You are on page 1of 6

Axiologia: apontamentos sobre o valor

Vanessa Fabiula Pancioni Nogueira


Especialista em Direito Constitucional - PUC-Campinas
Professora das Faculdades de Valinhos
Professora da PUC-Campinas
e-mail: nogueiraprado@aasp.org.br

Resumo

Este artigo tem como objetivo clarear a noção de valor. Para tanto, situa-se o valor na teoria dos objetos, encontrando
como objeto autônomo, composto por forma ideal e conteúdo histórico-cultural, o que implica dizer que o valor muda no tempo
e no espaço.
Ademais, cuida das principais características do valor - historicidade, bipolaridade, realizabilidade, implicação recíproca,
referibilidade, preferibilidade e das teorias que explicam a sua natureza (objetivista X subjetivista), concluindo pela teoria objetivista.
Ao final, ressalva-se o valor é o fundamento último da conduta humana e tema comum na vida cotidiana e, portanto, no
Direito que, segundo o tridimensionalismo jurídico, é objeto cultural composto por fato, valor e norma.

Palavras-chave: valor, características.

Introdução da segunda metade do século XX, quando o valor


passou a ser percebido como ente independente da coisa
Justifica a escolha deste tema, o interesse no estudo valiosa.
da teoria tridimensional do Direito, segundo a qual, o De fato, embora já na Antigüidade houvesse a
objeto da Ciência Jurídica é fato, valor e norma1 e em preocupação de conhecer o Bem, o Justo, o Belo, o
especial, da linha hermenêutica que explica a atualização Útil, a Verdade - que são os valores mais propalados -
da norma jurídica através do exame dos valores nunca houve a percepção de que estas entidades fossem
contemporâneos e supervenientes à edição da regra. espécies de um gênero mais amplo que, atualmente,
Bem por isso, este artigo enfoca apenas o aspecto chamamos de valor e que este possuiria características
axiológico do Direito - ênfase filosófica da teoria de independentes da coisa a que adere.
Miguel Reale - com o fim de aprimorar os conhecimentos Para atestar isto e, a título de exemplo, basta
deste ramo fascinante que é a Axiologia e, com isso, atentar que Sócrates combatia o relativismo e o
analisar, com maior rigor, a interação dialética entre o subjetivismo sofistas, em defesa do caráter objetivo e
valor e o texto da norma, na atualização do Direito pela absoluto que envolve os valores éticos.
interpretação. A mesma preocupação ocorre com Platão,
Para cumprir este objetivo, o texto será dividido segundo Hessen, a sua Teoria da Idéias não passa de
em 02 partes: a) - Situar o valor na teoria dos objetos, uma teoria dos valores, em que “o seu mundo das idéias
b) - Explicitar as características do valor e da sua culmina precisamente na idéia de Bem, do valor ético e
importância para o Direito. estético máximo”2.
Da mesma maneira, Aristóteles considera que
Histórico da Axiologia existe o Mundo das Formas e o Mundo das Idéias,
segundo o qual, a idéia de Bem deve estar apoiado na
AAxiologia, que é a parte da Filosofia que estuda própria experiência.
os valores, é relativamente recente na história do Mudando o enfoque e, já na Filosofia Moderna,
conhecimento filosófico, pois data, aproximadamente, Kant entendia que os valores éticos habitam a consciência

