You are on page 1of 28

CL E P U L

em Revista
1
Março de 2015
2 CLEPUL em Revista

CLEPUL Francisco, leitor de Reconduzindo-se à orto-


tem nova direcção Vieira doxia, não era um se-
guidista e imitador de
No dia 4 de Março, às superfícies. Os temas,
Eleito em 28 de Feve- 10 da manhã, recebeu sob forma de concei-
reiro de 2015, Ernesto o Papa Francisco de- tos predicáveis, raiam,
Rodrigues é acompa- legação portuguesa que por vezes, a heresia,
nhado, na Direcção do lhe ofertou os 30 vo- obrigando-o a declarar:
CLEPUL  Centro de lumes da Obra Com- Até não me ouvirdes,
Literaturas e Culturas pleta de outro ilustre Je- não me condeneis. 
Lusófonas e Europeias suíta, o Padre António diz no Sermão da Glória
da Faculdade de Le- Vieira. Às 18 horas, de Maria, Mãe de Deus
tras da Universidade na igreja de Santo An- (1644), em que compara
de Lisboa, por José tónio dos Portugueses, a glória de Maria com
Eduardo Franco e Ana onde Vieira pregara, o a do Criador, a quem
Paula Tavares (direc- bispo Carlos de Azevedo Maria criou. Em Ja-
tores-adjuntos), Luísa apresentava essa colec- neiro de 1646, um lente
Paolinelli (secretária), ção de sermões, cartas, jesuíta de Santo Antão
Luís Pinheiro e Paula profética, vária. Orga- denunciou-o à Inquisição
Carreira (vogais). nizei o nono volume dos como possuindo dois li-
Com 111 membros inte- Sermões; e anotei o vo- vros de profecias, a par
grados, o CLEPUL re- lume XV, com o especia- de acusações como a de,
presenta um quarto dos lista em parenética João na presença de D. João
dez centros, e 443 mem- Francisco Marques, cuja IV, lho D. Teodósio e -
bros, da Faculdade de morte turvou iniciativa dalgos, sustentar Vieira
Letras de Lisboa. que congrega 52 investi- contra o capelão régio
Todas as iniciativas dos gadores nacionais e bra- que o Pontíce podia
membros, doutorandos e sileiros, coordenada por errar na canonização dos
colaboradores do CLE- dois centros de investi- santos, e não era obri-
PUL serão registadas gação da Faculdade de gatório crer o contrá-
em publicação mensal, Letras de Lisboa, em es- rio (J. Lúcio de Aze-
online, maciçamente dis- pecial, pelo CLEPUL, vedo, História de Antó-
tribuída por milhares de que dirijo, substituindo nio Vieira, I, 3.a ed.,
destinatários. Este é José E. Franco, alma do 1992, p. 137). Uma
o primeiro número, in- projecto vieirino. coisa é dogma, verdade
cluindo matéria desde Vieira fez-se jesuíta pro- da Fé; outra é liber-
inícios de Fevereiro. fesso em 1644 ou 1645, dade de pensamento, ca-
Para memória futura. após os votos de casti- paz de tudo argumen-
 dade, pobreza e, dentro tar ou questionar. Aqui,
Edição: Ernesto Rodri- da obediência, obediên- começa a Universidade.
gues, Luís Pinheiro. cia também ao Papa. ER

www.clepul.eu
Vieira Global 3

Papa Francisco recebe Obra Completa do Padre António


Vieira

A justiça está primeiro que a devoção


Vieira

Vieira Global é como cluída em tempo recorde 4 de março, com a rea-


se intitula o gigantesco por uma equipa luso- lização nesse mesmo dia
projeto de investigação -brasileira de especia- de uma sessão solene
liderado pelo CLEPUL listas e investigadores, de apresentação pública
para disponibilizar ao foi razão para a Rei- no Instituto Português
grande público a obra toria da Universidade de Santo António em
toda e o conhecimento de Lisboa e o Reitor Roma.
nacional e internacional em exercício, António Na verdade, o leitor
do legado intelectual do Cruz Serra, assim como amante da cultura, da
Padre António Vieira. o Reitor Honorário, An- criação literária, da ciên-
O volumoso resultado tónio Nóvoa, liderarem cia e da beleza começa a
da primeira fase deste uma comitiva para ofe- dispor, a partir de agora,
projeto em 30 volumes, recer esta opera omnia da obra toda de um dos
levada a cabo e con- ao Papa Francisco em maiores e mais procien-

www.clepul.eu
4 Vieira Global

tes oradores e escritores tuguesas, brasileiras e tas em estudos vieirinos


da Língua Portuguesa de outros países, onde a e áreas ans, fundamen-
de todos os tempos. produção escrita deste talmente de universida-
O pregador, o conse- autor encontrou acolhi- des portuguesas e brasi-
lheiro régio, o diplomata mento. leiras, que aceitaram o
e o missionário jesuíta Projetos desta dimen- desao de trabalhar em
Padre António Vieira são exigem um nancia- conjunto, de forma con-
contribuiu para aperfei- mento signicativo e a certada, dos dois lados
çoar, de forma signica- reunião de equipas de do Atlântico para levar a
tiva, a língua portuguesa investigadores qualica- bom termo este projeto.
nos diferentes usos que dos em várias áreas e Além do concerto de
fez da nossa língua ao de vários países, assim vontades e de métodos
longo do século XVII como exigem um enten- conseguido em intensi-
em que viveu e encheu dimento de base quanto vas reuniões de trabalho,
com os seus altos ideais a metodologias a respei- foi necessário garantir
e ação apaixonada. tar e prazos a cumprir. um nanciamento su-
A preparação cuidada A dimensão do legado ciente. Primeiro, conse-
e sistemática da obra pluriforme dos escritos guimos pequenos apoios
completa do Padre An- de Vieira e a sua dis- de algumas instituições
tónio Vieira tem sido persão em diferentes ar- beneméritas, mas que
reivindicada e tentada quivos e bibliotecas de estavam a ser manifes-
desde há mais de século Portugal e do estran- tamente insucientes na
e meio por estudiosos geiro obrigou a recrutar, fase de arranque do pro-
importantes da vida e de facto, uma grande jeto, correndo o risco
do pensamento deste e qualicada equipa de de fazer perigar o anda-
orador luso-brasileiro. carácter interdisciplinar mento da obra.
Na verdade, não se pode para realizar o seu le- Até que a Santa Casa da
avançar com estudos vantamento sistemático Misericórdia de Lisboa,
abrangentes sobre a e exaustivo em ordem na pessoa do seu Prove-
complexidade de uma ao seu subsequente tra- dor, Pedro Santana Lo-
vida e de uma obra tão tamento pré-editorial e pes, decidiu, com uma
vasta como a de Vieira editorial. extraordinária visão e
sem primeiro realizar o Em vez de apostarmos sensibilidade, tornar-se
trabalho preliminar e es- numa pequena equipa, mecenas principal e dar
sencial de levantamento como aconteceu com o apoio decisivo e subs-
e edição total do legado os projetos anteriores, tancial para que este
escrito que chegou até decidimos reunir uma projeto fosse bem suce-
nós e que se encontra grande equipa de mais dido. Assim aconteceu.
disperso por muitos ar- de meia centena de in- As pessoas que já es-
quivos e bibliotecas por- vestigadores e especialis- tavam a trabalhar no

www.clepul.eu
Vieira Global 5

projeto estiveram à al- A presente publicação toriamente considerado


tura de corresponder cumpre um ideário de por historiadores e pen-
à conança depositada serviço à cultura e à lín- sadores, uma gura há
através de um nancia- gua do mundo lusófono, que avulta imediata-
mento suciente para mas também atende ao mente aos nossos olhos,
que o projeto não dei- desejo de muitos admi- majestosa e absorvente:
xasse de se concretizar radores e cultores que, o Pe. António Vieira.
por falta de recursos - desde o tempo deste au- Efetivamente ele encheu
nanceiros. tor, procuraram dar ao aquele século; podemos
Por seu lado, também prelo a sua obra. A aventar que ele é o seu
foi academicamente im- publicação dos escritos século, e também que
portante o apoio institu- de Vieira permitirá co- este se encontra inteiro
cional da Universidade nhecer melhor aspectos no grande Jesuíta. (A.
de Lisboa na pessoa da história e do pensa- Álvaro Dória, António
do seu Reitor, Antó- mento do século XVII, Vieira no seu Tempo,
nio Sampaio da Nóvoa, mas também os trân- in Revista Ocidente, vol.
e continuado pelo atual, sitos da vida plurifa- LXI, 1961, p. 101)
António Cruz Serra, que cetada deste membro
colocaram este projeto da Companhia de Jesus
sob a égide de universi- na relação com a vida,
dade onde se integra um as grandes questões e
dos seus maiores centros o pensamento do seu
de investigação em hu- tempo (cf. Pedro Cala-
manidades, o Centro de fate, Da origem popular
Literaturas e Culturas do Poder ao Direito de
Lusófonas e Europeias. Resistência: Doutrinas
Não menos relevante foi políticas no século XVII
a disponibilidade reve- em Portugal, Lisboa,
lada pelo Círculo de Lei- Esfera do Caos, 2012, Vieira foi grande, como
tores para apostar num p. 208 e ss.). Dele es- eram as representações
projeto editorial desta creveu, impressionado, dos modelos feitas do
grandeza e complexi- Álvaro Dória para ar- homem barroco. Foi ex-
dade em tempo de grave mar que Vieira repre- cessivo, desmesurado,
crise no mundo editorial senta por antonomásia o tanto nas suas ideias e
português, arriscando conturbado e ao mesmo projetos como nas suas
editar 30 volumes de um tempo fascinante século contradições. Mas tam-
clássico do século XVII XVII: Quando pene- bém, no juízo de mui-
sem a certeza do bom tramos no estudo da tos, ressalta a percepção
acolhimento dos leitores, história do século XVII de que o século portu-
o que veio a vericar-se. português, tão contradi- guês de seiscentos não

