You are on page 1of 119

Junior Vasconcelos do Amaral

AKOLOUTHIA E DIAKONIA NO EVANGELHO DE MARCOS


Uma análise narrativa de Mc 15,40-16,8

Dissertação apresentada ao Departamento de


Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e
Teologia, como requisito parcial à obtenção do
título de Mestre em Teologia.
Área de concentração: Teologia Sistemática
Orientador: Prof. Dr. Johan Konings, SJ.

Belo Horizonte
FAJE - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
2009

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Agradecimento

A Deus que me amou primeiro.


À minha mãe Maria e ao meu pai por me educarem para o discipulado e o serviço.
À Rosa, também mãe, por sua fidelidade a Deus e o serviço aos empobrecidos.
A meu irmão, Julio César, companheiro de caminhada e à Celeste, irmã do coração.
Ao mestre e orientador, Konings, por sua paciência, dedicação e amizade.
Ao Programa Capes- PROSUP, pela ajuda com a bolsa de estudos.
À Faje, com seus docentes e funcionários, pela excelência na educação.
Aos companheiros e amigos da Comunidade Santo Estevão.
Aos amigos de vida presbiteral, Ivanir, Márcio, Julio Cézar e Geraldo e todos os
outros, pelo incentivo.
Às amigas Aíla, Áurea, Sandra, Lorena e Solange, pela delicadeza em servir.
E àqueles todos que persistem em seguir a Jesus, “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6).

Homenagem

À memória de meu pai Vasconcelos. Ele, tal qual um veleiro, se foi. Eu apenas o perdi
de vista.

“Quando o veleiro parte, levando a preciosa carga


de um amor que nos foi caro, e o vemos sumir na
linha que separa o visível do invisível dizemos: ‘já
se foi’. Terá sumido? Evaporado? Não, certamente.
Apenas o perdemos de vista. O ser que amamos
continua o mesmo” (Victor Hugo).

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
RESUMO
A perícope de Mc 15,40-16,8 corresponde ao clímax narrativo do Segundo Evangelho. Deseja
elucidar o testemunho das mulheres diante da cruz (15,40), no sepultamento de Jesus (15,47)
e diante do anúncio do jovem no sepulcro vazio (16,6). Esta trama narrativa, que evidencia o
querigma da morte-ressurreição de Jesus, lança a perspectiva do encontro com Jesus na
comunidade dos discípulos na Galiléia. Com o imperativo “ide dizer”, as mulheres são
convocadas a testemunhar Jesus Ressuscitado. A trama põe em clarividência o protagonismo
do discipulado e do serviço das mulheres. Este trabalho busca luzes para compreender a
magnitude do discipulado e do serviço na comunidade cristã e elucidar a importância do
testemunho qualificado das mulheres. Estas que, com sua práxis, corroboram a profissão de fé
do centurião que diz: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (15,39).

PALAVRAS-CHAVES
Catequese narrativa, teologia marcana, akolouthein, mathētēs, diakonein, análise narrativa,
eixos semânticos, mulheres testemunhas.

ABSTRACT
The scripture passage, Mk 15, 40 – 16, 8, narrates the climax of the Second Gospel. Its
intention is to elucidate the testimony of the women regarding the Cross (15, 40); the burial of
Jesus (15, 47) and the pronouncement of the youth in the empty tomb (16, 6). The storyline,
which reveals the kerygma of the death and resurrection of Jesus, launches the perspective of
the encounter with Jesus in the community of the disciples in Galilee. The imperative “Go and
tell” summons the women to go and bear witness to the resurrected Jesus. The plot gives clear
evidence of the protagonism of the discipleship and service of the women. The objective of
this paper is to comprehend the magnitude of discipleship and service in the Christian
community and to elucidate the great importance of the testimony of the women who with
their praxis confirm the profession of faith of the Centurion who says “In truth, this man was
the Son of God”.
KEY-WORDS
Catechetical narrative, Markan theology, akolouthein, mathētēs, diakonein, narrative analysis,
semantic axes, women witnesses.

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
SUMÁRIO

SIGLAS E ABREVIAÇÕES .......................................................................................................................... 6

INTRODUÇÃO .............................................................................................................................................. 7

1 MARCOS E A AKOLOUTHIA/DIAKONIA: ESTADO DA QUESTÃO ...................................................10

1.1 O EVANGELHO DE MARCOS ONTEM E HOJE..................................................................11

1.2 MARCOS COMO EVANGELHO ESCRITO...........................................................................14

1.3 O EVANGELHO DE MARCOS COMO LITERATURA E COMO TEOLOGIA ..................16

1.3.1 REDAÇÃO ..............................................................................................................................17


1.3.2 LINGUAGEM ..........................................................................................................................19
1.3.3 ESQUEMA DO EVANGELHO .....................................................................................................23
1.3.4 TEOLOGIA DO EVANGELHO ....................................................................................................26

1.4 CRISTOLOGIA NARRATIVA: “QUEM É JESUS?”..............................................................30

1.5 TÍTULOS CRISTOLÓGICOS ..................................................................................................33

1.6 HERMENÊUTICA CRISTOLÓGICA: CONVITE AO DISCIPULADO................................35

1.7 ESTUDOS RECENTES SOBRE MC 15,40-16,8.......................................................................36

1.8 CONCLUSÃO ............................................................................................................................37

2 ESTUDO LITERÁRIO-CRÍTICO DE MC 15,40-16,8..............................................................................39

2.1 PROBLEMÁTICA.....................................................................................................................39

2.2 TEXTO ORIGINAL, TRADUÇÃO E PARALELOS MC 15,40-16,8.......................................40

2.3 DELIMITAÇÃO ........................................................................................................................42

2.4 CRÍTICA TEXTUAL-DOCUMENTAL....................................................................................44

2.5 LUGAR DA PERÍCOPE EM MARCOS...................................................................................46

2.5.1 CONTEXTO ANTERIOR ............................................................................................................47


2.5.2 CONTEXTO POSTERIOR ...........................................................................................................48

2.6 DIVISÃO ESTRUTURAL DE MC 15,40-16,8 ..........................................................................48

2.7 TRADIÇÃO E REDAÇÃO EM MC 15,40-16,8 ........................................................................51

2.8. COERÊNCIA DO TEXTO .......................................................................................................52

2.9 COMPOSIÇÃO E ESTILO .......................................................................................................53

2.10 RECURSOS LITERÁRIOS .....................................................................................................56

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
2.11 UM MINI-DRAMA ..................................................................................................................57

2.12 AS MULHERES TESTEMUNHAS .........................................................................................63

2.13 CONCLUSÃO ..........................................................................................................................68

3 ESTUDO DOS EIXOS SEMÂNTICOS AKOLOUTHEIN E DIAKONEIN E ANÁLISE NARRATIVA


DE MC 15,40-16,8 .........................................................................................................................................70

3.1 AKOLOUTHEIN: “SEGUIR” ....................................................................................................71

3.1.1 O CONCEITO DE AKOLOUTHEIN ...............................................................................................71


3.1.2 MATHĒTĒS “DISCÍPULO”.........................................................................................................76

3.2 DIAKONEIN: “SERVIR” ..........................................................................................................80

3.3 ANÁLISE NARRATIVA DE MC 15,40-16,8 ............................................................................85

3.3.1 O TEXTO ................................................................................................................................86


3.3.2. A INTRIGA ............................................................................................................................87
3.3.3 GESTÃO DOS PERSONAGENS ...................................................................................................90
3.3.4 FOCALIZAÇÃO DO NARRADOR ................................................................................................93
3.3.5 A TEMPORALIDADE ................................................................................................................95
3.3.6 O CONTEXTO .........................................................................................................................97
3.3.7 O PONTO DE VISTA ...............................................................................................................101

3.4 COMO CONFLUEM OS EIXOS AKOLOUTHEIN E DIAKONEIN NA NARRATIVA DE MC


15,40-16,8? ...................................................................................................................................................105

3.5 CONSIDERAÇÕES SOBRE A PRAGMÁTICA E A HERMENÊUTICA ............................106

3.6 CONCLUSÃO ..........................................................................................................................110

CONCLUSÃO GERAL...............................................................................................................................111

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ............................................................................................................115

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
SIGLAS E ABREVIAÇÕES

ACR Almeida Corrigida e revisada


AT Antigo Testamento
BAC Biblioteca de Autores Cristianos
BJ Bíblia de Jerusalém
Cf. Conferir
CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
CT Crítica textual
DENT Diccionario Exegetico del Nuevo testamento
DH Denzinger - Hünermann
DITNT Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento
DTNT Diccionario Teológico del Nuevo Testamento
ed. Edição
GLNT Grande Lessico del Nuovo Testamento
GNT The Greek New Testament
LXX Septuaginta
NT Novo Testamento
NTG Novum Testamentum Graece
p. pp. Paralelo, paralelos
Q Fonte Quelle
s, ss. Seguinte, seguintes
sq. Paralelo valendo para a seqüência
TDNT Theological Dictionary of the New Testament
TEB Bíblia Tradução ecumênica
v, vv. Versículo, versículos

As abreviações bíblicas seguem a tradução da CNBB.

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
INTRODUÇÃO

Este trabalho é fruto de uma preocupação e de um desejo!

A preocupação consiste em evidenciar que em tempo algum se falou tanto sobre os


temas seguimento e serviço como hoje. A Igreja latino-americana com a realização da V
Conferência Geral do Episcopado em Aparecida, debruçou-se sobre a temática do seguimento
de Jesus Cristo tendo como vieses norteadores o discipulado e a missão1. Estas temáticas
apontam implicações para a vida dos seguidores e seguidoras de Jesus nos tempos atuais. A
Igreja, em sua totalidade é chamada à práxis do seguimento e da missão que é serviço. A
problemática de fundo, para a Igreja atual, gravita em torno da tensão existente entre o
acreditar em Jesus de Nazaré e a práxis de fé no Cristo Ressuscitado. Como conciliar o desejo
de seguir a Jesus e a práxis de discípulo no mundo hodierno? Como compreender o
testemunho de fé dos homens e mulheres na atual conjuntura? Como entender a participação,
o seguimento e o serviço das mulheres na comunidade cristã, presidida e precedida pelos
homens? Claramente estas problemáticas deram sentido à realização deste trabalho. Nossa
pretensão é lançar luzes para a reflexão do seguimento e do serviço das mulheres na
comunidade cristã de hoje.

O desejo de elaborar esta pesquisa tem seu advento com e a partir do estudo da
Teologia. O interesse em aprofundar os estudos se deu de forma clara a partir da leitura do
Evangelho de Marcos, principalmente sob a intenção de compreender o querigma elaborado
por aquele evangelista, tendo como inspiração a dinâmica narrativa que mais se parece com
um convite a responder “quem é Jesus?”.

Nosso desejo está também associado à intenção de compreender a dramática narrativa


elaborada por Marcos, principalmente no que se refere à perícope de Mc 15,40-16,8, na qual
se vê condensado o relato da paixão-morte-ressurreição de Jesus, apontando a presença de

1
O tema inspirador da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, ou Conferência de
Aparecida, “Discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos nele tenham a vida”, refere-se ao
discipulado no Evangelho de João, no qual se narra: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).
7

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
algumas mulheres na cena. Este trabalho, portanto, nasceu do enorme desejo de compreender
a presença daquelas mulheres no cenário cruel da morte de Jesus, no saudoso lugar chamado
sepulcro e no relato da ressurreição. Ainda que este trabalho não tenha a pretensão de resolver
o problema do seguimento e do serviço das mulheres, o desejo de pensar a diferença do
discipulado, a partir do relato marcano, o ilumina e o orienta. É possível considerar que
também hoje as mulheres vivenciam a profunda experiência do testemunho, a partir da
coincidência entre a palavra ouvida e vivenciada. As mulheres, chamadas por Jesus ao
seguimento, compreendem a dinâmica do caminho da cruz e do serviço fraterno. O
seguimento e o serviço podem ser entendidos não a partir do gênero, mas da abertura irrestrita
do coração para a experiência amorosa com o mestre que chama a seguir e a servir.

Para tal reflexão, será tomado como ponto de partida o texto de Mc 15,40-16,8, o
relato final do Evangelho de Marcos. Esta escolha não foi aleatória. A perícope em questão
tem como pano de fundo e cenário o testemunho da morte de Jesus, a visita das mulheres ao
sepulcro e o anúncio da ressurreição de Jesus, bem como a ordem de as mulheres irem
anunciar que Jesus está vivo e que precede os discípulos à Galiléia. Esta brilhante narrativa
apresenta o testemunho das mulheres frente à cruz de Jesus. Elas são testemunhas da morte,
do sepultamento e do anúncio da ressurreição. A narratividade marcana ganha singularidade
por causa da simplicidade e exatidão narrativa. Com matizes suaves Marcos considera a
temática do testemunho, do seguimento (akolouthein) e do serviço (diakonein) das mulheres,
bem como o serviço dos agentes narrativos envolvidos na intriga narrativa, José de Arimatéia
e o jovem, junto ao sepulcro vazio, que anuncia que Jesus ressuscitou.

Tendo tomado o texto bíblico, torna-se importante fazer um levantamento do


Evangelho de Marcos: Marcos e a akolouthia/diakonia, estado da questão. É o capítulo
primeiro. Faz-se mister compreender o Evangelho de Marcos ontem e hoje, na tentativa de
ver sua leitura e estudo na história. A partir deste estudo, será possível compreende-lo como
um escrito literário com pretensões teológicas. Far-se-á necessário o estudo da redação, da
linguagem, do esquema e da teologia do Evangelho para assim evidenciar o convite feito pelo
evangelista Marcos em responder a pertinente questão “Quem é Jesus?”. Vê-se, portanto, que
a cristologia narrativa elaborada por Marcos utiliza-se de títulos para falar de Jesus e elucidar
o convite que ele faz aos discípulos. Para Marcos, Jesus, o Messias é quem faz o convite ao
discipulado e à dinâmica do serviço. Após esta constatação, faz-se necessário levantar os
estudos recentes sobre Mc 15,40-16,8.

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
O segundo capítulo toma Mc 15,40-16,8 como caso exemplar. Neste capítulo,
apresentamos a problemática central, ou seja, o que o texto da perícope nos oferece para falar
a respeito do testemunho, do seguimento e do serviço das mulheres. Será oportuna a
utilização da tradução instrumental e da crítica textual ou documental, bem como a elaboração
dos demais passos do estudo diacrônico. Após observar os recursos literários da perícope, será
necessário estudá-la sob a perspectiva de um mini-drama composto de três cenas rápidas e
importantes para o macro-relato marcano. Evidencia-se, portanto, o testemunho das mulheres,
fundamental para a compreensão do discipulado e do serviço das mesmas na comunidade
cristã.

O terceiro capítulo, considerado o coração de nosso trabalho, se detém ao método de


análise narrativa. Primeiramente, dedica-se à análise dos eixos semânticos akolouthein e
diakonein, pois nota-se que estes servem de base para a compreensão da narrativa marcana.
Também, faz-se oportuno o estudo do eixo gerador mathētēs, que se vê relacionado ao eixo
akolouthein. Depois, o que se quer compreender é como Marcos articula estes eixos na trama
narrativa e como se dá a confluência dos mesmos na trama por ele elaborada. Para uma maior
clareza sobre os eixos confluentes na intriga marcana, é importante elaborar a análise
narrativa, tendo como percurso o texto, a intriga, a gestão dos personagens, a focalização do
narrador, a temporalidade, o contexto e o ponto de vista narrativo. Após a leitura da intriga
marcana sob a gestão do método faz-se oportuno apontar as considerações pragmáticas e a
hermenêutica do texto. Assim, a intriga elaborada por Marcos ilumina nosso trabalho e lança
luzes sobre a compreensão e o sentido do seguimento e do serviço hoje.

Este trabalho só atingirá seu objetivo se ao final do mesmo o leitor se sentir chamado a
buscar novos horizontes hermenêuticos para a problemática do seguimento (discipulado) e
serviço (diaconia) das mulheres na Igreja atual. Quem sabe o presente trabalho sirva como
base para a reflexão de outros estudantes no compromisso com a leitura bíblica e com o
alargamento da compreensão do seguimento e do serviço prestado pelas mulheres na
comunidade dos discípulos de Jesus.

Deus, que inspirou a criatividade narrativa de Marcos em sua literatura evangélica e


sempre suscita na Igreja o desejo do seguimento e do serviço, abençoe este trabalho!

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
1 MARCOS E A AKOLOUTHIA/DIAKONIA: ESTADO DA
QUESTÃO
“Tudo começou com um encontro. Algumas pessoas
entraram em contato com Jesus de Nazaré e com ele ficaram”.
(W. Kasper, Jésus, le Christ).

Podemos considerar o Evangelho de Marcos a primeira catequese mistagógica


transmitida pelo Fato Cristão. Um Evangelho que visou a introduzir o discípulo na dinâmica
do seguimento de Jesus, a fim de se encontrar com o Reinado de Deus, por ele, anunciado
(Mc 1,14-15). O discípulo é convidado a andar pelos caminhos do mestre, caminho
constituído pela doação de vida, cujo memorial se registra no auge da narrativa evangélica
(Mc 14–16). O Evangelho, inaugurando uma nova forma de falar de Jesus e do falar de Jesus,
a partir de e como uma “boa notícia”, pretende apresentá-lo à humanidade. Para Marcos, Jesus
é quem convida o ser humano ao discipulado (1,16) e instaura a pergunta: “Quem sou eu para
vós?” (8,29). As indagações do mestre conduzem o discípulo convidado à ação-reflexão, ao
testemunho de vida, ao anúncio de que Jesus é “verdadeiramente o Filho de Deus” (15,39).

A catequese do chamado/experiência/testemunho, foi, contudo, esquecida pela Igreja1.


O Evangelho de Marcos foi deixado de lado na elaboração dos conteúdos da fé, pois, parecia
ser incompleto e rudimentar. Hoje, contudo, no intuito de revisitar o Fato Cristão, a fim de
conhecer melhor Jesus, é imprescindível retomar o estudo e a reflexão do “Segundo
Evangelho”. Marcos, como uma tradição coletada, organizada e anunciada, é fonte fidedigna
para conhecer a Jesus e o seu movimento 2. A obra de Marcos, portanto, sinaliza o desejo de
assimilar a experiência de uma pessoa, Jesus. A vida e a obra do mestre são apresentadas por
meio da catequese narrativa3, que visa a convidar o discípulo ao seguimento e ao serviço.

1
Cf. TAYLOR, V. Evangelio según san Marcos. Madrid: Cristandad, 1979. p. 35.
2
O “movimento de Jesus” pode ser designado a partir de um grupo ligado a Jesus em sua vida terrena. Nos
Evangelhos, tais membros, são nomeados “discípulos” (mathētēs). A pesquisa atual visou a encontrar dados
históricos que corroboram a tese do “movimento” como dinâmica iniciada com Jesus em sua pregação. Alguns
dados da tradição permitem afirmar que, em poucas décadas, ocorreu um desenvolvimento sócio-religioso
relevante no movimento Jesus. Para Stegemann, o movimento Jesus se situa no coração dos movimentos
carismáticos no tempo de Jesus. Cf. STEGEMANN, E.; STEGEMANN, W. História social do
protocristianismo: os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. São Paulo:
Paulus, 2004. p. 217.
3
O tema central do Evangelho de Marcos é a identidade de Jesus. Para Aldana, Marcos quer mostrar à
comunidade quem é Jesus (cf. ALDANA, H. O. M. O discipulado no Evangelho de Marcos. São Paulo:
Paulinas/Paulus, 2005. p. 8). Para Marcos, a fé judaico-cristã não é uma ideologia (nem um corpo de doutrina
teórico prática) é o reconhecimento da revelação histórica de Deus em um povo, de modo especial, na carne de
Jesus de Nazaré (cf. FAUSTI, S. Ricorda e raconta il vangelo: la catechesi narrativa di Marco. Milano: Ancora,
1998. p. 5).

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Destarte apresentando Jesus em suas palavras e ações, Marcos deseja despertar o
leitor-ouvinte da Palavra ao seguimento-discipulado, à experiência profunda de engajamento
com o mestre Jesus.

Com o estudo do Evangelho e a elaboração da perspectiva de estudo da obra marcana,


nosso trabalho visa a reapresentar a novidade deste Evangelho para a comunidade cristã
hodierna: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (8,34).

Neste primeiro capítulo faremos um levantamento histórico sobre o Evangelho de


Marcos, no passado e no presente e sobre o tema da akolouthia e diakonia na cena final do
Evangelho.

1.1 O Evangelho de Marcos ontem e hoje

Durante muito tempo, Marcos foi considerado um evangelho inacabado,


diferentemente de Mateus, Lucas e João. Por não incluir a narrativa da infância de Jesus, nem
o testemunho das aparições do Ressuscitado, Marcos sofreu o preconceito literário e foi
considerado uma obra fraca. Também por não incluir os discursos de Jesus (em particular a
cena do “Sermão da Montanha”, assim como muitas parábolas), esse evangelho foi menos
estudado e citado na tradição patrística e nos escritos teológicos da Escolástica. O Segundo
Evangelho foi visto muitas vezes como um simples resumo dos outros evangelhos. Uma só
exceção a esse desinteresse, mas de maneira prudente, é o testemunho atribuído a Clemente
de Alexandria, relativo à existência de uma versão “secreta” do Evangelho de Marcos4.

No século XIX, a adesão de muitos exegetas à teoria das duas fontes5 (a pregação de
Pedro e o protomarcos) conduz ao interesse em estudar o Evangelho de Marcos não somente
como obra literária, mas como documento, no qual se verificam camadas das tradições
supostamente “autênticas”, que podem servir de reconstrução da personagem histórica de
Jesus.

No início do século XX, em 1901, com a obra Das Messiasgeheimnis in den


Evangelien, zugleich ein Beitrag zum Verständnis des Markusevangeliums, de William
Wrede, dá-se início à pesquisa sobre o Segundo Evangelho. Para Wrede, Marcos não
significava um ingênuo compilador de tradições históricas, ele era, antes, aquele que
conseguiu desenvolver uma tese precisa proveniente da redação: o segredo messiânico,

4
Cf. TAYLOR, p. 31.
5
Cf. TUYA, M. Biblia comentada: evangelios. BAC: Madrid, 1963. p. 617.
11

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
segundo o qual a messianidade de Jesus não deve se tornar pública antes da ressurreição. O
segredo messiânico seria um produto do cristianismo primitivo. Wrede toma como ponto de
partida a ausência da reivindicação messiânica do Jesus histórico e permite reconciliar as duas
cristologias em conflito no cristianismo primitivo: uma cristologia “baixa”, segundo a qual
Jesus se tornaria Messias a partir da ressurreição, e uma cristologia “alta”, que interpretava já
a existência de Jesus terrestre em termos messiânicos. Não se faz necessário dizer que esta
hipótese foi largamente discutida e que, hoje como ontem, está muito distante de um
consenso. A leitura dos escritos de Wrede sobre o Segundo Evangelho é fundamental para a
compreensão da teologia do autor do Evangelho de Marcos e sua intenção literário-narrativa,
afirma Cuvillier6.

Em 1943, com a promulgação da Divino Afflante Spirito7, o Evangelho de Marcos


adquire uma real importância na Igreja católica e, como os outros Evangelhos, deve ser
anunciado e estudado. Os estudiosos da Bíblia, preocupados com a interpretação de Marcos e
seu ensino nas faculdades de teologia, formularam a seguinte pergunta: quais as razões para o
aparente “esquecimento” do Segundo Evangelho?

As razões estavam claramente calcadas em afirmativas razoáveis derivadas de estudos


precedentes do Segundo Evangelho: a) Pensava-se que a obra de Marcos constituía uma
síntese das atividades do apóstolo Pedro, cuja figura estava consideravelmente destacada na
narrativa do Evangelho 8; b) Afirmava-se, também, que o Evangelho de Marcos constituía uma
síntese do Evangelho de Mateus9; pois, visivelmente Mt narra algumas coisas que Mc não
leva em consideração.

Na linha da crítica moderna, surgida nas primeiras décadas do séc. XIX10, desenvolve-
se no século XX a “crítica redacional”. Em 1956 tem origem a tese marcante e consagrada de

6
Cf. CUVILLIER, L. Evangile de Marc. Geneve: Labor et fides, 2002, p. 17.
7
No dia 30 de setembro de 1943, por ocasião da memória de São Jerônimo e do cinqüentenário da encíclica
Providentissimus Deus; Pio XII publicou uma encíclica sobre os estudos bíblicos, a Divino Afflante Spiritu. Tal
encíclica é de suma importância para os estudos exegéticos. Cf. DH 3825.
8
Desde o princípio do século II o testemunho externo atribui unanimemente a paternidade do segundo
Evangelho a Marcos, “o intérprete de Pedro”, fixando o lugar de composição em Roma, apesar de que as
opiniões posteriores o situam em Alexandria. Sobre a data de composição surgiram variadas tradições, porém o
conjunto dos dados inclina a situá-lo em uma data posterior ao martírio de Pedro, não durante sua vida. Cf.
TAYLOR, p. 34. Segundo Pesch, “o anonimato da obra indica a autoridade da Palavra, que sustenta a pregação
da Igreja”. Cf. PESCH, Il vangelo di Marco. vol 1. Brescia: Paideia, 1980. p. 80.
9
O Evangelho favorito da Igreja primitiva foi o de Mateus. Desde Agostinho, seguiu-se a opinião que a única
coisa que fez Marcos, foi seguir e abreviar Mateus. Durante a Idade Média e depois da Reforma, se escreveram
alguns comentários, mas não se percebeu a prioridade de Marcos. Também passou muito tempo para se
reconhecer o valor da crítica histórica sobre o estudo do Evangelho de Marcos.
10
Vale lembrar que muitos foram os que nesta época dedicaram seus estudos ao Evangelho de Marcos.
12

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Willi Marxsen sobre o Segundo Evangelho: Der Evangelist Markus, Studien zur
Redaktionsgeschichte des Evangeliums. Marxsen afirma que o Evangelho de Marcos pode ser
visto como uma obra teológica construída a partir do uso de fontes reinterpretadas na
“textura” redacional.

A partir dos anos 1980, a nova crítica literária (particularmente a narrativa) privilegia a
leitura e análise sincrônica dos Evangelhos. Citamos, neste sentido, a obra de David Rhoads e
Donald Michie, Mark as Story: an introduction to the narrative of a Gospel (1982). Por esta
época aparecem também várias formas de leitura do Evangelho, como sejam as materialistas
(em meados da década de 1970), retóricas (no fim dos anos de 1970), feministas11 (sobretudo
nos EUA) e, recentemente, as leituras psicológicas12 e espiritualizantes13. O Segundo
Evangelho foi comentado e estudado por diversas perspectivas: histórico-crítica, narrativa14,
semiológico-estrutural15, sociológica16, psicanalítica, etc17.

Assim o interesse por Marcos se expandiu, sendo considerado o Evangelho da moda.


O reaparecimento de Marcos se deu em todos os lugares: teatros, literatura, liturgia e,
especialmente, na exegese de todo signo, podendo-se afirmar que em nenhum outro tempo
escreveu-se tanto sobre o Segundo Evangelho como nos últimos duzentos anos. Claramente,
este interesse pela obra marcana reside na importância da narrativa da comunidade e do
hagiógrafo, que buscaram relatar, teologicamente, os acontecimentos que circundaram a

11
Embora estudando o discipulado de iguais no Evangelho de Mateus, Fiorenza faz alusão ao Evangelho de
Marcos (cf. FIORENZA, E. S. Discipulado de iguais: uma ekklesia-logia feminista crítica da libertação.
Petrópolis: Vozes, 1995).
12
Cf. CUVILLIER, p. 18.
13
Uma leitura espiritual do Evangelho de Marcos é encontrada na obra recente de A. Grün (cf. GRÜN, A. Jesus
caminho para liberdade: O Evangelho de Marcos. São Paulo: Loyola, 2006). Podemos encontrar também uma
leitura orante de Marcos, baseada na lectio divina (cf. FAUSTI, S. Ricorda e raconta il vangelo: la catechesi
narrativa di Marco. Milano: Ancora, 1998).
14
O método de análise narrativa (da obra marcana) pode ser evidenciado no trabalho de C. Focant (cf. FOCANT,
C. Evangile selon Marc. Paris: Cerf, 2004).
15
A leitura estrutural pode ser observada na obra de O. Genest (cf. GENEST, O. Le Christ de la passion:
perspective structurale: analyse de Marc 14,53 - 15,47, des paralleles bibliques et extra-bibliques. Montreal:
Bellarmin, 1978). Lembramos também o estudo lingüístico-semântico elaborado por Nolli (cf. NOLLI, G.
Evangelo secondo Marco. Roma: Agencia libro cattolico, 1978).
16
A forma de leitura sociológico-libertadora pode ser observada na obra de C. Gallardo (cf. GALLARDO, C. B.
Jesus homem em conflito: o relato de Marcos na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1997).
17
Cf. HERRERO, F. P. Evangelio según san Marcos. In. GUIRRARO OPORTO, S.; SALVADOR GARCIA, M
(Eds). Comentário al Nuevo Testamento. 2. ed. Madrid/Atenas, Madrid/PPC, Salamanca/Sígueme,
Navarra/Verbo Divino, 1995. p. 125. (La casa de la Biblia). BABUT, J-M. Actualite de Marc. Paris: Cerf, 2002.
Também encontramos algumas leituras latino-americanas sobre o Evangelho de Marcos: ARENS, E.;
ASCENSIO, L. A.; DIAZ MATEOS, M. El que quiera venir conmigo: discípulos según los evangelios. Lima:
CEP, 2007. ALDANA, H. O. M. O discipulado no Evangelho de Marcos. São Paulo: Paulinas/Paulus, 2005.
MAZZAROLO, I. Evangelho de Marcos: estar ou não com Jesus. São Paulo: Mazzarolo, 2004.
13

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
pessoa de Jesus e todo seu movimento18. Marcos aparentemente não poupou esforços para
retratar Jesus como pregador do Reino de Deus e o envolvimento dos discípulos no anúncio
do mestre, bem como as conseqüências do seguimento por ele proposto.

1.2 Marcos como evangelho escrito

Na perspectiva de estudo, a pesquisa sobre do Segundo Evangelho conduz a uma


afirmativa importante para o estudo neotestamentário: a criação de um novo gênero literário19.
Segundo Bultmann, trata-se de “uma criação cristã original inteiramente a serviço da fé e do
culto cristão”20. O autor, Marcos, partindo da tradição cristã ou proto-eclesial de Jesus, dá
início ao gênero literário denominado “Evangelho”. Para Conzelmann, Marcos representa
uma etapa intermediária entre a tradição oral e Lucas ou Mateus21. O autor proto-cristão,
Marcos, resume a tradição de Jesus a partir de suas comunidades, entendendo “evangelho” no
sentido de um livro e de um gênero literário22.

Carlos Palácio afirma que os evangelhos surgem para firmar concretamente a figura de
Jesus. “Narrar o querigma do crucificado e ressuscitado no quadro da ‘história’ de Jesus é
explicitar o querigma cristológico de maneira realmente significativa”23. Portanto, o
Evangelho de Marcos oferece uma figura concreta para a fé cristã: Jesus, o Messias.

Nas primeiras comunidades, o termo euangelion24 designava a proclamação da


salvação em Jesus Cristo. Para Paulo, na Epístola aos Romanos, escrita por volta do ano 57,
falar do evangelho de Deus consistia em anunciar que o próprio Deus se diz ao mundo,
através de Jesus Cristo e dos seus mensageiros25. Marcos, ao recolher os materiais da tradição
sobre Jesus e compor seu relato, dá início a uma nova forma de literatura chamada Evangelho.

18
Cf. HERRERO, p. 126.
19
Cf. FOCANT, C. Evangile selon Marc. Paris : Cerf, 2004. p. 29
20
BULTMANN, R. L’ histoire de la tradition synoptique, suivie du complément de 1971. Paris: A. Malet, 1973.
p. 452.
21
Cf. CONZELMANN, p. 185.
22
Cf. PESCH, p. 33.
23
PALÁCIO, C. Jesus Cristo história e interpretação. São Paulo: Loyola, 1979. p. 46.
24
No idioma do NT, “o termo euangelion pode indicar a mensagem alegre da salvação e o conteúdo da pregação
de Jesus”. Progressivamente, indicará o próprio Jesus: ele não é somente o agente da pregação, mas é ao mesmo
tempo conteúdo do Evangelho (cf. DUQUOC, C. Cristologia: ensaio dogmático I. São Paulo: Loyola, 1992. p.
66).
25
Em Paulo, to. euvaggeli,on tou/ Cristou/ não deve ser entendido só como a concreta proclamação missionária,
mas, antes, a correspondente catequese: didaché, destinada a aprofundar e imprimir o anúncio da ressurreição de
Jesus, o fundamento da fé cristã (cf. I Cor 15,3ss). Este didático anúncio paulino, na forma de uma explanação
histórico-narrativa do princípio da fé, que visa à salvação, é devedor da herança judaica, na qual a “boa nova”
compreende a tensão entre a promessa profética e a realização histórico-escatológica (cf. PESCH, p. 34).
14

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
O autor do Segundo Evangelho está inserido no processo de recepção e de uso do
conceito “evangelho” anunciado por Jesus (1,15; 14,9). O “evangelho” se constituí
proclamação: a vinda do Reinado de Deus. A “Boa-Nova” de Jesus Cristo é compreendida por
Marcos como missão e anúncio do Reino, a “descida” de Deus ao chão da história dos
homens.
Sobrino afirma:

Jesus não fez de si mesmo o centro de sua pregação e missão. Jesus se sabia, vivia e
trabalhava a partir de algo e para algo distinto de si mesmo. [...] A vida de Jesus foi
uma vida des-centrada e centrada em torno de algo distinto de si mesmo. [...] Isso
que é central na vida de Jesus aparece nos evangelhos expresso com dois termos:
‘reino de Deus’ e ‘Pai’26.
Desta forma, faz-se possível compreender os eixos teológicos27 existentes no
Evangelho de Marcos: por um lado, os interesses missionário e querigmático, ou melhor, da
missão e do anúncio; por outro, o intuito de revelar Jesus e o Reinado do Pai, inaugurado por
Jesus (Mc 1,14). O anúncio do Reino por Jesus e o anúncio de Jesus crucificado-ressuscitado
estão teologicamente relacionados e não se compreende um sem o outro.

A narrativa marcana se apresenta, portanto, como a narração de uma “boa notícia”


(1,1) concernente a Jesus de Nazaré, um homem condenado ao suplício da crucificação por
Pôncio Pilatos, procurador da Judéia nos anos 30. Através da práxis e das palavras de Jesus,
Marcos reconhece a manifestação do “Cristo”, o Messias enviado de Deus, prometido pelos
profetas nas Escrituras28.

Com exceção de Mc 1,1 e 1,14, Marcos põe sempre a expressão euangelion na boca de
Jesus. Portanto, “na visão de Marcos, o evangelho é a boa nova de Jesus Cristo, quer dizer, a
boa notícia que Jesus trouxe da parte de Deus”29. Ocorre também em Marcos a expressão
keryssein to euangelion (1,14 e 14,9), traduzida “anunciar o Evangelho”. Esta expressão
sintetiza a missão eclesial: proclamar a Boa-Nova de Jesus.

Os que anunciam a “Boa-Nova” de Jesus têm diante de si a pergunta cruciante: “Quem


sou eu para vós?” (Mc 8,29)30. A resposta de Marcos, sua cristologia ou “teologia narrativa” e
não “teologia sistemática”, nos conduz progressivamente ao clímax narrativo do Evangelho, à
cruz, lugar onde o Messias Crucificado é proclamado Filho de Deus (15,39).

26
SOBRINO, J. Jesus, o libertador. A história de Jesus de Nazaré. São Paulo: Vozes, 1994.
27
PESCH, p. 34.
28
Cf. CUVILLIER, p. 7.
29
SCHILLEBEECKX, E. Jesús: la historia de um Viviente. Madrid: Cristandad, 1981. p. 99.
30
Cf. LENTZEN-DEIS, F. Comentário ao Evangelho de Marcos. São Paulo: Ave Maria, 2003. p. 37.
15

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Segundo J. Mateos e F. Camacho, o propósito de Marcos seria demonstrar que em
Jesus se realiza a plenitude humana (o Filho do Homem) e que o homem pleno é o Messias
Filho de Deus e não o Messias davídico, tão esperado pela comunidade judaica31. O Messias
Jesus, o Filho de Deus, é universal, enquanto aquele, esperado por Israel, é particular. Em
Jesus, a salvação é possível a todos, pois ele se fez servo de todos os homens.

“Com o Evangelho de Marcos, inicia-se algo novo”, afirma Gnilka32. A novidade


reside na composição que visa ao não esquecimento de alguém e de algo: Jesus e o Reino.
Narrar um feito e um fato significa não deixá-los cair no esquecimento histórico. Marcos
instaura um processo memorativo idôneo, a fim de impedir que o Jesus histórico, seu anúncio
e seus feitos fossem esquecidos. Marcos, portanto, criou com sua obra algo realmente novo33.

1.3 O evangelho de Marcos como literatura e como teologia

A obra marcana pode ser compreendida a partir dos movimentos missionário e


catequético da proto-Igreja, que têm consciência da “tradição de Jesus”, da herança deixada
pelo Mestre e Senhor. Antes mesmo de Marcos escrever seu livro, possivelmente, já havia
outras tradições a respeito de Jesus, além de relatos soltos e isolados (logia). Marcos,
originalmente, agrupa estes variados relatos formando uma “história de Jesus”; na realidade, o
relato de sua pregação pública. Não se trata de uma biografia, no sentido da historiografia
moderna, mas de um relato continuado e coerente sobre a atividade de Jesus, com fins
teológicos. Há, portanto, no coração da narrativa de Marcos, uma lógica catequética que faz a
história e a vida de Jesus terem sentidos em Deus e no Reinado de Deus no mundo. Jesus
anuncia o Reino, transformando as realidades humanas por meio da epifania de Deus.

Marcos recolhe em seu tesouro tradições preciosas sobre Jesus que circulavam na boca
e na memória das pessoas das primeiras comunidades. À estrutura narrativa – um relato de
viagem durante um ano – subjaz um critério teológico, que supõe a íntima relação entre Jesus
e o Pai34. Na vida do crucificado, há a epifania do Messias, o Filho-Servo de Deus, o Filho do
Homem.

31
Cf. MATEOS, J.; CAMACHO, F. Marcos: texto y comentario. Madri: Almendro, 1994. p. 13.
32
GNILKA, J. Teologia del Nuevo Testamento. Madri: Trotta, 1998. p. 162.
33
Esta afirmação pode ser encontrada na obra de Frankemölle, na obra Evangelium. O autor fala de um aspecto
básico intra-cristão, que foi o que possibilitou pela primeira vez o gênero literário evangélico (cf. GNILKA,
Teologia, p. 164).
34
As relações do filho Jesus com o Pai e do Pai com o filho Jesus podem ser verificadas em Mc 1,11; 9,7; 14,36;
15,33. Evidentemente que esta não é uma preocupação marcana, mas é possível identificar a relação de Jesus e
Deus na narrativa marcana.
16

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Pesch afirma que o material do Evangelho de Marcos, distintamente de Lucas, não
apresenta um “método de apresentação histórica de seu tempo”, mas uma história passada
“em forma teologicamente meditada e pura, ao mesmo tempo popular e narrativa” 35.

Segundo Harrington, o Evangelho de Marcos apresenta uma estrutura geográfico-


teológica: da Galiléia para Jerusalém e de Jerusalém para a Galiléia. A primeira estrutura, a
geográfica, é encontrada em Mc 1,16–8,21. A segunda, a teológica, se dá com o fato de Jesus
ir de Jerusalém à Galiléia (cf. Mc 16,8)36. Para Marcos, as regiões Galiléia e Judéia não
indicam apenas zonas geográficas, mas exprimem um valor teológico. A Galiléia desprezada
e pagã é o lugar onde se manifesta a salvação que vem de Deus. Em contrapartida, Jerusalém,
epicentro da religião judaica, se revela inóspita para Deus e seu ungido, torna-se lugar da
extrema hostilidade que gera a morte. A salvação, a partir da ressurreição do Messias, se
manifesta na “Galiléia dos gentios”, e não mais no centro cúltico de Jerusalém 37. É na Galiléia
que os discípulos são chamados a seguir o Messias Ressuscitado (16,7).

1.3.1 Redação

O livro de Marcos apresenta uma redação de conjunto, reunindo a atividade de Jesus,


desde o batismo por João até a morte, juntamente com a narrativa do sepulcro vazio38. Marcos
contava com materiais muitas vezes fragmentados, que não forneciam tanta objetividade. O
material da tradição de Jesus havia passado do âmbito semítico para o grego, sendo, em parte,
configurado ao modo de articulação da língua grega. Isso não significa que o Evangelho tenha
sido redigido em hebraico e depois traduzido para o grego. O autor escreveu em grego, idioma
em que deve ter encontrado boa parte de seu material tradicional, mas ele ainda pensava com
o um semita.

Poder-se-ia ainda perguntar se o material utilizado pelo autor para a redação do


Evangelho seria exclusivamente oral ou também escrito. Parece provável que o relato pré-

35
PESCH, p. 54.
36
Cf. HARRINGTON, D. Il vangelo secondo Marco. In: BROWN, R. E.; FITZMEYER, J. A.; MURPHY, R. E.
(ed. interamente rinnovata). Nuovo Grande Commentario Biblico. Brescia: Queriniana, 1997. p. 777.
37
Para Conzelmann, seguindo as considerações de Lohmeyer, Lightfoot e Marxsen, aquelas cidades têm valor
teológico. Tais realidades ambivalentes servem para retratar a acolhida e o desprezo para com Deus e sua
Palavra encarnada. Jesus, a Salvação de Deus, retornando para a Galiléia dos gentios convida os discípulos para
o seguirem lá, onde os seres humanos desejam conhecer a Deus. Hoje também, há muitos lugares desprezados
pelo mundo capitalista que acolhem com fé a Palavra e o próprio Deus (cf. CONZELMANN, H. Teologia del
nuovo testamento. Brescia: Paideia, 1972. p. 186).
38
Cf. VIELHAUER, P. Historia de la literatura cristã primitiva. introduccion al Nuevo Testamento, los
apocrifos y los padres apostólicos. Salamanca: Sígueme, 1991. p. 350.
17

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
marcano da paixão estivesse já fixado por escrito39. Tradicionalmente, aceitou-se a origem
fundamental de Marcos na pregação de Pedro. Mas com o tempo se desenvolveram novas
hipóteses. A fundamental foi a de que um texto ou fonte, Ur-markus, “um Mc anterior ao
evangelho de Marcos”40, havia sido utilizado pelo autor para a redação de seu evangelho.
Porém, esta afirmativa encontrou muitas críticas41.

