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Nº 525 | Ano XVIII | 30/7/2018

Marx, 200 anos


Entre o ambiente fabril e o mundo
neural de redes e conexões

Luiz Gonzaga Belluzzo


Michael Heinrich
Michael Löwy
José Eustáquio Diniz Alves
Marcelo Carcanholo
Yann Boutang
Marildo Menegat
Andrea Fumagalli
Anselm Jappe
Carlos Eduardo Martins
Jose Arthur Giannotti
Ruy Fausto

Leia também
Massimo Faggioli ■
José Carlos Moreira ■
Anselmo Otavio ■
EDITORIAL

Karl Marx, 200 anos


Entre o ambiente fabril e o mundo neural de redes e conexões

O
s 200 anos de nascimento de Karl Marx, muito além de análise numérica. Para ele, é nisso
pensador que marcou a teoria política, que consiste a atualidade.
econômica e social do século XX, são O filósofo e ensaísta alemão Anselm Jappe
completados em 2018. Para muitos pesquisa- se debruça na reflexão sobre a ideia de “fetichis-
dores, a volta às produções marxianas pode ser mo” e demonstra como o conceito é válido para
importante para compreender não só como o pensar acerca das crises do presente. “A teoria do
capitalismo eclode na sociedade moderna, mas fetichismo permite explicar, entre outras coisas,
como vai se transformando e engendrando novas um fenômeno que Marx ainda não podia conhe-
e profundas transformações como a que vivemos cer bem: a crise ecológica”, aponta.
atualmente, a assim chamada 4ª Revolução In-
dustrial. O socialismo pensado por Marx não é o mesmo
que poderia ser concebido hoje. Mas, para Car-
O economista Luiz Gonzaga Belluzzo considera
los Eduardo Martins, da UFRJ, a leitura do
equivocado afirmar que o pensador se limitou a olhar
pensador contribui para a reinvenção do socialis-
o capitalismo inglês do século XIX, quando, na ver-
mo no século XXI.
dade, desvelou a dinâmica do capital.
Em artigo, Jose Arthur Giannotti, professor
Nesse contexto, o cientista político alemão Mi-
emérito da USP, destaca que a esquerda está feri-
chael Heinrich está lançando uma biografia de
da. Para ele, o remédio para cicatrizar os ferimentos
Marx que, para ele, não se limita apenas a uma
passa pela retomada das ideias marxianas.
visão de mundo. O pesquisador compreende as
concepções marxianas como algo em processo, Por fim, o professor Ruy Fausto, em perspec-
2 que não fornece respostas prontas. tiva política similar, observa que a esquerda no
mundo todo está em crise. Para ele, revisitar os
Michael Löwy, diretor de pesquisas no Centre
conceitos marxianos pode ser um caminho para
National de la Recherche Scientifique - CNRS, de
conceber saídas e uma outra política para esquer-
Paris, defende a atualidade de Marx, reconhecen-
da mundial e, em especial, a brasileira.
do que a ortodoxia na interpretação dos escritos do
filósofo limita a compreensão dos problemas atu- A presente edição traz ainda entrevistas com o
ais e reduz a potência de seu pensamento. professor Massimo Faggioli da Universidade
de Villanova, nos EUA, que destaca os movimen-
José Eustáquio Diniz Alves, pesquisador da
tos do papa Francisco no cenário geopolítico con-
Escola de Ciências Estatísticas do IBGE, desta-
temporâneo; com o jurista José Carlos Morei-
ca a atualidade da obra de Marx para crítica do
ra da Silva Filho, que repercute a condenação
capitalismo e, especialmente, das denúncias das
do Brasil em corte internacional pela morte de
desigualdades do mundo.
Vladimir Herzog; e o artigo de Anselmo Otavio
Marcelo Carcanholo, professor de Economia da sobre a política externa da África do Sul.
UFF, compreende que Marx foi quem melhor conse-
guiu observar as determinações do capitalismo. A todas e a todos uma boa leitura, uma excelente
semana!
General intellect é uma das importantes catego-
rias de Marx. Yann Boutang, professor de Ci-
ências Econômicas na Université de Technologie
de Compiègne - Sorbonne Universités, na França,
retoma essa categoria e analisa as transformações
nos modos de produção de hoje.
Marildo Menegat, professor da UFRJ, analisa
o impacto destrutivo do capitalismo no contexto
da chamada Revolução 4.0, em que a tecnologia
assume grande protagonismo. Para ele, o mar-
xismo fornece um instrumental pertinente para
observar essa realidade.
Andrea Fumagalli, professor da Università
di Pavia, Itália, destaca o pioneirismo de Marx ao Foto de capa:
conceber a economia como uma ciência que vai Wikipedia

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

Sumário
4 ■ Temas em destaque
6 ■ Agenda
8 ■ José Carlos Moreira da Silva Filho | Caso Herzog: resolver a violência do passado é enfrentar a exceção
do Brasil de hoje
16 ■ Tema de capa | Karl Marx
20 ■ Tema de capa | Luiz Gonzaga Belluzzo: Uma leitura marxiana para iluminar as reflexões sobre a realidade
brasileira
29 ■ Tema de capa | Michael Heinrich: O pensamento de Marx não se limita a uma visão de mundo
33 ■ Tema de capa | Michael Löwy: “Marxismo só tem sentido como um pensamento aberto
37 ■ Tema de capa | José Eustáquio Diniz Alves: O marxismo continua atual para crítica do
capitalismo e denúncia das desigualdades
43 ■ Tema de capa | Marcelo Dias Carcanholo: Na gênese do capital, caminhos para compreender as crises e
a sociedade contemporânea
49 ■ Tema de capa | Yann Boutang: Capitalismo no século XXI e a força cerebral no cerne da cadeia do valor
56 ■ Tema de capa | Marildo Menegat: Impacto destrutivo do capitalismo já é maior do que todas as
destruições anteriores da vida no planeta
64 ■ Tema de capa | Andrea Fumagalli: A potência da concepção de uma economia para além dos números
70 ■ Tema de capa | Anselm Jappe: O fetichismo da mercadoria
74 ■ Tema de capa | Carlos Eduardo Martins: Papel fundamental do marxismo é contribuir para reinvenção do
socialismo no século XXI
83 ■ Tema de capa | Jose Arthur Giannotti: A esquerda ferida
85 ■ Tema de capa | Ruy Fausto: Uma outra política para a esquerda e a necessidade de rever a relação com Marx
90 ■ Massimo Faggioli: Francisco, a autoridade que tenta frear a reversão de conquistas do século XX 3
96 ■ Crítica internacional | Anselmo Otavio: A administração Zuma e o legado na política externa da África do Sul
98 ■ Publicações | Acauam Oliveira: Tarefa da esquerda permanece a mesma: barrar o caráter predatório
automático do capitalismo
99 ■ Publicações | Alessandra Smerilli: Tendências econômicas do mundo contemporâneo
100 ■ Publicações | Massimo Faggioli: A universalidade e o (não) lugar político da Igreja no mundo de hoje. A
eclesiologia da globalização de Francisco
101 ■ Publicações | José Roque Junges: Os documentos eclesiais pós-sinodais “Familiaris Consortio” de Wojtyla
e “Amoris Laetitia” de Bergoglio como respostas aos desafios da pastoral matrimonial
102 ■ Publicações | Celso Gabatz: Poder, persuasão e novos domínios da(s) identidade(s) diante do(s)
fundamentalismo(s) religioso(s) na contemporaneidade brasileira
103 ■ Outras edições

Diretor de Redação Fachin, Cristina Guerini, Evlyn Zilch,


Inácio Neutzling Anielle Silva, Victor Thiesen, William
(inacio@unisinos.br) Gonçalves, Stefany de Jesus Rocha e
Wagner Fernandes de Azevedo.
Coordenador de Comunicação - IHU
Ricardo Machado – MTB 15.598/RS
(ricardom@unisinos.br)
Jornalistas
João Vitor Santos – MTB 13.051/RS
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ISSN 1981-8769 (impresso)
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A IHU On-Line é a revista do Institu-
to Humanitas Unisinos - IHU. Esta Revisão Instituto Humanitas Unisinos - IHU
publicação pode ser acessada às segun- Carla Bigliardi
das-feiras no sítio www.ihu.unisinos.br e Av. Unisinos, 950 | São Leopoldo / RS
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Editoração
A versão impressa circula às terças-fei- Gustavo Guedes Weber
ras, a partir das 8 horas, na Unisinos. O Diretor: Inácio Neutzling
conteúdo da IHU On-Line é copyleft. Atualização diária do sítio Gerente Administrativo: Jacinto Schneider
Inácio Neutzling, César Sanson, Patrícia (jacintos@unisinos.br)

EDIÇÃO 525
TEMAS EM DESTAQUE

Entrevistas completas em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas entrevistas publicadas no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU na última semana.

A pauta do Brasil é rediscutir


o Estado brasileiro
“No Brasil nós nunca tivemos uma noção muito clara do papel do Es-
tado.”
Rudá Ricci, graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política e doutor em Ciências So-
ciais. Disponível em https://bit.ly/2uQNMzV. Segunda parte da entrevista: https://bit.ly/2v8r2Ld

Caravana Semiárido Contra a Fome denuncia


iminência da volta do Brasil ao Mapa da Fome
“Houve cortes nos investimentos para ações que garantem a segurança
alimentar e nutricional das populações.”
Cícero Felix dos Santos, técnico em Agropecuária, participa da Articulação Popular São Francisco
Vivo - APSFV. Disponível em https://bit.ly/2JYlh8h.

4 Plano Safra não é sinônimo de política


agrícola
“Os produtores orgânicos não poderão trabalhar mais com produção
própria de nada.”
Rogério Dias, engenheiro agrônomo e vice-presidente da região Centro-Oeste da Associação
Brasileira de Agroecologia. Disponível em https://bit.ly/2mJrMmj.

Pressão pró-desmatamento comprometem


metas de emissão de gás carbônico
“Houve uma pressão e uma sinalização pró-desmatamento maior, que
acabou anulando ou se sobrepondo à pressão antidesmatamento.”
Raoni Rajão, graduado em Ciência da Computação, mestre e doutor em Organização, Trabalho e
Tecnologia. Disponível em https://bit.ly/2LEbQja.

Má-formação congênita e puberdade


precoce, uma herança maldita do agronegócio
“Enquanto alguns produtos são rapidamente degradados no ambiente,
outros possuem a capacidade de se acumular nos ecossistemas durante
um longo período de tempo.”
Ada Pontes Aguiar, graduada em Medicina, especialista em Saúde da Família, mestra em Saúde
Coletiva. Disponível em https://bit.ly/2v7vo5i.

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Textos na íntegra em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas notícias públicas recentemente no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

A complexa crise que Os quatro meses de Desde as chacinas da


explode na Nicarágua silêncio de um brutal Candelária e Vigário geral,
sob o governo de Ortega crime político mais de meio milhão de
jovens foram assassinados

O efeito imediato de conde- Investigação da Polícia Ci- O ano de 2018 marca as


nação à postura de Ortega vil do Rio sobre assassinato bodas de sangue das chaci-
trouxe uma enxurrada de da vereadora Marielle e de nas da Candelária e de outra
críticas internacionais aos seu motorista, Anderson, matança ocorrida um mês
sandinistas, somada à pres- segue sigilosa. Pressão da depois, a de Vigário Geral.
são interna contra o casal Anistia Internacional por Nestes 25 anos, o Brasil re-
presidencial que até então li- comissão externa cresce. trocedeu em quase tudo, es-
derava uma das nações mais Reportagem de Felipe Betim, publica- pecialmente na violência.
estáveis da região. da por El País em 22-7-2018, disponí- Artigo de Eliane Alves Cruz, publicado
vel em https://bit.ly/2LGTm1B. por The Intercept em 23-7-2018, dispo-
Reportagem de Murilo Matias, publi-
cada por CartaCapital em 23-7-2018, nível em https://bit.ly/2LDIhyl.
disponível em https://bit.ly/2NP82t4.

Brasil, o país mais letal O desfinanciamento do Redes livres, alternativa


para defensores da terra SUS e o desmonte da à Internet colonizada
e do meio ambiente atenção primária trazem
de volta doenças evitáveis

País lidera estatística com- Entrevista de Luís Eduardo Como multiplicam-se, em


pilada por ONG britânica, Gomes, publicada por Sul21 muitos cantos do mundo, ini-
com 57 mortes de um total em 23-7-2018, disponível em ciativas para compartilhar
de 207 no ano passado. https://bit.ly/2v7IcbZ. cultura, comunicação, lutas
Reportagem de Jacqueline Fowks, e atitudes transformadoras.
publicada por El País em 24-7-2018, Por que Google e Facebook
disponível em https://bit.ly/2mMc49K. tentam sufocá-las.
Artigo de Leonardo Foletto, publicado
por Outras Palavras em 25-7-2018, dis-
ponível em https://bit.ly/2OkIJzX.

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AGENDA

Programação completa em ihu.unisinos.br/eventos

Os projetos políticos Apresentação da obra Revolução 4.0 e


da eleição brasileira de La vie algorithmique: os riscos da
2018. (Im)previsões e critique de la raison totalização digital
análises numérique,
de Éric Sadin

16/ago 20/ago 20/ago


Horário Horário Horário
17h30 às 19h 17h às 18h30 19h30 às 22h
Conferencista Conferencista Conferencista
Prof. Dr. Bruno Lima Rocha Prof. Dr. Ícaro Ferraz Vidal Prof. Dr. Ícaro Ferraz Vidal
– Unisinos Junior - UTP-PR Junior - UTP-PR
Local Local Local
Sala Ignacio Ellacuría e Sala Ignacio Ellacuría e Sala Ignacio Ellacuría e
Companheiros – IHU Companheiros – IHU Companheiros – IHU
Campus Unisinos Campus Unisinos Campus Unisinos
São Leopoldo São Leopoldo São Leopoldo

6
Determinantes da Exibição e debate do Apresentação da obra
desigualdade social e filme No Intenso Agora, Prosperidade sem
da riqueza no Brasil de João Moreira Salles crescimento: vida boa
em um planeta finito,
de Tim Jackson

27/ago 28/ago 29/ago


Horário Horário Horário
19h30 às 22h 17h às 22h 19h30 às 22h
Conferencista Debatedoras Conferencistas
Prof. Dr. Pedro Herculano Profas. Dras. Marilia Verís- Profa. Dra. Clitia Martins –
de Souza – IPEA – Brasília simo Veronese e Sinara FEE
Santos Robin – Unisinos
Local Local
Sala Ignacio Ellacuría e Local Sala Ignacio Ellacuría e
Companheiros – IHU Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU
Campus Unisinos Companheiros – IHU Campus Unisinos
São Leopoldo Campus Unisinos São Leopoldo
São Leopoldo

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EDIÇÃO 525
ENTREVISTA

Caso Herzog: resolver a violência do passado


é enfrentar a exceção do Brasil de hoje
Para José Carlos Moreira da Silva Filho, é necessário estar atento às injustiças
e violações transcorridas para lidar com as violências estatais do presente
João Vitor Santos

A
imagem do falso suicídio do jor- toda a repressão vivida por milhares
nalista Vladimir Herzog divul- de brasileiros. Agora, no início de ju-
gada pelos militares é um ícone lho, uma vitória: o Estado brasileiro foi
das dissimulações inventadas para en- condenado, pela Corte Interamericana
cobrir a barbárie que ocorreu durante de Direitos Humanos - CIDH, pela pri-
o regime militar no Brasil, entre 1964 e são, tortura e morte do jornalista. “No
1985. Torturado até a morte, em 1975, caso Herzog, o Brasil vem se negando
nas dependências do Departamento de sistematicamente a cumprir esses deve-
Operações de Informações e Centro de res”, salienta José Carlos. Agora, diante
Operações de Defesa Interna - DOI- dessa decisão, o Estado brasileiro será
CODI, Herzog se tornou símbolo pela obrigado a reconhecer o crime e punir
busca da justiça, já que os responsáveis os culpados. Na entrevista, o jurista
nunca foram julgados, sob o argumen- analisa não só a condenação em si, mas
8 to de que estão protegidos pela Lei de o efeito que deve ter diante de outros
Anistia, de 1979. casos de vítimas do regime.
Para o jurista José Carlos Morei- José Carlos Moreira da Silva Fi-
ra da Silva Filho, esse é um capítulo lho é ex-conselheiro e vice-presidente
da história nacional que ainda não foi da Comissão de Anistia do Ministério
resolvido e, logo, ainda reverbera. “Ao da Justiça, membro da Associação Bra-
contrário do que o senso comum indica, sil de Juristas pela Democracia - ABJD.
é justamente ao estarmos atentos e di- Graduado em Direito pela Universida-
ligentes com nossas dívidas históricas e de de Brasília, mestre em Direito pela
com as injustiças e violações praticadas Universidade Federal de Santa Catari-
no passado que estaremos realmente na e doutor em Direito pela Universi-
habilitados, afiados e capacitados para dade Federal do Paraná. É professor da
lidarmos com as violências e arbitrarie- Pontifícia Universidade Católica do Rio
dades estatais praticadas no presente”, Grande do Sul - PUCRS.
avalia, em entrevista concedida à IHU Esta entrevista foi publicada original-
On-Line por e-mail. mente nas Notícias do Dia, em 13-7-
Foi por isso que familiares de Vladi- 2018, no sítio do Instituto Humanitas
mir e ativistas de Direitos Humanos Unisinos - IHU, disponível em https://
seguiram lutando pelo reconhecimen- bit.ly/2LFJlBO .
to não só do que foi esse crime, mas de Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que consis- José Carlos Moreira da Silva rido à Convenção Interamericana
te essa condenação do Brasil na Filho – A Corte Interamericana de de Direitos Humanos (o que fez em
Corte Interamericana de Direi- Direitos Humanos não condenou o 1992), muito menos se submetido à
tos Humanos no caso Vladimir Brasil pelo assassinato de Vladimir jurisdição da Corte Interamericana.
Herzog? O que deve ser feito a Herzog, pois à época dos fatos, o O motivo da condenação foi o fato
partir de agora? ano de 1975, o Brasil não havia ade- de que desde a data em que o Bra-

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“O Estado é culpado por omissão


do seu dever de investigar e de
promover a responsabilidade
criminal dos agentes que praticaram
crimes contra a humanidade”

sil reconheceu a jurisdição da Corte declare a responsabilidade do Esta- camento do Inquérito Policial.
(mais precisamente desde o dia 10 do brasileiro pela morte de Herzog,
de dezembro de 1998), o Brasil con- desmentindo a versão de suicídio, Confirmação do assassinato
tinuou não cumprindo com seus de- e que a família seja indenizada. Em
veres internacionais de levar adiante 27 de outubro de 1978 o juiz federal Em 1995, é promulgada a Lei 9.140,
o processo de investigação a respeito Márcio José de Moraes, em sentença que instituiu a Comissão Especial
das graves violações de direitos hu- correta e de grande coragem naquele de Mortos e Desaparecidos Políti-
manos sofridas por Herzog, mesmo contexto, emite sentença pela proce- cos - CEMDP. Em 28 de fevereiro de
que tais violações tivessem ocorrido dência da Ação movida por Clarice 1996, Clarice Herzog apresenta pedi-
anteriormente ao reconhecimento e seus familiares. Em 1983, o então do perante a CEMDP para reconhe-
da jurisdição da Corte. O Estado é Tribunal Federal de Recursos con- cimento do assassinato de Herzog
culpado por omissão do seu dever firma a sentença por maioria. A de- e para a indenização cabível. Em 17
de investigar e de promover a res- cisão transita em julgado em 27 de de julho de 1997, a decisão favorável
ponsabilidade criminal dos agentes setembro de 1995. Infelizmente, tal da CEMDP é confirmada pelo presi- 9
que praticaram crimes contra a hu- decisão foi sistematicamente des- dente da República. Em 2007 o Re-
manidade (dever que atenderia o cumprida. latório da CEMDP é publicado e nele
direito dos familiares às garantias e se afirma que “Em 25 de outubro de
Será apenas em 1992 que o então 1975, o jornalista Vladimir Herzog
às proteções judiciais), do seu dever
deputado federal Hélio Bicudo apre- foi assassinado sob torturas no DOI-
de garantir o direito à verdade dos
sentará representação ao Ministé- CODI de São Paulo”.
familiares e de repará-los pela per-
rio Público de São Paulo solicitan-
petuação desses danos. Em 19 de novembro, o advogado
do uma investigação policial para
No caso Herzog, o Brasil vem se apurar a responsabilidade de Pedro Fabio Konder Comparato apresen-
negando sistematicamente a cum- Antônio Mira Grancieri, o “capitão ta uma Representação ao Ministé-
prir esses deveres. Faço aqui uma Ramiro”, pela morte de Herzog. Em rio Público Federal para adotar as
breve cronologia. Em outubro de 04 de maio, o Ministério Público medidas necessárias e investigar os
1975, logo após a morte de Herzog, é solicita à Polícia Civil de São Paulo abusos e atos criminosos praticados
instaurado um Inquérito Policial Mi- a abertura de inquérito policial. Foi contra os opositores do regime. Em
litar - IPM para “apurar as circuns- instaurado o Inquérito Policial N° março de 2008, a Representação foi
tâncias em que aconteceu o suicídio 487/92. Em 21 de julho, Grancieri encaminhada a Fábio Elizeu Gaspar,
do jornalista”. O IPM, conforme ci- interpôs habeas corpus, alegando membro do Ministério Público Fede-
nicamente já indicado na sua pró- que a investigação já havia sido fei- ral com atribuições penais à época,
pria instauração, confirma o suposto ta no IPM anterior, que a instância que em 12 de setembro apresentou
suicídio de Herzog. Importante dizer adequada seria a justiça militar e uma promoção de arquivamento
que três médicos legistas confirmam que a investigação seria vedada pela para a 1ª Vara Federal Criminal, com
a versão de suicídio, são eles: Harry Lei de Anistia. Em 13 de outubro, a argumento de que a decisão do Tribu-
Shibata, Arildo Viana e Armando 4a Câmara Criminal do TJSP decidiu nal de Justiça do Estado de São Paulo
Canger. O atestado de óbito nesses por unanimidade conceder o habeas - TJSP fundada na Lei de Anistia ha-
termos sai em dezembro de 1975 e o corpus e trancar o Inquérito Policial via produzido coisa julgada material
IPM é arquivado em março de 1976 com fundamento na Lei de Anistia. e de que o crime estaria prescrito. Em
pelo juiz auditor da Justiça Militar. Em 28 de janeiro de 1993, a Procu- 09 de janeiro de 2009, a juíza federal
Em 19 de abril de 1976, Clarice e seus radoria Geral de Justiça apelou da substituta Paula Mantovani Avelino,
filhos ingressam com uma Ação De- decisão. Em 18 de agosto a 5ª Turma da 1ª Vara Federal Criminal, deter-
claratória contra a União na Justiça do Superior Tribunal de Justiça con- minou o arquivamento do processo,
Federal de São Paulo, pedindo que se firmou a decisão do TJSP pelo tran- o que foi feito no mesmo dia.

EDIÇÃO 525
A Comissão Nacional da agora? Muito simples. Cumprir a ção de Haia sobre leis e costumes da
Verdade sentença. O que implica que o Es- guerra terrestre de 1907 estabelece
tado brasileiro deve: 1) de modo que “as populações e os beligeran-
Em 18 de novembro de 2011, foi diligente, urgente e eficaz “reiniciar tes permanecem sob a garantia e o
promulgada a Lei N° 12.528, que a investigação e o processo penal regime do Direito das Gentes pre-
instituiu a Comissão Nacional da cabíveis, para identificar, proces- conizados pelos usos estabelecidos
Verdade - CNV. Em 30 de agosto de sar e, caso seja pertinente, punir os entre as nações civilizadas, pelas leis
2012, a CNV requereu ao juiz da 2ª responsáveis pela tortura e morte da humanidade e pelas exigências da
Vara de Registros Públicos da Co- de Vladimir Herzog”; 2) reconhecer consciência pública”. Tem-se aqui
marca de São Paulo a retificação do internamente e sem exceção o cará- uma norma legal internacional que
atestado de óbito de Vladimir Her- ter imprescritível dos crimes contra reconhece a existência do costume
zog. Em 24 de setembro de 2012, o a humanidade e internacionais; 3) internacional como fonte e que faz
Juiz emitiu sentença na qual orde- “realizar um ato público de reconhe- alusão às leis da humanidade.
nou a retificação do atestado de óbi- cimento de responsabilidade inter-
to de Vladimir Herzog para que nele Mas será apenas no Acordo de
nacional” perante o caso Herzog, em
constasse que sua morte “decorreu Londres de 1945, base jurídica para
desagravo à sua memória e “à falta
de lesões e maus-tratos sofridos em o Tribunal de Nuremberg, que o cri-
de investigação, julgamento e puni-
dependência do II Exército SP (DOI- me contra a humanidade será reco-
ção dos responsáveis por sua tortura
CODI).” Em setembro de 2014 uma nhecido em suas linhas e elementos
e morte”, contando com a presença
equipe de peritos da CNV produz constitutivos, quais sejam: I- a prá-
de altos representantes das Forças
um laudo pericial indireto sobre a tica de um ato por parte do Estado
Armadas inclusive; 4) publicar a
morte de Herzog e conclui pelo seu que seja violador de direitos huma-
sentença integral no Diário Oficial e
assassinato. No dia 10 de dezembro nos, como o assassinato, o estupro,
resumos dela em jornais de grande
de 2014, exatos 16 anos após o Brasil a tortura, e outros atos altamente
circulação e nas redes sociais (por
ter se submetido soberanamente à repudiáveis contra civis; II- que tais
pelo menos um ano e com promoção
jurisdição da Corte Interamericana atos sejam praticados em um con-
da página eletrônica) do Exército, do
de Direitos Humanos, é entregue o texto de perseguição sistemática ou
Ministério da Justiça e da Secretaria
10 Relatório Final da CNV no qual se generalizada. O Acordo de Londres,
de Direitos Humanos; e 5) pagar as
confirma o assassinato de Herzog e frise-se bem, não cria o crime con-
indenizações pelos custos materiais
se recomenda a responsabilização tra a humanidade, simplesmente o
e imateriais sofridos por Clarice, Ivo,
criminal, civil e administrativa dos reconhece, visto que ele já era tido
André e Zora Herzog, respectiva-
agentes cujas autorias são descritas como um crime internacional nos
mente, viúva, filhos e mãe de Vladi-
no Relatório, sem que sobre eles re- “usos estabelecidos entre as nações
mir Herzog, em sua cruzada na bus-
caia a anistia. civilizadas”. Já era tido como um
ca de justiça.
direito cogente de natureza interna-
Penalização dos culpados cional, como jus cogens. A sua im-
IHU On-Line – A Corte consi- prescritibilidade obedece ao mesmo
Paralelamente a tais desdobramen- derou esse um crime contra a raciocínio, ou seja, não depende de
tos internos, o Sistema Interameri- humanidade. O que isso signi- que tenha sido reconhecida em al-
cano de Direitos Humanos começa fica? gum Tratado Internacional, é carac-
a ser provocado a partir de julho de terística inerente à sua configuração
José Carlos Moreira da Silva
2009. A Comissão admite o caso em consuetudinária, o que faz sentido,
Filho – O Crime contra a Huma-
08 de novembro de 2012 e após as pois em contextos de violência ins-
nidade é um delito reconhecido pelo
manifestações das partes decide, em titucional generalizada ou de exce-
Direito Internacional a partir tanto
outubro de 2015, pelo mérito do pe- ção torna-se extremamente difícil a
do costume internacional quanto
dido, estabelecendo várias recomen- investigação de violações de direitos
de diversos tratados internacionais
dações ao Estado brasileiro, entre praticadas pelos Estados, sem falar
e normas e decisões produzidas por
elas a de investigar e processar cri- no caráter intensamente reprovável
Organismos Internacionais e por
minalmente os agentes responsáveis de uma grave violação praticada por
Tribunais Internacionais. É de fato
pela morte de Herzog. As recomen- quem detém o monopólio da força
acachapante o volume de normas,
dações não são atendidas e no dia 22 contra quem deveria proteger.
decisões e manifestações, até mesmo
de abril de 2016 o Caso Herzog é en-
no âmbito jurisdicional e legal inter- Os Tratados, normas e decisões
viado pela Comissão à Corte Intera-
no de inúmeros países, no sentido que reconhecem a imprescritibilida-
mericana de Direitos Humanos, que,
do seu reconhecimento. Acertada- de dos crimes contra a humanidade
finalmente, em 15 de março de 2018,
mente a sentença da Corte no Caso apenas a reconhecem, não a insti-
mas com publicação da sentença
Herzog identifica o início do desen- tuem, e assim é afirmado nos mais
apenas em 04 de julho de 2018, de-
volvimento da noção de crime con- diversos tribunais e organismos
cide pela condenação do Brasil.
tra a humanidade no início do século internacionais, bem como em múl-
O que se deveria fazer a partir de passado. O preâmbulo da Conven- tiplas jurisdições nacionais, como,

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aliás, a sentença da Corte no Caso no Brasil, como já é reconhecido pelo José Carlos Moreira da Sil-
Herzog bem especifica. A descrição próprio Estado brasileiro por inter- va Filho – Imagino que em vez de
legal internacional mais acabada do médio tanto da Comissão Especial “justiça restaurativa” você tenha
crime contra a humanidade está pre- de Mortos e Desaparecidos Políticos querido dizer “justiça de transição”
sente no Tratado de Roma de 1998, quanto pela Comissão Nacional da ou “justiça transicional”. Sem dúvida
que institui o Tribunal Penal Inter- Verdade, um enorme e capilarizado esta decisão internacional tensiona o
nacional e que foi incorporado pelo aparato de repressão, informação, Estado brasileiro, evidenciando a re-
Brasil em 2002. censura, morte e tortura, direciona- sistência do Brasil em cumprir seus
dos a partir da Doutrina de Segu- deveres internacionais e em promo-
Sem prescrição rança Nacional e das suas noções de ver a necessária justiça de transição
guerra psicológica adversa, interna e no país. A justiça de transição indi-
A proibição e necessária investi- subversiva, aptas a demarcar a no- ca o que devemos fazer nos regimes
gação e responsabilização de agen- ção de um inimigo interno, que po- democráticos para confrontar o pas-
tes pela prática de crimes contra a deria ser virtualmente qualquer um. sado de violações e arbitrariedades
humanidade é uma norma impe- generalizadas, promovendo o direito
rativa do Direito Internacional (jus Foram muitos os órgãos e agen-
à verdade e à memória, as respon-
cogens), o que significa que não se tes que atuaram a serviço dessa re-
sabilizações por graves violações de
admite qualquer hipótese de acor- pressão generalizada, sem que se
direitos humanos, as reparações e as
do em sentido contrário, mesmo hesitasse em praticar atos crimino-
necessárias reformas institucionais.
que pela via de uma lei de anistia. sos e proibidos à luz das próprias
Do mesmo modo, como assinalado, leis do período. Foram órgãos das Ao contrário do que o senso co-
a prescrição não pode ser invocada. Forças Armadas, das Polícias, dos mum indica, é justamente ao estar-
Tampouco poderá ser acionado o Estados, da União, médicos, juízes, mos atentos e diligentes com nossas
princípio ne bis in idem, ou seja, o promotores, políticos, empresários. dívidas históricas e com as injustiças
de que uma pessoa não poderá ser Paralelamente a tal pano de fundo, e violações praticadas no passado,
julgada pelo mesmo fato novamente, após a resistência armada ter sido especialmente quando tais violên-
pois os julgamentos absolutórios ou trucidada, após dezenas de jovens cias foram realizadas mediante ins-
que eximem o agente de responsa- terem sido mortos e vítimas de de- trumentalização das instituições 11
bilidade pela prática de tais crimes saparecimento forçado na Guerrilha públicas, que estaremos realmente
não observaram as normas interna- do Araguaia (situação até hoje pen- habilitados, afiados e capacitados
cionais como se deveria, e, na maior dente e que motivou condenação an- para lidarmos com as violências e
parte dos casos foram arremedos de terior do Brasil pela mesma Corte), arbitrariedades estatais praticadas
prestação jurisdicional ditadas por o regime mirou entre 1973 e 1976 no presente. O esquecimento do pas-
normas e procedimentos de exceção, os membros e dirigentes do Parti- sado é o principal ingrediente para
em si mesmos violadores de direitos. do Comunista Brasileiro - PCB na a continuidade da violência e para
famigerada “Operação Radar”, com a sua impunidade, especialmente
No caso Herzog, inclusive, a sen- o objetivo de eliminar as principais quando estamos falando de crimes
tença da Corte assinalou que embora lideranças, e que foi conduzida pelo praticados pelo Estado por meio dos
seja um dever imperioso do Estado Centro de Informação do Exército - seus agentes.
que perpetrou tais crimes fazer a CIE em conjunto com o DOI-CODI
devida investigação e responsabili- Dentre os atores institucionais que
do II Exército, comandado ao longo
zação dos seus agentes, qualquer Es- hoje mais intensamente e sistemati-
do seu período mais violento pelo
tado tem jurisdição para processar camente descumprem seus deveres
falecido coronel Carlos Alberto Bri-
e julgar esses agentes, o que funda- no campo da justiça de transição no
lhante Ustra. Dezenas de membros
menta e dá visibilidade ao instituto Brasil estão as Forças Armadas e o
do PCB foram detidos, torturados e
da jurisdição universal, o mesmo Poder Judiciário. Aquelas por até
mortos, praticamente todo o Comi-
que foi invocado pelo juiz espanhol hoje, mesmo que veladamente em
tê Central. Vladimir Herzog, à época
Baltasar Garzón para determinar a alguns casos, ainda insistir no dis-
da sua prisão e morte, era jornalista
prisão do ditador chileno Augusto curso de apologia da ditadura e no
de destaque na TV Cultura, diretor
Pinochet em 1998. negacionismo das barbaridades que
do Departamento de Jornalismo, e
ela cometeu, e também por ter se
também era membro do PCB.
Repressão e perseguição negado acintosamente a colaborar
seriamente com a Comissão Nacio-
Vladimir Herzog foi morto tanto IHU On-Line – Qual a impor- nal da Verdade. Este, com honro-
em um contexto de repressão gene- tância dessa decisão interna- sas exceções, por até hoje bloquear
ralizada quanto de perseguição sis- cional e como isso tensiona o as ações de responsabilização por
temática a um determinado grupo de Estado brasileiro a, de fato, crimes contra a humanidade pra-
civis. Em outubro de 1975, quando incursionar pelos porões da di- ticados pela ditadura e, particular-
ocorreu o assassinato do jornalista, tadura e promover uma justiça mente, por ter endossado por meio
já estava estruturado e sedimentado restaurativa? do seu mais alto órgão, o Supremo

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Tribunal Federal - STF, a interpreta- de 2010 (que apreciou a compatibili- José Carlos Moreira da Sil-
ção autoritária da ditadura para a lei dade da Lei de Anistia de 1979 com va Filho – Na medida em que em
de anistia de 1979. Não é à toa que a Constituição de 1988) – e, salien- outros casos (e os há em profusão)
tanto o Exército como o Judiciário to, discordo dela diametralmente1 tenham sido esgotadas todas as
brasileiro são explicitamente men- – é o STF o mais alto órgão público possibilidades internas para que
cionados em várias passagens da competente para apreciar a compati- as vítimas e familiares possam ter
sentença da Corte Interamericana bilidade entre lei e Constituição. No atendidos os direitos consagrados
no Caso Herzog. entanto, o órgão responsável, em úl- na Convenção Interamericana. Para
tima instância, por analisar a compa- que tais ações possam progredir de-
tibilidade entre a lei de um país signa- pende, por óbvio, da capacidade e
O que se tário da Convenção Interamericana de
Direitos Humanos e esta Convenção
disposição tanto das vítimas (os fa-
miliares de mortos e desaparecidos
deveria fazer a é a Corte Interamericana de Direitos
Humanos, ainda mais em decisão que
também são considerados vítimas
pela Corte) quanto de entidades que
partir de agora? condena o país em questão. patrocinam tais causas no exercício
da advocacia transnacional, e desde
Muito simples. A lei de anistia de 1979, no que toca
à anistia dos agentes da ditadura que
que, claro, os possíveis perpetrado-

Cumprir a
res ainda estejam vivos.
praticaram crimes contra a humani-
dade passou (por enquanto, já que a Todas as dezenas de casos e ações
sentença decisão segue pendente de apreciação
de recurso e de ações posteriores) pelo
penais que o Ministério Público Fe-
deral vem tentando levar adiante
controle de constitucionalidade, mas desde que o Brasil foi condenado no
IHU On-Line – A Corte ainda não passou pelo controle de conven- Caso Araguaia representam virtual-
aponta que a Lei de Anistia de cionalidade, o que é verdade desde mente casos que poderão ser levados
1979 foi usada para encobrir a pelo menos novembro de 2010, quan- ao Sistema Interamericano de Direi-
verdade dos fatos desse caso. do a Corte Interamericana publicou tos Humanos, visto que todos eles,
12 Em que medida essa decisão sentença condenatória do Brasil no ainda que com honrosas exceções em
pode também promover uma Caso Gomes Lund, mais conhecido primeira e segunda instância (mas já
espécie de revisão da legisla- como Caso Guerrilha do Araguaia. devidamente bloqueadas por juízes
ção, visando levantar todas in- A sentença da Corte no Caso Herzog de segunda instância ou pelo próprio
formações encobertas por leis? reafirma isto. O Estado brasileiro, STF), já foram bloqueados, interrom-
quando soberanamente reconheceu a pidos e em alguns casos arquivados
José Carlos Moreira da Silva
jurisdição da Corte Interamericana de pelo Poder Judiciário brasileiro.
Filho – A verdade é que a lei de anis-
tia de 1979 não passou no necessário Direitos Humanos, se comprometeu
a cumprir integralmente as condena-
duplo controle constitucional-con- IHU On-Line – Em resposta à
ções que viesse a sofrer. Não há, por-
vencional de legitimidade. O jurista decisão da Corte, o Ministério
tanto, justificativa jurídica plausível
André de Carvalho Ramos teoriza so- dos Direitos Humanos brasilei-
para que o Poder Judiciário (um dos
bre esta noção, estipulando que à luz ro disse que vai aprimorar as
poderes do Estado) continue a des-
dos direitos humanos as leis neces- investigações sobre o Caso Her-
cumprir o que foi determinado pela
sitam passar por um duplo controle zog. Como avalia essa postura
Corte, valendo o mesmo para o Exér-
para serem consideradas legítimas e do governo brasileiro e quais
cito brasileiro, submetido em todos os
válidas juridicamente. Como tanto a suas expectativas com relação
sentidos jurídicos e legais ao comando
ordem nacional quanto a internacio- a ações concretas?
do Poder Executivo.
nal buscam proteger os direitos hu-
José Carlos Moreira da Silva
manos, teremos o reconhecimento da
Filho – Honestamente, não acredi-
obrigação da sua proteção e da veda- IHU On-Line – Em que me-
to que o atual governo irá cumprir a
ção de sua violação nas Constituições dida essa decisão sobre o caso
decisão da Corte. Eu tive a oportuni-
e em Convenções Internacionais de Herzog pode abrir caminho
dade de oferecer um amicus curiae
Direitos Humanos. para decisões similares em ou-
[expressão em Latim utilizada para
tros crimes de morte e tortura
O órgão responsável por analisar designar uma instituição que tem
feitos durante o regime militar
a adequação da lei à Constituição é por finalidade fornecer subsídios
no Brasil?
a Suprema Corte ou Corte Constitu- às decisões dos tribunais, oferecen-
cional de cada país. Ainda que pos- 1 Sobre os motivos da minha discordância ao Acórdão do
do-lhes melhor base para questões
samos cientificamente discordar da STF na ADPF 153 ver meu livro: SILVA FILHO, José Carlos relevantes e de grande impacto]
Moreira da. Justiça de Transição - da ditadura civil-militar
decisão do STF na Arguição de Des- ao debate justransicional - direito à memória e à verdade e nessa causa, que foi produzido por
cumprimento de Preceito Funda- os caminhos da reparação e da anistia no Brasil. Porto Ale-
gre: Livraria do Advogado, 2015 (em especial os capítulos
integrantes do Grupo de Pesquisa
mental - ADPF 153 tomada em abril 3 e 10). (Nota do entrevistado) Direito à Verdade e à Memória e

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Justiça de Transição, o qual coorde- contra civis, incluindo-se aí os poli- nhecemos, à qual temos noção por
no no Programa de Pós-Graduação ciais militares. processos de enfrentamento, reco-
em Ciências Criminais da PUCRS. nhecimento e apaziguamento, ou
Poderia incluir nesta lista outros
Assinaram e elaboraram a peça jun- mediante o testemunho, seja presen-
feitos como o de tornar o ensino de
to comigo alunas, alunos, ex-alunas cial, seja por vídeos, gravações, fotos
História no Ensino Médio algo facul-
e ex-alunos da Escola de Direito da ou documentos, juntamente com os
tativo, por exemplo. Eu diria que o
PUCRS. Foram oferecidos cinco trabalhos mais distanciados da in-
Governo Temer tem seguido ao con-
amicus nessa causa, o nosso foi o vestigação histórica e da produção
trário as recomendações da Comissão
primeiro a ser mencionado na sen- da verdade institucional, é uma fonte
Nacional da Verdade - CNV. É um
tença (parágrafo 12, página 6). Tam- indispensável de conhecimento para
modelo de como não se fazer a justiça
bém fizemos o mesmo na causa da quem pretende agir e se reconhecer
de transição. Não se poderia esperar
Guerrilha do Araguaia (aí já era um em uma comunidade política, fazer
algo diferente de um governo que
outro grupo à época). parte da sociedade. Ao contrário do
chegou ao poder mediante um golpe que se pode pensar, a memória ou-
Mencionei o amicus porque um institucional, que não tem legitima- trora bloqueada ou negada, coloca
dos pontos que levantamos na peça ção popular, que é fruto de um pro- em cena algo novo, jamais reconhe-
(além da configuração do assassina- cesso de impeachment fraudulento. cido. Por vezes a memória abre ex-
to de Herzog como crime contra a pedientes que a história havia dado
Por fim, quando o governo diz que
humanidade e da afirmação do cum- por encerrados. Ela atualiza as po-
“irá aprimorar a investigação sobre
primento do direito à verdade para tencialidades críticas e emancipató-
o Caso Herzog”, está claramente ter-
os familiares, entre outros pontos) rias. A memória da injustiça, da vio-
giversando. Caso tivesse mesmo a
foi a descrição dos retrocessos em lação dos direitos mais básicos, do
disposição em cumprir a sentença, o
matéria de justiça de transição que aviltamento da condição humana,
governo teria declarado sua intenção
começaram a ser operados desde o tão claro na prática institucionaliza-
em reiniciar as investigações com o
primeiro dia do Governo Temer, tais da da tortura, do aparelhamento de
envolvimento imediato da Polícia
como a inédita exoneração da maio- instituições públicas e coletivas para
Federal e em envidar esforços para
ria dos antigos Conselheiros e Con- a perseguição, a morte, a tortura, o
o subsequente processamento e a
selheiras da Comissão de Anistia, o
responsabilização penal dos agen- estupro, o desaparecimento forçado, 13
cancelamento de inúmeras políticas tal memória é o ingrediente mais im-
tes, bem como declararia seu intento
de memória e reparação que eram portante para que haja o engajamen-
em exigir do Exército o acesso aos
empreendidas (dentre as quais o to político da sociedade em prol do
arquivos do período. Confesso meu
belo, inédito e exitoso projeto Clíni- nunca mais.
ceticismo até mesmo de que o atual
cas do Testemunho e a finalização e
governo faça o ato público em desa- É somente tendo a experiência de
inauguração do Memorial da Anistia
gravo à memória de Herzog nos ter- viver ou testemunhar a injustiça e
Política em Belo Horizonte-MG), o
mos exigidos pela sentença. a violência que se tem a necessária
recente cancelamento do pedido de
desculpas aos perseguidos políticos, o motivação e estímulo para a cons-
cancelamento do apoio e da estrutu-
ra mínima para o funcionamento da
Honestamente, trução de políticas de não repeti-
ção. Apenas quem de fato se sen-
Comissão de Mortos e Desaparecidos
Políticos, que felizmente conseguiu
não acredito sibiliza por tanta dor irá agir para
evitar que ela se repita. Aprende-
encontrar outros meios para continu- que o atual se mais sobre Direitos Humanos
ao se experimentar a sua violação
ar o seu importante trabalho, e, claro,
a observação ao contrário das reco- governo do que lendo artigos de lei, teorias
ou livros de história. Walter Ben-
mendações feitas pela Comissão Na-
cional da Verdade, especialmente no irá cumprir jamin, mergulhado na meia-noite
da História, já havia notado que a
que toca à questão da militarização
da segurança pública, e nesse parti- a decisão Modernidade que se abraça com o
progresso é a mesma que se abra-
cular com grande destaque para a in-
tervenção federal operada por manu da Corte ça com o fascismo, pois descarta
militare no Rio de Janeiro (com di- o passado dos vencidos como um
custo necessário, como página vi-
reito à afirmação do Comandante do
IHU On-Line – De que forma fa- rada. Tal lógica é a responsável
Exército de que é preciso não haver
tos como esse reacendem e atua- pela continuidade dos mesmos dis-
outra Comissão da Verdade para apu-
lizam a memória da ditadura no positivos de massacre. Se quiser-
rar “eventuais excessos” dos milita-
Brasil? E por que é importante mos de fato avançar é para trás que
res) e a absurda sanção presidencial
sempre fazer essa memória? temos de olhar.
à lei que retira da justiça comum para
a justiça militar a jurisdição sobre mi- José Carlos Moreira da Silva Recuperar as narrativas de sofri-
litares que tenham praticado crimes Filho – A memória do que não co- mento das vítimas do passado e fazer

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justiça a elas é o impulso e direciona- escasso diante do intenso desenvol- individualista e ilusória. É preciso re-
mento de que precisamos para que vimento de processos de automa- construir o espaço político tanto no
tenhamos justiça para as vítimas de ção e de inteligência artificial, e no fortalecimento dos espaços demo-
hoje. Não é de se estranhar que o Bra- mundo da política, cada vez mais cráticos existentes como na busca de
sil é o país mais violento da América atrelada aos interesses econômicos novas vias de engajamento solidário.
Latina, com a Polícia que mais mata de conglomerados cada vez mais po-
A política necessária está por ser in-
e que mais morre, e que o combate à derosos. O cenário atual, colonizado
ventada e creio que na verdade vem
tortura nunca tenha sido uma bandei- por uma racionalidade individualis-
sendo. Em momentos como esse é
ra prioritária das instituições públicas. ta que idolatra uma ilusória liberda-
fundamental a reflexão, a discussão,
Por exemplo, por que o Ministério de de escolha, revela uma institucio-
a denúncia dos lobos vestidos em pe-
Público nunca fez uma forte e incisiva nalidade que falha fragorosamente
campanha pública de combate ao mal les de cordeiro. Em momentos assim
em cumprir as clássicas promessas
crônico da tortura? Ou o Judiciário? é forte a tentação de comprar o velho
da democracia como regime político
São perguntas que deixo no ar. como novo, de sucumbir ao discurso
e como concretização de direitos. É
tão fácil como enganoso e traiçoeiro
um cenário de retomada do aumen-
do fascismo, pois este escolhe um ini-
to da desigualdade sem o amparo de
“A verdade é
migo a ser combatido, rotulado como
promessas emancipatórias. Assu-
o bode expiatório de todos os males.
me-se o vale-tudo e a exclusão como
que a lei de processos naturais e inexoráveis. O
serviço público mais visível é o braço
O rótulo vai se alargando e alcança
cada vez mais grupos da sociedade,

anistia de 1979 punitivo, a repressão, que ilusoria-


mente é tida como voltada à prote-
vai se instalando confortavelmente
na mesma medida em que critérios
não passou ção dos indivíduos que se enxergam seguros de igualdade legal e cláusulas
pétreas da Constituição vão cedendo
como empreendedores de si mesmos
no necessário e únicos credores dos méritos pelas ao puro decisionismo de juízes que
se arvoram a salvadores da pátria,
duplo controle
suas frágeis condições econômicas.
O sistema punitivo revela-se mais e que invocam incríveis capacidades
14 psíquicas de absorção e medição de
constitucional- mais seletivo e mira com furor os po-
bres, os migrantes, os defensores de clamores vindos das ruas.

convencional direitos humanos e os movimentos


políticos que buscam construir alter- Exceção mal resolvida

de legitimidade” nativas a este discurso único. Quando as garantias e os direitos


fundamentais, individuais, sociais e
O grande problema é as pessoas
comprarem a ideia de que não há políticos, são relativizados em esca-
alternativas, de que a desregulação la geométrica, como vem ocorrendo
IHU On-Line – Vivemos um da economia, a precarização do tra- paulatinamente, a exceção é a regra
tempo de tensões, conserva- balho, e o abandono dos desempre- para estratos cada vez mais amplos
dorismos, disputas polares em gados ou miseráveis (mesmo com da sociedade. E a exceção no Brasil
que a própria democracia é trabalho) a um cenário ausente de de hoje se encontra com a exceção
posta em xeque. É nesse tem- serviços públicos sociais, ou mes- mal resolvida do Brasil da ditadu-
po que defensores de regimes ra. Os paralelismos entre a atual
mo o extermínio maciço em guerras
militares parecem que tomam degradação institucional da frágil e
e conflitos civis são consequências
voz. Como o senhor tem ob- historicamente recente democracia
factuais e científicas do processo
servado esse contexto? Em que no Brasil com o processo golpista
de inovação tecnológica. Ledo en-
medida esse sentimento reve- e autoritário de 1964 são inúmeros
gano. São escolhas políticas vendi-
la o desconhecimento do que e espantosos. Novamente temos
das como realidade incontornável.
foi o regime militar no Brasil? um judiciário clara e maciçamente
A maior prova de que, apesar de
Ou seria apenas uma decepção mais disposto a servir determina-
tudo, a política está viva e pulsante,
com as promessas do Estado das forças políticas do que o senti-
é o enorme esforço e investimento
Democrático? do político da Constituição, que não
que fazem para dizer que a política
José Carlos Moreira da Silva acabou ou que é coisa de “gente que hesita em violar cláusulas pétreas e
Filho – A democracia está em cri- não presta”. O que falta hoje para a em aprovar atos de exceção como
se no mundo todo. O estágio atual democracia é uma reorganização das se legais fossem. Novamente temos
do capitalismo financeiro e o incrí- forças políticas comprometidas com um alinhamento internacional com
vel desenvolvimento tecnológico a diminuição da desigualdade, falta forte ingerência dos Estados Unidos
criaram condições novas de socia- o engajamento de todos aqueles que nos processos de ruptura política na
bilidade com mudanças enormes no buscam uma sociedade melhor, que América Latina. Novamente temos
mundo do trabalho, cada vez mais jamais virá por meio de uma distopia processos coordenados de crimi-

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nalização de lideranças políticas de tados como “novos”. Reforçar a me- dente Lula por corrupção passiva
esquerda ou populares na América mória dos que foram atingidos pela e lavagem de dinheiro no caso do
Latina. Novamente temos um golpe ditadura e dos que lutaram contra tríplex do Guarujá, o desembarga-
parlamentar2 no Brasil. Novamente ela, promover do modo mais público dor Thompson Flores afirmou que
a educação pública e a Petrobras so- e intenso possível a justiça de tran- a sentença de Moro era “histórica”
frem ataques que buscam a sua pri- sição, falar dela em sala de aula, nos e “irretocável”, e a comparou à sen-
vatização. Novamente elites brancas espaços de convivência social, na im- tença dada pelo juiz Márcio José de
vão às ruas entoar seus preconceitos prensa, nas pesquisas, nas palestras, Moraes em 1978.
e defender o Brasil da desigualdade. nas periferias, nos salões das elites,
é um antídoto necessário que temos Não sei o que pensa sobre tal de-
Apoio à ditadura no presente para desarmar as tenta- claração do hoje desembargador
ções autoritárias. do Tribunal Regional Federal da
Entre os jovens que vão às ruas 3a Região Márcio José de Mora-
apoiar a ditadura e pedir o governo es, mas eu a considero um enorme
Vlado
de militares para “limpar a política”, desrespeito com a memória de Vla-
enaltecendo notórios torturadores No caso do Vlado [Vladimir Her- dimir Herzog e com a decisão jus-
ou candidatos à presidência que zog], foco central desta entrevista, ta, legal, corajosa e correta dada
os defendem, estão muitos para os a construção da memória do seu em 1978. Já tive a oportunidade
quais a palavra “ditadura” não tem papel de opositor à ditadura, o re- de afirmar, e em muito boa com-
significado real, é um significante conhecimento da sua morte brutal panhia de uma centena de outros
vazio adaptável a frases de efeito e a nas mãos do Estado de exceção e juristas 3, que a sentença de Moro
declarações pretensamente honestas a omissão do Estado, perpetuada é uma peça de exceção voltada à
que se prestam a memes de assimila- até os dias atuais, em investigar o criminalização de uma das maio-
ção fácil e imediata. Mas não ignoro fato e em responsabilizar os seus res lideranças populares da histó-
que há também jovens e adultos que próprios agentes guarda estreita ria brasileira, sem que haja provas
assumem explicitamente sua visão relação com graves e inúmeros fa- suficientes dos delitos alegados,
autoritária, violenta e genocida. tos do presente: os suicídios fabri- com múltiplas arbitrariedades e
cados pelo Estado, as falsas versões aberrações jurídicas. Acredito que 15
Construção de Estado De- de fugas, tiroteios e resistências, a essa comparação feita pelo presi-
mocrático de Direito ausência de investigações eficazes dente do TRF4 entre a sentença
A decepção com o Estado De- e de condenações de agentes da re- de Moro e a de Márcio Moraes não
mocrático é grande, mas é preciso pressão estatal (da qual temos hoje foi inocente. Ela nos mostra que a
aprender a construir as alternativas o exemplo gritante da execução de memória do arbítrio pode ser co-
de modo democrático e dentro de Marielle Franco e Anderson Costa optada ou desvalorizada no objeti-
limites civilizacionais que foram his- e da total ausência de qualquer res- vo de justificar ou encobrir novos
toricamente estabelecidos à custa de posta ou interesse público em in- arbítrios e medidas de exceção.
muito sangue e sofrimento. É preciso vestigar tais execuções), a copiosa
prática da tortura pelas forças de No cenário em que vivemos, a me-
também agir com vigor e celeridade
segurança e a correlata ociosidade mória das nossas lutas de resistên-
para chamar à responsabilidade os
autores de atos fascistas e de intole- da aplicação da lei de tortura con- cia, pela ampliação de direitos, pelo
rância e violência explícitas. É preci- tra os seus agentes. combate da desigualdade social, pela
so combater a omissão, a covardia e necessária justiça e reconhecimento
Vou finalizar lembrando que a já aos que se opuseram dos mais diver-
a irresponsável conveniência na ina- mencionada e corajosa sentença
ção tanto dos agentes institucionais sos meios à ditadura e ao projeto de
prolatada pelo juiz federal Márcio desigualdade e violência que ela re-
como das pessoas que presenciam José de Moraes em 1978, declarando
tais atos em buscar responsabilizá presentou, é um patrimônio valioso
a União responsável pela morte de
-los e denunciá-los. A saída autori- a ser cultivado e protegido. A conde-
Herzog, decisão que foi desrespeita-
tária e a violência não têm nada de nação do Brasil pela Corte Interame-
da e descumprida, restou citada em
novo, embora os atores políticos que ricana de Direitos Humanos no Caso
polêmica e recente declaração dada
as defendam estejam sendo apresen- Herzog representa uma importante
pelo atual presidente do Tribunal
vitória nessa direção.
2 Em recente artigo argumento que o processo de impe-
Regional Federal da 4a Região,
achment da presidenta Dilma Rousseff ocorrido em 2016 Carlos Eduardo Thompson Flores Vlado, presente! Hoje e sempre! ■
pode ser chamado de golpe parlamentar, e identifico re-
lações entre a reticência do judiciário brasileiro em pro- Lenz, cujo avô, Carlos Thompson
mover a justiça de transição no país e a sua participação
no processo de ruptura que ora vivenciamos. Ver: SILVA
Flores foi nomeado ministro do STF 3 SILVA FILHO, José Carlos Moreira da. Condenação sem
Provas e Juízo de Exceção como Ameaça à Democracia
FILHO, José Carlos Moreira da. Justiça de Transição e Usos pela ditadura em 1968. Em agos- – uma nódoa a ser superada. In: Carol Proner; GiseleCit-
Políticos do Poder Judiciário no Brasil em 2016: um Gol- tadino; Gisele Ricobom; João Ricardo Dornelles. (Org.).
pe de Estado Institucional?. REVISTA DIREITO E PRÁXIS, v. to de 2017, à época da remessa ao Comentários a uma Sentença Anunciada – o processo Lula.
AOP, p. 1-29, 2017. Disponível em: http://www.e-publica-
coes.uerj.br/index.php/revistaceaju/article/view/31488.
TRF4 do processo no qual o juiz 1ed. Bauru: Cana 6, 2017, v., p. 237-246. O livro está dispo-
nível em: https://drive.google.com/file/d/1T_TFknjaV5g-
(Nota do entrevistado) Sergio Moro condenou o ex-presi- VkgsGRg_bp0vlYQbmRfGO/view. (Nota do entrevistado)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

Karl Marx
João Vitor Santos

K
arl Marx nasceu em 5 de maio de O pensador vai elaborar que, assim como
1818, na cidade alemã de Trier. Ago- havia ocorrido com o feudalismo e outros
ra, em 2018, inúmeros eventos e sistemas anteriores, o capitalismo iria
publicações celebraram seus 200 anos. A aprofundar tensões internas. Tensões es-
efeméride também tem servido de gatilho sas que, para alguns de seus leitores, vai
para que se revisite a sua obra, tendo em levar à autodestruição do capitalismo e,
perspectiva as questões e desafios do sécu- talvez, à substituição desse sistema pelo
lo XXI. Obra, aliás, que vai da Filosofia às socialismo. Atualmente, muitos pesquisa-
Ciências Sociais, passando pela Economia dores observam como o capitalismo tem
e História, e que o consagra como um dos sido capaz de apreender as dinâmicas do
pensadores que exerceram grande influên- século XXI, mas sem desconsiderar as
cia sobre o pensamento social do século XX. elaborações iniciais de
Embora nascido na Prússia, Marx pas- Marx e as concepções
sou grande parte de sua vida em Lon- de que o socialismo
dres, no Reino Unido. É de onde observa pode ser um caminho
as transformações do mundo operário e para superar as desi-
concebe, no campo da economia, uma de gualdades geradas pe-
16 suas célebres análises em que relaciona o las lutas de classes. No
capital com o trabalho. Nasceu em uma entanto, há consenso
família de classe média e passou pelas mesmo somente sobre
universidades de Bonn e Berlim, ainda a grande influência de
na Alemanha. É nessa fase de estudante Marx, entre seus segui-
que se interessa por concepções filosó- dores e até entre os que
questionam seu pensa-
ficas mais hegelianas. Recém-saído da
mento. É normalmente
universidade, começa a publicar seus tex-
citado, ao lado de Émile
tos para um jornal da cidade de Colônia,
Durkheim e Max We-
quando também começa a desenvolver
ber, como um dos três
seus estudos de concepção materialista
principais arquitetos da
da história. Marx e sua esposa Jenny
ciência social moderna.
Marx chega a Paris em 1843, e segue es-
Foi casado com Jenny
crevendo para outros jornais. Nesse perío-
von Westphalen, filha de um barão prus-
do conhece Friedrich Engels, que se torna-
siano com quem mantinha noivado desde
ria seu amigo de longa data e colaborador.
a universidade. Dessa união, teve sete fi-
Em 1849, foi exilado e se mudou para
lhos, mas, muito em decorrência das más
Londres junto com sua esposa e filhos,
condições de vida que foram forçados a
onde continuou a escrever e formular suas
viver em Londres, três morreram na infân-
teorias sobre a atividade econômica, mas
cia. Outras duas filhas cometeram suicídio.
sem desconsiderar essa uma também uma
Marx também teve um filho nascido de sua
ciência social.
relação amorosa com a militante socialista
Em linhas gerais, podemos afirmar que e empregada da família, Helena Demuth.
suas teorias sobre sociedade, economia e A pedido de Marx, Engels assumiu a pa-
política estão centradas numa ideia de de- ternidade da criança, Frederick Demuth.
senvolvimento a partir da luta de classes. Mas biógrafos sempre destacam o amor
Nesse sentido, o Estado teria sido criado de Marx por Jenny. Depois da morte da
para proteger os interesses das classes do- esposa, em 1881, problemas de saúde que
minantes, embora se vendesse a ideia de ele teve por toda a vida, como bronquite e
que seria um instrumento de zelo pelo in- pleurisia, chegaram a estágios severos e o
teresse de todos. levaram à morte em 1883. Marx foi sepul-

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tado no Cemitério de Highgate, em Lon- Paulo: Boitempo, 2018.


dres e, hoje, seu mausoléu se tornou ponto
- KARL MARX. In: WIKIPÉDIA, a en-
turístico da cidade.
ciclopédia livre. Flórida: Wikimedia
Referências: Foundation, 2018. Disponível em: <ht-
tps://pt.wikipedia.org/w/index.php?ti-
- BOTTOMORE, Tom. Dicionário do Pen- tle=Karl_Marx&oldid=52783429>. Aces-
samento Marxista. São Paulo: Zahar, 1988. so em: 27 jul. 2018.
- HEINRICH, Michael. Karl Marx e o - LOSURDO, Domenico. O Marxismo
nascimento da sociedade moderna. São Ocidental. São Paulo: Boitempo, 2018.

Obra

A célebre obra de Marx é O Capital (1867), na qual faz uma extensa análise da sociedade capitalista. Também
é reconhecido pelo Manifesto Comunista (1848), mas sua produção é muito mais extensa. Convencionalmente,
estudiosos de seu legado dividem sua produção em três fases: Jovem Marx, escritos entre 1839 e 1850; Transição,
entre 1852 e 1856; e Fase adulta, de 1857 a 1880.

Veja a lista dos escritos


Segundo critérios de Tom Bottomore, em Dicionário do Pensamento Marxista (São Paulo: Zahar, 1988)

Jovem Marx
17
- Oulanem (1839)
- Diferença da Filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro (Über die Differenz der Demokritischen und Epi-
kureischen Naturphilosophie) (1841)
- Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (Kritik des Hegelschen Staatsrech) (1843)
- A Questão Judaica (Zur Judenfrage) (1843)
- Contribuição para a Crítica da Filosofia do Direito em Hegel: Introdução (Zur Kritik der Hegelschen Rechts-
philosophie: Einleitung) (1844)
- Manuscritos Econômico-filosóficos (Ökonomisch-philosophischen Manuskripte) (1844)
- Teses sobre Feuerbach (Thesen über Feuerbach) (1845)
- A Sagrada Família (Die Heilige Famile) (1845)
- A Ideologia Alemã (Die deutsche Ideologie) (1845-1846)
- Miséria da Filosofia (Misère de la philosophie: réponse à la philosophie de la misère de Proudhon) (1847)
- A Burguesia e a Contra-Revolução (1848)
- Manifesto Comunista (Manifest der Kommunistischen Partei) (1848)
- Trabalho Assalariado e Capital (Lohnarbeit und Kapital) (1849)
- As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850 (Die Klassenkämpfe in Frankreich 1848-1850) (1850)
- Mensagem da Direção Central da Liga Comunista (Ansprache der Zentralbehörde an den Bund) (1850)

Transição
- O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (Der Achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte) (1852)
- Punição Capital (Capital Punishment) (1853)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

- Revolução na China e na Europa (Revolution in China and Europa) (1853)


- O Domínio Britânico na Índia (The British Rule in India) (1853)
- Guerra na Birmânia (War in Burma) (1853)
- Resultados Futuros do Domínio Britânico na Índia (The future results of British Rule in India) (1853)
- A Decadência da Autoridade Religiosa (The Decay of Religious Authority) (1854)
- Revolução na Espanha (Revolution in Spain) (1856)

Fase adulta
- Grundrisse (Grundrisse der Kritik der Politschen Ökonomie) (1857-1858)
- Para a Crítica da Economia Política (Zur Kritik der Politschen Ökonomie) (1859)
- População, Crime e Pauperismo (Population, crime and pauperismo) (1859)
- Manifesto de Lançamento da Primeira Internacional (Inaugural Address of the Working Men’s International
Association) (1864)
- Salário, Preço e Lucro (Value, Price and Profit) (1865)
- O Capital: crítica da economia política (Livro I: O processo de produção do capital) (Magnum Opus) (Das Ka-
pital: Kritik der politschen Ökonomie (Erster Band: Der Produktion Prozess des Kapitals)) (1867)
** Durante os anos seguintes, até o fim de sua vida, Marx se dedicará à redação dos demais volumes d’O Capital
(publicados postumamente por Engels).
- A Guerra Civil na França (The Civil War in France) (1871)
18
- Resumo de “Estatismo e Anarquia”, obra de Bakunin (Konzpekt von Bakunins Buch “Staatlichkeit und Anar-
chie”) (1874-1875)
- Crítica ao Programa de Gotha (Kritik des Gothaer Programms) (1875)
- Carta sobre o futuro do desenvolvimento da sociedade na Rússia, escrita ao editor do periódico russo Oteches-
venniye Zapiski e não enviada (1877)
- Notas sobre Adolph Wagner (Randglossen zu Adolph Wagners) (1880)

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Veja algumas publicações do IHU específicas sobre Marx

- A (anti)filosofia de Karl Marx. Artigo de Leda Maria Paulani, publicada no número 41 do Cadernos IHU
ideias, disponível em http://bit.ly/173lFhO.
- De Marx a Durkheim: Algumas apropriações teóricas para o estudo das religiões afro-brasilei-
ras. Artigo de Rodrigo Marques Leistner, publicado no Cadernos IHU ideias número 136, disponível em http://
bit.ly/2LOLOq9.
- A financeirização do mundo e sua crise. Uma leitura a partir de Marx. Revista IHU On-Line número
278, de 20-10-2008, disponível em https://goo.gl/7aYkWZ.
- Os ‘Grundrisse’ de Marx em debate. Revista IHU On-Line, número 381, de 21-11-2011, disponível em
http://bit.ly/2JVYHgF.
- Marx: os homens não são o que pensam e desejam, mas o que fazem. Entrevista com Pedro de
Alcântara Figueira, publicada na Revista IHU On-Line, número 327, de 3-5-2010, disponível em http://bit.ly/2p-
4vpGS.
- Contra Marx, apesar de Marx, além de Marx: ou o ressurgir da fórmula materialista da história.
Artigo de Carlos A. Gadea, publicado na Revista IHU On-Line, número 397, de 6-8-2012, disponível em http://
bit.ly/2uTe7gR.
- A IHU On-Line também publicou uma edição especial sobre desigualdade inspirada no livro de Thomas Piketty
O Capital no Século XXI, que retoma o argumento central de O Capital, obra de Marx, disponível em http://www.
ihuonline.unisinos.br/edicao/449 .

