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TÍTULO ORIGINAL: Somebody up there hates you PREPARAÇÃO DE TEXTO: Marianna Soares REVISÃO: Márcia Benjamim e Gabriela Ghetti PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO: Mauro C.br atendimento@editoraplaneta. . I.com. Todos os direitos reservados. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS.br . Hollis Alguém lá em cima te odeia / Hollis Seamon . Naxara CAPA: Compañía IMAGEM DA CAPA: E. CDD: 813 14-18353. Copyright © 2013 by Hollis Seamon. tradução Alice Klesck. Alice.1 ed. Tradução de: Somebody up there hates you ISBN 978-85-422-0465-0 1. 2015. CDU: 821. Klesck.planetadelivros.São Paulo : Planeta. Rua Padre João Manoel.com. Câncer .111(73)-3 Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. II. Título. Dygas/Getty Images CONVERSÃO eBOOK: Hondana CIP-BRASIL. que entrou em vigor no Brasil em 2009. RJ S446a Seamon. 2015 Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA. 100 | 21o andar Edifício Horsa II | Cerqueira César | 01411-000 | São Paulo – SP www.Ficção americana. : il. .

. entre 1976 e 1990. Seus rostos povoam meus sonhos e suas vozes ainda ecoam em meus ouvidos.Para todas as crianças que conheci no Babies Hospital do Columbia-Presbyterian Medical Center.

Espere pela morte com a mente alegre. Meditações . Marco Aurélio.

Sumário PRIMEIRA PARTE CAPÍTULO 1 CAPÍTULO 2 CAPÍTULO 3 CAPÍTULO 4 CAPÍTULO 5 CAPÍTULO 6 CAPÍTULO 7 SEGUNDA PARTE CAPÍTULO 8 CAPÍTULO 9 CAPÍTULO 10 CAPÍTULO 11 CAPÍTULO 12 CAPÍTULO 13 TERCEIRA PARTE CAPÍTULO 14 CAPÍTULO 15 CAPÍTULO 16 CAPÍTULO 17 CAPÍTULO 18 AGRADECIMENTOS .

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É fácil ler seus pensamentos: não são elas que estão morrendo. Bem esquisito. na véspera do Halloween. tipo. quando era criança. Eu. havia uma noite incrível. quando entram na nossa pequena recepção. Mas não é disso que eu quero falar. As enfermeiras dizem que a música de harpa é tranquilizante e espiritual. Bom. com mais de sessenta. não acha? Quer dizer. eu digo: “Encare a real”. tem uma harpista. você ainda não está morto — apesar de que. acontecem umas coisas muito doidas. sou totalmente confiável. na cidade de Hudson. uma senhorinha de cabelo branco. Morrer é bem tedioso. no grande estado de Nova York. que desova um monte de gente no nosso “pequeno albergue hospitalar”. a maioria sem querer — uma vez me disse que em Nova Jersey. também conhecido como o Incrível Garoto Moribundo. logo que fui jogado neste hospital. porque ninguém. Richard Casey. tanto faz. Elas estão aqui pra visitar algum dos seus moribundos e. porque as mulheres da minha família são mães muito novas. esperneando e xingando. é melhor eu explicar. que eles chamavam de Cabbage Night. e algumas apertam o botão pra chamar o elevador ou seguram as portas. Sério. Todo mundo morre. os pais deixavam os filhos . senta ao lado de uma harpa imensa e passa o dia dedilhando. bem na frente do elevador. Minha avó — que não é tão velha como você pensa. Mas é o que somos. e faz bem aos pacientes. Sem brincadeira. De qualquer forma. evitando que fechem. Porque as enfermeiras realmente até que são legais e ficam todas chorosas quando eu digo isso. empalidecem. véspera do Halloween. Sei. mas morar aqui é muito mais interessante do que eu poderia imaginar. e quanto aos nossos direitos? Certo. certo? Então. num dia bom. Por um segundo. observando as pessoas que saem do elevador. e eu estou dizendo ninguém. Talvez faça bem aos 95% dos pacientes jurássicos. Ou toca as cordas. Essa é a vida. na verdade. e quanto a mim? Eu e Sylvie somos crianças. são recebidas por aquela música e meio que cambaleiam pra trás. se você for direto ao ponto. Atualmente vivo no terceiro andar do Hilltop Hospital. Bem ali. Tipo o que eu e a Sylvie fizemos. às vezes. A maioria recua pelo menos três passos. na nossa recepção. todo santo dia. portanto. Deixe-me lhe contar apenas uma coisa sobre esse hospital. por que estão aqui? Como vieram parar aqui com essa harpa? Isso apavora todo mundo e eu tenho que rir. juro. em particular. Somos adolescentes e também estamos morrendo. meio difíceis de engolir. Nessa noite. A harpa emite uma porção de sons vigorosos e ternos. Imagine o seguinte: bem na frente do elevador. devem pensar que passaram direto por aquele negócio todo da morte e do enterro e chegaram direto no céu. Os caras e as gatas. que usa umas saias compridas estranhas. Mas. quer pensar na morte de crianças. eu admito. tentando fugir. esse negócio da harpa é bem divertido. mesmo sendo estranho. Fico ali sentado. Foi demais. na minha cadeira de rodas. sem sacanagem. será que não é meio prematuro? Poxa. isso é meio rude.

no local habitual da harpa. Nós somos crianças. com aula no dia seguinte! Quer dizer. seus pais nem se davam ao trabalho de ficar acordados. atiravam sacos de farinha nos garotos. e ficou segurando o troço. até todos ficarem brancos que nem fantasmas. Por sorte. até a pequena recepção. um projeto e tanto. com imensos círculos pretos ao redor dos olhos e filetes vermelhos escorrendo de nossas bocas (um dos irmãos caçulas de Sylvie trouxe um kit de maquiagem de vampiro e teve o bom senso de ficar de bico calado. fizemos o seguinte: vestimos nossos trajes. tudo isso é importante pra mim e pra Sylvie. que ficou no meu colo. certo? Minha avó me contou o que eles costumavam fazer nessa noite e entre as maluquices eles corriam pelos quintais das pessoas. A vovó conta que na casa dela só tinha uma regra para a Cabbage Night: voltar pra casa até meia-noite. com uma haste de apoio do soro. independentemente de sermos reféns de um hospital. no cemitério. pisotear pra apagar o fogo e se borrar todo de merda. É inacreditável pra mim que os pais deixassem tudo isso acontecer. em nossas cadeiras. uma vez por ano. E as enfermeiras estão muito ocupadas. E o mais legal é que ninguém ligava. colocavam cocô de cachorro em sacos de papel. E eu fiquei . está bem?”. silenciosamente e em nossas cadeiras de rodas. A vovó diz que ela chegava em casa à meia-noite. no dia 30 de outubro. e nós colocávamos no último volume toda vez que saía um pobre coitado do elevador. por volta das seis da tarde — e a meia-noite. nós esperamos até 17h30. por conta de nossa pequena apresentação da Cabbage Night. se houvesse um. eles simplesmente diziam: “Pode ir e acabe logo com isso. Mesmo numa noite de semana. O nosso figurino era composto de camisetas pretas do Black Sabbath. Só não mate ninguém.saírem à noite. da minha coleção. tacavam fogo e jogavam na varanda de alguém. todo ano. jogavam ovos em tudo e todos. A vovó diz que os pais imaginavam que seria melhor para os garotos se eles extravasassem. ela pintou o troço todo com esmalte vermelho de unha. Ficamos ali sentados. pulavam suas cercas gritando feito doidos. meio bêbada e totalmente exausta. a senhorinha da harpa costuma dar o fora. coloquei uma das fitas de rave do meu tio no CD player. como mencionei acima. Ou ela se fez de forte. Então. Na verdade. Na verdade. E às 17h30 é quando a maioria dos parentes de olhar pesaroso aparece pra visitar. geralmente o pai. para esperar por ela. cheia de hematomas. dá pra fazer um monte de coisas endiabradas ou engraçadas entre o pôr do sol — digamos. dizendo como esse negócio todo seria engraçado. e a Sylvie — fiquei surpreso por ela ter energia pra isso — fez um garfão vermelho. Às 17h. maquiados no estilo Halloween: nosso rosto pintado de verde-claro. pra furar os pneus dos carros. porque eu já vinha perturbando há dias. amarravam os garotos nerds nas sepulturas e os deixavam ali até 23h58. colocavam pregos no chão. Para entrar no clima. Juro. a menos que alguém solicite seus serviços. do que saíssem fazendo um monte de besteira o resto do ano inteirinho. esse era um daqueles dias em que Sylvie estava se sentindo forte o suficiente para ficar de pé. Bom garoto!). cada um no seu quarto. de Diabo. e depois ficavam olhando o dono da casa. derrubavam lápides. com as bandejas de jantar e tudo mais. Então. depois seguimos. Bem. farinha e cerveja. coberta de gema de ovo. e mais um monte de coisas. pra fazer maluquices.

Uma punição e tanto. pra mim. uma vez joguei buraco com ele. sem me contar. aquela que digo trocentas vezes por dia. e que tinha bolado sozinha. qual é? A conversa é sempre assim. eu a Sylvie dávamos gritos agudos. pra Sylvie. pra qualquer um da nossa idade que vem parar aqui. mas eu sempre espero um segundo. dizendo pra que fôssemos de volta para os nossos quartos e não saíssemos mais. Eu e a Sylvie rolávamos de rir. na sala de visitas — me agarrou pelo braço e gritou: “Qual é o seu problema. feito dois demônios insanos. Elkins — eu o conheço. com olhos inocentes. eles dizem: “Por que você está aqui? O que há de errado com você. Porque isso foi mais engraçado ainda — eles nos mandando para nossos quartos. e é careca — tinha planejado uma coisa. Alguns deles nem sabem o que isso significa. *** . antes de dizer: “Tenho a síndrome de Alguém Lá Em Cima Te Odeia”. Richie? Onde está o seu respeito? Que diabos há de errado com você?”. É um acrônimo”. antes de as portas do inferno se abrirem. Ao menos por um milésimo de segundo. o filho da Sra. ou seja. zeladores e voluntários. Claro que eu sou novo demais pra estar aqui. enfermeira. na verdade. nem quando todos começaram a gritar conosco. até padres e rabinos — sempre têm uns seis caras de preto circulando em nossa pequena recepção — todo mundo veio correndo e gritando. e uns nove mil pés pisotearam pra apagar aqueles três foguinhos. o que eles iam fazer? Nos matar? Ou nos condenar à morte? Mas. Só que a Sylvie — aquela garota é muito mais durona do que se imagina. então. filho?”. atendente. a melhor parte foi quando um dos visitantes. Mas foi engraçado pra cacete. Daí eu digo outra vez: “Síndrome de ALECTO. Simplesmente não conseguíamos parar. como se fôssemos criancinhas. e eu faço uma cara séria. Enfermeiras e médicos. E quando eles ficam com cara de tacho e geralmente dizem: “Hã?”. foi uma piada infantil. Quer dizer. Sempre que alguém resfolegava e recuava. E eu tive a chance de dizer uma das minhas frases preferidas. A Sylvie pegou um isqueiro. Rimos tanto que quase caímos das nossas cadeiras. sempre que algum novo padre. considerando que tem um metro e meio de altura. algo totalmente da tradição da Cabbage Night.segurando meu cartaz — DESCENDO! OU SEJA. De que outra maneira seria classificada a nossa sorte? ALECTO é a única resposta possível. Tudo bem. VOCÊ!!!!! — escrito com efeito de labaredas. faxineiro. rabino. pouca coisa maior que uma anã. e digo: “Eu tenho síndrome de ALECTO”. não acha? Pra mim. três caixas de lenços de papel e tacou fogo! Sem sacanagem! Tinha focos de labaredas de verdade pelo chão. É um diagnóstico muito bom. para gente em cujo obituário vai estar escrito que travamos “uma batalha corajosa contra ‘aquela doença’”. visitante ou qualquer um pergunte o que há de errado comigo. em lugares como esse hospital. Eles parecem nem entender.

Quer dizer. aquela foi a última vez que eu vi a Sylvie sair de seu quarto durante alguns dias. embora agora sua fisionomia pareça piada de Halloween. que fico meio travado quando estou perto de garotas. principalmente de uma tão legal como a Sylvie. ou não. costumamos fazer. Depois ele soltou os cachorros no irmãozinho que arranjou a maquiagem. só por um segundo. não fica tão claro quando você pensa na situação. A mãe da Sylvie também gritou com ela. como eu falei. e o moleque saiu correndo do quarto da Sylvie feito um coelhinho assustado. por alguns minutos. como qualquer criança que não sofre de ALECTO. seu pai berrou com ela. E. foram reais. por tipo. Quentes. Aquele homem tem um gênio do cão. uns aos outros: “Por que você está aqui. Ora. E eu. Mas eu posso lhe dizer: valeu muuuito a pena. Mas eu ainda consigo ver a garota de verdade. deu pra sentir o cheiro da fumaça. chatos de longa data no hospital. fizemos exatamente a mesma pergunta que todos nós. . Às vezes. e. E ela disse — pois. pois acho que aquilo a deixou muito cansada. apesar da palavra terminal. uma hora! Eu ouvi. luminosas. — Mas não sei que parte era o eu também — a parte de morrer. Eu sei que ela gostou da maquiagem. disse: “É. em vez daquele ar abafado de hospital. cara. quem pode realmente saber? Bem. toda aquela preparação e a empolgação. mas não estou”. depois sentou no corredor e ficou chorando. Quando a sua família apareceu. e nós nos conhecemos no corredor. Ela é uma garota. sabe. Eu cheguei primeiro e ela veio um dia e pouco depois. cara?”. não posso fingir que conheço a garota tão bem assim. totalmente reais. a Sylvie pôde usar maquiagem e isso foi um grande plus. ela é mais durona que eu. e nunca fica de rodeios: “Estou aqui porque esses babacas acham que eu estou morrendo. já que nos conhecemos quando viemos parar aqui. pelo menos a Sylvie conseguiu arranjar confusão na Cabbage Night. por baixo da máscara da morte. Fumaça de verdade. juro por Deus. De qualquer forma. Aquelas labaredas. eu também”.

principalmente à noite. Vou acrescentar à minha lista de desejos. eu juro. como a vovó costumava fazer. tremendo e tentando não vomitar por uns vinte e cinco minutos. Eu gostaria de dizer que fiquei acordado até meia-noite. essa mulher é forte. Por eles. o tempo todo. porque é tedioso demais e nojento. agora não está parecendo tão animadinho. eu não como mais — por opção minha. Por sorte. dá pra culpá-las? Eu também adoraria fumar — e. até que Jeannette. agora que estou pensando —. levando em conta o que elas veem. você entende. cobrindo um monte de hospitais. se você preferir pegar um pouquinho mais leve. mas as coisas pioram um pouquinho. toda aquela performance da Cabbage Night me deixou exausto. tipo sete e meia e fiquei ali sentado. eles não te forçam a comer. enquanto todo mundo fica circulando em volta da sua cama. negona de sorriso fácil. entrou e disse: “Ora. não precisa cagar. mas. encurralado. posso lhe garantir. Quer dizer. No hospital. um milhão de anos. tipo. E eu tentei sorrir. . Claro que elas sabem que esse é um vício letal. Ah. limpando meu rosto. E não é uma exaustão que pessoas comuns sentem. mas cresci bastante. no ano passado.80 metro e fico tranquilo com o fato de 82% das enfermeiras serem gordas. não de uma Cabbage Night. Apesar de ter sido incrível. mas não. não? Vou levantar esse papo com os administradores. antes que eu pudesse dizer “Bu!”. enquanto ria e sacudia a cabeça. Uma decisão simples de bom senso dos que estão em nossa posição: se você não comer. ela me pegou embaixo dos braços e me arrastou pra cima do colchão. como se eu tivesse três anos de idade. que já revolvia verde. pra ter uma boa noite. a Jeannette já estava com um paninho umedecido com água morna. claro. e suas tripas estão se desmanchando. nem a beber energético. Endiabrado. que era branco. Isso é o tipo de coisa que você passa a gostar quando grande parte da sua força muscular se foi com o vento. Tenho quase 1. uma das minhas enfermeiras favoritas. não quero ficar falando dos detalhes da doença. preta e vermelha. Sou magrinho. Quer dizer. conseguem te levantar. está tudo bem. E você tem pernas que parecem dois palitos de dentes e costelas que mais parecem uma carcaça de peru depois do Dia de Ação de Graças. Fui com a minha cadeira de rodas pro meu quarto. Mas meu rosto estava rijo do grude da maquiagem e minhas vísceras reviravam. ouvem e o cheiro que sentem. cara. E estou falando de uma noite comum. todos os dias. segundo uma pesquisa não científica de Richie Casey feita há. Sr. Mergulhando o paninho. isso podia ser algo que eles deveriam nos deixar fazer aqui no hospital. Se você algum dia sentou numa comadre rosa de plástico. e tudo mais. De qualquer jeito. Precisa de ajuda aqui?”. afagando suas costas e lhe segurando pelas axilas. e algo perto de 54% das enfermeiras fumam. Elas têm músculos por baixo da banha e. e ali está você. Quando terminou. agora estou num estado bem ruinzinho. Pra falar a verdade. numa bacia de água. E rindo sozinha. ora.

nós íamos assistir ao Exterminador. Eis o que eu gostaria de dizer a todos: “Ouçam bem. Estou falando sério. Então. por um minuto. Então. na verdade. às vezes. Em casa. Isso já basta pra fazer um garoto grande chorar. Nem bate. — Aquele teatrinho que vocês arranjaram foi divertido. Jeannette pregou outro adesivo para dor no meu ombro — a cada três dias. mas estou farto de agulhas. Depois a gente ia comer pizza de pepperoni com camada dupla de queijo. Acho que tem de até 100 mg! Depois disso. Então. tenho que admitir. um demônio de verdade me fez uma visita. Entendi — eu disse. exposto. E essa é uma das piores coisas desse lugar e de todos os quartos de hospital da Terra. e eu fiquei como pinto no lixo. nós conseguimos mantê-las fechadas por doze segundos seguidos. com minhas mãos por todo lado. grudam 50 mg de um analgésico superpower em mim. ali está você. Quer dizer. Quer dizer. depois colocou as mãos nos quadris e sorriu pra mim. mais assustadora que qualquer máscara já inventada. mas as portas têm vidro — totalmente transparente. Entendeu? — Sim. Isso é passado. meu caro. o cara simplesmente foi entrando. Qualquer um pode simplesmente ir entrando. senhora. que acabei não ouvindo o restante. nas portas dos nossos quartos e — obviamente — fechaduras. qualquer dose. Jeannette também passou um gel antináusea no meu punho. nós temos placas de NÃO ENTRE. dia e noite. Não é tão bom quanto a versão intravenosa. porque na semana seguinte. Mas. o sorriso se transformou numa cara feia. e ela me deixava fazer mais coisas do que eu jamais tinha feito. pegando no sono. E nem tente colar um pôster com fita isolante ou mesmo pendurar uma toalha em cima daqueles vidros. eu estava tão empacado no fato de ouvir alguém se referindo a Sylvie como minha namorada. Lábios e língua também. Batemos a porta na cara de todo mundo pra ficarmos no santuário trancado e . me disseram. É sempre bom ter um plano para o futuro. é direto na morfina. um gel que chamo de “afasta o Raul”. e seus olhos cuspissem faíscas. agulhadas. e. eu quase cheguei ao céu. Foi como se dentes pontudos tivessem crescido na boca de Jeannette. — Só que se vocês dois acenderem fogo neste lugar de novo. beliscadas. que era escolha minha. claro que tem portas em nossos quartos. qualquer hora. e a nós dois como um casal. serão um casal arrependido. e eu sou grata por isso. Então. Chega de espetadas. vão me pagar muito caro. Quer dizer. E eles ainda podem me colar o adesivo “antidor” sempre que eu pedir. Não há um fiapo de privacidade nesse lugar. Eles prometeram. chegando a um mundo onde Sylvie e eu íamos assistir a um filme de garotas — um romance fraco que ela me convencera a assistir — e estava tudo bem. Jeannette remexeu nos lençóis. Se eu pegar um de vocês com um isqueiro ou fósforos ou até se estiverem esfregando dois gravetos um no outro. nós somos adolescentes. Nada atrai mais uma legião de enfermeiras iradas e terapeutas inquietos do que isso. depois ficávamos de sacanagem no imenso sofá que tem no porão da casa dela. Fedendo a cigarro e conhaque. E uma barba por fazer que lembrava um porco espinho. com o rosto suado e vermelho. juro por Deus. Você e sua namorada certamente quebraram a monotonia. O pai de Sylvie.

seu babaca. — Estou acordado. a Sylvie nunca. vinte segundos. ouvi a Sylvie resmungando em sua cama. Naquela tarde. o homem sacode a estrutura metálica da lateral da minha cama.. Deixe a porra da garota em paz. Enfim.. o homem reluz alaranjado e fede a ovo podre. tipo: “Quer mais um travesseiro. senhor — eu digo. meu bem?”. que ele exala vapores tóxicos. tão explosivo pelo fato de que a filha está morrendo. toda rechonchuda — e os três garotinhos se arrancaram de lá. até que a Sylvie ficou sem fôlego. dizendo “Merda. esperando o tiro.. a mãe de Sylvie e seus três irmãozinhos ficam em seu quarto o dia todo. merda. Estou mais que só ligeiramente entorpecido e meio com tesão. é puro enxofre correndo nas veias. mas é tipo. que provavelmente só tinha perguntado algo simples. tão triste e tão. Um exemplo: aqui. merda”. não quero. continua sendo a rotina sem privacidade: mãe e irmãos o dia todo. Como se você fosse um bebê. Os pequenininhos gêmeos. Por baixo do lençol. e o maior — o fornecedor de maquiagem — senta num canto. tão enfurecido. O homem é tão doido. Isso. ele parece mais a porra de um mafioso. com os olhos vermelhos e o rosto inchado. Depois. Preciso deixar claro uma coisa em relação ao pai da Sylvie: aquele homem me deixa borrado de medo. Que droga. essa última sílaba se estendeu por. E esse é o cara que entra batendo os pés no meu quarto.. espertalhão? E eu deixo que meus olhos se abram. no quarto dela. A mãe cacareja em volta dela sem parar. todos aos prantos. seu único meio de pedir ajuda é o botão de chamada. sua mãe — uma senhorinha de cabelos curtos e escuros. Hora após hora. merda. Juro por Deus. ouça bem. Que nem um pato. na própria noite da Cabbage Night. os meninos nunca mais vieram à noite e sua mãe sempre vai embora por volta de sete horas. merda. Depois disso. eu ouvi a Sylvie gritar com a mãe. Quero ficar em paz. Juro.. A pior hipótese de sonho se tornando realidade. Me deixa em paaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaz”. A Sylvie conta que ele é advogado. eu coloco uma das mãos sobre o botão vermelho de chamada. Primeiro. eu não passei nem perto daquele quarto. então tudo isso tem o que se pode chamar de sensação de pesadelo. jamais grita com ele. Ele se debruça e chia: — Está acordado. Então. toda noite. mas eu não sei. Então. sim. E quando o pai está lá. Portanto. só pra garantir. eu acho. todo dia. Fique longe da Sylvie.particular de nossos quartos. De verdade. Agora é o pai de Sylvie que fica acampado na caminha de armar. . além de superexausto. com uma pilha de gibis. minuto após minuto. ficam brincando com carrinhos na moldura da cama dela. nem sei como dizer isso. E ele odeia todo mundo. é um truque cruel. sem chance. Mas aqui. mesmo quando eu não estou sonhando com a filha dele.. livres!”. Esse é o negócio: você fica totalmente impotente nessas camas. o dia inteiro. debruça sobre minha cama. tipo. pai à noite. É uma porra de um berço. com aquele hálito de dragão. Uma vez. e a Sylvie berrou: “Não. — Sim. Seus olhos vermelhos estão a cinco centímetros dos meus e ele está baforando na minha cara. Ele chega ainda mais perto e diz: — Então.

o imenso enfermeiro gay. E isso é bom. mas eu estou. por um tempo. Seu coração parece um martelo de carpinteiro. Apenas fique quietinho agora. É tudo muito estranho. o Edward não gosta nem um pouco desse homem. Seu babaquinha. isso é o nosso pão de cada dia. A família toda aparece dia e noite. uma boa fofoca. digamos apenas que o Edward não é muito fã do velho da Sylvie.. — Eu não sei que tipo de piranha baixo nível te criou. que se cortaram quando eu dei um murro nos dentes do homem. eles mantêm certa ordem quanto ao número de familiares que podem aparecer de uma só vez e incomodar você. ninguém consegue fazer aquela gente ficar lá fora: avôs. e tem tipo um horário pra visitas. e horas que ninguém deve estar por ali. então você tem uma folguinha. Ela coloca gaze em volta da minha mão direita. não é? Famílias. Histórias assim percorrem os corredores feito morcegos dementados. Não foi grande coisa. sem falar nos pais e irmãos. está certo? E se você chegar perto da Sylvie novamente. ninguém chama minha mãe de piranha baixo nível. Foi como. Famílias. Seus olhos estão cheios de água. em quentinhas de alumínio. Apenas fique deitado agora. quer dizer. como nada. limpando os nós dos meus dedos. depois da sua brincadeirinha? Ela desmoronou no quarto e a enfermeira quase não conseguia medir seu pulso.. por causa do incidente anterior. e eu estou lhe dizendo. murmurando baixinho. dezessete tias com três filhos cada. do qual ouvi falar. pode acreditar. Depois. antes que Edward. cebola e outros temperos. tataratios. e é quase como ter a minha mãe comigo.. ainda aquela preta. Ele estende a mão e agarra a frente da minha camiseta. Tive minhas melhores refeições na vida sempre que meu companheiro de quarto era . o dia do incidente. Não sei. tsc. Acerto um soco em sua boca. do Black Sabbath. rugindo. Mas ele não consegue terminar porque eu sento. com força. Quase me matou de susto.. houve gritaria e xingamentos e a segurança foi chamada e rolou muita merda. É um daqueles aspectos do hospital que deixa todo mundo maluco. Embora eu tenha ficado muito feliz porque minha mãe não ia aparecer por aqui por um tempo. Tento explicar e só consigo dizer: — Ele disse que a minha mãe era. O Edward me dá cobertura. suspirando e soltando “tsc. é bem complicado. Cara.. E. a Jeannette ficou sentada comigo. com cheiro de alho. Nas alas normais do hospital. (Exceto pelas famílias porto- riquenhas.. e eu estou bem certo de que ele está do meu lado. Qualquer tipo de euforia. pra animar as coisas. agora parece que eu a quero. quando ele diz: — Você sabe o quanto ela está cansada. antes que dezenove pessoas entrem correndo no quarto e puxem o homem da minha cama. Adolescentes e pais.. porque você vai querer o Edward do seu lado. E eu adormeço com a mão dela afagando a minha testa. o pusesse pra fora do meu quarto. naquele dia. nem por que seus pais não estão aqui. descanse. no posto de enfermagem. — Eu sei meu bem. — e ela me faz calar com um afago no ombro. Não gosto disso. Sabe.. e simplesmente começo a gritar e dar socos. tsc” com a língua. você vai. trazendo alguma comida. Porque ninguém. todos aparecem. mas tive a satisfação de ver o sangue escorrendo do lábio dele. Enfim.

voltando à história da minha mãe. só alguns dias. dia e noite. É como morar no metrô. era só um emprego de caixa num supermercado. pão preto. Minha mãe. encolhida em alguma caminha vagabunda. hordas de gente aparecem esbaforidas escada acima — não podem usar o elevador — e acendem velas no quarto. Ela precisa continuar trabalhando. Mas. e acho que vou perder a cabeça. por sorte. quando a palavra terminal aparecia toda hora no meu prontuário e. eles estão “tratando da família toda”. Quer dizer. a minha mãe tirou uma licença não remunerada dos dois empregos.porto-riquenho ou dominicano ou algum cara de origem hispânica. O que importa é que agora ela está comigo. é tipo loucamente congestionado em alguns quartos. Quer dizer. Mas ela sempre esteve ali. com o rosto murcho e os olhos inchados. Uma bosta. e até a meia-noite tem gente por todo lado. E aqui vai um conselho grátis de Richie pra todo mundo: se você for passar um tempo no hospital. então não pode passar o dia todo comigo. agora tirou uma licença. Peito. fazendo e parando. É simplesmente uma bosta. aqui. entediada e impaciente.) Mas. a minha mãe vem em seu horário de almoço e tarde da noite. toda noite. Nos únicos momentos em que a porra da tristeza vem à tona. eu sei que mais ninguém na Terra poderia magoá- la como eu estou magoando agora. então pedem fora. meses e meses. Aqui. eu perco. às vezes. Ela se matava de trabalhar. servem pão fresco com frango assado. Isso é o ALECTO vingativo. e consegue fazer a contabilidade. sim. Sempre que eu estou no hospital. coisas desse tipo. depois ela adormece e eu olho pra ela. que nunca tirou um domingo de folga pra descansar. como se eu tivesse dois aninhos. durante toda a minha vida. aparece todo tipo de coisa feita em delicatéssen. e ela trabalhava em dois empregos — o que conseguisse arranjar e. então. E isso é o pior de tudo. pudim. ou onde conseguir se encolher. na caminha de armar. estressada e um monte de pé no saco. toda encolhida naquele sofá vagabundo. tudo isso. finalmente. e tem que ir lá fora fumar um cigarro a cada meia hora. às vezes. que porra de compaixão é essa? Mas ela diz que isso não importa. Ou. Ótimo. como gostam de lembrar a todos. e eu quero matar qualquer um que possa magoá-la e. sempre. Um banquete. recentemente. tudo isso. alegue que precisa comer kosher. Algumas. E nas noites de sexta-feira. eu deixo que ela me dê um beijo de boa-noite. ela vem mantendo essa rotina. E eu juro que ela parece mais doente que eu. a noite inteira. À noite. Éramos só nós dois. Sem parar. quando ela volta pra dentro. cara. e treme e chora. Ela tirou o que o babaca do seu chefe chama de licença por compaixão: o que significa sem pagamento. ela é boa com números. . desde que eu tinha onze anos e comecei a passar tempo demais nos hospitais. e ela dorme no meu quarto. algum judeu ortodoxo — aí. E. mas em versão resumida. quando o hospital passou a ser meu endereço permanente. Eu nasci quando minha mãe tinha exatamente a minha idade: dezessete anos. pão de cebola. Mas. tipo. Certo. Não tem regra de visitação ou limite de número para visitantes. e pagava nossos planos de saúde sozinha. Algumas dessas estadias foram. agora lembrando. Eles não conseguem preparar isso numa cozinha institucional. é outra história.

Naturalmente. todos nós vamos morrer. Mas eu também sabia que meu tempo de liberdade relativa seria curto. caiu a ficha: eu teria uma semana sem supervisão de um responsável. eu seria o pior possível. Que maluquice. Noventa e nove. E disse que estava melhorando um pouquinho a cada dia. Certo. onde seus amigos fizeram um campeonato estranho de arremesso. eles ligam dezoito vezes por dia — mas ligar não significa estar vendo. Noventa e cinco. Quando eu soube que a minha mãe estava realmente doente. não é? Pode crer. E ligou. . É engraçado que eu tenha ficado preocupado com a saúde dela — e isso é uma virada muito estranha. Mas. eu vou te contar. de qualquer jeito. eu fiquei com medo. não é? Quer dizer.. Deixe pra lá. Mas todos nós sabemos o que acontece com os melhores planos — assim como ocorre com os piores — feitos por ratos e homens. mas eles não podem permitir que o processo seja acelerado com um empurrãozinho amistoso de um vírus traiçoeiro. E ligou. Esse era o plano. Noventa e sete. a minha mãe me ligou constantemente. não é? Ligar não é supervisionar a cada minuto. e os pedaços de bacon frito grudados no teto da cozinha. *** Respire fundo. Pronto. Claro. tosse encatarrada. Nada disso faz sentido e me dá dor de cabeça ficar procurando a lógica. Ligar é só um pequeno Band-Aid no estrago adolescente. enquanto pudesse. eu levei uma bronca.. e ligou. a semana que a galera viaja e você fica em casa sozinho. Então. Minha mãe pegou uma gripe. Conte de cem até um. Ligando não dá pra ver a pirâmide de latas de cerveja atrás de você.. Talvez seja até de um tipo sério. Noventa e três. Nem me pergunte. de repente. E isso é uma coisa que a ala terminal não permite em seus visitantes. aos dezessete anos. Gripe. Noventa e oito.. primeiro. o exame de sangue ainda não saiu. essa semana. o negócio todo. Noventa e seis. nessa semana. eu não precisava me preocupar. a semana com a qual todos sonham. Richard. Respire mais três vezes. então. Noventa e quatro. Febre alta. Então. Eu ia entrar no estágio de nirvana adolescente.

e as folhas estalavam sob nossos pés. no shopping de Albany. oncologistas. Tudo era perfeito: nesse dia. pulando por todo lado. Tive um sonho — um sonho em que era manhã de Halloween. E ela me deixou comprar uma daquelas máscaras superlegais — detonou parte de seu pagamento na loja de Halloween. Naquele ano. as coisas eram como foram um dia. No sonho. Tinha umas capas compridas. Isso foi nos bons e velhos tempos.. — Calma. Eu acreditava que as criaturas viviam dentro daquelas paredes e enfiavam a cabeça pra fora. com luzes azuis e verdes piscando ao redor. quer dizer. nesse sonho. indo até lá. Foi como se um dos melhores dias da minha vida tivesse voltado. nós estávamos ao ar livre. Tínhamos . Cirurgiões. eu juro que vi todos os garotos da minha turma da terceira série: seus rostos. Eu me lembro dos rostos deles nitidamente. Depois ela prendeu a lã num par de botas marrons e eu fiquei todo peludo. seguido pelo meu aniversário. Orelhas pontudas de lobo e pelos pretos acinzentados em cima. Cada um deles. De qualquer forma. Você tem que esperar só um pouquinho.. como se só estivesse escondido atrás das minhas pálpebras. mas todo ano a minha mãe sempre me deixava comprar alguma coisa incrivelmente legal. Então. exatamente como eles eram. Então. num dia lindo e claro. havia muito tempo. pra que eu soubesse que elas estavam ali. espadas e armaduras. tudo era muito caro. completamente enlouquecido pra levar a fantasia completa pra escola. havia sido a máscara do lobisomem. eu acordo me sentindo muito caído. todas penduradas nas paredes. Tinha um focinho comprido e a boca cheia de dentes enormes e uma língua vermelha. todos aqueles caras com bisturis. nem pra comer. No Halloween. Até sinto o cheiro do interior da minha máscara — uma mistura de borracha suada e do meu hálito de chocolate recheado. Nós sempre fazíamos um passeio especial de outubro. suas fantasias. minha mãe tinha costurado mechas de lã marrom no meu suéter de gola alta e na calça marrom de veludo cotelê. e mostrar no desfile que teríamos à tarde. E era cheio de crianças e de todos os tipos de máscaras. quando todos nós tínhamos oito anos. Aquele lugar era a minha ideia do paraíso. lá estava eu. em 12 de novembro. assim como na vida real. Eu tinha uns oito anos e estava completamente doido de tanta empolgação pela minha fantasia de lobisomem. Rich-Man — disse ela. e no mundo dos sonhos. o sonho mudava e era o desfile. Essa sempre foi a minha época preferida do ano: o melhor feriado das crianças. Eu adorei e quase não a tirava. e fitas com sons de gritos o tempo todo. todo esse tempo. esperando que eu o revivesse. E a minha mãe ficava rindo de mim. é um céu infantil. quando os monstros eram fantasia. em nosso apartamentinho. radiologistas. e. Isso foi perto de três anos antes que os monstros de verdade marchassem pra dentro da minha vida. garoto. Eles o mantinham escuro. e até num par de luvas velhas. E se aproximou e passou a mão no meu cabelo. ao colocar o traje num saco plástico. venenos e raios venenosos.

Hoje em dia. como se fosse uma garota nova na nossa turma. Imagino que valha a tentativa. embora eu saiba que esse Irmão não desiste facilmente. depois de só uma pessoa. Me deixa em paz. Se isso fosse um hotel. Portanto. nem por três segundos. esse é só o desprezo que eu quero transmitir aos representantes de Alguém Lá Em Cima. fingindo vomitar. Ele é um tipo de nerd sacerdote. os sonhos fazem isso. Pra mim. não quero falar com você. é tudo que consigo suportar. E eu ficava só com um pedacinho de pano preto na luva e quase toda lã havia sumido das minhas botas. sem ser totalmente desrespeitoso. Depois soprava um vento forte e — puf — sumia tudo. eu chamo todos os religiosos de Irmão. é como ter um palhaço atarracado e imundo.permissão para uivar e berrar. E eu via que ela ia tropeçar na bainha de bruxa. Ele e uns nove conselheiros diferentes. Partem meu coração. então ia correndo atrás dela — nossa. e outros mais. Sylvie com uma fantasia de bruxa. Bertrand está sentado ao lado da minha cama. E ela virava a cabeça e era a Sylvie como eu nunca vi. enquanto eu durmo inocentemente. Eu acordo e lá está Irmão Bertrand. Alguns deles riem. No mundo real. daquele jeito que você sabe nos sonhos. eu era um lobisomem cavalheiro — e pegava a beirada da saia. na hora que você acorda. por cima do ombro. Seu casaco preto e o colarinho preto estão sempre parecendo que alguém imprimiu as digitais sujas de ovos mexidos no troço todo. ENQUANTO O CARA DORME. murmurando sobre a minha alma inebriada. Deus não o deixou e eu também não deixarei. gripada ou não. só isso: o Halloween perfeito sumindo num segundo. contanto que ficássemos enfileirados. quando o homem diz: — Não. . alguém ligaria pro gerente e mandaria jogar esse cara na rua. E eu sabia. Richard. Tenho a profunda desconfiança de que minha mãe pediu que ele me checasse. Quer dizer. E cabelos ruivos brilhantes grudados no couro cabeludo rosado. na cabeceira da sua cama. Num ataque sorrateiro. cara. ele é pálido e pastoso. e imensamente gordo. que a Sylvie estava adiante. o tempo todo. — Eu lhe disse. Até as mulheres. eu não me surpreendo. ninguém suportaria isso. no qual ela pintou estrelas e luas prateadas. Juro por Deus. Estou doente. — Sai fora. chapéu preto pontudo. CRUCIFIXO E BÍBLIA USADOS COMO ARMAS. enquanto ela não pode vir. Eu rolo pro lado e abro um olho. Mas ele continua a murmurar. Como se ela tivesse acabado de aparecer para o desfile. e ela sorrindo pra mim. e um vestido preto comprido que arrastava no chão. isso já é o suficiente pra partir o coração de qualquer um. Bertrand tem uns trinta e cinco anos e é o cara mais emporcalhado que eu já vi. Não sei como se chama. IMPONDO PRECE INDESEJADA. exceto em algumas fotos presas ao quadro de avisos do quarto dela: Sylvie com cabelo preto comprido. e ia marchando atrás dela. ele estava ali. provavelmente há horas. Dou um gemido e viro de costas. As manchetes mostrariam: LUNÁTICO INVADE QUARTO PARTICULAR. Mas o pior ainda estava por vir. Ela não deixa passar nada. na fila. cara — eu resmungo. Alguém chamaria a polícia e a galera de guarda-pó branco. e tem dedos que mais parecem minhocas brancas. olhos castanhos brilhantes e covinhas nas bochechas rechonchudas. me inclinando acima da cama.

tudo que tem direito. aquela velhinha do quarto 301? Ela anda vendendo drogas em seu quarto. a ideia da Sra. você convidaria aquela pobre garotinha meiga para se juntar à sua insensatez? Eu abro o outro olho. ontem à noite. impaciente e ranzinza. era uma mulher viva. Só que seu filho — portanto. Crack. Isso é o melhor que pode acontecer: se você consegue injuriá-los. ignorando o olhar de raio mortal que estou lançando ao seu crânio rosa —. nunca esteve consciente. mesmo que de brincadeira. Mas aqui? Não. — Dei-lhe um cacete. tipo. o diabo em pessoa visitou meu quarto. Ela está. fazia sexo e tudo mais. heroína. cara. cheios de arrependimento e penitência. como se precisassem que você desse a absolvição a eles. com as nádegas apertadas dos dois lados. fulminante. sabe. Elkins. sabe de uma coisa. numa noite dessas. por hora. pentagramas invertidos. De qualquer jeito. Mas. Ele está à espreita. a torto e a direita. velas pretas. se você conhecer a Sra. invocando demônios. e voltam. Tabuleiro Ouija. Você adivinhou e realmente aconteceu. esse Irmão sacode a cabeça e . minha alma está salva. é bem brilhante. Olhar de raio duplamente mortal. Satã não brinca. Mas eu realmente não espero que Bertrand aprecie minha perspicácia. Sua fantasia e sua postura na tarde de ontem foram tolas. que respirava. Isso é realmente engraçado. Ela é miúda e está embrulhada em lençóis brancos. Elkins como cartel de uma mulher só. Você é um gênio. ontem à noite”. eu me pergunto. senhor. Aqui. — Eu me pergunto por que alguém em sua situação se arrisca a trazer o mal para sua vida? Por que. o velho Bertrand ergue os olhos de seu livro preto e diz: “Você criou uma cena muito terrível. Acho que a esperta da Sr. adoradora do diabo. a cada segundo do dia. — Você está certo. Sim. logo. ele vai ficar zangado e todo melindroso. E não aprecia. Eu só fico olhando. isso simplesmente faz a cabeça pirar — está sempre circulando por aqui. Irmão? — digo. essas merdas todas. Soprou fogo e enxofre bem na minha cara. e sorri pra mim. E houve sessão lá. Estou impotente em minha jaula de grades de aço. Quer dizer. eles vão embora. Ela tem tipo noventa e dois anos. Portanto. Ele balança a cabeça e os tufos de cabelo laranja sacodem em seu couro cabeludo. ela supostamente teve um filho. Elkins. em minha cama alta. Você pode ir salvar outra pessoa. até pior que toda aquela integridade. — Ei. o tempo todo. E sabe o que eu fiz? Dei-lhe um soco na cara. É melhor você ir falar com ela. parece um casulo preso na cama. nada menos que na manhã de Halloween. Apesar de que depois eles geralmente se sentem mal por deixarem que um garoto moribundo os irrite. o lunático senta numa cadeira plástica verde. desde que eu cheguei aqui. — Primeiro de tudo — ele prossegue. Eu ergo as minhas mãos enfaixadas. Com sorte. E eu não posso fazer porra nenhuma a respeito. nem em um milhão de anos. ninguém olha ali dentro e pensa que é um ser humano. Então. é um negócio arriscado convidar Satã para entrar em sua vida. perto de meia-noite. Absolutamente correto.

apontando aquele cabelo deslumbrante. Ele só anda depressa em volta. e toda hora punha uma mecha atrás da orelha (Minha mãe. “Isso não . Preciso pensar. em um dos hospitais. E ela estava conversando. pra evitar que você fique constrangido — me contando uma história boba. Edward nem se dá ao trabalho de colocar o resto da tralha na mesinha acima da minha cama. lá estava eu. gelatina verde. quando eu tinha quinze anos. já que ser popular não era prioridade em meu currículo — soubessem: eu só gosto que o Edward me dê banho. (Não. e depois disse de novo. E. por aqui. — Você está andando em gelo muito fino. Minha única concessão à ingestão calórica. Depois. seu traseiro gordo sai do meu quarto e eu tenho cerca de onze minutos de paz. sim. Na verdade. — Muito. todos os três. como se fosse um deboche cruel de uma raspadinha. um ponche que você pode tomar de colher. fui lavado pela mais linda enfermeira do andar da oncologia. E também disse isso ao pessoal das refeições. uma vez perguntou “Por que as enfermeiras não usam mais aqueles chapeuzinhos?”. Deixei bem claro: nem tragam esse grude pro meu quarto. ele nunca me disse isso — é simplesmente óbvio demais. Mas. ou seja. o que isso significa? Acho que eu poderia me preocupar com esse negócio de preferência no banho. E o mais estranho é que eu detestaria que meus antigos colegas de Segundo Grau — tipo. isso sim. é um ponto de honra. e acho que não sou fedorento. olhando para minha mão com curativo. deitado de barriga pra cima. Mas. justiça seja feita. como elas fazem. à época pareceu simplesmente o fim do mundo. com todo tipo de dispositivo hospitalar. Porque sei exatamente de onde vem isso. comprido e cacheado. ele é gay. onde tinha os pijaminhas maaais lindos e um ursinho tããão bonitinho. qualquer um pode adivinhar onde isso vai parar. Sabe. e diz : “Você vai tomar banho. passando um paninho morno nos meus pés e panturrilhas. sobre o chá de bebê da amiga dela. não como. É uma mão de obra e tanto ficar limpo. torrada mole e pudim com vitamina. Ele só me dá o café. jovem Richard? Ou quer se lavar na cama?”. é uma decisão importante. mas não diz uma palavra. Bem. Mas acho que é meu pequeno ritual. Nação humilhação. Mas. Então. eu geralmente faço. como eu disse. salsicha engordurada.) Então. Mas três vezes ao dia. preso pelo intravenoso e drenos no peito. Edward revira os olhos. antes que Edward apareça com minha bandeja de café da manhã. por causa dos dedos enfaixados. que preciso segurar com minha mão esquerda. levantar todo dia e deixar a água correr pelo meu corpo. acredite ou não. e um troço que eles chamam de suco engrossado. Uma das enfermeiras dos 18% que não são gordas. e lá estava ela. E ela era meiga. manjar. tempos atrás. Não sei por que — não suo mais. Jovem. Cheia de bagulhos nojentos. Com sardas no nariz e um corpo todo modelado nos lugares certos daquele uniforme de poliéster. Hoje é uma gororoba de ovos mexidos. muito fino. arrumando as coisas. aparece uma bandeja. filho — diz ele. Certamente. mas não ligo. E ela tinha cabelo castanho claro.põe o dedo na minha cara. tem uma xícara de café quente — e essa é minha única salvação. Agora parece até engraçado. Ou simplesmente minha pontinha de normalidade. pra mim. Eu me permito também colocar açúcar e leite no café.

