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NO DESERTO DE CONCRETO
Autor

WILLIAM VOLTZ
Tradução

RICHARD PAUL NETO
Digitalização

VITÓRIO
Revisão

ARLINDO_SAN

Chegou o mês de julho do ano 3.441, tempo terrano. Faz pouco tempo que Perry Rhodan voltou da galáxia Gruelfin e, chegando à Terra, defrontou-se com os escombros daquilo que fora construído num trabalho intenso que durara séculos. Deixou a valorosa Marco Polo no porto espacial da Frota, em Terrânia, e partiu novamente para o desconhecido na Good Hope II, uma corveta especialmente equipada, levando sessenta companheiros, entre eles Gucky e Atlan. Perry Rhodan não teve alternativa, mesmo que a eliminação do caos reinante na Terra não exigisse o sacrifício de todos aqueles que tinham escapado aos efeitos dos raios de deterioração mental. Acontece que desde que apareceu o misterioso “enxame”, há cerca de sete meses, o caos está em toda parte. Não atinge somente o Sistema Solar. Alcança toda a galáxia, segundo se deduz das informações e pedidos de socorro das inteligências que ficaram imunes. Perry Rhodan tem a intenção de descobrir alguma coisa a respeito do “enxame”. Acredita que talvez seja possível encontrar um meio contra a manipulação da constante gravitacional realizada pelo enxame, que leva à deterioração mental da maior parte dos seres inteligentes, ou ao menos impedir que os donos do enxame atravessem a Via-Láctea. Perry Rhodan quer tentar uma coisa que pode parecer impossível, da mesma forma que Michael Rhodan, também chamado de Roi Danton, e os outros membros do governo de emergência, para melhorar as condições desoladoras — inclusive No Deserto de Concreto...

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Personagens Principais: = = = = = = =

Simão, o semimorto — Um ladrão de loja fichado. Garrigue Fingal — Que já foi galactopsicólogo a serviço da Frota Solar. Coden Opprus, Janus Pohklym e Gryndheim — Incumbidos de uma missão que os leva a uma cidade morta. Roi Danton e Galbraith Deighton — Comandantes de Império Alfa. Mrozek Verdere — Um homem que não quer derramamento de sangue.

1
Logo depois da catástrofe Simão, o semimorto, registrado pelos impulsos genéticos e reconhecido como ladrão de lojas de Terrânia City, perdeu a visão. O centro de abastecimento do edifício em que vivia Simão, o semimorto, com mais vinte e seis criminosos legitimados, explodira porque uma pessoa mentalmente deteriorada mexera num comando errado. A parede da sala de estar de Simão, o semimorto, rachara. Um fio incandescente do sistema de calefação saltara da parede, atingindo-o no rosto. Depois disso o ladrão legitimado não saíra mais de casa e vivera das provisões acumuladas. Tentara chamar um médico, mas por estranho que parecesse, não era mais capaz de lidar com o videofone. Os outros equipamentos técnicos de sua residência também lhe causavam problemas. Mas toda vez que depois de muito esforço conseguia manipular um, este aparelho não funcionava, por estar ligado ao centro de suprimento que explodira. Acontecera uma coisa horrível! Uma única vez Simão, cego e com uma ferida horrível no rosto, saíra cambaleante para o corredor e gritara por socorro. Um silêncio estranho reinava no edifício. A rua, da qual antigamente sempre chegavam ruídos para Simão, o semimorto, também permaneciam em silêncio. De vez em quando Simão, o semimorto, ouvia gritos de homens ou animais; explosões se sucediam e veículos colidiam ruidosamente. Parecia que a cidade estava mergulhada no caos. O ladrão legitimado ficara de cama durante uma semana, com febre alta, mas graças à sua constituição robusta, a ferida no rosto sarara. Mas Simão não recuperara a visão. Simão, o semimorto, estava trancado em sua residência. Há poucos dias houvera combates no corredor. O chiado de várias armas energéticas viera dum lugar muito próximo. Certo de que estava perdido, o cego esperava um milagre. Mas seus problemas nem tinham começado. Na manhã do dia 6 de julho de 3.441 descobriu que sua provisão de mantimentos se esgotara. Teria de morrer de fome ou sair à procura de ajuda ou alimentos. Sua vontade de viver não fora afetada. Por isso criou coragem e saiu de casa. Havia um nome que não lhe saía da cabeça. Garrigue Fingal. Fingal era galactopsicólogo e tratara Simão por causa de suas tendências cleptomaníacas. Fingal também arranjara uma autorização que habilitava o ladrão a roubar objetos até o valor de cem solares por mês. Se Simão, o semimorto, conseguisse chegar ao consultório do galactopsicólogo, talvez recebesse ajuda. O cego saiu pelo corredor tateando as paredes. O elevador antigravitacional ficava no fim do corredor. Simão parava de vez em quando para escutar. Estava tudo em silêncio no edifício. Na rua havia um motor funcionando. Simão, o semimorto, era um homem alto de ombros largos. Antes de ser ferido, seu rosto podia ser considerado simpático. Todos os semimortos que viviam com Simão no edifício reservado aos criminosos legitimados pareciam estar bem. Para os médicos eram

aleijados mentais e mereciam a compaixão da sociedade que os produzira. Os psicólogos chamavam as pessoas psiquicamente doentes de semimortos, porque viviam a maior parte do tempo afastados da sociedade. No mesmo edifício em que vivia Simão até havia um assassino legitimado, que tinha autorização para matar uma vez por ano um robô humanóide. — Garrigue Fingal! — murmurou Simão, o semimorto, em tom ansioso. Finalmente chegou ao fim do corredor. Virou instintivamente a cabeça para todos os lados. Era a reação típica de uma pessoa que se tornara cega há pouco tempo. Mas logo voltou a depender das mãos; avançou tateante até a entrada do elevador. A porta estava aberta. Simão, o semimorto, quis entrar, mas seus pés bateram num corpo. Havia um cadáver no elevador. Estava frio. Simão concluiu que já estava lá há bastante tempo. Suas mãos apalparam sangue coagulado e entraram numa grande ferida no peito. Simão, o semimorto, soltou um grito gutural e rastejou para um canto do elevador. Ficou agachado por algum tempo. Tinha de fazer um esforço para pensar. Fazia muito calor dentro do elevador. Simão começou a transpirar. Ficou na escuta. Havia alguém tocando arena em um dos pavimentos superiores. Simão o semimorto não se lembrava do título da canção, mas conhecia a melodia. Acompanhou-a cantarolando. Levantou e refletiu se devia subir. Se lá em cima havia alguém capaz de tocar arena, talvez conseguisse auxílio. Simão resolveu sair do edifício. Apalpou o quadro de controle do elevador. Descobriu o botão de baixo e apertou-o. Desceria com o cadáver. Mas teve uma decepção. O elevador não funcionou. Felizmente havia uma escada. Fora construída para servir em situações de emergência e como apoio psicológico dos criminosos legitimados. Antigamente Simão, o semimorto, vivia se perguntando por que as autoridades se davam ao trabalho de criar um mundo de fantasia para os criminosos. Mas naquele momento ficou contente. A escada! Simão saiu do elevador e seguiu por um corredor secundário. Continuava a ouvir a arena. Seus sons melódicos acompanhavam o cego. De repente a música parou. Alguém tossiu. Os pés de Simão, o semimorto, bateram em objetos espalhados no chão. Simão tropeçou e esbarrou numa porta que estava aberta. O tocador de arena devia ter ouvido o barulho. Simão fechou a porta e ficou parado. Parecia que alguém saqueara a sala que ficava atrás da porta e jogara no corredor os objetos de que não precisava. Simão chegou à conclusão de que o ou os desconhecidos estavam à procura de alimentos. Seu cérebro afetado pelo processo de deterioração mental quase não conseguia atinar com as coisas. Simão chegou à escada. O instinto seguro do cego fez com que sentisse que havia alguém por perto. O semimorto parou. Estava com medo, pois sabia que não seria capaz de enfrentar um vidente. — Quem é o senhor? — perguntou uma voz feminina. Simão, o semimorto, estremeceu.

— Que houve com seu rosto? — perguntou a mulher enojada. — Ficou horrível. Simão ouviu a vibração leve de uma corda de arena. Era um sinal de que a mulher segurava o instrumento nas mãos. — Estou cego — disse. — Não enxergo nada. Era a primeira vez que falava com alguém depois da catástrofe. Parecia que sua voz era pesada. Não era fácil coordenar as palavras. Uma lembrança vaga lhe disse que já falara desse jeito: na primeira infância. — Tem alguma coisa para comer? — perguntou a mulher. Simão respondeu que não. — Vou ao médico. Quero consultar Garrigue Fingal. Ele vai examinar meus olhos. — Quase todos os semimortos saíram do edifício — informou a mulher. — Mas eu não me atrevo a ir para a rua. — A senhora é a semimorta Asythia? Simão já ouvira este nome. — Sou — respondeu a mulher em tom hesitante. — Sou uma contrabandista legitimada. Simão pôs os pés na escada. — Não há nada que se possa comer. Em todo o edifício. Estou com fome. — Asythia deu uma risadinha. — É uma pena o senhor não poder ver o que está acontecendo na rua. — Nem quero — respondeu o semimorto Simão com uma teimosia infantil. — Fico contente por não enxergar. — Acontece que eu vejo — disse Asythia em tom alegre. — As ruas estão vazias. Em toda parte vêem-se veículos que caíram ou capotaram. Muitos deles bateram nos edifícios ou envolveram-se em acidentes. De vez em quando passam algumas pessoas que fazem saques. Faz tempo que se organizaram em bandos. O semimorto Simão apoiou-se no corrimão da escada. Sentiu-se só e desamparado. — Por que não aparece ninguém para cuidar de nós? — Todo dia alguns planadores sobrevoam o edifício — respondeu Asythia. — Pede-se pelos alto-falantes que todos que ainda estejam em boas condições se apresentem no centro do comando. Aos outros pede-se que fiquem calmos. Alguém tenta pôr ordem nesta confusão. É possível que dentro de pouco tempo recebamos alimentos. O cego estava no meio da escada e continuou descendo devagar. — Posso acompanhá-lo? — perguntou Asythia. — Para mim tanto faz — respondeu o ladrão. A mulher começou a tocar arena, mas não acompanhou o cego, que chegou ao pavimento intermediário sem ser incomodado. A música de arena parou. — Seria bom se o senhor pudesse olhar pela janela — disse Asythia. — Há nuvens escuras no céu. De vez em quando uma faixa de fogo corre pelo horizonte. Em seguida... A mulher interrompeu-se. Um trovão prolongado quase abafou sua voz. — Explosões! — exclamou o semimorto Simão em tom nervoso. — São tiros. — O senhor não era muito inteligente — disse Asythia em tom pensativo. — Percebo pelo seu modo de falar. — Sou mais inteligente que a senhora! — disse o cego em tom exaltado. — É o tempo — disse a mulher em tom preocupado. — As condições meteorológicas estão fora de controle.

O semimorto Simão compreendia cada vez menos do que ela dizia. Continuou descendo. De vez em quando ouvia as risadinhas de Asythia. Mas ela acabou voltando ao quarto e batendo a porta. O homem mentalmente deteriorado chegou ao grande hall. Os escombros, os objetos caídos e outros obstáculos tornavam difícil chegar à saída. Um gato que se movia silenciosamente e roçou suas pernas ronronando deu-lhe um susto, o coração de Simão palpitava quando ele chegou à porta. Felizmente a memória ajudou-o. Sabia exatamente como era o lugar. A porta era de metal leve e havia nela algumas aberturas cobertas com metal transparente. Subia automaticamente toda vez que alguém queria entrar ou sair. Mas desta vez não se ouviu o ruído da porta arrastando nos quadros de feltro. Ela não se abriu. O mecanismo automático fora destruído ou estava com defeito. As mãos do cego apalparam o material frio. Mais uma vez se ouviu um trovejar prolongado do lado de fora. — Quero sair! — gritou o semimorto Simão enquanto martelava a porta com os punhos. Ela não se mexeu. Tomado de pânico, o cego arremeteu com o corpo contra a porta. Foi inútil. Aos poucos Simão voltou a acalmar-se. Lembrou-se de que havia outras saídas. Se necessário poderia passar rastejando por um duto de ventilação. O cego avançou tateando junto à parede e chegou ao elevador. Dali a pouco estava diante de uma porta interna atrás da qual ficava o corredor que levava ao centro de abastecimento. Simão conseguiu abrir a porta. Vapores quentes envolveram seu corpo. O cego tossiu. Mal conseguia respirar. Voltou a fechar a porta o mais depressa que pôde e apoiou-se nela com as costas. Alguma caldeira deve ter arrebentado por aí, pensou. Ou então a água dos tubos de calefação danificados estava evaporando. Água! O semimorto lambeu os lábios. Voltou a abrir a porta e entrou alguns metros no corredor. Os vapores quentes obrigaram-no a recuar. Quando Simão fechou a porta, nuvens de vapor brancas subiram ao teto. Mas o ladrão legitimado não pôde ver isto. O cérebro lerdo do homem mentalmente deteriorado começou a planejar. Simão tirou a jaqueta e arrancou um pedaço da camisa. Colocou a jaqueta de novo e comprimiu o pedaço da camisa contra o rosto. Obrigou-se a respirar devagar. Entrou no corredor com o pescoço encolhido. Saiu correndo para afastar-se o mais depressa possível do lugar perigoso. Atrás dele o vapor entrou no hall em lufadas. Os ombros do semimorto Simão esbarraram na parede, mas ele não se deteve por isso. Seu rosto ficou vermelho por causa da falta de ar. A veia jugular inchou. Quando pensou que não aguentaria mais, tirou o pedaço de tecido de cima do rosto. Inspirou o vapor quente, tossiu e engasgou. Acabou esbarrando num obstáculo. O cego caiu. Sentiu imediatamente que junto ao chão o ar era melhor. O calor foi diminuindo aos poucos. As mãos que tateavam para encontrar a parede agitaram-se no vazio. Simão encontrava-se numa sala grande, na qual tinha sido instalado o centro de abastecimento.

Havia água pingando. O semimorto Simão seguiu adiante com os braços estendidos. Por causa do chiado do vapor saindo em jatos irregulares era quase impossível encontrar o lugar em que pingava a água. O semimorto Simão esbarrou nas máquinas de abastecimento de energia e nos fios. Estava tudo quente e úmido. De repente uma gota quente caiu na nuca do cego. Simão parou e jogou a cabeça para trás. Deixou que os pingos caíssem na boca aberta. Era uma água morna, de sabor desagradável. Simão bebeu até saciar a sede. Mas não se sentiu melhor depois disso. Não adiantava voltar ao hall. Simão tinha de dar um jeito de sair pela porta do centro de abastecimento. Talvez pudesse passar pela galeria que separava o edifício do que ficava ao lado para chegar à rua. O cego levou alguns minutos procurando. Finalmente encontrou a porta. Teve dificuldade em abri-la. Teve de fazer toda força para empurrá-la o suficiente para lhe dar passagem. Nunca estivera nesse lugar. Mas sabia mais ou menos por onde podia sair. Avançou devagar tateando. Tinha dado alguns passos quando encontrou uma grade metálica. A distância entre as barras era tão grande que ele conseguiu espremer-se entre elas. Um chiado estranho vinha do lado para onde ia. Simão encontrou uma porta entreaberta e saiu para o pátio dos fundos. Um vento frio atingiu seu rosto. Era muito estranho. O vento soprava com violência, produzindo o chiado. O semimorto Simão levantou a cabeça para escutar melhor. Pingos enormes atingiram seu rosto. Estava chovendo. Um trovão fez com que o cego estremecesse. Uma trovoada começava a desabar sobre Terrânia City. A primeira em mais de mil anos!

2
Coden Opprus fez força para não acordar. Ainda estava muito cansado. Seu corpo revoltava-se contra os comandos do intelecto. Quanto tempo dormira mesmo? Na melhor das hipóteses duas ou três horas. Opprus abriu os olhos e bocejou. Os ruídos que alcançaram seu ouvido eram um sinal de que acontecera alguma coisa fora do comum. Opprus sorriu sem graça. Nos últimos seis meses sempre aconteciam coisas fora do comum. E fazia seis meses que não dormira ininterruptamente mais de três ou quatro horas. Coden ergueu-se na cama. Havia mais quatro homens e três mulheres na sala de controle. Estavam todos ocupados. Seus rostos iluminados pelas luzes dos instrumentos pareciam pálidos. Só podem estar! — pensou Coden Opprus. Muitos deles trabalhavam há mais de vinte e quatro horas. — Seiscentos e noventa e quatro! — murmurou Coden Opprus. Era o número que se conhecia por enquanto. Seiscentos e noventa e quatro! Seiscentos e noventa e quatro seres humanos tinham escapado ao processo de deterioração mental em toda a Terra. Ele, Coden Opprus, era um dos 482 homens que tinham sido salvos. Opprus pôs os pés fora da cama e apoiou a cabeça nas mãos. Teve de esforçar-se para não bocejar. A porta que dava para a sala de controle abriu-se. Danton entrou. Estava com a barba por fazer e as faces encovadas. Parecia um doente. — Que é desta vez? — perguntou Opprus enquanto olhava para as luzes de alarme que ainda piscavam regularmente. Danton apoiou-se numa coluna de armazenamento. — O senhor já está de pé de novo — espantou-se. Opprus fez uma careta. — Flutuo sobre nuvens cor-de-rosa, senhor. O filho de Rhodan fez um gesto de pouco-caso. — Deixe para lá o senhor. Daqui em diante deixarei de chamá-lo de coronel. Que importância tem um cargo na situação em que nos encontramos? Coden Opprus sorriu zangado e apontou para os controles, onde estava sentado o gordo Sargento Gryndheim, mastigando um pedaço de carne-seca. — É graças ao meu cargo que este cara ainda me serve minha porção de café. — Lorotas! — disse Gryndheim em tom de desprezo. — Faz meia hora que o centro meteorológico principal de Terrânia City foi atacado — informou Danton ao pequeno grupo. — Um temporal desabou sobre a cidade. Receio que as coisas piorem ainda mais. Os manipuladores do tempo que estão em órbita foram postos fora de ação ou trabalham como lhes dá na cabeça. Opprus levantou e atravessou a sala com as pernas duras. Parou à frente dos controles e ligou uma tela de imagem. Nela apareceu a imagem de uma área livre com uma construção em cúpula nos fundos. Arco-íris eram tangidos através da área. Opprus soltou um assobio.

— Será que devemos isto aos manipuladores do tempo? Michael Rhodan sacudiu a cabeça. — Tive contato com um dos porta-vozes. Eles não se responsabilizam pelo incidente. Ainda não há motivo para duvidarmos da sinceridade do Homo superior. — Alguém fez isso? — perguntou Gryndheim. — É um bando organizado — afirmou Danton. — Parece que mataram a guarnição do centro. Não conseguimos fazer contato pelo rádio. Os homens e as mulheres que se encontravam na sala de controle interromperam o trabalho e olharam para Danton. — Devemos contar com grandes catástrofes naturais em toda a Terra, a não ser que consigamos controlar a situação. Danton pegou um cartão magnético e prendeu-o na coluna. — Já chegaram as primeiras notícias sobre maremotos do Oceano Índico. A costa oeste dos Estados Unidos também está em perigo. E ainda vai ficar pior. — Podemos fazer alguma coisa? — perguntou Opprus em tom objetivo. Sabia perfeitamente que as catástrofes meteorológicas que estavam para vir tornariam as coisas ainda piores. Mais um perigo ameaçava a humanidade mentalmente deteriorada, desorganizada e faminta. O que poderiam fazer as poucas mulheres e homens que ainda pensavam claramente para evitar a desgraça? — Não conhecemos o alcance dos estragos causados durante o ataque ao centro meteorológico — disse Danton. — De qualquer maneira temos de dar uma olhada e se necessário ativar o centro de emergência. Janus Pohklym, que até seis meses atrás fora agente da Segurança Solar, levantou e foi para perto do mapa. — O senhor não é meteorólogo? — lembrou Opprus. — A meteorologia é uma das minhas especialidades — respondeu o homem esbelto de rosto sério. — Alguém tem de dar um jeito de chegar ao centro — disse Danton. — Sugiro que sejam dois ou três homens. O centro fica a vinte quilômetros daqui. Infelizmente não se pode chegar lá pelo túnel do trem tubular nem pelas galerias do metrô. Quem for terá de andar um pedaço na superfície. — Aqui não podemos dispensar ninguém — disse Opprus em tom apressado. — Meus colaboradores estão exaustos. Constantemente recebemos mensagens vindas de todos os cantos da galáxia. Têm de ser interpretadas. Sem isso não podemos formar um quadro exato da situação global. Viu-se perfeitamente que Danton não se impressionou com o argumento. Um homem que tomara a decisão de fazer o impossível não se impressionava com mais nada. — Pois eu lhes digo o que vamos fazer — principiou Danton. — A partir deste momento só interpretaremos metade das mensagens que chegarem. Alguém ainda deve estar em condições de saber que notícias são importantes e que notícias não o são. Opprus experimentou um sentimento de oposição. — Nesse caso poderemos condenar muita gente à morte porque não podemos ajudálos enquanto é tempo. O antigo livre-mercador deu uma risada amarga. — Já pensou se alguém poderia ajudar-nos? Enquanto não tivermos salvo a Terra, não podemos pensar nos seres humanos que se encontram no espaço e em inúmeros planetas. — Isso é lamentável!