19

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

Uma leitura marxiana para iluminar as


reflexões sobre a realidade brasileira
Luiz Gonzaga Belluzzo considera que o filósofo e economista desvelou
a dinâmica do capital, que possibilidade ainda hoje usar suas reflexões
para compreender os cenários mundial e local
João Vitor Santos

H
á quem defenda que o pensa- ademais de amparado nas forças produ-
mento de Karl Marx se dá por tivas da grande indústria que abriga em
superado por estar inscrito no suas entranhas o progresso técnico ‘au-
século XIX. Assim, observando apenas tonomizado’”. Assim, reitera a ideia de
os movimentos do capitalismo nesse que Marx pensa em possibilidades me-
tempo, suas ideias seriam incapazes de todológicas muito mais do que em des-
dar conta de outro capitalismo, com- crição e observação de realidades. “Vou
pletamente atravessado pela tecnolo- simplificar: O Capital é um exercício da
gia e pela velocidade tão características dialética materialista, de passagem do
do século XXI. Para o economista Luiz abstrato ao concreto”, acrescenta.
Gonzaga Belluzzo, é um grande equívo- Luiz Gonzaga Belluzzo é gradu-
co adotar essa concepção reducionista. ado em Direito pela Universidade de
Segundo ele, Marx não descobriu como São Paulo - USP, mestre em Economia
20 o capitalismo movia os sentidos numa Industrial pelo Instituto Latino-Ameri-
sociedade industrial ainda em desen- cano de Planificação-Cepal e doutor em
volvimento na Inglaterra. “Marx des- Economia pela Universidade de Campi-
vendou com grande precisão a dinâmi- nas - Unicamp. Foi secretário de Políti-
ca do regime do capital. Não se trata de ca Econômica do Ministério da Fazen-
uma antecipação, mas da compreensão da e, atualmente, é professor titular do
das ‘leis de movimento’ desse modo de Instituto de Economia da Unicamp. É
produção”, analisa. Ou seja, apresen- um dos fundadores da Faculdades de
tando como esse capital funciona, ele Campinas - Facamp, onde é professor.
também concebe possibilidades de aná- Entre suas obras publicadas, destaca-
lises para possíveis transformações que mos Manda quem pode, obedece quem
ainda estão por vir. tem prejuízo (São Paulo: Facamp/Edi-
Na entrevista a seguir, concedida por tora Contracorrente, 2017), Capital e
e-mail à IHU On-Line, Belluzzo ainda suas metamorfoses (São Paulo: Unesp,
detalha que “o movimento de reconsti- 2013), Os antecedentes da tormen-
tuição teórica de Marx parte da circu- ta: origens da crise global (Campinas:
lação simples de mercadorias como a Facamp, 2009) e Temporalidade da
dimensão mais abstrata do regime do Riqueza - Teoria da Dinâmica e Finan-
capital investido em todas as suas for- ceirização do Capitalismo (Campinas:
mas, já ‘dotado’ do capital a juros e das Oficinas Gráficas da Unicamp, 2000).
‘normas’ da concorrência generalizada, Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como Karl Luiz Gonzaga Belluzzo – Marx moniais e espaciais. A globalização
Marx pode contribuir para afirmou que em todas as etapas de financeira e produtiva da segunda
compreendermos a realidade expansão do capitalismo o jogo do metade do século XX descortinou
brasileira de hoje e conceber mercado global envolve transforma- uma nova fase, marcada por desen-
saídas para impasses? ções financeiras, tecnológicas, patri- contros nas relações entre o modo

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“Marx afirmou que em todas as


etapas de expansão do capitalismo
o jogo do mercado global envolve
transformações financeiras,
tecnológicas, patrimoniais e espaciais”

de funcionamento dos mercados, partir de então. discorreu a respeito do socialismo


movidos pelas estratégias da grande com características chinesas. Fosse
A “globalização do século XXI”, ao
empresa transnacional e os espaços possível pinçar a visão “econômica”
operar nas órbitas financeira, patri-
jurídico-políticos nacionais, espaços da sesquipedal arenga, eu arriscaria
monial e produtiva, engendrou dois
“desintegrados” pela aceleração do a pele apontando a conexão Partido
tipos de regiões: aquelas cuja inser-
tempo de produção e da circulação -Estado-Mercado.
ção internacional se faz pela atração
do capital. Nesse movimento, o Brasil
do investimento direto destinado A formulação estratégica é do Par-
perdeu espaço e continua perdendo.
aos setores produtivos afetados pelo tido Comunista da China povoado de
O processo de concorrência movi- comércio internacional; e aquelas, 80 milhões de membros. O sistema
do pela grande empresa se dá sob a como Brasil e Argentina, que busca- de consultas da base para a cúpula
tutela das instituições nucleares de ram sua integração mediante a aber- e vice-versa é inçado de instâncias,
“governança” do sistema, que são tura comercial passiva e a flexibiliza- marchas e contramarchas. Tomada
a finança e o Estado hegemônico, ção da conta de capitais. a decisão, as burocracias de Estado, 21
pelos quais passam as estratégias os gestores das empresas estatais,
nacionais de “inserção” das regiões os governos provinciais, o People’s
periféricas. As transformações que IHU On-Line – Como pode- Bank of China3 cuidam de imple-
hoje observamos são impulsionadas mos compreender o caso da mentar as diretrizes. Obedecem às
pelo jogo estratégico entre o “polo China, que cresce tentando máximas de Deng Xiao Ping4: “não
dominante” – no caso a economia manter um socialismo que não importa a cor do gato, se o bicho
americana, sua capacidade tecno- rompe com a ordem capitalista caça ratos” ou “atravessar o rio das
lógica, a liquidez e profundidade de mundial? reformas saltando as pedras”. Deva-
seu mercado financeiro, o poder de gar e sempre é o lema do socialismo
Luiz Gonzaga Belluzzo – É
seignorage de sua moeda – e a ca- à moda chinesa.
impossível resistir à constatação
pacidade de “resposta” dos países de que a China enfrenta os desafios O presidente Xi Jinping anunciou
em desenvolvimento às alterações da globalização com concepções e as políticas de “ampliação do papel
no ambiente internacional. objetivos que desmentem a propa- do mercado” e de reforço às empre-
É desnecessário dizer que as econo- lada perda de importância das po- sas estatais. O propósito é alentar o
mias periféricas dispõem de estrutu- líticas nacionais e intencionais de empreendedorismo e a inovação.
ras e trajetórias sociais, econômicas industrialização e desenvolvimen-
e políticas muito dessemelhantes, to. Em discurso de abertura do 19º
Congresso do Partido Comunista IHU On-Line – Ainda sobre a
o que dificulta para umas e facilita
para outras a chamada “integração da China1, o presidente Xi Jinping2
Escola Central do Partido, e o mais importante membro
competitiva” nas diversas etapas de do Comitê Permanente do Politburo, que é o órgão de
1 Na seção Notícias do Dia, em seu sítio, o IHU publi- controle de fato do país. (Nota da IHU On-Line)
evolução do capitalismo. O sucesso cou inúmeros textos acera do 19º Congresso do Partido 3 People’s Bank of China [Banco Popular da China]: é o
Comunista da China. Entre eles Ao Congresso Xi reitera: banco central da República Popular da China responsá-
do Brasil, até o início dos anos 1980, ‘sinizar’ as religiões sob o Partido Comunista, disponível vel pela condução da política monetária e regulação das
desencadeou a crise da dívida exter- em http://bit.ly/2K7bzkb; Xi Jinping surge como o primeiro instituições financeiras na China continental, conforme
ditador da China desde Mao Zedong, disponível em http:// determinado pela Lei Bancária. Avaliado em US$ 3,21 tri-
na que iria provocar o seu reiterado bit.ly/2M4R4pN; e, recentemente, Raízes da guerra comer- lhões, o Banco Popular da China possui as maiores posi-
cial entre EUA e China, disponível em http://bit.ly/2LLVJQS. ções de ativos financeiros de qualquer banco central do
“fracasso” na tentativa de se ajustar Ainda sobre esse tema, é interessante acessar a entrevista mundo desde julho de 2017. Apesar de possuir um alto
às novas condições internacionais. exclusiva que o economista francês Yann Moulier-Bou- grau de independência pelos padrões chineses, continua
tang concedeu à IHU On-Line, disponível em http://bit. a ser um departamento do Conselho de Estado. (Nota da
No polo oposto, o fracasso chinês até ly/2LuWjCn. (Nota da IHU On-Line) IHU On-Line)
2 Xi Jinping (1953): é um político da República Popular 4 Deng Xiaoping (1904-1997): foi o secretário-geral do
os anos 1980 propiciou condições da China, atual Presidente da República Popular da China Partido Comunista Chinês (PCCh), sendo, de fato, o líder
iniciais mais favoráveis para o su- e Secretário-Geral do Partido Comunista da China. Xi é
atualmente o principal membro do Secretariado do Parti-
político da República Popular da China entre 1978 e 1990.
Foi o criador do chamado socialismo de mercado, regime
cesso das reformas empreendidas a do Comunista Chinês, o presidente da China, o diretor da vigente na China moderna. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

China, que socialismo emerge diz ele, explica o sucesso da tran- cionais, na busca da maximização da
dessa sua experiência econô- sição econômica da China de uma utilidade. Admiradores da sua enor-
mica? E o que difere de outras economia de comando para uma me capacidade de produção de mer-
experiências como a da ex-U- economia “mista” em que o mercado cadorias e de seu formidável poten-
nião Soviética? tem papel importante, mas não tem cial de satisfação de necessidades,
influência na formulação das estra- para eles o capitalismo é um regime
Luiz Gonzaga Belluzzo – A
tégias de longo prazo. de acumulação de riqueza abstrata,
experiência chinesa combina o má-
monetária.
ximo de competição – a utilização Na Rússia de Gorbachev6, as oli-
do mercado como instrumento de garquias particularistas (cientistas Se, por um lado, é admirável o seu
desenvolvimento – e o máximo de acadêmicos, dirigentes industriais e potencial de criação de riqueza ma-
controle. Entenderam perfeitamente cúpulas militares) que proliferaram terial, de progresso tecnológico e de
que as políticas liberais recomenda- à sombra da oligarquia partidária bem-estar das nações, de outra parte
das pelo Consenso de Washington5 não tiveram maiores dificuldades é assustador o seu inerente desprezo
não deveriam ser “copiadas” pelos em manter e ampliar os privilégios pelas condições particulares da exis-
países emergentes. Também com- na democracia de Yeltsin7. Os novos tência dos povos e pelos conteúdos
preenderam que a “proposta” ameri- ricos da Rússia contemporânea não da vida. Assim, o capitalismo é o re-
cana para a economia global incluía desembarcaram de uma nave espa- gime de produção em que a riqueza
oportunidades para o seu projeto cial enviada à Terra diretamente do acumulada sob a forma monetária
nacional de desenvolvimento. Assim Planeta Marte, mas foram criados está sempre disposta a dobrar-se
controlaram as instituições centrais nas entranhas do regime soviético. sobre si mesma, na busca da autor-
da economia moderna: o sistema de reprodução. D-D’, e não D-M-D’, é o
crédito e a política de comércio exte- processo em estado puro, adequado
rior, aí incluída a administração da IHU On-Line – Que relações a seu conceito, livre dos incômodos e
taxa de câmbio. Os bancos públicos podemos estabelecer entre empecilhos de suas formas materiais
foram utilizados para dirigir e faci- Marx e Keynes8? Em que me- particulares.
litar o investimento produtivo e em dida esse segundo abre outras
perspectivas de leitura do mar- Não se trata de uma deformação,
22 infraestrutura.
xismo? mas do aperfeiçoamento de sua
O que realmente importa para o substância, na medida em que o di-
desenvolvimento chinês é a capa- Luiz Gonzaga Belluzzo – Marx nheiro é o suposto e o resultado do
cidade de adaptação do sistema às e Keynes compreenderam que a ca- processo de acumulação de rique-
novas condições impostas pelas racterística central do capitalismo za no capitalismo. É este processo
transformações da economia global, não é a produção de mercadorias fantasmagórico de autorreprodução
sem destruir o que foi herdado do por meio de mercadorias, nem vai que o capital está realizando sob os
passado. Não interessa se o sistema ser encontrada na coordenação, efe- nossos olhos nos mercados financei-
é “melhor” no sentido de atender a tuada através dos mercados compe- ros contemporâneos.
configurações abstratas, frequen- titivos, dos planos dos indivíduos ra-
temente irrealistas e, portanto, pe- O capital a juros e a circula-
rigosas. Nesta perspectiva, é vital ção financeira
6 Gorbachev (Mikhail Gorbatchov, 1931): advogado e
assegurar que o sistema econômico economista-agrônomo russo. Inscreveu-se no Partido
tenha sempre canais abertos para re- Comunista em 1952, com 21 anos de idade. Foi o último Marx trata no volume III do cir-
secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista
formas institucionais. da União Soviética, de 1985 a 1991. As suas tentativas de
cuito próprio do loanable capital
reforma conduziram ao final da Guerra Fria e, ainda que – o capital a juros – que mais tarde
não tivesse esse objetivo, à dissolução da antiga União
O professor Yao Yang da Univer- Soviética. (Nota da IHU On-Line) Keynes chamaria de “circulação fi-
sidade de Pequim atribui a flexibi- 7 Boris Nikolayevich Yeltsin (1931-2007): foi um políti-
nanceira” em contraposição à “cir-
co soviético e russo e o primeiro presidente da Federa-
lidade institucional à capacidade do ção Russa, servindo de 1991 a 1999. Originalmente um culação industrial”. No capítulo 30,
governo de promover as políticas defensor de Mikhail Gorbachev, Yeltsin emergiu sob as
reformas da perestroika como um dos oponentes políti- Marx estabelece as relações entre ca-
corretas sem atender aos grupos de cos mais poderosos de Gorbachev. No final dos anos 80, pital-mercadoria, capital produtivo e
Yeltsin foi candidato a membro do Politburo e, no final de
interesses (dentro e fora do Estado, 1987, apresentou uma carta de renúncia em protesto. Nin- capital monetário: “Em nossa análi-
é bom lembrar) que buscam influen- guém havia renunciado ao Politburo antes. Este ato mar-
se da forma peculiar da acumulação
cou Yeltsin como um rebelde e levou à sua ascensão na
ciar as decisões. Essa neutralidade, popularidade como uma figura antiestablishment. (Nota do capital monetário e da riqueza
da IHU On-Line)
8 John Maynard Keynes (1883-1946): economista e fi- monetária em geral, vimos que ela
nancista britânico. Sua Teoria geral do emprego, do juro e
5 Consenso de Washington: conjunto de medidas com- do dinheiro (1936) é uma das obras mais importantes da se reduziu à acumulação de títulos
posto por dez regras básicas, formulado em novembro de economia. Esse livro transformou a teoria e a política eco- de propriedade sobre o trabalho. A
1989 por economistas de instituições financeiras basea- nômicas, e ainda hoje serve de base à política econômica
das em Washington D.C., como o FMI, o Banco Mundial da maioria dos países não comunistas. Confira Cadernos acumulação de capital da dívida pú-
e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, fun- IHU ideias n. 37, As concepções teórico-analíticas e as
damentadas num texto do economista John Williamson, proposições de política econômica de Keynes, de Fernando
blica revelou-se como sendo apenas
do International Institute for Economy, e que se tornou a Ferrari Filho, disponível em http://bit.ly/ihuid37. Leia, tam- um aumento na classe de credores
política oficial do Fundo Monetário Internacional em 1990, bém, a edição 276 da Revista IHU On-Line, de 6-10-2008,
quando passou a ser “receitado” para promover o “ajusta- intitulada A crise financeira internacional. O retorno de Ke- do Estado, que detêm o privilégio
mento macroeconômico” dos países em desenvolvimento ynes, disponível para download em http://bit.ly/ihuon276.
que passavam por dificuldades. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line)
de retirar antecipadamente para si

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certas somas sobre a massa de im- Prossegue: “Esta luta de esperteza imprevisíveis e frequentemente ca-
postos públicos. [...] Esses títulos de para prever com alguns meses de tastróficos do mercado porque são,
dívida que são emitidos sobre o capi- antecedência as bases de avaliação antes de mais nada, condições de
tal originalmente emprestado e gas- convencional, muito mais do que a sobrevivência humana, meios que
to há muito tempo, essas duplicatas renda provável de um investimen- permitem o acesso aos bens da vida.
de um capital já consumido, servem to durante anos, nem sequer exi- Condicionar o acesso a esses meios
para seus possuidores como capital ge que haja idiotas no público para de vida a decisões que não têm outra
na medida em que são mercadorias encher a pança dos profissionais: a finalidade senão a maníaca acumu-
que podem ser vendidas e, com isso, partida pode ser jogada entre estes lação de riqueza abstrata, monetá-
reconvertidas em capital. [...] ganhar mesmos. Também não é necessário ria, significa lançar os indivíduos na
ou perder em virtude de preços des- que alguns continuem acreditando, insegurança permanente. Atingidos
ses títulos de propriedade e de sua ingenuamente, que a base conven- pelo desemprego, pela falência ou
centralização nas mãos dos reis das cional de avaliação tenha qualquer pela desvalorização de sua riqueza, os
ferrovias etc. converte-se cada vez validez real a longo prazo. Trata- indivíduos são afastados dos meios
mais em obra do acaso, que agora se, por assim dizer, de brincadeiras que permitem a sua sobrevivência. O
toma lugar do trabalho como modo como o jogo do anel, a cabra-cega, colapso do mercado autorregulado e
original de aquisição da proprieda- as cadeiras musicais. É preciso pas- de sua utopia moral desencadeou re-
de do capital, e também o lugar da sar o anel ao vizinho antes do jogo ações de autoproteção da sociedade
violência direta. Esse tipo de riqueza acabar, agarrar o outro para ser por contra o desemprego, o desamparo, a
monetária imaginária constitui uma este substituído, encontrar uma ca- falência, a bancarrota, enfim, contra
parte considerável não só da rique- deira antes que a música pare. Estes a exclusão dos circuitos mercantis, o
za monetária dos particulares, mas passatempos podem constituir agra- que significa, na prática, a impossibi-
também, como já dissemos, do capi- dáveis distrações e despertar muito lidade de acesso aos meios necessá-
tal dos banqueiros.” entusiasmo, embora todos os parti- rios à sobrevivência humana.
cipantes saibam que é a cabra-cega Nos anos de 1930, Polanyi observa
Keynes tinha familiaridade com os que está dando voltas a esmo ou que,
mercados financeiros. Escreveu na um momento da história do século XX
quando a música para, alguém ficará em que a revolta contra o “moinho sa- 23
Teoria Geral9: “Este é o resultado sem assento.”
inevitável dos mercados financeiros tânico” revelou-se, na maioria dos paí-
organizados em torno da chamada ses europeus, tão brutal quanto os ma-
‘liquidez’. Entre as máximas da fi- les que a economia destravada impôs
IHU On-Line – Como a crítica
nança ortodoxa, seguramente ne- à sociedade. O avanço do coletivismo,
que Polanyi10 faz à razão mo-
nhuma é mais antissocial que o fe- diz ele, não foi fruto de uma patologia
derna pode ser cotejada com a
tiche da liquidez, a doutrina que diz ou de uma conspiração irracional de
crítica ao capitalismo de Marx?
ser uma das virtudes positivas das classes ou grupos, mas sim de forças
instituições investidoras concentra Luiz Gonzaga Belluzzo – Em A gestadas nas entranhas da sociedade
Grande Transformação11, Karl Po- “dos indivíduos racionais”.
seus recursos na posse de valores
lanyi chamou de moinho satânico
‘líquidos’. Ela ignora que não existe Com o colapso dos nexos mercan-
as engrenagens do mercado autor-
algo como a liquidez do investimen- tis, a superpolitização das relações
regulado. O católico Polanyi procura
to para a comunidade como um todo. sociais tornou-se inevitável. O despo-
mostrar em seu livro que a transfor-
A finalidade social do investimento tismo social-darwinista da mão invi-
mação da terra, da mão de obra e do
bem orientado deveria ser o domí- sível é substituído pela tirania visível
dinheiro em mercadorias significa
nio das forças obscuras do tempo e do chefe. O político se transfigura na
subordinar a própria substância da
da ignorância que rodeiam o nosso polícia, no policiamento da vida so-
sociedade às intempéries da econo-
futuro. O objetivo real e secreto dos cial, como se fossem suspeitas quais-
mia “desencastrada” das demais ins-
investimentos mais habilmente efe- quer formas de espontaneidade.
tâncias da vida social.
tuados em nossos dias é ‘sair dis-
parado na frente’ como se diz colo- A terra (recursos naturais), a mão
quialmente, estimular a multidão e de obra (capacidade de trabalho) e IHU On-Line – Ainda é pos-
transferir adiante a moeda falsa ou o dinheiro (poder de compra) não sível, à luz do marxismo, com-
em depreciação.” podem estar sujeitos aos processos preender as transformações do
capitalismo de nosso tempo?
9 Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda: é 10 Karl Polanyi (1886-1964): economista austríaco. Sua
um livro de autoria do economista britânico John Maynard obra principal é A Grande Transformação - as origens de Luiz Gonzaga Belluzzo – Marx
Keynes, publicado pela primeira vez em fevereiro de 1936. nossa época (Rio de Janeiro: Campus, 2000), escrita nos desvendou com grande precisão a
É considerado uma das mais importantes obras de lite- Estados Unidos de 1940 a 1943. Sobre o economista a
ratura econômica, tendo lançado as bases conceituais da IHU On-Line n. 147, de 27-6-2005, dedicou o tema de dinâmica do regime do capital. Não
macroeconomia. Além do aspecto de incrementar o nas- capa A grande transformação. As origens da nossa época.
cente estudo da macroeconomia, o livro também desafia Os 60 anos da obra clássica de Karl Polanyi, disponível se trata de uma antecipação, mas da
conceitos tradicionais da Economia clássica, como a visão para download em http://bit.ly/ihuon147 . (Nota da IHU compreensão das “leis de movimen-
a longo prazo dos ciclos econômicos e o valor da política On-Line)
monetária e da política fiscal. (Nota da IHU On-Line) 11 São Paulo: Edições 70, 2013. (Nota da IHU On-Line) to” desse modo de produção. Muitos

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TEMA DE CAPA

cometem o equívoco de afirmar que ser transformado de acordo com ele.” etc. Mas aumenta ao mesmo tempo
Marx analisou o capitalismo inglês a demanda de capital-dinheiro dis-
Em seu desenvolvimento, a Indús-
do século XIX. ponível posto que os que especulam
tria 4.0 exprime o avanço do capital
com títulos e valores desempenham
Não é trivial enfrentar o percurso fixo. São fábricas inteligentes com
um papel fundamental no mercado
conceitual de Marx em seu empenho máquinas conectadas em rede e a
de dinheiro. [...] Se todas as compras
para investigar os desdobramentos sistemas que podem visualizar toda
e vendas desses títulos não fossem
da forma valor. O movimento de re- cadeia produtiva, podendo tomar de-
mais do que a expressão dos investi-
constituição teórica de Marx parte da cisões por si só. A nova fase da digi-
mentos reais de capital, seria acerta-
circulação simples de mercadorias talização da manufatura é conduzida
do dizer que não influem na deman-
como a dimensão mais abstrata do re- pelo aumento do volume de dados,
da de capital de empréstimo.”
gime do capital investido em todas as ampliação do poder computacional e
suas formas, já “dotado” do capital a conectividade, a emergência de capa-
juros e das “normas” da concorrência cidades analíticas aplicada aos negó- IHU On-line – Que respostas
generalizada, ademais de amparado cios, novas formas de interação entre a economia política marxista é
nas forças produtivas da grande in- homem e máquina, e melhorias na capaz de dar a crises, como as
dústria que abriga em suas entranhas transferência de instruções digitais geradas pelo capital fictício, o
o progresso técnico “autonomizado”. para o mundo físico, como a robótica sistema de crédito?
Vou simplificar: O Capital é um exer- avançada e impressoras 3-D.
cício da dialética materialista, de pas- Luiz Gonzaga Belluzzo – No dia
Nos Grundrisse e em O Capital, 11 de julho de 1856, o “New York Tri-
sagem do abstrato ao concreto.
Marx investiga, como já foi dito, a bune” publicou o terceiro artigo de
Vamos conversar sobre um tema “natureza” do regime do capital como Marx sobre o Crédit Mobilier. Sob os
atual: o progresso técnico no regime modalidade histórica cujo propósito auspícios de Napoleão III14, o banco
do capital. Nos Grundrisse12, Marx vis- é a acumulação de riqueza monetá- de investimento empreendido pelos
lumbrou o momento em que o avanço ria, abstrata; assim abre espaço para irmãos Pereire15 , Emile e Isaac, tinha
dos métodos capitalistas de produção a compreensão da predominância do o propósito de “concentrar grandes so-
tornaria o tempo de trabalho uma capital a juros e do capital fictício, mas de capital de empréstimo para in-
24 “base miserável” para a valorização como formas de riqueza e de enrique- vestimento em empresas industriais”.
da imensa massa de valor que deve- cimento derivadas da propriedade do Depois de ironias e sarcasmos lançados
rá funcionar como capital. “Quando capital e não da atividade inovadora e sobre o “socialismo imperial” de Luís
o processo de trabalho em sua totali- fáustica do empreendedor capitalista. Napoleão e das habituais estocadas
dade não está mais submetido à ha- No capitalismo carregado de todas as nas concepções reformistas de Saint-
bilidade do trabalhador, mas à apli- suas determinações, riqueza agrega- Simon16 e discípulos, Marx reconhece
cação tecnológica da ciência, então a da compreende não só o estoque de que as transformações da finança capi-
tendência do capital é dar à produção ativos físicos, reprodutivos, mas tam- talista e o surgimento da sociedade por
um caráter científico. [...] o desenvol- bém aparece sob a forma “duplicada” ações, sobretudo da sociedade anôni-
vimento do capital fixo indica o grau de direitos de propriedade sobre as ma, “marcam uma nova época na vida
em que o conhecimento social tornou- empresas (ações), títulos de dívida econômica das nações modernas”.
se uma força direta de produção e em gerados ao longo de vários ciclos de
que medida, portanto, o processo da crédito e de criação de valor. Esses Os bancos comerciais, diz ele, “flui-
vida social foi colocado sob o contro- ativos financeiros – ações e títulos de dificam temporariamente o capital
le do General Intellect13 e passou a dívida – são avaliados diariamente fixo”, enquanto os bancos de inves-
em mercados especializados. timento cuidam de “fixar o capital
12 Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Ele- No Livro III de O Capital, Marx es-
mentos fundamentais para a crítica da economia políti- 14 Napoleão III (1808-1873): também chamado Luís Bo-
ca): conjunto de anotações e estudos realizados por Karl tabelece a conexão entre a expansão naparte, nasceu Charles-Louis Napoléon Bonaparte. Foi o
Marx entre 1857 e 1858. Sobre o tema, foi publicada a
edição 381 da IHU On-Line, de 21-11-2011, intitulada
do crédito e a valorização dos ativos 1º Presidente da Segunda República Francesa e, depois,
Imperador dos Franceses do Segundo Império Francês.
Os Grundrisse de Marx em debate, disponível em http:// financeiros: “Ao desenvolver-se o Era sobrinho e herdeiro de Napoleão Bonaparte. Foi o
bit.ly/1kBLhBN, além das entrevistas com Ricardo Antunes primeiro presidente francês eleito por voto direto. Entre-
- Os “Grundrisse”: uma mina para ajudar a descortinar o capital-dinheiro disponível também tanto, foi impedido de concorrer a um segundo mandato
século XXI, disponível em http://bit.ly/1rDKF8w, Antoine se desenvolve a massa de valores pela constituição e parlamento, organizando um golpe em
Artous - O mundo do trabalho e o marxismo, disponível 1851 e assumindo o trono como imperador no final do
em http://bit.ly/1ua0Fx0, e Jorge Paiva - “Grundrisse” de rentáveis, títulos do Estado, ações, ano seguinte. (Nota da IHU On-Line)
Marx. Um outro paradigma teórico para os desafios con- 15 Irmãos Pereire: Jacob Rodrigue Émile (1800-1875) e
temporâneos, disponível em http://bit.ly/1mKnQJx. (Nota Isaac Rodrigue (1806-1880) foram dois irmãos franceses,
da IHU On-Line) banqueiros proeminentes do século XIX, rivais dos Roths-
13 General Intellect:: é uma expressão criada por Karl Marx força produtiva e um princípio de organização dos cida- child, que entre outras atividades, participaram da mo-
para designar a dimensão coletiva e social da atividade dãos. A expressão foi trabalhada pelo IHU, em textos pu- dernização de Paris, conduzida pelo prefeito Haussmann.
intelectual quando esta é fonte de produção de riqueza. A blicados em seu sítio. Entre eles a entrevista exclusiva com Eles também possuíam várias empresas, em particular nos
expressão aparece nos Grundrisse, no chamado fragmento Pablo Míguez, intitulada A apropriação privada do ‘general ramos de ferrovias e seguros. O seu conglomerado de
das máquinas, como sendo uma crucial força produtiva, intelect’. As mudanças na lógica da acumulação capitalista empreendimentos incluiu: o banco Crédit Mobilier, linhas
cuja importância é evidenciada pela crescente importância precisam de uma crítica a partir da periferia, disponível em de barcos a vapor transatlânticos, ferrovias, seguradoras,
da maquinaria - entendida como o poder do conhecimen- http://bit.ly/2Oo5inv; além de outros artigos publicados iluminação a gás, um jornal e o sistema de metrô de Paris.
to objetivado - no controle dos processos da vida social. na seção Notícias do Dia, como Guerras e capital, dispo- (Nota da IHU On-Line)
Intelecto geral seria uma combinação de expertise tecno- nível em http://bit.ly/2NWAGIu; e do Cadernos IHU em 16 Claude Henri de Rouvroy - Conde de Saint-Simon
lógica e intelecto social ou conhecimento social geral ou, Formação, intitulado A crise da sociedade do trabalho, dis- (1760-1825): filósofo e economista francês, teórico do so-
ainda, um cérebro social que é, ao mesmo tempo, uma ponível em http://bit.ly/2vfIDRC. (Nota da IHU On-Line) cialismo utópico. (Nota da IHU On-Line)

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líquido” em estruturas empresariais pansionista, rompe continuamente dução não são distorcidas, mas, ao
cada vez maiores e de administra- as limitações do seu processo mais contrário, alcançam o ápice de seu
ção mais complexa. Marx conclui: geral e “elementar” de circulação e desenvolvimento quando são intro-
“Quase todas as crises comerciais reprodução. O capital precisa exis- duzidos o capital a juros e o dinheiro
dos tempos modernos estão relacio- tir permanentemente de forma “li- bancário. O sistema de crédito é a
nadas com o desarranjo nas propor- vre” e líquida e, ao mesmo tempo, forma mais adequada para cumprir
ções entre o capital fixo e o “floating crescentemente centralizada, para as determinações do dinheiro: ele
capital” (os títulos de dívida e de revolucionar periodicamente a base “aperfeiçoa” a execução das funções
propriedade negociados diariamen- técnica, submeter massas crescentes monetárias no capitalismo e consti-
te nas Bolsas de Valores e nos de- de força de trabalho a seu domínio e tui uma esfera de “valorização” em
mais mercados secundários). criar novos mercados. Apenas dessa que o capital monetário ensaia esta-
maneira pode fluir para colher novas belecer uma relação consigo mesmo,
A série de artigos sobre o Crédit Mo- oportunidades de lucro e, concomi- “D-D”. Aqui, o dinheiro realiza o seu
bilier foi estampada nas páginas do tantemente, reforçar o poder do capi- conceito de substantivação do va-
“New York Tribune” no período em tal industrial e mercantil imobilizado lor e de forma universal da riqueza.
que Marx trabalhava nos Grundrisse nos circuitos prévios de acumulação. O movimento de abstração real e o
e dez anos antes da publicação do pri- Daí as análises da concorrência, do fetichismo chegam ao estágio supre-
meiro volume de O Capital. Quatro crédito e, portanto, do processo de mo. “O crédito, que também é uma
décadas iriam transcorrer entre as concentração e centralização do capi- forma social da riqueza, substitui o
primeiras e pontuais investigações de tal se constituírem na parte mais rica dinheiro (metálico) e usurpa o lugar
Marx sobre as peripécias do capital fi- e substantiva da investigação marxis- que lhe correspondia. A confiança
nanceiro e o esforço de Engels17 para ta sobre a dinâmica do sistema capi- no caráter social da produção faz a
completar os alfarrábios do terceiro talista e suas metamorfoses. forma dinheiro dos produtos algo
volume, publicado em 1894. destinado a desaparecer. [...] Ao se
Uma leitura cuidadosa dos Grun-
desenvolver o sistema de crédito, a
Formas concretas que bro- drisse e dos três volumes de O Ca-
produção capitalista tende a supri-
tam do capital pital permite compreender que o
mir continuamente o limite metálico
dinheiro transformado em capital 25
-material e fantástico da riqueza e de
Marx adverte, na abertura do Livro – origem e finalidade da circulação
seu movimento – mas quebrando se-
III de O Capital, que até então, nos e da produção capitalistas (Dinhei-
guidamente sua cabeça contra ele.”
Livros I e II, o processo capitalista ro-Mercadoria-Dinheiro) – não só
de produção foi considerado em seu exige a submissão real da força de Ao concentrar capital monetário, os
conjunto, representando a unidade trabalho ao domínio das forças pro- bancos ganharam a prerrogativa de
do processo de produção e de circu- dutivas como também impõe aos emitir notas que abastecem a circula-
lação. “Aqui no livro III, não se tra- trabalhadores (e aos proprietários ção monetária. Com a evolução do sis-
ta de formular reflexões gerais sobre do valor-capital) os ditames da acu- tema de crédito, os passivos bancários
essa unidade, senão, ao contrário, de mulação de riqueza abstrata. A acu- mudam de forma: a emissão de notas
descobrir e expor as formas concretas mulação de mais dinheiro mediante é substituída por depósitos à vista que
que brotam do movimento do capital o uso do dinheiro para capturar mais podem ser mobilizados por seus titu-
considerado como um todo. Em seu valor sob a forma monetária susci- lares como meios de pagamento. “Se
movimento real, os capitais se en- ta a transfiguração das formas de B deposita no banco o dinheiro rece-
frentam sob essas formas concretas expansão do valor, isto é, impõe o bido de A e o banqueiro entrega esse
[...] As manifestações do capital se predomínio das formas “desenvol- dinheiro a C como desconto de uma
aproximam, pois, gradualmente da vidas”: o capital a juros, o dinheiro letra, C faz uma compra a D e este de-
de crédito e o capital fictício. Nessas posita no banco, que por sua vez em-
forma sob a qual se apresentam na
formas, o dinheiro-capital realiza o presta a E, que compra de F, teremos
superfície da sociedade, mediante a
seu conceito de valor que se valori- que o ritmo (da criação monetária)
ação recíproca dos diversos capitais
za e tenta continuamente romper como meio de circulação se opera me-
que se enfrentam na concorrência
os seus próprios limites ao buscar o diante várias operações de crédito.” (O
e tal como (essas manifestações) se
acrescentamento do valor sem a me- Capital, vol. III, p. 489).
refletem na consciência habitual dos
diação da mercadoria força de traba-
agentes de produção.” Marx procura O “salto” no potencial de acumu-
lho. “D-M-D” se converte em “D-D”.
articular teoricamente essas formas lação promovido pelas formas fi-
de modo a demonstrar como o capi- Na (re)constituição teórica do nanceiras engendra a criação de
tal, no exercício de sua natureza ex- modo capitalista de produção, o di- modalidades de negócios e de enri-
nheiro, enquanto substantivação do quecimento que pretendem se tor-
17 Friedrich Engels (1820-1895): filósofo alemão que, valor e objetivo do processo de valo- nar independentes das leis da pro-
junto com Karl Marx, fundou o chamado socialismo cientí-
fico ou comunismo. Ele foi co-autor de diversas obras com rização, assume a forma de dinheiro dução de mais-valia e das normas de
Marx, entre elas Manifesto Comunista. Grande companhei-
ro intelectual de Karl Marx, escreveu livros de profunda
de crédito. As determinações mer- reprodução e acumulação do capital
análise social. (Nota da IHU On-Line) cantis e capitalistas do modo de pro- produtivo. A concentração da rique-

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TEMA DE CAPA

za líquida nos bancos e demais ins- tempo, um movimento de abstração Exuberância financeira e
tituições financeiras enseja o adian- real que transfigura o dinheiro, a en- crise
tamento de recursos livres e líquidos carnação substantivada do valor e da
para sancionar a aposta do capitalis- riqueza, nas formas “desenvolvidas” No último ciclo de exuberância fi-
ta em funções que resolveu colocar o do dinheiro de crédito, do capital a nanceira, que culminou na crise de
seu estoque de capital em operação, juros e do capital fictício. 2008, foi ampla e irrestrita a utiliza-
contratando trabalhadores e adqui- ção das técnicas de alavancagem com
rindo meios de produção. Concomi- Do capital produtivo ao o propósito de elevar os rendimentos
tantemente, o movimento de expan- financeiro, um desenvolvi- das carteiras em um ambiente de ta-
são do valor, ao ampliar as relações mento contraditório xas de juros reduzidas. Isso favoreceu
de débito e crédito, “cria” o circuito a concentração da massa de ativos
de negociação de valores – títulos de Não há oposição entre as formas mobiliários em um número reduzido
dívida e direitos de propriedade. A – capital produtivo versus capital fi- de instituições financeiras grandes
avaliação e negociação dos direitos nanceiro – mas um desenvolvimento demais para falir. Os administradores
de propriedade e de dívidas abre es- contraditório. Por isso, o capital fi- dessas instituições ganharam poder
paço para episódios especulativos. nanceiro, em seu movimento de valo- na definição de estratégias de utili-
rização, tende a arrastar o capital em zação das “poupanças” das famílias e
Valorização fictícia funções para o frenesi especulativo, a dos lucros acumulados pelas empre-
criação contábil de capital fictício. A sas, assim como no direcionamento
O capital a juros patrocina a valo- chamada desregulamentação finan- do crédito. Na esfera internacional, a
rização “fictícia” da riqueza, o que ceira mostrou de forma cabal como a abertura das contas de capital suscitou
acentua e acelera as tendências da “natureza” intrinsecamente especu- a disseminação dos regimes de taxas
economia capitalista para deflagrar lativa do capital fictício se apoderou de câmbio flutuantes, que ampliaram
crises de superacumulação e de cré- da gestão empresarial, impondo prá- o papel de “ativos financeiros” das
dito, provocando com violência a ticas destinadas a aumentar a partici- moedas nacionais, não raro em detri-
continuidade do processo de “expro- mento de sua dimensão de preço rela-
pação dos ativos financeiros na com-
priação dos expropriadores” e de des- tivo entre importações e exportações.
26 posição do patrimônio, inflar o valor
truição de valor na esfera produtiva e
desses ativos e conferir maior poder Na esteira da liberalização das con-
financeira. A “reunião do que não de-
aos acionistas. Particularmente signi- tas de capital e da desregulamentação,
veria estar separado” impõe o “retor-
ficativas são as implicações da “nova as grandes instituições construíram
no” aos fundamentos, o que se efetua
finança” sobre a governança corpo- uma teia de relações “internacionali-
mediante a desvalorização dos títulos
rativa. A dominância da “criação de zadas” de débito-crédito entre bancos
que representam direitos à apropria-
valor” na esfera financeira expressa de depósito, bancos de investimento e
ção da renda futura e do patrimônio:
o poder do acionista, agora reforçado investidores institucionais. O avanço
títulos de dívida e de propriedade,
pela nova modalidade de remunera- dessas inter-relações foi respaldado
mercadorias não vendidas e sem va-
ção dos administradores, efetivada pela expansão do mercado interban-
lor, capacidade produtiva excedente.
mediante o exercício de opções de cário global e pelo aperfeiçoamen-
Nas crises, fica demonstrado que não
compra das ações da empresa. to dos sistemas de pagamentos. Os
é possível preservar o capital em fun-
bancos de investimento e os demais
ções [capital produtivo] das escaladas A “geração de valor” para os acio- bancos “sombra” aproximaram-se
de valorização da riqueza capitalista nistas acirra a concorrência entre as das funções monetárias dos bancos
na esfera financeira. empresas na busca de ganhos espe- comerciais, abastecendo seus passivos
As relações entre a “economia culativos de curto prazo, enquanto nos “mercados atacadistas de dinhei-
real” e a economia monetário-fi- a liquidez dos mercados permite a ro” (“wholesale money markets”), am-
nanceira não são de exterioridade, constante reestruturação das cartei- parados nas aplicações de curto prazo
mas nascem das formas necessárias ras pelos administradores dos fun- de empresas e famílias. Não por acaso,
assumidas pelo capital em seu mo- dos financeiros “coletivizados”. No nos anos 2000 a dívida intrafinancei-
vimento de expansão e transforma- sistema de crédito, os prestamistas ra como proporção do PIB americano
ção permanentes. Aí estão inscritas finais disponibilizam – através dos cresceu mais rapidamente do que o
a concentração e centralização do bancos comerciais e demais inter- endividamento das famílias e das em-
controle do capital líquido em ins- mediários financeiros – recursos presas. A “endogeinização” da criação
tituições de grande porte e cada vez destinados ao conjunto da classe ca- monetária mediante a expansão do
mais interdependentes. O circuito pitalista, para um empreendimento crédito chegou à perfeição em suas re-
“D-D” nasce das tendências centrais que eles não sabem qual é. Entre- lações com o crescimento do estoque
do regime do capital: um processo gam aos especialistas das finanças a de quase-moedas abrigado nos “mo-
necessário e inexorável, porque a administração de suas “poupanças” ney markets funds”. Esses fenômenos
acumulação capitalista é acumula- e dependem de seus critérios para a correspondem ao que Marx designou
ção de riqueza abstrata e, ao mesmo obtenção de rendimentos. “controle privado da riqueza social”,

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fenômeno que se realiza no movimen- nismo são muito mais profundas do tida no texto do Papa e incrustrada
to de expansão do sistema capitalista. que admitem as visões estreitas do nas origens do cristianismo. Jacques
materialismo vulgar e do fanatismo Le Goff24 diz com razão que no cris-
Essa socialização da riqueza signifi-
ca não apenas que o crédito permite religioso. Há tempos, escrevi que, tianismo primitivo e no judaísmo a
o aumento das escalas produtivas, em 2013, o papa Francisco ofereceu eternidade não irrompia no tempo
da massa de trabalhadores reunidos aos católicos e cristãos a Primeira (abstrato) para “vencê-lo”. A eterni-
sob o comando de um só capitalis- Exortação Apostólica Evangelii Gau- dade não é a “ausência do tempo”,
ta. Significa mais que isso: os capi- dium18. Assim como as encíclicas mas a dilatação do tempo ao infinito.
tais individuais passam a ser mais Rerum Novarum19 de Leão XIII20 , Depois da encarnação, o tempo ad-
interdependentes e “solidários” no Mater et Magistra21 e Pacem in Ter- quire uma dimensão histórica. Cris-
sistema de crédito e, portanto, mais ris22 de João XXIII23 , a exortação to trouxe a certeza da eventualidade
sujeitos a episódio de crise sistêmi- apostólica de Francisco abordava as da salvação, mas cabe à história co-
ca. A “separação” entre o capital em vicissitudes e alegrias da vida cristã letiva e individual realizar essa pos-
funções e o capital a juros (capital no mundo contemporâneo. sibilidade oferecida aos homens pelo
-propriedade) promove a subordina- sacrifício da cruz e pela ressurrei-
Os olhares do nosso tempo perde-
ção “solidária” do capital produtivo à ção. “Não nos é pedido que sejamos
ram de vista a ideia de comunidade
sua forma mais “desencarnada”. imaculados, mas que não cessamos
cristã, expressão tantas vezes repe-
de melhorar, vivamos o desejo pro-
Juros e dividendos 18 Evangelii Gaudium: Alegria do Evangelho (em portu-
fundo de progredir no caminho do
guês), é a Exortação Apostólica pós-Sinodal escrita pelo Evangelho, e não deixemos cair os
A remuneração do capital em geral papa Francisco. Foi publicada no encerramento do Ano
braços”.
da Fé, no dia 24 de novembro do ano de 2013. Trata-se
“aparece” sob a forma de juros e di- de um documento programático do pontificado do Papa
videndos. Formas ‘aparenciais’ são, Francisco. Como a maioria das exortações apostólicas, foi
escrita após uma reunião do Sínodo dos Bispos, neste
O cristianismo – o mistério liberta-
ao mesmo tempo, formas ilusórias, caso, a XIII Assembleia Geral Ordinária sobre A Nova Evan- dor da Encarnação – foi um divisor
gelização para a transmissão da fé cristã. O tema principal
no sentido de que ocultam as cone- é o anúncio missionário do Evangelho e sua relação com a de águas na história da humanidade,
xões fundamentais desse modo de alegria cristã, mas fala também sobre a paz, a homilética,
a justiça social, a família, o respeito pela criação (ecologia),
um movimento revolucionário, nas-
produção, mas também são formas o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, e o papel das cido das crueldades e das sabedorias 27
mulheres na Igreja. Ainda critica o consumo da socieda-
necessárias, expressões das rela- de capitalista, e insiste que os principais destinatários da do mundo greco-romano. Em uma
ções de produção “transformadas” mensagem cristã são os pobres. Acesse a íntegra do do-
cumento em português através do link http://bit.ly/2LC- entrevista sobre seu filme Satyri-
pelo processo de abstração real. Os NoQ0. (Nota da IHU On-Line) con25, Fellini26 desvelou a alma que
19 Rerum Novarum: primeira encíclica pontifícia que
juros aparecem como forma de re- aborda os problemas sociais, publicada no dia 15 de maio se escondia no rosto de seus perso-
muneração do capital “sans phrase” de 1891 pelo papa Leão XIII. O título pode ser traduzido
por “Das coisas novas”. O subtítulo da encíclica é: “Sobre nagens no crepúsculo do império
e sua formação nos mercados de a condição de vida dos operários”. (Nota da IHU On-Line) romano. As máscaras se debatiam
20 Papa Leão XIII (1810-1903): nascido Vincenzo Gioac-
riqueza mobiliária depende da de- chino Raffaele Luigi Pecci-Prosperi-Buzzi, foi Papa de 20 entre o tédio das concupiscências e
manda e oferta de capital-dinheiro de fevereiro de 1878 até a data de sua morte. Foi orde-
nado sacerdote da Igreja Católica em 31 de dezembro de as angústias da desesperança. Para o
transfigurado na forma de capital a 1837, em 18 de janeiro de 1843 foi indicado Núncio Apos-
grande Federico, o filme escancarava
tólico para a Bélgica e ordenado bispo titular de Tamiathis
juros, capital-propriedade. Essa é a em 19 de fevereiro de 1843. Em 27 de julho de 1846 to- “a nostalgia do Cristo que ainda não
forma mais abstrata de existência mou posse como Arcebispo de Perugia, Itália, e em 19 de
dezembro de 1853 foi criado cardeal com o título de Car- havia chegado”.■
do capital, a sua forma “verdadeira”, deal-presbítero de São Crisógono. Foi eleito papa em 20
de fevereiro de 1878 e coroado em 3 de março do mesmo
no sentido de que é a mais desen- ano. Em 1924 seus restos mortais foram transferidos para 24 Jacques Le Goff (1924): medievalista francês, formado
volvida. “É evidente que no capital a Basílica de São João de Latrão. (Nota da IHU On-Line)
21 Mater et Magistra (em português: Mãe e Mestra): é a
em história e membro da Escola dos Annales. Presidente,
de 1972 a 1977, da VI Seção da École des Hautes Études
a juros, o capital se completa como carta encíclica do Papa João XXIII “sobre a recente evolu- en Sciences Sociales (EHESS), foi diretor de pesquisa no
ção da Questão Social à luz da Doutrina Cristã”. Foi publi- grupo de antropologia histórica do Ocidente medieval
fonte misteriosa e autocriativa de cada em 15 de maio de 1961, no septuagésimo aniversário dessa mesma instituição. Entre outras altas distinções, Le
seu próprio acrescentamento [...] é o da encíclica Rerum Novarum e no terceiro ano do pontifi-
cado de João XXIII. Esta encíclica é considerada um marco
Goff recebeu a medalha de ouro do Centre National de la
Recherche Scientifique (CNRS), pela primeira vez atribuída
capital par excellence.” importante da Doutrina Social da Igreja, porque, através a um historiador. O IHU, na seção Notícias do Dia, em seu
de uma profunda leitura dos novos “sinais dos tempos”, sítio, publicou inúmeros textos sobre o autor. Entre eles
atualizou as orientações das encíclicas sociais anteriores As convicções europeias do historiador Jacques Le Goff, dis-
(a partir da Rerum Novarum de Leão XIII), dando assim a ponível em http://bit.ly/2Oss39R; e ‘’Os dois Franciscos.’’ A
resposta católica para os problemas temporais da época. última entrevista de Jacques Le Goff, disponível em http://
IHU On-Line – Durante muito (Nota da IHU On-Line) bit.ly/2mS1le5. Leia mais em ihu.unisinos.br/maisnoticias/
tempo, falou-se da incompa- 22 Pacem in terris: Carta encíclica do Papa João XXIII a noticias (Nota da IHU On-Line)
todos os homens e mulheres de boa vontade, com uma 25 Satyricon: é um filme italiano de 1969 dirigido por
tibilidade entre o marxismo e mensagem de esperança. A Pacem in Terris enuncia qua- Federico Fellini, baseado no livro homônimo escrito pelo
tro critérios para uma sociedade em paz: verdade, justiça, autor romano Petrônio no século I. É uma livre adaptação
o cristianismo. Mas o senhor amor e liberdade. Trata-se de quatro valores tão essenciais com pitadas surrealistas e um tom lisérgico e psicodélico
é um marxista cristão, corre- que constituem não somente os sinais que nos permitem bem à época em que o filme foi produzido; tem uma cons-
reconhecer uma sociedade realizada, mas também os trução truncada, uma vez que a peça da qual foi inspirada
to? Que chaves de leitura essas quatro princípios que sustêm o edifício da paz. A revista foi descoberta em fragmentos, o que lhe rende uma at-
IHU On-Line abordou esse tema na edição número 53, mosfera onírica, como de um sonho descontínuo. (Nota
duas perspectivas são capazes datada de 31 de março de 2003, com o título 40 anos de- da IHU On-Line)
de oferecer para se compreen- pois: Pacem in terris. (Nota da IHU On-Line) 26 Federico Fellini (1920-1993): um dos mais importan-
23 Papa João XXIII (1881-1963): nascido Angelo Giu- tes cineastas italianos. Ficou eternizado pela poesia de
der o mundo? seppe Roncalli. Foi Papa de 28-10-1958 até a data da sua seus filmes, que, mesmo quando faziam sérias críticas à
morte. Considerado um papa de transição, depois do lon- sociedade, não deixavam a magia do cinema desaparecer.
Luiz Gonzaga Belluzzo – As go pontificado de Pio XII, convocou o Concílio Vaticano II. Geralmente fazia críticas ao totalitarismo, marxismo e à
Igreja. Uma de suas obras mais conhecidas é La dolce vit-
Conhecido como o “Papa Bom”, João XXIII foi canonizado
afinidades entre marxismo e cristia- em 2013 pelo papa Francisco. (Nota da IHU On-Line) ta. (Nota da IHU On-Line)

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Leia mais
- A economia se descolou da vida das pessoas. Uma análise do documento ‘Oecono-
micae et pecuniariae quaestiones’. Entrevista especial com Luiz Gonzaga Belluzzo, pu-
blicada nas Notícias do Dia de 25-5-2018, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU,
disponível em http://bit.ly/2KGe3a9 .
- “O ajuste, da maneira que foi feito no Brasil, é totalmente equivocado, pois produziu
um desajuste”. Entrevista especial com Luiz Gonzaga Belluzzo, publicada nas Notícias do
Dia de 13-10-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.
ly/2tXkRc8 .
- Polanyi e o pensamento econômico do Papa Francisco. Entrevista especial com Luiz
Gonzaga Belluzzo, publicada nas Notícias do Dia de 10-12-2013, no sítio do Instituto Huma-
nitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2MLLpVA .
- A pulsão de vida do capitalismo é sua pulsão de morte: a acumulação. Entrevista es-
pecial com Luiz Gonzaga Belluzzo, publicada nas Notícias do Dia de 29-7-2017, no sítio do
Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2MFrwiU .
- A oligarquia financeira e midiática e o furto da democracia. Entrevista especial com
Luiz Gonzaga Belluzzo, publicada nas Notícias do Dia de 22-3-2015, no sítio do Instituto Hu-
manitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2lPr4TT .
- O Brasil está caindo para a série C do campeonato mundial e estamos adstritos a
fórmulas ultrapassadas. Entrevista especial com Luiz Gonzaga Belluzzo, publicada nas
Notícias do Dia de 19-10-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em
http://bit.ly/2IQ7D6C .

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REVISTA IHU ON-LINE

O pensamento de Marx não se


limita a uma visão de mundo
Michael Heinrich compreende as concepções do pensador como
algo em processo, que não fornece respostas prontas, mas que
inspira a construir caminhos para compreender a realidade
João Vitor Santos | Tradução: Luiz Sander

K
arl Marx produzia ciência, que dobramentos do final do século XIX e
como tal se constitui numa obra do século XX”, provoca.
predisposta à crítica. É assim Com relação ao estado de crises no
que o cientista político Michael Heinri- Brasil, Heinrich reflete como, a partir
ch define a essência do trabalho daque- de Marx, pode-se conceber uma rein-
le que é tido como ícone da economia venção política. Para o professor, a es-
política do século XIX. Para ele, é um querda não se deu conta do perigo que
erro tomar suas produções de forma es- pode ser perder mais espaços a partir
tanque. “O maior problema com muitos das eleições de 2018, já que muitos con-
‘marxismos’ é que eles transformaram sideram mais estratégico gestar uma
o pensamento de Marx em uma espécie ofensiva que viria só em 2022. “Temo
de visão de mundo, uma espécie de sis- que a direita vá cuidar para que a es-
tema fechado, que reivindicava dar res- querda não tenha uma segunda opor- 29
postas a todas as questões possíveis”, tunidade em cinco anos. Pode ser que
aponta. “Em Marx só encontramos o vocês tenham de esperar 25 ou 30 anos
início da resposta, e há muito trabalho pela próxima oportunidade”, analisa.
a ser feito ainda”, completa, identifi- Michael Heinrich é cientista polí-
cando aí a maior potência, aquilo que tico alemão, professor de Economia na
faz sua obra tão atual. University of Applied Sciences, em Ber-
Na entrevista concedida por e-mail à lim. Ainda é editor do PROKLA, revista
IHU On-Line, o professor destaca que de ciência social crítica, colaborador na
somente nas últimas décadas tem sido MEGA-2 (Marx-Engels-Gesamtausga-
possível fazer a crítica que Marx espe- be), instituição detentora e curadora
rava acerca de seu trabalho, graças ao dos manuscritos de Karl Marx e Frie-
acesso aos escritos originais. Enquanto drich Engels. Produziu vários estudos
isso, interpretações equivocadas e or- sobre O Capital, de Marx, sendo um
todoxas nos seus conceitos reduziam a dos seus livros mais famosos Kritik der
potência da obra. Um exemplo desses politischen Ökonomie: eine einführung
equívocos é tomar O Manifesto comu- (Schmetterling Verlag GmbH, 2018),
nista como O Capital em forma com- em tradução livre, “Crítica da econo-
pacta. “Ele é um documento histórico mia política: uma introdução”. Aqui no
e, neste sentido, é estritamente impos- Brasil, lançou em 2018, pela Editora
sível atualizá-lo. Deveríamos pensar Boitempo, Karl Marx e o nascimento
sobre um Manifesto inteiramente novo, da sociedade moderna: Biografia e de-
que esteja baseado nas percepções de O senvolvimento de sua obra.
Capital, mas que também reflita os des- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que Marx se re- Michael Heinrich – Há uma os nossos problemas. Por outro lado,
vela a partir de sua pesquisa para tradição segundo a qual marxistas antimarxistas apresentam Marx
elaboração da biografia? Como apresentaram um Marx que, como como uma pessoa com grandes de-
esses novos estudos atualizam a pessoa, é quase perfeito e cujas teo- bilidades pessoais e cujas teorias são
leitura e o pensamento de Marx? rias são completas e resolvem todos incompletas, equivocadas ou limita-

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TEMA DE CAPA

das ao século XIX, com o resultado revelam em sua obra? quisa diferentes, e não é possível cons-
de que Marx não tem muita relevân- truir “a ruptura” [no singular] a partir
Michael Heinrich – O primeiro
cia para a atualidade. As biografias de todas essas rupturas bastante dife-
volume de minha biografia começa
recentes de Marx escritas por Jo- rentes. Neste sentido, não há apenas
com um capítulo extenso sobre a ju-
nathan Sperber1 e Gareth Stedman um único jovem Marx, mas vários,
ventude de Marx em Trier3. Procuro
Jones2 apontam nessa direção. Ao com diferentes temas e realizações na
dar uma impressão das experiências
contrário dessas obras unilaterais, filosofia, política e economia.
sociais que ele poderia ter tido em
tento apresentar Marx como uma
Trier (80% da população era pobre,
pessoa com todos os seus atributos
e um Estado bastante opressor re- IHU On-Line – Em que medi-
positivos e negativos (que ele tinha
primia tendências liberais na socie- da podemos afirmar que Marx
como qualquer outro ser humano),
dade) e faço um relato das primeiras é fundamental para compreen-
mas verifico escrupulosamente o que
influências intelectuais que recebeu der o surgimento da sociedade
de fato sabemos. Muitos biógrafos
em Trier e, mais tarde, na Universi- moderna?
apresentam suposições como se fos-
dade de Berlim.
sem fatos. Em contraposição a isso, Michael Heinrich – Autores como
eu admito que, em uma série de ca- Essas influências foram importan- Sperber ou Stedman Jones sustentam
sos, nós simplesmente não sabemos. tes. Por exemplo: o fato de ele ter que Marx está fixado ao século XIX,
estudado Direito se torna visível em mas não perguntam qual foi o caráter
Além disso, apresento a obra de
uma série de matérias posteriores desse século, ao menos na Europa oci-
Marx como uma sequência de pro-
que escreveu para jornais. Entretan- dental. No século XIX, o capitalismo
jetos planejados, aos quais ele deu
to, essas influências iniciais de Trier industrial moderno e formas políticas
início; entretanto, não conseguiu
e Berlim não fizeram dele um comu- modernas baseadas no parlamentaris-
concluir nenhum de seus grandes
nista. Quando Marx começou a edi- mo, nos partidos políticos de massas
projetos. Ele tinha de interromper,
tar o “Jornal Renano” [Rheinische e os primeiros meios de comunicação
começava de novo com um marco te-
Zeitung, no original em alemão] em de massa (jornais diários) surgiram na
órico um tanto diferente, e mais uma
1842, ele era um burguês radical, mas Europa ocidental e se disseminaram a
vez tinha de parar, às vezes por cau-
de modo algum um comunista. Para
30 sa de pressões externas, por causa de
entender Marx melhor, temos de
partir de lá. Marx foi uma testemunha
conflitos em que estava envolvido, às desses processos, um investigador e,
acompanhar mais de perto o desen-
vezes por causa de problemas teó- em certos anos, também um ativista
volvimento de suas concepções e as
ricos que tornavam necessários no- político militante. Ele analisou como
formas pelas quais suas obras já esta-
vos estudos. O Marx que apresento um sistema econômico baseado na
vam mudando naqueles anos iniciais.
será muito menos completo, muito troca de equivalentes se baseia na ex-
menos “pronto”; não obstante, ele ploração e, ao mesmo tempo, a repro-
logrou grandes realizações na com- IHU On-Line – Quais as prin- duz, mas não em decorrência de um
preensão do capitalismo moderno cipais marcas e legados do “jo- domínio pessoal, e sim de um domínio
que são de enorme relevância para vem Marx”? impessoal.
os dias de hoje. Entretanto, o estudo
Michael Heinrich – Acho que Além disso, mostrou como um siste-
da obra de Marx fica um pouco mais
devemos ter muita cautela com pe- ma político que respeita seus cidadãos
complicado quando se seguem as
riodizações do tipo “jovem Marx” e como juridicamente livres e iguais
concepções que apresento.
“Marx maduro”. Eu sustento que estabeleceu, ainda assim, um sistema
não há períodos fixos da vida como de domínio estrutural de classe – não
IHU On-Line – Como compre- o “jovem”, “o adulto” ou “o velho”. violando suas próprias regras, mas
ender os contextos social e in- Essas coisas não passam de cons- cumprindo-as. Intitulei minha biogra-
telectual em que Marx é forma- truções dos biógrafos. Também no fia “Karl Marx e o nascimento da so-
do? E como esses contextos se tocante ao desenvolvimento da obra ciedade moderna” justamente porque
de Marx, nego tanto a tese que pro- podemos aprender muito de Marx so-
1 Jonathan Sperber (1952): professor americano na põe uma continuidade (que há um bre as estruturas ainda persistentes da
Universidade do Missouri, nos Estados Unidos. Escreveu
vários livros sobre a história política, social e religiosa da desenvolvimento contínuo sem rup- sociedade moderna.
Europa do século XIX. Seu livro de 2013, Karl Marx: Uma
Vida do Século XIX (São Paulo: Manole, 2014), foi critica- turas incisivas) quanto a tese da rup-
mente bem revisado, o que o New York Times descreveu tura (que há uma ruptura incisiva
como uma “biografia absorvente e meticulosamente pes- IHU On-Line – No que consis-
quisada”. (Nota da IHU On-Line) entre a obra do “jovem Marx” e do
2 Gareth Stedman Jones (1942): acadêmico e historia- te a gênese do conceito de so-
dor britânico, professor no Queen Mary, Universidade de “Marx maduro”). Claro que houve
cialismo para Marx? Esse con-
Londres. A publicação a que o entrevistado se refere é rupturas, mas elas aconteceram em
Karl Marx. Grandeza e Ilusão (São Paulo: Companhia das ceito ainda dá conta de explicar
Letras, 2017). Em 2018, revisando a evolução intelectual épocas diferentes e em campos de pes-
de Stedman Jones na obra, o historiador Terence Renaud a o socialismo de hoje?
descreveu como uma “jornada da Nova Esquerda, através
do estruturalismo francês, para uma prática contextualis- 3 Cidade histórica da Alemanha e também a mais antiga, Michael Heinrich – Na obra de
ta da história intelectual que deixa o marxismo para trás”. localizada no estado da Renânia-Palatinado. (Nota da IHU
(Nota da IHU On-Line) On-Line) Marx, o conceito de socialismo/co-