Geralmente. Ou o que eu imagino como seria uma — já que só posso imaginar. obviamente. essa garota vai lavar. pode ser? Diga que é hora de doce ou travessura”. o que você faz? Eu lhe digo o que eu queria fazer. depois dá um passo atrás. Acho que vou deixá-lo terminar sozinho”. encaixado no buraco de escoamento da água. com o acontecimento diário. coloca o pano delicadamente em minha mão e diz. sou um mero fantasma do meu antigo eu com tesão. eu ouço uma voz ruidosa no corredor. e perguntam se você quer lavar suas partes íntimas ou simplesmente ignoram essa área. Por favor. Alguma enfermeira- chefe disse que ela me lavasse todo e. com a idade avançada de dezessete anos. E meu dia muda completamente. É o meu tio Phil. onde está o Rei Richard Primeiro. mais alta que o Monumento de Washington. Agora. quase dezoito. blá- blá-blá — e o tal paninho está subindo pelas minhas coxas como uma língua morna. Não ia rolar. as enfermeiras param pouco acima do joelho. com xampu na penugem (que cresceu da terceira vez que fiquei careca) da minha cabeça. maluco e ovelha negra. Então. porque ele tem 1. mas a piada fica meio passada. Está gritando: “Ei. eu era relativamente forte. E. eu vou pular os problemas imbecis de entrar no chuveiro. E o Edward geralmente é o único cara no turno da manhã. O importante é que enquanto estou ali. e o pavor de sentar sua bunda pelada em uma daquelas banquetas plásticas brancas. aos quinze anos. Mas está tranquilo.” Bem. por tudo que é mais sagrado. de repente. com Edward esfregando minhas costas (o cara sabiamente ignora todas as partes que estão penduradas ali embaixo). Embora eu nem saiba mais como funciona o velho Bingo. de repente. Eu queria tocar a campainha de emergência e forçá-la a voltar. onde seu saco fica esmagado. da minha mãe. E. pois dá pra notar: “Bem. . esse Halloween específico fica radiante. Façamos o seguinte. quando você está fraco e oscilante. Deus a abençoe. ela segue papeando — “tinha umas cadeirinhas tão lindas e mantas azuis”. porra? Alguém avise a ele que seu velho tio está aqui para visitá-lo. Mas essa lavava tudo. pelamordedeus.é anti-higiênico?” Quem se importa? Eu pensei. Bem. irmão caçula. com a maior sutileza que consegue. olhando pro chão. curvado em cima daquela banqueta ridícula. quando terminar. tentando não sorrir. Ela fecha a cortina em volta da cama e foge da minha tenda carregada de hormônios. “Você pode chamar. Eu quero essa bactéria). Ela não consegue evitar soltar uma risadinha totalmente antiprofissional e diz um lisonjeiro (é o que prefiro pensar) “Minha nossa!”. Queria que ela entendesse que isso era uma emergência médica. não. eu fico de barraca armada. eu sabia disso. Eu queria implorar. Dá um banho agradável. Mas. e isso faz a enfermeira parar. suplicar e suborná-la pra voltar. enfermeira. E ele é veloz e delicado e não fica de papo. Porque eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Melhor assim. claro. eficiente e sem frescura. mesmo no pós-operatório. cuide de mim. Richard. Quer dizer.90 m e deve ter perto de 150 kg: outro forte. É pateticamente cômico.

Não sei muito sobre ele. Quer dizer. então tem pouco mais de trinta anos. Ele é maluco?”. Phil isso. imóvel como uma estátua. Phil se casou. sabe? Ele se reanima. gorducho. ou bem distante. E ele está. em meio a um emaranhado de cachos castanhos. Eu ficava lá deitado. tarde da noite. mesmo com os olhos lacrimosos. Ela estava sempre meio rindo. como um círculo alienígena criado numa plantação. que está com cheiro de bacon e maconha. Esse é o tio Phil. Está com uma barriga redonda caindo por cima de sua elegante fivela de prata. no escuro. E a conversa se estendia. quando Phil tem a primeira visão de mim. na frente da minha cadeira. em Jersey. É quando eu tenho a visão real do meu herói: ele é alguns anos mais novo que minha mãe. Mas o cara tem humor. espreitando. com a vovó. De novo? I-na-creditável. Eu tento sentar ereto em minha cadeira e tento. logo depois que eu nasci. Por um segundo ou mais. Mas parece um homem de meiadade. depois a salinha cheia de vapor é preenchida por Phil. E ele fica de joelhos e faz uma pequena reverência de cavaleiro. olha pra cima e está com um sorriso ainda maior que o meu. não. quando falava com a mãe. quando fiquei mais velho. chorando como um cachorro perdido. Phil foi processado. Eu grito lá do chuveiro: — Ei. onde Phil voltou a morar. meio chorando. e do ar lá de fora — em outras palavras. Phil foi demitido. aqui dentro! Edward só tem tempo de jogar uma toalhinha na minha virilha. na minha cama. tipo a minha ideia do paraíso. bem. — Seu humilde servo. até que meio que se misturava aos meus sonhos. com treze anos e . Ele está com uma área careca perfeitamente redonda. Finalmente o encontrei algumas vezes. sentado ali. acho que ele é assim. do cinto de caubói. — De joelhos aos seus pés nobres. Phil abandonou a faculdade pública faltando três créditos para ter um diploma. tio Phil. Phil levou trinta e um pontos. só ouvia seu nome durante esses telefonemas. Eu secretamente achava que meu tio Phil só podia ser o cara mais legal do mundo. no chão molhado. Phil se divorciou. Quando eu era pequeno. Eu só ficava ouvindo as histórias que ela ouvia ao telefone. não sei exatamente como. Minha mãe o manteve ligeiramente distante. abanando um chapéu imaginário e se curvando para frente. Os tênis de Phil escorregam e ele acaba caindo sentado de bunda. Rei Richard — diz ele. ouvindo as reações da minha mãe.. E ficava dizendo coisas como “Ah. Phil ficou sentado do lado de fora da clínica.. Com o passar dos anos. durante a maior parte da minha vida. Phil ligou da cadeia da cidade. com a cabeça baixa. Phil aquilo. e sei que estou com um velho sorriso no rosto. Phil se envolveu numa briga de bar. o homem põe o rosto nas mãos e fica ali amuado. essas histórias foram se acumulando: Phil perdeu novamente a habilitação. estufar o peito para parecer maior e mais forte. atrás da cabeça. Sempre com uma moda nova.

eu vejo esse ponto carequinha — e. e tento pensar em como explicar o Phil. Agora. nesse momento. E ele sempre aparecia e sumia. mas sempre tinha um sorriso no rosto e dava um abraço nele. se fosse por mim. revistas de mulher pelada. pois afinal quem se importa com o pano que cobre a bunda. meu senhor soberano”. tudo parece retroceder. ficando velho e careca. Minha mãe sempre dizia pra ele dar o fora. Quando a porta se fecha atrás dele. ter dente do siso. “Nós geralmente não recebemos visitantes no chuveiro. ele me trouxe um jogo de badminton — como se alguém fosse me deixar armar as redes perto do posto de enfermagem e jogar pelo corredor. mas ele precisa trabalhar e não pode ficar conosco o dia todo. o tempo todo se curvando e acenando seu chapéu imaginário e também tropeçando nos próprios pés. então. a menos que uma namorada ou barbeiro mostre. sem se dar conta disso. mas. e fica ajoelhado na minha frente. ali na salinha do banho. Porque eu nunca terei que passar por isso. Porque o Edward apenas começa a vestir uma camiseta limpa pela minha cabeça e diz: “Talvez queira colocar seu jeans. recua até a porta. não é? Uma vez. se você passa o dia todo sentado numa cadeira de rodas. Quer dizer. você vive naquela ignorância feliz. me divorciar. eu entendo uma coisa: ele não sabe que está careca. ou deitado na cama? Eu concordo e ele vai pegar um jeans limpo no meu quarto. Edward está olhando com uma expressão que torço que seja diversão. Cabelo ralo arrumado e jeans comum três tamanhos . de alguma forma. E vestido. agora. eu imagino que isso nos deixe quites: eu. um abraço apertado. que realmente sabe se integrar ao cenário. eu sinto que o Edward merece uma explicação. e ela jurava que não sabia como ele descobria onde nós estávamos. Você quer aguardar na sala de espera. depois disso. dizendo que queria me animar. E. diz. O Edward é realmente um príncipe entre os enfermeiros e. Não faz a menor ideia. todo fraco e doente. tiro um minuto pra olhar no espelho da sala de banho. Sempre trazia algum presente proibido: gel verde num tubo. ter filhos ingratos. quase beijando meus pés. quando eu não podia comer nem gelatina. dizia que de jeito nenhum tinha contado a ele. tipo. e ele. Quando ele volta e lutamos para que eu entre no jeans. “Ei. eu posso acrescentar ter barriga e pentear o cabelo por cima da careca. ele logo sacou que eu quero parecer. onde eu estava internado. Ele ergue o moletom cinza gasto. eu fiz uma lista de todas as coisas com as quais não tenho que me preocupar — arranjar um emprego. É daquele tipo de calvície sorrateira que não dá pra ver sem dois espelhos. que eu geralmente visto. eu meio que gosto de estar com um visual legal hoje. colesterol — e. eu fico parecendo um espantalho careca e magrinho. Uma vez. cara” — ele diz pro Phil. Geralmente nem me dou ao trabalho. mas isso não é tão ruim. salgadinhos de pacote. Porque quando o tio Phil faz esse seu negócio de “seu humilde servo”. “Certamente. dobrariam o salário dele. enquanto o Rei Richard veste seu robe e se apronta para receber visita?” E Phil. antes de dar um peteleco em sua cabeça e dizer que ele era o maior babaca do mundo. hoje? Em vez de sua calça de moletom de vovô?”. não sei.pouco. Um dia ele simplesmente apareceu no hospital da cidade de Nova York. humano e normal para o tio Phil. mas isso não importa.

A maioria das pessoas faz um . “Essa gracinha já foi quebrada umas oito vezes. diz ele. Então.” Ele pula da cama e se inclina acima de mim. e Phil está deitado na cama. e como eu dei um soco na cara dele. Eu logo fico ofegante. mesmo assim — dois caras durões apenas brincando. de volta pro inferno. eu vou te contar. Como o diabo em pessoa veio ao meu quarto. Staph. Talvez. *** Mais tarde. “Esse é o meu garoto”. na frente do espelho. Muito queixo machucado. cheio de energia. nós fazemos um negócio imitando golpes de boxe — aquele com socos que nunca pegam. E ele simplesmente começa a passar pomada antibiótica por cima e refaz o curativo com outra atadura. na cadeira de rodas. diff. pode deixar. olhando por cima do meu ombro. Estou me sentindo bem. Phil ri sem parar. isso sim. quem vai se complicar? Eu. porque posso ter quebrado aquele ossinho. Apaguei suas chamas com um bom golpe de direita. Pinta de durão. — Deixa pra lá. Não senhor. Edward está murmurando que eu deveria tirar um raios X do braço. E o mandei rodopiando. cara — eu digo. um pouquinho além da conta. Vejo que os olhos dele vão direto para a atadura. Mas é divertido. Como Rocky.maior. porque ele parece honestamente interessado. Strep. talvez também seja xeretice. tento fazer com que ele o veja. claro que começo a contar o que aconteceu. porque não consigo fazer com que ele entenda que não pode ficar olhando para os pacientes de boca aberta. com os punhos fechados. Ele sacode a mão como um espanador. — Ele me olha fulminante. eu levo Phil pra conhecer o lugar. e ergue a mão direita. no espelho. certo?”. atrás de mim. Parece que os nós dos dedos estão permanentemente roxos. Sem problema. o lutador. Edward está em pé. como uma tatuagem de cadeia. em cerca de quatro segundos. então. Eu ergo novamente a mão. tentando arrumar a atadura da minha mão. — Existe bactéria que come a carne. só de erguer os braços. Todo enfaixado desse jeito decido que está legal. Eu vou cuidar dessa mão. está bem? Está bacana. porque ele é a única pessoa que eu conheço que parece disposta a isso. Richard. — Nada de intervenção. MRSA. Meu rosto não é uma visão para os fracos. Parece o negativo de um raio. Os nós dos dedos estão com hematomas e tem uma porção de cortes. com seus tênis sujos bem em cima do lençol limpo que um auxiliar de enfermagem trocou. C. dos babacões malvados de Jersey. Adoro. Depois. e tem um preto meio em zigue-zague subindo do meu mindinho até meu punho. Eu ergo diante do espelho e digo: “Ei. está tudo certo. meio melados e nojentos. Sou levado de volta ao meu quarto. Posso viver com isso. e tem um montinho naquele mesmo osso do mindinho. e que resfolegar não é exatamente aceitável na etiqueta de boas maneiras de um hospital. E se você tiver uma infecção aí. enquanto eu me olho. E o roxo sobe pelo meu braço. Está bem? — Certo. Não tenho cílios e a pele parece pó de giz. enquanto eu estava no chuveiro. Realmente tento lhe mostrar o lugar. Tem uns troços cruéis por aí.

é a “última parada” e só isso já o torna importante — expressivo. Parecem tirados de uma revista de decoração dos anos 70. Mas Phil para na frente da TV e da pilha de DVDs que fica ao lado. e fico observando seu rosto. por exemplo. moleque. Mas esse lugar é parecido com Sem Saída. finge que é uma antiga ala hospitalar. eu olhei todos. talvez. Rá. fotos de lagos. Não dá pra confundir um quarto de hospital com nenhuma outra coisa no mundo. vou trazer um bom e velho pornô da pesada. Começo na ponta dos fundos do corredor. Phil está sacudindo a cabeça. Nas demais paredes. Eles devem fazer com que os quartos tenham um tom acolhedor ou algo assim. me deixando parado. Vou sorrateiramente colocar o Debbie Transa na Disney World. fica bem óbvio. Não fazem. da próxima vez que eu vier. Embora eu tenha de dizer. Um banheiro no canto. eu acho. geladeira e uma bancada com uma bagunça de canudos e adoçante e colheres meladas. não é grande coisa. dois quartos duplos estão vazios. como diz minha mãe. enquanto se afasta pra olhar dentro dos lugares. entende? Eu estou morrendo pra mostrar — rárárá. Acredite. Deus não comete equívocos etc. no dia em que cheguei aqui.esforço para não olhar ou simplesmente se recusa a ver. numa turma de inglês. E lá vai ele. Cada quarto é de uma cor diferente. córregos. bem de . bem. com uma cela de cadeia. Bem. Os títulos são todos do tipo Adeus não é para sempre. Minha mãe. entrando na sala de família. — O negócio é o seguinte. Depois. Deixe-me dizer. Um universo inteiro. uma peça muito legal que me fizeram ler. radioterapia. tudo espalhado. um zilhão de cirurgias. Quer dizer. não? Já disse o bastante. Nós prosseguimos pelo corredor. três duplos e dois de solteiro. Bem. mas fica parando. E a maioria das pessoas prefere não ver — não se permitem ver — que isso é diferente. Arranjos florais empoeirados por todo lado. Não demora muito. e de alguma forma. Um conceito não hospitalar. o 306. Phil está empurrando a minha cadeira. Surpresa! Algum cara vai ganhar a noite. ver sua mãe envelhecer vinte anos em vinte meses — se isso não é algum tipo de equívoco. E tem alguns sofás encaroçados. perda de órgãos importantes. Está vendo? Essa é a chave: todos os outros hospitais têm uma saída e eu acabava saindo. Além do horizonte distante. micro-ondas. oceanos e cachoeiras — alguém deve achar que água é calmante ou algo assim. — Salão de família à sua direita — eu digo. então. nesse momento. Paz no final. Sei que ele está lendo. isso é importante. Ele pega e começa a olhar. que é um mundo totalmente diferente. Entrando e saindo. todos em tons pastéis. Em uma das paredes estão arrumadas algumas coisas de cozinha — cafeteira. torcendo por uma diversão. onde as pessoas podem dormir. Deus não comete equívocos realmente confirmou o diagnóstico ALECTO: seis anos de quimioterapia. — Que lixo patético — diz ele. Um de solteiro. Exceto. dentro de uma dessas capas de merda. Há cinco quartos do lado esquerdo. E cada um tem seu papel de parede. mas eu não consigo expressar em palavras. Mas acredite. ele se anima. com estampas de flores. No meio da sala há uma mesa redonda com um tabuleiro de xadrez e baralhos. se isso é parte do plano do Cara. como aquelas em que já ficamos zilhões de vezes.

e sei como é cada uma delas. eu sigo com minha cadeira de rodas até a porta e dou uma olhada. E a mãe dela está lá dentro. cara. eu digo: — Não vamos incomodá-la. a tralha toda. juro por Deus. mas dá pra ouvi-lo falando com os meninos. Em seguida. Bem perturbador. Paredes amarelas. Eu fico pra trás no corredor. tem uma porção de anjos querubins. isso é grosseiro. A mulher continuou respirando. já que memorizei todas: Sylvie com seu uniforme do colégio particular. Sylvie quando bebê de cabelos pretos e olhos castanhos. e eu acho que. Esses dois nunca têm visitantes. xinga um time. Ele não diz uma palavra. O que fica perto da janela gosta de jogo de futebol. Eu digo ao Phil. Eu mesmo não consigo acompanhar o jogo. todo estilo tio alegrinho. não sei da história deles.frente pro meu quarto. está bem? Ela está cansada. ele assume seu posto na cadeira de rodas. mantida viva pelo marido. Sylvie está totalmente invisível. só tosse. sou uma persona non grata hoje. tem dois caras velhos no 304. com um vestido rosa elegante decorado com flores presas em seus peitos nascendo. e ele achou ótimo. merda. Mas ele segue em frente. com suas pernas compridas e peitos redondinhos. chegamos ao 302. olhando pra baixo. você só entra na ala terminal quando seu prognóstico é menos de um mês. Agora. à noite. durante anos e anos vivendo com respirador. só uma porção de calombos na cama. com asinhas e pés gordos. meio que me gabando. Então. e eu fico realmente nervoso porque esse é o quarto da Sylvie. dá um vigoroso aceno do tipo “olá”. . ele está paquerando ela. Phil vai direto ao quarto da mulher e fica com o rosto a alguns centímetros do dela. Suas paredes são em tom azul-claro e o papel de parede. até que eu chio: — Phil. Vejo Phil olhando as fotos que eles colaram pelas paredes. e eu penso. Saia daí. eu não sei. mas aquela moça está mortinha. pairando acima dela. Então. tubos para alimentação. Pra mim. mas ele parece gostar. papel de parede rosa. O outro cara. e depois ele diz algo que faz a mãe de Sylvie rir. mas os dois estão dormindo profundamente. Tomadas arrancadas e fim de história. com as cobertas puxadas por cima da cabeça. elas não podem esperar que ela viva muito mais tempo. as meninas bonitinhas de cabelos brilhosos. vibra com o outro. Sylvie indo a uma festa. ou não — ele comenta. então é isso que eu coloco. E penso como o pai de Sylvie ficaria totalmente injuriado com isso. Ele encara. Nadinha. finalmente. isso é triste. Então. Sylvie com um monte de amigos. fui até lá na minha cadeira de rodas e fiquei assistindo à televisão com eles. Então. com os três garotinhos. provavelmente. com um maiô colante. — Detesto decepcionar alguém. mesmo assim. e é uma ideia feliz. Claro que contei ao Phil tudo sobre Sylvie e nossa Cabbage Night. tenho que admitir. Phil se inclina porta adentro. tem uma mulher em coma. no habitual sussurro hospitalar. o que ouvi falar sobre ela: ela entrou em coma depois de um acidente de carro. mandaram tirar todos os tubos e desligar as máquinas. Sylvie recebendo um prêmio. os meninos altos e bonitos. Apesar disso. Sylvie na equipe de nado. Certo? Errado. coçando suas bochechas com a barba por fazer. Algumas vezes. por isso ele compreende que a menina está exausta. E lá vamos nós. respirando. Venha. o marido caiu morto e as filhas dela.

como se estivesse contaminado com arsênico. com dois dedos pega o pacote de balas do meu colo. isso é tudo que ele diz: — Garota bonita. ternos e tristes. pra que todos que entrem nesse quarto — que tem a cor que Sylvie chama de rosa-vômito — saibam que em algum lugar dentro daquela Sylvie de pele amarela. Para o Halloween. Ele abre. — Apenas espere — eu digo novamente pro Phil. — Feliz Halloween. baixinho. E linda. sorri pra nós. — Não coma isso. Sylvie na praia. a Sra. popular. Espera só — digo. De verdade. sempre que levam um de nós. meu soberano — diz. — Exato. segundo ouvi. Eu diria que isso aumenta um pouco o grau da esquisitice. porta afora. baixando as mãos. As mãos de Phil atracam as manetes da cadeira e antes de dizer “Jack Robinson” (essa é uma expressão que a minha avó sempre diz). ela sussurra. um saco de ossos. caído nos ombros como uma nuvem de penugem. Sylvie. Richard”. A harpista. — Ela joga a caixinha rosa preta e branca em meu colo.. bronzeada e radiante. tortos. a mulher mantém uma caixa imensa de lenços de papel ao seu lado. .. mas que. desses itens. — Lá vem. Richard — diz ela. e cabeça careca. Phil debruça e diz a ela: — Aquela aparição no lobby deu ao meu sobrinho uma caixa desses. uma família legal. parecidos com comprimidos. Ela fecha os olhos e ergue as mãos — dedos compridos. Quando o tio Phil sai do quarto. Sylvie. Como isso é uma ocorrência quase diária. Isso foi enviado por seus inimigos. ou algo assim. despeja os docinhos brancos e rosas. Lee. um registro. (Ela sempre sussurra. parando a cadeira no posto de enfermagem. Todas aquelas fotos estão ali.Sylvie na varanda da frente de um casarão branco. Nossa próxima parada é na pequena recepção perto do elevador. — Creio que você possa comer doce. E enfia a mão num dos bolsos da saia preta e tira um pacote de jujubas. O resto do tempo. e solta no balcão. Ele para. Está com uma saia comprida preta e uma blusa branca brilhosa. Eu ergo um dedo. — E sua voz está rouca e trêmula. que hoje está com seu cabelo branco assustador solto. coberto por um lençol branco. — Sabe-se que essas jujubas já mataram monarcas perfeitamente saudáveis. disse ela. e Phil para subitamente. voltando direto ao corredor. e isso me parece justo.) Ela se acomoda na banquetinha. depois ergue as mãos para a harpa. “Bem-vindo. fecha os olhos e começa a tocar. assustadores — levando até as cordas. está a outra: legal. com uma casa legal. Ele eleva a voz e se dirige à atendente do andar. Phil se inclina sobre meu ombro e diz baixinho: — Que porra é essa? — Em meu ouvido. que está se arrumando pra começar. com os bebês gêmeos em seu colo. ela é terrivelmente rude. uma mulher cinquentona que é má e ranzinza com todo mundo. chora como um bebê. Sylvie. A recepção é tomada pelos sons suaves. Ele está olhando a harpista. inteligente. Mas os olhos da harpista se abrem outra vez e ela sorri. nós partimos.

num dia claro de outono. Não é certo que as coisas fiquem exatamente iguais. eu penso em todas as outras pessoas que dormiram — ou não — nessa cama e ficaram olhando essas malditas violetas. porque percebeu o que quis dizer. outra velha no 307 e. em termos da barra decorativa do papel de parede. — ele abaixa o tom de voz e chia — o que chamo de Regiões Inferiores.. Não sei por que eu sou o único cara desse lado. — Os branquinhos é que matam — diz. ela pega um dos docinhos cor- de-rosa e coloca na boca. pode acreditar. vida longa ao rei. Mais de perto. Nem noto muito. você vê a silhueta de uma mulher nua. Meu lado. murchassem. tem violetas e lilases e heras entremeadas. Depois vem uma descida — sua barriga. toda aberta e pronta. na Warren Street. dia após dia. vendo aquele monte de flores ali na parede. Minha mãe costumava inventar umas histórias pra me contar. que mudassem. foi a minha mãe que me mostrou. Eu gostaria que elas. tipo. muito tempo atrás. ou algo assim. o rio cintila azulado e limpo. — Estes cor-de--rosa são deliciosos. num tom de azul mais escuro. Depois.. — Claramente. como hoje. ela é serviçal do. Elkins. Mas geralmente não penso nelas. no 301. mastiga e sorri com os dentes enegrecidos pelo doce. Lá se vão os mortos e lá vêm os moribundos. Todo ele é meio assombrado. Então. meio virado na direção do oeste. meio que espalhados. Minha mãe sempre disse que as montanhas Catskill eram. no 303. que parece uma ala feminina. Tenho de dizer que meu quarto não é dos piores. umas às outras. Exceto à noite. e o papel. . na maior parte do tempo. Depois ele diz: “Bela vista”. A Sra. segundo ela. E o vale todo é o condado de Sleepy Hollow. A mulher de Catskill está deitada. Depois disso. no 305. Quer dizer. De que adianta? Phil senta na minha cama e fica olhando pela janela. E atrás dele estão as montanhas Catskill. Ela diz que é primaveril. Como se ela estivesse ali deitada. Depois seus seios. Olhando aquelas montanhas desse jeito. ele sacudiu os ombros e disse: “Não importa. Os quartos trocam o tempo todo”. toda aquela beleza do lado oeste é o principal motivo por eu estar feliz de ter sido colocado aqui. Depois vem seu rosto. Às vezes. ele meio que corou. de barriga pra cima. Lee olha o pacote de jujubas e olha pro Phil. É o que minha mãe chama de cor de malva. Estamos no alto do morro e a cidade de Hudson desce pelo rio. quando não consigo dormir e fico olhando pra cima. dois seios bonitos e pontudos. moi. o perfil. achavam que as montanhas eram sagradas ou algo assim. de alguma forma. o Hudson não é tão cintilante. as montanhas ao sul são seus cabelos. Em seguida. como se algum tipo de Deus celeste ou algo irá descer e fazê-la ganhar o dia. Mas aqui de cima é. dois joelhos flexionados. apenas o outro lado do corredor. O rei está morto. duas mulheres idosas. com topos curvos. Não estou inventando isso — todo mundo vê. em contraste com o céu. Na verdade. mágicas. Quando perguntei ao Edward. E é mesmo. que os índios que viviam ali. tipo. meio quieto. Ele cutuca o monte de doces com o dedo. por um minuto. Eu rio — a mulher até que é legal e ela deixou Phil sem palavras. o resto do nosso passeio é rápido. sabe. o que não é fácil. Dá pra ver até lá embaixo. A Sra. bem nítidos. há muito tempo. principalmente nessa época do ano.

Primeiro. pra falar a verdade. assim que chegar em casa. É bem bonito. e da forma como a cidade se estende a partir dele. muitas vezes. isso que todos nós temos que entender: a vista panorâmica. dentro e fora. você. Os videogames — com aquelas cores fortes — são uma tortura. simplesmente porque ultimamente não enxergo direito. Mas não quero contar nada disso. Vacas. O Hudson está aí há uma eternidade e eu fico contente em poder vê-lo aqui de cima. sabe? Toda sua extensão. Como a luz do sol que dói nos olhos e. E as telas. E pra mim fica simplesmente impossível ler palavras em qualquer tela. e vai me colocar na cadeira de rodas. e os trilhos do trem e os barcos — já mortos há tanto tempo. quando olho por essa janela. bem no meio do corredor. mas o que mais? Não quero dizer a ele. sua música. A ala da maternidade. E eu sei que ele está falando sério. por um tempo. Ou seja. tipo um mapa ou uma planta aqui do hospital. aos dezessete anos. não parece assustador. um sorrisinho engraçado. meu chapa? Quer dizer. seu centro de entretenimento? Tudo bem. ficar oco por dentro. todos aqueles humanos novatos. onde está seu computador. com toda aquela luminosidade e movimento. desenhos que ele fez quando estava no ensino médio. . os tijolinhos vermelhos e as pedras das edificações antigas. não quero me dar ao trabalho de explicar. seus olhos já não estão mais tão bons. mas tivesse sido tragado lá pra dentro. há dezessete anos. que ele diz que vai fazer um desenho. Phil diz três coisas interessantes. o que você faz por aqui. Ele vai inserir todos os cômodos e todos os ocupantes. Torres de igrejas. tudo parece uma pintura. Então. até tem uma TV. Fico pensando nisso. É nisso que eu penso. Quer dizer. o texto pula e dá vontade de vomitar. é só mais uma coisa que ele não precisa saber. sabe. tem um monte de coisas que você descobre quando está aqui. É como se você não estivesse mais do lado de fora. eu tenho certeza de que o Mundo de Richie será muito legal. onde as explosões acontecem dentro do seu crânio. e não se sente necessariamente inclinado a contar pra todo o mundo. nem mensagens de texto. e sei que isso é uma coisa em que Phil sempre foi bom: ele sabe desenhar. mortos. com olhos grandes. Minha mãe tem alguns desenhos dele emoldurados em seu quarto. todo o povo que construiu os prédios e igrejas. de maneira geral. Um trem vindo direto em sua direção. são realmente dolorosas. como se você estivesse amarrado aos trilhos. Como dizia nosso cartaz: Direto pro fosso. E outros novos chegando todo dia. E o necrotério? Acho que fica no porão. E um retrato da minha mãe. num ângulo engraçado. e vai chamá-lo de Mundo de Richie. Os desenhos de Phil ganharam todos os prêmios da escola. É tudo tremulante e estranho. Em cada um deles. Um dos terapeutas me disse que esse é o motivo pra que ele continue trabalhando aqui. e nós ficamos em silêncio. Então.pra me deixar assustado. Sabe. Mas aqui de cima. meio que ao fundo. Mesmo impressas numa folha. mas não mando mais e-mails. vendo tudo. descendo até o rio. meio instáveis. Como um melão. E como o rio se estende até o mar. e eu ainda era um segredo dentro dela. todo esse processo é como ser esvaziado. num campo. sei lá. como gosto de mencionar). bem em cima da minha cabeça. olhando a vista. eu e o Phil. Segundo. ele diz: — Então. ao chegar a esse ponto. no quarto andar (onde eu mesmo fiz minha primeira aparição.

pegar uns docinhos? Vamos dar o fora dessa espelunca. quando o telefone toca. é quase verdade. É que. sabe? A crosta. não é? . uma noitada com o tio Phil? Sem minha mãe por perto pra dizer não? É como a maior fantasia da vida se tornando realidade. Mas eu detesto ser um bolha na frente do Phil. Era de se pensar que eu estaria pulando de alegria. eu me divirto com toda essa comédia humana. no mundo real? Dar uma passada em alguns points legais. Então. o gesto conhecido de quem diz Não estou aqui. E é engraçado. Depois de alguns minutos pensando nisso. Ou se ele consegue lidar comigo. como está se sentindo? E vejo Phil acenar as mãos e sacudir a cabeça. E não tenho tanta certeza se consigo encarar o mundo real. cara. Mas eu me sinto mais amedrontado do que qualquer coisa. só isso. por aqui. Como eu disse. estou enchendo linguiça. ver as gatas. Ação ao vivo. É hilário. Phil diz a terceira coisa interessante. — Richard. ser horrendo é totalmente normal. mãe. Então. Sempre tem alguma coisa acontecendo por aqui. Aqui. cara. eu digo ao Phil: — Olha. ninguém se retrai com a nossa aparência — não existem cicatrizes horrendas demais pra suportar. Eu digo: — Oi. ligar não significa estar vendo.depois que alguém enfia uma colher de metal e arranca toda a parte boa — tira toda a polpa e o suco da fruta. Você decididamente precisa sair mais. Não sinto a menor falta do espaço cibernético. Como se só sobrasse a casca. Faz muito tempo que eu não saio. certo? Quer dizer. meu soberano. Que tal seria passar o Halloween lá fora.