www.clepul.eu
6 Vieira Global

esteve à altura do seu corrupção, o diagnóstico lidade atávica portu-


génio incompreendido e, que faz aos problemas guesa, como a inveja,
não poucas vezes, perse- estruturais perenes de a maledicência sistemá-
guido, ameaçado, preso Portugal, as soluções tica e a falta de incentivo
e condenado. que apresenta para tor- político e social aos por-
Os textos de Vieira re- nar o nosso país mais tugueses com talento e
velam uma grande atua- empreendedor, assim mérito que muitas ve-
lidade, por exemplo, no como a sua crítica às ins- zes têm de sair da sua
plano da sua reexão so- tituições de bloqueio do pátria para encontrar
bre a coerência entre Fé nosso progresso, como reconhecimento e es-
e Vida, sobre os Direi- o caso da Inquisição, paço para pôr a render
tos Humanos, a paz, o além da análise certeira as suas competências.
ecumenismo, a crítica à que realizou à menta- José Eduardo Franco

www.clepul.eu
In memoriam 7

João Francisco Marques, o mestre, o amigo e o sábio

João Francisco Marques do que o exemplo dos ção Portuguesa, além


(1929), falecido em 6 de grandes homens. das questões àquelas
março, não foi só um Recupero palavras já associadas do sebastia-
grande professor e mes- escritas noutro lugar e nismo e da utopia do
tre, foi um amigo e um que pensei com a minha Quinto Império; sem
companheiro. Deixou colega e amiga comum falar no estudo demo-
aquele rasto de luz, de Ana Cristina da Costa rado de polémicas várias
entusiasmo, de sabedo- Gomes: João Francisco da cultura portuguesa
ria que só os grandes Marques foi um nome como aquela que no sé-
mestres sabem deixar- grande da historiograa culo XIX deagrou em
-nos. João Francisco portuguesa contemporâ- torno da corrente pro-
Marques foi mestre de nea. São incontornáveis testante.
muitos colegas nossos os seus estudos aprofun- Detentor de um incon-
que dele beberam o sa- dados de campos quase fundível estilo erudito
ber histórico e o saber ermos em termos de uma peculiar, que podería-
da vida vivida como de abordagem crítica mo- mos justamente classi-
uma fonte que jorrava derna como a oratória car de vernáculo su-
abundante. sagrada, o papel dos perior, João Francisco
Morreu um grande ho- confessores régios nas Marques, com base em
mem, cou-nos um cortes portuguesas, a pesquisas documentais
grande exemplo, pois pregação ideológica e exaustivas e rigorosas,
não há melhores mestres a ação de eclesiásticos tem contribuído signi-
para a vida que recons- no plano político, no- cativamente para a reno-
truímos em cada manhã, meadamente na defesa vação da historiograa
em cada passo nos ca- da causa autonomista do universo religioso em
minhos cheios de laços e durante o complexo Portugal.
da existência humana, processo da Restaura- Mas um dos aspectos

www.clepul.eu
8 In memoriam

mais notáveis do seu tra- plinas e métodos, tem- de História Religiosa de


balho de historiador es- -lhe permitido moder- Portugal, ou mais recen-
pecializado em história nizar a produção histó- temente na Enciclopédia
religiosa é a superação rica, no que à religião de Fátima.
da história instituciona- diz respeito, restituindo- Recordamos aqui a sua
lista e confessionalizada, -a à cidadania da cul- obra magna A pare-
procurando um cami- tura, donde foi de algum nética da Restauração
nho de distanciamento e modo marginalizada. Portuguesa, que con-
de modernidade crítica. João Francisco Marques sagrou João Francisco
Faz do fenómeno religio- foi, sem dúvida, na nossa Marques como estudioso
so não uma realidade comunidade cientíca da Oratória portuguesa,
isolada, desenraizada do um dos mais sábios e obra preciosa e obriga-
resto, ou colocada acima abalizados especialistas tória para todos os que
de tudo o resto, mas vivos no que diz respeito visitam o século XVII
constituída como inter- às relações entre a Igreja português e se interes-
face privilegiado onde se Católica e o seu múltiplo sam pela problemática
cruzam, para efeitos her- universo institucional e religiosa-política e pela
menêuticos, a política, ideológico com outros sociologia ideológica do
a cultura, a educação, a campos confessionais, conturbado período da
literatura, a ideologia. institucionais, ideológi- transição do domínio
Usando ferramentas de cos, culturais e mentais, espanhol para a inde-
outras áreas cientí- cujos estudos são visita- pendência portuguesa.
cas que não só da his- dos por especialistas de Mas a fascinante perso-
tória, propõe aborda- outras áreas disciplina- nalidade de João Fran-
gens interdisciplinares res. cisco Marques  inteli-
dos temas religiosos, Os seus trabalhos são gente, possuidora de
enquadrando-os, para uma referência incon- uma afabilidade rara,
efeitos de compreensão tornável para os inves- detentora de um supe-
cabal das inter-relações tigadores, professores e rior sentido de humor
temáticas, no universo interessados em geral na divertido, multifacetada
mais vasto e unicante área larga da história re- na escrita e nos inte-
da cultura. ligiosa; povoam revistas, resses culturais , não
A sua formação colhida colectâneas, obras colec- tem marcado o saber
em Portugal e em França tivas editadas no nosso historiográco apenas
(onde foi discípulo de país e no estrangeiro, pela investigação ino-
guras cimeiras da his- sendo de destacar a sua vadora. Deixa também
toriograa francesa con- importante participação a sua marca na cultura
temporânea como Jean no segundo volume da portuguesa pelo conví-
Delumeau), o conheci- História Religiosa em vio fecundo com grandes
mento de outras disci- Portugal, no Dicionário homens da literatura

www.clepul.eu
In memoriam 9

e do cinema, entre os cados, muitas análises de cuidadoso bibliólo.


quais cumpre destacar feitas em estudos temá- Deixou uma biblioteca
José Régio e Manoel ticos do século XVII e notável e vários proje-
d'Oliveira. Em favor da sua recepção, varia- tos em fase avançada
do primeiro, promoveu díssimas conferências de conclusão, com des-
a criação do Centro de proferidas em tribunas taque especial para o
Estudos Regianos. Do nacionais e internacio- Dicionário de Oratória
segundo tem sido um nais, muitas teses e tra- Sacra Impressa em Por-
dos seus mais éis con- balhos orientados, onde tugal (5 volumes). Nin-
selheiros e amigos, tendo o incontornável jesuíta guém sabia tanto sobre
estado como especialista emerge quer como - este assunto como João
por detrás de famosas gura central, quer como Francisco Marques. A
peças cinematográcas gura que se cruza de melhor homenagem que
realizadas pelo cineasta, muitas maneiras nos se pode fazer a este notá-
e chegado a entrar em palcos sempre comple- vel homem de saber, que
alguns dos seus lmes xos da história. João era uma biblioteca viva,
como ator. Como ator Francisco Marques foi, seria criar um espaço pú-
de grande gabarito, fez pois, um dos grandes blico para disponibilizar
de cardeal e entrou num especialistas que conhe- a todos a sua biblioteca
lme célebre sobre o ceram, com muito rigor com o seu nome e reunir
mais notável pregador factual e contextual, o recursos para sustentar
português de todos os universo do Padre Antó- uma equipa de investi-
tempos: António Vieira. nio Vieira, o seu século e gadores que dessem ao
Pela via do estudo da a dimensão da sua obra prelo o Dicionário de
parenética, dos confes- integrada nas correntes Oratória e outros pro-
sores régios e da Histó- intelectuais, literárias, jetos em que estava a
ria Religiosa Moderna, políticas e religiosas do trabalhar. Figura tute-
João Francisco Marques seu tempo. lar na edição da Obra
tornou-se um especia- Em jeito de nota e apelo: Completa do Padre An-
lista abalizado do Padre João Francisco Marques tónio Vieira, coordenou
António Vieira. Vieira era um investigador em o tomo II, volume XIV:
ocupa nos seus estudos toda a altura desta voca- Sermões Fúnebres, 2013.
um lugar especial, com ção. Vocação/prossão/ José Eduardo Franco
muitos artigos publi- hobby que associava à

