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jusbrasil.com.br
4 de Março de 2018

A Teoria dos Jogos e sua aplicabilidade na resolução de conflitos

INTRODUÇÃO
Os meios alternativos de resolução de conflitos, tais como a mediação, a
conciliação e a arbitragem tem adquirido crescente importância no direito
brasileiro. A visão concebida pela experiência e pelo senso comum quanto à
resolução de conflitos por estes meios tem possibilitado o seu reconhecimento
como instrumentos eficazes e mais rápidos do que a via conflituosa.

Todavia, ainda é necessário que se difunda de forma mais efetiva uma “cultura” a
favor da mediação e da conciliação na população. Tendo em vista estes meios de
solução de conflitos são instrumentos que visam o bem de todos e a supremacia do
bem-estar social, e considerando as dificuldades enfrentadas pelo judiciário
brasileiro carente de mão-de-obra, a adoção destes métodos extrajudiciais pode ser
extremamente benéfica.

A partir do momento em que as partes se conscientizarem de que a cooperação


pode ser mais vantajosa para ambos o conflito poderá ser resolvido com maior
facilidade.

É neste viés que a Teoria dos Jogos se apresenta, tendo como objeto de estudo o
conflito e baseando-se em cálculos matemáticos e dados comportamentais, John
Nash desenvolveu a ideia de cooperação demonstrando matematicamente que a
cooperação com o adversário poderia possibilitar a maximização de ganhos
individuais.

Conceito, histórico e aplicação


Primeiramente, deve-se destacar que a teoria dos jogos faz parte de um dos ramos
da matemática aplicada e da economia que tem por objetivo o estudo de situações
estratégicas na qual os participantes utilizam-se de um processo consistente da
análise de decisões, baseando a sua conduta na expectativa de comportamento da
pessoa com quem se interage.
Essa abordagem de interações teve seu desenvolvimento basicamente no século
XX, após a Primeira Guerra Mundial, sendo que o seu objeto de estudo sempre foi
o conflito. Na teoria dos jogos o conflito pode ser interpretado como uma situação
na qual duas ou mais pessoas devem utilizar-se de estratégias para maximizar seus
ganhos, ou seja, o ganho de ambas, e não apenas de uma das partes.

Foram de suma importância para a estruturação da teoria dos jogos o estudo do


matemático Émile Borel, que iniciou seus trabalhos através do estudo do pôquer,
tendo dado atenção especial para o problema do blefe, bem como da visão que um
jogador deve ter para tentar imaginar as possibilidades de jogada de seu
adversário. Formulou-se uma noção da seguinte maneira: “eu penso que você
pensa que eu penso que você pensa...”, sendo uma argumentação infinita, que foi
solucionada na década de 1950 por John F. Nash que elaborou o conceito de
Equilíbrio de Nash.

John Nash trouxe novos horizontes para a teoria dos jogos com o seu conceito de
equilíbrio, e ainda rompeu com o paradigma econômico, criado por Adam Smith,
que se baseia puramente na competição. Para Adam Smith se cada um lutar para
garantir uma melhor parte para si, os competidores mais qualificados ganhariam
um maior quinhão.

Ainda, para John Von Neumann, professor de John Nash, um dos competidores
para ganhar, deveria necessariamente levar o adversário a derrota, de certa forma
concordando com a teoria de Adam Smith.

Porém, John Nash, introduziu o elemento cooperativo na teoria dos jogos, ideia
que não é totalmente incompatível com o pensamento de ganho individual, já que
o entendimento é de que é possível maximizar os ganhos individuais cooperando
com o adversário, assim os jogadores devem pensar no individual e no coletivo ao
formular sua estratégia.

O equilíbrio de Nash
O princípio do equilíbrio criado por John Nash é baseado em um par de estratégias
em que cada uma é a melhor resposta à outra, ou seja, é uma espécie de meio
termo que permite que ambos possam auferir ganhos. Assim, o equilíbrio de Nash
seria a solução conceitual para o qual os comportamentos se estabilizam em
resultados nos quais os jogadores não se arrependem, em uma análise posterior do
jogo, levando em consideração a jogada apresentada pela parte adversária.

Não se pode afirmar que tal teoria é ingênua pois “ Se todos fizerem o melhor para
si e para os outros, todos ganham”.

Competição e cooperação
Como regra, a grande maioria das pessoas não foi estimulada, ainda na fase da
infância, a interagirem de forma cooperativa quando se deparavam com conflitos.
Tanto mediadores, como partes e advogados não possuem enraizada a ideia da
cooperação como sendo o melhor caminho para todos. Pelo contrário, em nossa
sociedade o estímulo direciona-se para a competição desde cedo, com jogos,
brincadeiras dentro outros, nos quais há apenas um vencedor e um perdedor.

