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PERNAÇA

\ \ \ \ \ \ \ '
COMO DEUS ALCANÇA E
USA PESSOAS IMPERFEITAS

J. I. Packer &
c c Carolyn Nystrom
J.I.Packer
Carolyn Nystrom

Nunca Perca a
ESPERANÇA
Nunca Perca a Esperança © 2002 Editora Cultura Cristã. Originalmente
publicado em inglês com o título Never Beyond Hope de J.I.Packer e
Carolyn Nystrom. © 2000, J.I.Packer e Carolyn Nystrom. Traduzido e
publicado com permissão da InterVarsity Press P.O.Box 1400 Downers
Grove, IL 60515 USA.

Ia edição, 2002 - 3.000

Tradução
Sírley Vieira Amorim Strobel

Revisão
Arlinda Madalena Torres

Editoração
Leia Design

Capa
Antonio Carlos Ventura

Publicação autorizada pelo Conselho Editorial:


Cláudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira,
Aproniano Wilson de Macedo, Fernando Hamilton Costa,
Mauro Meister, Ricardo Agreste, Sebastião Bueno Olinto.

CDITORA CULTURA CRISTÃ


Rua Miguel Teles Junior, 382/394 - Cambucl
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Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas


Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
Ao Leitor 03
Introdução. O Presente de Deus. A Esperança 05

1. Esperança quando minha força traz consigo a fraqueza


Sansão 21
2. Esperança quando pertenço a uma família infeliz
Jacó 33
3. Esperança quando nunca sou percebido e nunca
confiam em mim
Esposa de Manoá 51
4. Esperança quando estou bravo com as pessoas e com Deus
Jonas 65
5. Esperança quando as falsas prioridades me traem
Marta 83
6. Esperança quando acho difícil acreditar
Tomé 101
7. Esperança quando fiz algo terrível
Simão Pedro 123
8. Esperança quando tudo deu errado
Neemias 143
¿fila f£>eÈtafi/

Escrevemos esse Civro juntos e gostaríamos cie explicar como e


por que. CaroCyn Nystron ouviu uma pregação de J.I. Eacler sobre
Sansão e perguntou-lhe se poderia transcrever o sermão. Dr. <Pacher
lhe disse então que tinha outras mensagens soôre o tema de Sansão
chamadas “Como Deus abençoa e usa pessoas imperfeitas para real­
zar seus planos ”. Ema coisa Cevou a outra e então concordamos em
desenvolver esse material, com CaroCyn (Nystrom transcrevendo, edi­
tando e elaborando um guia de estudo, dando orientação devocionaCe
dando o jeito final no livro. O que você tem em mãos é o resultado
dessa operação conjunta.
O material de J.I. <Pacf$er, exçeto a introdução, desenvolve
palestrasjáfeitas. Não se tentou mudar o tom de pregação e a retórica
homilética. Quando se encontra um “eu” nesse livro, ele se refere a J.I.
Eaclpr. Jã experiencia de CaroCyn (Nystrom aparece nos estudos, nas
sugestões de oração e nas orientações para redação. E ambos temos a
certeza de que só os indivíduos ou grupos que se dedicarem aos exercí­
cios de aplicação poderão tirar proveito do nosso trabalho.
Se é ou não dessas pessoas quefazem anotações ao pesquisar,
insistimos que você use um caderno para esse estudo. Jã razão é que as
margens do livro e as páginas em branco não serão suficientes.
Todos nós, de uma maneira ou de outra, temos problemas, e a
graça divina celebrada nessas páginas é algo de que todos nós precisa­
mos profundamente. Que esse livro, que saiu de nossos corações, possa
chegar ao seu, e que Deus toque sua vida por meio dele.

ff ff CTacÍNi-
Introdução

0 Presente de Deus. A Esperança


"E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no
vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espirito
Santo" (Rm 15.13). Assim escreveu Paulo aos cristãos de Roma
quando completou o assunto de sua maior carta. Sou cristão há
mais de cinqüenta anos, mas só recentemente tenho apreciado
quão profunda foi a oração de Paulo — e continua sendo.
Enquanto escrevo, as esperanças do restabelecimento da paz na
Irlanda do Norte se foram e um massacre vingativo de fazendeiros
em Kosovo mostra que a esperança do rápido retorno à paz
almejada naquela terra de agonia deve agora ser arquivada. Com
tudo isso, observadores nos dois países estão experimentando um
senso de derrota, entorpecidos uns e aterrorizados outros. Não é
de se espantar que surjam tais sentimentos porque o fim da
esperança produz um efeito mortal na mente e coração humanos.
Enquanto há vida há esperança, dizemos, mas a verdade mais
profunda é que enquanto há esperança há vida. Tirando a
esperança, a vida, com sua variedade fascinante de oportunidades
e experiências, se reduz à mera sobrevivência - desinteressante,
não gratificante, desolada, monótona e repulsiva, um fardo e dor.
Pessoas sem esperança frequentemente expressam seu senso de
realidade e seus sentimentos sobre si mesmas dizendo que
desejariam morrer e algumas vezes até tentam tirar a vida.
Anos atrás a esposa de um senhor que conheci quando estu­
dante escreveu seu testemunho intitulado: "Efeito Redundante".
Começa assim: "Nunca vou esquecer o rosto de Francis quando
entrou pela porta da frente naquela noite... Estava pálido e com­
pletamente derrotado". Dispensado sem prévio aviso, Francis (ela
escreveu) foi então rejeitado em toda parte. "Ele queria fazer
6 Nunca Perca a Esperança

qualquer trabalho... mas ninguém o queria. Dói ver um homem


normalmente tão cheio de vida e idéias simplesmente me aju­
dando nas tarefas domésticas ou sentado olhando o vazio." Quan­
tos casais do Ocidente têm passado por essa experiência nos
últimos anos! E, enquanto as necessidades da família estavam
sendo mencionadas nas reuniões de oração, na sua mente surgiu
um plano de começar um pequeno negócio. Quando sua esposa
retornou, encontrou-o com um sorriso no rosto. "Enquanto
estávamos orando, sentiu algo mudando dentro dele. A esperança
renasceu dentro dele e com ela as decisões, idéias, ação." Exata­
mente! É isso que a esperança faz por você. O plano era bom e a
crise foi superada. Seu artigo termina assim:

Não sei por que Francis perdeu seu emprego. Não sei
como está tudo dando certo agora. Mas sei com certeza que
posso confiar em Deus. Sei com certeza que ele propor­
cionará abrigo e conforto, roupa e comida. E, mesmo nos
momentos mais difíceis, ele pode dar esperança; e além da
fé e do amor, a esperança é um dos seus mais preciosos
dons para a humanidade.

Ninguém jamais disse coisa tão verdadeira.


A questão é que nós humanos vivemos muito em um futuro
que imaginamos. Não decidimos ser assim, apenas somos. Olhar
para frente, sonhar com coisas alegres que estão por vir, querer
que continue o que é bom e que pare o que é mau e desejar um
futuro que é melhor do que o passado é tão natural para nós
quanto respirar. Como Alexander Pope disse de maneira pom­
posa: "A esperança brota eterna no peito do homem: O homem
nunca é, mas sempre será abençoado". Com certeza, há pessoas,
famílias, grupos e culturas inteiras que são pessimistas, achando,
ser sábio não esperar nada de bom; mas como essa atitude que
não é alegre, também não é natural, não mais do que o ateísmo o
é. Ambos são resultado da desilusão. Como os ateus se fecham
por estarem desapontados e feridos de alguma forma pelo teísmo
O Presente de Deus. A Esperança 7

dos teístas, ou pelos seus expoentes, então o pessimismo flui da


destruição do otimismo natural. Esperança gera energia, entu­
siasmo e disposição; falta de esperança produz somente apatia e
inércia. Para um desenvolvimento humano completo — em distin­
ção a parcialmente diminuído — temos necessidade de ter espe­
rança em nossos corações.
Se pensarmos ou sentirmos (freqüentemente não somos muito
racionais a esse respeito) que não temos motivo para esperança e
que só podemos esperar que no futuro as coisas piorem, inevita­
velmente ficaremos deprimidos e, pior, desesperados. Podemos
tentar esconder nossa condição, mas a raiva não encarada, a fúria e
o ódio pela vida tornam-se como ácido dissolvendo todos os outros
sentimentos transformando-os em absoluta amargura. A falta de
esperança encontra-se assim na raiz de muitas disfunções
psicológicas atuais, como o aumento dos assassinatos e suicídios
parecem demonstrar. E mesmo quando a falta de esperança for
incerta e intermitente, o estado de espírito que vem e vai, ainda
assim ela nos faz sentir sozinhos, com medo e paralisados. Per­
cebemos que não podemos tomar decisões nem obrigar ninguém a
fazer alguma coisa. Nosso sentimento de valor próprio toma-se
dúvida, desconfiança de nós mesmos e não nos gostamos mais; a
confiança dá lugar ao desespero. Nos encontramos sem a luz no
fim do túnel, somente com uma profunda escuridão e finalmente
sem saída.
Quando o filósofo Immanuel Kant disse que uma das três questões
básicas da vida era, "O que podemos esperar?" ele estava certo. Onde
devemos procurar uma resposta? Com os políticos e engenheiros
sócio-econômicos? Dificilmente. Os políticos sabem que todos pre­
cisamos de esperança e na realidade ansiamos por isso, portanto a
sua retórica é sempre otimista. Para nós do velho Ocidente (quero
dizer Europa, incluindo a Grã-Bretanha; América do Norte, incluindo
o Canadá; e Australásia, incluindo Nova Zelândia), as promessas
dos políticos e os prognósticos não nos parecem senão vazias, porque
vemos claramente que nunca satisfizeram as esperanças colocadas
8 Nunca Perca a Esperança

neles, e com tristeza sabemos que nunca satisfarão. As políticas


nacionais e internacionais do século 19, bem como o desenvolvimento
econômico global, avanços educacionais, acúmulo de riqueza,
sucessos tecnológicos, maravilhas médicas, rádio e televisão em todos
os lares, o advento do computador, tudo isso têm na realidade
corroído as esperanças em vez de gratificá-las por causa das novas
oportunidades de angústia e aflição que essas mudanças trouxeram.
As atividades políticas, tecnológicas e comerciais têm sido
combinadas para tornar as perspectivas do planeta do terceiro
milênio terrivelmente agourentas.
O século 20 abriu-se em otimismo. A suposição que existia no
Ocidente era de que todos éramos basicamente bons e sábios, e a
difusão da civilização cristã logo faria com que o reino de Deus,
compreendido como um reino universal de amor ao próximo, fosse
uma realidade global. Um jornal chamado The Christian Century
[O Século Cristão] foi fundado para canalizar essas esperanças e
relatar sua realização; esse jornal ainda existe, mas seu nome soa
agora terrivelmente ineficaz. Vimos a renovação da barbárie global
nas duas Grandes Guerras, na carreira de dementes poderosos,
chefes tribais loucos por dinheiro e nos atos genocidas de ditadores.
Encolhemos diante da exploração das empresas mais poderosas
enquanto elas poluem e violentam o meio-ambiente, destroem a
camada de ozônio e desestabilizam o clima. Nós lamentamos o
abandono de nossos padrões morais cristãos em favor do
relativismo, pluralismo, secularismo e hedonismo. Existimos em
meio às escaladas do mercado armamentista, e da capacidade de
devastar o mundo com armas nucleares. Esses acontecimentos e
muitos mais nos dizem que o século 20 não foi um século
particularmente cristão. Além do mais, os desenvolvimentos do
século passado nos asseguram que muitas pessoas entraram no
século 21 mais amedrontadas do que esperançosas, imaginando
até onde a decadência educada, afluente e tecnologicamente
equipada do Ocidente irá nos levar e que tipo de mundo aguarda
nossos netos. Pode ser dito com razão que a utopia Marxista, com
O Presente de Deus. A Esperança 9

sua estrutura coletivista, falhou e não é provável que seja tentada


novamente. No início do terceiro milênio, quem ainda espera que
o jogo de poder dos políticos e generais e o jogo de dinheiro dos
líderes comerciais irá gerar uma paz global e prosperidade, enterrou
bem fundo sua cabeça na terra. Nenhuma esperança realista de
dias melhores pode ser alcançada pela forma com o mundo tem
sido dirigido.
O que vem então? Não há nada de bom para se esperar? Há,
mas precisamos buscar essa esperança fora do processo sócio-
político e econômico. E isso, pela graça de Deus, podemos fazer.
Porque Deus, o Criador, que nos fez, nos sustenta e conhece nosso
coração, nunca tencionou que o ser humano vivesse sem esperança.
Ao contrário, ele se faz conhecer no Evangelho como "o Deus da
Esperança" (de acordo com Paulo, como vimos). Ali ele convida
todos a receber "Cristo Jesus, nossa esperança" (lTm 1.1) e aceitar a
renovação por "Cristo em... (nós), a esperança da glória" (Cl 1.27).
Como Deus Pai é o Deus da Esperança, então seu Filho encarnado
— Jesus de Nazaré, crucificado, ressurrecto, que reina e voltará —
é um mensageiro, meio e mediador da esperança; e a Bíblia — a
palavra de Deus escrita — é, desde Gênesis até o Apocalipse, um
livro de esperança. A primeira promessa divina registrada, que a
semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente, foi uma palavra
de esperança no Jardim do Éden (Gn 3.15); e a última promessa
registrada de Jesus: "certamente, venho sem demora" (Ap 22.20),
foi uma palavra de esperança às igrejas que enfrentavam a
perseguição. Hebreus 11.1 define a fé em termos de esperança ("A
fé é a certeza de coisas que se esperam"). Esperança, a expectativa
garantida, que capacita os crentes a olhar adiante com alegria, na
realidade é um dos maiores temas do Cristianismo e um dos maiores
dons de Deus.
O que a Bíblia nos fala sobre a esperança, em resumo, é: o ser
humano foi originalmente criado em comunhão com Deus para o
exaltá-lo e gozá-lo para sempre, primeiramente por um certo tempo
nesse mundo, e depois num lugar de delícias eternas (SI 16.11) fora
10 Nunca Perca a Esperança

do universo de tempo que conhecemos. Quando o pecado infectou


a raça humana, desfazendo essa comunhão — tirando-nos toda a
esperança de céu e fazendo-nos sentir a ameaça do inferno —
nosso Criador agiu para formar um grupo humano interracial
perdoado e renascido, isso é, a igreja, uma comunidade que
deveria desfrutar o destino original da humanidade e ter ainda
mais por meio da soberana graça divina e de fé pessoal em nosso
Senhor Jesus Cristo. Portanto, cristãos de todos os tempos
deveriam viver sabendo que são filhos adotivos de Deus e
herdeiros da sua glória, sua cidade e seu reino. Deveriam saber
que Jesus Cristo, que por amor deu sua vida pela igreja (Ef 5.25)
em favor de cada futuro cristão pessoalmente (G1 2.20):
1) Está agora com cada um de nós pelo seu Espírito (Mt 28.20),
para cuidar de nós diariamente, como um pastor cuida das ovelhas
(Jo 10.2-4,11-25) e para nos dar forças graciosamente de acordo
com nossas necessidades (Fp 4.13; 2Tm 4.17);
2) Finalmente nos tirará deste mundo para vermos e
compartilharmos a bem-aventurança celestial que já é dele (Jo
14.1-3; 17.24; Rm8.17).
Portanto, com Paulo: "aguardamos a esperança da justiça que
provém da fé" (G1 5.5) - isso é, o fruto completo de sermos plena­
mente aceitos por Deus — ou, como diz a New Living Translation:
"aguardamos ansiosamente para receber tudo que foi prometido a
nós que somos justos com Deus por meio da fé". A identidade cristã
é que não somente cremos mas também temos esperança.
Podemos ver claramente agora que a palavra esperança significa
duas realidades distintas embora relacionadas. Objetivamente,
significa a perspectiva que nos aguarda e é divinamente garantida;
subjetivamente, significa a atividade ou o hábito de aguardar o dia
em que o que nos foi prometido se tornará nosso em alegria real.
Isso é então muito diferente de otimismo. O otimismo espera pelo
melhor sem qualquer garantia de sua realização e freqüentemente
não é mais do que assobiar no escuro. A esperança cristã, ao
contrário, é a fé esperando pelo cumprimento das promessas de
O Presente de Deus. A Esperança 11

Deus, como quando sepultamos nossos queridos na certeza e


esperança da Ressurreição para a Vida Eterna por meio de nosso
Senhor Jesus Cristo. Otimismo é o desejo sem garantia; a esperança
cristã é uma certeza, garantida pelo próprio Deus. O otimismo
reflete a ignorância quanto a se coisas boas irão realmente acontecer.
A esperança cristã expressa o conhecimento de que — o crente
pode dizer isso com verdade na base do compromisso do próprio
Deus — o melhor ainda está por vir.
A esperança cristã é muito depreciada nos dias de hoje. Ela
está em desacordo com o orgulho mundano de nossa cultura
sofisticada e materialista. Nossa esperança provoca ressentimento.
Os marxistas se opõem a ela porque acham que a esperança
celestial (enganosa, segundo eles) conduz à passividade e impede
as massas de agirem revolucionariamente em prol de transfor­
mações sociais. Alguns conselheiros psicólogos são contra a
esperança cristã porque a vêem como forma de escapismo que
impede as pessoas de verem a realidade. Mas a verdade é que a
esperança cristã, em virtude do seu objeto (o que ela espera, que
é a generosidade de Deus garantida e sem fim), produz amor,
alegria, zelo, iniciativa e ação devotada, de modo que, como disse
C.S. Lewis, aqueles que mais fizeram pelo presente mundo foram
aqueles que mais pensavam no outro.
Em Romanos, o próprio Paulo discorre sobre essa realidade.
Ele apresenta Abraão como um modelo de fé que justifica porque
ele creu na promessa de Deus quanto a um futuro que na ocasião
parecia bom demais para ser verdade. "Abraão, esperando contra
a esperança, creu... estando plenamente convicto de que ele era
poderoso para cumprir o que prometera" (Rm 4.18,21).
Descrevendo a vida daqueles que foram justificados pela fé, escreve:
"e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus" (Rm 5.2; ver
também 12.12: "regozijai-vos na esperança"). Havendo declarado
que ansiamos pela prometida redenção dos nossos corpos, ele
continua: "... na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se
vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas,
12 Nunca Perca a Esperança

se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos"


(Rm 8.24,25). Ele está aqui nos dizendo para esperarmos atencio­
samente, intencionalmente, conscientemente e tenazmente pela com-
pletude transformadora da salvação que, relacional e posi-
cionalmente, já recebemos. Aprendemos com Paulo que, se de urna
forma já fomos salvos, então devemos ser salvos de outra. Salvação
é tanto /« quanto ainda não. Devemos ser gratos a Deus pela salvação
no primeiro sentido, porque ela se torna nossa quando crermos
(Rm 1.16; 6.17,18,22,23; 11.11,14), enquanto esperamos sua vinda no
segundo sentido, confiantes que cada dia está mais perto (Rm 13.11).
Então em Romanos 15.4 Paulo surpreendentemente nos diz que
"tudo quanto, outrora, foi escrito" - quer dizer, tudo que está no
Antigo Testamento: "para o nosso ensino foi escrito" — nosso, quer
dizer, para os cristãos — "a fim de que, pela paciência e pela
consolação das Escrituras, tenhamos esperança". E em Romanos
15.13, como vimos, ele ora para que o "Deus da esperança" capacite
os seus leitores a serem cheios "de todo o gozo e paz" no seu crer.
Será que a ênfase de Paulo na esperança — que tão claramente
expressa os movimentos de seu próprio coração (os "nós" e os
"nos" na passagem acima mostram isso) — diminui a energia e a
intensidade dos seus trabalhos apostólicos? Nem um pouco, muito
pelo contrário. Ele escreve aos Romanos como quem, tendo
evangelizado o mundo do Mediterrâneo de Jerusalém até a costa
Adriática, agora planeja visitar Roma em sua viagem missionária
à Espanha (ver Rm 15.15-28). Ele foi talvez o missionário mais
empreendedor que o mundo jamais conheceu e tinha o direito de
afirmar como simples matéria de fato: "... trabalhei muito mais
do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo"
(ICo 15.10). Sua esperança incluía não somente sua ressurreição
pessoal e uma eternidade feliz com Jesus (Fp 1.20-23; 3.8-14), mas
também no crescimento de uma comunidade cristã entre os
gentios em toda parte sob o seu ministério.
Paulo foi um pioneiro incansável trabalhando e pregando para
que isso acontecesse. A esperança de ver o cumprimento do plano
O Presente de Deus. A Esperança 13

de Deus não o levou a descansar em sua tarefa, mas deu-lhe


energia para continuar, do mesmo modo como o plano de Deus
de ressuscitá-lo o levou adiante "para conquistar aquilo para o
que também fui conquistado por Cristo Jesus... uma coisa faço:
esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para
as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio
da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fp 3.12-14). Na
vida espiritual e no ministério, a esperança fez por Paulo o que
um atleta espera que o treinamento e levantamento de pesos façam
para seu corpo: ela lhe deu forças e melhorou o seu desempenho.
Assim deveria ser com todos nós. E isso nos leva ao ponto seguin­
te, que tem a ver com o nosso próprio desempenho.
Uma verdade da qual crentes saudáveis e em crescimento têm
cada vez mais consciência é que Deus é transcedentalmente
grande e o ser humano é por comparação infinitamente insigni­
ficante. Compreendemos que Deus pode passar muito bem sem
nenhum de nós. E isso deveria nos fazer sentir muito privilegiados,
porque ele não somente nos fez, amou e salvou, como também
nos tornou co-participantes da realização de seus planos. Por isso
Paulo pode chamar seus colegas e a si mesmo de embaixadores
de Cristo e cooperados de Deus (2Co 5.20; 6.1) e pede que nos
vejamos como servos, ministros e obreiros de Deus. Exatamente
como há cinquenta anos as pessoas se sentiram honradas em
trabalhar para Winston Churchill por causa de quem ele era,
deveríamos muito mais nos sentirmos dignificados por saber que
fomos chamados para fazer a obra de Deus. E nenhum de nós
está excluído porque as Escrituras mostram Deus usando o mais
estranho, mais inexperiente e mais imperfeito dos seus filhos para
promover seu trabalho, ao mesmo tempo que segue adiante em
sua estratégia de santificação, levando-nos a ter um melhor padrão
moral e espiritual. Isso é de fato muito encorajador para almas
sensíveis que acham que não estão aptas a servi-lo. Nesse livro
veremos Deus lidando com Sansão, o mulherengo; com Jacó, o
enganador; com o mau humorado Neemias; com a desconfiada
14 Nunca Perca a Esperança

dona Manoá; com a dominadora e barulhenta Marta e a muito


passiva Maria; Jonas o patriota obstinado; Tomé o pessimista
profissional bobo-esperto; e o impulsivo, bondoso, instável Simão
Pedro. Veremos como Deus abençoou e usou essas pessoas
enquanto as libertava da escravidão aos seus próprios defeitos
para a mais verdadeira piedade que eles jamais haviam conhecido.
A informação de que é assim que Deus lida com os seus amigos
imperfeitos é aqui apresentada na esperança humana de que ela
desperte em corações — que até aqui se acharam errados demais
para essa honra — a divina esperança de ser útil.
Esperança é uma planta delicada, facilmente esmagada e
eliminada, e todo cristão deve aprender a lutar por ela. Muitos
são os momentos de desapontamento e frustração, quando
dizemos e sentimos que não há esperança. O desapontamento
então nos levará, se deixarmos, ao declive escorregadio através
da desolação e angústia, em direção à depressão e desespero. O
discurso do traumatizado Jó quando sentou na cinza, doente,
desnorteado e ferido na alma e no corpo, expressa a morte da
esperança nos termos clássicos. "Meus dias... se findam sem espe­
rança" (Jó 7.6). "Como as águas gastam as pedras, e as cheias
arrebatam o pó da terra, assim destróis (Deus!) a esperança do
homem!" (Jó 14.18,19). "Mas, se eu aguardo já a sepultura por
minha casa... onde está, pois, a minha esperança? Sim, a minha
esperança, quem a poderá ver?" (Jó 17.13,15). Ele (Deus!)" arran-
cou-me a esperança, como a uma árvore" (Jó 19.10). Pressupondo
que o piedoso seria sempre materialmente enriquecido, e antes
da revelação da esperança da glória com Cristo além, deste
mundo, Jó - embora finalmente restaurado em termos materiais
(Jó 42.10) - não poderia receber de Deus outro fundamento da
esperança a não ser esse: confie sabendo que sei o que estou
fazendo. Essa foi a mensagem dada a ele quando Deus relembrou
algumas das glórias cósmicas e criaturas viventes maravilhosas
que ele fez (ver capítulos 38 - 41). Mas os cristãos sabem mais do
que Jó sabia e Pedro nos apresenta recursos para que tenhamos
O Presente de Deus. A Esperança 15

nossa esperança renovada em nossos corações sempre que ela for


ameaçada. Essa é a passagem: vale seu peso em ouro.

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que,


segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma
viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo
dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem
mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros
que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para
salvação preparada para revelar-se no último tempo. Nisso
exultais, embora, no presente, por breve tempo, se ne­
cessário, sejais contristados por várias provações, para que,
uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais pre­
ciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo,
redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus
Cristo; a quem, não havendo visto, amais; no qual, não
vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e
cheia de glória, obtendo o fim da vossa fé: a salvação da
vossa alma (IPe 1.3-9).

Precisamos de esperança? Sim. Os cristãos podem ter esperança?


Sim. Estamos além da esperança? Não. E a grandeza de nossa
esperança uma indicação da bondade de Deus? Sim. A esperança
da nossa salvação nos dá alegria, energia, fé e o desejo de sermos
usados por Deus? Sim, sim, sim, sim. Podemos esperar que Deus
nos use cada dia para sua glória, mesmo se não formos perfei­
tamente santificados? Sim. Essa é uma notícia maravilhosa? Sim.
Boa esperança para você! Esperança como modo de vida,
esperança como fonte de energia e esperança como fonte de alegria
ao coração de onde o louvor e oração irão fluir continuamente.
Isso é tudo que tenho a dizer? Não exatamente.
Acho que você sabe que o mal está em toda parte: astuto,
malicioso, destrutivo, desembaraçado e implacável, encabeçado
por um anjo corrupto que a Bíblia chama de Satanás (uma palavra
hebraica que significa "o adversário" ou o "oponente hostil").
Acho que você sabe que Satanás está aqui e agora perseguindo-o
16 Nunca Perca a Esperança

pessoalmente, já que quando você se comprometeu a seguir a


Jesus, se colocou contra ele. Ao entrar no constante conflito entre
o Criador e o corruptor — o que você fez ao se alistar ao lado do
Senhor — você assegurou, quer queira ou não, que estará vivendo
pelo resto de sua vida num estado de guerra espiritual. Não
conseguindo evitar que o crente viesse à fé, Satanás fará a coisa
mais amaldiçoada que puder para afastá-lo do crescimento
saudável em Cristo e de ser útil ao Senhor numa vida de serviço
e testemunho. Isso significa que Satanás irá trabalhar para desviá-
lo dos passos da santidade e da esperança. Alguns que lêem essas
palavras no fundo já cederam a Satanás com relação à esperança,
de modo que sabem pouco a respeito do poder que dá alegria,
melhora a vida e gera energia. Por favor, pense comigo por um
momento em como isso pode ser mudado.
Para sufocar em nós a esperança como um hábito da mente e
do coração, Satanás aproveita-se tanto de nossa inerente fraqueza
de caráter como de nossos adquiridos defeitos de atitudes e
comportamentos que dão testemunho de relacionamentos e falhas
do nosso passado. Assim, alguns de nós temos um temperamento
que é naturalmente tristonho e melancólico (a velha palavra para
depressão), de modo que o interesse próprio e a autopiedade, o
sentimento de fracasso, abandono e a constante espera pelo pior
se abatem regularmente sobre nós. Alguns de nós ficamos tão
sobrecarregados com o esmagador sentimento de timidez e
incompetência (desajeitado; câmara lenta; sem beleza, cérebro e
brilho) que nos tornamos desconfiados e inferiores e fugimos
apavorados, com medo de sermos pegos em alguma tolice sem
percebermos. Alguns de nós carregamos as marcas de uma dor
que não conseguirmos esquecer ou de uma perda que não
conseguimos reverter (pais desajustados, colegas violentos,
relacionamentos fracassados, abuso sexual, uso de drogas e muito
mais). Lembranças de culpas passadas mantém a vergonha e a
auto-recriminação vivas em nossos corações. Sentindo-nos
aprisionados em um corpo doente e débil, num lar sem amor ou
O Presente de Deus. A Esperança 17

numa rotina de auto-destruição, nos ressentimos de nossa


existência como algo miserável. O cansaço emocional nos faz
pensar, como um homem me disse certa vez, que nossa fé é tão
frágil quanto um lenço de papel e ter esperança por alguma coisa
simplesmente está além de nossas forças. Satanás é mestre em
usar essas condições e outras parecidas para nos afastar da prática
da esperança.
Não estamos sempre tão próximos de nós mesmos - isso é, em
nossos sentimentos, impulsos e atitudes - como pensamos ou
como precisamos estar. Talvez você se veja querendo rejeitar como
conversa fiada o que escrevo aqui sobre a esperança cristã em
Deus. Talvez porque me referi a fraquezas e vulnerabilidade que
você tem tentado negar. Se for assim, garanto que você sabe bem
menos do que deveria sobre a alegria da esperança e menos do
que eu gostaria que soubesse. Peço que você se examine agora.
Como? Bem, analisando numa reflexão honesta, peço que você
ouça a voz do passado. Pegue o texto de John Bunyan O Peregrino1
é uma alegoria pastoral clássica que tem sido reeditada por mais
de três séculos. Ele apresenta uma visão da vida espiritual e na
segunda metade da segunda parte fala muito do Senhor Desânimo
e sua filha Muito Medrosa, que foram resgatados das garras do
Gigante Desespero; fala sobre o Senhor Mente Fraca e seu tio
Senhor Medo, que faz piorar muito a peregrinação, mais que todos
os outros; e sobre o Senhor Pela Metade, que não pode prosseguir
sem suas muletas. Leia todo o livro, ambas as partes, e focalize o
que é dito destes personagens e como foram ministrados. Penso
que assim você será ajudado a ter esperança. Enquanto isso, deixe-
me dizer-lhe algumas coisas que tive que aprender a dizer a mim
mesmo nos dias em que eu estava me transformando em um
cínico, não duvidando da fé bíblica mas não gostando de hinos
sobre o céu e nem da forma animada como as pessoas os cantavam.
Primeiro, o coração da esperança cristã, aqui e para sempre, é
a comunhão amorosa dos pecadores salvos com o Pai, o Filho e o

1 Publicado no Brasil pela Editora Mundo Cristão.


18 Nunca Perca a Esperança

Espírito Santo, adorando, obedecendo e sendo usados para


agradar a Trindade. Essa é a realidade essencial e eterna da vida
espiritual; é disso que trata o céu e, se sou um cristão de verdade,
é disso que a minha vida vai tratar desde já. Aqui e agora, a vida
espiritual traz alegria, bem como um sentimento de paz e
realização que não vem de outro lugar. A perspectiva é que
continue assim para sempre. Isso significa que a cada momento
no céu será verdade afirmarmos, como sugere Robert Browning,
que "o melhor está por vir", assim como é verdade aqui na terra
e deve der dito por cada cristão. Seria um pecado desdenhar ou
ficar ofendido por uma perspectiva tão maravilhosa.
Segundo, nosso mundo materialista, pós-cristão, está na
realidade ostentando sua tolice pecaminosa quando zomba da
esperança do céu, e seria um pecado tolo se o cristão agisse dessa
maneira. Vale a pena citar aqui algumas frases que C.S. Lewis
escreveu mais de meio século atrás:

Esperança é uma das virtudes teológicas. Significa que a


expectativa contínua da vida eterna não é (como algumas
pessoas modernas pensam) uma forma de escapismo ou
pensamento positivo, mas uma das coisas que os cristãos
devem fazer.

Não há razão para nos preocuparmos por causa das


pessoas que zombam fazendo com que a esperança cristã
do "céu" seja ridícula quando dizem que não querem
"passar a eternidade tocando harpas". A resposta a tais
pessoas é que se elas não conseguem entender livros escritos
para adultos não deveriam lê-los. Todas as imagens da
escritura (harpas, coroas, ouro, etc.) são, é claro, uma
tentativa simbólica de expressar o inexprimível. Os
instrumentos musicais são mencionados porque para
muitas pessoas (nem todas) a música é o que na vida
presente mais sugere êxtase e infinito. Coroas são
mencionadas para sugerir que aqueles que estão unidos em
Deus na eternidade compartilham seu esplendor, poder e
alegria. O ouro é usado para sugerir a eternidade do céu (o
ouro não enferruja) e a sua preciosidade. As pessoas que
O Presente de Deus. A Esperança 19

interpretam literalmente esses símbolos podem também


pensar que quando Cristo nos disse para sermos iguais às
pombas, ele não quis dizer que deveríamos botar ovos {Mere
Christianity [Londres: Fontana, 1955], págs. 116 - 119).

Terceiro, nosso Deus gracioso empenhou o seu crédito ao nos


contar por meio de Cristo, dos apóstolos e da Bíblia toda sobre a
vida futura e sobre as promessas acerca do futuro que ele concedeu
para todos os crentes (as muletas na alegoria de Bunyan, sem a
qual o Senhor Pela Metade não conseguiria andar). Aquelas
promessas têm o céu como objetivo constantemente. Seria um
pecado tolo e insultaria a Deus se nos recusássemos a acreditar
nesse ensinamento e nessas promessas quando recebemos outras
dadas por Cristo, os apóstolos e a Bíblia como sendo verdade
divina. Será que podemos justificar o fato de não acreditarmos
nas palavras de Deus? Podemos aqui e agora justificar a descrença
nas próprias promessas de Deus sobre o futuro? Não, claro que
não. A arrogância em não acreditar no que Deus claramente
declarou foi o pecado no Éden. Tal descrença foi injustificável
então e o seria agora.
Um efeito observado na depressão é a perda da força em acre­
ditar que qualquer coisa boa espera por você e uma das causas da
depressão é sentir que você é um desajustado, um inhuso ou um
fracassado. A depressão espiritual ocorre quando tais sen­
timentos corroem sua confiança no grande, imensurável, ilimitado
e gracioso amor do nosso Deus. Acho que você conhece alguns
destes sentimentos; muitos cristão ocidentais, talvez até outros,
vivem a vida num estado de depressão não diagnosticada porque
esses senümentos normalmente os sobrepujam. Mas a resposta
final para todo sentimento de inferioridade é nos lembrarmos que
Deus ama, redime, perdoa, restaura, protege, conserva e usa os
errados, intrusos e imperfeitos tanto quanto faz com pessoas
corretas que passam por nós e a cujo número gostaríamos de
pertencer. Veremos isso nos estudos bíblicos que se seguem, que
20 Nunca Perca a Esperança

Carolyn e eu oferecemos a Deus e a você, pedindo a ele que os


use para transformar muitas pessoas nos felizes esperançosos que
todos os cristãos foram chamados a ser.
1

Esperança Quando Minha Força


Traz Consigo a Fraqueza

Juízes 14 -16

Com certeza, ninguém pode ler a história de Sansão sem pensar:


"Que tragédia!". Tragédia é o desperdício do que é bom, a desvalo­
rização do potencial, e Juízes 14 -16 é uma história trágica de des­
perdício de muita coisa boa por Sansão se permitir bancar o tolo.
Mesmo assim Sansão é um herói da fé. Sabemos disso porque
no capítulo 11 de Hebreus ele é citado nominalmente: "E que mais
direi? Certamente, me faltará o tempo necessário para referir o
que há a respeito de Gideão, de Baraque, de Sansão, de Jefté, de
Davi, de Samuel e dos profetas" (Hb 11.32). O escritor de Hebreus
vai além ao dizer que esses homens eram aqueles que "por meio
da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram pro­
messas, fecharam bocas de leões, extinguiram a violência do fogo,
escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-
se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estran­
geiros" (Hb 11.33,34). "Da fraqueza tiraram força" - força, isso é,
para fazer o que de outra forma não teriam conseguido. Isso faz
parte da história de Sansão - como faz parte da história de muitos
outros imperfeitos do povo de Deus.
Portanto, Sansão foi um herói da fé. Na realidade, o tema central
da história de Sansão é que Deus o tinha designado para servir
como libertador. Quando o anjo do Senhor anunciou à sua mãe o
próximo nascimento de Sansão, ele disse que seu filho seria "sepa­
rado para Deus desde o nascimento," e que "ele começará a livrar
22 Nunca Perca a Esperança

a Israel do poder dos filisteus" (Jz 13.5). E foi o que ele fez. Lemos
que ele dirigiu e julgou a Israel como juiz por vinte anos, e está
claro que as suas ações enfraqueceram o controle dos filisteus sobre
o povo de Deus.
Mas a história de Sansão, de acordo com o livro dos Juízes, é
muito parecida com o que acontece em livros de aventura: mu­
lheres e lutas por toda parte. Sansão foi sem dúvida um Rambo
típico, mas a culpa não foi só dele. O livro de Juízes nos fala sobre
um povo que vivia numa sociedade permissiva e uma cultura
decadente leva naturalmente a um comportamento irresponsável.
Sabemos hoje isso em primeira mão. "Sociedade decadente" é uma
descrição que se aplica diretamente à sociedade norte-americana
atual. Nós do Ocidente vivemos em tempos pós-cristãos e, como
nos dias de Sansão, as velhas regras não são seguidas. Cada um faz
o que bem entende (ver Jz 17.6; 21.25). Todas as coisas selvagens
que se fazem hoje envolvem algum desperdício do que é bom.
Vivemos numa era e num lugar que têm toda a probabilidade de
ser o palco para uma tragédia como a que vemos na vida de Sansão;
e devemos tomar cuidado.
A essência da tragédia, como disse, é o desperdício do que é
bom, a anulação do potencial. E desperdício é a descrição da vida
de Sansão, como descrito aqui. Sansão foi um herói estranho, tão
genioso e incorrigível quanto qualquer delinqüente juvenil. Foi-
lhe dado grande força física para combater os filisteus e isso ele
fez com sucesso. A Escritura diz que o Espírito do Senhor veio
sobre ele em poder várias vezes (Jz 13.25; 14.6,19; 15.14). E exata­
mente no fim da sua vida Sansão orou e foi-lhe dada força para
derru-bar o templo de Dagom. Ele morreu com os filisteus - e tinha
orado para que isso acontecesse. O narrador comenta nesse ponto
que Sansão matou muitos mais quando morreu do que enquanto
viveu (16.30). O seu poder sobre os filisteus é o fio de ouro que
corre pelos elementos obscuros da história de Sansão. Junto com
suas escapadas, Sansão, como podemos observar, foi o líder reco­
nhecido de Israel por vinte anos. Imagine o que ele teria realizado
se não tivesse as fraquezas que demonstrou possuir.
Esperança Quando Minha Força Traz Consigo A Fraqueza 23

Sexualidade imperfeita
Para nosso próprio proveito devo agora ser específico sobre as
falhas que vejo no caráter de Sansão.
Para começar, Sansão não conseguia resistir a uma garota.
Quando jovem, disse a seus pais, para tristeza deles: "Há uma moça
filistéia com quem quero me casar". Ele cortejou essa mulher pagã
bem no começo de sua carreira e terminou com outra mulher pagã
chamada Dalila. Entoe as duas, a Escritura narra sua visita a uma
prostituta em Gaza. Nem casamentos pagãos nem deitar com
prostitutas agradam a Deus, mas parece que quando os apelos
sexuais de Sansão eram fortes, ninguém conseguia detê-lo. E isso
não é difícil de entender. Homens fortes e bem-sucedidos ainda
pensam no prazer sexual como uma diversão a que têm direito
por suas realizações, e ainda agem como se não se aplicassem a
eles restrições que se aplicam aos outros. Nem é preciso dar
exemplos, embora eles venham com facilidade à mente. A
experiência diz a todos nós que isso é verdade.

