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ARCURI, Irene Gaeta (Org.). Arteterapia: um novo campo do conhecimento.

São
Paulo: Vetor, 2006. 198 p. ISBN 8575851764.

ARTETERAPIA:
um novo campo do conhecimento

Irene Gaeta Arcuri


(Organizadora)

Aos meus filhos


Raíssa (Vida)
Marcel (Guerreiro)

O Universo é um ser vivo


Nele não existe inconsciência
Deus é todo Consciência
E a intuição é o único meio de alcançá-lo.

Ricardo Pires de Souza


Anima Mundi, 2004

SUMÁRIO

Apresentação 11
Prefácio 13
Introdução 15
Arteterapia: um novo campo do conhecimento
Irene Gaeta Arcuri 19
Arteterapia e psicanálise: dimensões subjetivas de uma possível morte simbólica
Walmir Cedotti 39
Arteterapia: a arte a serviço da vida e da cura de todas as nossas relações
Patrícia Pinna Bernardo 73
Ser um psicanalista que faz outra coisa: artepsicoterapia na clínica winnicottiana do self
Tânia Maria José Aiello Vaisberg 117
Arteterapia: um surpreendente e poderoso caminho de autoconhecimento e
transformação
Mônica Guttmann 127
Entre o caos e a (des)ordem: manifestações, ressonâncias e estesias
Carlos Théo Lahorgue 151
Sobre os autores 197

APRESENTAÇÃO

A Arteterapia nos estimula a muitos tipos de questionamentos e coloca seus


profissionais diante de caminhos diversificados, que os levam a tomar consciência de
suas possibilidades de escolhas e, enfim, a fazer opções entre elas.

Qual será o melhor caminho do profissional diante da Arteterapia? Além das diferentes
abrangências de modalidades artísticas, a Arteterapia se depara também com inúmeros
referencias teóricos da psicologia, ambos tendo em comum os benefícios dos processos
criativos e imaginativos, pois criar é tão difícil ou tão fácil assim como viver! — aduz
Fayga Ostrower

O grande valor da Arteterapia reside em auxiliar o ser humano a lidar com relações de
modo mais criativo com o mundo, ampliando a consciência sobre suas potencialidades e
possibilidades de atuação no mundo em que vive. No caminho do arteterapeuta não
existe uma melhor ou pior escolha, mas sim possibilidades... e cabe a cada profissional
refletir e fazer suas opções, seja o aprofundamento baseado em Maslow, Freud, Jung,
Winicott, Bachelard ou outros.

A composição deste livro amplia nosso conhecimento com uma variedade de


experiências e reflexões no qual um texto complementa o outro, enriquecido por muitas
histórias que nos fazem viajar imaginar e aprofundar nossos olhares.
O livro inova ao integrar de maneira coerente a Arteterapia e com as linhas da
psicologia, seja na perspectiva transpessoal, ou na concepção da psicanálise, como algo
que permite ao homem criar, refletir, ressignificar e elabo

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rar o que foi produzido objetivando que sua subjetividade seja parcialmente desvelada e
transformada.

A obra trabalha ainda a arte dentro do enfoque psicoterapêutico de abordagem na linha


de Winnicott e reflete sobre os materiais artísticos como mediadores do processo
terapêutico e importantes no atendimento de casos difíceis de serem abordados dentro
da clínica contemporânea. Explora o uso da arte e da produção literária no contexto
arte- terapêutico, bem como a simbologia de histórias ou mitos dentro da abordagem
junguiana. E finalmente, apresenta de forma poética a prática da Arteterapia dentro do
referencial de Bachelard.

Parabéns aos autores deste livro que vem nos ajudar a construir parte do conhecimento
na área da Arteterapia e aos leitores que em muito se beneficiarão do mesmo!
Ana Cláudia Afonso Valladares

Arteterapeuta, Docente da UFG, Presidente da


Associação Brasil Central de Arteterapia

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PREFÁCIO: CONFISSÃO

Pode-se chamar de cura do espírito aquilo que faz vir à tona o que há de melhor e mais
profundo no que cada um de nós carrega, muitas vezes sem nem mesmo saber que
carrega? Serão os desejos, será a angústia, serão os medos que nos fazem sonhar? E
serão arteterapeutas aqueles que nos ajudam a sonhar acordados e depois a incorporar às
nossas vidas cotidianas esses conteúdos ressignificados que, sob a forma de arte — a
mais pura e primitiva delas, pois que sem pretensão de agradar ninguém a não ser
nossos próprios espíritos —, nos torna seres um tanto melhores, menos máquinas de se
comportar e mais legitimamente humanos? E pouco provável, me parece, que todos nós
que vivemos neste mesmo exótico endereço, este pequeno planeta, imaterial em nossas
percepções, tenhamos a dimensão do que significa cantar (não, não interessa ser
afinado, rítmico, ou mesmo ter ouvido musical); do que significa pintar ou desenhar (e,
de novo, o que importa é apenas sonhar num papel ou numa tela ou mesmo num caco de
cerâmica); do que significa modelar no barro — qual Prometeu — formas parecidas
com o que há de divino em nós mesmos; do que significa escrever palavras-símbolos,
que podem não significar nada para um leitor que se ponha a ler num nível de
concretude categorizador mas que representam um universo para o único leitor-vivente
a quem interessa sua singularidade de criador e de vivenciador daqueles desenhos e
formas e arabescos que nada dizem — mas tudo dizem — acerca de universos interiores
que se reorientam ininterruptamente. E, diante do analista, do arteterapeuta, do
facilitador tomam dimensões de uma cerimônia de expiação e de inundação da alma.
Penso que são lugares santos estes onde

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recomeçamos a busca do Graal — que nunca termina — e nos pomos de novo a retrilhar
o surgimento da imaginação, como nossos ancestrais, indo ao fundo das cavernas
escuras somente para pintar nossos sonhos e nossas angústias e depois colocar nossa
mão cheia de tinta na parede pintada para dizer: isto é meu! Isto sou eu! E, então,
tornamo-nos relíquias vivas e fazemos com que os que venham depois também tenham
o direito e a possibilidade de sonhar. E se cada pessoa é sua singularidade que apenas
por si mesma pode ser vivida, não serão os tufões e as tormentas da pulsão civilizadora
que a cada mil anos apregoa uma vez mais o fim dos tempos que virão a dizer-lhe: toma
esta pena, toma este lápis, solta tua voz e destrona este cascão que te impede de
vislumbrar a tua outra porção desta singularidade que em ti habita: escreve, pinta, canta,
conhece-te a ti mesmo.

A Humanidade havia esquecido, mas, a partir de agora, a Arteterapia relembrará a todos


ser este o processo de alfabetização da alma no ler-se a si mesma.

Ricardo Pires de Souza, escritor.

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INTRODUÇÃO

A arteterapia surgiu como profissão em 1969, por meio da American Art Therapy
Association, e atualmente vem crescendo no Brasi Durante os últimos cinco anos, além
de psicóloga e arteterapeuta, atuei como docente, supervisora e orientadora do Alquimy
Art Centro de Pesquisa em Aprendizagem, em parceira com a Universidade Potíguar; e
também como professora convidada da Pontifïcia Universidade Católica (PUC) de São
Paulo na área de Arteterapia.

Diversos cursos de Pós-Graduação sugiram e neste processo nos deparamos com alguns
questionamentos: quais são as possibilidades de atuação? Qual a singularidade da
arteterapia em relação a outras terapias? Pode ter existência própria? Quais são as suas
fronteiras?

Foi pensando nesses questionamentos que são meus, mas que também são de meus
alunos e orientandos, que organizamos este livro, no qual convidamos profissionais de
diferentes abordagens para promover uma interlocução sobre este tema: Arteterapia um
novo campo do conhecimento.

No primeiro capitulo discutiremos a questão da transdisciplinariedade da Arteterapia e


as possibilidades de transcendência dentro de uma perspectiva da Psicologia
Transpessoal.

No segundo capitulo o psicanalista Walmir Cedotti discute as possibilidades da


Arteterapia e Psicanálise: dimensões subjetivas de uma possível morte simbólica.
Pretende oferecer novas “paisagens” acerca da temática contribuindo para que o
arteterapeuta se inspire na busca das interfaces desses campos de saberes complexos,
estimulando a produzir insights, desenvolver novos questionamentos e

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colocar-se em movimento para encontrar outros referencias conceituais e vivenciais.


No terceiro capitulo Patrícia Pinna Bernardo discute a arteterapia a serviço da vida e da
cura de todas as nossas relações. Segundo a autora o fazer artístico pulsa entre o
compartilhar dos valores e paradigmas constituídos e reconhecidos coletivamente e a
afirmação do sujeito em sua singlaridade, particularidade de visão e concepções,
atribuindo novos significados à realidade e, portanto, também interferindo no mundo em
que vive.

(Início da citação) Através das linguagens artísticas, o espírito ganha corporeidade e a


matéria plasticidade. O interno e o externo, o real e o imaginário, entrelaçam-se num
movimento formador e transformador. Ai reside um dos principais fatores terapêuticos
da arte: poder dar visibilidade às tramas que permeiam as relações. (BERNARDO,
1999, p. 226). (Fim da citação)

No quarto capitulo Tânia Maria José Aiello Vaisberg traz artepsicoterapia na clínica
winnicottiana do self e levanta a importante questão de que ser psicanalista no Brasil é
um desafio, por mais de uma razão. De um lado, há que se considerar as difíceis
condições de vida da população, que geram sofrimento emocional importante, pois que
a precariedade socioeconômica evidentemente não favorece a qualidade do viver de
indivíduos e grupos. Aponta o serviço clínico do Instituto de Psicologia da Universidade
de São Paulo, a “Ser e Fazer” Oficinas Psicoterapêuticas de Criação, que se organizam,
desde 1997, ao redor de projetos de mestrado, doutorado e pós-doutorado.

No quinto capitulo Mônica Guttmann apresenta Arteterapia como um surpreendente e


poderoso caminho de auto- conhecimento e transformação. Aponta a literatura infantil

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e sua importância no desenvolvimento emocional e intelectual das crianças. Como ela


mesma diz:

(Início da citação) Talvez a segunda transformação e desafio no desenvolvimento da


criança e do ser humano sejam a entrada e descoberta do mundo das palavras. Aprender
a andar já provoca uma enorme mudança de percepção da realidade, pois a criança
descobre que nem tudo que deseja está perto dela. (Fim da citação)

No sexto capitulo Carlos Théo Lahorgue desenvolve o tema: Entre o caos e a


(des)ordem: manifestações, ressonâncias e estesias. Segundo o autor a modernidade não
pode correr riscos. Tudo na modernidade é a média, no centro o padrão, fora da curva, a
desrazão, o mítico, o afeto, a arte, a criança, o velho, a criação, o saber popular, negados
porque instáveis.

Irene Gaeta Arcuri,


São Paulo, 29 de julho de 2006

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ARTETERAPIA: UM NOVO CAMPO DO CONHECIMENTO

Irene Gaeta Arcuri

“Temos arte para que a realidade não nos mate.”


Nietzsche

Arteterapia é um novo campo do conhecimento, um campo de interfaces,


interdisciplinar por natureza. Ao se constituir como um novo campo do saber a
Arteterapia se depara com a interlocução entre várias áreas do conhecimento:
antropologia, arte, psicologia, neurologia, psiquiatria, filosofia, sociologia, etc., enfim,
fazendo várias interlocuções, sem que seja possível que não seja assim.

Inter é sufixo latino que significa “entre”, “no meio de”. O termo “interface” carrega em
si a idéia de que há uma superfïcie de contato, de articulação entre espaços de realidades
diferentes, que pode ser mais ou menos amplo e que varia de momento para momento,
ou seja, nunca é estanque. E para que dois elementos funcionem em conjunto é
necessária uma conexão, ou várias. Dessa maneira, podemos pensar que se trata de uma
área do conhecimento interdisciplinar por excelência, a qual não pretende a unidade de
conhecimentos, mas a parceria e a mediação dos conhecimentos parcelares na criação
de saberes.

Trata-se de um exercício que requer responsabilidade pelo pensamento, pelas idéias,


pelas ações e pelos sentimentos, viabilizando o conhecimento por meio de competências
multifacetadas, incluindo uma racionalidade aberta e acolhe-
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dora, pois a emergência das emoções e também da intuição deve necessariamente estar
incluída no processo como um todo. Certamente, não se trata de uma proposta simples,
já que, neste sentido, a Arteterapia não apresenta um escopo de conhecimento básico
exclusivamente seu, como seria o caso da biologia, por exemplo, ou da psicopatologia,
entrando então estas em contato com outras disciplinas. O que ocorre, a meu ver, é o
surgimento de um novo saber a partir de múltiplos outros saberes, o que suscitaria
porventura o termo “transdisciplinaridade” como o mais correto para designar o
caminho que se descortina à nossa frente.

A perspectiva transdisciplinar requer a eficácia de uma dialógica, abertura para escutar o


que se passa em outras esferas do conhecimento, mesmo mantendo posição divergente,
pois é impossível saber tudo e, diferentemente da ciência cartesiana, na Arteterapia,
conhecimentos divergentes não são necessariamente excludentes. A
transdisciplinaridade aparece como um movimento de reconhecimento do espírito e da
consciência, uma consciência nova de realidade e, a bem da verdade, uma nova
realidade. É uma conciliação que resulta da compreensão e do re-equilíbrio entre o saber
produzido e as necessidades interiores do Homem. Portanto, a transdisciplinaridade
instala-se na interação entre o sujeito e o objeto, na compreensão de que a realidade é
multidimensional, ou parafraseando Jung (1964, p. 23), diante do infinitamente grande e
do infinitamente pequeno: “não importa até onde o Homem estenda os seus sentidos,
sempre haverá um limite à sua percepção consciente”, e a Arte- terapia busca, no
próprio cerne do seu nascimento, do seu desenvolvimento e da sua proposta, transcender
este limite. Fazendo uso da arte como ferramenta de trabalho, a Arteterapia exalta e
liberta as qualidades do indivíduo na práxis da vida, ajudando-o a sentir-se, pensar-se e
a agir de acordo consigo mesmo, criando um canal de comunicação entre

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seus conteúdos conscientes e seus conteúdos inconscientes, ao longo de sua existência.


Trabalhando a criatividade, dando forma, cor, expressão aos sentimentos inomimados,
conexões são feitas e novos significados podem ser atribuídos a velhas situações vividas
que não puderam ter livre canal de expressão no momento em que ocorreram. A arte
devolve a liberdade à alma aprisionada pelo vazio, pelo medo, ou ainda pelos
sentimentos não nomeados (ARCURI, 2004), e leva à concretização dos anseios das
necessidades interiores do ser humano.

Arteterapia pode ser considerada como a utilização de recursos artísticos em contextos


terapêuticos, baseando-se na percepção de que o processo criativo envolvido na
atividade artística é terapêutico e enriquecedor da qualidade de vida das pessoas. Age a
serviço das leis da necessidade interior do Homem e facilita o entrar em contato com o
poder criador de cada um, permitindo transpor para o exterior o que ocorre — via de
regra, de maneira caótica — no interior; levando assim o paciente a poder observar,
refletir; interagir, dialogar e elaborar. Proporciona o reconhecimento da dinâmica
psíquica que é uma via de acesso à totalidade de ser.

O arteterapeuta amplia e desdobra o potencial do processo de criação do ser humano,


como que num processo alquímico, ou como diria são Tomaz de Aquino (1999) citando
Avicenna em seu Tratado da pedra filosofal: “Tudo aquilo que existe em potência pode
ser reduzido em ato.”

As precursoras da Arteterapia foram Margaret Naumburg, em 1941, e Edith Kramer, em


1958. Naumburg foi responsável por sistematizar a Arteterapia. Começou a desenvolver
sua teoria a partir do âmbito educacional e fez algumas relações com trabalhos
realizados de forma espontânea. Suas técnicas de Arteterapia eram baseadas na
pressuposição de que todo indivíduo pode projetar seus conflitos em

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formas visuais. Com abordagem psicanalítica, fazia uso da associação livre no trabalho
de arte espontâneo, o qual era compreendido como uma projeção do inconsciente.
Posteriormente Janie Rhyne, em 1973, e Natalie Rogers, em 1974, contribuíram de
forma significativa para a história da Arteterapia explicando como o processo criativo
acontece. Rhyne uniu a teoria gestáltica ao trabalho com arte. O foco do seu trabalho foi
a experiência vivida no presente, na teoria do contato, na sensibilização e no conceito
praticamente intraduzível de awareness. Na experiência gestáltica de arte, o processo
criativo acontece na medida em que as pessoas expressam suas emoções, confiando e
usando suas percepções sensoriais. A Arteterapia surge então como uma profissão e, em
1969, foi fundada a American Art Therapy Association.

No Brasil, em 1925, Osório César começou a utilizar a Arteterapia no Juqueri e,


posteriormente, a psiquiatra Nise da Silveira, em 1946, começou a desenvolver também
um trabalho arteterapêutico no Rio de Janeiro, particularmente no atendimento de
esquizofrênicos, criando mais tarde o Museu do Inconsciente.

Atualmente temos vários cursos de Arteterapia distribuídos por todo o país; estes têm
crescido de forma rápida, e podemos dizer que a emergência e a consolidação do ensino
e da pesquisa em Arteterapia no âmbito da universidade e fora dela é um significativo
evento científico dos últimos dez anos no Brasil. Esse crescimento tão rápido parece
ocorrer para atender as demandas do ser humano que, na atualidade, podem estar
entorpecidos pela tecnologia e pelas doutrinas materialistas com suas tendências
meramente utilitárias. A Arteterapia pode prover a alma de sua necessidade de
libertação.

A expressão artística, muitas vezes, exprime indivisíveis emoções, levando à


concretização dos anseios e das neces-

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sidade do ser humano. Emoções que não encontram uma maneira socialmente aceitam
de expressão, que se introvertem, criando fendas nas profundidades do psiquismo, e
deformando suas estruturas básicas.

(Início da citação) Certamente a linguagem abstrata presta-se a dar forma a segredos


pessoais, satisfazendo uma necessidade de expressão sem que os outros os devassem. A
linguagem abstrata cria-se a si própria a cada instante, ao impulso das forças em
movimento no inconsciente. (SILVEIRA, 1981, p. 19). (Fim da citação)

O que garante o Homem sadio contra o delírio, a depressão e o sofrimento psíquico de


ordens diversas não é a sua crítica, mas a estruturação do seu espaço. O sofrimento,
muitas vezes, é oriundo do estreitamento do espaço vivido, do enraizamento das coisas
no nosso corpo, da vertiginosa proximidade do objeto. Nos sintomas neuróticos, as
experiências da espacialidade são essencialmente determinadas pelo tom afetivo
dominante no momento. O espaço adquire qualidades peculiares de acordo com o
estado emocional do indivíduo: sensação de plenitude ou de vazio, de espaço amplo ou
opressor, iluminado ou sombrio.

Minkowski (1968) aponta que vivemos em dois mundos, ou seja, dois sistemas de
percepção totalmente diferentes: percepção de coisas externas, por meio dos sentidos, e
percepção de coisas internas, por meio das imagens do inconsciente. A expressão
plástica pode tornar real esse fenômeno psicológico por meio das imagens realizadas no
ateliê terapêutico, permitindo que a nebulosidade de sentimentos e pensamentos ou a
clareza de afetividade se torne visível. Se os conteúdos internos entram em intensa
atividade, sua forte carga energética subverte a ordem espacial estruturada pelo
consciente. Nesse sentido, podemos concluir que toda obra-de-arte pode ser considerada
um documento

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psíquico, e é pela expressão artística que podemos entender as relações do indivíduo


com o meio em que vive e também a idéia que ele tem da ordem cósmica.
Silveira (1981) alerta para o fato de que o espaço imaginário e o espaço da realidade
estão estreitamente interligados. A reconstrução do espaço cotidiano acompanha a
reconstrução do ego. Como o corpo tem necessidade de trabalho, de um fortalecimento
muscular; a alma também necessita ser fortalecida. O trabalho por meio da arte
proporciona o reconhecimento da dinâmica psíquica, tornando-se uma via de acesso à
totalidade do ser, fortalecendo a alma.

Tem-se substituído a alma pela palavra psique. Mas será que a psique substitui a alma?
Jung (1987, p. 91) nos fala que “realmente é impossível fazer o tratamento da alma e da
personalidade humana isolando umas partes do resto”. Dessa forma, podemos pensar
que a Arteterapia pode possibilitar a ampliação da consciência, pois, ao promover o
reconhecimento da dinâmica psíquica, um diálogo com os conteúdos inconscientes pode
ocorrer e os mesmos podem ser trazidos à consciência. Essa ampliação da consciência
permite que as projeções sejam recolhidas do mundo exterior e integradas. Não é o
sujeito que se projeta, mas o inconsciente. Por isso, não se cria a projeção, ela já existe
de antemão. A conseqüência deste processo é o isolamento do sujeito em relação ao
mundo exterior, pois, em vez de uma relação real, o que existe é uma ilusão. As
projeções levam a um estado de ensimesmamento, no qual se sonha com um mundo
cuja realidade é inatingível. Quanto mais projeções se interpõem entre o sujeito e o
mundo exterior, tanto mais difícil se torna para o Eu perceber suas ilusões.

Entendemos por Eu aquele fator complexo com o qual todos os conteúdos conscientes
se relacionam, diferenciando-o do self, no qual também os conteúdos inconscientes se
relacionam. Esse fator se constitui como o centro do campo da consciência e é o sujeito
de todos os atos conscientes

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da pessoa. O Eu considerado como conteúdo consciente em si, não é um fator simples,


elementar, mas extremamente complexo, sendo impossível, portanto, descrevê-lo com
exatidão. O Eu possui livre-arbítrio, embora apenas dentro dos limites do campo da
consciência, possibilitando, entretanto, um sentimento subjetivo de liberdade. O Eu é o
sujeito de todos os esforços de adaptação do ser humano.

Mediados pela arte, esses fenômenos da ampliação da consciência podem ser expressos
de forma a adequar significados na vida da pessoa. Ou seja, a arte surge como
potencialização, um recurso que propicia olhar a experiência vivida, atribuindo-lhe um
sentido singular. A experiência arteterapêutica pode acolher e dar forma e significado ao
que antes se apresentava como um desconforto. Para Delefosse (2001, p. 150):
(Início da citação) [...] a consideração da interação que auxilia a explicitação do vivido,
trata-se, portanto de um trabalho interativo que visa, de um lado, favorecer a atividade
de construção do sentido do mundo vivido através de uma situação dialógica reflexiva e
de outro lado, produzir conhecimentos psicológicos a partir deste material. [...]
Compreender nas ciências do Homem é rejeitar a busca de formulas e leis universais,
pelo menos enquanto objetivo principal, e buscar colher a partir do interior a
subjetividade significante. (Fim da citação)
A retomada da criatividade possibilita transformações e atribuições de novos
significados às experiências vividas, frustradas, ou simplesmente sonhadas. Dessa forma
as experiências dolorosas e suas cicatrizes podem ser integradas numa consciência
ampliada.

Grof (2000) sugere que no estado de consciência cotidiana identificamo-nos com apenas
uma fração de quem realmente somos. Nos estados que chamou de holotrópicos, O que
significa “caminhar em direção à totalidade do próprio ser”, podemos transcender as
fronteiras restritas no ego

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corporal e reivindicar uma identidade total. Nos estados holotrópicos, ocorre uma
mudança qualitativa de consciência de forma profunda e fundamental. Desenvolver um
estado holotrópico de consciência leva o indivíduo a mudanças de percepção em todas
as áreas sensoriais. No entanto, a consciência quando se amplia tem acesso a
informações antes inconscientes, e libera um quantum de energia emocional que estava
ligada a processos traumáticos do passado, e então retorna ao estado de vigília anterior,
embora acrescida destas experiências e de seus conteúdos. Segundo Grof (2000, p. 19):

(Início da citação) Um aspecto particularmente interessante dos estados holotrópicos é


seu efeito sobre os processos de pensamento. O intelecto não fica debilitado, mas opera
de uma forma significativamente diferente do seu modo de funcionamento diário. Esse
tipo de experiências holotrópicas é a principal fonte de cosmologias, mitologias,
filosofias e sistemas religiosos que descrevem a natureza espiritual do cosmo e da
existência. Elas são a chaves para a compreensão da vida ritual e espiritual da
humanidade, desde o xamanismo e as cerimônias sagradas das tribos aborígines, até as
grandes religiões do mundo. ( Fim da citação)

Cézanne, pintor francês, tratava os objetos como homens e descobria a vida interior em
tudo. Até mesmo uma taça transformava-se em um ser dotado de a1ma. A arte pode uma
força capaz de levar o homem além do “vazio”. É uma linguagem capaz de estabelecer
uma conexão com a psique e é a única capaz de compreendê-la. A arte devolve a
liberdade à alma aprisionada pelo vazio, pelo medo ou ainda pelos sentimentos que não
têm nome. E ela leva à concretização dos anseios da necessidade interior do ser
humano.

Rollo May define criatividade como um processo altamente emotivo que decorre da
experiência da auto-realiza-

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ção da nossa potencialidade com um intenso encontro com uma idéia. Kandinsky
(1985), ao analisar as diferenças culturais, aponta que o silêncio é sentido como morte
para os chineses cristãos enquanto os chineses não cristãos consideramo o silêncio como
a primeira fase em direção a uma linguagem nova. Depois de buscar esse silêncio
interior atingimos o ponto zero, que possibilita a entrada na criação do novo. Esse
“novo” pode ser expresso pela modelagem em argila. A argila rompe a inércia,
enaltecendo o princípio feminino da criação, gestando vida, possibilitando a vivencia
simultânea dos quatro elementos da natureza: ar, água, fogo, terra. Gouvêa (1989, p. 56)
descreve:

(Início da citação) [...] Quando em certos pedaços de barro, ele consegue achar sombras
vivas que se movem e tudo o mais que for necessário para simbolizar os seus medos
profundos, o cotidiano de sua vida em comum com os restos dos mortais, quando
encontra a criança escondida na angustia da adolescência e da idade adulta [...J e
modela o que capta para além da aparência. (Fim da citação)

Em relação ao vazio existencial, o medo profundo sinaliza uma dependência


psicológica. Essa carência, a sensação de falta que se dá em todo ser humano, pode
encontrar na Arteterapia, com a expansão da consciência, uma modificação de
sentimentos, de visões e atitudes perante o mundo, possibilitando uma transformação
eficiente, uma transição menos dolorosa para um estado de inteireza do ser, porque este
encontra um canal de expressão que pode conter o sofrimento. Kandisky (1987, p. 113)
afirma: “[...] como qualquer ser vivo é dotado de poderes ativos, e a sua força criadora
não se esgota, vive, age e participa na criação de uma atmosfera espiritual.” A arte é,
portanto é uma linguagem capaz de criar um canal de comunicação com a psique, é
capaz de compreendê-la na sutileza dos seus nuances.
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Ao considerar a dimensão espiritual da psique humana encaminhamos a nossa discussão


para a questão da Psicologia que estuda atualmente o fenômeno da ampliação da
consciência, muito presente nos processos arteterapêuticos. Os precursores da
Psicologia Transpessoal concentraram- se no estudo da consciência e pesquisaram os
fenômenos e as experiências “não ordinárias” de consciência. Dentro da perspectiva
transpessoal a consciência comum é considerada como um estado contraído e defensivo.
Nesse sentido, nossa consciência opera inundada por um fluxo contínuo de pensamentos
e fantasias que acorrem para atender as demandas de nossas defesas cotidianas. Dentro
dessa visão, a ampliação da consciência se daria por meio do abandono dessa contração
defensiva e da remoção dos obstáculos ao reconhecimento do potencial de encontro com
os mundos interno e externo, sempre presente no apaziguamento da mente e na redução
da distorção perceptiva.

Diferentemente da concepção ocidental que considera apenas uma gama limitada de


estados de consciência, fundamentalmente o estado onírico e o estado desperto, a
Psicologia Transpessoal considera que há um amplo espectro de estados de consciência.
Ao longo de nossa existência, em momentos de crise podemos redesenvolver, romper
ou ampliar as fronteiras do “Eu”. Isso significa que, a todo o momento, reconstruímos
ou destruímos nossa identidade.

Uma das metas da terapia transpessoal seria a tentativa de rompimento com o estado de
estagnação da consciência nas porções da personalidade que impedem que outras
esferas do ser se manifestem, e, por meio desse rompimento, permitir que a
personalidade integral exerça cada vez mais efeito nas atividades cotidianas do
indivíduo. O resultado bem-sucedido da terapia transpessoal pode ser descrito, então,
como um senso ampliado de identidade, em que o Eu

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é visto como o contexto da experiência de vida, considerada como conteúdo, sem um
grau de restrição tão dramático, como o que ocorre na experiência usual dominada pelo
ego.

O conteúdo transpessoal inclui quaisquer experiências em que a pessoa transcenda as


limitações da identificação exclusiva com o ego ou com a personalidade, o que termina
por se constituir então num objetivo fundamentalmente similar ao da Arteterapia.
Também inclui os domínios míticos arquetípicos e simbólicos da experiência interior
que podem vir à consciência por meio de imagens e de sonhos.

As experiências transpessoais têm uma posição especial na cartografia da psique


humana. Os níveis rememorativoanalítico e o inconsciente individual são de natureza
claramente biográfica. A dinâmica perinatal parece representar uma intersecção ou
fronteira entre o pessoal e o transpessoal. Isso se reflete em sua profunda associação
com o nascimento e a morte — o início e o fim da existência humana individual,
fenômenos que, no momento, estão além de nossa compreensão (GROF, 1987). No
entanto, tudo que podemos dizer é que no processo de desdobramento perinatal parece
ocorrer um estranho retorno qualitativo e, por meio dele, a auto-exploração profunda e o
inconsciente individual tornam-se um processo de aventuras e experiências no universo,
que envolvem o que pode ser mais bem descrito como consciência cósmica ou mente
superconsciente.

Os sintomas emergentes refletem o esforço do organismo para se livrar dos antigos


estresses e das marcas traumáticas, e simplificar seu funcionamento. Esse
desenvolvimento é, ao mesmo tempo, um processo de descoberta da própria e
verdadeira identidade e também das dimensões do próprio ser, que converte o
individualismo com todo o cosmos e que são proporcionais a toda existência.
O estado transpessoal é idêntico em todas as tradições espirituais. Trata-se de um estado
incondicionado e, por-

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tanto, independente de toda influência cultural. Embora raríssimo, o estado transpessoal


existe nos seres completamente realizados. Contudo, a experiência transpessoal pode ser
desenvolvida por meio de métodos e técnicas específicas, como meditação, dança
curativa e, principalmente, dentro do processo arteterapêutico, e servem de mediadoras
para o ser humano experimentar uma ampliação da consciência. A música tem um valor
especial nos estados alterados da consciência nos quais ela tem diversas funções. A
música ajuda a mobilizar emoções antigas e a torná-las disponíveis para serem
expressas; intensifica e aprofunda o processo.

Há um amplo espectro de práticas espirituais orientais antigas que podem, também,


facilitar o acesso aos domínios transpessoais. A maior parte dessas técnicas é não-
verbal. Elas podem ativar diretamente o inconsciente, reforçar seletivamente o material
de maior relevância emocional e facilitar sua emergência na consciência. Ou seja, as
técnicas agem como um radar interno que examina o sistema e detecta o material com
maior carga e significado emocional. Dessa forma, o ser humano torna-se autor da
própria vida, assumindo a responsabilidade por si mesmo no mundo e nos
relacionamentos pessoais. É possível supor que a pessoa saudável seja capaz de
experimentar toda uma gama de emoções ao mesmo tempo em que permanece
relativamente desapegada do melodrama pessoal.