Ah. Essa é a minha mentira padrão. ao meu lado. Fico tonto e preciso recostar nos travesseiros. Estou sem ar e sinto meu coração batendo em meus ouvidos. sua irmã mais velha. Eu quero gritar: A Sylvie o quê? O que é que tem a Sylvie? Mas não faço. a gente faz isso. é: “Por que diabos eles não me . da década de 1960.? A pergunta me deixa injuriado. porque. maratona de filmes de monstros ou algo assim. — Ele franze o rosto. o que ela faz sempre que pensa que não posso vê-la. — Essas mães. A voz da minha mãe está rouca e baixa. depois ela diz: — Meu benzinho. esquece. não é? Que pé no saco. a Sisco tem alguma novidade interessante? Sisco é como Phil chama minha mãe. — Alguns dos conselheiros. A Sylvie. Não. está bem? Ela está ótima. e você? — Bem. ela provavelmente passou 98% do tempo aos prantos. eu tenho que tomar banho. Não faz o menor sentido dizer nenhuma outra coisa. claro. você está bem? Ouço um barulho dela limpando a garganta. Então. na hora. Tipo O desafio do além. Ele tira o fone da minha mão e desliga.. Tipo. É quando me toco que essa semana.. o antigo. Balanço a cabeça. outros dão realmente medo. o pai da Sylvie. sim. cara. nem disfarçou. eu tenho de dizer. A Sylvie está legal. Ah. meio morta de medo da casa. tem que explicar tudo e é repetitivo e sacal. se sentindo péssima. A voz dela é de surpresa. com o cotovelo.. — O pai da Sylvie? Ele não costuma ser um homem sociável. Falo com você depois. Meio apaixonada pela casa da colina. — Então. se eu disser. esse é aquele em que a mulher chamada Eleanor — Nell. Alguém foi vê-lo? Fecho os olhos e tento arranjar uma versão da verdade. mãe. mãe — eu digo —. É difícil dizer se é da gripe ou de chorar. em casa. Por que ele. — Ei. Um dos Irmãos. Deus. meio sã. não a porcaria da versão nova. a tarde inteira: assiste a filmes antigos de terror. Phil senta na cama. A casa vence. Phil estava ouvindo. nós dois estamos recostados nos travesseiros. Ouça. — Ei. eu estou bem. Alguns são filmes bem bobos. quando bate com o carro numa árvore. Agora. sem fôlego pra falar.. — Estou tão preocupada por você estar solitário. num canal a cabo. — Ele me cutuca. A última coisa que ela diz. Estou legal. como eles chamam — é meio maluca. — Aposto que tem umas coisas legais de Halloween na TV. enquanto eu estou aqui me divertindo tanto. — Merda.

história comprida. a faca em minha mão. pum! O negócio ganhava vida. Cara. Por um segundo. Tivemos que ler juntos. feito duas hienas. é Philip Casey — diz ela. a autora desses livros. tomando cuidado pra não danificar. ele enlaça as mãos e diz: — Certo. mas é atraente e está bem animada. Crianças fantasiadas? Ou habitantes das profundezas. — Nossa. Phil faz uns sons de vômito. Depois. olha pela janela e põe as mãos nos quadris. apontando a comida. pelo menos esta noite.. Minha mãe e eu lemos o livro. ela é grande. — Hora de ir. realmente? Quem pode realmente distinguir a inocência da maldade. Está bem ali: o miolo laranja e o cheiro bem acentuado da abóbora em minhas mãos. A assombração da casa na colina. tudo passa pela minha cabeça: o jornal na mesa da cozinha. A gente sentava na minha cama — eu estava com o soro intravenoso. algumas vezes. Jeannie. mostrando quem realmente são? Quem pode saber. Ouço aplausos da porta. Subitamente. Ele anda pelo quarto. enquanto eu dou uns goles no café. Depois a gente leu Sempre vivemos no castelo. aquela foi uma época bem legal pra minha mãe e pra mim. virando a página só quando os dois tinham terminado. É novamente o turno de Jeannette e ela está sorrindo. mesmo em casa. Mas ele senta e come tudo. por causa da overdose de televisão. até que era legal. eu percebo: é a primeira vez na minha vida que eu e minha mãe não fizemos uma luminária de abóbora. cara. barulhenta e monstruosa: — Uááárrárrárrárráááá. quando minha mãe acendia a vela dentro e.impedem?”. seu provador de comida declara que isso está seguro para seu consumo. a gente se assustava juntos. que não consigo nem olhar. Ele faz uma voz dramática e assustadora. — Não vejo sua cara feia desde quando? O primeiro ano do ensino médio? Legal encontrar você aqui. ela está com uma expressão engraçada e tímida. a Shirley Jackson sabe deixar a gente com os pelos da nuca arrepiados! Ela consegue fazer sua cabeça girar e te deixar totalmente abalado. cobertas de sal. E o gosto das sementes torradas em nosso forno. O corte profundo em volta do talo. Phil olha pra ela por alguns segundos. em silêncio. figuras estranhas surgem nas ruas. — Meu Deus. garota. Mas tenho que dizer que. Ele acena para a bandeja vazia e nós dois caímos na gargalhada. olhando pra trás. lemos juntos quando eu tinha uns doze anos. Estou com tanta dor de cabeça. Na verdade. porque nós dois sentíamos medo demais pra ler sozinhos. não sozinhos. na noite consagrada. Faz um tempão. nessa noite de Halloween? — Ele dá uma gargalhada comprida. ainda bem que Phil e Jeannette estão ocupados demais olhando um pro outro. A bandeja do jantar chega às cinco horas. Está com uma blusa do uniforme com um monte de carinhas de abóboras sorridentes. Como eu disse. Os olhos em triângulos desajeitados e os dentinhos que sempre fazíamos. — Cruz credo. Sinto as lágrimas minando em meus olhos. pra me darem atenção. — Jeannie? — Phil está todo sorridente. toda noite. — Conforme a escuridão cai nessa cidade do Hudson. nem vale a pena contar — e a gente lia.. meu soberano. . Pra falar a verdade. Eu estava em casa. depois tirando o tampo da abóbora. Aquele grande momento. companheiro.

bem em seu ouvido. azul-marinho. todo estampado com estrelinhas douradas — e pendura em meus ombros. — Ãrrã. até esse minuto. encaixando-a na minha cabeça. Tudo bem. Phil é realmente mágico. ela caiu na dele. cortando e dobrando. Nesse momento. eu e Phil? Eu bem que gostaria que fosse verdade. o sentido mais aguçado que eu tenho é a audição. Phil dá um beijo no rosto dela e sai marchando do quarto. coloca em meu rosto e prende em volta da minha cabeça. Nós dois somos Casey. Lembra-se de quando você tinha dezessete anos? É noite de Halloween. são e salvo. uma pequena licença pra sair? Acompanhado por um adulto responsável? Ela funga. Talvez ele pense que não consigo ouvi-lo. Fecho os olhos. pra ficar imperceptível embaixo da capa. Jeannie — diz ele. sacudindo a cabeça. Está mais aguçada do que nunca. por alguns minutos. até nove horas. Duas horas. como uma capa. Jeannette atravessa o quarto inteiro rebolando os quadris. Ele é o adulto. eu sou tio dele. — Ouça. Ele se debruça acima da cama. Se esse garoto não estiver em sua cama. — Não checar um paciente? Acho que não. — Meu bem — ele diz. Phil vai até lá e dá um abraço em Jeannette. Entendeu? Deixo meus olhos se abrirem. Somos unha e carne. Ele empurra minha pulseira hospitalar de identificação até o alto do meu braço. — Bem. prendendo atrás com fita isolante. E quem seria esse adulto? A voz dele fica ainda mais suave. tipo. Você tem duas horas. Depois tira o cobertor do pé da cama — um cobertor gostoso e felpudo que minha mãe leva pra todos os hospitais. depois dá um salto de pé. mas sorrindo. — E é seu último Halloween. com o elástico. cara? Unha e carne. A voz de Jeannette está embargada e ela fala baixinho. Sou da família. claro. com a voz bem suave e meiga. — Não liguei os nomes. talvez? Ela recua e franze o rosto. com uma coroa nas mãos. eu não sabia que você conhecia nosso Richard — disse ela. do tipo que dão de brinde em alguma rede de fast-food. — Conhecê-lo? Conhecê-lo? Ei. — Ele é um garoto — diz ele. Vou cuidar dele. — Droga. Então. ele dá meia-volta no corredor e volta com tesoura e alguns pedaços de papelão. prometo. — Esse garoto tem dezessete anos. Não é. com força. Phil passa a mão nas costas dela. então tento sorrir. Puta merda. Juntos. Ultimamente. Ele tira do bolso uma pequena máscara preta — tipo do Zorro —. eu vou chamar a polícia e o xerife. mas ele está enganado. — Será que daria pra você talvez não checar nosso amigo aqui. o Richard? Por algumas horas. nós desenrolamos a atadura da . não tenho energia pra planejar uma fuga.Eu não fazia ideia que você trabalhava aqui. ele que faça isso. — Ãrrã. Nem sei se estou torcendo ou não pra que ele a convença. Você não dá. E faz o maior estardalhaço.

atravessando o estacionamento da emergência. é que parece um pouquinho mais real. Agora. talvez não seja tão fácil: Phil tem que puxar os manetes da minha cadeira. na altura do número 700 da Warren Street. em algum lugar — barulhos da vida. — Vai sair. Richard? — Pergunta. cara. Vamos nessa. ele quase nem precisa empurrar: estamos no alto da colina. como eu disse. Sinto arrepios nas panturrilhas quando o ar bate em minha pele. Do lado de fora. . o rio. E tem barulho: ônibus. folhas voando nas calçadas. o molhado escoado da tempestade. Inalo profundamente. um ventinho suave. mas não adianta. conforme seguimos pelo corredor até a recepção (ainda bem que a harpista já encerrou essa noite). tragando o ar. lento e profundo. mas segura a porta pra nós. e é fácil descer deslizando. e cheio de correntes fortes. Phil não diz uma palavra até estarmos a três quadras do hospital.. — Tenho um encontro romântico. E seu humilde servo implora para darmos o fora. Mas eu nunca tinha notado. Mas só quando passamos por uma porção de corredores e saímos pelas portas grandes envidraçadas da frente do hospital que eu realmente acredito. — Feito. Phil anda rápido. Ele acende. — Meu amo — diz ele. Já dentro do elevador.minha mão. O Hudson. Ele leva um minuto. Ninguém dá um pio. — Seu disfarce está completo. arregalados. parecendo ligeiramente surpreso. Só quando estamos lá fora. estranha. Então. porque estou de máscara. ele manobra a cadeira pra dentro de um beco e recosta numa parede. tirando um baseado do bolso. nuvens passando pelo céu. pra que eu não saia voando sozinho. o Phil e eu começamos a uivar. seguindo pelas ruas principais da cidade. Ele aperta o botão pra chamar o elevador e. escorregadios. no ar fresco de outubro. e saindo para a calçada. E cheiros: escapamentos. Sento ereto na cadeira de rodas. aquele cheiro do rio.. — Preciso fumar — diz ele. Richard — diz. sorri e se curva em reverência. — Dá um pau aí. com seus olhos prateados. até essa noite. folhas mortas. carros. Nossa saída é tão simples que eu fico surpreso por nunca ter tentado isso sozinho. quando a porta abre. E. Feliz Halloween! A expressão do cara é simplesmente. com a coroa na cabeça e o Phil me empurrando por trás. Elkins sai. Dou uma piscada. passando lá por baixo. Eu concordo. Senhor. crianças gritando contentes. Dá quase pra sentir o cheiro dos peixes nadando nas águas turvas. colina abaixo. deixando à mostra o machucado com pinta de fodão. então eu abro um sorrisão. além de tudo isso. Bem. a minha vida inteira. mas depois me reconhece. Barulhos do mundo real. Ele recua. E está fazendo uma noite perfeita: fresquinho. Ele sempre esteve ali. dá uma tragada bem comprida e estende o cigarro pra mim. sei lá. várias vezes. — Você está de férias. o filho da Sra. que incrível. O ar que faz isso: nem sei quanto tempo faz que eu não saio — vim direto do hospital grande de Nova York pra este de ambulância.

máscaras presas com elástico. Estou com meu adesivo analgésico. recebendo os doces. Mais da metade do pessoal da cidade é de casais gays. Fico tonto. Eu mesmo fiz isso quando havia mais lojas “de verdade”. moço? — Pergunta ela. porque da 400 pra baixo. Power Rangers. mais um pouquinho não vai fazer mal. Tenho de dizer que essa noite o lugar está bombando. Uma coisa legal de Hudson é que as lojas ficam abertas por algumas horas no começo da noite de Halloween para que a garotada da cidade possa vir pedir doce. dançando pelas calçadas. Tipo barras enormes de chocolate. Ela vem em minha direção e aponta para minha cadeira. com sacos de papel. Devolvo o cigarro pra ele e digo: — Valeu. — Essa é sua fantasia. pô. esse tipo de coisa. Minhas pernas não funcionam. Sam’s Market. e eles adoram esse feriado — eles se vestem com uns troços malucos e comemoram loucamente. como a Rogerson’s Hardwar. dá pra ver em seus rostos. sem muita preocupação. e os donos sabem disso no momento em que entramos. Mas ainda sou rei. — Você não tem muletas. Tem todo tipo de música saindo das lojas. Relaxa você. Não tem mais lojas de verdade — nada de comida. — É. — Você é o quê? — Rei dos paralíticos.99. 600 e 500. Eles fecham o trânsito em três quadras — da 700. Ela é negra e tem um milhão de trancinhas no cabelo. mas. E eu fico pensando. . Parecem mais museus do que locais onde se compra alguma coisa. Depois pega numa das rodas. Estou ali sentado. De qualquer forma. Branca de Neve. Vou ficar tomando conta. como se eu estivesse tentando enganá-la. nem do cheiro de mijo de gato. Um monte de gente de Nova York veio pra cá e abriu lojas de antiguidades. Mas essa tendência é muito ruim para o Halloween. de nylon vagabundo. Ela está com uma fantasia de bailarina/princesa/fada. Criancinhas com aquelas fantasias baratas das lojas de R$ 1. a loja de brinquedos Town Fair. sim. cara. mas não gosto de ficar ali dentro daquele beco escuro. gritando pra irem mais devagar. Não quero dizer. Os garotinhos correm de um lado pro outro e se divertem. uma saia roxa fofa que já está em frangalhos em volta de seus pés e usa um negócio na cabeça com um diamante falso. só lojas onde eu e minha mãe não podemos comprar nada. nem de brinquedo. Ela inclina a cabeça pra trás e franze o rosto. As mães caminham a meia quadra atrás das crianças. só curtindo tudo. galerias de arte e tudo mais. quando uma garotinha de uns quatro anos vem correndo e fica me olhando. tipo uma peça inteira. e uns caras com roupas e máscaras estranhas. Eu levo a cadeira pra fora do beco. Agora é muito estranho. E o doce? Eles dão umas coisas ótimas. quero o movimento. é bem perigoso. Todas as crianças estão correndo de loja em loja. todos aqueles lugares legais. né? Dou uma tragada e queima pra cacete. porque é tudo uma cena tão alegre. — Ãrrã — eu digo. Onde estão suas muletas? Ela me olha fixamente. portanto já estou recebendo mais entorpecente do que o tio Phil pode imaginar. em termos de vizinhança — e nenhum carro pode passar. até a calçada.

ela está fora de controle. depois vira e sai correndo. alguns metros atrás. com um belo sorriso. Eu abro o saco e despejo um pouco de bala na minha mão. Estou pensando nisso quando a mãe dela — a jovem mais saudável que eu vejo. muito bonita. — Ei. senhor paralítico rei. — Aqui. pele lisa e suave. Jogo algumas na boca e aquele sabor agridoce e delicioso explode em meu palato. A menina enfia a mão no saco de mercado e tira uma embalagem de balas. Já ganhou doce? Você é rapidinho. cara. . em muito tempo. hein? — Então. — Desculpe — diz ela. Não consigo parar de comê-las. É muito bom — é como uma onda de pura infância. — Sem problemas — eu digo. Açúcar demais. ele tira o saco da minha mão e o esvazia na boca. com a mãe seguindo. Phil sai do beco e ri. bochechas redondas — vem correndo e pega a garotinha pela mão. — Esta noite. sacudindo a cabeça. de pernas que não funcionam — diz ela e solta o saquinho no meu colo.

morto. Estou vendo que ele já está ficando entediado. por algum motivo. Nem tanto. pensando. no hospital em Nova York: eu via o rio banhando a cidade. e ficava imaginando estar ali dentro. Chega desse negócio de bebezinho. Em uma dessas vezes. É assustador. As pessoas em volta estão vibrando. Hudson é uma descida. eu percebo com clareza. Nessa parte da cidade. Eu costumava pensar nisso. que segue direto até o rio. Eu ficaria a noite toda naquelas três quadras. Estou comendo as balinhas quando ele diz: — Certo. Saudável. não dava pra ver do meu quarto. todo mundo se salvou. E ela nunca mais me veria. Aposto que estou com uma aparência perfeitamente saudável. Um pontinho de lixo. cada um deles. Todos saíram vivos. Mas o Phil não. cara. Tenho planos melhores que esse para o Halloween. isso me animava. Quer dizer. Eu sorrio e faço uma . mas todos nós nos aglomeramos perto das janelas. depois de me empurrar por uns vinte minutos. eu juro. onde não tem mais lojas de antiguidades. não vou conseguir parar e essa cadeira vai me levar direto pra água. Um garoto maluco. até realmente parar e a cadeira sai derrapando. E lá vamos nós. Ela parecia achar que o rio poderia se estender. nem perto da margem. o Phil está realmente veloz e eu estou deslizando mais depressa do que acho ser seguro. depois seguiria rumo ao mar. Eu ficava pensando: salvos. correndo sozinho. o Phil solta a cadeira e deixa a gravidade me levar. nesse vento frio. com toda aquela gente nas asas? Eu estava lá. como um tipo de Evel Knievel[1]. nos freios. rindo. até Nova York. só um monte de bares e algumas lojas de esquina. então. Ainda passam alguns segundos. Lembra daquele avião que pousou no rio Hudson. vivendo seus pequenos dramas. eu fico assustado com a onda de vento no meu rosto e a sensação de que não consigo parar e desço as duas mãos com tudo. dizendo que era melhor eu nem pensar em ficar de brincadeira ali por perto. o vento que vem do rio bate em meu rosto e minha boca está cheia de ar de verdade. eu acho. as pessoas perambulam pelas ruas. no fim do corredor. E é muito legal. deixando uma marca de borracha pra trás. como uma mão enorme e molhada. com a criançada correndo em volta. E a correnteza do rio é voraz. eu penso. apontando. seguindo adiante. gritando. que ficava meio distante do lugar do pouso. Eu meio que quero continuar seguindo em frente. simplesmente decolar e voar até o rio. apontando e vibrando. e me agarrar. Depois ele corre ao meu lado. mas também é incrível. todos salvos. eu começo a ir mais depressa do que ele consegue correr. Aquele piloto é um super-herói. Como eu disse. numa cadeira de rodas. com as rodas girando. Então. Passei a vida inteira ouvindo minha mãe falando sem parar. De qualquer forma. Rindo. de capa e coroa. Seguro a minha coroa e sinto meu rosto ficar todo vermelho. garoto. Eu seria levado pela correnteza. Aquela gente foi salva. Quer dizer. Cada um deles. Algumas vezes. Uma boa briga. Mas. feliz. sentado no parapeito da janela. Era de se pensar que isso deixaria uma criança internada deprimida.

pra dizer a verdade.pequena reverência. — Ótimo — diz Phil. muito bom. sabia? Aqui era famoso pela birita e pelas piranhas. eu imagino. Muita música alta e gente saindo pela porta. ao lado de Osama bin Laden. Richard. Muitas fantasiadas. ela carrega uma cabeça com uma peruca branca. Deixo uma poça fedorenta no chão. Um dia. Uma bruxa bebendo com uma freira. ou algo assim. Minha mãe não bebe e meus amigos de escola e eu simplesmente não chegamos nem perto de parecermos ter idade pra pedir uma cerveja. arqueólogos vão achar restos milenares de vômito por aqui. em lugar do futum. por todo lado. Um monte de gente suada e muita cerveja entornada. e pelo ópio. — Não mudou nada — diz Phil. Um sapo verde enorme. mas isso nem incomoda o Phil. Tenho de admitir. — Graças a Deus. acima da porta. meio que sacode os ombros e nos deixa passar. Embaixo do braço. Ele só recua minha cadeira e diz: — Não esquenta. composto de uma saia imensa e um top apertado. Phil me alcança e vê que estou meio que engolindo com força. até um bar que fica três portas adiante. Todo mundo gritando mais alto que a música. Está tão alta que minha cabeça lateja e. Abram caminho para o Rei Richard e sua carruagem real. Lembro do que um britânico. O rei está sedento. Foi o que os marinheiros encontraram no Hudson. um cara imenso. Tenho que dizer que é meio nojento. aí. ou algo parecido. E ele começa a gritar: — Abram caminho. Uma cena muito louca. camponeses. Marinheiros de antigamente tinham o Hudson como sua parte predileta da cidade. estudante de intercâmbio. alguns com máscaras e capas e todo tipo de troço. um cara veste um uniforme completo de bombeiro. segundo li em algum lugar. de máscara do Dart Vader. Então. uma vez me falou sobre um verdadeiro “futum”. tipo. eu sinto que vou vomitar de novo. — O velho FFF ainda está por aqui. Uma placa toda transada. Esse tipo de esquisitice legal. Há séculos que todo mundo vomita nesse beco. Todo aquele doce bom transformado em algo azedo e cruel. com os peitos pulando pra fora. e minha cadeira passa justinha pelo portal. botando tudo pra fora. eu nunca estive dentro de um bar. e talvez esteja meio verde. Próximo dela. . Até o leão de chácara. Mulheres com maquiagem sexy de vampira e meia arrastão. pousado no ombro de um cara gordo. bem de cara com aqueles peitos pulando pra fora do vestido. vida longa ao rei. A multidão ri e realmente abre um espaço largo. essa é uma experiência totalmente nova e está me deixando meio nervoso. todo esse doce que acabei de mandar pra dentro está empacado em minha garganta e eu estou quase certo de que vou vomitar. e logo me sinto melhor. e eu sinto o perfume. Porque ele me vira pro beco e eu ponho a cabeça pro lado da cadeira. Pelo menos está escuro. Phil segura minha capa pra tirar do caminho e mantém a coroa na minha cabeça. E tem cheiros. Muito legal. Mas. diz FAT FRED FEATHERS e tem uma foto de um pombo. por um minuto. Sempre gostei dessa palavra. Uma garota está vestida com um traje rosa. As pessoas estão apinhadas no bar e espalhadas pelo lugar. Mas. com filetes de sangue. a garota de rosa está se debruçando ao meu lado e meu rosto está. Ele me leva de volta pra rua.

Não quero parecer tolo ou um mané. talvez a cerveja. ele desaparece em meio à multidão. com a maior tranquilidade possível: — Maria Antonieta. nem nada disso. com os braços em volta da cintura dele. Em certa altura. segurando a garrafa e olhando a lua. Eu olho para seu rosto de verdade. — Mais oui. conversando com essa garota meiga de rosa. Então. mais aquela baforada no baseado do Phil. Eu o deixarei para sua conquista. Ela é baixinha. Mas a garota de rosa tilinta a garrafa dela na minha e diz: — Então. numa reverência. e a peruca branca está caindo. mais o adesivo. Eu respiro fundo. Nenhum dos outros palhaços daqui entendeu minha fantasia. Então. A garota de rosa — ela disse pra chamá-la só de Maria — fica por perto. ela senta na cadeira comigo. eu presumo? E a garota coloca as duas mãos nos quadris e se curva. depois se curva e some de vista. Ela pega a garrafa e faz uma rápida reverência. com uma guilhotina em miniatura pendurada — e eu não posso deixar de admirar sua criatividade. se curvando. Ele está com duas garrafas de cerveja nas mãos. Ou talvez minha visão esteja mais debilitada do que o habitual. Então. E está conversando comigo? Isso diz tudo. mas ela está com o cabelo todo espetado pra cima. ser rei — eu digo. Acho que ela está vestida de folha — não me lembro direito. Phil aparece. saúde — e vira a cerveja na boca. dando umas cotoveladas pra abrir caminho. — É um trabalho que dá sede. Eu faço o mesmo. de vez em quando. A garota está rindo. com os cumprimentos de Sua Alteza Real. talvez tudo isso tenha sido ligeiramente excessivo. A garrafa está supergelada. sentado que nem um idiota. E eu trabalhei durante dias para fazê- la. ele entrega a outra garrafa à garota. e vem todo sorridente. olhando pra mim. eu só fico ali. Ela está me olhando. empurrando a bunda no meu colo. Até que ela joga a cabeça que ela carregava no meu colo. Ela dá risadinhas e meio que se . depois se endireita. é amistosa e parece inteligente. Estou bem certo de que estou de pau duro. por causa da máscara e tudo mais. — Dá pra ver que você é mesmo da realeza. com uma reverência ainda mais profunda. pintado de rosa pra combinar com o vestido e está com um colar — uma corrente de prata. E seu peito. Desce tão gelada e agradável em minha garganta sensível que eu simplesmente deixo virar. Tomo outras também. Ele me dá uma das garrafas e se curva. Porque as coisas ficam bem embaçadas depois que eu tomo minha primeira cerveja. com outra garrafa. — Meu soberano. meu amo — ela grita. — Mademoiselle. É redondo e simples. noutra reverência. embora esteja meio anestesiado no resto. Phil se aproxima. enfio o dedo num dos olhos azuis e digo. Nós conversamos — não tenho a menor ideia sobre o que — e rimos muito. em princípio. Não sei. sorrindo. então eu tenho que sorrir. Tem uma gosma vermelha lambuzada no pescoço e olhos azuis inexpressivos. rechonchuda. Das duas últimas vezes. O rótulo é muito legal — uma lua azul e uma abóbora redonda — e. ele estava com uma bela garota ao lado.

Mas não ligo. ali em pé. as pessoas gritando. e eu não sei se ela está me levando de volta ao bar ou para outro lugar. no ar. Mas ela não o faz e se inclina à frente e prende meu Bingo no meio daqueles seios redondos. lenta e molhada. tipo. sua serviçal ficaria muito contente.remexe sobre mim. porque meu Bingo fica subitamente frio e muito solitário. eu tenho que dizer. Ele está parecendo meio desesperado. porque a próxima coisa que noto é que ela está em pé. e é isso o que conta. no frio. Estou tão tonto e com tanto tesão e.. ela simplesmente grita: — Sai da frente. Mas a máscara ainda está firme. vai atrás da cadeira e grita pra aglomeração: — Abram caminho para o rei. se ela me deixar aqui fora. Gemendo. então eu sei que estou com o pau mega-duro. Apenas fecho meus olhos e vou com a maré. Mas. Não importa. cara. totalmente surpreso que alguém. e ele sempre — sempre — estava me esperando.. estivesse se oferecendo pra sei lá o quê.. Ela me leva na cadeira pra fora do beco. Ela pula pra trás e me solta. e acho que vou começar a berrar. Ela desliza pra fora do meu colo — e. tipo meio escuro e Maria está ajoelhada na minha frente. e então eu estou. Então. bem ali e. Acho que eu quase desmaio. Eu deslizo para baixo e minha cabeça recosta no encosto da cadeira e eu sinto minha coroa cair. Daí começa a cantarolar uma musiquinha doce em meu ouvido e sussurra: — Meu amo. com o cheirinho de casa. eu juro. de repente. macio e quentinho. cada uma das vezes em que fui internado. com uma lambida longa. nem consigo dizer nada — como se minha garganta estivesse paralisada. Eu estendo a mão e guardo meu Bingo murchinho no jeans e fecho o zíper. aparentemente. e fica bem óbvio que ela não tem a menor ideia do que fazer em seguida. — Então. de cada operação. e ela presume que seja um sim. em meu quarto. Lá fora. sério. E nós dois ficamos olhando pra ele. tira a cabeça cenográfica do meu colo e eu consigo abrir o zíper do meu jeans e pumba. o ar está bem mais fresco e eu vou embrulhar minha capa-cobertor em volta dos meus braços. comigo. isso é tudo de que eu preciso. meu garoto já está de volta ao ar fresco. Mas ela sumiu. eu também estou com as duas mãos em seus peitos. por um segundo. E ali está a mão de uma garota. vassalos. até que ela coloca a cabeça ensanguentada em cima. Mas. até meus aposentos. talvez. Eu acho que vou morrer. — ela lambe minha orelha. meio que só dou um gemido. Ela sorri pra mim. Caiu em algum lugar.. por um minuto. e eu sou uma poça derretida de gratidão. — Se você quiser vir. depois de todas as torturas. Então. Ofegante. mas também satisfeita consigo mesma — e. exceto que ela está me tocando. Chegamos à rua e escuto toda aquela barulhada. ela dá uma risadinha e o agarra. eu penso em como a minha mãe sempre levou aquele cobertor pra todos os hospitais. Nada importa. qualquer pessoa. Claro que não consigo dizer uma palavra. . com sua cadeira. Abram caminho. — Quando as pessoas demoram pra sair da frente. E. porque ela pode me levar pro inferno a essa altura. nós estamos em algum lugar silencioso. Parecendo meio surpresa. tipo. O cobertor azul-marinho e estrelado. — Meu doce amo — ela diz. e eu ficarei feliz. mas ela está tentando. apenas balançando. limpando o peito com um lenço de papel.

A mão dela passa pelo meu couro cabeludo careca. Maria se abaixa sobre a minha cabeça e tenta empurrar o mãozão peludo do meu ombro. depois diz com uma voz amedrontada. Maria puxa minha cadeira pra fora da bagunça e senta com força no meio fio. e que pareço um réptil. — Que belos amigos você tem — diz ela. O pai de Sylvie agarra o braço dela. Minha pulseira do hospital está bem ali. O tapa de Maria deixa uma marca vermelha bem no meio da cara dele. Eu sacudo a cabeça. — Já se esqueceu da minha bebê. Abro meus olhos. que dá um gritinho agudo e eu também tento agarrá-lo. Ele vira a atenção para Maria e eu sinto a mão dele apertar. fora do esconderijo. — Putinha. não está nada doente. Ele pula nas costas do pai de Sylvie e eles vão ao chão. senhor — eu digo. Seu cuspe espirra em meu rosto.. ora. e Phil vem na frente. E sei que ela ficará completamente repugnada e jamais. Então. Suas tetas estão de fora. batendo com as duas mãos em seu peito. Estamos sob a luz da porta aberta do bar e tem alguém se inclinando acima de mim. Eu sinto uma mão em meu ombro. exceto um monte de pés e gente rolando. de olhos vermelhos. — Saia do nosso caminho — diz ela. Mas o homem é irredutível. ele está uivando. Ele está chorando e espirrando cuspe pra todo lado. depois não consigo mais ver nada. trepando com piranhas. bem nos meus olhos. nós paramos. enquanto ela me encara. — E quem é essa? — Ele bafora fogo sobre nós e depois dá sua risada horrenda. . enquanto ela. Seu falso mentiroso. — Deixe-o em paz — diz ela. O que temos aqui? O pai de Sylvie está em pé. nem cílios. Ela se curva e me olha bem de perto. — Só estou saindo sob licença. Então. depois suspira. mal consigo descrever. Maria estende a mão e toca um dedo em meu punho. Então. mas tem um milhão de pessoas vindo em nossa direção. com a voz grasnada. acima de mim. Eu fui pego pelo diabo em pessoa. Maria levanta e coloca a mão na minha cabeça. Ela está bem quieta. Ele estende a mão e arranca minha máscara. sentindo o meu crânio. E sei que não tenho sobrancelhas. não sei. empurrando-o com toda força que posso.. Agora não tem máscara. Richard? Você está aqui fora. oscilante. Eu sinto. jamais encostará novamente a boca ou as mãos em mim. É grande e pesada demais pra ser a dela. — Será que pode ser? Nosso vagabundo espertinho? Fora do hospital? No fim das contas. Ele me olha de novo. que se transforma meio que num choro. baforando fumaça e birita na minha cara. Puta merda. emanando calor como uma chaminé. Não é a dela. — Ora. e está quase.

na grama. acho que é tarde. no quintal da frente de alguém. — Valeu. gemendo. nos fundos. Não importa se pega ou não. Não se preocupe. ela . Mas tem um pequeno gramado. Começo a olhar em volta. Jeannette talvez esteja ligando pra polícia neste momento. uma varandinha e ela plantou flores. sozinha. Uma vez. Outra rua tranquila. por entre as pessoas fantasiadas.. cara — eu digo. Então. batendo as pernas fortes. apertando a lateral da barriga e gemendo. fica só a umas cinco quadras. O Phil correndo. Minha mãe não quer que ele saiba. — Eu só.. essa casa. Essa é uma rua agradável. O rosto dele está sujo de sangue e os nós de seus dedos estão abertos. Chegamos a um beco a duas quadras da Warren Street. Richard. Talvez já tenha ligado horas atrás. — Quer voltar pra lá? Para aquele hospital? Ou quer ir pra casa? Eu posso te levar pra casa.. Mas. ela recua. E começa a rir.. — Estou velho demais pra isso. cinco ou seis quadras de distância de onde você e Sisco moram agora? Ouço o tom de pergunta na voz dele e entendo. e fica ali deitado. empurrando minha cadeira morro acima. Correndo pela rua. Meu quarto tem praticamente 3mx3m. Tem também uma macieira. numa rua transversal tranquila. Ele cai pra trás. ofegante. com casinhas pequenas e térreas. Diga que não é aids. — Ele suspira. pra minha mãe. meu rapaz. Sirenes se aproximam. pra checar. Olhe nos olhos. cara — diz ela. — Minha nossa. e se curva. Depois vai embora. segurando a saia. e o dela não é muito diferente. — Merda — ele resfolega. e o Phil me estaciona atrás de alguns arbustos. mas não estão mais acesas. sim. Ele está certo. Fecho os olhos e posso imaginar a casinha pequenininha que minha mãe finalmente conseguiu comprar pra nós. algumas vezes. Quero fechar meus olhos pra não ter de vê-la. eu olho diretamente pra ela. Não faço a menor ideia. Ele abre e fecha a mão.que nunca mais quero ouvir: — Jesus. e que essa nossa escapulida tenha valido a pena. Ele não sabe onde nós moramos. — Eu me dei bem. Não pega. — Não é aids. Ela que comprou. seu rosto redondo. as casas têm abóboras nas janelas e nas varandas. seu cabelo rosa agora caindo. Ele assente com a cabeça — Missão cumprida. É algo gigantesco. *** Fica tudo embaçado. Você precisa olhar as pessoas nos olhos. Eu me sinto estranhamente calmo. — Espero que você tenha se dado bem. mas não consigo. o que. dois anos atrás. sabe? Estamos a. Luzes piscando. é um grande feito. É câncer. Ela limpa a mão na saia. ofegante. A respiração de Phil vai se acalmando e ele senta. minha mãe sempre diz. está bem? Apenas me diga isso.

E ele consegue. amarrotados. dormindo. Em como é perto e como eu poderia caminhar até lá. Estou exausto demais pra ajudar. minha mãe teria que cuidar de mim e eu acho isso difícil demais. finalmente. Sabe qual é a última coisa que ela precisa? Phil e eu. de qualquer forma. são e quase salvo. Eu poderia ir pra casa. Nossa casa é algo em que penso bastante. Fica tudo por conta do Phil. depois da criançada que passou pedindo doce. ficar deitado no meu quarto. batendo na porta. sentado no meu quarto de hospital. minha mãe está doente. Mas. E. Mesmo. embrulhada em sua velha manta e. — Não quero que a Jeannette tenha problemas. em arrancadas curtas e descansos demorados. Nosso porto seguro. . Justiça seja feita. Aposto que ela está na cama agora.disse que é nosso santuário. isso tem que ficar por conta de profissionais. Ou pegar um táxi. — Pro hospital — eu digo. É uma subida longa e difícil até o fim do caminho. E é nossa. ele me leva de volta ao Mundo de Richard. aí. a qualquer hora.

de tão cansado. cara. . O pessoal da equipe da emergência leu minha pulseira. Eu me lembro que a primeira coisa que vi. mas. Há uma longa pausa. sabe. na Cabbage Night. Não vou nem tentar descrever a cena na volta ao hospital.. sejamos honestos: eu estou chorando. Mas ele não está ali. eu ouvi dizer que foi uma loucura. Não pode fazer uma coisa dessas. eu simplesmente peguei no sono. como se não acreditasse estar dizendo isso. As pessoas estão ao redor da cama. Não. naquele momento. pois ela não estava conseguindo enxergar direito. não consigo fazer absolutamente nada. Alguém traz um cobertor branco do hospital e coloca sobre mim. Talvez eu pense a respeito.. eu vou puxar meu cobertor azul estrelado. de tanto medo de perder o emprego. ou Santos. e o Edward está com a mão no meu pulso. Finalmente. Eu me lembro disso. Richard. baixinho. Ele está zangado. nem pra minha mãe ou qualquer outra pessoa. aquela pessoal da emergência. E. Talvez eu até esteja chorando. Não consigo chegar a um elevador. praguejando o nome Philip Casey. Depois. Você quase fez com que uma boa enfermeira fosse despedida. eu acho. recuando e fazendo reverências. Mas não consigo pensar. Aqui estamos nós. — Você precisa crescer. Você quase matou a pobre mulher de susto. ele suspira. eu teria rido disso. Gente boa. me dá certa tristeza. — Escuta. ouço-as falando. Só consigo dormir. Eles entendem o significado de Nenhuma Intervenção. na manhã de Todas as Almas. hoje. dá pra sentir. no dia seguinte. mas sinto o calor da mão dele. e ligou pra ele cedinho. Estou deitado de barriga pra cima. Ela só ficou andando de um lado pro outro. Ou dia de todos os santos. que Jeannette estava completamente doida. Casey. me colocou numa maca e me levou de volta ao setor de pacientes terminais. O dia todo. pra assumir o plantão dela. Então. no corredor. — Ela me xingou? — Pergunto. Era 00h24. sou mandado de volta ao andar. cochichando. — É o mesmo nome. estou com muito frio. Nem era mais Halloween. Sinto as pessoas entrando e saindo do quarto. Edward me diz. Agora é o dia de finados. Então. alguns dias atrás. depois ele diz. Sorte que ela não ligou para a polícia. quando o Phil empurrou minha cadeira pela entrada da emergência e me deu tchau. Você. calmamente com a minha mãe. pousando a mão no meu peito. por estar tão obscura e nebulosa em minha cabeça. Só fico ali sentado. O mesmo nome. Ela estava tremendo e chorando. Ouço meu telefone tocando. Mas. se eu tiver um minuto. Tanto faz. Edward solta meu punho e se debruça. muito. Não consigo girar as rodas mais nem um centímetro. uma enfermeira atende e fala baixinho. Sr. Algumas vezes. de tanto medo. de olhos fechados. foi o relógio.

rindo e colocando a mão no pescoço dela. andando sozinha. Todos estão bebendo e sorrindo. “Mas não é que saiu. com um tipo de blusa preta e jeans. “O garoto saiu”. mas não existo. Está bem? Mas não por muito tempo. Richie. . com a maior clareza possível — Richie. Ela se debruça e fala bem pertinho do meu ouvido. Você saiu. Eu sento. toda encolhida na poltrona. tento me recompor. mas ela está tentando. cara — diz ela. Nem cheguei perto. Ela parece jovem e feliz. Quer dizer. Não sou exatamente eu. Sylvie levanta. é difícil explicar. Como eu disse. e tem um cara com ela. para se equilibrar. Eu sei disso. Minha mãe está ali. é estranho. Está determinada. Até ouvi dizer que aqueles dois velhinhos do 304 estava rindo disso. eu nunca fui demais. qualquer um pode ver isso. A roupa é uns cinco tamanhos a mais. fantasias talvez. eu ainda não nasci e a minha mãe não tem qualquer preocupação nessa vida. Jamais. segurando no portal. eles ficavam dizendo. Mas tudo isso é parte de um sonho. Ela faz parte dessa aglomeração. ainda. Ela sai. Você é tipo o herói da nossa ala. Ela está sorrindo. observando. Um monte de gente que não conheço. Está bem? — Ela recua. — Pense a respeito. — Richie — diz ela. em toda minha vida. No sonho. Só acordo quando já está escuro lá fora. E. alguns com roupas estranhas. É difícil explicar. Está com um chapeuzinho verde engraçado e passou batom. — Nossa. tipo. com uma das mãos. Estou ali. um cara que eu não conheço. — Você é demais. quando acordo. Nunca. eu não quero mais ser virgem. — Está bem? Só fico olhando pra ela. Ela sorri. é Sylvie que está sentada ao lado da minha cama.” Eu sacudo a cabeça. porque Maria também está ali. É uma grande festa. Noto que ela está vestida. com passos hesitantes.

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Toda vez que o homem passa. tipo Sua Presença Está Sendo Formalmente Requisitada Como Deflorador Oficial. Subitamente. cara. Nunca. dessa vez. isso que é legal de estar vivo. ou vai pra casa ou vai “Pra Casa”. eu não suporto mais e aperto a campainha. Está vendo. trinta dias depois. pouco antes da meia-noite. Imagino que todos os outros do andar estejam dormindo profundamente. pode crer. do meu jeito mais maduro. Não vou precisar implorar pra sequer tocar a garota. passando pelo meu quarto. tudo isso num hospital onde. Meus serviços de garanhão foram. por favor. A empolgação e a surpresa são simplesmente demais. sem um minuto de súplica da minha parte. com a mente dando cambalhotas. . e eles se apaixonarem ou ficarem com tesão pra fazer o negócio — e. Está tudo muito quieto. eu e a Sylvie. No entanto. Certo. Juntando-se ao fato inquestionável de que há apenas vinte e quatro horas eu recebi meu primeiro — e. eu fui formalmente convidado. nem por um instante. vejo o pai de Sylvie andando de um lado pro outro. mas ainda sinto seu olhar maligno mirando o meio da minha testa. Grátis e fácil. e fica ali no vidro. enquanto isso. não. Quer dizer. bonita e popular — quer que eu seja seu primeiro. quando o homem já passou pelo meu quarto milhões de vezes. como uma lua ruim nascendo. Seu rosto está cheio de hematomas e cortes. estou aumentando um pouco o que rolou. Fecho meus olhos e finjo dormir. estamos aqui porque recebemos esse “Grande Diagnóstico”: um mês ou menos de vida. Dois dias atrás. me foi oferecido. Quais são as probabilidades de um garoto virgem de dezessete anos conhecer uma garota virgem de quinze. eu ainda estou com a corda toda. virei um cara gostosão. Não. esse garoto ultrassexy ganha sua primeira sessão de sexo oral. Mas eu estou sentado na cama. no corredor. ou algo parecido. e fica olhando fixamente pelo vidro da minha porta. Ainda assim. que é meu modus operandi habitual. só pra completar? Sério. Puta Merdaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Mas só pra garantir que toda essa súbita impulsão na minha vida sexual não me faça esquecer que ainda tenho a Síndrome de ALECTO. pela trilhonésima vez. O facho de fúria acerta como uma bala. Você chega e. Tudo tem a ver com as surpresas. A noite caiu e eu não consigo dormir. essa não é a norma. meio trêmulo de tão desperto. ele desacelera. o PRIMEIRO. chamando uma enfermeira. jamais imaginei que poderia acontecer: uma garota — uma garota legal. ou seja lá o que for. independente de qualquer coisa. por favor. isso não bate. Crianças. de fato. o negócio todo do “nunca se sabe” está se tornando realidade. PÔU! Finalmente. Quer dizer. na ala terminal de um hospital. aconteceu. eu devo me esquecer de que Alguém Aqui Embaixo Também Me Odeia. simplesmente não haveria como saber que isso iria me acontecer. Ou seja. eu tenho uma possibilidade que nunca. no céu dos gostosões mais requisitados. solicitados. juro. todo mundo. Passo o tempo todo pensando. Quer dizer. não deixe que seja o último — boquete. A harpista já parou por hoje. No entanto.

