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RESGATE DAS RAIZES HISTORICAS (por Felix Wzorek - em 1993)

APRESENTAÇÃO
Este texto tem por objetivo dar minha colaboração para o
projeto “Resgate das raízes do povo“, bem como atender a um
desejo pessoal de transmitir aos netos e bisnetos algumas
informações sobre a vida de nossos antepassados.

ORIGEM DE MEUS AVÓS


Os meus avós eram estrangeiros, imigrantes procedentes da
Polônia.
O governo brasileiro, na época do império, havia mandado
muitos agentes de propaganda para a Europa, principalmente
para a Itália, Alemanha e Polônia, oferecendo terra e passagem
gratuita para quem quizesse migrar para o Brasil.
Meus avós eram de origem humilde e de pouca instrução como a
maioria de imigrantes que vieram da Polônia, nas primeiras
levas, no século passado. As pessoas mais instruidas ou que
tinham posses preferiam migrar para os Estados Unidos da
América, somente no final do século é que chegaram os
primeiros padres e alguns intelectuais poloneses para o Brasil.
Meu avô materno veio por volta de 1882. Falava sempre que
tinha um sonho, o de ser proprietário de terra e, quando surgiu a
oportunidade, não hesitou em emigrar.
Já meu avô paterno (Alberto Wzorek) veio cerca de quatro anos
antes e meu pai (Leonardo Wzorek) nasceu em viagem, no
oceano atlântico, já perto da costa brasileira e foi registrado aqui
com brasileiro.
MEUS PAIS SUA LUTA E CONDIÇÕES DE VIDA
Era no ano 1927 e a familia de Leonardo e Maria Wzorek
moravam quase no limite de Araucária e Campo Largo, no
Paraná.
Os 15 alqueires de terra que possuíam, já cansada mal dava para
o sustento da familia que tinha 10 filhos. Era necessário adubo
orgânico, pois os químicos eram muito caros. O trabalho era
pesado.
Meu pai, certo dia, resolveu visitar seu primo Francisco e sua
prima Julia Lech, que moravam em Santa Catarina, no municipio
chamado de Ouro Verde (hoje Canoinhas). Aproveitou a
oportunidade para observar as terras que diziam ser férteis e
cobertas de ervais e pinheiros. De fato, naqueles anos, aqui era
um verdadeiro paraiso. O preço da erva mate era muito bom e o
dinheiro era fácil e isso fez com que meu pai vendesse tudo o
que tinha no Paraná e viesse para cá.
Aqui comprou posse de terra, a cerca de 30 km da cidade atual
de Canoinhas. Mas a esperança de enriquecer durou pouco
porque, de repente, o preço da erva mate caiu de tal forma que
quase não compensava o trabalho de extração.
Dizia-se que o motivo da queda do preço da erva mate era que a
Argentina tinha deixado de comprá-la do Brasil, mas, segundo o
livro “O Camponês Polonês do Brasil” escrito por Rui
Wanchovicz, havia outro motivo. A erva mate era exportada para
a Europa, especialmente para a Alemanha, onde era empacotada
e distribuída, em forma de chá para toda a Europa, inclusive para
a Rússia. Ocorreu que, por falta de fiscalização, alguns
produtores inescrupulosos começaram a misturar “congonha”
(planta parecida com erva-mate) e até terra no produto . A
alemanha suspendeu a importação , fato que ajudou muito na
queda do preço.
Outro fato negativo que se apresentou para os colonos da região
foi a ação da companhia americana Lumber.
Contratada para construir a estrada de ferro que margeia o rio
iguaçú, a companhia recebeu do governo a posse das terras
situadas a 15 quilometros de cada lado da estrada de ferro,
Engenheiros da companhia iniciaram a medir as terras e
cobravam 130 mil réis por alqueire e ainda reservando para a
empresa a madeira existente, deixando para os proprietários
apenas duas árvores por alqueire.
Meu pai, então, teve que pagar novamente pela terra que havia
comprado.
Logo surgiram na região, várias serrarias que serravam as
madeiras da Lumber na seguinte condição: metade da madeira
serrada era da companhia e a outra metade do dono da serraria .
Só que o dono da serraria era obrigado a vender sua parte para a
própria companhia.
A tentativa de expulsão dos posseiros ou dos “empreiteiros”,
como dizia o magnata americano Holgavard, da Lumber , foi um
dos estopins que desencadeou a guerra dos jagunços .
Quando Getulio Vargas dissolveu as instituições estrangeiras no
Brasil, a Lumber também foi atingida. Os Yankes foram expulsos
pelo exército Brasileiro. Seu acampamento em Tres Barras e seus
bens foram confiscados junto com a grande extenção de terra
que ate hoje servem para treinamento militar.
Com a queda do preço da erva mate e a recompra das
propriedades junto a Lumber, houve um duro golpe na economia
da região. Só com grande sacrifício e esforço foi possível aos
colonos superar a crise. Voltou-se então para a atividade
agrícola, que não era rentável. A terra era boa, as plantas
cresciam e as colleitas eram ótimas, mas os preços eram muito
baixos e havia dificuldade em se comercializar a safra,
principalmente o feijão que chegava a ficar estocado nos paióis
por 2 ou 3 anos e, muitas vezes , era jogado fora. A pecuária era
mais rentável. Gado e suinos eram criados em comum, cercava-
se apenas as áreas de terra de plantio, ficando grandes áreas
coberta chamadas de “criador”. Os que tinham pouca terra
também podiam criar seus animais no criador de uso comum.
Mas isso logo acabou. Alguns proprietários, principalmente os
latifundiários fizeram com que todos fechassem seus animais no
próprio terreno.
Os pequenos proprietários e os sem terra foram muito
prejudicados. Muitos deles foram trabalhar nas indústrias que
aos poucos iam surgindo. Na época o salário permitia à pessoa e
a familia viver mais ou menos bem. Como vimos já naquela
época havia o chamado êxodo rural que veio e vem ocorrendo
em quase todo o Brasil e é uma das principais causas do cinturão
de favelas das grandes cidades, com crianças famintas nas ruas .
Depois desta grave crise que durou alguns anos meus pais
conseguiram estabilidade com a maior facilidade de vendas dos
produtos que plantavam e dos preços melhores.
Meu pai faleceu em 1962 com 84 anos e minha mãe faleceu em
1948 com 72 anos.