Possibilitar a cada pessoa o atendimento adequado às necessidades fïsicas, emocionais,


mentais e espirituais, segundo as preferências e predisposições individuais, é uma meta
da Arteterapia, assim como de quaisquer outros tipos de terapia. Um mesmo caminho
não é apropriado a todas as pessoas.

Supõe-se que, além das necessidades básicas de sobrevivência de alimentação, abrigo e


relacionamento, devem ser atendidas necessidades de ordem superior ligadas à auto-

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realização para um pleno funcionamento em níveis ótimos de saúde. Considera-se cada


paciente como alguém capaz de curar-se a si mesmo, em outras palavras, o arteterapeuta
não cura, mas capacita o ser-em-busca-de-si-mesmo a descobrir seus recursos interiores
e permitir a ocorrência do processo natural de cura ou de crescimento. O organismo
humano é visto como algo capaz de crescer e superar a si próprio no processo de auto-
realização.
Um contexto transpessoal também acredita que o arte- terapeuta sabe que a consciência
é o fator central da determinação do resultado da terapia. Na Arteterapia a própria
consciência é tanto o objetivo como o instrumento da mudança. Aprender a reconhecer e
confiar nos impulsos em direçao à totalidade e à transcendência é parte do processo. O
arteterapeuta tenta oferecer as condições ideais para que o sujeito explore com a maior
profundidade possível as fontes da consciência.

Estados de consciência

Realização transcendental refere-se a uma auto-realização fundamentada na consciência


e na experiência de um centro espiritual também chamado de ser interior ou self (si
mesmo). Assagioli (1991, p. 196) descreve o espiritual como:

(Início da citação) Tudo aquilo que incite o homem a transcender o exclusivismo


egoísta, seus medos, sua inércia, seu amor ao prazer; tudo aquilo que pode levá-lo ao
controle e à direção das forças não domesticadas dos instintos e das emoções. Acredita
também no reconhecimento da realidade social da natureza, tornar-se uno com esta
realidade, ampliando os limites da sua própria personalidade. (Fim da citação)

Para Wilber (1988) as experiências transpessoais possibilitam ir além do limite orgânico


da pele, e podem incluir

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o desenvolvimento da Percepção Extra-Sensorial, ou PES, que se manifesta em


fenômenos de telepatia, clarividência, pré-cognição, retrocognição. Em outras palavras,
para ele, o termo transpessoal se refere à capacidade de desenvolver um processo no
qual pode ocorrer uma experiência que ultrapassa os limites do “Eu”. As experiências
transpessoais, portanto, dizem respeito à capacidade de ampliação da consciência
levando a um sentimento de unidade. Nesse sentido a psicologia transpessoal chama
atenção aos aspectos da consciência e ao reconhecimento dos significados das
dimensões espirituais da psique.
Grof (1987) diz que as experiências transpessoais levam o indivíduo a ver o universo
como uma intensa trama de aventuras na consciência, em que é possível superar a
dicotomia entre experimentador e experimentado, entre tempo e não-tempo, entre
determinismo e livre-arbítrio, existência e não-existência.

Segundo Maslow essas experiências ocorrem independentemente da vontade, surgindo


como uma misteriosa inspiração, uma experiência estética. No entanto, Maslow (1993)
e Durchkeim (1987, 1992) baseados em observações clínicas incluíram entre as
experiências transpessoais, também vivências mais serenas, dentro de uma perspectiva
holística. Maslow (1969, p. 141) chama as experiências transpessoais culminantes de
peak-experiences, dizendo que elas podem mudar completamente a perspectiva de si e
do mundo:

(Início da citação) A expressão e a comunicação nas experiências culminantes tendem,


freqüentemente, a ser poéticas, míticas e rapsódicas, como se essa fosse a espécie
natural de linguagem para expressar tais estados do ser. [...]quanto mais as pessoas se
tornam por esse fato autênticas, mais possibilidades têm de ser poetas, artistas, músicos,
etc. (Fim da citação)

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A questão central no estudo da transcendência na perspectiva da psicologia transpessoal,


portanto, é o processo desenvolvimento, buscando uma harmonia com o self. O que, em
outras palavras, significa o processo de expansão da consciência unitiva, compreensão
dos valores unificados do ser em sua vida cotidiana.

Estados de consciência na psicologia transpessoal

Maslow (1969) chama vida espiritual à tendência natural de ir além do meramente


humano (meta-humano). Sendo assim, na psicologia transpessoal o ser humano é visto
como um ser que tem a tendência a buscar a realização espiritual, a transcendência de
todas as limitações da consciência.
Para alguns autores da psicologia transpessoal como Assagioli, Maslow, Wilber (apud
HAMEL; LECLERC; LEFRANÇOIS, 2003), há diferentes níveis de consciência:
pré-pessoal, pessoal, transpessoal. Cada nível se caracteriza por um modo de conexão
entre Eu, o Ego e o Self. O desenvolvimento pessoal acredita a transformação dessas
conexões.

No nível pré-pessoal existe um aprisionamento do Eu ao Ego. As motivações são


exteriores, há uma percepção deficiente de si e dos outros. Neste nível não pode haver
uma atualização e harmonia psicológica porque o Eu está à mercê dos pensamentos e
sentimentos do Ego, e dos eventos exteriores.

No nível de crescimento pessoal, o relacionamento Eu-Ego é caracterizado pela


tendência a clarificar, ajustar, conhecer os desejos, expectativas, opiniões, crenças,
medos, etc. O Eu se fortalece na medida em que tem clareza sobre os valores. O Eu,
gradualmente, liberta-se da prevalência do Ego, o que permite transcender os seus
limites. Há uma tentativa de integrar imposições familiares, sociais, culturais por

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meio do conhecimento que se tem sobre si mesmo e das intuições nos níveis físico,
cognitivo e afetivo.

O nível de crescimento transpessoal caracteriza-se pela relação Eu-Self em que há


metacognição, ou seja, consciência objetiva, considerações éticas, inspiração,
disposição de sentimentos e metamotivação baseadas na unificação das dualidades da
personalidade e na realização de valores profundos e espirituais. O Eu vive em relação
ao self, isto é, em unidade com ele mesmo, com os outros e com a vida.
O crescimento transpessoal pressupõe, desta forma, um relacionamento maior do Eu
com o self. Estabelecendo uma identidade transpessoal por meio da metacognição, as
preocupações pessoais são superadas: há metamotivação dos valores espirituais na vida
cotidiana. A experiência do self possibilita o entendimento da realidade sem a
interferência das emoções.
Segundo Hamel, Leclerc e Lefrançois (2003), os fenômenos transpessoais podem
ocorrer em diferentes níveis. Em primeira instancia, num nível denominado por nível de
crescimento pré-pessoal. Nesse nível, na relação Eu-Ego há uma consciência subjetiva e
acontecem introjeções instintivas, familiares, sociais e culturais.

Quando há motivações exteriores, estas estão baseadas no conformismo, pois imita os


outros. Pode ocorrer o totalitarismo, conformando-se aos desejos de outrem (WILBER,
1980). A identidade resulta numa percepção deficiente de si mesmo e dos outros por
causa da dependência dos seus próprios mecanismos de defesa; em que a personalidade
fica na zona relativa ou dependente. Nesse nível, o Eu está à mercê dos pensamentos e
sentimentos do ego assim como de eventos exteriores. Também de acordo com o
relacionamento do Eu com o Ego, poderia ocorrer um segundo nível de
desenvolvimento, denominado por crescimento pessoal. Relacionamento Eu-Ego há a
consciência autêntica: tendência

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a clarifica1 ajustar e controlar os vários elementos da personalidade tais como desejos,


expectativas, opiniões, crenças, medos.

As motivações são eventualmente intrínsecas, isto é, com propósito de desenvolver a


personalidade. A interpretação de si mesmo e dos outros é mais realista. Há procura de
autenticidade e as motivações externas são transformadas em internas. Tem clareza dos
valores pessoais e morais. Os conteúdos são afetados pela subjetividade ou ainda pela
distorção da realidade.

Ainda em relação aos níveis de consciência, existe a possibilidade de desenvolver o que


Hamel, Leclerc e Lefrançois (2003) denominaram de crescimento transpessoal. Nesse
nível a identidade transpessoal consiste em viver ligado (in touch) ao self, isto é, a fonte
de amor, sabedoria inspiração criativa. O indivíduo conectado ao self tem o sentimento
de ser mais real, mais completo, e mais universal do que individual. Há focalização na
relação self, abandonando o Ego. Não é negar os conteúdos egoístas, mas ser
suficientemente vigilante para estar consciente dele e transformá-los. A busca para essa
identidade transpessoal encoraja o individualismo a expandir a consciência unitiva dos
seres e eventos além das preocupações pessoas (Metacognição) e para, essencialmente,
realizar valores espirituais na vida cotidiana (Metamotivação). A experiência do self
permite aos indivíduos entenderem a realidade diretamente sem interferência das
emoções e preconceitos e agir de acordo. Nesses indivíduos, o eu vive no nível do ser,
isto é, em unidade com eles mesmos, com os outros e com a vida.

O self — o centro interior da psique total — é muitas vezes, personificado nos sonhos
como um ser superior. “Às mulheres pode aparecer na figura de uma deusa sábia e
poderosa — como a antiga deusa-mãe grega Demeter.” (JUNG, 1964, p. 197). Objetivo
mais importante da orientação

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transpessoal é levar em conta e incentivar as possibilidades de ampliação da consciência


humana, que, na pratica, é a concretização de transformações nos sentimentos,
pensamentos, percepção, intuição e criatividade, e naturalmente, na relação do indivíduo
com o mundo.

O eu psicoterápico deve ir além do conflito psíquico, além das divisões e das barreiras
afetivas, em direção ao que estamos chamando de centro psíquico ou espiritual que
acredita a mudança de nossa consciência para a posição de consciência (BERTOLUCCI,
1991, p. 27). Sustentamos ainda que só é possível realmente a diminuição das carências
humanas se o homem elevar seu nível de consciência e completar-se com sua própria
natureza divina. Do contrário, será eternamente perseguido pelo medo da perda, mesmo
que tenha sido bem-sucedido em obter posições e objetos do mundo material e esteja
cercado de relacionamentos afetivos.
Sendo assim, a Arteterapia pode possibilitar ao ser humano um caminho possível de
conexão com os aspectos saudável do seu ser, no qual por meio da conexão com seu
centro criativo, a conexão com o self é experimentada e a beleza e a estética é
experimentada como algo natural, transcendendo as limitações impostas por
condicionamentos sociais, culturais, psicológicos.
A Arteterapia pode possibilitar a saída do ego do centro da consciência para o self centro
da personalidade como um todo que inclui a consciência, o inconsciente.

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Contemporâneas, 1999.

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Página 38

ARTETERAPIA E PSICANÁLISE: DIMENSÕES SUBJETIVAS DE UMA


POSSÍVEL MORTE SIMBÓLICA

Walmir Cedotti

Para desenvolver este capítulo, vou-me valer de pressupostos que se inserem nos
campos da arteterapia e da psicanálise, focalizando a questão da “morte simbólica”
como um marco de passagem que intermedeia passado, presente e futuro do sujeito
psíquico. E é mesmo nessa passagem entre tais tempos que o indivíduo pode “nascer”
para o aqui e agora, superando momentaneamente os mecanismos de repetição que
surgem em sua vida.
Nesse percurso, trarei reflexões sobre os aspectos cognitivos, afetivos, emocionais e
terapêuticos acreditados nos processos criativos, decorrentes dos estímulos provocados
pelas oficinas de arte e expressão e nos settings terapêuticos. Num sentido abordaremos
as questões referentes à arteterapia e à psicanálise do ponto de vista do sujeito
(arteterapeuta e paciente) e do objeto (a representação na forma expressiva), ou ainda
transitaremos entre o latente e o manifesto.

Não caberão, neste capítulo, profundas teorizações ou mesmo descrições detalhadas da


clínica analítica ou de oficinas de arteterapia tratadas no aspecto operacional. Escolhi
destacar alguns pontos comuns entre as duas abordagens da prática terapêutica: a
arteterapia, enfocando conceitos do processo criativo, do ETC Continnum de Terapias
Expressivas (KAGIN; LUSEBRINK, 1978) e a arte em oficinas terapêuticas, do ponto
de vista psicanalítico, a transferência, a pulsão de vida e morte, a compulsão à repetição.

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Espero com isso oferecer novas “paisagens” acerca da temática que iremos desenvolver
e contribuir para que o arteterapeuta se inspire na busca das interfaces desses campos de
saberes complexos, estimulando-o a produzir insights, desenvolver novos
questionamentos e colocar-se em movimento para encontrar outros referencias
conceituais e vivenciais. Creio que isso só enriquecerá o ser em sua prática clínica ou na
construção de novas visões, imprescindíveis na realidade presente em que atua o
terapeuta.

Evidentemente, esta proposta difere daquelas nas quais são apontadas diretrizes sobre
como se deve atuar na prática clínica para alcançar “eficiência operacional” ou ainda
das propostas essencialmente acadêmicas, que se pretendem muitas vezes definitivas.
Embora essas abordagens sejam válidas quando se pensa pela vertente da ciência
“oficial”, é preciso que se componha uma visão sistêmica destacando a criatividade
como instrumento fundamental da prática do terapeuta, para que este descubra sua
“medicina”, sua arte como um co-partícipe do caminho do paciente ao encontro de si
mesmo.

Entre essas interfaces, faremos um percurso que passa pela temática da morte simbólica
colocada diante dos processos cognitivo, afetivo ou emocional, terapêutico e espiritual
como instâncias do ser em sua amplitude. Trataremos de arte como facilitadora na
promoção da saúde integral, quando compreendida transdisciplinarmente, isto é
contemplando os diferentes níveis da realidade em que atua. Segundo Patrick Paul
(2005), (Início da citação) a abordagem transdisciplinar se apreende, então, como uma
nova organização do conhecimento, com uma nova hermenêutica das colocações em
relação, como um processo epistemológico e metodológico de resolução de dados
complexos e contraditórios situando as ligações no interior de um sistema total, global e
hierarquizado sem fronteiras estáveis entre as disciplinas, in-

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cluindo a ordem e a desordem, o sabido e o não-sabido, a racionalidade e a imaginação,


o consciente e o inconsciente, o formal e o informal. (Fim da citação)

Obra inacabada ou ainda um colapso de significantes

Certa vez tive a grata surpresa de receber de uma amiga artista plástica uma tela de
presente: um quadro que integra pintura e escultura, poesia e movimento. No texto que
circunda a imagem pintada e tecida com linhas de crochê, há um poema concreto que,
para ser decifrado, é preciso girar a obra. Olhando para esse trabalho, enquanto me
conecto com a produção deste texto que agora apresento, penso nos conteúdos que
transitam entre a arteterapia e o enfoque psicanalítico, no recurso necessário para fazer
uma arqueologia da face não visível da pessoa, levantando fragmentos de experiências
que se referem a múltiplos níveis da realidade.

Penso na metáfora possível para o analista e o artista ou, ainda, para as técnicas de
terapia expressiva (utilizando outros materiais que não apenas a palavra), seja a escuta
atenta e centrada dentro do setting analítico. Olhando o quadro à minha frente, vou
divagando sobre o que faz uma obra de arte atravessar o tempo e permanecer, como
uma Pintura de Da Vinci, uma sinfonia de Vivaldi, uma construção de Gaudi ou, ainda,
um romance de Cervantes, para citar algumas indiscutíveis.
Fluindo por essa torrente intuitiva, vou-me deixando levar pelo pensamento abstrato,
sendo conduzido ora pelo veículo do imaginário, ora pelo simbólico e ora pelo real das
sensações, base que nos permite investigar, quando estamos centrados, a subjetividade
do sujeito (paciente ou cliente, como quisermos chamar).

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O processo terapêutico sugere movimento e profundidade por ser guardião da dinâmica


de acolher e intervir, de escutar e dizer, de sentir e pensar, semelhante ao interjogo da
tela e do tecido que se fundem no quadro a minha frente. Em suas cores, percebo tons e
semitons que se interpõem, como fios entrelaçados, criando uma massa que ora mostra-
se como um bloco de matéria densa, quase impenetrável, ora como etéreos fios
justapostos que podem se desprender ao mais leve vento.

Pares de contradição, dança entre o concreto e o sutil, vão criar no quadro faces da
própria realidade; e penso que na psicanálise estamos sempre reinaugurando a relação
com o analisando, criando novas paisagens em antigos cenários. Quão delicado é o
momento das primeiras “pinceladas”? Pincel, tinta, tela, um pressuposto que se mostra
como desejo que permeia analista e analisando para que um algo se projete como
imagens e sentidos na superficie interativa da tela aparentemente branca.

Em psicanálise trabalhamos no sentido de cavar a subjetividade para extrairmos uma


múltipla gama de tons, matéria-prima para co-criarmos e co-pensarmos com o
analisando sua própria dinâmica subjetiva. Precisamos, em um certo sentido, de muita
inteligência, enquanto inter legere, uma leitura a partir de dentro. Tocar nosso desejo de
estar aberto a uma escuta, no mínimo desprendida de comando, poder ou superioridade.
Nesse sentido, olhando para o quadro, obra inacabada, penso que de fato não há nada
mais imprevisível do que o ato da análise.

Refletindo sobre um possível sentido da palavra interpretação, “decifrada” por um


analista em seminário clínico, vejo como pode ser vasto o sentido de um simples
símbolo, como uma palavra, e podemos pensar na complexidade que emerge quando
estamos junto a um paciente e este traz em traços, gestos, cores e formas uma infinidade
de significa-
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dos. O interpretar, enquanto palavra, pode ser compreendido como a composição de


inter (dentro) + press (entranhas). Então, ao ver o quadro em minha frente e penetrar em
sua mensagem, sei que o que vejo já está transformado pelo ato mesmo de ver, pois
nesse olhar está minha química pessoal, minha libido em querer decifrar o que vejo,
meus medos de cometer lapsos de percepção e minha prepotência em querer dar a
palavra final sobre o que capto.

Toda essa angústia e mesmo o êxtase de tentar penetrar no universo trazido pelo
paciente se sobrepõem. Seja como for é um grande desafio fazer viver essa sondagem,
ou ainda essa arqueologia, em que as peças encontradas trazem apenas fragmentos de
uma história, e sabemos que quanto mais profunda a camada na qual essas “peças” são
encontradas, relatos de experiências, tanto mais complexa vai se tornando a
“escavação”.

Pensando no par de opostos, suscitados pelas imagens expressas por diferentes


linguagens que são na verdade complementares, inspiro-me no conceito freudiano de
condensação e deslocamento. De um lado, a condensação vai reunir uma gama de
representações, como que encobrindo o relato do manifesto, reduzindo e simplificando
as possibilidades ali reunidas. No chiste, no lapso, no esquecimento de palavras, no ato
falho, temos uma condensação de significados aglutinados. Nos sonhos, temos um bom
material para entendermos a condensação, uma vez que neles uma imagem pode conter
inúmeras representações. No deslocamento, como ocorre com a metáfora, carregam-se
sentidos de um “cenário” a outro, mas defini-se uma carga afetiva na direção de um
objeto.

Poderíamos pensar na arte como um nível de sonho acordado. Estaria ela


“condensando” as representações inconscientes de nossas experiências e “deslocando”
seus sentidos ao observador?

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Na obra A Interpretação dos sonhos, Freud (1900) traz os primeiros conceitos em que se
distinguem os conteúdos manifestos dos latentes ou não explícitos. Para ele, o sonho
seria “a realização simbólica de um desejo inibido”. Ele também chamaria esses
mecanismos — condensação, deslocamento, simbolismo, dramatização e processo — de
elaboração secundária.

Como postula o psicanalista Jacques Lacan, “o inconsciente é estruturado como


linguagem”. Essa linguagem vai atuar como uma síntese de conteúdos latentes,
manifestos na cor, no gesto, no som, enfim, nas diferentes formas de expressão. Talvez
seja pelo equilíbrio sutilíssimo entre a expressão que nos leva a uma reflexão passiva e
dos estímulos que nos põem a criar múltiplas associações que algumas obras perpassam
sua época e transcendem a temporalidade.

Certamente há uma combinação entre gestos e traços que marcam uma intensidade aqui
e ali quando nossos olhos percorrem um grafismo, uma imagem pintada ou, ainda,
texturas sonoras ou formas melódica, para falar da linguagem musical.

Tranqüiliza-me pensar que no caminho de transformação ou, ainda, de tomada de


consciência dos sintomas, quando se trata de pensar o processo do paciente, não há um
lugar de chegada ou meta a ser atingida, mas um interjogo de avanços e recuos, de saber
e não saber, que tornam mesmo a jornada desafiadora e instigante, caótica e ao mesmo
tempo ordenada, em seu interfiuxo temporal que liga passado, presente e futuro. Por
isso mesmo, o projeto terapêutico é semelhante ao processo criativo: partimos do caos
inconsciente para uma nova ordem de representação que contribuirá para que novos
sentidos sejam atríbuídos aos registros psíquicos pretéritos, embora saibamos que o
inconsciente é atemporal.

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Articulando níveis de realidade

A arte nos permite criar, e a arteterapia nos permite refletir, ressignificar e elaborar o
que foi criado em função de urna subjetividade a ser parcialmente desvelada. Digo
parcialmente no sentido mesmo de constatar que os padrões existentes no inconsciente
são de tal ordem, que as faces que podemos alcançar são “microcosmos” de um
insondável universo de conteúdos ali instalados.

São nas oficinas artístico-terapêuticas que os diferentes meios de expressão humana


podem projetar faces do ser e relatar algo da história do sujeito, de seus desejos, receios
e buscas interiores.

Arcuri (2004, p. 76) afirma ao citar uma oficina com argila:


(Início da Citação) Ao modelar o barro, os sujeitos entram em contato com o material
inconsciente da psique, transformando em produções que podem expressas suas
vivências internas. As produções poderão refletir as imagens de experiências carregadas
de afeto e que muitas vezes são impedidas de se expressar pela censura do ego.(Fim da
citação).

Os resultados das atividades de produção com diferentes meios expressivos (desenho,


modelagem, produção de história, dança, pintura, poesia, colagem, dramatização etc.)
permitem, quando trabalhados clinicamente, a ressignificação e atualização de
conteúdos inconscientes, que podem promover um viver mais criativo e estruturado por
escolhas mais conscientes e harmonizadas com o ser e o self.

A arte no plano da subjetividade

Trata-se do fazer artístico não aprisionado ao resultado estético, mas colocado a serviço
da expressão do paciente e do desvelamento de seu self. Por mais que essa abordagem
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possa nos parecer nova, trata-se, na verdade, de um saber ancestral, presente desde eras
remotas quando o homem organizava sua vida subjetiva, mítica e emocional,
registrando na parede das cavernas seu mundo interno.

Do mesmo modo como muitas vezes condicionamos a arte a conceitos que dizem
respeito ao belo, também vinculamos a morte ao que entendemos como fim,
desaparecimento, dissolução. Então, nesse caso, apoiamos nossa visão nos referenciais
dualistas aristotélicos/cartesianos em que a ciência “oficial” está alicerçada. (O outro
extremo dessa atitude consiste na religiosidade fanática, que nada tem a ver com a
verdadeira espiritualidade.)

Antes mesmo de pensar em níveis que se encontram aquém e além da racionalidade, há


que se considerar esse tema tão “terreno” que é a morte, na medida em que é por meio
dela — fisica ou simbolicamente — que a transformação tão buscada por todos pode se
instalar. Pode-se concluir que sem “morrer” para o que somos, não teremos um vir a ser
promissor, se não a mera repetição de modelos mentais — para falar do dinamismo
psíquico —, nos quais tantas vezes nos confinamos na mesmice de desejos narcísicos
que provocam no sujeito um clamor contínuo por ser visto em sua individualidade. Sem
a ruptura desse modelo temos um adiamento na constituição do indivíduo que mantém
um pensamento de onipotência e não tem recursos para enxergar e aceitar seus limites.

Avançando ainda mais na questão da morte, sem nos atermos naquilo que mais
imediatamente nos vem à mente — a morte fisica —, precisamos colocar nossa atenção
em como a morte simbólica estaria trabalhando a favor de um processo de abertura e até
mesmo de cura, dependendo de que profundidade se está atingindo, tanto para o olhar
do terapeuta quanto para o do paciente, ambos intermediados pelo ato expressivo, pelo
fazer artístico, pelo viver criativo.

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Iniciando por olhar o terapeuta em sua prática essencial, a clínica, constatamos que este
pode sentir-se muitas vezes “perseguido” pela falta de recursos teóricos e vivenciais
diante de diferentes situações que tem de enfrentar. Fato que poderia se traduzir
psicanaliticamente como um contato com suas limitações evidenciadas por algumas
demandas mais complexas. Essa limitação provocaria o medo de perder o “lugar
onipotente” ou, ainda, do furor curandis, que seduz aqueles que atuam nos processos de
transformação. Essa ameaça de castração e de perda de um pseudopoder, quando
reconhecida e processada pelo terapeuta, só faria amadurecer sua prática clínica e sua
relação com o paciente.

A castração é, portanto, essa ferida ‘moral’, essa perda de uma ilusão paradisíaca em
troca da qual se ganha a possibilidade de continuar vivendo — já que a manutenção da
ligação umbilical com a mãe só pode levar à psicose ou à morte. A castração é a perda
de um privilégio que já se desfrutou, perda que abre em troca um leque de
possibilidades de se viver o novo. A conservação do narcisismo é que é a verdadeira
perda porque é a manutenção (ilusória, ainda por cima: um mau negócio!) de um estado
antigo que não permite que o desejo se mova. Nesses termos, a castração é um evento
absolutamente progressista na nossa vida (KEHL, 1987, p. 478).

Por outro lado, para aquele que vivenciou arte em seu percurso de vida e se apropriou
de seu caminho, acreditando nas possibilidades curadoras impulsionadas pela
sublimação que as linguagens expressivas promovem, este sim terá mais condições de
contribuir para a dissolução dos sintomas que geram conflito e angústia naquele que
procura orientação.

Assim como na elaboração de uma obra-de-arte, é preciso que o terapeuta anteveja


caminhos, aceite recuos e confie no “mistério” que faz realizar os encontros. Encontro
entre

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pessoas, encontro da pessoa com sua luz e sombra, encontro entre o intelecto e a
emoção, da ciência secular e ciências herméticas, dos planos da objetividade integrados
ao subjetivo, da intercessão do processo e do resultado que se perfaz em um circuito que
está além da espacialidade e da temporalidade que conhecemos intelectualmente.

A Arteterapia tem entre os seus propósitos criar um movimento entre o distanciamento e


a proximidade como faz o artista com a sua obra, também o faz o paciente com sua
própria produção. Por mais que possa parecer ambíguo, isso permite na verdade
oxigenar — inspirar e expirar— os espaços internos do ser. O fato é que aquilo que se
pode ver no jogo de aproximação e afastamento entre o criador e sua obra pode trazer
profundos insights para o terapeuta e para o paciente.

Longe de prender-se ao estético do material produzido em setting terapêutico ou em


oficinas criativas, o processo vivido em arteterapia coloca a arte como intermediadora
dos diferentes aspectos do ser e das realidades diversas que interagem nos planos da
consciência e da lógica do sujeito. Na verdade, cria um estreitamento entre o ser e sua
produção, desvelando mistérios no espaço entre o paciente e sua expressão.
Ao conhecer ou colocar as possibilidades da arte e colocá-la em outro contexto que não
simplesmente uma abordagem do belo, mas com o objetivo de debater a importância da
arte como fator de saúde e de transformação dos estados de sofrimento, a arteterapia
analisa, acima de tudo, o processo de criação do paciente.

Arterapia em diferentes tempos

A arte sempre esteve presente no universo humano, nas suas mais diferentes
manifestações plásticas — contando

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histórias, teatralizando suas aventuras e aprendizado, pintando no interior das cavernas,


cantando em seus rituais — dentro de uma liberdade criativa que possibilitava a
harmonização de suas emoções e espírito com o mundo a sua volta. Arte como
promoção dos aspectos criadores dinamiza e pode prevenir percepções dos padrões
recorrentes, uma vez que atua nos níveis cognitivos com uma pedagogia da experiência.
Permite ao indivíduo transformar energias destrutivas em fonte de criatividade.
A morte está ligada ao sentido científico de extinção da vida no corpo, ou no religioso
de espírito; entretanto, esquecemos que antes do que a esses aspectos ela está
relacionada ao psíquico. Como viver os estados semelhantes à morte permanecendo
neste corpo, com este espírito e ainda assim torna-se alguém transformado? A arte nos
empresta seus “corpos” de som, argila, cores, movimentos, imagens, palavras e por
meio desses corpos morremos e renascemos.

Nesse sentido, a morte não seria a extinção de um corpo, mas um estado de criação de
outros níveis da existência, uma vez que promove a passagem de um estado de ser que
repousa no latente e o manifesta como imanente. Ela só não pode ocorrer se algo insiste
em perdurar naquilo que é a repetição, como um Sísifo grego persistindo em viver num
eterno círculo de condicionamentos evitando aceitar a morte. Então, a morte é aquilo
que liberta a alma de uma materialidade momentânea para se transmutar em incontáveis
formas que não se permite revelar à racionalidade humana. Esse transmutar-se em
múltiplas composições é mesmo a base da iniciação, e aqui entra o rito de passagem, o
qual engloba o fïsico, o emocional, o cognitivo e o espiritual. E na passagem entre esses
três níveis do ser e dos tempos — Passado/presente/futuro — que o indivíduo pode
“nascer” para o aqui e agora, superando momentaneamente os mecanismos recorrentes
que surgem na vida psíquica em nossas relações.

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A abordagem deste capítulo se sustenta muito mais no percurso profissional que


desenvolvi do que propriamente em conceitos extraídos de tratados técnicos sobre o
tema, ou ainda de enfoques acadêmicos. O que veremos é uma somatória de percepções
extraídas da experiência com grupos e mesmo no atendimento individual que podem
inspirar e encorajar arteterapeutas, estudantes de psicologia e mesmo artistas a pensar
mais profundamente sobre o valor de técnicas expressivas como auxiliares do
desvelamento do ser e de sua rica singularidade.

Investigaremos conceitos referentes às experiências de “morte” simbólica presentes na


arte de criar, e aqui podemos pensar no ato criador como algo que ultrapassa os limites
da concretização de uma obra em si mesma, ou seja, como a possibilidade de se criar
novas idéias, visões, relacionamentos, seja consigo mesmo, com o outro ou com o
entorno.

O processo criativo

O processo criativo — disparado em oficinas de Arteterapia e mesmo no setting


analítico — pode ser comparado a um rito de passagem praticado pelas sociedades
tradicionais, uma vez que é por meio destes que os conhecimentos mais significativos
são gerados. E na ressignificação das experiências vividas que é possível mudar níveis
de representação na relação eu-outro, ou sujeito-mundo, criando o novo que permite o
aprendizado e a transformação de padrões recorrentes ou, ainda, de “marcas
traumáticas” que podem impedir a transição natural nas etapas evolutivas que perfazem
o período da infância, da idade adulta e da maturidade.
Nesse sentido, espero contribuir com o leitor no que diz respeito ao desenvolvimento de
conceitos que se inserem dentro de um campo, digamos, mais filosófico sobre a
experiência com as oficinas de arteterapia como intermediadora

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nos processos de construção de conhecimento, de redirecionamento dos investimentos


psíquicos e na expansão de consciência.

