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Análise morfossintática do Amor

Amar é um verbo. Intransitivo (nenhuma relação com Elza, de Andrade), quando é fim em si
mesmo e carrega consigo todo o potencial de ser; quando não precisa de complemento e, por
isso, sustenta-se por si, solitário, capaz de nutrir suas próprias necessidades. Na biologia diz-se
autotrófico o ser que depende de si mesmo para sintetizar sua nutrição. Intransitivo porque um
sujeito o pratica sem precisar que um objeto receba a ação. O amor, nesse caso, é sólido,
prático e sem subjetividades. Eu amo. Tu amas. Ele ama, ama ele. A ordem inversa da oração
dá mais importância ao termo que vem primeiro. O hipérbato aqui é aliado, promove quase
outra significância. Não deixa de ser verbo, pelo contrário, torna-se o verbo mais importante, o
foco pelo qual a oração se fez existir. Não importa quem ama, o que importa é amar.

Amar, verbo, é derivado de amor, substantivo. O verbo deriva do substantivo, porque o Amor é
primitivo, anterior. Quando o mundo se criou lá estava já Eros Celestial, como afirma Pausânias
na obra platônica. Amar intransitivo é, portanto, a faceta erótica atribuida à alma e à essência
de ser e de sentir, do amar por si e não por outro. A preposição, aqui, é importante: amar por
si, preposição de causa e de meio. De causa porque a mera noção de si, de essência, engendra,
necessariamente, a de amor. Eu amo porque sou, amo porque existo. A causa do amar (aqui a
substantivação do verbo: o substantivo que virou verbo e tornou a ser substantivo) é o simples
ser. Meio, porque é-se através do ato de amar. Amo porque sou (causa) e sou através do meu
ato de amar (meio). A intransitividade do verbo, enfim, liga-se a sua primitividade e a sua
característica de ser, nessa perspectiva, indivisível e único, próprio.

Amor aqui é próprio, inicio com letra maiúscula. Próprio porque há um, unificado. Amor de pai,
amor de mãe, amor de irmão, amor de esposa. São derivações que partem do sentido único de
Amor. Sentido esse, já dito primitivo, que traz todo os outros. O substantivo próprio, diferente
do substantivo comum, refere-se a um elemento ou ser específico, que, no contexto da
interlocução, é único. Amor, portanto, é único. O Amor que sinto é o mesmo que sentes, o
Amor que sentimos aqui é o mesmo que sentem lá. O Amor não é como são os pássaros de
Gonçalves. Os amantes (outra derivação) que aqui amam amam como lá. Amor continua
intransitivo.

Ele me amou. Um complemento: o pronome oblíquo que se faz objeto direto do verbo. Amor
aqui, agora, é transitivo direto. Amor transitivo é aquele que, derivado do intransitivo,
transborda-se no ser e precisa, pois, de um complemento. Todo verbo transitivo precisa de
complemento. Esse complemento pode se apresentar ao verbo de três formas, que são
sintaticamente objetos diretos e podem ser representadas por pronomes. Podem ser: reflexivo,
recíproco ou oblíquo. Pronome reto aqui não funciona: como dito no primeiro parágrafo, não
importa quem ama.

“Ama-se quem se ama e não quem se quer amar”. Florbela Espanca. O primeiro se é pronome
reflexivo e o segundo se é índice de indeterminação do sujeito. O pronome reflexivo
acompanha o verbo amar para indicar o amor que se sente por si próprio. Amor próprio, Amor
que faz-se admirar-se, o único Amor que completa. O verbo amar-se, sendo pronominal, traz
consigo todo sentido de ser-se feliz por ser quem se é. Acompanha a auto-estima, a auto-
aceitação e a plena felicidade. É esse Amor que faz da essência do ser plena e a mantém viva.

“Assim que se olharam, amaram-se”. Shakespeare. O se é pronome recíproco. Recíproco


porque a ação de amar é mútua. Eles se olharem (recíproco também), e amaram-se. Quando
vem acompanhado de pronome recíproco, o verbo amar tem a denotação mais comum,
almejada, mais escrita, cantada, recitada e retratada. É o Amor das paixões, dos romances,
que, supostamente, levou Julieta a fingir a própria morte, que levou Jack a dar o único colete,
que fez Leia invadir o covil de Jabba, que