Também seria pouco provável que Marcos tivesse conhecido e mencionado a Q42.
Muito embora existam pontos de convergência entre o material de Marcos e a Q, não parece
que haja direta relação entre ambas as fontes.

Quanto ao estilo, há que se concordar mais com a posição que afirma que a
composição redacional de Marcos se assemelha com um “escrito não literário”, bastante
acessível e singular, diferente de um “escrito literário”, que geralmente é denso e difícil de ser
lido e interpretado. De acordo com esta concepção, o Evangelho de Marcos provavelmente
não se caracteriza como uma obra preponderantemente literária, pois seu traço estilístico
indica um autor literariamente inexperiente, porém um narrador popular exímio.

Assim, o Evangelho de Marcos não se identifica com um material prontamente escrito


e condensado de forma literária. Ele está muito mais próximo da tradição antiga, baseada na
oralidade, que na matéria escrita. Marcos transmite a tradição de Jesus narrando-a como uma
história, de forma oral e sintética, em função da re-narração criativa. Isso não significa que ele
não dominasse o material coletado. Segundo Pesch, a intervenção ao mesmo tempo literária e
teológica do autor mostra-se, sobretudo, na disposição do material em forma de representação
histórica, predeterminada na tradição de Jesus, em particular na história pré-marcana da
paixão 43.

Na narrativa de Marcos, é possível perceber seqüências ou versículos que servem de


transição ou ligação entre dois blocos temáticos. Essas seqüências sintetizam o tema da
unidade anterior e antecipam o tema da unidade seguinte, proporcionando, dessa maneira,

39
Cf. VIELHAUER, p. 354.
40
TUYA, p. 617.
41
Cf. LAGRANGE, M-J. Evangile selon s. Marc. Paris: Gabalda, 1947. p. 33. Para Taylor, é preferível rechaçar
esta hipótese. Segundo seu parecer, a maioria dos exegetas admite que o evangelista utilizou uma só fonte: a
coleção de sentenças de Marcos, contudo, neste ponto, as opiniões se diferem quando se trata de determinar a
natureza, identidade e unidade da tal fonte. A importância das hipóteses levantadas consiste em que todas elas
supõem que o evangelista utilizou várias fontes. Para um maior esclarecimento sobre este assunto e suas
hipóteses (cf. TAYLOR, p. 89-98).
42
Cf. SCHWEIZER, E. Il vangelo secondo Marco. Brescia: Paideia, 1971. p. 12.
43
Cf. PESCH, p. 55.
18

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
uma chave conclusiva do tema tratado anteriormente e indicativa do assunto a seguir 44. Tal
recurso é chamado de “sumário”. Os sumários elaborados pelo autor do Evangelho ajudam a
determinar os momentos importantes de mudança, ocorridos na narração da prática de Jesus,
além de favorecer a compreensão das mudanças de sentido. Nesses momentos, é possível
encontrar uma chave para perscrutar a intenção redacional do autor. Os sumários reestruturam
o texto, produzindo também mudanças de sentido (cf. Mc 6,30-34)45. Radermakers afirma que
as funções dos sumários são: a) “resumir uma situação”: concentrando a atenção sobre à
pessoa de Jesus; b) “esboçar uma nova orientação”: Jesus propõe uma novidade aos
discípulos46.

Assim, os sumários parecem apresentar um caráter redacional, propriamente marcano.


Podem ser encontrados no curso do Evangelho seis sumários, como esboço sobre a vida e
obra de Jesus47, seus destinos, e um breve relato que insere os discípulos em estreita relação
com o Mestre48. Vale, no entanto, sublinhar que a discussão sobre estes sumários é grande,
pois são heterogêneos.

Marcos configura a imagem de conjunto da atividade de Jesus essencialmente por


meio da narração das obras messiânicas, em especial histórias de milagres e apotegmas e, de
um modo seletivo e paradigmático, com passagens da doutrina de Jesus. Tal seleção literária
constitui já um ato teológico, que tem como objetivos literário e teológico não separar da
tradição (transmissão) os materiais recebidos, apresentando-os de maneira conjuntamente
harmoniosa. A missão do evangelista consiste na conexão das tradições “isoladas”, visando a
formar um todo, tal como uma colcha de retalhos. O que o autor conecta e o modo como o faz
já possibilita observar a orientação teológico-redacional que segue49.

1.3.2 Linguagem

Para o evangelista Marcos, a conexão de cada uma das passagens e materiais, ou


mesmo tradições, ocorre freqüentemente pela simples adição de kai, (e), kai. euvqu,ς (e, em

44
Cf. STANDAERT, B. L’Evangile selon saint Marc: commentaire. Paris: Cerf. 1983. p. 48.
45
Cf. GNILKA, J. El Evangelio según san Marcos. Salamanca: Sígueme. 1986. v. 1, p. 99-102.
46
Cf. RADERMAKERS, J. La bonne nouvelle de Jésus: selon saint Marc. Bruxelles: Institut d’ Etudes
Theologiques, 1974. p. 41.
47
Radermakers apresenta seis grupos de sumários: 1,14-15; 3,7-12; 6,6b-7; 8,31-33; 10,32-34 e 14,1-11. Cf.
RADERMAKERS, p. 41.
48
Cf. ROBERT, A.; FEUILLET, A. Introduction a la Bible: Nouveau Testament. Vol 2. Paris : Desclée, 1959,
p. 210-211.
49
Cf. VIELHAUER, p. 356.
19

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
seguida: 41 vezes) ou pa,lin (de novo). As conexões mais estreitas se estabelecem mediante
relações locais ou temporais: Jesus vem “dali”, do cenário que se acaba de mencionar, até o
lugar da próxima história, produzindo assim a impressão de relação e movimento50. A mesma
coisa acontece com as expressões comuns “naqueles dias” e “naquele dia”, que aparentam
acentuar a seqüência e realidade temporal, mas estão inseridas no texto e se mostram mais
preocupadas com o sentido teológico.

Lembrando que Mc foi escrito em grego, não podemos negar que o autor pensa como
um judeu familiarizado com uma catequese em aramaico. Ele conhece perfeitamente os
costumes judaizantes (7,3-5; 14,12; 15,42), conserva os vocábulos aramaicos, sobretudo os
utilizados por Jesus em momentos mais solenes: talitha kum (5,41), epheta (7,34), abba
(14,36; 3,17; 15,34). A base semitizante pode ser reconhecida com freqüência especialmente
nas palavras de Jesus51. A isso se une um estilo inculto, rudimentar e popular. Marcos também
utiliza frases semitizantes: anastas apelthen (7,24), anastas erchetai (10,1)52 além de
expressões típicas do ambiente semítico original, como, por exemplo: corban (7,11),
Bartimeu ou filho de Timeu (10,46), abba (14,36) e Eloi, Eloi, lama sabactani (15,34)53.

Na obra de Marcos, encontram-se também expressões latinas. Os latinismos poderiam


evidenciar e corroborar a hipótese de que Marcos tenha escrito sua obra em Roma,
destinando-a aos cristãos daquela região, embora se deva levar em consideração que se trata
de termos veiculados em todo o Império Romano. Pode-se encontrar um número expressivo
de palavras latinas, tais como: centurio (15,39), cuadrante (12,2), quadrans (12,42),
flagellare (15,15), speculator (6,27), census (12,14), sextarius (7,4), praetorium (15,15) e
legio (5,9).

A pesquisa sobre a obra marcana revelou também certo “paulinismo”54 na narrativa do


Evangelho. Alguns termos próprios de Paulo, presentes na narrativa marcana, como pneuma,

50
Cf. VIELHAUER, p. 357.
51
Cf. MANNS, F. Le milieu sémitique de l’Évangile de Marc. Liber Annuus 48 (1998), p. 125.
52
Cf. TUYA, p. 612.
53
Cf. ROBERTSON, A.T. Imágenes verbales en el Nuevo Testamento. Mateo y Marcos Vol. 1. Barcelona:
Talheres gráficos, 1998. p. 260.
54
Observa Konings, em artigo a ser publicado, que Karl-Ludwig Schmidt, citando Wendling, observou que Mc
1,1 tem colorido paulino, e o atribui ao redator do evangelho (Der Rahmen der Geschichte Jesu. Berlin 1919.
Repr. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1969, p. 18 e nota 10). De acordo com Gonzáles, Marcos
não conheceu a teologia paulina, pois em seu evangelho não se averigua indícios da pré-existência do Filho.
Portanto, esta discussão poderia permanecer suspensa, mas é possível imaginar uma possível intermitência entre
estas tradições, que conviviam contemporaneamente (cf. GONZÁLES, C. I. Ele é a nossa salvação. São Paulo:
Loyola, 1992. p. 214).
20

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
sarx e, sozein, são utilizados por este autor de uma maneira muito própria. Pode-se afirmar
que estes termos se encontram em consonância com a teologia paulina, mas não se deve dizer
que suas origens remetem exclusivamente a Paulo. Com seu novo gênero literário, Marcos
pretendeu apenas apresentar a economia salvífica, o mistério da vida, paixão, morte e
ressurreição de Jesus55, o querigma propriamente dito, que não é exclusividade paulina, mas
produto da tradição cristã, de um modo geral. É possível, pois, imaginar uma “semelhança”
nas teologias paulina e marcana, não descartando inteiramente a hipótese das intermitências
entre elas. Num exemplo concreto, a palavra eireneuete (paz) só está presente no Novo
Testamento em Mc 9,50 e em Rm 12,18; 2Cor 13,11; 1Ts 5,13.

Numa análise mais profunda do Evangelho de Marcos é possível perceber


características próprias:

A) Pobreza de vocabulário: No texto marcano, a união de frases se faz pelo conectivo


kai (e) e um advérbio palin (“outra vez” ou “de novo”). São simples elementos literários sem
valor cronológico. De maneira insistente, Marcos utiliza alguns verbos repetitivamente como:
“fazer”, “ter”, “poder” e “querer”. Tuya observa em Mc uma inflação de kai, podendo ser
observado no início de oitenta perícope (cf. 1,21-45)56.

B) Esquematismos: Marcos narra histórias mais ou menos “arquitetadas” num


esquema. Ele tem um estilo próprio de narrar. Com a utilização de esquematismos, pode-se
averiguar uma unidade no pensamento do autor desse Evangelho. A narrativa é composta de
“cenas muito vivas, arrojadas no modo de um pensamento muito simples, incapaz de variar
seus procedimentos”57. Um exemplo de esquematismo pode ser observado a partir da
comparação entre os relatos da tempestade acalmada (4,39-41) e de um exorcismo (1,25-27).

C) Estruturas estereotipadas: A história das formas descobriu em Marcos algumas


estruturas redacionais estereotipadas. Isso indica que o autor do Segundo Evangelho teria em
mente uma estrutura delineada, um pensamento esquemático.

55
Cf. TUYA, p. 620. Tuya diz que “a doutrina da justificação pela fé, tão típica do querigma de Paulo, não se
encontra exposta com a mesma clareza em Marcos”. Esta afirmação pode ser considerada irrelevante, pois,
Marcos não estava preocupado com a justificação pela fé, uma temática tipicamente paulina. Contudo, podemos
dizer que o querigma marcano é bastante claro: Jesus morreu e ressuscitou e seu seguimento é fundamental para
a salvação (cf. TUYA, p. 620).
56
Cf. TUYA, p. 621.
57
LAGRANGE, p. 78.
21

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
1) Relatos curtos: que têm por finalidade levar a uma sentença de Jesus; a cena das
espigas arrancadas e debulhadas no sábado (2,23-28) traz sua máxima final: “O sábado foi
instituído para o homem, e não o homem para o sábado”.

2) Relatos circunstanciados que trazem detalhes pitorescos e precisos, tais como


relatos de milagres: a tempestade acalmada, a reanimação da filha de Jairo, etc.

3) Relatos que narram os feitos a vida de Jesus ou dos discípulos que podem ser
observados no batismo, na tentação, na vocação dos Doze, no martírio de João Batista, na
transfiguração, na paixão e ressurreição58.

D) Realismo descritivo: os esquematismos mais ou menos flexíveis de alguns relatos,


juntamente à vivacidade e o colorido da descrição, assinalam um realismo narrativo. Marcos
utiliza palavras do cotidiano (1,38; 2,11; 14,31), o que Lucas não faria59.

Outras características redacionais poderiam ser acenadas na linguagem do autor do


Segundo Evangelho, por meio das coordenadas estruturais que englobam a obra. Pode-se
notar que Marcos se baseia na repetição, um fenômeno marcante na totalidade da obra
marcana. Os sumários, as fórmulas decorrentes, os agrupamentos de relatos ou parábolas
formam um esquema constante, juntamente com os paralelismos que relatam as situações e os
“sanduíches” literários60, que incluem entre dois relatos ou partes de relato um outro relato,
que é essencial e decisivo (cf. Mc 5,21-43).

Ao averiguar a formação de unidades literárias, afirma-se que o autor de Marcos


recorre, de maneira freqüente, às inclusões e paralelismos, também presentes nos livros do AT
(especialmente nos livros sapienciais e nos Salmos) bem como nos escritos rabínicos61.

Portanto, o Evangelho de Marcos, como uma combinação de tradições e materiais,


encontrados e fornecidos pelos querigmas diversos sobre o Crucificado-Ressuscitado, é uma
obra meritoriamente rica em detalhes lingüísticos e de rápida compreensão. Marcos narra com

58
TUYA, p. 621.
59
Cf. TUYA, p. 622.
60
Este recurso literário também pode ser notado na narrativa das visitas dos parentes [a casa] de Jesus, na qual
Marcos intercala o confronto de Jesus com os escribas em que estes o acusam de estar possesso por um demônio
e de curar os enfermos pela força de Beelzebul (3,20-35). Jesus afirma o que é central na narrativa: “Se Satanás
se levanta contra si mesmo, e for dividido, não pode subsistir; antes tem fim” (3,26). Em outras palavras poderia
se dizer: Se uma família está dividida contra si mesma não pode subsistir. Dois níveis podem ser percebidos
nesta perícope; de um lado a própria família de Jesus, de outro a família-comunidade, que corre o risco de se
dividir, por deixar-se levar pelo poder demoníaco. (cf. GRÜN, A. Jesus caminho para liberdade: O Evangelho
de Marcos. São Paulo: Loyola, 2006.).
61
Cf. RADERMAKERS, p. 39. Tais obras utilizam fórmulas paralelas que favorecem a memorização:
paralelismo sinonímico e antitético.
22

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
agilidade o Evento Jesus, fornecendo ao leitor, ao pesquisador e ao fiel o sentido da vida de
Jesus de Nazaré, o Messias, Filho de Deus.

1.3.3 Esquema do Evangelho

Todo o labor em determinar o esquema de um texto tem algo de re-criação e de re-


leitura, não podendo ser uma atitude neutra, como não o é a leitura. Sobre o texto são
projetadas as intenções, as pré-compreensões, as disposições sociais ou políticas62. Assim, os
“óculos” de quem lê o texto têm grande importância. Contudo, faz-se mister lembrar que o
texto não é fruto da imaginação de quem o lê, não podendo ainda ser deformado pelo leitor; o
texto deve ser lido sob a ótica da precisão, na intenção de perscrutar a potencialidade,
garantindo-o a possibilidade de ser um outro. Manter a alteridade do texto é assegurar uma
leitura verdadeiramente íntegra e sensata.

Ao assinalar algumas características do Evangelho de Marcos, percebeu-se que este


não tem um esquema divisório perfeitamente estabelecido. O agrupamento de vários
episódios insinua mais uma ordem teológica que cronológico-literária. No entanto, as linhas
(temáticas) gerais do Evangelho são facilmente percebidas.

Um primeiro tipo de esquema divide Marcos em três partes: 1) Atividade de Jesus


dentro e fora da Galiléia (1,1-8,26); 2) O caminho de Jesus até a paixão e sofrimentos
próprios do discipulado (8,27-10,52); 3) Jesus em Jerusalém (11-16)63.

Uma variante deste tipo é o esquema bipartido64: 1) 1,1-8,26(30): a pregação geral de


Jesus, culminando na pergunta “Quem é este?”; 2) 8,27- 16,8: o ensinamento e o gesto final
do Filho do Homem-Servo Sofredor.

R. Pesch, por sua vez, estuda o Evangelho de Marcos por meio de um esquema de
seções múltiplas65. Esta divisão, mais detalhada, tentará verificar os pormenores da narrativa e

62
Cf. GADAMER, H. G. Verdad y método. Fundamentos para una hermenéutica filosófica. Salamanca:
Sígueme, 1977. p. 332.
63
Outras divisões podem ser percebidas, uma outra possível seria: 1) a prática pelo Reino (1,2–8,21); 2) a crise e
a mudança de prática: instruções aos discípulos (8,27–10,45); 3) e o confronto com o poder e seu desenlace
(11,1–16,8a). Tal divisão contemplaria o desenrolar da práxis de Jesus desde a Galiléia até o ato derradeiro em
Jerusalém (Cf. GALLARDO, C. B. Jesus homem em conflito: o relato de Marcos na América Latina. São Paulo:
Paulinas, 1997. p. 3).
64
Alguns estudiosos de Marcos o vêem estruturado de forma bipartida. Segundo Aldana, trata-se de um esquema
pedagógico para uma maior compreensão da obra marcana. Cf. ALDANA, p. 101. Cf. GNILKA, J. El evangelio
según san Marcos. Mc 1,8,26. Vol. 1. Salamaca: Sígueme, 1986. Também, cf. KONINGS, J. Marcos. São Paulo:
Loyola, 1994. p. 5. E Bíblia tradução da CNBB, introdução ao Evangelho de Marcos.
65
Cf. PESCH, p. 78-90. No entanto, Pesch leva em consideração as duas grandes seções do Evangelho (1,1-8,26
– 8, 27-16,8), pois afirma que 8,27 inaugura a segunda metade do Evangelho (cf. PESCH, p. 84).
23

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
linguagem, bem como os aspectos introdutórios para a compreensão da cristologia: o eixo
vital do Segundo Evangelho.

Após mencionar a intenção do seu Evangelho (1,1) e apresentar o prólogo da narração


(1,2-15), Marcos inicia a primeira seção (1,16-3,6). Ela se estrutura essencialmente a partir de
três coleções pré-marcanas da tradição: a) tradição do Batista e de Jesus (1,2-15); b) a tradição
do “dia de Cafarnaum” (1,21a. 29-39); c) coleção pré-marcana de disputa (2,15–3,6). A
vocação dos primeiros discípulos é inserida propositalmente no início da atividade, como
forma de testemunho da tradição (1,16-20). O “dia de Cafarnaum” é alongado até o primeiro
dos quatro exorcismos relatados no Evangelho. A narrativa do milagre em 1,40-45 está
inserida como primeira exaltação da ação de Jesus em toda a Galiléia (1,39), esta narrativa
coloca Jesus em conformidade com a lei mosaica. A primeira seção do Evangelho apresenta
cinco formas de disputa: 1) Jesus perdoa os pecados (ao paralítico) (2,1-12); 2) come com
Levi, o publicano (2,13-17); 3) os discípulos de Jesus não jejuam (2,18-22); 4) arrancam
espigas no dia de sábado (2,23-28) e, ainda, 5) Jesus cura no dia de sábado o homem da mão
seca (3,1-6). Essa seção apresenta Jesus em plena dinâmica (os termos-chave são: e;rcomai
“chegar”, “ir” em 1,7.9.14.39 e e,xousi,a “poder-autoridade” em 1,22.27; 2,10) na Galiléia, no
lago (1,16; 2,13), em Cafarnaum e em seu entorno (1,21-39; 2,1-3,6)66.

A segunda seção (3,7-6,29), fundamentalmente, facilita a compreensão e o


entendimento do sentido do seguimento, pois apresenta Jesus e seus discípulos. Marcos se
utiliza da narrativa dos milagres (3,7-12; 4,1.35.41; 5,1-43; 6,32-56). Essa seção está
vinculada ao sumário (3,7-12). O autor apresenta aqui a hostilidade dos escribas (3,20-30) e a
verdadeira família de Jesus (3,31-35). Marcos relata quatro milagres (4,35-5,43), sendo três
narrados sem interrupção, o último equivale a um sanduíche literário (a cura da mulher com
hemorragias, intercalado com a cura da filha de Jairo). Marcos aparentemente segue o
sumário de 3,7-12. Jesus constitui o grupo dos Doze em 3,13-19. Esta narrativa está
relacionada à de 6,7-13, na qual se especifica a missão dos Doze. Entre os relatos da
instituição e missão dos apóstolos, estão inseridas as parábolas do Reino (4,1-34), divididas
em três mini-seções: a) Parábola do semeador (4,1-25); b) parábola do homem que espalha a
semente (4,26-29); c) parábola do grão de mostarda (conclusão: 4,30-34). A segunda seção,
tal qual a primeira, pode ser dividida em quatro partes: 1) a diferenciação dos ouvintes de
Jesus (3,7-35); 2) o mistério do Reino de Deus (4,1-34); 3) a pergunta: “Quem é ele?” – ponto

66
Cf. PESCH, p. 37.
24

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
culminante da atividade taumatúrgica de Jesus (4,35–5,43); 4) o destino da recusa de Jesus e a
missão dos discípulos (6,1-29)67.

A terceira seção (6,30-8,26) descreve, depois da missão dos Doze, Jesus dirigindo-se
aos Judeus (particularmente 6,32-44), depois da abolição da distinção “puro e impuro”, ele
dirige-se aos pagãos (em particular 7,24-30; 8,19). Esta seção pode ser subdividida em três
partes68: 1) Jesus, pastor de Israel (6,30-56); 2) abolição da distinção “puro e impuro” como
barreira entre judeus e pagãos (7,1-23); 3) incompreensão dos discípulos quando Jesus se
dirige aos pagãos (7,24-8,26).

Em Mc 8,27 inicia-se a segunda metade da obra. A partir deste momento, “o fio de


exposição é oferecido pela narrativa pré-marcana da paixão”69.

A quarta seção (8,27-10,52) evidencia o destino de sofrimento do Filho do Homem e


as condições para o discipulado na comunidade cristã. O desfecho desta seção se dá no início
da estada de Jesus em Jerusalém (10,52). Marcos associa a descrição da viagem a Jerusalém
com os três anúncios do sofrimento e da ressurreição (8,31; 9,31; 10,33), a fim de instruir a
comunidade no conceito do seguimento até a cruz (8,34ss.). Esta seção pode ser subdividida
em três partes: 1) introdução ao mistério do sofrimento e da ressurreição e o seguimento até a
cruz; 2) instrução para a comunidade dos discípulos de Jesus; 3) ensinamentos sobre o
matrimônio, a riqueza, o serviço e o seguimento de Jesus (10,1-52). A quarta seção, concebida
essencialmente como ensinamento à comunidade, é sumamente importância para elucidar o
entendimento da cristologia marcana, pois faz menção aos títulos cristológicos: Cristo (8,29;
9,41); Filho de Deus (9,7); Filho do Homem (8,31. 38; 9,10. 12. 31; 10,33. 45; Filho de Davi
(10,47) e Mestre (9,17. 38; 10,17).

No cap. 10 é determinante não só a narrativa da paixão, mas sobremaneira a pequena


narrativa catequética (10,1-12.17-27.35-45). Este capítulo é constituído pela tradição das
logias, em particular, o ensinamento posterior à primeira e à segunda profecia do sofrimento e
ressurreição (8,34-9,1; 9,36-50). Entre a narrativa da transfiguração (9,2-13) e a segunda
profecia, Marcos insere a narrativa de um quarto exorcismo (9,14-29), que se adapta bem ao
contexto das vicissitudes do discipulado, que pressupõe a provisória ausência de Jesus, o que
espantou os discípulos, causando-lhes medo. Em Mc 10, a notícia da viagem dá continuidade

67
Cf. PESCH, p. 83.
68
Cf. PESCH, p. 84.
69
PESCH, p. 84.
25

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
à narrativa pré-marcana da paixão (10,1). Marcos acopla ao ensinamento sobre o matrimônio
(10,2-12), o ensinamento sobre a “criança” (10,13-16) e ainda interpreta o paradigma da
riqueza (10,17-27), caracterizando uma tradição considerável para o seguimento (10,28-31).
A terceira parte da narrativa catequética (10,35-45) é central para Marcos, pois traz a
discussão o eixo semântico diakonia, o serviço. No fechamento dessa parte principal (10,46-
52), Marcos torna a seguir, como no início (8,27-33), o relato pré-marcano da paixão, que
determina a articulação com as anotações da viagem em 8,27; 9,30; 10,1. A didaskalia dos
discípulos está intimamente vinculada aos termos-chaves: “seguimento” (a;kolouqe,w em 8,34;
9,38; 10,21. 28. 32. 52), “reino de Deus” e “vida eterna” (9,1. 43. 45. 48;
10,14. 15. 17. 23. 24. 31).

A quinta seção (11,1-12,44) se esquematiza em três partes: 1) entrada de Jesus em


Jerusalém e demonstração profética no templo (11,1-25); 2) questionamento da autoridade de
Jesus e resposta de Jesus com a narrativa da parábola do assassinato do filho do dono da vinha
(11,27-12,12); 3) o ensinamento messiânico de Jesus no Templo (12,13-44). O relato de Mc
13, considerado um discurso escatológico, está em conjunto com a quinta seção. Este capítulo
se encontra subdividido em: 1) pregação sobre o fim, ou destruição do Templo (13,1-13); 2) a
grande tribulação (13,14-23); 3) anúncio da vinda do Filho do Homem (13,24-27); 4) a lição
da figueira e a exortação à vigilância (13,28-33).

A sexta grande seção (14,1-16,8), segundo Pesch pode ser subdividida em três partes:
1) traição de Judas e apreensão de Jesus (14,1-52); 2) condenação de Jesus por parte do
Sinédrio e negação de Pedro (14,53-72); 3) entrega de Jesus à morte, sepultamento e anúncio
da ressurreição, diante do túmulo vazio (15,1–16,8)70. Taylor afirma que esta seção é a melhor
articulada. Isto se deve ao fato de que a paixão-ressurreição foi a primeira parte da tradição
evangélica que se narrou como relato esquematizado, pois foi preciso narrar toda a série de
acontecimentos para resolver o paradoxo da cruz71.

1.3.4 Teologia do Evangelho

Marcos, ao compor sua obra narrativa a respeito de Jesus, instaurou um processo


idôneo e inédito na intenção de impedir que Jesus histórico ficasse esquecido. A novidade da
narrativa marcana consiste na forma e no modo da exposição da Boa Notícia72. Quanto ao

70
PESCH, p. 87.
71
Cf. TAYLOR, p. 633.
72
Cf. GNILKA, Teologia, p. 162.
26

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
conteúdo, sabe-se que este procede, em sua maior parte, da ampla tradição sobre Jesus de
Nazaré.

No centro da intenção marcana está o problema teológico: evitar o esquecimento de


Jesus, o Filho de Deus. O interesse histórico é conseqüência. Porém o que importa mesmo é a
mensagem central: “Quem é Jesus?” O Messias do segredo, o sofredor ou o Ressuscitado?

Considerando o procedimento literário de Marcos, “não é aconselhável esperar uma


teologia unitária no Evangelho”73. Marcos não pretendeu elaborar uma teologia
sistematicamente acabada. Mas, constituiu teologias abertas, que possibilitam responder à
pergunta que não se cala: “Quem é Jesus?” É pertinente a dúvida relacionada à afirmação de
que haja no Evangelho de Marcos um sentido unitário. Pois, em Marcos, é possível encontrar
teologias entrecruzadas percebidas a partir da leitura da redação final. A novidade teológica
do evangelista se instala, essencialmente, no fato de ele fornecer à sua obra uma estrutura
narrativa, que leva em consideração o legado da tradição e a narrativa pré-marcana da Paixão,
constituindo uma teologia sobre a vida de Jesus.

Paulo, diferentemente de Marcos, elaborou com seus escritos uma cristologia em torno
dos títulos cristológicos: Kyrios, Filho de Deus, Cristo, Primogênito da Criação, Crucificado,
Ressuscitado, Mediador. Marcos, por sua vez, não fala de Jesus por meio de confissões, hinos
ou títulos, apenas, mas a partir da narração sobre o anúncio e a práxis de Jesus74.

Em matizes gerais, uma estrutura teológica do segundo Evangelho poderia ser traçada
a partir da dinâmica narrativa apresentada pelo autor. Primeiramente, Jesus é recebido
favoravelmente pelas multidões; depois, seu messianismo humilde e espiritual decepciona a
expectativa do povo e o entusiasmo se arrefece; então Jesus se afasta da Galiléia para se
dedicar à formação do pequeno grupo dos discípulos fiéis, cuja adesão incondicional ele
obtém no momento da confissão de Pedro em Cesáreia de Filipe. Esse momento decisivo
determina e orienta as coordenadas do ministério de Jesus, que se consumará drasticamente
em Jerusalém. A oposição cada vez maior o conduz ao drama da paixão que é, finalmente,

73
PESCH, p. 101.
74
Para Gallardo, em um mundo em que a história é a dos vencedores, (Marcos) escreve um relato de reverso da
história, sobre esse judeu vencido, dirigido a uma comunidade de perseguidos não judeus, provavelmente
romanos, a quem propõe como norma de vida esse judeu. Trata-se de um relato inconcluso, de uma prática
truncada violentamente que não dá resposta imediata à pergunta óbvia sobre o que aconteceu com Jesus. É
possível perceber que esta posição assumida por Gallardo parece divergir não apenas da teoria sobre a teologia
unitária de Marcos, bem como daquela sustentada em nosso trabalho, o qual afirma que as teologias
desenvolvidas pelo autor de Marcos visam a responder, de forma narrativa, à pergunta “Quem é Jesus”? (cf.
GALLARDO, p. 21).
27

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
coroado pela resposta vitoriosa de Deus na ressurreição de Jesus. A resposta sobre a
identidade de Jesus está claramente presente no seguimento, no discipulado inaugurado por
Jesus. Ele chama ao seguimento e instrui como mestre aqueles que o seguem.

Marcos consegue, portanto, atingir sua finalidade ao escrever o Evangelho: resumir a


tradição de Jesus para a primeira geração cristã. Ao unir a práxis missionária de Jesus à
catequese (didaskalia) do mestre, Marcos traça o itinerário teológico do Evangelho: uma
cristologia narrativa. Esta cristologia consiste em apresentar a tradição sobre a autoridade de
Jesus de Nazaré (exousia), a pregação do Reinado de Deus, o querigma da salvação, o
sofrimento na cruz, a morte expiatória e a Ressurreição, como a ação de Deus na vida de
Jesus. Trata-se de três tradições conservadas sobre o Messias: o Filho do Homem, o Servo
Sofredor e o Filho de Deus75.

Com isso, é possível perceber na obra de Marcos três eixos em confluência. O


primeiro trata da Vida de Jesus. O segundo equivale ao eixo missionário. O terceiro eixo
refere-se à progressiva revelação celeste da dignidade de Jesus. Estes eixos podem ser
denominados teológicos76. Tais forças tensoras no Evangelho fazem parte, claramente, da
“arte de tecer a intriga”77. Marcos utiliza estes eixos como estratagemas literários, buscando
narrar de forma inteligível os acontecimentos com Jesus de Nazaré. Estes eixos, heterogêneos
em um primeiro olhar, se implicam mutuamente, constituindo a rede de relações, configurada
em um tecido narrativo. O autor do Evangelho, em sua prudência narrativa, busca conservar a
tradição, não só por meio da transmissão, mas igualmente da recepção e da interpretação
presente na narrativa textual. O texto, em sua textura, já se mostra narrado, recebido e
interpretado pelo autor e sua comunidade.

O primeiro eixo teológico, concernente à Vida de Jesus, comunica a preparação do


“caminho do Senhor”, anunciado por João Batista (1,2-8), encerrando com o Ressuscitado que
“precede” os discípulos à Galiléia (14,28; 16,7). O arco de tensão da vida de Jesus abarca a
história de Jesus apresentada por Marcos; não se trata de uma biografia, mas de uma história
epifânica, uma história de revelação. O caminho de Jesus é caminho para o sofrimento; ele sai
da Galiléia e vai para Jerusalém, lugar ápice de sua atividade. Em Jerusalém, o Ressuscitado

75
PESCH, p.111.
76
No intuito de reproduzir criativamente a tradição de Jesus, Marcos compõe sua obra por meio de temáticas
fundamentais: os arcos de tensão que, de acordo com Pesch, perpassam o Evangelho. PESCH, p. 117. Preferimos
aqui traduzir arcos de tensão, por eixos teológicos.
77
RICOEUR, P. A hermenêutica bíblica. São Paulo: Loyola, 2006. p. 288. Nesta obra, Ricoeur elabora os
principais recursos da teologia narrativa, designando-a narratologia.
28

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
anuncia que é na Galiléia, na comunidade dos discípulos, que ele se revelará. Para a Galiléia,
encaminham-se os seguidores e é lá no ponto originante da atividade de Jesus, que se dará o
encontro com o Ressuscitado.

O segundo eixo é aretalogico: o autor do Evangelho atinge o reconhecimento da


verdadeira dignidade de Jesus. Este eixo pode ser considerado missionário, proveniente da
admiração, da aclamação ante o mistério da ação de Jesus, sobretudo por meio da narrativa
dos milagres. A atividade jesuânica está antecipada pelo anúncio de João Batista (1,7) e
acentuada no início da atividade na sinagoga de Cafarnaum em variação sempre nova. O eixo
aretalógico tem seu clímax na exclamação do centurião romano (cf. 15,39): “uma exclamação
transposta em evidência” 78, uma genuína profissão de fé.

Existe, evidentemente, entre os dois primeiros eixos uma união intrínseca, dado que a
vida do mestre Jesus é, ao mesmo tempo, epifania de Deus e objeto de admiração dos homens.
Tal objeto epifânico desencadeia a curiosidade e a decisão do seguimento por parte de
homens e mulheres. É possível afirmar que o livro de Marcos em sua totalidade é uma obra de
missão, um convite para o seguimento 79.

O terceiro eixo – presente no início, no centro e no desenlace do Evangelho – diz


respeito à progressiva revelação celeste da dignidade de Jesus. Primeiro, no batismo (1,11),
depois, na transfiguração (9,7) e, por fim, na morte-ressurreição (15,33. 38; 16,6-8). Este eixo
pode ser entendido a partir do esquema: adoção, proclamação, aclamação. Um esquema
“místico gradual” 80, uma entronização gradual na realização da dignidade de Jesus. Ao ser
adotado pelo Pai, Jesus inicia seu ministério e gradualmente é compreendido pelos discípulos,
até ser proclamado messias do povo e, por fim, aclamado Filho de Deus. O crescimento
teológico revela a dinâmica marcana: revelar Jesus, o Messias, o Filho de Deus, aquele que
desperta o coração humano para o desejo do seguimento.

Para a Igreja de hoje, a obra de Marcos é peculiarmente preciosa, pois conserva a


tradição mais antiga sobre Jesus e inaugura a nova forma de falar sobre ele: a cristologia
narrativa.

78
Cf. PESCH, p. 118-119.
79
Cf. PESCH, p. 120.
80
PESCH, p. 120.
29

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
1.4 Cristologia narrativa: “Quem é Jesus?”

O Evangelho de Marcos foi definido como o “livro da epifania secreta”81. Segundo


Conzelmann, esta definição pode ser julgada justa e não superada, pois Marcos evoca uma
revelação ascendente de Jesus, o Messias, o Filho de Deus, na história dos homens da
Palestina. E esta revelação chegou aos tempos hodiernos. A revelação do Messias torna-se
visível na estrutura da obra marcana. Esta revelação se dá de modo surpreendentemente bem
estruturada82, podendo-se dizer que o Evangelho de Marcos em sua intenção e estruturação
quer revelar quem é Jesus de Nazaré, o Filho de Deus.

Marcos, movido pelo Espírito, visa a preservar para a Igreja do porvir as tradições
apostólicas da “memória de Jesus” ou a “tradição de Jesus”, considerada o fundamento do seu
Evangelho. A cristologia de Marcos, a “memória de Jesus”, é clara e surpreendente. Ele
apresenta Jesus como verdadeiro homem. Jesus, em sua condição humana, precisa orar (1,35;
6,31), comer (2,16), beber (15,36). Ele sente fome (11,12), toca as pessoas (1,41), é tocado
por elas (5,57), fica triste (3,5) e se indigna (10,14). É homem que também sente sono,
cansaço e é despertado nos momentos de sono (4,38-39). Homem de conhecimento limitado
(13,32), pois precisa olhar em seu derredor para ver quem o tocou (5,30). Por fim, como todo
ser humano passa pela trágica experiência da morte (15,37).

Marcos percebe na vida de Jesus a epifania de Deus. A cristologia marcana, não nega
a divindade de Jesus. Ao contrário, é com exousia divina que ele fala e age. Marcos o
descreve como o soberano sobre o reino da enfermidade (1,40-45; 8,22-26; 10,46.52), dos
demônios (1,32-34) e da morte (5,21-24,35-43), e também sobre os elementos da natureza
(4,35-41; 6,48; 11,13-14,20). Jesus prediz o futuro (8,31; 9,9-21; 10,32-34; 14,17-21),
conhece os corações humanos (2,8; 12,15) e, por fim, vence a própria morte (16,6).

Relatar o “caso” Jesus e sua memória como “Boa-Nova” de Deus é questão meritória
de Marcos. Ao empreender esta jornada, ele relata a história de um homem inserido numa
situação, num contexto, num tempo e num lugar, sem arrancá-lo de Deus83. O autor do
Segundo Evangelho traduz a experiência do homem Jesus, o Filho único de Deus, Deus feito
carne na história dos homens, sem desconectá-lo da história divina.

81
“Dibelius define o evangelho de Marcos como ‘o livro da epifania secreta’” (CONZELMANN, p. 184).
82
A concepção de Marcos, sua revelação resulta da estrutura do livro. Em termos literários, a configuração é
primitiva, elementar. Mas do ponto de vista teológico, esta se revela surpreendentemente bem estruturada. Isso
pode ser notado já na introdução: Varch. tou/ euvaggeli,ou VIhsou/ Cristou/. (cf. CONZELMANN, p. 184).
83
Cf. MOINGT, J. O homem que vinha de Deus. São Paulo: Loyola, 2008. p. 248.
30

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Em sua cristologia narrativa, Marcos elabora um importante conceito teológico: o
“segredo messiânico”, também conhecido como “teoria do segredo”84. A narrativa de Mc tem
em 4,11, com a palavra musth`rion, o ponto de apoio para a formulação do segredo. Esta
expressão aparece apenas uma vez no Evangelho. No episódio da transfiguração, Jesus ordena
a seus discípulos desçam do monte e não digam a ninguém o que viram, até que o Filho do
Homem ressuscite dentre os mortos (9,9). Sobre a revelação, cai o véu do ocultamento, ao
menos até que Jesus tenha concluído sua vida terrena. Ocultamento que se faz através das
ordens de silêncio85.

O ocultamento ou segredo messiânico, concernente ao próprio texto do Evangelho,


explicita que Jesus, revelando sua exousia (messianidade), quer manter-se anônimo durante a
vida terrena, ordenando que somente após o tempo pós-pascal se anuncie quem ele é (9,9).
Não resta dúvida sobre a importância desse segredo para a teologia do Evangelho. Segredo
este que determina a cristologia incipiente de Marcos.

O segredo messiânico ganha visibilidade nas ordens de silêncio aos possessos


(1,25.34; 3,12), aos curados (1,44; 5,43; 7,36; 8,26) e aos discípulos (8,30; 9,9), mas também
nos momentos de incompreensão dos seguidores a respeito do mestre Jesus (7,13; 8,17s; 9,30;
10,10). Há ainda duas outras ordens de silêncio, bem configuradas em passagens da tradição
marcana: o leproso deve calar-se até que as autoridades confirmem oficialmente sua cura
(1,44) e o demônio deve ficar calado quando se confronta com o Messias (1,25). Além destas
que pertencem ao estilo de exorcismos, outras passagens foram interpretadas por Marcos no
contexto do “segredo messiânico”, a saber, 1,34 e 3,12.

O procedimento literário do segredo inaugurado por Marcos nem sempre foi percebido
na história da exegese. No entanto, consiste, objetivamente, em dizer que o “segredo do Filho
de Deus”86 se desvela à luz do Ressuscitado. O acontecimento pascal é, portanto, condição de
possibilidade para a compreensão de fé na revelação em Jesus de Nazaré, o Filho de Deus.

O segredo messiânico em Marcos substitui os relatos das aparições pascais presentes


nos demais Evangelhos. O esquema do segredo, ou melhor, a idéia de revelação implicada

84
A concepção do segredo messiânico, apresentada por W. Wrede (na obra Das Messiasgeheimnis in den
Evangelien, em 1901) influenciou poderosamente em todos os estudos seguintes sobre a cristologia marcana.
Muitos estudiosos procuraram rechaçar esta teoria do segredo messiânico. Percebe-se que alguns conceitos,
sobre tal “segredo”, mudaram desde a primeira concepção. (cf. GNILKA, Teologia, p. 167). Não podemos
deixar de mencionar outra importante sobre o segredo messiânico: TILLESSE, G. M. Le secret messianique
dans l'Évangile de Marc. Paris: Cerf, 1968.
85
Cf. GNILKA, Teologia, p. 167.
86
Cf. GNILKA, El evangelio, p.198
31

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
nele se interessa em desdobrar a cristologia narrativa, que pode ser compreendida a partir do
horizonte da querigmatização da tradição de Jesus. Atrás do processo literário do velar e
desvelar não se escondem os atos da vida de Jesus, mas esconde-se o fato mesmo de que o
anunciador se converteu em anúncio. Jesus é anunciado a partir da perspectiva pascal. Ele
mesmo não se anunciou, mas proclamou o advento o Reinado de Deus. Jesus, portanto, ao ser
compreendido a partir da perspectiva da cruz e ressurreição não é mais segredo, mas é
querigma, anúncio encorajador para o discipulado.