— Sem dúvida. Mas temos de restringir-nos ao possível. Já discuti o assunto com Galbraith Deighton. Ele apóia meu plano. — Danton olhou para Pohklym. — Vejo que alguém se apresenta como voluntário. Alguém que felizmente é um especialista. — Irei, sim — ofereceu-se Pohklym com a voz calma. — Também irei — decidiu Opprus imediatamente. — Já que aqui não posso fazer um bom trabalho, prefiro sair. Kalktorn poderá cuidar das minhas tarefas. Tem bastante experiência para cuidar disto sozinho. — É melhor levar mais alguém — disse Danton. — Lá fora correrão perigo. Além do temporal, terão de cuidar-se com os saqueadores e os bandidos. Os membros mais fanáticos das seitas também poderão tornar-se perigosos. Gryndheim levantou ajudando com os braços. — Irei com o senhor — dirigiu-se a Opprus. Danton fitou-o demoradamente. — Não é que eu tenha preconceitos contra os gordos, Gryndheim, mas quando são tão gordos como senhor... O radioperador não se impressionou. Apontou para a tela que Opprus acabara de ligar. — Lá em cima está havendo uma tempestade. Não se esqueça de que um homem que pesa cem quilos não é derrubado tão depressa. Quem sabe se meus companheiros mais magros não ficarão satisfeitos por poderem segurar-se em mim? — Não sei... — disse Opprus em tom hesitante. — Acho que Pohklym e eu podemos ir sozinhos. Mas Danton já tinha tomado sua decisão. — Gryndheim irá com os senhores. Talvez tenham de lutar. Os três homens armaram-se e colocaram trajes de proteção. Para Opprus a necessidade dessa precaução chegava a ser arrasadora. Era um sinal de como as coisas tinham mudado em pouco tempo. — Quem sai de Império Alfa expõe-se ao perigo — advertiu Danton. — Lá fora terão de agir como se estivessem na selva de um planeta desconhecido. Só assim talvez escapem. Opprus acenou com a cabeça. — Manteremos contato pelo rádio — prosseguiu Danton. — Assim que chegarem ao centro meteorológico, verifiquem a extensão dos estragos. Se for necessário fazer reparos, tentem pôr em funcionamento pelo menos o equipamento de emergência. Temos de recuperar o controle dos satélites, senão haverá uma catástrofe de âmbito mundial. Danton despediu-se dos homens com um aceno de cabeça e saiu. Era um homem exausto, marcado pelos sofrimentos. Opprus dirigiu-se a Gryndheim. — Pronto? O gordo franziu a testa. — Mal começamos e o senhor já quer apressar-me? Temos de agir com todo cuidado. Opprus fitou-o atentamente. — Não vamos esperar, Gryndheim. Vamos, Pohklym. Gryndheim ainda estava mexendo nos fechos do traje de proteção, mas acompanhou os outros para o corredor. Subiram um andar no elevador mecânico. Lá entraram num planador que os levaria aos recintos superiores de Império Alfa.

Podiam sair do centro de comando por vários lugares. Mas de qualquer maneira teriam de subir. Opprus sabia que encontrariam uma cidade morta. *** Coden Opprus era um homem alto, de aspecto robusto. Seus movimentos eram desajeitados, mas vigorosos. Possuía senso de humor. Mas nos últimos minutos ele o perdera quase completamente. Opprus estava na direção do veículo que os levou através dum túnel largo. Pohklym estava sentado a seu lado, sério e quieto como sempre. O Sargento Gryndheim enfiara-se no assento traseiro e olhava pela janela com uma expressão contrariada. Não se via muita coisa. Antes da catástrofe os túneis iguais a este costumavam estar repletos de veículos e pedestres. Mas naquele momento nem os controles principais estavam guarnecidos. Segundo as informações mais recentes, o túnel desabara fora do Império Alfa. Os grupos de imunes que saíam por aí transmitiam constantemente informações sobre estragos de grandes proporções. Isto não era devido apenas à ação cada vez mais intensa dos bandos, mas também ao funcionamento descontrolado de uma aparelhagem supertecnificada. — Gostaria de saber como conseguiram chegar à estação meteorológica — pensou Opprus em voz alta. — Já destruíram vários centros meteorológicos, mas sempre acreditei que não encontrassem a estação principal. Gryndheim inclinou-se para a frente. — Quer dizer que em sua opinião nos encontramos diante de uma destruição planejada? — Foi o Homo superior — disse Opprus. — Isto infringiria o acordo que Rhodan celebrou com os cabeças de ovo. Acho que podemos confiar nos porta-vozes de primeira classe. — Gryndheim ficou pensativo. — Vivo me perguntando se o novo homem não tem razão com suas ideias a respeito da evolução da humanidade daqui em diante. Coden Opprus olhou por cima do ombro. — Que quer dizer com isso? — Trata-se de uma questão de evolução — tentou explicar Gryndheim. — A humanidade entregou-se completamente à técnica. Não pode existir mais sem ela. Mas agora já não domina o instrumento por ela criado. É destruído por ele. O veículo entrou numa curva comprida. Opprus segurou o volante com as duas mãos. — Acha mesmo que os planos do Homo superior representam uma alternativa aceitável? — Não neste estágio — respondeu o sargento e sacudiu a cabeça. — Mas imagine que os homens tivessem desistido da evolução técnica para concentrar-se na evolução espiritual. Onde estaríamos hoje? — No inferno — respondeu Opprus em tom sombrio. — Ou no céu, seja lá onde fica isso. O homem gordo recostou-se no assento e cruzou os braços sobre o peito. — Conquistamos o espaço e enviamos nossas espaçonaves a galáxias diferentes. Mas o ganho espacial é enganador. O que ganhamos mesmo em última análise, Opprus? Refiro-me à soma de nossos conhecimentos. Sabemos que dois mais dois são quatro. Se aprendermos mais alguma coisa, já pensamos que abrimos a porta do saber universal. Mas a única coisa que descobrimos é que quatro mais quatro são oito. Compreende o que

quero dizer? Só aumentamos o volume de dados, mas na verdade não compreendemos nada. Podemos ser comparados com cegos que ficam tateando por aí, apalpando as coisas, sem compreendê-las. — O senhor é um filósofo! — disse Opprus surpreso. — A evolução espiritual poderia ter-nos levado para além das fronteiras do Universo — afirmou Gryndheim. — Mas já é tarde para isto. E olhe que os mutantes representaram um aviso da natureza. Perdemos nossa chance. Não podemos voltar atrás e seguir outro caminho. É incrível que o Homo superior ainda não tenha compreendido isto. Opprus encostou o veículo à parede do túnel. Apontou para um conjunto de elevadores. — E aqui que nós descemos. — Não poderíamos viajar de carro mais um pouco? — queixou-se Gryndheim. — Detesto andar por aí à toa. Desceram do veículo. Um silêncio constrangedor enchia o túnel. Os controles dos elevadores estavam ligados. Entraram em um dos elevadores e subiram. O zumbido do mecanismo parou quando a cabine parou. Opprus empurrou a porta e olhou para fora. — Tudo em ordem — gritou para os companheiros. — Podemos sair. Entraram num auditório que ainda fazia parte de Império Alfa. Estava meio escuro. As últimas fileiras de assentos formavam um quadro de conto de fantasmas. Acima das tribunas havia letras luminosas suspensas no ar. A dignidade do ser humano é intocável, leu Opprus. — É arriscado afirmar isso — disse Gryndheim, que interpretara corretamente o olhar do coronel. — Tudo depende das circunstâncias. Um homem que vive num regime de liberdade tem mais facilidade de defender sua dignidade do que um que está sujeito ao terror e à violência. Deu uma cutucada em Pohklym. — O senhor nunca diz nada? Janus Pohklym deu de ombros. Atravessaram o auditório. Do outro lado havia saídas que levavam aos elevadores. Acontecera o que Opprus receara. Todos os elevadores tinham sido bloqueados. Tratavase de uma precaução do centro de comando. Servia para evitar que pessoas mentalmente deterioradas entrassem em Império Alfa e causassem estragos. — E agora? — perguntou Gryndheim. — Usaremos nossos projetores antigravitacionais para subir pelos poços dos elevadores. Deve haver uma porta aberta. Se não houver, teremos de destruir uma para sair. — Acha que temos mesmo de chegar logo à superfície? — Não, Gryndheim. Mas se ficarmos andando neste pavimento estaremos perdendo tempo. Tomaremos o caminho mais curto. Entraram no poço do elevador e subiram suavemente. Aconteceu o que Opprus temera. Foram obrigados a fundir com um tiro o mecanismo de trava de uma das portas para poder sair. Opprus olhou pela janela. O quadro com que deparou não contribuiu para aumentar seu otimismo. A tormenta rugia do lado de fora. Estava escuro. De vez em quando um raio iluminava a paisagem. — Uma trovoada — disse Opprus. — Há dez anos vi coisa parecida num planeta selvagem.

— Temos de sair assim mesmo? — perguntou Gryndheim. — Tem uma ideia melhor? O sargento cocou o queixo. — Não — confessou. Opprus abriu uma porta que dava para fora. Uma lufada de vento tangeu a chuva no seu rosto. Quase não pôde respirar. Opprus encolheu a cabeça entre os ombros e saiu. O vento forte queria empurrá-lo. — Não se separem! — gritou para superar o trovão distante. — Cuidado com o que encontrarem pelo caminho. Gryndheim praguejou. — Isto não é nada agradável. Opprus olhou atentamente em volta. Nenhum dos edifícios que havia por perto estava iluminado. As grandes janelas de uma construção em forma de cúpula tinham sido quebradas. Havia escombros e lixo espalhados na área livre que tinham de atravessar. “Terrânia City!” — pensou Opprus angustiado. — “Uma selva de aço e concreto”.

3
Fazia seis meses e dezoito dias que o Dr. Garrigue Fingal não abria seu consultório. Tivera uma experiência desagradável. Não encontrara nenhuma válvula de escape para seu ódio. Mas agora era diferente. Fingal entrou na sala luxuosa em que antigamente os pacientes esperavam para ser atendidos. Os colegas invejavam o galactopsicólogo expulso da Frota por sua grande clientela. Muitos pacientes ricos e importantes faziam questão de ser tratados pelo mesmo Fingal que já falsificara psicogramas e se envolvera em situações confusas. Fingal sofrera um acidente grave na juventude. Sua vida fora salva, mas ele era obrigado a andar constantemente com eletrodos sobre a cabeça, para estimular certas partes do cérebro. A estranha estrutura, que o próprio Fingal costumava chamar de chapéu de lata, evitou que ele enlouquecesse. Mas durante a catástrofe se verificou que o médico era imune aos raios de deterioração mental. Atribuiu isto ao pequeno objeto que trazia na nuca. Garrigue Fingal parou na entrada da sala de espera e contemplou enojado as figuras esquisitas que tinham aparecido. Em sua maioria eram pacientes, que tinham degenerado completamente nas últimas semanas. Fingal fizera uma seleção cuidadosa. Eram quase todos homens que antes da catástrofe possuíam uma inteligência acima da média e por isso ainda eram capazes de controlar mais ou menos os seus atos. Mas Fingal não se baseara apenas na inteligência; também considerara as condições psicológicas. As pessoas que se encontravam na sala de espera eram consideradas volúveis e fáceis de impressionar. Na situação em que se encontravam cumpririam todas as ordens e recomendações do médico. E Garrigue Fingal tinha grandes planos! Sabia do que era capaz uma pessoa que tinha conservado a inteligência. Fingal lembrou-se do velho provérbio do caolho que em terra de cego é rei. Pretendia desempenhar um papel semelhante entre as pessoas mentalmente deterioradas de Terrânia City. Criaria uma organização formidável para pôr em prática seus planos de vingança. Fingal foi para o centro da sala. Havia dois homens sentados no chão perto da grande mesa, brincando com pedaços de papel. — Prestem atenção! — ordenou devagar e com a voz clara. — Nossa primeira ação foi bem-sucedida. A trovoada que está desabando lá fora é a melhor prova. Nossos amigos de Império Alfa levarão algum tempo para consertar o estrago. — O galactopsicólogo exibiu um sorriso ligeiro. — Além disso culparão o Homo superior. É bom que briguem com estes idiotas. Só poderemos ter vantagens com isso. Alguns homens o fitaram como quem não tinha entendido. Fingal percebeu que falara de maneira tão complicada que a maior parte do grupo não podia entendê-lo. — Façam o que eu disser, e nada lhes acontecerá. Um dos homens sentados no chão veio para perto dele e abraçou sua perna. Fingal empurrou-o.

— Deixem disso. Não temos tempo para brincadeiras. A trovoada representa uma chance que não voltará mais. Prekor, que era o mais inteligente do grupo, bateu palmas entusiasmado. — Voltaremos à luta. — Isso mesmo — confirmou Fingal em tom zangado. — Lutaremos. Outras trovoadas se seguirão a esta. Haverá novas catástrofes. Os bandos não se arriscarão a sair do esconderijo. Mas nós andaremos por aí. Atacaremos Império Alfa. Danton e Deighton não esperam que isto aconteça. Certamente não acreditam que alguém se atreva a atacar o centro de controle. O galactopsicólogo abriu a porta e fez um sinal para os homens mentalmente deteriorados. — Vamos ao subsolo. Quero distribuir armas e equipamentos. — Fingal ergueu o braço num gesto de advertência. — Mas não quero ver ninguém brincando com armas. Não se esqueçam de Prorrish, que se matou da última vez que entramos em ação. O galactopsicólogo levou os homens aos recintos subterrâneos. As armas estavam guardadas numa grande sala com um escritório montado. Estas armas tinham sido roubadas num acampamento logo depois da catástrofe. Dariam para equipar duzentas pessoas. Isto estava nos seus planos. Mais tarde comandaria um exército e sufocaria qualquer resistência. Fingal ouviu as mensagens de rádio que não tinham sido cifradas. Por isso estava informado a respeito da situação na Terra e no espaço. Havia quando muito setecentas pessoas que tinham atravessado a catástrofe sem que sua mente se deteriorasse. Trabalhavam com umas poucas exceções para Império Alfa, sob o comando de Danton e Deighton. Algumas centenas de imunes encontravam-se a bordo de várias espaçonaves. Os grupos dirigidos por Rhodan e Bell estavam examinando o misterioso enxame mencionado em mensagens de rádio vindas de todos os cantos da galáxia. O galactopsicólogo não se interessava pelo enxame. Queria exercer sua vingança e transformar-se no homem mais poderoso da Terra. Por isso achava importante que o Homo superior e os terranos que tinham conservado a inteligência se combatessem. Fingal viu os membros de seu bando se armando. Lidar com as armas representava um prazer infantil para os homens mentalmente deteriorados. Brincavam com carabinas e pistolas energéticas. Fingal tinha de prestar muita atenção para evitar uma desgraça. Felizmente os mais inteligentes cuidavam dos membros do bando que pareciam mais brincalhões. — Peguem as bombas! — ordenou Fingal. — Quero ver todo mundo enchendo os bolsos. Um ruído vindo da porta fez com que o médico se virasse abruptamente. Havia um negro alto parado ao pé da escada. Só usava uma calça completamente molhada. Estava com os pedaços da camisa na mão. Seu corpo musculoso brilhava de tão molhado. A respiração era pesada. — Verdere! — disse Fingal esticando a palavra. — Mrozek Verdere. Os dois entreolharam-se. Fingal teve a impressão de que o outro tinha conservado a inteligência. Antes da catástrofe Verdere fora um dos pacientes mais inteligentes do galactopsicólogo — e um dos mais esquisitos. Fingal nunca chegara a compreender Verdere. Ele sempre conseguira escapar à influência de Fingal. Também naquele instante sua personalidade parecia intacta. — Por que demorou tanto? — perguntou Fingal em tom áspero. — Faz quatro meses que tento entrar em contato com você.

— Estive fora — respondeu o homem de pele negra. — Estou com medo, Fingal. Há ruídos lá fora e água caindo do céu. Fingal respirou aliviado. O modo de falar do negro provava que ele sofrerá a deterioração mental. Não havia motivo para preocupar-se. Com a força que tinha, Verdere representaria um reforço considerável para o grupo. Fingal apontou para a mesa sobre a qual ainda havia muitas armas. — Escolha uma, meu filho. Verdere aproximou-se lentamente da mesa e olhou para as armas. — Sirva-se! — insistiu Fingal. — Lá adiante há uma arma versátil quase nova. Está equipada com magazin inesgotável e trava regulável. — Vamos caçar? — perguntou Verdere. O médico deu uma risada. — Caçar? Sim. Vamos caçar a guarnição de Império Alfa. Você vai gostar, Mrozek. Verdere não respondeu. Com um movimento abrupto pegou a arma. Segurou-a longe do corpo, como se alguma coisa lhe pudesse acontecer. Fingal se perguntou por que Verdere reagia de forma diferente dos outros membros do grupo. Por que não tinha vontade de brincar? Fingal chegou à conclusão de que Verdere ainda sofria a influência da trovoada. O negro ficara chocado. — Tenho uma surpresa para vocês — disse Fingal aos homens. — Não iremos sozinhos. Logo depois da catástrofe consegui reprogramar quarenta robôs. — O médico deu uma risada selvagem. — Antigamente vocês sabiam que entendo alguma coisa de cibernética. Mas não adianta falar sobre isto agora. — Onde estão os robôs? — perguntou Prekor. — Numa velha capela wasnin, a alguns quarteirões daqui. Ninguém os encontrará. Fingal começou a inspecionar cuidadosamente os equipamentos de cada homem. O êxito de seu plano dependia de que tudo funcionasse como ele imaginava. Por isso não podia negligenciar nenhum detalhe. Verificou todas as armas. — Outra coisa — disse. — Alguns de vocês ficarão com medo, quando virem os relâmpagos e ouvirem os trovões lá fora. Nada têm a temer enquanto eu estiver com vocês. Cumpram minhas ordens. O médico olhou em volta. — Vamos. Prekor achava que mantinha um perfeito autocontrole, mas sentiu o coração bater com força. A emoção era demais. Há seis meses não acreditava que um dia fosse possível vingar-se. Mas acabou sendo favorecido pelo acaso. Fingal cerrou os punhos e subiu pela escada. Não deixaria de aproveitar a chance que se oferecia. Naturalmente havia a possibilidade de deterioração mental dos homens diminuir ou acabar de vez. Se isto acontecesse haveria problemas. Mas por enquanto não havia nenhum sinal disso. Parecia antes que a deterioração mental era definitiva. — Depois que tivermos chegado lá em cima, ficaremos sempre perto de algum edifício — decidiu. Só atravessaremos a rua em lugares seguros. Não se envolvam em tiroteios com outros bandos com os quais provavelmente nos encontraremos. Nosso objetivo é Império Alfa. Quando chegarmos lá, teremos muitas oportunidades de lutar.

O grupo reuniu-se à frente da porta de saída. Lá fora a tempestade soprava furiosa. Até parecia que o barulho dos trovões sacudia a casa. Fingal viu olhos amedrontados. — Não se esqueçam. O Doutor Fingal os protegerá, aconteça o que acontecer. Sempre foi assim. Verdere! Você ficará perto de mim. O negro não disse uma palavra. Foi para perto de Fingal. Mais uma vez o médico teve a impressão de que não podia influenciar nem controlar Verdere. Mordeu nervosamente o lábio. Tinha de livrar-se desta ideia. — Está com medo? — perguntou. O negro acenou com a cabeça. — Gostaria de ficar aqui. — Você vai gostar, Mrozek. Logo controlaremos a cidade. Depois disso controlaremos a Terra. Que tal? — Não sei — respondeu o negro em tom embaraçado. Fingal abriu a porta. À frente dela havia uma varanda coberta pela qual se chegava ao pátio. Fingal protegeu-se contra a chuva e a tempestade e saiu. A chuva bateu em seu corpo e em alguns segundos encharcou suas roupas. O psicólogo, um homem magro de olhos encovados, parecia um fantasma. Ergueu o rosto contra a chuva e avançou empurrando os ombros para a frente. Em seguida agitou a arma. — Garrigue Fingal vem vindo! — gritou para o vento uivante. Virou-se para os homens, que se acotovelavam junto à porta, assustados. — Venham! — gritou. Todos saíram abaixados, um atrás do outro. Dois deles não tiveram coragem de sair. Fingal não se preocupou com eles. Era preferível que ficassem mesmo. Só causariam problemas. No setor em que Fingal vivia não tinha havido tanta destruição. O motivo principal era que nessa área não havia centros geradores ou máquinas que pudessem explodir facilmente. Os saqueadores haviam tentado por três vezes entrar na casa de Fingal. Mas o galactopsicólogo não tivera nenhuma dificuldade em defendê-la. Sabia que não morava mais ninguém por perto. As pessoas que já tinham sido vizinhas de Fingal vagavam pela cidade ou tinham fugido para o campo à procura de comida. Talvez estivessem mortos. Para Fingal isto era indiferente. Os homens ficaram perto da parede lateral da casa de Fingal. Chegaram à rua. As esteiras rolantes tinham sido paralisadas há seis meses. Fazia tempo que a ligação por transmissor, que ficava a algumas centenas de metros de distância, não funcionava. Um grupo pertencente à espécie do Homo superior tinha desmontado a máquina automática de venda de bilhetes que ficava ã sua frente. Na opinião de Fingal estas ações eram absurdas, mas ele sabia muito pouco a respeito da mentalidade do Homo superior e não tinha uma ideia clara dos verdadeiros objetivos do grupo. Achava que o novo tipo humano era um sonhador que acabaria desaparecendo. Fingal olhou para o outro lado da rua. A visão não era boa. O galactopsicólogo nunca vira uma chuva tão forte. Certa vez, quando ainda estava a serviço da Frota Solar, enfrentara uma tempestade de areia num mundo desértico. Imaginava que as catástrofes que se iam verificar na Terra seriam muito piores. Grandes trechos do litoral seriam inundados pelas águas agitadas dos oceanos. Vales se encheriam de água. Milhões de seres humanos morreriam. Mais uma vez Garrigue Fingal sentiu o nervosismo que já fazia parte de sua vida.