75
moral, pensamento consagrado no célebre trecho “nada, Todavia não é possível fornecer uma definição de
em parte alguma do mundo, ou fora dele, pode sem objeto, pois se definir é marcar fins, delimitar e se tudo é
restrição ser julgado bom, exceto uma boa vontade”. objeto do conhecimento, então, não se pode separar
Depois disso, Lotze introduziu o conceito de aquela parcela da realidade para ser objeto.6
“valor” e Nietzsche, a palavra “valor”, até que em 1889, Assim, dada à multiplicidade de objetos que o
Bretano lança o livro “A origem do conhecimento moral”, termo “objeto” abarca, Reale responde a questão de
no qual reconhece que o valor é um fenômeno sui saber o que é objeto, para dizer que “é tudo aquilo que
generis, inaugurando o que hoje se conhece por é sujeito de um juízo lógico, ou aquilo referido pelo sujeito
Axiologia. de um juízo”7.
Firmado este ponto, cabe dizer que,
Principais teorias que explicam a natureza do ontologicamente, três são as esferas de objetividade
valor possíveis: o objeto natural, físico ou psíquico, o objeto
ideal e o objeto cultural.
É importante ressaltar que, na atualidade, uma das Com efeito, qualquer objeto pertence a uma ou
principais discussões da Axiologia é acerca da natureza outra categoria, dependendo de se dotado de
do valor. O valor é objetivo ou subjetivo. temporalidade, espacialidade ou ser neutro ao valor, ou
Para sabê-lo é necessário responder a árdua seja, são estes os três parâmetros que identificam as
pergunta “As coisas têm valor porque as desejamos ou categorias objetivas retrotranscritas.
as desejamos porque elas têm valor em si mesmas?”
E a resposta a esta questão, Risieri Frondizi, bem Objeto natural
sintetiza “el valor será objetivo si existe independiente
de un sujeto o de una conciencia valorativa; a sua vez, Os objetos naturais ou reais são os que usualmente
será subjetivo si debe si existencia, su sentido o su validez encontramos na natureza. Podem ser divididos em:
a reacciones, ya sean fisiológicas o psicológicas, del objetos naturais físicos e objetos naturais psíquicos.
sujeto que valora”3
Nesta discussão em que se debatem as teorias Objeto natural físico
objetivas e subjetivista, Reale adota a posição objetivista,
segundo a qual, os valores não são meras projeções das Os objetos naturais físicos, como por exemplo, a
preferências individuais, pois quando chegamos ao Terra, o ouro, a mente, o fogo, a luz, o homem, são
mundo já encontramos estabelecida uma tábua de dotados de espacialidade, temporalidade e são neutros
valores, pelo que, não criamos nossos valores, mas sim a valor.
assimilamos os valores estabelecidos por um sujeito A espacialidade significa que estão no espaço,
histórico (que está perfeitamente situado no tempo e no possuem extensão. A temporalidade é estar no tempo,
espaço). ter duração.
Neste sentido, é importante anotar o ensinamento Ademais, o valor não é intrínseco à essência do
de Hessen “os valores não são algo de meramente objeto natural, ou de modo bem simples, para bem
subjetivo, algo que dependa apenas do arbítrio ou do compreender um objeto natural não é necessária qualquer
capricho do sujeito a quem eles se revelam. Todo o seu referência a valor.
mundo, o mundo espiritual, é, pelo contrário, um mundo De fato, para saber o que é água (objeto natural
suficiente para tornar objetivos os valores”.4 físico), basta dizer “é um líquido inodoro, incolor,
insípido”, não se faz necessária menção a valor, se a
Teoria dos Objetos e o valor água é útil.