Destaca-se que quando as pessoas presumem que se encontram em uma dinâmica


competitiva passam a agir de forma não colaborativa e por conseguinte têm
resultados individuais muito inferiores aos que poderiam obter caso tivessem
adotado postura cooperativa. Claro que a compreensão de equilíbrio de John Nash,
em relações continuadas, pressupões a racionalidade dos interessados.

Especificamente na mediação as partes são a todo momento estimuladas a


ponderarem e racionalizarem sobre suas opções e estratégias de otimização de
ganho individual, sendo que sempre a cooperação é estimulada em detrimento da
competição.

Teoria dos jogos e mediação


A teoria dos jogos apresenta-se como ma importante ferramenta para a mediação e
demais processos autocompositivos pois com ela podemos extrair o melhor
resultado dos conflitos.

A mediação, em especial, produz bons resultados quando as partes se comportam


de forma ética, e com boa intenção, visando a solução rápida e eficiente e deixando
de lado o puro interesse individual embora não seja sob este prisma que a questão
deva ser encarada. A cooperação trata-se de fato racional e voltado para a
otimização dos resutados.

Destaca-se que em relações continuadas o equilíbrio de Nash e a otimização de


resultados a ele inerente encontra-se na cooperação. Assim, o papel do mediador
não consiste em apresentar soluções para as partes, mas sim em agir de forma a
estimular as partes a considerarem desenvolvimentos da relação conflituosa, e
dessa forma entrarem em um consenso para que abas sejam beneficiadas.

Portanto, a relação de cooperação com competição em um processo de resolução


de disputas não deve ser tratada como um aspecto ético da conduta dos envolvidos
e sim por um prisma de racionalidade voltada à otimização de resultados. Assim,
se em uma relação continuada uma das partes age de forma não cooperativa, esta
demonstra que desconhece a forma mais eficiente de resolução para o seu conflito,
e tal fato pode ocorrer por envolvimento emocional muito alto com a causa, ou
ainda por ausência de um processo maduro de racionalização.

Conclui-se que as partes têm a ganhar com soluções cooperativas para os seus
litígios, ao invés de utilizar-se da competição para tentar resolvê-los. Merece
destaque também que, pensando de forma puramente racional, as partes tendem a
cooperar, mas não por razões altruístas, mas sim visando a otimização de seus
ganhos individuais.

CONCLUSÃO
A teoria dos jogos como ramo de estudo das situações estratégicas que envolvem
interações entre dois ou mais indivíduos tem por objetivo traçar parametros
comportamentais e soluções para importantes questões envolvendo conflitos entre
dois sujeitos.

Apesar de a teoria ter se iniciado com teoricos que apontavam para um resultado
baseado na derrota de uma parte e vitória da outra, a partir de John Forbes Nash,
aceitaram-se novos conceitos para a teoria, que revolucionaram a economia com o
conceito de equilíbrio. Nash rompeu com o paradigma econômico da competição.

A maneira como a sociedade funciona pressupõe a ideia de competição em quase


todos os seus ramos, assim, o equilíbrio de Nash surge no sentido contrário ao
demonstrar matematicamente que a cooperação entre indivíuos pode ser mais
vantajosa do que a competição. Naturalmente a cooperação não pode ser aplicada
em todos os ramos mas em termos de conflitos judicais está provada a grande
importancia deste instituto para o benefício de ambas as partes.

Podemos concluir que a teoria dos jogos é especialmente importante para a


mediação e demais processos autocompositivos por permitir respostas a complexas
questões, inclusive de cunho ético.

Com base na teoria dos jogos, pode‑se perceber que nos conflitos de relações
contínuas as partes tendem a ganhar com soluções cooperativas. É importante
perceber também a racionalidade envolvida nisto, pois independentemente de
questões éticas, as partes que auferem ganhos ao cooperar estão acima de tudo
otimizando os seus ganhos individuais.

BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Fábio Portela Lopes de. A teoria dos jogos: uma fundamentação teórica
dos métodos de resolução de disputa. In: AZEVEDO, André Gomma de (Org.).
Estudos em arbitragem, mediação e negociação. Brasília: Ed. Grupos de Pesquisa,
2003. V. 2.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício


da experiência. 2. Ed. São Paulo: Cortez, 2000.

http://www.cnj.jus.br/images/programas/conciliacao/manual_mediacao_judicial
_4ed.pdf
Disponível em: http://rebecacbarbosa.jusbrasil.com.br/artigos/376965945/a-teoria-dos-jogos-e-sua-aplicabilidade-na-resolucao-de-
conflitos