Pondo desordem nas condições meteorológicas do planeta, provocaria catástrofes de âmbito mundial. Isso já estava ao seu alcance. O que não aconteceria depois que tivesse consolidado seu poder? Fingal olhou para trás e certificou-se de que os outros ainda estavam perto dele. Tiveram de marchar contra o vento. Avançaram muito devagar. Algumas casas depois da sua havia alguém deitado na rua. Fingal viu que era uma mulher. Seu olhar apagado atingiu Fingal e este sentiu toda indiferença dessa mulher perante a morte. Aceitava-a como se fosse um animal que se tivesse recolhido para morrer. Fingal enfiou a mão no bolso e tirou uma porção de alimento concentrado. Ofereceu-a à mulher. Ela não reagiu. Fingal abriu sua boca à força e deixou que a água da chuva entrasse. Ergueu o corpo da mulher e enfiou o alimento concentrado em sua boca. A mulher caiu contra seu peito e vomitou. Fingal empurrou-a violentamente. — Idiota! — chiou. Os outros passaram pela velha sem interessar-se por ela. Fingal observara essa estranha indiferença em quase todas as pessoas mentalmente deterioradas. Elas já não possuíam nenhum senso comunitário. Tinham esquecido as regras da convivência. Além disso quase todas as pessoas mentalmente deterioradas só queriam procurar alimentos. Fingal examinou atentamente as casas pelas quais passavam. Um instinto seguro lhe dizia se estavam habitadas. O perigo de o grupo cair na emboscada dum outro grupo não era muito grande, mas não podia ser deixado de lado. Um raio correu pelo céu azul. Seguiram-se trovões violentos. Fingal se perguntou por que os campos defensivos que cobriam a cidade tinham sido desligados. As instalações deviam ter falhado, ou então as pessoas que cuidavam de Império Alfa precisavam da energia escassa para outros fins. O grupo de Fingal chegou a um bairro residencial. Ali tinham sido feitos grandes estragos, ao contrário do setor em que residia Fingal, onde quase só havia casas particulares. As vias elevadas e as esteiras rolantes estavam cobertas em parte com destroços. Uma via circular que contornava o grande complexo tinha desabado, esmagando a parede lateral dum edifício. Ali se via um grande buraco, do qual saíam vigas de aço e prateleiras. Um anúncio luminoso alimentado por baterias estava pendurado na parede do edifício. Fingal sabia que dali em diante deviam ter mais cuidado. O bairro comercial era o campo de ação preferido dos numerosos bandos, apesar de não haver mais comida nos centros comerciais. Fingal apontou para o outro lado da rua. — Temos de passar por cima desta via elevada — disse a Verdere. O negro virou a cabeça assustado e com os olhos arregalados. Fingal examinou um veículo de transporte grande que tinha tombado. — Se conseguirmos levantar este veículo, ele sem dúvida ainda nos levará por cima da via elevada. — Há escombros espalhados em toda parte — respondeu Verdere. — Não passaríamos. O psicólogo fez um sinal para os outros.

Uma faixa de pedestres tinha arrebentado no lugar em que começava a via elevada. Estava enrolada e ficara frouxamente pendurada por cima da amurada. O mecanismo instalado embaixo dela estava à mostra. Fingal levou os homens para o outro lado da rua. O piso de plástico tornara-se escorregadio com a chuva. Fingal viu o raio caindo num edifício que ficava a uns duzentos metros. As chamas que subiram foram logo abafadas pela chuva. Na via elevada Fingal e seu bando também corriam o perigo de ser atingidos por raios. Mas para evitar este risco teriam de dar uma volta, passando pelas galerias subterrâneas dos trens e pelos pavimentos do subsolo. E Fingal não queria perder tempo. O vento inflou a calça molhada de Fingal e puxou no boné de plástico que trazia jogado na nuca para proteger sua armação de eletrodos. O médico conduziu seus ajudantes a passos rápidos por cima da via elevada. Era impelido por um ódio indômito e pelo desejo de destruir Império Alfa.

4
Deighton entrou e deixou-se cair numa cadeira. Roi Danton, que estava dormindo, acordou sobressaltado. Havia mais de cento e vinte homens trabalhando no centro de comando de Império Alfa. Não deram conta das tarefas que recebiam. — Temos novidades de Olimpo — disse Deighton. — Anson Argyris enfrenta cada vez mais problemas. Se continuar assim, dentro em breve não poderá remeter mais um único Container com alimentos. — Que aconteceu? — perguntou Roi falando devagar. — Houve a formação de bandos, como aqui — informou Deighton. — Espaçonaves caíram sobre instalações importantes. Danton pegou automaticamente um caneco com café frio. Há poucos minutos tinham chegado novas notícias alarmantes de todos os cantos da galáxia. Inúmeras estações de rádio transmitiam pedidos de socorro. Mas quem seria capaz de ajudar todos estes infelizes espalhados em centenas de milhares de planetas, espaçonaves e bases? Cada grupo enfrentava seus problemas. “É o fim de uma galáxia”, pensou Danton atordoado. — Quem dera que soubéssemos o que vem a ser este enxame — murmurou Galbraith Deighton. Seu rosto estava marcado por rugas profundas. — Só nos resta esperar que Perry e Bell sejam bem-sucedidos — respondeu Danton. — Quando soubermos de onde vem esse bando e quais são suas intenções, talvez possamos fazer alguma coisa. — Só pode ser uma invasão — disse Clajon, um homem mentalmente estabilizado, sentado perto dali. Danton sacudiu a cabeça. — Não é bem isso. Os acontecimentos fizeram vir à tona uma lembrança que jaz no meu subconsciente. — O filho de Rhodan apertou as têmporas com os punhos cerrados para concentrar-se melhor. — Quem dera que eu descobrisse que tipo de lembrança este enxame desperta em minha mente. Existe alguma coisa no passado que faz surgir certas associações. Acontece que está tudo confuso em minha cabeça. Preciso dormir um pouco. Deighton atirou para Danton uma espula com mensagens de rádio. — Não vamos preocupar-nos com o enxame por enquanto — sugeriu. — O problema mais urgente é alimentar a população mundial mentalmente deteriorada. Para isso as condições em Olimpo têm de voltar ao normal. Danton compreendeu que falando constantemente em Olimpo Deighton perseguia certo objetivo. O filho de Rhodan empurrou-se com seus calcanhares e fez rolar sua poltrona para perto de Deighton. — É por causa de Argyris — disse Deighton com a voz abafada. — Estou preocupado com o robô. Danton não teve de fazer nenhuma pergunta. Parecia que o robô Vario 500 estava atravessando uma crise, o que na situação em que se encontrava era perigoso. O futuro do mais importante planeta de abastecimento da Terra podia depender do destino de Argyris.

— Viajarei para Olimpo assim que tenha sido resolvido o problema do centro meteorológico — sugeriu Danton. — O senhor não conhece a programação especial de Argyris. — Isso mesmo — confirmou Deighton. — Essa tarefa só poderia ser executada por seu pai, Atlan, Tifflor ou o senhor. Danton não tinha muita vontade de sair da Terra naquele momento. Sua presença no planeta era indispensável. Mas era a única pessoa da Terra capaz de salvar Argyris ativando sua programação especial. — Trate de dormir um pouco — sugeriu Deighton. Se houver uma novidade importante, eu o acordarei. — Será que neste momento existe uma coisa que não seja importante? O senhor não poderá viajar para Olimpo exausto como está. Danton acenou com a cabeça e fez rolar sua poltrona para um canto afastado da grande sala. Reclinou o encosto e fechou os olhos. Mas os nervos superexcitados não permitiram que descansasse. Quando finalmente adormeceu, foi martirizado por pesadelos. Deighton observou o jovem com uma expressão preocupada. A tensão nervosa constante também o deixara exausto, mas seu ativador de células sempre lhe dava novas forças, permitindo que se contentasse com um mínimo de descanso. Deighton fez rolar a poltrona para junto de Danton. Viu que o corpo do filho de Rhodan tremia fortemente. — Por que todo esse orgulho? — perguntou Deighton em voz baixa. — Tenho certeza de que seu pai lhe cederia um ativador de reserva, se soubesse o que está fazendo aqui. O problema era claro. Rhodan de forma alguma queria prejudicar seu filho e por isso nem pensava em entregar-lhe um ativador. Quanto a Danton, ele era orgulhoso demais para falar no assunto. Deighton até receava que Michael se recusaria a receber um ativador. Deighton voltou ao seu console. Fez sinal para que um homem se aproximasse. — Vá para esse canto e cuide para que Roi não seja incomodado. Ele deve dormir algumas horas. O homem ficou desolado. Apontou para uma pilha de fitas de plástico que havia em seu lugar. — Mas... Deighton não deixou que completasse a frase. — O senhor será o guardião do sono de Danton. Fim de papo. O homem afastou-se. Deighton fez rolar a poltrona através da sala, até o rádio. — Mais alguma notícia de Opprus? — Estão enfrentando muitas dificuldades, senhor. Mas por enquanto não houve nenhum incidente. Deighton suspirou. Uma das coisas mais admiráveis da inteligência humana era a capacidade de desligar-se completamente. Sem isso a situação se tomaria insuportável. Deighton relaxou o espírito por alguns minutos. Depois disso seus pensamentos voltaram a ocupar-se com os problemas da humanidade.

Todas as formas de organização existentes na Terra tinham desmoronado. Os grupos de imunes que tinham saído de Império Alfa enviavam notícias arrasadoras de todas as partes do mundo. Era impossível manter a ordem. A fome e o caos reinavam em todos os lugares. Além disso ainda havia as catástrofes meteorológicas. Não demoraria e mais um problema se juntaria a estes. Eram as epidemias. Não havia ninguém que pudesse remover os cadáveres daqueles que tinham sido mortos ou haviam morrido de fome. Era verdade que em toda parte havia robôs trabalhando sob o comando de imunes, mas eles acabariam não dando conta dos montes de cadáveres. A catástrofe atingira a galáxia de surpresa. Ninguém sabia como defender-se dela. O Império Solar só existia pelo nome. E a situação dos outros impérios siderais não era melhor. Os povos extraterrestres tinham sido atingidos pelo processo de deterioração mental da mesma forma que a humanidade. Deighton sobressaltou-se. Alguém chamara seu nome. — Estamos recebendo imagens de cima! — gritou um dos radioperadores. — As câmeras voadoras voltaram a funcionar. Deighton apressou-se em fazer a poltrona rodar para perto das telas de imagem. A maior parte das câmeras voadoras tinha caído ou sido derrubada. As poucas que funcionavam alcançavam o espaço em cima de Terrânia City. Uma das telas estava ligada. Deighton contemplou um grupo de edifícios visto de cima. A trovoada continuava a rugir. O vento transformara-se num furacão. Cada raio iluminava o deserto de pedra sobre o qual estava suspensa a câmera. A câmera parou sobre uma praça coberta por uma cúpula transparente. Com a chuva as imagens dos objetos que havia embaixo da cobertura tornaram-se confusas. Deighton achou que tinha percebido movimentos. — Faça a câmera descer mais — ordenou. — Quero ver o que há embaixo dessa cúpula. A imagem mudou quando o robô desceu, passando a transmitir as imagens de perto do chão. Deighton pôde ver o que acontecia embaixo da cobertura. Cerca de trezentas pessoas estavam reunidas lá, esforçando-se para arrebentar o piso de concreto. Deighton ficou fascinado. — Que é isso? — perguntou um dos radioperadores em tom de perplexidade. — Por que estão abrindo o chão? O primeiro-mecânico emocional não respondeu. A câmera mudou de posição. Deighton viu um homem de pé sobre uma plataforma gravitacional suspensa em cima das pessoas que trabalhavam. Instigava-os à pressa em sua obra insensata. Alguém capaz de dirigir uma plataforma antigravitacional devia possuir uma inteligência fora do comum, ou então era imune. Deighton viu que as pessoas mentalmente deterioradas tinham conseguido arrebentar o concreto em um lugar. Jogaram-se no chão e remexeram a areia que ficara à mostra com as mãos. Pareciam não se importar com o vento que tocava a chuva para baixo da cúpula. — Já captamos imagens semelhantes de outras áreas da cidade — informou o radioperador. — Não lhes demos importância. Por que arrebentam o chão em toda parte? Deighton ouvira falar de uma seita recém-fundada que adotara as diretrizes do Homo superior. Os chefes dessa seita falavam mal da técnica e pregavam o retorno à terra. Naquele momento Deighton estava vendo alguns membros dessa seita em ação.

As pessoas que se encontravam embaixo da cobertura tinham voltado ao trabalho. Uma vez arrebentado o concreto em um lugar, não tiveram dificuldade em arrancar grandes blocos, aumentando rapidamente a área descoberta. Dali a pouco o imune atirou um saco cheio de cima da plataforma antigravitacional. O saco arrebentou e dele saíram sementes. As pessoas mentalmente deterioradas pegaram as sementes e espalharam-nas pela areia. Deighton tirou os olhos da tela. Estava chocado. — Dirija a câmera a outra área. A imagem mudou depressa. — Essa semente nunca germinará — disse um dos radioperadores confuso. — Não — confirmou Deighton. — Embaixo do concreto há areia de construção. Teriam de cavar muito fundo para chegar à terra fértil. Não conseguirão, seriam obrigados a escavar toda a cidade. O único lugar em que poderiam ter uma chance seriam os grandes parques de Terrânia City. — Lá também enfrentarão dificuldades — opinou um ex-major da Segurança Solar, que tal qual todas as pessoas mentalmente estabilizadas passara a trabalhar para Império Alfa. — As árvores frutíferas dos parques já foram saqueadas. Há toneladas de lixo e escombros espalhados por lá. Numa visão sombria Deighton viu na imaginação uma grande metrópole completamente abandonada. Sabia que a situação chegaria a este ponto, pois ninguém poderia sobreviver para sempre em Terrânia City. Mas por enquanto ainda havia reservas de alimentos. Nem todos os armazéns tinham sido descobertos e saqueados. Pelos cálculos de Deighton, só metade dos frigoríficos tinham sido esvaziados. As imagens transmitidas pelas câmeras voadoras lembravam as experiências feitas em mundos onde a civilização tinha desaparecido. Era possível que num futuro distante um grupo de astronautas desceria na Terra, se defrontaria com os escombros da cidade e se perguntaria qual fora a causa da ruína. — Um dos porta-vozes de primeira classe pede uma audiência. Deighton fitou as luzes de controle com os olhos piscando. Viu à sua frente um homem que usava o uniforme da Frota Solar. — Capitão Ergroner? — Sou eu — confirmou o astronauta. — Fui designado para servir de elemento de ligação. — Estou lembrado. — Deighton ergueu-se na poltrona. — Sabe o que o Homo superior quer de nós? — Ele se recusa a dar qualquer espécie de informação. Diz que só quer falar com o senhor ou com Roi. Deighton olhou para Danton e viu que ainda estava dormindo. Não havia a menor dúvida de que teria de falar com o Homo superior sozinho. — Venha — disse a Ergroner. O capitão levou Deighton para uma das inúmeras salas vazias, equipadas com instalações de rádio. — É aqui, senhor. — Pode retirar-se. Quando Deighton entrou viu na tela o rosto de um dos porta-vozes de primeira classe. Não era Holtogan Loga. Era uma mulher que também pertencia ao grupo dirigente. Não havia motivo para Deighton acreditar que ela tivesse mais compreensão para seus problemas.

— Vejo que os porta-vozes de primeira classe também usam os recursos que gostariam de ver eliminados — disse em tom irônico. A mulher ergueu as sobrancelhas. — O senhor é agressivo, Deighton. — Esperava que não fosse? — Sendo assim, fico me perguntando se vale a pena começar a conversa que queria ter com o senhor. Deighton abriu os braços. — Isso depende do senhor. Sentou à frente da tela de imagem e contemplou sua interlocutora. Pelos seus cálculos devia ter cinquenta anos, talvez mais. Trazia os cabelos amarrados na nuca, que desciam sobre os ombros. O rosto tinha uma expressão delicada, mas os olhos quase desapareciam sob as pálpebras espessas. “Um rosto completamente normal”, pensou Deighton. Em compensação o que se passava atrás da testa dessa mulher devia ser incompreensível. — Como se explica que tenha havido essas intempéries? — perguntou a mulher. — Alguém deve ter influenciado o satélite meteorológico. Usou um método brutal, mas eficiente. Atacou o centro de controle principal. No início pensamos que fosse coisa do Homo superior. Mas somos levados a acreditar que houve luta e mortos. Acho que isso não faz parte do seu repertório. A mulher sacudiu a cabeça enojada. — Há muitos bandos fazendo das suas. É gente cuja mente bárbara foi liberada pelo processo de deterioração mental. — A senhora se refere a alguns caras desesperados, que se deixaram influenciar por chefes de bando que conservam um pouco de inteligência — indignou-se Deighton. — Há poucos minutos vi alguns imbecis arrebentando o concreto com ferramentas primitivas, para espalhar sementes na areia. Eis aí o resultado da propaganda promovida pelo Homo superior. A mulher baixou a cabeça. — O senhor me odeia. — Nada disso! — corrigiu Deighton. — Só estou zangado. Mas acho que não adianta discutir com a senhora. Graças à sua inteligência superior julga ter encontrado a receita para a renovação da humanidade. Uma satisfação íntima fez com que o rosto da mulher voltasse a apresentar uma expressão descontraída. — Tivemos sorte — confessou. — Talvez ainda teríamos de esperar séculos para pôr em prática nossos planos, se não fosse a catástrofe. Deighton obrigou-se a ficar calmo. — Deixe isso para lá. Por que veio? — Quero preveni-lo. Deighton arregalou os olhos de tão surpreso que ficou. — Advertir? Justamente a nós? — Estamos cumprindo o acordo. Além disso não queremos que morra mais gente. Reconhecemos que o senhor e seu grupo fizeram muito para que a situação na Terra se estabilizasse. Deighton fez um gesto cansado.

— Não foi nada — disse em voz baixa. — Nada em comparação com o que teria de ser feito. — Deighton começou a gritar. — No fundo estamos indefesos. A senhora sabe disso. E teria motivos de sobra para apoiar-nos ainda mais. Via-se perfeitamente que a mulher tinha de fazer um grande esforço para não mostrar sua repugnância. Pela primeira vez Deighton sentia claramente o abismo que se abria entre os terranos e o novo homem. Aquela mulher era uma estranha! Pensando bem, todas as tentativas de acordo estavam condenadas ao fracasso. — Sabemos que enviaram mais três homens — anunciou a mulher. — E daí? O que é que a senhora tem com isso? — Homens armados! — Mas é claro! — Deighton acenou lentamente com a cabeça. — Queria que saíssem desarmados para serem trucidados? — No momento isso não interessa. Para nós essa ação é mais uma prova de que os senhores ainda não aprenderam nada. Continuam a apoiar-se na força militar. Por isso são inimigos da nova humanidade, embora por causa de nossa mentalidade não estejamos em condições de combatê-los com seus próprios meios. — É lamentável — disse Deighton entre os dentes. Depois disso os dois ficaram em silêncio. Deighton teve a impressão de que a mulher queria pôr fim à conversa. Via-se perfeitamente que teve de fazer um esforço para dizer as palavras seguintes. — Previno-o contra o bando que saiu para atacar Império Alfa. — Como soube disso? — perguntou Deighton com a voz tensa. — Nós sabemos — esquivou-se a mulher. — É um bando forte? — São vinte e dois homens — respondeu a mulher prontamente. De repente parecia lembrar-se de uma coisa. Sacudiu a cabeça, aborrecida consigo mesma. — Vinte e um. Deighton foi obrigado a rir. — Vinte homens não representam nenhum perigo para nós. Só se fossem dez vezes mais. — Alegro-me de vê-lo tão confiante. Acontece que o bando é comandado por um imune que já trabalhou para a Frota Solar. E superinteligente e muito perigoso por causa de seus conhecimentos especializados. Além disso acreditamos que se necessário poderá lançar mão de algumas dezenas de robôs de combate. Uma ruga vertical apareceu na testa de Deighton. — Isso complica a situação. O que... Deighton interrompeu-se. Viu que a mulher já não estava sentada junto à objetiva. Desaparecera sem interromper a ligação. — Ainda está aí? — perguntou, apesar de saber que era inútil. Como não houve resposta, Deighton pôs-se a praguejar. Saiu da sala de rádio. Não havia muita coisa que ele pudesse fazer. Todas as entradas eram protegidas por robôs. Com as poucas pessoas de que podiam dispor, Deighton e Danton não podiam defender Império Alfa conforme mandavam as regras. Tiveram de improvisar. Por isso um chefe de bando inteligente e bem informado, que além disso contava com robôs, talvez pudesse tomar-se perigoso para o centro de comando. Ergroner esperava no corredor. — Alguma notícia positiva? Deighton fitou-o como se não o tivesse visto.

