escondido atrás de todas aquelas nuvens. Eu estava muito cansada, mas a
agitação da noite eliminara qualquer chance de adormecer.
— Irei na frente para procurar por possíveis animais — avisou Víctor.

Então Roxana e eu sentamos em uma pedra, que estava molhada e escorregadia, e


ficamos esperando. O ferimento na perna dela havia parado de sangrar, embora o
recente esforço a fizera voltar a reclamar de dor.
— Desculpa ter te colocado nessa, Scarlet. Eu fui uma tola em me aproximar tanto
da Floresta Sombria. Nem acredito que te fiz entrar lá. Míriam vai me dar uma bela
bronca.
— Não é culpa sua o que aconteceu, Roxana. Nem devíamos estar aqui. Jamais
poderíamos ter previsto algo assim. Ainda não te agradeci. Você tentou me proteger
daqueles chupa-cabras.

Várias aves negras saíram voando de dentro da caverna. Nós nos abaixamos quando
elas passaram por nossas cabeças.
— O que foi isso? — assustei-me.
— Acho que eram torvos. Aves que morrem em contato com a luz do sol. Por isso
vivem em cavernas. Víctor deve tê-las expulsado.
— Tadinhas! Vão precisar encontrar outro lugar para ficar.

128
Víctor voltou para nos dizer que já era seguro entrar lá. Então, ajudei Roxana a entrar
na caverna. Suas paredes eram úmidas e havia barulho de gotejamento ali perto. Víctor
fizera quatro daqueles fogos mágicos que Míriam havia feito para iluminar a carruagem
e distribuiu-os em vários cantos da caverna. Eram menores e iluminavam bem menos
que os de Míriam.
— Vamos precisar de uma fogueira — falou o garoto. — O feitiço da Chama Flutuante
vai apagar em breve. Fiquem aqui.

Então sentamos no chão da caverna à espera. Em alguns minutos, Roxana já estava


dormindo com a cabeça encostada em meu ombro. Eu mesma já havia adormecido
também antes de o garoto retornar. Lembro vagamente de ter levantado depois que
Víctor me acordou e deitado em várias folhas grandes que haviam sido colocadas no
chão da caverna. Lembro de ter visto uma grande fogueira e que Roxana também já
estava dormindo de barriga para cima e respirando alto. Deitei em cima das folhas e caí
em sono profundo.

Acordei após a Neréia, com um cheirinho gostoso que enchia toda a caverna: Víctor
assava alguns animais na fogueira e Roxana já saboreava alguns pedaços, sentada nas
folhas em que dormira.
— Bom dia, Scarlet! Aliás, boa tarde! — cumprimentou Roxana. A garota estava com
uma cara péssima, de quem não dormiu quase nada.
— Boa tarde! Como está a perna?
— Agora só dói quando a mexo. Tarana veio até aqui pela manhã, a pedido de
Míriam, ver como estávamos.
— Por que não me acordou? — Fiquei triste por não ter conseguido falar com a elfa.
— Eu ia, mas Tarana insistiu que te deixasse descansar. Ela veio dizer que em breve
trarão as carruagens para regressarmos ao castelo. O pessoal da Lâmina está acordado
desde a batalha, procurando sinais de ameaça pelo reino. Parece que não encontraram
nenhuma.
— Você contou a nossa aventura com os pestrálios?
— Sim e levei a maior bronca por ter entrado na floresta com você. Ela disse que
trará poção de cítrix para fechar os ferimentos quando vierem nos buscar.

Víctor retirou um dos espetos da fogueira e me ofereceu.


— Cuidado, pode estar quente.
— O que é? — perguntei, reparando que pareciam ratos.
— Nilhos. Criaturinhas cegas que vivem dentro de árvores mortas — explicou.
— Você voltou à Floresta Sombria? — Experimentei a carne. Tinha um gosto forte,
semelhante às ovas de peixe que eu comia no mundo dos homens. Ao contrário da
carne dos chumelicos, esta estava bem temperada. — Como temperou isso?
— Eu precisei voltar lá. A propósito, havia dois pestrálios enforcados em uma
sagoma-carrasca, bem próximo de onde estavam, e não foram os que fugiram após
meu feitiço porque não possuíam vestígios de queimaduras. Aqueles foram mortos
antes. Tiveram sorte. Com relação à segunda pergunta, a gente usa as folhas da salitra
para temperar quando não tem muitas opções.
— É gostoso. — Arranquei mais um pedaço.

129
Então, finalmente, chegou a carruagem de Londor para nos buscar. Ela ficou no
mesmo local em que havia parado antes de colocarmos vovó no Mar do Fim do Mundo
e Tarana foi até a caverna outra vez avisar que era hora de irmos. Eu sorri ao ver a elfa,
que também ficou feliz em me ver.
— Então, quer voltar ao castelo ou deseja passar mais uma noite por aqui? —
brincou.
— Se não tivesse vindo me buscar, eu iria para o castelo andando. Eu é que não fico
mais aqui — avisei, ficando de pé.

Tarana retirou um vidro minúsculo de sua bolsa e mostrou à Roxana.


— Vamos fechar seus ferimentos antes de irmos. Vai conseguir andar melhor depois
disso.

Roxana fez cara de quem não sabia ao certo se queria aquilo.


— A última vez que precisei disso, eu gritei por quase meio-flu.
— Geralmente eu respondo que dói só um pouquinho quando me perguntam —
lembrou a elfa, se abaixando e retirando as faixas de pano que Víctor havia colocado
em Roxana. — Mas, como já sabe que dói demais, não vou precisar mentir.

A perna da garota estava inchada e as inúmeras marcas de dentes começavam a


liberar um pus amarelado. Estava horrível.
— Preparada?

Tarana abriu o frasco e deixou cair algumas gotas sobre o ferimento. Houve um
chiado como gordura de carne pingando no fogo e no instante seguinte a caverna se
enchia com os gritos de dor de Roxana. Era triste ouvir aquilo. Segurei mais uma vez
na mão dela, demonstrando compaixão.
Por um bom tempo, a garota soluçou de agonia e dava murros no chão da caverna,
na esperança de que as novas dores fizessem o cérebro esquecer que sua perna
parecia estar em chamas.
— Que horrível esta poção! — reclamei. — Não há mais nada para curá-la que não
a faça sofrer deste jeito?
— Infelizmente as poções indolores demoram semanas para fazer efeito — explicou
Víctor, que também tentava consolar Roxana a fim de abrandar sua dor. — Somente o
cítrix faz o milagre de cicatrizar em tão pouco tempo. Mas, geralmente tudo em Arfádia
tem um preço a se pagar.

Por incrível que parecesse, os ferimentos de Roxana estavam se fechando e a pele


se unindo como se nunca tivesse sido perfurada. No fim do que me pareceu cinco
minutos, a perna da garota estava ilesa, embora suja de sangue e pus em alguns
lugares.
— Muito obrigada, Tarana! — disse Roxana, se levantando. — Vamos sair daqui
logo. Não vejo a hora de tomar um banho no castelo. Não pretendo voltar aqui tão cedo.
Mas receio que deveremos voltar em breve, não é mesmo? Deve ter vários corpos para
lançar no Mar do Fim do Mundo, após esse ataque que sofremos.
— Míriam decidiu cremar os corpos, como sempre fazemos em tempos de guerra.
Não temos barcos suficientes para todos eles — informou Tarana.
— Alguém que eu conhecia está entre os mortos? — perguntou Roxana, com medo
da resposta.

130
— Vários. Os elfos Gargomel, Rapatim, Dódalos, Milina, Sátara, Luena, Potros e os
irmãos Sávio e Fécio; os rufanontes Jertênia e Derbatel, ambos primos de Berbuto; os
anões Sedim, Dídalo e Plávio; os humanos Cézar, Fernando, Arthur (não o Arthur
Seixas, falou Tarana, ao ver a minha cara), Brenda e Briquita; os grifinários Tíron, Ardon,
Lucasniel, Festim e Botevite. Esses são só os que acredito que conhecia. Há muitos
outros.