Humor imperfeito
Sansão também não podia resistir a uma brincadeira. Ele era,
entre outras coisas, um bufão que se orgulhava de ser brincalhão,
ganhando admiração e respeito fazendo as pessoas rirem com
suas esquisitices e esperteza. Conheço pessoas assim e acho que
você também. O enigma de Sansão foi um exemplo disso. Ele
estragou sua própria festa de casamento apresentando aos jovens
filisteus (seus convidados) a seguinte charada:

"Do comedor saiu a comida,


e do forte saiu doçura."

"O que isso quer dizer?" perguntou. A resposta era, como


sabemos, que Sansão se lembrou de quando encontrou abelhas
fazendo mel na carcaça de um leão que ele tinha matado. Natu­
ralmente, não esperava que alguém soubesse disso. Os jovens (não
querendo ser envergonhados por um estrangeiro, especialmente
24 Nunca Perca a Esperança

porque cada um tinha apostado um conjunto de roupas de festa


que eles resolveriam qualquer enigma que ele lhes apresentasse)
pressionaram sua noiva para perguntar a ele a resposta correta.
Ela fez o que lhe pediram e contou para eles, que responderam a
pergunta de Sansão. Percebendo o que tinham feito, Sansão ficou
furioso, acabou com a festa de casamento e foi para casa.
Porque ele ficou bravo? Bem, porque não esperava que alguém
estivesse à altura de suas piadas. O enigma tinha sido respondido,
os filisteus passaram a perna nele e ele não gostou nem um pouco.
Seu orgulho de piadista tinha sido ferido então a sua euforia deu
lugar à fúria. Como a brincadeira não deu certo Sansão adotou
um humor mais destrutivo, envolvendo animais, fogo e campos
de trigo. Pegou trezentas raposas (como será que ele fez isso?),
amarrou-as pela cauda duas a duas, prendeu uma tocha acesa
em cada par de caudas, soltou as horrorizadas criaturas e então
queimou toda a seara dos filisteus. Imagino que quando as raposas
correram, Sansão ficou parado no topo da colina rolando de rir.
Como qualquer um pode imaginar, a conseqüência da brincadeira
terminou em desnecessária (e trágica) perda de vidas (Jz 15.3-17).
Em outra ocasião, após ter estado com a prostituta de Gaza e
sabendo que tentariam evitar que saísse, Sansão achou que seria
superengraçado levantar-se no meio da noite, arrancar as duas
folhas do portão da cidade e seus batentes, levá-los nas costas
por 54 quilômetros e enterrar o portão com os batentes numa
colina suave frente ao monte Hebrom, longe de qualquer
habitação humana. Vemos novamente Sansão deixando seu senso
de humor levá-lo a fazer coisas fantásticas.
No final vemos Sansão amolando sua amada Dalila com
historinhas bobas sobre o que o fazia ficar forte. Enquanto ele fazia
piadas ela armava a sua queda. Quando finalmente lhe revelou
seu segredo (que como Nazireu, seu cabelo nunca deveria ser
cortado) sua brincadeira teve conseqüências fatais - dessa vez
para ele mesmo (Jz 16.4-30).
O humor descontrolado de Sansão o fez se comportar repetidas
vezes como um palhaço infantil, descuidado e irresponsável, e
Esperança Quando Minha Força Traz Consigo A Fraqueza 25

essa foi realmente uma fraqueza de caráter. O humor em si é dado


por Deus e nos suaviza a vida, nos protege da loucura. Mas temos
de controlar nosso senso de humor. Não podemos deixar que ele
nos controle.

Ira imperfeita
Sansão também teve problemas, como podemos observar, em
controlar sua ira. A ira é um impulso para golpear, ferir e destruir,
e a história de Sansão o mostra constantemente irado. Ele não su­
portava uma queda. Parece que uma de suas idéias fixas era que
ele tinha sempre de dar o troco. Pagar na mesma moeda era a
regra na vida de Sansão. Ele iria tratar os outros da forma como o
tratavam, só que pior, até que conseguiu uma vingança triunfante
e ficou por cima. Essa atitude aparece em sua última oração:
"Senhor Deus, peço-te que te lembres de mim, e dá-me força só
esta vez, ó Deus, para que me vingue dos filisteus, ao menos por
um dos meus olhos" (Jz 16.28). Sansão não podia ver a vida é
mais do que se vingar daqueles que nos fizeram mal. Foi outra
falha de caráter não conseguir controlar seu temperamento mas
em vez disso deixar a raiva e o orgulho transbordar cada vez mais
atingindo outras pessoas (O amor ao próximo como é ensinado
por Jesus e pelos apóstolos significa exatamente o oposto; ver Mt
5.38-48; Lc 10.25-37; Rm 12.17-21; Jo 3.11-24; 4.7-21).
Sob esse mesmo ponto de vista, pense de novo nas piadas de
Sansão. As pessoas ainda acham que fazendo os outros rir estão
se afirmando como parte da sociedade, de modo que se suas brin­
cadeiras expressarem maldade e raiva, isso será perdoado e
esquecido porque divertiram os outros. Evidentemente, Sansão
era esse tipo de homem. Como podemos observar, suas atitudes
engraçadas tinham na realidade um lado desagradável para eles.
Eram brincadeiras cruéis e dolorosas, que expressavam um desejo
de estar acima de todos e sobrepujar as pessoas envolvidas. Tais
piadas não expressavam sentimentos agradáveis. Eram engra­
çadas, mas feias. Eram piadas de mau gosto. Foi uma falha de
Sansão o fato de a sua consciência não o ter alertado sobre isso.
26 Nunca Perca a Esperança

Eu critico as brincadeiras de Sansão com alguma hesitação. É


que, quando comecei meu ministério, eu era muito sério. O pastor
titular com quem eu trabalhava uma vez me disse: "Olhe, quando
você prega você é sério demais para ser levado a sério. Deus lhe
deu humor. Use-o!" A partir daí passei a colocar algumas piadas
em meus sermões e acho que foi uma boa idéia. Mas procuro não
dizer coisas maliciosas ou depreciativas. Vejo Sansão como um
homem pego pelo seu senso de humor, um homem que habitu­
almente bancava o palhaço e achava que só o fato de fazer alguma
coisa engraçada justificativa seu mal comportamento.

Um servo de Deus
Mesmo assim Deus separou Sansão para ser seu servo especial.
Aqui e ali na história de Sansão pipocam lembretes do fato de
que ele era um homem de Deus, separado para seu trabalho, e
era Deus quem estava dirigindo suas ações e experiências. E essa
parte da história de Sansão que nos traz esperança. Nós também
vivemos vidas tragicômicas imperfeitas, cheias de erros e
deficiências, vidas nas quais o que pensamos ser nossa força nos
leva a uma esperança egoísta e se torna nossa real fraqueza. Mas
Deus era o Deus de Sansão - e é o nosso Deus.
Estranhamente, há coisas na história de Sansão que nos lembram
o nosso Senhor Jesus - outra pessoa nascida de forma milagrosa
para o propósito do reino de Deus. Jesus também tinha senso de
humor. Na realidade, era um senso de humor austero e perspicaz.
Mas com certeza achamos graça quando pensamos num camelo
passando pelo buraco da agulha ou no homem com uma trave no
olho tentando tirar o argueiro do olho de outra pessoa.1 Mas Jesus
não foi escravizado pelo seu humor. Ele era um homem cortês,
sábio, de boa vontade e controlado como Sansão nunca foi.
Quando ao autocontrole, o não perder a paciência, Jesus foi
ultrajado mas não revidou com insulto. Ele se entregou nas mãos
daquele que julga justamente. Essa é a verdadeira maturidade
1 No original Paeker diz “...uni homem tom uma prancha espetada em seu olho tentando tirar
uma mancha do olho de outra pessoa.” Seguimos a linguagem da tradução Almeida (NE).
Esperança Quando Minha Força Traz Consigo A Fraqueza 27

humana, uma maturidade que almejamos todos nós que somos de


Cristo (ver IPe 2.19-23). Nesse aspecto Jesus e Sansão eram o oposto.

Cuidado cristão
Nós os cristãos devemos considerar a biografia de Sansão como
um aviso. Sansão era fisicamente forte, é verdade. Quando o Espírito
de Deus descia sobre ele, Sansão se tornava ainda mais forte. Mas
essa mesma força trouxe fraqueza - a fraqueza do egocentrismo,
da autoconfiança, auto-indulgência e auto-satisfação. Os quatro
estão claramente mostrados em sua biografia. Se a sua força tivesse
sido menos espetacular, talvez ele tivesse sido menos vulnerável a
essas atitudes. Como conseqüência, lutou bem contra os filisteus,
mas parece que não venceu na guerra contra o pecado - o que
significa que a vida toda ele foi fraco por dentro.
Nós os cristãos evangélicos também somos fortes pelo menos,
podemos dizer, numericamente.2 Quando as estatísticas são
mencionadas, elas nos dizem que somos mais ou menos quarenta
milhões somente nos Estados Unidos. Temos seminários, tecno­
logias e as mega-igrejas. O ministério e o impacto do gigante líder
Southern Baptist 3 chamado Billy Graham, capelão honorário da
América do Norte, tem sido incalculável e ele é, como dizemos:
"um de nós". Nosso ministério de literatura cresce cada vez mais.
Deus tem dado aos cristãos muita força, mas essa mesma força
nos torna vulneráveis. Estamos em perigo ou sendo vítimas de
algumas das fraquezas destrutivas que vemos em Sansão? Essa é
uma pergunta que devemos encarar muito seriamente.
Os cristãos evangélicos vivem fechados. E um círculo grande, mas
continua sendo um círculo. Não conseguimos fugir de nossos relacio­
namentos familiares. O que somos e o que fazemos individualmente
impacta cada um de nós. E as coisas no nosso círculo nem sempre
são como deveriam. Necessitamos de pureza de coração - especial­
mente nos assuntos sexuais. Sabemos que há alguns em nosso círculo
cristão com uma vida sexual parecida demais com a de Sansão. Além
2 O autor se refere obviamente à situação nos Estados Unidos (NE).
' A Southern Baptist Convention é a maior denominação evangélica norte-americana (NE).
28 Nunca Perca a Esperança

da pureza sexual, havia certa qualidade de grandeza de caráter a


que Sansão nunca se ateve, e nos círculos evangélicos nós nem sempre
nos atemos a ela também. Em alguns de nossos ministérios cristãos
vemos uma indisposição para prestar contas, um desejo de liderar
mas ser nossos próprios chefes enquanto isso. Vemos atitudes
emocionais - ressentimento, mau humor, vingança, descortesia, falta
de amor - que traduzem a mesma falta de maturidade é santificação
mostrada por Sansão. Os cristãos são briguentos. São convencidos.
Os cristãos são egoístas sedentos pelo poder; construímos impérios.
Isso acontece cada vez mais.
Essas falhas de caráter (as de Sansão e as nossas) são fraquezas
reais - fraquezas que podem ter um efeito trágico tanto sobre nossa
vida pessoal quanto sobre o impacto que nossa força evangélica
produz na América do Norte hoje. Falhas de caráter rapidamente
destroem a credibilidade. Nas minhas viagens tenho falado muito
sobre as características de Sansão. E sempre que o faço, reconheço
nele um espelho perturbador do que na realidade observo ao meu
redor. Portanto, agora devo apresentar algumas lições a partir de
Sansão, esse homem com falhas de caráter, vocação divina e fé
real embora incerta.

Sobre ser fraco e ser forte


Onde nos sentimos fortes, aí poderemos facilmente ser fracos.
As Escrituras dizem: "Aquele ... que pensa estar em pé veja que
não caia". (ICo 10.12). Que todos os que gostam de ser indepen­
dentes em Cristo percebam o perigo ser independentes de Cristo.
Sansão era um solitário; ele fazia o que queria. Mas esse não é o
caminho para a bênção, qualquer que seja o ponto de partida. Se
tivesse ouvido mais a seus pais (ver Jz 14.2-4) e se tivesse dado
mais satisfações aos mais velhos e aos amigos (ver Jz 15.7-13) ele
com certeza teria agido melhor e teria honrado mais a Deus.
Portanto, desconfie do seu sentimento de força e perceba sua
própria necessidade de companheirismo e responsabilidade.
Todos precisamos disso para nos manter funcionando.
Esperança Quando Minha Força Traz Consigo A Fraqueza 29

Compreenda que em sua misericórdia Deus pode ter de lidar


conosco de vez em quando como fez com Sansão. Pela traição de
Dalila, Sansão foi feito cativo pelos filisteus. Cegaram-no, cortaram
seu cabelo; a força que Deus lhe tinha dado pareceu ter se desva­
necido; sua inutilidade parece ter desaparecido também. Pela
bondade de Deus, Sansão recuperou apenas força suficiente para o
ato final de sua vida. Mas não podemos deixar de pensar o quanto
teria sido melhor se, para começar, Sansão nunca tivesse se envolvido
com Dalila.
Mas aqui há uma mensagem para nós. Deus pode ter de nos
enfraquecer e abater-nos nas áreas em que nos julgávamos fortes
para que possamos nos tornar realmente fortes na dependência
dele. Ele já fez isso antes e talvez tenha de fazer de novo - talvez
em larga escala — com os cristãos da América do Norte, talvez em
caráter pessoal, comigo e com você. Se ele fizer isso, será por
misericórdia. Será Deus trabalhando para dar sentido a vidas
desnorteadas que chegaram ao ponto em que parece que nada de
bom poderá vir delas outra vez.
Mais um pensamento encorajador da história de Sansão. Deus
nos usa. Ele nos usa nesse momento a despeito de nossas falhas.
Ele é um Deus bondoso e usa pessoas imperfeitas como parte de
sua vontade. Não importa quão consciente sejamos de nossas
limitações, falhas e pecados, podemos nos voltar para Deus para
que ele nos use novamente - e ele o fará em sua grande miseri­
córdia. Os cristãos vivem pela fé em Cristo Jesus, o que quer dizer
que vivemos sendo perdoados. E aos cristãos (pecadores per­
doados) é dado participar de seu trabalho de um modo que supera
nossas expectativas - supera os nossos méritos.
A história de Sansão não tem somente tristeza, condenação e
desespero. Vamos nos animar e aprender da história de Sansão
as lições que ela tem para nós. Devemos procurar dar à vida - e
manter - uma forma que glorifique a Deus. Não é fácil. Significa
lutar contra nossos pecados, disciplinar nossos pensamentos, mu­
dar nossas atitudes e criticar nossos desejos como Sansão nunca
30 Nunca Perca a Esperança

tentou fazer. Mas vamos confiar em Deus que usa material huma­
no imperfeita para sua glória, mas pela fé vamos buscar força
para servir a Deus com boas obras e boas atitudes que nesse mo­
mento sentimos estar além de nós. Os que procuram, encontram;
porque o Deus de Sansão, que é também nosso, é um Deus de
grande paciência e graça. Por isso há grande esperança para nós.
Louvado seja o seu nome.
Pai Santo, tu nos conheces, tu nos amaste e nos redimiste pelo sangue
de teu Filho, tu nos exaltaste à gloriosa dignidade de teus filhos e
herdeiros. Conserva-nos conscientes de nossa identidade privilegiada,
ensinando-nos a viver vidas que são realmente cristãs em maturidade de
fée esperança, na coerência quanto ao objetivo de servir-te e na humildade
de olhar para o Senhor para obter a ajuda de que precisamos
constantemente. Faze-nos reconhecer honestamente nossas fraquezas de
caráter e de conduta e nos arrependermos de nossos pecados. Não nos
deixes cair em tentação mas livra-nos do mal. Que então possamos ser
como teu servo Sansão, lutando pelo bem estar do teu povo, e que pela
tua graça possamos fazer mais do que ele, negando-nos a nós mesmos e
purificando nossos corações e mentes. Por meio de Jesus Cristo, nosso
Salvador e Senhor. Amém.

Estudo
1. Leia a história de Sansão em Juízes 14 -16.
2. Quais as evidências da bondade de Deus que você vê na
vida de Sansão?
3. Reveja como Sansão usou sua grande força física. Que
fraqueza de caráter tais ações sugerem?
4. Em que áreas você acha que é forte?
5. Que cuidados você deve tomar para que essa força não se
tome fonte de fraqueza?
6. Em quais situações você é tentado a usar o humor como
arma?
7. Um anjo falou com a mãe de Sansão antes dele nascer (ver
Esperança Quando Minha Força Traz Consigo A Fraqueza 31

Jz 13.3-5). Como as palavras do anjo podem tê-la ajudado


mais tarde enquanto ela presenciava os acontecimentos
da vida de seu filho?
8. Hebreus 11.32-34 fala de Sansão como um dos que "da
fraqueza tiraram força". De qual maneira Deus usou
Sansão - a despeito de suas imperfeições?
9. Uma das fraquezas de Sansão foi o seu modo errado de
usar a sua força. Quais abusos de poder parecem mais
tentadores para os cristãos hoje?
10. Considerando as suas próprias imperfeições, quais avisos
e quais estímulos você tira da história de Sansão?

Oração
* Passe alguns momentos em oração pedindo a Deus para
lembrá-lo de algumas das forças que ele lhe deu. Relacione-as
como lembrança de sua bondade a você e das responsabili­
dades que ele lhe conferiu para usar tais forças para sua glória.
* Mesmo sendo doloroso, peça a Deus para ajudá-lo a ver as
suas falhas de caráter (Talvez seja apropriado ajoelhar-se para
essa oração.). Em oração, coloque essas fraquezas diante de
Deus, pedindo seu perdão. Peça também força divina para
superar essas imperfeições.
* Algumas vezes podemos melhor superar nossas fraquezas
quando nos juntamos a uma ou duas pessoas que possam orar
por nós e nos perguntar de vez em quando como estamos em
relação a elas. Em oração, avalie essa possibilidade. Se achar
melhor, procure por alguém a quem prestar contas.
* Deus nos usa "exatamente agora" a despeito de nossas
imperfeições. Seja grato a Deus por isso. Peça-lhe que lhe mostre
hoje mesmo como servi-lo.
32 Nunca Perca a Esperança

Escreva
Reveja com devoção a parte deste capítulo entitulado "Sobre
Ser Fraco e ser Forte" (pág. 28). Peça a Deus que lhe mostre como
esse tema pode impactar quem você é e o que você faz. Anote
suas impressões. Então escreva uma oração em resposta a Deus.
2
Esperança Quando Pertenço
a Uma Família Infeliz

)ACO
Gênesis 25; 27 - 49

Tenho duas razões para colocar Jacó no microscópio, muito


acima do fato dele ser meu xará (Jacobus é o grego para Jacó e
James é o inglês para Jacobus.1). A primeira razão é que ele é uma
mistura fascinante. Ele tinha o coração tanto no lucro quanto em
Deus e sua dualidade o levou à crise de sua vida - como veremos.
Quando Jacó nasceu era um de dois gêmeos e saiu de sua mãe
segurando o calcanhar de seu irmão. Seu nome lembra isso: facó
significa "aquele que segura o calcanhar", ou seja, que derruba
alguém a fim de conseguir o que quer.
Quando lemos a história de Jacó adulto, vemos que de várias
maneiras ele viveu de acordo com o seu nome. Era do tipo apro­
veitador, explorador, manipulador e trapaceiro. Não que aproveitar,
explorar, manipular e trapacear, como iremos ver, tenham propor­
cionado a Jacó mais felicidade do que àqueles que foram suas vítimas;
ao contrário, trouxeram tensão, cansaço e inimizade - um aviso para
nós. Somente quando sua paixão pelo lucro foi finalmente colocada
após sua paixão por Deus a sua vida se assentou. Isso foi depois de
Jacó ter tentado por muitos anos ser tanto mundano quanto religioso,
tanto controlando as ações quanto dependendo da misericórdia, um
caminho que acabou conduzindo-o a crise em Jaboque - que, como
veremos, foi o momento decisivo de toda a sua existência.

1 A partir do grego jacobus temos em português dois nomes: Jacó e Tiago (NE).
34 Nunca Perca a Esperança

Há uma segunda razão para eu escrever sobre Jacó. Sua história


faz parte da história de uma família. Jacó foi o produto e inevita­
velmente também o gerador do que hoje chamamos de uma família
problemática, característica que normalmente passa de geração a
geração. Os defeitos de sua formação, de sua família de origem,
passam por você para a família que você formou. Foi o que aconte­
ceu na família de Jacó e é o que acontece agora.
Se perguntarmos qual é o assunto do livro de Gênesis obteremos
respostas diferentes. Uma resposta comum - e correta - é que
Gênesis é o livro dos Começos, onde lemos sobre o início do mundo,
da história da humanidade e dos graciosos planos de Deus. Mas
há outra forma de olhar o livro, menos comum mas igualmente
correta. Do capítulo 12 ao 50, Gênesis fala de uma família proble­
mática: a família de Abraão, acompanhada por três gerações, até a
morte de Jacó. O que você vê nessa história, desse ponto de vista, é
a graça de Deus demonstrada a essa família imperfeita, a graça de
Deus lidando com as relações problemáticas dessas pessoas
problemáticas. E a graça de Deus triunfa no final da vida de Abraão,
Isaque e Jacó, bem como na vida de José e de seus irmãos. Vendo a
graça de Deus na vida de Jacó, a despeito de toda a dor que seus
membros infligiram uns aos outros, podemos encontrar esperança
para a nossa própria família. Uma das coisas mais gloriosas que
vemos na história dessa família é o caráter multifacetado da graça
de Deus: a graça que perdoa e a graça que tolera; a graça que ajuda
e a graça que sustenta; a graça que renova e a graça que restaura,
quando os membros da família se desentendem, cometem erros e
os relacionamentos não funcionam. O Senhor é um Deus de imensa
graça. Se você hoje sente que é, como muitos, uma vítima dos
relacionamentos familiares problemáticos e desfeitos, há muito para
encorajá-lo e ajudá-lo na história de Jacó.
O relato sobre Jacó inicia no capítulo vinte e cinco de Gênesis,
bem no meio da história da família. Jacó aparece como vítima de
uma característica familiar e de alguma forma também ele mesmo
um vi timador, impondo o mesmo padrão ruim de família a outros.
Esperança Quando Pertenço a Uma Família Infeliz 35

Tratava-se, é claro, de uma família especial: Deus estava traba­


lhando com ela porque era parte central do seu propósito de
redenção para o mundo. Esse propósito foi atingido na vida,
morte, ressurreição, ascensão e reino eterno do Senhor Jesus, o
Filho de Deus encarnado que, em sua humanidade, é descendente
de Abraão, Isaque e Jacó. Nós que conhecemos o Senhor Jesus
devemos viver em seu nome, isso é, como seus representantes e
agentes, confiantes de que ele está conosco pelo seu Espírito.
Nunca devemos esquecer então que Jesus Cristo está conosco
agora para perdoar, restaurar, fortalecer e aconselhar e então nos
ajudar a não cometer os erros que foram cometidos séculos atrás
no tempo dos patriarcas.
A história dessa família problemática é registrada a partir do
ponto em que Deus chamou Abraão e lhe disse: "de ti farei uma
grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu
uma bênção!" (Gn 12.2). Somos herdeiros daquela bênção por
meio de Jesus Cristo nosso Salvador, e é na presença de Cristo e
com o poder de Cristo para nos ajudar que estamos fazendo esse
estudo. Se por acaso o que escrevo se torna doloroso porque lem­
bra problemas da sua família, lembre-se que nosso Senhor é
clemente, perdoa e restaura. E os cristãos são sempre e somente
discípulos de Cristo Jesus que vivem diariamente sendo per­
doados e que não poderiam viver nenhum dia sem perdão. Essa
perspectiva cristã deve ser básica para nós quando nos
aprofundamos na história inicial da família da qual Jesus veio.

A árvore genealógica de Jacó


Primeiro vamos dar uma olhada em alguns antepassados de
Jacó, acompanhando-os até um marco importante relatado em
Gênesis 32 e depois indo além. Há um tipo de slogan, um ditado
sombrio que me parece deve sido escrito sobre toda a vida de
Jacó até chegar a àquele ponto: Afeição adversa produz ambição
adversa. Afeição adversa significa, na prática, favoritismo. Quando
uma mãe, como no caso de Jacó, considera um de seus filhos como
36 Nunca Perca a Esperança

favorito, fazendo com que ele sinta que "mamãe me ama mais
que a meus irmãos", essa afeição adversa se internaliza, ao se
tornar adulta a criança ainda reterá o sentimento de ser melhor
que os outros. "Mamãe sempre pensou assim. Levo em conta isso.
Então meu objetivo na vida será sempre estar na frente, de
sobrepujar os outros, fazê-los cair. Vou conseguir fazer isso não
importando quem for atingido no processo."
Essa foi a herança de Jacó, vinda, aliás, de sua mãe Rebeca.
Esaú, o irmão gêmeo de Jacó, era o favorito de Isaque, mas Rebeca,
parece, era uma pessoa muito mais forte que Isaque, bem como
era muito mais nova e foi seu favoritismo que talhou Jacó.
Portanto, o que a história de Jacó bem no começo do capítulo 32
relata é que ele não desistiu da idéia de ser sempre o número um
e de agir como se tivesse algum direito de explorar, manipular e
pisar qualquer pessoa para conseguir isso. Foi o que Deus mudou
permanentemente em Peniel, como poderemos ver.
Então Jacó cresceu sendo, por um lado ambicioso e, por outro,
o que eu chamo de "o que corta caminho" .2 Ele era umbatalhador,
um empreendedor e um homem de negócios. Sempre avançando
coerentemente para o objetivo. Então primeiro persuadiu Esaú, o
gêmeo mais velho (por minutos), a vender-lhe o direito da
primogenitura. Esaú chega com muita fome e diz: "Eu quero um
pouco dessa comida gostosa que você tem aí". E Jacó diz: "Tudo
bem, se você me der em troca o direito da sua primogenitura".
Esaú está com muita fome e não raciocina direito, por isso diz: "O
que é o direito da primogenitura para mim? Pode ficar com ele
mas me dê um pouco desse grude bom aí". Então o trato é feito.
Vemos aqui Jacó começando a explorar a situação da família para
obter o que não era seu de direito" (ver Gn 25.24-34).

A alienação de Jacó
Jacó roubou também a bênção de Esaú. Foi algo que sua mãe,
sinto dizer, o ajudou a fazer (ver Gn 27). Isaque, que já tinha a vista
2
No original, comer-ciitter (NE)
Esperança Quando Pertenço a Uma Família Infeliz 37

muito fraca, tinha dito a Esaú: "Você é meu filho mais velho, então
vá caçar algum animal e faça uma boa comida. Eu gosto de uma
boa comida. E depois de comer eu vou lhe dar a minha bênção".
Então Rebeca disse a Jacó: "Vamos ser mais espertos que Esaú
agora". Ela fez um cozido com um animal do rebanho. Por sugestão
dela mesma, Jacó cobriu as suas mãos com pelos para que pudesse
parecer Esaú quando o pai o tocasse - e obter a bênção de Esaú.
Então quando Esaú chegou, a bênção do primogênito já tinha sido
dada a Jacó e, como acontecia naqueles tempos, ela não poderia ser
mudada. Não é de admirar que Esaú tenha dito: "Essa foi demais!
Eu vou matar meu irmão. Pode deixar que vou mesmo". Então
Rebeca diz a Jacó: "É melhor você fugh, senão..."
É claro que Rebeca e Isaque não viviam bem nessa época. Ela
vai ao marido e diz: "Acho que seria boa idéia enviar Jacó a Labão
para ter certeza que ele se case na família e não com uma mulher
pagã como Esaú fez". Dá para perceber que Jacó aprendeu com a
mãe a arte da manipulação. Ah, claro, ela com certeza queria o
melhor para Jacó, mas não foi boa essa atitude adversa em relação
a Esaú, o favorito de Isaque. Não deveria ser assim nas famílias!
Mas foi assim nessa família e Rebeca planejou esse modo de afastar
Jacó com a bênção do pai para que o furioso Esaú não conseguisse
cumprir a sua ameaça de morte.
E lá se foi Jacó, que ficou como se pode constatar, vinte anos com
Labão. Primeiro, ele trabalhou por sete anos a fim de se casar com
Raquel, a filha mais nova de Labão, a que ele amava. Mas o feitiço
virou contra o feiticeiro - Labão era também um explorador. Ele
também não tinha escrúpulos com jogo sujo. Mais tarde ocorreram
duelos de esperteza e Jacó levou a melhor (ver Gn 30.25 - 31.55), mas
no começo ele foi feito de bobo. Quando chegou o dia do casamento,
Labão casou-o com Lia, a filha mais velha. A noiva estava totalmente
coberta com um véu na cerimônia de casamento, por isso Jacó foi
realmente enganado. Então quando o casamento tinha sido consu­
mado, Labão disse brandamente a Jacó: "Ah, bem, nós sempre casa­
mos a filha mais velha primeiro. Você não sabia? E por mais sete
anos de trabalho, você poderá se casar também com Raquel".
38 Nunca Perca a Esperança

Então Jacó prometeu mais sete anos de trabalho para poder se


casar com Raquel e então aconteceu o que chamamos de poliga­
mia, isso é, ele tinha mais de uma esposa. Algumas pessoas acham
que isso pode ser maravilhoso, mas na realidade sempre é terrível
porque há sempre ciúmes entre as esposas - e ambas, ou quantas
forem, atingem seu marido com isso. Está tudo lá na história de
Jacó. O resultado de ter duas esposas e mais tarde as criadas delas,
que somam quatro (embora de acordo com as convenções antigas,
os filhos das criadas contavam como filhos da esposa para
compensar a sua incapacidade de conceber), certamente não era
felicidade conjugal. Jacó gerou uma família de tamanho consi­
derável mas não teve muita alegria além disso - embora tenha se
enriquecido muito ao longo dos anos. Então, por fim, decidiu que
era hora de voltar para casa. Essa é a história da paixão de Jacó
pelo lucro e em que isso resultou.

Jacó e Deus
Mas a história não acaba aí. O outro lado do caráter de Jacó,
desde quando o conhecemos, era que junto com a sua paixão pelo
lucro ele tinha também o coração em Deus, dado por Deus mesmo
- Deus que sempre toma graciosamente a iniciativa. Deus queria
Jacó como seu e Jacó o queria como seu. Quando fugiu de casa e
foi morar com Labão foi-lhe concedida uma visão - uma escada
cujo topo atingia o céu. Deus estava perto dele e lhe dizia palavras
de amor, e Jacó fez um pacto com Deus (ver Gn 28.10-22).
Agradecemos a Deus quando membros de nossas famílias querem
servi-lo. E muito triste quando não querem. E tudo que podemos
fazer é orar para que Deus os faça buscá-lo. Mas Jacó, filho e her­
deiro da família de Isaque, teve sempre esse desejo, como parece
- e comprometeu-se com Deus (ver Gn 28.10-22).
Quando planejou voltar para casa, Jacó não foi tolo a ponto de
deixar Labão antes de ter uma confirmação de Deus de que estava
fazendo a coisa certa. Jacó não cometeu o erro comum de dizer a
Deus: "Isso é o que quero fazer; então Senhor, peço que me aben­
Esperança Quando Pertenço a Uma Família Infeliz 39

çoe". Fazer isso é o oposto da reverência. Significa que já decidi o


que quero fazer e estou agora tentando manipular Deus para que
faça tudo de acordo com os meus planos. Nunca devemos fazer
isso! E Jacó não tentou fazê-lo. Em Gênesis 30.25 nós o vemos
dizendo a Labão: "Despeça-me para que possa voltar para minha
própria casa". Mas foi bem depois que, como Gênesis 31.3 relata, o
Senhor disse: "Tome à terra de teus pais e à tua parentela; e eu serei
contigo." (meu itálico). Essa é uma expressão-chave, abrangendo a
comunhão de Deus, sua proteção e enriquecimento. Foi uma
promessa vital para Jacó, muitas vezes repetida enquanto Deus o
guiava em suas viagens (Leia Gn 28.15; 31.3-5; 35.3; 46.4). Vamos
esclarecer uma coisa: Não devemos tomar nenhuma atitude antes
de ir ao trono de Deus e obter a sua garantia de que ele estará
conosco. E talvez tenhamos de esperar algum tempo antes que essa
certeza chegue.
Portanto, Deus comunicou a sua palavra mais ou menos seis
anos depois de Jacó ter se casado com Raquel e agora finalmente o
patriarca estava a caminho. Como um xeique nômade ele levou
consigo todo seu gado, bodes e ovelhas. Um homem rico agora, foi
uma caravana bem grande que ele e sua família levaram pelo país.

A grande viagem de volta para casa


O que aconteceu? Gênesis 32 nos conta que Jacó enviou à sua
frente uma mensagem para Esaú, seu irmão, com quem não se
comunicava desde que tinha roubado sua bênção. Embora
tivessem se passado vinte anos, ele tinha medo que Esaú ainda
acalentasse o assassinato em seu coração. Então, quando ouviu
do mensageiro que Esaú viria encontrar-se com ele com quatro­
centos homens armados, entrou em pânico. "Jacó, hein?", ele
podia ouvir Esaú dizendo: "Dessa vez ele não escapa". E agora
estamos no momento decisivo da vida de Jacó.
Gênesis 32.9-12 nos conta que Jacó orou. Ele invocou a fidelidade
de Deus e fez disso o fundamento de seu pedido dizendo que Deus
continuasse a cuidar dele - porque Deus era sua única esperança.
40 Nunca Perca a Esperança

Jacó sabia disso. Talvez tenha sido essa a oração mais desesperada
que ele tenha feito. Ela merece um estudo detalhado, que não
podemos fazer agora. Então cai a noite e Jacó prepara o que planeja
dar. Divide seu rebanho, do qual já tirou um bom presente para
Esaú, e manda os grupos à frente separadamente. Ele planeja fazer
com que os grupos de animais e os seus pastores sejam uma série
de sinais da riqueza que ele traz e com a qual ele poderá favorecer
Esaú ainda mais no futuro. Espera que tudo isso amoleça o coração
de Esaú antes de se encontrar com ele. Também, sendo realista,
estava preparado para o pior: Se Esaú atacasse um grupo, o resto,
estando separado, poderia escapar (v.8). Então manda à frente suas
esposas e criadas e seus onze filhos, pelo vau de Jaboque, um riacho
que desembocava no Jordão. Agora ele está só.
Por que ele ficou para trás? É claro que estava com um medo
terrível, não encontrava coragem para ir ao encontro de Esaú.
Lembranças de como muito tempo atrás ele tinha se aproveitado
do irmão e temores de que a fúria de Esaú ainda persistisse com o
propósito de vingança inundaram seu coração. Agora tinha que
enfrentar as conseqüências de sua culpa e atitude vergonhosa;
ele se sente compreensivelmente esmagado. Sabia que Deus era
sua única esperança e teve que orar novamente. Talvez tenha
começado a orar.
O que acontece depois é contado pelo próprio Jacó. Não poderia
ter sido contado por mais ninguém, porque ele estava só. Isso foi
o que Jacó contou à sua família mais tarde: "Um homem lutou
comigo até o dia amanhecer". O que devemos entender disso?
Jacó não conseguia dizer de onde o homem tinha vindo. A única
coisa que sabia era que enquanto a sua mente estava num
turbilhão e ele tentava se concentrar em Deus, alguém o envolveu
num combate homem-a-homem. Depois disso, Jacó chamou
aquele lugar de Peniel, que significa "a face de Deus", porque ele
compreendeu que havia ocorrido o que chamamos de teofania,
uma manifestação de Deus: "Vi a Deus face a face".
Esperança Quando Pertenço a Uma Família Infeliz 41

O Deus que luta


O visitante divino, ainda não reconhecido, saltou sobre Jacó e
lutaram a noite toda. Ao lutar, o objetivo é jogar o outro no chão
e mantê-lo ali, e foi claramente o que Jacó pensou que o visitante
estava tentando fazer com ele. O que entendemos disso? O
princípio da teofania é que Deus sempre aparece às pessoas da
forma que melhor as ajudará a encontrá-lo - como uma indestru­
tível sarça ardente para Moisés, como um soldado para Josué e
como um rei entronizado para Isaías e Ezequiel; e aqui Deus
aparece como lutador, forçando Jacó a cair no chão.
Essa luta mostra que Deus tem de nos derrubar antes de nos
levantar. Derrubar de onde? Do nosso orgulho e auto-suficiência,
de nossa esperteza, iniciativa, autoconfiança e estratégias
adversárias com que enganamos outras pessoas. Tinha sido assim
a vida de Jacó e agora todos os seus hábitos auto-suficientes estavam
sendo tirados dele. Era o que Deus estava fazendo quando lutava
com Jacó. O filho mimado de Rebeca certamente precisava ser
tratado assim e precisava muito, mas vamos esclarecer que o pecado
original, a raiz mais profunda de orgulho e auto-serviço é uma
doença universal. Todos precisamos do mesmo tratamento de uma
forma ou de outra.
Jacó sentiu no começo que estava diante de um inimigo. Então
ele pensou: inimigo ou não, eu me garanto. Ao menos posso lutar. E
em sua ainda não bem demolida auto-suficiência, no início pensou
que poderia vencer. Então a pessoa com quem estava lutando
tocou em sua coxa. Num instante sua coxa se deslocou - e Jacó
ficou manco. Ele poderia continuar lutando, mas agora não tinha
esperança de vencer. Será que Jacó sentiu ter sido derrotado, um
sentimento de fraqueza permanente e total que o acompanharia
pelo resto de sua vida? Acho que sim. Ele percebeu que isso era
exatamente o que Deus pretendia fazer? Quanto tempo levou para
compreender isso que percebemos agora? Mas nós, lendo a
história - à luz de tudo o que aprendemos pela Bíblia sobre os
caminhos de Deus - podemos ver isso claramente: nosso Deus
42 Nunca Perca a Esperança

nos abençoa quebrando-nos e ele estava abençoando facó fazendo-


o ficar permanentemente coxo.
Jacó ficou sem firmeza e precisou da ajuda de uma bengala
para andar a partir daquele dia. Mas Deus, tendo-o feito cair dessa
forma drástica, agora tem inesperadas palavras de encorajamento
para ele. "Seu nome será... Israel [que significa, ele luta com Deus],
porque lutou com Deus e com os homens e prevaleceu". (Gn
32.28). O que pareceu o fim de seu ego foi realmente o início de
sua verdadeira bênção. O que pareceu a derrota final na batalha
da vida foi na realidade a única vitória que importa - o sucumbir
do desespero que precede o desabrochar da fé descrita em Hebreus
11. Com razão, Jacó chamou o lugar de Peniel: "vi a Deus face a
face, e então minha vida foi salva" (v.30). Se seguirmos a história,
podemos observar que bênçãos mais inesperadas aguardavam
por Jacó, começando com o fato de Esaú ter mostrado alegria
quando o encontrou.