— Dê o alarme. É possível que um ataque a Império Alfa seja iminente. — Será que nunca teremos sossego? — perguntou Ergroner preocupado. — Pode parecer uma loucura, mas às vezes gostaria de não ser imune. Os mentalmente deteriorados suportam a catástrofe muito melhor. — Não parece uma loucura — contestou Deighton. — Há instantes pensei a mesma coisa.

5
O semimorto Simão abrigara-se da intempérie entre duas colunas, que faziam parte da estrutura de sustentação duma ponte. Estava sentado numa ponte, com as costas apoiadas no metal frio. Perdera o caminho. A esperança de chegar ao consultório do Dr. Fingal não se cumprira. As esteiras rolantes que costumava usar não funcionavam mais. Os escombros formavam montes de vários metros de altura. Uma via elevada que o cego queria usar não existia mais. Quando resolveu voltar, o semimorto Simão perdeu de vez o sentido de orientação. Molhado e tiritando de frio, recolhera-se ao esconderijo em que se encontrava. Não sabia quanto tempo estava sentado lá. O ladrão legitimado não ouvia nada além da fúria da tempestade. Parecia não haver ninguém por perto. No entanto, acreditava Simão, as residências mais próximas não devem ficar longe daqui. De repente Simão, o semimorto, acreditou ter ouvido uma voz. Saiu detrás das colunas rastejando de quatro. — Ajudem-me! — gritou. — Estou aqui. Sua voz foi abafada pela tempestade. Simão levantou com dificuldade e ficou na escuta. Um fragmento pendurado bateu numa parede de metal. A chuva caía ruidosamente na rua. Simão estendeu os braços e saiu andando na direção de onde viera a voz. Ou será que apenas ouvira o chiado do vento? O cego sentiu que a rua subia ligeiramente. De repente tropeçou sobre uma massa mole deitada no chão. Recuperou o equilíbrio e seguiu adiante. Caminhava contra o vento e mantinha a cabeça abaixada para poder respirar. Mas apesar disso só conseguiu avançar muito devagar. As mãos estendidas tocaram numa parede. Simão parou imediatamente. Seria a parede duma casa? Ou um muro? O semimorto seguiu tateando e acabou entrando numa depressão. Suas mãos tocaram num objeto de vidro. O vento turbilhoava na lâmina de vidro destruída de uma vitrine. Simão segurou-se na borda inferior e puxou-se para dentro da loja. A vitrine estava vazia. Fora saqueada há tempo pelos bandos e pessoas isoladas que passavam por ali. Simão atravessou montanhas de cacos de vidro que rangeram embaixo da sola de seus sapatos. Provavelmente a loja fora totalmente depredada. Apesar disso Simão saiu da vitrine e entrou na loja propriamente dita. Tropeçou sobre numerosos objetos. Do lado de dentro pelo menos estava seco. Talvez até encontrasse alguma coisa para comer. Simão esbarrou em cabides de exposição e derrubou-os. Um fardo de fazenda caiu e soterrou-o. Simão, o semimorto, conseguiu libertar-se. Tinha de dar um jeito de sair. A loja podia transformar-se numa armadilha mortal. Devia haver uma saída nos fundos, que levava para os aposentos particulares.

O ladrão legitimado passou com dificuldade entre montes de móveis e mercadorias caídas das prateleiras. Finalmente alcançou a parede dos fundos. De repente o instinto lhe disse que havia alguém por perto. O cego parou e prendeu a respiração. Lá fora estava trovejando. A chuva batia ruidosamente na vitrine destruída. “Há alguém aí?”, pensou o semimorto Simão. Teve a impressão de que bastava estender o braço para tocar o desconhecido. O cego sentiu uma coceira na nuca. Estava com medo, pois não tinha dúvida de que o outro o observava. Simão, o semimorto, pensou que seria melhor não tomar conhecimento da presença do outro. Devia fazer de conta que nada tinha acontecido. Naturalmente o desconhecido já percebera que o intruso estava cego, o que sem dúvida lhe daria uma sensação de superioridade. O semimorto Simão teve dificuldade em fazer este tipo de reflexão; reprimir as emoções era ainda mais difícil. O cego teve de fazer um grande esforço para não sair correndo. O homem mentalmente deteriorado caminhou junto à parede dos fundos da loja. Muitas vezes teve de desviar-se das prateleiras quebradas e móveis tombados que lhe barravam o caminho. Chegou a um canto. A parede, que fazia um ângulo reto com a outra, não era muito alta. Simão apalpou uma amurada que subia. “Uma escada!”, pensou. Achava que já sabia onde estava a pessoa que o observava. Simão, o semimorto, puxou-se pela amurada, pôs o pé no primeiro degrau e saltou por cima da amurada. Ainda não tinha firmado os pés na escada quando levou um soco violento no peito. Soltou um grito, tombou para trás e caiu num recipiente parecido com um cesto. Foi a sorte que o ajudou. Não sabia onde caíra, mas o material diminuiu o impacto da queda e provavelmente evitou que sofresse ferimentos graves. — Fique onde está! — gritou uma voz masculina estridente. — Se tentar subir de novo, eu o mato. O cego, que aprendera a interpretar os meios-tons de uma voz, percebeu logo que o desconhecido também estava com medo. Simão levantou. — Não quero fazer-lhe nenhum mal! — exclamou. — Estou à procura do consultório do Dr. Fingal. — Não é aqui! — respondeu o homem em tom grosseiro. Simão tentou tirar uma conclusão sobre o exterior daquele homem, com base na voz, mas não foi possível. — Poderia fazer o favor de indicar o caminho? — perguntou o ladrão legitimado. — Irei embora assim que souber onde me encontro. — Esta loja fica no edifício Kammon — respondeu o homem. A julgar pela forma de exprimir-se, devia ter resistido melhor que os outros à onda de deterioração mental. Logo, devia ser muito inteligente. O semimorto Simão sabia onde ficava o edifício Kammon. Só se desviara do caminho um quarteirão. As mudanças havidas o levaram a acreditar que se tinha afastado muito. Também sabia qual era a loja em que se encontrava. Ficara parado muitas vezes à frente da vitrine para admirar os tecidos e tapetes de outros planetas. Naquele tempo lamentara que a pequena loja não fizesse parte de um shopping center. Só assim estaria legitimado de roubar alguma coisa nela.

— Sou o dono! — gritou o homem que estava na escada. Simão lembrou-se de um homem pequeno, de cabelos negros, que vira em outros tempos através da vitrine. — Tem alguma coisa para comer? — perguntou o homem parado na escada. — Saquearam todo o edifício Kammon. — O homem soluçou. — Passo fome há dois dias, mas não me arrisco a sair para a rua. — O senhor não é nada bobo! — exclamou o semimorto Simão surpreso. Não obteve resposta. — Por que não vai para Império Alfa? — perguntou o cego. — Não ouviu os apelos? — Daqui não saio! — afirmou o homem em tom obstinado. — Prefiro morrer de fome. Simão pôs-se a refletir. Em outros tempos teria compreendido a atitude deste terrano, mas no momento isso era impossível. O ladrão saiu andando em direção à saída. — Meu veículo está parado na entrada lateral — disse o dono da loja. — Pode usálo, se tiver tanta pressa em chegar ao consultório do Dr. Fingal. Simão não respondeu. Saiu da loja. Além de ser cego, o processo de deterioração mental fizera com que só fosse capaz de lidar com as máquinas mais simples. Percebera isso logo depois da catástrofe. O semimorto Simão cruzou a rua. Uma rajada de vento quase o derrubou. Teve a impressão de ouvir uma voz de alto-falante vinda de longe. Talvez fosse mais um planador de Império Alfa que saíra para informar a população mentalmente deteriorada sobre os últimos acontecimentos e dar-lhes instruções. O ladrão não compreendera quase nada do que tinha ouvido dos alto-falantes, embora os homens e mulheres que viajavam nos planadores se esforçassem para falar de maneira a ser compreendidos pelos mentalmente deteriorados. Simão sabia que do outro lado da rua havia elevadores mecânicos que antigamente serviam para levar aqueles que queriam fazer compras nos andares superiores. Provavelmente os elevadores não funcionavam mais, mas perto dali havia uma escada pela qual Simão também podia chegar ao lugar que desejava. Se a encontrasse, seria possível localizar bem depressa a rua que levava à residência do Dr. Fingal. A chance de descobrir o caminho certo fez com que Simão se animasse. Quase não se assustou mais com a trovoada, embora aumentasse de intensidade. Simão não podia consultar o relógio, mas acreditava que ainda era dia. A aventura que enfrentara no edifício Kammon parecia confirmar isto. O cego encontrou os elevadores. Havia um cadáver atravancando a porta de um deles. Simão soltou um grito. Apalpara por engano o rosto do cadáver. À frente do outro elevador havia um planador tombado. Era impossível saber se caíra ali por acaso ou se servia de barricada. Simão compreendeu que nesse lugar não teria nenhuma chance. Tomou a direção da escada. Depois que tinha caminhado alguns metros, ouviu vozes. Parecia haver alguém perto da escada. Simão teve a impressão de que era um grupo cantando. Mais uma vez teve de combater o medo. O cego saiu caminhando resolutamente. Parou ao pé da escada. Havia várias pessoas bem perto de onde estava. Sua cantoria misturava-se ao uivo do vento. Eram vozes monótonas. Mas havia um regente que colocava mais sentimento na voz. De repente o regente interrompeu a canção. — Um cego! — gritou.

Os outros também pararam de cantar. Eram todos gente muito afetada pelo processo de deterioração mental. Simão deduziu isso das observações infantis que fizeram. — Seja qual for seu destino, você não o alcançará. Ninguém pode evitar o fim que está próximo. — A voz do regente atropelou-se no esforço de superar o barulho da tempestade. — Junte-se a nós, e você será salvo. O semimorto Simão continuou a subir a escada. Só pensava no Dr. Fingal. Teve de agarrar-se ao nome. — Imbecil! — gritou o regente atrás dele. — Você não se salvará. Simão saiu correndo. Não queria ouvir mais a gritaria. Quando chegou ao alto da escada, bateu num objeto mole que logo começou a gritar. “Uma criança!”, pensou o ladrão legitimado. A ideia duma criança deitada no chão, desamparada e enrolada em cobertores molhados, despertou a compaixão em Simão. Abaixou-se para levantá-la. A criança gritou mais alto. Simão não sabia o que fazer. Carregou a criança alguns metros, mas acabou esbarrando num mastro e ferindo-se. A criança escapou-lhe dos braços. Simão voltou a segurá-la. Sentiu as mãozinhas tentando segurá-lo. Parecia que a criança procurava alguma coisa. Devia estar com fome. O semimorto Simão soltou um grito, colocou a criança no chão e saiu correndo.

6
Apesar de estar informado a respeito da situação reinante em Terrânia City, graças às imagens transmitidas pelas câmeras voadoras e as informações dos grupos de imune, Coden Opprus esperara encontrar mais gente no caminho do centro meteorológico principal. A área que atravessaram ainda pertencia a Império Alfa, mas na superfície não havia campos defensivos ou outros tipos de barreiras. O fato de o centro ficar nessa área parecia fazer com que muitos homens mentalmente deteriorados preferiam não entrar nela. Opprus, Pohklym e Gryndheim só se tinham encontrado com um casal de velhos completamente atoleimados, que vagava ao acaso, à procura de alimentos. Entregaram suas reservas de mantimentos ao casal, apesar de saberem que com isso só aliviariam seu sofrimento por dois ou três dias. O que viram pelo caminho os fez ficarem calados. Além disso tinham de enfrentar a chuva e a tempestade, o que consumia muito de suas forças. Opprus olhou para o outro lado da rua com os olhos semicerrados. Todas as esteiras rolantes tinham sido paralisadas. Havia muitos veículos abandonados junto ao meio-fio ou no meio da rua. Um pouco adiante um planador abalroara uma casa antes de bater no chão. Os destroços estavam espalhados à frente de uma escola de crianças. Seus ocupantes tinham desaparecido. Opprus não acreditava que tivessem sobrevivido ao acidente, mas os robôs funerários de Terrânia City ainda davam conta de seu trabalho. Opprus olhou para o relógio. Faltavam duas horas para o pôr-do-sol. De qualquer maneira o sol não aparecera naquele dia. Estava quase escuro. O coronel teve a impressão de que a tempestade diminuíra um pouco, mas talvez fosse porque já estava acostumado ao ruído. De repente sobressaltou-se com o zumbido do radiofone. Não esperara que alguém fizesse contato. — Deighton falando — disse o primeiro-mecânico emocional. — Como vão as coisas? — Melhor do que pensávamos — respondeu Opprus. — Devemos chegar dentro de uma hora, se não houver nenhum imprevisto. Deighton fez uma pequena pausa. Opprus percebeu que estava tenso. — Recebemos notícias alarmantes de todos os lugares da Terra — disse Deighton finalmente. — As cidades do litoral japonês estão em perigo de desaparecer. A mesma coisa acontece com parte da costa oeste da América do Norte. Na Europa está nevando — e olhe que estamos em julho! — Não gostei de ouvir isso — respondeu Opprus. — Vai ficar ainda pior — opinou Deighton. — Está na hora de corrigirmos os manipuladores do tempo que estão em órbita. Do jeito que estão funcionando põem em perigo toda a humanidade. — Por que não os derrubam? — perguntou Opprus. — Aí não poderiam fazer mais estragos. — Sem dúvida — concordou Deighton. — Mas o senhor sabe que há vários séculos o tempo está completamente sob nosso controle. Mesmo que destruíssemos os manipuladores, as catástrofes meteorológicas se repetiriam. Demoraria alguns anos até

que as condições meteorológicas na Terra se estabilizassem. A destruição dos satélites não nos ajudaria em nada. — Vamos apressar-nos e ver o que podemos fazer — prometeu Opprus. Depois que seguiram adiante, Gryndheim disse: — É como eu afirmei. Nossa dependência da técnica pode trazer o fim. — Já está na hora de você ficar calado — exclamou Pohklym. Ele ficara calado por muito tempo. Por isso suas palavras exaltadas surpreenderam os outros. — Não adianta a gente se lamentar — prosseguiu. — Houve a catástrofe. Temos de salvar o que ainda puder ser salvo. Opprus ergueu o braço. À frente deles cinco homens saíam dum edifício carregados de sacolas cheias. — São saqueadores — disse Gryndheim. — Poderíamos explicar-lhes que não gostamos de parasitas. Opprus colocou a mão sobre o braço do homem gordo. — Fique quieto, Gryndheim! Não temos tempo para preocupar-nos com esses tipos. Além disso não adiantaria nada obrigarmos cinco saqueadores a devolver o que saquearam. Coisa parecida deve estar acontecendo em milhares de lugares diferentes de Terrânia City. — Então vamos conformar-nos — resmungou Gryndheim. Opprus não respondeu. Estava de olho nos saqueadores. Um deles quis jogar fora sua presa, mas o chefe do pequeno grupo falava insistentemente com ele. Na opinião de Opprus o chefe devia ser um homem que conservara alguma inteligência e juntara o pequeno bando. De repente viu-se um lampejo em uma das janelas que ficavam do outro lado da rua. Um dos saqueadores caiu. Os outros agarraram suas sacolas e saíram correndo. Houve mais um tiro, mas desta vez o atirador invisível só acertou a esteira rolante parada. Os quatro saqueadores desapareceram na entrada dum edifício. — Alguém ergueu uma barricada nos edifícios que ficam do outro lado — afirmou Opprus em tom indiferente. — Cuidado para não nos expormos aos tiros. — Anarquia! — murmurou Gryndheim deprimido.— Anarquia em toda parte. O grupo caminhou junto aos edifícios. Opprus não tirava os olhos da janela de onde tinham sido disparados os tiros, embora soubesse perfeitamente que a pessoa escondida nos edifícios já devia ter mudado de lugar. — Fiquem atentos a qualquer movimento — recomendou aos companheiros. Gryndheim apontou para uma curva que ficava mais à frente. — Ai há uma passagem subterrânea. Se passarmos por ela, também chegaremos ao setor residencial mais próximo. Opprus tentou calcular a distância que os separava da passagem. Teriam de percorrer cerca de trezentos metros para ficarem fora do alcance dos tiros disparados do edifício que ficava do outro lado da rua. — Vamos tentar! — decidiu Opprus. — Sairemos correndo quando eu disser. Vamos! Um relâmpago cruzou o céu, mergulhando a rua por alguns segundos numa luz forte. Opprus aproveitou a claridade para formar uma imagem ótica dos arredores. Parecia que os escombros espalhados pela rua tinham sido separados com uma talhadeira fina. O concreto de aço dos edifícios, que à luz do dia dava a impressão de ser liso, parecia áspero e entrecortado. No meio das superfícies ásperas as janelas se pareciam com pedaços de papel negro.

O trovão sacudiu a cidade. A chuva chicoteava o rosto de Opprus, que agarrou a jaqueta com ambas as mãos e a puxou para cima da boca, para respirar melhor. Tinha percorrido cerca de cem metros, quando os invisíveis voltaram a abrir fogo. Dois tiros abriram o chão à frente de Opprus. O antigo astronauta chegou à conclusão de que devia haver pelo menos dois atiradores nos edifícios que ficavam do outro lado da rua. Nem podia ficar zangado com o que estavam fazendo. Certamente acreditavam que os três homens que se encontravam na rua pertenciam ao bando que acabara de saquear uma das casas. Opprus começou a correr em ziguezague. Uma sombra passou perto dele. Era Pohklym, que desenvolvia uma velocidade incrível, dando a impressão de que a tempestade e a chuva que tinha de enfrentar não existiam. Opprus olhou para trás. O radioperador, que era um homem gordo, não conseguira acompanhá-los. Já se tinham distanciado bastante dele. Opprus não perdeu tempo. Apoiou as costas numa casa e disparou alguns tiros para as janelas dos edifícios que ficavam do outro lado da rua. Não queria acertar, mas somente obrigar os invisíveis a afastar-se das janelas. Gryndheim aproximou-se fungando. — Continue correndo. — gritou Opprus. O sargento fez um gesto de agradecimento. Não se via nenhum sinal de Pohklym, que já se adiantara muito. Opprus franziu a testa. Não estava gostando do comportamento do homem da Segurança Solar. Mas dali a instantes foi obrigado a mudar de opinião a respeito de Pohklym. Viu o lampejo da arma energética dele junto à entrada da passagem subterrânea. Pohklym também atirava para as janelas para que Gryndheim e Opprus pudessem alcançar a passagem subterrâneas. Gryndheim e Opprus chegaram perto de Pohklym quase ao mesmo tempo. — Entrego os pontos! — gemeu Gryndheim. — Desde que era jovem nunca mais corri tão depressa. — Isso já faz muito tempo — observou Opprus em tom sarcástico. O sargento fitou-o com uma expressão contrariada. — Espere até que eu volte a treinar — disse Gryndheim. — Aí o senhor não me alcançará. A tensão que tomara conta do grupo de Opprus desapareceu. O chefe examinou a passagem subterrânea. As escadas rolantes não estavam funcionando. Objetos inúteis deixados pelos saqueadores amontoavam-se sobre a escada de plástico que ficava no centro. As pessoas só se interessavam por roupas e alimentos. Os que tinham conservado certo grau de inteligência também queriam armas, pois elas os ajudariam a conseguir aquilo de que precisavam para sobreviver. Opprus refletiu. Não sabia se teria havido todo este caos se a humanidade tivesse conservado parte de sua inteligência ao ser atingida por uma catástrofe dessas proporções. Achava que os homens não se teriam comportado de forma muito diferente. Talvez a situação até ficasse pior. O verniz da civilização caía muito depressa. Pohklym dirigiu a luz do farol para a profundeza. Sua respiração era regular e a voz soava bem calma quando disse: — Lá embaixo explodiu uma bomba. O teto desabou. Não sei se poderemos passar. Opprus desceu alguns degraus e olhou em volta. A passagem subterrânea tinha sido completamente devastada. As placas indagadoras de direção pendiam das paredes em pedaços. Um grande aquário instalado no teto tinha arrebentado e derramado seu

conteúdo sobre os escombros. Os cadáveres em putrefação dos animais aquáticos espalhavam um cheiro desagradável. Opprus dirigiu a luz do farol para o local da explosão. O calor gerado por ela tinha acionado o sistema automático de extinção de incêndio que cobria toda a área. Os produtos químicos despejados pelo sistema, juntamente com a água do aquário, tinham cimentado os destroços. Opprus achava que levariam algumas horas para abrir passagem. Subiu decepcionado. Pohklym e Gryndheim estavam sentados na escada, observando a rua. Opprus transmitiu sua opinião aos companheiros. — Teremos de seguir por outro caminho — disse Gryndheim. — Mesmo correndo o risco de servir de alvo aos atiradores. Opprus olhou para o relógio. — Daqui a pouco vai escurecer de vez. Aí o perigo de sermos atacados diminuirá bastante. — Acontece que os bandos costumam andar por aí principalmente de noite — objetou Gryndheim. — Com este tempo? — perguntou Opprus em tom de ceticismo. — Devem estar escondidos, esperando que raie mais um dia. Opprus sentiu-se completamente exausto. Sentou na escada, abriu um cinto e tomou um concentrado estimulante. — É uma boa ideia — disse Gryndheim e também se serviu. Opprus se perguntou quanto tempo seu corpo ainda aguentaria. Nas últimas semanas fora obrigado a tomar estimulantes cada vez mais fortes para passar com apenas três ou quatro horas de sono. — Vou dar uma olhada por aí — sugeriu Pohklym e saiu abaixado. Gryndheim esperou que Pohklym não pudesse ouvi-lo. — Qual é sua opinião a respeito dele, Opprus? Opprus fitou Gryndheim com uma expressão de surpresa. — Por que faz essa pergunta? O radioperador fez uma careta. — O que sabemos a respeito dele? Consta que faz parte da Segurança Solar. Mas apareceu aqui sem documentos. Não pudemos verificar sua identidade. Opprus deu uma gargalhada. — Que é isso? Em Império Alfa ninguém pensa em verificar a identidade dum imune. Ficamos satisfeitos com qualquer um que venha ajudar-nos. Gryndheim continuou a olhar para o lugar em que Pohklym estivera agachado há instantes. — Não sei por quê, mas tenho medo desse cara. Quase não fala, está informado sobre tudo e sabe uma porção de coisas. — Isso parece antes um juízo favorável que uma restrição — disse Opprus. Gryndheim praguejou baixo e calou-se. Dali a instantes Pohklym apareceu no topo da escada. Opprus e Gryndheim levantaram. — Entre essas colunas e o planador existe um lugar onde podemos passar — disse Pohklym enquanto apontava para um planador tombado ao lado dum chafariz. Opprus olhou para trás. Estava tudo quieto. Talvez as pessoas que se encontravam nos edifícios tivessem desistido de atirar.