Roxana colocou a mão na boca, incapaz de dizer qualquer palavra.


— Míriam já decidiu o que vai fazer após esse ataque? Iremos responder à altura?
— perguntou Víctor.
— Acredito que a prioridade agora seja dar um fim honroso aos mortos londorianos
— falou Tarana. — Depois reconstruiremos a muralha e reorganizaremos o exército.
Então, provavelmente, contra-atacaremos o reino de Egélia.
— Eu também quero lutar quando forem atacar Egélia — falei. — Acho que já terei
treinado o suficiente com Arthur...
— Sem chance, Scarlet — interrompeu a elfa quase rindo do que eu dissera. — Antes
de empunhar a espada Zárfia, dificilmente Míriam iria te colocar em um campo de
batalha. Ela não arriscaria perder a herdeira antes de obter a espada.

Fiquei muito irritada.


Então um anão entrou na caverna. Tinha barbas brancas e um barrigão.
— É melhor regressarmos ao castelo, Srta. Alvinadare. Temos ordens de regressar
o quanto antes.

Foi então que, finalmente, deixamos aquela praia. Retornamos para onde estava a
carruagem e entramos os quatro dentro dela. O anão subiu para comandar os cavalos.
Em instantes, os animais já cavalgavam.
— Eu ainda não acredito nas mortes daquelas criaturas — comentou Roxana, após
alguns minutos de silêncio dentro da carruagem. — Até o Dódalos? Deuses! A Virina
deve estar desesperada. O filho deles tem 2 anos, acho.
— O reino de Egélia também estará de luto, Roxana — falou Víctor. — O número de
perdas deles foi quase o quádruplo do nosso.
— Bem mais do que isso — corrigiu Tarana. — E teria sido maior se não tivessem
recuado.
— Mas isso não diminui nossa dor — lembrou Roxana, com os olhos úmidos.
— Míriam deixou que fugissem? — eu quis saber.
— Você não pode impedir um exército atacante de recuar, Alteza — instruiu Tarana.
— Falibar, o deus da guerra, assim definiu. Toda criatura que ataca tem o direito à
rendição e ao recuo. Está entre os Mandamentos de Falibar, incrustados na parede da
caverna de Ragnoc, no reino de Centúria.
— Mas fugir de um conflito é extremamente amargo para qualquer arfadiano —
esclareceu Víctor. — E não bastasse a própria lembrança de um dia ter abandonado o
campo de batalha, Falibar faz com que todos saibam disso até o dia da morte de cada
um deles.
— Mas como poderia fazer isso? — fiquei curiosa.
— Na próxima vez em que se deitarem para dormir, talvez alguns até já tenham feito
isso, Falibar queimará a pele deles e gravará no pulso de cada um o Símbolo do
Timorato.
— O que é isso?
— Uma marca que representa os covardes. É algo humilhante que carregarão na
pele para o resto de suas vidas — explicou o aprendiz de feiticeiro. — Falibar é bastante
justo em suas leis.

131
— E eles acordarão com esse símbolo gravado no braço na próxima vez que forem
dormir? — quis entender melhor.
— Sim. Alguns ficam dias sem dormir para adiar ao máximo a marca, mas não há jeito de
escapar dela. Nem adianta rezar para a deusa Mítria, a deusa das luas e também do sono,
porque ela é esposa de Falibar. Então já sabe, ela não vai te ajudar a ficar sem dormir.
— Então Fenir deverá acordar com essa marca em breve, não é? — perguntei,
aliviada.
— Fenir já tem a marca há anos — informou Víctor. — A marca só aparece uma vez
ou faltaria espaços na pele daquele feiticeiro abominável.
— Tem algum londoriano que carrega essa marca? — perguntei.
— Não que eu saiba — respondeu o garoto, olhando para Tarana em busca de uma
melhor resposta.
— Atualmente não há ninguém com o Símbolo do Timorato no exército de Londor —
explicou a elfa. — Se não me engano, Londor só recuou uma vez em toda a história do
reino. Mas foi há muito tempo. E nenhum dos desertores permaneceu vivo porque a
rainha londoriana na época mandou decapitar todos eles. E todas as quase duas mil
cabeças ficaram expostas durante vários dias, espetadas em frente ao castelo. Mas
foram retiradas e cremadas, sem muito drama, após o aparecimento dos grólens, que
começaram a surgir nos banheiros, quartos e corredores do castelo.
— O que são grólens? — A verdade é que vovó já havia me falado sobre eles, mas
queria compreender melhor.
— Grólens são espíritos agourentos, proibidos de entrar em Agnomídia por ainda não
terem tido uma despedida adequada — explicou Tarana. — Você pode manter o corpo
de algum parente ou amigo por até sete dias após a morte; depois disso, o grólen vai
surgir próximo a seus restos mortais.
— Eles são perigosos?
— Não — continuou —, eles não podem tocar em criaturas vivas, mas conseguem
derrubar objetos e fazer muito barulho. A presença deles mergulha qualquer lugar em
depressão e tristeza, além de gritarem, gemerem e grunhirem a noite inteira. São
insuportáveis e assustadores às vezes.
— Tomara que eu nunca encontre um desses. Devem ser medonhos e horripilantes.

A conversa até o castelo foi agradável, apesar de estarmos todos em luto pelas
perdas do reino de Londor. Eu não havia conhecido nenhum dos mortos no ataque do
dia anterior, com exceção de Sátara, a elfa de cabelos vermelhos que foi nos avisar do
ataque e cuja espada estava com Roxana. A garota disse que entregaria a espada à
filha de Sátara, que tinha 7 anos e morava com a avó na Aldeia dos Ventos Indecisos.
Quando a carruagem finalmente chegou nos terrenos do castelo, agradeci aos
deuses por estar de volta. Eu estava louca por um banho naquela banheira. Roxana foi
a primeira a descer. A garota já conseguia andar sem mancar. Era incrível o poder
curativo da poção que Tarana usara.
Assim que deixei a carruagem, percebi o caos que havia sido deixado após a recente
batalha. Havia partes da muralha totalmente destruídas que deixou enorme abertura para
os terrenos do castelo. Blocos enormes de pedras da muralha espalhadas pelo terreno,
além de escudos, flechas e muito sangue (os corpos já haviam sido retirados). Havia
fumaça saindo de uma das torres do castelo e muitos vidros quebrados. Uma enorme
rachadura na torre das áculas e várias penas das aves espalhadas ali perto, sinal de
intenso conflito aéreo. Quase todos os funcionários do castelo ajudavam a colocar a
propriedade em ordem. Anões, elfos, rufanontes, homens e mulheres retiravam destroços
e varriam a sujeira. Até grifinários, que não gostavam muito do esforço físico, foram
chamados para ajudar, apesar de ficarem com os serviços mais leves.

132
Dentro do castelo, mais caos: móveis, retratos e paredes destruídas. As escadas
principais, que levavam aos demais andares, estavam sujas de sangue e lodo. Evitando
destroços e sujeira, pulando por cima de pedras, móveis e vidros, finalmente,
alcançamos o quarto onde estávamos dormindo.
— Cumpri com o que me ordenaram — disse Víctor. — Scarlet Caspor retornou ao
castelo viva e segura. Agora tenho muito o que conversar com a feiticeira Míriam. Até
mais tarde.

Agradecemos ao garoto mais uma vez. Ele, sem sombra de dúvidas, salvou as
nossas vidas.
Quando entramos no quarto, percebemos, felizes, que Liquita já estava ali.
— Liquita! — gritou Tarana. — Você ainda não estava aqui quando fui buscá-las.
— Acabamos de chegar. — Ela estava deitada na cama; já havia tomado banho. —
Papai falou o que aconteceu enquanto estávamos em Gâmbia. Pelo véu de Éfila! Como
eu queria ter estado aqui para ajudar.
— O vovô já chegou? — perguntei apressada. Eu estava louca para revê-lo. Mas a
cara que Liquita fez me deixou de coração apertado.
— Míriam ia lhe dar os detalhes da nossa missão, Alteza — confessou a garota. —
Seu avô não foi encontrado nem por nós nem pela Atênia. Eles disseram que chegaram
à ponte um pouco depois de nós termos entrado no portal. O garoto Ícaro e a ácula
foram encontrados mortos na lagoa, atingidos pelo feitiço que Fenir mais usa: o Raio
Perfurante.