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munismo também mudou. Contu- diferença (por exemplo, em toda a Capital só começou no século XX,
do, ele nunca se reduziu à abolição obra de Marx e Engels não se encon- décadas após a morte de Marx.
da propriedade privada dos meios tra um termo como “materialismo
Marx publicou O Capital em alemão
de produção e à instalação de um dialético”), e então podemos avaliar.
e argumentou no mais elevado nível
planejamento central. O que se cha-
O que talvez tenha sido o maior que a ciência econômica tinha alcan-
mava “socialismo” no século XX ti-
problema com muitos “marxismos” çado e – como anunciava o subtítulo
nha bastante menos em comum com
é que eles transformaram o pensa- de O Capital – criticou a ciência eco-
o socialismo na acepção de Marx.
mento de Marx em uma espécie de nômica nesse nível elevado. Na Ale-
Em minha opinião, a questão básica
visão de mundo, uma espécie de manha, a ciência econômica não era
para o pensamento de Marx sobre
sistema fechado, que reivindicava muito bem desenvolvida nessa época.
o socialismo é a liberdade e a pos-
dar respostas a todas as questões Os economistas alemães não enten-
sibilidade do desenvolvimento do
possíveis. O próprio Marx não só deram o que Marx estava realmente
indivíduo, e não do indivíduo como
formulou a famosa frase “Je ne sui fazendo em “O Capital”, e suas recen-
abstração, e sim de cada indivíduo
pas marxiste”, mas também mostrou sões do livro (quando faziam alguma,
concreto, como diz o “Manifesto Co-
sua própria distância para com um o que era bastante raro) eram bastan-
munista” na famosa afirmação de
“sistema socialista”. Quando o eco- te estúpidas.
que o desenvolvimento de cada indi-
nomista alemão Adolph Wagner5 es-
víduo é a condição para o desenvol- Na Inglaterra, a situação era um
creveu que a teoria do valor de Marx
vimento de todos. tanto melhor e a discussão econô-
é a pedra angular de seu “sistema so-
mica se dava em um nível mais alto,
Os pensadores burgueses acredita- cialista”, Marx observou que ele ja-
mas eles não liam alemão. Quando
vam que se alcança a emancipação mais formulou um “sistema socialis-
O Capital foi finalmente traduzi-
com a abolição das regulamentações ta” (Notas sobre Wagner). A obra de
do para o inglês (após a morte de
feudais, com mercados livres e elei- Marx constitui principalmente uma
Marx), o discurso econômico tinha
ções livres. Entretanto, Marx perce- análise científica; não obstante, essa
mudado consideravelmente por cau-
be muito claramente que sob essas obra tem um objetivo estritamente
sa da chamada revolução margina-
condições as pessoas não controlam político. Contudo, esse objetivo não
lista. Os marginalistas identificavam
realmente as estruturas econômicas implica a violação de quaisquer pa- 31
as teorias de Marx com o objeto de
e políticas de sua vida. Marx exige drões científicos.
sua crítica, a economia política clás-
uma forma mais completa de eman-
sica. Por conseguinte, também na
cipação, onde as pessoas realmente
IHU On-Line – Marx escreve, Inglaterra, O Capital de Marx não
controlem as estruturas sociais que
ainda em 1867, que toda crítica encontrou realmente o tratamento
produzem. Essa questão de como
científica é bem-vinda. O que científico que merece.
podemos controlar e regulamentar
os processos sociais e econômicos propunha com essa provoca- Foi só durante as últimas cinco ou
produzidos por nós mesmos ainda ção? E em que medida essa críti- seis décadas que uma discussão real-
é atual. Em Marx só encontramos o ca estimulada vem sendo feita? mente científica de “O Capital” teve
início da resposta, e há muito traba- Michael Heinrich – Essa afir- início. E agora temos a MEGA, Mar-
lho a ser feito ainda. mação do prefácio de O Capital não x-Engels-Gesamtausgabe6 [Edição
é, absolutamente, uma provocação, e completa das obras de Marx e En-
sim a consequência do que eu disse gels], que pela primeira vez apresen-
IHU On-Line – Quais os limites ta realmente todos os manuscritos
antes. Se O Capital é uma obra de ci-
que o marxismo acabou impon- de “O Capital”. Além disso, ela apre-
ência, ela deve estar aberta à crítica
do ao pensamento do próprio senta esses manuscritos pela primei-
científica assim como qualquer outra
Marx, inebriando um sentido ra vez em sua forma original (os vols.
obra de ciência, e, como em outros
mais amplo de sua obra? 2 e 3 de “O Capital” foram fortemen-
casos, muito provavelmente o crítico
Michael Heinrich – Acho que encontrará alguns argumentos que te editados por Engels para tornar
temos de distinguir entre o marxis- não podem ser mantidos, e eles têm o texto mais legível). Pela primeira
mo (como a soma das contribuições de ser corrigidos e ajustados. Só se vez, podemos realmente ler o que o
inspiradas pela obra de Marx e En- pode ficar surpreso com essa afirma- próprio Marx escreveu. Além disso,
gels4) e o pensamento de Marx (e ção de Marx se se concebe O Capi- teve início a publicação dos cadernos
Engels). Isso não implica jogar fora tal como uma espécie de percepção de anotações de Marx (seu laborató-
todas as ideias “marxistas”, mas sig- definitiva. A tragédia foi que uma rio intelectual). Em minha opinião, a
nifica, em primeiro lugar, aceitar a discussão realmente científica de O verdadeira discussão científica de O
Capital das obras originais de Marx
apenas só começou há pouco.
4 Friedrich Engels (1820-1895): filósofo alemão que, jun- 5 Adolph Wagner (1835-1917): foi um economista e polí-
to com Karl Marx, fundou o chamado socialismo científi- tico alemão, influente socialista de cátedra, estudioso das
co ou comunismo. Ele foi coautor de diversas obras com finanças públicas e defensor do agrarianismo. Leva o seu
Marx, entre elas Manifesto Comunista. Grande companhei- nome a Lei de Wagner, que sugere que o estado de bem
ro intelectual de Karl Marx, escreveu livros de profunda -estar social evolui do capitalismo de livre mercado. (Nota 6 Há uma edição original em alemão de 2012, editada em
análise social. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line) Berlim pela Walter de Gruyter (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

IHU On-Line – O Manifes- nal dos anos 1860 e durante a déca- lucionária, como, por exemplo,
to Comunista7 completa 170 da de 1870 que Marx realmente se na Europa em 1848, e a esquerda
anos em 2018. Qual a atualida- livrou de seu eurocentrismo. deixou de aproveitar essa oportu-
de dessa obra e em que medi- nidade.
É um erro considerar o Manifesto
da, a partir da própria lógica
Comunista uma espécie de versão Com muito mais frequência, essas
metodológica de Marx, pode- breve de O Capital. Ele é um docu- crises políticas propiciaram uma
mos pensar numa atualização mento histórico e, neste sentido, é oportunidade para uma “contrar-
da obra? estritamente impossível atualizá-lo. revolução” reacionária, o que torna
Michael Heinrich – O Mani- Deveríamos pensar sobre um Ma- necessário que a esquerda responda
festo Comunista é um documento nifesto inteiramente novo, que es- de maneira unificada para proteger
histórico. Ele mostra o que era pos- teja baseado nas percepções de O o que já foi alcançado. Deixar de dar
sível articular em meados do século Capital de Marx, mas que também essa resposta pode ter consequên-
XIX e é, além disso, um documen- reflita os desdobramentos do final cias de longo alcance.
to do desenvolvimento intelectual do século XIX e do século XX: o co-
de Marx. É formulado com base lonialismo e as lutas anticoloniais, a Brasil
no conhecimento econômico e po- ascensão e derrota da União Sovié-
tica, a ascensão do fascismo, o Ho- No tocante à situação do Brasil,
lítico bastante limitado que Marx
locausto, as duas guerras mundiais, tenho a impressão de que há exa-
tinha nos anos de 1840, e também
que levaram o sentido da guerra a tamente uma situação assim após
é bastante eurocêntrico. Não deve-
uma nova dimensão, a ascensão e os golpes contra Dilma Rousseff e
ríamos nos esquecer de que o pró-
o declínio do Estado de bem-estar Lula. Impedir uma vitória da direi-
prio Marx escreveu, no prefácio de
social, fome e pobreza extrema em ta nas eleições presidenciais vin-
1859, que, após chegar a Londres, douras não é apenas um objetivo li-
ele começou seus estudos de eco- partes do Sul Global, revoluções
tecnológicas e crise ecológica – e mitado no curto prazo. Uma vitória
nomia a partir do início, e esses da direita provavelmente mudaria
estudos mudaram suas concepções esta é apenas uma lista incompleta
das questões relevantes. a situação fundamentalmente. En-
em grau considerável. O mesmo se tretanto, tenho a impressão de que
32 aplica à sua análise do Estado. uma série de grupos e partidos de
O Manifesto Comunista foi es- IHU On-Line – No mundo esquerda não estão enxergando o
crito antes da revolução de 18488. todo, e especialmente no Bra- grande perigo.
O transcurso (e a derrota) dessa sil, fala-se em crise da esquer-
Talvez eles estejam pensando as-
revolução, os desdobramentos di- da. Em que medida uma outra
sim: tudo bem que um candidato
ferentes ocorridos na Alemanha e leitura de Marx pode inspirar a
de direita ganhe a eleição presi-
na França, a ascensão de Luís Bo- superação desse estado de cri-
dencial, e então a política econô-
naparte9, tudo isso mudou grande ses? E que leitura seria essa?
mica será horrível, mas daqui a
parte da concepção de Marx sobre Michael Heinrich – Em certo cinco anos teremos a próxima elei-
as classes e o Estado. E foi só no fi- sentido, sempre há uma espécie ção e então a situação será melhor
de crise da esquerda. A esquerda para a esquerda e especialmen-
7 Marx, Karl. Manifesto do Partido Comunista (tradução:
Sergio Tellaroli). São Paulo: Penguin Companhia, 2012. nunca está em uma situação satis- te para nosso grupo ou partido.
(Nota da IHU On-Line) fatória, e sempre haverá contro- Essa consideração poderia ser um
8 Revoluções de 1848 (ou Primavera dos povos): é a
série de revoluções na Europa Central e Oriental que vérsias profundas sobre questões grande erro: se a direita ganhar,
eclodiram em função de regimes governamentais auto-
cráticos, de crises econômicas, do aumento da condição fundamentais. Essas crises da es- podemos supor que ela vá mudar o
financeira e da falta de representação política das clas- querda são formas pelas quais ela marco institucional e jurídico. No
ses médias e do nacionalismo despertado nas minorias
da Europa central e oriental, que abalaram as monar- pode aprender. Entretanto, além momento, isso está acontecendo
quias da Europa, onde tinham fracassado as tentativas
de reformas políticas e econômicas. Este conjunto de
de tais crises também há situações na Polônia e na Hungria. Contudo,
revoluções, de caráter nacionalista, liberal, socialista e em que a esquerda pode falhar to- nesses países essas mudanças ins-
democrático, foi iniciado por uma crise econômica na
França, e foi a onda revolucionária mais abrangente talmente. Na história, temos, por titucionais são, de alguma forma,
da Europa, embora em menos de um ano, forças rea-
cionárias tenham retomado o controle e as revoluções
um lado, tendências prolongadas limitadas pelas regras da União
em cada nação tenham sido dissipadas. Ao direcionar de desenvolvimento socioeconô- Europeia, mas não está claro, em
seu governo para interesses da Burguesia, Luís Felipe
despertou a oposição da população mais pobre, dos re- mico e, por outro, situações sin- absoluto, se isso será suficiente.
publicanos e também dos socialistas, grupo que se for-
talecia cada vez mais na Europa. (Nota da IHU On-Line)
gulares de crise política (muitas No Brasil, não há nem mesmo es-
9 Napoleão III: (1808-1873): também chamado Luís vezes acompanhada por uma cri- sas pequenas limitações, e temo
Bonaparte, nasceu Charles-Louis Napoléon Bonaparte.
Foi o 1º Presidente da Segunda República Francesa e, se ou um declínio na economia). que a direita vá cuidar para que a
depois, Imperador dos Franceses do Segundo Impé-
rio Francês. Era sobrinho e herdeiro de Napoleão Bo-
Marx analisou tanto as tendências esquerda não tenha uma segunda
naparte. Foi o primeiro presidente francês eleito por quanto os momentos singulares. oportunidade em cinco anos. Pode
voto direto. Entretanto, foi impedido de concorrer a
um segundo mandato pela constituição e parlamento, Em raros momentos em meio a ser que vocês tenham de esperar
organizando um golpe em 1851 e assumindo o trono
como imperador no final do ano seguinte. (Nota da
uma situação singular assim pode 25 ou 30 anos pela próxima opor-
IHU On-Line) surgir uma oportunidade revo- tunidade.■

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

“Marxismo só tem sentido como


um pensamento aberto”
Para Michael Löwy, a ortodoxia na interpretação dos escritos
do filósofo limita a compreensão dos problemas atuais e
reduz a potência de seu pensamento
Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos

Q
uando Karl Marx reflete acerca ção das transformações, considera que
de assuntos econômicos, polí- ambas mantêm o funcionamento se-
ticos e sociais, está imerso no gundo a lógica do capital estudado por
espírito de seu tempo, o século XIX. Marx. O que não quer dizer que para
Claro, é notória sua contribuição para compreender uma basta olhar a outra.
compreender essa sociedade em trans- “O marxismo não se limita a Marx. Não
formação. “As tentativas de ‘superá-lo’ se pode ignorar a riqueza do marxismo
só levam a regressões: ao positivismo, do século XX, em toda sua diversidade
ao liberalismo do século XIX, à eco- e suas contradições”, completa.
nomia política burguesa etc.”, destaca Michael Löwy é brasileiro, radica-
o professor Michael Löwy. Entretan- do na França. Licenciado em Ciências
to, para Löwy, leituras mais duras dos Sociais pela Universidade de São Pau-
escritos limitam as possibilidades de lo - USP, possui doutorado na Sorbon-
manter o marxismo atual. “Graças aos
33
ne. Em Paris, trabalha como diretor
trabalhos de John Bellamy Foster, Paul de pesquisas no Centre National de la
Burkett, Ian Angus e Kohei Saito, des- Recherche Scientifique - CNRS; tam-
cobriu-se toda uma dimensão ecológica bém já dirigiu um seminário na École
da obra de Marx, que havia sido total- des Hautes Études en Sciences Socia-
mente ignorada pelas leituras da es- les. Entre suas publicações, destacamos
querda tradicional”, exemplifica. Centelhas - marxismo e revolução no
É por isso que Löwy, na entrevista século XXI, escrito com Daniel Bensaïd
concedida por e-mail à IHU On-Line, (São Paulo: Boitempo, 2014), Afinida-
vai formular que “o marxismo só tem des revolucionárias (São Paulo: Unesp,
sentido como um pensamento aberto, 2016), A jaula de aço: Max Weber e o
em constante evolução, buscando dar marxismo weberiano (São Paulo: Boi-
conta dos novos problemas e das novas tempo, 2014) e O que é o cristianismo
perspectivas para a revolução”. Embora da Libertação (São Paulo: Editora Per-
as sociedades capitalistas do século XIX seu Abramo, 2017).
e do século XXI sejam distintas em fun- Confira a entrevista.

IHU On-Line – A face mais co- exemplo, em seus Cadernos Etno- horizonte intelectual de nossa épo-
nhecida da produção teórica de lógicos, filosóficas (no conjunto de ca. As tentativas de “superá-lo” só
Marx é a política e a econômica. seus escritos de juventude, mas tam- levam a regressões: ao positivismo,
Que outras dimensões da vida e bém na parte metodológica do Capi-
da sociedade Marx discutiu em tal), historiográficas, religiosas (não francês. Escreveu obras teóricas, romances, peças teatrais
e contos. Seu primeiro romance foi A náusea (1938), e seu
seus textos? Qual a atualidade só na crítica ao “ópio do povo”) etc. principal trabalho filosófico é O ser e o nada (1943). Sartre
de seu pensamento? Era um autêntico espírito universal. define o existencialismo em seu ensaio O existencialismo é
um humanismo como a doutrina na qual, para o homem,
“a existência precede a essência”. Na Crítica da razão dialé-
Michael Löwy – A obra de Marx A atualidade de seu pensamento é tica (1964), Sartre apresenta suas teorias políticas e socio-
lógicas. Aplicou suas teorias psicanalíticas nas biografias
inclui dimensões culturais – seu in- imensa: como dizia Sartre1, ele é o Baudelaire (1947) e Saint Genet (1953). As palavras (1963)
teresse pela literatura francesa e in- é a primeira parte de sua autobiografia. Em 1964, foi es-
colhido para o prêmio Nobel de literatura, que recusou.
glesa é notório – antropológicas, por 1 Jean-Paul Sartre (1905-1980): filósofo existencialista (Nota da IHU On-Line).

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

ao liberalismo do século XIX, à eco- temática. O mais importante é A para defender, a qualquer preço, o
nomia política burguesa etc. Os dois guerra dos camponeses (1850), que poder revolucionário do Partido.
aspectos decisivos desta atualidade analisa os conflitos religiosos na
Esta crítica foi feita já em 1918
são: 1) a análise científica do funcio- Alemanha do século XVI do ponto
por Rosa Luxemburgo7, em seu
namento do capitalismo e sua crítica de vista da luta de classes. Engels se
panfleto sobre a Revolução Russa:
feroz, como sistema intrinsecamente interessa em especial pela figura do
ao mesmo tempo em que faz o elo-
perverso, baseado na violência, na anabatista Thomas Münzer5, teólogo
gio dos bolcheviques, de Lenin8 e
opressão e na exploração da maioria revolucionário e inspirador da luta
de Trotsky, critica seu autoritaris-
da população; 2) a proposta de uma emancipadora dos camponeses.
mo e sua visão pouco democrática
alternativa radical ao capitalismo,
do poder.
uma sociedade sem classes e sem
opressão, igualitária, libertária e de- IHU On-Line – Qual foi a
mocrática: o comunismo. apropriação, a leitura, de
IHU On-Line – Passados
Marx durante a Revolução
pouco mais de 150 anos da
Russa? E agora, um século
publicação de O Capital, es-
IHU On-Line – Marx era um depois desse episódio, como
tamos diante de uma socieda-
crítico contumaz da religião, podemos reler a Revolução a
de que hegemonicamente se
que para ele era uma forma de partir das inúmeras recepções
relaciona com o capitalismo
opressão e alienação. Contudo, que foram surgindo ao pensa-
como uma espécie de religião.
o que está no centro da crítica à mento marxiano?
Até que ponto o marxismo é a
religião feita por Marx?
Michael Löwy – E impossível outra face dessa mesma “mo-
Michael Löwy – Muitos identi- resumir um século de história do eda messiânica” e até que
ficam a análise da religião de Marx marxismo em dois parágrafos... Os ponto ele apresenta alternati-
com a fórmula “a religião é o ópio revolucionários russos tiveram a vas novas?
do povo” (Contribuição à crítica da inteligência de reler Marx do ponto
Michael Löwy – A crítica do capi-
filosofia do direito de Hegel, 1844). de vista de uma revolução socialis-
talismo como religião já se encontra
Esta fórmula não tem nada de pro- ta num país da periferia do sistema
34 priamente marxista: a encontramos capitalista, rompendo assim com
nos anos 1920 em escritos de Ernst
Bloch9 e Walter Benjamin10. A Te-
em Heine2, em Moses Hess3 e vários o pretenso marxismo ortodoxo da
outros contemporâneos de Marx. Segunda Internacional. Esta pers-
Ela é mais bem neo-hegeliana, idea- pectiva já havia sido proposta por
lista, definindo a religião como uma Trotsky6 em 1906, com sua teoria da
essência filosófica intemporal. O es- “revolução permanente”. O proble- 7 Rosa Luxemburgo (1870-1919): filósofa marxista e re-
tudo marxista, materialista histórico ma é que os bolcheviques se afas- volucionária polonesa. Participou na fundação do grupo
de tendência marxista que viria a tornar-se, mais tarde, o
da religião começa com a Ideologia taram do programa democrático e Partido Comunista Alemão. (Nota da IHU On-Line)
8 Lenin [Vladimir Ilyich Ulyanov] (1870-1924): revolucio-
alemã (1846) que analisa a religião libertário do comunismo de Marx, nário russo, responsável em grande parte pela execução
como uma das formas da ideologia, da Revolução Russa de 1917, líder do Partido Comunista e
primeiro presidente do Conselho dos Comissários do Povo
a ser interpretada do ponto de vista da União Soviética. Influenciou teoricamente os partidos
5 Thomas Muentzer (ou Müntzer, Münzer), (1489-1525): comunistas de todo o mundo. Suas contribuições resul-
da luta de classes, em cada momento sacerdote do início da Reforma Protestante. Foi ordenado taram na criação de uma corrente teórica denominada
histórico concreto. padre em 1513, tendo sido feito padre de São Miguel em leninismo. (Nota da IHU On-Line)
Braunschweig, em maio de 1514. Juntou-se à Reforma de 9 Ernst Bloch (1885-1977) foi um dos principais filóso-
Martinho Lutero, tendo-se tornado pastor em Zwickau, em fos marxistas alemães do século XX. Escreveu durante sua
Na verdade, Marx não se interes- 1520, por recomendação de Lutero. Lutero, no entanto, não vida sobre os mais diversos assuntos, mas especialmente
sou muito pela religião, foi Engels4 foi tão longe como Muentzer, que cortou relações em 1521 sobre utopia, pelo qual hoje é conhecido. Exerceu uma
por divergências quanto ao batismo de crianças, entre ou- influência difusa em diferentes ambientes intelectuais:
que dedicou vários trabalhos a essa tros assuntos, tendo fundado a sua própria seita religiosa. Theodor W. Adorno, Walter Benjamin, os teólogos Jürgen
Por esta razão, Muentzer é considerado um dos fundado- Moltmann, Johann Metz e Gustavo Gutiérrez (e com ele
res do Movimento Anabatista. No entanto, é questionável a Teologia da Libertação), o movimento ecologista na
se ele próprio alguma vez foi “rebatizado”. Foi expulso de Alemanha, Herbert Marcuse, Fredric Jameson, Hans Heinz
2 Heinrich Heine [Christian Johann Heinrich Heine] Zwickau pelas autoridades em 1521. Em 1522, envolveu- Holz, dentre outros. (Nota da IHU On-Line)
(1797-1856): poeta romântico alemão, conhecido como “o se numa disputa com Lutero. Em 1523, casou-se com uma 10 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. Foi refu-
último dos românticos”. Boa parte de sua poesia lírica, es- antiga freira e tornou-se o pastor de Allstadt, onde pregou giado judeu e, diante da perspectiva de ser capturado pelos
pecialmente a sua obra de juventude, foi musicada por vá- até 1524, ano em que se tornou um dos líderes das revoltas nazistas, preferiu o suicídio. Associado à Escola de Frank-
rios compositores notáveis como Robert Schumann, Franz que ficaram conhecidas como a Guerra dos Camponeses. furt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado tanto por
Schubert, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Em 1515, ele liderou um grupo de cerca de 8000 campone- autores marxistas, como Bertolt Brecht, como pelo místico
Wagner e, já no século XX, por Hans Werner Henze e Lord ses na Batalha de Frankenhausen, convencido que Deus iria judaico Gershom Scholem. Conhecedor profundo da língua
Berners. (Nota da IHU On-Line) intervir do seu lado. Muentzer foi capturado e aprisionado. e cultura francesas, traduziu para o alemão importantes
3 Moses Hess (1812-1875): foi um precursor do que mais Sob tortura ele abjurou o protestantismo para não ser quei- obras como Quadros parisienses, de Charles Baudelaire, e
tarde se chamaria sionismo trabalhista ou socialista. Suas mado, sendo decapitado em 27 de maio de 1525. O livro Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. O seu tra-
obras mais importantes são História Sagrada da Humani- mencionado pelo entrevistado é Thomas Münzer: teólogo balho, combinando ideias aparentemente antagônicas do
dade por um discípulo de Espinoza (1837), Triarquia euro- da revolução. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1963. idealismo alemão, do materialismo dialético e do misticis-
peia (1841), Roma e Jerusalém (1862) e Consequences of a (Nota da IHU On-Line) mo judaico, constitui um contributo original para a teoria
Revolution of the Proletariat (1847). Mudou seu nome para 6 Leon Davidovich Trotsky (1870-1940): revolucionário estética. Entre as suas obras mais conhecidas, estão A obra
Moritz Hess, tendo mais tarde o revertido para Moses. bolchevista e intelectual marxista, político influente na de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (1936), Teses
(Nota da IHU On-Line) União Soviética. Com Joseph Stalin, na União Soviética dos sobre o conceito de história (1940) e a monumental e ina-
4 Friedrich Engels (1820-1895): filósofo alemão que, jun- anos 1920, foi expulso do Partido Comunista e deporta- cabada Paris, capital do século XIX, enquanto A tarefa do
to com Karl Marx, fundou o chamado socialismo científi- do da União Soviética. Foi assassinado no México por um tradutor constitui referência incontornável dos estudos lite-
co ou comunismo. Ele foi coautor de diversas obras com agente soviético a mando de Stalin. Frida Kahlo e Diego rários. Sobre Benjamin, confira a entrevista Walter Benjamin
Marx, entre elas Manifesto Comunista. Grande companhei- Rivera hospedaram Trotsky em sua estadia no México. As e o império do instante, concedida pelo filósofo espanhol
ro intelectual de Karl Marx, escreveu livros de profunda ideias de Trotsky constituem a base da teoria comunista José Antonio Zamora à IHU On-Line nº 313, disponível em
análise social. (Nota da IHU On-Line) do trotskysmo. (Nota da IHU On-Line) http://bit.ly/zamora313. (Nota da IHU On-Line)

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

ologia da Libertação11 (Assmann12, desenvolveu brilhantes análises da Immanuel Wallerstein19 – sem falar
Hinkelammert13, Jon Sobrino14) idolatria do mercado no capitalis- dos inúmeros estudiosos latino-a-
mo, articulando a crítica dos profe- mericanos e brasileiros.
11 Teologia da Libertação: escola teológica desenvolvida tas bíblicos ao culto dos ídolos com
depois do Concílio Vaticano II. Surge na América Latina, a teoria marxista do fetichismo da
a partir da opção pelos pobres, e se espalha por todo o
mundo. O teólogo peruano Gustavo Gutiérrez é um dos mercadoria. IHU On-Line – Como os novos
primeiros que propõe esta teologia. A teologia da liberta- estudos sobre Marx revelam
ção tem um impacto decisivo em muitos países do mundo. O marxismo nada tem a ver com um autor muito mais heterodo-
Sobre o tema confira a edição 214 da IHU On-Line, de
2-4-2007, intitulada Teologia da libertação, disponível para esta “moeda”, que não é messiânica, xo do que sugere a leitura orto-
download em http://bit.ly/bsMG96.Leia, também, a edi-
ção 404 da revista IHU On-Line, de 5-10-2012, intitulada mas sim um imenso ritual ao redor doxa, via de regra de esquerda,
Congresso Continental de Teologia. Concílio Vaticano II e do Bezerro de Ouro15. Será o marxis- de seus escritos?
Teologia da Libertação em debate, disponível em http://bit.
ly/SSYVTO. (Nota da IHU On-Line) mo uma teoria messiânica? Nos es-
12 Hugo Assmann (1933-2008): foi teólogo católico bra-
critos de Walter Benjamin se propõe Michael Löwy – Graças aos tra-
sileiro que desenvolveu importante obra após o Concílio
Vaticano II. É considerado um dos pioneiros da Teologia da uma leitura do materialismo históri- balhos de John Bellamy Foster20,
Libertação no Brasil. Até 1994, Assmann foi predominan-
temente um teólogo, mas a partir de então, passaram a co em perspectiva messiânica. Paul Burkett21, Ian Angus22 e Kohei
predominar em suas publicações textos sobre os paradig- Saito, descobriu-se toda uma dimen-
mas educacionais e a questão da corporeidade. A partir
de 1997, suas pesquisas se direcionaram prioritariamente são ecológica da obra de Marx, que
para questões educacionais no interior da Sociedade do
Conhecimento, em 2005, encerrou suas atividades no Pro-
IHU On-Line – Quais os li- havia sido totalmente ignorada pelas
grama de Pós-Graduação em Educação da Universidade mites e as possibilidades de leituras da esquerda tradicional. Os
Metodista de Piracicaba (Unimep). Nos últimos dez anos
de sua produção científica, Assmann foi influenciado pela compreensão do pensamento escritos pioneiros de Teodor Sha-
teoria da complexidade elaborada por Edgar Morin. (Nota
da IHU On-Line)
de Marx nas sociedades con- nin23 sobre Marx e a Rússia abriram
13 Franz Hinkelammert (1931): economista, influenciado temporâneas que parecem ser novas perspectivas, e o mesmo vale
pelo marxista luterano Helmut Gollwitzer, obteve dou-
torado em Economia pela Universidade Livre de Berlim. mais complexas e difíceis de para Kevin Anderson24 em seu bri-
Entre 1963 e 1973, foi professor da Universidade Católica compreender que as primitivas lhante livro sobre Marx e os povos
do Chile e integrante do CEREN. Entre 1973 e 1976, foi
professor da Universidade Livre de Berlim. Entre 1978 e sociedades industriais do sécu- não europeus. São apenas alguns
1982, foi diretor do curso de Pós-Graduação em Política
Econômica da Universidade Autônoma de Honduras e
lo XIX?
professor e investigador do Conselho Superior Universi-
tário Centroamericano (CSUCA). Foi fundador, diretor e Michael Löwy – Obviamente as e está entre os mais importantes intelectuais marxistas da
docente do Departamento Ecumênico de Investigações atualidade. Professor emérito da Universidade de Sussex,
(DEI), em San José (Costa Rica). Como economista, tinha sociedades capitalistas contempo- na Inglaterra, onde ensinou filosofia por quinze anos, an- 35
especial interesse pela ideologia da economia. Come- râneas são muito diferentes das do teriormente foi também professor de Filosofia e Ciências
çou a se interessar por sociologia por meio da leitura de Sociais na Universidade de York, durante quatro anos.
textos de Max Weber e de Karl Marx, e por teologia, por século XIX, mas ainda funcionam (Nota da IHU On-Line)
meio da leitura de textos de Helmut Golwitzer. Em 1963, 19 Immanuel Wallerstein (1930): sociólogo estaduniden-
Himkelammert chegou ao Chile, convidado pela Funda- segundo a lógica implacável do capi- se, mais conhecido pela sua contribuição fundadora para
ção Adenauer. Na época, era ligada à democracia cristã, tal estudada por Marx: a acumulação a teoria do sistema-mundo. Seus comentários bimensais
que contava com correntes reformistas no Chile. Ministrou sobre questões globais são distribuídos pela Agence Glo-
cursos sobre utopia, projetos de transformação, teorias de do capital e a extração do lucro como bal para publicações como Le Monde diplomatique e The
desenvolvimento, teoria da dependência e outros temas Nation. No Brasil, seus artigos são publicados na revista
afins na universidade e em movimentos sociais. Nesse
critério único e exclusivo da ativi- Fórum e na revista virtual Outras Palavras. (Nota da IHU
processo rompeu com a democracia cristã e com a Funda- dade econômica. Mas, sem dúvidas, On-Line)
ção Adenauer. (Nota da IHU On-Line) 20 John Bellamy Foster (1953): é professor de sociologia
14 Jon Sobrino (1938): teólogo espanhol, jesuíta, que em são necessárias novas análises para na Universidade de Oregon e também editor da Monthly
27-12-1938 entrou para a Companhia de Jesus e em 1956 Review. Escreve sobre economia política do capitalismo e
e foi ordenado sacerdote em 1969. Desde 1957, pertence à
dar conta das caraterísticas específi- crise econômica, ecologia e crise ecológica e teoria mar-
Província da América Central, residindo habitualmente na cas do capitalismo atual. Felizmente xista. Ele deu inúmeras entrevistas e palestras, bem como
cidade de San Salvador, em El Salvador, país da América fez comentários escritos, artigos e livros sobre o assunto.
Central, que ele adotou como sua pátria. Licenciado em Fi- existem muitos trabalhos de autores (Nota da IHU On-Line)
losofia e Letras pela Universidade de St. Louis (Estados Uni-
dos), em 1963, Jon Sobrino obteve o master em Engenharia
marxistas modernos, que desenvol- 21 Paul Burkett: professor de economia na Indiana State
University e autor de Marx and Nature. A red and green
na mesma Universidade. Sua formação teológica ocorreu vem análises inovadoras neste ter- perspective (Marx e a natureza: uma perspectiva vermelha
no contexto do espírito do Concílio Vaticano II, a realização e verde). New York: St. Martin´s Press, 1999. (Nota da IHU
e aplicação do Vaticano II e da II Conferência Geral do Con- reno, desde Ernest Mandel16 até Da- On-Line)
selho Episcopal Latino-Americano, em Medellín, em 1968. vid Harvey17, István Mészáros18 ou 22 Ian Angus (1945): é um ativista ecossocialista canaden-
Doutorou-se em Teologia em 1975, na Hochschule Sankt se. Angus ingressou no Novo Partido Democrático (NDP)
Georgen de Frankfurt (Alemanha). É doutor honoris causa em 1962 e depois nos Young Socialists (YS) em Ottawa em
pela Universidade de Lovain, na Bélgica (1989), e pela Uni- 1964. Ele atuou no YS e na Liga pela Ação Socialista na
versidade de Santa Clara, na Califórnia (1989). Atualmente, me/UHLN. (Nota da IHU On-Line) década de 1970. Angus participou da formação da Liga
divide seu tempo entre as atividades de professor de Te- 15 Bezerro de ouro: é o ídolo que, de acordo com a tra- Operária Revolucionária do partido trotskista canadense
ologia da Universidade Centroamericana, de responsável dição judaico-cristã, foi criado por Arão quando Moisés (RWL; fusão da LSA com o Grupo Marxista Revolucionário
pelo Centro de Pastoral Dom Oscar Romero, de diretor havia subido o monte Sinai para receber os mandamen- e Groupe Marxiste Revolutionaire) em 1977. Ele deixou a
da Revista Latinoamericana de Teologia e do Informati- tos de Deus. O povo de Israel então forçara Arão a criar RWL em 1980 e foi um escritor marxista independente.
vo “Cartas a las Iglesias”, além de ser membro do comitê um ídolo que os reconduzisse ao Egito onde haviam sido (Nota da IHU On-Line)
editorial da Revista Internacional de Teólogia Concilium. A escravos. Este incidente é conhecido em hebraico como 23 Teodor Shanin (1930): sociólogo britânico que foi du-
respeito de Sobrino, confira a ampla repercussão dada pelo Khet ha’Egel (‫ )לגעה אטח‬ou O pecado do bezerro e é des- rante muitos anos professor de sociologia na Universidade
site do IHU em suas Notícias do Dia, bem como o artigo crito na Bíblia, no livro de Shemot (Êxodo 32:1-8). (Nota de Manchester. Acredita-se que ele seja pioneiro no es-
A hermenêutica da ressurreição em Jon Sobrino, publicada da IHU On-Line) tudo do campesinato russo no Ocidente. Após o colapso
na editoria Teologia Pública, escrita pela teóloga uruguaia 16 Ernest Ezra Mandel (1923-1995): foi um economista da União Soviética, Shanin mudou-se para a Rússia onde,
Ana Formoso na edição 213 da IHU On-Line, de 28-3-2007, e político belga, considerado um dos mais importantes com financiamento do Open Society Institute, Fundação
disponível para download em http://migre.me/UHJB. A IHU dirigentes trotskistas da segunda metade do século XX. Ford e outros, fundou a Escola de Moscou para as Ciên-
On-Line também produziu uma edição especial, intitulada Além disso, foi significativa a sua contribuição teórica ao cias Sociais e Econômicas em 1995. Shanin é Presidente da
Teologia da Libertação, no dia 2-4-2007. A edição 214 está Marxismo antistalinista. Como economista, especializou- Escola de Moscou, professor emérito da Universidade de
disponível em http://migre.me/UHKa. Sobre a censura do se no estudo das crises cíclicas. Também era conhecido Manchester e membro honorário da Academia Russa de
Vaticano a Sobrino, confira: Teólogos espanhóis criticam a como Ernest Germain, Pierre Gousset, Henri Vallin, Walter Ciências Agrárias. (Nota da IHU On-Line)
condenação de Jon Sobrino, disponível em http://migre.me/ etc. (Nota da IHU On-Line) 24 Kevin B. Anderson (1948): sociólogo da Califórnia e
UHKF, ‘Jon Sobrino, com o tempo, será reabilitado’, afirma 17 David Harvey (1935): é um geógrafo marxista bri- humanista marxista. Ele é professor de Sociologia, Ciência
Ernesto Cavassa, disponível em http://migre.me/UHL3, tânico, formado na Universidade de Cambridge. É pro- Política e Estudos Feministas na Universidade da Califór-
Notificação a Jon Sobrino. Teólogos apelam por reforma da fessor da City University of New York e trabalha com nia, em Santa Bárbara. Ele foi professor de Sociologia na
Congregação para a Doutrina da Fé, disponível em http:// diversas questões ligadas à geografia urbana. (Nota da Universidade do Norte de Illinois, DeKalb e professor de
migre.me/UHLk, O caso Jon Sobrino como sintoma. Um ar- IHU On-Line) Ciência Política, Sociologia e Estudos da Mulher na Uni-
tigo de Andrés Torres Queiruga, disponível em http://migre. 18 István Mészáros (1930-2017): foi um filósofo húngaro versidade de Purdue. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

exemplos de muitas leituras “hetero- descobrindo as fascinantes pistas do marxismo do século XX, em toda
doxas” de Marx. que abriu, nestes derradeiros anos, o sua diversidade e suas contradições:
grande adversário do capitalismo. Lenin, Rosa Luxemburgo, Trotsky,

“O marxismo O quadro que vão desenhando es- Gramsci26, José Carlos Mariategui27,
tes escritos – certo, inacabados, e Georg Lukács28, Ernst Bloch, Walter

não se limita a não sistemáticos – é de um Marx


extraordinariamente “heterodoxo”,
Benjamin e tantos outros que contri-
buíram para entender os fenômenos
Marx. Não se isto é, pouco conforme com o mar-
xismo pseudo-ortodoxo – por exem-
do século XX: imperialismo, fascis-
mo, estalinismo...
pode ignorar plo estalinista – que tanto estrago
fez no curso do século XX. Um Marx
Na verdade, o marxismo só tem sen-

a riqueza do que critica impiedosamente o econo-


tido como um pensamento aberto,
em constante evolução, buscando dar
micismo, a ideologia do progresso
marxismo do linear, o evolucionismo, o fatalismo
conta dos novos problemas e das no-
vas perspectivas para a revolução.■
século XX”
histórico, o determinismo mecâni-
co. O exemplo mais impressionante 26 Antonio Gramsci (1891-1937): foi um filósofo marxis-
desta reflexão são os últimos escritos ta, jornalista, crítico literário e político italiano. Escreveu
sobre teoria política, sociologia, antropologia e linguística.
sobre a Rússia, examinando a pos- Com Togliatti, criou o jornal L’Ordine Nuovo, em 1919. Se-
IHU On-Line – O livro de sibilidade para este país de escapar cretário do Partido Comunista Italiano (1924), foi preso em
1926 e só foi libertado em 1937, dias antes de falecer. Nos
Marcello Musto O velho Marx: dos horrores do capitalismo. A morte seus Cadernos do cárcere, substituiu o conceito da ditadu-
ra do proletariado pela “hegemonia” do proletariado, dan-
uma biografia de seus últimos interrompeu um extraordinário pro- do ênfase à direção intelectual e moral em detrimento do
anos (1881-1893)25 joga luz cesso de reelaboração, de reformula- domínio do Estado. Sobre esse pensador, confira a edição
231 da IHU On-Line, de 13-8-2007, intitulada Gramsci, 70
sobre um período da vida de ção, de reinvenção do materialismo anos depois, disponível para download em http://www.
ihuonline.unisinos.br/edicao/231. (Nota da IHU On-Line)
Marx menos conhecido. O histórico e da teoria da revolução. 27 José Carlos Mariategui La Chira (1894-1930): jornalis-
ta, literato, político, pensador e ensaísta peruano. É consi-
que essas novas informações derado um dos grandes teóricos do marxismo na América
revelam sobre ele? Ele chegou Latina. Sua obra mais conhecida é Sete ensaios de interpre-

36 IHU On-Line – Deseja acres- tação da realidade peruana. São Paulo: Alfa-Omega, 1975,
a repensar seus próprios convertida em consulta obrigatória para os socialistas lati-
centar algo? no-americanos. (Nota da IHU On-Line)
conceitos e idiossincrasias? 28 György Lukács ou Georg Lukács (1885-1971) foi um
Michael Löwy – Marcello Musto Michael Löwy – A obra de Marx filósofo húngaro de grande importância no cenário intelec-
tual do século XX. Segundo Lucien Goldmann, Lukács refez,
é o primeiro a analisar com profun- é indispensável para pensar o mun- em sua acidentada trajetória, o percurso da filosofia clássica
alemã: inicialmente um crítico influenciado por Immanuel
didade o “Último Marx” (1881-1883), do de hoje e buscar sua transforma- Kant, depois o encontro com Friedrich Engels e finalmente,
ção. Mas o marxismo não se limita a a adesão ao marxismo. Seu nome completo era Georg Ber-
nhard Lukács von Szegedin em alemão ou Szegedi Lukács
25 São Paulo: Boitempo, 2018. (Nota da IHU On-Line) Marx. Não se pode ignorar a riqueza György Bernát em húngaro. (Nota da IHU On-Line)

Leia mais
- Revolução ecossocialista e o desafio de não ceder à resignação. Entrevista com Micha-
el Löwy, publicada na revista IHU On-Line número 513, de 16-10-2017, disponível em http://
bit.ly/2luqGdA.
- Michael Löwy: O golpe de Estado de 2016 no Brasil. Artigo de Michael Löwy, reproduzido
nas Notícias do Dia de 18-5-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível
em http://bit.ly/2ttGbpv.
- A verdadeira Igreja dos pobres. Artigo de Michael Löwy, reproduzido nas Notícias do
Dia de 1-4-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.
ly/2KbaUih.

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

O marxismo continua atual para crítica do


capitalismo e denúncia das desigualdades
José Eustáquio Diniz Alves ressalva, no entanto, que marxismo já nasceu
desatualizado no que se refere à relação entre a humanidade e a natureza
Ricardo Machado | Edição: Vitor Necchi

A
teoria marxista se sustenta em cialmente no que diz respeito à crítica
três linhas do pensamento mo- ao funcionamento do sistema capitalis-
derno, surgidos a partir da Re- ta e à denúncia das desigualdades so-
volução Industrial e Energética: eco- ciais da sociedade urbano-industrial”.
nomia política inglesa, filosofia alemã e No entanto, ressalva “que o marxismo
socialismo francês. “De uma forma ou já nasceu desatualizado no que se re-
de outra (mas não sem questionamen- fere à relação entre a humanidade e a
tos), estes três pilares continuam vivos natureza”.
e vão permanecer como referência para Sobre um dos debates contemporâ-
a crítica social enquanto houver rela- neos, acerca da renda básica universal,
ções capitalistas de produção”, avalia Alves considera que, “se bem imple-
José Eustáquio Diniz Alves. “Porém, mentada, pode ser um importante me-
fundamentando toda sua análise na te- canismo de transferência de renda, de
oria do valor, Marx não conseguiu re-
37
compensação das falhas do mercado,
solver as incongruências quantitativas de combate à pobreza, de melhoria da
entre a magnitude do valor e o preço distribuição de renda e de fortaleci-
das mercadorias.” Sendo assim, “uma mento da cidadania”. No entanto, cha-
hipótese fundamental do marxismo ma de ideia romântica a aposta de que
que não se confirmou foi a ‘queda ten- ela possa salvar o capitalismo. “Acredi-
dencial da taxa de lucro’, o que seria um tar na possibilidade de os capitalistas
ponto-chave, pois teria como resultado taxarem os futuros onipresentes e onis-
a ‘crise final do capitalismo’”, explica cientes robôs e distribuírem uma renda
em entrevista concedida por e-mail à básica universal para que a população
IHU On-Line. desocupada tenha recursos para com-
Ao refletir sobre o legado teórico de prar os seus próprios produtos é uma
Marx, Alves reconhece que ele nem ideia surreal.”
chegou perto do “sonho de uma socie- José Eustáquio Diniz Alves é dou-
dade sem exploração e sem dominação, tor em Demografia, mestre em Econo-
uma sociedade verdadeiramente co- mia e graduado em Ciências Sociais
munista”. Ao citar o lema “de cada um pela Universidade Federal de Minas
conforme suas capacidades, a cada um Gerais - UFMG, com estágio pós-dou-
conforme suas necessidades”, afirma toral na Universidade Estadual de
que “esta bela utopia [...] parece estar Campinas - Unicamp. Foi professor da
mais distante da materialização do que Universidade Federal de Ouro Preto de
a possibilidade de o ser humano ultra- 1987 a 2002. É pesquisador titular da
passar os limites da Via Láctea”. Escola Nacional de Ciências Estatísti-
Para discutir marxismo, Alves tam- cas do Instituto Brasileiro de Geografia
bém trata do capitalismo. Para ele, “a e Estatística - Ence/IBGE.
filosofia marxista continua atual, espe- Confira a entrevista.

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

IHU On-Line – Qual a atuali- essencialmente um sistema em mo- deixando implícita a ideia de um
dade de Karl Marx em termos vimento, no qual tendências forte- empobrecimento absoluto da classe
filosóficos? Que intuições se mente predatórias (o gafanhoto) se trabalhadora, disseram no Manifes-
confirmaram e quais nunca fo- articulam com forças construtivas (a to Comunista: “Os proletários nada
ram sequer sombras da reali- abelha) para formar um amálgama têm a perder, a não ser os seus gri-
dade? cuja marca é a transformação. Para lhões. Têm um mundo a ganhar”.
Mulgan, Marx errou ao subestimar a
José Eustáquio Diniz Alves – A Contudo, houve conquistas além
capacidade do capitalismo de respon-
teoria marxista foi tecida a partir de dos grilhões e, na realidade, a extre-
der e se adaptar às ameaças e pres-
três linhas do pensamento moderno, ma pobreza foi reduzida. Segundo os
sões políticas. Ou como diria Joseph
que surgiram a partir do início da Re- dados do site “Our World in Data”,
Schumpeter2, o capitalismo é um
volução Industrial e Energética, en- um projeto da Universidade de Ox-
sistema dinâmico, que funciona em
tre o último quartel do século XVIII ford com dados disponíveis gratui-
ciclos de “destruição criativa” e que
e o primeiro quartel do século XIX: tamente na internet, a população
se desenvolve impulsionado pela li-
a economia política inglesa (teoria mundial, que era de 1,08 bilhão de
derança do empresário inovador.
do valor-trabalho), a filosofia alemã habitantes em 1820, tinha 1,02 bi-
(materialismo histórico-dialético) e Completando a resposta, o que lhão vivendo na extrema pobreza
o socialismo francês (fim da proprie- nem sequer chegou perto da reali- (representando 94% da população
dade privada e da “escravidão assa- dade foi o sonho de uma sociedade total) e 60,6 milhões vivendo acima
lariada”). De uma forma ou de outra sem exploração e sem dominação, da linha da extrema pobreza (repre-
(mas não sem questionamentos), uma sociedade verdadeiramente sentando 6% do total). Em 2015, a
estes três pilares continuam vivos comunista, funcionando à base do população mundial chegou a 7,35 bi-
e vão permanecer como referência lema: “De cada um conforme suas lhões de habitantes, com 6,6 bilhões
para a crítica social enquanto houver capacidades, a cada um conforme (89,8%) acima da linha da extrema
relações capitalistas de produção. suas necessidades”. Esta bela uto- pobreza e 705,6 milhões de pessoas
pia, que também era compartilhada (10,2%) vivendo na extrema pobre-
Porém, fundamentando toda sua
pelos anarquistas, parece estar mais za. Em resumo, a extrema pobreza
análise na teoria do valor, Marx não
38 distante da materialização do que a caiu de 94% do total populacional,
conseguiu resolver as incongruên-
possibilidade de o ser humano ultra- em 1820, para 10% em 2015. A signi-
cias quantitativas entre a magnitu-
passar os limites da Via Láctea. ficativa redução da extrema pobreza
de do valor e o preço das mercado-
global foi acompanhada pela melho-
rias. Assim, um dos problemas não
ria dos indicadores demográficos. A
adequadamente equacionados do IHU On-Line – É possível pen- mortalidade na infância (0 a 5 anos)
marxismo é o da “transformação do sar a produção teórica de Marx atingia 43,3% das crianças em 1800
valor em preço”. Desta forma, uma dentro das sociedades contem- (56,7% sobreviviam após os 5 anos) e
hipótese fundamental do marxismo porâneas cada vez mais imer- caiu para 4,2% em 2015 (com 95,8%
que não se confirmou foi a “queda sas na Revolução 4.0? das crianças sobrevivendo após os 5
tendencial da taxa de lucro”, o que
José Eustáquio Diniz Alves – A anos). A esperança de vida ao nascer
seria um ponto-chave, pois teria
teoria do valor-trabalho é uma refe- da população mundial, que estava
como resultado a “crise final do ca-
rência indispensável para a análise abaixo de 30 anos no século XIX,
pitalismo”.
do capitalismo, qualquer que seja a chegou a 71,4 anos em 2015.
Mas apostar no determinismo do fase do desenvolvimento das forças Todos estes avanços socioeconômi-
colapso capitalista em função de produtivas. Mas nos últimos 200 cos só foram possíveis porque hou-
suas “contradições internas” é como anos, desde o nascimento de Marx, ve progresso das forças produtivas,
apostar contra o cassino, acreditan- o conflito capital versus trabalho se avanços científicos e tecnológicos de
do na incompetência do crupiê. Com complexificou e não gerou uma po- grande monta, uma ampla diversifi-
mostrou Geoff Mulgan1, autor do laridade entre uma maioria esma- cação da estrutura produtiva, o sur-
livro The locust and the bee (o ga- gadora de operários empobrecidos gimento de um bônus demográfico
fanhoto e a abelha), o capitalismo é e uma reduzida minoria de capita- e uma enorme disponibilidade de
listas escandalosamente enriqueci- energia fóssil a preços baixos. Em-
1 Geoff Mulgan (1961): diretor executivo do Fundo Na-
dos. Marx e Engels3, de certa forma, bora as relações capitalistas de pro-
cional para a Ciência, Tecnologia e Artes (em inglês, Na-
tional Endowment for Science Technology and the Arts
dução sejam hegemônicas, o modo
- NESTA), instituição de caridade independente que tra- 2 Joseph Schumpeter (1883-1950): economista austríaco, de produção capitalista não funciona
balha para aumentar a capacidade de inovação do Reino entusiasta da integração da Sociologia como uma forma
Unido. Também é professor visitante da University College de entendimento de suas teorias econômicas. Seu pen- no vácuo, pois está inserido em for-
London, da London School of Economics e da University
of Melbourne. Entre os livros que escreveu, estão Com-
samento esteve em debate no I Ciclo de Estudos Repen-
sando os Clássicos da Economia, promovido pelo IHU em
mações sociais concretas. Isto quer
munication and Control: Networks and the New Economies 2005. (Nota da IHU On-Line) dizer que as relações capitalistas de
of Communication (1991), Politics in an Anti-Political Age 3 Friedrich Engels (1820-1895): filósofo alemão que, jun-
(1994), Connexity (1997), Good and Bad Power: the Ideals to com Karl Marx, fundou o chamado socialismo científi- produção, mesmo sendo dominan-
and Betrayals of Government (2006), The Art of Public Stra- co ou comunismo. Ele foi coautor de diversas obras com
tegy (2009) e The Locust and the Bee (2013). (Nota da IHU Marx, entre elas Manifesto Comunista. Grande companhei-
On-Line) ro intelectual de Karl Marx, escreveu livros de profunda análise social. (Nota da IHU On-Line)

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tes, não abarcam todas as formas mais maleável, descentralizada e com IHU On-Line – Como os robôs
de se produzir bens e serviços em flexibilização do processo de traba- reorganizam a noção de mais-
uma sociedade. Desta forma, nem lho, tanto temporal quanto físico, valia à medida que, diferente
todos os trabalhadores fazem parte além da tendência à “individuação” (a dos humanos, não necessitam
da classe operária (“classe em si”). E, “pejotização” é apenas um aspecto) e de horas de descanso e tampou-
mesmo entre os operários, não é fá- do enfraquecimento do trabalho ma- co exigem reajustes no paga-
cil alcançar, na prática, uma consci- terial, aglomerado e coletivo. A teoria mento das horas de trabalho?
ência de classe (“classe para si”). Em do valor continuará válida sempre,
José Eustáquio Diniz Alves –
geral, há mais divergências do que mas a possibilidade de formação de
Não há novidade neste aspecto. Os
convergências unindo os interesses uma “classe em si” será cada vez me-
robôs são máquinas. As máquinas
dos diversos trabalhadores de uma nos provável, e o surgimento de uma
nunca necessitaram descanso e pa-
estrutura produtiva global tão hete- “classe para si” será um fenômeno
gamento pelas horas trabalhadas,
rogênea e desigual. quase inimaginável.
apenas manutenção e reposição.
Elas fazem parte do capital fixo. O
IHU On-Line – Dentro da Te- que a robótica da Revolução 4.0 traz
IHU On-Line – Como todas as
oria do Valor, os robôs estão de novo é o casamento das máqui-
transformações tecnológicas da
do lado do trabalho ou do capi- nas com a Inteligência Artificial e
contemporaneidade reconfigu-
a Internet das Coisas. Isto permite
ram o conceito de valor de Marx? tal? Por quê?
não só substituir aquele operário re-
José Eustáquio Diniz Alves – José Eustáquio Diniz Alves – presentado por Charles Chaplin5 em
A Revolução 4.0 tende a diversificar Por mais que os robôs possam ser Tempos modernos, mas possibilita
ainda mais a estrutura produtiva, parecidos com os seres humanos, também uma enorme reorganização
rompendo de vez com o rígido arca- eles entram no processo produtivo da produção e um exponencial au-
bouço fordista de uma produção pa- do lado do capital e não do trabalho. mento da produtividade.
dronizada e de massa. A atual revo- Isto acontece porque, no regime capi-
lução científica e tecnológica difere talista, o processo produtivo é com-
posto por dois elementos fundamen- IHU On-Line – O desenvolvi-
das três anteriores na profundidade 39
e na velocidade das transformações, tais: trabalho e capital, sendo que o mento tecnológico, especial-
com grande impacto no mundo do primeiro é dividido em duas partes: mente a automação e roboti-
trabalho. Não se trata mais de lidar o trabalho pago (salários) e o traba- zação industrial, que retira
com o “gorila domesticado” de Hen- lho não pago ou mais-valia (trabalho postos de trabalhos humanos
ry Ford4, ou com a recomposição da excedente). A lógica dos patrões, para não gera um tipo de produção
linha de montagem do Toyotismo, maximizar o lucro capitalista, é au- entrópica? Se não há renda
que busca capturar o pensamento do mentar a parte referente ao trabalho do trabalho para os humanos,
operário incorporando suas iniciati- não pago (mais-valia) e reduzir a parte como haverá consumidores?
vas afetivo-intelectuais aos objetivos do trabalho pago. Como nenhum in- José Eustáquio Diniz Alves – A
da produção de bens e serviços. Os divíduo consegue trabalhar 24 horas insuficiência de renda e o subconsu-
trabalhos que vão surgir serão ne- e 7 dias por semana, existe um limite mo são componentes inerentes da
cessariamente diferentes dos atuais, material à exploração da mais-valia dinâmica capitalista. As crises de
não havendo garantias que serão su- absoluta. Porém, a mais-valia relati- superprodução do capitalismo são
ficientes para compensar os postos va não depende da superexploração recorrentes, e as crises de realiza-
que vão desaparecer, e dificilmente física das horas de trabalho e sim da ção sempre acontecem no processo
as organizações sindicais atuais dos produtividade do trabalho, isto é, do de reprodução ampliada do capital.
trabalhadores conseguirão se man- aumento do produto por hora traba- As crises são momentos de ajuste de
ter na nova configuração produtiva, lhada. Por conta disto, desde o início contas e de distribuição dos prejuí-
tanto quanto os chamados “direitos da luta entre o capital e o trabalho, o zos. O boom econômico é momento
adquiridos”. Haverá uma produção capitalista buscou substituir o traba- de aumento de salário e distribuição
lhador por máquinas, para criar uma
4 Henry Ford (1863-1947): empreendedor estadunidense, superpopulação relativa (ou exército 5 Charles Chaplin (1889-1977): ator, diretor, produtor, hu-
fundador da Ford Motor Company e o primeiro empresá- morista, empresário, escritor, comediante, dançarino, ro-
rio a aplicar a montagem em série, de forma a produzir em industrial de reserva) e para aumen- teirista e músico britânico. Um dos principais atores da era
massa automóveis em menos tempo e a um menor custo.
A introdução de seu modelo Ford T revolucionou os trans-
tar a mais-valia relativa, via aumento do cinema mudo, notabilizado pelo uso de mímica e da
comédia pastelão. Bastante conhecido pelos seus filmes
portes e a indústria norte-americanos. Ford foi um inven- da composição orgânica do capital. O Imigrante, O Garoto, Em Busca do Ouro, O Circo, Luzes
tor prolífico e registrou 161 patentes nos Estados Unidos. da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador, Luzes da
Como único dono da Ford Company, se tornou um dos Os robôs simplesmente exponenciam Ribalta, Um Rei em Nova York e A Condessa de Hong Kong.
homens mais ricos e conhecidos do mundo. A ele é atri-
buído o “fordismo”, isto é, a produção em grande quanti-
esta lógica, aumentando a produti- Considerado por alguns críticos o maior artista cinema-
tográfico de todos os tempos e um dos pais do cinema,
dade de automóveis a baixo custo por meio da utilização vidade, desempoderando o traba- junto com os Irmãos Lumière, Georges Méliès e D.W. Gri-
do artifício conhecido como “linha de montagem”, o qual ffit. Sua carreira no ramo do entretenimento durou mais
tinha condições de fabricar um carro a cada 98 minutos, lhador e aumentando a apropriação de 75 anos, desde suas primeiras atuações quando ainda
além dos altos salários oferecidos a seus operários – nota-
velmente o valor de 5 dólares por dia, adotado em 1914.
capitalista do excedente (mais-valia era criança nos teatros do Reino Unido, durante a Era Vi-
toriana, quase até sua morte aos 88 anos de idade. (Nota
(Nota da IHU On-Line) relativa). da IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

de lucros. As recessões, como etapas IHU On-Line – Nesse sentido, criação de um fundo de cidadania,
do ciclo econômico, são partes do a necessidade daquilo que cha- que seria financiado pela taxação da
movimento e da disputa entre as for- maríamos hoje de renda básica renda da terra, para apoiar os idosos
ças predatórias (“gafanhotos”) e as universal não seria a próxima e fornecer uma renda aos jovens para
forças construtivas (“abelhas”). Ain- etapa para “salvar” o capitalis- que eles pudessem, autonomamen-
da não há elementos para dizer com mo, afinal sem consumidores te, se estabelecer na economia, não
certeza se a Revolução 4.0 vai criar não há onde escoar a produção, estava pensando em eliminar a força
uma crise permanente de subconsu- cada vez mais intensiva? de trabalho e nem visava a subsidiar
mo, pois a geração de emprego e ren- o consumo. A proposta do fundo de
José Eustáquio Diniz Alves
da depende da propensão marginal cidadania do grande revolucionário
– A renda básica universal, se bem
a investir e da demanda agregada, britânico, que foi pessoa-chave na
implementada, pode ser um impor-
vetores que são influenciados pela Independência dos Estados Unidos
tante mecanismo de transferência de
política macroeconômica, primor- e no desenrolar da Revolução Fran-
renda, de compensação das falhas do
dialmente, pelos níveis das taxas de cesa, está mais próxima das atuais
mercado, de combate à pobreza, de
juros e de câmbio. Se os instrumen- políticas de proteção social na área
melhoria da distribuição de renda e
tos da política econômica forem bem de previdência e de geração de renda
de fortalecimento da cidadania. Mas
administrados e não houver ruptura para os jovens e não da atual concep-
achar que a renda básica universal
entre poupança e investimento, po- ção da renda básica universal.
possa salvar o capitalismo é uma
deria valer o estabelecido na chama- Não dá para ignorar que os robôs,
ideia romântica. Acreditar na pos-
da Lei de Jean-Baptiste Say6: “a ofer- com ou sem inteligência artificial,
sibilidade de os capitalistas taxarem
ta cria sua própria demanda”. estão do lado do capital, na equação
os futuros onipresentes e oniscien-
A 4ª Revolução Industrial não vai tes robôs e distribuírem uma renda da teoria do valor, e são utilizados no
acabar necessariamente com os em- básica universal para que a popula- processo produtivo para aumentar a
pregos e o ganha-pão dos trabalha- ção desocupada tenha recursos para mais-valia relativa. Taxar os robôs
dores. O trabalho é a galinha dos comprar os seus próprios produtos é para financiar uma renda básica uni-
ovos de ouro do capitalismo. Atual- uma ideia surreal. Ainda mais bizar- versal é o mesmo que taxar o capital
40 mente, os três países com maior uso ro é sonhar com a possibilidade de os para “expropriar os expropriado-
de robôs em relação à força de tra- robôs com inteligência artificial faze- res” da mais-valia. A taxação é uma
balho manufatureira são Coreia do rem todo o trabalho de dominação e luta que ocorre dentro do conflito
Sul, Cingapura e Japão, todos três exploração da natureza e, obediente- distributivo inerente à disputa ca-
com baixas taxas de desemprego. A mente, produzirem bens e serviços pital-trabalho. Ao longo da história
China tinha uma população em ida- capazes de sustentar uma humani- do capitalismo urbano-industrial,
de ativa (15-64 anos) de 1 bilhão de dade ociosa que, preguiçosamente, os trabalhadores e os cidadãos, es-
pessoas em 2015, que deve cair para possa viver no conforto, no lazer e pecialmente aqueles com poder de
814 milhões em 2050 e para 555 mi- no desfrute eterno de um crescente voto na democracia liberal-burgue-
lhões em 2100. Ou seja, a força de consumo conspícuo e antiecológico. sa, conseguiram arrancar alguns
trabalho chinesa vai se reduzir quase recursos da mais-valia, que seriam
Quando Thomas Paine7, em 1795, apropriados pelos capitalistas, para
pela metade ao longo do século XXI,
no livro Agrarian justice, propôs a financiar os direitos de cidadania
e o uso de robôs não roubará empre-
gos, mas, provavelmente, substituirá nas áreas de saúde, educação, in-
7 Thomas Paine (1737-1809): político britânico, além de
os trabalhadores que vão “desapare- panfletário, revolucionário, inventor, intelectual e um dos fraestrutura etc. Isso foi possível na
Pais Fundadores dos Estados Unidos da América. Viveu na
cer” em função da queda da fecun- Inglaterra até os 37 anos, quando imigrou para as colônias
medida em que houve uma sinergia
didade, especialmente depois da britânicas na América, em tempo de participar da Revo- entre os trabalhadores mais saudá-
lução Americana. Suas principais contribuições foram os
implementação da política de filho amplamente lidos Common Sense (1776), advogando a in- veis e mais qualificados e o aumen-
dependência colonial americana do Reino da Grã-Bretanha, to da produtividade do trabalho,
único. Já o Brasil de 2018, que está e The American Crisis (1776-1783), uma série de panfletos
completamente atrasado no avanço revolucionários. Paine também influenciou bastante a Re- que incrementou os excedentes da
volução Francesa. Escreveu Rights of Man (1791), um guia
da Revolução 4.0, tem uma taxa de das ideias iluministas. Mesmo não falando francês, foi elei- produção. Este é o pacto que tem
to para a Convenção Nacional Francesa em 1792. Em de- viabilizado a sobrevivência do capi-
desemprego aberto em torno de 13% zembro de 1793, foi aprisionado em Paris, sendo solto em
e uma taxa de subutilização da força 1794. Tornou-se notório por The Age of Reason (1793-94). talismo. Todos ganham (uns mais do
Na França, também escreveu o panfleto Agrarian Justice
de trabalho próxima de 25%. O de- (1797), discutindo as origens da propriedade, e introduziu que os outros) com o avanço da pro-
semprego no Brasil nada tem a ver
o conceito de renda mínima. Ele também defendeu a pos-
se de arma por parte dos cidadãos. Paine permaneceu na
dutividade e da acumulação de ca-
com tecnologia, e o desenvolvimento França durante o início da Era Napoleônica, mas condenava pital. Os trabalhadores, os cidadãos
a ditadura de Napoleão, chamando-o de “o mais completo
tecnológico da Coreia do Sul não tem charlatão que já existiu”. A convite do presidente Thomas e os capitalistas ficam mais ricos.
gerado desemprego em larga escala.
Jefferson, em 1802 retornou aos Estados Unidos. Foi enter-
rado onde hoje é chamado Thomas Paine Cottage, em New
Somente perdem os ecossistemas.
Rochelle, NY, onde viveu depois de retornar aos EUA. Seus A humanidade progride, enquanto
restos mortais foram desenterrados por um admirador,
6 Jean-Baptiste Say (1767-1832): economista francês que William Cobbett, que procurava retorná-los para o Reino o meio ambiente regride, pois a na-
formulou uma lei econômica, a Lei de Say, que se manteve
como princípio fundamental da economia ortodoxa até a
Unido e dar a ele um novo enterro solene em sua terra na-
tal. Os ossos, entretanto, foram perdidos e sua localização
tureza não tem direitos intrínsecos e
grande depressão de 1930. (Nota da IHU On-Line) atual é desconhecida. (Nota da IHU On-Line) os direitos humanos são totalmente

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antropocêntricos. No modelo hege- nem mais-valia) para ser taxado e demandas do ser humano e os direi-
mônico atual, a renda básica univer- redistribuído. tos da natureza. Evidentemente, Marx
sal aumentaria o enriquecimento da escreveu sobre a degradação do meio
humanidade às custas do empobre- ambiente em várias ocasiões. Toda-
cimento do meio ambiente. IHU On-Line – É possível pro- via, secundarizou o conflito ecológico,
duzir riqueza sem o trabalho considerando que, no comunismo,
humano? não haveria grandes contradições en-
IHU On-Line – É possível fa- tre homem-natureza-demais espécies.
José Eustáquio Diniz Alves –
zer um paralelo entre a renda Marx ignorou contribuições ambien-
Depende do conceito de riqueza. Em
básica universal e o comunis- tais pioneiras de autores como Ale-
mo, que, segundo Marx, seria geral, os dicionários definem riqueza
como “abundância na posse de bens xander Von Humboldt8 (1769-1859),
o destino final do capitalismo? Henry David Thoreau9 (1817-1862) e
materiais, tais como dinheiro e pro-
José Eustáquio Diniz Alves – priedades”. Este tipo de riqueza só John Stuart Mill10 (1806-1873), pes-
Para Marx, o capitalismo seria des- surge por meio do trabalho humano. quisadores que escreveram obras
truído pelas suas próprias contradi- É possível obter “valor de uso” sem essenciais, antes mesmo de o jovem
ções internas e, via luta de classes, trabalho humano, mas não “valor de Marx publicar o Manifesto Comunis-
seria substituído pelo socialismo, troca”. A riqueza capitalista é fruto ta. A história do marxismo relegou a
entendido como uma organização do suor do trabalhador, apropria- segundo plano a contradição entre o
social classista, mas com o prole- do pelos proprietários dos meios de “capital antrópico” (salários + lucros)
tariado no comando (ditadura do produção. Além de gerar riqueza, o e o “capital natural”, fato que as ten-
proletariado). Como, em tese, no trabalho faz parte da essência hu- dências mais antenadas do ecossocia-
socialismo teórico, os interesses do mana, como explica Engels no texto lismo tentam corrigir, ao reconhece-
proletariado coincidiriam com os Sobre o papel do trabalho na trans- rem que a depleção da natureza está
interesses da humanidade, o fim da formação do macaco em homem. se convertendo cada vez mais em um
dominação e da exploração de classe elemento desestabilizador da acumu-
levaria a uma convivência social sem Mas há também, desde antes do lação de capital.
a apropriação privada dos meios de surgimento do Homo sapiens, uma
incomensurável riqueza que é ofe- Talvez o maior desafio da contem- 41
produção, livre da “escravidão assa-
poraneidade seja levantar evidências
lariada” e livre do Estado repressor. recida gratuitamente pela natureza
de que o capitalismo acabe sendo
Sem os elementos centrais da domi- e que não requer interferência das
destruído não por suas contradições
nação burguesa, o caminho estaria atividades antrópicas. Refiro-me à ri-
internas, mas pelo seu sucesso, já que
aberto para o desabrochamento da queza que brota da interação espon-
a enorme produção de bens e servi-
utopia comunista. Pelos princípios tânea dos ecossistemas. Por exemplo,
ços e a vitória da incessante acumu-
do materialismo histórico, o socialis- o ar que respiramos é a riqueza mais
lação de capital gera uma aceleração
mo, liderado pelo proletariado, seria essencial para a vida (ninguém sobre-
tão grande das atividades antrópicas
o sucessor do capitalismo, e o co- vive alguns minutos sem oxigênio) e,
que o modelo “extrai-produz-descar-
munismo, o sucessor do socialismo, no entanto, ele não tem valor de tro-
ta” entra em contradição direta com
configurando a etapa mais avançada ca, pois o ato de respirar é gratuito e
a realidade física do fluxo metabólico
possível do progresso humano. não requer trabalho humano.
entrópico da natureza. A produção
O comunismo não seria uma socie- em massa de mercadorias realizada
dade sem trabalho; ao contrário, to- IHU On-Line – Deseja acres- pelo modo de produção capitalista e
das as pessoas teriam trabalho, mas centar algo? pelas formações sociais subordinadas
não o trabalho alienado e gerenciado ao capitalismo fizeram a humanida-
pelas relações sociais de produção, José Eustáquio Diniz Alves – de ultrapassar a capacidade de car-
de dominação e de exploração do Voltando à pergunta inicial, reafir-
capital. Na visão marxista, a força de mo que a filosofia marxista continua 8 Alexander von Humboldt [Friedrich Heinrich Alexan-
der, Barão de Humboldt] (1769-1859): naturalista e explo-
trabalho do comunismo teria o po- atual, especialmente no que diz res- rador alemão. Atuou também como etnógrafo, antropó-
der de gerar um sistema cornucopia- peito à crítica ao funcionamento do logo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico,
vulcanólogo e humanista, tendo lançado as bases de
no, capaz de criar uma abundância sistema capitalista e à denúncia das ciências como Geografia, Geologia, Climatologia e Ocea-
nografia. (Nota da IHU On-Line)
fáustica ilimitada, pois o progresso desigualdades sociais da sociedade 9 Henry David Thoreau (1817-1862): autor norte-ameri-
das forças produtivas não encontra- urbano-industrial. Mas, completan- cano, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico da
ideia de desenvolvimento, pesquisador, historiador, filó-
ria barreiras para se desenvolver e do o raciocínio, é preciso lembrar sofo e transcendentalista. Ele é mais conhecido por seu
livro Walden, uma reflexão sobre a vida simples cercada
satisfazer todas as demandas da po- que o marxismo já nasceu desatuali- pela natureza, e por seu ensaio Desobediência Civil, uma
pulação (“a cada um conforme suas zado no que se refere à relação entre defesa da desobediência civil individual como forma de
oposição legítima frente a um estado injusto. A edição
necessidades”). Portanto, no comu- a humanidade e a natureza. O mo- número 509 da IHU On-Line tem a obra do filósofo como
tema de capa. Acesso em http://bit.ly/2ilS4rV. (Nota da
nismo não haveria necessidade de delo marxista, ao dar ênfase ao con- IHU On-Line)
uma renda básica universal, mesmo flito capital versus trabalho, deixou 10 John Stuart Mill (1806-1873): filósofo e economista
inglês. Um dos pensadores liberais mais influentes do sé-
porque não haveria mais capital (e em segundo plano o conflito entre as culo XIX, defensor do utilitarismo. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

ga do Planeta, sendo que a Pegada A 4ª Revolução Industrial pode ser no âmbito do capitalismo ou do so-
Ecológica global está 70% acima da a festa de despedida do capitalismo, cialismo. Não daria sequer para vol-
Biocapacidade global. Além disso, na medida em que gere uma explo- tar à barbárie. Devido à globalização
segundo o Stockholm Resilience são do consumo que seja ao mesmo e à universalização da engrenagem
Centre, quatro das nove fronteiras tempo uma implosão ecológica e o insana que move o atual modo de
planetárias foram ultrapassadas, rastilho de pólvora para o aumento produção e consumo – responsável
sendo que, duas delas, a mudança da entropia e para o irreversível de- pela “grande aceleração” do Antro-
climática e a integridade da biosfe- sequilíbrio homeostático do planeta. poceno –, um possível colapso do
ra, são o que os cientistas chamam A 6ª extinção em massa da vida na capitalismo não deixaria alternati-
de limites fundamentais e têm o Terra colocaria fim não somente à vas ou rotas de fuga, pois significa-
potencial de levar a civilização ao biodiversidade, mas também encer- ria, também, um colapso ambiental
colapso. raria o conflito capital-trabalho, seja e civilizacional global. ■

Leia mais
- A ascensão da China, a disputa pela Eurásia e a Armadilha de Tucídides. Entrevista
especial com José Eustáquio Diniz Alves, publicada nas Notícias do Dia de 21-06-2018, no
sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2NWICto.
- “A Inteligência Artificial pode se transformar em um monstro incontrolável”. Entrevista
especial com José Eustáquio Alves, publicada nas Notícias do Dia de 28-09-2017, no sítio
do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2Ot2tS8.
- “As perspectivas para o século XXI são de menor crescimento e de maior desigualda-
de”. Entrevista especial com José Eustáquio Alves, publicada nas Notícias do Dia de 24-09-
2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2OqH7Vz.
42
- Censo 2010. Uma família plural, complexa e diversa. Entrevista especial com José Eus-
táquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi, publicada nas Notícias do Dia de 29-10-2012, no
sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2NWXGHA.
- As mulheres e o envelhecimento populacional no Brasil, artigo de José Eustáquio Diniz
Alves, publicado nas Notícias do Dia de 21-01-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos
– IHU, disponível em http://bit.ly/2NXrUu1.
- Demografia e Decrescimento. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, pu-
blicada nas Notícias do Dia de 15-03-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU,
disponível em http://bit.ly/2LCigAj.