Com efeito, para bem compreender o valor é Objeto natural psíquico


imprescindível analisar o valor à luz da teoria dos objetos,
por ser a parte central da ontologia a encarregada de Os objetos naturais psíquicos são os sentimentos
“determinar qual é a natureza ou estrutura daquilo que é (amor, raiva, medo, ira) e emoções. Dotados de
suscetível de ser estabelecido como objeto do temporalidade, pois têm duração. A título de ilustração,
conhecimento”.5 o pensamento (objeto natural psíquico) tem começo,
Uma questão prévia na Ontologia é saber o que é meio e fim, até se transformar em outro pensamento.
objeto do conhecimento. Todavia, este tipo de objeto é aespacial, está fora
76
do espaço. Com efeito, somente em sentido figurado, é O valor
possível dizer que o “amor está no coração”, pois,
ontologicamente, os objetos desta categoria estão Ao perguntar: “valor é objeto?”, se for positiva a
situados em lugar. resposta, surge outra pergunta “que tipo de objeto é o
Ademais, são neutros ao valor, já que para valor?”. Surge as indagações: é objeto ideal? cultural?
compreendê-lo não é preciso qualquer referência a valor. ou seria um quarto tipo de objeto?
E, por último, uma pergunta retórica: acaso não é usual Por primeiro, cabe dizer que em sentido bem
dizer que “o amor é bom, o ódio ruim”? amplo, o valor é objeto, pois pode ser sujeito de um
Ora, estas considerações são de ordem cultural, juízo lógico. Neste sentido, é importante ressaltar, que o
valoração que se faz do objeto, introjetados, mas que valor segue como entidade autônoma, à medida que é,
não se encontra em sua essência. Bem por isso, para metodologicamente, da coisa valiosa e, passa ser pensado
saber o que é medo, desnecessário saber se é um em si mesmo.
sentimento bom ou ruim. Aliás, esta é uma distinção relevante. Coisa valiosa
é bem, que nada mais é do que o substrato sob o qual se
Objeto ideal agrega o valor.
A este respeito, escreve Risieri Frondizi:
Relações matemáticas, números, proposições, “ (...) la belleza, por ejemplo, no existe por sí sola
idéias são objetos ideais. Não estão no tempo flotando em el aire, sino que está incorporada a algún
(atemporal) - não tem sentido a pergunta temporal objeto físico: una tela, un mármol, um cuerpo humano,
“quando?”, não tiveram um começo e não terão um fim etc. La necesidad de um depositario en quien descansar,
- e no espaço (aespacial), neutros ao valor. da al valor un carácter peculiar, le condena a una vida
“parasitaria”, pero tal idiosincrasia no puede justificar la
Objeto cultural confusión del sostén com lo sostenido. Para evitar
confusiones en el futuro, conviene distinguir, desde ya,
Todo objeto que é feito pelo homem, que sofre entre os valores y los bienes.
ação/trabalho humano, recebe o nome de cultural. Los bienes equivalen a las cosas valiosas, esto es,
Ciência, espelho, música, literatura, poesia, mesa são a las cosas más el valor que se les ha incorporado. Así
alguns singelos exemplos. un trozo de mármol es una mera cosa; la mano del escultor
O objeto cultural diferencia-se dos demais, por le agrega belleza al “quitarle todo lo que sobra”, según la
ser dotado de uma estrutura dúplice: tem substrato e ironica imagen de un escultor, y el mármol-cosa se
sentido. O substrato ou suporte é o lugar onde se apóia transformará en una estatua, en un bien. La estatua
o valor, é o elemento material. O sentido é sempre um continúa conservando todas las características del mármol
valor8. común - su peso, su constituición química, su dureza,
Explique-se: o valor é o critério norteador de etc. - se le ha agregado algo, sin embargo, que la ha
condutas. Toda conduta humana tem um fim. Toda ação convertido en estatau. Este agregado es el valor estético.
humana pressupõe a realização de um valor. Assim, fica Los valroes no son, por conseguinte, ni cosas, ni vivencias,
fácil entender que o homem aplica o seu trabalho sobre ni esencias: son valores”9
um objeto natural, para produzir um objeto cultural, com Embora paire controvérsias acerca de que tipo
a finalidade de concretizar um valor. de objeto é o valor, “o grande jusfilósofo Miguel Reale
Um exemplo, ao lapidar (conduta humana) o ouro entende ser o valor um objeto inteiramente autônomo,
(objeto natural físico), o ourives deseja realizar um valor que não ingressa nas categorias dos demais objetos: não
que pode ser o Útil ou a Beleza. é natural, não é ideal e nem tampouco cultural” 10.
Se assim é, inquestionável que o objeto cultural Ressalte-se que nem sempre foi assim. Na primeira
não é axiologicamente neutro, pois o valor está na fase de seu pensamento Reale considerou que os valores
essência do objeto (reitere-se, o homem põe seu trabalho seriam objetos ideais, tendo, posteriormente mudado o
sobre um objeto, natural ou ideal, com a finalidade última entendimento. “A mim me pareceu e parece impossível
de realizar um valor) sem ele é impossível compreendê- situar no mesmo plano um objeto ideal, que é, tal como
lo. um juízo lógico ou um teorema, com algo que
necessariamente deve ser o belo, o útil, o bom, etc”11
De fato, o valor enquanto objeto inteiramente
autônomo é complexo ou composto, formado por duas
77
partes: o continente e o conteúdo. de cognoscibilidade, de onde surge a configuração
O continente que é apenas a forma pode ser autônoma da axiologia”14.
considerado objeto ideal (e, portanto, é imutável, pois
está fora do tempo, fora do espaço), pois se constitui, Historicidade
na verdade, em uma idéia de valor, que consiste “no
conceito do género sob qual o subsumimos o conteúdo Como já foi mencionado, ao tratar da estrutura
de todas as nossas vivências da mesma espécie”.12 complexa do valor, este tem uma forma lógica (ideal)
Isto significa que, abstraído o conteúdo do valor, que recebe o conteúdo no seio na História.
sobra-lhe a forma lógica. Clarificando, caso se pergunte Isto significa, em última análise, que as concepções
a definição de justiça (que é um valor), muitos éticas, estéticas ora vigentes são alteradas, pois recebem
responderam que nada mais é do que ‘dar a cada um diferentes conteúdos no decorrer da História. Para
aquilo que é seu’. comprová-lo, basta atentar que na Antigüidade, o justo
Todavia, caso se reflita, verificar-se-á que esta poderia ser a formulação de Hamurábi ‘olho por olho,
definição é uma fórmula (forma ideal do valor), vazia de dente por dente’, idéia que hoje as concepções éticas
conteúdo, sob a qual serão subsumidas os mais diversos não mais toleram.
conteúdos que, por excelência, são históricos-culturuais.
Na verdade, importa muito pouco saber se justiça Bipolaridade
é ‘dar a cada um aquilo que é seu’ ou se beleza é ‘tudo
aquilo que agrada aos olhos’, já que, na perspectiva da Todo valor tem duas faces. A todo valor