Eu precisei sentar na cama para tentar compreender o que ela dizia. Minha cabeça
começou a girar.
— Sinto muito por seu avô, Scarlet — consolou-me Roxana, me acariciando o ombro.
— Nem Fenir nem seu avô estavam no local — continuou Liquita. — A Atênia disse
que tiveram um enorme trabalho para consertar a bagunça. A senhora Dáfila tinha
profundas olheiras e o dobro de cabelos brancos quando falamos com ela. Antes de
voltar para cá, procuramos por Arteniel pelas regiões próximas à ponte. Passamos maus
bocados. Andamos gralhas e mais gralhas sob o sol gambiano. Céus! O que os deuses
de Gâmbia estavam pensando ao fazerem um sol como aquele? Seja lá o que for que
os humanos fizeram ao deus gambiano do sol, ele não gostou nem um pouco porque
com certeza está muito zangado. Ele estava muito quente durante aquela nossa
primeira viagem à Gâmbia, mas, desta vez, foi o responsável por uma de minhas piores
experiências.

Liquita parecia alguém que tinha viajado ao reino de Rambur, entrado em um ninho
de dragão, roubado seus ovos e saído correndo.
— E o pobre do Barbatão foi mordido por um animal enorme de Gâmbia depois que
invadimos algumas muretas — prosseguiu. — O animal era quase do tamanho do anão.
— Mas Fenir já voltou — informou Tarana.
— Sim. Míriam nos disse isso assim que narramos nossa história — contou a garota.
— Ela ficou um pouco abalada, mas acho que ainda tem esperanças de encontrar o
irmão vivo. Quando perdemos as expectativas, sentimos aquecer o Anel de Kaizar que
a Atênia nos havia dado. Então decidimos retornar, pois achávamos que Arteniel já
pudesse estar por aqui.
— E caíram aqui perto? — perguntou Roxana.
— Na Vila Londória — respondeu Liquita. — Quebramos várias telhas ao cair em
cima da casa de uma velha feiticeira cega. Olhem este hematoma. — A garota levantou
a camiseta e exibiu uma enorme região roxa nas costas. — Ela nos botou para correr

133
atirando feitiços para todos os lados. Para piorar, esqueci de dizer à Minja para retirar o
anel mágico do dedo e ela entrou em Arfádia com ele. O anel virou uma bola de chamas
assim que sentiu a quantidade de magia em volta e causou sérias queimaduras na anã,
mas mamãe já está dando um jeito.

Liquita continuou narrando suas desventuras no mundo dos homens, amaldiçoando


as plantas que aderiam irritantemente as suas roupas quando passava por elas (picão),
enquanto eu só tinha pensamentos para meu avô. Onde ele estaria naquele exato
momento? O retorno de Fenir significava sua vitória no conflito da ponte? Teria o
feiticeiro matado meu avô? Juro que eu não teria suportado perder mais um membro da
família. E o pobre do Ícaro estava morto! Tadinho!
— Ele vai voltar, Alteza — animou-se Tarana, me consolando. — Eu não sei quando,
mas ele vai voltar.

A elfa então disse que conversaria com seu pai, mas que voltaria em breve, e Liquita
disse que nos esperaria no refeitório para comermos alguma coisa. Decidi tomar um
banho. Retirei as roupas ainda úmidas e entrei na banheira. Como era uma banheira
grande, Roxana entrou comigo. Nós duas ficamos lá, agradecendo aos céus pela
sensação maravilhosa, com os pés de frente uma para a outra. Roxana era uma garota
linda, com seios de causar inveja a muitas mulheres, quem sabe até às deusas.
— Roxana, quando crescer quero ter seios grandes como os seus.

A garota sorriu.
— Você é muito jovem para desejar ter seios. Alcança esse pote de garmim para
mim? Meus cabelos estão todos emaranhados.

Depois de algum tempo, Míriam pediu licença e entrou no banheiro.


— Como estão? Scarlet, já soube do que aconteceu em Gâmbia?
— Sim, Liquita me contou — falei, triste.
— Sinto muito por isso — lamentou. — Eu tentei fazer que Fenir, antes de fugir da
batalha, revelasse onde ele estava, mas o desprezível apenas ria e dizia que nunca o
encontraríamos. Tenho certeza que ele teria dito que Arteniel estava morto, se
estivesse, o que ainda me faz ter esperanças. Não posso abandonar o castelo de Londor
ou eu mesma iria procurá-lo em Gâmbia. Liquita trouxe uma mensagem da Atênia e
disseram que continuarão procurando por ele.
— Então teremos de aguardar. Não há muito o que fazer — conclui.
— Soube do problema com os pestrálios. — Míriam mudou de assunto. — Foi um
milagre Víctor chegar a tempo.

Roxana ficou séria.


— Míriam, a culpa foi minha...
— Nada disso — interrompeu a feiticeira. — Eu quem não deveria ter deixado as
duas sozinhas por tanto tempo, mas confesso que me preocupei com o ataque ao
castelo. O Baú de Kavala poderia ter sido roubado com todas as heranças de Scarlet.
Acho que era isso o que procuravam. Tentaram encontrar meus aposentos. Estavam
destruindo tudo e buscando alguma coisa. Mataram vários funcionários do castelo
quando disseram não saber a senha para entrar em meu quarto. Arrasavam a estátua
do cavalo alado quando os encontrei. Eles não poderiam ter aberto o baú sem a chave,
mas se levassem o baú, ficaríamos sem o magigneto e incapazes de encontrar a
espada.

134
— Mas como poderiam saber que Scarlet abriu o baú ou que ele estivesse em seus
aposentos? — perguntou Roxana.

Míriam fechou a porta do banheiro, para evitar ser ouvida.


— Tudo indica que temos um traidor no castelo. A mesma pessoa que revelou sobre
o anão Jercuti e A Guarda, fazendo que tivéssemos de buscar Scarlet às pressas; foi a
mesma que tentou envenenar Scarlet, tirando a vida de Felícia. Ainda tenho apenas
suspeitas sobre quem possa ser, mas, seja quem for, está em contato frequente com o
Dragão Serses ou com seus servos. Eles atacaram naquele momento porque sabiam
que eu estaria ausente. E, acredito, aquele Palato Rimanor é inocente. Ele não poderia
saber o momento em que deixamos o castelo estando preso nas masmorras.
Infelizmente, o traidor de Londor é alguém da Lâmina Londoriana.

As palavras da feiticeira causaram prolongado silêncio no banheiro. Eu e Roxana não


sabíamos bem o que falar. Por fim, Roxana perguntou:
— O que faremos?
— Em princípio, cancelaremos todas as reuniões da Lâmina Londoriana. Só
conversarei com pouquíssimas pessoas que gozam de minha profunda confiança.
Todos os demais se tornaram suspeitos. Temos de encontrar o traidor antes que seja
tarde demais.
— O que fará com o homem tatuado? — Se ele fosse mesmo inocente, era culpa
minha que estivesse naquele momento preso em uma masmorra.
— Vou mantê-lo lá até encontrarmos o traidor ou descobrirmos mais a respeito dele
— comunicou Míriam. — É prudente esperarmos mais um pouco antes de liberá-lo.
— E quanto ao reino de Egélia? — quis saber Roxana.
— Em breve teremos uma reunião no castelo com alguns representantes de Entrios
e Anólia. Queremos formar uma aliança para contra-atacar o reino de Egélia. Mas essa
decisão não cabe a mim, claro, e sim a Seilos, o atual rei. Agora, terminem o banho,
comam algo no refeitório e, mais tarde, nos despediremos de nossos guerreiros. Tenho
que ir.