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

Na gênese do capital, caminhos


para compreender as crises e a
sociedade contemporânea
Para Marcelo Carcanholo, Marx foi quem melhor conseguiu
observar as determinações do capitalismo e, por isso,
segue atual para enfrentar desafios de nosso tempo
João Vitor Santos

K
arl Marx forjou suas reflexões movimentar a construção do conceito
acerca do capitalismo no calor ao longo dos tempos. “A riqueza desse
do século XIX. Hoje, em pleno autor reside justamente no entendi-
século XXI, o mundo mudou, o capital mento do processo de acumulação de
se transformou e as lógicas do filósofo capital como algo necessariamente cí-
e economista foram superadas. Cor- clico. Por isso ele é tanto inescapável
reto? Não. Ao menos para o professor como incômodo, até os dias atuais”,
Marcelo Dias Carcanholo. Pois, afinal, resume. É nessa perspectiva que o pro-
ainda vivemos numa sociedade capita- fessor também reflete sobre as crises
lista. “Claro, que com as especificidades das sociedades de hoje e a realidade 43
da contemporaneidade, mas as deter- brasileira. Afinal, por aqui “como na
minações básicas, gerais, do que é o maior parte da economia mundial, o
capitalismo seguem presentes. As leis capital procura sair de sua própria cri-
de tendência dessa sociabilidade, que se repassando a conta do ajuste para a
necessariamente se manifestam por in- classe trabalhadora”.
termédio de determinações conjuntu- Marcelo Dias Carcanholo é gra-
rais específicas, seguem caracterizando duado em Ciências Econômicas pela
nossa vida”, analisa. Para ele, é nesse Universidade de São Paulo - USP, mes-
sentido que Marx se mantém atual. tre em Economia pela Universidade
“Sua obra, especialmente O Capital, é Federal Fluminense - UFF e doutor em
até hoje a melhor apresentação teórica Economia pela Universidade Federal
de uma época social que vivemos até os do Rio de Janeiro - UFRJ. Atualmente
dias atuais”, completa. é professor de Economia da UFF, mem-
Na entrevista a seguir, concedida por bro do Núcleo Interdisciplinar de Estu-
e-mail à IHU On-Line, Carcanholo dos e Pesquisas em Marx e Marxismo
observa que nessa obra não é possível (NIEP-UFF), pesquisador do Núcleo de
detectar um conceito fechado do que História Econômica da Dependência
seja o capitalismo e como ele se mani- Latino-americana (HEDLA-UFRGS) e
festa no século XXI com todas especi- professor da Escola Nacional Florestan
ficidades. “Mas quaisquer que sejam Fernandes (ENFF-MST). Entre seus
elas (capitalismo europeu, ou capita- livros publicados, destacamos Depen-
lismo brasileiro no segundo pós-guerra dencia, Superexplotación del Traba-
etc.), o seu substantivo (conteúdo), o jo y Crisis: una interpretación desde
capitalismo, só é possível de ser enten- Marx (Madrid: Maia Ediciones, 2017)
dido, em sua totalidade, pela teoria de e Neoliberalismo: a tragédia do nos-
Marx”, aponta. Assim, defende que se so tempo (São Paulo: Cortez Editora,
volte a Marx, entendendo suas concep- 2008).
ções para que, a partir delas, se consiga Confira a entrevista.

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TEMA DE CAPA

IHU On-Line – Por que ler social que vivemos até os dias atuais. ria só nos ajuda a entender, talvez,
Marx hoje? Que respostas os Não encontraremos nela a descrição quando o próprio Marx, ao final de
originais ainda são capazes exata do que é, por exemplo, o capi- sua vida, percebeu o que se dizia (no
de fornecer às crises de nosso talismo brasileiro no século XXI com já autodeclarado “marxismo”) em
tempo, diferentes do contexto todas suas especificidades/adjetiva- seu nome, teria dito que, ele Marx,
do século XIX? ções. Mas quaisquer que sejam elas não era marxista.
(capitalismo europeu, ou capitalis-
Marcelo Dias Carcanholo – É
mo brasileiro no segundo pós-guerra Finalidade política
um argumento relativamente co-
etc.), o seu substantivo (conteúdo), o
mum dizer que Marx, no melhor dos Marx se propôs a interpretar o
capitalismo, só é possível de ser en-
casos, serviria apenas para interpre- capitalismo porque tinha uma fi-
tendido, em sua totalidade, pela teo-
tar o capitalismo “clássico” do século nalidade política: transformá-lo
ria de Marx.
XIX, restringindo a validade de seu pela via revolucionária. Para ele,
pensamento para uma época histó- Outro equívoco muito comum é conhecer o sistema social que se
rica específica. Implicitamente, este crer que Marx só ressurge do limbo busca revolucionar é um pré-re-
argumento sustenta que seu pensa- teórico em momentos de profun- quisito básico. Entretanto, esse
mento seria anacrônico, se o objeti- das crises da sociedade capitalista, sistema social, embora tenha suas
vo é entender a realidade específica como se ele tivesse apenas a capaci- leis gerais de tendência, se apre-
do século XXI. dade de explicar estas etapas espe- senta/manifesta de formas distin-
cíficas do ciclo econômico. A rique- tas em épocas históricas diferen-
Evidentemente que Marx é um au-
za desse autor reside justamente no tes. O capitalismo não é apenas
tor do século XIX e, como não po-
entendimento do processo de acu- histórico, frente a outros sistemas
deria deixar de ser, seu pensamento
mulação de capital como algo ne- sociais, mas também apresenta
apresenta os limites e possibilidades
cessariamente cíclico. Por isso ele é historicidade dentro de sua pró-
de um ser humano do século XIX.
tanto inescapável como incômodo, pria trajetória histórica. Isso sig-
Dessa obviedade, entretanto, não se
até os dias atuais. nifica que as contradições, especi-
pode concluir que o seu pensamento
ficidades, questões concretas, só
seja restrito a esse momento históri-
44 co. Justamente sua genialidade e a
podem aparecer nesses momentos
IHU On-Line – Em que me- específicos e, portanto, o marxis-
explicação do porquê ele reluta em dida podemos afirmar que o mo – entendido como a tradição,
falecer, ainda que reiteradamente marxismo vai transformando o a partir de Marx, que busca en-
seus críticos decretem sua morte,
pensamento de Marx? E no que tender o capitalismo em sua his-
está no fato de que seu pensamen-
consiste essa transformação? toricidade, para transformá-lo,
to transcende as especificidades do
a partir dessas contradições com
século XIX. E isso não porque ele Marcelo Dias Carcanholo – A
manifestações específicas – obri-
possuísse algum poder mágico de melhor maneira de entender essa
gatoriamente tem que responder
vislumbrar quais seriam as especi- questão é pensando em que signi-
questões concretas específicas, as
ficidades do século XXI. As razões ficaria se o marxismo não transfor-
quais Marx não teria como ter vi-
para tanto são, como não poderiam masse o pensamento de Marx. Neste
venciado, por razões óbvias.
deixar de ser, objetivas. caso, significaria, por um lado, que
todas as respostas para o que é a
Desconsiderando alguns teóricos
sociedade capitalista, incluindo to- IHU On-Line – A Teoria da
completamente fora da realidade,
das as manifestações conjunturais História em Marx mostra si-
não se pode negar que ainda vive-
específicas de suas leis de tendência, nais de esgotamento? Por quê?
mos em uma sociedade capitalista.
já estariam contidas no pensamen-
Claro que com as especificidades da Marcelo Dias Carcanholo – Ao
to de Marx e, portanto, não haveria
contemporaneidade, mas as deter- contrário, a teoria da história em
necessidade de nenhuma reformu-
minações básicas, gerais, do que é Marx nunca se mostrou tão robusta!
lação e/ou resgate crítico. Por outro
o capitalismo seguem presentes. As Ocorre que, como costuma suceder
lado, os marxistas ficariam limitados
leis de tendência dessa sociabilidade, com o pensamento do autor, é muito
a propagar a “palavra” daquele que,
que necessariamente se manifestam amplo, e difundido, o desconheci-
por princípio, já conteria toda “a
por intermédio de determinações mento da teoria de Marx. Quando se
verdade”. Em síntese, se o marxismo
conjunturais específicas, seguem fala na teoria da história em Marx,
não transformasse o pensamento de
caracterizando nossa vida. Aí resi- a interpretação mais rasteira enten-
Marx significaria que ele seria mais
de a genialidade de Marx. Ele ainda de esta como sendo uma teoria que
uma religião, algo completamente
é o pensador que melhor conseguiu identifica as transformações histó-
distinto dos propósitos originais do
apreender essas determinações do ricas a partir da ruptura da contra-
pensamento do próprio Marx.
capitalismo. Sua obra, especialmen- dição entre o desenvolvimento das
te O Capital, é até hoje a melhor Que algumas tradições marxistas forças produtivas com as relações
apresentação teórica de uma época tenham embarcado nessa trajetó- sociais de produção de determina-

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da época, abrindo a porta histórica tanto Marx que terminou transfor- O capitalismo entra em crises
para um novo modo de produção. mando-se em outra coisa. simplesmente porque produz em
Com base nisso, a história passaria demasia, não propriamente as mer-
E o que define, concretamen-
necessariamente de um modo de cadorias, que são uma forma de ma-
te, para onde a história caminha?
produção para outro. O capitalismo, nifestação de seu conteúdo (dinhei-
Quem é o sujeito histórico? O de
em específico, desenvolveria as for- ro e produção são as outras), mas
sempre! O ser humano, que atua
ças produtivas como nenhum outro porque há um excesso de capital por
e, necessariamente, as colocaria em segundo interesses sociais, e cons-
si mesmo. Quando capital é super-
contradição com as relações sociais ciências sociais distintas. Estas
produzido, em relação à capacidade
capitalistas de produção, levando consciências não podem ser direta-
que ele mesmo tem de se realizar, as
necessariamente ao comunismo. mente derivadas desses interesses/
taxas de lucro caem, evidenciando a
posições sociais, mas estão necessa-
O curioso é que esta visão teleo- crise. Superacumulação de capital e
riamente (embora de forma contra-
lógica, mecânica, determinista, é queda das taxas de lucro são as duas
ditória) ligadas a eles. Se se prefere
completamente estranha ao próprio faces do mesmo fenômeno. Como o
sintetizar a teoria da história em capital se recupera? Ou as reduções
Marx! Mais uma vez, que boa parte Marx como “a luta de classes”, não
do marxismo tenha acreditado nes- das taxas de lucro desvalorizam o
há problema, desde que seja enten- capital em excesso, ou então ele tem
sa “cartilha” só demonstra o quanto dida da forma correta. Marx tem
Marx é um profundo desconhecido, que encontrar novos espaços de va-
uma teoria da história, nunca uma lorização para esse capital superacu-
até dentro de boa parte do marxismo. “filosofia da história”, determinista, mulado. Normalmente ele combina
Para Marx, os distintos modos mecânica, teleológica. A história, essas duas formas de saída.
de produção contêm sim suas pró- para Marx, é aberta, felizmente.
prias contradições, e estas definem O capitalismo contemporâneo se
os leques de possibilidade históri- constrói, a partir dos anos 70 do
ca de sua transformação, abrindo a IHU On-Line – Como compre- século passado, justamente com-
possibilidade de construção social ender o capitalismo contempo- binando essas duas formas. Uma
de outros modos de produção. Esta râneo? De que forma ele sub- das especificidades desta época
possibilidade não permite, entre- verte e incide sobre o conceito histórica é que a lógica de valori- 45
tanto, concluir pela inevitabilidade. de capital em Marx? zação passa a ser determinada pelo
Evidentemente que, uma vez posto que Marx chamou de capital fictí-
Marcelo Dias Carcanholo – O
o resultado histórico ele obviamen- cio. Outro equívoco muito comum
capitalismo contemporâneo deve
te está... posto! Assim mesmo, antes é achar que esse capital fictício é o
ser entendido como qualquer época
disso, esse resultado era uma mera capital financeiro, que se encontra
histórica específica do capitalismo,
possibilidade, dentre outras. nos mercados financeiros e, por-
a partir de suas questões concretas.
tanto, oposto ao capital (do setor)
O que é o capitalismo contemporâ-
Idealista/utópico? produtivo. Esta interpretação não
neo? É o capitalismo que se cons-
é Marx! É Keynes1! Outra teoria,
O capitalismo possui suas contra- trói a partir da última grande crise
outra perspectiva teórica e política.
dições (as leis de tendência são ne- estrutural, na segunda metade dos
anos 60 do século passado. De lá
cessariamente contraditórias, dialé- Capital fictício em Marx
ticas), e estas, quando se explicitam, para cá, o capitalismo retomou seu
definem um leque de possibilidades processo de acumulação de capital O capital fictício é aquele que se
históricas: é possível que se engen- através de um amplo processo de re- constrói – qualquer que seja o mer-
dre uma nova época histórica, ainda estruturação produtiva, que elevou cado específico – através da venda
capitalista. É possível que ocorra as taxas de mais-valia e a rotação do no presente de uma expectativa de
uma transformação social revolucio- capital, de políticas econômicas com apropriação futura de determinado
nária, que construa outra sociabili- o objetivo explícito de concentração valor, o que se chama de capitali-
dade. Qual? Seu estabelecimento a de renda e riqueza, no intuito de re- zação. Na prática, isso significa que
priori é impossível, ao menos para tomar as taxas de valorização do ca- capital (fictício) se está constituin-
Marx. Como pensar uma sociabili- pital, com a liberalização e abertura do a partir de uma expectativa de
dade que ainda nem existe? Isso só de vários mercados, principalmente
é possível para um pensamento des- os de trabalho (para elevar a taxa de 1 John Maynard Keynes (1883-1946): economista e fi-
nancista britânico. Sua Teoria geral do emprego, do juro e
colado da realidade, que a interpre- mais-valia) e financeiro (buscando do dinheiro (1936) é uma das obras mais importantes da
economia. Esse livro transformou a teoria e a política eco-
ta idealmente (utopicamente) antes novos espaços de valorização para nômicas, e ainda hoje serve de base à política econômica
que ela mesma exista no concreto. um capital superacumulado), tudo da maioria dos países não comunistas. Confira o Cader-
nos IHU ideias n. 37, As concepções teórico-analíticas e as
Apesar de ser acusado disso, Marx isso justificado e implementado sob proposições de política econômica de Keynes, de Fernando
Ferrari Filho, disponível em http://bit.ly/ihuid37. Leia, tam-
nunca foi um idealista/utópico. o manto da estratégia de desenvolvi- bém, a edição 276 da revista IHU On-Line, de 6-10-2008,
Mais uma vez, ele não tem culpa se mento que caracteriza essa contem- intitulada A crise financeira internacional. O retorno de Ke-
ynes, disponível para download em http://bit.ly/ihuon276.
boa parte do marxismo transformou poraneidade, o neoliberalismo. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

apropriação, que pode nem ocorrer. O efeito desse aumento de produti- mo, da tendência. Quem conseguiu
Constrói-se um direito de apropria- vidade (aumento da composição téc- identificar essa tendência do capita-
ção de valor no presente que, direta- nica do capital, nos termos de Marx) lismo? Marx.
mente, não contribui para a produ- é a elevação da composição orgânica
ção de valor. Está aí o germe da crise do capital (a composição em valor,
que estoura em 2007/2008.
Todo esse processo é inteligí-
refletindo o incremento da composi-
ção técnica). Os capitais particulares “O capitalismo
vel, de forma relativamente fácil,
a partir da seção V do livro III de
fazem isso porque isso reduz os va-
lores individuais de suas mercado- não é apenas
O Capital, em suas determinações
rias e, como elas são vendidas pelos
valores de mercado, eles conseguem histórico,
mais abstratas, e de toda uma tra-
dição crítica (nem toda ela marxis-
se apropriar do que Marx chamou de
mais-valia extraordinária.
frente a outros
sistemas
ta) para suas determinações mais
concretas, e até empíricas. Uma Outro equívoco bastante comum é
vez mais, a realidade concreta é
que coloca as questões que são (ou
inferir desse processo que o capital
expulsa força de trabalho do pro- sociais, mas
não) apreendidas teoricamente. O
capital (fictício) criando as possi-
cesso produtivo substituindo-a por
máquinas. Em primeiro lugar, meios também
bilidades de uma nova época de
acumulação de capital que, por
de produção não se restringem às
máquinas. Em segundo lugar, o apresenta
sua vez, recoloca as contradições
(produção versus apropriação de
aumento de produtividade requer
apenas que a massa de meios de pro-
historicidade
valor) próprias do capitalismo,
dando ao processo de acumulação
dução no processo produtivo cresça
mais do que proporcionalmente ao
dentro de
uma trajetória dialética, contradi-
tória, cíclica.
incremento de força de trabalho, e
esta é, em termos absolutos, como
sua própria
46 O que me surpreende é alguém
tendência, incorporada em maior
magnitude, uma vez que é a fonte de
trajetória
achar como isso subverteria a ca-
tegoria capital de Marx! A não ser,
mais-valia. histórica”
é claro, que ela seja amplamen- O famoso exército industrial de
te desconhecida, confundida, por reserva de Marx não é determinado
exemplo, com um conceito (prees- pela expulsão de força de trabalho IHU On-Line – Que relações
tabelecido). do processo produtivo em termos podemos estabelecer entre os
absolutos. Ao contrário, a acumu- conceitos de “dependência”,
lação requer que mais força de tra- “exploração do trabalho” e
IHU On-Line – Como, a par- balho seja incorporada ao processo “crises”?
tir do conceito de trabalho em produtivo. Apenas que o ritmo de in-
Marx, enfrentar as desigualda- corporação de meios de produção é Marcelo Dias Carcanholo –
des advindas da revolução tec- superior a isso. O exército industrial “Exploração do trabalho” é apenas
nológica que, ao mesmo tempo de reserva é produzido pelo capital outra forma de dizer que o capital,
em que aumenta a capacida- porque este incorpora apenas uma uma vez pago o valor da força de tra-
de produtiva, aumenta a força fração de toda a massa de trabalha- balho, consome seu valor de uso no
produtiva ociosa, pessoas inca- dores que necessita vender sua força processo produtivo, com o intuito de
pazes de acessar o trabalho? de trabalho no mercado para con- produzir mais-valia. O valor que per-
seguir sobreviver. O curioso é que, corre esse processo e se incremen-
Marcelo Dias Carcanholo – O ta, no próprio processo, é o capital.
no capitalismo, cresce o número de
processo de acumulação de capital, Como esse capital é uma unidade
empregados e, ao mesmo tempo, o
por força da concorrência, obriga os dialética entre produção e apropria-
exército industrial de reserva, como
capitais particulares a aumentarem ção, e essa dialética se manifesta ne-
tendência, o que pode ser limitado/
a produtividade (desenvolvimento
aprofundado pelos movimentos cí- cessariamente em crises, “capital”
das forças produtivas). Os capitais,
clicos da economia. e “crises” são dois termos para um
por sua vez, para fazerem isto au-
mesmo processo de acumulação.
mentam as proporções de meios de Que esse desenvolvimento das for-
produção, em relação à força de tra- ças produtivas, na contemporanei- Esse capital, por sua própria na-
balho, no processo produtivo. Isto dade, seja dado pela tal revolução tureza, tem a tendência histórica a
implica que cada força de trabalho tecnológica, trata-se apenas de uma espraiar-se por todas as partes do
consegue transformar mais meios de manifestação histórica específica do planeta. O valor-capital tem, em si,
produção em produto final. movimento mais geral do capitalis- a tendência para a formação do mer-

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cado mundial. Isso, entretanto, não Marcelo Dias Carcanholo – A mia leva algum tempo para chegar
significa que as leis de funcionamen- atual crise pela qual passa o capi- ao outro ponto de inflexão, por que
to do capitalismo se expressem da talismo contemporâneo, do ponto a crise leva algum tempo até chegar
mesma forma, no mesmo ritmo, no de vista do embate teórico, tem al- à depressão e por que a passagem
mesmo grau, em todos os espaços. gumas serventias. Em primeiro lu- desta para a retomada também
Esse desenvolvimento desigual e gar, ao atestar o caráter meramente leva tempo.
combinado do capital, na escala do apologético das interpretações teó-
Não bastasse isto, há outra exi-
mercado mundial, é que conforma a ricas hegemônicas que caracterizam
gência. O fornecimento de uma ex-
dependência. Capitais particulares estes tempos neoliberais, permitiu
plicação para os pontos de inflexão
que operem em determinado lugar, que estas passassem de uma fase de
é uma condição necessária, mas
com menor composição orgânica extrema arrogância para outra em
não suficiente. Além disso, é preci-
(produtividades) tendem a produzir que se encontram relativamente na
so que o ponto de inflexão seja uma
uma massa de valor maior do que defensiva.
consequência necessária dos efeitos
aquela que eles mesmos se apro-
Em segundo lugar, a atual crise provocados pela inflexão imediata-
priam. Capitais com maiores pro-
serve para relembrar aos esquecidos mente anterior. Mais claramente,
dutividades tendem a se apropriar
que faz parte da natureza do proces- podemos exemplificar dizendo que a
de um valor maior do que aquele
so de acumulação de capital a sua retomada deve ser explicada através
que eles mesmos produziram. De
trajetória cíclica, isto é, que sempre dos efeitos provocados pela crise, e
onde vem esse valor “a mais” em sua
após uma fase de crescimento ad- esta última deve ser consequência
apropriação? Justamente daqueles
vém um momento de crise e, ao mes- dos efeitos do crescimento econômi-
capitais com menor produtividade.
mo tempo, posteriormente a épocas co induzido pela retomada. Esta exi-
Isso define um processo de transfe-
de crise, o capitalismo consegue re- gência metodológica é que define a
rência de valor de capitais que ope-
construir novas bases para um novo existência do ciclo como algo regular
ram em determinado espaço, para
processo de acumulação de capital. e necessário.
outros que se encontram em outros
Do ponto de vista teórico-ideológi-
espaços. Esta é a base real-concreta
da categoria de dependência.
co isto desmistifica duas concepções Acumulação de capital ci-
muito comuns: (I) aquela que acre- clicamente 47
Ao contrário de uma perspectiva ditava (acredita) que pode resolver
mais weberiana, não é que uma na- os problemas do capitalismo com Se há um consenso na teoria eco-
ção dependa de outra. A categoria uma mera operacionalização corre- nômica é que o processo de acumu-
central no marxismo não é a entida- ta dos instrumentos de política eco- lação de capital transcorre, com o
de abstrata “nação”. A categoria cen- nômica, de forma que as crises só passar do tempo, de forma cíclica. O
tral no capitalismo é... o capital(is- ocorrem por falhas nesta última, e que não há consenso é sobre como
mo)! Isto não significa, entretanto, que, bem administrada, poderíamos explicá-lo. Como, para explicar os
que os Estados Nacionais não cum- viver em um capitalismo pós-cíclico, ciclos, é necessário explicar que o
pram nenhum papel. Apenas que como alguns chamam; (II) aquela capitalismo entra em crise porque
toda a variedade de funções e papéis que aguarda, pacientemente ou não, cresceu, e volta a crescer porque
que eles cumprem decorre do fato de a crise terminal do capitalismo, a entrou em crise, a teoria econômica
que Estados Nacionais, no capitalis- partir da qual todos os sonhos so- explicita seus limites, quando pro-
mo, são... capitalistas! cialistas se realizariam como em um cura explicar esse fenômeno que ela
passe de mágica. Ao contrário destas mesma reconhece como necessário.

“Seu visões, uma interpretação teórica Para explicá-lo é necessária uma


correta do capitalismo tem que reco- perspectiva dialética. Por isso, em

pensamento nhecer sua natureza cíclica.


Uma teoria do ciclo deve, por-
primeiro lugar, a teoria econômica
hegemônica entra em crise sempre

[Marx] tanto, explicar duas coisas. Ini-


cialmente, ela deve fornecer uma
que o capitalismo está em suas crises
estruturais. Em segundo lugar, Marx
transcende as explicação dos pontos de inflexão,
é, uma vez mais, lembrado como o
pensador que inicia a única tradição
isto é, do ponto de ruptura que
especificidades leva à crise e da retomada do cres-
que consegue entender o capitalismo
como ele é, cíclico.
do século XIX”
cimento econômico. Em segundo
lugar, a teoria deve mostrar como O que pode emergir da atual cri-
se dá o processo cumulativo que se do capitalismo contemporâneo?
IHU On-Line – No que consis- propaga os efeitos das duas infle- Para ser coerente com a perspectiva
te a chamada “crise do capita- xões, tornando-os atuantes duran- materialista, não há como antever
lismo” e quais seus efeitos? O te certo período. Brevemente, uma certeiramente uma época históri-
que pode emergir a partir desse teoria deve explicar os pontos de ca ainda não posta. Mesmo assim,
estado de crise? inflexão e mostrar por que a econo- como se trata de uma crise cíclica,

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

pode-se, em termos mais gerais, são necessários no capitalismo, é que dois dos preços mais impor-
arriscar que, de duas uma: ou o ca- da sua natureza. Portanto, não há tantes de uma economia, a taxa de
pitalismo reconstrói o processo de política econômica, qualquer que juros e a taxa de câmbio, são de-
acumulação de capital em novas ba- seja sua coloração teórica ou polí- terminadas pelos fatores externos,
ses (históricas), o que requer desva- tica, que consiga resolver as crises. justamente reflexos do caráter de-
lorizar algo do capital superacumu- Não existe capitalismo sem crises. pendente.
lado e reconstruir novos espaços de Não existe capitalismo pós-cíclico.
Mesmo com essa especificidade
valorização (com maior exploração
Isso não significa que as políti- da economia dependente, a política
do trabalho, necessariamente); ou o
cas econômicas (monetária, fiscal, econômica brasileira, em seu sen-
sujeito histórico, o ser humano, divi-
cambial e de rendas) não tenham tido mais amplo, isto é, como uma
dido em classes sociais, transforma
nenhum papel. Ao contrário. As estratégia estrutural de desenvol-
essa sociedade.
políticas econômicas podem ante- vimento, vem seguindo os marcos
Há, ainda, uma terceira possibili- cipar/postergar os pontos de rup- gerais da forma como o capitalismo
dade de curto prazo. O capitalismo tura cíclica, tanto a crise como a está tentando sair desta crise estru-
continuar buscando se valorizar sob retomada. As políticas econômicas tural. Por um lado, no curto prazo,
a lógica do capital fictício, o que só podem ainda ampliar/reduzir os promoção de fortes ajustes fiscais,
aprofunda a contradição entre pro- efeitos (políticos e sociais), tanto para garantir que o Estado obtenha
dução e apropriação do valor, pos- dos processos cumulativos (cres- saldos primários positivos, que lhe
tergando a atual crise por mais tem- cimento ou depressão) como das permitam financiar a sua atuação
po ainda e abrindo a possibilidade rupturas. Mas, decididamente, não nos mercados financeiros, com-
de um novo, e mais profundo crash. podem acabar com os ciclos. A úni- prando os títulos do capital fictício
É possível que ainda não tenhamos ca forma de acabar com as crises é superacumulado, propiciando que
vivenciado a manifestação mais in- acabar com aquilo que necessaria- esse excesso de oferta não seja pre-
tensa da atual crise. mente as contêm, o capitalismo.
cificado para baixo, desvalorizan-
do esse capital. Por outro lado, no
IHU On-Line – Quais os limi- IHU On-Line – Como o senhor médio e longo prazo, como o pro-
48 tes do olhar macroeconômico tem acompanhado a política blema é maior quantidade de títu-
como forma de compreender econômica brasileira dos úl- los de apropriação sobre um valor
a economia política de hoje? timos anos? Como, diante do não produzido naquela magnitude,
Como uma visada marxista atual cenário, conceber uma deve-se ampliar a produção de va-
pode ampliar esse horizonte de recuperação econômica? lor, o que implica elevar a taxa de
análise? exploração do trabalho. Por isso a
Marcelo Dias Carcanholo – necessidade de um novo ciclo de
Marcelo Dias Carcanholo – Como já mencionado, embora não reformas, trabalhista, da previdên-
Ao contrário de uma visão mais possam “resolver” as crises, isto é, cia, e novas privatizações.
“economicista”, de fundo keyne- garantir uma recuperação econô-
siano, do ponto de vista da teo- mica, a política econômica pode O significado disso é que, assim
ria econômica, ou reformista, do agravar/aliviar seus efeitos. O ca- como na maior parte da economia
ponto de vista político, a política ráter restrito das possibilidades da mundial, o capital procura sair de
(macro)econômica não pode solu- política econômica, em uma eco- sua própria crise repassando a con-
cionar as crises, ou, de forma mais nomia dependente, como a brasi- ta do ajuste para a classe trabalha-
ampla, corrigir a trajetória de mé- leira, só se potencializa. Em eco- dora. Se ele for bem sucedido, como
dio e longo prazo da economia para nomias dependentes, a margem de parece que está sendo, a síntese que,
um tendência de crescimento sem manobra da política econômica é talvez, caracterize melhor nosso fu-
ciclos. Por quê? Porque os ciclos menor ainda. Basicamente, por- turo é: “capitalismo e barbárie”.■

Leia mais
- A lógica hegemônica do capital fictício. Entrevista especial com Marcelo Dias Carcanho-
lo, publicada nas Notícias do Dia de 19-10-2008, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos
- IHU, disponível em http://bit.ly/2KlWlIU.
- “A alternativa ao neoliberalismo é... romper com o neoliberalismo!” Entrevista especial
com Marcelo Carcanholo, publicada nas Notícias do Dia de 3-8-2017, no sítio do Instituto
Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2K8wfwM.

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

Capitalismo no século XXI e a força


cerebral no cerne da cadeia do valor
A partir da clássica expressão do pensador, general intellect, Yann Boutang
analisa as transformações nos modos de produção que extrapolam o
ambiente fabril e invadem um mundo neural de redes e conexões
João Vitor Santos | Tradução: Vanise Dresch

D
esde o tear até a impressora 3D, gência artificial”, completa. Estamos no
as tecnologias vêm impactando contexto da revolução 4.0, que também
não só os modos de produção, realinha o capital. Se chegamos a sonhar
mas também um realinhamento das re- em dinamizar a produção para sermos
lações dos seres humanos com o mun- mais livres, acabamos sendo acordados
do. Karl Marx apreendeu isso quando abruptamente numa dura realidade.
observava o contexto do século XIX e, “Hoje, em pleno capitalismo cognitivo,
de muitas de suas reflexões, emergiu o é ainda profunda a discrepância entre a
conceito de general intellect que, além sociedade prometida – e possível – por
de designar a dimensão coletiva e social esse mesmo capitalismo plenamente
da atividade intelectual quando esta é desenvolvido e a miserável sociedade
fonte de produção de riqueza, também de injustiça, de indiferença e com tantos
leva em consideração a tecnologia. Na pobres, em que tanta gente tem de tri-
entrevista a seguir, concedida por e-mail lhar um caminho penoso”, sintetiza.
49
à IHU On-Line, o professor francês
Por fim, Boutang deixa um desafio,
Yann Moulier Boutang revisita o con-
já que, para ele, para romper com um
ceito marxiano e, a partir dele, olha para
novo aprisionamento do humano por
o século XXI. “A força de trabalho está
esse novo sistema capitalista, é preciso
cada vez menos no centro da produção.
pensar em algo como uma renda bási-
São a força cerebral e a força de invenção
ca universal. “Uma renda para liberar a
que estão no cerne da cadeia do valor.
força da atividade humana do jugo cada
Em todas as atividades, a atividade hu-
vez mais opressor do trabalho doado
mana se situa na origem da concepção,
em excesso a outrem ou de um trabalho
durante a fabricação, na supervisão, no
falsamente independente e fortemente
controle das máquinas, e, na outra pon-
dependente do mercado (mundial), um
ta, nos processos de design do consu-
patrão bem mais tirânico e intrusivo
mo”, analisa. E conclui: “foi exatamente
que o velho patrão paternalista”.
isso que Marx previu naquele fragmento
esclarecedor dos Grundrisse (1857-58) Yann Moulier Boutang é professor
dedicado às máquinas”. de Ciências Econômicas na Université
Boutang recorda que passamos por de Technologie de Compiègne - Sorbon-
um processo de mecanização que foi se ne Universités, na França, membro do
sofisticando até chegarmos a máquinas laboratório Connaissance, Organisation,
que funcionam como memórias aces- Systèmes Techniques - COSTECH EA 22
sórias que potencializam a capacidade 23, Trivium CNRS. Leciona também na
humana produtiva. “Posteriormente, a China, na Universidade de Shanghai -
partir de 1995 (com a internet), em 2005 UTSEUS, na Ecole Nationale Supérieure
(web 2.0 interativa) e, por fim, em 2015 de Création Industrielle - ENSCI, Paris,
(com a internet das coisas), a substitui- no curso Master Innovation by Design.
ção visou a operações complexas do cé- Entre suas obras mais recentes, estão
rebro (efetuadas, em grande parte, pelo Cognitive capitalism (Inglaterra: Polity
lado direito do cérebro). De que modo? Press, 2012) e L’abeille et l’économiste
Mediante um novo tipo de robôs que (Paris: Carnets Nord, 2010).
designamos pelo termo geral de inteli- Confira a entrevista.

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

IHU On-Line – O que signifi- O roubo do tempo de trabalho IHU On-Line – Atualmente,
ca o conceito de “general intel- de outrem sobre o qual repou- no contexto da chamada 4a Re-
lect” de Karl Marx? sa a riqueza atual apresenta-se volução Industrial, das trans-
como uma base miserável em
formações do mundo do tra-
Yann Moulier Boutang – O relação à nova base criada e de-
senvolvida pela mesma grande balho pela tecnologia, quanto
conceito de general intellect tem
indústria. A partir do momento nos aproximamos e quanto nos
dois significados que se completam
em que o trabalho sob sua for- afastamos da ideia de “general
e formam um verdadeiro sistema em
ma direta deixou de ser a gran- intellect”?
Marx: de fonte da riqueza, o tempo de
trabalho deixar de ser, e deve Yann Moulier Boutang – Des-
1) ele assinala o caráter cada vez
deixar de ser, sua medida e, con- crevi detalhadamente as transfor-
mais social da produção, o que quer sequentemente, o valor de troca mações do valor (daquilo que a
dizer que o produto social global deixa de ser o valor de uso. economia política moderna prati-
depende cada vez menos da contri-
Ora, se o primeiro sentido, aquele cada pelos empresários capitalistas
buição individual de cada trabalha-
da socialização crescente da pro- chama de cadeia do valor nas duas
dor. Falar da produção de mais-valia
dução, foi bem visto pelo marxis- pontas do segmento cada vez mais
ou sobrevalia na escala do operário
mo do Movimento Operário, já o estreito da fabricação propriamen-
não tem mais sentido. Isso se deu
segundo, um momento presente na te dita): o papel determinante da
progressivamente desde o advento
Carta de Amiens2 (1906) que tinha ciência e de sua aplicação em toda
do capitalismo industrial, como de-
como programa a abolição do assa- a indústria 4.0, formação de parte
monstram a parte crescente de bens
lariado, foi rapidamente relegado essencial do valor que pode ser iden-
e serviços produzidos por empresas
por uma glorificação do trabalho tificada na divisão do valor agregado
públicas e o papel cada vez maior das
“socialista” já desde a formação contável, na concepção, na incor-
somas obrigatórias retiradas do PIB
da União Soviética. Desaparece a poração contínua da inovação, no
– o que significa que a produção e a
perspectiva de uma recusa do tra- design, na marca, na logística. Da
divisão estão cada vez mais estreita-
balho assalariado como vínculo de produção de mercadorias por meio
mente ligadas não só pela distribui-
subordinação, que ainda pode ser de mercadorias, como resume a ad-
ção dos lucros, mas também pelas
50 encontrada na obra O direito à pre- mirável expressão de Sraffa7, passa-
despesas sociais (o orçamento social
guiça3, de Paul Lafargue4, genro de se à “produção de conhecimento por
do Estado), inclusive nos países de-
Marx. É justamente com a passa- meio de conhecimento”.
senvolvidos mais “liberais”;
gem ao que eu denomino capitalis- O slogan da IBM que pode ser visu-
2) ele indica também algo muito mo cognitivo – ou que Greenwald5 alizado na sua sede em Binghamton,
mais revolucionário. No “Fragmento e Stiglitz6 chamam de “sociedade no estado de Nova York, é “work to
sobre as máquinas” dos Grundrisse1 do conhecimento” – que essa pro- learn”, em vez de “learn to work”,
(1857-58), Marx explica, de fato, que digiosa hipótese de Marx se torna aquele da fábrica de sapatos (John-
a principal força produtiva deixa de uma realidade. son) que imperava na cidade operá-
ser o coletivo operário ou assalaria-
ria. Nessa profunda mutação, a tec-
do e passa a ser diretamente a ciên-
nologia digital tem um papel crucial.
cia e suas aplicações:
O que o moinho de vento significa
2 Carta de Amiens é o nome com que ficou conhecida
Com o desenvolvimento da a declaração produzida pelo 9o Congresso da CGT fran- para o feudalismo, e a máquina a
grande indústria e do maquinis- cesa, ocorrido na cidade de Amiens, em 1906. (Nota do
entrevistado)
vapor, para o capitalismo industrial,
mo, a geração de riqueza depen- 3 O Direito à preguiça: famoso livro de Paul Lafargue, O o computador pessoal, a interação
de menos do tempo de trabalho Direito à preguiça pode ser encontrado juntamente com
da massa em redes digitais signifi-
o pequeno, mas instigante livro de Thierry Pacquot, em
e da quantidade de trabalho Paul Lafargue-Thierry Pacquot, O Direito à preguiça/ A arte cam para esse terceiro capitalismo.
utilizada do que da potência dos da sesta, publicados pela editora portuguesa Campo das
Letras, em 2002. No ano 2000 foi publicada uma versão Propus essa tese no ano de 2004, e
agentes mecânicos movimenta- brasileira do livro de P. Lafargue, com uma introdução da
dos durante o período de traba- profa. Marilena Chaui, que está esgotada. Sobre a arte da
a definição mais corrente do capita-
lho, cuja força eficaz é desprovi- sesta cf. IHU On-Line nº 61, de 26 de maio de 2003. (Nota lismo de ponta (o grupo dito Gafami:
da IHU On-Line).
da de relação proporcional com 4 Paul Lafargue (1842-1911): revolucionário jornalista so-
o tempo de trabalho direto gasto cialista francês, escritor e ativista político. Foi genro de Karl
Marx, casando-se com sua segunda filha, Laura. Seu mais 7 Piero Sraffa (1898-1983): economista italiano, marxista,
em sua produção. conhecido trabalho foi O Direito à Preguiça, publicado no amigo de Antonio Gramsci, foi levado por Keynes a Cam-
jornal socialista L’Égalité. (Nota da IHU On-Line) bridge nos anos 1920. Sua crítica da teoria de Marshall
Isso significa que a lei do valor dei- 5 Glenn Edward Greenwald (1967): um advogado, jorna- influi em muitos economistas, entre eles a economista
lista e escritor americano, mais conhecido por seu papel inglesa Joan Robinson. Piero Sraffa é considerado um dos
xa de ser e não deve mais servir de em uma série de reportagens publicadas pelo jornal The gigantes da economia do século XX. Suas principais obras
base de leitura da produção capita- Guardian a partir de junho de 2013, detalhando os progra- são The Works and Correspondence of David Ricardo (1951)
mas de vigilância global dos Estados Unidos e da Grã-Bre- e Production of Commodities by means of Commodities,
lista. Alguns parágrafos mais adian- tanha baseado em documentos confidenciais divulgados Prelude to a critique of Economic Theory (1960). Também
por Edward Snowden. (Nota da IHU On-Line) escreveu sobre inflação, moeda e bancos. Sobre Sraffa o
te, Marx põe os “pingos nos Is”: 6 Joseph Stiglitz: ex-vice-presidente do Banco Mundial IHU promoveu, em 10-5-2006, o evento Quarta com Cul-
- Bird, foi chefe dos economistas no governo Clinton, Es- tura Unisinos – Repensando os Clássicos da Economia,
tados Unidos, e prêmio Nobel de Economia 2001. Ele é na Livraria Cultura, em Porto Alegre. A palestra esteve a
1 Em português: Elementos fundamentais para a crítica da autor, entre outros, dos seguintes livros, traduzidos para cargo da Profª. Drª. Maria Heloisa Lenz, da FEE. A mesma
economia política, conhecido simplesmente como Grun- o português: A globalização e seus malefícios (São Paulo: atividade foi trazida ao II Ciclo de Estudos Repensando os
drisse, é um manuscrito de Karl Marx, completado em Futura, 2003) e Os Exuberantes anos 90 (São Paulo: Com- Clássicos da Economia, na Unisinos, em 17-5-2006. (Nota
1858. (Nota da tradutora) panhia das Letras, 2003). (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line)

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

Google, Amazon, Facebook, Apple, toda vez que o preço das horas de do por Zyed Zalila10, professor de
Microsoft, IBM, com suas filiais trabalho operário ultrapassa, devi- lógica difusa (fuzzy mathematics)
Twitter, Instagram, seus homólogos do aos movimentos sociais, o preço da UTC de Compiègne, na empresa
chineses e as empresas ditas “uni- desses autômatos combinados com Intellitech11. Ela consiste em extrair
córnios”8) tornou-se aquela de um outro tipo de trabalho humano. automaticamente modelos prediti-
capitalismo de plataforma. vos explicáveis sob forma de regras
Num período recente (a partir de
(portanto, automatizar a indução de
1975), esse movimento de meca-
modelos preditivos). Diferentemen-
“O desenvol-
nização e de substituição se voltou
te dos modelos conexionistas que
para o produto do cérebro (opera-
repousam na exploração, como esses
vimento das ções lógicas e simbólicas elementa-
res efetuadas por um acoplamento
modelos obedecem a leis matemáti-
cas, a operação seguinte consiste em
inteligências de máquinas de cálculo e memória
(hardware) e de instruções sob for-
predizer e verificar por simulação.
Uma das explicações interessantes
artificiais permi- ma de programas operacionais, de
processamento (software). Poste-
desse tipo de inteligência artificial é
a possibilidade de verificar, a partir
te automatizar riormente, num segundo momento,
a partir de 1995 (com a internet),
das bases de dados utilizadas para

profissões mui- em 2005 (web 2.0 interativa) e, por


fim, em 2015 (com a internet das
algoritmos, a qualidade dos mode-
los, não somente certificar a perti-

to qualificadas” coisas), a substituição visou a ope-


rações complexas do cérebro (efe-
nência, a fidelidade dos algoritmos,
mas também detectar se a base de
dados foi corretamente constituída,
tuadas, em grande parte, pelo lado
ou até mesmo voluntariamente alte-
direito do cérebro). De que modo?
IHU On-Line – Em que me- rada (sonegação fiscal).
Mediante um novo tipo de robôs
dida o atual estágio de desen- que designamos pelo termo geral de
volvimento das máquinas no Automatização de profis-
inteligência artificial.
mundo do trabalho degrada sões qualificadas
Distinguem-se duas famílias de in- 51
e desvaloriza o capital huma-
teligência artificial: uma que provém Por toda a parte em que a ativida-
no? Que associações podem
de uma abordagem simbólica e pre- de humana é levada a manipular um
ser feitas com os altos índices
ditiva, a partir de modelos analíticos, grande número de variáveis (supe-
de desemprego no mundo? E
e outra que resulta da abordagem co- rior a 9 dimensões), ela procede mais
como construir alternativas a
nexionista das chamadas redes neu- por intuição (alimentada por um try
essa realidade?
ronais. A segunda repousa em algo- and fail) do que por cálculo, pois
Yann Moulier Boutang – O pa- ritmos de aprendizagem do tipo try nossa memória e nossa capacidade
pel crescente das máquinas e dos and fail alimentados por um imenso de cálculo são limitadas (bounded
autômatos no capitalismo não é número de dados. A robustez obtida rationality, de Herbert Simon12). O
novo. No capitalismo mercantilista por um programa que retém apenas
(1450-1750), as máquinas vitais da as soluções exitosas tem, contudo, 10 Zyed Zalila: é presidente fundador da INTELLITECH, di-
retor de P & D na área de engenharia, especificamente em
expansão foram os navios e a tração um defeito considerável: sabemos Inteligência Artificial e Matemática da Compiègne Univer-
sidade de Tecnologia Aplicada (UTC). Iniciou sua pesquisa
animal (o boi, o cavalo), o moinho que isso funciona, mas somos inca- sobre a teoria difusa em 1989, sob a co-orientação do
d’água para a geração de energia. pazes de explicar por quê. Trata-se professor Arnold Kaufmann, um dos pais da Lógica Fuzzy.
É, ainda, doutor em matemática. (Nota da IHU On-Line)
No capitalismo industrial, a máqui- de uma caixa preta. Para um gran- 11 Saiba mais em https://xtractis.ai/fr/ (Nota da IHU
na a vapor (o cavalo-vapor), tendo On-Line)
de número de operações complexas 12 Herbert Alexander Simon (1916 —2001): foi um
como base a energia fóssil (carvão, (um grande número de variáveis, de economista estadunidense. Foi agraciado com o Prémio
de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel
petróleo), combina a mecanização funções não lineares), a “solução” de 1978. Foi um pesquisador nos campos de psicologia
dos músculos animais e humanos. das redes neuronais consiste na oti-
cognitiva, informática, administração pública, sociologia
económica, e filosofia. Por vezes, descreveram-no como
A substituição (ou mecanização) do mização das soluções práticas opera- um polímata. Recebeu em 1975 o Prêmio Turing da ACM,
juntamente com Allen Newell, pelas suas “contribuições
tear com cartões perfurados de Jac- das por humanos e registradas sob a básicas à Inteligência Artificial, à Psicologia de Cognição
quard9 pela máquina de fiar hidráu- forma de big data, isto é, de dados
Humana, e ao processamento de listas.” Em 1978, foi agra-
ciado com o Prémio Nobel de Economia, pela sua “pesqui-
lica ocorre após as greves, ou seja, estruturados. Mas, quando a solução sa precursora no processo de tomada de decisões dentro
de organizações económicas”. Recebeu ainda a Medalha
preconizada está errada, não somos Nacional de Ciência, em 1986 e o Award for Outstanding
8 Start-ups “unicórnio” são empresas cuja avaliação de Lifetime Contributions to Psychology, da APA, em 1993.
preço no mercado supera US$ 1 bilhão, antes de abrir seu capazes de resolver mediante a apli- Desenolveu a bounded rationality, limitação da racionali-
capital em bolsas de valores. Elas começaram pequenas, dade, em português, que procura compreender aspectos
mas, com algo de fantástico em suas propostas, impacta- cação de regras explicáveis. que influenciam a tomada de decisão do indivíduo base-
ram o mundo. (Nota da tradutora) ada em sua limitação de informação. Essa teoria, propõe
9 Jacquard é o nome dado a padronagens complexas de O segundo tipo de inteligência a complementação da racionalidade como “otimização”,
entrelaçamento, tanto em tecelagem como em malharia que vê a tomada de decisão como um processo totalmen-
em jersey duplo (no caso de jersey simples, chama-se en- artificial da realidade aumentada, te racional de encontrar uma opção ideal dada a infor-
tarcia). É tido como complexo tudo aquilo que (no caso da
tecelagem em cala) teares maquinetados não consegui-
superior em robustez aos modelos mação disponível. Para Herbert Simon, a racionalidade
pessoal está limitada por três dimensões. (Nota da IHU
riam fazer. (Nota da IHU On-Line) de redes neuronais, foi desenvolvi- On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

desenvolvimento das inteligências vendo uma evolução do próprio pressoras 3D, substituindo, sobretu-
artificiais permite automatizar pro- capitalismo? De que forma? E do, tarefas de serviços considerados
fissões muito qualificadas. Os chats que tipo de capitalismo surge complexos por inteligência artificial,
bots (robôs falantes capazes de res- desse movimento? isto é, por algoritmos aprendizes,
ponder às perguntas de clientes e de- geralmente por machine learning
Yann Moulier Boutang – A tec-
tectar emoções sem que os clientes com base em redes neuronais. Essa
nologia digital teve várias fases que
percebam que estão se comunicando indústria de fabricação e serviços
se estenderam por um período que
com não humanos) são um exemplo por software 4.0 tem um poder de
ultrapassou aquele das transforma-
espetacular, assim como Watson13, a substituição do emprego muito qua-
ções técnicas da Revolução Indus-
inteligência artificial da IBM, ou as lificado comparável somente com a
trial. Entre 1936 (Turing), a decodi-
caixas de som inteligentes domésti- onda de mecanização da Revolução
ficação do código Enigma (1940-43),
cas (Alexa, da Amazon). Ainda mais Industrial (1750-1850).
as bases do computador (1945), a
impressionantes são os resultados
fabricação dos grandes computa- A força de trabalho está cada vez
do Alfa Go do Facebook, que venceu
dores, os computadores pessoais menos no centro da produção. São a
o melhor jogador de Go do mundo.
baseados na revolução cibernética, força cerebral e a força de invenção
Em 2015, durante as eleições regio- a calculadora e o processamento da que estão no cerne da cadeia do va-
nais francesas, o jornal Le Monde con- informação numérica (1940-1950), lor. Em todas as atividades, a ativi-
seguiu redigir, por intermédio de um os grandes computadores, a inter- dade humana se situa na origem da
autômato, 56.000 artigos, apresen- net, o celular, a internet das coisas. concepção, durante a fabricação, na
tando uma análise dos resultados, das A revolução da supracondutividade, supervisão, no controle das máqui-
tendências para cada circunscrição, da fibra ótica, a miniaturização dos nas, e, na outra ponta, nos processos
tudo com um selo local. No Japão, um transistores, as nanotecnologias am- de design do consumo. A principal
livro do gênero policial foi escrito por pliaram as capacidades de memória força produtiva passa a ser a ciência
inteligência artificial de forma anô- e cálculo (a Lei de Moore14, que está e suas aplicações. Foi exatamente
nima e conseguiu vencer o segundo começando apenas agora a desace- isso que Marx previu naquele frag-
prêmio de um concurso literário. Jor- lerar), bem como a transmissão. A mento esclarecedor dos Grundrisse
52 nalistas, advogados, médicos especia- fase da web 1.0 se contentava com a (1857-58) dedicado às máquinas.
lizados principalmente em radiologia exibição de conteúdo por download.
e em diagnóstico de câncer, gerentes Com a web 2.0, a interação se torna
de banco, engenheiros encontram-se efetiva (pode-se comentar, marcar IHU On-Line – O que é, para
hoje na linha de frente desse tsuna- conteúdos, ter um blog, reagir, ano- Marx, uma sociedade capitalis-
mi do Big Data. A nova onda de au- tar, escolher diversos aplicativos, ta plenamente desenvolvida?
tomatização não afeta mais apenas conectar-se a redes profissionais e Yann Moulier Boutang – Para
os trabalhadores pouco qualificados sociais). A web 3.0 é aquela do ar- Marx, uma sociedade capitalista ple-
da indústria, estendendo-se também mazenamento da informação, do Big namente desenvolvida é uma organi-
à logística e ao trabalho qualificado. Data, gerados pelo rastreamento da zação complexa e contraditória que
Como sempre, seguem a desqualifi- interatividade na internet das coisas, combina instituições, como empre-
cação de grande parte deles e a super- e da personalização do consumo, da sas, Estados, direitos de propriedade
qualificação de um número bem me- produção. (não somente privada), compatíveis
nor de ativos. Foi somente na primeira com dois imperativos:
Essa fase é coroada hoje pelo em-
onda da Revolução Industrial de 1750-
preendimento 4.0 e pela generali- 1) a possibilidade de manter o con-
1850 que a crise do emprego alcançou
zação da inteligência artificial em trole sobre a revolução permanente
tamanha proporção.
todos os níveis. O digital entra não das técnicas, pois, se essas inovações
apenas nos serviços de gestão de in- permanentes põem o trabalho assa-
IHU On-Line – A revolução formática e logística, mas também lariado na defensiva (os operários),
tecnológica permite a liberação na concepção, na “cobótica” (uso de elas são, ao mesmo tempo, um ele-
do capitalismo clássico, promo- robôs combinados com humanos), mento de contestação radical das
na fabricação por robôs ou por im- relações de produção capitalista. Por
13 Watson: é a plataforma de serviços cognitivos da IBM exemplo, a questão da gratuidade do
para negócios. A cognição consiste no processo que a 14 Lei de Moore: Até meados de 1965, não havia nenhu- acesso às plataformas interativas das
mente humana utiliza para adquirir conhecimento a partir ma previsão real sobre o futuro do hardware quando Gor-
de informações recebidas. Com o avanço da tecnologia, don E. Moore, fez sua profecia, na qual o número de tran- empresas do Gafami, das quais o ca-
essa capacidade passa a ser integrada a sistemas que po- sistores dos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo
dem aprender em larga escala e ajudar a sociedade em custo, a cada período de 18 meses. Essa profecia tornou-
pitalismo cognitivo precisa absoluta-
uma série de finalidades, desde o atendimento a clientes se realidade e acabou ganhando o nome de Lei de Moore. mente, levando-o a assentar-se nos
até ao combate a doenças graves, essa solução também é Esta carta serve de parâmetro para uma elevada gama de
chamada de inteligência artificial. O Watson foi criado pela dispositivos digitais, além das CPUs. Na verdade, qualquer direitos de propriedade tradicionais,
IBM para auxiliar profissionais, desenvolvedores, startups chip está ligado a lei de Gordon E. Moore, até mesmo o
e empresas a construírem sistemas cognitivos que pos- CCD de câmeras fotográficas digitais (sensor que capta a
apesar de gerar uma atitude “Market
sam melhorar processos, interações e ações. Só no Brasil, imagem nas câmeras nuclear; ou CNCL, sensores que cap- unfriendly”, ou seja, uma hostilida-
já existem cerca de 30 casos de uso públicos em áreas tam imagens nas câmeras fotográficas profissionais). Esse
como Saúde, Educação, Bancos, Agricultura, Cultura, entre padrão continuou a se manter, e não se espera que pare de à mercantilização de tudo e um
outras. (Nota da IHU On-Line) até, no mínimo, 2021. (Nota da IHU On-Line)

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

movimento orientado para os novos valga o tigre da revolução digital da Yann Moulier Boutang – Você
bens comuns [ou de interesse geral] “nova grande transformação”. tem razão de assinalar que a pro-
digitais (principalmente o movimen- messa de liberar o trabalho genitivo
Trata-se de um processo eminen-
to do conteúdo livre). Quando se subjetivo do trabalho genitivo obje-
temente contraditório, repleto de
trata de gerar lucro, as empresas do tivo pode acabar se tornando uma
surpresas possíveis. Em suma, tudo
Gafami voltam a ser as defensoras servidão, um superfordismo e um
é possível, exceto o fim da história
absolutas dos direitos de proprie- taylorismo eletrônicos e digitais,
de Fukuyama17, embora a marginali-
dade intelectual. Deveríamos reler reis da intrusão na vida privada, em
zação das classes médias superiores,
os debates sobre a pobreza evangé- nossas vidas simplesmente, como
ameaçadas pela inteligência artifi-
lica dos franciscanos (1250-1350)15 e inspiradores de novas formas de to-
cial, provoque uma reação nacional
a distinção entre o usus pauper e o talitarismo estatal, ao lado das quais
populista e soberanista que, na Eu-
simplex usus facti para interpretar a as velhas ditaduras parecem brin-
ropa, na América Latina e na Ásia,
querela das novas propriedades digi- cadeiras inofensivas. Vejamos isso
pode levar a involuções catastróficas
tais. De fato, vivemos hoje no estágio mais atentamente. Nesse momento
sem futuro, mas extremamente des-
do acúmulo primitivo desse terceiro de antecipação absolutamente ge-
trutivas a curto e médio prazo. Nesse
capitalismo, depois do mercantilis- nial dos Grundrisse (que marcou o
sentido, uma sociedade correspon-
mo e do capitalismo industrial. E a momento de renascimento do mar-
dente a um capitalismo plenamente
questão dos direitos de propriedade xismo operaísta, o único ramo verde
desenvolvido é quase um oximoro.
sobre os bens imateriais do intelecto do tronco carcomido do marxismo
Hoje, em pleno capitalismo cogniti-
é tão crucial quanto a conquista da desde Bordiga18, Gramsci19 e Luká-
vo, é ainda profunda a discrepância
ideia de finitude dos recursos eco- cs20), Marx21 escreveu duas grandes
entre a sociedade prometida – e pos-
lógicos, relembrada com tanta per- heresias em relação ao marxismo so-
sível – por esse mesmo capitalismo
tinência pela encíclica Laudato Si16. cialista. A primeira é o fato de que,
plenamente desenvolvido e a mise-
com o desenvolvimento da grande in-
2) O segundo elemento de uma rável sociedade de injustiça, de indi-
dústria e do maquinismo, a geração de
sociedade capitalista plenamente ferença e com tantos pobres, em que
riqueza depende menos do tempo de
desenvolvida é justamente a orga- tanta gente tem de trilhar um cami-
trabalho e da quantidade de trabalho
nização de toda a sociedade como nho penoso. A política não acabou, e 53
utilizada do que da potência dos agen-
meio de frear continuamente a força o reinado do controle apaziguado e
tes mecânicos movimentados durante
revolucionária da atividade humana pacífico das coisas não passa de uma
o período de trabalho, cuja força eficaz
plenamente desenvolvida que tem falsa utopia.
é desprovida de relação proporcional
como objetivo libertador uma maior
com o tempo de trabalho direto gasto
justiça e abundância. No capitalismo
IHU On-Line – Marx, a partir em sua produção.
industrial, durante muito tempo,
com um baixo nível de desenvolvi- das reflexões do conceito de Isso significa que a lei do valor deixa
mento da força produtiva da ciência “general intellect”, diz que é o de ser e não deve mais servir de base
e da pessoa humana comparado às tempo do não trabalho, o tem-
possibilidades atuais, a sociedade po liberado pela enorme pro-
18 Amadeo Bordiga (1889-1970): foi um destacado mar-
democrática e liberal das classes mé- dutividade da atividade, que xista italiano, colaborador da teoria Comunista, fundador
do Partido Comunista da Itália, um dos líderes da Interna-
dias cercou a fábrica, controlando está na origem da riqueza. Mas, cional Comunista e, após ser expulso do Partido Comunis-
finalmente o proletariado de forma hoje, toda a tecnologia empre- ta da Itália, foi uma das figuras de liderança do Partido Co-
munista Internacional, associado às posições da Esquerda
muito mais eficiente que as milí- gada nos processos produtivos Comunista Italiana. (Nota da IHU On-Line)
19 Antonio Gramsci (1891-1937): filósofo marxista, jor-
cias dos patrões, a força pura ou os não tem liberado tempo dos nalista, crítico literário e político italiano. Escreveu sobre
regimes comunistas do “socialismo trabalhadores. Pelo contrário, teoria política, sociologia, antropologia e linguística. Com
Togliatti, criou o jornal L’Ordine Nuovo, em 1919. Secre-
real”. Hoje, é a sociedade digital e faz crescer cada vez mais o tem- tário do Partido Comunista Italiano (1924), foi preso em

seu modelo de creative class que ca- po de produção. Como compre- 1926 e libertado em 1937, dias antes de falecer. Nos seus
Cadernos do cárcere, substituiu o conceito da ditadura do
ender essa realidade, que pa- proletariado pela “hegemonia” do proletariado, dando
ênfase à direção intelectual e moral em detrimento do
rece ir em sentido contrário ao domínio do Estado. Sobre esse pensador, confira a edição
15 Principalmente Peter Garsney, Penser la propriété, de
l’Antiquité jusqu’à l’ère des révolutions, Paris, Les Belles
que foi pensado por Marx? 231 da IHU On-Line, de 13-8-2007, intitulada Gramsci, 70
anos depois, disponível em http://www.ihuonline.unisinos.
Lettres, 2013 (ed. inglês 2007). (Nota do entrevistado) br/edicao/231. (Nota da IHU On-Line)
16 Laudato Si’ (português: Louvado sejas; subtítulo: “So- 20 György Lukács [Georg Lukács] (1885-1971): foi um
bre o Cuidado da Casa Comum”): encíclica do Papa Fran- filósofo húngaro de grande importância no cenário inte-
cisco, na qual critica o consumismo e desenvolvimento 17 Yoshihiro Francis Fukuyama (1952): filósofo e econo- lectual do século XX. Segundo Lucien Goldmann, Lukács
irresponsável e faz um apelo à mudança e à unificação mista político nipo-estadunidense. Figura chave e um dos refez, em sua acidentada trajetória, o percurso da filosofia
global das ações para combater a degradação ambiental e ideólogos do governo Ronald Reagan, Fukuyama é uma clássica alemã: inicialmente um crítico influenciado por
as alterações climáticas. Publicada oficialmente em 18 de importante figura do conservadorismo. Também é consi- Immanuel Kant, depois o encontro com Friedrich Engels
junho de 2015, mediante grande interesse das comunida- derado o mentor intelectual de Margaret Thatcher. Doutor e finalmente, a adesão ao marxismo. Seu nome completo
des religiosas, ambientais e científicas internacionais, dos em ciência política pela Universidade de Harvard e pro- era Georg Bernhard Lukács von Szegedin em alemão ou
líderes empresariais e dos meios de comunicação social, o fessor de economia política internacional na Universidade Szegedi Lukács György Bernát em húngaro. (Nota da IHU
documento é a segunda encíclica publicada por Francisco. Johns Hopkins, em Washington. Ele ficou mundialmente On-Line)
A primeira foi Lumen fidei em 2013. No entanto, Lumen conhecido em 1989, ao lançar um artigo intitulado O Fim 21 Grundrisse der Kritik de Politischen Ökonomie,
fidei é na sua maioria um trabalho de Bento XVI. Por isso da História, transformado em livro em 1992, chamado de Rohenwurft, 1857-1858, publicado em 1939-43 pela pri-
Laudato Si’ é vista como a primeira encíclica inteiramente “O Fim da História e o Último Homem”, tornando-o mi- meira vez em Moscou; tradução francesa, in Karl Marx,
da responsabilidade de Francisco. A revista IHU On-Line lionário. Atualmente vive em Palo Alto, e leciona estudos Oeuvres, vol. II, Bibliothèque de la Pléiade. Paris, 1968, pp.
publicou uma edição em que debate a Encíclica. Confira internacionais na Universidade Stanford. (Nota da IHU 304-316. Capítulo do capital (Cahiers II à VII). (Nota do
em http://bit.ly/1NqbhAJ. (Nota da IHU On-Line) On-Line) entrevistado)