Sigamos, inicialmente, orientados pela articulação de visões sobre o processo criativo


como campo possível para aproximar arteterapia e psicanálise, o que significa articular
diferentes conceitos sobre planos de consciência e a relação do sujeito com sua criação
do ponto de vista do simbólico, do imaginário e do real.

O olhar que antecede a capacidade de ver e criar deve estar sustentado na percepção de
que aquilo que observamos não representa uma realidade definitiva ou estanque, pois
essa mesma realidade é antes de tudo a constelação de uma crença e de um desejo dos
quais podemos tocar apenas fragmentos. E são essas crenças, herdadas desde a
concepção do sujeito psíquico, que são “realimentadas” em nossas experiências diárias
no desdobramento de nossa contínua maturação.

Aquele que produz arte torna-se o criador de sua obra, e podemos dizer que é dele a
“criatura”, o produto manifesto e “finalizado”, fruto de seu imaginário. Ele, o autor,
torna- se o protagonista — o primeiro a sacrificar-se —, deixando algo de si, de sua
unidade, para “partir-se”, “multiplicar-se”, “desdobrar-se” em sua criação, como faz
analogamente a mãe ao conceber um filho.

A gestação na mulher pode ser entendida como análoga às leis que regem a gestação na
produção artística. A experiência de gravidez vai provocar efeitos múltiplos na
consciência da gestante e, paulatinamente, transformar a menina em mulher. A produção
de uma obra pode transformar o sujeito (que gesta uma imagem, um som, uma forma,
uma idéia) em sujeito do conhecimento.
O paciente que pode criar e materializar em um objeto imagens inconscientes, sentindo-
se tocado e impressiona-

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do por elas, acaba por gerar em si mesmo uma predisposição ao processo que conduz à
gênese do que estamos chamando de “morte” simbólica ou, ainda, de um estado de
abertura para um distanciamento ótimo em relação às suas “certezas”. Na distância, sem
a fusão do observador com a coisa observada, podemos ver com olhos novos.
Os conceitos do psicanalista Winnicott (1975), em O brincar e a realidade, não
condicionam a criatividade ao resultado puro e simples da coisa criada, senão ao que se
manifesta como gesto do autor.

Quando um projeto que envolve a criação com material plástico revela um outro reflexo
do sujeito criativo; suas verdades internas defendidas e rigidarnente estruturadas cedem
momentaneamente às novas percepções de si mesmo e seu mundo intrapessoal
apresenta-se como um caleidoscópio de novas possibilidades.

Por meio da constatação de outras realidades que transcendem as barreiras das defesas
que encobrem o que está reprimido, a criação artística produz um estranhamento no
sujeito, provocando novos questionamentos. Desse modo, esse sujeito tem mesmo que
se subverter: verter e fluir por uma via ainda desconhecida; seguir por um caminho
novo, que ele jamais vislumbrou.

Para expandir um pouco do que estamos dizendo, é preciso que consideremos as


instâncias do Id, Ego e Superego psicanalíticos que permeiam o sujeito e sua expressão.
Segundo esse modelo freudiano, o Id, regido pelo “princípio do prazer”, tem a função
de descarregar as tensões biológicas. Reservatório dos desejos e impulsos herdados
geneticamente e voltados para a preservação e propagação da vida. O Superego,
também inconsciente, faz a censura dos impulsos que a sociedade e a cultura proíbem
ao Id, impedindo o indivíduo de satisfazer plenamente seus instintos e desejos. O
Superego, ou censura, desenvolve-se em um período que Freud designa como período
de latência, situado entre
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os 6 ou 7 anos e o início da puberdade ou adolescência. Nesse período, forma-se nossa


personalidade moral e social. O Ego, ou o Eu, é a consciência, pequena parte da vida
psíquica, subtraída aos desejos do Id e à repressão do Superego. Obedece ao princípio
da realidade, ou seja, à necessidade de encontrar objetos que possam satisfazer ao Id
sem transgredir as exigências do Superego.

A estrutura tripartide desenvolvida por Freud, e citada anteriormente, deve ser


observada entendendo-se que o processo terapêutico deve considerar o que se opera no
paciente levando em conta o que está latente (o que é o não-dito) e o que é manifesto (o
que é parcialmente revelado). E preciso saber que existe o interjogo produzido pelo
desejo tramado entre a pulsão de vida e pulsão de morte.

Quando o foco é saber da subjetividade, para que esta nos dê pistas na direção da
demanda do paciente, devemos ressaltar aqui que esta se dirige para o plano da busca de
sentido, superação de um sintoma, etc.

Devaneios sobre o processo criativo

Para a obra nascer é preciso ser fecundada por um desejo de completude (o elemento
ar). O desejo impulsiona e cria atrito entre o passado — experiências pretéritas — e o
futuro — busca do vir a ser (o elemento fogo), que produz sentimentos, emoções, afetos
(o elemento água), constelando-se em materialidade (o elemento terra).
A natureza e seus elementos têm sido um guia seguro no sentido de desvendar os
mistérios que compõe a “geografia” interior, e tanto a arteterapia quanto a psicanálise
exercem o papel de mediadoras na captação desse material inconsciente.
Jung se fundamentou em antigas culturas para desenvolver as quatro tipologias e suas
funções (ar-pensamento,

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fogo-intuição, água-sentimento, terra-sensação) e ainda hoje índios de diferentes nações


também utilizam os elementos da natureza para compreender a psicodinâmica da vida e
como o simbolismo dos elementos da natureza pode nos auxiliar a compreendermos
melhor a nós mesmo e ao outro com quem partilhamos o caminho. Segundo essas
culturas, nossas almas vivenciam diferentes experiências ao longo de seu percurso, e as
experiências mais traumáticas podem reter parte da alma. O xamã, ou curandeiro,
exerce um papel de resgatar esses “pedaços do ser” fixados no passado e trazê-los de
volta para integrarem-se ao ser, liberando dessa forma as energias ali represadas. Para
isso, muito conhecimento é necessário: rituais e diferentes cerimônias são empregados
nessa difícil tarefa que exige maestria e arte dos homens e mulheres da tradição.
Em nossa cultura “civilizada”, perdemos o sentido e a possibilidade de praticar essa arte
conhecida como resgate de alma. No entanto, a psicanálise, por meio da palavra, e a
arteterapia, com seus diferentes meios expressivos, podem orbitar no mesmo sentido das
antigas formas de cura, abrindo acesso aos registros primevos da experiência do ser.
Fazendo um paralelo com as questões acima e com base em conceitos psicanalíticos,
sobretudo de Winnicott, penso que as estruturas para conhecer o mundo e para nos
relacionarmos com ele têm seus pilares na relação de caráter primário advinda do fluxo
de estímulos com o ambiente interno e externo mediados pela figura materna. Podemos
com isso inferir que o ambiente externo sendo acolhedor produzirá sensações de prazer
e interferirá na qualidade da aprendizagem.

Os rituais são espaços seguros para as culturas que os praticam, e assim também deve
ser o ambiente no qual nos colocamos para interagir com o que é novo e absorvê-lo, de

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tal forma que haja uma reverência ao momento no qual um conhecimento está sendo
produzido e transmitido.

Quando aprendemos algo “garantimos” um determinado nível de sobrevivência, como


ocorre, por exemplo, no momento em que a mamãe em sua gravidez sente o desejo de
deitar-se em certo momento do dia, de degustar um alimento específico e de acariciar
em seu ventre o bebê, como se estivesse se certificando de que este está recebendo o
cuidado necessário para preparar-se para nascer.
(Início da citação) Nosso corpo, com as sensações que recebe de um lado e os
movimentos que é capaz de executar de outro, é portanto aquilo que efetivamente fixa
nosso espírito, o que lhe proporciona base e o equilíbrio. [...] A atividade do espírito o
ultrapassa infinitamente a massa das lembranças acumuladas, assim como nossa massa
de lembranças ultrapassa as sensações e os movimentos do momento presente.
(BERGSON apud ARCURI, 2004, p. 203). (Fim da citação)

Para ilustrar esses conceitos, trago uma experiência de arteterapia vivida com grupo de
jovens indígenas de uma aldeia de São Paulo. Nesse exemplo de atuação terapêutica
com oficinas, pretendo sinalizar os conceitos de transferência como base na qual se
construirá a relação paciente — terapeuta.

Entendo ser relevante tratar do conceito de transferência na relação arteterapia e


psicanálise, pois em ambos os perfis de abordagens o vínculo entre paciente e terapeuta
ou analista é o que solidifica o processo. Sem essa construção torna-se frágil o ambiente
propício para a manifestação da ação curadora, pois comprometemos o processo
transformador que a arteterapia e mesmo o setting analítico podem promover no
atendimento às demandas dos pacientes se não compreendemos e sabemos manejar a
transferência.

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É por meio da transferência *positiva* que os laços afetivos entre paciente e terapeuta
vão se constituindo, criando a rede de relações na qual circulam conteúdos afetivos
emocionais, psíquicos e transpessoais. Citando Rollo May (apud
HYCNER, 1983, p. 160):

(Início da citação) Mas, na terapia existencial, a “transferência” é colocada dentro do


novo contexto de um acontecimento que ocorre dentro de um relacionamento
verdadeiro entre duas pessoas. Quase tudo que o paciente faz face a face com o
terapeuta, em um dado momento, contém um elemento de transferência. Mas nada é
jamais “apenas transferência” a ser explicada ao paciente, como se faria com um
problema de aritmética. (Fim da citação)
Nota de canto de página para *positiva*: Conceito da Psicanálise referente a uma
reprodução de imagens internas que Freud classificou em ter categorias: Transferência
positiva, negativa e erótica não-eutralizada. Essa teoria nos mostra um continnum do
passado que se mostra no presente.

(Fim da nota de canto de página)

Para exemplificar, como havia dito anterior, trago o relato de uma experiência vivida
recentemente com a tradição de indígenas, na qual desenvolvi encontros com ateliês
artístico-terapêuticos em parceria com um colega médico endocrinologista e
acupunturista Dr. Luis Fernando França. O propósito desse trabalho foi o de atuar na
facilitação do resgate de aspectos relacionados ao imaginário da cultura nativa, tendo a
arte como meio para expressão do ser enquanto indivíduo e do ser enquanto
coletividade.

A arte de transpor o eu e tocar o self

Ao iniciarmos os contatos com o grupo indígena na região de São Paulo, estivemos


primeiramente na casa da coordenadora dos trabalhos pedagógicos da escola indígena
localizada na aldeia. Como nossa intenção era a de traba-

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lhar com os adolescentes residentes os efeitos das oficinas de arteterapia no resgate de


valores culturais, fomos pedir autorização para contatá-los, a fim de posteriormente
realizar as oficinas bem como o levantamento dos indicadores resultantes do processo.
Com a coordenadora falamos especificamente das oficinas que iríamos desenvolver e,
então, pudemos aprofundar as questões sobre arteterapia. Expus minha visão a respeito
dos paralelos que há entre arte, psicanálise e qualidade de vida e de como isso se
interconectaria aos ritos de passagem, uma vez que esses podem desencadear aspectos
pedagógicos, preventivos e curativos em diferentes níveis do ser, como podemos
constatar nos tratamentos arteterapêuticos e psicanalíticos.
A oficina de arteterapia, como uma forma de promover e facilitar processos em que se
inserem estados internos de “morte simbólica”, pode favorecer a dissolução de
sintomas, permitindo o redirecionamento de energias que se cristalizam na repetição de
pensamentos e sentimentos de base inconsciente. Além disso, o trabalho com materiais
expressivos, quando bem conduzido e suportado por uma transferência positiva na
relação entre paciente e terapeuta, pode levar a um estado de contemplação de si mesmo
e de sua natureza mais primitiva, ou xamânica, ativando imagens arquetípicas e
inconscientes, levando o cliente/paciente a uma aproximação com um saber ancestral.
Para exemplificar, retomo uma das falas da coordenadora da escola indígena: Os índios
guaranis tiveram de aprender a calar ou mesmo dissimular respostas, uma vez que foram
subjugados e explorados pelos colonizadores. Qualquer expressão de seu mundo interno
poderia ser utilizada erroneamente ou ainda contra eles mesmos.

Ao ouvir a colocação da coordenadora, pensei ser essa exatamente a atitude


recomendada no ensinamento do mestre Jesus a respeito de “não dar pérolas aos
porcos”. Mas,

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ao mesmo tempo, o comentário me deixou em estado de alerta e de muita apreensão,


pois o trabalho a ser desenvolvido com os jovens índios nas oficinas artísticas teria que
fluir naturalmente, dentro do que se pode chamar de um ambiente permissivo, acolhedor
e criativo. Confiança, amabilidade, desejo e entrega plena são imprescindíveis no
setting terapêutico.

Nessa experiência que relato, esse espaço ameno e subjetivo a ser edificado permitiria
que os “xamãs internos” dos indivíduos do grupo pudessem presentificar-se e expressar-
se plenamente. Isso me levou a pensar e a discutir com meu colega de trabalho se a
nossa primeira atuação com os integrantes da aldeia deveria ser precedida de muitos
encontros com a coordenadora da escola. Entre os indígenas, especialmente, os grupos
têm uma “alma” muito coesa, resultado da força da cultura, do convívio intenso e dos
elos ancestrais que os ligam. Numa espécie de metáfora, estávamos diante de um mundo
interno indígena resguardado e protegido pela pessoa da coordenadora pedagógica. Ela
simbolizaria a guardiã, uma personificação do superego do grupo.
Com o foco na construção do vínculo com a coordenadora, que em certo sentido seria a
cacica, marquei inúmeras entrevistas e encontros para, afinal, consolidar a relação. Eu
precisava de sua permissão para interagir com os jovens e para trabalhar, em um nível
profundo e delicado, o grupo de alunos. Essa autorização se estendia não só ao nível
prático da questão — agendamento, infra-estrutura, local, tempo de duração, apoio dos
pais —, mas, sobretudo, à construção de um campo de interações.
Estamos nesse ponto novamente nos referindo à aplicação da transferência positiva,
expressão psicanalítica que se refere à abertura de um canal de fluidez, confiança e
legitimação do outro, construído com o vínculo paciente-te-

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rapeuta. A cacica parecia de fato ocupar o lugar de “superego” do grupo de índios


(alunos da escola), que deveria autorizar a passagem para as camadas próximas do que
podemos chamar de “pulsão de vida e morte”, pulsões que se contra- põem entre si. Se,
de um lado, a própria energia se desloca para a expansão e autoconservação — pulsão
de vida também designada como “eros” —, por outro segue para um estado de retração
ou pulsão de morte, representada nas tendências de se retornar aos estados inorgânicos.
São essas duas forças inconscientes que estariam sendo resguardadas pela
coordenadora.

Nesse sentido, a experiência com arteterapia estava direcionada, inicialmente, para a


construção de um vínculo com a coordenadora, guardiã dos “segredos” do grupo e
“superego” daquela comunidade de jovens que estariam conosco no trabalho.
Poderíamos abstrair essa experiência de atendimento artístico-terapêutico com os
residentes da aldeia como se esta fosse (e é) um só corpo, com a alma do grupo tendo
seu dinamismo psíquico, físico, emocional e espiritual não só presente no viver da
aldeia, mas atuante em sua saudável e legítima defesa, representada essencial- mente na
pessoa da coordenadora.

Para alcançar, digamos, ao que é o mais primal do ser, e neste caso a metáfora sobre o
grupo de jovens da aldeia nos serve de exemplo, tínhamos que estabelecer a
transferência para iniciar a formação do vínculo com o ser “social” arquetípico da
autoridade, da paternidade e, portanto, da lei — a coordenadora. Então, investimos ao
longo de seis visitas/atendimentos especificamente nessa aproximação. Somente assim,
à medida que os laços de transferência com qualidade foram se fortalecendo, fomos
tendo acesso ao grupo de jovens indígenas.

Todo esse esforço resultou, na prática, no início do trabalho com as oficinas.


Realizamos, enfim, a primeira oficina de ateliê, trabalhando com técnicas da narração
de histó-

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ria, dança circular xavante, desenho livre e, posteriormente, desenho do contorno do


corpo, com o qual ocorreu algo surpreendente, como deve ser o atendimento em toda
forma de processo terapêutico.

Olhando para as sociedades tradicionais, por exemplo, a desses nativos indígenas,


podemos observar que seus rituais obedecem a estruturas formais muito bem
organizadas e se mantêm ao longo do tempo sob ordens e “lógicas” próprias. Na teoria
piagetiana, a atividade cognitiva consiste precisamente em “dar forma”, “impor uma
ordem”, nas interações do sujeito cognoscente com o que chamamos provisoriamente de
“o mundo exterior”. No “tom” dado às oficinas, embora aparentemente informal,
trabalhávamos dentro de um enquadre metodológico que seguia o “ritual” de observar, a
cada estímulo e material oferecido, os níveis sensório-motor, perceptual-afetivo e
cognitivo-simbólico, que eram mobilizados na experiência e extraídos dos referenciais
teóricos do Continuum de Terapias Expressivas (ETC) baseados nos estudos de Piaget e
Inhelder (1966-1967).

Com as respostas geradas em oficinas e ateliês com técnicas expressivas para diferentes
grupos e em diferentes contextos, vejo evidenciar-se a eficácia da aplicação das
atividades de arte e expressão como meio para se alcançar aprendizagens significativas
e processos terapêuticos com resultados muito positivos. Essas respostas, relatadas pelos
participantes dos grupos e identificadas na melhoria de sintomas, se pensarmos
clinicamente, atuam diretamente nas representações do paciente ou cliente intervindo no
nível afetivo e cognitivo e “redirecionando” pulsões de energia para outros núcleos do
ser, podendo enfim promover alternativas para que este atue construtiva e criativamente
no mundo.

Podemos pensar na relação dos três níveis do ETC, citados anteriormente, e transportá-
los para a maneira como

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captamos a realidade e a introjetamos. O imaginário tem um papel fundamental na


“saúde psíquica”, pois com ele podemos integrar realidade e fantasia a favor de um
aprender, encontrando caminhos para a individuação ou seguindo ao encontro do nosso
próprio eu. Foi por meio do imaginário que nossos antepassados hominídeos puderam
sobreviver em meio à imprevisibilidade do meio selvagem em que viviam.

As propostas de oficinas que integram diferentes linguagens expressivas, além do


relaxamento interno que podem produzir após o processamento das atividades e a
“acomodação” dos saberes que emergem dos participantes (quando atuamos em grupo),
conduzem a um estado de percepção mais integrado entre a pessoa e o entorno, o dentro
e fora, o indivíduo e o grupo, estado esse que pode ser vivido quando da ativação do
hemisfério direito cerebral, “parte da consciência” que nos permite desenvolver uma
percepção mais abrangente do tempo presente.

Como salienta Macedo no prefácio de Análise microgenética da oficina criativa


(ALESSANDRINI, 2004, p. 24):

(Início da citação) Porém, uma construção, como um projeto, está sempre atravessada
pelos valores, pelas razões afetivas que justificam sua realização e que possibilitam
suportar e, quem sabe, superar os altos e baixos de seu percurso. Como lidar com
ganhos e perdas? Como manter ou corrigir um objetivo ou meta? Como aperfeiçoar um
meio em favor de um fim querido? Como se entregar a algo que ainda não é...(Fim da
citação)

Quando vivenciamos experiências criativas, é sempre mobilizador defrontar-se com


questões que parecem anteceder a lógica formal ou mesmo ultrapassá-la. Na vivência
com os jovens indígenas isso parecia não acontecer tamanha a facilidade com que
entravam e saíam dos diferentes

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estados de consciência, fosse por meio de uma pintura, um desenho, ou mesmo uma
dinâmica de visualização simbólica. Como pontua Rolando Garcia ao falar sobre a
lógica do sujeito cognoscente em citação parafraseada de Piaget (apud
ALESSANDRINI, 2005, p. 47): “O sujeito do conhecimento estrutura a ‘realidade’, ou
seja, seus objetos de conhecimento, à medida que estrutura primeiro suas ações e,
depois, suas próprias conceitualizações.” Construir é dar forma, criar uma ordem que se
reflete na relação entre o sujeito e a realidade que o cerca. Nesse sentido, estávamos
vivenciando com aquele grupo um “ritual” sobre a arte de aprender, criando condições
para que a dimensão afetiva pudesse dialogar com a cognitiva e, do mesmo modo, para
os sentidos interagirem com a emoção, o corporal com o simbólico, dando forma às
imagens internas e organizando o “material” encoberto pelo superego da cultura
civilizada.

Reflexos dessa influência se projetaram por meio de grafismo que os jovens indígenas
produziram quando convidados a desenhar a silhueta do corpo uns dos outros e em
seguida cada participante da oficina deveria preencher esse seu desenho com imagens
de seu mundo interno. Para minha surpresa e de meu parceiro de trabalho, os corpos
desenhados apareceram “vestidos” de camisetas de times de futebol, calças e moletons,
tênis, boné, etc., imagens próprias de uma cultura que foi se confinando ao longo de
anos pela pressão da cidade ao redor que foi ocupando a mata, o rio, o canto dos
pássaros, o céu azul, os amanheceres cheios de ruídos e sons dos animais e insetos, os
anoiteceres estrelados, o cheiro das flores, frutos e plantas, enfim, a vida integrada a
natureza. Naqueles desenhos estavam materializados os “superegos” urbanos e
capitalistas sobre os impulsos da vida natural simples e pulsante. Esta era a camadas
superficial sobrepondo-se à essência.

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pergunto-me quantos bosques internos, fontes de água cristalina, ocasos são encobertos
pelos véus dos medos, das angústias, das fantasias destrutivas que movem aqueles que
procuram por ajuda. O terapeuta, como um “habitante da natureza”, como um “nativo
das terras sem males”, como diriam os guarani, deve procurar ser este condutor que
caminha lado a lado com seu paciente.

Voltando a experiência com a oficina entre os indígenas, no momento em que


aprofundamos o trabalho meditativo e de visualização simbólica, utilizando um
relaxamento direcionado à integração mente, corpo e emoção, para em seguida convidá-
los a desenhar novamente a silhueta e completá-la por dentro, vieram registros e
imagens do ambiente selvagem, pássaros, borboletas, onças, peixes, tatu, serpente,
plantas, borboleta, árvores, etc. Esse contato com o mundo indígena e com as
“armadilhas” do saber da educação formal que comumente utiliza um “verniz” social,
nos ajuda a pensar como a arteterapia e a psicanálise podem contribuir para nos
colocarmos amorosamente diante do ser e sua história utilizando diferentes linguagens,
escuta analítica e olhar sistêmico, decifrando a *representação* de coisas e a
representação de *palavras*.

Nota de canto de página para “representação”: Termo clássico em filosofia e em


psicologia para designar aquilo que se representa, o que forma o conteúdo concreto de
um ato de pensamento e, em especial, a reprodução de uma percepção anterior.

Nota de canto de página para “palavras”: Expressões utilizadas por Freud nos seus
textos metapsicológicos para distinguir dois tipos de “representações”, a que deriva da
coisa, essencialmente visual, e a que deriva da palavra, essencialmente acústica. Essa
distinção tem para ele um alcance metapsicológico, pois a ligação entre a representação
de coisa e a representação de palavra correspondente caracteriza o sistema pré-
consciente-consciente ao contrário do sistema inconsciente, que apenas compreende a
representação de coisa. (LAPLANCHE; PONTALIS. 2001, p. 450).

(Fim da nota de canto de página)

Lembramos Bergson (1999, 2003 apud ARCURI, 2004), que relata que:

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(Início da citação) Nosso corpo, com as sensações que recebe de um lado e os
movimentos que é capaz de executar de outro, é, portanto, aquilo que efetivamente fixa
nosso espírito, o que lhe proporciona base e o equilíbrio. [...] A atividade do espírito
ultrapassa infinitamente a massa das lembranças acumuladas, assim como essa massa de
lembranças ultrapassa as sensações e os movimentos do momento presente.

Desenvolver esse olhar, sob as referências do terapeuta e do paciente, é naturalmente


desafiante, visto que preferimos circular pelos espaços conhecidos, pelas vias
“pavimentadas” do pensamento linear ou ainda por aqueles lugares internos cujos
sentimentos estão sustentados por padrões de comportamento e hábitos recorrentes,
pelas respostas e atitudes estereotipadas, formais e socialmente estruturadas.

Nesse sentido, podemos pensar na *repetição* aponta por Freud e como uma expressão
das matrizes de aprendizagem (QUIROGA, 1991) que nos garantiram a sobrevivência e
produziram, em diferentes momentos do desenvolvimento psíquico, afetivo emocional e
cognitivo, as sensações de segurança, acolhimento e aceitação.

Nota de canto de página para *repetição*: A compulsão à repetição no delineamento


teórico de Freud é considerada um fator autônomo, irredutível, em última análise, a uma
dinâmica conflitual na qual só entrasse o jogo conjugado do princípio de prazer e do
princípio de realidade. E referida fundamentalmente ao caráter mais geral das pulsões: o
seu caráter conservador (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 83).

Tanto o conceito de transferência em psicanálise quanto o de compulsão por repetição


dizem respeito aos modelos construídos desde os primeiros vínculos que formamos na
infância e estão atrelados às lentes pelas quais escolhemos olhar o mundo. Na
transferência, temos a procura dos modelos que nos serviram de base para nossos
relacionamentos e na repetição, o impulso de reproduzir as situações traumáticas na
tentativa de resolvê-las.

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As motivações que nos levam a viver esses modelos emergem do inconsciente e podem
aflorar pelo gesto, pela palavra escrita ou falada, pela forma, pela imagem, pelo som e
pelas inúmeras possibilidades da expressão humana. E a partir dessa expressão que o
sujeito subjetivo pode mirar-se e reconhecer-se discriminado na relação eu-outro. E esse
‘discriminar-se’ pode se tornar a base sobre a qual trabalham as diferentes linguagens
expressivas, a arte, os processos terapêuticos e a psicanálise. É nesse sentido que se
pretende, nesta reflexão, manter um norte comum que produzam reflexões sobre
arteterapia e psicanálise.

A subversão é inerente à criação artística. Existem sempre desejos permeando as ações


do ser no mundo. Frações desses desejos podem ser capturadas no ato mesmo de
revelar-se por meio de um registro.

O jogo simbólico, como postulam Macedo, Petty e Passos (1997, p. 35), no livro 4
Cores, Senha e dominó: oficinas e jogos em uma perspectiva construtivista e
psicopedagógica, trata, pela amplitude com que foi colocado e no enfoque que apontarei
agora, de uma reflexão sobre repetição: “Agir como a mãe, em uma brincadeira de
boneca, por exemplo, significa repetir, por analogia, o que a mãe fez com ela tantas
vezes, em seu primeiro ano de vida.”

Para Freud, a repetição é natural no psiquismo humano, uma vez que reprimimos os
impulsos inconscientes e estes buscam, ao longo de nossas vidas, expressar-se. Freud
pesquisou profundamente a compulsão a repetição, observando também o papel do jogo
para as crianças como forma de lidar com a angústia de separação. Em um desses
estudos, analisou o comportamento de uma criança que lançava um brinquedo, dizendo
em seguida “foi”, e novamente o apanhava. Para o precursor da psicanálise, a criança
naquele momento processava internamente o fato da mãe sair, deixando-o só.

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Em outros momentos, ele viu essa mesma criança jogar seu brinquedo para longe,
debaixo de uma mesa, por exemplo, e não retornar a pegá-lo. Nesse caso, Freud
começou a levantar hipóteses de que a compulsão a repetição não está atrelada apenas à
busca de prazer — uma vez que a ausência da mãe traria à criança algum nível de
angústia —, mas, mais do que isso, à busca de contato com o que está recalcado. Claro
que essa busca é inconsciente e este procura trazer à consciência o que precisa ser
atualizado, elaborado e transformado.

Ainda sobre as pesquisas de Freud, e entendendo que contribuem para nossa reflexão,
ele observou que certos pacientes procuravam reviver situações de infância na relação
com o analista, certamente na tentativa de repetir os padrões vividos na relação parental
matricial (e o ponto aqui eram as situações desagradáveis que ficaram recalcadas no
inconsciente).

Pensando a arte como instrumento de intervenção terapêutica, penso que ela se insere
como um recurso singular para contatar o que se repete — e sempre se repete — no
paciente. E incluímos aqui a própria transferência como algo que retorna. Nesse sentido,
a arte abre espaço para que o terapeuta possa aprofundar a perspectiva de demanda do
paciente e contribuir para que este se liberte, por meio de elaboração simbólica, do que
está recalcado e, portanto, provocando sintomas e estados que emergem em forma de
demandas.

No caso do recurso lúdico promovido pela arte, podemos ativar por via da expressão os
aspectos motor, afetivo, social e cognitivo do analisando. Em minha prática de
abordagem clínica com grupos de empresa, pude aplicar recentemente o recurso do jogo
de varetas, incluindo uma leitura subliminar dos participantes, apoiando-me na leitura
que fiz dos quatro aspectos acima mencionados. E pude

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chegar à constatação, por meio de devolutiva dos participantes, de que o jogo de varetas
pode revelar dinâmicas competitivas e “contratos” subliminares que podem estagnar os
processos produtivos de seus integrantes. Posteriormente, tive o retorno de que o grupo
melhorou na relação inter-pessoal, uma vez que havíamos processado os conteúdos
subliiminares que haviam surgido nas vivências em oficinas.

Voltando a Freud, podemos concluir a partir de seus estudos sobre a repetição que todos
trazemos além da força de Eros, que nos impulsiona à vida, a pulsão regressiva ou de
morte, que procura nos colocar de volta aos estados primitivos, paradisíacos associados
ao retorno para o “ventre materno”.

Quero pontuar aqui, nesta minha reflexão, que nossa vida psíquica é mesmo um “jogo”
entre essas duas forças, perpassadas pelo self das teorias junguianas, eixo que nos liga
ao transcendente, em que essas dualidades se integram para manifestar a totalidade do
Ser. Esse mesmo jogo, presente na condição humana, está retratado nos mitos de todas
as culturas e presentificado em nosso viver diário.

O “jogo” interno pode ter sua exteriorização nas formas de jogar de exercício simbólico
e de regra. Assim também se pode “jogar” com diferentes materiais expressivos. Cada
um com sua qualidade, esses materiais trazem a possibilidade de instrumentalizar e
facilitar a assimilação da realidade físico, mental, emocional e social do sujeito.
Na visão psicanalítica, resistência é tudo que se opõe à lembrança, e a fala livre pode
levar o paciente/cliente, ou ainda o integrante grupal, a co-pensar, a apropriar-se do que
ele mesmo traz. Falando livremente, com menos censura, acontecem “equívocos”; o
discurso desencadeia novas possibilidades para que surjam pensamentos menos
estereotipados, o que torna possível o contato com o pensamento abstrato, criativo. O
jogo é algo espontâneo na criança, pois

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ela carrega em si um saber espontâneo de jogar com seu desejo, seus impulsos e os
impositivos para viver em sociedade.

