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© Hexag Editora, 2017

Direitos desta edição: Hexag Editora Ltda. São Paulo, 2016


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Autores
José Tadeu de Moraes Barros
Lucas Limberti
Murilo de Almeida Gonçalves
Pércio Luis Ferreira
Cora de Andrade Ramos
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Diretor geral
Herlan Fellini
Coordenador geral
Raphael de Souza Motta
Responsabilidade editorial
Hexag Editora
Diretor editorial
Pedro Tadeu Batista
Revisora
Maria Cristina Lopes Araujo
Programação visual
Hexag Editora
Editoração eletrônica
Claudio Guilherme da Silva
Eder Carlos Bastos de Lima
Fernando Cruz Botelho de Souza
Raphael de Souza Motta
Raphael Campos Silva
Stephanie Lippi Antonio

Projeto gráfico e capa


Raphael Campos Silva
Fotos da capa (de cima para baixo)
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Acervo digital da USP (versão beta)
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Impressão e acabamento
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CARO ALUNO
Desde de 2010, o Hexag Medicina é referência em preparação pré-vestibular de candidatos à carreira de
Medicina. Você está recebendo o primeiro caderno R.P.A.(Revisão Programada Anual) - ENEM do Hexag Vestibu-
lares. Este material tem o objetivo de verificar se você apreendeu os conteúdos estudados, oferecendo-lhe uma
seleção de questões ideais para exercitar sua memória, já que é fundamental estar pronto para realizar o Exame
Nacional do Ensino Médio.
Além disso, este material também traz sínteses do que você observou em sala de aula, ajudando-lhe
ainda mais a compreender os itens que, possivelmente, não tenham ficado claros e a relembrar os pontos que foram
esquecidos.
Aproveite para aprimorar seus conhecimentos.

Bons estudos!

Herlan Fellini
GRAMÁTICA E
ÍNDICE INTERPRETAÇÃO DE TEXTO 5
LITERATURA 73
INGLÊS 167
REDAÇÃO 187
R.P.A.
ENEM
Gramática e Interpretação de Texto
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Aulas 1 e 2

Competências 1, 6, 7 e 8
Habilidades 1, 2, 3, 4, 19, 23, 24, 25 e 26

BREVIÁRIO

Funções de linguagem

A língua não é um fim em si, mas apenas um meio

Roman Jakobson

Toda comunicação apresenta uma variedade de funções, sendo uma dominante, de acordo com o enfoque que o
destinador/emissor quer dar ou do efeito que quer causar no destinatário/receptor. As funções da linguagem são
as seguintes:
§§ Emissor – emite a mensagem, codificando-a em palavras;
§§ Receptor – recebe a mensagem e a decodifica, ou seja, apreende a ideia;
§§ Mensagem – aquilo que é comunicado, o conteúdo da comunicação;
§§ Código – sistema linguístico escolhido para a transmissão e recepção da mensagem;
§§ Referente – contexto em que se encontram o emissor e o receptor;
§§ Canal – meio pelo qual a mensagem é transmitida.
§§ Emotiva ou expressiva – centralizada no emissor, ressalta sua opinião, trata das emoções; prevalece a 1ª
pessoa do singular (eu), interjeições e exclamações; é a linguagem das biografias, memórias, poesias líricas
e cartas de amor.

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Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...


Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústica rouca,


Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre...
(Manuel Bandeira)

§§ Referencial – centralizada no referente, pois o emissor oferece informações da realidade; objetiva, direta,
denotativa, prevalecendo a 3ª pessoa do singular (ele/ela); é a linguagem usada nos textos científicos, arte
realista, notícias de jornal.
“Aumenta a pressão sobre o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, para que ele permita uma investigação
independente sobre os aparentes erros dos seus serviços de inteligência no que se refere às armas de des-
truição em massa do Iraque. A indicação do governo americano, também questionado sobre a sua avaliação
da ameaça iraquiana, de que um inquérito pode ser aberto no país, reforçou o argumento dos críticos de
Blair. O Partido Conservador britânico deverá apresentar nesta semana uma moção pedindo a investigação.”
Fonte: Folha de São Paulo - 02-02-2004

§§ Conativa ou apelativa – centralizada no receptor; o emissor procura influenciar o comportamento do


receptor; como o emissor se dirige ao receptor, é comum o uso da 2ª pessoa do singular (tu), do pronome
de tratamento você ou do nome do próprio receptor, além de vocativos e imperativos; usada nos discursos,
sermões e propagandas que se dirigem diretamente ao consumidor.

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§§ Fática – utilizada para testar o canal, para manter o contato físico ou psicológico com o interlocutor.

§§ Metalinguística – é a linguagem utilizada para falar da própria linguagem; a linguagem como fazer ar-
tístico; põe em evidência a forma da mensagem, ou seja, preocupa-se mais em “como dizer” do que com
“o que dizer”.

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
(Paulo Leminski)

§§ Poética – é a linguagem que põe em evidência a forma como a mensagem é veiculada. Está mais interes-
sada nos aspectos estéticos, na beleza e nos enfeites atribuídos à mensagem.
Sem
Mim
Ando
Com
Igo
Sigo
Sem
Com
Ando
(Arnaldo Antunes)

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Variação linguística
Variações linguísticas são as peculiaridades que a língua adquire com o tempo em função do seu uso por comuni-
dades específicas.

Contexto de conversação
Conforme a situação em que nos encontramos ao falar ou escrever, mudamos o nosso trato com a linguagem. A
cada instante, utilizamos a língua de uma maneira particular, uma vez que nos adaptamos ao contexto em que
estamos. Como exemplo, agimos diferentemente quando nos dirigimos aos nossos pais ou quando falamos com
nossos amigos; escrevemos na escola de um modo diferente daquele que escrevemos nos aplicativos de comuni-
cação. Isso significa que precisamos dominar várias modalidades do português.

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
(ANDRADE, O. Obras completas, Volumes 6-7. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.)

Origem geográfica do falante

Pelo fato de ser falado em várias regiões, a língua portuguesa apresenta grandes variações regionais que modifi-
cam o vocabulário utilizado, na forma como as palavras são pronunciadas e até na ordem na qual elas aparecem
em uma oração. A leguminosa conhecida por muitos como aipim recebe o nome de mandioca ou macaxeira, em
muitas outras regiões do Brasil.

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Idade do falante

A idade do falante é também um aspecto importante nos estudos de variação linguística e está relacionado ao
fato de as línguas variarem de acordo com o passar do tempo. O português nem sempre foi como é atualmente,
portanto, pessoas de idades diferentes aprenderam a falar em épocas diferentes e apresentam um modo de falar
que reflete essa variação.

Aspectos sociais

A classe social à qual pertence o falante é um aspecto que pode estar intimamente interligado com seu grau de
escolaridade, ou seja, tal situação social pode influenciar a variação linguística dos falantes.

A questão do gênero

Não podemos desconsiderar a diferença entre os modos de falar masculino e feminino, pois, se as condições sociais
dos falantes determinam o modo como eles utilizam seu próprio idioma, se há diferenças nos papéis sociais histori-
camente atribuídos a homens e mulheres, essas condições também poderão produzir uma variação entre os gêneros.

Linguagem formal versus linguagem informal


a. Norma culta/padrão: é a denominação dada à variedade linguística dos membros da classe social de
maior prestígio dentro da classe literária.
*Não se trata da única forma correta.
b. Linguagem informal/popular: é a denominação dada à variedade linguística utilizada no cotidiano em
que não exige a observância total da gramática.

Língua falada versus língua escrita


a. Língua falada/oral: dispõe de um número incontável de recursos rítmicos e melódicos – entonação, pau-
sas, ritmo, fluência, gestos – porque, claro, o emissor (pessoa que fala ou transmite uma mensagem numa
dada linguagem) está presente fisicamente. Algumas das características principais são:

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§§ frequência da ocorrência de repetições, hesitações e bordões de fala (“Pois, eu aaa... eu acho que... pron-
to, não sei...“, Cara, o que é isso, cara?);
§§ frases curtas;
§§ frases inacabadas, porque foram cortadas ou interrompidas;
§§ uso frequente da omissão de palavras. Ex.: Eu vou com minha mãe e com meu pai; Empresta o seu caderno?
§§ formas contraídas. Ex.: prof, med, refri, facul;
§§ afastamento das regras gramaticais. Ex.: Eu vi ele;
§§ possibilidade de adequar o discurso de acordo com as reações dos ouvintes.

b. Língua escrita: recorre a sinais de pontuação e de acentuação para exprimir os recursos rítmicos e meló-
dicos da oralidade:
§§ uso de ricas descrições;
§§ faz atenção às regras gramaticais com um maior rigor;
§§ sinais de pontuação e acentuação para transmitir a expressividade oral;
§§ frases longas, apesar de também poder usar frases curtas;
§§ uso de vocabulário mais amplo e cuidadoso;
§§ conectivos e estruturas sintáticas para garantir a coesão textual.

Tipos de linguagem
§§ Linguagem verbal: utiliza a língua falada ou escrita, sendo estas compostas por palavras.

§§ Linguagem não verbal: emprega todo código que não seja composto por palavras – movimentos faciais
e corporais, gestos, olhares, entoação, imagens, símbolos, sons etc.

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Semântica – elementos de análise
Já que se fala a todo o momento de semântica no curso de Gramática, nada melhor do que apresentá-la logo no
início do material de Interpretação (já que ela é parte essencial dos processos interpretativos). A semântica é o cam-
po de estudos linguísticos que cuida dos significados das palavras e dos textos. Ela está presente em praticamente
todos os outros campos gramaticais (com exceção dos estudos básicos de fonética e fonologia, ligados à ortografia
e à acentuação). Pode ter certeza de que, onde há acepções de sentido, há semântica.
Além de sua presença em várias áreas da Gramática, a semântica possui seus próprios elementos de análise,
que conheceremos a seguir.

Sinonímia
Ocorre sinonímia quando temos palavras com significados idênticos ou muito semelhantes a outras.
§§ Cão = cachorro
§§ Jerimum = abóbora

A sinonímia tem forte relação com a paráfrase (possibilidades de se reconstruir uma frase ou texto com
outras palavras similares) e ajuda nos processos de coesão textual (por meio de sinônimos, evitamos a repetição
de termos em um texto).

Antonímia
Ocorre antonímia quando temos palavras com significados contrários a outras.
§§ Bonito ≠ feio
§§ Alto ≠ baixo

Homonímia
Ocorre homonímia quando temos palavras de grafia igual ou pronúncia igual, mas com significado diferente. Isso
nos dá três tipos de homônimos:
1. Homônimo homófono heterógrafo (pronúncia igual – grafia diferente)
Exemplo: acento (marca gráfica de tonalidade) e assento (local para se sentar).
2. Homônimo homógrafo heterófono (escrita igual – pronúncia diferente)
Exemplo: jogo (substantivo) e jogo (verbo).
3. Homônimo homófono homógrafo (pronúncia igual – escrita igual)
Exemplo: rio (substantivo) e (eu) rio (verbo).

Paronímia
Temos parônimos quando as palavras são muito parecidas, mas o sentido é diferente.

Exemplo: comprimento (largura) e cumprimento (saudação).


Exemplo: discriminar (separar) e descriminar (absolver).

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Polissemia
Temos polissemia em palavras que preservam sua classe gramatical, mas que possuem significados múltiplos.

Exemplo: natureza (meio ambiente) e natureza (essência de algo).


Exemplo: banco (local onde se senta) e banco (instituição financeira).

Hiperonímia e hiponímia
São fenômenos que operam relações de abrangência entre palavras (palavras que englobam outras ou que são
englobadas). As palavras que englobam são conhecidas como hiperônimos; as englobadas, como hipônimos.

Exemplo: Comprei um bacalhau para preparar na semana santa. Esse peixe é bastante salgado. (peixe é uma
palavra mais abrangente, que dá conta de bacalhau e de outros diversos peixes, portanto, podemos afirmar que
peixe é hiperônimo de bacalhau, e bacalhau é hipônimo de peixe).
Exemplo: Houve um aumento da gasolina. Esse fato deixou os brasileiros irritados. (fato é uma palavra que dá
conta de aumento da gasolina, portanto, podemos afirmar que fato é hiperônimo do trecho sublinhado).

O gênero publicitário
Entende-se por gênero publicitário aquele que tem como objetivo principal fazer com que o interlocutor/ouvinte
tome parte em alguma causa, seja comprar um produto ou aderir a uma ideia. São textos de cunho persuasivo, por
isso estão completamente ligados à função apelativa/conativa da linguagem. Os textos publicitários estão forte-
mente inseridos na sociedade contemporânea, e, por esse motivo, estão presentes em muitos vestibulares. Ao lado
do gênero jornalístico, é dos que apresenta maior número de questões registradas.

Estrutura do texto publicitário


Como dito anteriormente, os textos publicitários têm uma configuração bastante ampla. Por esse motivo, sua es-
trutura apresenta um conjunto significativo de elementos que conheceremos a seguir.

O título
Habitualmente, os textos publicitários apresentam um título, que consiste num texto mais curto que já evidencia,
logo de cara, as intenções do anúncio. Pode ser um pequeno texto assertivo ou interrogativo, e deve atrair a aten-
ção do interlocutor de maneira imediata.

O texto
No texto do anúncio publicitário encontramos as principais estruturas de persuasão. Nele encontramos os argu-
mentos que levariam o interlocutor a adquirir um produto ou a adotar um comportamento. Aqui, concentra-se a
função apelativa da linguagem.

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A assinatura
A assinatura aparece como uma estratégia de encerramento do texto publicitário. Em anúncios impressos, costuma
vir posicionado à direita, no canto inferior do texto. É formado pela marca do produto (por exemplo, Coca-Cola)
ou pela evidenciação da campanha (Previna-se contra a dengue!). No caso de marcas famosas, é comum que a
assinatura seja composta pelo slogan dessa marca. Entende-se por slogan aquela frase de efeito que evidencia a
principal característica do produto.

A imagem
Comentamos acima que as imagens são um recurso que está presente em alguns tipos de espaço publicitário.
Quando usadas, têm como objetivo potencializar as marcas textuais de persuasão, ou seja, as imagens trabalham
em conjunto com o texto, com intenções variadas. Habitualmente, a imagem em gêneros publicitários, confirma o
texto e também lhe dá suporte.
Atenção ao argumento de autoridade: é muito comum encontrarmos em anúncios publicitários algum
elemento imagético que sirva como argumento de autoridade. Entende-se por argumento de autoridade aquela
imagem de um indivíduo que seria um especialista em determinado assunto, e que, justamente por possuir essa
posição de autoridade, transmite maior credibilidade ao que está sendo veiculado no anúncio.
Por exemplo, a imagem de um famoso atleta ligada a um anúncio de produtos vitamínicos transmite a ideia
de que o produto é confiável, pois o atleta o utiliza.

Qual é a linguagem do gênero publicitário?


A linguagem dos textos publicitários é marcada por uma maior flexibilidade em relação à gramática normativa.
Como o objetivo básico desses textos é atingir rapidamente o interlocutor, é necessário que se opte, em
alguns momentos, por uma linguagem mais coloquial/informal. Portanto, encontraremos, muito frequentemente,
anúncios publicitários, cujos textos apresentam “desvios” em relação à norma padrão.
Outra característica muito comum nesses textos é a presença de verbos no imperativo, implicando relações
semânticas de ordem, pedido, sugestão ou conselho. São esses verbos que articulam as estratégias de persuasão.
Também estão presentes os vocativos, que são elementos sintáticos que invocam/convocam interlocutores.
Essa invocação/convocação do interlocutor é também uma estratégia recorrente em textos publicitários.

(Época, 06/05/2011.)

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O gênero jornalístico
Dos vários tipos de gêneros existentes, o jornalístico é um dos mais amplos, pois envolve características pertencen-
tes a vários tipos de composição textual. Por esse motivo, é também um dos gêneros mais trabalhados em provas
de vestibulares e no ENEM.

A notícia
A notícia é um dos elementos que compõe o gênero jornalístico. Está espalhada pelos mais diversos meios de
comunicação (jornais, revistas, rádio, internet). Tecnicamente, podemos dizer que a notícia se caracteriza pelo
puro registro de fatos, sem que haja a emissão de opinião da pessoa que a escreve. O objetivo básico
de uma notícia é transmitir informações a um leitor de maneira objetiva e precisa. A partir dessa definição, podemos
inferir que a notícia trabalha pelos mesmos termos da função referencial da linguagem (buscar informações de um
referente no mundo, e transmiti-las objetivamente).
“Nenhum país do mundo faz o que o Brasil está fazendo: leiloar aos poucos o acesso da produção de pe-
tróleo de campos, cujo total é desconhecido”, adverte Ildo Sauer, em entrevista concedida à IHU.

On-line, ao comentar o leilão do Campo de Libra, anunciado para 21 de outubro deste ano. Na avaliação
dele, a iniciativa da Presidência da República é equivocada, porque “não faz sentido” colocar em leilão o Campo
de Libra, que, “segundo a Agência Nacional do Petróleo – ANP, pode ter entre 8 e 12 bilhões de barris, apesar de
haver estimativas de que possa chegar a 15 bilhões de barris.
Se os dados forem esses, trata-se da maior descoberta do país”. De acordo com ele, o “Brasil não sabe se
tem 50 bilhões, 100 bilhões ou 300 bilhões de barris. Se o país tiver 100 bilhões, estará no grupo de países de
grandes reservas; se tiver 300 bilhões, será o dono da maior reserva do mundo, porque 264 bilhões é o volume de
barris da Arábia Saudita”.
Disponível em: http://www.mabnacional.org.br/noticia/pr-sal-eembate-geopol-tico-estratgico-entrevista-especial-com-ildosauer.
Acesso em: 15/10/2013. Fragmento adaptado.

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Reportagem
A reportagem também é um tipo de gênero jornalístico que costuma apresentar textos mais longos e bastante
detalhados. Costuma retratar a observação direta de um repórter sobre acontecimentos e situações específicas.

Escassez de água já afeta mais de 40% da população do planeta Terra


Estiagem não atinge só o Brasil, mas outros lugares do mundo. Veja as medidas que foram adotadas em países
como EUA e Cingapura.
Reportagem de Tonico Ferreira em parceria com Globo Natureza.
O Jornal da Globo, em parceria com o Globo Natureza, exibe, esta semana, uma série especial sobre a crise
hídrica no mundo. A série “Água – Planeta em Crise” vai mostrar de que maneira a seca está afetando populações
em todo o planeta.
Quando a gente olha para os oceanos, para os rios e lagos, a Terra parece ter muita água. Quase três quartos
da superfície são cobertos por oceanos. É o planeta azul visto do espaço.
Mas será que é isso tudo? Vejam a realidade: a camada de água dos oceanos é muito fina e, por isso, a
quantidade de água é relativamente pequena. Se a Terra fosse do tamanho de uma bola de basquete, toda a água
do planeta caberia dentro de uma bolinha de pingue-pongue.
E mais: dessa bolinha de pingue-pongue, quase tudo, 97,5% é água salgada. E, desse pouquinho que sobra,
70% é agua congelada nos polos e nas geleiras, 30% está debaixo da superfície da Terra e apenas 0,3% é água
potável nos lagos e rios.
E essa água está mal distribuída. Sobra em algumas regiões e falta em outras. Some-se a isso o fato de várias
regiões do mundo estarem passando por secas mais prolongadas.

Seca na califórnia (EUA)


É o caso do estado da Califórnia, nos Estados Unidos, que está entrando no quarto ano seguido de seca. 2013
foi o mais seco em 120 anos, diz o climatologista do governo, Michael Anderson. E ele prevê para este ano um
novo recorde de pouca chuva e de temperaturas altas.
O nível dos reservatórios baixou. O lago Cachuma está com 26% da capacidade e, em outubro, pode deixar
de fornecer água para a cidade de Santa Bárbara.
O governador do estado, Jerry Brown, acaba de tomar medidas drásticas: a redução obrigatória de 25% no
consumo de água nas cidades e corte do fornecimento para fazendas que usam irrigação.
Tulare tem a agricultura mais produtiva da Califórnia. É uma região rica. As famílias de trabalhadores que
vivem em casas modestas se abastecem de água em poços, mas os poços estão secando.
O poço da casa de Lala e Benjamin Luengas, da comunidade mexicana, secou em junho do ano passado. Foi
um desespero. “O que vamos fazer, o que vamos fazer?”, Lala pergunta.
Eles não tinham US$ 25 mil para perfurar um poço profundo, ficaram seis meses sem uma gota d’água até
que receberam um pequeno reservatório da organização não governamental Self-Help Enterprises. A água chega de
carro-pipa duas vezes por mês. É pouco. Lala economiza água na cozinha, reusa no banheiro e os banhos são curtos.
“No máximo entro, me molho, fecho a água, me ensaboo, abro e já saio”, conta Lala.
Paul Boyer, da Self-Help Enterprise, diz que o lençol de água subterrânea que deveria ter subido nos primei-
ros meses do ano ficou estático. Para Boyer, a crise ainda vai piorar antes de melhorar.

Cadê a água no Nordeste?


A situação também pode piorar no Nordeste brasileiro. Em São Miguel (RN), cidade de 23 mil habitantes, nin-
guém recebe mais conta de água. É que a água encanada acabou em dezembro passado, quando o açude secou.
E não foi sem aviso.
“Desde 2013, quando a gente só estava com 10% da capacidade da água, nós demos o grito, nós pedimos
socorro”, diz Adalcina Vieira, presidente da Câmara de Vereadores. O socorro não veio. A água só chega em
carros-pipa, carroças, motos ou na mão.

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Desde que a água encanada acabou, a cidade se movimenta basicamente em torno de um objetivo: conse-
guir água, vender e comprar água, transportar água, carregar balde d’água. E essa situação deve se manter por
um bom tempo porque as autoridades locais não estão vendo uma solução de curto prazo.
“A situação de nossa cidade é muito difícil. É uma situação de colapso, uma situação de calamidade”, decla-
ra Dario Vieira, prefeito de São Miguel (RN).
Contratar um carro-pipa com 8 mil litros custa R$ 150. Quem não tem recursos depende das cacimbas da
prefeitura.
“Essa caixinha de água aqui não dá nem para começar. Nesses dias, nós vamos morrer de sede aqui, se Deus
não tiver misericórdia”, diz a dona Maria Lúcia da Silva.
É uma trabalheira. “Eu vou levar na mão”, mostra Sandra Leite Lopes, moradora da cidade. São cinco via-
gens da cacimba à casa dela para encher a caixa de mil litros.
Esse transtorno seria evitado se São Miguel não dependesse de apenas um açude, construído 60 anos atrás.

Crise dos reservatórios


A crise também bateu na porta da rica região Sudeste. Os dois maiores reservatórios que atendem a Grande São
Paulo, Cantareira e Alto Tietê, estão com níveis críticos. O Cantareira, o mais importante deles, entrou no volume
morto em maio do ano passado e nunca mais saiu.
O presidente da ANA (Agência Nacional de Água) reconhece que o Brasil tem um nível muito baixo de água
reservada e reclama que a legislação ambiental pouco flexível não ajuda.
“Porque, como um reservatório tem impacto ambiental, muitas vezes se abandona a discussão dos reser-
vatórios por conta desses impactos ambientais e sociais. É verdade, eles existem. Agora a gente tem que, precisa
colocar na outra coluna também, é a segurança hídrica que esses reservatórios propiciam”, diz Vicente Andreu
Giullo, presidente da ANA (Agência Nacional de Água).

Artigo de opinião e editorial


Os artigos de opinião e editoriais também são parte do gênero jornalístico e têm como característica serem textos
que articulam notícias a partir de elementos argumentativos. Existem algumas pequenas diferenças entre
os dois estilos de texto. O artigo expressa um ponto de vista da pessoa que o assina, e geralmente aborda questões
sociais, políticas e culturais. Sua condução é feita com elementos argumentativos que tentam persuadir o leitor da
opinião que está sendo apresentada.
Já o editorial manifesta a opinião não de um indivíduo, mas de um órgão de imprensa como um todo, por
esse motivo não é assinado por um particular (não expressa ponto de vista particular). Costumam abordar temas
de grande projeção nacional ou internacional, também sobre temas sociais, políticos ou culturais. Embora sua
condução também apresente elementos argumentativos de persuasão, o editorial costuma ser mais equilibrado e
informativo do que o artigo de opinião.

Vontade de punir

Deu no Datafolha que a maioria dos brasileiros quer baixar a maioridade penal. Maiorias assim robustas, que já são
raras em questões sociais, ficam ainda mais intrigantes quando se considera que, entre especialistas, o assunto é
controverso. Como explicar o fenômeno? Estamos aqui diante de um dos mais fascinantes aspectos da natureza.
Se você pretende produzir seres sociais, precisa encontrar um modo de fazer com que eles colaborem uns com os
outros e, ao mesmo tempo, se protejam dos indivíduos dispostos a explorá-los. A fórmula que a evolução encontrou
para equacionar esse e outros dilemas foi embalar regras de conduta em instintos, emoções e sentimentos que
provocam ações que funcionam em mais instâncias do que não funcionam.
18
Assim, para evitar a superexploração pelos semelhantes, desenvolvemos verdadeiro horror àquilo que per-
cebemos como injustiças. Na prática, isso se traduz no impulso que temos de punir quem tenta levar vantagem
indevida. Quando não podemos castigá-los diretamente, torcemos para que levem a pior, o que, além de garantir o
sucesso de filmes de Hollywood, torna a justiça retributiva algo popular em nossa espécie. Isso, porém, é só parte
do problema. Uma sociedade pautada apenas pelo ideal de justiça soçobraria. Se cada mínima ofensa exigisse
imediata reparação e todos tivessem de ser tratados de forma rigorosamente idêntica, a vida comunitária seria
impossível. A natureza resolve isso com sentimentos como amor e favoritismo, que permitem, entre outras coisas,
que mães prefiram seus próprios filhos aos de desconhecidos.
Nas sociedades primitivas, em bandos de 200 pessoas, onde todos tinham algum grau de parentesco, o
sistema funcionava razoavelmente bem. Os ímpetos da justiça retributiva eram modulados pela empatia familiar.
Agora que vivemos em grupos de milhões sem vínculos pessoais, a vontade de punir impera inconteste.
SCHWARTSMAN, Hélio. Folhaonline, em 24 jun. 2015

Textos científicos
Os textos científicos têm como principal objetivo colocar o público não especializado em contato com pesquisas
científicas e tecnológicas. São predominantemente informativos, trazendo dados interessantes sobre alguma pes-
quisa realizada pela comunidade científica. Em geral, são textos produzidos por especialistas em alguma área (ou
com o apoio destes) e devem possuir uma linguagem mais acessível, menos técnica para que estejam ao alcance
do leitor.

Onde circulam os textos científicos?


Os textos de divulgação científica, nos últimos anos, têm aparecido não apenas em revistas especializadas (cien-
tíficas), mas também em seções específicas de jornais, revistas de curiosidades e até mesmo em livros estilo best-
-seller. Toda essa variedade é uma demanda do público por saber cada vez mais a respeito dos avanços científicos,
avanços esses que podem trazer mudanças significativas para a vida das pessoas.

A recepção do texto científico


Os textos de cunho científico costumam ser procurados por públicos variados, desde pessoas curiosas por assuntos
determinados, até pessoas que leem mais assiduamente a respeito de tudo o que se publica. Essa variedade de pú-
blico implica certas dificuldades de produção, pois o texto precisa denotar seriedade sem necessariamente possuir
uma linguagem complexa (técnica).

A estrutura do texto científico


Os textos de divulgação científica não possuem estrutura pré-determinada, mas, geralmente, encontramos um
título e uma introdução mais geral, que têm como objetivo angariar a atenção do leitor para o tópico científico
que será abordado/discutido. O desenvolvimento e a conclusão do texto se dão de acordo com os interesses do
especialista.
Nesse sentido, temos um texto de estrutura bem variável, que é muito usado em vestibulares.

19
A linguagem dos textos científicos
Como dito anteriormente, há nos textos de divulgação científica uma necessidade de se “traduzir” os conceitos
altamente complexos da ciência para uma linguagem mais acessível ao leitor. Nesse caso, encontraremos em textos
científicos um grau elevado de coloquialidade.
Para fazer com que o leitor entenda um texto mais complexo, recorre-se, por exemplo, a muitas figuras de
analogia, como a comparação e a metáfora; figuras que permitem ao leitor entender mais facilmente o que está
sendo dito. Ou seja, opta-se por uma linguagem conotativa (figurada). Também devem ser evitados os usos de
jargões da área científica, sempre optando por uma analogia mais simples. Sendo inevitável o uso de um jargão,
este deve ser explicado no próprio texto.

20
Aplicação dos Uma noite ele chegou no bar Vinte de No-
vembro

conhecimentos - Sala Bebeu


Cantou
Dançou
1. (ENEM 2016) De domingo Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas
e morreu afogado.
— Outrossim... BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira: poesias
— O quê? reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.
— O que o quê?
— O que você disse. No poema de Manuel Bandeira, há uma res-
— Outrossim? significação de elementos da função referen-
— É. cial da linguagem pela:
— O que é que tem? a) atribuição de título ao texto com base em
— Nada. Só achei engraçado. uma notícia veiculada em jornal.
— Não vejo a graça. b) utilização de frases curtas, características de
— Você vai concordar que não é uma palavra textos do gênero jornalístico.
de todos os dias. c) indicação de nomes de lugares como garan-
— Ah, não é. Aliás, eu só uso domingo. tia da veracidade da cena narrada.
— Se bem que parece mais uma palavra de d) enumeração de ações, com foco nos eventos
segunda-feira. acontecidos à personagem do texto.
— Não. Palavra de segunda-feira é “óbice”. e) apresentação de elementos próprios da notí-
— “Ônus”. cia, tais como quem, onde, quando e o quê.
— “Ônus” também. “Desiderato”. “Resquí-
cio”. 3. (ENEM) Lisboa: aventuras
— “Resquício” é de domingo.
— Não, não. Segunda. No máximo terça. tomei um expresso
— Mas “outrossim”, francamente... cheguei de foguete
— Qual o problema? subi num bonde
— Retira o “outrossim”.
desci de um elétrico
— Não retiro. É uma ótima palavra. Aliás é
pedi um cafezinho
uma palavra difícil de usar. Não é qualquer
serviram-me uma bica
um que usa “outrossim”.
quis comprar melas
VERISSIMO, L. F. Comédias da vida privada.
Porto Alegre: L&PM, 1996 (fragmento). só vendiam peúgas
fui dar a descarga
No texto, há uma discussão sobre o uso de disparei um autoclisma
algumas palavras da língua portuguesa. Esse gritei "ó cara!"
uso promove o(a): responderam-me «ó pá»
a) marcação temporal, evidenciada pela pre- positivamente
sença de palavras indicativas dos dias da as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam
semana. como lá.
b) tom humorístico, ocasionado pela ocorrên- PAES, J. P. A poesia está morta mas juro que
cia de palavras empregadas em contextos não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988.
formais.
c) caracterização da identidade linguística dos No texto, a diversidade linguística é apresen-
interlocutores, percebida pela recorrência de tada pela ótica de um observador que entra
palavras regionais. em contato com uma comunidade linguística
d) distanciamento entre os interlocutores, pro- diferente da sua. Esse observador é um:
vocado pelo emprego de palavras com signi- a) falante do português brasileiro relatando o
ficados pouco conhecidos. seu contato na Europa com o português lu-
e) inadequação vocabular, demonstrada pela sitano.
seleção de palavras desconhecidas por parte b) imigrante em Lisboa com domínio dos regis-
de um dos interlocutores do diálogo. tros formal e informal do português euro-
peu.
2. (ENEM) Poema tirado de uma notícia de jor- c) turista europeu com domínio de duas varie-
nal dades do português em visita a Lisboa.
d) português com domínio da variedade colo-
João Gostoso era carregador de feira livre e quial da língua falada no Brasil.
morava no morro da Babilônia num barracão e) poeta brasileiro defensor do uso padrão da
sem número. língua falada em Portugal.

21
4. (ENEM) Grupo transforma pele humana em a) conjunção (quando).
neurônios b) adjetivo (irresistível).
c) verbo no imperativo (descubra).
Um grupo de pesquisadores dos EUA conse- d) palavra do campo afetivo (paixão).
guiu alterar células extraídas da pele de uma e) expressão sensorial (acariciando).
mulher de 82 anos sofrendo de uma doença
nervosa degenerativa e conseguiu transfor- 6. (ENEM) O humor e a língua
má-las em células capazes de se transforma-
rem virtualmente em qualquer tipo de órgão Há algum tempo, venho estudando as piadas,
do corpo. Em outras palavras, ganharam os com ênfase em sua constituição linguística.
poderes das células-tronco pluripotentes, Por isso, embora a afirmação a seguir pos-
normalmente obtidas a partir da destruição sa parecer surpreendente, creio que posso
de embriões. garantir que se trata de uma verdade quase
O método usado na pesquisa, descrita hoje banal: as piadas fornecem simultaneamen-
na revista Science, existe desde o ano pas- te um dos melhores retratos dos valores e
sado, quando um grupo liderado pelo japo- problemas de uma sociedade, por um lado,
nês Shinya Yamanaka criou as chamadas iPS e uma coleção de fatos e dados impressio-
(células-tronco de pluripotência induzida). nantes para quem quer saber o que é e como
O novo estudo, porém, mostra pela primeira funciona uma língua, por outro. Se se quiser
vez que é possível aplicá-lo a células de pes- descobrir os problemas com os quais uma
soas doentes, portadoras de esclerose lateral sociedade se debate, uma coleção de pia-
amiotrófica (ELA), mal que destrói o sistema das fornecerá excelente pista: sexualidade,
nervoso progressivamente. etnia/raça e outras diferenças, instituições
“Pela primeira vez, seremos capazes de ob- (igreja, escola, casamento, política), morte,
servar células com ELA ao microscópio e ver tudo isso está sempre presente nas piadas
como elas morrem”, disse Valerie Estess, di- que circulam anonimamente e que são ou-
retora do Projeto ALS (ELA, em inglês), que vidas e contadas por todo mundo em todo
financiou parte da pesquisa. Observar em o mundo. Os antropólogos ainda não pres-
detalhes a degeneração pode sugerir novos taram a devida atenção a esse material, que
métodos para tratar a ELA. poderia substituir com vantagem muitas en-
KOLNERKEVIC, I. Folha de S. Paulo. 1 ago. 2008 (adaptado). trevistas e pesquisas participantes. Sabere-
mos mais a quantas andam o machismo e o
A análise dos elementos constitutivos do
racismo, por exemplo, se pesquisarmos uma
texto e a identificação de seu gênero permi-
coleção de piadas do que qualquer outro cor-
tem ao leitor inferir que o objeto do autor é :
pus.
a) apresentar a opinião da diretora do Projeto
POSSENTI. S. Ciência Hoje, n. 176, out. 2001 (adaptado).
ALS.
b) expor a sua opinião como um especialista no A piada é um gênero textual que figura en-
tema. tre os mais recorrentes na cultura brasileira,
c) descrever os procedimentos de uma experi- sobretudo na tradição oral. Nessa reflexão, a
ência científica. piada é enfatizada por:
d) defender a pesquisa e a opinião dos pesqui- a) sua função humorística.
sadores dos EUA. b) sua ocorrência universal.
e) informar os resultados de uma nova pesqui- c) sua diversidade temática.
sa feita nos EUA. d) seu papel como veículo de preconceitos.
e) seu potencial como objeto de investigação.
5. (ENEM) Descubra e aproveite um momen-
to todo seu. Quando você quebra o delica- 7. (ENEM) Brasil: o país dos 100 milhões de
do chocolate, o irresistível recheio cremoso raios
começa a derreter na sua boca, acariciando Dos 3,15 bilhões de raios que golpeiam a
todos os seus sentidos. Criado por nossa em- Terra e seus habitantes durante um ano, 100
presa. Paixão e amor por chocolate desde milhões deles vêm desabar em terras brasi-
1845. leiras. O número, divulgado no ano passado
Veja, n. 2.320, 8 mai. 2013 (adaptado). por uma equipe de cientistas do Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em
O texto publicitário tem a intenção de persu-
São José dos Campos, São Paulo, não é su-
adir o público-alvo a consumir determinado
perado por nenhum outro país. E ficou bem
produto ou serviço. No anúncio, essa inten-
acima das estimativas que davam conta de
ção assume a forma de um convite, estraté-
30 milhões ao ano. Agora, sabemos com
gia argumentativa linguisticamente marca-
da pelo uso de:

22
segurança: em quantidade de relâmpagos, c) crônica, porque narra o imprevisto que levou
ninguém segura este país. a polícia a prender um fraudador.
FON, A. C.; ZANCHETTA, M. I. Disponível em: http:// d) editorial, porque opina sobre aspectos lin-
super.abril.com.br. Acesso em: 27 jan. 2015. guísticos dos documentos redigidos por um
fraudador.
Diversos expedientes argumentativos são e) piada, porque narra o fato engraçado de um
empregados nos textos para sustentar as fraudador descoberto pela polícia por causa
ideias apresentadas. Nesse texto, a citação de erros de grafia.
de um instituto especializado é uma estra-
tégia para:
9. (ENEM) Pedra sobre pedra
a) atestar a necessidade de ações de prevenção
de danos causados por raios.
Algumas fazendas gaúchas ainda preservam
b) apresentar as estimativas de incidência de
as taipas, muros de pedra para cercar o gado.
raios em terras brasileiras.
Um tipo de cerca primitiva. Não há nada que
c) promover discussão sobre as consequências
prenda uma pedra na outra, cuidadosamen-
das descargas de raios.
te empilhadas com altura de até um metro.
d) conferir credibilidade aos resultados de uma
Engenharia simples que já dura 300 anos. A
investigação sobre raios.
mesma técnica usada no mangueirão, uma
e) comparar o número de raios incidentes no
espécie de curral onde os animais ficavam
Brasil e no mundo.
confinados à noite. As taipas são atribuídas
aos jesuítas. O objetivo era domar o gado
8. (ENEM) Fraudador é preso por emitir atesta- xucro solto nos campos pelos colonizadores
dos com erro de português espanhóis.
FERRI, M. Revista Terra da Gente, n. 96, abr. 2012.
Mais um erro de português leva um crimi-
noso às mãos da polícia. Desde 2003, M.O.P., Um texto pode combinar diferentes funções
de 37 anos, administrava a empresa MM, que de linguagem. Exemplo disso é Pedra sobre
falsificava boletins de ocorrência, carteiras pedra, que se vale da função referencial e
profissionais e atestados de óbito, tudo para da metalinguística. A metalinguagem é es-
anular multas de trânsito. Amparado pela tabelecida:
documentação fajuta de M.O.P., um motoris- a) por tempos verbais articulados no presente e
ta poderia alegar às Juntas Administrativas no pretérito.
de Recursos de Infrações que ultrapassou o b) pelas frases simples e referência ao ditado
limite de velocidade para levar uma paren- “não ficará pedra sobre pedra”.
te que passou mal e morreu a caminho do c) pela linguagem impessoal e objetiva, marca-
hospital. da pela terceira pessoa.
O esquema funcionou até setembro, quando d) pela definição de termos como “taipa” e
M.O.P. foi indiciado. Atropelara a gramática. “mangueirão”.
Havia emitido, por exemplo, um atestado de e) por adjetivos como “primitivas” e “simples”,
abril do ano passado em que estava escrito indicando o ponto de vista do autor.
aneurisma “celebral” (com l no lugar de r) e
“insulficiência” múltipla de órgãos (com um 10. (ENEM) Há muito se sabe que a Bacia Bauru
l desnecessário em “insuficiência” – além – depósito de rochas formadas por sedimen-
do fato de a expressão médica adequada ser tos localizado entre os estados de São Paulo,
“falência múltipla de órgãos”). Minas Gerais, Goiás, Paraná, Mato Grosso e
M.O.P. foi indiciado pela 2ª Delegacia de Di- Mato Grosso do Sul – foi habitada, há mi-
visão de Crimes de Trânsito. Na casa do acu- lhões de anos, por uma abundante fauna de
sado, em São Miguel Paulista, zona leste de crocodiliformes, um grupo de répteis em que
São Paulo, a polícia encontrou um computa- estão inclusos os crocodilos, jacarés e seus
dor com modelos de documentos. parentes pré-históricos extintos. Entre as
Língua Portuguesa, n. 12, set. 2006 (adaptado). famílias que por lá viveram está a Baurusu-
chidae, que, na região, englobava outras seis
O texto apresentado trata da prisão de um espécies de crocodiliformes exclusivamente
fraudador que emitia documentos com erros terrestres e com grande capacidade de des-
de escrita. Tendo em vista o assunto, a orga- locamento, crânio alto e comprimido lateral-
nização, bem como os recursos linguísticos, mente e com longos dentes serrilhados. Ago-
depreende-se que esse texto é um(a): ra, em um artigo publicado na versão on-line
a) conto, porque discute problemas existen- da revista Cretaceous Research, um grupo de
ciais e sociais de um fraudador. pesquisadores das universidades federais do
b) notícia, porque relata fatos que resultaram Rio de Janeiro e do Triângulo Mineiro, em
no indiciamento de um fraudador.

23
Minas Gerais, identificaram mais um mem- 1
2. (ENEM) o::... o Brasil... no meu ponto de vis-
bro dessa antiga família. ta... entendeu? o país só cresce através da
Disponível em: http://revistapesquisa. educação... entendeu? Eu penso assim... en-
fapesp.br. Acesso em: 2 nov. 2013. tão quer dizer... você dando uma prioridade
pra... pra educação... a tendência é melhorar
A circulação do conhecimento científico mais... entendeu? e as pessoas... como eu
ocorre de diferentes maneiras. Por meio da posso explicar assim? as pessoas irem... to-
leitura do trecho, identifica-se que o texto mando conhecimento mais das coisas... né?
é um artigo de divulgação científica, pois, porque eu acho que a pior coisa que tem é a
entre outras características, pessoa alienada... né? a pessoa que não tem
a) exige do leitor conhecimentos específicos noção de na::da... entendeu?
acerca do tema explorado. Trecho da fala de J. L., sexo masculino, 26 anos. In:
b) destina-se a leitores vinculados a diferentes VOTRE, S.; OLIVEIRA, M. R. (Coord.). A língua falada e
comunidades científicas. escrita na cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: www.
discursoegramatica.letras.ufrj.br. Acesso em: 4 dez. 2012.
c) faz referência a artigos publicados em revis-
tas científicas internacionais. A língua falada caracteriza-se por hesita-
d) trata de descobertas da ciência com lingua- ções, pausas e outras peculiaridades. As
gem acessível ao público em geral. ocorrências de "entendeu" e "né", na fala
e) aborda temas que receberam destaque em de J. L., indicam que:
jornais e revistas não especializados. a) a modalidade oral apresenta poucos recursos
comunicativos, se comparada à modalidade
11. (ENEM) Da corrida de submarino à festa de escrita.
aniversário no trem b) a língua falada é marcada por palavras dis-
Leitores fazem sugestões para o Museu das pensáveis e irrelevantes para o estabeleci-
Invenções Cariocas mento da interação.
c) o enunciador procura interpelar o seu inter-
“Falar ‘caraca!’ a cada surpresa ou aconteci- locutor para manter o fluxo comunicativo.
mento que vemos, bons ou ruins, é invenção d) o tema tratado no texto tem alto grau de
do carioca, como também o ‘vacilão’.” complexidade e é desconhecido do entrevis-
“Cariocas inventam um vocabulário próprio”. tador.
“Dizer ‘merrmão’ e ‘é merrmo’ para um ami- e) o falante manifesta insegurança ao abordar
go pode até doer um pouco no ouvido, mas é o assunto devido ao gênero ser uma entre-
tipicamente carioca.” vista.
“Pedir um ‘choro’ ao garçom é invenção ca-
rioca.”
“Chamar um quase desconhecido de ‘queri- Raio X
do’ é um carinho inventado pelo carioca para
tratar bem quem ainda não se conhece di- 1.
Ao associar palavras usadas em contextos
reito.” formais a dias da semana, o diálogo cria uma
“O ‘ele é um querido’ é uma forma mais fe- situação humorística devido à carga irônica
minina de elogiar quem já é conhecido.” que o autor imprime ao texto. Assim, é cor-
SANTOS, J. F. Disponível em: www.oglobo.globo. reta a opção [B].
com. Acesso em: 6 mar. 2013 (adaptado). 2.
No poema de Manuel Bandeira, o uso da fun-
ção referencial da linguagem reflete a neces-
Entre as sugestões apresentadas para o Mu- sidade de transmitir ao interlocutor dados
seu das Invenções Cariocas, destaca-se o va- da realidade de uma maneira direta e obje-
riado repertório linguístico empregado pe- tiva, no caso com elementos próprios da no-
los falantes cariocas nas diferentes situações tícia, tais como “quem”, “onde”, “quando” e
específicas de uso social. “o quê”. Assim, é correta a opção [E].
A respeito desse repertório, atesta-se o(a): 3.
O poema de José Paulo Paes, “Lisboa: aven-
a) desobediência à norma-padrão, requerida turas”, estabelece intertextualidade com o
em ambientes urbanos. de Gonçalves Dias, “Canção do exílio”, apre-
b) inadequação linguística das expressões ca- sentando uma disposição de versos (duas co-
riocas às situações sociais apresentadas. lunas em que cada verso da primeira coluna
c) reconhecimento da variação linguística, se- parece se opor ao verso seguinte, da segunda
gundo o grau de escolaridade dos falantes. coluna) que simulam um diálogo onde ter-
d) identificação de usos linguísticos próprios mos diferentes têm o mesmo significado.
da tradição cultural carioca. Assim, depreende-se que o eu lírico é um fa-
e) variabilidade no linguajar carioca em razão lante do português brasileiro relatando o seu
da faixa etária dos falantes. contato na Europa com o português lusitano,

24
4.
como se afirma em [A].
Trata-se de um texto informativo que preten- Gabarito
de dar a conhecer ao público-leitor comum os
avanços científicos no desenvolvimento de 1. B 2. E 3. A 4. E 5. C
métodos para tratar a esclerose lateral amio-
trófica (ELA), mal que destrói o sistema nervo- 6. E 7. D 8. B 9. D 10. D
so progressivamente. Assim, é correta a opção 11. D 12. C
[E].
5. Na primeira frase do texto publicitário, o uso
do imperativo nos termos verbais “descubra”
e “aproveite” configura o uso da função apela-
tiva da linguagem sob a forma de um convite,
tentando persuadir o público-alvo a consumir
determinado tipo de chocolate. Assim, é corre-
ta a opção [C].
6. O último período do texto (“Saberemos mais a
quantas andam o machismo e o racismo, por
exemplo, se pesquisarmos uma coleção de pia-
das do que qualquer outro corpus”) indica que
o autor enfatiza a tese inicial de que a pia-
da, além de divertir, fornece dados de análise
relativamente a valores e problemas de uma
sociedade. Assim, é correta a opção [E].
7. É correta a opção [D], pois a conclusão apre-
sentada no texto é sustentada pela citação de
um instituto especializado no assunto o que
constitui argumento de autoridade, conferin-
do credibilidade à informação.
8. É correta a opção [E], pois o próprio título do
texto indica que se trata de uma notícia que
relata fatos que resultaram no indiciamento
de um fraudador.
9. É correta a opção [D], pois a função meta-
linguística ocorre quando a preocupação do
emissor está voltada para o próprio código ou
linguagem, como acontece na explicação do
significado dos termos “taipas” e “manguei-
rão”.
10. É correta a opção [D], pois os textos de divul-
gação científica possuem a finalidade principal
de “popularizar a ciência”, ou seja, difundir o
conhecimento científico ao transmitir diversas
informações com linguagem ao público em ge-
ral.
11. As expressões enviadas pelos leitores como
sugestões para o Museu das Invenções Cario-
cas pertencem ao repertório coloquial carioca
(“caraça”,”vacilão”, “merrmão”, etc). Assim, é
correta a opção [D].
12. A língua falada adota estratégias específicas
que incluem hesitações, interrupções, corre-
ções, repetições, digressões e sintaxe interati-
va, como acontece no trecho do enunciado. As-
sim, é correta a opção [C], pois os marcadores
discursivos, interrogações diretas ou indiretas,
representados pelos termos “entendeu" e "né"
na fala de J. L indicam que o emissor procura
interpelar o seu interlocutor para manter o
fluxo comunicativo.

25
Prescrição: Para resolver os exercícios dessa aula, será necessário instrumentalizar conhecimentos
a respeito de linguagem coloquial (usos orais) e de linguagem prescritiva (usos relacionados à
gramática normativa). Isso envolve saber diferenciar usos linguísticos espaciais (regionais), temporais
(históricos), sociais e também situacionais.

Prática dos 2. (ENEM) Até que ponto replicar conteúdo é


crime? “A internet e a pirataria são insepa-

conhecimentos - E.O. ráveis”, diz o diretor do instituto de pesqui-


sas americano Social Science Research Coun-
cil. “Há uma infraestrutura pequena para
1. (ENEM) Um menino aprende a ler controlar quem é o dono dos arquivos que
Minha mãe sentava-se a coser e retinha-me circulam na rede. Isso acabou com o controle
de livro na mão, ao lado dela, ao pé da má- sobre a propriedade e tem sido descrito como
quina de costura. O livro tinha numa pági- pirataria, mas é inerente à tecnologia”, afir-
na a figura de um bicho carcunda ao lado ma o diretor. O ato de distribuir cópias de
da qual, em letras graúdas, destacava-se um trabalho sem a autorização dos seus pro-
esta palavra: ESTÔMAGO. Depois de soletrar dutores pode, sim, ser considerado crime,
"es-to-ma-go", pronunciei "estomágo". Eu
mas nem sempre essa distribuição gratuita
havia pronunciado bem as duas primeiras
lesa os donos dos direitos autorais. Pelo con-
palavras que li, camelo e dromedário. Mas
trário. Veja o caso do livro O alquimista, do
estômago, pronunciei estomágo. Minha mãe,
bonita como só pode ser mãe jovem para fi- escritor Paulo Coelho. Após publicar, para
lho pequeno, o rosto alvíssimo, os cabelos download gratuito, uma versão traduzida da
enrolados no pescoço, parou a costura e me obra em seu blog, Coelho viu as vendas do
fitou de fazer medo: "Gilberto!". Estremeci. livro em papel explodirem.
"Estomágo? Leia de novo, soletre". Soletrei, BARRETO, J.; MORAES, M. A internet existe sem pirataria?
Veja, n. 2 303, 13 fev. 2013 (adaptado).
repeti: "Estomágo". Foi o diabo.
Jamais tinha ouvido, ao que me lembrasse De acordo com o texto, o impacto causado
então, a palavra estômago. A cozinheira,
pela internet propicia a:
o estribeiro, os criados, Bernarda, diziam
a) banalização da pirataria na rede.
"estambo". "Estou com uma dor na boca do
b) adoção de medidas favoráveis aos editores.
estambo...", "Meu estambo está tinindo...".
Meus pais teriam pronunciado direito na mi- c) implementação de leis contra crimes eletrô-
nha presença, mas eu não me lembrava. E nicos.
criança, como o povo, sempre que pode repe- d) reavaliação do conceito de propriedade inte-
le proparoxítono. lectual.
AMADO, G. História da minha infância. Rio
e) ampliação do acesso a obras de autores reco-
de Janeiro: José Olympio, 1958. nhecidos.

No trecho, em que o narrador relembra um 3. (ENEM) O livro A fórmula secreta conta a


episódio e sua infância, revela-se a possi-
história de um episódio fundamental para
bilidade de a língua se realizar de formas
o nascimento da matemática moderna e re-
diferentes. Com base no texto, a passagem
trata uma das disputas mais virulentas da
em que se constata uma marca de variedade
ciência renascentista. Fórmulas misteriosas,
linguística pouco prestigiada é:
a) "O livro tinha numa página a figura de um duelos públicos, traições, genialidade, am-
bicho carcunda ao lado da qual, em letras bição – e matemática! Esse é o instigante
graúdas, destacava-se esta palavra: ESTÔMA- universo apresentado no livro, que resgata
GO". a história dos italianos Tartaglia e Cardano e
b) "'Gilberto!'. Estremeci. 'Estomágo? Leia de da fórmula revolucionária para resolução de
novo, soletre'. Soletrei, repeti: 'Estomágo'". equações de terceiro grau. A obra reconstitui
c) "Eu havia pronunciado bem as duas primei- um episódio polêmico que marca, para mui-
ras palavras que li, camelo e dromedário". tos, o início do período moderno da matemá-
d) "Jamais tinha ouvido, ao que me lembrasse tica.
então, a palavra estômago". Em última análise, A fórmula secreta apre-
e) "A cozinheira, o estribeiro, os criados, Ber- senta-se como uma ótima opção para co-
narda, diziam 'estambo'". nhecer um pouco mais sobre a história da

26
matemática e acompanhar um dos debates Reconhece-se, nesse trecho, uma posição
científicos mais inflamados do século XVI no crítica aos ideais de amor e felicidade en-
campo. Mais do que isso, é uma obra de fácil contrados nos contos de fada. Essa crítica é
leitura e uma boa mostra de que é possível traduzida:
abordar temas como álgebra de forma inte- a) pela descrição da dura realidade da vida das
ressante, inteligente e acessível ao grande operárias.
público. b) pelas decepções semelhantes às encontradas
GARCIA, M. Duelos, segredos e matemática. Disponível em: nos contos de fada.
http://cienciahojeuol.com.br. Acesso c) pela ilusão de que a beleza garantiria melhor
em: 6 out. 2015 (adaptado).
sorte na vida e no amor.
Na construção textual, o autor realiza esco- d) pelas fantasias existentes apenas na imagi-
lhas para cumprir determinados objetivos. nação de pessoas apaixonadas.
Nesse sentido, a função social desse texto é : e) pelos sentimentos intensos dos apaixonados
a) interpretar a obra a partir dos acontecimen- enquanto vivem o romantismo.
tos da narrativa.
6. (ENEM) Parestesia não, formigamento
b) apresentar o resumo do conteúdo da obra de
modo impessoal.
Trinta e três regras que mudam a redação de
c) fazer a apreciação de uma obra a partir de
bulas no Brasil
uma síntese crítica.
d) informar o leitor sobre a veracidade dos fa-
Com o Projeto Bulas, de 2004, voltado para a
tos descritos na obra.
tradução do jargão farmacêutico para a lín-
e) classificar a obra como uma referência para
gua portuguesa – aquela falada em todo o
estudiosos da matemática.
Brasil – e a regulamentação do uso de medi-
camentos no país, cinco anos depois, o Brasil
4. (ENEM) Mandinga – Era a denominação que, começou a sair das trevas.
no período das grandes navegações, os por- O grupo comandado por uma doutora em
tugueses davam à costa ocidental da África. Linguística da UFRJ sugeriu à Anvisa mudar
A palavra se tornou sinônimo de feitiçaria tudo. Elaborou, também, "A redação de bulas
porque os exploradores lusitanos considera- para o paciente: um guia com os princípios
vam bruxos os africanos que ali habitavam de redação clara, concisa e acessível para o
– é que eles davam indicações sobre a exis- leitor de bulas", disponível em versão adap-
tência de ouro na região. Em idioma nativo, tada no site da Anvisa. Diferentemente do
manding designava terra de feiticeiros. A que acontece com outros gêneros, na bula não
palavra acabou virando sinônimo de feitiço, há espaço para inovações de estilo. "O uso de
sortilégio. fórmulas repetitivas é bem-vindo, dá força
COTRIM, M. O pulo do gato 3.
institucional ao texto", explica a doutora. "A
São Paulo: Geração Editorial, 2009 (fragmento).
bula não pode abrir possibilidades de inter-
No texto, evidencia-se que a construção do pretações ao seu leitor".
significado da palavra mandinga resulta de Se obedecidas, as 33 regras do guia são de
um(a): serventia genérica – quem lida com qualquer
a) contexto sócio-histórico. tipo de escrita pode se beneficiar de seus en-
b) diversidade étnica. sinamentos. A regra 12, por exemplo, manda
c) descoberta geográfica. abolir a linguagem técnica, fonte de possível
d) apropriação religiosa. constrangimento para quem não a compreen-
e) contraste cultural. de, e recomenda: "Não irrite o leitor." A regra
14 prega um tom cordial, educado e, sobretu-
5. (ENEM) O último longa de Carlão acompanha do, conciso: "Não faça o leitor perder tempo".
Disponível em: revistapiaui.estadao.com br.
a operária Silmara, que vive com o pai, um Acesso em: 24 jul. 2012 (adaptado).
ex-presidiário, numa casa da periferia pau-
listana. Ciente de sua beleza, o que lhe dá As bulas de remédio têm caráter instrucional
certa soberba, a jovem acredita que terá um e complementam as orientações médicas. No
destino diferente do de suas colegas. Cruza contexto de mudanças apresentado, a prin-
o caminho de dois cantores por quem é apai- cipal característica que marca sua nova lin-
xonada. E constata, na prática, que o roman- guagem é o(a):
tismo dos contos de fada tem perna curta. a) possibilidade de inclusão de neologismo.
VOMERO, M. F. Romantismo de araque.
b) refinamento da linguagem farmacêutica.
Vida Simples, n. 121, ago. 2012. c) adequação ao leitor não especializado.
d) detalhamento de informações.
e) informalidade do registro.