EDUCAÇÃO
No campo a situação de ensino era ruim. Não havia escolas
públicas. A maioria das crianças crescia analfabeta.
Meu pai junto com o vizinho Valentim Prussak, pagava uma
mensalidade a um engenheiro florestal polones para nos ensinar
a ler e escrever.
Mais tarde, um grupo de descendentes poloneses fez uma
sociedade e fundaram uma escola. Eles ainda tinham certos
preconceitos, atitude que jamais levou a alguma coisa positiva.
Tentou-se passar a escola para a responsabilidade da prefeitura.
No entanto a prefeitura só aceitava enviar um professor se o
colonos transferissem para a mesma todos os direitos sobre o
predio da escola, com o que os colonos não concordavam. Os
colonos decidiram continuar a pagar a mensalidade ao professor.
Cada pai (eram cerca de trinta) pagaria certo valor por cada
aluno. Mas muitos pais de alunos eram pobres e atrasavam o
pagamento, outros não pagavam.
Meu irmão, João, depois de fazer um curso de dois anos em
Curitiba, assumiu como professor e deu um novo impulso a
escola durante um ano.
Em uma viagem a Curitiba, meu iemão se encontou com um
empresário de Massaranduba que lhe ofereceu o triplo do que
ganhava aqui e lá se foi ele... E a escola acabou.
A casa da escola foi vendida e o dinheiro revertido em beneficio
da construçao da capela.
Mais tarde na gestão do prefeito ALINOR VIEIRA CORTE, foi
construído uma escola pública que solucionou definitivamente o
problema de ensino primário na localidade . Meu irmão voltou e
lecionou durante 28 anos, até se aposentar, na escola que tinha
passado para a responsabilidade do estado.
A RELIGIÃO E COSTUMES
É conhecida a profunda fidelidade dos poloneses ao catolicismo.
Meus pais não fugiram a regra, e ás vezes, até exageravam no
rigor ao cumprimento dos preceitos religiosos e morais que
herdaram .
Mulher com saia curta, manga curta ou cabelos cortados: tudo
era pecado. Dizia-se que no inferno haveria fogo para queimar as
mocinhas que usava saia acima dos joelhos. E ai do namorado
que fosse pego, beijando a namorada nos lábios.
A presença na missa era obrigatória e cumprida a rigor.
Na impossibilidade do comparecimento, a pessoa ou a familia
era obrigada a rezar o terço e a ladainha de joelhos, pois em
outra posição significava falta de devoção.
Existia um jejum para a comunhão que era rigorosamente
respeitado.
Não importava se a viagem era longa ou cansatyiva até a igreja e
se a missa era tarde. Nada se colocava na boca até a hora de
receber a hostia
Praticava-se a abstinencia todas as quartas e sextas feiras
São João São Pedro Santo Antônio: haviam vários dias santos.
O fervor religioso fez com que um dos meus irmão Gabriel, fosse
ao seminário e se tornasse padre da Ordem dos Franciscanos
Estudou por dois anos na Bélgica e foi professor no seminário de
Agudos São Paulo, onde faleceu prematuramente, com 56 anos
de idade.
Um neto de Leonardo, Galdino Zella também se tornou padre na
mesma congregação e vive ho em Curitiba.
Três netas de Leonardo se tornaram Freiras, Marta, Natália e
Lucia.

