(P-506

)

A DEUSA DOS SIMBIONTES
Autor

H. G. EWERS
Tradução

AYRES CARLOS DE SOUZA
Digitalização

VITÓRIO
Revisão

ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)

Julho do ano 3.441 — tempo terrano — está chegando ao fim. Perry Rhodan, que voltou há pouco tempo da galáxia Gruelfin para a Terra, viu-se diante das ruínas daquilo que fora construído com muito trabalho durante séculos. Ele deixou para trás a experimentada Marco Polo, no espaçoporto de Terrânia City, e junto com 60 companheiros, entre os quais Gucky e Atlan, partiu novamente para o Incerto, com a Good Hope II, uma astronave pequena, especialmente equipada. Perry Rhodan tem por objetivo investigar o misterioso “Enxame” que irresistivelmente penetra, cada vez mais, na galáxia. Ele parte da hipótese de que poderiam encontrar um antídoto contra as manipulações da constante de gravitação, que partem do “Enxame”, e que provocam a imbecilização da maioria das inteligências, ou então, pelo menos dissuadir os dominadores do “Enxame”, de atravessarem a Via-Láctea. O primeiro avanço de Perry Rhodan foi para o “Planeta dos Cavadores”, um mundo na periferia da galáxia, pelo qual o “Enxame” já tinha passado. Agora, depois das aventuras naquele mundo desértico, pretendem investigar um Sistema Solar que está sendo iminentemente ameaçado pelo “Enxame”. A Good Hope toma a rota do Sistema Lignan, onde novamente acontece um encontro decisivo — um encontro com A Deusa dos Simbiontes...

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Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — O Administrador-Geral manda um SOS pelo rádio. Push-Push 2301 — Um nativo do planeta Tonturst. Borro Gane — Deusa dos Simbiontes. Reginald Bell — O Marechal-de-Estado parte para uma nova missão de socorro. Gucky — O rato-castor é tido por um deus. Lesska Lokoshan — O kamashita domestica um monstro.

1
Push-Push 2301 parou de mastigar. Uma metade do animal parecido com um sapo ele segurava na mão, a outra metade ainda emergia em parte da comporta de digestão acima do estômago. De dentro dos véus de poeira, que nublavam o deserto de Tromirab, penetravam os ruídos abrasivos de amelners correndo. Junto com estes, porém, ainda havia outros ruídos que Push-Push 2301 não conseguiu definir imediatamente. O tonturster enfiou a metade do bicho que sobressaía da comporta de digestão para dentro do estômago, com seu punho nodoso, de modo que a tampa de pele pudesse fechar-se. A outra metade do animal ele deixou cair. Depois ele virou o rosto em formato de concha, abaulado para dentro, para os véus de poeira. O órgão múltiplo dos sentidos, com o olho em forma de lente na ponta, a concha do ouvido em formato de funil e o setor do olfato, tremeram ligeiramente. Push-Push 2301 arrebanhou a sua capa trançada e retirou-se, caminhando de costas, para trás das aletas da popa, cinza embotadas, da nave interplanetária. Ele não sentia medo, pois nenhum tonturster temia os amelners. Estes seres existiam apenas para servir de escravos aos tontursters. Porém havia os outros ruídos, que ele não conseguia se explicar. Push-Push procurou nos fragmentos de memória que lhe haviam sobrado depois da catástrofe. Naturalmente ele não se dava conta da catástrofe. Apenas sabia vagamente que a sua memória, cada vez mais o deixava na mão, de uma maneira fatal. O crepúsculo caiu sobre a paisagem, quando nuvens cinza-azuladas passaram lentamente pelo céu. Pouco depois caiu uma tromba-d'água, engoliu os véus de poeira e transformou o deserto de Tromirab num mar de lama, pois a região do deserto encontrava-se dentro de um caldeirão chato de pedras permeáveis à água. Com a mesma velocidade que a trovoada viera, desapareceu novamente. A vista clareou, e Push-Push 2301 viu dois amelners que, com suas pernas em forma de tripé, passavam pela lama na direção da margem pedregosa. Estas criaturas, com seus troncos globulares, pescoços compridos e as cabeças entalhadas como um grão de café, tinham — em medidas terranas — cerca de 2,70 m de altura e possuíam quatro asinhas vibratórias semitransparentes, com as quais naturalmente não podiam voar, mas que os ajudavam a não afundar na lama. O amelner que vinha na frente usava uma cobertura de costas, confeccionada de pérolas coloridas. O seu pescoço estava pintado em cores berrantes, o que o destacava como caçador-Coch. O segundo amelner estava envolvido num cobertor de cabelos pretos, brilhando azulado. As placas de ouro em ambos os lados do crânio indicavam que ele era um sacerdote de Borro Gane. Push-Push não se preocupou em saber de onde tinha tirado estes conhecimentos, apesar de anteriormente ter procurado inutilmente em seus fragmentos de memória. Ele também não se admirou em ver aquela coisa que pairava atrás dos dois amelners por cima do mar de lama, um cone duplo de metal dourado, com uma mossa na superfície básica do cone superior, de pé na ponta, de dentro do qual emergia uma ânfora de cristal, brilhando iridescente. O tonturster sabia que aquele cone duplo pairante era um Lap, o protetor robótico da Borro Gane, que se encontrava dentro da ânfora de cristal.

Ele saiu detrás da aleta de popa, cruzou os braços sobre o torso, de modo que as mãos nodosas estavam às suas costas, e disse em amelnico: — Eu te saúdo, Borro Gane. Push-Push 2301 é teu servo. O que devo fazer? — A Borro Gane manda retribuir a sua saudação através de mim — ecoou uma voz estranhamente modulada, vinda do robô de cones duplos, que se chamava Lap. — O caçador-Coch chama-se Mugeirach. O Sacerdote chama-se Allaleit. Você vai conduzirnos para dentro da nave interplanetária e nos levará para o seu mundo, Tonturst. — Eu sigo as suas ordens, Borro Gane — retrucou Push-Push 2301. Quando mencionaram Tonturst ele deu-se conta de que esperara muito tempo por isso, pelo conhecimento de que ele não pertencia a este mundo. Além do mais, isso despertou uma vaga lembrança do seu antigo Kamlest, seu território de atividades. Ele tivera alguma coisa a ver com um negócio que se chamava ciência, era membro da casta-chave de Tonturst, de sete cabeças, e através de um comércio de sucesso com escravos amelnicos, tinha chegado a grande fortuna e respeito. A ele pertencia o único estaleiro em Tonturst capaz de construir naves interplanetárias. Push-Push tentou lembrar-se de como funcionava uma espaçonave, mas isso parecia-lhe extremamente difícil. Ele sabia apenas que com elas era possível vencer as gigantescas distâncias entre os planetas do Sistema Lignan. Mesmo assim ele virou-se obedientemente, e caminhou objetivamente para a plataforma do elevador que ficava entre as aletas da popa. Os dois amelners, bem como o robô com a Borro Gane, o seguiram. Os amelners pareciam inseguros, eles se movimentavam como se fossem marionetes guiados por fios invisíveis. Quando todos se encontravam sobre a plataforma, Push-Push 2301 apertou um botão na caixa que estava montada sobre a placa de cobertura entre o elevador e a parede de bordo. Um forte eletromotor rugiu, e a plataforma arrastou-se nos trilhos-guias para cima, na direção da escotilha da eclusa fechada. Push-Push 2301 sabia como o elevador funcionava. O seu quociente de inteligência original excepcionalmente elevado, também fora diminuído pela manipulação da constante gravitacional — o que ele também não podia saber, porque lhe faltavam possibilidades de reconhecimento para isso — mas ainda era praticamente tão alto como o de um tonturster médio antes da catástrofe. Isto ainda era suficiente também para manipular o mecanismo da eclusa, e para subir para a central de comando, com o elevador do eixo horizontal, no interior da nave. Ali, entretanto, diante da quantidade desconcertante dos controles e comutadores, a inteligência retardada do mercador de escravos era insuficiente. Para isso estabeleceu-se uma outra coisa, algo que já dormitava nele há muito tempo e que era guiado de fora do seu corpo — uma diminuta estaca daquilo que se chamava Borro Gane e que era dominado por ela. Push-Push 2301 sentou-se no assento do piloto e afivelou-se, sem que este movimento lhe fosse inteiramente consciente. Mugeirach e Allaleit tomaram lugar em outras poltronas e também se afivelaram. Os seus longos braços e pernas destacavam-se em ângulos estranhos dos seus torsos globulares. Lap pairou para trás de Push-Push 2301 e permaneceu ali. Hesitantes a princípio, mas depois com uma segurança cega cada vez maior, as mãos do tonturster se movimentaram. Elas apertaram teclas e puseram em movimento um mecanismo complicado, do qual o proprietário somente sabia ainda pouca coisa. Dos reatores azul-negros e manchados da popa da nave saíram feixes de labaredas. Dois membros imbecilizados da tripulação, que tentavam voltar, instintivamente, para a

nave, saíram correndo em fuga, daquele calor infernal. Eles acabaram caindo no mar de lama, e dentro de segundos tinham desaparecido. A nave tremia sob as vibrações dos aparelhos funcionando. O fogo dos propulsores foi encoberto pelo vapor e pela fumaça, além de terra turbilhonada, depois o elegante corpo do foguete subiu, tomou-se mais rápido e finalmente varreu para os céus, impulsionado pelas suas turbinas. Push-Push 2301 agia como num sonho. Ele guiava a nave com mão segura, sem saber muito bem o que estava fazendo, isoladamente. No limiar do espaço, foi separado o primeiro estágio. O segundo estágio levou a nave para uma órbita, na qual esperava a aparelhagem de fusão que fora deixada para trás. Depois que Push-Push 2301 também tinha separado o segundo estágio, ele executou a manobra de docking, ativou a ligação de controle e de comando para a aparelhagem de fusão, e com ajuda do pequeno computador quântico, colocou a rota para Tonturst, ligando o propulsor de fusão exatamente no momento certo. Mais uma vez a nave estremeceu, quando a primeira série de descargas de fusão receberam ignição em pequenos espaços de tempo, dentro do refletor semi-esférico do aparelho principal, e as ondas de choque das explosões nucleares se transmitiram à nave. Dentro de poucos minutos a nave alcançou a velocidade que devia levá-la a Tonturst em duas semanas e meia — cálculo de tempo terrano. Porém apenas poucas horas se passaram quando tocou o apito de alarme. As telas de vídeo dos refletores a laser ativaram-se automaticamente e mostraram diversos objetos espaciais curiosos, que PushPush 2301, se fosse um terrano, teria comparado, devido a sua forma, com arraias de aguilhão terranas. As “arraias de ferrão” simplesmente estavam no meio do Sistema Lignan, sem que tivessem voado para dentro dele. Push-Push 2301 naturalmente não podia saber que além do espaço normal, tridimensional, ainda existiam outros tipos, e que espaçonaves com a propulsão correspondente eram capazes de se movimentarem através destes outros espaços. Fascinado, o tonturster observou aquelas formações que pairavam como que à deriva, preguiçosamente — até que uma delas se virou e apontou o seu longo “ferrão” diretamente para sua nave. Push-Push 2301 viu raios luminosos berrantes, e logo ficou completamente escuro. Ele quis levantar-se e gritar, mas alguma coisa pressionou-se palpavelmente contra o seu cérebro e obrigou-o a permanecer quieto, no seu assento. No momento seguinte a escuridão se foi, e através da viseira trapezoidal da proa, o tonturster reconheceu, logo abaixo de si, um cenário de crateras, parecendo verde-acinzentadas e bastante imprecisas, e por cima e muito distante, a foice escondida por nuvens, de um planeta. Tonturst! O pensamento veio de fora à sua consciência. Ele achou que era o seu próprio. A circunstância de que a sua nave tinha deixado para trás a distância Ameln-Tonturst, para a qual ele geralmente precisava de duas semanas, no decorrer de apenas poucas horas, deixou o mercador de escravos perplexo. Para mais que isso a sua inteligência retardada não servia. Provavelmente para sorte sua. Alguém que não tinham nenhuma ideia a respeito de espaços supradimensionados, de dobras espaciais ou de curvaturas do tempo, talvez acabasse completamente doido. Deste modo passaram-se apenas poucos minutos até que Push-Push 2301, novamente com exclusão de seu consciente, executou as comutações seguintes. Com ajuda do computador quântico ele guiou a nave para a órbita de rendez-vous em volta de

Tonturst e acoplou a mesma na unidade de aterrissagem, depois de haver desacoplado a aparelhagem de fusão. Depois disso, ele e seus acompanhantes embarcaram na unidade de desembarque, que logo em seguida separou-se da nave interplanetária. Push-Push 2301 pediu sinais de goniometragem, para poder orientar-se. Os sinais de goniometragem não vieram. Ninguém respondia lá de baixo. O tonturster ficou assustado. E aquilo não veio dele mesmo, mas de fora. — Não é de se excluir — disse Borro Gane com ajuda de Lap — que o retardamento das inteligências não se limitou apenas ao planeta Ameln. Você precisa tentar levar a unidade de aterrissagem sozinho para baixo, e, se possível, para bem perto do seu espaçoporto. Eu vou ajudá-lo. Novamente Push-Push 2301 movimentou-se como um autômato. Ele deu início ao pouso. Logo o plasma em chamas congestionou-se diante do escudo de calor da unidade de aterrissagem. A nave foi ricocheteada de volta pela atmosfera, e depois mergulhou mais lentamente e num outro ângulo na camada atmosférica. Quando passou pela densa coberta de nuvens, Push-Push 2301 viu as bandeiras de fumaça dos inúmeros vulcões. Por baixo da nave rebrilhava a superfície azul-cinza de um oceano. No horizonte surgiu uma serra de montanhas. Quando a nave se aproximou mais, o tonturster viu, diante da cadeia de montanhas, uma planície levemente ascendente, com pântanos e florestas alternadas. Nem em cima de uma colina em forma de escudo, toda branca, amontoavamse estreitamente edificações de pedra em forma de cubos, envoltas em um cocar de largos muros de pedra. Isso devia ser Ashlush, pensou Push-Push 2301. Se isso estava correto, então o espaçoporto ficava ainda para além da cadeia de montanhas. Ele começara muito cedo com a aterrissagem, devido a falta dos sinais de goniometragem. Nisto ele não podia mudar mais nada. O combustível da unidade de pouso não era mais suficiente para “saltar por cima” da serra de montanhas, para aterrissar suavemente por trás dela. O tonturster resolveu pousar ainda antes das montanhas. Ele ativou os propulsores de frenagem. Poucos minutos mais tarde a nave pairou em cima de suas colunas de chamas dos propulsores de frenagem, logo acima da floresta virgem, cortou seu movimento horizontal por cima do largo banco de areia de uma torrente e desceu lentamente para o solo. Com um leve solavanco, os pratos de aterrissagem tocaram o chão. A nave curvouse ligeiramente para bombordo e depois ficou parada. Push-Push 2301 ativou os microfones externos e ficou escutando os múltiplos ruídos da mata virgem. Ele estava novamente em casa, mas sabia, que não era o mesmo que antes... *** A nave globular de cem metros de diâmetro tinha deixado para trás de si, nestes últimos dois dias, o sol Rubi ômega com os planetas da HiddenWorld (Mundo Oculto), tinha voado em volta do gigantesco Enxame e agora voava na direção de um sol amarelo do tipo GO. Durante este voo, entrementes, tinham deixado para trás exatamente cento e sessenta e cinco dias — e em algum lugar deste trecho, vencido em grande parte em voo linear, tinha-se rastreado um robô à deriva no espaço, tomando-o a bordo. Quatro pessoas estavam de pé em volta do robô, grampeado em cima de uma mesa de testes — os “gêmeos cósmicos” Kasom e Kosum, o Mestre da Fauna kamashita Lesska Lokoshan e o halutense Icho Tolot, que usava o colar de brilhantes eufolitas, que Flinder Text Grupo, da Hidden World I, lhe havia deixado.

— Nenhuma adição de plasma? — perguntou Kasom. O ertrusiano havia se acocorado, devido ao seu tamanho enorme, para não precisar constantemente olhar Kosum de cima. Kosum sacudiu a cabeça. — Somente sua positrônica, só que não é terrana. Eu gostaria de saber de onde veio essa coisa! Tolot deu uma gargalhada homérica, apesar de não haver nenhum motivo para graça, nem mesmo para a mentalidade halutense. Mas a eufolite de Hidden World I, não apenas anulava o retardamento de sua inteligência, como também lhe dava uma euforia adicional, como já revelava o próprio nome do colar. Kosum e Lokoshan colocaram ambas as mãos nos ouvidos. Kasom colocou sua mão enorme sobre a boca do halutense, até que a risada de Tolot parou. — Desculpem-me, amigos — declarou Icho. — Mas a ideia de que esse robô possa ser originário de uma civilização que nos seja desconhecida, pareceu-me tão absurda que... — O robô que através do cosmo caiu... — declamou Mentro Kosum, — ... o mistério não diminuiu. — Eu não consigo me livrar da suspeita de que o quociente de inteligência de Kosum sofreu com a manipulação da constante de gravidade, apesar das afirmações em contrário — murmurou Lesska Lokoshan. — De qualquer modo, ele antigamente fazia versos melhores, apesar de serem sempre ruins. Ele abaixou-se quando o emocionauta fez menção de golpeá-lo e disse rapidamente: — Eu sou muito menor que o senhor. Deixe-me em paz, ou grito por socorro! Mentro Kosum baixou a mão, sorriu irônico e retrucou: — Neste caso faça o possível para que a sua boca, de futuro, tenha uma relação mais saudável com o seu corpo de anão, Loki. Nem sempre eu sou tão condescendente. Ele quis dizer mais alguma coisa, mas uma leve cotovelada nas costelas, da parte de Kasom, lembrou-lhe que ele tinha um trabalho a fazer. Nem os dedos de Kasom nem de Tolot eram adequados para desmontar a cobertura do cérebro do robô, com ferramentas comparativamente diminutas, sem causar-lhe danos. O emocionauta pegou novamente na sua ferramenta, anuiu para o kamashita e depois os dois homens continuaram o seu trabalho. Cerca de dez minutos mais tarde, o cérebro positrônico do robô estava liberado. Era um complexo compacto, encaixado de modo a oferecer segurança contra impactos, que mostrava similaridades bastantes com cérebros positrônicos conhecidos, para ser identificado como tal, mas por outro lado mostrava certas diferenças, que revelavam que ele não fora construído por uma civilização conhecida. — Talvez ele venha de dentro do Enxame — observou Tolot, pensativo, batendo levemente contra o corpo verde-garrafa do robô. Lesska Lokoshan pegou um potenciômetro e testou o potencial eletrônico das ligações cerebrais. Também aqui ele verificou divergências das normas conhecidas, apesar de serem apenas diminutas, uma vez que toda tecnologia, ainda que fosse muito exótica, tinha que ater-se sempre às leis da natureza, válidas em todas as partes, para todas as construções. O kamashita ficou refletindo se a última observação de Tolot poderia aproximar-se da verdade. Ele chegou a conclusão de que, pelo menos, não era de se excluir a mesma. Talvez o robô viesse de um mundo que tinha sido destruído pelo Enxame. — Se, pelo menos, ele falasse! — disse ele, amargo.

— Talvez não tenha sido destinado a isso, por seus construtores — achou Tolot. — Ligue-o simplesmente ao setor de comunicações do computador positrônico de bordo, Lokoshan. Lesska olhou, interrogativo, para o ertrusiano. Toronar Kasom era, deles, quem tinha que tomar as decisões. — Sabe fazê-lo? — perguntou Kasom. Lesska anuiu, silenciosamente. — Então faça-o! O kamashita fez as ligações e comutações necessárias. Mentro Kosum ajudou-o nisso. O emocionauta é que conhecia melhor as positrônicas de todos os tipos, e dava valiosas indicações a Lesska. Poucos minutos mais tarde, a positrônica estranha estava ligada com o setor de comunicações do computador de bordo. O circuito de acoplamento passava através de um aparelho de tradução, uma vez que não se podia esperar que um robô vindo de uma civilização desconhecida falasse intercosmo. Toronar Kason tomou o microfone na mão e perguntou: — Você pode me entender, robô? O alto-falante ficou mudo. Quando Kasom começou a ficar impaciente, o computador de bordo avisou pelo intercomunicador, que estava trabalhando junto, e com a colaboração do robô estranho, na produção de uma base de tradução, e que levaria ainda mais ou menos uns cinco minutos, até que fosse possível um entendimento acústico em intercosmo. Exatamente decorridos cinco minutos, o robô disse, através da comutação conjunta com o computador positrônico de bordo: — Eu consigo ouvir e entender as suas palavras, parceiro de comunicação. Vocês conservaram minha existência. O que me pedem em contrapartida? — Somente algumas informações — declarou o ertrusiano. — Qual foi o povo que criou você, robô? — O povo dos Zakh. Você o conhece? — Não. Ele vive nesta galáxia? — Eu não sei. Qual é o número-código desta galáxia? Os três seres humanos e o halutense se entreolharam e encolheram os ombros. — Ela não tem um número-código — respondeu Kasom. — Não tem sequer um nome. Nós a chamamos de galáxia da Humanidade, porque civilizações criadas por seres humanos preponderam na mesma. Mas, qual é o nome da galáxia na qual vivem os seus construtores? — Ele é designada por um símbolo matemático, que não é possível reproduzir acusticamente. A sua positrônica poderá expressá-lo. — Isso não nos ajudará muito — interveio Kosum. — Essa civilização poderia existir na nossa galáxia, sem que isso fosse possível de ser determinado numa conversa, porque as suas designações e as nossas não coincidem. De qualquer maneira não poderia tratar-se de terranos, ou seja, de seres viventes parecidos com os humanos. Lesska Lokoshan anuiu, concordando. O corpo do robô era, no máximo, aproximadamente humanóide. Ele possuía duas pernas na parte inferior do torso triarticulado, porém o torso do meio continha quatro braços e o superior dois, e o crânio de aço tinha o formato de uma bola de futebol elíptica, cada uma com dois órgãos de visão na frente e atrás. O material do corpo também era desconhecido. Parecia ser um metalplástico semitransparente.