Os instrumentos para se viver o “jogo” social são compostos por 33 símbolos (as letras)
e 10 algarismos (os números), como afirmam Lowenfeld e Britain (1970), em
Desenvolvimento da capacidade criadora. Jogar o jogo da linguagem é decifrar e dar
sentido ao emaranhado de letras e números.

Considerando que a clínica no processo de enfoque psicoterapêutico necessita ser


iluminada pela luz que se dá na construção paciente-terapeuta, o jogo pode ser um facho
que se acende como uma linguagem eficaz para trazer às claras o que está escondido:
um sofrimento, uma dificuldade em aprender e transformar o medo de ser em ser
criativo e empreendedor do novo em sua própria história pessoal. No sentido de
captação e construção de uma demanda só e com o paciente, os jogos de exercícios,
simbólico e de regras são valiosos instrumentos de percepção clínica.

E a regra, no jogo da vida, que nos permite o viver criativo. Cada material utilizado no
setting arteterapêutico se insere em leis determinadas pela natureza desses mesmos
recursos plásticos. Podemos, por outro lado, considerar também a graça que
disponibilizam, ao permitirem ser modelados, entoados, pintados... como uma espécie
de misericórdia com seu o criador, deixando-se fluir num equilíbrio dinâmicos com as
leis.

Pensando no simbolismo do princípio feminino e masculino, temos no feminino o caos


criativo, em que estão todas as potencialidades. Na polaridade masculina, temos a
inserção da ordem, do limite, da regra. E é na regra que somos estimulados a buscar
nossos recursos diante das limitações impostas, ora por nós mesmos, ora pelo social,
que exige que se façam escolhas dentro dos limites inerentes à convivência em
comunidade. É nesse ponto que a relação eu-outro-mundo se constitui, tendo a ética
como eixo para

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que cada integrante do jogo seja visto e respeitado em sua individualidade.


“Como psicoterapeutas, não podemos mais ver os seres humanos como entidades
psicológicas isoladas, divorciadas de qualquer interligação inerente com os outros”,
afirma Rolio May, no fragmento do capítulo O princípio dialógico em psicoterapia, de
Richard Hycner (1995, p. 30), do livro De pessoa a pessoa. E acrescebta ainda: “Nós
vivemos nos outros e os outros vivem em nós.”

Os desejos que antecedem mesmo o ato de criar são de múltiplas ordens e têm como
fonte os mecanismos da pulsão. A obra produzida nos permite um descolamento do
desejo para vê-lo a distância, recortá-lo, modelá-lo, entoá-lo e, enfim, representá-lo
como mistério indecifrável, traduzindo aquilo cuja origem é inefável, pois está, por um
lado, intermediada pelo real, enquanto impulso biológico e social, e por outro, pelo
imaginário, enquanto experiência que transcende a percepção imediata que a razão e a
análise objetiva direcionam. As imagens ulteriores advindas dos sonhos e das fantasias
de toda ordem, seja produto dos estados alterados de consciência, do êxtase místico ou
da criação poética, resultam das fontes do imaginário humano.

Freud descobriu e desenvolveu a psicanálise e podemos dizer que, com ela, a “arte” da
escuta. Podemos acrescentar que é com o aperfeiçoamento da escuta que tanto o analista
quanto o arteterapeuta podem se aperfeiçoar na arte de ver. A palavra dita bem como o
silêncio produzem imagens e são essas mesmas imagens que vão possibilitar ao paciente
contar de si e de sua história.

Em minha experiência no atendimento a pacientes e no trabalho com diferentes grupos


de desenvolvimento humano, utilizando como instrumento as oficinas de expressão,
constatei que as mudanças que podem ocorrer nos estados de ser do sujeito -
pensamentos, sentimentos, ação no mun

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do — emergem do contato com sua subjetividade. Isso pressupõe uma entrega ao


momento presente, um deixar fluir das sensações e sentimentos, a fim de que o velho
possa dar lugar à instauração do novo criativo e transformador que pode apresentar-se
por meio da expressão.

Tanto o processo analítico quanto os ateliês terapêuticos que têm como meio a arte me
permitiram “administrar” — ministrar junto, ministrar com o paciente — a investigação
e o mergulho em seu mundo interno pelo refletir de sua produção. Produção esta que
engloba desde um discurso em que o verbal é o instrumento até as obras modeladas,
pintadas, esculpidas, escritas, etc., sempre como “vestes da pulsão” ou, ainda, dos
impulsos primevos, que procuram todo o tempo “saltar” do inconsciente para dizer de si
mesmos ao sujeito psíquico, em cujas inquietações a alma busca resgatar a fonte de
água viva ou o self, para utilizar uma linguagem junguiana. É nesse movimento também
que o “anjo pessoal” tenta apresentar-se ao ego humano, como mostraria Shaun Macniff
(1992), em sua obra A arte como medicina.
Isso significa que é o mecanismo da pulsão que está no cerne da problemática do
sujeito, seja no que se refere ao lugar de onde o sujeito se vê ou ao modo como se sente
sendo visto pelo outro, seja quando esse olhar advém por meio da obra-de-arte.

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ARTETERAPIA: A ARTE A SERVIÇO DA VIDA E DA CURA DE TODAS AS


NOSSAS RELAÇÕES

Patrícia Pinna Bernardo

(Início da citação) Quando uma pessoa é aberta à vida, sem preconceitos, e receptiva às
novas experiências, quando ela é capaz de diferenciar-se e reintegrar-se, de amadurecer
e crescer espiritualmente, ela terá condições para criar. [...] o fazer criativo sempre se
desdobra numa simultânea exteriorização e interiorização da experiência de vida, numa
compreensão maior de si próprio e numa constante abertura de novas perspectivas do
ser. Reflete o sentido do desenvolvimento da personalidade como um todo, da pessoa
vivendo mais plenamente sua vida. É o que constitui essencialmente a motivação
criativa de alguém. Este incentivo ao mesmo tempo se renova e aponta certos rumos que
se abrem à imaginação. (OSTROWER, 1990, p. 251). (Fim da citação)

O fazer artístico pulsa entre o compartilhar dos valores e paradigmas constituídos e


reconhecidos coletivamente e a afirmação do sujeito em sua singularidade,
particularidade de visão e concepções, atribuindo novos significados à realidade e,
portanto, também interferindo no mundo em que se vive. Por meio de sua história, a arte
é testemunho de formas de relacionamento do homem consigo mesmo e com o
universo. Nas obras-de-arte o homem pôde experimentar novas possibilidades
existenciais mesmo antes que uma nova visão de mundo estivesse concretizada em
construções, comportamentos e posicionamentos. Olhar para o passado da arte é
também ver como o futuro se anunciava, em que direções o homem caminhava. Se por
um lado a arte

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sempre espelhou a visão de homem e de mundo constelada em determinado momento


histórico, por outro prenunciou mudanças, apontou caminhos e deu forma sensível a
anseios, necessidades e possibilidades existenciais ainda não reconhecidas e não
atualizadas. O desconhecido e o conhecido, o individual e o coletivo intercambiam-se
nesse processo de construção e transformação das relações homem-universo. Há um
certo patamar de tensão necessário ao exercício da criatividade, que contrapõe e religa,
sempre num nível mais abrangente e de maior complexidade, o novo ao já vivido, o
instituinte ao instituído.

As obras-de-arte contemplam sua função terapêutica para a humanidade quando vão


além do aparente, da superfície, mergulhando no que está aquém e além do visível,
trazendo à tona novos elementos para a compreensão da atualidade, acarretando por
parte da sociedade uma reação, uma comoção que vai da resistência à mudança de
atitudes e valores a uma nova concepção e estruturação da realidade. Como disse Jung
(1985, p. 71):

(Início da citação) Este é o segredo da ação da arte. O processo criativo consiste (até
onde nos é dado segui-lo) numa ativação inconsciente do arquétipo e numa elaboração e
formalização na obra acabada. De certo modo a formação da imagem primordial é uma
transcrição para a linguagem do presente pelo artista, dando novamente a cada um a
possibilidade de encontrar o acesso às fontes mais profundas da vida que, de outro
modo, lhe seria negado. É aí que está o significado social da obra de arte: ela trabalha
continuamente na educação do espírito da época, pois traz à tona aquelas formas das
quais a época mais necessita. Partindo da insatisfação do presente, a ânsia do artista
recua até encontrar no inconsciente aquela imagem primordial adequada para
compensar de modo mais efetivo a carência e unilateralidade do espírito da época. Essa
ânsia se apossa daquela imagem e, enquanto a extrai da camada mais

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profunda do inconsciente, fazendo com que se aproxime do consciente, ela modifica sua
forma até que possa ser compreendida por seus contemporâneos. (Fim da citação)

Segundo Ostrower, a arte surge sempre como resposta a uma necessidade formadora,
estruturante e de transformação. E ao mesmo tempo um modo de expressão,
comunicação e conhecimento. Trata-se de uma abordagem específica, mas não menos
abrangente ou conseqüente do que a científica. Constitui-se num trabalho de elaboração
e compreensão que se desenvolve a partir de uma linguagem própria.

(Início da citação) Do ordenar, como um processo de criar e de significar, processo


aberto e preciso ao mesmo tempo, recolhemos um único aspecto expressivo. Na forma
configurada, concretiza-se também o exato momento de um equilíbrio alcançado [...].
Na forma expressiva, os elementos complexos da experiência humana não se
descaracterizam, eles se esclarecem a um nível mais significativo. (OSTROWER, 1993,
p. 98-99). (Fim da citação)

Experiência humana e expressão artística ao longo da história

Entre os povos primitivos, a arte entrelaçava-se com o sagrado e era exercida


coletivamente por meio da dança, do canto, da narração mítica, da pintura corporal, da
confecção de objetos e adornos, etc. Aos poucos foi surgindo a figura do artista como
alguém dotado de uma sensibilidade especial, ligado geralmente à figura do sacerdote
(pois por meio da arte era invocado o poder da fertilidade, divinatório, etc.). A imagem
era dotada de um poder mágico, como nas máscaras rituais, tornando presente a força do
deus ou das figuras nelas representadas — seria como que, ali, vivesse a sua alma. Isso
ainda acontece entre os povos primitivos, e

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Gombrich (1985, p. 22) exemplifica isso contando que “certa ocasião, quando um artista
europeu fez desenhos de animais numa aldeia africana, os habitantes mostraram-se
angustiados: ‘Se levar consigo nosso gado, de que é que iremos viver?’”

Posteriormente, os deuses passaram a ser representados não mais em seu caráter


mágico, mas referencial. Na Idade Média, o homem participava de um universo regido
por uma lei divina inexorável, e buscava na História Sagrada as diretrizes para sua
atuação no mundo. Sendo assim, a temática religiosa aparecia como central nas obras
medievais. Enquanto a Idade Média movimentou-se no tempo mítico, não havendo por
isso distância entre as coisas (os acontecimentos primordiais repetem-se
incessantemente, sendo sempre atuais), a perspectiva instaurada pelo Renascimento deu
um lugar ao antes e ao depois, e as figuras passaram a ter proporções humanas, havendo
a sugestão de peso e volume nos objetos representados.

Para que a perspectiva surgisse como um novo sistema de representação, foi preciso que
o homem se reposicionasse diante dos fenômenos que o rodeavam, colocando-se num
centro a partir do qual o horizonte podia se expandir ao infinito. O homem passou a
preocupar-se cada vez mais com os problemas terrenos, valorizando a existência
individual e buscavam nas proporções do corpo humano os parâmetros de uma nova
ordem universal. Deu-se nessa época grande importância à simetria e ao equilíbrio,
buscando-se leis gerais que regulassem os fenômenos da natureza, utilizando-se a
observação e a mensuração, inaugurando uma visão de mundo racionalista e humanista.
Não se tratava da aquisição de uma visão mais realista do que a anterior, mas de uma
nova concepção de homem e de sua esfera de ação. Como ressalta Ostrower (1987, p.
112):

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(Início da citação) Embora se consolidasse inteiramente só no final do século XV, a


perspectiva não preservou sua estrutura básica por muito tempo. Menos de cem anos
depois, iniciar-se o Barroco [...] os eixos centrais da estrutura espacial da imagem já se
tinham deslocado para posições laterais, e com isso desviaram todas as
correspondências visuais para a diagonalidade. Além disso, criaram-se diversos pontos
de fuga na composição (o que introduz uma crescente movimentação e maior
instabilidade nos espaços e tempos articulados). No século, XIX, começando com a arte
romântica e culminando na arte impressionista, a própria estrutura de eixos e pontos de
fuga da perspectiva fora abolida. (Fim da citação)

O Renascimento começou a ser superado quando o espaço, em vez de ser representado


por meio de coordenadas regulares dadas a priori, passou a ser constituído por
dimensões ligadas a experiências íntimas polissensoriais e a associações interiores.
Enquanto o Renascimento colocou a figura humana como medida para todas as coisas, a
Idade Moderna buscou uma experiência direta e imediata das forças naturais. O mundo
passou a ser concebido como dotado de mobilidade e ritmo, revelando tensões e forças
em movimento, contrapondo-se à noção de simetria e equilíbrio renascentista.

(Início da citação)Uma parte importante das preocupações de nosso tempo foi dedicada
à tradução do novo sentimento de mistérios que o homem sente diante das miragens da
natureza. Ela lhe aparece mais como um prisma móvel que como uma potência
antropomórfica encarnada. (FRANCASTEL, 1990, p. 233). (Fim da citação)

O Impressionismo surgiu num momento em que a da ciência clássica eram relativizadas


por novas descobertas. No campo da arte, teve início uma série de pesquisas

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evidenciando a busca de uma nova linguagem plástica. O artista saiu do estúdio,


montando seu cavalete diante de novos ambientes e situações. A descoberta da cor pura
como criadora de espaço (como em Van Gogh), o uso da linha para enfatizar a
expressão de sentimentos e sua dramaticidade (como em Munch) ou a busca da
representação das estruturas (como no cubismo) mostram como os elementos pictóricos
vão sendo coordenados e relacionados de maneiras diversas, ao mesmo tempo revelando
uma forma de apreensão e a criação de uma nova concepção do real.

A redescoberta do inconsciente por Freud e Jung e as especulações da fTsica nuclear


marcaram um momento em que o homem experimentou um novo assombro diante do
mundo. Ao despir a matéria de sua concretude, o pintor buscou captar o que há para
além da imagem, o inimaginável, a dimensão espiritual, procurando novos caminhos ao
mesmo tempo em que destruía a antiga visão de mundo.

O tempo passou a correr cada vez mais rápido, as dimensões e as distâncias foram
relativizadas pelos avanços tecnológicos (e mais recentemente pelo advento da internet),
as mudanças e transformações passaram a ser a tônica de nosso cotidiano. O universo
passou a ser visto como uma rede de relações dinâmicas. Isso acarretou uma perda de
referenciais constituídos coletivamente e levantou a necessidade de se manter a própria
integridade diante das constantes mudanças a que somos expostos. Mas integridade não
significa cristalização: nunca foi tão urgente quanto agora possuir flexibilidade e ritmo,
ser capaz de não se deixar capturar pela ilusão de plenitude veiculada por produtos,
técnicas e performances que envelhecem e morrem antes mesmo de adquirir algum
nível de maturação.

Diante da contínua edificação e derrocada de mitos com a qual nos deparamos na


atualidade, só restou ao homem a possibilidade da busca de sentidos para o viver no
interior

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do próprio ser, no que o diferencia do não-ser, para daí poder ressurgir como pessoa. E é
em meio a esse cenário que a Arteterapia emerge como um campo aberto ao encontro e
diálogo entre as áreas da Psicologia, Educação e Artes, resgatando o potencial
terapêutico, pedagógico e de crescimento pessoal contido em todas as formas de arte,
colocando a arte a serviço da vida e de seu florescimento, trazendo à tona a dimensão do
sagrado (como era e ainda é entre os povos primitivos o papel da arte) para comungar
com a existência humana, resgatando os elos com nossa ancestralidade.

O fator terapêutico na arte

(Início da citação) [...] Todos os profissionais que trabalham no domínio da pedagogia


(ensinantes, educadores) ou aqueles da assistência (enfermeiros psiquiátricos,
ergoterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, psiquiatras) e que têm uma atração pelas
profissões da arte podem, passando por uma formação instrumental, exercer a arte-
terapia no domínio de sua formação de base (artística, pedagógica, psicológica). É
evidente que em certos contextos o processo terapêutico será mais profundo, visto que
visa mais ou menos à estrutura inconsciente do sujeito. (PAÏN; JARREAU, 1996, p. 20).
(Fim da citação)

Trabalhando com recursos vivenciais e expressivos (desenho e pintura, modelagem,


colagem, dança e expressão corporal, relaxamento e visualização criativa, dramatização,
narração de histórias, entre outros), a Arteterapia aplicada aos diferentes contextos
(escolas, comunidade, psicoterapia, organizações e instituições, etc.) promove a
melhoria da qualidade de vida ao relacionar significativamente o mundo interno e o
externo, propiciando o reconhecimento e desenvolvimento de potenciais, o
autoconhecimento, a

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aprendizagem significativa e o crescimento psíquico. Além disso, o caminho da arte nos


abre e propõe uma nova forma de compreender o homem em seu entrelaçamento com o
outro e o meio ambiente, inaugurando uma abordagem ético-estética, integradora e
inclusiva e, portanto, pacífica e respeitosa, da vida e de todas as nossas relações.
O fator terapêutico contido na arte aparece constelado no mito de Asclépio, ou
Esculápio, deus da Medicina na mitologia grega, filho de Apolo e de uma mortal,
Corônis. Segundo Brandão (1987, p. 85), Apolo era um deus de muitos atributos,
associado às artes, ao canto e à música, à poesia, à luz e ao brilho do sol, à harmonia e à
beleza, condutor das musas:

(Início da citação) Realizador do equilíbrio e da harmonia dos desejos, não visava a


suprimir as pulsões humanas, mas orientá-las no sentido de uma espiritualização
progressiva, mercê do desenvolvimento da consciência. (Fim da citação)

Brandão (1987, p. 86) diz ainda que Apolo, sob a denominação de Akésios, “o que
cura”, “precedeu em Epidauro, como médico, seu filho Asclépio”, sendo também um
“purificador da alma, que a libera de suas nódoas”.
Brandão (1987) relata que o templo de Asclépio¹, em Epidauro (“cidade médica”), era
um local onde corpo e mente, cultura e espírito alinhavam-se num processo que levava à
cura por meio da transformação de sentimentos (metanóia). As doenças eram vistas
como tendo suas origens em causas mentais, e a tarefa terapêutica consistia na
constituição deum novo equilíbrio biopsíquico. Lá o paciente dormia no Ábaton
(santuário) e sonhava (quando então Asclépio o visitava e tocava as suas partes
enfermas). A

Nota de rodapé
¹ Meier (1999) conta que era um espaço sagrado — peribolos — demarcado por pedras.
Fim da nota de rodapé

Página 80

interpretação desse sonho, feita pelos sacerdotes, revelava o medicamento do qual o


paciente necessitava (o que era chamado de mântica por incubação de sonhos).
Epidauro, segundo Brandão (1987, p. 92), era um centro espiritual e cultural:

(Início da citação) Dado que as causas das doenças eram principalmente mentais, o
método terapêutico era essencialmente espiritual, daí a importância atribuída à
nooterapia, que purifica e reforma psíquica e fisicamente o homem inteiro. Procurava-
se, a todo custo, através do gnôthi s’autón (conhece-te a ti mesmo) que o homem
“acordasse” para sua identidade real. (Fim da citação)

Brandão conta ainda que lá havia também um Odéon (pequeno teatro) em que se
ouviam música e poesias, um Estádio para competições esportivas (que aconteciam de
quatro em quatro anos), um Ginásio para exercícios físicos, um Teatro, uma Biblioteca,
e várias obras de arte. Todas essas atividades eram também utilizadas no processo de
cura, consideradas como possuindo um efeito terapêutico, tanto sobre o corpo quanto
sobre a alma:

(Início da citação) Havia, pois, em Epidauro, [...] uma comunhão, um elo infrangível
entre as cerimônias culturais e cultuais, [...] o ritmo e harmonia da música, da poesia e
da dança, que eram utilizadas por seu alto valor tranqüilizante e seu efeito terapêutico
imediato sobre a alma e o corpo. A tragédia e a comédia, bem como a poesia épica e
lírica contribuíam para aumentar a espiritualidade e purificar a alma de certas paixões
desastrosas. A ginástica e as disputas atléticas disciplinava os movimentos e o ritmo
interior do corpo, multiplicando as possibilidades físicas e psíquicas do ser humano. A
contemplação artística e o fruir da beleza de tantas obras de arte, que ornamentavam o
Abaton, tinham por escopo a elevação, a espiritualização e a humani

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zação do pensamento. Todo esse conjunto, espiritual e cultural, visava, em última


análise, à catarse. (BRANDÃO, 1987, p. 93). (Fim da citação)

Méier (1999) ressalta que Galeno, um médico famoso da antiguidade, “chamava-se a si


mesmo ‘terapeuta’ de seu ‘deus paternal, Esculápio” e comenta que o sentido da palavra
therapeutes “só pode ser o nome dado originalmente aos que assistiam ao culto e
serviam ao deus, executando o ritual prescrito”, iniciados e tornados médicos depois de
terem sido curados por Asclépio. Meier (1999, p. 13) acrescenta ainda que “desse ponto
de vista, portanto, psicoterapeutas seriam pessoas que se interessavam pelo culto da
psique”.Então podemos pensar na palavra terapia associada à arte, e na relação entre o
que é praticado em Arteterapia (tanto em artepsicoterapia quanto na utilização de
recursos arteterapêuticos no ensino, em instituições e em Oficinas de Criatividade),
como tendo sua raiz nessa concepção integrada entre corpo e alma, já que os métodos
expressivos aproximam e conjugam matéria e espírito, consciência e inconsciente,
indivíduo e coletividade numa criação conjunta que traz e expressa o remédio que
somos, em nossa singularidade, para o universo.

(Início da citação) Muitas sociedades indígenas acreditam que todos possuímos um


“remédio original: poder pessoal único, que não se encontra duplicado em nenhum
outro lugar do planeta” [...] Não estar “em nosso remédio” ou não trazer para o mundo
nossa força impossibilita que a cura alcance a Mãe Natureza e todas as suas criaturas.
(ARRIEN, 1997, p. 32). (Fim da citação)
Esculápio foi iniciado na arte da medicina por Quirão (ou Chíron), um centauro (metade
humano e metade animal). Chíron era um médico ferido, pois possuía uma ferida
incurável, e por isso podia compreender bem a dor de seus

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pacientes. Ele morava numa caverna, que era um lugar de cultos, mas também uma das
entradas para o inferno:

(Início da citação) O quadro que se forma a partir de todos esses elementos é singular. O
deus metade homem, metade animal, sofre eternamente de sua ferida; carrega-a consigo
para o inferno, como se a ciência primordial, personificada para os homens de um
remoto passado por este médico mitológico, precursor do luminoso médico divino,
consistisse apenas de uma ferida eternamente aberta naquele que cura. (KERENY apud
GROESBECK, 1983, p. 75). (Fim da citação)

Guggenbuhl-Craig (1978) ressalta que se os pólos curador e ferido, ambos os aspectos


presentes na relação terapêutica e em qualquer relação de ajuda, forem cindidos, a
pessoa que busca ajuda não se responsabiliza pelo seu processo de cura e dificilmente
conseguirá melhoras em seu estado, e o terapeuta, por outro lado, só se sentirá
exercendo seu papel na medida em que o paciente estiver com problemas, projetando
sobre ele suas próprias feridas. Essa cisão poderá levar a um abuso do poder por parte
do terapeuta, que perde de vista o outro que está à sua frente, podendo alimentar com
isso uma situação de codependência na relação, em que o fator de cura dificilmente
poderá ser constelado no paciente. Guggenbuhl-Craig aponta ainda que essa cisão
também pode aparecer na relação mestre-aprendiz, quando então o professor se coloca
diante do aluno com uma postura de superioridade, depositando no aluno suas dúvidas e
incertezas, e o aluno passa a se ver de forma depreciativa, desvalorizando o saber
decorrente de suas experiências de vida, o que dificultará o seu aprendizado,
acarretando ainda um desgaste no professor, que poderá com o tempo se sentir
esvaziado e/ou sentir as atividades docentes como um fardo a carregar. Aproximar os
pólos antagônicos e comple-

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mentares de qualquer símbolo, como no caso do curador- ferido ou do mestre-aprendiz,
promove a equilibração psíquica na medida em que permite que eles se relacionem de
maneira significativa, e, portanto criativa, o que tem efeitos terapêuticos, ampliando o
nosso autoconhecimento e a nossa visão de mundo. Nesse sentido, os recursos
arteterapêuticos são de grande valia na prevenção do abuso de poder nas terapias, no
trabalho com grupos e no ensino, pois à medida que a pessoa cria, ela participa
ativamente e com seus próprios recursos do seu processo de aprendizado, crescimento
ou cura, aprendendo um caminho que pode seguir mesmo sozinha em outros momentos
de sua vida (não dependendo da figura do professor, facilitador ou terapeuta para isso).

O mundo de hoje nos expõe a uma infinidade de estímulos de uma maneira desordenada
e desconectada de um sentido mais profundo, o que nos leva muitas vezes a reagir com
uma atividade, que deixa pouco espaço para a vivência de ritmos internos, geralmente
condicionada por objetivos pré-definidos. E como disse Jung (1984, p. 3):

(Início da citação) Nossa vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da
consciência, acarretando, desse modo, o risco de um considerável distanciamento do
inconsciente. Quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um
funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição,
a qual, quando irrompe, pode ter conseqüências desagradáveis. (Fim da citação)

Diante disso, as atividades expressivas nos oferecem uma rara oportunidade para o
resgate da dimensão lúdica, de nossa capacidade de interagir criativamente com a
realidade e de auto-reflexão. Podem então ser utilizadas em sua dimensão curativa e
preventiva, como uma forma de promover o “sonhar acordado”, ativando a nossa
capacidade

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de autocura (o nosso curador interno), e de aprender com nossas experiências de vida,


encontrando nelas sentidos para a nossa existência (chamando à cena o nosso mestre
interno), compensando a unilateralidade da consciência e expandindo-a ao iluminar
trazendo à tona, os elementos de que necessitamos para nos tornarmos mais inteiros,
conectando-nos com as bases de nossa humanidade, com o solo arquetípico que
alimenta o nosso crescimento.

(Início da citação) As terapias expressivas e as artes terapias [...] encontram, hoje,


aplicação como método terapêutico em consultórios e instituições e organizações
diversas. Trabalham com pacientes individualmente e em grupo, bem como no
atendimento de casal e família. É utilizada com crianças, adolescentes e adultos, em
terapias focais, breves e de longa duração. Também são utilizados seus recursos em
orientação profissional, vocacional, ocupacional, recrutamento, seleção e treinamento,
bem como encontram amplo uso em prevenção e educação. (ANDRADE, 2000, p. 52).
(Fim da citação)

Assim, a utilização de recursos arteterapêuticos em diferentes contextos, aliados à


especificidade da área de formação e atuação de cada profissional (saúde, artes,
educação), respeitando-se os limites e as atribuições específicas de cada uma delas,
podem promover para o indivíduo a mesma função que a arte cumpre para a consciência
coletiva, e que os sonhos trazem para o nosso desenvolvimento psíquico, acrescentando
novos elementos para a significação da realidade (interna/jexterna), o que desencadeia
processos de transformação nas relações homem-universo. Jung (1998, p. 401) comenta
que assim como os sonhos nos mostram o que se passa em nosso inconsciente:

(Início da citação) Também podemos seguir o seu rastro em todas as atividades criativas
como a música, a poesia e em todas

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as formas artísticas. Ele aparece em todas as manifestações de tipo espontâneo e


criativo, as mais afastadas possíveis de tudo o que é mecânico, técnico e intelectual.
Portanto, além dos sonhos, podemos tirar conclusões também, por exemplo, de
desenhos pelos quais os pacientes são encorajados a revelar suas imagens internas. (Fim
da citação)

O processo criativo
O processo criativo, ao desencadear processos de transformação, pode ser pensado
como envolvendo as mesmas etapas presentes nos antigos rituais de iniciação e
passagem: mergulho no caos — morte simbólica — renascimento. Essas etapas também
estão presentes na elaboração simbólica inerente tanto ao aprendizado de um novo
conteúdo quanto ao desenvolvimento psíquico. Diante do novo, a consciência se
desestabiliza, o que pode gerar uma certa dose de ansiedade e confusão. Toda nova
ocorrência é, do ponto de vista da consciência, um caos a ser ordenado. Para que os
novos elementos (antes inconscientes) a ela apresentados possam ser assimilados,
trabalhados e integrados, é necessário que o modo como o eu e o mundo são
vivenciados se modifique, abandonando velhas crenças (quando se vivencia uma morte
simbólica) e dando lugar a novos posicionamentos existenciais (o que é comparável a
um renascimento). Segundo a visão da Psicologia Analítica inaugurada por C. G. Jung,
toda experiência humana pode ser vivenciada como simbólica, e o desenvolvimento
psíquico processa-se a partir dos símbolos, os quais se constituem numa criação
conjunta entre a consciência e o inconsciente (envolvendo aspectos conhecidos e
desconhecidos), veiculando a energia psíquica utilizada na aquisição, estruturação e
ampliação da consciência.

Para que seja possível o estabelecimento de um relacionamento criativo com a realidade


é importante haver uma

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certa plasticidade psíquica que permita ao ego suportar o confronto com o desconhecido
sem categorizá-lo de antemão dentro de regras e normas estabelecidas. Também é
necessário haver a capacidade de auto-reflexão, para viabilizar o emergir da experiência
e a busca de seu significado, conferindo-lhe assim uma representação (plástica, verbal,
corporal, etc.) adequada e condizente com o vivido. O conhecimento gerado por meio
desse relacionamento acarreta necessariamente uma transformação, o que corresponde a
uma mudança de nível de consciência, trazendo à tona novas questões e gerando novas
configurações existenciais.
O homem passa por diferentes etapas durante sua vida: nascimento, adolescência,
casamento, paternidade, atuação social, morte, entre outras. As sociedades primitivas
dispunham de rituais que promoviam e assessoravam a passagem de um a outro desses
estados. Os ritos constituem-se em formas de canalização e otimização da energia
psíquica, garantindo assim a transformação de um momento existencial em outro.
Freitas (1987) comenta que atualmente os ritos perderam seu conteúdo simbólico e os
que ainda subsistem em nossa sociedade tornaram-se convenções esvaziadas de seu
sentido iniciático; compara a psicoterapia a um rito atual de iniciação, à medida que
favorece uma religação com aspectos da personalidade total (dissociados da
consciência) importantes ao desenvolvimento psíquico. Diz que se recorre à
psicoterapia em momentos de crise, os quais demandam uma ampliação de consciência
pela elaboração e assimilação de novos conteúdos simbólicos que estão “pedindo
passagem”, muitas vezes com sintomas dolorosos e indesejáveis. Freitas ressalta que as
crises são inerentes ao processo de crescimento e necessitam ser vividas
construtivamente, e que a psicoterapia tem então corno função primordial a abertura de
um canal de comunicação

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entre a consciência e o inconsciente, favorecendo a expressão e a elaboração de


conteúdos veiculados pelos símbolos emergentes, o que pode levar a uma transformação
da personalidade e evitar a estagnação e o bloqueio da energia psíquica em seu aspecto
criativo. Freitas (1987) afirma ainda que o espaço da psicoterapia não é o único meio de
favorecer o intercâmbio significativo entre a consciência e a dimensão do inconsciente.
O aspecto terapêutico não se restringe a esse campo. A expressão artística e o
desempenho de atividades que permitam o diálogo fluente entre essas instâncias podem
contribuir significativamente para o crescimento psíquico saudável.