www.clepul.eu
10 Lançamentos

Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro


O Grupo 6 do CLEPUL, bastantes passatempos presença no ALLB deu
capitaneado por Vania tipicam essa presença. outro volume organi-
Chaves, abalançou-se, Salvo algum ano excep- zado por Vania Chaves,
desde 2006, a compul- cional, as lusitanas estão saído em Porto Alegre,
sar os 82 volumes do mais presentes que bra- pela Gradiva Editorial:
Almanaque de Lembran- sileiras e africanas. O Rio Grande do Sul
ças Luso-Brasileiro, já Conscientes da diversa no Almanaque de Lem-
matéria em palestras geograa que pode branças Luso-Brasileiro.
e colóquios, e de que acompanhar um nome Acompanha CD com
saem, agora, os balanços e da diferente assinatura poesia e prosa sul-rio-
mais alentados. Foi pri- que uma entidade pode grandenses, aquela -
meiro objectivo rastrear comportar, de escritos xada e anotada por Va-
a produção feminina, com várias assinaturas, nia Chaves e Beatriz
cujo catálogo, editado de iniciais problemáti- Weigert, esta  onde sa-
pela BNP, com aquela cas, da sobreposição do lientamos António Ma-
assinam Isabel Lousada nome de solteira e ca- ria do Amaral Ribeiro,
e Carlos Abreu. sada, de identicações minhoto emigrado  por
Nos três primeiros anos, incompletas, de nomes Vania Chaves e Isabel
elas não colaboram; a gralhados, de pseudóni- Lousada. Laborioso tra-
pouco e pouco, entrevê- mos, são registados 1277 balho de recolha e digi-
-se, também entre as nomes. Mesmo acei- tação é devido a Carla
senhoras, uma distinção tando casos insolúveis Francisco, Laura Areias,
social, que faz com que,  que as apresentado- Maria José Madruga,
para surpresa nossa, te- ras vão exemplicando, Maria José Meira, Rosa
nhamos aí a mãe de como salvaguarda de cri- Cristina Gautério, Ga-
Jorge de Sena ou fami- térios lógicos , teremos briela Silva, Maria Ma-
liares do bibliotecário cerca de 1300 autoras, nuel Marques, Mires Ba-
eborense Cunha Rivara. das quais é fácil extrair tista Bender, Nathália
E, se o número de tex- pepitas de qualidade, de Jesus Macedo, Si-
tos, entretanto, cresce, como logo na oitava que mão Fonseca, Viviane
ca muito aquém dos abre o catálogo. Herchman. Ainda, a
assinados por homens, Assinaladas colabora- nossa malograda Filipa
sendo que parte dessa ções provenientes de Barata.
produção é de auto- 21 estados brasileiros, O balanço das duas in-
ras falecidas. Certo é o grupo 6 veio traba- troduções, por Mara
que urge rever um câ- lhando, paralelamente, Ferreira Jardim e Vania
none epocal. Maioria de com investigadores do Chaves, e dos 18 estudos
poemas, menos prosa e Rio Grande do Sul, cuja críticos está feito pelo

www.clepul.eu
Lançamentos 11

prefaciador, Aldyr Gar-


cia Sclee.
No seu segundo texto,
Vania Chaves delimita
essa produção do Rio
Grande do Sul após o
almanaque para 1857;
desaparece em 1919 e
tem só mais uma pre-
sença em 1932. Con-
voca, já, Anália Vieira
do Nascimento, mestra
no acróstico  não é a
única , sob cuja lírica
se debruça Ana Maria ram votadas as mulheres do Taveira Júnior, An-
Lisboa de Mello. na história literária. dradina de Oliveira,
De família letrada, co- As intermediações, se- Tomé Mendes e, ai de
laboradora entre 1871 e jam imigrantes (por Ar- nós, muitos anónimos.
1893, esta hugoliana de tur Vaz), seja um cônsul Quem diria, há uns anos,
tonalidades nissecula- (por Maria da Concei- que aqueles voluminhos
res e prática de verso ção dos Santos Silva), enleirados no CLEPUL
em álbuns, dedicatária podem levantar questões iam resultar, para já,
de muitos, pede reunião interessantes sobre uma nestes alentados volu-
em volume. Do irmão presença nacional, seja, mes. . . A devoção dos
Damasceno Vieira, com portuguesa. . . É o caso autores revela qualida-
outra recepção e peso, do Anónimo Portuense, des insuspeitadas em
cura Beatriz Weigert, dizendo em soneto de assinaturas que nos obri-
analisando miudamente 1879: Do pátrio Douro gam, assim, a uma lenta
alguns poemas, indo até que deixei tão cedo,. revisão do meio século
ao caligrama. Estes ir- Outros trabalhos versam romântico até ao pri-
mãos ressurgem nos tex- aspectos salientes na meiro terço de Nove-
tos de Gabriela Silva, produção sulina ou bio- centos. Outros resul-
Laura Areias, Mauro grafam personalidades. tados vêm a caminho.
Póvoas  sobre Damas- Estão, além, lembran- Inclinemo-nos perante
ceno crítico literário , ças, cidades, poemas de esta investigação  e
bem como em Maria Eu- morte, luto e memória, tanto esforço que reúne
nice Moreira, que presta mitologia greco-romana, as margens do Atlântico.
atenção às demais vozes registos de cultura po- ER
femininas, para concluir pular; aqui, Alfredo Fer-
da negligência a que fo- reira Rodrigues, Bernar-

www.clepul.eu
12 Lançamentos

Passos Perdidos  eleitos e sistema elei- dentes, como nas au-


toral, sobre que tanto tárquicas, antes que a
Quando três persona-
se fala, sem proveito, e sociedade os encerre em
gens sobem a escadaria
que o voto soberano não si mesmos. Não desejo
da Assembleia da Repú-
pode caucionar. o m dos partidos; estes
blica, vencem o detec-
Duzentos e trinta de- é que, sem a qualidade
tor de metais e caem no
putados, se magnícos, exigível, não podem ser
salão-corredor exibindo
seriam música de esfe- senhores de um destino
seis painéis a óleo sobre
ras, senão puro maná; colectivo. Mais: vo-
tela de Columbano que
mas nem um lme sobre tando em partido, e em
retratam 22 heróis pá-
12 magnícos faríamos, círculo nacional, deve-
trios desde o século XIII,
o que leva a perguntar mos poder votar num
não podemos deixar de
da desrazão de alimen- candidato da nossa pre-
pensar, também, que os
tar parasitas além dos ferência, e não forçados
designados Passos Per-
180, como prevê a Cons- a eleger os que são pos-
didos (donde sai título,
tituição. Já agora, esta, tos à boca do tacho,
Âncora Editora, 2014)
que começou a ser redi- seja, nos primeiros lu-
são uma imagem acusa-
gida há 40 anos, pode gares da lista. Entendo
dora dos últimos dois sé-
ser facilmente depurada. que a eleição uninomi-
culos, em que o desleixo
Várias soluções estão nal só aterroriza inse-
dos eleitos está longe de
previstas no diálogo en- guros, autocratas, que
rivalizar com os visio-
tre dois estagiários de 24 não deveriam merecer a
nários D. Henrique e
anos, que representam a conança do eleitorado.
lho Afonso, e com
posição da juventude fa- Na Lírica de João Mí-
aquele pequeno milhão
ce à partidocracia. Des- nimo, há um poema,
que éramos em Quatro-
de a epígrafe, tirada da datado de Coimbra, De-
centos, mas deu novos
Arte de Furtar, alerta-se zembro de 1820  em
mundos ao mundo. Eis
para a amálgama entre vésperas de entrarmos
o cerne do problema,
Política e Razão de Es- no regime demo-par-
qual chaga aberta no
tado, ambas reduzidas lamentar que nos go-
Portugal contemporâneo
aos interesses mesqui- verna , em que Almeida
nhos de sujeitos privile- Garrett, aludindo aos
giados, e sem elevação, deputados, os avisa de
que se eternizam. que os olhos do mundo
Conviria, diz a jor- e dos portugueses estão
nalista estagiária  não sobre eles e que devem
somos todos estagiários tremer do julgamento
da vida? , abrir os que prestaram: tre-
partidos à sociedade, a mei; que um Deus ou-
candidaturas indepen- viu, que ouviu a patria,