DESCENDENCIA
Calcula-se que os descendentes de Leonardo e Maria wzorek
ultrapassam a casa dos 300 pessoas (hoje em 1993).
Eles ocupam vários setores de atividades, com professores,
profissionais liberais, profissionais técnicos, empresários,
religiosos, mar a maioria dedica-se a agricultura
Da nossa família de 10 irmãos restam (hoje 1993) apenas 4. Eu, o
mais novo, com 74 anos, depois Leonor, 76, Vitória 78 e Vicente
89.
Assim aos poucos vamos cedendo o lugar para a quarta geração
que já despontou e crava suas raízes, perfeitamente adaptada e
miscegenada nesse calderão de valorosas nacionalidades, como
a espanhola, a portuguesa, a italiana e a alemã que povoam esta
terra que nossos antepassados adotaram.

COMENTÁRIOS FINAIS
No campo material, às vezes, fico preocupado com o desânimo e
com as queixas que fazemos, hoje em dia, contra a crise.
Apesar de existirem problemnas que não podemos resolver, a
vida hoje, a nossa região, nos oferce mais conforto e
oportunidades que no passado.
Na agricultura, por exemplo, trabalhava-se de sol a sol, com os
braços e cavalos. Hoje há máquinas, tratores, caminhões,
estradas.
A escola, tão difícil naquela época, hoje está disponível.
Por isso, acho que com vontade e esforço, as novas gerações
tem mesmo nos períodos de crise como o que enfrentamos
agora, condições de conseguir uma vida material e cultural cada
vez mais digna.
No lado espiritual, sou crítico da decadência dos costumes que
vemos hoje em dia.
Fico imaginando se, por acaso, minha mãe, por acaso,
ressuscitasse, hoje visse um capítulo de uma novela da Rede
Globo ou, assistindo uma missa, visse com que naturalidade
alguma pessoas recebem a Sagrada Comunhão, sem o devido
preparo. Acho que não resistiria ao susto e morreria de novo.
Se por um lado a igreja promove encontros, cursos de batismo,
crisma e de noivado, procurando conscientizar os cristãos, de
outro lado, a imprensa escrita, o rádio e a televisão estão
corrompendo a sociedade, e com ela, a família cristã.
Porém não se deve ser pessimista. Este projeto que a Diocese
promove, por exemplo, é um marco na luta contra estes outros
males que, durante séculos, a igreja sempre combateu e venceu.
Comunidade de Santo Antônio
Rio de Areia de baixo
Canoinhas – SC 07/07/1993 FELIX WZOREK
1922 Familia Wzorek a esquerda Leonardo Wzorek , a seguir
Aleixo Wzorek seu irmão , outros não conseguiu-se levantar