Axiologia, o que realmente importa é como estas corresponde o seu desvalor, ou seja, o Justo contrapõe-
fórmulas serão preenchidas, qual o conteúdo que lhes se ao Injusto, o Belo ao Feio, o Bem ao Mal, de modo
será atribuído. que um valor só se torna compreensível junto ao seu
Retomando se o continente do valor é atemporal, desvalor.
o seu conteúdo é dado no seio da História e da Cultura, Por exemplo, não é possível compreender a
que moldarão as concepções éticas, estéticas, de justiça, beleza, sem a feiúra.
de ordem de uma determinada comunidade situada no
tempo e no espaço. Tanto é assim que a noção de belo Realizabilidade
é diferente hoje do que era na Idade Média, é diferente
do Ocidente para o Oriente. Os valores são passíveis de serem realizados,
Em síntese, o valor é uma entidade complexa, há concretizados. São entes parasitários que “não podem
um continente que recebe o seu conteúdo no seio da viver sem apoiar-se em objetos reais”15, por exemplo, o
História e da Cultura, característica que explica o porquê valor ético realiza-se numa conduta humana.
que os valores alteram-se no tempo e no espaço.
Inesgotabilidade
Características dos valores
Justamente porque os valores tendem a se agregar
É importante ressaltar que não há definição de em coisas, realizando-se, os valores têm a característica
valor, assim como não se define objeto, pois se trata de de serem inesgotáveis, ineuxaríveis. Isto implica que, por
“categorias básicas, excessivamente amplas que não mais que uma determinada obra concretize o valor
comportam definição”13. determinado, ele jamais se esgotará.
No entanto, embora não se possa defini-lo, é
possível traçar características fundamentais - Implicação Recíproca
historicidade, bipolaridade, realizabilidade,
inesgotabilidade, implicação recíproca, referibilidade, Esta característica diz que a realização de um valor
preferibilidade - que muito esclarecem acerca da natureza interfere na realização de outro. Desta forma, caso uma
do valor. conduta realize o valor econômico (útil) em grande escala,
Diga-se, ainda, que tais características foram muito provavelmente, estará afetando a realizando de
extraídas do pressuposto de que os valores possuem outros valores, o Justo, a Ordem, a Segurança.
ubicação especial na teoria dos valores, já que “o valor
não é nenhum dos objetos referidos ao ser, nem naturais
nem ideais; é um ente que possui suas próprias condições
78
Referibilidade Bem por isso, a necessidade de uma compreensão
adequada dos valores, enquanto fundamento último da
Para explicá-la, tomemos a lição de Angeles realidade humana, porque são eles que, em última
Mateos García: instância, orientam a conduta em diferentes direções, de
“Isto significa que ‘o valor implica sempre um cuja interação e resultado surge o mundo histórico-
posicionamento do homem perante algo e para alguém’. cultural, que é realidade para o homem.
Por esta razão, Reale compara os valores como
‘entidades vetoriais’, de acordo com a terminologia Conclusões
utilizada por Wolfgang Kohler, porque ‘eles apontam
sempre num sentido, numa direção reconhecida como Este artigo teceu considerações acerca da natureza
fim’. Devido a esta característica, transformam-se em e essência do valor, situando-o na teoria dos objetos,
‘fatores determinantes da conduta humana’, porque definindo suas características principais, no intento de
somente o espírito é entendido como vivência perene de alargar a compreensão do fenômeno.
valores: Viver é posicionar-se perante os valores e Primeira preocupação foi a de definir a natureza
integrá-los em nosso mundo, só o homem é capaz de objetiva do valor, para tanto, resgatou a principal
valores e somente em razão do homem é possível a classificação das teorias do objeto, para concluir que o
realidade axiológica”16. valor é objeto autônomo, que tem estrutura mista, ou
seja, uma forma ideal que recebe o seu conteúdo no
Preferibilidade seio da história e da cultura.
Assim, entendeu-se, acompanhando o
A preferibilidade torna possível a preferência de ensinamento de Reale, que o valor é objetivo, isto é,
um valor, em detrimento do outro, na sua realização. não é mero reflexo de projeções individuais, vez que
Isto é claro ao observar, por exemplo, um artista, não é criado por um sujeito individual, mas sim por ele é
de longe, o valor que ele prefere realizar é o estético. Da assimilado. De fato, o valor é criado por um sujeito
mesma forma, um santo, o valor preferido é o sagrado. histórico, que está perfeitamente situado no tempo e no
espaço.
Possibilidade de graduação hierárquica Ademais, para clarear a noção de valor, abordou
as principais características do valor - historicidade,
Se é possível preferir valores em sua realização, bipolaridade, implicação recíproca, referibilidade,
também é possível organizá-lo numa lista hierárquica que preferibilidade - tudo de forma a concluir que o valor é
costumamos dar o nome de tábua de valores. fundamento último da conduta humana.
Assim, a grande importância do estudo filosófico
A importância da Axiologia do valor é compreender ser ele o grande vetor que
norteia qualquer escolha humana, inclusive, a elaboração
Assume grande importância o estudo do valor para da norma, e que a imensa maioria das discussões sobre
saber que o valor é o grande norteador das condutas os fatos cotidianos que estampam a nossa imprensa, no
porque toda vez em que há uma escolha, o critério fundo, são discussões em torno de valores.
definidor é sempre a realização do valor, pois, como já Com efeito, a implica do valor implica em saber
foi dito inúmeras vezes neste trabalho, toda conduta qual deles deve se realizar (realizabilidade), qual valor
humana visa à concretização de valores. será prejudicado com determinada escolha (implicação
Também, por isso, para o Direito, o estudo do recíporca), qual o valor será o preferido para a escolha
valor é imprescindível, porque a norma jurídica (objeto (preferibilidade), determinado valor será realizado, a
material do Direito, que independe da corrente teórica partir da perspectiva de quem (referibilidade).
que se adote) nada mais que a realização de valor. A Por isso, discutir sobre valor é discutir sobre a
norma jurídica concretiza valor. vida, sobre a conduta e escolhas humanas. Assunto que
Isso porque o nascimento da norma é marcado bem de perto tem interesse o Direito, vez que o seu fim
por uma opção (como as pessoas devem comportar- último é ditar comportamentos, para harmonia da vida
se, esta é a finalidade do Direito) entre várias condutas social.
possíveis, a escolha de uma delas implica num ato de
valoração, segundo o qual, o legislar preferirá um valor
em detrimento de outro.
79
Referências Bibliográficas

