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Contracapa: A vida de Plínio está bem enrolada: seus pais vivem
reclamando que ele só se mete em encrenca, e André, aquele grandalhão da
escola, não se cansa de provocá-lo, e, o que é pior, de dar em cima de
Camilla, justamente sua grande paixão! Não é à toa que o baixinho Plínio às
vezes se sente “deste tamanhinho”. Opa! Parece que ele ficou mesmo “deste
tamanhinho”. Como será que ele se meteu nessa? É o que você vai saber
lendo as divertidas aventuras de um garoto que se descobre como pessoa
no meio deste mundo maluco em que vivemos.

TEXTO
Editor
Fernando Paixão
Assessora editorial
Carmen Lucia Campos
Suplemento de trabalho
Januária Cristina Alves
ARTE
Editor
Ary A. Normanha
Ilustrações de miolo e Capa
Flavio Colin
Quadro da capa:
Mondaufgang St Germain, Paul Klee (Tunis, 1915).

ISBN 85 08 052 23 5
Editoração eletrônica
Antonio U. Domiencio
1995
Este e-book em PDF:
Digitalização:

AdriAnA,
Ocerização, Revisão, formatação:

The flash

Dênis. Afinal. uma expressão que ele mesmo criou. Quem sabe você consiga ajudá-lo a desvendar um enigma que pode mudar para sempre sua vida. Para começar.. com muito bom humor. é baixinho e meio tímido com as garotas. Já seu irmão mais velho. Divirta-se com as trapalhadas de Plínio e desembarque com ele na terra dos Nyfs. percebemos que não é bem assim. vive fazendo com que ele se sinta minúsculo como uma caspa. .. que ele acha a menina mais bonita da escola. sua verdadeira história. ele vai fazer 13 anos e tem sérios problemas para resolver.A GRANDE DESCOBERTA DE UM PEQUENO MUNDO Plínio tem fama de não esquentar muito seu "courudo cabelouro". o que o impede de enfrentar o grandalhão André ou se aproximar de Camilla. Mas quando ele nos conta.

nem mesmo na hora das refeições. cenário deste seu primeiro texto para o público jovem. os quais não tinha vontade de largar nunca. Formada em Ciências Sociais. recorda-se que passou a infância e a adolescência acompanhada de livros. Além de escrever. Lô. como é mais conhecida. Leonilde Galasso nasceu e vive até hoje na cidade de São Paulo. . Lô tem outras formas de registrar sua emoção diante da vida: fazer esculturas e pintar. trocou o rigor de uma tese acadêmica pela aventura de descrever a experiência vivida com o nascimento de suas duas filhas. Surgiu assim um livro muito bem- humorado: Ser mãe é sorrir em parafuso.

NO MELHOR CAMAROTE 5. UM PERFUME INESQUECÍVEL 18. IMAGEM INCOMPREENSÍVEL 25. RISO LÍQUIDO 35. OLHOS COR DE TERRA CLARINHA 14. COISA COM COISA . PELADO NA RUA 12. OITOCENTAS GAROTAS 10. TROCA DE PELE 36. MICO-LEÃO-DOURADO 8.SUMÁRIO 1. AGENTE NYF 37. JAPONÊS TEM CADA UMA 24. O SEGUNDO TESTE 33. UM CONVIDADO PENETRA 19. EM QUEDA LIVRE 27. NÃO SOU UM INSETO 34. O TIRO SAIU PELA CULATRA 11. UM SORRISO ESPECIAL 16. O TELEPERSON 9. RONCO GIRATÓRIO 29. DUAS CESTAS DE TRÊS PONTOS 17. TUDO POR UM BOLO 20. UM GELINHO POR DENTRO 15. ÓPERA LÍQUIDA 30. BELEZA DE COMPARAÇÃO 13. A CAVERNA 28. DESIDRATAÇÃO AFETIVA 23. ROUBARAM MEU SHOW 21. NEM UMA DROGA DE UM ASSUNTOZINHO 22. MINIATURA DA MINIATURA 26. "MANNF!" 6. NEVE CAINDO AO CONTRÁRIO 31. ANTES DE CASAR SARA 3. AGORA OU NUNCA 4.O IMPERADOR DO UNIVERSO 2. OS NYFS 32. CHEIRO DE ANIMAL ASSUSTADO 7.

38. LIVE AND LET LIVE . OUTRAS PRIORIDADES 39. PAPA-MOSCAS NÃO É MAIS AQUELE 42. UMA PIZZA QUENTINHA 43. O PROBLEMA DOS TREZE 44. SOB O CÉU DA VARANDA 41. A PESSOA MAIS INTERESSANTE DO PLANETA 40. CONVERSA ENTRE IRMÃOS 45.

por uma revolução da alma que muitas vezes remonta a uma infância." Gaston Bachelard . para o homem. “O mundo começa.

ele acha que eu vou escarafunchar as coisas sa-gra-das que ele tem lá. num pedaço de lençol velho. Um . cumprindo ordens da minha mãe). logo depois de uma dessas infrações cometidas pela faxineira (com a cumplicidade. que mudam conforme o humor dele em cada dia. Nela estava escrito: Minha mãe deixou a faixa ficar lá por uns dois ou três dias. Conviver com um irmão mais velho chamado Dênis já é um grande problema. Para você ter uma ideia. e pendurou-a no corredor. onde está escrito. Ele tem dezesseis anos e tudo dele é melhor. o Dênis pintou uma faixa. E toda vez é a mesma coisa: quando o Dênis chega da escola e vê aquela arrumação toda (o quarto dele fica parecendo consultório de dentista. ou melhor. dizendo que se o Dênis quisesse poderia usá-la novamente. começa a gritar feito louco: — Eu não quero mais essa faxineira bagunçando a minha organização pessoal! Agora eu nunca mais vou achar as minhas coisas! (O que ele chama de “organização pessoal” é meio parecido com os destroços da Segunda Guerra. com letras vermelhas: Na parte de baixo do cartaz. a mesada dele é maior e ele pensa que é o Imperador do Universo e o dono do telefone. Ele não se deu por vencido: no dia seguinte. Depois arrancou-a e guardou-a no armário. mas teria que ser na Praça da Sé.) No ano passado. ninguém pode entrar no quarto do Dênis e eu muito menos. A única pessoa que ousa desrespeitar os decretos do Imperador do Universo é minha mãe. tem uma janelinha onde ele encaixa avisos diferentes. 1 O IMPERADOR DO UNIVERSO Não tenho a ilusão de que os meus problemas dos doze vão ser resolvidos do dia para a noite.. só porque vou fazer treze anos. Ela entra no quarto dele quando bem entende e ainda por cima manda a faxineira limpar e arrumar tudo. de tão limpo e arrumado). colou na porta do quarto um baita cartaz. Que problemas? Bem.. você sabe. acho que por respeito à liberdade de expressão.

sem me provocar. e dói pra caramba.deles é: Nesses dias. Fico mais sossegado nesses dias: é como se ele tivesse assinado um tratado de paz com o mundo. Mas o que me deixa mais furioso é quando. Quando o aviso da janelinha diz: é sinal de que ele está mais bem humorado e vai circular pela casa sem reclamar de nada e. principalmente. Ele está sempre dando um jeito de me fazer “não existir”: não me deixa ir com ele em nenhum lugar. não me deixa participar dos papos com seus amigos. do alto de sua magreza . o melhor é nem passar em frente à porta do quarto do Dênis: a orelha da gente pode ser atingida por um toco de giz ou por uma bolinha de gude. batemos um grande papo feito dois irmãos e até jogamos umas partidas de truco. Mas desde que fez quinze anos. aconteceu um milagre: ele me chamou para entrar no quarto dele. Mas o aviso de que eu mais gosto é: Nas poucas vezes em que apareceu esse aviso. Dênis anda mais pra “cão raivoso” do que para outra coisa e eu vivo tendo a impressão de que se dependesse da vontade dele eu nem existiria. Foram os melhores dias da minha vida. e vive arrumando motivos para me bater ou me prensar contra o chão e me matar de cócegas.

todos com a mesma cara. Eu tento não dar bola. tem mais cinquenta farelinhos lá. Então aproveito para soltar a minha raiva: dou uns belos safanões neles e eles voam para tudo quanto é lado. Parece que um casal de farelos apaixonados resolveu dar cria bem no meu courudo cabelouro: todos os dias encontro uns cinquenta farelinhos. Ultimamente.de um metro e setenta e oito. dormindo no ombro da minha jaqueta. xit.. mas não consigo.. todos com a mesma cara. ele deu para me chamar de “Caspa”. Fico me sentindo amarelado e insignificante como um daqueles farelos inanimados. E o pior é que eu estou mesmo com caspa. . o Imperador me olha com o maior desprezo e me xinga de nomes humilhantes. No dia seguinte. Teve uma época em que meu nariz virou uma enorme plantação de cravos e ele me chamava o tempo todo de “florzinha”.

Outras vezes fecho os olhos e finjo que estou voando de asa delta e cantando tão alto lá em cima que até assusto os passarinhos que chegam perto. ouvi aquela frase insuportável: “Antes de casar sara”. Às vezes me imagino fazendo alguma coisa legal. nervoso. amanhã você vai apagar a luz às dez em ponto. curando a pata ferida de um gato e sendo aplaudido por uma multidão de gatos e donos de gatos reunida em volta de mim. o importante não é assustar passarinho. que eu era até cuca-fresca demais. O que eu posso fazer se meus neurônios às vezes resolvem se separar e ir cada um para um lado. mas não é minha culpa. pelo contrário. Tem vezes que adormeço rápido e acordo de madrugada por causa de uns pesadelos. esse tipo de coisa. Toda vez que isso acontece. Detesto quando ficam minimizando os meus problemas e minha mãe fica sempre minimizando os meus problemas e ainda por cima vem e me chama de cuca-fresca na frente do médico. porque não tem a menor ideia do que se passa debaixo do meu courudo cabelouro. Sempre achei meu pai mais legal porque ele nunca falou “antes de casar sara”. esse tipo de coisa. corujão!”. mas ela seria muito mais legal se não ficasse correndo pela casa e falando as horas o tempo todo e me mandando fazer trinta coisas ao mesmo tempo. é tudo tão real que não é fácil me livrar deles. Ela teve a coragem de dizer que não. (Uau!) Bem. sou mesmo meio cuca-fresca de vez em quando. minha mãe respondeu aquilo sobre eu ser “cuca-fresca” e tal. tudo ao mesmo tempo. E no dia seguinte ainda levo bronca: “Olha o tamanho dessas olheiras. As poucas vezes em que tive coragem de me queixar com ela sobre alguma coisa que me preocupava. com uma tremenda sensação de liberdade e vendo o mundo todo bem pequenininho lá embaixo. Mas quando me vê estudando com o som ligado. Eu adoro a minha mãe e tal. como meu pai perder o emprego e eu ter que vender mentex nos faróis para ganhar dinheiro. em vez de se concentrarem nas coisas deste planeta? A noite a coisa piora. Nem tenho certeza se passarinho alcança asa delta. 2 ANTES DE CASAR SARA Minha mãe já me levou ao médico por causa das caspas e ele perguntou se eu andava preocupado. mesmo assim preciso ler três vezes cada parágrafo. . acendo o abajur e fico lendo até tarde. mas se imaginar voando de verdade. Se depender dela. Mesmo acordado meus neurônios ficam fabricando a continuação das coisas malucas que sonhei e que tenho medo que aconteçam de verdade. Aqui entre nós. eu faço lição estudo inglês arrumo o armário engraxo o sapato recolho os bagulhos penteio o cabelo amarro o tênis escovo os dentes atendo o telefone coloco o rolo de papel higiênico com a ponta saindo por cima levo o lixo lá fora e enxugo a louça. ela vem e desliga o som e faz o maior discurso: “Você tem que aprender a se concentrar e lazer uma coisa de cada vez!” Minha mãe é mesmo um ser paradoxal. só acho chato quando ele fica com a cabeça cheia de números e ultimamente ele está sempre com a cabeça cheia de números. Antes de adormecer fico rolando na cama feito frango de vitrine e pensando em coisas malucas. mas voltando ao que o médico perguntou.

que viviam insistindo para jogar futebol com a gente na rua. e ele só foi descobrir a minha há pouco tempo. “Hoje é dia 30. ele era mais alegre e não vivia com a cabeça cheia de números. preciso fazer meu relatório”. Ele mora perto da minha casa e nós nos conhecemos desde que mijávamos nas fraldas (ele nas dele e eu nas minhas. e depois ficavam o tempo todo correndo todas juntas atrás da bola. estou sem dinheiro”. Até as respostas dele sempre têm um número. ele diz que está morrendo de fome e me convida para ir até a casa dele comer um sanduíche novo que ele inventou. Acertou na mosca. ele enfia a cabeça numa montanha de papel e fica horas fazendo contas e ticando números. . conheço a insegurança dele com garotas há séculos. E para fugir logo do campo de visão da garota. a gente não ligava a mínima para garotas. é só eu pedir para ele ir comigo em algum lugar. que é um crânio. já vou ouvindo “Hoje é dia 4. O Cabrum não é muito gordo mas se acha gordo. Eu e o Cabrum estamos sempre juntos e um sabe quase tudo do outro. logo pensa que ela está pensando que ele é gordo demais. já percebeu que o Cabrum é o meu melhor amigo. a Mauren e a Lu. Digo “quase” porque acho que conheço ele melhor do que ele me conhece. é claro). E depois de responder essas coisas. tenho que fazer minhas contas”. As únicas com quem brincávamos de vez em quando eram a Tuca. mas eu acho que ele detesta o trabalho dele. (Ele não fala nada. Antes de trabalhar nesse lugar. Você. e quando percebe que alguma garota está olhando para ele. “Hoje é dia 20. só pensando em chutar para gol. Até uns tempos atrás.) O Cabrum é o único que sabe tudo o que se passa debaixo do meu courudo cabelouro.

Nós vivíamos fazendo experiências no laboratório. esquentava pedregulhos para ver se derretiam. Era a senha. fazia esculturas com sucata. O quarto delas dava para a rua. construía miniaturas de carrocinhas puxadas por moscas. E a mãe delas é amiga da minha. se ela descobrir estou frito o Cabrum estava se fazendo de difícil.. todo esse tipo de coisa. acho que só acontece à noite. quem não ficaria super curioso para ver três garotas sem roupa? Então continuei insistindo pra caramba que também queria ver e ele ficou ensebando um tempão. xixi de gato. suco de grama. Ele tinha visto umas vizinhas dele trocando de roupa com a janela aberta. — Não vai dar. olhava insetos e pedaços de melancia no microscópio. inventava e gravava letras de música. espuma de sabão. que ficava no terraço do quarto dos pais de Cabrum. Os pais dele tinham saído e as três irmãs estavam em cena. a outra acho que estava passando uns cremes na perna e a outra ficava andando para lá e para cá e todas estavam só de calcinha e sutiã. Era agora ou nunca. A gente analisava água. até que uma noite ele me ligou e disse: “É agora ou nunca”. 3 AGORA OU NUNCA Uma estava pintando a unha do pé. o nosso laboratório de experiências também. . no andar de cima da casa. desmontava objetos. — Quero ver — eu disse.. — o Cabrum me falou um dia. e por uma dessas coincidências maravilhosas. As nossas experiências quase sempre deram certo. eu só vi uma vez. com a cara vermelha e os olhos esbugalhados por causa da descoberta sensacional. É lógico que fiquei super curioso com a coisa.

até chegar ao local do crime. Eu nunca tinha Ficado tão nervoso como naquele dia. — Mijar. avisei meu pai que voltaria logo e saí voando para a casa do Cabrum. a outra está dançando na frente do espelho. o do peito e um de cada lado do pescoço... Fiquei uma fera quando cheguei perto da mureta do terraço. de puro nervoso. já tinha até sonhado com elas de tão curioso que estava. Enquanto corria. mas ele não estava a fim de brincadeira. — Você está louco?! Está querendo que elas te vejam? Ajoelha aí que eu vou te contando! — ordenou o sacana. os travesseiros vão sujar.. Puxa. a empregada vai desconfiar. E ajoelhados. 4 NO MELHOR CAMAROTE Larguei o gibi que estava lendo. — Ele mandava. Brinquei com o Cabrum que pela primeira vez o nosso laboratório ia se transformar num observatório. Pedi para ele pegar uns travesseiros ou umas listas telefônicas para eu ajoelhar em cima. a mais alta está secando o cabelo. ela é a mais bonita de todas. Mas hoje não está um bom dia para ver. Estava pior do que eu. Meus neurônios se encarregavam de projetar as cenas com antecedência. parecia que eu tinha três corações. fazendo poses em frente à janela do quarto. Quem não toparia qualquer coisa para poder ver as três irmãs sem roupa? Meus joelhos doíam pra caramba. que é mais alto que eu e estava enxergando tudo. Se déssemos bandeira era ele quem ia entrar bem. . blá. todos batendo como um tambor. Finalmente eu ia poder ver as famosas três irmãs. as frestinhas dos ladrilhos cavavam sulcos na minha pele e ainda por cima tinha um monte de pedrinhas minúsculas naquele piso. Ele foi me contando: — Por enquanto só está dando para ver duas. fazendo as maiores caretas de dor. Me senti uma velhinha pagando promessa. blá. Fingi que tinha desistido e fiquei pensando em algum jeito de resolver aquele problema de visibilidade. cara!.. Mas ele não queria nem saber de brincadeira. — Vamos ter que entrar no escuro. as listas telefônicas estão na cozinha. — Não dá. toda hora dava umas tossidinhas falsas. — Ele me olhou com ar de superioridade. — Fazer o que no banheiro? — ele me gozou. Topei. a casa era dele. enquanto corria imaginava as três irmãs completamente nuas. — Ah. Reclamei com o Cabrum que não estava enxergando nada e comecei a levantar um pouco para ver melhor. Até que enfim vou ver as três irmãs! — era só o que eu conseguia pensar. — brinquei. — Como deve ser duro ser uma velhinha e andar quilômetros de joelhos só para chegar perto de um santo e beijar os pés dele. Fiquei furioso e disse que ia ao banheiro. como ela dança. blá. todo aquele sofrimento só para dar de cara com aquela parede toda cinza de chuva.