Mentro Kosum descreveu ao robô o Enxame, na medida em que isso lhe era possível, depois das observações óticas insuficientes, e as telemedições frequentemente interferidas. Depois perguntou se ele tinha vindo deste Enxame. — Indiretamente, sim — respondeu o robô. — Eu acompanhava uma alcontana, e durante uma passagem de lentes nós acabamos sendo apanhados por uma sucção hiperenergética. Os meus circuitos de comutação sofreram uma sobreposição de ondas desconhecidas e somente funcionaram novamente quando eu já estava à deriva, do lado de fora do Enxame. Por isso não sei dizer o que aconteceu com a alcontana e qual é o aspecto interior dessa formação que vocês chamam de “Enxame”. Eu o conheço somente de fora, com exceção de uma diminuta unidade de tempo, quando eu me encontrei no interior de uma bolha de energia, de múltipla reflexão. — O que é uma alcontana? — perguntou Toronar Kasom. — Eu não estou autorizado a fornecer essa informação. Uma alcontana possui grande poder, mas ela precisa poder trabalhar sem ser perturbada, para poder aplicar este poder utilmente. — Você desconfia de nós, apesar de o termos salvo? — perguntou Mentro Kosum. — Eu não desconfio nunca — retrucou o robô. — Eu apenas me mantenho fiel aos meus princípios básicos, e minha existência não preenche qualquer outro sentido, além do de proteger as alcontanas contra qualquer interferência. Kasom assobiou estridentemente, entre os dentes. — Quer dizer que você também está atado a princípios básicos, como os nossos próprios robôs! Interessante! Como se chamam as leis robóticas estabelecidas para você? — Não se trata de leis robóticas, mas de leis de vigilantes — retrucou o robô. — A primeira diz: Um vigilante não deve causar danos a qualquer alcontana ou a um dos seus logoportadores, ou permitir, através de atividades secundárias e passividade, que uma alcontana ou um dos seus logoportadores sejam prejudicados. — Isso corresponde, no seu sentido, às nossas leis robóticas — interveio Kosum. — Qual é a segunda lei, robô? — Um vigilante tem que executar todas as ordens que lhe são transmitidas por uma alcontana, ou então aquelas que ele mesmo pode se dar para o benefício de uma alcontana. — Aí não falta a restrição de que tais ordens somente podem ser executadas quando elas não estão em contradição com a primeira lei? — perguntou Tolot. — Isso é supérfluo, pois a primeira lei tem a primazia sobre todas as outras leis. — E há mais algumas outras leis? — perguntou Lesska Lokoshan. — Há mais uma — disse o robô. — Um vigilante tem que esforçar-se em proteger sua própria existência, enquanto for sensato, ou enquanto existe a previsão de que possa vir a ser sensata novamente. Ele somente poderá trabalhar em conjunto com inteligências estranhas, se isso não possa trazer desvantagens previsíveis às alcontanas e seus logoportadores. Essa é minha última informação. Como não estou em situação de decidir, se uma cooperação continuada com vocês possa ou não trazer desvantagens às alcontanas e seus logoportadores, terei que me manter passivo, até que tenha novas e decisivas informações à disposição. Houve um ruído seco no alto-falante, depois o robô silenciou. As quatro pessoas se entreolharam. — O que são alcontanas? — murmurou Mentro Kosum, pensativo. — E o que são logoportadores? — E o que é uma passagem de lentes? — concluiu Kasom.

Ele olhou interrogativamente para o halutense. Icho Tolot disse: — Eu nunca ouvi estas designações. Pela coordenação do sentido, entretanto, podemos concluir que os logoportadores estão, em posto, abaixo das alcontanas, e que existem mais logoportadores do que alcontanas. — E essas passagens de lentes... — interveio Lesska Lokoshan — ...provavelmente são alguma coisa adequada a transmissões. Antes que alguém pudesse responder alguma coisa a respeito, a central de comando avisou pelo intercomunicador que a Good Hope II, dentro de poucos minutos, voaria para dentro do Sistema Lignan. Kasom e Kosum, Lokoshan e o halutense foram chamados à central de comando. Eles desconectaram as ligações, através das quais o robô estranho estava ligado com o computador positrônico de bordo, e ativaram o gerador do campo de escudos, que envolvia o robô junto com a mesa de testes num casulo de energia de quinta dimensão. Quando entraram na central de comando, foram saudados por Aronte, que pediulhes que se aproximassem da mesa de mapas. *** Aronte, pedotransferidor takerer e ex-piloto da cápsula de comando de Vascalo, chamado o Torto, tinha sido feito prisioneiro pelos terranos durante as lutas em Titã, depois de ter salvo a vida de Álea Onandere, chefe das estações de rastreamento de Titã. Depois do fim da guerra, Aronte decidiu ficar na galáxia da Humanidade. Disto, Álea Onandere não era inocente. Ela e Aronte tinham assinado um contrato matrimonial — e levavam uma vida muito feliz, antes da constante de gravitação galáctica ter sido manipulada, e com isso se provocou uma imbecilização galáctica. Álea não fora imune contra isso, como Aronte. Ela se transformara numa menina artificial, faladeira, com a maturidade psíquica de uma criança de doze anos de idade, sem possuir a mesma sabedoria de uma criança dessas. Como, devido a situação caótica reinante em toda parte, não havia ninguém que pudesse cuidar dela, Aronte a tinha levado consigo na viagem. Ela ficava na cabine dele, e ele sempre a trancava cuidadosamente, quando a deixava sozinha. Logo depois do começo da catástrofe, ele se colocara à disposição de Roi Danton. Perry Rhodan olhou, sério, para os presentes. Atlan estava sentado ao seu lado, e parecia perdido nos seus pensamentos. — Conforme eu já mencionei há dois dias atrás, depois de termos examinado um mundo tocado pelo Enxame, deveríamos voar para um planeta que se encontra pouco antes da passagem do Enxame. O sistema solar, no qual agora estamos penetrando, preenche este pressuposto. Os cálculos, que fizemos baseados no Enxame, resultaram em que o Sistema Lignan provavelmente será tocado por um braço lateral do Enxame. Isso vai acontecer entre uma ou no máximo duas semanas. Portanto, temos tempo de procurar um planeta no qual, tomando em conta todas as medidas de precaução, vamos poder pousar com a Good Hope. — Na realidade não temos muita escolha — interveio Atlan, sem olhar para o terrano. — Dos três planetas de Lignan, de acordo com o Catálogo Árcon, somente um é desabitado, ou seja, Caraprien. Em Ameln e Tonturst existem populações relativamente pequenas, que não são descendentes de colonizadores e sim nativos. — Isso é bastante incomum, não é mesmo? — observou Lokoshan. — Normalmente uma helioecosfera reúne entre dois ou três planetas, mas somente um deles

desenvolve os pressupostos de uma evolução de seres vivos conscientemente pensantes. O resto geralmente só apresenta formas de vida menores — sempre que não se trate de um gigante de alta pressão do tipo Júpiter. O arcônida somente agora parecia estar acordando de sua distração. Ele virou a cabeça e olhou atentamente para o kamashita. Depois sorriu e disse: — A sua objeção é absolutamente correta, Lokoshan; entretanto não posso concordar com ela. Eu não sei mais o que se encontra no velho Catálogo Árcon. Os comandos de investigação de meu povo podem ter feito muita coisa errada, mas eles registraram os fatos exatamente. Ao que parece eles nem sempre procuraram pelas causas que haviam por trás dos fatos. Perry sorriu. — Sinto muito, mas eu quero pedir que todas as discussões científicas, a respeito de heliosferas e coisas assim, sejam deixadas de lado. — Justamente você, diz uma coisa dessas — interrompeu-o Atlan. O arcônida parecia muito sério. — Geralmente você nunca desistiu de procurar por respostas a perguntas em aberto. Perry baixou a cabeça. — É que as coisas nunca foram tão ruins para a Humanidade — murmurou ele. — Nós gostaríamos e precisaríamos fazer tanta coisa, e não conseguimos liquidar nem o mais premente, se é que vamos conseguir liquidar alguma coisa. Ele suspirou e ergueu a cabeça. — Vamos tomar os fatos como eles são. Ameln e Tonturst são habitados por inteligências, portanto não servem para uma aterrissagem. Nós sabemos, através de experiências dolorosas em Hidden World I, que mesmo inteligências pacíficas, devido à imbecilização, conseguem cair numa agressividade patológica, atacando até mesmo aqueles que querem ajudá-los. — Caraprien, o terceiro e mais externo planeta, é um mundo sem atmosfera, sem flora e sem fauna. De acordo com o Catálogo Árcon ali nunca existiu vida. Nós vamos pousar ali, e nos preparar para observar a passagem do Enxame. Antes, naturalmente, vamos fazer uma teleobservação dos dois outros planetas. Ele ligou o intercomunicador para a central de rastreamentos e perguntou se já havia resultados de medições. — Nenhuma emissão energética suspeita — avisou o técnico do rastreamento. — Em Tonturst, naturalmente, reina uma forte atividade vulcânica. Eu não sei se isto é significativo para nós. — Não — respondeu Rhodan. — Tonturst, de acordo com o Catálogo Árcon, é um mundo jovem em relação com a Terra, com forte atividade vulcânica. Ele interrompeu a ligação e virou-se para Senco Ahrat. — Mande voar diretamente para Caraprien, Ahrat. Eu acho que, até entrarmos em voo de aproximação para o pouso, já estaremos sabendo de muito mais a respeito do Sistema Lignan. Ahrat anuiu e ordenou, através do seu telecomunicador de pulso, a um dos seus assistentes, um rapazote de dezesseis anos, de cabelos ruivos, único de um grupo de saltadores que não fora infantilizado, a levar a Good Hope para um voo de aproximação. Evlesan (era este o nome do jovem saltador) entendia surpreendentemente bem da pilotagem de astronaves terranas, razão porque Perry Rhodan julgara a princípio que o seu clã antigamente praticara pirataria. Mas Evlesan não falou a respeito e os dois telepatas se recusaram a espionar nos pensamentos do jovem saltador. Eles eram de

opinião que não era importante o que alguém fizera antes da catástrofe, e que contava apenas como ele se comportava depois da catástrofe. O Administrador-Geral ergueu os olhos quando Ras Tschubai e Gucky entraram na central de comando. Isto é, eles naturalmente entraram na central, mas não através da escotilha, e sim através do hiperespaço. Enquanto o rato-castor se dirigiu à poltrona reservada para eles, onde se sentou, Tschubai aproximou-se da mesa de mapas e entregou a Rhodan um pequeno rolo de laminados de avaliações. Rhodan colocou a mão sobre o rolo de laminados. — E então, Ras, nossos temores se confirmaram? O teleportador sentou-se entre Tolot e Atlan, colocou as mãos espalmadas em cima da mesa e respondeu: — Sim e não. Se reduzimos a um ponto de saída hipotético as modificações de rota do Enxame até então conhecida por nós, para a qual este ponto de partida se amplia, a probabilidade de que está sendo tangenciado ou mesmo atravessado em voo, fica em cerca de cinquenta por cento. Rhodan franziu a testa. — Teoricamente isso quer dizer a mesma coisa que responder à nossa pergunta com um “sim-não”, Ras. — Mas foi exatamente isso que Ras disse logo! — gritou Gucky de sua poltrona. — Nós precisamos de mais informações, muito mais informações do que possuímos, Perry. — Esses criminosos! — murmurou Alaska Saedelaere, gemendo abafado. Rhodan ergueu as sobrancelhas. — O que está querendo dizer, Alaska? — Tudo que pertence a esse Enxame — respondeu o lesado por transmissor, com um gesto que tudo abrangia. O takerer Aronte olhou para Saedelaere e disse, baixinho: — De onde tira esta segurança, Saedelaere, de fazer estas afirmações? Quero dizer, a afirmação de que as inteligências que regem o Enxame sejam criminosas? Alaska riu curto e com desprezo. — Eles cometem crimes, consequentemente são criminosos. Aronte sacudiu a cabeça, pensativo, um gesto que ele adotara na sua convivência com os terranos. — Isso é pintura preto-e-branco. Provavelmente dizem isso na sua terra quando alguém atribui aos outros todas as ações malévolas. Eu falo por experiência própria, pois eu já fui — como a maioria dos takerers — de opinião que todos os terranos eram bárbaros semicivilizados, cujos chefes queriam o domínio de todo o Universo. Atlan sorriu, indefinível. — Eu tenho que concordar com Aronte — disse Icho Tolot. — Nós não estamos em situação de julgar objetivamente as ações do Enxame. Nós nem sabemos o que o Enxame deve ser, em sua essência. — Consequentemente devemos colher mais informações — declarou Perry Rhodan. — Isso eu já lhe disse, ainda há pouco — fez-se ouvir o rato-castor. Icho Tolot riu. O seu corpo formidável foi literalmente abalado, e as demais pessoas repuxaram dolorosamente a cara. Depois de algum tempo o halutense notou que sua gargalhada provocava dores físicas nas outras pessoas. Ele parou abruptamente e desculpou-se.

Perry Rhodan terminou a discussão. Cada um foi atrás de suas atividades normais, sempre que não precisasse ocupar algum posto de alerta. O Lorde-Almirante Atlan ficou com Rhodan. — Nós estamos indefesos contra este novo adversário — disse Perry, desanimado. — Quando eu me lembro que com sessenta homens e um cruzador reformado da classe planetas, estamos procurando verificar o que está vindo ao nosso encontro... — O que vem aí ao nosso encontro, também vem ao encontro de inúmeros outros povos galácticos, meu amigo — retrucou Atlan. — Eu compreendo você, quando diz que não sabe o que deve fazer primeiro, Perry, mas eu não compreendo você, quando você se deixa desanimar. — Palavras! — retrucou Perry, amargo. — Certamente. O que mais! — Nós precisamos da antiga frota de robôs do regente-robô de Árcon. Algumas centenas de milhares de naves de combate. Com isso acho que poderíamos mudar o caminho do Enxame. — Mudar o caminho? — A voz de Atlan parecia irônica. — Algumas centenas de milhares de formigas seriam capazes de mudar o caminho do Mississipi? Não, terrano de sangue quente, com uma tentativa dessas você chamaria ao plano forças contra as quais tudo o que aconteceu até agora seriam apenas fracas pontadas de agulhas. Até agora o Enxame se manteve relativamente pacífico, se não levarmos em conta as radiações dos Manipuladores. É um monstro dormindo, e eu não gostaria de ficar sabendo o que acontece, se mexermos com ele. — Você acha que devíamos esperar, termos esperanças de que o Enxame abandone esta galáxia novamente, e que a constante de gravitação volte a normalidade outra vez? — Não inteiramente. Naturalmente nós devíamos coletar o maior número de informações possíveis, e procurar por meios e maneiras de afastar o perigo. No fundo, eu uso os seus argumentos, Perry. A diferença é apenas que você, até agora, não falou deles. Rhodan sorriu. — Eu não tinha certeza de que eram os argumentos certos. — E agora, tem certeza? — Mais ou menos, Atlan. E agora vamos nos preparar para a aterrissagem. Caraprien, chama-se o planeta... Hum! É um vocábulo Arconídico? — Sim. — E o que significa essa palavra — traduzida em intercosmo? — Jardim de Pedra de Cara, sendo Cara o nome de um moloque de uma velha lenda. Primeiramente Cara devora o calor, depois o ar, e transforma o Universo num monte de pedras frias.

2
Os dois amelners estavam sentados em suas poltronas anatômicas e olhavam fixamente para fora das três janelas da cabine, que mostravam um ambiente totalmente estranho para os amelners. Push-Push 2301 soltou seu cinturão afivelado, ergueu-se e abriu ambas as escotilhas da eclusa. Um vapor quente, úmido, bateu-lhe ao encontro. A água do rio era suja e emanava vapores. Inúmeros peixes estavam à deriva, barriga para cima, na superfície. Uma erupção vulcânica na parte superior do rio devia ter esquentado a água. O vigilante da Borro Gane pairou até Push-Push 2301. A Borro Gane disse, através dele: — Leve-nos até o seu povo, Push-Push 2301! O tonturster ergueu o seu olho para a ânfora de cristal, que Lap portava no cone superior. — Mugeirach é um caçador-Coch, e Allaleit é um dos seus sacerdotes, Borro Gane. Pessoas assim não devem ser usadas como escravos. — Você não deve vendê-los como escravos, Push-Push 2301 — retrucou Borro Gane. — Aceite-os como seus hóspedes. O tonturster reconheceu que esta era a solução mais favorável, Portanto encerrou o assunto. Ele atravessou a escotilha. Na rampa, ligeiramente inclinada, ele parou. O seu rosto abaulado para dentro girou lentamente de um lado para o outro. Ele parecia uma concha de antena de radar. — Ruim — concedeu Push-Push 2301, depois de algum tempo. — Não podemos ir até o porto. — Por que não? — perguntou a Borro Gane. — A montanha. Abaixo dela juntou-se lava, muita lava em grandes cavernas. Logo aquilo irromperá, e então haverá muito fogo, fumaça e lava quente. — Como é que você sabe disso? Push-Push voltou o seu rosto novamente para Borro Gane. Ele não entendeu o que a pergunta queria dizer. Para ele — como para todos os tontursters — era natural que se pressentisse todas as erupções vulcânicas iminentes, e que se sentisse o “bafo da neblina do chão”, conforme se dizia. A Borro Gane reconheceu que não receberia uma resposta rápida a essa pergunta. Ela mudou de assunto. — Neste caso, para onde podemos ir? — Para Ashlush. Esta é a cidade que sobrevoamos ainda há pouco. Ali naturalmente não há um espaçoporto, mas talvez possamos alugar algumas máquinas voadoras. Ele voltou para a nave de aterrissagem e pegou o seu açoite, com o qual geralmente tocava os seus escravos, enquanto eles ainda não tinham compreendido que eram obrigados a obedecer-lhe imediatamente. Mas justamente ainda em tempo ele lembrou-se de que Mugeirach e Allaleit não eram seus escravos e sim os seus hóspedes. Push-Push 2301 colocou o açoite de lado novamente e disse: — Vocês são meus hóspedes. Posso pedir-lhes que me sigam? Vou levá-los para Ashlush.

Os dois amelners quiseram levantar-se, mas o cinturão afivelado os impedia de fazê-lo. Inutilmente eles se esforçaram para abrir os cintos. Push-Push 2301 não se importou com isso. Ele dissera o que devia ser dito, portanto virou-se e saiu, depois de ter colocado a mochila às costas e pegado o atirador de setas na mão. Rapidamente ele encontrou um vau, e já o havia atravessado, quando a Borro Gane ou seus vigilantes se deram conta de que ele não se importaria se os seus hóspedes o estavam seguindo ou não. O cone duplo dourado pairou de volta à nave de aterrissagem e desafivelou os cintos dos amelners com ajuda de campos de força de trabalho projetados. Depois os conduziu para fora. Push-Push estava prestes a mergulhar por entre as árvores da floresta virgem, quando a Borro Gane o chamou. O tonturster parou, depois virou-se lentamente. — Seus hóspedes não conhecem o vau — gritou-lhe a Borro Gane. — Você precisa mostrá-lo a eles. Push-Push apontou com o atirador de flechas para um lugar no banco de areia. — Entrem na água ali. Depois olhem para mim. Eu vou me colocar na margem. Caminhem exatamente na minha direção. Ele voltou lentamente para a margem. O seu olho movimentou-se vigilante, e a orelha tremia nervosamente. Devido a lentidão dos amelners, eles já tinham permanecido tempo demais num só lugar. Tempo suficiente para que alguns saalips se esgueirassem de dentro de suas tocas, rastejando para perto. Mugeirach e Allaleit entraram na água batendo rapidamente suas aletas. Lap girou em volta deles, logo acima da superfície das águas. Os amelners, devido às suas pernas compridas, tinham vantagem sobre qualquer tonturster, no que se referia a passagem de um vau, mas eles desperdiçavam essa vantagem, porque se movimentavam como se estivessem atravessando um mar de lama. Eles ainda não tinham deixado a metade do trecho para trás, quando Push-Push 2301 viu três olhos redondos de um saalip, que pareciam derivar sobre a água. O corpo blindado com escamas do animal, estava invisível, devido a água barrenta. Push-Push 2301 colocou a sua seta envenenada na atiradeira, fez mira sobre um dos três olhos e puxou o disparador. Acertou em cheio! Os olhos do saalip desapareceram imediatamente, depois a água em volta turbilhonou, cheia de espuma. O grande corpo foi atirado pela metade fora da água, caiu para trás, depois desceu rio abaixo — barriga para cima. Mas ele não viera sozinho. Push-Push 2301 viu os olhos de mais dois outros saalips. Ele atirou neles, falhou um mas acertou no outro. O primeiro mergulhou, e quando apareceu novamente, ele tinha Allaleit espetado nas suas presas. O sacerdote gritou uma vez, depois emudeceu. Lap correu na direção do saalip e fez uso dos seus campos de força de trabalho. O animal foi sacudido por fortes impactos. Ele mergulhou e levou Allaleit consigo. Por baixo de Lap, a água tingiu-se de vermelho. Mugeirach cambaleou para a margem enfiou o cabeça por baixo do torso globular e se balançou de um lado para o outro, emitindo sons lamentosos. Push-Push 2301 tocou no amelner, impaciente. — Precisamos continuar! — disse ele — Se não atingirmos Ashlush antes da chegada da escuridão, os naals sugam o nosso sangue.

Ele não se interessou em saber se Mugeirach o seguia, mas virou-se e penetrou na floresta virgem. Aqui reinava uma meia-luz verde estranha, consistindo da luz do sol filtrada pelas folhas das árvores, e as plantações fluorescentes de cogumelos luminosos. Estas plantações eram feitas por escaravelhos kasheitas, que cuidavam muito bem delas. Push-Push 2301 tomou todo o cuidado para não pisar numa plantação. Os escaravelhos kasheitas naturalmente não atacavam nem homens nem animais maiores, mas quando viam suas plantações ameaçadas, então não conheciam mais qualquer temor — sem levar-se em conta que um tonturster adulto, depois de ser devidamente preparado, dava uma boa quantidade de adubo para o solo. O amelner não sabia de nada disso. Ele passou com suas três longas pernas através de uma plantação. No instante seguinte o solo da floresta parecia estar vivo. De inúmeros buracos arrastaram-se besouros do tamanho de uma mão espalmada, amarelos como gema de ovo, com garras afiadas como alicates cortantes. Mugeirach saltou e gritou, quando inúmeros besouros meteram os dentes, ficando agarrados às suas pernas. Suas asinhas zuniam como loucas e os braços compridos se agarraram com seus terminais semelhantes a trombas no fim de dois cipós, com os quais o amelner se colocou em segurança, puxando-se para cima. Push-Push 2301 olhou para o amelner, depois teve que fugir, porque também perto dele os besouros saíam de dentro da terra. Ele correu até alcançar uma clareira. Ali trepou para cima de um grande bloco de pedra, acocorou-se e esperou pacientemente que Mugeirach ou Lap, ou os dois, se aproximassem. Para seu espanto, não precisou esperar muito tempo. Primeiramente Lap, com a Borro Gane, desceu dos céus, depois Mugeirach veio pulando de galho em galho para baixo. O amelner livrara-se dos besouros. Nos seus pés e nas coxas via-se sangue coagulado, mas Push-Push 2301 sabia que o amelner era imune contra o veneno kasheita. — Quando vamos chegar a Ashlush? — perguntou Borro Gane, através de Lap. — Pouco antes do escurecer — respondeu o tonturster. — Nós temos que nos apressar e Mugeirach não deve cometer mais erros. — No que tenho que prestar atenção? — perguntou o amelner. Push-Push 2301 não respondeu. Ele virara o seu rosto, e parecia escutar alguma coisa. Depois de algum tempo dirigiu o seu olho para Borro Gane. — Grande perigo. O chão vai tremer. Aqui. Logo. Temos que correr. Ele saltou de cima do rochedo e atravessou a lareira correndo. Desta vez Mugeirach e Lap o seguiram imediatamente. O tonturster conduziu-os através de um pedaço de mata virgem, depois por uma picada estreita, que passava bem no meio de um pântano. Depois foi novamente através de mata fechada — e de repente viram diante deles uma paisagem aberta, uma planície cheia de campos cultivados, parecendo um jogo de xadrez. Inúmeras figuras movimentavam-se através das plantações, paravam constantemente, e manejavam diversos implementos agrícolas. Uma coluna estava cavando uma nova vala de irrigação. Uma segunda coluna fechava a mesma novamente. Um amelner guiava um trator que se movimentava sobre colchões de ar, bem pelo meio de uma plantação de milho verde, destruindo tudo. Quando ele viu Push-Push 2301 e seus acompanhantes quis dirigir-se a eles, mas perdeu o controle do veículo, batendo com ele contra uma árvore. Push-Push 2301 escutou um som estranho. Parecia uma mistura de flauta-lothora e harpa-vargum. El voltou a cabeça e olhou para Borro Gane, pois era dali que vinha o som. — Você está sentindo dores, Borro Gane? — perguntou ele. — Não — respondeu a Borro Gane, através de Lap.