www.clepul.eu
Lançamentos 13

/ Que os seculos vin- maldizentes chamam a a essa imagem, dou ou-


douros vos aguardam; isso falta de carácter, tros exemplos de Latino
/ E no recto provir, ou elasticidade de consciên- Coelho a Ramalho, de
gloria, ou mancha, / cia, frouxidão política, Eça a Teixeira de Quei-
Com sêllo eterno vos moléstia de S. Bento, rós  na minha edição de
espera a fama. O sé- etc. A Queda Dum Anjo, que
culo XIX, todavia, vai O segundo, respeitável, começou a sair em folhe-
rir-se de eleitos que não verdadeiro pae da pá- tim há 150 anos, e foi
eram melhores que os tria , parece mais velho primeira inspiração. . .
de hoje. Lembro um do que esta, é um pé-de- Se a glosa de Camilo é
candidato madeirense à -boi, gebo parlamentar, evidente, será menos o
dobadoura parlamen- calva semicircular ou único e longo discurso
tar, que já projectava chinó. Move-se entre de João Félix Filostrato,
lei, cujo artigo primeiro dois colarinhos monu- adaptado de outro, do
permitia a todo o bel- mentaes, usa colete futuro chefe progressista
leguim eleitural o poder de rebuço descommu- José Luciano de Cas-
mamar na vacca do es- nal, grave, sossegado, tro, em 1865. Ou seja:
tado, sem pagar direitos roncando, se dorme, e, as boas intenções desli-
de mercê, nem contri- acordado, prefere or- zando da tribuna parla-
buição alguma. dem, enquanto a jano- mentar cam sempre em
O deputado dividia-se, tagem grita apoiado. águas de bacalhau. E,
então, em janota e pé- O deputado pé de boi claro, não podemos con-
-de-boi. Aquele, jovem representa o seu voto. tinuar nisto. Reexão
e vestindo à parisiense, Mas essa de pai de sobre a democracia em
luneta, tem ordinaria- pátria intrigava um semana pascal  seja,
mente desde a edade tal Silva Costa, que entre os próximos dias 1
legal até aos quarenta cito da Gazeta Literá- e 9 de Abril , esta fá-
annos. Tenho um as- ria (1867): Dizem que bula política é, todavia,
sim, sem luneta, mas o deputado é um pae salva, no nal, por um
sexy (diz quem nada da pátria . . . ora tendo bem enredado discurso
tem para dizer). Prima a pátria tantos paes, amoroso. O que São
por chegar tarde, sentar- dá uma ideia pouco fa- Bento tem de chorrilho
-se, vaguear pela sala, vorável da virtude de e lábia inútil, tem a sau-
cumprimentar repetidas sua mãe. Isto é lógico. dade amorosa de recato
vezes, complacente para Que um pae tenha mui- e grata consequência.
as galerias. O janota tas lhas, é natural, E, sendo estagiários da
representa-se ordina- comprehende-se: mas vida, resta-nos gozar
riamente a si e à sua que uma lha tenha mui- a felicidade. . . Ernesto
toilette . No seu bor- tos paes. . . não há expli- Rodrigues
boletismo, vai de par- cação possível. . . sem of-
tido em partido: Os fender a moral. Quanto

www.clepul.eu
14 Lançamentos

A Lísbia fundo sou impenitente- punch seco e ecaz dos


mente um lísbio. boxeurs. É arte e feitio
Lisboa não é só fado, fu- Aprendi com Baptista- dele.
tebol e turismo. Lis- -Bastos (o BB) o O professor Ernesto Ro-
boa tem e merece tudo. sentido de ser lísbio drigues publicou agora
O que seria de Pessoa (tiremos-lhe as aspas), Lisboa em Baptista-Bas-
sem Lisboa? O que se- aliás penso que o termo tos (Ed. Âncora), um
ria de Camões sem Lis- é dele. Mas isso é coisa estudo competentíssimo
boa? O que seria de que só se aprende vi- e rigoroso. Fui ao lan-
tanta gente e de mim vendo, não dá para ma- çamento, e o velho an-
próprio sem Lisboa? E nuais. Só que o BB teatro II da Faculdade
a falta que dela sinto veste-lhe a pele natural- de Letras estava repleto
quando estou longe, sem mente. Da velha Ajuda de juventude. Foi uma
essa luz sublime que o aldeã, no belíssimo (para bela lição de literatura.
sol reecte no calcário mim imortal) `ão Velho E gente da kultura, da
branco da calçada por- entre Flores até ao Tejo, Câmara de Lisboa, da
tuguesa, ligrana maior à Baixa, à Mouraria e dita informação cultu-
do meu afecto? Lisboa é a Alfama, ao saudoso ral, estava ali alguém?
um catálogo único de ar- Bairro Alto dos jornais, Nada, zero, népia. A
quitecturas, de arte, li- do cheiro a tinta das in- Lísbia ca e eles pas-
teraturas, virtudes e de- trigas, das conspiratas e sam. Ao menos que
feitos, boémias, amores dos botecos de má fama, leiam. Elísio Summa-
e desamores, revoluções Lisboa emerge sempre vielle
e pulhices para todos na vastíssima obra do
os gostos. E é ver- BB, tão intenso e forte [Jornal i, 28 de Fevereiro
dade, confesso que no na prosa como aquele de 2015.]

www.clepul.eu
Lançamentos 15

O Fio das Professora Teresa Mar- de 1950, outras 392 pá-


Lembranças. tins Marques vicia- ginas que a Professora
-nos na leitura compul- Teresa Martins Mar-
Biograa de siva desta Biograa, ao ques integra na recolha
Amadeu mesmo tempo acutilante de outras vozes, no-
Ferreira e sensível, de que bro- tas e estudos críticos,
tam lágrimas, sangue entrevistas, biblio-
e gargalhadas, sempre graa e webgraa.
renovada de fantasias e
Título lançado na Facul-
ideais, um verdadeiro
dade de Direito da Uni-
vendaval de emoções.
versidade Nova de Lisboa,
E se, como diz o Povo,
onde Amadeu Ferreira (fa-
os opostos atraem-se,
lecido em 1 de Março) era
não é menos verdade
professor convidado, em
que os iguais comple-
sessão presidida por Te-
mentam-se e dão con-
resa Beleza, damos excer-
sistência a algo maior,
tos das apresentações de
como aconteceu no pre-
Luís Vaz das Neves, presi-
sente caso: estamos pe-
dente do Tribunal da Rela-
rante uma autora com
ção de Lisboa, e da autora.
uma escrita graciosa e
original e um homem
Retratista de estados de corajoso e de uma rara
alma, a Professora Te- sensibilidade, capaz de
resa Martins Marques inspirar esta Biograa!
apresenta-nos um Ama- A par de uma leitura
deu Ferreira menino, que nos corta a respi-
que vai crescendo de ração, de tão pungente Com a solidez de carác-
conto em conto, perante e de tão real  em que ter e a modéstia que lhe
os nossos olhos incré- se contam histórias de são peculiares, a Pro-
dulos, até se tornar no ontem e de hoje como fessora Teresa Martins
homem que sempre es- num presságio de ama- Marques não deixou de,
teve para além do seu nhã , surgem, além expressamente, referir
tempo, um homem de das 399 páginas escri- nesta obra o trabalho
uma simplicidade desar- tas de um fôlego apai- que foi também desen-
mante e desarmada, um xonado e apaixonante, volvido pela família e
verdadeiro cavalheiro, simultaneamente antro- pelos amigos comuns,
porque a nobreza está pológico e biográco imprescindível para des-
no coração. inspirado num Homem crever a singularidade,
Transgressora do imagi- nascido a 29 de Julho o colorido e a riqueza
nário e de quimeras, a de vida de Amadeu Fer-