Abri a janela lateral sem fazer barulho e. bem de frente para o palco envidraçado. como eu imaginava.. Fui para o quarto do Cabrum. Lá estava eu no melhor camarote. Elas vão voltar. vi que dali dava para alcançar o telhadinho que cobria o carro. procurando o melhor ângulo de visão. onde deveriam estar as três irmãs. de tanto que os meus joelhos doíam. tomando o maior cuidado para não trombrar com os móveis naquela escuridão. É por aqui que eu vou — e fui. Pronto. — Tá — ele disse. me agarrei ao tronco e fui subindo devagar. . Não acreditei nos meus olhos: não tinha mais irmã nenhuma naquele quarto. Parecia que eu tinha ajoelhado no milho. Alcancei um galho forte. e ouvi um barulho estranho lá embaixo. — apostei. Pulei da janela para o telhadinho e fui pisando com cuidado. subi no muro lateral e me equilibrei até chegar perto da árvore que tinha na frente da casa. compenetrado. — Você vai registrando tudo na memória para depois me contar.. senão não teriam deixado a luz acesa.. Quando acabou o telhado..

não estava a fim de roubar o camarote de ninguém. Talvez estivesse pegando um estilete para me matar. comecei a berrar feito louco: — SOCOOO. — e o cara me tapou a boca. se eu soubesse que o lugar era dele nem tinha me atrevido a subir e coisa e tal. com aquela mãozona apertando a minha boca e com a cara quase colada na minha. um grandalhão com a maior cara de bandido me puxando pelo pé e eu me estatelando no chão com as pernas e as costelas quebradas. — O-olha. e o guarda- noturno encontraria o meu corpo debaixo da árvore no meio da noite e chamaria a polícia e a multidão em volta do meu cadáver ficaria discutindo quem pode ser quem pode não ser. Por que o cara não respondia? Surdo ele não era. Se você gritar de novo te arrebento a cara e te jogo lá embaixo! Pisca o olho para dizer se entendeu.. Quem sabe o Cabrum tenha sentido a minha falta. Mesmo assim não vai adiantar porque se eu gritar que estou aqui em cima o grandalhão me mata na mesma hora. — Cala a boca.. Entre morrer em cima da árvore e morrer debaixo da árvore. — Pisquei os dois olhos feito persiana de janela em dia de noroeste e ainda por cima balancei a cabeça para cima e para baixo. descoberto que não fui ao banheiro coisa nenhuma. Se ele fizesse isso. e o que eu queria dizer com isso é que eu era um cara de paz. Apavorado. tentando descobrir que tipo de sujeito ele era. 5 "MANNF!" — Ô pirralho.. mas as palavras se quebravam na minha garganta e saíam pela boca feito caquinhos de vidro.. para ele não pensar que eu estava abrindo a boca para gritar. — Nem um pio. Eu já imaginava a cena. tentando explicar muito bem explicado que tinha entendido e não ia gritar de novo. fedelho.. não escolhi nenhum dos dois. ninguém escutaria.. Achei super estranho o silêncio depois da minha proposta. mas estava muito escuro. — Vamos. cai fora! — Quem está aí? — O dono do lugar.. depois vo-cê so-be.. — Ok — murmurei com a boca quase fechada. dá o fora que esse lugar é meu. E se ele estiver armado? — gelei. sua anta! — ele esbravejou. — Mannf! — foi o que consegui dizer contra a pressão dos dedos dele. — . mas o cara não tirava aquela mão nojenta da minha boca e eu continuava só conseguindo dizer “Mannf”. Fiquei olhando para ele. Tomara que ele me procure na rua. Então ele tirou a mão... — . — Não era a voz do Cabrum. só um . Não parecia ser um bandido. — Tentei parecer calmo. dei-xa eu des-cer primeiro. Algum filho da mãe estava subindo na árvore e vinha na minha direção. afastei um galho da árvore para poder ver o sujeito.

Tô sabendo muito bem o que você está fazendo aqui. — Mentira. — Que garotas? — Larga a mão de ser besta. — De noite? Tá achando que eu vou acreditar? — É verdade.grandalhão metido como outros que eu conhecia. — Foi a única desculpa que me ocorreu na hora. . você veio aqui ver as garotas — ele apontou com a cabeça a janela das três irmãs. — O que você está fazendo aqui? — Vim desprender minha pipa. Todo mundo sobe aqui pelo mesmo motivo. baixinho. Pensei que estivesse aqui.

— Eu não sabia que você tinha que subir em árvore para mijar! — disse o Cabrum parado no meio do tronco. resfolegando como uma anta na linha de chegada dos duzentos metros rasos. e quando pensei isso lá em cima da árvore percebi que o meu cheiro naquela hora era um cheiro amarelo. Todas eram lindas — pelo menos de onde eu estava —. onde finalmente pude ver as três irmãs. trepado no camarote ao lado do grandalhão. resolvi assumir que fazia parte de “todo mundo” e olhei para a janela mágica. Espionar aquelas garotas lindas com seus cabelos flutuantes fazia um calorzinho gostoso entrar por todas as veias do meu corpo.. chacoalhando os cabelos. de adulto. o Cabrum soprou: — Plínio. com a que eu via agora. A mais nova devia ter uns catorze e a mais velha uns dezessete anos.. — E a última. de coragem. escovando os cabelos.. — Tô avisando. — Juro que é a primeira vez. sujou! O pai delas está aí embaixo! — disse o Cabrum com um fiapo de voz esganiçada. Agora cai fora! — o grandalhão me cutucou. 6 CHEIRO DE ANIMAL ASSUSTADO Já que “todo mundo” subia ali para ver as garotas. Plininho. A única coisa que o sacana do Cabrum não tinha me dito enquanto eu ainda estava ajoelhado no terraço era que as três irmãs estavam completamente vestidas! Fiquei meio decepcionado. de mato verde. fez a gente tremer na base. cheias de roupa. — Shhhh! Cala a boca que eu ouvi barulho aí embaixo — ele me tapou a boca de novo. — Se subir apanha! — ameaçou o meu companheiro de galho falando para o Cabrum. sujou! Tem mais gente aí embaixo. Desaparece! — mas qualquer coisa mudou na cara dele de repente. Mas de qualquer jeito era uma cena digna de ser vista. levantando os cabelos. Adoro o cheiro do meu pai logo de manhã. quando ele sai do banheiro. Com a voz mais apavorada do mundo. Era cabelo que não acabava mais. É um cheiro de floresta. — Que saco! — esbravejou o grandalhão. mudando de lado os cabelos. vocês aí em cima! — uma voz grossa. não sei por que lembrei do cheiro do meu pai quando ele sai do banheiro de manhã. — Tem mais alguém com você? — Mannf! — Quem está aí? — o grandalhão perguntou com voz ameaçadora. ficou com um ar de cachorro perdigueiro perseguindo caça. e andavam para lá e para cá dentro do quarto. sei lá. — Que que tá acontecendo aqui? Todos os fedelhos do bairro resolveram trepar nessa árvore hoje! — Ei. — Cfvum! — consegui dizer entre os dedos do grandalhão. Assim que eu ouvi a palavra “pai”. comparando as cenas que tinham girado na minha imaginação um pouco antes. de animal ..

— Mannftf!!. Se não descerem daí já. Ou então era o grandalhão que fedia. podia até imaginar a gente envelhecendo juntos em cima daquela árvore. — eu disse. Ou mais provavelmente nós dois. Aparentemente aquele grandalhão nunca mais ia tirar a mão da minha boca. . ele cada vez mais nervoso e eu dizendo “mannf” já sem dentes na boca.. Eu fedia a rios de suor ácido e mal cheiroso. vou chamar a polícia! — berrou de novo o vozeirão lá embaixo..assustado.

. enterrado. Já não bastava a vergonha que estávamos passando. ou amarrado num pau com uma fogueira acesa embaixo. que exigiu mil e trezentas explicações. até que o grandalhão partiu para a ignorância e disse que só estava passando por ali e resolveu subir quando viu a escada. Então o velho faiscou que nunca mais queria ver nenhum de nós por perto. que não queria dar bandeira de nenhum jeito. Me senti um mico-leão- dourado sendo filmado diretamente do seu habitat para um daqueles programas ecológicos da TV. E um holofote. — Que escada?! — perguntou o meu tapador de boca. eu tinha sido o último a descer da árvore. o binóculo passando de mão em mão. Ficamos mais um tempo lá em cima.. Olhei de novo para a janela das três irmãs. etcétera e tal. sem dar um pio. — O velho chamou a polícia! — espumou o grandalhão. E cada um foi pro seu canto. — É DEMAIS PRA MINHA CABEÇA! —o grandão estava furibundo. mas sabia que tinha pisado no tomateiro todo. Logo o Cabrum. enfrentar o resto das consequências.. E sob os olhos trituradores do pai das três irmãs. como se dissesse: “Você começou a coisa!”.. Nós três ficamos gaguejando coisas sem sentido por um tempo. 7 MICO-LEÃO-D0URAD0 — Ele vai subir pela escada — cacarejou o Cabrum. Naquela hora eu preferia estar morto. por isso o pai das garotas só olhava para mim. Que iluminou toda a copa daquela árvore. — A escada que eu coloquei para poder subir! Como você acha que eu ia conseguir subir se não pusesse a escada? — ele tentou disfarçar. — Desculpe. Tive vontade de grudar no pescoço dele e desmascará-lo na frente de todo mundo. ainda íamos ter que encarar uma noite na delegacia. Preferia qualquer dessas coisas do que ter virado inseto em lâmina de microscópio: as três irmãs estavam debruçadas na janela morrendo de rir da nossa cara. Apesar de ter sido a minha primeira vez e sei lá qual a vez dele. eu estava metido naquilo mais do que ele. que tinha me obrigado a ajoelhar naquelas malditas pedrinhas!. — Se vocês não saírem daí vou chamar a polícia! — o cara lá embaixo estava perdendo a paciência. Eu tremia inteiro. ou sendo engolido por uma planta carnívora gigante. a gente não vai mais subir aí — foi o que passou pela trava de vergonha que eu tinha na garganta. muito menos trepado naquela árvore. .. Eu estava mais furibundo ainda. sendo comido pelos bichos.. Era demais para a minha cabeça. Em vez de um blackout veio uma sirene. Acabou que nós três tivemos que descer da árvore sob os olhos curiosos dos bombeiros e de uma multidão que tinha se juntado para descobrir o que estava acontecendo. Eu rezava para que acontecesse um blackout na cidade e nós três pudéssemos fugir dali sem ninguém nos ver. Quer dizer. Mas eu estava metido naquilo tanto quanto ele.

Não levei. trovejando que eu só sabia me meter em encrencas e gritando: “É para isso que eu me mato . E foi uma dessas consequências a que mais me doeu. mas senti na cara os socos furiosos que meu pai deu na mesa.

menos gritar que eu era o culpado por ele ter que se matar de trabalhar todo santo dia e coisa e tal. por telefone. o pai das três irmãs não chegou a vir à minha casa para tirar satisfações. mas foi à casa do Cabrum. E durante aquele mês. Não queria passar nem perto da casa das três irmãs. por ter tido a ideia de subir na árvore. nada daquilo teria acontecido. eu e o Cabrum só conversamos uma vez. tinha medo que elas me reconhecessem e rissem da minha cara de novo. quase chorando. Por sorte. Preferia que ele tivesse me xingado de qualquer coisa. Fiquei me sentindo uma droga.de trabalhar todo santo dia?!”. Eu fiquei um mês só podendo sair de casa para ir à escola. E brigamos feio: eu disse que se não fosse aquela ideia ridícula dele. Ele disse que a culpa era toda minha. de colocar a escada debaixo da árvore. E deu a maior confusão pro lado dele. E magoado pra caramba. Mesmo depois de terminado o meu castigo. . Ficou sem mesada. fiquei um tempão sem ir à casa do Cabrum. sem sobremesa e sem televisão por dois meses. — Eu não estou sempre me metendo em encrencas! — retruquei.

8 O TELEPERSON
O primeiro papo sério que eu e o Cabrum tivemos sobre garotas foi
no dia em que fizemos as pazes, no fim da minha “prisão domiciliar”.
O Cabrum chegou na minha casa mais magro por causa da falta de
sobremesa e falando para dentro, cheio de dedos. Perguntou se eu não me
importava de ele ver um filme no meu vídeo, ele ainda estava proibido de
ver televisão e tal. Falei que tudo bem, mandei-o entrar e voltei para o meu
quarto, para acabar os meus exercícios de matemática. Mas fiquei curioso
para ver o filme também e acabei descendo e sentando na sala. Era sobre
uma garota e um garoto que se conhecem numas férias e se apaixonam e se
curtem e depois cada um tem que ir para um país diferente e fica aquela
choradeira e tal, e no fim não fica claro, mas a gente acha que eles vão
continuar namorando pelo correio.
Quando o filme acabou, o Cabrum ficou virando a aba do boné para a
frente e para trás sem dizer nada, e depois perguntou, sem olhar para mim:
— O que você acha delas?
— Olha, Cabrum, eu não estou a fim de conversar. — Eu ainda estava
meio bravo com ele.
— Ah, sem essa, Plínio, vamos acabar com essa situação idiota... Você
não vai querer acabar com a nossa amizade só por causa daquilo.
Aconteceu, aconteceu, pronto, acabou!
— Tá legal. Aconteceu, aconteceu, pronto, acabou.
— Então responde o que eu te perguntei.
— Não lembro mais.
— Perguntei o que você acha das garotas.
— Você está brincando?!! Você chega aqui falando “vamos esquecer a
situação” e começa a tocar nesse assunto de novo!
— Não estou falando das três irmãs. Estou falando de garotas em
geral. O que você acha delas?
— Não sei se estou a fim de falar sobre isso.
— Para com isso, Plínio... Fala, vai, o que você acha?
— Sei lá o que eu acho. Acho que estão em toda a parte. E sempre em
maioria.
— Você está fugindo da pergunta.
— Não estou fugindo.
O telefone me salvou do interrogatório. Como tinha planejado antes
de o Cabrum chegar, ia aproveitar aquele telefonema para inaugurar o
Teleperson.
— Lavanderia de Fraldas Descartáveis, às suas ordens — atendi, com
jeito de funcionário.
— De onde? — para variar, era uma garota.
— Lavanderia de Fraldas Descartáveis — repeti.
— Não é da casa do Dênis?
— Minha senhora, aqui é uma Lavanderia de Fraldas Descartáveis,
não lavamos tênis.

— Estou perguntando se aí não é a casa do Dênis!
— Não senhora, já disse que não lavamos tênis.
— ...
— Ela desligou.
— Que papo é esse? — o Cabrum estava super curioso.
— Acabo de inaugurar o Teleperson.
— Continuo na mesma.
— Atendimento Telefônico Personalizado. Para cada telefonema uma
frase especial.
— Você é doido... Quais são as outras frases?
— “Academia Cão Raivoso”.
O Cabrum ria pra caramba, começava a entender o espírito da coisa.
Então o telefone tocou de novo.
— Lubrificadora de Aparelhos Ortodônticos, às suas ordens.
— O quê? — era outra garota.
— Lubrificadora de Aparelhos Ortodônticos.
— Alô!
— O... Dênis está?
— Por favor, isto é uma pesquisa... A senhorita usa aparelho?
— Uso, por quê?
— Fixo ou móvel?
— Fixo.
— Eu sabia. Ligou para o lugar certo. Lavamos e lubrificamos
aparelhos fixos a domicílio. Fazemos o serviço em dez minutos, levamos
todo o equipamento necessário, balde, escovas, mangueira, essas coisas. O
serviço é garantido.
— Você está me gozando...
— De jeito nenhum! Somos o único lava-rápido de aparelhos em toda
a América Latina. A senhorita vai ter um encontro importante? E só
telefonar e chegamos na sua casa em menos de quinze minutos. A
senhorita vai para o seu encontro com hálito importado...
— Para de me gozar e chama o Dênis, vai.
— A senhorita me desculpe, mas não temos nenhum funcionário com
esse nome.
— ...
— Ela desligou.
— Você é... completamente doido... — o Cabrum se chacoalhava todo
de tanto rir. Pela reação dele achei que o Teleperson ia ser um sucesso.