— Mas eu achei que ouvi você se queixando. — Foram meus pensamentos que se queixavam, Push-Push 2301, eu vim para Tonturst porque achei que a diminuição do quociente de inteligência somente se limitava a Ameln. Porém agora vejo que também Tonturst foi atingido por ela. O tonturster não entendeu do que a Borro Gane estava falando. Mas sentiu uma grande admiração por ela crescer dentro de si. Quem soubesse falar de modo que ninguém entendia, devia ser um deus poderoso e sábio. Quando a Borro Gane terminou de falar, Push-Push apontou para a cidade, que se encontrava em cima de uma colina que se destacava da planície. — Vamos para Ashlush! — disse ele. Eles alcançaram o portal principal, quando o sol já tinha baixado e o horizonte ao oeste brilhava num fogo vermelho-sangue a amarelo. Push-Push 2301 viu que o portal estava aberto. Ele sentiu-se desconfortável por isso, sem saber dizer exatamente por que. Somente muito vagamente lembrava-se de que o portal geralmente estava fechado. Ele hesitou. Vindos dos campos, de repente ecoaram gritos estridentes. Push-Push virou-se e viu que dois eikzechs estavam de pé na borda da mata virgem, disparando cargas venenosas sem parar em cima dos amelners. Os escravos correram, gritando, para todos os lados, mas nenhum deles ficou deitado. O tonturster esfregou suas mãos nodosas. Não estava em ordem que eikzechs disparassem seus gases venenosos em cima dos amelners, pois os escravos também eram imunes contra eles, como eram imunes contra todos os venenos de Tonturst. Somente por isso eles se demonstraram tão úteis para Tonturst. Mas os eikzechs no passado nunca tinham atirado contra os amelners, pois sabiam, por experiência, que isso era inútil. Completamente confuso, Push-Push 2301 virou-se e atravessou o portal. A sequência de sons melódicos do pássaro da loucura preveniu-o no último instante. Ele deixou cair o atirador de setas e jogou-se para a esquerda. O pássaro nu, de comprimento de um braço e com o bico poderoso, abriu as asas de pele e freou. Mugeirach deu de si alguns sons esquisitos, depois seus braços compridos se enrolaram com uma rapidez fulminante em volta do pássaro da loucura e o amassaram. O bicho tentou enfiar o seu bico afiado no braço de Mugeirach, porém só conseguiu arranhar o amelner um pouco, antes de morrer. Mugeirach jogou o pássaro morto para longe. Push-Push 2301 juntou sua atiradeira de setas e conduziu os seus hóspedes através dos dois outros portais. Atrás do último ele ficou parado, chocado. Diante da primeira fila de casas estavam caídos ao chão, todos tortos, seis tontursters. Pelas conchas dos rostos manchados de negro, ele reconheceu que eles tinham morrido de munlom, um veneno mortal que não existia na natureza. Portanto os seis tontursters deviam ter-se envenenado a si mesmos. Alguma coisa zuniu pelo ar e chocou-se com um som metálico contra o corpo de Lap. Push-Push abaixou-se e olhou para cima. De uma das janelas estreitas sobressaía a parte dianteira de uma atiradeira de setas. No instante seguinte Lap foi acertado por uma segunda seta. Ele esquivou-se e pairou até bem perto da parede da casa. Mugeirach enrolou um barbante em volta de sua cabeça. Quando ele o soltou, o mesmo voou, junto com a bola de ácido dependurada na mesma, para a janela no alto, desaparecendo dentro dela. Logo em seguida alguma coisa tilintou, alguém gritou e depois véus amarelados de vapor saíram pela janela.

Push-Push 2301 mirou com a atiradeira de setas em cima do amelner. Ele teria matado o caçador-Coch, se a Borro Gane não tivesse intervindo imediatamente. — Mugeirach achou-se ameaçado — declarou ela, através de Lap. — Ele queria apenas defender-se, apesar de ter sido desnecessário, pois o ataque fora somente dirigido a mim e a Lap. Os tontursters não me conhecem e portanto me tomam por inimigo. PushPush 2301, o que podemos fazer para que uma coisa dessas não aconteça novamente? O tonturst abaixou a atiradeira. — Primeiramente teremos que ir ao centro de comunicações. Rápido! Ele correu ao longo das paredes das casas, até chegar a uma transversal estreita. Depois subiu uma escada, passou por diversas ruelas estreitas e entrou numa casa, em cima de cujo telhado havia diversas antenas grandes. Dois tontursters estavam dançando numa sala cheia de aparelhos, aos sons de duas flautas-lothora, que eram tocadas por um nussel de duas bocas. Quando eles viram Lap saíram correndo, gritando. Push-Push 2301 quis retê-los para explicar-lhes que o Lap com a Borro Gane eram seus hóspedes, mas eles o derrubaram. O nussel de duas bocas continuou tocando como se nada tivesse acontecido. Push-Push 2301 levantou-se. Ele encaminhou-se, hesitante, para os aparelhos de vídeo, olhando-os atentamente, porque tinha esquecido quais deles serviam de comunicação entre os Push-Push do clã da chave. Depois de algum tempo ficou-lhe claro que ele não encontraria o aparelho certo, nem — caso o encontrasse — acertaria o seu manejo. Desanimado, ele fincou as mãos nodosas, em punhos fechados, no chão. Por muito tempo ele permaneceu nessa posição. Somente as vibrações e o rugido surdo de um terremoto o tiraram do seu estarrecimento. Ele passou rapidamente por Lap e Mugeirach, correu para a escada e subiu para o telhado chato da casa. Lá fora estava escuro já, mas a leste, onde estava a montanha, erguiam-se gigantescas colunas de lava incandescente, e labaredas e fumaça saíam de muitas fendas. O terremoto que Push-Push 2301 pressentira, agora acontecera. Porém não ficaria só nisso. Push-Push 2301 pressentiu já o segundo grande tremor — e o seu centro ficava exatamente por baixo da colina, da colina sobre a qual se encontrava Ashlush... *** A Good Hope II iniciou o pouso, com os projetores antigravitacionais ligados, depois de ter orbitado o planeta Caraprien duas vezes. Perry Rhodan e Atlan observaram a ampliação setorial, que mostrava uma parte da superfície. Ele era bastante parecida com o Marte solar, antes de sua transformação. Uma paisagem desértica, cheia de crateras, coberta de poeira cinzenta, trespassada de fendas, semeada de pedregulhos. Assim era Caraprien. Senco Ahrat tinha assumido a pilotagem novamente, e pousou a nave num platô com trezentos metros de altura, aproximadamente. Como em Caraprien não havia mares, a altitude era referente à planície vizinha. Ahrat olhou para Rhodan. — O senhor tem ordens especiais para mim ou para a tripulação, AdministradorGeral? Perry sacudiu a cabeça. — Ótimo — disse Ahrat. — Então vou mandar o meu pessoal para as cabines, exceto a tripulação da central de rádio e rastreamento, naturalmente.

— Está bem assim — respondeu Perry Rhodan. — Por favor, pense também em si mesmo, Ahrat. Na última semana o senhor dormiu um máximo de dez horas, se não me engano. — O senhor está enganado. Foram dez horas e dez minutos. Ahrat ligou o radiocomunicador geral e deu suas instruções. A maioria dos homens abandonou os seus postos, para se deitarem, vestidos, nos seus beliches. Eles não eram suficientemente otimistas para pensarem que o seu descanso não seria interrompido. Perry Rhodan e Atlan foram até a central de rastreamentos e renderam a equipagem de quatro pessoas. Ambos os homens sabiam manipular os mais modernos aparelhos de rastreamento. Eles dispararam uma estação de rastreamento de quatro toneladas de peso, que devia ancorar-se do outro lado do planeta, para vigiar o setor do cosmo que não podia ser captado daqui. Ao mesmo tempo o robô verde-garrafa abandonou o recinto no qual ele era mantido prisioneiro. Um homem da tripulação o conduzia — Nerken Lost, ex-piloto de uma nave exploradora, doente da peste do centro até então incurável, mas ainda capaz de entrar em ação. Lost tinha ficado imune. Ele se encontrara num hotel em Terrânia City, quando a onda de infantilização passou sobre a Terra, pois devia ser transportado pra Tahun, no dia seguinte. Nerken Lost entendera o que acontecera, e quais as consequências que aquilo teria. Ele lutara, como imune, até chegar a Roi, e mais tarde tinha sido designado para a Good Hope II. Nerken saltou sobre a esteira de transporte e indicou ao robô que o seguisse. Ele o tinha libertado de sua jaula energética, porque era de opinião que a Humanidade já possuía inimigos suficientes, e não devia fazer mais, ao por exemplo investigar que inteligências tinham construído este estranho robô. Diante da eclusa de solo, Nerken abandonou a esteira. O robô o seguiu. Nerken fez abrir para o lado a escotilha interna e apontou para a câmara. O robô entrou e o homem fechou a escotilha interna. Depois que a câmara fora evacuada, ele abriu a escotilha externa. Satisfeito, viu, pela tela de controle, que o robô abandonava a nave, e com grandes saltos corria pelo platô. Segundos mais tarde, Mentro Kosum e Lesska Lokoshan surgiram de uma abertura de um elevador antigravitacional e fecharam o caminho de volta a Nerken. — O senhor deixou sair o robô estranho — verificou Kosum. — Por que razão? Nerken Lost olhou o emocionauta calmamente nos olhos. — Porque ele incita a maioria dos homens a fazer investigações a respeito de sua origem. Nós temos dificuldades mais que suficientes, e devíamos acabar de constantemente procurar por outras. Mentro piscou os olhos. Ele estava um pouco confuso. — O senhor é um Homo superior? — perguntou ele, devagar. Nerken sorriu, irônico. — Se eu fosse um Superior, o senhor não teria me apanhado, Kosum. Infelizmente o meu quociente de inteligência fica apenas um pouco acima da média. Kosum suspirou. — Infelizmente, sim, meu caro amigo. Eu não quero afirmar que o senhor entortou. Em princípio, até é possível que tenha razão, mas o que vai fazer o robô em Caraprien? Aqui ele não é útil a ninguém, e eu não gostaria de ver uma máquina tão complicada e maravilhosa enferrujar por aí, sem utilidade.

— Hoje em dia muitas outras máquinas maravilhosas também enferrujam, totalmente inúteis — retrucou Nerken. — Por que ficar chateado por causa de um único robô? — Nós o pescamos em pleno espaço — explicou Lesska, sério. — É de se acreditar que ele tenha irradiado uma informação a esse respeito, e que a sua gente agora esteja à procura dele. Talvez eles se dêem por satisfeitos, que nós o libertamos em Caraprien. Mas talvez eles também vejam nisso um ato inamistoso. — Correto — concordou Kosum com ele. — Lesska e eu vamos seguir o robô e perguntar sua opinião a respeito. Se ele insiste em que o deixemos para trás... — Ele encolheu os ombros. — Então que fique. Caso contrário, o traremos de volta. Ele passou por Nerken Lost, abriu a câmara da eclusa e fez um sinal ao kamashita que os seguisse. Depois de curta hesitação, Nerken seguiu os dois homens. — Eu quero ter certeza de que o robô não seja obrigado a voltar — explicou ele. — Além disso, estou curioso em ver como o senhor pretende falar com ele. Eu não consegui nada, nesse sentido. Mentro Kosum sorriu e bateu contra o bolso do peito do seu traje espacial leve. — Aqui está o derivador de comunicação do computador de bordo, que transforma robôs mudos em falantes. Por favor feche o seu traje; eu agora vou abrir a escotilha externa. Todos os três homens fecharam os trajes espaciais, puxaram os capacetes para a frente e ligaram os telecomunicadores de capacete. Pouco depois, abriu-se a escotilha externa e eles saíram Para o dia radiante do mundo sem atmosfera, que um astronauta arcônida há muito tempo atrás chamou de “Jardim de Pedra de Cara”. Kosum sintonizou a onda do telecomunicador de pulso de Rhodan, esperou até que o Administrador-Geral respondeu e depois disse: — Nós estamos a caminho, Administrador. O “amigo do robô” veio conosco. Para que direção devemos nos voltar, para que tudo bem possa dar? — Seus versinhos de almanaque já foram melhores — retrucou Perry. — Um momento, eu lhes direi os dados direcionais... Mentro escutou atentamente e ao mesmo tempo olhou para o mapa quadriculado que ele afivelara no seu antebraço esquerdo. El viu que o robô tinha se voltado para o sudoeste. — È possível que ele queira esconder-se na região cheia de desfiladeiros — disse Perry Rhodan. — Eu sugiro que o circulem com ajuda dos aparelhos de voo e esperem por ele no quadriculado M 14 do mapa. Kosum confirmou. Os três homens ligaram seus aparelhos de voo, curvaram para o norte, e depois desceram doze quilômetros em linha reta para o sul. Eles quase chegaram tarde demais. Lesska Lokoshan descobriu o robô, quando ele entrou voando para dentro de um desfiladeiro estreito. Portanto ele também fazia uso de uma aparelhagem de voo! O kamashita ligou o seu telecomunicador de capacete — de qualquer modo ele pensou que o estava fazendo, porque se esquecera de que o seu telecomunicador já estava ligado —, pediu aos seus companheiros que o seguissem, e voou rapidamente para o lugar onde o robô desaparecera. Quando ele alcançou o desfiladeiro, Lesska viu que, bem abaixo dele, no chão, havia um buraco circular. Do mesmo saía uma luz amarelada, caso contrário ele não o poderia ter visto. — Ué! — deixou ele escapar. Ele voltou a cabeça. — O que me dizem disso?

Admirado, verificou que Kosum e Lost não estavam junto dele. Mesmo atrás dele não conseguiu descobri-los em lugar algum. Lesska chamou por quase um minuto por eles, inutilmente, antes de notar que o seu telecomunicador de capacete estava desligado. Ele o ligou novamente e estremeceu, quando uma voz alta anunciou: — ...uma formação de Manips, no voo de regresso ao Enxame, voou para dentro do Sistema Lignan. As protuberâncias das naves, semelhantes a caudas, estão dirigidas para Lignan e os três planetas. Todos os homens aos seus postos! Nós os esperamos em poucos minutos. Kosum, o senhor achou o maldito kamashita? — Não — veio a voz de Kosum. — O sujeito parece que se evaporou! — Neste caso vamos partir sem ele. — Esta era a voz de Atlan. — Não! — gritou Lokoshan. — Esperem! Vocês não podem me deixar sozinho em cima desse rochedo! — Onde é que o senhor está? — perguntou Perry Rhodan. — Aqui! — gritou Lesska Lokoshan. — Eu já vou, estou correndo, já estou aí! Esperem por mim! Esquecidos estavam o robô e o buraco no fundo do desfiladeiro. Lesska ligou seu aparelho de voo em rendimento máximo, e voou velozmente logo acima do chão, na direção da Good Hope II, cujo terço superior brilhava como uma foice dourada à luz berrante do sol. Os dois outros terços lentamente surgiam acima do horizonte de visão, quando Lokoshan se aproximou da nave. Mentro Kosum veio voando da esquerda, acenou para o kamashita, e ficou voando do seu lado. Eles tinham se aproximado da Good Hope até meio quilômetro, quando a nave virou para trás, afundando no chão. De qualquer modo, foi isso que pareceu a Lokoshan e Kosum. Lesska Lokoshan simplesmente continuou voando velozmente e somente freou quando o emocionauta o preveniu. Então, infelizmente, ele freou tão violentamente que Kosum quase o atropelou por trás. Lentamente eles continuaram voando — e então viram a Good Hope outra vez. A nave tinha escorregado cerca de duzentos metros na encosta íngreme de uma fenda insondável, virou e agora estava dependurada — com o trem de pouso de um lado e o polo superior do outro — por cima do abismo. Vapores amarelos como enxofre subiam das profundezas, arrastando-se por cima do casco externo da Good Hope. — Isso parece muito ruim — murmurou Kosum. — Aliás, onde está Nerken Lost? — perguntou Lesska. — O seu traje estava perdendo pressão interna. Eu o mandei de volta para a nave. Espero que ele tenha conseguido chegar, antes de... Nos alto-falantes dos capacetes houve uns estalos, depois a voz de Perry Rhodan disse: — Eu chamo Kosum e Lokoshan! Por favor, respondam! — Aqui fala Kosum! — disse o emocionauta. — Ao que me parece a Good Hope está entalada dentro de uma fenda. Aliás, o kamashita está comigo. — Ele pigarreou. — Lost conseguiu chegar aí? — Ele está fechado dentro da câmara da eclusa, mas não está ferido, Kosum. — Então está tudo em ordem. Devemos recuar, para que a nave possa ser retirada de dentro da fenda?

— Não, venham para bordo. Eu acho que teremos reparado o mecanismo da eclusa em poucos instantes. Dar partida, por enquanto não podemos. Os projetores antigravitacionais falharam. Mentro Kosum e Lesska Lokoshan giraram suas cabeças dentro dos capacetes globulares e se entreolharam significativamente. Ambos os homens sabiam que sem os projetores antigravitacionais, a Good Hope não conseguiria livrar-se daquela situação. E projetores antigravitacionais eram aparelhos complicados, que não podiam ser consertados num instante. — Já estamos indo! — respondeu Kosum finalmente. Eles comutaram os seus aparelhos de voo e se deixaram baixar lentamente mais para o fundo. De repente os arredores desapareceram dos seus olhos. Parecia que se via tudo através de uma parede aquática em movimento. Depois, o canto deste lado da encosta quebrou. Uma avalancha de pedregulhos e grandes pedaços de rochas caiu numa velocidade impressionante, mas completamente em silêncio, para o fundo, através das pernas abertas do trem de aterrissagem da nave. Algumas rochas maiores e menores bateram contra o casco da nave e saltaram para longe, em diversas direções. Lesska Lokoshan parara a respiração. As rochas e pedras de repente ficaram tão claras que se poderia pensar que estavam incandescentes. Uma fração de segundos mais tarde o automático de filtragem de luz do capacete reagiu. Lesska colocou a cabeça na nuca e olhou com os olhos apertados para cima, onde brilhavam cascatas de luz, avermelhadas. — O que é isso? — murmurou ele. — O cinturão de radiação de Caraprien iluminou-se — disse Kosum. — Ele deve ter sido excitado para fazer isso. Provavelmente em Lignan ocorreu uma erupção de hiperenergia. O emocionauta destacou-se da borda da fenda e voou com os reatores chamejantes na direção da Good Hope II. Lesska Lokoshan tirou os olhos daquele espetáculo da natureza, ligou o seu aparelho de voo e seguiu Kosum. *** A situação a bordo da Good Hope II era tudo, menos agradável. A queda da nave provocada por um tremor violento, não tinha apenas provocado severos danos nos projetores antigravitacionais, mas também levara a ferimentos entre a tripulação. Sorte na desgraça foi que no momento do desastre a maioria das pessoas se encontravam deitadas nos seus beliches seguros. Perry Rhodan estava deitado numa poltrona anatômica, com a parte superior do seu corpo desnudada, falando pelo intercomunicador com o chefe da casa de máquinas, enquanto o Dr. Arnulf Jensen cuidava de suas costelas quebradas. Quando Rhodan viu Kosum e Lokoshan, deu sua conversa por encerrada e acenou para que os homens se aproximassem. — O que aconteceu com o robô? — Ele olhou para Kosum. O emocionauta fez uma cara de quem está consciente de sua culpa. — Eu já nem mais pensava nele. — Mas eu sim — interveio o kamashita. — É que eu segui o robô até a beira do desfiladeiro, no qual ele sumiu. Ele próprio já havia desaparecido, mas eu vi uma abertura clara circular, no solo do vale.