27
7. (Enem) As plataformas digitais têm ganha- instalação de suas placas.
do mais espaço entre os internautas como A empresa teria informado que tinha auto-
ferramenta para exercer a cidadania. Através rização da prefeitura e da polícia ambiental
delas, é possível mapear problemas da cida- para cortar a árvore. Sobre a propaganda,
de e propor soluções, utilizando-se das redes a empresa disse que foi “uma infeliz coin-
sociais para aproximar os moradores e arti- cidência”, já que não sabia o que iria ser
cular projetos. O espaço colaborativo PortoA- anunciado.
legre.cc, um dos mais ativos no país, tem 150 Em nota, a Companhia de Tecnologia de
participantes e ajudou a estudante de jorna- Saneamento Ambiental (Cetesb), ligada à
lismo Renata Gomes, 25, a chamar 80 pesso- Secretaria do Meio Ambiente do governo
as para retirar 1 tonelada de lixo da orla do paulista, informou que não há nenhuma au-
rio Guaíba. “Foi a partir da sugestão de um torização em nome da empresa para o corte
integrante da plataforma que criei a causa. da árvore.
Foi fundamental porque sempre senti vonta- A multa, segundo a polícia ambiental, varia
de de fazer algo pela cidade, mas não sabia entre R$ 100 e R$ 1.000 por árvore ou planta
como”, diz Renata. O projeto colaborativo cortada.
baseia-se no conceito de wikicidade (ins- Disponível em: http://oglobo.globo.com.
pirado na enciclopédia virtual Wikipédia), Acesso em: 21 set. 2015 (adaptado).
em que um território real recebe anotações
O texto apresenta uma crítica ao uso social
virtuais das pessoas por meio de wikispots,
de um outdoor. Essa crítica está associada ao
que se referem a uma praça, uma rua ou um
fato de
bairro. “A ideia de wikicidade é fomentar a
a) uma multa de R$ 100 a R$ 1.000 ser aplicada
cocriação, elaboração e experimentação de
por corte de árvore ou de planta.
sugestões que possam ser aplicadas em uma
b) a Secretaria do Meio Ambiente ter negado a
cidade”, explica Daniel Bittencourt, um dos
autorização do corte da árvore.
desenvolvedores do projeto PortoAlegre.cc.
c) a empresa informar que foi uma “infeliz
DIDONÊ, D. Cidadania 2.0. Vida Simples, n. 119, jun. 2012.
coincidência” o corte da árvore.
O texto, ao falar da utilização das redes so- d) uma campanha ambiental ter substituído
ciais e informar sobre a quantidade de pro- uma árvore centenária.
jetos colaborativos espalhados pelo país, ex- e) a empresa utilizar a imagem de uma criança
põe a importância das plataformas digitais na campanha.
no exercício da cidadania. O espaço colabo-
rativo PortoAlegre.cc tem como principal ob- 9. (ENEM) Texto I
jetivo:
a) contratar pessoas para realizarem a limpeza Nesta época do ano, em que comprar com-
de ruas e de margens dos rios. pulsivamente é a principal preocupação de
b) sugerir a criação de grupos virtuais de apoio boa parte da população, é imprescindível re-
à cidade e sua divulgação na Wikipédia. fletirmos sobre a importância da mídia na
c) reunir pessoas dispostas a utilizar sugestões propagação de determinados comportamen-
virtuais para a manutenção e a preservação tos que induzem ao consumismo exacerbado.
da cidade. No clássico livro O capital, Karl Marx aponta
d) divulgar as redes sociais para que mais pes- que no capitalismo os bens materiais, ao se-
soas possam interagir e resolver os proble- rem fetichizados, passam a assumir quali-
mas da cidade. dades que vão além da mera materialidade.
e) aproximar as pessoas de cidades distantes As coisas são personificadas e as pessoas são
para mapear problemas e criar projetos em coisificadas. Em outros termos, um automó-
comum. vel de luxo, uma mansão em um bairro nobre
ou a ostentação de objetos de determinadas
8. (ENEM) Árvore é cortada para dar lugar à marcas famosas são alguns dos fatores que
propaganda sobre preservação ambiental conferem maior valorização e visibilidade
social a um indivíduo.
“Uma criança abraça uma árvore com o sorri- LADEIRA, F. F. Reflexões sobre o consumismo. Disponível em:
http://observatoriodaimprensa.com.
so no rosto. No fundo verde, uma mensagem br. Acesso em: 18 jan. 2015.
exalta a importância da preservação da na-
tureza e lembra o Dia da Árvore”. O que seria Texto II
um roteiro padrão para uma peça publicitá-
ria virou motivo de revolta e indignação em Todos os dias, em algum nível, o consumo
uma cidade do interior de São Paulo. Isso atinge nossa vida, modifica nossas relações,
porque uma empresa de outdoor derrubou gera e rege sentimentos, engendra fanta-
uma árvore centenária em um terreno para a sias, aciona comportamentos, faz sofrer, faz

28
gozar. Às vezes constrangendo-nos em nos- c) defender as práticas sustentáveis de manejo
sas ações no mundo, humilhando e aprisio- da madeira.
nando, às vezes ampliando nossa imaginação d) ensinar formas de combate à exploração ile-
e nossa capacidade de desejar, consumimos gal de madeira.
e somos consumidos. Numa época toda co- e) demonstrar a importância de parcerias para
dificada como a nossa, o código da alma (o a realização da pesquisa.
código do ser) virou código do consumidor!
Fascínio pelo consumo, fascínio do consumo. 11. (ENEM) O mistério do brega
Felicidade, luxo, bem-estar, boa forma, lazer,
elevação espiritual, saúde, turismo, sexo, fa- Famoso no seu tempo, o marechal Schön-
mília e corpo são hoje reféns da engrenagem berg (1615-90) ditava a moda em Lisboa,
do consumo. onde seu nome foi aportuguesado para
BARCELLOS, G. A alma do consumo. Disponível em: Chumbergas. Consta que ele foi responsável
www.diplomatique.org.br. Acesso em: 18 jan. 2015.
pela popularização dos vastos bigodes tufa-
Esses textos propõem uma reflexão crítica dos na Metrópole. Entre os adeptos estaria
sobre o consumismo. Ambos partem do pon- o governador da província de Pernambuco,
to de vista de que esse hábito: o português Jerônimo de Mendonça Furta-
a) desperta o desejo de ascensão social. do, que, por isso, aqui ganhou o apelido de
b) provoca mudanças nos valores sociais. Chumbregas – variante do aportuguesado
c) advém de necessidades suscitadas pela pu- Chumbergas. Talvez por ser um homem não
blicidade. muito benquisto na Colônia, o apelido deu
d) deriva da inerente busca por felicidade pelo origem ao adjetivo xumbrega: “coisa ruim”,
ser humano. “ordinária”. E talvez por ser um homem tam-
e) resulta de um apelo do mercado em determi- bém da folia, surgiu o verbo xumbregar, que
nadas datas. inicialmente teve o sentido de “embriagar-
-se” e depois veio a adquirir o de “bolinar”,
10. (ENEM) Centro das atenções em um plane- “garanhar”. Dedução lógica: de coisa ruim
ta cada vez mais interconectado, a Floresta a bebedeira e atos libidinosos, as palavras
Amazônica expõe inúmeros dilemas. Um dos xumbrega ou xumbregar chegaram aos anos
mais candentes diz respeito à madeira e sua 60 do século XX na forma reduzida brega,
exploração econômica, uma saga que envolve designando locais onde se bebe, se bolina e
os muitos desafios para a conservação dos re- se ouvem cantores cafonas. E o que inicial-
cursos naturais às gerações futuras. mente era substantivo, “música de brega”,
Com o olhar jornalístico, crítico e ao mesmo acabou virando adjetivo, “música brega” –
tempo didático, adentramos a Amazônia em numa já distante referência a um certo ma-
busca de histórias e sutilezas que os dados rechal alemão chamado Schönberg.
nem sempre revelam. Lapidamos estatísticas e ARAÚJO, P. C. Revista USP, n. 87, nov. 2010 (adaptado).
estudos científicos para construir uma síntese
O texto trata das mudanças linguísticas que
útil a quem direciona esforços para conservar
resultaram na palavra “brega”. Ao apresen-
a floresta, seja no setor público, seja no setor
tar as situações cotidianas que favoreceram
privado, seja na sociedade civil.
as reinterpretações do seu sentido original,
Guiada como uma reportagem, rica em infor-
o autor mostra a importância da:
mações ilustradas, a obra Madeira de ponta a
a) interação oral como um dos agentes respon-
ponta revela a diversidade de fraudes na ca-
sáveis pela transformação do léxico do por-
deia de produção, transporte e comercialização
tuguês.
da madeira, bem como as iniciativas de boas
b) compreensão limitada de sons e de palavras
práticas que se disseminam e trazem esperan-
para a criação de novas palavras em portu-
ça rumo a um modelo de convivência entre de-
guês.
senvolvimento e manutenção da floresta.
c) eleição de palavras frequentes e representa-
VlLLELA. M.; SPINK, P. In: ADEODATO, S. et al, Madeira
de ponta a ponta: o caminho desde a floresta até o tivas na formação do léxico da língua portu-
consumo. São Paulo: FGV RAE, 2011 (adaptado). guesa.
d) interferência da documentação histórica na
A fim de alcançar seus objetivos comunica- constituição do léxico.
tivos, os autores escreveram esse texto para: e) realização de ações de portugueses e de bra-
a) apresentar informações e comentários sobre sileiros a fim de padronizar as variedades
o livro. linguísticas lusitanas.
b) noticiar as descobertas científicas oriundas
da pesquisa.

29
1
2. (ENEM) Ao acompanharmos a história do 14. (ENEM) O que é Web Semântica?
telefone, verificamos que esse meio está se Web Semântica é um projeto para aplicar
mostrando capaz de reunir em seu conteúdo conceitos inteligentes na internet atual.
uma quantidade cada vez maior de outros Nela, cada informação vem com um signifi-
meios – envio de e-mails, recebimento de cado bem definido e não se encontra mais
notícias, música através de rádio e mensa- solta no mar de conteúdo, permitindo uma
gens de texto. Esta última função vem ser- melhor interação com o usuário. Novos mo-
vindo como suporte para uma nova forma tores de busca, interfaces inovadoras, criação
de sociabilidade, o fenômeno do flash mob de dicionários de sinônimos e a organização
– mobilizações relâmpago, que têm como inteligente de conteúdos são alguns exem-
característica principal realizar uma encena- plos de aprimoramento. Dessa forma, você
ção em algum ponto da cidade. não vai mais precisar minerar a internet em
PAMPANELLI, G. A. A evolução do telefone e uma nova busca daquilo que você procura, ela vai pas-
forma de sociabilidade: o flash mob. Disponível em: www.
sar a se comportar como um todo, e não mais
razonypalabra.org.mx. Acesso em: 1 jun. 2015 (adaptado).
como um monte de informação empilhada.
De acordo com o texto, a evolução das tec- A implementação deste paradigma começou
nologias de comunicação repercute na vida recentemente, e ainda vai levar mais alguns
social, revelando que: anos até que entre completamente em vigor
a) o acúmulo de informações promove a socia- e dê um jeito em toda a enorme bagunça que
bilidade. a internet se tornou.
b) as mudanças sociais demandam avanços tec- Disponível em: www.tecmundo.com.br.
Acesso em: 6 ago. 2013 (adaptado).
nológicos.
c) o crescimento tecnológico acarreta mobiliza- Ao analisar o texto sobre a Web Semântica,
ções das grandes massas. deduz-se que esse novo paradigma auxiliará
d) a articulação entre meios tecnológicos pres- os usuários a:
supõe desenvolvimento social. a) armazenar grandes volumes de dados de
e) a apropriação das tecnologias pela sociedade modo mais disperso.
possibilita ações inovadoras. b) localizar informações na internet com mais
precisão.
13. (ENEM) O acervo do Museu da Língua Por- c) captar os dados na internet com mais velocidade.
tuguesa é o nosso idioma, um “patrimônio d) publicar dados com significados não definidos.
imaterial” que não pode ser, por isso, guar- e) navegar apenas sobre dados já organizados.
dado e exposto em uma redoma de vidro. As-
sim, o museu, dedicado à valorização e difu- 15. (ENEM) A carreira nas alturas
são da língua portuguesa, reconhecidamente A água está no joelho dos profissionais do
importante para a preservação de nossa mercado. As fragilidades na formação em
identidade cultural, apresenta uma forma Língua Portuguesa têm alimentado um cam-
expositiva diferenciada das demais institui- po de reciclagem em Português nas escolas
ções museológicas do país e do mundo, usan- de idiomas e nos cursos de graduação para
do tecnologia de ponta e recursos interativos pessoas oriundas do mundo dos negócios.
para a apresentação de seus conteúdos. O que antes era restrito a profissionais de
Disponível em: www.museulinguaportuguesa.org. educação e comunicação, agora já faz parte
br. Acesso em: 16 ago. 2012 (adaptado).
da rotina de profissionais de várias áreas.
De acordo com o texto, embora a língua por- Para eles, a Língua Portuguesa começa a ser
tuguesa seja um “patrimônio imaterial”, assimilada como uma ferramenta para o de-
pode ser exposta em um museu. A relevân- sempenho estável. Sem ela, o conhecimento
cia desse tipo de iniciativa está pautada no técnico fica restrito à própria pessoa, que
pressuposto de que: não sabe comunicá-lo.
a) a língua é um importante instrumento de "Embora algumas atuações exijam uma pro-
constituição social de seus usuários. dução oral ou escrita mais frequente, como
b) o modo de falar o português padrão deve ser docência e advocacia, muitos profissionais
divulgado ao grande público. precisam escrever relatório, carta, comuni-
c) a escola precisa de parceiros na tarefa de va- cado, circular. Na linguagem oral, todos têm
lorização da língua portuguesa. de expressar-se de forma convincente nas
d) o contato do público com a norma-padrão reuniões, para ganhar respeito e credibilida-
solicita o uso de tecnologia de última gera- de. Isso vale para todos os cargos da hierar-
ção. quia profissional" – explica uma professora
e) as atividades lúdicas dos falantes com sua de Língua Portuguesa da Faculdade de Filo-
própria língua melhoram com o uso de re- sofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
cursos tecnológicos. NATALI, A. Revista Língua, n. 63, jan. 2011 (adaptado).

30
Nos usos cotidianos da língua, algumas ex- 17. (ENEM) A palavra e a imagem têm o poder
pressões podem assumir diferentes sentidos. de criar e destruir, de prometer e negar. A
No texto, a expressão "a água está no joelho" publicidade se vale deste recurso linguístico-
remete à: -imagético como seu principal instrumento.
a) exigência de aprofundamento em conheci- Vende a ficção como o real, o normal como
mentos técnicos. algo fantástico; transforma um carro em um
b) demanda por formação profissional de pro- símbolo de prestigio social, uma cerveja em
fessores e advogados. uma loira bonita, e um cidadão comum num
c) procura por escolas de idiomas para o apren- astro ou estrela, bastando tão somente utili-
dizado de línguas. zar o produto ou serviço divulgado. 1Assim,
d) melhoria do desempenho profissional nas fazer o banal tomar-se o ideal é tarefa ordi-
várias áreas do conhecimento. nária da linguagem publicitária.
e) necessidade imediata de aperfeiçoamento ALMEIDA, W. M. A linguagem publicitária e o
das habilidades comunicativas. estrangeirismo. Língua Portuguesa, n. 35, jan. 2012.

16. (ENEM) O filme Menina de ouro conta a his- Alguns elementos linguísticos estabelecem
tória de Maggie Fitzgerald, uma garçonete de relações entre as diferentes partes do texto.
31 anos que vive sozinha em condições hu- Nesse texto, o vocábulo "Assim" (ref. 1) tem
mildes e sonha em se tornar uma boxeadora a função de:
profissional treinada por Frankie Dunn. a) contrariar os argumentos anteriores.
Em uma cena, assim que o treinador atraves- b) sintetizar as informações anteriores.
sa a porta do corredor onde ela se encontra, c) acrescentar um novo argumento.
Maggie o aborda e, a caminho da saída, per- d) introduzir uma explicação.
gunta a ele se está interessado em treiná-la. e) apresentar uma analogia.
Frankie responde: “Eu não treino garotas”.
Após essa fala, ele vira as costas e vai embo- 18. (ENEM) O nome do inseto pirilampo (vaga-
ra. Aqui, percebemos, em Frankie, um com- -lume) tem uma interessante certidão de
portamento ancorado na representação de nascimento. De repente, no fim do século
que boxe é esporte de homem e, em Maggie, XVII, os poetas de Lisboa repararam que não
a superação da concepção de que os ringues podiam cantar o inseto luminoso, apesar
são tradicionalmente masculinos. de ele ser um manancial de metáforas, pois
Historicamente construída, a feminilidade possuía um nome “indecoroso” que não po-
dominante atribui a submissão, a fragilidade dia ser “usado em papéis sérios”: caga-lume.
e a passividade a uma “natureza feminina”. Foi então que o dicionarista Raphael Bluteau
Numa concepção hegemônica dos gêneros, inventou a nova palavra, pirilampo, a partir
feminilidades e masculinidades encontram- do grego pyr, significando “fogo”, e lampas,
-se em extremidades opostas. ‘candeia’.
No entanto, algumas mulheres, indiferentes FERREIRA, M. B. Caminhos do português: exposição
às convenções sociais, sentem-se seduzidas comemorativa do Ano Europeu das Línguas.
Portugal: Biblioteca Nacional, 2001 (adaptado).
e desafiadas a aderirem à prática das mo-
dalidades consideradas masculinas. É o que O texto descreve a mudança ocorrida na no-
observamos em Maggie, que se mostra de- meação do inseto, por questões de tabu lin-
terminada e insiste em seu objetivo de ser guístico. Esse tabu diz respeito à:
treinada por Frankie. a) recuperação histórica do significado.
FERNANDES. V; MOURÃO. L. Menina de ouro e b) ampliação do sentido de uma palavra.
a representação de feminilidades plurais.
Movimento, n. 4, out-dez. 2014 (adaptado).
c) produção imprópria de poetas portugueses.
d) denominação científica com base em termos
A inserção da personagem Maggie na práti- gregos.
ca corporal do boxe indica a possibilidade da e) restrição ao uso de um vocábulo pouco acei-
construção de uma feminilidade marcada pela: to socialmente.
a) adequação da mulher a uma modalidade es-
portiva alinhada a seu gênero. 19. (ENEM) Ainda os equívocos no combate aos
b) valorização de comportamentos e atitudes estrangeirismos
normalmente associados à mulher. Por que não se reconhece a existência de
c) transposição de limites impostos à mulher norma nas variedades populares? Para des-
num espaço de predomínio masculino. qualificá-las? Por que só uma norma é reco-
d) aceitação de padrões sociais acerca da parti- nhecida como norma e, não por acaso, a da
cipação da mulher nas lutas corporais. elite?
e) naturalização de barreiras socioculturais res-
ponsáveis pela exclusão da mulher no boxe.

31
Por tantos equívocos, só nos resta lamentar O Texto I é a transcrição de uma entrevista
que algumas pessoas, imbuídas da crença de concedida por uma professora de português
que estão defendendo a língua, a identida- a um programa de rádio. O Texto II é a adap-
de e a pátria, na verdade estejam reforçando tação dessa entrevista para a modalidade
velhos preconceitos e imposições. O portu- escrita.
guês do Brasil há muito distanciou-se do Em comum, esses textos:
português de Portugal e das prescrições dos a) apresentam ocorrências de hesitações e re-
gramáticos, cujo serviço às classes dominan- formulações.
tes é definir a língua do poder em face de b) são modelos de emprego de regras gramati-
ameaças – internas e externas. cais.
ZILLES, A. M. S. In: FARACO, C. A. (Org.). c) são exemplos de uso não planejado da lín-
Estrangeirismos: guerras em torno da língua.
São Paulo: Parábola, 2004 (adaptado).
gua.
d) apresentam marcas da linguagem literária.
O texto aborda a linguagem como um cam- e) são amostras do português culto urbano.
po de disputas e poder. As interrogações da
autora são estratégias que conduzem ao con- 21. (Enem) eu acho um fato interessante... né...
vencimento do leitor de que: foi como meu pai e minha mãe vieram se
a) o português do Brasil é muito diferente do conhecer... né... que... minha mãe morava
português de Portugal. no Piauí com toda família... né... meu... meu
b) as prescrições dos gramáticos estão a serviço avô... materno no caso... era maquinista...
das classes dominantes. ele sofreu um acidente... infelizmente mor-
c) a norma linguística da elite brasileira é a reu... minha mãe tinha cinco anos... né... e
única reconhecida como tal. o irmão mais velho dela... meu padrinho...
d) o português do Brasil há muito distanciou- tinha dezessete e ele foi obrigado a traba-
-se das prescrições dos gramáticos.
lhar... foi trabalhar no banco... e... ele foi...
e) a desvalorização das variedades linguísticas
o banco... no caso... estava... com um núme-
populares tem motivação social.
ro de funcionários cheio e ele teve que ir
para outro local e pediu transferência prum
20. (ENEM) Texto I local mais perto de Parnaíba que era a cida-
de onde eles moravam e por engano o... o...
Entrevistadora – eu vou conversar aqui com escrivão entendeu Paraíba... né... e meu...
a professora A. D. ... o português então não é
e minha família veio parar em Mossoró que
uma língua difícil?
era exatamente o local mais perto onde ti-
Professora – olha se você parte do princí-
nha vaga pra funcionário do Banco do Brasil
pio... que a língua portuguesa não é só re-
e:: ela foi parar na rua do meu pai... né...
gras gramaticais... não se você se apaixona
e começaram a se conhecer... namoraram
pela língua que você... já domina que você
onze anos... né... pararam algum tempo...
já fala ao chegar na escola se o teu professor
cativa você a ler obras da literatura. ... obras brigaram... é lógico... porque todo relacio-
da/dos meios de comunicação... se você tem namento tem uma briga... né... e eu achei
acesso a revistas... é... a livros didáticos... esse fato muito interessante porque foi uma
a... livros de literatura o mais formal o e/o coincidência incrível... né... como vieram a
difícil é porque a escola transforma como eu se conhecer... namoraram e hoje... e até hoje
já disse as aulas de língua portuguesa em estão juntos... dezessete anos de casados…
análises gramaticais. CUNHA, M. A. F. (Org.). Corpus, discurso
& gramática: a língua falada e escrita na
cidade de Natal. Natal: EdUFRN, 1998.
Texto II
Na produção dos textos, orais ou escritos,
Entrevistadora – Vou conversar com a profes-
articulamos as informações por meio de re-
sora A. D. O português é uma língua difícil?
lações de sentido. No trecho de fala, a pas-
Professora – Não, se você parte do princí-
pio que a língua portuguesa não é só regras sagem “brigaram... é lógico... porque todo
gramaticais. Ao chegar à escola, o aluno já relacionamento tem uma briga”, enuncia
domina e fala a língua. Se o professor moti- uma justificativa em que “brigaram” e “todo
vá-lo a ler obras literárias, e se tem acesso a relacionamento tem uma briga” são, respec-
revistas, a livros didáticos, você se apaixona tivamente,
pela língua. O que torna difícil é que a esco- a) causa e consequência.
la transforma as aulas de língua portuguesa b) premissa e conclusão.
em análises gramaticais. c) meio e finalidade.
MARCUSCHI, L. A. Da fala para a escrita: atividades de d) exceção e regra.
retextualização. São Paulo: Cortez, 2001 (adaptado). e) fato e generalização.

32
2
2. (ENEM) Salvador, 10 de maio de 2012. formados por parênteses, pontos, vírgulas e
outros símbolos do teclado. Eles representam
Consultoria PC Speed carinhas desenhadas na horizontal e deno-
Sr. Pedro Alberto tam emoções. É difícil descobrir quando uma
pessoa está falando alguma coisa em tom de
Assunto: Consultoria brincadeira, se está realmente brava ou fe-
liz, ou se está sendo irônica, em um ambien-
Prezado Senhor, te no qual só há texto; por isso, entram em
cena os smileys. Comece a usá-los aos poucos
Manifestamos nossa apreciação pelo exce- e, com o passar do tempo, estarão integrados
lente trabalho executado pela equipe de con- naturalmente às suas conversas on-line.
sultores desta empresa na revisão de todos
Disponível em: www.icmc.usp.br. Acesso em: 29 jul. 2013.
os controles internos relativos às áreas ad-
ministrativas. O texto traz exemplos de regras que podem
As contribuições feitas pelos membros da evitar mal-entendidos em comunicações ele-
equipe serão de grande valia para o aper- trônicas, especialmente em e-mails e chats.
feiçoamento dos processos de trabalho que Essas regras:
estão sendo utilizados. a) revelam códigos internacionalmente aceitos
Queira, por gentileza, transmitir-lhes nossos que devem ser seguidos pelos usuários da in-
cumprimentos. ternet.
b) constituem um conjunto de normas orto-
Atenciosamente,
gráficas inclusas na escrita padrão da língua
portuguesa.
Rivaldo Oliveira Andrade
c) representam uma forma complexa de co-
Diretor Administrativo e Financeiro
municação, pois os caracteres são de difícil
Disponível em: www.pcspeed.com.br.
Acesso em: 1 maio 2012 (adaptado). compreensão.
d) foram desenvolvidas para que usuários de
A carta manifesta reconhecimento de uma países de línguas diferentes possam se co-
empresa pelos serviços prestados pelos con- municar na web.
sultores da PC Speed. e) refletem recomendações gerais sobre o uso
Nesse contexto, o uso da norma-padrão: dos recursos de comunicação facilitadores da
a) constitui uma exigência restrita ao universo convivência na internet.
financeiro e é substituível por linguagem in-
formal.
24. (ENEM 2ª aplicação 2016)
b) revela um exagero por parte do remetente e
torna o texto rebuscado linguisticamente.
c) expressa o formalismo próprio do gênero e
atribui profissionalismo à relação comunica-
tiva.
d) torna o texto de difícil leitura e atrapalha a
compreensão das intenções do remetente.
e) sugere elevado nível de escolaridade do dire-
tor e realça seus atributos intelectuais.

23. (ENEM) Como escrever na internet


A presença desse aviso em um hotel, além
Regra 1 – Fale, não GRITE!
Combine letras maiúsculas e minúsculas, da de informar sobre um fato e evitar possíveis
mesma forma que na escrita comum. Cartas atos indesejados no local, tem como objetivo
em papel não são escritas somente com le- implícito:
tras maiúsculas; na internet, escrever em a) isentar o hotel de responsabilidade por da-
maiúsculas é o mesmo que gritar! Para en- nos causados aos hóspedes.
fatizar frases e palavras, use os recursos de b) impedir a destruição das câmeras como meio
_sublinhar_ (colocando palavras ou frases de apagar evidências.
entre sublinhados) e *grifar* (palavras ou c) assegurar que o hotel resguardará a privaci-
frases entre asteriscos). Frases em maiús- dade dos hóspedes.
culas são aceitáveis em títulos e ênfases ou d) inibir as pessoas de circular em uma área es-
avisos urgentes. pecífica do hotel.
Regra 2 – Sorria :-) pisque ;-) chore &-( ... e) desestimular os hóspedes que requisitem as
Os emoticons (ou smileys) são ícones imagens gravadas.

33
Gabarito
1. E 2. D 3. C 4. A 5. C
6. C 7. D 8. D 9. B 10. A
11. A 12. E 13. A 14. B 15. E
16. C 17. B 18. E 19. E 20. E
21. E 22. C 23. E 24. C

34
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Aulas 3 e 4

Competências 1, 6, 7 e 8
Habilidades 1, 2, 3, 4, 19, 23, 24, 25 e 26

BREVIÁRIO

Texto em verso
O poema é um gênero textual de cunho bastante subjetivo, que se constrói não apenas com ideias ou sentimentos,
mas que articula combinações de palavras que, na maioria dos casos, constitui sentidos variados. Essas combina-
ções de palavras costumam ser distribuídas em um “corpo” bastante complexo, dotado de vários elementos que
conheceremos mais adiante, como o verso, a estrofe (elementos estruturais), a rima, o ritmo (elementos sonoros),
entre outros. O jogo de palavras realizado nos poemas (de fortes marcas denotativas) muitas vezes imprime difi-
culdades de interpretação.

Oficina irritada

Eu quero compor um soneto duro


como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,


não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro


há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,


cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.
(Carlos Drummond de Andrade, in “Claro enigma”)

Textos em prosa
Denominamos prosa um texto construído prioritariamente com parágrafos (se escrito em versos, teremos um texto
poético), que apresenta maior extensão que um poema, por exemplo. Costumeiramente, possui uma linguagem de
cunho mais denotativo (diferente da poesia, bem mais conotativa), mas isso não impede que o autor se valha de
artifícios que deem maior variabilidade aos sentidos que estão sendo expressos no texto.

37
Os principais tipos de texto em prosa
§§ Romance: entende-se por romance uma composição textual longa que desenvolve algum tipo de enredo,
linear ou fragmentado que costuma apresentar volume significativo de informações ao leitor. Não há regras
pré-determinadas para a composição das partes de um romance, mas o final, por exemplo, costuma ser uma
espécie de enfraquecimento dos vários elementos que foram sendo “amarrados” na história. No romance
não costuma haver clímax ao final da narrativa. Na prosa brasileira são conhecidas como romances obras
como Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Vidas secas, Capitães da areia, Iracema, Til. Ou
seja, textos narrativos de maior extensão, com enredo variado, que apresentam algum tipo de “amarração”
em sua estrutura.
§§ Novela: entende-se por novela uma composição textual de menor extensão do que o romance, mas cos-
tumeiramente maior que um conto. Em relação ao romance, podemos dizer que a novela apresenta maior
economia de recursos narrativos. Já em comparação ao conto, pode-se dizer que a novela possui um maior
desenvolvimento tanto de enredo, quanto de personagens.
Dessa maneira, podemos concluir que a novela seria uma forma intermediária entre o conto e o romance.
Em geral, trata-se de uma narrativa em que as ações giram em torno de um único personagem (o romance
costuma apresentar maior número de tramas e linhas narrativas).
Não é um gênero muito praticado entre os prosadores brasileiros, embora tenhamos, mais contemporane-
amente, grandes obras nesse estilo, como A hora da estrela, de Clarice Lispector; Um copo de cólera, de
Raduan Nassar; ou O invasor, de Marçal Aquino. Na Europa, esse gênero deu origem a grandes clássicos,
como A metamorfose, de Kafka; Morte em Veneza, de Thomas Mann; e A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói.
§§ Conto: entende-se por conto uma composição textual mais curta que a novela ou o romance. Por possuir
um espaço de desenvolvimento menor, o conto costuma apresentar uma estrutura bastante fechada, em
que o enredo se desenvolve com maior velocidade, sem desdobramento de conflitos secundários (como
habitualmente acontece com o romance). Caracteriza-se por deixar várias questões a cargo da interpretação
do leitor, e também por possuir um clímax mais próximo de seu fim. Trata-se de um gênero muito trabalhado
por prosadores brasileiros, pois seus processos de ficcionalidade costumam alcançar tanto elementos mais
“materiais”, quanto elementos mais fantasiosos (os contos fantásticos, por exemplo). Há autores que de-
senvolveram a totalidade de suas obras em contos, como é o caso do escritor Murilo Rubião. Outros grandes
contistas brasileiros são Machado de Assis, Mário de Andrade, Clarice Lispector e Guimarães Rosa.
§§ Drama: entende-se por drama uma composição textual que realiza uma figuração/representação de ações
ou histórias. Habitualmente, são textos para serem encenados em peças (no teatro). Sua estrutura pode ser
dividida em capítulos denominados “atos” (1º ato, 2º ato etc.), e apresenta dimensões variadas, que levam
em conta o tempo de apresentação da obra ao público. Muito se discute a respeito das diferenças que po-
dem existir entre o texto dramático escrito e aquilo que é representado em um palco.
A ideia geral seria que se seguisse o mais fielmente possível o texto que foi produzido pelo autor, no entan-
to, os diretores de peças têm a liberdade de realizar modificações variadas no enredo ou nas composições
cenográficas. Não é dos gêneros mais trabalhados pelos prosadores brasileiros, embora existam produções
de grande qualidade que se tornaram famosas por virarem filmes. É o caso das peças Lisbela e o prisioneiro,
de Osman Lins, O auto da compadecida, de Ariano Suassuna, ou Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco
Guarnieri.

38
Intertextualidade
Intertextualidade é a referência que um texto faz a outro já existente. Essa relação pode se dar por meio da mesma
linguagem – como os versos do hino nacional do Brasil “Nossos bosques têm mais vida / Nossa vida em teu seio
mais amores”, que retomam o poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias; ou ainda por meio de linguagens
diferentes, como quando uma obra cinematográfica cria uma relação com um texto literário. A compreensão da
intertextualidade pode ser dividida em diferentes níveis: paráfrase, citação, alusão, paródia e epígrafe.

Tipos de intertextualidade
§§ Epígrafe: trata-se de uma escrita introdutória a outra.

Sagarana (João Guimarães Rosa)


Lá em cima daquela serra
Passa boi, passa boiada,
Passa gente ruim e boa
Passa minha namorada
(Quadra de desafio.)

For a walk and back again”, said


the fox. “Will you come with me?”
I’ll take you on my back. For a
Walk and back again
(Grey fox, estória para meninos)

§§ Citação: constitui a transcrição do texto de outrem, marcada por aspas.

Canção do exílio – trecho (Gonçalves Dias)


Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores

Hino Nacional do Brasil – Parte II


Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra, mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
“Nossos bosques têm mais vida”,
“Nossa vida” no teu seio “mais amores”.

39
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo


O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
– “Paz no futuro e glória no passado.”

Mas, se ergues da justiça a clava forte,


Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

§§ Paráfrase: é uma reprodução do texto alheio com a palavra do autor. Não se trata de plágio, pois na pará-
frase é clara a intenção de retomar a fonte original.

Oração (Jorge de Lima)


“– Ave Maria cheia de graças...”
A tarde era tão bela, a vida era tão pura,
as mãos de minha mãe eram tão doces,
havia, lá no azul, um crepúsculo de ouro... lá longe...

“– Cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita!”


Bendita!
Os outros meninos, minha irmã, meus irmãos
menores,
meus brinquedos, a casaria branca de
minha terra, a burrinha do vigário
pastando
junto à capela... lá longe...
Ave cheia de graça

– ...”bendita sois entre as mulheres, bendito é o


fruto do vosso ventre...”
E as mãos do sono sobre os meus olhos,
e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho,
e as estampas de meu catecismo
para o meu sonho de ave!
E isto tudo tão longe... tão longe...

40
§§ Paródia: trata-se de uma releitura do texto original que, em vez de reafirmar os valores do modelo referen-
ciado, quebra a ideia principal contida nele, de modo abrupto ou suave. Essa ruptura pode levar o leitor a
uma leitura crítica ou irônica do texto original.

La Gioconda (Leonardo da Vinci)

L.H.O.O Q (Elle a chaud au cul – Ela tem fogo no rabo) Marcel Duchamp (Dadaísmo)

§§ Referência e alusão: trata-se de uma interferência do texto de outro que não contém, necessariamente,
suas marcas originais. Machado de Assis, por exemplo, é mestre nessa variação de intertextualidade. O autor
retomou uma série de outros autores e histórias para compor as próprias histórias que escrevia.

Uma comparação (Dom Casmurro – Machado de Assis)

Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. Homero é que
relata isto, e é um bom autor, não obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas em verso, e até
mau verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha; eu acabava de louvar as virtudes do homem que
recebera, defunto, aqueles olhos... É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito me-
lhor efeito, ou quando menos, igual. Nem digas que nos faltam Homeros, pela causa apontada em Camões;
não, senhor, faltam-nos, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas, se
as têm, são enxugadas atrás da porta, para que as caras apareçam limpas e serenas; os discursos são antes
de alegria que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.

41
Posicionamento crítico
Textos pertencentes a diferentes sistemas de comunicação podem também ter uma função crítica que não esteja
explícita em sua argumentação. Muitos autores se valem da ironia e do humor para despertarem no leitor a reflexão
acerca de determinados problemas da sociedade. Esse mecanismo pode aparecer em poemas, charges, textos em
prosa, mensagens publicitárias, entre outros.

As aparências revelam
Afirma uma Firma que o Brasil
confirma: “Vamos substituir o
Café pelo Aço”.
Vai ser duríssimo descondicionar
o paladar
Não há na violência
que a linguagem imita
algo da violência
propriamente dita?
(CACASO. As aparências revelam. In: WEINTRAUB, Fabio (Org). Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2004. p. 61.
Para gostar de ler 39.)

42
Função social dos textos
É importante lembrar que todo texto comunica algo. Às vezes, essa intenção é mais ou menos importante no
processo de comunicação. No entanto, como vivemos em sociedade, devemos lembrar que alguns textos têm uma
função primordial em nossa vida, que é a informação. Para podermos compartilhar o mesmo espaço, ter acesso
aos nossos direitos e estarmos interligados ao que acontece em nossa sociedade, é fundamental que saibamos
reconhecer a aplicação de cada um desses tipos de texto e sua respectiva significação.

Calendário do PIS/PASEP 2015-2016


Nascido em: Recebem a partir de: Recebem até:
JULHO 14/07/2015 30/06/2016
AGOSTO 20/07/2015 30/06/2016
SETEMBRO 28/07/2015 30/06/2016
OUTUBRO 12/08/2015 30/06/2016
NOVEMBRO 19/08/2015 30/06/2016
DEZEMBRO 21/08/2015 30/06/2016
JANEIRO 15/09/2015 30/06/2016
FEVEREIRO 24/09/2015 30/06/2016
MARÇO 30/09/2015 30/06/2016
ABRIL 12/10/2015 30/06/2016
MAIO 18/10/2015 30/06/2016
JUNHO 29/10/2015 30/06/2016
WWW.CALENDARIOPISPASEPCAIXA.COM

A linguagem corporal em uso


Os seres humanos se utilizam da linguagem corporal para estabelecerem relações entre si, de acordo com dife-
rentes manifestações sociais nas quais estão incluídos. As competições esportivas, por exemplo, utilizam o corpo
para concretizar seus objetivos, realizar disputas etc. Já algumas religiões se utilizam do corpo como parte do ritual
litúrgico, no qual a movimentação torna-se um elemento extremamente significativo. Há ainda a dança, que pode
ser originada de diferentes contextos sociais, como uma valsa num casamento, o break – dança que provém das
ruas – ou até mesmo uma apresentação de ballet clássico num teatro convencional.

Break de rua

43
Candomblé – a dança é uma homenagem aos orixás

Rugby – o esporte exige muita força física

Processo de transformação dos valores


atribuídos ao corpo
A representação do corpo ideal, na sociedade contemporânea, foi construída por um processo de mudança de
valores socioculturais. Na Grécia antiga, por exemplo, mulheres com curvas acentuadas eram mais valorizadas,
esteticamente, que mulheres muito magras.
No entanto, a representação do corpo ideal, sobretudo na sociedade contemporânea, é formada por di-
retrizes que não contemplam as heterogeneidades de cada fenótipo humano. Isso quer dizer que, embora haja
um modelo padrão que é reproduzido sistematicamente por grandes meios de comunicação em massa, devemos
lembrar que nossos corpos são diferentes entre si, o que contribui significativamente para a construção de nossas
singularidades.

Quadrinhos
O gênero “histórias em quadrinhos”, conhecido também como “HQ”, enuncia a linguagem por meio de quadros,
nos quais uma história é contada, isto é, trata-se de uma narrativa em que a sequência de imagens obedece a uma
progressão temporal. Vale ressaltar que esse gênero mescla o texto verbal e o não verbal, criando, muitas vezes,
uma relação nova de sentido entre eles, que pode ter diferentes funções: a de evocar algum contexto ideológico da
sociedade; a de contrapor a imagem e a fala causando um efeito humorístico; ou simplesmente, a de provocar no
leitor a reflexão sobre uma situação cotidiana.

44
O Homem e sua relação com a tecnologia

A sociedade contemporânea, de modo geral, está diretamente inscrita na lógica da tecnologia. Há poucos anos,
essa relação se restringia a pouquíssimos círculos sociais, uma vez que o acesso era difícil e o preço por uma cone-
xão na web, por exemplo, era muito alto. Com o passar dos anos, o avanço tecnológico e a expansão da distribui-
ção dos sinais de internet permitiram que grande parte das populações de muitos países estivessem virtualmente
conectadas umas às outras, modificando para sempre o modo como nos relacionamos com o mundo.
Essa disseminação da internet contribuiu significativamente no processo de globalização, pois foi possível
colocar culturas diferentes diante dos mesmos objetos simbólicos. Pessoas separadas por léguas e léguas de dis-
tância podem, rapidamente, encontrar-se no chat de uma rede social. Habitantes dos extremos do Planeta têm a
possibilidade de acompanhar o mesmo seriado através do uso do streaming. Anônimos tornam-se famosos em
poucos dias a partir do compartilhamento acelerado de suas postagens virtuais. Em síntese, a internet permitiu que
passássemos a possuir hábitos extremamente semelhantes e a consumir um mesmo tipo de cultura.
Não foi apenas essa relação de proximidade que foi modificada com o advento da internet. Nossa relação
com os próprios objetos da comunicação também sofreu modificações significativas. Abandonamos envelopes,
selos e papéis de carta para darmos lugar ao e-mail. Os diários passaram para o fundo das gavetas, pois o blog e
até mesmo as redes sociais passaram a ser o lugar das reflexões (e revelações) que secretamente fazíamos. A leitura
e a escrita, que geralmente se realizavam num contexto mais lento e de uma forma elaborada, expandiram-se em
contextos extremamente velozes: nunca lemos ou escrevemos tanto como o fazemos hoje dentro do Facebook.
É preciso reconhecer que muitas modificações foram positivas com a expansão virtual. Os Estados, de
maneira geral, puderam facilitar os serviços prestados à população; o conhecimento, que antes era restrito aos
livros, passou a estar disponível a poucos cliques de distância; aprendemos a resolver pequenos problemas da vida,
que antes competiam apenas a alguns especialistas. No entanto, devemos lembrar que tais transformações não
modificaram significativamente as desigualdades sociais e também trouxeram problemas que antes não tínhamos.
Pessoas suicidaram-se por conta do cyberbulling; criminosos passaram a agir de modo mais rápido, efetivo e silen-
cioso praticando delitos que só se multiplicam; e preconceitos de diferentes naturezas passaram a ser reproduzidos
sem que seus autores fossem identificados. A web, em suma, precisa ser usada e analisada com muita cautela.
Embora possamos estar sempre conectados, devemos lembrar que ainda somos seres de carne e osso e
nossas relações pessoais também devem ser mantidas e valorizadas. As brincadeiras ao ar livre, o almoço em
família, a roda de conversa e a prática de esportes são elementos que contribuem significativamente para nossas
relações interpessoais, sem a necessidade de qualquer conexão com o mundo digital. Somos nós que decidimos
utilizar o mundo virtual e ele deve estar ao nosso serviço, não o contrário. E embora a internet tenha modificado
sistematicamente nossa forma de conexão com o mundo, ela não modificou nossa espécie, nem nossa capacidade
de decidirmos sobre o futuro de nós mesmos.

45
Cérebro eletrônico

O cérebro eletrônico faz tudo


Faz quase tudo
Faz quase tudo
Mas ele é mudo

O cérebro eletrônico comanda


Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda

Só eu posso pensar
Se Deus existe
Só eu
Só eu posso chorar
Quando estou triste
Só eu
Eu cá com meus botões
De carne e osso
Eu falo e ouço. Hum

Eu penso e posso
Eu posso decidir
Se vivo ou morro por que
Porque sou vivo
Vivo pra cachorro e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte
Porque sou vivo
Sou muito vivo e sei

Que a morte é nosso impulso primitivo e sei


Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus
Olhos de vidro
(Gilberto Gil)

46
As artes plásticas e seus contextos de produção
Arte medieval
A arte medieval retratava temáticas religiosas ou ainda os retratos do trabalho no campo, pois estava diretamente
ligada ao período histórico, no qual a fé cristã era considerada o centro da vida do homem, o teocentrismo. Do
ponto de vista estético, tais pinturas não apresentavam tamanha preocupação com as dimensões da representação
da realidade, que serão objeto da arte renascentista.

Madona e Filho, Beringhiero, século XII.


(www.literaria.net/RP/L2RPL2.htm)

47
Arte renascentista
A arte renascentista se ocupa da valorização da cultura greco-romana sem abandonar as temáticas cristãs. Aliada
aos ideais de recuperação da cultura antiga, as pinturas retratam entidades mitológicas, deuses, ninfas e grandes
personagens da idade antiga, bem como personagens do antigo e do novo testamento. Sua qualidade estética está
em manter a simetria das composições, em prezar pela mimese, ou seja, pela mais fiel representação da realidade,
por meio do uso da perspectiva e de sombras, e também pelo equilíbrio entre cores e formas.

O nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli.

A última ceia, de Leonardo da Vinci

Arte barroca
Como fruto do momento histórico ao qual pertencia, repleto de oposições devido à Contrarreforma iniciada no
século XVI, a arte barroca também valorizou os contrastes. Suas imagens não são centralizadas como as renascen-
tistas e, muitaz vezes, priorizam a ideia de movimento. Suas temáticas também abarcam contrastes: mitologia, fé
cristã, nobreza, burguesia.

As meninas (Diego Velásquez) A Flagelação de Cristo, Caravaggio, 1607

48
Arte romântica
Aliada aos valores dramáticos e sentimentais próprios da literatura e da história do período, a arte romântica pro-
curou evidenciar os efeitos emotivos das pinturas, dando lugar, principalmente, aos temas históricos e religiosos.

Delacroix: A Liberdade guiando o povo, 1830.

A maja nua, c. 1795-1800, Museu do Prado

Arte moderna
Com o objetivo de romper com os padrões antigos, os artistas modernos buscam novas formas de expressão para
comporem suas obras. Desse modo, eles utilizam-se de recursos como cores vivas, figuras deformadas, cubos e
cenas sem lógica para demonstrar a força da ruptura que desejavam promover. São próprios dessa época os movi-
mentos impressionista, expressionista cubista, futurista, dadaísta e surrealista.

Antropofagia, de Tarsila do Amaral Edvard Munch - O Grito

49
Arte contemporânea
A arte contemporânea ou arte pós-moderna é um movimento artístico que teve início na segunda metade
do século XX, após a Segunda Guerra Mundial. A disseminação da indústria cultural e a modificação da relação do
homem com a arte, tornando-a mais popular, proporcionou mudanças significativas no campo cultural.
Tais mudanças são responsáveis pela características dessa nova tendência artística, que são: abandono dos
suportes tradicionais, mistura de estilos artísticos, emprego de diferentes materiais, aproximação com a cultura
popular, sobretudo, interação do espectador com a obra.

OITICICA, H. Metaesquema I, 1958. Guache s/ cartão 52 cm x 64 cm. Museu de Arte Contemporânea - MAC/USP.

Museu de arte contemporânea, Rio de Janeiro. (Oscar Niemeyer)

Principais danças do folclore

Maracatu
Trata-se de uma dança típica do Nordeste brasileiro, cuja simbologia é a adoração aos orixás. Na dança, todos se
fantasiam e devem passar “de mão em mão” a “calunga”, uma espécie de boneca de pano presa em um bastão,
a qual representa uma entidade espiritual. A dança é natural do Estado do Pernambuco.

50
Frevo
Também é uma dança natural do Pernambuco. Ela se caracteriza pelos movimentos rápidos dos dançarinos que le-
vam na mão um guarda-chuva de cor correspondente a da própria roupa. A realização é típica durante o Carnaval.

Baião
A dança tornou-se popular graças ao músico Luiz Gonzaga, por conta de sua canção “Baião”. A dança é típica do
sertão do Nordeste, mas espalhou-se para outros Estados. Geralmente, dança-se em pares e os movimentos são
muito semelhantes aos do forró.

Samba de roda
É uma dança caracterizada pela disposição dos sambistas em círculo. Muito semelhante à capoeira, os dançarinos
movem seus corpos para o centro da roda, convidando os demais a entrarem para a dança.

51
Fandango
O fandango é uma festa típica paranaense promovida por moradores da região litorânea do Estado. Embora seja de
origem espanhola, a dança entrou no Brasil com os colonos e passou a caracterizar um conjunto de danças, intituladas
(marcas), as quais podem ser dançadas, sapateadas e até mesmo valsadas. Antigamente, como as festas ocorriam so-
bretudo no Carnaval, os dançarinos e participantes dos movimentos festejavam durante quatro dias e se alimentavam
do “barreado”, uma comida típica do litoral à base de carne e toucinho e cozido em panela de barro.

Catira
Trata-se de uma dança de origem gaúcha, cuja origem foi influenciada por danças espanholas, africanas e inglesas.
Caracteriza-se pelo sapateado, pelo uso de palmas e por coreografias bem sincronizadas. A vestimenta de todos os
dançarinos é igual, geralmente composta por chapéus, camisas, calças jeans e botas.

Quadrilha
Trata-se de uma dança popular em diferentes Estados brasileiros típica do período de festas juninas. Realiza-se
em pares que devem escutar um “narrador” e seguir suas instruções. A dança é acompanhada por uma canção
instrumental. Há variações de acordo com o Estado, no qual ela é realizada.

52
Mitos e lendas
Os mitos e lendas de uma nação fazem parte de sua tradição oral. Vejamos, a seguir, alguns dos principais mitos e
lendas de diversas localidades brasileiras.

Boitatá
Trata-se de uma grande serpente de fogo que mora nas margens dos rios, mata animais e lhes devora os olhos. Do
tupi boi, cobra, e tatá, fogo: cobra de fogo, o fogo em forma de cobra. Há algumas versões, nas quais a figura do
boitatá destrói com o fogo dos seus olhos as pessoas que realizam queimadas nas matas.

Boto sedutor
É uma lenda da fauna amazonense, famosa em todo o País. O boto, ao cair da noite, transforma-se num rapaz, alto,
branco e muito bonito que seduz as moças das comunidades ribeirinhas. Muitas mulheres atribuem a paternidade
de filhos espúrios e naturais ao boto.

Caipora
De acordo com Câmara Cascudo, é uma versão do curupira com os pés normais. De caá, mato, e porá, habitante,
morador. Trata-se de uma figura coberta de pelos que anda sempre montada num porco-do-mato, protetor dos
animais e inimigo dos caçadores. Há inúmeras versões da caipora e do curupira. Ambos aparecem, geralmente,
associados como manifestações de uma mesma entidade.

53
Cuca
É a figura lendária de uma mulher velha e feia, com cabeça de jacaré. É uma espécie de feiticeira, cuja voz é assus-
tadora. É citada em muitas cantigas de acalentar do interior do País.

Lobisomem
É a figura de um indivíduo, meio lobo, meio humano. A história provém de lendas europeias, uma vez que o povo
europeu tinha medo de lobos. A versão brasileira do lobisomem pode ser representada pelo sétimo filho homem
de um casal; ou aquele que nasceu após sete filhas. Ou, ainda, como aquele que não foi batizado ou que é fruto
de uma relação incestuosa.

Mani (a lenda da mandioca)


Mani é uma menina nascida num aldeamento indígena, cuja pele era muito branca. Desconfiado da esposa, o pai
da menina queria matar a mulher e a filha. Entretanto, o feiticeiro da tribo interveio e disse ao índio que a mulher
era inocente, e que o homem receberia grande castigo, caso tentasse atingi-las. Mani não viveu por muito tempo,
ainda que tenha crescido linda e tenha cativado a todos. Os pais da indiazinha a sepultaram dentro de sua própria
maloca e a “regavam” diariamente com as lágrimas que derramavam de saudades dela.

54
Mapinguari
Trata-se de um macaco grande e peludo, cuja boca vai do nariz até o estômago. Seus lábios são vermelhos de
sangue. Ele utiliza-se de gritos semelhantes aos dos humanos para atrair suas vítimas. É muito presente no Acre,
no Amazonas e no Pará.

Quimbungo
É uma espécie de “bicho-papão”, meio homem, meio maçado, com cabeça grande e uma enorme boca nas costas,
por onde ele devora as criancinhas. É um mito baiano, mas de origem africana.

Saci-pererê
A figura do saci-pererê é composta pela imagem de um negrinho de uma perna só, que utiliza uma carapuça
vermelha na cabeça e que tem o poder de se tornar invisível. Caso a carapuça seja removida por alguém, seus
poderes são perdidos. O saci adora fumar e dá risadas muito altas. De acordo com Amadeu Amaral, em “Tradições
Populares”, “o saci, que é certamente indígena em parte, revelando amálgama de elementos de outros mitos abo-
rígines (curupira, caipora etc.), sofreu influência do negro, patente na transformação do personagem num moleque
travesso, e, ao mesmo tempo, incorporou pouca coisa de procedência europeia. De modo que o saci marca um
momento importante, uma encruzilhada da nossa viagem histórica. O saci é talvez um símbolo...”.

55
Aplicação dos O jornal impresso é parte integrante do que
hoje se compreende por tecnologias de in-

conhecimentos - Sala formação e comunicação. Nesse texto, o jor-


nal é reconhecido como
a) objeto de devoção pessoal.
1. (ENEM) Grupo escolar b) elemento de afirmação da cultura.
Sonhei com um general de ombros largos c) instrumento de reconstrução da memória.
que fedia d) ferramenta de investigação do ser humano.
e que no sonho me apontava a poesia e) veículo de produção de fatos da realidade.
enquanto um pássaro pensava suas penas
e já sem resistência resistia. 3. (ENEM) Esaú e Jacó
O general acordou e eu que sonhava
face a face deslizei à dura via Ora, aí está justamente a epígrafe do livro,
vi seus olhos que tremiam, ombros largos, se eu lhe quisesse pôr alguma, e não me
vi seu queixo modelado a esquadria ocorresse outra. Não é somente um meio
vi que o tempo galopando evaporava de completar as pessoas da narração com as
(deu para ver qual a sua dinastia) ideias que deixarem, mas ainda um par de
mas em tempo fixei no firmamento lunetas para que o leitor do livro penetre o
esta imagem que rebenta em ponta fria: que for menos claro ou totalmente escuro.
poesia, esta química perversa, Por outro lado, há proveito em irem as pes-
este arco que desvela e me repõe soas da minha história colaborando nela,
nestes tempos de alquimia. ajudando o autor, por uma lei de solidarie-
BRITO, A. C. In: HOLLANDA, H. B. (Org.). 26 Poetas dade, espécie de troca de serviços, entre o
Hoje: antologia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998. enxadrista e os seus trebelhos.
O poema de Antônio Carlos Brito está histo- Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e
ricamente inserido no período da ditadura a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo
possa fazer de torre, nem a torre de peão.
militar no Brasil. A forma encontrada pelo
Há ainda a diferença da cor, branca e preta,
eu lírico para expressar poeticamente esse
mas esta não tira o poder da marcha de cada
momento demonstra que:
peça, e afinal umas e outras podem ganhar a
a) a ênfase na força dos militares não é afetada
partida, e assim vai o mundo.
por aspectos negativos, como o mau cheiro
ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro:
atribuído ao general. Nova Aguilar, 1964 (fragmento).
b) a descrição quase geométrica da aparência
física do general expõe a rigidez e a raciona- O fragmento do romance Esaú e Jacó mos-
lidade do governo. tra como o narrador concebe a leitura de um
c) a constituição de dinastias ao longo da his- texto literário. Com base nesse trecho, tal
tória parece não fazer diferença no presente leitura deve levar em conta:
em que o tempo evapora. a) o leitor como peça fundamental na constru-
d) a possibilidade de resistir está dada na reno- ção dos sentidos.
vação e transformação proposta pela poesia, b) a luneta como objeto que permite ler me-
química que desvela e repõe. lhor.
e) a resistência não seria possível, uma vez que c) o autor como único criador de significados.
as vítimas, representadas pelos pássaros, d) o caráter de entretenimento da literatura.
pensavam apenas nas próprias penas. e) a solidariedade de outros autores.

2. (ENEM) Bons dias! 4. (ENEM) Naquele tempo eu morava no Calan-


go-Frito e não acreditava em feiticeiros.
14 de junho de 1889 E o contrassenso mais avultava, porque, já
então, – e excluída quanta coisa-e-sousa
Ó doce, ó longa, ó inexprimível melancolia dos de nós todos lá, e outras cismas corriquei-
jornais velhos! Conhece-se um homem diante ras tais: sal derramado; padre viajando com
de um deles. Pessoa que não sentir alguma coi- a gente no trem; não falar em raio: quando
sa ao ler folhas de meio século, bem pode crer muito, e se o tempo está bom, “faísca”; nem
que não terá nunca uma das mais profundas dizer lepra; só o “mal”; passo de entrada
sensações da vida, – igual ou quase igual à que com o pé esquerdo; ave do pescoço pelado;
dá a vista das ruínas de uma civilização. Não é risada renga de suindara; cachorro, bode e
a saudade piegas, mas a recomposição do ex- galo, pretos; [...] – porque, já então, como ia
tinto, a revivescência do passado. dizendo, eu poderia confessar, num recen-
ASSIS. M. Bons dias! (Crônicas 1885-1839). seio aproximado: doze tabus de não uso pró-
Campinas Editora da Unicamp, São Paulo: Hucitec, 1590. prio; oito regrinhas ortodoxas preventivas;

56
vinte péssimos presságios; dezesseis casos Guimarães Rosa criou um estilo que ressig-
de batida obrigatória na madeira; dez outros nifica esses elementos. O fragmento expressa
exigindo a figa digital napolitana, mas da le- a peculiaridade desse estilo narrativo, pois:
gítima, ocultando bem a cabeça do polegar; e a) demonstra a preocupação do narrador com a
cinco ou seis indicações de ritual mais com- verossimilhança.
plicado; total: setenta e dois – noves fora, b) revela aspectos de confluência entre as vo-
nada. zes e os sons da natureza.
ROSA, J. G. São Marcos. Sagarana. Rio de c) recorre à personificação dos animais como
Janeiro: José Olympio, 1967 (adaptado). principal recurso estilístico.
d) produz um efeito de legitimidade atrelada à
João Guimarães Rosa, nesse fragmento de reprodução da linguagem regional.
conto, resgata a cultura popular ao registrar: e) expressa o fluir do rebanho e dos peões por
a) trechos de cantigas. meio de recursos sonoros e lexicais.
b) rituais de mandingas.
c) citações de preceitos. 6. (ENEM) A partida de trem
d) cerimônias religiosas. Marcava seis horas da manhã. Angela Prali-
e) exemplos de superstições. ni pagou o táxi e pegou sua pequena valise.
Dona Maria Rita de Alvarenga Chagas Souza
5. (ENEM) Apuram o passo, por entre campi- Melo desceu do Opala da filha e encaminha-
nas ricas, onde pastam ou ruminam outros ram-se para os trilhos. A velha bem-vestida
mil e mais bois. Mas os vaqueiros não esmo- e com joias. Das rugas que a disfarçavam saía
recem nos eias e cantigas, porque a boiada a forma pura de um nariz perdido na ida-
ainda tem passagens inquietantes: alarga- de, e de uma boca que outrora devia ter sido
-se e recomprime-se, sem motivo, e mesmo cheia e sensível. Mas que importa? Chega-se
dentro da multidão movediça há giros estra- a um certo ponto – e o que foi não impor-
nhos, que não os deslocamentos normais do ta. Começa uma nova raça. Uma velha não
gado em marcha — quando sempre alguns pode comunicar-se. Recebeu o beijo gelado
disputam a colocação na vanguarda, outros de sua filha que foi embora antes do trem
procuram o centro, e muitos se deixam levar, partir. Ajudara-a antes a subir no vagão. Sem
empurrados, sobrenadando quase, com os que neste houvesse um centro, ela se coloca-
mais fracos rolando para os lados e os mais ra do lado. Quando a locomotiva se pôs em
pesados tardando para trás, no coice da pro- movimento, surpreendeu-se um pouco: não
cissão. esperava que o trem seguisse nessa direção e
sentara-se de costas para o caminho.
– Eh, boi lá!... Eh-ê-ê-eh, boi!... Tou! Tou! Tou... Angela Pralini percebeu-lhe o movimento e
perguntou:
As ancas balançam, e as vagas de dorsos, — A senhora deseja trocar de lugar comigo?
das vacas e touros, batendo com as caudas, Dona Maria Rita se espantou com a delica-
mugindo no meio, na massa embolada, com deza, disse que não, obrigada, para ela dava
atritos de couros, estralos e guampas, es- no mesmo. Mas parecia ter-se perturbado.
Passou a mão sobre o camafeu filigranado de
trondos e baques, e o berro queixoso do gado
ouro, espetado no peito, passou a mão pelo
junqueira, de chifres imensos, com muita
broche. Seca. Ofendida? Perguntou afinal a
tristeza, saudade dos campos, querência dos
Angela Pralini:
pastos de lá do sertão...
— É por causa de mim que a senhorita dese-
ja trocar de lugar?
“Um boi preto, um boi pintado,
LISPECTOR, C. Onde estivestes de noite.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980 (fragmento).
cada um tem sua cor.
A descoberta de experiências emocionais
Cada coração um jeito com base no cotidiano é recorrente na obra
de Clarice Lispector. No fragmento, o narra-
de mostrar seu amor”. dor enfatiza o(a):
a) comportamento vaidoso de mulheres de con-
Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi dição social privilegiada.
berrando... Dança doido, dá de duro, dá de b) anulação das diferenças sociais no espaço
dentro, dá direito... público de uma estação.
c) incompatibilidade psicológica entre mulhe-
Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, res de gerações diferentes.
vai varando... d) constrangimento da aproximação formal de
ROSA J. G. O burrinho pedrês. Sagarana. pessoas desconhecidas.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1968. e) sentimento de solidão alimentado pelo pro-
Próximo do homem e do sertão mineiros, cesso de envelhecimento.