As atividades artísticas, assim como toda atividade realizada de uma maneira não
desconectada de sua capacidade expressiva (veiculando algum conteúdo simbólico, não
automatizado), revelam forças terapêuticas quando proporcionam o entrelaçamento e o
intercâmbio entre o dentro e o fora, o eu e o mundo, o individual e o coletivo, a
consciência e o inconsciente.
(Início da citação) Através das linguagens artísticas, o espírito ganha corporeidade e a
matéria plasticidade. O interno e o externo, o real e o imaginário, entrelaçam-se num
movimento formador e transformador. Aí reside um dos principais fatores terapêuticos
da arte: poder dar visibilidade às tramas que permeiam as relações e que se concretizam
em comportamentos; poder, ainda, propor e criar novos paradigmas à medida que
formas cristalizadas e não satisfatórias de relacionamento eu-mundo podem ser
coriscientizadas, questionadas, revistas e transformadas através da vivência de novas
possibilidades de ser. (BERNARDO, 1999, p. 226). (Fim da citação)

Pode-se pensar nesse sentido, na criatividade como a capacidade de utilizar a energia


psíquica e ser utilizado por ela na construção de si e do real, na constituição de uma

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totalidade dinâmica, de um universo que respira por meio da polaridade eu-outro, a cada
separação correspondendo uma reunião em um novo nível de compreensão e
significação (BYINGTON, 1988).

Andrade (2000, p. 52) aponta que, para Jung:

(Início da citação) A criatividade é uma função psíquica, daí a arte não ser apenas fruto
de sublimação de instintos sexuais e agressivos. É função natural da mente humana e
tem função estruturante do pensamento. Pode, portanto, ser usada como um componente
de “cura”, além de a criatividade poder ter essa função em si mesma. Esse processo
natural se realiza por intermédio de símbolos presentes nos sonhos, nas fantasias e nas
mais diversas expressões artísticas. (Fim da citação)

Andrade (2000, p. 52) conta ainda que Jung utilizava desenhos livres e outras técnicas
artísticas durante o processo terapêutico, e comenta que:

(Início da citação) Essa aplicação técnica é decorrente da sua crença da possibilidade de


o homem organizar seu caos interior utilizando-se da arte: pintura, escultura, etc.
Também via as outras expressões humanas na cultura como a religião, mitos, crenças,
ciências como uma forma do homem organizar os dados oferecidos pelo mundo ao seu
sistema perceptual. (Fim da citação)

Dar concretude às imagens e fazer aflorar a capacidade de transformação da matéria é


um processo que envolve mente e corpo (natureza): amassando o barro, também se
restitui a própria plasticidade (não ficar cristalizado em posições rígidas e preso a
preconcepções); pintando com aquarela, aspectos do próprio ser são restituídos a seu
estado de semente, liberando uma energia criativa que pode ser canalizada em novas
formas de vivência e expressão.

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Ao trabalhar sobre a matéria, o homem também trabalha sobre si próprio (como já


sabiam os alquimistas). Ao mesmo tempo em que empresta suas mãos e sua voz à
natureza, esta lhe fornece meios para uma maior compreensão de seu ser. O que resulta
daí poderá ser uma transformação tanto interna (relativa ao eu) quanto externa (relativa
às relações eu-mundo), havendo uma sutilização de aspectos concretos e a
materialização (formalização) de conteúdos psíquicos.

Há um resgate a ser feito no relacionamento do homem com a natureza. A idéia de


controle, funcionando num dinamismo patriarcal, poderia e precisa ser sucedida por um
relacionamento de alteridade entre os níveis materiais e espirituais da existência.
Trabalhar com argila, tinta, etc., ou seja, com materiais extraídos da natureza, instaura a
possibilidade de uma abertura para sua ensinança e reconhecimento de sua importância
em nossas vidas. Pode-se criar a partir daí uma nova consciência e um novo mundo.

Retramando o tecido da vida: trabalhando com os fios do próprio destino

Da mesma forma que as obras-de-arte, os mitos e os contos de fadas explicitam


processos de apreensão, de construção e de formas de relacionamento com a realidade.
Eles também brotam de um solo cultural específico onde deram determinados frutos,
mas não pertencem apenas a um passado, sendo testemunhos e produtos de um processo
criativo que, por suas próprias características, presta-se a infinitas recriações; cada
quadro, por exemplo, não carrega em si uma única compreensão possível, redutiva à
psicologia do autor ou do momento histórico e social em que foi produzido, mas é uma
porta aberta à percepção e ao imaginário.

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(Início da citação) Na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a


complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-
se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o
mito é, pois, decifrar-se. E, como afirma Roland Barthes, o mito não pode,
consequentemente, “ser um objeto, um conceito ou uma idéia; ele é um modo de
significação, uma forma”. Assim, não se há de definir o mito “pelo objeto de sua
mensagem, mas pelo modo como a profere”. (BRANDAO, 1986, p. 36). (Fim da
citação)

Como a arte, os mitos e contos constituem-se em fonte inesgotável de conhecimento,


com abertura a um rico campo de significações. Nesse sentido, selecionei um conto de
fadas tibetano — O quadro de pano — que nos brinda com um belíssimo vislumbre do
alcance do trabalho com recursos artísticos para o resgate da fertilidade nas relações eu-
mundo interno/externo, exemplificando o sentido e as contribuições da Arteterapia para
nossas vidas, em qualquer campo em que ela seja exercida (guardando-se, como já foi
dito, as devidas proporções com relação a cada contexto em que a utilizemos). Esse
conto de fadas expressa o entrelaçamento entre o real e o imaginário na constituição de
uma terceira dimensão a partir da transcendência da oposição entre esses pólos. Matéria
e espírito, luz e sombra, consciência e inconsciente, marcam presença num mundo que
não é feito nem de “feijão” nem de “sonho”, mas de uma substância porosa que se torna
visível por meio das transparências (num diálogo pronunciado numa espécie de
esperanto). Por meio da amplificação simbólica desse conto, podemos ter uma noção
bastante aprofundada das etapas e entremeios do processo criativo, bem como do seu
potencial renovador e facilitador do nosso crescimento (BERNARDO, 1994).

O conto começa quando uma mulher viúva e pobre, que vive numa região árida aos pés
de uma montanha é levada

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por uma grande emoção a comprar um quadro com o dinheiro proveniente da venda de
seus bordados, em vez de comprar comida para seus três filhos (os dois mais velhos
eram preguiçosos e acomodados, não trabalhavam nem ajudavam no sustento da
família, mas o caçula era bastante prestativo). O quadro adquirido representava casas
muito bonitas e animais, cercados por um ambiente natural esplendoroso, um local
semelhante em sua estrutura geográfica à aldeia em que a viúva morava em situação
precária. Ao contemplá-lo, a mulher sentia-se muito feliz. No entanto, sua atitude foi
severamente criticada pelos filhos mais velhos (que consideravam a compra como um
desperdício de dinheiro). Apenas o caçula compreendeu e apoiou a mãe, sugerindo que
ela bordasse um quadro tendo este como modelo. Os outros irmãos temiam que a mãe
deixasse de sustentá-los se assim o fizesse. A viúva decidiu-se por trabalhar durante o
dia para alimentar sua família e bordar seu quadro durante a noite até o amanhecer.
Como o trabalho noturno era feito à luz de uma tocha, seus olhos foram ficando
irritados e deles saíram lágrimas e sangue, que caindo sobre o bordado passavam a ser
integrados à paisagem.

Em três anos, o trabalho da viúva foi concluído. Enquanto os filhos mais velhos
acreditavam que a mãe poderia vendê-lo por uma fortuna, o mais novo observou que
contemplar o quadro equivalia a compartilhar de sua riqueza. A mãe pendurou o seu
quadro de pano no lado de fora da casa para que pudesse receber a luz do dia e ter assim
suas cores realçadas. Subitamente uma ventania carregou o quadro, que não foi mais
encontrado. A mãe ficou desconsolada, como se tivesse perdido o sentido de viver.
Pediu ao filho mais velho que procurasse o quadro, e ele seguiu em direção ao leste.
Após vários meses de peregrinação, chegou a uma casa de pedra na frente da qual havia
um cavalo, também de pedra, que parecia dirigir-se a uns morangos (como

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se quisesse comê-los). Nessa casa, morava uma velha senhora que lhe revelou o destino
do quadro e como o encontrar. Segundo a velha senhora, o quadro estava em posse das
fadas da Montanha Ensolarada, que o pegaram emprestado com o intuito de reproduzi-
lo. Para resgatá-lo seria preciso arrancar os próprios dentes com uma pedra e implantá-
los no cavalo, que então voltaria à vida, comeria os morangos e levaria o rapaz até a
montanha onde se encontravam as fadas. No caminho atravessaria um vulcão, uma
geleira e o mar, sendo que o rapaz não poderia dar sequer um suspiro, sob pena de (se
assim o fizesse) ser consumido pelas chamas, quebrado pelo gelo ou afogado pelas
ondas do mar. Diante disso, o filho mais velho desistiu de seu intento, recebendo da
velha senhora algumas moedas para sua volta a casa. Mas em vez de regressar, resolveu
ir para a cidade gastar esse dinheiro, e acabou ficando por lá.

Depois de algum tempo, o segundo filho seguiu os passos do primeiro e teve o mesmo
comportamento e destino. Já sem forças, a mãe solicitou a ajuda do caçula, o qual
chegando à casa de pedra decidiu-se por arrancar os próprios dentes e levar a cabo a
grande travessia em direção à Montanha Ensolarada. Lá chegando, atravessou o portal
do pátio que conduzia ao palácio e encontrou as fadas tecendo um quadro semelhante ao
de sua mãe. Uma delas, vestida de vermelho, chamou especialmente a sua atenção. A
rainha das fadas, usando um lindo vestido cujo brilho lembrava o reflexo dos raios de
sol sobre o mar, e tendo seus cabelos presos por um pente de ouro, contou-lhe que
ninguém havia estado lá antes, e perguntou-lhe o que o levara até o palácio de cristal.
Ao ouvir a história do rapaz, esclareceu-lhe que foram as fadas que ordenaram ao vento
que lhes trouxessem o quadro de sua mãe, para que pudessem tecer um quadro tendo o
de sua mãe como modelo, e disse-lhe que poderia levar o quadro embora assim que as
fadas termi-

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nassem o seu trabalho. As fadas lhe ofereceram néctar e ambrosia e continuaram


tecendo até o anoitecer, quando então contaram com a ajuda do brilho emanado por uma
pérola pendurada no teto.

O rapaz, que estava bastante cansado da viagem, adormeceu. Durante seu sono, a fada
de vermelho bordou no quadro de sua mãe uma fada como ela, vestida de vermelho, de
pé, perto do lago, de onde contemplava os peixes vermelhos. A meia-noite, quando as
fadas já haviam concluído o seu bordado, o rapaz acordou, encontrando apenas o quadro
de sua mãe na sala. Ele então regressou com o quadro de pano para a casa de pedra. Lá
chegando, teve seus dentes reimplantados (momento em que o cavalo voltou a ser de
pedra) e recebeu da velha senhora sandálias de pele de cervo que o fizeram retornar
imediatamente à casa de sua mãe. A viúva, que estava à morte, restabeleceu-se
prontamente ao reencontrar seu quadro. Levou-o para fora, para vê-lo melhor quando de
repente, ao ser desenrolado, uma nova ventania fez o quadro se expandir, desenrolando
cada vez mais longe, cobrindo e transformando tudo ao redor na paisagem por ele
representada. Nisso, o rapaz avistou a fada de vermelho, com quem se casou. Os irmãos
mais velhos, que se tornaram mendigos, retornaram à aldeia ao tomarem conhecimento
do ocorrido. No entanto, envergonharam-se de sua situação, saíram de lá e nunca mais
retornaram.

O caçula, a mãe e a mulher fada viveram felizes por muito tempo, num ambiente natural
esplendoroso e ensolarado (BONAVENTURE, 1992).

No conto, ao se decidir por tecer um quadro de pano tendo o outro como modelo em vez
de dedicar todo o seu tempo e energia para o sustento de seus filhos, a viúva declarou,
diante da preocupação dos filhos mais velhos, que teceria o seu quadro à noite. É
interessante notar que, durante o dia, a mãe não mudou sua rotina. É à noite, à luz de
uma tocha,

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que ela tece, como num processo de gestação que acontece quase em segredo, protegido
(pela penumbra) das interferências e dos olhares curiosos. Enquanto a luz do sol ilumina
todos os lugares ao mesmo tempo, ligando-se ao Masculino, ao dia e à racionalidade, a
luz da tocha é suave, pulsante, relacionando-se ao Feminino, à noite e à intuição, a um
modo de vivência e compreensão que leva em conta os processos internos (como o
movimento cíclico das marés ou das fases da lua) e:

(Início da citação) [...] basta que o feminino consulte seus instintos para conseguir, ‘ao
cair da noite’, uma relação amorosa fecunda com o masculino, o que supera a situação
em que o masculino e o feminino se defrontam como inimigos mortais [...] à noite,
quando o espírito solar masculino retorna às profundezas do feminino, então o feminino
encontra — como que por acaso — o fio dourado, a semente fértil de luz. (NEUMANN,
1993, p. 81). (Fim da citação)
A fumaça exalada pela tocha fez que dos olhos da viúva saíssem lágrimas, as quais
foram incorporadas em seu bordado como lago e riacho As lágrimas, que também são
associadas às pérolas (como sabedoria advinda do sofrimento), transmitem a idéia de
fertilização por meio da umidade (nas culturas primitivas matriarcais, em que ainda não
havia o conhecimento sobre a participação do homem na fecundação, acreditava-se que
as mulheres eram fecundadas pelo “espírito da lua”, por meio do orvalho). Expressam
um movimento de descristalização e irrigação (a situação inicial do conto é de aridez)
por meio do fluxo emocional. Voltando ao conto, parece que o quadro de pano não foi
feito para ser simplesmente olhado (como algo que se encontra “fora”), e sim para ser
vivido. Sua confecção deflagrou um movimento de religação com a vida em seu fluxo
constante. Para que possa haver transformação e renovação, é necessário trans-

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cender a morte (não paralisar diante dela, o que equivaleria a uma petrificação),
superando a tendência egóica à acomodação e à inércia, e o medo diante da perda de
referenciais habituais. É como entrar na correnteza de um rio: pode-se tentar navegá-lo
ou ficar agarrado às pedras e aos arbustos.

O quadro pronto é um convite para um novo relacionamento, o que pode levar a uma
autofecundação. Não representa só uma descarga emocional ou a simples concretização
(como espelho) de anseios e questões, mas traz em si elementos novos, desconhecidos
até então, que abrem novas possibilidades existenciais e acarretam novos
posicionamentos e compromissos. A obra, assim como um filho, não pertence apenas ao
seu autor, mas estende-se ao mundo, a um âmbito mais amplo do que a personalidade
consciente. Sua criação faz parte de um mistério análogo à Cosmogonia. Não é de se
estranhar portanto, que muitos artistas se sintam como que tomados pelas exigências de
seu trabalho criativo, como se a obra se fizesse presente através de suas mãos, usando-as
como instrumento.

No conto, ao movimento de exteriorização (“nascimento” do quadro) corresponde outro


de interiorização: com o desaparecimento do quadro, a viúva vivenciou uma introversão
da energia psíquica, caindo em depressão, levando-a a um contato mais profundo com
sua realidade existencial. A separação do quadro pronto está aqui representando a
finalização de um processo, e todo final é vivenciado pela consciência como uma morte,
como um luto a ser elaborado. Também em suas relações a viúva vivencia cortes,
necessários e até então adiados: ao se separar dos filhos, mandando-os ao mundo em
busca do quadro, foi como se cortasse os cordões que a atavam à sua antiga (e
conhecida) condição, escoando assim a energia criativa que estava estancada e
aprisionada em relacionamentos infrutíferos e

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estéreis (seus filhos já estavam na idade — e os mais velhos já tinham passado da idade
— de trabalhar pelo seu próprio sustento e ganhar autonomia).

O vento que sopra e leva o quadro estava a serviço das fadas que vivem na Montanha
Ensolarada, as quais pretendiam bordar no céu algo similar ao que foi tecido pela viúva
na terra. O trabalho da viúva vai da terra para o céu, talvez representando um
movimento de destilação de seu significado (enquanto ela mesma desce em seu próprio
íntimo, por meio de sua depressão). A viúva separa-se de sua obra, assim como de seus
filhos, sacrificando de certa forma uma ilusória sensação de completude que, a longo
prazo, significa esterilidade. Isso vem acompanhado de uma vivência de perda e de
morte, diante da qual é mobilizada uma intensa carga de coragem e determinação (por
meio da figura do filho caçula). Se, por um lado, o filho mais novo expressa o
desenvolvimento da consciência em direção à alteridade, por outro simboliza o
caminhar da mãe em direção ao próprio rejuvenescimento por meio da metanóia.
O tema da separação da família (do meio de origem) para um local onde se dê o
desabrochar da própria vocação e um retorno numa nova condição é encontrado em
todos os rituais de passagem, e na saga dos heróis. A peregrinação dos filhos (no conto)
dá-se em direção ao leste (onde nasce o sol). A velha senhora da casa de pedra aparece
como ajuda e direcionamento surgido de uma região distante (nunca antes “visitada”
pela consciência), poderíamos dizer que vinda do inconsciente. Arrancando os próprios
dentes, o jovem se automutilou, perdeu uma parte do sensível, o que figura em muitos
ritos de iniciação da puberdade (por exemplo, os adolescentes Masai são circuncisados
entre 12 e 16 anos). E interessante que, nesses ritos, os pais muitas vezes participam
simultaneamente de uma cerimônia na qual aceitam e assumem a velhice. A mutilação
tem a ver com o corte,
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com a separação da mãe e do ambiente familiar, significando uma morte simbólica da


antiga condição, uma marca visível da transformação da personalidade — os jovens,
após a iniciação, passam a ter um novo nome, representando um novo nascimento após
ter passado por provações e ter so- brevivido a elas (GENNEI 1978). E também uma
espécie de confronto com o vazio, de perda da ilusão de completude, o que gera a
possibilidade de conhecimento e de singularização, pois “para se realizar algo, deve-se
sacrificar outras potencialidades e renunciar, assim, à identificação com a unidade
inconsciente original, aceitando voluntariamente ser um fragmento do real e não um
todo irreal” (EDINGER, 1989, p. 36).

Não estar mais “misturado” instaura a possibilidade de um conhecimento de si e do


outro por meio de um relacionamento significativo com o mundo (interno/externo). No
conto, o filho arrancou os dentes como que renunciando à sua condição de criança
(ligado à mãe pela boca, pela alimentação) para poder ser mais tarde alimentado pela
mulher fada, de néctar e ambrosia, alimentos dos deuses que conferem imortalidade aos
heróis (Héracles, após vencer suas provas realizando seus trabalhos, casa-se com Hebe
— deusa da eterna juventude, que servia néctar e ambrosia aos deuses do Olimpo —, a
qual “serve-se a ele como alimento”, imortalizando-o). A idéia de imortalidade está
ligada à capacidade de autotransformação, simbolizada pelo encontro fecundo entre os
aspectos femininos e masculinos do ser que, ao se relacionarem criativamente,
promovem a renovação por meio de um processo de transformação (a energia criativa
pode ser vista como a energia que circula entre as polaridades, como a energia elétrica
circula entre os pó- los positivo e negativo da pilha).

Parece que, no conto, a atitude do filho em arrancar os próprios dentes e implantá-los no


cavalo descristalizou (e

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potencializou) uma poderosa energia instintiva, a qual era necessária (e foi usada) para
enfrentar os perigos e provações (pelo fogo e pela água), conduzindo e guiando o rapaz
em direção à Montanha Ensolarada. O cavalo é um animal muitas vezes associado aos
instintos e à energia sexual. Com relação à nossa vida instintiva, Von Franz (1981, p.
182) comenta que:

(Início da citação) No inconsciente, espírito e instinto não são opostos. Ao contrário,


frequentemente ocorre que nossas sementes espirituais se manifestam em primeiro lugar
por um impulso da libido sexual ou por impulsos instintivos e somente mais tarde
desenvolvem seu outro aspecto. Isso decorre do fato de elas serem geradas pelo espírito
da natureza, pelo sentido inerente de nossa estrutura instintiva. (Fim da citação)

E sobre o simbolismo do cavalo, Brandão (1987, p. 215) conta que:

(Início da citação) O cavalo é a imagem da impetuosidade dos desejos, mas, se se


tratasse apenas de imprimir a impetuosidade, a simbolização poderia ter escolhido
muitos outros animais. Um símbolo é uma condensação expressiva e precisa. O cavalo
traduz os desejos exaltados, porque é o quadrúpede sobre que se senta o homem, como
desejos muito facilmente exaltados são o assento biológico, o fundamento da
animalidade do ser espiritual, que é o homem. (Fim da citação)

O cavalo é um animal forte e impulsivo, que resiste a ser domado. No entanto, quando o
homem consegue montá-lo, este o conduz rapidamente pelas estradas, como meio de
transporte, assim como a libido fornece a energia necessária a qualquer atividade
humana, potencializando sua capacidade de tornar-se significativa. No conto, após
voltar à vida o cavalo come dez morangos. Os morangos são frutos

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macios delicados e rasteiros, muitas vezes associados à sensualidade feminina, à


afetividade. A imagem do cavalo comendo morangos estabelece uma ligação entre
opostos: une a impulsividade fálica — que é fecundante, relacionada ao desejo de
desvendar mistérios, de penetrar e desbravar mundos, sendo uma energia masculina
(yang) que está em constante movimento em direção ao novo — à sensualidade do
envolvimento amoroso — como energia feminina (yin), que é receptiva e úmida, capaz
de acolher, nutrir, proteger e de germinar as sementes. É como se, no conto, fosse
preciso que o jovem aproximasse o instinto da intuição, unindo sua força à sensibilidade
para poder encontrar (e percorrer) o seu rumo. Trazer o cavalo de volta à vida para que
este coma os morangos pode significar aqui a possibilidade de resgatar um contato
amoroso, prazeroso e mutuamente fertilizador com o real.

O jovem caçula atravessou primeiro as “chamas que saíam das entranhas da terra”,
depois as geleiras e o mar. Na mitologia grega, Hefesto é um artesão que trabalha no
interior de um vulcão, onde cria as armas e os ornamentos utilizados pelos deuses, é ele:

(Início da citação) Que forja da própria terra os atributos de poder. Ele é um alquimista;
da substância bruta da terra produz ouro e objetos preciosos. E um trabalhador
infatigável, com imensa força em seus ombros e braços. Representa as qualidades de
poder criativo [...] liberado e dirigido para um fim útil e determinado. (GREENE, 1992,
p. 197). (Fim da citação)

Além disso, Hefesto é também um “deus dos nós”, capaz de “atar” e “desatar”, e
Brandão (1987, p. 50) comenta que:

(Início da citação) Esse emprego mágico-religioso dos nós, fitas e laços tem caráter
ambivalente. Os nós provocam as doenças

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e igualmente as afastam ou curam o doente; os laços, as fitas e os nós embruxam e


enfeitiçam, mas também protegem contra a bruxaria; ajudam os partos e os impedem;
podem trazer a morte ou repeli-la. Em síntese, o essencial no rito mágico é a orientação
que se imprime à energia latente num laço, numa fita, num nó [...] Essa .orientação
obviamente pode ser positiva ou negativa, benéfica ou maléfica, pode ser defesa ou
ataque. (Fim da citação)

Atravessar o fogo e sobreviver a isso significa ser capaz de manejar o fogo criador,
trabalhando com a energia psíquica, sem ser inflado pelo seu poder ou consumido pela
voracidade dos desejos instintivos (o fogo queima todo material combustível que
encontra pela frente). O fogo tanto pode cozinhar o alimento quanto carbonizá-lo,
destituindo-o de seus nutrientes; tem um aspecto criador e outro destruidor. Saber
trabalhar com seu poder representa ser capaz de queimar o que é supérfluo ou que não
tem mais vida útil (cremar os cadáveres), preparar a comida (tornar algo “assimilável”),
aquecer e iluminar o ambiente, dar “liga” aos elementos (unir e consolidar uniões). O
fogo também foi utilizado por diversas culturas como forma de fazer contato com o
plano divino. Os fogos de artifício e os balões tinham como intuito chamar a atenção
dos deuses ou levar-lhes algum pedido ou mensagem.

(Início da citação) Em tempos idos, o principal método de sacrifício aos deuses tinha
por base o fogo, tido como elo de união entre as esferas humana e divina. Literalmente,
o que era sacrificado ‘tornava-se sagrado’. O que é queimado vira fumaça e sobe,
atingindo os deuses através de um processo de sublimação. (EDINGER, 1984, p. 63).
(Fim da citação)

Na alquimia, a calcinatio, operação relativa ao fogo, é uma das operações pelas quais
deve passar a prima maté-

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ria em seu processo de transmutação em ouro (pedra filosofal). Brandão (1987, p. 201)
descreve que:

(Início da citação) A pedra oculta, a pedra filosofal, que renascerá das cinzas, será o
homo nouus, o homem novo, a Fênix, a Rosa. Sendo o universo formado de quatro
elementos, ar, fogo, água e terra, sob o aspecto de quatro estados, gasoso, sutil, líquido e
sólido, a ‘pedra’, que representa a unificação dos quatros, através do isolamento da
energia represada nos quatro elementos, é, por conseguinte, a quintessência,
simbolizada pelo número cinco ou pela Rosa que possui cinco pétalas [...] Da complexio
oppositorum, da união dos contrários, saíra a energia vital, a pedra. Já que os metais
procedem dessa união, com graus diferentes de maturação, é necessário recriar a matéria
prima, a fim de fazê-la amadurecer até se obter o occultus lapis, a pedra oculta. A
matéria irá passar por uma experiência dramática, análoga às ‘paixões de determinados
deuses dos Mistérios Greco-Orientais: sofrimentos, morte e ressurreição. (Fim da
citação)
O gelo é o oposto do fogo, mas também pode queimar e matar. Sobre a combinação
entre o calor e o frio, Von Franz (1985, p. 222) cita um texto alquímico e tece
comentários sobre ele:

(Início da citação) “Cubra-se a frialdade de um com o calor do outro — coloque-se o


masculino sobre o feminino, o calor sobre o frio”. Nesse ponto, existe a idéia da
conjunctio oppositorum, a conjunção de masculino e feminino [...] Uma idéia medieval
generalizada afirmava que os homens eram quentes e as mulheres frias, do ponto de
vista fisiológico [...] Depois vem uma idéia mais sutil, a de que essa conjunção de
opostos significa que eles são secretamente um só, pois o fogo tem que ser extinto pelo
fogo, ou tem que ser esfriado, refrigerado, por seu fogo interno. (Fim da citação)

E Von Franz (1985, p. 223) então analisa que a emoção:

Página 102

(Início da citação) Transforma, cozinha e elucida, esse é o modo como o fogo gera a luz
[...] a emoção é o veículo da consciência; não há progresso na consciência sem emoção.
O aspecto destrutivo manifesta-se em contendas e desavenças e então ele nos devora
[...] mas o fogo tem que queimar o fogo, uma pessoa tem de arder na emoção até que o
fogo esmoreça e se equilibre [...] Sentar-se no Inferno e aí assar é o que produz a pedra
filosofal [...] o fogo é extinto com a sua própria medida interior. A paixão tem sua
própria medida interior; uma libido caótica é algo que não existe, pois sabemos que o
próprio inconsciente, como natureza pura, tem um equilíbrio interior. A falta de
equilíbrio provém da infantilidade da atitude consciente. (Fim da citação)

A passagem do caçula pelo fogo e pelo mar de gelo também pode ser relacionada com
uma forma de batismo (EDINGER, 1990). Edinger (1984, p. 63), falando sobre a
alquimia, explica que:

(Início da citação) O batismo de sangue, bem como a prova de fogo, refere-se


psicologicamente às provações em que se deve suportar emoções internas. Se o Ego
agüentar firme, a prova acarreta depuração e consolidação. Essa é uma das razões dos
rituais iniciatórios primitivos, que em geral provocam profunda ansiedade. (Fim da
citação)

Assim que o rapaz chega ao pico da montanha é banhado pelo sol. O sol está muitas
vezes associado à consciência, à capacidade de discernimento. O simbolismo do sol tem
relação com o ouro, o que lembra a Pedra Filosofal dos alquimistas, trazendo com sua
busca a conquista de um referencial interno:

(Início da citação) Um núcleo que está em paz, calmo até em meio às maiores
tempestades vitais, intensamente vivo, mas sem ação e sem participação no conflito [...]
é como se estivéssemos no pico da montanha, acima da tempes-

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tade. Vemos as nuvens negras, os relâmpagos e a chuva caindo, mas algo em nós está
acima de tudo isso e podemos simplesmente observar os elementos em fúria. (VON
FRANZ, 1985, p. 147). (Fim da citação)

A montanha era considerada pelos povos primitivos como um local sagrado, como um
ponto em que a terra toca o céu, podendo-se, portanto, contatar em seu topo a esfera
divina, sendo por isso considerada o “centro do mundo”. Brandão (1987, p. 59) nos
esclarece que:

(Início da citação) Esse Centro do mundo é, as mais das vezes, figurado por uma
elevação: montanha, colina, pilar, pedra, árvore, omphalós (umbigo). Observe-se,
porém, que se trata de um centro místico e não geográfico; se ele é único no céu, é
múltiplo na terra. Cada nação, cada cidade, cada povo, cada casa, cada família e até
mesmo cada homem tem o seu centro do mundo, seu “ponto de vista”, seu ponto
imantado, que é concebido como o ponto de junção entre o desejo coletivo ou individual
do homem e o poder sobrenatural de satisfazer esse desejo, quer se trate de um desejo
de saber ou de um desejo de amar e agir. Lá onde se congregam esse desejo e esse
poder, lá é o centro do mundo. (Fim da citação)
Com relação ao cristal, associado no conto ao castelo onde as fadas moravam, Von
Franz (1985, p. 97) diz que “o cristal é uma substância que representa o espírito ou a
matéria espiritual em forma concreta”. E sobre a pérola, utilizada no conto pelas fadas
para iluminar o seu trabalho, o mesmo autor comenta que:

(Início da citação) A pérola é um símbolo do feminino. Em latim, ela é chamada de


margarita, assim como o nome Margarida significa pérola e, em alquimia, essa mesma
palavra é usada para designar a substância semelhante à prata que é contraposta à
substância masculina, o ouro. Nos

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primeiros textos alquímicos conhecidos, a pérola, devido à sua misteriosa origem dentro
da concha da ostra, é sinônimo da pedra filosofal [...] Pérolas maceradas eram usadas
como elixir de longa vida, ou de imortalidade. (VON FRANZ, 1984, p. 221-222). (Fim
da citação)

As fadas estão, em sua simbologia, ligadas ao reino do imaginário. Nesse sentido, atuam
como “psicopompos”, trazendo à consciência mensagens de um outro mundo, do
inconsciente, no qual não vigoram as leis da realidade tridimensional e da causalidade.
Nesse mundo, a morte existe apenas como passagem para um novo estado existencial.
As Moiras, tecelãs do destino (na mitologia grega) também eram chamadas de tria fata,
as três fadas. Fata (fada) = fados ou destinos. Chevalier e Gheerbrant (1993) citam que
o ritmo ternário, característico ao trabalho dessas três fiandeiras, relaciona-se com o
ritmo da própria vida: nascimento, vida e morte. Fazem uma comparação entre a vida
das fadas (que é contínua, pois elas pertencem a uma dimensão atemporal), com um
compasso quaternário, composto por três tempos: primavera (nascimento), verão
(amadurecimento) e outono (velhice), e uma pausa: inverno (morte, silêncio). Lembram
que as fadas não participam da morte, pois têm a capacidade de transformação
incorporada em si próprias. No conto, as fadas dão continuidade ao trabalho da viúva,
como se o tecessem com fios de luz. Isso nos remete à idéia de que, no processo
criativo, a consciência tem um duplo posicionamento. Por um lado, exerce uma função
ativa (yang, masculina) ao agir energicamente sobre uma dada materialidade
(discriminando, traçando contornos, construindo formas). Os mitos de criação mostram
que toda cosmogonia (tida pelo homem primitivo como modelo exemplar de toda e
qualquer criação humana) dá-se por meio de uma luta e de um sacrificio (por exemplo, a
morte de um dragão) (Eliade, 1970). Por isso toda transfor-

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mação constitui-se num nascimento e numa morte simultâneos. Por outro lado, a
consciência tem também um papel passivo (yin, receptiva, feminina) nesse processo,
pois se abre e se torna receptiva ao que vem do inconsciente. O trabalho da viúva é
tecido no céu enquanto ela vivencia um estado de recolhimento (por meio de sua
depressão) na terra. Ou seja, outras forças (vindas do inconsciente) entram em cena,
reforçando a noção de que o trabalho criativo consiste numa criação conjunta entre a
consciência e o inconsciente (assim como o próprio símbolo), entre o real e o
imaginário, constituindo-se e movimentando-se na dimensão do símbolo. Quando esse
processo envolve a atuação de forças provindas da camada mais profunda (transpessoal)
do inconsciente, os símbolos adquirem a força de um mito.