Estão todos calados. A cama junto à janela está vazia e caprichosamente arrumada. Achamos que o homem estava tirando um cochilo mais comprido. como se eu fosse alguma fera estranha e ela estivesse injuriada por eu ter fugido da minha jaula. cujos nomes devem ficar incógnitos. como se você merecesse privilégios. então. Mas. enquanto o outro estava bem ali. não sabemos. Pelo menos. — Está certo. Desde às 7h. O chapéu está no alto de seu capacete de cabelos grisalhos. — Nada de mais — eu digo. junto com o Edward e comigo. por algum motivo. o de 15h às 23h e. Os enfermeiros também têm o baixo astral da madrugada. Cortinas cobrem a outra cama. eu vejo que estão todos cabisbaixos. é um pouco de companhia para os que têm insônia. em comparação a ele. isso não é contra as regras? — Ora. eu estou me sentindo melhor. Ela me olha fixamente. Ele dá uma fungada. — Ele franze as sobrancelhas. — Vamos apenas dizer que isso não é visto com bons olhos. Lá geralmente tem um pouco de risada e alguns petiscos supersalgados ou muito doces nada saudáveis. mas depois olha para o rosto cansado de Edward e não diz nada. ainda está aqui. Estou lhe dizendo. dividiam. Pela minha experiência. o cara parece tão derrubado que eu me sinto saudável. principalmente porque ele ainda está tentando ser alegre e razoavelmente profissional. — Quem? Edward vira a cadeira de rodas. até quando está claro que isso é um esforço enorme para a paciência humana. tipo barrete. Nunca se deve perguntar. fazendo o plantão das 7h às 15h. Só preciso de ajuda pra sair da cama. Ela parece transmitir as palavras supervisora e relatórios. Nós até que precisamos de um pouco de animação. tudo bem. — O que há jovem Richard? — Ele pergunta. mais uma enfermeira que eu não conheço. triplo. não acha? Dar a alguém algum espaço para seus últimos suspiros. que aqueles dois caras milenares dividem — bem. No posto de enfermagem. Tem um Irmão e dois assistentes. me ergue e põe nela. Eles geralmente levam o pessoal que está morrendo para quartos particulares. para ter privacidade com a família e evitar o trauma do colega de quarto. seus ombros estão caídos e seu uniforme está todo amarrotado e manchado com umas oito substâncias. só faz um . quando as coisas estão tranquilas. erguendo e medicando e sabe Deus o que mais. Sinto pena de incomodá-lo. claro. não — eu digo. por aqui. É o mínimo que podem fazer. escritas na testa. tipo. francamente. Depois suspira. esse tipo de barrete sempre representa problemas. Como deixariam de ter? — Ah. Passado. É o pobre Edward que foi pressionado pra fazer um turno. Mas não posso evitar. dentro do quarto? Quer dizer. está bem? Não consigo dormir. como um tolo absoluto. ele vem banhando. daí fiquei ocupado e deixei de ver o que estava acontecendo. Depois. algumas noites. preso no cabelo. Posso dar um tempinho com vocês? — Eles me deixam sentar no posto de enfermagem. eu vejo o interior do quarto 304. às vezes. Ela é do tipo que usa aquele chapeuzinho branco engomado. Ele pega minha cadeira. — Ah. — Um daqueles caras realmente morreu. Quer dizer. — Na verdade. com uma fita preta de veludo. Eu não deveria perguntar.

Como se nossos lábios nunca fossem combinar. já usando as mãos para fazer fogo e rodas. Como se eu fosse uma criatura corcunda tipo gorila e ela fosse a humana ereta. E se eu conseguisse encontrar. Porra. O quarto tem um cheirinho adocicado de garota. — Vou girando as rodas da minha cadeira pelo corredor. eu digo a mim mesmo. Como uma mancha ou algo assim. Fico olhando as fotos. embaixo do lençol. sabe? Ela estuda em colégio particular. é uma garota inteligente. — Não espere por mim. Eu sei. Mas ela era. Essa garota pré--ALECTO estava a um milhão de metros acima de mim na escala social. talvez. do corpo. A pequena luz noturna acima da sua cama está acesa — nunca está totalmente escuro aqui. quarto da Sylvie. não tenho chance. A caminha está vazia. Eu pego e leio: Gata. A porta está aberta e eu me inclino para ver dentro do quarto. como se eu precisasse ter certeza. se acho mesmo que meus lábios algum dia vão tocar os dela. com as mãos nas rodas. Entro mais um pouco. com alguém como eu. através de uma das janelas. Se bem que é mais porque tenho uma profunda sensação de que ela está totalmente fora do meu alcance. porque ela está doente. silencioso como um rato paraplégico. em parte. quieto e simples. em um vaso perto da cama. Ou saiu pra beber no bar. pronto para uma ré rápida. . mesmo naquela época. como um urso feroz em sua caverna protegendo o filhote. querendo sentir o cheiro de sua doçura. Vou até o buquê de rosas. houvesse algum tipo de sinal nela. em todas as fotos que a mãe dela colocou ali. olhando tudo. — Vou dar uma voltinha. do cabelo e da pele de Sylvie. Estaciono perto do pé da cama de Sylvie. eu sei: um bolo na virilha seria mais promissor. de que estou sonhando. Foco na curva do que imagino ser seu quadril e me dá um bolo na garganta. No mínimo. tem lábios de quem se prepara para a faculdade. a prova. Em parte. em sua outra vida. ela estava acima de mim na escala evolutiva inteira. Coloco o cartão de volta e decido simplesmente levar minha cadeira de rodas pra fora dali. Algo alertando que aos quinze anos ela acabaria aqui. Não era pra saber que o namorado dela se chamaria Chad? Quer dizer. como se talvez ela não fosse tão deslumbrante e perfeita. como sempre parece fazer quando a Sylvie está dormindo. porque ela é feroz. à procura dos olhos. Eu levo minha cadeira até o quadro de avisos e dou uma olhada. Primeira parada. Algo para mostrar que ela estava marcada. E também porque seu velho me fritaria. Tem um cartãozinho colocado no vaso.som de estalo na língua. simplesmente não são do mesmo formato que os meus. não vai rolar. está bem? Está assinado Chad. papito — digo ao Edward. Vejo a silhueta de Sylvie na cama. Melhore. sinto sua falta. nesse momento. É como se fôssemos de espécies distintas. encolhida de lado. Não tenho certeza se algum dia vai rolar com a Sylvie. poderia combinar com ela. Como se. Mas. Está tudo ali. sob a luz fraca do luar. então. Vejo uma meia-lua lá fora. fala sério. de boa família. Dá pra ver que esse grupo vai derrubar meu astral tomado pela onda de felicidade sexual. Eu me aproximo da porta. talvez eu saiba que seu pai desistiu de rondar e despencou na sua caminha. caso o homem esteja ali. cara. Tem um imenso buquê de rosas cor- de-rosa. Tenha um pouco de dignidade. Se eu conseguir enxergar lá dentro.

E a pele de sua barriga é macia como seda. Químio. — Cicatriz — ela sussurra. percorro a cicatriz. Descendo. puxa por entre as grades. Ele vai voltar. não conte com isso. Sai falhada. E dá uma risadinha. realmente faria. e faz com que passem por cima de uma linha em relevo que a corta ao meio. Eu sacudo a cabeça. Estou quase certo de que é tudo que ela está vestindo. Desço meu dedo só um pouquinho. acho que sim. Eu viro a cadeira e olho pra ela. eu faria isso. termina onde talvez os pelos comecem. e vira de barriga pra cima. ela começa no meio dos pequenos seios. Ela está usando um tipo de camiseta comprida e solta. subindo e descendo. — É a escada para o céu. Chego minha . Ou eu. no esterno. Minha mãe criou um cavalheiro. cara. bem. Continua encolhida de lado. — Bem. Paro ali. Tanto faz. se ela tivesse pelos. E sinto o coração dela disparado no seu peito. de tão doce e baixinha. Ela passa um dedo por entre as grades da cama. Solto a mão dela e com meu dedo. Ela está incrivelmente bonita neste momento. os dois corações. Ela guia nossas mãos um pouquinho. em seu rosto fino e branco. Parece um trilho de trem medonho. até a virilha. — Horrenda. enlaça os dedos aos meus. E. e depois coloca nossas mãos embaixo do lençol. eu consigo formar palavras. junto à sua barriga. Ou algo assim. subindo e descendo. — Meu pai foi embora? — É uma pergunta. não posso simplesmente meter a mão nas partes íntimas da menina. — É. Ela estende a mão e pega a minha. Tipo. Não consigo. posso? Sem nem um tipo de prelúdio? Simplesmente não posso. tão suave como se inalasse o ar pela boca. só que quero muito beijá-la primeiro. no dela. Sinto meu coração disparado no peito. Seus olhos são escuros como a noite e enormes. Que negócio legal: eles estão em sincronia. Ela ergue o quadril só um pouquinho e fecha os olhos. — Vai fundo. carpe diem. pelo menos. sabe. que não se mexeu. então. Rich-Man — diz. Percebo que ali está — o que a coloca em meu nível. Então. — Ei. mas. Finalmente. mostrando os dentes brancos. — É. eu imagino. Subindo. — A voz dela arrepia os pelos da minha nuca. desde o meio do peito. Ela sorri. Mas seus olhos estão abertos e brilham. me trazendo mais pra perto. Ela pega minha mão e segura junto a ela. Ele diz que dá longas caminhadas e volta fedendo a conhaque. — Ei — eu digo. minha voz aparece. — Não preciso fazer depilação — diz. eu me aproximo e coloco a mão em volta de uma das grades de aço. tentando pensar em algo galante pra dizer. — Já foi providenciado pelo Dr. nesse pequeno facho de luar que está entrando no quarto. Depois a pressiona para baixo e solta. suave e macia. Passo os nós dos meus dedos ásperos ali. Tem uma penugem de cabelo escuro nascendo em sua cabeça. — Horrenda — eu digo. Ela faz um pequeno som.

não acredito em fantasmas. mas meio que acho que um cara pode ficar por perto. ela meio que desliza e fica embaixo de mim. onde eu imaginei que ela estaria fingindo dormir como uma inocente. e está abrindo a boca para começar um megassermão. afinal. depois seguiu em frente. Digamos apenas que eu fui pego como um bebê. de um jeito ou . De onde Edward e eu ficamos espiando como coelhos assustados. colocado na cadeira de rodas e empurrado a uma velocidade impressionante pelo Edward. enquanto o pai da Sylvie vinha cambaleando pelo corredor. cara — ela diz —. É constrangedor demais. não sou totalmente preso à cadeira de rodas. Richard — diz. Ela é melhor do que eu nisso. — Nossa. até o quarto ao lado. Enquanto olhávamos o homem voltar. ela dá um gritinho. vocês dois. metade fora da minha cadeira e metade dentro. Mas é quase impossível. ela simplesmente continua e pega meu Bingo. enquanto eu abaixo o rosto e encontro sua boca. nós combinamos! Exceto por isso. Então. E. Seus dedinhos brincam pra cima e pra baixo. — Ei — eu cochicho para o Edward. o quarto com uma cama recentemente vaga. Eu levanto. dando mais uma volta no corredor. Nós ficamos cegos. murmurando e rugindo consigo mesmo. Ele espiou dentro do quarto de Sylvie. — O quê? — Eu digo. Acho que ela nota que minha mão não está mexendo e abre os olhos. nossas pernas. até onde deveria ter pelos. E é exatamente assim que estamos. Será que a cama estava gemendo? Talvez seja assombrada? Quer dizer. nós dois estamos rindo que nem malucos. Bem. no que os médicos chamam de incisão mediana. tenho que dizer. Você também tem uma — diz. Sem fazer muito. Dá pra ver que o Edward está prestes a me dar um sopapo. Caio por cima dela e. Eu tento puxar o lençol por cima da gente. a menos que você seja uma girafa. Andem logo. — O que foi? Edward está sussurrando alto: — Vamos. É muito estranho. — Sou uma babaca. quando Edward irrompe no quarto e acende a luz do teto. A mão dela é fresca e eu meio que fico paralisado.cadeira o mais perto possível da cama e tento me debruçar por cima da grade. Ela aperta o botão que abaixa a lateral da cama. mas não tenho. — Cale a boca e ouça. Ela me vê acima dela. sete vezes. O pai dela voltou. Fui aberto e fechado seis. quando ela passa a mão no meu peito. de repente. e ficamos deitados encostados no peito e na virilha. Desculpe. Dá uma fungada e ri. — Ah. — Ai meu Deus. Só tenho as pernas ligeiramente trêmulas. sem nenhuma timidez. quando ela vai descendo cada vez mais. joelhos e tornozelos batendo e nossos cotovelos no rosto um do outro. não muito. bastante trêmulas. levei um minuto para perceber que estávamos no 304. quando ouço algo: uma cantoria baixinha. Eu respiro fundo. Não vou me dignar a descrever minha saída do quarto.

Não mostrou piedade. garoto? Edward se senta na cama vazia e começa a rir. a cantoria volta. com os olhos parecendo dois rasgos vermelhos. Gosto é de pôquer. isso é o que acho que ele está fazendo. Bem. por algumas horas. em seu rosto todo roxo. Ele abaixa a mão quando me vê. Então. Taps — diz Edward. dum de dum. bem. um tipo murmúrio nasal. o velhinho. Pelo menos. E tenho que dizer que o homem chegou pra jogar. no Halloween. eu posso ouvir perfeitamente. depois de parar de respirar. Ele está fazendo uma saudação. Levo um minuto para perceber que ele não está segurando a cabeça. Dum de dum. todos entramos no jogo. poxa. o cara que gostava de futebol. Uma melodia. Ele está sentado ereto na cama. certo? Não como uma presença de outro mundo. certo? E esse cara provavelmente ainda está sentindo o cheiro da colônia pós-barba do grande “Ceifador Sinistro” — vulgo A Morte —. e eu imagino que ele pode querer um pouco de companhia. vestindo um terno que parecia usar há quatro semanas. Não sei exatamente como acabamos ali. uma continência. só repito: — Sim. Mas depois eu consigo ouvir mais claramente e dá pra notar que não está vindo da cama dele.de outro. Então. com um longo suspiro. Mas não sou soldado. O som mais triste da Terra. que ria e que eu ouvi. mas Edward disse que estava cansado demais pra ir pra casa. Edward e — Deus me ajude — o pai de Sylvie. — Sim. — Senhor? Está tudo bem por aqui? — Pergunto. eu tento me lembrar do velhinho que vivia ali. eu esperava que ele quisesse me dar uma surra. — Quer jogar buraco. Faz sentido. Mas. Está vindo de trás da cortina da outra cama. sentados em cadeiras plásticas. será buraco. Eu meio que também quero bater continência. o que dizer? Eu balanço a cabeça. E é assim que cinco caras começam a jogar cartas. — Isso é taps. apenas como o cara que ele era. Percebo que isso é inteiramente contra a etiqueta hospitalar. Somos em quatro. parecia o certo. completamente insuportável. Mas essa foi uma noite bem estranha. fedendo a birita e fumaça. Eu me aproximo com minha cadeira e puxo a cortina. E é tipo. não conquistei isso. o pai da Sylvie simplesmente apareceu. o cotovelo ossudo num ângulo estranho. Elkins disse que se não saísse do quarto da mãe ele iria perder a cabeça. Sobreviveu à Batalha de Bataan[1]. Quer dizer. ora essa. Agora. senhor — eu digo. Preciso dizer que buraco não é o jogo que eu gosto. Então. mesmo sem saber exatamente o que eu — quase — fiz . nem nada. recostado nos travesseiros. na minha fuga. no quarto 304. o coroa tem direito de escolher. e. com a mão direita sobre o olho direito. com dor. Não. Claro que é: O dia acabou. num tom grasnado. Eu. Ele se inclina à frente. senhor. e o filho da Sra. e está cantarolando taps. ao redor da mesinha da cama. O sol se foi. o filho da Sra. eu vou lhe contar. Elkins. Então. certo? Afinal. — O homem era um soldado — diz ele. o quarto é dele. — Meu pai do céu. Sou só um garoto. e o velhinho na cama.

Preciso me fortalecer pra ser capaz de fazer meu dever com a Sylvie — e talvez. Reflexos quadrados de luz batem nas paredes amarelas. mesmo quando ainda nem tinha batido. Ele levou todas as mãos. E o jogo prosseguiu até que a enfermeira de chapeuzinho branco e lábios fechados apertados aparecesse para dizer: — Cavalheiros. de volta pro meu quarto. já é dia 2 de novembro? Cara.. eu engulo grandes garfadas de ovo mexido viscoso. fora a que eu dei meu gritinho. Eu ergo os olhos. É a coisa mais irritante que alguém pode imaginar. Depois. tiro um longo cochilo. É de manhã. e estaríamos quites. juropordeus. E eu tenho coisas a fazer. em semanas. e. Acabou a Cabbage Night. Acabou o Halloween. Duas torradas.com sua garotinha. Certo. O que fazia. chega. Eu gritei “bati” só uma vez. Então. Justo é justo. só faltam dez dias pro meu aniversário. Mingau de aveia. lamentei por ter emitido qualquer som. Nada. e quando eles trazem a bandeja com o café da manhã. estou com fome. Mas o homem não teve nem a decência de deixar o velhinho ganhar uma mão. tipo. Pela primeira vez. incessantemente. rindo como uma hiena toda vez que gritava “bati”. Deu uma lavada em todos nós. outras mulheres desesperadas. Prego. Suco de laranja. Sigo em minha cadeira. é justo. Ele poderia me descer o cacete. Seus olhos perfuraram meu peito. Bebeu todas as latinhas de ginger-ale e também comeu todos os pacotinhos de biscoito. Você estão perturbando os outros pacientes.. quando gritei. . Acabou o dia de finados. surpreso em ver a luz do sol entrando pela janela.

mocinho. mesmo. como uma criança de três anos. E me lava inteiro — e eu quero dizer inteiro. Há borrões escuros na minha visão. Ela me seca todo. Engulo o que me dá vontade de dizer: Então. Jacobs. Ela tira minha camiseta e a calça de moletom com. e fecha a cortina ao meu redor. Jacobs. algum desses garotos veio parar na ala terminal? . Richard. na parede do banheiro. Mas. com as grades laterais erguidas. Mestre no controle. digo em voz alta: — Então. Uma auxiliar está trocando a cama e ela me coloca de volta em mais três movimentos. senhora. eu tenho que lhe dar o crédito por isso — não diz uma palavra. eu juro. É. Entendido? Eu balanço a cabeça. mesmo depois de estar aqui a noite toda e metade do dia. Não vou desmaiar. Tudo bem. a mulher é boa na mecânica do trabalho. eu fico tão tonto que preciso apertar o botão vermelho de emergência. Ela consegue dar o banho todo sem desapertar os lábios uma vez. Criei três garotos. Ela está toda limpa e engomada. Ela só coloca panos frescos no meu rosto e pescoço. Mal consigo manter a consciência. acho que então a senhora deve ser uma especialista. então. Ela dá uma olhada pra mim. Desmaiar não é uma opção. Um insulto ao mal-estar: a enfermeira que entra é a que usa o barrete branco. Pela primeira vez — talvez. saio da cama cambaleando e sento ali pelo que parece uma hora. Meninos adolescentes não me apavoram. todo encolhido e amuado no vaso e — justiça seja feita. sem que o Bingo dê um pio — com panos mornos e ensaboados. — Meu nome é Sra. Não posso desmaiar. pela primeira vez na vida — ela sorri. eu admito. e só líquido saindo da minha bunda. Fico ali golfando por quase vinte minutos. três movimentos. com lampejos de clarões ao redor. tipo. Como um tubarão. depois minhas vísceras dão um nó e eu tenho que ir depressa até o banheiro. Sem dizer uma palavra. Acordo me sentindo tão mal que quase não consigo chegar à bacia pra vomitar. quando estou na cama coberto. senhor. nada de nada. todos esses meninos ainda estão fazendo terapia? O que digo não é tão engraçado. Mas não é exatamente confortante. ela me mata de medo. Sra. com o suor minando da minha pele. Então. enquanto espero. E me ajuda a levantar e ir até a poltrona do meu quarto. mas acho que fará com que ela se sinta mal. Não vai incomodar ninguém nesse andar. Finalmente. digo a mim mesmo. — Sim. me diga. e gruda um adesivo antienjoo no meu pulso. ela fala: — Você não vai mais sair da cama hoje. Nada de sermão. Finalmente. nada de estalos na língua. com uma toalha áspera e me coloca um avental limpo.

Richard? Não. — Ligue pra vovó — eu digo. De algum jeito. digamos. Não suporto isso. Fico ouvindo e meu peito parece esmagado por pedras que alguém continua empilhando. — Não. E seus olhos ficam lacrimosos. enquanto o sermão prossegue. — Quero que a vovó venha. segurando nossos fones. Então. Richie. pra cuidar de você. Disseram que. E isso até seria um alívio. Até liguei para o diretor-geral do hospital. — Minha febre subiu outra vez — ela grita chorando. ela ouviu falar da fuga no Halloween e está. E você lhe deu ouvidos? Você foi lá fora com ele? Eu sei que é melhor ficar quieto. algum dia. senhor. Você sabe disso. E ela sai do quarto. com nuvens cinzentas imensas no céu. — Não posso acreditar que você saiu com ele. você não parece muito bem. Cada soluço. — Meu caçula morreu num acidente de carro. não diz nada. — E os exames deram positivo. — Mãe — eu fico dizendo. Não posso acreditar. Ah. disse que usaria uma máscara. — Não — diz ela. e está se engasgando e gritando. mãe. Aí. tudo ao mesmo tempo. Ficamos os dois quietos. — Está tudo bem. Um longo silêncio. claro. Está na hora. — Então — eu digo pra mim. — Aquele miserável sorrateiro do Phil — ela fica dizendo. olhando pela janela. até que não conseguimos chorar mais. Vamos. ela para de chorar. Então. Não posso ir ver você. Está com uma tosse forte. eu finalmente tenho uma ideia. ficamos os dois sentados. . eu também começo a chorar como um bebê. só soluça. quando minha mãe liga. vendo o que parece o dia mais sombrio de novembro já registrado. nesse momento. aborrecida. a segurança me acompanharia pra fora. você se sentiu mais merda que agora. ela começa a berrar. tão baixinho que eu tenho que me inclinar à frente para ouvi-la. Estou simplesmente ali sentado. cada um de um lado da linha. Ele tinha quatorze anos. Ele sempre trouxe problemas. mais uma rocha. Eles ainda não querem me deixar ir ao seu andar. bem ali. é uma gripe forte. Minha voz também falha. abaixando nos lençóis limpos —. juro. Ele é problema. se eu for. a coisa ainda piora. Então. me sentindo um merda total. Disse que usaria um macacão. mãe. É que a minha mãe e a mãe dela não concordam em quase nada. Não chore. Como está você? Então. Eu implorei aos seus médicos. *** E nesse estado de espírito. Seu rosto fica imóvel. depois. Richard. não consigo respirar e acho que posso morrer. eu digo: — Mãe. Pare de chorar. então. Ela tosse entre uma frase e outra. senhor — eu respondo. Mas não morro. Nem teve chance de chegar à ala terminal. Não suporto. Eu estou bem. chorando. eles não vão me deixar entrar. Você saiu. Faça isso.

as duas têm sempre razão em tudo. Se alguém passar. Porque esse negócio dela ficar sozinha e doente. Quer dizer. e basicamente estragou sua vida — era minha mãe. e ouvi uma voz dizer baixinho: — Ei. talvez desde quando a vovó. a vovó se sinta assim. chorando. mas não contava a ninguém quem era o pai. como que desistindo. Ambas estão constantemente injuriadas e dando golpes verbais. Vou pegar um táxi. por isso que ela está com raiva do Phil. Fico de costas pra porta. Não. me mata de medo escutar o tom da sua voz cedendo. tipo. sempre zangadas. Senão. logo ali. olhando o céu cinzento. eu acho que senti o perfume da Sylvie. Ele se debruça sobre a cama e diz: . e o bebê em sua barriga — que a fez abandonar o ensino médio e perder a festa de formatura. Durante meses. Ainda não. Estou falando sério. Não. isso será sinal do fim. pelo que ouço ultimamente. Vou andando. Vou fugir dessa porra e ir pra casa. uma vez na vida. Mas. mãe. alto o suficiente pra que ela ouça. de lado. quase todo dia. até bem antes disso. ouço um sussurro baixinho: — Está bem — diz ela. E é isso que eu digo a ela. Silêncio. Ou. vai achar que estou dormindo. Eu arranco os lençóis e começo a bater na grade da cama. — Estou falando sério. Está vendo. Estou saindo. Em parte. apesar de tudo que ela sabe. eu juro por Deus. Ela acha — e se induz a pensar — que estar no hospital me mantém em segurança. Selou os lábios. Ninguém pode me impedir. essa é outra coisa: ela morre de medo que eu saia do hospital e que os micróbios se amontoem em cima de mim e saiam me carregando. Pessoalmente. a vovó andou implorando pra vir nos ajudar. Tenho certeza de que ele virá me buscar. Ele me levou pra fora dessas paredes sagradas. Como se ela estivesse apavorada de que quando ligar para a mãe e deixar que ela venha. são malucas. quando minha mãe andava cochichando ao telefone. São três da tarde e o Edward chega. Rich-Man — mas nem isso me fez virar. Uma vez. — Tudo bem. Sabe de uma coisa? Talvez eu simplesmente ligue pro Phil. pessoalmente. — Mãe. tinha dezesseis anos e também engravidou. de verdade. E. ela vem implorando para estar aqui. são horríveis. *** Pelo resto do dia. uma garota durona de Jersey. faça isso. eu só quero que minha mãe não fique sozinha. O ALECTO ganhou. é difícil entender. Bandeira branca. mas. Mas minha mãe só diz não. Entrega dos pontos. Quero alguém pra cuidar dela. Eu entendo. eu mesmo. se eu realmente quiser ir. talvez. O milagre. Elas se falam ao telefone. vindo da porta. Talvez até que um hospital. ficar conosco durante tudo isso. porque ela também ainda não apareceu por conta própria. vou fugir daqui e cuidar dela. talvez.Desde que minha mãe tinha dezessete anos e engravidou. eu vou pra casa. mas. Finalmente. pra mim. Apesar de saber que é o melhor. eu fiquei deitado na cama. nesse momento. seja equivalente à cura.

cara. Tá te esperando acordar faz tempo. depois de tanto tempo. pode acreditar. Sento mais ereto e antes que eu possa pensar em como me livrar desse avental ridículo — esse tem desenhos de caubóis. Está disposto? Eu ergo os olhos. Está vestindo calças camufladas e um colete laranja. — Richard. foi um bom peteleco. jovem Richard. E passou por maus momentos. do nada. ora. Eu meio que só sacudo os ombros. sabe. cara? Ouvi dizer que você teve uma manhã difícil. Tem que começar devagar. — Ela é uma boa enfermeira. só sai pela porta. baixinho. Ele arruma os travesseiros atrás das minhas costas. Então. Prego. preto — como se tivesse sido mergulhado no piche e espetado pra cima — e usa nos olhos um delineador preto. Eu me viro e encaro seu rosto redondo. Eu me apoio nos cotovelos e sento. — Ainda está conosco. Ela tem cabelo preto. — Eu só queria comer. ora. Todos têm problemas. O Edward ri. como se você tivesse sido escolhido? Ele não espera resposta. ficar mais forte. — A Sra. Você tem visita. ele me dá um peteleco na cabeça. Você quer comer. Ele coloca a mão no meu ombro. sabia? O mundo é um lugar universalmente ferrado e triste. Ele assente. entendo. que bom. Você está virando um astro do rock. embaixo do lençol. — A enfermeira importante disse que eu não posso sair da cama. — Visita? Quem? Ele pisca e diz: — Uma garota interessante. suco de maçã ou mesmo refrigerante. Jacobs foi pra casa mais cedo — ele diz. tem um estoque interminável de refrigerante aqui. — Certo. sopa. Todas as latas da porra da geladeira. cara? Que só você quem sofre. Ou você acha que é só com você que as coisas ruins acontecem. E isso só me fez pôr as tripas pra fora. Ora. — Eu queria. sente-se que eu trago pra você. — Eu me esqueci. Pense. como se tivesse fugido da pediatria — e colocar uma camiseta. Com gelatina. Eu penso nisso. a caminho da floresta. É como se ela tivesse copiado o traje de uma revista de pesca e caça. Mas não seja um babaca por causa disso. ainda assim. e estivesse com seu rifle na . Então. Richard? Esse não é seu estilo. Depois enfia a cabeça de volta. Devagar. Richard — diz. mas. e você a lembrou disso. com um centímetro de largura. cara — eu digo. — Uma enfermeira muito boa mesmo. — O pai da Sylvie tomou o refrigerante todo. a garota interessante enfia a cabeça no quarto. Você não pode sair devorando tudo que vê. Como se só tivesse dado uma passada aqui. — Está de bico.

picape. medrosa e não muito . — O quê? Eu aponto o colete. ela sorri e caminha até a cama. então desisto de bancar o engraçadinho. — Foi demais. — Maria era só parte da minha fantasia. você sabe. num tom de realeza. Ela tem as unhas roídas até o toco. — Estava todo amassado. Ela faz uma reverência meio sem jeito. Desculpe. — Você foi ótima — eu digo. — Ouça. tipo. Então. eu quero pedir desculpas. Eu a observo por um minuto. e tivesse mijo de alce borrifado no pescoço. — Que cheiro bom — eu digo. sabe. — Deixa pra lá. — Está na temporada de veados. Eu o pego e tento disfarçar o fato de que estou prestes a chorar. Eu pouso a mão na dela. Vejo que ela não tem ideia do que estou dizendo e está prestes a recuar do quarto. limpo e cheiroso. há um rosto rechonchudo. — Sente-se. — Já pegou seu alce? Ela pisca os olhos pintados de preto. O rosto dela se acende. E está cheiroso mesmo. sabe? Como se eu pudesse ser bem mais corajosa. só em vê-lo. mas. Maria era. Sacode a sacola e deixa cair meu cobertor de noite estrelada. e daí? Tento fazer uma gracinha. majestade.. Ei. jovem e tímido. apontando a poltrona ao lado da minha cama. — Eu tive que procurá-lo por um bom tempo. Maria.. bem. — Valeu. — Meu nome verdadeiro é Kelly — diz.. no bar — diz ela. — Sua capa. Por baixo daquele cabelo hostil e o delineador agressivo. tipo. meu alter ego. meio. ousada. lavadinha. — Maria! Você está tão diferente. entra aí. Ela pousa a mão na grade da cama. Eu giro e coloco novamente nos ombros. sabe? Na maior parte eu sou. Seguro junto ao nariz. quando ouvi que você estava doente. Ela se inclina à frente. depois estende os braços. Não faço a menor ideia de quem seja. Eu finalmente entendo. como Maria do que como eu. — Mesmo? Você não está. E olhos azuis redondos. mesmo assim. zangado? Nem nada? — Nem nada.. Pensei. como se fosse uma capa. Eu aceno. Lavei-o e até usei amaciante. Ela fica na porta. não importa. segurando uma sacola. Começou ontem. Eu meio que pirei. E você está vestindo.

tem uma megavisão de seus seios. Sabe. com decote V aberto na frente. sobre questões de identidade humana e tudo mais — mas. soltinhos. Algumas pessoas conheciam seu tio e algumas também conheciam sua mãe. vejo que ela está prendendo o lábio inferior entre os dentes. — Está vendo? Também tive que descobrir seu verdadeiro nome. E certamente também me lembro daqueles lábios. e comprado. quando o Edward entra. sentados. Eu gostaria de dizer que estou prestando atenção a essas perguntas profundamente perspicazes. ela nem está de camiseta por baixo. Tento desviar os olhos pra cima. Mas. não foi? Quase não estou resistindo ao ímpeto de agarrá-la e puxá-la pra cama. Kelly-Maria. e sinto que estou armando uma megabarraca por baixo do lençol. prazer em conhecer você. Espero que ele tenha percebido que eu sei o que ele fez e o quanto fico grato. — Ele está segurando duas latas de Coca-Cola. como você já estava doente há muito tempo. E mesmo com a lembrança nebulosa. . a gentileza humana simplesmente te deixa estarrecido. e meio aberto de todos os lados. — É — eu digo. e de todos os ângulos. na verdade. cara — digo. — Achei que vocês talvez quisessem algo pra beber. Quer dizer. focar no rosto da garota. segundo diz meu irmão. Poucas luzes. rindo e paquerando.inteligente. — E você também. do primeiro andar. para que Kelly-Maria e eu possamos ficar ali. e me contaram sua história. no típico gesto de não foi nada. e que você estava aqui e. bem. puxa a porta e quase a fecha ao sair. Não são as latinhas do hospital.. — Olá — diz. Sabe. em qualquer outro lugar do mundo. eu te achei. brilhantemente. estou olhando para seu colete. tomando nossas Cocas. quando faço. Ela dá uma risadinha. Ela se inclina ainda mais e os peitos ficam pressionados na grade da cama. Ele está com um sorriso imenso e assente para Kelly-Maria. Ele abana a mão. E eu sei que ele deve ter ido a uma das máquinas lá de baixo. Você entende como uma fantasia pode fazer uma diferença imensa. é só o colete laranja brilhoso. conversando. são Cocas de verdade. perto da emergência. Desembolsou três pratas por cada uma. Seios claros. Andei perguntando por aí. ali por baixo. eu certamente consigo me lembrar de deslizar entre esses peitos. Como outros adolescentes.. Richard Casey. — Valeu. às vezes. fartos e redondos. e meio que transbordam por cima. — Bem.

É totalmente elegante e parece aquela atriz dos filmes antigos. mas de um jeito ruim: o garoto que está sempre doente. E estão mergulhados em tubos de ensaios e terapias genéticas e todo tipo de coisas secretas. eu digo: — Ãrrã. Ela se anima. tentando não parecer tão idiota. Ela vai direto até Kelly-Maria e olha de cima a baixo. — É mesmo? Não? Olho pra ela e digo o que costumo dizer à minha mãe. Nem está segurando nada. no filme em que ela é uma princesa tentando ser normal. eu acho — que está. de tão determinada — e zangada. então. Eu confio totalmente nesses caras. não sei como chama. Talvez seja um pouquinho tarde pra nós. Ela estende a mão branca ossuda. esses caras estão em Harvard. está a menina magrinha. eu acho. Quer dizer. neste exato minuto. parada. quer dizer. toda de preto. Na minha cabeça. olhos castanhos que atende pelo nome de Sylvie. Da mesma forma que minha mãe acredita — acho que as pessoas acreditam no que querem acreditar. — Esses caras cientistas estão trabalhando nisso. Estão achando a cura. sabe? Está com um sorriso assustador no rosto e eu noto como seus dentes são parecidos com os de seu pai. sou eu mesmo. a porta se abre e ali. como um Fantasma Natalino Ainda Por Vir. com certeza. — É — diz ela. O Incrível Garoto Moribundo. Não alguns indivíduos insignificantes. Kelly-Maria é do primeiro ano do ensino médio da mesma escola que eu e ouviu falar de mim. . eu acho. no MIT. tem um monte de malucos da ciência. Tenho certeza de que alguém será curado. De top preto e uma calça. O bom da raça humana. com penugem na cabeça. Isso que conta. e daí. porque sou do último — quer dizer. e de pés descalços. eu digo. Olha. neste exato momento. e dia de novo. veja só. seria. esses caras pesquisadores superinteligentes. Ela não diz. Sinto-me melhor por ter feito com que ela se sentisse melhor. dirigindo a cena toda. nós estamos esperando uma descoberta a qualquer dia. dia e noite. Mas ela está engolindo. Certo. — Oi — diz ela. Eles estão em cima. sorrindo. No fim das contas. E está bem firme. Audrey Hepburn. tipo. digamos em mais alguns anos. parada ali. legging. E eu sou meio famoso mesmo. mas. E me sinto um babaca. O negócio está indo bem. meio como se ela fosse um monte de cocô de cachorro no tapete. Agora. Só que Sylvie está totalmente no controle. trabalhando que nem doidos. — Que nada. Kelly-Maria está concordando. dá pra ver. ãrrã. em Columbia e essa porra toda. Então. toda metida e irritada. porque seus olhos azuis se entristecem. não — eu digo. Sem dúvida vão descobrir a cura. Eu rio. Richard? Sylvie entra no quarto — entra. claro. se eu estivesse frequentando a escola. pode crer. Ela está só. — Na verdade. quando ela está pra baixo.

então vou mais adiante.. meiga e generosa. eu realmente não posso revelar. uma menina gorda do primeiro ano. — Você estava com essa garota.. com meu traje noturno de caubói. Richard. certo? Quer dizer. — Ela estava vestida de Maria Antonieta. Porque ela é uma garota legal.. — Em algum momento. eu passo pela experiência da glória do depois. — Já estou indo — ela sai do quarto e bate a porta. — Eu. se esforçando demais pra parecer legal. Os dedos dela começam a me acariciar lá embaixo. com a mão dela em mim. primeiro olhando fulminante para a porta. e os dentes de Sylvie mordem o lóbulo da minha orelha.. Como foi que você perdeu seu precioso cobertor. — Então. na noite de Halloween. A mão mexe mais depressa. — Oi — diz ela. Realmente deveria. cafona e patética? Eu deveria defender Kelly-Maria. essa tarde. feliz. Certo? — É. Kelly-Maria meio que murcha. Subitamente. só vim devolver o cobertor do Richard. — Sabe de uma coisa? Tem algo muito atraente num homem sexualmente experiente. A Sylvie . com as mãos nos quadris. E sussurra em meu ouvido. Ela levanta e segura a mão de Sylvie.. Tenho certeza de que a fantasia era um arraso absoluto. depois.. há algumas possibilidades. realmente não tenho. — Namorada do Richard. Richard? Importa-se de me explicar? — Não tenho certeza. E. Com peitões. Pela primeira vez na minha vida. Ela joga uma perna por cima dos meus quadris e passa uma das mãos em minha barriga... E acontece que minha mãe e os meninos foram pra casa cedo. com uma roupa estranha. ela acelera mais os movimentos da mão e eu vou ao céu. como quando Kelly-Maria estava me tocando ou quando.. Tenho de admitir que isso soa legal. por um milésimo de segundo. também. gorda. tocando com os lábios em minha orelha. E o meu pai só vem mais tarde. na noite de Halloween? Essa aspirante à gótica burra. Iupiii. — Eu sou Sylvie — diz ela. Então. Sylvie aperta o botão para descer as grades da minha cama e sobe na cama comigo. ela é só a Kelly. — Carregando a cabeça. ou algo parecido. Ela gesticula para minha capa estrelada.. finos. Então. Sylvie está de pé. Uma fantasia muito criativa. — Ãrrã. Acho que eu poderia morrer bem ali. Mas estou murchando sob o calor dos olhos de Sylvie. nesse momento. É muito estimulante. um dos gêmeos está doente. Acho que eu talvez vá direto pro céu. Foi só uma garota que conheci num bar. chegam à minha virilha e sua língua contorna minha orelha. Aqueles dedos frescos. é? E dando a cabeça. eu imagino. — Papo furado — diz ela. pra mim. Carregando sua cabeça. acho mais prudente não mencionar essas possibilidades. — Eu não estava com ela.. bem ali.. é.

acordando. mas não consigo. — Foi o que achei. Tenho que confessar que estou tão cansado que é difícil até me mexer. Quero desviar o olhar. Não estou com medo. de repente. e faz com que eu dê um solavanco. colocando as mãos embaixo da cabeça. você tem que falar sério. sério será. Dá pra ver o crânio por baixo da pele. o maxilar. Ela dá um longo suspiro. Mas sua respiração está ofegante. Isso não é aceitável. Sinto cada vez que ela respira. suas costelinhas sob os meus dedos. claro. Você está com medo. mergulhando no sono. Ela sorri. Ela chega um pouquinho pra trás e vira de barriga pra cima. Estou definitivamente com medo. Por um tempo. Mais provável que ela seja a febre. vamos. a cavidade de suas têmporas. ela vira. nesse momento. Noto que seus cílios e sobrancelhas estão começando a voltar. e chegando à frente de seu corpo. no travesseiro. A bunda dela está junto a mim. Porque não vai acontecer. — Certo. Tento dar uma risada na última palavra. — Do seu pai? Porra. Também sinto todos os ossos em suas costas. absorver totalmente. — Você está com medo. junto ao meu peito. eu não estou. com a voz rouca.está toda encolhida e eu estou esfregando suas costas. — Olhe pra mim — diz ela. depois adormece profundamente. Mas estou apagando. Estou morto de medo. Richard? — Ela pergunta. Mas. Ela deita de lado. Talvez ela esteja com febre. então. pra que seja uma doce lembrança eterna. — Sim. Ela fecha os olhos e sua voz fica sonolenta. De olhos fechados. — É verdade. Toda a sua impetuosidade desaparece e só resta o rostinho mais frágil que já se viu. pois isso é algo que preciso assimilar. mas continua falando. Pouso minha cabeça acima da dela e sinto que estou me deixando ir. Eu vou melhorar. Sylvie. entende? Tipo. Ela segura meu rosto com as duas mãos. uma penugem preta. como duas pedras de carvão. azul . Sinto meus olhos lacrimejando. Se ela quer que eu fale sério. Richard? Eu olho nos olhos dela. Sinto meus olhos se afastando dela. Só porque eu não vou permitir. eu quero tanto estar aqui. porque ela está muito quieta. inflando e murchando. Seguro seus seios em minhas mãos. Eu fiz uma pergunta real e quero uma resposta real. Estou indo e vindo. sabendo que estou com minhas mãos nos seios de uma garota. Sylvie. ainda não. — Não? É mesmo? Ora. ficamos olho no olho. E acho que a Sylvie também. Ela concorda e solta o meu rosto. Seus olhos estão realmente brilhantes. eu só fico ali. — Não por algum milagre científico. — E não seja um babaca. Eles estão quentes. Eu falei. pra mostrar que é uma piada ruim. — Bem. Richard. passando a mão por baixo da blusa. olhando seu rosto. toda vida de Sylvie some. sobe um pouco. Eu me apoio num dos cotovelos e olho pra ela.