www.clepul.eu
16 Lançamentos

reira. de luz, a sua inspira- Sou devedora insolvente


Sendo alma gémea de ção e o seu primeiro e para com o cineasta Leo-
Amadeu Ferreira, e as- mais puro amor, o seu nel Brito, por ter l-
sim bem o compreen- abrigo das mágoas e a mado a entrevista de 31
dendo, a Professora Te- sua inspiração. A par horas a Amadeu e seus
resa Martins Marques de sua mãe, também o pais, sem a qual eu não
sentiu que tinha de dig- pai lhe marcará o des- teria conseguido escre-
nicar a sua memória tino como barómetro de ver este livro no espaço
escrevendo esta obra Vida, sendo que ambos de um ano, num ver-
memorável  espelho da lhe servirão de bússola dadeiro contra-relógio,
sua generosidade , em para delinear o caminho temendo não o concluir
que o descreveu como a caminhar. a tempo de Amadeu po-
Um homem corajosís- É assim que vemos Ama- der ouvir a sua história
simo, que segue à risca deu Ferreira, aos sete de vida. A ecácia da
o provérbio mirandês: anos de idade, começar sua acção como escri-
`An ruin anho, buona a falar a língua portu- tor é bem visível na sua
cara' (pág. 18). guesa a par da miran- vastíssima bibliograa
A determinação das suas desa, esta herdada do activa, cuja descrição
convicções nunca lhe re- berço. Aos onze anos, já ocupa 295 páginas no 3o
tirou a delicadeza ge- no Seminário, desperta volume da Bibliograa
nuína e inesperada com para a Poesia que trazia do Distrito de Bragança,
que nos brindava a cada adormecida algures no publicada por Hirondino
instante, e que fazia seu corpo franzino. Fernandes, em 2012.
acompanhar de uma gar- Nomeado para o Conse- Para além do plano pro-
galhada franca, que lhe lho Directivo da Comis- ssional, essa ecácia
vinha do mais profundo são do Mercados de Va- foi posta ao serviço da
do seu ser. Era um ho- lores Mobiliários, desde cultura e da literatura
mem que falava a rir e 15 de Setembro de 2005 mirandesas, produzindo
que assim nos abraçava, que Amadeu Ferreira uma obra própria em to-
confortava e conquistava é ali Vice-Presidente dos os géneros literários
para uma aventura sem do Conselho Directivo, e entregando-se ainda a
roteiro prévio, para um cargo que ocupou até ao tarefas hercúleas como
desao contínuo. dia 01 de Março de 2015, a tradução para miran-
A mãe foi a mulher que data em que se inscre- dês de Os Lusíadas, da
mais lhe marcou a vida, veu de saudade em cada Mensagem, da maior
aquela que ele aconche- um de nós. Luís Maria parte dos poetas por-
gou no seu peito, ora de Vaz das Neves tugueses do século XX,
menino, ora de homem, mas também dos lati-
o seu astro redentor, nos Horácio, Catulo e
a sua brisa, o seu raio Virgílio, bem como d'Os

www.clepul.eu
Lançamentos 17

Quatro Evangelhos, a çada da Ajuda; seguimos miados à luz da candeia,


partir da Vulgata de São a pobreza franciscana da sem água, sem casa de
Jerónimo. militância na extrema- banho, acotovelando-se
Para além da biograa -esquerda, a passagem sete pessoas em escassos
do cidadão e do trabalho pelo Parlamento e a dis- 20 metros quadrados.
literário do escritor, este sidência ideológica  no Amadeu assumiu-se pai
livro assume uma ver- seminário por compro- dos irmãos, dando expli-
tente de sociograa: a vado desvio de esquerda cações de manhã à noite,
infância na Terra de Mi- e na UDP por alegado para lhes pagar os estu-
randa, mostrando a vida desvio de direita. De- dos, numa abnegação to-
a escorrer diculdades, pois o vazio, o recomeçar tal, numa solidariedade
esse reino nem sempre do zero, deixando inaca- inaudita, num jovem de
maravilhoso, esse Por- bado, e também prestes 22 anos. E o que se diz
tugal profundo dos anos a terminá-lo, o curso da família, poderíamos
50 e 60, que via a emi- de Filosoa, e aos 35 dizê-lo de tantos ami-
gração como alternativa anos, metendo ombros gos presentes nesta sala
à miséria; a adolescência ao curso de Direito, que a quem ele concedeu o
e juventude nos espa- faria com brilhantismo dom da atenção, da pa-
ços opressivos dos se-  foi o melhor aluno  lavra no momento certo,
minários de Vinhais e para, em seguida, se tor- sendo este o verdadeiro
Bragança, como única nar uma das maiores amor ao próximo, de-
saída para o estudo dos referências portuguesas monstrado por palavras
lhos dos pobres; a ex- nos estudos dos valores e obras de um agnós-
pulsão, a escassos seis mobiliários, construindo tico, mais religioso do
meses do nal do curso uma carreira fulgurante que muitos cristãos que
de Teologia, por adesão na CMVM. conhecemos.
empenhada às doutrinas Henri Bordeux susten- Entre os inúmeros livros
renovadoras do concílio tava que toda a biograa que leu na adolescên-
Vaticano II, em oposição digna de ser escrita é a cia, destaco um, que o
às da hierarquia con- história de uma ascen- marcou profundamente
servadora, enfeudada são. No presente caso, para o bem e para o
ao concílio de Trento; não apenas de Amadeu, mal. Intitula-se O Jo-
mostram-se alguns as- mas do povo mirandês, vem de Carácter, de
pectos da intervenção da sua cultura, da sua Tihamér Toth, profes-
no 25 de Abril e no 25 língua. É uma ascen- sor da Universidade de
de Novembro, nomeada- são que vem de muito Budapeste. Palavras
mente a cena em que se longe, dos conns da como carácter, von-
recusa a atirar as grana- Idade Média, pois eram tade, querer, ideal,
das que teriam feito um medievais as condições trabalho, perfeição,
banho de sangue na Cal- de vida, em Sendim, alu- passam a ser essenciais

www.clepul.eu
18 Lançamentos

e todos os dias as exer- soube sempre seguir em de Abril, entrevista essa


cita, com posturas de frente, quando se enga- lmada por Leonel Brito
automotivação intelec- nou no caminho, como e cuja saída se aguarda,
tual, mas também de nos mostra a sua par- também pela Âncora
morticação. Num pa- ticipação e abandono Editora.
pelinho que encontrei da UDP. O sofrimento Na biograa que hoje
num livro de adolescên- com a saída do seminá- aqui apresentamos, en-
cia, lê-se, escrito pela rio e mais tarde da UDP tra-se nela por um Pór-
sua mão: Devo fa- foi bem maior do que tico. A palavra grega
zer todos os dias uma poderíamos imaginar. para pórtico é stoa,
coisa de que não gosto. Mesmo as pessoas au- que signica lugar por
Tenho de começar pe- toconantes como Ama- onde se passa. É desta
las coisas pequenas, as deu têm momentos de palavra stoa que de-
grandes virão depois. depressão, mas saem riva o termo estóico,
Uma outra frase que ele deles mais depressa. não por acaso a loso-
sublinhou aos 14 anos Quando se viu a bra- a que Amadeu tentou
diz-nos: Começa o teu ços com o tema de mes- seguir. Se eu tivesse
trabalho onde milhões trado Ordem de Bolsa, de escolher uma única
o abandonaram. E foi de que não percebia ri- palavra para classicar
assim que o começou gorosamente nada, ra- este ser humano inteiro,
junto dos jovens pobres pidamente encontrou o como na ode de Ricardo
que tinham cado pela norte, com a sua extra- Reis, escolheria a pa-
4a classe, criando uma ordinária capacidade de lavra sinfonia, também
escola nocturna gratuita passar de ignorante a em homenagem à sua
em Sendim. E foi tam- especialista. E não se faceta de professor de
bém assim que ajudou pense que esta opção música. Peço-a empres-
colegas prestes a aban- pelo estudo dos merca- tada a Bernardo Soares,
donar o curso na Facul- dos estava livre de lhe no Livro do Desassos-
dade, como lemos nal- provocar questionamen- sego, Minha alma é
guns depoimentos. E foi tos de natureza ideoló- uma orquestra oculta;
também assim que es- gica. não sei que instrumen-
creveu para os colegas, Constitui mais um tos tangem e rangem
a título gratuito, num exemplo da sua inter- cordas e harpas, tímba-
gesto de grande solida- venção cívica o livro les e tambores dentro
riedade, as 800 páginas de homenagem que, já de mim. Só me conheço
da sebenta de Direito muito doente, Amadeu como sinfonia. Teresa
Penal. fez, sob forma de entre- Martins Marques
Amadeu soube sem- vista, ao coronel Teólo
pre recomeçar do zero, Bento, um dos capitães