Perry sacudiu a cabeça, quando o Dr. Jensen lhe perguntou se queria que lhe desse uma injeção para aliviar as dores. Ele empurrou o médico para o lado, olhou interessado para Lokoshan e perguntou: — O senhor quer dizer que o robô desapareceu dentro de uma estação? Devia ter sido algo assim, se o senhor descobriu uma entrada iluminada, Mr. Lokoshan. — Eu também acho, Sir. Eu não consegui seguir o robô adiante, pois nesse instante percebi que o meu telecomunicador não estava ativado. E então veio a notícia da catástrofe. — O senhor pode imaginar que conclusão eu tiro de sua descoberta? — Naturalmente, Sir. Se o robô sabia que em Caraprien ele encontraria um esconderijo artificial, então me parece estranho que o seu empenho em ir procurar este esconderijo corresponda aos esforços de Lost, em libertá-lo em Caraprien. — Correto, Mr. Lokoshan. Dr. Jensen, muito obrigado, mas eu não preciso de nenhuma injeção para acalmar as dores. Eu lhe pergunto, Mr. Lost, se o robô, depois do pouso em Caraprien — ou mesmo antes — lhe pedira para libertá-lo? Nerken Lost sacudiu a cabeça. — Não. Eu o libertei, conforme já disse antes, porque queria evitar complicações com os seus senhores. — Hum! O senhor se incomodaria se Gucky o examinasse, telepaticamente? — Não. Mas eu não consigo imaginar... — Ele encolheu os ombros, sem saber o que dizer. O Administrador-Geral anuiu para o rato-castor. — Gucky! — Está bem — disse o ilt e dirigiu o seu olhar para Lost. Depois de algum tempo ele fechou os olhos e murmurou: — Mr. Lost sofreu uma mecano-hipnose, evidentemente depois de uma preparação com sinais óticos e acústicos. Reconheço motivações alimentadas, apesar de ter sido erigida uma fraca barreira. Mr. Lost agiu sob a influência de uma vontade estranha. Nerken Lost ficou pálido. — Isso eu não sabia! — É claro que não! — declarou Rhodan, sorrindo. — Não se censure. Ele respirou aliviado, quando o Dr. Jensen terminou seu tratamento. Depois de terse vestido novamente, ele disse: — De conformidade com as últimas notícias da casa de máquinas, podemos contar com que a Good Hope estará livre no máximo dentro de três horas... Ele respirou fundo, suas mãos se enterraram nos braços da poltrona anatômica. Gucky veio voando dos fundos e chocou-se contra Atlan. Toronar Kasom, que acabara de sair do duto do elevador, foi catapultado para a frente. Ele segurou-se instintivamente nas manoplas de desembarque. Com um ruído metálico, o metalplástico rasgou-se, curvandose para a frente. Lesska Lokoshan reencontrou-se novamente entre as pernas de Tolot, que pareciam verdadeiras colunas. A sua cabeça doía, ele batera com ela em alguma coisa. Alguém gemeu, depois as sirenes de alarme tocaram. Icho Tolot juntou o kamashita e o colocou de volta ao chão, de modo um tanto brusco. Lesska, para quem estava claro que a Good Hope girara sobre si mesma várias vezes na queda, esticou os braços à espera de uma queda — até que notou que a gravidade o puxava para o chão. O que queria dizer que os projetores já estavam

funcionando novamente. Os mesmos projetores que criavam uma gravidade por toda a parte a bordo. — Aviso da estação automática de rastreamento — gritou uma voz dos alto-falantes do intercomunicador. — Forte erupção de energias hiperenergéticas em Lignan. Caraprien foi atirado para fora de sua órbita. Por toda parte no planeta há vulcões em erupção. — Precisamos sair daqui! — gritou Senco Ahrat. Perry Rhodan limpou o suor da testa. Depois levou as mãos às suas costelas. — Com força própria, por enquanto, não saímos daqui. A Good Hope está em perigo de ser soterrada sob massas de pedras, se houver um novo terremoto, mesmo assim ela ainda é, para nós, o lugar mais seguro em Caraprien. Portanto vamos ficar a bordo. Atlan levantou a mão. — Eu aconselho a irradiar sinais de SOS no código da frota, Perry. A probabilidade de que alguém possa captar e entender os nossos pedidos de socorro é diminuta, mas ela existe. — Concordo — retrucou Rhodan. — Ao mesmo tempo eu gostaria de mandar verificar como o choque estrutural afetou os dois outros planetas. Talvez mais tarde possamos ajudar aos nativos. Ele olhou, procurando, em volta e sorriu quando descobriu Kosum e Kasom. — Kasom e Kosum, os senhores por favor tomem uma das pequenas naves-disco, que estão equipados com uma tartaruga e partem para um voo de reconhecimento para Ameln e Tonturst. Toronar Kasom anuiu. O seu rosto vermelho-bronzeado brilhava, oleoso, e os olhos faiscavam, prontos para a aventura. — Vamos com a Daphne, Sir. Ali pelo menos há uma poltrona de contornos, que não quebra sob o meu peso, como os outros móveis para anões. Lesska Lokoshan passou por Gucky e Atlan, esgueirou-se para o elevador antigravitacional, e atirou-se no duto. O mestre de Fauna de Kamasch tinha ouvido o suficiente. A Good Hope II lhe era sinistra, do jeito que estava dependurada numa fenda nas rochas, que a qualquer momento poderia alargar-se, tragando a nave. Ele nem pensava em continuar correndo este risco. Chegado ao hangar da eclusa da Daphne, ele verificou, satisfeito, que a nave-disco estava dependurada, nos seus suportes magnéticos, sem nada ter sofrido. Especialista que era, ele abriu a escotilha entre a eclusa de solo e a saliência dos propulsores. Com isso era automaticamente ativado o robô de múltiplo uso, que estava deitado num recipiente parecido com um ataúde, logo atrás da escotilha. Lesska esperou impaciente, até que o robô abandonou o seu recipiente. Depois ele ordenou-lhe que se escondesse na cabine de controle do técnico do hangar. Como, devido a falta de pessoal, não se podiam dar ao luxo de terem um técnico de hangar, ninguém descobriria o robô — pelo menos não antes da partida da Daphne. Depois que o robô sumira, Lesska Lokoshan meteu-se dentro do recipiente, fechando a escotilha atrás de si. Depois ligou sua lanterna do peito, retirou sua caixa de medicamentos e injetou-se um forte narcótico, que o colocou num sono profundo. Antes que a sua consciência afundasse num mundo gelado de sombras, ele escutou, como vindos de muito longe, os ruídos de fortes máquinas e sentiu que a nave-disco se pôs em movimento. Depois disso ele não ouviu, nem viu, nem sentiu mais nada...

3
Os habitantes de Ashlush abandonavam a cidade. Todos eles haviam sentido a desgraça iminente, e o seu instinto os guiava com segurança maior do que antes poderia ter feito a sua inteligência. Push-Push 2301, Mugeirach e Lap seguiam as massas desordenadas a certa distância. Era de manhã cedo. Mesmo assim, o sol queimava com uma força brutal. O mercador de escravos não se lembrava de jamais ter vivido uma manhã tão quente. Mas ele não conseguia lembrar-se de muita coisa. Ele ficou parado junto de dois tontursters idosos, que tinham se deitado ao lado do caminho. A sua respiração era estertorante. A sua pele normalmente branca-amarelada, tinha se tingido de verde, sinal certo de que a sua circulação falhara. Push-Push 2301 verificou que não podia ajudar e foi adiante. Depois de algum tempo, eles chegaram ao rio da Almete Azul. A ponte balançava sob o peso dos muitos tontursters, que queriam passar rapidamente para o outro lado. Push-Push calculou que a ponte acabaria ruindo, mas como por milagre ela aguentou. O mercador de escravos, Mugeirach e o robô com a Borro Gane encontravam-se no meio da ponte, quando atrás dele a crosta do planeta explodiu. A erupção foi tão violenta que arrebentou a colina e a cidade de Ashlush, atirando os destroços muito alto, para os céus. Em seguida o vulcão recém-formado cuspiu uma quantidade incalculável de pedras incandescentes. Push-Push 2301 e seus acompanhantes correram através da ponte. Atrás, perto e à sua frente, blocos em fogo caíam sobre a construção de madeira, incendiando-a. Fumaça acre encheu os olhos de Push-Push, uma pedra diminuta, em brasa, acertou o ombro esquerdo dele de raspão, deixando uma queimadura feia. Mesmo assim eles conseguiram passar. Chegados na outra margem, eles se jogaram — com exceção de Lap no chão, e se arrastaram até a água. Mugeirach enfiou a cabeça toda naquela torrente escura e morna. Push-Push 2301 dependurou a sua mangueira do corpo na água e sugou o líquido, lentamente. Enquanto isso ele observou com o seu olho inflamado, o largo rio de lava, que lentamente rolava para o rio da Almete Azul. Rugindo e sibilando, o vulcão cuspia fumaça e vapores. Cerca de cem escravos amelnitas estava parados ali, imóveis, até que foram alcançados pelo rio de lava, que os tragou. Depois de algum tempo, o tonturster puxou de volta a sua mangueira de beber para dentro da eclusa de alimentação, deitou-se de costas e logo em seguida tinha adormecido. Mugeirach olhou-o, espantado. O amelner não podia saber que Push-Push 2301 não sentira nenhuma. Depois de algum tempo ele também adormeceu. Somente Lap ficou acordado, pois um robô não precisava dormir. Também a Borro Gane não dormiu. A sua consciência continuava a beira do pânico. Depois que a catástrofe em Ameln tinha dado um fim aos seus esforços ali, ela tivera esperanças de poder considerar Tonturst como sua nova área-objetivo. Desde há muito tempo já, ela mandara levar, sem que fosse notado, inúmeros embriões para Tonturst. Isso fora fácil, pois os tontursters iam buscar escravos para o campo em Ameln. Mas agora parecia que Tonturst fora afetada na mesma proporção que Ameln, pelo retardamento das inteligências.

A Borro Gane irradiou impulsos de excitação, esperando que suas filhas se tivessem desenvolvido o suficiente para entenderem o que ela esperava delas. Mais do que isso ela não podia fazer. Quando Push-Push 2301 acordou, o sol estava no zênite. Estava terrivelmente quente. Sua cabeça doía como se quisesse arrebentar. Ele olhou para o alto, com os olhos apertados. O céu era um forno de calor cor de chumbo, pelo qual corriam pesadas nuvens de fumaça cinzenta. Mugeirach também se mexeu. Ele flexionou as pernas até junto da barriga e levantou-se pesadamente, com ajuda de suas aletas batendo. Push-Push 2301 olhou para a outra margem. Cinza branca e uma vegetação carbonizada, negra, cobriam o chão. Mais para trás ficavam os rios de lava endurecidos, marrom-acinzentados, e de aspecto bizarro, sob a luz do sol. Uma formidável coluna de fumaça subia do vulcão Ashlush para os céus, alargando-se cada vez mais no alto, e formando uma terminação em forma de meseta, onde era atingido por uma corrente de ar na estratosfera. O tonturster girou a cabeça e tentou sentir o “hálito da névoa do chão”. Para ele agora era mais difícil do que antes, localizar novos fornos de erupção e tremores. Alguma coisa o atrapalhava nisso, o que antes nunca acontecera. — Para onde você está nos levando? — perguntou o amelner. — Eu sinto muitos novos tremores — murmurou Push-Push 2301. — Por toda parte o solo vai tremer e cuspir fogo. Dificilmente haverá uma faixa de terra que não ficará comprometida. Precisamos ir para Arain, a cidade dentro do mar. — Ele jamais teria tido essa ideia audaciosa, se a sua memória não estivesse comprometida em sua maior parte, pois Arain era a cidade proibida de Tonturst. — Conduza-nos, rapidamente! — exigiu a Borro Gane. — Eu tenho fome — retrucou Push-Push. — Primeiramente tenho que procurar alguma coisa para comer. — Eu também estou com fome — fez-se ouvir Mugeirach. Push-Push 2301 pegou sua atiradeira de setas e subiu o talude da beira do rio. O amelner o seguiu. Conforme Push-Push tinha imaginado, ali havia enormes quantidades de zorghs, insetos de um dedo de comprimento, que viviam daquilo que a coluna em marcha deixava atrás de si, começando por restos de comida até velhos e doentes, que morriam de exaustão. Onde havia zorghs também havia uklas, grandes cobras couraçadas, as quais, com suas línguas pegajosas, pegavam enormes quantidades de zorhgs, que engoliam. Suas peles, como couraças, as protegiam das tenazes e dos ácidos que os insetos cuspiam. Push-Push 2301 pegou uma das setas envenenadas e atirou-a numa cobra couraçada de tamanho médio, acertando-a na barriga. O bicho se contorceu, empinou-se e voou mais ou menos dez metros pelo ar. Depois caiu aos pés do tonturster, estremeceu mais uma vez, depois ficou quieta. Push-Push 2301 pegou sua faca e tirou a pele do bicho. Ele determinou ao amelner que fosse arranjar lenha para uma fogueira. Depois que eles tinham grelhado a carne gordurosa da ukla, em espetos de madeira por cima do fogo, comendo-a com gosto, eles partiram. Por algum tempo eles seguiram os rastros dos ashlushes, depois entraram num desvio. Push-Push respirou aliviado, quando se encontraram novamente na mata virgem fechada. O sol que queimava, quase o deixava louco. Mugeirach não se impressionava

com o calor, mas afinal de contas ele vinha de um mundo com temperaturas médias mais altas que em Tonturst. A tempestade veio sem qualquer aviso. Ainda há pouco o ar estivera tão quieto que nenhuma folha se mexia — e no instante seguinte, o vento rugia nas copas das árvores, quebrando-as. Galhos caíram em grande quantidade, e um uivar infernal começou. Push-Push 2301 jogou-se no chão e colocou suas mãos nodosas, protetoras, em cima da parte traseira de sua cabeça. Em volta dele rugiam os elementos desencadeados. Árvores eram quebradas e catapultadas pelos ares. Cinza e fumaça cobriu o céu. E então a crosta do planeta tremeu. Inúmeras rachaduras e fendas se abriram, partes inteiras da floresta afundaram, labaredas subiam e os animais corriam de um lado para o outro, num medo indescritível. Quando a tempestade amainou, Push-Push 2301 deitou-se de costas. Ele viu Mugeirach, que estava deitado do seu lado. Um galho estilhaçado estava enfiado na cabeça do amelner. Os olhos estavam voltados para o alto, como numa acusação. O mercador de escravos olhou em volta, à procura de Lap. Ele somente o descobriu quando o robô saiu de dentro do buraco que cavara para si na terra. A ânfora de cristal com a Borro Gane está incólume. — Mugeirach está morto? — perguntou a Borro Gane. — Sim — respondeu Push-Push 2301. — Venha! Ele descobrira o monturo de terra de um coveiro-do-mato. O animal se interessaria por Mugeirach. Eles tiveram que desviar-se de diversas fendas, e afastar-se de um incêndio na floresta, antes de alcançarem a savana de Doplah, atrás da qual — convertidamente — o mar ficava a cinco quilômetros. De qualquer forma, o mar ainda ficava a uma distância de cinco quilômetros. Depois do tufão, entretanto, ele cobria toda a savana. A água naturalmente já estava retornando e Push-Push sabia que na manhã seguinte ele chegaria, por caminhos mais ou menos secos novamente, na torre, de onde se chegaria a Arain. O problema, entretanto, era de se saber como ele deveria sobreviver até então. A Borro Gane parecia saber, o que o inquietava, pois ela disse através de Lap: — O robô vai construir um bunker de terra para nós, Push-Push 2301, se isso for suficiente para manter longe os perigos da noite. — Será suficiente, se pudermos fechar a entrada. — Lap vai fechá-la consigo mesmo. A ânfora de cristal afundou no cone superior de Lap, depois, por baixo do robô, formou-se um buraco. A terra escavada voava velozmente para cima, por um lado. Pouco depois Lap desapareceu sob a superfície. Push-Push 2301 dividiu sua atenção entre o trabalho do robô e os arredores. Certa vez ele descobriu um gigantesco eikzech que perseguia um bando de gulugs. O animal tinha pelo menos a altura de uma pedra jogada para cima, e suas oito pernas batiam no chão, com estrondo. Quando ele estava suficientemente perto do bando, o eikzech parou e atirou uma carga de veneno na direção de um gulug particularmente grande. O gulug caiu ao chão imediatamente, e Push-Push pôde ver como o eikzech usava a sua tromba endurecida para perfurar o corpo de sua vítima, injetando-lhe ácidos digestivos, para depois de certo tempo sugar-lhe a carne liquefeita. O tonturster estremeceu, quando o Lap, de repente, falou: — O bunker está pronto, Push-Push 2301.

Push-Push 2301 desceu pelo poço vertical, que o robô tinha escavado. A quatro metros de profundidade uma abertura levava a um recinto semicircular, cujo chão consistia de terra batida, dura como pedra. O tonturster esgueirou-se para dentro. Lap o seguiu e fechou a entrada com o seu cone inferior, de modo que a alimentação de ar não ficasse totalmente cortada. — Durma! — disse a Borro Gane. Push-Push 2301 deitou-se, fechou os olhos e já estava dormindo. Quando acordou, Lap estava justamente pairando para fora do poço. O tonturster o seguiu. Ele saiu de dentro do poço e olhou para a savana. Satisfeito, ele verificou que a água já escorrera. Somente algumas poças tinham ficado para trás. Push-Push 2301 abriu a boca, para dizer que eles agora podiam ir até a torre, quando sentiu que muito lá para fora, mar a dentro, uma bolha de magma se ergueu no fundo do mar. Ele virou-se e correu terra a dentro. O robô com a Borro Gane surgiu do seu lado, quando ele já se encontrava novamente na mata virgem. — Por que você está fugindo? — perguntou a Borro Gane. Push-Push 2301 continuou correndo. Lap colocou-se no seu caminho e segurou-o com mãos invisíveis. — Responda! O tonturster estava ofegante. — Um maremoto! — conseguiu ele dizer, a muito custo. — A onda da maré desencadeada vai nos sepultar, se antes não chegarmos àqueles rochedos lá na frente. — Ele apontou para um grupo de rochedos brancos, que se erguiam, como torres, na floresta. — Nesse caso, continue correndo! — disse a Borro Gane, libertando-o. Push-Push 2301 não precisou que lhe dissessem isso duas vezes. Ele saiu correndo, saltou ou trepou por cima de gigantescas árvores caídas, e pulou, sem pensar na morte, por cima de fendas muito largas. Quando ele lutava para passar pela areia fina que rodeava as torres rochosas, ouviu o surdo rugido do mar revolto. Deixou cair a atiradeira de setas, correu, desesperado, na direção da torre rochosa mais próxima e iniciou a subida. Lap geralmente pairava ao seu lado. Só algumas vezes ele subia acima das copas das árvores da floresta. O rugido e o trovejar do mar encapelado levou Push-Push a proezas que ele jamais pensara ser capaz de executar. Os seus dedos sangravam, quando finalmente chegou ao topo inclinado da torre rochosa. Ele segurou-se na rocha nua, levantou a cabeça, e olhou para o lugar de onde viera. Quase perdeu o fôlego. Um gigantesco paredão de água vinha varrendo tudo o que ficava no seu caminho. As árvores da floresta pareciam gemer, quando a torrente as alcançava, triturando-os. Muito, muito para trás, uma montanha de água saiu de dentro do mar, arrebentou e cuspiu um fogo misturado com cinza, fumaça e lava, para os céus. Push-Push 2301 fechou o seu olho, quando o paredão de água alcançou o rochedo. Ele sentiu como a sua torre rochosa balançou sob o impacto. Espumas e água subiram, sepultando o tonturster sob suas massas. A Borro Gane foi tirada da zona de perigo por Lap. Somente depois de algum tempo o Tonturster ousou abrir o seu olho. A muito poucos metros abaixo de si ele viu o mar. As ondas eram longas e se quebravam contra as torres de rochas. Push-Push virou-se cuidadosamente, e olhou na outra direção.

Ele não viu outra coisa a não ser água — uma superfície balouçante, sobre a qual vagavam inúmeros troncos de árvores e cadáveres de animais. Push-Push 2301 gemeu, abafado. Ele não via nenhuma possibilidade de alcançar terra firme. Se o mar não refluísse outra vez, ele teria que morrer em cima dessa rocha diminuta... *** Toronar Kasom observou as telas de vídeo nas quais podiam ver-se setores da superfície de Caraprien. O planeta era recortado por rios de fogo, e inúmeras crateras cuspiam lava fluída incandescente, que rapidamente endurecia no espaço, chovendo de volta para a superfície de Caraprien. — A coisa parece feia — disse ele para Kosum. O emocionauta anuiu. Seu rosto mostrava preocupação e dúvida. — Eu não sei se foi certo que nós deixamos que Rhodan nos mandasse para cá — murmurou ele. — Eu também não — retrucou o ertrusiano. — É que isso só vamos ficar sabendo quando nossa tarefa estiver terminada — caso ainda estivermos vivos. Mentro Kosum murmurou algo incompreensível, depois silenciou. Kasom recalculou a rota e verificou que a Daphne novamente já estava bastante desviada dela. Ele franziu a testa. O erro era grande demais, para poder ser atribuído a um descuido. Kasom fez uma hipergoniometria e comparou os resultados com os valores que os astrogadores da Good Hope II haviam conseguido quando da entrada no sistema. Quando tirou a lâmina de avaliações do computador de bordo, ele anuiu, chateado. Era o que ele havia pensado. Tanto Ameln como também Tonturst se movimentavam inteiramente em novas órbitas, em volta de Lignan. Ele corrigiu a direção de voo e acelerou mais fortemente. Caraprien rapidamente ficou para trás da nave-disco. Kosum ligou o receptor do hipercomunicador e sintonizou o comprimento de onda e o código da Frota Solar. Uma voz Kosum reconheceu-a como a de Atlan — dava o local de estada da Good Hope II, e pedia por rápida ajuda. O pedido de SOS repetia-se constantemente. — Mais dois minutos para a entrada no espaço linear — avisou o ertrusiano. O cronógrafo-robô fez a contagem regressiva dos segundos até a entrada no semiespaço. Ao ZERO, Toronar ativou os projetores de campos estruturais do conversor Waringer. O espaço normal esfumou-se — depois desapareceu de golpe. Kasom franziu a testa, quando o consumo de energia do conversor Waringer repentinamente subiu rapidamente. Ele circulou a escala e finalmente chegou a seiscentos e dez por cento acima do valor normal. O ertrusiano teve a sensação de que a Daphne estava sendo erguida por uma onda invisível e carregada para longe. No instante seguinte ela se encontrava novamente no espaço normal — apesar do conversor Waringer não ter sido desligado nem por Kasom nem por Kosum. — Era só o que ainda nos faltava — disse Kasom, enquanto verificava a posição. — O Waringer deixou de funcionar a meio caminho. Agora podemos voltar a pé para Caraprien. Mentro Kosum sorriu. Ertrusianos realmente eram pessoas estranhas. Quando eles voavam com uma astronave no espaço normal, ou seja, em velocidade abaixo da da luz, então eles diziam “andar a pé”. De repente ele lembrou-se de alguma coisa. — O que está acontecendo com Lignan? — deixou ele escapar.