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TEMA DE CAPA

de leitura da produção capitalista. lia, no âmbito da minha análise da destrói essa atividade vital, do ponto
Mais adiante, Marx é ainda mais ex- atividade da abelha, como paradigma de vista ecológico, dos polinizadores.
plícito e rompe de antemão com a tra- para pensar realmente a atividade
Passemos aos humanos. A atividade
dição da “lei do valor” como “a lei e os humana. O trabalho da abelha não é
humana é muito mais ampla que o
profetas” da crítica do acúmulo capita- apenas a produção do mel e da cera
trabalho reconhecido como trabalho
lista: O roubo do tempo de trabalho de para fabricar os alvéolos da colmeia; o
remunerado e protegido pelo status
outrem sobre o qual repousa a riqueza verdadeiro trabalho ecológico e repro-
do emprego. Ela abrange todas as
atual apresenta-se como uma base mi- dutor da vida é a polinização (como
atividades de reprodução dos huma-
serável em relação à nova base criada e fazem todos os insetos polinizado-
nos em sociedade (criação, educação,
desenvolvida pela mesma grande indús- res). Em termos de valor (de riqueza,
aprendizagem da linguagem, da escri-
tria. A partir do momento em que o tra- mesmo mercantil), essa atividade é
ta, produção da língua, dos símbolos,
balho sob sua forma direta deixou de ser infinitamente mais produtiva do que
da cultura, trabalho voluntário, tra-
a grande fonte da riqueza, o tempo de a fabricação de mel e cera. Podemos
balho “doméstico”, em suma, toda a
trabalho deixar de ser, e deve deixar de fornecer números concretos sobre
categoria da esfera da reprodução que
ser, sua medida e, consequentemente, o esse multiplicador: entre 500 e 5.000
sempre foi o buraco negro da lei do va-
valor de troca deixa de ser o valor de uso. vezes mais produtivo que a produção
lor e de todas as tentativas de reduzi-la
de um output a partir de um input.
A produtividade do trabalho com- a uma produção de mercadorias). No
posta pelo conjunto da sociedade tor- capitalismo mercantilista, no capita-
Marx e a polinização
na impertinente, insignificante, uma lismo industrial, a polinização é usada
explicação pela lei do valor trabalho. Na classificação de Marx, onde situar e sofre uma predação contínua, um
Não se pode mais compreender a so- a polinização? A polinização como tal acúmulo primitivo continuado. Pa-
ciedade do capitalismo plenamente não é sobrevalia; ela é valor ou rique- radoxalmente, contudo, ela não tem
desenvolvido com base na lei do valor, za. A única coisa que se parece com a lugar no universo socialista da lei do
que só se encaixa no contexto do capi- sobrevalia é o que acontece quando valor. Em compensação, na época do
talismo industrial. Pode-se até mesmo o apicultor põe a abelha a trabalhar maquinismo, ou seja, da inteligência
dizer que, esquecendo essa visão de li- (domesticando-a desde o neolítico). artificial, do digital e da ciência e suas
54 beração do trabalho e da figura huma- O que faz o apicultor? Em troca de aplicações, “a geração de riqueza de-
na do trabalhador e tentando encaixar serviço (uma colmeia, cuidado das pende menos do tempo de trabalho e
a era digital nos moldes da lei do valor, abelhas), ele consegue fazer com que da quantidade de trabalho utilizada do
obtemos justamente essa prisão ou es- a abelha trabalhe mais do que o neces- que da potência dos agentes mecâni-
cravidão digital. É Prometeu acorren- sário para ela, ou seja, o tempo de acu- cos movimentados durante o período
tado, não libertado. mular reservas de mel para alimentar de trabalho”.
a rainha e a progenitura da colmeia, e O que vemos no capitalismo cogni-
para o inverno também. Ao retirar os tivo? A captação, pelas plataformas
IHU On-Line – O senhor traba-
favos de mel preenchidos pelo traba- interativas instrumentadas pelo digi-
lha muito com a ideia de polini-
lho reprodutor das abelhas, o apicul- tal e pelos aplicativos em rede, das ex-
zação. Como esse seu conceito se
tor se apropria do mel e da cera e obri- ternalidades positivas provenientes da
associa com a ideia de “general
ga as abelhas a trabalharem além do polinização humana, da interação das
intellect”, de Marx?
que fariam sem a hábil predação hu- massas. Ou, se preferirem, o uso do
Yann Moulier Boutang – Come- mana. Labor improbus vincit omnia, trabalho produtivo de valor da parte
cei minha atividade intelectual e meu como diz Virgílio22. O dono da fábrica polinizadora da atividade humana.
engajamento deparando-me com o ou da oficina não faz um uso diferen- As Gafami descobriram o eldorado
trabalho que foge, se desloca, migra te do companheiro ou do empregado. das externalidades positivas graças
(o tema da minha tese foi a origem do Mas o que dizer da polinização, essa ao uso da ciência. As Gafa exploram
assalariamento, e escrevi trabalhos verdadeira atividade byproduct (pro- metodicamente e saqueiam com fre-
sobre as migrações internacionais), dução ligada) que a abelha realiza in- quência o imenso reservatório da pro-
a partir do Marx que já não era mais conscientemente? dução do vivente por meio do vivente.
nem jovem nem o cientista do Capi- Essas multinacionais são os conquista-
Pode-se falar de sobrevalia? Ela está
tal. O capitalismo cognitivo que co- dores do Novo Mundo digital.
ligada apenas indiretamente ao traba-
mecei a definir em 1999 (meu livro O
lho da abelha. No entanto, sabemos
capitalismo cognitivo foi publicado
hoje que o trabalho industrioso do
em 2007) me levou a esse texto do IHU On-Line – Como pode-
homem agricultor ou industrial que
fragmento sobre as máquinas, e pude mos, a partir dessas perspectivas
utiliza agrotóxico e adubos químicos
compreender melhor essa antecipação de Marx, pensar em construir,
para aumentar o rendimento agrícola
prodigiosa de Marx. de fato, a sociedade de justiça e
abundância?
Vamos partir da definição que Marx 22 Publius Vergilius Maro (70 a.C.-19 a.C.): mais conhe-
cido como Virgílio, é um poeta romano. (Nota da IHU
propõe da mais-valia, ou da sobreva- On-Line) Yann Moulier Boutang – A solu-

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ção seria canalizar toda essa poliniza- pelas grandes companhias do digital Uma renda suficiente para viver,
ção humana para a lei do valor, fazen- que exploram os rastros da interação equivalente ao salário mínimo, indivi-
do pagar por esse “trabalho invisível”? humana para alimentar as máquinas dual, incondicional, acumulável com
Todo o mundo assalariado, como pro- inteligentes. É mais no sentido de uma atividade assalariada ou comer-
põe Bernard Friot23? Não. Porque é so- uma renda existencial ou universal cial. Uma renda para liberar a força
mente uma pequena parte do trabalho da atividade humana do jugo cada vez
desvinculada de qualquer contrapar-
de polinização (e não o mais útil para mais opressor do trabalho doado em
tida de trabalho ou emprego que de- excesso a outrem ou de um trabalho
a humanidade) que é movimentada vemos buscar a solução para conter falsamente independente e fortemen-
23 Bernard Friot: é um sociólogo e economista francês
a colonização do vivente e da força te dependente do mercado (mundial),
nascido em16 de junho de 1946 em Neufchâteau (Vosges), de invenção cerebral pelas tecnolo- um patrão bem mais tirânico e intrusi-
professor emérito de Paris - Universidade de Nanterre (Pa-
ris X). (Nota da IHU On-Line) gias digitais. vo que o velho patrão paternalista.■

Leia mais
- O socialismo chinês e a equação desafiadora de Xi Jinping. Entrevista com Yann Mou-
lier-Boutang, publicada nas Notícias do Dia de 10-1-2018, no sítio do Instituto Humanitas
Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2LuWjCn.
- O poder das finanças e as estratégias para romper a crise sistêmica. Entrevista com
Yann Moulier-Boutang, publicada na revista IHU On-Line, número 492, de 5-9-2016, disponí-
vel em http://bit.ly/2mFUAMi.
- A financeirização e as mutações do capitalismo. Entrevista com Yann Moulier-Bou-
tang, publicada na revista IHU On-Line, número 468, de 29-6-2015, disponível em http://bit.
ly/2LLWjL5.
55
- “O sistema financeiro de mercado é como o sismógrafo desta crise”. Entrevista com
Yann Moulier-Boutang, publicada na revista IHU On-Line, número 301, de 20-7-2009, dispo-
nível em http://bit.ly/2LObmnH.
- A difícil tarefa de se mover na economia da complexidade. Entrevista especial com
Yann Moulier Boutang, publicada nas Notícias do Dia de 12-11-2016, no sítio do Instituto
Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2LLCkw7.
- A bioprodução. “O capitalismo cognitivo produz conhecimentos por meio de conheci-
mento e vida por meio de vida”. Entrevista especial com Yann Moulier Boutang publicada
na revista IHU On-Line, número 216, de 23-4-2007, disponível em http://bit.ly/2c00ntM

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TEMA DE CAPA

Impacto destrutivo do capitalismo já


é maior do que todas as destruições
anteriores da vida no planeta
Marildo Menegat, ao analisar a Revolução 4.0 e seus efeitos, destaca
que ela é um aprofundamento da Terceira Revolução Tecnocientífica
João Vitor Santos | Edição: Vitor Necchi

A
o analisar a Revolução 4.0 e seus do que dela resulta”. Para ele, não há
efeitos, Marildo Menegat desta- por que querer melhorar o trabalho se
ca que ela é um aprofundamento a situação for avaliada a partir de uma
da Terceira Revolução Tecnocientífica, perspectiva crítica dos fundamentos do
a da microeletrônica. “Ela amplia solu- capital. “Antes, o urgente seria superá
ções na elaboração de informações em -lo como atividade insana que tem leva-
alguns pontos que não eram ainda su- do a humanidade a saltar num abismo
ficientemente rentáveis para o capital, sem volta.” Ao citar as teorias do antro-
quando essa transformação tecnológica poceno, lembra que “o impacto destru-
iniciou-se nos anos 1950-60”, contex- tivo do capitalismo – e nisto seus fun-
tualiza em entrevista concedida por damentos, como o valor, o dinheiro e o
e-mail à IHU On-Line. “Na década de trabalho, estão implicados totalmente
56 1980, ela já era dominante na indústria – já é maior do que todas as destruições
automobilística em países como o Ja- anteriores da vida no planeta, que fo-
pão. Mas ainda faltava se desenvolver ram parciais, enquanto esta poderá ser
o robô, que poderia ser definido como total!”.
uma máquina com ‘órgãos de sentidos e Menegat aponta que o dado mais rele-
inteligência artificial’. Essas máquinas vante que emana da análise da história
– que parecem ‘quase humanos’ – são o recente do Brasil “é o desastre social
eixo central da Revolução 4.0.” medido em termos de desemprego –
Sobre os impactos da mudança tecno- sem esquecer o subemprego e todas as
lógica “que finalmente poderá substituir modalidades de precarização – e a vio-
o trabalho humano em larga escala em lência assombrosa presente nos núme-
atividades antes tão especializadas”, ou ros de homicídios e presos, nas guerras
mesmo a operação de “máquinas flexí- diárias em bairros da periferia que im-
veis de múltiplas tarefas numa linha de pedem que crianças possam estudar”.
produção de celulares”, projeta: será Para ele, “só considera que vivemos um
“um desastre que provavelmente não se tempo não catastrófico quem vive numa
completará em toda sua potencialidade bolha”. Ao aprofundar o entendimento
tecnocientífica”. Menegat acredita que dessa bolha, diz que “ter um emprego
“o próprio capitalismo, como sujeito com direitos assegurados se tornou um
automático, afundará totalmente na ca- privilégio”. E a esquerda tradicional,
tástrofe ‘algumas horas antes’, por falta “que tem seu ethos nesta bolha”, para
de condições para continuar simulando, ela se trata de lutar por “nem um direito
por meio do sistema financeiro, a pro- a menos”. Por outro lado, “para a massa
dução especulativa de novos valores que deserdada do lado de fora desta bolha,
sustentariam artificialmente estas fábri- a realidade crua é que o mundo do tra-
cas sem trabalho”. balho não tem mais vagas, e os direitos
Ao refletir sobre os efeitos da técnica, são uma garantia de previsibilidade que
Menegat afirma que, no essencial, ela nunca houve em suas vidas”.
“aumentou loucamente o sofrimento Menegat projeta que, até 2025, “os
psíquico necessário para os indivíduos efeitos da Revolução 4.0, juntamente
se adaptarem às suas tarefas e ao mun- com os novos capítulos da crise global,

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tornarão o cotidiano de nossas vidas e doutor em Filosofia pela Universidade


um verdadeiro inferno, dessa vez para Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Rea-
um número muito maior de pessoas”. lizou estágio pós-doutoral na Universi-
Ele cogita que a esquerda não está en- dade de São Paulo - USP. É professor no
tendendo isso, “portanto, é provável Núcleo de Estudos de Políticas Públicas
que, como em 2013, fique desarmada
em Direitos Humanos da UFRJ.
(ou alarmada?) diante do caos”.
Marildo Menegat é graduado, mestre Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como observa dade imperativa de valorização do A automação da fase anterior já
os impactos da chamada Revo- capital, que, como disse Marx, é colocara o ‘mundo do trabalho’ de
lução 4.0 na sociedade de nos- “o sujeito automático do processo joelhos, produziu no planeta inteiro
so tempo, especialmente no social”, portanto, uma estrutura o que a sociologia chamou de desem-
mundo do trabalho? impessoal (e cega) de dominação. prego estrutural. Pela primeira vez
Marx diz também que o capital é na história do capitalismo, se havia
Marildo Menegat – Podería-
a ‘verdadeira barreira da produção chegado a um limite absoluto na ca-
mos começar com esta expressão:
capitalista’. Com isso ele assinala- pacidade de o sistema criar empregos
“mundo do trabalho”; ela denota um
va o fato de que apenas o traba- produtivos – que são os que contam
mundo apartado da vida que tem lho vivo produz mais valor, mas, para a valorização do valor. As taxas
sua origem histórica no capitalismo. contraditoriamente, o regime de de desemprego passaram a ser muito
Ao mesmo tempo, o trabalho é uma concorrência do capitalismo obri- altas. Diante deste fato, num primei-
categoria fundamental da economia, ga os capitais individuais a redu- ro momento, os governos mexeram
que é, na verdade, esta esfera total se- zirem custos permanentemente. nos métodos de produzir as estatís-
57
parada da vida e que a determina. A As transformações tecnológicas, ticas. Formas de trabalho temporá-
gênesis desta esfera foi o processo de quando são de largas proporções rio, bicos e empregos degradantes,
violência espantosa da acumulação e mudam a matriz dos processos que na fase anterior de expansão do
primitiva de capital. Neste processo, de produção, fazem isso expelindo capitalismo não eram considerados
iniciado na Europa entre os séculos ‘do mundo do trabalho’ grandes empregos, passaram a ser agora uma
XIV e XVI, houve a imposição brutal quantidades de força de trabalho. mistura de empreendedorismo com
desta atividade como forma básica
A Revolução 4.0 é um aprofunda- emprego por conta própria! Essas
da socialização das modernas socie-
mento da Terceira Revolução Tec- estatísticas se fixam em perguntar se
dades produtoras de mercadorias. Se
nocientífica, a da microeletrônica. você tem alguma fonte de renda, não
se for além do momento fundamen-
Ela amplia soluções na elaboração importa em que condições. Porém,
talista dos debates sobre o trabalho,
de informações em alguns pontos somente isso não bastou. Foram ne-
frequente no campo do marxismo
que não eram ainda suficientemen- cessárias outras passadas de lebre,
tradicional e do pensamento liberal
te rentáveis para o capital, quando como o esforço permanente de se em-
iluminista, se poderá observar que
essa transformação tecnológica purrar as mulheres para o espaço do-
esta categoria não define nada além
iniciou-se nos anos 1950-60. A au- méstico, que voltou à cena no mun-
de uma atividade abstrata objetivada
tomação da fábrica fordista come- do inteiro. Basta prestar atenção na
da produção de valor, que é essencial
çou com a elaboração em tempo captura que deste fato fazem os po-
para a sustentação e continuidade da
real por meio de mecanismos ele- líticos de extrema direita. No Brasil
dinâmica e do sentido desta socieda-
trônicos de boa parte das infor- dos anos lulo-petistas, uma pesqui-
de, que se resume na transformação
mações necessárias ao processo sa mais rigorosa em suas perguntas
de dinheiro em mais dinheiro.
de produção. Na década de 1980, demonstrou que 39% da População
Não há, desta maneira, nenhu- ela já era dominante na indústria Economicamente Ativa não trabalha-
ma diferenciação qualitativa, no automobilística em países como va. As mães cuidavam da casa e dos
essencial, nas diferentes modali- o Japão. Mas ainda faltava se de- filhos, e estes estudavam até mais tar-
dades desta atividade. Tanto faz senvolver o robô, que poderia ser de – sem se falar dos que nem traba-
se se gasta energia humana pro- definido como uma máquina com lhavam nem estudavam. Com isso, os
duzindo pão, cadernos ou bombas ‘órgãos de sentidos e inteligência índices de desemprego andaram em
nucleares. Em todas elas, o centro artificial’. Essas máquinas – que baixa, pois essas pessoas pararam de
que as organiza não são as neces- parecem ‘quase humanos’ – são o procurar empregos e de pressionar
sidades humanas, mas a necessi- eixo central da Revolução 4.0. as estatísticas.

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TEMA DE CAPA

Você pergunta sobre os impactos mundial depois de 1929, em 1974- radoxalmente, quanto menos traba-
de uma mudança tecnológica que 75. Depois disso, a história social do lho vivo este capitalista usa para pro-
finalmente poderá substituir o tra- capitalismo foi uma ladeira abaixo duzir suas mercadorias, maior será o
balho humano em larga escala em dos padrões civilizatórios mínimos lucro que ele irá obter no mercado.
atividades antes tão especializadas, que tinha acumulado no pós-Guer- Por outro lado, o capitalista indivi-
como pilotar um avião ou atender a ra. Países inteiros, como a URSS, o dual que usa maior quantidade de
uma reclamação de um cliente por Brasil, o México etc., entraram em trabalho vivo (e produz quantidade
telefone, ou mesmo operar máqui- falência. Não se trata de mais uma maior de mais valor) corre o risco de
nas flexíveis de múltiplas tarefas das crises de superacumulação, mas perder a competição devido aos altos
numa linha de produção de celula- da crise em que se apresentou o li- custos de seus produtos, por isso ele
res. Será um desastre que provavel- mite lógico interno do capital e que é levado a se igualar ou superar seu
mente não se completará em toda o impede de continuar produzindo concorrente com novas tecnologias
sua potencialidade tecnocientífica. mais valor (Kurz2). O capitalismo – caso contrário, irá à falência.
O próprio capitalismo, como sujei- eliminou demasiadamente trabalho
Quanto mais os capitais individu-
to automático, afundará totalmente produtivo e perdeu a fonte excel-
ais são impelidos a poupar trabalho
na catástrofe ‘algumas horas antes’, sa de sua existência. Era nisto que
por meio da técnica, menos valor o
por falta de condições para continu- consistia a afirmação de Marx de
capital na sua totalidade irá produ-
ar simulando, por meio do sistema que ‘o modo de produção capitalista
zir. Natalie Moszkowska3 mostrou
financeiro, a produção especulativa encontra no desenvolvimento das
que, mesmo que as condições téc-
de novos valores que sustentariam forças produtivas uma barreira que
nicas para a mudança de um para-
artificialmente estas fábricas sem nada tem a ver com a produção de
digma tecnológico estejam dadas,
trabalho – observe a inversão sobre riqueza enquanto tal’.
esta mudança apenas será efetivada
a qual a economia se segura (por
se houver ao fim a garantia do capi-
um fio) desde os anos 1980. Tam-
IHU On-Line – De que forma tal fazer uma economia no mínimo
pouco este processo de colapso será
as revoluções tecnológicas im- igual ao seu custo. Dessa forma, ao
uma novidade, pois já está em curso
pactam o capitalismo? término de cada onda de acumula-
há muito tempo. O que teremos na
58 ção de capital, tivemos uma grande
próxima década é a sua aceleração. Marildo Menegat – O capitalis- crise de superacumulação e o início
Para se entender isso, é necessário mo é empurrado a revolucionar per- de uma revolução tecnológica que
explicar muito rapidamente a crise manentemente a técnica por razões iria mudar o patamar da taxa de
em que o capitalismo entrou desde sistêmicas. Estas revoluções são con- extração do mais valor (ou de sua
os anos 1970, justamente quando a sequências do regime de concorrên- massa) e procurar, com isso, inver-
revolução microeletrônica começou cia. Ao mesmo tempo que elas em- ter a tendência de queda da taxa de
a impactar negativamente na produ- purram o capital para superar suas lucro então em curso. A técnica é
ção absoluta de valor. barreiras internas da acumulação, um dos elementos essenciais neste
Trocando em miúdos, esses sin- depois de um certo tempo elas criam processo.
tomas começaram a aparecer entre barreiras maiores e intransponíveis
para esta mesma acumulação. A O primeiro campo em que estas
1971 e 75, quando o marco sinaliza-
concorrência se realiza por meio da novas tecnologias impactam é no
dor deste colapso se mostrou como
apropriação do mais valor produzido seu uso na inovação dos processos
uma virada epocal, com a sequência
por capitalistas individuais, mas, pa- de produção. A Segunda Revolução
que vai do fim do Acordo de Bret-
Tecnológica, iniciada no fim do sé-
ton Woods1 à crise do petróleo e,
2 Robert Kurz (1943-2012): sociólogo e ensaísta alemão, culo XIX, ao generalizar o uso dos
desta, à primeira grande recessão co-fundador e redator da revista teórica Krisis – Beiträge motores elétricos e a combustão,
zur Kritik der Warengesellschaft (Krisis – Contribuições
para a Crítica da Sociedade da Mercadoria). A área dos expulsaram enormes quantidades
seus trabalhos abrange a teoria da crise e da moderni-
1 Conferência de Bretton Woods: nome com que ficou zação, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a
de trabalhadores das linhas de pro-
conhecida a Conferência Monetária Internacional, realiza- crítica do Iluminismo e a relação entre cultura e economia. dução. Este desemprego massivo
da em Bretton Woods, no estado de New Hampshire, nos É autor de O Colapso da Modernização (Rio de Janeiro: Paz
EUA, em julho de 1944. Representantes de 44 países par- e Terra, 1993) e Os Últimos Combates (Petrópolis: Vozes, pode ser acompanhado pela história
ticiparam da conferência. Nela foi planejada a recupera- 1998). A IHU On-Line entrevistou Kurz na 98ª edição, de
ção do comércio internacional depois da Segunda Guerra 26 de abril de 2004, sob o título A globalização deve se
da imigração europeia para outros
Mundial e a expansão do comércio através da concessão adaptar às necessidades das pessoas, e não o contrário, dis- continentes neste período. Países
de empréstimos e utilização de fundos. Os representan- ponível em https://bit.ly/2LniuKM. Na edição 161, de 24
tes dos países participantes concordaram em simplificar de outubro de 25, Kurz concedeu a entrevista Novas rela- que se industrializavam justamente
a transferência de dinheiro entre as nações, de forma a ções sociais não podem ser criadas por novas tecnologias,
reparar os prejuízos da guerra e prevenir as depressões disponível em https://bit.ly/2uFPq6M. Confira, ainda, as
durante a segunda onda industriali-
e o desemprego. Concordaram também em estabilizar as entrevistas O trabalho abstrato se derrete como substância zante, forjada por estas novas técni-
moedas nacionais, de forma que um país sempre soubes- do sistema, publicada na edição 188 de 10-07-2006, dis-
se o preço dos bens importados. A Conferência de Bretton ponível em https://bit.ly/2L4D2rK, e O vexame da econo- cas, expatriaram grandes contingen-
Woods traçou os planos de dois organismos das Nações
Unidas – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mun-
mia da bolha financeira é também o vexame da esquerda
pós-moderna, publicada na edição 278 da IHU On-Line,
tes de sobrepopulação. Itália, Japão,
dial. O fundo ajuda a manter constantes as taxas de câm- de 21-10-2008, disponível em https://bit.ly/2NVy4LK. Leia
bio, além de socorrer países com crises nas suas reservas também uma entrevista sobre seu legado, concedida por
cambiais, como no caso do Brasil e da Rússia, em 1998. O Ricardo Antunes e Dieter Heidemann à IHU On-Line, inti-
banco realiza empréstimos internacionais a longo prazo tulada Um crítico da economia política, publicada na edi- 3 Natalie Moszkowska (1886-1968): economista nascida
e dá garantia aos empréstimos feitos através de outros ção número 400, de 27-08-2012, disponível em http://bit. em Varsóvia, na Polônia. Produziu contribuições significa-
bancos. (Nota da IHU On-Line) ly/NZa8ls (Nota da IHU On-Line) tivas à teoria marxista. (Nota da IHU On-Line)

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Alemanha – em menores propor- no Brasil, durante a ditadura do trair carvão, ou na indústria têxtil.
ções – ajudaram a criar as condições Estado Novo5, depois completado Sua função foi, desde sempre, como
de países como os Estados Unidos pela outra ditadura civil-militar6, disse Marx, um “meio de produção
formarem um exército industrial após 1964. Veja, estas revoluções de mais-valia”.
de reserva, que tornou viável a im- tecnológicas impactam não ape-
Se naturalizarmos o trabalho, que
plementação dos novos métodos de nas a acumulação de capital como
é um fundamento histórico da so-
organização do trabalho elaborados transtornam destrutivamente a
ciedade capitalista – e apenas dela
por Taylor e, posteriormente, apro- vida social.
–, tenderemos a achar que a técnica
fundados por Ford.
sorri para o trabalhador, pois sem-
Este processo poderia ter findado IHU On-Line – Imaginava-se pre requererá menos da sua força e
na grande crise geral do capitalismo que uma grande transformação atenção, até ao fim implicar na im-
entre 1914-45. Porém, como estas tecnológica seria capaz de me- possibilidade de este encontrar um
técnicas, num segundo momento, lhorar as condições de traba- emprego. Ela pode inclusive aju-
são usadas na inovação de produtos, lho. Mas não é isso que temos dá-lo a não sofrer acidentes graves,
criando novos ramos de produção e visto, pelo contrário: jornadas como queimaduras em aciarias, mas
permitindo ao capital novas oportu- ainda mais exaustivas e uso esta naturalização seria um horizon-
nidades de investimentos, com re- da tecnologia para aumentar te cultural demasiadamente pobre e
tornos muito lucrativos – como foi o a produção, além de restringir acrítico.
caso da massificação da produção do o acesso ao emprego a quem No essencial, a técnica aumentou
automóvel, dos eletrodomésticos e é menos preparado para esse loucamente o sofrimento psíqui-
toda produção de infraestrutura ne- mundo. Quais os desafios para co necessário para os indivíduos se
cessária para manter viável a expan- reverter esse quadro? adaptarem às suas tarefas e ao mun-
são do uso destes novos produtos,
Marildo Menegat – As ideologias do que dela resulta. Um exemplo li-
como, por exemplo, as autoestradas
da sociedade burguesa procuram mite são os trabalhadores de usinas
ou hidroelétricas ou a exploração de
adaptar as ideias às necessidades do nucleares que manuseiam o lixo ra-
petróleo –, foi possível se evitar o co-
capital. O conceito de progresso, por dioativo, ou os trabalhadores agríco-
lapso e realizar uma imponente ex- 59
exemplo, é uma abstração niilista, las que precisam manusear venenos
pansão da economia – que, diga-se
um vazio total de sentido, mas mo- altamente tóxicos. Nenhuma destas
de passagem, justamente chegou ao
veu mais montanhas do que Maomé técnicas melhoram a vida, mas am-
fim no início dos anos 1970.
poderia desconfiar. A máquina fas- bas contribuem para que o processo
Neste segundo momento do pro- cina o ideário social desde o século de destruição ecológica do planeta
cesso, o de inovação dos produtos, XIX. Poucos, no entanto, pensaram seja irreversível. Seria uma estupi-
se tende a reabsorver parte da mas- criticamente a sua origem. Este me- dez discutirmos estes temas em ter-
sa de trabalhadores dispensada canismo não tem a finalidade de me- mos de mais ou menos ou melhores
anteriormente durante a inovação lhorar a vida dura do trabalhador, empregos, quando no capitalismo
do processo de produção. No caso seja nas profundezas das minas de todo emprego, como disse acima,
do fordismo, estas transformações carvão, onde ela começou a ser usa- tem apenas a finalidade de acumular
foram tão profundas e exigiram da para bombear a água que impedia o capital.
tanta destruição para se efetiva- de se adentrar mais um pouco nas Se olharmos para estes fenômenos
rem que, de fato, produziram uma entranhas escuras da terra para ex- a partir de uma perspectiva crítica
mudança no modo de vida das so-
dos fundamentos do capital, não há
ciedades que passaram por essa 5 Estado Novo: período autoritário da história do Brasil,
por que querer melhorar o traba-
modernização – basta lembrar que que durou de 1937 a 1945. Foi instaurado por um golpe
de Estado que garantiu a continuidade de Getúlio Vargas à lho. Antes, o urgente seria superá
o fordismo foi introduzido na Ale- frente do governo central, recebendo apoio de importan-
tes lideranças políticas e militares. (Nota da IHU On-Line) -lo como atividade insana que tem
manha, de maneira mais substan- 6 Golpe de 1964: movimento deflagrado em 1º de abril levado a humanidade a saltar num
tiva, durante o nazismo, na Rússia de 1964. Os militares brasileiros, apoiados pela pressão
internacional anticomunista liderada e financiada pelos abismo sem volta. As teorias do an-
após a revolução soviética4, espe- Estados Unidos, desencadearam a Operação Brother Sam,
que garantiu a execução do golpe, que destituiu do poder tropoceno mostram que o impacto
cialmente no período stalinista, e, o presidente João Goulart, o Jango. Em seu lugar, os mi- destrutivo do capitalismo – e nisto
litares assumiram o poder e se mantiveram governando
o país entre os anos de 1964 e 1985. Sobre a ditadura de seus fundamentos, como o valor, o
4 Revolução Russa: série de eventos políticos na Rússia 1964 e o regime militar, o IHU publicou o 4º número dos
que, após a eliminação da autocracia russa e depois do Cadernos IHU em Formação, intitulado Ditadura 1964. dinheiro e o trabalho, estão implica-
Governo Provisório (Duma), resultou no estabelecimento A memória do regime militar, disponível em https://goo. dos totalmente – já é maior do que
do poder soviético sob o controle do partido bolchevi- gl/a4e8VX. Confira, também, as edições nº 96 da IHU On
que. O resultado desse processo foi a criação da União -Line, intitulada O regime militar: a economia, a igreja, a todas as destruições anteriores da
das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, que durou imprensa e o imaginário, de 12 de abril de 2004, disponível
até 1991. A revolução compreendeu duas fases distintas: a em https://goo.gl/a2yUBr; nº 95, de 5 de abril de 2005,
vida no planeta, que foram parciais,
Revolução de Fevereiro de 1917, que derrubou a autocra- 1964 – 2004: hora de passar o Brasil a limpo, disponível em enquanto esta poderá ser total!
cia do Czar Nicolau II, o último czar a governar, e procurou https://goo.gl/cU7FEV; nº 437, de 13 de março de 2014,
estabelecer em seu lugar uma república de cunho liberal, Um golpe civil-militar. Impactos, (des)caminhos, processos,
e a Revolução de Outubro, na qual o Partido Bolchevique, disponível em https://goo.gl/gXbCaL; e nº 439, de 31 de Um outro aspecto em que as trans-
liderado por Vladimir Lênin, derrubou o governo provisó- março de 2014, Brasil, a construção interrompida – Impac- formações tecnológicas produzem
rio e impôs o governo socialista soviético. (Nota da IHU tos e consequências do golpe de 1964, disponível em ht-
On-Line) tps://goo.gl/wENVN6. (Nota da IHU On-Line) um impacto regressivo é na socia-

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

bilidade. Como essas transforma- da. Talvez porque as reivindica- direito a menos’. Mas para a massa
ções são determinadas por razões ções, o modo de organização do deserdada do lado de fora desta bo-
sistêmicas, tais como o regime de MPL [Movimento Passe Livre] – lha, a realidade crua é que o mundo
competição e o estado que este atin- um grupo autonomista, a léguas do trabalho não tem mais vagas, e os
giu historicamente, elas vão influir de qualquer manual leninista – e direitos são uma garantia de previ-
na socialização, já que esta, no ca- o público a quem era dirigido o sibilidade que nunca houve em suas
pitalismo, se funda na produção de protesto criavam dificuldades de vidas. Se você insistir em recons-
mercadorias, o que exige que todos serem apreendidos numa lógica de tituir este mundo, a esta altura um
se transformem em sujeitos mone- luta de classes. Principalmente de- ideal, de empregos e direitos, é bom
tários (Kurz). Contudo, tal imposi- pois dos ‘20 centavos a menos’ não saber que a matéria que o susten-
ção, realizada por meio do trabalho, serem mais a razão dos protestos. tava, ou seja, a capacidade do capi-
entrou em crise junto com o capital Esta esquerda estava deslumbrada talismo se expandir com vigor sob
no fim do século XX, e o desenvol- com o Estado, convencida de uma uma produção real de novo valor por
vimento das técnicas da microeletrô- sobreavaliação do legado dos go- meio de empregos produtivos, se ne-
nica estão na origem deste fato. vernos lulo-petistas, e considerava gará a ceder às ordens do programa.
que as massas estavam satisfeitas Por isso, se criam dois universos. A
A partir deste momento, todas as
com as conquistas desse perío- ilha dos bem-aventurados, que que-
conquistas de direitos começaram
do. Portanto, se não há uma crise rem eterno seu mundo – coxinhas
a ser ameaçadas. A reprodução so-
social grave nos moldes do mun- à frente (mas não somente, se me
cial se tornou um gigantesco estorvo
do do trabalho sob ataque, qual o faço entender!) –, e o continente dos
para uma economia incapaz de am-
sentido de protestos tão amplos e desvalidos e outros tipos resultantes
pliar a base da produção de valor e,
difusos como os daquele momen- das desgraças em curso. Por esta e
no mesmo ato, ficou fortemente reti-
to? Não obstante, esta foi a maior outras, não é mais possível agirmos
cente em permitir aumentos de im-
onda de manifestações populares dentro de um quadro de referências
postos para sustentar e ampliar estes
desde os anos 1980, e ela se deu de relações sociais que estão des-
direitos. Desde então, o mundo do
durante um governo de esquerda! moronando, achando que está tudo
trabalho colapsado passou a ser uma
bem, como se nada de muito grave
60 sucursal do horror que assola a so- Se analisarmos a história recente
estivesse acontecendo.
ciedade na sua totalidade. Dentro de do Brasil, o dado mais relevante é
uma fábrica ou em qualquer posto o desastre social medido em termos Desse modo, a fração mortadela
de trabalho, a pressão para manter de desemprego – sem esquecer o su- do embate clássico que sucedeu aos
a fonte de monetarização dos indiví- bemprego e todas as modalidades acontecimentos de 2013 se aferra em
duos é um sarcástico sistema de sa- de precarização – e a violência as- defender as conquistas de governos
crifícios, cada vez mais inconcebível sombrosa presente nos números de que se pautaram em fazer o que eu
e insuportável, enquanto no lado de homicídios e presos, nas guerras di- chamo de uma bem sucedida ‘gestão
fora das empresas, para a massa de árias em bairros da periferia que im- da barbárie’. Para isso foram desen-
desempregados, a vida simplesmen- pedem que crianças possam estudar; volvidas técnicas de governabilida-
te acabou – ao menos nos moldes de enfim, só considera que vivemos um de social (bolsa família, programa
uma sociabilidade fundada no valor. tempo não catastrófico quem vive de erradicação do trabalho infantil,
numa bolha. pontos de cultura etc.) que poderiam
ser pensadas como escoras para
IHU On-Line – As lutas por Pois bem, esta bolha pode ser habi-
manter em pé um mundo que desa-
melhores condições de traba- tada por uma espécie de privilegia-
bou. Enquanto ainda há oxigênio na
lho sempre foram pauta da dos que não poderiam ter imaginado
ilha dos bem aventurados, este setor
chamada esquerda. No contex- este inusitado destino anos atrás.
mantém sua solidariedade com os
to da Revolução 4.0, a esquerda Mas a verdade é que ter um empre-
do continente selvagem, defendendo
compreendeu a emergência da go com direitos assegurados se tor-
estas políticas públicas que, por si-
atualização dessa sua luta? nou um privilégio. Para a esquerda
nal, depois do estouro da verdadeira
tradicional, que tem seu ethos nesta
Marildo Menegat – O que era bolha, a da especulação com os pre-
bolha, trata-se de lutar por ‘nem um
a esquerda nas manifestações de ços das commodities, que tornou vi-
Junho de 2013? A esquerda tra- ável o ‘nunca antes’ dos governos de
dicional – entendida na chave reinterpretação radical da teoria crítica de Karl Marx, prin- 2003 a 2012, estas políticas públicas
conceitual (crítica) proposta por
cipalmente de O Capital e dos Grundrisse. Também inves- não puderam mais ser sustentadas –
tigou a relação entre capitalismo e antissemitismo, com
Postone 7 – chegou tarde à aveni- fundamento na forma-mercadoria e no trabalho abstrato. o que explica a guinada do consen-
Postone foi influenciado, em sua interpretação, pelo livro
História e consciência de classe, de Georg Lukács, pelos
so anterior, no qual sequer existia
teóricos do Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt oposição, para a defesa aberta desta
7 Moishe Postone (1942-2018): nascido no Canadá, foi (onde estudou de 1976 a 1982) e por marxistas hetero-
professor de história na Universidade de Chicago. Co- doxos como Sohn-Rethel, Isaak Rubin e Roman Rosdolsky. realidade temerosa e suas reformas
nhecido tanto por sua interpretação do antissemitismo Influenciou profundamente os teóricos da crítica do valor
moderno quanto por sua reinterpretação da teoria crítica (Anselm Jappe, Robert Kurz, Norbert Trenkle), assim como
regressivas. Até 2025, os efeitos da
marxista. Em seu livro Time, Labor and Social Domination: outros intérpretes de Marx, como Antoine Artous. (Nota Revolução 4.0, juntamente com os
A reinterpretation of Marx’s critical theory, propõe uma da IHU On-Line)

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novos capítulos da crise global, tor- maquínico da tecnologia sobre Você fala em ‘avanço maquínico
narão o cotidiano de nossas vidas a vida? sobre a vida’. Fico pensando o quão
um verdadeiro inferno, dessa vez distante de uma reflexão crítica da
Marildo Menegat – Marx fala de
para um número muito maior de esquerda estão as experiências do
um necessário metabolismo entre
pessoas. Não sei se a esquerda está socialismo real, em que este avan-
sociedade e natureza. O marxismo
entendendo isso, portanto, é prová- ço produziu uma modalidade de
tradicional, seguindo seu modelo,
vel que, como em 2013, fique desar- vida moderna soterrada no mais
que é o Iluminismo – lembrando que
mada (ou alarmada?) diante do caos. violento tédio, quando não, em té-
este foi a forma mais elevada do pen-
dio, medo e extermínio em massa.
samento burguês –, compreendeu
A escritora Svetlana Aleksiévitch9,
IHU On-Line – Todas as re- esta questão de modo trans-históri-
no seu livro O fim do homem so-
voluções tecnológicas promo- co, tomando o trabalho da sociedade
viético, traz testemunhos dessa
veram rupturas e mudaram as moderna como atividade universal
experiência de tirar o fôlego, que
formas de vida em sociedade. existente desde sempre em todas as
não podemos deixar que se tornem
Mas, nesse aspecto, no que as sociedades anteriores e, por conse-
obscuros novamente. Uma crítica
transformações advindas da guinte, eixo central de construção
ao capitalismo não pode ser fei-
Revolução 4.0 se diferenciam do socialismo. Mas o trabalho, como
ta a partir da absurda proposição
das revoluções tecnológicas an- explica Marx no caráter fetichista da
de que este impede o desenvolvi-
teriores? mercadoria, é uma atividade abstra-
mento das forças produtivas, mas
ta característica do capitalismo, que
Marildo Menegat – A inovação de que estas, assim como o senti-
torna possível a mediação social ‘na
do processo de produção que a mi- do geral da sociedade moderna, é
forma fantasmagórica de uma rela-
croeletrônica criou, ainda no final do uma poderosa força de destruição
ção entre coisas’. O fetichismo que
século XX, expulsou do mundo do contra a qual a humanidade preci-
adere aos produtos do trabalho não
trabalho um contingente gigantesco sa urgentemente se levantar.
é uma ideologia, no sentido de uma
de pessoas. No segundo momento, falsa consciência, mas a própria for-
o da inovação de produtos que esta ma objetivada desta atividade. Por- IHU On-Line – A Revolução 4.0
técnica possibilitava, como a pro- tanto, se esta atividade, que é um dos
dução de computadores, celulares e
coloca em xeque conceitos como 61
fundamentos da sociedade produto- liberdade, tornando os seres hu-
todo tipo de máquinas da Revolução ra de mercadorias, não for negada manos cada vez menos autode-
agora chamada de 4.0, não houve radicalmente, continuaremos a viver terminados? De que forma?
condições para se absorver mais do num tempo em que ‘as coisas gover-
que uma minúscula fração dessa narão os homens’, e todos os horro- Marildo Menegat – Um dos
massa dispensada no momento an- res dos movimentos inconscientes mitos fundadores do pensamen-
terior. Todos estes produtos novos do ‘sujeito automático’ serão lógica to de adaptação às condições de
são fabricados com máquinas que e historicamente necessários, inclu- vida da sociedade moderna é o
utilizam estas tecnologias superpou- sive o fim do mundo – para onde nos de livre arbítrio. Spinoza10, mui-
padoras de força de trabalho. Dife- encaminhamos. to lucidamente, mostrou que esta
rente do fordismo, essas mudanças ficção formulada por Descartes11
não criaram mecanismos de com- A crítica à técnica sempre gozou
pensação capazes de evitar a tendên- de pouco prestígio no Ocidente. Os 9 Svetlana Aleksiévitch (1948): escritora e jornalista com

cia de crise do capitalismo, abrindo indivíduos completamente assujei- cidadania bielorrussa, nascida na Ucrânia. Ganhou o Nobel
de Literatura de 2015. A sua obra é uma crônica pessoal da
uma longa onda de expansão da tados às leis da economia política história de mulheres e homens soviéticos e pós-soviéticos,
a quem entrevistou para as suas narrativas durante os mo-
acumulação. As distopias de ficções têm dificuldades de pensar para fora mentos mais dramáticos da história do seu país, como a

científicas ao estilo de Philip Dick8 da gaiola de aço que os protege de Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Afeganistão, a que-
da da União Soviética e o desastre de Chernobyl. Abando-
tornaram-se atuais: ferramentas hi- um mundo melhor. Não se trata de nou a Bielorrússia em 2000 e viveu em Paris, Gotemburgo
e Berlim. Em 2011, voltou a Minsk. No Brasil, lançou pela
gh-tech em plena barbárie. uma crítica à técnica tout court, mas editora Companhia das Letras O fim do homem soviético,
de um critério radical para se pen- A guerra não tem rosto de mulher e Vozes de Tchernóbil.
(Nota da IHU On-Line)
sar o que dela ainda pode sustentar 10 Baruch Spinoza (ou Espinosa, 1632–1677): filósofo
holandês. Sua filosofia é considerada uma resposta ao du-
IHU On-Line – Quais os li- a emancipação humana. Até hoje, alismo da filosofia de Descartes. Foi considerado um dos
mites de apostar no trabalho a técnica esteve totalmente subme- grandes racionalistas do século 17 dentro da Filosofia Mo-
derna e o fundador do criticismo bíblico moderno. Con-
como uma forma de humaniza- tida às necessidades do capital e, fira a edição 397 da IHU On-Line, de 6-8-2012, intitulada
Baruch Spinoza. Um convite à alegria do pensamento, dis-
ção e de fazer frente ao avanço portanto, foi muito mais um fator ponível em https://goo.gl/GEGuI5. (Nota da IHU On-Line)
de produção de mais-valia do que 11 René Descartes (1596-1650): filósofo, físico e matemá-
tico francês. Notabilizou-se sobretudo pelo seu trabalho
uma força emancipatória. Em outras revolucionário da Filosofia, tendo também sido famoso
8 Philip Dick (1928-1982): também conhecido pelas ini-
ciais PKD, de Philip Kindred Dick, foi um escritor ameri-
palavras, ela foi um instrumento de por ser o inventor do sistema de coordenadas cartesiano,
que influenciou o desenvolvimento do cálculo moderno.
cano de ficção científica que alterou profundamente este destruição e opressão imanente ao Descartes, por vezes chamado o fundador da filosofia e da
gênero literário. Apesar de pouco reconhecido em vida, a matemática modernas, inspirou os seus contemporâneos
adaptação de vários dos seus romances ao cinema acabou mundo do trabalho, e não uma força e gerações de filósofos. Na opinião de alguns comenta-
por tornar a sua obra conhecida de um vasto público, sen- impulsionadora de uma revolução dores, ele iniciou a formação daquilo a que hoje se chama
do aclamado tanto pelo público como pela crítica. (Nota de racionalismo continental (supostamente em oposição à
da IHU On-Line) contra o trabalho. escola que predominava nas ilhas britânicas, o empirismo),

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TEMA DE CAPA

era uma perda de realidade, e não mas abstratas das relações sociais era um fenômeno negativo que
a compreensão mais ampliada da – justamente aquelas que se reali- colocava em questão a concepção
nova realidade. Mas havia no fun- zam por meio de coisas e, para isso, de que, na sociedade moderna,
do algo novo e difícil de ser expres- devem abstrair a existência de se- somos livres. Na obra madura de
so conceitualmente na experiência res humanos concretos que se en- Marx, a crítica a esta condição de
daquele tempo, que ambos autores contram diante destas relações. No i-liberdade é um dos aspectos cen-
procuraram entender: como expli- capitalismo, em que as leis do ca- trais e mais profundos de sua crí-
car esta estrutura oculta que domi- pital são este modo de dominação tica da economia política. Portan-
nava a vida social? impessoal, com leis férreas pró- to, se não aderimos às ideologias
prias (Postone), falar de liberdade de adaptação justificadoras deste
Na nascente sociedade produto-
em abstrato é repetir Descartes e tempo histórico, o capital é uma
ra de mercadorias, este domínio
esperar milagres do livre arbítrio. forma de dominação inconscien-
condicionava violentamente o es-
Este foi um problema filosófico te e, quando se fala de emancipa-
paço de escolhas dos indivíduos.
importante também para Hegel13. ção humana, é contra esta forma
Tal condicionamento obedecia a
De um lado ele repetiu Descartes: histórica específica de dominação
uma forma impessoal que, na fal-
a sociedade burguesa tende a ser que a crítica deve se dirigir.
ta de conceitos mais claros, ambos
formalmente uma sociedade de ho-
chamaram – ao seu modo – de o Dito isso, ainda resta compreen-
mens e mulheres livres (desde que
mundo criado por Deus. A dife- dermos o papel particular da téc-
tenham dinheiro ou alguma merca-
rença deste conceito em Descartes nica na vigilância e no controle da
doria para vender – como a força
e Spinoza ocorre porque aquele vida dos indivíduos. Se as relações
de trabalho), mas, por outro lado,
tomou o mundo condicionado na sociais já são de i-liberdade, este
como não concordar com Spinoza
perspectiva do dinheiro, e teori- aparato técnico não é a diferen-
de que nossos atos são frequente-
zou as condições de possibilidade ça, o que nos prende, mas o modo
mente alheios à vontade e à com-
de existência do sujeito monetário em que esta prisão é realizada na
preensão última de seu sentido,
(que, não por acaso, é o sujeito da época do pleno desenvolvimento
impelidos por imperativos obje-
modernidade). O dinheiro – que de suas forças produtivas – que
tivados nas próprias relações so-
62 é a essência do capital e possui as são, além de destrutivas, formas
ciais? Movidos por deliberações
mesmas características de onipo- poderosas de controle. A inteli-
individualistas, como estamos cer-
tência, onipresença etc. que um dia gência artificial, que está sendo
tos de que o seu resultado será o
o conceito de Deus também pos- desenvolvida como parte da Revo-
bem comum, que, na chave do filó-
suiu –, na aparência, permite um lução 4.0, precisa da contribuição
sofo alemão, significa um mundo
espaço de escolhas – falso, diga-se inconsciente e voluntária de todas
mais racional?
desde já – que torna a liberdade as pessoas para captar seus conte-
uma de suas virtudes, no entanto, Hegel tentou salvar o mito da li- údos. Ao usarem as redes sociais,
compartilhada apenas com quem berdade do indivíduo na socieda- todos estão dando informações va-
o possui particularmente. Mas o de burguesa, mesmo que ao preço liosas sobre suas vidas, seu entor-
dinheiro, depois de passar pela de reconhecer o fenômeno da alie- no, suas ideias, seus hábitos – que
necessária encarnação no mundo nação, que para ele era um preço passam a ser ‘previstos’ pelo mer-
dos homens, precisa voltar ao seu necessário a ser pago por tal con- cado e o Estado –, enfim, criam os
movimento teleológico de se multi- quista histórica. Lembro muito su- limites sobre os quais cada passo
plicar abstratamente – movimento mariamente que Marx iniciou sua pode ser acompanhado pelo Big
este que submete o destino de to- teoria crítica do capitalismo justa- Brother.
dos, tenham eles dinheiro ou não. mente se opondo a esta apreciação
Na cidade de Londres, uma pessoa
da alienação, nos conhecidos Ma-
Observe como há uma teologia pode ser filmada até 300 vezes ao
nuscritos Econômico-filosóficos
negativa por detrás das leis da eco- longo do dia! Um celular no bolso
de 1844 14. Para ele, a alienação
nomia política, que permite o que é garantia de localização imediata
Alfred Sohn-Rethel12 fez, que foi – não se assuste se gentilmente um
13 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831): filóso-
demonstrar o quanto as categorias fo alemão idealista. Como Aristóteles e Santo Tomás de
aplicativo lhe sugerir ‘uma paquera’
da filosofia moderna, em particular Aquino, desenvolveu um sistema filosófico no qual esti- que passou ao seu lado ou um res-
vessem integradas todas as contribuições de seus princi-
a kantiana, são oriundas das for- pais predecessores. Sobre Hegel, confira a edição 217 da taurante para almoçar na região em
IHU On-Line, de 30-4-2007, disponível em https://goo.gl/
m0FJnp, intitulada Fenomenologia do espírito, de (1807-
2007), em comemoração aos 200 anos de lançamento
posição filosófica dos séculos 17 e 18 na Europa. (Nota da dessa obra. Veja ainda a edição 261, de 9-6-2008, Carlos da União Soviética. Os cadernos são uma expressão ini-
IHU On-Line) Roberto Velho Cirne-Lima. Um novo modo de ler Hegel, dis- cial da análise de Marx da economia, principalmente de
12 Alfred Sohn-Rethel (1899-1990): economista e filóso- ponível em https://goo.gl/D94swr; Hegel. A tradução da Adam Smith, e crítica da filosofia de G. W. F. Hegel. Os
fo marxista alemão nascido na França, especialmente in- história pela razão, edição 430, disponível em https://goo. cadernos cobrem uma ampla gama de tópicos, incluin-
teressado em epistemologia. Ele também escreveu sobre gl/62UATd e Hegel. Lógica e Metafísica, edição 482, dis- do propriedade privada, comunismo e dinheiro. Eles são
a relação entre a indústria alemã e o nacional-socialismo. ponível em https://goo.gl/lldAkv. (Nota da IHU On-Line) mais conhecidos por sua expressão inicial do argumento
Autor de Intellectual and manual labour: a critique of epis- 14 Manuscritos Econômico-filosóficos de 1844: série de Marx de que as condições das sociedades industriais
temology (Atlantic Highlands, N.J : Humanities Press, 1977) de notas escritas entre abril e agosto de 1844 por Karl modernas resultam no distanciamento (ou alienação) dos
e Economy and class structure of German fascism (London, Marx. Não publicado pelo autor durante sua vida, foram trabalhadores assalariados da própria atividade/trabalho
CSE Books, 1978) (Nota da IHU On-Line) lançados pela primeira vez em 1932 por pesquisadores de sua vida. (Nota da IHU On-Line)

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que você passeia ou um museu para todos os que com ela mantêm uma tradicionais da política, entendida
você exercitar pela enésima vez a relação ambígua. como a luta pelo poder do Estado,
insensibilidade que este tipo de so- pois não há como se suprimir a do-
ciedade requer como uma premissa minação do capital sem se suprimir
básica de sobrevivência: estes são
modos de demonstração do senti-
“As ideologias a forma de dominação do Estado.

do articulado entre i-liberdade das da sociedade Marx, ao comentar os aconteci-


mentos da Comuna de Paris 17 de
relações sociais com técnicas refina-
díssimas de controle. burguesa 1871, deu importância central para
as iniciativas de desmonte do apa-
Tenho acompanhado vez ou outra
a esquerda tradicional exercitando
procuram rato de poder apartado da socieda-
de. A ideia de uma sociedade au-
seu desprezo pelo pensamento crí-
tico e requentando conceitos, como
adaptar as togovernada ainda pulsa forte em
nossa época. O lugar da natureza,
o de fascismo. Mas veja, Hitler15
não tinha na sua época um décimo
ideias às de objeto a ser dominado, no so-
ciometabolismo do capital, preci-
desta parafernália que as democra-
cias possuem hoje em dia. Um go-
necessidades sará ser revisto com muita radica-
lidade. A ruptura metabólica que o
verno como o de Trump ou Putin já do capital” capital produz em sua sujeição da
mostraram como são ativos no uso natureza criou uma paisagem de
destas informações para sustentar destruição que o máximo que po-
democraticamente seus regimes de IHU On-Line – Essa revolução deremos fazer no futuro será mi-
exceção. Nas denúncias de Snow- tecnológica que vivemos au- tigá-la, na espera de que, como diz
den16, o governo de Obama não se menta a barbárie vivida após a André Villar Gomez18, uma consci-
saía melhor. O estado de exceção Modernidade? Como enfrentar ência de responsabilidade com um
desta época será muito pior e mais esse estado de barbárie? mundo a ser legado às futuras ge-
destrutivo do que qualquer experi- rações nos faça ser capazes de nos
ência monstruosa do passado, e a Marildo Menegat – Se não usar- modificarmos tão profundamente
mos o conceito de barbárie como 63
técnica será sua aliada, assim como que ‘o tempo do fim’ se torne fi-
mero adjetivo de coisas ruins que nalmente um instante de lucidez
acontecem ou nos cercam, mas como incontornável. Depois disso, o ca-
15 Adolf Hitler (1889-1945): ditador austríaco. O termo
Führer foi o título adotado por Hitler para designar o chefe um esforço de compreensão subs- pitalismo precisará soar como o
máximo do Reich e do Partido Nazista. O nome significa tantiva da realidade, de sua dinâmi-
o chefe máximo de todas as organizações militares e po- verdadeiro absurdo que é. ■
líticas alemãs, e quer dizer “condutor”, “guia” ou “líder”. ca cega de colapso, não a revolução
Suas teses racistas e antissemitas, bem como seus obje-
tivos para a Alemanha, ficaram patentes no seu livro de técnica em si, mas ela como uma
1924, Mein Kampf (Minha luta). No período da ditadura
de Hitler, os judeus e outros grupos minoritários conside-
parte imanente da lógica da acumu-
rados “indesejados”, como ciganos e negros, foram perse- lação de capital, isso aprofundará o
guidos e exterminados no que se convencionou chamar
de Holocausto. Cometeu o suicídio no seu Quartel-Gene- processo de desintegração em que
ral (o Führerbunker) em Berlim, com o Exército Soviético vivemos, sem volta, desde o início de 17 Comuna de Paris: é um período insurrecional na his-
a poucos quarteirões de distância. A edição 145 da IHU tória de Paris, que durou pouco mais de dois meses, de 18
On-Line, de 13-6-2005, comentou, na editoria Filme da sua crise estrutural nos anos 1970. de março de 1871 até a “Semana Sangrenta” de 21 a 28
Semana, a obra dirigida por Oliver Hirschbiegel A Que- maio de 1871. Esta insurreição contra o governo foi uma
da – as últimas horas de Hitler, disponível em https://goo.
Uma saída seria nos descondicionar- reação à derrota francesa na guerra franco-prussiana de
gl/Diukrq. A edição 265, intitulada Nazismo: a legitimação mos o máximo possível desta forma 1870. (Nota da IHU On-Line)
da irracionalidade e da barbárie, de 21-7-2008, trata dos 18 André Villar Gomez: graduado em Educação Física
75 anos de ascensão de Hitler ao poder, disponível em social, pensando modos de sociabi- pela Universidade Gama Filho e em Filosofia pela Univer-
https://goo.gl/rhIz3l. (Nota da IHU On-Line) sidade do Estado do Rio de Janeiro, mestre em Filosofia
16 Edward Snowden (1983): analista de sistemas, ex-fun-
lidade que suprimam a produção de pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e
cionário da CIA e da NSA, a Agência de Segurança Nacio- mercadorias e a necessidade impe- doutor em Serviço Social pela Universidade Federal do
nal dos Estados Unidos. Tornou-se conhecido por revelar Rio de Janeiro. Na sua tese, estudou o problema da cri-
detalhes do sistema de Vigilância Global norte-americano. rativa de dinheiro. A transição para se estrutural do capitalismo e os impactos destrutivos do
Sobre o tema, acesse Abandonar Snowden é uma causa este outro tipo de vida emancipada metabolismo capitalista sobre a natureza: aceleração da
indigna. Entrevista especial com Sérgio Amadeu, no de 19- pilhagem ecológica, produção destrutiva (com destaque
12-2013, disponível em http://bit.ly/ihusnowden, no sítio não poderá se realizar pelos meios para a economia política da guerra) e a produção de um
do IHU. (Nota da IHU On-Line) mundo pós-natural. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

A potência da concepção de uma


economia para além dos números
Para Andrea Fumagalli, as teorias de Marx se mantêm atuais para
analisar a realidade de hoje porque concebem uma Ciência
Econômica recheada de Filosofia e epistemologia
João Vitor Santos | Tradução: Moisés Sbardelotto

O
economista italiano Andrea de hoje, bem como as movimentações
Fumagalli é daqueles que cre- do capital nesses cenários. “Com o ad-
em que o pensamento de Karl vento do capitalismo biocognitivo, que
Marx ainda serve como subsídio para é uma extensão do capitalismo cogni-
análises das dinâmicas do século XXI. tivo, em que a vida humana inteira é
Mas, para ele, tão importante quanto transformada em valor, entramos em
apreender as elaborações do autor, é uma nova fase da relação capital-traba-
observar o que o faz chegar até elas. “A lho”, indica.
atualidade de Marx está no fato de que Andrea Fumagalli é doutor em
ele nos lembra que todo economista, Economia Política pela Università Boc-
principalmente hoje, deveria ter uma coni e Università Cattolica di Milano,
sólida base filosófica e epistemológi- Milão, graduado em Economia e Ciên-
ca. Infelizmente, hoje, vigora a regra cias Sociais pela mesma instituição e
64 oposta”, aponta. Ou seja, concebendo posteriormente desenvolveu atividades
a economia não como algo estanque e de pesquisa em parceria com a École
duro, se é capaz de avançar as análises des Hautes Études en Sciences Socia-
diante de transformações mais contem- les, em Paris, e a New School for Social
porâneas. “Não existem leis imanentes Research (Nova York). Professor no
na economia política. A atual metafísi- Departamento de Economia Política e
ca econômica (imposta pelo neolibera- Método Quantitativo da Faculdade de
lismo) não faz sentido”, dispara. E, na Economia e Comércio da Università di
entrevista concedida por e-mail à IHU Pavia, Itália. Entre suas publicações,
On-Line, acrescenta: “a análise de destacamos a edição em espanhol do
Marx (mas não em todo o marxismo) é livro Bioeconomia y capitalismo
uma análise ‘humanista’”. cognitivo (Madri: Traficantes De
É, por exemplo, o caso da “teoria do Sueños, 2010), a edição em inglês do
valor” que, embora pensada por Marx livro Cognitive Capitalism, Wel-
num contexto específico, mantém li- fare and Labour: The Commonfa-
nhas de fuga capazes de fazer avançar re Hypothesis (Londres: Routledge,
as análises em outros cenários. “A te- 2010) e o artigo O conceito de sub-
oria tradicional do valor do trabalho sunção do trabalho ao capital:
deve ser revista em relação a uma nova rumo à subsunção da vida no ca-
teoria do valor, em que o conceito de pitalismo biocognitivo, publicado
trabalho é cada vez mais caracterizado no Cadernos IHU ideias número 246,
por ‘conhecimento’, ‘reprodução social’ disponível em http://bit.ly/2L13Ucs.
e é permeado pela vida humana e pelo Em 2017, publicou Economia poli-
tempo de vida. Podemos chamar essa tica del Comune. Sfruttamento e
passagem como a transição a uma te- sussunzione nel capitalismo bio-
oria do valor-vida”, analisa. Fumagalli cognitivo [Economia política do Co-
ainda observa que a matriz marxiana mum. Exploração e subsunção no ca-
pode ser empregada como instrumental pitalismo biocognitivo] (Roma: Derive
para observar os avanços da biotecno- Approdi, dezembro de 2017).
logia nos contextos sociais e produtivos Confira a entrevista.