www.clepul.eu
Lançamentos 19

As Malícias das Mulheres  Discursos sobre Poderes


e Artes das Mulheres na Cultura Portuguesa e
Europeia
O discurso sobre a mu- diferentes, da lírica ao do saber, construindo,
lher é, como escreve Ma- drama, e em tradições em suma, ao longo dos
ria Luisa Doglio, na in- que se inserem tanto na tempos uma verdadeira
trodução ao texto de cultura erudita quanto inteligência universal
Flavio Galeazzo Capra, na popular. sobre os perigos repre-
Della eccellenza e dig- Na produção de textos sentados pelas mulheres.
nità delle donne (Roma, sobre o género feminino, O cultivo da temática
Bulzoni Editore, 2001), na cultura europeia, dos enganos femininos
um mosaico complexo encontra-se de forma e as respostas que ao
e aventurar-se no seu continuada  atraves- longo do tempo os tex-
estudo é seguir um ca- sando vários séculos, tos das malícias e enga-
minho longo, tortuoso contextos históricos e nos foram provocando,
e plurissecular. Multi- sociais , e variada, por- em variados espaços e
plicado por textos de que realizada através de tempos, permitem con-
caráter diverso  literá- diversos tipos de géneros siderar os autos, diálo-
rios, religiosos, losó- e modos, e agurando- gos, tratados, poeme-
cos, históricos, jurídicos, -se, por isso, relevante, tos, prosa moralista e
cientícos , é um lugar a temática da malícia e humorista que se ocu-
de convergência de dife- dos enganos das mulhe- pam dos enganos das
rentes vozes e perspeti- res. Considerada como mulheres como um ver-
vas que criam imagens, instrumento feminino, a dadeiro conjunto de tra-
guras e orientações das malícia, misto de força e dições (na aceção de
quais se alimenta o pen- inteligência, representa Daniela Marcheschi 
samento ocidental sobre nos discursos masculi- Il Sogno della Lettera-
a mulher e que determi- nos a forma privilegia- tura. Luoghi, Maestri,
naram o seu estatuto da pela qual a mulher Tradizioni, Roma, Ga
no interior da socie- exerce poder sobre os Editore, 2012 , segundo
dade. A complexidade homens, motivando por a qual, devemos com-
do discurso sobre o femi- parte dos autores uma preender as tradições
nino reside igualmente cuidadosa advertência como múltiplas, e não
no facto de se cruzar em relação aos artifícios entender os fenómenos
com outros, como o do por ela usados, dando a partir de uma única,
amor, da beleza, do ca- exemplos, recorrendo monolítica tradição, fa-
samento, dos preceitos a autoridades, citando zendo dialogar culturas
morais e cívicos que são textos de géneros diver- e tempos) que ocupa a
cultivados em géneros sos e de diferentes áreas escrita dos homens, mas

www.clepul.eu
20 Lançamentos

também das mulheres. Desta forma, a autora a acusam de servir o


O discurso sobre as ma- contribui para trazer à mal, em suma, de ser
lícias é compósito, ins- luz e relacionar num a perdição e desgraça
crito em diversas lite- todo orgânico diver- dos homens. Dá voz
raturas e culturas eu- sos itinerários teóricos igualmente às respostas
ropeias, devendo, as- e obras literárias, que femininas, como a de
sim, considerar-se na não são só  deve-se rei- Paula da Graça, que de-
sua apreciação a inter- terar  tornam textos fendem as virtudes das
seção formal das tradi- menos frequentados fa- mulheres e acusam os
ções e géneros que, a miliares, mas também homens dos enganos que
partir da antiguidade dizem muito da cultura estes imputam às se-
greco-romana, tem con- europeia tout court : das nhoras. Respostas que,
tribuído para criar a conquistas de tipo pro- não raras vezes, rece-
tradição moderna das gressista (com Agrippa, bem dos homens novas
malícias e virtudes femi- que chega a invocar acusações, numa circu-
ninas. Na persistência o acesso das mulheres laridade de argumentos
de temáticas e topoi, ao sacerdócio) aos pre- e contra-argumentos.
os textos interligam-se, conceitos aninhados em
num jogo contínuo de pensamentos que incu-
espelhamentos, citações bem na nossa cultura de
e exemplos, numa ver- forma poderosa, como
dadeira geologia de es- os de Schopenhauer, Ni-
critas, para identicar etzsche ou Freud. (p.
e dar como provados os 12).
defeitos femininos, fruto Do Livro de Enganos,
de visões marcadas por traduzido na corte de
múltiplos preconceito, Afonso X, o Sábio, pas-
morais, sociais, religio- sando por Baltazar Dias,
sos. pelos vários folhetos,
Reconstrói-se, assim, poemetos, até à preo-
o mosaico de relações, cupação expressa já no
como explica Daniela início do século XX por
Marcheschi de forma Emília de Sousa Costa, Com uma antologia -
sucinta no prefácio à em Olha a Malícia das nal de textos e uma bi-
presente obra, que une Mulheres!, a investiga- bliograa de obras euro-
a cultura clássica com ção segue o caminho dos peias de enganos e ma-
a medieval, o Renasci- textos que descrevem lícias ainda a explorar,
mento ou o Século das a mulher como men- o livro oferece um estí-
Luzes aos `folhetos de tirosa, inel, traidora, mulo à pesquisa futura,
cordel' do século XIX. gastadora e gulosa e abrindo novas possibili-

www.clepul.eu
Lançamentos 21

dades de investigação, e português? E, se o tive- riedade em Março de


deixa ao leitor a tarefa ram, porque é que foram 1923 no seguimento da
de reconstruir a ima- esquecidas? Chegou a publicação da sua pri-
gem feminina, e a mas- altura de reler Judith meira coletânea de poe-
culina, à luz dos discurso Teixeira sem preconcei- sia, Decadência, quando
dos enganos e virtudes, tos. Nascida, tal como foi alvo de uma polémica
dos ataques e contra- Pessoa, em 1888, e con- sobre a (i)moralidade da
ataques, das incompre- temporânea de Florbela arte, a qual envolveu
ensões e compreensões Espanca, outra mulher também António Botto
existentes no discurso a quem quiseram aplicar e Raul Leal.
dos/entre os sexos. [Lis- o rótulo de poetisa,
boa, Esfera do Caos, Judith Teixeira rompeu
2014.] Luísa Antunes corajosamente com o
Paolinelli padrão do silenciamento
das mulheres no con-
texto do Portugal das
années folles, para se
tornar um sujeito ativo,
Judith Teixeira, que desvendou o corpo
Poesia e Prosa feminino sem pejo.
Esta nova edição traz
Eis a obra completa, a lume cerca de vinte
com textos inéditos, de poemas desconhecidos e
uma escritora chave do uma conferência inédita,
modernismo português. além de reunir as cinco
Apesar de Fernando Antes disso, Judith já
obras de poesia e prosa
Pessoa ter declarado, havia publicado em vá-
que Judith Teixeira pu-
em carta de 1924, que rios jornais, sob o pseu-
blicou em vida. No seu
Judith Teixeira não ti- dónimo de Lena de Va-
conjunto, o presente vo-
nha lugar, abstrata e lois, e contribuído para
lume permite-nos situar
absolutamente falando, a Contemporânea, con-
devidamente esta escri-
o facto é que conservou ceituada revista moder-
tora no lugar que lhe
até à morte um exem- nista. Apesar do escân-
pertence por direito pró-
plar da revista Europa dalo, publicou mais dois
prio, ou seja, em plena
por ela dirigida. Será en- livros de poesia, Cas-
vanguarda modernista.
tão correto armar que telo de Sombras (1923)
as mulheres não tiveram e Nua. Poemas de Bi-
qualquer lugar de pro- zâncio (1926), e duas
tagonismo no momento novelas publicadas sob o
de rutura e transgressão Judith Teixeira (1888- título de Satânia (1927).
que foi o modernismo -1959) alcançou noto- Caso altamente invulgar

www.clepul.eu
22 Lançamentos

para uma mulher desse 4 de Março de Desamor, de Mar-


período, Judith foi dire- Auditório da Fundação tim Afonso de Redondo,
tora da revista Europa José Saramago  apre- nome literário de José
em 1925 e escreveu uma sentação dos livros O úl- Eduardo Guimarães
palestra, intitulada De timo europeu de Miguel  livro apresentado
mim. Em que se expli- Real, e A espiritualidade por Isabel Ponce de Leão
cam as minhas razões clandestina de José Sa- e Miguel Cadilhe
sobre a Vida, sobre a ramago de Manuel Frias
Estética, sobre a Moral Martins
(1926), provavelmente 27 de Março
o único manifesto artís- 20 de Março Auditório 2 da Fundação
tico modernista de au- Café Guarany (Porto)  Calouste Gukbenkian 
toria feminina no início lançamento do livro Sir lançamento do livro Sir
do século XX em Portu- Fernando Pessoa. O re- Fernando Pessoa. O re-
gal. Morreu quase des- lógio de bolso que es- lógio de bolso que es-
conhecida e permaneceu conde uma história, de conde uma história, de
injustamente expurgada Maria Antónia Jardim Maria Antónia Jardim
da memória coletiva e  livro apresentado  livro apresentado
da história literária até por Isabel Ponce de Leão por Pedro Teixeira da
há pouco, seguramente Mota
por causa do subtexto
lésbico presente em vá- Auditório 2 da Fundação
rios dos seus poemas. Calouste Gukbenkian 
Fabio Mário da Silva lançamento do livro Ju-
dite Teixeira, Poesia e
Prosa, organização e es-
OUTROS tudos introdutórios de
LANÇAMENTOS Cláudia Pazos Alonso e
Fabio Mario da Silva
5 de Fevereiro  livro apresentado
Café Santa Cruz (Coim- por Fernando Cabral
bra)  lançamento do Martins
livro A Força dos Dias.
Redescobrir as virtudes, Centro Nacional de Cul-
de Henrique Manuel Pe- 26 de Março tura  apresentação do
reira e de Vasco Pinto Aula Magna da Facul- livro Cultura XXI, coor-
de Magalhães dade de Medicina do denado por Isabel Ponce
 livro apresen- Porto  apresentação de Leão e Sérgio Lira
tado por José Eduardo do livro Nos interstí-  livro apresentado
Franco cios da Alma & Canções por Miguel Real