O ertrusiano olhou para o monitor de controle solar, depois coçou-se distraidamente na sua crista de cabelos cor de areia, foiciforme. O sol Lignan, que ainda antes da manobra linear estava rodeada de uma corona de formidáveis protuberâncias, brilhava tranquilamente de modo completamente normal. — Mas isso não existe... — declarou Kasom. — Nós estivemos — ele olhou para o cronógrafo — ...menos de um minuto no semi-espaço. Durante este tempo as protuberâncias não podem ter ruído sobre si mesmas. Por favor, Mentro, faça medições a respeito da atividade hiperenergética e das interferências na gravidade interplanetária! O emocionauta trabalhou silenciosamente nos seus aparelhos de medição. Quando ele levantou silenciosamente nos seus aparelhos de medição. Quando ele levantou a cabeça, o seu rosto estava lívido. — To... totalmente normal, Toro — balbuciou ele. Kasom desafivelou-se e foi até o lugar de Kosum, para olhar pessoalmente para os aparelhos de medição. Ele respirou fundo. — Mas isso é simplesmente impossível! Um momento: como, neste caso, está a constante gravitacional galáctica de quinta dimensão? — Ele deu entrada em alguns valores de medição no computador de bordo e dentro de poucos segundos recebeu a constante desejada. Primeiramente o ertrusiano fechou os olhos, e parecia que o gigante fosse cair duro, inconsciente. Depois, entretanto, ele reabriu os olhos, deu um grito de triunfo e voltou correndo para o seu lugar. Ele já tinha dado meia-volta na Daphne, colocando a rota para Caraprien, antes que Mentro Kosum reencontrasse a sua voz. — A constante gravitacional de quinta dimensão normalizou-se, ao que parece — disse ele. Kasom anuiu. — Tudo está outra vez normal, meu amigo! — gritou ele, sem abafar a sua voz. De repente ele estacou, ligou o receptor do hipercomunicador, aumentando o seu volume. O mesmo rugiu e estalou, mas foi só. Kasom e Kosum se entreolharam. — Alguma coisa não está certa — achou Kosum. Kasom ativou o transmissor e chamou pela Good Hope. Ninguém respondeu. Suspirando, ele desligou o hipercomunicador. — Eu suponho que nós fomos catapultados ou para o futuro ou para o passado, Mentro. Provavelmente para um passado no qual ainda não havia viagens espaciais interestelares. — Mas como...? — perguntou Kosum, baixinho. — Possivelmente uma erupção natural de energia-dakkar, um tufão-dakkar. — E o que vamos fazer agora? Toronar respirou fundo, depois sorriu, aferrado. — Primeiramente vamos ter que nos convencer de que em Caraprien realmente ainda não existe uma Good Hope. O que vamos fazer depois disso...? — Ele encolheu os ombros. Um minuto e meio depois a Daphne mergulhou no semi-espaço, e seis minutos depois voltou ao espaço normal, bem perto já de Caraprien. Toronar Kasom observou as imagens, que o telescópio eletrônico lhe fornecia da superfície de Caraprien. O planeta parecia quase exatamente como antes do pouso da

Good Hope II. Fracas erupções de luz e gases, de inúmeras crateras, testemunhavam que agora se estava vendo um Caraprien mais jovem. Kasom pilotou o disco voador, com apenas quinhentos metros de altitude, por cima do lugar, no qual a Good Hope II tinha pousado no dia 30 de julho de 3.441. O altiplano era o mesmo, mas não havia ali nem uma Good Hope nem indícios de que aqui jamais uma astronave havia pousado. Ele quis puxar a nave outra vez para cima, quando repentinamente lembrou-se do que Lesska Lokoshan havia informado sobre o desaparecimento do robô estranho. Kasom freou fortemente. A célula interna da Daphne crepitou sob a carga, e Kosum perguntou, indignado, qual era o motivo para aquela manobra brutal. O ertrusiano explicou. A expressão no rosto de Kosum demonstrava claramente que ele não dava muita importância à intenção de Kasom, porém ele não retrucou. Toronar Kasom virou o disco-voador e pousou o mesmo na borda do desfiladeiro descrito por Lokoshan. — Vem comigo, Mentro? — perguntou ele. O emocionauta encolheu os ombros, depois desafivelou-se silenciosamente e fechou o seu traje espacial. Os dois homens voaram, com ajuda de suas mochilas voadoras, para dentro do desfiladeiro, e revistaram o solo com ajuda de holofotes infravermelhos e ressonadores de cavidades. Mentro Kosum foi quem descobriu primeiro a escotilha e deu um grito de espanto. Kasom sorriu, satisfeito. A escotilha abriu-se, quando o ertrusiano se colocou sobre ela. Kasom caiu — e foi apanhado por um campo de força. Ele aterrissou no chão de um poço cilíndrico e viu perto dele duas escotilhas na luz amarelada, que penetrava através das paredes do poço. — Aqui isso vai adiante — disse ele, no seu microfone de capacete. — Venha, Mentro. — E se a escotilha se fechar por cima de nós, e não conseguirmos mais abri-la? — Por mim, pode sentar-se na borda do buraco — retrucou o ertrusiano. — Então a escotilha não pode se fechar. Ele tateou na escotilha a sua direita até que finalmente a mesma se abriu. Por trás havia uma câmara de eclusa, também iluminada. Kasom esgueirou-se para dentro e esperou, até que a escotilha externa se fechara e a escotilha interna se abriu. Ele continuou em frente, de gatinhas. Para um ertrusiano, o recinto era bastante apertado. Depois de curto tempo, Toronar viu-se ajoelhado dentro de um recinto circular, cujas paredes estavam cobertas de consoles de comutações e telas de vídeo ovais. O ertrusiano ficou pensando se devia experimentar algumas daquelas comutações, mas decidiu que seria melhor não. Em contrapartida ele tirou de um bolso da manga a câmera de trivídeo, tipo bastão, de fabricação siganesa, girou sobre os joelhos em círculo e filmou ao mesmo tempo todas as instalações do recinto. Quando colocou a câmera de trivídeo de volta no bolso, lembrou-se de que neste tempo não havia terranos que pudessem fazer alguma coisa com o filme. Ele encolheu os ombros, resignado, e voltou, sempre de gatinhas, para onde estava Kosum. Depois que os dois homens se convenceram que a escotilha se fechara novamente, perfeitamente em ordem, eles voaram de volta para o disco voador. Ali eles tomaram café, comeram alguma coisa e ficaram refletindo sobre o que poderiam fazer em seguida. Eles se decidiram, antes de mais nada, fazer um voo de aproximação para Ameln e Tonturst, como era a sua tarefa original. Depois veriam o que fazer.

Depois de uma etapa linear, a Daphne caiu de volta ao espaço normal, a cinquenta mil quilômetros de Ameln. Kasom freou a nave e ligou os aparelhos de medição, para conseguir uma visão geral das condições em Ameln. Ele ficou perplexo, ao verificar que o planeta estava envolto em uma densa camada de nuvens, e que as temperaturas, perto do solo, giravam em torno de trezentos e quatrocentos graus centígrados. — Eu gostaria de saber o quanto estamos no passado — ou seja, em que passado distante estamos — murmurou ele, surpreendido. — Do jeito que Ameln está agora, vai demorar no mínimo mais dois ou três bilhões de anos, até que sobre o mesmo possa se desenvolver vida inteligente. — A não ser que os “nativos” não tenham nascido em Ameln — fez ver Kosum. O ertrusiano sacudiu a cabeça, enquanto levava a Daphne para uma órbita elíptica. — Se no Catálogo Árcon está consignado que eles se desenvolveram em Ameln, foi o que aconteceu — sugeriu Kasom. — Em algum lugar, afinal de contas, vamos ter que encontrar uma nova pátria. — E se eles simplesmente nos matam a tiros? O ertrusiano riu, abafado. — O senhor viu filmes de ficção científica demais, Mentro. Por que os estranhos nos derrubariam? Com nossa pequena nave certamente não representamos um perigo para eles. Além disso, seria idiota presumir que entre os representantes de duas civilizações galácticas diferentes, teria que haver, forçosamente uma luta. Ele olhou para o emocionauta, furioso. — Por que está rindo disso? Mentro Kosum olhou de volta, sem entender. — Eu...? Quem riu foi o senhor, Toro! Kasom engoliu em seco, virou-se e olhou para o gigantesco cone duplo do outro lado. Será que os ocupantes...! Enquanto ele ainda estava olhando, o cone duplo envolveu-se numa auréola dourada, ampliou-se — e engoliu o disco-voador. Toronar Kasom sentiu um forte solavanco, depois sentiu-se mal. Ele segurou-se firme nos braços de sua poltrona anatômica, e esperou que os círculos dourados desaparecessem diante dos seus olhos. Depois de algum tempo ele ouviu um gemido doloroso do seu lado. — Mentro? — Sim? — ouviu ele, baixinho. — O que há? O estado de Kasom melhorou rapidamente. Ele podia ver novamente e verificou, com ajuda de algumas medições, que a Daphne estava voando com velocidade subluz, velozmente, para o planeta Ameln, e que o sol Lignan atirava formidáveis protuberâncias para o espaço. — Parece que estamos novamente no tempo antigo — disse ele, freando a Daphne. Estarrecido, ele olhou os setores da superfície planetária que o telescópio eletrônico trouxera para perto. Através das nuvens de fumaça e vapor, ele reconheceu diversos vulcões cuspindo fogo e fendas em chamas. Cada vez novas rachaduras apareciam na crosta do planeta, lava escorria para as planícies e lagos baixos, cujas águas de há muito já evaporaram. — Lá embaixo não vive mais ninguém — declarou ele. — Nós chegamos tarde demais.

— De qualquer modo, somente poderíamos ter salvo alguns nativos — retrucou Kosum. — O senhor acha que o cone duplo...? Kosum anuiu. — Certamente, Mentro. Os ocupantes devem ter lido nossos pensamentos. Por isso mesmo a risada, que não era acústica. Eles acharam graça porque nós não podíamos concordar como deveria ser um encontro entre inteligências altamente desenvolvidas. Depois nos mandaram de volta ao nosso tempo. — Eles pelo menos poderiam ter tomado contato conosco, antes! — disse Kosum, indignado. Kasom riu, amargo. — Talvez nosso assunto de conversa nos desqualificou. Nós parecemos muito primitivos aos outros seres, mas de qualquer modo não totalmente mal desenvolvidos, caso contrário não teríamos nos ajudado. — Portanto vamos mostrar do que somos capazes! — declarou o emocionauta, irônico. Toronar Kasom anuiu. — Sim senhor, vamos voar para Tonturst. *** Depois de terem filmado o espetáculo dantesco que se desenvolvia em Ameln, Toronar mudou a rota para Tonturst e acelerou. Porém, logo depois de poucos minutos, o automático de rastreamento deu sinal, disparando o alarme. A avaliação informou que cinco Manips tinham saído, na rota de voo da Daphne, para o espaço normal. Se Kasom e Kosum continuassem na mesma rota atual, eles passariam pelas naves manipuladoras com apenas três mil e quinhentos quilômetros, antes de poderem entrar no hiperespaço. — Eu sugiro não nos desviarmos — disse o ertrusiano, calmamente. — O que acha disso, Mentro? — Talvez devêssemos entrar em contato com eles — retrucou Kosum, sarcástico. — Com nossa pequena nave não somos nenhuma ameaça para eles. Kasom sorriu, sem humor. — Cautela nunca fez mal a ninguém. O senhor concorda que eu mantenha a nossa rota e diminua a velocidade? — Por que deveria reduzir a velocidade? Ó, eu compreendo. Caso contrário não poderíamos fazer observações, os Manips também podem nos acertar. — Quer dizer que concorda, achou o ertrusiano, impaciente. Ele fez alguns cálculos e programou o autopiloto. Dez minutos mais tarde a Daphne derivou, passando pelos cinco Manips. As astronaves parecidas com arraias deslizavam através do espaço preguiçosamente, e tinham estendido os seus narizes de proa, que tinham uma extraordinária semelhança com os ferrões de arraias gigantes terrestres, em diversas direções. O disco-voador não foi absolutamente observado por eles, apesar do mesmo ter freado quando de sua passagem, tendo com isso criado fortes emissões energéticas. Toronar Kasom quase estava um pouco decepcionado, de que nada acontecera. Naturalmente ele não contara com um entrevero, mas essa maneira de ser totalmente ignorado, feriu o seu orgulho. Mentro Kosum riu secamente e declamou:

— O Manip gosta de ficar sozinho, e um ertrusiano para ele é muito pequenininho. Não dá para acreditar! Parece que eles não estão interessados em nós. — Talvez eles sejam automaticamente guiados, e a sua programação não prevê dar atenções a objetos pequenos como a Daphne — achou Kasom, pensativo. — Hum! Se isso for verdade, então isso leva a conclusões que podem desviar-se de todas as hipóteses que tínhamos até agora...! Ele acelerou novamente, e poucos minutos mais tarde o disco-voador deslizou para a zona do hiperespaço. Quando caiu de volta ao espaço normal, encontrava-se entre Tonturst e sua única lua. Já enquanto Kosum pilotava a nave para uma órbita estreita, ele e Kosum verificaram que Tonturst não tinha sido atingido tão fortemente pela catástrofe quanto Ameln. Naturalmente aqui também grandes partes dos continentes tinham sido destruídas por terremotos e erupções de lava, mas ainda havia muitas paisagens intocadas. O ertrusiano entrou com a Daphne na atmosfera. Depois que a velocidade tinha baixado tanto que o escudo de absorção de choques não ardia mais, envolvido em massas de ar incandescentes, Kasom viu por baixo da nave uma grande planície e sobre a mesma uma longa coluna de criaturas andando eretas, que se movimentavam de leste para noroeste. O telescópio eletrônico trouxe a comprovação de que se tratava dos nativos inteligentes do planeta Tonturst. Kasom e Kosum discutiram quanto ao local para onde estariam marchando os Tontursters. Não havia nenhuma razão visível por que eles deveriam marchar de um lado da planície para o outro. Logo em seguida, o enigma foi resolvido. Na parte leste da planície o solo se abaulava em muitos lugares, gases, fogo e fumaça eram cuspidos para o alto, e rios de lava incandescente corriam para a savana. Os dois homens decidiram não pousar imediatamente, pois queriam observar tudo ainda por algum tempo. Quando eles notaram um comboio de nativos que fugiam das terras altas da montanha para a floresta virgem, e quando, logo em seguida, nas montanhas formou-se uma cadeia de vulcões, Kasom e Kosum se entreolharam significativamente. — Isso não deve ser por acaso — observou Kosum. — Evidentemente os tontursters podem prever e erupções vulcânicas e terremotos. — É o que parece, Mentro. No fundo, não devemos nos espantar com isso. Tonturst, mesmo antes da catástrofe, já era um mundo de forte atividade vulcânica. No correr do tempo, os nativos devem ter desenvolvido um sexto sentido para atividades iminentes, desse tipo. — Eu sugiro pousarmos nas proximidades do grupo de nativos que está mais perto de nós, Toro. Toronar Kasom anuiu. Uma hora e meia mais tarde chegara a oportunidade. Novamente era uma planície, pela qual uma longa coluna de nativos viajava. O comboio movimentava-se em parte por cima de terreno aberto, em parte através da floresta. Infelizmente verificou-se que o terreno aberto era pantanoso demais para uma aterrissagem. Toronar Kasom pilotou o disco-voador num grande círculo em volta da coluna em marcha. Ele queria escolher um local de pouso adequado. De repente os hiper-sensores deram alarme. Eles tinham rastreado um pequeno objeto metálico, que pairava por cima do planeta a cerca de trinta e cinco mil quilômetros de altitude. Outras medições verificaram que naquele objeto não havia qualquer processo

nuclear energético. Mesmo assim, Kasom e Kosum acharam melhor não pousar exatamente por baixo daquela coisa ancorada estacionariamente no céu. O ertrusiano pilotou a Daphne em voo rasante por cima da planície, puxou-a por cima de uma serra de montanhas, que cuspia fogo e fumaça, e seguiu o curso de um rio cheio de vapor. Quando os aparelhos de rastreamento mais uma vez captaram um objeto metálico, desta vez adiante da Daphne e abaixo de sua altitude de voo, Kasom ligou o escudo de proteção do disco-voador e ativou os aparelhos de busca e de mira. Logo em seguida surgiu o objeto rastreado, depois de uma curva do rio. Estava parado, em cima de pernas de pouso muito abertas, em cima de um banco de areia no meio do rio, e não parecia absolutamente digno de meter medo. Kasom freou violentamente, desativou o escudo protetor, e pousou o disco-voador perto do objeto estranho. Depois ele se desafivelou e virou-se, sorrindo, para o emocionauta. — O que me diz disso, Mentro? — Não parece a nave-capitania de uma frota invasora, Toro. É bastante primitivo até, eu diria. — Relativamente primitivo — corrigiu-se o ertrusiano. — Eu acho que se trata da unidade de pouso de uma astronave interplanetária. Aquilo que nós rastreamos ainda há pouco no céu poderia ser a nave propriamente dita. — Será que é a primeira espaçonave amélnica que pousa em Tonturst? Trágico, que justamente, então, ocorreu a catástrofe. Toronar não respondeu. Ele leu os valores que os analisadores de ambiente entrementes já tinham fornecido por conta própria. A atmosfera de Tonturst era rica em oxigênio e respirável para humanos. Kasom pediu ao emocionauta que ficasse a bordo, depois desembarcou e dirigiu-se cautelosamente para a unidade de pouso. Ele viu a escotilha aberta e a rampa que levava ao chão, e também viu as pegadas, que começavam onde a areia não estava mais vitrificada pelo fogo das turbinas, e que seguiam para o rio. Evidentemente a tripulação deixara a nave, para investigar o planeta estranho. Quando Kasom alcançou a escotilha, ligou o seu holofote de peito. Ele viu um recinto espartanamente mobiliado, com oito camas anatômicas, inúmeras armaduras primitivas e um manche de pilotagem. Ele puxou-se para dentro, sem usar a rampa, e praguejou abafadamente, quando a nave afundou um pouco, do seu lado, mais ou menos em meio metro. Rapidamente ele se deixou cair para fora da escotilha, de costas. Os apoios telescópicos se levantaram novamente rangendo, do lado aliviado. — Há alguém a bordo? — perguntou Kosum, pelo rádio de capacete. — Não — respondeu o ertrusiano. — Mas a tripulação não deve ter se afastado muito. Desembarque, Mentro! Vamos ativar o robô de múltiplo uso, e mandá-lo em busca dos amelners. Ele caminhou pela areia até a pequena escotilha da eclusa de solo e da protuberância de propulsores do disco, abriu-a e esperou que o robô desembarcasse. Seus olhos ficaram esbugalhados, quando, em vez do robô, apareceram um par de pés, metidos em botas de astronautas terranos. Depois Lesska Lokoshan estava, em todo o seu mini tamanho, diante de Kasom! O kamashita estava tremendo. O seu rosto perdera a tonalidade moreno-dourada e assumira a cor de cimento armado antigo. — O senhor...? — conseguiu dizer Kasom.

Lokoshan fechou os olhos e anuiu. — Sim, senhor, Mr. Kasom. Eu peço muitas desculpas, mas eu pensei... quero dizer, achei que... Onde é que nós estamos, afinal de contas? Kasom gemeu. — Seu corvo de má sorte! Como é que se atreveu a deixar para trás o robô de multiuso? O que vamos fazer sem essa máquina em Tonturst? Ou o senhor quer substituir o robô? — Eu? — perguntou Lesska, infeliz. — Sim, o senhor! — declarou Kosum, que acabara de descer da eclusa de solo. — Pelo que conheço do senhor, conseguiu meter-se a bordo, porque achou que a Good Hope não era mais um lugar seguro o bastante. O senhor devia envergonhar-se! — Isso eu farei com prazer — retrucou Lokoshan! A sua voz assumira novamente o familiar tom de baixo. — Mas se o senhor, antes, me der alguma coisa de beber...? Eu quase morri de sede. Naturalmente eu queria vencer o voo dormindo, mas já faz bastante tempo que estou novamente acordado. Alguma coisa não funcionou, eu acho. — Claro, o seu juízo! — disse Kasom, furioso. — Desculpe-me, mas o senhor não pode esperar que eu esteja entusiasmado com o seu modo de agir. Ele pigarreou, retirou sua garrafa de água do cinturão e entregou-a Lesska. O kamashita caiu de joelhos quando tomou o garrafão de vinte litros do ertrusiano nas mãos. Ele colocou-a no chão, desaparafusou o tampo, e para beber teve que sentar-se, colocar os braços em volta da garrafa e curvar-se para trás. Entrementes, Mentro Kosum tinha tirado a tartaruga pela eclusa, uma pequena amostra dos veículos de expedições, que durante os primeiros tempos de colonização eram usados por escoteiros terranos e por comandos de exploradores. O veículo corria sobre duas esteiras rolantes de dois metros de largura, e era impulsionado por dois eletromotores, que recebiam sua energia de um assim chamado “come-tudo”, um conversor que usava todas as substâncias continentes de água, para a fabricação de energia de fusão. Os três homens entraram na cabine transparente. Kosum sentou-se atrás do volante, Kasom e Lokoshan tomaram lugar no pequeno recinto de carga. A tartaruga deu partida com um leve solavanco, seguiu as pegadas e deslizou para dentro da água. Enquanto ela submergia totalmente, um bastão maleável de terconite espichou-se de cima da cobertura da cabine. A sua terminação de forma grossa, globular, mantinha-se constantemente acima da superfície da água. Mentro Kosum podia ver nas pequenas telas de vídeo da cabine, as imagens que o sensor de relevo tomava dos arredores, presos na extremidade do bastão aéreo. A corrente do rio era muito forte, mas o veículo era muito estável. Sem se deixar confundir, a tartaruga seguia as pegadas das inteligências, que os três seres humanos achavam serem astronautas de Ameln.

4
Veio a noite e novamente o dia. Incansavelmente as esteiras rolantes da tartaruga moíam por cima de rochas, pelo chão mole da floresta virgem e por cima de areais cobertos de capim. Lesska Lokoshan guiava o veículo. Kasom e Kosum dormiam no recinto de carga. O roncar deles lentamente estava dando nos nervos do kamashita. Lesska colocou um tablete de chocolate na boca, mastigou e perguntou-se o que o seu neto Patulli estaria fazendo neste momento. Uma mensagem de rádio de Terrânia informara que Patulli tinha partido com uma nave-correio, para procurar pela Intersolar, com a qual Reginald Bell entrecruzava a galáxia, para ajudar onde fosse possível, e para reunir o maior número de pessoas possíveis, que não estivessem infantilizadas. Lesska sorriu. O garoto cumpriria a sua tarefa. Ele era sobremaneira capaz, apesar de ter um humor às vezes um tanto esquisito. Abruptamente o rosto de Lesska turvou-se novamente. Tomara que Patulli não tenha levado o deus hereditário dos Lokoshans, quando partiu para ver como estavam as coisas na galáxia! Lullog tinha desaparecido na galáxia Gruelfin. Naturalmente ele ainda existia, pois de vez em quando surgiam diminutas imagens robóticas dele. Talvez ele ainda voltasse algum dia. Assustado, Lesska pisou no pedal do freio eletrônico, quando o horizonte se encheu de fogo. A tartaruga ficou parada, balançando. O ronco de Kasom e Kosum foi interrompido. — O que houve? — perguntou o ertrusiano, fazendo o veículo balançar, quando se mexeu. Lesska apontou para a frente. — Uma erupção vulcânica, Mr. Kasom. — Aquilo foi uma cidade — disse Kosum, enquanto veio agachado para a frente, sentando-se ao lado de Lokoshan. — Olhe ali! Ao pé da colina ainda se encontram algumas ruínas de casas. Agora até mesmo elas foram pelos ares. A colina literalmente explodiu. Nuvens ardentes foram atiradas dos seus flancos arrebentados, gases amarelos como enxofre arrastaram-se por cima da planície, e em diversos lugares lava incandescente brotava para fora da terra. — Vamos! — gritou Kasom. — Lesska, passe pela esquerda, evitando o vulcão. Eu acredito que a população da cidade fugiu ainda em tempo. É possível que nós ainda possamos alcançá-los. Lesska Lokoshan anuiu e deu partida novamente. Ele suava de medo, enquanto guiava a tartaruga através da fumaça e do gás, e uma vez quase foi envolvido por dois rios de lava. Finalmente o veículo entretanto mostrou-se mais rápido. Depois de uma hora de viagem acelerada, surgiu um rio. Lesska descobriu os restos carbonizados de uma ponte. — Por ali os habitantes da cidade devem ter atravessado — achou o ertrusiano. — Atravesse o rio, e vá atrás deles, Lesska! O kamashita já tinha alcançado o rio. Novamente a tartaruga entrou de mergulho. Na outra margem ela subiu por um talude íngreme.