Chama a atenção que o convite ao silêncio – e não uma ordem de silêncio – volte a se
repetir no final aberto do Evangelho. Este fato pode ser interpretado no horizonte do segredo
messiânico. As mulheres que junto à porta do sepulcro, escutaram a mensagem da Páscoa,
deveriam falar, mas “não disseram nada a ninguém, pois tinham medo” (16,8b). Por que no
momento em que a ordem é proclamar, falar sobre o ocorrido, as mulheres preferem o
silêncio? Evidentemente, esta passagem não deve ser compreendida historicamente, mas
teologicamente, pois neste momento o Evangelho atinge seu clímax narrativo, conduzindo o
ouvinte da Palavra a fazer, per se, a uma hermenêutica para a vida de discípulo de Jesus.

O Evangelho de Marcos convoca seu o ouvinte da Palavra a responder à pergunta:


“Quem é Jesus”? A “Boa-Nova” de Marcos, constituindo-se numa cristologia narrativa,
convida o discípulo a se decidir por uma fé radical em Jesus 87. O ouvinte da Palavra é
chamado à dinâmica do seguimento ou se preferir pode ficar parado diante do sepulcro vazio
e sem vida.

De acordo com a narrativa marcana, a resposta mais adequada à pergunta “Quem é


Jesus?” é: Ele é o Messias, Filho de Deus, crucificado-ressuscitado. Ao recorrer às confissões
presentes na obra marcana, a de Pedro (8,29: “Tu és o Cristo”) e a do centurião romano
(15,39: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus”), pode-se afirmar que, para
Marcos, Jesus é o enviado de Deus (9,37). O objetivo deste Evangelho é difundir a fé em
Jesus, outorgando à sua “história” terrena um inestimável valor teológico. A história terrena
de Jesus é convite constante ao discipulado. Nesta perspectiva, nota-se que a cristologia de
Marcos está embebida da intriga do convite ao seguimento, que pode ou não ser acolhido pelo
leitor ou ouvinte.

Marcos, inaugurando sua cristologia narrada, acende um lampejo de esperança para o


futuro dos cristãos. Ao ser re-visitada, a narrativa cristológica de Marcos converte-se em

87
Cf. GNILKA, Teologia, p. 168.
32

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
possibilidade de elucidação da práxis cristã em todos os tempos. A cristologia narrada,
construída a partir da arte de recontar os fatos e palavras que envolveram Jesus, converte-se
em convite para o discipulado. Convite para a descoberta do Deus escondido88. A cristologia
marcana é, portanto, expressão da vida plenamente humana, na qual se esconde a divindade,
que se faz visível, no entanto, nos ensinamentos e obras de Jesus para todos aqueles que têm
olhos para ver e ouvidos para escutar.

O discípulo, aceitando o convite ao seguimento, se depara com a resposta para a


questão cristológica. É no caminho e na intimidade de Jesus, que se desvela a beleza do
encontro. No seguimento de Jesus, em direção da cruz, se descobre o segredo e se pode
responder à pergunta: “Quem sou eu para vós?”.

É possível considerar a narrativa marcana uma cristologia do caminho. Marcos, ao


narrar as palavras e a práxis de Jesus, deseja revelá-lo em sua identidade. O Segundo
Evangelho constitui-se, portanto, convite e caminho aberto à liberdade do discípulo. O
discipulado é graça e desafio e exige daquele que se aventura a caminhar o conhecimento de
Jesus à medida que se faz o caminho.

1.5 Títulos cristológicos

Percebe-se a presença de alguns títulos de Jesus na obra marcana, tais títulos podem
elucidar a pergunta cristológica “Quem é Jesus?”. Explicitamente, Marcos inicia sua narrativa
afirmando, “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1,1). Tanto a expressão
Jesus Cristo quanto o predicativo Filho de Deus são claramente indícios de que a intenção
marcana é apresentar Jesus, o Cristo-Ungido do Pai, como o verdadeiro Filho de Deus, o
Filho do Homem89.

O título “Filho de Deus” está destacado na obra marcana em: 3,11; 5,7; na confissão
dos demônios; 1,11 na declaração do Pai no batismo; em 9,7 na narrativa da transfiguração e,
por último e não menos importante, em 15,39 na exclamação feita pelo centurião junto à cruz.
Provavelmente a expressão Kyrios90 (11,3; 16,20) tenha o mesmo sentido que tem o título
“Filho de Deus”, pois expressa senhorio e poder. São expressões típicas da Igreja primitiva.
No entanto,

88
Cf. TAYLOR, p. 136-137.
89
Cf. TUYA, p. 615.
90
O título “Senhor” dado a Jesus nestes versículos não é um dado marcano, afirma Schweizer (Evangelo, p.
396).
33

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
“Marcos, sem dúvida, não conheceu a teologia paulina, já que, em seu evangelho,
não se descobrem vestígios de uma ‘preexistência’ do Filho, antes da sua
encarnação. Apresenta-nos simplesmente a sua teologia do Filho de Deus ao relatar
a vida pública de Jesus”91.
Em algumas passagens, também se percebe, a atribuição de poderes divinos a Jesus:
ele perdoa pecados (2,5-12), é senhor dos anjos (13,27), leva os escribas a verem a
transcendência do Messias (12,35-37) e proclama-se “senhor” do sábado (2,28)92.

Quanto ao título “Filho de Davi” (10,47; 12,35-37), pode-se atribuir-lhe uma


conotação messiânica. Com relação ao título “Filho do Homem”, discutiu-se, no decorrer dos
tempos, se Jesus o toma exclusivamente de Dn 7,14 ou se procede das narrativas apocalípticas
contemporâneas a ele ou ainda das parábolas de Henoc.

O título Cristo, tradução de Messias, enseja a discussão se este termo procede das
narrativas apocalípticas ou se o deriva da tradição profética? De fato, o título de Messias pode
estar ligado à imagem do servo sofredor de Isaías, mas também pode aludir a figura do
glorioso-divino Filho do Homem de Daniel, conforme a evolução deste título na hermenêutica
bíblica judaica. É possível afirmar que o Messias Jesus, na narrativa marcana, assume tanto o
papel de servo sofredor quanto a figura do Filho do Homem.

Por fim, o primeiro título, Cristo, destaca a grandeza do Ungido (na narrativa dos
milagres), e o segundo, Messias, destaca a obediência do Servo Sofredor (na narrativa da
Paixão, no qual Jesus carrega sua cruz até o Gólgota). Os títulos cristológicos, concebidos
por Marcos, servem para narrar a história de Jesus e autenticar o convite ao discipulado dos
cristãos de todos os tempos e lugares.

A cristologia narrativa, portanto, pretende elucidar a realidade de Jesus, o Cristo, em


seu sofrimento e glorificação. O autor de Marcos, ao falar de Jesus aos primeiros cristãos do
caminho, lança no horizonte futuro as razões hermenêuticas para responder àquela pergunta
fundamental, “Quem é Jesus?” Por fim, a narrativa marcana almeja nortear os passos dos
discípulos no horizonte da fé, da esperança e da profunda experiência de Jesus, o Messias, o
Filho de Deus.

91
GONZÁLES, p. 214.
92
Cf. TUYA, p. 615. Quanto aos títulos cristológicos seguintes nos servimos das informações de Tuya.
34

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
1.6 Hermenêutica cristológica: convite ao discipulado
“Coragem! Ele te chama. Levanta-te”. (Mc 10,49)

A obra do autor de Marcos, portanto, constitui-se numa cristologia narrativa do


caminho93. Após elucidar as perspectivas distintas que condensam a obra marcana, o leitor é
convidado a contemplar esta obra como um grande convite ao discipulado de Jesus: “Segui-
me” (Mc 1,17). O ouvinte da Palavra é chamado a dar uma resposta à revelação de Deus em
Jesus, o Cristo. A obra de Marcos é, em sua construção e transmissão, tentativa hermenêutica
da autocomunicação de Deus à humanidade e aos discípulos do mestre Jesus.

A narrativa cristológica do caminho é perpassada pela epifania de Deus em Jesus e


inspirada pelo Espírito. É este Espírito que concede inteligência e perspicácia ao hagiógrafo e
à comunidade que vive a experiência de Jesus, o crucificado-glorioso. A narrativa por si é
uma hermenêutica, dá a pensar, revelando-se como alteridade inédita e livre.

A “Boa-Nova” de Marcos explicita a epifania de Deus em Jesus a todo o gênero


humano. A revelação de Deus é, já, condição de possibilidade de acolhida ao mistério da
Encarnação do Filho. O Verbo encarnado é consolidação do projeto divino da Salvação.
Projeto constituído por vias humanas, na imanência aberta e diligentemente obediente a Deus.

O Logos, o euangelion, ao entrar no mundo faz-se carne em Jesus e, ao ser


interpretado, ganha força instigante e norteadora para a comunidade dos seguidores. O
Evangelho é mensagem salutar e perigosa, é a confirmação de que o desejo de Deus é a
felicidade humana, a bem-aventurança da Criação, mas revela também que este sonho divino
só se concretiza a partir e por meio do compromisso exigente do caminho de Jesus. A
cristologia narrativa de Marcos é ao mesmo tempo a Palavra de Jesus aos homens na história
e o seu falar sobre Jesus como memória na história. É uma mensagem nova e desafiadora.

A obra marcana, em sua sóbria narratividade, revela o desejo de Deus em Jesus: que o
discípulo vá à Galiléia, a fim de lá experimentar a força dinâmica daquele que vive,
constatando o seguro querigma do centurião romano “Verdadeiramente ele era o Filho de
Deus”. O móbil da Ressurreição não permite que o discípulo se estagne em Jerusalém, local

93
Muitos versículos do Evangelho de Marcos evidenciam o ir e vir de Jesus, tanto para a Galiléia ou Cafarnaum,
quanto para Jerusalém e seus arredores. Jesus está sempre em movimento (cf. 1,16. 21. 35; 2,1. 13. 23;
3,1. 7.13. 20; 4,1. 35; 5,1. 21; 6,1. 45; 7,24. 31; 8,10. 22. 27; 9,2. 9. 28. 30. 33; 10,1. 17. 32. 46. 52;
11,1. 11. 15. 11. 20. 27; 13,1; 13,3; 14,3. 17. 26. 32).
35

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
da morte, mas instaura sempre mais o desejo de “ver” Jesus que está vivo na Galiléia dos
discípulos e discípulas.

A experiência do Ressuscitado, que passou pela morte, é o convite do Evangelho de


Marcos. Para viver segundo a Ressurreição, faz-se mister, antes de tudo, “tomar a cruz” e
seguir a via do crucificado, rumo à Jerusalém, confiante nas promessas de Deus. Trilhar os
caminhos de Jesus consiste afirmar que o Mestre está sempre à frente e que só se faz o
caminho, quando se põe a caminhar. Da Jerusalém do poder para a Galiléia marginalizada é
que o Evangelho chega ao seu clímax. É, portanto, na Galiléia que o discípulo haverá de
reconhecer Jesus.

1.7 Estudos recentes sobre Mc 15,40-16,8

Assim como a pesquisa se dedicou a investigar o Evangelho de Marcos, alguns críticos


também se debruçaram sobre o problema da akolouthia e diakonia no Evangelho. No entanto,
não se acha nenhuma obra com uma pesquisa exclusiva sobre os eixos semânticos propostos
por este trabalho. Em relação ao eixo semântico akolouthia, particularmente, acha-se por bem
mencionar além do estudo clássico de Schulz94, os apontamentos mais recentes de Aldana95 e
a obra de Fumagalli96. No que se refere ao discipulado, encontramos alguns estudos
recentes97.

Segundo Aldana, o tema do discipulado em Marcos pode ser estudado a partir de três
tendências: conservadora, média e liberal98. Na primeira, conservadora, estão os que
defendem a noção de que a teologia de Marcos incorpora uma visão favorável e positiva dos
discípulos. Esta tendência observa que os discípulos, no fim, saem vitoriosos, pois são
escolhidos livremente por Jesus, após um período de convivência com ele (3,13).

Ernest Best99 representa a posição média, que engloba as opiniões de que a teologia é
em parte favorável e em parte desfavorável aos discípulos. A posição liberal é defendida por

94
Cf. SCHULZ, A. Discípulos do Senhor. São Paulo: Paulinas, 1969.
95
Cf. ALDANA, p. 13.
96
Cf. FUMAGALLI, A. Fatica e gioia della sequella. La formazione dei discepoli nel vangelo di Marco.
Milano: Ancora, 2002.
97
WILLIAMS, J. Discipleship and Minor Characters in Mark’s Gospel in: Bibliotheca Sacra. 153 (1996), p.
332-343. Também lembramos o estudo atual de Aldana (cf. ALDANA, H. O. M. O discipulado no Evangelho de
Marcos. São Paulo: Paulinas/Paulus, 2005).
98
Aldana apresenta aqui a perspectiva de estudo de Clifton Black que está baseada em A. Loisy.
99
Segundo Aldana, Best estudou a temática do discipulado numa série de trabalhos dos anos de 1970. A síntese
de sua pesquisa pode ser encontrada na obra Following Jesus: Discipleship in the Gospel of Mark de 1981 (cf.
ALDANA, p. 13).
36

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Theodore Weeden, que afirma que a teologia de Marcos pode ser tida ao longo do evangelho
como uma difamação dos discípulos100.

Em se tratando de discípulas-seguidoras, tira-se proveito também do estudo de


Elizabeth Schussler Fiorenza101, de Ana Maria Tepedino102 sobre o discipulado no Evangelho
de João e outras obras na mesma linha.

Contudo, há pesquisas sobre o final do Segundo Evangelho ou ainda a respeito da


narrativa pré-marcana da Paixão que serviu de fonte para Mc 15-16. Esta problemática pode
ser observada nas obras de R. Pesch103 e V. Taylor104. O. Genest 105, porém, propõe um estudo
mais específico de Mc 14,53- 15,47, na perspectiva da analise estrutural. C. Focant106, por sua
vez, elabora uma análise narrativa do Evangelho de Marcos, mas não se detém apenas ao final
da narrativa.

1.8 Conclusão
O Segundo Evangelho, que tem seu nascimento na proto-comunidade cristã, evidencia
o desejo de anunciar Jesus Cristo, o Filho de Deus. A narrativa marcana, a mais clara
catequese narrativa, ao transformar-se em escrito, parece ter como objetivo principal
responder à instigante questão: “Quem é Jesus?”. Estruturado de forma simples e portador de
uma linguagem acessível a todos, o Evangelho de Marcos elabora uma teologia inovadora, na
qual são narradas as palavras e os fatos de Jesus. Marcos, inaugurando a cristologia narrativa,
observa o convite feito por Jesus ao seguimento e ao serviço do Reino de Deus: “Segui-me, e
eu farei de vós pescadores de homens” (Mc 1,17). Sistematizando os primeiros ecos sobre
Jesus na comunidade cristã, Marcos, tem como finalidade principal reproduzir o querigma da
morte-ressurreição: Jesus “Ressuscitou, não está aqui” (Mc 16,6; cf. 1Cor 15,3-5). O Segundo
Evangelho tem a missão de indicar aos discípulos o encontro com o Ressuscitado; a proposta
marcana se instaura na perspectiva de que o discípulo vá à Galiléia, pois, é lá, na comunidade

100
Esta é uma consideração defendida na obra Mark: Traditions in conflict de 1971 (cf. ALDANA, p. 13).
101
Cf. FIORENZA, E. S. Discipulado de iguais. uma ekklesia-logia feminista crítica da libertação. Petrópolis:
Vozes, 1995.
102
Cf. TEPEDINO, A. M. A. L. Discipulado de iguais: Um estudo sistemático-pastoral sobre o discipulado das
mulheres nos evangelhos. Rio de Janeiro: PUC-Rio (Dissertação de Mestrado). 1986.
103
Cf. PESCH, R. Il vangelo di Marco: Introduzione e commento ai capp. 1,1-8,26. Brescia: Paideia, 1980.
________. Il vangelo di Marco: commento ai capp. 8, 27-16, 20. Brescia: Paideia, 1982
104
Cf. TAYLOR, V. Evangelio según san Marcos. Madrid: Cristandad, 1979.
105
Cf. GENEST, O. Le Christ de la passion: perspective structurale: analyse de Marc 14,53 - 15,47, des
paralleles bibliques et extra-bibliques. Montreal : Bellarmin, 1978.
106
L’Évangile selon Marc. Paris: Cerf, 2004.
37

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
apostólica, que se encontra o Vivente. Para o encontro com Jesus, o Ressuscitado, são
indispensáveis o caminho do discipulado (8,34) e a experiência da diaconia (9,35).

A narrativa marcana, como um convite a descobrir quem é Jesus e com ele caminhar,
desperta nos cristãos de todos os tempos e lugares o desejo de configurar a vida com a do
mestre que vai a Jerusalém encontrar-se com a cruz, símbolo não da morte, mas da
ressurreição. É mister observar que a narrativa marcana se faz convite àqueles que estão à
beira do caminho ou que já estão no caminho do mestre Jesus.

A narrativa final de Marcos (15,40-16,8) que será estudada exegeticamente nos


possibilita evidenciar que o convite a encontrar-se com Jesus leva o discípulo,
consequentemente, ao encontro da cruz, do sepulcro e do Ressuscitado. Esta narrativa pode
nos ajudar a compreender que o serviço e o discipulado têm sua gênese e sentido no encontro
com aquele que está vivo na Galiléia de todos os tempos, na comunidade dos seguidores. Mas
como entender esta narrativa sob o prisma do serviço, do discipulado e do testemunho? Como
compreender a akolouthia e a diakonia das mulheres na Igreja de Marcos e no cruel cenário
da cruz? De que forma o testemunho das mulheres pode ser creditado diante das estruturas
androcêntricas da Igreja nos tempos? É o que os próximos capítulos tentarão responder.
Certamente a leitura atenda de Marcos e a interpretação do discipulado e do serviço à luz do
Ressuscitado sejam os melhores caminhos a percorrer.

38

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
2 ESTUDO LITERÁRIO-CRÍTICO DE Mc 15,40-16,8
“Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro:
Ele vos precede à Galiléia”. (Mc 16,7)
Após apresentar o estado da questão e a perspectiva de estudos do Evangelho de
Marcos, nosso segundo passo consistirá em averiguar os detalhes exegéticos da perícope de
Mc 15,40-16,8. Apresentaremos a tradução instrumental e a crítica textual ou documental,
bem como os demais passos do estudo diacrônico, para ulteriormente estudar os eixos
semânticos akolouthein e diakonein na análise narrativa do texto exemplar de Mc 15,40-16,8.

2.1 Problemática

É possível considerar a narrativa marcana da Paixão-morte e ressurreição de Jesus a


primeira construção teológica do gênero literário Evangelho1, que apresenta de forma
narrativa o anúncio de Jesus. A tradição pré-marcana2 da Paixão aponta indícios
imprescindíveis para a comunidade dos discípulos e demais seguidores de Jesus na história
dos tempos. A narrativa da Paixão é arquitetada a partir e por meio da experiência da sequella
Jesu, do seguimento de Jesus. O convite de Jesus ao discipulado está presente na narrativa de
Marcos do início ao fim da obra. Tal convite conduz o discípulo a inserir-se na dinâmica do
seguimento do mestre. É no caminho, na experiência da sequella, que o discípulo pode
compreender quem é Jesus. O discípulo não está só, ele vive na comunidade dos que seguem
os passos de Jesus. Deste modo, o evangelista Marcos ao ser inserido na proto-igreja é capaz
de condensar os ideais de Jesus e dos discípulos e narrá-los como experiência de seguimento e
de serviço, na construção e consolidação do Reinado de Deus anunciado por Jesus de Nazaré.

Todavia, o seguimento de Jesus, retratado na obra marcana, tem seu desfecho na


trágica realidade da cruz. Para o discípulo, a cruz simboliza aparentemente a ausência da vida
e da esperança. Em contrapartida, por meio da fé, na cruz está presente a sutil manifestação de

1
Fazemos nossa as palavras de Pesch quando diz: “O autor do evangelho de Marcos criou com sua obra um
novo gênero literário”. (PESCH, R. Il vangelo di Marco. Prima parte, introduzione e commento ai capp. 1,1-
8,26. Brescia: Paideia, 1980. p. 33). Com o título de seu livro (Mc 1,1) Marcos deu início ao processo
denominado “evangelho”, livro no qual o autor proto-cristão resumiu a tradição de Jesus com a ajuda da
comunidade. Pode-se entender “evangelho” não no sentido de denominar um livro, mas um gênero literário.
2
Pesch buscou esclarecer o sentido da tradição pré-marcana no Evangelho de Marcos. Segundo ele, a obra
marcana é preciosa porque conserva a tradição da origem antiqüíssima em muitos aspectos, respeitando a
atividade e as palavras de Jesus. Segundo Pesch, se se observar a tradição pré-marcana integrada à composição
do Evangelho de Marcos, constata-se uma rica multiplicidade, tanto de gêneros literários, como também os
materiais que variam segundo a diversidade de ambientes religiosos, bem como os estágios da elaboração das
narrativas. Cf. PESCH, p. 123.
39

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Deus, que em sua intervenção liberta Jesus das algemas da morte. A cruz torna-se, agora, sinal
do poder divino (cf. 1Cor 1,18). Para Marcos, no lugar da solidão por excelência, o Calvário,
estão algumas mulheres que fitam de longe. As discípulas se deparam com a triste realidade
da morte de cruz, da mais eloqüente ameaça ao anúncio de vida proclamado por Jesus. No
entanto, faz-se necessário perceber que o querigma da ressurreição (Mc 16,7), dirigido a elas
no final da trama, simboliza a mais forte prova do poder de Deus, que não abandona seu
Filho, Jesus. O jovem junto ao túmulo, ao quebrar o silêncio sepulcral, ordena que aquelas
mulheres se dirijam a Pedro e aos discípulos e os instruam a prossegui no caminho, pois Jesus
os precede à Galiléia. É imprescindível que elas anunciem que Jesus ressuscitou e está à
frente da comunidade cristã.

Com esta narrativa surgem algumas perguntas. Em primeiro lugar, por que, no
Evangelho de Marcos, algumas mulheres estão ao pé da cruz, no (sepultamento)
embalsamamento de Jesus e à porta do sepulcro vazio? Em segundo lugar, são elas
testemunhas-protagonistas e da Boa Notícia ou meras personagens que favorecem a
veracidade da trama? Em terceiro lugar, qual o sentido dado por Marcos ao testemunho destas
mulheres? Em quarto lugar, será o testemunho das mulheres válido diante da comunidade dos
discípulos? Em último lugar, qual o sentido de serviço e discipulado inaugurado por aquelas
mulheres?

Pode-se afirmar que a narrativa da perícope de Mc 15,40-16,8 abre leques de


possibilidades, perguntas e constatações e, também, a prévia consideração de que aquelas
mulheres, ao pé da cruz, são testemunhas qualificadas para o anúncio da ressurreição de Jesus
na comunidade dos discípulos.

Assim, com o auxílio da exegese, levantaremos os possíveis indícios literários para


responder às indagações acima e para o estudo dos eixos semânticos akolouthein e diakonein
na análise narrativa de Mc 15,40-16,8.

2.2 Texto Original, Tradução e Paralelos Mc 15,40-16,8


+Hsan de. kai. gunai/kej avpo. Havia também mulheres de longe
15 makro,qen qewrou/sai( evn ai-j kai. observando, entre as quais Maria a
Mari,a [h]` Magdalhnh. kai. Mari,a h` Madalena, Maria, mãe de Tiago o
40 VIakw,bou tou/ mikrou/ kai. VIwsh/toj Menor e de Joses e Salomé,
mh,thr kai. Salw,mh(
ai] o[te h=n evn th/| Galilai,a| as quais, quando ele estava na Lc 8, 2-3
41 hvkolou,qoun auvtw/| kai. dihko,noun Galiléia,o seguiam e o serviam, e
auvtw/|( kai. a;llai pollai. ai` outras muitas que com ele tinham
sunanaba/sai auvtw/| eivj ~Ieroso,lumaÅ subido a Jerusalém.

40

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Kai. h;dh ovyi,aj genome,nhj( evpei. h=n E já ao cair da tarde, como era dia
42 paraskeuh. o[ evstin prosa,bbaton( de preparação, isto é, véspera do
sq. Jo19,38-
sábado, 42

evlqw.n VIwsh.f Îo`Ð avpo. ~Arimaqai,aj tendo vindo José de Arimatéia,


43 euvsch,mwn bouleuth,j( o]j kai. auvto.j conselheiro respeitável, que também
h=n prosdeco,menoj th.n basilei,an estava aguardando o Reino de Deus,
tou/ qeou/( tolmh,saj eivsh/lqen pro.j cheio de coragem entrou junto a
to.n Pila/ton kai. hv|th,sato to. sw/ma Sq.
Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Dt 21,22s;
tou/ VIhsou/Å
Ex 34,25

o` de. Pila/toj evqau,masen eiv h;dh Pilatos admirou-se de que já estava


44 te,qnhken kai. proskalesa,menoj to.n morto e, convocando o centurião
kenturi,w na evphrw,thsen auvto.n eiv perguntou a ele se tinha morrido há
pa,lai avpe,qanen\ muito tempo.

kai. gnou.j avpo. tou/ kenturi,w noj e, conhecendo do centurião,


45 evdwrh,sato to. ptw/ma tw/| VIwsh,fÅ concedeu o cadáver a José.

kai. avgora,saj sindo,na kaqelw.n e tendo comprado um lençol, tendo


46 auvto.n evnei,lhsen th/| sindo,ni kai. descido ele, envolveu-o no lençol e
e;qhken auvto.n evn mnhmei,w| o] h=n o colocou num sepulcro, que estava (6,29);
lelatomhme,non evk pe,traj kai. escavado na rocha, e rolou uma At 13,24
proseku,lisen li,qon evpi. th.n qu,ran pedra diante da entrada do sepulcro.
tou/ mnhmei,ouÅ

h` de. Mari,a h` Magdalhnh. kai. E Maria a Madalena e Maria, de


Mari,a h` VIwsh/toj evqew,roun pou/ cf.15,40
47 Joses, observavam onde ele era
te,qeitaiÅ 16,1
colocado.
16 Kai. diagenome,nou tou/ sabba,tou E, transcorrido o sábado, Maria a
1 Mari,a h` Magdalhnh. kai. Mari,a h` Madalena e Maria, a <mãe> de
Îtou/Ð VIakw,bou kai. Salw,mh Tiago, e Salomé compraram aromas
hvgo,rasan avrw,mata i[na evlqou/sai 14,8
a fim de ir embalsamá-lo.
avlei,ywsin auvto,n. Jo 19,40

kai. li,na prwi> th/| mia/| tw/n E, muito cedo, no primeiro dia da
2 sabba,twn e;rcontai evpi. to. mnhmei/on semana, vão ao sepulcro, ao surgir o
avnatei,lantoj tou/ h`li,ouÅ sol,

kai. e;legon pro.j e`auta,j ( Ti,j e diziam umas às outras: Quem


3 avpokuli,sei h`mi/n to.n li,qon evk th/j removerá para nós a pedra da
qu,raj tou/ mnhmei,ouÈ Jo11,38-39
entrada do sepulcro?

kai. avnable,yasai qewrou/sin o[ti E, ao levantar a vista, observaram


4 avpokeku,listai o` li,qoj\ h=n ga.r que a pedra tinha sido removida,
me,gaj sfo,draÅ Jo 20,1b
pois era muito grande.

kai. eivselqou/sai eivj to. mnhmei/on E, entrando no sepulcro, viram um


5 ei=don neani,skon kaqh,menon evn toi/j jovem sentado do lado direito,
dexioi/j peribeblhme,non stolh.n revestido de uma túnica branca, e
leukh,n( kai. evxeqambh,qhsan At 1,10b
ficaram cheias de espanto.

41

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
o` de. le,gei auvtai/j( Mh. evkqambei/sqe\ Ele porém disse-lhes: não vos
6 VIhsou/n zhtei/te to.n Nazarhno.n to.n espanteis. Buscais Jesus, o
evstaurwme,non\ hvge,rqh( ouvk e;stin w- Nazareno, o crucificado?
de\ i;de o` to,poj o[pou e;qhkan auvto,nÅ Ressuscitou, não está aqui. Vede o
lugar onde o colocaram.

avlla. u`pa,gete ei;pate toi/j maqhtai/j Mas ide dizer aos discípulos dele e a
auvtou/ kai. tw/| Pe,trw| o[ti proa,gei 14,28
7 Pedro <que>: Ele vos precede à
u`ma/j eivj th.n Galilai,an\ evkei/ auvto.n Mt 26,32;
Galiléia. Lá o vereis, como ele vos
o;yesqe( kaqw.j ei=pen u`mi/na 28,7
disse.

kai. evxelqou/sai e;fugon avpo. tou/ E, saindo, fugiram do sepulcro, pois


mnhmei,ou( ei=cen ga.r auvta.j tro,moj Dn 10,7
8 estavam tomadas de temor e de
kai. e;kstasij\ kai. ouvdeni. ouvde.n assombro. E nada disseram a
ei=pan\ evfobou/nto ga,rÅ ninguém, pois temiam.

2.3 Delimitação

A perícope de Mc 15,40-16,8 está bem delimitada. Embora, nas edições bíblicas


consultadas, muitas vezes, os versículos 40-41 estejam acoplados aos versículos precedentes.
Isto é o caso na TEB3 e CNBB4 que subdividem o final de Mc 15 em três “unidades” literárias
ou perícopes: 15,33-41 (a morte de Jesus)5; 15,42-47 (o sepultamento ou sepultura); 16,1-8
(as mulheres no sepulcro ou sepulcro vazio) A ACR6 sugere as seguintes divisões: 15,16-20
(os soldados escarnecem de Jesus); 15,21-41 (Jesus crucificado); 15,42-47 (o corpo de Jesus
posto em um sepulcro); 16,1-8 (ressurreição de Jesus Cristo). Para Tuya 7, a perícope de Mc
15,40-16,8 é composta por três pequenas perícopes: 15,38-41 (morte de Cristo); 15,42-47 (a
sepultura de Cristo); 16,1-8 (as mulheres visitam o sepulcro). Gnilka considera os vv. 40-41
parte final da seção sobre o caminho da cruz, crucificação e morte de Jesus (15,20b-41)8.
Convém observar que há muitas outras divisões sugeridas para a perícope estudada. A
principal diferença, com nossa delimitação, é que muitos colocam um novo início em 15,42 e
não em 15,40, considerando o tema das mulheres que observam de longe conclusão da
crucificação de Jesus. A BJ sugere como divisão três perícopes: 15,40-41(as santas mulheres
no calvário); 15,42-47 (o sepultamento); 16,1-8 (o túmulo vazio e mensagem do anjo)9.

3
Cf. BÍBLIA Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola, 1994.
4
Cf. BÍBLIA Sagrada: Tradução da CNBB. 6. ed. Com Introduções e notas. Brasília: CNBB; São Paulo: Canção
Nova, 2007.
5
Estas são apenas intitulações sugeridas pelas edições bíblicas que não estão presentes no texto original.
6
Cf. A BÍBLIA Sagrada: O Velho e Novo Testamento. Trad. João Ferreira de Almeida. Ed. Corrigida e
Revisada Fiel ao Texto original. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 2005.
7
Cf. TUYA, M. Biblia comentada: Evangelios II. BAC: Madrid, 1964. p. 630.
8
Cf. GNILKA, p. 362.
9
Cf. BÍBLIA de Jerusalém. Nova Edição Revista. São Paulo: Paulus, 2000.
42

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Konings10 e Pesch11 dividem a perícope de Mc 15,40-16,8 em três perícopes: 15,40-41
(testemunhas da morte); 15,42-47 (sepultura) e 16,1-8 (sepulcro vazio e anúncio da
ressurreição). Preferimos, portanto, adotar esta última forma de divisão, considerando os vv.
40-41 como introdução ao tema do testemunho, que culminará em 16,1.

O verbo +hsan de (v.40), marca uma nova etapa narrativa12. Portanto, apoiando-se
nesta consideração há como corroborar a tese inicial de que a perícope em pauta tem uma
delimitação bem definida, com início, meio e fim. Tais limites serão observados a partir da
divisão da perícope em três cenas sucessivas de acontecimentos.

Observam-se na narrativa da perícope mudanças de cenário, na constelação de


personagens, tempo e localização. A narrativa, no entanto, afirma que os últimos fatos da vida
de Jesus ocorreram em Jerusalém, em lugares diferentes da cidade. O assunto é o mesmo: o
testemunho da morte e ressurreição de Jesus. A unidade literária da narração é inerente à
história transmitida por Marcos: morte e ressurreição de Jesus. A mudança de cenário não
acusa a uma falta de unidade e concisão narrativa, mas corresponde a uma forma diferenciada
de narrar, observando os lugares onde ocorreram os fatos. A unidade literária é estabelecida
em torno da figura destaque, Jesus. A unidade da trama está no fato de o autor não mudar o
alvo narrativo. Tal como um fotógrafo, Marcos voltou o foco de sua de sua câmera para Jesus,
priorizando dois ângulos essenciais: a morte e a ressurreição. Do retrato tirado por Marcos, o
zoom focaliza apenas o importante: o clímax narrativo, a unidade literária, ou seja, o fato de
que durante a morte de Jesus algumas mulheres observavam de longe e foram elas mesmas as
responsáveis pelo embalsamamento do cadáver e, por fim, as protagonistas do querigma da
ressurreição, as enviadas a anunciar que Jesus não estava morto, mas que ressuscitou.

O esquema abaixo apresenta as mudanças principais no retrato da perícope:


personagens, tempo e localização.

10
Cf. KONINGS, J. Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. São Paulo: Loyola,
2005. p. 265-268.
11
Cf. PESCH, p. 735-791.
12
Cf. TAYLOR, V. Evangelio según san Marcos. Madrid: Cristianidad, 1979. p. 724.
43

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
V. 40 V. 42 V. 43 V. 46 V. 46b V. 1 V. 2 V. 5 V. 7
Mulheres À tarde José de José Lugar à Passado Lado Lado Ide: Envio
diante da Arimatéia desceu parte o sábado externo interno das
cruz vai a Jesus da mulheres
Pilatos cruz

Fora de Véspera Palácio em Fora de Sepulcro Unção Sepulcro Sepulcro Galiléia


Jerusalém Jerusalém Jerusalém

1ª cena 2ª cena 3ª cena

2.4 Crítica textual-documental

Após a delimitação, é importante observar o teor exato do material escrito13.

Para a crítica textual (CT) da perícope de Mc 15,40-16,8 será adotado primeiramente


The Greek New Testament (GNT) e, para maior refinamento, o Novum Testamentum Graece
(NTG)14.

Em Mc 15,40-16,8 podemos observar algumas variantes textuais significativas para a


interpretação da perícope como um todo.

Mc 15,40 +Hsan de. kai. gunai/kej avpo. makro,qen qewrou/sai( evn ai-j kai. Mari,a h`
Magdalhnh. kai. Mari,a h` VIakw,bou tou/ mikrou/ kai. VIwsh/toj mh,thr kai. Salw,mh,

1) Mari,a h` Magdalhnh. Segundo o aparato de NTG Mari,a é testemunhado pelos ‫א‬


A, D, (L) Y, 1 e 33 (f 1 33), e pelo texto majoritário. Mas B, C, W, Θ 0184, 1 (f ¹), minúsculo
2427 e uma versão siríaca heracleana escrevem Mari,am, sendo mais próximo do hebraico
‫מִ רְיָם‬Miriam.

2) Mari,a h` VIakw,bou: A Û escrevem tou VIakw,bou. Porém D, L, Θ, Y f 13 28. 33. 565.


579. 1424 al. suprimem tanto h como tou. As variantes se explicam pelos paralelos nos outros
evangelhos. A versão antiga siríaca sinaítica (sys) lê “Maria filha de Tiago, o menor”.

13
A crítica textual é a verificação do “teor e da grafia de um texto conforme cabe pressupô-los para o autor
original. Em decorrência, a crítica textual tem a tarefa de reconstituir o texto mais antigo possível do Novo
Testamento com base nos documentos textuais” (SCHNELLE, U. Introdução à exegese do novo testamento. São
Paulo: Loyola, 2004. p. 29).
14
Como bases documentais, podemos fazer uso dos textos críticos do Novo Testamento de ALAND, B. et. al.
The Greek New Testament. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft; United Bible Societies, 1994 e
NESTLE-ALAND. Novum Testamentum graece, post Eberhard et Ervin Nestlé ed. 27. revis. communiter
ediderunt Bárbara et Kurt Aland, Johannes Karavidopoulos, Carlo M. Martini, Bruce M. Metzger. Stuttgart:
Deutsche Bibelgesellschaft, 1993. Esta edição representa um considerável avanço como base de trabalho para a
crítica textual-documental do Novo Testamento. Também utilizamos um texto mais literal: KONINGS, Sinopse,
p. 265-268.
44

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
1.13
3) ’Iwshtoj: a lição do NTG está presente em ‫ א‬D, L (D), Q, 083, 0184, f 33, 565,
2427, 2542s. l.844. A variante é testemunhada, além dos mencionados, ainda por poucos
manuscritos que divergem do texto majoritário, versão copta boáirica. B acrescenta o artigo h.
Outras escrevem Iwsh. Algumas traduções latinas e siríacas escrevem Ioseph.
Mc 15,40 à h:
1) segundo (txt) NTG, em ‫ א‬B C K N WD 0184 f¹ 892.2427.2542. l.844 al.
2) h tou: A Û.
3) filia: sys.
4) omite h: D L Q Y f13 28. 33. 565. 579. 1424 al.
Mc 15,40 ݹ Iwshtoj:
Iwshtoj mhthr: txt ‫ א‬2 D L (D) Q 083. 0184 f (¹)13 33. 565. 2427. 2542s *. l 844 pc k bo.
h Iwshtoj mhthr: somente no B
Iwsh: somente em Y
Iwsh: ‫ * א‬A C W Y Û sa
Joseph lat sys.
Mc 15,47 h` de. Mari,a h` Magdalhnh. kai. Mari,a h` VIwsh/toj evqew,roun pou/ e,qe
itaiÅ
1 33
1) Mari,a h` Magdalhnh. kai. Mari,a: Θ, f , 2542, syh escrevem Mariam (duas
vezes).
1 13
2) h`: o artigo falta em D, L, f Û. O texto do NTG é testemunhado por ‫א‬2 A, B, C,
W, D, Q, Ψ, 083, 33, 579, 2427 al.
3) VIwsh/toj substituído por Iakwbou em D pc it vgms sys . Escrevem Iakwbou kai
Iwshtoς: Q e f 13 565 2542 pc k asmss bo

Comparando os vv. 40 e 47, observa-se que o primeiro (40) apresenta três (ou quatro)
nomes: Mari,a h` Magdalhnh. kai. Mari,a h` VIakw,bou tou/ mikrou/ kai. VIwsh/toj mh,thr kai.
Salw,mh. Já o v. 47 traz algumas mudanças visíveis: Mari,a h` Magdalhnh. kai. Mari,a h`
VIwsh/toj. Neste versículo percebem-se algumas omissões: do nome VIakw,bou, que está ligado
ao segundo nome, Mari,a e da palavra mh,thr, bem como, do nome Salw,mh, a terceira mulher
do grupo referido no v. 40. De modo que, no v. 47 são mencionadas apenas duas. Percebe-se
que o v. 40 é rico em detalhes. Já o v. 47 é rápido e parece apenas querer lembrar o que já fora
dito no v. 40. O GNT menciona, na altura do v. 47, o v. 40 como paralelo, com o sinal
indicativo (!).

45

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Mc 16,1 Kai. diagenome,nou tou/ sabba,tou Mari,a h` Magdalhnh. kai. Mari,a h` Îtou/Ð
VIakw,bou kai. Salw,mh hvgo,rasan avrw,mata i[na evlqou/sai avlei,ywsin auvto,n.

1) diagenome,nou tou/ sabba,tou...kai. Salw,mh: os nome das duas mulheres (Maria


Madalena e Maria de Tiago) são omitidos por D, ítala d, (k) e n. Em compensação, estes
manuscritos, bem como Θ e algumas versões, introduzem aqui o termo poreuqeisai. O GNT
qualifica a lição adotada como {A}15.

De um modo geral, as variantes de 15,40; 15,47 e 16,1 fazem referência às mulheres


que se encontram na cena narrada por Marcos. As variantes estudadas estão relacionadas aos
nomes dos personagens. É mister perceber que estas variantes fazem pensar em outras
possibilidades de leitura e revelam a significância deste relato.

2.5 Lugar da perícope em Marcos

A perícope está situada no cenário final do Evangelho de Marcos, os capítulos 14-16


considerados ápice narrativo-teológico do Evangelho e, conforme Pesch e outros,
reproduzindo a narrativa pré-marcana da paixão16.

Taylor afirma que o final do Evangelho está narrativamente bem articulado. Esta
articulação deve-se ao fato de a paixão e a ressurreição serem a parte mais primitiva da
tradição evangélica, profundamente presente a Marcos e sua comunidade. Portanto, tal relato
deve ser bem narrado para os cristãos de outras comunidades e do futuro, aonde chegar o
Evangelho segundo Marcos17.

A divisão do Evangelho em duas seções possibilita visualizar o quadro narrativo


marcano, o retrato tirado por Marcos e a teologia vigente na narrativa. Seguimos em grandes
linhas o esquema bipartido adotado por muitos comentaristas18.