Ainda há outro ponto a ressaltar nessa passagem do conto: enquanto a mãe trabalhou à
luz da tocha, as fadas utilizam-se da luz da pérola. É como se as resistências, a amargura
e o medo de enfrentar o desconhecido tivessem sido transmutados pelo fogo (tocha) em
luz (pérola) que inclui o prazer do conhecimento e revigora a energia vital.

Se por um lado os desejos possuem muitas vezes a força de “empurrar” o homem para o
nível concreto e instintivo de sua realidade, por outro são a matéria prima e a força
motriz do crescimento psíquico. Quando compreendidos como devires da alma em
busca de expressão e configuração, têm o poder de amalgamar o real e o imaginário na
constituição de uma realidade transcendente, na criação de um cosmos, onde matéria e
espírito figuram como aspectos da energia vital em constante movimento, face e dorso
de uma totalidade “cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma”
(como dizem os orientais).

O trabalho criativo realizado por meio de recursos artísticos confere materialidade ao


que não tem forma visível e destila significados do que não tem fala audível (como
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o incenso ao ser queimado exala um perfume). A atividade expressiva pressupõe que


sejamos um outro para nós mesmos. E o que brota daí é tanto a formalização de
conteúdos (como colocar água num jarro) quanto à descristalização de aspectos
solidificados, resgatando a nossa capacidade de autotransformação, a nossa plasticidade
psíquica.

No conto, durante o sono do jovem, a fada ligou-se a ele, como que entrelaçando os fios
de suas vidas. Assim, após separar-se da mãe (discriminar-se) e confrontar as forças
relativas ao fogo e à água, contando com a ajuda de sua libido instintiva (cavalo), o
caçula morre (sono) como filho de sua mãe e renasce a partir da mulher fada (que lhe
serve néctar e ambrosia — alimento espiritual — em lugar do leite) como herói. De
acordo com Brandão (1987), para os gregos, anér (anel) = herói, designando também o
homem casado. A morte simbólica do herói configura a passagem para um outro nível
de existência (ele transcende o limiar de sua consciência pessoal, trazendo e integrando
a ela conteúdos que a ampliam). Também se vivencia uma morte a cada noite, ao
dormir, e um renascimento a cada manhã, ao acordar. O sono possui um incontestável
caráter regenerador e reequilibrador, tanto no nível fisico quanto no psíquico. E durante
o sono que se entra num contato mais íntimo e profundo com o inconsciente, até mesmo
por meio dos sonhos (o que nos chega desse contato). Nesse momento, a consciência
como que regressa ao seu estado germinal, reunindo-se e religando-se à sua fonte.
O jovem acordou à meia-noite, pegou o quadro e retornou à casa de pedra. Recebeu
seus dentes de volta (momento em que o cavalo novamente se petrificou) e ganhou da
velha senhora sandálias de pele de cervo. Ao calçá-las, retornou imediatamente a sua
casa.

A meia-noite é uma “hora aberta”, o ponto de transição (de mutação) entre a noite e o
dia. É também chamada “zero

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hora. À meia-noite, à zero hora, é o momento da “virada”, da transmutação das trevas


em luz. O acordar à meia-noite, no conto, pode então relacionar-se ao renascimento do
rapaz como herói, tanto no sentido de quem transcendeu o nível “profano” da
existência, sobrevivendo e recriando-se a partir do contato com níveis desconhecidos e
profundos do ser, quanto no sentido de homem casado: aquele que religou em si o
“inferior” e o “superior”, o “em cima” e o “embaixo”, a ânima e o ânimus, conjugando
os aspectos masculinos e femininos do ser (ELIADE, 1970).

Os rituais de iniciação envolvem três etapas: separação do meio de origem, iniciação


envolvendo provações, purificação por meio do enfrentamento de forças “sobre-
humanas”, entrando-se em contato com alguma fonte interna de poder, quando se
mergulha ou ascende-se em direção a outras dimensões existenciais, e retorno, quando
se volta ao meio de origem trazendo o tesouro conquistado “a fim de que todos possam
usufruir das energias e dos beneficios outorgados pelas façanhas do herói”
(BRANDAO, 1987, p. 25). O tema da perda e do reencontro (como a perda e o
reencontro do quadro de pano no conto) é semelhante ao da morte e ressurreição, do que
decorre a restituição da fertilidade nas relações (em vários níveis).

(Início da citação) A luta contra a força paralisante do inconsciente dá forças criadoras


ao homem. Pois é esta a fonte de toda criação, mas é necessário coragem heróica para
lutar contra essas potências e arrancar-lhes a preciosidade dificilmente alcançável
(JUNG, 1986, p. 326). (Fim da citação)

O jovem, no conto, traz de volta de sua jornada o quadro (que já não é o mesmo de
antes). Refaz o caminho percorrido, reunindo-se à mãe e à aldeia, restituindo-lhe o
“jovem poder da manhã.” Refazer na volta o mesmo caminho da ida é como descer a
montanha pelo outro lado, é como com-

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pletar a volta da espiral, retomando ao mesmo ponto, mas num novo nível de
consciência e de existência. Isso lembra a idéia do desenvolvimento psíquico como um
processo ascendente e circular ao mesmo tempo — o que também remete à imagem de
círculo que se fecha, de um processo que se completa.
Ao chegar à casa de pedra, o jovem recebe seus dentes de volta. Simbolicamente, ele
reúne em si o que foi separado. Isso nos remete ao que Jung denominou de processo de
individuação, como religação criador—criatura, em que a consciência, após discriminar-
se do coletivo, estabelecendo-se como entidade relativamente autônoma com um núcleo
egóico, coloca seus recursos e suas “ferramentas” (suas funções e disposições) a serviço
do self (da totalidade psíquica que abrange tanto a consciência quanto o inconsciente
pessoal e coletivo) como instrumento, como veículo de singularização de suas
potencialidades (o que equivale num nível macrocósmico a participar com a consciência
do desenrolar da criação, da realidade em que se vive, e num nível microcósmico a se
posicionar como co-criador do próprio destino, saindo da posição de vítima das
circunstâncias e reassumindo o seu poder pessoal diante da vida). Essa parte do conto
também pode ser vista como denotando a recuperação (reintegração na personalidade)
da libido que foi projetada e colocada no mundo, tomando-se consciência de que o eu e
o outro são sempre duas faces de um mesmo rosto. A reintegração dos próprios dentes
pode ainda representar uma “humanização” de forças transpessoais (relacionadas ao
poder criativo e instintivo).

Ao se retirar os dentes do cavalo, este volta a ser de pedra, o que denota uma espécie de
sacrifício do animal. O cavalo (assim como o cervo) é um psicopompo (no xamanismo,
o tambor ritual é confeccionado com pele de cavalo ou de cervo), podendo em certos
mitos e contos figurar como

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possuidor de poderes paranormais (como vidente e guia). Enquanto representante dos


instintos, pode levar seu cavaleiro por meio dos três mundos (inferior, terrestre e
celeste), atuando como força propulsora na transcendência dos limites habituais. De
uma certa forma, o próprio jovem transforma-se em “cavalo do Espírito”, o que se
relaciona com o processo de individuação, em que a consciência se coloca como
instrumento de singularização de forças contidas no inconsciente. Nesse sentido, a
própria personalidade atua como “médium”, situando seu “centro” (sua “morada”) a
meio caminho entre a consciência e o inconsciente. Isso também nos remete à viúva do
conto, que após espalhar seus projetos de vida pelo mundo pela criação e separação de
seus três filhos, resgata um novo sentido para sua vida, religando-se à capacidade de
expressar sua singularidade por meio de um trabalho criativo.

Ao chegar à casa de pedra, o jovem então ganhou da velha senhora, sandálias de pelo de
cervo que o levaram imediatamente à sua aldeia, levando consigo o quadro da mãe. O
cervo é um animal que simboliza os renascimentos, a renovação cíclica (CHEVALIER;
CHEERBRANT, 1993). O cervo é também um animal veloz. É possível relacionar as
sandálias de pele de cervo do conto às sandálias aladas de Hermes (deus mensageiro dos
deuses e condutor de almas, que circula livremente pelo reino subterrâneo dos mortos,
de Hades, pelo mundo terreno onde vivem os homens e entre os deuses do Olimpo).
Hermes simboliza a circulação de energia que gera e renova a vida, fazendo-se presente
também na alquimia como o mercúrio filosofal. Foi ele quem inventou a flauta e a lira,
sendo às vezes designado como o criador de todas as artes, as quais criam uma ponte
entre o céu e a terra, conjugando o real e o imaginário. No nível psíquico, a figura de
Hermes pode simbolizar a circulação da energia psíquica pelo eixo simbólico ego-self,
que liga a

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consciência ao inconsciente. No conto, as sandálias denotam um relacionamento com o


real a partir de novas bases, gerando uma transformação em vários níveis. O jovem
casou-se com a mulher fada, simbolizando, no nível da mãe, como que um casamento
interno, o resgate de um relacionamento pulsante e fértil entre os seus aspectos
masculinos e femininos. Além disso, a concretização da fada mostra que, nesse
processo, algo inconsciente foi trazido e integrado à consciência, ampliando-a. O quadro
de pano, elevado aos céus como uma oferenda, pois foi tecido sem nenhum intuito
“utilitário”, movido apenas pela necessidade interior e pelo prazer, retorna a terra como
uma dádiva, resgatando ainda a fertilidade de toda a aldeia.

A partir da interpretação simbólica do conto O quadro de pano, podemos ver por meio
de suas tramas o desenrolar de um processo de crescimento psíquico envolvendo uma
ampliação de consciência e transformação da personalidade (assim como do meio
ambiente, pois as relações eu-mundo também foram transformadas), a partir da vivência
de um processo criativo. Esse conto, visto por essa perspectiva, enfatiza e explora as
diferentes faces desse processo: nascimento, morte e renascimento, as mesmas
envolvidas em todo rito iniciático. Mostra como a expressão artística pode não só
espelhar uma situação existencial e compensar um movimento de cristalização e
unilateralidade da atitude consciente, mas também proporcionar um redirecionamento
da energia psíquica por meio do eixo simbólico ego-self em direção ao desenvolvimento
de potenciais. Nesse processo, acontece um movimento de “desmanchamento” do que
estava constituído como modos de relacionamento com o real (referenciais egóicos),
possibilitando a constituição de novas singularizações e configurações da energia vital.
A criação, em qualquer nível que se processe, envolve forças que transcendem a
capacidade de compreensão cons-

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ciente (NEUMANN, 1990). Trata-se de um grande mistério da vida, como dizia Jung, e
o máximo que se pode fazer, na abordagem desse tema, é buscar uma aproximação e
ampliação pelo aprofundamento no campo simbólico, pois os símbolos fazem a ponte
com o desconhecido. Os mitos e contos, e todas as formas de expressão artística, bem
como os nossos sonhos e ocorrências psíquicas, falam-nos através da linguagem
simbólica. Sempre se corre o risco, ao longo do caminho percorrido por quem se
aventura por esses campos, de encontrar uma pérola ao abrir-se da ostra.

(Início da citação) Ao dar livre curso às expressões das imagens internas, o individuo,
ao mesmo tempo em que as modela, transforma a si mesmo. Ao conhecer aspectos
próprios se recria, se educa e, sobretudo, pode experimentar inserir-se na realidade de
uma maneira nova. A pintura, o desenho e toda expressão gráfica ou plástica, bem como
a música, a dança, a expressão corporal e dramática formam um instrumental valioso
para o indivíduo reorganizar sua ordem interna, e ao mesmo tempo reconstruir a
realidade. (ANDRADE, 2000, p. 125). (Fim da citação)

Tecendo horizontes...

(Início da citação) “ ... como acima dos deusese o Destino é calmo e inexorável, acima
de nós mesmos construamos um fado voluntário que quando nos oprima nós sejamos
aquele que nos oprime, e quando entremos pela noite dentro por nosso pé entremos.”
(Fernando Pessoa — Ricardo Reis, 1976)

Os processos de criação artística envolvem uma alternância entre o imergir na


materialidade e o emergir por

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meio do espírito, num misturar-se e discriminar-se, envolvendo constantes idas e vindas.


É como despejar ingredientes numa panela, cozinhá-los e retirá-los dela transformados
em alimento (fase extrovertida do processo). Esse alimento, então, poderá ser ingerido,
metabolizado e transformando em nutrientes, energia, etc. (momento de introversão da
libido). Essa energia poderá então ser canalizada para novos projetos de vida. Muitas
vezes pode-se vivenciar apenas um dos pólos desse processo: o fazer pelo fazer ou um
desprezo pela experiência concreta. Mas apenas completando- se o percurso é que se
pode deflagrar todo o potencial renovador e transformador de um trabalho criativo.

O relacionamento artista — obra, assim como entre o ego e o self, é bipolar. Envolve a
atuação de duas forças opostas e complementares: Logos e Eros. É análogo ao
movimento respiratório, promovendo um intercâmbio entre o mundo interno e o
externo, entre a atividade e a contemplação, o real e o imaginário, assim como ao
circulatório, pois articula ligações da mesma forma que o sangue banha, alimenta e
renova cada órgão e célula do corpo. Movimento e ritmo estão intimamente ligados à
nossa existência. O ritmo relaciona-se com a noção de tempo, e o movimento com a de
espaço. Essas coordenadas formam a moldura para o desenrolar de qualquer ação no
mundo.

Como já foi dito anteriormente, o trabalho com recursos arteterapêuticos pode ser visto
como uma forma de sonhar acordado. Enquanto no templo de Asclépio o paciente
dormia e recebia a cura por meio de seus sonhos, nas atividades expressivas a
consciência pode participar com seus recursos do processo de equilibração psíquica e
construção do real, curando a ferida aberta pela crescente dissociação eu/outro, mundo
interno/externo, natureza/cultura, realidade/fantasia, matéria/espírito que vem
acompanhando o desenvolvimento da consciência coletiva em nossa civiliza
Página 113

ção ocidental, principalmente a partir da Idade Média, agravada pelos danos causados
pela *Inquisição*.

Nota de canto de página para *Inquisição*: Mais detalhes sobre a dissociação dos polos
objetivo/subjetivo e a inquisição podem ser encontrados A pedagogia simbólica
(BYINGTON, 1996)

(Fim da nota de canto de página)

Ao separar, em seu processo de desenvolvimento da consciência, o mundo em pares de


opostos, o homem se territorializa (“eu sou eu, você é você”). Com isso, tudo o que
anteriormente era vivenciado como continuidade passa a pertencer a um mundo a ser
criado e habitado. Ao se parir em multiplicidade, o homem encontra a solidão como
contraponto da existência. Na busca de conciliação com o que foi separado, a
criatividade surge como possibilidade de integração e relacionamento fecundo entre as
polaridades, retramando os vínculos que nos ligam às tramas do tecido da vida, a todas
as nossas relações.

(Início da citação) Através das linguagens artísticas, o espírito ganha corporeidade e a


matéria plasticidade. O interno e o externo, o real e o imaginário, entrelaçam-se num
movimento formador e transformador. Aí reside um dos principais fatores terapêuticos
da arte: poder dar visibilidade às tramas que permeiam as relações e que se concretizam
em comportamentos; poder, ainda, propor e criar novos paradigmas na medida em que
formas cristalizadas e não satisfatórias de relacionamento eu-mundo podem ser
conscientizadas, questionadas, revistas e transformadas através da vivência de novas
possibilidades de ser. (BERNARDO, 1999, p. 226). (Fim da citação)

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SER UM PSICANALISTA QUE FAZ OUTRA COISA: ARTEPSICOTERAPIA NA


CLÍNICA WINNICOTTIANA DO SELF

Tânia Maria José Aiello Vaisberg

Muitos profissionais se voltaram para esse incrível e diversificado conjunto de práticas,


conhecido como arteterapia, a partir de uma profunda consciência acerca da importância
da arte na vida humana, intuindo que certas atividades, habitualmente designadas como
artísticas, carregam em seu bojo um potencial de transformação do viver, que pode
favorecer processos de amadurecimento e crescimento pessoal. Assim, não é de admirar
que um expressivo número de arteterapeutas seja constituído por artistas, que chegam
desse modo a integrar, no ofício clínico, objetivos terapêuticos e amor pela *art*.
Nota de canto da página para: *art*: Maria Margarida de Carvalho (1995) – figura
absolutamente importante em nosso meio – conta-nos como pôde unir seu amor pelo
balé e pela música ao interesse pela psicologia quando se aproximou da arte terapia.
(Fim da nota de canto de página)

Outro tem sido nosso percurso, à medida que iniciamos a vida clínica a partir de uma
decidida opção teórica pela psicanálise, cujos postulados fundamentais rezam que toda
manifestação humana, por mais absurda ou bizarra que se apresente à primeira vista,
está dotada de sentido, e que toda experiência e conduta humanas são efetivamente
afetadas por dimensões inconscientes. Inserimo-nos na clínica de modo firmemente
definido como profissional da psicologia e, se amor e respeito havia em relação à arte, o
fato é que não nos passava pela cabeça a busca de integração en-

Página 117

tre arte e psicoterapia. Temos, assim, chegado à artepsicoterapia em virtude das próprias
vicissitudes do caminho de busca de práticas clínicas dotadas de potencial mutativo, e
não por privilegiar, de saída, o uso clínico da expressão artística.

A aceitação dos postulados psicanalíticos não nos impediu, entretanto, de manter uma
visão bastante crítica, a partir da qual algumas deficiências da psicanálise sempre se
fizeram claras. Foi, assim, em busca de práticas clínicas capazes de fazer uso do
essencial da contribuição psicanalítica, evitando suas falhas e limites, que saímos em
busca de práticas diferenciadas. Passamos tanto pela psicoterapia breve como pela
psicanálise de grupo, sempre psicanaliticamente orientadas, para chegar; mais
recentemente, na década de 1990, à artepsicoterapia, individual e grupal. Hoje, a partir
de uma clínica viva e diversificada, que se tem revelado produtiva tanto em contextos
institucionais, como no exercício privado, não temos dúvida em afirmar que o uso de
materiais mediadores contribui decisivamente no atendimento das difíceis demandas
que caracterizam a clínica contemporânea.

Entretanto, a bem do rigor, é fundamental declarar, logo de saída, que o percurso que
realizamos, desde enfoques individuais breves e atendimentos grupais até a
artepsicoterapia, correspondeu, também, a uma mudança de interlocutores teóricos
fundamentais. Assim, abandonamos uma visão clínica basicamente kleiniana, em favor
de um enfoque que veio a privilegiar decisivamente as contribuições de D. W.
Winnicott. De fato, chegamos à proposição e uso de enquadres clínicos diferenciados
exatamente a partir da leitura detida e aprofundada de uma teoria que, colocando o
brincar como atividade central de toda psicoterapia, convidou-nos a pensar em formas
capazes de deixar a dimensão lúdica do encontro cada vez mais visível.

Página 118

O fato de aportarmos acompanhados por uma visão teórica determinada não deve,
evidentemente, causar estranheza, uma vez que estamos bastante acostumados com a
idéia de que não lidamos, no campo psicoterápico, com aplicação de *técnicas*, e sim
com abordagens do humano, que se constituem a partir do alinhamento de perspectivas
antropológicas, epistemológicas, metodológicas, psicopatológicas e éticas, que têm sido
designadas como esquema referencial (BLEGER, 1979). Adotamos aqui a definição do
esquema referencial como:

(Início da citação) Conjunto de experiências, conhecimentos e afetos com os quais o


indivíduo pensa e atua. E o resultado dinâmico da cristalização, organizada e estruturada
na personalidade, de um grande conjunto de experiências que refletem uma certa
estrutura do mundo externo, conjunto segundo o qual o sujeito pensa e atua sobre o
mundo. (BLEGER, 1979, p. 67). (Fim da citação)

Nota de canto de página para *técnicas*: O termo técnica adquiriu, no pensamento


contemporâneo, um significado peculiar, designando um “bem-fazer” que independe da
pessoalidade de quem o executa. Tal acepçâo, sendo corrente, desaconselha seu uso no
campo das psicoterapias de modo geral, e da artepsicoterapia em particular.

(Fim da nota de canto de página)

Desse modo, consideramos como expressão de riqueza e vitalidade o fato de a


arteterapia, que é parte do campo maior das psicoterapias, poder ser praticada a partir de
variadas orientações *teóricas*, as quais, por seu turno, devem cumprir exigências de
coerência interna, se quisermos garantir rigor na produção de novos conhecimentos.

Nota de canto de página para *teóricas*: Uma visâo panorâmica acerca da pluralidade
de referenciais teóricos presentes no campo da arteterapia pode ser encontrada nas obras
de Rubin (1987), e, entre nós, de Andrade (2000).

(Fim da nota de canto de página)

Hoje, os frutos de nossos esforços se concretizam na manutenção de um serviço clínico


do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, a “Ser e Fazer”: Oficinas
Psicoterapêuticas de Criação, que se organizam, desde 1997,

Página 119

ao redor de projetos de mestrado, doutorado e *pós-doutorado*. A diversidade das


iniciativas — oficinas de arranjos florais, papel artesanal, bordados e tapeçarias,
patchwork, velas ornamentais e outras — expressa uma convergência no
compartilhamento de uma visão que considera que a obra winnicottiana atende, com
felicidade, às exigências daqueles que consideram fundamental a constituição de uma
psicanálise concreta, que teorize em termos capazes de garantir uma produção de
conhecimento maximamente próxima ao acontecer *clínico*.

Nota de canto de página para *pós-doutorado*: O leitor pode se informar acerca da


produção de pesquisas realizadas na “Ser e Fazer” acessando o currjculum lattes da
autora no site www.cnpq.org.br.

Nota de canto de página para *clínico*: . Temos abordado esta questão seguidamente
em nossos textos, na medida em que concordamos com as críticas de Politzer (2003) a
teorizações psicológicas que se distanciam da concretude do viver humano.

(Fim da nota de canto de página)

Ser um psicanalista que faz outra coisa


Ser psicanalista no Brasil atual é um desafio, por mais de uma razão. De um lado, há
que considerar as difíceis condições de vida da população, que geram sofrimento
emocional importante — pois que a precariedade sócio-econômica evidentemente não
favorece a qualidade do viver de indivíduos e grupos. Por outro lado, há que pensar que
a tradicional organização da clínica psicológica, em enquadre de atendimento
individualizado, no consultório particular, servindo de modelo à clínica institucional,
não chega a dar conta da demanda em termos humanamente satisfatórios. Tais
constatações, alinhadas a uma visão que considera que a psicanálise se constitui, no
mundo ocidental, como a mais completa e aprofundada forma de compreender a
experiência emocional, incentiva os pesquisadores

Página 120

clínicos a investigar cientificamente práticas clínicas capazes de se manterem


metodologicamente rigorosas, psicanaliticamente falando, ao mesmo tempo em que se
mostrem capazes de permitir uma extensão dos beneficios oriundos deste campo do
saber para parcelas da população habitualmente excluídas.

Historicamente, a psicanálise surgiu como método de investigação e tratamento


individual de pacientes diagnosticados como neuróticos que tanto apresentavam
condições de formular queixas como de reconhecer o papel decisivo da própria
subjetividade no desenrolar da dramática de sua vida e de seus sofrimentos. O próprio
Freud (1948) manteve, ao longo de sua obra, a opinião segundo a qual, muitas formas
de sofrimento emocional poderiam ser compreendidas, mas não clinicamente tratadas
pela psicanálise. Entretanto, pesquisas realizadas desde meados do século XX revelaram
com clareza que mesmo formas patológicas, para as quais a psicanálise tinha sido
anteriormente contra- indicada, puderam ser produtivamente abordadas do ponto de
vista clínico (BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992). De um certo modo, a psicanálise
“depois de Freud” só fez alargar o espectro das condições clínicas para as quais pode ser
indicada. Entretanto, por um outro lado, também é verdade que esta “eficácia clínica”
ampliada não veio a significar, de modo algum, a possibilidade de implementação de
curas psicanalíticas em marcos institucionais, pois o método seguiu sendo
excessivamente demorado e *custoso*.
Nota de canto de página para *custoso* : Interessante e emblemática, neste sentido, é a
contribuição de M. Séchèraye (1954), que curou uma paciente esquizofrênica adotando-
a e levando-a para morar em sua própria casa. Vale frisar que todo o tratamento,
denominado “realização simbólica”, seguiu um delineamento psicanalítico e serve como
comprovação acerca da compreensão psicanalítica sobre a psicose. Por outro lado,
evidencia o quanto é impraticável como conduta clínica.

(Fim da nota de canto de página)

São vários os motivos pelos quais o conhecimento psicanalítico não se desenvolveu no


sentido de uma clínica social.

Página 121

Parece, contudo, que a primeira e mais importante razão desse fato consiste numa
incorreta concepção segundo a qual a essência da psicanálise seria o dispositivo padrão
freudiano. Sem divã, sem atendimento individual, sem quatro ou cinco sessões de 50
minutos, não estaríamos fazendo psicanálise! Essa visão limitada e limitante não
contribuiu para a pesquisa rigorosa de dispositivos clínicos que seguissem fiéis ao
espírito da psicanálise, mas que pudessem resolver os impasses práticos. Entretanto, por
motivos sociais e éticos, há que se reconhecer que a busca de enquadres clínicos
diferenciados se constitui como exigência fundamental dos tempos atuais, durante os
quais parece aumentar expressivamente o sofrimento emocional gerado pelas condições
da vida contemporânea — sob forma de depressão, drogadição, violência, pânico e
psicossomatoses.

Holding e materialidades mediadoras em mundos transicionais

As oficinas psicoterapêuticas de criação oferecem-se como uma possibilidade de


enquadre diferenciado, que se presta tanto para o atendimento individual como para o
grupal. Nelas, a dimensão interpretativa do método psicanalítico se expressa pela adesão
ao princípio segundo o qual toda conduta é dotada de sentido emocional, é experiência
humana, mas não se faz pela via da enunciação de sentenças interpretativas.
Evidentemente, isso não significa que a compreensão psicanalítica da experiência
emocional seja dispensável, mas quer dizer que a compreensão possível — sempre
relativa à capacidade presente a cada momento — não é imediatamente traduzida como
interpretação dos motivos inconscientes das manifestações do paciente. A intervenção
fundamental, nesse caso, será o manejo ou holding, mediante se exerce um cuidado à
continuidade do ser, que

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favorece movimentos no sentido da integração pessoal que se encontra na base do gesto


criador.

O holding não é operação meramente intelectual, mas exige do terapeuta sua presença
plena. Incide especifica- mente sobre uma esfera primordial da existência de cada um,
relativa à possibilidade de confiança em um mundo “not-me”, que possa não ser
invasivo e atender as necessidades humanas fundamentais. A presença plena do analista
se faz tanto por meio de sua pessoa como da constituição de um mundo transicional —
que é, inescapavelmente, material. Desse modo, cada paciente é sustentado tanto pela
pessoalidade do terapeuta, como pela materialidade mediadora pela qual cada oficina se
define. Temos, assim, mundos transicionais papeleiros, florais, têxteis, dramáticos,
musicais, pictóricos, literários e outros. As sessões apresentam-se, deste modo, como
mundos temporários nos quais é possível viver experiências de sustentação que
favorecem a continuidade do ser, preparando a oportunidade para a superação de
dissociações defensivas.

Assim, fica claro que não se trata apenas de pensar na materialidade como recurso
expressivo, de que pode se valer o paciente, mas, sobretudo como fundamento da
constituição de mundos sustentadores e protegidos, nos quais um desenvolvimento de
self possa ser alcançado. Este é um ponto fundamental, que pode, eventualmente,
distinguir a artepsicoterapia winnicottiana de outras abordagens, que pensam a
mediação como finalidades basicamente expressivas. Vejamos o porquê. A verdade é
que a idéia de expressão subjetiva faz sentido em contextos nos quais já estamos diante
de uma pessoa total e integrada, que tem algo a comunicar. Entretanto, nem sempre este
é o caso na clínica contemporânea, em que é freqüente o uso de estratégias defensivas
de tipo falso self, em cuja vigência não há, rigorosamente falando, uma pessoa presente,
desde seu próprio

Página 123

ponto de vista (WINNICOTT, 1978), num sentido existencial profundo. Assim, o que
está em pauta não é a expressão de um sujeito, mas o próprio processo de emergência da
pessoalidade, de constituição do self Por esse motivo, podemos dizer que uma oficina
psicoterapêutica difere marcadamente de uma oficina artística. Nesta última, trabalha o
artista como pessoalidade constituída que tem algo a expressar. Naquela, pacientes,
transicionalmente alocados num mundo intermediário temporariamente destacado do
viver social compartilhado, são tratados em termos de um registro existencial que tem a
ver com o próprio processo de constituição do si mesmo. Nesse pequeno mundo, a
realidade pode ser apresentada em “pequenas doses” (WINNICOTT, 1962), de modo a
permitir o abandono seguro de formas inautênticas de ser, sejam elas neuróticas,
psicóticas ou normóticas.

Referências bibliográficas

ANDRADE, L.Q. Terapias expressivas. São Paulo: Vetor, 2000.