De repente Kosum gritou: — Pare! Ali há restos de uma fogueira! Lesska pisou no freio e ativou a ancoragem de solo. O veículo ficou parado no meio de um declive. A somente quinze metros à esquerda deles subia uma fina bandeira de fumaça, de uma fogueira abandonada. Todos os três homens abandonaram a tartaruga e foram até a fogueira abandonada. Kosum esgravatou no monte de cinza, enquanto o ertrusiano olhava, interessado, a pele couraçada de um animal parecido com uma serpente. Quando, depois de algum tempo, ouviram um surdo trovão, acharam que se tratava de um tremor distante, e não se interessaram mais pelo assunto. Somente quando o ruído cresceu, sendo superado por um berro como de uma trombeta, os homens reagiram. Eles correram o talude do rio acima — e ficaram parados durante segundos, estarrecidos de susto, quando um monstro gigantesco surgiu perto deles, um animal blindado com fortes placas couraçadas, com as costas foiciformes muito altas, e uma cabeça do tamanho de um planador médio, com muitas excrescências parecidas com tubos. O animal correu, com sua altura de uma edifício de doze andares, passando por eles, esmagou com os pés a tartaruga e causou uma inundação, quando se atirou dentro do rio. Toronar Kasom deu um grito de raiva, e puxou sua arma de raios de impulsos. No instante seguinte, o animal gigantesco se jogara para trás, dirigindo algumas das excrescências parecidas com canos em cima dos homens, e atirara uma salva de gases venenosos. Kasom, Kosum e Lokoshan de repente se encontraram dentro de uma nuvem de gases azul-acinzentada. Felizmente os seus trajes espaciais estavam equipados com automáticos de salvamento, de modo que os seus capacetes de pressão se fecharam, antes dos homens poderem aspirar o gás venenoso. Kasom disparou a sua arma de impulsos para dentro da névoa, sem ver se o animal realmente se encontrava na linha de tiro. Depois os homens ligaram seus aparelhos de voo e subiram em alta velocidade. E Já não era sem tempo. O animal correu velozmente, poucos centímetros abaixo dos seus pés, através da nuvem de gases. Toronar quis atirar novamente, mas Lesska gritou: — Não atire, Mr. Kasom. O animal esmagou nossa tartaruga, portanto deverá substituí-la! O ertrusiano ficou tão perplexo que esqueceu de atirar. Ele olhou, espantado, para o kamashita e disse: — Eu naturalmente sei que é Mestre da Fauna de Kamasch, Lesska, mas essa montanha de carne sedenta de sangue, nem o senhor conseguirá domesticar. — Deixe que ele o experimente, Toro — pediu Kosum. — Sem veículo, nosso raio de ação fica bastante reduzido. Os aparelhos de voo de nossos trajes não têm reatores, apenas magazines energéticos, que infelizmente não são inesgotáveis. — Está bem — decidiu Kasom. — Eu lhe dou um quarto de hora de tempo, Lesska. Mas não se aproxime demais do animal! Ele pilotou para fora da nuvem de gás, que o gigantesco animal tinha atirado de baixo sobre eles. Lesska Lokoshan também voou para fora da nuvem de gás, seguiu numa grande curva por cima do rio e aterrissou a cerca de duzentos metros atrás do colosso. Ali ele capotou o seu capacete globular para trás, e emitiu um grito estridente.

O animal girou sobre suas oito pernas, que pareciam colunas, e berrou. Aquilo parecia o ruído do teste de um propulsor de foguete. Durante segundos o olhar de Lesska ficou nublado. As ondas acústicas ameaçava arrebentar sua cabeça, mas ele insistiu. Quando o grito do colosso se perdeu, Lesska ergueu os braços, aproximou-se lentamente do animal, e falou-lhe suavemente, na sua alta voz de baixo. O animal dirigiu, alternadamente, as excrescências semelhantes a canos, em cima do kamashita, mas não atirou novas cargas de gases. Depois de algum tempo, ele virou as excrescências para dentro, inflou duas grandes membranas de pele de ambos os lados do crânio, e deu de si sons que lembravam os de uma erupção de um vulcão médio. Lentamente ele dobrou as pernas, até que a barriga tocou o chão. Depois emudeceu. O Mestre da Fauna caminhou lentamente em volta da parte dianteira do crânio, passou a mão por cima de uma das membranas, e depois trepou calmamente para cima do crânio. Ele acenou para os seus companheiros e depois disse pelo telecomunicador de capacete: — Venham, amigos, aqui há lugar suficiente para três. Não se preocupem, Honey é completamente manso. Não é verdade, Honey? — Ele acariciou a membrana. Honey deu sua concordância através de um trovejar, que lembrava uma trovoada tropical. Com muito cuidado, Kasom e Kosum aproximaram-se do lado, e aceitaram a ajuda de Lesska Lokoshan para subirem no bicho. Eles acharam lugar suficiente nas depressões da couraça da cabeça. O kamashita pediu de Kasom, o forte cabo de náilon que o ertrusiano trazia na cintura. Depois ele colocou a sua arma de impulsos em enfeixamento mínimo, atirou e fez dois furos em duas excrescências couraçadas de ambos os lados do crânio, onde fixou as extremidades do cabo. Sob os olhares céticos dos seus companheiros ele depois trepou para dentro de “sua” depressão-assento, deu um puxão no cabo, emitindo ao mesmo tempo um grito penetrante. Honey levantou-se cautelosamente e movimentou-se hesitantemente adiante. Depois de dez minutos, Lesska já a tinha domesticado tanto que “ela” obedecia a cada puxão de cabo, seguindo na direção para a qual ele a dirigia. Os olhos do Mestre da Fauna brilhavam. Ele levantou-se, gritou estridentemente e riu, quando aquele animal imenso corria cada vez mais depressa. *** Honey acabara de atravessar uma floresta virgem e saiu para uma planície, apenas coberta de arbustos espinhentos, quando um rugido oco assustou os homens. Lesska puxou os dois lados do cabo ao mesmo tempo, e gritou ao animal algumas palavras, na língua que ele empregava no trato com animais. Honey fincou os pés no chão, escorregou ainda cerca de cinquenta metros, e depois parou, dentro de uma nuvem de poeira. Toronar Kasom ergueu-se. — Eu vou dar uma olhada por aí — informou ele aos seus companheiros, ligou sua aparelhagem de voo e subiu verticalmente. Dentro de no máximo cinco segundos ele estava novamente de volta. — Lesska! — gritou ele, agitado. — Leve Honey para uma montanha ou para cima de alguma colina. Uma gigantesca onda de maré montante está vindo em nossa direção. — E é mesmo o que parece estarmos ouvindo — retrucou Lokoshan.

Ele puxou fortemente no cabo-guia, estalou a língua e gritou sua ordem ao animal. Honey virou-se no mesmo lugar, emitiu um grito de dar um frio na espinha, e deu partida. O animal pareceu também ter reconhecido o perigo, pois não correu de volta para a floresta, onde somente poderia prosseguir mais lentamente, mas correu ao longo da borda do mato, até chegar na encosta coberta de poeira de um antigo cone de cratera. Os homens foram sacudidos violentamente, enquanto Honey esforçou-se em subir o declive. O animal chegou à borda da cratera, quando a onda de maré bateu, trovejante, contra o flanco do cone. Ele foi coberto de muita água e escorregou para baixo, pela parte interna do talude da cratera. Lesska Lokoshan bateu com a cabeça contra a placa couraçada do animal e desmaiou. Quando ele voltou novamente a si, Honey estava justamente trepando pelo declive interior acima. O kamashita olhou em volta. Seus companheiros tinham desaparecido. Ele engoliu em seco, quando da garganta da cratera subiu um trovejar, e logo uma fina bandeira de fumaça subiu ali. — Mr. Kasom! Mr. Kasom! — gritou Lesska. — Onde estão? Alguém tossiu. Pela força do som somente poderia ser o ertrusiano. — Meta o pé no freio, Lesska! — gritou Kasom. Com algum esforço, Lokoshan conseguiu fazer o animal parar. Ele naturalmente farejava a iminente erupção vulcânica. Logo depois Kasom surgiu perto do crânio de Honey. Ele carregava o emocionauta por cima do ombro. — O que é que ele tem? — perguntou o Mestre da Fauna. Ele viu que Kosum estava inconsciente. — Ele tinha caído na cratera — respondeu Kasom, enquanto descarregava Kosum na sua depressão, esgueirou-se para dentro de sua própria depressão e dali segurou o emocionauta com uma de suas mãos. — E provável que ele sofreu uma comoção cerebral. É uma sorte que o seu traje espacial também é imune ao calor, caso contrário ele também teria sido frito. — Ele passou a mão no rosto sujo de fuligem e fumaça. — Meta as esporas no seu bichinho, Lesska, caso contrário o vulcão ainda acaba explodindo debaixo de nossos pés. O kamashita anuiu e incitou o animal. Ele duvidava, porém, que isso poderia ajudálos muito. Se a maré montante ainda não tinha refluído, eles estavam presos ali. A não ser que eles passassem a nadar. Ele foi agradavelmente decepcionado. Quando Honey alcançou a borda da cratera, o mar já tinha voltado e deixado para trás uma massa de lama misturada com árvores estropiadas e arbustos arrancados. Por toda parte viam-se corpos inchados de animais. Muito para fora, no horizonte, onde devia ficar o mar, havia uma imensa coluna de fumaça. — Para onde cavalgamos agora? — perguntou Lesska. Toronar Kasom franziu a testa, levantou-se e espiou por cima dos tristes restos da floresta tropical. De repente estacou. — Ali, alguém está de pé — disse ele, e apontou para um grupo de torres brancas de rochas. — Um momento, ali inclusive alguma coisa está pairando! Rebrilha ao sol, como ouro puro. Lesska, dirija Honey para lá! O kamashita guiou o animal na direção do grupo de rochedos. Ao mesmo tempo observava a figura que estava de pé sobre uma das torres rochosas. Somente podia ser um dos tontursters, pois ele usava a mesma capa trançada que a maioria dos nativos que eles

tinham visto até agora. O que, porém , era o cone duplo de cor dourada, que pairava no ar acima do tonturster, não era possível reconhecer. O nativo olhou fixamente com o seu único olho para o animal. Era evidente que ele estava com medo, pois começou a recuar passo a passo e teria se precipitado se Kasom não o tivesse chamado e acenado para ele. — Guie Honey para junto do rochedo e pare ali, Lesska! — disse o ertrusiano. — Eu vou trepar até onde está o tonturster. Lesska Lokoshan anuiu e disse: — Antes, porém, limpe a sua cara, caso contrário o nativo ficará chocado, quando o senhor estiver diante dele. Kasom levou um dedo ao rosto e depois olhou-o. Depois tirou um lenço de papel do bolso e limpou o rosto. Finalmente começou a subida. Ele não queria logo fazer uso do aparelho de voo. Como experiente astronauta, ele sabia que, ao primeiro contato com outras inteligências, era preciso poupar ao máximo os seus meios técnicos. Com a gravidade, para ele ridiculamente diminuta, de praticamente a norma terrestre, o ertrusiano não precisava fazer esforços, para trepar na torre de rochas, com o microgravitador desativado. Antes de se puxar por cima da borda da plataforma do cume do rochedo, Kasom colocou o seu sorriso mais amistoso na cara, prestando atenção, porém, para não abrir a boca. Havia muitos povos para quem mostrar os dentes era sinônimo de um desafio a luta. O sorriso de Kasom entretanto apagou-se, quando ele observou o estranho mais de perto, pois o nativo, por baixo de sua capa, usava um traje espacial! Naturalmente o ertrusiano imediatamente lembrou-se do módulo de aterrissagem, que eles tinham encontrado no bando de areia no rio, e que tinham tomado por uma nave de alguma expedição amélnica. Este nativo diante dele, entretanto, era claramente um tonturster. Ele se parecia — com exceção do traje espacial — exatamente com os muitos tontursters que eles puderam observar antes do seu pouso. Toronar Kasom, entretanto, rapidamente recobrou o seu controle. Ele mostrou suas mãos vazias ao tonturster, bateu no seu peito e disse, com voz abafada: — Kasom. O tonturster mexeu o órgão sensorial semi-esférico, dentro do seu rosto abaulado para dentro. Qualquer demonstração de sentimentos não era possível reconhecer. Depois abriu-se acima do órgão dos sentidos uma dobra de pele, uma espécie de membrana cinza-branca se mexeu, e uma voz larga, rangente, disse, enquanto uma mão rombuda batia contra a capa: — Push-Push Mannab Quam Soor Tan. — A mão rombuda apontou para o ertrusiano. — Qua Soom. Toronar anuiu, contente. — Kasom. — Ele pronunciou o nome tão claramente quanto possível, depois apontou para o nativo com a mão. — Push-Push Manna...? — Push-Push Mannab Quam Soor Tan — repetiu o nativo. — Trudug Kalamosoorg quadam? Kasom tinha ligado o seu tradutor pessoal, antes de se apresentar. Agora ele apertou a tecla de requisição, na fraca esperança de que a positrônica de tradução do aparelho tivesse calculado, pelo menos por alto, o que o tonturster tinha dito.

— Tradução em vista dos dados recebidos impossível — rosnou o aparelho. — Push-Push Mannab Quam Soor Tan, com grande probabilidade, é um nome. — Push-Push Mannab Quam Soor Tan... — murmurou o ertrusiano. — O nome quase é de comprimento kamashita. — Ele sorriu para o nativo, apontou para ele e para si e depois para baixo, para Honey. — Nós descer, Push-Push Mannab Quam Soor Tan? — perguntou ele, gemendo interiormente com o tamanho daquele nome. As mãos nodosas do tonturster subiram e cobriram o rosto abaulado para dentro. — Eikzech nanna Abraquom noodli, Eikzech jarra nonnom! — Eikzech é o nome do animal-cavalgadura nativo — rosnou o tradutor. — Foi o que pensei — disse Kasom. Ele tomou cautelosamente uma das mãos nodosas do tonturster e conduziu o nativo até perto da borda da plataforma do cume, depois apontou para baixo, para Lokoshan e para Kosum, que já voltara a si novamente e acenava para cima. — Eikzech bom. Cavalgar. — Ele pegou rédeas imaginárias, flexionou levemente os joelhos e estalou a língua. — Assim! Eikzech bicho bom. De cima ecoou uma voz metálica persistente e disse alguma coisa no idioma do nativo. Kasom até agora se esforçara para ignorar o cone duplo estranho, para não violar o tabu do tonturster ou cometer algum erro parecido. E agora ele olhou para cima. Lentamente o cone duplo desceu — e pela primeira vez Kasom viu a ânfora de cristal, que sobressaía do cone superior. Ele somente tirou os olhos novamente daquela figura, quando o nativo apontou para baixo e disse: — Eikzech aliam goro, ned troon Borro Gane. — As duas últimas palavras ele pronunciou com uma visível veneração. Ao mesmo tempo dirigiu o seu olho para o cone duplo, de modo que o ertrusiano adivinhou que esta figura era chamada de Borro Gane. Depois ele trepou para baixo e deixou que Lokoshan o ajudasse a se acomodar na depressão no crânio do animal . O cone duplo o seguiu. Kasom esfregou as mãos, satisfeito, e saltou para as costas de Honey. O Eikzech não reagiu ao choque. Kasom desceu para o crânio e sentou-se na borda de sua depressão. — Como está indo, Mentro? — perguntou ele ao emocionauta. Kosum sorriu fracamente. — Com exceção de dores de cabeça e uma leve sensação de enjôo, está tudo bem, Toro. O senhor viu que esse sujeito enverga um traje espacial? — Afinal eu não sou cego! — retrucou Kasom, ofendido. — Não é o modelo mais recente, mas se o senhor deu uma boa olhada, Mentro, até mesmo o senhor devia encontrar uma certa semelhança com os trajes espaciais leves, que os arcônidas antigamente colocavam à disposição dos seus mercenários, recrutados de outros povos. — Provavelmente os arcônidas, que exploraram o sistema, tenham deixado por aqui algumas peças do seu equipamento — disse Lesska Lokoshan. — Eu teria preferido que eles tivessem ensinado o intercosmo aos nativos — retrucou Kasom. — Com o pequeno tradutor eu realmente não consigo muita coisa. — Eu sei traduzir — disse uma voz metálica ecoante. Os três homens olharam perplexos para o cone duplo, que pairava perto da depressão do tonturster. — O senhor... você sabe traduzir? — perguntou Kosum. — Quem é você? — Eu sou a Borro Gane — veio a resposta, em intercosmo. — O tonturster chamase Push-Push Dois Mil Trezentos e Um. O nativo disse alguma coisa, e a Borro Gane traduziu:

— Vocês não são de Ameln nem de Tonturst. Vocês vêm do Domicílio dos Deuses, Arkon? — Nós viemos da Terra — respondeu Mentro Kosum, e a Borro Gane traduziu-o para o tonturster. — Uma nave grande das nossas pousou em Caraprien e com uma pequena nós viemos para Tonturst. — Caraprien...? — traduziu a Borro Gane as palavras seguintes do tonturster. — Lá não há água, nem ar, nem vida. Push-Push 2301 certa vez esteve lá. — Vocês dominam a astronáutica? — quis saber Lesska. — Os Sete que possuem a Chave, viajam pelo espaço, buscam escravos de Ameln, trazem bichos amelners com asas para caçar cochs. Escravos trabalham nos campos de nosso planeta, e são imunes contra o veneno dos eikzechs e de outros animais. Toronar Kasom curvou-se para a frente. — Caso essa coisa de “Chave” não foi mencionada apenas simbolicamente, eu poderia ver a sua, Push-Push 2301? O tonturster tirou a sua capa, abriu o zíper magnético do seu traje espacial e mostrou a Kasom a chave de impulsos que ele trazia dependurada numa corrente acima de sua eclusa de alimentação, sobre o peito. O ertrusiano anuiu. Ele deu-se conta de que em algum lugar em Tonturst devia haver um depósito que tinha sido deixado para trás por astronautas arcônidas. Provavelmente alguns tontursters, há muito tempo, tinham se apoderado das chaves de impulsos, utilizaram diversas coisas e mais tarde as reconstruíram e sobretudo tinham adquirido sabedoria técnica, com cuja ajuda construíram algumas espaçonaves primitivas para uso interplanetário. Aliás, parecia que a massa dos tontursters continuou ignorante, como se somente a casta dos possuidores da chave tivessem chegado a um certo desenvolvimento técnico. — Obrigado — disse ele. — O senhor consegue prever tremores e erupções vulcânicas, Push-Push 2301? Quero dizer, chamou minha atenção que membros do seu povo fugiam de lugares onde mais tarde irrompiam vulcões. — Isso é correto, Qua Soom. Nós tontursters sentimos o hálito da névoa do chão. Tonturst sempre foi um planeta de muitos vulcões, mas agora é muito pior, e o pior é que esquecemos, esquecemos muito. Uma sombra passou pelos rostos dos três humanos. — Também no nosso povo muitos esqueceram quase tudo — declarou Kasom. — Em parte é ruim, pior que aqui, entre o seu povo. Push-Push 2301, o senhor por favor poderia nos acompanhar até a nossa grande nave espacial? Ela se encontra em situação de emergência, e eu acho que o senhor poderia ajudar muito com esse seu dom de sentir “o hálito da névoa no chão”. Talvez então possamos ajudar algumas pessoas do seu povo, com a nossa grande nave. A Berro Gane traduziu novamente. Desta vez ocorreu uma discussão entre ela e o nativo, depois ela comunicou aos humanos que Push-Push 2301 e ela viriam com ele. — Nós vamos tentar ajudar — acrescentou ela, evidentemente de sua parte. — Ameln está perdida, mas talvez vocês astronautas da Terra possam ajudar os seres de Tonturst. Toronar Kasom olhou, pensativo, para a Borro Gane. Ele perguntou-se o que ela devia ser realmente. Por fora um robô de formato exótico, ela não parecia absolutamente estar a serviço de Push-Push. Ao contrário, ela devia possuir grande autoridade e provavelmente era venerada.

Mas uma criação da tecnologia arcônida ela não era — também não era uma criação da tecnologia de um outro povo conhecido dos terranos. Um produto das tentativas técnicas dos possuidores da Chave entre os tontursters, isso mesmo ela não poderia ser. Portanto, de onde vinha ela, e quem a trouxera para o Sistema Lignan...? O ertrusiano sentiu que alguém o olhava intensamente. Ele ergueu a cabeça e encontrou o olhar de Kosum. — Imagine que você é muitíssimo maior...! — murmurou ele, usando o familiar você, na sua excitação. Para Kasom parecia que de repente uma luz se acendera no seu crânio. Diante dos olhos do seu espírito criou-se uma imagem — a imagem do cone duplo gigantesco, que eles haviam encontrado em Ameln, quando foram catapultados, com seu disco-voador, para um distante passado. Instintivamente ele esperou pela risada telepática, que tinha ridicularizado a ele e a Kosum, quando do encontro com o cone duplo gigante — antes de serem catapultados de volta para o seu tempo original. Mas desta vez nada riu. O ertrusiano olhou furtivamente para a Borro Gane, que pairava, imóvel, junto do tonturster. Esta figura se originava naquela nave de cones duplos? A concordância do formato dificilmente podia ser um simples acaso. Ele encolheu os ombros. A resposta a essas perguntas teria que esperar. Primeiramente precisavam alcançar o disco-voador, antes que fosse engolido pela lava que era cuspida dos vulcões. Depois eles teriam que libertar a Good Hope II de sua situação perigosa, e tentar ajudar o maior número de tontursters possível. *** O console de comutações explodiu numa descarga brilhante. Destroços incandescentes voaram pelos ares. Gritos ecoaram. O automático de extinção de incêndio jogou espuma nas chamas, que saíam de dentro do console de comutações, arrebentado. Perry Rhodan, que se deixara cair, levantou-se e correu para o homem que atendera ao console. O homem estava morto. Rhodan fechou-lhe os olhos. O seu rosto mostrava a comoção que sentia pela morte do técnico de antigravidade. Quando se levantou, viu Atlan diante de si. — Que coisa... — murmurou o arcônida. — Como é que isso pôde acontecer, Perry? O Administrador-Geral colocou a cabeça na nuca e olhou fixamente para o teto da casa de comando de máquinas, como se através dele pudesse olhar para o cosmo, ali, onde estavam os autores da catástrofe galáctica, ou seja, os seres que eram responsáveis pela morte do técnico de antigravidade. Dois robôs entraram e levaram o morto. Eles o levariam para a geladeira, e mais tarde um ataúde ou uma urna seria lançada ao espaço. Perry Rhodan voltou o seu rosto novamente para o seu amigo. — Que seres são estes que lançam toda uma galáxia no caos? — Eu receio que nós ainda iremos conhecer estes seres muito mais de perto. — Por mim eu até gostaria de desistir disso. Pela primeira vez eu não estou curioso. Você entende isso, Atlan? — Muito bem até. Ambos os homens se viraram quando atrás deles soaram passos pesados.