Só pra ficar registrado. Eu sento. rebolando os quadris. Nós teríamos nos safado totalmente. Então. E ela parece não dar a mínima. totalmente cego e confuso.. Nós gostamos de nos unir em prece. Tento fazer uma caverna pra ela. Ela não tem força. vermelha e brilhosa. ela arruma a blusa no lugar e depois. Richard e eu só estávamos celebrando a oração vespertina.profundo.. Sua pele está seca.. e puxo meu cobertor em volta dos ombros. O casal que ora junto fica junto. — Richard. como se. Ela sai do quarto como uma pequena rainha. muito devagar. toda noite. — Quem lhe pediu? Quem lhe pediu para fazer vista grossa para alguma coisa? Quero você fora do meu quarto agora. Então. Lentamente. ainda úmido. cara? Esse é um direito básico do ser humano e você o viola. totalmente à mostra. Puxo-a pra perto e adormeço. não posso fazer vista grossa para. Realmente nos unimos. ela vira as pernas para a lateral da cama. retumbante. toda vez que entra aqui e nem bate. Não. *** Em algum momento. . eu aponto meu dedo ao seu rosto gordo. — Richard — ele diz. Estou gritando e ficando sem fôlego. arrumo meu pijama de caubói. Dizer que o bom Irmão ficou mudo é como dizer que o Grand Canyon é um buraco no solo. fina como papel. embaixo do lençol e provavelmente ficaria imperceptível. você deve saber que a discrição não é um dos pontos fortes de Sylvie. a garota senta ereta. — O que tem pra mim de tão importante pra me acordar no meio da noite? Seu cabelo ruivo está oleoso e sua camisa preta tem mostarda — ou algo amarelo — respingado na frente. O queixo do homem realmente caiu e ele sentou pesadamente na poltrona ao lado da cama. eu acho. mas continuo gritando. com sua voz mais sincera de Irmão — Tenho algo pra você. deixando os seios nus apontarem para o céu. a essa altura.. Mas. sob a luz intensa. a luz do quarto é acesa e me acorda num tranco. por baixo do lençol. Eu tenho direitos. Sylvie é o que minha avó chama de danada. joga o lençol pro lado e estica os braços acima da cabeça. eu gostaria de mencionar que Sylvie é tão miúda que ela poderia ter simplesmente permanecido imóvel e silenciosa. Ele sacode a cabeça. É simplesmente pequena demais. — O que aconteceu com a privacidade. Olho. quem sabe quanto tempo depois. bem devagar. Ela realmente poderia. eu pudesse mantê-la totalmente protegida. cara. Não tenho que ser submetido a essa. Ela sorri para o Irmão e diz: — Boa-noite. mesmo. e começa a pregar essa porcaria. Entre eles há uma cicatriz que mais parece um trilho de trem. Eu me inclino à frente e aperto o botão de chamado em minha cama. Passo meus braços ao seu redor e a envolvo com minhas pernas. de alguma forma. E o Imão entra.

— Não sei por que aquele cara me deixa tão zangado. garoto. Da última vez. — Certo. não é? — Cuspe voa em minha direção. — Está aborrecendo meu paciente. são sete e meia da noite. — Eu só vim entregar isso — diz ele. nesse lugar. Realmente estou. quem estava nua aqui? O que ela estava fazendo aqui? Fecho os olhos e digo. Eu balanço a cabeça. — Deixe-me entender isso direito. — Richard. Ele tipo. Ele vira. Faça-o sair. filho. O Irmão Bertrand se levanta. Seu rosto está roxo. diga que não é algo que fará com que eu seja despedida. meu Deus. pode ir falando.. depois suspira. com seus pequenos truques. sentindo meu pulso. Até faz algum estranho sentido. — É. Você estava com uma garota nua aqui? Agora. bem isso não é importante. Eu penso: como tudo isso pode ter acontecido. Portanto. — Richard. Você precisa relaxar. Richard. mas ele deixa. — Ele entra aqui sem bater e me força a ouvir sua baboseira. e ainda me faltam três horas e meia para ir embora. no meio da noite e. Ela espera até que meus batimentos cardíacos desacelerem. Só isso. cuspindo na direção de Jeannette. é verdade. agora você quer me contar o que está se passando aqui? E. — Ah! — digo.. — Achei que fosse muito mais tarde. eu me pergunto. Recoste. Jeannette coloca as mãos no rosto e esfrega com força. depois aponta um envelope grande que ele deixou cair no chão. só isso. O homem meio que murcha. algum dia. — Deus. ou algo assim? Como se eu tivesse entrado numa velocidade acelerada? Inteiramente possível. por favor. quis socar um garoto doente. — Você não estava bem sozinho. Ele vira e sai. Eu sei porque estou em meu turno há apenas quatro horas e meia. esse alguém é ele. você vai ter um ataque do coração. Estou terrivelmente tonto. acalme-se. Eu repito. com dignidade. — Ela estava nua! — diz ele. Quem poderia ser a pequena Lady Godiva? Ela se aproxima e ergue minha mão. você chegou bem perto. sua bunda está tão contraída que até a calça está repuxada. Quero que me deixem em paz. — Estou cansada. em apenas algumas horas? Kelly-Maria e Sylvie e tudo mais? Como se toda minha vida tivesse mudado num flash? Como se o tempo estivesse sendo comprimido. — É ele — eu grito. . — Um pacote do tio do garoto. o que foi? — Jeannette está na porta. agora. Ela senta na poltrona. Respire. Eu recosto e respiro um pouco. o tempo alterando seu fluxo. Agora. — Ela estava nua? — Pergunta. E esse é o agradecimento que recebo. — Na cama desse menino! Jeannette entra e coloca a mão no peito do Irmão. invade. Ele está tremendo e se alguém. — Apenas vá embora — diz ela.

Aquele homem é um demônio. só isso. da filha. Esse é um problema. Abro meus olhos e seu rosto moreno está suave. Já vi muita coisa. E talvez você queira um pouco de gelatina.. como se você fosse um coelho. Vermelha ou verde? . Sacudo a cabeça. — Ela estala a língua. Acho que sim. Nunca vi um homem sofrendo tanto. — Jeannette. toda veloz. Nossa. Apesar de — ela meio que murmura consigo mesma — qual estrago você pode fazer. trilhões de anos atrás.. Elkins? Sylvie? Eu? Ela pousa a mão em meu peito.. Não mais. — Não perca seu tempo. mas imagino que não chegue aos ouvidos de Deus. em seu estado. Se você por acaso estiver de sacanagem com aquela menina Sylvie. — Não. E colocá-lo no ensopado. Minha mãe criou um cavalheiro. sabe. como algumas pessoas conseguem. sabe por quem eu estaria inclinada a rezar? — Pergunta ela. hein? Por quem ela rezaria naquela noite. eu acho que você precisa de um avental limpo e certamente não vou especular o motivo. Sr. Ela se debruça por cima de mim e ajeita os lençóis. Mas deixe-me lhe dizer uma coisa. Sem ter qualquer escolha. bem. — Quais são as probabilidades? Ela suspira. Aquele homem está no inferno. Ele não é encarregado do lugar. sem opção. por favor. está bem? Por favor. meu bem. só foi jogado lá.. O pai de Sylvie. Como eu saberia por quem rezar por aqui? Eu concordo. — Ah. por exemplo? Pelo cara que escapou de Bataan. agora. — Certo. — Ela acredita inteiramente. por favor. Príncipe Dentre os Homens. Ela começa a rir e levanta. Ele os protegia. olhe onde eu trabalho. Pense nisso. — Ela vira. Acha possível? Seus lábios ficam imóveis e ela balança a cabeça. você reza? — Rezar? Essa é uma boa pergunta. — Não posso revelar isso. você alguma vez. sabe? E agora. — Probabilidades? Não sigo probabilidades. — Sylvie disse que vai melhorar — eu digo bem baixinho. Eu não sei. — Quem? — Pelo pai de Sylvie. em postura de enfermeira. Olho pra ela. Bem. — Apenas não faça isso em meu plantão... isso sim. mocinho. mas que teve seu número sorteado hoje? Ou pelo seu companheiro de quarto? Pela mulher que está em coma? Ou pela Sra. Quer dizer. isso é uma surpresa. — Agora. o pai dela vai arrancar seu couro. Bem. O homem cuidava da família. O relatório de Edward diz que você quer comer um pouquinho. Esse é alguém que eu nunca achei digno de uma prece. — Agora que estou pensando nisso.

Mas ali estão eles. E tudo está meio distorcido. Os caras velhos. Sylvie. o teto. Eles são muito detalhados. tipo. com o menos assustador em cima. Depois tem um p. pois as linhas são bem finas. em preto e branco. então levo alguns minutos para espalhar todos eles em cima da minha cama. não sei. O primeiro está identificado como A mulher em coma. Aqueles . O sol está brilhando lá fora e eu estou me sentindo decente. 31 de outubro. E que trabalhou terrivelmente nisso. Perdoe-me por ter de abandoná-lo. Que engraçado. Logo voltarei para vê-lo. Na manhã seguinte. como se eu visse todas as coisas que não quero saber. Eu puxo as folhas grossas de papel. Todos têm identificações e datas: Sala de família. Como se ao entrar no modo artístico. Estou quase com medo de olhar a imagem de muito perto. todos de uma só vez. Mas fiquei acordado a noite toda. como se estivesse sendo puxado pra quem olha o desenho. a porta. eu estou com o coração na garganta. com o equipamento de sucção. Como se. a partir de um ponto central. prometo. do tipo acolchoado com plástico bolha. sua escrita aqui está perfeitamente esmerada e legível. 31 de outubro. Mas é. Mas depois percebo que devem ter sido feitos com pena. tudo aquilo. eu empilho na ordem que me parece seguir do menos ao mais assustador. Logo fica óbvio que é do tio Phil — a caligrafia é forte e garranchada. Não sei por que desenhos deveriam me assustar. 31 de outubro. que se pode comprar. pra que eu possa olhar alguns e deixar o restante. Como se tudo estivesse sendo sugado. Pego o pacote que o Irmão deixou. São desenhos. com um caldo e café. e o papel tem o cheiro dele. bem cedinho. e tomei meu pequeno café da manhã leve. em carvão. um dia muito movimentado pela frente. Mas são difíceis de encarar. Por algum motivo. centenas de detalhes em cada um. O mundo de Richie. o Tolo. as paredes. Preto e branco. como se eu realmente tivesse algo a fazer. A auxiliar que limpou meu quarto o deixou na mesinha de cabeceira. trabalhando nisso aqui. em cima da minha cama.: Confio que você encontrará as pistas secretas. É um envelope grande. só de dar uma olhada nos desenhos. em cima de tudo. eu já levantei tomei banho e me vesti. Dentro. em princípio. Phil fosse um cara diferente. Começa com Sua Majestade. meu amo. Philip. está claro que o cara tem o dom. com. a realidade desse lugar fosse excessiva. se eu quiser. fumaça de cigarro e cerveja. sem cores. e eu penso que fracote eu seria em não os estudar. 31 de outubro. Então. quarto 304. tipo. como se tudo no quarto irradiasse pra fora. tudo circular. como se tivessem sido arrancadas de um daqueles blocos grandes de arte. não apreciar o trabalho de Phil. todas meio rasgadas no alto. Eu me debruço em A mulher em coma e tento entender. Está tudo ali: as janelas. mas assustam. muito bem-desenhados. Eu precisei dar o fora logo. Quer dizer. tem um bilhete. São cinco ao todo. enfileirados. Ele assinou Seu fiel lacaio.s. 31 de outubro. Todos os ângulos são estranhos. Sabe. a mesinha da cama. eu acho. É como se.

bem pequenininhos. — O que são esses papéis? Fico meio orgulhoso dos desenhos. cheio de moscas amarradas. juntos. por um minuto. Agora. É a lua. debruçada no encosto da minha cadeira. tipo. pode ser qualquer dia. Espalhadas ao redor das poltronas há edições da Playboy e da Sports Illustrated. numa sala de recreação. Todas as bocas estão abertas. ou algo assim. Apenas caras comuns. Ela vem e fica em pé ao meu lado. Ela parece cansada. Esses caras são jovens. Rich-Man — diz. mas não consigo parar de olhar. Como se ela estivesse fora da cena. Sinto um tipo de formigamento na cabeça. Está com uma saia xadrez e legging preta. eu não peguei. Ela olha o desenho dos caras do quarto 304. blusa branca e uma sapatilha preta. como gárgulas. — Ãrrã. Estou pegando o da sala de família. cara. tagarelando. Depois de um tempo. Preciso me afastar da cama. Eu só mostrei esse lugar pra ele uma única vez e ele. Ela passa a mão na saia. Olho de novo. Se há uma pista secreta aqui. Olho os olhos masculinos da lua. sacou tudo. e ainda não consigo concluir. Esse não é tão ruim. entendo: tudo no desenho é a partir do ponto de visão dela. ou algo assim. na porta. e fotos escolares de garotos. mas eu não consigo entender o que estão dizendo. bom-dia. olhando pra dentro. além de estantes de livros cheias de troféus esportivos. Um deles está com um boné dos Yankee’s e o outro está usando um chapéu de pesca surrado. O que está de boné aponta a TV com seu cigarro. Totalmente garota pré-universitária. — Ela entra. eu vejo o que está do lado de fora da janela. E está dando um grande sorriso. quando a voz de Sylvie preenche o quarto. Eu sou a mulher em coma e isso é o que vejo. vejo o que não vi da primeira vez: eles não estão em camas. assistindo à TV.pequenos querubins da faixa do papel de parede estão esticados e estranhos. mais percebo. Cada um está com uma cerveja numa mão e um cigarro na outra. Volto a subir na cama e pego o que tem os velhos. Dentro dela há um rosto maior. Venha ver. Eu acompanho a direção para onde ele está apontando e vejo o que está passando: caras de shorts brancos e outros de shorts pretos. . na parede. Quando olho de volta para os velhos. assistindo à TV. — Desenhos que meu tio Phil fez. Eu continuo olhando. Balanço a cabeça e sorrio. quando entendo o que Phil fez: ele nos coloca no lugar dela. E as paredes também não são paredes de hospital. como aqueles das luminárias de abóbora. São incríveis. Esse é feliz: tem dois caras sentados na cama. Quanto mais eu olho. Então. porque eles mostram que alguém da minha família tem algum talento. Eles têm cabelo e bigodes grossos e não têm rugas. Não tenho certeza se é um sorriso feliz ou cruel. Tem papel de parede e fotos emolduradas. — Oi. como moscas. com dois dentes pontudos em cima e um embaixo. É terrivelmente doido. Estão em poltronas reclináveis. uma lua cheia. Você parece pronta pra escola. rindo. — Oi. todos vendo a bola de futebol entrando no gol. Eu viro e aceno pra ela. mas ainda está andando sozinha. Esses caras estão em casa. Há rostinhos espalhados pelo quarto. de tão tonto que estou.

mas é uma tinta meio invisível. pra todos eles. — Se você está dizendo. Mas a Sylvie está segurando a barriga. ele está de terno e gravata. Se você pensar. cara. é um jeito legal de mentir. sapatos pretos sociais lustrosos. eu peço que ela olhe a mulher em coma. os bebês gordinhos com asas brancas emplumadas — pairando acima dos ombros deles. até que ela diz. olhando a tela da TV. eu sei que ela ainda manda mensagens de texto para os amigos. na verdade. E tem uma borda florida em volta. Não deixa que venham visitá-la. as flores empoeiradas e tudo. — Está bem ali — diz ela. . mas passa mensagens engraçadas. — Epa — diz ela. Na verdade. Há muito se foi é correto. Nós dois ficamos olhando a sala da família. Diz Eternamente Jovem. Eu sento e sacudo os ombros. Isso me parece terno. os pés cruzados no tornozelo. Ela fica impaciente. Ela aponta a TV. certo? Mas eu não falo. ela aponta uma foto emoldurada na parede do quarto em que os caras estão sentados. se esbaldando no dedilhar. está vendo? Letrinhas maiúsculas: HÁ MUITO SE FOI. E. não acha? — É — eu digo. E ela também tem asas emplumadas. vamos. eu consigo ver que talvez tenha palavras ali. Ela sacode a cabeça. Que ela seja bem mais forte que eu. Mas. não sei quanto a isso. Quer dizer. É como na vida real. De repente. Ela não leva nem um segundo. Talvez ela também descubra a pista. Mas tem um casal de meia-idade sentado no sofá. O que os olhos não veem. Ela bate o dedinho no papel. — Nossa! Muito legal. Quer dizer. Richard. Ela está com um traje todo meticuloso. num canto. curvada sobre a harpa. é um pequeno dizer bordado. — E é tão terno. uma blusa florida e saia lisa. o único meio de ser eternamente jovem é morrer antes de envelhecer. o coração não sente. de tanto rir. Não consigo ver do que ela está rindo. o tempo todo. Incomoda um pouco o fato de que os olhos de Sylvie ainda estejam bem. você é cego? Olhe. ou algo assim. A única coisa estranha que eu vejo é um punhadinho dos anjos querubins — sabe. Vamos ver outra. Ela aponta o homem sorridente na lua. Em vez disso. certo? Eles só veem telinhas. — Olhe. — Ora. embaçada. Aquela mulher não está nem um pouco aqui. — Tem uma palavra em cada um de seus dentes. E o que ela quiser que eles saibam. a harpista. — Não é que é verdade. — Olhe o que diz ali. mas não consigo ler as letrinhas que ela está apontando. — Esse é psicodélico. Chego meu rosto quase grudado no papel.

está tipo. Ela acalenta o desenho. Com um bebê. Eu vejo a maior parte. o meu futuro. O dedo dela está tocando a calça do terno do homem. Claro. tudo aquilo numa moldura ao redor de uma cama. — Olhe a que eles estão assistindo. — E. Eu olho de novo: acho que vejo um bebê junto a um dos seios. Está vendo. Está bem? Então. ganhando um prêmio. por um minuto. mesmo assim. São todas aquelas fotos de Sylvie. A menina na cama está dormindo. — Certamente é — eu digo. quando bebê e como atleta. O mundo de Richie? Quer dizer. E eu também não quero ter esperança. adulta. mas. Quer dizer. por que meu coração está disparado. Ela é deslumbrante: cabelos pretos compridos e cacheados. como se fosse o bebê que terá.. — Você não está vendo? Sou eu. — Quer ver a próxima? — Eu me esqueço qual é e pego. por baixo da calça. no chão. a coisa toda. — Ei — eu digo e toco seu ombro. Ela segura o desenho junto ao peito. Richard? Eu cresço. enfrentar e lidar com isso. eu declamo a baboseira do milagre-da-ciência-mágica-dos-malucos-pesquisadores. pra ler o que está escrito. seios fartos. o que espero? Uma bola de cristal? Um vislumbre do futuro? Merda. a barraca armada. E a mão dela. É. que direito ele tem de imaginá-la nua? Ou. — E olhe o nome do filme: O Manual Hospitalar de Como Transar e se Curar. tipo. aqui. Ora. tudo bem. olhe. aos pés do casal. Sylvie esconde completamente o desenho. como se eu fosse a pessoa mais imbecil que ela já conheceu. quando vê que é ela: Sylvie. um dia. Ela está se tocando! Sylvie balança a cabeça. antes que ela pegue e segure junto ao peito. Eu consigo.. Passo alguns minutos zangado com o tio Phil. entrando por baixo da própria saia. ao sair do quarto. Mas depois. nua. eu quero saber. Richard. — Ele está de pau duro — está vendo? Dá pra ver perfeitamente. Até ela tem que pôr o nariz no papel. . Eu gostaria de poder ver. Quero saber. Pornografia! Ainda não consigo ver — é apenas um monte de linhas meio que entrelaçadas — mas eu rio. ouvir a Sylvie falando essas sacanagens é quase melhor. até pior. Olho seu rosto e lágrimas escorrem por ele. encolhida de lado. — Aqui diz: Linda Mulher. lhe dar falsa esperança? Ora. de verdade. quando pego o último desenho. um traseiro lindo e arredondado. eu detesto isso. Ela estende e segura pra mim. — Ele tem uma pista? Ela olha pra mim. Sylvie fica bem quieta. 31 de outubro. — Não brinca! Ela aponta a caixa do vídeo. quando preciso — mas eu não acredito nisso. Ela aponta o rodapé do papel. — Seu tio é demais. — Isso é a pista.

não viveria bagunçando a própria vida. É o que eu acho. Quando fico tonto demais. Câmbio. mas não para de dedilhar as cordas. Houston. Fico olhando por um bom tempo. naqueles programas de TV. ou alguém. quanto mais tempo eu fico olhando. Merda. . vendo o céu azul radiante. E além disso. visto de trás. Mas a capa é muito mais comprida. meio que revoando atrás de mim. Sou eu. Ela parece estar esperando por alguma coisa. Imagino que a minha mãe irá encontrar depois. há algo que parece um mapa: o Rio Hudson serpenteando pra longe. eu penso. talvez não. Mas ele não olha diretamente e também não diz nada. Até que essa situação é divertida e supermega-assusta-dora. e até o posto de enfermagem. Olho novamente pra mim: estou com minha roupa do Halloween. e é meio difícil não sermos vistos. afastando minhas mãos. Simplesmente não consigo suportar que ela fique ali sentada. uma boina preta na cabeça. seguindo a uma distância tão grande que nem consigo ver. Talvez ela vá odiar. desligo. Então. e uma jaqueta da mesma cor. Ele não é nenhum adivinhador. empurrando a minha cadeira até a recepção e o elevador. ela está de pé. É esse lugar. ainda vestida para a escola. a coroa na cabeça e a capa nos ombros. para que todos possam ver. Mas o que eu sinto? Não sei. Eu me debruço sobre o desenho e vejo que esse é muito mais simples que o restante. como se estivesse decolando. Ela sorri. sem nenhum lugar pra ir. Isso simplesmente não está certo. mais me sinto como se realmente estivesse voando. Só que agora ela acrescentou um chapéu. ver tudo aqui ficando cada vez menor. Quer dar o fora dessa espelunca? E antes de um piscar de olhos. as estrelas do tecido meio que se fundindo às estrelas que estão espalhadas pela página toda. porque ele está bem ali. com amor. preciso desviar o olhar e passo algum tempo só olhando pela janela. ele veria todos esses desastres chegando e evitaria. de seu irmão. como seu eu estivesse pairando. Ela está sentada na beirada da cama. Todo o restante que está à minha volta é minúsculo. acredite. Não tem ninguém com ela. Meio reconfortante e totalmente aterrorizante. certo? Ora. em minha cadeira de rodas. no centro da página. escrevendo nos prontuários. Depois rolo a cadeira até o pequeno armário ao lado da porta e guardo o envelope. no posto de enfermagem. como o Super-Homem fazia. É engraçado. Se fosse. embaixo da minha bolsa da academia. maliciosos e engraçados? Esses ficam pendurados em meu quadro de avisos. entro no quarto e digo: — E aí. toda arrumada. Encontro uma caneta e escrevo na frente: Para Sisco (também conhecida como mãe de Richie). sua mãe e irmãos devem estar tirando outro dia de folga. isso é diferente.eu conheço o Phil. Pego O mundo de Richie e coloco de volta no envelope. Estou grande. Phil. Na recepção. Linda Mulher. Estou com os dois braços estendidos à minha frente. a harpista olha. mas ela dá um tapa. puta merda. girando as rodas. Mas ainda dá pra ver o corredor e os quartos. Então. mas está bem abaixo. E os outros desenhos. e outras coisas que eu trouxe. As letras na minha capa são grandes o suficiente para que até eu consiga ler: Richard Casey: O Incrível Menino Voador. Sei que o Edward está nos vendo. Tento ajudá-la. vou até o quarto de Sylvie e olho lá dentro. nós decolamos.

— Olá. A resposta de Sylvie ecoa até o elevador. . porque é realmente chocante e totalmente nojenta. — Tenham um dia abençoado. crianças — diz ela. Não vou repetir aqui.

Criancinhas são mais diretas. A velhinha voluntária de avental rosa. porque Sylvie aponta de volta. para que todos olhem boquiabertos. sim. Eu me lembro de que uma vez nós tivemos uma foquinha. enquanto ela perambula olhando. a maioria das pessoas é naturalmente educada. estou. Sério. ou franzem o rosto. Tem alguma foca de pelúcia bonitinha? Minha irmã adora focas. Mas para a mulher no balcão ela assente ligeiramente a cabeça. Richard. — Sua irmã? — Ah. Claro. mas a minha está exposta. cada vaso de planta. o que nós poderíamos precisar? Eu pergunto à ela. ano passado. — Ora. Eu gostaria de algo para minha irmã. Você quer comprar cartões de desejo de melhoras? Sylvie balança a cabeça. Pega cada pacote de chiclete. A mulher sorri e afaga a mão de Sylvie. obrigada. Ela usa o polegar como gatilho e as crianças riem. querida? — diz. — Ela se casou com o filho de nosso pastor. quando passamos pelos corredores do primeiro andar. enquanto isso. — Ela se debruça no balcão e sorri como um anjo. — Está procurando algo especial? Sylvie me dá um sorriso com seus dentinhos afiados à mostra. Ali é onde os cidadãos comuns do mundo entram e saem. Minha irmã mais velha. para exames de sangue. e agora o Senhor os abençoou com uma filha. cada revista. Ela acabou de ter um bebê. ela empurra minha cadeira lá pra dentro e me estaciona num canto distante e eu fico ali sentado pelo que parece três ou quatro dias. — Posso ajudá-la. pegando e soltando cada objeto do lugar. A mulher estreita os olhos. juropordeus. atrás do balcão. Porém. sorri pra Sylvie — por um tempo. Elas apontam. Era branca. . laranja ou vermelha. vamos. — Que meiga você é. com a mão em formato de revólver e diz PÔU!. Isso é a coisa mais parecida que eu tenho com um shopping. Talvez esteja lá no fundo. A cabeça com penugem de Sylvie está coberta com seu chapeuzinho preto. E ela some por trás da cortina. ela também quer parar na loja de presentes do hospital. Depois ela começa a tamborilar os dedos no caixa. como se realmente estivessem seguindo a linha azul. de raios X. de olhos azuis. ou outros. Sim. Elas dão uma boa olhada. não para comprar. Tenho de admitir que surgem vários olhares engraçados. — Ah. depois desviam os olhos para o chão. senhora. rumo à recepção. Ela está cantarolando. Mas tudo bem. — Você é tão menino. cada bicho de pelúcia. Então. É ridículo. que indicam os lugares para onde devem ir. Estou aqui para fazer compras. para cada criança. cada um dos cartões. Deixe-me checar.

. pelo vidro sujo. Mas o vento. ela está mastigando. um pedacinho do rio. aquela voluntária some e Sylvie pega. no fim da colina. Ainda resta um pouquinho de verde no gramado da frente e algumas folhas marrons no carvalho ao lado. com os lábios junto ao seu pescoço. Mas quando entramos ali. mastigando. Claro. está uma merda. mas meus dentes estão todos meio soltos e ultimamente chiclete não é muito a minha. Não tem ninguém lá dentro — quem seria maluco o suficiente pra enfrentar ventos de tufão só por um cigarro? Mas. feita de tijolinhos pintados de branco e com persianas pretas. Até o fedor nos faz saber que estamos em outro lugar. é uma casa só para o começo. A tinta está descascando e a aparência geral é decadente. Eu meio que só chupo meu chiclete. Ela sobe no meu colo e eu passo o cobertor ao seu redor. não é tão ruim. que obviamente não poderíamos ver lá de dentro. pra ficar mais confortável. Fede a fumaça e guimbas molhadas empilhadas no cinzeiro metálico. é mesmo. Está pronto? Estou muito pronto. quer dizer. só de imaginar. do lado de fora da emergência. também. tipo. É só uma casa típica de Hudson. Ela aponta uma das casas do outro lado da rua. Ela pousa a cabeça em meu ombro e nós dois ficamos olhando lá pra fora. de tão forte que o vento está. Sylvie não consegue me empurrar mais de um metro de cada vez. Chegamos até um pequeno abrigo envidraçado para fumantes. Depois ela cospe seu grude numa planta plástica e diz: — Certo. Pelo menos podemos ver algo diferente dali. Mas tem uma varanda imensa na frente e as pessoas ainda não recolheram as cadeiras de verão. lá dentro. pegar um ar. Ela ri. Está bem? Quer dizer. — Feito. Ela se remexe em meu colo. Em quinze segundos. eu tiro o chiclete da boca e jogo num cinzeiro. Sylvie está tremendo inteira. Minha garganta fica meio apertada. Richard — diz ela —. três andares. Antes da gente se mudar para um lugar bem mais legal. lá embaixo. chega de enrolação. quando nos casarmos. grande parte da vista é só o estacionamento da emergência. fora da cidade. — Sim. e três casas do outro lado da rua e. Precisamos ir até lá fora. Tudo bem. E eu tenho que girar as rodas da cadeira. e eu aperto os braços em volta dela. Ela concorda com a cabeça. Quando ela não está olhando. Está frio e forte. esses são cheiros que você nunca sente no hospital. eu não diria a ela. — Vamos viver ali. e cheio de poeira. meio antiga. — Claro — eu digo. nós ficamos fora do vento e é suportável. se nos inclinarmos. por um tempo. O sol está brilhando e o céu está azul. Nós sentamos na sala de espera da emergência. pelos dez últimos metros. porque Sylvie está muito ofegante e suas pernas estão tremendo. Bem. que nós saímos. Seu quadril ossudo meio que me machuca. oito pacotes de chicletes e me empurra pra fora. — Lembre-se que eu só te levo aos melhores lugares — eu digo.

— Macho ignorante. E. Tem quatro mastros. Seu tom de voz passa a um sussurro sexy. Está bem? — Sim. tem uma parte um pouquinho afundada. num dia frio. balançamos. E os lençóis são muito macios. Está vendo? Então. senhora — eu digo. — Nós balançamos? — Eu me pressiono junto a ela e fecho os olhos. você vai acender o fogo. E tem toneladas de travesseiros — tudo do melhor —. agora com a voz meio rouca.. — Ah. lençóis de algodão de seiscentos fios. quando nós dois já estivermos em casa. pelo qual eu estava morrendo. colocar os pés pra cima e tomar nosso vinho. — Depois eu volto — diz ela. digamos apenas que as molas dali estão um pouco gastas de tanto balanço. — Claro que estou em cima. Depois. ela põe a mão ali no meio e abaixa minha calça de moletom. Ela afasta o quadril por um segundo. Na verdade. Deixe-me começar dizendo que nossa cama é bem grande. .. Ela está mais aquecida e a calcinha está escorregando para o lado. Lá está a chaminé. lá estamos nós. — Bem. Ir pra cama. como hoje. com uma daquelas coberturas de renda. — Então. Deixe- me falar. montada em mim. Richard.. passando de um mastro ao outro. Eu provoco você. bem. Ela dá um peteleco no meu peito. um pouquinho. — Então. Richard. me afastando. — Manterei o fogo aceso pelo tempo que você quiser. eu encontro o ponto quente e úmido. apertar minhas pernas em volta de você e. corremos pra debaixo das cobertas e nós dois ficamos no meio da nossa cama enorme e antiga. — Então — diz ela. Puxa a saia pra cima e põe um joelho de cada lado do meu quadril. e tenho que me segurar com muita força. junto ao seu traseiro. moço. e. um edredom fofo e. falando do nosso dia. Vocês. depois abaixa novamente em cima de mim. nós tiramos a roupa e isso nos faz tremer um pouquinho. — Ela se pressiona junto a mim... — Seiscentos o quê? E que diabos é edredom? Ela me dá outro peteleco. — Você está em cima? Ela quase ronrona. em nossa cama. Fale sobre isso. certo? Então. tipo king size. Eu que mando. E quando ela se acomoda. prontos pra ir pra cama. Às vezes.. — A sala de estar tem uma lareira.. então ela fica invisível ali embaixo. porque lá em cima está frio. — Ah. só pensam nisso. sim. com a cabeça colada em meu peito. segurando firme. só à noite. firme. Ela remexe o quadril um pouco mais e ri quando sente o Bingo levantando. claro. no meio do colchão. Passo o cobertor à nossa volta. Cale a boca. Ela vira em meu colo. Mas sobre a hora de ir pra cama. certo? Bem. e pudermos sentar no sofá. você balança com tanta força que eu acho que vou voar até a cobertura de renda. sabe? Onde ficamos nus. de volta dos nossos empregos. homens. do outro lado da calcinha. E você vai manter o fogo aceso até bem tarde quando estivermos sonolentos e aquecidos. É uma coberta. porque é onde nós sempre nos encontramos..

até acende pra ela. — Talvez. E Sylvie diz: — Jesus Cristófilo — e sai do meu colo. — Ah. — Está frio. vó. Ela afaga minha cabeça. Fumantes versus não fumante. Pega meu moletom e puxa pra cima. — Desculpe interromper. incompleto e insatisfatório. — Você deixou cair isso. não. Bem perto de estar dentro dela. ela sorri. como se eu tivesse três anos de idade. mesmo antes de ouvir a voz dizer: — Richie. Ela abaixa as mãos e arruma a calcinha. Com licença. Ela acena como a Rainha Elizabeth dispensando um criado desajeitado. é uma viciada barra pesada. Ao abrir os olhos. Richie. Ela dá uma longa tragada no cigarro e sorri pra Sylvie. Richard. Há círculos de luz em minhas pálpebras e cada músculo do meu corpo está retesado. Depois tira as mãos e ergue a cabeça. no instante em que ouvi. não fique tão triste. Totalmente normal. certo? Noventa e cinco por cento de frustração. pela abertura no cobertor. Elas estão se amotinando contra mim. O que você está fazendo aqui fora? Sylvie fica imóvel. totalmente. Essas garotas estão se entrosando e eu estou vendo que não sou ninguém. aqui? Quem é você? Mas eu já sei quem é: reconheci a voz e abri os olhos. por favor. — Sem problema — diz ela. Sylvie puxa a fumaça. Sylvie põe o chapeuzinho nas penugens da sua cabeça. Vejo seus olhos se fecharem e a garganta se mexer. benzinho — diz ela. Estou bem perto. . — Deus. depois a vovó se abaixa e pega a boina de Sylvie do chão do fumódromo. ainda estou pegando fogo. — Você não está vendo que nós gostaríamos de ter um pouquinho de privacidade. — Pode me dar um cigarro? Estou quase engasgado com esse “sem problema”. — E sua namorada está certa. Ninguém jamais morreu de frustração. Ela claramente não é uma fumante novata. num longo trago. meu querido — diz ela. — Eu coloco as mãos nas rodas. de cabelos ruivos e um cigarro pendurado nos lábios vermelhos. já que. Mas ninguém está me dando a menor atenção. isso é melhor que sexo. Eu reviro os olhos. Olho a mulher alta. — É tão bom vê-lo. Mas tem gente que talvez morra antes de transar. Sexo de adolescente é assim mesmo. Há um longo silêncio. Garotas contra garoto. A vovó pega o maço de Marlboro e dá um pra Sylvie. — Oi — diz ela. O ar dentro do vidro muda e eu noto que alguém entrou. Meu Deus. com um isqueiro de plástico verde. fraquinho ou não. Você vai sobreviver. caso eu já tivesse visto uma. A vovó dá uma fungada e se curva pra beijar minha cabeça. Vou entrar. depois recua. — Oi.

E ninguém se atreve a dizer uma palavra. Você certamente pode me dar um crachá. presumivelmente. lentamente. pra Sylvie. sãos e salvos. Levamos Sylvie até seu quarto e a vovó tem que ajudá-la a subir na cama. Quando passo as portas automáticas de vidro. aqui tem gente no oxigênio. sem dano algum. mas não é como antes. Eu sorrio agradavelmente para a Sra. E vira pra trás. moças — digo. Embora não pareça. Mas eu aprendi alguns truques e consigo me erguer da cadeira segurando na lateral da cama e usando a grade como degrau pra subir. recepcionista. Passo entre elas e saio no vento. enquanto reluto pelo caminho de volta até o prédio. como se fosse uma escultura feminina na proa de um navio. menina. Sylvie sobe. — Você. ao avistar a harpista e nos leva direto pelo andar. — Meu bom Deus. pula de trás da mesa e arranca o cigarro da boca de Sylvie. Tem permissão para estar nesse andar? Posso ver seu crachá de visitante? Eu começo a dizer: — Ei. e o som da roupa sendo tirada e o lençol sendo puxado. onde também não tenho certeza se consigo subir na cama. depois de um tempo. ela ainda está com o cigarro na boca e está baforando fumaça pelo caminho. aquela que comeu as jujubas no Halloween. — Sobe aí. querida — diz ela. pegando a guimba ainda acesa e joga no chão. ela está sentada nos meus joelhos ossudos. meu bem? Ela pisca pra mim. E volto ao meu quarto. Ela pega os manetes da cadeira e começa a empurrar. Como se fosse de madeira rija. essa é minha avó — mas a vovó já está com tudo em cima. — Vou nessa. como uma boneca de pano vestida com o uniforme escolar. Lee. A vovó dá um belo gritinho. virada pra frente. onde pisoteia até apagar. Lee. A vovó puxa as cortinas e eu ouço o cochicho com Sylvie. — Você parece exausta. Ela está segurando nos meus joelhos com as duas mãos e eu sinto seu tremor. . Você quer mandar todo mundo pelos ares? Essa é uma pergunta que receio que Sylvie talvez responda. A Sra. Lee. — Foi tolice nossa. Ela olha fixamente as pessoas. Os olhos da Sra. Estou tão sonolento que menos de três segundos depois de subir no lençol já apaguei. — Desculpe — eu digo. — Richard Casey é meu neto — diz. Certo. — Ei. me sentindo bem desnecessário. mas ela entrega um crachá laranja de visitante à vovó e lá vamos nós. a vovó está atrás de mim. — O que você está pensando? — Ela resfolega. Agora. Avós sempre têm permissão. senhora. Agora Sylvie parece caída. Até chegarmos ao andar dos pacientes terminais. Lee lançam punhais. Essas crianças de hoje! O que se vai fazer? Ela não retribui o sorriso. Estamos retornando ao quarto. Totalmente contra as regras do hospital. é uma adulta. conforme passamos. Só fico ali sentado. — E essa moça adorável é amiga dele. A gente se vê. Dá pra ouvir quando elas estão gargalhando. Olha fixamente para a vovó. tamborilando as unhas vermelhas na mesa da Sra.

***

Quando acordo, a vovó está sentada na poltrona ao lado da minha cama, com as mãos
sobre os olhos. Tiro um minuto pra olhar pra ela, quando ela não está olhando pra mim.
Imagino com que idade ela está: minha mãe tinha dezessete anos, quando eu nasci e a vovó
tinha dezesseis, quando minha mãe nasceu. E agora eu tenho dezessete. Faço essa continha
de cabeça: a vovó deve ter cinquenta! Mas ela ainda tem uma tonelada de cabelo vermelho
alaranjado e ainda é magra e ainda usa salto alto e calça preta apertada. Sua camisa brilhosa
é verde vivo e está com três botões abertos, e tem um bocado à mostra no decote sardento
e enrugado. Ela tem um monte de correntes com penduricalhos no pescoço, e mais outros
tantos em cada punho. Quinze anéis nos dedos ossudos. A vovó trabalha como
recepcionista numa boate de Scotch Plains, Nova Jersey, há uma eternidade, e ela se veste
do mesmo jeito para trabalhar ou quando não está na boate. Eu tenho que rir: a diferença
entre a minha mãe e a mãe dela é impressionante. Minha mãe tem cabelo louro reto,
batendo nos ombros. Nunca a vi de maquiagem, nem de saltos. Ela usa saias longas de
algodão pra trabalhar, com camisas bem--passadas de botão, e cardigãs. Uma vez, eu ouvi
uma de suas amigas dizendo como ela ficaria bonita se fizesse um pequeno esforço.
Também ouvi minha mãe lhe dizer para não encher a paciência dela. A vovó também
sempre diz pra que ela se enfeite.
— Você parece ter feito voto de castidade, querida — uma vez eu a ouvi dizer. — Como
se tivesse de malas prontas para o convento.
Então minha mãe só sorriu.
— Eu fiz — disse ela. — No dia em que o Richie nasceu eu fiz esse voto. Sou ocupada
demais pra essa bobagem. Portanto, me deixe em paz.
A vovó abaixa as mãos e eu vejo que sua maquiagem dos olhos está borrada e que ela
estava chorando. Quando me vê acordado, ela rapidamente pega uma porção de lenços de
papel do bolso e assoa o nariz. Ela passa o lenço embaixo dos olhos e ele sai preto. Levanta
e beija minha cabeça.
— Então, Riquinho? — Ela se debruça e abraça minha cabeça junto ao peito. Sinto o
cheiro de perfume e laquê, cigarro e um pouquinho de suor.
Riquinho. Ela sempre me chamou assim. É um personagem dos quadrinhos. Um garoto
muito rico. Ela sempre disse que eu teria milhões, algum dia, inteligente do jeito que eu sou.
Um dia, isso pareceu bonitinho. Agora, parece uma piada imbecil. Eu afasto a cabeça de seu
abraço.
— Ei. Como vai a mamãe?
Ela senta de novo e sacode a cabeça.
— Febril. Tossindo. Ranzinza. Louca pra vir aqui. Quase morta de preocupação com
você. Um pé no saco. Fora isso, ela está bem.
— Ah. — Percebo que, na verdade, não quero saber como está minha mãe. É triste
demais. — Então, — digo — quando você chegou?
— Ontem à noite. Já estava de malas prontas há semanas, esperando que ela ligasse.