Quebrado pelo amor de Deus


Para comentar o fato de Jacó ter sido quebrado para que fosse
abençoado, gostaria de contar sobre um aluno do Regent College
que foi chamado para trabalhar como missionário na África. Lá ele
sofreu um terrível acidente de carro, que o deixou aleijado para
sempre. De volta a Vancouver, ele contou sua história na capela.
Pela segunda vez internado no hospital, dificilmente conseguindo
concatenar seus pensamentos, ele havia chegado ao ponto de
perguntar: "Senhor, por que fizeste isso? Por que isso aconteceu
comigo?" E disse: "Então veio a mim várias vezes uma frase de
Deuteronômio, 'Porque eu te amo, porque eu te amo, porque eu te
amo'". Essa é a razão que Deus deixou Jacó coxo e essa é a razão
por que repetidas vezes coisas tristes ocorrem a você e a mim. Em
sua forma graciosa de lidar conosco Deus nos quebra e nos humilha
mais do que imaginaríamos possível. O que parece ser a própria
morte então é substituído pelo que descobrimos ser a ressurreição.
Isso acontece freqüentemente na vida dos cristãos. A última frase
Esperança Quando Pertenço a Uma Família Infeliz 43

do poema de John Donne em seu leito de morte, diz: "Portanto,


para que ele seja elevado, o Senhor joga ao chão".

Jacó de volta
Mas os problemas familiares de Jacó não terminaram com sua
reconciliação com Esaú. As deficiências e dores de uma geração
freqüentemente são passadas para a próxima e assim aconteceu
nesse caso. Jacó tinha carinho por sua família e amava seus filhos.
Mas como Rebeca, que o tinha educado com favoritismo,
estragando-o ao fazer dele seu filho favorito, Jacó também teve
seus filhos favoritos. E o problema que mais tarde atingiu sua
família teve origem direta nesse favoritismo. Suspeito que Jacó
nunca tenha percebido isso. Aquilo que nos molda em nossa tenra
idade pode se tornar muito desordenado e pecaminoso, mas temos
dificuldade de ver ou mesmo de perceber - porque sempre fez
parte de nós. A idéia de que o favoritismo era natural e aceitável,
até correto e apropriado, fez parte da mentalidade de Jacó. Não
parece que ele tenha jamais conseguido superar esse problema.
Observe os danos que aquela falha específica causou.
Primeiramente Jacó mostrou favoritismo em relação às suas
esposas. Ele amava a Raquel muito mais do que a Lia, e demons­
trava isso. Isso trouxe amargura em casa desde cedo. Favoritismo
sempre suscita fúria nas pessoas que sentem que são relegadas
em favor de outro. E da fúria vem a insensatez. Filhos não favoritos
se comportam de maneira agressiva, tentando assim lidar com
sua raiva. Estão bravos com seus pais por causa do favoritismo,
estão bravos com seu irmão ou irmã por não serem o favorito e
extendem essa raiva a outras pessoas. O mundo está cheio de
pessoas que sofreram dessa forma e agora são adultos irritáveis e
hostis. Estão descarregando suas mágoas de infância em quem
quer que sirva para isso. Nós os conhecemos e talvez até certo
ponto nós mesmos sejamos assim. Observar o que aconteceu com
a família de Jacó nos ajudará a compreender essas pessoas e nos
apontará a solução de que muitos precisamos.
44 Nunca Perca a Esperança

Na família de Jacó, onde Benjamin e José, os mais novos, eram os


favoritos, e o relacionamento do pai com seus outros filhos era frio,
o resultado foi a morte: Levi e Simeão mataram todos os homens de
uma comunidade - como vemos em Gênesis 34. Houve incesto
envolvendo Rúben (Gn 35.22). Há uma história indecente de Judá
que, sem saber, teve um relacionamento sexual com sua cunhada,
pensando ser uma prostituta (Gn 38). Penso que o fato de tudo isso
ter acontecido na família de Jacó nos diz como ele era como pai.
Houve então todo o episódio com José. Ele era o favorito por ser
o filho de Raquel. Todos os outros filhos deveriam se sentir
inferiores a ele. José chegou a sentir que a primazia em relação aos
outros era sua de direito. Ele tinha sonhos que sugeriam essa
primazia, contou-os à sua família e pareceu ficar surpreso quando
ninguém gostou da idéia. Seus irmãos ficaram furiosos com ele.
Venderam-no ao Egito, mergulharam sua roupa vistosa no sangue
de um animal, levaram-na para Jacó e disseram: "Veja o que encon­
tramos? Não é de José?" E ficaram todos calados e impassíveis
enquanto Jacó ficava com o coração estraçalhado acreditando que
José, seu filho favorito, tinha sido morto por um animal selvagem
(Gn 37). O que isso nos diz sobre a dinâmica da família?

O processo da cura
Sabemos o que finalmente aconteceu. Quando José era o único
responsável pela economia do Egito e a fome dominava Canaã, os
irmãos de José foram ao Egito comprar cereal. No início José fez
um jogo com eles, parecido com pagar na mesma moeda, de acordo
com o modo como eles o haviam vendido alguns anos atrás. Mas
não conseguiu continuar com a brincadeira por muito tempo. José
era temente a Deus e logo se fez conhecer pelos seus irmãos,
ocorrendo então uma reunião emocionada - com lágrimas dessa
vez de alegria, não de tristeza. Ele os mandou de volta para casa
com riquezas e carros (Hoje em dia seria um comboio de caminhões,
imagino. Naquele tempo foram carros de boi.). "Vocês devem trazer
nosso pai e tudo que possuem. Devem se mudar aqui para o Egito,
Esperança Quando Pertenço a Uma Família Infeliz 45

para que possam viver bem". Isso foi o que José disse aos seus
irmãos. Então voltaram a Jacó e disseram que José ainda estava
vivo e os estava intimando a ir ao Egito, para salvá-los da fome e
compartilhar com eles a vida melhor que ele podia oferecer (Gn 42
- 45). De forma correta os professores da Bíblia nos ensinam que
José, em várias formas, é o modelo de Jesus, o Salvador. Quando se
observa a história podemos fazer paralelos.
A contínua dor de Jacó pela perda de José aumentou quando
ele pensou que perdera também a Simeão e Benjamín (ver o
desespero de Jacó em Gênesis 37.34,35; 42.36- 43.14), e a descoberta
de que todas as más notícias tinham se transformado em boas
notícias a princípio quase lhe tiraram o fôlego. Mas então, um
centenário alquebrado como era, Jacó resolveu aceitar a convo­
cação graciosa de José e se mudar para uma nova terra e ter uma
nova vida. Finalmente vemos Jacó fazendo o que, como um pai
de família, deveria ter feito há muito tempo. Jacó leva toda a sua
família pelos passos da fé obediente, porque Deus estava com
ele. Em Gênesis 46.2-4 vemos como Deus fala com Jacó à noite em
visão (aqui significativamente se referindo ao nome dado por
Deus, Israel) prometendo estar com ele no Egito e abençoar sua
família lá. E gratificante imaginar o velho Jacó, com voz trêmula
e coração transbordante, compartilhando tudo isso com todo o
clã no dia seguinte ao café da manhã. Finalmente os filhos de
Jacó conseguem entender o que significa Deus estar com alguém:
vêem isso em seu pai.
Aqui está um retrato do que, pela graça de Deus, podemos
esperar ver em cada família cristã. Favoritismo, se existir, deve se
tornar coisa do passado, como parece ter ocorrido no Egito, e todos
os filhos devem encontrar em seus filhos e compartilhar com eles
todas as bênçãos que seus pais experimentaram. Que Deus faça
ser assim em nossa família. Devemos ter essa esperança, trabalhar
e orar por isso; precisamos aguardar com paciência que ocorra,
sem jamais nos tornarmos indiferentes.
46 Nunca Perca a Esperança

Pecado familiar e graça na família


Muito da vida de Jacó nos traz ensinamentos hoje. Produto de
um casamento problemático, Jacó foi um garoto mimado, o
queridinho da mamãe que logo cedo se mostrou ambicioso de forma
errônea, como a atitude de sua mãe lhe havia ensinado, e muito
mais ávido por lucro do que deveria ser. Nisso ele foi muito parecido
com jovens e adultos do Ocidente moderno, onde crianças ainda
são mimadas e o ganho material é o único objetivo de muitos.
Devemos repensar as bases nas quais a educação familiar está
fundamentada hoje em dia.
O fato de Jacó ser um desinibido, egoísta, fez com que tivesse
muitos inimigos. Tanto Esaú quanto Labão se ressentiram com
razão por terem sido enganados por ele. Ninguém gosta de ser
enganado e ninguém sente simpatia por aqueles que o exploram.
Desprezo pelos outros (que era o que as manobras de Jacó realmente
demonstravam) normalmente se volta contra quem o nutre. O amor
ao próximo deve começar com o amor à família. Essa com certeza é
uma mensagem atual.
Pelo fato de Jacó ter o coração em Deus tanto quanto no seu
próprio bem, Deus o guiou com misericórdia, guardando-o e
mudando-o para melhor. Porém, o processo de mudança foi trau­
mático e o deixou coxo para sempre. Corações orgulhosos de hoje
podem precisar de um tratamento igual, o que Deus de uma forma
ou de outra pode fazer. Será um ato da graça divina não impor­
tando o quanto ele nos humilhe no processo.
Como o favoritismo fez parte de sua própria formação, Jacó
não conseguia enxergar esse problema e semeou a amargura entre
seus próprios filhos com seu favoritismo em relação a José, com
resultados catastróficos. Os padrões de disfunção passados de
geração a geração na família são extremamente difíceis de quebrar.
Como Deus é tremendamente gracioso para com todos que o
buscam, Jacó foi abençoado além e a despeito de qualquer coisa
que merecesse. A forma como finalmente José salvou sua família
da fome fatal modela em termos materiais o relacionamento
Esperança Quando Pertenço a Uma Família Infeliz 47

salvador implícito na promessa dada por Deus de estar com Jacó


e explícito no tempo presente por meio do ministério reconciliador
e companheirismo transformador de nosso Senhor Jesus Cristo.
Como graça e benevolência geram uma atitude de gratidão e
de boa vontade, é como se a bondade e o perdão que José demons­
trou a seus irmãos tenham afastado o espírito de separação e tenha
aberto um novo capítulo de afeição mútua entre os filhos de Jacó.
Em vez de se ver como vítima, ele se colocou como alguém que
foi abençoado por Deus, influenciando seus irmãos com o mesmo
ponto de vista feliz. José é um excelente modelo para crentes em
famílias problemáticas.
Jacó, embora coxo por ação divina, reconhecia que Deus tinha
sido bom para com ele e falava disso constantemente, testificando
e adorando, como devem fazer os que foram salvos por Cristo.
Devemos considerar todas essas coisas em nossos corações.
Servimos a um Deus que nos ama e devemos entender que tudo
que nos acontece é graças ao seu amor. Mas se sentimos ter falhado
com Deus e com nossas próprias famílias, devemos lembrar que
como cristãos vivemos sendo perdoados. A graça de Deus é
infinita. Devemos confessar nossa insensatez, receber seu perdão
e pedir que ele nos ajude a seguir adiante. Como houve cura para
Jacó e sua família, há também esperança para nós e nossas famílias.
Pois seja o que for que fizemos, não devemos desistir nem de
Deus nem da família - pais, filhos, irmãos ou quem quer que
sejam. Deus ama a família, então procuremos a sua bênção para
os nossos.
Pai Santo, nos curvamos diante de ti muito humildemente porque
somos imperfeitos, pecadores e nosso relacionamento mostra isso -
normalmente deforma que nem percebemos. Muitos de nós ainda lutamos
contra os ressentimentos e autopiedade por causa de nossas lembranças
de uma família imperfeita e falhas de nossos pais. E muitos de nós
carregamos a responsabilidade da vida familiar de criar e direcionar no
caminho de Deus as novas gerações. Nossa consciência nos acusa
frequentemente de termos falhado no cumprimento do dever. Tem
48 Nunca Perca a Esperança

misericórdia de nós, Senhor, e como pela tua graça nos conduziste a


Cristo em quem encontramos todas os tesouros de sabedoria e
conhecimento, e de quem podemos obter todas os recursos de que
precisamos, assim ajuda-nos também a honrá-lo em nossa vida familiar.
Dê-nos, pedimos, uma consciência sensível quanto à família e dê-nos
toda a alegria de vermos a próxima geração, os filhos que nos confiaste,
virem a compartilhar nossa fé em ti e andar nos teus caminhos. Ouve-
nos, ó Deus, enquanto oramos, e escreve essas coisas em nossos corações
para a bênção de outros e para a glória de teu nome, por Jesus. Amém.

Estudo
1. Como você se vê em Jacó?
2. Leia Gênesis 32.1-32. Que precauções Jacó tomou para ter
um encontro pacífico com seu irmão?
3. Estude a oração de Jacó nos versículos 9-12. Quais frases
de sua oração sugerem seu relacionamento com Deus?
4. Observe os versículos 22-32. De que forma esse encontro
com Deus foi diferente do relacionamento sugerido em
sua oração?
5. Como você acha que Jacó seria diferente por causa de seu
encontro com Deus?
6. Se você tivesse uma luta com Deus, como ela seria?
7. Reveja a parte entitulada "O Deus que Luta" (pág. 41).
Uma das afirmações conclusivas é "nosso Deus é um Deus
que nos abençoa nos quebrando". Quando e como isso
foi realidade para você?
8. Deus se revela de formas diferentes para as pessoas que
encontra - como fez com Moisés, Josué, Isaías e Ezequiel.
Muitos de nós não conhecemos a Deus de maneira signi­
ficativa como na teofania, mas assim mesmo ele nos
encontrou. Como Deus se revelou a você de forma suficiente?
9. Jacó ficou coxo provavelmente pelo resto da vida após ter
tido um encontro com Deus. A vista do que você sabe
sobre a vida de Jacó, como isso o afetou a partir daí?
Esperança Quando Pertenço a Uma Família Infeliz 49

10. Qual impacto a longo prazo Deus produziu em você?


11. O que Jacó aprendeu sobre Deus como resultado de sua
viagem ao Egito?
12. Quais lições da vida de Jacó você quer aplicar em sua
família?

Oração
Divida a oração de Jacó de Gênesis 32.9-12 em quatro partes e
use como esboço para sua própria oração.

* "O Deus de meu pai Abraão, Deus de meu pai Isaque! Ó Senhor,
que me disse, 'Volte para seu país e seus parentes e te farei
próspero.'"
Fale com Deus sobre seu passado, particularmente no que se
refere à sua família. Entregue-lhe o trabalho que ele colocou
em suas mãos.
* "Não sou merecedor de toda a bondade e fidelidade que tens
mostrado a teu servo. Era sozinho quando atravessei esse
Jordão, mas agora estou com dois grupos."
Agradeça a Deus tudo que ele lhe deu, reconhecendo que você
nada conseguiu por seu próprio esforço. Expresse gratidão pela
presença de Deus e sua própria necessidade e dependência nele.
* Salva-me, peço, da mão do meu irmão Esaú, porque tenho medo
que ele venha atacar-me, e também as mães com os filhos."
Entregue a Deus seus maiores problemas atuais. Seja honesto
sobre seus medos e qualquer senso de incapacidade. Peça por
sua intervenção para trazer o que é correto e bom.
* "Mas tu disseste, 'Certamente te farei próspero e tua descen­
dência será como a areia do mar, que não pode ser contada."'
Lembre a Deus (e a você mesmo) de suas promessas para você.
A palavra de Deus para você em Isaías pode servir como início
de sua oração: Tu és o meu servo, eu te escolhi e não te rejeitei,
não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque
50 Nunca Perca a Esperança

eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com


a minha destra fiel" (Is 41.9,10).

Escreva:
"Servimos a um Deus que nos ama e devemos entender que
tudo que nos acontece é graças ao seu amor" (pág. 47).
Medite nessa frase lembrando-se dos fatos de sua própria vida.
Quando se lembrar de fatos alegres, satisfação e dor, escreva uma
resposta honesta a Deus.
Esperança Quando Nunca Sou
Percebido e Nunca Confiam em Mim

a esposA oe coadoá
Juízes 13

Deixe-me contar uma história que talvez você nunca tenha


ouvido. Se você já a conhece, sabe que é boa o suficiente para ser
relembrada, e com certeza irá concordar comigo.
Havia um homem que tinha um gorila de estimação e ensinou-
o a jogar golfe. O gorila fez tanto progresso que logo seu dono
desafiou o jogador profissional do clube local para uma disputa.
O jogador pensou que jogar golfe com um gorila era ridículo, mas
respondeu ao dono do gorila: "Claro, jogarei com o gorila se
pudermos ganhar algum dinheiro com isto". Ele pensou que seria
um jogo fácil. Então cada um apostou cem dólares. No dia do
jogo foram juntos para o primeiro buraco. O jogador profissional
deu a honra ao gorila, portanto ele foi o primeiro que se
encaminhou à sua posição. Era um buraco longo, e a bola se dirigiu
calmamente ao chão na parte lisa do campo. O profissional piscou
e disse ao dono do gorila: "Nunca pensei que um gorila pudesse
fazer um lance como esse. Acha que ele pode fazer isto novamente?"
"Ah, sim", respondeu o dono do gorila, "ele é muito constante".
Então, o homem sussurrou no ouvido do gorila, e o gorila
arremessou novamente e acertou o buraco. Abaixo da parte lisa
do campo a segunda bola foi parando ao lado da primeira. O
jogador profissional, suando frio disse: "Não posso competir com
ele. Entrego o jogo agora. Aqui está o seu dinheiro". Então
voltaram à sede do clube com o jogador profissional falando e
52 Nunca Perca a Esperança

falando sobre as duas jogadas que tinha visto o gorila fazer.


Finalmente perguntou ao dono do gorila: "Se ele foi assim na
areia, como seria no gramado?" E o dono do gorila lhe respondeu:
"Ah, ele é muito constante. Cada jogada é de 3.700 metros".

As surpresas de Deus
Contei a história do gorila dos 3.700 metros não porque seja
contra o golfe ou contra gorilas ou jogos, mas para lembrá-lo que
a vida é cheia de surpresas. Como há surpresas no final de todas
as boas piadas, há surpresas constantes em todos os seres
humanos, e especialmente no povo de Deus - surpresas
grandiosas pelo impacto que causam, surpresas alegres no final -
sempre e sempre.
Juízes 13 nos conta como isto ocorreu com os pais de Sansão,
o Sr. e a Sra. Manoá - devemos chamá-la assim porque não
sabemos o seu nome. Nos versículos 17 - 20 lemos como Manoá
perguntou o nome do visitante misterioso que chegou em sua
casa, e ele não respondeu - ou melhor, não lhe respondeu de forma
clara. Foi algo como: "Há muito sobre mim que você não consegue
entender, e não direi meu nome para que se aperceba dele". As
várias versões da Bíblia indicam o sentido evasivo. "Meu nome
... é além da compreensão" (NVI), "maravilhoso" (Bíblia Vida
Nova), "não entenderias se eu dissesse" (NLT), "maravilhoso
demais para ser compreendido" (NCV) e assim por diante (v. 18).
Então Manoá e sua esposa ofereceram um sacrifício ao Senhor,
que, embora ainda não soubessem, era na realidade o visitante.
No Antigo Testamento, de tempos em tempos, há o relato da
aparição desta figura identificada como o Anjo do Senhor, que é
mencionado de forma a mostrar um Deus agindo como seu pró­
prio mensageiro em algumas situações. Logo vemos Manoá
dizendo: "Vimos a Deus!" (v. 22). Acho que os teólogos têm razão
em pensar que este anjo (a palavra significa "Mensageiro" tanto
em hebraico quanto em grego) é uma aparição pré-encarnada do
Filho de Deus, o Verbo divino que conhecemos como Jesus Cristo
Esperança Quando Nunca Sou Percebido e Nunca Confiam em Mim 53

nosso Senhor. Se for verdade, enquanto a chama do sacrifício


subia, o visitante ascendeu (como está escrito no versículo 20).
Então devemos dizer que, na realidade, ele sumiu de vista indo
pela chama.
Agora imagine-se parado ao lado de Manoá e sua esposa
observando isto acontecer. O visitante que num momento estava
ao lado deles, de repente, de alguma maneira, dirigiu-se à chama
da oferta de sacrifícios, e literalmente subiu nela. E então
desapareceu. Suponho que foi uma experiência passageira que
fez com que perguntassem se poderiam crer em seus olhos ao
mesmo tempo que os levou a colocar o rosto em terra em adoração
instintiva. O que aconteceu? Foi traumático. Você também acharia,
e eu também, se estivéssemos lá.
Mas isto era Deus agindo e, pelo que aconteceu imediatamente
depois, aprendemos que conhecer a Deus não é somente uma
questão de conhecimento da doutrina a respeito de Deus, ou de
um comprometimento total com Deus, ou de comunicação pessoal
e disciplinada com Deus, ou de felicidade em paz com Deus
(embora inclua todas estas coisas), nem é somente questão de focar
em Cristo como caminho para Deus e como nosso Salvador,
Senhor e Amigo, Mediador, Esperança e Alegria - embora também
inclua tudo isto. Apesar de tudo o que foi mencionado, conhecer
Deus é uma questão de estar pronto para surpresas.

A reação de Manoá
Manoá a sua esposa tiveram uma surpresa traumática. Vamos
focalizá-los e observar como reagiram a ela - porque suas reações
foram muito diferentes e reveladoras. Olhemos primeiro para
Manoá.
Conheço Manoá, e na realidade tenho certeza de que você
também conhece. Ele é humano, tão comum como os homens de
hoje. O comportamento correto é, para ele, a essência de como a
vida deve ser. Ele é religioso, consciencioso também, mas vê a
religião somente como questão da correta observância externa, sem
54 Nunca Perca a Esperança

perceber a fundo o que se está fazendo. Ele trata esta observância


como um divisor entre ele e Deus, assegurando que Deus não
chegue muito perto. Bem no fundo, ele tem medo das consequências
em sua vida se Deus, o Deus de Israel e dos cristãos, o escolher
para chamar atenção. Enquanto isto, entretanto, age como alguém
que é e deve ser o líder e está sempre relutante em delegar, com
receio de que as coisas sem ele possam sair do controle.
Ele é ridículo? Sim. Pomposo? Sim. Nervoso? Sim, novamente.
Desconfiado das outras pessoas, como de sua esposa, por exemplo?
Ah! sim, com certeza. Vejamos como se comportou nesta história.
Sua esposa chega (ver Juízes 13.6,7) e disse: "Este visitante, este
homem de Deus" (ela pensou que tinha se encontrado com um
profeta) "veio até mim e o que você acha que ele disse? Você sabe
que desistimos de ter filhos; bem, ele me disse que teremos um
filho". Ela então falou das instruções específicas que lhe foram
dadas, uma por uma, para se preparar para o nascimento, evitando
álcool e comida separada para sacrifício, e que nunca deveria cortar
os cabelos do menino, porque deveria ser um nazireu - isto é, uma
pessoa dedicada especialmente a Deus e a seu serviço. (Os detalhes
sobre os compromissos do nazireu estão em Números 6). Então
Manoá orou: "Ah, Senhor meu, rogo-te que o homem de Deus
que enviaste venha outra vez e nos ensine o que devemos fazer
ao menino que há de nascer" (Jz 13.8). Isto nos mostra que Manoá
não confiava em sua esposa. Ele se via como o chefe, e acreditava
que Deus deveria ter falado com ele diretamente, então orou
querendo dizer. "Tu sabes, Senhor, que não posso confiar nas coisas
que ela diz, e isto é importante, então por favor, envie o homem de
Deus a mim e diga-me o que devemos fazer. E então verá que
obedeceremos às instruções".
Você consegue imaginar a cena? A atitude de Manoá de eu-
sou-o-único-que-faz-as-coisas-direito foi de total desconsideração
para com sua esposa. Ela tinha de suportar ser tratada como
incompetente, alguém em cujo os relatos não se podia confiar e
alguém a quem não se podiam confiar as decisões ou tarefas mais
importantes. Ela era feliz no casamento? Duvido. E este o ideal
Esperança Quando Nunca Sou Percebido e Nunca Confiam em Mim 55

bíblico da liderança masculina no casamento? Tenho certeza de


que não. Mas não analizaremos isto agora. Voltemos a Juízes 13.
Deus se mostra muito gentil e, quando oramos, ele nos encontra
onde estivermos, mesmo se não estivermos onde deveríamos.
Então vemos que Deus ouviu a Manoá, e o anjo do Senhor veio
novamente. Ele apareceu novamente à senhora Manoá. Há uma
censura sutil nesta atitude. Manoá tinha pedido: "Deixe-o falar
comigo". Mas não, Deus aparece novamente à mulher. Então
ela, sempre leal, corre para seu marido e diz: "O homem de Deus
está de volta. Venha e fale com ele". E Manoá segue-a e fala com
o visitante e diz asperamente: "Você é a pessoa que falou com
minha esposa?" Lembre-se de que Manoá é muito consciencioso
com o que é correto, e suas palavras expressam um tipo de
protecionismo, que diz: "Você não deve falar com minha esposa.
Deve falar comigo. Não é correto colocar nos ombros dela tal peso
dizendo-lhe coisas que ela depois terá de contar para mim". Você
percebe a sutileza? Ele está tratando a mulher como criança! Esta
é a verdade. Mas ele é este tipo de homem. Manoá está amarrado
¿1 esse tipo de casamento.
"Você é aquele que falou com minha esposa?", Manoá
pergunta. "Sim, sou eu", diz o visitante. Então Manoá faz a
pergunta da forma mais cortês possível: "Sim, com certeza suas
palavras serão seguidas. Sem dúvida. Mas, quando forem
seguidas, como deveremos educar o menino, como será sua vida
e seu trabalho? Diga-me". E o Anjo do Senhor responde: "Bem,
exatamente como eu disse para sua esposa. Ela deve fazer tudo o
que eu disse a ela". A gentil censura da desconfiança de Manoá
ainda é percebida, mas o anjo então detalha as instruções, como
Manoá havia pedido. E Manoá, como vimos, era um homem
religioso e queria fazer tudo corretamente, diz: "Então, podemos
lazer uma celebração em sua honra comemorando a boa notícia
que nos deste?" O Anjo do Senhor responde: "Não, não posso
I icar, mas seria uma boa idéia oferecer um sacrifício a Deus". Então
Manoá lhe obedece; em celebração e agradecimento, oferece um
grande sacrifício no altar perto de sua casa.
56 Nunca Perca a Esperança

O temor de Manoá
Então veio a aparição traumática que deixou Manoá
completamente fora de controle e mostrou que sua religião era
superficial. Manoá não sabia lidar com a realidade da aproximação
divina, então entrou em pânico, como podemos ver em suas
palavras de Juízes 13.22. Manoá percebeu que seu visitante era o
anjo do Senhor, então gritou para sua esposa: "Certamente,
morreremos, porque vimos o Senhor!"
Manoá estava dizendo uma meia verdade neste momento. Ele
percebeu que nem ele nem sua esposa estavam habilitados a ter
um relacionamento com Deus. O que vemos nas palavras de
Manoá é o sentimento de que Deus era, na verdade, santo: puro,
justo e forte, intoleravelmente severo, terrivelmente hostil à
maldade e imperfeição, e inexorável ao perceber coisas erradas.
Há uma verdade aqui - embora houvesse um pânico supersticioso
por parte de Manoá, um medo que o impediu de ver que se tratava
do próprio Deus. Isto ocasionou o sacrifício, a fim de que a força
destrutiva de sua santidade em reação ao pecado, não aniquilasse
seu próprio povo. Mas o que Manoá diz aqui mostra que sua
religião não era profunda, era mais uma formalidade baseada em
medo do que um companheirismo baseado em fé, e este tipo de
religião não é bom para ninguém. Viver superficialmente, baseado
nas convenções rotineiras da adoração, sem nunca ter pensado
nos detalhes do que conhecer a Deus e viver com ele envolve ou
requer de nós, é uma religião insuficiente. Este era o tipo de
religião que Manoá tinha e, quando aconteceu algo que ele nunca
havia imaginado, ocasionando um choque profundo em seu
sistema espiritual, sua religião balançou com ele. A esperança se
foi. Ele pensou que ambos iriam morrer - e disse isso, convidando
sua esposa a concordar com ele.
A verdade é que, falando em termos humanos e espirituais,
Manoá tinha perdido a cabeça. As pessoas constantemente se
perdem quando, debaixo da soberania de Deus, circunstâncias
enervantes e problemas traumáticos que nunca esperavam
acontecer, as tiram do sério. Nestas horas, pensamentos como os
Esperança Quando Nunca Sou Percebido e Nunca Confiam em Mim 57

de Manoá vêm à nossa mente, e concluímos que o fato disto estar


acontecendo mostra que Deus virou as costas para nós. "Pensei
que ele me protegeria de todos problemas e me proporcionaria
uma vida calma e segura, mas estava errado. Afinal de contas, ele
não me ama. Estou condenado à morte. A luz se apagou. Toda a
minha esperança se foi". Pensamento lógico? Não. Pensamento
emocional? Sim. Pensamento natural? Para muitos aproveitadores
dentro e fora da igreja, que poderiam ser classificados como o
clube de Manoá, sim novamente. Uma religião de segunda mão
sem o conhecimento de Deus em primeira mão é igual a um
estabilizador que está vulnerável a qualquer tipo de choque.

Uma esposa sensível


Assim era Manoá. Vamos compará-lo à sua esposa, a Sra.
Manoá. Ela também é o tipo de pessoa que conhecemos bem. Era
tímida e quieta. Retraída e normalmente se escondia de tudo. Vivia
constantemente debaixo do regime decorrente da arrogância de
Manoá e de sua paixão por controlar. Estava sempre disposta a
confiar em outras pessoas. Não gostava muito delas, mas
aprendeu a suportá-las. Era uma esposa fiel. Quando o visitante
angelical apareceu para ela, teve medo, mas ouviu-o atentamente
e foi rapidamente contar a seu esposo, a quem relatou a mensagem
com perfeição. A suposição de Manoá de que não poderia confiar
em seu relato foi mais um insulto, mas ela a ouviu sem reclamar.
Então quando seu esposo Manoá, que agiu como sempre como
um mandão, perdeu a cabeça, ela admoestou-o brandamente de
uma maneira que demonstra que, embora fosse submissa,
temerosa e desconfiada, era verdadeiramente religiosa e tinha um
coração firmemente ancorado em Deus e uma profundidade que
f altava a seu esposo. Ela era realmente uma das grandes mulheres
da Bíblia, como fica claro em suas palavras de Juízes 13.23. Eu as
enfatizo para considerar melhor sua força.
"Manoá," ela diz, "se o Senhor nos quisera matar, não aceitaria
de nossas mãos o holocausto e a oferta de manjares, nem nos teria
mostrado tudo isto, nem nos teria revelado tais coisas, nem teria nos
58 Nunca Perca a Esperança

falado que iríamos ter um filho. Isto certamente significa que, em


vez de nos matar, nos manterá vivos pelo menos por nove meses.
Ele é perfeitamente consistente. Ele permanece em seus propósitos;
ele cumpre suas promessas. Também tive um choque, Manoá,
exatamente como você. Mas nosso Deus é o Deus fiel, sábio, racional,
constante e em quem podemos confiar, e é nisto que devemos nos
segurar para nos recompormos após tudo o que vimos".
Estas são as palavras de uma pessoa que confiava realmente em
Deus e manteve a cabeça no lugar. Nisto ela é um modelo para
nós. Também estamos à mercê de experiências surpreendentes
quando buscamos andar com Deus. O poema de Kipling, "If" (Se),
começa com as palavras "Se você consegue manter sua cabeça em
ordem quando todos ao seu redor / estão perdendo a cabeça e
culpando você..." e continua neste pensamento com todos os versos
terminando com as palavras "Você será um homem, meu filho". Este
pronome masculino, é claro, revela Kipling como um edwardiano
numa época que ninguém reclamava a respeito do uso genérico da
palavra "homem". Kipling fala aqui da maturidade. E o que vemos
neste texto é maturidade espiritual, maturidade no conhecimento
de Deus. Estou afirmando que a Sra. Manoá mostrou maturidade e
profundidade espiritual, de tal forma que pode ministrar
significativamente ao seu marido, o qual normalmente não desejava
tratá-la como igual ou obter coisa alguma. Digo agora para meus
companheiros homens que, quando temos a bênção da vida
familiar, nunca devemos ser orgulhosos a ponto de impedir que
nossa esposa ministre para nós quando necessitamos e quando ela
tem recursos para fazê-lo. Tenho coragem de afirmar que é parte
da ordem de Deus que as esposas ministrem a seus maridos, assim
como os maridos devem ministrar a elas, e ai do marido que se
recusa a reconhecer que às vezes precisa exatamente disto.

Lidando com a surpresa


A Sra. Manoá sabia qual era o problema de seu marido, e
ministrou a ele apropriadamente. Ele precisava ouvir o que ela
Esperança Quando Nunca Sou Percebido e Nunca Confiam em Mim 59

tinha a dizer, e percebemos que Deus usou a sua fé para restaurar


o coração indeciso do seu esposo. Acho que o escritor de Juízes
13 sorriu, como nós, em algumas partes de seu relato. Podemos
achar engraçadas algumas partes da Bíblia. A arrogância sempre
tem um lado cômico.
Mas esta narrativa nos traz algumas lições sérias. Porque, como
Manoá, nós também podemos pensar que estamos muito acima
das questões espirituais e então experimentamos um choque
traumático que mostra que estamos por baixo, espiritualmente
falando. Porque a primeira coisa que pensamos após um choque
espiritual não é nem bíblica nem baseada na fé, nem mesmo
racional. Em vez disso, como vimos, podemos acabar perguntando
para nós ou para outros: "Deus se virou contra mim; quebrou sua
promessa; não há mais esperança para mim agora". Estas ações
devastadoras de desespero e autocomiseração difamam o nome
de Deus, assim como nos subjugam e, quando nos pegamos
pensando assim, precisamos de alguém com profundidade
espiritual e clareza de mente como a Sra. Manoá para nos ajudar.
Embora Deus ainda seja um Deus de surpresas e a curto prazo
estas surpresas possam causar dor e nos roubar o fôlego, a surpresa
final no fim do caminho é a certeza feliz de que aquilo foi o melhor
para nós e para os outros, com mais alegria, mais sabedoria, mais
contentamento e mais exultação em Deus, resultado de alguns
momentos de trauma em grau impensável. Justamente o resultado
final do encontro de Manoá com Deus, que foi o nascimento de
Sansão de um casal que já tinha abandonado a esperança de re­
produzir-se. O princípio que opera aqui é bem exemplificado no
conhecido hino "Firme Fundamento".

Não temas, sou contigo, não desanimes;


Porque sou o teu Deus, e te ajudarei;
Eu te fortalecerei, te ajudarei, e te porei firme,
Segura em minha mão justa e onipotente.
60 Nunca Perca a Esperança

Quando estiver em águas turbulentas,


Os rios da angústia não te deixarão afundar;
Porque estarei contigo para te abençoar,
E santificar em ti tuas angústias mais profundas.

