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Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac, in "Poesias"

sustentando seu demorado destino. Igual à pedra detida. Cecília Meireles. ao pássaro que procura o fim do mundo. isenta. E à nuvem. Lua que envolve igualmente os noivos abraçados e os soldados já frios.Sugestão Sede assim — qualquer coisa serena. Também como este ar da noite: sussurrante de silêncios. ao camelo que mastiga sua longa solidão. Flor que se cumpre. por exercício desinteressado. vivendo de nunca chegar a ser. leve e bela. fiel. ao boi que vai com inocência para a morte. sem pergunta. fiel. Onda que se esforça. À cigarra. cheio de nascimentos e pétalas. Sede assim qualquer coisa serena. in 'Mar Absoluto' . Não como o resto dos homens. isenta. queimando-se em música.

.. o olham como eu.Poema XXXVIII" Heterónimo de Fernando Pessoa . Alberto Caeiro. nesse puro momento Todo limpo e sensível Regressam lacrimosamente E com um suspiro que mal sentem Ao homem verdadeiro e primitivo Que via o Sol nascer e ainda o não adorava. in "O Guardador de Rebanhos . Porque isso é natural — mais natural Que adorar o ouro e Deus E a arte e a moral . um momento no dia.Bendito Seja o mesmo Sol de outras Terras Bendito seja o mesmo sol de outras terras Que faz meus irmãos todos os homens Porque todos os homens. E.

rindo. a árvore. dá ninho às aves. fecunda terras… E. que move o moinho. a árvore. ao inseto. o rio… Por que não há de ser toda gente também assim? Ser como as rosas: bocas vermelhas que não disseram nunca a ninguém que têm perfumes… Mas as abelhas e os homens sabem o que elas têm! Ser como o espaço. olhos de monge… - busca-o sem mesmo saber por quê. FELICIDADE… (Guilherme de Almeida) Simplicidade… Simplicidade… Ser como as rosas.SIMPLICIDADE. passa. aves. as rosas. que é azul de longe. dá sombra e paz. de perto é nada… Mas quem o vê . Felicidade – sonho sombrio! Feliz é o simples que sabe ser como o ar. flores… Mas nada sabe do bem que faz. despretensioso.árvores. o céu sem fim. Ou ser como a árvore: aos lavradores dá lenha e fruto. sempre a cantar. o rio: simples. Ser como o rio cheio de graça. mas simples sem o saber! . dá vida ao lar.

afagou-me o Sol. apenas E em troca tive algumas santamente serenas… Fui amado. nem pena imerecida. eu te bendigo.Amado Nervo – Em Paz Já bem perto do ocaso. Para que mais? Vida. nada me deves. Que a minha sorte foi por mim mesmo traçada. eu colhi sempre rosas. se extraí os doces méis ou o fel das cousas. Nem trabalhos injustos. ao final de tão rude jornada. Foi porque as adocei ou as fiz amargosas. Que. Decerto. vai suceder o inverno: Mas tu não me disseste que maio fosse eterno! Longas achei. ó Vida. confesso. Quando eu plantei roseiras. aos meus ardores. Porque vejo. Porque nunca me deste esperança mentida. Mas não me prometeste noites boas. estamos em paz! . minhas noites de penas. Vida.

não posso cuidar de ti... folha seca! Meus olhos sem força estão velando e rogando àqueles que não se levantarão.. Certa de que tudo é vão. menos que as folhas do chão. Deixo-te a minha saudade . De que serviu tecer flores pelas areias do chão. Perdoa-me.CANÇÃO DE OUTONO (Cecília Meireles) Perdoa-me. folha seca. . E pela minha fraqueza é que sou triste e infeliz. Tu és a folha de outono voante pelo jardim.a melhor parte de mim. Vim para amar neste mundo.. se havia gente dormindo sobre o próprio coração? E não pude levantá-la! Choro pelo que não fiz. e até do amor me perdi. Que tudo é menos que o vento.