Peguei o ônibus de Plainfield até a cidade, depois o trem pra cá. Cheguei aqui, peguei um
táxi direto até sua casa. Ela ficou só um pouquinho contente em me ver, eu acho. — Ela
sorri, mostrando os dentes tortos amarelados. — Mas ficou mais feliz porque eu viria vê-lo,
mocinho. Ela acha que você pode aprontar alguma, enquanto ela não está aqui. Se envolver
em problemas. Que bobagem, não?
Ela espeta a unha vermelha em minha perna. Eu sacudo os ombros.
— Phil foi pra casa? — pergunto.
— Não. Não faço a menor ideia de onde seu tio está, neste momento. Como sempre. —
Ela senta ereta e olha ao redor do quarto. — Então, o que você faz pra se divertir, por aqui?
Além de tentar pegar aquela menininha bonitinha, claro?
— Não tem muita coisa — digo. — É bem quieto por aqui.
— Sei. Eu ficaria doida. Bem, vamos ver o que está passando na TV?
Ela liga o aparelho e deixa na Oprah. Indicação perfeita pra que o Riquinho volte a
dormir — e é o que eu faço.

***
Quando acordo de novo, o céu do lado de fora da minha janela está escuro. E ainda está
ventando, dá pra ouvir o “uivo”, mesmo através do vidro e, de vez em quando, algo toca na
janela, folhas ou um saco plástico. Noite agitada. Eu sento. A TV agora está falando de
noivas e a vovó está dormindo profundamente, toda encolhida na poltrona. Preciso fazer
xixi e tento sair da cama sem acordá-la, mas ela senta na hora em que meu pé pisa no chão.
Ela geme, segurando as costas e tentando se esticar.
— Jesus — diz ela. — Estou velha demais para dormir desse jeito. Ei, garoto, precisa de
ajuda?
Detesto pensar que cheguei ao ponto de pedir que minha avó me ajude a fazer xixi.
— Não, obrigada — eu digo. E paro a caminho do banheiro, segurando no encosto da
poltrona, pra me equilibrar. — Por que não vai pra casa, vó? E vai ver como a mamãe está
indo? Estou preocupado com ela.
Ela balança a cabeça.
— Negativo. Tenho ordens. Ela me disse pra colar meu traseiro aqui e ficar vigiando
você como um falcão. Não deixá-lo sozinho nem cinco segundos. Ela disse que ia arrancar
meu couro viva, se você se envolvesse em mais problemas durante o meu “turno”. — Ela
levanta e põe as mãos nas costas, gemendo. — Desculpe, eu sei que você gosta de
privacidade, Richard. Realmente entendo e me solidarizo. Mas estou simplesmente
cumprindo ordens aqui, filho. Cumprindo ordens.
Eu bato continência, sarcástico.
— Sim, senhora. Pode me dar permissão para mijar, senhora?
Ela ri, depois começa com sua tosse de fumante.
— Permissão concedida — diz com a voz esganiçada. — Vai fundo.
Quando eu volto e sento na beirada da cama, ela está com cartas de baralho espalhadas

na mesinha da cama, arrumadas para jogar paciência. Ela vira as cartas tão depressa que eu
fico tonto de olhar. Suas mãos voam e ela dá pequenos gemidos quando surge a carta que
ela está esperando.
Fico ali sentado, quieto, por um tempo, depois digo o que ando pensando. É engraçado,
porque nem sei que estava pensando nisso, até que as palavras saem de minha boca.
— Ei, vó — eu digo. — Você acha que o meu pai talvez possa querer saber de mim?
Os olhos dela se erguem tão rápido, e tão arregalados, que tenho que me apressar em
continuar falando, pois subitamente sei o que dizer.
— Bem, talvez? Nem sei quem é o cara; você sabe, a mamãe não diz uma palavra a
respeito, mas eu imagino que você talvez saiba. Eu ia perguntar ao Phil, mas nós nos
envolvemos em outras coisas e eu nem sei se ele sabe. Mas sempre tive a impressão de que
você sabe e achei que...
Fico sem ar.
A vovó volta a virar as cartas, mas, agora, bem mais devagar, e eu quase consigo ouvir o
que ela está pensando. Ela mantém os olhos nas cartas. Colocou uma porção de cartas
vermelhas sobre pretas, quando finalmente diz:
— É estranho você dizer isso. Eu vinha pensando muito, na mesma coisa, Richard. Sua
mãe me mataria, eu sei disso. Mas eu... bem, eu tenho pensado.
Meu coração para em meu peito.
— Então, você sabe?
Ela coloca outra carta: um quatro preto, em cima de um cinco vermelho.
— Sei. Sempre soube.
Ela ergue os olhos pra mim e seus olhos borrados de preto estão, não sei dizer
exatamente, mas parecem repletos de tristeza e raiva.
— Sua mãe não sabe que eu sei. Ah, ela desconfia e, mais de uma vez, eu disse que ela
era maluca por não pedir a pensão alimentícia à qual você tem direito, por não tirar o couro
do cara e obter alguma ajuda, pelo amor de Cristo. Mas, ela, não. Ela lutou para cuidar de
você e dela, e juro que, às vezes, vocês dois quase passaram fome. Mas ela nunca perturbou
a vidinha aconchegante e feliz daquele homem.
Eu enlaço as mãos no colo, para que elas parem de tremer.
— Então, ele tem uma vida feliz?
Ela sacode os ombros e volta a tirar as cartas. Três vermelho, no quatro preto.
— Como eu vou saber? Quem sabe alguma coisa da vida de alguém?
Ela bate no ás de copas acima da fileira de cartas.
— Tudo bem. Admito que pesquisei a vida do cara na internet algumas vezes e nas
fotografias que encontrei ele parecia feliz. Mas quem não parece?
— Então, ele ainda vive por aqui?
Ela acrescenta o dois de copas ao ás e depois pega o três vermelho e põe sobre o quatro
preto também. O jogo está indo muito bem.
— Não. Não mora mais. Ele se mudou pra longe, no verão antes de você nascer.
Conveniente, não?

Dinheiro sempre ajuda. sua mãe só falava de poesia. Mas ajuda. Eu estendo a mão e pego a mão dela. E ela vai precisar de todo tipo de ajuda. — Ah. Quer dizer. Richard. Nunca. Certo. Todo dia tinha livros novos em sua mochila. gratuitamente. Poderia fazer isso? Ela pousa a bandeja. — Ela talvez fique injuriada por um tempo. nem em um bilhão de anos. Um homem casado. eu não sei. Acho que não é culpa dele. se não tinha espaço pra nós na vida dele. Isso meio que dá a sensação de uma flecha em meu peito. está bem? Eu tenho direito de dar minha opinião nisso tudo. ele é um figurão. ás de paus! Ela põe a carta em cima das outras. o que você acha? Acho que nem em um milhão de anos minha mãe teria contado ao cara. Lia poemas pra ela. algumas caem no chão. Professor de inglês. — Eu duvido muito. na verdade. pronto. uma merda dessas. não foi? E. Você pode fazer uma coisa. se achasse que ele não a queria. Mas eu estou lhe dando permissão. quieta. puta merda. tímida. Eu recosto nos travesseiros e penso. Ela bate a palma da mão na mesa. em cima da cama. trazendo a bandeja do jantar. “ela caminha na beleza da noite” e aquela baboseira toda. em breve. sim. meiga como um carneirinho. Penso com afinco. — Ele sabia? Que eu estava chegando? Por isso que ele foi embora? Ela sacode a cabeça. Dia e noite. o inverno inteiro.. Superintendente escolar. eu sento e digo: — Ouça. Ora. sei lá. mas minha cabeça está superlúcida e eu consigo pensar. lá em Westchester. certo? Isso deixaria a mamãe coberta. vó. — É. E não é culpa dele? Encantar a garota com poesias depois dar um pé da bunda dela? Meu Deus... Está certo? Quer dizer. eu te peguei. Ele certamente educou aquela criança. nem metade do que ela merece. Ela está tremendo. Ele não sabia. Quando a vovó volta. Dezesseis anos de idade. Cretino. sim. Ela ficaria muito zangada. E quero pensar que ela vai ficar bem. Ela vira e sai do quarto. Ela parecia flutuar nas nuvens. — Não é culpa dele? Conversa fiada. . Fico imaginando que minha mãe vai ficar muito sozinha. ops. Ela tinha dezesseis anos. não sinto nada. Richard. muito importante pra mim. E se for ele. a fazia sonhar. aquele homem era um professor e tanto. E ele era um dos professores da Hudson High School. Eu preciso pensar que ela vai ficar bem. nem ao bebê. encheu a barriga dela. Ah. isso é muito. É ruim dela não ganhar esse jogo. Pode arranjar um advogado e simplesmente perguntar: você pode achar esse cara e fazê-lo pagar? Um testezinho de DNA. pelo resto da vida. quando engravidou. Eu me lembro de como ela ficou.. dezoito anos retroativos de pensão alimentícia de um cara que tem um bom emprego é um bocado. — E agora. — Ela levanta e as cartas voam pra todo lado. Quer dizer. não é tudo. Uma garota tão calada como a sua mãe. — Arrá.

pousa o garfo. Bem. na verdade. algum tempo livre. e dá pra ver que tem algo no ar. Dá pra ver que isso está sendo difícil pra ela. — E eu não sei disso? Vamos apenas considerar isso um presente de aniversário adiantado. essa risada. Passamos alguns minutos em silêncio. não é? E não me perturbe mais. Richard. juntos. Senhor. — Claro. a ideia veio da Srta. ela olha pra mim e seus olhos estão brilhando. Não recuso comida grátis. que sai quase toda noite. Não que ela goste muito de mim agora. Sinto que minha voz está ficando oscilante e dá pra ver que ela também está prestes a começar a chorar. devagarzinho e aperta minha mão. segurá-lo lá fora. digamos. — Vou pensar a respeito. por um tempo. — O quê? Não faça essa cara — diz ela. aquela ali. enquanto eu dou alguns goles e ela mastiga. não sejam tão diferentes assim. Talvez. — Fechado — digo. no fim das contas. Então. distrair o pai dela. Richie. Mas não prometo nada. Ela é danada. — Bem. — O que eu acho é que tenho a melhor avó do mundo. — Ai. digamos. Sylvie achou que eu talvez pudesse. mas de formas inteiramente diferentes. sem chance. então. — Claro que a comida é uma droga. Vou pensar sozinha. Disse que eu poderia perguntar se posso acompanhar o homem. enquanto ela está dormindo. Ela disse que ele precisa de um drinque. — Apenas faça isso. andei pensando em algo muito mais divertido. — O que acha? Eu fecho os olhos. essa noite. me dá uma xícara de café e começa a comer as batatas. Não diga mais uma palavra sobre isso. Você quer saber? Eu sorrio. tá bem? Ela tira a tampa de inox da bandeja. Justiça seja feita às mulheres da minha família: elas são ambas muito duronas. Para que vocês dois possam ter. quando eu a colocava de volta na cama. Ela dá outra garfada. Tive um monte de ideias. Qual é a ideia de Sylvie? A vovó sorri como uma criança. — Deus. por mais tempo que o habitual. mas ela é uma senhora durona. Ela abana a mão descartando o assunto. Sylvie. — Valeu. mas é grátis. — E. Algo que ela veio dizendo. durante um tempinho. garotão. E um pouco de privacidade — ela pisca. Ela joga o cabelo pra trás e dá uma risada. . isso que eles chamam de comida? Ela pega um garfo e experimenta a carne.

Isso não vai muito bem. Empurro a cadeira. um sabonete. eu penso. que abandono. Então. o jantar já passou faz tempo. arduamente conseguido. eu consigo puxar a maçaneta e abrir parcialmente a porta. Provavelmente paquerando descaradamente. Ora. Isso é tão estranho e perturbador que eu volto a maquinar em como conseguir tomar um banho. encaixando-a na passagem da porta. Matéria do ensino médio que passei com um D. Isso não tem problema. Quer dizer. fazendo amizade. e vou andando devagar. Como se essa porta imbecil fosse a barreira que me impede de perder minha virgindade e de comprovar minha masculinidade. As mulheres gostam que seus parceiros — essa é a palavra que as professoras de saúde usam. quando um enfermeiro como Edward está no comando. Mas agora parece um truque bizarro de física. Portanto. e abro parcialmente a porta. carregando tudo nos braços. em termos de garanhão. até o banheiro. para uma avó. não consigo entrar com a cadeira. No entanto. depois. isso ser tão difícil. mas. certo? Não quero desagradar. de qualquer forma. Como se fosse um desafio lançado pelo rei da história. parceiros — sejam cheirosos. as pessoas estão acomodadas. uma camiseta e calça de moletom limpas. Eu sei que existe um meio fácil. Na porta. eu penso. eu imagino. higiene pessoal está sempre em alta com as mulheres. Vou recorrer à vovó e. Então. papeando com o pai da Sylvie. exclusivamente por conta do professor particular que tive no hospital em Nova York. tento puxar a cadeira atrás de mim. Certo. um homem tem que fazer o que tem que fazer. juntando toalha. Ela não é muito mais velha que ele e até que é bonitona — quer dizer. o corredor está em silêncio. é o que me ocorre. neste exato momento. tem de haver um jeito e eu não tenho a noite inteira. Empilho tudo no meu colo e sigo na cadeira. Eu sou a porcaria do herói. ela está no fim do corredor. deixando a porta fechar atrás de mim. a maioria dos visitantes já foi embora. Da cadeira. mas não vou alcançar a maçaneta da porta. encontro meu primeiro problema: a porta não é automática. decido fazer o seguinte: fico de pé. Eu a abomino até seu âmago de madeira. você tem que puxar pra abrir. Eu consigo fazer isso sozinho. algo impossível que o herói tem de fazer para que a bela donzela caia em seus braços. Se eu levantar e ficar atrás da cadeira. isso é mais fácil de decidir do que fazer. Tem de haver um meio. Que diabo. posso segurar nas manetes e empurrar. Está bem. na frente da cadeira. Pego minhas coisas na cadeira. Que maluquice. Tenho que dizer que agora eu absolutamente odeio essa porta. Eu meio que falo comigo mesmo. Ou seja. Ninguém toma banho à noite e qualquer enfermeiro a quem eu pedir ajuda vai ficar desconfiado por que estou tão a fim de ficar limpinho. Que dilema. em direção à porta. Edward não está de plantão e realmente não tem mais ninguém a quem eu possa pedir ajuda. Por sorte. Que se dane. um banho é de bom-tom. certo? Eu perambulo com a cadeira pelo quarto. Resolvo tomar um banho. calmamente: . segundo ouvi dizer. pelo corredor.

Parece que ele não é nenhum estranho às manobras de uma cadeira de rodas. um dos enfermeiros. É o Irmão Bertrand.. enquanto eu sento. — Precisa de ajuda. a independência é algo importante para os adolescentes. Quando você estiver na privacidade relativa do banheiro. Ora. Então. puxa a porta para abri-la. — Não. Será um prazer ajudar. é. Richard? — Diz a voz atrás de mim. cara. Ele pega a roupa limpa e a toalha no meu colo e coloca numa cadeira plástica. pegá-lo passou a ser uma meta inatingível. como se ele realmente sentisse o cheiro do vazamento. Tenho certeza de que você leu sobre isso em seus livros de aconselhamento. Se pudesse apenas abrir a porta e empurrar a cadeira pra dentro. Estamos dentro do banheiro. essas merdas acontecem. Não quero incomodá-los. Na cadeira. gira a cadeira.. Depois que estou sentado. Ele pousa os dedos gordos em meu cotovelo e me segura. — Certamente. cara. recostando no portal. Pega o sabonete.. — Tenho um encontro amoroso. abre a embalagem. — Eles estão muito ocupados. — Sente-se. Sei que vou. Richard. — Bem. obrigado — eu digo. Richard. seria ótimo. Seu rosto rosa fica mais rosado ainda. — Embora — ele está murmurando — eu não consiga entender por que você precisa tomar banho às oito da noite. Um pequeno. Preciso limpar. Eu abano a mão. Vou levar você e suas coisas até lá dentro. num sussurro — Tive um acidente. Irmão. — Não. Dá vontade de chorar. todo de ladrilhos brancos. No entanto. Ele recua e suas narinas se movem. Vamos dar uma folga aos enfermeiros. só isso. cara. Ele funga. Sabe. segura com o quadril e me puxa até o outro lado.. certo? Ele cerra os dentes e seu cabelo alaranjado parece eriçar. não importa se tiver que rastejar.. eu devo ajudá-lo a tirar essa roupa? . em sua pequena embalagem branca. Sério. que nada. Apenas jogue o sabonete no assento da cadeira. Abro os olhos e ele está segurando o sabonete. eu meio que fico encarando o sabonete. entra no boxe grande e abre a torneira do chuveiro. Eu suspiro. Se eu soltar o portal pra pegar o sabonete. Mas que herói. A mão do homem cutuca meu braço. Mas não é fácil. e entre. — Eu me inclino à frente e digo.. é uma porcaria de um sabonete. vazamento. cheirando a cloro. Fecho os olhos e descanso. vou escorregar e cair no chão. — Agora. Você entende. e o sabonetinho na embalagem de papel desliza pelo corredor. Dou meu sorriso mais doce. — Tudo bem.apenas puxe e abra a porta. Toda hora eu deixo cair alguma coisa e abaixar me deixa tonto. — Eu consigo. na verdade. ele empilha minha roupa e o sabonete em meu colo. Vai.

ao fazer isso. com sua roupa e um sabonete. Richie? — Diz Sylvie. — Eu começo a tirar minha calça de moletom. não está? O homem fica sem cor e todo suado. isso sim. — Eu não sei nada de nada. enquanto Jeannete a puxa pela porta. E acabo ficando bunda com bunda com a Jeannette. claro. pra não estragar a festa. — Ela estreita os olhos tanto pra Sylvie. está Sylvie. — Pela sua reputação. pelo que eu sei. E eu fico rindo tanto que. E naquela cadeira. adorável. Venha. muito nervoso e trêmulo. bro. ouvi um dos meus professores particulares dizer que é um momento “expressivo” — quando Sylvie e eu meio que desviamos um do outro. Não posso. — Por que vocês dois estão tão interessados em limpeza. Jeannette revira os olhos. para vestir minha roupa limpa. Ele diz: — Tenho que auxiliar outros pacientes. Eu ensaboo minhas partes íntimas. eu estou segurando nas manetes da cadeira de rodas e andando pra trás. você sabe. porque ela abre pra fora. tudo bem — eu digo. Só trabalho aqui. E quando estou me enxugando. simplesmente não posso suportar a ideia de ter os dedos de salsicha daquele homem na minha pele. empilhadas em seu colo. sem problemas. Ou. Vocês — eu aceno apontando o colarinho de padre — já estão com muitos problemas. claro. — Porque isso é o mais próximo da pureza. meninos. me dá uma rápida olhada de cima a baixo e diz: — Que curioso encontrá-lo aqui. dessa vez. se você precisar de ajuda. Jeannette bufa e balança a cabeça. . é melhor que não seja encontrado aqui. tenho uma onda de energia e consigo ficar de pé no chuveiro. — Quer saber de uma coisa. — Quer dizer. — A coisa mais lindinha do mundo? Sua avó e meu pai saíram juntos. a porta fecha atrás delas. de alguma forma. Como se fossem melhores amigos. — Nossa. Richard. se recupera antes de mim e sorri como o mais meigo dos anjos da terra. empurrando a porta com meu traseiro. fico muito. e. realmente seja o vapor do chuveiro. me apoiando na parede. Viro minha cadeira e sigo de volta ao meu quarto. E tiro minha camiseta. tenho que encarar aquela porra daquela porta de novo. pense nisso. talvez. Então. sem nos olharmos diretamente. você sabe. — Não. E sai pela porta. com. — Sim. Tem um botão de chamada. e tenho que sentar na cadeira. quanto pra mim. mas. o seu rosto está vermelho como um pimentão. Agora. garota. xampu e uma porção de coisas de garotas. Olho de esguelha e dou uma piscada. que está entrando com outra cadeira de rodas. Então. Richard. Então. aqui dentro. quando ela é escancarada tão rápido que eu quase caio pra trás. vai ser mais fácil. Tão bonitinho! Ouço Jeannette gemer. essa noite? E Sylvie. E acontece um daqueles momentos interessantes e sem jeito — uma vez. penso em Sylvie e tenho que me enxaguar bem depressa. está ficando quente. esfregando um sabonete num adolescente de dezessete anos. como uma princesinha.

. eu digo a mim mesmo. Consegui. assim que chegar. Estou pronto. Talvez isso a distraia. Fique calmo. não consigo conversar direito. — Oi. isso é maravilhoso. mãe. eu percebo que é a verdade absoluta e continuo tagarelando. Ela desceu pra pegar um refrigerante. — Com fome? Você está. ficando cada vez mais amedrontado. A voz dela parece ligeiramente incrédula. Isso soa tão imbecil que agora eu me sinto o ser humano mais idiota da Terra. meu bem — diz minha mãe. Finalmente.. Richard? Coloque-a no telefone? — É. eu vou pedir pra vovó te ligar. — Ei — eu digo. — Você está suportando bem a vovó? Eu engulo com força. Richard. fico ali sentado por. Está bem? — Claro. estou com cheiro de um bebê de dois anos. O mesmo de sempre. e deve estar prestes a desistir do negócio todo. — Tenho certeza que sim. Ela está. A voz dela está tão feliz que eu me sinto o pior ser humano da Terra. Posso falar com minha mãe. Então. vamos dar um gás no velho motor. tudo bem. ela não pode vê-lo. eu estou bem orgulhoso de mim. Antes que eu tenha que cair de joelhos e confessar tudo. — É mesmo? Você está comendo? Ah. como sempre acontece — sempre — quando minto pra minha mãe. Meu olho começa a tremer. Mas. Então. com fome? Ah. Comecei a ficar com um pouquinho de fome e. Então. — Você parece um pouquinho melhor. — Sei. Eu te amo. Nós vamos fazer vaca preta. o que vocês estão fazendo essa noite? Penso em tudo que eu poderia dizer a ela. Sentada. meu benzinho. meu bem. É bom que distraia. — Também te amo. — Nada. eu digo: — Olha. porque minha pálpebra está prestes a ficar permanentemente em espasmos. todo fresquinho. começando a chorar. Outro silêncio. Então. mãe. ela diz: — Certo. Resolvi voltar a comer um pouquinho. ora. uma eternidade. Jogando cartas. não há nada que eu possa dizer. por algum sentido telepático maternal. mesmo. perfumado de sabonete. sem saber quando devo ir ao quarto de Sylvie. tipo. Você está indo bem. na verdade. O que a vovó está fazendo? — O mesmo. Há um silêncio longo o suficiente para me fazer desconfiar que. ela pode ver meu olho tremendo. E eu fico pensando que a Sylvie está ligando.. Isso é ótimo. — É. a vovó tem sido ótima.Escovo os dentes na pia e faço um bocheco com o antisséptico bucal que tem ali. Richie. certo? Ou seja. tentando falar comigo e ficando injuriada por não conseguir. E um pouco de sorvete. o telefone toca e eu pego. nada. nada que uma mãe precise saber. Pra dizer a verdade. tipo. Estou limpo — aliás. assistindo à TV. Ela não está aqui. de tão contente. e sim. Então.

Estou receoso em pegar. Richard. — Ora. puxando pelo fio. e ela começa a rir também. — Aquela galinha da Hudson High ligou e fez uma oferta melhor? — Não. o telefone toca outra vez. de tão suada que está. Richard Casey. Eu vou pôr o fone no lugar e ele escorrega da minha mão. pra gente não pegar uma doença horrível? E isso me faz rir. É como se meus pés tivessem asas (sei que essa parte ficou meio tola. vamos. Ainda bem que os telefones de hospital não são sem fio. Isso não é nenhum concurso de histórias de vestiários. até eu. Ela sacode a cabeça. não. e todos os peixes do rio. quando estou latejando e morrendo pra mergulhar nela. *** Então. — Pétalas de rosas. E eu vou jurar por todas as estrelas do céu.. colando na pele das minhas coxas e braços. Estou dizendo já. no ar e na pele dela. — Nosso abrigo particular. e rindo é tudo mais fácil. Tirei daquele buquê que meu amigo mandou. Eu só. que esse foi o acontecimento mais legal da minha vida. Ela ri. e ela está pronta — toda aberta e macia — eu me preocupo. não tenho dificuldade em andar. uma risada endiabrada. — Já fui dispensada? — Diz Sylvie. acontece. Ela segura meu rosto com as duas mãos e olha em meus olhos. E eu vou lhe dizer agora mesmo — não darei detalhes. — Apenas venha pra cá agora. e eu preciso pescá-lo. Quando ela enlaça . Antes do meu aniversário de dezoito anos. me torno um homem. Só que no último minuto. no chão. E cai da cama. Assim que eu entro no quarto. Isso é uma história de amor. exceto pela lua imensa do lado de fora de sua janela e — isso eu não sei como ela conseguiu — duas pequenas velas na mesinha de cabeceira. para deixá-la travada e ninguém nos pegar de surpresa — não sem ao menos fazer um megabarulho. mas aguente). ou eu estaria rastejando embaixo da minha cama. E. Fecho as cortinas ao redor da cama e nós ficamos ali dentro. mas tenho que fazê-lo. eu disse que não contaria e não vou contar. pela primeira vez. só sinto um cheiro perfumado. Nem das coisas físicas. Fecho a porta e empurro minha cadeira de rodas contra ela. — Com que está preocupado? Acha que tem que usar uma camisinha. em nossa caverninha. E eu não tenho a menor dificuldade em tirar a roupa e subir na cama de Sylvie. Dois segundos depois que boto o negócio no gancho. Sinto pontinhos úmidos espalhados pelo lençol. — Ela puxa minha cabeça e me beija. Ela me segura em seus braços e diz “E chega o herói” e me puxa. Alguns pontos de destaque: o quarto de Sylvie estava escuro. Richard. Richard — ela diz. de rosas e madressilva.. como o réptil que sou. Ela ri e joga mais em minhas costas. Ela está nua e tudo está — bem. — Não quero machucar você — eu sussurro.

Está tudo bem. Richard. responsável por ela pra sempre. outra sombra entra no quarto. pela primeira vez. eu me sinto feliz pra cacete em estar aqui. mas começa a chorar. E acho que eu talvez pegue no sono. Mas fico adiando o negócio de ir embora. Fico só inalando sua loção e o xampu que ela usou na penugem em sua cabeça. com uma voz bem suave. Quer dizer. a vovó diz. e foco apenas em seu calor e maciez à minha volta. No lugar em que ela está pressionada em minha coxa. cara — diz. Não um choro calmo. e. eu me esqueço de dor. antes que seu pai volte. então. tremendo. estou bem certo — e. Ela dá um gemido — mais de surpresa do que de dor. Quer dizer. Richard. Calma. — Saia. Então. imagino que agora eu sou. com a cabeça em meu peito. *** Depois. Subo na cama e deito ali. Eu me inclino e pergunto: — Ela está bem? . Pego a minha calça de moletom no chão e minha camiseta. E quando a sombra grande ajoelha. De repente. A porta aberta. Sylvie se encolhe de lado. no mundo. juntos. Está tudo bem. E eu vou. em vez de lá fora. nós estamos pegajosos. Acho que ele nem viu você. mas soluçando de dor e fúria e algo que você nem quer saber. Depois pega no sono. e os dois adultos — cara. ao lado da cama. com uma cabeleira ruiva rebelde. pra ver as velas tremulando e a lua subindo.as duas pernas em volta do meu quadril e me puxa pra dentro dela. só acompanha minha respiração. de doença e de tudo. O corredor está vazio — é tarde — e eu consigo chegar de volta ao meu quarto sem ser visto. mas tem luz vinda da porta aberta. Ouço o vento cantando lá fora. ainda chorando. não sei exatamente. até ficar acima da janela e sumir de vista. Adoro isso. Como se fôssemos uma só criatura. — Valeu. ela também se ajoelha. As velas apagaram. pura e simples. e essa passa os braços ao redor do homem em prantos. misturados. E Sylvie sussurra em meu ouvido: — Vai. as cortinas são abertas e tem uma sombra enorme recaindo sobre a cama e um cheiro muito forte de conhaque no ar. bem tarde. Sei que tenho que dar o fora de seu quarto. e uma perna por cima da minha coxa. Eu me afundo por baixo do lençol e a sombra acima da cama ruge como um urso ferido e então. Sem chance que eu vou me deixar adormecer. isso é perturbador — ficam se balançando e chorando. Tenho que cuidar dela sempre. sento o traseiro na cadeira e saio girando as rodas. estou indo. tipo. cheirando a Jack Daniel’s. a vovó volta ao meu quarto e se encolhe na poltrona. Simplesmente adoro. Em algum momento. eu abro a cortina só um pouquinho. E então. e a voz da minha avó diz: — Shh.

Encosto na parede e fico ali. naquela sala. — Sangrando. — Aqui — eu digo. nada disso. A menos. — Essa menina quase não tem plaquetas. Mas eu o levei até lá embaixo.. E. ela ergue a mão e me dá um tapa no rosto. a Sra. obrigado. nem equipes de ressuscitação. Não está só meio grudento. Ela me vê ali em pé e contrai o maxilar. E só tem dois jovens aqui. simplesmente sei. mas sacode meu braço. é. — O que aconteceu? — Eu pergunto. Ela meio que suspira.. — Acho que sim. mas estou do lado de fora do quarto dela. ninguém corre na ala de pacientes terminais. — Ela está tendo uma hemorragia — diz ela. com a cabeça nebulosa e ainda meio dormindo. mas eles abrem e entram. com os olhos ferozes.. Ela solta a pilha de toalhas no chão e agarra meu braço. . com força. sai. Ela pode sangrar até morrer. Sento e sei. Está entendendo? O sangue dela não coagula. — Suas crianças imbecis — ela diz. Ninguém tem pressa. Portanto. Puxo para baixo. Só se encolheu e fingiu dormir. Está dormindo no sofá. Richard. Ela está bem? A Sylvie? A vovó tosse. Mas imagino que ela esteja bem. Minhas calças estão ásperas com sangue seco. carregando um monte de toalhas ensanguentadas. ninguém tenta reanimar ninguém. — Agora. Ela puxa o cobertor sobre os ombros.. Fico sentado no chão e ela agacha à minha frente. eu não me importo com ele. depois sussurra. com a voz rouca: — Bem? Não. Muito. tremendo. Nem códigos. quando os médicos chegam correndo. me afastando do quarto de Sylvie. Pego o cobertor de noite estrelada e um dos meus travesseiros da minha cama e entrego à vovó. Está segurando com tanta força que dói. quando ouço correria e uma porção de vozes no corredor. Depois de um tempo. Seu rosto está quase cinza. — Eu devia fazer um exame na cabeça — ela murmura. eu penso. Jacobs. Vou descer da cama e percebo que minha calça de moletom está grudada em minhas coxas. por um segundo. Nunca há motivo para pressa. Subitamente.. — Não. que o quarto está cheio de gente. o que quase me mata de medo. *** O céu está começando a clarear. Sinto minhas pernas dobrarem e nem a superenfermeira consegue impedir que eu desmorone. Seu garoto imbecil. a menos que alguém bem jovem ainda tenha alguma chance. a enfermeira com o chapeuzinho branco. Detesto pensar nela sozinha desse jeito. uma tosse molhada. Sua cama está cercada e eu nem consigo vê-la. A porta do quarto está fechada. de um corte de papel. com a voz chiando. Ela não disse nada. E não sou eu. Vejo. Ele não está.. Ela não para. é a Sylvie. Está tudo ensanguentado. vá dormir. Nem sei como vou parar lá. Sabe.

Eu mereço. A enfermeira pula e fica na frente da porta de Sylvie. Ele está cambaleando e correndo. como se fosse uma mosca. Ele me puxa e suas mãos encontram meu rosto. por mais de um segundo. surge um rugido. Pelo menos. empurrá-la. seja qual for o estrago que ele possa fazer. Mereço o chute que ele dá nas minhas costelas. bem devagar. meio agachado. eu me encolho e cubro a cabeça. como um trem vindo pelo corredor. começar a bater. Afastá-la. É o pai dela. e eu também. talvez seja algo no rosto daquela enfermeira que o assusta tanto. nos poucos segundos antes que as enfermeiras e a segurança venham correndo. quando vejo seus ombros caírem e suas mãos soltas nas laterais — acho que ele vai cair no chão e nunca mais vai se levantar. para detê-lo. — Não entre aí. Mereço tudo. eu não sei. Mas. Ele fecha os punhos. do meu canto. — Não — Ela põe as duas mãos no peito dele. E me vê ali sentado. que ele começa a murchar. Mas é como se cobrir de um dragão. Instintivamente. Mas você não tem chance nem de chorar por aqui. ela põe as duas mãos sobre os olhos e começa a chorar feito um bebê. Mas ele gira. . Era de se pensar que o cara fosse brigar com ela. ficando de barriga pra cima e facilito pra ele. Pois nesse momento. Eu mereço cada porra de soco que o homem puder me dar. olhos vermelhos ferozes e dedos em garras. quando o calor de seu hálito e cuspe me atingem: é tudo fumaça. Então. no chão. isso que eu acho. para tirá- la do caminho. Rolo pro lado. Não ergo um dedo para impedi-lo. O resto fica embaçado. Isso que eu penso. pra fazer o que quiser.

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às vezes. Minha voz está tão rouca e baixa que nem tenho certeza se ela consegue me ouvir. Ela começa a chorar de verdade. Não sei onde estou. minando lágrimas. estou me deslocando à frente. O ar tem o cheiro das flores da minha parede — aquele cheiro de violetas que preenche o ar em maio. tipo. amedrontado. Quero pedir desculpas. e tem uma porção de pontinhos brilhantes de luz se movendo na escuridão. *** Quando acordo. por cima de sua roupa. estou voando. No meio de toda essa luminosidade. Mas pego novamente no sono. Estreito os olhos e observo esse ser-espírito mais atentamente. de um jeito meio engraçado. mas estou a caminho. usando uma máscara sobre o nariz e a boca. branco. Richie”. eu flutuo. Por um bom tempo. — Oh. eu não sei. tem algo como meu nome: “Richie. *** Da próxima vez que eu acordo. nós decolamos. — Bem. Estou aquecido. A luz ao seu redor é realmente radiante e dói em meus olhos. Eu deveria estar surpreso. pra assoar o nariz e limpar as lágrimas do rosto. Essa é a minha mãe. não é culpa sua. Ela está com um avental esterilizado de algodão amarelo. Cavalheiros. o fantasma se transformou em minha mãe. jamais perdoará. não é totalmente culpa sua. não é? Ser assombrado. Não faço a menor ideia do destino. Quer dizer. Depois puxa pra cima outra vez. Seu rosto é todo branco. Nunca perdoou. Quer dizer. Dizer que lamento muito. novamente. seguindo a algum lugar. Algumas vezes. há dois olhos escuros. mãe — eu digo. agudo. Está com cheiro de lençol tirado do varal. — Ela puxa a máscara pra baixo. como um zunido baixinho. Também não me surpreendo com isso. dentro do zumbido. É exatamente o que eu espero. E. O fantasma é. tem um fantasma sentado ao lado da minha cama. feito de luz. . tem um vento suave e um barulho. tipo. — Oi. é uma honra. do jeito que ela cheirava. Doloroso. deixando-a sobre o queixo. Ela está segurando a minha mão e eu dou um apertãozinho. antes que eu consiga dizer as palavras. meu benzinho. Não estou. Minha capa de noite estrelada revoa atrás de mim. chocado. mas não estou com medo. — Desculpe. Entendo que tem alguém me chamando. Contornados em vermelho. Ela não me perdoa. mas estou ocupado demais para responder.

— A vovó deve estar adorando todo esse drama. nada disso.Ela simplesmente me ama. Ninguém consegue ver meu rosto. Ponho a mão e sinto as ataduras. — Um policial? Nossa. eu estou ouvindo. A máscara sobre sua boca bufa. como fazia quando eu tinha cabelo. Está me ouvindo? Estou. Continuo segurando sua mão. Tento sorrir. — Richard. na ala terminal. Inconsciente. — Você dormiu um dia inteiro. — A segurança o levou ontem e ele está banido do andar. Minha mãe quase arranca a máscara. eu acordo assustado. — Sylvie? — Eu digo. Ela debruça e fala claramente. Como uma múmia. — Quietinho. Ela passa a mão na minha testa. meu bem. — Eles vão deixá-lo voltar — eu digo. Minha mãe se debruça novamente e diz. Eles pararam a hemorragia. agora que eu noto. E para lhe dar morfina extra. me acalmando. querido. — Era só até você acordar. com sonhos de dragões fumegando em minha cabeça. isso é interessante o suficiente para me animar. Isso também é interessante — geralmente não há agulhas. Aquele homem é um doido. Minhas costelas estão enfaixadas. . E tem um soro preso em meu braço. estão doendo terrivelmente. Quando ela acordar. mas não consigo. mas só escoltado. nem tubos. Ora. — O pai de Sylvie? — Eu digo. num grasnado. Penso em tudo isso. eu penso. toda vez que ela fala. — Ontem? Que dia é hoje? — Hoje é dia cinco de novembro — diz minha mãe. Eu me afundo de novo. Eu fui providenciar o policial pra nós. Estão providenciando. Só isso. tem um policial de plantão do lado de fora da sua porta. *** Da terceira vez. Não fique assustado. talvez pergunte por ele. com a mesma voz estranha e clara. bem alto. Isso deve deixá-la louca. Isso não é problema seu. mas estável. Ele é pai dela. Ele pode ter permissão pra voltar amanhã. Eu balanço meu braço. Pra você não ficar desidratado. Vou me sentar. mas meu rosto não se mexe. Simplesmente exigi. — De qualquer jeito. — E o que é isso? Ela me afaga. como se eu tivesse ficado surdo. Minha cabeça está girando. Insisti. a Sylvie está estável. Bom. Bom. — A Sylvie pode querê-lo.

. — Rá! Mas você não está nada bem. Olho pra dizer à minha mãe que quero beber alguma coisa. bem junto ao meu rosto. — Ah. fazer o que vocês fizeram? Tento olhá-lo no rosto. eu juro. Richard. ações. Está tudo arranjado. cara — eu disse. Esse lugar inteiro enlouqueceu. Edward franze o rosto e pega os lenços de papel e começa a secar meus olhos. Ela é minha. Richard. *** Da próxima vez que volto. Richard. Como eu poderia saber? Desculpe. — Como está se sentindo? Ele levanta e põe a mão em meu punho. Desculpe. estou realmente consciente. Sei onde estou. desculpe. É o Edward. Eu a amo. Foi tudo ideia dela. de homem pra homem. que dia — bem. Olhe pra mim. — Eu a amo. Os adultos estão novamente no comando. Eu calo a boca. O que mais posso dizer? Eles chamaram a cavalaria.. Não a machucaria por nada. Agora simplesmente descanse. — Minha voz falha e as lágrimas começam a minar. Também estou tentando não chorar. Todos deste andar estão ensandecidos. Tem uma porção de advogados circulando. Como não sabia que aquela menina não estava em condições de. Ele joga o papel molhado no cesto de lixo. Bem-vindo de volta. Pare de se preocupar. Richard. mas não é ela que está sentada ali. Mas estão errados. — Ah. Quer dizer. É. Um policial. — Oi. Isso me faz parar de fungar. É um problema-confusão criado por Richard. — Estou bem. numa unidade terminal. Sinto que estou de volta. Ele ergue os olhos. E bem no meio de tudo isso: Sylvie. — Você também é a pessoa mais imbecil que eu já conheci. Ainda sinto um pouquinho de seu cheiro de rosas em minha pele. gritando com um paciente. e ele está inclinado por cima da minha cama. escrevendo numa prancheta em seu colo. — Na verdade. — Eu não sabia. Minha cabeça está lúcida. — Sua avó também foi banida. todos eles. Agora fique quietinho. Estive dentro dela. Recua e senta de novo na poltrona. ameaças de processos. encharcando as ataduras em meu rosto. — Ele passa a mão nos olhos. agora. — Ele solta minha mão e escreve alguma coisa na prancheta. Ela queria que eu fizesse. . portanto esse negócio de homem pra homem não é muito eficaz. Está com uma barba de dois dias por fazer e seus olhos estão vermelhos. ela me pediu. tem um policial uniformizado do lado de fora da sua porta. Estou ficando totalmente maluco. Nunca vi nada assim. — Ouça. que noite — e tudo mais. a sua avó deu alguns socos. medindo meus batimentos. Sua voz fica meio aguda e alta. você é o paciente mais pé no saco que eu já tive. sim. problema meu. Não é problema seu.