Míriam se foi e nos deixou com muito para refletir.


— Quem você acha que pode ser? — perguntei.
— Para ser sincera, sou amiga e confio em todos eles. Ficaria chocada em descobrir
que um deles está em contato com Serses. E você, o que pensa?
— Se tivesse me perguntado ontem, eu teria dito que era o Víctor — segredei. —
Mas depois do que aconteceu, não acredito que o garoto me queira morta.

Terminamos o banho em silêncio e sem outras teorias.

A noite seguiu normalmente, exceto que todos ali pareciam estar de luto. Quando
fomos ao refeitório, avistamos vários funcionários e moradores do castelo em prantos e
muitos outros entristecidos pela morte de alguém. Uma cozinheira elfa havia perdido o
filho e o irmão e um velho anão que cuidava das chaves do castelo perdera todos os
três filhos. A verdade é que todos haviam perdido ou conheciam alguém que perdera
um parente. Ninguém ousou falar muito ou sorrir nos dias que se seguiram. Demoraria
um pouco para o castelo de Londor retomar a alegria que costumava ter.

135
Após tomarmos uma sopa alaranjada com vários pedaços de carne e legumes,
voltamos para o quarto e esperamos pela cerimônia de despedida. Os mortos seriam
cremados em piras, como os antigos de Gâmbia costumavam fazer. E, um pouco depois
da Opuléia, todo o castelo se reuniria no lado de fora dos terrenos para dar adeus a
todos aqueles guerreiros.
Quando cheguei com Roxana, Liquita e Tarana, assustei-me com a quantidade de
piras que haviam sido colocadas. Como estavam bem enfileiradas, foi fácil para mim
multiplicar e chegar a um resultado: cento e trinta e sete piras. Era um número
absurdamente grande. Não fazia ideia do tamanho da perda para o reino de Londor.
Aqueles eram apenas londorianos (os corpos dos egelianos haviam sido empilhados e
seriam queimados no dia seguinte, sem nenhuma cerimônia ou honraria).
Choro e pesar afligiam o rosto de cada uma das criaturas ali de pé. Uma senhora
loira, que chorava e gritava pelo marido, foi retirada e levada a Ala Medicinal após passar
mal. Liquita também chorava bastante. Só agora descobrira a identidade dos mortos e
vários deles eram amigos próximos de sua família.
Eu havia acabado de dar adeus a minha avó e já estava presente em outro ritual de
Última Despedida. Lembrei naquela hora o que vovó havia me dito em nosso primeiro
dia no castelo: que minha vida em Arfádia não seria apenas alegrias.
Seilos, o rei de Londor, pronunciou um grande discurso sobre o que aconteceu e
sobre a dor que o reino sentia.
— Queridos londorianos. É com muita tristeza que nos reunimos mais uma vez para
dizer adeus à honradas criaturas que deram suas vidas pelo reino de Londor. Nosso
inimigo caminhou longas distâncias com espada em punho com intenção de ferir
aqueles que amamos. E conseguiram. Eles tiraram de nós e enviaram aos braços de
Clã criaturas que farão falta em nossas vidas. Que a deusa receba cada um deles com
as boas-vindas que merecem. Que vivam felizes em Agnomídia e que retornem no Dia
dos Mortos para abrandarem um pouco de nossas dores, nos agraciando, nem que seja
por uma noite sequer, com a doce presença de seus espíritos. E que estejamos aqui,
preparados para recebê-los de braços abertos quando voltarem.
“Eu, Seilos Alvinadare, rei do reino de Londor, agradeço profundamente por ter
conhecido cada uma destas criaturas e por ter compartilhado sorrisos e momentos bons
com cada uma delas. Serei eternamente grato por terem protegido o reino quando este
precisou da ajuda deles. Londor se lembrará de seus nomes e sempre se orgulhará por
um dia ter tido entre seus guerreiros criaturas tão especiais quanto estas às quais
devemos dar adeus esta noite. ”

Todos concordaram em silêncio a cada ponto final. Incrível a conexão que se formou
entre todos nós. Estávamos unidos por uma dor em comum e ligados pelo mesmo
anseio de fazer que o inimigo pagasse por toda a dor que nos havia causado. Foi uma
noite triste, mas ao mesmo tempo muito bela. Enquanto Míriam e Víctor incendiavam
cada uma das piras com um feitiço flamejante, o restante de nós dava as mãos e criava
um círculo em torno das cento e trinta e sete criaturas mortas. Seilos, Víctor e Míriam
se juntaram ao círculo e, juntos, vimos todas as piras incendiarem, enquanto orávamos
aos deuses por proteção para os dias que se seguiriam.

136
Enquanto o fogo ainda ardia, as criaturas caminharam devagar, ainda muito
abaladas, de volta ao castelo. Eu, Roxana, Liquita e Tarana íamos seguir a multidão
quando Míriam pediu que esperássemos.
— Meninas, preciso da atenção de vocês — pediu, baixinho. — Alguém da Lâmina
está em contato com o feiticeiro Serses, ou com os aliados dele, e as informações que
ela passou causaram severos danos ao reino de Londor. Para ser sincera, vocês quatro
estão na minha pequena lista de membros que com certeza não estariam traindo o reino.
Eu sei que todos ali merecem nosso respeito e me dói o coração ter de suspeitar de
membros tão honrados e que sempre nos ajudaram desde a fundação do grupo. Mas,
em meio a tais circunstâncias, sou obrigada a desconfiar de quase todos.
— O que podemos fazer, Míriam? — indagou Liquita. — Já li sobre uma poção
mágica que obriga quem a bebe a dizer só a verdade. Poderíamos obrigar todos da
Lâmina...
— A onéscia não funciona tão bem — interrompeu a feiticeira. — Além da criatura
começar a revelar segredos pessoais que não é de nossa conta, o que seria grave
violação aos direitos de todo londoriano, os efeitos da poção podem ser facilmente
cortados se for ingerido antes um copo de suco de alpáxia. E nem vou falar nos
possíveis efeitos retardados. Teve casos de criaturas que não conseguiam mentir
mesmo um ano depois de beber onéscia.
— Então o que propõe? — Tarana perguntou.
— Apenas quero que fiquem juntas nas próximas semanas — disse, olhando nos
olhos de cada uma de nós quatro. — Quero que sejam um quarteto inseparável. Seja lá
quem for que estiver tentando prejudicar o reino de Londor, não vai conseguir o que
quer se vocês estiverem sempre juntas.
— Não vai ser difícil, Míriam — falou Liquita, ainda com o rosto molhado com as
lágrimas, juntando nós quatro em um abraço grupal. — Eu não consigo ficar longe delas
e aposto que elas não vivem sem mim.

Rimos, mas concordamos.


— Bom saber disso — sorriu a feiticeira. — Agora, podem ir descansar.

Estávamos andando, ainda juntas, quando Míriam falou mais uma vez.
— Roxana, vou precisar de você no grupo que vai buscar a espada, caso tenhamos
de conversar no caminho com as fadas de Sirlíbia ou com os anões de Elfízia. Por isso,
você também vai iniciar aulas de espada e escudo com Arthur, junto com Scarlet.

Roxana parou e olhou feliz para a feiticeira. Soube mais tarde que ela estava
tentando convencer Míriam a deixá-la fazer parte do grupo de busca da espada havia
alguns dias.
— Obrigada, Míriam — agradeceu a garota.
— Mas vou logo avisando: receio que encontrarão coisas bem piores que os
pestrálios. Então, aconselho a treinar o máximo que conseguir — concluiu.

Então, finalmente seguimos em direção ao castelo. Míriam ainda ficou para trás,
olhando para as piras em chamas.
— Por que ela falou de pestrálio? — perguntou Liquita, que ainda não sabia do que
acontecera. Roxana narrou nossa assustadora aventura e Liquita caiu na gargalhada.
— Sua tonta, por que ficou a poucas livas da Floresta Sombria? — perguntou. — Não
se preocupe. Depois que eu te ensinar meus truques com a espada, você será capaz
de lidar com vinte pestrálios.