BLEGER, J. Temas de psicología. Buenos Aires: Nueva Visión, 1979.
BLEICHMAR, N. M.; BLEICHMAR, C. L. A psicanálise depois de Freud. Tradução
Francisco F. Settineri. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
CARVALHO, M. M. M. J. A arte cura? Campinas: Psy II, 1995.
FREUD, S. Introducción al psicoanalisis. Obras completas. Traduçáo Luis López-
Bailesteros y de Torres. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1948. (Originalmente
publicado en 1916).
POLITZER, G. Critique des fondements de la psychologie. Paris: PUF, 2003.
RUBIN, J. A. Approchaches to art therapy. New York: Brunner/ Mazel, 1987.
Página 124

SÉCHERAYE, M. Introduction à une psychothérapie des schizophrènes. Paris: PUF,


1954.
WINNICOTT, D. W. O desenvolvimento emocional primitivo. In: _____ Da
pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
______ El mundo en pequeñas dosis. In: _____. Conozca a su nino. Tradução Noemi
Rosemblatt. Buenos Aires: Hormé, 1962.

Página 125

ARTETERAPIA: UM SURPREENDENTE E PODEROSO CAMINHO DE


AUTOCONHECIMENTO E TRANSFORMAÇÃO

Mônica Guttmann

“Não servimos o fraco ou o vencido.

Servimos a inteireza uns dos outros e da própria vida.


A parte dentro de você que eu sirvo é a mesma que é fortalecida dentro de mim no
momento que eu sirvo.

Diferentemente de ajudar, reparar, resgatar, o servir é mútuo.

Há muitas maneiras de servir e fortalecera vida ao nosso redor: através da amizade,


paternidade ou do trabalho, da gentileza, compreensão, generosidade ou aceitação.

E através da filantropia, do nosso exemplo, nosso encorajamento, nossa ativa


participação, nossa crença.

Não importa como o façamos, o ato de servir nos abençoa.

Quando oferecemos nossas bênçãos comgenerosidade a luz do mundo ganha força


ao nosso redor e dentro de nós.”

Rachei Naomi Remen


A cada dia é mais encantador, surpreendente e poderoso o caminho oferecido pela
Arteterapia. As imagens mentais

Página 127

que expressam nossas emoções por meio das mais difere, tes expressões artísticas
podem ser; de fato, reveladoras e transformadoras.

As palavras abrem espaço para os textos metafóricos que nascem de imagens que fazem
parte das expressões maia íntimas e diretas de nosso inconsciente, mas não alcançam
tudo. Em seu grande esforço de tradução das percepções e sensações do mundo, elas
têm (como tudo!) seus limites, suas impossibilidades.

As expressões artísticas fazem a ponte entre nosso inconsciente e nosso consciente, e


revelam arquivos guardados e escondidos em nosso imaginário, que representam
lembranças, emoções e sentimentos, que ainda permanecem presentes.

Decepções, depressões, raivas, ansiedades, culpa, medos, mágoas, inseguranças e


obsessões podem ocupar espaços tão gigantescos dentro das pessoas que elas deixam de
escutar e reconhecer as pérolas, que também existem dentro delas. E como é lindo e
inspirador o momento em que elas resolvem escutar-se e olhar-se com mais amor e
respeito deixando de lado o orgulho que as escraviza, na tentativa insana e perversa do
compromisso com a coerência, a linearidade e a aceitação.

Somos ambíguos, sim! Pois somos muito mais amplos do que sabemos e podemos
reconhecer.

As ciências não explicam tudo e suas respostas obedecem ao movimento natural e


transcendente da vida. Sua respostas são temporais, mesmo que suas verdades
transcendam este tempo, que se amplia a cada pesquisa, descoberta encontro ou
desencontro.

Já a expressão artística acompanha a história da humanidade desde seu início, como


espelho deste processo amplo, holográfico, atemporal e vivo! Para a sobrevivência,
saúde e crescimento de nossa sensibilidade humana é fundamen-

Página 128

tal a necessidade de um espaço para criar; sonhar; realizar- se, descobrir...


Um tempo criativo para pensar, sentir e criar... O contato com outras pessoas, parecidas
ou diferentes... um instrumento próprio para viajar com as cores de sua imaginação...
um voto de confiança para a coragem de acreditar na liberdade e na autenticidade e uma
gotinha suave e necessária de fé em seu próprio valor.

Não podemos esquecer que viemos a este mundo para tentar dar uma voz criativa aos
pedidos e necessidades de nossa alma com sensibilidade e inspiração — inspiração no
sentido de contribuir no plantio de sementes, que possam fertilizar relacionamentos
melhores com nós mesmos e com o mundo ao nosso redor.

A Arteterapia pode ser um caminho revelador e inspirador que nos ajuda a entrar em
contato com a possibilidade abundante e generosa de acreditar, desafiar, reconstruir,
criar e expressar as emoções, sentimentos e imagens que trazemos dentro de nós.

A literatura infantil e sua importância no desenvolvimento emocional e intelectual


das crianças

Talvez a segunda grande transformação e desafio no desenvolvimento da criança e do


ser humano sejam a entrada e descoberta do mundo das palavras. Aprender a andar já
provoca uma enorme mudança de percepção da realidade, pois a criança descobre que
nem tudo que deseja está perto dela, que nem tudo é oferecido pela mãe e que existem
dentro dela desejos e necessidades que nem sempre são as mesfl as que dos outros e que
nem sempre seus desejos chegam a ela sozinhos. A criança começa a entrar em contato e
a descobrir seu instinto de liberdade e um possível livre arbítrio que faz parte do gênero
humano.

Página 129
Contudo a entrada do mundo das palavras abre dentro da criança quase que um novo
paradigma. Os símbolos apresentam-se de maneira misteriosa, atraente ou não,
dependendo de como foram estimulados e apresentados às crianças.

Pais que gostam e cultivam o hábito da leitura, em geral, podem transmitir à criança este
gosto se apresentam o livro de maneira afetiva, próxima, criativa e lúdica. Existem
crianças que mesmo sem o estímulo parental sentem atração pelos livros e pelas
histórias, mas com certeza, o estímulo familiar ajuda muito neste encontro.
Os primeiros contatos da criança com o livro e com as palavras são lúdicos e sensoriais,
pois é desta maneira que ela estabelece um contato mais íntimo e profundo com o
aprendizado da vida. A medida que vai ficando mais íntima das palavras, a criança
começa a descobrir que existem regras e aprendizados necessários para que as
informações, histórias e descobertas sejam alcançadas.

Se a criança está gostando, acreditando e se encorajando no desafio de crescer, os livros


e as palavras podem se tornar grandes amigos e aliados, uma companhia de descobertas,
introversões, divagações e sonhos. Mas se por diversas causas emocionais a criança tem
medo de crescer e de abandonar um mundo já conhecido — o das sensações —, o
mundo das palavras e dos livros pode ser muito ameaçador.

Muitas crianças apresentam dificuldades com o aprendizado das palavras ou não


demonstram interesse pelos livros, pois intuitivamente percebem que este é um
aprendizado que não tem volta. É a entrada em um mundo misterioso repleto de
perguntas que nunca tem fim. Desapegar-se do mundo das certezas é muito difícil e
mergulhar em um mundo abstrato em que tantas e tantas vozes são ouvidas. O mundo
das palavras abre a perspectiva de que muitas são as idéias e pensamentos que habitam
este mundo e que as

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escolhas começam a fazer parte fundamental da vida do ser humano.

A entrada no mundo das palavras revela o grande e difícil desafio da vida que é
aprender a escolher. Em meio a tantas e tantas palavras e pensamentos, a vida começa a
exigir das crianças que elas comecem a escolher o que desejam e necessitam escutar,
aprender, memorizar e dar sentido.

Começamos a escolher, consciente ou inconscientemente, o que nos faz sentido nesta


vida desde crianças. A descoberta da possibilidade de escolha pode ser muito atraente e
viva, como também muito assustadora e traumática.

Se nossas escolhas são acolhidas, respeitadas, estimuladas e educadas pelos adultos de


maneira generosa (isso não quer dizer sem limites ou regras!), compreensiva e
educativa, sem julgamentos autoritários e preconceituosos, a criança desperta para este
mundo com interesses vivos e criativos, sentindo-se segura para caminhar nessa estrada
tão sem fim, com tantas e tantas perguntas, tantas e tantas respostas, que acabam
abrindo-se em novas e novas perguntas!

Essa memória sensorial e vibrante do mistério e descobertas do mundo das palavras é


acessada muitas e muitas vezes pelos adultos que sentem prazer na leitura e na escrita.
No início são os pais, avós, tios, professores e adultos que têm o poder da leitura das
histórias dos livros para as crianças e elas pedem:

— Papai, mamãe... Lê de novo!!!! Conta mais!!!!!

Aos poucos, o interesse e a necessidade de ser livre em sua escolha começam a


estimular a criança para que ela mesma busque entrar sozinha com as histórias por meio
do aprendizado das palavras.

E muito bonito ver uma criança interessada em aprender a ler e percorrendo seus
primeiros desajeitados passos através das linhas e corredores infinitos dos livros. A
criança interessada pode ficar horas e horas sentada, com um

Página 131

livro em seu colo, desligada do mundo lá fora e mergulhada em fantasias, sensações,


descobertas, limitações e aprendizados.
Os livros e histórias infantis com suas mensagens e ilustrações mágicas começam a
fascinar a atenção e o interesse das crianças e elas começam a descobrir suas
identificações com tudo aquilo que lêem.

Texto e ilustrações interagem dentro da imaginação das crianças como se fossem


vivos... como se adquirissem uma nova vida, novas cores, possibilidades e caminhos.
As crianças (assim como adultos!) começam a ler e a descobrir o sentido da leitura a
partir de seu olhar e do sentido que dão as coisas. Não existe um bom leitor passivo. Um
bom leitor acaba transformando aquilo que lê e sente em suas próprias imagens e
interpretações. Um leitor é também criador.
E a descoberta do poder das histórias apresenta a criança o desejo de criar e escrever
suas próprias histórias, inventando seus próprios personagens e aventuras. As crianças
inventam suas histórias a partir de suas emoções e dos símbolos e imagens que captam
do mundo e lhes faz algum tipo de sentido. A criança necessita inventar e criar, assim
como um adulto saudável também.

Dificuldades emocionais podem ser expressas, elaboradas e transformadas pela criação


de histórias permitindo que a criança entre em contato com algo extremamente precioso,
humano e necessário ao desenvolvimento da humanidade, que é o poder de sua
imaginação.

A criança descobre que imaginar é criar e que criar é chegar perto de algumas
necessidades, desejos e fantasias que necessitam espaço para se movimentar e se
transformar.

O adulto que perde contato com o poder de sua imaginação, perde contato com suas
possibilidades autênticas de ação neste mundo. Qualquer caminho, criação, descoberta

Página 132

ou conquista humana, antes de mais nada, antes de qualquer coisa, tem como origem a
semente da imaginação.

Imaginar é viver
Imaginar é crescer

Imaginar é curar e se curar

Imaginar é ter esperança na vida

Imaginar é saber-se livre, mesmo que aprisionado nos espaços e tempos criados pelo
homem.

Imaginar é descobrir que existem espaços e tempos em cada ser humano que não podem
ser trancados, a não ser que permitimos, a não ser que permitimos por não conhecêlos,
sabê-los ou valorizá-los.

Conhecer e acreditar no poder da imaginação é anunciar a vida e o poder tão


maravilhoso e autêntico que recebemos dela.

Ler e escrever é dar forma à nossa capacidade ilimitada de imaginar, e como todas as
manifestações artísticas, é abençoar a vida com a natureza de nosso próprio olhar!

Caminhos possíveis entre a criação literária, a arte, a educação e a terapia

Era uma vez um fio mágico...

Era uma vez um fio mágico que morava no tempo.

Alimentava-se de idéias e voava como o coração do sol.

Mergulhava nos sonhos, acariciava almas e guiava-as em seus caminhos.

Era um fio feito de intenções, desejos, fé, coragem.

Um fio que tinha como mãe a imaginação e como pai a coragem...


Era um fio de amor que percorria buscas, caminhos e escolhas.

Página 133

Era um fio feito de cores, luzes e sombras, sorrisos e lágrimas, poesia e transformações,
medo e amor ...

Neste fio havia memórias, as histórias, escolhas e criações de cada um...

Neste fio estamos nós, abraçados em nosso compromisso com a vida, que se escreve em
um só laço...

Era uma vez um fio mágico, que nos faz buscar e criar nossa história e compreender o
compromisso do Encontro e das Palavras, que nos aproximam uns aos outros.

Por onde as palavras não alcançam...

As palavras nem sempre alcançam as expressões invisíveis de nossa alma. As palavras


parecem nascer no olhar do que somos, escolhemos, desejamos, sentimos, mas que nem
sempre sabemos ou conhecemos! Quando as palavras não alcançam, emprestam seu
sentido às cores, formas, aromas, melodias, sons, linhas... Desenhos de uma vida que se
apresenta e que pergunta:

Por onde alcançam

Mas as palavras sabem alcançar a poesia dos sentimentos e valores humanos, das dores
e amores, da potência e onipotência, do apego e desapego, do riso e das lágrimas...
As palavras sabem alcançar o outro e acolhê-lo em sua solidão, em seu universo de
fantasias e mitos.

As palavras alcançam o interminável, o mistério do não dito... a luz das sobras e o ruído
escondido por detrás da vida.

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As palavras distanciam vidas...

As palavras aproximam histórias, caminhos e sonhos!

A poesia das palavras espelha o brilho de uma alma que grita por vida, busca o sentido
de sua história, deseja garantias de amor e acolhimento e acredita na comunicação e
contato humano.

O estreito e limitado caminho das palavras espelha a impossibilidade de encontro, troca,


compreensão, união.

As palavras aproximam idéias e sementes...

As palavras distanciam a possibilidade de terras férteis...

A contradição abençoada das palavras é o desafio da arte dos poetas, dos artistas, dos
educadores e terapeutas.

A imaginação que gera palavras pode ser o caminho da doença e da cura.

Pois então, aqui, escolhemos a cura: as palavras na construção de um ser humano e de


um mundo melhores.

As revelações do processo de escrita

Existem vozes dentro de todos nós, que na maioria das vezes não encontram espaços de
expressão criativas e saudáveis, podendo tornar-se sombras que nos pegam de surpresa
ou sabotam-nos nos momentos mais cruciais.

A arte é um maravilhoso caminho de passagem e expressão para estas tantas vozes e


personagens internos, incluindo aí a criação literária e a literatura.
Com o objetivo de propiciar condições para que algumas destas vozes sejam
identificadas e expressas por meio da criação literária, estímulos arteterapêuticos e
sensoriais podem ser utilizados para promover encontros com personagens e histórias
que estavam dentro de cada um e que ainda não haviam encontrado caminhos criativos
de expressão.

O trabalho arteterapêutico com crianças vis a ajuda-las a deixarem o menos possível que
suas vidas sejam rouba-

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das por imposições, preconceitos, inflexibilidade e limitações do mundo dos adultos. As


crianças, apesar de dependentes ainda daquilo que recebem dos pais, já têm a
capacidade de reconhecer, preservar e cuidar de pelo menos uma parte daquilo que são.
E essa pequena parte pode ser seu lado mais livre, criativo e transformador.
A arteterapia pode auxiliar a criança a elaborar tanto as suas histórias e dinâmicas
herdadas do mundo dos pais, mas principalmente ajudá-las a reconhecer, valorizar e
cuidar daquele lugar em si mesmas que é especialmente delas, que não foi herdado de
ninguém e que pode ser regado de uma maneira saudável e criativa.

James Hillmann, terapeuta junguiano diz que cada pessoa tem uma singularidade que
pede para ser vivida e que já está presente antes mesmo de poder ser vivida.
E é muito comum acontecer de a família e a escola, não tendo consciência disso, e por
necessidade de enquadrar a criança dentro dos padrões estabelecidos, acabem passando
por cima destes lados da criança, gerando insatisfação, problemas de aprendizagem,
relacionamento e carências afetivas.

Toda criança, ou melhor, todo ser humano tem alguma vocação ou potencial, mas nem
sempre tem condições de escutá-lo.

A Arteterapia, por meio de suas possibilidades criativas e expressivas, tem a capacidade


de ajudá-lo nesse processo de escuta, reconhecimento e transformação.
As crianças buscam seu espaço no mundo. E buscam ser respeitadas e estimuladas para
isso. Tentam aprender a conciliar aquilo que são com aquilo que o mundo começa a
querer colocar dentro delas. Nem sempre isso é feito de maneira construtiva e sensível
ao mundo da criança. As teimosias, agressividade, recolhimento, timidez e dificuldades
de aprendizagem podem ser proteções da criança em

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relação a coisas que elas sentem não fazer parte de suas necessidades e caminhos.
Quando isso é percebido pelo adulto, a criança é aceita, compreendida e recebe o
estímulo para se abrir cada vez mais a si mesma e ao mundo. Mas quando o adulto não
reconhece e lida com a criança como se ela fosse doente, problemática e inadequada, a
criança acaba fechando-se ainda mais para o mundo.

Criança—famiia—escola: a arte e a literatura como recursos terapêuticos na


expressão de medos e desejos

Medos e desejos fazem parte da “humanidade” — portanto, de todos os seres humanos


— e, por meio deles, tornamonos mais próximos, mais defensivos ou mais distantes uns
dos outros.

A criança traz dentro de si medos e desejos herdados ou criados a partir das


circunstâncias e relações de sua vida ou frutos de sua maneira pessoal e própria de
entender e dar sentido a sua vida.

A família como organismo traz dentro de si medos e desejos herdados ou criados a


partir de sua história ou da maneira própria como cada um de seus membros foi
adquirindo, criando e adaptando-se em seus diferentes papéis.

A escola, também como um organismo, traz em si, seres humanos que já foram crianças
e que já fizeram ou fazem parte da história e das dinâmicas de suas próprias famílias.
Por trás do papel e função social da escola, da família e da criança, existem seres
humanos que sentem, sofrem, desejam e têm muito a conhecer e a expressar sobre si
mesmos.
Infelizmente não são poucos os profissionais, que trabalham com crianças, que sentem
dificuldade de entrar em contato ou até mesmo nunca deram a devida importância à
necessidade de tornarem-se mais próximos e conscientes

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de suas próprias crianças internas. Esta é uma das questões mais sérias que promovem
um distanciamento e uma incompreensão no relacionamento entre crianças e adultos em
geral ou com seus educadores mais especificamente.

Quanto mais conscientes e trabalhadas as crianças internas dos adultos, mais eles
conseguem lidar com as neuroses adquiridas na infância e mais próximos se tornam das
crianças em geral.

No caso do educador, a questão ainda é mais delicada, pois ele está o tempo todo se
relacionando com crianças e quanto mais resolvido perante sua criança interna, mais
criativa, acessível e madura pode ser a sua relação com todas as crianças com quem
trabalha.

Educação e consciência caminham juntas, e a arte é um instrumento riquíssimo e


importantíssimo no sentido de ajudar na exploração, expressão e elaboração de seus
próprios medos, desejos e sonhos, assim como o de suas crianças e famílias, facilitando
o relacionamento, a comunicação e a transformação de todos.

Apesar da importância e necessidade dos adultos e da educação na vida das crianças, é


também fundamental acreditarmos na capacidade que elas têm de dar as mãos a seus
desejos e individualidades para conhecer e explorar o mundo de sua própria maneira.
Nem sempre aquilo que nós adultos desejamos, acreditamos, percebemos e oferecemos
a elas é, necessariamente, aquilo pelo que seus corações estão batendo mais forte.
Jung definiu o ser humano por meio de quatro tipos psicológicos (pensamento,
sensação, intuição e sentimento) e uma boa contribuição que esta definição traz, é nos
ajudar a perceber que cada pessoa tem determinada maneira de ser, que não podemos
forçá-la a ser aquilo que não é e que apesar de termos todos os tipos dentro de nós,
existem determinadas características que se desenvolvem mais fortemen-

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te do que outras! E é por aí que se dão os encontros, as trocas, as parcerias!

Em meu percurso pessoal e profissional, a questão do autoconhecimento e da


aprendizagem, seus conflitos, dificuldades e potencialidades estiveram sempre presentes
e mobilizando minhas escolhas. (Será que o interesse de uma criança pelo aprendizado
depende apenas do estímulo ou também de quem o estimula?) O interesse pelo
aprendizado está diretamente relacionado ao momento ou condição afetiva da criança,
somadas às suas individualidades.

Um mundo emocional conturbado ou desorganizado que não permite espaço para os


desejos e o aprendizado. Cada ser humano tem sua história, suas razões e contradições,
e é no trabalho com cada um deles, que a troca do conhecimento vai ocorrendo e as
possíveis transformações vão acontecendo!

Trabalhar com crianças é ajudá-las a se separarem daquilo que não é delas e que lhes
atrapalha, ajudá-las a tomar consciência de si mesmas, reforçando aquilo que elas têm
de mais saudável e criativo, ajudá-las a desenvolver seu processo criativo e a aceitar,
cuidar ou transformar as suas limitações.

Como será que a arte e a literatura podem ser utilizadas como recursos que ajudam e
estimulam o contato, a expressão e a troca dos vários mundos que se encontram em uma
escola, em uma família e em uma criança?

A literatura e a arte: uma ponte entre o tempo da imaginação e o tempo do mundo

O tempo como mestre


Buscamos mestres através do tempo de nossa história, quando o tempo é o nosso
próprio mestre.
Por vários momentos acreditamos estar acompanhados por sábios que trazem as
verdades que nos confortam, que

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nos fazem sentir que estamos respirando, acompanhados e guiados com segurança. Mas
o tempo, nosso mestre, não é seguro. O tempo são nossas próprias incertezas e
confianças...

Buscamos mestres nas pessoas até o momento em que, depois de muitas ilusões e
sentidos, descobrimos que a respiração é nossa... e o resto são apenas ressonâncias e
afetos!

Estamos sós para as maiores pontes existências de nossa história — disso não há dúvida
—, mas temos medo e queremos nos distrair no coletivo... naquilo que o mundo oferece
de sabores e prazeres . . .conceitos e certezas!

Estamos sós no tempo, apesar de acompanhados no espaço...

E então, confundimos facilmente tempo e espaço, como se fossem uma coisa só...

Estamos sós, e os mestres não estão no espaço, e sim, no tempo!

Estamos sós... e os mestres, em nós!

O tempo é talvez a invenção mais criativa e mágica da vida. E nossa eterna fonte de
inspiração e transformação...

Tempo é vida, espaço, criação... movimento!

Aprender a lidar com o tempo e o espaço é aprender a lidar com o mundo material e o
mundo espiritual, com as necessidades individuais e as coletivas, com os limites de si
mesmo e do outro.
E a arte e a literatura são grandes, poderosos e criativos instrumentos, nesse difícil e, ao
mesmo tempo, fascinante desafio de mergulhar e viver o tempo. Buscam expressar a
magia, o mistério e a sabedoria do tempo por meio de suas cores, formas, símbolos e
mensagens.

Não é nada fácil lidar com o tempo. Crianças e adultos buscam esse aprendizado a cada
instante e quanto mais criativa a pessoa é... mais difícil parece ser essa relação entre o
“tempo de dentro e o tempo de fora”

Quanto maior a criatividade, maiores as fantasias, os medos, as ansiedades...

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O tempo da arte é o tempo interno, é o tempo das projeções, sensações e sentimentos de


cada um. É o tempo dos sonhos, dos desejos, dos sentimentos, das emoções...

Não é fácil lidar e equilibrar o tempo de dentro e o tempo de fora, o mundo interno e
externo, o corpo e a alma, os vários tempos de nosso desenvolvimento que trazemos
dentro de nós. Muitas pessoas adoecem ou criam sérios problemas mentais por não
saber lidar com este equilíbrio, que é dinâmico e vivo.

Como conciliar nossas necessidades infantis ou adolescentes com os compromissos e


obrigações dos adultos que somos?

Como dar vida à criança que não pudemos ser, sem que ela sabote ou atrapalhe nossas
buscas e escolhas de adultos?

Será que saúde não é o equilíbrio do tempo dentro de nós?

Do tempo da criança, adolescente e adulto que somos ou fomos?

Nosso corpo é a memória do tempo em nós. Conhecemos pouco nosso corpo e usamos
limitadamente seus recursos de equilíbrio, saúde, encontro e transformação.
O Rabino e filósofo Avraham Jushua Heshel diz que a humanidade não morrerá por
falta de informação; poderá perecer por falta de apreciação. Ser humano pressupõe o
paradoxo da liberdade, a capacidade de criar um flash de luz; um momento no tempo
em vez de uma coisa no espaço. O Ser humano é um momento no tempo.

O tempo é o processo da criação e as coisas do espaço são o resultado da criação.


Quando olhamos o espaço, vemos os produtos da criação. Quando intuímos o tempo,
escutamos o processo da criação...

O encontro conosco e com os outros

É feito de instantes no tempo

E de instante em instante

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Cultivamos o tempo da paciência...

O tempo é nosso parceiro na criação da vida

Com ele, através dele e apesar dele...

Construímos nossos encontros e realizações.

No tempo construímos nossos espaços que buscam seu próprio significado dentro de
cada um de nós.

O uso da arte e da literatura em um contexto terapêutico vem ocupar um espaço onde o


tempo de dentro e o tempo de fora podem viver sua expressão de maneira mais criativa
e autêntica, pois facilitam a expressão e contato com as emoções. O processo
terapêutico acontece quando existe um acordo criativo entre o tempo interno de cada
um e o tempo externo. Quando aprendemos a olhar a vida e nossas responsabilidades
com mais liberdade e autenticidade, sem que deixemos de lado nosso convívio social e
compromissos que assumimos com nossa sociedade.

Como escritora de livros infantis, utilizo livros de minha própria autoria assim como de
outros autores para trabalhar determinados temas e questões que vão aparecendo
durante a terapia. Além disso, outras técnicas podem ser utilizadas no trabalho com
crianças com dificuldades de aprendizado:

• criação de histórias por meio da escrita, das artes plásticas, do teatro de bonecos;
• literatura infantil;
• transformação de sonhos em criações artísticas;
• criação de jogos por meio de recursos artísticos;
• pintura, desenho, modelagem, colagem, teatro de bonecos, fantoches, instrumentos
musicais, CD, visualização criativa, meditação, movimento, dança.

De crianças a idosos, todos aqueles que buscam um trabalho terapêutico, de alguma


maneira, pedem ajuda no senti-

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do de buscarem da melhor maneira um caminho para sua libertação e transformação. E


em todos eles, o trabalho arteterapêutico reflete-se em seu interesse pelo conhecimento,
pelos acontecimentos do mundo, pelo autoconhecimento ou pela própria criação de
sementes artísticas próprias como sua expressão e contribuição aos outros.

A lata de sentimentos: um exemplo de estímulo literário e artístico para a


descoberta e a transformação de sentimentos

Na maioria das vezes é somente quando nos tornamos adultos (e muitas vezes, nem
como adultos!) que percebemos quantos sentimentos difíceis foram vivenciados na
infância e que nos faziam sentir diferentes, solitários, estranhos e que não conseguíamos
ou podíamos compartilhar com os outros.

Por que os adultos pareciam não se dar conta de nosso real sofrimento?
Por falta de estímulo, contato, confiança, possibilidade, disponibilidade?

Ou por que os adultos estavam também, distanciados de seus sentimentos?


Por que ainda é tão difícil para crianças e adultos entrar em contato e expressar
verdadeiramente seus sentimentos?

Falamos muito por meio de nossos sentimentos, mencionamos muito a palavra


sentimento, mas continuamos a ter muita dificuldade de entrar em contato com eles. E
dessa maneira, adultos e crianças acabam aprendendo a distanciar-se de seus
sentimentos sem conhecê-los e acolhê-los.

Foi a partir dessa percepção que escrevi o livro A lata de sentimentos. A idéia do livro é
apresentar para as crianças possibilidades lúdicas, criativas e artísticas de como
podemos conhecer e apropriarmo-nos de nossos sentimentos.

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A história tem personagens como o mágico artista, o bruxo catador de sentimentos, a


pequena aldeia onde se passa a história, e é claro, a Lata de Sentimentos: Na lata de lixo
do bruxo ficam os sentimentos com os quais é difícil entrar em contato e que não se
transformam como a raiva, por exemplo, que acaba virando ódio, e o medo que, se não
enfrentado, acaba transformando-se em pânico. Nessa história, os sentimentos parados
na lata do bruxo começam a crescer e a fazer a aldeia toda cheirar muito mal, momento
em que aparece o mágico artista e oferece a Lata de Sentimentos de presente para a
aldeia, para que os habitantes possam dar nova forma aos seus sentimentos.

O mais importante de tudo é descobrir que podemos sentir livremente... mas que
também temos a capacidade de cuidar para que nossos sentimentos difíceis não nos
deixem fazer algo que seja ruim para nós mesmos e para os outros. Não pensem que
tudo isso seja tão rápido assim. Essas descobertas são feitas no tempo... no tempo do
encontro, do mistério ,da coragem e do desejo de mudar!
Quando estou dando aula ou fazendo alguma mobilização arteterapêutica, peço para que
as crianças ou adultos tentem deixar de lado seus pensamentos, pois assim seu
inconsciente age sem tantas críticas e repressões e o contato com os sentimentos e
emoções pode tornar-se mais verdadeiro e autêntico. Quantas coisas sentimos e não
percebemos, por estarmos envolvidos e entorpecidos em nossos pensamentos e
desconectados de nossos sentimentos (muitas vezes pensamos demais para fugir de
nossos sentimentos).

A reação das pessoas depois da expressão finalizada é, em geral, de surpresa e emoção,


pois conseguem olhar e perceber uma série de aspectos dos quais não haviam se dado
conta antes. E nesses momentos que podemos perceber e constatar o poder
transformador e curador das histórias e da arte, por meio de suas imagens simbólicas.

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Um dos pacientes sentia muita vergonha e acreditava que era o único a sentir. Situações
como entregar um presente a um amigo ou levantar a mão na sala de aula para fazer
uma pergunta eram momentos muito dificeis. Sugeri que colocasse sua “vergonha” (por
meio de uma representação na massinha de modelar) em sua Lata de Sentimentos, para
que ela lhe ajudasse a transformar sua vergonha em contato e aceitação.

Uma outra criança tinha medo de dormir sozinha, fantasiava (o que para ela era real)
que dentro do seu travesseiro havia fogo. Sentia o fogo e então jogava seu travesseiro
toda noite para longe da cama. Essas atitudes provocavam um grande sofrimento e
preocupação para seus pais que não sabiam por que o menino sentia tanto medo de “seu
travesseiro”. Pedi para que o menino escrevesse a história desse travesseiro e ele contou
a história de um personagem que dormia em um travesseiro de fogo que incendiaria sua
casa. Um dia depois que escreveu essa história, contou-me que teve coragem de colocar
sua cabeça no travesseiro e perceber que tudo não passava de uma grande e quente
fantasia. Esse personagem assustado foi colocado na Lata de Sentimentos e ajudou esta
criança a transformar sua fantasia e um sono tranqüilo e gostoso. (O travesseiro
incendiado de sua imaginação representava de alguma maneira um lar que naquele
momento estava vivendo momentos difíceis de morte e separação.)
Uma vez que os pais têm dificuldade para entrar em contato com os seus próprios
sentimentos, menor a capacidade e sensibilidade para perceberem os anseios dos filhos
e, muitas vezes, sem perceber, acabam tentando desviá-los e distraí-los de si mesmos
por meio de presentes, divertimentos e atividades que acabam não sendo educativas e
que nao levam à transformação alguma. Um dos exemplos disso é o pai que compra
muitos brinquedos para o filho na tentati-

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va de compensar as dificuldades afetivas da relação, fazendo que o brinquedo deixar de


ter o sentido educativo, lúdico para preencher um outro espaço como a televisão, a
comida e tantas outras coisas. (Se é tão difícil para os próprios pais entrar em contato
com o que sentem, como é que vão sentir e perceber seus filhos com profundidade?)