No planador havia um morto. Quebrara a nuca. Opprus achou que isso devia ter acontecido há algumas horas. O estofamento do planador se incendiara, mas o incêndio logo fora apagado. A substância derramada pelo sistema automático de extinção de incêndio estava grudado no rosto e nas mãos do cadáver como se fosse neve. O chafariz não funcionava mais. Seus bocais, que espalhavam água colorida em campos antigravitacionais, saíam do tanque cheio como braços levantados. O centro do tanque representava uma imagem abstracionista da Stardust, a espaçonave lendária na qual Perry Rhodan voara para a Lua no ano de 1.971. Para Opprus o tempo que se passara depois disso era tão longe que não cabia em sua imaginação. Mas no ano 3.441 ainda havia algumas pessoas que já viviam em 1.971. Os três homens ergueram-se entre as colunas do chafariz e o planador parado na praça onde terminava a rua. Opprus estava lembrado dum palco ao ar livre que antigamente existia nessa praça. Mas a única coisa que restava dele eram as peças de suas estruturas espalhadas por toda parte. Na grande parede dum edifício público que ficava nos fundos da praça ainda se via a imagem apagada da última apresentação. Esse setor também fazia parte de Império Alfa. Antigamente as casas mais próximas serviam de moradia a técnicos e engenheiros que trabalhavam em Império Alfa. Mas qualquer habitante da cidade tinha acesso a essa área do centro de controle. O bairro residencial de Império Alfa era um dos centros culturais de Terrânia City. O centro propriamente dito fora instalado bem embaixo deles, dentro de cavernas gigantescas escavadas por máquinas. — Vamos ficar sempre junto dos edifícios — decidiu Opprus. Por causa da chuva e da noite que estava começando não puderam ver toda a praça. Mais nos fundos havia algumas esferas luminosas suspensas no ar, que recebiam a força duma fonte de energia que ainda funcionava. Opprus segurou firmemente a arma e saiu andando. Estava decidido a evitar a luta. Queriam chegar ao centro meteorológico principal. Tinham de tomar o caminho mais rápido. Opprus ouviu um ruído que superava o ronco da tempestade. Era uma série de marteladas regulares vindas do edifício pelo qual estavam passando. Grundheim fitou-o como quem quer perguntar alguma coisa. — Não vamos preocupar-nos com isso — decidiu Opprus. Dois cachorros magros e maltratados atravessaram a praça. Rosnavam e lutavam contra a chuva. Mas logo voltaram a encostar o nariz ao chão, dando a impressão de que farejavam alguma coisa. Opprus gostaria de saber se os animais também tinham sido atingidos pelo processo de deterioração mental. Ainda não cuidara disso, por falta de tempo. De qualquer maneira os animais ainda podiam contar com o instinto, que o homem e outros povos que tinham atingido um estágio elevado da civilização tinham perdido quase completamente. Enquanto contemplava os cachorros, Opprus refletiu sobre o que poderia ter acontecido com seus antigos donos. Desde que se tem conhecimento o homem e o cão sempre tinham convivido. Era uma amizade que durara milhares de anos. Opprus se perguntou o que ligava o cão ao homem. Será que era o instinto de submissão que transformava o cachorro em amigo do homem? Os pensamentos do homem foram interrompidos por dois adolescentes que saíram dum portão em arco bem à sua frente. Um deles possuía uma arma paralisante. Seguravaa como quem não sabe lidar com ela.

O jovem fez pontaria para os cachorros. Atingiu um deles. O animal uivou quando as pernas cederam. O outro cachorro latia furiosamente. Os pêlos da nuca se eriçaram. Pôs-se a cheirar o companheiro. Neste momento também foi atingido por uma onda de choque e caiu ao chão. Ficou de costas, com as pernas se agitando em convulsões. Os dois adolescentes ainda não tinham visto Opprus e seus companheiros. Soltaram gritos confusos e saíram correndo para onde estavam os cachorros. Cada um pegou um animal e atirou-o sobre o ombro. — Que pretendem fazer com eles? — perguntou Gryndheim em tom inseguro. Opprus ergueu as sobrancelhas. — O senhor não sabe? O sargento esquivou-se ao olhar de Opprus. — Posso imaginar. De repente um dos adolescentes parou e deu uma cutucada no companheiro. Chamou sua atenção para os dois homens que estavam perto do edifício. No mesmo instante o outro adolescente deixou cair o cachorro e pegou a arma paralisante. — Cuidado! — disse Opprus e levantou a arma. Fez pontaria. Antes que o rapaz pudesse apertar o gatilho, Opprus destruiu a arma paralisante com um raio energético. O calor atingiu a mão do jovem, que soltou um grito. — Vamos! — gritou Opprus e saiu correndo para onde estavam os dois desconhecidos. O adolescente desarmado tentou esconder seu cão dos três homens. Seus movimentos desajeitados não deixavam nenhuma dúvida sobre o estado de espírito em que se encontrava. — Não tenham medo! — gritou Opprus. — Não lhes faremos nenhum mal. — Este cachorro é meu — disse o jovem que segurara a arma. Abaixou-se e cravou os dedos no pelo molhado do animal. — É meu. O outro rapaz começou a solução. — Podem levar os cachorros — disse Opprus. — Ninguém quer tirá-los de vocês. — Tio Bea? — perguntou o outro rapaz com a voz tímida. Aproximou-se e olhou com muita atenção para Opprus. — Tio Bea? — Não sou seu tio — retrucou Opprus. — Quero saber quem é você. — Pernick — disse o jovem com muita dificuldade. Parecia que seu nome lhe fazia evocar coisas tristes, pois passou a soluçar mais alto. Seu companheiro agarrou-o e puxou-o em direção à casa. — Há gente que não sabe mais nada — disse Gryndheim chocado. — Como podem sobreviver? — Se começarmos a preocupar-nos com isso, acabaremos enlouquecendo. O grupo seguiu adiante. Depois do bairro residencial vinha uma área que antes era interditada. A ela só tinham acesso os que trabalhavam no centro. Mas já não era assim. Os imunes, que eram relativamente pouco numerosos, não estavam em condições de vigiar as estações de Império Alfa que ficavam na superfície. Como não havia nenhum centro vital nessa área, Danton e Deighton a tinham desocupado voluntariamente. Só havia alguns robôs patrulhando, a fim de descobrir em tempo qualquer bando que se dispusesse a lançar um ataque. Acontece que alguém que possuía bastante inteligência, estava bem-informado e aproveitara a oportunidade para entrar no setor da estação meteorológica que fora evacuada. Os sabotadores não tinham sido descobertos nem mesmo pelos robôs. O ataque

devia ter pegado a guarnição do centro meteorológico de surpresa. Por isso os chefes achavam que os criminosos sabiam muito bem como agir. Opprus não compreendia que alguém pudesse fazer uma coisa dessas. Os criminosos — não havia dúvida de que eram mais de um — deviam saber que podiam causar a morte de milhões de seres humanos. A ideia de que o Homo superior podia ter algo a ver com isso não queria sair da cabeça de Opprus — embora essa suspeita tivesse sido desmentida por todas as informações disponíveis a respeito da mentalidade do novo tipo de homem. Faltavam pouco para escurecer de vez, quando o grupo atingiu a antiga área interditada atrás do bairro residencial. A chuva tinha diminuído, mas a tempestade continuava a varrer as ruas com a mesma violência. Parecia que um dos grandes armazéns se incendiara no oeste da cidade. Para aqueles lados o céu brilhava num tom avermelhado. As camadas de ar frio e quente se movimentavam. Onde se encontravam havia tempestades. Na opinião de Opprus as trovoadas continuariam por vários dias ou até semanas, dando início a uma situação de perigo. Era claro que mesmo sem a ação do homem o tempo voltaria a estabilizar-se um dia, mas até lá podia haver mudanças climáticas catastróficas. *** As barreiras energéticas que cercavam a área antes da catástrofe não existiam mais. A via elevada que contornava o bairro residencial estava intacta. Havia pouco lixo e escombros espalhados na área. — Aqui não apareceram muitos mentalmente deteriorados — constatou Coden Opprus. — Parece que o conhecimento da existência das áreas interditadas continua profundamente enraizado em sua mente. O grupo entrou na área interditada passando pelo portão de um posto de vigilância. As luzes de emergência estavam acesas no interior do edifício baixo. As janelas tinham sido destruídas, mas talvez fosse por causa da tempestade. Opprus aproximou-se de uma das janelas e olhou para dentro da construção parecida com um abrigo subterrâneo. — Nada indica que alguém tenha estado aqui depois da catástrofe — disse. Gryndheim foi para perto dele e apontou para o frigorífico embutido na parede dos fundos. — Ali ainda deve haver alimentos. — Os saqueadores logo estenderão sua ação criminosa a esta área. Gryndheim franziu o sobrecenho. — O senhor acha que qualquer ladrão faminto é um saqueador? — Não sei — confessou Opprus. — Que padrões podemos adotar enquanto durar a catástrofe? Será que as leis feitas para pessoas inteligentes e sensatas ainda têm validade? Um homem mentalmente deteriorado pode ficar sujeito às mesmas leis? — Não somos juristas — respondeu Gryndheim. — Fico contente por não ter que decidir o que deve ser feito em cada caso. A luz dum relâmpago iluminou o rosto de Opprus. — As informações dos comandos de imunes revelam que os homens que vivem no campo começam a adotar outras leis. Em muitas regiões foi adotada a justiça dos linchamentos. Opprus parou e olhou para trás.

— Estamos na área da estação meteorológica. Existem pelo menos dez entradas que os sabotadores podem ter usado para chegar aos pavimentos do subsolo. Por isso não vale a pena procurar o lugar. Usaremos o primeiro elevador em condições de funcionamento que encontrarmos ou qualquer outra entrada que continue desimpedida. Os três ficaram na rua que atravessava a antiga área interditada. Havia relativamente poucos edifícios nas imediações. Tratava-se principalmente de torres de controle e transmissão, edifícios públicos e casas de máquinas abrigadas em pavilhões semiesféricos. — Onde estão os homens que trabalhavam aqui? — perguntou Gryndheim em tom pensativo. — Por que até hoje ninguém pensou em dar uma olhada em seu local de trabalho? — Todos sabemos que quase todos os habitantes saíram de Terrânia City — respondeu Coden Opprus. — Isso também se aplica aos mentalmente deteriorados que trabalhavam em Império Alfa. Havia veículos parados em toda parte. Alguns tinham tombado ou colidido com as muretas laterais. Para Opprus isso era uma prova de que alguns mentalmente deteriorados tinham tentado fugir da cidade. Mas não foram capazes de dirigir os veículos. — Ali há uma estação de elevadores! — gritou Pohklym. — O senhor tem olhos de coruja — afirmou Gryndheim. — Não vejo nada. Seguiram na direção indicada por Pohklym. Dali a pouco Opprus viu a estação de elevadores à luz dos relâmpagos. Era formada por quatro elevadores de carga e seis de passageiros, protegidos por uma cobertura baixa. — Provavelmente teremos de usar os projetores antigravitacionais para passar por um poço vazio — opinou Opprus. — As luzes da estação estão apagadas. Acho que não recebe mais energia. Um controle ligeiro na estação confirmou a suposição. Os três homens procuraram um poço de elevador vazio. Opprus destruiu o mecanismo de travamento com a arma energética e iluminou o poço. — Não vejo a cabine do elevador. Podemos descer bastante. Opprus prendeu a lanterna ao cinto e começou a descer. Os outros seguiram seu exemplo. Quando tinham descido alguns pavimentos, Opprus deparou com uma porta aberta. Parou e pôs os pés na entrada de um grande pavilhão subterrâneo. O centro da estação meteorológica ficava três pavimentes embaixo, mas a sala em que se encontrava já fazia parte das instalações que tinham sido destruídas Opprus viu paredes negras iluminadas pela luz do farol. Há poucas horas houvera um incêndio nesse lugar. O cheiro do plástico queimado era muito forte. Opprus se perguntou como não devia estar o centro, se onde se encontravam já tinham sido causadas avarias. Provavelmente toda a estação meteorológica teria sido queimada, se não fossem as paredes à prova de fogo e o equipamento de extinção de incêndio. O feixe de luz do farol de Opprus deslizou pelo chão e parou num corpo humano. — Há alguém deitado ali! — gritou Gryndheim. O sargento obeso saiu arrastando os pés em direção ao homem jogado no chão. — Cuidado! — alertou Opprus. Gryndheim deitou o homem de costas. — Está morto! — gritou em tom amargurado. — Mas não foi o fogo que o matou. Opprus chegou mais perto e viu o que Gryndheim quis dizer. O rosto do morto estava completamente desfigurado por um tiro energético.

Opprus apagou o farol. — Não se pode mais saber se este homem trabalhava na estação ou se fazia parte do grupo de atacantes. — Está de uniforme — disse Gryndheim. Opprus deu de ombros. — Isso não quer dizer nada. É possível que os bandidos tenham arranjado uniformes para facilitar a entrada em qualquer lugar. O chão se levantava em bolhas. O ar era viciado e abafado, o que era um sinal evidente de que o equipamento de climatização não funcionava mais. Havia dois robôs-bombeiros com os bocais de jato em posição. As portas estavam cobertas de soluções de produtos químicos. Seguindo sua programação, os robôs se tinham esforçado para evitar que o fogo se propagasse a outras partes da estação. Opprus teve de empurrar uma das portas com o ombro para abri-la. Uma lufada de ar frio atingiu-o no corredor em que entrou. A luz de seu farol iluminou uma placa com a palavra ARQUIVO. Opprus tivera oportunidade de examinar uma planta da estação meteorológica. Sabia que muitos elevadores e galerias ligavam o centro de comando ao arquivo. Neste arquivo estavam guardados todos os mapas meteorológicos, além das programações dos satélites. Opprus estava lembrado de que o arquivo era uma sala grande, de forma circular. Havia cerca de seis salas menores regularmente dispostas em torno dela. As luzes dos três faróis dançavam pelo chão. A entrada do arquivo apareceu à frente do grupo. A porta fora arrancada das dobradiças e estava jogada no chão. Parte do teto desabara. — Eles passaram por aqui quando se dirigiam ao centro — percebeu Opprus. — Dinamitaram a entrada. Agiram de forma muito metódica. Opprus passou por cima dos escombros e foi para a sala ao lado. Um lampejo iluminou os fundos da sala. Opprus deixou-se cair instintivamente. Um tiro energético atingiu seu ombro de raspão, fazendo com que o traje de proteção ficasse incandescente. Gryndheim e Pohklym abrigaram-se. Opprus ouviu a voz ofegante do radioperador. — O senhor está bem? — Estou — respondeu Opprus. Tinham apagado os faróis. A escuridão era completa. Opprus não sabia exatamente de onde fora disparado o tiro. Além disso era pouco provável que o atirador continuasse no mesmo lugar. Opprus refletiu se ainda havia sabotadores nesse lugar do subsolo ou se o atirador fazia parte da guarnição do centro meteorológico. Achou que era melhor assumir um risco. — Sou Coden Opprus! — gritou para a escuridão. — Vim com dois companheiros. Viemos de Império Alfa para ver o que aconteceu aqui. A única resposta foi um tiro. Opprus agachou-se no chão. Ouviu alguém rastejando para perto dele. No mesmo instante Pohklym cochichou: — Cuidarei disso. Pohklym quis continuar rastejando, mas Opprus segurou-o. — É muito perigoso. Pohklym deu uma risadinha.

— Acha mesmo? Assumirei o risco. Opprus ficou aborrecido com a calma do antigo agente da Segurança Solar. — Aqui quem dá as ordens sou eu! — exclamou. Pohklym não respondeu. Opprus soltou-o. No mesmo instante o homem esbelto desapareceu de perto dele. Opprus soltou um palavrão. Acreditava que Pohklym saíra rastejando para fazer o que queria. Uma peça de metal caiu no chão perto de Opprus, fazendo-o estremecer. — Sinto muito — disse Gryndheim. — Tenho dificuldades em passar aqui. — Pois fique onde está! — gritou Opprus. Gryndheim não respondeu. Parecia que conseguira chegar bem perto de Opprus. Este ouviu a respiração forte do homem obeso. Opprus se perguntou onde estava Pohklym. Enquanto o meteorólogo ficasse rastejando pelo arquivo, Gryndheim e ele tinham de ficar quietos. De repente ouviu um grito. Opprus levantou de um salto. — Pohklym! — gritou em tom de alarme. Não houve resposta. — Aconteceu alguma coisa! — disse Opprus na direção em que ficava Gryndheim e acendeu o farol. Janus Pohklym estava de pé do outro lado da sala. À sua frente estava deitado um jovem, com os braços bem abertos e uma carabina energética apontada para o peito. Pohklym sorriu com uma expressão de deboche. — É quase um menino. O rosto de Opprus mudou de expressão enquanto ele atravessava a sala aos saltos. — O senhor o matou? — perguntou em tom enérgico. Pohklym deu uma risada. — Não se preocupe. Só ficou inconsciente. As feridas espalhadas por todo o corpo são uma lembrança das lutas com os sabotadores. Só então Opprus descobriu o símbolo de meteorólogo na manga do rapaz inconsciente. Era o perfil dum satélite meteorológico destacando-se sobre um disco solar ofuscante. — Coitado — disse Gryndheim. — Deve ser o único sobrevivente. Os três entraram no arquivo central. Prateleiras derrubadas fechavam-lhes o caminho. Ali também houvera incêndios em vários lugares. Opprus aproximou-se de uma galeria e dirigiu a luz do farol para o centro de controle, que ficava mais embaixo. O feixe de luz atingiu um painel de controle. Tinha explodido e fora queimado. Opprus cerrou os lábios. Não se precisava de muita imaginação para concluir que em todo o centro a situação devia ser a mesma. Isto significava que nos próximos meses haveria grandes catástrofes meteorológicas na Terra. Opprus ligou o rádio e chamou Império Alfa. Deighton respondeu imediatamente ao chamado. — Aqui fala Coden Opprus — disse o coronel. — Alcançamos a estação meteorológica. A sala de controle foi completamente destruída. Tentaremos chegar às instalações de emergência e ativá-las. Por algum tempo ficou tudo em silêncio. — Faça o que achar certo — disse Deighton finalmente.