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

“A análise de Marx (mas


não em todo o marxismo) é
uma análise ‘humanista’”

IHU On-Line – Quais os li- Infelizmente, hoje, vigora a regra o termo capitalismo designa a
mites e as potencialidades das oposta. permanência, na metamorfose,
ideias marxistas para orientar das variáveis ​​fundamentais do
O segundo elemento de potência da sistema capitalista: em parti-
reflexões acerca do mundo do
análise marxiana está em reconhe- cular, o papel-guia do lucro e
trabalho em nosso tempo? da relação salarial, ou, mais
cer que toda análise social e econô-
Andrea Fumagalli – A principal mica é sempre uma análise a definir precisamente, as diferentes for-
mas de trabalho dependente das
potencialidade e a grande atualidade e, portanto, dinâmica, resultado de
quais se extrai a mais-valia; o
de Marx está na abordagem metodo- um processo dialético em constante atributo cognitivo evidencia a
lógica. Em particular, em relação a metamorfose. A abordagem histo- nova natureza do trabalho, das
dois aspectos. ricista nos diz que a compreensão fontes de valorização e da estru-
de uma dinâmica social só pode ser tura de propriedade, sobre as
O primeiro deriva da constatação quais se fundamenta o processo
válida dentro de um contexto his-
de que, no centro da análise mar- de acumulação e as contradi-
tórico e/ou espacial bem definido e 65
xiana, está o “sujeito humano”. A ções que essa mutação gera,3
delineado. Não está dito que aquilo
análise de Marx (mas não em todo o se insere na análise marxiana. Ela
que pode valer hoje pode valer ama-
marxismo) é uma análise “humanis- indica o declínio de uma metamorfo-
nhã. Não existem leis imanentes na
ta”. O “humanismo” de Marx deriva se da relação social capital-trabalho
economia política. A atual metafísica
da sua abordagem filosófica juvenil, na sequência da crise da valorização
econômica (imposta pelo neolibera-
que se condensa principalmente nos fordista, graças ao desenvolvimento
lismo) não faz sentido.
Manuscritos histórico-filosóficos de de um novo paradigma tecnológico,
1844, quando Marx começa a deline- Aqui também está o limite não tan- de novas formas de valorização (fi-
ar alguns instrumentos conceituais, to de Marx (cuja análise sempre deve nanceirização e internacionalização
como alienação e fetichismo, que so- ser avaliada em relação ao seu tempo da produção) e de novos processos
mente mais tarde seriam conjugados histórico), mas sim de um certo mar- de governança do mercado de tra-
em chave mais econômica. Mesmo xismo, que podemos definir como balho e dos processos de subsunção.
depois da “descoberta” da economia “científico”, que tem a ambição de Como se sabe, Marx havia antecipa-
política burguesa, graças à investi- formular uma análise social (e, con- do no “fragmento sobre as máqui-
gação de Engels1 sobre a condição sequentemente, a identificação dos nas”, nos Grundrisse, o papel cada
social da classe operária inglesa, e, processos de sua transformação) que vez mais relevante do conhecimento
portanto, do desenvolvimento de tende a permanecer inalterada ao lon- na definição da relação capital-tra-
uma rigorosa análise do funciona- go do tempo, através da definição de balho e entre trabalho morto e tra-
mento da acumulação capitalista (os conceitos básicos e de agregados so- balho vivo.
três volumes de O Capital), a refe- ciais definidos de modo “a-histórico”.
rência à subjetividade, contudo, não
IHU On-Line – De que forma
desaparece e retorna prepotente- IHU On-Line – Como Marx
o capitalismo cognitivo recon-
mente nos Grundrisse. A atualidade compreende o conceito de tra-
figura o cenário pensado por
de Marx está no fato de que ele nos balho?
Marx no século XIX?
lembra que todo economista, princi-
palmente hoje, deveria ter uma sóli- Andrea Fumagalli – A hipótese Andrea Fumagalli – O tema do
da base filosófica e epistemológica. do capitalismo, como definida por trabalho em Marx é bastante com-
Carlo Vercellone2: plexo. Ele, o trabalho, “não é a fon-
1 Friedrich Engels (1820-1895): filósofo alemão que, jun-
to com Karl Marx, fundou o chamado socialismo científi- 3 Didier Lebert, Carlo Vercellone, “Il ruolo della conoscen-
co ou comunismo. Ele foi coautor de diversas obras com 2 Carlo Vercellone: é um dos principais referenciais teóri- za nella dinamica di lungo periodo del capitalismo: l’ipo-
Marx, entre elas Manifesto Comunista. Grande companhei- cos do capitalismo cognitivo. Atua como um economista tesi del capitalismo cognitivo”, in Carlo Vercellone (org.),
ro intelectual de Karl Marx, escreveu livros de profunda do laboratório do Centro de Economia da Sorbonne (CES). Capitalismo cognitivo. Roma: Manifestolibri, 2006, p. 22.
análise social. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) (Nota do entrevistado)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

te de toda a riqueza. A natureza é a Nas palavras do Marx de O Capital: mia politica del Comune. Sfrutta-
fonte dos valores de uso (e nestes mento e sussunzione nel capitalismo
consiste a riqueza efetiva!) tanto De fato, o reino da liberdade só bio-cognitivo [Economia política do
começa onde cessa o trabalho
quanto o trabalho, que, em si, é ape- Comum. Exploração e subsunção no
determinado pela necessidade e
nas a manifestação de uma força na- pela finalidade externa; portan- capitalismo biocognitivo] (Roma:
tural, a força de trabalho humana”, to, por sua natureza, encontra- Derive Approdi, dezembro de 2017).7
escreve Marx no primeiro parágrafo se além da esfera da produção A minha hipótese é a de que o capi-
da Crítica ao Programa de Gotha material propriamente dita.5 talismo biocognitivo é caracteriza-
(1875). E, depois, acrescenta que tal Em última análise, creio que, para do pela coexistência de subsunção
afirmação é verdadeira no mesmo Marx, o trabalho faz parte da nature- formal e subsunção real ao mesmo
momento em que há um equilíbrio za humana apenas quando envolve a tempo. A subsunção formal, implíci-
com a natureza e, ao mesmo tempo, superação do trabalho determinado ta no capitalismo biocognitivo, tem
uma diferença. Equilíbrio que não é por uma necessidade que, para o su- a ver com a redefinição da relação
dado no capitalismo, uma vez que o jeito individual, se apresenta como entre trabalho produtivo e trabalho
trabalho capitalista nada mais é do heterônoma e heterofinalista. Rejei- não produtivo, tornando produtivo
que pura extrinsecação (via explo- ção do trabalho capitalista em nome aquilo que, no paradigma fordista,
ração) da força de trabalho (ou seja, de uma atividade liberada e autôno- era improdutivo.
capacidade de produzir valor de ma. Como diz o poeta: “Considerei a A subsunção real tem a ver com a
uso) voltada à produção de valores vossa procedência: não fostes feitos relação entre o trabalho vivo e mor-
de troca. para viver quais brutos, mas para to, como consequência das passa-
Trinta anos antes, nos Manuscritos buscar virtude e sapiência”.6 gens de tecnologias mecânicas repe-
histórico-filosóficos de 1944, Marx titivas às linguísticas e relacionais.
havia escrito: As tecnologias estáticas, na base
IHU On-Line – Quais os de- do crescimento da produtividade e
O animal produz unicamente safios para, a partir de uma da intensidade dos desempenhos
aquilo que lhe é imediatamente releitura de Marx, pensar nou- do trabalho (economias de escala
necessário para si ou para os tras formas da relação capital-
66 seus nascidos; produz de modo dimensional) se transformam em
trabalho no mundo de hoje? E tecnologias dinâmicas capazes de
unilateral, enquanto o homem
como a ideia de “subsunção” explorar a aprendizagem e as econo-
produz de modo universal;
produz apenas sob o império pode ser compreendida atual- mias de rede, combinando simulta-
da necessidade física imedia- mente? neamente atividades manuais e ati-
ta, enquanto o homem produz vidades relacionais. O resultado foi
Andrea Fumagalli – Com o ad-
também livre da necessidade
vento do capitalismo biocognitivo, o aumento de novas formas de tra-
física, e só produz verdadei-
ramente quando está livre que é uma extensão do capitalismo balho mais flexíveis, em que as fases
dela; o animal só reproduz a cognitivo, em que a vida humana de projeto e execução (CAD-CAM-
si mesmo, enquanto o homem inteira é transformada em valor, en- CAE) não são mais perfeitamente
reproduz toda a natureza (...) tramos em uma nova fase da relação separáveis, mas cada vez mais in-
O animal só constrói de acordo capital-trabalho. Em particular, são terdependentes e complementares.
com a natureza e a necessida- Nos últimos anos, a organização do
de da espécie a que pertence,
dois os aspectos que é preciso desta-
enquanto o homem sabe pro- car. O primeiro tem a ver com o fato trabalho é cada vez mais condicio-
duzir de acordo com a medida de que, entre elemento maquínico e nada pelo uso de algoritmos, capa-
de cada espécie e, por toda a elemento humano, a separação ten- zes de organizar diretamente uma
parte, sabe predispor a medi- de a desaparecer: a máquina se torna atividade laboral, aparentemente
da inerente àquele determina- “humana”, e o ser humano, “maquí- caracterizada por um alto grau de
do objeto; portanto, o homem autonomia. A separação entre exe-
nico”. O segundo aspecto, crucial, é
também constrói de acordo
que, em tal contexto, surge um pro- cução e produção de serviços tam-
com as leis da beleza.4
blema de “medida”. Em outras pala- bém se torna mais difícil de analisar.
Marx, portanto, considera a ati- vras, como pode ser medida a vida Elas se tornam inseparáveis dentro
vidade laboral “livre” como um transformada em valor? Falaremos da cadeia de produção. Quanto à
fator instituinte da subjetividade disso mais adiante. produção material, a introdução de
humana. A esse respeito, acredito novos sistemas de produção com-
que pode ser útil distinguir entre Em relação à temática da subsun- putadorizados, como o CAD-CAM e
trabalho (no sentido capitalista do ção (muito importante para mim) CAE, requer competências, habili-
termo: que produz valor de troca: remeto ao meu último livro: Econo- dades e conhecimentos profissionais
labor) e obra (atividade que produz que tornam a relação entre homem e
valor de uso: opus). 5 Karl Marx, Il Capitale. Roma: Editori Riuniti, 1970, vol. III, máquina cada vez mais inseparável,
sec. VII, cap. 48, p. 933. (Nota do entrevistado)
6 Dante Alighieri, A Divina Comédia, Inferno, canto XXVI,
4 Karl Marx, Manoscritti economico-filosofici del 1844. Tu- vv. 112-120 [tradução ao português de Italo Eugenio Mau- 7 Saiba mais em http://bit.ly/2uUNdEH. (Nota do entre-
rim: Einaudi, 2004, p. 75. (Nota do entrevistado) ro, São Paulo: Editora 34, 1998]. (Nota do entrevistado) vistado)

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

a ponto de que, agora, o trabalho vivo pelo tempo de vida. Podemos chamar elementos de Mendeleev11.
é capaz de dominar o trabalho morto essa passagem como a transição a uma
Com a decodificação do genoma, ago-
da máquina, mas dentro de uma nova teoria do valor-vida, em que o capital
ra o homem é capaz de criar matéria
forma de organização do trabalho e de fixo é o ser humano “em cujo cérebro
viva artificial, abrindo as portas, assim,
governamentalidade social. Do lado da reside o conhecimento acumulado pela
a um novo paradigma biotecnológico,
produção de serviços (financeirização, sociedade”9.
do qual a medicina, a farmacêutica, a
pesquisa e desenvolvimento, comuni-
Quando a vida se torna força de tra- biogenética, as neurociências e as nano-
cação, marca, marketing, serviços pes-
balho, o tempo de trabalho não é medi- tecnologias são a coluna vertebral. Os
soais), estamos assistindo a uma pre-
do em unidades-padrão (horas, dias). setores da prevenção e dos cuidados de
dominância da valorização a montante,
A jornada de trabalho não tem limites, saúde (a manutenção do corpo e o seu
acompanhada por um papel crescente
senão a natural. Estamos na presen- aperfeiçoamento) estão hoje no centro
de novas formas de automatização (ba-
ça de subsunção formal e extração da do processo de valorização (e mercanti-
seadas nos algoritmos).
mais-valia absoluta. Quando a vida se lização) capitalista da vida. São inúme-
torna força de trabalho, porque o cére- ros os exemplos a esse respeito, desde a
Dois lados de uma mesma
bro se torna máquina, ou “capital fixo experimentação com células-tronco até
moeda
e capital variável ao mesmo tempo”, a a criação artificial de embriões huma-
No capitalismo biocognitivo, a sub- intensificação do desempenho laboral nos, com consequências que podem as-
sunção real e a subsunção formal são alcança o seu máximo: assim, estamos sumir imaginários distópicos. De fato,
dois lados da mesma moeda e se ali- na presença de subsunção real e extra- o ser humano continua perseguindo o
mentam mutuamente. Juntas, criam ção da mais-valia relativa. sonho de se tornar imortal e, portanto,
uma nova forma de subsunção, que de elevar-se a Deus!
eu chamo de subsunção vital. Prefiro Ao mesmo tempo, as novas tecno-
IHU On-Line – Marx pensou na
esse termo ao de subsunção do inte- logias na manipulação, agregação e
categoria de “general intellect”
lecto geral, como proposto por Carlo cálculo dos dados permitem o desen-
como a máquina, que seria a ma-
Vercellone, porque não nos referimos volvimento de algoritmos mecânicos
terialização do progresso cientí-
apenas à esfera do conhecimento e da capazes de acumular, de maneira autô-
fico. Em entrevista que o senhor
formação, mas também à esfera das
nos concedeu em 201010, diz que noma, conhecimentos e aprendizagem: 67
relações humanas, em sentido lato. a Inteligência Artificial e as machine-le-
atualmente essa categoria é mais
Essa moderna forma de acumulação arning representam hoje a fronteira do
compreendida como a bios hu-
capitalista evidencia alguns aspectos devir humano da máquina. Os setores
mana, onde o “corpo humano se
que estão na base da crise do capita- dos big data, capazes de captar, cole-
tornou capital maquínico”. Gos-
lismo industrial. Isso leva à análise de tar, selecionar enormes quantidades de
taria que detalhasse essa pers-
novas fontes de valorização (e de ren- dados da vida cotidiana dos indivíduos,
pectiva, pontuando como se dá
dimentos crescentes) no capitalismo estão no centro do novo paradigma
essa transformação do conceito.
biocognitivo. Elas derivam da crise do biotecnológico.
modelo de divisão social e técnico do Andrea Fumagalli – Já se escre-
trabalho (gerado pela primeira revo- veu muito sobre o General Intellect. O General Intellect está se transfor-
lução industrial e levada ao extremo O debate, pelo menos em seu início, mando em General Life!
pelo taylorismo) e são alimentadas se deteve, utilizando as categorias dos
“pelo papel e pela difusão do conhe- Grundrisse, sobre o tema da relação
IHU On-Line – A partir do mar-
cimento que obedece a uma racionali- entre trabalho vivo e trabalho mor-
xismo, como podemos conceber
dade social cooperativa que escapa da to. Acredito que hoje tal debate está
saídas para a redução de empre-
visão restritiva do capital humano”8. superado pelo processo em curso de
gos no contexto da revolução tec-
hibridação entre humano e maquíni-
Segue-se daí que o tempo de trabalho nológica?
co, ou seja, entre trabalho vivo e tra-
certificado não pode ser considerado
balho morto. Somos testemunhas do Andrea Fumagalli – Pessoalmen-
como o único tempo produtivo, com
devir humano da máquina e do devir te, acredito que estamos diante do sur-
o efeito de que surge um problema da
maquínico do humano. Por um lado, gimento de um novo paradigma tec-
unidade de medida do valor. A teoria
o corpo vivo humano se torna cada vez nológico, que se articula em torno das
tradicional do valor do trabalho deve
mais manipulável por elementos ar- tecnologias da vida e da manipulação e
ser revista em relação a uma nova te-
tificiais. Não se trata mais de matéria cálculo de quantidades enormes de da-
oria do valor, em que o conceito de
ou fibras artificiais, como aquela pro- dos. Os dois aspectos são sinérgicos en-
trabalho é cada vez mais caracterizado
duzida e realizada no século XX, após tre si. O salto tecnológico que se pros-
por “conhecimento”, “reprodução so-
a descoberta da tabela periódica dos
cial” e é permeado pela vida humana e
11 Dmitri Ivanovic Mendeleev (1834-1907): foi um quí-
8 C. Vercellone, “From Formal Subsumption to General 9 K. Marx, Grundrisse, Penguin Books, 1973, p. 725. (Nota mico e físico russo, criador da primeira versão da tabela
Intellect: Elements for a Marxist Reading of the Thesis do entrevistado) periódica dos elementos químicos, prevendo as proprie-
of Cognitive Capitalism”, in Historical Materialism, n. 15, 10 A entrevista completa está disponível em http://bit. dades de elementos que ainda não tinham sido descober-
2007, p. 31. (Nota do entrevistado) ly/2LiULvV. (Nota da IHU On-Line) tos. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

pecta, de acordo com a teoria das ondas lização econômica (desenvolvimento mais geopolítico e geoeconômico. A
longas de 50 anos de Kondratiev12, da demanda externa, principalmente globalização geoeconômica já alcançou
certamente terá efeitos ocupacionais. de bens intermediários) e o papel cres- todos os seus objetivos e o máximo da
Não é uma novidade. Em um sistema cente dos mercados financeiros per- extensão. Portanto, é no plano geopolí-
de produção capitalista, a inovação tec- mitiram, embora em menor grau, um tico que podem nascer conflitualidade.
nológica sempre está voltada a reduzir crescimento da demanda agregada, As tendências protecionistas confir-
o peso do trabalho vivo e a diminuir mesmo na presença de salários estag- mam isso. Nesse contexto, o apoio à
seu valor para permitir uma maior nados. O multiplicador financeiro da inovação tecnológica pode desempe-
extração de mais-valia. A questão não governança neoliberal, assim, subs- nhar um papel importante, ainda a ser
é se a possível nova onda tecnológica tituiu parcialmente o multiplicador decifrado totalmente. Estamos apenas
reduzirá a ocupação nos atuais setores keynesiano do fordismo, com pesados no início.
da economia. Isso é certo. A verdadeira efeitos distorsivos e de desigualdade na
questão é se tal onda tecnológica será distribuição da renda.
capaz de promover mecanismos de IHU On-Line – Hoje, na era
compensação à perda dos postos de Na presença do novo paradigma bio- da informação e da hiperconec-
trabalho, identificando novas alternati- tecnológico, qual poderia ser o novo tividade, falamos em trabalho
vas de produção e de consumo. mecanismo compensatório? Se tal imaterial, quando estamos tra-
paradigma vier a incidir pesadamen- balhando mesmo quando pare-
A compensação à desocupação tec- te na ocupação terciária, o risco é que cemos não estar. Em alguma me-
nológica geralmente ocorria em médio nenhum fator compensatório de mer- dida, Marx anteviu essa categoria
e longo prazo, graças ao impulso ao cado poderá entrar em ação, a menos de trabalho do século XXI? Algo
crescimento econômico (arrastado pe- que novos setores ligados à tecnologia similar a isso aparece em suas re-
los setores com inovações de produto), da vida sejam desenvolvidos. Portanto, flexões? Como?
induzido pelo incremento de produtivi- torna-se necessária uma intervenção
dade causado pelas inovações técnicas. de política econômica. A partir des- Andrea Fumagalli – Marx não
O taylorismo, a partir desse ponto de se ponto de vista, a proposta de uma podia prever a 160 anos da escrita de
vista, é exemplificativo. O desenvolvi- renda básica e a redução do horário de O Capital a evolução da dinâmica tec-
68 mento dos setores dos bens duráveis trabalho (onde o horário de trabalho nológica. A ideia de que o conhecimen-
no pós-guerra, embora na presença de é mensurável) tornam-se opções cada to desempenharia um papel cada vez
um forte incremento de produtivida- vez mais inevitáveis. mais importante já demonstra uma
de, permitiu um aumento de ocupa- capacidade intuitiva fora do comum.
ção graças ao forte crescimento desses Uma intuição que Marx, único pensa-
mesmos setores. IHU On-Line – Como o senhor dor do seu tempo, é capaz de conjugar
Mas isso não basta. Os mecanismos avalia o papel do Estado na pro- graças a uma análise atenta e rigorosa
de compensação à desocupação tec- moção do desenvolvimento tec- da necessária metamorfose contínua
nológica também devem ser acom- nológico, mas assegurando que da relação capital-trabalho, na pas-
panhados por políticas econômicas isso não vá se reverter em perda sagem do sistema manufatureiro ao
específicas. No caso do taylorismo, a de postos de trabalho? sistema fábrica, da subsunção formal
compensação foi possível graças à re- para a subsunção real da grande em-
Andrea Fumagalli – No capitalis-
dução do horário de trabalho e ao au- presa manchesteriana.
mo biocognitivo, o papel do Estado é
mento salarial que manteve elevada a ambivalente. Por um lado, nas fases de No afresco do General Intellect,
taxa de crescimento da demanda (for- crescimento, ele é cada vez mais inter- Marx não podia captar especificamen-
dismo e keynesianismo). no a uma lógica neoliberal (desmante- te as formas de prestação do trabalho
Com o advento do paradigma das lamento dos serviços sociais, privatiza- vivo cognitivo. Não gosto de falar de
TICs (tecnologias da informação e co- ções etc.) capaz de favorecer o biopoder “trabalho imaterial”, porque, seja qual
municação), a hemorragia dos postos das oligarquias financeiras. Isso ocorre for a forma, o trabalho é sempre “ma-
de trabalho nos setores manufaturei- de modo diferente de acordo com os terial”. Prefiro falar de trabalho “cog-
ros após a maciça introdução das tec- territórios e a divisão espacial do tra- nitivo-relacional”.
nologias digitais foi compensada pelo balho e da produção (por exemplo, os
Na atual dinâmica da vida transfor-
incremento dos ocupados nos servi- dispositivos entre a Europa e o Brasil
mada em trabalho e, portanto, em va-
ços às empresas, após os processos de são diferentes), mas sempre em função
lor, o valor tem origem de modo poli-
externalização e descentralização da dos interesses das grandes corporações
édrico e variado. Estamos diante de
grande fábrica. Paralelamente, a globa- internacionais, financeiras ou não.
uma composição técnica diferenciada
Por outro lado, nas fases de crise (a do trabalho. De fato, o capitalismo bio-
12 Nikolai Dimitrievich Kondratiev (1892-1938): foi um
economista russo. É conhecido por ter sido o primeiro a crise já é um fator estrutural e neces- cognitivo se baseia em uma múltipla e
tentar provar estatisticamente o fenômeno das “ondas
longas”, movimentos cíclicos (ciclo econômico) de apro- sário para a valorização capitalista con- variável modalidade de transformação
ximadamente 50 anos de duração, conhecidos posterior- temporânea), ele intervém como em- em valor da subjetividade laboral – po-
mente na Economia como ciclos de Kondratiev. (Nota da
IHU On-Line) prestador de última instância, no plano deríamos dizer da vida. As diferenças

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REVISTA IHU ON-LINE

criam valor. E são diferenças que per- transformação do valor de uso em va- do”, um valor que se soma ao valor-
meiam as experiências subjetivas dos lor de troca. Ou, em outras palavras, trabalho necessário, para que tal valor-
indivíduos, até prescindir do gênero, a transformação do trabalho concreto dado, que aparece inicialmente como
da etnia ou da religião, a ponto de se- em trabalho abstrato. Segundo Marx, valor de uso, possa se transformar em
rem elas mesmas falsos valores de tro- o trabalho concreto, qualitativamente valor de troca.
ca. Não importa quem você é, homem, definido, volta-se a produzir valor de
Na valorização dos big data, o pro-
mulher, transgênero, LGBT ou o que uso; o trabalho abstrato, em vez disso,
cesso de subsunção se divide, portanto,
quer que seja: todos/as são funcionais é pura extrinsecação da força de traba-
em duas partes e muda de aparência.
à valorização. E tal valorização tem a lho humana, que prescinde dos aspec-
Na primeira fase, implementa-se um
fonte primigênia na vida cotidiana. Um tos qualitativos e das determinações
processo de acumulação originária
fato que vai bem além da intuição de específicas referidas à utilidade dos tra-
como extensão da base produtiva até
Marx do General Intellect. Um bom balhos individuais e cuja quantidade
englobar o tempo de vida, que, no en-
exemplo a esse respeito é a criação do determina o valor criado. No sistema
tanto, não é assalariado, ou seja, re-
“valor de rede” por parte da indústria capitalista de produção, o trabalho abs-
munerado: na maior parte dos casos, é
dos Big Data. trato é o trabalho socialmente necessá-
participação passiva não subjetivada.
rio para produzir uma mercadoria que
Tal indústria cria valor com base em A esse respeito, portanto, não podemos
se realiza no mercado final, ou seja,
um processo de produção cuja “maté- falar de uma verdadeira subsunção for-
valor de troca, com base na tecnologia
ria-prima” é constituída pela vida dos mal.14 Na segunda fase, sucede-se a uti-
disponível.
indivíduos. Tal “matéria-prima” é for- lização de força de trabalho organizada
necida, em boa parte, gratuitamente, Na indústria dos big data, o trabalho (e assalariada), que procede à atividade
pois está voltada à produção de valor abstrato é constituído pela organização de processing, de acordo com os câ-
de uso. e pela integração dos dados. Tal ativi- nones mais tradicionais da subsunção
dade pressupõe uma relação salarial real. Por isso, podemos concluir que o
Do trabalho concreto ao abs- com os empregados contratados para processo de valorização dos big data é
trato esse fim. A matéria-prima, em vez dis- um ótimo exemplo de subsunção vital
so, é trabalho concreto, e não matéria do homem ao capital.■
O “segredo”13 da acumulação está na em sentido estrito: são os dados brutos 69
da vida cotidiana, dos quais se extrai
13 A referência é K. Marx, Das Kapital - Bd. I, VII. Der Akku- valor. Por isso, falamos de “valor-da- 14 Não é por acaso que, nos Estados Unidos, surgiram
mulationsprozeß des Kapitals, 24. Die sogenannte ursprün- movimentos para pedir ao Facebook que a participação
gliche Akkumulation: http://www.textlog.de/kapital-gehei- na plataforma seja, de algum modo, remunerada. Entre
mnis.html. “Geheimnis” significa “segredo” em italiano [e em português]. (Nota do entrevistado) muitos, https://on.ft.com/2LiVhdl. (Nota do entrevistado)

Leia mais
- O biopoder e os mercados financeiros. Entrevista especial com Andrea Fumagalli, pu-
blicada nas Notícias do dia de 13-5-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU,
disponível em http://bit.ly/2A2R4VN.
- Os impactos da financeirização sobre o sujeito. Entrevista especial com Andrea Fuma-
galli, publicada nas Notícias do dia de 10-9-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos
- IHU, disponível em http://bit.ly/2LvtDsQ.
- A morte da democracia e a farsa neoliberal da neutralidade da moeda. Entrevista espe-
cial com Andrea Fumagalli, publicada nas Notícias do dia de 20-9-2015, no sítio do Instituto
Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2A1cDWN.
- O comando bioeconômico do trabalho vivo. Entrevista especial com Andrea Fumagalli,
publicada nas Notícias do dia de 30-4-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU,
disponível em http://bit.ly/2LiULvV.
- A esquerda e a “política dos dois tempos” na era da financeirização. Entrevista especial
com Andrea Fumagalli, publicada nas Notícias do dia de 13-9-2016, no sítio do Instituto Hu-
manitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2JNqjEo.
- “Os mercados financeiros são o coração pulsante do capitalismo cognitivo”. Entrevista
especial com Andrea Fumagalli, publicada nas Notícias do dia de 2-8-2009, no sítio do Ins-
tituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2LyRbgm.
- Do Welfare State para o Workfare e a necessidade de novos sistemas financeiros au-
tônomos. Entrevista especial com Andrea Fumagalli, publicada nas Notícias do dia de 2-10-
2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2LunRaW.

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

O fetichismo da mercadoria
Marx explicou o papel determinante das coisas e dos objetos nas
relações interpessoais. Daí o seu conceito de fetichismo da mercadoria
Anselm Jappe | Tradução: Vanise Dresch

“ A
teoria do fetichismo permite explicar, entre outras
coisas, um fenômeno que Marx ainda não podia
conhecer bem: a crise ecológica. O papel cada vez
maior das tecnologias e os ganhos de produtividade gera-
dos por elas reduzem o trabalho necessário para uma deter-
minada mercadoria, reduzindo assim, também, o seu valor
e o sobrevalor que ela contém. A única solução – apenas
temporária – é produzir mais exemplares da mercadoria
em questão e estimular uma demanda equivalente”, escreve
Anselm Jappe, em artigo originalmente publicado na revis-
ta francesa Alternatives Economiques, “Dossier Marx”, n°
103, abril de 2018, cedido pelo autor à IHU On-Line. “Sair
do fetichismo significaria, então, que a sociedade seja capaz
70 de retomar seu destino em mãos. Mas isso não será possível
sem sair das próprias bases do fetichismo: dinheiro e traba-
lho, mercadoria e valor”, prossegue.
Anselm Jappe é filósofo e ensaísta nascido na Alema-
nha. Fez seus estudos na Itália e na França, onde vive atu-
almente. É reconhecido por ter escrito livros como Guy De-
bord, sobre a vida e a obra do pensador e ativista francês
(Petrópolis: Vozes, 1999). Recentemente publicou o livro
As Aventuras da Mercadoria (Lisboa, Portugal: Editora
Antígona, 2006), que reconstrói a trajetória filosófica e po-
lítica da crítica do valor. Entre outras publicações em por-
tuguês estão Violência, mas para quê? (São Paulo: Hedra,
2011) e Crédito à morte (São Paulo: Hedra, 2010), ambos
construídos com ensaios publicados por ele em revistas
francesas.
Eis o artigo.

O primeiro capítulo do Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, traz uma frase
célebre: “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das
lutas de classes”. Até hoje, o primeiro conceito que a grande maioria das pessoas associa ao
nome de Karl Marx é seguramente o da “luta de classes”. A luta de classes remete imediatamente
ao proletariado, sobretudo aquele das fábricas.
Alguns leitores da obra de Marx, ao mesmo tempo em que insistem na atualidade desta, pri-
vilegiam aspectos diferentes daqueles que costumam ser considerados. Tais abordagens se
concentraram, durante muito tempo, na questão da “alienação”, temática desenvolvida, prin-
cipalmente, nas obras da juventude de Marx. Trata-se, então, de denunciar não só a exploração
econômica, mas também a globalidade das condições de vida criadas pelo capitalismo.

30 DE JULHO | 2018
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“O fetichismo consistiria numa forma


de ideologia apologética. Poderíamos
dizer, até mesmo, de embuste”

“Segredo”, “misterioso”, “hieróglifo”

Nas últimas décadas, o que tem chamado a atenção dos marxistas críticos é, com frequência, o
conceito de “fetichismo da mercadoria”. Essa expressão é seguidamente empregada no discurso
corrente, mas para designar de maneira vaga uma espécie de adoração excessiva às mercadorias,
referindo-se mais à psicologia do consumidor. No pensamento de Marx, o termo “fetichismo”
tem um significado bem mais amplo e mais profundo. Encontramos referências ao fetichismo
em toda a sua obra, desde os seus primeiros artigos.
No entanto, é no final do primeiro capítulo do Capital, publicado em 1867, que Marx fornece a
abordagem mais detalhada do fetichismo, no subcapítulo intitulado “O caráter fetichista da mer-
cadoria e seu segredo”. Nessas poucas páginas, mesclam-se considerações filosóficas, referên-
cias históricas e citações literárias, num estilo eufórico que recorre a formulações paradoxais do
tipo “sensível suprassensível” e ao emprego de palavras como segredo, misterioso, caprichos,
71
enigmático, hieróglifo, misticismo, forma fantástica etc. Tais termos demonstram que Marx
entra numa terra incógnita da reflexão. Outra abordagem do fetichismo pode ser encontrada no
final do Livro III do Capital.
Em termos mais gerais, o fetichismo é determinado pelo fato de que, na sociedade mer-
cantilista, as relações interpessoais apresentam-se como relações entre coisas. E as relações
entre as coisas apresentam-se como relações entre pessoas. Esse conceito suscitou inter-
pretações bastante divergentes. Segundo os marxistas tradicionais, ligados ao movimento
operário, Marx estaria denunciando uma mistificação das verdadeiras relações de produção
capitalistas: a exploração do operário estaria ocultada – velada – detrás de uma relação
aparentemente objetiva entre os “fatores de produção”, notadamente o capital, o trabalho e
a terra. O fetichismo consistiria numa forma de ideologia apologética. Poderíamos dizer, até
mesmo, de embuste.
Alguns poucos marxistas, a partir da década de 1920 com Georg Lukács1, passando pelos au-
tores da Escola de Frankfurt2 e pelos situacionistas, abriram caminho para uma interpretação
contemporânea que atribui grande importância ao fetichismo. É o caso, principalmente, da “crí-
tica do valor”3.
O valor criado pelo trabalho abstrato

Nessa perspectiva, o conceito de fetichismo é um dos pivôs de toda a crítica da economia polí-
tica de Marx. Podemos falar, até mesmo, de uma identidade entre a teoria do valor e a teoria do
fetichismo. Marx introduz o fetichismo depois de ter analisado, no início do Capital, as catego-

1 Georg Lukács (1885-1971): foi um filósofo húngaro de grande importância no cenário intelectual do século XX. Segundo Lucien Goldmann, Lukács
refez, em sua acidentada trajetória, o percurso da filosofia clássica alemã: inicialmente um crítico influenciado por Immanuel Kant, depois o encontro
com Friedrich Engels e finalmente, a adesão ao marxismo. Seu nome completo era Georg Bernhard Lukács von Szegedin em alemão ou Szegedi Lukács
György Bernát em húngaro. (Nota da IHU On-Line)
2 Escola de Frankfurt: escola de pensamento formada por professores, em grande parte sociólogos marxistas alemães. Abordou criticamente aspectos
contemporâneos das formas de comunicação e cultura humanas. Deve-se à Escola de Frankfurt a criação de conceitos como indústria cultural e cultura
de massa. Entre os principais professores e acadêmicos da Escola podemos destacar: Theodor Adorno (1903-1969), Max Horkmeimer (1885-1973),
Walter Benjamin, Herbert Marcuse (1917-1979), Franz Neumann, entre outros. (Nota da IHU On-Line)
3 Cf. Moishe Postone, Temps, travail et domination sociale, Mille et une nuits, 2009; Robert Kurz, Lire Marx, La Balustrade, 2012; Robert Kurz, Vies et mort
du capitalisme. Chroniques de la crise, Lignes, 2011; Moishe Postone, Critique du fétiche capital. Le capitalisme, l’antisémitisme et la gauche, PUF, 2013;
Norbert Trenkle et Ernst Lohoff, La Grande dévalorisation. Pourquoi la spéculation et la dette de l’Etat ne sont pas les causes de la crise, Post-éditions, 2014;
Anselm Jappe, Les aventures de la marchandise. Pour une critique de la valeur, La Découverte 2017; Anselm Jappe, La société autophage. Capitalisme,
démesure et autodestruction, La Découverte, 2017; Robert Kurz, Impérialisme d’exclusion et état d’exception, Editions Divergences, 2018. (Nota do autor)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

rias basais do capitalismo: a “mercadoria”, paralelamente ao seu valor de uso, possui um “valor”
que é representado pelo “dinheiro”, mas criado pelo “trabalho abstrato” ou, melhor dizendo,
pelo “lado abstrato do trabalho”.
No capitalismo, o trabalho não é considerado socialmente por sua utilidade, mas pelo tempo
necessário para realizá-lo, sem levar em conta o seu conteúdo. Todo trabalho possui duas di-
mensões ao mesmo tempo: ele produz algo, um objeto ou um serviço, e, como tal, cada trabalho
é diferente um do outro. Mas enquanto gasto de energia humana medida pelo tempo, todos os
trabalhos são iguais; distinguem-se apenas pelo seu aspecto quantitativo.
Concretamente, uma garrafa de vinho e uma mesa são bem diferentes; numa perspectiva
abstrata, a única diferença entre os dois objetos reside no fato de que a garrafa representa,
digamos, meia hora de trabalho e a mesa, uma hora. De fato, quanto menos tempo for ne-
cessário para produzir uma mercadoria (e seus componentes), menor é o seu valor (e menos
ela custa).
O aspecto verdadeiramente revolucionário – muitas vezes subestimado pelos próprios mar-
xistas – dessa análise é o fato de não conceber o dinheiro e o valor, a mercadoria e o dinheiro,
como fatores “evidentes” ou “naturais” presentes em toda sociedade por menos “evoluída” que
seja. Marx demonstra que esses são elementos específicos do capitalismo e estabelece também
seu caráter destrutivo.
Numa sociedade baseada nessas categorias, não pode haver controle consciente da econo-
mia. Os seres humanos veem as mercadorias criadas por eles e suas interações (os preços,
o mercado, as crises etc.) como divindades que os governam. A referência irônica à religião
contida no conceito de fetichismo adquire aqui todo o sentido: o homem se inclina diante
de coisas sem saber que elas são seus próprios produtos. Ao mesmo tempo, não se trata de
uma fatalidade: essa subordinação do homem aos seus produtos é o resultado do modo de
produção capitalista (mesmo que ela prolongue formas anteriores de fetichismo, principal-
72 mente religiosas).
No fetichismo da mercadoria – que é inseparável da sociedade capitalista e só com ela desapa-
recerá –, o lado concreto dos produtos, dos trabalhos e, em última análise, de qualquer manifes-
tação da vida humana é posto em segundo plano, atrás do lado “quantitativo”. O lado concreto
é apenas o “portador”, a “representação”, a “encarnação” de uma substância invisível, abstrata e
sempre igual: o trabalho reduzido unicamente à sua dimensão temporal.
O valor contém o sobrevalor [ou a mais-valia], que gera o lucro e cuja busca motiva os ca-
pitalistas. No entanto, Marx não faz uma crítica moralista: a “sede de lucro” é somente uma
das peças da engrenagem. O que caracteriza a sociedade fetichista é o seu caráter anônimo e
automático. Todos os atores cumprem apenas leis que foram criadas “nas suas costas”. O mer-
cado cessará a produção de brinquedos em proveito da fabricação de bombas se isso for mais
lucrativo, sem levar em conta o lado “concreto” destas e suas consequências. A lógica fetichista
ignora a diferença concreta entre a bomba e o brinquedo, comparando apenas duas quantida-
des de trabalho abstrato. Se, por escrúpulo, um capitalista não aceitasse essa lógica, ele seria
rapidamente eliminado do mercado. As mercadorias “sensíveis” (concretas) são submetidas à
sua invisível natureza “suprassensível”, dada pelo trabalho abstrato.
Uma explicação da crise ecológica
Bem antes de ser uma sociedade de classes baseada na exploração, o capitalismo já é, num
nível mais profundo e estrutural, uma sociedade absurda, destrutiva e autodestrutiva, porque
o lado abstrato – não humano – prevalece sobre o lado concreto e humano. Os seres humanos
vêm a reboque das coisas que eles produzem e sobre as quais perderam o controle. Nenhuma
concordância consciente é possível, nem mesmo entre os capitalistas: cada ator produz isolada-
mente, e é só no mercado que seus produtos adquirem a posteriori uma dimensão social e criam
um “laço social”.
A teoria do fetichismo permite explicar, entre outras coisas, um fenômeno que Marx ainda
não podia conhecer bem: a crise ecológica. O papel cada vez maior das tecnologias e os ganhos
de produtividade gerados por elas reduzem o trabalho necessário para uma determinada mer-
cadoria, reduzindo assim, também, o seu valor e o sobrevalor que ela contém. A única solução
– apenas temporária – é produzir mais exemplares da mercadoria em questão e estimular uma
demanda equivalente. O problema é que o consumo de recursos e energia cresce de maneira

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exponencial, somente para evitar que o montante global de valor caia. A teoria do fetichismo
contém também, portanto, uma teoria da crise tanto econômica quanto ecológica.
Para que a sociedade retome seu destino em mãos
A teoria do fetichismo não exime os homens – as classes dirigentes principalmente – de suas
responsabilidades. Contudo, ela ressalta outro aspecto: o grande vício do capitalismo consiste
no fato de que os homens não são senão os executores de uma lógica que parece residir nas
coisas, mas que é, na verdade, o resultado das ações humanas. Sair do fetichismo significaria,
então, que a sociedade seja capaz de retomar seu destino em mãos. Mas isso não será possível
sem sair das próprias bases do fetichismo: dinheiro e trabalho, mercadoria e valor. Que vasta
tarefa! Não será realizada em um único dia.
Percebe-se, no entanto, que essas categorias se dissipam por toda parte: a sociedade do traba-
lho não tem mais muito trabalho a oferecer, e o dinheiro “verdadeiro” (não o “capital fictício”
do crédito, como o chama Marx) começa a escassear. No capítulo sobre o fetichismo, Marx fala
de “uma associação de homens livres, que trabalham com meios de produção coletivos e que
conscientemente despendem suas forças de trabalho individuais como uma única força social de
trabalho”. Esta seria uma sociedade pós-fetichista.■

73

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TEMA DE CAPA

Papel fundamental do marxismo


é contribuir para reinvenção do
socialismo no século XXI
Para Carlos Eduardo Martins, isso deve ocorrer mediante comprometimento
com uma democracia radical nos diversos planos
João Vitor Santos | Edição: Vitor Necchi

D
epois da morte de Marx, “o mar- tro, colocando apenas dentro destas as
xismo torna-se uma força inte- políticas focalizadas”.
lectual e política incontestável, No cenário atual, Martins entende que
convertendo-se em objeto de disputa o marxismo deve analisar, entre outras
de distintas frações de classe e grupos coisas, “a natureza da financeirização
de interesse nacionais e internacionais, do capitalismo contemporâneo e sua re-
dando lugar a distintas formulações e lação com a crise civilizatória do modo
orientações teóricas e políticas, mui- de produção capitalista”, “a extensão da
tas vezes rivais e antagônicas”, afirma superexploração aos países centrais e o
Carlos Eduardo Martins, em entrevista
caráter que assume no centro e na pe-
concedida por e-mail à IHU On-Line.
riferia no século XXI”, “a crise do libe-
74 O mesmo ocorreu na América Latina.
ralismo político, o caos sistêmico a que
A teoria da dependência, para Mar- se aproxima a ordem internacional e o
tins, ainda é capaz de auxiliar na com- recrudescimento do fascismo no século
preensão das realidades. Isso, no en- XXI” e “o caráter colonial e violento das
tanto, “exige uma revisão da obra dos estruturas de poder no capitalismo con-
fundadores, tendo em vista dois níveis temporâneo, denunciando o racismo, a
articulados, que são os do desenvolvi- heteronormatividade e promovendo
mento lógico-analítico dos conceitos e sua descolonização e democratização”.
sua adequação às tendências de longa
Por fim, defende que “é papel funda-
duração do capitalismo e à realidade
mental do marxismo contribuir para
concreta no século XXI”.
reinvenção do socialismo no século
Sobre a esquerda brasileira, Martins XXI, comprometendo-o com uma de-
avalia que ela “abandonou as questões mocracia radical no plano local, nacio-
estratégicas nacionais e as relativas à nal, internacional e mundial”.
construção de um novo eixo geopolítico
regional e mundial”. Isso se deve, em Carlos Eduardo Martins é gradu-
grande parte, “porque o PT no poder ado em Sociologia e Política pela Pon-
desistiu de um projeto de enfrentamen- tifícia Universidade Católica do Rio de
to do protagonismo do capital financei- Janeiro - PUCRJ, mestre em Adminis-
ro e da transnacionalização da econo- tração pela Fundação Getulio Vargas
mia brasileira”. Afirma que a esquerda - FGV-RJ e doutor em Sociologia pela
brasileira “deve sair de uma posição de Universidade de São Paulo - USP. Le-
ajuste à ordem ou de sectarismo e vol- ciona no Departamento de Ciência Polí-
tar a fazer política de hegemonia”. Na tica da Universidade Federal do Rio de
sua visão, “é preciso que a esquerda Janeiro - UFRJ. É autor de Globaliza-
recupere a ousadia, os projetos estra- ção, dependência e neoliberalismo na
tégicos, as mobilizações sociais e adote América Latina (Boitempo, 2011).
políticas universalistas como parâme- Confira a entrevista.

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“A teoria da dependência,
em sua versão marxista, tem
contribuído para desvendar
o caráter profundamente
antinacional de nossa burguesia”

IHU On-Line – Como o mar- o centro e a esquerda, representados em que se destacam os aportes de
xismo foi apreendido na Amé- de Eduard Bernstein2, Karl Kautsky3 Lenin6, Trotsky7, Bukharin8, Kon-
rica Latina? Essa leitura se e Rosa Luxemburgo4; a renovação do dratiev9 e Plekhanov10 até a afir-
mantém atual? marxismo com a Revolução Russa5,
Carlos Eduardo Martins – Revolução de Fevereiro de 1917, que derrubou a autocra-
1888, em Londres. Em 1889, houve um avanço, quando cia do Czar Nicolau II, o último czar a governar, e procurou
Após a morte de Marx, o marxismo o Congresso Internacional de Paris decidiu promover a estabelecer em seu lugar uma república de cunho liberal,
realização de congressos internacionais periodicamente. e a Revolução de Outubro, na qual o Partido Bolchevique,
torna-se uma força intelectual e po- Alguns anarquistas que estiveram presentes ao congres- liderado por Vladimir Lenin, derrubou o governo provisó-
lítica incontestável, convertendo-se so, defenderam a concentração da luta dos trabalhadores rio e impôs o governo socialista soviético. (Nota da IHU
essencialmente no terreno econômico, rejeitando a divi- On-Line)
em objeto de disputa de distintas são política, mas eles foram excluídos do congresso, em 6 Lenin [Vladimir Ilyich Ulyanov] (1870-1924): revolucio-
frações de classe e grupos de interes- razão das claras divergências táticas. Posteriormente fo- nário russo, responsável em grande parte pela execução
ram realizados congressos unificados em Bruxelas (1891), da Revolução Russa de 1917, líder do Partido Comunista e
se nacionais e internacionais, dando em Zurique (1893) e em Londres (1896). De todo modo, primeiro presidente do Conselho dos Comissários do Povo
em geral, o ano de 1889 é considerado como o ponto de da União Soviética. Influenciou teoricamente os partidos
lugar a distintas formulações e orien- partida da Segunda ou Nova Internacional, embora so- comunistas de todo o mundo. Suas contribuições resul-
tações teóricas e políticas, muitas mente em 1900, durante o Congresso de Paris daquele
ano, tenha sido adotada uma constituição definitiva para
taram na criação de uma corrente teórica denominada
leninismo. (Nota da IHU On-Line) 75
vezes rivais e antagônicas. No caso a Nova Internacional. Foi então criado o Bureau Socialista 7 Leon Davidovich Trotsky (1870-1940): revolucionário
Internacional, integrado por representantes de cada seção bolchevista e intelectual marxista, político influente na
europeu, os debates sobre o impe- nacional filiada, com um executivo, um secretário remu- União Soviética. Com Joseph Stalin, na União Soviética dos
rialismo, a guerra, o neocolonialis- nerado e um escritório central. Os membros do Bureau se anos 1920, foi expulso do Partido Comunista e deporta-
reuniam pelo menos uma vez por ano. O escritório central do da União Soviética. Foi assassinado no México por um
mo, as nacionalidades, as tendências foi instalado em Bruxelas. O presidente, o secretário e o agente soviético a mando de Stalin. Frida Kahlo e Diego
executivo, encarregados das atividades permanentes da Rivera hospedaram Trotsky em sua estadia no México. As
monopólicas ou associativas da eco- Internacional, eram membros da seção belga. Entre as suas ideias constituem a base da teoria comunista do trot-
nomia capitalista, o caráter do Es- ações da Segunda Internacional incluem-se a declaração, skysmo. (Nota da IHU On-Line)
em 1889, do 1º de maio como Dia Internacional dos Tra- 8 Nikolai Ivanovich Bukharin (1888-1938): revolucioná-
tado capitalista, o papel do partido, balhadores e, em 1910, a declaração do 8 de março como rio, intelectual bolchevique e político soviético. Estudou
Dia Internacional da Mulher. Além disso, a Segunda Inter- economia e em 1906 se uniu ao setor bolchevique do
dos intelectuais, das universidades, nacional iniciou a campanha internacional pela jornada Partido Operário Social-Democrata Russo, foi um dos te-
das distintas camadas populares, da de trabalho de oito horas. Baseada, tal como a Primeira óricos marxistas mais destacados, além de jornalista e de
Internacional, no conceito de luta de classes, a Segunda colaborador próximo de Vladimir I. Lenin a partir de 1912.
greve de massas, das reformas, dos Internacional orientou-se, até o início do século XX, pelo Desde então foi uma das figuras dirigentes dos bolchevi-
ciclos econômicos, da violência e da marxismo. Mas algumas correntes se desenvolvem à di- ques, embora frequentemente tenha entrado em conflito
reita da Internacional, pregando o abandono do princípio com a linha dura do partido. Após alguns anos no exílio,
paz na transição ao socialismo, o ca- segundo o qual “a emancipação dos trabalhadores deve regressou em 1917 à Rússia e, durante a Revolução de Ou-
ser obra dos próprios trabalhadores” – um princípio re- tubro (1917), organizou o levantamento bolchevique em
ráter da URSS, suas frações de clas- volucionário da Primeira Internacional – e recomendando Moscou. Bukharin formulou os princípios da economia so-
se e estratégias de desenvolvimento privilegiar o parlamentarismo e o reformismo. Mas em
1904, o congresso segue a posição do revolucionário Jules
viética (Economia da Etapa de Transformação, 1920), em-
bora criticasse o crescimento demasiadamente acelerado
dividirão as interpretações que rei- Guesde contra o reformista Jean Jaurès, escolha oposta ao do socialismo nos anos 20. Bukharin ocupou importantes
resultado das eleições, que deram 31 deputados a Jaurès cargos políticos e no partido. Após a morte de Lenin, de
vindicam o marxismo como instru- e 12 a Guesde. (Nota da IHU On-Line) início tomou partido por José V. Stalin contra Trotsky e a
mento de análise da realidade em 2 Eduard Bernstein (1850-1932): político e teórico polí- oposição de esquerda, mas a partir de 1928 foi conside-
tico alemão. Foi o primeiro grande revisionista da teoria rado por Stalin como possível rival e presumível líder da
várias correntes: podemos destacar, marxista e um dos principais teóricos da social-demo- oposição de direita, razão pela qual foi afastado do poder
cracia. Membro do Partido Social-Democrata (SPD), é o em 1929. Mais tarde, depois de uma reconciliação formal,
na Segunda Internacional1, a direita, fundador do socialismo evolutivo e do revisionismo. Tinha recebeu o lugar de redator-chefe do jornal Izvestia (1934).
realizado estreita associação de Karl Marx e Friedrich En- No entanto, em 1937 foi preso e, um ano mais tarde, em
gels, ele viu falhas no pensamento marxista e começou a 1938, acabou condenado à morte no terceiro falso proces-
1 Segunda Internacional (1889-1916): ou Internacional criticar opiniões defendidas pelo marxismo. (Nota da IHU so de Moscou e executado nesse mesmo ano. Em 1988,
Socialista, ou ainda Internacional Operária, foi uma orga- On-Line) durante a era de Mikhail Gorbachev, foi reabilitado jurídica
nização dos partidos socialistas e operários criada princi- 3 Karl Kautsky (1854-1938): teórico político alemão, um e politicamente. (Nota da IHU On-Line)
palmente por iniciativa de Friedrich Engels, por ocasião do dos fundadores da ideologia social-democrata. Foi uma 9 Nikolai Dimitrievich Kondratiev (1892-1938): econo-
Congresso Internacional de Paris, em 14 de julho de 1889. das mais importantes figuras da história do marxismo, mista russo. Um dos teóricos da Nova Política Econômica
Do congresso, participaram delegações de 20 países. Em- tendo editado o quarto volume de O Capital, de Karl Marx. - NEP, é mais conhecido por ter sido o primeiro a tentar
bora sem a participação do ainda poderoso movimento (Nota da IHU On-Line) provar estatisticamente o fenômeno das “ondas longas”,
anarco-sindicalista e dos sindicatos, a Segunda Internacio- 4 Rosa Luxemburgo (1870-1919): filósofa marxista e re- movimentos cíclicos (ciclo econômico) de aproximada-
nal representou a continuidade do trabalho da extinta Pri- volucionária polonesa. Participou na fundação do grupo mente 50 anos de duração, conhecidos posteriormente
meira Internacional, dissolvida nos anos 1870, e existiu até de tendência marxista que viria a tornar-se, mais tarde, o na Economia como ciclos de Kondratiev. (Nota da IHU
1916. No período que se seguiu ao colapso da Primeira Partido Comunista Alemão. (Nota da IHU On-Line) On-Line)
Internacional, os movimentos trabalhista e socialista cres- 5 Revolução Russa: série de eventos políticos na Rússia 10 Georgi Valentinovitch Plekhanov (1856-1918): revo-
ceram de maneira praticamente independente em cada que, após a eliminação da autocracia russa e depois do lucionário e teórico marxista russo. Abandonou os estudos
país, mantendo apenas uma tênue ligação. Entre 1876 e Governo Provisório (Duma), resultou no estabelecimento no Instituto de Mineralogia para se dedicar ao movimento
1889, não houve qualquer vínculo estável. Eventualmente do poder soviético sob o controle do partido bolchevi- populista revolucionário. Líder da organização Terra e Li-
havia conferências internacionais de trabalhadores, con- que. O resultado desse processo foi a criação da União berdade, organizou uma dissidência quando o grupo pas-
vocadas ad hoc por diferentes entidades: 1876, em Berna; das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, que durou sou a adotar práticas terroristas. Um dos fundadores do
1877, em Ghent; 1881, em Chur; 1883 e 1886, em Paris; até 1991. A revolução compreendeu duas fases distintas: a movimento social-democrata na Rússia e um dos primei-

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

mação do stalinismo; os aportes de ras de poder sindicais, partidárias presença do stalinismo através do
Dimitrov11, de Gramsci12 e seus des- ou estatais havia penetrado mais argentino Vittorio Codovilla15, que
dobramentos euro-comunistas. Este amplamente. O marxismo latino busca aplicar o modelo mecânico
processo colossal de articulação com -americano vai se afirmar entre a a etapista formulado pelo Comin-
forças sociais em aliança ou disputa influência destes centros e a ne- tern à realidade latino-americana;
nos coloca diante da necessidade, cessidade de formular uma elabo- as análises do brasileiro Caio Pra-
independentemente do nível de cria- ração original de interpretação e do Junior16 e do argentino Sergio
tividade e rigor teórico, de perceber transformação da realidade latino Bagú17 do capitalismo colonial do
o marxismo no plural enquanto rea- -americana e da própria economia Brasil, da América Latina e do Ca-
lidade histórica. mundial de que era parte. Entre ribe; os aportes sobre o colonialis-
as temáticas sobre as quais vai se mo interno do alemão radicado no
Na América Latina, não será di-
debruçar o marxismo latino-ame- México Rodolfo Stavenhagen18 e do
ferente. O marxismo assume aqui
ricano, estão, além da reelabora- mexicano Pablo Gonzalez Casano-
diferentes formatos e projetos te-
ção daquelas estabelecidas inicial- va19; as formulações dos brasileiros
óricos e políticos em função de
mente pelo pensamento europeu e Theotonio dos Santos20, Ruy Mauro
suas conexões internacionais e ba-
soviético, as referentes ao caráter
ses sociais internas. É introduzido
das economias coloniais latino-a- Liga Anti-imperialista das Américas. Em 1924, ingressou
por imigrantes europeus alemães, no Agrupamento Comunista de Havana. Em 1925, foi um
mericanas e caribenhas, à articu- dos fundadores do primeiro partido marxista-leninista de
italianos e espanhóis no final do
lação entre as economias capita- Cuba. Em 1926, foi expulso da Universidade em razão de
século XIX e sofre influência euro- suas atividades revolucionárias, ocasião em que fez uma
listas e pré-capitalistas, ao papel célebre greve de fome. Depois se exilou no México e fun-
peia e soviética em cujas estrutu- dou a Associação de Novos Emigrantes Revolucionários
dependente ou revolucionário das Cubanos (Anerc). Em 1927, participou como delegado do
burguesias latino-americanas, aos IV Congresso da Internacional Sindical Vermelha na União
Soviética. Foi assassinado no México em 10 de janeiro de
ros russos a se identificar como “marxista”. Enfrentando limites da industrialização no capi- 1929. (Nota da IHU On-Line)
perseguição política, emigrou para a Suíça em 1880, onde 15 Vittorio Codovilla (1894-1970): dirigente comunista
continuou a sua atividade política em tentar derrubar o
talismo periférico, à superexplora- nascido na Itália, emigrou para a Argentina em 1912. In-
regime czarista na Rússia. Durante a Primeira Guerra Mun- ção do trabalho e sua compatibili- gressou no Partido Socialista, dele saindo em 1918 para
dial, uniu-se à Tríplice Entente contra a Alemanha e voltou fundar o Partido Socialista Internacional, posteriormente
para sua casa na Rússia após a Revolução de Fevereiro de dade com a mais-valia relativa, ao Partido Comunista. Enviado a Moscou em 1926, permane-
1917. Era hostil ao partido bolchevique liderado por Vladi-
mir Lenin e foi opositor do regime soviético, que chegou
colonialismo interno e a descoloni- ceu por dois anos na União Soviética, onde conviveu com
dirigentes como a alemã Clara Zetkin, o italiano Palmiro
76 ao poder em outubro de 1917. Em seus trabalhos O socia- zação do poder, ao caráter socialis- Togliatti e o búlgaro Gyorgi Dimitrov. Em 1928, participou
lismo e a luta política (1883) e Nossas diferenças (1885), dos trabalhos do VI Congresso da Internacional e foi en-
Plekhanov formulou as bases ideológicas do marxismo ta ou anti-imperialista das tarefas viado pela Internacional Comunista a missões na guerra
russo. Participou também das reflexões sobre a presença nacionais, ao populismo e seu pa- civil espanhola, no Chile e no México. Tornou-se membro
da arte e da religião na sociedade. Apesar de sua oposição do Comitê Central, da Executiva e em seguida secretário-
vigorosa e sincera ao partido político de Lenin, em 1917, pel na formulação do nacionalismo geral do PC argentino, além de representante da Interna-
Plekhanov foi tido em alta estima pelo Partido Comunista cional Comunista na América Latina. Morreu em Moscou.
da União Soviética após a sua morte como um pai funda- revolucionário, ao papel dos povos Até o fim de seus dias, seguiu fiel à linha soviética. (Nota
dor do marxismo russo e um pensador filosófico. (Nota originários, do negros e mestiços da IHU On-Line)
da IHU On-Line) 16 Caio Prado Júnior (1907-1990): pensador e político
11 Geórgi Mikhaïlov Dimitrov (1882-1949): estadista na transformação social. brasileiro. Em 1942, publica sua obra mais importante, A
búlgaro, secretário-geral da Internacional Comunista - IC formação do Brasil contemporâneo, sofrendo perseguições
entre 1934 e 1943 e dirigente da Bulgária entre 1948 e
1949. Militante comunista desde a juventude, foi um dos
Podemos distinguir no marxismo devido ao seu alinhamento político com a orientação co-
munista, tendo seu mandato cassado dois anos depois da
líderes da insurreição revolucionária de 1923 na Bulgária. latino-americano diversas formu- publicação do livro. Sua obra criou, porém, uma tradição
Exilou-se e passou a trabalhar para o Komintern em vários historiográfica no Brasil, identificada sobretudo com o
países, sendo preso em 1933 na Alemanha depois que os lações que marcarão distintas ela- marxismo, buscando uma explicação diferenciada da so-
nazistas chegaram ao poder. Após ser processado, conse- borações complementares ou an- ciedade colonial. A obra foi apresentada no I Ciclo de Estu-
guiu ser repatriado para a URSS, que lhe concedeu cida- dos sobre o Brasil, promovido pelo IHU em 14-8-2003, e é
dania soviética. Em 1934, foi eleito secretário-geral da IC e, tagônicas, que formam um vasto e tema de entrevista com a professora Marcia Eckert Miran-
como tal, presidiu seu último Congresso em 1935, no qual da, publicada na IHU On-Line número 70, de 11-8-2003,
foi aprovada a tática da Frente Popular. Após a Segunda
importante patrimônio cultural, te- disponível http://bit.ly/1irilO8. (Nota da IHU On-Line)
Guerra Mundial e a libertação da Bulgária pelo Exército órico e analítico de interpretação da 17 Sergio Bagú (1911-2002): jornalista, advogado, his-
Vermelho, em 1944, Dimitrov retornou ao seu país natal e toriador, filósofo e sociólogo argentino. Ocupa um lugar
foi eleito deputado pela Frente Democrática, que venceu realidade. Assim podemos enunciar, de destaque entre os pensadores latino-americanos no
as eleições por maioria absoluta. Num referendo em 1946, século 20 por conta da sua interpretação da história da
os búlgaros votaram pelo fim da monarquia de Simão II e
sem nenhuma pretensão de esgotá conquista do continente a partir do enfoque do desenvol-
instalaram uma república. No ano seguinte, o Partido Co- -lo, as correntes anti-imperialistas vimento do capitalismo. Lecionou na Argentina, no Chile,
munista Búlgaro (BKP) chegou ao poder, nacionalizando nos Estados Unidos, na Venezuela, no Peru e no Uruguai.
a economia. Dimitrov foi então eleito secretário geral do radicais dos anos 1920 que encon- Deixou a Argentina em 1966, devido a perseguições polí-
BKP. Depois de doença e de uma longa convalescença, o tram no peruano José Carlos Mari- ticas. A partir de 1974, tornou-se professor e pesquisador
estadista foi enviado para um hospital na URSS, onde fale- da Universidade Autônoma do México (UNAM). (Nota da
ceu em junho de 1949. Em sua homenagem, construíram átegui13 e no cubano Julio Antonio IHU On-Line)
um mausoléu em Sofia, onde seu corpo permaneceu com 18 Rodolfo Stavenhagen Gruenbaum (1932-2016): soci-
todas as honras até ao derrube do socialismo na Bulgária, Mella14 sua mais alta elaboração; a ólogo alemão, defensor dos direitos humanos dos povos
em 1990. O mausoléu, um prédio de mármore que ficava indígenas. Sua família teve que abandonar a Alemanha
na Praça Battenberg, foi demolido pelo governo em 1999, durante a Segunda Guerra Mundial e foi morar no México
e os restos de Dimitrov foram cremados. (Nota da IHU 13 José Carlos Mariátegui (1894-1930): jornalista, filó- quando ele ainda era criança. Destacou-se como professor
On-Line) sofo político e ativista peruano. Foi um escritor prolífico e pesquisador de ciências sociais. (Nota da IHU On-Line)
12 Antonio Gramsci (1891-1937): filósofo marxista, jor- até a sua morte prematura, aos 35 anos. É considerado 19 Pablo González Casanova (1922): advogado, sociólo-
nalista, crítico literário e político italiano. Escreveu sobre um dos socialistas latino-americanos mais influentes do go e doutor em Ciências Políticas mexicano, condecorado
teoria política, sociologia, antropologia e linguística. Com século XX. Algumas de suas obras foram traduzidas para pela Unesco em 2003 com o Prêmio Internacional José
Togliatti, criou o jornal L’Ordine Nuovo, em 1919. Secre- o português, entre elas Do sonho às coisas: retratos sub- Martí por sua defesa da identidade dos povos indígenas
tário do Partido Comunista Italiano (1924), foi preso em versivos (São Paulo: Boitempo, 2005) e Por um socialismo da América Latina. Foi reitor da Universidade Nacional Au-
1926 e libertado em 1937, dias antes de falecer. Nos seus indo-americano (Rio de Janeiro: UFRJ, 2005). (Nota da IHU tônoma de México. (Nota da IHU On-Line)
Cadernos do cárcere, substituiu o conceito da ditadura do On-Line) 20 Theotonio dos Santos Júnior (1936-2018): economis-
proletariado pela “hegemonia” do proletariado, dando 14 Julio Antonio Mella (1903-1929): uma das figuras ta nascido em Carangola (MG). Está entre os formuladores
ênfase à direção intelectual e moral em detrimento do mais importantes do movimento revolucionário cubano da Teoria da Dependência e é um dos principais expoentes
domínio do Estado. Sobre esse pensador, confira a edição durante a república neocolonial. Em 1923, foi presidente da teoria do sistema-mundo. Bacharel em Sociologia e Po-
231 da IHU On-Line, de 13-8-2007, intitulada Gramsci, 70 do Primeiro Congresso Nacional de Estudantes, e neste lítica pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e
anos depois, disponível em http://www.ihuonline.unisinos. mesmo ano fundou a Universidade José Marti. Em 1924, mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília
br/edicao/231. (Nota da IHU On-Line) criou a Liga Anticlerical e, em 1925, a seção cubana da - UnB, obteve a titulação de notório saber (equivalente ao