O resultado de enfrentar as adversidades com a ajuda de Cristo,


que tem experiência nos terremotos e acontecimentos inesperados,
somente será percebido depois, mas aqueles que conseguem
enxergar podem discernir estes frutos sem si mesmos e nos outros.
"Porém, Deus nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos
participantes da sua santidade. Toda disciplina, com efeito, no
momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao
depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela
exercitados, fruto de justiça". (Hb 12.10,11).
A experiência de Manoá de ter visto a Deus teve o objetivo de
levá-lo a um nível mais profundo do que o até então experimentado.
O pensamento emocional, com certeza como fruto do medo
irracional que constantemente permeava sua alma (para aqueles
que, como ele, tinham a paixão pelo correto e freqüentemente são
pessoas medrosas), quase impediu que isto acontecesse. Mas
evidentemente Deus usou a palavra de sabedoria da Sra. Manoá
para ajudá-lo contra o pânico e desespero, a fim de que a esperança
tomasse lugar em seu coração, e sem dúvida Manoá se tornou uma
pessoa mais forte depois daquela experiência.
Portanto, devemos tirar uma lição do que aconteceu com
Manoá, que é o centro do cumprimento do comando bíblico que
está em nosso coração (sendo o coração o âmago de nossa
personalidade, a fonte de nossas atitudes e energia) como a
disciplina de olhar além de nós mesmos. Com isto quero dizer
que devemos entender muito bem como Deus se revela aos seus
filhos para não nos escondermos nas súbitas e eletrizantes
surpresas, e sempre oferecermos a Deus as circunstâncias que
aparecem em nossa vida para que ele as santifique, em vez de
deixarmos que se tornem razão de desistirmos de Deus — como
Manoá esteve propenso a fazer.
Esperança Quando Nunca Sou Percebido e Nunca Confiam em Mim 61

Uma mulher memorável


E a Sra. Manoá? A história sugere, como vimos, que era hábito
de seu marido não a tratar como uma pessoa totalmente racional,
uma companheira totalmente confiável, mas como alguém trataria
uma menina crescida duvidando de sua competência e
considerando-a sempre carente de orientação nos caminhos da
sabedoria. Se fosse assim, a vida para a Sra. Manoá seria sempre
sem sentido e, tal como Nora, no livro de Ibsen "A Doll's House"
(Casa de Bonecas), ela deve ter-se sentido assim, embora, ao
contrário de Nora, não pudesse fazer nada a respeito. Não há razão
para pensar que pelo fato de ter recuperado a fé através das
palavras de sua esposa, Manoá tenha mudado o tipo de
relacionamento dos dois. Então como podemos nos referir a esta
senhora? Três coisas nos chamam a atenção.
Primeiro, ela conhecia a Deus. Confiando na bondade do Deus
de Israel, encontrou uma chama de compreensão através da qual
conseguiria lidar com o medo que sentiu ao receber a primeira
visita do estranho (Jz 13.6) e então não se rendendo ao medo que
Manoá sentiu ao perceber que o visitante era o próprio Deus. Isto
permitiu que ela tivesse a cabeça no lugar no momento da crise e
inferisse que, como Deus tinha prometido, em nove meses mais
ou menos, dar-lhes um filho que se tornaria o libertador de Israel
das mãos dos filisteus, e como havia aceitado a oferta, isto é, o
sacrifício de sangue que tinha pedido que eles oferecessem
(lembre-se, sangue é o sistema de sacrifício pelo perdão dos peca­
dos; ver Lv 17.11), Deus não estava planejando matá-los naquele
momento - como Manoá pensava. Ela esperou em Deus porque
era, nos termos do Novo Testamento, uma crente. A fé foi
demonstrada na esperança.
Segundo, ela aceitou a sua condição. Era leal a seu marido,
Manoá, mesmo quando sua atitude em relação a ela deixava algo
a desejar. Correu para compartilhar com ele o que o visitante lhe
havia dito, já que tinha tanto que ver com ele quanto com ela, e
não reclamou quando, em sua maneira arrogante, Manoá assumiu
a liderança e deixou-a de lado, como tinha feito tantas vezes antes.
62 Nunca Perca a Esperança

Ele a poderia ter compartilhado isto com Deus e pedido força


para sustentá-la em seu casamento, sem sentimento de amargura
ou autopiedade, e evidentemente teria sido respondida. Em sua
maneira tranquila, era uma santa mulher e boa esposa. Sua
santidade foi demonstrada em boa vontade paciente.
Terceiro, ela ministrou a Manoá a despeito de seu hábito de
não levá-la a sério como parceira. Ela falou a verdade por amor a
ele porque era disso que ele precisava. Baseado no que ela disse e
fez pelas necessidades dos outros, ela era uma ministradora. Sua
capacidade de ministração foi demonstrada pela procura
constante em ajudar.
Uma grande mulher! Honrada, firme e usada por Deus!
Alguém a ser imitado, como o Santo Espírito permite, em sua fé e
esperança, contentamento e amor, autocontrole e serviço.
Deus poderoso, Deus cujo nome é maravilhoso, secreto e acima de
nossa compreensão - porque em teus planos e propósitos para nós há
muito mais do que podemos imaginar neste momento, pedimos que nos
leve para perto de ti pelo Santo Espírito. Escreva palavras de fidelidade
em nosso coração. Relembra-nos do dom de Jesus o Senhor como nosso
Salvador: o penhor do teu amor e também de tua fidelidade. Convence-
nos, Pai Santo, que devemos confiar e esperar em ti, em todas as
circunstâncias, porque tu estarás conosco em nosso processo de firmeza.
E no momento certo tu irás cumprir todas as promessas para nós, mesmo
quando houver momentos em que sentimos tudo desabar e tudo parecer
estar dando errado. Portanto, Pai Santo, que possamos a curto prazo
aprender os ensinamentos que vimos em Manoá e a sabedoria fiel de sua
esposa, e possamos conhecer-te em profundidade espiritual e maturidade
verdadeira para nos abençoar e para a tua glória; em nome de Jesus.
Amém.

Estudo
1. De que forma você responde a eventos inesperados?
2. Leia Juízes 13.1-25. De que maneira esta visita do "anjo
de Deus" mudou a vida de Manoá e sua esposa?
Esperança Quando Nunca Sou Percebido e Nunca Confiam em Mim 63

3. Que razões eles tinham para temer essa visita? E para


sentir alegria?
4. Por que você acha que o anjo de Deus veio a Sra. Manoá
nas duas vezes?
5. O que a conversa entre a mulher, o homem e o anjo de
Deus revela sobre o relacionamento entre Manoá e sua
esposa?
6. Que aspectos de si mesmo você vê em Manoá? E na Sra.
Manoá?
7. Estude os versículos 16-20. O que Manoá e sua esposa
puderam aprender sobre Deus nesta experiência?
8. Deus é um Deus de surpresas. O que você sabe sobre
ele?
9. Reveja a seção intitulada "Lidando com a Surpresa" (58-
60). Como a história de Manoá e sua esposa pode ajudá-
lo a lidar com as surpresas da vida?
10. Deus abençoou Manoá com uma esposa sensível e
espiritual. Quem dentro de seu círculo de amizade tem
características semelhantes? Como você pode
respeitosamente extrair seus pontos fortes?

Oração
★ "Porque pergunta meu nome?" disse o anjo do Senhor, "que é
maravilhoso". Ore, louvando a Deus por quem ele é - mesmo
naqueles aspectos que não são de total compreensão.
★ Em oração considere algumas fraquezas que fazem parte de
sua própria personalidade, como, por exemplo, um desejo
desordenado de controlar, a tendência à catástrofe, a forma
de falar sem respeito a outros integrantes de sua família, falha
ao pensar na bondade de Deus. Confesse a Deus qualquer
falha ou pecado nestas áreas, peça perdão e busque vigor
espiritual para conseguir sobrepujar os momentos difíceis.
★ Comparando as informações em Juízes 13.1 com os versículos
24, 25, podemos ver que os desígnios de Deus que envolvem
64 Nunca Perca a Esperança

os acontecimentos deste capítulo eram mais complexos e de


longo alcance que Manoá e sua esposa poderiam imaginar.
Ore, reconhecendo as limitações de sua própria visão diante
dos episódios surpreendentes de sua vida. Assim que puder,
expresse sua confiança no Mestre.
★ Leia em voz alta a oração deste capítulo, tornando-a pessoal.

Escreva
Como Deus tem surpreendido você? Provavelmente você não
tem conversado com o "anjo de Deus", vendo-o desaparecer ele­
vando-se na fumaça da oferenda. Mas Deus nos surpreende nos
acontecimentos inesperados de nossa vida - e com evidências de
sua presença. Escreva sobre isto. Então descreva maneiras como
Deus se revelou durante este período.
4
Esperança Quando Estou Zangado
Comas Pessoas e Com Deus

JODAS
Suponha que eu perguntasse: "Qual o assunto do livro de Jonas?"
Qual seria sua resposta? Penso que muitos responderiam sim­
plesmente: "É sobre um homem que foi engolido por uma baleia".
É claro que isso seria verdade, se o "grande peixe" descrito em
Jonas 1.17 fosse uma baleia (dificilmente), mas essa não é a história
Ioda. Na realidade, o grande peixe não é o assunto principal do
livro de Jonas.
Esse livro é sobre um homem e seu Deus, um homem sem
compaixão e seu Deus compassivo. Mas isso é uma inversão. C.S.
Lewis escreveu um livro da série Crônicas de Nárnia chamado
The Horse and His Boy [O cavalo e o seu menino], o que estava na
ordem correta segundo a história (Se ler o livro você vai saber
que o Cavalo Bree é o herói.). Do mesmo modo, a ordem correta
de se apresentar o tema do livro de Jonas é dizer que se trata da
História de nosso Deus compassivo e de seu filho sem compaixão.
O que vemos no livro é Deus ensinando a Jonas, o homem sem
misericórdia, duas lições que ele necessitava muito aprender.
Podemos dizer de uma vez que Jonas estaria perdido
espiritualmente se não as tivesse aprendido.
66 Nunca Perca a Esperança

Duas lições
A primeira lição é a obediência. Em Jonas 1.1-3, lemos:

Veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai,


dizendo: "Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e clama
contra ela, porque a sua malícia subiu até mim. Jonas se
dispôs, mas para fugir da presença do Senhor, para Társis;
e, tendo descido a Jope, achou um navio que ia para Társis;
pagou, pois a sua passagem e embarcou nele, para ir com
eles para Társis, para longe da presença do Senhor.

Deus tinha chamado a Jonas para ser um profeta: um homem


encarregado de entregar sua mensagem. A história inicia com Jonas
se recusando a fazê-lo e tendo que aprender a lição da obediência.
Deus usa o grande peixe para ensiná-lo. Esse é o assunto dos dois
primeiros capítulos.
Mas então há uma segunda lição. Jonas é um homem duro,
com coração de pedra e sem misericórdia - e tem de aprender a
lição da compaixão. Vemos Deus ensinando-lhe essa lição e usan­
do, dessa vez, não um grande peixe, mas um pequeno verme.
Esse é o assunto dos dois últimos capítulos.

Servos imperfeitos
Essa é a história de todos nós. Deus nem sempre escolhe os
melhores homens e mulheres. Na realidade, ele faz o oposto. Deus
costuma escolher e usar material humano imperfeito. Ele escolhe
os pecadores; Deus salva os pecadores; Deus chama, prepara e
usa os pecadores - e Jonas foi um deles.
A Bíblia fala de muitas pessoas que Deus escolheu e chamou
para seu serviço. Várias vezes ela gasta tempo contando as
fraquezas, as falhas morais e espirituais na vida dessa gente. O
modo de Deus lidar com essas pessoas é transformando-as en­
quanto as usa e usando-as enquanto as transforma. E sempre
vemos que a história fala de Deus recebendo glória pelo que foi
feito, ao mesmo tempo em que a pessoa que o glorifica continua
imperfeita. Mas Deus ensina lições de como viver corretamente
Esperança Quando estou Zangado com as Pessoas e com Deus 67

enquanto as usa. A santificação e o serviço avançam juntos. A


santificação aumenta enquanto o serviço é realizado.
O novo aeroporto de Vancouver já está em operação, embora
as obras ainda não tenham sido terminadas desde que ele foi
inaugurado. A reconstrução de Deus nos que crêem continua a
acontecer no contexto de nossa ministração regular aos outros.
Esse é o modo de Deus agir.
Vemos santificação e serviço interligados na história de Joñas.
Devemos compreender que Deus conta essa e outras histórias
parecidas para nosso encorajamento. Você sabe tanto quanto eu
da aflição pela qual passa um crente, aquele que está verdadei­
ramente comprometido com Deus, quando faz ou diz alguma
coisa indigna e é tarde demais para mudar o que fez ou retirar as
palavras. Você pensa: "De novo, hein? É a sua fraqueza se
mostrando outra vez. Que crente lamentável você é! Não é capaz
de servir ao Senhor. Você sempre estraga tudo!" O livro de Joñas
diz que o Senhor é um Deus que escolhe pessoas que estragam
tudo, mas que ele as perdoa quando isso acontece e que trabalha
nelas e com elas para diminuir suas falhas como realmente fez. E
os usa da mesma forma. Ele nos dá o privilégio de servi-lo a des­
peito de nossas deficiências. Constantemente ele abençoa o que
fazemos ou dizemos - mesmo quando tudo isso está marcado
pelas nossas falhas. Nosso Deus é gracioso e essa é somente uma
expressão de sua bondade. Essa graciosidade de Deus nos dá o
tom enquanto exploramos o livro de Joñas.

As razões de Joñas
Observe primeiro o homem incompassivo, Joñas, o profeta sem
misericórdia. Ele era um israelita do Reino do Norte nos dias de
Jeroboão II, cujo sucesso militar em restaurar as antigas fronteiras de
Israel Joñas tinha tido o privilégio de predizer (lRs 14.25). Na reali­
dade ele era, colocando em termos positivos, um patriota cuja afeição
se concentrava em seu próprio povo. Em termos negativos, ele era
um racista - teve uma atitude hostil em relação às pessoas de naciona­
68 Nunca Perca a Esperança

lidades diferentes, especialmente, como sua história narra, os assírios.


Um protestante da Irlanda, com a sua atitude negativa em relação
aos católicos, seria um paralelo para os dias de hoje.
Um dos aspectos interessantes do livro de Joñas é que quase
todas as vezes que Deus é mencionado, é utilizado o nome pactuai
que ele havia comunicado aos israelitas, o nome pelo qual o
deveriam invocar, em termos do qual deveriam conhecê-lo, amá-
lo e confiar nele. Aquele nome é às vezes pronunciado Jeová, mas
os eruditos preferem Yahweh. A Bíblia, na tradução de Almeida,
traz a palavra Senhor nos locais onde originalmente de encontra o
nome pactuai de Deus. Nesse livro de 48 versículos o nome aparece
26 vezes. Os israelitas pensavam ser o único povo que conhecia
seu Criador como um Deus que ama e perdoa e tinha um pacto
com eles, e os escritores do Antigo Testamento pretendiam trazer
esse compromisso divino às mentes dos seus leitores sempre que
falavam de Deus como "o Senhor". Para uma tripulação de mari­
nheiros politeístas de várias nacionalidades, que adoravam uma
grande quantidade de deuses, Joñas declarou: "Sou hebreu e temo
ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra" (Jn 1.9). A força
e o exclusivismo dessa identidade israelita é o ponto de partida da
história deste livro.
E Nínive? Capital da Assíria, Nínive era uma grande cidade, e
a Assíria uma grande nação. Nínive, nos dias de Joñas, que viveu
no século 8 a.C., era grande e continuava crescendo. Seu tamanho,
influência e poder militar fizeram dela a maior potência daquela
época e uma ameaça constante para o povo de Israel.
Para traçar um outro paralelo moderno, a China continental dá
a Taiwan o sentimento de ser ameaçada por um vizinho muito
poderoso, e era assim que os israelitas se sentiam nos dias de Joñas
em relação a Nínive.
Quando Deus diz a Joñas: "Vá à grande cidade de Nínive, e
clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim" (Jn 1.2), o
profeta sabia o que aquilo queria dizer. O primeiro versículo do
capítulo 4, diz que Joñas ficou muito desgostoso e ficou extrema­
Esperança Quando estou Zangado com as Pessoas e com Deus 69

mente irado. Você pode imaginar o por quê. A resposta é que


quando entregasse a mensagem aos ninivitas, eles se arrepen­
deriam. A Bíblia diz que: "Viu Deus o que fizeram, como se con­
verteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que
tinha dito lhes faria e não o fez" (3.10). No versículo 2 do capítulo
4, Joñas então ora assim: "Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse,
estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para
Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio
em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal".
Podemos ouvir Joñas reclamar: "E foi isso que o Senhor fez aqui!".
Em outras palavras, Joñas diz: "Eu sabia que se fosse para
Nínive e entregasse tua mensagem sobre o julgamento, tu a usarias
como sempre usaste mensagens de julgamento e ameaças antes.
Tens usado esse discurso para levar as pessoas ao arrependimento,
para levá-las ao entendimento, para fazê-las se curvar diante de
ti e mudar de vida - e as perdoar. E eu não queria que isso aconte­
cesse com Nínive. Por isso eu não queria ir para Nínive e entregar
a tua mensagem". A graça de Deus aos ninivitas pareceu uma
desgraça para Joñas, um gesto de coração mole que Deus não po­
deria ter mostrado para com eles. E a fuga de Joñas para Társis foi
a tentativa do profeta de salvar Deus de si mesmo.

O Joñas em nós
Ao menos Joñas é um homem honesto, e aqui ele expressa em
suas orações exatamente o que ele achava do modo de Deus agir.
Ele odiava pensar no modo como Deus estava usando seu próprio
ministério profético, e em seu desgosto ele diz a Deus que em
razão de tudo isso ele preferia estar morto. "Peço-te, pois, ó Senhor,
tira-me a vida, porque o melhor me é morrer do que viver"
(Jn 4.3). Como podemos ver, Joñas era um homem orgulhoso
e amargo, e nesse momento era um homem extremamente furioso.
Vamos parar agora e pensar. Eu poderia estar escrevendo para
um Joñas, alguém orgulhoso, inflexível, que não se curva, que é
amargo com o que considera como peças que a vida pregou nele.
70 Nunca Perca a Esperança

Ele é ferozmente leal a causas, algumas delas muito boas, mas não
tem amor para com os necessitados. Não tem compaixão; é duro, fa­
nático até. E por isso não é a pessoa a quem apelar quando você tem
problemas ou necessidades: ele nunca tem qualquer coisa a oferecer.
E movido mais pelos princípios do que pelas pessoas. É apaixonado
em seu patriotismo, ou qualquer que seja a forma que o seu idea­
lismo toma, mas indiferente e frio em relacionamentos pessoais. Obje­
tivos abstratos o fascinam; pessoas em aflição não o emocionam.
Agora ele está bravo. Há muitas pessoas hoje em dia que carre­
gam um tanque cheio de ódio dentro de si. Nunca sabemos quando
vai transbordar, quando essas pessoas irão irromper em fúria. Fre­
quentemente são coisas triviais que fazem explodir o seu ódio. Se você
for o objeto dessa raiva, talvez não tenha nada a ver com isso - mas você
está lá e essas pessoas ficam bravas e simplesmente têm de explodir. E
em sua raiva dizem constantemente palavras duras, irracionais,
nrelevantes, insultando outros. Joñas é um homem zangado, dei-xando
sua fúria explodir contra Deus pelo que o Senhor fez. Você o reconhece?
Já o viu? Penso que todos somos Joñas um pouquinho. Lembre-se disso
enquanto damos uma olhada em sua história.

Fugindo de Deus
Voltando ao começo. Sabemos o que Joñas fez. Deus tinha dito:
"Vá para Nínive". que ficava a leste de Jerusalém. E Joñas, no
verdadeiro sentido da palavra (geográfica e moralmente) foi para
o oeste - para Társis, um porto da Espanha tão longe de Nínive quanto
você possa imaginar. Então Joñas franziu a sombrancelha e disse:
"Nínive? Não vou". A Bíblia diz que ele "foi para longe da presença
do Senhor" (Jn 1.3). Ele fugiu da presença do Senhor e isso nos dá o
exato sentido do que ele fez. A presença do Senhor é algo muito
precioso. Não é uma realidade geográfica, mas pactuai. Na reali­
dade, consiste em saber que Deus está conosco para nos abençoar
onde quer que estejamos. Quando fugiu da presença do Senhor
em desobediência, Joñas sabia que estava fugindo da bênção de
Deus. Era um tipo de suicídio espiritual. Mas acho que ele pensou
Esperança Quando estou Zangado com as Pessoas e com Deus 71

ser essa uma atitude de coragem. Não queria dar aos ninivitas
nenhuma chance de se arrependerem; ele queria que fossem
condenados. A melhor coisa para Israel, ele pensava, seria ver a
Assíria arder em chamas; assim ele desafia a Deus negando-se a
pregar lá. Viu-se como um herói, sacrificando-se pelo bem-estar de
seu povo. Mas na realidade foi idiotice. Estava deixando a presença
do Senhor. Estava voltando as costas para Deus e Deus, em seu
trono de glória, não terá jamais seus propósitos frustrados por
atitudes como essa. Não há futuro para quem tenta ser mais sábio
do que Deus, ou quem tenta impedi-lo de realizar seus planos.
Então Jonas saiu, comprou sua passagem no navio de Társis e
viajou para lá fugindo de Deus. Fugiu, mas não haveria de escapar
de seu erro. Antes que o navio tivesse ido muito longe ele foi pego
por um temporal que, segundo a Bíblia, Deus mesmo enviou: "... o
Senhor lançou sobre o mar um forte vento, e fez-se no mar uma
grande tempestade, e o navio estava a ponto de se despedaçar".

Confrontando Deus
Nessa hora Jonas está (pouco depois de deixar o porto) tirando
uma soneca em algum lugar. Imagino que ele tenha perdido muito
sono tomando sua decisão suicida de desobedecer a Deus. Em sua
bondade normalmente Deus não nos deixa dormir bem após tomar
decisões desastrosas como essas. Mas Jonas está tão cansado que é
capaz de adormecer e continuar dormindo apesar da tempestade.
Ele está num navio pagão com uma tripulação internacional, os
marujos estão todos rezando em voz alta, cada um para o seu
próprio deus, e então o capitão desce e encontra Jonas dormindo e
diz: "Levanta-te e invoca o teu deus!" O capitão presume, como
fazem os politeístas, que quanto mais deuses fossem persuadidos
a se envolver numa situação de necessidade, melhor será, já que a
quantidade de ajuda sobrenatural então seria maior. Todos então
deveriam clamar aos deuses que melhor conhecessem. "Invocaremos
nossos deuses," ele diz a Jonas: "e você invoca o seu deus. Talvez
assim a gente consiga a ajuda de que precisamos".
72 Nunca Perca a Esperança

Na verdade, Jonas não pode orar por causa de sua recusa de


obedecer a Deus, e ele explica isso para o capitão e os marujos. Isso
está claro na última parte do capítulo 1.10: "... sabiam os homens
que fugia da presença do Senhor, porque lho havia declarado". E
imagino que foi isso que tinha dito ao capitão: "Não posso orar por­
que dei as costas ao meu Deus". Saber e sentir que você não pode
pedir que Deus ouça a sua oração porque escolheu brigar com ele é
uma terrível situação para qualquer um. Mas ao menos Jonas é
honesto em sua loucura espiritual e então conta o que aconteceu.
Então eles lançam a sorte, pedindo a todos os seus deuses que
mostrem quem é o responsável pelos problemas. A sorte cai em
Jonas. Eles presumem, corretamente como é demonstrado, que a
tempestade é um sinal de desaprovação divina com alguém do
navio. Toda a tripulação está lá, eu imagino, no porão, tentando
se segurar enquanto o navio balança; estão com medo e nervosos.
Dizem a Jonas: "Tem de ser você. O que você fez para trazer essa
tempestade para nós?"
Jonas diz a eles: "É porque dei as costas para Deus. Sou hebreu.
Adoro ao Senhor, o Deus dos céus - acontece que agora não o estou
adorando. Eu fugi dele. Ele me deu uma missão que eu não estava
preparado para cumprir". O mar estava se tornando mais bravo,
então perguntam: "Que devemos fazer com você para o mar se
acalmar?" Jonas é corajoso em sua ruína espiritual. Ele diz: "E
melhor me jogar no mar". Ele foi descoberto e agora vai ser jogado
fora - literalmente. E eles assim o fazem. Jonas mergulha no mar
agitado, esperando se afogar.
Devemos aprender aqui que coisa desastrosa é desafiar a Deus
e imaginar que podemos escapar recusando-nos a fazer a sua
vontade. Deus está no céu; Deus está no trono; Deus mantém
inteiramente o controle do mundo. Ninguém pode desafiar a Deus
e se dar bem e Jonas também não podia.

A misericórdia de Deus
Ser jogado do navio seria o fim de Jonas, mas ele foi salvo pela
graça de Deus. Vamos deixar de olhar agora o homem sem
Esperança Quando estou Zangado com as Pessoas e com Deus 73

misericórdia cuja trajetória descendente acompanhamos até aqui


para pensar no Deus compassivo a quem Joñas servia e cujo cuidado
é demonstrado tantas vezes nesse livro. Começamos a ver isso em
Joñas 1.15: "... levantaram a Joñas e o lançaram ao mar; e cessou o
mar da sua fúria". A tempestade passou de repente. A tripulação
não queria fazer o que fez e orou ao Deus de Joñas (parece que a
triste história de Joñas os tinha convencido de que Jeová era Deus
mesmo) pedindo que não se virasse contra eles o que Joñas os tinha
levado a fazer. O resultado do mar ter se acalmado foi que todos
no navio "Temeram... em extremo ao Senhor; ofereceram sacrifícios
ao Senhor e fizeram votos" (v.16). Essa é a forma do Antigo
Testamento dizer que eles se converteram por meio da obra do
Espírito Santo em seus corações. Conheceram e passaram a servir
de fato ao Deus verdadeiro. Isso foi resultado da misericórdia de
Deus para com aquela tripulação pagã.
Agora daremos uma olhada em Nínive, onde Deus novamente
mostrou misericórdia. No capítulo 3 vemos como a história se
desenrolou. Joñas proclamou: "Ainda quarenta dias, e Nínive será
subvertida" (Jn 3.4). Ele não lhes disse nada sobre a possibilidade
de compaixão, mas Deus agiu no coração deles justamente como
havia feito no coração dos marinheiros pagãos e então lemos no
versículo 5: "Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum,
e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor". O rei
de Nínive assumiu a liderança e divulgou uma proclamação (ver
vs. 7-9) convocando todos a participar do jejum. Homens e animais
deveriam ser cobertos com pano de saco. O decreto real dizia: "...
clamarão fortemente a Deus; e se converterão, cada um do seu mau
caminho e da violência que há nas suas mãos" (3.8). Assim o rei de
Nínive chamou o povo ao arrependimento. "Quem sabe se voltará
Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor de sua ira, de sorte
que não pereçamos?" (v.9). E assim fez Deus. Houve um grande
avivamento, se podemos chamar assim, e Nínive sobreviveu.
E vemos aqui novamente Deus sendo misericordioso. Joñas,
querendo que a Assíria fosse destruída, ficou desgostoso, mas não
74 Nunca Perca a Esperança

deveria, como não devemos permitir a destruição de outros ou


querer presenciar isso, como ele fez. Mesmo que sinta hostilidade
por alguém, ou por algumas pessoas, não importa quanta maldade
lhe tenham feito, pare e lembre e diga para si mesmo: Deus os fez,
como fez a mim. Deus os ama, como me ama. Se voltarem-se a
Cristo, serão perdoados, como eu fui perdoado. Não é meu papel
alimentar hostilidade contra eles por causa dos seus pecados,
quando meu Senhor e Salvador demonstrou um enorme amor
redentor para um pecador como eu. Esse é um elemento da men­
talidade cristã que aprendemos por experiência, forçando-nos a
pensar desse modo, isto é, amando aos nossos inimigos como aos
nossos amigos e desejando a benção de Deus tanto para uns quanto
para outros. Amar ao próximo inclui tanto os amigos quanto os
inimigos. É uma grande lição e alguns de nós levam a vida inteira
para aprendê-la. Talvez outros jamais consigam. Ou talvez demo­
rem muito para perceber que precisam dela. A história do
avivamento de Nínive esfrega o nosso nariz nessa verdade: Deus é
grandemente glorificado quando se mostra misericordioso - mesmo
para com aqueles que, até então, agiram como seus inimigos.
Quando orou "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem",
Jesus estava intercedendo pelos soldados que o pregavam na cruz
(Lc 23.34). Ser misericordioso com os inimigos, com aqueles que
agiram mal e desejar e buscar seu bem-estar é, na verdade, central
na vida cristã verdadeira.

Joñas e a misericórdia de Deus


Agora olhe para Joñas de novo e veja como Deus foi miseri­
cordioso para com ele. O Senhor fez com que o grande peixe o en­
golisse, mas ele não perdeu imediatamente a consciência. Quando
se encontrou dentro do peixe, Joñas espiritualmente retomou os
seus sentidos. Pensamentos vieram à sua mente e uma oração
humilde, esperançosa, agradecida e confiante saiu de seu coração
- que (mais tarde, supõe-se) ele transformou em um salmo (Jn 2.1-
9). Lemos em seguida, "Falou ... o Senhor ao peixe, e este vomitou
a Joñas na terra". Você pode imaginá-lo cambaleando na praia,
Esperança Quando estou Zangado com as Pessoas e com Deus 75

saindo da água, sentando, tossindo ofegante e imaginando o que


tinha acontecido. Deus não apenas salvou a vida de Jonas; o Senhor
havia mostrado sua mão poderosa, ensinando uma lição a seu
profeta. Deus tinha aberto seu coração; Deus o havia perdoado da
ruína amargurada da desobediência; Deus o tinha restaurado para
a piedade e agora queria devolvê-lo ao ministério profético.
Maravilhado pela grandeza da majestosa misericórdia de Deus,
Jonas deve ter com certeza decidido nunca mais dizer não a Deus.
Então quando "Veio a palavra do Senhor, segunda vez, a Jonas,
dizendo: Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama
contra ela a mensagem que eu te digo", Jonas obedeceu (Jn 3.1-3).
Agora há misericórdia! O profeta está de volta ao trabalho mais
uma vez. Deus restaura o ministério de Jonas e abençoa outros
por seu intermédio. Jonas, como vimos, ficou muito zangado com
isso porque desejava testemunhar a condenação de Nínive. Mas
ele deveria estar exultante. Não é todo pregador cujo ministério
traz a bênção de conversões e que vê grande número de pessoas
entregando-se para Deus como resultado do que ele proclamou.
Foi o que aconteceu com Jonas. E digo que houve misericórdia,
tanto para o pregador quanto para as pessoas.

A raiva de Jonas
No capítulo 4 lemos como Jonas expressou a sua fúria diante de
Deus porque o Senhor era, como o profeta disse: "tardio em irar-se
e grande em benignidade" (4.2). Ao lidar com os ninivitas Deus
agiu de acordo com o seu caráter. Por isso a ironia e o absurdo da
luta de Jonas com Deus saltam aos olhos. Veremos agora como
Deus interroga Jonas, mergulhando em sua mente e em seu coração.
Jonas 4.4 nos diz o que Deus responde a Jonas: "E razoável essa
tua ira?" - irado como você está? Em sua própria consciência Jonas
sabe, ou quase, que com essa pergunta o Senhor o está censurando,
mas ainda não aceitou isso. Isso também é coisa que muitas vezes
acontece em nossa vida. "Quase" sabemos que Deus está cutucando
nossa consciência sobre algo. Mas a princípio não queremos encarar
76 Nunca Perca a Esperança

isso e então deliberadamente evitamos o assunto. Pensamos em


outra coisa ou nos dedicamos a outra atividade. Talvez por algum
tempo continuemos com nossa oração diária e leitura da Palavra
de Deus, mas não conversaremos com ele sobre o assunto a respeito
do qual ele mesmo está nos fazendo sentir desconfortáveis. Mas
Deus acaba nos cercando. Cedo ou tarde ele nos fará enfrentar a
situação que estamos tentando evitar. É por sua misericórdia que
ele não nos deixa ignorar a vida toda o seu cutucão em nossa
consciência. Mas nesta altura da história Jonas ainda está tentando
ignorá-lo — e Deus espera sua hora.
O que Jonas faz, então? Ele sai da cidade e constrói um abrigo.
Senta-se à sombra e aguarda e observa e espera todo o tempo que,
apesar de todas as conversões, apesar do arrependimento, apesar
do medo de Deus ter resolvido agir com misericórdia, o Senhor
afinal destrua Nínive. O profeta não consegue tirar os olhos da ci­
dade, esperando vê-la arder em chamas. Lembre-se, ele é patriota;
é racista; é um homem orgulhoso e amargo. Sim, ele tem fé mesmo
e ela amadureceu com a experiência do navio e do peixe. Mas Jonas
está tristemente errado e ainda não mudou. Ele aprendeu a lição
de obediência mas ainda não aprendeu a lição de compaixão.

A persistência de Deus
Então Deus se manifesta para ensinar-lhe a lição número dois.
Jonas 4.6 diz:"... fez o Senhor Deus nascer uma planta". Ninguém
sabe que planta era essa. Algumas traduções falam de trepadeira
e alguns comentaristas a descrevem como um grande girassol com
grandes folhas e sombra. A trepadeira - ou seja lá que planta for
- cresceu rapidamente ao lado do abrigo de Jonas. Ela propor­
cionou a ele "sombra sobre a sua cabeça". Por isso "Jonas ... se
alegrou em extremo por causa da planta. Mas Deus, no dia
seguinte, ao subir da alva, enviou um verme, o qual feriu a planta,
e esta se secou. Em nascendo o sol, Deus mandou um vento
calmoso oriental; o sol bateu na cabeça de Jonas, de maneira que
desfalecia, pelo que pediu para si a morte, dizendo: Melhor me é
morrer do que viver!" (vs.6-8).
Esperança Quando estou Zangado com as Pessoas e com Deus 77

Então veio a ele a palavra do Senhor de tal forma que não podia
ser evitada: "E razoável essa tua ira por causa da planta?" (Jn 4.9).
"E, sim", respondeu Jonas. "Estou tão furioso que eu quero
morrer. Eu precisava daquela planta e agora o Senhor a matou."
Então disse Deus (eu ampliei o texto dos versículos 10 e 11):
"Você se preocupou com essa planta embora não a tenha feito
crescer nem tenha cuidado dela. Ela apareceu da noite para o dia e
secou tão depressa quanto surgiu. Mas pense em Nínive. Além da
população adulta de mais de meio milhão de pessoas ela ainda
possui mais cento e vinte mil crianças e muitos animais. E todos
eles me pertencem. E se eu estou preocupado com as crianças e
com os animais você acha certo ficar surpreso e ofendido por eu
me preocupar também com os adultos de Nínive? Não é de se espe­
rar que eu me preocupe com o que é meu? A planta nem era sua e
você não queria que ela fosse destruída. Aliás, ela era muito mais
minha que sua, Jonas, e ainda assim você ficou furioso quando a
perdeu. Pense bem, você não acha que tenho razão de demonstrar
misericórdia ao povo arrependido de Nínive? Você acha que posso
me simpatizar com a sua raiva por causa da minha misericórdia,
Jonas? É claro que eu fico irado com os pecadores e com os pecados
deles, e a minha ira aguarda aqueles que se recusam a deixar os
seus maus caminhos. Mas Nínive abandonou seus pecados. Eu não
deveria ficar contente por isso e feliz por poder reconhecer o
arrependimento deles estendendo-lhes a dádiva do perdão?"

As lições de Deus para nós


Desse modo o Senhor ensinou a Jonas duas lições importantes:
a lição da obediência e a lição da compaixão. São lições que nosso
Deus quer que aprendamos e que todos que o servem devem
lembrar. Os ninivitas viveram por causa do perdão, e nós também,
razão por que devemos reconhecer a misericórdia salvadora de
Deus, que ambas as lições pressupõem. Como Deus ensinou a Jonas
a necessidade de ser obediente em seu serviço, precisamos que o
Senhor nos ensine a importância de sempre fazermos o que ele nos
manda. Deus se dispôs a mudar Jonas em um homem de
78 Nunca Perca a Esperança

compaixão. Devemos aprender a ser pessoas compassivas que


amam o seu próximo no mais completo sentido da expressão. Assim
nos tomaremos verdadeiramente pessoas que agradam a Deus pela
obediência consistente à sua Palavra, não fugindo de qualquer tarefa
que nos desagrade. Precisamos agradar a Deus pela confiança em
sua sabedoria à medida em que ele nos submete à disciplina
corretiva para ensinar-nos essas lições. Foi uma medida disciplinar
para Joñas o ter sido ele engolido pelo peixe; foi uma medida disci­
plinar para Joñas o ter a sua querida planta morrido tão depressa.
Por meio dessas experiências Deus estava ensinando a Joñas. Você
e eu devemos estar prontos para ser ensinados também e para
confiar na sabedoria de Deus enquanto ele opera em nós, algumas
vezes nos castigando para nos ajudar a aprender o que ele deseja
que saibamos.
Finalmente, tudo isso precisa ser colocado e visto numa pers­
pectiva Cristocêntrica, trinitariana e voltada para o Espírito de
Deus. Devemos aprender a amar ao próximo, incluindo aqueles
que são hostis e opressivos, meditando no modo como Deus e
seu amor por nós tem agido para nossa salvação - sua e minha.
"... Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigénito"
(Jo 3.16). Jesus, você sabe, falou sobre o sinal de Joñas ao prever a
sua própria morte pelos nossos pecados e sua ressurreição para se
tornar o Salvador que concede nova vida. Depois de entrar no peixe,
Joñas voltou à vida normal e ministrou aos ninivitas como prova
viva da determinação divina de lhes trazer a palavra de julgamento
e misericórdia. Assim também o Filho do Homem retomou à vida
no poder de sua expiação para "pregar a paz" ao mundo pelas
palavras dos seus servos (Ef 2.17) e para se tornar o único Mediador
e Senhor de todos os que nele confiam. Que o impacto de Deus,
mostrado no ministério de Jesus, aquele que é maior do que Joñas,
nos molde como as pessoas misericordiosas, amorosas e
proclamadoras que todos os crentes foram chamados a ser.
Devemos ficar alegres que nosso Senhor, o Deus de Joñas, é
"Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em
benignidade, e que te arrependes do mal" (Jn 4.2). Ele não só é um
Esperança Quando estou Zangado com as Pessoas e com Deus 79

Deus poderoso, senhor do vento e dos mares e do grande peixe,


bem como das plantas e pequenos vermes, mas é também um Deus
misericordioso, calmo e controlado ao ensinar verdade, sabedoria
e boa vontade a pessoas excêntricas, fanáticas e incompassivas como
Joñas, a fim de fazê-las superar a raiva em relação a ele e a
insensibilidade em relação aos outros. Arrogância, raiva e falta de
esperança andam juntas: o arrogante diz a Deus: "minha vontade
seja feita"; o raivoso diz: "é uma afronta que não estás fazendo
minha vontade, mas o oposto"; a conclusão que se tira então é que
"agora tudo vai dar errado" — o que é simplesmente falta de espe­
rança, a motivação mais profunda para o duplo desejo de morte de
Joñas (vs. 3,8). Arrogância e raiva devem ser de algum modo espre­
midas de nós para que confiemos verdadeiramente em Deus, pra­
ticando a obediência como o melhor caminho para nós, e deixando
a política global e a história em suas mãos sábias, generosas e
misericordiosas - e isso Deus faz. No livro de Joñas nós o vemos
fazer isso pelo profeta e aprendemos que com certeza ele fará o
mesmo por nós. Então, como Joñas de nossos dias, louvemos o
Senhor e nos coloquemos em suas mãos para que nos cure.
O Deus, nosso Pai celeste, estamos amedrontados pela visão de tua
sabedoria e paciência com a pessoa difícil que vemos na pessoa de Joñas.
Sabemos que como ele fomos chamados para ser mensageiros de tua
misericórdia para almas perdidas e, como ele, erguemos barreiras em nossos
corações para não cumprirmos a tua missão. Sabemos que no passado
estragamos nosso serviço ao Senhor com o nosso negativismo quanto algu­
mas coisas e nossa rigidez e teimosia em outras, e fechamos os nossos
olhos e ouvidos para as reais necessidades de pessoas que colocaste em
nosso caminho para que as ajudássemos. Em nome de Jesus, teu Filho,
nosso Salvador e exemplo, perdoa-nos os Joñas que temos em nós com
essas falhas feias, e ensina-nos a amar o perdido como tu amas, para que a
luz e o amor de Cristo brilhem em nós enquanto fazemos tua obra. Derreta-
nos, molda-nos, muda-nos, usa-nos e tua seja a glória. Amém.
80 Nunca Perca a Esperança

Estudo
1. Leia o livro de Joñas.
2. Quais as ações que ajudam a revelar o caráter de Joñas? O
que de si mesmo você vê em Joñas?
3. Quais exemplos da graça de Deus você vê na história de
Joñas?
4. Estude as duas descrições de Joñas sobre Deus no capítulo
1.9 e 4.2. De quais maneiras Joñas agiu de acordo com
essas crenças? E quais ações foram incoerentes com essas
crenças?
5. Releia cada uma das descrições de Deus com sua própria
experiência em mente. O que você pode fazer para viver
de acordo com essa crença?
6. Qual foi o valor do grande peixe para Joñas?
7. Quando uma interrupção em sua própria rotina lhe
proporcionou uma melhor compreensão de Deus?
8. Apesar das falhas de Joñas, o que Deus fez por meio dele?
9. Joñas precisava aprender duas lições: a lição da obediência
e a lição da compaixão. O que Deus fez para ensinar ao
profeta essas lições?
10. Como você poderá colocar em prática uma das lições de
Joñas para ajudá-lo em sua vida?