137
Roxana riu.
— Eu queria ter um pouco mais de experiência com essas coisas — queixou-se a
garota. — Acho que é muita teoria e pouca prática. Nunca saí do castelo, com exceção
das vezes em que fui a Entrios para algumas reuniões, mas sempre estive
acompanhada por um membro da Lâmina.
— Eu troco um pouco de minha experiência por metade desses peitos — ofereceu
Liquita, fazendo todas nós rirmos.

Enquanto adentrávamos os portões do castelo, admirando toda aquela construção de


pedra, com as janelas iluminadas em várias das torres, eu percebi que, pela primeira vez
em minha vida, eu tinha amigas. Apesar do luto por minha avó e a preocupação com meu
avô, meu coração estava feliz. E foi sorrindo que subi as escadas e passei pela porta
principal do castelo, entrando em meu verdadeiro lar. Eu já me sentia em casa.

Eu não teria como imaginar naquele instante, mas, enquanto nós quatro nos
ajeitávamos para dormir em nosso quarto, alguém, a apenas algumas paredes de
distâncias, utilizava um instrumento mágico de comunicação para receber algumas
ordens de Fenir, que já estava no reino de Egélia, no castelo sombrio do rei egeliano.

— “Faça como ordenado, e, em breve o reino de Londor será apenas


seu. ”

138
Fim do Primeiro Livro

139
O Autor

Londoriano é o pseudônimo de Jeferson Francisco Silveira. O autor nasceu na cidade


catarinense de Laguna em novembro de 1990. Sempre foi apaixonado por histórias fantásticas
e decidiu dar forma a seu próprio mundo mágico no início de 2015.

140
Glossário

Acúbia: Corrida de áculas praticada em diversos reinos, sendo necessário ao menos


três mudanças de ave em pleno ar.
Ácula: Ave gigante usada como meio de transporte em Arfádia.
Ada: Deusa do arco-íris e dos tempos de paz; deusa das festas e comemorações; filha
de Mítria com Falibar, e neta de Telur.
Ádica: Bebida produzida com o sumo da adulima, capaz de provocar tontura e breves
alucinações quando consumida em excesso.
Adulima: Fruto da adulimeira, de coloração roxa, cujo sumo é utilizado na produção da
ádica.
Afarfa: Fruto da afarfareira, de coloração esverdeada e caroços miúdos, com cujo sumo
se produz sucos e outras bebidas.
Agnomídia: Reino dos Mortos e submundo arfadiano, para onde se dirigem os espíritos
de criaturas mortas em Arfádia.
Alpáxia: Fruto da alpaxeira, doce e de coloração branca, cujo caroço moído produz a
farinha de alpáxia.
Anão: Pertencente à Raça dos Anões. Criatura pequena, criada pelo deus Xaptar e
muito habilidosa em ourivesaria.
Anel De Kaizar: Anel mágico criado pelo anão ateniano Lucas Kaizar para alterar a
própria temperatura e brilho conforme a quantidade de magia no ambiente ao redor,
utilizado para localizar possíveis portais de conexão Gâmbia-Arfádia.
Anfra: Poção mágica do sono, capaz de fazer adormecer a maior das criaturas
arfadianas.
Anólia: Um dos nove reinos de Arfádia, situado no extremo leste do mundo mágico.
Anoliano: Relativo ao reino de Anólia; que ou quem pertence ao reino mágico de Anólia.
Arfádia: Mundo mágico criado pelo deus Telur há alguns milhares de anos e controlado
por um panteão de deuses.
Arfadiano: Relativo ao mundo mágico de Arfádia. Que ou quem pertence ao mundo
mágico de Arfádia.
Arno: Primeiro mês do ano no Calendário Centáureo.
Atênia: Grupo secreto do mundo de Gâmbia, responsável por controlar as conexões
entre Gâmbia e Arfádia, e de proteger os humanos de criaturas arfadianas
potencialmente perigosas que acabam entrando no mundo sem-magia.
Ateniano: Relativo ao grupo secreto Atênia. Que ou quem pertence à organização
secreta da Atênia.

141
Átila: Um dos nove reinos de Arfádia, só sendo alcançado por meios aquáticos. Reino
Submerso.
Barbacotol: Erva verde, de folhas pequenas e caule frágil, presente apenas na Floresta
Negra, no reino de Rambur, cuja seiva é altamente venenosa para a maioria das raças
arfadianas.
Barboa: Terceiro mês do ano no Calendário Centáureo.
Bardem: Monstro aquático presente no reino de Átila, que pesa em média 3 madalas e
pode alcançar 50 livas de comprimento.
Baú De Kavala: Baú mágico criado por anões que suporta toda e qualquer tentativa de
violação, além de não sofrer desgastes naturais.
Berbaba: Fruto da berbabeira, verde e com diversas sementes, com o qual se faz
diversas variedades de sucos.
Berbabão: Refresco feito com leite de drideão batido com suco de berbaba.
Brã: Diz-se de cada um dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do mundo
mágico, por onde o sol se move nas noites arfadianas.
Calendário Centáureo: Calendário arfadiano criado pela deusa Xadra para organizar
e dividir o tempo, dividindo o ano em 7 meses de 5 semanas de 8 dias cada.
Cano: Segundo mês do ano no Calendário Centáureo.
Cavália: Esporte praticado em alguns reinos arfadianos, onde o objetivo é percorrer a
maior distância possível a cavalo, sem alimentá-lo e sem deixa-lo beber água ou
descansar.
CC: Abreviatura que designa os anos posteriores ao Calendário Centáureo.
-CC: Abreviatura que designa os anos anteriores ao Calendário Centáureo.
Centauro: Pertencente à Raça dos Centauros. Criatura mágica de quatro patas criada
pelo deus da guerra Falibar. A primeira raça arfadiana a ser criada e a povoar o mundo
mágico.
Centúrio: Deus dos centauros e da vingança; filho de Telur.
Chumelico: Animal aquático de oito patas que vive apenas no Mar do Fim do Mundo,
no reino de Londor, que se dirige à superfície ou à terra para alimentar-se.
Cíccio: Antigo idioma arfadiano, criado pelo deus Centúrio e entregue aos centauros.
Idioma que deu origem aos atuais cencto e cícto.
Cíclio: Quarto mês do ano no Calendário Centáureo.
Cinauro: Sétimo e último mês do ano no Calendário Centáureo.
Cítrix: Poção mágica curativa que provoca rápida cicatrização em ferimentos e
hematomas.
Clã: Deusa dos Espíritos e Senhora de Agnomídia; filha de Xiva e esposa de Gólom.
Colar Sumidouro: Colar mágico criado por fadas que permite que quem o use consiga
alterar a sua posição no espaço em uma minúscula fração de tempo.