15
Para o GNT, a partir da investigação dos editores, esta variante está precedida pela sigla {A}, significando que
sua originalidade é virtualmente certa.
16
Cf. PESCH, p. 90.
17
Taylor afirma que Marcos precisou narrar toda a série de acontecimentos com Jesus, acrescentando extratos
novos e próprios, para resolver o paradoxo da cruz. Esta opinião é também compartilhada por outros estudiosos
de Marcos, Dibelius, Bultmann e Schimidt. Para Taylor, eles não abrem mão da possibilidade de Marcos ter
modificado e introduzido à narrativa (14,1-16,8) material complementário. Taylor não se preocupa apenas com a
tese de que Marcos reproduziu a narrativa mais primitiva, mas com a tese que diz que Marcos criou uma nova
forma de falar sobre Jesus e os acontecimentos ocorridos com ele. Cf. TAYLOR, p. 633.
18
Buscamos observar o Evangelho de Marcos a partir da divisão em duas seções. Este esquema é inspirado na
divisão proposta por Gnilka. Cf. GNILKA, J. El evangelio según san Marcos. Mc 1,8,26. Vol. 1. Salamanca:
Sígueme, 1986. Também, cf. KONINGS, J. Marcos. São Paulo: Loyola, 1994. p. 5 e Bíblia tradução da CNBB,
introdução ao Evangelho de Marcos. A divisão, com adaptação das seções do Evangelho, é proposta por J.
46

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Prelúdio I Seção II Seção
“Quem é este?”. Que Reino é este “O messias diferente”: Filho do
que ele anuncia? 1,1-8,26 Homem, Servo e Filho de Deus 8,27-
16,20

João Batista, o arauto e O início em torno de Cafarnaum O caminho de Jerusalém e convite


precursor 1,1-13 1,14- 3,6 para o discipulado 8,27-10,52

Palavras e atos do Reino 3,6-6,6b Atividade em Jerusalém 11,1-13,27

Anúncio ampliado/seção dos pães Paixão, Morte e Ressurreição


6,6b-8,26 14,1-16,8

A perícope se situa na terceira parte (14,1-16,20) da segunda seção do Evangelho.

Os vv. 40-41 ligam o conjunto Mc 15,40-16,8 aos versículos precedentes (38-39),


tendo em comum o testemunho de Deus e dos homens sobre Jesus. Taylor, entre outros,
considera os vv. 40-41 como parte do relato da crucificação Mc 15,21-4119. Pesch, ao
contrário, considera os vv. 40-41 um pequeno relato anexo às duas narrativas seguintes vv.
42-47 e 16,1-820.

A terceira parte da segunda seção de Marcos (14,1-16,20) é composta por três


cenários narrativos: 1) a unção em Betânia e a traição de Judas, seguida da prisão de Jesus
14,1-52; 2) a condenação de Jesus por parte do Sinédrio e negação de Pedro 14,53-72; 3) a
condenação à morte por Pilatos, a crucifixão e o sepultamento de Jesus e, ainda, o anúncio da
ressurreição diante do sepulcro vazio 15,1-16,8, bem como 16,9-20, as aparições de Jesus
ressuscitado não podem ser considerados como parte da composição marcana 21.

2.5.1 Contexto anterior

Mc 15,21-39: Corresponde à crucificação e morte de Jesus. A perícope de Mc 15,40-


16,8 tem seus dois primeiros versículos 40-41 associados à perícope anterior. Após rasgar-se
o véu do Santuário (v. 38) e o centurião confessar que Jesus era “verdadeiramente (o) filho de

Konings. Cf. ALDANA, H. O. M. O discipulado no Evangelho de Marcos. São Paulo: Paulinas/Paulus, 2005.p.
101-104. Evidentemente, outros estudiosos estruturam o Evangelho de Marcos com divisões diferentes.
19
Cf. TAYLOR, p. 710.
20
Cf. PESCH, p. 736.
21
Não há dúvidas de que Mc 16,9-20 é um apêndice não escrito por Marcos. Para Pesch, este relato não depende
do Evangelho canônico e não faz parte da obra originária, mas é declarada no Concílio de Trento parte do cânon
neotestamentario (conforme a Vulgata; Decretum de canonicis Scripturis, de 8 de abril de 1546. Cf. DH 1501).
Não se trata, portanto, de um relato conclusivo para o Evangelho de Marcos, mas de um estrato de narrativa
pascal (cf. PESCH, p. 795-786).

47

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Deus” (v.39) vê-se o testemunho das mulheres, daquelas que seguiram e serviram Jesus,
enquanto esteve na Galiléia. Para Vanhoye, a palavra do centurião é o atestado da filiação
divina de Jesus, correspondendo ao ponto mais importante do testemunho de Marcos22. O
evangelista continua a narrativa afirmando que estavam no cenário algumas mulheres, que
observavam de longe (v. 40). Prefere-se considerar que este elemento já prepara o testemunho
da ressurreição. Pois, as que testemunham a morte são também responsáveis por atestar a
ressurreição.

Pode-se afirmar que Mc 15,40-16,8 forma uma unidade literária, possuindo uma
mensagem própria. Tal perícope está, no entanto, em sintonia com a narrativa sobre a morte
de Jesus que a antecede, em 15,1-39.

2.5.2 Contexto posterior

Não há propriamente contexto posterior. Mc 16,9-20 é um apêndice posterior


deuterocanônico, ao corpo da obra marcana. Refere-se às aparições do Ressuscitado. Pesch,
como a maioria dos exegetas atuais, afirma que o fim do Evangelho de Marcos, posterior a
16,8, deve ser considerado secundário (apêndice). A forma originária da tradição textual é
finalizada em 16,823.

2.6 Divisão estrutural de Mc 15,40-16,8

A tradução literal (cf. item 2.2) será re-aproveitada neste tópico a fim de se
compreender a textura da perícope final do Evangelho de Marcos. A divisão desta perícope
permitirá visualizar as palavras-chaves de compreensão e as cenas sucessivas
respectivamente.

Para uma melhor compreensão do conjunto da perícope, faz-se mister dividi-la em três
cenas, diferentes, mas conexas à mensagem central. A 1ª cena menciona a presença das
mulheres diante do cenário da cruz (15,40-41). A 2ª cena está ligada ao personagem José de
Arimatéia que leva o corpo de Jesus para ser sepultado (15,42-47). A 3ª e última cena faz

22
Cf. VANHOYE, A. La passion selon les quatres evangiles. Paris: Cerf, 1981. p. 59.
23
Cf. PESCH, p. 94. Para um estudo crítico, aprofundado sobre o final (ou os finais) do Evangelho de Marcos,
cf. METZGER, A textual commentary on the Greek New Testament. 2. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft,
1994. p. 102-106. Os doze últimos versículos não estão presentes nos dois mais antigos códices, B e ‫ א‬e no
Antigo Latino manuscrito k, o Sinaítico Siríaco. Mc 16,9-20 falta também em muitos manuscritos da versão
Antiga Armênia, os manuscritos Adysh e Opiza, nos manuscritos da versão Antiga Geórgia, e nos manuscritos
da versão Etiópica. Cf. METZGER, B. M. The text of the New Testament. Its transmission, corruption, and
restoration. 2. ed. Oxford: Clarendon, 1979. p. 226. Segundo Gnilka, 16, 1-8 + a chamada conclusão breve 9-20
pode ser encontrada em 0112, 099, L, Y, 579, 274mg I, 1602 (cf. GNILKA, El evangelio p. 411).
48

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
menção à presença das mulheres no sepulcro vazio e a mensagem do jovem no sepulcro, que
ordena às mulheres narrarem aos discípulos que Jesus está vivo e que os precede à Galiléia
(16,1-8).

As três cenas da perícope podem ser entendidas a partir dos paralelismos averiguados.

A) antitético: em 15,41, observa-se um possível paralelo antitético, referindo-se às


cidades Galiléia/Jerusalém.

B) culminativos: é possível constatar, nas três cenas, a expressão (verbal) observaram.


Num primeiro momento, elas observam de longe o que acontece com Jesus (qewrou/sin v. 40).
Num segundo momento, junto do sepulcro, observam onde o corpo de Jesus é colocado
(qewrou/sai v. 47). Num terceiro momento elas observam que a pedra do sepulcro havia sido
removida (evqew,roun v. 4). O desenlace, ou ponto culminante da cena, se estabelece com as
palavras do jovem que diz: “lá (na Galiléia) o vereis (o;yesqe), como ele vos disse”24.

Averiguar esta perícope a partir das três cenas significa não isolá-las, mas
compreender a diferença que cada cena comporta, em sua particularidade, e o que representa
para o todo da perícope. Neste sentido, a perícope também não pode ser entendida desconexa
do contexto, nem da obra marcana. O que se visa a observar é o sentido da unidade literária,
as acentuações que o autor estabelece a partir das expressões axiais, que perpassam a narrativa
em sua globalidade. Averiguar a perícope a partir das três cenas significa compreender o
crescendo literário-teológico da dramática experiência da cruz à esperança do anúncio da
ressurreição: “Lá o vereis como ele vos disse”.

No esquema abaixo é possível observar o paralelismo de palavras e expressões, bem


como a subdivisão utilizada pelo autor do Evangelho. Vê-se que Marcos contrapõe algumas
expressões significativas como: Galiléia/Jerusalém; conselheiro/centurião; corpo/cadáver;
sábado/primeiro dia da semana. Também repete algumas palavras importantes para a futura
hermenêutica do texto: sábado; lençol, observar, ver, dizer, sepulcro, remover, pedra.

A subdivisão da perícope em três cenas pode ser também justificada por meio do uso
da partícula aditiva kai, presente em 15,42 e 16,125.

24
Cf. GNILKA, p. 400.
25
A conjunção kai costumeiramente indica uma relação de unidade entre as partes. Cf. WEGNER, U. Exegese
do novo testamento: manual de metodologia. 3. ed. São Leopoldo: Sinodal, São Paulo: Paulus, 1998. p. 89.
49

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Portanto, é possível perceber o esquema tripartido do texto de Mc 15,40-16,8. As
palavras grifadas são as que aparecem repetidas no texto. Há certamente uma intenção na
repetição de palavras26. É possível perceber que os vv. 42-46, inseridos no quadro, formam o
recheio de um “sanduíche” narrativo, ou seja, um relato enxertado dentro de outro relato. As
palavras destacadas em itálico identificam as realidades opostas, como por exemplo, Galiléia
e Jerusalém. Alguns verbos são destacados (em negrito) a fim de mostrar as “amarrações” da
perícope. Em negrito, destacam-se também palavras-chaves que ajudam na compreensão do
texto.
1ª cena
15,40 Havia também mulheres de longe observando, entre as quais Maria a Madalena
e Maria, mãe de Tiago o Menor e de Joses e Salomé,
41 as quais, quando ele estava na Galiléia o seguiam e o serviam e outras muitas que
com ele tinham subido a Jerusalém.
2ª cena
42 E já ao cair da tarde, como era dia da preparação, isto é, véspera do sábado,
43 tendo vindo José de Arimatéia, conselheiro respeitável, que também estava
aguardando o Reino de Deus, cheio de coragem entrou junto a Pilatos e pediu o corpo de
Jesus.
44 Pilatos admirou-se de que já estava morto e, convocando o centurião perguntou a
ele se tinha morrido há muito tempo.
45 e, conhecendo do centurião, concedeu o cadáver a José.
46 e tendo comprando um lençol, tendo descido ele, envolveu-o no lençol e o colocou
num sepulcro, que estava escavado na rocha, e rolou uma pedra diante da entrada do sepulcro.
47 E Maria a Madalena e Maria, de Joses, observavam onde ele era colocado.
3ª cena
16,1 E, transcorrido o sábado, Maria a Madalena e Maria, a <mãe> de Tiago, e Salomé
compraram aromas a fim de embalsamá-lo.
2 E muito cedo no primeiro dia da semana, vão ao sepulcro, ao surgir o sol,
3 e diziam umas as outras: Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro?”

26
Este recurso literário é utilizado para evidenciar uma realidade, um fato, um lugar ou mesmo um personagem.
A repetição é um recurso da literatura que está próxima da oralidade. “Outra prova dos limites de Marcos como
escritor é que, quando descreve uma cena nova, repete, às vezes, muitas palavras, e expressões que utilizou em
relatos anteriores”. Este recurso pode ser observado no segundo relato da multiplicação dos pães que segue o
primeiro relato de multiplicação (cf. Mc 3, 20-35; 5,21-42 e outros), Cf. TAYLOR, p. 75, cf. também BENÍCIO,
P. J. A língua do Evangelho segundo Marcos no códice grego da Biblioteca nacional do Rio de Janeiro. Fides
reformata X 1 (2005), p. 109.
50

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
4 e, ao levantar a vista, observaram que a pedra tinha sido removida, pois era muito
grande.
5 E, entrando no sepulcro, viram um jovem sentado ao lado direito, revestido de
numa túnica branca, e ficaram cheias de espanto.
6 Ele porém disse: não vos espanteis. Buscais Jesus o Nazareno, o crucificado?
Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o colocaram.
7 Mas ide dizer aos discípulos dele e a Pedro <que>: “Ele vos precede à Galiléia. Lá o
vereis, como ele vos disse”.
8 E, saindo, fugiram do sepulcro, pois estavam tomadas de temor e de assombro, e
nada disseram a ninguém, pois temiam.

2.7 Tradição e redação em Mc 15,40-16,8

A última seção do Evangelho de Marcos (14,1-16,8), correspondendo ao relato pré-


marcano da paixão e ressurreição de Jesus, deve ser considerada a primeira parte da tradição
evangélica que se contou como relato seguido, pois era preciso narrar todos os
acontecimentos para resolver o paradoxo da crucificação de Jesus27. É possível conceber o
“relato pré-marcano da paixão como uma unidade narrativa não autônoma”28 relacionada ao
contexto narrativo que o precede29.

Segundo Taylor, os estudos recentes sugerem com freqüência que 14,1-16,8 se baseia
em uma narração breve e sintética, ou seja, um possível querigma que se transformou em
tradição. Convém examinar os argumentos nos quais se baseia esta hipótese30. Para isso,
Taylor retoma a análise elaborada por Bultmann que afirmou que o relato final do Evangelho
de Marcos é primitivo e muito conciso, pois condensa alguns temas, como: a detenção de
Jesus, sua condenação por parte do Sinédrio e de Pilatos, o caminho do Calvário, a
crucificação e a morte. Marcos desenvolveu neste relato um grupo de narrações relacionadas a
Pedro, a saber, a condução de Jesus ante o sumo sacerdote, a negação de Pedro e, como

27
Cf. TAYLOR, p. 633.
28
PESCH, p. 126.
29
As tradições que precedem a narrativa pré-marcana da paixão podem ser observadas na totalidade do
Evangelho de Marcos. Algumas tradições são observadas: 1) tradição do Batista e de Jesus (1,2-15); 2) o pré-
marcano dia de Cafarnaum (1,21a;29-39); 3) a narrativa pré-marcana da disputa (2,15-3,6); 4) a narrativa pré-
marcana das semelhanças ou parábolas (4, 2-10;13-20; 26-33); 5) a narrativa pré-marcana dos milagres (3,7-12;
4,1.35-39.41; 5,1-43; 6,32-56); 6) uma narrativa catequético-paradigmática para a instrução da comunidade:
matrimonio, filhos, riqueza, (10,2-12; 17-27; 35-45) e 7) a narrativa pré-marcana da paixão (8,27-33; 9,2-13. 30-
35; 10,1.32-34. 46-52; 11,1-23. 27-33; 12,1-12.13-17. 34c. 35-37. 41-44; 13, 1s.; 14,1-16,8 que constitui
indubitavelmente o verdadeiro e próprio núcleo fundamental da exposição de Marcos. Cf. PESCH, p. 128-129.
30
Cf. TAYLOR, p. 776-777.
51

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
introdução a esta última, o anúncio da negação. Marcos utilizou também um conjunto de
relatos relacionados à última ceia, que incluía a preparação da Páscoa (14, 12-16), o anúncio
da traição de Judas (14,17-21) e a saída de Jesus para o Getsêmani e as profecias lá
pronunciadas (14.27-31)31.

Destarte é possível averiguar que Marcos utilizou-se da narrativa pré-marcana da


paixão para formar o relato final da paixão e ressurreição de Jesus 15,40-16,832, como
conhecemos. Esta perícope retoma da tradição pré-marcana apenas a questão do testemunho,
primeiro no cenário da cruz (15,40), depois no sepultamento (15,47) e, por fim, no sepulcro
vazio (16,1-7).

De acordo com Taylor, a referência às mulheres em 15,40s. 47 e 16,1 reflete o desejo


de relacionar a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus aos testemunhos acreditados.
Estas três listas de nomes das testemunhas da paixão-ressurreição de Jesus indicam as
tradições observadas por Marcos na redação da perícope em estudo.

Segundo Taylor, Marcos, familiarizado com duas tradições diferentes, a de 15,47 e a


de 16,1, harmonizou-as em 15,40. A tradição de 15,47 mencionava apenas “Maria Madalena”
e a “Maria de Joses”, no entanto, a tradição de 16,1 mencionava “Maria Madalena” e a “Maria
de Tiago e Salomé”. Como Marcos sabia que as distintas mulheres haviam estado presentes
na crucificação, não percebeu nenhum problema em combinar as duas listas. O evangelista
sabia ou supôs que “Maria de Joses” e “Maria de Tiago” eram a mesma pessoa e, portanto,
usou a grande descrição encontrada em 15,40: “Maria a mãe de Tiago o Menor e de Joses”,
acrescentando também os nomes Maria Madalena (15,47; 16,1) e Salomé (16,1)33.

2.8. Coerência do texto

A análise literário-redacional da narrativa em questão possibilitou-nos averiguar uma


coerência interna. Esta coerência é evidenciada a partir da estrutura textual, que mesmo sendo
tripartida não deixa de lado o essencial da narração: os fatos decorridos com Jesus. A
narrativa marcana da paixão-ressurreição de Jesus é anúncio e testemunho de fé. De modo
particular, a perícope de Mc 15,40-16,8 é autenticada pelo testemunho da comunidade

31
Cf. TAYLOR, p. 633-634.
32
Fazemos nossa a afirmação de Pesch (cf. PESCH, p. 65): “Marcos, a partir de 14,1ss, segue inteiramente o
relato da paixão”.
33
Este é o parecer de Taylor, no que se refere à lista das mulheres testemunhas do crucificado-ressuscitado. Este
estudo será mais bem elaborado na busca pelo sentido exegético do texto, item 2.9. Cf. TAYLOR, p. 776. Pesch
admite listas igualmente originárias de 25,47 e 16,1. Cf. PESCH, 739
52

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
marcana que situa junto ao cenário narrativo algumas mulheres, discípulas e servidoras de
Jesus. Se a diferença entre as listas de 15,40 e 16,1 parece criar problema, convém observar
em primeiro lugar que segundo a crítica textual o texto adotado em 16,1 deve ser considerado
como original34. Segundo a análise da tradição a diferença se explica pela fusão de tradições.

O desenrolar da narrativa, o modo como o editor final do texto bíblico situou os


acontecimentos e as personagens e a imbricação entre as cenas que se conectam com
harmonia, são fatores fundamentais para a averiguação da coerência textual, como veremos a
seguir.

2.9 Composição e estilo

A narrativa marcana é caracterizada por uma linguagem simples e objetiva35. Sem se


prender aos pormenores, Marcos apresenta os derradeiros fatos ligados à pessoa de Jesus de
Nazaré. As mudanças de cenário, descritas nas três cenas da narrativa, indicam que os
materiais utilizados pelo evangelista são aparentemente coerentes. A mudança de cenário não
indicaria necessariamente uma falta de coerência narrativa, mas um enriquecimento, pois
indica que outros materiais foram utilizados para narrar os fatos.

Os materiais coletados pelo autor do Segundo Evangelho constituem recordações


claras e arquitetadas com coerência. Tais materiais não evidenciam uma obra meticulosa, mas
objetiva e concisa. Evidentemente não se trata de uma tragédia histórica como Macbeth.
Trata-se, contudo, de uma obra teologicamente elaborada, com pretensão querigmático-
catequética. O desejo marcano é, na perícope em questão, anunciar que os fatos narrados estão
diretamente relacionados a uma pessoa: Jesus. Os fatos são, segundo o texto recebido da
tradição, testemunhados por algumas pessoas, discípulos ou discípulas de Jesus, que
transmitiram o que viram e experimentaram.

A sucessão factual, explicitada na narrativa, é testemunhada primeiro por algumas


mulheres diante da cruz. No segundo momento, o sepultamento de Jesus, a iniciativa de um
homem prestigioso da sociedade, é também testificado pelas mulheres que se dirigem ao
sepulcro a fim de voltarem no outro dia. No terceiro momento, que se inicia com um novo

34
Marcado por GNT com a letra {A}: alto grau de probabilidade.
35
Evidentemente a análise redacional de um texto do Evangelho marcano é mais difícil, pois não se possui
acesso direto às fontes eventualmente utilizadas por Marcos. Pode-se, no entanto, falar em intervenção
redacional quando se observa a incidência de termos, expressões, estilo ou idéias teológicas típicas do
evangelista. A coerência e coesão textual podem ser também deduzidas a partir da redação do texto propriamente
dito, bem como a partir do exame do contexto literário. Cf. WEGNER, p. 145.
53

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
dia, Marcos evidencia o desejo das testemunhas de Jesus de embalsamar o corpo de Jesus com
os aromas comprados. Ao chegarem ao sepulcro se deparam com o mensageiro, porta-voz de
Deus, que lhes confia uma missão diaconal: anunciar aos discípulos e a Pedro que a direção
certa para caminhar é a Galiléia e que Jesus os precederá no caminho.

Portanto, a coerência interna se faz evidente a partir da realidade do testemunho. É o


testemunho, o anúncio, que suscita a credibilidade ao texto. O testemunho é alicerce
fundamental para a vida do texto e da narrativa, bem como para a vida da comunidade que lê
e medita o texto sagrado.

A narrativa da paixão tem seu ponto culminante na morte de Jesus, que é precedida
por seu forte grito e da declaração querigmática do centurião da guarda romana: avlhqw/j ou-toj
o` a;nqrwpoj ui`o.j qeou/ h=n, “Verdadeiramente este era Filho de Deus” (15,39)36. Fabris afirma
que Marcos é fiel a seu cânon narrativo: nenhuma concessão à retórica e à anedota curiosa. Na
narrativa desta perícope não se percebe nenhum exagero semântico ou lingüístico. Marcos
parece não desprezar a tradição sobre a paixão de Jesus, contada a partir da simplicidade
narrativa, da sobriedade simbólica. A costura dos retalhos mostra no fim uma colcha
harmônica, com matizes coerentes aos últimos acontecimentos ocorridos com Jesus37.

Marcos é consciente da integração existente entre os três atos que compõem a


perícope. Pesch afirma que esta não pode ser considerada um legado autônomo do contexto da
Paixão de Jesus, nem mesmo ser considerado um “fragmento de tradição isolada”, nem
mesmo uma composição redacional do evangelista Marcos38.

A 1ª cena retrata o testemunho das mulheres diante do crucificado. Marcos é fiel à


tradição ao compor o relato do testemunho das discípulas de Jesus. Observa-se que Mt e Lc
relatam também, tendo Mc como fonte, a presença de algumas mulheres aos pés do
crucificado.

A 2ª cena da perícope é composta pelo último episódio da trajetória histórica de Jesus,


seu sepultamento, relatado por todos os quatro evangelhos. Fabris diz:

“Apesar das divergências nas particularidades redacionais, há entre eles uma


concordância de fundo: Jesus foi sepultado por iniciativa de um judeu simpatizante e
autorizado, identificado com José de Arimatéia (cf. At 13,29). Já este pormenor, isto

36
Para um aprofundamento nesta questão Cf. TAYLOR, p. 724.
37
FABRIS, R. Marcos in: BARBAGLIO, G; FABRIS, R; MAGGIONI, B. Os evangelhos (I). São Paulo:
Loyola, 1990. p.609.
38
A hipótese de “um fragmento de tradição isolado”, levantada por R. Bultmann, é contestada por Pesch. Cf.
PESCH, p. 735
54

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
é, que não se trate de um discípulo qualificado, depõe em favor da historicidade do
fato”39.
Marcos relata a morte de Jesus em consonância com a legalidade da época. Segundo o
costume judaico, fundamentado em Dt 21,22s e respeitado pelas autoridades romanas, o corpo
do condenado à morte deveria ser retirado da cruz antes do pôr-do-sol. Assim, as notícias de
Marcos sobre o sepultamento de Jesus concordam com o costume judaico. Isto pode servir de
indício para a coerência e coesão histórica da perícope, do relato composto pelo autor de
Marcos.

A particularidade da composição do relato, sobretudo de envolver o cadáver num


lençol ou sudário e depositá-lo no túmulo talhado na rocha, corresponde ao costume judáicos,
diz Fabris40.

A composição do relato da sepultura tem seu desfecho com o relato do testemunho de


duas mulheres, Maria Madalena e Maria de Tiago/Joses, que pertenciam ao grupo que seguiu
Jesus, elas são testemunhas oculares do lugar do túmulo. Este é um dado imprescindível para
Marcos, pois permite estabelecer a continuidade histórica entre este episódio e a visita das
mulheres ao sepulcro na manhã do domingo.

A 3ª cena, equivalente ao anúncio da ressurreição, pode ser considerada clímax


narrativo do Evangelho. Este anúncio ganha um núcleo no testemunho do misterioso
personagem da madrugada pascal, junto ao sepulcro vazio: “Buscais Jesus, o Nazareno, o
crucificado? Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o colocaram” (16,6).

“Com a narrativa do anúncio da ressurreição de Jesus no sepulcro aberto e vazio se


conclui a história pré-marcana da Paixão e termina o Evangelho de Marcos”, afirma Pesch41.A
3ª cena da perícope corrobora as duas predições sobre a ressurreição, no início da história da
paixão (9,9. 31; 10,34). Portanto, a composição deste último ato segue uma performance
composicional. Aparentemente Marcos não modificou de modo substancial o modelo
narrativo e redacional na última e mais importante parte do evangelho 42.

Marcos, com seu trabalho redacional, costurou textos e informações com um estilo
propriamente narrativo. A desenvoltura da composição é averiguada no desenrolar dos fatos,

39
FABRIS, p. 611.
40
Cf. FABRIS, p. 612.
41
PESCH, p. 757.
42
No entanto, isso não descartaria possibilidades de adição ou substituição de palavras por parte do redator. Cf.
PESCH, p. 759.
55

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
narrados com simplicidade e objetividade. O autor final de Marcos conseguiu transmitir a
essência e o fundamento a respeito da pessoa de Jesus de Nazaré: “Ele ressuscitou!”; e a
responsabilidade deste anúncio é atribuída às discípulas que estavam ao pé da cruz.

2.10 Recursos literários

Marcos utiliza alguns recursos próprios43. Na perícope em questão, nota-se que o


recurso fundamental e útil para o autor marcano é a narrativa de fatos imediatos, relatados um
após o outro. A própria narratividade é, já, um estilo da obra marcana. Uma narrativa rápida44,
sem detalhes e objetiva, que visa a atingir o ponto nevrálgico da revelação de Deus em Jesus:
a morte e ressurreição do Filho de Deus.

Marcos sintetiza as últimas peripécias da vida de Jesus em uma narrativa coerente e


coesa. A perícope é composta por orações curtas em linguagem popular, contendo inclusive,
expressões latinas (cf. 15,44.45 kenturi,wna) e semitizantes (cf. 15,41 sunanaba/sai, 15,42
paraskeuh.) que conferem um colorido distinto, mas ao quadro narrativo, expressando a
intencionalidade de Marcos: narrar os fatos ocorridos com Jesus nos últimos “três dias” de sua
vida terrestre.

Marcos também faz uso de muitos verbos, o que corrobora a tese que sua obra se
assemelha a uma catequese narrativa45. Há expressões narrativas propriamente de Marcos, que
ilustram o micro-contexto (adjacência imediata) da morte e ressurreição de Jesus46.

A identificação de personagens e de cenário, nas intrigas literárias, que envolvem as


figuras é também um outro recurso notoriamente marcano. Marcos não se preocupa com
enfeites literários, mas sua narrativa é bem esquematizada, não permite brechas para detalhar
as idiossincrasias dos personagens. Como um bom narrador, Marcos prende a atenção do

43
Gnilka julga que Marcos utilizou-se de: narrações e sentenças formadas à base de uma tradição anterior;
narrações baseadas no testemunho pessoal, provavelmente o de Pedro e de narrações distribuídas tematicamente
e formadas por sentenças e apotegmas. Cf. GNILKA, Evangelio, p. 120.
44
Benício afirma que as conjunções kai. (e), de, (mas) ga,r (porque, pois) apontam para a rapidez, vivacidade e
expressividade com que Marcos redige a sua obra (cf. BENÍCIO, p. 102).
45
Cf. SCHNELLE, p. 51.
46
Não se trata apenas de ver a perícope como uma ilha, mas como um membro anexado ao corpo da obra
marcana. Os recursos literários viabilizam a análise do contexto, do Sitz im Leben, da situação vital em que a
obra ou a perícope foi redigida. Cf. SCHNELLE, p. 50. O macro-contexto no qual está inserido a perícope
apresenta recursos próprios. Tais como: as narrativas de milagres, apotegmas, ditos (pouca freqüência),
parábolas, sentenças, ensinamentos e discurso apocalíptico. É viável recordar que a narrativa do Evangelho de
Marcos, como interstício da comunidade marcana, deseja testemunhar “quem é Jesus” e o que ele simboliza para
os discípulos e discípulas, àqueles que são interpelados pela leitura e meditação da Boa nova.
56

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
leitor. O escritor sábio é prudente e não permite que aquele que o lê se disperse em detalhes,
mas que se fite somente no que é central, na teleologia da literatura.

A perícope em questão permite ao leitor averiguar um esquema próprio de um sábio


escritor. Primeiro, o escritor de Marcos lança ao cenário a figura de algumas mulheres, que
testemunham à crucificação de Jesus. Elas estão situadas no Gólgota; e ao largo observam o
drama da morte de Jesus. No segundo momento, do sepultamento na véspera sabática, Marcos
inaugura a presença de José de Arimatéia e re-apresenta Pilatos no cenário. As mulheres
observam onde sepultam Jesus. Num terceiro momento, temos a introdução de um novo
tempo para o cenário: o domingo. A intriga literária destaca algumas mulheres e um jovem,
que poderia ser a manifestação de um anjo, um arauto da ressurreição. No final enigmático, as
mulheres se encontram estarrecidas e tementes com o misterioso querigma do jovem; elas
saem e não dizem nada a ninguém. Contudo, antes de tal acontecimento, o mensageiro pede
para que elas narrem aos discípulos e a Pedro que Jesus ressuscitado os precede à Galiléia e
que lá o verão.

Marcos utiliza poucos recursos literários para narrar os momentos finais da Paixão de
Jesus. A narrativa marcana da Paixão – morte e ressurreição de Jesus – per se pode ser
considerada um novo gênero literário; ao mesmo tempo inovador e intrigante. A genialidade
literária de Marcos contribuiu para que os demais evangelistas escrevessem seus evangelhos.
Destarte é notório que Mt e Lc adicionaram detalhes próprios que não eram, a juízo de
Marcos, tão relevantes para tratar sobre Jesus47e sua morte-ressurreição.

2.11 Um mini-drama

Como já observamos, o texto abordado aqui pode ser considerado uma encenação
dramática. Explicitaremos aqui esta abordagem.

1ª cena: 15,40-41
Os versículos 40-41 (como exórdio da perícope48) têm como cenário o Gólgota,
localizado fora de Jerusalém, mencionado anteriormente nos vv. 21-22: “E levaram-no fora
para o crucificarem [...] ao lugar chamado Gólgota, que traduzido, quer dizer ‘lugar da
Caveira’”. O v. 40 apresenta algumas mulheres que observam de longe o que acontecia com

47
Cf. GABEL, J.B.; WHEELER, C. B. A bíblia como literatura: uma introdução. São Paulo: Loyola, 1993. p.
171.
48
Estes versículos são considerados, por Taylor, apêndice que prepara o leitor para os relatos do enterro e da
ressurreição. Cf. TAYLOR, p. 724.
57

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Jesus. São elas: Maria (a) Madalena, Maria, mãe de Tiago o Menor49 e de Joses e Salomé50. O
verbo que exprime a ação das três mulheres é qewrou/sai, traduzido por “vendo”, “olhando”,
“observando”, “percebendo”. Gnilka diz que “os únicos seguidores de Jesus que
contemplaram sua morte foram as mulheres, elas contemplaram de longe”51, em seu parecer o
v. 40 se apóia no Sl 38,12 que diz:“Meus amigos, também eles se afastam de minha desgraça,
e os meus parentes se põem à distância” (LXX avpo. makro,qen)52.

O v.41 introduz duas expressões verbais significativas para a narrativa marcana:


hvkolou,qoun e dihko,noun. Tais expressões podem ser traduzidas por “seguiam” e “serviam”. O
autor, afirma que aquelas mulheres seguiam e serviam Jesus, na Galiléia, desde o início de seu
ministério. Afirma ainda que outras muitas (mulheres) estavam lá e que havia subido com
Jesus a Jerusalém. Neste versículo aparece também o verbo sunanaba/sai que se refere a
“subir”, “ir” a algum lugar na companhia de alguém. Quando se refere a ir à Jerusalém, o
verbo quase sempre é “subir”. Este verbo está relacionado, indubitavelmente, com o termo
hvkolou,qoun.
2ª cena: 15,42-47
O v. 42 introduz um termo importante para a tradição judaica, paraskeuh., que
significa o dia antes do sábado. No grego do NT é expressão para indicar um tempo de
preparação, “dia da preparação”, no caso, antes de um sábado. Este termo está presente
também em Mt 27,62; Lc 23, 54. Em Jo 19,14.31.42, significa a preparação da Páscoa53, que
coincide com o sábado. Em Mc, porém, que situa a morte de Jesus no dia da Páscoa,
paraskeuh., tem seu sentido geral de “preparação” para o sábado, por isso Mc o chama
também de prosa,bbaton (Mc 15,42).

49
Também conhecido como “o irmão do Senhor” (cf. Mc 6,3; Mt 12,46; Jo 2,12; At 12,17; 15,13-21; 21,18-25;
Tg 1,1; Gl 1,19; 2,9. 12;). É de se supor que Tiago e Joses fossem muito conhecidos na comunidade primitiva
(cf. a referência a Simão, Alexandre e Rufo de Mc 15,21). O adjetivo genitivo masculino tou/ mikrou/ distingue
este Tiago do outro (filho de Zebedeu) por sua estatura ou por sua idade. Nada sabemos de Joses. Cf. TAYLOR,
p. 725.
50
Em Mt 27,56 Salomé é identificada como “a mãe dos filhos de Zebedeu” (cf. FOCANT. C. L’evangile selon
Marc. Paris: Cerf. p. 588).
51
GNILKA, p. 381.
52
Cf. GNILKA, p. 381.
53
No dia da preparação o cordeiro deveria ser imolado, a refeição preparada, e removido todo o fermento das
casas. Este termo também pode designar o sexto dia da semana, a sexta-feira que precede o shabbat (cf.
KONINGS, J. Evangelho segúndo João: amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005. p. 250-252).
58

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
O v. 43 põe em cena um novo agente: José de Arimatéia (cf. Mt 27,57; Lc 23,51; Jo
19,38)54. A narrativa afirma que este era um ilustre conselheiro do Sinédrio. O relato de
Marcos não afirma que José é discípulo de Jesus. Segundo Taylor, a ação desempenhada por
José pode ter sido motivada tanto pela simpatia que tinha por Jesus quanto pela compaixão
para com o crucificado ou, talvez, pela preocupação com a pureza ritual no dia da
“preparação”55. Marcos apenas diz que José também aguardava o advento do Reino de Deus.
E, entrando com audácia junto a Pilatos, pediu o corpo de Jesus (sw/ma tou/ VIhsou). Para a
tradição, o corpo não deveria ficar exposto, pois o próximo dia era sábado. Por isso, José de
Arimatéia não tinha tempo a perder.

No v. 44 Marcos apresenta Pilatos admirado com o fato de Jesus ter morrido. Pilatos
pergunta ao centurião se havia muito tempo que Jesus tinha morrido. Pois havia crucificados
que suportavam até três dias o suplício da cruz56.

O v. 45 apresenta Pilatos ciente sobre a morte de Jesus, a partir do testemunho do


centurião. Ele, assim, entrega (evdwrh,sato do grego dwre,omai que significa “presentear”,
“conceder” cf. 2Pe 1,3ss.), o cadáver (ptw/ma) de Jesus a José de Arimatéia. O verbo
dwre,omai tem sentido de ação benévola, como em Gn 30,20; 1Esd 1,7. Marcos sublinha que
se trata de uma decisão graciosa de Pilatos. Segundo Taylor, na língua grega dwre,omai
representa a terminologia oficial das permissões do governador: donavit cadaver57. A
expressão ptw/m a “cadáver” atesta a novidade que Jesus está morto de fato, diferentemente do
v. 43 que indica sw/ma, que pode ser traduzido por “corpo”58. Esta expressão também pode ser
encontrada em 14,8 na unção em Betânia e na última ceia 14,22.

V. 46: Uma vez obtida a permissão para enterrar Jesus, José compra uma mortalha, um
tipo de lençol, e envolve Jesus. Colocando-o no túmulo escavado na rocha, rola a pedra diante

54
O topônimo grego ~Arimaqai,a parece corresponder a Ramaqai,n Rāmāatyim. Sua localização provável é a vila
atual de Rentîs (30 km a nordeste de Jerusalém). Cf. FOCANT, C. L’ evangile selon Marc. Paris : Cerf, 2004. p.
591.
55
Preferimos fazer nossas as palavras de Taylor quando diz que, “Mateus deduz que José era discípulo (27,57).
Neste sentido, uma vez mais, se manifesta o caráter primitivo do relato de Marcos” (TAYLOR, p. 727).
Evidente, porém, que Mc não está preocupado com a exatidão dos fatos, se José era mesmo discípulo, no sentido
clássico. Marcos apenas relata os fatos dizendo que houve uma preocupação por parte de José de Arimatéia, um
importante representante do Sinédrio. Para Focant, é provável que José de Arimatéia fosse um simpatizante
próximo do objeto da pregação de Jesus, o Reino de Deus (cf. FOCANT, p. 590).
56
São naturais tanto a surpresa quanto a pergunta de Pilatos, pois alguns crucificados conseguiam suportar dois
ou três dias de tormento. Este versículo, “leva a marca da autenticidade” Cf. Lagrange, apud TAYLOR, p. 728.
57
Cf. TAYLOR, p. 728.
58
FOCANT, p. 590.
59

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
da entrada. Nota-se que o autor se refere duas vezes à palavra lençol (sindo,na) e duas vezes a
palavra sepulcro (mnhmei,w).

Como o trabalho era excessivo para que fosse realizado por José de Arimatéia sozinho,
há de se imaginar que ele tivesse contado com a ajuda dos seus criados. Ao enterro, nenhum
discípulo assistiu, tampouco as mulheres. Não se menciona a unção, e a juízo de Marcos esta
não foi levada a cabo (cf. 16,1, cf. também 14,8 e Lc 23,55ss). Segundo Jo 19,39s,
Nicodemos trouxe uma mescla de mirra e aloés, que foram colocadas nas pregas das ataduras,
“segundo o costume de enterrar alguém entre os judeus”. Marcos leva em consideração
somente a tradição do lençol, do pano novo que envolveria o cadáver de Jesus59.

O v. 47, como desfecho da 2ª cena, lembra as mulheres presentes desde o início da


cena, mencionando apenas duas: Maria de Mágdala e Maria de Joses, que observam onde
Jesus é colocado (evqew,roun). As duas mulheres são apenas testemunhas do sepultamento de
Jesus e não prestam ajuda durante o ato fúnebre. Contudo, se respeita a regra dos testemunhos
de Dt 19,15, pois a tradição cristã apresenta estas mulheres como testemunhas. Seus nomes
estabelecem um elo entre a sepultura (a 2ª cena) e a crucificação (1ª cena)60.
3ª cena: 16,1-8
A 3ª cena tem início com um novo dia, v.1, que deve ser entendido como a noite antes
do primeiro dia da semana. Os judeus contam os dias a partir do anoitecer. Caindo a noite,
terminava-se o shabbat. Então as mulheres (Maria Madalena, Maria de Tiago e Salomé)
podiam comprar os produtos aromáticos para embalsamar Jesus. Marcos refere que as
mulheres compraram perfumes quando terminou o sábado (diagenome,nou tou/ sabba,tou), quer
dizer, depois das seis da tarde (diagi,nomai cf. At 25,13; 27,9), “transcorrido”, “passar”. Os
avrw,mata são provavelmente azeites perfumados e não ervas aromáticas, como com freqüência
é traduzido61.

O v. 2 afirma que na manhã seguinte, bem cedo, no primeiro dia da semana


(sabba,twn) aquelas mulheres foram ao túmulo, quando o sol estava a despontar. A seqüência
dos termos de temporalidade, pode ser compreendido como sugerindo “terceiro dia”62

59
TAYLOR, p. 729.
60
Cf. GNILKA, p. 391.
61
TAYLOR, p. 731. Para Lucas, kai. mura (23,56), ocorre também no grego clássico, nos LXX (2 Mac 11,26).
62
Fazemos nossa a afirmação de Gnilka (cf. GNILKA, p. 406):“o terceiro dia é o dia da ajuda divina e indicação
de que um defunto está verdadeiramente morto”.
60

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
mencionado em 8,31, 10,34; 15,29. Em 15,42 mencionou a paraskeuē ou prosabbaton, no v.
1 a passagem do sábado, e no v. 2 o primeiro dia da semana.