Oração
★ Passe algum tempo em silêncio, refletindo sobre a vida de
Joñas. Peça a Deus que lhe mostre o que você precisa aprender
da experiência de Joñas.
★ Releia o subtítulo "A Misericórdia de Deus" (pág. 72). Adore
a Deus, louvando-o por sua graça. Depois lembre-se das ações
específicas de Deus ou misericórdia em sua vida e agradeça-
lhe por isso.
★ Joñas reclamou em 4.2: "... sabia que és Deus clemente, e
misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade,
e que te arrependes do mal". Fale com o Senhor sobre sua
Esperança Quando estou Zangado com as Pessoas e com Deus 81

própria reação a esses aspectos do caráter de Deus.


* Releia o parágrafo final deste capítulo (págs. 78,79). Use isso
como base para sua própria oração.

Escreva
O tempo que Jonas passou dentro do peixe deu-lhe a
oportunidade de afastar tudo que distraía sua atenção e de ser
honesto com Deus (a maioria de nós não precisa de quase se afogar
para experimentar isso). Crie seu próprio "peixe" achando um
tempo apropriado e local para se comunicar em particular com
Deus. Peça-lhe que sonde seu coração sobre a direção atual de
sua vida (você é obediente a Deus como deve ser? Tem compaixão
por outros - mesmo aqueles de quem não gosta?). Escreva sua
oração e meditação.
CHARCA
Lucas 10. 38-42;
João 11.1-44; 12.1-8
Marta, a irmã de Maria, naturalmente assumia o controle da
situação, uma líder por instinto. Não há nada errado nisso. Nós
precisamos de pessoas assim e a vida parece não ter chance de ir
bem sem elas. São sempre extrovertidas, exuberantes, que têm
grande prazer em dirigir as coisas. O perigo é que essa liderança
pode se tornar manipulação, transformando a prestação de serviço
aos outros em tirânico serviço de interesse pessoal. Marta não
estava imune a esse perigo, como veremos brevemente.
Nós encontramos Marta primeiro como uma anfitriã. Jesus,
como sabemos, veio a uma vila onde morava uma mulher chama­
da Marta, que abriu sua casa para ele (Lc 10.38). Sabemos como é re­
ceber visitas em casa. O que nosso coração diz é, Essa é a minha casa.
Bem-vindo. Estou feliz em tê-lo aqui - mas lembre-se, aqui mando eu.
Ser anfitrião ou anfitriã é estar no papel de líder e podemos ver
isso claramente em Marta. Liderança, como acabamos de dizer,
pode ser um problema, uma pedra de tropeço na vida espiritual. O
que nós, como Marta, temos que aprender é que quando estamos
compartilhando nossa vida com o Senhor Jesus Cristo, não estamos
no comando. Ele é quem manda. Enquanto seguimos Marta através
dos três episódios onde as Escrituras a mostram em ação, podemos
vê-la aprendendo essa lição. Muitos hoje parecem estar dizendo
ao Senhor Jesus: "Estou feliz por tê-lo em minha vida — mas lembre-
se, aqui mando eu". Nós perdemos muitas bênçãos e roubamos
84 Nunca Perca a Esperança

de Deus muitas glórias se procedemos assim. A história de Marta


pode nos mostrar um rumo diferente.

Marta manipulando Jesus


Vamos encontrar manipulação no final de Lucas 10. Aqui está
o que o texto diz:

Indo eles de caminho, entrou Jesus num povoado. E certa


mulher, chamada Marta, hospedou-o na sua casa. Tinha ela
uma irmã, chamada Maria, e esta quedava-se assentada aos
pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos. Marta agitava-
se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços. Então,
se aproximou de Jesus e disse: Senhor, não te importas de
que a minha irmã tenha deixado que eu fique a servir so­
zinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me.

Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta


e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é
necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a
boa partel, e esta não lhe será tirada (Lc 10.38-42).

O que está acontecendo aqui? Por que Jesus está repreendendo


sua anfitriã? Para não interpretarmos mal o que lemos, devemos
observar de uma vez que não era por Jesus ter qualquer atitude
negativa em relação às mulheres, como se ele achasse ser uma
prerrogativa masculina a de aproveitar todas as oportunidades para
dizer às mulheres que elas estão erradas. Às vezes os cristãos são
acusados de verem a mulher como um ser inferior ao homem e
alegam que o apóstolo Paulo e o Senhor Jesus são diretamente res­
ponsáveis por isso. Isso é calúnia. É totalmente falso. A verdade é
exatamente o oposto. Jesus veio a um mundo em que a cultura
pagã assumia como ponto pacífico que a mulher era inferior ao
homem. Mesmo na cultura judaica as mulheres não eram consi­
deradas em pé de igualdade com os homens — embora a mãe judia
fosse respeitada pela sua maternidade e fosse responsável pelo lar.
•j
O grego diz "escolheu o que é bom". Jesus não está comparando as escolhas mas
afirmando que a escolha de Maria possuía valor eterno.
Esperança Quando Falsas Prioridades Me Traem 85

Mas havia uma oração que os meninos aprendiam a fazer, em que


agradeciam a Deus por não terem nascido pagãos, nem escravos,
nem mulheres. Isso tem algum significado. Porém Jesus recebeu
mulheres como discípulas exatamente como aceitou homens. Ele
tinha amigas, tanto como tinha amigos. Ele não fez distinção entre
eles e com essa atitude deu início a uma nova era para as mulheres
na história do mundo. Ele, e depois Paulo, aplicando essa atitude,
fez mais para projetar o valor da mulher e elevar sua posição no
pensamento da sociedade do que ninguém jamais fez. Não devemos
pensar que quando Jesus repreendeu Marta foi por ter a intenção
de rebaixar as mulheres. Definitivamente não foi isso. Ele repre­
endeu Marta porque ela na verdade se rebaixou e Jesus queria fazer
dela uma discípula melhor do que ela era naquele momento.
Um pouco de imaginação vai nos mostrar o que estava
acontecendo. Estavam na casa de Marta. O que provavelmente
significa que ela era viúva, pois sob circunstâncias normais na
antiga Palestina uma mulher não tinha propriedades — mas uma
viúva, sim. Marta tinha uma irmã chamada Maria, que vivia com
ela, e um irmão chamado Lázaro, que também parecia viver na
mesma casa. Nesse dia Marta ouviu alguém bater à porta, foi ver
quem era e encontrou treze inesperadas visitas: Jesus e seus doze
discípulos. O que uma boa dona de casa faz quando recebe treze
visitas inesperadas? Tranquilamente e sem deixar óbvio que está
em choque, ela respira fundo e então diz: "Oi, que bom que vocês
vieram. Entrem".
Pelo modo de Lucas contar a história é claro que Marta e Maria
já conheciam a Jesus. A hospitalidade, normalmente para um
pernoite, muitas vezes por um período longo, era um padrão e
uma virtude esperada no mundo antigo. No vilarejo de Betânia,
Jesus e seus discípulos sabiam que poderiam contar com a casa de
Marta. Hoje em dia, quando são tantos os recursos de comunicação,
não seria polido treze pessoas chegarem à porta de alguém sem
pelo menos ter telefonado para alertar a dona da casa que estariam
a caminho. Mas o telefone não existia naqueles dias — nenhum
meio para anunciar com antecedência a chegada deles. Então,
86 Nunca Perca a Esperança

aqueles que tinham sua casa deviam estar preparados para receber
visitas inesperadas. Mesmo assim, treze pessoas deve ter parecido
um pouco de gente demais.
Mas Marta enfrenta a situação. Ela convida Jesus e seus discí­
pulos a entrar. Eles vieram caminhando; estavam cansados;
sentaram-se. E Jesus transformou seu descanso em uma aula. Eu
presumo que ele tenha sentado como um rabi, em uma cadeira no
centro de um semicírculo de seus discípulos — ou talvez todos
tenham sentado no chão. Maria entra na ponta dos pés e senta em
uma das extremidades do semicírculo. Ela também quer ouvir e
aprender. Então a aula continua quando de repente há uma
interrupção. Atrás do semicírculo, olhando sobre as cabeças dos
discípulos, está Marta com suas mãos em seus quadris. O rosto
dela está vermelho. Ela interrompe a conversa e diz em voz alta,
estridente e marcante: "O Senhor acha certo que minha irmã me
deixe fazendo todo o trabalho sozinha? Diga para ela ir me ajudar".
Ela está furiosa. Está fazendo uma cena. Ela perde o controle. Não
é um bom comportamento para quem está recebendo visitas. Está
se desvalorizando. Jesus é severo com ela, mas como você deve
concordar, acho que nesse caso ela precisava dessa severidade.
Se você prestar atenção às palavras de Marta, ela realmente
está dizendo três coisas. Uma é que ela quer ser notada. "O Senhor
acha certo que minha irmã me deixe fazendo todo o trabalho
sozinha? Estou trabalhando bastante. Estou preparando comida
para treze visitantes que eu não convidei. Você compreende?
Notou isso?" Há uma certa dose de orgulho e autopiedade nisso.
Marta quer a admiração e simpatia de Jesus e naquele momento
não podia continuar sem elas.
E tem mais. "Diga para ela ir me ajudar," diz Marta. Nessas
palavras há outra coisa. Ela quer dominar sua irmã, ou em outras
palavras, ela quer dirigir a vida da Maria. Maria vive na casa de
Marta, e Marta quer ter o poder de decidir quando Maria vai ajudá-
la na cozinha. As vezes você encontra isso nas famílias hoje. Os
irmãos ou irmãs mais velhos tentam controlar os irmãos mais
Esperança Quando Falsas Prioridades Me Traem 87

novos e forçá-los a fazer o que eles, os mais velhos, querem. Para


os irmãos mais novos essa pode ser uma experiência difícil. Nesse
caso tenho certeza que foi um momento difícil para Maria. Você
pode imaginá-la olhando para o chão com o rosto vermelho
enquanto ouve Marta dizer essas coisas? Eu posso.
Depois há uma terceira coisa — a pior de todas. Marta está na
verdade tentando manipular Jesus, usar Jesus para atingir sua irmã
Maria. "Diga para ela ir me ajudar", ela diz. É como se Marta disses­
se: "Essa minha irmã é uma folgada, daquela que se eu chegar
discretamente e simplesmente bater de leve no ombro dela e
sussurrar: Estou ficando doidinha lá na cozinha — você pode me
dar uma mãozinha? ela não iria. Por isso você vai ter de mandar
que ela vá, Jesus". Marta, na verdade, está responsabilizando Jesus
pela situação e está tentando fazer que ele tenha um sentimento
de culpa por Maria o estar ouvindo e então mande Maria para
ajudá-la na cozinha. Mau comportamento? Bem, sim. Mas Marta
perdeu o controle. Quando ficamos furiosos perdemos o controle
e dizemos coisas ruins. É o que está acontecendo aqui, então você
não pode se surpreender de Jesus ser tão severo com Marta. Ele
tinha de acalmá-la, restaurar o seu equilíbrio e reordenar o seu
senso de prioridades. Veja como ele fez isso.

Jesus responde
A primeira coisa comunicada nas palavras de Marta era que ela
queria ser notada. A resposta de Jesus a ela começou com: "Você
está nervosa e preocupada por vários motivos". Em outras palavras:
"Marta, você está sendo notada. Eu sei o que você está fazendo e
sou-lhe grato. Não tenha dúvida disso". Você e eu deve-mos ter
em mente que Jesus sabe tudo o que se passa. Ele nunca se esquece
dos seus. Embora nós às vezes o esqueçamos, na verdade ele nunca
se esquece de nós. Ele é assim maravilhoso. O "o Senhor acha certo"
de Marta nos lembra quando Jesus ador-mece durante a tormenta
e seus discípulos o despertam com palavras parecidas (Mc 4.38);
em ambos os casos "eu me preocupo com você" foi o que ele quis
88 Nunca Perca a Esperança

dizer com a sua resposta. Lá na cozinha, preparando a comida, ou


talvez preparando treze camas em algum lugar da casa, Marta
deveria ter certeza de que Jesus sabia de seu esforços. Mas sua
autopiedade a fez se esquecer disso. O Senhor teve de lembrá-la
que ele sabe, e se preocupava com ela.
A segunda coisa que Marta expressou foi que ela queria
controlar a vida de Maria arrastando-a para a cozinha. A isso,
Jesus responde que Maria havia feito uma boa escolha e isso não
lhe seria tirado. "Marta, esse ressentimento pela ausência dela na
cozinha é uma atitude que você não deveria ter. Em vez de tentar
arrastá-la desse jeito, você devia estar feliz por Maria ter essa
oportunidade de sentar aqui, me ouvir e aprender comigo. Por
que você não pensa nisso como um presente para ela?" Do mesmo
modo eu e você devemos nos sentir felizes por proporcionar a
alguém a oportunidade de aprender as coisas de Deus, estudando
as Escrituras (que é como Jesus ensina o seu povo atualmente).
Vale a pena nos esforçarmos para dar às pessoas essa
oportunidade. Está claro que foi isso que Jesus pensou quando
lembrou a Marta que Maria estava observando a primeira
prioridade da vida.
A terceira coisa que Marta expressou em suas palavras, como
se viu anteriormente, foi o desejo de manipular Jesus como
ferramenta contra sua irmã. Ela pretendia usá-lo como um martelo
para bater na cabeça de Maria. E nisso Jesus foi firme com Marta,
não lhe dando a menor chance de fazer o que pretendia. Segundo
ele, somente uma coisa era necessária. Maria havia feito a boa
escolha e isso não lhe seria tirado: “Eu não vou mandar Maria para
a cozinha”.

Revezamento de Maria e Marta


Mas precisamos entender que Jesus não estava repreendendo
Marta por não fazer parte do grupo que o ouvia, sentada ao lado
de Maria e aprendendo assim como sua irmã. Se Marta tivesse
feito isso, os hóspedes não teriam o que comer. Jesus aprovava o
Esperança Quando Falsas Prioridades Me Traem 89

fato de Marta estar na cozinha preparando a comida para eles,


assim como aprovava o fato de Maria estar ali sentada aos seus
pés e ouvindo seus ensinamentos. Responsabilidades circunstan­
ciais não devem ser ignoradas em favor de exercícios devocionais,
nem vice-versa. Marta estava fazendo a coisa certa para aquela
ocasião, e Maria também, embora estivessem fazendo coisas
diferentes. A lição que nós devemos aprender aqui é sermos Marta
e Maria alternadamente. Quando a comida estiver pronta Marta
poderá juntar-se ao grupo, aprender de Jesus e aprofundar seu
relacionamento com ele — como Maria estava fazendo. Mas até
que os afazeres relativos à hospitalidade estivessem terminados,
o lugar de Marta era nos bastidores, fazendo o que deveria ser
feito para hospedar Jesus.
Alguns interpretam as palavras de Jesus como se Maria tivesse
sido justificada por não ajudar na cozinha e Marta sido repreen­
dida por estar cozinhando. Não acho que essas explicações estejam
corretas. Segundo a vontade de Deus e o desejo de Cristo para
aquela discípula, Maria deveria, de vez em quando, ajudar Marta
em casa — mas não específicamente naquele momento. E Marta
foi chamada para — após cumprir suas tarefas como anfitriã —
se juntar a Maria como aluna de Jesus, ouvindo sua palavra e
desse modo se beneficiando. Mas Jesus foi obrigado a repreender
Marta, porque ela se expôs devido à sua atitude tanto para com
ele como para com Maria.
Vamos aprender então que devemos ter em nossa vida espaço
para fazer o que Maria fez: investir tempo no estudo da Palavra de
Deus, aprendendo de Jesus, ouvindo-o em adoração — essa é a
atividade mais importante em que podemos nos envolver. Mas
aprendamos também que em algumas ocasiões temos de fazer
coisas práticas e úteis em casa ou na igreja. Não devemos supor
que a intensidade da devoção nos desobrigue dessas tarefas. Alguns
de nós refreamos o lado Marta de nossa disciplina, assim como
alguns de nós refreamos a leitura da Bíblia e às orações — o lado
Maria de nosso discipulado. E refrear ambos é errado. O nosso
Senhor Jesus espera coisa melhor, do que isso, de todos nós.
90 Nunca Perca a Esperança

A morte de Lázaro
Agora vamos ver outro episódio envolvendo Marta. Em João
11 encontramos Marta e Maria novamente. Marta aparece dessa
vez numa perspectiva bem melhor que na história anterior e
vamos ouvir dela uma maravilhosa confissão de fé. Mesmo assim,
vamos encontrar de novo a Marta mandona tentando determinar
o que o Salvador devia fazer e na verdade atrapalhando Jesus no
que ele veio fazer. E uma linda história, maravilhosamente conta­
da, que deve ser lida e relida.
E a história da ressurreição de Lázaro — um dos mais surpreen­
dentes milagres que Jesus realizou. Ela começa a ser contada desde
quando Lázaro estava muito doente. Lázaro era irmão de Marta e
Maria e as irmãs mandaram dizer a Jesus: "Senhor, está enfermo
aquele a quem amas " (Jo 11.3). E uma frase surpreendente "aquele
a quem amas". Claramente um relacionamento muito íntimo foi
estabelecido entre Jesus e aqueles três irmãos: Lázaro, Marta e
Maria. O episódio de João 11 aconteceu provavelmente dois anos
depois daquele que foi registrado em Lucas 10. Com certeza Jesus
voltou a Betânia de vez em quando desde então e sua amizade
com o trio cresceu. Nesse contexto Jesus toma conhecimento de
que uma pessoa de quem ele havia passado a gostar tanto, estava
doente e morrendo.
Para surpresa de seus discípulos, que esperavam que ele fosse
imediatamente a Betânia e curasse Lázaro, Jesus não se moveu por
alguns dias, até ficar sabendo — com seu divino poder de saber à
distância — que seu amigo doente havia morrido. Por fim, foram
todos a Betânia. Os discípulos não tinham a menor idéia do que
Jesus ia fazer quando chegasse lá. Eles não esperavam nada especial.
Não compreendiam por que ele se atrasou. Pelo que sabemos de
Tomé, ele devia ser um tanto pessimista, sempre vendo o lado
sombrio das coisas. Ele disse para os outros discípulos: "Vamos
também nós para morrermos com ele" (Jo 11.16). Ele, no caso,
poderia ser Jesus, cuja vida estava em risco em Jerusalém e em
seus arredores (ver 10.31- 39; 11.8). Mas eu acho que ele era Lázaro
Esperança Quando Falsas Prioridades Me Traem 91

e o que Tomé quis dizer foi: "Bem, ele está morto. Vamos e pelo
menos podemos participar da choradeira embora fazer isso seja
pior do que a morte". Então os discípulos estavam longe de esperar
um milagre — mas Jesus sabia muito bem o que ia fazer.

A cena em Betânia
Jesus se aproxima de Betânia, que ficava pouco mais de três
quilômetros de Jerusalém. Ele não estava muito longe da casa
onde as duas irmãs e Lázaro moravam. Lemos em João 11.20:
"Marta, quando soube que vinha Jesus, saiu ao seu encontro"
(alguém deve ter corrido até a casa e dado a notícia). Ao encontrá-
lo ela lhe disse: "Senhor, se estiveras aqui, não teria morrido meu
irmão". Marta achava que naquele caso ela teria visto um milagre
de Jesus. Outra coisa que ela disse foi: "Mas também sei que,
mesmo agora, tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá"
(v.22). Essa foi uma maneira indireta e desafiadora de dizer: "Eu
tenho certeza de que alguma coisa ainda pode ser feita. O Senhor
não pode pedir ao seu Pai para lhe dar capacidade de ressuscitar
o morto? Pode, sim, não pode?". Ela não tem certeza. Ela diz "eu
sei", mas mais como uma gentileza do que como uma expressão
de fé. Na verdade, ela não sabia. E ela mesma não levava a sério a
sua fantasia (até o momento não era mais do que isso) de que
Jesus poderia chamar Lázaro de volta à vida. Ela não insiste no
pensamento quando Jesus lhe fala sobre outra coisa.

A confissão de Marta
Em resposta às tristes palavras de Marta — de boas-vindas,
afirmação e confiança — o que Jesus faz é procurar descobrir o
que há no coração dela. "Sabe, Marta, o seu irmão vai viver de
novo." Marta responde (e fé forte e real é algo muito louvável):
"Eu sei... que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia"
(Jo 11.24). Marta era uma israelita devota e tinha certeza da ressur­
reição do corpo. Os hebreus estavam divididos quanto ao assunto
da futura ressurreição: os fariseus concordavam; os saduceus não.
92 Nunca Perca a Esperança

Com certeza Jesus havia falado sobre a ressurreição e Marta, Maria


e Lázaro haviam aprendido com ele. Então, aqui está Marta
declarando com confiança o que havia aprendido com o Senhor.
E então Jesus lhe diz algo que ela não tinha ouvido antes. Como
nós hoje, ela precisava aprender isso: "Eu sou a ressurreição e a
vida. Quem crer em mim, ainda que morra (como era o caso de
Lázaro), viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá,
eternamente. Crês isto?" (Jo 11.25,26). Marta respondeu de forma
positiva com aquela confissão magnífica, certa, verdadeira e um
modelo para nós: "Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o
Filho de Deus que devia vir ao mundo" (v.27). Foi como se ela
afirmasse ser ele o Salvador vindo de Deus. O nosso Rei. A nossa
esperança. Ela reconhecia que ele havia sido enviado por Deus para
trazer-nos vida, que ele era mais que humano; era divino. Aí está
no coração de Marta uma fé real — como deve estar em nosso
coração também se pudermos ecoar essas palavras e aprendermos,
como Marta aprendeu, a buscar a companhia de Jesus. Ela agora
aprendeu a aprender com ele. Nós quase podemos dizer que ela
está sendo como Maria. Marta está cumprindo aquele elemento do
discipulado devotado para o qual ela, Maria e nós fomos chamados:
ela ouve Jesus e crê nele. Jesus diz: "Eu sou a ressurreição e a vida".
"Sim, Senhor", diz Marta. "Eu creio nisso. És Salvador de Deus e
eu creio que aquele que crer em ti nesta vida vai sempre desfrutar
dessa comunhão contigo agora e para sempre. Tal pessoa, eu sei,
terá entrado na vida eterna — uma vida completa que não tem
fim." Foi uma grande confissão a de Marta. Vamos aprender a
confiar em Jesus do modo como ela o fez.
A fé de Marta era fruto da prova e ensinamento de Jesus. A con­
fissão que ele obteve dela a mostra como uma crente magnífica.
Agora ela volta para casa e diz a Maria que Jesus gostaria de vê-la.
Maria chega, e todos vão ao túmulo. Maria estava em prantos e diz
a Jesus exatamente o que Marta tinha dito: "Senhor, se estiveras aqui,
meu irmão não teria morrido" (Jo 11.32). Mas Maria não consegue
dizer mais nada. Ela ainda não sabia, assim como Marta também
Esperança Quando Falsas Prioridades Me Traem 93

não, que Jesus tem poder para ressuscitar os mortos. As lágrimas


de Maria tiraram de Jesus um profundo suspiro e um som gutural
de exclamação como se ultrajado pelo modo como a mor-te agride
a bondade do mundo de Deus, e ele pede para ser levado ao túmulo
(vs. 33,34), o que eles fazem. Alguns pranteadores que estavam
com as duas mulheres na casa foram ao túmulo também. Todos
choravam e Jesus sentiu compaixão por eles (v.35), chorando também.
Alguns desses amigos disseram (v.37): "Não podia ele, que abriu os
olhos ao cego, fazer que este não morresse?" Todos eles sabiam, mais
ou menos com certeza, que Jesus podia curar milagrosamente uma
doença. Mas nenhum deles sabia ainda, com a mesma certeza, que
ele podia ressuscitar os mortos, embora todos desejassem isso
intimamente. Mas a boa notícia estava a caminho.

Obstrução novamente
Quando eles chegaram à pedra do túmulo, Jesus mandou que
retirassem a pedra, uma rocha sólida que estava bloqueando a
entrada. Marta não entendeu por que Jesus disse isso. Ela supôs
que ele queria ver o corpo. Podemos entendê-la achando que Jesus
queria dar uma última olhada em seu amigo que se foi. Mas Marta,
com sua mentalidade hospitaleira reaparecendo num último rom­
pante de autoritarismo, diz que eles não deveriam fazer isso. Outra
vez ela tenta determinar as ações do Senhor, dissuadindo-o de
tirar a rocha porque ela tinha certeza do mau cheiro. Naquele
momento parecia-lhe mais importante poupar Jesus do mau cheiro
do que qualquer outra coisa. De novo ela acha que o está respei­
tando ao dizer-lhe o que acha que ele deveria fazer, sendo Jesus
uma pessoa tão importante. Mas outra vez ela atrapalha o pro­
pósito do Mestre por forçar a sua vontade em vez de aceitar a
dele: "Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias" (v.39).
Essa declaração é que me leva a crer, como disse anteriormente,
que Marta atrapalhava a Jesus.
Marta não levou a sério naquele momento seu próprio sonho
de que Jesus poderia trazer seu irmão de volta à vida, e por causa
94 Nunca Perca a Esperança

do cheiro, ela achou que seria melhor que a pedra permanecesse


onde estava. Naturalmente, se a pedra permanecesse onde estava,
não haveria possibilidade de Lázaro sair. Nesse momento a fé de
Marta evidencia seu limite. Marta, sem perceber, estava impe­
dindo Jesus de fazer o que planejava. Estava para acontecer um
milagre — milagre grande e público — um milagre desafiador
que Jesus estava decidido a realizar perante várias testemunhas,
para demonstrar quem ele é — o único que é a Ressurreição e a
Vida. Então Jesus enfrenta a tentativa de obstrução de Marta: "Não
te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus?" (v.40). Essa é a
frase: "a glória de Deus", significa o que se pode ver de Deus como
quer que seja. É o poder, a grandeza, a sabedoria, a misericórdia
e a majestade de Deus em ação. E foi exatamente isso o que todos
eles viram. Removeram a pedra ao comando de Jesus e Lázaro
saiu vivo. Jesus sabia o que estava fazendo.
Marta não tinha intenção de atrapalhar, mas foi o que ela fez.
O problema foi que seu instinto de assumir e estar no comando e
decidir o que era ou não o melhor a fazer a estava guiando. Por
causa disso, ela não estava deixando sua verdadeira fé ensinar-
lhe submissão à sabedoria e ao poder de Jesus. Você e eu podemos
aprender com ela. Confiança é sabedoria. Nosso Senhor, nosso
Salvador, sabe o que está fazendo com nossa vida. Devemos evitar
controlá-lo quando ele está em ação. Devemos superar nossa
desconfiança nele. Eu digo desconfiança porque seu coração, como
o meu, ainda tem pecado rondando-o. E sempre o instinto de
descrença tentará nos levar a não confiar em nosso Senhor. Desde
o Jardim de Éden a dúvida a respeito do que Deus disse — o pe­
cado original do qual procedem a nossa inclinação pecaminosa e
todas as nossas ações pecaminosas — abre uma porta para pecados
de todos os tipos. Precisamos aprender a reconhecer a descrença
como sendo o enorme e monstruoso gesto anti-Deus que ela é e a
lhe dizer não quando nos vemos envolvidos com qualquer forma
de insubordinação a qualquer palavra vinda de Deus. Não po­
demos duvidar que Marta percebeu depois como foi tola e incré­
dula ao tentar evitar que Jesus removesse a pedra.
Esperança Quando Falsas Prioridades Me Traem 95

Você e eu também temos essas experiências. Com timidez e


descrença nós tentamos impedir que Jesus opere a seu modo, sem
restrições em nossa vida e aprendemos pela experiência que não
é produtivo seguir esse caminho. Podemos ter a certeza que vamos
encarar muitas situações nas quais nos sentiremos tentados a
recuar da mesma forma. Que o exemplo de Marta nos ensine a
perversidade desse ato quando nossas mãos estão nas mãos de
Cristo e ele, nosso Salvador e Mestre, está nos levando ao nosso
lar, deste mundo para a glória.

A honra de Marta
Mas existe um outro acontecimento na vida de Marta que
devemos observar. Vimos Marta manipulando Jesus (ou tentando
fazer isso). Vimos Marta obstruindo a ação de Jesus — embora
ela não compreendesse que era isso que fazia. Agora no último
vislumbre que temos de Marta, a discípula devota, o que podemos
ver é ela realmente honrando Jesus. Ela honra Jesus, e ele aceita a
honra. Fazendo isso ele honra Marta. É como se Jesus dissesse:
"Marta, você está agindo corretamente. Você está indo bem". A
história está nos três primeiros versículos de João 12, seguindo
exatamente desde a ressurreição de Lázaro. Nós lemos o seguinte:

Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, onde


estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos.
Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia, sendo Lázaro
um dos que estavam com ele à mesa. Então, Maria, tomando
uma uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso,
ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e
encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo.

Vemos duas coisas aqui. Uma é que Marta serviu a refeição


em sua casa. Ela ainda é a anfitriã e está promovendo o jantar de
celebração em honra a Jesus. Assim pelo seu serviço ela o exalta,
o que ela agora quer fazer mais que qualquer outra coisa. A segun­
da coisa é que quando Maria faz um gesto extravagante de ado­
ração ao Senhor, a quem ela ama tão profundamente, Marta não
96 Nunca Perca a Esperança

diz uma palavra. Marta reconhece que Maria tem o direito de


expressar sua adoração a Jesus à sua maneira. Marta não chama a
atenção de Maria dizendo: "Ah, você não devia ter feito isso!"
Essa foi a reação de Judas (Jo 12.5): "Por que não se vendeu este
perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?" Mas
esse é Judas. Maria fez o que fez porque ela ama Jesus, o que é
algo que Judas não entendia. E como disse, Marta não critica. Ela
entende. Marta tinha aprendido a não ser negativa quanto à
devoção dos outros. Ela deixa Maria livre para honrar Jesus a seu
modo — assim como Marta honra o Senhor organizando essa ceia
em sua homenagem. Então, também desse modo, Marta está
honrando a Jesus. Ela é uma discípula melhor, mais sábia agora
do que quando nós a encontramos.
Preparar e servir a refeição ainda era, como tinha sido antes,
servir na retaguarda. Marta teve de gastar horas na cozinha fazendo
o jantar. Mas ela não perdeu a paciência dessa vez. Ela sabia o que
devia fazer, e fez. E Jesus valorizou a iniciativa de Marta tanto nessa
ocasião como o fez na anterior, quando a corrigiu.
Da experiência de Marta com Jesus podemos aprender que ele
valoriza tudo o que fazemos na retaguarda, trabalhos que poucos
vêem — se é que alguém nota — e ninguém agradece. Talvez sejamos
tentados a perder a paciência porque damos tanto de nós mesmos
servindo outras pessoas e parece que ninguém liga para isso. O
modo mais apropriado de lidar com esse sentimento é dizer: "Jesus
está vendo". E está mesmo. Quando servimos outros por causa
dele, é a ele que de fato servimos, como fez Marta naquele banquete.
Alguns de nós, como Marta, com a melhor das intenções deste
mundo, achamos muito difícil não ser autoritários, como ela natu­
ralmente era, chegando à conclusão de que o que achamos ser o
melhor tem de ser o que Deus quer também e então não distin­
guimos nossa vontade da dele. Esses egocentrismo e orgulho não
percebidos descaracterizam nosso discipulado e nos tornam às
vezes um peso para nossas famílias e amigos. Mas Jesus, como
vemos, levou Marta a superar isso, o que nos dá a esperança de
Esperança Quando Falsas Prioridades Me Traem 97

que ele faça o mesmo para nós também. Louvado seja seu nome!
Ah, Senhor nosso Deus, nos prostramos diante de ti para confessar
nossa necessidade da mesma tolerância e misericórdia que vemos em
Jesus seu Filho, quando ele ajuda a tua serva Marta a superar a vontade
própria. Reconhecemos em nós os mesmos hábitos de tratar nossas
próprias idéias como preceitos e prioridades para os outros, e a mesma
voluntariedade ao tentar conduzir e manipular outras pessoas para
fazerem as coisas a nosso modo, e a mesma irreverência em tentar dobrá-
lo ao nosso desejo, de modo que a nossa vontade seja feita e não a tua.
Precisamos nos conhecer melhor, confiar menos em nós mesmos e ter
mais humildade e mais dependência da tua sabedoria. Pedimos por essas
boas dádivas agora, em nome de Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Estudo
1. Quem é a "Marta" favorita em sua vida? O que você aprecia
nela?
2. Reveja o trecho "Marta Manipulando Jesus" (págs. 84-87).
O que cada uma das três reclamações de Marta sugere
quanto à necessidade dela crescer no discipulado?
3. Como Jesus usa cada reclamação para direcionar Marta a se
tomar uma discípula melhor?
4. Leia João 11.1-44. Que cenas dessa história permaneceram
em sua mente?
5. Os versículos 5 e 6 dizem que Jesus amou Marta, sua irmã e
Lázaro. Mesmo quando soube que Lázaro estava doente,
ele permaneceu onde estava por mais dois dias. Por que
você acha que Jesus fez isso?
6. Examine os versículos 17-27. Que passos levaram Marta a
declarar sua fé? (v.28).
7. Leia devagar e em reflexão a declaração de fé dos versículos
25,26. Em quais situações específicas essas palavras lhe
trazem esperança?
98 Nunca Perca a Esperança

8. Leia João 12.1-3. Quais expressões de obediência a Jesus você


vê ali?
Ao ver como cada um dos três irmãos expressa sua devoção a
Jesus nesses versículos, qual modo está mais próximo ao
seu próprio modo natural de expressão?
9. Reveja a seção "Revezamento de Maria e Marta" (págs. 88-
89). Você poderia dizer que em sua obediência a Jesus você
é mais como Marta ou mais como Maria. Explique.
10. "Nós todos temos que aprender a... ser Maria e Marta
alternadamente." O que você deve fazer para desenvolver
o discipulado em sua área mais falha?

Oração
★ Converse com Deus sobre qualidades de Maria e de Marta
em seu modo de servi-lo. Peça-lhe que examine o seu coração,
reforçando o que há de positivo em seu discipulado e reve­
lando as fraquezas. Depois confesse a ele essas fraquezas. Peça
que Deus o fortaleça nessas áreas fracas — depois compro­
meta-se a fazer o trabalho.
★ Na presença de Deus examine seus motivos para atos
específicos no trabalho. Você está realmente procurando
reconhecimento e recompensa? Você fica, como Marta, frus­
tado quando as pessoas não percebem seu trabalho árduo?
(Ou você não tem apreciado o trabalho de outros?) Peça a Deus
para purificar seus motivos. Saiba que seu Senhor vê e seu
Senhor se importa — independentemente da atitude dos outros.
★ Pense na possibilidade de aceitar uma tarefa em particular
não para ter reconhecimento humano. Como disciplina espi­
ritual faça-a da melhor forma que puder — como um serviço
a Deus.
★ Medite em cada frase da declaração e confissão de Marta a
Cristo em João 11.25,26. Use cada frase como ponto de partida
para sua própria oração a respeito desse assunto.
Esperança Quando Falsas Prioridades Me Traem 99

Escreva
João 11 é um vívido relato da morte. Escreva suas próprias
reflexões sobre a morte. Você pode relatar os acontecimentos
envolvendo a morte de alguém que você ama — ou seus temores
de que isso ocorra no futuro. Use palavras para, em sua mente, dar
forma ao que aconteceu ou pode acontecer. Seja honesto ao encarar
suas tristezas e medos. Mas também escreva sobre as suas reflexões
acerca da presença e conforto de Deus durante esse tempo.
Ao terminar de escrever, copie as palavras de Jesus em João
11.25. Depois escreva sua resposta à sua pergunta.
6
Esperança Quando Acho
Difícil Acreditar

come
João 20.19-31

Tomé disse: "Olha, rapazes, nem que eu veja a marca dos


pregos nas mãos dele e coloque meu dedo onde os pregos estavam,
e coloque minha mão no seu lado, ainda assim eu não vou crer".
Crer no quê? "Não vou crer que vocês (e ele está falando com dez
dos doze discípulos iniciais) viram o Senhor como estão dizendo".
Que modo extraordinário de Tomé reagir — não acha? O que
será que estava acontecendo? Vamos investigar.
Isso foi à tardinha no dia que mudaria o mundo literalmente
— o dia em que Jesus, que tinha morrido em sacrifício por nossos
pecados levantou da morte e apareceu vivo e bem, novamente no
planeta Terra. Foi a tarde mais importante para os discípulos. Eles
tinham estado reunidos atrás de portas trancadas, e a razão para
se esconderem é que eles estavam com medo dos judeus. Os
líderes religiosos judeus haviam recentemente matado seu Mestre
e agora os discípulos temiam que as mesmas pessoas pudessem
estar atrás deles. Então eles trancaram a porta. Só isso já diz que
eles estavam com medo, que eram um grupo sem esperança no
futuro, e poderiam somente manter a cabeça baixa e tentar não
ser notados. Com certeza eles não estavam nem perto da alegria
de saber que Jesus tinha ressucitado e lhes dava uma vida
totalmente nova.
É verdade, o túmulo havia sido encontrado vazio de manhã
cedo, mas foram mulheres que o encontraram, então... (não era
102 Nunca Perca a Esperança

costume dos judeus do século 1° levar a sério coisas que mulheres


lhes diziam). Mas não se convenceram mesmo confirmando com
Pedro e João que foram lá e viram que o túmulo estava realmente
vazio, e nem com Maria Madalena vindo a eles, dizendo: "Eu vi o
Senhor. Eu vi mesmo. Pensei que fosse o jardineiro, mas ele falou
comigo e então eu fiquei sabendo que era ele". Mesmo assim eles
não creram. Então, agora eles estavam reunidos atrás das portas
trancadas tentando manter-se animados. Eles eram homens
dignos de pena, por estarem fugindo amedrontados.