9 OITOCENTAS GAROTAS

— Doido vai ficar o Imperador quando descobrir. Daqui a uns dias
não vai ter mais nenhuma garota telefonando para ele. Aí eu vou poder
descansar de atender oitocentos telefonemas por dia.
— E por que ele mesmo não atende?
— Porque sou sempre eu que estou perto do telefone, ora.
— Sei. Vai ser telefonista quando crescer.
— Vou fingir que não ouvi essa... Mas é sério. Sempre que atendo o
telefone, é uma garota querendo falar com o Dênis. Até uns tempos atrás,
eu me divertia tentando imaginar, pela voz, como era a garota. Quando a
garota tinha voz fininha, eu ficava imaginando o Dênis, com toda a pose
dele, indo ao cinema com uma garotinha de uns sete anos, morrendo de
vergonha porque ela carregava uma boneca na mão esquerda. Quando a
garota tinha voz de mais velha, eu o imaginava namorando com a dona da
farmácia, ela dando broncas com o dedo esticado no nariz dele e ele se
borrando de medo dela. Agora me enchi da brincadeira e inventei o
Teleperson.
— Você está com a maior inveja do teu irmão, não está?
— E você não estaria? Oitocentas garotas telefonando para um
mesmo cara todo dia? Quem mais você conhece que consegue isso, hein?
— Ora... Pode não ser o que você está pensando. Podem ser colegas
da escola querendo perguntar sobre prova, sobre lição de casa...
— Haja lição de casa...
— Cada vez é uma garota diferente?
— E isso que me deixa mais surpreso: cada vez é uma voz diferente.
— Vai ver que ele namora com uma ventríloca. Ou então ele entende
mesmo das coisas.
— Fico com a primeira hipótese.

10 O TIRO SAIU PELA CULATRA

Quando o Cabrum quer saber alguma coisa, não desiste nem que o
mundo acabe. Uns dias depois da inauguração do Teleperson, ele voltou à
carga:
— Você já se interessou por alguma garota?
Naquela hora, tive a certeza de que o meu melhor amigo não tinha
mesmo percebido que eu era tão inseguro com garotas quanto ele. Meio
contrariado, resolvi abrir o jogo:
— Detesto ter de confessar, mas o único que entende disso aqui em
casa é o Imperador.
— Você já beijou alguma garota?
Dei risada da pergunta e não respondi logo. Eu realmente não estava
a fim de falar sobre essas coisas. Mas o Cabrum é jogo duro.
Responde! Você já beijou alguma garota?
— Beijei uma. Quando eu tinha uns cinco anos e estava no jardim da
infância.
Nós dois caímos na risada. Mas era verdade, a única menina que eu
tinha beijado era a Carol, que estudou comigo no Jardim. Ela dizia que eu
era o namorado dela e isso significava que de vez em quando a gente tinha
que ficar de mãos dadas na hora do recreio. E uma vez ela me deu um beijo
na boca e eu fiquei rindo que nem bobo, me lembro até hoje.
— Estou preocupado com esse negócio — o Cabrum confessou,
pensativo. — Tem caras da nossa idade que já têm a maior experiência no
assunto. E eu nem sei se algum dia vou ter coragem de chegar numa garota
e dizer que estou a fim dela.
A droga do telefone tocou outra vez.
— Associação Protetora de Garotas Carentes — atendi irritado.
— De onde? — era uma garota. Que começou a rir.
— Não temos nenhum funcionário chamado Dênis — adiantei, para
encurtar o assunto. Durante um tempinho, só ouvi risadas do outro lado da
linha. Depois ela disse:
— Ahh... acho que foi engano.
— Essa nem encompridou o assunto — comentei com o Cabrum.
Acho que estou ficando mais convincente...
Continuamos um tempão falando de garotas, até que o telefone tocou
outra vez.
— Academia Cão Raivoso, às suas ordens.
— Oi! — outra garota...
— Oi! — fiquei esperando ela perguntar pelo Dênis. Como ela não
disse mais nada, continuei: — Você mora em apartamento e não tem
paciência para levar seu cachorro passear? Nós vamos até a sua casa e
fazemos isso por você. — Ouvi um monte de risadas do outro lado da linha.
Depois um silêncio. Então a garota começou a falar:
— Eu não tenho cachorro. Estou ligando da Associação de Proteção

E do outro lado da linha. Enquanto respondia. — Elas estão morrendo de rir da minha cara. ... Fiquei desconcertado. eu só tinha acrescentado uns doze centímetros à minha estatura verdadeira. A única coisa que girava na minha cabeça era que o Teleperson tinha furado em algum lugar e logo descobri em que lugar: nos meus planos. que é proibido passar trote — sugeriu o Cabrum.. aquelas garotas fazendo hi-hi-hi em cima do meu complexo de baixismo. ouvia uns cochichos do outro lado da linha e uma porção de risadinhas. — Escuta aqui. a tua voz está sendo gravada. — A resposta me atravessou o peito feito um punhal. O tiro tinha saído pela culatra. — Tem umas garotas me dando o troco — cochichei para o Cabrum. Gostaria de saber se você quer ficar sócio. meu telefone está grampeado. malandro. gaguejei uma resposta: — Não sou baixinho.. — Quem mandou não patentear o Teleperson? — ele me deixou com o pepino todo para descascar. me dá alguma ideia! — implorei. E devem chegar e contar tudo para o Dênis depois..aos Baixinhos. do tipo hi-hi-hi. Em vez de acabar com a tietagem daquele monte de garotas em cima do Imperador. — Respeitamos a sua opinião. Depois de um tempo que me pareceu dois anos e meio. A ideia foi tua. Mas o Teleperson tinha perdido a graça. — O que eu faço? — Te vira. não conseguia pensar em nada inteligente para responder. você pode ser presa por ficar fazendo hi-hi-hi no telefone. tapando o fone com a mão. — Essas garotas estão sempre ligando. eu não tinha imaginado a possibilidade de levar um troco. — Fala que o teu telefone está grampeado. Achei que me saí bem: a garota não conseguia mais parar de rir e acabou desligando. eu tinha arrumado era uma baita dor-de-cabeça: de cada dez telefonemas que eu atendia uns seis eram para mim. mas somos muito bem informadas.. — Está duro encarar esse troco desabafei um dia com o Cabrum. — Era quase verdade. — Tenho um metro e sessenta e quatro.

— Outro dia eu estava voltando para casa. mas o jeito delas era estranho. Num daqueles dias. a mais baixinha era uma gatinha. achando que era algum recado importante para os meus pais e coisa e tal.. achei que elas estavam mesmo me confundindo com algum garoto que estudava no Dante. mas eles não vão mudando o número do telefone da gente assim só porque um garoto telefona e pede para mudar o número. — Tá. mas não aguentei as garotas rindo da minha cara. — Ahn. etcétera. bem que eu poderia pedir o telefone dela e combinar um encontro e coisa e tal. deixava o telefone tocar umas vinte vezes e no fim só atendia porque ficava preocupado. — Sei. e para isso eu teria que contar para ele o que estava acontecendo e como tinha começado. Respondi com um “não” telegráfico e enfiei a cara na prateleira das colas. dando um monte de risadinhas. estava com saudade de fazer umas pipas. As colas eram todas do mesmo tamanho e da mesma marca mas eu fingi que não eram. Fui ficando tão nervoso enquanto pensava em tudo isso que acabei derrubando um monte de tubos de cola no chão. Então umas garotas chegaram perto de mim e perguntaram se eu estudava no Dante. — Umas garotas chegaram e me perguntaram se eu estudava no Dante. No começo. não paravam de cochichar e de olhar umas para as outras e para mim. fui até a seção de papelaria. Por sorte o Cabrum já estava na fila do caixa.. — Sei. — Me senti super ridículo. Mas elas ficaram por ali. me mandei dali o mais rápido que pude. e eu não ia ser louco de contar pro meu pai que tinha me metido em mais uma encrenca. torcendo para elas irem embora logo. Quando estava sozinho em casa. — E daí? — Ficaram cochichando e rindo umas para as outras. tinha ido na quitanda do . derrubei um monte de colas no chão. olhando papéis de carta ou sei lá o que e cochichando o tempo todo. o Cabrum passou na minha casa e perguntou se eu queria ir com ele até o supermercado. — Me senti ridículo. só para ficar ali tentando ouvir o que elas diziam. Cheguei a ensaiar um jeito de puxar papo. — Toda a vez está acontecendo isso. — Para de falar “sei”! — estourei. Enquanto ele comprava as coisas dele. meu pai precisaria ir lá ou escrever uma carta ou coisa parecida. 11 PELADO NA RUA Comecei a me sentir acuado. Cheguei a pensar em pedir para a companhia telefônica mudar o nosso número. — Sei. Cheguei a abaixar para catar as colas.

. — Pára de falar “ahn”! — estourei de novo. agachado feito um idiota.. já pensei nisso! Se fossem dois caras teriam rido do mesmo jeito. meu pé ficou numa droga de cerquinha de árvore. — No sonho? . — Para de me mandar parar de falar “ahn”! — ele estourou desta vez. catando as coisas que rolaram pelo chão. E quando faço alguma coisa ridícula perto de garotas. E eu ficaria furioso do mesmo jeito. — Seria igual se fossem dois caras. Me estatelei no chão. — Ahn.. Me senti ridículo quando vi que elas tinham parado a bici e estavam rindo da minha cara. Foi o maior vexame. — Eu estava com um saco de compras cheio até a boca — a minha boca. — Já aconteceu comigo — disse o Cabrum. sei. E depois tentou me animar.seu Berto comprar umas coisas que a minha mãe pediu. E eu lá.. e de vez em quando me virava. e eu e a sacola fomos... E numa das vezes em que me virei para olhar a garota. eles teriam rido do mesmo jeito. — Ahn. para ver se ela olhava para mim de novo. — Então passaram duas meninas de bici e uma delas me olhou comprido e tal... — Ahn. Eu detesto passar ridículo. me sinto. voou hortifrutigranjovo para todo lado. Me sinto como num sonho que tenho de vez em quando. que estou voltando da escola a pé e todo mundo fica olhando estranho para mim e aí descubro que estou completamente pelado... — Sei. Continuei andando.

.

. Até rimou. — Você saiu pelado na rua? — duvidei. sua anta? — Ora.. esperteza ambulante.. Só que eu nunca tinha parado para pensar nisso. você vai ficar famoso como o melhor amigo do Gênio do Século XXI. sua besta! Me senti pelado.. queria sumir logo dali. por causa de uma coisa assim. como é que eu ia saber que eram elas? — Vamos sumir daqui. . — disse o Cabrum. tem certeza que não estuda no Dante? — fingi que não escutei e ajudei o Cabrum a empacotar a coisarada que ele tinha comprado.. elas estão aí atrás faz um tempão. Inchei o peito e empinei o nariz: — Ainda bem que o mundo começa a entender que eu sou um gênio. louco da vida com o Cabrum. com ar pensativo. — Na realidade. uma das garotas perguntou de novo: — Ei. — Eu já tinha visto. Enquanto ele empacotava as compras. Meu nariz caiu de lá de cima e meu peito desinchou num segundo: as garotas estavam logo atrás de nós na fila do caixa. chegaram logo depois de você. — Devem ter ouvido todo o nosso papo! — eu estava roxo de vergonha. Cabrum. — Não. — cochichei para o Cabrum. ainda bem que chegou a nossa vez — despejei. — São elas!. — Por que você não me avisou. você fazer uma besteira qualquer quando tem garotas por perto. — Por causa de uma coisa assim? — É..

— O Cabrum estava sério. Mas a gente não pode falar disso para mais ninguém. Tentei pensar rápido em alguma comparação que servisse para mim.. — Uma das coisas que eu mais gosto de ver numa garota são os cabelos. era um cheiro bom demais.. — Nós dois estamos fritos. Debruçava na carteira e ficava escrevendo com o corpo inclinado. a risada das garotas ainda martelava os meus ouvidos.. Eu só falei para você porque sabia que não ia me gozar. — Bom. — I promise! — ele disse solenemente. rindo. — Então comecei a lembrar da atração que eu sentia pelos cabelos da Camilla. Promete que não fala. — Eu sou como uma aranha papa-moscas: as garotas vão chegando perto e eu vou pulando para longe — ele tentou me animar de novo. uma caspa — soltei. — Se consola comigo. 12 BELEZA DE COMPARAÇÃO Uns três quarteirões depois do supermercado. — Mesmo sendo um gênio.. sei lá. de chocolate.. acho que nunca vou ter coragem de chegar numa garota e puxar um papo e pedir o telefone dela e coisa e tal. acho que a gente não deve falar sobre isso com mais ninguém.. já mais descontraído. . Ela sentava bem na minha frente na classe e eu estava sempre dando um jeito de tocar nos cabelos dela. — Você sempre detestou esse apelido! — Continuo detestando. — Beleza de comparação — eu ri.. Cabrum... de pêssego. Me sinto um farelo. de me esconder no primeiro buraquinho que encontrar. Mas tenho que admitir que me sinto deste tamanhinho quando faço alguma trapalhada perto de garotas. — Acho que sou como. — O que você acha de a gente esperar até aparecer um “Tá limpo” na porta do Imperador e pedir uma ajuda para ele? — A coisa mais difícil do mundo é aparecer um “Tá limpo” na porta do Dênis. — o Cabrum riu. Eu adoro cabelos — fui falando. só para sentir o cheiro do cabelo dela... Tenho vontade de sumir. O Cabrum me olhou espantado. só sei que era um cheiro maravilhoso. Além disso.

Aí olhei de novo para ela. Eu estava perto da porta. uma voz meio rouca e uma boca superbonita. 13 OLHOS COR DE TERRA CLARINHA Camilla tem olhos cor de terra clarinha. no segundo dia de aula. Que sorte a minha. vai se mandando que aí é o meu lugar! — enquanto ele falava. E.. Puxa. Então. Fiquei meio parado. ele era o cara mais briguento da escola. gatinha! O baixinho é que usurpou o meu lugar. sem saber o que dizer. aquele era só o segundo dia de aula. — Cadê a plaquinha de reserva? — tentei ser irônico. sentar perto dessa garota. antes de pousarem no suéter da Camilla. Antes que eu respondesse. conversando com uns amigos. E sem pensar em mais nada. não dava para ninguém fazer muita onda sobre ser dono de um lugar e tal.. como ela é bonita. afinal. Como eu previra. era capaz de fazer a maior confusão por causa do lugar. acompanhei o looping espetacular que os últimos perdigotos tinham feito. Quando cheguei na classe. despejando no ar mais uns trinta perdigotos. — Vê se fecha a boca para falar! — retruquei.. ela estava sentada no meu lugar. — Comi ela no café da manhã — ele rosnou. Fiquei pensando o que fazer. fui e sentei na carteira atrás dela. pensando se devia chegar para ela e dizer: “Ei. Não aguentei: . Mas eu não queria sair dali. — então vi o André caminhando na minha direção.. enquanto pensava em tudo isso. com raiva de servir de campo de pouso para as gotículas de saliva daquele grandalhão nojento. E se ele não sair já daí. Eu e o André ficamos meio parados por alguns segundos. alguns perdigotos sobrevoaram a minha carteira e pousaram no meu caderno de Matemática. Fiquei olhando para aqueles cabelos compridos e tão bonitos. — Injuriado. o André parou bem do meu lado e foi logo botando a boca no trombone: — Ô meu. — Eu sentei no lugar de algum de vocês? — ela olhou para mim. mas falei o mais baixo que podia. Logo percebi que isso seria a maior mancada. o André relinchou: — Não. dá licença que esse lugar é meu”. mas achava que ele era o dono da carteira onde eu tinha sentado. Então a Camilla percebeu que aquela discussão devia ter algo a ver com ela e se virou para o André e perguntou: — Este lugar era seu? — e eu vi que ela tinha uns olhos castanhos bem clarinhos. vi umas carteiras vazias no fundo da classe e pensei em ir sentar lá e deixá-la em paz na minha carteira. Ela era nova na escola e tinha faltado no primeiro dia. Sujou! — eu não tinha certeza. Meu primeiro impulso foi devolver o lugar dele: além de grandão. vou fraturar ele em pedacinhos.