CUNHA, Renan Severo Teixeira. Objeto e


Classificação, Campinas, publicação interna PUC-
Campinas, 1998.
FRONDIZI, Risieri. Que son los valores? México, Ed.
Fondo de Cultura Económica, 1991.
GARCÍA, Angeles Mateos. A Teoria dos Valores de
Miguel Reale (Fundamento de seu tridimensionalismo
jurídico), São Paulo, Editora Saraiva, 1999.
HESSEN, Johannes. Filosofia dos Valores, Trad. Cabral
de Moncada, Coimbra, Arménio Amado Editor, 1980.
REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito, 13ª ed.,
São Paulo, Editora Saraiva, 1986.
__________. Filosofia do Direito, 19ª edição, 3ª
tiragem, São Paulo, Saraiva, 1999.

Notas

1
Segundo Miguel Reale “o Direito corresponde a três
aspectos básicos: um aspecto normativo (o Direito como
ordenamento
e sua respectiva ciência); um aspecto fático (o Direito
como fato, ou em sua efetividade social e histórica) e um
aspecto axiológico (o Direito como valor de Justiça),
enfatizando que a vida do Direito depende da “interação
dinâmica e dialética dos três elementos que a integram”.
2
Hessen, Johannes. Filosofia dos Valores, p. 25.
3
Qué son los valores? p. 27
4
Hessen, Johannes. Filosofia dos valores, p. 51 e ss.
5
Reale, Miguel. Filosofia do Direito, p. 175.
6
Cunha, Renan Severo Teixeira. Apostila Objetos e sua
Classificação, p. 02.
7
Reale, Miguel. Filosofia do Direito, p. 177
8
Exemplo: uma escultura, o suporte é o mármore, o sentido
é o valor Beleza.
9
Frondizi, Risieri. Qué son los valores?, p. 15
10
Cunha, Renan Severo Teixeira. Apostilas Objetos e
sua classificação, p. 37.
11
Reale, Miguel. Teoria Tridimensional do Direito -
Situação Atual, p. 94.
12
Hessen, Johannes, Filosofia dos valores, p. 38.
13
Cunha, Renan Severo Teixeira. Apostilas Objeto e
Classificação, p. 39.
14
Reale, Miguel. Verdade e Conjetura, p. 99.
15
Frondizi, Risieri. Qué son los valores, p. 17. Tradução/
Lê-se no original “no pueden vivir sin apoyarse em objetos
reales”
16
A Teoria dos Valores de Miguel Reale, p. 22.

Recebido em 07 de maio de 2007 e aprovado em


26 de outubro de 2007.

80