57
7. (ENEM) Anoitecer abraço. Fazia calor. Daí a pouco minha cami-
A Dolores sa estava inteiramente molhada. Refiro-me
a que estava na corda secando, quando co-
É a hora em que o sino toca, meçou a chover. Minha sogra apareceu para
mas aqui não há sinos; apanhar a camisa.
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos Não tive remédio senão esmagá-la com o
aflitos, pungentes, trágicos, pé. Estou falando da barata que ia trepan-
uivando escuro segredo; do na cadeira. Malaquias, meu primo, vivia
desta hora tenho medo. com uma velha de oitenta anos. A velha era
sua avó, esclareço. Malaquias tinha dezoito
[...] filhos, mas nunca se casou. Isto é, nunca se
casou com uma mulher que durasse mais de
É a hora do descanso, um ano. Agora, sentado à nossa frente, Ma-
mas o descanso vem tarde, laquias fura o coração com uma faca. Depois
o corpo não pede sono, corta as pernas e o sangue do porco enche a
depois de tanto rodar; bacia.
pede paz – morte – mergulho
no poço mais ermo e quedo; Nos bons tempos passeávamos juntos. Eu ti-
desta hora tenho medo. nha um carro. Malaquias tinha uma namo-
rada. Um dia rolou a ribanceira. Me refiro a
Hora de delicadeza, Malaquias. Entrou pra pretoria adentro arre-
agasalho, sombra, silêncio. bentando porta e parou resfolegante junto
Haverá disso no mundo? do juiz pálido de susto. Me refiro ao carro. E
É antes a hora dos corvos, a Malaquias.
bicando em mim, meu passado, FERNANDES, M. Trinta anos de mim mesmo.
meu futuro, meu degredo; São Paulo: Abril Cultural, 1973.
desta hora, sim, tenho medo.
Nesse texto, o autor reorienta o leitor no
ANDRADE, C. D. A rosa do povo. Rio de
Janeiro: Record, 2005 (fragmento). processo de leitura, usando como recurso ex-
pressões como “refiro-me/me refiro”, “estou
Com base no contexto da Segunda Guerra me referindo”, “de que estou falando ago-
Mundial, o livro A rosa do povo revela desdo- ra”, “digo”, “estou falando da”, “esclareço”,
bramentos da visão poética. No fragmento, a “isto é”. Todas elas são expressões linguísti-
expressividade lírica demonstra um(a): cas introdutoras de paráfrases, que servem
a) defesa da esperança como forma de supera- para:
ção das atrocidades da guerra. a) confirmar.
b) desejo de resistência às formas de opressão e b) contradizer.
medo produzidas pela guerra. c) destacar.
c) olhar pessimista das instituições humanas e d) retificar.
sociais submetidas ao conflito armado. e) sintetizar.
d) exortação à solidariedade para a reconstru-
ção dos espaços urbanos bombardeados. 9. (ENEM) Em casa, Hideo ainda podia seguir
e) espírito de contestação capaz de subverter a fiel ao imperador japonês e às tradições que
condição de vítima dos povos afetados. trouxera no navio que aportara em Santos.
[...] Por isso Hideo exigia que, aos domin-
8. (ENEM) Certa vez, eu jogava uma partida de gos, todos estivessem juntos durante o al-
sinuca, e só havia a bola sete na mesa. De moço. Ele se sentava à cabeceira da mesa; à
modo que a mastiguei lentamente saborean- direita ficava Hanashiro, que era o primei-
do-lhe os bocados com prazer. Refiro-me à ro filho, e Hitoshi, o segundo, e à esquer-
refeição que havia pedido ao garçom. Dei- da, Haruo, depois Hiroshi, que era o mais
-lhe duas tacadas na cara. Estou me referin- novo. [...] A esposa, que também era mãe,
do à bola. Em seguida, saí montando nela e as filhas, que também eram irmãs, aguar-
e a égua, de que estou falando agora, che- davam de pé ao redor da mesa [...]. Haruo
gou calmamente à fazenda de minha mãe. reclamava, não se cansava de reclamar: que
Fui encontrá-la morta na mesa, meu irmão se sentassem também as mulheres à mesa,
comia-lhe uma perna com prazer e ofereceu- que era um absurdo aquele costume. Quando
-me um pedaço: “Obrigado”, disse eu, “já se casasse, se sentariam à mesa a esposa e o
comi galinha no almoço”. marido, um em frente ao outro, porque não
Logo em seguida, chegou minha mulher e era o homem melhor que a mulher para ser
deu-me na cara. Um beijo, digo. Dei-lhe um o primeiro [...]. Elas seguiam de pé, a mãe

58
um pouco cansada dos protestos do filho, pois o momento do almoço era sagrado, não era hora de
levantar bandeiras inúteis [...].
NAKASATO, O. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011 (fragmento).

Referindo-se a práticas culturais de origem nipônica, o narrador registra as reações que elas pro-
vocam na família e mostra um contexto em que:
a) a obediência ao imperador leva ao prestígio pessoal.
b) as novas gerações abandonam seus antigos hábitos.
c) a refeição é o que determina a agregação familiar.
d) os conflitos de gênero tendem a ser neutralizados.
e) o lugar à mesa metaforiza uma estrutura de poder.

10. (ENEM) L.J.C.


— 5 tiros?
— É.
— Brincando de pegador?
— É. O PM pensou que...
— Hoje?
— Cedinho.
COELHO, M. In: FREIRE, M. (Org). Os cem menores contos brasileiros do século. São Paulo: Ateliê Editorial. 2004.

Os sinais de pontuação são elementos com importantes funções para a progressão temática. Nesse
miniconto, as reticências foram utilizadas para indicar:
a) uma fala hesitante.
b) uma informação implícita.
c) uma situação incoerente.
d) a eliminação de uma ideia.
e) a interrupção de uma ação.

11. (ENEM) Antiode


Poesia, não será esse
o sentido em que
ainda te escrevo:

flor! (Te escrevo:


flor! Não uma
flor, nem aquela
flor-virtude – em
disfarçados urinóis).

Flor é a palavra
flor; verso inscrito
no verso, como as
manhãs no tempo.

Flor é o salto
da ave para o voo:
o salto fora do sono
quando seu tecido
se rompe; é uma explosão
posta a funcionar,
como uma máquina,
uma jarra de flores.
MELO NETO, J. C. Psicologia da composição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997 (fragmento).

A poesia é marcada pela recriação do objeto por meio da linguagem, sem necessariamente explicá-
-lo. Nesse fragmento de João Cabral de Melo Neto, poeta da geração de 1945, o sujeito lírico propõe
a recriação poética de:
a) uma palavra, a partir de imagens com as quais ela pode ser comparada, a fim de assumir novos signi-
ficados.
b) um urinol, em referência às artes visuais ligadas às vanguardas do início do século XX.

59
c) uma ave, que compõe, com seus movimentos, uma imagem historicamente ligada à palavra poética.
d) uma máquina, levando em consideração a relevância do discurso técnico-científico pós-Revolução In-
dustrial.
e) um tecido, visto que sua composição depende de elementos intrínsecos ao eu lírico.

12. (ENEM)

Essa história em quadrinhos aborda a padronização da imagem corporal na contemporaneidade.


O fator que pode ser identificado como influenciador do comportamento obsessivo retratado nos
quadrinhos é o:
a) entendimento da aparência corporal relacionada à saúde.
b) controle feminino sobre o ideal social de estética corporal.
c) desejo pelo modelo de corpo ideal construído socialmente.
d) questionamento crítico dos valores ligados ao sucesso social.
e) posicionamento reflexivo da mulher frente às imposições estéticas.

Raio X
1. “Desvelar” é sinônimo de “expor”, “desvendar”; uma vez que a oposição à ditadura militar não
poderia ser explícita, a poesia é um modo do eu lírico resistir, pois, assim como a química, ou como
a alquimia, permite transformar elementos.
2. Na crônica “Bons dias!”, Machado de Assis discorre sobre a satisfação que sente ao ler jornais an-
tigos. Na última frase do excerto, justifica essa sensação pelo fato de esse tipo de leitura lhe per-
mitir a convivência com fatos ocorridos em contextos sociais de outras épocas: “Não é a saudade
piegas, mas a recomposição do extinto, a revivescência do passado”. Assim, é correta a opção [C],
pois, nesse sentido, o jornal é reconhecido como instrumento de reconstrução da memória.

60
3.
O excerto, predominantemente metalinguís- descanso é a hora que ele mais teme, pois o
tico, expõe o fazer literário da narrativa em corpo pede uma paz que ele não consegue
que o autor deve deixar implícitas as carac- atingir, consciente da terrível realidade que
terísticas do personagem para que o leitor o assusta e lhe suscita dúvidas. O eu lírico fi-
as desvende no decorrer da ação (“par de naliza o poema com um tom desesperado em
lunetas para que o leitor do livro penetre o que a imagem do corvo estabelece intertex-
que for menos claro ou totalmente escuro”). tualidade com o poema “O corvo” de Edgar
Assim, é correta a opção [A]. Allan Poe e remete o leitor à ideia da morte.
4.
O narrador Izé conta um fato ocorrido em Assim, é correta a opção [C].
um tempo em que ainda não acreditava em 8. As expressões linguísticas introdutoras de
superstições, o que permite depreender que, paráfrases servem para desfazer mal-enten-
por alguma razão, irá mudar de opinião. Em didos e corrigir uma possível má interpreta-
vários fragmentos do excerto, está presente ção do leitor. Ou seja, essas expressões ser-
o mundo das superstições e feitiçarias que vem para estabelecer a construção de uma
envolvem a cultura popular do interior: não narrativa lógica e retificar o que foi expresso
falar em raio: quando muito, e se o tempo anteriormente, como se afirma em [D].
está bom, “faísca”; nem dizer lepra; só o 9. A disposição dos elementos da família à vol-
“mal”; passo de entrada com o pé esquerdo”. ta da mesa simboliza a hierarquia do grupo,
Assim, é correta a opção [E]. cujo chefe é o pai, sentado à cabeceira: “Ele
5.
O fragmento do conto “O burrinho pedrês” se sentava à cabeceira da mesa; à direita
exemplifica uma das características do estilo ficava Hanashiro, que era o primeiro filho,
inovador de Guimarães Rosa ao abolir as fron- e Hitoshi, o segundo, e à esquerda, Haruo,
teiras entre prosa e poesia. O texto narrativo depois Hiroshi, que era o mais novo. [...] A
em prosa apresenta inúmeras características esposa, que também era mãe, e as filhas, que
que se costumam considerar próprias da po- também eram irmãs, aguardavam de pé ao
esia, como o uso da pontuação para marcar redor da mesa”. Assim, é correta a opção [E],
ritmo, das assonâncias e aliterações, entre pois o narrador descreve um contexto em
outras. A partir do segundo parágrafo, o nar- que o lugar à mesa metaforiza uma estrutura
rador descreve o início da marcha do gado de poder.
através de frases que, separadas por vírgu- 10. O miniconto caracteriza-se por ser uma nar-
las, apresentam cinco sílabas métricas, para ração com o mínimo de palavras possíveis,
depois imprimir velocidade ao movimento de maneira a que todo o contexto seja mais
através de frases com três: “as-an-cas- ba- sugerido do que narrado. As elipses deixam
-lan(çam/ eas-va-gas-eos-dor(sos)/ das-va- ao leitor a tarefa de “preencher” essas su-
-cas-e-tou(ros)/ ba-ten-do-cõas- cau(das)” gestões e entender a história por trás da
e “boi- bem- bra(vo)/ba-te- bai(xô)/ bo-ta- história escrita. No texto de Marcelo Coelho,
ba(ba)/boi- be-rran(do)”. Também as asso- as reticências indicam uma informação de
nâncias (“As ancas balançam, e as vagas de conhecimento do contexto social e dos per-
dorsos, das vacas) e aliterações em b, d e v sonagens, o que explicaria a ação do poli-
estão presentes na descrição: Boi bem bravo, cial ao desferir os cinco tiros que mataram
bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança o menino que brincava de “pega-ladrão”: o
doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... policial pensou que L.J.C. era um bandido,
Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, estava armado e oferecia perigo. Assim, é
vai varando...). Assim, é correta a opção [E]. correta a opção [B].
6.
Expressões como “Uma velha não pode co- 11. No poema metalinguístico de João Cabral de
municar-se” ou “Recebeu o beijo gelado de Melo Neto, transparece a intenção de asso-
sua filha que foi embora”, assim como a últi-
ciar o fazer poético à arte de ressignificar as
ma fala de Dona Maria Rita ao expressar sur-
presa perante o fato de alguém se interes- palavras, atribuindo-lhes novos sentidos. O
sar pelo seu conforto, sugere que o narrador termo “flor”, associado a “salto / da ave para
pretende enfatizar o sentimento de solidão o voo” e a “jarra de flores” distancia-se do
alimentado pelo processo de envelhecimen- valor denotativo que lhe é atribuído normal-
to. Assim, é correta a opção [E]. mente. Assim, é correta a opção [A].
7.
A obra “A rosa do povo” apresenta a tensão 12. Na história em quadrinhos, todos os perso-
do eu lírico oscilante entre a vontade de nagens afirmam que o fator mais importante
participação política e a visão desencanta- nas suas vidas era ser magro ou não ter celu-
da do mundo, ou seja, apresenta uma visão lite, padrão corporal construído socialmente.
caleidoscópica e polissêmica do eu lírico so- Assim, é correta a opção [C], pois o desejo
bre a realidade e o contexto sóciopolítico em pelo modelo de corpo ideal é elemento in-
que está mergulhado. Na segunda estrofe fluenciador de um comportamento obsessivo
do excerto, o eu lírico revela que a hora do nos tempos atuais.

61
Gabarito
1. D 2. C 3. A 4. E 5. E

6. E 7. C 8. D 9. E 10. B

11. A 12. C

62
Prescrição: Para resolver os exercícios dessa aula, serão necessários conhecimentos a respeito dos
principais gêneros discursivos presentes em nosso sistema linguístico. Além disso, conhecer alguns
produtos culturais nacionais (música, pintura e literatura) irá contribuir para uma maior efetividade na
resolução de exercícios que “cruzam” os gêneros discursivos (intertextualidade).

Prática dos A charge aborda uma situação do cotidiano


de algumas famílias. Nesse sentido, ela tem
conhecimentos - E.O. o objetivo comunicativo de:
a) denunciar os prejuízos da falta de diálogo
entre pais e filhos.
1. (ENEM) b) mostrar as diferenças entre as preferências
de entretenimento entre pais e filhos.
c) evidenciar os excessos de utilização das re-
des sociais em momentos de convivência fa-
miliar.
d) demonstrar que as mudanças culturais ocor-
ridas na sociedade impõem novos comporta-
mentos às famílias.
e) enfatizar que a socialização de informações
sobre os filhos é uma forma de demonstrar
orgulho de familiares.

3. (ENEM)

TEXTO I

O texto faz referência aos sistemas de comu- 280 novos veículos por dia no estado
nicação e informação. A crítica feita a uma Frota, que chega a quase 1,4 milhão, deve
das ferramentas midiáticas se fundamenta dobrar em 13 anos
na falta de:
a) opinião dos leitores nas redes sociais. A cada dia, uma média de 280 novos veícu-
b) recursos tecnológicos nas empresas jornalís- los chega às ruas do Espírito Santo, segundo
ticas.
dados do Departamento Estadual de Trânsi-
c) instantaneidade na divulgação da notícia
impressa. to (Detran-ES). No final do mês passado, a
d) credibilidade das informações veiculadas nos frota já era de 1.395.342 unidades, 105 mil
blogs. a mais do que no mesmo mês de 2011. Os
e) adequação da linguagem jornalística ao pú- números incluem automóveis, motocicletas,
blico jovem. caminhões e ônibus, entre outros tipos. De
dezembro para cá, o crescimento foi de mais
2. (ENEM) de 33 mil veículos. E, se esse ritmo continu-
ar, a frota do Espírito Santo vai dobrar até
2025. O diretor-geral do Detran-ES relaciona
o crescimento desses números à facilidade
encontrada para se comprar um veículo. “Há
toda uma questão econômica, da facilidade
de crédito. Como oferecemos um transpor-
te coletivo que ainda precisa ser melhorado,
inevitavelmente o cidadão que pode adquire
seu próprio veículo”.
Disponível em: http://gazetaonline.globo.
com. Acesso em: 10 ago. 2012 (adaptado).

63
TEXTO II Endecha é uma poesia que revela as dores
do coração.
Epitáfio é um pequeno verso gravado em pe-
dras tumulares.
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a
vida de uma pessoa morta.
CESAR, A. C. Poética, São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

No poema de Ana Cristina Cesar, a relação


entre as definições apresentadas e o proces-
so de construção do texto indica que o(a):
a) caráter descritivo dos versos assinala uma
concepção irônica de lirismo.
b) tom explicativo e contido constitui uma for-
ma peculiar de expressão poética.
c) seleção e o recorte do tema revelam uma vi-
são pessimista da criação artística.
Os textos I e II tratam do mesmo tema, em- d) enumeração de distintas manifestações líri-
bora sejam de gêneros diferentes. Estabe- cas produz um efeito de impessoalidade.
lecendo-se as relações entre os dois textos, e) referência a gêneros poéticos clássicos ex-
entende-se que o Texto II tem a função de: pressa a adesão do eu lírico às tradições lite-
a) reprovar as medidas do governo de incentivo rárias.
à aquisição do carro próprio.
b) apontar uma possível alternativa para resol-
5. (ENEM)
ver a questão do excesso de veículos.
c) mostrar a dificuldade de solução imediata
para resolver o problema do crescimento da
frota.
d) criticar, por meio da sátira, as consequências
do aumento da frota de veículos.
e) responsabilizar a má qualidade do serviço de
transporte pelo crescimento do número de
veículos.

4. (ENEM) Primeira lição

Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, di-


dático, épico, ligeiro.
O gênero lírico compreende o lirismo.
Lirismo é a tradução de um sentimento sub-
jetivo, sincero e pessoal.
É a linguagem do coração, do amor.
O lirismo é assim denominado porque em
outros tempos os versos sentimentais eram Opportunity é o nome de um veículo explo-
declamados ao som da lira. rador que aterrissou em Marte com a mis-
O lirismo pode ser: são de enviar informações à Terra. A charge
a) Elegíaco, quando trata de assuntos tris- apresenta uma crítica ao(à):
tes, quase sempre a morte. a) gasto exagerado com o envio de robôs a ou-
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos tros planetas.
campestres. b) exploração indiscriminada de outros plane-
c) Erótico, quando versa sobre o amor. tas.
O lirismo elegíaco compreende a elegia, a c) circulação digital excessiva de autorretratos.
nênia, a endecha, o epitáfio e o epicédio. d) vulgarização das descobertas espaciais.
Elegia é uma poesia que trata de assuntos e) mecanização das atividades humanas.
tristes.
Nênia é uma poesia em homenagem a uma
pessoa morta.
Era declamada junto à fogueira onde o cadá-
ver era incinerado.

64
6. (ENEM)

Na criação do texto, o chargista lotti usa criativamente um intertexto: os traços reconstroem uma
cena de Guernica, painel de Pablo Picasso que retrata os horrores e a destruição provocados pelo
bombardeio a uma pequena cidade da Espanha. Na charge, publicada no período de carnaval, re-
cebe destaque a figura do carro, elemento introduzido por lotti no intertexto. Além dessa figura,
a linguagem verbal contribui para estabelecer um diálogo entre a obra de Picasso e a charge, ao
explorar:
a) uma referência ao contexto, “trânsito no feriadão”, esclarecendo-se o referente tanto do texto de Iotti
quanto da obra de Picasso.
b) uma referência ao tempo presente, com o emprego da forma verbal “é”, evidenciando-se a atualidade
do tema abordado tanto pelo pintor espanhol quanto pelo chargista brasileiro.
c) um termo pejorativo, “trânsito”, reforçando-se a imagem negativa de mundo caótico presente tanto
em Guernica quanto na charge.
d) uma referência temporal, “sempre”, referindo-se à permanência de tragédias retratadas tanto em
Guernica quanto na charge.
e) uma expressão polissêmica, “quadro dramático”, remetendo-se tanto à obra pictórica quanto ao con-
texto do trânsito brasileiro.

7. (ENEM) Abrimos o Brasil a todo o mundo: mas queremos que o Brasil seja Brasil! Queremos con-
servar a nossa raça, a nossa história, e, principalmente, a nossa língua, que é toda a nossa vida, o
nosso sangue, a nossa alma, a nossa religião.
BILAC, O. Últimas conferências e discursos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1927.

Nesse trecho, Olavo Bilac manifesta seu engajamento na constituição da identidade nacional e
linguística, ressaltando a:
a) transformação da cultura brasileira.
b) religiosidade do povo brasileiro.
c) abertura do Brasil para a democracia.
d) importância comercial do Brasil.
e) autorreferência do povo como brasileiro.

65
8. (ENEM) a) justaposição de elementos díspares, observa-
da na imagem do homem no espelho.
b) crítica ao passadismo, exposta na dupla ima-
gem do homem olhando sempre para frente.
c) construção de perspectiva, apresentada na
sobreposição de planos visuais.
d) processo de automatismo, indicado na repe-
tição da imagem do homem.
e) procedimento de colagem, identificado no
reflexo do livro no espelho.

10. (ENEM)

As formas plásticas nas produções africanas


conduziram artistas modernos do início do
século XX, como Pablo Picasso, a algumas
proposições artísticas denominadas van-
guardas. A máscara remete à:
a) preservação da proporção.
b) idealização do movimento.
c) estruturação assimétrica. Considerando que a internet influencia os
d) sintetização das formas. modos de comunicação contemporânea, a
e) valorização estética. charge faz uma crítica ao uso vicioso dessa
tecnologia, pois:
9. (ENEM) a) gera diminuição no tempo de descanso, subs-
tituído pelo contato com outras pessoas.
b) propicia a continuação das atividades de tra-
balho, ainda que em ambiente doméstico.
c) promove o distanciamento nos relaciona-
mentos, mesmo entre pessoas próximas fisi-
camente.
d) tem impacto negativo no tempo disponível
para o lazer do casal.
e) implica a adoção de atitudes agressivas en-
tre os membros de uma mesma família.

11. (ENEM) Palavras jogadas fora

Quando criança, convivia no interior de São


Paulo com o curioso verbo pinchar e ainda o
ouço por lá esporadicamente. O sentido da
palavra é o de “jogar fora” (pincha fora essa
porcaria) ou “mandar embora” (pincha esse
fulano daqui). Teria sido uma das muitas pa-
lavras que ouvi menos na capital do estado
e, por conseguinte, deixei de usar. Quando
indago às pessoas se conhecem esse verbo,
O Surrealismo configurou-se como uma das comumente escuto respostas como “minha
vanguardas artísticas europeias do início do avó fala isso”. Aparentemente, para muitos
século XX. René Magritte, pintor belga, apre- falantes, esse verbo é algo do passado, que
senta elementos dessa vanguarda em suas deixará de existir tão logo essa geração an-
produções. Um traço do Surrealismo presen- tiga morrer.
te nessa pintura é o(a):

66
As palavras são, em sua grande maioria, re- Situado na vigência do Regime Militar que
sultados de uma tradição: elas já estavam governou o Brasil, na década de 1970, o poe-
lá antes de nascermos. “Tradição”, etimo- ma de Cacaso edifica uma forma de resistên-
logicamente, é o ato de entregar, de passar cia e protesto a esse período, metaforizando:
adiante, de transmitir (sobretudo valores a) as artes plásticas, deturpadas pela repressão
culturais). O rompimento da tradição de uma e censura.
palavra equivale à sua extinção. A gramáti- b) a natureza brasileira, agonizante como um
ca normativa muitas vezes colabora criando pássaro enjaulado.
c) o nacionalismo romântico, silenciado pela
preconceitos, mas o fator mais forte que mo-
perplexidade com a Ditadura.
tiva os falantes a extinguirem uma palavra d) o emblema nacional, transfigurado pelas
é associar a palavra, influenciados direta ou marcas do medo e da violência.
indiretamente pela visão normativa, a um e) as riquezas da terra, espoliadas durante o
grupo que julga não ser o seu. O pinchar, aparelhamento do poder armado.
associado ao ambiente rural, onde há pouca
escolaridade e refinamento citadino, está fa- 13. (ENEM) Minha mãe achava estudo a coisa
dado à extinção? mais fina do mundo.
É louvável que nos preocupemos com a ex- Não é.
tinção de ararinhas-azuis ou dos micos-leão- A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
-dourados, mas a extinção de uma palavra Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
não promove nenhuma comoção, como não ela falou comigo:
nos comovemos com a extinção de insetos, a “Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
não ser dos extraordinariamente belos. Pelo Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo
contrário, muitas vezes a extinção das pala- com água quente.
vras é incentivada. Não me falou em amor.
VIARO, M. E. Língua Portuguesa. n. Essa palavra de luxo.
77, mar. 2012 (adaptado).
PRADO, A. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.
A discussão empreendida sobre o (des)uso Um dos procedimento consagrados pelo
do verbo “pinchar” nos traz uma reflexão so- Modernismo foi a percepção de um lirismo
bre a linguagem e seus usos, a partir da qual presente nas cenas e fatos do cotidiano. No
compreende-se que: poema de Adélia Prado, o eu lírico resgata a
a) as palavras esquecidas pelos falantes devem poesia desses elementos a partir do(a):
ser descartadas dos dicionários, conforme a) reflexão irônica sobre a importância atribuí-
sugere o título. da aos estudos por sua mãe.
b) o cuidado com espécies animais em extinção b) sentimentalismo, oposto à visão pragmática
é mais urgente do que a preservação de pa- que reconhecia na mãe.
lavras. c) olhar comovido sobre seu pai, submetido ao
c) o abandono de determinados vocábulos está trabalho pesado.
associado a preconceitos socioculturais. d) reconhecimento do amor num gesto de apa-
d) as gerações têm a tradição de perpetuar o rente banalidade.
e) enfoque nas relações afetivas abafadas pela
inventário de uma língua.
vida conjugal.
e) o mundo contemporâneo exige a inovação
do vocabulário das línguas.
14. (ENEM) da sua memória
mil
12. (ENEM) Aquarela e
mui
O corpo no cavalete tos
é um pássaro que agoniza out
exausto do próprio grito. ros
As vísceras vasculhadas ros
principiam a contagem tos
regressiva. sol
tos
No assoalho o sangue
pou
se decompõe em matizes coa
que a brisa beija e balança: pou
o verde – de nossas matas coa
o amarelo – de nosso ouro pag
o azul – de nosso céu amo
o branco o negro o negro meu
CACASO. In: HOLLANDA, H. B (Org.). 26 poetas ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo
hoje. Rio do Janeiro: Aeroplano, 2007. espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998.

67
Trabalhando com recursos formais inspira- Até que, farta da constante
dos no Concretismo, o poema atinge uma ex- prisão da forma, saltes
pressividade que se caracteriza pela: da mão para o chão
a) interrupção da fluência verbal, para testar e te estilhaces, suicida.
os limites da lógica racional.
b) reestruturação formal da palavra, para pro- numa explosão
vocar o estranhamento no leitor. de diamantes.
c) dispersão das unidades verbais, para ques- PAES, J. P. Prosas seguidas de odes mínimos.
tionar o sentido das lembranças. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.
d) fragmentação da palavra, para representar o
estreitamento das lembranças. A reflexão acerca do fazer poético é um dos
e) renovação das formas tradicionais, para pro- mais marcantes atributos da produção lite-
por uma nova vanguarda poética. rária contemporânea, que, no poema de José
Paulo Paes, se expressa por um(a):
15. (ENEM) Casa dos Contos a) reconhecimento, pelo eu lírico, de suas li-
& em cada conto te cont mitações no processo criativo, manifesto na
o & em cada enquanto me enca expressão “Por translúcida pões”.
nto & em cada arco te a b) subserviência aos princípios do rigor formal
barco & em cada porta m e dos cuidados com a precisão metafórica,
e perco & em cada lanço t como se observa em “prisão da forma”.
e alcanço & em cada escad c) visão progressivamente pessimista, em face
a me escapo & em cada pe da impossibilidade da criação poética, confor-
dra te prendo & em cada g me expressa o verso “e te estilhaces, suicida”.
rade me escravo & em ca d) processo de contenção, amadurecimento e
da sótão te sonho & em cada transformação da palavra, representado pelos
esconso me affonso & em versos “numa explosão / de diamantes”.
cada cláudio te canto & e e) necessidade premente de libertação da prisão
m cada fosso me enforco & representada pela poesia, simbolicamente
ÁVILA, A. Discurso da difamação do
comparada à “garrafa” a ser “estilhaçada”.
poeta. São Paulo: Summus, 1978.
17. (ENEM) Primeiro surgiu o homem nu de ca-
O contexto histórico e literário do período beça baixa. Deus veio num raio. Então apa-
barroco-árcade fundamenta o poema Casa receram os bichos que comiam os homens.
dos Contos, de 1975. A restauração de ele- E se fez o fogo, as especiarias, a roupa, a
mentos daquele contexto por uma poética espada e o dever. Em seguida se criou a fi-
contemporânea revela que: losofia, que explicava como não fazer o que
a) a disposição visual do poema reflete sua di- não devia ser feito. Então surgiram os nú-
mensão plástica, que prevalece sobre a ob- meros racionais e a História, organizando os
servação da realidade social.
eventos sem sentido. A fome desde sempre,
b) a reflexão do eu lírico privilegia a memória e
das coisas e das pessoas. Foram inventados o
resgata, em fragmentos, fatos e personalida-
calmante e o estimulante. E alguém apagou a
des da Inconfidência Mineira.
c) a palavra “esconso” (escondido) demonstra luz. E cada um se vira como pode, arrancan-
o desencanto do poeta com a utopia e sua do as cascas das feridas que alcança.
opção por uma linguagem erudita. BONASSI, F. 15 cenas do descobrimento de Brasis.
In: MORICONI, I. (Org.). Os cem melhores contos
d) o eu lírico pretende revitalizar os contrastes do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
barrocos, gerando uma continuidade de pro-
cedimentos estéticos e literários. A narrativa enxuta e dinâmica de Fernando
e) o eu lírico recria, em seu momento histórico, Bonassi configura um painel evolutivo da
numa linguagem de ruptura, o ambiente de história da humanidade. Nele, a projeção do
opressão vivido pelos inconfidentes. olhar contemporâneo manifesta uma per-
cepção que:
16. (ENEM) À garrafa a) recorre à tradição bíblica como fonte de ins-
Contigo adquiro a astúcia piração para a humanidade.
de conter e de conter-me. b) desconstrói o discurso da filosofia a fim de
Teu estreito gargalo questionar o conceito de dever.
é uma lição de angústia. c) resgata a metodologia da história para de-
nunciar as atitudes irracionais.
Por translúcida pões d) transita entre o humor e a ironia para cele-
o dentro fora e o fora dentro brar o caos da vida cotidiana.
para que a forma se cumpra e) satiriza a matemática e a medicina para des-
e o espaço ressoe. mistificar o saber científico.

68
1
8. (ENEM) Texto I 19. (ENEM)

Texto II
A pintura Napoleão cruzando os Alpes, do ar-
A existência dos homens criadores modernos tista francês Jacques Louis-David, produzida
é muito mais condensada e mais complicada em 1801, contempla as características de um
do que a das pessoas dos séculos preceden- estilo que:
tes. A coisa representada, por imagem, fica a) utiliza técnicas e suportes artísticos inovado-
menos fixa, o objeto em si mesmo se expõe res.
menos do que antes. Uma paisagem rasgada b) reflete a percepção da população sobre a rea-
por um automóvel, ou por um trem, perde lidade.
em valor descritivo, mas ganha em valor sin- c) caricaturiza episódios marcantes da história
tético. O homem moderno registra cem vezes europeia.
mais impressões do que o artista do século d) idealiza eventos históricos pela ótica de gru-
XVIII. pos dominantes.
LEGÉR, F. Funções da pintura. São Paulo: Nobel, 1989. e) compõe obras com base na visão crítica de
artistas consagrados.
A vanguarda europeia, evidenciada pela obra
e pelo texto, expressa os ideais e a estética 20. (ENEM) Texto I
do:
a) Cubismo, que questionava o uso da perspec-
tiva por meio da fragmentação geométrica.
b) Expressionismo alemão, que criticava a arte
acadêmica, usando a deformação das figuras.
c) Dadaísmo, que rejeitava a instituição artísti-
ca, propondo a antiarte.
d) Futurismo, que propunha uma nova estéti-
ca, baseada nos valores da vida moderna.
e) Neoplasticismo, que buscava o equilíbrio
plástico, com utilização da direção horizon-
tal e vertical.
Texto II

Tenho um rosto lacerado por rugas secas e pro-


fundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfei-
to, como acontece com pessoas de traços deli-
cados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi
destruída. Tenho um rosto destruído.
DURAS, M. O amante. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1985.

69
Na imagem e no texto do romance de Mar- ainda não dicionarizadas e de tudo mais que
guerite Duras, os dois autorretratos apontam soe mais falado do que escrito. Isto aqui não
para o modo de representação da subjetivi- é rádio FM. De vez em quando, aplique uma
dade moderna. Na pintura e na literatura gíria como se fosse um piparote de leve no
modernas, o rosto humano deforma-se, des- cangote do texto, mas, em geral, evite. Fuja
trói-se ou fragmenta-se em razão: dessas rimas bobinhas, desses motes sono-
a) da adesão à estética do grotesco, herdada ros. O leitor pode se achar diante de um ra-
do romantismo europeu, que trouxe novas pper frustrado e dar cambalhotas. Mas, aten-
possibilidades de representação. ção, se soar muito estranho, reescreva.
b) das catástrofes que assolaram o século XX Quando quiser aplicar um “mas”, tome fôle-
e da descoberta de uma realidade psíquica go, ligue para o 0800 do Instituto Fernando
pela psicanálise. Pessoa, peça autorização ao sábio de plan-
c) da opção em demonstrarem oposição aos tão, e, por favor, volte atrás. É um cacoete
limites estéticos da revolução permanente facilitador. Dele deve ter vindo a expressão
trazida pela arte moderna. “cheio de mas-mas”, ou seja, uma pessoa
d) do posicionamento do artista do século XX cheia de “não é bem assim”, uma chata que
contra a negação do passado, que se torna usa o truque para afirmar e depois, como se
prática dominante na sociedade burguesa. fosse estilo, obtemperar.
e) da intenção de garantir uma forma de criar SANTOS, J. F. O Globo, 10 jan. 2011 (adaptado).
obras de arte independentes da matéria pre-
sente em sua história pessoal. A língua varia em função de diferentes fa-
tores. Um deles é a situação em que se dá a
comunicação. Na crônica, ao ser interrogado
21. (ENEM) Argumento
sobre a arte de escrever, o autor utiliza, em
meio à linguagem escrita padrão, condizente
Tá legal
com o contexto,
Eu aceito o argumento
a) definições teóricas, para permitir que seus
Mas não me altere o samba tanto assim
conselhos sejam úteis aos futuros jornalis-
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
tas.
De um cavaco, de um pandeiro e de um tam-
b) gírias não dicionarizadas, para imitar a lin-
borim
guagem de jovens de baixa escolaridade.
c) palavras de uso coloquial, para estabelecer
Sem preconceito
uma interação satisfatória com a interlocu-
Ou mania de passado
tora.
Sem querer ficar do lado
d) termos da linguagem jornalística, para cau-
De quem não quer navegar
sar boa impressão na jovem entrevistadora.
Faça como o velho marinheiro
e) vocabulário técnico, para ampliar o repertó-
Que durante o nevoeiro
rio linguístico dos jovens leitores do jornal.
Leva o barco devagar.
PAULINHO DA VIOLA. Disponível em: www.
paulinhodaviola.com.br. Acesso em: 6 dez. 2012. 23. (ENEM) Você pode não acreditar

Na letra da canção, percebe-se uma interlo- Você pode não acreditar: mas houve um tem-
cução. A posição do emissor é conciliatória po em que os leiteiros deixavam as garrafi-
entre as tradições do samba e os movimen- nhas de leite do lado de fora das casas, seja
tos inovadores desse ritmo. A estratégia ar- ao pé da porta, seja na janela.
gumentativa de concessão, nesse cenário, é A gente ia de uniforme azul e branco para
marcada no trecho: o grupo, de manhãzinha, passava pelas ca-
a) Mas não me altere o samba tanto assim”. sas e não ocorria que alguém pudesse roubar
b) “Olha que a rapaziada está sentindo a falta”. aquilo.
c) “Sem preconceito / Ou mania de passado”. Você pode não acreditar: mas houve um tem-
d) “Sem querer ficar do lado / De quem não po em que os padeiros deixavam o pão na
quer navega”. soleira da porta ou na janela que dava para a
e) “Leva o barco devagar”. rua. A gente passava e via aquilo como uma
coisa normal.
22. (ENEM) Escrever Você pode não acreditar: mas houve um tem-
po em que você saía à noite para namorar e
A estudante perguntou como era essa coisa de voltava andando pelas ruas da cidade, cami-
escrever. Eu fiz o gênero fofo. Moleza, disse. nhando displicentemente, sentindo cheiro
de jasmim e de alecrim, sem olhar para trás,
Primeiro evite esses coloquialismos de sem temer as sombras.
“fofo” e “moleza”, passe longe das gírias Você pode não acreditar: houve um tempo

70
em que as pessoas se visitavam airosamente. d) o prazer de sentir os ventos e a esperança de
Chegavam no meio da tarde ou à noite, con- voltar à África.
tavam casos, tomavam café, falavam da saú- e) o medo da morte e a vontade de fugir da
de, tricotavam sobre a vida alheia e voltavam violência dos brancos.
de bonde às suas casas.
Você pode não acreditar: mas houve um tem-
po em que o namorado primeiro ficava an- Gabarito
dando com a moça numa rua perto da casa
dela, depois passava a namorar no portão, 1. C 2. C 3. D 4. B 5. C
depois tinha ingresso na sala da família. Era
sinal de que já estava praticamente noivo e 6. E 7. E 8. D 9. A 10. C
seguro.
11. C 12. D 13. D 14. D 15. E
Houve um tempo em que havia tempo.
Houve um tempo. 16. D 17. D 18. D 19. D 20. B
SANTANNA, A. R. Estado de Minas, 5 maio 2013 (fragmento).
21. A 22. C 23. B 24. A
Nessa crônica, a repetição do trecho “Você
pode não acreditar: mas houve um tempo em
que...” configura-se como uma estratégia ar-
gumentativa que visa:
a) surpreendem leitor com a descrição do que
as pessoas faziam durante o seu tempo livre
antigamente.
b) sensibilizar o leitor sobre o modo como as
pessoas se relacionavam entre si num tempo
mais aprazível.
c) advertir o leitor mais jovem sobre o mau uso
que se faz do tempo nos dias atuais.
d) incentivar o leitor a organizar melhor o seu
tempo sem deixar de ser nostálgico.
e) convencer o leitor sobre a veracidade de fa-
tos relativos à vida no passado.

24. (ENEM) Maria Diamba

Para não apanhar mais


falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
Não falou mais:
Viram que sabia fazer tudo,
até molecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
só diante da ventania
que ainda vem do Sudão;
falou que queria fugir
dos senhores e das judiarias deste mundo
para o sumidouro.
LIMA, J. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007.

O poema de Jorge de Lima sintetiza o per-


curso de vida de Maria Diamba e sua reação
ao sistema opressivo da escravidão. A resis-
tência dessa figura feminina é assinalada no
texto pela relação que se faz entre:
a) o uso da fala e o desejo de decidir o próprio
destino.
b) a exploração sexual e a geração de novas es-
cravas.
c) a prática na cozinha e a intenção de ascen-
der socialmente.

71
R.P.A.
ENEM
Literatura
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Aulas 1 e 2

Competência 5
Habilidades 15 e 16

BREVIÁRIO

Classicismo
Nos séculos XV e XVI, a visão teocêntrica do mundo, que caracterizou a Idade Média, cedeu lugar ao antropocen-
trismo, ou seja, o Homem e a Ciência vão para o centro dos acontecimentos e do universo. O Renascimento marca
o apogeu dessa era, que se propõe a iluminar com a razão as trevas da civilização medieval.

Características do Classicismo
O Classicismo queria recuperar a “classe” dos autores antigos a partir do cultivo dos valores greco-latinos, inclusive
da mitologia pagã, própria dos antigos. Isso levou os poetas renascentistas a recorrer às entidades mitológicas
para pedir inspiração, simbolizar emoções, exemplificar comportamentos. Pastores, deuses, deusas e ninfas estão
presentes nas obras de arte e na literatura renascentista de uma forma natural, convivendo até mesmo com tradi-
ções cristãs, herdadas da época medieval.
É hora de o ser humano se orgulhar de suas conquistas terrenas. O homem descobre que a Terra é redonda
e passa a ter um olhar universalista para a realidade. O marco de seu início se dá em 1527, quando o poeta Sá
de Miranda retorna de sua incursão de estudos pela Itália renascentista e introduz em Portugal novas formas de
composição. Ele trouxe a postura amorosa, o soneto e, principalmente, a forma fixa do verso decassílabo chamado
de medida nova, o dolce stil nuovo (doce estilo novo), criado pelo escritor italiano Francesco Petrarca.

Tendências fundamentais

§§ Criação e imitação: retomado do princípio aristotélico da mimese, ou seja, reproduzir os comportamen-


tos humanos por intermédio da arte.
§§ Racionalismo: o desenvolvimento de um raciocínio completo sobre os temas abordados, inclusive o amor.
Na poesia, essa tentativa de conciliar razão e emoção se apresentou por meio de uma figura de linguagem
chamada “paradoxo”.
§§ Humanismo e ideal de beleza: recriação da natureza humana por meio de um ideal de beleza, propor-
ção, harmonia e simetria.
§§ Universalismo: a busca por novos territórios, expansão marítima. O homem quer se colocar acima da
natureza e automaticamente, acima de Deus. O planeta Terra passa a ser um espaço de dominação humana.

75
Camões lírico: “Tu, só tu, puro amor”

A obra lírica de Camões compreende poemas feitos na medida velha e na medida nova. A medida velha obedece
à poesia de tradução popular, na forma e no conteúdo.
São exploradas as redondilhas, de cinco ou de sete sílabas (menor ou maior, respectivamente).
Quanto à medida nova, os poemas são relacionados à tradição clássica: sonetos, éclogas, elegias, oitavas,
sextinas. Quanto ao conteúdo, a poesia lírica clássica se relaciona com o petrarquismo. Francesco Petrarca foi o
responsável por fixar a forma do soneto, no século XIV; o conteúdo de sua poesia delineia um lirismo amoroso
platônico, relacionado indissoluvelmente a uma mulher inacessível, Laura, a quem dedicou perto de 360 sonetos,
no seu cancioneiro.

A lírica amorosa

O tema amoroso é explorado na lírica camoniana sob dupla perspectiva. Com frequência, aparece o amor sensual,
próprio da sensualidade renascentista, inspirada no paganismo da cultura greco-latina. Predomina, porém, o amor
neoplatônico, espécie de extensão e aprofundamento da tradição da poesia medieval portuguesa ou da poesia
humanista italiana, em que o amor e a mulher se configuram como idealizados e inacessíveis.
Na poesia lírica camoniana, tal qual no modelo legado por Petrarca, o amor é um sentimento que eleva o
homem, tornando-o capaz de atingir o Bem, a Beleza e a Verdade, de acordo com a filosofia platônica. Para Platão,
a realidade se divide em “mundo dos sentidos” e “mundo das ideias”. No mundo sensorial, nada é perene; no
mundo das ideias, tudo é terno, imutável. O amor ideal, de acordo com Platão, é um sentido essencialmente puro
e desprovido de paixões, ao passo que estas são essencialmente cegas, materiais, efêmeras e falsas.
Em Camões, percebe-se o conflito entre o sentimento espiritual, idealizado, e o sentimento de manifestação
carnal. O amor é, dessa forma, complexo, contraditório. Esse duplo enfoque do amor é bastante acentuado no
soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”.

Amor é fogo que arde sem se ver,


é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;


é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;

76
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor


nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
“Amor é fogo que arde sem se ver”. In: CAMÕES, Luís Vaz de. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1976.

Romantismo

Poesia romântica
Contexto histórico

No século XIX, o público consumidor da literatura romântica era eminentemente formado pela burguesia. As ori-
gens populares dessa classe não condiziam com o refinamento da arte clássica, cuja compreensão exige conheci-
mento das culturas grega e latina. A burguesia ansiava por uma literatura que enfocasse seu próprio tempo, seus
problemas e sua forma de viver. O romance relatava acontecimentos da vida cotidiana e dava vazão ao gosto
burguês pela fantasia e pela aventura. Tornou-se, por isso, o mais importante meio de expressão artística desse
segmento social.
Em algum aspecto, o romance substituiu a epopeia, um dos gêneros de mais prestígio da tradição clássica. Con-
tudo, alterou-lhe o foco de interesse. Enquanto a epopeia narra um fato passado – em geral, um mito da cultura de um
povo –, o romance narra o presente, os acontecimentos comuns da vida das pessoas, numa linguagem simples e direta.

As gerações do Romantismo
Tradicionalmente, são apontadas três gerações de escritores românticos. Essa divisão, contudo, compreende, prin-
cipalmente, os autores de poesia. Os romancistas não se enquadram muito bem nessa divisão, uma vez que suas
obras apresentam traços característicos de mais de uma geração.
§§ Primeira geração: nacionalista, indianista e religiosa, com destaque para Gonçalves Dias e Gonçalves de
Magalhães.
§§ Segunda geração: marcada pelo “mal-do-século”, apresenta egocentrismo exacerbado, pessimismo, sa-
tanismo e atração pela morte. Foi bem representada por Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes
Varela e Junqueira Freire.
§§ Terceira geração: formada pelo grupo condoreiro, desenvolve uma poesia de cunho político e social. A
maior expressão desse grupo é Castro Alves.
Durante o Segundo Reinado, os românticos foram firmando o projeto de uma literatura autenticamente
nacional, liberta da portuguesa. Houve três momentos no desenvolvimento da poesia romântica brasileira, cujos
poetas reúnem distintas gerações com características em comum.

77
Indianismo: primeira geração poética
Compreendida entre os anos de 1836 e 1852, a primeira geração contou com os poetas Gonçalves de Magalhães
e Gonçalves Dias.
O nacionalismo e o patriotismo predominam em seus poemas, que exaltam aspectos característicos da paisa-
gem tropical, realçam o exotismo e a beleza natural e exuberante em oposição à paisagem e à natureza europeias.
As obras de ambos encaram o indígena como elemento formador do povo brasileiro, bem como revelam
forte religiosidade predominantemente católica, em oposição ao “paganismo” da poesia neoclássica ligada à tradi-
ção greco-latina. São de caráter amoroso, fortemente sentimental, fruto de relativa influência da lírica portuguesa,
medieval, camoniana e romântica – de Garrett, principalmente.
Em 1862, foi à Europa para tratar da saúde. Combalido pela tuberculose e reduzido à miséria, decidiu voltar
ao Brasil, onde morreu em decorrência do naufrágio do navio em que viajava, já próximo da costa maranhense.
Herdou de Gonçalves de Magalhães certo apego à poesia harmônica do Neoclassicismo e dos primeiros
românticos portugueses. No entanto, imprimiu à sua poesia um tom particular – uma inalienável necessidade de
aliar o pensamento ao sentimento –, legando ao Romantismo brasileiro uma obra equilibrada, “a mais equilibrada
poesia romântica”, segundo Manuel Bandeira.
Gonçalves Dias criou o indianismo romântico, impondo-se como uma das maiores figuras da nossa lite-
ratura. Seus versos encerraram eloquência e unção, lirismo, grandiosidade e harmonia. Sua obras poéticas são:
Primeiros cantos, Segundos cantos, Últimos cantos, Sextilhas de Frei Antão, Dicionário da língua tupi, Os timbiras;
as teatrais são: Beatriz Cenei, Leonor de Mendonça, Boabdil e Patkul.

Gonçalves Dias

Primeiros cantos
Em 1846, os Primeiros cantos apareceram em livros, numa edição financiada pelo próprio autor. No prólogo da
obra, Gonçalves Dias explica que não obedeceu a nenhuma das regras tradicionais da poesia porque menospreza
“regras de mera convenção”. Adotou todos os ritmos da metrificação portuguesa e usou-os conforme melhor lhe
pareceram.
A obra revela “as marcas do Romantismo” – liberdade formal (a primeiríssima delas) contida naquele “me-
nosprezo das regras de mera convenção”, respeito à imaginação e ao indivíduo e valorização das emoções e das
circunstâncias, com todas as contradições que acaso proviessem. Tanto no Brasil como em Portugal, a obra recebeu
elogios. O escritor português Alexandre Herculano saudou o poeta de Primeiros cantos, colocando-o na categoria
de uma nova voz no contexto da literatura brasileira. Herculano ainda observou que “salta à vista a proposta de
casar o coração com o entendimento; a ideia com a paixão”.

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Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,


Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Ultrarromantismo ou geração byroniana

Algumas décadas depois da introdução do Romantismo no Brasil, a poesia ganhou novos rumos com o apareci-
mento dos ultrarromânticos. Desvinculados do compromisso com a nacionalidade da primeira geração, desinteres-
savam-se da vida político-social e voltavam-se para si mesmos, numa atitude profundamente pessimista. Como
forma de protesto contra o mundo burguês, viviam entediados e à espera da morte.
A publicação do livro Os sofrimentos do jovem Werther (1774), de Johann Wolfgang von Goethe, na Ale-
manha, influenciou os escritores da segunda geração romântica brasileira. Sua história conta o triste suicídio de
Werther, quando vê findada sua chance de ser feliz ao lado de seu amor, a jovem Carlota.

79
O “mal-do-século”
Os jovens e estudantes de hoje encontram diferentes maneiras de protestar contra os valores sociais ou o poder ins-
tituído. Alguns se organizam em associações ou agremiações estudantis e manifestam-se em jornais, assembleias
e passeatas. Outros preferem as chamadas tribos urbanas. Para mostrar que pertencem a elas, pintam os cabelos,
usam coturnos, roupas rasgadas, pulseiras e colares, roupas escuras com caveiras estampadas, piercings, cabelos
longos. Nas décadas de 1850 e 1860, jovens poetas universitários de São Paulo e do Rio de Janeiro se reuniram e
deram origem à poesia romântica brasileira, conhecida como Ultrarromantismo. Sem acreditar nas ideias e valores
que levaram à Revolução Francesa e sem ter nenhum outro projeto, essa segunda geração romântica se sentia
como uma “geração perdida”. A forma encontrada para expressar seu pessimismo e sua inadequação à realidade
foi, no plano pessoal, levar uma vida desregrada, dividida entre os estudos acadêmicos, ócio, casos amorosos e
leitura de obras literárias de Musset e Byron, escritores cujo estilo de vida imitavam.
No plano literário, essa geração se caracterizou por cultivar o mal-do-século, uma onda de pessimismo que
se traduzia em atitudes e valores considerados decadentes na época, como atração pela noite, pelo vício e pela
morte. No caso de Álvares de Azevedo, o principal representante do grupo, esses traços foram acrescidos ainda de
temas macabros e satânicos, o que o aproxima de Horace Walpole, escritor inglês que, alguns anos antes, tinha
dado início ao romance gótico com O castelo de Otranto (1765).
Os ultrarromânticos desprezam certos temas e posturas da primeira geração, como o nacionalismo e o
indianismo; contudo, acentuam traços como o subjetivismo, o egocentrismo e o sentimentalismo, ampliando a ex-
periência da sondagem interior e preparando terreno para a investigação psicológica que, três décadas mais tarde,
iria caracterizar o Realismo.

Lord Byron: ousadia e negação


O poeta inglês Lord Byron (1788-1824) foi um dos principais escritores do Romantismo europeu. Dividia a vida
luxuosa das cortes entre a literatura e as mulheres, e escandalizou a Inglaterra com seu estilo boêmio de vida e com
suas relações amorosas extraconjugais. Foi ainda acusado de pederastia e de manter relações incestuosas com a
irmã. Escreveu Don Juan e Jovem Haroldo.

O medo de amar
O amor foi tratado pelos ultrarromânticos sob uma perspectiva dualista, atração e medo, desejo e culpa. Segundo
Mário de Andrade, escritor e crítico modernista, os ultrarromânticos temiam a realização amorosa. O ideal feminino
é associado a figuras incorpóreas ou assexuadas: anjo, criança, virgem etc. As referências ao amor físico se dão
apenas de modo indireto, sugestivo ou superficial.
O poema a seguir, “Amor e medo”, do ultrarromântico Casimiro de Abreu, deixa bastante claro seu medo
de amar.
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucava com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!...
CANDIDO, Antônio; CASTELLO, José A. Presença da literatura brasileira. v. 2. São Paulo: Difel, 1968. p. 44.

80
Neste poema, o medo de amar se traduz no receio de macular a virgem, no temor de entregar-se ao apelo
dos sentidos e ferir a pureza da mulher amada. A imagem de “anjo enlodado” dá a medida exata do ideal feminino
para os românticos: mulher virgem, assexuada e incorpórea.
A seguir, os principais escritores do Ultrarromantismo e suas produções:
§§ Álvares de Azevedo (poesia lírica, contos e teatro) – Lira dos vinte anos; Noite na taverna; Macário.
§§ Casimiro de Abreu (poesia lírica) – As primaveras.
§§ Fagundes Varela (poesia lírica) – Cantos e fantasias.
§§ Junqueira Freire (poesia lírica) – Inspirações do claustro.

Álvares de Azevedo: a antítese personificada

Álvares de Azevedo (1831-1852) é a principal expressão da geração ultrarromântica de nossa poesia. Paulista, fez
os estudos básicos no Rio de Janeiro e cursava o quinto ano de Direito, em São Paulo, quando sofreu um acidente
(queda de cavalo), cujas complicações o levaram à morte, antes de completar 21 anos.
O escritor cultivou a poesia, a prosa e o teatro. Os sete livros, discursos e cartas que produziu foram escritos
em apenas quatro anos, período em que era estudante universitário. O conjunto de sua obra é de qualidade irre-
gular, mas significativa sob o ponto de vista da evolução da poesia nacional.

As faces de Ariel e Caliban

As características intrigantes da obra de Álvares de Azevedo residem na articulação consciente de um projeto


literário baseado na contradição que, talvez, ele experimentasse na adolescência. Enquadrada no dualismo que ca-
racteriza a linguagem romântica, essa contradição é evidente em sua principal obra poética, “Lira dos vinte anos”.
A primeira e a terceira partes da obra revelam um eu lírico adolescente, casto, sentimental e ingênuo. A face
de Ariel, a face do bem.

Pálida, à luz da lâmpada sombria,


Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria


Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...

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Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
HELLER, Bárbara; BRITO, Luís Percival L.; LAJOLO, Marisa. Álvares de Azevedo. Seleção de textos.
São Paulo: Abril Educação, 1982. p. 22. Literatura Comentada.

Observe que o soneto “Pálida, à luz da lâmpada sombria” está organizado a partir de relações antitéticas:
a escuridão e a claridade; a noite e o amanhecer; o ambiente onírico (de sonho) e o real; a virgem pálida e distante
e a mulher corporificada e sensual; o amor e a morte.
Note ainda que, da primeira para a última estrofe, há um processo de materialização da mulher amada: no
início, ela é uma “virgem do mar” ou um “anjo”; depois, torna-se uma mulher sensual e nua na cama.
Essa gradação ocorre paralelamente à gradação da luz, conforme o dia amanhece.
Numa atitude tipicamente adolescente, o eu lírico, como um verdadeiro voyeur, observa de longe a mulher
amada, sem ter com ela nenhum comprometimento.
Trata-se de um comportamento resultante do “medo de amar”, ligado à dúvida e ao prazer reprimido, cuja
saída é a sublimação pela morte.
Quando se inicia a segunda parte da Lira dos vinte anos, contudo, o leitor se depara com um segundo pre-
fácio da obra, com os seguintes dizeres:
Cuidado, leitor, ao voltar esta página!
Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira
ilha Barataria de D. Quixote, onde Sancho é rei; [...]
Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A razão é simples. É que a unidade deste livro e capítulo funda-se numa binomia. Duas almas que moram
nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas
faces.
Nos meus lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.
CANDIDO, Antônio; CASTELLO, José A. Ob. cit., v. 2. p.14.

Com esse comentário, o poeta introduz o leitor no mundo de Caliban, representado principalmente pelo
poema “Ideias íntimas” e por uma série intitulada “Spleen e charutos”. Embora não se incluam na Lira dos vinte
anos, aproximam-se desse grupo de textos os contos de “Noite na taverna” e a peça teatral “Macário”. Os poemas
retratam um mundo decadente, povoado de viciados, bêbados, prostitutas, andarilhos solitários sem vínculos e sem
destino. Observe essas atitudes nestes versos:

Poema do frade

Meu herói é um moço preguiçoso


Que viveu e bebia porventura
Como vós, meu leitor... se era formoso
Ao certo não o sei. Em mesa impura
Esgotara com lábio fervoroso
Como vós e como eu a taça escura.
Era pálido sim... mas não d’estudo:
No mais... era um devasso e disse tudo!
[...]

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Não quisera mirar a face bela
Nesse espelho de lodo ensanguentado!
A embriaguez preferida: em meio dela
Não viriam cuspir-lhe o seu passado!
Como em nevoento mar perdida vela
Nos vapores do vinho assombreado
Preferia das noites na demência
Boiar (como um cadáver!) na existência!
[...]

Na leitura de alguns trechos do poema “Ideias íntimas”, entra-se na “terra fantástica” do mundo de Cali-
ban. O ambiente é um quarto de estudante, no qual o jovem se entrega a uma viagem pelo interior de si mesmo.
Reconhece os objetos que formam seu pequeno mundo e a relação entre este e aqueles, de modo que a solidão e
o desarranjo do quarto são um prolongamento da condição interior do eu lírico.

Casimiro de Abreu: a poesia bem-comportada

Casimiro de Abreu (1839-1860) é um dos poetas românticos mais populares. Natural de Barra de São João, no
Rio de Janeiro, escreveu a maior parte de sua obra poética, Primaveras, em Portugal. Apesar de ligado à segunda
geração da poesia romântica, Casimiro contribuiu para desanuviar o ambiente noturno que Álvares de Azevedo
deixara ao morrer, sete anos antes. Diferentemente da obra de Azevedo, em que o amor se confunde com a morte,
nos poemas de Casimiro o amor se associa sempre à vida e à sensualidade. Contudo, essa sensualidade – mais
natural que em Álvares de Azevedo, porque é mais concreta – ainda não alcança maturidade, conserva-se ligada
ao medo de amar, é sempre disfarçada, resultado de insinuações e do jogo de mostrar e esconder. Sua poesia se
destaca também pela abordagem graciosa de certos temas: infância, pátria, saudade, solidão, natureza, amor, que
agradavam ao público, já acostumado a eles.
Aproveitando-se de novidades introduzidas pela primeira geração – variações métricas e rítmicas, forte
musicalidade, emprego de uma língua brasileira –, a poesia de Casimiro se serve delas ao esgotamento, numa
época em que tais inovações já não eram ruptura, uma vez incorporadas ao gosto do público.
Com o tratamento brando dado aos temas, a poesia de Casimiro de Abreu não amplia nem modifica os
horizontes do Romantismo brasileiro. A abordagem mais natural da sensualidade é a inovação que ela proporciona,
bem como contribui para a consolidação e popularização definitiva do Romantismo entre nós.

83
Meus oito anos

Oh! que saudades que eu tenho


Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias de minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
[...]
Casimiro de Abreu. As primaveras. Publicado em 1859.

84
Prosa romântica

As origens do Romance

Iracema (1881), de José Maria de Medeiros. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (RJ).

A palavra romance tem origem do termo medieval romano, que designava as línguas usadas pelos povos sob do-
mínio do Império Romano. Essas línguas eram uma forma popular e evoluída do latim, bem como eram chamadas
de romance as composições de cunho popular e folclórico, escritas nesse latim vulgar, em prosa ou em verso, que
contavam histórias cheias de imaginação, fantasia e aventuras.
Como gênero literário, o romance foi se modificando até assumir as formas de romance de cavalaria, ro-
mance sentimental e romance pastoral. Foi no século XVIII que a palavra romance tomou o sentido que tem hoje:
texto em prosa, regularmente longo, que desenvolve vários núcleos narrativos organizados em torno de um núcleo
central e narra fatos relacionados a personagens, numa sequência de tempo relativamente ampla e em determina-
do lugar ou lugares.
Os primeiros romances, como se compreende atualmente, surgiram na Europa, já identificados com o início
da revolução romântica. Entre os primeiros, destacam-se Manon Lescaut, do abade Prévost (1731), e A história de
Tom Jones, de Henry Fielding (1749).

85
O romance brasileiro e a busca do nacional

Nas décadas que sucederam a Independência do Brasil, os romancistas se empenharam no projeto de construir
uma cultura brasileira autônoma, que exigia dos escritores o reconhecimento da identidade de nossa gente, da
nossa língua, das nossas tradições e diferenças regionais e culturais. Nessa busca, o romance se voltou para os es-
paços nacionais, identificados como a selva, o campo e a cidade, que deram origem, respectivamente, ao romance
indianista e histórico (a vida primitiva), ao romance regional (a vida rural) e ao romance urbano (a vida citadina).
O mais fértil ficcionista romântico brasileiro foi o cearense José Martiniano de Alencar (1829-1877), cuja
meta era formar uma literatura nacional autêntica, que rompesse os vínculos com a lusitana e retratasse a realidade
brasileira. Esse objetivo foi alcançado.

José de Alencar e o romance indianista


José de Alencar (1829-1877) foi o principal romancista brasileiro da fase romântica. Cearense, cursou Direito em
São Paulo (1850) e viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Dedicou-se à carreira de advogado e atuou
também como jornalista. Na política, foi eleito várias vezes deputado e chegou a ocupar o cargo de ministro da
Justiça, que exerceu de 1868 a 1870. Candidatou-se a uma cadeira no Senado, mas seu nome foi vetado. Por isso,
encerrou sua vida pública e dedicou-se inteiramente à literatura.
Sua vasta produção literária compreende vinte romances, oito peças de teatro (como “Mãe” e “O jesuíta”,
encenadas à época), crônicas, escritos políticos e crítica literária. Em razão da abrangência de seus romances, eles
foram classificados de acordo com o tema.
§§ Romances indianistas: O guarani (1857); Iracema (1865); e Ubirajara (1874).
§§ Romances regionalistas: O gaúcho (1870); O tronco do ipê (1871); Til (1871); e O sertanejo (1875).
§§ Romances históricos: As minas de prata (dois volumes: 1865 e 1866); Guerra dos mascates (dois volu-
mes: 1871 e 1873); Alfarrábios (1873, composto de O garatuja, O ermitão da Glória e A alma de Lázaro).
§§ Romances urbanos (ou “perfis de mulheres”): Cinco minutos (1856); A viuvinha (1857); Lucíola
(1862); Diva (1864); A pata da gazela (1870); Sonhos d’ouro; Senhora (1872); e Encarnação (1877).
A produção diversificada de Alencar estava voltada para o projeto de construção da cultura brasileira, no
qual o romance indianista ganhou papel de destaque em busca de um tema nacional e de uma língua mais bra-
sileira.
As principais realizações indianistas em prosa de nossa literatura são os três romances de José de Alencar.
Neles, o ambiente é sempre a selva. Em O guarani, o índio Peri vive próximo dos brancos; em Iracema, o branco é
que vive entre os índios; Ubirajara é o único romance que trata apenas da vida entre os índios.