Escrevo estas páginas de espuma Não para o homem orgulhoso Que se afasta da lua enfurecida Nem para os mortos de alta estirpe Com seus salmos e rouxinóis.Em meu ofício ou arte taciturna Em meu ofício ou arte taciturna Exercido na noite silenciosa Quando somente a lua se enfurece E os amantes jazem no leito Com todas as suas mágoas nos braços. Que não me pagam nem me elogiam E ignoram meu ofício ou minha arte. Mas para os amantes.Dylan Thomas . Trabalho junto à luz que canta Não por glória ou pão Nem por pompa ou tráfico de encantos Nos palcos de marfim Mas pelo mínimo salário De seu mais secreto coração. . seus braços Que enlaçam as dores dos séculos.

. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda. Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se..... Creio no mundo como num malmequer.... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo.. . Amar é a eterna inocência. Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. Eu não tenho filosofia.. e amo-a por isso Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama... Reparasse que nascera deveras..Alberto Caeiro . Mas porque a amo.. ao nascer. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender..O meu olhar é nítido como um girassol. O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. E a única inocência não pensar. Porque o vejo.. E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto. E eu sei dar por isso muito bem.. nem o que é amar. tenho sentidos.. E de vez em quando olhando para trás.

É querer estar preso por vontade. Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Luís Vaz de Camões. É ferida que dói. e não se sente. o vencedor. in "Sonetos" . É um contentamento descontente.Amor é um Fogo que Arde sem se Ver Amor é um fogo que arde sem se ver. lealdade. É um andar solitário entre a gente. É um não querer mais que bem querer. É dor que desatina sem doer. É ter com quem nos mata. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade. É servir a quem vence. É um cuidar que ganha em se perder. É nunca contentar-se e contente.

e ninguém nunca amou. Amor é um marco eterno. e que é falso alguém provou. muito embora Seu alfange não poupe a mocidade. Cujo valor se ignora. Amor não se transforma de hora em hora. É astro que norteia a vela errante. Eu não sou poeta. Amor não teme o tempo. dominante. Ou se vacila ao mínimo temor. Antes se afirma para a eternidade.Shakespeare . . Se isso é falso.Soneto 116 De almas sinceras a união sincera Nada há que impeça: amor não é amor Se quando encontra obstáculos se altera. lá na altura. Que encara a tempestade com bravura.

. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. do céu. E todas as lamentações do mar.. a tua voz ausente. tu irás e encostarás a tua face em outra face. do vento. . Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. Eu deixarei. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. das aves. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu.Vinícius de Morais – Ausência Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos. das estrelas Serão a tua voz presente. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. a tua voz serenizada.

. a entreter a razão. E assim nas calhas da roda Gira. E os que lêem o que escreve. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. Na dor lida sentem bem. Mas só a que eles não têm. Não as duas que ele teve.Fernando Pessoa O poeta é um fingidor. Esse comboio de corda Que se chama o coração.AUTOPSICOGRAFIA .

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave. empurram o nosso olhar para longe de todo o céu. Escondem o horizonte.Para ser grande. Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura. Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha. Sê todo em cada coisa. Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) . Ricardo Reis.. Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar. sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer. 14-2-1933 (Fernando Pessoa) Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo. porque alta vive.

Mar Português (Fernando Pessoa) Ó mar salgado. ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. quantas mães choraram. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu. . Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso. quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos. Mas nele é que espelhou o céu.X.

Atravesso noites e dias no vento.Motivo – Cecília Meireles Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Tem sangue eterno a asa ritmada. Irmão das coisas fugidias.mais nada. Sei que canto. Se desmorono ou se edifico. E um dia sei que estarei mudo: . E a canção é tudo.não sei. . Não sei se fico ou passo. não sei. . Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. não sinto gozo nem tormento. se permaneço ou me desfaço.

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