Alegria através de uma porta trancada


E então, de algum modo, através da porta trancada (eles nunca
descobriram como) Jesus apareceu com o seu corpo ressuscitado.
Depois de sua ressurreição ele podia fazer essas coisas como
aparecer e depois desaparecer e então aparecer em outro lugar.
Há vários relatos do Senhor ressuscitado fazendo isso. Esse é um
deles. De repente Jesus estava lá, em pé no meio deles.
Então ele falou com eles e suas primeiras palavras foram "A
paz seja com vocês". Naqueles dias esse era o cumprimento
normal como quando nos encontramos com alguém pela rua e
dizemos: "Oi". Mas quando Jesus disse: "A paz esteja com vocês",
ele quis dizer muita coisa e eu acho que ele falou bem devagar
para que os discípulos pudessem pensar sobre seu significado.
Paz (Hebreu, slialom, Grego, eirene) é uma das grandes palavras
da Bíblia em ambos os Testamentos. Seu significado é sempre de
total bem estar e felicidade, tanto que paz em português não é
forte o suficiente para expressá-la. Essa paz, para começar,
significa comunhão de Deus, pecado perdoado, ausência de culpa,
aceitação pessoal. Também quer dizer paz consigo mesmo. Se
Deus perdoou as coisas repugnantes que você fez, então é melhor
você começar a se perdoar; você precisa aprender a estar em paz
com você mesmo agora que você está em paz com Deus. Se Deus,
o Senhor das circunstâncias está em paz com você, pode ter certeza
que de agora em diante ele vai ordenar todas as circunstâncias
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 103

para o seu bem, como Romanos 8.28 explicitamente declara. Então,


ainda que as coisas possam parecer difíceis, só por saber que elas
cooperam para o seu bem, você pode viver em paz com elas e em
paz apesar delas.
"A paz seja com vocês," disse Jesus. "Paz com Deus, paz com
você mesmo, paz com sua situação. Eu lhes trago paz." E quando
disse isso, mostrou a eles suas mãos e seu lado. Jesus não fez
isso para se identificar, porque já sabiam quem ele era. Ele fez
isso para que pudessem ver suas feridas e as marcas dos pregos
em suas mãos e a ferida de lança no seu lado e serem lembrados
do que ele sofreu na cruz para fazê-los sentir a paz que agora
lhes trazia.
Os discípulos ficaram imensamente felizes quando viram o
Senhor no meio deles. Mas Jesus repetiu sua saudação, "A Paz
esteja com vocês". O fato de ter repetido demonstra que foi mais
que uma mera saudação. Repetição na Escritura, assim como no
dia a dia, é para enfatizar e para reforçar um significado
importante. Foi muito importante para Jesus que os discípulos
pudessem entender tudo que queria dizer quando ele disse: "A
Paz esteja com vocês".

Um novo trabalho
Depois ele passou a lhes dar uma missão. Eles seriam seus
agentes e seus mensageiros no mundo dali em diante. Como o
Pai o havia enviado, assim também ele os enviava (Jo 20.21). O
que ele quis dizer foi: "Meu Pai me enviou para trazer e pregar o
reino, e eu estou enviando vocês para pregar o reino que eu trouxe
como o centro das boas notícias sobre mim. Eu comissiono vocês
no meu papel de Rei do reino, que morreu para trazer paz, que
ressuscitou para trazer paz, e que está aqui com vocês trazendo a
paz aos seus corações neste momento. Como o Pai esteve comigo
na minha pregação do reino, eu estarei com vocês quando
pregarem o reino, e eu virei àqueles que se converterem a mim
em qualquer lugar e em todo lugar, e estarei com eles sempre. A
104 Nunca Perca a Esperança

mensagem do reino que vocês vão pregar é portanto para ser urna
mensagem concentrada em mim e que traz pessoas a mim e assim
transforma suas vidas".
Em seguida Jesus fez uma coisa esquisita. Ele soprou sobre
eles. Foi como se eles fossem as velas de um bolo de aniversário.
Esse gesto significou alguma coisa; foi uma profecia dramatizada
do que estava para acontecer no Pentecostes. "Recebam o Espírito
Santo", ele disse. Essas palavras eram uma promessa: "Breve­
mente vocês vão receber o Espírito Santo".
Então ele acrescentou: "Se vocês perdoarem a alguém os seus
pecados, eles serão perdoados; e se vocês não perdoarem, eles
não serão perdoados" (Jo 20.23). O que Jesus concedeu com isso
não foi nenhuma prerrogativa sacerdotal para perdoar ou não
pecados segundo um critério pessoal. O que ele concedeu foi um
dom de discernimento. "Quando o Espírito vier a vocês," ele disse,
"vocês serão capazes de saber se os que se arrependeram de seus
pecados estão sendo realmente sinceros. E vocês então poderão
lhes garantir que, por causa do que fiz na cruz, eles serão
verdadeiramente perdoados. Da mesma forma, vocês serão capa­
zes de discernir aqueles que professam haver se convertido de
seus pecados mas não são sinceros. E vocês então poderão lhes
dizer honestamente que vêem que não são sinceros e que assim
os pecados deles não foram perdoados, Já que eles não são ainda
verdadeiros crentes."
Que é esse exatamente o significado das palavras de Jesus
torna-se claro pelo que os discípulos fizeram mais tarde. Nós os
vemos declarando perdão dos pecados logo no dia do Pentecostes,
quando Pedro disse a seus ouvintes que deviam se arrepender e
ser batizados em nome de Jesus Cristo, isto é, reconhecer Jesus
como Messias (sem dúvida, com confissão pública dos pecados e
declaração pública de arrependimento como havia acontecido no
batismo de João). O batismo seria uma declaração de fé no Cristo
ressuscitado. Ao fazerem isso, Pedro lhes garantiu, seus pecados
seriam perdoados e receberíam o Espírito Santo (At 2.38). E mais
tarde, Pedro informa o mago Simão que "o via ainda preso ao
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 105

rancor da amargura e nos laços da iniqüidade". Simão ainda era


cativo do pecado (At 8.23). Foi como se Pedro dissesse: "Eu posso
ver que você realmente não se arrependeu de seu pecado, e
realmente não creu em Cristo, e realmente ainda não nasceu de novo.
Você ainda não é um cristão, então seu pecado ainda não foi
perdoado". A prometida concessão e retenção de perdão é matéria
de declaração, com base no discernimento.

O que Tomé perdeu


Tudo isso aconteceu enquanto Tomé estava ausente. Você pode
ver que para os dez foi a coisa mais sensacional imaginável. Eles
tinham estado vivendo em desespero e medo. Jesus veio e trouxe
luz para sua escuridão, colocou-os de pé novamente, deu-lhes uma
missão, um futuro, o dom do Espírito — tudo isso. Você pode
imaginar, então, qual era o assunto deles quando Tomé voltou?
Foi só ele entrar e eles lhe contaram tudo: "Nós vimos o Senhor!"
(Jo 20.25). Tomé cruza os braços e observa os colegas com
indiferença.. Então ele sacode a cabeça e lhes diz: "Se eu não puder
ver as marcas dos pregos nas mãos dele e enfiar o dedo lá; se eu
não apalpar o lugar onde enfiaram a lança, eu não acredito". O que
passava pela cabeça de Tomé para fazê-lo reagir assim?
Mas toda essa desconfiança acabou se virando contra Tomé.
Ele se condenou a mais uma semana de desesperança, enquanto
seus dez amigos se alegravam por saber que Jesus estava vivo.
Tomé optou por não crer e continuou na miséria e melancolia. Se
sua atitude tivesse sido diferente, isso teria sido evitado. Sempre
falamos dele como "Tomé, o descrente". Não vou dizer que seja
errado chamá-lo assim. Mas seria melhor chamá-lo "Tomé, o
Cético". Os céticos vêem pontos fracos no raciocínio dos outros e
recusam-se a concordar com suas conclusões. Foi exatamente isso
o que Tomé fez nesse caso.

Os riscos do ceticismo
O ceticismo nunca é uma atitude a ser admirada. Ele sempre
tem algo de deliberado. Encontramos dois tipos de pessoas que
106 Nunca Perca a Esperança

duvidam. Há os que queriam ser cristãos mas não chegam ao ponto


de se comprometer. São os descrentes que se lamentam declarando
eles mesmos que gostariam de crer. Acho que é possível fazer algo
por pessoas que realmente se sentem assim. Elas dizem que têm
um problema. Bem, vejamos qual é o problema. Aqueles que
entendem a fé cristã em sua expressão bíblica sabem que ela não
tem qualquer inconsistência interior e que todo argumento racional
e todo conhecimento e evidência efetivos são a favor dela e não
contra. Se o problema do que duvida é honesto, através da
argumentação honesta isso pode ser resolvido.
Mas no caso de Tomé não acho que estejamos tratando de um
descrente que se lamenta por não crer. Penso que se trata de uma
dúvida deliberada ou ceticismo calculado. Tomé pôs na cabeça que
não ia crer e seus motivos para isso, embora muito humanos e muito
compreensíveis, não são realmente admiráveis porque não são de
fato racionais. Eis o que acho que estava acontecendo com ele.

Tomé, o melancólico
Pergunto novamente a questão que abriu esse capítulo. O que
levou Tomé a se comportar deste modo? Acredito que quatro
fatores colaboraram. Primeiro, acho que seu temperamento teve
algo a ver. Tomé era uma daquelas pessoas que chamamos (ou
nossos avós costumavam denominar) de melancólicas. Hoje são
denominadas depressivas. Quando digo isso, não estou pensando
em pessoas com depressão patológica e clínica, que os remédios
e a psiquiatria podem curar, mas os depressivos temperamentais.
Suas mentes estão ancoradas na melancolia e no desespero. Vivem
à margem do desespero, sempre caindo em desespero. Isso
acontece com elas naturalmente, tão naturalmente que não conse­
guem duvidar que seu pensamento obscuro seja real e correto.
Elas vêem a si mesmas como aquelas que discernem, as únicas
que realmente sabem como a vida é na realidade. Nada estará
certo para elas a menos que algo esteja errado. Todas as boas
notícias são na verdade boas demais para ser verdade. Sua atitude
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 107

por um lado é cômica, mas para eles é trágica porque em sua


auto-indulgência (porque é do que se trata afinal) rendem-se ao
seu temperamento melancólico rapidamente e assim são presas
do negativismo que esse temperamento produz. Quando permi­
timos que nosso temperamento fique sobre nós e nos controle,
trata-se realmente de auto-indulgência. Um dos aspectos da nossa
natureza caída que devemos aprender a negar são as armadilhas
do nosso temperamento.
Não são somente as pessoas melancólicas que precisam apren­
der essa disciplina. Existem as pessoas sanguíneas que estão
sempre muito alegres e otimistas. Se quiserem ser realistas deverão
aprender a não ceder ao seu temperamento. Existem pessoas
fleumáticas que são sempre calmas, distantes e desinteressadas,
mesmo quando precisam estar ligadas e agitadas. Nestes mo­
mentos elas precisam negar seu temperamento e procurar se
animar. Existem aqueles com características coléricas que estão
sempre agitados e esperando mudanças, e eles muitas vezes têm
de negar seu temperamento e praticar a paciência. Esses são
exemplos do que estou querendo dizer. Nosso temperamento
pode nos desviar e nos atingir de um modo ou de outro. E não
consigo deixar de imaginar se você e eu já conseguimos chegar a
um acordo com nosso temperamento.
Descrevi Tomé como melancólico, triste. Por quê? Bem, João
já nos disse que quando Jesus contou sobre a morte de Lázaro aos
discípulos e lhes disse: "Nosso amigo Lázaro... está morto... vamos
vê-lo". Tomé comentou: "Vamos para morrer com ele". Se o "ele"
da frase é Lázaro ou Jesus (você pode defender qualquer um dos
dois sentidos), Tomé notadamente parece revelar um
temperamento melancólico profundamente abalado pela notícia
da morte de Lázaro, e sentindo agora que a situação estava muito
ruim mas ainda ia ficar bem pior.
E, então, quando seus amigos lhe contaram naquela tarde da
Páscoa que Jesus havia aparecido para eles ressuscitado e vivo,
de modo que a tragédia do Calvário tinha sido tragada pelo triunfo
108 Nunca Perca a Esperança

da ressurreição, o coração de Tomé lhe disse: "Ah, não! Lá vêm


esses malditos otimistas de novo. Não se pode levar a sério nada o
que eles dizem". Pessoas com temperamento melancólico, como
disse anteriormente, tendem a acreditar que são muito mais realistas
sobre as coisas que aqueles que não são mal-humorados e deses­
perados do como eles. Esse temperamento taciturno, com seu
melancólico senso de mau agouro, estava operando em Tomé para
tomá-lo irracionalmente cético. Creio que durante toda sua vida,
Tomé tinha tido o hábito de ceder ao seu temperamento mais do
que desafiar racionalmente as conclusões negativas a que ele nor­
malmente chegava, e nesse momento ele se toma vítima disso de
um modo muito direto. Suas palavras rudes foram, desse ponto de
vista, uma expressão irrefletida do espírito de desilusão, melancolia
e pessimismo com o qual, assim ele sentiu (e vinha sentindo a vida
toda), a verdadeira prudência sempre permaneceria.

Tomé, o estressado
Segundo, acho que o stress tem alguma coisa a ter com a atitude
de Tomé. Ele tinha passado três dias de apavorante tensão (como
todos os discípulos). Pense nisso. Na semana anterior, Tomé havia
participado da entrada triunfal em Jerusalém, com Jesus montado
em um jumento e cumprindo a profecia de que desse modo o rei
de Jerusalém entraria na cidade (Zc 9.9). Multidões aclamaram e
gritaram "Bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana ao
filho de Davi". Elas haviam lançado folhas de palmeiras na estrada
como uma espécie de tapete de boas-vindas para Jesus passar.
Foi um momento tremendo, triunfante, e os discípulos estavam
certos que agora de algum modo Jesus iria proclamar-se rei. Eles
vieram para Jerusalém com o Messias totalmente no con-trole da
situação, como pensavam, e seus corações estavam alegres.
Em seguida vieram os dias de conflito no templo, com Jesus
deliberadamente desafiando, até mesmo provocando os escribas
e os fariseus e saduceus, os dirigentes oficiais da religião. Depois
tinha acontecido a prisão e o julgamento — aquele arremedo de
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 109

justiça, como todos os envolvidos sabiam muito bem. Depois, os


discípulos ouviram a multidão gritando "Crucifiquem a Jesus.
Queremos Barrabás. Preferimos Barrabás". E eles tinham visto
Jesus sendo levado ao Calvário — o Monte da Caveira, como era
chamado — e pregado na cruz, no cruel processo de execução
por crucificação.
Pode imaginar o que foi enfrentar aqueles dias? Angustiante
deve ser uma palavra fraca para descrever a mudança dos
discípulos do júbilo supremo e animação ao que parecia tragédia
e desastre absolutos. Assistir a uma crucificação pode fazer os
corações mais empedernidos chegarem às lágrimas. É uma morte
terrivelmente cruel. E foi a morte de Jesus, o Senhor deles. Eles
estavam todos lá, com certeza. Viram sua agonia ao se esvair o
seu sangue. Ouviram suas palavras na cruz. Será que as enten­
deram como palavras majestosas de ministério, testemunho e
vitória? Duvido. Quando o corpo foi tirado da cruz eles já haviam
passado por maus momentos. Eles estavam esmagados e
totalmente perdidos. Tomé esteve com eles todo o tempo e (por
causa de seu temperamento, eu imagino) sentiu-se pior do que os
outros. Talvez o motivo pelo qual Tomé não estava com os dez
quando Jesus lhes apareceu é que ele não tinha mais condições
de apreciar a companhia de quem quer que fosse e ficava muito
tempo sozinho.
Agora o que seus amigos estavam dizendo a ele (possivelmente
com um tapinha nas costas e coisas assim), soa para ele como:
"Ânimo, Tomé. A vida é bela, rapaz. Ele ressuscitou. Nós o vimos.
Está tudo maravilhoso!" E o coração de Tomé exausto emo­
cionalmente diz: Não agüento mais. Eles podem até estar certos, mas
para mim é demais. Eu acho que ele deliberadamente repeliu a
atordoante notícia sobre Jesus porque estava, como dissemos,
terrivelmente estressado e totalmente paralisado por dentro. Ele
tinha ido da mais elevada esperança para o mais profundo de­
sespero. Agora estavam lhe dizendo para voltar do mais profundo
desespero à maior esperança novamente — e ele simplesmente não
110 Nunca Perca a Esperança

sabia se tinha os recursos necessários para fazer isso. Suas palavras


duras foram, deste ponto de vista, um modo dele se distanciar do
assunto Jesus — cuja morte terrível e degradante havia partido o
seu coração — quer o Mestre tivesse ressuscitado ou não.
Eu não acho que Tomé pudesse justificar sua atitude, mas
imagino que podemos entender. Com certeza todos nós já passa­
mos por momentos de tensão e revolta que nos fizeram sentir: eu
não agüento mais. Vou deixar pra lá e cairfora. Acho que isso foi uma
parte do que a resposta de Tomé quis dizer. Soldados que já foram
à guerra às vezes acabam paralisados interiormente diante da
alegria, da esperança e animação. Eles se tornam, numa frase de
T.S. Eliot, "homens ocos". E como se sua capacidade de ser posi­
tivos sobre qualquer coisa tivesse sido destruída pela tensão e
pressão daquilo que sofreram durante as hostilidades. A descrição
que se encaixa neles também vem de T.S. Eliot: "vivendo — e vi­
vendo parcialmente". Existem várias pessoas assim, e acho que
todas elas se miram em Tomé. Ele tinha tido uma semana de stress
terrível. Seu temperamento agiu contra ele como vimos, e agora a
tensão dos fatos agindo em seu temperamento tornou impossível
para ele, supõe Tomé, levar a sério qualquer palavra de esperança
— ou qualquer boa notícia. Por dentro, como afirmado acima, ele
está dizendo: Aí vem outro choque, estou quase inclinado a me curvar;
mas eu não consigo, eu estou me desligando; não me amolem. Não se
trata de uma atitude racional mas ela é bem humana. Acho que
podemos e devemos compreender.
Talvez você, que lê este livro, seja um pouco como Tomé por
causa de seu temperamento. Talvez você também tenha passado
por experiências horríveis, que o paralisaram interiormente, e
não consegue receber as boas notícias de um Salvador que mor­
reu para lhe dar paz e ressuscitou para lhe trazer nova vida e
alegria. O seu coração diz, Eu gosto um pouco de religião, ela acalma
o meu espírito. Mas não me peça para realmente crer em alguma coisa
com tanta esperança e fé como os cristãos crêem em Jesus. Eu não
consigo. O esgotamento produz esse tipo de reação e eu acho
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 111

que tensão tem muito a ver com a indiferença de Tomé em


relação aos outros discípulos.

Tomé, o orgulhoso
Há uma terceira coisa. Eu acho que orgulho tem algo a ver
com o ceticismo de Tomé. O Evangelho de João parece sugerir
que Tomé não era o rapaz mais esperto do mundo. Ele era meio
devagar e acho que sabia disso. A maioria de nós passamos por
momentos em que temos de dizer a nós mesmos, Puxa! Eu não fui
muito esperto desta vez. Aposto que Tomé conhecia bem esse senti­
mento. Ele era irmão gêmeo. Nós não sabemos se o irmão ou irmã
dele era mais esperto ou mais esperta, mas deveria ser. Gêmeos
sempre têm muita proximidade, então se ele era o menos esperto
dos dois devia estar consciente disso, até mesmo pelas constantes
comparações, o que aumentava a sua carga. Sentir-se inferior todo
o tempo é doloroso, para dizer o mínimo.
João registra pelo menos uma ocasião em que Tomé deixou
escapar uma observação, digamos, pouco esperta. Jesus tinha
acabado de falar tremendas palavras de conforto e alegria:
"Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também
em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não
fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu
for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo,
para que, onde eu estou, estejais vós também" (Jo 14.1-3).
Você deve concordar que essa foi uma promessa maravilho­
sa e a sua força evidente. Então Jesus acrescentou: "... vós sabeis
o caminho para onde eu vou" (v.4). E Tomé: "Senhor, não
sabemos para onde vais; como saber o caminho?" (v.5). Eu acho
que esse era Tomé sendo ele mesmo - muito devagar. Tomé era
uma pessoa honesta e admitia que não tinha idéia sobre o que
Jesus estava falando.
Eu imagino que João, enquanto escrevia esse evangelho, inse­
riu esse detalhe para que pudéssemos estar preparados para po­
dermos mais tarde identificar o comportamento de Tomé como
de um homem lento que se achava lento e tentava compensar
112 Nunca Perca a Esperança

isso agindo como uma pessoa muito esperta. Sabemos como pode
se comportar uma pessoa que se sente inferior, menos esperta em
comparação aos outros. Se nós somos assim sabemos como nos
comportamos. Tentamos fazer aquilo que os psicólogos chamam
de compensação. Nós tentamos deliberadamente agir como
espertos para encobrir o fato de que interiormente sabemos que
não somos. Aqui, acho que podemos ver Tomé tentando agir como
se fosse muito inteligente e muito prático. Na realidade Tomé diz
a seus amigos: "Esperem aí. Vocês estão me dizendo que viram a
Jesus. Tudo bem, é o que dizem. Mas precisamos de provas concre­
tas; pelo menos eu preciso. Vocês não tocaram nele, tocaram?
Vocês não ouviram falar de gente que vê coisas quando não tem
nada lá? Se estivesse com vocês eu ia fazer questão de tocar nele.
Vocês podem estar enganados sobre o que pensam que viram.
Vocês não cometeriam esse engano se tocassem numa pessoa. Mas
vocês não chegaram a tocar nele, não foi? Acho que vocês nem
pensaram nisso, certo? Caras, vocês não foram muito espertos".
O que Tomé quis dizer a eles foi algo mais ou menos assim.
E Tomé se anima e continua: "Eu não vou acreditar enquanto
não tiver uma prova concreta. Eu exijo mais provas do que vocês
exigiram. Não vou cair nessa, como eu acho que vocês caíram". É
patético, eu sei, mas acho que foi isso que passou pela cabeça de
Tomé. E foi o orgulho ferido de milhares de humilhações que o
levou a agir daquele modo.
Talvez isto esteja sendo lido por alguém que é intencionalmente
cético em relação à ressurreição de Jesus, não por achar que as
provas são insuficientes (a ressurreição já foi descrita como o fato
mais comprovado da História), mas por estar querendo provar a
alguns amigos que você é mais esperto que eles. Então você lhes
diz que eles acreditam sem provas suficientes, e você pede mais
evidências do que eles conseguem apresentar. Você está fazendo
isso na verdade para tentar levantar o seu ego. Está tentando com­
pensar o sentimento de saber que não é tão esperto. Então age
como superinteligente. O nome para essa atitude é orgulho -
orgulho de coração e intelecto. Como eu disse, orgulho parece ter
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 113

tido alguma coisa a ver com a atitude de Tomé. E orgulho, eu sei,


tem algo a ver com ceticismo de algumas pessoas hoje.

Tomé, o ressentido
E há um quarto fator que pode ter feito parte da história. A reação
de descrença de Tomé pode ter tido alguma coisa a ver com ressen­
timento. Tomé pode ter se ressentido por Jesus ter aparecido para
os dez e não para ele. Eles receberam a bênção que ele perdeu e re­
jeitar o que seus amigos contaram foi um modo de expressar seu
ressentimento. Há os que vêem outros serem abençoados e se
ressentem disso. Elas se ressentem do sorriso na face do homem
ou da mulher que pode dizer: "Eu sou um crente e encontrei em
Jesus o segredo da nova vida". Essas pessoas têm uma vida ator­
mentada e aparece alguém dizendo: "Eu tenho paz. Eu tenho
alegria. Eu amo Jesus. É uma nova vida". Elas se ressentem disso.
Ressentimento aliado a um temperamento melancólico,
esgotamento emocional e uma forte vontade de parecer mais
inteligente podem muito bem ter contribuído para a atitude
negativa de Tomé fazendo-o dizer aquelas palavras impensadas.
Para algumas pessoas Tomé foi um herói - como se cabeça dura
e ceticismo fossem algo para se admirar. Mas não são. Não são
sabedoria; não são virtude; não caracterizam um comportamento
racional. Era o triste caso de um homem que ainda não havia
chegado a um acordo com o seu temperamento. Com o choque do
desapontamento ainda em sua alma, sentindo que tinha de
esconder sua inferioridade e parecer esperto o tempo todo, ele ardia
em ressentimento de que alguém pudesse ter sido abençoado de
um modo que ele não foi. O resultado desse ceticismo, como vimos,
é que ele se condenou a uma semana de depressão. Durante aquela
semana os outros dez e Tomé não devem ter conversado muito.

Tomé e Jesus
Sete dias mais tarde, entretanto, Jesus apareceu de novo, e de
novo pronunciou sua gloriosa saudação: "Paz seja com vocês".
114 Nunca Perca a Esperança

Depois ele falou diretamente com Tomé. Surpreendentemente,


ele não disse nenhuma palavra de reprovação pelo ceticismo ou
irreverência de Tomé. A insistência de Tomé teve alguma coisa
de irreverente, muito horrível: "Se eu não vir nas suas mãos o
sinal dos cravos, e ali não puser o meu dedo, e não puser a minha
mão no seu lado, de modo algum acreditarei". Mas Jesus, embora
soubesse perfeitamente bem o que Tomé tinha dito, não o criticou
ou repreendeu por isso: "Põe aqui o dedo e vê as minhas mãos;
chega também a mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo,
mas crente" (Jo 20.27).
Jesus foi gentil com Tomé. E a ternura do Salvador para com
ele foi maravilhosa. Precisamos lembrar que Tomé foi um dos
doze que Jesus escolheu, completamente ciente de suas forças,
fraquezas, talentos e limitações, para preparar e equipar para a
tarefa de plantar igrejas em todo o mundo. Jesus amou e valorizou
Tomé desde o começo e estava lidando com ele agora como que
preparando-o para um ministério especial. Todavia, o modo do
Salvador ajudar Tomé a ter certeza da realidade de sua ressur­
reição, foi uma amostra de como hoje ele trabalha na vida de
muitos que aceitam a fé vindo da mais densa escuridão espiritual.
É sob esse ponto de vista que estamos avaliando a questão. Como
observamos acima, o que vemos no ministério de Jesus com Tomé
é simplesmente transbordante bondade. Tomé se colocou numa
encruzilhada, e Jesus o apoia com a sua palavra, indo até onde
ele está, e dizendo: "Se colocar o dedo nas feridas do meu corpo
vai ajudá-lo, então coloque. Mas pare de agir como um incrédulo,
Tomé. Conscientize-se da realidade da minha ressurreição. Creia".
João não relata se Tomé realmente fez o que Jesus o convidou a
fazer. Talvez ele tenha ficado em pé, ou tenha se curvado ou mesmo
ajoelhado; não sabemos. Mas parece que Tomé ficou absolutamente
quebrantado. "Senhor meu e Deus meu!" ele exclamou. Dizendo
isso ele fez uma perfeita confissão de fé, a mais completa e clara
encontrada nos evangelhos. Foi como se ele tivesse dito: "Senhor
Jesus, sim, creio. Creio que o senhor reviveu da morte e eu devia
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 115

ter acreditado nisso uma semana atrás. Eu o honro agora, tanto


pela sua gloriosa ressurreição como pelo seu ministério amoroso
em meu favor neste momento. O senhor é Deus e devo ser seu, seu
servo, seu adorador de agora em diante. E seja o que for que o
senhor mandar em sua providência, seu modo de ordenar as coisas,
eu devo tomar como vindo de sua mão. Devo reconhecer que daqui
em diante nunca estarei fora do alcance do seu olhar mas vou
desfrutar sempre de sua companhia. Eu não acreditava nisso antes,
mas eu creio agora".
A confissão de Tomé o levou a dizer de fato: "Jesus, o senhor é
meu Deus, meu Senhor e meu Deus. Perdoe-me, Senhor, pelo meu
ceticismo e minha irreverência. Agora eu o tomo novamente com
tudo que o senhor é, meu Senhor e meu Deus, Autor de minha
existência, Salvador de minha alma. E eu sei que quando o tomo
como meu, o senhor me toma como seu, e assim o pacto é firmado
e confirmado. Como num casamento, também aqui os votos
confirmam um compromisso permanente. Aqui e agora o meu
voto é ser seu. O senhor é meu Senhor e meu Deus".
Jesus respondeu com a última e de certo modo a mais bela de
todas as bem-aventuranças. O que a torna tão maravilhosa? O
fato de ela nos conduzir à vida e satisfação das outras beatitudes
que, sem uma fé como a de Tomé, nunca conheceríamos. "Tomé,
você creu porque me viu?" Disse Jesus. Agora vem a beatitude, a
afirmação da benção: "Bem-aventurados os que não viram e creram".

Crendo no testemunho
Essa é uma bem-aventurança para você e para mim. Pela
providência de Deus não vivemos no começo do século 1- e por
isso não vimos Jesus com nossos olhos físicos. Existem pessoas
que dizem: "Ah, se eu pudesse ter estado na Palestina e ter visto
Jesus; se eu pudesse ter estado perto da sepultura e ver a ressur­
reição, aí eu creria". Eu não acho. Se isso fosse verdade você
acreditaria agora no testemunho daqueles que viram e deram a
vida por causa do testemunho que eles anunciaram do Cristo que
116 Nunca Perca a Esperança

viram. Existem todas as razões para crer. Os primeiros discípulos


deram o testemunho. Eles pregaram o evangelho, levaram pessoas
de muitas nacionalidades a crer, fundaram igrejas e escreveram
textos que agora servem para guiar todos nós e as gerações futuras
na mesma fé que tiveram. Não há motivo para seguir a erudição
cética especulativa e duvidar do testemunho que o Novo Testa­
mento dá de Jesus - aqueles que o escreveram, afinal de contas,
colocaram suas vidas em perigo. A maioria dos apóstolos foi
martirizada. Todos eles estavam dispostos a morrer por Cristo.
Se tivessem tido a menor dúvida sobre se o Cristo era real ou se
tinha havido falsidade na posição que haviam adotado, eles não
teriam se comportado daquele modo. Eles tinham certeza e por
isso estavam preparados para dar a vida mas nunca negar o que
sabiam ser verdade. Seu testemunho atravessou séculos e chegou
até nós. Ele não é confiável?
Pense somente por um momento sobre a ressurreição. O
Cristianismo seria inexplicável se Jesus não tivesse ressuscitado.
De onde veio o Cristianismo? Quando começou? Como podemos
explicar o fato de que desde o começo ele foi uma fé que se concen­
trou num Jesus ressuscitado? E se Jesus não tivesse ressuscitado,
por que os judeus logo no começo não apresentaram de uma vez
o corpo que havia sido sepultado para mostrar que Jesus não havia
ressuscitado e que toda aquela conversa sobre ressurreição era só
bobagem? A resposta é simples: eles não apresentaram o corpo
porque não conseguiram apresentar o corpo. O corpo não foi en­
contrado; o túmulo estava vazio; Jesus tinha ressuscitado. Esse
depoimento não é bom? Não faz sentido? Tudo não se encaixa?
Não tem credibilidade?
Quando viajo pelo Canadá, Estados Unidos, Austrália, Nova
Zelândia e Inglaterra, encontro pessoas que nunca foram a
Vancouver - onde moro. Mas conto a elas que Vancouver existe e
é um ótimo lugar, e acreditam em mim. Acreditam com base no
meu testemunho. Não acham que eu sou um mentiroso que anda
enganando as pessoas por diversão. Por que eu acusaria os
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 117

pregadores do Novo Testamento de serem impostores profis­


sionais? E racional fazer isso?
Não seria racional as pessoas se recusarem a crer na minha
declaração de que existe um lugar chamado Vancouver só porque
não o viram com seus próprios olhos. Seria igualmente irracional
você e eu nos recusarmos a crer na ressurreição de Jesus e na ver­
dade do Cristianismo só porque, segundo a providência de Deus,
não vivemos no século l2 e então não pudemos ver o Salvador
em carne e osso.

Estendendo a mão para Jesus


Jesus disse que são bem-aventurados os que não viram e
creram. Nós, crentes que dependemos do relato de outros para
saber, reconhecemos como digno de confiança o testemunho dos
que viram e testemunharam em primeira mão para que todo o
mundo pudesse saber o que eles sabiam. É mais racional como
também é a coisa mais confortante do mundo aceitar o testemunho
daqueles que conheceram e com base em seu testemunho estender
a própria mão vazia de fé para Jesus e dizer a ele em eco às palavras
de Tomé: "Meu Senhor e meu Deus! Sei que tu existes. Sei que és
real, O testemunho do senhor é testemunho que nenhuma pessoa
honesta pode recusar. Eu preciso de ti, Senhor Jesus. Como Tomé,
eu estou vivendo na escuridão da depressão, do desapontamento,
de uma vida ilusória, agindo como se fosse esperto embora eu saiba
que sou tolo, agindo como se fosse feliz quando sei que sou mise­
rável, mantendo uma fachada quando vivo por detrás de uma
máscara que não me atrevo a tirar. Senhor, isso dói, e estou na
escuridão porque estou fazendo de conta por tanto tempo. E
Senhor, não há nada que me traria mais alegria do que a nova
vida que o evangelho promete, a vida de perdão e paz e comunhão
contigo e a vida de glória além. Meu Senhor, meu Deus, meu
Jesus, venha para a minha vida e me dê o que deste a Tomé!"
João termina seu capítulo dizendo: "Estes [sinais] foram regis­
trados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e
118 Nunca Perca a Esperança

para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20.31). Acho
que João aprovaria o que eu escrevi no parágrafo anterior. Basta
o registro dos sinais.
Escrevi no início que, embora sendo um ser humano, penso
poder entender e simpatizar-me com Tomé, e embora acredite
saber o que Tomé estava pensando - uma vez que em momentos
no passado eu pensava de modo semelhante - ainda assim não
posso justificar a incredulidade de Tomé. Você agora compreende
por que. Se existe algum Tomé entre meus leitores, tenho que lhe
dizer que não posso a justificar sua descrença também. É teimosia.
Foi sua escolha, você não foi obrigado. Não é racional. Envolve
negação de testemunho convincente. Tal negação não faz sentido.
Então, que Deus nos ajude a entrar em acordo com nossos
temperamentos, com nossas experiências de esgotamento, com
aqueles gestos realmente tolos e orgulhosos que fazemos na
tentativa de parecer que somos mais espertos que outros, quando
ressentidos achamos que outros receberam uma benção que nós
não temos. Chegar a um acordo com essas quatro realidades signi­
ficará que reconhecemos que o nosso ceticismo é irracional, que
se baseia em nossos sentimentos a respeito de nós mesmos e em
nada mais. E concluiremos também que não poderemos nos
justificar se evitarmos por mais tempo o comprometimento com
Jesus Cristo. E então, pela graça de Deus, que sejamos todos aben­
çoados como aqueles que seguiram Tomé rumo à fé.
Glorioso Senhor Jesus, temos lido e pensado sobre ti. Em tudo isso
tomamos conhecimento e temos a percepção da tua presença conosco. Jesus,
Senhor, Mestre, fala com cada um de nós, de acordo com as nossas
necessidades, sobre nossos sofrimentos e aflições da depressão e
desapontamento e fingimentos e ressentimento em relação à realidade. Tu
livraste Tomé de todos esses sofrimentos e aflição, e pedimos que nos livre
também. Quando Tomé lhe disse: “Meu Senhoremeu Deus", foi o começo
de unta nova vida para ele, e desejamos essa mesma nova vida para nós.
Senhor Jesus, leva-nos a falar contigo do mesmo modo que Tomé, e livra-
nos da escuridão para sua gloriosa luz, libertando-nos daquelas coisas que
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 119

nos empurram para a escuridão e liberando nossos espíritos abatidos para


que se levantem em alegria e comunhão eterna contigo. Ouve-nos, Senhor
Jesus, e pelo seu Espírito que está conosco e minis-tra-nos como
necessitamos. Pedimos isso em teu santo nome. Amém.

Estudo
1. O que você vê de si mesmo em Tomé?
2. Leia João 20.19-31. O que aconteceu na primeira visita de
Jesus que foi importante para os discípulos (vs. 19-23)?
3. Imagine-se no lugar de Tomé no segundo encontro (vs.
24-29). Que mudanças ocorreram nos pensamentos e
emoções dele?
4.0 que significa a declaração de Tomé: "Meu Senhor e meu
Deus!"(v. 28)?
5. Tomé estava lutando com quatro possíveis obstáculos para
sua fé: temperamento, stress, orgulho e ressentimento.
Quando e como alguma dessas forças toma difícil para
você crer em Jesus?
6. Quando você teve momentos de dúvida ou ceticismo sobre
Cristianismo, que perguntas ou problemas vieram à sua
mente?
7. Concentre-se em João 20.30,31. De acordo com esses
versículos, como nossa fé deve ser?
8. Analise a divisão entitulada "Crendo no Testemunho"
(págs. 115-117). Que evidências da ressurreição de Cristo
você acha mais convincente?
9. Analise a seção entitulada "Estendendo a mão para
Jesus" (págs.117,118). Quando e como você respondeu a
esse convite? Se isso não ocorreu ainda na sua vida, que
passos você está disposto a dar agora?
10. Tomé disse a Jesus "Meu Senhor e meu Deus". Ore sua
própria oração expressando a Deus seu próprio nível de
fé e comprometimento.
120 Nunca Perca a Esperança

Oração
Os cristãos beneditinos do século 6- introduziram uma forma de
meditação e oração chamada lectio divina. Eles usavam um padrão
composto de vários passos que permitiam que focalizassem um
texto em particular, para pensar sobre ele sob vários ângulos, orar
e tentar se conscientizar do que Deus lhes revelava por meio
daquela passagem. Use essa forma modificada do lectio divina para
absorver os importantes ensinamentos que Deus deu para Tomé
em João 14.1-7.

(Silencio) Silêncio
Reserve algum tempo para ficar em silêncio; prepare-se para
se comunicar com Deus enquanto ele se revela a você nessa
passagem da Escritura. Depois de um tempo de quietude, peça
ajuda de Deus ao entrar nessa sessão de oração meditativa.

Lectio (Leitura)
Leia João 14.1-7 em voz alta várias vezes bem devagar. Permita
que suas palavras e significados penetrem em sua alma.

Meditatio (Meditação)
Meditação é como ruminar. É lenta e contínua. Faça anotações
sobre o que você vê nessa passagem. Faça conexões entre as
variadas seções. Pergunte a si mesmo: "O que essas palavras
de Deus querem dizer?" "O que elas significam?" Coloque
quem você é e o que faz ao lado dessa passagem e peça a
Deus para examiná-lo. Continue a escrever suas descobertas.