86
O guarani: o mito da povoação

O guarani, romance histórico-indianista, foi publicado pela primeira vez sob a forma de folhetim no Diário do Rio
de Janeiro, em 1857. D. Antônio de Mariz, fidalgo português, muda-se para o Brasil com a família: D. Lauriana, sua
esposa; Cecília e D. Diogo, seus filhos; e Isabel, oficialmente sobrinha do fidalgo, mas, na verdade, filha dele com
uma índia. Acompanha a família o jovem cavaleiro D. Álvaro de Sá, além de muitos outros empregados.
A obra se articula a partir de alguns fatos essenciais: a devoção e fidelidade do índio goitacá Peri à Cecília;
o amor de Isabel por Álvaro e o amor deste por Cecília. A morte acidental de uma índia aimoré, provocada por D.
Diogo, e a consequente revolta e ataque dos aimorés, ocorre simultaneamente a uma rebelião dos homens de D.
Antônio, liderados pelo ex-frei Loredano, homem ambicioso e devasso que queria saquear a casa e raptar Cecília.

Iracema

Em capítulos curtos, superpõem-se imagens e comparações de cunho poético para surgir o nascimento de um mun-
do, que é o tema desse romance. Desenvolve-se no livro a lenda da fundação do Ceará e a história de amor entre a
índia Iracema e o português Martim. Guardadora dos segredos da Jurema, Iracema faz um voto de castidade, que
rompe ao tornar-se esposa de Martim.
Abandona sua tribo e segue com ele. Dá à luz um filho – Moacir –, símbolo do homem brasileiro miscigenado.
Martim tem de partir para Portugal por um longo tempo. Quando regressa, encontra Iracema à morte.
Enterra-a ao pé de uma palmeira e retorna a Portugal, levando consigo o filho.
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos
que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfu-
mado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua
guerreira tribo da grande nação tabajara, o pé grácil e nu, mal roçando alisava apenas a verde pelúcia que vestia
a terra com as primeiras águas.

87
A crítica social no romance urbano de Alencar
Além de ter se dedicado ao romance indianista e ao romance regional, José de Alencar foi também um de nossos
melhores romancistas urbanos. Suas obras, além de conter os ingredientes próprios do romance urbano romântico
– intrigas amorosas, chantagens, amores impossíveis peripécias –, conseguem analisar com profundidade certos
temas delicados daquele contexto social. Em Senhora, são abordados os temas do casamento por interesse, da
independência feminina e da ascensão social a qualquer preço. Em Lucíola, é discutida a prostituição nas altas
camadas sociais e, como em Senhora, a oposição entre o amor e o dinheiro. O romance Diva, ao lado de Senhora
e Lucíola, constitui a série “Perfis femininos”.

Senhora

Publicada em 1875, Senhora é uma das últimas obras escritas por Alencar. Ao tematizar o casamento como forma
de ascensão social, o autor deu início à discussão sobre certos valores e comportamentos da sociedade carioca da
segunda metade do século XIX. Embora Senhora ainda esteja presa ao modelo narrativo romântico, que considera
o amor como o único meio de redimir todos os males, a obra apresenta alguns elementos inovadores, que anun-
ciam a grande renovação realista. Entre tais elementos estão a vigorosa crítica à futilidade dos comportamentos
e à fragilidade dos valores burgueses resultantes do então emergente capitalismo brasileiro e, em certo grau, da
introspecção psicológica.
Aurélia Camargo é uma moça pobre e órfã de pai, noiva de Fernando Seixas, bom rapaz, que ambiciona
ascender rapidamente. Em razão disso, troca Aurélia por outra moça de dote mais valioso. Aurélia passa a desprezar
todos os homens. Eis que, com a morte de uma avó, torna-se milionária, e, consequentemente, uma das mulheres
mais cortejadas do Rio de Janeiro. Como vingança, manda oferecer a Seixas um dote de cem contos de réis, sem
revelar seu nome, que seria conhecido só no dia do casamento. Seixas aceita e se casa. Na noite de núpcias, Aurélia
revela-lhe seu desprezo. Seixas cai em si e percebe o quanto fora vil em sua ganância.
Vivem como estranhos na mesma casa durante onze meses, mas, socialmente, formam o “casal perfeito”.
Ao longo desse período, Seixas trabalha arduamente até conseguir obter a quantia que recebera como sinal pelo
“acordo”. Devolve os cem contos de réis à esposa e se despede dela.
Aurélia lhe revela seu amor. Os dois, igualados no amor e na honra, podem desfrutar o casamento, que
ainda não havia se consumado.
Os convidados, que antes lhe admiravam a graça peregrina, essa noite a achavam deslumbrante, e compre-
endiam que o amor tinha colorido com as tintas de sua palheta inimitável, a já tão feiticeira beleza, envolvendo-a
de irresistível fascinação.
– Como ela é feliz! – diziam os homens.
– E tem razão! – acrescentaram as senhoras volvendo os olhos ao noivo.
Também a fisionomia de Seixas se iluminava com o sorriso da felicidade. O orgulho de ser o escolhido da-
quela encantadora mulher ainda mais lhe ornava o aspecto já de si nobre e gentil.

88
O romance regionalista e a sociedade rural

A narrativa romântica também se debruçou sobre a sociedade de regiões interioranas do Brasil, buscando na
geografia delas os aspectos culturais, os costumes, as crenças e a linguagem. Surgido no Romantismo da década
de 1870, constituiu um dos aspectos singulares da literatura brasileira, especialmente em oposição ao excesso de
imaginação empregada na elaboração dos romances indianistas e históricos do próprio Alencar.
O romance regionalista foi criado por Bernardo Guimarães, que escreveu O ermitão de Muquém e A escrava
Isaura. Também foi cultivado por José de Alencar, que criou O sertanejo, Til, O gaúcho e o O tronco do ipê. Contudo,
seu defensor mais convicto foi Franklin Távora, autor de O cabeleira e Lourenço. O regionalismo faz parte da inten-
ção nacionalista dos românticos de reconhecer e identificar literariamente as várias culturas brasileiras. O romance
de Bernardo Guimarães e dos primeiros escritores atentos a particularidades da cultura constituiu uma porção para
a literatura que o leitor estava habituado a consumir. Sob a perspectiva romântica de imprimir um sentido nacional
à nossa literatura, o sertanismo foi uma forma de regionalismo cultivado como registro das variedades culturais do
Brasil com dados mais abrangentes e de mais atualidade que o indianismo que o precedera. As situações da vida
social e cultural do campo são idealizadas e não faltam na literatura regional os quadros exóticos e a natureza
exuberante, plenos de brasilidade. Os escritores românticos desejam mostrar um Brasil despojado, sem influências
estrangeiras, o que não o fizeram plenamente. Seus relatos estão repletos da ideologia romântica europeia, ansio-
sa pela expressão literária do pitoresco regional. O registro de pequenos quadros de costumes insere, entretanto,
muitas dessas produções como precursoras do movimento realista.

Visconde de Taunay e o Centro-Oeste

Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843-1899), o visconde de Taunay, era carioca, fez carreira militar e, com apenas 20
anos, participou da Guerra do Paraguai.
Mais do que a guerra, o que o seduzia na carreira de militar era a possibilidade de viajar e conhecer a diver-
sidade natural do Brasil. Apaixonado pela natureza, registrava em desenhos espécies da fauna e da flora nacionais
e, já no século XIX, protestava contra a destruição das matas na cidade do Rio de Janeiro.
Em suas andanças por Mato Grosso, Taunay colheu experiências para compor suas obras. Ressalta-se nelas
a capacidade do escritor de reproduzir com precisão aspectos visuais da paisagem sertaneja, especialmente da
fauna e da flora da região. Foi autor do romance Inocência (1872), sua obra-prima, e de livros sobre a guerra e o
sertão, como Retirada da Laguna (1871).

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Inocência: a busca do sertão

Inocência é considerada a obra-prima de Taunay e do romance regionalista do Romantismo. Sua qualidade resulta
do equilíbrio alcançado na contraposição de vários aspectos: ficção e realidade, valores românticos e valores da
realidade bruta do sertão, linguagem culta e linguagem regional. Trata-se de uma história de amor impossível, que
envolve Cirino, prático de farmácia, que se autopromovera a médico, e Inocência, uma jovem do sertão de Mato
Grosso, filha de Pereira, pequeno proprietário, representante típico da mentalidade vigente entre os habitantes
daquela região.
A realização amorosa entre os jovens é inviável, porque Inocência fora prometida em casamento pelo pai
a Manecão Doca, um rústico vaqueiro da região; bem como porque Pereira exerce forte vigilância sobre a filha; de
acordo com seus valores, ele tem de garantir a virgindade de Inocência até o dia do casamento. Ao lado dos acon-
tecimentos que constituem a trama amorosa, há também o choque de valores entre Pereira e Meyer, um naturalista
alemão colecionador de borboletas que se hospedara na casa do pequeno proprietário.
Esse choque de valores revela as diferenças entre o meio rural brasileiro e o meio urbano europeu.

Bernardo Guimarães

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825-1884) tornou artísticos os “casos” da literatura oral, valendo-se
das técnicas narrativas dos folhetins. Suas obras mais lidas são O seminarista (1872) e A escrava Isaura (1875),
construídas com temas básicos dos romances de ênfase social de sua época, respectivamente o celibato clerical e
a escravidão.

A escrava Isaura

Em uma fazenda em Campos (RJ), vive a bela e sedutora Isaura, escrava cuja filha a mãe de seu dono, Leôncio,
criou, dando-lhe educação aprimorada de moça branca. Após a morte da mãe, a fazenda passa a ser administrada
por Leôncio, casado com Malvina.
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Então, Isaura passa a sofrer o assédio dele. Malvina pretende libertar Isaura, mas quando percebe a paixão
do marido, retira-se para a Corte. Isaura fica em situação embaraçosa, até que um dia resolve fugir com seu pai,
Miguel, para o Recife. Lá, conhece Álvaro, um rapaz rico, defensor da República e apaixonam-se. Leôncio, no en-
tanto, vai à procura de Isaura e a recupera. Depois de dois meses, Álvaro vai para Campos a fim de resgatar Isaura:
compra todos os bens de Leôncio, que está falido, incluindo a escrava. Leôncio se suicida.
A escrava Isaura revela a ausência de uma visão crítica mais profunda. A escrava tem dotes físicos e psicoló-
gicos das cândidas heroínas românticas, padrões de beleza do europeu branco, como revela a seguinte passagem
do romance.
Fugiu da fazenda do Sr. Leôncio Gomes da Fonseca, no município de Campos, província do Rio de Janeiro,
uma escrava por nome Isaura, cujos sinais são os seguintes: cor clara e tez delicada como de qualquer branca;
olhos pretos e grandes; cabelos da mesma cor, compridos e ligeiramente ondeados; boca pequena, rosada e bem
feita; dentes alvos e bem dispostos; nariz saliente e bem talhado; cintura delgada e estatura regular; tem na face
esquerda um pequeno sinal preto [...] Traja-se com gosto e elegância, canta e toca piano com perfeição.
A denúncia da escravidão perde seu impacto, que poderia ser demolidor, mas conseguiu comover (e comove
ainda hoje).

Realismo
A lição dos contemporâneos portugueses, notadamente Eça de Queirós, e franceses, Stendhal de preferência, foi
decisiva para os autores realistas brasileiros fortemente influenciados por eles. A família burguesa já não era mais o
único foco da literatura, como havia acontecido no Romantismo. Os realistas ocupavam-se de outras classes sociais
e da alma delas. A crise matrimonial, o papel da mulher nas relações sociais e o operariado passam a ser temas e
personagens nessa literatura. Retratar a vida em sociedade, descrever cenas, ambientes e comportamentos passa
a fazer parte considerável das obras literárias. Registrar a realidade torna-se uma prioridade. Os oportunismos
disfarçados, as falsas devoções e a moral de aparência são temas que passam a integrar o universo do romance.
Tal como em Portugal, o Realismo-Naturalismo no Brasil esteve muito ligado às ideias estéticas, científicas
e filosóficas europeias – positivismo, darwinismo, naturismo, cientificismo – que provocaram bastante repercussão.
As mudanças que o tempo impôs coincidiram, por sua vez, com o rápido declínio do Segundo Império de Pedro II,
após a Guerra do Paraguai. Não só o abolicionismo foi contemporâneo ao Realismo-Naturalismo. O movimento
republicano, em 1870, também propunha trocar o trabalho escravo pela mão de obra imigrante.

Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908)

Órfão aos dez anos, o menino mestiço do Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, estudou em escolas públicas
e tratou de instruir-se por conta própria, interessado que era pela leitura. Inteligente e esforçado, Joaquim Maria
Machado de Assis (1839-1908) aproximou-se de intelectuais e de jornalistas que lhe deram oportunidades. Aos
dezesseis anos, empregou-se na tipografia de Paula Brito.

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Aos dezenove, já era colaborador assíduo de jornais e revistas cariocas: Correio Mercantil, O Espelho, Diário
do Rio de Janeiro, Semana Ilustrada, Jornal das Famílias. Em 1867, foi nomeado oficial da Secretaria de Agricultura,
enquanto sua carreira de escritor mostrava-se cada vez mais promissora. Casou-se aos trinta anos com a portugue-
sa Carolina Xavier de Novais.
Na passagem do Império para a República, Machado de Assis já era um intelectual respeitável. Formado
escritor à luz do Romantismo, com o tempo enveredou para o Realismo, o que, a depender da fase, sua obra seja
caracterizada ou romântica, até 1880, ou realista, de então em diante.

O romance machadiano

O estilo

Elegância e certa contenção, rápidas pinceladas e muita discrição na composição da personagem, eis o estilo
machadiano. Adepto de personagens fortes, as narrativas revelam excepcional capacidade de observação do ser
humano e da sociedade, impressa, aliás, desde o início.
As lições que aprendeu dos românticos José de Alencar, Almeida Garrett, Victor Hugo e Swift levaram-no a
apenas organizar seus personagens de modo diverso ao deles.

Entrelinha

“No romance machadiano, praticamente não há frase que não tenha segunda intenção ou propósito espirituoso. A
prosa é detalhista ao extremo, sempre à cata de efeitos imediatos, o que amarra a leitura ao pormenor e dificulta
a imaginação do panorama. Em consequência, e por causa também da campanha do narrador para chamar a
atenção sobre si mesmo, a composição do conjunto pouco aparece.”
(SCHARZ, Roberto. In: Um mestre na periferia do capitalismo – Machado de Assis. p.18).

O olhar detrás das máscaras

Nos romances iniciais, Machado é um romântico crítico, um pouco diferente dos demais, característica singular que
haveria de constituir. O casamento não é a cura para todos os males (como diziam os românticos), mas um tipo de
comércio, uma certa troca de favores.
Nos romances escritos após 1881, essa crítica social é acentuada e assume uma fina ironia ao contemplar
o casamento, o adultério, a exploração do homem pelo próprio homem. Acostumou-se a olhar detrás das máscaras
sociais, a desmascarar o jogo das relações sociais, a compreender a natureza humana mediante personagens com
penetrante espírito de análise. Nos indivíduos sempre há intenções supostas para objetivos reais. Disso resultam
suas atitudes, veículos de satisfação pessoal para quem as pratica.

Primeira fase: ciclo romântico

Ao analisar os romances e os contos de Machado de Assis considerados românticos, já se revela a característica que
haveria de marcar sua obra. Os acontecimentos são narrados sem precipitação, entremeados de explicações aos
leitores por parte do narrador e cheios de considerações sobre os comportamentos. Seus personagens não são line-
ares como os dos demais românticos. Têm comportamentos imprevistos, fazem maquinações, não são transparen-
tes, mas interesseiros. A estrutura narrativa, no entanto, ainda é linear: tem começo, meio e fim bem demarcados.
Fazem parte do ciclo romântico as obras Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia e os livros de
contos Histórias da meia-noite e Contos fluminenses.

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Helena

No ano de 1859, morre o conselheiro Vale, figura de primeira classe da sociedade do Segundo Reinado, homem
bem relacionado e respeitado. Ele deixa um filho, Estácio, de 27 anos, e uma irmã, D. Úrsula, que desde a morte da
cunhada cuidara com desvelo da bela chácara em que vivem, no Andaraí.
A leitura do testamento revela uma segunda filha do conselheiro Vale, Helena, nascida de uma união até
então desconhecida de toda a família. Enquanto Estácio aceita o último pedido do pai – levar Helena para morar na
chácara e tratá-la com muito carinho – D. Úrsula vê na jovem uma intrusa e usurpadora. No entanto, o testamento
é obedecido. Helena sai do colégio interno para morar na chácara, onde começa a mudar a vida de todos.

Segunda fase: ciclo realista

Com a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1881, Machado de Assis mudou o rumo de sua obra.
Amadureceu como escritor e passou a escrever para leitores mais exigentes. Seus personagens tornaram-se mais
elaborados, pois eram compostos à luz da Psicologia. Além disso, a técnica de composição do romance foi aperfei-
çoada: os capítulos e frases passam a ser mais curtos a fim de estabelecer maior contato com o leitor. Observa-se
também uma apurada análise da sociedade brasileira do final do Segundo Império, ambiente no qual o casamento
começa a ser um grande alvo da crítica tecida pelo autor.
As estruturas narrativas fogem à linearidade, entremeadas de digressões temporais, intromissões do narra-
dor e a análise apurada dos acontecimentos. Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro,
Esaú e Jacó, Memorial de Aires são romances do ciclo realista.
Além dos romances, Machado publica cerca de duzentos contos a partir de 1869, começando com os “Contos
fluminenses”, publicados em pleno Romantismo. Suas narrativas curtas estão reunidas em Histórias da meia-noite,
Papéis avulsos, Histórias sem data, Várias histórias, Páginas recolhidas, Relíquias da casa velha. Merecem destaque os
contos “A cartomante”, “Missa do galo”, “O alienista”, “O espelho”, “Cantiga de esponsais”, “Noite de almirante”,
“A igreja do diabo”, entre outros. A produção poética de Machado de Assis está reunida em Falenas, Crisálidas, Ame-
ricanas, Ocidentais. Destacam-se as peças de teatro “Queda que as mulheres têm para os tolos”, “Quase ministros”
e “Lição de botânica”.

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Memórias póstumas de Brás Cubas

A posição de Machado de Assis na literatura brasileira é a de renovador – um abridor de caminhos –, pois revo-
lucionou a narrativa, atribuindo-lhe um tom de mais verossimilhança e menos superficialidade, e foi além de seu
tempo, imprimindo à literatura um senso psicológico notável. O caráter inovador de Memórias póstumas de Brás
Cubas é a respeito das reflexões do personagem, como elas se encadeiam e se misturam aos eventos que ele vive.

Dom Casmurro

Publicado em 1900, Dom Casmurro é um romance narrado em primeira pessoa. A partir de um flashback da ve-
lhice para a adolescência, Bentinho conta sua própria história. Órfão de pai, cresceu num ambiente familiar muito
carinhoso – tia Justina, tio Cosme, José Dias. Recebeu todos os cuidados da mãe, D. Glória, que o destinara à vida
sacerdotal.
Sem vocação, Bentinho não quis ser padre. Namora a vizinha Capitu e quer se casar com ela. D. Glória,
presa a uma promessa que fizera, aceita a idade inteligente de José Dias de enviar um escravo ao seminário para
ser ordenado no lugar do Bentinho.
Livre do sacerdócio, o moço forma-se em Direito e acaba casando-se mesmo com Capitu.
O casal vive muito bem. Bentinho vai progredindo, mantém amizade com Escobar, antigo colega de seminá-
rio, e Sancha, sua esposa. A vida segue seu curso. Nasce-lhe um filho, Ezequiel.
Escobar morre e, durante o enterro, Bentinho começa a achar Capitu estranha. Surpreende-a contemplando
o cadáver de uma forma que ele interpreta como apaixonada.
A partir do episódio, Bentinho consome-se em ciúme e o casamento entra em crise. Cada vez mais Ezequiel
torna-se parecido com Escobar – o que precipita em Bentinho a certeza de que ele não é seu filho. O casal separa-
-se, Capitu e Ezequiel vão para a Europa e algum tempo depois ela morre.
Já moço, Ezequiel volta ao Brasil para visitar o pai, que comprova a semelhança do filho com Escobar. Eze-
quiel morre no estrangeiro. Cada vez mais fechado em sua dúvida, Bentinho ganha o apelido de “Casmurro” e
põe-se a escrever a história de sua vida.
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Quincas Borba

Quincas Borba foi publicado entre 1886 e 1891 na revista Estação. Para alguns estudiosos, a obra é a continuação
do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, já que o personagem Quincas atravessa os dois romances. O per-
sonagem torna-se um símbolo do “humanitismo”, teoria desenvolvida por ele segundo a qual serão vitoriosos na
vida os que foram mais ricos, mais fortes e mais expertos. Quincas Borba habita uma chácara na cidade de Barba-
cena (MG) na companhia do enfermeiro Rubião, que nunca consegue aprender a teoria que o paciente lhe ensina.
Quando Quincas morre, sua fortuna é deixada para Rubião. O enfermeiro teria acesso ao dinheiro com a
condição de que cuidasse do cachorro de Quincas, que também se chama Quincas Borba. Na companhia do cachor-
ro e com as mãos na herança, Rubião se muda para o Rio de Janeiro, onde conhece o casal Sofia e Cristiano Palha.
Estes percebem que o enfermeiro é ingênuo e, em pouco tempo, o enfermeiro passa a perder sua fortuna.

Naturalismo

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Contexto histórico
Na tentativa de acabar com os cortiços no Rio de Janeiro, muitos pobres foram literalmente empurrados para longe
da cidade e para os morros, onde se formaram as favelas. O fim da escravidão e o início do período republicano
no Brasil foram marcados por conflitos e revoltas populares também no Rio de Janeiro. Em 1904, estourou um
movimento de caráter popular desencadeado contra a campanha de vacinação obrigatória de combate à varíola,
imposta pelo governo federal.
A revolta engrossava a cada dia, impulsionada pela crise econômica – desemprego, inflação e alto custo de
vida. A reforma urbana retirou a população pobre do centro da cidade, derrubando cortiços e habitações simples.
Espalhados pelas ruas, populares destruíam bondes e apedrejavam prédios públicos. Em 16 de novembro de
1904, o presidente Rodrigues Alves revogou a lei da vacinação obrigatória e mandou que o Exército, a Marinha e
a polícia acabassem com os tumultos.

Burguesia versus proletariado

A segunda metade do século XIX foi caracterizada pela consolidação do poder da burguesia, do materialismo e
do crescimento do proletariado. De um lado, o progresso, representado pelo crescimento das cidades; de outro,
o crescimento dos bairros pobres, onde residiam os operários. Enquanto a burguesia lutava pelo dinheiro e pelo
poder, o operário manifestava sua insatisfação e promovia as primeiras greves. Nessa conjuntura nasceram e
desenvolveram-se as ciências sociais, preconizando o desenvolvimento científico, que levaram à substituição o
idealismo e o tradicionalismo pelo materialismo e racionalismo. O método científico passou a ser o meio de análise
e compreensão da realidade. Teorias desse naipe deram fundamentos ideológicos à literatura realista-naturalista,
quais sejam: a teoria determinista, de Hippolyte Taini (1825-1893), que encarava o comportamento humano como
determinado pela hereditariedade, pelo meio e pelo momento; e a teoria evolucionista, de Charles Darwin (1809-
1882), que defendia a tese de que o homem descende dos animais.
As características do Naturalismo literário são ligadas à realidade da época, cujo tom deixa de ser tão poé-
tico e subjetivo como nas escolas precedentes.
Os romances naturalistas revelam:
§§ veracidade – as narrativas buscam seus correspondentes na realidade;
§§ contemporaneidade – essa realidade retratava com fidelidade as personagens reais, vivas, não idealizadas;
§§ detalhismo – a caracterização das personagens e ambientes é minuciosa, o amor é materializado, e a
mulher passa a ser vista como objeto de prazer masculino;
§§ denúncia das injustiças sociais – levada pela função social da arte, a literatura denuncia o preconceito,
e a ambição humanos;
§§ determinismo e causalidade – busca da explicação lógica para o comportamento das personagens;
consideração da soma de fatores que justificam suas atitudes; visão de mundo determinista e mecanicista;
homem próximo ao animal (zoomorfismo);
§§ linguagem popular e coloquial – emprego de termos e sentidos comuns ao das personagens cotidia-
nas; linguagem é simples, natural e clara;
§§ cientificismo – caracterização e análise objetivas das personagens, consideradas casos a serem analisados;
§§ personagens patológicos – mórbidos, adúlteros, assassinos, bêbados, miseráveis, doentes, prostitutas
procuram comprovar a tese determinista sobre o ser humano.

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Aluísio Azevedo

Aluísio Azevedo (1857-1913) deixou São Luís, no Maranhão, onde nasceu, aos dezenove anos e foi para o Rio de
Janeiro. Lá, morou com o irmão, Artur Azevedo, e dedicou-se persistentemente ao desenho e à pintura na Imperial
Academia de Belas-Artes.
Aos 21 anos, voltou a São Luís, onde passou a colaborar na imprensa local. Em 1879, já havia lançado o ro-
mance romântico Uma lágrima de mulher. Mas foi em 1881 que seu nome tornou-se conhecido, com a publicação
do romance O mulato, cuja temática, bastante criticada pela sociedade local, atacava o preconceito racial. Por isso,
Aluísio foi aconselhado a “pegar na enxada, em vez de ficar escrevendo”.
De volta ao Rio de janeiro, produziu folhetins românticos para jornais. “Memórias de um condenado” e
“Mistérios da Tijuca” foram alguns deles ditados pelas necessidades de sobrevivência. Escreveu também obras
mais bem elaboradas à luz da estética realista-naturalista, como Casa de pensão e O cortiço, que consolidaram
seu prestígio.
Em 1895, foi nomeado vice-cônsul em Vigo, na Espanha. Foi o início de uma atribulada carreira diplomática,
que o levaria a Yokohama, no Japão, a La Plata, na Argentina, a Salto Oriental, no Uruguai, a Cardiff, na Inglaterra,
a Nápoles, na Itália e, finalmente, a Buenos Aires, na Argentina.

Fase romântica

Dentre os seus folhetins românticos destacam-se “Uma lágrima de mulher”; “Memórias de um condenado” ou
“A Condessa Vésper”; “Filomena Borges”; “A mortalha de Azira”; “Mistério da Tijuca” ou “Girândola de amores”.

Fase naturalista

Romances: O mulato; Casa de pensão; O homem; O coruja; O cortiço; O livro de uma sogra e os livros de contos
Demônios; Pegadas; O touro negro.
Considerado o mais importante dos naturalistas brasileiros, em sua obra não há excesso de exploração da
patologia humana, como ocorre, por exemplo, na obra do paradigma francês Émile Zola. Aluísio prefere a obser-
vação direta da realidade da qual ressalta, sobretudo, a influência que o meio exerce sobre o homem, segundo a
teoria determinista de Hippolyte Taine.

O cortiço

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Nesse seu melhor romance naturalista, focaliza o proletariado urbano do Rio de Janeiro que vive num ambiente
coletivo: um cortiço. Os personagens são criados sob uma visão de conjunto, cujo meio influi categoricamente, des-
personalizando-os e a tudo dominando. O espaço é o elemento de destaque na obra que está intimamente ligado
aos personagens. Como o romance possui muitos deles, a coletividade torna-se um fator preponderante na obra, o
que faz com que O cortiço seja considerado um romance da multidão. As personagens espelham o nascimento do
proletariado no Rio de Janeiro, em fins do século XIX.

O mulato

Publicado em 1881, o romance O mulato, de Aluísio Azevedo, causou verdadeiro escândalo na sociedade mara-
nhense. Primeiramente, devido à linguagem naturalista, repleta de descrições, por vezes, e também pelo tema de
que tratava: o preconceito racial. Ainda com tal recepção, a obra fez muito sucesso na corte carioca, embora não
tivesse feito sucesso nenhum no Maranhão, terra natal de Aluísio, cujos leitores dirigiam ao autor a alcunha de
“Satanás da cidade”.
Na obra estão presentes a ávida crítica social, construída por meio da sátira impiedosa dos tipos que ha-
bitavam a capital maranhense, o anticlericalismo, composto na figura de um padre devasso e assassino; além do
aspecto sexual, do triunfo do mal e da oposição ao preconceito racial que é a base para a composição do livro.

Pré-modernismo

Contexto histórico

Avenida Paulista, 1902. Fotógrafo Guilherme Gaensly

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Durante os primeiros anos da República Velha, como ficou conhecido o período compreendido entre o final do sé-
culo XIX e as duas primeiras décadas do século XX (1885-1920), São Paulo tornou-se uma espécie de sede da bur-
guesia cafeeira – fazendeiros enriquecidos que construíram suas mansões na recém-inaugurada Avenida Paulista.
Na época, o Brasil era governado pelos políticos da aliança “café com leite”, que se tratava de um reveza-
mento de presidentes da República de origem mineira e paulista.
O Rio de Janeiro, capital da República, passava por uma modernização estrutural. As ruas da cidade já
contavam com trilhos para o novo veículo de massas: o bonde. Mas a sede do Governo Federal também era palco
de rebeliões, como a famosa Revolta da Vacina (contra a vacinação obrigatória para conter a varíola). No cenário
de um proletariado emergente, a cidade ia assistindo à ocupação das periferias desde a abolição da escravatura,
em 1888.
Com a imigração proletária intensiva, os socialistas e anarquistas passaram a ter atuação destacada: mo-
vimentos populares, greves e revoltas avolumaram-se. Em 1917, uma greve marcou um dos mais importantes
movimentos resultantes da politização do proletariado. Em São Paulo, cerca de 100 mil trabalhadores reivindica-
ram melhores condições de vida. Nesse período, o maior conglomerado industrial do Brasil, São Paulo, também se
firmou como centro político. Em 1922, foi fundado o Partido Comunista.

Um período de transição

O momento histórico das duas primeiras décadas do século XX criou uma literatura social, cuja ênfase recaiu sobre
a análise da realidade nacional com preocupações socioculturais.
Voltada para os problemas sociais do País, essa nova literatura buscava o nacional autêntico sem a idealiza-
ção das fórmulas europeias importadas. O Pré-modernismo abrangeu um período literário de transição compreen-
dido entre 1902 e 1922, cujo marco inicial foi a publicação de Canaã, de Graça Aranha, e de Os sertões, de Euclides
da Cunha, ambos em 1902. A Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922, marcou o fim do Pré-modernismo
e a inauguração do movimento modernista no Brasil.
Como em qualquer fase de transição, no Pré-modernismo coexistiram tendências opostas. O elemento novo
leva tempo para ser implantado. As novidades injetadas na literatura social por Graça Aranha e Monteiro Lobato,
por exemplo, foram sendo assimiladas aos poucos.
Desse modo, a linguagem ornamental do Parnasianismo persistiu em muitos poetas daquele período, que
escreviam ao gosto do público das camadas dominantes sem finalidade de denúncia, de análise ou de crítica.

Perspectivas nacionalistas e renovação

Típicas dessa fase de transição foram as obras de Graça Aranha, Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lo-
bato. Todos produziram literatura de caráter nacionalista, mas com perspectivas diferentes. Graça Aranha renegou
gradativamente o passado para se tornar uma das personalidades da Semana de Arte Moderna.
Euclides da Cunha repensou o interior do País, completamente afastado do ufanismo social. Em Os sertões,
trouxe uma voz inconformada com o massacre de Canudos e um retrato realista da situação do homem sertanejo.
Lima Barreto foi o mais radical dos renovadores. Posicionou-se contra a literatura acadêmica e fez ressaltar
a realidade triste dos subúrbios cariocas e as problemáticas atitudes de políticos tiranos e ineficazes.
Monteiro Lobato fez uma literatura de advertência, sob a óptica da caricatura, denunciando a miséria cam-
pesina e buscando uma sociedade moderna, como revelado neste trecho de Zé Brasil:
Zé Brasil era um pobre coitado. Nasceu e sempre viveu em casebres de sapé e barro, desses de chão batido
e sem mobília nenhuma – só a mesa encardida, o banco duro, o mocho de três pernas, os caixões, as cuias... Nem
cama tinha.

99
Zé Brasil sempre dormiu em esteira de tábua. Que mais na casa? A espingardinha, o pote d’água, o caco de
cela, o rabo de tatu, a arca, o facão, um santinho na parede. Livros, só folhinhas – para ver as luas e se vai chover ou
não, e aquele livrinho na Fontoura com história de Jeca Tatu. – Coitado desse Jeca! – dizia Zé Brasil olhando para
aquelas figuras. Tal qual eu. Tudo que ele tinha eu também tenho. A mesma opilação, a mesma maleita, a mesma
miséria e até o mesmo cachorrinho. Pois não é que o meu cachorro também se chama Joli?...
(Monteiro Lobato. Zé Brasil. In: LAJOLO, Marisa. Monteiro Lobato. São Paulo: Abril Educação, 1981).

Euclides da Cunha

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866-1909) terminou o curso de Engenharia Militar, na Escola Superior de
Guerra, em 1892. Trabalhou na construção da Estrada de Ferro Central do Brasil e, mais tarde, atuou na cidade de
São Carlos do Pinhal, SP, como engenheiro-assistente, na Superintendência de Obras. Ao mesmo tempo, colaborava
com artigos para o jornal O Estado de S. Paulo, que o convidou para ser correspondente em Canudos – cidade do
interior da Bahia – durante o conflito entre o líder Antônio Conselheiro e as forças governistas. Permaneceu no
sertão baiano, de agosto a outubro de 1897, e testemunhou o massacre de Canudos.
Ao regressar, em 1899, foi transferido para o município de São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo,
onde deveria construir uma ponte sobre o rio Pardo. Lá escreveu Os sertões, obra que publicaria em 1902 e que o
consagraria no panorama cultural brasileiro.

Os sertões

Os sertões situa-se entre a literatura, a sociologia e a ciência. Trata-se de uma análise sociocultural que revelou ao
brasileiro um mundo desconhecido, de miséria absoluta. O rigor científico de Euclides da Cunha – de linha cienti-
ficista do final do século XIX, que analisa o ser humano em razão de seu ambiente –, aliado à linguagem vibrante
e pomposa, faz do livro uma fonte preciosa de informação e de expressão. Serviram de roteiro as reportagens que
Euclides da Cunha, como correspondente especial, escrevera no dia a dia da guerra de Canudos.
Armado de cultura técnico-científica, o engenheiro trouxe para Os sertões o vocabulário preciso de seu
ofício, que foi organizado em três partes – a terra, o homem e a luta – com intuito de trazer ao leitor uma visão
completa do que se passava em Canudos.
Na primeira parte, o narrador descreve a terra, palco onde foi representada a trágica peleja entre brasileiros-
-irmãos que se desconheciam e que o destino colocou no papel de antagonistas.
Na segunda parte, retrata o homem brasileiro que se defronta naquele palco: de um lado, o sertanejo resis-
tente; de outro, o militar incumbido de domá-lo. Emerge nesta parte a figura do chefe da revolta, Antônio Conse-
lheiro, o sertanejo que representava todos os combatentes/lutadores, ponto de agregação para o qual convergiam
as características da sociedade sertaneja. Nessa parte, alguns personagens secundários do sertão são trazidos à
cena: Volta-Grande, Pajeú, Pedrão, João Abade, Trança-Pés, Boca-Torta, Chico-Ema, bem como os coronéis Moreira
César e Tamarindo, o general Machado Bitencourt e muitos militares.
Na terceira parte, finalmente, desenrola-se a luta, organizada em seis episódios: Preliminares, Travessia do
comboio, Expedição Moreira César, Quarta expedição, Nova fase da luta e Últimos dias.

100
Lima Barreto

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) teve uma infância difícil em um internato, pois perdera a mãe, uma
professora, quando tinha apenas sete anos de idade.
Aos 14, ingressou no curso superior na Escola Politécnica, no Rio de Janeiro, mas precisou abandoná-lo para
cuidar do pai.
Iniciou a vida profissional como escrevente, na Secretaria de Guerra, em 1903. Dois anos mais tarde, in-
gressou no jornalismo, atuando no jornal Correio da Manhã, e na vida política, militando no Partido Operário
Independente.
Em 1909, estreou como escritor com a publicação, em Lisboa, do romance Recordações do escrivão Isaías
Caminha. Em 1911, passou a publicar no Jornal do Comércio, em forma de folhetins o romance Triste fim de Poli-
carpo Quaresma.
Foi acolhido como grande jornalista e participou das lutas esquerdistas que culminaram na greve operária
de 1917.
Dominado pelo álcool, foi internado pela primeira vez em 1914. Em 1919, recolhido novamente ao sana-
tório, escreveu Clara dos Anjos e o relato Cemitério dos vivos.
Legítimo representante do Pré-modernismo, Lima Barreto nasceu no mesmo ano em que se iniciou o Realis-
mo-Naturalismo no Brasil (1881) e morreu no mesmo ano em que se realizou a Semana de Arte Moderna (1922).

Triste fim de Policarpo Quaresma

Publicado em folhetins, em 1911, e depois em livro, em 1915, esse romance relata a vida do major Quaresma, que
trabalha como subsecretário do Arsenal de Guerra. Nacionalista exaltado, julgava-se, pelas meditações patrióticas
que fizera, em condições de lutar por reformas radicais no País.
Estudioso das tradições folclóricas, defensor do modo de vida dos índios tupinambás e admirador das mo-
dinhas populares, Quaresma considera que o povo brasileiro deveria emancipar-se.

101
O major Quaresma é visto como louco e perigoso, depois de mandar um requerimento ao Congresso Na-
cional sugerindo a adoção do tupi, língua indígena, como idioma oficial do Brasil. É suspenso temporariamente
do trabalho, depois de traduzir um ofício para a língua indígena. Declarado louco, é internado em hospício, onde
projeta reformas e mais reformas.
Apenas o amigo fiel Ricardo Coração dos Outros, um violeiro, e a afilhada do major, Olga Coleoni, acreditam
naquilo que Quaresma prega.
Ao sair do hospício, seis meses depois, resolve defender uma reforma na agricultura brasileira. O seu sítio
“Sossego” transforma-se em verdadeiro quartel-general da reforma agrária. Admirador do marechal Floriano Pei-
xoto, Quaresma atrai para si mais ódio.
Quando eclodiu a Revolta Armada, o major apoia Floriano e pretende lutar contra os rebeldes amotinados
na baía de Guanabara em defensa da ordem republicana. Enquanto isso, os amigos militares só pensam em tirar
proveito da revolta. Posteriormente, o próprio Floriano Peixoto chega a desprezar Quaresma. Já doente, quando do
fim da revolta, Quaresma é preso e mandado para a ilha das Cobras, pena imposta por ele ter redigido um protesto
em defesa dos presos. Nesse local, o personagem é injustamente fuzilado.

Monteiro Lobato

Monteiro Lobato nasceu em 18 de abril de 1882, em Taubaté, São Paulo. Foi um dos mais influentes escritores
brasileiros. Muito criticado pelo seu conservadorismo, especialmente entre os modernistas, chegando a ser conside-
rado por muitos preconceituoso, além de um crítico voraz da Semana de Arte Moderna, pois julgava o movimento
fruto de teorias meteóricas e passageiras. De alguma maneira, equivocou-se em relação ao seu vaticínio, pois anta-
gonizou aquela que foi a maior e mais importante escola literária e artística dos últimos tempos. Foi um importante
editor, criando, em 1918, a “Lobato Editora”, além de ser o criador da Literatura Infantil no Brasil. Formou-se em
Direito e atuou como promotor público. Antes de seu falecimento, em 1948, em São Paulo, Lobato também teve
uma passagem política.

Negrinha

O conto “Negrinha” apresenta as ações das personagens centradas na figura da pobre órfã adotada e aquilo
que acontece a sua volta. O conto mostra uma realidade em que a palavra negrinha, ao invés de ser um adjetivo,
tornou-se um nome próprio. Narrado em terceira pessoa, o narrador apresenta a personagem órfã desde o seu nas-

102
cimento até a sua morte. Dona Inácia é patroa de Negrinha, caracterizada pela igreja como “excelente senhora”,
uma vez que era uma mulher de muitos dotes, e que contribuía com sua riqueza regularmente com a Igreja. Daí,
a ironia na fala do reverendo dizendo que Dona Inácia era uma: “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da
religião e da moral”. Para Dona Inácia, a Negrinha era como se fosse um animal doméstico, sem direitos, apenas
sobrevivendo. Apesar disso, tudo que Dona Inácia fazia na sociedade era para construir a imagem de uma boa
senhora, mas tratava de maneira cruel a Negrinha em sua casa. Qualquer coisa era motivo para que Negrinha
apanhasse, recebesse xingamentos etc.
Um dos exemplos que marca o sadismo e crueldade da patroa é a cena em que ela pede para a Negrinha
abrir a boca e engolir um ovo recém-cozido.
Da metade para o final do conto surgem as duas sobrinhas de Dona Inácia para passar as férias de dezem-
bro. O que a princípio parecia uma coisa boa, pois pela primeira vez Negrinha pode brincar, logo se propõe uma
realidade cruel, em que fica claro que ela é adotada e, mais do que isso, sempre colocada numa situação como se
fosse um bichinho, um animal de estimação mesmo.
Quando as meninas vão embora, dado o final das férias, a vida da pobre Negrinha volta ao normal, com
os achaques da “Santa Inácia”, como ironicamente descrevia Lobato. Fato que é preponderante na narrativa, uma
vez que diante da retomada de sua solidão existencial e de sua condição zoomórfica frente ao tratamento de sua
dona, pouco tempo depois que as meninas brancas vão embora, ela morre. Seu falecimento deixa nítido que o fato
de ela adoecer, na verdade, é um grito contra o mundo, um desfile de seu desgosto. Fraca e em estado de delírio,
ela fica lembrando das brincadeiras que teve com as garotas brancas, brinquedo e bonecas.

Trecho

— Traga um ovo.
Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da
tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a
um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:
— Venha cá!
Negrinha aproximou-se.
— Abra a boca!
Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água
“pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até
que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a
perceber aquilo.

103
Aplicação dos alegado neste particular era o de mandar
com frequência escravos ao calabouço, donde

conhecimentos - Sala eles desciam a escorrer sengue; mas, além de


que ele só mandava os perversos e os fujões,
ocorre que, tendo longamente contrabandea-
1. Quem não se recorda de Aurélia Camargo, do em escravos, habituar a-se de certo modo
que atravessou o firmamento da corte como ao trato um pouco mais duro que esse gênero
brilhante meteoro, e apagou-se de repente de negócio requeria, e não se pode honesta-
no meio do deslumbramento que produzira mente atribuir à índole original de um ho-
seu fulgor? Tinha ela dezoito anos quando mem o que é puro efeito de relações sociais.
apareceu a primeira vez na sociedade. Não a A prova de que Cotrim tinha sentimentos
conheciam; e logo buscaram todos com avi- pios encontrava-se no seu amor aos filhos,
dez informações acerca da grande novidade e na dor que padeceu quando morreu Sara,
do dia. Dizia-se muita coisa que não repe- dali a alguns meses; prova irrefutável, acho
tirei agora, pois a seu tempo saberemos a eu, e não única. Era tesoureiro de uma con-
verdade, sem os comentos malévolos de que fraria, e irmão de várias irmandades, e até
usam vesti-la os noveleiros. Aurélia era órfã; irmão remido de uma destas, o que não se
tinha em sua companhia uma velha parenta, coaduna muito com a reputação de avareza;
viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a verdade é que o benefício não caíra no chão:
acompanhava na sociedade. Mas essa paren- a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-
ta não passava de mãe de encomenda, para -lhe tirar o retrato a óleo.
condescender com os escrúpulos da socieda- ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás
de brasileira, que naquele tempo não tinha Cubas. Rio de janeiro: Aguilar, 1992.
admitido ainda certa emancipação femini-
na. Guardando com a viúva as deferências Obra que inaugura o realismo na literatura
devidas à idade, a moça não declinava um brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas
instante do firme propósito de governar sua condensa uma expressividade que caracte-
casa e dirigir suas ações como entendesse. rizaria o estilo machadiano, a ironia. Des-
Constava também que Aurélia tinha um tu- crevendo a moral de seu cunhado, Cotrim,
tor; mas essa entidade era desconhecida, a o narrador-personagem Brás Cubas refina a
julgar pelo caráter da pupila, não devia exer- percepção irônica ao:
cer maior influência em sua vontade, do que a) acusar o cunhado de ser avarento para con-
a velha parenta. fessar-se injustiçado na divisão da herança
ALENCAR, J. Senhora. São Paulo: Ática, 2006.
paterna.
O romance Senhora, de José de Alencar, foi b) atribuir a “efeito de relações sociais” a natu-
publicado em 1875. No fragmento transcri- ralidade com que Cotrim pretendia e tortu-
to, a presença de D. Firmina Mascarenhas rava os escravos.
como “parenta” de Aurélia Camargo assimila c) considerar os “sentimentos pios” demons-
práticas e convenções sociais inseridas no trados pelo personagem quando da perda da
contexto do Romantismo, pois: filha Sara.
a) o trabalho ficcional do narrador desvaloriza d) menosprezar Cotrim por ser tesoureiro de
a mulher ao retratar a condição feminina na uma confraria e membro remido de várias
sociedade brasileira da época. irmandades.
b) o trabalho ficcional do narrador mascara os
e) insinuar que o cunhado era um homem vai-
hábitos sociais no enredo de seu romance.
c) as características da sociedade em que Auré- doso e egocêntrico, contemplado com o re-
lia vivia são remodeladas na imaginação do trato a óleo.
narrador romântico.
d) o narrador evidencia o cerceamento sexista TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
à autoridade da mulher, financeiramente in- Soneto
dependente. Oh! Páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!...
2. Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Co- Ardei, lembranças doces do passado!
trim, a quem não souber que ele possuía Quero rir-me de tudo que eu amava!
uma caráter ferozmente honrado. Eu mesmo
fui injusto com ele durante os anos que se E que doido que eu fui! como eu pensava
seguiram ao inventário do meu pai. Reco- Em mãe, amor de irmã! em sossegado
nheço que era um modelo. Arguiam-no de Adormecer na vida acalentado
avareza, e cuido que tinha razão; mas a ava- Pelos lábios que eu tímido beijava!
reza é apenas a exageração de uma virtude,
e as virtudes devem ser como os orçamen- Embora – é meu destino.
tos: melhor é o saldo que o deficit. Como era Em treva densa
muito seco de maneira, tinha inimigos que Dentro do peito a existência finda
chegaram a acusá-lo de bárbaro. O único fato Pressinto a morte na fatal doença!

104
A mim a solidão da noite infinda! 4. A pintura e o poema, embora sendo produ-
Possa dormir o trovador sem crença. tos de duas linguagens artísticas diferentes,
Perdoa minha mãe — eu te amo ainda! participaram do mesmo contexto social e
AZEVEDO, A. Lira dos vinte anos. São cultural de produção pelo fato de ambos:
Paulo: Martins Fontes, 1996.
a) apresentarem um retrato realista, eviden-
ciado pelo unicórnio presente na pintura e
3. A produção de Álvares de Azevedo situa-se pelos adjetivos usados no poema.
na década de 1850, período conhecido na li- b) valorizarem o excesso de enfeites na apre-
teratura brasileira como Ultrarromantismo. sentação pessoa e na variação de atitudes
Nesse poema, a força expressiva da exacer- da mulher, evidenciadas pelos adjetivos do
bação romântica identifica-se com o(a): poema.
a) amor materno, que surge como possibilidade c) apresentarem um retrato ideal de mulher
de salvação para o eu lírico. marcado pela sobriedade e o equilíbrio, evi-
b) saudosismo da infância, indicado pela men- denciados pela postura, expressão e vesti-
ção às figuras da mãe e da irmã.
menta da moça e os adjetivos usados no po-
c) construção de versos irônicos e sarcásticos,
ema.
apenas com aparência melancólica.
d) presença do tédio sentido pelo eu lírico, in- d) desprezarem o conceito medieval da idea-
dicado pelo seu desejo de dormir. lização da mulher como base da produção
e) fixação do eu lírico pela ideia da morte, o artística, evidenciado pelos adjetivos usados
que o leva a sentir um tormento constante. no poema.
e) apresentarem um retrato ideal de mulher
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO marcado pela emotividade e o conflito inte-
(Camões, 1525?-1580) rior, evidenciados pela expressão da moça e
Leda serenidade deleitosa, pelos adjetivos do poema
Que representa em terra um paraíso;
Entre rubis e perlas doce riso; TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Debaixo de ouro e neve cor-de-rosa; Texto I
Presença moderada e graciosa, Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Onde ensinando estão despejo e siso Meu Deus! não seja já;
Que se pode por arte e por aviso, Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Como por natureza, ser fermosa; Cantar o sabiá!
Meu Deus, eu sinto e bem vês que eu morro
Fala de quem a morte e a vida pende,
Respirando esse ar;
Rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
Repouso nela alegre e comedido: Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!
Estas as armas são com que me rende Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
E me cativa Amor; mas não que possa Lá na quadra infantil;
Despojar-me da glória de rendido. Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
CAMÕES, L. Obra completa. Rio de
O céu de meu Brasil!
janeiro: Nova Aguilar, 2008.
Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! Não seja já!
Eu quero ouvir cantar na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!
ABREU, C. Poetas românticos brasileiros.
São Paulo: Scipione, 1993.

Texto II
A ideologia romântica, argamassada ao longo
do século XVIII e primeira metade do século
XIX, introduziu-se em 1836. Durante quatro
decênios, imperaram o “eu”, a anarquia, o
liberalismo, o sentimentalismo, o naciona-
lismo, através da poesia, do romance, do te-
atro e do jornalismo (que fazia sua aparição
nessa época).
MOISÉS, M. A literatura brasileira através dos
textos. São Paulo: Cultrix, 1971 (fragmento).

105
5. De acordo com as considerações de Massaud
Moisés no Texto II, o Texto I centra-se: Raio X
a) no imperativo do “eu”, reforçando a ideia de
que estar longe do Brasil é uma forma de 1.
Da leitura do fragmento depreende-se que
estar bem, já que o país sufoca o eu lírico. Aurélia era uma mulher independente e que
b) no nacionalismo, reforçado pela distância da isso não era comum para a sociedade da épo-
pátria e pelo saudosismo em relação à pai- ca: “essa parenta não passava de mãe de enco-
sagem agradável onde o eu lírico vivera a menda, para condescender com os escrúpulos
infância. da sociedade brasileira, que naquele tempo
c) na liberdade formal, que se manifesta na op- não tinha admitido ainda certa emancipação
ção por versos sem métrica rigorosa e temá- feminina”.
tica voltada para o nacionalismo. Das mais nobres e raras marcas da linguagem
2.
d) no fazer anárquico, entendida a poesia como
machadiana é a sutileza, a ironia descrita por
negação do passado e da vida, seja pelas op-
sugestões, em geral, atitudes condenáveis
ções formais, seja pelos temas.
moralmente, mas descritas com polidez, ain-
e) no sentimentalismo, por meio do qual se re-
da que sórdidas, como a de torturar escravos,
força a alegria presente em oposição à infân-
martirizá-los enquanto os contrabandeava
cia, marcada pela tristeza.
em navios, àquela época, prática já proibida.
Cabe lembrar, que a fixação do eu lírico com
3.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO. relação à morte não foi motivada apenas por
motivos estéticos, mas também pelo fato do
Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgi- poeta ter contraído tuberculose ainda muito
co dos desterrados, iam todos, até mesmo os jovem, morrendo aos vinte anos, pouco an-
brasileiros, se concentrando e caindo em tris- tes de completar vinte e um. Por ter adoecido
teza; mas, de repente, o cavaquinho de Porfiro, precocemente, pouco conheceu da vida e do
acompanhado pelo violão do Firmo, romperam amor, conhecendo apenas o da mãe e da irmã.
vibrantemente com um chorado baiano. Essa fatalidade em sua vida foi registrada em
Nada mais que os primeiros acordes da música versos no único livro de poesia que deixou: A
crioula para que o sangue de toda aquela gente
Lira do Vinte Anos.
despertasse logo, como se alguém lhe fustigas-
4.
Os adjetivos “leda”, “deleitosa”, “doce”, “gra-
se o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se
ciosa”, “fermosa” e “rara” refletem a visão
outras notas, e outras, cada vez mas ardentes e
idealizada da mulher, mas sem o exagero de
mais delirantes. Já não eram dois instrumen-
emotividade característico do Romantismo.
tos que soavam, eram lúbricos gemidos e sus-
piros soltos em torrente, a correrem serpente- Ao contrário deste, a estética clássica defende
ando, como cobras numa floresta incendiada; a contenção emocional e privilegia o equilí-
eram ais convulsos, chorados em frenesi de brio e a sobriedade, características sugeridas
amor música feita de beijos e soluços gostosos; nos termos “moderada” e “suave” referindo-
carícia de fera, carícia de doer, fazendo estala -se à imagem feminina, e na expressão “ale-
de gozo. gre e comedido” com que se define o eu lírico.
AZEVEDO, A. O cortiço. São Paulo: Ática, 1983 (fragmento). Assim, é correta a opção [C].
O Romantismo, sobretudo a Primeira Geração,
5.
foi importante na construção da identidade
6. No romance O cortiço (1890), de Aluizio Aze-
nacional, porque exaltava os valores da cul-
vedo, as personagens são observadas como
tura nacional e as belezas naturais do Brasil.
elementos coletivos caracterizados por con-
O poema de Casimiro de Abreu expressa os
dicionantes de origem social, sexo e etnia.
anseios do eu lírico em rever a sua pátria dis-
Na passagem transcrita, o confronto entre
brasileiros e portugueses revela prevalência tante (“... dá-me de novo/ os gozos do meu
do lar”, “quero ouvir.../ cantar o sabiá”), num
elemento brasileiro, pois: manifesto apelo saudosista de uma infância
a) destaca o nome de personagens brasileiras e vivida numa paisagem idealizada (“sítios
omite o de personagens portuguesas. gentis”, “O céu do meu Brasil”).
b) exalta a força do cenário natural brasileiro e No excerto de O Cortiço, de Aluísio de Azeve-
6.
considera o do português inexpressivo. do, descreve-se a mudança de postura do gru-
c) mostra o poder envolvente da música brasi- po que se reunia para ouvir o som melancóli-
leira, que cala o fado português. co do cavaquinho de Porfiro e que, de repente,
d) destaca o sentimentalismo brasileiro, con- é surpreendido pelo ritmo vibrante do violão
trário à tristeza dos portugueses. de Firmo. A nostalgia do fado é substituída
e) atribui aos brasileiros uma habilidade maior pelo som envolvente e pleno de luxúria de
com instrumentos musicais. um chorado baiano que contagia o grupo.

106
Gabarito
1. D 2. B 3. E 4. C 5. B
6. C

107
Prescrição: Para resolver os exercícios dessa aula, será necessário estabelecer relações entre um texto literário
e o momento em que foi produzido; analisar os procedimentos de construção do texto literário, associando-os
à forma como os artistas de determinadas geração concebem a arte; e refletir sobre como os valores sociais e
humanos presentes na cultura do lugar em que vive são integrados ao patrimônio literário nacional.

Prática dos TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

“Ele era o inimigo do rei”, nas palavras de


conhecimentos - E.O. seu biógrafo, Lira Neto. Ou, ainda, “um ro-
mancista que colecionava desafetos, azucri-
nava D. Pedro II e acabou inventando o Bra-
TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO sil”. Assim era José de Alencar (1829-1877),
o conhecido autor de O guarani e Iracema,
Texto I tido como o pai do romance no Brasil. Além
Ouvia: de criar clássicos da literatura brasileira
Que não podia odiar
com temas nativistas, indianistas e históri-
E nem temer
cos, ele foi também folhetinista, diretor de
Porque tu eras eu.
jornal, autor de peças de teatro, advogado,
E como seria
deputado federal e até ministro da Justiça.
Odiar a mim mesma
Para ajudar na descoberta das múltiplas fa-
E a mim mesma temer.
cetas desse personagem do século XIX, parte
HILST, H. Cantares. São Paulo: Globo, 2004 (fragmento).
de seu acervo inédito será digitalizada.
História Viva, n. 99, 2011.
Texto II
Transforma-se o amador na cousa amada 2. Com base no texto, que trata do papel do es-
Transforma-se o amador na cousa amada, critor José de Alencar e da futura digitaliza-
por virtude do muito imaginar;
ção de sua obra, depreende-se que:
não tenho, logo, mais que desejar,
a) a digitalização dos textos é importante para que
pois em mim tenho a parte desejada.
os leitores possam compreender seus romances.
Camões. Sonetos. Disponível em: http://www.
jornaldepoesia.jor.br. Acesso em: 03 set. 2010 (fragmento).
b) o conhecido autor de O guarani e Iracema foi
importante porque deixou uma vasta obra
literária com temática atemporal.
1. Nesses fragmentos de poemas de Hilda Hilst c) a divulgação das obras de José de Alencar,
e de Camões, a temática comum é: por meio da digitalização, demonstra sua im-
a) o “outro” transformado no próprio eu lírico, portância para a história do Brasil Imperial.
o que se realiza por meio de uma espécie de d) a digitalização dos textos de José de Alencar
fusão de dois seres em um só. terá importante papel na preservação da me-
b) a fusão do “outro” com o eu lírico, havendo, mória linguística e da identidade nacional.
nos versos de Hilda Hilst, a afirmação do eu e) o grande romancista José de Alencar é im-
lírico de que odeia a si mesmo. portante porque se destacou por sua temáti-
c) o “outro” que se confunde com o eu líri- ca indianista.
co, verificando-se, porém, nos versos de Ca-
mões, certa resistência do ser amado. 3. O mulato
d) a dissociação entre o “outro” e o eu lírico, Ana Rosa cresceu; aprendera de cor a gramá-
porque o ódio ou o amor se produzem no tica do Sotero dos Reis; lera alguma coisa;
imaginário, sem a realização concreta. sabia rudimentos de francês e tocava modi-
e) o “outro” que se associa ao eu lírico, sendo nhas sentimentais ao violão e ao piano. Não
tratados, nos Textos I e II, respectivamente, era estúpida; tinha a intuição perfeita da
o ódio o amor. virtude, um modo bonito, e por vezes lamen-
tara não ser mais instruída. Conhecia muitos
trabalhos de agulha; bordava como poucas, e
dispunha de uma gargantazinha de contralto
que fazia gosto de ouvir.