E vê se fecha a boca para falar! Apesar de ter dado umas gaguejadas. achei que tinha conseguido me impor. pô!. André! Você não está vendo que a garota é nova na classe e só veio hoje? Você chegou por último! Vai procurar outro lugar. . — Não seja criança. eu queria me ver livre da maldita chuva de saliva o mais rápido possível. Além de ter a maior raiva daquele grandalhão...

Elvira olhou duro para ele e perguntou: — Você se perdeu. a culpa é minha. — A Camilla já estava de pé. p’ssora. rapaz? Com cara de quem tinha feito xixi nas calças.. Não porque fosse estupidamente engraçada. Elvira. e disse “Sentem-se. mas para não continuar fazendo papel de bobo no meio da classe. o André desistiu da carteira. Elvira. e com um sorriso naqueles olhos cor de terra clarinha. — Mas eu já estava saindo daqui. Mas não perdeu a chance de me brindar com mais alguns espécimes das suas gotículas voadoras. quando entrou a D. a D. Mas adorei a piada.. o André respondeu. sem muita convicção: — O Plínio pegou o meu lugar. senão eu ia ter que vir para a aula de guarda-chuva. Era eu que estava sentado ai ontem. desta vez os malditos perdigotos voaram para estibordo. dele — e apontou para mim. três palavras e um ponto de exclamação bem na minha cara: — Você me paga! Eu ainda estava enxugando a herança que ele tinha deixado. menina. Então. — Professora. Elvira já pronunciou em toda a vida dela: — Não é preciso. quando a Camilla virou para trás. 14 UM GELINHO POR DENTRO Naquela altura do campeonato.” Passados dois segundos. O André é um cavalheiro. Aí eu ouvi a frase mais maravilhosa que a D. só o André continuava de pé. mas porque percebi que por trás dela tinha uma espécie de código. uma mensagem secreta: aquela garota maravilhosa estava a fim de mim.. nossa professora de História. Certamente não por cavalheirismo. a Camilla já tinha começado a juntar as coisas dela. — Eu não vim ontem e. sorrindo daquele jeito sarcástico dela.. E senti um gelinho por dentro. sem saber. Eu tentava arranjar um argumento qualquer para fazê-la ficar. Só não dei uma gargalhada sonora porque era aula da D. Elvira. . Pode sentar. Antes de se afastar. cuspiu ainda um travessão. — Você não vai querer chamar sua mãe para resolver esse problema. disposta a sair dali. cochichou: — Ainda bem que você ficou aí. vai? — perguntou a D. sentei no lugar do. — Felizmente. Todo mundo riu da pergunta e o André ficou azul de vergonha.

durante ou depois das aulas. Fiquei engasgado. Nem vi quando a Camilla saiu da classe. E logo que terminou a última aula.. levantei mais cedo que de costume. 15 UM SORRISO ESPECIAL Fiquei eufórico. Ela tinha dentista ou coisa parecida. quando minha mãe disse que não ia poder me buscar. — Se amanhã eu chegar aqui e encontrar você indevidamente depositado na minha carteira. Ficou me alugando na hora do intervalo. — A que horas você vai voltar? — minha mãe está sempre preocupada com “a que horas”. — Eu não queria mentir para ela. eu vivia falando para ela que eu podia ir e voltar de metrô. que queria a carteira dele de volta e coisa e tal. . Mas o filho-da-mãe do André atrapalhou tudo. tá bom? — pedi. Não podia enfrentar uma briga chorando daquele jeito. Minhas mãos eram dois socos raivosos. E acabou explodindo num choro incontrolável. Enquanto eu corria. vou ter o maior prazer de te triturar na saída. meus neurônios borbulhavam de raiva. Minhas pernas tremiam. — quando acabou de cuspir o resto de seu estoque matinal de perdigotos em cima de mim. — Mãe.. dizendo que aquilo não ia ficar assim. Parei. Mesmo assim. ela ficaria apavorada se eu chegasse e dissesse que ia brigar com um grandalhão na saída e coisa e tal.. disposto a alcançar aquele grandalhão metido. o sacana se mandou com os outros grandalhões amigos dele. mas não tinha outro jeito. Minha cabeça estava cheia de planos malucos. essas coisas. não vou demorar.. Naquela noite quase não dormi. esta cidade está um perigo”. pedir o telefone dela. — Depois volto de metrô. seria a minha chance de fazer amizade com ela. minha mãe até estranhou quando entrou no quarto e viu que eu já estava me vestindo. Coloquei a mochila nas costas e saí voando pelo corredor. com algum deles eu ia acertar contas com o André antes. quando ela parou o carro em frente à escola. — Por quê? — Tenho um trabalho para fazer depois da aula. não vem me buscar hoje de novo. aquele caroço de raiva que eu tinha na garganta foi ficando cada vez maior. Aliás. mas todo ano ela dizia: “Só mais este ano. no dia seguinte. ele voltou à carga: o professor ainda nem tinha saído da classe e o André já estava ao meu lado com o fura-bolos esticado no meu nariz. Meu plano era perguntar para a Camilla se ela também ia pegar o metrô. sentei na mureta do corredor e deixei o caroço se dissolver. eu ia arrebentar todos os dentes dele.

.

nervoso pra burro. carinhoso.. Parei na porta da classe. E vi que a Camilla me olhava séria. com a respiração ofegante e um soco armado em cada mão. E disse um “oi" que saiu engasgado. E começou a apontar para a carteira atrás dela.. Fui entrando na classe. A professora já tinha entrado quando consegui cochichar um travessão. Então ela sorriu de um jeito que eu achei diferente. para não irem direto acariciar o rosto dela. O André ainda não tinha chegado. Fiquei parado por uns segundos. Segurei minhas mãos. Era como se dentro dele estivessem todas as coisas bonitas que existiam no mundo inteiro. três palavras e três pontinhos perto do ouvido dela: — 'brigado pelo sorriso. . Talvez ela tivesse visto o André me ameaçar no dia anterior.. antes de começar a primeira aula. me convidando para sentar lá outra vez. Quando cheguei ao corredor do segundo andar. Os músculos do meu rosto se relaxavam. talvez só estivesse achando estranho eu parado lá na porta. Aquele sorriso era o presente mais especial que eu já tinha recebido na vida. Um sangue prateado percorreu o meu corpo. a ponta de um sapato. um toco de giz jogado no chão. que eu sentia mesmo sem ver. decidi que ia resolver tudo naquela hora mesmo. sei lá. os dois blocos de gelo que eu tinha nas mãos derretiam sob os olhos dela.. no corredor. pensando se devia entrar ou esperar por ele ali mesmo. meus olhos bicando a quina de uma carteira.

Com o Dênis por perto. — Fiz duas cestas. Só teve uma coisa que não deu certo: não consegui pedir o telefone dela. Mas eu não tinha mentido: receber aquele sorriso da Camilla valia uma cesta de três pontos.. — Não acredito nos meus ouvidos!. curiosa... Até poderia ter pedido. — Você fez duas cestas!... ele virou para a minha mãe e sentenciou: — O Caspa está mentindo. e já fazia tempo. — Mãe. Só uma vez eu tinha conseguido fazer uma cesta de três pontos.. . — Oh.. — Tá bom. o que eu tinha para contar parecia a maior besteira. De uma certa forma.. nem no metrô. fez duas cestas. e saí fora do abraço dele. — dei um beijo barulhento na bochecha dela —.. — Dênis. — Que entusiasmo!.. — inventei. Plínio.. Depois de uma pausa.. 16 DUAS CESTAS DE TRES PONTOS Entrei na cozinha assobiando. era normal que ficassem juntas o tempo todo.. — O que aconteceu.. me conta o que aconteceu. eu ter voltado de metrô junto com ela tinha sido uma cesta de três pontos. FELIZ! Depois de receber aquele sorriso especial e de saber que o André tinha faltado. Vamos. As duas eram alunas novas e tinham vindo da mesma escola. — Antes de você chegar. — o Dênis foi chegando perto de mim. fazendo uma porção de gestos com os braços. ele ia me contar por que está tão feliz. só faltou ela me perguntar se eu dormia de pijama. o famoso Caspa.. e a Pat não desgrudou da Camilla. Eu não sabia que você estava num dia de cão raivoso. mas não quis fazer isso com a Pat por perto. como se fosse uma bailarina destrambelhada. que te deixou tão feliz? — Já sei! — interrompeu o Imperador. E o pior é que eu não fui com a cara da Pat. céus! — ele recomeçou. eu ainda conseguira o mais importante: tinha voltado junto com a Camilla de metrô. — minha mãe comentou. sei lá. mãe... ela não deixava ninguém falar e ficava fazendo trinta perguntas por segundo. Total: duas cestas de três pontos. Ou foi a Camilla que não desgrudou da Pat. — Ah. Tudo isso?! — De três pontos — arrematei.. O meu brother. de três pontos! — ele falou aquilo tudo de um jeito teatral. — Me deixa em paz! — respondi mal-humorado. que pegou o bonde andando. como se fosse me dar um abraço. — O Caspa foi escolhido para a seleção de futebol de botão. eu estou só brincando com o meu brotherzinho.. — Ele não está em dia de cão raivoso coisa nenhuma — minha mãe retrucou. ele estava certo. hoje eu estou.. tá bom. será possível! — Minha mãe sempre dizia “será possível" quando o Imperador me provocava na frente dela.

dos meus pais. minha mãe os tinha convidado sem eu saber. e naquele dia era eu quem dizia “Pai. Na hora fiquei superchateado..”. meu. Com um bilhete: “Para o Caspa. Durante a festa eu poderia bater uns papos e dançar. comer um monte de brigadeiro. O pessoal foi entrando e abrindo a boca de espanto. eu achava que aquele aniversário ia ser como os outros. ganhei um blêiser. tentar dançar com ela. Fiquei emocionado com o presente do Imperador. vamos aproveitar para passear mais um pouco”. 17 UM PERFUME INESQUECÍVEL O Dênis me deu uma loção contra caspa de presente de aniversário. eu ia jogar bola no quintal com os meu primos. jogo de luzes e até um globo de espelho. depois iriamos jogar videogame no meu quarto. que graça ia ter dançar só com as minhas primas? Antes de ver aquela parafernália de som e luzes coloridas. Só na hora da festa fiquei sabendo qual era o verdadeiro presente do Imperador: a sala da nossa casa parecia uma danceteria.. do Brother”. tomar litros de refrigerante e no fim cortar o bolo debaixo daquela zoeira infernal de todo mundo cantando parabéns desencontrado. Quase caí de costas quando vi a Camilla no portão. Se um dia eu estiver num hotel na África e passar uma mulher usando esse perfume. eu estou cansado. Mas aí tocou a campainha e vi que eram uns amigos meus da escola. . de trás para a frente. meu pai saiu comigo a tarde inteira. Mas pensei que já devia estar acostumado. E uma lupa: uma superlupa que meu pai tinha acabado de ganhar do chefe dele. com som. e resolveu me dar. senti o cheiro do perfume dela e pensei que nunca mais ia esquecer aquele cheiro. aí até comecei a achar boa ideia aquela festa surpresa tipo danceteria. foi teu irmão quem montou? Puxa. Ele conseguiu tudo aquilo emprestado para me fazer uma surpresa.. o Imperador adorava me espezinhar o tempo todo. Eu não tinha visto nada. teu irmão é fera. dizendo que ia me comprar umas roupas. um presente de verdade. já está bom esse blêiser”. nem sabia dançar e mesmo que soubesse. Bem que estava achando aquilo tudo esquisito. Dos meus pais. — Pensei em dizer isso para ela. “Que som. etcétera e tal. Mas também fiquei meio preocupado. E ele falava “Não. reservei para dizer mais tarde. vamos embora. Nunca tinha feito bailinho em aniversário meu. meu pai nunca teve paciência para fazer compras.. vou lembrar que era o perfume que você usava. E quando ela me beijou para dar os parabéns. mas não tive coragem na hora. quer dizer. mais bonita ainda do que quando estava de uniforme. esperava uma coisa melhorzinha.

você me deixa entrar.) — O que você está fazendo aqui? — perguntei. vou recuperar a memória e espalhar na escola toda o que você fez com a chave do laboratório. não iria te pegar.. não quero você cuspindo nos meus convidados. Era o que ele estava tentando fazer e depois acabou conseguindo. Não fui porque fiquei doente. sabia que ele era capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que queria. — O aniversário é meu. Eu conhecia bem o André.. — Isso é outra história. senão. Não iria bater num baixinho como você.. — Se você não me deixar entrar... Vai embora. Eu te peguei? Não te peguei. — Você nem foi à escola nos outros dias. seco. André. eu não queria deixá-lo entrar. — Tua mãe me convidou. Fui até o portão.. Não o deixei passar. e que agora que tinha sido convidado.. eu não gosto de você. — Não interessa. como se fosse o dono da casa. Ela me convidou. ele mudou de tática: — Você não está sendo justo com este seu amigo. — Para de me chamar de baixinho! — Tá legal. (Você está pensando por que eu não estava com meu blêiser novo. 18 UM CONVIDADO PENETRA Meu entusiasmo evaporou quando vi quem estava chegando: o André Perdigoto. ela não teria convidado. que ninguém o convidava para nenhuma festa. — Ele foi falando e me empurrando para dentro. Aquele dia que eu disse que ia te pegar na saída. Em troca. Então ele amansou a voz e começou a dizer que sabia que ninguém gostava dele. Resolvi deixar barato. eu estou aqui. e agora vamos entrando senão a sopa esfria.. — Se te conhecesse. Não queria aquele grandalhão metido a besta cuspindo nos meus convidados. — Tua mãe me convidou para a festa. . Ele era o único que sabia do lance da chave. Mas mesmo se tivesse ido. Vendo que eu não arredava pé. É que eu adorava minha jaqueta velha e tinha resolvido me despedir dela naquele dia. Este seu amigo que já quebrou tantas para você. — Eu não quero você na minha festa. Até chantagem. O Perdigoto me deu um tapinha nas costas e cuspiu umas gotículas em forma de parabéns na minha jaqueta velha. Engoli grosso.

. que caiu dentro da privada quando berrei por causa da dor. que estava pendurada num prego. — A p’ssora mandou perguntar cadê a chave do laboratório. Me deu o maior desespero pensar que ele poderia chegar na classe e contar para todo mundo o que tinha acontecido. — E pode-se saber onde está essa bendita chave?! — perguntou a professora.. E toda vez que alguém me chama de senhor. gritei: “Não conta para ninguém!!” Minha testa doía pra caramba e estava sangrando. A professora de Ciências me pediu para ir pegar a chave do laboratório na secretaria. Cadê a chave? — Está dentro da privada. me deixando lá sozinho. o sacana. E se eu grudasse o chiclete na ponta do cabo do rodo e tentasse pescar a maldita chave? Não vai dar certo — pensei. Às vezes esqueço que tenho uma pontaria tão boa. Quando olhei lá dentro. resolver uns problemas privados inadiáveis. Olhei rápido para o André.. Tive que fazer uma parada de emergência antes de voltar para a classe. baixinho. mesmo com a mão dentro de um saco plástico. fechei os olhos e puxei a descarga. Não tinha ninguém por lá. — Seu filho da mãe! Você me arrebentou a testa! — Sorry. uma tremenda dor na testa me fez dar um grito. my friend. Quando ia puxar a descarga. Sem ter certeza se ele ainda podia me ouvir. Ele fez um sinal de que não tinha contado nada. A água não levou só o que não servia: a chave tinha ido junto. Por tua causa! O André caiu na maior gargalhada. Mas eu é que não ia enfiar a mão naquela latrina imunda. Se pelo menos ali tivesse um saco plástico. Depois de uns minutos que me pareceram dois anos. — E se mandou. segurei a chave na boca e fiz o meu depósito. Fiquei sem saber do que eu devia ficar com mais raiva: se da pedra que arrebentou a minha testa depois de quicar na parede. do lado de dentro do batente da porta. a professora estava uma fera: — Pode-se saber por que o senhor demorou tanto? — Não sei por que sempre me chamam de senhor quando alguma coisa sai errada.. Fui lá e peguei a chave. — Era a voz do André. Quando cheguei na classe. vi que os deuses não tinham me ajudado. ou da chave do laboratório. tenho vontade de jogar uma bengala na cabeça de quem chamou.. Fiquei andando para cá e para lá dentro do banheiro. com o maior nojo... 19 TUDO POR UM BOLO Fazia mais de um ano que aquilo tinha acontecido. Respirei aliviado e justifiquei: — Estava procurando a chave. Senão eu até te emprestaria alguma das minhas ideias brilhantes. A única coisa que tinha por ali era um rodo. E relinchou: — Pena que eu nem te encontrei. Entrei no banheiro.