Policial Glen Jeffers. como uns garotos pé no saco. como se houvesse um campo de força ao redor de sua cama. — Ah. você e a Sylvie. Eu arranjei uma preciosidade. a vovó. — Certo. qualquer coisa. com seu uniforme azul e um cassetete no cinto. sabe. e daí. Ela quer continuar vivendo. Mas isso não é desculpa. — Oi. Ei. Ela foi pra cima do pai de Sylvie. Ao seu dispor. Aquela garota é demais. todos nós somos responsáveis. o que é que tem? Eles estão fraquinhos demais. mas eu consigo. Vocês são uns babacas absolutos. Nossa. Mas. Uma garota apropriada para um rei. Ela é mais forte do que qualquer um de nós. eu não sei. ela é. Acertou alguns bons socos. quando você entra naquele quarto. Mas a Sylvie não pensa isso. lutando.. Você tem mulheres interessantes na sua vida. Deito de novo. O Edward fica de pé e segura a prancheta junto ao peito. como se fôssemos uma porra de uma fundação de Faça um Pedido”. No instante em que Edward sai. né? Nunca se tem dois minutos de privacidade por aqui. Cheguei a dizer. Ela acha que vai melhorar. que se dane. ele é tão babaca. Não temos muito disso por aqui. — Sim. na sala. Minhas costelas doem. Só pensei em me apresentar. mas eu continuo. sim. . o jeito como eles agem? Oras. Eu vou tirar esse soro e lhe trazer uma Coca. Seus babacas. na verdade. Todos vocês estavam dizendo “Ei. nunca vai fazer o negócio levantar. Acho que só imaginamos que fosse inofensivo. E a sua avó. — Nós finalmente a convencemos a tirar um cochilo. Não consigo mais respirar. Vamos levá-los à Disneylândia. está bem? Sinto a raiva indo embora. agora. você sabe. meu soberano. Richard. meu chapa. E não é bonitinho. — Sabe de uma coisa? Pela sua primeira vez fazendo amor. Vamos agradá-los. — Estou surpreso que. gritando feito uma maluca. Somos enfermeiros. Ela é tipo.. O cara tem um rosto redondo e é meio rechonchudo. Ela está lá. Eu. Você está certo. mesmo. Vocês só pensaram. Somos adultos. Ele dá um sorrisinho. lá embaixo. Que diferença faz ser alguns dias mais cedo?”. dá pra senti-la. Ouvi que você estava acordado. eu me envolvi no romance. Uma preciosidade — ele está totalmente certo quanto a isso. o policial enfia a cabeça na porta. agindo como. neste momento. Era tão bonitinho. Obrigada. Vamos ser legais com os garotos moribundos. Ela é feroz. você certamente achou uma preciosidade. Inconsciente. doentes demais e fracos pra fazerem qualquer coisa. Eu sento. A Sylvie está morrendo. Ela quer cada porra de segundo da sua vida. menos bonitinha. Fique tranquilo. nesse negócio todo de pombinhos. tenho de admitir. onde está minha mãe? Ele aponta o corredor. — Certo. — A vovó? Ele dá uma risada trêmula. benzinho. Deveríamos saber. Mas. Sabe de uma coisa? Ela também é feroz. não estejam todos dizendo “Bem. mal respirando. aquele Richie. — Minha voz está falhando. Você está certo.

Ele faz uma pequena saudação engraçada.
— Oi. Obrigado. Saber que você está aqui faz com que minha mãe se sinta melhor.
Ele acena.
— Trabalho fácil. Lugar interessante. — Ele gesticula pro corredor. — Eu nunca tinha
trabalhado numa unidade terminal. Geralmente nos colocam na unidade trancada, lá em
cima. Sabe, para vigiar os doentes malvados.
— É mesmo? Eu não sabia que tinha uma ala dessas neste hospital.
— Ah, sim. Unidade prisional. Só quatro quartos, mas, mesmo assim... Alguns desses
caras ficam algemados às camas — uns caras ruins mesmo. Metade deles está
descaradamente inventando, torcendo pra arranjar drogas. Mas, às vezes, eles estão
realmente doentes e ainda ficam algemados. É uma coisa meio maluca. Esse andar é bem
mais agradável. Calmo. E eu gosto da música da harpa.
Eu balanço a cabeça.
— Gosta? Nossa, me dá calafrios, cara.
Ele parece um pouco intrigado.
— É? Eu acho legal, relaxante, sabe? E você quase foi transferido para a unidade
prisional, quando foi... é, você sabe, ferido. Só para sua própria segurança, é claro.
Penso nisso. Até que teria sido legal. Acordar ao lado de um criminoso cruel. Ficar
papeando sobre nossas maldades de fodões.
— É mesmo?
— Ah, sim. Mas sua mãe disse absolutamente não. Foi ela que fez com que nosso
sargento alocasse gente aqui. Ela é uma garota e tanto, a sua mãe. — O rosto dele fica todo
sonhador. — Eu a conheci tempos atrás, no ensino médio. Há muito tempo que não a via.
Ah, desculpe, Christine.
Ele recua e minha mãe aparece, bocejando por baixo da máscara. Ela nem olha pro
policial, mas eu vejo, por um segundo, o jeito como ele olha pra ela. Meio do jeito como
olho pra Sylvie. E isso também é interessante...
Tem um monte de coisa rolando. Cara, esse lugar está bombando. Lamento que a Sylvie
esteja dormindo e perdendo isso. Mas espero que talvez ela não esteja dormindo
totalmente. Talvez possa ouvir, dentro daquela linda cabecinha coberta de penugem, e
esteja morrendo de rir, sabendo que ela começou tudo.

Na manhã seguinte, dois médicos vêm me ver. Eles tiram as ataduras do meu rosto e
estalam a língua diante do que veem. Eu passo o dedo e sinto o estrago — tem uma fileira
de pontos embaixo do meu olho esquerdo e meu nariz parece uma bola de softbol inchada.
Estou sentado, com os pés pendurados na lateral da cama, e dá pra sentir que regredi:
minhas pernas parecem macarrão cozido. E minha visão está totalmente embaçada e tem
um ponto escuro acima, à esquerda. Como um buraco de minhoca no espaço, ou algo
assim — só um ponto vazio, onde, de vez em quando, passa uma corrente de pontos
luminosos verdes. Não comento nada sobre isso com os médicos. Pra que me dar ao
trabalho? De qualquer forma, o que eles vão fazer? E, pra falar a verdade, até que é legal,
esse meu show particular de luzes. Mas eles notam que minha audição do ouvido esquerdo
está abalada. Exceto por um zunido constante, com um ruído agudo ocasionalmente mais
alto. São sons como um borbulhar maluco, como a trilha sonora do buraco da minhoca. Eu
sorrio para os médicos.
— Ei, isso é legal — eu digo. — É como uma viagem de ácido. Estou curtindo. — Faço
um sinal de paz com a mão.
Só um dos médicos sorri. Ele é um cara mais velho e entende a referência, eu imagino. O
outro, um homenzinho asiático, só balança a cabeça.
— Richard, você rompeu o tímpano esquerdo. Sem mencionar a costela quebrada. Não
acho isso muito legal.
— Opa.
Eu coloco a mão sobre o ouvido. Tenho de admitir que estou meio chocado de ter
rompido o tímpano. Mas, novamente, e aí? Dou um sorriso pro cara.
— Ei, eu estou ouvindo o mar, cara.
O mais velho ri e dá um tapinha em meu ombro.
— Agora, nós vamos te deixar sem atadura. Seu rosto vai ficar bom. Ah, e um detetive
da polícia logo virá aqui, pra perguntar se você quer prestar queixa. Fica totalmente a seu
critério. Está disposto a isso? Sente-se bem em falar sobre o que aconteceu?
Esse me surpreende. Balanço a cabeça, tentando afastar os ruídos engraçados e o show
de luzes.
— Sem sacanagem? Um detetive de verdade?
— Sem sacanagem, filho. Mas se você não estiver se sentindo bem, nós diremos que ele
o deixe em paz e volte amanhã. O que acha?
Acho que eu gostaria de algum tempo pra pensar. Mesmo. Isso é muita coisa pra ser
assimilada por um cara com um ouvido só e um olho meio cegueta. Mas eles estão
esperando e, você sabe, uma vida de treinamento hospitalar me diz pra nunca deixar
médicos esperando. Eles estão sempre, sempre com pressa, e você tem que pegá-los de

passagem. E ficar esperando até amanhã, aqui? Isso é correr um risco, não? O amanhã é algo
que não temos muito, certo?
— Tudo bem. Vou falar com o cara. Mas eu quero levantar, me vestir e sentar numa
cadeira. Não vou lidar com isso nesse avental ridículo. Eu puxo o tecido ofensivo — esse é
todo estampado de rosinhas. Onde será que arranjam esses troços? Deve ter sobrado do
andar da maternidade.
Ele concorda.
— Boa. Se eu fosse você, tacava fogo nesse negócio. Diremos ao detetive para lhe dar
meia hora, está bem? E vamos mandar sua mãe vir, para ajudá-lo a se vestir.
Eu faço uma careta.
— Ah, cara, minha mãe, não. Mande o Edward, está bem? Ou aquela enfermeira com o
chapeuzinho branco, a Sra. Jacobs. Ela também é legal.

***
A Sra. Jacob faz sua tarefa, rápida e eficiente. E o tempo todo de cara feia, então eu não
digo uma palavra. Mas, depois, quando terminou toda a arrumação, ela passa a mão na
minha cabeça careca, se inclina à frente e dá um beijinho ali.
— Você é um pé no saco, Richard — diz. Então, ela sai marchando do quarto, ereta
como uma flecha.
Bem, estou de dentes escovados, com minha própria camiseta e calça de moletom,
quando os detetives — não um, mas dois, olha como eu estou importante — entram. Estou
sentado em minha cadeira de rodas e me sentindo um pouco humano. O detetive principal
é uma mulher alta, de cabelos grisalhos, mas de olhos azuis radiantes. Ela não está de
uniforme, só uma saia preta simples e uma blusa vermelha de gola alta. Seu parceiro é um
jovem de jaqueta esporte e calça cáqui. Ainda bem que eu me vesti. Não dá pra ficar
segurando o avental. Atrás dos dois está minha mãe. Eu percebo que ela também se
arrumou. Está usando o que costuma vestir para o trabalho — saia, blusa e suéter. E a
máscara branca. Mas nada de avental amarelo, ou luvas. Ela está fazendo suas próprias
regras, quando se trata de traje, tenho de admitir.
Minha mãe senta na beirada da cama, e os detetives, nas cadeiras plásticas. A mulher
alta diz que seu nome é Detetive Richter e o cara é o Detetive Johnson.
— Oi. Meu nome é não detetive Casey.
Minha mãe suspira.
— Richard, leve isso a sério, por favor.
A Detetive Richter sorri.
— Certo, Richard. Nós só temos algumas perguntas pra você. Poderia nos dizer o que
aconteceu, na noite de três de novembro?
Fecho os olhos, por um minuto. Um filete de luzes verdes passa pela minha visão, à
esquerda. Tenho vontade de dizer A noite de 3 de novembro foi a melhor e mais gloriosa noite
da minha vida. Mas não posso falar nada disso, tipo, manchar isso com palavras. Então,

Ele tem um sorriso bajulador e é todo íntimo. Eu compreendo que traumatismo na cabeça pode causar isso. só pelo com pejorativo. — Acho que se todos nós fôssemos assumir a responsabilidade de todas as besteiras . O Detetive Johnson fala a seguir. Eu sacudo a cabeça. depois disso. tudo volta. como se nós fôssemos melhores amigos. mãe. Ela mostra um sorriso triste. com aquela máscara. naquela noite? Nada disso? Por um minuto. A Detetive Richter levanta. Tento abrir bem os meus olhos. eu comi uma gelatina deliciosa. eu me lembro que. Um garoto doente. Detetive inteligente. Não acha isso uma coisa terrível de se fazer? Não acha que esse homem — esse adulto — deveria ser obrigado a prestar contas de seus atos? Obrigado a assumir a responsabilidade? Eu me endireito na cadeira. Ela ergue a sobrancelha escura. — Não me lembro de nada. palavra por palavra: — Eu não me lembro de coisa alguma sobre ataque algum. se eu me lembrasse de algo assim. — Richard. pensando. você está nos dizendo que não se lembra de absolutamente nada sobre ter sido atacado e surrado no corredor? Por um minuto. Apagou tudo. Olho diretamente pra ele e digo: — Cara. Eu compreendo. naquela tarde. tente. acha que eu seria um babaca pra ficar falando? A Detetive Richter o encara fulminante. Mas houve testemunhas. Quer dizer. O quanto eu mereci. — Você não se lembra de quê? Essa é uma pergunta capciosa. claro. Só me lembro de acordar em meu quarto e que você estava lá. Isso é tudo. — Nada. o pessoal da segurança. Tudo bem. me dá vontade de dar um soco no cara. — Richie. querido. depois olha pra mim. — Certo. cara. — Eu tomei banho? É mesmo? Deixe-me pensar. Entendi. nada. você não se lembra de falar comigo? E de me dizer que você e a vovó iam fazer vacas pretas? Vamos. Uma enfermeira. — Ei. — Desculpe. Um monte de gente que viu um homem adulto e grande batendo num garoto. mas. Desculpe. — Não se lembra de ter tomado um banho? — Ela bate com a caneta no caderno. — Nada. Meu olho treme um pouco e isso faz as luzes verdes pularem. — Pressiono os dedos na testa: pensando. Seus olhos vermelhos. Você não se lembra de ter estado com a Sylvie. E nunca vou me lembrar. Minha mãe interrompe.apenas digo: — Não me lembro. Meus punhos chegam a se fechar. O calor e o cheiro do dragão. — Eu me inclino à frente e digo.

meu bem? O pai da Sylvie queria prestar queixa de estupro. Elkins. quem liga? Mas um dia inteiro perdido? Puf! Isso é realmente uma tragédia. aqui vou eu! Moça em coma. Não é uma tatuagem de verdade — só uma marca. é melhor que eles me tranquem. — Temos que falar baixinho. Sento ereto de novo. Quer . Não ultrapasse o SIGA. Quer dizer.que fazemos. Isso não é piada. isso me faz começar a rir. Escolha os parceiros. você já teria dezoito anos. Minha mãe está dormindo. sou eu. Isso é uma coisa que me deixa sinceramente injuriado. — Oi. apenas uma semana depois. — Ei — eu digo. agora mesmo. contra você. Nós ficamos em silêncio depois disso. sabe de uma coisa. um desenho todo feito em preto. ele talvez pudesse fazê-lo. E tem algum tipo de desenho. as coisas estão muito embaçadas. Não pegue duzentos dólares. — Nossa. Mas quando minha mãe pousa a mão no meu ombro. passando os braços em volta das minhas costelas doloridas. tímpano rompido. olhando meu rosto. Por sorte. eu desmorono. ouço uma batidinha de leve em minha porta. completamente coberta por um cobertor branco. Faça uma fila. cuidado! Merda. E. Minha mãe está dormindo profundamente numa poltrona que ela puxou pro canto do quarto. Eu olho pra ela até que seus olhos azuis desviam. Encosta a cabeça na minha e diz: — Sabe de uma coisa. de sua nudez. Ela também passa os braços ao meu redor e me abraça. só mais uma semana. Aqui. Totalmente raspada. cabeça e tudo. isso me aborrece. roncando. Se tivesse dezoito. muita gente iria direto pro inferno. Richard. *** Eu durmo a tarde toda. Uma ameaça a todas as mulheres da ala terminal. Ela está ali de pé. O que houve com você? Também estou olhando pra ela. Richie — ela sussurra. Abro os olhos. — Não seja tão espertinho. Me coloquem numa cela e joguem a chave fora. Quer dizer. Estupro! Tem certeza de que não quer dar queixa? Tem certeza de que não vai se lembrar? Por algum motivo. eu perdi um dia inteiro ao ser apagado. Por volta das quatro. — Posso entrar? Aceno pra que ela entre no quarto e ponho o indicador nos lábios. você só tem dezessete anos. Eu meio que me dobro. Não consigo ver direito quem está na porta. detetive. Talvez a gente esteja pensando. deem as mãos. Mas quando ouço a voz. visão ferrada. Seus olhos estão uma lambança de maquiagem preta e sua cabeça está completamente careca. Estupro! Eu me lembro das pétalas de rosa de Sylvie. eu sei que é Kelly-Maria. O homem selvagem Casey. — É. isso é um tempo bem comprido. Ela levanta. Mantenho a postura ereta até que os dois detetives deixem meu quarto. Sra. com as mãos sobre a boca. Pensando bem.

Hoje ela está com um jeans comum. mas com um suéter verde berrante bem decotado. quando minha mãe surge de seu casulo e olha pra nós. — Raspei. dentro dessa cabeça. — Nada empolgante. Não. — Comprei uma coisa pra você. a combinação perfeita. sim. Eu não deveria estar tão interessado no decote. certo? Então. Quer dizer. certo? Estou mesmo. Está tudo embaçado pra mim. sentada com as pernas cruzadas. em vários níveis. — Muito legal. — O que aconteceu? — Ela sussurra. talvez esse visual combine comigo. eu tenho que admitir — e abre a mão cheia de pirulitos. Mas ali está Kelly-Maria com seus peitos transbordando no pé da minha cama e é espetacular. Muito errado. Ela dá outra risadinha. Quem deixaria de olhar? Nenhum cara que eu conheça. Não me lembro de nada. Eu penso em como. Ela enfia a mão no bolso traseiro e cria outra vista panorâmica. Eu caí no chuveiro. nossa. E como. ela talvez subisse aqui pra me consolar. junto ao seu peito. O que acha? Acho que uma garota saudável raspar a cabeça pra ficar parecida com uma garota doente uma das coisas mais imbecis que eu já ouvi. Novamente. tipo. O que é o desenho? Ela abaixa a cabeça pra que eu possa ver em cima. Nada demais. Venha até aqui. O que você fez na cabeça? Ela dá uma risadinha e passa a mão no crânio. Estamos apenas sentados na minha cama. elegante. — Shhh. Como é mesmo o nome dela? Sylvie. — Asas de morcego. eu meio que sorrio pra ela e digo: — Está bonitinho. carinhosamente enlaçando meu rosto ferido com seus braços. nas palmas das minhas mãos. Principalmente. E juro que só estamos fazendo isso. Está vendo? Tipo. por quê. eu tenho que pensar qual é o Q. depois que vi sua namorada. depois de ouvir uma história tão empolgante. Penso na história desmemoriada que contei aos detetives. Eu penso nos seios pequeninos de Sylvie. — São asas. né? Ela parecia tão. Ela se inclina à frente e isso já vale qualquer meia verdade que eu possa dizer. E por quê. asas de morcego? — Ah. Na cabeça. Começo a concordar com a análise de Sylvie sobre Kelly-Maria: essa garota não é exatamente brilhante. se contasse a ela que tomei uma surra. Mas não quero ser indelicado — não quero ferrar meu carma a essa altura. e eu pensei. aninhados ali. os dois chupando os pirulitos. tem que mantê-la. Chupando . Ela sobe e recosta na grade. Como dois pequenos passarinhos. Não consigo identificar o que está ali. Nada de recuar. como um índio. Ela parece um duende careca e peitudo. estou apaixonado pela Sylvie. Eu penso no herói que eu seria. Encolho minhas pernas e aponto o pé da cama. Eu acredito que uma vez que você inventa uma história. Seu peito farto e macio. comparado a ela. Que história e tanto eu poderia contar: sexo e violência. E por quem.I. segundo me disseram.dizer eu sou uma beldade. Quem dera. Eu suspiro.

. na minha cadeira de rodas. porque quando finalmente tenho forças pra virar de volta.. Minha mãe dá uma boa olhada em nós dois. mas ela dever ter ido. Bem quieta. quando pergunto sobre Sylvie. E se eu estiver só um pouquinho excitado. Deitada na cama. Mas tem uma mulher lá. — Está bem. mesmo. Ela faz bico e fica meio emburrada. sabe? A mãe. e perguntar. — Nada. É rosa. penso que posso usá-la — ninguém me diz nada além de “estável”. em ver os lábios de Kelly-Maria se mexendo e seus seios balançando. Vou dar uma voltinha”. Ela está só dormindo. Por que você não vai lá e pergunta se ela não quer vir ficar conosco? Convide-a para um pirulito. chorando. com ela. Tipo. depois. Não vejo Kelly-Maria ir embora. talvez? E ela está lá sentada numa cadeira. que deixa seus lábios azulados. Apenas viro a cabeça e olho pela janela. eu digo: — Ela está no quarto 302. um roxo. Então. depois diz: “Ei. o que é que tem? Não tem nada de mais.alegremente. Onde fica o quarto 302? Não podemos contar com essa garota pra descobrir o esquema da numeração. Chorando muito. Kelly-Maria termina seu pirulito. Alguns minutos depois. ela volta e está meio emudecida. Ela vai e eu espero. Eu acho. — Então. Eu sinto que o que ingeri do pirulito me sobe à garganta. garotos. tipo. — O que foi? O que está havendo lá? Ela me olha. Última porta à sua esquerda. da parte dela. onde está sua namorada. sair. . Só fica ali em pé. E ela sai graciosamente. Ela não senta de volta na cama. Meu coração dispara. Mas. Legal. Impossível errar. ela não está mais ali. hoje? Não sei o que dizer. mas desce da cama. Ela passa a mão na boca. até eu estou vendo seu rosto todo sério. podemos? — Do outro lado do corredor. e eu certamente sei que não posso simplesmente ir até lá.

o lugar inteiro parece febril. Não acredito que você acharia que vocês devem ter essa merda de reunião sem mim. — E. É tão irritante e frustrante. Conforme a carta que recebi dadas as “circunstâncias extraordinárias” das duas famílias com filhos na unidade. e o “estresse imenso” que todos estamos passando. exceto por dois círculos vermelhos. que estou pronto pra cuspir. Vamos ver. você não tem. nós precisamos chegar a “uma acomodação justa e humana que atenda às necessidades de todos os envolvidos”. no desenho da sala da família. estalando a língua para os desenhos de Phil. estamos todos juntos. Que baboseira. não a mim. Ela diz que tudo bem. eu. que eu pendurei. Eu vou ficar bem. Quer dizer. Mas não gosta nada do pornô. Bem. ela se vira. cheios de olheiras. essa noite. até eu. Seus olhos. Devemos fazer um acordo civilizado. ninguém me diz nada do que se passa por aqui. acima da máscara. Você se esqueceu de mim. Ela senta na beirada da cama e balança a cabeça. Eu afasto a minha mão. — Babaca imaturo — ela murmura. Ela diz que aquele é até terno. — É. E ela adora os dois caras eternamente jovens. às sete — alguns advogados. sim. Claramente. de verdade. acho que precisamos. Já está escuro. anjos/ demônios arrepiantes que estão voando em volta. que essas manchas vermelhas são exibidas por pessoas com tuberculose e outras doenças — há muito tempo. tem uma enorme conspiração adulta à minha volta. aqui. ela meio que suga. Deus nos ajude. estão mais que cansados. Então. Descanse um pouco. o que tem a mulher em coma. depois dão esse tipo de notícia. Tenho meu policial pra fazer companhia. Depois sopra outra vez. Minha mãe está em pé no quarto. Sua pele está quase cinza. a supervisora da enfermagem. eu. os pais de Sylvie. — Grande personagem. Isso é algo que eu não lhe disse. mãe? Durma na sua cama. o administrador do hospital. Eu li. Depois. exceto pelas palavras desnecessárias nos dentes da lua e aquelas coisinhas. Você não pode me deixar de fora. — Por que você não vai pra casa. em algum lugar. como se estivesse prestes a desmaiar pela situação caótica em nosso pequeno albergue hospitalar. Estamos todos juntos nisso. — Ela afaga minha mão. de verdade. eles chamavam de “tísica”. pela forma que ele coloca tudo na perspectiva da mulher. nesse momento. como se não fosse nada de mais. Haverá uma grande reunião na sala de família. — Eu aponto o meu peito e estou consciente de que meu tom de voz está bem alto. Eles falam de mim e tramam pelas minhas costas. talvez. Ela está pensando com tanta intensidade que nem precisa gritar comigo. — Depois das sete da noite. Estou bem certo de que ela está se referindo a Phil. O que você está pensando? Ela respira tão ofegante que a máscara parece inflar. num livro antigo. É isso que minha mãe está parecendo. . posso frisar. um em cada bochecha. então deixo passar.

por ter acertado alguns. pra ver meus pontos e hematomas. O cara de terno é o primeiro a falar. você quer realmente ver o pai da Sylvie? Fica à vontade em estar na mesma sala que aquele homem? Eu sacudo os braços. para que as famílias possam se encarar. — Não tenho nada contra o cara. — Eu não sei. Temos que achar uma maneira pra que eu vá até lá. Portanto. Talvez ele se sentisse melhor — tipo. Jacobs. tipo. eu quero estar lá. Ora. E se ela me ouvir. aparentemente algum cara que a minha mãe encontrou na . A Oprah tem certeza disso. eu caí no chuveiro. em minha cadeira de rodas. e me debruce sobre sua cama e fale com ela. — Sou advogado. — No entanto. antes de o tirarem de cima de mim. Eu até que gostaria que ele erguesse os olhos. como dizem. nessas circunstâncias extraordinárias todos têm de se endireitar e tomar prumo. Ele ainda não olha pra mim. Tenho certeza de que ela consegue ouvir. A mãe e o pai de Sylvie estão do outro lado. Entre as famílias. Fala baixinho. mas está me enlouquecendo. um cara de terno e a Sra. Estamos organizados num formato engraçado de quadrado. — Obrigado por todos terem vindo. e eu. com os outros sentados no sofá e uma porção de cadeiras dobráveis que eles trouxeram para a ocasião. Eu tenho certeza disso. Eu. O pai de Sylvie está de cabeça baixa. Certo. tenho 60% de certeza. Quase. porém nunca vi tão cheia de gente. O que estou pensando. Ellis. o amor faz milagres. Passo as horas seguintes tentando me blindar para encarar o dragão. *** A sala de família está tão empoeirada e triste como sempre. ela vai acordar. Empurraram a TV pro canto. Está tudo certo. sozinho. Vou preparar meu esqueleto magrinho. Eu sou. É preparação pra ação. certo? Você ouve falar isso o tempo todo. estão sentados em suas cadeiras. é nossa piadinha. Ele dá uma risada sem jeito e. e Sra. que me dá um sorrisinho bem leve. Acho que ele ficaria satisfeito com esse tipo de estrago interno — é bem invisível.por conta do meu vocabulário. como juízes. portanto não consigo ver seu rosto. Calderone? Trouxeram seu advogado? A cabeça do pai de Sylvie se ergue. Em meu escritório. achei que as duas famílias estariam representadas por advogados. até onde eu sei. em meio à névoa confusa. perfeitamente civilizado e em controle. Como eu disse aos detetives. — Sr. E acho que quem armou esse negócio está absolutamente certo. sentados na beirada do sofá. o homem dessa família. Richard. Sr. na minha cadeira de rodas. Ora. minha mãe e um advogado que eu nunca vi estamos perfilados de um lado. Pena que ele não pode ver as luzes verdes. mais ou menos. quando vê que ninguém ri. Tenho que estar lá. tosse e prossegue. — Ele olha para os pais de Sylvie. assim que eu puder. O advogado do nosso lado. baixinho. nem ouvir os zumbidos no meu ouvido. é que tem de haver um jeito pra que eu possa ver Sylvie. em seu ouvido. tipo um duelo. nós estamos chamando esse encontro de reunião dos Capuleto e dos Montecchio.

então. eu o ouço dizer: — Certo. Consigo ouvir um terço disso. É como se no meio desse tumulto perfeitamente civilizado não houvesse mais ninguém na sala. se desculpou à minha família por seu filho. — Richard? — Ela fica dizendo. Eu recosto e tento me manter focado. Então. espirais de fumaça preta se erguendo do paletó de seu terno e circulando em volta de sua cabeça. Sra. porque o zunido em minha cabeça é tão alto e as luzes verdes flutuaram para a direita. Na frente e no centro. Pôu. está tudo verde. Estou bem certo de que tem uma bala em meu peito. eu estou consciente e tudo mais. — Richard. com as bocas se mexendo sem sair nada. é algo que ele está emanando. Mantenho os olhos nele. Obrigado a todos. Eu fico olhando para o pai de Sylvie. Eu ouço todo tipo de voz. e depois que a maioria se calou. E seus olhos desviam pra mim. a Sra. Jacobs está debruçada acima de mim. Mas não exatamente. devido ao estresse que todos estamos vivendo. Mas ninguém me ouve e. embora tenham cancelado sua vigilância e ele esteja de folga. O policial. Glen. Nós acordamos que. A sala é território neutro. estou em minha cama. com a pele tão branca quanto a sua máscara. mais importante. mas estão bem distantes. em retribuição. de repente. se olhar atentamente. nós tomaremos cuidado para não a usar ao mesmo tempo. Eu manifestei minhas profundas desculpas à família Casey. Quer dizer. No meio de tudo. exceto ele e eu. fica enfiando a cabeça na porta. começa a tagarelar. no entanto. tipo. independentemente da forma como nos sentimos. Não é fumaça de cigarro. Está tudo bem. com minha mãe circulando em volta. E estão. Sua família. então todos começam a falar ao mesmo tempo. a julgar pela calça azul brilhosa que está vestindo. que claramente não pode comprar um terno decente. E tudo fica escuro. um cara que parece ter se formado há cinco minutos. Como se meu olhos tivessem explodido. e tudo está saltando. minha mãe finalmente o deixa entrar. como se estivessem pensando em apertar as mãos. E.internet. As vozes das pessoas podem mentir. mas é impossível. você está bem? Eu aceno. Percebo que não consigo acompanhar nada nessa conversa. Há pequenas luzes piscando por todo lado e isso está me deixando tonto. faz o formato de um revólver e aponta para o meu coração. Casey. perfurando buracos em minha pele. bem no meio da minha visão. Dá pra sentir o cheiro da fumaça. Todo o restante desaparece em sombras cinzentas. mas sem ter certeza se é apropriado. chegamos à uma solução amigável: nossa família ficará no nosso lado do corredor. As pessoas começam a levantar e conversar. A Sra. eu foco no homem-dragão e fico ouvindo atentamente. ficará do seu. Casey aceitou e. Então. é fácil demais para que as emoções se descontrolem e todos prometemos nos esforçar para controlar nossos atos. dá pra notar que há muita discussão e todos estão falando em tons calmos e amistosos. esse é o acordo. — Estou bem. Ele fica perguntando se tem algo que ele possa fazer pra ajudar e quando pensa que estou dormindo. ele ergue uma das mãos. Mas não é isso que importa. Quer dizer. e eles . Eu consigo ver. de tanto que dói. Ele abre um sorriso horrendo e diz Bum. me dando goles de água e afagando meu ombro.

não é o Saara. do corredor. e ela fica sentada por um bom tempo. cara. sem lua. e eu só fico olhando o vazio. eu preciso chegar lá e . Penso nisso. por um bom tempo. Está vazio e frio demais. sem nada. Mas Sylvie está tão distante quanto se a tivessem levado para o outro lado do mundo. Mas isso é uma loucura. E. Ele a desperta com um beijo e pronto. rumo ao mundo dos felizes para sempre. talvez ela esteja relativamente confortável em seu cantinho. E. com travesseiros e cobertores. na maior parte do tempo. Não consigo tomar café. ou algo bem terrível para protegê-la. de alguma coisa que ele diz. segurando minha mão. na verdade. queima minha garganta e tem gosto de metal. fazendo o que for preciso. Algum infectologista disse a ela que depois de passar quarenta e oito horas sem febre. Tem um ruído constante em minha cabeça e meu peito parece oco. ela também está dormindo profundamente. Algo que eu pudesse mudar. por um tempo. todas as vezes. Trouxeram uma caminha de armar pra ela. lá vão eles. ela poderia tirar. e a trancado numa torre. qual é o problema? Eu amo a garota. ela os convenceu de que há dois dias inteiros estava com uma temperatura perfeita. Quer dizer. Em todas as histórias. então. Elas não melhoram. e que ela precisa dormir um pouco. ela está em perigo. Pra mim. Ele escala muros altos. uma ou duas vezes. de alguma maneira. *** As coisas devem melhorar pela manhã. Uma coisa boa — a única coisa boa — é que minha mãe tem permissão pra tirar a máscara hoje. Ela até ri. sem estrelas. Pra agradar minha mãe. eu dou uns goles de seu chá. Mas o príncipe consegue chegar até ela. fazendo um monte de planos idiotas pra ir até o lado de Sylvie. parece certo. a donzela é trancada numa torre ou seu castelo é cercado de arbustos espinhosos. ela me ajuda a sentar em minha cadeira e eu fico ali sentado. certo? O tal do cara que é o príncipe consegue. sob um feitiço. É só um corredorzinho. Então. muito quieta. por um tempo. Gosto que ele esteja aqui. não? Ter que tramar pra atravessar o corredor? Ora. Os corredores ficam silenciosos. fazendo companhia pra ela. É bom voltar a ver seu rosto inteiro e ela beija minha testa cerca de um milhão de vezes. embora seu rosto ainda me pareça febril. Glen acaba indo pra casa e ficamos apenas eu e minha mãe. Ele me parece ser um cara legal. ou abre caminho entre os espinhos. vamos. encostada ao meu peito. Olho pela janela e o céu está completamente preto. isso é um procedimento padrão. desejando que existisse algo que eu pudesse fazer. certo? Errado. Claro que às vezes o príncipe também tem que lutar contra um ou dois dragões. Eu murmuro pra ela. A única coisa mais radiante é a sensação de muito mais luzes verdes piscando ao redor de tudo que eu olho. ele chega lá. quando acaba cedendo e vai deitar. dizendo que estou bem. é o que todo mundo sempre diz. Acho que sei o que é — é o lugar onde a Sylvie deveria estar. Independente de qualquer coisa. ou algo na televisão. Mas tenho quase certeza de que não conseguirei dormir. Tem um fosso profundo. Depois.assistem à TV juntos. antes que eu a faça parar. cheio de serpentes e cães de três cabeças. Imagino que minha mãe tenha seus truques.

embora o banheiro esteja do lado da minha família. Edward pega os negócios do banho e me leva ao corredor. Ora. — Delitos? — A palavra em si. jovem Richard. à sua frente. onde minha mãe caminha em direção ao refeitório. — É. Richard. todos nós — estamos tipo. eu ouvi dizer que há um acordo formal entre as duas famílias. merda. E de manter o pai dela longe de você. — Não. ele senta na cadeira de banho. E agora. certo? Talvez ela esteja acordada e eu possa pelo menos acenar. É muito comovente. Diga isso ao pessoal que radiou nossas bundas até nossos peidos acenderem. o homem é enfermeiro. Eu me solidarizo. Você precisa parar de envolver os outros em seus delitos. quando estão apaixonadas. — No entanto. cara. vamos. parece estranha em minha boca. não cause nenhum estrago. — Ouça. Nos minutos em que ela está fora. advogados. sob um juramento sagrado de não deixar que você se aproxime de Sylvie novamente. Então. imaginando que estou bem protegido. todos sabem que a radiação é mortal. está certo. pelo menos dar uma espiada lá dentro. É meu mantra pessoal. Sua bunda larga sobra dos lados. passo a passo. É como álgebra. Tenha coração. só isso. se lembra? Primeiro. Não quero tomar banho. Quando o Edward vem perguntar se eu quero tomar um banho. certo? Não cause danos. Ele enlaça as mãos e as deixa penduradas. Richard. Mas o negócio é o seguinte: chuveiro = passo um. Não posso ajudá-lo. Um limite que não se pode ultrapassar. só isso. Fizemos o que as pessoas fazem. Jeannette. Eu só preciso calcular. e ele parece um gigante sentado num triciclo. eu digo “Claro” embora eu quase não consiga suportar a ideia da água quente em minha pele. quero vê-la. Pelo menos. Ir para o chuveiro me leva até o corredor e. ele está falando no ouvido em que eu consigo ouvir. só isso. Todo aquele mantra médico. com os nós dos dedos quase tocando o chão. cianeto e arsênico nas suas veias. dragões — nada disso importa. talvez eu consiga convencer Edward a dar uma passada pelo quarto de Sylvie. com um movimento suave. Um amor jovem. Dá ré entrando no banheiro. Preciso focar. Corredores. Vá contar essa pro pessoal da químio. Eu e a Sylvie estamos apaixonados. E é isso que eu vou fazer. Uma vez que estamos lá dentro. Me disseram pra não bancar o cupido para um par de garotos. Ele se inclina à frente e fala em meu ouvido. Talvez. Eu. que despeja. Mas não posso me envolver em mais problemas. Não brinque comigo. honrar esse acordo. Nós podemos perder nossos empregos. O Edward continua seguindo direto para o banheiro e ele vai tão grudado em nosso lado do corredor que estou quase raspando a porcaria do cotovelo na parede.acordá-la. Só uma olhadinha. Ele ergue a mão. Segurança. brincando com você. Isso é um delito? Ele nem desacelera a cadeira. . Temos que lembrar que a nossa responsabilidade prioritária é a segurança de nossos pacientes. cara. vamos. eu digo: — Ora. essa manhã. tipo. afinal. de verdade. — Dá um tempo.

Mas.. pra que eles pensem que estou fazendo meu trabalho. ficando. tenho que fazer sozinho.. No fim da tarde.. Porque certamente o farei. E. — Tudo bem. — Meu benzinho. que poderemos processá-lo pela paternidade de um menino concebido por uma de suas alunas. depois sua voz se anima. e Edward empurra a banqueta de banho até a parede e recosta. Então. com minhas próprias mãos. Mas. Ele sacode a cabeça. fechando os olhos. Eu fico em minha cadeira. já entendi. em vez disso. eu só fico largado na cama. — É o Richard — eu digo e depois sorrio: é o Phil. porra. mas não posso. *** Pelo resto do dia. E é o que fazemos. depois. Não posso mais envolver essa gente boa em confusão. pra dizer a verdade. eu entendo. Deixe-o viver. de verdade. Para sua mãe. fico cochilando. Richard. batendo a cabeça em meu peito. Ela parece surpresa por eu não entender. .. — Está certo. o telefone toca. você sabe. quando a água cai. — Então. — Seu pai. Qualquer filho da puta que bater num garoto doente. cara. que é meio esquisito. Em algum momento perto do anoitecer. Para. Sai pra dar muitas caminhadas. Ele já tem bastante problema. O advogado diz que talvez a gente nem precise levar o caso ao tribunal. isso já pode ser o suficiente pra fazer um belo acordo fora dos tribunais. elevando o tom de voz. que nada. devo matar o arrombado por você? Porque eu posso. eu quero que você saiba que eu fiz. Afinal. mas depois que começa a explicar. até minha mãe parece estar farta de ficar sentada ao meu lado. Richard. Eu pego e tenho que me lembrar de trocar pra orelha direita. Ela fica agitada e inquieta. está bem? Espere aí. eu simplesmente concordo. um tempinho. — O que você fez? — Minha cabeça está meio lenta e eu realmente não sei do que ela está falando. — Não. olhe pela janela. Como ele é um figurão no sistema escolar. Eu estava contando com isso. claro. Mas seu desejo é uma ordem. entrar em contato e pegar o infeliz. Vamos apenas ficar aqui sentados. Encontrei um advogado que diz que será moleza achar o cara. em uns três minutos. — Merda. O que eu pensar em fazer. Eu gostaria de poder encará-lo. tentando pensar. quando ela está lá fora andando. Está bem? — Tudo bem. eu noto sua empolgação. — Ele suspira. Eu rio. — Sua vó quer dar um oi. meu amo soberano. Minha pele dá a sensação de que vai descascar. Sou um déspota magnânimo. — Ele se afasta e volta. Quase um adulto. no lado Casey do corredor. também não quero tomar banho. posso demonstrar piedade. Está aquecido e tem um pouco de vapor. — Ei. sou um garoto crescido.