No v. 3 as mulheres indagam entre si: “Quem removerá para nós a pedra da entrada
do sepulcro?”. Marcos afirma que as mulheres, ao erguerem os olhos viram que a pedra já
tinha sido removida (v.4)63. Segundo Taylor, Marcos não tenta explicar como se removeu a
pedra; a narrativa dá a pensar que a remoção de tal pedra havia sido obra de Deus ou de Cristo
ressuscitado. O autor de Marcos ainda surpreende o leitor afirmando: “Ora, a pedra era muito
grande”. Mas o que mais surpreende é a sobriedade narrativa de Marcos, implicando, porém
não afirmando, que o sepulcro estava vazio. O anúncio dramático fica subentendido até o
momento em que o jovem mensageiro diz no v. 6: hvge,rqh( ouvk e;stin w-de\ i;de o` to,poj o[pou
e;qhkan auvto,n. “Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o colocaram”.

No v. 5, Marcos se refere, novamente, às mulheres, que agora entram no sepulcro e


vêem um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca. O jovem64 está à direita do
sepulcro – lugar de destaque e honra – e revestido de branco (cf. Mc 9,3, as vestes de Jesus na
transfiguração se tornam brancas). Marcos descreve o espanto das mulheres com a expressão
evxeqambh,qhsan, termo forte que só Marcos utiliza no NT (cf. 9,15). Aparentemente, Marcos
escreve com liberdade narrativa, pois algumas palavras são próprias de seu vocabulário.

O v.6 introduz uma exortação às mulheres: “não temais”65. O jovem declara que Jesus
ressuscitou e assinala o lugar onde o haviam colocado. Marcos introduz termos
desconhecidos: Nazarhno.n (cf. 1,24), evstaurwme,non (cf. 15,13). Esta última palavra, que
significa “o crucificado”, termo da tradição, e que corresponde ao emprego que faz Paulo em
1Cor 1,23; 2,2; Gal 3,1. Esta expressão, um tanto formal, está intimamente unida a VIhsou/n
to.n Nazarhno.n, que quer dizer: “Jesus o Nazareno”66.

No v.7, interrompe-se o querigma sobre o ressuscitado (avlla., cf. 9,22; 14,36,


caracteriza mudança) e dá-se início a missão das mulheres, que devem comunicar aos
discípulos que Jesus os precede (proa,gei) à Galiléia. É na Galiléia que os discípulos podem

63
TAYLOR, p. 734.
64
O jovem, em grego neani,skon, está à direita e vestido de branco, podendo indicar dois elementos de dignidade.
Esta descrição pode aludir a um anjo. Segundo Taylor, Marcos descreve de forma gráfica o que crê ter
acontecido. Os vv. 6s, nos quais o “anjo” utiliza uma linguagem humana, sublinham esta impressão. Cf.
TAYLOR, p. 735.
65
De acordo com Gnilka, o anúncio do jovem junto ao sepulcro evidencia uma angelofania, muito presente no
gênero da haggadah. A angelofania é caracterizada pela aparição do anjo, a reação de medo, a mensagem a
comunicar, a resposta do receptor. Cf. GNILKA, p. 398.
66
Cf. TAYLOR, p. 735.
61

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
ver o ressuscitado. Não “subjaz aqui uma rivalidade entre a comunidade de Jerusalém e da
Galiléia”; o mais provável historicamente é a reunião do discipulado na Galiléia e ida a
Jerusalém estimulada pela Páscoa67. O encontro como ressuscitado se dá num lugar: na
Galiléia. Esta cidade, para Marcos, corresponde “à pátria filha do Evangelho, o cenário
principal da atuação terrena de Jesus”68, o lugar, por excelência, da vocação ao discipulado69.
Portanto, ver o Ressuscitado na terra de sua atuação terrena significa também poder
compreendê-lo plenamente. Só podemos compreender Jesus quando o vemos como terreno,
crucificado e ressuscitado. De acordo com Taylor, Marcos faz referência à Galiléia devido ao
fato de saber das aparições do ressuscitado naquele lugar e não em um outro70.

O v. 8 diz que a mensagem (do jovem) assusta as mulheres; elas sentem “tremor”
(tro,moj, cf. 1 Cor 2,3; 2 Cor 7,15; Ef 6,5) e “assombro” (e;kstasij, cf. Mc 3,21; 5,42)71, o que
condiz bem com o momento em que voltaram e abandonaram o sepulcro, assustadas. Tremor
e assombro são reações reflexas no encontro do humano com o divino. Marcos afirma que as
mulheres não disseram nada a ninguém, pois tinham medo. O Evangelho tem seu desfecho
com esta afirmação abrupta. Parece que os evangelistas posteriores consideraram intolerável
este final. Mateus afirma que as mulheres, com medo e ao mesmo tempo alegria, correram
para narrar os fatos aos discípulos. Lucas diz que contaram tudo aos Onze e aos demais. Que
evfobou/nto ga,r (pois temiam) é mesmo o final original do evangelho de Marcos é hoje a
posição defendida pela maioria dos estudiosos72.

A 3ª cena condensa o querigma pascal expressado anteriormente nas profecias da


paixão, sinalizando que o final do caminho de Jesus não é a cruz, mas a ressurreição da
morte73. É indispensável, portanto, perceber que os discípulos e discípulas são convidados a
anunciar: “Ele ressuscitou” (Mc 16,6b).

67
GNILKA, p. 406.
68
GNILKA, p. 402.
69
CF. FUMAGALLI, A. Fatica e gioia della sequella. La formazione dei discepoli nel Vangelo di Marco.
Milano: Ancora, 2002.
70
Cf. TAYLOR, p. 736.
71
Cf. MUNDLE, W. e,kstasiς. In: COENEN, L.; BROWN, C. Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento. Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 784. Esta expressão pode indicar “frenesi”, “confusão”,
“assombro”.
72
TAYLOR, p. 738, Cf. também GNILKA, p. 405.
73
Cf. GNILKA, p. 406.
62

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
2.12 As mulheres testemunhas
Depois de termos apontado a estrutura de superfície do drama, focalizamos o papel
testemunhal das mulheres74.

Pesch afirma que

“os três últimos fragmentos (15,40-41.42-47;16,1-8) da história pré-marcana da


paixão, que Marcos continua a seguir até a conclusão, apresentam mulheres
galiléias, seguidoras de Jesus, como as novas personagens do episódio; elas se
tornam, portanto, as testemunhas da crucificação, do sepultamento e do anúncio da
ressurreição” 75.
Esses fragmentos narrativos constituem a unidade da perícope, apresentando como
testemunhas dois grupos de mulheres: o primeiro grupo menciona pelo nome três ou quatro
mulheres, que Mc afirma terem seguido e servido Jesus enquanto esteve na Galiléia. O
segundo grupo, mais numeroso que o primeiro, é constituído por mulheres anônimas, que
fizeram companhia a Jesus na subida a Jerusalém.
40
+Hsan de. kai. gunai/kej avpo. makro,qen qewrou/sai( evn ai-j kai. Mari,a h` Magdalhnh.
kai. Mari,a h` VIakw,bou tou/ mikrou/ kai.76 VIwsh/toj mh,thr kai. Salw,mh( 41
ai] o[te h=n evn th/|
Galilai,a| hvkolou,qoun auvtw/| kai. dihko,noun auvtw/|( kai. a;llai pollai. ai` sunanaba/sai auvtw/|
eivj ~Ieroso,lumaÅ
40
Havia também mulheres de longe observando,
– entre as quais
–– Maria a Madalena, Maria, mãe de Tiago o Menor e de Joses e Salomé,
––– 41as quais, quando ele estava na Galiléia, o seguiam e lhe serviam
–– e outras muitas que com ele tinham subido a Jerusalém.

74
É verdade que nem Marcos nem os evangelhos como um todo designam explicitamente uma mulher de
“discípula/aluna” de Jesus (mathētria), mas a palavra “seguir” (akolouthein) circunscreve, sobretudo no
Evangelho de Marcos, de forma marcante, o seguimento de Jesus. De Mc 15,40s, decorre claramente que as
mulheres que seguem a Jesus desde a Galiléia estão numa relação contínua de seguimento a ele. Diferentemente
do que acontece em relação aos discípulos masculinos, Marcos atribui expressamente às mulheres um
comportamento especial frente a Jesus: elas o “serviam”. Portanto, este serviço se expande até hoje como
testemunho de fidelidade e amor ao mestre (cf. STEGEMANN, E.; STEGEMANN, W. p. 423).
75
PESCH, p. 735.
76
Aqui Pesch afirma que o artigo h em B Y 131 poderia não ser originário, mas apresenta a possibilidade de a
mãe de Joses ser a terceira ou quarta mulher no cenário da Paixão de Jesus. Cf. PESCH, p. 736.
63

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Para Pesch, este breve relato tem dupla função: nomear as testemunhas da crucificação
de Jesus, na comunidade primitiva e apresentar algumas seguidoras particularmente fiéis a
Jesus 77.

A construção dos versículos 40-41 é complexa, pois contém uma descrição


subordinada com dois sujeitos, que constituem os grupos acima mencionados78. O grupo das
mulheres discípulas não se restringe apenas àquelas nomeadas pelo autor de Marcos, mas
inclui também mulheres que viviam o discipulado “anônimo”, na discrição.

Nos versículos anteriores, que lembram o que foi anunciado em 10,32 (o que estava
para lhe acontecer) mencionavam-se apenas as figuras masculinas: soldados, sacerdotes,
escribas, os transeuntes (15,29) e os espectadores presentes (15,35). Agora é introduzido novo
sujeito: as mulheres.

Inicia-se, assim, a última seqüência com cenas sucessivas até a morte de Jesus.
“Algumas mulheres foram testemunhas” da crucificação, assistindo ao largo, sem nada poder
fazer.

Apesar de terem seguido Jesus em proximidade79, desde a Galiléia (v. 41a), agora
estão observando Jesus de longe (v. 40 a). De um lado, muitas mulheres estavam próximas a
Jesus desde o início de seu ministério, na Galiléia. De outro, poucas são aquelas que, à
distância, observam os acontecimentos derradeiros na capital Jerusalém. O distanciamento das
amigas do Justo é certamente um motivo tradicional da passio iusti 80. Todavia, tal indicação
corresponde à situação histórica, particularmente no episódio da crucificação de Jesus. O
contexto vital permitia à mulher somente assistir avpo. makro,qen “de longe” o que acontecia no
mundo dos varões, permeado pela crueldade. Normalmente, as mulheres assistiam a tais
fatos, pois após as chacinas, elas eram as responsáveis pela pureza ritual do local onde o
sangue jorrava. Esta era também uma forma de serviço das mulheres hierosolimitanas.

77
Cf. PESCH, p. 736. Com a menção do testemunho da crucificação e da morte de Jesus vivente na primeira
comunidade se iniciou a conclusão do “evangelho da comunidade primitiva”, que está estreitamente próxima do
primeiro e fundamental evangelho cristão (cf. 1Cor 15,3-5): o Cristo morto (Mc 15,37), sepultado (15,42-47),
ressuscitado (16,6) e anunciado (16,7). Cf. PESCH, L’ Evangelo, p. 209.
78
Cf. PESCH, p. 736.
79
PESCH, p. 736.
80
Cf. PESCH, p. 737.
64

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Entre as mulheres que assistiam ao trágico episódio Marcos nomeia 81 apenas três (ou
quatro, segundo a numeração de Pesch82). Maria de Mágdala83, Maria (mãe ou mulher) de
Tiago o Menor e (a) mãe de Joses, e Salomé. Pesch diz que estas mulheres “devem ter
participado da comunidade primitiva e lá trabalhado”84. Lc 8,3 também menciona Joana,
mulher de Cusa e Susana, entre aquelas que serviam e seguiam a Jesus.

Maria Madalena constantemente ocupa o primeiro posto (cf. 15,47; 16,1; Lc 8,2;
24,10). Maria, mãe de Tiago o Menor (e também de Joses?), mencionada posteriormente em
15,47, ocupando o segundo lugar, antecedendo Salomé, em 16,1 (cf. Lc 24,10: Maria de
Tiago). Para Gnilka, as três mulheres constituem uma espécie de “réplica dos três discípulos
preferidos por Jesus (5,37; 9,1; 14,33)85”.
Excurso: Três ou quatro mulheres?

Pesch afirma que Maria de Tiago, aparece identificada com o nome de seu pai (muito
provavelmente) ou de seu filho (menos provável). No cenário redacional de Mt 27,56,
ela é apresentada antes como mãe de José, cf. 27,6186. Tiago, provavelmente é a figura
mais notória, pois é citado identificado à mulher. Mas muitos eram os “Tiagos” no
período apostólico. Dois são mencionados na comunidade primitiva (o filho de
Zebedeu, cf. 1,19, e o irmão do Senhor, cf. 6,3). Há um acréscimo que possivelmente
serviria para distinguir seu nome, o menor, (o; mikro.j). É mais provável que este termo
indicasse mais a estatura física que a idade cronológica. Em Mt 10, a título de
esclarecimento, a lista dos apóstolos apresenta primeiro Tiago, filho de Zebedeu e
depois Tiago, filho de Alfeu. Mc (3,16-19), ao listar os apóstolos, apresenta
primeiramente Tiago, filho de Zebedeu, João, o irmão de Tiago, apelidados de
Boanerges, “Filhos do trovão”. Depois Tiago, filho de Alfeu. Lc (6, 14-16) apresenta
Tiago, juntamente com seu irmão João, depois Tiago, filho de Alfeu. O livro dos At
(1,13) apresenta primeiro Pedro e Tiago e depois Tiago, o filho de Alfeu.
Marcos apresenta uma outra mulher de nome Maria (cf. 15,47), mãe de Joses ou
também VIw.shfoj Iōsēf, que supostamente não seria a mãe de Jesus (cf. 6,3). Ela é
nomeada em 15,47 após Maria de Mágdala; em Mt 27,56 é identificada como Maria

81
Dolores Ruiz aponta a importância da nomeação das mulheres no relato bíblico. Para ela, a identificação, no
contexto de um processo judaico, valida um testemunho (cf. Jo 8,17; 5,35.59). “A morte e ressurreição operam
uma mudança impensável na cultura daquele tempo, principalmente a respeito da condição da mulher (...). Está
claro que a morte, sepultamento e ressurreição de Jesus fazem romper os moldes e barreiras impostas à mulher
por uma sociedade que só levava em consideração os varões” (cf. RUIZ, M. D. El feminismo secreto de Marcos.
Communio 31 1998, p. 9-11).
82
Cf. PESCH, 739. “No v. 40b são indicadas quatro (e não três) mulheres”.
83
Mari,a h` Magdalhnh, mencionada novamente nos v. 47 e 16,1 (Mt 27,56. 61; 28,1; Lc 8,2; 24,10; Jo 19,25;
20,1. 11. 16. 18). Em Lc 8,2 e Mc 16,9 afirma-se que desta mulher havia saído sete demônios (cf. TAYLOR,
p. 724).
84
PESCH, p. 737.
85
GNILKA, p. 381.
86
Cf. PESCH, p. 738.
65

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
de Tiago. Pesch afirma que o nome Tiago seria uma possível “variante dada ao nome
do filho de José”87.
Pesch sustenta sua posição, em relação ao número de quatro mulheres diante do
cenário da cruz, dizendo que a formulação VIwsh/toj mh,thr (v.40), antecipando o nome
do filho, quer evitar a repetição do nome Maria, que já era bastante conhecido na
comunidade88.
Para Pesch, o fato de a personagem Maria ser apresentada, no v. 40 como ‘mãe’ de
Joses89 não pode ser desconsiderado, pois tal Joses seria também uma pessoa notável
na comunidade primitiva. Há que se notificar também uma outra possível ligação entre
uma destas mulheres à figura de Clopas, averiguada em Jo 19,25. No entanto, Pesch
afirma, que Schnackenburg “considera esta identificação uma audácia”90.
Marcos apresenta, por fim, outro nome à lista das discípulas, Salomé. Também em
16,1 ela está situada após as outras mulheres e, isso poderia estar associado ao fato de
não portar o nome de Maria. Em Mt 27,56 este nome é identificado como a mãe dos
filhos de Zebedeu (cf. Mt 20,20).
Se para Pesch, Marcos menciona quatro mulheres junto ao cenário da cruz. Taylor, por
sua vez, diz que “mencionam-se provavelmente três mulheres, mas seriam quatro
mulheres se com a ajuda das fontes B Y 131 lesse o artigo h` antes de VIwsh/toj
mh,thr”91. Para Gnilka, Marcos menciona apenas três nomes92.
Aparentemente Mc 15,40 refere-se à Mari,a h` VIakw,bou tou/ mikrou/ kai. VIwsh/toj mh,thr
(Mt VIwsh.f) como se utilizasse o artigo h` como em 16,1 h` VIakw,bou.
“Ao parecer, é a mãe de Tiago e Joses, porque não é provável que sys tenha razão ao
dizer que era a filha de Tiago (sy pe hl dizem “mãe”). Lagrange observa que segundo
o costume árabe é freqüente conhecer a uma mulher pelo nome de seu filho, e que na
expressão de Marcos pode suspeitar-se a existência de um influxo semítico
(compara-se com o` ui`o.j th/j Mari,aj de 6,3). É de se supor que Tiago e José fossem
muito conhecidos na comunidade primitiva (cf. a referência a Simão, Alexandre e
Rufo de 15,21), ainda que seja difícil identificá-las. Sem dúvida alguma, não são os
irmãos de Jesus (6,3), porque não é provável que Marcos designasse à Virgem Maria
com uma circunlocução. É mais provável a opinião de que Tiago seja “o filho de
Alfeu” (3,18)”93.

A respeito das três (ou quatro) mulheres mencionadas no v.40, Marcos diz que
seguiam a Jesus (avkolouqe,w) quando estava na Galiléia, e o serviam (diakone,w), esta última
expressão faz “alusão aos serviços materiais prestados”94. Os imperativos hvkolou,qoun e

87
PESCH, p. 738.
88
Cf. PESCH, p. 739.
89
José irmão do Senhor não é muito nomeado na tradição posterior; diferentemente de Tiago, sempre associado
ao título “o irmão do Senhor” (cf. item 2.11 nota referente a Tiago Menor).
90
Cf. PESCH, 739.
91
TAYLOR, p. 724.
92
Cf. GNILKA, p. 381, cf. também FOCANT, p. 588.
93
TAYLOR, p. 724.
94
GNILKA, p. 382.
66

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
dihko,noun descrevem o prolongar-se do seguimento e do serviço durante a atividade de Jesus
na Galiléia. A importância deste seguimento na Galiléia se estende até ao momento derradeiro
da crucificação e morte, em Jerusalém95. As mulheres, que caminharam com Jesus para
Jerusalém, são apresentadas por Marcos como aquelas que compreenderam que o seguimento
de Jesus é seguimento da cruz96. Destarte, a postura destas mulheres constitui a
complementação necessária da confissão do centurião. A profissão de fé deve estar
acompanhada da disposição de vida. Drewermann considera importante o fato de as mulheres
não desesperarem diante da morte de Jesus97. Evidentemente o não-desespero demonstra a
capacidade humana “de compreender a cruz de Jesus”98 e a maturidade de entender que, para
carregá-la não é necessário somente estar com Jesus, mas que é preciso viver, antes de tudo,
como ele viveu. A fé, portanto, não se corresponde como uma questão intelectual, mas como
uma práxis de vida.

“À reta confissão da fé tem que acompanhar a práxis reta da vida. Esta compreende
o serviço amoroso e o sim à cruz. Galiléia e Jerusalém são termos que servem para
recordar uma vez mais a totalidade do caminho de Jesus, que foi um caminho até a
cruz. Desta maneira, o final do relato da crucificação sai ao encontro do conceito do
evangelho”99.
Pesch observa que este breve relato narrativo (Mc 15,40-41) apresenta importantes
informações históricas100: 1) cita três ou quatro mulheres como testemunhas da crucificação
de Jesus; 2) atesta, como outros relatos (cf. Lc 8,2; Mt 27,55), que Jesus mantinha mulheres
em seu discipulado e que, possivelmente, se tornaram pregadoras itinerantes; 3) confirma a
precedente indicação sobre a presença de numerosos peregrinos pascais no seguimento de
Jesus durante seu caminho até Jerusalém. Para a história da tradição, o texto é um importante
indício da forma longa da história pré-marcana da paixão e do lugar onde foi atribuída à
tradição: a primeira comunidade de Jerusalém.

Com aceno ao testemunho da crucificação e da morte de Jesus conclui-se a história


pré-marcana da paixão e do Evangelho de Marcos, que está baseado no querigma fundamental
da primeira comunidade (cf. 1Cor 15,3-5): Morto (15,37) – sepultado (15,42-47) –
ressuscitado (16,6) – anunciado (16,7). Esta conclusão, segundo Pesch, está antecipada já nas

95
Cf. PESCH, p. 741.
96
Cf. GNILKA, p. 382.
97
Cf. DREWERMANN, E. El mensaje de las mujeres: la ciencia del amor. Barcelona: Herder, 1996. p. 176.
98
FUMAGALLI, p. 113.
99
GNILKA, p. 382.
100
Cf. PESCH, p. 742.
67

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
profecias da paixão e ressurreição no início da história da paixão (8,31; 9,31; 10,33s.), a
última profecial está ligada ao longo trajeto (de subida) a Jerusalém 101.

No retrato de Mc, a memória da atividade de Jesus na Galiléia (v.41a) influenciou


fortemente a concepção do evangelista e está ilustrada na primeira parte da obra (1,1 – 8,26).
A observação sobre o seguimento das mulheres está inserida no amplo eixo dos textos
relacionados ao seguimento102 (cf. 1,16-20; 3,13-19).

Evidentemente, observamos divergências exegéticas entre os pesquisadores de


Marcos. A perícope em questão (especificamente os vv. 40, 47 e 16,1) traz questões
pertinentes para o estudo atual do Evangelho de Marcos. Para nosso intento, menos
importante é a cientificidade ou história do texto ou o número exato de mulheres que olhavam
“de longe”. Trata-se de perceber o significado do papel exercido por estas personagens na
narrativa da paixão e ressurreição de Jesus.

À guisa de conclusão, afirmamos que, às mulheres citadas por Marcos (tanto as


nomeadas no primeiro grupo, quanto às “anônimas” do segundo) a tradição neotestamentaria
atribuiu a importante missão de testemunhar, de forma querigmática, os fatos acontecidos
com Jesus de Nazaré: sua paixão-morte e ressurreição, a fonte e sentido para a fé cristã.
Segundo Gnilka, às mulheres, concretamente as três mencionadas por seu nome, lhes coube a
missão de informar e testemunhar o acontecido com Jesus de Nazaré103. O testemunho destas
mulheres se torna conteúdo indispensável para os cristãos de ontem e de hoje e de amanhã.

2.13 Conclusão
O estudo literário-crítico da perícope de Mc 15,40-16,8 permitiu-nos observar a
densidade do relato final do Segundo Evangelho e ainda lançar no horizonte da fé a
compreensão mais abrangente a respeito dos eixos semânticos akolouthein e diakonein, a
partir do conceito gerador testemunho, que, acima de tudo, deve ser vivido como um
ministério na Igreja. O testemunho é o que formaliza a vida do cristão e também certifica a
razão de sua esperança (1Pd 3,15). Para Marcos, o discipulado vivido pelos personagens
envolvidos no relato da perícope parece estar associado ao irresistível convite feito por Jesus

101
Cf. PESCH, p. 742.
102
Cf. PESCH, p. 743.
103
GNILKA, p. 381.
68

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
no início do Evangelho: “Segui-me” (1,17). Acompanhar o mestre em seus caminhos é
requisito indispensável para a fé e o testemunho dos discípulos.

A perícope estudada mostra-se em consonância com a tradição reproduzida por


Marcos, quando solenemente afirma se tratar do Evangelho (da Boa Nova) de Jesus Cristo,
Filho de Deus (cf. 1,1). A perícope marcana corrobora a Boa Notícia de Jesus que é convite
ao seguimento e às experiências da renúncia e da cruz (8,34). O relato de Mc 15,40-16,8
equivale ao testemunho daqueles que se aventuraram no caminho com Jesus para Jerusalém
(10,1), e, que à medida que iam caminhando, recuperavam as olhar da cegueira na fé (10,52).
O Filho do Homem se encontrará com a morte na Jerusalém incrédula (9,31) e lá, diante da
crueldade dos homens poderosos, que algumas mulheres permanecerão ao largo observando o
acontecido com Jesus. São mulheres testemunhas, que vivem o discipulado e,
concomitantemente, são exortadas ao serviço de proclamar que Jesus não está morto no
sepulcro, mas que vive, está ressuscitado e que precede os discípulos à Galiléia (16,7).

Nosso próximo passo consistirá no estudo dos eixos semânticos akolouthein e


diakonein, que norteiam a perícope de Mc 15,40-16,8, bem como um estudo do eixo gerador
mathētēs. Num segundo momento, a análise narrativa da perícope buscará perceber a riqueza
dos detalhes narrativos fornecidos pela redação de Marcos. Por fim, nossa intenção consistirá
em observar como se dá a confluência dos eixos axiais no relato da perícope em menção e os
efeitos que o texto comunica em sua leitura, juntamente com a hermenêutica, ou seja, a leitura
atualizada da perícope em estudo.

69

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
3 ESTUDO DOS EIXOS SEMÂNTICOS AKOLOUTHEIN E
DIAKONEIN E ANÁLISE NARRATIVA DE Mc 15,40-16,8
“Deus convida e dá forças:
‘Vamos, homem amado,
tu não estás só!’” (E.Schillebeeckx)

Após os estudos sobre o Evangelho de Marcos e da focalização da perícope de Mc


15,40-16,8, estudaremos, neste capítulo, os eixos semânticos akolouthein e diakonein,
imprescindíveis para a compreensão da narrativa marcana, bem como o conceito gerador
mathētēs1. Os eixos semânticos, tanto na narrativa evangélica quanto na narrativa da perícope
em questão, se encontram em confluência, como recursos utilizados pelo narrador para
desenvolver e guiar a narrativa. Em seguida, analisaremos a perícope em questão com o
método sincrônico de análise narrativa2.

É mister averiguar o sentido teológico de tais eixos que perpassam a perícope e lhe
dão sentido. Os eixos semânticos akolouthia e diakonia, na narrativa marcana, serão
estudados distintamente e após a investigação se poderá perceber as implicações que eles
causam na intriga narrativa.

1
No estudo dos eixos semânticos, encontrou-se também outro eixo bastante importante para o estudo do
Evangelho de Marcos: mathētēs ou “discípulo”. Tal eixo pode ser considerado um elo articulador entre os dois
eixos propostos pelo estudo da perícope. Neste sentido, não existiria o seguimento nem o serviço se não
houvesse o discípulo para seguir e servir o mestre. “O verbo seguir (akoloutheō) está relacionado com o conceito
de discípulo (mathētēs) que designa aquele que ouviu o chamado de Jesus e se uniu a ele, por uma resposta ativa
que compromete toda a existência”. Cf. BOMBONATTO, I. Seguimento de Jesus: Uma abordagem a partir da
cristologia de Jon Sobrino. São Paulo: Assunção, 2001. (Tese de doutorado). p. 49. Embora, o termo ocorra
somente em 16,7 e não diretamente em relação às mulheres, lhe dedicaremos um estudo no 3.1.1.
2
Para uma introdução à análise narrativa: Cf. VITÓRIO, J. Narratividade do livro de Rute. Estudos Bíblicos 98
(2008), p. 85-106; ALETTI, J-N. L’art de raconter Jésus-Christ, Paris: Seuil, 1989; MARGUERAT, D.;
BORQUIN, Y. Como leer los relatos bíblicos. Iniciación al análisis narrativo. Bilbao: Sal Terrae, 2000 ;
WÉNIN, A. De l’ analyse narrative à la théologie des recits bibliques. Revue théologique de Louvain, 39 (2008),
p. 369-396; ALETTI, J-N. La construction du personage Jésus dans les récits évangéliques: Le cas de Marc. In:
FOCANT, C. ; WÉNIN, A. (Ed.) Analyse narrative et bible. Deuxième colloque international du RRENAB.
Louven: University, 2005. p.19-42). O foco deste método está voltado para os recursos literários utilizados pelo
narrador, no processo de elaboração do texto, tendo como perspectiva o efeito a ser produzido nos leitores,
naqueles que ouvem a Palavra. A análise narrativa preocupa-se, portanto, com a tríade: narrador – texto – leitor.
“Orienta-se de forma prioritária sobre o leitor ou a leitora, e o modo no qual o texto os fazem cooperar no
deciframento do sentido”. MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y. Como leer, p. 17. A análise narrativa detém-se
na observação do leitor sobre os expedientes utilizados para narrar a história, de forma a permiti-lo entrar na
narratividade, no universo narrativo. Importa para o (a) leitor (a) apenas o texto, no qual o autor deixou
impressões indeléveis de sua capacidade narrativa. Cf. MARGUERAT, D. Entrer dans le monde du récit. Une
présentation de l’analyse narrative. Transversitalités. 59 (1996), p. 1-17.

70

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Após averiguar o sentido destes eixos no macro-contexto (Mc) será possível analisá-
los no micro-contexto da perícope, observando a intenção que eles comportam e o sentido
bíblico-teológico que apresentam.

Com a ajuda da análise narrativa da perícope de Mc 15,40-16,8, chega-se, portanto, ao


ponto nevrálgico da questão: o que o texto, especificamente no modo em que se encontra, diz?

Esta pergunta, aparentemente pragmática3, está sempre na ponta da língua de quem se


aventura a ler e meditar a Palavra de Deus – a Bíblia. A preocupação do leitor consiste em
encontrar o sentido do texto. Aqui, as preocupações com o autor e o contexto são
minimamente relevantes. Portanto, “a verdadeira pergunta que deve ser feita ao texto bíblico
é: ‘Por que você me conta isso, desse modo?’”4.

Neste momento, faz-se oportuno um estudo sistemático sobre os eixos axiais


akolouthia e diakonia com uma consideração sobre o conceito mathētēs. Eles contribuirão
para a ulterior análise narrativa.

3.1 Akolouthein: “seguir”


No estudo do eixo semântico akolouthein nos referiremos também ao estudo do termo
gerador mathētēs, “discípulo”.

3.1.1 O conceito de akolouthein


Akoloutheō se forma de keleuthōs, “um caminho” (de Homero em diante),
significando “ir para algum lugar com outra pessoa”, “acompanhar”, “ir atrás de alguém”,
“seguir”, e também (com intenções hostis) “perseguir”. Juntamente com o sentido literal
surgiu também o sentido metafórico: “seguir o sentido”, “entender” (Platão), “seguir a opinião
de alguém”. Entre os estóicos akoloutheō tem conotações religiosas e filosóficas. Emprega-se
em referência à conformidade dos sábios à lei do mundo ou a Deus5.

3
A análise narrativa indaga acerca da peculiaridade e função das narrações. Para Egger, “na exposição, o
narrador pode empregar vários meios lingüísticos para dar eficácias às narrativas segundo o seu objetivo
(intenção pragmática)”. EGGER, W. Metodologia do novo testamento. Introdução aos métodos lingüísticos e
histórico-críticos. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 116.
4
Estudar um texto bíblico pode ser comparado a uma viagem empreendida para se conhecer um lugar. Cf.
SILVA, C. M. D. Aprenda a enxergar com o cego Bartimeu, ou... Por que é necessário um método para ler a
Bíblia? Estudos Bíblicos 98 (2008). p. 34.
5
Cf. BLENDINGER, C. avkolouqe,w. In: COENEN, L.; BROWN, C. Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 578.
71

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
No AT, na versão da LXX, o verbo seguir não tem implicação religiosa. O guerreiro
segue o comandante (Jz 9,4. 49: Abimelec), Eliseu segue Elias, deixando tudo para trás, sai
para servi-lo (cf. 1Rs 19,20-21 yrex]a; %l;h)', . Em Os 2,7, a LXX utiliza a expressão avkolouqh,sw
para retratar o adultério, o seguimento dos amantes6. Em Nm 22,20 Deus que diz a Balaão:
“Se aqueles homens te vieram chamar, levanta-te, vai com eles; todavia, farás o que eu te
disser”. O termo avkolouqe,w pode ser também encontrado no AT em 1Sm 25,42; Is 45,147.
Mas é Jr 2,2 que melhor explicita a fórmula seguir a YHWH, onde se lê: “Lembro-me de ti,
da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa
terra em que não se semeava”.

No mundo judaico, a instrução dada pelos rabinos aos seus discípulos, de acordo com
8
Schulz , não se limitava de fato ao campo teórico; pelo contrário, seu método preferido de
ensinar preocupava-se de preferência com a prática da Torá. A posição do discípulo era
análoga a de um servo: ele desempenhava na casa do rabi quase todas as tarefas que se faziam
necessárias. Este tipo de serviço era, muitas vezes, mais importante do que o estudo da Torá.

Na sociedade judaica da época de Jesus o doutor da Lei ocupava uma posição de


elevado prestígio. Isso provinha da dignidade divina da Torá. Os discípulos dos doutores não
se atreviam a andar ao lado dos mestres, mas seguiam a certa distância, deixando clara a
posição de superioridade do mestre. O doutor da Lei deveria, no entanto, buscar reunir em seu
entorno o maior número possível de discípulos, instruindo-os para que eles, um dia, se
tornassem também mestres.

Documentos rabínicos da época cristã prescrevem, segundo Schulz, que só um


discípulo que tivesse recebido instrução regularmente e escalado todos os graus até a
ordenação é que poderia ocupar o cargo de mestre da Lei, com a autoridade que esse cargo
trazia consigo9.

O lugar oficial para a educação dos discípulos era a casa do mestre. Durante as lições,
tanto o mestre como os discípulos permaneciam sentados. A forma de transmissão era o
diálogo, suscitado geralmente por algum questionamento, por parte sempre do discípulo.

6
Cf. KITTEL, G. avkolouqe,w in: KITTEL, G. (ed.) Theological dictionary of the new testament. Vol. 1.
Michigan: Eerdmans, 1977. p. 211. Para Kittel, yrex]a; %l;h' pode ser aplicado para paixão erótica ou amor (cf. Pr
7,22).
7
Cf. KITTEL, in. TDNT. p. 211.
8
SCHULZ, A. Discípulos do Senhor. São Paulo: Paulinas, 1969. p. 19.
9
SCHULZ, p. 20.
72

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Lembra Schulz que a instrução era proporcionada também através de comparações,
que geralmente terminavam com alguma pergunta. A discussão entre alunos fazia parte da
prática didática no judaísmo. O mestre, muitas vezes, era interpelado pelos discípulos com
perguntas densas e enigmáticas. O meio de defesa preferido consistia em citar trechos das
Escrituras a fim de se tentar resolver os problemas10.

No NT o termo avkolouqe,w tem dois importantes significados: a) fazer caminho com


alguém, acompanhar; b) ir atrás de, ir em seguimento.

O termo avkolouqe,w é usado 59 vezes nos Sinóticos, 18 vezes em Jo, 4 vezes em At, 1
vez em Paulo, 6 vezes no Ap. Portanto, está presente nos escritos próximos ao mundo
rabínico, que vivenciava a cultura mestre-discípulo11. O grande número de citações demonstra
a importância deste vocábulo para o NT e os cristãos da primeira geração.

Os sujeitos de akolouthein são normalmente pessoas; o objeto de akolouthein é sempre


uma pessoa ou grupo de pessoas. Isto se aplica também ao uso absoluto do verbo,
principalmente no particípio (Mc 8,10; Mc 3,7; 10,32; 11,9). Aquele a quem se segue, está em
dativo. No entanto, em sentido semitizante, pode dizer-se também avkolouqe,w o;pίsw com
genitivo (Mc 8,34; Mt 10,38). Nos enunciados a cerca do seguimento de Jesus há que se
diferenciar dois grupos. Tão somente no caso dos discípulos pode-se falar propriamente de
seguimento. A multidão segue (por algum tempo) Jesus em seu caminho, mas (geralmente)
não vai em seguimento de Jesus (Mc 2, 15; 3,7)12.

O termo técnico rabínico yrex]a; %l;h', que pode ser traduzido em grego por e..;rcesqai.
o.pi.sw ou άkolouqein é aplicado aos discípulos de Jesus, sendo até, muitas vezes, sinônimo de
“ser discípulo”. O verbo “seguir” serviu, em muitos momentos do NT, como imagem para
designar o maqhtής (cf. Jo 1,40.43)13.

Segundo Kittel, a pesquisa de status mostra que o termo avkolouqe,w, no seu significado
mais abrangente, expressa a Sequella Christi14. Além de se referir à relação do discípulo com

10
SCHULZ, p. 21.
11
Cf. TEPEDINO, A. M. A. L. Discipulado de iguais: Um estudo sistemático-pastoral sobre o discipulado das
mulheres nos evangelhos. Rio de Janeiro: PUC-Rio ( Dissertação de Mestrado), 1986. p. 29.
12
Cf. SCHNEIDER, G. avkolouqe,w. In: BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario Exegetico del Nuevo
Testamento. Vol. I. Salamanca: Sígueme, 1996. p. 147.
13
Cf. SCHULZ, p. 33 (cf. nota 1).
14
Cf. KITTEL, in TDNT. p. 212.
73

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Jesus é também um termo utilizado para designar a vivência da fé do discípulo, seguidor de
Jesus.

Portanto, faz-se necessário observar que a expressão avkolouqe,w encontra-se no NT


apenas em forma de verbo e nunca como substantivo, avkoloύqesi/j/akolouqia, pois este verbo
caracteriza ação e não conceito 15. O termo “seguir”, nos quatro evangelhos, expressa relação
concreta com o Jesus terreno, embora nunca se desvinculando da fé pascal.

No Evangelho de Marcos, é possível observar que Jesus escolhe doze homens, dentre
o grupo dos que o seguiam (3,13-19). Convida-os para viverem em sua companhia e o
seguirem. Os discípulos seguem Jesus em suas idas e vindas (6,1; Cf. Mt 8,23; Lc 22,39),
desempenham serviços e recebem instruções na “casa do mestre”. Os não-discípulos de Jesus,
que também o reconhecem como mestre, vêm pedir-lhe conselho (12,28-34), o envolvem em
disputas, determinadas, às vezes, por seu próprio comportamento, às vezes, pelo de seus
discípulos.

A partir dos relatos vê-se que Jesus toma a iniciativa de chamar os discípulos com
plena autoridade, assim como Deus chama os profetas no AT (cf. Jr 1,4-7; Is 8,11-18). O
discípulo deixa tudo para andar atrás de Jesus (cf. Mc 1,18; 10,28; Lc 5,11; Mt 8,19). Os
discípulos são chamados a participar do trabalho de Jesus, associando-se à vida missionária e
também a sofrer o mesmo destino de Jesus (Mc 10,22-45)16. As condições para o discipulado
de Jesus são: renunciar a si mesmo e tomar sua cruz.

Constata-se que o discipulado significa adesão pessoal a Jesus num sentido que denota
relação de vida (8,20), exigindo a entrega total até a morte.

O eixo semântico-teológico avkolouqe,in pode ser percebido 17 vezes no Evangelho de


Marcos. No convite feito a Levi (2,14: avkolou,qei moi) se encontram três elementos
fundamentais de avkolouqe,n: 1) adesão inicial, 2) atividade e 3) proximidade contínua. De fato,
a fórmula com que Jesus o convida espera uma resposta permanente (avkolou,qei: imperativo,
presente). A resposta imediata de Levi (hvkolou,qhsen auvtw/|: aoristo ingressivo) denota
aproximação, e conota a duração e a futura atividade (cf. 1,18: hvkolou,qhsan auvto,n). A
resposta permanente, segundo o convite de Jesus (2,14), é expressa no indicativo imperfeito

15
KITTEL, in. TDNT. p. 212.
16
Cf. TEPEDINO, p. 31.
74

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
hvkolou,qoun (2,15), cujo sujeito telw/nai kai. a`martwloi., “cobradores e pecadores”,
prolongando a ação do discípulo Levi17.

Os discípulos convidados pelo mestre Jesus, são chamados a deixar de lado a vida
antiga, o que não é uma condição prévia, mas uma conseqüência lógica (cf. Mc 1,16ss; Mt
9,9). Em Mc 10,17ss, é possível averiguar a exigência do mestre Jesus que convida o jovem
rico. Este, por sua vez, “retrocede ante o oferecimento inaudito da vida eterna e se afunda na
tristeza de seus bens terrenos”18. Ele não conseguiu abandonar aquilo que o amarrava para
seguir Jesus.

O discípulo de Jesus é convidado à dinâmica de segui-lo. “Caminhar atrás dele é fazer


das suas opções a orientação da vida”19. O verbo grego avkolouqein significa manter a relação
de proximidade com alguém, graças à atividade de movimento, subordinado àquela pessoa.
Tem, pois, um duplo sentido: estático relacional ou de proximidade e outro dinâmico de
movimento constante. Parte-se de um estado de proximidade que é mantido por meio do
movimento subordinado20.

Para o seguimento supõe-se um caminho, όdo,ς, que pode ser entendido como “modo
de vida”, “proceder” ou “conduta” (Mc 1,2; 8,27; 9,33b.34; 10,32.52). Tal caminho comum é
marcado pelo personagem protagonista que convida ao movimento de seguir. Em sentido
metafórico, expressa a coincidência do modo de vida. A relação de proximidade se converte
em relação de semelhança, ou seja, de discipulado.

O caminho de Jesus21 (8,26-10,52), por sua vez, o conduz a Jerusalém (10,32: vHsan
de. evn th/| o`dw/| avnabai,nontej eivj ~Ieroso,luma) onde há de sofrer até a morte (10,33s). Este é
também o destino do discípulo de Jesus (8,34: avra,tw to.n stauro.n auvt ou/: carregar a sua cruz).
Seguir Jesus significa, portanto, assemelhar-se a ele pela prática de um modo de vida, de uma
atividade, que se insere no movimento subordinado, que tem, no fim do caminho, um
desfecho como o de Jesus. A missão está, portanto, incluída no seguimento22.

17
MATEOS, J. Los “doce” y otros seguidores de Jesus en el evangelio de Marcos. Madri: Cristandad, 1982. p.
46.
18
BORNKAMN, Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1976. p. 156.
19
TEPEDINO, p. 28.
20
Cf. MATEOS, p. 44.
21
No Evangelho de Marcos, a imagem de Jesus é constituída a partir do caminho (principalmente para Jerusalém
8,27 -10,52). Cf. MANICARDI, E. Il camino di Gesù nel vangelo di Marco. Rome: Biblical Institue press, 1981.
p. 44.
22
Cf. MATEOS, p. 44.
75

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Fundamentalmente, o seguimento de Jesus só se faz compreensível como serviço à realidade
do Reinado de Deus.