Oratio (Oração)
Ore usando a passagem como um esboço para sua oração.
Leia a passagem frase por frase, respondendo a Deus após
cada uma.
Esperança Quando Acho Difícil Acreditar 121

Contemplatio (Contemplação)
Espere em silêncio outra vez. Peça que Deus traga à sua mente
quaisquer áreas de sua vida que você precisa adaptar mais
proximamente ao plano dele como revelado nessa passagem.
Contemple o amor e o poder de Deus como mostrado aqui.

Incarnatio (Viva isso)


O que precisamente você deve crer, pensar e fazer como
resultado dessa passagem? Faça anotações sobre como você
espera trazer essas palavras de Jesus para sua prática atual.

Escreva
Jesus disse em João 14.6: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a
vida; ninguém vem ao Pai senão por mim". Escreva sobre algumas
tentativas que você tem feito para encontrar um caminho, verdade
ou vida de algum outro modo. Depois escreva como Jesus se
tornou o caminho, a verdade e a vida para você.
7

srcnAO peüRO
João 21; 1 Pedro;
2 Pedro
"Simão filho de João, amas-me mais do que estes outros?" (Jo
21.15-17) Essa foi uma pergunta perscrutadora para Simão, e é
uma pergunta pescrutadora também para você e eu. Jesus fez essa
pergunta a Simão três vezes em não mais do que três minutos.
Nós, que afirmamos ser seus discípulos hoje, devíamos imaginá-
lo fazendo-nos essa pergunta a cada curva da estrada em nossa
jornada da vida. Vamos agora analisar o modo pelo qual nosso
Senhor transformou Simão, filho de João, em Pedro, a pedra (em
grego, Petros'), a âncora da igreja primitiva, um ser humano com
falhas, que ainda assim foi capaz de responder sim àquela
pergunta do Senhor.
Na Inglaterra existe um provérbio: Você não pode fazer uma bolsa
de seda de uma orelha de porco. Em outras palavras, há um limite
para o que você pode fazer com o material que tem em mãos.
Quero começar nosso estudo de Simão Pedro dizendo que Deus
pode de fato fazer bolsas de seda de orelhas de porco - e ele faz.
Essa é uma verdade maravilhosa. Deus faz coisas incríveis com
material humano imperfeito. Mais maravilhoso ainda é que ele
usa essas pessoas imperfeitas, dando-lhes um ministério
significativo, embora a transformação não esteja ainda completa
e ainda exista um longo caminho a percorrer na reconstrução de
seus caractéres. Isso deve ser boa notícia para você e eu, que
124 Nunca Perca a Esperança

sabemos de nossas imperfeições. Vamos ser honestos diante do


Senhor a esse respeito. Não apenas não somos perfeitos, mas
também estamos bem longe disso. Sem dúvida alguma, Deus está
no processo de nos reconstruir à imagem de nosso Salvador e se
alegra em nos usar a seu serviço. Simão Pedro é um exemplo
espetacular dessa dupla verdade. Isso é o que veremos ao
acompanhar sua história.
Começamos com três fatos certos que ficaram estabelecidos
desde o primeiro encontro entre Simão e o Salvador, o encontro
que está registrado em João 1.35-42, quando André, irmão de
Simão, o trouxe a Jesus.

Um líder natural
O primeiro fato é que Simão era um líder natural. Ele tinha o
seu próprio negócio de pescaria, era o tipo de pessoa impetuosa,
confidente, amável, destacada, que assume o comando em
qualquer situação, tomando como certo que é ele quem deve
liderar e agindo de acordo. Ao ler a história de Simão nos
evangelhos, você o encontra fazendo isso repetidas vezes. Por
exemplo, veja a ocasião em Cesaréia de Filipe (Mt 16.13-19), quan­
do Jesus perguntou quem o povo dizia ser o Filho de homem.
Depois dos discípulos terem respondido que pessoas diferentes
estavam dizendo coisas diferentes, Jesus lhes perguntou: "Mas
vós, quem dizeis que eu sou?". Ele estava perguntando a todos
eles, mas foi Simão que se adiantou e deu a resposta por todos.
Simão tomou como certo que ele deveria ser o porta-voz do grupo,
quando algo realmente importante tinha de ser dito. Simão disse:
"Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". Ele estava certo, natural­
mente, e Jesus prontamente o assegurou da exatidão divina do
que havia dito: "Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não
foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos
céus". O que podemos observar, entretanto, é que respondendo
assim à questão em nome de todos os discípulos, Simão estava
agindo como líder.
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 125

Há outro exemplo assim no final de João 6. Jesus ensinou


algumas lições difíceis sobre ele ser o Pão da Vida, e explicou que
recebê-lo e consumi-lo como Pão da Vida significava comer sua
carne e beber seu sangue. Os ouvintes não tinham a menor idéia
do que ele estava falando, mas eles não gostaram do que ouviram.
Então eles o deixaram. Jesus virou-se para seus discípulos e per­
guntou em voz alta se eles queriam abandoná-lo também. Mais
uma vez é Simão quem fala em nome de todo o grupo, dizendo:
"Senhor, para quem iremos?" Ele está falando por todos quando
diz a Jesus: "Tu tens as palavras da vida eterna" (Jo 6.67,68). Mais
uma vez ele está certo, e mais uma vez o vemos tomando a liderança.
Esses dois episódios não somente mostram Simão agindo como
líder dos primeiros discípulos, como também mostram algo que
é crucialmente importante para todos nós. Simão aqui diz o que
você e eu devemos aprender a dizer se sempre compartilharmos
da vida que Jesus veio trazer. Sim, ele é o Cristo, o Sagrado Sal­
vador. E sim, ele tem as palavras da vida eterna. Se você e eu
vamos ter uma vida, devemos aprender a fazer nossas, essas duas
afirmações de Simão.

Um líder espiritual
O segundo fato é que desde o momento do primeiro encontro
com Simão, Jesus deixou claro que estava escalando um pescador
para o papel de líder espiritual. Naquele primeiro encontro Jesus
lhe disse: "Tu és Simão, o filho de João; tu serás chamado Cefas
(que quer dizer Pedro)" (Jo 1.42). Pedro significa "a rocha" em
grego, como Cefas em aramaico. Naquela época rocha era um ape­
lido. Mas o aramaico era menos conhecido no mundo daquele
tempo do que o grego. E Jesus tinha planos para Simão. Jesus o
chamou Pedro. Foi uma palavra profética. Simão se tornaria o
"homem rocha". Jesus está mostrando que seu plano era que
aquele líder natural se tornasse um líder espiritual também.
Outras coisas que Jesus disse sobre Simão apontam na mes­
ma direção. Pense, por exemplo, na primeira pesca maravilhosa
126 Nunca Perca a Esperança

(Lc 5.1-11). Jesus tinha tomado emprestado o barco do pescador


para uma sessão de ensinamentos. Simão recuou o barco um pouco
da praia a pedido de Jesus, e dali o Mestre ensinou a multidão. De­
pois de terminada a sessão de ensinamentos, ele disse aos pesca­
dores que lançassem as suas redes e pegassem alguma coisa. Simão
disse a ele: "Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanha­
mos, mas sobre a tua palavra lançarei as redes". Simão fez isso
mesmo e foi como se o barco tivesse interceptado um cardume de
peixes. Quando menos esperavam as redes estavam cheias. Foi uma
tão admirável demonstração do poder de Jesus que Simão, que era
um grande homem para deixar escapar as coisas, disse o que veio
em seu coração naquele momento: "Senhor, retira-te de mim, por­
que sou pecador". O que ele está claramente expressando é o senti­
mento de que Jesus é uma pessoa santa, único, mais que humana -
em outras palavras, ele expressou a sua admiração na presença de
Jesus. Mas a resposta de Jesus foi: "Não temas; (Admiração pelo
sobrenatural normalmente produz medo.) doravante serás
pescador de homens". Podemos ver que foi uma promessa de peso.
Foi outra indicação de que Jesus queria Simão como líder espiritual,
nesse caso como um pioneiro na evangelização.
Depois de Simão havê-lo confessado como Cristo e Filho de
Deus em Cesaréia de Filipe, Jesus lhe disse: "... tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha igreja" (Mt 16.18). Aqui pedra
é petra e não Petros. Essa diferença mostra que Jesus não estava
dizendo: "Simão, você é pessoalmente aquele sobre quem eu vou
edificar a minha igreja". Jesus poderia ter dito e Mateus poderia
ter escrito "sobre você" ou "sobre esse Petros" se quisesse dizer
isso. Não, a rocha sobre a qual Cristo construiria a sua igreja era a
fé expressada por Simão e que seria o meio para fazer dele o
homem que ele deveria se tornar.
De qualquer modo, para Jesus a idéia de edificar a igreja não era
estabelecer uma instituição com um único chefe. Tratava-se de atrair
pessoas para ele por meio da palavra do evangelho que nos chama
à fé, e de uni-las a ele pelo Espírito, de modo a criar uma comunhão
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 127

sobrenatural, que é o seu corpo. Para Jesus edificar a igreja é isso.


Por isso eu penso que a compreensão que o catolicismo romano
tem desta passagem, que a vê como uma promessa pessoal para
Simão Pedro e seus sucessores, e como tendo a ver com alguma
forma de um único líder de uma instituição, não é a natural. O que
Jesus quis dizer ao afirmar: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus
..." foi: "Eu vou fazer de você um evangelista, Pedro. Você vai pregar
o evangelho, o qual abre a porta do reino para os que o ouvem".
Jesus disse isso diretamente a Simão, assim indicando que a pro­
messa, que se aplica a todo aquele que prega o evangelho, seria cum­
prida nele de um modo especial. E de fato foi, como podemos ver.
Jesus revelou a vocação de Simão Pedro como líder espiritual
novamente em outra ocasião. Dessa vez foi na noite da prisão de
Jesus, dias antes da Paixão. Os discípulos estavam juntos com o
Senhor no que chamamos de a Última Ceia. Jesus viu o futuro,
como era capaz de fazer, e disse a seu discípulo: "Simão, Simão, eis
que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo" (Lc 22.31).
Vos está no plural, querendo dizer todos os discípulos. Jesus estava
falando com Simão específicamente, mas estava se referindo a todos
eles. Esse "peneirar como trigo" é uma referência ao modo como
os fazendeiros faziam para selecionar grãos na antiga Palestina.
Primeiro, eles o batiam no chão, debulhando-o, separando a palha
do trigo. Depois atiravam tudo ao ar com uma forquilha ou uma
grande pá, e o vento levaria a palha, enquanto o trigo caía no chão.
O que ficava era o trigo separado da palha. Jesus estava dizendo a
Simão que Satanás queria fazer picadinho deles. Seriam tratados
de modo violento e doloroso. Mas Jesus continuou: "Eu, porém,
roguei por ti" - agora Jesus usa o pronome na terceira pessoa do
singular, somente Simão - "para que a tua fé não desfaleça; tu,
pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos" (Lc 22.31,32).
Jesus sabia que depois da violência pela qual Simão passaria, o ex-
pescador voltaria a ministrar apoio e força a seus companheiros.
Essa foi uma indicação do papel de liderança que Jesus tinha em
mente para Simão Pedro.
128 Nunca Perca a Esperança

A partir desses acontecimentos podemos ver que Jesus, desde


o início, queria Simão como um líder espiritual e buscou prepará-
lo para esse papel. Não há nada estranho nisso. Jesus ainda às
vezes, coloca sua mão sobre pessoas indicando-as para lideran­
ça espiritual muito cedo em sua peregrinação. Acontece - e
isso é um chamado que aqueles que o recebem sabem que têm
de aceitar.

Um seguidor fiel
E agora, um terceiro fato sobre Simão Pedro, que também está
claro no evangelho. Desde que encontrou Jesus pela primeira vez
junto ao Mar da Galiléia, Simão lhe foi fiel como seu verdadeiro
líder. Se ele entendeu, desde o início, em que consistia ser um dos
seguidores de Jesus, não sabemos. Mas Simão sabia que Jesus era
a pessoa em cujas mãos deveria colocar seu destino, a quem ele
deveria seguir e obedecer. Uma vez atrás da outra, vemos Simão
agindo de acordo com esse compromisso. Assim ele confessou
lealdade pessoal especial ao seu Senhor depois da Última Ceia.
Quando Jesus avisou os discípulos: "Esta noite, todos vós vos
escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as
ovelhas do rebanho ficarão dispersas", Simão imediatamente
reagiu: "Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o
serás para mim". Jesus continuou com paciência: "Em verdade te
digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás
três vezes". Mas Simão teimou: "Ainda que me seja necessário
morrer contigo, de nenhum modo te negarei" (Mt 26.31-35). E ele
estava falando sério.
Simão Pedro se achava totalmente dedicado a Jesus, o seu líder.
Como os outros discípulos, ele era um crente antes da cruz. Ele
não entendeu tudo que estava planejado para Jesus ou tudo o
que Jesus tinha dito. Pode-se dizer que ele era um crente novo.
Mas quanto a haver decidido seguir Jesus na vida e na morte, o
seu compromisso era real. Em sua sinceridade, Simão tinha se
comprometido e tencionava manter-se fiel.
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 129

Sabemos, como a história continua a mostrar, que havia uma


grande dose de orgulho e auto-confiança em Simão, escondendo
muita falta de auto-conhecimento e muita fraqueza real. Mas isso
não alterava o fato de Simão, filho de João, ver-se completamente
comprometido com Jesus. Esses são os três fatos básicos que
devemos ter em mente na história de Simão. Ele era um líder
natural, Jesus o chamou para ser um líder espiritual, e Simão Pedro
estava comprometido com seu Senhor.

Lealdade com fragilidade


A história de Simão Pedro anterior à cruz se desenrola como
um relato de insensatez e finalmente de fracasso. Ele não estava à
altura das exigências do discipulado, e isso é o que a história
mostra de modo muito claro. Jesus foi paciente com ele; Jesus na
verdade o usou, assim como usou seus outros discípulos, no mi­
nistério da pregação. A certa altura Jesus os enviou como uma
equipe avançada de pregação, para que as pessoas soubessem
que ele ia chegar. A Escritura diz que eles anunciaram o reino e
curaram. Jesus deu a esses discípulos inexperientes e incompletos
esse papel no trabaho do reino. Isso realmente aconteceu. Mas
isso não altera o fato de que Simão, nesses três anos de discipulado,
foi um Simão que constantemente falava de modo insensato e
tolo, e que algumas vezes fazia coisas insensatas e tolas. Algumas
vezes ele metia os pés pelas mãos ou falava sem pensar. Por isso
dizia coisas que era melhor não ter dito, assim como fazia coisas
que nunca deveria ter feito.
Por exemplo, Simão estava no barco com os discípulos e uma
tempestade se levantou. Eles estavam remando com dificuldade,
imaginando se conseguiriam chegar ao outro lado do lago, e Jesus
vem animá-los caminhando sobre a água: "Tende bom ânimo! Sou
eu. Não temais!". E Simão logo pede (pergunte por que): "Se és tu,
Senhor, manda-me ir contigo, por sobre as águas". Por que ele quis
experimentar caminhar sobre a água? O que ele estava pensando?
É difícil adivinhar, a menos que tenha sido pura bravata; mas de
130 Nunca Perca a Esperança

qualquer forma, pensando no caso, eu acho que Pedro pode ter


sido o primeiro a admitir que não foi muito esperto da parte dele
dizer aquilo. Imagine você, Jesus levou a sério suas palavras e
concordou: "Se é isso o que você quer, venha". Então ele foi e por
alguns instantes ficou andando sobre a água assim como Jesus, e
não afundou. Mas então Simão olhou ao redor, e viu as ondas, e
sentiu o vento, e pensou na tempestade, e começou a afundar. Então
Jesus teve que puxá-lo para o barco e o repreendeu: "Homem de
pequena fé, por que duvidaste?" (Mt 14.22-31). Teria sido melhor
Simão não arriscar a sua fé daquele modo. Mas aquele era Simão.
Depois lemos sobre Simão Pedro no monte da transfiguração
com Tiago e João, fascinado enquanto Jesus se transfigura em um
branco reluzente, enquanto a glória de Deus, o Shekinah, se mostra
nele. Simão não sabia o que dizer, mas sendo Simão, tinha que
dizer alguma coisa. Ele vê Jesus falando com Moisés e Elias, que
também apareceram no monte (De alguma forma os discípulos
sabiam quem eram os visitantes). Então ele diz a Jesus "Senhor,
bom é estarmos nós aqui; se queres, farei aqui três tendas, uma
será tua, outra para Moisés, outra para Elias". De novo, você fica
olhando, passa a mão na cabeça e imagina: "Por que ele disse
isso?" Qual o sentido dele dizer isso? Por que três tendas era me­
lhor que uma? Para que as tendas? Para encobrir o sol ou o quê?
Simão queria dizer a Jesus, Moisés e Elias que ele poderia cons­
truir, se fosse necessário? E se fosse, por quê? Não há resposta
para essas perguntas. Simão fazia colocações sem se perguntar se
era o caso de fazê-las; ele simplesmente ia falando. Esse era Simão
(ver Mt 17.1-8).
E você sabe como afinal terminou a história do discipulado de
Simão antes da crucificação. Foi um verdadeiro desastre espiritual
a negação de Simão. Três vezes ele nega que conhece Jesus, que
tenha qualquer coisa a ver com Jesus, que haja qualquer conteúdo
na idéia de que possa ser um discípulo de Jesus. Nas duas primeiras
vezes ele negou em resposta a servas que disseram: "Tenho a
impressão de que você é da turma de Jesus, não é?" Simão disse
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 131

duas vezes "Nem pensar". Foram duas vezes. Depois vem o servo
do sumo sacerdote que diz: "Eu não vi você no jardim com esse
Jesus quando ele foi preso?" Simão então começa a amaldiçoar e a
rogar pragas ez pode-se imaginar, vai ficando vermelho e começa a
gesticular e insistir: "Eu não sei de nada!". Então ele percebe o que
tinha feito e fica arrazado. Ele sai e chora amargamente. Quem
podia imaginar? Ele disse: "Ainda que me seja necessário morrer
contigo, de nenhum modo te negarei" (Mt 26.35). Mas agora Pedro
ouve o galo cantar. Ele percebe que negar a Jesus foi exatamente
o que ele acabou de fazer, e sente-se então um homem acabado.
Assim termina o primeiro dos três atos da história do
discipulado de Simão. Ele estava derrubado. Seu orgulho tinha
sido destruído; sua auto-confiança se acabara; ele se sentia
quebrado. Não seria possível lhe dizer, naquele momento, que
era saudável para ele que o seu orgulho tivesse sido ferido e sua
auto-confiança abalada. Mas foi, com certeza, como ele mesmo
veio a perceber mais para frente.
Será que você já aprendeu isso com a sua própria experiência?
Enquanto não destruir a sua autoconfiança Deus não pode fazer
muita coisa com você. As vezes, como Simão Pedro, temos que
cometer erros e de fato falhar como cristãos antes que a nossa na­
tural autoconfiança seja destruída. Em sua misericórdia Deus nos
permite falhar para quebrar nossa autoconfiança. Depois de fazer
isso ele pode nos levantar com uma nova visão, crendo mais nele
e confiando menos em nós mesmos. Isso é muito saudável para a
alma. É assim que Jesus estava conduzindo Pedro.
Mas o primeiro ato da história de Simão Pedro se encerra, como
dissemos, com ele devastado, quebrado e em prantos (ver Mc
14.66-72; Lc 22.54-62; Jo 18.15-27). Ele abandonou o seu Senhor. O
erro é traumático. Em pânico, ele quebrou sua promessa de
lealdade para salvar a pele. Ele sente, e com razão, que o que fez
foi mesmo terrível. E Simão, que realmente amava a Jesus e tinha
intenção de lhe ser fiel, não sabia onde se colocar ou o que fazer
consigo mesmo. Eu posso entendê-lo, e espero que você também.
132 Nunca Perca a Esperança

Lealdade com honestidade


No ato dois, vemos Simão Pedro num encontro com Jesus que
transformaria sua vida, depois da ressurreição e logo antes da
ascenção. Aqui o vemos encarregado de novo da liderança que
pensou ter perdido com sua negação. É uma maravilhosa
manifestação de misericórdia por parte do Salvador. Encontramos
a história em João 21.
Assim é como tudo começa: Simão diz a seus amigos e co-
discípulos: "Vou pescar". Ele não quis dizer: "Estou pegando umas
férias para pescar", o que poderia significar se você ou eu
usássemos essas palavras. Mas Simão estava dizendo: "Eu acabei
com o ministério. Não posso mais servir a Jesus, embora parta
meu coração ter de admitir isso. Sou totalmente desqualificado
por tê-lo negado em público. Então voltarei à minha atividade
antiga. Vou ser um pescador de novo. Vocês vêm comigo? Vamos
pescar essa noite, pegamos alguma coisa e aí eu posso abrir a
peixaria amanhã e ter alguma coisa para vender".
Suponho que isso, em parte, era porque Simão estava tentando
colocar bálsamo em sua alma ferida. Ele sabia que tinha sido
perdoado pelas suas negações. Ele era um dos que Jesus separou
para divulgar sua mensagem pelo mundo (Jo 20.21-23), mas no
que lhe pareceu uma reflexão madura, ele se sente tão fracassado
que tem de deixar totalmente a sua vocação. Sua euforia natural e
entusiasmo não mais existiam e sua credibilidade (assim ele acha)
acabou. Sua atitude mostra que ele estava dizendo a si mesmo:
Eu não consegui sucesso como discípulo, mas posso ter sucesso como
pescador. Pelo menos eu sou um bom pescador. Sua auto-estima,
autoconfiança e orgulho estavam arruinados, então ele planejou
dar a si mesmo a chance de fazer aquilo que fazia bem. Um
psiquiatra chamaria isso de estratégia de compensação.
Não sabemos o que os amigos pensaram do seu plano, mas
vemos que eles estavam dispostos a ajudá-lo. Eles sairam e pesca­
ram a noite toda. E não pegaram nada. Jesus então apareceu a
eles de manhã cedo na praia e lhes diz, como já havia feito antes:
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 133

"Lançai a rede à direita do barco e achareis" (v.6). Quando fizeram


o que ele disse, mais uma vez pegaram um cardume de peixes e a
rede ficou cheia. Então voltaram à praia e mais uma vez ficaram
maravilhados com o poder do Salvador ressurreto, em cuja com­
panhia eles se sentiam agora muito felizes.
Simão, capitão do barco, já tinha saído. E ele fez isso de um
modo muito próprio dele. Não houve nenhum raciocínio claro
por trás do que ele fez, além do fato que ele queria ser o primeiro
a chegar à praia e encontrar o Salvador. Ele pegou sua vestimenta,
que havia tirado na noite da pesca (Eles tinham trabalhado duro
e deviam ter se despido da cintura para cima, e seria um sinal de
desrespeito aparecer perante o Senhor com o peito nu.). Então
Simão colocou suas vestes. Depois pulou na água para ser o
primeiro a chegar à praia. Quando chegou perto de Jesus, estava
molhado. Foi bom que Jesus tivesse acendido o fogo e então Simão
pode chegar-se e se secar.
A história acontece assim. Jesus havia preparado o desjejum
para eles: peixe e pão torrado (É tão maravilhoso como o Salvador
pensa nas nossas necessidades básicas, não é mesmo?). Depois
de comer, Jesus leva Simão para um passeio pela praia. Quando
estão fora de alcance auditivo dos outros discípulos, ele diz:
"Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?" As
palavras de Jesus "mais do que estes", eu suponho, ecoavam em
sua memória recordando a ocasião em que Simão lhe dissera que
mesmo que todos os outros o negassem, ele não o negaria. E claro
que a negação tripla se interpunha entre as palavras de Pedro na­
quela ocasião e Jesus falando com ele agora, portanto foi como se hou­
vesse uma ferroada na pergunta, como se Jesus estivesse dizendo:
"Simão, filho de João, você me ama, mesmo? Você acha que realmente
me ama mais do que esses amam?" Simão não faz um discurso. Sob
o efeito das miseráveis lembranças da negação ele diz: "Sim, o senhor
sabe que eu o amo. Eu sei que fiz algo terrível. Eu fui realmente um
traidor, Jesus, e eu me sinto péssimo ao me lembrar. Mas o senhor
pode ler o meu coração. O senhor sabe que eu o amo". Não havia ne-
134 Nunca Perca a Esperança

nhuma esperteza em Simão: ele estava sendo honesto e verdadeiro.


Jesus repete sua pergunta uma segunda e terceira vez, e a cada uma
delas Simão dá a mesma resposta.
Há dúvidas se a terceira pergunta foi exatamente igual às duas
primeiras, porque João emprega palavras gregas diferentes para o
verbo "amar". Uma versão mais recente da Bíblia faz a diferença
interpretando a terceira questão: "Você é meu amigo?" Mas essa é
uma pista falsa; em outra parte do evangelho João usa os dois verbos
como sinônimos. A variação é somente no estilo (de qualquer
maneira, Jesus e Simão estavam quase com certeza falando
aramaico, idioma em que as diferenças de nuança que se supõem
que o verbo indique não podem ser expressadas desse modo.)
Na terceira vez, a pergunta de Jesus pareceu dolorosa a Simão
porque era como se Jesus estivesse duvidando de suas palavras.
Ele não conseguia compreender o que o Senhor estava fazendo. É
óbvio, certamente, que Jesus o estava convidando a uma confissão
tripla de amor para começar a limpar de sua memória a amarga
negação tripla. Então, a cada vez que Simão dizia: "Sim, Senhor,
tu sabes que te amo", Jesus imediatamente dava a ele uma tarefa:
"Apascente minhas ovelhas, cuide do meu rebanho; alimente mi­
nhas ovelhas". Jesus estava reafirmando Simão na liderança, no
ministério que ele tinha tido em mente para seu discípulo desde
o princípio. Simão tinha saído para pescar na noite anterior porque
estava completamente certo que estava tudo cancelado em relação
ao seu público discipulado e seu público ministério. Ele havia
desqualificado a si mesmo para sempre quanto a ser usado pelo
Senhor Jesus, ou foi isso que pensou. Mas aqui está o Senhor Jesus
colocando-o novamente no papel de liderança, específicamente
comissionando-o novamente como ministro, e a ligação entre a
pergunta de Jesus e a comissão estava em suas palavras: "Senhor,
sabes que eu te amo". O que Jesus está dizendo a ele é: "Simão, se
você realmente me ama (e eu não duvido da sua honestidade
aqui; eu acho que você está dizendo a verdade. Eu sei o que está
em seu coração), como alguém que me ama você terá de mostrar
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 135

isso. Amar não é simplesmente dizer que ama; é uma questão de


provar que ama pelo que você faz".
E assim ao longo da vida, não é mesmo? Pais demonstram que
amam seus filhos, casais demonstram que amam um ao outro,
amigos demonstram que amam seus amigos por aquilo que fazem
por eles. Amor na Bíblia não se resume a palavras. Amor é, em
essência, não um sentimento de atração mas um propósito de
servir oferecendo ajuda prática. É possível amar-se alguém de
quem não se gosta, e de fato às vezes isso é exigido de todos nós.
Então aqui Jesus na realidade diz a Simão: "Agora você tem de
demonstrar que me ama em atitude, uma atitude muito diferente
daquela desastrosa que você está lembrando. Agora a atitude será
a de amar, servir, cuidar e ministrar a outras pessoas, específi­
camente a outros crentes, pela minha causa. Se você me ama, então
alimente minhas ovelhas, tome conta do meu rebanho, olhe por
esses outros como meu agente e representante". E o que Jesus res­
ponde à honestidade de Simão restabelecendo-o no seu ministério.
É Jesus aceitando e confirmando a confissão de amor de Simão e
mostrando a seu amigo como demonstrá-lo genuinamente.
"Simão, eu o quero de volta ao meu serviço. Simão, estou lhe
dizendo que você deve planejar ser o pastor do meu rebanho.
Simão, eu quero que fique claro que meu plano inicial para você
ainda está de pé."
Logo depois disso, Jesus colocou de lado por um momento a cor­
tina que esconde o futuro. Ele diz que Simão encerraria seu disci­
pulado sendo martirizado para a glória de Deus. Eu acho que Jesus
fez isso porque queria dar a Simão a oportunidade de renegar de
modo claro sua paixão por salvar a própria pele, o que o levara à ne­
gação. Então Jesus diz a ele sem rodeios: "Simão, se você aceitar de
volta o meu comissionamento, você não será capaz de salvar a sua
pele. Eu quero que você saiba disso. Você me glorificará finalmente
pela morte, uma morte de mártir nas mãos de autoridades que o
executarão como um subversivo, exatamente como fizeram comigo.
E agora que você sabe disso, Simão, eu lhe digo: Siga-me".
136 Nunca Perca a Esperança

"Siga-me" haviam sido as palavras de Jesus a Simão quando o


chamou pela primeira vez para ser um discípulo (Mt 4.19; compare
com Jo 1.43). Na quela ocasião as palavras haviam significado que
Simão deveria se tomar companhia itinerante de Jesus, o professor
itinerante, enquanto viajava para cá e para lá através da Galiléia
e Judéia. Agora ele usou as palavras de novo. O que quis dizer
com "Siga-me" quando estava para deixar esse mundo e retornar
para a glória do Pai? O que ele quis dizer, claramente, foi "Aceite
minhas diretrizes, submeta-se aos planos que tenho para você,
deixem-me guiar sua vida. Não fuja de nenhum dos chamados,
desafios, ou sofrimentos que a lealdade a mim lhe trará. Siga
meu comando e meu exemplo o tempo todo. Você vai se compro­
meter a fazer isso, Simão, agora que sabe em que isso implica?"
Se Simão dissesse sim, aquilo apagaria a memória paralizante
das negações. Simão podia então estar dizendo: "Senhor, eu
não vou mais me preocupar em salvar a minha pele. Sim, eu
o seguirei". Simão entendeu isso, ainda que ele quase não o
tenha conseguido.
Suponho que antes de Simão responder a Jesus ele tenha olhado
para longe ou se afastado um pouco de modo a ter um momento
para pensar a respeito. Ele percebeu que seria uma resposta im­
portante. Ele observou que João estava caminhando ao longo da praia
atrás dele e perguntou para Jesus: "Senhor, e quanto a ele? E João?"
Ele estava mudando de assunto e, no momento, evitando o desafio.
Mas Jesus, misericordiosamente, não permitiria que ele fizesse isso,
e diz a Simão: "Isso não tem nada a ver com você. O que tenho reser­
vado para João não é para aqui e nem agora. Se eu quero que ele con­
tinue vivo até eu voltar, não é problema seu. Mas estou dizendo a
você, Simão, que você (e esse você é muito enfático no grego) deve me
seguir". Simão entendeu a mensagem. E o Simão que encontramos
no resto do Novo Testamento é um Simão totalmente comprometido
(mesmo assim ele não foi capaz de salvar sua pele) a seguir o Cordei­
ro por onde ele o conduzisse. Então, no ato dois, vemos Simão Pedro
restaurado espiritual e vocacionalmente.
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 137

Lealdade com estabilidade


Isso conduz ao ato três da história, no qual Simão Pedro se toma
verdadeira e inteiramente a rocha, a âncora da nova igreja. Essa
seção da história, que começa com a vinda do Espírito no Pen-
tescostes, fala de fidelidade e de frutificação. Olhe para a narrativa
que ocupa os primeiros doze capítulos de Atos. Em quase todos
você vê Simão, de um jeito ou de outro, como pioneiro de Deus,
pastor e âncora. Ele está cumprindo a profecia do seu Senhor, mos­
trando lealdade e amor para com Jesus pela estabilidade de seu
comprometimento e seu serviço.
Ao final de sua vida Simão Pedro escreve duas cartas para as
igrejas. É impressionante ver que estabilidade e firmeza são ideais
proeminentes enfatizados em ambas. Quando olhamos para sua
carreira anterior e pensamos novamente na negação, tolices e
falhas, não nos surpreendemos que agora, como um líder, mestre
e apóstolo procurando edificar os santos, cumprindo verdadei­
ramente um ministério apostólico, Simão se preocupe com
estabilidade.
Aqui está algo do que ele escreve. A primeira carta foi enviada
às igrejas nos anos 60 do século 1-, quando cristãos enfrentavam
perseguições e tinham que viver diariamente sob ameaça de
morte. O que Pedro diz a eles pode ser assim ampliado: "Contro-
lem-se e estejam alertas. Seu inimigo, o diabo, está rondando vocês
como um leão que ruge, procurando alguém para devorar,
justamente como uma vez ele veio a mim quando prenderam a
Jesus. O alerta de Jesus sobre Satanás querendo me peneirar foi
terrivelmente cumprido em minha negação. Seu inimigo, o diabo,
está de olho em você. Resistam a ele," diz Simão Pedro, "per­
manecendo firmes na fé, e saibam que seus irmãos pelo mundo
estarão suportando o mesmo sofrimento que vocês. E o Deus de
toda graça, que chamou vocês para sua glória eterna em Cristo,
depois que tiverem sofrido por um tempo, os restaurará ele mesmo
e os fará fortes, firmes e constantes. Seus sofrimentos presentes
terão fim, mas os ataques de Satanás contra a sua fidelidade
138 Nunca Perca a Esperança

continuarão até o fim da sua vida. Preparem-se para enfrentá-


los". É o chamado de Simão para a estabilidade em 1 Pedro
(ver 5.8-11).
Agora ouça-o novamente na segunda carta. Ele está falando
sobre as cartas de Paulo, que contém coisas difíceis de compre­
ender, coisas que, ele diz, pessoas ignorantes e instáveis distorcem,
como fazem com outras Escrituras, para sua própria destruição.
Mas os crentes não deviam ser como aqueles instáveis: "... pre­
venidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que,
arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa
própria firmeza". E, para ter certeza que continuariam firmes,
acrescenta:"... crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 3.17,18). Tendo experimentado um
pouco do desastre espiritual e da miséria pessoal em que o diabo
pode mergulhar o instável, o pastor Simão Pedro está com-
preensivelmente ansioso para ter certeza de que ninguém vai errar
ou cair como ele. Assim termina o ato três da história do Novo
Testamento sobre Simão Pedro.

Simão Pedro em nós


"Todo mundo ama Pedro", disse-me uma missionária
transcultural veterana. Acho que o que ela quis dizer, era que
todo mundo se identifica muito com o que vêem em Simão Pedro:
sua impulsividade impensada, sua alegre e ingênua auto­
confiança, sua amável fraternidade, sua prontidão para responder
perguntas quando não sabia a resposta e suas trapalhadas
ocasionais. As pessoas se identificam também com a profundidade
de sua queda por ocasião da negação e com a glória de sua
restauração quando Jesus lhe fala graciosamente à margem do
lago e quando o Espírito Santo vem poderosamente sobre ele no
Pentecoste. Eles sentem, no caso de Pedro como também no de
Paulo, que se Deus pode fazer o que fez pela transformação
daquele homem, então existe com certeza mais esperança de
sermos transformados do que imaginamos.
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 139

Mas precisamos ser honestos conosco mesmos e com Deus se


vai se cumprir a esperança de que Deus nos transforme, como
transformou a Simão. Podemos dizer a Jesus como Simão Pedro:
"O Senhor sabe que te amo"? Não há dúvida de que somos
forçados a lhe dizer: "Senhor, eu sei que o deixei. O que fiz foi
terrível, e a lembrança disso é horrível — mas ainda em meu cora­
ção eu o amo, e o que quero mais do que tudo é amar-te mais e
melhor". Ouvimos a voz de Jesus dando perdão e paz para nosso
coração pelos nossos pecados e faltas, e nos assegurando que
apesar de tudo, ele ainda tem trabalho para nós? Nós nos ouvimos
dizendo que o modo de demonstrar amor a alguém, para o Senhor,
para outros cristãos, para nosso próximo, é pelo que fazemos por
eles, acima de qualquer coisa que lhes digamos? O caminho da
vitória de Simão foi, como vimos, tornar-se realmente honesto,
realista e receptivo perante o Filho de Deus. Foi como ele veio a
conhecer a Deus o Pai. Foi enquanto trilhava o seu caminho que
Deus o transformou de Simão instável em Pedro a rocha. Seguir
esse caminho é, em um sentido bem básico, a real sucessão
apostólica. Esse é o verdadeiro caminho para os verdadeiros discí­
pulos de Jesus. Esse é o caminho que você e eu devemos percorrer.
Que o Senhor nos conduza por ele. Vamos orar para isso acontecer.
Gracioso Senhor Jesus, nós o vimos demonstrando a Simão paciência
e misericórdia e a graça maravilhosa da restauração, teu servo falho, a
quem transformaste de um homem fraco em um homem forte, de um
homem instável a um homem firme e de uma pessoa inconstante a uma
rocha. Em humildade, Senhor Jesus, nós nos prostramos diante do Senhor
como aqueles que precisam dessa graça que foi demonstrada a Simão.
Está ao nosso lado Senhor Jesus, nós que de coração te dizemos que te
amamos. E opera em nós como operaste na vida de Simão para a benção
de outros e a glória de teu nome. Essa é, Senhor Jesus, a nossa prece.
Abençoa-nos, imploramos, e que tua graça e o amor do Pai e o poder e a
comunhão e benção que vem do Espírito Santo sejam nossa porção
enquanto vivermos. E que a benção do Pai, Filho e Espírito esteja sobre
nós. Assim seja, Senhor. Amém.
140 Nunca Perca a Esperança

Estudo
1. O que de si mesmo você vê em Simão Pedro?
2. Leia João 21. Que imagens dessa história permanecem em
sua mente?
3. Que exemplos da bondade de Cristo você vê aqui?
4. Quais evidências da lealdade de Simão Pedro a Jesus você
vê?
5. Se você tivesse sido Simão Pedro, o que acharia difícil nessa
conversa com Jesus?
6. Quando você experimentou uma restauração com Deus?
Que impacto duradouro teve essa restauração em sua
vida?
7. Leia 1 Pedro 5.8-11. Que mudanças essas palavras refletem
no caráter de Pedro?
8. Que encorajamento pessoal você encontra nessas palavras
finais da primeira carta de Pedro?
9. Conforme você olha para trás para a sua própria história
com Cristo, quais mudanças ele está fazendo em seu
caráter?
10. Como uma parte da restauração Jesus pergunta a Simão
Pedro três vezes: “Você me ama?" Como você respondería
a essa pergunta? Quais ações específicas você empreen­
deria baseado em sua resposta?