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

Marini21 e Vânia Bambirra22 e do chi- Ianni25 sobre o populismo; os traba- sui generis; os aportes sobre poder
leno Orlando Caputo23 sobre depen- lhos sobre articulação de modos de dual e sociedade abigarrada do bo-
dência, sistema mundial, superex- produção nas obras do equatoria- liviano René Zavaleta Mercado30; a
ploração, subimperialismo, ciclos e a no Agustin Cueva26 e do brasileiro formulação da teologia da libertação
debilidade da democracia na região; Ciro Flamarion Cardoso27, ou entre pelo peruano Gustavo Gutierrez31
as contribuições do argentino Ernes- classes e estamentos nos brasileiros sob forte inspiração marxista; as for-
to Laclau24 e do brasileiro Octávio Florestan Fernandes28 e Sedi Hira- mulações geopolíticas da mexicana
no29 para entender um capitalismo Aña Esther Ceceña32 e do argentino
grau de doutor) em Economia, concedida pela UFMG e Atilio Boron33; e a elaboração de um
pela Universidade Federal Fluminense - UFF, da qual era
professor emérito. Foi também coordenador da Cátedra IHU On-Line)
pensamento decolonial pelo argen-
Unesco em Economia Global e Desenvolvimento Susten- 25 Octávio Ianni (1926-2004): sociólogo brasileiro e um tino Enrique Dussel34, pelo peruano
tável e da Universidade das Nações Unidas - UNU sobre dos fundadores do Cebrap. Aposentado compulsoriamen-
economia global e desenvolvimento sustentável. Entre te, teve seus direitos políticos cassados pelo AI-5 em 1969.
seus aportes teóricos mais destacados à economia e às Somente voltou a lecionar no Brasil em 1977, na Pontifícia
ciências sociais, estão a contribuição à formulação geral Universidade Católica de São Paulo e na Universidade Es- Tenri, Japão, e proferiu conferências em diversas universi-
do conceito de dependência, à periodização das diversas tadual de Campinas - Unicamp. Em suas pesquisas, espe- dades da América Latina, da Europa, do Japão e dos Es-
fases da dependência na história da acumulação capita- cializou-se na análise do populismo e do imperialismo. É tados Unidos. Suas pesquisas voltam-se sobretudo para
lista mundial, à caracterização das estruturas internas de- autor de várias obras, entre as quais Estado e capitalismo a sociologia do desenvolvimento, com ênfase nos temas
pendentes e a definição dos mecanismos reprodutivos da no Brasil (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1965). (Nota da IHU América Latina, Leste Asiático, desigualdade, pobreza, tra-
dependência. Trabalhou também sobre a teoria dos ciclos, On-Line) balho e violência. (Nota da IHU On-Line)
a dinâmica de longo prazo do capitalismo e a teoria do 26 Agustin Cueva (1937-1992): sociólogo e crítico literá- 30 René Zavaleta Mercado (1935-1984): político, sociólo-
sistema-mundo. Outra contribuição teórica sua foi a for- rio equatoriano. Nunca se filiou a um partido de esquerda, go e filósofo marxista boliviano. Seu pensamento costuma
mulação do conceito de “civilização planetária”. Autor de mas sua formação maoísta (de juventude) jamais o aban- ser dividido em três períodos: ao primeiro, nacionalista,
38 livros, coautor ou colaborador de outros 78, publicou donou inteiramente. Crítico da burocracia e do dogmatis- seguiu-se ao marxismo ortodoxo e, finalmente, um mar-
cerca de 150 artigos em revistas científicas, além de cola- mo dos Partidos Comunistas latino-americanos, caracte- xismo não ortodoxo que se mostrou a mais influente fase
borar com diversos periódicos voltados ao público em ge- rizou-se, entretanto, por posição militante antitrotskista. dentro de uma perspectiva exclusivamente boliviana. Os
ral. Seus trabalhos foram publicados em 16 línguas. (Nota Teve formação acadêmica tradicional, diplomando-se em conceitos derivados de suas ideias são fundamentais para
da IHU On-Line) Direito; interessado por política, literatura e sociologia, o desenvolvimento posterior das ciências sociais da Bolí-
21 Ruy Mauro Marini (1932-1997): cientista social nasci- acabou por iniciar uma carreira acadêmica na Universida- via. (Nota da IHU On-Line)
do em Barbacena (MG), considerado um dos mais brilhan- de Central do Equador. (Nota da IHU On-Line) 31 Gustavo Gutiérrez Merino (1928): teólogo peruano
tes intelectuais militantes da América Latina. Destacou-se 27 Ciro Flamarion Santana Cardoso (1942-2013): re- e sacerdote dominicano, considerado por muitos como o
por sua importante obra que subverteu o pensamento nomado historiador nascido em Goiânia (GO). Tem larga fundador da Teologia da Libertação. Sofreu de osteomie-
colonizado dominante e por sua militância coerente. Sua produção bibliográfica, incluindo interesses temáticos que lite na infância e adolescência, permaneceu em cadeira de
vida, marcada por exílios recorrentes, condensa um dos vão da Historiografia e da Metodologia da História até os rodas dos 12 aos 18 anos. Ao recuperar a mobilidade, es-
períodos mais intensos da história política latino-america- estudos sobre Antiguidade e, mais particularmente dentro tudou medicina e letras na Universidad Nacional Mayor de
na. Suas teses em torno das características do capitalismo deste campo, a Egiptologia. Também foi responsável por San Marcos em Lima. Foi militante da Ação Católica, o que
dependente constituem a base para a compreensão não uma revisão significativa da discussão conceitual acerca o motivou a aprofundar os estudos teológicos. Decidido
só do continente, mas também das diversas formas da do escravismo colonial brasileiro, contribuindo para o es- pelo sacerdócio, entrou para o seminário em Santiago
superexploração da força de trabalho e do subimperia- tabelecimento do conceito de Modo de Produção Escra- do Chile. Estudou Filosofia e Psicologia na Universidade 77
lismo. É autor de diversas obras, entre as quais Dialética vista Colonial nos anos 1980. A partir da década de 1990, Católica de Louvain, Bélgica. Seus estudos de Teologia fo-
da dependência (Petrópolis: Vozes, 2000). (Nota da IHU interessou-se pela introdução de métodos semióticos na ram efetuados na Universidade Católica de Lyon, França,
On-Line) análise e interpretação de fontes históricas de diversos ti- na Universidade Gregoriana de Roma e no Instituto Ca-
22 Vânia Gelape Bambirra (1940-2015): cientista política pos. Fiel desde o princípio de sua carreira de historiador e tólico de Paris, chegando ao grau de doutor. Ordenado
e economista nascida em Belo Horizonte (MG). Gradua- ensaísta aos princípios básicos do Materialismo histórico, sacerdote em 1959. Foi professor de Teologia e Ciências
da em 1962 pela Faculdade de Ciências Econômicas da sua linha de análise deslocou-se de um Marxismo um pou- Sociais na Universidade Católica de Lima e fundador do
Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, mestre co mais fechado no princípio de sua carreira (culminando Instituto Bartolomé de Las Casas-Rimac. Foi conselheiro
pela Universidade de Brasília – UnB e doutora em Econo- esta primeira fase com os Ensaios racionalistas) para uma nacional da União de Estudantes Católicos - Unec e pa-
mia pela Universidade Nacional Autônoma do México - abordagem marxista mais flexível, voltada para interações dre em Rimac, um bairro popular de Lima. Foi consultor
UNAM, é mais conhecida na América de língua espanhola interdisciplinares diversas. Um dos primeiros livros, talvez teológico na Segunda Conferência Geral do Episcopado
do que no próprio Brasil. Era filha de uma dona de casa o que o tornou mais conhecido do público acadêmico nos Latino-Americano - Celam, realizada em 1968 em Medellín
e de um alfaiate militante do Partido Comunista Brasilei- primeiros tempos por ter se propagado como um manual (Colômbia). Lecionou Teologia na Universidade de Notre-
ro. Em 1961, inscreveu-se com um grupo de intelectuais, importante no campo da metodologia da história, foi Os Dame (Estados Unidos). Em 1971, publicou Teología de la
entre eles Theotonio dos Santos, como voluntária para métodos da História, que escreveu em parceria com Hector liberación. Perspectivas, razão pela qual é considerado por
defender a Revolução Cubana. Participou da organização Perez Brignole no período em que foi professor da Uni- muitos o pioneiro na sistematização da Teologia da Liber-
revolucionária Política Operária - Polop, que lutou con- versidade da Costa Rica, durante o período repressivo da tação. Em 1982, foi notificado pela Congregação para a
tra o regime militar de 1964. No Chile, exilada, integrou ditadura militar no Brasil. Representativa da fase em que já Doutrina da Fé para responder a dez objeções sobre seus
o Centro de Estudos Sócio-Econômicos - Ceso com um adota a Semiótica como um paradigma importante para a escritos teológicos. Em maio de 1985, obteve o doutora-
grupo de marxistas que desenvolveu uma nova leitura da análise historiográfica é a obra Narrativa, sentido, História, do em teologia pela Faculdade de Teologia do Instituto
realidade latino-americana e um instrumental analítico da onde desenvolve um relevante mostruário das diversas Católico de Lyon. Durante 20 anos, foi diretor da Revista
realidade que influenciou o programa da Unidade Popular, possibilidades de análise semiótica – inclusive o uso dos Concilium. Em 1998, ingressou como noviço na Ordem
partido de Salvador Allende, eleito presidente em 1970. Quadrados semióticos e Grupos de Klein – preocupando- dos Pregadores. Tem 23 títulos de doutor Honoris Causa
Três anos depois, com o golpe de estado promovido pelas se concomitantemente em discutir as suas possibilidades outorgados por universidades de diversos países: cinco no
forças militares, Vânia parte para novo exílio, dessa vez no de utilização na análise historiográfica. No âmbito dos es- Peru, Argentina, Holanda, Suíça, dois na Alemanha, dez
México, onde leciona na Universidade Nacional Autônoma tudos da Antiguidade, produziu algumas obras que são nos Estados Unidos, dois no Canadá e também na Escócia,
do México. Volta ao Brasil na década de 1980. Ao lado de referências importantes para esta área de estudos histó- obtidos entre 1979 e 2006. Ganhou o Prémio Príncipe das
intelectuais como Ruy Mauro Marini, André Gunder Frank ricos, como Trabalho compulsório na Antiguidade e Sete Astúrias em 2003 na Categoria Comunicação e Humani-
e Theotonio dos Santos, formulou a Teoria da Dependên- olhares sobre a Antiguidade. Além do extenso currículo na dades, por seu compromisso com os mais desfavorecidos
cia, uma interpretação crítica, marxista não dogmática, área historiográfica, escreveu um livro chamado A ficção e por haver iniciado a Teologia da Libertação, e em 2014
dos processos de reprodução do subdesenvolvimento na científica - Imaginário do mundo moderno - Uma introdu- o Prémio Capri San Michele. Em setembro de 2013, foi re-
periferia do capitalismo. (Nota da IHU On-Line) ção ao gênero. (Nota da IHU On-Line) cebido em audiência pessoal pelo papa Francisco, em um
23 Orlando Caputo: economista e ex-gerente geral da 28 Florestan Fernandes (1920-1995): sociólogo e político gesto que foi considerado um passo para a reabilitação da
Codelco (estatal chilena de mineração de cobre) durante o brasileiro. Foi deputado federal pelo Partido dos Traba- Teologia da Libertação. (Nota da IHU On-Line)
governo de Salvador Allende, responsável pela nacionali- lhadores - PT, tendo participado da Assembleia Nacional 32 Ana Esther Ceceña Martorella (1950): economista,
zação do cobre no Chile. Pesquisou sobre o imperialismo Constituinte. Recebeu o Prêmio Jabuti em 1964 pelo livro PhD em Relações Econômicas Internacionais pela Univer-
e o papel do cobre no país. Foi convidado por Theotonio Corpo e alma do Brasil e foi agraciado postumamente, em sidade de Paris I – Sorbonne, coordena o Observatório
dos Santos para integrar o primeiro grupo de pesquisa 1996, com o Prêmio Anísio Teixeira. O nome de Florestan Latino-Americano de Geopolítica, que se dedica a estudar,
do Ceso sobre a dependência da América Latina. (Nota Fernandes está obrigatoriamente associado à pesquisa teorizar e mapear os processos contemporâneos de domi-
da IHU On-Line) sociológica no Brasil e na América Latina. Sociólogo e pro- nação e resistência. É professora da Universidade Nacional
24 Ernesto Laclau (1935-2014): teórico político argen- fessor universitário, com mais de 50 obras publicadas, ele Autônoma do México. Sua linha de trabalho centra-se no
tino. Pesquisador e professor da Universidade de Essex, transformou o pensamento social no país e estabeleceu estudo dos recursos naturais, movimentos sociais, milita-
recebeu o título de doutor Honoris Causa de várias uni- um novo estilo de investigação sociológica, marcado pelo rização e da hegemonia global. Ele foi diretor da revista
versidades: Universidade de Buenos Aires, Universidade rigor analítico e crítico, e um novo padrão de atuação in- Chiapas de 1994 a 2004. (Nota da IHU On-Line)
Nacional de Rosário, Universidade Católica de Córdoba, telectual. (Nota da IHU On-Line) 33 Atilio Boron (1943): sociólogo argentino, doutor em
Universidade Nacional de San Juan e Universidade Na- 29 Sedi Hirano: graduado em Ciências Sociais, mestre Ciência Política pela Universidade de Harvard. Escreveu
cional de Córdoba. Em 10-3-2008 concedeu a entrevis- e doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo vários livros de ciência social e filosofia com orientação
ta 1968 e a construção de um novo discurso político à - USP. Foi pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária marxista e uma aposta política clara de compromisso com
edição 250 da IHU On-Line, disponível em http://bit. da USP, diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciên- o socialismo para a América Latina. É professor na Facul-
ly/1gvx8Fu. A edição número 508 da IHU On-Line trou- cias Humanas, da qual é professor emérito, e integrou o dade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires
xe uma reflexão sobre o conceito mais célebre do autor: Conselho Superior da Fapesp. Foi professor visitante do desde 1986. (Nota da IHU On-Line)
o populismo. Acesse em http://bit.ly/2vq0bf3. (Nota da Departamento de Estudos Brasileiros da Universidade de 34 Enrique Dussel (1934): filósofo argentino radicado

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

Anibal Quijano35 e pelo mexicano rica Latina e promover sua transfor- transferência da capital política do
Hector Diaz Polanco36, entre outros. mação rumo a um socialismo demo- país do Rio de Janeiro para Brasí-
crático e articulado à construção de lia. Após o fracasso da Revolução
um novo eixo de poder geopolítico de 193237, as oligarquias paulistas
IHU On-Line – A teoria da de- mundial. fundam a USP em 1934, retomando
pendência é um dos principais a perspectiva de protagonismo sob
caminhos para renovação do forte orientação eurocêntrica e bus-
marxismo? Por quê? IHU On-Line – A teoria da cando matizar a orientação liberal
dependência ainda é capaz de para conciliá-la com a desenvolvi-
Carlos Eduardo Martins – A auxiliar na compreensão das mentista.
teoria da dependência, em sua ver- realidades do nosso tempo? De
são marxista, tem contribuído para que forma? A derrota imposta pelo golpe de
desvendar o caráter profundamente 196438 ao nacionalismo-popular de
antinacional de nossa burguesia, os Carlos Eduardo Martins – Pen- origem varguista garantiu o prota-
limites históricos de seus projetos so que sim. Isso exige uma revisão da gonismo a um desenvolvimentismo
de desenvolvimento em função do obra dos fundadores, tendo em vista excludente e controlado desde cima,
lugar subordinado que ocupam na dois níveis articulados, que são os ainda que as oligarquias paulistas só
divisão internacional do trabalho, o do desenvolvimento lógico-analíti- consigam exercer diretamente o pro-
caráter profundamente excludente co dos conceitos e sua adequação às tagonismo político e cultural a partir
de seus padrões de acumulação, o tendências de longa duração do ca- da década de 1990, perdendo espaço
alto nível de barbárie de seus pro- pitalismo e à realidade concreta no para o PT em 2002 e retomando-o
cessos civilizatórios, que coloca sob século XXI. A teoria da dependência com o golpe de Estado de 2016. A
risco a estabilidade política dos regi- deve se desenvolver para ser um dos transição a este protagonismo se deu
mes democráticos, ameaçados pelo suportes de uma teoria marxista do
recrudescimentos de neofascismos. sistema mundial, buscando não ape- 37 Revolução Constitucionalista de 1932: também co-
nhecida como Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, foi
Tem contribuído ainda para analisar nas romper com a dependência nos o movimento armado ocorrido no estado de São Paulo
entre julho e outubro de 1932. O objetivo era derrubar o
a crise do capitalismo contemporâ- países periféricos, mas disputar o governo provisório de Getúlio Vargas, seguido da convo-

78 neo, formulando as bases de uma te- comando do sistema mundial, mo- cação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O golpe
de estado decorrente da Revolução de 1930 derrubou o
oria marxista do sistema mundial na dificando sua estrutura rumo a uma então presidente da república, Washington Luís; impediu
a posse do seu sucessor eleito nas eleições de março de
qual tenho trabalhado a partir dos civilização planetária, plural e de- 1930, Júlio Prestes; depôs a maioria dos presidentes esta-
mocrática. Para isso é necessário um duais (atualmente se denominam governadores); fechou o
caminhos abertos por Theotonio dos Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas Estaduais
trabalho de integração e articulação e as Câmaras Municipais; e, por fim, cassou a Constitui-
Santos. A teoria marxista da depen- ção de 1891, até então vigente. Getúlio Vargas, candidato
de instrumentos analíticos formula-
dência tem formado novas gerações derrotado nas eleições presidenciais de 1930 e um dos
dos seja pelo grupo da dependência, líderes desse movimento revolucionário, veio a assumir a
cujo desafio é o de atualizar concei- presidência do governo provisório nacional em novembro
seja pelo grupo do sistema mundial, de 1930 com amplos poderes, colocando fim ao perío-
tos deixados por seus fundadores, do denominado República Velha, porém, sob a promessa
tradicionalmente sediado na esquer-
como os de superexploração, subim- de convocação de novas eleições e a formação de uma
da dos Estados Unidos, que carece Assembleia Nacional Constituinte para a promulgação
perialismo, padrões de acumulações de uma nova Constituição. Nos anos subsequentes, essa
de maior suporte marxista. expectativa deu lugar a um sentimento de frustração, em
e seus ciclos, e de formular uma teo- razão da indefinição quanto ao cumprimento dessas pro-
ria política que seja capaz de analisar messas e do acúmulo de ressentimento contra o governo
provisório, principalmente no estado de São Paulo, com
o caráter da crise do Estado na Amé- IHU On-Line – Em que me- o fato de Getúlio Vargas governar de forma discricionária
por meio de decretos, sem respaldo de uma Constituição
dida a intelectualidade brasi- e de um Poder Legislativo. Essa situação também fez di-
(exilado) desde 1975 no México. É um dos maiores expo- minuir a autonomia que os estados brasileiros gozavam
entes da Filosofia da Libertação e do pensamento latino leira, essencialmente paulista durante a vigência da Constituição de 1891, pois os inter-
-americano em geral. Autor de uma grande quantidade de
obras, seu pensamento discorre sobre temas como: filoso-
e alicerçada na Universidade ventores indicados por Vargas, em sua maioria tenentes,
não correspondiam aos interesses dos grupos políticos lo-
fia, política, ética e teologia. Tem se colocado como crítico de São Paulo - USP, apresenta cais e frequentemente entravam em atritos. Foi a primeira
da pós-modernidade chamando por um novo momento grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas. (Nota
denominado transmodernidade. Tem mantido diálogos outra leitura do marxismo, dis- da IHU On-Line)
com filósofos como Apel, Gianni Vattimo, Jürgen Haber-
mas, Richard Rorty, Lévinas. É um crítico do pensamento
tanciando-se das lógicas das te- 38 Golpe de 1964: movimento deflagrado em 1º de abril
de 1964. Os militares brasileiros, apoiados pela pressão
eurocêntrico contemporâneo. (Nota da IHU On-Line) orias da dependência? E quais internacional anticomunista liderada e financiada pelos
35 Anibal Quijano (1930-2018): sociólogo e pensador Estados Unidos, desencadearam a Operação Brother Sam,
humanista peruano, doutor Honoris Causa pelas Univer- os limites dessa leitura? que garantiu a execução do golpe, que destituiu do poder
sidades Central da Venezuela (UCV) e Nacional Autônoma o presidente João Goulart, o Jango. Em seu lugar, os mi-
de Guadalajara (UAG). Conhecido por ter desenvolvido o Carlos Eduardo Martins – A litares assumiram o poder e se mantiveram governando
conceito de “colonialidade do poder”. Seu trabalho tem o país entre os anos de 1964 e 1985. Sobre a ditadura de
sido influente nas áreas de estudos pós-coloniais e da te- intelectualidade paulista foi profun- 1964 e o regime militar, o IHU publicou o 4º número dos
oria crítica. Destacou-se por várias publicações que refle- damente marcada pelo projeto de- Cadernos IHU em formação, intitulado Ditadura 1964.
tem sobre a realidade da América Latina. Foi professor da A memória do regime militar, disponível em https://goo.
Universidad Nacional de San Marcos, atuando também na senvolvimentista do capitalismo de- gl/a4e8VX. Confira, também, as edições nº 96 da IHU On
Universidade de Binghamton, e foi fundador da cátedra -Line, intitulada O regime militar: a economia, a igreja, a
América Latina y la Colonialidad del Poder na Universidad pendente brasileiro, que teve em São imprensa e o imaginário, de 12 de abril de 2004, disponível
Ricardo Palma. Considerado como um dos fundadores da
sociologia crítica. (Nota da IHU On-Line)
Paulo seu epicentro nacional. São em https://goo.gl/a2yUBr; nº 95, de 5 de abril de 2005,
1964 – 2004: hora de passar o Brasil a limpo. 1964, dispo-
36 Hector Diaz Polanco: ensaísta, antropólogo, sociólogo Paulo lançou-se como centro econô- nível em https://goo.gl/cU7FEV; nº 437, de 13 de março
e historiador mexicano. Professor e pesquisador no Centro de 2014, Um golpe civil-militar. Impactos, (des)caminhos,
de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología mico, demográfico, cultural e políti- processos, disponível em https://goo.gl/gXbCaL; e nº 439,
Social - CIESAS. Em 2008, recebeu o prêmio Casa de las
Américas, outorgado o melhor ensaio publicado em espa-
co brasileiro a partir dos anos 1930, de 31 de março de 2014, Brasil, a construção interrompida
– Impactos e consequências do golpe de 1964, disponível
nhol em 2006. (Nota da IHU On-Line) beneficiando-se, posteriormente, da em https://goo.gl/wENVN6. (Nota da IHU On-Line)

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

com a destruição do projeto cultu- A formulação teórica do desen- samento, não foi a única vertente ali
ral do nacionalismo popular e com volvimento dependente encontrou formulada, nem este o único padrão
relações íntimas e perigosas com a sua mais alta elaboração na obra de que se associou à dependência.
ditadura. Zeferino Vaz39, que condu- Fernando Henrique Cardoso42, que
Cumpre destacar na USP a socio-
ziu a construção e estabelecimento aponta na dependência o paradig-
logia militante de Florestan Fernan-
da Unicamp [Universidade Estadual ma de desenvolvimento do Brasil
des, a geografia de Milton Santos43,
de Campinas], de onde foi reitor por e do capitalismo periférico. Na sua
os pensamentos de Octávio Ianni44,
12 anos, foi também o interventor formulação, Cardoso salpicou mar-
de Francisco de Oliveira45, de Sedi
nomeado pelo então general Cas- xismo aqui e ali, mas para tingir
Hirano, de Ruy Braga46, de Leda
telo Branco40 para destruir a UNB uma arquitetura weberiana de pen-
Paulani47, entre outros, como impor-
[Universidade de Brasília], de onde samento. Onde a dependência era
tantes referências críticas ao padrão
demitiu Theotonio dos Santos, Ruy apresentada como o único padrão
de desenvolvimento dependente e
Mauro Marini, Vânia Bambirra e legítimo de dominação, o único que
Perseu Abramo41, entre outros. promovia desenvolvimento. Toda-
43 Milton Santos (1926-2001): geógrafo brasileiro, foi um
via, paradoxalmente, quando alcan- dos pensadores de nosso país mais respeitados em sua
ça o poder político, este projeto já se área. Em 1994, ele recebeu o Prêmio Internacional de Ge-
39 Zeferino Vaz (1908-1981): médico nascido em São ografia Vautrin Lud, na França, uma espécie de Nobel da
Paulo (SP). Conduziu a construção, estabelecimento e torna obsoleto. A reformulação do Geografia. Santos exerceu boa parte da carreira acadêmica
desenvolvimento da Universidade Estadual de Campinas no exterior (França, Canadá, EUA, Peru, Venezuela etc.). Foi
- Unicamp durante as décadas de 1960 e 1970. O principal capitalismo internacional mediante professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciên-
campus da universidade leva o nome de Zeferino, que lu- a globalização neoliberal destruiu cias Humanas da USP, tendo falecido em 2001. Publicou
tou para reunir alguns dos melhores cientistas brasileiros mais de 40 livros e 300 artigos em revistas especializadas.
para formar uma instituição de pesquisa sólida e respeita- grande parte da indústria brasileira, A Editora Unesp publicou o livro Milton Santos: Testamento
da. Estudou Medicina na Universidade de São Paulo - USP Intelectual (São Pasulo: Editora Unesp, 2004), resultado de
e se formou em 1932, com especializações em Parasito-
e a burguesia optou pela financei- entrevista concedida ao autor Jesus de Paula Assis, com
logia, Doenças Parasitárias, Biologia, Genética e Zoologia. rização e pelo subdesenvolvimento a colaboração de Maria Encarnação Beltrão Sposito São
Logo após sua graduação, tornou-se professor de Zoolo- Paulo. (Nota da IHU On-Line)
gia e Parasitologia na Escola de Medicina Veterinária da para garantir o controle político so- 44 Octávio Ianni (1926-2004): sociólogo brasileiro e um
USP. Foi diretor desta escola entre 1936 e 1947. De 1951 dos fundadores do Cebrap. Aposentado compulsoriamen-
a 1964, foi diretor-fundador da Faculdade de Medicina de
bre a classe trabalhadora, impondo- te, teve seus direitos políticos cassados pelo AI-5 em 1969.
Ribeirão Preto. Em 1963, foi secretário estadual de Saúde lhe altas taxas de desemprego. Somente voltou a lecionar no Brasil em 1977, na Pontifícia
pública. De 1964 a 1965, ele foi o primeiro presidente do Universidade Católica de São Paulo e na Universidade Es-
Conselho de Educação do Estado de São Paulo e reitor da tadual de Campinas - Unicamp. Em suas pesquisas, espe-
Universidade de Brasília, em 1964. Em 1965, foi designado
O fracasso deste projeto é melan- cializou-se na análise do populismo e do imperialismo. É
pelo governador Ademar Pereira de Barros como presi- cólico: Fernando Henrique Cardoso, autor de várias obras, entre as quais Estado e capitalismo
79
dente da comissão de organização para a Universidade no Brasil (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1965). (Nota da IHU
Estadual de Campinas. Assumiu o cargo de reitor em 1966 supostamente democrata, se torna On-Line)
e manteve-o até sua aposentadoria compulsória, em 1978. 45 Francisco de Oliveira: sociólogo brasileiro, também
Depois disso, manteve o cargo de presidente da Fundação
um dos articuladores do golpe de conhecido como Chico de Oliveira, é um dos fundadores
para o Desenvolvimento da Unicamp - Funcamp até 1981, 2016 e da aprovação da lei que con- do Partido dos Trabalhadores. Formou-se em Ciências So-
quando morreu vítima de um aneurisma de aorta. Em sua ciais na Faculdade de Filosofia da Universidade do Reci-
homenagem, foi dado seu nome ao trecho de Campinas à gela gastos públicos primários por fe, atual Universidade Federal de Pernambuco. Professor
Mogi Guaçu da SP-332 (Rodovia Professor Zeferino Vaz). 20 anos. A suposta via do desenvol- aposentado de Sociologia do Departamento de Sociolo-
(Nota da IHU On-Line) gia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
40 Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967): vimento pela dependência desde a da Universidade de São Paulo - FFLCH-USP, foi um dos
militar e político brasileiro. Foi um dos articuladores e fundadores do Cebrap. Coordenador-executivo do Centro
primeiro presidente do período do Regime Militar instau- década de 1980 proporciona taxas de Estudos dos Direitos da Cidadania – Cenedic, da USP,
rado pelo golpe militar de 1964. Os principais objetivos
da intervenção militar eram impedir que o comunismo se
medíocres de crescimento econô- deixou o Partido dos Trabalhadores e recentemente filiou-
se ao PSoL (Partido Socialismo e Liberdade). Em 2003, ano
instaurasse no Brasil, através do governo eleito de João mico, excetuado o período de 2004- em que deixou o PT, Francisco de Oliveira disse que Lula
Goulart, influenciado pelo seu cunhado Leonel Brizola, e nunca foi de esquerda. Em 25 de agosto de 2006, foi-lhe
aproximar o Brasil dos Estados Unidos. Uma das primeiras 2012, sob direção heterodoxa petista concedido o título de doutor honoris causa na Universida-
medidas de seu governo foi o rompimento de relações e aditivada pelo boom dos preços de Federal do Rio de Janeiro, por iniciativa do Instituto de
diplomáticas com Cuba, assinalando a mudança de orien- Economia da UFRJ. Em 28 de agosto de 2008, o de pro-
tação da política externa brasileira, que passou a buscar das commodities. fessor emérito pela FFLCH-USP. Em 22 de novembro de
apoio econômico, político e militar nos Estados Unidos. 2010, o de doutor honoris causa na Universidade Federal
Era filho do general Cândido Borges Castelo Branco e de
Antonieta Alencar, membro da família do escritor José de
Importante mencionar, entretanto, da Paraíba. Sua contribuição mais recente à IHU On-Line
foi a entrevista A democracia brasileira é chata. Não entu-
Alencar. (Nota da IHU On-Line) que se esta é a via que se tornou do- siasma ninguém, publicada nas Notícias do Dia, de 20-8-
41 Perseu Abramo (1929-1996): sociólogo, professor e 2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos, disponível
jornalista nascido em São Paulo (SP). Nascido numa famí- minante no padrão uspiano de pen- em http://bit.ly/1LuKW8P. (Nota da IHU On-Line)
lia de imigrantes italianos, seus pais, Athos Abramo ( jorna- 46 Ruy Braga [Ruy Gomes Braga Neto]: graduado em
lista) e Athea Tommasini, eram primos em primeiro grau. Ciências Sociais, mestre em Sociologia e doutor em Ci-
Suas avós paterna e materna eram irmãs, filhas de Bortolo ências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas
Scarmagnan, ativista anarquista italiano radicado no Brasil. Federal da Bahia. Também foi professor da Fundação Cás- - Unicamp. É livre-docente da Universidade de São Pau-
Pela família Abramo, era sobrinho dos jornalistas Claudio per Líbero (1960-1962), da Universidade Federal da Bahia lo - USP. Também realizou pesquisas de pós-doutorado
Abramo e Fulvio Abramo, do artista plástico Livio Abramo (1965-1970) e da FAAP (1970-1971). Trabalhou por 15 na Universidade da Califórnia em Berkeley. Atuou como
e da atriz Lelia Abramo. Ainda jovem, conseguiu seu pri- anos como professor na Pontifícia Universidade Católica professor visitante nas seguintes universidades: École des
meiro emprego como suplente de conferente de revisor de São Paulo (PUC-SP), em disciplinas específicas de jor- Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, Universidade
no primeiro Jornal de São Paulo, em 1946. De 1948 a 1950, nalismo, de 1981 até 1996. Exerceu atividade jornalística Nacional de Cuyo (Mendoza, Argentina), Universidade de
trabalhou como repórter no segundo Jornal de São Paulo também na Folha de S. Paulo, no jornal Movimento e no Coimbra e Universidade da Califórnia em Berkeley. Além
e, na mesma época, como colaborador e repórter na Fo- Jornal dos Trabalhadores, órgão do Partido dos Trabalha- disso, proferiu palestras e minicursos na Universidade de
lha Socialista, semanário do Partido Socialista Brasileiro. dores - PT. Fora da imprensa escrita, trabalhou na rádio Roma 1 “La Sapienza”, na Universidade Nova de Lisboa, no
Trabalhou em A Hora, de 1951 a 1952, e, nesse ano, en- Eldorado (1955) e na TV Globo (1983-1985). É autor dos ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa), na Universidade
trou para O Estado de S. Paulo, onde permaneceu por dez livros Padrões de Manipulação na Grande Imprensa e Um Católica de Louvain - UCL e na Universidade de Witwaters-
anos, chegando a subsecretário de redação. No Estadão, Trabalhador da Notícia, ambos publicados pela editora da rand. Coordena o Centro de Estudos dos Direitos da Cida-
coordenou a equipe que fez a cobertura da inauguração Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT. A Fundação dania - Cenedic na USP. Autor de A política do precariado
de Brasília e obteve o Prêmio Esso de Reportagem, em Perseu Abramo foi criada em 1996 pelo PT para desenvol- (São Paulo: Boitempo, 2012) e de A rebeldia do precariado
1960. Em 1959, graduou-se em Ciências Sociais na então ver projetos de caráter político-cultural; seu nome foi uma (São Paulo: Boitempo, 2017). (Nota da IHU On-Line)
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade homenagem a Perseu Abramo. (Nota da IHU On-Line) 47 Leda Paulani (1954): é economista brasileira e livre do-
de São Paulo - USP, como bacharel e licenciado em so- 42 Fernando Henrique Cardoso (1931): sociólogo, cien- cente da Universidade de São Paulo - USP. Bacharel em
ciologia. Participou ativamente da criação da Universida- tista político, professor universitário e político brasileiro. Economia e em Comunicação Social, com especialização
de de Brasília - UnB, onde lecionou no Departamento de Foi o 34º presidente do Brasil, por dois mandatos con- em Jornalismo, pela USP. Doutora pelo Instituto de Pesqui-
Ciências Humanas, de 1962 – quando a Universidade foi secutivos, entre 1995 e 2003. Conhecido como FHC, ga- sas Econômicas da Universidade de São Paulo - IPE/USP. A
inaugurada – até 1964, quando ocorreu o golpe militar, e nhou notoriedade como ministro da Fazenda (1993-1994) professora já contribuiu no Cadernos IHU ideias número
a UnB foi invadida por tropas do Exército. Em 1968, obteve com a instauração do Plano Real para combate à inflação. 41, sob o título A (anti) filosofia de Karl Marx, disponível
o grau de mestre em Ciências Humanas na Universidade (Nota da IHU On-Line) em http://bit.ly/2oMaaYO. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

subordinado. europeia de Ásia e África. Não há 2017, o senhor destaca que a es-
como se ameaçar e romper com querda brasileira sucumbe ao
este comando antes da ascensão, neoliberalismo e se afasta da te-
IHU On-Line – A esquerda la- do contrário o que se cria é isola- oria da dependência. Hoje, o se-
tino-americana, especialmente mento. A ascensão chinesa revela nhor reforça essa sua análise ou
a brasileira, baseia-se essen- o movimento de placas tectôni- já vivemos um outro momento?
cialmente num marxismo atra- cas que tendem a gerar conflitos E, com base na conjuntura atu-
vessado pela teoria da depen- amplamente explosivos na ordem al, quais as possibilidades de a
dência? Como compreender econômica predominante. Vemos esquerda promover uma reto-
essa leitura e quais seus limites o agravamento das tensões entre mada dessas teorias?
e potências? Estados e China, com Trump48, e
Carlos Eduardo Martins – A
Carlos Eduardo Martins – A os Estados Unidos cada vez mais
esquerda brasileira ainda vive os
esquerda brasileira abandonou as na defensiva. O socialismo chinês
profundos efeitos do colapso do pe-
questões estratégicas nacionais e as é um socialismo em elaboração, tal
tismo. Divide-se entre o apego à li-
relativas à construção de um novo como foram as experiências de so-
derança carismática de Lula50, cada
eixo geopolítico regional e mundial. cialismo no século XX. Represen-
vez mais fantasmagórica e afastada
Em grande parte, porque o PT no po- tam uma versão ainda primitiva de
de projetos concretos de governo e
der desistiu de um projeto de enfren- socialismo que transita da escassez
perspectivas de poder, o radicalis-
tamento do protagonismo do capital para abundância de forças produ-
mo ultraesquerdista estéril e a va-
financeiro e da transnacionalização tivas. Neste processo de transição,
lorização das temáticas identitárias
da economia brasileira. Fez políti- há uma hibridização com o capita-
dentro de um contexto liberal que as
cas desenvolvimentistas e sociais lismo que não retira o antagonismo
desconecta das questões de classe.
pontuais e graduais, mas que não do processo de ascensão chinesa e
A esquerda brasileira não está com-
enfrentaram o monopólio midiático, nem o comando interno. Estes con-
preendendo a natureza da mudança
a apropriação do orçamento público flitos pela hegemonia durarão ain-
de regime político que está em curso
pelos rentistas, o aumento do con- da 20 ou 30 anos.
no país. Saímos de um período de re-
trole estrangeiro sobre a Petrobras, É bastante provável que a huma- democratização inconcluso para um
80 o monopólio das terras pelo agro- nidade esteja entrando em uma era regime de exceção neofascista, ou
negócio, a privatização dos serviços de caos sistêmico, como postulamos fascista liberal, em que se estabelece
de educação, saúde e transporte e em nosso livro Globalização, depen- uma ditadura civil do grande capital.
nem impulsionaram uma agenda de dência e neoliberalismo na Améri- Este regime não desmonta comple-
integração regional efetivamente ro- ca Latina (2011). A crise acelerada tamente o liberalismo político, mas
busta. Diante da ausência de enfren- do liberalismo político no mundo, o o viola cirurgicamente em seus pon-
tamento das questões estruturais, abandono de política de hegemonia tos mais vitais: no livre exercício
houve um deslocamento para uma por parte dos Estados Unidos por da soberania popular, manifesto na
agenda liberal progressista em torno uma política de força e o avanço da
do tema das identidades, mas que, extrema direita indicam que uma or-
descolada dos temas estruturais, dem está chegando ao fim. Cabe às 50 Luiz Inácio Lula da Silva (1945): trigésimo quinto pre-
sidente do Brasil, cargo que exerceu de 2003 a 1º de janei-
enfrenta limites para avançar mais esquerdas se organizarem para tirar ro de 2011. É cofundador e presidente de honra do Partido
profundamente, seja porque neces- partido deste período. O socialismo dos Trabalhadores - PT. Em 1990, foi um dos fundadores e
organizadores do Foro de São Paulo, que congrega parte
sita de mais recursos econômicos, só poderá ser aprofundado e desen- dos movimentos políticos de esquerda da América Latina
e do Caribe. Foi candidato a presidente cinco vezes: em
seja porque necessita de ampla mo- volvido com o avanço das lutas de 1989 (perdeu para Fernando Collor de Mello), em 1994
bilização para promover uma ofensi- classes e a capacidade de os traba- (perdeu para Fernando Henrique Cardoso) e em 1998
(novamente perdeu para Fernando Henrique Cardoso) e
va mais contundente. lhadores dirigirem-na. ganhou as eleições de 2002 (derrotando José Serra) e de
2006 (derrotando Geraldo Alckmin). Lula bateu um recor-
de histórico de popularidade durante seu mandato, con-
forme medido pelo Datafolha. Programas sociais como o
IHU On-Line – Como pode se IHU On-Line – Em entrevista
Bolsa Família e Fome Zero são marcas de seu governo,
programa este que teve seu reconhecimento por parte
compreender a ascensão de no- concedida à IHU On-Line49 em da Organização das Nações Unidas como um país que
saiu do mapa da fome. Lula teve um papel de destaque
vas potências, como a China, na evolução recente das relações internacionais, incluin-
sem romper a ordem capita- do o programa nuclear do Irã e do aquecimento global.
48 Donald Trump (1946): Donald John Trump é um em- É investigado na operação Lava Jato e foi denunciado
lista? E que socialismo emerge presário, ex-apresentador de reality show e atual pre- em setembro de 2016 pelo Ministério Público Federal -
sidente dos Estados Unidos. Na eleição de 2016, Trump MPF, apontado como recebedor de vantagens pagas pela
dessa relação? foi eleito o 45º presidente norte-americano pelo Partido empreiteira OAS em um tríplex do Guarujá. No dia 12 de
Republicano, ao derrotar a candidata democrata Hillary julho de 2017, Lula foi condenado pelo juiz federal Sérgio
Carlos Eduardo Martins – A Clinton no número de delegados do colégio eleitoral; no Moro, em primeira instância, a nove anos e seis meses de
entanto, perdeu no voto popular. Entre suas bandeiras es- prisão em regime fechado por crimes de corrupção pas-
ascensão da China se dá dentro tão o protecionismo norte-americano, por onde passam siva e lavagem de dinheiro. No dia 24 de janeiro de 2018,
de uma ordem mundial dominan- questões econômicas e sociais, como a relação com imi-
grantes nos Estados Unidos. Trump é presidente do con-
por unanimidade, os três desembargadores da 8ª Turma
do Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirmaram a
te que é capitalista desde o século glomerado The Trump Organization e fundador da Trump condenação de Lula, elevando a pena para 12 anos e um
Entertainment Resorts. Sua carreira, exposição de marcas, mês de prisão. No dia 7 de abril de 2018 Lula, após man-
XVI e de forma mais ampla des- vida pessoal, riqueza e modo de se pronunciar contribuí- dado de prisão expedido pelo judiciário, entregou-se à
de o século XIX, com a conquista ram para torná-lo famoso. (Nota da IHU On-Line) Polícia Federal, onde se mantém sob custódia na Superin-
49 Disponível em: https://bit.ly/2Kd6LOg tendência do órgão em Curitiba. (Nota da IHU On-Line)

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

deposição da presidente Dilma51, na brasileira, e não por zelo à legalidade as mobilizações sociais e adote polí-
prisão e cassação dos direitos políti- democrática. ticas universalistas como parâmetro,
cos de Lula e na criminalização das colocando apenas dentro destas as
O reencontro teórico com as for-
políticas sociais com a aprovação da políticas focalizadas. É preciso tam-
mulações da teoria da dependência
lei que congela gastos primários por bém uma política para a juventude.
depende de um reencontro político
20 anos. Trata-se de um regime mui- É preciso descriminalizar o uso das
com a criação de saídas para a crise
to similar ao que se estabeleceu na drogas e dar uma solução à questão
brasileira, e isto implica em colocar
Itália entre 1922-24, quando Mus- prisional e carcerária que afeta as
a questão do socialismo dentro de
solini52 ascendeu à condição de pri- maiorias pobres do Brasil e sua po-
uma problemática nacional envol-
meiro-ministro e organizou eleições pulação preta e mestiça. É preciso
vendo amplos setores sociais. A es-
pluripartidárias sem romper com a descriminalizar o aborto. A esquerda
querda deve sair de uma posição de
legalidade liberal, mas submetendo limitada pelo neoliberalismo, pelo
ajuste à ordem ou de sectarismo e
-a à violência e ao despotismo para pensamento conservador católico
voltar a fazer política de hegemonia.
que se tornasse uma superestrutura ou neopentecostal, pelo pensamento
Isso implica em formular orienta-
de fachada. A razão pela qual o ca- que o golpe de 1964 legou às forças
ções estratégicas e táticas e começar
pitalismo brasileiro mantém esta armadas ou restrita às negociações
do início, e não do final. Pleno em-
formulação é a de impedir a criação com o Congresso se esclerosou e tem
prego, desenvolvimento e democra-
de um monopólio político que possa pouco a dizer à população brasileira.
cia se tornaram palavras subversivas
rivalizar com o monopólio exerci-
para a atual ordem burguesa. Isso
do pelo grande capital na sociedade
exige enfrentar o domínio do capi- IHU On-Line – Como conce-
tal financeiro sobre os processos de ber uma reinvenção da esquer-
51 Dilma Rousseff (1947): economista e política brasileira, acumulação, democratizar o mono- da? E quais as contribuições do
filiada ao Partido dos Trabalhadores - PT, eleita duas vezes
presidente do Brasil. Seu primeiro mandato iniciou-se em pólio midiático e o Poder Judiciário. marxismo nesse desafio?
2011 e o segundo foi interrompido em 31 de agosto de É necessário partir para reorganizar
2016. Em 12 de maio de 2016, foi afastada de seu cargo
durante o processo de impeachment movido contra ela. o movimento popular rumo a tarefas Carlos Eduardo Martins – A
No dia 31 de agosto, o Senado Federal, por 61 votos fa-
mais ofensivas. reinvenção da esquerda no Brasil
voráveis ao impeachment contra 20, afastou Dilma defini-
tivamente do cargo. O episódio foi amplamente debatido exige retomar o papel do Estado
nas Notícias do Dia no sítio do IHU, como, por exemplo, a
como produtor de bens e serviços
81
Entrevista do Dia com Rudá Ricci intitulada Os pacotes do
Temer alimentarão a esquerda brasileira e ela voltará ao IHU On-Line – Fala-se, no estratégicos e o seu controle acioná-
poder, disponível em http://bit.ly/2bLPiHK. Durante o go-
verno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assumiu a mundo todo, em esgotamento rio sobre empresas chaves; sua pro-
chefia do Ministério de Minas e Energia e posteriormente
da Casa Civil. (Nota da IHU On-Line)
das esquerdas. No Brasil, a es- jeção latino-americana e mundial; a
52 Benito Mussolini (1883-1945): jornalista e político ita- querda chegou ao seu limite? vinculação das políticas identitárias
liano, governou a Itália com poderes ditatoriais entre 1922
e 1943. Liderou o Partido Nacional Fascista e é tido como Por quê? às políticas universalistas. Precisa-
uma das figuras-chave na criação do fascismo. Tornou-se mos montar um importante sistema
o primeiro-ministro da Itália em 1922 e em 1925 come- Carlos Eduardo Martins – Não
çou a usar o título Il Duce, que significa “o condutor”, em de inovação, ciência e tecnologia
italiano. Após 1936, seu título oficial era Sua Excelência creio. Chegou ao limite um tipo de
Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Fascismo e baseado no uso de nossos recursos
esquerda e sua proposta gradualis-
Fundador do Império. Também criou e sustentou a paten- naturais, como a biodiversidade,
te militar suprema de Primeiro Marechal do Império, junto ta de transformação. O capitalismo
com o rei Vítor Emanuel III da Itália, quem deu-lhe o título, reservas de hidrocarburos, de mine-
tendo controle supremo sobre as forças armadas do país. dependente continua cada vez mais
rais estratégicos como o urânio e o
Mussolini permaneceu no poder até ser substituído em desigual, e a superexploração se es-
1943. Foi um dos fundadores do fascismo, que incluía ele- nióbio. Para isso, é preciso parceria
mentos de nacionalismo, corporativismo, sindicalismo na- tende aos países centrais, gerando
cional, expansionismo, progresso social e anticomunismo, e cooperação internacional com os
combinado com a censura de subversivos e propaganda ensaios de respostas violentas pela
países da América Latina e aqueles
do Estado. Nos anos seguintes à criação da ideologia fas- direita, que atacam os imigrantes
cista, Mussolini conquistou a admiração de uma grande que despontam como promotores de
variedade de figuras políticas. Entre suas realizações de preservando o capital monopólico,
1924 a 1939, destacam-se os seus programas de obras pú- um novo eixo geopolítico internacio-
blicas como a drenagem das áreas pantanosas da região seu grande responsável. A esquerda
nal, tais como China, Rússia, Índia e
do Agro Pontino e o melhoramento das oportunidades de apostou numa versão compensató-
trabalho e transporte público. Mussolini também resolveu África do Sul. É preciso ainda romper
a Questão Romana ao concluir o Tratado de Latrão entre ria do cosmopolitismo liberal e vê
o Reino de Itália e a Santa Sé. A ele também é creditado com a tutela de nosso Estado pelo
seus projetos perderem substância
o sucesso econômico nas colônias italianas e dependên- capital financeiro, democratizando
cias comerciais. Embora inicialmente tenha favorecido o à medida que o capitalismo mun-
lado da França contra a Alemanha no início da década de -o radicalmente e ultrapassando os
1930, Mussolini tornou-se uma das figuras principais das dial, mas sobretudo o europeu e o
potências do Eixo e, em 10 de junho de 1940, inseriu a limites autocráticos do liberalismo
estadunidense, perdem dinamismo.
Itália na Segunda Guerra Mundial ao lado dos alemães. político e das formas neofascistas.
Três anos depois, foi deposto pelo Grande Conselho do A recuperação europeia e estaduni-
Fascismo, motivado pela invasão aliada. Logo depois de É necessário ainda estabelecer tam-
preso, Mussolini foi resgatado da prisão no Gran Sasso por dense não impediu o crescimento da
bém uma política de segurança e so-
forças especiais alemãs. Após seu resgate, Mussolini che- pobreza, cada vez mais associada à
fiou a República Social Italiana nas partes da Itália que não berania alimentar, o que nos lança o
haviam sido ocupadas por forças aliadas. Ao final de abril baixa remuneração dos empregos e
de 1945, com a derrota total aparente, tentou fugir para a desafio de democratizar a estrutura
Suíça, porém, foi rapidamente capturado e sumariamen- não apenas ao alto desemprego.
te executado próximo ao lago de Como por guerrilheiros
fundiária da sociedade brasileira.
italianos. Seu corpo foi então trazido para Milão, onde foi É preciso que a esquerda recupere E não menos importante, é neces-
pendurado de cabeça para baixo em uma estação petro-
lífera para exibição pública e a confirmação de sua morte. a ousadia, os projetos estratégicos, sário orientar a universidade brasi-
(Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

leira para sua missão pública e seu como ideologia de ascensão pessoal países dependentes; a crise do libe-
compromisso social, restabelecendo e empreendedorismo dos pobres. ralismo político, o caos sistêmico a
sua autonomia e soberania nacional que se aproxima a ordem interna-
diante do corporativismo privatista cional e o recrudescimento do fas-
que as agências de fomento e os cor- IHU On-Line – Diante das cismo no século XXI, bem como as
tes orçamentários lhe impuseram. transformações do capitalismo novas formas que assume; o caráter
de hoje, da especulação finan- colonial e violento das estruturas de
Estas são questões que desafiam ceira e das constantes transfor- poder no capitalismo contemporâ-
o marxismo brasileiro a encontrar mações apoiada nas mudanças neo, denunciando o racismo, a hete-
respostas. Este deve romper com os tecnológicas, quais as contri- ronormatividade e promovendo sua
vícios autoritários, elitistas e desna- buições do marxismo? descolonização e democratização; e
cionalizantes que o desenvolvimen-
Carlos Eduardo Martins – O ainda comprometer-se com a cria-
tismo assumiu durante a era Geisel53
marxismo deve analisar a natureza ção de uma cultura do bem-viver que
e os governos militares e enfrentar o
da financeirização do capitalismo reinscreva o ser humano em suas
protagonismo ideológico do neoli-
contemporâneo e sua relação com comunidades e nos ecossistemas,
beralismo em todas as suas formas:
a crise civilizatória do modo de pro- rompendo com o antagonismo e a
seja como ideologia empresarial e
dução capitalista; a extensão da su- solidão que fundamenta o mal-viver
de Estado, seja como ideologia dos
perexploração aos países centrais da cultura capitalista e seu apelo ao
movimentos sociais de protesto, seja
e o caráter que assume no centro e consumo como saída fictícia. Final-
53 Ernesto Geisel (1908-1996): ditador militar e político
na periferia no século XXI; o papel mente é papel fundamental do mar-
brasileiro. Foi adido militar no Uruguai, comandante da dos ciclos na definição de conjuntu- xismo contribuir para reinvenção
XI Região Militar em Brasília, chefe do gabinete militar da
presidência da República no governo Castelo Branco, mi- ras internacionais e nacionais, em do socialismo no século XXI, com-
nistro do Superior Tribunal Militar e presidente da Petro-
bras (1969-1973). Eleito presidente da República por um particular os ciclos sistêmicos, os de prometendo-o com uma democracia
Colégio Eleitoral (1973), indicado pelos militares, tomou Kondratiev e os ciclos de entradas e radical no plano local, nacional, in-
posse em 15 de março de 1974, como penúltimo ditador
militar depois do golpe de 1964. (Nota da IHU On-Line) saídas de capitais estrangeiros nos ternacional e mundial. ■

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30 DE JULHO | 2018
ARTIGO REVISTA IHU ON-LINE

A esquerda ferida
Jose Arthur Giannotti

“ A
exploração do trabalho pelo capital é brutal, mas não
é homogênea. Todas as revoluções de esquerda, des-
de a russa, que tentaram produzir sem passar pelas
misérias do mercado, foram obrigadas a recuar. Toda polí-
tica distributiva tem que saber como se produz a riqueza a
ser distribuída. Hoje ser de esquerda é pensar nesse dilema.
A mera acusação contra o capitalismo sem levar em conta
esse desafio é enganação religiosa. Daí a importância da
democracia como o terreno onde essas discussões possam
ser feitas. Esconder o problema, só pensar na distribuição,
é enganar o público e fomentar o populismo ”, escreve Jose
Arthur Giannotti. E acrescenta: “nada mais prejudicial à
modernização da esquerda do que a repetição das críticas a
um capital que deixou de existir”.
Jose Arthur Giannotti é professor emérito da Facul-
dade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de 83
São Paulo - FFCL/USP. É membro fundador e Pesquisa-
dor Senior no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
- CEBRAP, São Paulo, professor contratado da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo -PUC/SP e, ainda, pro-
fessor titular na área de Filosofia política do Departamento
de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
da Universidade Estadual de Campinas - IFCH/UNICAMP.
Entre seus livros publicados, destaque para Apresentação
do mundo. Considerações sobre o pensamento de Ludwig
Wittgenstein (São Paulo: Cia. das Letras, 1995), Universi-
dade em ritmo de barbárie (São Paulo: Brasiliense, 1986),
Trabalho e reflexão (São Paulo: Brasiliense, 1983) e O ca-
pital: crítica da economia política (São Paulo: Boitempo
Editorial, 2013).
Eis o artigo.

Por mais que o sistema capitalista tenha mudado, o conceito marxista de capital ainda nos obri-
ga a pensar e a levar em conta que nosso sistema econômico cria riqueza e muita desigualdade ao
mesmo tempo. Devemos, porém, levar em consideração que houve uma enorme transformação
em nosso sistema de produção: para crescer ele depende cada vez mais de invenções de novos
produtos, por conseguinte de novas tecnologias. Essa dependência de novos conhecimentos tra-
va a formação da mercadoria tal como Marx a pensou. Para que ela seja parcela do trabalho
social total, como ensinara Ricardo1, é necessário que todos os produtores de um mesmo ramo

1 David Ricardo (1772 - 1823): economista inglês, considerado um dos principais representantes da economia política clássica. Exerceu uma grande
influência tanto sobre os economistas neoclássicos, como sobre os economistas marxistas, o que revela sua importância para o desenvolvimento da
ciência econômica. Os temas presentes em suas obras incluem a teoria do valor-trabalho, a teoria da distribuição (as relações entre o lucro e os salários),
o comércio internacional, temas monetários. A sua teoria das vantagens comparativas constitui a base essencial da teoria do comércio internacional.
Demonstrou que duas nações podem beneficiar-se do comércio livre, mesmo que uma nação seja menos eficiente na produção de todos os tipos de

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TEMA DE CAPA

de produção tenham acesso à mesma tecnologia. Não me parece que isso seja o caso atualmente;
mais ainda, as grandes fortunas nascem de descobertas tecnológicas que se tornam monopólio
e são derrubadas com o nascimento de outros monopólios. A informática é o caso típico. Nessas
condições haveria múltiplos valores médios circulando num mercado mundializado. Seria ne-
cessário repensar as novas formas de fetiche da mercadoria.
No entanto, o capital não se define apenas como produtor de mercadoria, mas de mercadorias
-investimentos que só são mobilizadas quando geram lucro. Sem uma tacha média de produti-
vidade do capital, não há condições de formar a contradição tipo hegeliana entre o capital total
e o proletário total. Aliás, em vez de se unificar o proletariado se espatifou em várias categorias
de trabalhador e o próprio emprego se torna cada vez mais variável.
O jovem Marx, enquanto hegeliano, apostava numa revolução que opusesse capital e trabalho,
mas o velho Marx não consegue fechar o terceiro volume de seu maior livro, porque os dados
não levam nessa direção. Depois da publicação dos textos escritos no período, depois dos vários
estudos sobre esse problema, em particular aqueles de Michael Heinrich2, fica evidente que En-
gels3, depois da morte de Marx, costurou esses textos o melhor possível para que ainda dessem a
impressão de que a revolução proletária terminaria regenerando o gênero humano.
Daí a questão: a exploração do trabalho pelo capital é brutal, mas não é homogênea. Todas
as revoluções de esquerda, desde a russa, que tentaram produzir sem passar pelas misérias do
mercado, foram obrigadas a recuar. Toda política distributiva tem que saber como se produz a
riqueza a ser distribuída. Hoje ser de esquerda é pensar nesse dilema. A mera acusação contra o
capitalismo sem levar em conta esse desafio é enganação religiosa. Daí a importância da demo-
cracia como o terreno onde essas discussões possam ser feitas. Esconder o problema, só pensar
na distribuição, é enganar o público e fomentar o populismo. Nada mais prejudicial à moderni-
zação da esquerda do que a repetição das críticas a um capital que deixou de existir.■

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bens do que o seu parceiro comercial. Ao apresentar esta teoria, usou o comércio entre Portugal e Inglaterra como exemplo demonstrativo. O Ciclo de
Estudos em EAD – Repensando os Clássicos da Economia - Edição 2010, em seu segundo módulo, fala sobre Malthus e Ricardo: duas visões de economia
política e de capitalismo. Para conferir a programação do evento, visite http://migre.me/xQsg. (Nota da IHU On-Line)
2 Cientista político alemão, professor da Universidade de Berlim; é um os entrevistados da presente edição da IHU On-Line. (Nota da IHU On-Line)
3 Friedrich Engels (1820-1895): filósofo alemão que, junto com Karl Marx, fundou o chamado socialismo científico ou comunismo. Ele foi coautor de
diversas obras com Marx, entre elas Manifesto Comunista. Grande companheiro intelectual de Karl Marx, escreveu livros de profunda análise social.
(Nota da IHU On-Line)

Leia mais
- ‘Podemos sair da crise, mas não sairemos do século 20’, diz José Arthur Giannotti.
Entrevista reproduzida nas Notícias do dia de 28-8-2017, no sítio do Instituto Humanitas
Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2JXXcTW.
- Ética e Política: “A corrupção é um dos esteios da nossa formação”, destaca José Ar-
thur Giannotti. Entrevista reproduzida nas Notícias do dia de 2-12-2011, no sítio do Instituto
Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2KaUI3H.

30 DE JULHO | 2018
ENTREVISTA REVISTA IHU ON-LINE

Uma outra política para a esquerda e a


necessidade de rever a relação com Marx
Ruy Fausto analisa impasses políticos de hoje e a relação
com as confusões que se dão com os escritos marxianos
João Vitor Santos

A
esquerda no mundo todo está ultraconservadoras crescem. “Precisa-
doente, mas em terra brasilis mos de uma outra política para a es-
há problemas crônicos. Essa é a querda”, resume.
interpretação do professor Ruy Fausto,
Ruy Fausto possui graduação em Fi-
que ainda acrescenta: “as grandes pato-
losofia pela Universidade de São Paulo
logias da esquerda são o totalitarismo e
- USP, graduação em Direito pela mes-
o populismo, a acrescentar a social-de-
ma instituição e doutorado em Filosofia
mocracia adesista”. Para ele, há emer-
pela Université Paris 1 Pantheon-Sor-
gência de se reinventar novos caminhos
bonne. Atualmente é professor titular
para a esquerda que, aliás, podem mui-
da USP e membro de corpo editorial
to bem passar por uma releitura dos
dos Cadernos de Ética e Filosofia Polí-
escritos de Karl Marx, sem os atraves-
tica da USP. Entre seus livros publica-
samentos que o marxismo muitas ve-
zes tende a fazer. “A esquerda tem de
dos, destacamos Outro dia: interven- 85
ções, entrevistas, outros tempos (São
se definir rigorosamente em relação ao
Paulo: Editora Perspectiva, 2009), Os
corpus marxiano. Isso não foi bem fei-
piores anos da nossa vida (Niterói:
to, até aqui. E persiste a confusão”, ana-
Editora da Fundação Astrojildo, 2008),
lisa. Confusão que, para ele, se dá pela
incidência de perspectivas populistas, A Esquerda Difícil: em torno do para-
mas, especialmente, bolchevistas. “O digma e do destino das revoluções do
bolchevismo foi uma catástrofe para século XX e alguns outros temas (São
a esquerda. Continuamos a pagar um Paulo: Editora Perspectiva, 2007) e
preço pelos seus erros”. Marx: Lógica e Política - Investigações
para uma reconstituição do sentido da
Na entrevista, concedida por e-mail
dialética (São Paulo: Editora 34, 2002).
à IHU On-Line, Fausto ainda acres-
Recentemente publicou Caminhos da
centa que no mundo, em particular no
Esquerda, elementos para uma re-
Brasil, “é preciso articular as lutas ‘clás-
construção (São Paulo: Companhia das
sicas’, com as chamadas ‘novas’ lutas:
Letras, 2017).
feminismo, antirracismo, LGBT etc.
Parece banalidade, mas esse trabalho Ruy Fausto participou do 2º Ciclo
é fundamental, e não tem nada de sim- de Estudos A reinvenção política
ples”. Assim, de certa forma, encaran- no Brasil contemporâneo. Limi-
do esse desafio se estaria voltando ao tes e perspectivas, promovido pelo
Marx da essência, aos escritos marxia- Instituto Humanitas Unisinos – IHU,
nos e não às leituras dos seguidores, os em que proferiu a palestra Possíveis ca-
marxistas, para pensar nos desafios de minhos para a reconstrução da esquer-
nosso tempo. da no Brasil. A íntegra da conferência
pode ser acessada em http://bit.ly/2Ir-
Também sobre a realidade da es-
querda nacional, dispara: “vai de mal 7ZjI. Na mesma ocasião, concedeu a
a pior”. Isso porque o PT, partido clás- entrevista A reversão da crise requer
sico da esquerda brasileira, para Faus- uma exigência democrática sem perda
to, comete erros como a defesa cega do do impulso anticapitalista, disponível
governo da Venezuela e a insistência da em http://bit.ly/2K6kVkJ.
candidatura de Lula, enquanto figuras Confira a entrevista.