108
Uma só palavra boiava à superfície dos seus Em cismar – sozinho, a noite –
pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia, Mais prazer eu encontro la;
transformando-se em tenebrosa nuvem, que
escondia todo o seu passado. Ideia parasita, Minha terra tem palmeiras
que estrangulava todas as outras ideias. Onde canta o Sabiá.
— Mulato! Não permita Deus que eu morra,
Esta só palavra explicava-lhe agora todos Sem que eu volte para lá;
os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade
do Maranhão usara para com ele. Explicava Sem que desfrute os primores
tudo: a frieza de certas famílias a quem vi- Que não encontro por cá;
sitara; as reticências dos que lhe falavam de Sem qu’inda aviste as palmeiras
seus antepassados; a reserva e a cautela dos Onde canta o Sabiá.
que, em sua presença, discutiam questões de DIAS, G. Poesia e prosa completas. Rio
raça e de sangue. de Janeiro: Aguilar, 1998.
AZEVEDO, A. O Mulato. São Paulo: Ática, 1996 (fragmento).
TEXTO II
O texto de Aluísio Azevedo é representativo Canto de regresso à Pátria
do Naturalismo, vigente no final do século
XIX. Nesse fragmento, o narrador expressa Minha terra tem palmares
fidelidade ao discurso naturalista, pois: Onde gorjeia o mar
a) relaciona a posição social a padrões de com- Os passarinhos daqui
portamento e à condição de raça. Não cantam como os de lá
b) apresenta os homens e as mulheres melhores Minha terra tem mais rosas
do que eram no século XIX. E quase tem mais amores
c) mostra a pouca cultura feminina e a distri- Minha terra tem mais ouro
buição de saberes entre homens e mulheres. Minha terra tem mais terra
d) ilustra os diferentes modos que um indiví-
Ouro terra amor e rosas
duo tinha de ascender socialmente.
Eu quero tudo de lá
e) critica a educação oferecida às mulheres e os
Não permita
maus-tratos dispensados aos negros.
Deus que eu morra
Sem que volte para lá
4. São características das obras do Classicismo:
a) o individualismo, a subjetividade, a idealiza- Não permita Deus que eu morra
ção, o sentimento exacerbado. Sem que volte pra São Paulo
b) o egocentrismo, a interação da natureza com Sem que eu veja a rua 15
o eu, as formas perfeitas. E o progresso de São Paulo
c) o contraste entre o grotesco e o sublime, a ANDRADE, O. Cadernos de poesia do aluno
valorização da natureza, o escapismo. Oswald. São Paulo: Círculo do Livro. s/d.
d) a observação da realidade, a valorização do
eu, a perfeição da natureza. 5. Os textos I e II, escritos em contextos históri-
e) a retomada da mitologia pagã, a pureza das cos e culturais diversos, enfocam o mesmo mo-
formas, a busca da perfeição estética. tivo poético: a paisagem brasileira entrevista a
distância. Analisando-os, conclui-se que:
TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO a) o ufanismo, atitude de quem se orgulha ex-
cessivamente do país em que nasceu, e o
TEXTO I tom de que se revestem os dois textos.
Canção do exílio b) a exaltação da natureza é a principal carac-
Minha terra tem palmeiras, terística do texto B, que valoriza a paisagem
Onde canta o Sabiá; tropical realçada no texto A.
As aves, que aqui gorjeiam, c) o texto B aborda o tema da nação, como o
Não gorjeiam como lá. texto A, mas sem perder a visão crítica da
realidade brasileira.
Nosso céu tem mais estrelas, d) o texto B, em oposição ao texto A, revela
Nossas várzeas tem mais flores, distanciamento geográfico do poeta em rela-
Nossos bosques tem mais vida, ção à pátria.
Nossa vida mais amores. e) ambos os textos apresentam ironicamente a
paisagem brasileira.
[...]

Minha terra tem primores,


Que tais não encontro eu cá;

109
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO e não queria línguas estrangeiras em casa,
o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a
Pobre Isaura! Sempre e em toda parte esta necessidade de ter criados brancos. Rubião
contínua importunação de senhores e de es- cedeu com pena. O seu bom pajem, que ele
cravos, que não a deixam sossegar um só mo- queria por na sala, como um pedaço da pro-
mento! Como não devia viver aflito e atribu- víncia, nem o pode deixar na cozinha, onde
lado aquele coração! Dentro de casa contava reinava um francês, Jean; foi degradado a
ela quatro inimigos, cada qual mais porfiado outros serviços.
em roubar-lhe a paz da alma, e torturar-lhe ASSIS, M. Quincas Borba. In: Obra completa. V.1.
o coração: três amantes, Leôncio, Belchior, e Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993 (fragmento).
André, e uma êmula terrível e desapiedada,
Rosa. Fácil lhe fora repelir as importunações
e insolências dos escravos e criados; mas que 7. Quincas Borba situa-se entre as obras-pri-
seria dela, quando viesse o senhor?!... mas do autor e da literatura brasileira. No
GUIMARÃES, B. A escrava Isaura. São fragmento apresentado, a peculiaridade do
Paulo: Ática, 1995 (adaptado). texto que garante a universalização de sua
abordagem reside:
6. A personagem Isaura, como afirma o títu- a) no conflito entre o passado pobre e o pre-
lo do romance, era uma escrava. No trecho sente rico, que simboliza o triunfo da apa-
apresentado, os sofrimentos por que passa a rência sobre a essência.
protagonista: b) no sentimento de nostalgia do passado de-
vido à substituição da mão de obra escrava
a) assemelham-se aos das demais escravas do país,
pela dos imigrantes.
o que indica o estilo realista da abordagem do
c) na referência a Fausto e Mefistófeles, que re-
tema da escravidão pelo autor do romance.
presentam o desejo de eternização de Rubião.
b) demonstram que, historicamente, os proble-
d) na admiração dos metais por parte de Rubião,
mas vividos pelas escravas brasileiras, como
que metaforicamente representam a durabili-
Isaura, eram mais de ordem sentimental do
dade dos bens produzidos pelo trabalho.
que física.
e) na resistência de Rubião aos criados estrangei-
c) diferem dos que atormentavam as demais
ros, que reproduz o sentimento de xenofobia.
escravas do Brasil do século XIX, o que reve-
la o caráter idealista da abordagem do tema
TEXTOS PARA AS PRÓXIMAS DUAS QUESTÕES
pelo autor do romance.
d) indicam que, quando o assunto era o amor, as CANTIGA
escravas brasileiras, de acordo com a aborda- Vi chorar uns claros olhos
gem lírica do tema pelo autor, eram tratadas Quando deles me partia.
como as demais mulheres da sociedade. Oh! que mágoa! Oh! que alegria
e) revelam a condição degradante das mulhe-
res escravas no Brasil, que, como Isaura, VOLTAS
de acordo com a denúncia feita pelo autor, (...)
eram importunadas e torturadas fisicamente
pelos seus senhores. O bem que Amor me não deu,
No tempo que o desejei,
Quando dele me apartei,
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Me confessou que era meu.
Agora que farei eu,
Capítulo III Se a fortuna me desvia
Um criado trouxe o café. Rubião pegou na De lograr esta alegria?
xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia dis- (Camões – Lírica)
farçadamente mirando a bandeja, que era de
prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais Mudando andei costume, terra e estado,
que amava de coração; não gostava de bron- Por ver se se mudava a sorte dura;
ze, mas o amigo Palha disse-lhe que era ma- A vida pus nas mãos de um leve lenho.
téria de preço, e assim se explica este par de Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado,
figuras que aqui está na sala: um Mefistófe- Já sei que deste meu buscar ventura
les e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, Achado tenho já que não a tenho.
escolheria a bandeja, – primor de argenta- (Camões – Lírica)
ria, execução fina e acabada. O criado espe-
rava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem
resistência que Rubião o aceitou das mãos de
Cristiano; por mais que lhe dissesse que es-
tava acostumado aos seus crioulos de Minas,

110
8. A partir da leitura dos dois fragmentos, assi- que está em redor de mim, a mulher
nale a afirmativa inaceitável. que me acolhe com seus braços
a) Há diversidade formal e temática na lírica de e me oferece o que há de mais íntimo,
Camões, devido à sua relação tanto com a tra- a sua pérola e sonho à madrugada.
dição popular quanto com a cultura clássica. GARCIA, José Godoy. Poesia. Brasília:
b) Nos dois textos encontramos a ação do des- Thesaurus, 1999. p. 153.
tino se opondo à felicidade do poeta.
c) A expressão “fortuna”, do primeiro fragmen-
1
0. Nos poemas transcritos, a representação da
to, é equivalente, no plano semântico, à ex-
figura feminina se assemelha por apresentar:
pressão “ventura”, do segundo.
a) a sensualidade da mulher metaforizada pe-
d) A forma do primeiro fragmento expressa a
los elementos da natureza.
relação entre a lírica de Camões e a tradição
b) a idealização de uma mulher única enfatiza-
poética medieval peninsular.
da pela fidelidade do eu lírico.
e) O terceiro verso do segundo fragmento é
c) o distanciamento da mulher exemplificado
uma metáfora clara da instabilidade da vida
por sua indiferença aos apelos do eu lírico.
do poeta. 167
d) a simplicidade da mulher evidenciada por
suas qualidades morais.
9. Em relação aos textos anteriores, SÓ SE PODE e) o exotismo da mulher emoldurado pela des-
AFIRMAR que: crição de um cenário idílico.
a) o amor realizado é o tema do primeiro poe-
ma, e a harmonia entre o poeta e o mundo é A questão a seguir toma por base um frag-
o tema do segundo. mento de Glória moribunda, do poeta ro-
b) as expressões “oh que alegria” e “achado te- mântico brasileiro Álvares de Azevedo
nho já” mostram que, finalmente, o poeta (1831-1852).
encontra a harmonia.
c) as expressões “me partia” e “me apartei”, É uma visão medonha uma caveira?
no primeiro fragmento, são equivalentes, no Não tremas de pavor, ergue-a do lodo.
plano semântico. Foi a cabeça ardente de um poeta,
d) a forma do segundo fragmento expressa a Outrora à sombra dos cabelos loiros.
relação entre a lírica de Camões e o trovado- Quando o reflexo do viver fogoso
rismo medieval. Ali dentro animava o pensamento,
e) o verso “me confessou que era meu” indica Esta fronte era bela. Aqui nas faces
que o poeta encontrou a felicidade. Formosa palidez cobria o rosto;
Nessas órbitas — ocas, denegridas! —
Leia os poemas apresentados a seguir. Como era puro seu olhar sombrio!
Agora tudo é cinza. Resta apenas
MALVA-MAÇÃ A caveira que a alma em si guardava,
A P... Como a concha no mar encerra a pérola,
De teus seios tão mimosos Como a caçoula a mirra incandescente.
Quem gozasse o talismã! Tu outrora talvez desses-lhe um beijo;
Quem ali deitasse a fronte Por que repugnas levantá-la agora?
Cheia de amoroso afã! Olha-a comigo! Que espaçosa fronte!
E quem nele respirasse Quanta vida ali dentro fermentava,
A tua malva-maçã! Como a seiva nos ramos do arvoredo!
Dá-me essa folha cheirosa E a sede em fogo das ideias vivas
Que treme no seio teu! Onde está? onde foi? Essa alma errante
Dá-me a folha… hei de beijá-la Que um dia no viver passou cantando,
Sedenta no lábio meu! Como canta na treva um vagabundo,
Não vês que o calor do seio Perdeu-se acaso no sombrio vento,
Tua malva emurcheceu... Como noturna lâmpada apagou-se?
[...] E a centelha da vida, o eletrismo
AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. In: Que as fibras tremulantes agitava
Obra completa. Organização de Alexei Bueno. Morreu para animar futuras vidas?
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. p. 269.
Sorris? eu sou um louco. As utopias,
Há uma flor que está em redor de mim, Os sonhos da ciência nada valem.
uma flor que nasce nos cabelos da aurora A vida é um escárnio sem sentido,
e desce sobre as águas e os ombros Comédia infame que ensanguenta o lodo.
de todos nós. Não, não quero amar Há talvez um segredo que ela esconde;
senão a natureza quando ela se abre Mas esse a morte o sabe e o não revela.
como uma flor e suas corolas à madrugada; Os túmulos são mudos como o vácuo.
eu não quero amar, senão a mulher Desde a primeira dor sobre um cadáver,

111
Quando a primeira mãe entre soluços – Beija-me também, Paulo. Beija-me como
Do filho morto os membros apertava beijarás um dia tua noiva! Oh! agora posso
Ao ofegante seio, o peito humano te confessar sem receio. Nesta hora não se
Caiu tremendo interrogando o túmulo... mente. Eu te amei desde o momento em que
E a terra sepulcral não respondia. te vi! Eu te amei por séculos nestes poucos
(Poesias completas, 1962.) dias que passamos juntos na terra. Agora que
a minha vida se conta por instantes, amo-te
em cada momento por uma existência intei-
11. No verso Morreu para animar futuras vidas?, ra. Amo-te ao mesmo tempo com todas as
sob forma interrogativa, o eu lírico sugere afeições que se pode ter neste mundo.
com o termo animar que: Vou te amar enfim por toda a eternidade.
a) a morte de uma pessoa deve ser festejada A voz desfaleceu completamente, de extenu-
pelos que ficam. ada que ela ficara por esse enérgico esforço.
b) o verdadeiro objetivo da morte é demonstrar Eu chorava de bruços sobre o travesseiro, e
o desvalor da vida. as suas palavras suspiravam docemente em
c) a vida do poeta é mais consistente e anima- minha alma, como as dulias dos anjos devem
da que todas as outras. ressoar aos espíritos celestes.
d) a alma que habitou o corpo talvez possa re- ALENCAR, José de. Lucíola. Rio de
encarnar em novo corpo. Janeiro: Ática, 1992. p. 124-126.
e) outras pessoas passam a viver melhor quan-
do um homem morre. 1
2. Representada por personagens de uma obra
do estilo romântico, a cena retratada no tex-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO to deixa entrever a:
a) necessidade do apego à vida para viver ape-
O texto a seguir foi retirado do último capí- nas o momento.
tulo do romance Lucíola, de José de Alencar. b) intensidade de um amor que transcende o
Nele, o romancista narra os momentos finais plano físico.
vividos pela heroína, ao lado de Paulo, c) descrição da natureza associada aos personagens.
o seu amado. d) necessidade de não fugir à realidade para vi-
ver um grande amor.
De joelhos à cabeceira eu suplicava-lhe que e) visão maniqueísta da vida, declarada pela heroína.
bebesse o remédio que a devia salvar.
(...)
13. “A sociedade, no meio da qual me eduquei,
O dia se passou na cruel agonia que só com-
fez de mim um homem à sua feição. Habi-
preendem aqueles que ajoelhados à borda de
tuei-me a considerar a riqueza como a pri-
um leito viram finar-se gradualmente uma
meira força viva da existência e os exemplos
vida querida.
ensinavam-me que o casamento era meio
Quebrado de fadiga e vencido por uma vigília tão legítimo de adquiri-la, como a herança e
de tantas noites, tinha insensivelmente ador- qualquer honesta especulação.”
mecido, sentado como estava à beira da cama, No enredo de SENHORA, tal como se depre-
com os lábios sobre a mão gelada de Lúcia e ende do trecho transcrito, há uma aproxima-
a testa apoiada no encosto do leito. O sono ção entre casamento e:
foi curto, povoado de sonhos horríveis; acor- a) recomendações divulgadas pela igreja.
dei sobressaltado e achei-me reclinado sobre b) normas impostas aos escravos.
o peito de Lúcia, que se sentara de encontro c) costumes copiados dos indígenas.
às 251 almofadas para suster minha cabeça ao d) leis do tempo da colônia.
colo, como faria uma terna mãe com seu filho. e) práticas da organização social burguesa.
Mesmo adormecido ela me sorria, me falava,
e cobria-me de beijos:
14. Tanto na prosa de José de Alencar quanto na
– Se soubesses que gozo supremo é para mim
poesia de Gonçalves Dias, a figura do índio é
beijar-te neste momento! Agora que o corpo
caracterizada:
está morto e a carne álgida, não sente nem a
a) com os atributos da honradez de um cavalei-
dor nem o prazer, é a minha alma só que te
ro medieval.
beija, que se une à tua e se desprende par-
b) enquanto um herói pagão movido pelas for-
cela por parcela para embeber em teu seio.
ças da natureza.
E seus lábios ávidos devoravam-me o ros-
c) como uma mescla de ingenuidade e violência
to de carícias, bebendo o pranto que corria
incontrolável.
abundante de meus olhos:
d) por meio de uma fiel descrição de seus valo-
Se alguma coisa me pudesse salvar ainda, se-
res naturais.
ria esse bálsamo celeste, meu amigo!
Eu soluçava como uma criança.

112
e) da mesma forma como o representava An- vezes gemendo – mas obedecia sem dizer
chieta em suas peças. palavra, ou, quando muito, um – “ai, nho-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO nhô!” – ao que eu retorquia: “Cala a boca,
besta!” – Esconder os chapéus das visitas,
Ultimamente ando de novo intrigado com o deitar rabos de papel a pessoas graves, pu-
enigma de Capitu. Teria ela traído mesmo o xar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões
nos braços das matronas, e outras muitas fa-
marido, ou tudo não passou de imaginação
çanhas deste jaez, eram mostras de um gê-
dele, como narrador? Reli mais uma vez o ro- nio indócil, mas devo crer que eram também
mance e não cheguei a nenhuma conclusão. expressões de um espírito robusto, porque
Um mistério que o autor deixou para a pos- meu pai tinha-me em grande admiração; e
teridade. se às vezes me repreendia, à vista de gente,
(Fernando Sabino, O bom ladrão.) fazia-o por simples formalidade: em particu-
lar dava-me beijos.
15. No texto de Sabino, o narrador questiona a Não se conclua daqui que eu levasse todo o
traição de Capitu. Lendo o texto de Machado, resto da minha vida a quebrar a cabeça dos
pode-se entender que esse questionamento outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas
decorre de: opiniático, egoísta e algo contemptor dos
homens, isso fui; se não passei o tempo a
a) os fatos serem narrados pela visão de uma esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes
personagem, no caso, o narrador em primei- puxei pelo rabicho das cabeleiras.
ra pessoa, que fornece ao leitor o perfil psi-
(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.)
cológico de Capitu.
b) a personagem ser vista por José Dias como 16. É correto afirmar que:
“oblíqua e dissimulada”, o que gerou mal- a) se trata basicamente de um texto naturalis-
-estar no apaixonado de Capitu, deixando de ta, fundado no Determinismo.
vê-la como uma mulher de encantos. b) o texto revela um juízo crítico do contexto
c) a apresentação da personagem Capitu ser escravista da época.
feita no romance de maneira muito objetiva, c) o narrador se apresenta bastante sisudo e
amargo, bem ao gosto machadiano.
sem expressão dos sentimentos que a vincu-
d) o texto apresenta papéis sociais ambíguos
lavam ao homem que a amava. das personagens em foco.
d) os aspectos psicológicos de Capitu serem e) os comportamentos desumanos do narrador
apresentados apenas pelos comentários de são sutilmente desnudados.
José Dias, o que lhe torna a caracterização
muito subjetiva. 17. No texto a seguir, Machado de Assis faz uma
e) o amado de Capitu não conseguir enxergar crítica ao Romantismo: Certo não lhe falta
nela características mais precisas e menos imaginação; mas esta tem suas regras, o as-
misteriosas, o que o faz descrevê-la de forma tro, leis, e se há casos em que eles rompem
bastante idealizada. as leis e as regras é porque as fazem novas,
é porque se chama Shakespeare, Dante, Go-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO ethe, Camões.
Com base nesse texto, notamos que o autor:
(...) Um poeta dizia que o menino é o pai do a) preocupa-se com princípios estéticos e acre-
homem. Se isto é verdade, vejamos alguns dita que a criação literária deve decorrer de
lineamentos do menino. uma elaborada produção dos autores.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha b) refuga o Romantismo, na medida em que os
autores desse período reivindicaram uma es-
de “menino diabo”; e verdadeiramente não
tética oposta à clássica.
era outra coisa; fui dos mais malignos do c) entende a arte como um conjunto de prin-
meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e cípios estéticos consagrados, que não pode
voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei ser manipulado por movimentos literários
a cabeça de uma escrava, porque me nega- específicos.
ra uma colher do doce de coco que estava d) defende a ideia de que cada movimento lite-
fazendo, e, não contente com o malefício, rário deve ter um programa estético rígido e
deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não inviolável.
satisfeito da travessura, fui dizer à minha e) entende que Naturalismo e o Parnasianismo
mãe que a escrava é que estragara o doce constituem soluções ideais para pôr termo à
“por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. falta de invenção dos românticos.
Prudêncio, um moleque de casa, era o meu
cavalo de todos os dias; punha as mãos no
chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa
de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma
varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas
a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas

113
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS DUAS QUESTÕES TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

Tinha-me lembrado a definição que José Antes de concluir este capítulo, fui à jane-
Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e la indagar da noite por que razão os sonhos
dissimulada”. hão de ser assim tão tênues que se esgarçam
Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimu- ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo,
lada sabia, e queria ver se se podiam chamar e não continuam mais. A noite não me res-
assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. pondeu logo. Estava deliciosamente bela, os
Só me perguntava o que era, se nunca os morros palejavam de luar e o espaço morria
vira; eu nada achei extraordinário; a cor e de silêncio. Como eu insistisse, declarou-
a doçura eram minhas conhecidas. A demo- -me que os sonhos já não pertencem à sua
ra da contemplação creio que lhe deu outra jurisdição. Quando eles moravam na ilha
ideia do meu intento; imaginou que era um que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu
pretexto para mirá-los mais de perto, com palácio, e donde os fazia sair com as suas
os meus olhos longos, constantes, enfiados caras de vária feição, dar-me-ia explicações
neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar possíveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os
crescidos, crescidos e sombrios, com tal ex- sonhos antigos foram aposentados, e os mo-
pressão que... dernos moram no cérebro da pessoa. Estes,
Retórica dos namorados, dá-me uma compa- ainda que quisessem imitar os outros, não
ração exata e poética para dizer o que foram poderiam fazê-lo; a ilha dos Sonhos, como
aqueles olhos de Capitu. Não me acode ima- a dos Amores, como todas as ilhas de todos
gem capaz de dizer, sem quebra da dignida- os mares, são agora objeto da ambição e da
de do estilo, o que eles foram e me fizeram. rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.
Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me Machado de Assis - D. Casmurro palejavam: tornavam pálidos
dá ideia daquela feição nova. Traziam não
sei que fluido misterioso e enérgico, uma
força que arrastava para dentro, como a vaga 2
0. Assinale a alternativa correta sobre “D. Cas-
que se retira da praia, nos dias de ressaca. murro.”
(Machado de Assis, Dom Casmurro.)
a) A linguagem concisa e objetiva do autor são
recursos usados a fim de não prejudicar o
1
8. Para o narrador, os olhos de Capitu eram desenvolvimento linear da narrativa.
“olhos de ressaca, como a vaga que se retira b) O aproveitamento da mitologia segue o prin-
da praia, nos dias de ressaca”. cípio da mimese (“imitação”) de tradição
Entende-se, então, que ele: clássico-renascentista.
a) começava a nutrir sentimento de repulsa em c) A idealização da natureza é prova da influ-
relação a ela, como está sugerido em [seus ência que o Romantismo exerceu sobre o es-
olhos] “entrassem a ficar crescidos, cresci- tilo machadiano.
dos e sombrios, com tal expressão que...” d) A crítica ao determinismo cientificista é ín-
b) se sentia fortemente atraído por ela, como dice do estilo naturalista de Machado de Assis.
comprova o trecho: “Traziam não sei que e) A digressão permite ao narrador interromper
fluido misterioso e enérgico, uma força que o fluxo narrativo para tecer comentários crí-
arrastava para dentro...” ticos em tom irônico.
c) passou a desconfiar da sinceridade dela, como
está exposto em: “mas dissimulada sabia, e 21. (...) desde que Jerônimo propendeu para ela,
queria ver se se podiam chamar assim.” fascinando-a com a sua tranquila seriedade
d) começava a vê-la como uma mulher comum, de animal bom e forte, o sangue da mestiça
sem atrativos especiais, como demonstra o reclamou os seus direitos de apuração, e Rita
trecho: “eu nada achei extraordinário...” preferiu no europeu o macho de raça superior.
e) deixava de vê-la como uma mulher enig- O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às im-
mática, como está sugerido em: “Olhos de posições mesológicas, enfarava a esposa, sua
ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia congênere, e queria a mulata, porque
daquela feição nova.” a mulata era o prazer, a volúpia,
era o fruto dourado e acre destes sertões
19. Ao afirmar que Capitu tinha olhos de “cigana americanos, onde a alma de Jerônimo apren-
oblíqua”, José Dias a vê como uma mulher: deu lascívias de macaco e onde seu corpo po-
a) irresistível. rejou o cheiro sensual dos bodes.
b) inconveniente. (Aluísio Azevedo, O Cortiço)
c) compreensiva.
d) evasiva.
e) irônica.

114
Tendo em vista as características naturalis-
tas e cientificistas, sobretudo do Determinis-
mo, que predominam no romance O cortiço,
o trecho (assinale o item não pertinente):
a) explicita a personagem que age de acordo
com os impulsos característicos de sua raça.
b) põe em evidência o zoomorfismo, em que se
destacam os elementos instintivos de prazer,
sensualidade e desejo.
c) faz alusão à competição entre os mais fortes
(europeus) e os mais fracos (brasileiros).
d) ressalta o homem sucumbindo aos fatores
preponderantes do meio.
e) condena veladamente o sexo e defende indi-
retamente os princípios morais.

22. Assinale a alternativa que contém a afirma-


ção correta sobre o Naturalismo no Brasil.
a) O Naturalismo usou elementos da natureza sel-
vagem do Brasil do século XIX para defender
teses sobre os defeitos da cultura primitiva.
b) A valorização da natureza rude verificada
nos poetas árcades se prolonga na visão na-
turalista do século XIX, que toma a natureza
decadente dos cortiços para provar os male-
fícios da mestiçagem.
c) O Naturalismo no Brasil esteve sempre ligado
à beleza das paisagens das cidades e do inte-
rior do Brasil.
d) O Naturalismo, por seus princípios cientí-
ficos, considerava as narrativas literárias
exemplos de demonstração de teses e ideias
sobre a sociedade e o homem.
e) O Naturalismo do século XIX no Brasil difun-
diu na literatura uma linguagem científica e
hermética, fazendo com que os textos literá-
rios fossem lidos apenas por intelectuais.

Gabarito
1. A 2. D 3. A 4. E 5. C 6. C
7. A 8. C 9. C 10. A 11. D 12. B
13. E 14. A 15. A 16. B 17. A 18. B
19. D 20. E 21. E 22. D

115
116
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Aulas 3 e 4

Competência 1
Habilidade 1

BREVIÁRIO

Modernismo – primeira geração

Contexto histórico
Na década de 1920, com a imigração e a industrialização, as cidades brasileiras passaram a crescer e antigos há-
bitos começaram a se alterar: o consumismo, importado da Europa e dos Estados Unidos, bem como o surgimento
de novos produtos culturais (cinema e rádio) canalizavam o gosto da classe média. Nessa época, o Brasil possuía
uma população de 37 milhões de habitantes, dos quais 70% viviam na zona rural. As cidades do Rio de Janeiro
(capital federal na época) e São Paulo (metrópole do café) passavam por grandes reformas urbanas com abertura
de avenidas, cinemas, teatros, confeitarias e grandes edifícios. O ano de 1922, quando se realizou a Semana de
Arte Moderna, também foi marcado pelo Centenário da Independência, pela fundação do Partido Comunista do
Brasil e pela Revolução dos Tenentes, que explodiu em julho, com a sublevação do Clube Militar e a tomada do
Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. O forte foi bombardeado por navios e 18 revoltosos enfrentaram três mil
soldados legalistas.

A Semana de Arte Moderna

Do mesmo modo que as cidades passavam por reformas, a arte brasileira se remodelava, pelo repúdio ao acade-
micismo da pintura tradicional. Já em 1913, Lasar Segall (1891-1957) capitaneou uma grande exposição de arte
moderna, que provocou a mentalidade conservadora de São Paulo.

Aldeia russa. Óleo sobre tela, 62,5 x 80,5 cm. 1912. Lasar Segall.

119
Em 1917, foi a vez de Anita Malfatti (1889-1964), que organizou a exposição de 53 trabalhos, entre pintu-
ras, aquarelas, caricaturas e gravuras, provocando violenta repercussão pela imprensa – o escritor Monteiro Lobato
(1882-1942) publicou contra ela o artigo denominado “Paranoia ou mistificação”, em 1917.
A escultura brasileira também se desenvolveu nessa década, com a volta de Victor Brecheret, da Itália,
em 1920.

Ritmo [torso]. 1915–1916. Anita Malfatti. Di Cavalcanti


Em 1922, realizou-se a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, cujo escândalo causado foi uma situação
simétrica à insurreição dos tenentes. Entre os principais participantes do grupo que organizou a Semana estava
Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Realizada na cidade de São Paulo, no período de 11 a 17 de fevereiro de
1922, a Semana de Arte Moderna desencadeou o início do Modernismo brasileiro e teve como participantes os es-
critores Graça Aranha, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Ronald de Carvalho, Guilherme
de Almeida, Sérgio Milliet e outros. Representaram as artes plásticas os artistas Anita Malfati, John Graz, Vicente
de Rego Monteiro, Di Cavalcante, Victor Brecheret, Yan de Almeida Prado, entre outros. Os nomes relacionados à
música foram Villa-Lobos, Paulina D’Ambrósio, Guiomar Novaes e Maria Emma.
Foram três noites de um festival eclético, híbrido, quando diferentes tendências da modernidade artística co-
existiram – desde os mais identificados com a vanguarda surrealista até os herdeiros do Decadentismo-Simbolismo
europeu: houve defensores do Futurismo e do Cubismo. Mas o que se evidenciou foi o espírito moderno, cujo
maior entusiasta foi Graça Aranha, que havia aderido aos jovens artistas de São Paulo. A conferência de abertura
da Semana foi de sua autoria: a emoção estética na arte moderna. Nela, criticou duramente a Academia Brasileira
de Letras pelo seu passadismo e por seu conservadorismo, causando reações de vaias e protestos.
A grande noite da Semana foi a segunda, que ocorreu no dia 15 de fevereiro. Menotti Del Picchia discursou
a respeito de arte e estética, ilustrando sua exposição com textos de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Plínio
Salgado. No entanto, foi Ronald de Carvalho quem causou o maior escândalo, ao declamar o poema “Os sapos”,
de Manuel Bandeira, que não pôde estar presente. O público respondia ao refrão de seus versos: “Foi! Não foi! Foi!
Não foi!”. Esse poema era um ataque aos parnasianos.
Na noite do dia 17 de fevereiro, totalmente dedicada à música, o compositor Heitor Villa-Lobos, de casaca
e chinelos, também causou incidentes na plateia. Entretanto, essa não era uma atitude futurista, mas sim um pro-
blema no pé do músico.
lguns jornais chegaram a noticiar que as agitações da Semana de Arte Moderna foram provocadas por
seus realizadores. Se não se pode negar totalmente tal assertiva, também não se pode afirmá-la. Nesse sentido, a
Semana cumpriu o papel proposto de “sacudir as águas estagnadas da arte brasileira”.

120
Após a Semana

O balanço da Semana de Arte Moderna foi positivo. Seus desdobramentos iniciaram-se no próprio ano de 1922.
O projeto mais arrojado foi o lançamento do livro de poemas Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade, em que
expõe todos os seus projetos de vanguarda pela primeira vez: a poesia urbana, sintética, antirromântica, frag-
mentária. Com isso, ele quis retratar a São Paulo cosmopolita, egoísta, burguesa. Na abertura do livro, o Prefácio
interessantíssimo pode ser classificado como um verdadeiro manifesto irônico sobre a estética modernista. Leia
alguns trechos:
Leitor: Está fundado o Desvairismo [...]
Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contacto com o futurismo. Oswald de
Andrade, chamando-me de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse. Tal
foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me
pesaria entrar na obscuridade. Pensei que se discutiram minhas ideias (que nem são minhas): discutiram minhas
intenções. Já agora não me calo. Tanto ridicularizaram meu silêncio como esta grita. Andarei a vida de braços no
ar, como o “indiferente” de Watteau.
A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer empecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que, somada a Li-
rismo, dá Poesia, não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisá-lo das pedras e cercas de
arame do caminho. Deixe que tropece, caia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas,
de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos. Belo da arte: arbitrário, convencional,
transitório – questão de moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural – tem a eternidade que a natureza
tiver. Arte não consegue reproduzir a natureza, nem este é seu fim. Todos os grandes artistas, ora consciente (Rafael
das Madonas, Rodin do Balzac, Beethoven da Pastoral, Machado de Assis de Brás Cubas), ora inconscientemente
(a grande maioria), foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico, tanto mais subjetivo quanto
mais se afastar do belo natural. Outros infiram o que quiserem.
Pouco me importa.
E está acabada a escola poética “Desvairismo”
Eu não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para a vaidade de um só
(Mário de Andrade. Pauliceia desvairada. 1922.)

Jovens artistas conseguiram bons espaços ainda em 1922, dando sequência a seus trabalhos. Oswald de
Andrade lançou no mesmo ano o romance Os condenados, cuja narrativa fragmentária assimilava-se a um “mos-
trar” cinematográfico. Sedimentou-se a carreira do maestro Heitor Villa-Lobos, após sua mostra na Semana. Outros
participantes divulgaram-na por todo o País e mesmo fora: Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida, Sérgio
Milliet.

Características
Poemas-piada e irreverência

A descontração foi uma grande marca da literatura que se fez no primeiro tempo modernista. Muita ironia, sarcas-
mo e irreverência caracterizam os poemas-piada, que satirizavam costumes passadistas e velhas escolas literárias.
Ao lado disso, a enumeração caótica de ideais, a simultaneidade de cenas (trechos inteiros sem pontuação, versos
descontínuos, elípticos), bem como a subversão das regras gramaticais.
Tentava-se, desse modo, buscar a espontaneidade do discurso e levar em conta a linguagem dita inculta,
com “erros de português” estrategicamente cometidos. Foi o caso de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e
Manuel Bandeira, que pretendiam “arejar” a literatura brasileira de tantas roupagens aristocráticas que ela vestia.

121
Erro de Português
Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Oswald de Andrade

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio


Para melhor dizem mio
Para pior pio
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados
Oswald de Andrade

Paródia e literatura popular

A paródia serviu de base para a criatividade linguística e foi recurso para os escritores incorporarem criticamente
o passado, dando início ao processo artístico modernista. O poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, por
exemplo, foi parodiado por Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes.

Canto de regresso à pátria

Minha terra tem palmares


Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
[...]
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
Oswald de Andrade

122
Canção do exílio

Minha terra tem macieiras da Califórnia


onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
[...]
Murilo Mendes

Verso livre e fala popular

Na poesia, a aproximação da fala popular foi possível pela utilização do verso livre. Poetas importantes como Ma-
nuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade trouxeram a linguagem comum ou coloquial das cidades.
O romance e o conto desenvolvidos no primeiro tempo modernista procuraram, na medida do possível,
reproduzir a linguagem do povo – como também trabalhar temas populares.
A utilização de formas da oralidade foi a marca dessa literatura: a fala italianada dos personagens de Alcân-
tara Machado, os neologismos dos narradores de Oswald de Andrade, a língua brasileira de Mário de Andrade etc.

Evocação do Recife
[...]
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da união onde eu brincava de chicote-queimado
[...]
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
Mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!
[...]
Manuel Bandeira

123
Mário de Andrade

Mário, por Tarsila.

O paulistano Mário de Andrade (1893-1945) não foi um estudante exemplar. Levava a escola com notas baixas,
reprovações e recriminações. Mas a música foi o seu ponto forte, Em 1911, matriculado no Conservatório Dramá-
tico e Musical de São Paulo, passava quase nove horas por dia estudando. E, no resto do tempo, lia tudo o que lhe
caísse às mãos, logo adquirindo fama de erudito, apesar de os estudos regulares irem mal.

Cédula de 500 mil cruzeiros homenageando Mário de Andrade (140 x 65 mm).


Em 1917, mesmo ano da morte de seu pai, concluiu o curso de piano no Conservatório. Passou a sobreviver
das inúmeras aulas particulares de piano que ministrava. E, frequentador assíduo das rodas literárias, no chá das
cinco na Confeitaria Vienense, conheceu Oswald de Andrade e Anita Malfatti, de quem se tornaria amigo insepa-
rável. Também desse ano é o seu livro de estreia literária: Há uma gota de sangue em cada poema. Mas é com
Pauliceia desvairada que vem o sucesso, tornando-se o livro de poemas uma espécie de bandeira do movimento
modernista, pelo liberalismo formal da obra rompida com qualquer esquema tradicional: versos livres, métrica
informal, subversão total de valores anteriormente apregoados pelos poetas perfeccionistas, como os parnasianos.
É de Pauliceia desvairada este poema. Nele, a associação livre de ideias mais os versos aparentemente desconexos
contribuem para a imagem do “desvairismo” e da “polifonia” que o poeta quer transmitir:

Inspiração
São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
Mário de Andrade

124
Com O losango cáqui e Lira paulistana, Mário de Andrade obedece ao fluxo do inconsciente, fazendo asso-
ciação livre sobre temas do cotidiano.
A obra ficcional de Mário de Andrade, por sua vez, revela um escritor preocupado com técnicas narrativas
vanguardistas, além da incorporação das expressões autenticamente brasileiras – o que imprime ao conjunto uma
originalidade sem precedentes.
Em Amar, verbo intransitivo, descreve a vida burguesa de São Paulo, “desmascarando seus ridículos e seus
preconceitos”, como ensina João Luiz Lafetá.
Mas é com Macunaíma, o herói sem nenhum caráter que Mário de Andrade produz sua obra-prima em ma-
téria ficcional. Uma combinatória das lendas indígenas transpostas para a área metropolitana (São Paulo), mais a
justaposição de trechos em colagem, anedotas populares, incorporação de mitos, fazem dessa obra uma rapsódia,
aludindo a esse processo de composição (justaposição) semelhante à forma musical de mesmo nome. No livro
Remate de males, publicado em 1930, Mário de Andrade reúne diversas composições em vários estilos, escritas
durante os anos 1920, desde o vanguardismo até a lírica equilibrada e contida, passando pelo nacionalismo. Este
poema é extraído dessa obra e alude a essa diversidade de linguagem e modos de ser.

Eu sou trezentos...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,


As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
Mário de Andrade

Macunaíma

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, romance de 1928, foi batizado por Mário de Andrade como rapsódia, um
tipo de composição feita a partir dos cantos tradicionais ou populares.
Fruto de longos estudos de Mário acerca da mitologia indígena e do folclore sul-americano, é uma narrativa
de estrutura inovadora. Logo de início, são apresentados o herói, Macunaíma, sua mãe e seus irmãos, Maanape e
Jiquê, índios tapanhumas, que vivem às margens do rio Uraricoera. Essa situação inicial é rompida com a morte da
mãe. Os irmãos partem da terra natal em busca de aventuras.
Macunaíma encontra Ci, a Mãe do Mato, rainha das icamiabas, tribo de amazonas. Depois de dominá-la,
faz dela sua mulher e torna-se imperador do Mato-Virgem. Ci dá à luz um filho, que morre. Ela também falece,
em seguida, transformando-se em estrela. Antes de morrer, ela dá um amuleto a Macunaíma: é a muiraquitã, uma
pedra verde em forma de sáurio.
Macunaíma perde o amuleto, que vai parar nas mãos de Venceslau Pietro Pietra, um mascate peruano,
conhecido como o Gigante Piaimã, comedor de gente. O gigante mora em São Paulo, a cidade macota (a maior)
do igarapé Tietê.

125
Macunaíma e seus irmãos descem o rio Araguaia em direção à cidade macota, a fim de recuperar o amuleto.
A maior parte da narrativa se passa em São Paulo e consiste nos diversos embates entre Macunaíma e o
gigante. Muitos aspectos da vida paulistana são aí satirizados. Inicia-se, então, seu antagonismo com Vei, a deusa-
-sol, que oferecerá ao herói uma de suas três filhas em casamento.
Entretanto, Macunaíma deixa-se seduzir por uma varina (vendedora ambulante) portuguesa e começa a
namorá-la, perdendo a possibilidade de se casar com uma das filhas de Vei.
Macunaíma consegue matar Piaimã e recuperar a muiraquitã, partindo de volta ao Uraricoera.
Por fim, Vei se vinga. Ela manda um forte calor, que estimula a sensualidade do herói e o lança nos braços
de uma uiara (mãe-d’ água) traiçoeira, que o mutila e o faz perder para sempre a muiraquitã.
No final, quando o herói já não “acha graça nesta terra”, foi para o Céu, ser a constelação Ursa Maior.

O batizado de Macunaíma. Óleo sobre tela, 132,5 x 250 cm. 1956. Tarsila do Amaral.

Capítulo I

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite.
Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhu-
mas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam
a falar exclamava:
– Ai! que preguiça!...
[...]

Oswald de Andrade

126
José Oswald de Sousa Andrade (1890-1954) viveu em Paris, de 1912 a 1917, onde foi influenciado pelas ideias
futuristas.
A participação ativa dele na Semana de Arte Moderna de 1922 é seguida de uma segunda viagem à Europa.
De personalidade polêmica, Oswald de Andrade foi responsável por vários manifestos, entre eles o “Mani-
festo antropófago” e o “Manifesto pau-brasil” (1924). Foi casado com a pintora Tarsila do Amaral e, posteriormen-
te, com Patrícia Galvão.
Pondo fim aos modelos poéticos importados, cuja qualidade estava na grandiloquência e na seriedade,
Oswald de Andrade partiu para a paródia, a linguagem coloquial, o humor – tendo como eixo a temática brasileira.
É realmente sem fórmulas que se deve encarar a poesia oswaldiana – já que ele mesmo apontou o caminho:
ver as coisas com os olhos livres. No primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, segundo Haroldo de
Campos, “o Poeta senta a poesia no banco da escola primária para restituir-se e restituir-lhe a pureza da descober-
ta infantil”, que se percebe, por exemplo, na composição “Infância” transcrita a seguir:

O camisolão
O jarro
O passarinho
O oceano
A visita na asa que a gente sentava no sofá.

Em 1924, Oswald de Andrade, sempre sob a égide de renovação, publicou Memórias sentimentais de João
Miramar, romance visto por muitos como a primeira grande realização da prosa modernista. A montagem fragmen-
tária, cujo único eixo é o personagem João Miramar, inaugurava o que ficou conhecido como a “estética do frag-
mentário”, ou seja, uma técnica de montagem de texto em blocos, sem sequência do discurso, sugerindo, portanto,
também uma realidade não linear. Rompia, pois, com os esquemas mais tradicionais da narrativa, impossibilitando
uma leitura linear da história.
A esse respeito, comenta Jorge Schwartz: “Uma série de incentivos traços de estilo combinada a um agudo
senso crítico da sociedade da época fazem desse texto uma grande obra de vanguarda”.
No dia 1º de abril de 1930, casou-se com Patricia Galvão (Pagu), numa cerimônia pouco convencional. O
acontecimento foi simbólico, realizado no Cemitério da Consolação, em São Paulo. Mais tarde, retrataram-se na
igreja. Escreve “A casa e a língua”, em defesa da arquitetura de Warchavchik. Nasce seu filho Rudá Poronominare
Galvão de Andrade, com a escritora Patrícia Galvão (Pagu). É preso pela polícia do Rio de Janeiro por ameaçar o
antigo amigo, poeta Olegário Mariano.
O “Manifesto antropófago” foi publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, em maio de
1928. Trazia o desenho de Tarsila do Amaral conhecido como “Abaporu”, que seria pintado em tela sobre óleo, em
1929.
O nome da tela em ‘tupi-guarani’ tem o mesmo significado de “antropófago”, ou seja, “que come carne
humana”.
A ideia do manifesto era essa: deglutir a cultura vinda de fora e desenvolvê-la com a cor brasileira. Sendo
a antropofagia um relevante aspecto da cultura histórica brasileira, no século XVI colonial, esse costume de ca-
nibalismo consistia em devorar somente os inimigos mais inteligentes, os melhores guerreiros, com o objetivo de
aproveitar suas virtudes.
Os modernistas criticam a absorção de uma cultura europeia sem digeri-la, como foi o caso de movimentos
culturais do passado. A proposta do manifesto era conseguir essa digestão.

127
Trecho do Manifesto antropófago

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.


Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos.
De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma
mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

Manuel Bandeira

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968) foi educado para a arquitetura, tanto é que, em 1903, ma-
triculou-se na Escola Politécnica de São Paulo. Mas, apanhado pela tuberculose, abandonou os estudos para tentar
a cura da doença. Por isso, a participação de Manuel Bandeira na Semana de Arte Moderna foi indireta; como já
explicado, ocorreu por meio do poema “Os sapos”, declamado por Ronald de Carvalho em meio a vaias.
Em 1940, Manuel Bandeira foi convidado para concorrer à Academia Brasileira de Letras. Eleito, hesitou,
mas tomou posse. A partir de 1943, lecionou literatura hispano-americana na Faculdade Nacional de Filosofia. Fez
várias traduções, escreveu para jornal e rádio. Produziu intensamente. Ao completar 80 anos, em 1966, publicou
Estrela da vida inteira.
Poeta do coloquial e do prosaico, seu trabalho com a linguagem, no sentido de buscar sempre o estritamen-
te necessário para a comunicação, tem como resultado uma poesia que caminha para o despojamento, desde sua
estreia em 1917, com Cinza das horas.
Em Carnaval, explica Sérgio Buarque de Holanda: “sua voz faz-se satirizante com Os sapos, poema que seria
uma espécie de hino nacional dos modernistas”. O prosaísmo de Bandeira começa a emergir com mais frequência
em Ritmo dissoluto (1924). Mas é com Libertinagem (1930) que se pode ver a consolidação de sua poesia com
a ideia de liberdade estética. Libertinagem é composta de poemas prosaicos, com temática existencial e grande
exploração de cenas e imagens brasileiras.
Bandeira rompeu tradições poéticas, introduzindo o coloquialismo na poesia, tornando-se arauto do verso
livre, alçando o cotidiano ao plano estético, mas não renegou heranças valiosas, como a dos românticos em sua
extensa obra poética.
Poética, poema publicado em Libertinagem, funciona como um verdadeiro manifesto da estética libertada.

128
Poética

Estou farto do lirismo comedido


Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de
[apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um
[vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante exemplar com cem
[modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
(Manuel Bandeira)

Modernismo – segunda geração

Contexto histórico
Compreendida, aproximadamente, entre os anos 1930 e 1945, essa fase reflete um momento histórico conturbado
no plano internacional: o avanço do nazifascismo e da Segunda Guerra Mundial.
No plano interno, Getúlio Vargas consolida-se como ditador, decretando o Estado Novo, em 1937.
A produção literária, rica em prosa e em poesia, incorpora preocupações relativas a problemas sociais bra-
sileiros e à angústia de sobreviver em um momento limite da humanidade.
O último ano da década de 1920 foi marcado por um evento crítico na economia mundial conhecido como
crack na bolsa de Nova Iork. As quedas dos índices econômicos repercutiram em todos os países ocidentais, em 1929.
O desastre financeiro estadunidense provocou recessão e miséria, tomando o lugar do crescimento que,
mesmo desorganizado, até então havia predominado. Teve início a “Grande Depressão”, que atingiu todo o mundo
capitalista. Um ano depois, a Revolução de 1930 – ditadura de Getúlio Vargas (1882-1954) – encontrou o Brasil
economicamente desorganizado e o pânico foi instalado entre os produtores de café.

129
A queda dos preços das matérias-primas, dos produtos agrícolas e das exportações europeias aos Estados Uni-
dos provocou a quebra de numerosos bancos e o fechamento de empresas na Europa e na América. As exportações
de café brasileiro caíram drasticamente, uma vez que os estadunidenses eram os maiores compradores do produto.
A Aliança Nacional Libertadora (ANL), frente ampla dos comunistas contra o fascismo no Brasil, criada
por Luís Carlos Prestes, em 1935, provocou comoção social no País. O governo de Vargas, acusado de fascismo e
apoiado pelo Exército, esmagou o que se conheceu por Revolta Vermelha.
O Estado Novo – ditadura de Vargas – promulgou uma nova Constituição da República, desta vez muito
mais dura e intransigente. A polícia varguista e seu departamento de censura (DIP) passaram a “examinar” toda
a produção artística.
O início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, colocou a máquina nazista em ação. O Brasil posicionou-se,
por força da inclinação fascista de Getúlio, ao lado dos italianos e alemães. Só mais tarde, é que abandonaria o
Eixo e apoiaria os aliados.
Nessa segunda fase do Modernismo, a literatura tornou-se mais engajada e politizada, reproduzindo, nos
anos 1930 a 1945, a difícil realidade gerada pela crise mundial e pela ditadura que se instalou no Brasil a partir de
outubro de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder.
Cada autor dessa geração modernista passou a refletir sobre essa época de agonia à sua maneira. Na prosa,
uma literatura regionalista, que realçou a região focalizando problemas sociais, apareceu fortemente ao lado de
uma literatura urbana, muito intimista, em que a narrativa se construiu por registro de atmosferas.
A poesia enveredou para a crítica social e para o entendimento das relações conturbadas do homem com o
universo. A poesia produzida nos anos 1930, mais madura e mais comprometida socialmente, é a expressão de um
momento difícil e pelo qual o Brasil passava: a ditadura de Getúlio Vargas.
Os poetas da geração de 1930 tiveram grande preocupação social. A necessidade de compreender o mundo
transformado pela guerra e pelas crises sucessivas fez com que eles procurassem uma interpretação da realidade,
tentando entender o dinamismo das relações dos homens com o universo que habitam. Assim, por exemplo, a
poesia de Drummond e de Murilo Mendes analisa o destino do ser humano como um todo. Essa visão abrangente
do homem também aparece na produção de Cecília Meireles e de Vinícius de Moraes.

Poesia

Características da poesia da geração de 1930


A poesia dos anos 1930 colhe os frutos da derrubada de mitos e padrões preestabelecidos instaurados em 1922.
Os poemas sem rima ou sem métrica, que tratam de temas cotidianos, aproximam-se da prosa. O lirismo
livremente atrasado, a descrição de momentos e acontecimentos simultâneos, a fusão de elementos diversos pas-
sam a ter lugar na produção poética.
§§ Incorporações das conquistas formais anteriores: as propostas de liberdade formal da geração an-
terior foram incorporadas: o verso livre, a liberdade de pontuação, a superação da linguagem linear. A
liberdade formal também admite a opção até mesmo pelo formalismo. Coexistem poemas quase prosaicos
com outros de forma fixa ou com rimas.
§§ Poesia de engajamento social: surge uma poesia de denúncia e de combate, em face dos acontecimen-
tos da humanidade, que caminha para o confronto e a guerra. A preocupação com o mundo transformado,
desconcertante e com o ser humano como um todo marcam forte presença nessa produção de engajamento
social.
§§ Poesia intimista: ao lado da poesia social, é possível encontrar também uma poesia intimista, voltada
para a espiritualidade e para a reflexão amorosa, como é o caso de Vinícius de Moraes e Cecília Meireles.

130
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), farmacêutico que não exerceu a profissão, foi funcionário público
durante toda a vida, vivendo no Rio de Janeiro e se dedicando à poesia e à crônica. Considerado o maior repre-
sentante brasileiro da poesia do século XX, Drummond encabeça a lista de poetas dos anos 1930, com a linha
poética que vai do poema-piada do primeiro Modernismo à década de 1980, passando por diversos momentos,
compreendendo várias fases, notadamente à época da Segunda Guerra Mundial (década de 1940), quando o seu
momento lírico é excepcional.
Em 1928, com a publicação do poema “No meio do caminho”, na Revista de Antropofagia, o discreto poeta
mineiro provocou um escândalo. Mas a obra de estreia é Alguma poesia, de 1930. Desse tempo até sua morte, a
vasta produção poética compreendeu muitos títulos, entre os quais: Brejo das Almas; Sentimento do mundo; A rosa
do povo; Claro enigma; Viola de bolso; Fazendeiro do ar; A vida passada a limpo; Lição de coisas; Obra completa;
Versiprosa; José & outros; Bolero & A falta que ama; Menino antigo; As impurezas do branco; Amor, amores; A vi-
sita; Discurso de primavera & Algumas sombras; Esquecer para lembrar; A paixão medida; Corpo; Amar se aprende
amando; Amor, sinal estranho; Poesia errante; O amor natural.
Nos anos 1980, sua obra seria descoberta por outros artistas e outras linguagens. Argumentos de filmes são
baseados em poemas seus, a exemplo de “O padre e a moça”, de Joaquim Pedro de Andrade. Versos seus foram
temas de escola de samba, como o Sonho de um sonho, vencedor do concurso de sambas-enredo do carnaval
carioca de 1980. Sua produção em prosa também se destaca. Entre outros títulos podem ser citadas as crônicas de
Confissões de Minas e os Contos de aprendiz.
Em Drummond, podem-se distinguir várias linhas poéticas.
1. A poesia saudosista da família e da terra natal, refletida em vários poemas, como se vê no exemplo ex-
traído de Algumas poesias, seu primeiro livro.

Infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

2. A poesia intimista do “eu retorcido”, que aponta no poeta uma percepção da realidade da forma

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autêntica e cruel, como neste poema, extraído de Sentimento do mundo.

Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás,
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
[...]
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

3. A poesia de participação social encontrada especialmente na coletânea Rosa do povo.

Nosso tempo
Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens perdem carne. Fogo. Sapato.
As leis não bastam,
Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
[...]
Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
Obscenos gestos avulsos.

4. A poesia metafísica, com reflexões sobre a essencialidade humana, na tentativa de compreender profun-
damente a realidade. O exemplo extraído de Claro enigma é ilustrativo.

Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,

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amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos virados, amar?
[...]
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
[...]

5. O poema-objeto, sintético e telegráfico, à moda dos primeiros futuristas. A enumeração caótica e a


extrema economia de palavras predominam nessa linha, que pode ser exemplificada com o trecho extraído
de Lição de coisas.

Isso é aquilo
O fácil o fóssil
o míssil o físsil
a arte o enfarte
o ocre o canopo
a urna o farniente
a foice o fascículo
a lex o judex
o maiô o avô
a ave o mocotó
o só o sambaqui[...]

Murilo Mendes

O mineiro Murilo Mendes (1901-1975) inicia seus estudos na terra natal, vai estudar no Internato do Colé-
gio Salesiano em Niterói, RJ. Em 1920, muda-se para o Rio de Janeiro, onde participa do Movimento Antropofágico.
Estreia na literatura escrevendo para duas revistas do modernismo, Terra Roxa e Outras Terras e Antropofagia.
Permaneceu no Rio até 1953 como funcionário público: inicialmente no Ministério da Fazenda, depois no Banco
Mercantil e, a seguir, em cartório. Em 1930, lança seu primeiro livro Poemas. A poesia da geração de 30 teve

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grande preocupação social, analisa o destino do ser humano como um todo. Em 1932, escreve o poema História
do Brasil. Em 1934, desenvolve temas religiosos e, com Jorge de Lima, escreve Tempos e eternidade, publicado em
1935. Emprega-se como telegrafista e depois como auxiliar de guarda-livros. Em 1936, assume o cargo de inspetor
federal de ensino. Em 1938, escreve A poesia em pânico. Em 1944, a prosa O discípulo de Emaús. Trabalhou no
Ministério da Fazenda e no Cartório da Quarta Vara de Família. Casa-se com Maria da Saudade de Cortesão. O
casal não teve filhos. Em 1948, escreve Janela do caos. Em 1953, foi convidado para lecionar Literatura Brasileira,
em Lisboa. De 1953 a 1955, percorreu diversos países da Europa, divulgando, em conferências, a cultura brasileira.
Em 1957, estabeleceu-se em Roma, onde lecionou Literatura Brasileira.
Murilo Monteiro Mendes faleceu em Estoril, Portugal, no dia 13 de agosto de 1975. Sensível à moderni-
dade, Murilo Mendes renovou incessantemente sua arte de compor, superando formas tradicionais. O cotidiano é
constante em toda a sua obra, seja desarticulando-o e recriando-o, seja no plano social como em “Tempo e eterni-
dade”. Com O visionário passa a romper com esses esquemas. O poema “Choro do poeta atual”, presente nessa
obra, pode exemplificar essa “novidade da imagem”:

Deram-me um corpo, só um!


Para suportar calado
Tantas almas desunidas
Que esbarram umas nas outras,
De tantas idades diversas;
Uma nasceu muito antes
De eu aparecer no mundo,
Outra nasceu com este corpo,
Outra está nascendo agora,
[...]

Nos seus livros principais, A poesia em pânico, As metamorfoses e Poesia liberdade, Murilo Mendes objetiva
sua perplexidade em face de um mundo desconjuntado.

Cecília Meireles

Desde cedo, Cecília Meireles (1901-1964) voltou-se para a leitura: essa paixão encaminhou-a para o magistério.
Começou a lecionar em 1919, na Escola Normal. Poetisa desde a década de 1920, o legado de Cecília Meireles é
extenso, prosseguindo até a década de 1960. Cecília esteve em vários países, divulgando tanto a literatura quanto
o folclore brasileiro. Lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro e teve intensa atividade jornalística.

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A poesia de Cecília Meireles deixou transparecer, desde 1919, quando estreou com a obra Espectros, a
predominância do misticismo: ou por meio de uma procura de Deus, ou por meio da nostalgia do além.
Dentre seus livros destacam-se: Viagem; Vaga música; Mar absoluto; Retrato natural; Doze noturnos de
Holanda; Romanceiro da Inconfidência; Metal rosicler; Solombra. A obra Ou isto ou aquilo tornou-se um clássico da
poesia infantil. A delicadeza no tratamento temático é aspecto notável em Viagem, como se pode detectar neste
trecho do poema:

Serenata
Repara na canção tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.
O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva
[...]

Já se comentou que Cecília Meireles domina muito bem os elementos etéreos e que sua poesia é povoada
de fantasia, numa diluição (proposital) de formas, sons e cores. Isso se confirma com “Vaga música”, cujo título
sugere a indefinição, a imprecisão. Em “Chorinho”, o texto é simples, musical, redondo.

Chorinho de clarineta,
de clarineta de prata,
na úmida noite de lua.
Desce o rio de água preta.
E a perdida serenata
na água trêmula flutua.
Palavra desnecessária;
Um leve sopro revela
Tudo que é medo e ternura
[...]
Ai, choro de clarineta!
Ai, clarineta de prata!
Ai, noite úmida de lua...

Em “Retrato natural”, acentua-se a tendência para os versos populares – notadamente as redondilhas –, o


que a situa entre os consagrados poetas tradicionais lusitanos, como no poema “Cantata matinal”, transcrito a seguir:

Veio a luz alvorada


e brilhou nas palmeiras
que eram pura esmeralda.
Vão-se nuvens de aurora,
e só ficam as palhas
e os espinhos das rosas!
“Doze noturnos de Holanda”, “Canções” e “Metal rosicler” atestam uma poesia que guarda a mesma essên-
cia, embora as obras diferenciem-se entre si: conjeturas e tentativas de compreensão sobre a difícil tarefa de existir.

135
Essa predominância ‘em Cecília Meireles’ pode ser detectada por meio de seus “instantâneos”, que captam
ora uma cena do cotidiano ou uma paisagem, ora a formosura de uma flor ou a majestade da natureza. Tudo no
afã de mostrar a transitoriedade da vida ou os momentos tensos da percepção de que tudo é breve e efêmero.
Os livros Viagem, publicado em 1936, e Vaga música, publicado em 1942, apresentam poemas com focos
nos elementos mais simples da existência, os quais adquirem significação simbólica.
A partir de Viagem, e depois em Vaga música, Cecília foi alcunhada de “poetisa da fugacidade, da precarie-
dade e do provisório”, aspectos que marcam a noção de fluidez em vários dos elementos da natureza que surgem
ao longo de sua poesia.
Mesmo depois de se afastar do Neossimbolismo do início de sua carreira, seus poemas ainda se relacionam
com fantasia, sonhos, solidão, padecimento e melancolia.
“Recordação” e “Modinha” são poemas extraídos de Vaga música. Poesia intimista, espiritualista, está
ligada à música vaga pelo tipo de indefinição que a caracteriza. Trata-se de um lirismo que habita os domínios da
fantasia leve e diluída do Simbolismo.

Recordação

Agora, o cheiro áspero das flores


leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.
Eram assim teus cabelos;
tuas pestanas eram assim, finas e curvas.
As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exalação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.
E as borboletas sem voz
dançavam assim veludosamente.
Restitui-te na minha memória, por dentro das flores!
Deixa virem teus olhos, como besouro de ônix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha,
– e incompreensíveis, incompreensíveis.

Modinha

Tuas palavras antigas,


deixei-as todas, deixei-as,
junto com as minhas cantigas,
desenhadas nas areias.

Tantos sóis e tantas luas


brilham sobre essas linhas,
das cantigas – que eram tuas –
das palavras – que eram minhas!
O mar, de língua sonora,
sabe o presente e o passado

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Canta o que é meu, vai-se embora:
que o resto é pouco e apagado

Prosa

Jorge amado
Foi na cidade de Itabuna, na Bahia, que nasceu o escritor Jorge Amado de Faria, em 1912. Mas, com um ano de
idade, mudou-se para Ilhéus. Em 1931, estreou com O país do carnaval. Formou-se em Direito pela Faculdade Na-
cional, no Rio de Janeiro, em 1935. Em seguida, em 1936 e 1937, foi perseguido e preso como comunista. Exilou-se
na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942; já em 1945, foi eleito deputado federal para a Assembleia Nacional
Constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro. Devido ao seu partido ser considerado ilegal, perdeu o mandato no
ano seguinte. Jorge Amado criou a lei que garante o direito à liberdade de culto religioso. No seu segundo casa-
mento, casou-se com Zélia Gattai, que foi sua companheira até o fim da vida.
Quando se exilou na França, entre 1947 e 1950, foi expulso. Entre 1950 e 1952, viveu na Tchecoslováquia.
Em 1955, deixou a militância política, mas manteve-se no PCB. Passou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Em
1961, ocupou a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras. No dia 6 de agosto de 2001, Jorge Amado faleceu
em Salvador.