142
Cótura: Poção mágica de coloração vermelho-sangue, que permite que quem a beba
assuma a forma física de outra criatura. Poção do corpo-roubado.
Criatura: Termo utilizado para referir-se às criaturas arfadianas dotadas de raciocínio e
capacidade de fala.
Cuobo : Planta rasteira venenosa e espinhenta, cujas sementes são consumidas por
elfos, sendo venenosas a todas as demais criaturas.
Depositório-Corrente: Objeto mágico amplo com água em circulação, utilizado para
urinar e evacuar.
Derdídia: Atual reino de Egélia.
Derdidiano: Referente ao antigo reino de Derdídia. Que ou quem pertence ao antigo
reino de Derdídia.
Dia Dos Mortos: Feriado arfadiano que acontece no dia Barboa-17, onde a deusa Clã
permite o retorno dos espíritos ao mundo dos vivos, caso estes possuam laços.
Diágira: Menor das duas luas arfadianas, que, junto com a lua Diana, ilumina a noite do
mundo mágico. Corpo celeste criado por Telur e controlado pela deusa Mítria para
iluminar as noites arfadianas.
Diana: Maior das duas luas arfadianas, que, junto com a lua Diágira, ilumina a noite do
mundo mágico. Corpo celeste criado por Telur e controlado pela deusa Mítria para
iluminar as noites arfadianas.
Dil: Diz-se de cada um dos oito pedaços imaginários do céu, utilizados para orientar na
contagem e duração do tempo arfadiano. Tempo necessário para o sol, e as luas,
percorrerem o espaço de um dil.
Dilógio: Instrumento mágico criado por humanos para informar a exata posição do sol
e das luas em torno de Arfádia, sendo utilizado para orientar de forma eficaz a passagem
do tempo arfadiano.
Drideão: Animal de chifres e grande porte, utilizado como montaria nos primeiros
séculos de Arfádia e que atualmente é criado apenas para consumo de seu leite e carne.
Ediana: Deusa das fadas e mensageira dos deuses; filha de Falibar e Mítria.
Éfila: Deusa da Morte, filha de Telur e Xiva; responsável por tirar as vidas dos arfadianos
e levar seus espíritos para Agnomídia. Também chamada de Deusa de Véu, Deusa
Medonha ou Deusa da Moeda.
Egélia: Um dos nove reinos de Arfádia. Antigo reino de Cratona, quando Egélia e
Centúria eram um só reino, antes de separar-se e chamar-se Derdídia.
Egeliano: Relativo ao reino de Egélia. Que ou quem pertence ao reino de Egélia.
Elfo: Criatura pertencente à Raça dos Elfos, uma das Grandes Raças Arfadianas.
Elgun: Torneio de arco e flecha realizado no reino de Entrios a cada três anos, onde
são realizadas diversas provas de caça para decidir o elfo de melhor pontaria.
Entrios: Um dos nove reinos do mundo mágico de Arfádia, situado entre os rios de
Frida e Sárion.

143
Entriosano: Relativo ao reino de Entrios. Que ou quem pertence ao reino mágico de
Entrios.
Escudo De Arnok: Diz-se do suposto escudo forjado por anões nas montanhas de
Arnok, no reino de Egélia, capaz de suportar grandes impactos. Uma das Seis Grandes
Relíquias Arfadianas
Espaço Neréia: Espaço superior do mundo mágico, por onde percorrem o sol e as luas,
do Primeiro-Dil ao Oitavo-Dil. Todo o céu arfadiano.
Espaço Opuléia: Espaço inferior do mundo mágico, por onde percorrem o sol e as luas
arfadianas, do Primeiro-Brã ao Oitavo-Brã.
Espelho De Mago: Espelho mágico criado por feiticeiros e usado aos pares, no qual é
possível entrar por um deles e sair através do espelho par. Espelho utilizado para a
rápida locomoção entre dois pontos.
Estrela-De-Xiva: Estrela maior e mais brilhante do céu arfadiano, presente durante os
dias e noites, colocada no Grande Abismo pela deusa Xiva para auxiliar nas direções
arfadianas.
Fada: Pertencente à Raça das Fadas. Criatura mágica que possui dois pares de asas
e criada pela deusa Ediana; presentes apenas na Floresta de Sirlíbia, no reino de
Entrios.
Fáfula: Receita típica do reino de Egélia, difundida a alguns reinos do leste arfadiano,
feita com carne de famplo recheada com farofa élfica.
Faizim : Sementes da faizimeira, consumidas em diversos reinos de Arfádia, e cuja
casca é utilizada na produção de tintas para escrita arfadiana, por liberar uma forte
coloração negra quando mergulhado na água.
Falárvore: Diz-se da árvore mágica capaz de conversar e manter um diálogo com as
raças arfadianas. Presente apenas na Floresta Branca e na Floresta de Sirlíbia.
Famplo: Animal ramburiano de chifres grandes e flamejantes, cuja couraça resistente
é utilizada para variados fins.
Fave: Cada um dos receptáculos de vidro presentes em libiadores, usados para
distribuir e separar os diferentes líbex do instrumento.
Feiticeiro: Diz-se do humano arfadiano que nasce com poderes mágicos. Todo humano
capaz de realizar feitiços com as próprias mãos.
Feitiço De Gárculo: Feitiço protetor criado e utilizado pela primeira vez por Fernando
Gárculo, que consiste na projeção de um campo de força circular que repele qualquer
feitiço adversário.
Félula: Variedade de molho ramburiano apimentado, feita com ovos e pedaços de carne
de vários peixes.
Fentol: Substância cheirosa feita com uma mistura de ervas da Floresta de Sirlíbia
usada para refrescar o hálito e limpar o interior da boca após as refeições.
Fília: Atual reino de Sérsia.
Fílix: Idioma criado pelos antigos elfos e falado por grande parte do mundo mágico. O
idioma original do Grande Livro da Criação.

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Fim Do Mundo: Diz-se dos extremos de Arfádia, onde o mundo mágico termina
abruptamente.
Flona: Unidade de peso arfadiana, que representa um décimo da víria.
Flopa: Instrumento musical de sopro, feito em madeira de sargiz e utilizado em festas
e eventos arfadianos.
Flu: Espaço imaginário do céu arfadiano que representa a metade de meio-dil. Tempo
necessário para o sol e as luas percorrerem este espaço.
Folipim: Peixe de corpo azul alongado, cabeça em forma de cone e cauda pontiaguda,
presente em todos os rios arfadianos.
Forfaiom: Instrumento musical de quatro cordas, utilizado para produzir sons agudos,
durante festas e eventos arfadianos.
Forintal: O ponto onde as águas dos mares arfadianos assumem direções opostas,
sendo que um dos lados ruma para a praia e o outro em direção ao Fim do Mundo.
Gâmbia: Nome utilizado por arfadianos para referir-se ao estranho mundo sem-magia
dos humanos.
Gambiano: Relativo ao mundo de Gâmbia. Que ou quem pertence ao mundo sem-
magia dos homens.
Gamú: Instrumento musical de vinte e três cordas, que produz sons de variadas
tonacidades, utilizado em festas e eventos arfadianos.
Ganá: Semente da trifafeira, que, após fervida em gema de ovo, torna-se comestível e
saborosa, fazendo parte da culinária londoriana.
Garmim: Substância gelatinosa e cheirosa, produzida apenas por fadas, e utilizada
durante a lavagem dos cabelos e do couro cabeludo.
Gigante: Pertencente à Raça dos Gigantes. Criatura mágica de tamanho elevado,
habitante das montanhas arfadianas e criada pelo deus Xaptar.
Gogro: Animal pequeno e de formato oval, presente apenas no reino de Londor, que
costuma se locomover em fila, junto com os outros membros da família.
Gólom : Deus do sol; filho de Telur.
Góriom: Antigo deus dos homens e bisneto de Telur. Filho da deusa do arco-íris Ada
com um humano, o rei de Anólia Salazar Silverati.
Grágula: Ave noturna que vive em buracos feitos em tronco de árvores ou embaixo de
pedras, cuja fêmea ganha um longo e colorido penacho durante o período fértil.
Gralha : Unidade de distância arfadiana, que representa 600 livas.
Grande Abismo: Diz-se do espaço vazio e eterno no qual flutua o mundo mágico de
Arfádia.
Grifinário: Pertencente à Raça dos Grifinários, uma das Grandes Raças Arfadianas.
Criatura arfadiana que possui 4 braços e uma aguçada inteligência para cálculos e
lógica.