7
Os robôs pertencentes à banda Vasnin tinham-se juntado ao grupo de Fingal. Guarrigue dava-lhes ordens pelo rádio. Quatro homens pertencentes ao bando tinham ficado para trás. Um deles fora atingido por uma rajada de vento que o atirara por cima da amurada da via elevada. Os outros três tinham desaparecido na escuridão. Provavelmente estavam escondidos em algum lugar. — Temos de ficar mais juntos! — gritou Fingal, apesar de não ter certeza de que todos o entendiam. Segurou o braço de Verdere. — Você ficará na retaguarda do grupo! — ordenou. — Não quero perder mais ninguém. O negro confirmou com um aceno de cabeça. — Espere! — prosseguiu Fingal. — Ligue o farol. Vamos comunicar-nos por meio de sinais. Se alguma coisa não estiver em ordem, você acenderá o farol três vezes. Vou mostrar. Verdere compreendeu logo — depressa demais para um mentalmente deteriorado. Para Fingal a explicação da reação do homem de pele negra estava no fato de que antigamente Mrozek Verdere fora mais inteligente que os outros. O bando de Fingal já deixara para trás a via elevada. Seguia junto aos antigos limites de Império Alfa. Não havia guardas, conforme Fingal acreditara. De vez em quando viam alguns robôs, mas estes pareciam ter recebido instruções de não tomar conhecimento de pessoas vagando pela área. Os guardas automáticos só entrariam em ação na iminência de um ataque direto a Império Alfa. Fingal sabia que também devia ficar atento a câmeras voadoras. Mas com a tempestade estas não funcionariam com a precisão de costume. O galactopsicólogo estava satisfeito porque os quarenta robôs de combate não podiam ser influenciados pela tempestade. Graças aos seus conhecimentos a respeito dos armazéns e alojamentos da Frota Solar em Terrânia City, tivera a possibilidade de reprogramar essas máquinas de combate assim que passou a onda de deterioração mental. Os quarenta robôs deviam desempenhar um papel decisivo na luta contra a guarnição de Império Alfa. Fingal resolvera sacrificar as máquinas numa batalha simulada. O ataque frontal dos robôs obrigaria os defensores do centro a concentrar suas forças. Com isto Fingal e seu bando teriam oportunidade de penetrar no centro por outro lugar e destruir instalações mais importantes com as bombas que levavam. Fingal sabia que, depois que o centro fosse posto fora de ação, os imunes já não teriam nenhuma chance. O médico parou para orientar-se. Conhecia muito bem a área. Passara por ela muitas vezes e então pensara num meio de vingar-se. Parte das placas indicativas tinha sido soterrada sob os destroços, mas as fachadas dos diversos edifícios eram suficientes para que Fingal pudesse orientar-se. Fingal fez o feixe de luz de seu farol passar pelas paredes dos edifícios. Naquela área costumava trabalhar o pessoal da administração de Império Alfa.

Fingal fez o grupo passar entre duas fileiras dos edifícios para chegar na área do centro propriamente dito. Passaram por um campo de pouso de planadores. Havia máquinas tombadas e queimadas espalhadas pela rua. — Vamos separar-nos dos robôs! — gritou Fingal quando estavam passando por um hangar protegido contra o vento. — As máquinas perfurarão o solo nesta área e insuflarão gases narcotizantes nos pavimentos inferiores. Depois disso elas mesmas penetrarão nas zonas mais profundas de Império Alfa. Isto levará a guarnição do centro a concentrar suas forças neste lugar. Enquanto isso invadiremos o centro em outro lugar. A luz do farol iluminou rostos cansados, apáticos, que não mostraram ter compreendido alguma coisa. Fingal chegou à conclusão de que estava na hora de enviar os homens para a luta. O médico falou para dentro de seu aparelho de comando. Depois de certificar-se que os robôs estavam saindo do hangar conforme ordenara, ligou o segundo farol. Tinham de apressar-se, se queriam chegar em tempo. — Vamos! — gritou. Os homens acompanharam-no. Fingal começou a correr. Ficou com a cabeça abaixada. A tempestade começava a diverti-lo. Não poderia desejar um aliado melhor nessa noite. De repente ouviu alguns ruídos abafados. Eram os robôs provocando as primeiras explosões e fazendo as perfurações. Naturalmente as explosões seriam detectadas no centro de comando de Império Alfa, mas demoraria algum tempo até a guarnição perceber o que realmente estava acontecendo. Os homens que Deighton e Danton mandariam fazer um reconhecimento teriam de atravessar os corredores cheios de gás narcotizante. Talvez ainda tivessem tempo de informar o centro de comando. Mas até isso encaixava no plano de Fingal. Deighton e Danton usariam todos os recursos para defender a área que acreditavam estar em perigo. Desta forma Fingal teria tempo e oportunidade de atacar e destruir o centro de comando de Império Alfa. De repente acendeu-se um farol alguns metros à frente de Fingal. O médico levantou a arma. Acreditava que se tratava de alguns imunes. Tivera um tremendo azar ao cair nos braços de uma patrulha. Um relâmpago iluminou a área em cima de Império Alfa. Fingal viu dois homens armados que usavam o uniforme da Frota Solar de pé à frente dum edifício baixo, parecido com um abrigo subterrâneo. — Parem! — gritou um deles. — Identifiquem-se. Fingal deu uma risada desagradável e atirou. A luz do farol de um dos astronautas descreveu um círculo e só parou depois de cair no chão. Fingal sabia que atingira o alvo. Ouviu o outro astronauta praguejar. Fingal voltou a atirar, mas o outro homem se tinha jogado no chão e abrira fogo. Um dos membros do bando caiu atrás de Fingal. Fingal atirou para a escuridão, apesar de ter certeza de que não atingiria o alvo. Mais uma vez um raio mergulhou a cidade sobre Império Alfa numa luz que a fez parecer um cenário de fantasmas. Fingal teve a impressão de ter visto as grandes torres de controle de Alfa bem ao longe. Mas a praça que ficava à frente do abrigo baixo parecia vazia. Fingal murmurou um palavrão. O que era feito do outro astronauta?

Na situação em que se encontravam, um único homem era capaz de estragar seus planos. — Fiquem onde estão! — gritou Fingal para os companheiros, que tinham procurado abrigos nos arredores. O médico saiu rastejando de quatro em direção ao abrigo. Estremeceu ao ver que de repente havia alguém perto dele. Era um homem rastejando no chão com a agilidade de um macaco. — Mrozek Verdere! — chiou Fingal. — Você me assustou. Um relâmpago fez aparecer o rosto de Verdere com uma estranha nitidez. Estava molhado e negro, mas a expressão séria que havia nele dava-lhe o aspecto de uma máscara. Verdere colocou a mão sobre o ombro de Fingal. — Espere! Fingal arregalou os olhos. O tom da voz do negro era claro e seguro. Não falava como um mentalmente deteriorado. — Que houve, Mrozek? — Vim com o senhor porque esperava que destruísse algumas instalações de Império Alfa. Até o teria ajudado. — Que diabo o senhor pensa que pretende fazer? — Fingal ficou aborrecido ao darse conta de que tratara Verdere de senhor. — Não sabia que saiu para assassinar — respondeu Verdere. — E não concordo. Fingal levantou devagar. Esqueceu completamente o perigo representado pelo astronauta escondido. Verdere também levantou. Virou-se devagar, para enfrentar melhor a tempestade. Disse alguma coisa, mas Fingal só viu os movimentos dos lábios. As palavras foram abafadas pela tempestade. O galactopsicólogo deu um passo em direção a Verdere, mas este não recuou. Fingal iluminou seu rosto, mas baixou instintivamente o farol ao ver seus olhos arregalados. — Homo superior! — gritou Fingal com a voz se atropelando. — O senhor é um desses malditos idiotas, Verdere! O negro acenou lentamente com a cabeça. — Dê o fora! — gritou Fingal fora de si. — O senhor não me deterá. Verdere sorriu. — Tentarei. Não deve haver mais assassinatos neste mundo. Fingal compreendeu que para realizar seus planos teria de eliminar Verdere. Ele ofereceria uma resistência passiva. O mínimo que podia fazer era impedir Fingal de chegar em tempo. E Fingal sabia que para infligir uma derrota definitiva a Império Alfa teria de coordenar sua ação com a dos robôs de combate. — Saia do meu caminho, Mrozek! — disse com a voz abafada. Verdere empertigou-se. — Largue a arma, Fingal! O médico atirou. Estava tão perto de Verdere que não podia errar o alvo. Verdere arregalou os olhos de dor. Comprimiu o ventre com ambas as mãos e dobrou o corpo. Fingal ficou com o queixo caído enquanto via o negro dobrar lentamente os joelhos, sem tirar os olhos de Fingal. — Ninguém me deterá! — gritou Fingal. Suas últimas palavras foram abafadas por um trovão.

Luzes relampejaram em torno deles. Os membros do bando aproximaram-se devagar. Alguma coisa dentro deles os fez dirigirem a luz dos seus faróis para o Homo superior moribundo. — Isso não lhe adiantará nada, Fingal! — gemeu Verdere. — Sua espécie está condenada à extinção. Dentro de pouco tempo nós, os novos homens, seremos os únicos habitantes deste mundo. O senhor é um fóssil com vida, Fingal. Fingal continuava com a arma apontada para o negro, mas não conseguiu atirar de novo. Pela primeira vez em muitos anos sentiu-se inseguro. Viu os membros do bando chegando cada vez mais perto. Até parecia que queriam formar uma muralha para proteger Verdere. De repente o homem de pele negra ergueu as mãos. Até parecia que um regente pedira uma luz forte para iluminar a cena. Um forte relâmpago espalhou sua luz sobre o quadro. Verdere estava com as mãos ensanguentadas. — Não o acompanhem se ele quiser assassinar! — gritou Verdere para os mentalmente deteriorados. Depois tombou lentamente dentro duma poça de sangue que se formara no chão. Fingal olhou fixamente para ele. — Vamos em frente! — gritou para os outros e fez um sinal com a arma. Ninguém o acompanhou. Aos poucos os faróis foram se apagando. Os mentalmente deteriorados saíram correndo na escuridão. Fingal deu alguns tiros, mas não tinha certeza se atingira um dos fugitivos. Ficou a sós com o cadáver do Homo superior. Fingal passou por cima de Verdere. Estava decidido a não voltar atrás. Estava com o cinto cheio de bombas. Talvez sozinho chegasse mais longe que com esses idiotas que perdiam os nervos com qualquer coisa. Fingal saiu andando. De repente houve um lampejo perto do abrigo. O tiro energético atingiu-o de raspão. Fingal atirou-se ao chão e rolou para o lado. O astronauta que se escondera por perto continuava disposto a lutar contra qualquer um que chegasse perto do abrigo. Fingal abriu uma das bolsas que trazia presas ao cinto e tirou uma microbomba. Ligou o detonador, levantou e tomou impulso com o braço. Esperava que apesar da tempestade violenta a bomba atingisse o alvo. A explosão se verificou junto ao abrigo. Uma língua de fogo cobriu a praça. Um sulco foi aberto no chão. Fingal levantou de um salto e saiu correndo. Um relâmpago atravessou o céu. O psicólogo viu um vulto saindo dum nicho e cambalear junto ao abrigo. O psicólogo fez pontaria e atirou. O astronauta caiu ao chão. Fingal riu como um louco e saiu correndo. A tempestade fustigava seu rosto, a chuva martelava o corpo. Fingal sentiu-se aliviado e tomado duma resolução firme. Os acontecimentos dos últimos minutos tinham-no deixado ainda mais confiante. Apalpou as microbombas que ainda lhe restavam. Com elas e a carabina energética podia provocar séries de explosões em Império Alfa, desde que as usasse nos lugares certos. *** O alarme foi dado no setor oeste, sinalizando o ataque dum grupo numeroso contra uma das seções subterrâneas de Império Alfa. Deighton franziu a testa enquanto contemplava os controles. O inimigo, já anunciado pelo Homo superior, escolhera um setor abandonado de Império Alfa para

lançar o ataque. Mas apesar disso era necessário fazer alguma coisa para evitar que o bando chegasse logo a certos recintos importantes. Deighton usou um rádio para comunicar-se com Danton, que se deslocara para o setor sul para preparar um voo de planador para a América, juntamente com três imunes. Danton tinha sido informado. — Mandarei vinte robôs e dois homens experientes — anunciou Deighton. — A julgar pela extensão das destruições sinalizadas, cerca de cem homens devem ter entrado em Império Alfa. — Cem? — admirou-se Danton. — Não esperava um bando desse tamanho. A mulher que o preveniu falou em vinte atacantes. Deighton deu de ombros. — Talvez eu me tenha enganado. — Ou ela indicou de propósito um número errado, para que nos sentíssemos seguros. — Nesse caso ela nem precisaria avisar. — É verdade — reconheceu Danton. — Ainda acontece que não sabemos praticamente nada a respeito da mentalidade do Homo superior. Deighton interrompeu a conversa para dar as ordens que já tinham sido preparadas. Dali a instantes dois homens saíram em direção ao setor oeste, acompanhados por vinte robôs, para expulsar os invasores. Depois disso Deighton voltou a dirigir-se ao filho de Rhodan. — Assim que houver alguma novidade, avisarei. Danton suspirou. — Só faltavam estes problemas. Fico-me perguntando como faremos para restabelecer a ordem na Terra e ao mesmo tempo defender-nos dos ataques dos mentalmente deteriorados. O primeiro-mecânico emocional deu uma risada sem graça. — Não se esqueça das dificuldades que estão sendo enfrentadas em Olimpo e nos outros planetas do Império Solar. Isto sem falar na situação reinante nos outros setores da galáxia. Além disso temos de preocupar-nos com esse misterioso enxame que invadiu a Via-Láctea. — Gal — disse Danton em voz baixa. — Por que não confessamos logo? — Confessar o quê? — perguntou Deighton. — Não sei do que está falando, Roi. Depois de uma pausa, Danton disse em tom indiferente: — Por que não confessamos que estamos no fim? — Nem devemos falar nisso, Roi — respondeu Deighton chocado. — Em hipótese alguma devemos desistir agora. Danton passou a falar em tom mais violento. — Ninguém está falando em desistir. É claro que vamos continuar. Acontece que ainda não nos conscientizamos da situação em que estamos. Partimos de falsas premissas. — É verdade — reconheceu Deighton enquanto passava as pontas dos dedos pelos controles. — Talvez o senhor tenha razão. Talvez devêssemos desligar-nos de tudo que ainda existe. Sair da Terra e começar de novo em outro lugar. Tal qual o Homo superior está tentando na Terra. — O Homo superior não passa de um estágio intermediário, de uma solução infeliz, do tipo que a natureza parece produzir quando acontecem as catástrofes. Deighton franziu os lábios.

— Acha que existe alguma ligação entre o enxame e o aparecimento do Homo superior? — Por que não? — Seria incrível — disse Deighton. — Se estiver interessado poderemos conversar oportunamente sobre a teoria que criei — sugeriu Danton. Deighton foi obrigado a rir. — Acha que teremos tempo? Não houve resposta. Danton já tinha desligado. Quando Deighton voltou a olhar para os controles, viu o siganês Harl Dephin sentado numa chave, com as pernas cruzadas. O homenzinho adaptado a um ambiente diferente era do tamanho da mão de Deighton. — Harl! — exclamou Deighton surpreso. — Que veio fazer aqui? — Ouvi falar nos problemas que está havendo no setor oeste — disse Dephin, que era o único Thunderbolt não atingido pelo processo de deterioração mental. — Que tal eu entrar em ação com Paladino? Deighton fez um gesto de recusa. — Nem me fale nisso, Harl. — Por quê? — perguntou Dephin indignado. — O senhor sabe perfeitamente que não pode dirigir Paladino sozinho. Podem ocorrer defeitos se entrar em combate. Como se arranjaria com Dart Hulos fora de ação? Via-se perfeitamente que Dephin não queria aceitar a decisão de Deighton. Na opinião do siganês bastaria que Paladino aparecesse na frente dos atacantes para pô-los em fuga. — O senhor não pode dispensar nenhum imune, Gal — disse Dephin. — Logo, precisa de mim. — É verdade — concordou Deighton. — Mas não sou idiota a ponto de permitir que se dirija ao setor oeste com Paladino. — Que mais posso fazer? — perguntou Dephin em tom nervoso. Deighton abriu os braços. — Dê uma olhada por aí. Vai encontrar trabalho de sobra. Contrariado, Dephin saiu de junto dos controles. Estava com um projetor antigravitacional preso ao corpo e saiu voando. Deighton esperava que Dephin não resolvesse agir por conta própria. Seria muito arriscado usar Paladino enquanto cinco dos seis Thunderbolts permanecessem em estado de deterioração mental. Deighton teve o pensamento distraído por novas notícias vindas de todos os lugares da Terra. Algumas dessas informações eram arrasadoras. Maremotos tinham devastado a costa da Europa Central. Navios que levavam pessoas mentalmente deterioradas tinham adernado e afundado. Grandes devastações tinham sido registradas nas cidades do litoral. Era difícil avaliar o número de mortos. Parecia que alguns vulcões, inclusive o Vesúvio, estavam prestes a entrar em erupção. De todas as partes da Ásia chegavam notícias de terremotos. Uma fenda se formara entre a antiga Turquia e a atual Europa Oriental, engolindo aldeias inteiras. Deighton não tinha meios de saber se essas notícias eram verdadeiras. Mas mesmo que se fizesse um desconto, a situação ainda era alarmante. — Temos de mandar para fora mais alguns imunes — disse a Homer G. Adams, que há alguns minutos estava sentado perto dele.

O semimutante, que também era imune, sacudiu a cabeça. — No momento não podemos fazer mais nada. O importante é estabilizar as condições meteorológicas. Depois veremos o que pode ser feito. Adams, que saíra poucas vezes da Terra, era considerado o maior especialista vivo em matéria de finanças e economia. Estes conhecimentos não podiam ser usados, porque a economia não funcionava mais. Mas sua capacidade especial valia muito. O talento organizacional do semimutante ajudaria os imunes a criar uma rede de abastecimento na Terra. Adams tem razão, pensou Deighton. Enquanto não conseguirmos controlar o tempo não adianta criar uma rede de abastecimento. Como chegar aos diversos postos em meio às tempestades violentas? Os pensamentos de Deighton foram interrompidos de novo. Era Coden Opprus chamando do centro de controle da estação meteorológica. — Por aqui não existe mais nada que possa ser consertado, Deighton — disse Opprus. — Os sabotadores fizeram um trabalho completo. Os controles dos satélites foram completamente destruídos. — E as instalações de emergência? — perguntou Deighton. — O senhor devia tentar chegar lá. — Hum! — fez Opprus. — Fale! — Os acessos não existem mais — informou Opprus. — Devem ter desabado, ou ficaram escondidos atrás dos escombros. O material foi soldado pelas explosões e pelos incêndios. É impossível abrir passagem. — O senhor tem de examinar as instalações de emergência! — insistiu Deighton. — Seria perigoso — respondeu Opprus. — Muito perigoso, Deighton. Só existe um meio de chegar aos equipamentos de emergência: abrir caminho a tiros. Pode haver explosões devastadoras. Deighton podia imaginar como estava a estação meteorológica. As preocupações manifestadas por Opprus tinham fundamento. — Seria suicídio — acrescentou Opprus em voz baixa. Adams, que ouvira tudo, fitou Deighton com uma expressão indagadora. Deighton compreendeu. — Um momento, Opprus. Adams quer falar com o senhor. — Precisamos de informações sobre o equipamento de emergência — principiou Adams sem rodeios. — Se estiverem em ordem ou puderem ser reparados teremos ganho uma batalha, pois poderemos controlar os satélites e fazer voltar o tempo ao normal. Se as condições do centro de emergência foram iguais às do centro principal, teremos que desistir. As operações de socorro que planejamos seriam inúteis. Deighton e o antigo chefe da General Cosmic Company entreolharam-se. Os dois sabiam o que estavam pedindo a Opprus e seus companheiros. — Droga! — gritou Opprus em tom exaltado. — Vamos tentar. Meus companheiros concordam. — Obrigado — disse Adams. Deighton se perguntou se Adams e ele tinham o direito de mandar alguém para a morte. Talvez este direito se fundasse na esperança de que Opprus e seus dois companheiros talvez pudessem ser bem-sucedidos. ***

Completamente exausto, Garrigue Fingal chegou perto duma torre de controle, onde estava protegido contra o vento. Correra algumas centenas de metros, tendo sido ajudado pelo vento vindo obliquamente de trás. Ainda não se afastara muito da área de atuação dos robôs, mas estava na hora de entrar, senão não conseguiria cumprir o cronograma. Sabia que para chegar aos pavimentos inferiores bastava entrar na torre de controle. Mas isto não era fácil. A única entrada da torre não ficava no nível do solo, mas mais em cima, atrás de uma plataforma. Apesar da tempestade Fingal poderia chegar a essa plataforma, se estivesse equipado com um dispositivo de voo ou um projetor antigravitacional. Fingal voltou a iluminar a face externa da torre. Era formada por um metal liso. Era impossível subir por ela. Fingal deu uma volta em torno da torre. Voltou a ser atingido pela tempestade cada vez mais violenta, que acabou comprimindo-o contra a torre. “Tenho de chegar lá!”, pensou Fingal. Saiu correndo abaixado. As rajadas de vento ameaçaram derrubar seu corpo magro ou arrastá-lo. Havia outro edifício a pouco menos de cem metros da torre. Era uma cúpula baixa encostada a um edifício em ângulo. Fingal tinha esperança de que lá poderia ser mais fácil. Foi derrubado por uma rajada de tempestade. Ficou deitado alguns segundos, esbaforido. Fez um grande esforço e levantou. A poucos metros dele grossos fardos de plástico eram tangidos pelo vento como se fossem balões. Um deles atravessou a escuridão que nem um projétil e bateu em Fingal. O psicólogo foi jogado no chão e o fardo rolou por cima dele. Desta vez ficou deitado mais tempo. A chuva violenta o fustigava. Fingal percorreu os últimos metros que o separavam da cúpula rastejando. Ficou deitado alguns minutos junto a uma parede onde estava protegido do vento para descansar. Sabia perfeitamente que com a violência da tempestade aumentando não conseguiria ir adiante. Tinha de encontrar uma entrada no lugar em que se encontrava. Tateou lentamente junto à parede. Dali a pouco o feixe de luz do farol atingiu um grande portão de metal. Por ele deviam ter entrado e saído os veículos de carga. Fingal examinou o portão. Não conseguiu abri-lo. Pensativo, pegou a carabina energética nas mãos. Se forçasse a entrada, desencadearia um alarme. De qualquer maneira isto não podia ser evitado. Além disso a guarnição de Império Alfa levaria algum tempo para tomar suas medidas. Fingal deu um passo para trás e queimou um buraco na grande porta. As bordas não demoraram a esfriar. Os pingos de chuva evaporavam-se sobre o metal. Fingal espremeuse pela abertura e entrou na cúpula. Estava escuro, mas o psicólogo podia ver os detalhes à luz do farol. A cúpula cobria um grande pavilhão sem paredes divisórias. Havia alguns veículos estacionados em vagas marcadas por faixas luminosas e colunas. Fingal percebeu que estava numa garagem. Com um pouco de sorte poderia encontrar um acesso aos pavimentos inferiores de Império Alfa. O médico saiu correndo. O feixe de luz de seu farol deslizava pelo chão. Bem no centro do pavilhão Fingal descobriu um grande elevador de carga, que antigamente servia para levar os veículos aos pavimentos inferiores ou trazê-los de volta.