Richard. E com a vovó. enquanto ainda temos tempo pra isso. acabou colocando a bola em jogo. pela Sisco. — Não. ela terá algum dinheiro. e certamente não quero me despedir. por uns três segundos. Temos uma decolagem. meio que uma risada triste. Não tem porcaria nenhuma que possamos fazer sobre isso. Eu me dou conta. Mas qual é a diferença? Com ou sem fé. Mas dá tempo de ver: um imenso círculo prateado escrito FELIZ ANIVERSÁRIO!. se eu tivesse um pingo de fé de que de fato daria certo. preciso ir. o policial. talvez eu não tenha refletido sobre isso e não pensei direito nas consequências. Dá pra ver que ele gostaria. então só digo: — Ops. é perfeitamente legal. tudo o que você pode fazer é rolar a bola. fico sentado na cama. possa estar por perto. . depois os dois dizem: — Ela já está. — Legal! Agora. Sem chance. Phil diz: — Ela não fala com a gente. certo? — Claro. Os médicos estão aqui — e desligo. Se eles conseguirem fazer isso. Vocês sabem disso. Então. Não recebe recados. não. Segundo o cara que eu encontrei. vendo o céu escurecer. Ouço algumas fungadas. um pouco tarde. vai lá. Eu penso a respeito. “depois”. Então. Vamos fazer isso direito. — Ótimo. Phil volta ao telefone. — Não. Isso é bom. cara. mas. se eu não tivesse feito isso. Não nos deixa ver você. Ou. Mas não desligue. Mais uma vez. E o Phil também está junto. e para diante da janela. pensando no futuro da minha mãe “depois”. quanto a ser um pouco cedo. Eu penso outra vez. é como chantagem. antes de seguir com o vento. Com essa palavra. ao telefone. antes de lhe dar uma surra. certo? Ela bufa. que diabo. mas muito injuriada com você. — Muito legal. não. Nada de gracinhas. Tudo legítimo. — Eu juro. tudo isso é bom. olha pela janela. Eu recosto na cama. e que. em letras vermelhas. — Então. O Phil provavelmente vai aparecer na casa do cara e roubar o faqueiro. Ela vai ficar muito. as coisas sempre acontecerão com as pessoas que amamos. gente.. Em alguns segundos. Acho que tudo o que podemos fazer é tentar conduzir as coisas para a direção certa. Por você. olhando pela janela. E talvez um cara legal como Glen. Não quero ouvir o que eles têm a dizer. talvez fosse. — Legal — Eu digo. Valeu. os dois riem. segurando o telefone. a voz dela para de repente. Isso é um consolo. na verdade. meu soberano. um imenso balão de gás vem subindo. que a minha atitude de falar com a vovó sobre a questão de quem foi meu pai. Espere um minuto. olhe! Então. — Depois. Vão fundo.. não havia a menor possibilidade dela e do tio Phil o fazerem. vamos fazer tudo legal. — Mesmo assim.

. E fico olhando. uma fita bem comprida e prateada. enquanto o rabo do balão. Subindo e se afastando. vai subindo atrás dele.

Não consigo ver dentro do quarto da Sylvie. E logo sinto o quanto estou deslizando. Eu compreendo — já faz tempo demais que estou em hospitais. do outro lado do corredor: a mulher em coma. de tão turvos que estão. E inquieto também. Eu continuo girando as rodas. nem sei se estou me deslocando para frente.. Até nós. Mas. dentro das meias brancas limpas que minha mãe me faz usar. digamos apenas que não tem muito tempo pra ser herói. e os dois velhinhos. Mas se eu for só um pouquinho adiante. até o posto de enfermagem. quer dizer. entendemos essa equação: pés gordos = fígado falido. Terei minha chance. então eu me esforço para sentar na cadeira de rodas e ir até o corredor. Fico pensando que haverá alguns segundos. Então. em que você está tentando. Todo agitado. como se uma força magnética fosse ligada. As bandejas do jantar estão chegando e é uma hora movimentada. com o veneno acumulado em seu sangue. eu fico exausto. não é tão pior que fossos e óleo fervendo. Tenho que apertar os olhos até pra ver meus pés. eles estão estranhamente inchados. Tudo que eu vejo está embaçado e tingido de verde. E quando você tem falência do fígado. pra não entender: acrescente os pés inchados ao fato de que eu raramente preciso fazer xixi e você acaba com o que eles gostam de chamar de insuficiência renal. saio pra esse pequeno passeio. o corredor tem só três metros de largura e parece o rio Rubicão ou o Mar Vermelho. muito cauteloso para ficar do lado designado. talvez consiga me inclinar — do meu lado. Só consigo ver os quartos diretamente em frente. Isso é muita estupidez. agora um só.. qual é aquele que atravessa o inferno. essas coisas. sério. meu peito dói bem no lugar onde o pai de Sylvie disparou aquela bala invisível. analgésicos. E ficar zangado me dá energia. Só preciso ser paciente e atento. elas continuam seguindo em . lento como uma lesma.. próximas do grande quadrado onde os enfermeiros ficam. Mal consigo girar as rodas da cadeira. E quando me inclino à frente. E quando meio que consigo focar os pés. claro — e pelo menos dar uma espiada. Pensando no destino ao rolarem a bola — e fico cada vez mais zangado por não poder ver a Sylvie. Estão parecendo linguiças. bem depressa. quando poderei fazer. só que cada mãe em seu lado do corredor. Ou.. em algum momento. um jarro de água gelada. por alguns segundos. da minha porta. pedindo outro cobertor. mas está claro o suficiente. o Estige? Sinto que. Depois de tudo isso. Posso ir até lá. E o tempo todo. As duas vão pedir alguma coisa às enfermeiras — as famílias estão sempre ali. As duas mães estão em pé. Mas eu acho que estou. os alarmes iriam disparar. Então. certo? Ninguém disse que ser príncipe era fácil. Pra dizer a verdade. Todos têm de estar distraídos. onde fico sentado. meus braços estão muito fracos. sua mente também nubla e volta. bem. caipiras. que droga. se tivesse que tentar uma travessia. pois chego perto do posto de enfermagem pra ver o que acontece em seguida: minha mãe e a mãe de Sylvie seguem para o mesmo lugar.

Ela prende o freio e vira a cadeira. para . eu arranco. Fica ereta. a linha divisória.direção uma à outra. A harpista leva minha cadeira pelo estacionamento. Faz frio do lado de fora e o ar faz doer meu nariz. seguindo em direção oposta à cena. minha mãe e a mãe de Sylvie estendem os braços e dão mais um passo. O barulho irrompe pelo ar. Eu ergo a mão. — Richard. Não há nenhum som. quando elas se fecham atrás de mim. Os auxiliares param de carregar as bandejas. Acho que ela não está falando. a da Sylvie é baixa e morena. É como assistir a um balé. Gravidade vezes dez. Em meio à paralisação que esse ruído cria. Onde fica a linha. E não vou para o quarto de Sylvie. Então. A harpista rapidamente vira à esquerda. até um pequeno gramado congelado. Como um tipo de atração planetária. com a mão sobre a boca. no alto da colina do hospital. que agora está sempre esticada e seca. e. Dá pra ver que ela não está fazendo escolhas. chegando à parte dos fundos do quadrado. Me leve lá pra fora. aquelas mães. Estamos diante da salinha de espera da emergência. Os visitantes estão grudados em seus lugares. É insuportável. está bem? Eu quero ir lá fora. Não estou pensando. como eu tinha planejado. se fixam. enfermeiras erguem os olhos dos prontuários. E simplesmente não para. ouvindo o choro. Mas isso não tem importância nenhuma. mesmo que estivesse. Não sei como acontece. cada uma dá três passos adiante e se encontram no meio — tenho certeza de que é exatamente o meio — do corredor. O elevador está vazio e nós descemos depressa. engolindo — o ar frio. Quando me vê. Elas contornam o posto de enfermagem. umas às outras. No térreo. exceto as notas baixinhas da harpa ecoando na recepção. vamos tirar você daqui. o ar do lado de fora. está só seguindo pra qualquer direção que seja pra longe desses lugares de barulhos horrendos. no abraço mais apertado que já se viu. o barulho para. Elas se abraçam. É tão horrível que é de se pensar que até Alguém Lá Em Cima cobriria os ouvidos de vergonha. Ela gira a cadeira e a empurra pelas portas de vidro automáticas. ela se endireita. Tem um monte de gente abraçada. e suas mãos ficam imóveis. A harpista baixou as mãos da harpa. os Irmãos já não estão apressados. em nosso corredor. Então. tipo. Mas eu continuo respirando. Todos observam. — Por favor. Ele rasga nosso ar. E assume o comando. E é como se tudo no andar paralisasse. fresco. Por um segundo. quando ela para. minha garganta e meu peito. ela me empurra tão rápido que já estamos perto da emergência. estou fugindo. mas não tenho certeza se eu conseguiria ouvir. e ali dentro tem uma porção de gente fazendo o mesmo tipo de barulho que minha mãe e a mãe de Sylvie faziam. Ela está meio de pé. mas estou na recepção. Minha mãe e a mãe de Sylvie se esquecem do que precisavam e se olham. dá pra ver o momento em que os olhos delas. cada mãe fica em seu lado. E é uma sensação boa em minha pele. E surge um som que você nunca vai querer ouvir na sua vida. doloroso. As duas mães simplesmente começam a chorar gemendo. Elas são como dançarinas gêmeas. A minha é alta e loura. só chorando.

certo? Sabe. Ao se abaixar. Quer dizer. e sinto algo fresco e molhado tocar meu rosto. Inclino minha cabeça pra trás e abro meus olhos. Fico feliz em pensar neles — apenas gente comum. longo e profundo. torcendo pra ver estrelas. Isso também é legal. eles estão caindo. um trem está deixando a estação. quando o inverno está chegando. o rio segue seu curso. Depois. e eu ainda me lembro daquelas vitrines decoradas com todo tipo de brinquedo articulado. Então. ela recua e eu fico ali. Mas está fazendo uma noite de nuvens pesadas — eu acho. olhando pra cima. Eu vou esperar. *** Não sei como ela sabe. Mas talvez os passageiros do trem estejam apenas indo visitar alguém. não sinto que estou. é como a antigravidade. preenchendo meias. Então. Os peixes nadando na água fria. não me lembro muito da ordem. uma porção deles. a harpista vem. e outro. Talvez elas estejam indo fazer compras de Natal — minha mãe me levou. uma vez. Fecho os olhos e penso em todas as pessoas naquele trem. Eu e minha mãe paramos na frente de todo mundo e ficamos ali um tempão. Estou olhando o céu. Richard. mas talvez eu já não consiga distinguir. com ou sem estrelas. sempre dá a impressão de que você está caindo pra dentro do céu. como faz desde sempre. Mas depois parece que eu estou subindo na direção deles. esperando que isso aconteça. seguindo ao sul da cidade. eu entendo isso. Um Papai Noel robô estava sentado numa cadeira de metal. nem pulando no meu pescoço? Um bom tempo. ela fala diretamente em meu ouvido bom: — Tenha todo o tempo que precisar. com certeza. marchando. Os floquinhos caem cada vez mais depressa e. quando eu era pequeno. é incrível. Me enrolo no xale e deixo que o vento encha meus ouvidos. Talvez eu esteja sempre chorando. cada uma com um novo brinquedo pra fora. Isso que me parece tão estranho: quanto tempo eu fiquei sozinho? Sem ninguém circulando. vem outro beijo molhado. para a cidade de Hudson — uma porção de luzes penduradas numa corda solta até o rio. se você olhar pro alto bastante tempo. Lá embaixo. Espero que eu não esteja chorando. fazendo o que os peixes fazem. A visão do céu. Estendo meus braços à frente. Talvez eles estejam indo pro trabalho. partindo. mas bem na hora em que estou tão cansado e com tanto frio que volto desmoronando à Terra. porque não há uma estrela sequer. Abro meus olhos o máximo que posso e abro a boca também. ou algo assim. vivendo vidas comuns. É como voar. Olho para a colina abaixo. constantemente tomando uns goles de um cantil de metal. Minha vitrine predileta estava cheia de robôs prateados. em direção ao rio. Fico com o rosto virado pra cima. Primeira neve do ano. Ela tira o xale branco que está usando e o embrulha em volta dos meus ombros. Não importa. era só um monte de papel de embrulho e caixas rasgadas e abertas. Ele encobre o zunido. E logo além dos trilhos do trem. Ela pega nos manetes da minha cadeira e me . Ele soa o apito. sozinho. Eles estão vindo em minha direção. Mesmo assim. O céu está mais negro do que nunca.que eu possa olhar a vista colina abaixo. Está nevando. Em outra. e eu entendo. para um garotinho. Como se eu que estivesse em movimento.

Na recepção. No elevador. Elas estão com os ombros recostados. o que ele desenhou da Sylvie adulta. a primeira coisa que eu vejo é minha mãe e a mãe de Sylvie. Não tem ninguém lá dentro — nenhum guardião. pra me levar do quarto. ela bate a neve dos meus ombros e do alto da minha cabeça. Como falo com ela e digo que a amo. Está somente uma menina silenciosa na cama. Ela pega seu xale de volta e sacode. sentadas no sofá. deitada numa cama. Ela aponta para a camisetinha do bebê e diz: — Pequeno Richard. E quando acontecer. Como se estivesse esperando pra romper o feitiço que se abateu sobre ela.leva de volta pra dentro. Seria legal dizer que ela acordou. e eu sei que está ali. coberta com uma colcha de retalhos. Conto sobre o trem e as pessoas indo pra cidade. que ela abriu os olhos e disse: — Oi. de mãos-dadas. Que meu beijo de príncipe a trouxe de volta à vida. por um segundo. Digo a ela que está nevando lá fora. descrevo as vitrines das lojas. Mas você não precisa ouvir tudo isso e eu não quero entrar em detalhes de como chamo a Sylvie. Não vou deixar aquele filho da puta te incomodar. Mas. Como se estivesse esperando para nascer. Essa é a verdade. Ainda está ali. de braços cruzados. No corredor. Ela vai até a porta e eu a vejo ali em pé. por mim. E gigantesco demais para dizer em palavras. eu cuido disso. A harpista me leva até a cama e diz: — Pode levar o tempo que quiser. nós paramos. Rich-Man. E quem sou eu. Ela apenas empurra minha cadeira direto para o quarto de Sylvie. todas acesas para o Natal. com seu bebê. A harpista lê as palavras que eu não consegui ver e Sylvie nunca me mostrou. tem alguma coisa acontecendo naquele quarto. e estão dormindo profundamente. Como se ela só estivesse ganhando tempo. e tudo isso. É pessoal demais. E me ocorre que essa é uma mulher sem paciência para regras e. Fico ali por um bom tempo e tendo dizer tudo que preciso. Agora. Se o pai dela aparecer. Demora um pouco. Algo pulsando e batendo. É bastante coisa. a harpista desobedece ao acordo. Falo como é a sensação de voar. Estou começando a gostar dessa mulher. uma na outra. pra dizer que isso é impossível? . ela virá chutando e gritando pra qualquer um — qualquer um — que cruzar seu caminho. Vou com minha cadeira bem perto e dou um beijo em seu rosto. Mas eu não vou começar a mentir. mas eu acho que consigo dizer quase tudo. não. O montinho de neve que aterrissa no chão do elevador só dura um segundo. Quando a harpista vem. Ela não se mexeu e não falou. Como uma sentinela. está legal. como o Edward disse. na frente do desenho de Phil. Como se houvesse um campo de força ao redor dela. Richard.

Mas consigo ouvir. Mas Sylvie e eu não somos criancinhas. Somos nós mesmos. Menos a minha mãe. Minha mãe sempre diz que todos os adolescentes são criaturas da noite. Sabe. como se pudesse correr uma maratona. Tente. *** Acho que vejo a luz no céu. Ele diz “Ho- ho--ho”. Acho que é verdade. Mas não consigo manter a voz dela. aos pés de uma imensa cadeira vermelha. Nem seu rosto. Tem um milhão de criancinhas correndo em volta. gritando e rindo. Pode me processar. perguntando à Sylvie o que ela quer de Natal. ela não está com medo. Todos os rostos se movimentam em volta. estamos ali. Ainda pode haver algumas surpresas. não sou um herói. mas. Mas. Beijos longos. sei lá. você pode pensar isso. sorridentes. seu rosto está sempre ali e é sempre real. com uma porção de cachos escuros emoldurando seu rosto. De qualquer forma. Jacobs. Ela sorri e um robozinho elfo tira sua foto — um flash forte dispara em meu rosto e. Pode estar pronto e tudo mais — e Alguém ainda tem uma ou duas gargalhadas planejadas pra você. Eu quero dizer Desculpe. Ela está sorrindo e nós estamos de mãos-dadas. e Papai Noel está apontando pra gente. De Natal. pra mim. de repente. ela. O dia todo. Fala sério. Minha cabeça é erguida e alguém pinga água em minha boca. mas é lindo. indo e vindo. não tem muita diferença. A voz ruidosa e falsa do robô do Papai Noel. Ela está com gosto de Cherry Coke. Fico olhando e ela sobe no joelho do Papai Noel. Mas é impossível saber se eles estão realmente aqui ou não. por um minuto. Sou eu e a Sylvie esperando na fila de um grande shopping. Estou totalmente acordado. Ele é todo metálico e tem um grande sorriso de aço em seu rosto. e fica ali sentada. Eu tentei e tentei e estou acabado. não — ah. mas isso não ajuda muito. Está escuro lá fora. eu quero existir. pra me acordar. a Sra. como balões oscilantes. ternos. seja o que for — quer dizer. sua voz é a de Darth Vader — ele sai daquela máscara de aço sorrindo e me dá calafrios. não consigo ver nada. não. Rostos flutuam na minha visão também: Jeannette. acenando pra mim. como se nós todos fôssemos vampiros. Ouço alguém dizer “pneumonia” e sinto panos frescos sendo passados em meu rosto. O sonho vai flutuando pra longe e eu vou sendo puxado de volta pra essa sala quente e seca. Eu pego a mão da Sylvie e digo “Vamos dar o fora daqui”. Estou cheio de energia. mas. tem muita luz verde girando e muita escuridão circundando a minha visão. Tente”. Tem bolas vermelhas e verdes penduradas e neve falsa ao redor dos nossos pés. como cortinas sendo fechadas. Kelly-Maria. eu meio que deslizo entre sonhos e a vida real. meu caro. Viro a cabeça porque comecei a ter um sonho muito legal. toda sedutora e linda. adolescentes. até quando estou dormindo. Richard. Eu ouço quando ela diz: — Quero estar lá. mas quero que você cale a boca agora. quando eu acordo. esperando pra ver o Papai Noel. e quero ficar ali dentro. E o Papai Noel é aquele robô da vitrine da loja. Edward. O cabelo de Sylvie cresceu de novo — não está comprido. o Irmão Bertrand. Deve estar bem cheio aqui. Estou tão envolvido com ela que nem noto que a fila está andando. Alguém fica dizendo “Por favor. está bem? Portanto. do lado de fora da minha janela. Nós nos beijamos a cada três segundos. nem nada. .

eu sei que não posso chegar até Sylvie e sei que meu beijo não vai acordá-la. — Guarda isso. E no fim das contas. Eu estou bem. quem acaba aparecendo é o pai da Sylvie. mesmo assim. Não sei por quê. — O quê? — Ele olha pra mim. Eu me debruço na lateral da cama. mas sinto um peso no peito. cara. inchadas. Edward. — Ãrrã. pra encontrar o que aparecer. — Valeu. Edward senta e parece totalmente confuso. Eu me sinto bem. Mas também sei que tenho que ficar aqui fora. acho que não é seu turno. Bem. cara. Só que ainda não sei o que é. eu digo — Ei. — Fico ali sentado. de olhos arregalados. mais uma vez. nada mal. me levanta e me coloca nela. tem alguma coisa que eu possa fazer pra ajudá-lo? Eu penso. só por um minuto. — Oi — falo bem baixinho. E me ocorre que isso deve ser o que as mulheres de peitões sentem. Então.Agora está bem quieto no meu quarto: todos que andaram circulando o dia todo devem ter ido pra casa. mesmo: não preciso mover um músculo e. mas é importante? Ele ergue as sobrancelhas. Minha mãe está dormindo em sua caminha. E ergue. mas pega a cadeira de rodas. — Bem. As cortinas se abriram em meus olhos. você já sentiu que tinha alguma coisa pra acontecer? Como se houvesse algo que você devesse fazer? Algo que tinha esquecido. — É mesmo? Está se sentindo bem? — Ãrrã. mas eu já estou virando as pernas — minhas pernas gordas. Edward bufa um pouquinho. E é verdade. Estou meio tonto e. sério. Ele abaixa o termômetro. roncando na poltrona. Mas ele está sentado ali. Quer dizer. deixo minha cabeça encostar em seu ombro. porque não quero acordar minha mãe. — Acho melhor eu ter mobilidade. cara. que nem parecem minhas — pra lateral da cama. que bom te ver acordado. eu tenho algo a fazer. — Acho que sim. ou não. Ele está andando de um . Eu vou até o corredor. na maior parte do tempo. Ele levanta e põe a mão na minha testa. o mais chato do mundo? Por que todo mundo está dormindo? Vamos. tem muito verde. Ele pega um termômetro. — Opa. Depois. um minuto. mesmo. sabe? Melhor ficar na minha cadeira. — Richard? Oi. ele estala a língua e bufa. não sei como descrever. Mas ainda está bem quente. A noite é uma criança. relativamente. O único rosto que eu vejo é o de Edward e. Tenho que estar pronto. Quer dizer. — Esse quarto é. Mas. mas não tem mais escuridão.

lado pro outro, no corredor, se mantendo em seu lado, quando avista Edward e a mim. Ele
está em pé, do outro lado do corredor, me olhando fixamente. Mesmo daqui, dá pra sentir o
cheiro de fumaça e álcool nele. Ao redor de sua cabeça, lampeja um tipo de luz alaranjada.
Eu balanço a cabeça e esfrego meus olhos, mas a luz não passa. Então, eu imagino que seja
real o bafo de dragão contido. Talvez eu seja o único a ver, mas, pra mim, é claro como o
dia. Ele não está baforando fogo, mas está lá, o fogo latente.

O pai da Sylvie começa a caminhar atravessando o corredor. Ele pisa na linha invisível e
continua vindo. Eu sinto que Edward está quase mostrando os dentes, ele está meio que
rosnando. Como se fosse um urso pai e eu fosse seu filhote ursinho. Eu digo:
— Está tranquilo, cara. Sem crise.
Então, Edward não se mexe, nem me empurra pra longe. Apenas fica com as mãos na
cadeira de rodas, pronto.
O pai de Sylvie para bem na frente da minha cadeira. Seu terno parece uma pele cinza
enrugada, grande demais. O tecido tem um desenho listrado, como eu nunca vi, num terno.
Daí eu subitamente vejo que essa pele que ele está vestindo é escamosa. Pele de réptil, eu
penso. Como se esse negócio cinza fosse a pele velha desprendendo; concluo que, por
baixo, ele é dourado com listras pretas. Como sempre imaginei um dragão do Tolkien.
Sacudo a cabeça, espantando as bolhas verdes dos meus olhos.
— Boa-noite, senhor.
— Richard — Ele sorri e se curva pra mim, uma pequena inclinação. Seus dentes são
manchados e seu hálito fede. — Ouvi dizer que você... digamos... não esteve muito bem
hoje. Mas, aqui está você, com uma aparência bem vigorosa e saudável, fico contente em te
ver.
Edward começa a falar, mas o pai de Sylvie interrompe.
— Talvez você queira passar essas primeiras horas da madrugada, quem sabe, num jogo
de cartas, Richard? — Ele olha para Edward. — Na sala de família que, claro, é um território
neutro? Está disposto a um jogo de azar?
Pode apostar que estou. É tudo que tenho, certo? Mas o Edward está argumentando:
— Lamento, Sr. Calderone, mas esse jovem não está em condições para...
— Que tal você deixar o jovem falar por si mesmo? Que tal calar a porra da boca?
Acho que o Edward talvez pule por cima da cadeira de rodas e estrangule o pai da
Sylvie, com as próprias mãos. Então, tenho que intervir.
— Ei. Não há necessidade disso. Estou em perfeitas condições para um jogo de cartas.
Vamos jogar. Vamos nessa.
Eu começo a empurrar as rodas da minha cadeira. Isso é só um blefe, porque estou fraco
demais pra me impulsionar, mas isso tira o Edward de seu estado paralisado.
Ele respira fundo, bem fundo, e diz:
— Richard, você não vai a lugar nenhum com esse homem.
O pai de Sylvie balança a cabeça. Agora, ele sorri, todo amistoso e sensato.
— Eu peço desculpas — diz. Ele esfrega os olhos. — Todo esse estresse me deixa
maluco. Perdoe-me.
Ele até parece meio arrependido. Sério, o cara é um mutante.

— Só estou propondo um jogo de pôquer amistoso. Com outros, é claro. Apenas para
passar as longas horas.
Ele olha atrás de mim e diz:
— O senhor. Talvez queira nos acompanhar?
Eu viro e ali está o filho da Sra. Elkins. Ele assente.
— Com certeza. Sim, claro.
— Maravilha. Eu vou arrumar a mesa.
O pai da Sylvie quase sai trotando pelo corredor, de tão contente.
— Ora, vamos, cara — eu sussurro para Edward. — Me deixa jogar. Eu quero dar uma
lavada nesse cara. Quero esmigalhá-lo. Por favor. Me dá essa última chance, vai?
Edward geme. Mas ele também quer ver o homem derrotado, eu sei. Então, ele vai
deixar que esse jogo aconteça. Na verdade, ele não tem escolha, tem? Você vai recusar os
últimos desejos de um garoto moribundo? Acho que não.

***
Pra mim, é confuso como todo mundo chega lá. Até que eu tenha acalmado Edward e
chegamos à sala, o lugar está apinhado de gente, todo mundo sentado em volta de uma
mesa de armar. Lá estão o filho da Sra. Elkins e o pai da Sylvie, e, para minha profunda e
total surpresa, a harpista. Seu cabelo branco é uma imensa nuvem arrepiada em volta de
seu rosto, e ela está vestindo algo parecido com uma camisola branca comprida. Ela sorri
pra mim.
— Olá, Richard — diz. Ela está embaralhando as cartas e suas mãos se movem na
velocidade de um raio.
Fico boquiaberto.
— Por que está aqui, até tão tarde?
Ela balança a cabeça.
— Estou aqui com a minha irmã. Frequentemente, eu durmo aqui.
O Edward se abaixa e cochicha em meu ouvido.
— A mulher em coma. Quarto 306. Você não sabia disso? Elas são gêmeas, Richard. Por
que você acha que ela fica aqui, o dia todo, tocando aquela música?
Certo, então, meu queixo cai. A harpista e a mulher em coma são gêmeas. Uma está
morrendo, uma dedilhando a harpa sem parar, todo dia. Minha mente pira. Não consigo
dizer uma palavra. Mas tento encobrir minha ignorância abismal com palavras.
— Legal — eu digo à harpista. — Que bom ter sua companhia. E quanto ao velhinho, do
quarto 304? Vocês sabem, aquele com quem jogamos, na outra noite? Vamos convidá-lo.
Todos ficam quietos e olham pra mim.
— Ah, Richard — diz a harpista.
Fecho meus olhos, por um minuto. Tantas coisas que eu não sei. E me acho tão esperto.
Mas tem um monte de coisas por aqui que não noto. Puxo minha cadeira até a mesa.
O Edward diz:

eu ganhava quase toda semana. Não temos fichas. quando eu tinha quatro anos. com canecas cheias de veneno mágico de cobra. Ele me encara. no começo. — Vamos. O pai de Sylvie sorri. Multiplico isso pela quantidade que entrar na aposta. — Ah. no Natal. Pra entrarem correndo com a cura. Só estou aqui para tomar conta do Richard. eu penso. eu quero existir. tem uma pilha de copinhos de comprimidos e quadrados de gaze. desde que eu era pequenininho — um campeão. dois dias. com colegas de quarto. Tempo suficiente pra esses malucos cientistas arranjarem as coisas. Sem brincadeira. A gaze grande. Um copinho de comprimidos equivale a um dia. um minuto. Eu sempre ganho. todo mundo ganha e perde . Então. eu sempre fui supersortudo nas cartas. isso é muito legal. uns troços que ele aparentemente afanou no almoxarifado. Mas o que não mencionei foi o seguinte: exceto aquela noite. Elkins limpa a garganta. — Não vou participar desse jogo. Os olhos da harpista cintilam. Jogos. Todos nós ficamos olhando pra ele. Vou ganhar um monte de dias. O pai de Sylvie ergue as sobrancelhas. E estamos jogando por dias de vida. Eu penso. um provador de comida? Não importa. — Vamos jogar — digo. quanto valem esses itens? Quer dizer. — Tudo bem. sem brincadeira. — Ah. é muito fácil de entender. o Rei Richard trouxe seu serviçal. Estou pronto. nada sofisticado. pelo que estamos jogando? Eu quero saber o que está em jogo. Pra virem correndo pelo hall. três. batendo na mesa como se trabalhasse em Las Vegas. Todos nós olhamos pra ele. três. Está valendo. — Pelo paciente desse andar que representamos. Quer dizer. não vou entediar ninguém. Vezes as rodadas que eu posso ganhar. — Sim. então o pai de Sylvie vem com substitutos. Para os nossos entes amados. Um dia. é claro. Eu também quero existir. É o velho jogo de pôquer. Eu ganhava da minha mãe toda vez que jogávamos Mico Preto. O que mais terá. tarde da noite. Ou para nós. Nas noites de pôquer semanais com meus amigos. no meu próximo aniversário. Grandes e pequenos. Não vou ficar anunciando as jogadas. Entenderam? O filho da Sra. Um crânio sorridente e falante. É pôquer comum e. Mas. Como todo mundo. contando cada jogada. eu não deixei claro? Estamos jogando por dias. eu ganhava. jogando buraco com o velhinho. na escola. Está tão cansado e arrasado que seu rosto parece um crânio. Não se preocupe. Eles acabaram não jogando mais comigo. A harpista pousa o baralho e pergunta: — Então. Que comece o jogo. pessoal. dois dias. Isso é bastante. À sua frente. E a harpista dá as cartas. arrumando as pilhas. em qualquer hospital onde eu estivesse. Um quadradinho de gaze. Dias de quê? — Dias de vida.

em minha mão: três jovens camaradas. Dá pra ver. com a cabeça pra trás.algumas. O cara está pegando fogo. com isso. E eu estou olhando pra três valetes. admito que mergulho num estado mental bem esquisito. dormindo profundamente. Todos meus. Não dá pra interpretar uma ruga naquele rosto. espadas. tem que ganhar. com o pai da Sylvie. Era pra ser assim. Calculo que tenha quatro. É a hora. cinco da manhã. roncando como uma serra. paus e ouros que ficam pulando diante dos meus olhos. Estamos jogando pela minha alma. O Edward despencou no sofá. E isso é o suficiente para abalar a confiança de um cara. Não por dias. o filho da Sra. O dia está finalmente amanhecendo lá fora. Então. encolhido como um bebê. Sua pele vai ficando mais cinzenta a cada minuto. sem dúvida. ele está olhando pra mim. certamente. só isso. certo? O filho da Sra. há muito se foi. Mas. até deixar de ser. Ele não tem nada. São as maiores apostas do mundo. Olho fixamente para a pilha de apostas. nós não estamos jogando só por dias. Só estamos jogando. esteja ele blefando ou não. ela está seríssima. E ele está com o quê? Quem pode saber? Bem. eu tenho de dizer. Agora é o Richie versus o Dragão. com a camisola revoando atrás. Elkins está meio desanimado. os lábios sempre traem. que entregam o blefe. Quer dizer. Esperando apenas aquela pequena cutucada. A harpista? Ela começou a xingar. Dane-se Capuleto versus Montecchio. Começo a acreditar que o pai da Sylvie realmente é a essência do mal e que. Não está jogando cartas. Ele está dormindo em sua cadeira. como alguns dizem. depois jogou as cartas na mesa e saiu marchando da sala. certo? Mais que suficiente pra que todo tipo de coisa aconteça. Que lindo. de alguma maneira. São os lábios. Estou prestes a mostrar as cartas e pegar . Há pilhas de dias na mesa entre nós. Isso aqui que é pra valer. isso é certo. seus lábios parecem um par de asas de morcego. Mais que tempo suficiente para que os caras cientistas consigam. E eu tenho a mão vencedora. Faz sentido pra mim. sabia? Quando você realmente. eu sei. positivamente. não é? Vida é vida. E. tentando focar nos naipes de copas. Eu gostaria de poder tirar uma foto em infravermelho. digamos. fede como se alguém tivesse urinado uísque por cima dele e tem um brilho esquisito em volta da sua boca. Talvez mais. O momento em que tudo está ali. Elkins parou. sério. está numa guerra. Dá pra ver. pra que todos pudessem ver as pequenas chamas saindo das orelhas do homem. ela é durona. quando pegou cartas ruins. Bocejando e remexendo nas cartas. Claro. mas não imagino o motivo. o pai da Sylvie? Ele está mais sério e assustador do que nunca. Bem relaxados. muito tempo. Está esperando — ele vai cair e eu vou derrubá-lo. Os lábios tremem. Mas não há como argumentar com as pessoas em relação a isso. e ambos estamos dispostos a tudo pra levar a bolada. Mas aquela harpista. e tentando afastar as luzes verdes da minha visão. Aposto que ele está pronto pra que a mãe deixe a casa — ela provavelmente também está — e ele só está aqui de sacanagem. cinco semanas de vida ali. na última mão. mas pela eternidade. Até. ele está com a barba por fazer. Estou vendo que ela quer ganhar mais tempo para a irmã. sem sacanagem. Aqui vai um pequeno truque que vou passar: não são os olhos. pra começar. só esperando pra virar em uma direção ou outra. tremulando.

E também tem outra novidade — e essa é incrível. — O senhor me pegou — eu digo. jogando. Naquele minuto. No fim das contas. cabelo preto lustroso. Ora. Richard. ele pousa suas cartas viradas pra cima. em minhas mãos. deixando os três caras invisíveis. Quando você está sozinho. macios como passarinhos. E está tudo bem. Resumindo. se a Sylvie fosse sua filha? *** Na manhã seguinte. não? Pelo que realmente estávamos jogando. fico de orelha em pé e a fofoca do andar chega até mim. eu já ganhei dois anos a mais. Na verdade. Ambas com cabelos escuros. o pai da Sylvie não vai olhar. Primeiro. eu posso ouvi-la. Eu penso nos pequenos seios de Sylvie. Isso faz sentido pra mim. Junto minhas cartas e ponho na mesa. agarrando os quadrados de gaze e os copinhos. Não importa. durante a noite. juntando tudo em seus braços. Assim como a Sra. as duas. Noite dura. gosto que ela esteja aqui. Fico contente. Ouço que. Jacobs vem . que haja algo sobrenatural no fato de que essas duas se foram. ele diz: — Ela tem quinze anos. me deixou entrar. Ele está rindo como uma hiena. mesmo assim. Não quer saber. Sólido. mesmo com tantas cordas arrebentando ao redor. E é engraçado — a harpista ainda está tocando. As pessoas estão sussurrando. Levei um bom tempo pra entender. Bem baixinho. “Noite dura”. As lágrimas escorrem por seu rosto. Ele tem um par de damas. eu sinto que poderia amá-lo também. ele me olha de frente. Isso é como um tabefe na minha cara. Quinze. Mas não sei se algum dia vou conseguir me soltar da minha mãe. O terceiro. bigodinhos finos. é quando as amarras que o prendem à Terra arrebentam e você pode se soltar. preso à cama. durante a noite. finalmente tem um pouco de privacidade. agora. ele debruça na mesa e olha dentro dos meus olhos. parecem gigolôs. Não suporta olhar. a irmã da harpista morreu. A Sra. olhos escuros — lindas. o valete de paus. Ela também agarra suas chances. aqui? Corações e almas. Ouvi dizer que as pessoas sempre fazem isso — esperam até ficarem sozinhas. Elkins. Eu não acho. Paus e espadas. valete de ouros e valete de copas. enquanto seus acompanhantes estavam fora do quarto. Não é assim que um pai deve ser? O que você faria. Olho minha trinca: valete de espadas. a Sylvie se recupera. é um cara bom. ela é tão feroz quanto a Sylvie. Eu já vivi algo em torno de setecentos e trinta dias a mais que a Sylvie. Eu recosto em minha cadeira. Naquele minuto. Ela ainda está aqui. Mas. Imagino que ambas provavelmente tinham pressa em partir. realmente não acho. Em outras palavras.meus dias — meus dias — quando o homem faz o truque mais terrível que eu já vi. com tubos de oxigênio no nariz. — Parabéns. em direção ao quarto da filha. O pai de Sylvie raspa a mesa. pense. Ele pega os dias e sai correndo pelo corredor. Dois deles são aqueles caras com um olho só. o pai de Sylvie era igualzinho a ela. em como ela confiou em mim. Depois. estou em meu quarto. viradas pra baixo.

Ela vai agarrar cada um daqueles dias e sair correndo. Ela tem coisas a fazer. Vou esperar pelo meu momento e fazer as coisas direito. realmente. Câmbio. ela tem sangue de dragão correndo nas veias. Essa é a minha garota. eu sei. Juro por Deus. seja qual for a maneira como você olhe a coisa. nem refrigerante — café. Eu também. Ora. . não faz sentido ficar esperando seu aniversário. Quente e preto. E. Vai sair daqui andando. Mais uma coisa a fazer. Eu tenho exemplos. A Sylvie está sentada na cama. Quer dizer. Ela disse que era hora de acordar. Não pediu água. Merda. isso é tudo que eu tenho a dizer. Tenho certeza de que ela vai agarrar as quatro ou cinco semanas que eu ganhei pra ela.me dizer que a Sylvie está acordada. cheio de cafeína. Mas está legal. Foi isso que ela pediu. se você já é crescido. certo? Não se preocupe comigo. tomando café. Está tudo bem. desligo. eu e a Sylvie ficaremos legais. Aquela garota é mesmo uma fera.

Muito obrigada aos leitores das primeiras versões deste livro. aos médicos. Libby Dyksen. ao longo de tudo. em hospitais e unidades terminais. em todos os lugares. Obrigada ao College of Saint Rose. Erika Goldman e Nalini Jones. conhecimento e sabedoria. na Belevue Literary Review. enfermeiros e equipes que cuidam de crianças doentes. Também sou muito grata a Danielle Ofri. minha profunda gratidão ao meu cunhado. que publicou a história original da Síndrome de ALECTO (SUTHY Syndrome). que gostava da harpista da unidade de pacientes terminais e que realmente manteve uma mente alegre. que me deram sugestões tão úteis: Bill Patrick. Finalmente. minha infinita gratidão e admiração. e que tem sido uma incentivadora maravilhosa do meu trabalho. Tobias Seamon. pelo presente da licença sabática para que eu trabalhasse em minha escrita. Dan Dyksen. . Primeiro. E um agradecimento muito especial a Gail Hochman e Elise Howard por dividirem seu entusiasmo. Matt Dyksen.

(N. E. famoso por manobras radicais realizadas. em cima de uma moto. em sua maioria.1Evel Knievel (1938-2007) foi um dublê americano.) .

1A Batalha de Bataan ocorreu entre janeiro e abril de 1942. durante a Segunda Guerra Mundial. (N. nas Filipinas.) .E. que contou com a ajuda do exército dos Estados Unidos. na Península de Bataan. entre o exército local. e os japoneses.

” Durante os anos que acompanhou o próprio filho em hospitais infantis. às vezes convenço meu tio a me deixar escapar para uma noite insana de Halloween e coisas do tipo. Viver. . somos só Sylvie e eu. Gostamos de assustar os visitantes. noite de Halloween. No fim. Uma menina e um menino. Professora de inglês no College of Saint Rose (NY) e de escrita criativa na Fairfield University. onde nós — Sylvie e eu — somos as únicas pessoas com menos de 30 anos. se você entrega os pontos. Principalmente depois do que eu e Sylvie fizemos ontem. no meio disso tudo.. Essa doença me trancafiou aqui neste hospital. a americana Hollis Seamon se emocionou com os muitos jovens que conheceu durante essa jornada e se inspirou neles para escrever Alguém Lá Em Cima Te Odeia. a americana Hollis Seamon é autora do livro de crônicas Body Work e do thriller de mistério Flesh. no Estado de Nova York. É um homem assustador e realmente não gosta de mim — vivemos em pé de guerra aqui no hospital. O pai de Sylvie está sempre uma pilha de nervos pelo que está acontecendo com sua filhinha. Sério! Mas eu ainda não morri e preciso manter meu interesse pela vida. baseado em algumas das experiências que viveu com o próprio filho em hospitais. Alguém Lá Em Cima Te Odeia.. até que é legal. em frente ao elevador. E nós queremos viver do nosso jeito. ela vive em Kinderhook.“Morrer é muito chato. Atualmente. é o seu primeiro livro para o público adolescente. além de ter publicado em diversos jornais e revistas dos Estados Unidos. mesmo aqui. com nossas próprias regras e durante o tempo que tivermos.

se tudo faz parte de um plano do Todo Poderoso. No entanto. Assim. a gata de 15 anos que “habita” o quarto 302. Ele continua vivo e precisa dar sentido ao pouco tempo que lhe resta. após sessões de quimioterapia e um zilhão de cirurgias. Phil. de 17 anos. é óbvio que alguém lá em cima o odeia. animar-se e animar os outros em situação parecida à sua. com a conivência do tio e melhor amigo. se pergunta o que está fazendo no hospital. Richard encontra em Sylvie.Num momento de reflexão. cortado e costurado ainda não o abateu. “tocar o terror” em todos os que se internam em sua ala e zoar com quem aparecer em seu caminho. Richard Casey. decidido a não dar o braço a torcer. ele irá. De quebra. a companheira ideal para essas aventuras entre alas hospitalares. Junto com os amigos e parceiros de infortúnio ele se agarra a esse objetivo: . Ele conclui que. ele percebe que a doença que o levou a ser internado.

Este livro foi disponibilizado pela equipe do e-Livros e-Livros.xyz .