Aronte entrou. O takerer, nestes últimos tempos, ainda ficara mais magro do que normalmente já era. Sua pele morena esticava-se por cima dos ossos da face, e os olhos negros brilhavam como brasas acesas nas suas órbitas. Ele olhou para o Administrador-Geral e disse: — Eu sugiro que tentemos nos erguer apenas com os propulsores de impulso, Mr. Rhodan. A crosta do planeta está sofrendo uma tensão muito grande. Nas próximas horas iremos ter mais outros terremotos. Perry refletiu por um instante, depois anuiu. — Vamos experimentar isso logo. Venha, por favor, para a central, Mr. Aronte. Senco Ahrat, o segundo emocionauta da Good Hope II, olhou Rhodan ceticamente, quando este explicou-lhe a sugestão de Aronte. — Nós correríamos um risco muito grande com isso, Administrador-Geral — retrucou ele. — A nave está presa de modo tão infeliz, que sem os projetores antigravitacionais ela não poderá libertar-se. — Os projetores antigravitacionais, ainda há pouco, deixaram de funcionar definitivamente — interveio Atlan. — Vamos levar no mínimo quatro dias para consertar esses danos com os meios de bordo. Portanto não falemos mais nisso. — Eu pensei que nós poderíamos girar a nave com ajuda de impulsos cautelosos, de modo que a protuberância equatorial dos propulsores se colocasse na horizontal — explicou Aronte. Ahrat encheu o seu cachimbo, meteu-o entre os dentes, mastigou-o sem acendê-lo. Depois de algum tempo ele olhou para Rhodan e disse: — Eu vou tentá-lo. Por favor, mande comunicar que todos devem afivelar-se. Dentro de dez minutos vamos começar. Ele sorriu rapidamente, mas o sorriso logo desapareceu quando a Good Hope II foi violentamente sacudida. O tremer durou apenas poucos segundos, mas o suficiente para lembrar a tripulação do perigo em que pairavam. — É uma sorte que as máquinas para a produção da gravidade artificial de bordo não deixaram de funcionar — observou Atlan. — Caso contrário teríamos que caminhar sobre as paredes e Ahrat teria muito trabalho para trepar até o console principal de comando. O segundo emocionauta não riu disso, apenas repuxou a cara. Ele sentou-se na poltrona anatômica do console principal, ativou o automático de checagem e verificou que os propulsores de impulsos na protuberância equatorial funcionavam perfeitamente, com exceção de apenas dois. Isso era o suficiente, sempre que se conseguisse colocar a Good Hope II na posição que era necessária para uma partida vertical. Quando Rhodan comunicou que a tripulação estava pronta, ele ligou os reatores Schwarzschild e baixou as mãos por cima da placa circular com os comutadores giratórios, dos quais existiam um para cada propulsor. Com eles era possível regular individualmente o rendimento de cada propulsor. Dois comutadores não brilhavam. Era os que ligavam os impulsores defeituosos. — Não quer fazer uso do capacete SERT? — perguntou Atlan. Senco Ahrat sacudiu a cabeça. — Não para o que pretendo fazer, Lorde-Almirante. Por favor, agora todos façam silêncio. Ele apertou um comutador, depois o girou cautelosamente. O movimento quase não era visível.

Vindo da direção do setor de bombordo veio um fraco bramido. A nave tremeu ligeiramente. Ahrat acionou um segundo comutador, depois um terceiro e um quarto. Os ruídos de funcionamento aumentaram. A nave tremia e estremecia. O segundo emocionauta girou comutadores, aumentou a propulsão e diminuiu-a novamente, desligou propulsores e ligou outros. Lentamente a Good Hope II girou para a posição ideal, porém então uma das paredes da fenda rochosa abaixou, recuou — e a nave caiu novamente para a posição antiga. Muitas toneladas de rochas vieram do alto, chocando-se contra o casco externo. A Good Hope II ficou metida na fenda como uma cunha. Senco Ahrat colocou o comutador-geral em DESLIGADO e baixou o rendimento dos reatores Schwarzschild. Ele vociferou para si mesmo sem inibição, amaldiçoou Caraprien, o Enxame, a si mesmo e ao takerer que fizera a sugestão. Perry Rhodan tentou não escutar, mas quando aquilo ficou demais, ele pediu ao Emocionauta que se controlasse. Ahrat enrubesceu. Os seus ombros caíram. — É terrivelmente penoso para mim, Administrador-Geral, que eu me deixei descontrolar. Eu sou... — O senhor é um ser humano e tem fraquezas humanas, como todos nós — interrompeu-o Perry. — Vamos acabar com isso. Ele puxou o microfone da instalação de intercomunicação para junto de si, ligou a aparelhagem e disse: — Rhodan à tripulação. A tentativa de partida fracassou. Os senhores podem desafivelar-se novamente. Tolotos, por favor, à central de comando! O halutense apareceu poucos minutos mais tarde. — Isso foi puro azar, Rhodanos — disse ele. — Se aquele paredão rochoso não tivesse recuado, provavelmente teríamos conseguido sair. — Provavelmente. O que podemos fazer agora, meu amigo? — Esperar por um milagre, Rhodanos. Sim, naturalmente eu sei que não existem milagres, mas uma avaliação do meu cérebro planejador me diz que, no momento, não existe outra chance para nós. — Ninguém respondeu aos nossos pedidos de SOS? — perguntou Ahrat. Rhodan passou o intercomunicador para a central de rastreamentos e pediu notícias. — Nenhuma comunicação que possa servir — disse o técnico do rastreamento. — Só coisas muito confusas, cheias de interferências. Eu vou passar-lhe um chamado que passei pelos filtros. Houve um clique nos alto-falantes, depois uma voz rouca disse: — Já não era sem tempo que vocês se comunicou, minha esperança. Não temos mais nada para comer. — Seguiu-se uma gargalhada louca. — Mas temos o que beber. Ei, nós bebemos e viajamos através da Eternidade! — O locutor soluçou, sem poder se conter. Quando a retransmissão foi cortada, os homens se entreolharam, deprimidos. Os seus rostos estavam cinzentos e eles mordiam os dentes. — Meu Deus! — murmurou Perry Rhodan, virou o rosto e trincou os dentes. — O que há com minhas crianças? — perguntou Tolot, dirigindo-se com os braços abertos na direção do Administrador-Geral. — Não chorem, pois desse jeito Tolot fica muito infeliz. Ele quis abraçar Rhodan, porém este recuou.

— Deixe disso! O halutense recuou, embaraçado. — Desculpe-me, Tolotos — disse Perry, assoou o nariz e levantou-se. — Por favor, me perdoe. Eu estava fora de mim. — Está bem! — trovejou Icho Tolot. Ele pegou Rhodan cautelosamente com ambas as mãos, levantou-o e dançou com ele através da central. — Como é que eu poderia ficar zangado com meus filhos? De repente Gucky materializou em cima de sua cabeça. — Que negócio é esse? — perguntou ele, espantado. — Como é que vocês podem dançar, quando a galáxia inteira está arrebentando? Aliás, eu verifiquei que os gêmeos cósmicos estão no caminho de volta para Caraprien. Tolot colocou o Administrador-Geral no chão e girou a sua cabeça tão violentamente, que o rato-castor escorregou e teve que saltar para baixo. — A Daphne está de volta? — perguntou Rhodan ao ilt. — Sim, e os gêmeos estão trazendo um tonturster com eles, e mais alguma coisa que eu não consegui reconhecer muito bem. — No pelo de sua testa apareceu uma ruga profunda. — Eu sinto hilaridade, uma hilaridade muito curiosa. E agora acabou. Perry, você permite que eu salte para dentro da Daphne? — Isso é até uma boa ideia, baixinho — retrucou Perry Rhodan sorrindo. — Você pode até transmitir a Kasom que ele não deve aterrissar com a nave, mas que deverá ancorá-la com campos de força, acima da superfície, para que também não caia dentro de uma fenda. — Vou fazer isso, Perry — disse o ilt, no seu modo de falar convencido. Ele olhou para o halutense. — Você ainda está aqui, Icho! Saia daqui. Suas pedras maravilhosas me incomodam. O halutense olhou assustado para o colar de eufolites brilhantes, que o havia salvo da imbecilização. Ele naturalmente sabia que dons parapsíquicos não funcionavam nas proximidades dos eufolites, mas nem se lembrara disso. — Desculpe-me, por favor, Gucky — disse ele, com voz excepcionalmente baixa. — Eu fui muito desatento. Lentamente ele recuou até a escotilha. Gucky assobiou alto e disse, quanto Tolot o olhou fixamente: — Até breve, Icho. Você é mesmo um sujeito amável. Icho Tolot emitiu um berro de alegria, e parecia que queria correr até Gucky para abraçá-lo, porém depois ele se virou e desapareceu. O rato-castor acenou para o Administrador-Geral, fechou os olhos e teleportou.

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Gucky materializou em cima dos joelhos de Kasom, olhou em torno da central do disco-voador e disse: — Saudações de Perry. A Good Hope está presa, sem esperanças de se livrar, metida numa fenda. O que vamos fazer agora, Toronar? — Nós sentimos o hálito da névoa do chão — respondeu Kasom, sem pestanejar. — O que...? — Gucky olhou para o ertrusiano, de olhos esbugalhados. — Como é que você pode fazer piadas com isso, sem bárbaro sem sentimentos! — Mas não foi uma piada — retrucou Toronar, Sério. — Na realidade não há nada sobre o que eu poderia fazer piadas, Gucky. Nosso hóspede tonturster, Push-Push 2301, possui o dom de sentir o hálito da névoa do chão, ou seja, ele é capaz de sentir e localizar, muito antes que aconteçam, erupções vulcânicas, rios de lavas subplanetárias e gêiseres. O ilt olhou para o tonturster, penetrou discretamente no conteúdo do seu consciente e anuiu satisfeito. — Seja bem-vindo, Push! Permita que eu lhe chame somente de Push. Nomes compridos são difíceis de memorizar. Ele virou-se rapidamente, quando a Borro Gane começou a falar com voz metálica. — Pelo dente de minha avó! O que é isso? — Um robô — respondeu Lesska Lokoshan. — Ela diz chamar-se Borro Gane, e traduz as suas palavras em tonturst. — Não em tonturst, mas sim em amton, que é a língua que é falada tanto em Ameln quanto em Tonturst — era falada. — A Borro Gane pairou mais para perto do rato-castor. — Isso também é novo para nós — disse Mentro Kosum. — E é inacreditável — declarou Gucky. — Isso não existe, que em dois planetas se desenvolve apenas uma língua. Ou trata-se de um povo? — Trata-se de dois povos diferentes, que se completam mutuamente — respondeu a Borro Gane. — Sendo que uns escravizavam os outros — disse Kasom, irônico. — Esta é apenas a imagem exterior — retrucou a Borro Gane. — Os tontursters não roubavam forças de trabalho, mas trocavam, de vez em quando, um certo número de amelners contra o mesmo número de sáurios voadores domesticados. Sem esses animais os amelners não poderiam abater cochs suficientes, e sem escravos de campo amelner, em Tonturst teria havido fome, pois somente os amelners eram imunes contra os inúmeros tipos de veneno da flora e da fauna de Tonturst. — Ambos os povos, portanto, viviam numa espécie de simbiose... — concluiu o kamashita, pensativo. — Eu poderia apostar que a probabilidade de um caso desses seria indicada por zero, por qualquer positrônica. — Por que? — perguntou Gucky. — Porque em dois ou mais planetas de um sistema solar, não se desenvolvem seres inteligentes ao mesmo tempo. Para isso as condições são muito diferenciadas. Do mesmo modo é espantoso que os habitantes de um planeta pudessem viver, sem esforço, num outro planeta. — Realmente...! — achou Kasom, lentamente. Ele apertou algumas teclas de comutação e impulsionou o manche de impulsor.

— Realmente nós vamos ter que botar este assunto na geladeira, por enquanto. Eu vou fazer a aterrissagem em Caraprien. Rhodan lhe deu instruções especiais para nós, Gucky? O ilt nomeou-as. Kasom anuiu. — Isso nós íamos fazer de qualquer modo. Espero que Push-Push 2301 possa nos ajudar a desembaraçar a Good Hope novamente. Durante a manobra de aterrissagem a conversa morreu. Kasom e Kosum estavam totalmente ocupados. Não era fácil encontrar um lugar mais ou menos seguro, por cima do qual a Daphne pudesse ser ancorada. A uma distância de oitocentos metros da Good Hope II, a nave-disco finalmente parou, a dez metros de altura acima do solo, pairando e só sendo segura por campos de força ancorados no chão. — Teleporte você com nosso hóspede, Gucky — pediu o ertrusiano. — Nós vamos voando até a Good Hope. Hum! O que vamos fazer com a Borro Gane? Lá fora não há atmosfera e eu não sei se... — Eu simplesmente a levo comigo — declarou o ilt. — Isso não é necessário — disse a Borro Gane. — O vácuo não me prejudica. — Então está tudo em ordem — decidiu Kasom. Depois que o rato-castor tinha desaparecido com o nativo, os três homens e a Borro Gane abandonaram a nave, e voaram na direção da fenda em que se encontrava presa a Good Hope II. O tradutor de Kasom, durante as últimas horas em Tonturst e durante o voo para Caraprien, tinha analisado quase sem lacunas o idioma dos nativos de Ameln e Tonturst. As traduções da Borro Gane o tinham ajudado muito nisto. Depois do regresso para a Good Hope II, o conteúdo informativo do tradutor foi alimentado à positrônica de bordo, e menos de cinco minutos mais tarde o grande computador positrônico podia servir de tradutor entre os seres humanos e o tonturster. Push-Push 2301 infelizmente desmaiara depois da teleportação. Quando ele voltou novamente a si, os que o circundavam podiam depreender de suas palavras que ele tomava Gucky por um deus. Nada poderia ser mais penoso ao rato-castor. Ele ensinou ao tonturster que o caso era outro, fazendo-lhe diversas artimanhas parapsíquicas que o fizeram rir. Em seguida o Administrador-Geral cuidou do hóspede. Era uma imagem um tanto estranha. Ambas as criaturas estavam sentadas, bem perto, uma diante da outra, mas não falavam entre si. Eles portavam leves capacetes de rádio que estavam conectados com o computador de bordo. Quando um deles dizia alguma coisa, com o seu órgão de fala ao microfone, isso passava à positrônica, ali era traduzido na língua do outro e irradiado para os fones de ouvido dele. — O entendimento nos é facilitado, porque o senhor também é um astronauta — disse Rhodan para Push-Push 2301. — Por isso eu posso fazer-lhe compreender que, com uma grande nave espacial eu posso salvar muitos tontursters. Eu os mandaria levar para um outro planeta, onde já vive um povo. Com este os senhores poderiam trabalhar em conjunto. — Ele estava pensando em Hidden World I, no Sistema Rubi ômega. — O sol Lignan não tem outros planetas povoados, além de Tonturst e Ameln — retrucou o nativo. — O senhor não pode estar falando de Caraprien, Rhodan. Por que está me mentindo?

Perry enrubesceu ligeiramente, mas então ficou-lhe claro que Push-Push, apesar de suas afirmações claras, tinha sido roubado de grande parte do seu antigo saber, tendo o seu quociente de inteligência rebaixado. — Existem muitos outros sóis com planetas habitados — explicou ele, pacientemente. — Nisso eu não consigo acreditar — retrucou Push-Push 2301. — Eu gostaria de perguntar à Borro Gane. Ela sempre diz a verdade. Perry compreendeu. Para o tonturster a Borro Gane era a mais alta autoridade. O que ela dizia era aceito. Ele mandou chamá-la. A Borro Gane confirmou tudo que Rhodan havia dito. Depois disso, o tonturster pareceu confiar mais no terrano. Ele finalmente até declarou-se pronto a envergar um traje espacial de confecção terrana, porque o seu próprio traje espacial, ao que tudo parecia, jamais servira para ser usado no vácuo, pois ele não continha nem aparelhagens de renovação de ar, nem mesmo uma de climatização — e não tinha também um capacete de pressão! Depois demorou mais de uma hora, para ensinar ao tonturster as funções de um traje de proteção espacial. Depois disso Perry Rhodan teve uma conversa. — Nós sabemos que a Good Hope II não pode partir por seus próprios meios — declarou ele. — Até que os projetores antigravitacionais tenham sido consertados, outros tremores e erupções vulcânicas terão destruído a nave. Por isso eu estou de acordo em incorrer num grande risco. — Aliás, você começou como piloto de risco — murmurou Atlan perto dele, de modo que além de Gucky ninguém mais o ouviu. Perry sorriu fracamente. Ele entendera o que o arcônida lhe queria dar a entender, ou seja, que a maioria de seus empreendimentos até agora tinham sido cheios de riscos, e certamente assim seria no futuro. Ele pigarreou e continuou: — Nosso amigo Push-Push 2301... — ele inclinou a cabeça na direção do tonturster — ...é uma espécie de varinha mágica natural. Aliás, ele não precisa de nenhuma varinha mágica, mas prevê, com ajuda de seus sentidos adicionais, tremores, erupções vulcânicas e acontecimentos semelhantes. — Portanto ele poderá nos mostrar lugares, ao redor da Good Hope II, onde a lava se avolumou, ou onde existem fortes tensões tectônicas. — Eu sugiro colocarmos cargas de explosivos nestes lugares, evacuar a Good Hope II, e dar ignição nas cargas. O computador de bordo calculou uma probabilidade de cinquenta e quatro por cento, de que a nossa nave, através dos tremores provocados pelas explosões, será levada a uma posição de partida mais vantajosa. Nós então poderíamos dar partida nela, por telecomando, dirigindo-a para um lugar seguro de aterrissagem. — Qual é a sua opinião a respeito? Os homens e as mulheres discutiram a sugestão de Rhodan apenas rapidamente. Todos eles sabiam que a Good Hope II não tinha mais nenhuma chance, caso não se fizesse alguma coisa decisiva. Depois de poucos minutos, todos concordaram em assumir o risco. Hora e meia depois, Rhodan conduziu um total de vinte homens para fora. PushPush 2301 manteve-se perto dele, movimentando-se um pouco desajeitadamente. Sobretudo o manejo da aparelhagem de voo ainda lhe dava algum trabalho. Entretanto ele aprendia rapidamente, e o Administrador-Geral concluiu, por isso, que o quociente de inteligência de Push-Push antigamente devia estar bem acima do valor normal.

Espantoso, entretanto, era a segurança com que o tonturster apontava os lugares no terreno, embaixo dos quais havia lava represada ou aqueles que se encontravam sob alta pressão tectônica. Toronar Kasom transmitia os dados de Push-Push correntemente por telecomunicador ao computador de bordo, fazendo calcular, em que pontos e que quantidades de explosivos deviam ser colocadas, e em que profundidade. Diversas vezes a missão foi estorvada por tremores de terra, cujas epicentros ficavam a grandes distâncias, e portanto não podiam ser reconhecidas por Push-Push 2301. Um homem afundou, durante um desses tremores, numa fenda surgida repentinamente. O seu traje de proteção foi rasgado, e os robôs, enviados imediatamente, somente conseguiram trazê-lo de volta já morto. Com isso já haviam morrido duas pessoas, nas tentativas de libertar a Good Hope II. Depois de três horas e meia as cargas explosivas tinham sido colocadas, Perry Rhodan informou às pessoas que tinham ficado a bordo e mandou que Kasom tirasse a pequena nave-disco da zona de perigo. Mal o primeiro emocionauta tinha dado partida na Daphne, surgiram os membros da tripulação da Good Hope II, saindo de dentro da fenda rochosa, dentro da qual se encontrava imprensada a nave. A trinta quilômetros de distância, finalmente todos tomaram cobertura. Rhodan mandou que Gucky o levasse para dentro da Daphne. O disco-voador pairava por cima do elevado de terreno, atrás do qual a tripulação tomara cobertura. — Mais cinco minutos até a ignição — disse Kasom, depois de um olhar ao seu relógio. Perry anuiu. Ele apertou os lábios e olhou para o lugar, onde dentro de poucos minutos o inferno estaria solto. Ele sabia perfeitamente que em determinadas circunstâncias, todos eles estariam perdidos. Se a Good Hope II não fosse soerguida pelos tremores causados artificialmente, conforme calculavam, e desaparecesse definitivamente sob a superfície, no melhor dos casos, eles podiam usar a Daphne para levar, em levas sucessivas, a tripulação para Tonturst, para um planeta portanto, no qual poderiam viver alguns dias mais que em Caraprien. O Administrador-Geral franziu a testa, quando o seu telecomunicador de pulso deu sinal. Ele ligou o aparelho e flexionou o braço. — Rhodan! — Aqui fala Atlan — veio pelo aparelho. — Eu mandei parar o contador para a ignição, porque Mentro Kosum está faltando. Provavelmente ele ainda se encontra a bordo da Good Hope II. — Isso logo vamos ficar sabendo. Rhodan ligou o telecomunicador da Daphne e disse: — Rhodan chamando Mentro Kosum. Kosum, responda! A tela de imagem iluminou-se. O rosto do segundo emocionauta apareceu. — Aqui Kosum, a bordo da Good Hope II. Eu peço por compreensão, pelo fato de ter agido por conta própria. Mas... — Mas o senhor vai abandonar imediatamente essa nave! — ordenou Rhodan, furioso. — Por sua causa tivemos que parar a contagem regressiva para a ignição. O rosto de Kosum ficou impassível. Somente a sua voz soou mais dura que normalmente. — Administrador-Geral, eu vou ficar na Good Hope e peço que mandem prosseguir com o contador da ignição. No momento decisivo, depois da explosão, eu vou ativar os propulsores, e tentar levar a Good Hope para cima desse modo.