www.clepul.eu
Luandino 23

De prémios e de livros. O Livro dos Guerrilheiros e


José Luandino Vieira
Conheces o sítio onde brilham as laranjas de ouro?
Fórmula de iniciar a estória usada por nDiki Ndia
e repetida por Kapapa

A pretexto de uma en- Héli Chatelain, que a com mão segura, como
trevista dada para a literatura oral consta fazem os mestres a beber
rádio por um guerri- de um rico tesouro de nesse rio colectivo que é
lheiro, em 1967, e do provérbios ou adágios, a memória, Mnemosyne,
seu aproveitamento para de contos ou apólogos, que nos faz ser quem so-
um documentário a ser de enigmas aos quais se mos, falar as antigas e as
elaborado no pós-in- podem juntar as tradi- modernas falas, olhar o
dependência, Luandino ções históricas, mitológi- passado para o assumir
recorre, na sua escrita cas, ou ditos populares, com todas as belezas e
rara e concisa, a uma ora satíricos ora alusi- o sofrimento que com-
técnica narrativa que vos, ora alegóricos ou porta.
ilumina os processos, gurados, em todos se O exercício começa com
cria cadeias de signica- condensa a experiência o assumir de uma voz co-
ção e estabelece nexos de séculos e ainda hoje lectiva, EU, OS GUER-
entre as diferentes es- se reecte a vida moral, RILHEIROS, onde se
tórias, os enigmas que intelectual e imaginativa conclamam os vivos e
cada uma contém e os doméstica e política das os mortos, conforme no-
provérbios que as supor- gerações passadas1 . tícias, mujimbos e mu-
tam. Como na litera- O nosso mestre Luan- candas, para contar os
tura da oralidade, aqui dino encarregou-se de sucessos, se apropriar
respeitam-se vozes que despertar em todos nós do sagrado e xar para
se adequam a cada conto a vontade de conhecer- o futuro todas as coi-
com as suas repetições, mos ainda mais aquilo sas nossas e ordenar
aliterações, polifonias, que amamos há muito a verdade, aquela que
enm, jogos de gramá- tempo, nossa mãezinha não existe em balcão de
tica para iniciados e o- Angola, trágica e su- cartório notarial, ou de-
ciantes que esta coisa blime, oferecendo corpo creto do governo. Esta-
de contar histórias é só a cada história, sacri- belecido este pacto com
para especialistas. cando lhos, como nos a história e mobilizado o
Disse o nosso mais ve- antigos livros, para sal- seu discurso, a verdade
lho, kamba dya Ngola, var os outros. Leva-nos desliza então para as vo-
1 Heli Chatelain, Gramática elementar do Kimbundu língua de Angola, Genebra,
Typ. De Charles Scuchardt, 1888-1889, p. XVIII.

www.clepul.eu
24 Luandino

zes, sobretudo as vozes tapetes para prestar ho- estas narrativas que se
que se anam ao sabor menagens à história, à articulam ao anterior Li-
das histórias: cantarei memória e à intriga. vro dos Rios, enchendo
o herói, o que sempre Aprisionada a geogra- de palavras (vozes, con-
exemplicou seu povo, a (as geograas), leitos tos, provérbios, imitação
vida morte e luta, o dos de rios, montanhas dis- dos clássicos) as paisa-
cinco combates (Virgí- tantes, pode então o gens anteriormente pre-
lio e Camões falaram an- autor passar a limpo paradas.
tes), assim começa uma as histórias de vida, Pode então escrever-se
das histórias, ou não foi pode ser em forma de na areia, passar a limpo
para isto que fomos nas- conto, estória, aforismo, para ser apagado, o so-
cidos: chorar, sozinhos, entrevista ou guião de nho tanto tempo guar-
óbito de nossos mortos lme. Inventadas ou dado, porque, a bem
(Héli Chatelain disse  recuperadas as vozes, dizer, todo o discurso é
a sabedoria das nações através de um grande arte de guardadores de
avalia-se pela frequên- número de personagens sonhos e de rebanhos e
cia dos seus adágios)2 ; revelam-nos, como se cada época atribui à sua
Zapata, primeiro nome contassem antiquíssimos história o sentido que
dele Emiliano. Era segredos, a sua varia- mais lhe apraz e Kene
um centauro (escreveu da densidade psicoló- Vua, ex-guerrilheiro,
Steinbeck, lmou Elia gica, sujeitos entes- tudo ouviu e passou a
Kazan); Era uma vez -passados e presentes, limpo: Assim foi que
um homem (cantou Xe- testemunhas de todos os fomos homens. Guerri-
razade, quando embalou acontecimentos, marca- lheiros; assim foi que -
o mundo). Destas mui- das por uma innidade cámos ossos dispersos.
tas maneiras e línguas de signos, que servem Deste e doutros livros
e propósitos somos pre- de suporte à narrativa levámos notícia à Póvoa
parados para assistir ao e à leitura. São tipos, de Varzim (Correntes
deslar dos contos com atípicos de situações que d'Escritas, em 27 de Fe-
as suas fórmulas xas lhes criaram a máscara vereiro) para lembrar o
que se podem articular e de dramatis personae, livro como local de me-
desarticular para formar cuja qualidade se au- mória, o livro do prémio
a cadeia de sentidos que menta na capacidade de que abalou um império
o nosso passado recente recuperar o valor sim-  Luuanda , o primeiro
engendrou só para per- bólico do processo de livro das nossas cons-
ceber um passado mais construção da nação. ciências. Ana Paula
longínquo e entender fu- Assim, Luandino nos Tavares
turos como quem tece surpreende de novo com

2 Ibidem.

www.clepul.eu
Curso Livre 25

A Violência no Romance Português Contemporâneo


Coordenação: Maria Isabel Rocheta

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sala de D. Pedro V

PROGRAMA e classe social, racismo nos textos apresentados.


e aculturação, memória
Serão estudadas três e trauma, silêncio e tes-
obras, publicadas nos CALENDÁRIO
temunho, mitogénese e
últimos vinte anos: A mitos fundadores, por
Árvore das Palavras outro, convergirão na Teolinda Gersão, A Ár-
(1997), de Teolinda Ger- leitura das obras. vore das Palavras (04
são, O Vale da Paixão e 11 de Março)
(1998), de Lídia Jorge, OBJECTIVOS Maria Isabel Rocheta
e Jerusalém (2004), de (CLEPUL)
Gonçalo M. Tavares, re- Alargar o conhecimento
presentativas, de diver- da obra de distintos Lídia Jorge, O Vale
sas maneiras, da gura- escritores portugueses da Paixão (18 e 25 de
ção da violência no ro- contemporâneos; parti- Março)
mance contemporâneo. lhar a análise e a inter- Fátima Fernandes da
A análise de persona- pretação de três roman- Silva (CEC/UL)
gens, focalização, voz, ces de alta qualidade da
espaço e tempo, por um Literatura Portuguesa; Gonçalo M. Tavares,
lado, e a consideração desenvolver e consolidar Jerusalém (08 e 15 de
de tópicos como identi- uma voz própria, deba- Abril)
dade e pertença, género tendo a presença da pro- Maria Isabel Rocheta
e parentesco, convenção blemática da violência (CLEPUL)