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TEMA DE CAPA

IHU On-Line – Quais os li- no brota a partir de um campo de Gorz8. Em matéria de crítica da eco-
mites e as potencialidades de ideias e experiências, muito rico e nomia política, acho que tudo está
Marx para pensar a política do complexo. A Lógica de Hegel2 tem por fazer. Mas há muita gente jovem,
século XXI, uma época de gran- um papel saliente nisso tudo. Na tra- e menos jovem, tentando avançar
des instabilidades e de rápidas dição marxista, há uma enxurrada pelo caminho crítico.
e constantes transformações? de desenvolvimentos muito à côté
de la plaque (fora da jogada), e tam-
Ruy Fausto – Vamos dividir e
também deslocar um pouco a ques-
bém muita bobagem, além de muita
deformação sinistra, o que é o mais
“Marx viveu
tão. O Capital é um clássico. Não um
clássico como as obras dos grandes
grave. antes da época
filósofos modernos ou antigos. Ele
é mais atual. Mas também não um
Há, entretanto, coisas sérias na
tradição, digamos, pós-marxista do totalitarismo,
clássico, como é, a meu ver, um livro
como a Dialética Negativa, de Ador-
(com um “pós” semi-inclusivo). O
importante: os alemães de Frank- o que faz toda
no1. O Capital é um clássico “um
pouco” distante do nosso tempo,
furt3, principalmente Theodor Ador-
no. A Dialética Negativa4 de Ador- a diferença”
mas não demasiado distante (essas no, é, ao meu ver, o nosso “clássico
minhas fórmulas são muito aproxi- atual“ (para usar de uma expressão
madas e sem rigor, sem dúvida, mas um pouco paradoxal). Também os IHU On-Line – De que for-
é preciso começar por aí). franceses (ou semi-franceses), como ma o senhor observa as trans-
Cornelius Castoriadis5 e Claude Le- formações no pensamento do
Quanto à política de Marx, se ela
fort6, aos quais se poderia acrescen- “jovem” para o “velho Marx”?
continua a ser relevante, ela enve-
tar Edgard Morin7, e também André Quais as mudanças mais signi-
lheceu mais do que a teoria estri-
ficativas?
to senso. Eu diria que o essencial é
2 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831): filóso-
que Marx viveu antes da época do fo alemão idealista. Como Aristóteles e Santo Tomás de Ruy Fausto – Claro que muda,
totalitarismo, o que faz toda a dife- Aquino, desenvolveu um sistema filosófico no qual esti-
vessem integradas todas as contribuições de seus princi-
quando se passa de um ao outro.
86 rença. Não apenas ele não conheceu pais predecessores. Sobre Hegel, confira a edição 217 da Mas não se trata da “coupure” al-
IHU On-Line, de 30-4-2007, disponível em https://goo.gl/
o nazismo e o stalinismo, como, di- m0FJnp, intitulada Fenomenologia do espírito, de (1807- thusseriana, que é simplesmente
ferentemente de outros pensadores 2007), em comemoração aos 200 anos de lançamento um erro. A fórmula está meio usada,
dessa obra. Veja ainda a edição 261, de 9-6-2008, Carlos
do seu tempo, praticamente não Roberto Velho Cirne-Lima. Um novo modo de ler Hegel, dis- mas há, na passagem, um misto de
ponível em https://goo.gl/D94swr; Hegel. A tradução da
pensou na possibilidade deles. Nós história pela razão, edição 430, disponível em https://goo. continuidade e descontinuidade. Di-
vivemos numa época pós-totalitária; gl/62UATd e Hegel. Lógica e Metafísica, edição 482, dis- gamos que o fundamento antropoló-
ponível em https://goo.gl/lldAkv. (Nota da IHU On-Line)
entretanto, esse “pós” é inclusivo. 3 Escola de Frankfurt: escola de pensamento formada gico do discurso de juventude desa-
por professores, em grande parte sociólogos marxistas
Vivemos ainda, digamos assim, “no alemães. Abordou criticamente aspectos contemporâneos
parece como fundamento, mas não
tempo” do totalitarismo. O que não das formas de comunicação e cultura humanas. Deve-se à desaparece de forma absoluta (isto
Escola de Frankfurt a criação de conceitos como indústria
significa que a crítica do capitalismo cultural e cultura de massa. Entre os principais professo- é, se a antropologia deixa de ser fun-
perdeu atualidade. res e acadêmicos da Escola podemos destacar: Theodor
Adorno (1903-1969), Max Horkmeimer (1885-1973), Wal-
damento, ela não “some”). Não se
ter Benjamin, Herbert Marcuse (1917-1979), Franz Neu- suponha, entretanto, que essa mu-
mann, entre outros. (Nota da IHU On-Line)
4 Dialética negativa é um livro do filósofo, musicólogo e dança é pequena. Falo isso no plano
IHU On-Line – Como com- sociólogo alemão Theodor W. Adorno. O livro foi lançado da análise de fato. Em termos do jul-
em 1966. (Nota da IHU On-Line).
preender a gênese da lógica de 5 Cornelius Castoriadis: (1922-1997): filósofo, econo- gamento da obra de Marx, acho que,
Karl Marx? Em que medida o mista e psicanalista francês, de origem grega, defensor
por razões diferentes, os “dois” Marx
do conceito de autonomia política. É considerado um dos
marxismo vai inebriando e di- maiores expoentes da filosofia francesa do século XX. Em
1949, fundou, com Claude Lefort, o grupo Socialismo ou
minuindo a potência da gênese barbárie, que deu origem à revista homônima. Autor de e até biologia, pois, para ele, não há pensamento que cor-
desse pensamento? inúmeras obras de filosofia e, em especial, de filosofia po- responda à nova era planetária. Além de O Método, é autor
lítica, Cornelius Castoriadis é considerado um filósofo da de, entre outros, A religação dos saberes. O desafio do sé-
autonomia. Entre suas inúmeras obras destacam-se: Insti- culo XXI (Bertrand do Brasil, 2001). Confira a edição espe-
Ruy Fausto – O corpus marxia- tuição Imaginária da Sociedade, Encruzilhadas do Labirinto, cial sobre esse pensador, intitulada Edgar Morin e o pensa-
Socialismo ou Barbárie. (Nota da IHU On-Line) mento complexo, de 10-9-2012, disponível em http://www.
6 Jean-Claude Lefort (1924-2010): filósofo francês, au- ihuonline.unisinos.br/edicao/402. (Nota da IHU On-Line)
tor de, entre outros A invenção democrática: os limites 8 André Gorz (1923-2007): filósofo austríaco radicado na
1 Theodor Adorno (1903-1969): sociólogo, filósofo, mu- da dominação totalitária (São Paulo: Brasiliense, 1983) e França desde 1948. Escreveu 16 livros, dos quais vários tra-
sicólogo e compositor, definiu o perfil do pensamento Desafios da escrita política (São Paulo: Discurso Editorial, duzidos para o português, entre eles Adeus ao proletaria-
alemão das últimas décadas. Adorno ficou conhecido no 1999). Por ocasião de seu falecimento, a IHU On-Line do (Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982), Metamor-
mundo intelectual, em todos os países, em especial pelo entrevistou a filósofa Olgária Matos, na edição 348 da Re- foses do trabalho. Crítica da razão econômica (São Paulo:
seu clássico Dialética do Iluminismo, escrito junto com vista IHU On-Line, de 25-10-2010, disponível em http:// Annablume, 2003) e Misérias do Presente, Riqueza do Pos-
Max Horkheimer, primeiro diretor do Instituto de Pesquisa migre.me/34oI9 e intitulada Claude Lefort e a invenção sível (São Paulo: Annablume, 2004). A IHU On-Line reali-
Social, que deu origem ao movimento de ideias em filo- democrática. (Nota da IHU On-Line) zou entrevista com Gorz, publicada parcialmente na 129ª
sofia e sociologia conhecido como Escola de Frankfurt. 7 Edgar Morin (1921): sociólogo francês, autor da célebre edição da revista IHU On-Line, de 2-1-2005, disponível
Sobre Adorno, confira a entrevista concedida pelo filósofo obra O Método. Os seis livros da série foram tema do Ci- em http://bit.ly/2K76b5i, e na íntegra no número 31 dos
Bruno Pucci à edição 386 da Revista IHU On-Line, intitu- clo de Estudos sobre “O Método”, promovido pelo IHU em Cadernos IHU ideias, com o título A crise e o êxodo da so-
lada Ser autônomo não é apenas saber dominar bem as parceria com a Livraria Cultura de Porto Alegre em 2004. ciedade salarial, disponível em http://bit.ly/2KhBUN5. So-
tecnologias, disponível em https://bit.ly/2I5xMSv. A con- Embora seja estudioso da complexidade crescente do co- bre André Gorz também pode ser lido o texto Pelo êxodo
versa foi motivada pela palestra Theodor Adorno e a frieza nhecimento científico e suas interações com as questões da sociedade salarial. A evolução do conceito de trabalho
burguesa em tempos de tecnologias digitais, proferida por humanas, sociais e políticas, se recusa a ser enquadrado em André Gorz, de André Langer, publicado nos Cadernos
Pucci dentro da programação do Ciclo Filosofias da Inter- na sociologia e prefere abarcar um campo de conheci- IHU nº 5, de 2004, disponível em http://bit.ly/2IrsM6W.
subjetividade. (Nota da IHU On-Line) mentos mais vasto: filosofia, economia, política, ecologia (Nota da IHU On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

são interessantes. uma crítica à sua obra que, in- é, de longe, a grande figura, em ter-
clusive, era estimulada por ele mos de crítica da política marxista,
durante o período de sua pro- embora, como sempre, haja muita
IHU On-Line – Voltemos à ló- dução? coisa a discutir, no pensamento dele,
gica hegeliana. Qual é seu papel tanto no plano teórico, como tam-
no pensamento do “Marx mais Ruy Fausto – A ortodoxia sempre
bém no plano da própria política.
maduro”? Em que medida essa foi um peso negativo. A ortodoxia
De qualquer modo, eu diria: fala-se
lógica amplia o pensamento de acadêmica inclusive. Mas teríamos
de Castoriadis, publicam-se teses e
Marx? que fazer distinções: há o lado erra-
livros a respeito, mas acho que, ape-
do do pensamento do próprio Marx,
Ruy Fausto – Papel muito gran- sar de tudo, não se reconheceu ple-
depois houve a deformação leninis-
de, mal compreendido no passado, namente o papel que ele teve e tem.
ta, depois a deformação bolchevis-
mal compreendido ainda hoje. A ló- ta e também a social-democrata. É
gica hegeliana não “amplia” o pensa-
“Acho que
necessário precisar o sentido e o al-
mento de Marx, ela é um “elemento” cance de cada caso, porque os erros
decisivo desse pensamento. O que
não significa que Marx seja, a rigor,
e deformações são de natureza bas-
tante diferente. De qualquer modo, Castoriadis
“hegeliano”. Se se quiser simplificar
muito, e dar uma fórmula, Marx cul-
uma soma de erros produziu uma
enorme confusão. A fortiori no Bra- é, de longe, a
tiva uma sintaxe hegeliana, e uma
semântica que não é hegeliana. Mas
sil. Diz-se, até, que hoje, no Brasil,
não são poucos os stalinistas. grande figura,
isso é uma aproximação um pouco
grosseira. Para mais detalhes e mais em termos
rigor, ver o que escrevi a respeito em
meus livros.
IHU On-Line – No campo po-
lítico, especialmente no espaço de crítica
da esquerda, essa crítica sem-
pre estimulada pelo próprio da política
IHU On-Line – Qual a con-
tribuição do pensamento de
Marx foi feita ou, muitas ve-
zes, há aplicação de suas ideias
marxista” 87
Marx para concebermos saídas numa cega ortodoxia?
para o estado de crises em que IHU On-Line – O senhor diz
a esquerda mundial parece Ruy Fausto – Fez-se pouco. No
plano político, a principal crítica a que a esquerda brasileira care-
mergulhada? ce de autocrítica. Em que medi-
Marx foi a que fez a revista Socia-
Ruy Fausto – Embora isso não lismo ou Barbárie10, que encerrou da podemos associar essa falta
seja o mais urgente, a esquerda tem a sua carreira, paradoxalmente, às de crítica com as transforma-
de se definir rigorosamente em re- vésperas da revolta de 68. A revista ções que vão sendo feitas no so-
lação ao corpus marxiano. Isso não foi fundada por Lefort11 e Castoria- cialismo, levando-a para muito
foi bem feito, até aqui. E persiste a dis12, mas Castoriadis a dirigiu por mais perto do capitalismo?
confusão. Mas o grande problema mais tempo. Acho que Castoriadis Ruy Fausto – A esquerda brasilei-
(que, entretanto, tem a ver com a ra padece das doenças da esquerda
crítica a Marx) é o do bolchevismo9 mundial, mas tem também patolo-
e também o do populismo. O bol- 10 Socialismo ou Barbárie (em francês Socialisme ou
gias próprias (ou, talvez, melhor, as
barbarie; S ou B): foi um grupo socialista libertário radical
chevismo foi uma catástrofe para a francês do período pós-guerra, criado à volta da revista
deformações universais aparecem
com o mesmo nome. Seu nome vem de uma frase de Rosa
esquerda. Continuamos a pagar um Luxemburgo usada em um ensaio de 1916, The Junius aqui com particularidades locais). As
preço pelos seus erros, ou antes, por Pamphlet. O grupo existiu de 1948 até 1965. A persona-
grandes patologias da esquerda são o
lidade que o animava era Cornelius Castoriadis, também
tudo o que ele significou e significa conhecido como Pierre Chaulieu ou Paul Cardan. (Nota da
totalitarismo e o populismo, a acres-
IHU On-Line)
de negativo. 11 Jean-Claude Lefort (1924-2010): filósofo francês, centar a social-democracia adesista.
autor de, entre outros A invenção democrática: os limites
da dominação totalitária (São Paulo: Brasiliense, 1983) e Há um imenso trabalho a fazer. Ten-
Desafios da escrita política (São Paulo: Discurso Editorial,
IHU On-Line – Como uma 1999). Por ocasião de seu falecimento, a IHU On-Line en-
tei definir as grandes linhas deste, no
apropriação ortodoxa (de es-
trevistou a filósofa Olgária Matos, na edição 348 da Re- meu livro Caminhos da Esquerda,
vista IHU On-Line, de 25-10-2010, disponível em http://
querda e de direita) dos escri- migre.me/34oI9 e intitulada Claude Lefort e a invenção elementos para uma reconstrução13,
democrática. (Nota da IHU On-Line) que publiquei no ano passado. Nas
tos de Marx, em termos acadê- 12 Cornelius Castoriádis (1922 —1997): foi um filósofo,
micos e políticos, inviabilizou
economista e psicanalista francês, de origem grega, de- conferências e intervenções que fiz
fensor do conceito de autonomia política. É considerado
um dos maiores expoentes da filosofia francesa do século em seguida à publicação do livro, in-
9 Bolchevismo: doutrina da ala esquerda majoritária do
XX. Em 1949, fundou, com Claude Lefort, o grupo Socialis-
mo ou barbárie, que deu origem à revista homônima, que
clusive uma na Unisinos, tentei pro-
Partido Operário Social-Democrata Russo, adepta do mar- circulou regularmente até 1965. Autor de inúmeras obras longar o debate. No Brasil, como no
xismo revolucionário pregado por Lenin, que tinha como de filosofia e, em especial, de filosofia política, Cornelius
compromissos para os componentes do partido a militân- Castoriadis é considerado um filósofo da autonomia. Entre
cia e o engajamento políticos, implementação integral do suas inúmeras obras destancam-se: Instituição Imaginária
programa socialista, liderança proletária e centralizada. da Sociedade, Encruzilhadas do Labirinto, Socialismo ou 13 São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (Nota da IHU
(Nota da IHU On-Line) Barbárie. (Nota da IHU On-Line) On-Line)

EDIÇÃO 525
TEMA DE CAPA

mundo, é preciso articular as lutas mal, há alguma resistência a isso. meios de consumo. Mas são baixís-
“clássicas“, com as chamadas “no- simos para os mais ricos. Basta ver
IHU On-Line – Num tempo
vas“ lutas: feminismo, antirracismo, a alíquota superior de imposto de
em que o capitalismo indus-
LGBT etc. Parece banalidade, mas renda (comparar com a de qualquer
trial se transforma no volátil
esse trabalho é fundamental, e não pais “sério”), ver o baixíssimo im-
capitalismo financeiro, qual a
tem nada de simples. posto sobre herança, ver o imposto
atualidade de uma obra como zero (!) para os dividendos de pessoa
O Capital? física etc. E no entanto, até aqui, nos
IHU On-Line – A lógica da luta Ruy Fausto – Impossível evitar a afogamos (a mídia not least) no mito
de classes ainda é válida para fórmula banal: mudou muita coisa, dos impostos altos.
compreender realidades como mas há certo número de elementos Diria, concluindo, que a situação
a brasileira? E que nexos pode- que ficam. Precisaríamos de uma do Brasil é trágica. Provavelmente
mos estabelecer entre luta de nova crítica da economia política, uns quinze milhões de brasileiros
classes e as desigualdades ain- porém O Capital não pode simples- (espero estar enganado) vão votar,
da muito presentes no Brasil de mente ser posto na gaveta, quando em outubro, num candidato neofas-
hoje? estivermos escrevendo essa nova cista. O partido hegemônico na es-
Ruy Fausto – Alguma coisa que crítica. Em compensação, seria pre- querda (até aqui) vai de mal a pior.
poderia ser chamada de “luta de ciso abandonar todo tabu em relação Desde a defesa do governo tirânico
classes” é essencial para entender à crítica. Mesmo elementos funda- de Maduro14, na Venezuela, até a
também a situação brasileira. Mas mentais como a teoria da “mais va- incapacidade em forjar desde cedo
a expressão tem quer ser analisa- lia” teriam de ser radicalmente ree- uma candidatura de unidade que
da. Trata-se exatamente de “luta de xaminados. nos desse alguma esperança quanto
classes”, no Brasil? Ou de explora- ao resultado das eleições. Importa
ção de classe, e de desigualdade? E tirar Lula da cadeia, mas o melhor
IHU On-Line – Deseja acres- jeito de obter isso (para não falar dos
de protesto popular. De resistência
centar algo? outros problemas) não é alimentar
popular, mesmo se mais ou minori-
88 tária até aqui. Existem lutas, e tam- Ruy Fausto – Sobre o nosso sis- simplesmente o mito Lula, como fez
bém classes, mas até aqui o que se tema tributário, sobre o qual não se o PT. Precisamos de uma outra polí-
tem não é exatamente “luta de clas- fala. Ou antes, se conta uma história tica para a esquerda.■
ses”. Isso para tentar falar em ter- de fadas: “no Brasil – dizem – os
14 Nicolás Maduro Moros [Nicolás Moros] (1962): é um
mos mais teóricos. O essencial é que impostos são muito altos”. Muito político venezuelano, atual presidente da República Bo-
livariana da Venezuela. Depois de, como vice-presidente
existe uma desigualdade brutal, que altos para quem, cara pálida? Eles constitucional, assumir o cargo com a morte do presiden-
se reforça através de um sistema tri- são altos para os pobres, através do te Hugo Chávez, foi eleito em 14 de abril de 2013 para
mandato como 57º presidente da Venezuela. (Nota da
butário escandaloso. E que, bem ou mecanismo da imposição sobre os IHU On-Line)

Leia mais
- A reversão da crise requer uma exigência democrática sem perda do impulso antica-
pitalista. Entrevista especial com Ruy Fausto, publicada nas Notícias do Dia de 25-10-2017,
no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2K6kVkJ.
- Possíveis caminhos para a reconstrução da esquerda no Brasil. Vídeo da conferência
com Ruy Fausto, realizada em 25-10-2017 no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível
em http://bit.ly/2Ir7ZjI.
- O socialismo sem dentes de Ruy Fausto. Artigo de Ruy Fausto, reproduzido nas Notícias
do Dia de 19-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.
ly/2KhMM0F.
- ‘Hegemonia de esquerda não pode ser mais do PT’. Entrevista com Ruy Fausto, repro-
duzida nas Notícias do Dia de 26-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU,
disponível em http://bit.ly/2KiYrci.
- “O PT não defende a causa da esquerda. Nem a do país”. Entrevista com Ruy Fausto, re-
produzida nas Notícias do Dia de 21-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU,
disponível em http://bit.ly/2stmheu.

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REVISTA IHU ON-LINE

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EDIÇÃO 525
ENTREVISTA

Francisco, a autoridade que tenta frear a


reversão de conquistas do século XX
Massimo Faggioli analisa como, em cinco anos de pontificado, o Papa
articulas reformas e leva a Igreja ao protagonismo no cenário geopolítico
João Vitor Santos | Tradução: Mariana Szajbely

A
perspectiva de que a Igreja Cató- a política e as relações internacionais, a
lica não deve apenas se preocu- economia”, acrescenta.
par com assuntos relacionados O historiador destaca que é impor-
à fé parece, atualmente, algo dado. Po- tante compreender o que tem propor-
rém, como destaca o historiador italiano cionado a ascensão de figuras como o
Massimo Faggioli, essa visão de que a presidente estadunidense. Ele expli-
Igreja deve se posicionar em perspec- ca que conquistas do século passado,
tiva aos desafios da humanidade hoje é especialmente na área de Direitos
muito particular do pontificado de Fran- Humanos, pareciam solidificadas. En-
cisco. “Ele tem esta tarefa e a tem desen- tretanto, tais mudanças trouxeram de-
volvido de um modo muito complicado, cepções. “Estamos acordando depois
porque ele é um papa que tem rejeitado de uma geração, depois de 20, 25 anos,
claramente a ideia de fazer alianças com em que há uma insubstancial insatis-
90 grupos políticos de um só hemisfério”, fação, uma desilusão com um sistema
analisa. O professor ainda pontua que que tem dado muito menos do que
“Bergoglio faz e consegue expandir sua havia prometido”. O risco é que essa
visão porque a Igreja Católica é a orga- desilusão pode potencializar o tota-
nização global” e é a partir daí que se litarismo de todos os tipos. Para ele,
coloca como uma autoridade que chama Francisco “é uma autoridade que ten-
atenção para questões globais. ta frear essa reversão coletiva”. “Mas
Faggioli esteve recentemente no Bra- não é uma posição muito popular hoje,
sil, participando do XVIII Simpósio In- muito compartilhada. Hoje, é bastante
ternacional IHU. A virada profética de impopular a defesa da democracia em
Francisco. Possibilidades e limites para alguns países”, adverte.
o futuro da Igreja no mundo contem-
Massimo Faggioli é doutor em
porâneo1, realizado em maio. Na oca-
História da Religião e professor de Te-
sião, conversou com a equipe da IHU
ologia e Estudos Religiosos da Univer-
On-Line. Além de analisar as novidades
sidade de Villanova, na Filadélfia, Es-
e desafios desse pontificado, o professor
tados Unidos. Entre suas publicações
também observou como Francisco tem se
recentes, destacamos Catholicism and
colocado em contraposição a visões como
Citizenship. Political Cultures of the
a do presidente dos Estados Unidos, Do-
Church in the Twenty-First Century
nald Trump. “Trump é o americanismo,
(Collegeville, EUA: Liturgical Press,
o nacionalismo, o imperialismo; Bergo-
2017) e o livro, traduzido em português,
glio é o mundo global, o mundo dos ex-
Vaticano 2. A Luta Pelo Sentido (São
cluídos”, resume. Entretanto, aponta que
Trump não é alguém isolado, “é a versão Paulo: Paulinas, 2013).
norte-americana daquilo que acontece Também podem ser lidos os artigos de
na Rússia, na Índia, nas Filipinas”. “Não Massimo Faggioli publicados pelo Ins-
é somente Francisco contra Trump, mas tituto Humanitas Unisinos – IHU:
Francisco contra um modo de entender - A universalidade e o (não) lu-
gar político da Igreja no mundo de
1 Acesse o repositório com materiais referentes ao XVIII Sim- hoje. A eclesiologia da globaliza-
pósio Internacional IHU em http://bit.ly/2F3gmV0. (Nota da
IHU On-Line)
ção de Francisco. Artigo publicado no

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REVISTA IHU ON-LINE

Cadernos Teologia Pública, número 134, aprendente. Artigo publicado no Ca-


disponível em http://bit.ly/2LqrWti. dernos Teologia Pública, número 95,
- “Gaudium et Spes” 50 anos de- disponível em http://bit.ly/2pY55hk.
pois: seu sentido para uma Igreja Confira a entrevista.

IHU On-Line – Na sua última Massimo Faggioli – Sim. É claro do papa Bento5 para o papa Fran-
passagem pelo IHU, o senhor que o pontificado deverá lidar com cisco não é só a passagem de Bento
fez uma avaliação dos dois uma minoria resistente que é dife- para outro papa. É a de um papa
anos do pontificado de Francis- rente da resistência ou da dissidên- antiteologia da libertação para um
co1. Agora, já se passaram cinco cia em relação a outros pontificados, papa que vem da América Latina. É
anos. O que mudou nesses úl- como o de João Paulo II3 ou Paulo um salto muito mais longo, diferente
timos três anos de Francisco à VI4, que era uma resistência mais de um salto habitual de um pontifi-
frente da cátedra de Pedro? clara, muito revolucionária no sen- cado para outro.
tido negativo. Esse pontificado não
Massimo Faggioli – A maior di-
tem como resistência um conser-
ferença, nesses últimos três anos, é IHU On-Line – Qual é a maior
vadorismo da velha escola. Não são
que antes não havíamos visto ainda fragilidade do pontificado de
conservadores, são uns bolcheviques
o processo sinodal em curso. Havia Bergoglio hoje?
católicos, que dizem que a ordem
ocorrido o primeiro sínodo, mas não 91
eclesiástica deve ser abatida porque Massimo Faggioli – Não se en-
o segundo, e não tínhamos visto fru-
se vendeu ao liberalismo teológico. tende o quanto sua visão pode trans-
tos do Sínodo com Amoris Laetitia2.
Ou seja, é uma resistência diferente formar-se ou está se transformando
Não é que o Papa tenha mudado,
a respeito do passado e é única. em uma reforma de instituição, das
mas é mais evidente agora o seu pla-
leis da igreja. Creio que é isso que ele
no, a sua visão. E, com isso, é muito Acredito fundamentalmente que
está fazendo, uma reforma. Mas, do
mais claro que aqueles que, desde o isso se dá porque o papa Francisco
modo como ele está fazendo, é uma
início, não o compreendiam, não o é um papa latino-americano, e al-
reforma que pode ser anulada muito
apreciavam, não o aceitavam, ainda gumas coisas emergem porque vêm
facilmente por um sucessor. Isso em
não se convenceram. É uma mino- de um papa e de uma Igreja não tão
razão de que a sua prioridade não é
ria que se solidificou culturalmente central. Eles classificam Francis-
mudar a instituição, mas mudar a
e politicamente em alguns países de co como um papa liberal, livre, no
mentalidade dos membros da Igreja.
uma forma mais evidente a partir de sentido de moderno, e o rejeitam da
E, com isso, precisa de mais tempo,
2015. Tais posições já eram claras, mesma forma que rejeitam a moder-
se expõe a riscos, a tal ponto que o
mas o Sínodo solidificou isso. nidade filosófica, científica, cultural.
próximo papa pode fazer de conta
E isto se acentuou, pois a passagem
que aquilo que aconteceu, que foi
IHU On-Line – Não significa 3 Papa João Paulo II (1920-2005): Sumo Pontífice da Igre-
feito, não tenha acontecido.
dizer que há uma menor resis- ja Católica Apostólica Romana e soberano da Cidade do
Vaticano de 16 de outubro de 1978 até sua morte. Teve
tência ao pontífice. O que há é o terceiro maior pontificado documentado da história,
É uma fragilidade muito clara que
maior clareza quanto a resis- reinando por 26 anos, depois dos papas São Pedro, que
reinou por cerca de trinta e sete anos, e Pio IX, que reinou ele tem, mas tem consciência disso.
tências. Correto? por trinta e um anos. Foi o único Papa eslavo e polaco até
a sua morte, e o primeiro Papa não italiano desde o ne- Essa fragilidade tem a ver com o bu-
erlandês Papa Adriano VI em 1522. João Paulo II foi acla-
mado como um dos líderes mais influentes do século XX. raco que existe entre a sua visão, a
1 Assista às duas conferências de Faggioli, à época em que Com um pontificado de perfil conservador e centralizador, sua promessa de Igreja, e aquilo que
esteve no Brasil avaliando os dois anos do pontificado de teve papel fundamental para o fim do comunismo na Po-
Bergoglio, em https://youtu.be/LdTe2vfBdDg e https:// lónia e talvez em toda a Europa, bem como significante na se vê. Por exemplo, a questão da si-
youtu.be/izPIMQAKowQ. Em 2015, ele também concedeu melhora das relações da Igreja Católica com o judaísmo,
uma entrevista em que avalia os primeiros movimentos de Islã, Igreja Ortodoxa, religiões orientais e a Comunhão An-
nodalidade. Francisco fala muito,
Francisco. Acesse em http://bit.ly/2txfM8c. (Nota da IHU glicana. (Nota da IHU On-Line)
On-Line) 4 Papa Paulo VI: nascido Giovanni Battista Enrico Anto-
2 Amoris laetitia (a “Alegria do Amor”): é uma exortação nio Maria Montini, Paulo VI foi o Sumo Pontífice da Igreja 5 Bento XVI, nascido Joseph Aloisius Ratzinger (1927):
apostólica do papa Francisco, publicada em 8 de abril de Católica Apostólica de 21 de junho de 1963 até 1978, ano foi papa da Igreja Católica e bispo de Roma de 19 de abril
2016. Possui nove capítulos e tem como base os resulta- de sua morte. Sucedeu ao Papa João XXIII, que convocou de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, quando oficializou sua
dos de dois Sínodos dos Bispos sobre a Família ocorridos o Concílio Vaticano II, e decidiu continuar os trabalhos do abdicação. Desde sua renúncia é Bispo emérito da Diocese
em 2014 e 2015. Para saber mais, leia a edição Amoris La- predecessor. Promoveu melhorias nas relações ecumêni- de Roma. Foi eleito, no conclave de 2005, o 265º Papa,
etitia e a ‘ética do possível’. Limites e possibilidades de um cas com os Ortodoxos, Anglicanos e Protestantes, o que com a idade de 78 anos e três dias, sendo o sucessor de
documento sobre ‘a família’, hoje, disponível em http://bit. resultou em diversos encontros e acordos históricos. (Nota João Paulo II e sendo sucedido por Francisco. (Nota da
ly/1SseNSc. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line) IHU On-Line)

EDIÇÃO 525
ENTREVISTA

aponta muito sobre a sinodalidade, É um pouco estranho porque essa é os outros que vamos ver. Foi uma
mas uma crítica, legítima, que é mui- uma cidade dos Estados Unidos em grande surpresa. Com o passar do
to feita é a de que ele fez dois síno- que é grande o catolicismo, por isso tempo, vamos compreendendo que
dos, e prepara outros dois, mas so- considero um ponto cego, difícil de a Igreja possui diversidade de opi-
mente de bispos. Ou seja, fala muito compreender. niões e de visão das coisas, o que
da sinodalidade, mas promove esses para o Papa é válido e normal, não
Bergoglio também tem uma rela-
encontros somente de bispos. é reprimido. Isso é uma surpresa
ção difícil com os Estados Unidos.
para nós que vivemos na Igreja de
O fato de não fazer cardeal o bispo
João Paulo II e de Bento XVI.
IHU On-Line – Relacionan- de Los Angeles é criticável. Não con-
do esse seu ponto com as no- segui compreender, pois esse seria o
meações de novos bispos que fato que daria mais ajuda e credibili- IHU On-Line – Bergoglio tem
ocorreram recentemente6. dade ao Papa. É só um exemplo, mas despontado como alguém que
Isso revela uma intenção de é um fato difícil de explicar. tem uma perspectiva alterna-
Bergoglio em começar a re- tiva ao conservadorismo de fi-
forma da Igreja mexendo nas guras como Donald Trump10.
IHU On-Line – E isso aumen-
pessoas que podem decidir o Como podemos compreender
ta a resistência a ele dentro dos
futuro da Igreja? esse momento que vivemos
Estados Unidos?
hoje, tendo esses dois como lí-
Massimo Faggioli – Um dos
Massimo Faggioli – Não, não deres populares e de perspec-
aspectos mais interessantes, e que
aumenta, mas também não ajuda. tivas tão distintas? Como ler a
é difícil pensar que pode ser anula-
Fala-se muito da relação difícil entre figura de Trump tendo em pers-
do, é o seu redesenho do rosto dos
Bergoglio e Estados Unidos. Essa su- pectiva Bergoglio?
cardeais da Igreja. Esta é a coisa
posta nomeação do bispo de Los An-
mais concreta e visível que ele tem Massimo Faggioli – Eles têm
geles não mudaria muito essa rela-
feito. Francisco tem redesenhado o duas visões de mundo, de huma-
ção, mas algumas das suas posições
rosto de quem representa a Igreja nidade, muito diversas. Trump é o
poderiam ser defendidas um pouco
num momento muito importante, americanismo, o nacionalismo, o
92 melhor. Mas isto tudo é muito difícil
que seria um conclave com estes imperialismo; Bergoglio é o mun-
de explicar.
cardeais. Isso é algo que ele tem do global, o mundo dos excluídos.
feito, mas que deveria ter sido fei- São duas personalidades opostas.
to 20 anos, 50 anos atrás. Ele cum- IHU On-Line – O que mais lhe Ao mesmo tempo, acredito que
priu esta tarefa essencial, mas não surpreendeu positivamente nes- Bergoglio é verdadeiramente único
sabemos qual será o resultado. Não ses cinco anos de pontificado? na Igreja. Na Igreja Católica, ele é
sabemos, não podemos afirmar qual o único que usa essa linguagem.
Massimo Faggioli – O mais
visão de Igreja o cardeal do Japão Trump, pelo contrário, é um repre-
chocante está na reabilitação de te-
ou o cardeal de Myanmar articula- sentante muito visível de uma onda
ólogos que eram deixados de lado.
riam num próximo conclave. Isso é política, porque temos Trump, Pu-
Isso é uma coisa muito chocante
uma aposta, um ato de confiança na
porque ocorreu muito rapidamen-
Igreja global.
te, nos primeiros meses de pon-
Sobrino, confira a ampla repercussão dada pelo site do
Para mim, é muito mais do que tificado. Em 2013, já ocorre com IHU em suas Notícias do Dia, bem como o artigo A herme-
pensar que Bergoglio está construin- Gutiérrez8, Sobrino9, e com todos nêutica da ressurreição em Jon Sobrino, publicada na edi-
toria Teologia Pública, escrita pela teóloga uruguaia Ana
do o conclave para o seu sucessor. Formoso na edição 213 da IHU On-Line, de 28-3-2007,
disponível para download em http://migre.me/UHJB. A
Isto é muito ingênuo. Ninguém con- 8 Gustavo Gutiérrez Merino (1928): é um teólogo pe- IHU On-Line também produziu uma edição especial, in-
segue preparar o conclave que quer. ruano e sacerdote dominicano, considerado por muitos titulada Teologia da Libertação, no dia 2-4-2007. A edição
como o fundador da Teologia da Libertação. (Nota da IHU 214 está disponível em http://migre.me/UHKa. Sobre a
O que ele faz é dar um rosto de Igreja On-Line) censura do Vaticano a Sobrino, confira: Teólogos espa-
9 Jon Sobrino (1938): teólogo espanhol, jesuíta, que en- nhóis criticam a condenação de Jon Sobrino, disponível em
que é universal e isto é excepcional- trou para a Companhia de Jesus em 1956 e foi ordenado http://migre.me/UHKF, ‘Jon Sobrino, com o tempo, será re-
mente importante. Mas é preciso ob- sacerdote em 1969. Desde 1957, pertence à Província da abilitado’, afirma Ernesto Cavassa, disponível em http://mi-
América Central, residindo na cidade de San Salvador, em gre.me/UHL3, Notificação a Jon Sobrino. Teólogos apelam
servar como Bergoglio tem algumas El Salvador, país da América Central, que ele adotou como por reforma da Congregação para a Doutrina da Fé, dispo-
cegueiras. Por exemplo, o arcebispo sua pátria. Licenciado em Filosofia e Letras pela Universi-
dade de St. Louis (Estados Unidos), em 1963, Jon Sobrino
nível em http://migre.me/UHLk, O caso Jon Sobrino como
sintoma. Um artigo de Andrés Torres Queiruga, disponível
de Los Angeles7 não foi feito cardeal. obteve o master em Engenharia na mesma Universidade. em http://migre.me/UHLN. (Nota da IHU On-Line)
Sua formação teológica ocorreu no contexto do espírito 10 Donald Trump (1946): é um empresário, ex-apre-
do Concílio Vaticano II, a realização e aplicação do Vati- sentador de reality show e atual presidente dos Estados
cano II e da II Conferência Geral do Conselho Episcopal Unidos. Na eleição de 2016, Trump foi eleito o 45º pre-
6 Em maio de 2018, Francisco nomeou 14 novos carde- Latino-Americano, em Medellín, em 1968. Doutorou-se sidente norte-americano pelo Partido Republicano, ao
ais. Saiba mais em http://bit.ly/2LpLr8O. (Nota da IHU em Teologia em 1975, na Hochschule Sankt Georgen de derrotar a candidata democrata Hillary Clinton no número
On-Line) Frankfurt (Alemanha). É doutor honoris causa pela Univer- de delegados do colégio eleitoral; no entanto, perdeu no
7 José Horacio Gómez (1951): religioso católico de ori- sidade de Lovain, na Bélgica (1989), e pela Universidade voto popular. Entre suas bandeiras estão o protecionismo
gem mexicana que atua nos Estados Unidos. Atualmen- de Santa Clara, na Califórnia (1989). Atualmente, divide norte-americano, por onde passam questões econômicas
te, é Arcebispo de Los Angeles, atuou como como Bispo seu tempo entre as atividades de professor de Teologia da e sociais, como a relação com imigrantes nos Estados
Auxiliar de Denver de 2001 a 2004 e como Arcebispo de Universidade Centroamericana, de responsável pelo Cen- Unidos. Trump é presidente do conglomerado The Trump
San Antonio de 2004 a 2010. Ainda é vice-presidente da tro de Pastoral Dom Oscar Romero, de diretor da Revista Organization e fundador da Trump Entertainment Resorts.
Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, pri- Latinoamericana de Teologia e do Informativo “Cartas a Sua carreira, exposição de marcas, vida pessoal, riqueza e
meira pessoa de ascendência latina a ocupar essa posição. las Iglesias”, além de ser membro do comitê editorial da modo de se pronunciar contribuíram para torná-lo famo-
(Nota da IHU On-LIne) Revista Internacional de Teólogia Concilium. A respeito de so. (Nota da IHU On-Line)

30 DE JULHO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

tin11, Xi Jìnpíng12 na China, e na Ín- “está feito”, “ganhamos”, “os Direitos do mundo muito mais desenvolvido
dia o primeiro-ministro, Narendra Humanos venceram, a democracia em respeito a outras igrejas. Ele tem
Modi13. venceu”. Agora, estamos acordando esta tarefa e a vem desenvolvendo
depois de uma geração, depois de 20, de um modo muito complicado, por-
Assim, Trump é menos surpreen-
25 anos, em que há uma insubstan- que ele é um papa que tem rejeitado
dente porque é a versão norte-ame-
cial insatisfação, uma desilusão com claramente a ideia de fazer alianças
ricana daquilo que acontece na Rús-
um sistema que tem dado muito me- com grupos políticos de um só he-
sia, na Índia, nas Filipinas. Em certo
nos do que havia prometido. misfério, que era uma coisa típica de
sentido são muito diferentes, mas
João Paulo II, de Bento XVI ou de
ver Trump junto com esses outros Estamos vivendo um período de
qualquer papa dos anos 80.
revela que não é somente Francisco raiva e desilusão e a idade de crer em
contra Trump, mas Francisco contra qualquer coisa. É a idade das crises Ou seja, havia os bons e os maus. A
um modo de entender a política e as da fé, da fé em Deus, da seculariza- Igreja escolhia os bons. Hoje, quem
relações internacionais, a economia. ção, mas, ao mesmo tempo, é a ida- são os bons? Francisco fala com to-
É mais complicado ainda porque de de quem crê em tudo: em Trump, dos, tem de falar com todos. Ele o faz
Trump, em seis anos, no máximo, su- em populismo, em demagogia. É com atenção à ideia que se tinha de
miria, Putin creio que mais seis anos, um momento muito contraditório e que a Igreja precisava se converter
enquanto temos um pontificado que perigoso, porque quem crê em tudo em uma Igreja de poder. Aliás, ele
tem de lidar com uma situação inter- pode acreditar que um sistema não rejeita isto, o que é difícil. A Igreja
nacional muito deteriorada, muito democrático possa ser melhor que tem, hoje, uma função de testemu-
pior do que os últimos 50 anos. um sistema democrático. É muito nho, mas não tem que se converter
perigoso e esse modo de pensar não em instrumento do poder. É um
está somente nas Filipinas, não está quebra-cabeças muito complicado,
IHU On-Line – Mas como somente nos Estados Unidos. É um porque ele tem o dever de falar com
compreender o surgimento modo de pensar que parece infiltra- todos e olhar especialmente as áre-
dessas duas perspectivas po- do em todo o mundo. as esquecidas do mundo. Francisco
líticas tão distintas no nosso quer fazer isso sem dar a impressão
tempo? Na América Latina, por Enquanto isso, o papa Francisco
exemplo, vivíamos ideias muito está em um mundo onde deve falar de uma Igreja constantiniana. 93
mais progressistas e inclusivas também de coisas que não são estri- E isto é uma perspectiva também
e, agora, parecemos estar vi- tamente da Igreja, como defender o apontada pelos não católicos. É uma
vendo uma virada. humano, quer dizer, defender uma passagem mais difícil do que João
certa ideia de Direitos Humanos, que Paulo II enfrentou, porque ele tinha
Massimo Faggioli – Nós está- é algo que não é propriamente tarefa um mundo muito mais claro, bons e
vamos convencidos de que algumas do Papa. Afinal, o pontífice normal- maus, tinha-se o comunismo e o an-
coisas tinham sido conquistadas e mente se preocupa com outras coisas, ticomunismo. Francisco, pelo con-
adquiridas: a democracia e os Direi- mas, num momento como este, esta trário, tem um mundo onde bons e
tos Humanos, os direitos sociais, a converteu-se em uma das suas tare- maus são misturados, e são a mesma
liberdade civil. No século XX, da luta fas. Ele é uma autoridade que tenta pessoa substancialmente. Hoje, há
com o comunismo de uma parte e do frear essa reversão coletiva contra uma passagem muito mais dramáti-
fascismo com regime militar de outra as conquistas do século XX no que ca, porque não tem uma Igreja que
parte, o mundo sai, nos anos 1980, diz respeitos aos Direitos Humanos, é de uma parte, e os outros são de
1990, com todos convencidos de que reações que, acredito, fizeram muito outra. É uma Igreja que quer estar
além do que foi feito no fascismo ou em todos os lados, onde está o povo.
11 Vladimir Putin (1952): presidente da Rússia. Também no totalitarismo. Mas não é uma po- É um exercício que é profético, mas
é ex-agente da KGB no departamento exterior e chefe dos
serviços secretos soviético e russo, KGB e FSB, respecti- sição muito popular hoje, muito com- não sei se é também desesperado às
vamente. Putin exerceu a presidência entre 2000 e 2008,
além de ter sido primeiro-ministro em duas oportunida- partilhada. Atualmente, é bastante vezes. Na Bíblia, os profetas não são
des, a primeira entre 1999 e 2000, e a segunda entre 2008 impopular a defesa da democracia conhecidos por seus sucessos políti-
e 2012. (Nota da IHU On-Line)
12 Xí Jìnpíng (1953): é um político da República Popular em alguns países.
da China, atual Presidente da República Popular da China
cos. São todos derrotados politica-
e Secretário-Geral do Partido Comunista da China. Xí é mente e isto pode acontecer com o
atualmente o principal membro do Secretariado do Parti-
do Comunista Chinês, o presidente da China, o diretor da IHU On-Line – Como enfrentar papa Francisco.
Escola Central do Partido, e o mais importante membro
do Comitê Permanente do Politburo, que é o órgão de essa “perspectiva trumpista” e
controle de fato do país. (Nota da IHU On-Line) irradiar a visão de Bergoglio?
13 Shri Narendra Modi (1950): é um político indiano e IHU On-Line – Podemos pen-
atual 14º primeiro-ministro do seu país. É membro do
Partido Bharatiya Janata (BJP). Foi eleito primeiro-ministro Massimo Faggioli – Bergoglio sar que o papa Francisco busca
da Índia em 16 de maio de 2014, com seu partido con-
quistando 275 das 543 cadeiras do parlamento, maioria
faz e consegue expandir sua visão uma união de cristandade com-
absoluta e a primeira vez desde 1984 que a população in- porque a Igreja Católica é a orga- parado ao que havia antes da
diana entrega o poder a um único partido. Com a maioria
absoluta no Congresso, Modi não precisará fazer alianças nização global, supranacional mais fragmentação moderna, espe-
para realizar as completas mudanças econômicas prega-
das pela oposição ao atual governo na Índia. (Nota da IHU
importante. Não vou dizer potente, cialmente com as divisões de-
On-Line) mas mais radicada, com um sentido correntes da constituição dos

EDIÇÃO 525
ENTREVISTA

estados-nação? Seria essa uma povo, de uma nação, parte de um Es- 1990, mas, com Francisco, esse pro-
possibilidade de pensar o hu- tado. Muitos católicos, porém, como cesso é acelerado. É uma grande
manismo para além do nacio- nos Estados Unidos, odeiam tanto o aposta. O fator China é interessante
nalismo? estado moderno, o estado secular, o de ser visto desde os Estados Uni-
estado liberal, que odeiam o concei- dos, porque um certo catolicismo
Massimo Faggioli – O papa Fran-
to de povo. Isso é impressionante. norte-americano vê como perigoso,
cisco sabe bem que vivemos na ida-
Francisco, ao contrário, está muito não pelo comunismo, mas porque
de da crise do Estado nacional, isso
alinhado com o século XX: não tem o catolicismo é essencialmente oci-
é bastante claro. Eu acredito que ele
uma perspectiva pós-moderna numa dental, do Ocidente. É um desafio
também sabe bem que não há pos-
espécie de neo-ortodoxia, que pro- sobre muitos níveis, uma questão de
sibilidade de retornar a uma era an-
põe voltar ao medievo. Francis- política diplomática, mas também
terior. Ele tem uma ideia do mundo
que é supranacional, isto sim, que é co não propõe um novo medievo. é cultural, porque o papa Francisco
por áreas globais, áreas continentais, está convencido de que o catolicis-
pelos fluxos migratórios, fluxos cul- mo na Ásia pode se dar de modo tão
IHU On-Line – Vivemos um católico como na Europa, como aqui
turais, a grande pátria. Mas ele não é período de muita intolerância,
um antinacional, que é algo que está na América.
de inabilidade para o diálogo e
retornando. Nos Estados Unidos, por de ataques. Como o senhor tem Isso é um tabu também para mui-
exemplo, tem um catolicismo que observado este momento e os tos que ficaram nos anos 1700, quan-
namora com antiliberalismo, anti- ataques não só ao papa Fran- do se condenavam os ritos chineses.
modernidade e anti-Estado. Francis- cisco, mas a todos que compac- É uma abertura que não sei aonde
co é um homem que olha além das tuam com suas perspectivas, levará, do ponto de vista diplomá-
fronteiras nacionais, mas creio que como as de acolhimento aos tico. Coreia? Quem sabe. Mas com
ele sabe que o mundo não pode ser relação à China, especialmente, e ao
marginalizados?
imaginado hoje sem os Estados. Tem Vaticano é claro que Francisco tem
funcionado mal? Sim, mas... Massimo Faggioli – Isto é um mudado a atenção. Aliás, tem dado
desafio, a ideia de que a religião é atenção à Ásia muito mais do que à
um instrumento pela defesa de uma
94 IHU On-Line – É um senti- Europa ou a qualquer outro conti-
identidade. Francisco não vê o cato- nente. Isso fala muito da sua visão de
do em que a Igreja assume um
licismo nos termos da defesa de uma Igreja e seu “ser jesuíta”. É algo que
protagonismo político, mas
identidade particular. Segundo ele, a podia vir de um papa jesuíta e não
não um protagonismo de Esta-
Igreja é povo e, por definição, povo é de um dominicano, ou de um agos-
do, que supera o estado-nação.
inclusivo. É uma grande tenda onde tiniano. É uma semente que deverá
Correto?
o maior número possível possa estar gerar frutos, e sim, vai gerá-los, nos
Massimo Faggioli – Sim, é um dentro. Estas reações ao que diz são próximos séculos. É algo pequeníssi-
protagonismo, mas não “neomedie- típicas, são normais. O problema é mo, mas foi plantado, em um mundo
val”. É um protagonismo internacio- que Francisco tem dado a mensagem que nós não conhecemos.
nalista, de diálogo entre povos, mas de um catolicismo que é inclusivo
não é antinacional, não é neomedie- também em algumas questões como
val, nem neoimperial. É uma coisa a LGBT, que se converteram nas IHU On-Line – E o Papa tem
diferente. O Papa rejeita ver o cato- únicas questões importantes para essa consciência de que é um
licismo em termos nacionais. Não alguns tipos de católicos. Ele tem mundo completamente novo?
há catolicismo dos Estados Unidos e rompido um tabu. Francisco não é Massimo Faggioli – Ele sabe
catolicismo de Cuba, como se fossem inclusivo em geral, mas em especí- que este é um mundo amplamente
diferentes. Ele não sonha em levar fico com qualquer um que, segundo desconhecido, um mundo que faz
Cuba e os Estados Unidos para den- alguns católicos, não pode ser mem- parte da Igreja, mas é ainda escondi-
tro do império espanhol [como no bro da Igreja. Isso gera e continua do e considerado “Série B” da Igreja.
passado, quando o Estado espanhol gerando ataques a ele e a uma série
era o exemplo de nação católica]. de personagens da Igreja.
Mas isso é uma tentação que alguns IHU On-Line – É esse o con-
têm. Não é que queiram voltar a um ceito de inculturação da fé, tão
império espanhol, mas é pensar que IHU On-Line – Falando mais falado ainda no início desse
nós, como católicos, não devemos sobre geopolítica, como avalia pontificado?
nada a nenhum Estado, a nenhuma as movimentações da Igreja em
Massimo Faggioli – Certo. Ele
comunidade política. direção ao Oriente?
pode dizer certas coisas sobre a Ásia
Essa perspectiva está acontecendo Massimo Faggioli – Essa é uma porque veio da América Latina. Ele
em países como os Estados Unidos. das grandes aberturas de Francis- vê a Ásia desde Roma, mas de modo
Para Francisco, há uma ideia funda- co em direção à Ásia. É algo que já exatamente diferente de como, por
mental de que a pessoa é parte de um vinha acontecendo nos anos 1980, exemplo, Roma viu a América Latina

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por muitíssimo tempo. Ele viveu isto e das finanças14? de dizer. Isso é interessante porque
desde aqui, desde a América Latina. Roma é vista como a voz que opri-
Massimo Faggioli – O docu-
Sofreu, entendeu isto e, como Papa, me, mas não nesse caso. Afinal, só
mento é importante por muitos
diz: o catolicismo é uma Igreja uni- mesmo o Papa pode falar por que
motivos, mas o primeiro é que está
versal, ser católico chinês não é ser os bispos da igreja local também
muito claro que ele quer dizer coi-
menos católico. pegam dinheiro de Wall Street,
sas sobre a economia global que os
por isso a necessidade de ter Roma
Isso é uma coisa muito grande, bispos de Wall Street não querem
como quem deve falar essas coisas.
e é uma aposta porque não sabe- dizer. Nos últimos 10 anos de crises
Enfim, é um documento importan-
mos o que se dará a partir disso. globais, os bispos não têm dito nada.
tíssimo, porque revela um mecanis-
Há muitas diversidades em ser Não porque não sabem, mas porque
mo que diz respeito à riqueza global
católico chinês. Eu sei, por exem- têm medo de dizer. Depois de 2008,
de hoje.
plo, que na China, nos seminários, jamais tocaram nesses assuntos [que
celebra-se a missa toda em latim. o documento toca]. O papa Francis-
Mas isso que Francisco faz é algo co, nessa questão, e Roma disseram IHU On-Line – Agora, deve ser
que precisava ser feito, que era coisas que a igreja local não é capaz curioso como o documento che-
justo fazer. É um “kairós”, é um ga aos bispos de Wall Street.
dever. É uma aposta de abertura, 14 Oeconomicae et pecuniariae quaestiones: documento
do Vaticano elaborado pela Congregação para a Doutrina Massimo Faggioli – A conferên-
mas com uma pergunta de como da Fé e pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimen-
to Humano Integral e publicado em maio 2018, durante o cia episcopal norte-americana, ao
isso vai acontecer. pontificado de Francisco. Trata de questões econômicas e
financeiras de forma crítica. Acesse a íntegra do documen-
longo desses dez anos, nunca pôde
to em português em http://bit.ly/2kzna0V. O IHU, na seção fazer um documento conjunto sobre
Notícias do Dia, em seu sítio, publicou diversas análises
IHU On-Line – Qual sua ava- sobre o texto. Entre elas Documento vaticano sobre econo- esse tema. O papa Francisco é muito
liação quanto ao documento do mia é uma acusação séria e intelectualmente grave, dispo-
nível em http://bit.ly/2Jitw2w. Leia mais em ihu.unisinos.
necessário neste momento em que
Vaticano que trata da economia br/maisnoticias/noticias. (Nota da IHU On-Line) se levanta essa questão.■

Leia mais 95

- Bergoglio e Trump: duas formas particulares de populismo. Entrevista especial com Mas-
simo Faggioli, publicada nas Notícias do Dia de 25-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas
Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2NX2nBP.
- Francisco: o primeiro Papa totalmente pós-Concílio. Entrevista com Massimo Faggioli,
publicado na revista IHU On-Line número 465, de 18-5-2015, disponível em http://bit.ly/2tx-
fM8c.
- “Seguidores radicalizados de Reagan venceram e precisam administrar um governo fe-
deral que eles odeiam”. Entrevista especial com Massimo Faggioli, publicada nas Notícias
do Dia de 16-11-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://
bit.ly/2uHq34z.
- “O tesouro da Igreja reside no Evangelho, e não em uma determinada cultura católica ou
em uma determinada ideia católica do passado”. Entrevista especial com Massimo Fag-
gioli, publicada nas Notícias do Dia de 12-6-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos
- IHU, disponível em http://bit.ly/2zOKphQ.
- Papa Francisco nos EUA - Uma avaliação. “Sem filtros e sem intérpretes”. Entrevista espe-
cial com Massimo Faggioli, publicada nas Notícias do Dia de 7-10-2015, no sítio do Instituto
Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.ly/2uuAjhk.
- “Este é um momento muito delicado para a Igreja”. Entrevista especial com Massimo Fa-
ggioli, publicada nas Notícias do Dia de 23-2-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos
- IHU, disponível em http://bit.ly/2Nq6eWY.
Assista às conferências de Massimo Faggioli no XVIII Simpósio Internacional IHU. A virada
profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contem-
porâneo
- O Papa Francisco na história papal do século passado e a periodização do seu pontifica-
do. http://bit.ly/2uwOPFj
- A universalidade e o (não) lugar político da Igreja no mundo de hoje. http://bit.ly/2LgNrjH

EDIÇÃO 525
CRÍTICA INTERNACIONAL

A administração Zuma e o legado


na política externa da África do Sul
Anselmo Otavio

P
retória pautou-se na inserção política não apenas
apoiada nas relações Norte-Sul, mas também anco-
rada nas relações Sul-Sul. De fato, mesmo valorizan-
do a parceria com Estados Unidos e União Europeia, dois
dos principais parceiros econômicos do país, tornou-se cla-
ro o interesse da administração Zuma em fortalecer laços
com países do BRIC, escolha que garantiu novos investi-
mentos à África do Sul.
Anselmo Otavio é professor de Relações Internacionais
da Unisinos e Pesquisador do Centro Brasileiro de Estudos
Africanos (Cebrafrica/UFRGS).
Eis o artigo.

Em meados de fevereiro de 2018, chegava ao fim na África do Sul a administração Zuma (2009-
2018). Marcada por crítica por parte da população sul-africana, bem como pelo próprio partido,
96 o Congresso Nacional Africano (CNA), cujo ápice foi a solicitação de renúncia do presidente,
a administração Zuma não obteve os resultados esperados no âmbito interno. No entanto, a
pergunta que ganha relevância diz respeito à política externa, isto é, qual foi o legado deixado
por Zuma na política externa adotada pela África do Sul? É pautado em tal questão que o artigo
buscará apresentar, ao menos sintetizar, os principais pontos encontrados na inserção interna-
cional de Pretoria.
Integração regional e relações Sul-Sul: a política externa da
administração Zuma
De modo geral, especulava-se que a administração Zuma traria algumas mudanças tanto no
âmbito interno como no externo ao país, uma vez que o novo governo sul-africano trazia na base
de apoio grupos como o Congress of South African Trade Unions, o South African Communist
Party e a ANC Youth League, estes contrários às políticas adotadas pelas administrações ante-
riores. Logo, se no plano interno esperava-se atuação direcionada ao rompimento com o desem-
prego, a melhora das condições de saúde e educação para grande parcela da população, enfim,
encontrar soluções a desafios herdados do regime do apartheid não resolvidos pelas adminis-
trações anteriores, no âmbito das relações internacionais, as expectativas giravam em torno da
política que passaria a direcionar Pretória na África e no mundo, principalmente a partir da
transformação do Department of Foreign Affairs em Department of International Relations and
Cooperation, cuja finalidade objetivava reforçar aos países africanos o caráter não hegemônico
de sua atuação no continente (LANDSBERG, 2010).
Todavia, quando analisados os quase dez anos da administração Zuma, é possível destacar a
continuidade, e não o rompimento com a política externa que vinha sendo adotada pelo país.
Primeiramente porque pontos como a valorização da democracia, o desenvolvimento econômi-
co, o respeito ao multilateralismo, a resolução de conflitos através do diálogo, a diversificação e
a ampliação de parcerias estratégicas, dentre outros que já vinham norteando a atuação sul-a-
fricana pós-apartheid, foram mantidos. Em segundo, porque também houve a contínua prio-
rização do continente africano, esta simbolizada pela manutenção e intensificação da Agenda
Africana. Neste caso, um primeiro exemplo pode ser encontrado na busca pela pacificação do
continente, seja através do apoio a missões de peacekeeping e peacemaking, seja por meio do
auxílio à reconstrução de países pós-conflito.

30 DE JULHO | 2018
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“Quando analisados os quase dez anos da


administração Zuma, é possível destacar a
continuidade, e não o rompimento com a política
externa que vinha sendo adotada pelo país.”

Além do âmbito securitário, outro exemplo pode ser encontrado na criação ou manutenção de
acordos bilaterais no âmbito econômico, os chamados Business Forums, forjado com países como
Nigéria, Senegal, Tanzânia, Namíbia, Zâmbia e destacadamente Angola, cuja visita presidencial
contou com a participação de 150 empresários, no caso, o maior número de empresários parti-
cipantes em uma visita oficial. Paralelamente a isso, um segundo exemplo destas relações eco-
nômicas pode ser encontrado em dois projetos que a administração Zuma se pautou, no caso, à
consolidação do SADC [Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, em inglês Sou-
thern Africa Development Community] Free Trade Area – lançado ainda durante a administração
Mbeki (1999-2008) – e à construção de uma zona de livre comércio baseada na integração entre
a SADC, a East African Community, e a Common Market for Eastern and Southern Africa. No
âmbito da infraestrutura, a realização de tais iniciativas caminhava lado a lado ao Presidential
Infrastructure Champion Initiative e o Programme for Infrastructure Development in Africa.
Ainda no âmbito econômico, porém, no que diz respeito à relação da África do Sul com o mun-
do, o que se viu foram algumas transformações referentes ao posicionamento dos principais par-
ceiros comerciais de Pretória. Evidentemente que a União Europeia se manteve como principal
parceiro comercial da África do Sul, no entanto, ao longo dos anos 2005 e 2017, o que se viu foi
a China ultrapassar os EUA e se transformar no segundo maior parceiro comercial do país afri- 97
cano. Além disso, as trocas comerciais com o Mercosul também se mantiveram relevantes, uma
vez que, somada à continuidade nos exercícios navais do IBSAMAR (II, III e V), demonstrou o
interesse sul-africano em considerar o Atlântico Sul (DTI, 2018a; 2018b; OTAVIO, 2017).
Conclusão
Ao apresentarmos os principais pontos encontrados na inserção internacional de Pretória, tor-
nou-se claro a continuidade na política externa da África do Sul. De fato, seguindo os passos de
Mandela, Zuma pautou-se em pontos como a valorização da democracia, o desenvolvimento
econômico, o respeito ao multilateralismo, dentre outros adotados no imediato pós-Guerra Fria.
Já acerca de Mbeki, Zuma manteve o interesse pelo continente africano, valorizando a diplo-
macia econômica, como também buscou intensificar as relações com as potências emergentes.
Reflexo disso foi a manutenção da Agenda Africana e a entrada no grupo dos BRICS. ■

Referências
OTAVIO, Anselmo. From Mandela to Zuma: the importance of the Southern Atlantic Region
for South Africa’s Foreign Policy. In Brazilian Journal of African Studies. Porto Alegre:
v.2, n.3, p. 169-189, 2017.
DEPARTMENT TRADE AND INDUSTRY OF SOUTH AFRICA (DTISA). AS Export Value
HS8 (Annually). Pretoria, 2018a.
DEPARTMENT TRADE AND INDUSTRY OF SOUTH AFRICA (DTISA). AS Import Value
HS8 (Annually). Pretoria, 2018b.
LANDSBERG, Chris. The Foreign Policy of the Zuma Government: Pursuing the ‘national Inter-
est’? South African Journal of International Affairs, London: v. 17, n. 3, p. 273-293, 2010.

Expediente
Coordenadores do curso de Relações Internacionais da Unisinos: Prof. Ms. Álvaro Augusto
Stumpf Paes Leme (aleme@unisinos.br) e Profª Drª Nádia Barbacovi (nbmenezes@unisinos.br)
Editor: Prof. Dr. Bruno Lima Rocha (blimar@unisinos.br)

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PUBLICAÇÕES

Tarefa da esquerda permanece a


mesma: barrar o caráter predatório
automático do capitalismo

A
edição número 273 do Cadernos IHU ideias apresenta entrevista com
Acauam Oliveira, na qual afirma que, em todo planeta, o discurso é
o de que a esquerda precisa se reinventar. Essa pauta, conforme o
autor, é bem antiga e acompanha a progressiva vitória global do capitalis-
mo, aparentemente irreversível. Esta análise vai muito além, quando se dis-
cute temas como a profunda crise de representatividade, que se desenrola
a olhos vistos e cresce à medida que se aproximam as eleições de 2018; o
racismo, um dos elementos funda-
mentais de estruturação da sociedade
brasileira desde a colônia; e expres-
sões culturais como a MPB e o funk.
Para Oliveira, a tragédia farsesca da
esquerda brasileira está toda contida
na imagem de Lula preso, e boa parte
98 do seu futuro dependerá da maneira
como ela irá lidar com o legado pe-
tista e, ao mesmo tempo, sustentar
novas pautas que não têm mais lugar
nesse modelo que, ao que tudo indi-
ca, se esgotou. A tarefa da esquerda,
contudo, em certo sentido permanece
a mesma: encontrar formas de barrar
o caráter predatório automático do
capitalismo que ameaça a totalidade
da existência do planeta.
Acauam Oliveira é graduado em
Letras, mestre em Teoria Literária e
Literatura Comparada e doutor em
Literatura Brasileira pela Universida-
de de São Paulo - USP. É professor da
Universidade de Pernambuco - UPE,
atuando na graduação em Letras e no
mestrado profissional em Letras. Edi-
tor do site de crítica política e cultural
CHIC Pop.
A versão completa da entrevista em
PDF está disponível no link https://
bit.ly/2N7woym.
Esta e outras edições dos Cadernos IHU também podem ser obtidas dire-
tamente no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, no campus São Leopoldo
da Unisinos (Av. Unisinos, 950), ou solicitadas pelo endereço humanitas@
unisinos.br. Informações pelo telefone (51) 3590-8213.

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Tendências econômicas do
mundo contemporâneo

A
edição número 275 do Cadernos IHU ideias traz o artigo de Alessandra
Smerilli, no qual ela afirma que vivemos em um mundo que passou,
nos últimos duzentos anos, por progressos rápidos: várias nações sa-
íram de estados atrasados de desenvolvimento econômico, a tecnologia está
revolucionando empresas e trabalho. Enquanto olhamos admirados para os
resultados obtidos, nos perguntamos,
no entanto, se realmente vivemos no
melhor dos mundos possíveis, ou se
precisamos de perspectivas diferen-
tes, de novos modelos de desenvolvi-
mento.
Alessandra Smerilli é religiosa
das Filhas de Maria Auxiliadora. En-
sina economia política e elementos
de estatística na Pontifícia Faculdade 99
de Ciências da Educação “Auxilium”
de Roma. Em 2014, doutorou-se em
Economia pela Faculdade de Econo-
mia da Universidade de East Anglia
(Norwich, Reino Unido), e, em junho
de 2006, recebeu um PhD em Econo-
mia pela Faculdade de Economia na
“Sapienza” de Roma.
A versão completa do artigo em PDF
está disponível no link https://bit.
ly/2mJm2Ja.
Esta e outras edições dos Cadernos
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tamente no Instituto Humanitas Uni-
sinos - IHU, no campus São Leopoldo
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PUBLICAÇÕES

A universalidade e o (não) lugar político


da Igreja no mundo de hoje. A eclesiologia
da globalização de Francisco

C
adernos Teologia Pública, em seu número 134, apresenta artigo de
Massimo Faggioli, no qual trata da proposta de Francisco de inaugu-
rar uma nova eclesiologia da globalização desde o início de seu pon-
tificado, tema que é um traço comum na mensagem dele à Igreja. O autor
sustenta que a visão de Igreja do papa Francisco responde a um dos desafios
da globalização, qual seja, a virtualização dos espaços eclesiais e dos “não
espaços” (um neologismo cunhado pelo antropólogo francês Marc Augé
para designar espaços antropológi-
cos de transitoriedade onde os seres
humanos permanecem anônimos e
não têm importância suficiente para
serem considerados “lugares”). Há
diferentes dimensões na eclesiologia
da globalização de Francisco e em sua
100 forma de lidar com a percepção do es-
paço da Igreja Católica. O autor escre-
ve que tentou abordar essa questão de
quatro pontos de vista específicos: 1)
uma fase particular na longa história
da inculturação do papado romano;
2) o catolicismo institucional e mis-
sionário no mundo global; 3) uma
reencarnação da mensagem sociopo-
lítica da Igreja em sua eclesiologia; 4)
a eclesiologia do laicato e a espaciali-
dade da Igreja na globalização.
Massimo Faggioli é doutor em
História da Religião e professor de
Teologia e Estudos Religiosos da Uni-
versidade de Villanova, na Filadélfia,
Estados Unidos. Também é editor co-
laborador da revista Commonweal.
A versão completa do artigo em PDF
está disponível no link https://bit.
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Esta e outras edições dos Cadernos
IHU também podem ser obtidas dire-
tamente no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, no campus São Leopoldo
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Os documentos eclesiais pós-sinodais


“Familiaris Consortio” de Wojtyla e “Amoris
Laetitia” de Bergoglio como respostas aos
desafios da pastoral matrimonial

O
Cadernos Teologia número 133, traz o artigo de José Roques Junges.
No texto, o autor analisa os dois documentos pós-sinodais da Igre-
ja Católica que trataram do matrimônio, nos últimos anos, A Fami-
liaris Consortio de Wojtyla (1982) e a Amoris Laetitia de Bergoglio (2016).
“O primeiro documento tem uma perspectiva canônico-moral ao propor
respostas aos problemas enfrentados pelos casais, enquanto que o segundo
se caracteriza por um enfoque mistagógico-espiritual da vida matrimonial.
Essa diferença de perspectiva poderia
ser interpretada como uma reedição
da controvérsia que, no século XVIII,
opôs os dois sistemas que, naquela
época, tentavam dar respostas aos
problemas morais: o probabilismo
que acentuava a consciência, defendi-
do pelos jesuítas, e o probabiliorismo, 101
centrado na lei, assumido pelos domi-
nicanos”, analisa Roque. E completa:
“Essa diferença aparece quando se
considera o modo de tratar a questão
da eucaristia aos divorciados nos dois
documentos”.
José Roque Junges possui gra-
duação em Filosofia pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio Gran-
de do Sul, especialização em História
do Brasil Contemporâneo pela Uni-
versidade do Vale do Rio dos Sinos
mestrado em Teologia pela Pontifícia
Universidad Catolica de Chile e dou-
torado em Teologia Moral pela Ponti-
fícia Università Gregoriana de Roma,
Itália (1985). Atualmente é professor
de bioética nos cursos de graduação
da área de saúde e professor/pesqui-
sador do PPG em Saúde Coletiva da
Universidade do Vale do Rio dos Si-
nos (UNISINOS).
A versão completa do artigo em PDF
está disponível no link http://bit.ly/2K887FK.
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Poder, persuasão e novos domínios


da(s) identidade(s) diante do(s)
fundamentalismo(s) religioso(s) na
contemporaneidade brasileira

A
edição número 273 do Cadernos IHU ideias traz o artigo de Celso Ga-
batz, que pretende aprofundar a perspectiva dos direitos humanos,
as questões inerentes às minorias e grupos vulneráveis, o preconceito
suscitado pela violência simbólica e a retórica do preconceito alicerçado pela
crítica pública com nuances fundamentalistas. O texto trata da lógica que
configura a composição do quadro doutrinário religioso conservador na con-
temporaneidade brasileira e que supõe uma cartografia discursiva marcada
pela fragmentação das subjetivida-
des. A religiosidade conservadora se
articula e amolda, em grande medida,
com base em um discurso acusatório
que deriva dessa sua capacidade de
tocar, atingir, incorporar e reorientar
alguns elementos presentes no uni-
102 verso simbólico de referência da po-
pulação brasileira.
Celso Gabatz é doutor em Ciências
Sociais pela Universidade do Vale do
Rio dos Sinos - Unisinos, mestre em
História Regional pela Universidade
de Passo Fundo - UPF, graduado em
Teologia pelas Faculdades EST de
São Leopoldo, graduado em Sociolo-
gia pela Universidade do Noroeste do
Rio Grande do Sul - Unijuí e gradua-
do em Filosofia pelo Centro Universi-
tário Claretiano - Ceuclar. É membro
associado da Associação Brasileira de
História das Religiões - ABHR, da As-
sociação dos Cientistas Sociais de Re-
ligião do Mercosul - ACSRM e da So-
ciedade Brasileira de Sociologia - SBS.
A versão completa do artigo em PDF
está disponível no link https://bit.
ly/2AdQfK6.
Esta e outras edições dos Cadernos
IHU também podem ser obtidas di-
retamente no Instituto Humanitas
Unisinos - IHU, no campus São Leopoldo da Unisinos (Av. Unisinos, 950),
ou solicitadas pelo endereço humanitas@unisinos.br. Informações pelo te-
lefone (51) 3590-8213.

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Outras edições em www.ihuonline.unisinos.br/edicoes-anteriores

A desigualdade no século XXI. A


desconstrução do mito da meritocracia
Edição 449 – Ano XIV – 4-8-2014
A desigualdade sobrevive. Aliás, o mundo contemporâneo tem testemunhado
o aceleramento dos níveis globais de desigualdade. Em síntese, é isso que
demonstra o livro do economista francês Thomas Piketty O Capital no
Século XXI (Le capital au XXIe Siècle, Paris: Seul, 2013). Ao analisar
historicamente o capitalismo e desconstruir o mito da meritocracia, Piketty
desafia a narrativa de que o liberalismo poderia resultar em uma sociedade
mais igualitária. É diante deste horizonte, onde, via de regra, o fascínio com
o aumento da renda é confundido com justiça social, que a IHU On-Line
apresenta o debate sobre a desigualdade no século XXI.

Os Grundrisse de Marx em debate


103

Edição 381 – Ano XI – 21 -11-2011

Publicados integralmente e pela primeira vez em português, os Manu-


scritos Econômicos de 1857-1858, que compõem a importante obra de
Karl Marx Os Grundrisse, são o tema de capa desta edição da IHU On-
Line. Contribuem no debate sobre a atualidade e a pertinência deste
clássico, tão tardiamente traduzido para o português, estudiosos da obra
e do pensamento marxianos.

A financeirização do mundo e sua crise. Uma


leitura a partir de Marx

Edição 278 – Ano IX – 21-10-2008

A mais grave e complexa crise do capitalismo depois de 1929 é a que o


mundo vive neste mês de outubro de 2008. Um ciclo maior do capital-
ismo, iniciado há quase 80 anos, parece estar no fim. A importância do
momento que nos cabe viver faz com que novamente a edição da IHU
On-Line desta semana retome o tema. Se, há duas semanas, falávamos
do retorno de J. M. Keynes, nesta edição testemunhamos o retorno de
Marx.

EDIÇÃO 525
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