Ao lado dó elevador de carga havia um de passageiros. Estava desligado, mas Fingal podia usar a escada de emergência. O galactopsicológo não perdeu tempo. Começou a descer. Não se ouvia mais a tempestade. O ruído que dominava tudo era a respiração de Fingal. Este levou algum tempo para acostumar-se ao silêncio. O psicólogo passou a mão pela bolsa que trazia presa ao cinto. Dentro de pouco tempo faria explodir as primeiras bombas no interior de Império Alfa. *** Roi Danton viu meia dúzia de robôs levar os últimos equipamentos para bordo dos planadores. Os imunes que deviam entrar nos planadores ainda não tinham chegado. Danton não via mesmo por que havia mandá-los sair tão cedo. Partiriam depois que a tempestade amainasse um pouco. — Pronto! — disse o jovem que se encontrava ao lado de Danton. Antes da catástrofe ele trabalhara na polícia de Olimpo. Encontrava-se de visita na Terra quando o Sistema Solar foi atingido pela onda de deterioração mental. Tivera a mente estabilizada somente por um ano e até lá se transformaria num mentalmente deteriorado igual aos outros. O nome do ex-policial era Monuan, e ele granjeara fama nas últimas semanas graças à sua capacidade de organização. Danton colocou a mão sobre o ombro de Monuan. — Muito bem! Os planadores estão preparados e as tripulações foram escolhidas. Os senhores partirão assim que o tempo lá fora ficar mais calmo. O filho de Rhodan viu que Monuan queria dizer alguma coisa. — Que foi? — Ofereci-me como voluntário — disse Monuan. — Gostaria de participar da expedição. — Precisamos do senhor aqui — recusou Roi. — O verdadeiro motivo não é esse! — afirmou o jovem em tom exaltado. — Ninguém quer arriscar-se porque não se sabe por quanto tempo continuarei imune. — É possível que nossa decisão também tenha sido influenciada por essa circunstância. Mas estou disposto a... O sinal de alarme soou no rádio de Danton. Galbraith Deighton começou a falar quase no mesmo instante. — Parece que nunca mais teremos paz, Roi. Mais alguém tenta invadir Império Alfa. Parece que também conseguiu entrar. — Onde? — perguntou Danton. — Perto do lugar onde o senhor está, Danton. Alguém deve ter passado pela garagem Gronor Opol. — Dispõe de informações sobre o número de invasores? — Não. Mas não acredito que sejam mais de seis. Danton refletiu um instante. — Dê-me todos os dados a respeito da garagem, para que possa subir o mais depressa possível — disse finalmente. Roi percebeu que Deighton prendeu a respiração. Finalmente o primeiro-mecânico emocional exclamou: — O senhor não deve preocupar-se com isso. — Monuan está comigo — respondeu Danton. — Cuidaremos do problema. Ou será que há alguém mais perto do local da invasão?

— Podemos mandar Alsam. Não está muito longe do senhor e neste momento... — Deighton interrompeu-se. — Bem, não posso impedi-lo. — Não pode mesmo — respondeu Roi sorrindo e fez um sinal para Monuan. — Vamos, Vlerkus. Iremos de carro. Os dados devem chegar num instante. Provavelmente teremos de subir. — Não estamos armados — disse Vlerkus Monuan. — No carro há duas armas de fogo — respondeu Danton. — Mas isso não é o mais importante. Se as pessoas que entraram pela garagem forem mentalmente deterioradas, não precisaremos de armas. Os dois saíram do recinto subterrâneo. No corredor só estavam acesas as luzes de emergência. O pequeno carro elétrico de Danton, que era o melhor veículo para andar pelos subterrâneos, estava parado junto à eclusa. — O senhor tem de sentar atrás — disse Danton. — E um carro para um passageiro. Monuan saltou para a pequena plataforma e segurou-se. Danton sentou junto ao volante. Neste momento Deighton voltou a chamar. Não tinha novidades, mas acabara de calcular a rota para Danton. — Se seguir o caminho indicado, chegará dentro de sete minutos. — Sua voz assumiu um tom sarcástico. — O tráfego não deve ser muito intenso. Danton deu partida no veículo. Normalmente teria sido impossível desenvolver a velocidade máxima em um dos corredores principais de Império Alfa. Danton deu uma arma a Monuan. — Só a use em último caso — advertiu. — Sou um policial — respondeu Monuan em tom calmo. Danton sorriu. Parecia que subestimara o mentalmente estabilizado. O veículo entrou em outro corredor. No mesmo instante as luzes de emergência do teto se acenderam. Deighton agira depressa, abastecendo de energia os equipamentos de emergência que ficavam no caminho de Danton. — Acha que iremos enfrentar pessoas mentalmente deterioradas? — perguntou Monuan. Danton deu de ombros. Bem no íntimo suspeitava do Homo superior. — Receio que percamos a batalha da Terra — disse Monuan em tom pensativo. — Somos poucos. Mais cedo ou mais tarde este mundo pertencerá ao Homo superior. Danton deu uma risada amarga. — O senhor está enganado, Monuan. O Homo superior perecerá com o resto da humanidade, porque tenta justamente agora realizar seus ideais. — Espero que encontremos outra chance em algum lugar do espaço — observou Monuan. Para Danton as palavras do policial eram uma prova de que os seres humanos se tinham conformado muito depressa com o fim do Império Solar. Ideias a respeito de um novo começo já surgiam na cabeça dos imunes. Será que ainda adiantava a guarnição de Império Alfa tentar restabelecer a ordem pelo menos na Terra? — Nunca mais será como antes — prosseguiu Monuan. — Temos de começar de novo. — É possível que a onda de deterioração mental passe tão de repente como veio — disse Danton em tom indiferente. Monuan não respondeu, mas via-se perfeitamente que não acreditava nisso.

Danton foi obrigado a concentrar-se no trecho de corredor que tinham pela frente. Lá ficavam os elevadores que levavam à garagem. Era bem possível que os invasores tivessem descido por eles. Danton desbravou a arma. Em algum lugar, à sua frente, havia pessoas desconhecidas. *** Fingal saltou da escada para o chão do pavilhão onde antes da catástrofe trabalhavam os cartógrafos, interpretando coordenadas cósmicas. As mesas davam a impressão de que os cientistas que ali escreviam e faziam cálculos voltariam de um instante para outro. Não se via nenhum sinal das mudanças e destruições encontradas em todo lugar na superfície. “Um mundo inteiro sem vida!”, pensou Fingal. Era cientista e não poderia deixar de impressionar-se com o quadro. Aquele pavilhão era um sinal evidente de que a ciência e a pesquisa tinham perdido toda importância. Os poucos cientistas imunes trabalhavam a serviço de Império Alfa, mas havia coisa mais importante a fazer na Terra que as pesquisas científicas. No fundo, pensou Fingal, será uma vingança imperfeita, por ser dirigida contra um objeto moribundo. Em seguida atravessou o pavilhão e saiu por uma porta lateral. *** Galbraith Deighton chamou pelo rádio. — Descobrimos uma coisa que nos surpreendeu, Roi. O grupo que invadiu o setor oeste é formado por cerca de quarenta robôs. Antes de entrar nas instalações, abriram buracos no chão a tiros e introduziram gás narcotizante nos pavimentos inferiores. Felizmente nosso pessoal usava trajes de proteção. — Que aconteceu depois? — perguntou Danton ansioso. — Foi travada uma luta violenta, que causou grandes estragos no setor oeste — informou Deighton. — E agora? Já voltou tudo normal? — Não. Nosso grupo ainda luta com cerca de vinte robôs entrincheirados em nichos e corredores laterais. — Quer dizer que é possível que Monuan e eu também tenhamos de enfrentar robôs — disse Danton esticando as palavras. — Gostaria de saber quem mudou sua programação. — Isso não é tão importante — respondeu Deighton em tom impaciente. — O senhor tem de voltar imediatamente, Roi. Se tiver de enfrentar uns dez robôs não terá nenhuma chance. Danton encostou o carro à parede do corredor e parou. — Aqui está tudo calmo — respondeu sem tomar conhecimento das palavras de Deighton. — Enviarei reforços — anunciou Deighton, que parecia convencido de que o filho de Rhodan não se deixaria convencer a voltar. — Está certo — disse Danton, e virou a cabeça para Monuan. — Enquanto isso vamos dar uma olhada por aí.

Para Fingal foi uma coincidência feliz encontrar um carro em condições de funcionamento depois de ter andado alguns instantes. Com ele talvez conseguisse chegar depressa ao centro de comando e colocar suas bombas. Não perdeu tempo. Entrou no veículo baixo com assento em concha. O carro saiu sem o menor ruído. Fingal levou-o ao centro do corredor. Entrou numa curva. Viu um corredor comprido à sua frente. Bem ao longe havia um carro elétrico. Dois homens estavam saindo dele. Fingal cerrou os lábios. Os dois deviam ter vindo para dar uma olhada na garagem. Fingal viu que olhavam para ele. Fora descoberto. O psicólogo segurou a arma energética, mas logo resolveu outra coisa. Se atirasse nos desconhecidos, eles ainda teriam tempo de avisar a central pelo rádio. Fingal conhecia os astronautas — e tudo indicava que realmente se tratava de astronautas — e sabia que não tomariam a iniciativa de abrir fogo. Por isso o psicólogo teria uma chance. Bancaria o inofensivo e iria ao encontro dos dois. Talvez conseguisse pegá-los de surpresa e atropelá-los com seu carro. Fingal viu os dois homens entrarem no carro elétrico e irem ao seu encontro. O médico sentiu-se triunfante. Tudo estava correndo segundo seus planos. Fingal acenou com o braço. Queria que os dois homens acreditassem que queria falar com eles. Mas não era esta sua intenção. No último instante daria uma guinada violenta e derrubaria o veículo dos imunes. Fingal deu uma risadinha. Parecia que os astronautas não sabiam o que pretendia fazer. Não responderam aos seus acenos. Ainda estavam a vinte metros um do outro quando Fingal viu que o jovem sentado atrás segurava uma arma em posição de tiro. — Pare! — gritou o homem sentado ao volante. Neste instante Fingal o reconheceu. Era o filho de Rhodan! Parecia que a sorte o favorecia mais uma vez. Tinha de dar um jeito de sorrir para os dois. — Pare! — voltou a gritar Danton e levantou a arma. Numa resolução selvagem, Fingal fez girar o volante. Viu o rosto de Danton mudar de expressão. Parecia que o filho de Rhodan imaginava quais eram as intenções do intruso. Apontou a arma. Mas já era tarde. Os dois veículos colidiram.

8
6 de julho de 3.441, tempo terrano. A humanidade mentalmente deteriorada passa fome. Vê-se indefesa diante das catástrofes meteorológicas. A fuga das cidades ajuda poucos, porque o campo logo fica superlotado. São raros os que sabem lidar com as máquinas primitivas. Ferramentas primitivas para o cultivo do solo são trazidas às pressas. Mas os homens já se esqueceram como se cultiva o solo. Quando conseguem lançar a semente, as intempéries destroem os frutos de seu trabalho. Milhares de seres humanos morrem de fome a cada hora que passa. A mortalidade infantil atinge a marca dos setenta por cento. No antigo Gana grassa o cólera, uma doença de que há séculos só se encontram referências em documentos antigos. 6 de julho de 3.441, tempo terrano. As cidades da costa leste da antiga América do Norte estão reduzidas a escombros. Muitas metrópoles estão em chamas. As instalações técnicas que ainda funcionam são desmontadas pelo Homo superior. Terrânia City, a cidade maior e mais moderna da Terra, transformou-se numa cidade-cemitério. Será uma ironia do destino que justamente lá começa a organizar-se a resistência contra o fim que ameaça todos? 6 de julho de 3.441, tempo terrano. Um maremoto inunda metade da Sicília. Das ilhas do Mediterrâneo não chegam mais notícias pelo rádio. O céu azul do Adriático é escurecido por nuvens de trovoada. As temperaturas da região baixaram para cinco graus centígrados — isto em julho! Há dezoito manipuladores de tempo dando voltas em torno da Terra. Ainda funcionam, mas seus impulsos influenciam o clima de forma irregular. A atmosfera agitase violentamente. Na Lua trinta técnicos mentalmente deteriorados são mortos em virtude de um erro de avaliação, quando de repente se forma o vácuo em vários laboratórios. Quem cometeu o erro de avaliação foi a parte biopositrônica de Natã. Os estaleiros lunares não funcionam mais. As remessas de Olimpo são cada vez mais raras. 6 de julho de 3.441, tempo terrano. O número de bandos que se formam na Terra para vagar pelo campo e atravessar as cidades, à procura de alimentos, é cada vez maior. No antigo estado federal do Ohio, nos Estados Unidos da América, dois mil membros de uma seita de fanáticos lutam com vários bandos. Uma usina atômica explodiu durante as lutas. Quatro mil seres humanos foram mortos de uma só vez. A nuvem atômica caminha para o oeste. 6 de julho de 3.441, tempo terrano. Um pequeno grupo de mulheres e homens, que se encontram principalmente em Império Alfa, entraram na luta para evitar o fim que ameaça todos. Estão desesperados e exaustos. Têm seus próprios problemas. Mas tomaram uma decisão: restabelecer a ordem na Terra. Império Alfa é a última chance do Homo sapiens.

Se não for aproveitada, o reinado da humanidade na Terra chegará ao fim. O Homo superior ocupará seu lugar. Mas por pouco tempo. Já se viu que o Homo superior não poderá sobreviver. Representa uma solução híbrida, um capricho da natureza na via tortuosa da evolução. O Homo superior não dá nenhuma esperança à humanidade. 6 de julho de 3.441, tempo terrano. O misterioso enxame atravessa a galáxia. O dia chega ao fim.

9
A explosão expeliu o ar dos pulmões de Opprus e derrubou-o. Respirava com dificuldade enquanto saía, os escombros chovendo sobre ele. O crepitar das chamas atingiu seus ouvidos. Opprus levantou. Nuvens de fumaça impediam a visão. Ao lado dele, uma sombra silenciosa: era Pohklym saindo da fumaça e acenando para ele. — Onde está Gryndheim? — gemeu Opprus. A luz dos faróis não conseguia atravessar a fumaça. Opprus sabia que a qualquer momento podia haver outras explosões que talvez fizessem desabar o teto. Como o equipamento de climatização não funcionava, demoraria algum tempo até que a fumaça desaparecesse. Opprus não sabia se com a última explosão tinham criado uma passagem para o centro de emergência. Ele e Pohklym avançaram tateando para a porta, que até então estivera trancada. Opprus ouviu um gemido. Parou para ouvir melhor. — É Gryndheim — disse Pohklym com a calma de sempre. Opprus olhou em volta. — Gryndheim! — gritou. Foi obrigado a tossir, pois o ar carregado de fumaça encheu seus pulmões. Pohklym desapareceu de novo no meio da fumaça. Decerto saíra para procurar Gryndheim. Dali a pouco Opprus ouviu a voz do antigo agente da Segurança Solar. — Encontrei-o, Opprus. Opprus saiu da direção de onde viera a voz. Encontrou Pohklym perto do sargento gordo. Estava de joelhos. Uma coluna metálica embutida nos painéis de controle comprimia o peito de Gryndheim. Fora arrancada dos suportes e o atingira. Opprus sentou ao lado dos dois companheiros e iluminou o rosto de Gryndheim. O homem obeso fechou os olhos. Estava com o rosto sujo e suado. Opprus não disse uma palavra. Pôs a mão na coluna. Não conseguiu movê-la. Gryndheim quis dizer alguma coisa, mas só conseguiu soltar um gemido. — Temos de destruir a coluna a tiros de ambos os lados — sugeriu Pohklym. — Só assim conseguiremos movê-la. Opprus segurou o companheiro pelo braço e afastou-o alguns metros de Gryndheim. As chamas crepitavam bem perto. Avançavam devagar, porque a maior parte das instalações era de material à prova de fogo. — Parece que está gravemente ferido — disse Opprus em voz baixa. — A coluna esmagou seu peito — respondeu Pohklym. — Deve ter fraturado algumas costelas. Tomara que não tenha sido lesado nenhum órgão interno. — Se os ferimentos forem muito graves, não podemos transportá-lo. — Opprus ligou o rádio. — Pedirei a Deighton que mande dois robôs para cuidarem disto. Os dois voltaram para junto de Gryndheim, que esperava pacientemente para ver o que fariam seus companheiros. Opprus falou com Deighton, informando-o sobre a nova situação.

— Enviarei dois robôs — prometeu o primeiro-mecânico emocional. — Como estão as coisas? Conseguirão chegar ao centro de emergência? Opprus olhou em volta. — Ainda não se pode dizer. Com base no acidente sofrido por Gryndheim pode-se avaliar as dificuldades que enfrentamos. Vou desligar. Quero cuidar do sargento. Pohklym e Opprus atiraram nas duas extremidades da coluna metálica. Depois disso fizeram um grande esforço e conseguiram levantar a parte central que comprimia o peito de Gryndheim. — Sugiro que fique deitado até que cheguem os robôs — disse Opprus. Via-se pelo rosto de Gryndheim que ele concordava. O sargento tentou apoiar-se nos cotovelos. Parecia que qualquer movimento provocava fortes dores, mas ele conseguiu erguer o tórax. Opprus quis obrigá-lo a deitar de novo, mas Gryndheim sacudiu a cabeça. — Deixe-me! O sargento foi-se levantando. Opprus ajudou-o a pôr-se de pé. Gryndheim balançava. — Aqui... aqui é muito perigoso — disse com a voz entrecortada. — Esperarei no arquivo. Opprus seguiu-o com os olhos enquanto desaparecia na fumaça. — Vamos em frente — sugeriu Pohklym. Avançaram até a porta que tinham destruído numa explosão. Os destroços barravam-lhes o caminho. Passaram por cima deles. Perto da porta as chamas tinham sido abafadas por falta de material combustível. Parte da passagem estava livre. Opprus puxou-se por cima de uma parede de metal leve entortada e deixou-se cair do outro lado. — Como estão as coisas do outro lado? — perguntou Pohklym. Opprus iluminou a área. — Não se vê muita coisa — respondeu laconicamente. — Está tudo cheio de fumaça. Opprus espremeu-se por uma fresta entre a parede e a porta arrancada dos suportes. O corredor no qual se encontrava levava ao centro de emergência. Mas Opprus recuou tossindo. — Há muita fumaça — explicou a Pohklym. — Não conseguiremos passar. O agente da Segurança Solar pegou um pano que trazia preso ao cinto, umedeceu-o com o conteúdo de algumas cápsulas de bebida e comprimiu-o contra a boca. Fez um sinal com os olhos para que Opprus seguisse seu exemplo. Dali a pouco entraram no corredor lado a lado. Apesar dos faróis acesos não enxergavam quase nada. A porta que ficava no fim do corredor estava aberta. Opprus não se sentiu nada à vontade. Será que os sabotadores também chegaram ao centro de emergência? Perguntouse. Seria o fim de qualquer tipo de controle meteorológico na Terra. Os meses, talvez até os anos seguintes seriam marcados por temporais violentos. — Parem! — gritou uma voz. Vinha de dentro do centro de emergência. — Parece que já estão à nossa espera — constatou Pohklym. Opprus agarrou a arma, mas logo se lembrou de que qualquer tiroteio poderia causar novas destruições. — Não podemos arriscar-nos a atirar — sussurrou ao ouvido de Pohklym. Pohklym bateu na arma enfiada no cinto.