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Gritão: Inseto de coloração roxa e asas avermelhadas, que se alimenta de madeira e
faz grande barulho durante a cópula.
Grólen: Espírito ambulante preso ao mundo dos vivos por não poder entrar em
Agnomídia. Fantasma errante que assombra florestas, cavernas e outros locais.
Guinês: Idioma dos antigos anões do reino de Derdídia, prestes a extinguir-se devido
ao baixo número de falantes.
Habina: Estrutura fina e central presente nas asas da ácula, utilizada, entre outras
coisas, para a remoção de alimentos entre os dentes após as refeições.
Hinus: Prato típico do reino de Entrios, feito com uma mistura de farinha de faizim,
gordura animal e vegetal.
Jianca: Competição do reino de Rambur, com três participantes, onde o objetivo é
entrar na Floresta Negra e retornar com o máximo de ovos de dragão.
Laço: Diz-se da criatura viva que sente saudade e guarda lembranças de bons
momentos vividos com alguma criatura falecida.
Lágrifa-Andante: Árvore verde das florestas de Londor, Rambur e Egélia, que mudam
de lugar para enganar criaturas desprevenidas e fazê-los pensar que estão andando em
círculos.
Lágrima-De-Xiva: Planta negra espinhenta, presente apenas no reino de Londor,
originada das lágrimas da deusa Xiva após descobrir a traição de Telur com sua neta
Ada.
Líbex: Cada uma das esferas de um libiador, com valor pré-definido, utilizada para
indicar a quantidade de líbias que determinado objeto pesa.
Líbia: Fruto da libieira. Unidade padrão de pesos arfadianos.
Libiador: Instrumento mágico para pesagens criado por grifinários e anões.
Limília : Ave de plumagem colorida e pescoço longo, cujo canto pode ser ouvido com o
sol na posição exata da Parnéia.
Lintim: Massa pastosa feita com as raízes da árvore lintimária, torradas e fervidas em
água quente, misturadas com o leite de drideão.
Lipla-Flamejante: O mesmo que fogurê ou lipla-incendiária. Planta presente em
Londor, Rambur e Sérsia, que inflama todas as suas folhas para defender-se de
predadores, voltando a renascer das cinzas.
Li-Telur: Primeiro dia da semana no Calendário Centáureo.
Liva: Unidade arfadiana padrão de distâncias, que representa a distância entre os pés
da estátua Pai dos Deuses, construída por elfos e localizada no reino de Entrios.
Li-Xiva: Quinto dia da semana no Calendário Centáureo.
Lomo: Verme branco que vive em tocas enterradas em lamaçais e solos úmidos.
Londor: Um dos nove reinos do mundo mágico de Arfádia. Antigo reino de Londória,
situado no lado oeste arfadiano.
Londória: Atual reino de Londor.

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Londoriano: Relativo ao reino de Londor. Que ou quem pertence ao reino arfadiano
de Londor.
Luna: Unidade de tempo arfadiana, que representa o espaço de tempo necessário para
o sol percorrer metade de meio-flu.
Madala: Unidade de peso arfadiana, que representa 1300 taras, ou 1690000 líbias.
Magigneto: Instrumento mágico criado por elfos para encontrar um objeto qualquer;
utilizando um ponteiro para indicar sua posição, seja ela qual for.
Mandrácula: Planta gigante carnívora, que se alimenta de outras plantas, animais e
raças arfadianas; presente apenas nos reinos de Rambur, Centúria e Sérsia.
Melita: Pedra preciosa de coloração branca e grande rigidez, presente no fundo de
lagos e cavernas arfadianas. Pedra utilizada para a produção de diversos objetos,
ausente nos reinos de Sérsia, Anólia e Centúria.
Melusa: Quinto mês do ano no Calendário Centáureo.
Miléia: Ponto central do percurso que o sol e as luas realizam, a partir da Neréia e
seguindo para Opuléia. Ponto no horizonte que demarca o fim do terceiro quarto e início
do último quarto do dia arfadiano. O pôr do sol.
Mítria: Deusa das luas Diana e Diágira; deusa do sono; esposa de Falibar e filha de
Xiva, nascida das pedras da margem do lago Neptar, no reino de Londor.
Moega-Londoriana: Planta gigante vermelha de formato oval que, apesar do nome,
pode ser encontrada nos reinos de Londor e Entrios.
Neptar: Deusa dos mares; deusa das sereias e tritões; esposa de Xaptar.
Neréia: Centro do céu arfadiano. Momento em que o sol se encontra no centro do céu.
Metade exata do dia arfadiano.
Nilho: Animais cegos que se alimentam de outros animais mortos e vivem dentro de
árvores secas em florestas do leste arfadiano.
Oitavo-Brã: Diz-se do último dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do mundo
mágico, onde o sol se encontra antes da Parnéia.
Oitavo-Dil: Diz-se do oitavo pedaço imaginário de céu, utilizado para guiar as criaturas
arfadianas com a contagem do tempo durante o dia arfadiano.
Onéscia: Poção mágica de corolaração cinza, usada para obrigar quem a ingere a dizer
apenas a verdade.
Opuléia: Lado oposto ao centro do céu arfadiano, embaixo de Arfádia. O centro do
espaço inferior de Arfádia. Início do dia arfadiano, quando o sol alcança o centro do
Espaço Opuléia.
Oxíbera: Poção mágica transparente, capaz de liberar uma alta quantidade de oxigênio
para o cérebro, permitindo total submersão em ambientes líquidos por longos períodos.
Paco: Unidade de distância arfadiana, que representa um décimo da tota e um
centésimo da liva.

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Pacto De Morte: Ritual realizado por um feiticeiro entre duas ou mais pessoas, onde
todos os envolvidos prometem guardar um determinado segredo sob a punição de morte
coletiva pela deusa Éfila em caso de revelação do segredo guardado.
Pápola: Planta presente apenas na Floresta Branca, no reino de Londor, com cujas
folhas produz-se o chá de pápola.
Parnéia: Ponto central do percurso que o sol e as luas realizam, a partir da Opuléia e
seguindo para Neréia. Ponto no horizonte que demarca o fim do primeiro quarto e início
do segundo quarto do dia arfadiano. O nascer do sol.
Partéia: Entretenimento criado por deuses e praticado em vários lugares de Arfádia,
onde dois oponentes, colocados frente a frente, juntam as mãos e fazem força para
encostar as costas da mão do adversário na superfície de apoio.
Peste Draconiana: Doença arfadiana provocada tanto por mordidas ou arranhões
causados pela fêmea do Dragão Verde quanto pela ingestão de carne de animais já
infectados, cujos sintomas são dores pulmonares, febre, demência e alucinações.
Pestrálio: Animal selvagem, presente nos reinos de Londor e Rambur, que se alimenta
do sangue de suas presas, drenando-as após a mordida.
Pina: Unidade de peso arfadiana, que representa um centésimo da flona.
Pinéulia: Planta alta de formato espiral, presente apenas na Floresta Branca, no reino
de Londor, que se defende encolhendo-se e tornando-se minúscula.
Pi-Telur: Quarto dia da semana no Calendário Centáureo.
Pi-Xiva: Oitavo e último dia da semana no Calendário Centáureo.
Poção De Sarinar: Única poção mágica arfadiana capaz de expulsar, através de
vômitos e diarréias, a seiva de barbacotol do corpo de criaturas envenenadas. Poção
desenvolvida por Salema Sarinar em CC 2478.
Popro: Ave gigante de pescoço comprido, que não voa, e cuja carne e ovos são
consumidos por quase todas as raças de Arfádia.
Póprula: Esporte praticado em diversos reinos de Arfádia, no qual os participantes
utilizam o popro como montaria para atravessar a linha de chegada.
Porolho: Animal ligeiro de quatro orelhas, que come apenas plantas e folhas, e com
cuja pele se produz o casaco-de-porolho.
Portal De Conexão Arfádia-Gâmbia: Diz-se do portal mágico que surge de maneira
aleatória no mundo de Arfádia, capaz de transportar criaturas mágicas para o mundo
dos homens.
Portal De Conexão Gâmbia-Arfádia: Diz-se do portal mágico que surge de maneira
aleatória no mundo dos homens, capaz de transportá-los para o mundo mágico de
Arfádia.
Prata-De-Fadas: Diz-se da prata que recebeu tratamento mágico das fadas, tornando-
se mais resistente, leve e brilhante que a prata comum.
Primeiro-Brã: Diz-se do primeiro dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do
mundo mágico, para onde o sol se dirige após a Miléia.

