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TRABALHO 0X:

Do especialista ao facilitador: repensando o papel dos arquitetos e urbanistas nos


projetos de habitação popular a partir de uma perspectiva decolonial
Em qualquer projeto de habitação popular tem-se a figura do especialista: o arquiteto e urbanista, o
engenheiro, o técnico, o cientista, etc. Este especialista domina os saberes científicos reproduzidos no meio
acadêmico e domina a linguagem científica necessária para que os seus argumentos sejam validados.
Supostamente a linguagem científica, assim como a ciência, é ‘neutra’, ‘objetiva’, ‘racional’ e ‘impessoal’.
Dizemos supostamente pois partimos da premissa de que a ciência é um discurso como qualquer outro,
permeado de poder e prenhe de emoções e desejos pessoais ou coletivos onde o irracional também habita,
visto que a ciência “existe e se desenvolve como tal sempre expressando os interesses, desejos, ambições,
aspirações e fantasias dos cientistas, apesar de suas alegações de objetividade e independência emocional”
(MATURANA, 2001, p.146). Ao mesmo tempo, a ciência em sua forma ocidental promoveu historicamente
uma racionalização universalizante do cotidiano que nega a racionalidade de outras formas de explicação do
mundo, visto que “Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo
totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que se não
pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas” (SANTOS, 1988, p.48).

Portanto, o discurso científico deve ser analisado como racionalizante, e não simplesmente racional, pois
ele delimita o mundo a partir de seus próprios parâmetros de racionalidade. Esse discurso, de matriz
eurocêntrica, historicamente legitimou o domínio do Ocidente sobre o resto do mundo, se afirmando
enquanto uma entidade superior também através da ciência. Nesse sentido, é impossível descolar a
produção e a circulação da ciência no Brasil do legado do colonialismo nos países da América Latina, da
colonização epistêmica do Sul pelo Norte, onde o colonizado aparece como o Outro da razão (CASTRO-
GOMÉZ, 2005, p.83), o que justificaria o exercício do poder pela sua contraparte – o colonizador. Portanto,
falar sobre a ciência e a técnica hegemônicas aplicada nos projetos de arquitetura e urbanismo no Brasil e
nos outros países da América Latina é falar sobre uma ciência e técnica ‘importada’ do Ocidente, que
reproduz em formas periferizadas e precarizadas os modelos eurocêntricos racionalizantes. Assim sendo,
não é possível desvincular os projetos de habitação popular dos modelos desenvolvimentistas ocidentais. O
que se aplica aqui são políticas na qual se opõe o desenvolvido e o subdesenvolvido, o moderno e o
atrasado, o que segundo Arturo Escobar (2016) justificou a implantação de projetos de “desenvolvimento”
na América Latina tendo como modelo de civilização os países do chamado “Primeiro Mundo”. Ou seja,
esses projetos aqui aplicados asseguram a reprodução da hegemonia eurocêntrica e do seu ideal científico
“superior” ao mesmo tempo que colonizam os corpos e os espaços.

No contexto brasileiro das políticas de produção de habitação popular, os especialistas certamente utilizam
a linguagem científica para impor os seus planos verticalmente, sem considerar outras formas de saber fora
do âmbito técnico, científico e acadêmico, consideradas ‘leigas’ e ‘informais’. Percebe-se tanto a utilização
do discurso técnico e científico para legitimar essas políticas públicas quanto a ausência de participação
popular das comunidades nesses projetos. Um exemplo: a partir da extrema padronização e falta de
contexto das “soluções” habitacionais produzidas pelo Minha Casa, Minha Vida em todo o Brasil (CUNHA,
2014), não é difícil imaginar que a participação popular foi desconsiderada na dimensão executiva desses
planos. Se por vezes os moradores são ouvidos, suas falas são válidas somente à titulo de legitimação dos
imperativos técnicos do Estado. Dessa forma, a produção da moradia popular no Brasil foi planejada
verticalmente, nas pranchetas dos urbanistas, sem considerar os saberes e contextos específicos daquelas
populações.