— Vá sentar. Acho que todo mundo percebeu que aquela história estava esquisita e aquela do prego tinha sido demais. fiquei um tempão obedecendo às ordens do André. — Tá bom. E o que é isso na sua testa? — Bati no prego quando fui olhar se a chave estava lá. para não me trair. você me convenceu. que pudesse me dizer onde a chave.. e não tinha ninguém lá para eu perguntar onde ela poderia estar.. mais uns quinze perdigotos foram libertados da prisão e voaram alegres ao meu encontro.... Depois vamos descobrir o mistério da chave do laboratório. . — eu nunca tinha enrolado tanto na minha vida. Desviei logo o olhar. A professora agradeceu por eu ter ido contar a verdade e disse que me avisaria se fosse preciso mandar fazer outra chave. — pensei.. Esse é o André. — Prometo que não vou cuspir.. E ele voltou a desenterrar aquela história. — Não achei. Quando a aula terminou. no dia do meu aniversário. Se não fizesse isso. se fosse preciso.. eu ia virar o maior palhaço de todos os tempos. — acabei dizendo lá no portão. Então fui andando pelos corredores. E quando ele falou “cuspir”. com medo que ele abrisse a boca na escola. enquanto o via entrar..... — Como. Naquela época. até o pessoal do colegial ia passar o resto da vida me gozando. — A classe toda estourou na maior gargalhada.. Até a professora não aguentou e riu.. É capaz de fazer uma chantagem suja dessas só para não perder um bolo de aniversário. eu pagaria da minha mesada para mandar fazer outra. Meu moral estava a zero quando o preveni: — Vê se não vai cuspir nos meus convidados. para ver se achava alguém. não achou?! — Ela não estava no prego na secretaria. fui atrás dela e contei uma versão mais limpa sobre o que tinha acontecido com a chave: disse que ela tinha caído no ralo do banheiro e que.. Dei uma olhada rápida para o André e ele estava roxo de vontade de rir..

. Voltei para a sala. com o pepino inteiro para descascar. — O sorriso da minha mãe não me convenceu. só algumas meninas estavam dançando. hein. ia sobrar uma cadeira vazia perto delas. na qual minha mãe colocava refrigerantes: — Larga de ser chorão. Bem que eu achava que esse negócio de danceteria no meu aniversário não ia dar certo: eu e os meus amigos íamos ficar o tempo todo com as mãos no bolso. E fiquei mais chateado ainda porque ela não estava com cara de aniversário. do outro lado. um pé criando raiz no chão e o outro encostado na parede. está tudo bem. o André chovia suas babaquices sobre a cabeça de uns cinco garotos mais baixos do que ele. Recebi uma resposta gelada como o ar que saía da geladeira. a festa estava meio besta. . Não aguentei aquilo e fui chiar para a minha mãe: — O Dênis está se exibindo todo lá na sala. 20 ROUBARAM MEU SHOW Dei um giro pela sala. Você deveria agradecer. em vez de ficar com esses ciúmes bobos. É a minha chance! — respirei fundo duas vezes e fui até onde elas estavam. De um lado. Ele era o único que ainda não tinha chegado.. Nem meu pai. Detesto quando vou me queixar de alguma coisa com ela e ela acaba me deixando sair do mesmo jeito que entrei. tentando imaginar o que teria acontecido com o meu amigo. e por causa dessa falha que havia no contrato. Naquele dia. Na minha festa. só que eu esqueci de negociar com ele o que significava “não me incomodar na frente dos meus convidados”. mas detesto quando ela nem considera a hipótese de eu estar certo. amigão? — voltei para a sala. Que tremendo cano. A Camilla e a Pat tinham parado de dançar e estavam sentando. Eles pareciam preocupados. Já disse que adoro minha mãe e tal. injuriado com a chantagem que tinha engolido. ele estava me incomodando: estava dando uma de gostosão para cima das minhas amigas. um bando de garotas jogava o maior charme para cima do Imperador. Apesar do tremendo som que o Imperador tinha montado. Fui até a cozinha ligar para a casa do Cabrum. Plininho! Ele só está ajudando a receber os seus convidados. — Aconteceu alguma coisa? — Vá curtir a sua festa. o Dênis tinha prometido que não iria me incomodar na frente dos meus convidados.

. — Eu. Comecei a suar e a pensar em como tinham sido inúteis todos os planos que eu já tinha feito para encarar situações daquele tipo. Do jeito que eu tinha começado. Mas não falei mais nada. quando foi atropelada pela voz de gralha da Pat. Sentei em cima do espírito e.. 21 NEM UMA DROGA DE UM ASSUNTOZINHO — Tem alguém sentado aqui? — perguntei. que aquilo era confidencial e coisa e tal. Que coisa mais ridícula chegar assim para uma garota e ir perguntando uma asneira dessas. Fiquei desesperado. — a Camilla estava rindo e ia dizer alguma coisa. e não dava para saber se ela estava mais surpresa ou mais decepcionada com a notícia. E o rumo que elas tomavam indicava que ele estava falando com a Camilla.. dizendo que o Dênis tinha raptado a garota e fugido para casar. não consegui achar nada para dizer. meu cérebro se transformava num deserto cheio de poeira. — E é casado. — Se tiver é um espírito — a Pat me deixou com cara de idiota. quanto mais do planeta. feito um babaca. apontando a cadeira vazia. . na calma do meu quarto.. — Quantos anos o seu irmão tem? — os olhos que a Pat apontava para o Imperador eram duas tochas de balão acesas. percebi que a Camilla também estava olhando para o Dênis. — A mentira me veio rápida.. — Esta interessante pessoa gostaria de balançar o corpo junto com você. alguém tinha se aproximado de nós. aliás não aparecia nem uma droga de um assuntozinho. E parecia muito interessada. — Vinte e dois — menti. os assuntos interessantes simplesmente não apareciam. — E mesmo?! — disse a Pat. talvez eles nunca mais voltassem para mim. uma corda que eu mesmo me atirava para tentar escapar do fundo do poço. ela não ia me achar nem o cara mais interessante da sala. Antes de responder. Desesperado com aquele silêncio.. Quantas vezes. eu imaginara papos inteiros com a Camilla. Parecia que fazia um século que eu estava ali. ela prestando uma superatenção ao que eu dizia e eu prestando uma superatenção ao que ela dizia. virei para a Camilla e soltei a primeira frase que me veio à cabeça: — Você me acha baixinho? Nem acabei de pronunciar o ponto de interrogação e já estava completamente arrependido. Se eu não tentasse impedir que os olhos da Camilla viajassem para o território do Dênis. — Minúsculas gotículas voadoras anunciaram a presença do André. sem achar nada para dizer.. sentado ao lado da única garota que me interessava no mundo. Pensei em completar. Mas na hora agá.. na hora em que o “papo planejado” tinha que virar papo real. cada um achando o outro a pessoa mais interessante do planeta. Elas deram uma risadinha mas não facilitaram a minha vida: também não disseram nada.

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Primeiro pensei “que conversa?”. com a maior cara-de-pau.. Então ela olhou para mim. depois fiquei verde de ciúmes e respondi um “não” tão fraco que quase nem eu ouvi direito. . sobre ir para a escola de guarda-chuva e coisa e tal. Aquele penetra-chantagista-safado não tinha forçado para entrar na minha festa só para pegar uma boca-livre. E. ela se levantou e foi dançar com a girafa cuspidora de saliva. Ele estava querendo ficar com a minha garota! Me transformo numa caspa se a Camilla for dançar com a anta salivante! — apostei comigo mesmo. olhou para mim de novo e perguntou se eu não me importava de a gente continuar a conversa depois. Fiquei uma fera.. lembrando da piadinha que ela tinha feito na classe. olhou pro André.

quando vi o André e a Camilla indo para a varanda. fingida. Minha língua estava seca dentro da boca. disposto a tomar alguma atitude (ainda não sabia qual). Passei a mão num copo que estava no parapeito da janela da cozinha e despejei o líquido todo goela abaixo. Definitivamente.. Aquilo tinha um gosto de poeira ou coisa parecida. tinha gente ali que parecia gostar daquele imbecil. Ele vai continuar crescendo até ficar velho e eu vou diminuir até virar um. nós dois temos um problema grave de hormônios. 22 DESIDRATAÇÃO AFETIVA Era muito para a minha cabeça. Fiquei ali sentado feito um idiota. Eu poria um anúncio no mural da escola anunciando o movimento. disposta a lutar contra as humilhações que alguns grandalhões nos faziam passar... Imaginei uma forma de me vingar. Podia pegar a cadeira da cozinha e quebrá-la na cabeça dele e depois arrastá-lo até o formigueiro que havia na calçada. Fui até o quintal refrescar a cabeça. Aquele chantagista safado! E aquela. ainda por cima. iam namorar na escola. o André seria eleito o nosso inimigo número um. metralhando perguntas sobre o casamento do Dênis... Percebi que não ia aguentar aquele papo e disparei: — É tudo mentira. Eu tinha dançado. homúnculo e saí. por exemplo. eu não estava nos meus melhores dias. O Imperador estava roubando o meu show. Ia voltando para a sala. Fiquei olhando meus primos pequenos jogando bola e nem respondi quando eles insistiram para eu entrar no “time”. Uma espécie de sangue amargo começou a me tingir por dentro.. iam ficar juntos até o fim da festa. Quem tem vinte e dois anos sou eu. Se chamaria “Baixinhos Unidos contra Grandalhões Metidos”. e tinha certeza de que em pouco tempo uma legião de baixinhos estaria ao meu lado. Provavelmente seria aplaudido por todos os meus amigos.. deixando a Pat de boca aberta. trocar beijinhos na saída.. E se dependesse do meu voto. estou com desidratação afetiva. A Camilla. . O dono deste copo que me desculpe. Mas também podia ser vaiado. o Cabrum não chegava para me dar uma força. O gosto daquela noite estava insuportável. meus planos para impressionar a Camilla tinham furado logo no começo e. pensando em lançar um movimento de protesto contra os grandalhões.. Afinal. A Pat interrompeu meu raciocínio.. minha saliva tinha acabado. ele tem só doze. de mãos dadas. o André estava interessado nela.

O cabo era cheio de botões. todo mundo mostrando o passaporte! — brinquei. suando frio e respirando fundo. Quando achei que meu estômago tinha desistido de explodir nos azulejos.. Me tranquei no banheiro e fiquei ali. Para disfarçar o medo que começou a me dominar. eu estava me sentindo tão mal que não conseguia ter ideia nenhuma.. fazendo um ruído metálico.. Era a lupa mais estranha do mundo. — CASPAS COM OLHOS?! — falei por gozação. Fazer treze anos não era assim tão bárbaro quanto eu pensava: já não tinha graça chutar bola no quintal com os pirralhos dos meus primos e ao mesmo tempo eu não tinha a menor competência para conquistar uma garota. mas não consegui ter nenhuma ideia brilhante. mas não achei graça nenhuma. resolvi sumir. Consciente da minha ignorância japonesística. joguei o manual longe e comecei a procurar alguma coisa bem pequena que valesse a pena observar. fui até o quarto dos meus pais e disquei o número do Cabrum. parecia um controle remoto de TV. Apertei o primeiro e levei outro susto: a lente se fechou e se abriu. A lente era do tamanho do espelhão que minha mãe usa para tirar os pelos da sobrancelha. — Suas safadas! Vocês estão aí de novo! Vamos lá. Japonês tem cada uma. E aproximei a lupa daquele bando de turistas clandestinas que vivia ocupando a praia da minha jaqueta sem pedir autorização. chateado pra caramba. Levei o maior susto quando as caspas cresceram por trás da lente: elas pareciam se mexer e tinham uns olhos redondinhos. Fiquei olhando para aqueles botões. estava suando em bicas. Fiquei ali. pensando que meus pais não deviam ter feito merda de festa nenhuma. decepcionado com a Camilla.. Então peguei a superlupa que meu pai tinha me dado. Aliás. Resolvi tirar a roupa. Onde tinha se enfiado aquele cara?! Fui para o meu quarto e passei a chave na porta. 23 JAPONÊS TEM CADA UMA. Dentro da caixa da lupa vi um manual de instruções. tentando imaginar para que serviriam. com o mundo e comigo mesmo. tentando me descontrair.. O ten-ten- ten interminável me deixou furioso.. Então bati o olho nas cinquenta caspas que se esparramavam gostosamente pelo ombro da minha jaqueta. todo escrito em japonês. decidi apertar os botões que havia no cabo da lupa e ver para que serviam. Uma revolução ameaçava estourar no meu estômago. .

descobri. um pouco arredondada. E se eu sentisse que ela merecia minha sinceridade. Mas que raio de animal teria tufos de cabelos nos olhos? Talvez eu ficasse um tempão consumindo meus neurônios para tentar descobrir o que era aquilo. E aqueles dois buracos escuros seriam os olhos. Parecia um chapéu desabado ou cogumelo gigante. falaria aquilo tudo sobre o perfume dela e diria que estava apaixonado por ela e coisa e tal. tremendamente ampliada. me vendo grande daquele jeito. com a aba superior rebaixada cm ambos os lados. . eu ficaria louco de alegria e daria um beijo supercarinhoso nela.. se o acaso não viesse em meu socorro: dei um espirro. e então a parte superior. E nós dois ficaríamos conversando e rindo prateados debaixo de uma baita lua cheia. E no instante em que espirrei. até o meu pai sair de manhã cedo para comprar pão. Então eu convidaria a Camilla para ir até a varanda. E se ela dissesse que também gostava de mim. divertido.. seria o topo da cabeça. Cheguei a pensar em correr até a sala e peitar o chantagista do André e botá-lo para fora da minha casa. Mas também podia ser uma espécie de animal. que a imagem “incompreensível” que ocupava toda a extensão da lente era a ponta do meu próprio nariz. 24 IMAGEM INCOMPREENSÍVEL A imagem que apareceu na lente era completamente incompreensível. Dei a maior risada e por uns instantes me senti confortável.

Mas não fiz nada disso. Por mais que eu tentasse.... observando um pontinho claro que se movimentava por trás da lente. Por muito tempo não deixei minha mãe dar aquele carrinho para ninguém. eu tinha o maior gosto de lavá-lo com a mangueira e depois enxugá-lo com um pano até ele ficar brilhando.. (Sei que você está pensando o que adianta ter uma superlupa se a gente precisa apertar bem os olhos para poder enxergar o que está do outro lado da lente. e mesmo assim senti pra caramba. dissolvendo a imagem do meu poderoso nariz.. pensando em ampará-lo quando ele despencasse do ombro da minha jaqueta.” — vindas não sei de onde.. Também pensei isso na hora. o motor era na minha garganta. E uma das maiores tristezas da minha vida foi quando minhas pernas não couberam mais dentro dele.. . não tinha uma droga de um desvio no meio daquele monte de trilhos. pelos. asas. Eu pedalava feito um doido por todo o quintal. Abri a mão em concha. quando de repente tudo escureceu. — Devo ter apertado um dos botões sem perceber — murmurei... — e os olhos da memória me levaram de volta para o carrinho que ganhei de Natal quando era pequeno. 25 MINIATURA DA MINIATURA Pena que eu não sou grande desse jeito. aquelas palavras estranhas entravam pelos meus ouvidos.. como se estivesse com um controle remoto de autorama na mão.. Comecei a apertar os botões da lupa. Foi me dando um desespero. me sentia o máximo pilotando um carro “de verdade”. quando meus pensamentos voltaram da lua cheia. aquele pontinho móvel estava me matando de curiosidade. como meu pai fazia com o carro dele. Os olhos da minha memória se apagaram quando vi que o carrinho que eu olhava através da lente disparou pelos trilhos do tecido da minha jaqueta. e fiquei tão irritado que tive vontade de estraçalhar aquela droga de lupa contra a parede. Mas uma espécie de voz esganiçada desviou a minha atenção: “Fungo.. Apertei bem os olhos para ver o que era aquilo. Mesmo assim.. Eu podia entrar dentro dele.) — Parece uma miniatura de miniatura de carrinho. não conseguia brecar ou desviar o carrinho. Então a lente se fechou e se abriu novamente. — murchei. inseto.. Só deixei minha mãe dar o carrinho quando já tinha uns dez anos.