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Primeiro-Dil: Diz-se do primeiro pedaço imaginário de céu, utilizado para guiar as
criaturas arfadianas com a contagem do tempo durante o dia arfadiano.
Quarto-Brã: Diz-se do quarto dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do mundo
mágico.
Quarto-Dil: Diz-se do quarto oitavo imaginário de céu, utilizado para guiar as criaturas
arfadianas com a contagem do tempo durante o dia arfadiano.
Quina: Unidade de tempo arfadiana, que representa o espaço de tempo necessário
para o sol percorrer metade de meia-luna.
Quinto-Brã: Diz-se do quinto dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do mundo
mágico, para onde o sol se dirige após a Opuléia.
Quinto-Dil: Diz-se do quinto pedaço imaginário de céu, utilizado para guiar as criaturas
arfadianas com a contagem do tempo durante o dia arfadiano.
Raio Perfurante: Feitiço poderoso usado por alguns feiticeiros, onde um poderoso raio
é lançado, perfurando a maioria das superfícies que encontra pela frente.
Rambur: Um dos nove reinos do mundo mágico de Arfádia. Conhecido como o Reino
dos Dragões, situado ao norte do reino de Londor.
Ramburiano: Relativo ao reino de Rambur. Que ou quem pertence ao reino mágico de
Rambur.
Reino Dos Dragões: Como é conhecido o reino de Rambur, devido ao alto número de
espécies draconianas.
Reino Dos Mortos: Local governado pela deusa Clã, para onde se dirigem, e onde
viverão os espíritos de Arfádia; Agnomídia.
Ritual Do Cárcere Perpétuo: Ritual de magia negra realizado como oferenda à deusa
Clã, para que esta não permita a saída de determinado espírito no próximo Dia dos
Mortos.
Rufanonte: Pertencente à Raça dos Rufanontes. Criatura grande, de pele acinzentada,
e com chifres no lugar do nariz. Criados pelo deus da guerra Falibar.
Sagoma-Carrasca: Árvore negra presente em quase todas as florestas arfadianas, que
utiliza seus cipós para amarrar e enforcar criaturas próximas.
Salitra: Erva míuda e de coloração branca, e cuja seiva é usada em alguns casos como
tempero nas refeições arfadianas.
Sargiz: Árvore de tronco, galhos e folhas brancas, presente apenas no reino de Londor
e que deu nome à Floresta Branca.
Segundo-Brã: Diz-se do segundo dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do
mundo mágico.
Segundo-Dil: Diz-se do segundo pedaço imaginário de céu, utilizado para guiar as
criaturas arfadianas com a contagem do tempo durante o dia arfadiano.
Seipla: Peça de roupa feminina, utilizada por elfas e humanas, que vai da cintura até
os tornozelos, comumente utilizada nos reinos do oeste arfadiano.

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Sereia: Pertencente à Raça das Sereias. Criatura com cauda de peixe criada pela deusa
Neptar.
Sereiar: Demonstrar interesse exagerado por outras criaturas. Agir como as sereias.
Sereísse: Excesso de melodrama. Ficar de sereísse: ofender-se facilmente; criar caso
por pouca coisa.
Sérsia: Um dos nove reinos de Arfádia. Antigo reino de Fília, situado no extremo leste
arfadiano, ao norte do reino de Anólia.
Sestro: Mistura pastosa feita com gordura animal e algumas ervas, utilizada na higiene
bucal arfadiana, ajudando a clarear os dentes.
Sétimo-Brã: Diz-se do sétimo dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do
mundo mágico.
Sétimo-Dil: Diz-se do sétimo pedaço imaginário de céu, utilizado para guiar as criaturas
arfadianas com a contagem do tempo durante o dia arfadiano.
Sexto-Brã: Diz-se do sexto dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do mundo
mágico.
Sexto-Dil: Diz-se do sexto pedaço imaginário de céu, utilizado para guiar as criaturas
arfadianas com a contagem do tempo durante o dia arfadiano.
Siabo: Prato comum na culinária londoriana, feito com lintim e ovos de popro.
Sigário Cabeça-De-Flor: Animal presente nas florestas dos reinos de Londor, Entrios,
Rambur e Egélia; de pele rugosa, língua comprida e em cuja cabeça nasce uma falsa
flor colorida, usada para atrair insetos.
Símbolo Do Timorato: Símbolo que representa os covardes, marcado por Falibar na
pele dos que fogem a um conflito, salvo aqueles desprevenidamente atacados.
Sirlíbia: Floresta mágica situada ao sul do reino de Entrios; também conhecida como
Lar das Fadas.
Si-Telur: Segundo dia da semana no Calendário Centáureo.
Si-Xiva: Sexto dia da semana no Calendário Centáureo.
Tara: Unidade de peso arfadiana, que representa o peso exato de 1300 líbias.
Télula Cata-Sombra: Planta londoriana de folhas longas e amarelas, que desenterra
suas raízes e caminha para a sombra mais próxima quando exposta ao sol.
Telur: Criador de Arfádia e Senhor de todos os deuses.
Terceiro-Brã: Diz-se do terceiro dos oito pedaços imaginários do espaço inferior do
mundo mágico.
Terceiro-Dil: Diz-se do terceiro pedaço imaginário de céu, utilizado para guiar as
criaturas arfadianas com a contagem do tempo durante o dia arfadiano.
Terfúlio: Ave mágica rara que habita os reinos de Londor, Entrios e Rambur, cuja carne
é considerada um sinal de ostentação e luxo nas mesas arfadianas, devido a seu
elevado preço.
Tinfa: Sexto mês do ano no Calendário Centáureo.

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Ti-Telur: Terceiro dia da semana no Calendário Centáureo.
Ti-Xiva: Sétimo dia da semana no Calendário Centáureo.
Torvo: Ave negra que vive em cavernas e lugares escuros, desde que foi amaldiçoada
por Gólom, o deus do sol.
Tota: Unidade de distância arfadiana, que representa um décimo da liva.
Trapóia: Peixe de pequenas dimensões, colorido e de três caudas, presente somente
no reino de Átila.
Tritão: Que pertence à Raça dos Tritões. Criatura mágica arfadiana criada pela deusa
Neptar.
Última Despedida: Como também são chamados os rituais que dão fim ao corpo ou
restos mortais de criaturas arfadianas, seja por cremação ou por envio ao Fim do
Mundo.
Unicórnio: Criatura mágica rara que se derivou do cavalo, nascendo com um chifre no
meio da testa e com velocidade muito superior a este último.
Víria: Unidade de peso arfadiana, que representa um quarto da líbia.
Víria-Espinhenta: Planta espinhenta de grande porte, podendo chegar a duas livas de
altura, presentes em todos os reinos de Arfádia, incluindo o reino submerso de Átila.
Vívera: Poção mágica de coloração amarelo-ouro e de complexo preparo, capaz de
curar ferimentos e cortes profundos.
Viz-Prateado: Planta pequena prateada, presente nos reinos de Londor, Entrios e
Anólia, cuja fêmea torna-se fluorescente durante o período fértil.
Xadra: Deusa do raciocínio, da lógica, da estratégia, dos grifinários. Criadora do
calendário e suposta criadora do xadrez, embora alguns sábios arfadianos acreditem
que a deusa tenha roubado o jogo dos gambianos e se apropriado indevidamente do
crédito por tê-lo inventado.
Xaptar: Deus do fogo, da forja e criador dos anões; marido de Neptar.
Xipé: Utensílio utilizado para que criaturas do sexo feminino possam urinar e despejar
a urina no depositório-corrente.
Xiva: Deusa da flora, criada por Telur a partir de um de seus chifres. Esposa de Telur.
Deusa protetora do reino de Londor.
Zacbar: Deus da chuva; filho de Telur e primeiro dono da espada Zárfia.
Zárfia: Espada mágica forjada pelo deus da chuva Zacbar e, mais tarde, pertencente
ao deus dos humanos Góriom, antes de ser entregue a Alexandre Caspor, rei de Londor.

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Todos os direitos reservados.

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