É necessário então repensar esse ‘especialista’, buscando um novo papel onde a participação da
comunidade seja ativa e onde o buen vivir seja buscado, em contraponto às lógicas capitalistas
intrinsecamente perversas na produção da desigualdade. Para isso, Arturo Escobar (2016) coloca a
necessidade de buscarmos uma nova espisteme que seja radicalmente diferente das tradicões racionalistas
de matriz eurocêntrica, através de “nuevos métodos destacan la investigación en las fases iniciales del
proceso, con el diseñador como facilitador y mediador más que como experto; conciben el diseño como
eminentemente centrado en el usuario, participativo, colaborativo y radicalmente contextual” (ESCOBAR,
2016, p.52). Nesse sentido, a atuação de qualquer especialista, seja arquiteto e urbanista ou engenheiro,
deve se distanciar da ideia do “‘individuo’ como agente del diseño por excelencia” (p.103). Coloca-se assim
que o especialista deve redescobrir o seu papel nos projetos enquanto um facilitador que trabalha junto e
para a comunidade, comunidade que deve ter o poder de governar a si mesma em projetos que interfiram
em sua vida.

A visão de Arturo Escobar (2016) sobre a necessidade de uma nova atitude de projeto se apresenta
enquanto uma alternativa oposta à noção desenvolvimentista ocidental. Nesta nova atitude, deve-se
praticar a desobediência epistêmica frente aos saberes eurocêntricos (MIGNOLO, 2011), onde a
desocidentalização se apresenta como “uma trilha para a existência desvinculando-se das crenças de que a
modernidade e o desenvolvimento são o único caminho para o futuro” (p.64, tradução nossa). A fim de
promover práticas mais autônomas e participativas de projeto, Escobar (2016) evoca outra “imaginación de
diseño” (p.30), onde se deve “caminar de la mano con quienes están protegiendo y redefiniendo el
bienestar, los proyectos de vida, los territorios, las economías locales y las comunidades en todo el mundo”
(p.30).

Assim sendo, não é possível falar sobre as políticas públicas para a habitação popular no Brasil sem
considerar o caráter “civilizador” dessas práticas desenvolvimentistas, solapando contextos locais e os
saberes populares e tradicionais. Por fim, o técnico e o cientista são importantes e devem ter um papel
mediador nos processos de aplicação de políticas públicas, mas o técnico e o cientista sozinhos não
possuem todas as respostas técnicas. Urge repensar o papel do especialista técnico (arquitetos e urbanistas,
engenheiros, etc.) nos projetos habitacionais contemporâneos. Em uma perspectiva freireana (FREIRE,
2013), o especialista deve se tornar então um facilitador que oferece os seus conhecimentos como uma
ferramenta útil aos projetos de vida das comunidades centrados na autonomia e no bem-estar.

REFERÊNCIAS:

CASTRO-GÓMEZ, Santiago. Ciências sociais, violência epistêmica e o problema da “invenção do outro” In: LANDER,
Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de
Ciencias Sociales/CLACSO, 2005. p. 80-87.

CUNHA, Gabriel Rodrigues da. O Programa Minha Casa Minha Vida em São José do Rio Preto/SP: Estado, Mercado,
Planejamento Urbano e Habitação. Tese de Doutorado – Universidade de São Paulo. São Paulo, 2014.
ESCOBAR, Arturo. Autonomía y diseño: La realización de lo comunal. Popayán: Universidad del Cauca/Sello Editorial,
2016.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

MATURANA, Humberto. Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.

MIGNOLO, Walter. The darker side of western modernity: Global futures, decolonial options. Duke University Press,
2011.

SANTOS, Boaventura de Sousa. “Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna”. Estudos
avançados, v. 2, n. 2, p. 46-71, 1988.

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