— Talvez seja um meteorólogo que fugiu para cá depois do ataque. — É possível — concordou Opprus. — Vamos tentar a sorte. Opprus levantou a voz. — Somos Coden Opprus e Janus Pohklym, de Império Alfa. Renda-se. Seguiu-se um silêncio interrompido apenas pelo crepitar das chamas. Nuvens de fumaça escura passavam à frente dos faróis. Opprus suspirou. Não podiam ficar parados toda vida. Numa súbita resolução, saiu andando e entrou no centro de emergência. *** Com a violência do impacto, Danton foi jogado fora do carro elétrico. Ficou com a perna esquerda presa numa alça de travamento e foi arrastado um pedaço. O motor do veículo usado por Fingal era mais forte. O carro elétrico foi levantado junto à parede do corredor. Danton tentou desesperadamente libertar a perna. Virou a cabeça e viu Monuan deitado no chão, a poucos metros de distância. Não se via sinal do desconhecido. Danton achava que ainda devia estar sentado no veículo. A colisão não fora obra do acaso. Danton levantou. A alça na qual ficara preso entortara com o impacto e apertava a perna acima do tornozelo. Um ruído fez Danton levantar os olhos. Um vulto estava passando por cima do carro despedaçado. Era o desconhecido. Estava com o rosto ensanguentado. O estranho chapéu pendia de um lado. O rosto de ave de rapina com os olhos afundados nas covas estava desfigurado pela dor. Mas apesar disso Danton reconheceu o homem. — Dr. Fingal! — exclamou. — Como veio parar aqui? Por que fez isso? Fingal olhava fixamente para Danton. — Não sabe? — disse cochichando. — Ajude-me a sair daqui antes que um dos carros exploda ou se incendeie. — pediu o filho de Rhodan ao psicólogo. Neste momento ouviram-se ruídos vindos detrás de Fingal, que olhou para o lado. Monuan, que estava deitado no chão, tentava erguer-se. — Seu amigo! — afirmou Fingal num tom ameaçador e pegou a arma presa embaixo de seu corpo. Um terrível pressentimento tomou conta de Danton. Lembrou-se de que há anos Fingal fora eliminado da Frota por ter sido provado que ele falsificara psicogramas. Fingal era um dos galactopsicólogos mais afamados. Seu retrato fora publicado várias vezes na imprensa terrana, depois que ele fizera carreira como médico particular. — Fingal! — exclamou Roi. — Não faça bobagens. O senhor está completamente confuso. — Nada disso! — retrucou Garrigue Fingal. — Estou bem. Sei perfeitamente o que faço. Esperava este momento há anos. Um ódio cego vibrava nas palavras do psicólogo. Danton compreendeu que ele queria vingar-se por ter sido demitido. Fingal parecia imune — ou ao menos possuía bastante inteligência para realizar seus planos. Danton olhou para Monuan, que estava de pé, completamente atordoado, olhando em volta. — Deixe-o em paz, Fingal! — disse Danton em tom insistente. — O senhor não tem o direito de atacar-nos. Tente raciocinar. Se é imune, a humanidade precisa do senhor. Fingal deu uma risada selvagem.

— Que é isso? — perguntou Monuan perplexo e olhou em volta à procura da arma. Depois apontou para Fingal. — Esse homem está ameaçando o senhor? — Dê o fora, Monuan! — gritou Danton. — Trate de abrigar-se. O policial acabara de descobrir sua arma, que estava no chão, a três metros do lugar em que se encontrava. Monuan aproximou-se dela e quis abaixar-se. — Monuan! — gritou Danton desesperado. Fingal atirou. Monuan tombou para a frente, cobrindo a arma com o corpo. Danton ficou estarrecido. Olhou para Fingal e compreendeu que também seria assassinado. — O senhor assassinou este jovem, que não teve nada a ver com sua demissão da Frota — disse abalado. — Que tipo de homem é o senhor? Fingal deu uma risadinha e enxugou o rosto com a mão livre. — Estou com o cinto cheio de bombas — disse. — Depois que tiver matado o senhor, continuarei avançando para o centro de Império Alfa e detonarei estas bombas. — O senhor deve ter enlouquecido, Fingal! O rádio de Danton deu o sinal de chamada. Fingal também ouviu. — Pode falar — permitiu. — Ninguém poderá ajudá-lo. — Algum problema? — perguntou a voz de Deighton. — Adams está falando com Opprus. Parece que os três estão tendo dificuldades, apesar de terem chegado ao centro de emergência. Houve uma pausa. Finalmente Deighton perguntou preocupado: — Por que não diz nada? Fingal, que ouvia tudo, deu uma risada de louco. — Que é isso? — perguntou Deighton intrigado. — Um louco — respondeu Danton. — O galactopsicólogo Garrigue Fingal entrou na central para vingar-se da injustiça que diz ter sofrido. Traz consigo bombas que pretende detonar. Deighton engoliu ruidosamente em seco. — Vamos! — fungou Fingal. — Conte o que aconteceu. — Ele matou Monuan — prosseguiu Danton. — E eu estou indefeso diante dele. — Oh! — fez Deighton apavorado. Fingal sinalizou com a alma. — Desligue! — ordenou. Danton ouviu mais uma vez a voz de Deighton antes de desligar. — Não tenho muito tempo — disse Fingal no tom de quem lamenta. — Gostaria de discutir meus planos com o senhor. Garanto que são interessantes, Roi Danton. É uma pena que seu pai não possa estar conosco. Certamente acharia a situação divertida. Danton não respondeu. Viu Fingal levantar a arma e fazer pontaria. Roi fez um esforço desesperado para libertar a perna. Fingal recuou instintivamente e esbarrou com a cabeça na lataria amassada do veículo. O capacete que trazia na cabeça deslocou-se ainda mais. Quando Fingal quis inclinar-se para a frente, a estranha armadura que trazia na nuca ficou presa numa travessa metálica. Os eletrodos desprenderam-se da pele de Fingal. Danton viu a expressão do rosto do psicólogo mudar de repente. A máscara de ódio transformou-se num semblante apático. Os olhos arregalaram-se. Parecia que Fingal se esquecera de onde estava. Deixou cair a arma e balbuciou palavras incompreensíveis. Danton levou algum tempo para compreender que estava salvo. A mente de Fingal se deteriorara.

*** No interior do centro de emergência a fumaça se espalhara em direção ao teto, com o que a visibilidade melhorara de repente. Opprus viu um homenzinho iluminado pela luz do farol. Fazia pontaria contra ele com sua arma térmica. Opprus sentiu-se aliviado ao perceber que o homenzinho usava o uniforme da Segurança Solar. — Pohklym! — exclamou Opprus. — Venha cá. Espero que conheça nosso amigo. O homem parecia desconfiado ao ver Pohklym entrar. Pohklym experimentou uma sensação de alívio ao notar que somente parte das instalações fora danificada. Os equipamentos que não funcionavam provavelmente podiam ser consertados. Pohklym iluminou o rosto do homenzinho. — É Snapper! — constatou laconicamente. — Não conheço seu nome verdadeiro. Encontrei-me com ele em Kalrob. O pessoal o chamava de Snapper. — Acontece que não conheço o senhor! — exclamou o homem que acabara de ser chamado de Snapper. — De fato já estive em Kalrob. Mas gostaria de saber o que o senhor andou fazendo por lá. — Rimmicent Daklom — disse Pohklym em tom calmo. — Tente lembrar. Foi o homem que recebia suas informações. — Se sabe disso, o senhor só pode ser Rimmicent Daklom. — Meu nome é Janus Pohklym. Mas em Kalrob me chamavam de Daklom. Snapper baixou a arma. Cedeu ao cansaço e apoiou as costas numa máquina. Sacudiu a cabeça, dando a impressão de que não compreendia por que os dois homens que estavam à sua frente tinham vindo. — O senhor trabalha no centro meteorológico? — perguntou Opprus. Snapper respondeu que não. — Vim diretamente do porto espacial. Sem querer participei da luta pela estação meteorológica. Talvez tenha sido bom que fosse assim. Defendi este centro pequeno contra dois atacantes e evitei sua destruição completa. Opprus fez um sinal para Pohklym. — Dê uma olhada por aí. Vou falar com Deighton. *** Danton rolou para um lado e puxou a arma que caíra das mãos de Fingal. Destruiu com um tiro energético a alça que prendia sua perna. Fingal assistia a tudo com indiferença. Parecia não se interessar pelo que acontecia em torno dele. Danton levantou. Não podia colocar muito peso sobre a perna esquerda, mas estava em condições de locomover-se. Saiu mancando para perto de Monuan, mas a única coisa que pôde fazer foi constatar a morte do jovem. Em seguida voltou para perto de Fingal. Segurou-o pelo braço e puxou-o para fora do carro. Não disse uma palavra. O rádio deu o sinal de chamada. Danton lembrou-se de que Deighton devia estar desesperado, à espera de notícia. — Tudo em ordem, Gal — disse. — Fingal transformou-se num mentalmente deteriorado. Usava uma espécie de proteção que o tornava imune. — Que tipo de proteção é essa? — perguntou Deighton em tom ansioso. — Talvez possamos usá-la para ajudar outros mentalmente deteriorados.

— Infelizmente tenho de decepcioná-lo — respondeu Danton. — Fingal sofreu um ferimento na cabeça quando era jovem. O aparelho que usava tinha sido ajustado para sua pessoa. Não preencheria a função desejada num cérebro jovem. — Compreendi — disse Deighton. — O importante é que o senhor esteja bem. — O que vamos fazer com Fingal? — perguntou Danton. — Sugiro que por enquanto seja trancado num quarto isolado. Provavelmente não poderá ser responsabilizado pelo que fez. Deighton concordou. — Também tenho boas notícias. Opprus e Pohklym encontram-se no centro de emergência. Pohklym acha que, fazendo um esforço enorme, poderemos consertar os estragos feitos lá dentro de alguns dias. Desta forma talvez não demore muito para voltarmos a controlar os manipuladores do tempo. Além disso Opprus e Pohklym se encontraram com um imune que pertence à Segurança Solar. Danton puxou Fingal pelo corredor. Precisava encontrar um carro estacionado para voltar à sala de comando. — Acho que já posso ir a Olimpo e ver o que está acontecendo lá — disse Danton. — Temos de tomar providências para evitar o colapso da via de containers. É o único meio de garantir o abastecimento da população terrana nos próximos meses. — Pensei que depois de tudo isto quisesse descansar um pouco — disse Deighton surpreso. — O senhor é um gozador, Gal — disse Danton. *** Simão, o semimorto, estava completamente exausto. Sangrava de inúmeras feridas. Constantemente esbarrava em escombros espalhados pelo caminho. A chuva e o vento afetavam seu sentido de orientação. Mas apesar disso ainda se encontrava na rua que levava à clínica do Dr. Garrigue Fingal. O fato de não estar longe do destino mantinha o antigo ladrão de lojas de pé. Se não estava enganado, devia faltar pouco para amanhecer. Era estranho que um cego pudesse desenvolver um sentido para estas coisas. Apalpando com as mãos, descobriu uma porta. O mentalmente deteriorado entrou tropeçando para descansar um instante. Tremia que nem vara verde. Toda vez que a fraqueza ameaçava dominá-lo, lembrava-se do Dr. Fingal, que certamente o ajudaria. Simão, o semimorto, ouviu alguém passar do lado de fora. Encostou-se à parede para não ser visto. Os passos afastaram-se, o perigo passou. Simão, o semimorto, ouviu seu próprio suspiro de alívio. Estava na hora de comer alguma coisa. Conseguira saciar a sede na chuva. Quando fez um movimento, Simão, o semimorto, ouviu alguma coisa rosnando ameaçadoramente atrás dele. Ficou parado. “Um cachorro!”, pensou. Seria um cachorro grande ou pequeno? Simão comprimiu as costas contra a parede e ficou na escuta. Ouviu o animal farejar. Devia estar sentado no chão a poucos metros do lugar em que Simão estava. O semimorto chegou à conclusão de que o cachorro se abrigara das intempéries nesse lugar e acabara dormindo. O cego acordara o animal. O cachorro voltou a rosnar. — Quieto! — disse Simão em tom áspero. — Quietinho!

Sempre de costas para a parede, deslocou-se devagar para a saída. De repente sentiu que o cão iria saltar. Foi um ruído parecido com o estalo de uma mola se descontraindo. Simão cobriu instintivamente o rosto com os braços. Quando o animal o atingiu atirando-o contra a parede, Simão percebeu que se tratava de um cão muito grande e pesado. Suas mandíbulas fecharam-se em torno do pulso esquerdo de Simão. Uma dor lancinante atravessou o braço do mentalmente deteriorado. Simão perdeu o equilíbrio e caiu. O cão estava em cima dele. Um rugido abafado saiu de seu peito. O cego apertou o pescoço do cachorro com ambas as mãos. Quase não tinha força na mão esquerda, mas apesar disso Simão conseguiu puxar a cabeça do animal para baixo e apertar o pescoço na dobra do braço direito. Homem e cachorro rolaram no chão. O animal mordera o pulso de Simão. Soltou-o e tentou atingir o pescoço. O barulho da luta encheu a entrada da casa. Simão sabia que se não matasse o cachorro morreria. Apertou com mais força, mas o cão era forte e sempre conseguia libertar-se. Mordeu o ombro de Simão e puxou-o. A jaqueta molhada e rasgada do cego quase não oferecia nenhuma proteção. — Dê o fora! — conseguiu dizer Simão, o semimorto. — Bicho nojento! Parecia que sua voz enlouquecera o animal, que aumentou os esforços de alcançar o pescoço do homem. Talvez seja o cheiro de sangue que deixa o animal tão agressivo, pensou Simão. O cachorro parou de rosnar. Concentrou-se no adversário. A luta era cada vez mais feroz. O homem percebeu que quanto mais demorava a luta, menores seriam suas chances. Tinha de forçar uma decisão, senão estava perdido. Os dois rolaram pelo chão. Simão empurrou-se com os pés junto à parede e ficou deitado em cima do cão. O hálito quente roçava seu rosto. Apertou cada vez com mais força. O cachorro debatia-se e tentava libertar-se das mãos que o comprimiam. Abria e fechava as mandíbulas, tentando alcançar o pescoço de Simão. Depois de algum tempo Simão, o semimorto percebeu que os esforços do animal diminuíam. Mas não aliviou a pressão das mãos. Finalmente o animal morreu. O cego rolou para o lado. Sentiu que estava desmaiando. A luta enfraquecera-o. Perdeu os sentidos e ficou aliviado das dores. *** Depois de duas horas foi acordado pelo frio e pelas dores. Não sabia que lá fora já tinha clareado. O vento soprava para dentro da entrada. Simão estendeu o braço e tocou com a mão no cadáver do cachorro, que já estava bem frio. As feridas não sangravam mais, mas doíam muito. O cego gemeu quando conseguiu levantar, o que lhe custou um grande esforço. Dr. Fingal, martelaram seus pensamentos. Tenho de procurá-lo. Conseguiu arrastar-se para fora. Esfriara mais. Os pingos de chuva tangidos pela tempestade doíam como alfinetadas. Não muito longe dali alguma coisa caiu de um telhado ou de uma janela e arrebentou, produzindo um ruído parecido com o de uma explosão. Simão tomou a direção em que ficava a clínica do Dr. Fingal. Com a deterioração mental a crença nas capacidades do médico se transformara num conceito abstrato.

A esteira rolante parada se rompera à frente de Simão. Quando percebeu, já era tarde. Escorregou para baixo. Soltou o grito. Os braços estendidos alcançaram uma travessa, mas os tendões do antebraço esquerdo tinham-se rompido durante a luta com o cachorro e não puderam sustentar o peso do corpo do homem, que ficou pendurado no braço direito, incapaz de puxar-se para cima. Simão não sabia até onde cairia. As forças abandonaram-no bem depressa. Abriu os dedos na mão direita e caiu. Bateu no chão e tombou para a frente. Apalpou os arredores. Suas mãos tocaram em concreto polido. Devia ter parado na cobertura de uma casa. Tivera uma sorte incrível. Se tivesse despencado até o nível seguinte, não teria sobrevivido. Simão começou a movimentar-se devagar no telhado. Por acaso conseguiu chegar aos elevadores. Não estavam funcionando. Se estivessem, poderiam transportá-lo à esteira rolante que ficava em cima dele. Mas mais uma vez a sorte ajudou Simão. Descobriu a escada de emergência ao lado dos elevadores. Foi difícil subir por ela, mas Simão conseguiu. Enganchava o braço ferido nos degraus. Finalmente ficou deitado de novo na esteira rolante. Estava tão exausto que ficou imóvel durante uma hora. Os pingos de chuva tamborilavam sobre seu corpo. Certa vez ouviu um grupo de homens passando do outro lado da rua. Fizeram bastante barulho, o que mostrava que se sentiam seguros. Não tomaram conhecimento dele. Provavelmente acreditavam que estava morto. Simão quis gritar por socorro, mas suas cordas vocais não funcionaram. Quando acreditou ter recuperado as forças a ponto de poder seguir seu caminho, levantou e saiu andando. Foi obrigado cada vez mais vezes a apoiar-se na parede de uma casa para descansar. Finalmente entrou na rua em que morava Fingal. Sempre fora uma rua quieta. Parecia que continuava assim. Simão teve de orientar-se pelos limites dos terrenos. A casa de Fingal era a última de uma fileira de casas afastadas. O fato de ter chegado perto do destino deu novas forças a Simão, que passou a andar mais depressa. Teve problemas mais uma vez ao correr para dentro dum planador caído e perder-se entre os destroços. Conseguiu libertar-se com uma pressa selvagem. Não se importou em rasgar sua roupa de vez. Quando finalmente chegou à frente da casa do galactopsicólogo, o antigo ladrão de lojas ficou parado. Pôs-se a escutar, mas não ouviu nada além do uivo do vento e do crepitar da chuva. Talvez Fingal já esteja parado na entrada da casa, à minha espera, pensou Simão, o semimorto. Mas a porta que dava para o jardim à frente da casa estava fechada. Não era muito alta. Simão passou por cima dela. Havia uma porta aberta batendo. Simão seguiu adiante com os braços estendidos. As lágrimas que corriam por seu rosto misturaram-se à chuva. O alívio de ter chegado onde queria foi demais para Simão. Caiu no caminho estreito que levava à casa. — Dr. Fingal! — gritou com a voz rouca. Ficou tudo quieto. — Dr. Fingal! — suplicou o cego. O antigo ladrão de lojas teve uma visão. Parecia que a porta da clínica se abria e o Dr. Fingal saía devagar. Simão imaginou Fingal olhando em volta para ver quem o

chamara. Naquele instante devia ver Simão, o semimorto, deitado no caminho que dava para a casa. Simão viu Fingal apressar-se para vir ao seu encontro. Agora Fingal devia tocar nele. Mas Fingal não veio. Decepcionado e preocupado, Simão, o semimorto, saiu rastejando. Finalmente alcançou a porta da casa. Estava trancada. Simão, o semimorto, começou a ficar preocupado de verdade. Será que o Dr. Fingal estava em casa? — Dr. Fingal! — gritou. Ninguém respondeu. Simão bateu na porta com o punho cerrado. As pancadas surdas ressoaram pela casa, mas não se ouviu o ruído de passos aproximando-se da porta. Talvez o Dr. Fingal tivesse saído por um instante para cuidar de um paciente. Mais calmo com esta ideia, Simão deitou de costas. De tão cansado que estava, adormeceu. Dali a algumas horas foi acordado por um trovão violento. Estava muito fraco e febril. Parecia que ninguém chegara ou saíra, senão certamente teriam levado Simão para levá-lo para dentro da casa. Talvez o Dr. Fingal tivesse dormido. Já poderia ter acordado. Simão esmurrou a porta com o punho cerrado. — Deixem-me entrar! — choramingou o cego. — Não quero ficar deitado aqui. Está fazendo muito frio. Um sistema de abastecimento de energia explodiu em um dos edifícios vizinhos. O barulho podia ser ouvido a grande distância. Simão esperava que este barulho finalmente atraísse Fingal. Depois de mais algum tempo Simão ouviu o ruído de passos. Eram passos firmes. Simão lembrou-se de que Fingal costumava fazer pouco barulho ao caminhar. Mas sua confiança cresceu quando os passos se detiveram junto ao portão. Alguém saltou para o jardim. O homem — pelo ruído dos passos só podia ser um homem — parou à frente de Simão. — Dr. Fingal? — perguntou uma voz espantada. — O senhor é o Dr. Fingal? Os olhos cegos de Simão fixaram-se no nada. — O que fizeram com o senhor? — perguntou o homem em tom preocupado. Simão ouviu o desconhecido virar-se abruptamente e sair andando. Dali a pouco o ruído de seus passos foi abafado pela chuva. Simão, o semimorto, voltou a ficar só. Conformou-se com a ideia de que o Dr. Fingal só voltaria de noite. Devia estar muito ocupado. Simão, o semimorto, atravessou as horas seguintes em meio aos delírios da febre. Ficou deitado à frente da porta da casa. Sabia que não tinha forças para arrastar-se para um lugar seguro. Suas feridas doíam. Mas a fé nas faculdades milagrosas do Dr. Fingal manteve vivo Simão, o semimorto. Ficou deitado, esperando. Esperou até o fim do dia, toda a noite e o dia seguinte. Mas não veio ninguém. Finalmente Simão, o semimorto, resignou-se e morreu.

*** ** *

Para sobreviver, a Terra tem de estabelecer contato com outros mundos. Roi Danton, que quer promover este contato, segue pela via de transmissores que leva a Olimpo — e ativa O Cavaleiro da Espada Chamejante... O Cavaleiro da Espada Chamejante — é este o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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