Faz-se necessário agora buscar o sentido bíblico-teológico do termo mathētēs, que


pode ser traduzido por “discípulo”. Este termo, como já explicitado antes, pode ser
considerado elo entre os eixos propostos neste estudo. Para se entender os eixos akolouthia e
diakonia faz-se necessário explicitar o eixo mathētēs. Há que se considerar que todo caminho
de seguimento se faz a partir de alguém que se dispõe a caminhar. No caso, o discípulo é
aquele que se põe a seguir o caminho do mestre Jesus e se dispõe a fazer a experiência
daquele que o chamou: tomar sua cruz e o seguir, como servo obediente à voz do mestre que o
chamou.

3.1.2 Mathētēs: “discípulo”

No grego, a terminologia mathētēs ou manthanō23 designa a pessoa que se vincula à


outra para apropriar-se de seus conhecimentos e experiências: um aprendiz, um estudante. Só
se pode ser um mathētēs se existe um didaskalos, um mestre ou um professor ao qual o
discípulo tem de pagar honorários24. Não existe mestre sem discípulos e nem discípulos sem
mestre. Portanto, “não existe discipulado sem aquele que chama ao discipulado”25.

No AT, a palavra “mestre” não é muito freqüente, pois o único mestre é YHWH, em
cujo nome falavam os profetas. Segundo J. Mateos, a relação mestre-discípulo é desconhecida
no AT, nem sequer os profetas têm discípulos, senão servidores ou acompanhantes26. No
entanto, a palavra lamad foi utilizada com muita freqüência, significando o desejo de aprender
a orientar a vida segundo a vontade de Deus. O povo todo era sujeito do “aprender”. A
consciência predominante na comunidade do AT era a da eleição de Deus. Daí que o termo
mathētēs está praticamente ausente nos LXX, onde aparece só como leitura variante em Jr
13,21; 20, 11.

Para o judaísmo rabínico, o termo talmid serviu para expressar o vínculo, quase de
escravidão, entre o discípulo-mestre.

23
Cf. MÜLLER, D. maqhtής. In: COENEN, L.; BROWN, C. DITNT. Vol 1. p. 582. Processo mediante o qual a
pessoa adquire o conhecimento teorético. A palavra desempenha papel fundamental na formação do discípulo.
24
Cf. MÜLLER, O. seguimiento. In: COENEN, L.; BEYREUTHER, E.; BIETENHARD, H. Diccionario
teológico del Nuevo Testamento. Vol. IV. Salamanca: Sígueme, 1990. p. 176.
25
BARTH, K. Chamado ao discipulado. São Paulo: Fonte editorial, 2006. p. 23.
26
Cf. MATEOS, p.22.
76

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
O termo mathētēs encontra seu centro de gravidade no Novo Testamento. Aparece 250
vezes27 e se refere aos “homens” que rodeavam Jesus enquanto mestre. À primeira vista, a
manifestação de Jesus em público na Palestina não traz nenhuma novidade. Da mesma forma
que os escribas, Jesus reuniu em torno de si um grupo de discípulos. A palavra “discípulo”, a
tradução de maqhtής, é um termo que indica os seguidores de Jesus, sobretudo os Doze28.

Para Schulz, a tradição primitiva concretizada nos Evangelhos revela claramente que
Jesus toma propositalmente o modelo das relações mestre-discípulos, peculiar entre os
rabinos, deixando que o chamem de Rabbi, ou seja, “mestre”29. O termo hebraico Rabbi, título
de respeito para dirigir-se aos mestres da Lei, pode ser encontrado três vezes em Mc, duas
vezes presente na boca de Pedro (9,5; 11,21) e uma vez de Judas Iscariotes (14,45). O termo
aramaico Rabbuni está presente na boca do cego curado em 10,5130.

O termo didάskaloς, correlativo de maqhtής, pode ser encontrado doze vezes no


Evangelho de Marcos; sete vezes na boca de personagens que pertencem à cultura semita, mas
que não são do círculo de Jesus (5,35 os que vêm à casa do chefe da sinagoga; 9,17 o pai do
menino epilético; 10,17.20 o rico que se aproxima de Jesus; 12,14 fariseus e herodianos;
12,19, saduceus; 12,34, um letrado). Na boca dos discípulos aparece quatro vezes (4,38, os
que acompanham Jesus na barca, se professam discípulos; 9,38 João; 10,35 Tiago e João; 13,1
um de seus discípulos). O termo didάskaloς está presente também na boca de Jesus, para
designar-se a si mesmo como mestre (14,14).

Segundo Aldana, mathētēs, de modo geral, designa um escolar que acompanha o


mestre para ser instruído por ele; nos Evangelhos, porém, esta palavra se refere ao pequeno
grupo de discípulos que seguem Jesus31. A designação οί μαqetai.. está presente explicitamente
em Marcos 42 vezes. Sendo um plural articulado; pode ser aplicado aos discípulos de João
Batista, três vezes (2,18 duas vezes; 6,29) e aos fariseus, uma vez (2,18). De acordo com
Mateos, das 42 vezes que Mc aplica o termo mathētēs, 37 vezes ele o utiliza com o pronome
pessoal genitivo possessivo auvtou/ (οί μαqhtai, auvtou/ - 2,15.16.23; 3,7,9; 5,31; 6,1.35.45; 7,2;

27
Cf. RENGSTORF, H. W. maqhtής. In: KITTEL, G. (ed.) Theological dictionary of the new testament. Vol. IV.
Michigan: Eerdmans, 1977. p. 441.
28
Para maior esclarecimento da distinção e semelhança entre os Doze e os discípulos, Cf. MATEOS, p. 09-21.
29
Cf. SCHULZ, p. 19.
30
Cf. MATEOS, p. 23. p. 449.
31
Cf. ALDANA, H. O. M. O discipulado no evangelho de Marcos. São Paulo: Paulus-Paulinas, 2005. p. 11.
77

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
8,4.6.10.27.33.34; 9,18.28.31; 10,46; 11,1.14; 12,43;13,1 14,13.32). A leitura de οί μαqhtai,
sem possessivo, se encontra como variante em 6,41; 7,17; 8,1; 9,14; 10,10.13.24; 14,12.16.32

O termo mathētēs pode ser encontrado pela primeira vez, no plural, em Mc 2,15
(maqhtai/j auvtou/) logo após o chamado feito a Levi (2,14: akolou,qei moi), atribuído ao grupo
seguidor de Jesus, que compartilhará da mesma mesa com os cobradores de impostos e com
os pecadores.

A característica especial dos discípulos de Jesus é a chamada, κλήσις, ou seja, a


convocação para o seguimento 33. O aspecto de sequella aparece em todos os relatos que falam
daqueles que seguem Jesus. “A resposta do discípulo não é uma confissão oral da fé em Jesus,
mas sim um ato de obediência”34. Jesus é quem chama, convoca. O publicano (Mc 2,14) o
segue. Neste encontro é testemunhada a exousia, “poder-autoridade”35 de Jesus, que é
incondicional, imediata e sem explicações. Bonhoeffer afirma que o discípulo é arrancado de
sua relativa segurança de vida e lançado à incerteza completa; de uma situação previsível e
calculável para o imprevisível e fortuito; do domínio das possibilidades finitas para o domínio
das realidades infinitas36.

Em dados momentos Jesus se dirige explicitamente às pessoas com as palavras “vem e


segue-me”, como no caso de Pedro e André (cf. Mc 1,17) ou quando chama Levi (cf. Mc
2,14). Tais passagens são marcadas pela iniciativa do mestre Jesus37.

Portanto, o chamado ao discipulado é sempre uma iniciativa de Jesus. O discípulo


chamado por Jesus é convidado a entregar-se sem reservas (Mc 3,31-35). A relação com Jesus
é permanente: os discípulos estão ligados pela fé e obediência à pessoa de Jesus. O elemento
decisivo no discipulado não é a adesão intelectual, mas o acolhimento voluntário da palavra
do mestre, o desejo de colocar em prática a palavra.

Jesus, ao chamar os discípulos, torna-se ao mesmo tempo o protótipo do “caminho do


discípulo”. O seguimento e o “estar com Jesus” devem ser entendidos como o desejo do

32
MATEOS, p. 21.
33
Cf. RENGSTORF, in: TDNT, p. 449.
34
BONHOEFFER, D. Discipulado. 9. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004. p. 20.
35
Mc fala muitas vezes que Jesus dispõe o poder-autoridade sobre os espíritos imundos (1,27; 3,15), sobre o
sábado (2,28), sobre o pecado (2,10). “Por trás disso está o único a quem pertencem o poder e a autoridade,
Deus, e este os outorga ao ‘filho do homem’, que é Jesus” 8,31 (KONINGS, J. Marcos. São Paulo: Loyola, 1994.
p. 16). Trata-se, portanto, de um poder autorizado por Deus, um poder plenipotenciário.
36
Cf. BONHOEFFER, p. 21.
37
Cf. TEPEDINO, p. 19.
78

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
discípulo de maior conformidade com o caminho e com o pensamento do mestre Jesus. O
contraste entre um seguimento puramente material e o verdadeiro seguimento aparece em Mc
9,33b.34, no qual os discípulos “no caminho” (9,33b.34: evn th/| o`dw/)| , que é o de caminho de
Jesus e cujo desfecho será a morte (9,31), discutem sobre quem é “maior” (9,34: ti,j mei,zwn).
Ainda que acompanhem Jesus no caminho, na realidade não o “seguem”38.

Assim, poderia se afirmar que os termos maqhtής e akolouqein estão intrinsecamente


relacionados, tal como um sinônimo. Não se pode entender o discípulo longe da dinâmica do
seguimento e nem o seguimento sem o discípulo. Ambas as realidades se correlacionam na
dinâmica do caminho. Para Schulz, o conceito “seguir” conta com o sinônimo “discípulo”,
ambos não podem ser entendidos ilhados. Esta afirmação Schulz justifica a partir de Mc 8,34:
“Se alguém quiser me seguir, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” 39. Não se
pode considerar discípulo quem não se coloca no movimento e no caminho do mestre.

Neste sentido pode-se levar em consideração termo dw,deka, que pode ser traduzido por
“os Doze”, usado no Evangelho para designar os apóstolos nomeados por Jesus (cf. Mc
3,14ss.). Jesus nomeou “os que ele queria” para o seguimento, “os quais responderam
individualmente ao seu chamado”. O termo Doze pode estar relacionado aos dados do AT e
do judaísmo, aludindo a Israel como um todo (as doze tribos) ou, ainda, a doze indivíduos
designados por Jesus para a missão de constituir o Israel definitivo. O novo Israel não se
constitui por uma pertença étnica, mas por uma adesão pessoal a Jesus, expressa na aceitação
de segui-lo 40.

Tepedino considera que, para se compreender a condição de maqhtής de Jesus, é


importante ter presente que tal convite inclui ainda um outro chamado: à diakonia, ou seja, ao
serviço41. Jesus afirma que os que forem atrás dele serão constituídos pescadores de homens
(Mc 1,17). Os pescadores, chamados ao seguimento de Jesus, entendiam claramente qual a
tarefa eram convidados a realizar; para eles, era comum pescar. Agora são chamados a pescar
os homens, os que necessitavam de salvação. Os discípulos são chamados a atrair os homens
para o Reino de Deus. A grandeza do discipulado está no serviço aos irmãos (10,43). O
primeiro no discipulado é aquele serve, que vive a diakonia do Reino. “Quem dentre vós

38
Cf. MATEOS, p. 44.
39
Cf. SCHULZ, p. 50.
40
O termo Doze denota em primeiro lugar a totalidade de Israel escatológico, representando a continuação por
doze nomes. Na LXX, este termo indicaria a constituição e a criação do povo de Israel. A questão dos Doze é
bastante controvertida e foge ao interesse do presente trabalho (cf. MATEOS, p. 72).
41
Cf. TEPEDINO, p. 22.
79

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
quiser ser o primeiro, será servo de todos” (10,44). Isso porque o próprio Jesus, o Filho do
Homem, não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos
(10,45). Jesus, o servo de todos, é aquele que anuncia o Reinado de Deus, testemunhando com
sua vida que anunciar é servir. Portanto, o mestre que chama os discípulos a servir é ao
mesmo tempo o paradigma do serviço.

Diante da perspectiva aberta pela análise do termo akolouthein, seguido do eixo


articulador e sinonímico mathētēs faz-se necessário compreender o sentido teológico e bíblico
da expressão diakonia, ou seja, serviço.

3.2 Diakonein: “servir”

O termo serviço, tanto nas línguas clássicas quanto nas modernas, foi sempre
estigmatizado e desvalorizado; carregando uma conotação humilhante, este termo
correspondeu sempre à relação entre alguém que serve e outro que é servido, denotando a
relação senhor e servo. Quem serve está em relação de dependência opressiva, quem é
servido, geralmente, é considerado o opressor.

Na Grécia antiga, as tarefas consideradas indignas do homem livre eram deixadas para
o servo. No mundo desenvolvido de hoje, os serviços menos importantes são deixados para os
estrangeiros, àqueles que se submetem a qualquer situação para sobreviverem, haja vista os
brasileiros no exterior.

Em grego há quatro expressões que podem exprimir os diversos matizes do termo


serviço. A primeira é leitourgeō, que significa o serviço voluntário na comunidade política,
podendo também indicar o ministério cultual do sacerdote. A segunda expressão, latreuō, que
pode designar a atitude interior do homem religioso (oração) ou ainda servir para salário. A
terceira expressão, therapeuō, pode ser utilizada para indicar o serviço espontâneo. E a quarta
expressão, diakoneō, para indicar a ajuda pessoal e não só físico-material aos outros
homens42.

Para o grego profano, diakonέw significa: 1) servir a mesa (como algo indigno e
desonroso para o homem livre); 2) ganhar o sustento (passando para o conceito genérico de
serviço); 3) servir (ao bem comum, por exemplo: na pólis de Platão ou a uma divindade,
convertendo-se em tarefa, sendo considerada uma atividade digna do homem livre).

42
Cf. HESS, K. servicio. In: COENEN. L.; BEYREUTHER, E.; BIETENHARD, H. Diccionario teológico del
Nuevo Testamento. Vol IV. Salamanca: Sígueme, 1990. p. 212-216. Também Cf. BEYER, H. W. Diakonέw . In:
KITTEL, G. FRIEDRICH, G. Grande Lessico del Nuovo Testamento. Vol. II. Brescia: Paideia, 1966. p. 957.
80

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Segundo Kittel, a entrega espontânea da própria pessoa a serviço do próximo
permaneceu como uma prática desconhecida no ambiente grego. Para eles, a meta mais
elevada do ser humano era o desenvolvimento do indivíduo, em sua particularidade. O
substantivo diakonein poderia designar as atividades anteriormente descritas como também
significar serviço, ministério e função43.

O AT, na versão LXX, desconhece o vocábulo diakonέw. No entanto, o termo


diάkonoς aparece sete vezes, sempre designando o criado, o servo da corte (cf. Est 1,10).

No NT, o termo diakonέw aparece 36 vezes. 21 vezes nos Sinóticos, incluindo também
At, 3 no Evangelho de Jo, 8 vezes no corpus paulinum, 1 vez em Hb e 3 vezes na 1 Pe. A
palavra diakonia se encontrada uma vez só em Lc 10,40 e outras vezes em Hb 1,14; At 6,1;
1Ts 1,12, designando o serviço, a caridade e o ofício de ministro. O termo διάκονος,
“servidor”, é o que executa as atividades designadas por meio do verbo diakonέw e do
substantivo diakonία44.

O termo diakonέw ou “servir” ou “ministrar” é utilizado nos sentidos de: a) servir à


mesa: Cf. Mc 1,31// Lc 10,40; Jo 12,2; Lc 17,8; At 6,2; b) assistência às pessoas: Mc 1,41//
Lc 8,3; Mt 4,11; 25,44; c) na comunidade: 2Tm 1,18; Hb 6,10; 1Pe 4,10.11; 1Tm 3,10.13; d)
relação com a coleta em favor dos “santos” de Jerusalém: Rm 15,25; 2Cor 8,19; e) para
expressar o anúncio do evangelho: 2 Cor 3,8; 1Pe 1,12; f) ao se referir a Jesus, designando a
humilhação e entrega na paixão e morte: Mc 10,45; Lc 22,26.27; g) seguimento: Jo 12,25. 26;
(Se alguém me serve, siga-me). Também em Lc 12,37, significando a inversão escatológica
da norma vigente, o Senhor servirá o servo45.

Em Marcos, o termo aparece pela primeira vez em 1,13.31 para relatar o serviço
(diēkonei) prestado pela sogra de Pedro, logo após ser curada por Jesus de uma febre. A idéia
de serviço ocupa um lugar destacado pela série de sentenças, acentuadas pareneticamente,
encontradas em 10,42-45. O serviço é, indubitavelmente, a atitude fundamental, o elemento
essencial do seguimento46. Isto pode ser visto pela disposição redacional da série de
sentenças, que se conectam com o terceiro anúncio da paixão (10,33s), e pela cena em que se
reclamam os postos de honra (10,35-40). Esta disposição corresponde exatamente à maneira

43
Cf. BEYER, in. GLNT, p. 957.
44
Cf. WEISER, A. diakonέw in: BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario Exegetico del Nuevo testamento. Vol.
I. Salamanca: Sígueme, 1996. p. 912.
45
Cf. BEYER, in. GLNT. p. 958.
46
Cf. STEGEMANN, E.; STEGEMANN, W. p. 423.
81

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
em que Marcos havia procedido já, quando do segundo anúncio da paixão (9,31. 35). “Tanto
nesta última passagem como na outra, se aborda o mesmo problema existente na comunidade
marcana e em seus dirigentes: o afã de honras e o desejo de poder”. Tanto numa passagem
quanto noutra, o evangelista tenta resolver este problema da mesma maneira, orientando
através das palavras de Jesus e de suas obras, de seu serviço, elaborando, assim, o
chamamento para seguir Jesus em sua cruz47.

Pode-se ainda afirmar que o vocábulo grego diakonίa passa, no NT, por algumas
transformações semânticas. Este termo pode significar: a) ministrar o serviço (à mesa): At
6,1-2; Ap 2,19; b) serviço de coletas: At 11,29; 12,25. Tal serviço de coletar donativos para os
irmãos necessitados demonstra a koinōnia, a comunhão solidária (cf. 2Cor 9,13; At 2,44); c) a
tarefa da pregação da palavra ou serviço do evangelho: At 6,4; 2 Tm 4,11. A diakonia à
comunidade corresponderia à liturgia de ação de graças do Cristo, que se imolou por todos. O
decisivo na comunidade não é o serviço do altar, mas o serviço aos irmãos, exigência que
procede do serviço ao altar48.

O termo semântico diάkonoς 49 (cf. Mc 9,35; 10,43), a partir da teologia de Paulo, se


converte em expressão do trabalho evangélico (cf. Rom 11,13; 2Cor 4,1; 6,3). A comunidade
eclesial é agora, com seus membros, servidora. No entanto, é a partir de 2Cor 3,6 que o termo
diάkonoς adquire o sentido de servidor da nova aliança. Paulo é agora o servidor de Cristo,
que continua a missão de Cristo no interior da comunidade e se preocupa com a salvação dos
homens fora da mesma. Ele se intitula servidor do Evangelho (Ef 3,7; Cl 1,23), servidor da
nova aliança (2Cor 3,6), servidor de Cristo (2Cor 11,23; Cl 1,7; 1Tm 4,6), servidor de Deus
(2Cor 6,4) e servidor da comunidade (Cl 1,25).

Também os companheiros de Paulo são chamados de diάkonoi (Ef 6,21; Cl 1,7; 4,7;
1Ts 3,2). São colaboradores (Rm 16,3.9.21; 2Cor 8,23). Em At o termo diάkonoi é aplicado
por Lucas aos sete homens que aparecem ao lado dos apóstolos, encarregados da assistência
aos pobres da comunidade, mas que possuíam também funções espirituais (cf. Estevão, At
6,8-10 e Filipe, At 21,8)50.

47
SCHNEIDER, in. DENT. p. 916.
48
TEPEDINO, p. 45.
49
Em Mc 9,35 e 10,43-45 decorre que “servir” caracteriza um comportamento exemplar dos discípulos de Jesus
– como imitação do comportamento de Jesus, – tendo, portanto, uma conotação perfeitamente positiva no
contexto do seguimento. Cf. STEGEMANN, E.; STEGMANN, W. p. 423.
50
HESS, in. DTNT, p. 214.
82

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Originariamente, as diversas funções no interior da comunidade podiam ser
denominadas “serviços” (cf. 1Cor 12,5) e os que as realizavam eram chamados servidores
(1Cor 3,5; Col 1,25). O “serviço”, na comunidade cristã, gradativamente vai se transformando
em ofício, em uma função desempenhada sob a supervisão de outro membro da comunidade:
o epíscopo.

É possível encontrar também no NT mulheres servidoras, termo que poderia ser


entendido como diakonia feminina (cf. Rom 16,1; 1Tm 3,11). Rm 16,1 refere-se neste
sentido, a Febe, “que serve (diάkonon, acusativo masculino) na igreja que está em Cencréia”.
A palavra diάkonoς é atribuída a quem cumpre a vontade de Jesus (cf. Jo 12,26).
Analogamente pode ser atribuída a quem cumpre ordens na comunidade cristã: se Febe era
diaconisa, ela não ocupava uma posição de destaque na comunidade de Cencréia.
Independente de ser ou não diaconisa, Febe era uma cristã dedicada que servia a autoridade
daquela congregação. Paulo também utiliza a palavra σuνεργoύς para saudar Priscila; tal
termo poderia ser traduzido por “cooperadores”, referindo-se também a Áquila (cf. Rom
16,3). Em Rm 16,6.12 Paulo saúda as mulheres que trabalharam (kopiw,saj) por ele ou pelo
Senhor.

Na teologia paulina, o conceito de diakonia alargou seu horizonte. De acordo com


Hess, a obra da salvação, na pregação de Paulo, pode ser considerada diakonia de Deus em
Cristo entre os homens, cujos realizadores são os discípulos. Cristo irrompe com o serviço do
espírito da justiça, da reconciliação (2Cor 3, 8.9). Neste sentido o termo diάkonoς se converte
em expressão específica do trabalho evangélico (cf. Rm 11,13; 2Cor 4,1). A comunidade,
segundo Paulo, é convidada a ser no mundo um organismo de serviço (Ef 4,1-16) que se
edifica a partir de seus membros, os “servidores” e se orienta em direção do Senhor que
vem 51.

O NT apresenta Jesus como paradigma de servidor. Ele se coloca no meio da


comunidade dos discípulos como aquele que serve (cf. Lc 22,27). Servir, para Jesus, não é
uma simples metáfora; é, antes de tudo, uma exigência para o caminho do discipulado. Jesus
veio para servir e dar sua vida em resgate de muitos (cf. Mc 10,45). A essência da vida de
Jesus é servir, ato de “existir-ser” para os outros. Nesta perspectiva o termo serviço adquire
grande profundidade teológica, pois é Jesus o modelo de serviço para os discípulos e
discípulas da comunidade cristã. Servir, de acordo com Tepedino, deve ser uma atitude

51
HESS, in. DTNT,. p. 214.
83

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
voluntária do discípulo que ama e que é chamado a doar a vida pelos irmãos, assim como fez
o mestre Jesus52.

A diakonia de Jesus consiste em inaugurar e anunciar o Reinado de Deus. O núcleo da


mensagem de Jesus é o euangelion com seu conteúdo: “o Reinado de Deus está próximo”. Tal
expressão está presente nove vezes no Evangelho de Marcos (cf. 1,15; 4,11; 4,26; 9,1. 47;
10,14; 12,34; 14,25; 15,43)53. O anúncio do Reinado de Deus é o serviço de Jesus. Sua missão
é servir aos homens a Boa-Nova da salvação: a soberania, o poder e o amor de Deus. A
relação de Jesus com o discípulo é marcada pela presença deste anúncio.

Destarte o discípulo é chamado a continuar o anúncio do mestre Jesus. A amizade


discípulo-mestre não consiste em mera contemplação estática, mas na dinâmica do anúncio do
Reinado que está próximo. A participação dos discípulos na diakonia de Jesus encontra sua
máxima expressão no termo avposte,llw, ou seja, o “enviado” para anunciar o Reino.

Jesus envia os Doze discípulos, dois a dois (Mc 6,7), de acordo com a forma judaica
(prescrita na Tora), que pede duas testemunhas, pois uma só não é acreditada (cf. Dt 17,6;
19,15). Os Doze serão chamados de apóstolos ou “enviados” uma vez só (6,30). Este termo
poderia se referir à missão (“os que foram enviados”) e não somente ao nome de um
ministério. Para a narrativa marcana, os Doze têm sentido em si mesmo. Podendo considerá-
los o fundamento do Novo Israel: os patriarcas do novo Povo de Deus. Segundo Gnilka, o
novo povo deve congregar-se em torno dos Doze54.

Aos Doze, Jesus confia-lhes a missão de proclamar o Reinado de Deus (Mc 3,14 i[na
avposte,llh| auvt ou.j khru,ssein). Esta convocação é claramente um convite ao serviço, para
Marcos. Aí está a gênese do serviço ao Reino, proclamado e inaugurado por Jesus. Os Doze e
os demais “discípulos”55 são chamados a continuar o serviço de Jesus, mesmo após sua
morte-ressurreição. Quanto ao anúncio de Jesus vivente e ressuscitado na comunidade,
certeza é que o anúncio do Reinado de Deus não está fadado ao fracasso, mas que pode ser
continuado pelos discípulos na comunidade eclesial.

À guisa de conclusão, pode-se afirmar que os dois primeiros eixos, akolouthia e


diakonia não se entendem sem o eixo articulador mathētēs. Haja visto que o chamado que

52
TEPEDINO, p. 44.
53
SCHILLEBEECKX, E. Jesus: la historia de um viviente. Madrid: Cristandad, 1981. p. 128.
54
Cf. GNILKA, J. Teologia del nuevo testamento. Madri: Trotta, 1998. p. 183.
55
Para uma maior compreensão dos termos Doze e “discípulos” Cf. MATEOS, p. 26. O autor discute a
possibilidade de passagens onde os “discípulos” podem ser identificados com “os doze”.
84

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Jesus realiza está direcionado a alguém ou a alguns, os “discípulos” e as “discípulas”. O
chamado ao seguimento e ao serviço pode ser entendido na perspectiva da alteridade, há
sempre um outro face ao eu que chama a seguir e a servir. Jesus é aquele que chama; ele
chama à experiência de servir e seguir. A resposta ao convite vem da parte daqueles que são
chamados. A resposta é dada no caminho e na práxis do servir.

3.3 Análise narrativa de Mc 15,40-16,8


Passamos agora à análise narrativa56 da perícope de Mc 15,40-16,8. Esta se presta bem
para a finalidade por se tratar de uma narrativa57 breve e, concomitantemente, como se
observará, portadora de grande riqueza literária58.

Seguimos os seis passos de análise narrativa indicados por Daniel Marguerat59. Será
necessário também revisitar a exegese histórico-literária de Mc 15,40-16,8, retomando a
estrutura composicional da perícope em três cenas, que observadas em conjunto, formam uma
“intriga unificada”60 e constituem o clímax61 narrativo da obra marcana.

A análise narrativa, incluindo uma dimensão pragmática62, considera os recursos


utilizados pelo narrador do Evangelho e observa também os efeitos produzidos pelo texto

56
“A análise narrativa se poderia definir também ‘semântica do texto’, pois estuda principalmente dois eixos
semânticos: as ações (eixos semânticos das palavras de ‘agir’) e os agentes” (EGGER, p. 116).
57
Fazemos nossa a observação de Pesch: a perícope de Mc 16,1-8 “é um texto narrativo não-autônomo,
orientado para um contexto, que não pode ter sido uma unidade tradicional isolada (como supõe a maioria dos
estudiosos); evidentemente esta perícope se encontra conexa com o precedente contexto narrativo da história da
paixão e está afixada à história da sepultura (15,42-47) constituída por esta história” (PESCH, p. 757). Cf.
Também AZEVEDO, W. O. Comunidade e missão no Evangelho de Marcos. São Paulo: Loyola, 2002. p. 19.
58
Na “intriga” ou na arte de tecer e narrar o Evangelho, o autor apresenta algumas terminologias que dão sentido
a obra em sua totalidade. As palavras não são apenas somas de letras, mas mundos de possibilidades. Poderia se
afirmar que tais palavras associadas formam as intrigas, que se constituem episódios e formam, por fim, a intriga
total. No episódio seria possível ver o todo da narrativa e no todo da narrativa ver os episódios que a formam. O
mundo do texto é o mundo da narração proposto pelo narrador. O mundo da intriga é constituído por sistemas de
valores e códigos de comunicação (cf. MARGUERAT, p. 4).
59
A análise narrativa pode se estruturar em seis etapas: 1) a intriga: como se articula o conjunto da narração; 2)
gestão dos personagens: quem são e como são identificados? 3) focalização do narrador: como fatos e
personagens entram na mira do narrador? 4) a temporalidade: que indicações são oferecidas para situar a
narração no tempo? 5) o contexto: pano de fundo onde a narração é projetada; 6) o ponto de vista do narrador
(MARGUERAT, p. 6). Estes passos são adotados para a análise da narratividade de outros livros bíblicos (cf.
VITÓRIO, p. 85-106).
60
Há que se distinguir uma intriga episódica (micro-relato) de uma intriga unificada (seqüência ou macro-relato)
Uma trama unificada engloba tramas menores, ou seja, micro-relatos. Há a colcha de retalhos que é formada
pelos micro-retalhos. Sem os micro-retalhos não há a colcha, que pode ser o macro-retalho. Cf. MARGUERAT,
D.; BOURQUIN, Y. p. 90.
61
Este relato se constitui o núcleo fundamental da exposição marcana. Cf. PESCH, p. 129.
62
Chamam-se pragmáticas, as leituras que pretendem buscar o efeito do texto no leitor, dotando-se de
instrumental adequado para localizar no texto indícios pragmáticos, instruções de interpretação. Cf.
MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y. p. 17.
85

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
sobre o leitor. Analisaremos os recursos utilizados para costurar a trama que permitem ao
leitor entrar no mundo da narração63, na obra de arte produzida pelo autor. Estudaremos
também os textos no aspecto das ações/seqüências de ações narradas, dos agentes
introduzidos e das relações existentes entre eles64.

Quais são as intrigas episódicas, personagens, tempo narrativo, espaço vital e, por fim,
ponto de vista do narrador, encontrados na perícope de Mc 15,40-16,8? A intriga presente na
perícope segue uma clara construção narrativa. Pode-se observar que Marcos respeita a ação
transformadora da narrativa65.

Marcos elabora a intriga total com a soma de intrigas episódicas, ou seja, dos micro-
relatos associados ele forma o conjunto final da perícope. A redação final pode ser comparada
a uma obra teatral, entendida e estudada a partir das cenas sucessivas, que conduzem o leitor
ao clímax narrativo, finalidade da obra.

3.3.1 O texto
Reproduzimos aqui em forma sequencial a tradução instrumental66.

40 Havia também mulheres de longe observando, entre as quais Maria a Madalena,


Maria, mãe de Tiago o Menor e de Joses e Salomé, 41 as quais, quando ele estava na
Galiléia, o seguiam e o serviam, e outras muitas que com ele tinham subido a
Jerusalém. 42 E já ao cair da tarde, como era dia de preparação, isto é, véspera do
sábado, 43 tendo vindo José de Arimatéia, conselheiro respeitável, que também estava
aguardando o Reino de Deus, cheio de coragem entrou junto a Pilatos e pediu o
corpo de Jesus. 44 Pilatos admirou-se de que já estava morto e, convocando o
centurião perguntou a ele se tinha morrido há muito tempo. 45 e, conhecendo do
centurião, concedeu o cadáver a José. 46 E tendo comprado um lençol, tendo descido
ele, envolveu-o no lençol e o colocou num sepulcro, que estava escavado na rocha, e
rolou uma pedra diante da entrada do sepulcro. 47 E Maria a Madalena e Maria, de
Joses, observavam onde ele era colocado. 1 E, transcorrido o sábado, Maria a
Madalena e Maria, a <mãe> de Tiago, e Salomé compraram aromas a fim de ir
embalsamá-lo. 2 E, muito cedo, no primeiro dia da semana, vão ao sepulcro, ao

63
Para Marguerat, entre a narrativa e o mundo da narrativa se interpõe a operação de leitura, pela qual o leitor
constrói e habita o universo que lhe propõe o texto. Algumas questões são pertinentes para a análise narrativa:
sobre quais elementos trabalha a leitura? Qual estratégia o narrador haveria construído para orientar a leitura?
Qual a importância entre ditos e os não ditos do texto? Como o narrador faz conhecer seu sistema de valores?
Por quais meios o narrador declara a adesão ou repulsão para com seus personagens. Cf. MARGUERAT, p. 1.
64
Egger distingue narrativa, história e descrição. Para ele, narrativa pode ser entendida como um texto que tem
como elementos ações e agentes. A narrativa não considera a relação com a realidade (nem com a questão da
historicidade). Para uma maior compreensão deste método, EGGER, p. 116-130.
65
Esta ação consiste na arte de descrever os fatos, conjugando-os ou subtraindo-os na narrativa, visando a formar
a intriga, ou seja, a arte de narrar os fatos que configuram o mundo do texto. Cf. MARGUERAT, D.;
BOURQUIN, Y., p. 73.
66
Esta tradução é encontrada no item 2.2.
86

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
surgir o sol, 3 e diziam umas às outras: Quem removerá para nós a pedra da entrada
do sepulcro? 4 E, ao levantar a vista, observaram que a pedra tinha sido removida,
pois era muito grande. 5 E, entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado
direito, revestido de uma túnica branca, e ficaram cheias de espanto. 6 Ele porém
disse-lhes: não vos espanteis. Buscais Jesus, o Nazareno, o crucificado? Ressuscitou,
não está aqui. Vede o lugar onde o colocaram. 7 Mas ide dizer aos discípulos dele e a
Pedro <que>: Ele vos precede à Galiléia. Lá o vereis, como ele vos disse. 8 E,
saindo, fugiram do sepulcro, pois estavam tomadas de temor e de assombro. E nada
disseram a ninguém, pois temiam.

O relato acima, que pode ser considerado o clímax narrativo de Marcos67. Trata-se do
desfecho da obra marcana (15,40-16,8). Este relato apresenta interessantes pontos de vista e
focalização.

3.3.2. A intriga
Aqui estudamos como se articula o conjunto da narração. Evidentemente o narrador é
onipresente. Ele opera a trama68, perpassando os fios narrativos visando a responder às
questões dos leitores. Ele está situado em todas as cenas, sua câmera fotográfica registra todas
as poses no cenário narrativo. Sua pena não pára no belo labor de escrever. Como onipotente,
o narrador “cria tudo quanto deseja, em função do projeto literário”, oferece aos leitores a
intriga, a arte de tramar as palavras; sua intenção é introduzir o leitor ao mundo do texto, para
que este, vislumbrando as belezas da comunicação, se sinta mais e mais atraído. Ele é, por
fim, onisciente, “conhece tudo e nenhuma informação necessária para o projeto lhe escapa” 69.

A intriga se articula a partir do ponto de vista do narrador. Ele conta os fatos, preside a
comunicação70, organiza os códigos midiáticos e visa elaborar respostas aos anseios do
destinatário. Com a arte da significação, o narrador conduz o leitor pelas mãos ao mundo
encantado da narrativa.

A narração da presente perícope se constitui a partir da memória do narrador descrita


em palavras articuladas, com a ajuda da criatividade e inventividade. Trata-se de uma intriga,
com eixos condutores, que visa a culminar no clímax ou desenlace da obra.

67
“O texto de Mc 16,7 é o ponto de partida. Nele se verifica a realização da promessa feita pro Jesus em Mc 14,
27-28, no contexto da última ceia”. Cf. AZEVEDO, p.19.
68
Para que exista relato, faz-se necessária uma história. A estrutura da história é sua trama, ou seja, a intriga. Cf.
MARGUERAT, D.; BORQUIN, Y., p. 67.
69
VITÓRIO, p. 86.
70
A comunicação verbal consiste no envio de uma mensagem por parte de um emissor a um destinatário. Toda
mensagem inclui dois aspectos contexto e código. Este esquema também se aplica a comunicação escrita. Todo
narrador respeita este esquema. Cf. JAKOBSON, R. Essais de linguistique génerale. Arguments 14. Paris:
Minuit. 1963. p. 216.
87

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
O narrador desta perícope elabora a intriga total a partir de três cenas episódicas.

A 1ª cena (15,40-41) elucida a situação inicial ou exposição (a morte de Jesus), na


qual o narrador apresenta o nome das personagens que observam o que está acontecendo com
Jesus. Este motivo (v. 40-41) constitui um micro-relato dentro de um relato maior71. No
cenário global da morte de Jesus, havia espectadoras: mulheres que o acompanhavam e o
serviam, que vinham com ele na caravana para Jerusalém, desde a Galiléia.

A 2ª cena (15,42-46), um sanduíche narrativo, apresenta a micro-trama enxertada na


trama total. Esta trama introduz um ponto nodal72, ou melhor, uma tensão narrativa. Nela são
apresentas novas personagens – Pilatos, José de Arimatéia, o centurião – e novo tempo
narrativo. Trata-se da véspera do shabat. A câmera do narrador usa o zoom de aproximação.
O local é outro. Esta micro-intriga se estabelece dentro do quadro geral e revela uma tensão
dramática. Os personagens José de Arimatéia e Pilatos têm características psicológicas
marcantes. Pilatos é irônico e Arimatéia destemido. A discussão tem por centro o corpo de
Jesus. O cadáver será depositado em que túmulo? Um dos personagens será o responsável
pelo enterro de Jesus. O v. 46 evidencia a ação transformadora – a pretensão de eliminar da
trama a tensão, ou seja, o ponto nodal, aquela perturbação enunciada pelo relato73 – pois, José
de Arimatéia leva74 o corpo de Jesus para o sepulcro.

No v. 47, o narrador volta a falar sobre as mulheres espectadoras, que agora estão
situadas junto ao túmulo de Jesus. Este versículo está relacionado diretamente ao v. 41, pois
aquelas que seguiam e serviam a Jesus na Galiléia agora estão diante do sepulcro, como já
estiveram diante da cruz. O zoom aproxima-se enfocando o leitor junto ao sepulcro com as
mulheres. Por que elas estão aqui, do mesmo modo como já estiveram no cenário da morte?

A 3ª cena (16, 1-8) estipula o desenlace – a superação da tensão narrativa mediante a


aplicação da ação transformadora – e se forma a partir de um novo tempo e um novo espaço.
As personagens são novamente situadas na intriga, que agora introduz um novo personagem:

71
Tramas episódicas são tramas cujos limites coincidem com o micro-relato. É possível encontrar em textos
bíblicos micro-relatos dentro de um macro-relatos.. O sanduíche que Marcos cria pode ser comparado a um
micro-relato inserido numa trama narrativa unificada Cf. Mc 4,1-20 (vv.10-13); 5,21-43 (vv.25-34); 6,7-30
(vv.14,-29) 15,40-16,8 (vv. 42-46). Cf. MARGUERAT, D.; BORQUIN, Y., p. 92.
72
O ponto nodal indica o elemento desencadeante do relato, que introduz a tensão narrativa (um certo
desequilíbrio do estado inicial ou complicação). Cf. MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y., p. 72. Egger diz que
em cada narrativa há pontos nodais (de tensão) a partir dos quais se abrem desenvolvimentos alternativos. Para
compreender a narrativa, estes pontos são fundamentais e decisivos. Cf. EGGER, p. 118
73
MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y., p. 73.
74
Pilatos condede o corpo de Jesus a José de Arimatéia, em grego dwreo.mai. Cf. TAYLOR, p. 728. Cf. item
2.11.
88

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
o jovem. Aparentemente o narrador aproxima o zoom da imagem para as mulheres que vão
embalsamar o defunto. Elas, ao se depararem com o anúncio do jovem que afirma que Jesus
ressuscitou, são convidadas a narrar: “ide dizer...”75 aos discípulos e a Pedro que Jesus os
precede na Galiléia e lá o verão (16,7)76. Mas aparentemente a intriga finda com um anúncio
não realizado. As mulheres, que deveriam testemunhar o acontecido com Jesus, estão
aterrorizadas e silenciam. O narrador parece finalizar a intriga com um suspense. Por que elas
não dizem nada a ninguém? No momento ápice, de aspecto truncado, o narrador trabalha com
a tensão narrativa intensificando a emoção do relato. O desenlace e a situação final da intriga
parecem interrompidas77. Este é um recurso bastante conhecido na literatura. Trata-se da
astúcia do narrador, que lança ao leitor o questionamento78: “e agora, Zé?”.

A situação final da narrativa, de aspecto um tanto “apressado”, tem como intenção


levar o leitor-hermeneuta a dar uma resposta à intriga. Mas, por que esta perícope
aparentemente está incompleta? Quando ela deveria “encontrar um ponto de fechamento,
onde o conjunto da narração se configura”79. Mas não encontra. Para Marcos, tal configuração
se realiza de forma implícita, ou seja, é o leitor que deve interpretar e dar respostas à pergunta
que ficou no ar: por que este final e não um outro?

É neste ponto da trama que se encontra o sentido do método de análise narrativa, que
não visa a dar respostas, mas deixar que o leitor as encontre. A análise narrativa é abertura de
possibilidades.