SEMINÁRIOS

17 de Fevereiro 25 de Fevereiro 13 e 14 de Março


Sessão LV, Seminários à Sessão LVI, Seminários à Faculdade de Letras
Hora do Almoço: Ju- Hora do Almoço: Cata- de Lisboa  Seminário
liana Cristina Bonilha rina Pereira, O turismo Anual de Estudos Ibéri-
Nunes, Revista Femi- e as comunidades religio- cos e Europeus dedicado
nina (1915-1936): re- sas dehonianas no Norte à temática Cultura por
exões sobre tradição e e Centro de Moçambi- oposições. Iniciativa do
modernidade que CLEPUL/Grupo de Es-

www.clepul.eu
26 Seminários, Conferências

tudos de Protonaciona- à Hora do Almoço: Ma- 18 de Março


lismos na Europa da nuel Sérgio, Desporto e Sessão LVIII, Seminá-
Universidade de Alcalá a ideia de corpo: para rios à Hora do Almoço:
de Henares uma nova visão de cor- Antônio Donizete Pires,
poreidade e da activi- O mito de Orpheu e o
16 de Março dade desportiva orsmo: dos clássicos às
Sessão LVII, Seminários paragens do Brasil

CONFERÊNCIAS

13 de Fevereiro Lisboa: Isabel Lousada, 28 de Março


Biblioteca Municipal de Entre as primeiras mu- Biblioteca Prof. Doutor
Arraiolos: Joana Balsa de lheres médicas portugue- Amadeu Andrés: Augusto
Pinho, Património Cul- sas, iniciativa promovida Moutinho Borges, Palá-
tural das Misericórdias pela Secção de História da cios da Rua da Junqueira:
Medicina da SGL História e Património
19 de Fevereiro 28 de Fevereiro
Academia das Ciências de Casino Estoril  sessão 28 de Março
Lisboa: Fernando Cristó- das Novas Conferências do Casino Estoril  sessão das
vão, Elogio histórico do Casino dedicada à temá- Novas Conferências do Ca-
Académico David Mourão- tica Valores e Pós-Iden- sino dedicada à temática
-Ferreira tidades, com a participa- Educação para a morte
ção de Carlos Fiolhais e com a participação do Pa-
26 de Fevereiro Moisés de Lemos Martins e dre António Vaz Pinto e de
Sala Adriano Moreira da a coordenação de João Rel- Miguel Real e a coordena-
Sociedade de Geograa de vão Caetano ção de Isabel Nery

DEBATES E PALESTRAS

19 de Fevereiro dade de Letras de Lisboa: Língua Portuguesa, Secre-


Escola Secundária Leal da Domício Proença Filho so- tariado Executivo da Co-
Câmara: Rui Miguel da bre o seu romance Ca- munidade dos Países de
Costa Pinto, Gago Cou- pitu  Memórias Póstu- Língua Portuguesa e CLE-
tinho e o Estado Novo mas (1998) PUL
20 de Março 24 de Março 18 de Março
Cineteatro de Albergaria Auditório Sede da CPLP: Sociedade Musical Odive-
 José Eduardo Franco Domício Proença Filho, lense  Tertúlia Conver-
e Fernando Rosas partici- Presença africana no por- sas com Princípio e Fim
pam no debate Religião e tuguês brasileiro. Inicia- subordinada ao tema O
História tiva promovida pela Mis- Mito dos Jesuítas. Par-
23 de Março são do Brasil junto à Co- ticipação de José Eduardo
Sala de Actos da Facul- munidade dos Países de Franco

www.clepul.eu
Orpheu 27

Eventos 100 Orpheu


No centenário de (1915-2015), em cuja Modernismo Português,
Orpheu, o CLEPUL  estrutura se integra a todos os dias entre as
Centro de Literaturas mostra artística da res- 18:00 e as 20:00. Fo-
e Culturas Lusófonas e ponsabilidade do pintor ram doze palestras de
Europeias da Faculdade mongol Rouslam Bo- cerca de meia hora,
de Letras da Univer- tiev, cará no corredor abordando contextos,
sidade de Lisboa, em de acesso à Biblioteca personalidades, inter-
colaboração com o LE- até dia 31 de Março. disciplinaridades, aspec-
PEM  Laboratório de Constituída por uma se- tos menos lembrados ou
Estudos de Poéticas e lecção bibliográca das propondo novos olhares
Ética na Modernidade, revistas modernistas, de sobre o muito que ainda
da Universidade de São obras fundamentais dos há por descobrir no que
Paulo, propõem uma diversos autores que in- ao Orpheu diz respeito.
sequência de iniciativas tegraram as páginas de As conferências ca-
pluridisciplinares por Orpheu ou que estive- ram a cargo de Isabel
via das quais será possí- ram no seu contexto e Pinto Mateus, Filomena
vel fazer-se a justíssima na sua sequência imedia- Serra, Rui Sousa, Stef-
e fundamental home- ta e de vários núcleos fen Dix, Paulo Borges,
nagem ao Modernismo temáticos que estabele- Nuno Amado, Pedro Se-
Português, no centená- cem o diálogo entre o púlveda, Pablo Pérez
rio de Orpheu, revista e Modernismo Português, López, Raquel Nobre
grupo com que se deu a tradição cultural por- Guerra, Soa A. Car-
início a um percurso tuguesa, as Vanguardas valho, António Cândido
extremamente signica- e as vertentes lusófona e Franco e Soa Santos.
tivo, um dos mais mar- ibérica, a que se somam No dia 19 de Março, a
cantes da cultura por- os notáveis quadros de Fundação Eng. António
tuguesa e provavelmente Rouslam Botiev e um de Almeida associou-
o que mais congregou vídeo elaborado a partir -se à programação 100
num único movimento de entrevistas, docu- Orpheu para um ani-
as mais diferentes ex- mentários e declama- mado dia de conferên-
pressões artísticas. ções de poesia, a exposi- cias e de debates dedi-
Tendo sido inaugurada ção merecerá certamente cados ao Modernismo
no dia 10 de Março, na uma visita atenta. Português. Marcaram
Biblioteca da Faculdade Na semana de 16 a 20 presença, entre outros,
de Letras da Universi- de Março decorreu na especialistas como Ar-
dade de Lisboa, a ex- Faculdade de Letras naldo Saraiva, Fernando
posição Atores, Palcos um Curso dedicado a Cabral Martins, Dioní-
e Contextos de Orpheu diferentes aspectos do sio Vila Maior ou An-

www.clepul.eu
28 Orpheu

tónio Apolinário Lou- mento do Congresso 100 tas brasileiros de Orpheu


renço. Orpheu, propiciando o (Ronald de Carvalho e
Entre 25 e 28 de Março, diálogo luso-brasileiro Eduardo Guimaraens),
o culminar dos even- que esteve de algum abordando também An-
tos em torno de Orpheu modo implicado na gé- tónio Ferro, nomeada-
conduziu-nos à Funda- nese da revista moder- mente no que respeita
ção Calouste Gulben- nista portuguesa. à sua interacção com os
kian e ao Centro Cultu- No contexto de todos modernistas brasileiros
ral de Belém, locais que estes eventos, a gura e ao diálogo que man-
foram palco de uma das de António Ferro mar- teve com Ronald até aos
mais amplas reuniões cará sempre a pre- anos 30, tal como Fer-
de estudiosos do Moder- sença que lhe é de- nanda de Castro; e no
nismo Português de que vida. Assim, na exposi- Congresso 100 Orpheu
há memória, assim como ção encontram-se repre- algumas das comunica-
de alguns lançamentos sentadas obras suas, o ções zeram referência à
de obras recentes vota- mesmo ocorrendo com a vida e obra de António
das a estes assuntos. sua gura num dos qua- Ferro, uma das quais,
Em Maio, também en- dros de Rouslam Botiev; por exemplo, dedicada à
tre os dias 25 e 28, será no Curso 100 Orpheu, a singular e polémica peça
tempo de a USP rece- conferência de Rui Sousa de teatro Mar Alto. Rui
ber um segundo mo- ocupou-se dos dois poe- Sousa

Fundação Eng. António de Almeida


Colóquio: Orpheu e o Modernismo português
No centenário da publi- pelo menos desde 1912, Março de 2015: Me-
cação da revista Orpheu, por via da sua cola- mória d'Orpheu  e A
a Fundação Eng. Antó- boração na revista A Fundação Eng. António
nio de Almeida associa- Águia, órgão da Renas- de Almeida e o universo
-se à efeméride, aten- cença Portuguesa, onde pessoano. Uma de-
dendo ao vínculo que colabora com A Nova las ilustra, pelo texto e
a liga ao universo pes- Poesia Portuguesa, que pela fotograa, o elenco
soano, levando a efeito muitos consideram a sua de iniciativas promovi-
um Colóquio integrado estreia literária. das ou realizadas na
no Congresso Interna- Distintas mas comple- Fundação Eng. António
cional organizado pelo mentares são as razões de Almeida, dedicadas a
CLEPUL e LEPEM. que justicam o Coló- Fernando Pessoa e à sua
Fernando Pessoa encon- quio e as Exposições obra multímoda.
tra-se ligado ao Porto, inauguradas no dia 19 de

www.clepul.eu