Capitães da areia

Pela leitura de Capitães da areia, pode-se perceber porque a obra faz parte da segunda fase do Modernismo, no
chamado romance regionalista do Nordeste: a visão crítica dos meninos de rua de Salvador abandonados pelas
autoridades, vista no romance como opressoras e violentas. Essa força do social fez de Jorge Amado um regiona-
lista nordestino e não meramente pelas descrições de cenário, tão comuns no romance mencionado, que parecem
transformar a vida dura dos meninos em poesia popular.
Os costumes baianos estão presentes em grande parte do livro, principalmente no que se refere às crenças

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religiosas de origem africana. O candomblé, com sua força estranha na fé das populações mais pobres do País, está
presente em vários momentos, marcando o regionalismo baiano do autor, que divulga através de seus romances a
cultura da Bahia e a sua cultura, já que também foi pai-de-santo.

Temas e principais conflitos

Apresenta-se fortemente engajado na denúncia social que marcou a segunda fase moderna. Essa obra é carac-
terizada pela crítica como um depoimento lírico. Assim como certos episódios marcantes do romance, o cenário é
descrito na maneira lírica, cuja intenção evidente é envolver o leitor. Todos esses pequenos heróis populares não
revelam traumas causados pela sociedade e o mundo que os cerca. Sem Pernas odeia tudo e todos, pois desconhe-
ce o carinho materno. Tem final trágico e é consequência de sua maneira pessimista de enxergar o mundo que o
cerca e a falta do futuro feliz.
Já Pirulito acha na religião não apenas uma crença, mas uma maneira de fugir de seu destino trágico através
de sua fé, que é um subterfúgio para o sofrimento diário. Ligado à injustiça que cometeram contra sua mãe, está o
ódio de Volta Seca. Não é o abandono que ele quer vingar, mas o sofrimento que causaram à sua mãe. Sua ligação
com Lampião completa esse quadro de ódio e vingança.
Já o professor não consegue pintar ou desenhar belos cenários, pois o cenário que o cerca é de dor e de sofrimento.
Por outro lado, o problema não está nos meninos que formam o grupo dos capitães da areia, mas sim na
sociedade que os percebe como marginais incorrigíveis, crianças que parecem ter a criminalidade dentro delas. São
só meninos obrigados a ter atitudes de homens para sobreviver na luta diária da cidade grande, para não morrerem
de fome ou frio nas esquinas de Salvador. São meninos que apanham e sofrem torturas nas delegacias de polícia e
nos reformatórios, massacrados por homens adultos ou mais traumatizados do que eles mesmos. São meninos que
perderam a infância e a inocência, jogados diretamente nas garras da violência, da bebida, do cigarro e do sexo
muito antes da hora certa.
Por causa da estrutura simples ou da linguagem fácil, Capitães da areia pode não prender, mas pelo
menos consegue envolver pelo tema dos meninos abandonados e de sua luta pela sobrevivência. Certamente,
Capitães da areia será agradável e mostrará para o leitor mais jovem os problemas ainda presentes e frequentes
no dia a dia das grandes cidades brasileiras.

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Graciliano Ramos

Em 1892, Graciliano Ramos chega ao mundo na cidade de Quebrangulo (AL). Com sua família morou em diversas
cidades do interior de Alagoas e Pernambuco. Graciliano gostava de contar histórias para os frequentadores da
venda do pai.
Tornou-se prefeito de Palmeira dos Índios (AL), em 1827. Em 1933, estreou com a publicação de Caetés. Em
1936, foi preso em Maceió como comunista e foi levado para o Rio de Janeiro. Lá, não recebeu acusação formal
ou julgamento e, por isso, sofreu diversas privações que abalaram sua saúde. Nessa época, escreveu a obra que
denunciou os abusos da ditadura de Vargas: Memórias do cárcere (1953). Filiou-se ao Partido Comunista, depois de
solto. Graciliano manteve-se fiel ao cenário regional do Nordeste, permaneceu no Rio de Janeiro, mas nunca des-
creveu qualquer paisagem da cidade durante dezessete anos. Depois de descobrir que estava com câncer, chegou
a operar-se em Buenos Aires, mas morreu em 1953, vitima da doença.

Vidas secas

Vidas secas é um romance exponencial dentro do chamado regionalismo nordestino, cujos romances intentam denun-
ciar os problemas vividos pelo homem nordestino ao retratar os males sociais e a situação de miséria e exploração vivi-
da pelo sertanejo por causa da seca, do coronelismo ou do declínio da lavoura canavieira, compondo um painel crítico
da realidade nordestina. A valorização da crítica social no romance regionalista retoma o Realismo, que procurou a seu
tempo a realidade social do século XIX. Dessa forma, pode-se afirmar que os romances regionalistas são neorrealistas.
Vidas secas também pode ser classificado como romance de tensão crítica, uma vez que o herói resiste às pressões
da natureza e do meio social, sem formular ideologias explícitas. Fabiano resiste à luta contra o meio (a seca), ainda
que não consiga superá-lo. A valorização temática e a linguística fazem de Vidas secas um romance regionalista de
tendência neorrealista, ainda que ultrapasse essa concepção, como pode-se ver a seguir.

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A seca do agreste e a seca existencial

Os retirantes - Portinari

A estrutura da obra pode ser vista como um conjunto de contos ou como um agrupamento de capítulos de um
romance em que a principal temática é a seca, principal fonte das preocupações das personagens, que lutam contra
o meio agreste e buscam sobreviver a qualquer custo, o que reflete em seus corpos e em sua alma.
A natureza é o enfoque do mundo da aparência, que prepara o desvendar do mundo ilusório, alcançando
o universal através do particular. O mundo interior das personagens de Vidas secas recria o mundo exterior, que é
seco, vazio de saídas ou possibilidades.
Isso justifica o título, que aproxima o adjetivo secas do substantivo vidas aparentemente de maneira indevida.

Outros temas:
§§ A problemática da marginalização social;
§§ Opressão versus submissão;
§§ A incomunicabilidade e a incompreensão nas relações familiares;
§§ A desumanização das personagens;
§§ A importância do homem diante da seca;
§§ A revolta contra as injustiças;
§§ A solidão.

Organização e estrutura

Obra aberta ou o romance desmontável

Os capítulos da obra Vidas secas compõem um conto individualizado. A construção do romance é feita como qua-
dros destacados, nos quais os fatos se arranjam sem se integrarem aparentemente uns com os outros.
Essa forma parece um mundo que não se compreende e se capta apenas por manifestações isoladas.
Por causa disso, que não há um final determinado, o que caracteriza uma obra aberta na concepção de
Umberto Eco. Rubem Braga apresenta outro ponto de vista interessante sobre o romance, que o classifica como
um romance desmontável, por causa da independência entre os capítulos, que se assemelham a pequenos contos.
Não há ação nesse romance, não de acordo com a definição das teorias narrativas. O caráter psicológico da
narrativa conduz o leitor mais para dentro das personagens do que um enredo. O fio narrativo é formado por alguns
fatos e pensamentos das personagens.

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Modernismo – terceira geração

João Guimarães Rosa

Nascido no ano de 1908, na cidade mineira de Cordisburgo, é sem dúvida um dos maiores escritores da Literatura
Brasileira. Médico e diplomata, Guimarães Rosa começou a publicar seus textos apenas após os 38 anos.
Os seus escritos ambientam-se no sertão brasileiro, ao mesmo tempo que são universais sob a lógica da
máxima “O sertão é o mundo”. Sua obra destaca- se pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência
de falares populares e regionais. Os neologismos, ou seja, a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e
palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas fizeram de sua literatura um fenômeno único.
Morreu no Rio de Janeiro, em novembro de 1967, logo após ocupar a cadeira nº 2 na Academia Brasileira de
Letras por apenas três dias, já que atrasou a cerimônia de posse por quatro anos, pois ele pressentia coisas estranhas.
Foi indicado ao prêmio Nobel de Literatura por três vezes.

Contexto
O contexto da produção de sua obra é a terceira fase do Modernismo que se inicia a partir do ano de 1945. Uma
fase madura desta escola literária que contou com o processo de universalização do regionalismo, bem como o
mergulho intimista nos personagens.
Guimarães Rosa foi um dos principais representantes do regionalismo brasileiro, característica da terceira
fase do Modernismo. Com uma linguagem fiel à popular, o escritor conseguiu inovar a literatura. Destaca-se como
inovação do período seus neologismos, ou seja, sua capacidade de criar, inventar palavras que eram reflexo de sua
intensa pesquisa na fala popular. Ele partia pelo sertão do norte de Minas Gerais, montado em seu cavalo, obser-
vando aquilo que mais lhe agradava: o homem e sua linguagem.

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Grande sertão: veredas

Trata-se de uma das obras mais importantes da Literatura Brasileira, estando inclusive no topo da lista sendo con-
siderada, por alguns críticos, a melhor obra da Literatura Brasileira. A partir da mescla de uma linguagem simples
com um estilo erudito, o livro é contado pelo relato de Riobaldo, um ex-jagunço que rememora suas lutas no sertão,
sua história de vida e seu amor por Diadorim.
Publicado em 1956, o romance com mais de 600 páginas foi marco importante pelo experimentalismo com
a linguagem. Sem a divisão de capítulos, e numa espécie de diálogo no qual apenas Riobaldo se pronuncia, a obra,
a partir de história quase épica, consegue lidar com diferentes temáticas filosóficas, nas quais se estabelecem as
relações entre os homens: a fé, o bem, o mal, o homem, a guerra, o espaço e a moral, entre outras.

Poesia marginal
A década de 1970 foi um momento histórico marcado por grande conturbação para a Literatura Brasileira da
época. Isso se deve à vivência dos primeiros (e agressivos) anos da ditadura militar pós o AI-5, o que influenciou
profundamente a produção de diferentes artistas do período. Entretanto, ainda sob a égide das forças totalitárias,
por volta de 1972-1973 surgiu um inesperado número de poetas, sobretudo no Rio de Janeiro, os quais decidiram
produzir poesia e divulgá-la a partir de uma forma artesanal. De modo geral, os livros desses poetas eram confec-
cionados a partir do mimeógrafo e costurados com a ajuda de barbantes.
Tratava-se de uma poesia que apresentava relativa ingenuidade e um forte humor, entretanto, a temática em
si era bastante significativa, pois tinha como um dos principais objetivos expressar os dilemas de toda uma geração.
Esse grupo de poetas ficou conhecido como geração marginal.

Por que marginal?


A questão da marginalidade esteve presente em boa parte da discussão literária realizada no Brasil nos anos 1970.
A indefinição a respeito dessa classificação tocou a vida não apenas dos críticos e estudiosos, mas também dos
próprios poetas, pois as acepções que carregavam a respeito desse conceito de “poesia marginal” sempre foram
bastante divergentes, apresentando, em alguns momentos, atribuições de caráter negativo e, em outros, de caráter
positivo.

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De modo geral, a crítica e a comunidade acadêmica admirava o trabalho dos poetas marginais, pois eles
acreditavam que essa nova geração artística tinha grande contribuição para a formação da Literatura Brasileira. O
uso do termo “marginal”, numa leitura positiva, tinha o intento de tornar evidente a dificuldade de produzir essa
arte e também a força de resistência para produzir poesia num momento de forte repressão militar.
Ao mesmo tempo, havia parte da crítica que julgava a poesia marginal uma expressão poética tépida,
morna e sem profundidade reflexiva. Nessas situações, a acepção “marginal” era usada pelos críticos de modo
negativo e tinha por objetivo revelar a posição periférica dessa poesia, que na opinião deles estava “à margem”
dos padrões de qualidade literária.
A polêmica em torno das possibilidades por trás do termo marginal inspirou um dos poetas do período,
Chacal, a compor um poema, no qual tal “debate” é levado para horizontes mais distantes.

Chacal

— Alô, é quampa?

— não... – é engano.
— alô, é quampa?
— não, é do bar patamar.
— alô, é quampa?
— é ele mesmo. quem tá falando?
— é o foca mota da pesquisa do jota Brasil. gostaria
de saber suas impressões sobre essa tal de poesia marginal.
— ahhh... a poesia. a poesia é magistral. mas
marginal pra mim é novidade. você que é bem
informado, mi diga: a poesia matou alguém,
andou roubando, aplicou algum cheque frio, jogou
alguma bomba no senado?
— que eu saiba não. mas eu acho que é em relação
ao conteúdo.
— mas isso não é novidade. desd’adão... ou
você acha que alguém perde o paraíso e fica
calado. nem o antônio.
— é verdade. mas deve haver algum motivo pra
todos chamarem essa poesia de marginal.
— qual, essa!? Eu tou achando até bem comportada.
sem palavrão, sem política, sem atentado à
moral cristantã.
— não. não tô falando desse que se lê aqui.

143
tô falando dessa outra que virou moda.
— ahhh... dessa eu não tou sabendo.
ando meio barro-bosta por isso tenho ficado
quieto em casa. rompi meu reitor pra atender
esse telefone. e já que ti dei algumas impressões
você vai mi trazer as seguintes ervas pra curar
meus dissabores: manacá carobinha jurubeba
picão da praia amor do campo malva e salsaparrilha.
até já foca mota.
(Chacal, Quampérios, 1977)

Em síntese, o termo “marginal” acabou se consolidando e, hoje, é usado para se referir a esses autores que
escreveram poesia nos anos 1970, a partir dessa estética que demonstrava certo descompromisso com a lingua-
gem e uma abordagem temática que trazia à tona todas as problemáticas de se produzir arte em um momento
fortemente marcado por repressão social.
Além de Chacal, outros autores que se destacaram nesse período foram Cacaso (Antonio Carlos de Brito),
Charles (Charles Peixoto), Torquato Neto, Francisco Alvim, Ana Cristina César e Waly Salomão.

Cacaso foi um dos mais importantes autores do movimento marginal. Sendo, além de escritor, professor
universitário, contribuiu muito para a divulgação dos valores da poesia do período nos âmbitos acadêmicos. É um
dos autores mais cultuados do período. Sua obra completa foi compilada, em 2002, sob o título Lero Lero.

E com vocês a modernidade

Meu verso é profundamente romântico.


Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores ciganos.

Ai que saudade que tenho de meus negros verdes


anos!
(Cacaso, retirado da coletânea Lero Lero de 2002)

Lar doce lar

Minha pátria é minha infância


Por isso vivo no exílio.
(Cacaso, poema retirado da coletânea Lero Lero de 2002)

144
Chacal

Chacal (Ricardo de Carvalho) foi um dos poetas mais criativos do período, tendo como destaque os livros Preço da
passagem (publicado em 1972, cujo objetivo era conseguir dinheiro para uma viagem ao exterior) e Quampérius
(publicado em 1977, e que tem como foco o anti-herói Quampa). Seus diversos livros foram reunidos em uma co-
letânea nomeada Belvedere (2007). Além de poeta, fez parcerias musicais na preparação de letras e arranjos com
os grupos 14 Bis, Blitz, e também com Lulu Santos.

O outro

só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível
não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero
o outro
(Chacal, retirado da coletânea de poemas Belvedere, de 2007)

145
Waly Salomão

O livro Me segura qu’eu vou dar um troço, de Waly Salomão, é considerado pela crítica como uma das mais im-
portantes obras do momento marginal. Mas sua obra não se resumiu a esse período, tendo se estendido durante
os anos 1980 e 1990, com uma poesia de altíssimo nível. Destacam-se ainda o livro Algarias, com o qual ganhou
o Prêmio Jabuti.

Pickwick Tea
(cenas da vida teresopolitana, petropolitana, friburguense, itaipavense)

A mãe comenta o Inferno de Dante.


A moça quinze anos lê o roman La Charteuse de Parma. Fala de Balzac aussi como servindo para descrições
de paisagens e ambientes de baile. Narra as aventuras pelo impossível de Candide et Zadig. Thomas Mann
na estante. Michelet écolier.
Quand le maitre parle j’écoute/le sac qui pend a mon épaule dit que je suis un bon garçon.
(Waly Salomão, retirado do livro Me segura qu’eu vou dar um troço de 1972)

Anos 1980: o poema pós-utópico


e a multiplicidade das prosas

Os anos 1980 foram marcados por alterações significativas na sociedade brasileira, principalmente no que diz res-
peito a processos de modernização. Há também incisivas mudanças políticas, vindas de um contínuo que perpassou
os anos 1960 e 1970, e desembocou nos primeiros passos rumo à democratização (em 1985, o Brasil passa a ser
governado por presidentes civis, em decorrência da aceitação, naquele ano, pelo Exército, da candidatura e vitória
de Tancredo Neves).
No que diz respeito à poesia, em 1984, o poeta concretista Haroldo de Campos publica um ensaio que, em
certa medida, irá ditar os rumos da análise crítica a respeito dos anos 1980 e dos períodos subsequentes. O ensaio
se chama “Poesia e Modernidade: da morte da arte à constelação. O poema pós-utópico”, e nele Haroldo coloca
em pauta o fato de que a ideia do “pós-utópico” dizia respeito ao que parecia ser o encerramento do ciclo das
vanguardas, sempre portadoras de um componente de utopia. Em outras palavras, se em anos anteriores conseguí-
amos enxergar através da literatura o engajamento dos autores em questões políticas e sociais, nos anos 1980, e
também futuramente – por conta da própria abertura política – presenciaríamos um declínio desse engajamento,
ou seja, não teríamos mais vanguardas, cuja produção literária estaria necessariamente atrelada a algum projeto
político e estético (como é possível notar nos poetas modernistas da década de 1920, na prosa regionalista de
1930 e 1940, nos poemas concretos de 1950, no tropicalismo em 1960 e na poesia marginal de 1970).

146
É claro que o texto de Haroldo é questionável em diversos âmbitos. O fato é que, certo ou errado, realmen-
te não conseguimos achar “linhas mestras” às quais possamos nos apegar na produção literária dos anos 1980.
Mas isso não significa que o momento não apresentou grandes poetas ou grandes questões a serem debatidas;
significa apenas que eles não produziam sua poesia em função de algum ideal vanguardista. Há na poesia, nesse
momento, nomes muito significativos atuando; além dos remanescentes da poesia marginal, podemos destacar as
figuras de Ana Cristina César (que é, muitas vezes, ligada aos poetas marginais, por conta da longa convivência
com esses autores; mas tanto cronologicamente – seus dois principais livros, A teus pés e Inéditos e dispersos,
datam de 1982 e 1985 – quanto, estilisticamente, as diferenças entre ela e os marginais é notável) e de Paulo
Leminski. A seguir, temos alguns poemas desses dois autores.

Ana Cristina César


O tempo fecha.

Sou fiel aos acontecimentos biográficos.


Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos
que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no campo
declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não
sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.
(Ana Cristina César, A teus pés, 1982)

Como destacar a paisagem

a fotografia
é um tempo morto
fictício retorno à simetria

secreto desejo do poema


censura impossível
do poeta
(Ana Cristina César, Inéditos e dispersos, 1985)

147
Paulo Leminski
Charme

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
(Paulo Leminski em Caprichos e relaxos, 1983)

Incenso fosse música

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
(Paulo Leminski, Distraídos venceremos, 1987)

Na prosa, podemos destacar uma entrada na diversidade temática que trouxe para a cena literária novos
tipos de protagonistas (e que nos anos 1990 e 2000 desembocará naquilo que os estudiosos chamam de plura-
lidade). Provavelmente, a abertura política por parte dos militares permitiu maior liberdade produtiva dos autores
que, a essa altura, não precisavam mais submeter suas obras ao julgamento das entidades de controle ditatoriais.
Destacam-se aí algumas linhagens bastante interessantes, como as histórias que retratam camadas urbanas
inferiorizadas e rechaçadas de nossa sociedade, muito comuns nos contos do escritor João Antônio (em especial,
no livro Abraçado ao meu rancor, de 1986), cujas personagens centrais são figuras marginais, como o proletário, o
desempregado, o mendigo, o emigrante, entre outras. Não podemos nos esquecer das corrosivas exposições que o
escritor Dalton Trevisan faz das questões familiares e sexuais (que já vinham sendo feitas por ele nos anos 1970,
mas que ganham força nos 1980 com Essas Malditas Mulheres, de 1982, Meu Querido Assassino, de 1983, A
Polaquinha, de 1985, entre outros). Também a temática das minorias (negros, homossexuais e emigrantes) ganha
força, e começa a aparecer com maior notoriedade, destacando-se as obras de Caio Fernando Abreu (Morangos
mofados, de 1982), de João Gilberto Noll (Rastros de verão, de 1986), de Cuti (Quizila, de 1987), de João Ubaldo
Ribeiro (Viva o povo brasileiro, de 1984) e de Moacyr Scliar (O centauro no jardim, de 1980).

148
Dalton Trevisan
Dalton Trevisan é considerado por diversos críticos literários um dos principais contistas brasileiros em ativi-
dade. Bastante reservado, o escritor é avesso a entrevistas e a exposições em órgãos de comunicação social. Essa
é uma das poucas (e raras) imagens do autor que podem ser encontradas na internet.

Anos 1990 e 2000: literatura e pluralidade


Pensar a literatura dos anos 1990 até nossos dias talvez seja algo mais complexo do que imaginamos, não apenas
pelo fato de que não há distanciamento suficiente que nos permita uma análise mais segura (afinal, são pouco
mais de 20 anos), mas por tudo o que já se acumulou em conhecimento literário, e pelo fato de todo esse conheci-
mento parecer ser posto em cena (e, em alguns casos, também posto à prova) nas obras contemporâneas.
Pensando a partir das relações sociais, conseguimos perceber, dos anos 1990 para cá, que a nossa socieda-
de de consumo nos apresenta uma novidade um tanto quanto inusitada: ao invés dos processos de massificação
e homogeneização, que são característicos do modo de produção capitalista (que tentam deixar nosso mundo em
total equivalência), surgem agora estratégias da diversificação dentro da sociedade (o desejo de ser diferente, a
partir dos mais variados pontos de vista, seja o nostálgico, o clean, o cool, o supermoderno, o clássico, enfim). E nos
parece que a literatura, tanto a prosa com a poesia, parecem ter incorporado essa marca pela via da pluralidade,
ou, em outras palavras, nos é apresentada grande diversidade de abordagens literárias, tanto no que diz respeito a
abordagens estéticas (poesia metrificada, com verso livre, poesia visualista; e também prosa romanesca, fragmen-
tária, surrealista, curta, longa etc.) quanto temáticas (vai-se dos temas altos e clássicos da literatura até temas que
não imaginávamos que seriam por ela abordados).
É um fenômeno bastante interessante e que trás certa dificuldade para os estudos literários contemporâ-
neos: a dificuldade de se estabelecer um ponto de apoio. Pois se antes conseguíamos nos apegar a certas marcas
que nos permitiam até mesmo classificar os atos literários (escola modernista, concretista, marginal, entre outras),
agora, por conta da pluralidade, há dificuldades de apontarmos um ponto comum para análise.
Apesar disso, não se pode dizer que a literatura dos 1990 e dos 2000 é inferior às anteriores por não possuir
marcas que nos permitam classificá-la; pelo contrário, trata-se de uma literatura de alto nível, dentro daquilo que é
a especificidade de cada autor. Por conta disso, talvez seja mais interessante – ao invés de realizar uma abordagem
que tente ser totalizante – apresentar alguns autores de prosa e poesia contemporâneos que vêm se destacando

149
na cena literária, falando um pouco de cada e deixando ao estudante o benefício da “curiosidade” em conhecê-los
mais de perto a partir da leitura.

Milton Hatoum

Hatoum é considerado pela crítica especializada como um dos melhores escritores vivos do Brasil. Seus livros já
venderam mais de 200 mil exemplares no Brasil e foram traduzidos em oito países, como Itália, Estados Unidos,
França e Espanha.
Embora tenha poucos livros publicados – tendo em vista a longa carreira como escritor (quatro romances
um livro e contos em quase 25 anos) – todos apresentam altíssima qualidade, tendo arrebatado vários prêmios
literários importantes. Seu primeiro livro, Relato de um certo Oriente (1990), ganhou o Prêmio Jabuti de melhor
romance. Seu terceiro livro, Cinzas do Norte (2005), considerado por muitos como sua obra-prima, arrebatou o
Jabuti em duas categorias, além do conceituado prêmio Portugal Telecom (todos em 2006).
É possível perceber que Hatoum tem um “currículo” de peso. Em suas obras, ele costuma falar de lares
desestruturados e problemáticos, levando em consideração fatos políticos que coincidem com o momento histórico
abordado na obra. Mais recentemente, está sendo preparada uma adaptação para a TV (em formato minissérie)
de um de seus romances.

Fernando Bonassi

150
Desde o final dos anos 1980, o escritor Fernando Bonassi vem produzindo obras muito significativas para a literatu-
ra brasileira contemporânea. Possui uma prosa marcada por um estilo bastante seco e incisivo, com contos bastante
curtos, mas muito contundentes. Há em seus textos uma dramatização da insegurança social e da criminalização
organizada, realizada através de um olhar direcionado para o submundo dos marginalizados, das prostitutas, dos
policiais corruptos e dos subempregados que estão envolvidos em tragédias de rua das grandes cidades.
Começou a escrever no final dos anos 1980, mas sua produção de maior destaque se deu nas duas últimas
décadas, sendo muito extensa. Entre seus livros de destaque estão Subúrbio (1994), 100 histórias colhidas na rua
(1996), O céu e o fundo do mar (1999), Passaporte (2001) e A boca no mundo (2007).
Além de escritor, Bonassi é roteirista, dramaturgo e cineasta, tendo produzido roteiros para diversos filmes,
além de famosos programas de televisão infantis, como Castelo Rá-Tim-Bum e O mundo da lua.

Arnaldo Antunes

Tendo ficado conhecido por conta do sucesso com a banda de rock Titãs, da qual foi músico e compositor entre
1987 e 1992, e mais recentemente com o grupo Tribalistas, Arnaldo também possui uma respeitável produção
literária no campo da poesia, tendo ganho, inclusive, o respeitado Prêmio Jabuti de Literatura no ano de 1993, pelo
livro As coisas (1992).
Seus versos apresentam forte influência da poesia concretista, de marcas visualistas, transitando entre os
versos que, pela palavra, sugerem imagens e a poesia visual propriamente dita. Seus principais livros são o já citado
As coisas, além de 2 ou + corpos no mesmo espaço (1997), Outro (2001), Palavra desordem (2002) e n.d.a. (2010).

151
Metade

(Palavra desordem, 2002)

Perfil (trecho)

Perfil é um fio.
Perfil é o fim do objeto
O horizonte está deitado.
O fim é o que está completo.
Perfil é o que está de lado.
O horizonte está distante.
O fim fica em frente.
Perfil é o que está rente.
O horizonte fica adiante.
Ali onde o céu se dobra.
(As coisas, 1992)

152
Aplicação dos mil

conhecimentos - Sala e
mui
tos
1. Estrada out
Esta estrada onde moro, entre duas voltas do ros
[caminho, ros
Interessa mais que uma avenida urbana. tos
Nas cidades todas as pessoas se parecem. sol
Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a tos
[gente. pou
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a coa
[sua alma. pou
Cada criatura é única. coa
Até os cães. pag
Estes cães da roça parecem homens de amo
[negócios: meu
Andam sempre preocupados. ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo
E quanta gente vem e vai! espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998.
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz
Trabalhando com recursos formais inspira-
[meditar:
dos no Concretismo, o poema atinge uma ex-
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada
pressividade que se caracteriza pela:
[por um bodezinho manhoso.
a) interrupção da fluência verbal, para testar
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir,
os limites da lógica racional.
[pela voz dos símbolos,
b) reestruturação formal da palavra, para pro-
Que a vida passa! que a vida passa!
vocar o estranhamento no leitor.
E que a mocidade vai acabar.
c) dispersão das unidades verbais, para ques-
BANDEIRA, M. O ritmo dissoluto. Rio
de Janeiro: Aguilar 1967.
tionar o sentido das lembranças.
d) fragmentação da palavra, para representar o
A lírica de Manuel Bandeira é pautada na estreitamento das lembranças.
apreensão de significados profundos a par- e) renovação das formas tradicionais, para pro-
tir de elementos do cotidiano. No poema Es- por uma nova vanguarda poética.
trada, o lirismo presente no contraste entre
campo e 3. (ENEM) TEXTO I
cidade aponta para:
a) o desejo do eu lírico de resgatar a movimen- Eles se beijavam no elevador, nos corredores
tação dos centros urbanos, o que revela sua do prédio. Se amavam tanto, que o vizinho
nostalgia com relação à cidade. solteirão da esquerda guardava por eles uma
b) a percepção do caráter efêmero da vida, pos- vermelha inveja. Uma tarde, sem que nin-
sibilitada pela observação da aparente inér- guém soubesse por que, eles se enforcaram
cia da vida rural. no banheiro. Houve muito tumulto, carros
c) opção do eu lírico pelo espaço bucólico como da polícia parados em frente ao edifício, as
possibilidade de meditação sobre a sua ju- equipes de TV.
ventude. O sol caía sobre as marquises e a cabeça dos
d) a visão negativa da passagem do tempo, vis- curiosos na rua. Um senhor dizia para uma
to que esta gera insegurança. mulher passando ali:
e) a profunda sensação de medo gerada pela — Eles se suicidaram.
reflexão acerca da morte. Uma comerciária acrescentava:
— Dizem que eles se gostavam muito.
2. (ENEM) da sua memória — Que coisa!
Enquanto isso, o solteirão, na janela do seu
apartamento, vendo todos lá embaixo, mor-
dia com sabor a carne acesa de uma enorme
goiaba.
FERNANDES, R. O caçador. João Pessoa:
UFPB, 1997 (fragmento).

TEXTO II

153
ouvidos
Invejoso presos às canções que vinham das embarca-
ções...
O carro do vizinho é muito mais possante AMADO, J. Capitães da Areia. São Paulo:
E aquela mulher dele é tão interessante Companhia das Letras, 2008 (fragmento).
Por isso ele parece muito mais potente
TEXTO II
Sua casa foi pintada recentemente
À margem esquerda do rio Belém, nos fundos
E quando encontra o seu colega de trabalho
do mercado de peixe, ergue-se o velho inga-
Só pensa em quanto deve ser o seu salário
zeiro – ali os bêbados são felizes. Curitiba
Queria ter a secretária do patrão
os considera animais sagrados, provê as suas
Mas sua conta bancária já chegou ao chão
necessidades de cachaça e pirão. No trivial
contentavam-se com as sobras do mercado.
[...]
TREVISAN, D. 35 noites de paixão: contos escolhidos.
Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 (fragmento).
Invejoso
Querer o que é dos outros é o seu gozo
E fica remoendo até o osso 4. Sob diferentes perspectivas, os fragmentos
Mas sua fruta só lhe dá o caroço citados são exemplos de uma abordagem li-
terária recorrente na literatura brasileira do
século XX. Em ambos os textos:
Invejoso a) a linguagem afetiva aproxima os narradores
O bem alheio é o seu desgosto dos personagens marginalizados.
Queria um palácio suntuoso b) a ironia marca o distanciamento dos narra-
Mas acabou no fundo desse poço... dores em relação aos personagens.
ANTUNES, A. Iê Iê Iê. São Paulo: Rosa c) o detalhamento do cotidiano dos persona-
Celeste, 2009 (fragmento). gens revela a sua origem social.
d) o espaço onde vivem os personagens é uma
O conto e a letra de canção abordam o mesmo
das marcas de sua exclusão.
tema, a inveja. Embora empreguem recursos
e) a crítica à indiferença da sociedade pelos
linguísticos diferentes, ambos lançam mão
marginalizados é direta.
de um mecanismo em comum, que consiste
em:
a) referir-se, em terceira pessoa, a um indiví- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO.
duo qualificado como invejoso. Se o mundo não vai bem
b) conferir à inveja aspectos humanos ao fazer a seus olhos, use lentes
dela personagem de narrativa. ... ou transforme o mundo
c) expressar o ponto de vista do invejoso por ótica olho vivo
meio da fala de uma personagem. agradece a preferência
d) dissertar sobre a inveja, apresentando argu- CHACAL et al. Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2006.
mentos contrários e favoráveis.
e) fazer uma descrição do perfil psicológico de 5. Chacal é um dos representantes da geração
alguém caracterizado como invejoso. poética de 1970. A produção literária dessa
geração, considerada marginal e engajada,
de que é representativo o poema apresenta-
TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO.
do, valoriza:
TEXTO I a) o experimentalismo em versos curtos e tom
jocoso.
Logo depois transferiram para o trapiche o b) a sociedade de consumo, com o uso da lin-
depósito dos objetos que o trabalho do dia guagem publicitária.
lhes proporcionava. c) a construção do poema, em detrimento do
Estranhas coisas entraram então para o tra- conteúdo.
piche. Não mais estranhas, porém, que aque- d) a experimentação formal dos neossimbolis-
les meninos, moleques de todas as cores e de tas.
idades as mais variadas, desde os nove e) o uso de versos curtos e uniformes quanto à
aos dezesseis anos, que à noite se estendiam métrica.
pelo assoalho e por debaixo da ponte e dor-
miam, indiferentes ao vento que circundava TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO.
o casarão uivando, indiferentes à chuva que
muitas vezes os lavava, mas com os olhos
puxados para as luzes dos navios, com os

154
Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-
-giro no vago dos gerais, que nem os pássa-
Raio X
ros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim,
1.
Os dois últimos versos do poema (“Que a
o melhor meeiro meu aqui, risonho e habi-
vida passa! que a vida passa! /E que a moci-
lidoso. Pergunto: – Zé-Zim. por que é que dade vai acabar“) enfatizam a efemeridade
você não cria galinhas-d’angola, como todo o da vida, o caráter transitório do momento
mundo faz? — Quero criar nada não... - me percebido na paisagem bucólica e propícia à
deu resposta: — Eu gosto muito de mudar... meditação em que o eu lírico está imerso (“E
[...] tudo tem aquele caráter impressivo que faz
Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu, meditar: /Enterro a pé ou a carrocinha de
tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. [...] leite puxada por um /bodezinho manhoso”)
A característica principal do Concretismo é
2.
Essa não faltou também à minha mãe, quan-
a ruptura do conceito tradicional do verso
do eu era menino, no sertãozinho de minha para definir o poema como conjunto de ele-
terra. [...] mentos que estruturam a mensagem através
Gente melhor do lugar eram todos dessa fa- de signos verbivocovisuais, (valorização do
mília Guedes, Jidião Guedes; quando saíram conteúdo verbal, sonoro e visual, através do
de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. aproveitamento do espaço do papel), per-
Ficamos existindo em território baixio da mitindo a possibilidade de diversas leituras
Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro através de diferentes ângulos. No poema “da
sua memória”, a fragmentação de palavras
vai no São Francisco, o senhor sabe.
dispostas na vertical dá origem a uma coluna
ROSA. J. G. Grande Sertão Veredas. Rio de
estreita em que os termos precisam ser in-
Janeiro: José Olympio (fragmento).
terligados para manterem o nexo semântico
primitivo. Se aliarmos essa disposição gráfi-
ca ao título do poema, podemos inferir que
6. Na passagem citada, Riobaldo expõe uma
o poema se caracteriza pela fragmentação da
situação decorrente de uma desigualdade palavra, para representar o estreitamento
social típica das áreas rurais brasileiras mar- das lembranças, como se afirma em [D].
cadas pela concentração de terras e pela re- O conto é uma breve narrativa com foco nar-
3.
lação de dependência entre agregados e fa- rativo em terceira pessoa, onisciente, uma
zendeiros. No texto, destaca-se essa relação vez que o narrador não é personagem da tra-
porque o personagem-narrador: ma, porém conhece os sentimentos das per-
a) relata a seu interlocutor a história de Zé- sonagens, afinal sabe que o solteirão sente
“uma vermelha inveja” do casal de amantes;
-Zim, demonstrando sua pouca disposição
de modo semelhante, na música, o eu lírico
em ajudar seus agregados, uma vez que su- tece observações sobre o comportamento do
perou essa condição graças à sua força de indivíduo invejoso. Assim, ambos referem-
trabalho. -se ao invejoso em terceira pessoa.
b) descreve o processo de transformação de um 4.
As descrições de ambiente predominam nos
meeiro – espécie de agregado – em proprie- textos I e II, permitindo ao leitor perceber a
tário de terra. exclusão social de que são vítimas os perso-
c) denuncia a falta de compromisso e a deso- nagens. No texto I, os meninos de “Capitães
da Areia”, que “à noite se estendiam pelo
cupação dos moradores, que pouco se envol-
assoalho e por debaixo da ponte”. No texto
vem no trabalho da terra. II, os bêbados, que dormem “nos fundos do
d) mostra como a condição material da vida do mercado de peixe”, à margem do rio Belém.
sertanejo é dificultada pela sua dupla con- A poesia marginal surgiu na década de 70
5.
dição de homem livre e, ao mesmo tempo, com perfil despretensioso e aparentemente
dependente. superficial, mas com a clara intenção de de-
e) mantém o distanciamento narrativo condi- nunciar o cerceamento de liberdade produ-
zente com sua posição social, de proprietá- zida pela censura da ditadura militar. Os po-
etas da chamada geração AI-5 abandonaram
rio de terras.
a rigidez formal da poesia erudita, produzi-
ram textos curtos com traços antiliterários,
por vezes engraçados, e propiciaram a aber-
tura de novas fronteiras para a experimen-
tação de uma enorme variedade de estilos,
dicções, novos campos de expressão e posi-
cionalidades políticas e culturais no trato
poético.

155
6.
Através da fala do narrador, percebe-se a
relação paternalista (“Eu dou proteção”) e
exploradora na relação proprietários e traba-
lhadores das áreas rurais brasileiras. Zé-Zim
é “meeiro”, trabalhador de terra alheia que
reparte o rendimento com o dono da terra,
o que o coloca numa relação de servilismo
e dependência, semelhante ao do agregado
que deve atender às exigências do seu prote-
tor para poder sobreviver. Assim, a sua con-
dição de vida é dificultada pelo duplo estado
de homem livre e, ao mesmo tempo, depen-
dente, como se afirma em [D].

Gabarito
1. B 2. D 3. A 4. D 5. A 6. D

156
Prescrição: Para resolver os exercícios dessa aula, será necessário estabelecer relações entre um texto literário
e o momento em que foi produzido; analisar os procedimentos de construção do texto literário, associando-os
à forma como os artistas de determinadas geração concebem a arte; e refletir sobre como os valores sociais e
humanos presentes na cultura do lugar em que vive são integrados ao patrimônio literário nacional.

Prática dos 2. (ENEM) Confidência do itabirano


De Itabira trouxe prendas diversas que ora

conhecimentos - E.O. [te ofereço:


esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este São Benedito do velho santeiro Alfredo
1. (ENEM) Famigerado [Durval;
Com arranco, [o sertanejo] calou-se. Como este couro de anta, estendido no sofá de
arrependido de ter começado assim, de evi- [visitas;
dente. Contra que aí estava com o fígado em este orgulho, esta cabeça baixa.
más margens; pensava, pensava. Cabismedi-
tado. Do que, se resolveu. Levantou as fei- Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
ções. Se é que se riu: aquela crueldade de Hoje sou funcionário público.
dentes. Encarar, não me encarava, só se fito Itabira é apenas uma fotografia na parede.
à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho
Mas como dói.
indeciso. Redigiu seu monologar.
ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo. São
O que frouxo falava: de outras, diversas pes-
Paulo: Cia. das Letras, 2012 (fragmento).
soas e coisas, da Serra, do São Ão, travados
assuntos, insequentes, como dificultação. A O poeta pensa a região como lugar, pleno de
conversa era para teias de aranha. Eu tinha afetos. A longa história da ocupação de Mi-
de entender-lhe as mínimas entonações, se-
nas Gerais, iniciada com a mineração, deixou
guir seus propósitos e silêncios. Assim no
marcas que se atualizam em Itabira, peque-
fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir,
ele enigmava. E, pá: na cidade onde nasceu o poeta. Nesse senti-
– Vosmecê agora me faça a boa obra de que- do, a evocação poética indica o(a):
rer me ensinar o que é mesmo que é: fasmis- a) pujança da natureza resistindo à ação humana.
gerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... b) sentido de continuidade do progresso.
familhas-gerado...? c) cidade como imagem positiva da identidade
ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de mineira.
Janeiro: Nova Fronteira, 1988. d) percepção da cidade como paisagem da me-
mória.
A linguagem peculiar é um dos aspectos que e) valorização do processo de ocupação da re-
conferem a Guimarães Rosa um lugar de des- gião.
taque na literatura brasileira. No fragmento
lido, a tensão entre a personagem e o narra-
3. (ENEM)
dor se estabelece porque:
O corpo no cavalete
a) o narrador se cala, pensa e monologa, ten-
é um pássaro que agoniza
tando assim evitar a perigosa pergunta de exausto do próprio grito.
seu interlocutor. As vísceras vasculhadas
b) o sertanejo emprega um discurso cifrado, principiam a contagem
com enigmas, como se vê em “a conversa era regressiva.
para teias de aranhas”. No assoalho o sangue
c) entre os dois homens cria-se uma comunica- se decompõe em matizes
ção impossível, decorrente de suas diferen- que a brisa beija e balança:
ças socioculturais. o verde – de nossas matas
d) a fala do sertanejo é interrompida pelo gesto o amarelo – de nosso ouro
de impaciência do narrador, decidido a mu- o azul – de nosso céu
dar o assunto da conversa. o branco o negro o negro
e) a palavra desconhecida adquire o poder de CACASO. In: HOLLANDA, H. B (Org.). 26 poetas
gerar conflito e separar as personagens em hoje. Rio do Janeiro: Aeroplano, 2007.
planos incomunicáveis.

157
Situado na vigência do Regime Militar que quê, mas sei que o universo jamais começou.
governou o Brasil, na década de 1970, o poe- […]
ma de Cacaso edifica uma forma de resistên- Enquanto eu tiver perguntas e não houver
cia e protesto a esse período, metaforizando: respostas continuarei a escrever. Como co-
a) as artes plásticas, deturpadas pela repressão meçar pelo início, se as coisas acontecem
e censura. antes de acontecer? Se antes da pré-pré-
-história já havia os monstros apocalípticos?
b) a natureza brasileira, agonizante como um
Se esta história não existe, passará a existir.
pássaro enjaulado. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois
c) o nacionalismo romântico, silenciado pela juntos – sou eu que escrevo o que estou es-
perplexidade com a Ditadura. crevendo. […] Felicidade? Nunca vi palavra
d) o emblema nacional, transfigurado pelas mais doida, inventada pelas nordestinas que
marcas do medo e da violência. andam por aí aos montes.
e) as riquezas da terra, espoliadas durante o Como eu irei dizer agora, esta história será
aparelhamento do poder armado. o resultado de uma visão gradual – há dois
anos e meio venho aos poucos descobrindo
os porquês. É visão da iminência de. De quê?
4. (ENEM) Mãos dadas
Quem sabe se mais tarde saberei. Como que
Não serei o poeta de um mundo caduco. estou escrevendo na hora mesma em que sou
Também não cantarei o mundo futuro. lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o
Estou preso à vida e olho meus companheiros. começo – como a morte parece dizer sobre a
Estão taciturnos mas nutrem grandes vida – porque preciso registrar os fatos an-
[esperanças. tecedentes.
Entre eles, considero a enorme realidade. LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de
O presente é tão grande, não nos afastemos. Janeiro: Rocco, 1988 (fragmento).
Não nos afastemos muito, vamos de mãos
A elaboração de uma voz narrativa peculiar
dadas.
acompanha a trajetória literária de Clarice
Não serei o cantor de uma mulher, de uma Lispector, culminada com a obra A hora da
[história. estrela, de 1977, ano da morte da escritora.
Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem
porque o narrador:
[vista na janela. a) observa os acontecimentos que narra sob
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de uma ótica distante, sendo indiferente aos
[suicida. fatos e às personagens.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por b) relata a história sem ter tido a preocupação
[serafins. de investigar os motivos que levaram aos
O tempo é a minha matéria, o tempo eventos que a compõem.
[presente, os homens presentes, c) revela-se um sujeito que reflete sobre ques-
a vida presente. tões existenciais e sobre a construção do
ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo.
discurso.
São Paulo: Cia. das Letras, 2012. d) admite a dificuldade de escrever uma histó-
ria em razão da complexidade para escolher
Escrito em 1940, o poema Mãos dadas revela as palavras exatas.
um eu lírico marcado pelo contexto de opres- e) propõe-se a discutir questões de natureza fi-
são política no Brasil e da Segunda Guerra losófica e metafísica, incomuns na narrativa
Mundial. Em face dessa realidade, o eu lírico: de ficção.
a) considera que em sua época o mais impor-
tante é a independência dos indivíduos. 6. (ENEM) Aquele bêbado
b) desvaloriza a importância dos planos pesso- — Juro nunca mais beber – e fez o sinal da
ais na vida em sociedade. cruz com os indicadores. Acrescentou: — Ál-
c) reconhece a tendência à autodestruição em cool.
uma sociedade oprimida. O mais, ele achou que podia beber. Bebia
d) escolhe a realidade social e seu alcance indi- paisagens, músicas de Tom Jobim, versos de
vidual como matéria poética. Mário Quintana. Tomou um pileque de Se-
e) critica o individualismo comum aos românti- gall. Nos fins de semana embebedava-se de
cos e aos excêntricos. Índia Reclinada, de Celso Antônio.
— Curou-se 100% de vício – comentavam os
5. (ENEM) Tudo no mundo começou com um amigos.
sim. Uma molécula disse sim a outra molécu- Só ele sabia que andava bêbado que nem um
gambá. Morreu de etilismo abstrato, no meio
la e nasceu a vida. Mas antes da pré-história
de uma carraspana de pôr do sol no Leblon,
havia a pré-história da pré-história e havia o
e seu féretro ostentava inúmeras coroas de
nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o
ex-alcoólatras anônimos.

158
ANDRADE, C. D. Contos plausíveis. Rio pois o contato dos dedos era doloroso em ex-
de Janeiro: Record, 1991. cesso. Finda a operação extensa, o espelho
A causa mortis do personagem, expressa no da sala de visitas mostrava-me dois buga-
último parágrafo, adquire um efeito irônico lhos sangrentos, que se molhavam depressa
e queriam esconder-se. Os objetos surgiam
no texto porque, ao longo da narrativa, ocor-
empastados e brumosos. Voltava a abrigar-
re uma:
-me sob o pano escuro, mas isto não atenua-
a) metaforização do sentido literal do verbo
va o padecimento. Qualquer luz me deslum-
“beber”.
brava, feria-me como pontas de agulha [...].
b) aproximação exagerada da estética abstra-
Sem dúvida o meu espectro era desagra-
cionista.
dável, inspirava repugnância. E a gente da
c) apresentação gradativa da coloquialidade da
casa se impacientava. Minha mãe tinha a
linguagem.
franqueza de manifestar-me viva antipatia.
d) exploração hiperbólica da expressão “inúme-
Dava-me dois apelidos: bezerro-encourado e
ras coroas”.
cabra-cega.
e) citação aleatória de nomes de diferentes ar-
RAMOS, G. Infância. Rio de Janeiro:
tistas. Record, 1984. (fragmento)

7. (ENEM) Verbo ser O impacto da doença, na infância, revela-se


QUE VAI SER quando crescer? Vivem pergun- no texto memorialista de Graciliano Ramos
tando em redor. Que é ser? É ter um corpo, através de uma atitude marcada por:
um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? a) uma tentativa de esquecer os efeitos da doença.
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro b) preservar a sua condição de vítima da negli-
nome, corpo ou jeito? Ou a gente só prin- gência materna.
cipia a ser quando cresce? É terrível, ser? c) apontar a precariedade do tratamento médi-
Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão co no sertão.
depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, d) registrar a falta de solidariedade dos amigos
ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? e familiares.
Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para e) recompor em minúcias e sem autopiedade, a
entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou sensação da dor.
crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
ANDRADE, C. D. Poesia e prosa. Rio de 9. (ENEM) TEXTO I
Janeiro: Nova Aguilar, 1992. Poema de sete faces
Mundo mundo vasto mundo,
A inquietação existencial do autor com a au-
Se eu me chamasse Raimundo
toimagem corporal e a sua corporeidade se
seria uma rima, não seria uma solução.
desdobra em questões existenciais que têm
Mundo mundo vasto mundo,
origem:
mais vasto é meu coração.
a) no conflito do padrão corporal imposto con-
ANDRADE, C. D. Antologia poética. Rio de
tra as convicções de ser autêntico e singular. Janeiro: Record, 2001 (fragmento).
b) na aceitação das imposições da sociedade se-
guindo a influência de outros. TEXTO II
c) na confiança no futuro, ofuscada pelas tra- CDA (imitado)
dições e culturas familiares. Ó vida, triste vida!
d) no anseio de divulgar hábitos enraizados, Se eu me chamasse Aparecida
negligenciados por seus antepassados. dava na mesma.
e) na certeza da exclusão, revelada pela indife- FONTELA, O. Poesia reunida. São Paulo: Cosac
rença de seus pares. Naify; Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.

Orides Fontela intitula seu poema “CDA”, si-


8. (ENEM) Cegueira gla de Carlos Drummond de Andrade, e entre
Afastou-me da escola, atrasou-me, enquan- parênteses indica “imitado” porque, como
to os filhos de seu José Galvão se interna- nos versos de Drummond:
vam em grandes volumes coloridos, a doen- a) apresenta o receio de colocar os dramas pes-
ça de olhos que me perseguia na meninice. soais no mundo vasto.
Torturava-me semanas e semanas, eu vivia b) expõe o egocentrismo de sentir o coração
na treva, o rosto oculto num pano escuro, maior que o mundo.
tropeçando nos móveis, guiando-me às apal- c) aponta a insuficiência da poesia para solu-
padelas, ao longo das paredes. As pálpebras cionar os problemas da vida.
inflamadas colavam-se. Para descerrá-las, eu d) adota tom melancólico para evidenciar a de-
ficava tempo sem fim mergulhando a cara na sesperança com a vida.
bacia de água, lavando-me vagarosamente,

159
e) invoca a tristeza da vida para potencializar significado das palavras.
a ineficácia da rima. c) O significado dos nomes não expressa de for-
ma justa e completa a grandeza da luta do
10. (ENEM) Logia e mitologia homem pela vida.
Meu coração d) Renovando o significado das palavras, o
de mil e novecentos e setenta e dois tempo permite às gerações perpetuar seus
Já não palpita fagueiro valores e suas crenças.
sabe que há morcegos de pesadas olheiras e) Como produto da criatividade humana, a
que há cabras malignas que há linguagem tem seu alcance limitado pelas
cardumes de hienas infiltradas intenções e gestos.
no vão da unha da alma
um porco belicoso de radar 12. (ENEM) Prima Julieta
e que sangra e ri
Prima Julieta irradiava um fascínio singular.
e que sangra e ri
a vida anoitece provisória Era a feminilidade em pessoa. Quando a co-
centuriões sentinelas nheci, sendo ainda garoto e já sensibilíssimo
do Oiapoque ao Chuí. ao charme feminino, teria ela uns trinta ou
CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7Letras; trinta e dois anos de idade.
São Paulo: Cosac & Naify, 2002. Apenas pelo seu andar percebia-se que era
O título do poema explora a expressividade de uma deusa, diz Virgílio de outra mulher. Pri-
termos que representam o conflito do momen- ma Julieta caminhava em ritmo lento, agi-
to histórico vivido pelo poeta na década de tando a cabeça para trás, remando os belos
1970. Nesse contexto, é correto afirmar que: braços brancos. A cabeleira loura incluía re-
a) o poeta utiliza uma série de metáforas zoo- flexos metálicos. Ancas poderosas. Os olhos
lógicas com significado impreciso. de um verde azulado borboleteavam. A voz
b) “morcegos”, “cabras”, e “hienas” metafori- rouca e ácida, em dois planos: voz de pessoa
zam as vítimas do regime militar vigente. da alta sociedade.
c) o “porco” , animal difícil de domesticar, re- MENDES, M. A idade do serrote. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968.
presenta os movimentos de resistência.
d) o poeta caracteriza o momento de opressão Entre os elementos constitutivos dos gêne-
através de alegorias de forte poder de impacto. ros, está o modo como se organiza a pró-
e) “centuriões” e “sentinelas” simbolizam os pria composição textual, tendo-se em vista
agentes que garantem a paz social experi- o objetivo de seu autor: narrar, descrever,
mentada. argumentar, explicar, instruir. No trecho,
reconhece-se uma sequência textual
11. (ENEM) Ai, palavras, ai, palavras a) explicativa, em que se expõem informações
Que estranha potência a vossa! objetivas referentes à prima Julieta.
Todo o sentido da vida b) instrucional, em que se ensina o comporta-
Principia a vossa porta: mento feminino, inspirado em prima Julieta.
O mel do amor cristaliza c) narrativa, em que se contam fatos que, no
Seu perfume em vossa rosa; decorrer do tempo, envolvem prima Julieta.
Sois o sonho e sois a audácia, d) descritiva, em que se constrói a imagem de
Calúnia, fúria, derrota... prima Julieta a partir do que os sentidos do
A liberdade das almas, enunciador captam.
ai! Com letras se elabora... e) argumentativa, em que se defende a opinião
e dos venenos humanos do enunciador sobre prima Julieta, buscan-
sois a mais fina retorta: do-se a adesão do leitor a essas ideias.
frágil, frágil, como o vidro
e mais que o aço poderosa! 13. (ENEM) Ó meio-dia confuso,
Reis, impérios, povos, tempos, ó vinte-e-um de abril sinistro,
pelo vosso impulso rodam... que intrigas de ouro e de sonho
MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1985 (fragmento).
houve em tua formação?
Quem ordena, julga e pune?
O fragmento destacado foi transcrito do Ro- Quem é culpado e inocente?
manceiro da Independência, de Cecília Mei- Na mesma cova do tempo
reles. Centralizada no episódio histórico da cai o castigo e o perdão.
Inconfidência Mineira, a obra, no entanto,
Morre a tinta das sentenças
elabora uma reflexão mais ampla sobre a se-
guinte relação entre o homem e a linguagem: e o sangue dos enforcados...
a) A força e a resistência humanas superam os — liras, espadas e cruzes
danos provocados pelo poder corrosivo das pura cinza agora são.
palavras. Na mesma cova, as palavras,
b) As relações humanas, em suas múltiplas o secreto pensamento,
esferas, têm seu equilíbrio vinculado aos as coroas e os machados,

160
mentira e verdade estão. 15. (ENEM) Primeiro surgiu o homem nu de ca-
[...] beça baixa. Deus veio num raio. Então apa-
MEIRELES, C. Romanceiro da Inconfidência. Rio receram os bichos que comiam os homens.
de Janeiro: Aguilar, 1972. (fragmento) E se fez o fogo, as especiarias, a roupa, a
espada e o dever. Em seguida se criou a fi-
O poema de Cecília Meireles tem como ponto losofia, que explicava como não fazer o que
de partida um fato da história nacional, a não devia ser feito. Então surgiram os nú-
Inconfidência Mineira. Nesse poema, a rela- meros racionais e a História, organizando os
ção entre texto literário e contexto históri- eventos sem sentido. A fome desde sempre,
co indica que a produção literária é sempre das coisas e das pessoas. Foram inventados o
calmante e o estimulante. E alguém apagou a
uma recriação da realidade, mesmo quando
luz. E cada um se vira como pode, arrancan-
faz referência a um fato histórico determi-
do as cascas das feridas que alcança.
nado. No poema de Cecília Meireles, a recria-
BONASSI, F. 15 cenas do descobrimento de Brasis.
ção se concretiza por meio: In: MORICONI, I. (Org.). Os cem melhores contos
a) do questionamento da ocorrência do próprio do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
fato, que, recriado, passa a existir como for-
ma poética desassociada da história nacional. A narrativa enxuta e dinâmica de Fernando
Bonassi configura um painel evolutivo da
b) da descrição idealizada e fantasiosa do fato
história da humanidade. Nele, a projeção do
histórico, transformado em batalha épica que olhar contemporâneo manifesta uma per-
exalta a força dos ideais dos Inconfidentes. cepção que:
c) da recusa da autora de inserir nos versos o a) recorre à tradição bíblica como fonte de ins-
desfecho histórico do movimento da Incon- piração para a humanidade.
fidência: a derrota, a prisão e a morte dos b) desconstrói o discurso da filosofia a fim de
Inconfidentes. questionar o conceito de dever.
d) do distanciamento entre o tempo da escrita c) resgata a metodologia da história para de-
e o da Inconfidência, que, questionada po- nunciar as atitudes irracionais.
eticamente, alcança sua dimensão histórica d) transita entre o humor e a ironia para cele-
brar o caos da vida cotidiana.
mais profunda. e) satiriza a matemática e a medicina para des-
e) do caráter trágico, que, mesmo sem corres- mistificar o saber científico.
ponder à realidade, foi atribuído ao fato his-
tórico pela autora, a fim de exaltar o heroís-
16. (ENEM) TEXTO I
mo dos Inconfidentes.
Voluntário
1
4. (ENEM) No poema “Procura da poesia”, Carlos
Rosa tecia redes, e os produtos de sua peque-
Drummond de Andrade expressa a concepção
na indústria gozavam de boa fama nos arre-
estética de se fazer com palavras o que o escul- dores. A reputação da tapuia crescera com a
tor Michelangelo fazia com mármore. O frag- feitura de uma maqueira de tucum ornamen-
mento a seguir exemplifica essa afirmação. tada com a coroa brasileira, obra de ingênuo
“(...) gosto, que lhe valera a admiração de toda a
Penetra surdamente no reino das palavras. comarca e provocara a inveja da célebre Ana
Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Raimunda, de Óbidos, a qual chegara a for-
(...) mar uma fortunazinha com aquela especia-
Chega mais perto e contempla as palavras. lidade, quando a indústria norte-americana
Cada uma reduzira à inatividade os teares rotineiros
tem mil faces secretas sob a face neutra do Amazonas.
e te pergunta, sem interesse pela resposta, SOUSA, I. Contos amazônicos. São
pobre ou terrível, que lhe deres: Paulo: Martins Fontes, 2004.
trouxeste a chave?”
TEXTO II
Carlos Drummond de Andrade. A rosa do povo.
Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 13-14.
Relato de um certo oriente
Esse fragmento poético ilustra o seguinte Emilie, ao contrário de meu pai, de Dorner e
tema constante entre autores modernistas:
dos nossos vizinhos, não tinha vivido no inte-
a) a nostalgia do passado colonialista revisitado.
b) a preocupação com o engajamento político e rior do Amazonas. Ela, como eu, jamais atra-
social da literatura. vessara o rio. Manaus era o seu mundo visível.
c) o trabalho quase artesanal com as palavras, O outro latejava na sua memória. Imantada
despertando sentidos novos. por uma voz melodiosa, quase encantada,
d) a produção de sentidos herméticos na busca Emilie maravilha-se com a descrição da trepa-
da perfeição poética. deira que espanta a inveja, das folhas malha-
e) a contemplação da natureza brasileira na das de um tajá que reproduz a fortuna de um
perspectiva ufanista da pátria. homem, das receitas de curandeiros que veem