— Se a tentativa falhar, o senhor será um homem morto, Kosum — disse Perry Rhodan. O emocionauta sorriu. — Se a tentativa falhar, Administrador-Geral, eu serei um homem morto da mesma maneira, assim ou assado. Fora da nave naturalmente eu viveria um pouco mais — mas se eu ficar dentro da nave, eu aumento nossas chances de sobrevivermos. Eu lhe peço, insistentemente, que mande continuar com a contagem regressiva. Rhodan olhou sério para o emocionauta, depois anuiu. — O senhor ganhou, Kosum. Eu lhe desejo muita sorte. A contagem regressiva continua. Ele levou mais uma vez o telecomunicador de pulso aos lábios. — Rhodan para Atlan. Mande prosseguir com a contagem regressiva. O tempo para a ignição parecia passar mais lento que normalmente. Quando finalmente a hora chegou, Rhodan curvou-se para a frente, e olhou fixamente para a tela de imagem, que lhe mostrava os arredores da Good Hope II. Primeiramente diversas nuvens brilhantes incharam-se. Fumaça varreu para todos os lados, em forma de raios estelares, depois o altiplano levantou-se, arrebentou no meio. Destroços de rochas, lava e torrões de escórias foram turbilhonados pelos ares, para todos os lados. — Está vendo alguma coisa da Good Hope? — Perry perguntou ao ertrusiano. — Nada — retrucou Kasom. No mesmo instante os sensores de energia da Daphne se manifestaram. Os valores mostrados correspondiam mais ou menos aos do desenvolvimento de energia que acontecia quando da partida de uma nave como a Good Hope II. Somente segundos mais tarde, a esfera de metalplástico, de cem metros de diâmetro, subia através da fumaça e do fogo. Seus propulsores espalhavam uma claridade ofuscante, enchendo os arredores de uma luz muito brilhante. Perry Rhodan olhou para baixo. Os membros da tripulação da Good Hope II tinham saído de suas coberturas, jogando os braços para o alto, e correndo na direção do lugar onde a nave devia pousar. Ele ligou o telecomunicador mais uma vez para a onda da Good Hope II e disse: — Meus cumprimentos pelo seu êxito, Kosum — e minha mais elevada consideração pessoal. *** A Good Hope tinha pousado, Perry Rhodan insistiu na pressa, e a tripulação correu para bordo. Kasom colocou a Daphne no hangar. O voo para Tonturst deu-se em parte no semi-espaço e levou pouco menos de uma hora. Quando a Good Hope II caiu de volta ao espaço normal, e as primeiras imagens de Tonturst foram recebidas, Rhodan assustou-se. Tonturst era um único caos de torrentes de lava, gêiseres gigantescos e fendas em chamas. Fumaça e gases venenosos cobriam a superfície, mares cobriam as suas margens e em muitos lugares havia tufões. — O que acha, Push-Push 2301... — disse o Administrador-Geral ao seu hóspede — ...acha que ali embaixo ainda vivam muitos membros do seu povo? — Não muitos, Rhodan. E logo não haverá mais nenhum, se isso continuar tão terrível.

— Foi o que pensei. Será um milagre se ali embaixo ainda vivam seres humanos. — El sorriu para si mesmo, ao notar que tinha falado dos tontursters como de seres humanos. Naturalmente que não eram seres humanos, mas que importância tinha isso! Inteligência era um produto da matéria altamente desenvolvida, que evidentemente se assemelhava em todo o Universo. Consequentemente todos os seres viventes inteligentes eram aparentados. O técnico do rastreamento avisou pelo intercomunicador que a Intersolar acabara de sair do semi-espaço a apenas quinhentos quilômetros de distância. Perry Rhodan novamente entrou em contato com Reginald Bell e comunicou-lhe que ele iria para a Intersolar pelo transmissor, junto com Atlan e o tonturster. Push-Push 2301 devia conduzir os comandos de salvamento dos sobreviventes de Tonturst. Poucos minutos mais tarde os dois amigos se deram as mãos na central de comando da Intersolar. Bell falou rapidamente com o tonturster, depois o entregou ao homem que devia comandar a missão a Tonturst. — Venha, vamos à minha suíte de cabines, Perry! — disse Reginald Bell. Ele sorriu para o arcônida. — E o senhor também vem conosco, Atlan. Eu tenho muitas novidades. Chegados à suíte de cabines de Bell, o Marechal-de-Estado digitou três xícaras de café no seu autômato, depois sentou-se diante de Rhodan e de Atlan. — Eu tomei providências — disse ele — que todas as naves-auxiliares e space-jets da Intersolar tomem parte na missão de salvamento de Tonturst. Naturalmente nós vamos salvar todas as inteligências que possam ser salvas; mas o que vamos fazer com os tontursters, que previsivelmente dentro de algumas horas estarão povoando todos os recintos e corredores vazios da nave? — Esta pergunta faz sentido — verificou Perry. — Naturalmente eles não podem ficar a bordo da Intersolar, Bell. Atlan e eu achamos que você poderia levá-los para um planeta do sol Rubi ômega, ou seja para Hidden World I. Trata-se de um planeta de mineração, cuja população também foi imbecilizada — com exceção do Primeiro Minerador Flinder Tex Gruppa. Aliás, ali existe uma pequena estação da USO. Nós fizemos uma escuta do banco de dados das radiocomunicações. Ele contém inúmeros pedidos de socorro de astronaves, planetas e estações cósmicas, e não apenas de terranos, mas também de acônidas, arcônidas, saltadores, blues e até de tefrodenses, que colonizaram o eastside galáctico. Algumas mensagens ainda não puderam ser decifradas. Trata-se provavelmente de pedidos de socorro de povos galácticos, que nós ainda não conhecemos. Bell anuiu e bebericou o seu cafezinho. — Aliás, nós conhecemos muito pouco de nossa própria galáxia. Mas deixemos disso. A Intersolar também reuniu algumas informações, entre estas uma muito significativa, do Coronel Pontonac, que conseguiu até entrar num Manip. — Como...? — deixou escapar Atlan. — O que foi que ele averiguou? Reginald Bell fez uma careta. — No mínimo que os estranhos, quem quer que sejam, provavelmente não são humanóides. As instalações são totalmente exóticas. No centro do Manip, Pontonac descobriu, sobre um estrado semelhante a um altar, a figura de um ídolo. Uma voz evidentemente telepática explicou ao coronel que o ídolo era Y'Xanthymr, que mata e ao fazê-lo chora pedras vermelhas. Perry franziu a testa. — É um ídolo masculino ou feminino?

— Os ídolos dos estranhos aparentemente são assexuados — interveio o arcônida. — Ou seja, eles são tidos como sem sexo. — Interessante! — disse Rhodan. Bell riu, aferrado. — Nada é interessante, Perry! Quando nós passamos as fitas de vídeo da câmera de Pontonac, elas mostravam cada vez uma coisa diferente, mas nunca aquilo que Pontonac pretensamente observou dentro do Manip. Ele limpou o suor da testa. — E tudo uma loucura. Ele sorriu satisfeito, quando Julian Tifflor entrou na sala. O Marechal-Solar saudou Rhodan e Atlan cordialmente e também digitou para si mesmo uma xícara de café. Depois ele virou-se para Bell. — O senhor já relatou acerca da mensagem de rádio que nós captamos, vinda de dentro do Enxame? — Ainda não, Tiff. Por favor faça isso, por mim. Tifflor sentou-se e relatou. A Intersolar, durante a observação do Enxame, tinha rastreado uma micro astronave, que estava à deriva no espaço. Bell chamou-a, mas não obteve resposta. Depois disso ele quis enviar uma nave-auxiliar, para salvar a tripulação, evidentemente infantilizada. Porém antes que a nave-auxiliar pudesse partir, surgiram doze Manips, que tomaram a pequena nave a reboque. — Da Intersolar ainda foi possível observar, como ela foi puxada através dos estranhos escudos de proteção cristalinos do Enxame, depois a nave sumiu. — Alguns dias mais tarde eles captaram uma mensagem truncada de hiper-rádio, que prevenia contra a penetração no Enxame. — Nós presumimos, como quase certo — concluiu Tifflor — que aviso foi irradiado por alguém de dentro da micronave capturada. Perry Rhodan olhou fixamente o café dentro de sua xícara. — Quem irradiou esta mensagem não pode ser infantilizado — ou não estava mais infantilizado. Eu apenas me pergunto como alguém, depois de já estar preso dentro do Enxame por alguns dias, ainda poderia transmitir uma mensagem de rádio. Bell e Tifflor encolheram os ombros. — Isso nós também nos perguntamos — opinou Bell. — Aliás, a mensagem também foi irradiada pelo rádio normal. Nós a captamos dias depois, quando nos tínhamos aproximado do Enxame, por curto tempo, a poucos dias-luz de distância. Por algum tempo os homens silenciaram, seguindo seus próprios pensamentos. Perry Rhodan arrancou-se à força de suas reflexões, quando notou que acabaria maluco com elas. Contra a imensa ameaça que o Enxame representava, e pela qual fora atingida toda a galáxia, encontravam-se um punhado de terranos imunes...! Ele pigarreou e quis dizer alguma coisa. Neste momento o intercomunicador chamou. Reginald Bell ativou o aparelho e se anunciou. — Aqui fala Dobblas Crown — disse o radioperador de plantão. — Eu recebi um chamado de um certo Lesska Lokoshan. O homem disse que a tripulação da Good Hope II tinha se amotinado e queria pousar em Tonturst. Rhodan levantou-se de um salto. “Gucky!” — pensou ele, intensamente. — “Gucky, eu preciso de você, urgentemente.” “Já estou indo!” — chegou a ele um impulso telepático.

Segundos mais tarde, o rato-castor materializou no recinto. Ele confirmou a mensagem de pedido de socorro de Lesska, e disse que já tinha tentado, inutilmente, fazer com que a tripulação da Good Hope II voltasse à razão. Além de Lesska e do halutense, também os mutantes restantes tinham ficado sensatos. — Os outros estão imbecilizados? — perguntou Julian Tifflor, assustado. Gucky negou. — Eles não estão infantilizados, mas estão agindo, como se não fossem mais eles mesmos... — Leve a mim a Atlan até lá, baixinho — pediu Perry. Quando logo depois eles rematerializaram na central de comando da Good Hope II, diversas armas de raios de impulsos estavam apontadas para eles. — Nós não queremos matá-lo nem feri-lo, Administrador-Geral — disse Toronar Kasom, mas não vamos nos deixar afastar de nosso objetivo, nem mesmo pelo senhor. Rhodan reagiu com calma. Ele anuiu e perguntou tranquilo, que objetivo era esse, em virtude do qual se encenava um motim. O rosto de Kasom tingiu-se de vermelho, apesar de queimado de sol. — O senhor não deve ver isso desse modo, Administrador-Geral. Nós não estamos amotinados, mas é nossa tarefa salvar o máximo de substância possível. Por isso vamos pousar em Tonturst. — De que substância está falando, Kasom? — perguntou Atlan, sem poder se conter. — E quem foi que lhe deu essa tarefa? — Nós mesmos nos colocamos esta tarefa, Lorde-Almirante — respondeu Kasom. — E naturalmente estamos falando da substância Kosha. — Naturalmente! — gritou o rato-castor, indignado. — Como é possível que para vocês uma coisa seja natural, da qual não temos a menor ideia? Ninguém respondeu. A Good Hope II mergulhou na atmosfera de Tonturst, e quase teria colidido com uma nave-auxiliar da Intersolar, que regressava completamente carregada. As duas naves passaram uma pela outra a menos de dez quilômetros de distância. Perry Rhodan refletiu o que poderia ser feito contra o modo irregular do comportamento da maior parte da tripulação da Good Hope. Com a ajuda de todos os mutantes e do halutense, seria fácil liquidar a situação à força. Mas Rhodan não queria empregar força. Para cada problema havia uma solução. Também para este seria encontrada uma. Porém quando a Good Hope II pousou num vale até então ficado poupado pelos tremores de Tonturst, ainda não se encontrara uma solução. Ele olhou para a tela frontal, na qual era reproduzida uma metade do vale. Estranhas árvores cresciam nas vertentes, no fundo do vale havia uma planície, onde corria um ribeirão. Com exceção das formas e em parte das outras cores da vegetação, este vale poderia encontrar-se na Terra. Não, uma outra coisa também não seria encontrada na Terra! Os cadáveres de milhares de seres de três pernas, espalhados pela planície. Toronar Kasom ligou o intercomunicador interno e disse: — Abrir as eclusas e comandos de recolhimento para fora! Recolham os crânios dos amelners e tragam-nos para dentro dos recintos de carga da nave! — Para que isso? — perguntou Rhodan.

Ele voltou a cabeça quando a escotilha blindada se abriu. Alguém empurrou o kamashita para a central e disse: — Ele tentou destruir a Borro Gane. Lesska Lokoshan cambaleou para dentro, limpando o sangue do rosto. Uma sobrancelha estava arrebentada. Lentamente Toronar Kasom levantou-se, foi até o kamashita, e ergueu o punho para golpeá-lo. Mas ele não chegou a isso, pois de repente ele pairou para o teto da central e ficou pairando ali, remando com pernas e braços no ar, completamente impotente. — Eu não permito que pessoas sejam maltratadas! — gritou o rato-castor, furioso. Você pode ficar dependurado aí em cima durante dias, Toronar. — O que foi que aconteceu, Lesska? — Sim — disse Rhodan — porque queria destruir a Borro Gane, Lokoshan? — Porque ela é culpada de tudo — respondeu o kamashita. — Essa coisa dentro da ânfora de cristal é uma aglomeração de células inteligentes. Ela deve ter segregado esporos, e na maior parte da tripulação da Good Hope foram criadas estacas, que dirigem as ações dos corpos hospedeiros. Se nós não destruímos logo a Borro Gane, ela nos escravizara logo a todos. Mais uma vez abriu-se a escotilha blindada. — Não, esta não é minha intenção — disse uma voz metálica ecoante. Todos os olhares dirigiram-se para o cone duplo dourado com a ânfora de cristal, que lentamente pairou para dentro da central de comando. — Não — repetiu a voz. — Vocês estão errados. Eu sou a Borro Gane, e fui criada para ajudar aos seres que têm mãos que saibam criar ferramentas, para que possam sujeitar os planetas utilizáveis. — Ponha-me no chão, Gucky! — disse Kasom. — Eu não vou maltratar ninguém. Por que é que todos me olham de modo tão estranho? Gucky suspirou, aliviado. — Ele é novamente o velho Toronar. — Cautelosamente ele fez o ertrusiano baixar. — Eu acho que posso entender mais ou menos o que aconteceu — disse Perry Rhodan, calmamente, olhando para a Borro Gane. — Você evidentemente viveu uma espécie de simbiose com os tontursters, é isso? — Com os amelners e com alguns tontursters — respondeu a Borro Gane, através de Lap. — Eu fui intercalada na evolução de seres viventes amelners, que possuíam as melhores predisposições para uma espécie dominadora do planeta. — Você quer dizer que, sem você, nunca teria havido um povo inteligente em Ameln? — perguntou Atlan, perplexo. — Talvez só muito mais tarde, se o caos não se instalasse. Porém, sem aqueles que me criaram, haveria em Ameln apenas formas de vida insignificantes. — Quer dizer que minha suposição estava certa! — gritou Kasom. — A gigantesca nave de cones duplos que eu e Kosum observamos, vacinou a atmosfera de Ameln com germens vitais. Perry, que se lembrava bem do relatório de Kasom a esse respeito, anuiu e disse: — Isso também explica porque em dois planetas diferentes do mesmo sistema solar, se desenvolveram quase paralelamente dois povos inteligentes diferentes. — E os dois falavam o mesmo idioma, e se completavam tão idealmente economicamente, como se a evolução de um dos povos tivesse sido programada.

— A evolução dos amelners foi programada por mim — declarou a Borro Gane. — Infelizmente, ao começo de minhas atividades, um outro poder lançou muitas alcontanas ao Sistema Lignan... — O robô estranho! — disse Mentro Kosum. — Aquele que possui uma estação em Caraprien! Ele disse que tinha viajado com uma alcontana, e deste modo tinha acabado metido dentro do Enxame. Ele também falou dos logoportadores das alcontanas. Isso soa como um esporo de uma aglomeração de células, como com você, Borro Gane. — Realmente é assim — disse a Borro Gane. — Mas o logos da alcontana não serve, mas domina. Esta é que é a diferença. — Isso me parece uma diferença decisiva — disse Rhodan. Ele olhou para a tela frontal e viu que cerca de trinta homens e mulheres começavam a juntar os crânios dos amelners mortos. — Mas eu não concordo que os mortos de um povo inteligente sejam desfigurados. Kasom, chame essa gente de volta! O ertrusiano obedeceu. — Os esporos existentes nos crânios dos amelners ainda poderiam ser salvos -— disse a Borro Gane. — Para que? — Bem, na realidade eles deviam servir a vocês, seres humanos. Mas evidentemente vocês não dão valor a isso. — A pergunta não pode ser respondida agora, e não definitivamente — declarou Rhodan, pensativo. — Entenda-me corretamente, Borro Gane, nós não sentimos aversão a você, pois você é um ser inteligente, mas nós estamos acostumados a morar sozinhos em nossos corpos. Talvez por isso estejamos deixando passar alguma coisa, mas não estamos em situação de sentir a sua falta. — Aceito isso — retrucou a Borro Gane. — O que vai acontecer comigo agora? Eu tenho que me fazer útil, levado por um impulso interior meu. — Você poderia ir com os tontursters salvos para Hidden World I — respondeu o Administrador-Geral. — O que no correr dos tempos cresceu entre vocês é respeitado por nós. Porém em Hidden World I vivem membros de uma outra civilização. Eu não vou deixar levar você a esse planeta, se tenho que recear que você vá servir aos Mineradores, sem ter a sua concordância. — Para isso eu não teria capacidade. Por isso eu desisti imediatamente com o meu serviço ao seu próprio povo, quando verifiquei que o mesmo não era desejado. — Eu acredito nela — declarou Atlan. — Eu também — disse Rhodan. — Kasom, logo que as pessoas estiverem novamente na Good Hope, leve a nave para a Intersolar. Entrementes eu vou tomar todas as providências para que ali tudo esteja preparado para sanar os defeitos dos projetores antigravitacionais. Talvez vamos encontrar uma instalação de reposição completa. — Gucky, tenha a bondade de levar a mim e a Atlan para Bell. — Eu sempre tenho a bondade — retrucou o ilt e pegou os dois homens pelas mãos. *** — Nós conseguimos salvar um total de quinze mil tontursters — informou Reginald Bell. — Os outros, apesar de sua capacidade sensorial, provavelmente caíram vítimas das forças desencadeadas da Natureza. — Quinze mil significam a chance de um novo começar para este povo — retrucou Perry Rhodan.

Os dois homens estavam sentados na cabine de Rhodan na Good Hope II, juntos com Atlan, Kasom e Lokoshan. Na parede do trivídeo podia ver-se o casco externo da Intersolar. Ambas as naves estava orbitando, muito próximas, em volta de Tonturst. O olhar de Perry caiu sobre a faixa de tempo por cima da escotilha. Ele viu que era o dia 20 de agosto de 3.441. Há cerca de um mês e meio, depois de uma longa odisséia, ele voltara novamente à galáxia natal, e há exatamente quarenta e cinco dias ele tinha partido com a Good Hope II para investigar mais a respeito do Enxame e do perigo que este espalhava. Alguma coisa ele já sabia, entrementes, mas ainda nem de longe o bastante para que pudesse ter um ponto de partida quanto a verdadeira natureza do Enxame, de suas origens e de suas intenções. — Eu gostaria de me despedir — avisou uma voz mecânica, pelo alto-falante do comunicador. O terrano apertou numa placa de comutação e disse: — Por favor, entre, Push-Push 2301. A escotilha deslizou para o alto. Duas pessoas entraram na cabine: o tonturster Push-Push 2301 e o kamashita Lesska Lokoshan. Ambos usavam uniformes de bordo terranos, e ambos tinham sido confeccionados especialmente. Diante da parte superior do peito do tonturster estava dependurado um tradutor. — Eu lhe agradeço — traduziu o tradutor as palavras do nativo de Tonturster. — Se nosso povo sobreviver, agradeceremos isso ao senhor. Perry sorriu. — Era nosso dever ajudar. Além disso o senhor também nos ajudou muito, e eu ainda queria-lhe agradecer por isso. O Marechal-de-Estado Bell... — ele inclinou a cabeça na direção de Bell — ...levará o senhor e aos outros tonturster para um mundo, no qual já vivem outras inteligências. Trabalhem em conjunto com elas, então ambas as partes estarão se ajudando. — Eu vou ajudar as pessoas nisso, Mr. Rhodan — declarou o kamashita. — Caso o senhor concordar, eu vou acompanhar os tontursters para Hidden World I. Eu já tenho o consentimento de Mr. Bell. — Eu concordo com isso, Perry — disse Reginald Bell. — Até agora, entretanto, ainda não tivera oportunidade de falar com você sobre o assunto. Perry olhou longamente para o kamashita, depois disse: — Eu não tenho nada contra, Mr. Lokoshan. Aliás, eu estou espantado com o senhor. Até agora o senhor sempre dava um jeito para escapar de qualquer esforço, e agora quer ir exatamente para um mundo no qual terá que trabalhar mais duramente do que jamais em sua vida. Lesska Lokoshan revirou os olhos. — É uma boa ação, e eu o farei. Eu peço apenas que, tão logo seja possível, me mandem uma pequena nave para Hidden World I. — O que é que o senhor quer com uma nave? — Organizar uma expedição de auxílio para Kamash. É que eu receio que a maioria dos kamashitas também estejam imbecilizados. — Eu compreendo — disse Rhodan. — O que eu puder fazer, será feito, Mr. Lokoshan. Eu espero que nos vejamos outra vez. — Isso eu também espero — retrucou o Mestre da Fauna. Depois de ter-se despedido do seu amigo Bell, do kamashita e de Push-Push 2301, o Administrador-Geral dirigiu-se para a central de comando.

Toronar Kasom estava conversando por telecomunicador com o comandante da Intersolar, que lentamente se afastava da Good Hope II. Perry Rhodan sentou-se à mesa de mapas. Depois de alguns minutos Kasom terminara a sua conversa, e veio até onde se encontrava Rhodan. Ele pigarreou e avisou: — A Good Hope está pronta para a partida, Administrador-Geral. Aliás, Tschubai foi dar uma olhada na estação das alcontanas. Ela foi completamente destruída por um dos últimos tremores. Tschubai voltou há dez minutos atrás, com um Lightning Jet. — Obrigado! — retrucou Perry. Ele olhou para o setor de bombordo da galeria panorâmica, onde se via a pátria dos tontursters envolta em fumaça e vapores. — Cada mundo e cada civilização parece ter o seu segredo especial — disse ele para si mesmo. — E quanto maior é nossa sondagem, mais encontramos... *** ** * Muitos dos tontursters condenados à morte pela chegada do Enxame, puderam ser salvos, graças a interferência de Reginald Bell. Eles deverão ser levados para Hidden World I, onde podem prestar ajuda aos mineradores. Mas o que, entrementes, está acontecendo no âmbito do Império Solar, que só ainda existe pelo nome? Roi Danton, que funcionava há pouco tempo como ajudante de emergência de Olimpo, verifica isto num Interlúdio em Tahun... Interlúdio em Tahun — é o título do próximo número da série Perry Rhodan.

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