Observa-se, não só nesta perícope, mas também em outros episódios narrativos, que
Marcos deixa lacunas e perguntas, e a narração de alguns fatos parece truncada80. Isso pode
ser constatado na narrativa de Mc 2, 1-12, na qual o paralítico que é levado a Jesus busca a
cura para a enfermidade e recebe, quando se esperava a cura, o perdão dos pecados. A
narrativa é, aparentemente concluída no v. 9, no qual Jesus diz: “O que é mais fácil dizer ao
paralítico: ‘os teus pecados estão perdoados’ ou dizer: ‘levanta-te, toma o teu leito e anda’?”.

75
A cena “tem traços das narrações de epifania, sobretudo pela tarefa de passar uma mensagem a alguém” (cf.
AZEVEDO, p. 26). A expressão “ir dizer” é observada também em Mc 1,44, no qual o leproso é despedido para
ir apresentar-se ao sacerdote como testemunho da cura realizada. Cf. PESCH, p. 245.
76
A questão interessa, em primeira mão, aos discípulos e a Pedro, evocando, naturalmente aqueles que
acompanharam e seguiram Jesus no caminho de sua paixão, de seu ministério e foram educados por ele. Para
uma maior compreensão de 16,7 (cf. AZEVEDO, p. 25-42).
77
Cf. PESCH, p. 90.
78
MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y. p. 78.
79
VITÓRIO, p. 85.
80
As construções truncadas ou incompletas, também conhecidas como anacolutos, são características do estilo
de Marcos. Cf. TAYLOR, p. 72.
89

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Marcos, porém, retoma o motivo da cura com sentido modificado, não mais como mera cura
mas como sinal de autoridade, na resposta categórica quando Jesus cura o paralítico diante da
multidão e dos fariseus que lá estavam (v.10).

Pode-se concluir que a narrativa marcana leva sempre em consideração o leitor, pois, a
leitura é fundamentalmente uma hermenêutica, ou seja, modo e meio para se encontrar
respostas às questões pertinentes.

3.3.3 Gestão dos personagens

O narrador cria seus personagens e estes, por sua vez, dão vida, “porte e cor”81 ao
relato. O narrador os nomeia e lhes dá identidade. Os personagens estão a serviço do relato
pensado pelo narrador82. Quem são? Como são identificados?

É possível observar na intriga elaborada por Marcos alguns personagens: as mulheres


que de longe observavam, (dentre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e Joses,
Salomé), José de Arimatéia, Pilatos, o centurião e o jovem junto ao sepulcro. No elenco estão
situados homens e mulheres. Os personagens são oriundos de classes sociais diversas. Há
mulheres que caminhavam com Jesus, certamente oriundas do povo judeu, dadas as suas
tarefas domésticas, e que disponibilizaram tempo e até dinheiro para seguir e servir Jesus
como discípulas. Algumas são mencionadas somente pelo nome: Maria Madalena, ou seja,
Maria da cidade de Mágdala. Maria, mãe de Tiago e Joses. O nome desta mulher está
associado ao de seus filhos, Tiago Menor, o “irmão do Senhor”, discípulo de Jesus e de Joses,
não muito conhecido83. A outra mulher era Salomé, a cujo nome nada se acrescenta. Há
também, na narrativa, personagens de importância política e religiosa: Pilatos, José de
Arimatéia e o centurião, este último, representando o exército romano. Há outro personagem
enigmático ou que parece revelar o aspecto misterioso do final da narrativa: o jovem, que
poderia significar um mensageiro, um certo anjo-diácono, que tem como missão anunciar a
ressurreição de Jesus.

Um personagem em destaque na narrativa é José de Arimatéia, importante conselheiro


do Sinédrio. O narrador o considera audacioso, pois a narrativa afirma que ele corajosamente
se dirigiu ao governador e reivindicou o corpo de um condenado à morte, chamado Jesus,

81
MARGUERAT, D.; BORQUIN, Y., p. 95.
82
“Encarnam a intriga num processo de interação com proximidade-distância de variados tipos: amizade-
inimizade, benevolência-malevolência, confiança-desconfiança, intimidade-indiferença” (VITÓRIO, p. 89).
83
Para um maior esclarecimento sobre a personagem Maria, mãe de Tiago, cf. Excurso do item 2.12.
90

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
(v.43). José, aparentemente um notável membro do Sinédrio, é descrito com simpatia pelo
narrador84.

Em contrapartida, Pilatos se identifica no v.44 a um cínico que se admira com o fato


de Jesus já estar morto85. Não havia de que ele se admirar, pois já pressupunha que Jesus, de
qualquer forma iria morrer. Com efeito, fora ele quem havia, deliberadamente, contribuído
com a morte de Jesus. Todavia, Pilatos, admirado, chama o centurião para lhe perguntar se
Jesus estava morto. Isto indica que, para os romanos e para o governador, o sepultamento dos
condenados não era uma preocupação86.

Outro personagem que agora volta à cena é o centurião, que apareceu em 15,39 e
agora, no v.44, é responsável por certificar que Jesus estava morto. Se em 15,39, diante de
Jesus, morto na cruz, ele afirma: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus”87; agora,
diante de Pilatos, ele apenas oficializa que Jesus havia morrido de fato. Ora, pode-se dizer que
se trata da mesma pessoa nos dois relatos? Parece que sim. O centurião em 15,44 corrobora
que Jesus já havia morrido. Não há, porém, aqui, nenhuma intenção querigmática específica
como 15,3988. É apenas uma continuação narrativa.

O querigma se faz evidente na boca do último personagem da intriga: o jovem homem


no sepulcro. Ele aparece no momento final, mas não com menor importância. Ele estava
sentado à direita, trajando uma túnica branca, dois elementos de dignidade89. Para as
mulheres, quando chegam à porta do sepulcro, ele parece um personagem enigmático. Ao ser

84
Cf. item 2.11.
85
Embora, Taylor afirme que havia sentido tanto para a surpresa quando para a pergunta, pois havia crucificados
que suportavam até três dias sofrendo os tormentos, Cf. item 2.11.
86
No mundo romano, o suplício da cruz era infligido aos escravos e aos indivíduos rebeldes. Os cidadãos
romanos estavam, por direito, dispensados da crucifixão. Segundo as leis rabínicas da época do segundo Templo,
os condenados eram apedrejados e depois seus corpos suspensos numa forca até o cair da tarde. A descoberta,
em Jerusalém, em 1969, da ossada de um crucificado, permitiu precisar que o condenado era pregado pelos
punhos. A família podia pedir o corpo, pelo menos em país judaico. Os pobres, contudo, eram deixados na cruz,
seus cadáveres serviam de alimento para os animais. Cf. MONLOBOU, L.; BUIT, F. M. Cruz. In.
MONLOBOU, L.; BUIT, F. M. Dicionário bíblico universal. Petrópolis: Vozes; Aparecida: Santuário, 1997. p.
169.; Cf. FRAINE, J. Crucifixão. In: BORN, A. van. den. (red.). Dicionário Enciclopédico da bíblia. 2. ed.
Petrópolis: Vozes, 1977. p. 336.
87
Esta afirmação do centurião constitui a última declaração, por voz humana, relativa à verdadeira identidade de
Jesus; o relato marcano é assim orientado por duas afirmações: aquela de Pedro e a do centurião, concluindo, um
e outro, a parte do itinerário do reconhecimento de Jesus (cf. ALETTI, J-N. La constrution du personage. p. 35).
88
As palavras do centurião correspondem à exclamação querigmática. A narração da crucificação de Jesus
alcança seu cume na declaração do centurião. Cf. GNILKA, p. 724.
89
Pode-se perguntar: a direita de quem ou de que o jovem está assentado? Trata-se simplesmente de uma
posição a direita do sepulcro como um “lado favorável”? Nos escritos cristãos que dão uma descrição simbólica
do Cristo Ressuscitado, a imagem à direita de Deus, inspirada do Sl 110,1 (cf. também 1Pe 3,22) é
frequentemente utilizada. Ela é notada em Mc 14,62. Trata-se de uma confirmação de caráter simbólico, no qual
este jovem homem deve estar com Cristo Ressuscitado. Cf. FOCANT, p. 596.
91

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
visto por aquelas mulheres e elas ficarem atemorizadas, ele anuncia: “Não vos assusteis”
(16,6). Há, na narrativa, uma espécie de contraste quanto à realidade das personagens. Por um
lado, as mulheres que estão atemorizadas, por outro lado, o jovem que tranquilamente
pergunta se elas procuram Jesus de Nazaré, o crucificado. A realidade de dúvida das mulheres
se dissipa com a afirmativa segura do jovem: “Ele ressuscitou, não está aqui”.

O misterioso jovem, que tem como missão anunciar Jesus ressuscitado, inaugura na
narrativa um colóquio. A narrativa descritiva dos fatos ganha agora, com o advento do
personagem intitulado jovem, um sentido mais dialógico. Dois mundos estão em relação.

A realidade do medo dá lugar à realidade da missão: “Ide dizer”. O silêncio das


personagens deve dar lugar à palavra. As mulheres devem ir ao encontro dos discípulos e de
Pedro. As palavras a serem anunciadas são: “Ele vos precede à Galiléia, lá o vereis, como vos
disse”. As mulheres que seguiam, andavam com Jesus, subiam com ele para Jerusalém,
devem agora descer para a Galiléia e no coração da comunidade galilaica dizer ao chefe dos
discípulos que Jesus os precede.

A narrativa, no entanto, termina com a descrição do narrador que afirma: “Elas saíram
e fugiram para longe do túmulo, pois estavam tomadas de temor e assombro”. E nada
disseram a ninguém, pois temiam” (16,8).

Aparentemente, a missão querigmática do jovem no sepulcro está fadada ao fracasso


diante da realidade de medo das mulheres. O personagem que fielmente anuncia a
ressurreição se vê diante do assombro das mulheres que foram visitar o cadáver para
embalsamá-lo. A realidade dinâmica de ir anunciar, proposta pelo jovem homem, está agora
estagnada por causa do medo das mulheres.

Evidentemente, o narrador da intriga não está preocupado com os personagens em si,


mas com aquilo que simbolizam para a narrativa. O importante, para Marcos, não é o que
realizam, mas é o que deixam de executar, explicitamente, na narrativa. O fato de os
personagens deixarem em suspense algumas ações possibilita a seguinte pergunta ao leitor: o
que se dá a entender com o não-dito? O importante são as lacunas e perguntas suspensas no ar
da narrativa. Tais lacunas e perguntas devem ser preenchidas e respondidas pelo leitor, o
hermeneuta da narrativa.

Por fim, pode-se afirmar que o narrador chama ao palco, no desenlace de sua trama, os
personagens que formam o projeto narrativo (Mc 15,40-16,8). Tais personagens se
entrecruzam e trazem à tona problemáticas e questões que o narrador quer elucidar. O
92

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
personagem, como criação do narrador, contribui na formação da intriga, na construção da
rede de comunicações e valores que a obra quer apresentar. A identidade do personagem
configura e viabiliza os matizes da trama, a variedade de personagens forma o colorido da
colcha de retalhos chamada narratividade.

3.3.4 Focalização do narrador


Na seqüência da intriga, o narrador focaliza as cenas de diversas maneiras,
determinando o modo como o leitor deverá posicionar-se em relação aos personagens e aos
fatos narrados90. O leitor é responsável por construir na idéia a cena narrada em função do
foco indicado pelo narrador. Perguntamos como os fatos e os personagens entram na mira do
narrador.

O leitor necessita de sensibilidade para se deixar guiar neste processo. Deve captar
com exatidão o que o narrador quis expressar. Se o leitor não for capaz de adentrar nos
meandros da narrativa, a leitura será parcial e o leitor será incapaz de encontrar o foco
principal da narração. A narrativa se constrói a partir da focalização do narrador, tal como um
fotógrafo que procura a luz ideal e o ângulo perfeito, para a fotografia de qualidade. O
narrador, com sua arte inventiva, descreve os fatos e os personagens criando a obra de arte, a
trama, a intriga perfeita. No entanto, o olhar a visão crítica do leitor é que determinará a
profundidade ou a superficialidade da narrativa. Um leitor apático não será capaz de encontrar
beleza na focalização do narrador, a leitura será enfadonha e o resultado será desastroso.

A narração da perícope de Mc 15,40-16,8 demonstra uma focalização externa,


correspondendo ao que o leitor “vê” na narração. Marcos descreve certos detalhes, que podem
ser projetados no horizonte do leitor. A narração mostra alguns closes. Marcos
simbolicamente parece estar na parte externa tal como um espectador. A questão
imprescindível, para a focalização é: o que se pode observar na narrativa?91

O exórdio da trama, Mc 15,40-41, equivale à primeira focalização do narrador. A cena


é inaugurada com a presença de algumas mulheres no Calvário. Era tarde de um dia. As
mulheres observam de longe. Segundo o narrador, aquelas mulheres seguiam e serviam Jesus
desde a Galiléia (v.41).

90
Cf. VITÓRIO, p. 96.
91
MARGUERAT, p. 6.
93

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Nos versículos seguintes, a focalização de Mc 15,42-43 se desloca para um novo
tempo e um novo espaço. O tempo é outro: véspera de sábado. Os personagens incluídos, José
de Arimatéia e Pilatos, indicam um lugar diferente. Já não mais o Calvário, mas o palácio de
Pilatos, lugar aonde se dirige José de Arimatéia para reivindicar o cadáver de Jesus. José de
Arimatéia está no close da lente de Marcos. Este o descreve como conselheiro respeitável,
uma autoridade que cria no Reino de Deus e o esperava. Não se trata de um homem qualquer,
se trata antes de um homem corajoso que vai à casa de Pilatos; um homem que não precisa
marcar horários na agenda. Ele tem acesso direto, pois está em pé de igualdade. A focalização
do v. 43 permite ao leitor captar a profundidade da cena, como se lá estivesse presente. Outro
close pode ser percebido em 15,44: o da indiferença de Pilatos. Esta fotografia tirada por
Marcos exprime o sentimento de surpresa (“admirou-se”) de Pilatos em relação à morte de
Jesus. Tal surpresa leva Pilatos a perguntar ao centurião se Jesus havia de fato morrido. Este
close-up faz o leitor indagar o sentido da admiração de Pilatos. Será que ele se surpreendeu
com a morte rápida de Jesus ou com o fato de José estar pedindo algo tão insignificante como
um cadáver? Esta focalização quase interna possibilita ao leitor captar elementos da
interioridade do personagem. Evidentemente não se sabe o que Marcos desejava transmitir
com a expressão “admirou-se”, quando se referiu a Pilatos.

O narrador de Marcos possibilita outra focalização em 16,3. O close flagra as


mulheres que se questionam: “Quem removerá para nós a pedra do sepulcro?”. Isto permite ao
leitor perceber que o desejo de elas embalsamarem o corpo de Jesus esbarra na grandeza da
pedra que envolve o sepulcro. O medo está referido à impossibilidade de realizarem a missão
de que foram incumbidas na narrativa. A focalização de Marcos se concentra nos sentimentos
que envolvem as mulheres. No entanto, a pedra do sepulcro já havia sido removida. Mas o
espanto maior se dá em 16,5, no momento em que se deparam com o jovem vestido de uma
túnica branca. O narrador oferece ao leitor a ambivalência de sentidos: o medo é fruto do
encontro com aquele misterioso jovem na escura madrugada ou é expressão da decepção por
não encontrar mais o corpo naquele lugar?

Uma última focalização observada em 16,8, com um final abrupto, diz respeito ao
temor e ao assombro que faz com que as mulheres fujam do sepulcro. O leitor pode perceber
que a realidade do medo está ligada à missão que tais mulheres são designadas a vivenciar. O
jovem ordena que vão dizer aos discípulos que Jesus não está morto, mas que os precede à
Galiléia, onde o verão. O último close-up do narrador focaliza o sentimento de temor ou

94

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
medo92 que explica o silêncio, pelo menos momentâneo das mulheres. O leitor é chamado a
observar que a focalização de Marcos não pretende depreciar a atitude das mulheres, mas
introduzir a temática da responsabilidade de anunciar, que é agora confiada aos leitores da
Boa Nova de Marcos. Portanto, o leitor é chamado a recontar um fim à narrativa, a construir
seu desfecho.

O fato de as mulheres não dizerem nada a ninguém corresponde a uma reação à


revelação epifânica do relato (cf. Dn 7,28) e não, propriamente, a uma desvalorização do
discipulado das mulheres. Na narrativa marcana, as mulheres assumem a função de
discípulas-mensageiras da ressurreição de Jesus. O fim enigmático, que situa o medo, seguido
da fuga das mulheres, sublinha, por outro lado, o mistério do anúncio da ressurreição a que
são incumbidas a realizar na comunidade dos discípulos de Jesus93.

3.3.5 A temporalidade
A narrativa é constituída em sua textura pelos conceitos de tempo e espaço, que
permitem o desenrolar da intriga. Sem as dimensões de espaço e tempo não existe
possibilidade de se tecer a narrativa. Os personagens vivem em um tempo e estão inseridos
em um espaço. “Fora do tempo não existe ação humana”94. Aqui peguntamos: que indicações
são oferecidas para situar a narração no tempo?

Há, na narrativa, duas formas de temporalidade: a) o tempo da história narrada; b) o


tempo da narração. A primeira forma, da história narrada, trata das unidades de tempo:
minutos, horas, dias, anos. O narrador oferece no desenrolar da intriga indicações
cronológicas para situar os personagens no tempo95. Sem o tempo a história narrada se torna
abstrata e emblemática. A segunda forma de temporalidade, ou seja, a da narração,
corresponde ao tempo utilizado para descrever as cenas. Este tempo é evocado pela
quantidade de frases, páginas e expressões utilizadas para narrar96.

O narrador do Segundo Evangelho situa sua narrativa na temporalidade e no espaço. O


narrador “mostra predileção pelos ‘dias’, enuncia os dados cronológicos em dias, mais que em

92
O temor e o assombro assinalam a reação dos destinatários da epifania e da mensagem do mysterium
tremendum da revelação divina. As mulheres que foram embalsamar Jesus crucificado estão agora frente ao
anúncio da ressurreição e são responsáveis que este anúncio aconteça. Cf. PESCH, p. 780.
93
Cf. PESCH, p. 780.
94
VITÓRIO, p. 97.
95
“Quando o narrador diz: ‘passaram três anos’, está assinalando um período suscetível de ser medido com a
ajuda de um calendário. Este é o tempo da história narrada”. Cf. MARGUERAT, D.; BORQUIN, Y., p. 141.
96
Cf. VITÓRIO, p. 98.
95

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
semanas, meses ou anos. Mc 1,13 afirma que Jesus ‘permaneceu no deserto quarenta dias’;
Mc 2,1: ‘alguns dias depois’”97. Este procedimento marca todo relato da Paixão. Na perícope
de Mc 15,40-16,8 é possível observar que o narrador pensa a temporalidade a partir da tarde
do primeiro dia, da noite e um novo dia, o sábado, e ainda a madrugada do primeiro dia da
semana.

No exórdio da intriga (15,40), Marcos não menciona a dimensão temporal. Mas a


dimensão espacial está clara: se trata do Gólgota. Para saber sobre a temporalidade, faz-se
necessário remeter a 15,35, onde se menciona que são três horas da tarde. A narrativa segue
até o v. 42, que inaugura um novo tempo: “o cair da tarde”, a véspera do sábado. Em Mc 16,1
o narrador introduz um novo tempo: “transcorrido o sábado”. Mc 16,2 afirma que bem cedo,
no primeiro dia da semana, as mulheres se dirigem ao sepulcro.

No que se refere à temporalidade da narração, concernente ao tempo empregado para


descrever as cenas, pode-se dizer que o narrador é preciso e conciso. Ele descreve as cenas
com rapidez, de forma que, o leitor, ao se deparar com o texto, percebe a capacidade de
síntese narrativa.

Contudo, a narração da perícope abre um leque de possibilidades. Primeiro, identifica


alguns personagens da intriga e evoca sua atuação: as mulheres que seguiram e o serviram e
agora estavam observando o acontecido. José de Arimatéia, descrito como alguém corajoso e
o jovem que protagoniza juntamente com as mulheres o querigma da ressurreição. Como
segunda possibilidade, registra a ordem cronológica: três dias, do dia da morte de Jesus até à
madrugada do primeiro dia da semana. O narrador não volta ao passado na trama, nem projeta
algo para o futuro, haja vista, a hermenêutica que o leitor deverá fazer. Em terceiro lugar,
observa-se que Marcos espraia sua narrativa moderadamente, não sendo nem conciso demais,
nem prolixo ao extremo.

Destarte faz-se oportuno afirmar que a compreensão dos últimos acontecimentos com
Jesus, relativos à morte e à ressurreição, apresentados pela narrativa marcana serviram de base
teológico-narrativa para a compreensão dos outros evangelistas em suas obras narrativas. Não
se trata apenas da dimensão cronológica elaborada por Marcos, mas da teologia que está por
trás das cenas no Calvário e no sepulcro vazio. Esta narrativa inaugurada por Marcos
favoreceu o imaginário literário-narrativo dos outros escritores.

97
MARGUERAT, D.; BORQUIN, Y. p. 130.
96

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
3.3.6 O contexto
Em que pano de fundo a narração é projetada? A narração insere-se em contextos
preparados pelo narrador, a serem detectados pelo leitor. Correspondem às circunstâncias de
tempo, lugar e ambiente social, onde a intriga se desenrola” 98. A ação dos personagens, no
interno da história narrada, se desenvolve dentro de um marco determinado: em um tempo,
um lugar e um entorno social concreto99. O pano de fundo ou contexto pode ter valor de fato
ou valor metafórico. O primeiro contexto é identificado por um dado objetivo: onde acontece
a ação, quando e qual a condição social dos personagens envolvidos na intriga. O segundo
contexto, o metafórico, se dá para além das dimensões espaço-temporal e social.

O narrador pode se ater mais à dimensão espacial e deixar de lado a temporal e vice-
versa. Os contextos cronológicos e geográficos são de fácil identificação na narrativa, no
entanto, o contexto social exige mais esforço para ser analisado e entendido.

O narrador de Marcos construiu o contexto da perícope em termos de tempo, com os


seguintes elementos: “ao cair da tarde” (15,42), “transcorrido o sábado” (16,1) e “muito cedo,
no primeiro dia da semana” (16,2).

Em termos de espaço temos o Calvário (15,40), “junto de Pilatos” (15,43), “num


sepulcro” (15,46) e “entrando no sepulcro” (16,5).

Quanto ao contexto social, o narrador tece-o a partir de dois eixos:

A) O eixo feminino: A presença das mulheres é uma forma de compreender a intriga.


Há na trama também personagens homens. Alguns parecem protagonizar a intriga, observe-se
José de Arimatéia e o jovem. Mas a narrativa é protagonizada predominantemente pelas
mulheres. Elas fornecem subsídios suficientes para a narrativa se desenvolver. No exórdio da
intriga (15, 40), Marcos as insere como observadoras da crucificação de Jesus. Ali faz um
adendo para explicar quem eram tais mulheres. Elas, certamente não eram espectadoras
curiosas, mas seguidoras e servidoras de Jesus. Elas o seguem e o servem há um bom tempo,
desde o começo de seu ministério na Galiléia (15,41). São elas: Maria Madalena, Maria, mãe
de Tiago Menor e de Joses, e Salomé. Elas são nomeadas, têm identidade, dando a entender
que são conhecidas na comunidade marcana e que, possivelmente, exercem alguma influência
sobre o narrador.

98
VITÓRIO, p. 100.
99
Cf. MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y., p. 127.
97

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
O narrador se refere, na intriga, três vezes às mulheres. Elas não estão apenas
presentes na cena da morte, mas são também espectadoras dos acontecimentos no sepulcro.
As mulheres observam (15,47) o lugar onde o corpo de Jesus foi depositado. E, por fim, no
limiar do sábado vão comprar os ungüentos para embalsamar o corpo de Jesus. Ali novamente
são nomeadas na intriga: Maria Madalena, Maria, a mãe de Tiago e Salomé.

Marcos insiste em referir-se às mulheres100. Elas estão associadas na narrativa ora a


uma região, como no caso de Maria de Mágdala, ora a alguém, como no caso da outra Maria,
mãe de Tiago, associada ao discípulo (Tiago) e a Joses, o outro filho (cf. em 15,40 ela é
associada a Tiago e Joses, em 15,47 somente a Joses e em 16,1 somente a Tiago Menor). A
insistência em associar triplamente estas mulheres ou, à terra ou a alguém especificamente,
indica a importância destas associações. Este recurso é muito usado nas narrativas bíblicas.
Por exemplo, no livro de Rute o narrador a cognomina “a moabita”, subentendendo o sentido
étnico-religioso: para dizer que ela era estrangeira e pagã.101 Também José de Arimatéia
(15,43) pode ser entendido como um homem originário de Arimatéia, cidade de Judá a
nordeste de Lida (Lod)102. Neste sentido, quando o narrador se refere à Maria (a) Madalena
ele quer dizer que esta mulher é originária de Mágdala ou Magdan (cf. Mt 15,39)103.

O autor da narração re-inaugura em 16,1-8 o protagonismo das mulheres. Elas se


dirigem ao túmulo de Jesus na intenção de embalsamá-lo. Uma iniciativa que, além de
sinalizar o eixo da diakonia, do “serviço”, quer indicar a responsabilidade de manter viva a
chama do enamoramento por Jesus. Tais mulheres receberam o chamado e atenderam; cada
uma a seu modo põe-se a seguir e a servir. A experiência de retorno ao sepulcro é necessária e
avassaladora. É preciso, por parte das mulheres, re-fazer o itinerário da memória. Ao refazer o
caminho até o sepulcro é possível manter vivo o sublime dom de amar.

O narrador não afirma que aquelas mulheres executaram no sepulcro a missão que
desejavam, porém apresenta o belo diálogo das mesmas com o jovem que lá estava (16,5). O
diálogo é fruto da liberdade criativa do narrador. Os personagens estão em cena, ora se
completam ora se antepõem. A intriga retrata o contexto de medo. As mulheres revelam o

100
As referências às mulheres de 15,40s. 47 e 16,1, refletem o desejo de relacionar a morte, o sepultamento e a
ressurreição de Jesus com os testemunhos acreditados. Cf. TAYLOR, p. 776.
101
Cf. VITÓRIO, p. 101.
102
Cf. BÍBLIA Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola, 1994 (nota referente a Mt 27,57).
103
Lucas, ao referir-se Maria Madalena, afirma que ela havia sido curada por Jesus, que a libertou de sete
demônios. Mágdala ou el-Mejdel era uma cidade situada a oeste do lago. Cf. GNILKA, p. 724.

98

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
primeiro medo: “quem removerá a pedra da entrada” (16,3). Num segundo momento, elas se
apavoram quando se deparam com o misterioso personagem, o jovem (16,4). Num terceiro
momento, o espanto e admiração as fazem fugir (16,8) e nada contar a ninguém.

O jovem aparece na intriga como coadjuvante, mas ele rouba a cena. O querigma que
sai de sua boca produz assombro nas mulheres (16,7). Anuncia que Jesus, aquele que elas
procuram, não está mais lá. Ressuscitou! (16,6). Contudo, o protagonismo de transmitir
aquele anúncio é dado a elas: “ide dizer” (16,7).

B) O eixo do serviço: Este eixo perpassa toda intriga. Em primeiro lugar a expressão
diakonia se encontra explícita em 15,41, no qual o narrador afirma que as mulheres seguiam e
serviam Jesus quando ele estava na Galiléia. Não há dúvidas de que o narrador apresenta
aquelas mulheres como discípulas que seguem e servem o mestre. Não há, contudo,
necessidade de se esclarecer o sentido desta diakonia.

Pode-se, no entanto, investigar o motivo de aquelas mulheres estarem naquele


cenário? Elas subiram com Jesus para Jerusalém para fazer o quê? Segundo a tradição, em
Jerusalém havia algumas mulheres que serviam os condenados no caminho até o Calvário.
Elas eram responsáveis pela limpeza do cenário de morte. Mas as mulheres que seguem Jesus
não eram da capital Jerusalém, mas da Galiléia. O que elas faziam lá? Certamente estavam lá
no intuito de servir, assim como o fizeram na Galiléia durante a vida ministerial de Jesus.

O narrador, ao aproximar o zoom de sua câmera, focaliza outro personagem que se


destaca no serviço a Jesus. Trata-se de José de Arimatéia. Ele presta um serviço póstumo,
concedendo a Jesus a dignidade de ser sepultado em um jazigo novo (15,43). Dispõe para o
morto um sepulcro. Oferece ao Filho do Homem o direito de ser sepultado como os outros
homens, compra-lhe lençóis mortuários; desce o corpo da cruz, envolve-o com o lençol e o
coloca no sepulcro que estava cavado na rocha (15,46).

Na mira do narrador estão novamente as mulheres que se dirigem ao sepulcro a fim de


embalsamar o corpo de Jesus (16,1). Este era um ofício das mulheres judias. Em Mc 14,3-9,
Jesus é ungido em Betânia por uma mulher, na casa de Simão o leproso. Esta narrativa pode
ser entendida como a unção de Jesus para a morte. Em Jo 12,7 Jesus diz que Maria, irmã de
Marta e Lázaro, unge Jesus em vista de seu sepultamento. Esta prática, portanto, parecer ser
comum por parte das mulheres.

Na focalização, o narrador afirma que as mulheres foram ao sepulcro, levando os


aromas para embalsamar o morto. Este serviço póstumo parece estranho, haja vista que na
99

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Palestina, assim como no Egito, as especiarias e perfumes eram usados no momento da
preparação dos cadáveres antes da sepultura104. Vale observar que em Mc 16,1 e Lc 23,56;
24,1, as mulheres voltam ao túmulo para completar o sepultamento de Jesus com a unção.

O eixo narrativo do serviço perpassa a última parte da intriga, no diálogo entre as


mulheres e o jovem que as anuncia a ressurreição de Jesus. Ele é um mensageiro e tem como
missão anunciar que Jesus não está mais preso à morte sepulcral, mas que está vivo na
comunidade reunida na Galiléia. O jovem mensageiro incumbe as mulheres de viverem a
diakonia do anúncio. Elas, por sua vez, estarrecidas, fogem e não falam nada a ninguém105.

Agora, dois outros eixos podem ser observados: o teológico e o epifânico:

A) No eixo teológico destacam-se os temas do Reino de Deus e da Ressurreição. O


narrador afirma (em 15,43) que José de Arimatéia aguardava o Reino de Deus. A categoria
Reino de Deus pode ser considerada um eixo teológico explícito. Esta categoria é associada
ao nome de um personagem da alta estirpe judaica José de Arimatéia, membro do Sinédrio,
que está preocupado com o corpo de Jesus. Ele acreditava na pregação de Jesus106. Em Mt
27,58, afirma-se que “ele também se tornara discípulo de Jesus”. De qualquer forma, é
possível entender que José de Arimatéia tenha ouvido os ensinamentos de Jesus. Para Lc
23,50-51, José, membro do conselho, não concordava nem com o projeto dos conselheiros do
Sinédrio, nem com seus atos. De toda sorte pode-se considerar este homem um seguidor
diferente de Jesus um discípulo anônimo, que ao mesmo tempo ocupava um status elevado
junto aos poderosos de Jerusalém.

B) O eixo epifânico pode ser identificado em 16,5, no qual as mulheres, ao entrarem


no sepulcro e verem um jovem vestido de branco sentado à direita, se espantam. Tal
personagem evoca as figuras angélicas do AT (cf. 2Mac 3,26.33 e Tb 5,5-9). Este
personagem, agora na cena da ressurreição, “manifesta-se como símbolo do discípulo
modelo”107 portador da revelação108. O personagem do sepulcro pode evocar aquele outro do

104
FRAINE, J. Unção. In: BORN, A. van den. (red.) Dicionário enciclopédico da bíblia. Petrópolis: Vozes,
1971. p. 1539-1540.
105
Em Lucas, contrariamente ao relato de Marcos, as mulheres narram aos apóstolos a sua descoberta. Mas eles
não dão crédito às palavras delas (Lc 24,9-12).
106
“Desde o início de seu ministério, Jesus anuncia o Reino de Deus”. Cf. SESBOÜE, B. Pedagogia do Cristo:
elementos de cristologia fundamental. São Paulo: Paulinas, 1997. p. 25; o Reino de Deus é ao mesmo tempo “a
autoridade de Deus, a manifestação de sua glória, o ser-Deus de Deus”. KASPER, W. Jésus, le Christ. Paris:
Cerf, 1976, p. 112. “É impossível, portanto, separar Jesus de Nazaré sua pessoa e sua ‘atividade’, ele é sua
atividade em pessoa”, escreve Kasper. Por isso, o Reino de Deus é o tema central da pregação de Jesus. Trata-se
de uma iniciativa de Deus com o estabelecimento de seu Senhorio. Cf. AZEVEDO, p. 49.
107
FOCANT, p. 596.
100

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
relato de Mc 14,51-52, no qual se diz que um jovem o seguia, tendo sobre o corpo apenas um
lençol e ao ser preso, fugiu nu. Esta manifestação, junto ao sepulcro não deve ser entendida
apenas como a de um anjo, enviado unicamente às mulheres para lhes transmitir a mensagem
da ressurreição, mas pode ser entendida que a novidade da ressurreição deve ser comunicada
por todos os batizados109.

Somando os dois anteriores, outro eixo teológico-epifânico remete à Galiléia. Trata-se


de 16,7, no qual se refere à aparição do Ressuscitado na Galiléia “Lá o vereis como ele vos
disse”. A referência à Galiléia se explica adequadamente pela opinião, comumente aceita, de
que Mc e Mt (diferentes de Lc 24 e Jo 20) só conhecem as aparições na Galiléia; por outro
lado, a preeminência da Galiléia em Marcos é o único ponto de apoio da afirmação de que a
Galiléia é a terra da plenitude escatológica110.

A intriga se conclui com outro termo teológico bastante importante para o NT, a
ressurreição. O jovem vestido de branco anuncia às mulheres que Jesus ressuscitou e que não
está presente no sepulcro, que agora permanece vazio. Concomitantemente, o relato apresenta
outro recurso teológico, não mais importante e muito discutido hoje, para falar da
ressurreição: o sepulcro vazio111. Este recurso muitas vezes foi utilizado como uma possível
prova da ressurreição de Jesus.

3.3.7 O ponto de vista


Perguntamos, enfim, quais são os sistemas de valores subjacentes. Todo texto tem
necessidade de um leitor que coopere, quer dizer, de um leitor capaz de atualizá-lo. O talento
de parir um texto exige simetricamente um talento de parteiro, e este é o papel do leitor112. O
texto e o leitor não se entendem separadamente. Não há interpretação sem leitor, nem há leitor
sem texto para interpretar. “Há um narrador que escreve um ‘texto narrativo’ para influenciar
de alguma maneira o leitor-ouvinte”113. É preciso, contudo, que o leitor procure observar o
ponto de vista do narrador, ou seja, os aspectos ideológicos e os valores subjacentes

108
Cf. PESCH, p. 775.
109
Cf. FOCANT, p. 596.
110
Cf. TAYLOR, p. 737.
111
O sepulcro vazio pode ser interpretado como um paralelo ao Templo desvelado (15,38). O Templo é vazio da
presença divina, pois o véu se rasga de alto a baixo 15,38, o sepulcro está vazio da presença do Filho de Deus
que “não está mais aqui” Mc 16,6. Cf. FOCANT, p. 598. Para uma maior compreensão desta temática Cf.
DUQUOC, Ch. Cristologia: Ensaio dogmático II. O Messias. São Paulo: Loyola, 1980. p. 78-83.
112
MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y., p. 201.
113
EGGER, p. 118.
101

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
empregados na narrativa. O ponto de vista – os valores projetados pelo narrador na construção
do texto – pode ser percebido a partir dos comentários explícitos ou implícitos na narrativa114.

No caso exemplar de Mc 15,40-16,8, o narrador parece descrever o necessário. Não há


exagero, nem escassez narrativa. O autor trabalha a intriga de forma explícita. Parece não
guardar segredos, nem demonstrar opacidade. Pelo contrário, demonstra simplicidade ao
narrar as ações e os agentes, seus personagens. Marcos evoca as seguintes cenas: as mulheres
aos pés da cruz de Jesus, o diálogo de Pilatos e José de Arimatéia, as mulheres que vão ao
sepulcro para embalsamar o corpo de Jesus e, por fim, o diálogo das mulheres com o jovem.
Certamente, ao focalizar as cenas sucessivas Marcos quer garantir a elaboração dos fatos que
compõem a intriga, fruto de sua experiência de narrador. Ele não está preocupado com a
historicidade, mas com aquilo que o leitor decifrará na leitura hermenêutica da narrativa.

Na primeira cena da intriga, na qual as mulheres ao se dirigem ao local da cena da


morte de Jesus, observam de longe (15,40), o leitor pode decifrar o ponto de vista do narrador:
o serviço e o seguimento, ou seja, a diakonia aos necessitados e o seguimento do mestre até o
momento derradeiro. É fundamental, para as mulheres, estarem com ele (15,41). O
seguimento é levado às últimas conseqüências. Viver a akolouthia é acompanhar o mestre
aonde ele for. O narrador ao inserir tais mulheres no cenário da morte quer levar o leitor a
compreender o verdadeiro sentido do discipulado: tomar a cruz e seguir.

O narrador envolve na trama um outro personagem. Trata-se de José de Arimatéia, que


elucida com sua atitude no interior da intriga o ponto de vista da perfeita diakonia. José,
homem nobre e de status, é capaz de colocar-se ao serviço de Jesus (15,43). Ele, com sua
influência, consegue a permissão de sepultar o homem assassinado na cruz (15,46). O homem
de Arimatéia parece justificar sua diakonia com a profunda experiência do discipulado. Um
discipulado provavelmente não vivenciado de forma explícita, haja vista que ele ocupava um
cargo de destaque no Conselho do Sinédrio. Se aquele homem se colocasse no caminho de
Jesus teria se tornado motivo de escândalo para muitos. Ninguém compreenderia o porquê de
um notável homem da religião judaica estar no seguimento de Jesus, simples homem da
Galiléia dos pagãos.

114
A primeira forma de comentários, a explícita, se trata daquela que há intervenção do narrador, seja com um
comentário da história contada (interpretação, explicação ou juízo), seja com uma comunicação direta ao leitor.
A segunda forma de comentários, implícita, se trata daquele efeito de sentido imputável ao narrador, não
explícito. É perceptível apenas no manejo da trama ou na descrição da ação os personagens. Cf. MARGUERAT,
D.; BOURQUIN, Y., p. 174-195.
102

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Em contrapartida, a focalização do narrador surpreendentemente explicita a
indiferença de Pilatos. Ele é observado pelo narrador como um personagem irônico. Uma
ironia própria de quem exerce o poder (15,44-45). A ação realizada por ele (de conceder o
corpo) se revela condicionada pelo testemunho do centurião, que afirma que Jesus de fato já
estava morto (15,45). A análise narrativa preocupa-se em investigar na intriga as ações e os
agentes. Os agentes são José de Arimatéia e Pilatos, as ações são: da parte de José, pedir a
Pilatos o corpo de Jesus para ser sepultado e, da parte de Pilatos, conceder o corpo a José para
o sepultamento.

Aqui estão os pontos nodais, ou seja, pontos fundamentais que alicerçam o eixo
semântico da diakonia. A intriga de Mc 15,40-16,8 é um modelo claro de narrativa, pois
identificam-se nela vetores ação-agente, o genérico de comunicação-interação115. É comum
nas narrativas perceber a relação entre as pessoas, não há narrativa sem conflitos nem agentes
para o mesmo.

Em 16,1, o narrador retoma a temática do serviço, que agora será presidido pelas
mulheres. O eixo semântico diakonia está fundamentado pelo eixo akolouthia. As mulheres se
colocam a serviço, pois fizeram a priori a experiência do seguimento. Maria Madalena e
Maria, de Tiago e Salomé se dirigem ao sepulcro para o embalsamamento do corpo de Jesus
(16,2). O serviço não chega a ser concretizado, pois o corpo não está no sepulcro. A ação não
chega a ser executada, mas as agentes estão inseridas na cena. A intenção era pertinente, mas
não chega à execução.

Em contrapartida, um outro agente-personagem executa a função diaconal. O jovem


de veste branca anuncia às mulheres que Jesus ressuscitou. Seu anúncio, ao tocar os ouvidos
das discípulas as deixa espantadas. É preciso que elas vejam, fitem o olhar na direção do
sepulcro e sejam capazes de compreender que, aquele que morreu e lá foi sepultado, agora
vive. O jovem junto ao sepulcro tem, como todo batizado, “participação simbólica na morte e
ressurreição de Jesus”116. Ele agora se converte em diácono que anuncia que o morto já não
jaz no sepulcro, mas que está vivo e glorioso na comunidade.

Nota-se, em 16,7, que a missão querigmática das mulheres é uma práxis


imprescindível para a comunidade dos discípulos. A tensão narrativa da intriga se volta
novamente para as agentes (mulheres) que têm agora a missão de anunciar (como

115
EGGER, p. 124.
116
FOCANT, p. 596.
103

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
mensageiras) que Jesus precede Pedro e os discípulos na Galiléia. Objetivamente o jovem-
diácono não encarrega às mulheres o anúncio do Ressuscitado, mas as incumbe de dizer que
Jesus, aquele que estava morto no sepulcro, agora precede (vai à frente) a comunidade dos
discípulos à Galiléia117.

O narrador busca o desenlace da trama com o imperativo “ide dizer”. A missão das
mulheres é anunciar, narrar aos discípulos e a Pedro, que Jesus os precede à Galiléia e que lá
serão capazes de vê-lo (16,7). A trama inconclusa, por sua vez, tem seu desfecho com a frase
enigmática: “e nada disseram a ninguém, pois temiam”. Neste ponto da intriga é possível
notar que o narrador mantém aquele modelo ação-agente. O agente jovem transmite a missão
(ação) de anunciar às mulheres (agentes). A ação não é executada, mas as agentes estão bem
evidenciadas na cena. A trama ganha outra tensão narrativa na relação ação-agente. As
agentes, ao não executarem a ação, concedem à narrativa outras vias e possibilidades de
interpretação.