161
em certas ervas da floresta o enigma das do- no guarda-chuva que trazia, mas não conse-
enças mais temíveis, com as infusões de co- guiu. Aos populares que tentaram socorrê-lo
loração sanguínea aconselhadas para aliviar não conseguiu dar qualquer informação.
trinta e seis dores do corpo humano. “E exis- c) Eu logo vi que podia se tratar de um ataque.
tem ervas que não curam nada”, revelava a Eu vinha logo atrás. O homem, todo apru-
lavadeira, “mas assanham a mente da gente. mado, de guarda-chuva no braço e cachimbo
Basta tomar um gole do líquido fervendo para na boca, dobrou a esquina e foi diminuindo
que o cristão sonhe uma única noite muitas o passo até se sentar no chão da calçada. Al-
vidas diferentes”. Esse relato poderia ser de gumas pessoas que passavam pararam para
duvidosa veracidade para outras pessoas, mas ajudar, mas ele nem conseguia falar.
não para Emilie. d) Vítima
HATOUM, M. São Paulo: Cia. das Letras, 2008. Idade: entre 40 e 45 anos
Sexo: masculino
As representações da Amazônia na literatura Cor: branca
brasileira mantêm relação com o papel atri- Ocorrência: Encontrado desacordado na Rua
buído à região na construção do imaginário da Abolição, quase esquina com Padre Vieira.
nacional. Pertencentes a contextos históri- Ambulância chamada às 12h34min por ho-
cos distintos, os fragmentos diferenciam-se mem desconhecido. A caminho.
ao propor uma representação da realidade e) Pronto socorro? Por favor, tem um homem
amazônica em que se evidenciam caído na calçada da rua da Abolição, quase
a) aspectos da produção econômica e da cura esquina com a Padre Vieira. Ele parece des-
na tradição popular. maiado. Tem um grupo de pessoas em vol-
b) manifestações culturais autênticas e da re- ta dele. Mas parece que ninguém aqui pode
signação familiar. ajudar. Ele precisa de uma ambulância rápi-
c) valores sociais autóctones e influência dos do. Por favor, venham logo!
estrangeiros.
d) formas de resistência locais e do cultivo das
18. Leia o poema:
superstições.
podem ficar com a realidade
e) costumes domésticos e levantamento das
esse baixo astral
tradições indígenas.
em que tudo entra pelo cano
eu quero viver de verdade
17. (ENEM) Dario vinha apressado, guarda-chuva eu fico com o cinema americano
no braço esquerdo e, assim que dobrou a es- O poeta Paulo Leminski neste poema usa de
quina, diminuiu o passo até parar, encostan- procedimento redundante em sua obra. As-
do-se à parede de uma casa. Por ela escorre- sinale a alternativa que identifica esse pro-
gando, sentou-se na calçada, ainda úmida da cedimento.
chuva, e descansou na pedra o cachimbo. a) intertextualidade.
Dois ou três passantes rodearam-no e inda- b) ironia.
garam se não se sentia bem. Dario abriu a c) crítica à sociedade de massa.
boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. d) fuga à realidade.
O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia e) desejo de viver intensamente.
sofrer de ataque.
TREVISAN, D. Uma vela para Dario. Cemitério de Elefantes.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964 (adaptado).
19. Leia o poema:
o bicho alfabeto
No texto, um acontecimento é narrado em tem vinte e três patas
linguagem literária. Esse mesmo fato, se re- ou quase
latado em versão jornalística, com caracte-
rísticas de notícia, seria identificado em: por onde ele passa
a) Aí, amigão, fui diminuindo o passo e tentei nascem palavras
me apoiar no guarda-chuva... mas não deu. e frases
Encostei na parede e fui escorregando. Foi
mal, cara! Perdi os sentidos ali mesmo. Um com frases
povo que passava falou comigo e tentou me se fazem asas
socorrer. E eu, ali, estatelado, sem conseguir palavras
falar nada! Cruzes! Que mal! o vento leve
b) O representante comercial Dario Ferreira, 43
anos, não resistiu e caiu na calçada da Rua o bicho alfabeto
da Abolição, quase esquina com a Padre Viei- passa
ra, no centro da cidade, ontem por volta do fica o que não se escreve
meio-dia. O homem ainda tentou apoiar-se (Paulo Leminski)

162
Identifique a alternativa correta. MEIRELES, Cecília. Canções. Obra poética. Rio
a) A metalinguagem, presente no poema trans- de Janeiro: José Aguilar, 1972. p. 564.

crito, é um recurso exclusivo da poesia con- A poesia de Cecília Meireles constitui “esbo-
temporânea. ços de quadros metafísicos”, o que pode ser
b) Aproximando o alfabeto a um ser capaz de comprovado no texto por meio:
se movimentar o poeta favorece a ideia cen- a) da exaltação do ente amado em sua plenitu-
tral do poema: tudo o que tem a ver com de de beleza.
palavras está sujeito a mudanças. b) do sofrimento causado pelo distanciamento
c) Paulo Leminski, representante da poesia entre os amantes.
marginal, enfatiza no poema a inutilidade c) da nostalgia de um tempo marcado pela ex-
periência concreta do amor.
da palavra escrita.
d) de uma atitude reflexiva do sujeito poético a
d) Ao apresentar o alfabeto como um bicho respeito do amor como ideia.
com número ímpar de patas Leminski cria e) de versos predominantemente descritivos de
a ideia de um desequilíbrio que prejudica a uma paisagem estática que reflete o íntimo
expressão poética. do sujeito lírico.
e) A ausência de metáforas e de rimas é carac-
terística não apenas do poema citado, mas TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
de toda a obra de Paulo Leminski.
Epigrama 2

20. Leia os versos de Cecília Meireles, extraídos És precária e veloz, Felicidade.


do poema Epigrama nº 8. Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia
Encostei-me a ti, sabendo bem que eras [tempo,
[somente onda. e, para te medir, se inventaram as horas.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a
[minha vida em ti. Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu Fizeste para sempre a vida ficar triste:
[destino frágil, Porque um dia se vê que as horas todas
fiquei sem poder chorar, quando caí. [passam,
O eu lírico reconhece que a pessoa em quem e um tempo despovoado e profundo persiste.
depôs sua vida representava: (Cecília Meireles)
a) uma relação incerta, por isso os desenganos
2
2. Assinale a afirmação errônea sobre o poema.
vividos seriam inevitáveis.
a) Ao dialogar com a figura da Felicidade, o
b) um sentimento intenso, por isso tinha cer-
“eu” poético personifica-a.
teza de que não sofreria.
b) A Felicidade é caracterizada por elementos
c) um caso de amor passageiro, por isso se sen-
paradoxais.
tia enganado.
c) As horas foram inventadas como tentativa
d) uma angústia inevitável, por isso seria me- de substituição da Felicidade.
lhor aquele amor. d) Constata-se que o tempo é tão fugaz quanto
e) uma opção equivocada, por isso sempre teve a Felicidade.
medo de amar. e) A Felicidade acaba sendo responsável pelo
vazio existencial.
21. Venturosa de sonhar-te, Considere o poema abaixo, de Ana Cristina
à minha sombra me deito. César (1952-1983).
(Teu rosto, por toda parte, Fisionomia
mas, amor, só no meu peito!)
não é mentira
— Barqueiro, que céu tão leve! é outra
Barqueiro, que mar parado! a dor que dói
Barqueiro, que enigma breve, em mim
o sonho de ter amado! é um projeto
de passeio
Em barca de nuvens sigo: em círculo um malogro
e o que vou pagando ao vento do objeto
para levar-te comigo em foco
é suspiro e pensamento. a intensidade
de luz
— Barqueiro, que doce instante! de tarde
Barqueiro, que instante imenso, no jardim
não do amado nem do amante:
é outra
mas de amar o amor que penso!
a dor que dói

163
2
3. O título do poema está relacionado ao eu lí- O que fazemos
rico por um conflito de natureza: É macaquear
a) amorosa. A sintaxe lusíada…
b) social. BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira. Rio
c) física de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
d) existencial.
e) imaginária. Segundo o poema de Manuel Bandeira, as
variações linguísticas originárias das classes
24. (ENEM) Vei, a Sol
populares devem ser:
Ora o pássaro careceu de fazer necessidade,
a) satirizadas, pois as várias formas de se falar
fez e o herói ficou escorrendo sujeira de uru-
o português no Brasil ferem a língua portu-
bu. Já era de madrugadinha e o tempo es-
guesa autêntica.
tava inteiramente frio. Macunaíma acordou
b) questionadas, pois o povo brasileiro esquece
tremendo, todo lambuzado. Assim mesmo
examinou bem a pedra mirim da ilhota para a sintaxe da língua portuguesa.
vê si não havia alguma cova com dinheiro c) subestimadas, pois o português “gostoso” de
enterrado. Não havia não. Nem a correnti- Portugal deve ser a referência de correção
nha encantada de prata que indica pro es- linguística.
colhido, tesouro de holandês. Havia só as d) reconhecidas, pois a formação cultural brasi-
formigas jaquitaguas ruivinhas. leira é garantida por meio da fala do povo.
Então passou Caiuanogue, a estrela da ma- e) reelaboradas, pois o povo “macaqueia” a lín-
nhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto gua portuguesa original.
viver pediu pra ela que o carregasse pro céu.
Caiuanogue foi se chegando porém o herói 26. (ENEM) Cena
fedia muito. O canivete voou
– Vá tomar banho! – ela fez. E foi-se embora. E o negro comprado na cadeia
Assim nasceu a expressão “Vá tomar banho” Estatelou de costas
que os brasileiros empregam se referindo a E bateu coa cabeça na pedra
certos imigrantes europeus. ANDRADE, O. Pau-brasil. São Paulo: Globo, 2001.
ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum
caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008. O Modernismo representou uma ruptura com
os padrões formais e temáticos até então vi-
O fragmento de texto faz parte do capítulo gentes na literatura brasileira. Seguindo es-
VII, intitulado “Vei, a Sol”, do livro Macu- ses aspectos, o que caracteriza o poema Cena
naíma, de Mário de Andrade, pertencente como modernista é o(a):
à primeira fase do Modernismo brasileiro. a) construção linguística por meio de neologismo.
Considerando a linguagem empregada pelo b) estabelecimento de um campo semântico
narrador, é possível identificar: inusitado.
a) resquícios do discurso naturalista usado pe- c) configuração de um sentimentalismo conci-
los escritores do século XIX. so e irônico.
b) ausência de linearidade no tratamento do
d) subversão de lugares-comuns tradicionais.
tempo, recurso comum ao texto narrativo da
e) uso da técnica de montagem de imagens jus-
primeira fase modernista.
tapostas.
c) referência à fauna como meio de denunciar
o primitivismo e o atraso de algumas regiões
do país. 27. (ENEM)
d) descrição preconceituosa dos tipos popula-
res brasileiros, representados por Macunaí-
ma e Caiuanogue.
e) uso da linguagem coloquial e de temáticas
do lendário brasileiro como meio de valori-
zação da cultura popular nacional.

25. (ENEM) Evocação do Recife


A vida não me chegava pelos jornais nem pe-
los livros
Vinha da boca do povo na língua errada do
povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do
Brasil
Ao passo que nós

164
O poema de Oswald de Andrade remonta à Debaixo de uma bruta chuva
ideia de que a brasilidade está relacionada Vestiu o índio
ao futebol. Quanto à questão da identidade Que pena!
nacional, as anotações em torno dos versos Fosse uma manhã de Sol
constituem: O índio tinha despido
a) direcionamentos possíveis para uma leitura crí- O português.
tica de dados histórico-culturais. Oswald de Andrade. Poesias reunidas. Rio
b) forma clássica da construção poética brasileira. de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
c) rejeição à ideia do Brasil como o país do futebol.
d) intervenções de um leitor estrangeiro no exercí- O primitivismo observável no poema ante-
cio de leitura poética. rior, de Oswald de Andrade, caracteriza de
e) lembretes de palavras tipicamente brasileiras forma marcante:
substitutivas das originais. a) o regionalismo do Nordeste.
b) o concretismo paulista.
28. (ENEM) Só é meu c) a poesia Pau-Brasil.
O país que trago dentro da alma. d) o simbolismo pré-modernista.
Entro nele sem passaporte e) o tropicalismo baiano.
Como em minha casa.
[...] 30. (ENEM) “Poética”, de Manuel Bandeira, é
As ruas me pertencem. quase um manifesto do movimento moder-
Mas não há casas nas ruas, nista brasileiro de 1922. No poema, o autor
As casas foram destruídas desde a minha in- elabora críticas e propostas que represen-
fância. tam o pensamento estético predominante na
Os seus habitantes vagueiam no espaço época.
À procura de um lar. Poética
Só é meu
O mundo que trago dentro da alma. Estou farto do lirismo comedido
BANDEIRA, M. “Um poema de Chagall”. In: Do lirismo bem comportado
Estrela da vida inteira: poemas traduzidos. Rio de Do lirismo funcionário público com livro de
Janeiro: Nova Fronteira,1993 (fragmento).
ponto
expediente protocolo e
[manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averi-
guar no dicionário
[o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
..................................................................
........................

Quero antes o lirismo dos loucos


O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
A arte, em suas diversas manifestações, des- O lirismo dos clowns de Shakespeare
perta sentimentos que atravessam fronteiras
— Não quero mais saber do lirismo que não
culturais. Relacionando a temática do texto
com a imagem, percebe-se a ligação entre a: é libertação.
a) alegria e a satisfação na produção das obras (BANDEIRA, Manuel. Poesia Completa e
Prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974.)
modernistas.
b) memória e a lembrança passadas no íntimo
do enunciador. Com base na leitura do poema, podemos afir-
c) saudade e o refúgio encontrados pelo ho- mar corretamente que o poeta:
mem na natureza. a) critica o lirismo louco do movimento moder-
d) lembrança e o rancor relacionados ao seu nista.
ofício original. b) critica todo e qualquer lirismo na literatura.
e) exaustão e o medo impostos ao corpo de c) propõe o retorno ao lirismo do movimento
todo artista. clássico.
d) propõe o retomo ao lirismo do movimento
29. (ENEM) ERRO DE PORTUGUÊS romântico.
Quando o português chegou e) Propõe a criação de um novo lirismo.

165
Gabarito
1. E 2. D 3. D 4. D 5. C 6. A
7. A 8. E 9. C 10. D 11. B 12. D
13. D 14 C 15. D 16. A 17. B 18. B
19. B 20 A 21. D 22. C 23. D 24. E
25. D 26. E 27. A 28. B 29. C 30. E

166
R.P.A.
ENEM
Inglês
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Aula 1

Competência 2
Habilidade 5

BREVIÁRIO

Terceira pessoa do singular e seu uso no simple present

Terceira Pessoa do Singular


A terceira pessoa do singular é representada pelos pronomes HE, SHE e IT. Lembrando que HE significa ELE, SHE
significa ELA e IT é usado para uma série de coisas.

Terceira Pessoa do Singular no Simple Present


Ao conjugar um verbo na terceira pessoa do singular no simple present, devemos observar algumas regras orto-
gráficas. Vejamos quais são:

§§ Sempre acrescente -s ao verbo: reads, writes, opens, sleeps, sings, sits, walks, runs, sees etc.;

§§ Se o verbo terminar com a letra -o, -s, -ch, -sh, -x ou -z, acrescente -es: goes, does, misses, watches, washes,
fixes, buzzes etc.

§§ Se o verbo terminar em uma sequência de consoante e -y, tire o -y e acrescente -ies: cry » cries, try » tries,
study » studies, reply » replies etc. (Obs.: se o verbo terminar em uma sequência de vogal e -y, basta acres-
centar -s: pray » prays, say » says, play » plays).

§§ O verbo have é uma exceção a tudo isso, pois ele terá a forma has.

Uso de “used to”


O verbo use, na língua inglesa, é conjugado no particípio como used. A tradução desse termo é “usar” ou “apro-
veitar”. Vejamos alguns exemplos:

§§ Students are not allowed to use pool in the breaks. (Estudantes estão proibidos de usar a piscina nos intervalos)
§§ The football pitch is sometimes used for concerts. (O campo de futebol é por vezes utilizado para concerto)

Quando utilizamos a preposição “to” após a palavra “used”, temos a forma used + to, que pode ser clas-
sificada também como uma expressão ou um phrasal verb, que tem a função de colocar uma ação no passado. A
tradução direta equivale ao nosso “costumava”.

169
Por exemplo: Eu costumava assistir muitas séries de TV. Traduzindo, teríamos: “I used to watch a lot of TV
series “. A estrutura de uma oração simples em que utilizamos o used to é pronome + used to + verbo. Confira
abaixo dois exemplos:
§§ I used to study in home. (Eu costumava estudar em casa.)
§§ I used to play the guitar. (Eu costumava tocar violão.)

Pronomes
§§ Singular: I, you, he, she, it.
§§ Plural: we, you, they.

170
Aplicação dos a) O combate a AIDS e a melhoria do ensino
universitário.
b) A redução da mortalidade adulta e a criação
conhecimentos de parcerias globais.
c) A promoção da igualdade de gêneros e a er-
1. (ENEM) THE DEATH OF THE PC radicação da pobreza.
The days of paying for costly software up- d) A parceria global para o desenvolvimento e a
grades are numbered. The PC will soon be valorização das crianças.
obsolete. And BusinessWeek reports 70% of e) A garantia da sustentabilidade ambiental e o
Americans are already using the technology combate ao trabalho infantil.
that will replace it. Merrill Lynch calls it “a
$160 billion tsunami”. Computing giants in- 3. (ENEM) The record industry
cluding IBM, Yahoo!, and Amazon are racing The record industry is undoubtedly in crisis,
to be the first to cash in on this PC-killing with labels laying off employees in continua-
revolution. tion. This is because CD sales are plummeting
Yet, two little-known companies have a huge as youngsters prefer to download their music
head start. Get their names in a free report from the Internet, usually free of charge.
from The Motley Fool called, “The Two Words And yet it's not all gloom and doom. Some
Bill Gates Doesn’t Want You to Hear…” labels are in fact thriving. Putumayo World
Click here for instant access to this FREE Music, for example, is growing, thanks to its
report! catalogue of ethnic compilation albums, fea-
BROUGHT TO YOU BY THE MOTLEY FOOL turing work by largely unknown artists from
Disponível em: http://www.fool. around the planet.
com. Acesso em: 21 jul. 2010. Putumayo, which takes its name from a val-
ley in Colombia, was founded in New York
Ao optar por ler a reportagem completa so-
in 1993. It began life as an alternative clo-
bre o assunto anunciado, tem-se acesso a
thing company, but soon decided to concen-
duas palavras que Bill Gates não quer que o
trate on music. Indeed its growth appears to
leitor conheça e que se referem:
have coincided with that of world music as
a) aos responsáveis pela divulgação desta in- a genre.
formação na internet.
Speak Up. Ano XXIII, nº 275 (fragmento).
b) as marcas mais importantes de microcompu-
tadores do mercado. A indústria fonográfica passou por várias
c) aos nomes dos americanos que inventaram a mudanças no século XX e, como consequên-
suposta tecnologia. cia, as empresas enfrentaram crises. Entre as
d) aos sites da internet pelos quais o produto já causas, o texto da revista Speak Up aponta:
pode ser conhecido. a) o baixo interesse dos jovens por alguns gê-
e) as empresas que levam vantagem para serem neros musicais.
suas concorrentes. b) o acesso a músicas, geralmente sem custo,
pela Internet.
2. (ENEM) c) a compilação de álbuns com diferentes esti-
los musicais.
d) a ausência de artistas populares entre as
pessoas mais jovens.
e) o aumento do número de cantores desconhe-
cidos.

4. (ENEM) Leia.
I, too
I, too, sing America.
I am the darker brother.
They send me to eat in the kitchen
Definidas pelos países membros da Organi- When company comes,
zação das Nações Unidas e por organizações But I laugh,
internacionais, as metas de desenvolvimen- And eat well,
to do milênio envolvem oito objetivos a se- And grow strong.
rem alcançados até 2015. Apesar da diversi- Tomorrow,
dade cultural, esses objetivos, mostrados na I’ll be at the table
imagem, são comuns ao mundo todo, sendo When company comes.
dois deles: Nobody’ll dare

171
Say to me, Chocolate milk and lemon mousse.
“Eat in the kitchen,” You admit I’ve got told it all?
Then. Well, I know it, I confess,
Besides, Not by looking, in my ball,
They’ll see how beautiful I am But just by looking at your dress.
And be ashamed SILVERSTEIN, S. Falling up. New York:
I, too, am America. Harper Collins Publishers, 1996.
HUGHES, L. In: RAMPERSAD, A.; ROESSEL, D. (Ed.) The
collected poems of Langston Hughes. New York: Knopf, 1994. A curiosidade a respeito do futuro pode
exercer um fascínio peculiar sobre algumas
Langston Hughes foi um poeta negro ameri- pessoas, a ponto de colocá-las em situações
cano que viveu no século XX e escreveu I, too inusitadas. Na letra da música Crystal Ball,
em 1932. No poema, a personagem descre- essa situação fica evidente quando é revela-
ve uma prática racista que provoca nela um do à pessoa que ela:
sentimento de: a) recebeu uma boa notícia.
a) coragem, pela superação. b) ganhou um colar de pedras.
b) vergonha, pelo retraimento. c) se sujou durante o almoço.
c) compreensão, pela aceitação. d) comprou vestidos novos.
d) superioridade, pela arrogância. e) encontrou uma moeda.
e) resignação, pela submissão.
7. (ENEM) The six-year molars
5. (ENEM) The six-year molars are the first permanent
teeth. They are the “keystone” of the dental arch.
They are also extremely susceptible to decay.
Parents have to understand that these teeth
are very important. Over 25% of 6 to 7 year
old children have beginning cavities in one
of the molars.
The early loss of one of these molars causes
serious problems in childhood and adult life.
It is never easy for parents to make kids take
care of their teeth. Even so, parents have to
insist and never give up.
O texto aborda uma temática inerente ao
processo de desenvolvimento do ser huma-
no, a dentição.
Há informação quantificada na mensagem
quando se diz que as cáries dos dentes men-
Aproveitando-se de seu status social e da cionados:
possível influência sobre seus fãs, o famoso a) acontecem em mais de 25% das crianças en-
músico Jimi Hendrix associa, em seu texto, tre seis e sete anos.
os termos love, power e peace para justificar b) ocorrem em menos de 25% das crianças en-
sua opinião de que: tre seis e sete anos.
a) a paz tem o poder de aumentar o amor entre c) surgem em uma pequena minoria das crianças.
os homens. d) começam em crianças acima dos 7 anos.
b) o amor pelo poder dever ser menor do que o e) podem levar dezenas de anos para ocorrer.
poder do amor.
c) o poder deve ser compartilhado entre aque- 8. (ENEM) Horse or cow
les que se amam. Prior to taking retirement and selling off his
d) o amor pelo poder é capaz de desunir cada land, a farmer needed to get rid of all the
vez mais as pessoas. animals he owned, so he decided to call on
e) a paz será alcançada quando a busca pelo every house in his village. At houses where
poder deixar de existir. the man was the boss, he gave a horse; at
houses where the woman was the boss, he
6. (ENEM) Crystal Ball gave a dairy cow.
Come see your life in my crystal glass – Approaching one cottage, he saw a couple
Twenty-five cents is all you pay gardening and called out, ‘Who’s the boss
Let me look into your past – around here?’
Here’s what you had for lunch today: ‘I am,’ said the man.
Tuna salad and mashed potatoes, The farmer said: ‘I have a black horse and
Collard greens pea soup and apple juice, a brown horse. Which one would you like?’

172
The man thought for a minute and said, ‘The “Now the old king is dead! Long live the
black one.’ king!”
‘No, no, get the brown one,’ said his wife. One minute I held the key
The farmer said, ‘Here’s your cow.’ Next the walls were closed on me
TIBBALLS, G. The book of senior jokes. Great And I discovered that my castles stand
Britain: Michael O’Mara, 2009 (adaptado).
Upon pillars of salt and pillars of sand
O texto relata o caso de um fazendeiro pres- […]
tes a se aposentar e vender sua fazenda. O MARTIN, C. Viva la vida, Coldplay. In: Viva la vida
aspecto cômico desse texto provém da: or Death and all his friends. Parlophone, 2008.

a) constatação pelo fazendeiro da razão de sua Letras de músicas abordam temas que, de
aposentadoria. certa forma, podem ser reforçados pela re-
b) opinião dos vizinhos referente à forma de se
petição de trechos ou palavras. O fragmento
livrar dos animais.
da canção Viva la vida, por exemplo, permite
c) percepção do fazendeiro quanto à relação de
conhecer o relato de alguém que
poder entre o casal.
a) costumava ter o mundo aos seus pés e, de
d) agressividade da esposa relacionada a um
repente, se viu sem nada.
questionamento inocente.
b) almeja o título de rei e, por ele, tem enfren-
e) indecisão dos cônjuges quanto à melhor es-
tado inúmeros inimigos.
colha a ser feita no momento.
c) causa pouco temor a seus inimigos, embora
9. (ENEM) tenha muito poder.
d) limpava as ruas e, com seu esforço, tornou-
-se rei de seu povo.
e) tinha a chave para todos os castelos nos
quais desejava morar.

11. (ENEM)

A emissão de gases tóxicos na atmosfera traz


diversas consequências para nosso planeta.
De acordo com o gráfico, retirado do texto
Global warming is an international issue,
observa-se que:
a) as queimadas poluem um pouco mais do que os
combustíveis usados nos meios de transporte.
b) as residências e comércios são os menores emis-
sores de gases de efeito estufa na atmosfera. Os cartões-postais costumam ser utilizados
c) o processo de tratamento de água contribui para por viajantes que desejam enviar noticias
a emissão de gases poluentes no planeta. dos lugares que visitam a parentes e ami-
d) os combustíveis utilizados nos meios de transpor- gos. Publicado no site do projeto ANDRILL,
tes poluem mais do que as indústrias. o texto em formato de cartão-postal tem o
e) os maiores emissores de gases de efeito estufa propósito de:
na atmosfera são as usinas elétricas. a) comunicar o endereço da nova sede do pro-
jeto nos Estados Unidos.
10. (ENEM) Viva la Vida b) convidar colecionadores de cartões-postais a
I used to rule the world se reunirem em um evento.
Seas would rise when I gave the word c) anunciar uma nova coleção de selos para an-
Now in the morning and I sleep alone gariar fundos para a Antártica.
Sweep the streets I used to own d) divulgar as pessoas a possibilidade de rece-
I used to roll the dice berem um cartão-postal da Antártica.
Feel the fear in my enemy’s eyes e) solicitar que as pessoas visitem o site do
Listen as the crowd would sing mencionado projeto com maior frequência.

173
1
2. (ENEM) A reportagem apresenta consequências do
uso de novas tecnologias para a mente hu-
mana. Nesse contexto, a memória das pesso-
as é influenciada pelo(a):
a) alteração de imagens.
b) exposição ao mundo virtual.
c) acesso a novas informações.
d) fascínio por softwares inovadores.
e) interferência dos meios de comunicação.

14. (ENEM) First Footing


One of the major Hogmanay customs was
“first-footing”. Shortly after “the bells” – the
stroke of midnight when public clocks would
chime to signal the start of the new year –,
neighbours would visit one another’s hou-
Uma campanha pode ter por objetivo cons- ses to wish each other a good new year. This
cientizar a população sobre determinada visiting was known as “first-footing”, and
questão social. Na campanha realizada no the luckiest first-foot into any house was a
Reino Unido, a frase “A third of the food we tall, dark and handsome man – perhaps as a
buy in the UK ends up being thrown away” reward to the woman who traditionally had
foi utilizada para enfatizar o(a): spent the previous day scrubbing her house
a) desigualdade social. (another Hogmanay ritual). Women or red
b) escassez de plantações. heads, however, were always considered bad
c) reeducação alimentar. luck as first-foots.
d) desperdício de comida. First-foots brought symbolic gifts to “han-
e) custo dos alimentos. dsel” the house: coal for the fire, to ensu-
re that the house would be warm and safe,
13. (ENEM) How fake images change our and shortbread or black bun (a type of fruit
memory and behaviour cake) to symbolise that the household would
For decades, researchers have been never go hungry that year.
exploring just how unreliable our own First-footing has faded in recent years, par-
memories are. Not only is memory fickle ticularly with the growth of the major street
when we access it, but it’s also quite easi- celebrations in Edinburgh and Glasgow, al-
ly subverted and rewritten. Combine this though not the Scots love of a good party, of
susceptibility with modern image-editing which there are plenty on the night!
Disponível em: www.visitscotland.
software at our fingertips like Photoshop,
com. Acesso em: 23 nov. 2011.
and it’s a recipe for disaster. In a world
where we can witness news and world events A partir da leitura do texto sobre a come-
as they unfold, fake images surround us, and moração do Ano-novo na Escócia, observa-se
our minds accept these pictures as real, and que, com o tempo, aspectos da cultura de um
remember them later. These fake memories povo podem ser:
don’t just distort how we see our past, they a) passados para outros povos.
affect our current and future behaviour too b) substituídos por outras práticas.
– from what we eat, to how we protest and c) reforçados pelas novas gerações.
vote. The problem is there’s virtually no- d) valorizados pelas tradições locais.
thing we can do to stop it. e) representados por festas populares.
Old memories seem to be the easiest to ma-
nipulate. In one study, subjects were showed 15. (ENEM) My brother the star, my mother the
images from their childhood. Along with earth
real images, researchers snuck in manipula- my father the sun, my sister the moon,
ted photographs of the subject taking a hot- to my life give beauty, to my
-air balloon ride with his or her family. After body give strength, to my corn give
seeing those images, 50% of subjects recal- goodness, to my house give peace, to
led some part of that hot-air balloon ride – my spirit give truth, to my elders give
though the event was entirely made up. wisdom.
EVELETH, R. Disponível em: www.bbc.com. Disponível em: www.blackhawkproductions.
Acesso em: 10 jan. 2013 (adaptado). com. Acesso em: 8 ago. 2012.

174
Produções artístico-culturais revelam visões Estes são os versos finais do famoso poema
de mundo próprias de um grupo social. Esse The Road Not Taken, do poeta americano
poema demonstra a estreita relação entre a Robert Frost. Levando-se em consideração
tradição oral da cultura indígena norte-ame- que a vida é comumente metaforizada como
ricana e a: uma viagem, esses versos indicam que o au-
a) transmissão de hábitos alimentares entre tor:
gerações. a) festeja o fato de ter sido ousado na escolha
b) dependência da sabedoria de seus ancestrais.
c) representação do corpo em seus rituais. que fez em sua vida.
d) importância dos elementos da natureza. b) lamenta por ter sido um viajante que encon-
e) preservação da estrutura familiar. trou muitas bifurcações.
c) viaja muito pouco e que essa escolha fez
16. (ENEM) NOTICE OF BAGGAGE INSPECTION toda a diferença em sua vida.
To protect you and your fellow passengers, d) reconhece que as dificuldades em sua vida
the Transportation Security Administration foram todas superadas.
(TSA) is required by law to inspect all e) percorre várias estradas durante as diferen-
checked baggage. As part of this process, tes fases de sua vida.
some bags are opened and physically inspec-
ted. Your bag was among those selected for 18. (ENEM)
physical inspection.
During the inspection, your bag and its
contents may have been searched for pro-
hibited items. At the completion of the ins-
pection, the contents were returned to your
bag.
If the TSA security officer was unable to
open your bag for inspection because it was
locked, the officer may have been forced to
break the locks on your bag. TSA sincerely
regrets having to do this, however TSA is
not liable for damage to your locks resulting
from this necessary security precaution.
For packing tips and suggestions on how to
secure your baggage during your next trip,
please visit:
www.tsa.gov
__________________________
Smart Security Saves Time
Transportation Security Administration. Disponível em:
www.tsa.gov. Acesso em: 13 jan. 2010 (adaptado).

As instituições públicas fazem uso de avisos


como instrumento de comunicação com o ci-
Implementar políticas adequadas de alimen-
dadão. Este aviso, voltado a passageiros, tem
o objetivo de: tação e nutrição é uma meta prioritária em
a) solicitar que as malas sejam apresentadas vários países do mundo. A partir da campa-
para inspeção. nha If you can’t read it, why eat it?, os leito-
b) notificar o passageiro pelo transporte de res são alertados para o perigo de:
produtos proibidos. a) acessarem informações equivocadas sobre a for-
c) informar que a mala foi revistada pelos ofi- mulação química de alimentos empacotados.
ciais de segurança. b) consumirem alimentos industrializados sem
d) dar instruções de como arrumar malas de
o interesse em conhecer a sua composição.
forma a evitar inspeções.
e) apresentar desculpas pelo dano causado a c) desenvolverem problemas de saúde pela fal-
mala durante a viagem. ta de conhecimento a respeito do teor dos
alimentos.
1
7. (ENEM) The Road Not Taken (by Robert Frost) d) incentivarem crianças a ingerirem grande
Two roads diverged in a wood, and I — quantidade de alimentos processados e com
I took the one less traveled by, conservantes.
And that has made all the difference. e) ignorarem o aumento constante da obesida-
Disponível em: www.poetryfoundation.org. de causada pela má alimentação na fase de
Acesso em: 29 nov. 2011 (fragmento). desenvolvimento da criança.

175
Raio X 10. Espera-se que o candidato seja capaz de in-
terpretar a letra da canção.
11. A resposta encontra-se nas duas últimas li-
1.
A resposta encontra-se no segundo pará-
nhas do postal: “... and we’ll sent a postcard
grafo: …two little-known companies have a
to you from the ice.”
huge head start. Get their names in a free
12. A alternativa [D] está correta, pois a frase
report from The Motley Fool called, “The
destacada significa: “um terço da comida
Two Words Bill Gates Doesn’t Want You to
que compramos no Reino Unido acaba sendo
Hear…”
jogada fora”.
2.
As respostas encontram-se nos quadrinhos 3
e 1, respectivamente. 13. A pergunta foca no que influencia a memó-
3.
Este trecho do texto torna a alternativa [B] ria das pessoas. A resposta — alteração das
correta: “This is because CD sales are plum- imagens — aparece a partir do título “How
meting as youngsters prefer to download fake images change our memory and beha-
their music from the Internet, usually free viour” (Como falsas imagens mudam nossa
of charge.” memória e comportamento) e, ao longo de
VOCABULÁRIO todo o texto, essa ideia é reforçada atra-
plummeting = vi cair ou mergulhar vertical- vés das frases “fake images” (falsas ima-
mente. gens), “fake memories” (falsas memórias) e
free of charge = sem custo. “manipulated photographs” (fotografias
it’s not all gloom and doom = mas nem tudo manipuladas).
está perdido. 14. A alternativa [B] está correta, pois o texto
to be thriving = ir bem, progredir. coloca: “First-footing has faded in recent
4.
O eu lírico diz que seus senhores o colocam years, particularly with the growth of the
para comer na cozinha quando visitas chegam major street celebrations in Edinburgh and
(They send me to eat in the kitchen/ When Glasgow” (O first-footing tem desapareci-
company comes). No entanto, o eu lírico ex- do nos últimos anos, particularmente com
pressa coragem e esperança de que sua situa- o crescimento de grandes celebrações em
ção mude ao dizer que no futuro (tomorrow) Edinburgh e Glasgow).
ninguém ousará colocá-lo na cozinha quando 15. Tendo em vista a tradição oral da cultura in-
as visitas chegarem (Nobody’ll dare/ Say to dígena norte-americana, pode-se relacionar
me,/ “Eat in the kitchen,”/ Then). o poema com a importância dos elementos
5.
A frase de Jimi Hendrix pode ser entendida da natureza. Tal informação é obtida a partir
da seguinte maneira: “Quando o poder do do entendimento do texto, que se dá pela
amor superar o amor pelo poder, o mundo atribuição de relações familiares aos “as-
conhecerá a paz”. Assim, o amor pelo poder tros” da natureza e a importância que eles
deve ser menor que o poder do amor. têm na vida das tribos, de modo que o eu lí-
A letra faz menção ao uso de uma bola de
6. rico “reza/pede” aos elementos da natureza
cristal para “ver” o passado e não o futuro. por “bênçãos” a quem os adora.
Bastando observar a roupa suja da pessoa é 16. Para resolver essa questão, é preciso prestar
possível inferir do que se alimentou no al- atenção no seguinte trecho do primeiro pa-
moço. A compreensão do texto leva à alter- rágrafo: “Your bag was among those selected
nativa [C] como correta. for physical inspection.”. A referida passagem
7.
Este trecho do texto torna a alternativa [A] revela que a mala já foi revistada pelos ofi-
correta: “Over 25% of 6 to 7 year old chil- ciais de segurança. O segundo parágrafo tam-
dren have beginning cavities in one of the bém fornece dados para essa interpretação:
molars.” “During the inspection, your bag and its con-
VOCABULÁRIO tents may have been searched for prohibited
keystone = pedra angular, no sentido de que items. At the completion of the inspection,
é fundamental. the contents were returned to your bag”.
cavities = cavidades no sentido de causada 17. A alternativa [A] está correta, pois o poe-
por cáries. ma pode ser entendido da seguinte maneira:
8.
O fazendeiro percebeu que, apesar do mari- “Duas estradas bifurcavam em uma floresta
do achar que era o chefe da casa, era sua e eu — / Eu peguei aquela menos percorrida,
mulher que realmente detinha maior poder. / E isso fez toda a diferença”. O fato de o eu
A esposa, usando a forma imperativa, disse lírico ter escolhido o caminho menos conhe-
que queria o cavalo marrom, não concordan- cido evidencia sua ousadia.
do com o marido, que preferia o preto. 18. O seguinte trecho é justificativa para a es-
9.
A alternativa [E] está certa, pois as usinas colha da alternativa [B]: “Know what you’re
elétricas (power plants) são as maiores emis- putting in your body” (Saiba o que você está
soras de gases do efeito estufa na atmosfera. colocando em seu corpo).

176
Gabarito
1
. E 2. C 3. B 4. A 5. B
6. C 7. A 8. C 9. E 10. A
11. D 12. D 13. A 14. B 15. D
16. C 17. A 18. B

177
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Aula 2

Competência 2
Habilidades 5 e 8

BREVIÁRIO

Gênero jornalístico
Dos vários tipos de gênero existentes, o jornalístico é um dos mais amplos, pois envolve características pertencentes
a vários tipos de composição textual. Por esse motivo, é também um dos gêneros mais trabalhados em provas de
vestibulares e no ENEM. O nosso objetivo nesta aula é conhecer os elementos que compõem o gênero jornalístico
(notícia, entrevista, reportagem, editorial, entre outros) e discutir algumas marcas textuais que são recorrentes nos
vestibulares.

A notícia
A notícia é um dos elementos que compõe o gênero jornalístico. Está espalhada pelos mais diversos meios de
comunicação (jornais, revistas, rádio, internet). Tecnicamente, podemos dizer que a notícia se caracteriza pelo
puro registro de fatos, sem que haja a emissão de opinião da pessoa que a escreve. O objetivo básico
de uma notícia é transmitir informações a um leitor de maneira objetiva e precisa. A partir dessa definição, podemos
inferir que a notícia trabalha pelos mesmos termos da função referencial da linguagem (buscar informações de um
referente no mundo, e transmiti-las objetivamente).

1. O que vira notícia?


Sendo o objetivo da notícia o de transmitir informações, sua publicação parte de um pressuposto bem bási-
co: a notícia deve ser de interesse geral da sociedade (há aí um critério de relevância). Um acontecimen-
to familiar mais simplório, por exemplo, não é publicado por jornais e revistas, pois não se trata de evento
de interesse geral da sociedade. A partir disso, entendemos por que certos assuntos sempre são notícia.
Alguns exemplos de assuntos são:
§§ políticos;
§§ econômicos;
§§ culturais;
§§ esportivos.

2. Notícia: circulação e profundidade dos assuntos


Desde a criação da imprensa, no século XV, as notícias eram veiculadas por meio de jornais impressos. Mais
adiante, com o avanço das tecnologias de comunicação e transmissão (rádio, televisão, internet), as notícias
passaram a circular em espaços cada vez mais variados. No entanto, essa variabilidade em seu contexto
de circulação provocou significativas modificações no modo como os assuntos são abordados. A internet,
por exemplo, tem como tendência apresentar as notícias de maneira mais rápida, mais imediata, e, conse-

179
quentemente, menos aprofundada. Isso implica notícias mais “rasas”, com maior número de informações
problemáticas e de erros gramaticais.
Já um jornal impresso, por não possuir a capacidade estrutural de emitir notícias rapidamente (por conta
dos processos de impressão e distribuição), tem como vantagem justamente o maior aprofundamento sobre
os dados que compõem a notícia. Há, num meio de comunicação impresso, maior número de dados e de-
talhes a respeito da notícia publicada, e também construções gramaticais mais cuidadosas. Evidentemente,
há exceções em todos esses espaços de comunicação, sendo necessário analisar cuidadosamente não só a
notícia, mas o meio de comunicação que a originou.

3. Os traços linguísticos da notícia


Por convenção, as notícias devem obedecer às regras da gramática normativa, sendo mais formais (há
alguns casos mais específicos, como alguns jornais populares, geralmente destinados ao público de baixa
renda, em que se permitem certas “liberdades linguísticas”, deixando o texto mais coloquial.
Por conta de questões de espaço, a notícia costuma ser construída com períodos curtos que incorporam
pequenas ideias, e que também obedeçam a estruturas sintáticas canônicas (1º sujeito – 2º predicado – 3º
complementos). Esse movimento garante clareza e objetividade ao texto. (há alguns jornalistas de estilo
mais “sofisticado” que imprimem marcas mais particulares ao seu texto como algumas estratégias literárias,
por exemplo, mas esses movimentos não chegam a descaracterizar totalmente a notícia).
Como dito anteriormente, a notícia tem como característica a objetividade. Isso significa que, por convenção,
ela não pode ser pautada pelas opiniões dos jornalistas que as escrevem. Nesse caso, não é comum encon-
trarmos elementos gramaticais que realizam processos avaliativos, como adjetivos ou advérbios. Estes
aparecem apenas como caracterização dos fatos, e não como marcas opinativas do jornalista.

4. Os traços estruturais da notícia


As notícias costumam ser constituídas a partir de estruturas previamente determinadas. Temos, por exemplo,
o título, que tem a função de chamar a atenção do leitor para o conteúdo a ser apresentado. Em alguns
casos, podemos ter, além do título, um subtítulo, que no jargão jornalístico é conhecido como olho. Esse
subtítulo costuma evidenciar o elemento principal da notícia.
Os manuais de redação jornalística também destacam uma estratégia denominada pirâmide invertida,
que consiste na apresentação de informações mais básicas no parágrafo inicial, informações
essas que serão retomadas ao longo da notícia.
O desenvolvimento desse tipo de texto também elabora estratégias de constituição de perguntas na cabeça
do leitor (que?, quem?, quando?), que, adiante no texto serão eventualmente respondidas com grau de
aprofundamento variado (como e por quê).

Reportagem
A reportagem também é um tipo de gênero jornalístico que costuma apresentar textos mais longos e bastante
detalhados. A reportagem costuma retratar a observação direta de um repórter sobre acontecimentos e situações
específicas. Vejamos a definição de reportagem dada pelo Manual de redação da Folha de S.Paulo:
Reportagens têm por objetivo transmitir ao leitor, de maneira ágil, informações novas, objetivas (que possam
ser constatadas por terceiros) e precisas sobre fatos, personagens, ideias e produtos relevantes. Para tanto, elas se
valem de ganchos oriundos da realidade, acrescidos de uma hipótese de trabalho e de investigação jornalística.
Manual da redação, Folha de São Paulo. 7ª edição. São Paulo: Publifolha, 2001. Pg. 24.

180
A partir daí, podemos constituir um movimento de comparação entre a reportagem e a notícia, vista ante-
riormente: enquanto a notícia preza pela total objetividade (referencialidade), a reportagem permite subje-
tivações mais variadas, de acordo com o tema da reportagem. Em termos mais claros, dependendo do que
está sendo abordado na reportagem, a pessoa que a escreve pode imprimir características mais pessoais. É
claro que, em reportagens de cunho político, por exemplo, espera-se que a escrita seja mais objetiva, para
que não se pense que o repórter escreve sem a imparcialidade que o assunto pede.

1. Reportagem: circulação e profundidade dos assuntos


Obviamente, as reportagens mudam suas características de profundidade de acordo com o meio em que cir-
culam. Na televisão, por exemplo, costumam ter um espaço de aprofundamento mais curto por conta da curta
duração dos programas. Essa deficiência geralmente é suprida pelo volume de imagens que a TV acaba exibin-
do. Já nos meios impressos, a reportagem costuma ser mais longa e mais detalhada, com pouco espaço para
imagens (iconografia). Geralmente, nos meios impressos, a imagem serve para ilustrar questões bem pontuais.
Apesar dessas diferenças, uma coisa é certa: qualquer reportagem, mesmo as televisivas, tem maior grau de
profundidade que as notícias, pois pressupõe uma pesquisa/entrevista realizada por um repórter.

2. Os traços linguísticos da reportagem


Assim como nas notícias, a linguagem utilizada numa reportagem deve ser pautada por elementos da gra-
mática normativa, embora uma reportagem televisiva tenha maior liberdade linguística por ser feita a partir
de elementos da oralidade. Costumeiramente, encontraremos um maior grau de formalidade em reporta-
gens impressas. Outro traço linguístico presente no texto são as penetrações de diferentes vozes, pois, como
comentamos anteriormente, uma reportagem pressupõe uma pesquisa ou entrevista, e muitas vezes essas
vozes são evidenciadas no corpo da reportagem.

3. Os traços estruturais da notícia


Na reportagem, devido a sua extensão e possibilidades variadas de temas, não temos estrutura fixa. No
entanto, espera-se que os parágrafos introdutórios apresentem elementos que possam ser recuperados pelo
leitor no decorrer do texto. Também é necessário, em reportagens impressas, construir elementos que apro-
ximem o leitor do contexto abordado. Todos esses elementos devem ser articulados de modo claro para que
o leitor possa reconstruir o quadro geral apresentado. Em alguns casos, para auxiliar o leitor, podemos ter na
reportagem o uso de iconografias, que consistem basicamente em elementos informativos que incorporam
imagem + texto, e que trazem dados numéricos, estatísticos ou ilustrativos.

Quadrinhos e tirinhas
As histórias em quadrinhos são um conjunto narrativo (entendido como uma forma de arte sequencial gráfica) que
mescla linguagem verbal (texto) e linguagem não verbal (imagem). É um gênero bastante popular entre crianças
e adolescentes, e tem cada vez mais se tornado popular também entre os adultos, especialmente pela capacidade
que esse gênero possui de representar uma quantidade significativa de situações sociais.
É um tipo de gênero que muitos tentam associar a outros rótulos, como, a literatura. Há aí um equívoco,
pois, na verdade, os quadrinhos possuem uma linguagem bastante autônoma, capaz de abarcar muitos fenômenos
de comunicação. O professor Paulo Ramos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em abor-
dagens críticas de quadrinhos, explana com clareza o que devemos entender a respeito desse gênero:
Quadrinho são quadrinhos. E, como tais, gozam de uma linguagem autônoma, que usa mecanismos pró-
prios para representar os elementos narrativos. Há muitos pontos comuns com a literatura, evidentemente. Assim
como há também com o cinema, o teatro e tantas outras linguagens.
(Paulo Ramos, in: A leitura dos quadrinhos, Editora Contexto: 2014, pág 17.)

181
As histórias em quadrinhos são, em geral, publicadas no formato de revistas, livros ou em tiras publicadas
em revistas e jornais. Aliás, tendo em vista as dimensões do vestibular (elaborado com provas que não possuem
grande espaço), o tipo mais comum de quadrinho que encontramos são as “tiras”.

As tiras
São entendidas como tiras os segmentos de história em quadrinhos publicados em jornais ou revistas num curto
espaço de página, habitualmente na horizontal (atualmente, há também formatos verticais ou com duas ou mais
tiras). É um gênero textual que surgiu nos Estados Unidos para dar conta da falta de espaço que havia nos jornais
para a publicação de cruzadas e outros passatempos. O nome “tira” (ou “tirinha”, como a conhecemos no Brasil)
remete ao formato do texto, que parece um “recorte” horizontal de jornal.
Trata-se de um gênero textual que mais comumente apresenta temática humorística, mas também encon-
traremos (especialmente no vestibular) tirinhas de cunho social ou político, satíricas ou metafísicas (que propõem
reflexões existenciais). Vejamos alguns exemplos:

(Tirinha de humor – “Níquel Náusea” de Fernando Gonsales)

(Tirinha de crítica social – “Os malvados” de André Dahmer)

(Tirinha reflexiva dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá)

Mais recentemente, as tiras (e os quadrinhos como um todo) têm sido objetos de inúmeras pesquisas sobre
comunicação em cursos de graduação e pós-graduação. Encontram-se com facilidade artigos e outras publicações
destinados ao estudo deste gênero. Por esse motivo, tem-se explorado muito os quadrinhos no vestibular.

182
Aplicação dos conhecimentos
1. (ENEM)

Na tira da série For better or for worse, a comunicação entre as personagens fica comprometida em
um determinado momento porque:
a) as duas amigas divergem de opinião sobre futebol.
b) uma das amigas desconsidera as preferências da outra.
c) uma das amigas ignora que o outono é temporada de futebol.
d) uma das amigas desconhece a razão pela qual a outra a maltrata.
e) as duas amigas atribuem sentidos diferentes a palavra season.

2. (ENEM) 36 hours in Buenos Aires


Contemporary Argentine history is a roller coaster of financial booms and cracks, set to gripping
political soap operas. But through all the highs and lows, one thing has remained constant: Buenos
Aires’s graceful elegance and cosmopolitan cool. This attractive city continues to draw food lovers,
design buffs and party people with its riotous night life, fashion-forward styling and a favorable
exchange rate. Even with the uncertain economy, the creative energy and enterprising spirit of
Porteños, as residents are called, prevail – just look to the growing ranks of art spaces, boutiques,
restaurants and hotels.
SINGER, P. Disponível em: www.nytimes.com. Acesso em: 30 jul. 2012.

Nesse artigo de jornal, Buenos Aires é apresentada como a capital argentina, que:
a) foi objeto de novelas televisivas baseadas em sua vida noturna e artística.
b) manteve sua elegância e espírito cosmopolita, apesar das crises econômicas.
c) teve sua energia e aspecto empreendedor ofuscados pela incerteza da economia.
d) foi marcada historicamente por uma vida financeira estável, com repercussão na arte.
e) parou de atrair apreciadores da gastronomia, devido ao alto valor de sua moeda.

3. (ENEM)

A partir da leitura dessa tirinha, infere-se que o discurso de Calvin teve um efeito diferente do
pretendido, uma vez que ele:
a) decide tirar a neve do quintal para convencer seu pai sobre seu discurso.
b) culpa o pai por exercer influência negativa na formação de sua personalidade.
c) comenta que suas discussões com o pai não correspondem às suas expectativas.
d) conclui que os acontecimentos ruins não fazem falta para a sociedade.
e) reclama que é vítima de valores que o levam a atitudes inadequadas.

183
4. (ENEM) National Geographic News
Christine Dell’ Amore
Published April 26, 2010
Our bodies produce a small steady amount of natural morphine, a new study suggests. Traces of
the chemical are often found in mouse and human urine, leading scientists to wonder whether
the drug is being made naturally or being delivered by something the subjects consumed. The
new research shows that mice produce the “incredible painkiller” – and that humans and other
mammals possess the same chemical road map for making it, said study co-author Meinhart Zenk,
who studies plant-based pharmaceuticals at the Donald Danforth Plant Science Center in St. Louis,
Missouri.
Disponível em: www.nationalgeographic.com. Acesso em: 27 jul. 2010.

Ao ler a matéria publicada na National Geographic para a realização de um trabalho escolar, um


estudante descobriu que:
a) os compostos químicos da morfina, produzidos por humanos, são manipulados no Missouri.
b) os ratos e os humanos possuem a mesma via metabólica para produção de morfina.
c) a produção de morfina em grande quantidade minimiza a dor em ratos e humanos.
d) os seres humanos têm uma predisposição genética para inibir a dor.
e) a produção de morfina é um traço incomum entre os animais.

5. (ENEM)

Cartuns são produzidos com o intuito de satirizar comportamentos humanos e assim oportunizam
a reflexão sobre nossos próprios comportamentos e atitudes. Nesse cartum, a linguagem utilizada
pelos personagens em uma conversa em inglês evidencia a:
a) predominância do uso da linguagem informal sobre a língua padrão.
b) dificuldade de reconhecer a existência de diferentes usos da linguagem.
c) aceitação dos regionalismos utilizados por pessoas de diferentes lugares.
d) necessidade de estudo da língua inglesa por parte dos personagens.
e) facilidade de compreensão entre falantes com sotaques distintos.

6. (ENEM)

Com base nas informações verbais e no contexto social da tirinha, infere-se que o cliente:
a) constrange e intimida o garçom, a fim de não pagar a conta devida.
b) está indisposto para conversar com o garçom sobre assuntos pessoais.
c) explica ao garçom que vai aguardar outra pessoa chegar ao restaurante.
d) mostra descontentamento com o serviço para não ter que pagar por ele.
e) demonstra bom humor, fazendo piada no momento de fechar a conta.

184
7. (ENEM) 23 February 2012 Last update at 16:53 GMT
BBC World Service
J. K. Rowling to pen first novel for adults

Author J. K. Rowling has announced plans to publish her first novel for adults, which will be “very
different” from the Harry Potter books she is famous for.
The book will be published worldwide although no date or title has yet been released. “The
freedom to explore new territory is a gift that Harry’s success has brought me,” Rowling said.
All the Potter books were published by Bloomsbury, but Rowling has chosen a new publisher for
her debut into adult fiction. “Although I’ve enjoyed writing it every bit as much, my next book will
be very different to the Harry Potter series, which has been published so brilliantly by Bloomsbury
and my other publishers around the world,” she said, in a statement. “I’m delighted to have a
second publishing home in Little, Brown, and a publishing team that will be a great partner in
this new phase of my writing life.”
Disponível em: www.bbc.co.uk. Acesso em: 24 fev. 2012 (adaptado).

J. K. Rowling tornou-se famosa por seus livros sobre o bruxo Harry Potter e suas aventuras, adap-
tados para o cinema. Esse texto, que aborda a trajetória da escritora britânica, tem por objetivo:
a) informar que a famosa série Harry Potter será adaptada para o público adulto.
b) divulgar a publicação do romance por J. K. Rowling inteiramente para adultos.
c) promover a nova editora que irá publicar os próximos livros de J. K. Rowling.
d) informar que a autora de Harry Potter agora pretende escrever para adultos.
e) anunciar um novo livro da série Harry Potter publicado por editora diferente.

8. (ENEM)

A tira, definida como um segmento de história em quadrinhos, pode transmitir uma mensagem
com efeito de humor. A presença desse efeito no diálogo entre Jon e Garfield acontece porque:
a) Jon pensa que sua ex-namorada é maluca e que Garfield não sabia disso.
b) JodelI é a única namorada maluca que Jon teve, e Garfield acha isso estranho.
c) Garfield tem certeza de que a ex-namorada de Jon é sensata, o maluco é o amigo.
d) Garfield conhece as ex-namoradas de Jon e considera mais de uma como maluca.
e) Jon caracteriza a ex-namorada como maluca e não entende a cara de Garfield.

185
Raio X 7. A resposta pode ser encontrada em: “Au-
thor J. K. Rowling has announced plans to
publish her first novel for adults, which
1. A alternativa correta é a [E], pois a palavra will be “very different” from the Harry Pot-
season foi utilizada com dois sentidos di- ter books she is famous for” (A autora J.K.
ferentes. No segundo quadrinho, uma das Rowling anunciou planos para publicar seu
amigas utiliza a palavra como estação do primeiro romance para adultos, o qual será
ano. Pode-se entender tal sentido pelo uso “bem diferente” dos livros de Harry Potter
das expressões the air’s cool (o ar está fres- pelos quais ela é famosa).
co), the leaves are turning (as folhas estão 8. A presença do efeito de humor na história
caindo) e autumn (outono). A outra amiga em quadrinhos acontece porque Garfield co-
entende season como temporada, pois ocorre nhece as ex-namoradas de Jon e considera
a associação com football (futebol). mais de uma como maluca. Tradução da his-
2. A alternativa [B] está correta, pois o tex- tória em quadrinhos: Jon: “Você se lembra
to coloca: “Even with the uncertain economy, da minha antiga namorada Joddel?” Jon:
the creative energy and enterprising spirit “Você sabe… a maluca” Garfield: “Você terá
of Porteños, as residents are called, prevail – de ser mais específico”.
just look to the growing ranks of art spaces,
boutiques, restaurants and hotels” (Mesmo
com a economia incerta, a energia criativa e o
espírito empreendedor dos Porteños, nome com
Gabarito
o qual os moradores são chamados, prevalecem
– apenas preste atenção às séries de galerias de 1
. E 2. B 3. C 4. B 5. B
artes, boutiques, restaurantes e hotéis).
6. E 7. D 8. D
3. A resposta pode ser encontrada no último
quadrinho, pois Calvin afirma que “essas
discussões nunca vão para onde deveriam
ir”, ou seja, “que as discussões com o pai
nunca beneficiam o garoto”. Por esse motivo,
a resposta correta é a [C].
4. A alternativa correta é a [B], pois o texto
afirma que “humans and other mammals
possess the same chemical road map for
making it” (seres humanos e outros mamí-
feros possuem a mesma via metabólica para
produzi-la [morfina]).
5. O cartum coloca duas personagens que usam
a língua inglesa de modos diferentes. O ra-
paz da esquerda utiliza linguagem informal
(ain’t, ya, shuld) ao passo que o da direita
utiliza linguagem formal (May I suggest).
Tradução do primeiro quadrinho:
De maneira alguma você deveria estar aqui
se você não fala Inglês muito bem.
Tradução do segundo quadrinho:
Claro! Posso sugerir que você evite o uso de
duplas negativas e que não se esqueça de
usar um advérbio?
Pelo diálogo pode-se inferir que ambas as
personagens defendem seu modo de falar, ou
seja, valorizam suas respectivas formas de lin-
guagem sem dar importância a outra forma.
6. O garçom pergunta ao cliente se ele gostaria
de sobremesa. O rapaz responde dizendo que
está satisfeito. Assim, o garçom pergunta
ao rapaz se ele gostaria de fechar a conta
(the check). O cliente usa a ambiguidade
da palavra check (conta e cheque de banco)
para brincar com o garçom, afirmando que
ele não gostaria de um cheque porque está
“quebrado” financeiramente.

186
R.P.A.
ENEM
Redação
Competência 1 – Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa.

Competência 2 – Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema,
dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa.

Competência 3 – Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.

Competência 4 – Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.

Competência 5 – Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
Aula 1

Competências 1 e 2

REDAÇÃO
A redação do ENEM é corrigida a partir da análise de 5 competências, atribuindo um valor de 200 pontos para
cada uma delas.
Cabe ao candidato o conhecimento pleno das competências e níveis de proficiência a fim de que atinjamos
o grau máximo na avaliação.

(fonte: Matriz de Referência – Cartilha de Redação INEP)

Avisos importantes:

189
Competência 1
Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.

A primeira competência a ser avaliada em seu texto é o domínio da modalidade escrita formal da língua.
Para o bom desempenho nessa competência é fundamental a distinção entre a modalidade oral e escrita,
bem como entre o registro formal e informal. Atente também para que as informações estejam completas nas
frases.

190
Competência 2
Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o
tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.

A sua redação atenderá às exigências de elaboração de um texto dissertativo-argumentativo se combinar


dois princípios de estruturação:

Importante:
§§ Leia atentamente os textos motivadores para compreender a proposta de redação e exatamente o que está sendo
solicitado.
§§ Não copie trechos dos textos motivadores.
§§ Reflita sobre o tema proposto (situação-problema) para definir sua estratégia de argumentação e defesa de tese.
§§ Desenvolva seu tema de forma consciente e clara para que o leitor possa acompanhar o seu raciocínio.
§§ Lembre-se de que cada parágrafo deve desenvolver um tópico-frasal.
§§ Utilize informações de várias áreas do conhecimento para que fique claro o seu conhecimento de mundo.
191
Acervo
LIMITE ENTRE O QUE PODE OU NÃO SER DITO EM PAÍSES DEMOCRÁTICOS DIVIDE OPINIÕES
Camila Baccarin
Eduardo Moura
Ricardo Hiar
da editoria de treinamento

“Biiichaaa!!!” O coro de milhares de vozes espicha a palavra numa crescente que explode quando o goleiro adver-
sário cobra o tiro de meta. Para você, é troça normal e inofensiva do mundo do futebol ou uma demonstração
inaceitável de homofobia?

“Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. Na última vez em que chegaram perto de um vagão foram
parar em Auschwitz.” A piada postada em rede social por um famoso humorista ultrapassa a liber-
dade de expressão ou o humor deve ser livre e sem barreiras?

“Li, ouvi, pensei e entendi que há uma longa discussão sobre o uso de ‘blackface’[..], por isso decidi refazer a
Ivonete sem que ela pareça uma caricatura risível da mulher negra”, escreveu o ator Paulo Gustavo, anunciando
que deixaria de pintar o rosto para interpretar uma empregada espevitada. Subordinação ao politicamente correto?