Oração
★ Enquanto outras pessoas diziam diferentes coisas sobre a
identidade de Jesus, Simão Pedro teve essas palavras: "Tu és
o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mt 16.16). Se você honesta­
mente é capaz de dizer isso, ore expressando seu compro­
metimento com a mesma fé.
★ Num tempo em que pessoas estavam deixando Jesus, quando
Simão Pedro podia achar ter bons motivos para parar de seguir
Jesus, ele disse: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as
Esperança Quando Fiz Algo Terrível 141

palavras da vida eterna" (Jo 6.68). Medite nas palavras de


Pedro enquanto você reflete sobre suas próprias tentações para
desviar-se. Fale com Deus sobre essas tentações e também
sobre seu compromisso com ele.
★ Simão Pedro era um líder nato que Jesus treinou para se tornar
uma líder espiritual. Mas ele também se tornou um seguidor
— um leal seguidor de Jesus. Reflita nas habilidades naturais
para liderar e seguir que Deus lhe deu. Ore sobre como o
Senhor pode estar refinando essas habilidades à medida que
ele o molda para ser um servo efetivo de seu reino.
★ Encontre um hino ou cântico de louvor que expresse seu amor
por Cristo. Cante ou leia-o como uma oração.

Escreva
Quando Jesus perguntou a Simão Pedro pela terceira vez: "Tu
me amas?" seu discípulo respondeu: "Senhor, tu sabes todas as
coisas, tu sabes que eu te amo" (Jo 21.17). Lembrando que Deus já
conhece a extensão do seu amor (mais que você mesmo) pense
no seu amor por seu Senhor. Inclua expressões de seu amor e
comprometimento a ele, quaisquer reservas sobre a extensão de
seu amor, e como você espera fazer seu trabalho, mostrando amor
a Jesus e ao seu povo.
neecnrAS

Neemias foi um político. Por muitos anos ele foi governador


de província, trabalhando em Jerusalém como representante de
Estado do rei da Pérsia, mas também e principalmente como servo
de seu Deus para fazer com que os judeus de Jerusalém fossem o
povo santo do Senhor. Eu disse que ele foi um político. Eu podia
também ter dito que ele foi um pastor. Veremos ambas as iden­
tidades ao analisar o capítulo 13 do seu livro. Trata-se do fim de
suas memórias pessoais. Nele, Neemias nos conta o que encontrou
quando voltou a Jerusalém como governador, muitos anos após
ter terminado seu trabalho e o que ele fez a respeito.
O que Neemias encontrou foi muita coisa que, pela graça de
Deus, ele colocara em ordem durante seu primeiro período como
governador, mas que estava de novo em desordem e que ele devia
então reorganizar. Isso foi muito desapontador para Neemias,
apesar dele falar pouco sobre seus sentimentos. Talvez o leitor
menos sensível perca os sinais de como ele ficou abatido ao des­
cobrir tanta coisa errada. Mas os sinais estão evidentes na pungência
de suas ações restauradoras. Ele descreve o que fez para restabe­
lecer as coisas que sabia que precisavam ser mudadas. Em Neemias
13.15-22 lemos como foi restaurado a santificação do sábado. O
versículo 17 nos conta que ele repreendeu os nobres de Judá e lhes
disse: "Que mal é este que fazeis, profanando o dia de sábado?"
Nos versos 20 e 21 está escrito que ele advertiu os comerciantes
144 Nunca Perca a Esperança

que vinham para a cidade e pernoitavam fora de Jerusalém durante


o sábado, esperando desrespeitar o sétimo dia com propósito
comercial. "Protestei, pois, contra eles," disse Neemias, "e lhes disse:
Por que passais a noite defronte do muro? Se outra vez o fizerdes,
lançarei mão sobre vós". Que palavra dura!
Não foi só isso que ele fez. O parágrafo seguinte (13.23-28) nos
fala como promoveu, do modo como já tinha feito antes (ver 10.30;
também Ed 10) mas que agora tinha de ser promovida de novo, a
santificação do lar em Jerusalém. O problema era que judeus tinham
se casado com não-judeus e seus filhos desconheciam o hebraico,
falando apenas a língua pagã. Eles não conseguiam entender os
ensinamentos e a leitura da Lei de Deus quando a ouviam. E outra
vez Neemias usa palavras duras. Ele diz (Ne 13.25): "Contendi com
eles, e os amaldiçoei, e espanquei alguns deles, e lhes arranquei os
cabelos (ação violenta também), e os conjurei por Deus, dizendo:
Não dareis mais vossas filhas a seus filhos e não tomareis mais
suas filhas, nem para vossos filhos nem para vós mesmos".
Um pouco depois, Neemias nos lembra do que fez para restaurar
o louvor a Deus em Jerusalém. Os serviços do templo tinham sido
negligenciados. Em 13.4-7 vemos que um dos oponentes constantes
de Neemias no passado, um homem chamado Tobias (ver Ne
2.10,19; 4.1-7; 6.1-19), tinha sido premiado com uma câmara, um
alojamento nos pátios da casa de Deus, o que era escandaloso. A
razão disso ter acontecido foi que os dízimos que deveriam sus­
tentar os que trabalhavam no templo, os levitas, simplesmente não
estavam sendo entregues. Então os levitas, em vez de servir no
templo, precisavam voltar aos seus campos para ganhar o seu
sustento. Por isso o depósito não estava sendo utilizado.
Neemias nos conta quais providências tomou. Em 13.8 diz: "Isso
muito me indignou a tal ponto, que atirei todos os móveis da casa
de Tobias fora da câmara". Ele deu ordens para limpar a sala e
depois insistiu que os dízimos e as ofertas fossem trazidos, dali em
diante, de acordo com a Lei de Deus. O versículo 11 diz: "Então,
contendi com os magistrados e disse: Por que se desamparou a
Esperança Quando Tudo Deu Errado 145

Casa de Deus? Ajuntei os levitas e os cantores e os restituí a seus


postos". Ele continua a nos contar no versículo 30: "Limpei-os, pois,
de toda estrangeirice e designei o serviço dos sacerdotes e dos
levitas, cada um no seu mister". Resumindo, ele resgatou outra
vez o louvor e a adoração a Deus no templo como deveriam ser,
como ele havia feito da primeira vez (ver Ne 10).
Podemos também notar que esse capítulo é pontuado de
orações. Neemias, concluindo as suas memórias, insere as orações
que fez na época (ver Ne 13.14,22,29,30). Nos primeiros capítulos
algumas vezes ele tinha feito o mesmo (ver 4.4,5; 5.19; 6.14). Em
13.22 ele ora: "Também nisto, Deus meu, lembra-te de mim; e
perdoa-me segundo a abundância da tua misericórdia." E depois
as últimas palavras do capítulo foram: "Lembra-te de mim, Deus
meu, para o meu bem".
O que você acha agora deste homem chamado Neemias? O
que vê nele quando lê essa história no capítulo final de suas
memórias? Você acha que gostaria de passar um tempo com ele?
E óbvio que se trata de um servo de Deus, e muito devotado. Seu
trabalho é marcado por intensa concentração. Ele não deixava as
coisas à deriva. Seu espírito era objetivo. Ele sabia quais eram
seus objetivos e os perseguia. Ele estava preparado para fazer
qualquer coisa razoável para restabelecer a adoração no templo,
ajustar a vida familiar e restaurar a observância do sábado em
Jerusalém. Ele sabia aonde estava indo e deu todos os passos
necessários para chegar lá.
O ministério de Neemias foi marcado, para dizer francamente,
por explosões de raiva. Ele não foi, em nenhum sentido, uma
pessoa simpática. Ele ficou furioso com Tobias e atirou todos os
móveis e objetos pessoais fora do quarto que o amonita tinha
recebido permissão de ocupar. Imagine Tobias parado e furioso
enquanto Neemias, protegido por dois ou três guardas, revirava
o que tinha no quarto de qualquer maneira - ou talvez ele tenha
ficado perto de Tobias, ignorando-o enquanto dava ordens aos
guardas enquanto o despejavam. Neemias também arrancou os
146 Nunca Perca a Esperança

cabelos de alguns judeus que tinham se casado com mulheres


pagãs e estavam criando filhos que não falavam hebraico. Ele foi
duro. Você o vê como um homem de ação, de maneira alguma
um brincalhão, mas sim um vigoroso, até mesmo violento agente
de mudanças, muito agitado com os abusos que estava tentando
corrigir.
Pode ser que para sermos honestos teríamos que dizer: "Bem,
um cara como esse é simplesmente demais para mim. Não posso
apreciar esse tipo de devoção, esse tipo de serviço a Deus. Eu não
sei se Deus gosta disso! De qualquer forma, eu tento ser uma
pessoa gentil. Pessoas violentas como Neemias não são o tipo de
companhia que eu gostaria de ter".

Uma qualidade rara


A raiva de Neemias no templo foi uma falha moral? Se fosse, a
raiva de Jesus quando limpou o templo também teria sido uma
falha moral? Na época do "politicamente correto", na qual tolerar
o intolerável é visto como uma grande virtude, pode até parecer
que foi uma falha, mas vamos pensar melhor. Estamos vendo
nesse capítulo algo tão raro hoje em dia que nem sabemos definir.
E quando a palavra normal da Bíblia para isso é usada, dificilmente
conseguimos saber o que significa. Essa palavra é zelo. O que
estamos vendo aqui é um servo de Deus zeloso em ação face à
irreverência escandalosa. Quando compreende isso você começa
a imaginar se teria sido apropriado Neemias reagir com menos
rigor. Teria sido melhor Neemias dar de ombros para a coisas
que ele viu?
Zelo é uma qualidade que encontramos sempre na Escritura
quando lemos sobre o Senhor e seus servos. Nós a encontramos
ao ler sobre como o Senhor Jesus fez um chicote de cordas e
expulsou os comerciantes do templo. Os discípulos, observando
em temor, perceberam que eles estavam vendo cumprir em Jesus
o que estava escrito nas Escrituras "O zelo da tua casa me consu­
mirá" (literalmente: "devorará"; veja João 2.14-17). Esse é o Senhor
Esperança Quando Tudo Deu Errado 147

Jesus, que é nosso modelo e nosso padrão no serviço de Deus. E


aqui está Neemias mostrando zelo de modo semelhante.
Para aprender o que é zelo, tomemos a definição de uma
verdadeira autoridade, um dos grandes homens da Igreja da
Inglaterra no final do século 19: Bispo J.C. Ryle, primeiro bispo
de Liverpool. Preste atenção a como ele descreve zelo no capítulo
sobre o assunto.

Zelo em religião é um desejo ardente de agradar a Deus,


fazer a sua vontade e promover sua glória no mundo de
todo modo possível. E um desejo que ninguém sente
naturalmente - o Espírito o coloca no coração de cada crente
na conversão - mas que alguns crentes sentem tão mais
fortemente que outros que só eles são dignos de serem
chamados homens "zelosos"... O zeloso em religião é
predominantemente alguém de um único pensamento. Não
é suficiente dizer que essa pessoa é séria, sincera, firme,
enérgica, cordial, ardente em espírito. Ela vê somente uma
coisa, preocupa-se com uma coisa, vive para uma coisa, ela
é absorvido por uma coisa e essa coisa é agradar a Deus. Se
ela vive ou morre - se tem saúde ou está doente - se é rica
ou pobre - se é julgada sábia ou tola — se é acusada ou
louvada - isso tudo para a pessoa zelosa não importa. Ela
anseia uma coisa; e essa coisa é agradar a Deus e promover
a glória de Deus. Se é consumida ao se queimar para Deus,
não se importa - está contente. Ela sente que, como uma
lâmpada, foi feita para queimar; e se for consumida terá
apenas feito o trabalho para o qual Deus a designou. Uma
pessoa assim zelosa sempre encontrará uma esfera para o
seu zelo. Se não conseguir pregar, trabalhar e ganhar
dinheiro, ele irá chorar, suspirar e orar... Se não puder lutar
no vale com Josué, fará o trabalho de Moisés, Aarão e Hur
na montanha (Êx 7.9-13 [referindo-se ao trabalho de
intercessão]. Se essa pessoa for afastada do trabalho não
dará ao Senhor descanso até o socorro se levantar de outra
parte e o trabalho ser feito. Isso é o que eu quero dizer
quando falo de "zelo" em religião (Practical Religión [Nova
York: Thomas Y. Crowell, 1959], págs. 130-31).
148 Nunca Perca a Esperança

Estou feliz em dizer que Ryle, que escreveu isso há mais de cem
anos, não é a única pessoa que sabe o que é zelo. Douglas Rumford
escreveu (Wheaton, 111: Tyndale, 1996) um ótimo livro sobre a vida
espiritual. Bem no final do livro, Rumford escreve sobre zelo e o
aponta como um dos sinais vitais da alma sadia. Ele diz:

Zelo não pode ser confundido com sentimentalismo,


extroversão, ou mesmo com atividade frenética. É melhor
descrito como uma confidência resoluta que resulta numa
aplicação segura da verdade de Deus na vida. A pessoa
com zelo frequentemente recua para renovação e depois
acelera novamente com coragem total - para compartilhar
sua fé, para permanecer firme contra a tentação para o
cumprir, ir uma milha a mais quando a estrada é entrelaçada
com espinhos e galhos... A força vem com o cumprimento
da tarefa. No exercício físico, quando se levanta pesos, o
corpo demanda mais suprimento de sangue para a área
onde a demanda é feita. No processo, as novas rotas de
circulação se formam, suprindo com mais sangue - o que
significa mais força para a área. Mas se não é feita demanda,
nenhuma força é suprida! Se você quiser experimentar
vitalidade espiritual, coloque-se no lugar onde a demanda
é feita. Por exemplo, traga Jesus Cristo para sua conversa;
diga sim para monitorar uma criança pequena que começou
a caminhar com Jesus; procure um vizinho em necessidade;
ore com uma pessoa pela cura. Se você não exercitar sua fé,
ela não crescerá. Quando você acelerar, ficará encantado
pela experiência da presença de Deus. Não precisa — na
verdade nem sempre — ser de um modo dramático. Mas
há uma paz sólida e segura quando você faz a coisa certa e
Deus fica satisfeito (págs. 452-53).

Essas são palavras de sabedoria e verdade. O caminho do zelo


é o que Neemias, Jesus e Paulo trilharam e nele, me parece, esta­
beleceram um referencial e um padrão que todos os crentes
deviam ter como meta. Não podemos nos justificar por não sermos
zelosos. Fomos chamados para sermos zelosos para nosso Deus,
como expressão de amor por ele, e não o agradaremos sem que
sejamos assim zelosos.
Esperança Quando Tudo Deu Errado 149

Zelo no Novo Testamento


Como afirmado acima, vemos esse zelo no Senhor Jesus: "A
minha comida [comida e bebida] consiste em fazer a vontade
daquele que me enviou e realizar a sua obra" (Jo 4.34). Vemos
isso em Paulo, em muitas coisas que diz. Aqui estão somente duas
delas, ambas na segunda carta à congregação de Corinto - um
grupo difícil de pastorear, como Paulo afirmou. Corrigindo o
pensamento de que sua paixão por Cristo fosse um tipo de demên­
cia, ele diz: "... o amor de Cristo nos constrange, julgando nós
isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu
por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos,
mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou"(2Co 5.14,15).
Você encontra Paulo novamente dizendo, como uma expressão
de seu zelo em 2 Corintios 12.15: "Eu de boa vontade me gastarei
e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma. Se mais vos
amo, serei menos amado?". Não é demência, mas amor zeloso e
zelo vivo. De Paulo e Jesus aprendemos que não há inconsistência
entre zelo pela glória de Deus e amor para com o povo de Deus.
Em seus corações ambos combinam e no coração de Neemias
aconteceu o mesmo.
Alguns de nós podemos achar difícil ver isso. O zelo feroz de
Neemias nos faz pensar, Certamente esse cara ¿fanático. Ele não se
importava com as pessoas. Ah, sim, ele se importava, assim como
Jesus se importava, assim como Paulo se importava. Mas em amor
ele buscava o bem das pessoas, e às vezes temos que ser duros se
quisermos fazer-lhes o bem. Zelo, então, é uma virtude cristã que
quero exortar você a buscar e praticar.

O zelo de Neemias
Uma das características dos crentes zelosos é que são lúcidos e
enérgicos em perseguir seu duplo objetivo: a glória de Deus e o
bem para as almas. Dê uma olhada novamente na história de
Neemias nos cinco primeiros capítulos de sua autobiografia e verá
que é esse o caso. A glória de Deus através da reconstrução dos
150 Nunca Perca a Esperança
muros de Jerusalém e a restauração da religiosidade na cidade
eram prioridades de Neemias o tempo todo. No primeiro capítulo
lemos como as más notícias chegaram de que haviam falhado os
esforços adicionais para levantar os muros de Jerusalém e torná-
la novamente uma cidade protegida. Os muros foram derrubados;
a moral estava baixa; Deus não estava sendo honrado na cidade
que levava seu nome. Essas notícias deixaram Neemias
profundamente deprimido. Ele e seus amigos oraram pelo im­
possível - que Deus concedesse a ele misericórdia aos olhos de
quem ele servia; o rei da Pérsia, em outras palavras, providenciaria
para que Neemias fosse a Jerusalém como governador, o repre­
sentante do império Persa, para colocar ordem nas coisas.
Neemias, o judeu, não passava de um escravo da classe alta
do palácio real. Não havia sindicato de escravos e o trabalho que
ele fazia como copeiro real para a monarquia, o provador do vinho
real, era na realidade um trabalho vital. Provadores de vinho eram
designados a testar com algumas horas de antecedência o vinho
que o grande homem iria beber na refeição da noite para o caso
de estar envenenado. Do ponto de vista do provador a posição
era de alto risco; para o rei tratava-se de um trabalho necessário e
salutar. Então lá estava Neemias, o escravo judeu, provador de
vinho 365 dias por ano. Como poderia esperar sair para fazer o
trabalho de reconstrução que seus amigos lhe disseram que ele
estava qualificado para fazer? Não parecia possível. Mas Neemias
acreditou no que seus amigos lhe diziam, e então orou e eles
oraram com ele; "Concede que seja bem sucedido hoje o teu servo
e dá-lhe mercê perante este homem".

Zelo em ação
Como sabemos, Neemias teve permissão de num modo
maravilhosamente providencial - na verdade ele foi comissionado
- para ir a Jerusalém como governador. Em cinqüenta e dois dias,
do início ao fim, ele mobilizou os habitantes de Jerusalém e da
terra imediatamente próxima, para reconstuir o muro da cidade
Esperança Quando Tudo Deu Errado 151

a uma altura de provavelmente 304 metros, e bem largo, com um


comprimento total em torno de 2.800 metros. Depois de cinqüenta
e dois dias de trabalho duro o muro estava de pé. Essa tremenda
realização precisou de sólida organização. Em seu livro estão
escritos os detalhes dessa organização. Foi brilhante. Mas Neemias
nunca atribuiu o sucesso à sua estrutura organizacional; seu
trabalho foi feito, ele escreveu: "por intervenção de nosso Deus"
(Ne 6.16).
E não acaba aqui. Assim que Jerusalém estava murada e segura
novamente, Neemias convocou a todos para o que podemos cha­
mar de dia da assembléia. Nesse dia, Esdras e o grupo de
sacerdotes que havia treinado ensinaram a lei a toda população.
A lei não estava sendo ensinada para as gerações. O povo
simplesmente não sabia como servir a Deus. Mas Deus derramou
seu Espírito e houve um reavivamento. Quando Deus, que lhes
deu a cidade de volta, foi revelado a eles como Deus que tem um
código, uma lei moral, regras, requisitos contantes, o impacto foi
como se eles tivessem sucumbido. Eles choraram. O ensino teve
que ser interrompido.
Então Neemias, em seu papel de mestre-de-cerimônias, lhes
disse: "Esse dia é consagrado ao Senhor, vosso Deus, pelo que
não pranteeis, nem choreis". Todos choravam ouvindo as palavras
da lei. "Ide, comei carnes gordas, tomai bebidas doces e enviai
porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia
é consagrado ao nosso Senhor, portanto não vos entristeçais,
porque a alegria do Senhor é a vossa força" (ver Ne 8.9-12).

Zelo na oração
Agora observe as orações de Neemias em todo o livro. Ele é
um homem de oração, como vemos pelas orações descritas no
capítulo 13. Parece que desde o início, em qualquer curva da
estrada, ele se volta para orar — e ele conduz outros a fazer o
mesmo. Em 4.8-9 ele nos conta sobre a conspiração que foi armada
para derrubar o muro que estava levantando. Uma aliança dos
152 Nunca Perca a Esperança

inimigos (a propósito, incluindo Tobias) todos conspirando para


vir e lutar contra Jerusalém, mas Neemias nos diz:"... nós oramos
ao nosso Deus". Essa foi a primeira resposta. Depois "... e como
proteção pusemos guardas contra eles, de dia e de noite".
Ore primeiro e entregue sua causa a Deus. Ore primeiro e dê
os passos que parecem apropriados. Ore primeiro e deixe Deus
guiá-lo na crise. Neemias entendia esse princípio e o praticava.
Quando o pequeno grupo de inimigos estava tentando levá-los
ao pânico, esperando que as mãos de Israel pudessem então
enfraquecer de modo a não completar o muro, "eles procuravam
atemorizar-nos," diz Neemias, "dizendo: As suas mãos largarão
a obra, e não se efetuará!" Mas Neemias orou: "Ó Deus, fortalece
as minhas mãos" (Ne 6.9). E Deus assim o fez. As orações que
você encontra no capítulo treze são as últimas da longa série
descrita pelo servo de Deus. Neemias não tinha confiança em si
mesmo, mas em Deus. Ele se regozijou na fidelidade de Deus,
confiou e orou. A alegria do Senhor e o resultado de sua oração
foram a sua força.

Zelo na missão
Como o grande C.T. Studd, missionário pioneiro na China, índia
e África (sim, em todos os três), disse uma vez: "Se Jesus Cristo,
sendo Deus, morreu por mim, nenhum sacrifício é demais para eu
fazer por ele". Zelo no serviço de Deus marca a grandeza do amor
do Senhor na nossa redenção. E óbvio, não é? Aqueles que foram
grandemente amados deveriam amá-lo grandemente e servi-lo
zelosamente em retorno. Cantamos: "Amor tão maravilhoso, tão
divino, inunda minha alma, minha vida ". Estamos certos.
C. T. Studd usou a palavra sacrifício. O que ele queria dizer era
que sempre existe alguma coisa a ser deixada para trás se dese­
jamos abraçar a vocação de Deus. Uma forma mais grandiosa mas
não menos profunda de expressar isso é dizer que a vida cristã,
de acordo com o Novo Testamento, é viver de acordo com o pa­
drão do batismo, o que significa que experiências de renúncia,
Esperança Quando Tudo Deu Errado 153

até mesmo o morrer (ou que seria como morte), constantemente


precedem experiências de ressurreição nas quais enriquecemos
novamente. Mas a ressurreição não vem senão depois da morte.
E é esse o padrão para cada um de nós sempre: morte seguida
pela ressurreição numa seqüência repetitiva. Isso faz parte da
disciplina da nossa vida pessoal, assim como faz parte do padrão
do trabalho do Senhor na igreja e no mundo. Pessoas como C. T.
Studd entenderam isso.
Pessoas como Paulo entenderam isso também. O hino que Paulo
cita em Filipenses 2.6-11 diz que Jesus Cristo não viu igualdade
com Deus como algo a preservar, mas esvaziou-se, entregou-se e
tomou a forma humana, vindo a esse mundo como homem, um
pobre homem, de fato como um escravo, que foi pendurado em
agonia na cruz pela nossa redenção. Assim era o amor de Cristo.
Se entendermos claramente esse amor, veremos a força da lógica
de C. T. Studd: "Se Jesus Cristo, sendo Deus, morreu por mim,
nenhum sacrifício é demais para eu fazer por ele".
Acho que Neemias poderia nos dizer, se ele estivesse aqui para
testemunhar (e também o apóstolo Paulo, e até eu pelo pouco
que sei a respeito), que zelo, serviço único de Deus, não parece
ser um sacrifício quando você está engajado nele. Seria mais como
uma gratidão ativa, buscando a própria expressão numa
fidelidade ativa. Seria na realidade como que vivêssemos a vida
que queremos viver e que o Senhor nos redimiu para podermos
vivê-la. Será que todos sentimos isso? Vamos começar a procurar
a graça do zelo para nossa vida com nosso Senhor?
Deixe-me dar-lhe alguns exemplos de zelo. George Whitefield,
um evangelista do século 18, foi um pioneiro como Neemias. No
reavivamento evangélico britânico comumente associado com
Wesley, Whitefield deu início a tudo. Eu tenho um interesse espe­
cial por George Whitefield. Tive o privilégio de ir à sua velha
escola em Gloucester, Inglaterra e, se alguém tem sido meu mo­
delo, esse é Whitefield. Seu amável amigo Henry Venn nos conta
que Whitefield, por anos e anos, costumava trabalhar oitenta horas
por semana, pregando sermões de vinte e cinco minutos a duas
154 Nunca Perca a Esperança

horas cada, explicando as Escrituras, com oração e cânticos, em


várias casas particulares. Nunca parecia estar cansado; ele amava
o que fazia. Sabia que era grandemente amado por Jesus, e ele o
amava, servindo ao Salvador e mostrando sua gratidão.
O Senhor deu a George Whitefield força e vigor inacreditáveis
nos seus trinta e cinco anos de ministério até que, finalmente,
ele se recolheu ao lar em meados de seus cinqüenta anos. Ele disse
que seria melhor inflamar-se que se enferrujar, e foi o que fez.
Isso é zelo. E como o Senhor usa um homem zeloso. Whitefield
foi uma tocha iluminada de reavivamento em ambos os lados
do Atlântico por quase uma geração inteira. Ele é um homem
que admiro muito e em quem sempre penso, assim como penso
em Neemias.
Posso também lhe falar a respeito de um canadense, na verdade
um britânico de nascença mas canadense por escolha. Já ouviram
falar de Jonathan Goforth, missionário pioneiro na China no fim
do século 19? Quando Jonathan Goforth propôs casamento à
mulher inglesa que queria desposar e que mais tarde escreveu
sua biografia, ele disse: "Você me promete que sempre me
permitirá colocar meu Senhor e seu trabalho em primeiro lugar,
antes de você?" Escrevendo sua biografia quarenta e sete anos
depois, ela francamente admitiu que hesitou na primeira vez antes
de dizer sim. Mas tendo sido sua companheira na missão
evangélica e pastoral na China por mais de uma geração, ela
testemunhou que era muito feliz por ter dito sim.
Esses são alguns exemplos; poderia ter sido citados mais, mas
esses são suficientes para nos posicionar. Lembre-se de Cristo.
Lembre-se de Neemias. Lembre-se de Paulo. Lembre-se de George
Whitefield. Lembre-se de Jonathan Goforth. Lembre-se de C. T.
Studd. E nunca esteja desprovido de zelo e fidelidade a serviço
de nosso Senhor. Mas é certo, apropriado e necessário que você e
eu sejamos zelosos e fiéis nesse serviço, seja qual for o preço e
qual for a ofensa.
Esperança Quando Tudo Deu Errado 155

Zelo em nós
Até aqui tenho recomendado e aplaudido o zelo como uma
virtude cristã e incentivado que a busquemos a cada dia de nossa
existência. Todavia, preciso dizer que com o zelo vem o risco — o
risco da violência bem-intencionada. Uma vida apaixonada, cujo
zelo para Deus é muito nobre, facilmente se torna desequilibrada,
fanática e obsessiva, marcada pela visão afunilada e toda sorte de
insensatez que uma oposição fria, desunida, marcada pela apatia
irá impedir. A sociedade despreocupada de hoje sabe bem disso,
e quando passa por isso, suspeita da seriedade apaixonada acima
de qualquer coisa.
Neemias, o líder zeloso, motivador e administrador, parece
não ter falhado em nenhum estágio da visão ou estrutura do
gerenciamento; contudo, não sabemos se ele precisava ser tão
inflamado a ponto de expulsar Tobías do quarto do templo, ou
ame-açar com violência os comerciantes do sábado, ou quando
bateu, amaldiçoou e arrancou os cabelos dos judeus com suas
famílias pagãs. Obviamente, da maneira como conta sua história,
ele pensou que precisava dessa fúria, e talvez precisasse se fosse
para acertar a vida da comunidade. Nenhum de nós pode ter
certeza por não termos estado lá.
Contudo, como disse, não conseguimos deixar de pensar. Cer­
tamente nós, que queremos ser zelosos, constantemente
precisamos consultar com companheiros prudentes aquilo que
esperamos fazer, a fim de não perdermos o caminho da sabedoria.
Precisamos também ter claro em nossas mentes que a violência,
seja emocional, verbal ou física, enquanto facilmente incitada pelo
zelo em nossa santificação imperfeita, fere os outros. Se algumas
vezes for necessária para algum fim, deve ser sempre mínima no
ministério. Quando o zelo é desnecessariamente rude e áspero
com as pessoas, ele não é espiritual. O zelo que, embora firme e
forte, é tão gentil e contido quanto possível, revela-se como uma
expressão do amor a Deus e ao próximo, e é assim que deve ser.
Esse é o tipo de zelo que devemos buscar.
156 Nunca Perca a Esperança

Além disso, à luz da história de Neemias 13, o que precisa ser


dito especificamente é que o desapontamento não deve servir de
forma alguma para diminuir nosso zelo pela honra e trabalho a
Deus. Em tudo o que acontece, devemos manter nossas
prioridades e olhar para Deus tão firmemente quanto possível,
para assegurarmos nossa energia em segui-las, e mesmo se
temporariamente diminuídas, não serão permanentemente
reduzidas. Isso é importante porque todos nós temos nossos
desapontamentos às vezes (perdemos nossa energia, ou ficamos
deprimidos, ou enganados, ou negamos justiça, ou ficamos inca­
pacitados, ou penalizados, ou perdemos alguém ou alguma coisa
que valorizamos muito, ou temos nossas esperanças quebradas
de algum outro modo). Neemias, podemos ter certeza, sentiu-se
tremendamente desapontado quando descobriu que tantos bons
resultados procedentes da reconstrução do muro e do reavi-
vamento durante o seu primeiro mandato como governador
(Ne 9 - 10) tinham se perdido. Mas ele não perdeu a esperança e
zelosamente se coloca à disposição para novamente reconstruir
em Jerusalém a vida que honraria a Deus.
O livro de Eclesiastes gasta capítulo após capítulo apontando
que a vida é cheia de desapontamentos, situações de frustração,
perda e tragédia que "sob o sol" parece não ter sentido. O livro
termina com uma observação otimista de esperança que é muito
positiva, mesmo que não seja muito informativa. Dito isso, o
grande negócio da vida é temer a Deus e manter seus manda­
mentos, o escritor declara: "... Deus há de trazer a juízo todas as
obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam
más " (Ec 12.14). O julgamento, precisamos nos lembrar, é para
aprovação e recompensa, assim como para retribuição para os
que fazem o mal; esse é o modo restrito que Eclesiastes usa para
expressar o que Paulo apaixonadamente fala em sua advertência
aos corintios: "... meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e
sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor,
o vosso trabalho não é vão" (ICo 15.58). O povo de Deus nunca é
Esperança Quando Tudo Deu Errado 157

deixado sem esperança, mesmo se parecer que tudo ao redor está


errado. A vista de Deus todo esforço fiel é valorizado, mesmo
quando humanamente parece infrutífero. Dessa forma, não
devemos nunca ser encontrados menos do que zelosos em viver
para o Senhor que servimos e amamos.
Desse modo, talvez necessitemos, você e eu, de reorganizar
um pouco nossa imagem pública e nossa auto-imagem para que
tenhamos um objetivo diferente daquele que sempre
apresentamos em público, como sendo de uma "pessoa
simpática". O importante é que devemos parecer não necessa­
riamente pessoas complacentes, tolerantes, joviais, mas pessoas
fiéis e zelosas. Às vezes devemos ser contra coisas que exigem
palavras duras e ação vigorosa. Não seremos amados por falar
essas palavras ou tomar essas ações — assim como Jesus, por um
curto período, não foi amado por ter limpado o templo. Mas a
fidelidade ao seu Pai exigiu aquela atitude. E a fidelidade ao nosso
Pai Celestial às vezes exigirá que digamos em nossos corações:
Não importa o que eles pensam. Isso é o que eu devo dizer; isso é o que eu
devo fazer. Eu sei que devo, e então o Senhor me ajudará eeuo farei.
Eu não diria que esse seja o lado heróico da vida cristã. Heroísmo
é na verdade a palavra errada, porque heroísmo implica que você
faz o que faz apoiado em seus próprios recursos e o serviço do
Senhor Jesus nunca deve ser assim. Neemias, quando perguntado
pelo rei o que o preocupava, orou antes de falar (Ne 2.4,5). Ora­
ções setas, como nós as chamados, somente levam cerca de um
segundo para serem feitas, mas fazem uma tremenda diferença
no resultado. Você e eu devemos também adquirir o hábito de
atirar orações setas ao nosso Senhor quando alguma coisa for
difícil de dizer, difícil de fazer, ou alguma coisa que nos colocará
em situações difíceis. Esse é o modelo que vemos em Neemias, e
é como devemos agir.
Senhor, dá-nos zelo. Senhor, faça-nos procurar zelo. Senhor,
lembra-nos de tomar Neemias, Paulo e Jesus como modelos de zelo.
Senhor, faze-nos comover com o que Paulo diz em Romanos 12.11:
158 Nunca Perca a Esperança

"no zelo, não sejais remissos". Isso é tão explícito e tão forte quanto
uma ordem deve ser. Se nos encontramos perdendo nosso zelo,
Deus pode nos dar graça de olhamos para a cruz e pensarmos um
pouco na grandeza do amor de Deus, na grandeza da fidelidade
de Deus, na realidade angustiante da morte de Cristo pelos nossos
pecados para nos salvar, nos renovar, nos dar nossa nova vida aqui
e nossa esperança da glória por vir, e acredito que nosso zelo re­
tornará para nós. Continuaremos nosso caminho regozijando na
força do Senhor para sermos zelosos mais uma vez por ele.
Pai Celestial glorioso, nós os hesitantes, convencidos pela tua palavra
de nossa timidez, nos prostramos diante do teu trono, porque esse é o
único modo no qual, como hesitantes culpados, podemos realmente
levantar nossos corações para ti. Nós temos que nos humilhar e confessar
nosso medo, orar pelo perdão e procurar em ti a graça para sermos zelosos.
E imploramos, nosso Pai, que nunca venhamos a desonrar-te novamente
e parecermos à luz de Jesus nosso Salvador como descuidados, temerosos,
despreocupados com o louvor a Deus em nossa vida e serviço. Amor tão
maravilhoso, tão divino, exige nossa vida, nossa alma, nosso tudo.
Portanto lhe dizemos que o seu maravilhoso amor em nossa redenção
terá a nossa vida e tudo o que somos. E que pela tua graça buscaremos
praticar o zelo, para mostrar publicamente e servir com zelo em todo
tempo e lugar. Faze-nos determinados a amar-te e amar outros com toda
as nossas forças. Concede-nos isso, Senhor, em nome de Jesus. Amém.

Estudo
1. Leia Neemias 13. De que maneira Neemias se mostra uma
pessoa zelosa?
2. Por que seria difícil viver sob a liderança de Neemias durante
esse tempo? Por que seria bom?
3. Releia os três últimos parágrafos antes do subtítulo "Uma
qualidade rara"(págs. 146-148). Descreva como seria nosso
relacionamento com uma pessoa realmente zelosa.
4. Em que você gostaria de ser mais parecido com Neemias?
Esperança Quando Tudo Deu Errado 159

5. Quatro vezes em Neemias 13, ele interrompe sua narrativa


para orar (vs. 14, 22, 29,30). O que essas orações sugerem
sobre o caráter dele?
6. Que valor você vê nesse tipo de oração?
7. George Whitefield é alguém a ser "seguido... mesmo que de
muito longe". A qual cristão zeloso você mais se assemelha?
Por quê?
8. "Zelo, serviço único a Deus não parece sacrifício quando
você o faz. Parece como gratidão." Com que intensidade
você viu ou experimentou isso? O que faz com que essa
constatação o desafie?
9. Como você poderia começar a desenvolver e adquirir zelo
para Deus?
10. Quais deveriam ser algumas formas naturais e apropriadas
de você expressar esse zelo?

Oração
★ Neemias orou (13.22): "Também nisto, Deus meu, lembra-te
de mim; e perdoa-me segundo a abundância da tua
misericórdia". Com devoção, considere do que você gostaria
que Deus se lembrasse em você. "Lembra-te de mim
quando..." Depois fale com Deus sobre suas lembranças - as
boas e as ruins. Não é necessário fazer alarde ou ser auto-
depreciativo. Quando apropriado, pare e peça a Deus para se
lembrar de você em sua misericórdia.
★ Em Neemias 8.10, quando o povo foi dominado pelos seus
pecados, ele instruiu: "não vos entristeçais, porque a alegria
do Senhor é a vossa força". Ore sobre algumas das coisas que
o preocupa. Mas enquanto você ora, permita-se regozijar na
força de Deus.
★ Se encontramos nosso zelo diminuindo, Deus pode nos dar
graça de olhar para a cruz e pensar um pouco na grandeza do
seu amor, sua fidelidade, na realidade grandiosa de Cristo ter
160 Nunca Perca a Esperafiça

morrido pelos nossos pecados. Use as palavras do grande hino


"Rude Cruz" para meditar e orar sobre o presente dele na
cruz - e no seu zelo por ele.

Escreva
Reflita sobre seu zelo pelo seu Senhor. Quando foi bastante
zeloso, mas talvez pelo motivo errado ou causa errada? Quando
seu zelo trouxe dano potencial? Escreva também sobre aquele
tempo quando seu zelo foi (ou é) pequeno. Pense como você pode
servir ao seu Senhor com santo zelo.
Vida Cristã / Doutrina

Nunca Perca a______


G5PGRANÇA
Como Deus alcança e usa
pessoas imperfeitas

A situação mundial não promete tranquilidade para logo.


O quadro em nosso próprio país é altamente
preocupante. Nossas faltas pessoais nos enchem de
frustração e desapontamento. Haverá esperança?
A resposta final para toda depressão ou sentimento de
inferioridade é lembrar o amor do Deus que redime,
perdoa, restaura, protege, conserva e usa despreparados e
fracassados do mesmo modo como usa os que você
chamaria de gente capacitada e importante e que você
gostaria de ser.

J.l. Packer, autor de Evangelização e Soberania de Deus,


A Redescoberta da Santidade, Religião Vida Mansa,
Teologia Concisa e de artigos e notas para a Bíblia de
Estudos de Genebra (Editora Cultura Cristã) e outros, é um
dos mais notáveis mestres da Bíblia de nosso tempo,
respeitado pela sua fidelidade e clareza na exposição da
Escritura. CDITORA CULTURA CRISTÃ
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