Terminar uma narrativa com uma resposta em branco 118 (16,8) é particularmente um
recurso literário bastante estimulante. A singularidade da conclusão de Marcos, afirma Pesch,
“estimula a interpretação e não à reconstrução conjetural de suposições” 119. Significa que o
leitor é provocado a dizer, coerentemente, o não-dito. Marcos, não supõe uma resposta final
para a intriga (Mc 15,40-16,8), mas deixa a possibilidade de um final ao leitor em sua
liberdade interpretativa. O silêncio marcano indica o convite ao leitor a terminar a narrativa,
buscando um desfecho que esteja em consonância com os últimos relatos narrados por
Marcos120.

A análise narrativa, portanto, possibilita ao leitor o acesso às chaves da interpretação, a


fim de entrar em sintonia com o texto. Evidentemente é mister abrir a Escritura e perscrutá-la,
não deixando morrer os inúmeros sentidos que ela possibilita ao leitor-ouvinte.

117
Cf. PESCH, p. 779.
118
Pesch observa que do ponto de vista estilístico não é impossível, que em grego, uma frase ou um relato ou
mesmo um tratado ou livro terminarem com a expressão ga,ρ, o 32º tratado de Plotino também tem seu desfecho
com as expressões τελειότερον ga,r. Cf. PESCH, p. 99.
119
PESCH, p. 100,
120
Cf. FOCANT, p. 599.

104

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
3.4 Como confluem os eixos akolouthein e diakonein na narrativa
de Mc 15,40-16,8?
Os termos axiais akolouthein e diakonein perpassam, tal como os fios de um tecido, a
intriga narrativa de Mc 15,40-16,8. Estes eixos equivalem a fios condutores do relato
narrativo. Sem estes fios não existiria a denominada trama, o relato como pode ser observado.

A confluência dos eixos na narrativa é uma sutileza artística do narrador. A arte de


confluir os eixos narrativos pode ser comparada àquela de tramar os fios na confecção do
tecido. Os fios axiais perpassam o emaranhado dos fios subjacentes e juntos formam a
moldura do tecido. Para a criação de um tecido, há a necessidade dos fios principais que ligam
e sustentam as tramas dos fios secundários. Os fios axiais são mais resistentes e servem de
fundamentação para a trama, eles ajudam a suportar a pressão exercida pelos fios secundários
que os perpassam. Estes são, de modo geral, mais finos e delicados e não suportam a mesma
tensão que os fios axiais. Mesmo presentes com maior freqüência, na elaboração das tramas,
não são considerados axiais. Em contrapartida, os axiais, em menor freqüência na confecção
trama, são considerados fundamentais, pois comportam a tensão maior dos entrelaçamentos.

A metáfora da confecção de um tecido e da intriga narrativa de Mc 15,40-16,8, nos


permite observar que os fios axiais, akolouthein e diakonein, perpassam a moldura do texto.
Estes fios sustentam a narrativa e exercem uma dinâmica sobre a textura. Os fios secundários
são todos os demais que perpassam o emaranhado dos fios principais. Os fios subjacentes
adquirem sentido a partir dos fios fundamentais do tecido narrativo. Os personagens-agentes e
as ações elaboradas na obra final de Marcos se fazem visíveis a partir dos eixos expostos no
início da trama. Ao mencionar as ações (akolouthia e diakonia) das mulheres em 15,40,
Marcos projeta nos demais agentes (da perícope) as perspectivas do seguimento e do serviço.
Há que se lembrar que os agentes estão a serviço do projeto narrativo daquele que escreve.
Portanto, é notório que Marcos veja os agentes da trama a partir das lentes akolouthein e
diakonein.

Para entender o projeto narrativo de Marcos, vale lembrar que a trama tem seu início
com o testemunho das mulheres junto à cruz de Jesus. Elas, diante da cruz exercem o serviço
do testemunho. A trama corrobora a questão do serviço com a introdução explícita dos eixos
semânticos fundamentais, akolouthein e diakonein, que ser referem àquelas que observavam
de longe o que acontece com Jesus de Nazaré. Elas o seguiam e o serviam quando ele estava
na Galiléia (15,41) e, agora em Jerusalém, se deparam com trágica morte do mestre.

105

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
Os demais agentes entram na trama que encena o sepultamento de Jesus com o
propósito do serviço, que é fruto do seguimento. A este propósito José de Arimatéia se coloca
quando, diante de Pilatos, pede o corpo de Jesus. O serviço prestado por José, de caráter
cultual pode ter sido também expressão de um discipulado às escondidas. O último agente a
entrar em cena, o jovem no sepulcro vazio, projeta a diakonia do querigma para as mulheres
testemunhas. O jovem que aparentemente exerce o ministério querigmático, anunciando que
Jesus não está mais no interior do sepulcro, mas que vai à frente da comunidade dos
discípulos à Galiléia. O querigma deve ser continuado pelas mulheres testemunhas. O serviço
e o seguimento tornam-se, portanto, eixos que fundamentam a trama elaborada por Marcos.

É possível, portanto, perceber que os termos axiais akolouthia e diakonia são


indispensáveis para a compreensão da intriga de Mc 15,40-16,8. O serviço prestado pelas
mulheres-discípulas na comunidade marcana transforma-se em paradigma tanto para a
elaboração dos demais agentes que formam a trama narrativa, bem como para os leitores-
hermeneutas das comunidades cristãs de todos os tempos. O testemunho das mulheres adquire
sentido não apenas no ato de anunciarem que Jesus caminha à frente dos seus, mas no fato
ímpar narrado por Marcos, que diz que elas observavam de longe o que acontecia com Jesus,
pois eram suas discípulas e servidoras, desde à Galiléia.

Portanto, a confluência dos eixos semânticos akolouthia e diakonia, na narrativa,


permite ao leitor-intérprete da Palavra, deduzir que ele também é convidado à prática do
discipulado e do serviço. Ao atualizar o seguimento e o serviço proposto pela narrativa, o
leitor converte-se em personagem-agente e possibilita que a Palavra de Deus atinja o seu
verdadeiro significado de Boa Nova.

3.5 Considerações sobre a pragmática e a hermenêutica


Embora não podendo aqui aprofundar este assunto, consideramos brevemente os
aspectos pragmáticos referentes aos temas akolouthia e diakonia, abrindo-os em direção à
hermenêutica.

De modo geral, citamos alguns efeitos importantes constatados na narrativa da


perícope de Mc 15,40-16,8. Em primeiro lugar, ao inserir na trama final algumas mulheres
(15,40-41), o texto sugere que a Boa Notícia não é apenas uma missão para os discípulos
homens, mas para todo o gênero humano. Em segundo lugar, transforma-se a concepção e a
maneira de seguir a Jesus: não ir atrás de um corpo morto, como pensavam as mulheres diante
do sepulcro, mas seguir agora o ressuscitado; ele não “dorme no solo poeirento” (Dn 12,2),
106

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
mas precede os seus na Galiléia, na Comunidade na qual desempenhou seu ministério com os
discípulos. É na Galiléia que Jesus, o Vivente, estará a fim de se encontrar novamente com os
discípulos. Em terceiro lugar, o sepulcro não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida
para o anúncio da ressurreição.

Deixar o sepulcro (mnēmeion) e ir comunicar aos discípulos e a Pedro – “Ele vos


precede à Galiléia. Lá o vereis, como ele vos disse” (v. 7), – significa que o “lugar da
manifestação do Ressuscitado não é o sepulcro, mas a comunidade dos discípulos”121. Tal
acontecimento realiza a profecia de Jesus no caminho do Monte das Oliveiras: “Todos vos
escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão. Mas, depois
que eu ressurgir, preceder-vos-ei na Galiléia” (14,27-28).

O verbo “preceder” (proa,gein, presente também no relato tradicional da subida a


Jerusalém 10,32), quer significa que no caminho para Jerusalém Jesus “precede”, ele vai à
frente dos discípulos e dos peregrinos que o seguem “cheios de assombro”. Em Mc 16,7,
proa,gei indica também que Jesus precede os discípulos à Galiléia, no caminho da
comunidade apostólica.

O Ressuscitado, na companhia do Pai, vive também na comunidade. A relação com ele


não foi fadada pela morte. O tempo do Jesus histórico na Galiléia é tempo paradigmático, que
sinaliza a ação de Jesus que guia e envia os seus discípulos para anunciarem o Evangelho de
Deus (cf. 1,14-15). Jesus, pastor que vai à frente de seu rebanho, é realização da promessa
messiânica.

O Ressuscitado se faz ver na comunidade. “Lá o vereis, como ele vos disse”. Aponta-
se para causa última da experiência pascal dos discípulos: a ação divina. “A narrativa pascal
de Marcos nada diz a respeito do tipo de experiência dos discípulos que dá origem à sua fé na
Ressurreição: visões extáticas? Aparições do Ressuscitado? Iluminação interior? Ele diz, isto
sim, que na base da fé pascal, no seu centro, está a “compreensão”, causada pelo próprio
Senhor ressuscitado, do caminho do crucificado como “caminho de Deus”, como o caminho
do Messias que se revela como “Filho de Deus”122.

Deste modo, poder-se-ia afirmar que o Evangelho de Marcos apresenta uma catequese
narrativa para o dia de hoje. Uma catequese que revela o crescendo divino na vida dos

121
GOPEGUI, J. A. R. Para uma volta à catequese narrativa. Fé pascal e “história de Jesus” em Mc 16,1-8.
Perspectiva Teológica. 16 (1984), p. 314.
122
GOPEGUI, p. 12.
107

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
homens. Jesus, o Filho de Deus, é apresentado por Marcos como Messias a partir da relação
com os homens e mulheres de seu tempo.

Marcos revela um Messias que convida os homens ao discipulado, à pesca, ao


pastoreio, à companhia. Acompanhar Jesus significa, antes de tudo, abrir-se para a realização
do Espírito, configurando a própria existência à de Jesus, desejando, acima de tudo, trilhar o
caminho que leva ao Pai, caminhando na graça, no perdão, e na dinâmica do compromisso
fraterno.

De modo específico, a perícope de Mc 15,40-16,8 revela alguns efeitos importantes,


observáveis pela Wirkungsgeschichte123, que se preocupa com a hermenêutica, a atualização
na história da potencialidade contida no interior do texto. Os efeitos da narrativa contribuem
para a interpretação e atualização do texto na vida do leitor. Os efeitos do texto podem ser
constatados no agir daqueles que lêem o texto. O leitor é impelido a dar uma resposta, seja
positiva ou negativa, frente ao texto. A preocupação está ligada à teleologia, o sentido que o
texto ganhará ao ser lido. O interesse está voltado para o efeito para a ação do texto na vida
dos leitores ou daqueles que escutam sua proclamação.

Observa-se, portanto, que a perícope traz efeitos que servem de indícios concretos e
razoáveis para uma atualização.

Primeiramente, o relato afirma o serviço e o seguimento de Jesus por parte de algumas


mulheres. Elas o serviam e o seguiam quando ele estava na Galiléia. O serviço e o seguimento
não têm barreiras. Homem e mulher podem servir e seguir a Jesus. Para o seguimento não há
restrições. Basta o desejo de seguir, vivendo intensamente o convite feito por Jesus: o
seguimento da cruz.

O gênero feminino, nas comunidades cristãs de todos os tempos, foi chamado por
Jesus ao serviço e ao seguimento no caminho do discipulado. No convite ao discipulado não
pode haver sexismo. Nos tempos hodiernos, constata-se que em igrejas e comunidades
eclesiais de base as mulheres se encontram engajadas, ativas e presentes. Elas servem e
seguem Jesus, colocando-se à disposição para ajudar os irmãos e irmãs na fé. Jesus não põe
balizas para o seu seguimento. O seguimento não é um específico para o masculino, mas um
convite a todos, indistintamente, mulheres e homens. Servir e seguir a Jesus implica em uma

123
A história da interpretação e do efeito produzido orienta a atenção para a riqueza de sentido potencial
escondida nos textos bíblicos. Cf. EGGER, W. Metodologia do Novo Testamento. Introdução aos métodos
lingüísticos e histórico-críticos. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 210.
108

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
abertura irrestrita do coração. Para o chamado de Jesus, não há gênero que se imponha como
melhor ou superior. Na comunidade dos discípulos não deve existir um gênero com primazia,
que possa manipular e determinar as normas do agir dos discípulos. O mestre Jesus não faz
acepção de gênero. Ao contrário, convida a todos para o seguimento e para a profunda
experiência do serviço.

Portanto, faz-se mister resgatar na comunidade cristã de hoje o anúncio genuíno de


Jesus. Um convite que não discrimina o feminino em detrimento do masculino. O anúncio de
Jesus destrói qualquer possibilidade de demonização do feminino. É preciso lembrar que, as
companhias na última viajem de Jesus foram mulheres: “elas os seguiam e o serviam”. Este
“fato excepcional”, a presença das mulheres ao lado de Jesus, só podia aparecer como
revolucionário, insólito, tanto para os romanos como para os judeus patriarcas, e desagradar-
lhes. A atitude de Jesus, espontaneamente aberta e amiga diante das mulheres, desagradava a
muitos, como mostram diversas passagens dos Evangelhos. É o caso, por exemplo, do
espisódio da mulher cananéia, relatado por Marcos (7,24-30), no qual Jesus, no que se refere
à justiça e a salvação, supera os preconceitos contra as mulheres. A superação do preconceito
contra as mulheres pode ser observado também no relato da unção em Betânia (Mc 14,3-11),
no qual Jesus, ao ser ungido pela mulher antes da morte, afirma que ela fez-lhe uma boa obra
(14,6), antecipando a unção do corpo para a sepultura (14,8). Jesus diz ainda que em toda a
parte, onde este relato for narrado, também o que aquela mulher realizou será lembrado. O
serviço prestado pela mulher em Betânia torna-se sinal de oferta ao serviço de Jesus e da
comunidade cristã.

Por fim, a comunidade cristã de hoje é chamada a rever os conceitos que fundamentam
o discipulado e o serviço. A teleologia do texto do Evangelho só será atingida a partir do
momento em que o ouvinte da palavra se comprometer com aquilo que o texto apresenta. A
intenção do efeito do texto é, certamente, abrir a consciência humana para a magnitude do
discipulado de Jesus, não restrito apenas ao gênero masculino, mas destinado a todo ser
humano que se abre à escuta e vivência da Palavra. É mister, portanto, que a comunidade
cristã de hoje abra-se ao influxo da ruah, a fim de compreender que para o discipulado não há
restrições de gênero e, que as mulheres podem evidentemente participar da Igreja não apenas
como testemunhas do Ressuscitado, mas como discípulas que vivem a alegria da
Ressurreição.

Assim, a Igreja, convocada a viver com fidelidade a Palavra do mestre Jesus, deve
sempre se empenhar por viver a coerência e a solicitude para com os diferentes e para com o
109

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
gênero feminino, muitas vezes excluído e rechaçado pela estrutura androcêntrica patriarcal. Se
Jesus, vivendo numa cultura desse tipo, a superou, quanto mais hoje! Faz-se mister e urgente
acolher as diferenças e com elas somar as iniciativas de construir uma Igreja mais humana e
mais santa.

3.6 Conclusão
A análise dos eixos semânticos akolouthein e diakonein nos ajuda a compreender a
relação entre a fé do discípulo ou mathētēs, e a práxis do seguimento e do serviço. A fé é o
motor que impulsiona o discípulo à ação de servir e seguir o mestre. Sem a práxis de vida a fé
do mathētēs de Jesus seria apenas um dado aleatório na experiência do discipulado. A práxis
cristã sem a fé é um mero agir, desorientado e desprovido de sentido. Por outro lado, a fé sem
a práxis é morta.

Percebe-se que os termos axiais akolouthein e diakonein, sutilmente inseridos na trama


narrativa de Mc 15,40-16,8, revelam que as discípulas de Jesus (cf. 15,40; 47; 16,1) agem
conforme acreditam. Portanto, a leitura desta perícope, além de nos permitir compreender a
importância do discipulado e do serviço das mulheres na comunidade cristã primitiva, sob a
luz do Ressuscitado, nos ajuda ainda a perceber que testemunho (querigmático) destas
discípulas está conectado à práxis, ao agir segundo a fé: “lex credendi - lex agendi”...

A leitura da perícope, sob a gestão do método de análise narrativa, possibilita-nos


verificar a dinâmica existente no coração do (a) discípulo (a) que se coloca a caminhar com o
mestre. A perícope marcana (15,40-16,8), meditada à luz da fé Pascal, é bastante significante,
pois abre possibilidades de re-pensar o sentido do discipulado (akolouthein) e do serviço
(diakonein) na comunidade cristã dos tempos de hoje.

É mister observar que a análise narrativa não tem a pretensão de dizer tudo, nem
mesmo dizer a verdade sobre tudo, mas tem como intenção conduzir o leitor à verdade sempre
nova extraída do Evangelho. É preciso, antes de tudo, que o leitor abra-se a força do Espírito,
a fim de perscrutar os sentidos que ela apresenta como Boa Notícia.

110

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
CONCLUSÃO GERAL
Valeu a pena? Tudo vale a pena,
Se a alma não é pequena.
(Fernando Pessoa).
Após o caminho percorrido, nota-se que o seguimento e o serviço revelam-se forças
motrizes que impulsionam a vida e a evangelização da Igreja. O seguimento e o serviço
coexistem como expressões do testemunho, como características essenciais daqueles que
ouvem a voz do mestre Jesus e se dispõem a segui-lo. O seguimento pressupõe o serviço e
este se evidencia no seguimento. Na esteira do caminho do mestre, o discípulo é chamado a
servir aos irmãos como o mestre Jesus. Ele é o paradigma do servo para toda a Igreja e para os
cristãos. Jesus está a serviço do projeto salvífico do Pai. Ele o realiza tomando sua cruz e se
dirigindo-se para Jerusalém a fim de realizar a vontade de Deus. Ao morrer e ressuscitar,
Jesus possibilita que Deus se faça tudo em todos, cumprindo-se o plano salvífico, isto é, a
realização da história humana, elevada à dignidade da filiação divina. A paixão-morte-
ressurreição de Jesus é expressão ímpar e sublime do serviço ao Pai que aceita a vida do Filho
como dom, perfeita oblação. O Filho, por sua vez, assume a história da salvação e a
protagoniza como servo fiel, que se doa ilimitadamente na certeza do amor responsável
daquele que o chamou e o enviou à missão, o Pai. Jesus, o Filho, concretiza a promessa do Pai
impulsionado pela força do Espírito, que o leva para o deserto e depois o conduz à missão de
anunciar, curar, libertar os corações humanos da morte. O influxo pneumático é o que acende
na Igreja o desejo do serviço e do discipulado. A ação da ruah impele o cristão de ontem e de
hoje a seguir diligentemente os passos do mestre Jesus de Nazaré. O Espírito suscita na
comunidade dos discípulos, a Igreja, o desejo do discipulado e do serviço. Homens e
mulheres são inspirados a partilhar suas vidas e seus dons. É sob o influxo do Espírito que os
discípulos e discípulas deixam suas casas para anunciar Cristo Ressuscitado nas ruas, no
mundo, na cidade, nos campos, nas fábricas, nas escolas e em todos os rincões. É o hálito
feminino do Criador que suscita vida nova na Igreja em todos os tempos e lugares. Aos
chamados ao discipulado e ao serviço, o Espírito alimenta e encoraja para a missão de
profetizar e continuar a obra redentora do Filho. Deste modo, no discipulado e no serviço
evidenciam-se marcas indeléveis da ação trinitária. O Pai é quem chama a comunhão, o Filho
é quem dá exemplos com sua missão, o Espírito é quem anima e suscita o desejo de servir e
de seguir. Portanto, o discípulo é convidado por Jesus, o Filho, a seguir o caminho na busca
da realização da vontade de Deus, o Pai. No Filho Jesus, encontramos o sentido para o
discipulado, pois ele é o enviado do Pai para realizar a missão de salvar. O Filho expressa a
111

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
alegria em servir nas palavras do Evangelho: “Eu vim para servir e não para ser servido”. O
Espírito é quem credita o testemunho do Filho Jesus que deseja cumprir a vontade do Pai:
“Que todos tenham vida”.

Ao final do estudo, algumas conclusões parecem pertinentes:

a) O Evangelho de Marcos, como catequese narrativa, procurou sintetizar de maneira


fluida e nova a tradição proto-eclesial de Jesus. A narratividade da obra marcana permite-nos
o acesso à cristologia narrada, ou seja, às palavras e às ações do mestre Jesus na vida dos
discípulos do caminho. Marcos, ao escrever seu evangelho, deseja explicitar a mensagem de
Jesus, o anúncio do Reinado de Deus e a ação salvífica do Pai no Filho, Jesus Cristo. A
mensagem do Evangelho de Marcos, que tem como epicentro a pergunta “Quem é Jesus?”, é
ao mesmo tempo um convite explícito ao discipulado, à experiência profunda de acompanhar
Jesus até Jerusalém e, depois de sua morte, encontrar-se com ele Ressuscitado, na
comunidade dos discípulos, na Galiléia. O Evangelho de Marcos é, antes de tudo, um convite
a conhecer Jesus e fazer experiência com ele, descobrindo-o na comunidade dos seguidores e
seguidoras.

b) A perícope de Mc 15,40-16,8, clímax narrativo do Evangelho, constitui-se a espinha


dorsal da narrativa elaborada por Marcos. Esta perícope evidencia o anúncio da ressurreição
de Jesus, precedido pelo testemunho das mulheres no Calvário, diante da cruz (15,40) e no
sepultamento (15,47), bem como no querigma sobre o Ressuscitado proferido pelo jovem no
sepulcro (16,6). Jesus, na narrativa marcana, convida os discípulos ao seguimento. Faz-se
mister acolher o convite do mestre que chama à experiência do discipulado e do serviço. Com
isso, o leitor é impulsionado a repensar a fé em Jesus que convida a dinâmica do caminho,
evidenciando que é preciso entrar em movimento para seguir o mestre em sua trajetória. O
convite de Jesus é também convite para o serviço, que pode ser evidenciado na ação salvífica
e taumatúrgica de Jesus e na prática de libertar os homens do egocentrismo exacerbado. As
mulheres que participam o discipulado são também ícones do serviço. A perícope do
testemunho da cruz e do sepulcro, na qual elas são protagonistas, revela que o testemunho fiel
das mulheres se configura na íntima relação de seguir e servir. As mulheres que seguem Jesus
também o servem. Estas duas realidades do testemunho se completam e não podem ser
entendidas isoladamente. O discípulo que é chamado a seguir Jesus é também convocado a
evidenciar a fidelidade ao discipulado na práxis do serviço aos irmãos e irmãs.

c) O coração da perícope se revela no desenlace, com o imperativo ide dizer. As


mulheres que testemunham Jesus, ao largo da cruz, no sepultamento e no sepulcro vazio, são
112

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
chamadas agora a anunciar que ele não está morto, mas que vive ressuscitado e pode ser
encontrado na Galiléia, na comunidade dos seguidores. Destarte, a Igreja também é chamada
à missão de anunciar o Ressuscitado, a nova realidade de Cristo que vive no íntimo dos
discípulos e na experiência da vida comunitária. A comunidade dos discípulos, precedida por
Pedro, é sacramento do Vivente e é chamada a anunciá-lo. O anúncio do Ressuscitado é
acompanhado da práxis dos discípulos que anunciam. Em Marcos, a profissão de fé do
centurião (Mc 15,39) é corroborada pela práxis fiel do seguimento e do serviço por parte das
mulheres (15,40). A ação das mulheres deixa claro que o seguimento e o serviço são atitudes
testemunhais. O testemunho não se qualifica apenas por palavras, mas está associado à ação, à
práxis fiel. A humanidade só será capaz de perceber que Cristo vive se, de fato, a práxis dos
cristãos estiver em consonância com o que acreditam. Portanto, o discipulado só encontra seu
sentido nas práticas do serviço e do amor.

d) Nota-se que no discipulado não há razões para a exclusão do gênero feminino. Este
gênero, muitas vezes depreciado, também é chamado por Jesus à práxis do discipulado. Para
Marcos, é clarividente que as mulheres participam do discipulado de Jesus de Nazaré, vivendo
a práxis do serviço. As mulheres, mesmo que não convocadas com a mesma solenidade que
os homens na narrativa marcana, agem em conformidade com o significado do discipulado.
Elas acompanham Jesus até os momentos derradeiros, levando às últimas conseqüências o
seguimento e o serviço. O convite de Jesus, primeiramente direcionado aos homens, ganha
concretude na práxis das mulheres que o acompanham e o servem, desde o início de seu
ministério na Galiléia. A especificidade do discípulo é testemunhar com vida que o chamado
do mestre é importante e que tem sentido.

e) O drama elaborado por Marcos ganha edificação através dos termos axiais,
akolouthein e diakonein. Estes coexistem em confluência na narrativa, perpassando toda
estrutura literária da perícope. Evidentemente, estes axiomas fornecem sentido à trama e à
mensagem que o autor do Segundo Evangelho deseja passar. Significa que, para Marcos em
sua arte narrativa, os eixos semânticos akolouthein e diakonein exercem força inspiradora e
norteadora. Os agentes (personagens) desempenham ações pautadas nos eixos discipulado e
serviço, isto é, fornecem ao projeto narrativo do autor Marcos uma importância vital,
tornando a perícope um relato exemplar. De um modo geral, os personagens, ao
desempenharem as funções de discípulos e servidores na trama narrativa, corroboram que
estes termos axiais são imprescindíveis para a formalização do testemunho na comunidade de
fé. Para Marcos, os termos axiais akolouthein e diakonein, que fundamentam e alicerçam a

113

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
vida da proto-comunidade, devem ser vividos como paradigmas para as comunidades cristãs
dos tempos ulteriores e atuais.

f) Depreende-se, por fim, que a narrativa marcana obtém seu verdadeiro sentido
quando instaura o processo de dúvida no leitor que perscruta com curiosidade seus meandros
narrativos. O leitor, portanto, é convidado a encontrar a resposta que o texto deixou aberta. O
drama por mais perfeitamente elaborado deixa margem a perguntas, questões e respostas.
Estas últimas, as respostas, devem condizer em tudo com a totalidade narrativa de Marcos.
Não se trata de o leitor criar conjecturas e hipóteses aleatórias, mas de encontrar sentido novo
para a narrativa especificamente. Não se trata tão pouco de condicionar a leitura a uma
resposta, nem sequer sugerir respostas prontas e acabadas. O texto, por sua vez, permite que o
leitor execute de forma livre a resposta mais coerente com o projeto idealizado pelo autor.
Evidentemente a beleza e a profundidade da narrativa bíblica estão configuradas no leque de
possibilidades que ela oferece ao leitor. O texto bíblico, como qualquer texto literário,
considerado um outro na relação com o leitor não pode ser esvaziado, nem deturpado. Ele
deve ser sempre um outro (alter), que se dá a conhecer e que nunca pode ser aprisionado ou
esgotado em seu mistério narrativo-teológico.

Deste modo, percebe-se que a leitura e o estudo do Evangelho de Marcos são


imprescindíveis para o advento de uma nova consciência sobre o discipulado e o serviço das
mulheres na Igreja. A partir do estudo do Segundo Evangelho, evidencia-se que o testemunho
das mulheres é também qualificado, pois soma a palavra à ação, resultando o importante
querigma da Igreja primitiva que pode ser observado até os dias de hoje em nossas
comunidades de fé.

114

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

1. Instrumentos

A BÍBLIA de Jerusalém. Nova Edição Revista. São Paulo: Paulus, 2000.


A BÍBLIA Sagrada: O Velho e Novo Testamento. Trad. João Ferreira de Almeida. Ed.
Corrigida e Revisada Fiel ao Texto original. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do
Brasil, 2005.
ALAND, Barbara. et al. The Greek New Testament. 4. ed. revis. Stuttgart: Deutsche
Bibelgesellschaft; USA: United Bible Societies, 1994.
BÍBLIA Sagrada: Tradução da CNBB. 6. ed. Com Introduções e notas. Brasília: CNBB; São
Paulo: Canção Nova, 2007.
BÍBLIA Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola, 1994.
DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral.
São Paulo: Paulinas/Loyola, 2007.
KOHLENBERGER, John R. et. al. The exhaustive Concordance to the Greek New Testament.
Grand Rapids: Zodervan, 1995.
KONINGS, Johan. Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. São
Paulo: Loyola, 2005.
METZGER, Bruce Manning. A textual commentary on the Greek New Testament. 2. ed.
Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994.
NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece, post Eberhard et Ervin Nestlé ed. 27. revis.
communiter ediderunt Bárbara et Kurt Aland, Johannes Karavidopoulos, Carlo M. Martini,
Bruce M. Metzger. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1993.

2. Bibliografia básica

ALDANA, Hugo O. Martinez. O discipulado no Evangelho de Marcos. São Paulo:


Paulinas/Paulus, 2005.
AZEVEDO, Walmor Oliveira. Comunidade e missão no Evangelho de Marcos. São Paulo:
Loyola, 2002.
BABUT, Jean-Marie. Actualite de Marc. Paris: Cerf, 2002.
BEYER, H. W. Diakonέw. In: KITTEL, Gerhard.; FRIEDRICH, Gerhard. Grande Lessico del
Nuovo Testamento. Vol. II. Brescia: Paideia, 1966. p. 956-969.
BLENDINGER, Ch. vakolouqe,w. In: COENEN, L.; BROWN, C. Dicionário Internacional de
Teologia do Novo Testamento.Vol 1. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 578-581.

115

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
BOMBONATTO, Ivanise. Seguimento de Jesus: Uma abordagem a partir da cristologia de
Jon Sobrino. São Paulo: Assunção (Tese de Doutorado), 2001.
CUVILLIER, Elian. L’ Evangile de Marc. Geneve: Labor et fides, 2002.
FABRIS, Rinaldo. Marcos. In: BARBAGLIO, Giuseppe.; FABRIS, Rinaldo.; MAGGIONI,
Bruno. Os evangelhos (I). São Paulo: Loyola, 1990.
FOCANT, Camile. L’ evangile selon Marc. Paris: Cerf, 2004.
FUMAGALLI, Aristide. Fatica e gioia della sequella: la formazione dei discepoli nel
Vangelo di Marco. Milano: Ancora, 2002
GNILKA, Joachim. El Evangelio según san Marcos: Mc 1-8,26. Salamanca: Sígueme, 1986.
_____. El Evangelio según san Marcos: Mc 8,27-16,20. Salamanca: Sígueme, 1986.
HARRINGTON, Daniel. Il vangelo secondo Marco. In: BROWN, Raymond E.;
FITZMEYER, Josepth A.; MURPHY, Roland E. (ed. interamente rinnovata). Nuovo Grande
Commentario Biblico. Brescia: Queriniana, 1997. p. 776-820.
HERRERO, Pérez. Evangelio según san Marcos. In: OPORTO, Guijarro S.; SALVADOR
GARCIA, M. et. al. Comentario al Nuevo Testamento. 2. ed. Madrid/Atenas, Madrid/PPC,
Salamanca/Sígueme, Navarra/Verbo Divino, 1995. p.125-184. (La casa de la Biblia).
HESS, Karl. servicio. In: COENEN. Lothar.; BEYREUTHER, Erich.; BIETENHARD, Hans.
Diccionario teológico del Nuevo Testamento. Vol IV. Salamanca: Sígueme, 1990. p. 212-216.
KITTEL, Gerhard. avkolouqe,w. In: KITTEL, Gerhard. (ed.) Theological dictionary of the new
testament. Vol. 1. Michigan: Eerdmans, 1977. p. 210-216.
KONINGS, Johan. Marcos. São Paulo: Loyola, 1994.
LAGRANGE, Marie-Joseph. Evangile selon s. Marc. Paris: Gabalda, 1947.
LENTZEN-DEIS, Fritzleo. Comentário ao Evangelho de Marcos. São Paulo: Ave Maria,
2003
MARGUERAT, Daniel; BORQUIN, Yvan. Como leer los relatos bíblicos. Iniciación al
análisis narrativo. Bilbao: Sal Terrae, 2000.
MATEOS, Juan. Los “doce” y otros seguidores de Jesus en el evangelio de Marcos. Madri:
Cristandad, 1982.
MATEOS, Juan; CAMACHO, Fernando. Marcos: texto y comentario. Madri: Almendro,
1994.
MÜLLER, Daniel. maqhtής. In: COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional
de Teologia do Novo Testamento.Vol 1. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 581-587.
MÜLLER, Otto. seguimiento. In: COENEN, Lothar; BEYREUTHER, Erich;
BIETENHARD, Hans. Diccionario teológico del Nuevo Testamento. Vol. IV. Salamanca:
Sígueme, 1990. p. 175-180.
PESCH, Rudolf. Il vangelo di Marco: Introduzione e commento ai capp. 1,1-8,26. Brescia:
Paideia, 1980.
_____. Il vangelo di Marco: commento ai capp. 8, 27-16, 20. Brescia: Paideia, 1982.
RADERMAKERS, Jean. La bonne nouvelle de Jésus: selon saint Marc. Bruxelles: Institut
d’études théologiques, 1974.

116

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
RENGSTORF, Karl Henrich. maqhtής. In: KITTEL, G. Theological dictionary of the new
testament. Vol. IV. Michigan: Eerdmans, 1977. p. 415-461.
SCHNACKENBURG, Rudolf. The gospel according to St. Mark. New York: Crossroad,
1981.
SCHNEIDER, Gerhard. avkolouqe,w in: BALZ, Horst; SCHNEIDER, Gerhard. Diccionario
Exegetico del Nuevo testamento. Vol. I. Salamanca: Sígueme, 1996. p. 145-155.
SCHULZ, Anselm. Discípulos do Senhor. São Paulo: Paulinas, 1969.
SCHWEIZER, Edward. Il vangelo secondo Marco. Brescia: Paideia, 1971.
_____. L’Evangelo della comunita primitiva. Brescia: Paideia, 1984.
STANDAERT, Benoît. L’Evangile selon saint Marc: commentaire. Paris: Cerf. 1983.
TAYLOR, Vincent. Evangelio según san Marcos. Madrid: Cristandad, 1979.
TEPEDINO, Ana Maria de Azeredo Lopes. Discipulado de iguais: um estudo sistemático-
pastoral sobre o discipulado das mulheres nos evangelhos. Rio de Janeiro: PUC-Rio
(Dissertação de Mestrado), 1986.
TUYA, Manuel de. Biblia comentada: evangelios. BAC: Madrid, 1963.
WEISER, Alfons. diakonέw. In: BALZ, Horst; SCHNEIDER, Gerhard. Diccionario Exegetico
del Nuevo testamento. Vol. I. Salamanca: Sígueme, 1996. p. 911-920.

3. Bibliografia complementar

ALETTI, Jean-Noël. L’art de raconter Jésus-Christ, Paris: Seuil, 1989.


_____. La construction du personage Jésus dans les récits évangéliques: Le cas de Marc. In:
FOCANT, Camile.; WÉNIN, Andre. (Ed.) Analyse narrative et bible. Deuxième colloque
international du RRENAB. Leuven: University. 2005.
ARENS, E; ASCENSIO, L. A.; DIAZ MATEOS, M. El que quiera venir conmigo: discípulos
según los evangelios. Lima: CEP, 2007.
BARTH, Karl. Chamado ao discipulado. São Paulo: Fonte editorial, 2006.
BENÍCIO, Paulo José. A língua do Evangelho segundo Marcos no códice grego da Biblioteca
nacional do Rio de Janeiro. Fides reformata X 1 (2005), p.101-113.
BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 9. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004.
BORNKAMM, Günther. Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1976.
BULTMANN, Rudolf. L’ histoire de la tradition synoptique, suive du complément de 1971.
Paris: A. Malet, 1973.
CONZELMANN, Hans. Teologia del nuovo testamento. Brescia: Paideia, 1972.
DREWERMANN, Eugen. El mensaje de las mujeres: la ciencia del amor. Barcelona: Herder,
1996.
DUQUOC, Christian. Cristologia: ensaio dogmático I. São Paulo: Loyola, 1992.
_____. Cristologia: ensaio dogmático II. São Paulo: Loyola, 1980.

117

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
EGGER, Wilhelm. Metodologia do novo testamento. Introdução aos métodos lingüísticos e
histórico-críticos. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005.
FAUSTI, Silvano. Ricorda e raconta il vangelo: la catechesi narrativa di Marco. Milano:
Ancora, 1998.
FIORENZA, Elisabeth Schüssler. Discipulado de iguais. uma ekklesia-logia feminista crítica
da libertação. Petrópolis: Vozes, 1995.
FRAINE, Jean. Crucifixão. In: BORN, A. van den. (red.) Dicionário Enciclopédico da bíblia
2. ed. Petrópolis: Vozes, 1977. p. 336-338.
FRAINE, Jean. Unção. In: BORN, A. van den. (red.) Dicionário Enciclopédico da bíblia.
Petrópolis: Vozes, 1971. p. 1539-1541.
GABEL, John. B.; WHEELER, Charles. B. A bíblia como literatura: uma introdução. São
Paulo: Loyola, 1993.
GADAMER, Hans-Georg. Verdad y método. Fundamentos para una hermenéutica filosófica.
Salamanca: Sígueme, 1977.
GALLARDO, Carolos Bravo. Jesus homem em conflito: o relato de Marcos na América
Latina. São Paulo: Paulinas, 1997.
GENEST, Olivet. Le Christ de la passion : perspective structurale: analyse de Marc 14,53 -
15,47, des paralleles bibliques et extra-bibliques. Montreal : Bellarmin, 1978.
GNILKA, Joachim. Teologia del Nuevo Testamento. Madri: Trotta, 1998
GONZÁLES, Carlos Ignacio. Ele é a nossa salvação. São Paulo: Loyola, 1992.
GOPEGUI, Juan A. R. Para uma volta à catequese narrativa. Fé pascal e “história de Jesus”
em Mc 16,1-8. Perspectiva Teológica 16 (1984), p. 313-331.
GOURGUES, Michel. Jesus diante de sua paixão e morte. São Paulo: Paulinas, 1985.
HENDRICKX, Herman. Los relatos de la pasión. Madrid: Paulinas, 1986.

GRÜN, Anselm. Jesus caminho para liberdade: O Evangelho de Marcos. São Paulo: Loyola,
2006.
JAKOBSON, Roman. Essais de linguistique génerale. Arguments 14. Paris: Minuit, 1963.
KASPER, Walter. Jésus, le Christ. Paris: Cerf, 1976.
KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005.
MANICARDI, Ermenegildo. Il camino di Gesù nel vangelo di Marco. Rome: Biblical Institue
press, 1981.
MANNS, Frédéric. Le milieu sémitique de l’Évangile de Marc. Liber Annuus 48 (1998), p.
125-142.
MARGUERAT, Daniel. Entrer dans le monde du récit. Une présentation de l’analyse
narrative. Transversitalités 59 (1996), p. 1-17.
MARTINI, Carlo Maria. O Itinerário espiritual dos doze no Evangelho de Marcos. 3. ed. São
Paulo: Loyola, 1997
MAZZAROLO, Izidoro. Evangelho de Marcos: estar ou não com Jesus. São Paulo:
Mazzarolo, 2004

118

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)
METZGER, Bruce Manning. The text of the New Testament: its transmission, corruption, and
restoration. 2. ed. Oxford: Clarendon, 1979.
MOINGT, Joseph. O homem que vinha de Deus. São Paulo: Loyola, 2008.
MONLOBOU, Louis; BUIT, F. M. “Cruz”. In. MONLOBOU, L.; BUIT, F. M. Dicionário
bíblico universal. Petrópolis: Vozes; Aparecida: Santuário, 1997. p. 168-169.
MUNDLE, W. e,kstasiς. In: COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional de
Teologia do Novo Testamento. Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 783-784.
NOLLI, Guiseppe. Evangelo secondo Marco. Roma: Agencia libro cattolico, 1978.
PALÁCIO, Carlos. Jesus Cristo história e interpretação. São Paulo: Loyola, 1979
RICOEUR, Paul. A hermenêutica bíblica. São Paulo: Loyola, 2006.
ROBERT, Andre; FEUILLET, Andre. Introduction a la Bible: Nouveau Testament. Vol
2. Paris : Desclée, 1959.
ROBERTSON, Archibald Thomas. Imágenes verbales en el Nuevo Testamento. Mateo y
Marcos. Vol. 1. Barcelona: Talheres gráficos, 1998.
SCHILLEBEECKX, Edward. Jesus: la historia de um Viviente. Madrid: Cristandad, 1981.
SCHNELLE, Udo. Introdução à exegese do novo testamento. São Paulo: Loyola, 2004.
SESBOÜE, Bernard. Pedagogia do Cristo: elementos de cristologia fundamental. São Paulo:
Paulinas, 1997.
SILVA, Cássio Murilo Dias da. Aprenda a enxergar com o cego Bartimeu, ou... Por que é
necessário um método para ler a Bíblia. Estudos Bíblicos 98 (2008), p. 33-45.
SOBRINO, John. Jesus, o libertador. A história de Jesus de Nazaré. São Paulo: Vozes, 1994.
STEGEMANN, Ekkehard; STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo:
os primórdios no judaismo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. São Paulo:
Paulus, 2004.
TILLESSE, Gaetan Minette de. Le secret messianique dans l'Evangile de Marc. Paris: Cerf,
1968.
VANHOYE, Albert. La passion selon les quatres evangiles. Paris: Cerf, 1981.
VIELHAUER, Phillip. Historia de la literatura cristã primitiva: introduccion al Nuevo
Testamento, los apocrifos y los padres apostólicos. Salamanca: Sígueme, 1991.
VITÓRIO, Jaldemir. Narratividade do livro de Rute. Estudos Bíblicos 98 (2008), p. 85-106.
WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento: manual de metodologia. 3. ed. São Leopoldo:
Sinodal, São Paulo: Paulus, 1998.
WÉNIN, Andre. De l’ analyse narrative à la théologie des recits bibliques. Revue théologique
de Louvain 39 (2008), p. 369-396.
WILLIAMS, Joel F. Discipleship and Minor Characters in Mark’s Gospel. Bibliotheca Sacra.
153 (1996), p. 332-343.

119

Create PDF files without this message by purchasing novaPDF printer (http://www.novapdf.com)