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gelado de medo. . Como naqueles sonhos. e agora estava sentado sobre o que restara dele. Naqueles sonhos eu sempre tinha uma sorte danada. revi as cenas de um sonho que eu tinha com frequência. eu caindo de um lugar altíssimo. Apesar daquele acidente maluco. eu podia me mexer livremente. principalmente eu. Como um relâmpago. Senti o maior alívio quando apalpei meu corpo. nada me doía. ou acordava durante a queda. meu corpo se batendo contra as paredes de um lugar pequeno demais para o meu tamanho. Mas meu entusiasmo só durou até eu notar que estava pelado. vi que eu tinha capotado com um carrinho de corrida que nem sabia de quem era. 26 EM QUEDA LIVRE Comecei a gritar quando senti que estava em queda livre. desta vez também tive sorte: depois de um baque surdo contra uma superfície macia. ou alguma força salvadora me fazia reaparecer de pé num lugar estável. antecipando o momento em que me arrebentaria sem defesa contra o chão. Pelo pouco que podia enxergar naquele lugar escuro. Olhei à minha volta. tudo ficou parado e quieto.

como era possível que as minhas tivessem sumido? Mesmo sem achar roupa nenhuma. o chão daquele lugar tinha um padrão geométrico bem definido.. Nunca tinha ouvido falar de uma vítima de acidente encontrada sem roupa. — Costurada! — gritei. nem roupa... talvez até queira me matar quando descobrir que não tenho nada para ser roubado. Então matei a charada: por alguma razão misteriosa. enquanto eu olhava assustado para aquele deserto escuro e cheio de morros ondulados. Como é que você vai sair dessa enrascada? . 27 A CAVERNA — Que raio de lugar é este?! — meus neurônios perguntavam uns para os outros. vi que a borda daquela fenda era toda costurada com uma corda azul-marinho. eu tinha sido engolido por aquela lupa maldita. Por sorte ali era bem escuro e não tinha ninguém por perto. Não tinha uma árvore por ali. Era um silêncio em estado sólido. E daí? — rebateu o meu lado prático. tinha sido “pilotado” por uma miniatura de carro de corrida e agora estava pelado em algum ponto da minha própria jaqueta! Então tudo ficou claro: aqueles morros ondulados eram as dobras do pano. morros ondulados... Vai que eu grito "ô-ô " e aparece um desgraçado querendo me assaltar neste lugar escuro... Corri até a porta da caverna e ajoelhei para ver bem de perto a superfície onde estava. Apressei o passo. Como eu pensava. era minha voz sem tirar nem pôr. Fiquei eufórico com a descoberta: Plinio. Conforme fui chegando mais perto.. iluminada por uma pequena claridade. Continuei andando sem dar um pio. aquela caverna enorme que eu tinha diante dos olhos só podia ser uma casa de botão. Aquele chão era todo macio. Quando estava no alto de um daqueles morros. Procurei minhas roupas.. resolvi sair andando. Uma vez escalei uma montanha junto com a turma do acampamento e quando cheguei lá em cima fiquei um tempão gritando “ô-ô” e depois de uns segundos o eco devolvia meu ô-ô igualzinho. você é demais!. Quem sabe se dentro dessa caverna tem alguém que possa me dizer onde estou.. era feito de cordas paralelas que se cruzavam com outras cordas paralelas. tive vontade de dar um grito para ver se ali fazia eco. Nem um grilo cantando. azul-marinho. Nem lua. Nos espaços entre as cordas havia sempre um buraco quadrado. Estava começando a cansar e achar que tinha escolhido o lado errado para ir. Costurada. tentando um insight fulminante que me fez tremer da cabeça aos pés. quando avistei uma espécie de caverna. o único problema eram uns buracos nos quais meu pé se enroscava de vez em quando.

Com certeza nenhum deles poderia imaginar que eu tinha virado um homúnculo e estava sozinho no deserto da minha jaqueta. Em vez de produzirem uma solução para a minha fome. como lembrava que o Tio Patinhas fazia quando precisava tomar uma decisão importante. ia me sentir mais infeliz ainda. exausto. meu pai também chorava e não conseguia falar nada.. Ele gritou “ai” e recolheu a mão e não respondeu nada quando todo mundo quis saber por que ele tinha gritado “ai”. cruzei as mãos atrás da cintura e comecei a andar em círculos. só chorava feito uma criancinha. eu sempre sabendo o que ela ia dizer em seguida: “Chega por hoje. Devia estar inconformado por eu ter me metido em mais uma encrenca. No meio do jantar. bolos de chocolate com cobertura reluzente. Meu primo me fuzilou com os olhos e me deu um chute por baixo da mesa. e não conseguia falar quase nada.. a luz acabou e eu tentei espetar com meu garfo a última fatia de carne assada que tinha sobrado no prato. talvez já tivessem entrado no meu quarto e estavam pensando que pulei a janela. Da raiva que ele tinha de ser obrigado a comer sopa de verdura toda noite: meu avô plantava a verdura e o dinheiro não dava para outros tipos de comida. eu não sabia se ele estava triste por causa do meu desaparecimento ou contente por saber que agora seria filho único. aquela fatia de carne cheia de molhinho já estava bem guardada na minha barriga. 28 RONCO GIRATORIO Olhei desanimado para aquela casa de botão. Acabei espetando a mão do meu primo.. que tinha tido a mesma ideia que eu. que era umas vinte vezes maior do que eu. que fugi de casa. até virar um choro quieto e doído: eu não queria meu choro ecoando naquele silêncio. Pensei na minha mãe desmanchando meus cabelos no travesseiro todas as noites.. só balançava a cabeça para os lados. meus neurônios ficaram fabricando imagens coloridas e super-reais de tortas de frango fumegantes. na casa da tia Maria. Era aniversário de alguém. Vai ver que ele se mata de trabalhar para não ter que . e que ninguém tinha tido coragem de pegar.. Quando meus tios acenderam as velas. quando viu que a carne tinha sumido. iguais àquela que comi no escuro. fatias de carne assada cheias de molhinho por cima. O que eu faço agora? — me aninhei numa dobra do pano. As imagens eram tão nítidas que me apertaram o peito. Eu conhecia bem aquele som e sabia que só uma coisa acabaria com ele: comida. Eu via o rosto dos três bem na minha frente: a cara do Dênis era meio indecifrável. Naquela altura.. corujão. Lembrar daquelas cenas me fez pensar na minha família.. Será que vou conseguir sair dessa encrenca? — uma dor quente foi se afundando para dentro de mim. quando ele era criança.. Foi só eu fechar os olhos e um ronco giratório começou a cavar aquele silêncio de pedra. minha mãe parecia ter envelhecido uns dez anos e dava entrevista para uma repórter que falava em sequestro e resgate e tal e coisa.” Pensei nas histórias que meu pai contava. Mas como iria achar alguma coisa comestível em cima de uma jaqueta? Levantei.

eu adoro você. dando um chute no ar. Ou teria? Isso veremos — enxuguei as lágrimas no dorso da mão e parei com aquela coisa idiota de andar em círculos. Então fiquei pensando que eu nunca tinha tentado furar a bolha transparente onde ele se guardava. Lembrei dos papos com o Dênis nos dias de “Tá limpo”. não teriam existido aqueles papos de igual para igual. E a imagem dele dentro da pele das minhas lágrimas fez brotar. Era só você me respeitar e parar de me chamar de Caspa. querendo que o meu velho complexo se estilhaçasse contra as paredes daquele silêncio. Não teria sorrido daquele jeito.. de algum lugar no fundo de mim mesmo... com todo o meu estoque de voz..”... Se não fosse assim. — EU QUERO COMEEERU.obrigar a gente a comer sopa de verdura toda noite. Se eu conseguisse voltar ao meu tamanho normal. . ia me sentir dinossáurico.. acho você o máximo. não teria me olhado macio como pó de terra clarinha. E daí que eu sou baixinho?! — gritei. E ia consertar umas coisas na minha vida. — gritei. uma certeza inesperada de que ele também gostava de mim como eu gostava dele. não teriam existido as partidas de truco nos dias de “Tá limpo”... nunca tinha chegado direto nele e falado “mano.. não teria insistido para eu sentar atrás dela. Se a Camilla não gostasse um pouco de mim.

que eu tive o azar de escalar pelo lado da casca. . me fazendo rolar de volta para a superfície. estava improvisando asas. meu corpo bateu contra um paredão inclinado do tecido. — Acho que vou dormir um. uma rajada de vento gelado me estilingou feito um bólido para a estratosfera. que me empurrava para trás. Eu só me meto em encrencas. me concentrei para pular lá de cima. mussarela derretida.. Dei ao meu corpo o máximo de impulso que podia. Por sorte. meu estômago cantava uma ópera líquida. que eu levei um tempão para escalar.. — e junto com aquela risada foram chegando outras mil risadas que eu não tinha rido e que me perdoavam de todas as trapalhadas que eu já tinha feito na vida. E tinham uma consistência esquisita: iam se grudando umas nas outras conforme balançavam no ar. fui soterrado por uma avalanche morna que se precipitara de uma daquelas tiras.. Um cheiro maravilhoso de. 29 ÓPERA LÍQUIDA O eco do meu grito ainda sobrevoava o silêncio. escorregava três de volta. agarrei uma daquelas tiras de mussarela e fui comendo tudo a que tinha direito. Olhei para o alto e a única coisa que descobri foi que as tiras daquela cortina se engrossavam à medida que subiam em direção a algum ponto acima de onde eu estava. De bem comigo mesmo. espalhando um cheiro poderoso que me enchia a boca de saliva. e que era mais liso do que sabonete molhado: a cada passo que subia. E enquanto aquele queijo maravilhoso se desmanchava na minha boca. que por sinal tinha um gosto delicioso.. mas não me fizeram voar: eu já estava prevenido. Outras rajadas fortes se seguiram. Morrendo de frio. Quando coloquei a cabeça para fora. agitando pernas e braços para não cair como um chumbinho de pesca no chão. Desesperado. era um gigantesco pedaço de tomate.... de satisfação. sem que eu tivesse tido tempo de pular fora... Quando me dei conta. Só quando cheguei ao topo do paredão pude ter uma visão calma daquele mar vermelho: não era à toa que eu tinha achado uma delícia engolir aquela “água”. — não deu tempo de terminar a frase. Eu tinha nadado em molho de pizza! E aquele maldito paredão escorregadio. Terminei o salto com uma cambalhota. Sem esperar nem um segundo.. vi que a minha única saída era escalar um enorme paredão vermelho que estava próximo de mim. comecei a nadar em direção à tona daquele mar grosso. para não correr o risco de mergulhar de novo no Mar Vermelho. Quando eu ia agarrar um pedaço daquele presente dos deuses. Estourei na maior gargalhada. carimbando num ponto seco da minha jaqueta o resto de molho que ainda me lambuzava o corpo. quando um tremendo susto me fez dar um pulo para trás: uma espécie de cortina gigante por pouco não despencara em cima de mim. abracei meu corpo e saí andando contra aquele vento.

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A vida inteira tinha subido em lugares altos. 30 NEVE CAINDO AO CONTRÁRIO Não tinha andado dez passos. Fui subindo pela corda com a maior facilidade.. me deixando todo arrepiado. Queria ver um grandalhão subir aqui com a mesma rapidez que subi. E aquela vez. quando meus cabelos pararam de voar e tudo ficou quieto novamente. essas coisas. Não é à toa que minha jaqueta vive forrada de farelos. Em volta dela estavam umas cinquenta bolotas pardas. inundou aquele silêncio. Então uma música imponente. outras vezes para pegar balão. era firme o suficiente para aguentar o peso do meu corpo. E estremeci: tinha acabado de descobrir de onde conhecia aquelas caras todas iguais. Dei uns puxões fortes nela. de orquestra. um CD que eu adorava.. o corpo preso contra o tecido da minha jaqueta por uma corda clara e brilhante.. aqueles olhos redondinhos: — São as caspas que eu vi com a minha lupa! . como se fossem neve caindo ao contrário. Era a primeira faixa do Time Warp. resgatar bolas em cima do telhado. minha mão tocou em algo que parecia a ponta de uma corda.. todas com a mesma cara. desenroscar pipa. Assim falou Zaratustra. Atravessei correndo a pequena distância que me separava da casa de botão: era de lá que vinha. do Strauss! — lembrei. — pensei. — cheguei no alto da corda me sentindo o má-xi-mo. Quando apoiei o corpo na borda lateral da fenda. Estava deitada de costas. às vezes só pelo prazer de subir e olhar as coisas de um jeito diferente.. para ver as três irmãs. Pareciam muito concentradas.. falando pelos cotovelos e cuspindo uns farelusquinhos pardos que iam subindo no ar uns ao lado dos outros. Quase caí duro quando enfiei a cabeça para dentro da fenda: uma formiga enorme agitava as patas no ar. Aquele vento misterioso e gelado desaparecera.

.. vendo que a corda clara e brilhante que prendia a formiga contra o chão era um fio do meu cabelo... Que nome estranho para uma formiga. ACABAR COM ELES!.. vamos transformar os humanos em Nyfs como nós.. O que eu estava vendo e ouvindo significava que aquilo que todo mundo chamava de “caspas”. e com a Nova Fórmula Miniaturizante Nyf um-ponto-quatro.. — Ah. os humanos sempre nos trataram com o maior desprezo. — E como isso pode ser feito? — o treiNyf quis saber.... — Senhores Nyfs — zumbiu o tal do inventor-chefe.. o nosso Inventor-Chefe. Mas graças à Nova Fórmula Miniaturizante Nyf um-ponto-quatro. Fiquei boquiaberto.. Veja. — Chegou a hora de fazermos o primeiro teste com a nova Fórmula Miniaturizante Nyf um-ponto-quatro! Com a palavra. Mas continuamos indignados com o desprezo com que ainda somos tratados. expulsando-nos com seus safanões idiotas e fazendo com que muitos trilhões de nós se desintegrassem e desaparecessem deste planeta. Por essa razão. É tudo muito simples.. cheio de orgulho. tudo isso vai acabar! — Senhor inventor-chefe. descoloridos e todos com a mesma cara. decidimos não mais lutar contra os humanos. na verdade eram minúsculos seres vivos. tinham nome e falavam difícil. que se encarregam de miniaturizar outros humanos. Para que nossa espécie não se extinguisse. 31 OS NYFS — Suas desgraçadas! — ruminei. Vamos repovoar este planeta com a nossa interessante espécie! — exclamou o inventor-chefe. E que espécie mais estranha.. — O que são Agentes Nyf? — São humanos que estão do nosso lado. jovem treiNyf... como os filhotes do meu discurso se lançam no ar e se acumulam organizadamente sobre o corpo desse Hexápode tríptico.. — continuou o inventor-chefe — conseguimos uma das mais altas taxas de reprodução do planeta. meus olhos acompanhando a trajetória daqueles filhotinhos pardos que não respeitavam a força da gravidade. . Tinha-me esquecido de que temos treiNyfs nesta reunião. — Com esse método de reprodução. não entendi nada do que o senhor falou. — interrompeu uma das bolotas da plateia. Muitos trilhões de Nyfs como nós simplesmente desapareceram por causa dos cruéis safanões com que sempre fomos tratados.. senhor Nyftox. — Com a ajuda dos Agentes Nyf que espalhamos pela Terra. jovem treiNyf: desde o Big-Bang. — Atenção todos os Nyfs! — uma voz de mosquito se destacou no meio daquele burburinho. — O senhor me desculpe. tivemos que aumentar a nossa capacidade de reprodução e passamos a nos reproduzir pela boca. — Desde o Big- Bang temos nos submetido ao desprezo e aos maus-tratos dos humanos. e sim. — pensei. preparando assim o caminho para a aplicação da nossa Fórmula — o inventor-chefe sorriu satisfeito.

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Foi então que um pensamento sensacional começou a piscar no meu cérebro... quer tenhas pelos.. — O inventor-chefe estendeu uma espécie de tentáculo comprido até tocar na cabeça da formiga. a formiga chorava e ia ficando cada vez menor. meus olhos focalizando aos poucos os objetos tranquilizadores que fazem parte do meu quarto — como tantas vezes já tinha me acontecido. tremendo inteiro. E começou a recitar. Sem largar da corda. Eu já podia me ver acordando ofegante. Nyfbox — corrigiu o inventor- chefe. decidi que iria embora dali o mais rápido possível. com voz solene.. Nyftox — interrompeu a bolota-chefe. — Silêncio. só até saber o que é essa tal de "Fórmula Miniaturizante Nyf um-ponto-quatro ”.. Ao mesmo tempo. por via das dúvidas. aquela nuvem de farelinhos pardos começou a se desmanchar e a cair sobre o corpo dela. eu te ordeno que te reduzas e te curves e te entregues mansamente aos meus Poderes Miniaturizantes! Que o sinal de menos que agora inscrevo no teu semblante dilua para sempre o teu amor próprio e as tuas belas cores internas! Em nome da Grande Missão Nyf Universal. Nyfbox.. Eu me recusava a acreditar naquelas idiotices mas. onde já fiz o primeiro teste. fechei os olhos e comecei a sacudir violentamente o corpo de um lado para o outro. o pijama empapado de suor. com um brilho nos olhos redondinhos. te conjuro a tornar-se um Nyf! Meus neurônios começaram a fervilhar e a soltar fumacinha: conforme ele repetia aquela fórmula macabra. — Enquanto aguardamos a chegada do humano. Nyfs! — esbravejou o inventor-chefe. E os resultados foram excelentes! — Nyf! Nyf! Hurra! — gritaram as bolotas da plateia. — Fungo ou inseto. me deixando animado: ISSO TUDO SÓ PODE SER UM PESADELO!. — Ninguém vai me transformar em Nyf! — gritei dentro de mim mesmo.. duzentos nyfômetros daqui.. sr.. sr. qualquer que seja teu nome ou teu tamanho.. . humano ou camelo. Vou ficar mais um pouquinho. — Com todo esse barulho. quer tenhas asas. — Acabo de voltar de Nyfópolis. usando para isto o Hexápode tríptico que capturamos para esse fim. podemos espantar o humano que miniaturizei e que a esta altura já deve estar por perto. vamos ao segundo teste. sr. — Agora vamos ao segundo teste. 32 O SEGUNDO TESTE — Chega de conversa mole e vamos ao primeiro teste.