Os três casos são tópicos de uma das mais fortes discussões atuais, a contraposição entre o direito à liberdade
de expressão e o clamor por um tratamento diferenciado para grupos historicamente vulneráveis, como negros,
homossexuais, mulheres, refugiados e imigrantes.
http://temas.folha.uol.com.br/liberdade-de-opiniao-x-discurso-de-odio/o-politicamente-correto/limite-entre-o-que-pode-ou-nao-ser-
-dito-em-paises-democraticos-divide-opinioes.shtml

Quando as redes incentivam a intolerância

A grande popularização das redes sociais nos últimos anos projetou mais evidência ao problema da intolerância.
De acordo com dados da ONG Safernet, apenas entre os anos de 2010 e 2013, aumentou em mais de 200% o
número de denúncias contra páginas que divulgaram conteúdos racistas, misóginos, homofóbicos, xenofóbicos,
neonazistas, de intolerância religiosa, entre outras formas de discriminação contra minorias em geral.
Números como esses provocam a sensação de que a internet é quem criou uma grande onda de intolerân-
cia. Porém, o que de fato ocorreu é que as redes sociais amplificaram os discursos de ódio já existentes no nosso
dia a dia. Pensando bem, como é possível separar a manifestação de preconceitos ocorridos no ambiente virtual
das práticas sociais do “mundo real”? No fundo, nas ruas ou nas redes, as pessoas são as mesmas. O ambiente
em rede, no entanto, dada a possibilidade de um pretenso anonimato e a confortável reclusão atrás da tela do
computador, facilita que cada um solte seus demônios.
Quando uma pessoa posta ou compartilha algum discurso de ódio na internet, ela está reforçando e reafir-
mando um preconceito que ela já tem, já existente. É uma reprodução no mundo virtual de algo que faz parte da
realidade daquela pessoa, daquela sociedade. Chegamos à conclusão de que a intolerância nas redes é resultado
direto das desigualdades e preconceitos sociais em geral, e não uma “invenção da internet”.
Mesmo que a intolerância difundida no mundo virtual não tenha nascido na internet, não se pode negar o
papel dos meios de comunicação de massa e das redes na divulgação e até mesmo no incentivo aos discursos de ódio.
Que a internet tem o potencial de ser um meio para a livre circulação de informações transformadoras,
que deveria ajudar na construção de uma sociedade mais igualitária e tolerante, não é novidade. O problema é
que, muitas vezes, vemos, em posts e compartilhamentos, exatamente o contrário disso. É isso que alimenta nossa
vontade de usá-la cada vez mais como antídoto e elemento pedagógico em relação a comportamentos discutíveis,
moralmente condenáveis ou até criminais.

192
O acesso a um canal de comunicação amplo, disponível para todos, aliado a uma ideia distorcida do que é
liberdade de expressão e de seus limites, faz com que muitas pessoas se sintam incentivadas a manifestar precon-
ceitos que fora do mundo virtual não encontrariam eco. Como resume bem uma frase em uma camiseta produzida
pelo Newseum, de Washington, “liberdade de expressão não é licença para ser estúpido”.
Foi assim que surgiu, por exemplo, o cyberbullying, uma forma de intolerância que diz respeito especifi-
camente ao mundo virtual. Sob a proteção do anonimato, grupos de pessoas podem ofender, perseguir ou criar
rumores, boatos e imagens forjadas sobre uma vítima, normalmente reproduzindo preconceitos contra minorias,
como racismo, misoginia, homofobia, entre outros.
http://www.comunicaquemuda.com.br/dossie/quando-intolerancia-chega-as-redes/

Intolerância na sua timeline: Vai deixar barato?

Já passou o tempo em que a internet era terra de ninguém. Mesmo com a escalada da intolerância nas redes, hoje
existem alguns serviços importantes para denunciar os intolerantes digitais. Não pode ter moleza para a intole-
rância na web, e isso está nas nossas mãos. Seja no Facebook, no Twitter ou nos comentários de algum portal de
notícias, se algo soar ofensivo, você pode e deve denunciar.

Delegacias especializadas em crimes virtuais:


São Paulo:

DIG-DEIC – 4ª Delegacia – Delitos praticados por Meios Eletrônicos. Presta atendimento presencial, por telefone
e via Web. Endereço: Av. Zack Narchi, 152, Carandiru – São Paulo (SP) Fone: (11) 2224-0721 ou 2221 – 7030.

Rio de Janeiro:

Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) – Rua Professor Clementino Fraga, nº 77 (2º andar),
Cidade Nova (prédio da 6ª DP), Rio de Janeiro/RJ (CEP: 20230-250), telefones (0xx21) 2332-8192, 2332-8188 e
23328191 e e-mails drci@pcivil.rj.gov.br.

193
Proposta
Com base na leitura dos seguintes textos motivadores e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija texto dissertativo-argumentativo em norma culta da língua portuguesa sobre o tema “O aumento do
discurso de ódio no Brasil”, apresentando proposta de intervenção social que respeite os direitos humanos.
Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Texto I

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à pro-
priedade, nos termos seguintes:
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente
de censura ou licença.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

Texto II
Fernando Schüler, professor de ciência política do Insper, afirma: “A democracia não é necessariamente a vitória da
maioria sobre a minoria. É a vitória da minoria barulhenta que consegue produzir maiorias eventuais e vai legis-
lando sobre todos e sobre cada um.”
Para defensores do politicamente correto, mesmo o pilar democrático da liberdade de expressão deve ter
limites. “Não é um direito absoluto nem pode ser. As pessoas têm que entender que vivem em sociedade, que
existem regras e que precisamos delas, sobretudo no que diz respeito à vida do outro”, afirma Djamila Ribeiro,
escritora e ativista do movimento negro.
Schüler observa que, em sociedades complexas, traçar um limite entre o que pode ou não ser falado é muito
difícil, porque há uma diversidade de ordens de valores que são simultaneamente verdadeiras e simultaneamente
contraditórias ou excludentes. “Liberdade de opinião é um valor que prezamos, mas também respeitamos a diver-
sidade de comportamento e de opção sexual. Então, como definir a ordem de valor que vai prevalecer, se ambas
são verdadeiras?”, pergunta.

194
Texto III

http://temas.folha.uol.com.br/liberdade-de-opiniao-x-discurso-de-odio/o-politicamente-correto/limite-entre-o-que-pode-ou-nao-ser-
-dito-em-paises-democraticos-divide-opinioes
Texto III http://www.comunicaquemuda.com.br/dossie/intolerancia-nas-redes/

Texto IV

As pessoas estão agressivas na internet. Ali, há todo tipo de insulto, o que abala os ofendidos. Reagir ao precon-
ceito, dessa forma, não parece tão simples.
Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso. O preconceito tem duas fontes: a
covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico
tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta
para ele poder valer alguma coisa. É um fraco que teme aquele que não é igual e se sente ameaçado por ele. Além
disso, ser preconceituoso é ser burro e tonto.
Mário Sergio Cortella
https://claudia.abril.com.br/noticias/todo-preconceituoso-e-covarde-o-ofendido-precisa-compreender-isso-mario-sergio-cortella/#

195
Acervo
Bullying

“É uma das formas de violência que mais cresce no mundo”, afirma Cléo Fante, educadora e autora do livro Fe-
nômeno Bullying: Como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para a Paz (224 págs., Ed. Verus, tel. (19) 4009-
6868 ). Segundo a especialista, o bullying pode ocorrer em qualquer contexto social, como escolas, universidades,
famílias, vizinhança e locais de trabalho. O que, à primeira vista, pode parecer um simples apelido inofensivo pode
afetar emocional e fisicamente o alvo da ofensa.
Além de um possível isolamento ou queda do rendimento escolar, crianças e adolescentes que passam por
humilhações racistas, difamatórias ou separatistas podem apresentar doenças psicossomáticas e sofrer de algum
tipo de trauma que influencie traços da personalidade. Em alguns casos extremos, o bullying chega a afetar o esta-
do emocional do jovem de tal maneira que ele opte por soluções trágicas, como o suicídio.

O que não é bullying?

Discussões ou brigas pontuais não são bullying. Conflitos entre professor e aluno ou aluno e gestor também não
são considerados bullying. Para que seja bullying, é necessário que a agressão ocorra entre pares (colegas de classe
ou de trabalho, por exemplo). Todo bullying é uma agressão, mas nem toda a agressão é classificada como bullying.
Para Telma Vinha, doutora em Psicologia Educacional e professora da Faculdade de Educação da Universi-
dade Estadual de Campinas (Unicamp), para ser dada como bullying, a agressão física ou moral deve apresentar
quatro características: a intenção do autor em ferir o alvo, a repetição da agressão, a presença de um público es-
pectador e a concordância do alvo com relação à ofensa. “Quando o alvo supera o motivo da agressão, ele reage
ou ignora, desmotivando a ação do autor’’, explica a especialista.

O que leva o autor do bullying a praticá-lo?

Querer ser mais popular, sentir-se poderoso e obter uma boa imagem de si mesmo. Isso tudo leva o autor do
bullying a atingir o colega com repetidas humilhações ou depreciações. É uma pessoa que não aprendeu a trans-
formar sua raiva em diálogo e para quem o sofrimento do outro não é motivo para ele deixar de agir. Pelo contrário,
sente-se satisfeito com a opressão do agredido, supondo ou antecipando quão dolorosa será aquela crueldade
vivida pela vítima.
Sozinha, a escola não consegue resolver o problema, mas é normalmente nesse ambiente que se demons-
tram os primeiros sinais de um praticante de bullying. “A tendência é que ele seja assim por toda a vida, a menos
que seja tratado”, diz.

Como identificar o alvo do bullying?

O alvo costuma ser uma criança ou um jovem com baixa autoestima e retraído tanto na escola quanto no lar. ‘’Por
essas características, dificilmente consegue reagir’’, afirma o pediatra Lauro Monteiro Filho, fundador da Associação
Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia). Aí é que entra a questão da repetição
no bullying, pois se o aluno procura ajuda, a tendência é que a provocação cesse.
Além dos traços psicológicos, os alvos desse tipo de violência costumam apresentar particularidades físicas.
As agressões podem ainda abordar aspectos culturais, étnicos e religiosos.”Também pode ocorrer com um novato
ou com uma menina bonita, que acaba sendo perseguida pelas colegas”, exemplifica Guilherme Schelb, procura-
dor da República e autor do livro Violência e Criminalidade Infanto-Juvenil (164 págs., Thesaurus Editora tel. (61)
3344-3738).

196
Quais são as consequências para o aluno que é alvo de bullying?

O aluno que sofre bullying, principalmente quando não pede ajuda, enfrenta medo e vergonha de ir à escola. Pode
querer abandonar os estudos, não se achar bom para integrar o grupo e apresentar baixo rendimento. Uma pes-
quisa da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia) revela que 41,6%
das vítimas nunca procuraram ajuda ou falaram sobre o problema, nem mesmo com os colegas.
As vítimas chegam a concordar com a agressão, de acordo com Luciene Tognetta, doutora em Psicologia
Escolar e pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinhas (Unicamp). O discurso
deles segue no seguinte sentido: “Se sou gorda, por que vou dizer o contrário?”Aqueles que conseguem reagir
podem alternar momentos de ansiedade e agressividade. Para mostrar que não são covardes ou quando percebem
que seus agressores ficaram impunes, os alvos podem escolher outras pessoas mais indefesas e passam a provocá-
-las, tornando-se alvo e agressor ao mesmo tempo.

O que é pior: o bullying com agressão física ou o bullying com agressão moral?

Ambas as agressões são graves e causam danos ao alvo do bullying. Por ter consequências imediatas e facilmente
visíveis, a violência física muitas vezes é considerada mais grave do que um xingamento ou uma fofoca.’’A dificul-
dade que a escola encontra é justamente porque o professor também vê uma blusa rasgada ou um material furtado
como algo concreto. Não percebe que uma exclusão, por exemplo, é tão dolorida quanto ou até mais’’, explica Tel-
ma Vinha, doutora em Psicologia Educacional e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). Os jovens também podem repetir esse mesmo raciocínio e a escola deve permanecer alerta
aos comportamentos moralmente abusivos.

Arte: Patrick Cassimiro

O espectador também participa do bullying?

Sim. É comum pensar que há apenas dois envolvidos no conflito: o autor e o alvo. Mas os especialistas alertam para
esse terceiro personagem responsável pela continuidade do conflito. O espectador típico é uma testemunha dos fa-
tos, pois não sai em defesa da vítima nem se junta aos autores. Quando recebe uma mensagem, não repassa. Essa
atitude passiva pode ocorrer por medo de também ser alvo de ataques ou por falta de iniciativa para tomar partido.
Também são considerados espectadores os que atuam como plateia ativa ou como torcida, reforçando
a agressão, rindo ou dizendo palavras de incentivo. Eles retransmitem imagens ou fofocas. Geralmente, estão
acostumados com a prática, encarando-a como natural dentro do ambiente escolar. ‘’O espectador se fecha aos
relacionamentos, se exclui porque acha que pode sofrer também no futuro. Se for pela internet, por exemplo, ele
“apenas” repassa a informação. Mas isso o torna um coautor’’, explica a pesquisadora Cléo Fante, educadora e
autora do livro Fenômeno Bullying: Como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para a Paz (224 págs., Ed. Verus,
tel. (19) 4009-6868).

197
Existe diferença entre o bullying praticado por meninos e por meninas?

De modo geral, sim. As ações dos meninos são mais expansivas e agressivas, portanto, mais fáceis de identificar.
Eles chutam, gritam, empurram, batem. Já no universo feminino o problema se apresenta de forma mais velada. As
manifestações entre elas podem ser fofocas, boatos, olhares, sussurros, exclusão. “As garotas raramente dizem por
que fazem isso. Quem sofre não sabe o motivo e se sente culpada”, explica a pesquisadora norte-americana Rachel
Simmons, especialista em bullying feminino. Ela conta que as meninas agem dessa maneira porque a expectativa
da sociedade é de que sejam boazinhas, dóceis e sempre passivas. Para demonstrar qualquer sentimento contrário,
elas utilizam meios mais discretos, mas não menos prejudiciais. “É preciso reconhecer que as garotas também
sentem raiva. A agressividade é natural no ser humano, mas elas são forçadas a encontrar outros meios – além dos
físicos – para se expressar”, diz Rachel.

O que fazer em sala de aula quando se identifica um caso de bullying?

Ao surgir uma situação em sala, a intervenção deve ser imediata. “Se algo ocorre e o professor se omite ou até
mesmo dá uma risadinha por causa de uma piada ou de um comentário, vai pelo caminho errado. Ele deve ser o
primeiro a mostrar respeito e dar o exemplo”, diz Aramis Lopes Neto, presidente do Departamento Científico de
Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria. O professor pode identificar os atores
do bullying: autores, espectadores e alvos. Claro que existem as brincadeiras entre colegas no ambiente escolar.
Mas é necessário distinguir o limiar entre uma piada aceitável e uma agressão. “Isso não é tão difícil como parece.
Basta que o professor se coloque no lugar da vítima. O apelido é engraçado? Mas como eu me sentiria se fosse
chamado assim?”, orienta o pediatra Lauro Monteiro Filho.
Veja os conselhos dos especialistas Cléo Fante e José Augusto Pedra, autores do livro Bullying Escolar (132
págs., Ed. Artmed, tel; 0800 703 3444):
– Incentivar a solidariedade, a generosidade e o respeito às diferenças por meio de conversas, campanhas
de incentivo à paz e à tolerância, trabalhos didáticos, como atividades de cooperação e interpretação de diferentes
papéis em um conflito:
– Desenvolver em sala de aula um ambiente favorável à comunicação entre alunos:
– Quando um estudante reclamar de algo ou denunciar o bullying, procurar imediatamente a direção da escola.

Qual o papel do professor em conflitos fora da sala de aula?

O professor é um exemplo fundamental de pessoa que não resolve conflitos com a violência. Não adianta, porém,
pensar que o bullying só é problema dos educadores quando ocorre do portão para dentro. É papel da escola
construir uma comunidade na qual todas as relações são respeitosas.’’Deve-se conscientizar os pais e os alunos
sobre os efeitos das agressões fora do ambiente escolar, como na internet, por exemplo’’, explica Adriana Ramos,
pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do curso de pós-graduação ”As
relações interpessoais na escola e a construção da autonomia moral’’, da Universidade de Franca (Unifran).’’A in-
tervenção da escola também precisa chegar ao espectador, o agente que aplaude a ação do autor é fundamental
para a ocorrência da agressão’’, complementa a especialista.

Arte: Patrick Cassimiro

198
Como lidar com o bullying contra alunos com deficiência?

Conversar abertamente sobre a deficiência é uma ação que deve ser cotidiana na escola. O bullying contra esse
público costuma ser estimulado pela falta de conhecimento sobre as deficiências, sejam elas físicas ou intelectuais,
e, em boa parte, pelo preconceito trazido de casa.
De acordo com a psicóloga Sônia Casarin, diretora do S.O.S. Down – Serviço de Orientação sobre Síndrome
de Down, em São Paulo, é normal os alunos reagirem negativamente diante de uma situação desconhecida. Cabe
ao educador estabelecer limites para essas reações e buscar erradicá-las não pela imposição, mas por meio da
conscientização e do esclarecimento.
Não se trata de estabelecer vítimas e culpados quando o assunto é o bullying. Isso só reforça uma situação
polarizada e não ajuda em nada a resolução dos conflitos. Melhor do que apenas culpar um aluno e vitimar o outro
é desatar os nós da tensão por meio do diálogo. A violência começa em tirar do aluno com deficiência o direito de
ser um participante do processo de aprendizagem. É tarefa dos educadores oferecer um ambiente propício para
que todos, especialmente os que têm deficiência, se desenvolvam. Com respeito e harmonia.

O professor também é alvo de bullying?

Conceitualmente, não, pois, para ser considerada bullying, é necessário que a violência ocorra entre pares, como
colegas de classe ou de trabalho. O professor pode, então, sofrer outros tipos de agressão, como injúria ou difama-
ção ou até física, por parte de um ou mais alunos.
Mesmo não sendo entendida como bullying, trata-se de uma situação que exige a reflexão sobre o convívio
entre membros da comunidade escolar. Quando as agressões ocorrem, o problema está na escola como um todo.
Em uma reunião com os educadores, pode-se descobrir se a violência está acontecendo com outras pessoas da
equipe para intervir e restabelecer as noções de respeito.
Se for uma questão pontual, com um professor apenas, é necessário refletir sobre a relação entre o docente
e o aluno ou a classe. “O jovem que faz esse tipo de coisa normalmente quer expor uma relação com o professor
que não está bem. Existem comunidades na internet, por exemplo, que homenageiam os docentes. Então, se o
aluno se sente respeitado pelo professor, qual o motivo de agredi-lo?”, questiona Adriana Ramos, pesquisadora da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do curso de pós-graduação “As relações interpes-
soais na escola e a construção da autonomia moral”, da Universidade de Franca (Unifran).
O professor é uma autoridade na sala de aula, mas essa autoridade só é legitimada com o reconhecimento
dos alunos em uma relação de respeito mútua. “O jovem está em processo de formação e o educador é o adulto
do conflito e precisa reagir com dignidade”, afirma Telma Vinha, doutora em Psicologia Educacional e professora
da Faculdade de Educação da Unicamp.

O que fazer para evitar o bullying?

A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia) sugere as seguintes ati-
tudes para um ambiente saudável na escola:
– Conversar com os alunos e escutar atentamente reclamações ou sugestões;
– Estimular os estudantes a informar os casos;
– Reconhecer e valorizar as atitudes da garotada no combate ao problema;
– Criar com os estudantes regras de disciplina para a classe em coerência com o regimento escolar;- Estimular
lideranças positivas entre os alunos, prevenindo futuros casos;
– Interferir diretamente nos grupos, o quanto antes, para quebrar a dinâmica do bullying. Todo ambiente escolar
pode apresentar esse problema. “A escola que afirma não ter bullying ou não sabe o que é ou está negando sua
existência”, diz o pediatra Lauro Monteiro Filho, fundador da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção

199
à Infância e Adolescência (Abrapia). O primeiro passo é admitir que a escola é um local passível de bullying. É
necessário também informar professores e alunos sobre o que é o problema e deixar claro que o estabelecimento
não admitirá a prática.
“A escola não deve ser apenas um local de ensino formal, mas também de formação cidadã, de direitos e
deveres, amizade, cooperação e solidariedade. Agir contra o bullying é uma forma barata e eficiente de diminuir a
violência entre estudantes e na sociedade”, afirma o pediatra.

Como agir com os alunos envolvidos em um caso de bullying?

O foco deve se voltar para a recuperação de valores essenciais, como o respeito pelo que o alvo sentiu ao sofrer
a violência. A escola não pode legitimar a atuação do autor da agressão nem humilhá-lo ou puni-lo com medidas
não relacionadas ao mal causado, como proibi-lo de frequentar o intervalo.
Já o alvo precisa ter a autoestima fortalecida e sentir que está em um lugar seguro para falar sobre o
ocorrido. “Às vezes, quando o aluno resolve conversar, não recebe a atenção necessária, pois a escola não acha
o problema grave e deixa passar”, alerta Aramis Lopes, presidente do Departamento Científico de Segurança da
Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Ainda é preciso conscientizar o espectador do bullying, que endossa a ação do autor. ‘’Trazer para a aula
situações hipotéticas, como realizar atividades com trocas de papéis, são ações que ajudam a conscientizar toda
a turma. A exibição de filmes que retratam o bullying, como ‘’As melhores coisas do mundo’’ (Brasil, 2010), da
cineasta Laís Bodanzky, também ajudam no trabalho. A partir do momento em que a escola fala com quem assiste
à violência, ele para de aplaudir e o autor perde sua fama’’, explica Adriana Ramos, pesquisadora da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do curso de pós-graduação “As relações interpessoais na escola
e a construção da autonomia moral”, da Universidade de Franca (Unifran).

Como deve ser uma conversa com os pais dos alunos envolvidos no bullying?

É preciso mediar a conversa e evitar o tom de acusação de ambos os lados. Esse tipo de abordagem não mostra
como o outro se sente ao sofrer bullying. Deve ser sinalizado aos pais que alguns comentários simples, que julgam
inofensivos e divertidos, são carregados de ideias preconceituosas. ’’O ideal é que a questão da reparação da
violência passe por um acordo conjunto entre os envolvidos, no qual todos consigam enxergar em que ponto o
alvo foi agredido para, assim, restaurar a relação de respeito’’ explica Telma Vinha, professora do Departamento
de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Muitas
vezes, a escola trata de forma inadequada os casos relatados por pais e alunos, responsabilizando a família pelo
problema. É papel dos educadores sempre dialogar com os pais sobre os conflitos – seja o filho alvo ou autor do
bullying, pois ambos precisam de ajuda e apoio psicológico.

O que fazer em casos extremos de bullying?

A primeira ação deve ser mostrar aos envolvidos que a escola não tolera determinado tipo de conduta e por quê.
Nesse encontro, deve-se abordar a questão da tolerância ao diferente e do respeito por todos, inclusive com os
pais dos alunos envolvidos.
Mais agressões ou ações impulsivas entre os envolvidos podem ser evitadas com espaços para diálogo. Uma
conversa individual com cada um funciona como um desabafo e é função do educador mostrar que ninguém está
desamparado.’’Os alunos e os pais têm a sensação de impotência e a escola não pode deixá-los abandonados.
É mais fácil responsabilizar a família, mas isso não contribui para a resolução de um conflito’’, diz Telma Vinha,
doutora em Psicologia Educacional e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp).

200
A especialista também aponta que a conversa em conjunto, com todos os envolvidos, não pode ser feita
em tom de acusação. “Deve-se pensar em maneiras de mostrar como o alvo do bullying se sente com a agressão
e chegar a um acordo em conjunto. E, depois de alguns dias, vale perguntar novamente como está a relação entre
os envolvidos”, explica Telma.
É também essencial que o trabalho de conscientização seja feito também com os espectadores do bullying,
aqueles que endossam a agressão e os que a assistem passivamente. Sem que a plateia entenda quão nociva a
violência pode ser, ela se repetirá em outras ocasiões.

Arte: Patrick Cassimiro

O que é bullying virtual ou cyberbullying?

É o bullying que ocorre em meios eletrônicos, com mensagens difamatórias ou ameaçadoras circulando por e-mails,
sites, blogs (os diários virtuais), redes sociais e celulares. É quase uma extensão do que os alunos dizem e fazem na
escola, mas com o agravante de que as pessoas envolvidas não estão cara a cara.Dessa forma, o anonimato pode
aumentar a crueldade dos comentários e das ameaças e os efeitos podem ser tão graves ou piores. “O autor, assim
como o alvo, tem dificuldade de sair de seu papel e retomar valores esquecidos ou formar novos”, explica Luciene
Tognetta, doutora em Psicologia Escolar e pesquisadora do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade
de Educação da Universidade Estadual de Campinhas (Unicamp).
Esse tormento que é a agressão pela internet faz com que a criança e o adolescente humilhados não se
sintam mais seguros em lugar algum, em momento algum. Marcelo Coutinho, especialista no tema e professor
da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que esses estudantes não percebem as armadilhas dos relacionamentos
digitais. “Para eles, é tudo real, como se fosse do jeito tradicional, tanto para fazer amigos como para comprar,
aprender ou combinar um passeio.”

Como lidar com o cyberbullying?

O cyberbulling precisa receber o mesmo cuidado preventivo do bullying e a dimensão dos seus efeitos deve sempre
ser abordada para evitar a agressão na internet. Trabalhar com a ideia de que nem sempre se consegue apagar
aquilo que foi para a rede dá à turma a noção de como as piadas ou as provocações não são inofensivas. “O que
chamam de brincadeira pode destruir a vida do outro. É também responsabilidade da escola abrir espaço para
discutir o fenômeno’’, afirma Telma Vinha, doutora em Psicologia Educacional e professora da Faculdade de Edu-
cação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Caso o bullying ocorra, é preciso deixar evidente para
crianças e adolescentes que eles podem confiar nos adultos que os cercam para contar sobre os casos sem medo
de represálias, como a proibição de redes sociais ou celulares, uma vez que terão a certeza de que vão encontrar
ajuda. ‘’Mas, muitas vezes, as crianças não recorrem aos adultos porque acham que o problema só vai piorar com
a intervenção punitiva’’, explica a especialista.

201
Bullying na Educação Infantil. É possível?

Sim, se houver a intenção de ferir ou humilhar o colega repetidas vezes. Entre as crianças menores, é comum que
as brigas estejam relacionadas às disputas de território, de posse ou de atenção – o que não caracteriza o bullying.
No entanto, por exemplo, se uma criança apresentar alguma particularidade, como não conseguir segurar o xixi,
e os colegas a segregarem por isso ou darem apelidos para ofendê-la constantemente, trata-se de um caso de
bullying.”Estudos na Psicologia afirmam que, por volta dos dois anos de idade, há uma primeira tomada de consci-
ência de ‘quem eu sou’, separada de outros objetos, como a mãe. E perto dos três anos, as crianças começam a se
identificar como um indivíduo diferente do outro, sendo possível que uma criança seja alvo ou vítima de bullying.
Essa conduta, porém, será mais frequente num momento em que houver uma maior relação entre pares, mais coti-
diana’’, explica Adriana Ramos, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do
curso de pós-graduação As relações interpessoais na escola e a construção da autonomia moral”, da Universidade
de Franca (Unifran).

Quais são as especificidades para lidar com o bullying na Educação Infantil?

Para evitar o bullying, é preciso que a escola valide os princípios de respeito desde cedo. É comum que as crianças
menores briguem com o argumento de não gostar uma das outras, mas o educador precisa apontar que todos de-
vem ser respeitados, independentemente de se dar bem ou não com uma pessoa, para que essa ideia não persista
durante o desenvolvimento da criança.
https://novaescola.org.br/conteudo/336/bullying-escola

202
Proposta
Com base na leitura dos seguintes textos motivadores e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija texto dissertativo-argumentativo em norma culta da língua portuguesa sobre o tema “O desafio do
bullying no Brasil”, apresentando proposta de intervenção social que respeite os direitos humanos. Selecione,
organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Texto I

Bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repe-
titiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully,
que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como ameaça, tirania,
opressão, intimidação, humilhação e maltrato.

Texto II

https://istoe.com.br/131156_COMO+VENCER+O+BULLYING/

203
Texto III

O bullying sempre existiu. No entanto, o primeiro a relacionar a palavra a um fenômeno foi Dan Olweus, professor
da Universidade da Noruega, no fim da década de 1970. Ao estudar as tendências suicidas entre adolescentes, o
pesquisador descobriu que a maioria desses jovens tinha sofrido algum tipo de ameaça e que, portanto, o bullying
era um mal a combater.
A popularidade do fenômeno cresceu com a influência dos meios eletrônicos, como a internet e as reporta-
gens na televisão, pois os apelidos pejorativos e as brincadeiras ofensivas foram tomando proporções maiores. O
fato de ter consequências trágicas – como mortes e suicídios – e a impunidade proporcionaram a necessidade de
se discutir de forma mais séria o tema.
https://novaescola.org.br/conteudo/336/bullying-escola

Texto IV

Temas em Psicologia – 2015, Vol. 23, nº 4, 1017-1033 DOI: 10.9788/TP2015.4-16 Bullying: Atitudes, Consequências e Medidas Pre-
ventivas na Percepção de Professores e Alunos do Ensino Fundamental

204
Proposta
Texto I

DEMOCRATIZAÇÃO DA TECNOLOGIA DE COMUNICAÇÃO E INTERNET NO BRASIL

Smartphones, tablets, aplicativos, redes sociais, televisão vinculada à internet. Os dispositivos de comunica-
ção se multiplicam na velocidade de um clique e ocupam o centro da vida cotidiana, sobretudo nas grandes cida-
des. Basta olhar para o lado para ver pessoas com os dedos ágeis sobre a tela touch screen de celulares modernos.
Tamanha importância coloca novos desafios para uma área que, historicamente, no Brasil, ficou distante do
centro do debate relacionado à atuação do Poder Público. Agora, “é preciso garantir que a comunicação seja pen-
sada do ponto de vista da cidadania”, aponta o integrante do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), Sérgio
Amadeu. Uma das questões-chave para isso, segundo Amadeu, será a regulamentação do Marco Civil da Internet,
aprovado, em março deste ano, após meses de disputas no Congresso Nacional.
Nessa etapa, serão definidas as situações nas quais a neutralidade de rede, princípio que garante que todo
conteúdo deva ser tratado igualmente na internet, poderá ser dispensada, bem como o artigo que trata da guarda
de registros e acesso a aplicações na internet, que pode abrir a possibilidade para o armazenamento de informa-
ções dos usuários da rede por até seis meses. “Nós precisamos garantir que os princípios da neutralidade da rede,
da liberdade de expressão, da navegação sem vigilância e do direito à privacidade sejam respeitados pelo Marco
Civil”, afirma.
Se para parte da população brasileira são os direitos na rede que estão em questão, para outra, é o acesso
que ainda se configura como um desafio. Por isso, o integrante do CGI.br aponta que a ampliação da infraestrutura
necessária para levar acesso à rede mundial de computadores aos distintos recantos do país deve integrar a agenda
política dos próximos anos.
“Nós precisamos ter uma infraestrutura compatível com as necessidades econômicas e culturais do país.
Uma infraestrutura de conectividade das coisas, das cidades, das escolas, dos pontos de entretenimento”, diz.
A internet, entretanto, não resume as questões do setor. Integrante do Coletivo Intervozes e da Executiva
do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), a jornalista Bia Barbosa destaca que o país vive
um paradoxo no campo das comunicações. “Ao mesmo tempo em que vem crescendo, no Brasil, apesar dos obstá-
culos, o acesso à internet e às novas plataformas, não demos conta de uma agenda que é do século passado, mas
continua atual, que é a da democratização dos meios de comunicação e da quebra da concentração da propriedade
no setor”, aponta.
Essa democratização, segundo Bia, envolve a consolidação do sistema público de comunicação, o incentivo
às ações midiáticas das próprias comunidades, a garantia da sustentabilidade desses meios e a promoção da di-
versidade no conteúdo veiculado na mídia. Tudo “para que mais vozes e opiniões possam ser conhecidas, porque
quem faz o agendamento e media o debate público no Brasil, mesmo na rede, ainda são os mesmos grupos de
comunicação”, destaca.
Algumas dessas medidas, para ela, podem ser tomadas desde já, como assegurar o financiamento público
para rádios comunitárias e veículos alternativos, garantir transparência nas concessões públicas, já que elas pos-
sibilitam o funcionamento de todos os canais de rádio e televisão no país, e adotar medidas para o respeito e a
promoção dos direitos humanos nos meios de comunicação.
Além disso, o FNDC defende que o setor precisa de um novo marco regulatório, tanto para assegurar essas
demandas quanto para responder ao atual cenário, marcado pela convergência, já que a principal lei que organiza as
comunicações é de 1962. Para tanto, o fórum coleta assinaturas em apoio ao Projeto de Lei da Mídia Democrática.

205
Leis mais específicas também são defendidas pelo professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB)
Venício Lima. Ele aponta que, mesmo após 26 anos da Constituição Federal, os artigos que tratam do tema da
comunicação não foram regulamentados. Um dos exemplos é o Artigo 220, que estabelece que “os meios de co-
municação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”.
Autor de diversos livros sobre políticas de comunicação, Lima avalia que o detalhamento da Constituição
“seria um avanço importantíssimo”. Para ele, mesmo com o desenvolvimento das tecnologias da comunicação,
mantém-se atual a necessidade de se proibir a propriedade cruzada, impedindo que o dono de um canal de tele-
visão tenha também, por exemplo, uma rádio. Segundo o especialista, países como a Argentina e o Uruguai cami-
nham nesse sentido e aprovaram, nos últimos anos, leis que tinham o objetivo de romper monopólio.
http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2014/09/unir-tecnologia-democratizacao-e-cidadania-e-o-desafio-na-comunicacao

Texto II

Democratizar os meios de comunicação é preciso!


Segundo a Constituição Brasileira, cabe ao Poder Executivo outorgar e renovar a concessão, permissão e
autorização dos serviços de radiodifusão, que compreende a transmissão de sons (radiodifusão sonora) e a trans-
missão de sons e imagens (televisão), bem como ao Congresso Nacional apreciar o ato (art. 223 e 223, §1º).
Os serviços de radiodifusão hoje no Brasil são controlados por poucos grupos. A título de exemplo, cabe
citar uma pesquisa pelo Fórum de Democratização da Mídia, que elenca os grupos que controlam o serviço e os
respectivos números de veículos de comunicação que cada um detém:

Texto III
Mas, o que há de errado em poucos grupos controlarem os meios de comunicação no Brasil?
Trata-se de uma proibição presente no texto constitucional desde 1988, quando diz em seu §5º, art. 220
que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.”
É preciso que seja garantida a maior pluralidade possível na difusão das informações, opiniões, ideias etc.
Os longos anos de monopólio e falta de compromisso com a realidade têm gerado uma crise de credibilidade das
grandes mídias junto à população.

206
Nesse sentido, cabe relembrar que uma das pautas das manifestações que tomaram o Brasil no ano de
2013 foi a democratização dos meios de comunicação e a revisão das concessões às empresas detentoras dos
monopólios.
É necessário lembrar da aprovação da Lei nº. 12.965/2014, o Marco Civil da Internet, que “estabelece prin-
cípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil”, tendo como uma das principais premissas a
proteção a privacidade”, como o primeiro de muitos passos.

Texto IV

Cabe também ressaltar a existência do Projeto de Lei de Iniciativa Popular das Comunicações visando à regu-
lamentação em síntese do que já está na Constituição há mais de 20 anos (principalmente no que tange aos
monopólios!).

https://www.istoedinheiro.com.br/noticias/dinheiro-e-tecnologia/

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema: “Os ca-
minhos para a democratização da tecnologia de comunicação e da internet no Brasil”, apresentando
proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e
coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

207
Competência 1 – Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa.

Competência 2 – Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema,
dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa.

Competência 3 – Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.

Competência 4 – Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.

Competência 5 – Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
Aula 2

Competências 3, 4 e 5

REDAÇÃO

Competência 3
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija.

É preciso, para alcançar a melhor avaliação da competência 3, a apresentação de uma ideia a ser defendida
com argumentos que justifiquem a posição assumida.
Essa competência trata da inteligibilidade do seu texto, ou seja, de sua coerência, de sua plausibilidade
entre as ideias apresentadas. A inteligibilidade depende de alguns fatores:
§§ relação de sentido entre as partes do texto;
§§ precisão vocabular;
§§ seleção de argumentos;
§§ progressão temática adequada ao desenvolvimento do tema (planejamento);
§§ adequação entre conteúdo do texto e mundo real.

209
Competência 4
Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.

Os aspectos a serem avaliados nessa competência dizem respeito à estruturação lógica e formal entre as
partes da redação. A organização textual exige que as frases e os parágrafos estabeleçam entre si uma relação
que garanta a sequenciação coerente do texto e a interdependência das ideias. É imprescindível que sejam bem
estabelecidas: a estruturação de parágrafos, estruturação de períodos e referenciação.

Competência 5
Elaborar proposta de solução para o problema abordado, respeitando os valores humanos e considerando a diver-
sidade sociocultural.

O quinto aspecto a ser avaliado no seu texto é a apresentação de uma proposta de intervenção para o problema
abordado. Por isso, a sua redação deve apresentar uma tese sobre o tema, apoiada em argumentos consistentes, e
uma proposta de intervenção para o problema abordado. Considerando seu planejamento de escrita, seu projeto
de texto, avaliado na Competência 3, sua proposta deve ser coerente com a tese desenvolvida e com os argumen-
tos utilizados, já que expressa sua visão, como autor, das possíveis soluções para a questão discutida. Além disso,
é necessário também, ao idealizar sua proposta de intervenção, respeitar os direitos humanos, ou seja, não romper
com os valores de cidadania, liberdade, solidariedade e diversidade cultural.

210
A proposta de intervenção deve refletir os conhecimentos de mundo de quem a redige e, quando muito bem
elaborada, deve conter não apenas a exposição da ação interventiva sugerida, mas também o ator social compe-
tente para executá-la, de acordo com o âmbito da ação escolhida: individual, familiar, comunitário, social, político,
governamental e mundial.
Além disso, a proposta de intervenção deve conter o meio de execução da ação e seu possível efeito, bem
como o detalhamento da ação ou do meio para realizá-la.
Ao redigir seu texto, evite propostas vagas ou muito genéricas; busque ações mais concretas, mais específi-
cas ao tema e consistentes com o desenvolvimento de suas ideias.
Antes de elaborar sua proposta, procure responder às seguintes perguntas: O que é possível apresentar
como proposta de intervenção para o problema abordado pelo tema? Quem deve executá-la? Como viabilizar essa
proposta? Qual efeito ela pode alcançar?
O seu texto será avaliado, portanto, com base na composição e no detalhamento da proposta que você
apresentar.
Resumindo: seu texto será avaliado com base na combinação dos seguintes critérios:
a. presença de proposta X ausência de proposta; e
b. proposta com detalhamento dos meios para sua realização X proposta sem detalhamento dos meios para
sua realização.
Redação no ENEM 2017. Cartilha do Participante.

Acervo
Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional para Longevidade no Brasil e membro da Rede Global de Ci-
dades e Comunidades Amigáveis aos Idosos da OMS, explica que o crescimento dos idosos reflete o comportamen-
to da população brasileira nas últimas décadas, que está com uma taxa de natalidade abaixo da taxa de reposição:
— Enquanto a expectativa de vida aumenta, a taxa de natalidade diminui. No Brasil, há mais de 15 anos
nascem menos crianças que o necessário para repor os pais, ou seja, os casais estão tendo uma média de filhos
inferior a dois.
De acordo com Renato Bandeira de Mello, geriatra e professor da Faculdade de Medicina da UFRGS, en-
quanto países como a França levaram em média um século para se tornarem países envelhecidos, no Brasil este
processo está ocorrendo de forma muito mais rápida.
Enquanto isso, as pessoas estão vivendo por mais tempo. O resultado desta equação é um crescimento
muito rápido na proporção de idosos no país.
Segundo Kalache, enquanto em países europeus o processo de envelhecimento da população aconteceu de
forma lenta e somente depois de um enriquecimento das nações, na qual problemas de infraestrutura já estavam
resolvidos, o mesmo não ocorreu por aqui.
Para Bandeira, um dos principais desafios atuais do Brasil melhorar a qualidade de vida dos idosos está re-
lacionado à qualidade do atendimento primário de saúde e à formação de profissionais especializados em terceira
idade:
— Precisamos incrementar políticas públicas de promoção e proteção à saúde ao idoso, assim como formar
profissionais da saúde que tenham os conhecimentos fundamentais a respeito das peculiaridades do envelheci-
mento, como mudanças físicas, sociais e psíquicas, para que melhores condições de saúde e cuidado sejam ofere-
cidas a essa população.
Adaptado de: http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/vida/noticia/2015/09/numero-de-idososquase-triplicara-no-brasil-ate-2050-afir-
ma-oms-4859566.html

211
Proposta
Com base na leitura dos seguintes textos motivadores e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija texto dissertativo-argumentativo em norma culta da língua portuguesa sobre o tema “O envelhecimen-
to da população brasileira e a garantia da dignidade à pessoa idosa”, apresentando proposta
de intervenção social que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa,
argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Texto I

Art. 1º É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual
ou superior a 60 (sessenta) anos.
Art. 2º O idoso goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção
integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhe, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilida-
des, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em
condições de liberdade e dignidade.
Art. 3º É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta
prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao
trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

Do Direito à Vida

Art. 8º O envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta Lei e
da legislação vigente.
Art. 9º É obrigação do Estado, garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de polí-
ticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade.

Texto II

O envelhecimento da população brasileira é um grande desafio para todos nós, pois vivemos em um país no qual
ainda temos diversos problemas estruturais para serem resolvidos, como o sistema de saúde público, que é defici-
tário, um ensino básico de baixa qualidade, entre outros. E isso se reflete na qualidade de vida dos idosos.
De acordo com o relatório da OMS, um brasileiro que vive 75 anos teria uma média de 65 anos com quali-
dade de vida, sendo os últimos 10 associados a doenças, dependência de cuidados especiais e deficiências.
Enquanto isso, em muitos países, como em grande parte daqueles do norte da Europa, as pessoas têm uma
expectativa de vida acima dos 80 anos, e um número de anos perdidos com doenças inferior a 10. Elas vivem mais
mais tempo e com melhor qualidade.

212
Texto III

Tipos de maus-tratos referidos por profissionais de saúde a partir do conhecimento que têm destas situações.

Texto IV

“Envelhecer com dignidade: proteger os idosos das situações de abuso” é o lema que serviu de mote à realização
de uma Conferência Europeia promovida pela Comissão Europeia, em 2008, que reuniu especialistas e respon-
sáveis políticos, com o objetivo de sensibilizar a opinião pública e lançar o debate sobre as situações de abuso e
violência a que estão sujeitas as pessoas idosas em situação de vulnerabilidade.
Em que condições ocorrem as situações de maus-tratos e negligência contra as pessoas idosas? Como pre-
venir os maus-tratos contra pessoas em situação de grande vulnerabilidade física e mental é certamente uma das
preocupações que o envelhecimento suscita.
https://sociologico.revues.org/471

213
Proposta
Com base na leitura dos seguintes textos motivadores e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija texto dissertativo-argumentativo em norma culta da língua portuguesa sobre o tema “Os avanços em
direção à acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência na sociedade brasileira”,
apresentando proposta de intervenção social que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de
forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Texto I

Art. 1º É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência),
destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades funda-
mentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania.
Art. 2º Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física,
mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação
plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.
Art. 3º Para fins de aplicação desta Lei, consideram-se:
I - acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços,
mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas
e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso
coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida;
II - desenho universal: concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados por todas
as pessoas, sem necessidade de adaptação ou de projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva;
III - tecnologia assistiva ou ajuda técnica: produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias,
estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação
da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de
vida e inclusão social;
IV - barreiras: qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação
social da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movi-
mento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança, entre
outros, classificadas em:
a. barreiras urbanísticas: as existentes nas vias e nos espaços públicos e privados abertos ao público ou de uso
coletivo;
b. barreiras arquitetônicas: as existentes nos edifícios públicos e privados;
c. barreiras nos transportes: as existentes nos sistemas e meios de transportes;
d. barreiras nas comunicações e na informação: qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que
dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens e de informações por intermédio de
sistemas de comunicação e de tecnologia da informação;
e. barreiras atitudinais: atitudes ou comportamentos que impeçam ou prejudiquem a participação social da
pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas;
f. barreiras tecnológicas: as que dificultam ou impedem o acesso da pessoa com deficiência às tecnologias.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm

214
Texto II

São inúmeros os obstáculos existentes para os deficientes, sendo a inclusão escolar uma das grandes barreiras no
nosso país. “Uma escola para todos e para cada um” é um grande objetivo a cumprir para a inclusão. Uma escola
que acolhe as diferenças, que colabora (…) será um bom princípio para combater a exclusão social. Dividir a es-
cola em termos de alunos “normais” e alunos “deficientes” não é certamente um princípio inclusivo e o objetivo
pretendido.
O caminho para termos uma sociedade incluída será, provavelmente, aprofundar a Educação Inclusiva
apoiando todos os alunos com dificuldades, dando-lhes uma educação de qualidade num ambiente comunitário
e diverso.”
Texto adaptado. Disponível em: http://www.deficiencia.no.comunidades.net/index.php?pagina=117711808

Texto III

Os direitos das pessoas com deficiência finalmente estão chegando aos meios de comunicação e sendo integrados
ao discurso do Estado, mas as mudanças concretas de efetivação de cidadania ainda ocorrem de maneira lenta, diz
a superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos de Pessoas com Deficiência (IBDD), Teresa d’Amaral. Segundo
ela, a legislação brasileira sobre o tema é excelente, mas não houve, nos últimos anos, efetivação dos direitos dessa
parcela da população. “Isso significa, entre outras coisas, falta de acessibilidade nos transportes públicos, nos pré-
dios públicos e privados de uso coletivo, em restaurantes, em universidades, em hotéis e em espaços públicos, em
geral”. Teresa ressalta que a questão da acessibilidade é a que mais chama a atenção quando se fala em pessoas
com deficiência, porque, na maioria dos casos, ocorre desrespeito “a um dos direitos mais básicos, o de ir e vir”.
(Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/acessibilidade-e-desafio-para-deficientes-em-todo-o-pais/)

215
Proposta - Extra 1
A QUESTÃO HÍDRICA NO BRASIL
Texto I

A Assembleia Geral da ONU declarou que o acesso à água limpa e segura e ao saneamento básico são direitos
humanos fundamentais ao aprovar uma resolução na sede das Nações Unidas em Nova York. A resolução recebeu
122 votos a favor, nenhum contra e 41 países se abstiveram de votar.
A Assembleia também pediu aos 192 Estados-Membros da Organização e a outros organismos internacio-
nais que ofereçam financiamento, tecnologia e outros recursos para ajudar os países mais pobres a oferecer água
limpa e acessível e saneamento para todos.
O texto da resolução expressa profunda preocupação com a situação das cerca de 884 milhões de pessoas
que não possuem acesso a água potável e as mais de 2,6 bilhões de pessoas que não têm acesso a saneamento
básico. Estudos também mostram que cerca de 1,5 milhão de crianças de até cinco anos de idade morrem a cada
ano devido a doenças decorrentes de problemas com água e saneamento.
Reduzir pela metade a proporção de pessoas que não possui acesso a água potável e o número de indivíduos
sem saneamento básico é um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), conforme ficou estabelecido.
https://nacoesunidas.org

Texto II

http://www.jornaldebrasilia.com.br/charges/crise-hidrica-no-df/

Texto III

No Brasil, 36,4% da água é desperdiçada e apenas 40,8% do esgoto é tratado, segundo o diretor do Departa-
mento de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, Sérgio Antônio Gonçalves. Ele participou hoje (24) de
seminário promovido pela pasta para fortalecer o intercâmbio de informações sobre a gestão de recursos hídricos
e subsidiar ações e políticas públicas no setor.
De acordo com informações do ministério, esse desperdício se refere às perdas no próprio mecanismo de
disponibilização de água para o abastecimento público, como ao uso de encanamentos velhos, por exemplo. Essas
perdas acontecem antes mesmo de a água chegar às casas das pessoas.
Dessa forma, segundo Gonçalves, o desenvolvimento de políticas públicas no setor é fundamental para que
o Brasil consiga avançar no uso sustentável dos recursos naturais e na melhoria da disponibilidade de água em
qualidade e quantidade para os diversos usos. “As águas não têm nação ou território único. A maioria transcende
os limites de municípios, estados, nações. Temos essa responsabilidade [de cuidar dos recursos hídricos] porque
moramos neste planeta”, afirmou Sérgio Gonçalves.
Uma iniciativa de preservação da água é a consulta pública sobre o Plano Nacional de Recursos Hídricos
para 2016-2020 (PNRH). O documento trará as diretrizes e prioridades para os próximos quatro anos. Qualquer
cidadão interessado em contribuir pode participar da consulta pública até o dia 1° de maio.

216
Durante o seminário, realizado na semana do Dia Mundial da Água (22 de março de 2016), o superinten-
dente adjunto da Agência Nacional de Águas (ANA), Flávio Tröger, afirmou que o portal http://www3.snirh.gov.
br/portal/snirh oferece à população informações importantes sobre qualidade, quantidade e uso da água, entre
outros. No portal, há um encarte especial sobre a Bacia do Rio Doce, atingida pelo rompimento da barragem da mi-
neradora Samarco, em novembro do ano passado.“Os usuários [do portal sobre recursos hídricos] podem encontrar
mapas interativos, podem baixar metadados, além de dados necessários para estudos. Dessa maneira, a sociedade,
de uma forma geral, poderá dispor dessas informações para os mais diferentes fins”, disse Tröger.
A diretora de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Letícia Carvalho, destacou a preocupa-
ção em identificar uma possível contaminação da Bacia do Rio Doce por substâncias químicas resultantes do rom-
pimento da barragem. Ela afirmou ainda que é fundamental que se faça uma gestão ambientalmente adequada
de metais pesados, por exemplo, para evitar riscos de contaminação do ar e das águas. Segundo Letícia Carvalho,
o Brasil ainda não dispõe de uma legislação ampla sobre gestão de substâncias químicas.
A importância do acesso à água para todos foi ressaltada por Renato Saraiva Ferreira, do Departamento
de Revitalização de Bacias. Ele falou sobre o Programa Água Doce, desenvolvido pelo ministério em parceria com
instituições federais, estaduais, municipais e sociedade a civil. Uma das ações de destaque é a dessalinização de
água no Semiárido brasileiro. Segundo Ferreira, já são mais de 480 mil pessoas beneficiadas.

Texto IV

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema: “A
questão hídrica no Brasil”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione,
organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

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Proposta - Extra 2
Texto I

Em uma época em que quase tudo tende a circular de modo virtual, pessoas e mercadorias continuam a se deslocar
fisicamente de um lugar para outro. Por isso, é importante refletir sobre os meios de transporte que possibilitam
esse deslocamento.

Texto II

“Governar é construir estradas.” (Washington Luís)

Texto III

Em função do café, aparelharam-se portos, criaram-se novos mecanismos de crédito, empregos, revolucionaram-se
os transportes. (....) Era preciso superar os inconvenientes resultantes dos caminhos precários, das cargas em lombo
de burro que encareciam custos e dificultavam o fluxo adequado dos produtos. Por volta de 1850, a economia cafe-
eira do vale do Paraíba chegou ao auge. O problema do transporte foi em grande parte solucionado com a constru-
ção da Estrada de Ferro D. Pedro II, mais tarde denominada Central do Brasil. As maiores iniciativas de construção
de estradas de ferro decorreram da necessidade de melhorar as condições de transporte das principais mercadorias
de exportação para os portos mais importantes do país. (...) O governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960) ficou
associado à instalação da indústria automobilística, incentivando a produção de automóveis e caminhões com ca-
pitais privados, especialmente estrangeiros. Estes foram atraídos ao Brasil graças às facilidades concedidas e graças
também às potencialidades do mercado brasileiro. (...) Vista em termos numéricos e de organização empresarial,
a instalação da indústria automobilística representou um inegável êxito. Porém, ela se enquadrou no propósito de
criar uma “civilização do automóvel” em detrimento da ampliação de meios de transporte coletivo para a grande
massa. (...) Como as ferrovias foram, na prática, abandonadas, o Brasil se tornou cada vez mais dependente da
extensão e conservação das rodovias e do uso dos derivados de petróleo na área de transportes. (...) No governo
Médici, o projeto da rodovia Transamazônica representou um bom exemplo do espírito do “capitalismo selvagem”.
Foi construída para assegurar o controle brasileiro da região – um eterno fantasma na ótica dos militares – e para
assentar em agrovilas trabalhadores nordestinos. Após provocar muita destruição e engordar as empreiteiras, a
obra resultou em um fracasso.
(Adaptado de Boris Fausto, História concisa do Brasil. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 269-270.)

218
Texto IV

Entidades que lutam pelos direitos dos ciclistas e por uma cidade melhor escreveram um manifesto que será entre-
gue para autoridades da Secretaria de Transportes da cidade de São Paulo.
A cidade de São Paulo tem visto crescer um movimento contrário à implantação de ciclovias nas ruas da
cidade. Ao mesmo tempo em que nega o direito de utilização segura das ruas em bicicletas, essa oposição à ins-
talação de infraestrutura para bicicletas defende a continuidade do uso do espaço público para fins particulares,
priorizando o estacionamento de automóveis em detrimento da circulação do veículo bicicleta.
É importante ressaltar que estacionar o carro na rua não é direito garantido por lei, seja na esfera munici-
pal, estadual ou federal. Além disso, necessidades individuais não podem sobrepujar a coletividade e o direito do
cidadão que utiliza a bicicleta de circular com mais segurança, sem se sentir ameaçado por pessoas que pensam
de forma diferente e se utilizam de outros veículos.
A iniciativa representa um enorme passo em direção a uma cidade mais justa, mais inclusiva e mais demo-
crática. Mesmo que ainda existam pontos de melhora, que as ciclovias ainda não estejam totalmente conectadas
e que ainda não atinjam toda a cidade, elas representam melhor aproveitamento do viário, com mais segurança e
saúde para seus cidadãos, menos estresse, menos congestionamento e menos mortes no trânsito. Uma cidade que
nossos filhos merecem receber de nossas mãos.
A maior cidade do Brasil ainda está estacionada no século passado em relação à mobilidade. Negar o de-
senvolvimento sustentável e o uso da bicicleta como alternativa de transporte aos cidadãos é manter um conceito
ultrapassado e já abandonado nas cidades mais desenvolvidas do mundo, além de negar a quem utiliza esse meio
de transporte seu direito inalienável de escolha.

Texto V

Melhores Metrôs do Mundo

É comum que o brasileiro que viaja para o exterior use o transporte público no país que visita. Eles vão de ponta a
ponta das pequenas cidades europeias ou das grandes metrópoles orientais.

Os metrôs fazem parte do deslocamento intermodal para muita gente por todo o planeta. E, enquanto
caminhamos para o aumento das linhas e até metrô 24h nas metrópoles brasileiras, vamos babar nas estações
mais eficientes do mundo.

Hong Kong

Super limpo, conecta praticamente todas as esquinas da cidade chinesa. É barato e tem Wi-Fi em suas 42 estações.
Além disso, possui sinalização em braille, locais para comer, bancos para retirada de dinheiro e banheiros públicos.
O sistema de pagamento, o Octopus card, funciona muito além do metrô – lojas e restaurantes, por exemplo.

Cingapura

O SMRT já abocanhou importantes prêmios, como o de melhor eficiência energética, mais tecnologicamente inova-
dor e até o mais cheiroso. Se o MetroRail Awards concedeu tantas estátuas aos vagões de Cingapura, só nos resta
revelar que, para fugir do calor da cidade em dias quentes, muita gente dá um pulinho no metrô – seu sistema de
ar-condicionado é excelente.

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Londres

Na área desde 1863, o London Tube foi o primeiro metrô subterrâneo do mundo. No total, completa 1 bilhão de
jornadas por ano.

Paris

Em apenas 88 km, o metrô da cidade da luz condensa 245 estações em 14 linhas. Ou seja, pra que andar em Paris,
certo?

Madrid

O sexto maior sistema de metrô do mundo tem 295 km de extensão, além de 396 estações extras no subúrbio.

Nova York

O sistema que nunca fecha é sonho de todas as nações que não possuem metrô 24h. NY tem e, além disso, agrega
apresentações artísticas de todos os tipos – um poço de diversidade para locais e turistas.

Tóquio

A tecnologia que só os japoneses fabricam se mostra presente no metrô, que é super rápido, superpontual, super-
tudo. Pra dar um tapa na cara de qualquer sistema, os japoneses transportam, em suas 102 linhas, 14 bilhões de
passageiros ao ano.

Guangzhou

A cidade chinesa abriu seu primeiro metrô em 1997 e uma segunda linha em 2002. Em 2004, quando cidade
foi nomeada sede dos Jogos Asiáticos de 2010, os investimentos explodiram: 11 bilhões de dólares voltados ao
sistema de transporte em apenas 6 anos. Resultado: 144 estações em 236 km de extensão!
http://movimentoconviva.com.br/melhores-metros-do-mundo/

Texto VI

As cidades são feitas de pessoas

É um fato óbvio, mas pouco lembrado nas cidades brasileiras. Por aqui é comum que as diretrizes para o desen-
volvimento dos centros urbanos sejam o crescimento econômico, o mercado imobiliário, as grandes empresas e
indústrias – todas peças importantes, mas que acabam se sobrepondo ao que deveria estar em primeiro lugar: as
pessoas.
Nos espaços públicos, deve-se respeitar a Escala Humana. É muito mais agradável percorrer
uma cidade com dimensões adequadas para serem contempladas “do chão”, a partir dos olhos das pessoas. “O
corpo humano possui dimensões e capacidades físicas de locomoção que muitas vezes são esquecidas em projetos
de prédios e espaços públicos”, explica Jeff Risom, urbanista novaiorquino membro do time do Gehl Architects.
Para ele, uma cidade para pessoas é feita para ser contemplada à pé, a 5 km/h. “Uma escala muito grande ou muito
rápida destrói a relação das pessoas com os espaços públicos”, explica.

220
Na cidade americana de Portland, por exemplo, a urbanização dos rios foi feita com grandes avenidas e
viadutos nas margens, o que tornava quase impossível admirar o local. Com o tempo ficou claro como a qualidade
de interação com o rio melhoraria com a criação de um Waterfront – expressão que designa a margem urbanizada
de um rio – para ser percorrido à pé e de bicicleta.
A cidade precisa contemplar a diversidade das pessoas. “Para estabelecer um senso de
respeito mútuo e tolerância, temos que contemplar a maior diversidade possível de pessoas nos espaços públicos
de uma cidade” explica Risom. “É preciso ter espaço para jovens e idosos, homens e mulheres, ciclistas, pedestres,
motoristas e portadores de quaisquer deficiência”, exemplifica Risom. Uma cidade tolerante com sua população
tenta contemplá-la ao máximo em sua diversidade nos espaços públicos. Se todos têm seu lugar, não há necessi-
dade de brigar por espaço e a convivência tende a ser mais harmônica, segundo o urbanista. Em Copenhague, os
pedestres, ciclistas, motoristas e cadeirantes têm sempre espaços definidos e respeitados pelas ruas da cidade. Já
em São Francisco, pessoas de vários gêneros e orientações sexuais, bem como com os adeptos a pouca ou nenhu-
ma vestimenta, passeiam tranquilamente pelos espaços públicos. Mais do que tolerados ou respeitados, eles são
tratados com a mesma normalidade de um homem de terno e gravata.

Texto VII

O clima de uma cidade deve ser um aliado

“Conhecer o clima local de uma cidade e fazer projetos em que ele seja respeitado é primordial para a qualidade
de vida das pessoas”, afirma Rick Burdett, diretor do London Schools of Economics Cities. Isso é algo que percebi
instintivamente. Quanta vezes eu não saí na rua em São Paulo em pleno verão e reclamei “que calor infernal”.

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Curiosamente precisei ir até a Europa para me lembrar de que o clima quente é um recurso positivo, desde que
tenhamos espaços públicos para aproveitar o calor.
Em Paris e em Londres, as avenidas que correm na margem dos rios Sena e Tâmisa são convertidas em
praias artificiais e centros de cultura e lazer durante o verão. Em Portland, como chove muito o ano todo, os re-
vestimentos em concreto e asfalto, que são impermeáveis, começaram a ser substituídos por calçadas verdes. O
resultado são ruas mais bonitas e agradáveis para caminhar, um rio mais limpo – porque a água vai se infiltrando
no solo e chega mais purificada ao rio – e uma cidade sem enchentes nem alagamentos.
Talvez a maior lição seja que uma cidade para as pessoas precisa ser construída de maneira colaborativa
entre o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil organizada. É um processo sem fim. Ao longo das
próximas edições da VERO, novas reportagens irão se debruçar sobre algumas ideias que deram certo em cidades
pelo mundo e podem nos inspirar pelo Brasil.

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema: “Os
desafios da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras”, apresentando proposta de intervenção
que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos
para defesa de seu ponto de vista.

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