.. — Fiquei desesperado.. senão a sopa esfria.. Também odiei a pergunta.. Enquanto ele se virava para olhar o que era. então só poder ser. O coração aos pulos. 33 NÃO SOU UM INSETO — Sem penas. — ele disse. me empurrando com a barriga.. quando ouvi aquela voz de mosquito. fazendo com que eu me estatelasse no chão. sentei no chão e comecei a pensar naquela pobre formiga. me arrancou de cima da corda. o Nyf enroscou um dos seus tentáculos no meu pescoço e. — Está passando mal. o humano miniaturizado! Antes que eu pudesse consertar a besteira que tinha feito. e só parei quando minhas pernas pediram água. a única diferença era que os farelinhos que a bolota cuspia para cima grudavam na minha pele. por causa do suor nervoso que me brotava pelo corpo. Felizmente estava tudo lá. Dei uma conferida rápida no que restava de mim. Uma raiva primitiva. satisfeito. Ouvir aquela voz de mosquito significava que eu não estava tendo um pesadelo. ferveu o meu sangue. E enquanto os pedaços navegavam no ar. Agora vamos entrando. concentrei toda a minha raiva no pé direito e dei-lhe um chutaço de baixo para cima. . quando meu coração parou de pular. Só me faltava ter criado dois pares de asinhas transparentes e sair voando por ali feito uma libélula. Eu já sabia a força que tinha... pousado lá no alto. sem escamas. para socar e chutar aquele bolão cretino até que ele virasse uma poeirinha junto com seus filhotes nojentos. Eu queria ter barras de ferro no lugar dos braços e das pernas. Não acreditei no que vi: aquele corpo que antes parecia tão compacto se esfacelou feito uma batata frita sob o impacto do meu chute. pelo menos no pé direito. com um tranco. inseto?.000 megawatts e berrei: — NÃO SOU UM INSETO! E VÁ PRO INFERNO! — Se você não é um inseto. arregalei os olhos de susto e gritei: “NÃÃÃOU”.... corri feito um louco para longe dali. Lancei sobre o Nyf um olhar de 4. aos pés dele. E que aqueles Nyfs idiotas tinham me descoberto. — gelei.. — O inventor-chefe vai ficar muito contente com a sua chegada! — o desgraçado sorria. incontrolável. que vinha bem debaixo de onde eu estava. Preciso voltar lá e ver se consigo ajudá-la — decidi. Então pus em prática o meu plano de emergência: olhei rápido para um ponto acima e atrás dele.

era eu. um pouco mais velho. com um boné virado ao contrário. Meu sorriso começou a se fechar de preocupação. até atingir uma altura impressionante. decidi entrar direto. vi que aquele não era mais o Cabrum. . E gritei: “Força. meu amigão do peito. Mas ele não fez isso. tentando impulsionar o balanço. nem o inventor-chefe. Não tive outra alternativa a não ser ficar olhando para ele de longe. Me sentia cheio de coragem. deixando que o balanço parasse aos poucos. E quando ele gritou “UAUU”. de pé sobre o retângulo de madeira. Mas percebi que entre o lugar onde eu estava e o lugar onde ele estava havia um enorme abismo de ar. — Cabrum!! — gritei várias vezes. Não deu dois segundos e o balanço começou a ir para frente e para trás. Então centenas de vaga-lumes foram se aproximando das nuvens de guache e cavando pequenos buracos que começaram a piscar verde na penumbra. Levei um choque quando percebi que o cenário estava todo mudado. capaz de enfrentar qualquer risco. nem os cinquenta Nyfs todos com a mesma cara. um garoto com o boné virado ao contrário gritava: “Quem me empurra?”. ali tão perto. sentado num balanço de parque parado. Logo em seguida. Não vi mais a formiga. 34 RISO LÍQUIDO Corri de volta para a casa de botão. parecia que ele ia tentar um giro de 360 graus. Pensei em correr até onde ele estava e lhe dar o maior abraço do mundo. Cabrum!”. louco de alegria ao ver o meu melhor amigo. Meu coração começou a bater forte e rápido. Me ver daquele jeito fez com que meus olhos se enchessem de riso líquido. Abaixo delas. nem nada. só começou a rir feito doido lá em cima e depois relaxou as pernas. presas por fios transparentes. Mas ele não deu o menor sinal de ter me ouvido. Em vez de subir pela corda. ele começou a encolher e esticar as pernas com força. Umas nuvens de guache balançavam na penumbra. Não sei se ele escutou meu último grito. ou se simplesmente desistiu de esperar que alguém fosse empurrá-lo. cada vez mais rápido. com um sorriso carregado da maior amizade que pode existir entre duas pessoas. nem mexeu a cabeça.

Como uma pele de cobra sem a cobra dentro. Então abri a porta. Olhei à minha volta: estava deitado no chão do meu quarto.... . — pensei. as pernas vazias pendendo para fora da cama. Devem estar inchados.. de volta ao tamanho normal. — afirmei. meu corpo oscilando de leve. gritei para o Dênis ir embora. abra essa porta!”. Cacos de palavras quicaram no meu cérebro sem fazer sentido. penteando os cabelos com as mãos. primeiro precisava acertar umas contas. — Estou ótimo — garanti.. está frio — adorei ouvir a velha recomendação. Plínio. Enquanto me vestia. e corri para a sala. — Plínio. recoloquei-a na embalagem e guardei-a na estante. Meus pés entraram apertados nos sapatos. como se eu estivesse num elevador supersônico. meu filho!! O que aconteceu com você?! — Por que se trancou no quarto? — Você está bem? — Íamos arrombar a porta!... 35 TROCA DE PELE Ainda estava rindo quando comecei a me sentir esquisito. eu só me senti mal e acabei adormecendo. Recolhi do chão a superlupa. “horta”. tremendamente aliviado por estar de volta à vida normal. o vozeirão do Dênis sacudiu os meus neurônios. Achei engraçado ver as minhas roupas ali deitadas. me olhando com olhos graves. — Acho que não me serve mais — expliquei. entre espirros. a camiseta para cima das calças. Então ouvi claramente as palavras: “Plininho. — Já vou! — gritei. sem ter certeza de que era isso mesmo o que tinha me acontecido. uma zonzeira branca esfumaçando as minhas ideias. “ninho”.. — Está tudo bem. — Vista a sua jaqueta. nunca andei tanto como esta noite. Prometi que explicaria tudo com calma depois. “assa”. com urgência. emocionado. Pensei ainda estar dentro da casa de botão quando meus olhos começaram a refazer as formas. — Você está bem mesmo?? — Todo mundo está preocupado com você lá na sala!. — meus pais e o Dênis falavam ao mesmo tempo. E dei um abraço forte em cada um deles. meu nariz abrigando o baile dos ácaros que pululavam no carpete. as cores e a lua cheia do pôster do Klee que tenho no meu quarto. prometendo que voltaria para a sala em dois segundos.

. Então vi que o Dênis se encarregava de retribuir o décimo terceiro soco que eu tinha levado. Por favor. — Não acredito. de onde me olhou. A festa ainda nem começou. O baixinho está pensando que é gente. Ele se virou.. seu Agente Nyf filho-da-puta! — berrei. Desprevenido... — Em troca das tuas chantagens... 36 AGENTE NYF Meus amigos estavam amontoados num canto da sala. com mãos nervosas. — informou o Lucas. Mas também dei uma dúzia de socos no Perdigoto. — Não vim aqui choramingar nada! Vim aqui para te dar isto — e explodi minha mão fechada contra o estômago dele. E quando tomei o décimo terceiro. Corri duas quadras até encontrar o André. — Não.. desacreditando. O baixinho veio choramingar que eu estraguei a festinha babaquinha dele. e sai voando em direção à rua. com as pernas e os braços engessados e pendurados por carretilhas. ninguém vai embora. eu volto num minuto! — gritei. impaciente. vocês todos ficam aqui.” Mas encarei a briga: levei uma dúzia de socos em tudo quanto foi lugar. Me imaginei todo destroçado. o André perdeu o equilíbrio e caiu sentado no chão.. depois de repetir trinta vezes que estava tudo bem. ... — Pra que lado ele mora? — perguntei.. caí feito um saco de batatas no meio da rua. — Acabou de sair — explicou a Camilla. surpreso. Quando o André caiu feito um saco de batatas no chão. com cara de enterro. o Dênis me carregou dali. — Cadê o André? — perguntei. Estranhei o André não ter pulado de novo em cima de mim. — Ele te fez alguma coisa? Quer que a gente vá junto? — meus amigos perguntaram.. — ele estava se levantando. — Já sei. — Pro lado da estação do metrô.. numa cama de hospital.. me estranhando. E meu pai me olhando e balançando a cabeça e dizendo “você só se mete em encrencas. — Preciso falar com você — gritei.

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onde? — No ombro da minha jaqueta. pelado. — O Perdigoto já estava acabando comigo — expliquei. Não sei o que era aquilo.. pensei que você achasse engraçado..... na janela da cozinha. antes de tudo acontecer.. — Porque achei estranho você ter passado mal daquele jeito e depois sair correndo feito um doido atrás do grandão. — o caroço na minha garganta estava querendo crescer.. lembrei do copo que estava no parapeito da janela da cozinha.. Do jeito que ele falou. você foi lá. você bebeu?! Quando ele falou aquilo.. . correndo o risco de virar um Nyf. — Você não sabe nada de mim. você não está legal.. — Eu precisava acertar umas contas com ele.. do líquido com gosto de água de chuva que virei goela abaixo. — Eu não sabia que você levava a sério. Precisamos descobrir. parecia que nós éramos dois irmãos inseparáveis. aquele grandão podia ter acabado com você! — ele parecia preocupado de verdade.. atirando tocos de giz na minha orelha. não fui? — ele engoliu grosso. 37 COISA COM COISA — Por que você foi atrás de mim? — perguntei para o Dênis. urgente. — Você foi um louco. me proibindo de entrar no teu quarto. ora! — Plininho. que ele estava sempre me ajudando e me salvando de confusões e coisa e tal. — Era tudo brincadeira — ele tentou se safar —. — Vivia me humilhando... — Lá... — Só bebi um troço que estava num copo.. minúsculo..... Você não está falando coisa com coisa. Só se interessou em ficar o tempo todo me diminuindo. porque nunca se interessou em saber. — Não foi nada fácil ficar lá. Mas você passou a vida inteira me espezinhando. você sempre me ignorou! — Eu fui lá te ajudar com o grandão. — Por que você não disse antes? — Ora.. — Plininho. — É. — Ninguém acha engraçado ser espezinhado o tempo todo pelo próprio irmão. me chantageando.. Dênis! Você nunca me deu a mínima!. quando estávamos voltando.. — E por que você não me chamou? Achei gozada a pergunta. Foi muito legal você ter ido lá e coisa e tal. — Era assunto meu — resumi. Fora aqueles dias de “Tá limpo”. Como se fosse um Agente Nyf! — o caroço explodiu.

que tinha começado pelo avesso. — Estou falando coisa com coisa. — Acho bom.. mas gostava. estava ficando perfeita. — ele também estava emocionado. quando você respondeu.. — Hoje é meu aniversário e a vida é maravilhosa! — gritei. Lembrei daquilo que eu tinha pensado durante a minha viagem maluca. de que o Dênis gostava de mim como eu gostava dele. Achei que tinha te acontecido alguma coisa grave. me passou pela cabeça que aquela noite. — Mano. Daquele jeitão dele. pareciam abrir caminho para muitos dias de “Tá limpo”. Daquela certeza que me deu de repente. Obrigado por ter ido me dar uma força. — dei um abraço forte nele. E aquela viagem maluca até que tinha sido divertida.. Eu tinha conseguido me livrar dos Nyfs. olhando firme nos olhos dele. — Foi de irmão para irmão. Eu ia arrombar a porta. para um “Tá limpo” definitivo. O gesto de solidariedade do Dênis. ou talvez. — Só que é tudo muito complicado para eu te explicar agora. no meio da tua festa de aniversário.. — Eu adoro você.. sempre te achei o máximo. Quando começamos a andar novamente. .. Já disse que depois te conto tudo com calma. Eu fiquei apavorado com aquela coisa de você se trancar no quarto. Meu amor-próprio estava novinho em folha depois da briga com o Agente Andryf. eu. e só não saí correndo e saltando os sacos de lixo que estavam na calçada porque a perna me doía. o papo que acabávamos de ter. sim! — garanti...

estávamos estudando juntas. Estava começando a ter algumas respostas para as minhas dúvidas. Foi ideia da Pat.. — Era. — Era você?!. Em outra situação. Mas naquela hora eu tinha outras prioridades: me concentrar para não pisar nos pés dela. Foi aquela vez em que estranhei por que não perguntaram pelo Dênis. Depois vocês ligaram de novo.. Hoje mesmo. A Pat estava comigo. Então ela me convenceu a ligar para você.. 38 OUTRAS PRIORIDADES — Por que você brigou com o André? — a Camilla quis saber. com medo que você. falando que era da Associação de Proteção aos Baixinhos. — Sobre a Associação de Proteção aos Baixinhos. Então falamos sobre você. — Porque ele se achava o bonzão. — Estou lembrando. que vocês já tinham feito grupo juntos. Eu também sou supertímida. Deixa eu te explicar. Agora não tenho mais medo disso.. eu falei sobre você. descobrir o que ela sentia por mim de verdade. — Ela disse que tinha o seu telefone. — Eu precisava acertar umas contas com ele. ele me chantageou para poder participar da festa.. não descobriu? — Sobre os telefonemas? — repeti.. aquela pergunta que você me fez antes de eu ir dançar com o André. sem saber de nada. estava sempre me humilhando e me chantageando.. morrendo de rir das coisas que vocês falavam... tentando pensar rápido. Eu vibrava por dentro. falou que você era supertímido.. Eu liguei uma vez. Você descobriu sobre os telefonemas.. quando a convidei para dançar. quer dizer. Já sei rir das minhas próprias trapalhadas. tinha tomado um banho quente e trocado de roupa. ela é mais corajosa. Por minha causa? — ela disfarçou uma ponta de vaidade por trás do olhar de preocupação.. por telefone seria mais fácil . Eu ficava ouvindo pela extensão... Por minha causa.. Eu já estava me sentindo melhor. .. — ela ficou vermelha.. E cuspindo Nyfs em cima de mim. até contaria para ela tudo o que me aconteceu. Engoli a chantagem. — E por que você sumiu no começo da festa? — Eu me senti mal e acabei adormecendo — resumi. Eu estava adorando ouvir tudo aquilo. liguei só para bater papo. Por auto-respeito — afirmei.. — ela começou a rir.. — Plínio.. Então você atendeu daquele jeito engraçado e eu comecei a rir e passei o telefone para ela.. Ameaçou contar para todo mundo uma coisa chata que me aconteceu e que só ele sabia.. Foi ela quem ligou nas outras vezes.. — É. Como assim? — ela me olhou surpresa. E sentir minhas mãos tocando o corpo dela pela primeira vez. que o pessoal da escola fosse rir de mim.. não.

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— Eu tentei conversar hoje. E fiquei chateado.. — Deixando quem tomar conta da tua cabeça? — ela franziu o nariz de estranheza. Eu fiquei com a maior raiva de mim mesma.. ele fala o tempo todo. — a Camilla ficou vermelha de novo... estava me sentindo a maior babaca ali perto de você sem conseguir falar nada. Mas você ficou quieto um tempão.. prometo que leio para você todos os volumes da Enciclopédia Britânica.. — falei. 39 A PESSOA MAIS INTERESSANTE DO PLANETA — E o que você queria conversar comigo quando ligou a primeira vez? — perguntei. Acho que nunca mais vamos ter falta de assunto. — Fui dançar porque estava me sentindo uma idiota perto de você.. Estava começando a me sentir o cara mais interessante do planeta.. e eu também não achava nada para dizer.. eu pensei. — E se isso acontecer.. — A gente nem precisa falar com o André. que eu estou adorando... A mesma coisa que tinha acontecido comigo tinha acontecido com ela... tentando dançar com você. achei que tinha te magoado. Já passou. — Eu morri de ciúmes.. Ela ficou vermelha de novo.. Então resolvi ir dançar com André. aqui. E fui atrás da resposta que eu queria: — Quando você foi dançar com ele.. Começou a me dar um nervoso. Acho que ele é assim porque levou muitas pancadas na vida. — Ah. E quando todo mundo começou a falar que você tinha sumido. — Vamos até a varanda? — gaguejei.. um de cada vez. eu estava diante da pessoa mais interessante do planeta. — Eu sei. sem ter o que dizer. Até acho o André um cara legal. Acho que estava deixando os Nyfs tomarem conta da minha cabeça. conversando e danç. te deixando lá sentado e indo dançar com o André. quando sentei perto de você. — desabafei. — Acho que não — ela riu... A emoção fazia um looping no meu peito. — Nada.. com uma porção de coisas.. . Eu mal podia acreditar no que ouvia. Agora estou feliz pra caramba. Caí na risada. — Mas ele não pode chegar e querer me destruir só porque a vida ficou dando safanões nele. E o gozado é que estamos conversando há um tempão. E estava ficando cada vez mais apaixonado. Só para você não ter que ir procurar alguém que fale sozinho.. — Eu achava você superlegal. Mas já estava chateado antes.... na escola a gente quase não conversava. eu só queria bater papo. não. Continua. — Então você não estava a fim do Perdigoto? — Não. apesar de ser encrenqueiro.

. E a mesma gota de fogo e ternura que havia nos meus olhos brilhou nos olhos dela. 40 SOB O CÉU DA VARANDA — Pena que não é noite de lua cheia — eu disse. a partir daquele momento a gente poderia descobrir juntos uma porção de coisas que ainda não sabíamos um do outro e sobre a gente mesmo. tentando controlar a emoção. — comecei. — Eu também tenho um plano. . — Meu outro plano. — Por quê? Você tinha planos de virar lobisomem? — Eu tinha vários planos.. E então aqueles lábios que eu adorava tocaram os meus... Nem do perfume que você está usando. e nós dois ficamos incandescentes sob o céu da varanda. E que se ela topasse. era te dizer que nunca vou me esquecer desta nossa conversa. — Eu não sabia que você era tão romântico. — e a minha voz começou a sumir.. — ela sorriu. — ela murmurou..... Toquei de leve no rosto dela e respondi que nem eu sabia. — O primeiro.. era que uma baita lua cheia nos deixasse prateados aqui na varanda.

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— Eu estava super sem graça no começo. você não ia sair da tua festa para me dar uma força. Papa-moscas não é mais aquele. Plínio. cara. — Tá legal. tá? Depois eu te explico melhor. ela insistiu para eu ficar mais um pouco. pegou o pacote pela janelinha sem abrir a porta e me contou que tinha entrado um ladrão numa casa ali perto e tinha fugido. — Me conta tudo. Às vezes ela fica ajudando o seu Berto na quitanda. — O. não sabia o que conversar.. Quando cheguei lá. — Ela é superlegal. Ela estava sozinha. eu nem a conhecia. seu canista! Por que você só chegou agora? — Estou vindo aqui pela segunda vez. foi uma noite sensacional.. Você conhece a Lina? — Conheço. Por falar nisso. o seu Berto não estava. — Comigo também. para você ir me dar uma força. — ele riu. — Sei como é. — Ela é uma gatinha — os olhos dele sorriam. o Imperador não te falou? — Não vamos mais chamá-lo de Imperador. onde você se meteu?! — o Cabrum chegou em seguida. a Lina. Já era supertarde. eu não quis ir por causa do teu aniversário. — Pensei em vir te chamar. fazendo companhia. Nos despedimos com pena. — Eu é que pergunto. combinando de nos telefonar no dia seguinte. — O quê? — Nada. Mas era teu aniversário. minha mãe me avisou que os pais da Camilla estavam esperando no carro. só a filha dele. — Quer dizer que desta vez a garota chegou perto e você não pulou para longe? — É. E perguntou se eu não podia ficar um pouco lá. E você ficou entregando o pacote até agora? — provoquei. onde você estava? . — Ela estava assustada. — Meus pais foram a um casamento. Aconteceram muitas coisas hoje... morrendo de medo. Mas ele não te falou que eu estive aqui? — Não deu tempo. então? — estranhei. e quando os pais dela chegaram. Eu disse que tudo bem e ela me pediu para entrar e nós ficamos conversando e assistindo TV. E daí? — E daí que aos poucos o papo foi rolando. — E onde você se meteu. — Você que pensa. Então falei que viria até aqui te explicar e depois voltaria para a casa dela. até os pais dela chegarem. 41 PAPA-MOSCAS NÃO É MAIS AQUELE Quando voltamos para a sala. — Meu pai me pediu para levar um pacote na casa do seu Berto antes de vir para cá.

. — E daí? — Daí que eu fui até o teu quarto. . Por um lado. eu achava que aquela viagem maluca sobre a minha jaqueta tinha sido real. A porta estava trancada. o Pipo e o Dinho disseram que você só tinha passado por lá e tinha esnobado eles. Continua. — Eu vim aqui e você não estava na sala. Mas também não poderia jurar que não tivesse sido um pesadelo super-real. — E depois? — Fui até o quintal. Talvez o Cabrum me desse alguma pista sobre o que tinha me acontecido de verdade. Eu estava interessadíssimo naquela história.. Primeiro acaba de me contar o que te aconteceu. te chamei e você não respondeu. Onde você se escondeu. afinal? Depois eu conto. Nos mínimos detalhes — pedi. O Dênis me falou que você devia estar jogando bola com os teus primos. — Depois eu te conto.

Depois eu levo ela no tintureiro para . Estava só encostada. Só uma pizza quentinha em cima da mesa. Então peguei um pedaço e pensei que você poderia estar no banheiro. Depois te conto tudo. — Que música estava tocando? — Aquela que a gente ouvia sempre quando você comprou o disco.. A porta do quarto trancada. — Você ligou o som! — vibrei.. Aquela de orquestra..? — a ansiedade estava me matando. mas ninguém respondeu quando eu perguntei quem estava lá. — E o quê você fez depois? — Liguei o teu som um pouco. o abajur estava aceso. Preciso que você me conte tudinho. ora. Se você estivesse lá.. Não lembro o nome. — Você é demais! — a esperança de ter uma pista me reacendeu. só podia estar na cozinha. — Essa. — Essa é boa. Encostei sem querer a pizza na tua jaqueta. que te deixava arrepiado. — Que pergunta mais besta! — Cabrum.. — Se você não estava na sala. 42 UMA PIZZA QUENTINHA — Então fui até a cozinha — ele continuou. Dei umas assopradas. nem no teu quarto. — E o que mais? — Tinha uma lupona jogada no chão. Então pulei lá para dentro. porque aconteceu uma coisa esquisita. — E eu estava lá? — me traí. — Ah. — Achei tudo aquilo esquisito. — Resolvi dar uma espiada na janela do teu quarto. — Assim falou Zaratustra. — E. — E depois? — Depois eu pedi para o Dênis te avisar que eu voltaria mais tarde.. Continua. Eu ia te contar. enquanto acabava de comer a minha pizza. — E depois? — Olhei para dentro e vi umas roupas em cima da cama. — E aí você foi embora? — desanimei. eu quero que você conte tudo. — Vai. E por acaso você chegou perto da minha jaqueta com a tua pizza? — eu tremia de curiosidade... O que mais você viu no meu quarto? — Mais nada. nem no quintal. você saberia que estava lá! — Eu sei que parece esquisito. A porta estava fechada. mas não saiu. continua! — implorei — Não tinha ninguém na cozinha.

— o Cabrum riu. — Uauu... Eu adoro você.. amigão! — Plínio... lembrando do balanço parado. . — E o que mais aconteceu com você esta noite? — perguntei. — Tinha virado a pessoa mais importante do planeta — sugeri. — E não tinha mais ninguém com ela.. sei lá. Foi maravilhoso você ter encostado a pizza na minha jaqueta. que ela descobrisse que eu não tinha prática nessas coisas. — Não precisa. mas eu tinha medo que ela não topasse. Então ela também conseguiu escapar! Você fez o que com ela? — Não fiz nada com ela.. Então tive uma ideia. — É que naquela hora me deu uma vontade de ficar ali conversando com a Lina. Mas logo que apertei o botão. Plínio.. cheguei bem perto do rosto dela e cochichei o número do meu telefone. Só não gostei quando você assoprou. — Quando os pais da Lina chegaram.você. você mexeu? — Dei só uma olhada. vi uma coisa se mexendo no ombro da tua jaqueta. eu fiquei em dúvida se queria vir mesmo à tua festa... rindo... E apertei um daqueles botões. — Já te contei o que aconteceu comigo. Só ainda não te contei do beijo.. ela. Cabrum!”. — ele estava cheio de dedos. o Cabrum perguntando “Quem me empurra?”. você sempre vai ser o meu amigo do peito. o papo estava rolando. — E ela estava bem? — Você tem certeza de que você está bem?!. Não é por nada não....... como você está esquisito! — E na lupa. me olhando enviezado. ora. O papo estava rolando fácil.. — Me fala! Ela estava bem? Não tinha mais ninguém perto dela? Mais nada? — Ela estava ótima. — Só queria te dizer uma coisa.. — E. Pela primeira vez me senti à vontade conversando com uma garota. Achei que ela estava subindo na tua jaqueta por causa da meleca que eu tinha feito com a pizza. — Quem era? — Como assim “quem era”?! Era só uma formigona. E aproveitei que estava bem perto e dei o beijo. Aí uma voz dentro de mim começou a repetir: “Força. Pra que servem aqueles botões? — O que aconteceu quando você apertou o botão? Eu não estava olhando nada em especial. Me fez voar feito um bólido. — O quê?? — Nada — cortei. Então começou a me dar uma vontade de dar um beijo nela.. Cabrum: nós somos muito mais amigos do que qualquer um de nós poderia imaginar.. Ele disse "uma formigona’’..

— E ela? — Também me beijou. ora! — ele estava com o peito inchado. — Puxa. estou superfeliz por você! . amigão.

— O quê? — É. depois você dá uma baita gargalhada. Aproveitou a briga e me despediu.. — Te despediu?! — gelei. prefiro não ficar com ela. Os tempos estão difíceis. vira uma cambalhota e começa de novo.. falei tudo o que pensava... Mas não aguentava mais... Deu o presente e me despediu em seguida.. Por isso ele e minha mãe não estavam com cara de aniversário durante a festa! — Por que eles fizeram isso com você. filho. Meu chefe estava querendo fazer uns cortes no quadro de pessoal. Já fazia muito tempo que eu estava insatisfeito nesse emprego... que fica querendo que as pessoas se curvem e se transformem em um monte de Nyfs todos com a mesma cara. Você vai ficar chateado um tempo. você vai ver. não parecia prestar atenção ao que eu dizia. 43 PROBLEMA DOS TREZE Eu e meu pai tomamos café da manhã juntos no dia seguinte. filho. pai.. A coisa era séria. um jeito de dizer. Fiquei mudo. Eu preferia não ter feito isso. eu queria te perguntar uma coisa: você não se importa se eu não ficar com a lupa que você ganhou do seu chefe? — Você não gostou dela? — No começo gostei. — Obrigado pela força. — Pai. Mas eu não sei. — Só por causa de uma briga?! Você sempre se matou de trabalhar para eles.. pai: um cara que não tem respeito pelos outros. — E qual foi o motivo da briga? — O motivo da briga foi a falta de respeito. se você não ficar chateado. E comecei a achar que aquele ia ser um dos meus . — Tentei ser solidário. — Sei como é. — Pai. não sei se vai ser fácil arranjar outro emprego... — nunca uma frase soou tão estranha na boca do meu pai. por causa da crise.. Sem falar nada. precisa ficar gritando e humilhando todo mundo. Meu chefe. Dessa vez perdi as estribeiras. pensa que autoridade se consegue na marra. meu ex-chefe.. mas ele estava virado para dentro. — Eu me meti numa encrenca.. ele me deu um beijo na testa e saiu da cozinha. Eu tenho a maior experiência em me meter em encrencas. Que para se impor. filho. — Acho que vai ser bom para você — tentei de novo.. até em casa! — Foi uma briga feia. — Na verdade. filho. pai?! — Tive uma briga com o meu chefe.... Fiquei superfrustrado... ou melhor. Mas.. com berros e ameaças. você vai sair dessa. — Ele é um Agente Nyf.. até agora não entendi por que meu chefe me deu esse presente.

carregar bujâo de gás e coisa e tal. . mas pequeno demais para ter alguma ideia “adulta”... as pessoas acharem que você já é grande para arrastar móvel. Você sabe.problemas dos treze...

Eu estava gostando da Camilla. Você inventou aquele negócio das frases no telefone para me sacanear. eu andava com a cabeça superconfusa. O Dênis gostava de uma garota que não queria nada com ele. Depois criei coragem e confessei: — Quero te pedir desculpas também por outra coisa que eu fiz.. eu preciso ter um papo com você — pedi. ele caiu na maior gargalhada. eu sei que você também não é nenhum santo. — Eu saio com algumas garotas. — É. quanto mais oitocentas. e aquelas oitocentas namoradas que te telefonam todo dia? — Não são oitocentas... — Não?! — caí das nuvens. — Vai falando... Eu. depois da conversa com o meu pai.. — Mas eu estou te falando tudo isso porque queria te pedir desculpas. com inveja de você.. que você nem sabe. Comecei a pensar que eu também não sabia nada sobre ele. Mas a garota que eu quero namorar até agora não quis nada comigo. Falei para uma garota que estava na festa que você era casado... — Quem disse? — Ora.. Engoli grosso.. não sabia por onde começar. — Ele estava sério... 44 CONVERSA ENTRE IRMÃOS — Dênis.. — Também não vou mais te chamar de “Imperador”. E as que me telefonam não chegam a dez. eu estava.. — Vai falando. — Oitocentas é modo de falar. — Antes do meu aniversário. E quero te pedir para não me chamar mais de “Caspa”.. Se ele mesmo não tivesse me dito. você sempre fez o maior sucesso com as garotas. Sempre te achei o máximo. se contar as garotas que conheço não dá cinquenta. eu não ia acreditar nisso nunca. Eu tinha perdido o rebolado... — me afinei. — O quê? Então contei para o meu irmão tudo o que tinha me acontecido durante a viagem pelo ombro da minha jaqueta. — Você falou o quê?! — graças a Deus. — Além do mais. — Queria continuar aquela conversa que nós tivemos depois da briga com o Perdigoto. Mas. me sentindo uma droga. E eu não tenho namorada. — Eu. e também por causa das coisas que o Perdigoto me fazia.. . — fiquei pisando em ovos.. que eu quase virei um Nyf. Acho que foi por causa desse apelido.

Eles ficaram deprimidos por um tempo. Tinham decidido vender o carro e um terreno. Fiz uns folhetos de propaganda e distribuí no bairro. Nos últimos meses a placa que mais tem aparecido no cartaz é “Live and Let Live”. Eu e o Dênis estávamos superpreocupados. rindo e fazendo planos. Intercalada de muitos “Tá limpo”. Uma tarde. Mas não de fraldas descartáveis. O importante é que a gente agora se respeita. me contratando. Não cobro caro. 45 LIVE AND LET LIVE Já faz seis meses que minha agenda tem estado lotada. . Quanto ao meu relacionamento com o Dênis. Meu pai e minha mãe agora estão bem. eu adoro cachorros. os dois mandando currículos para tudo quanto era lado sem conseguir resposta. Logo outras pessoas do bairro ficaram sabendo da coisa e me contrataram também. Todos os dias eu chego da escola. Tive essa ideia logo depois que o meu pai ficou desempregado. juntar com o dinheiro do fundo de garantia e abrir uma lavanderia. Depois que contei para ele sobre a viagem que fiz pelo ombro da minha jaqueta. achando que eles tinham pirado. não vou dizer que ficou perfeito. me oferecendo para levar cachorros para passear. almoço e vou levar meus clientes para passear. ele só me chama de mentiroso de vez em quando. Ela mora sozinha e tem três cachorros. que o Cabrum e os garotos que vendiam mentex no farol também entraram no negócio. Acho que está bom demais. Uma velhinha ligou. Depois vimos que estavam animados. A procura foi tão grande. entramos na sala e flagramos nossos pais virando uma cambalhota no tapete da sala. Primeiro ficamos assustados.

FIM .