Nós todos, assim como as crianças, somos espelhos uns dos outros e refletimos e
expressamos dinâmicas e sentimentos que pedem contato, apropriação e transformação.
Dificuldades na escola, tanto em relação a questões de aprendizado quanto às questões
sociais e afetivas, podem ser sintomas de que a criança não está bem. Os pais que não
querem ou não podem ver, não vêem. Se o filho está indo mal na escola, muitos pais se
tornam ainda mais exigentes e agressivos, muitas vezes reforçando ainda mais os
sintomas, sem perceber que por trás disto há um sofrimento que expressa uma profunda
e dolorosa falta.

Por outro lado, existem os pais que conseguem perceber e sentir melhor as carências e
as necessidades de seus filhos e, muitas vezes, sem necessariamente ter argumentos
concretos, intuitivamente, procuram ajuda profissional. E muito mais fácil resolver
qualquer situação quando os pais percebem a importância e valorizam os sentimentos de
seus filhos.

Assim como a Lata de Sentimentos é trabalhada individualmente e em família, podemos


aproveitá-la como um interessante instrumento no trabalho grupal em geral.
Todos nós temos um Mágico artista (nosso lado mais corajoso, criativo e transformador,
e um bruxo — nosso lado mais medroso e paralisado). A medida que trabalhamos isso
no nível individual, facilitamos nosso contato e transformação no nível grupal.

Exemplos de algumas expressões em um dos trabalhos grupais com a Lata de


Sentimentos:

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Foi muito importante poder olhar para os sentimentos que tenho dificuldade de mexer
neste momento de minha vida e vê-los parados dentro da “lata de lixo”, ao mesmo
tempo em que pude tomar consciência de quantos sentimentos já pude entrar em
contato e transformar e que estão em minha Lata de Sentimentos. E muito bom poder
olhar... dar forma aos sentimentos... modelá-los... segurá-los na mão!!!!
Na medida em que entro em contato com minha Lata de sentimentos pessoal, sinto-me
menos ameaçada em entrar em contato com a Lata de Sentimentos grupal! No fundo..,
fazemos parte de uma mesma grande Lata!!!

Não podemos esquecer que como estamos falando de sentimentos, e os sentimentos são
muito particulares e especiais, cada um sente de seu jeito e em diferentes momentos.
Nesses anos em exercício como psicóloga e arteterapeuta, venho cada vez mais sentindo
e me surpreendendo com a capacidade regeneradora, transformadora e criativa do ser
humano.

E um enorme e maravilhoso privilégio estar nesse lugar de “ouvinte e facilitadora” de


processos tão íntimos e sagrados; receber e buscar da vida o compromisso e o desafio de
compartilhar momentos, conflitos e espaços tão preciosos e divinos das pessoas.

(Início da citação)Desde a idade de 6 anos eu tinha mania de desenhar a forma dos


objetos. Por volta dos 50 havia publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que
produzi antes dos 60 não deve ser levado em conta. Aos 73 compreendi mais ou menos
a estrutura da verdadeira natureza, as plantas, as árvores, os pássaros, os peixes e os
insetos. Em conseqüência, aos 80 terei feito
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ainda mais progresso. Aos 90, penetrarei no mistério das coisas; aos 100, terei
decididamente chegado a um grau de maravilhamento — e quando eu tiver 110 anos,
para mim, seja um ponto ou uma linha, tudo será vivo. (Katsuhika Hokusai, séc.18-19).
(Fim da citação)

Palavras aproximam e quase alcançam...

Alcançam formas, expressões, pensamentos, sensações, sentimentos...

Tocam o outro e quase alcançam o absoluto, a verdade, o final, o objetivo, a última


palavra, o último gesto, a última escolha...

Renunciar às palavras é renunciar ao humano, ao amor, a si mesmo e ao outro.

Desejar dar uma forma absoluta e única à palavra é acreditar na visão imóvel do olhar, é
acreditar que existe uma única razão, um único caminho, uma única forma de
experimentar o divino e uma única maneira de saber a vida!

Acredito no poder das palavras, mesmo que insaciáveis em sua pretensão de alcançar
verdades ou expressões absolutas de um ser humano que não pára de buscar e se
desenvolver.

E impossível crescer segurando as mesmas verdades, o mesmo olhar.

Aprendemos quando nos aproximamos das palavras de uma maneira flexível, sem
apego... As palavras tentam nos aproximar de uma certa ilusão de ordem, necessária à
vida e à criação.

A criação recebe sua inspiração no caos, na desordem, na incerteza, mas a criatividade


mantém-se na esperança ou na ilusão de uma certa ordem, como se ao menos naquele
instante criativo pudéssemos nos aproximar daquilo que acreditamos ser o maior de
todos os nossos segredos.
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Escrever liberta
Abraça
Acalma
E a alma silencia suas vorazes vozes
Gulosas da plenitude que buscam
Medrosas da distancia que escondem...
Escrever nos salva do silêncio que grita!

Referências bibliográficas

ABRAMOVICH, F. O estranho mundo que se mostra as crianças. São Paulo:


Summus, 1996.
_____. Literatura infantil. São Paulo: Scipione, 1994.
DURAS, M. Escrever. São Paulo: Rocco, 1990.
GUTTMANN, M. O tempo de armando. São Paulo: Paulus, 2005
_____. Lata de sentimentos. São Paulo: Evoluir, 2005.
_____ .A criação literária na arte-terapia. Revista Arte-terapia, São Paulo, 1998.
_____ .Arte-terapia: um caminho de auto-conhecimento e transformação. Revista
Corpo & Mente, São Paulo, jan./fev. 1997.
LUFT, L. Perdas e ganhos. São Paulo: Record, 2000.
PRIETO, H. Quer ouvir uma história? Lendas e mitos do mundo da criança. São Paulo:
Angra, 1999.
RILKE, R. M. Cartas a um jovem poeta. Rio de Janeiro: Globo, 1995.
Página 149

ENTRE O CAOS E A (DES)ORDEM:


MANIFESTAÇÕES, RESSONÂNCIAS E ESTESIAS
Carlos Théo Lahorgue

(Início da citação) “O homem constrói formas de diálogos para suportar a realidade: o


compromisso neurótico, a estética, a cooperação e o controle são espécies de tentativas
para ordenar a realidade e confrontar a crueldade do mundo. É impossível escapar à
dialógica sapiens/demens a partir da qual se tece a condição humana. Torna-se urgente
assumir o jogo dialógico entre racionalidade e afetividade, prosa e poesia, enquanto
nosso destino.” (Morin, 2001) (Fim da citação)

Um vento súbito impregnava o ar sacudindo as folhas que amarelavam das pontas para
as bases; os cheiros se revelavam sutis e o peso do sol de verão se amenizava sobre
minhas costas. Caminhava pela estrada de terra do parque, que àquela hora da manhã,
ainda sustentava o silêncio da noite anterior sustentava a Gaia compreendida de maneira
completa, não fragmentada, um ser em toda a sua interdependência, a relação complexa
das partes para a visão do todo. Pisava e respirava pelo Parque Harmonia. Harmonia
palavra do latim harmonia, substantivo feminino, acordo, conformidade, proporção,
ordem, simetria, disposição bem ordenada entre as partes e o todo, paz coletiva, paz
entre as pessoas, suavidade.

Súbito: — Fui atingido pela variação.

Mais além dos meus próprios passos, os cheiros e cores se reluzem de asfalto. Asfalto,
palavra de origem latina

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asphaltu, substantivo masculino, impermeabilização, pirobetumiCo asfáltico artificial,


necessidade de revestir, cobrir.

Lembro: — Vamos nos constituindo nas percepções complexas que se misturam às


realidades fragmentadas, nos esforços para criar visibilidades despoluídas e as marcas
culturais herdadas. As imagens que dão prazer e são fatores de agregação entre pessoas
se impregnam de resíduos que modelam os comportamentos da modernidade.

Recuperando Duarte Júnior (2001) observamos que a Modernidade tem suas raízes a
partir do século XII e XIII, e nos séculos precedentes atinge de forma definitiva a vida
do homem habitante de espaços até ali artesanais. O tempo mecanicista transforma o
mundo cíclico das colheitas e semeaduras, em linear; o dinheiro transforma o valor da
criatividade manual qualitativa em valor quantitativo; as navegações e a descoberta de
novas terras induzem o olhar do homem medieval, que se projetava para cima e para
Deus — numa visão de mundo pronto — em um homem renascentista que olhou para a
construção de um mundo para si, o olho para baixo e para frente, a noção de futuro a
partir de um progresso em que tudo amanhã será melhor.

No século XVII, a cientifização do conhecimento impõe a mensuração das partes que se


tornam mais importantes que o todo; o homem é pensado como sujeito antagônico ao
objeto, mente separa-se do corpo. A Revolução Industrial faz o homem reeducar o corpo
ajustando-se a uma lógica produtiva. Essas brutais condições atingem-no com sua
precariedade de trabalho, provocando aumento de doenças e gerando mudanças
psicológicas. No século XIX, as grandes invenções levam o homem a pensar que havia
chegado à era de ouro, mas as grandes guerras da primeira metade do século XX diluem
o sonho técnico-científico tornando-o agudo — o homem se parte em milhões de partes
em uma bomba atômica sobre Hiroxima.

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A Modernidade, para Meira (2002), será pensar a Grande Ordem, razão para entender a
vida que deve caber no modelo que é a Ciência, a realidade primeira. O presente nega o
passado, pois a felicidade é o futuro. A realidade fora do homem. Para que pensar ou
criar se tudo está pronto? Ousar acredita transgredir; mas a Modernidade não pode
correr riscos. Tudo na Modernidade é a Média, no centro o padrão, fora da curva, a
desrazão, o mítico, o afeto, a arte, a criança, o velho, a criação, o saber popular; negados
porque instáveis.

(Início da citação) Mas há algo que a ciência não pode fazer.


Ela não é capaz de fazer os homens desejarem plantar jardins.
Ela não tem o poder de fazer sonhar...
Porque o desejo não é engravidado pela verdade.
A verdade não tem o poder de gerar sonhos.
E a beleza que engravida o desejo. (ALVES, 2001, p. 26). (Fim da citação)
Antes de instar para a idéia do triunfo da razão, o homem vivia num infinito sem tempo,
em que o espaço era um sem-espaço, um vazio ou um cheio, pouco importa uma
imperfeição que nos possibilitava uma evolução que não necessariamente nos
aproximava da perfeição que a Modernidade exigiu; mediu, tornou pensamentos
lógicos, ordenados, cartesianos, pretensamente garantindo a finitude do Universo. No
processo criador dos seres humanos germinava a separação dos opostos, a luz e as
trevas, o dia e a noite, marcando assim o início de uma medida para o tempo. O caos se
instaurou como rebeldia e desordem, sendo considerado maléfico para a humanidade.

A pretensa grande ordem moderna organiza o caos, gerando a separação dos opostos,
colocando os elementos básicos — a água, o fogo, o ar e a terra — cada um deles em
seu lugar, causando a fragmentação dos sentidos da espécie humana, das suas relações
com o Outro e com o Universo.

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O pensamento científico emergiu para um dogmatismo que impunha respostas a todas


as perguntas, aferindo a estas um resultado simétrico, concreto e exato, circunscrito na
idéia a ser reproduzida para que se pudesse reconstruir a trajetória determinista e
observável da experiência. O protótipo controlador do mundo distribuiu sorrisos e
certezas apoderando-se e dominando o funcionamento da natureza humana, o óbvio na
física clássica construiu “uma visão do mundo apaziguante e otimista”, ao mesmo
tempo, invadiu e agrediu a humanidade, pronta a acolher no plano individual e social, a
pretensa idéia de progresso: “Se soubermos as posições e as velocidades dos objetos
físicos num dado instante, podemos prever suas posições e velocidades em qualquer
outro momento do tempo.” (NICOLESCU, 2001, p. 18-19).

A realidade aceita, objetiva-se no plano científico, separa-nos do plano espiritual, afasta-


nos das subjetividades, dos saberes como fruto da imaginação, rejeitando com desprezo
as características idiossincráticas de cada ser humano, jogando nas trevas da
irracionalidade: o espiritual e a natureza.

Afirma Nicolescu (2001, p. 21) que, assim:


(Início da citação) O ser humano torna-se objeto: objeto da exploração do homem pelo
homem, objeto de experiências, de ideologias que se anunciam científicas, objeto de
estudos científicos para ser dissecado, formalizado e manipulado.

Mas esse único nível de realidade se torna inconcebível diante de tantas incertezas.
Como asseveram Morin e Moigne (2000), a partir de 1900, o conhecimento
simplificador, embora hegemõnico, entra em uma crise que vem a marcar a primeira
revolução científica e que se opera sobre a ordem, a separabilidade, a redução, a lógica.
Ainda uma segunda revolução científica se manifesta com o apareci-

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mento e “pela emergência das ciências sistêmicas, dos reagrupamentos das disciplinas
muito diversas, em torno do complexo de interações e/ou de um objeto” (MORIN;
MOIGNE, 2000, p. 103). Diante das exigências do mundo globalizado e das muitas
respostas possíveis para atender as necessidades de busca de sentido, o humano se
apresenta enquanto ser aprendente de um mundo complexo. Afetado na base, a suposta
separabilidade e a redução, embrenha-se e testemunha a descontinuidade no campo da
física quântica, que pensa a energia como uma possível estrutura discreta, uma simples
quebra no contínuo, uma fratura, um descontínuo. “O Quantum de Planck, que deu seu
nome à Mecânica Quântica, iria revolucionar toda a física e mudar profundamente nossa
visão do mundo” (NICOLESCU, 2001, p. 23).

Diante de valores universais abalados de probabilidades, incertezas, situações


complexas, abrimos uma caixa de Pandora: o não localizado, o ponto não preciso do
espaço, o ponto não preciso do tempo, o indeterminismo, o aleatório, a não
separabilidade, o diálogo entre contrapontos, o erudito e os saberes populares, uma
pluralidade complexa, pulverizada, e literalmente provocando um big bang disciplinar.
Assim, as ciências, que traçavam seu rumo com os especialistas, contemplam o
conhecimento ligado à vida e à vontade de cada ser de situar-se no universo conforme a
sua vontade. Esses especialistas produziram uma enorme quantidade de conhecimento
para ser estocado em bancos de dados manipuláveis: um saber produzido para não ser
pensado, refletido ou discutido entre pessoas, mas para ser armazenado, exprimindo: “o
dilema dos especialistas [isto é, demonstrando que] eles próprios não podem ter uma
idéia geral sobre suas especialidades, [enclausurados], proíbem-se a si mesmos de ter
idéias gerais sobre outros assuntos” (MORIN; MOIGNE, 2000, p. 30-31) num universo
que visivelmente apresenta-se em aparente multiplicidade, diversidade, caos.

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Conforme Gleiser (1997, p. 29):

(Início da citação) O Universo surge através da tensão [...] Aqui, as potencialidades de


Ser e Não — Ser coexistem simultaneamente, sem que exista ainda uma separação entre
os opostos. Essa tensão por fim gerará matéria que, por meio de um processo contínuo
de diferenciação tomam as várias formas que se manifestam num mundo natural. (Fim
da citação)

Vivemos inseridos num orbe complexo dentro deste Universo, em que, macrocosmo e
microcosmo se fundem. As substâncias físicas que organizaram de modo
termodinâmico a terra, nas grandes fervuras químicas e nas inumeráveis descargas
elétricas, ganhou a vida. Afirmam Morin e Moigne (2000, p. 26):

(Início da citação) A vida é solar: todos os seus ingredientes foram forjados num sol e
depois reunidos num planeta cujos componentes foram cuspidos por uma explosiva
agonia solar [...] [e salienta ainda que] nós, seres vivos, por conseqüência, humanos,
filhos das águas, da Terra e do Sol, somos uma formiga, talvez um feto, da diáspora
cósmica. (Fim da citação)

Iminente estarmos inseridos na complexidade imensa dos pensares do mundo, das idéias
enquanto matizes transformadores da natureza humana, pois descendemos de “algumas
migalhas da existência solar, [somos] um frágil broto da existência terrestre” (MORIN;
MOIGNE, 2002, p. 26).

A mente criadora do homem, para Morin e Moigne (2002, p. 30), é um “metavivo” isto
é, organiza-se a partir de aptidões cognitivas e cria novas formas de vida, “psíquicas,
espirituais e sociais: a vida do espírito não é uma metáfora, nem a vidã dos mitos e das
idéias”. Assim, para todo o processo de constituição cultural será necessário pensarmos
que estes são evolutivos por:

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(Início da citação) Inovações, absorção do aprendido, reorganizações; são as técnicas


que se desenvolvem; são as crenças e os mitos que mudam; foram as sociedades que, a
partir de pequenas comunidades arcaicas, se metamorfosearam em cidades, nações e
impérios gigantes. No seio das culturas e das sociedades, os indivíduos evoluirão
mental, psicológica, afetivamente. (MORIN; MOIGNE, 2002, p. 35). (Fim da citação)
Prontamente da natureza humana emerge o transcendental, que não será o resultado de
um mero jogo natural ou de somente uma classe de seres, mas pressupõe a intervenção
de princípios superiores, um resgate que ceda espaço para o compartilhamento de
pensamentos diversos, e de racionalidades abertas, que Morin (2002a, p. 105)
reconhece como:

(Início da citação) O tecido imaginário/simbólico, que ajuda a tecer nossa realidade [...],
quando é autocrítica e aberta [...]. Pode reconhecer limites, compreender as
características humanas profundas do mito e da magia, [fortalecendo o sentido da nossa
existência que comporta em si], incerteza, conflito e jogo [...], sobretudo, concebe em
complexidade as noções de progresso e conhecimento. (Fim da citação)

As atitudes, os comportamentos, os pensamentos, os atos, os fatos e as idéias se


articulam entre si, estão em constante movimento, lidamos com o complexo, com a
incerteza, num mundo em que a tecnologia do conhecimento vem avançando
velozmente. As informações em nosso entorno são tão urgentes, que atropelados pelas
mesmas, somos exigidos a busca de um retorno à apuração dos sentimentos ocultos,
superando os sentidos mais ancestrálicos: a visão, a gustação, o olfato, o tato, a audição.
Conforme assegura Leloup (2002, p. 64):

(Início da citação) O homem é [...] humano naquilo que nele, lhe permite superar-se,
abrir-se ao outro, seja o outro nosso vizi-

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nho, o nosso próximo, aquele que encontramos, ou o Totalmente Outro. Privar o homem
dessa dimensão equivale a privar o homem de sua dimensão espiritual. (Fim da citação)
A arte diante das dubiedades das situações vividas pela espécie humana, neste mundo
implexo, possui a missão de resgatar em cada sujeito sua capacidade de perceber as
complementaridades das relações humanas e do Universo e constituir espaços para o
desenvolvimento das suas capacidades, sem o amordaçamento e o controle de
conhecimentos, visando à produção de saberes que permitam implementar, nos meios
mecanicistas, processos que viabilizem o despertar de uma consciência que reencante o
ser humano na sua essência. Certificam Zohar e Marshall (2000, p. 203) que “as forças
vitais, integradoras, do centro está presente em todos os seres vivos e, em especial, nos
seres humanos, devido à natureza de nossa consciência”.

Capra (2002 p. 81) menciona que a:

(Início da citação) Noção de espiritualidade é coerente com a noção de mente encarnada


que está sendo desenvolvida pela ciência da cognição. A experiência espiritual é uma
experiência de que a mente e o corpo estão vivos numa unidade. [...] essa experiência da
unidade transcende não só a separação entre mente e corpo, mas também a separação
entre o eu e o mundo. A consciência dominante nesses momentos espirituais é um
reconhecimento profundo da nossa unidade com todas as coisas, uma percepção de que
pertencemos ao universo como um todo. (Fim da citação)

Complementando o pensamento de Capra, Morin afirma que existe uma unidade


humana e uma diversidade humana, e ainda, a unidade está na diversidade e vice-versa.
Sendo assim, a extrema diversidade não deve mascarar a unidade, e nem mesmo a
unidade básica, mascarar a diversidade, deve-se, portanto, evitar que a unidade
desapareça

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quando surge a diversidade e assim reciprocamente. Morin, diante desse pensamento de


unidade e diversidade, discorre que nas culturas existe uma diversidade que é o interior
dos indivíduos. Essa unidade humana:
(Início da citação) Não pode reduzir-se a um termo, a um critério, a uma determinação
(nem somente genética, cerebral, mental, cultural) [e fundamenta que] a variedade de
indivíduos, de espíritos, de culturas, tornou-se fonte de inovações e de criações em
todos os campos. (MORIN, 2002a, p. 65-66). (Fim da citação)

Morin (2002a, p. 65-66), ainda, diz que “o tesouro da humanidade está na diversidade
criadora, mas a fonte da sua criatividade está na sua unidade geradora”. Entretanto, o
ser humano dentro desse contexto é desafiado a perceber a unidade existente na
diversidade: o corpo e a mente, o eu e o mundo, compreendendo o Universo como um
todo.

Diante disso Capra (2002, p. 81-81) assegura que:

(Início da citação) Essa sensação de unidade com o mundo natural é plenamente


confirmada pela nova concepção científica da vida. A medida que compreendemos que
a física e a química básicas são as próprias raízes da vida, que o desenvolvimento da
complexidade começou muito tempo antes da formação das primeiras células vivas e
que a vida evoluiu por bilhões de anos usando sempre os mesmos padrões e processos,
percebemos o quanto estamos ligados a toda a teia da vida. (Fim da citação)

O panorama atual da humanidade clama pela cooperação, pela relação, pela força, pela
vitalidade, por influências benéficas, por entusiasmo criador, exigindo que a pessoa,
perceba-se integrada ao planeta, à natureza humana, a todos sistemas vivos,
conduzindo-o a apreender o sentido da vida e a compreender o mundo enquanto uma
ordem maior. Assim, assevera Capra (2002, p. 82) que:

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(Início da citação) A nossa mente é encarnada, nossos conceitos e metáforas estão


profundamente inseridos nessa teia da vida, junto com o nosso corpo e cérebro. Com
efeito, nós fazemos parte do universo, pertencemos ao universo, e nele estamos em casa;
e a percepção desse pertencer, desse fazer parte, pode dar um profundo sentido à nossa
vida. (Fim da citação)
Um sentido que pode ser entendido naturalmente, espontaneamente, próprio do homem,
que não negando a evolução vegetal ou animal, inclui divindades, sociedades,
organização de sociedades, inventa a roda, as máquinas e os computadores, ornamenta
as poesias, as pinturas e os interiores, intelectualiza conceitos e constitui teorias, institui
leis, mas, sobretudo exclama por sujeitos criadores. Morin (2002b, p. 107) reconhece “o
papel do inconsciente e do imaginário na criatividade”, que nos leva a aceitá-la “no seu
mistério”. Propõe o autor que o grande mistério do espírito “está, de fato, na
criatividade, nas capacidades criadoras [...] que concretizaram gigantescos ectoplasmas
de real “imaginário”, e, nessa aventura, todo o criador “é possuído pela obra que cria
[...] em que dá existência a emanação do espírito” (MORIN, 2002b, p. 107).

Mais do que seres humanos somos uma emergência da extraordinária Criação do


Universo, que propõe:

(Início da citação) Uma conjunção organizadora entre o cérebro humano e a cultura;


essa emergência (dotada de propriedades novas em relação ao que a produziu), não
somente faz eclodir as mais ricas qualidades do ser humano, mas manifesta
surpreendentes poderes através das magias [...]. (MORIN, 2002b, p. 108). (Fim da
citação)

Nosso espírito é um complexo que comporta nosso psiquismo, que revela a pessoa e
suas subjetividade afetivas. Para tanto, a arte, em consonância com o conhecimento,

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inclui a compreensão, a consciência, a transformação social manifesta no olhar; na


emoção, no sorriso, além da prosa, além da poesia, além da música, organizando o
pensamento como energia de vontade, pois “nossa alma, e espírito, são emergências de
virtudes complexas, de fenômenos de totalidade” (MORIN, 2002b, p. 109). Então, para
que a experiência em arte seja significativa faz-se necessário que apreendamos a
harmonizar com o mundo que coabitamos, pois “todos nós seres humanos e
independentemente de estarmos ou não conscientes disso, somos co-criadores no fluir
das realidades variáveis que vivemos” (MATURANA, 1999a, p. 195).
(Re)conhecer, ou de como conhecer de novo

A situação de arteterapia está envolvida de situações que primordialmente partem de


uma vivência cotidiana, portanto uma práxis, em que instâncias do fazer geram e são
geradoras de novos fazeres, e de teorias que venham a alimentar as especificidades da
arte como processo gerador de cognições que possam apreender a beleza como caminho
para a estetização do homem na sua relação estésica com o Universo, isto é, a noção de
beleza como percepção simbólica e sensorial, o mundo como presença no corpo e este
como presença no mundo, ou seja, recuperar situações vividas como lugar de
instauração de novos sentidos (FRAGA, 2001).

O caminho da fenomenologia assume sua relevância principalmente na pesquisa sobre a


criação de imagens e na construção de sentidos que estas propõem aos sujeitos
preocupando-se, como salienta Fraga (2001) sobre como os textos produzidos afetam
nossa experiência, afetando-nos, portanto, reconciliando-nos com nossos espíritos.
Como instância construtiva, penso a necessidade do cotidiano em sua busca de um
sentido de humanidade e espiri-

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tualidade, *motivando* em oficinas de arteterapia, objeto deste texto, para a percepção


de que — em vez de sentirmonos pequenos e sem valor diante de um Universo imenso e
complexo — a partir de uma relação de respeito com o todo, novos e maravilhosos
panoramas revelarão a natureza e a possibilidade de transcendência na humanização
fundamentada no amor.

Nota de canto de página para *motivando*: Motivação vem da raiz latina “movere”:
mover-se, que se dá por meio de motivos, isto é razões para agir. Todo motivo é de fato
um valor interiorizado. A qualidade dos motivos que levam as pessoas a se moverem é o
que representa o aspecto chave do seu desenvolvimento motivacional. O querer da
vontade é sempre um querer motivado, além de intelectualizado. A motivação pode ser
entendida como o conjunto dos nossos motivos, quer dizer, de tudo aquilo que, a partir
do nosso interior, nos move a fazer, a pensar e a decidir. Pode expressar também a ajuda
que nos presta outra pessoa para reconhecer os nossos motivos dominantes, a ter outros
mais elevados, a retificar motivos torcidos, a ordená-los ou hierarquizá-los. Podemos
dizer que não se consegue motivar as pessoas, e que, paradoxalmente, é fácil desmotivá-
las. Por isso, a preocupação constante deve ser prevenir situações que possam
desmotivar as pessoas (SOUTO, 2002).

(Fim da nota de canto de página)

A pesquisa fenomenológica, que se caracteriza aqui em vivências em arteterapia, exige


que nos atenhamos à participação. Necessário é motivar o agir a partir da inter-relação e
da interdependência complexa das dimensões física, biológica, psicológica, social,
cultural e espiritual, que venham a constituir um ser humano humanizado, que prioriza o
auto-respeito e a auto-humanização. Busco uma inter- relação, como suporte para uma
metodologia, na teoria desenvolvida pelo biólogo Maturana: um encontro amoroso,
ético e estético com o outro, no respeito a sua legitimidade. Desvelo meus, nossos
sentidos, nos símbolos da fenomenologia de Bachelard e viajo pela Imperfeição
Semiótica observada por Greimas, que nos possibilita, numa outra instância, a busca de
um sentido para a vida e, sentir a vida, será viver- se espiritualmente, como ato
cognitivo, para que as experiências estéticas sejam um caminho para a ressemantização.

Nas últimas décadas do século XX e início do século XXI, nasce uma forte corrente de
pensamento que propõe uma

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visão da existência, buscando observar ou perceber a vida e o universo de forma mais


ampla. As leis controlávejs que haviam dominado as ciências passaram a ser vistas
como interpretações humanas de fenômenos muito dependentes de realidades variáveis,
da própria natureza e de quem os observam. Esta é uma das múltiplas possibilidades em
que os aprendentes da arteterapia constroem suas “aprendências”.

O mundo é uma multiplicidade interativa de intenções. Para a fenomenologia da


percepção o conhecimento do mundo se constrói no fazer parte do mundo e não na
diferença entre nós e o mundo. Nosso espírito e nosso corpo são inseparáveis, logo, a
experiência estética, deve estar ligada a uma significação vivencial, emotiva, afetiva,
espiritual, cognitiva.

Narrar processos de vivências estéticas e espirituais é fazer vibrar todos os sentidos, é


elevar-me e sentir-me para além, ser profundamente tocado pela estesia do acontecido,
deixar- me sucumbir, criar, sacudir, penetrar, fluir... Espiritualizar.

O retorno às fontes

(Início da citação) A fenomenologia da imagem exige que ativemos a participação na


imaginação criante. Como a finalidade de toda a fenomenologia é colocar no presente,
num tempo de extrema tensão, a tomada de consciência, impõe-se a conclusão de que
não existe fenomenologia da passividade no que concerne aos caracteres da imaginação.
Para além do contra-senso em que se incorre com freqüência, lembremos que a
fenomenologia não é uma descrição empírica dos fenômenos. (BACHELARD, 2001, p.
4). (Fim da citação)

O flamboiã vermelho cobria quase que toda a esquina. Sentei a sua sombra. Uma brisa
quente soprava na espera do ônibus que passaria às 16h45. Eu ainda teria ali quase meia
hora. Algumas pessoas chegavam carregadas de ba-

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gagens que, pela aparência e volume, deveriam conter suprimentos comprados em


armazéns dos arredores. Os cheiros de bolacha, carne fresca, farinha e café se
misturavam àquelas das flores do flamboiã. Respirava com dificuldade e o peso do sol
ardia o chão levantando uma leve poeira que entrava vagarosa nas narinas. Um leve
suor umedecia meu corpo.

Quando o ônibus se encostou à calçada, senti um nó nas tripas, metade dos corpos se
projetava para fora, buscando refrescar-se ao vento. Entrei e estiquei o olhar para o
fundo do ônibus, vi que ainda havia lugares vagos e no trajeto que fiz pelo corredor
estreito, senti o cheiro de suor e terra. Os gaúchos e as gaúchas acomodavam-se nas
velhas poltronas, de suas sacolas tiravam os salgadinhos comprados na cidade. Pacotes
de cores vibrantes. Um aroma de queijo passado infestava o ambiente.

Uma poeira marrom claro, que impregnava os poros, entrava com o vento forte
produzido pelo deslocamento de ar provocado pela velocidade do veículo, senti uma
lerdeza que projetava minhas pálpebras para baixo, lentamente elas fecharam-se. Dormi
ao som de conversas campeiras e solavancos da estrada de terra. Uns vinte minutos
depois acordei assolado, mas com o corpo já acostumado ao ginetear do ônibus, à minha
direita o sol começava a descer e o verde dos campos brilhava em meus olhos, pensei
em Dilthey (apud FLORES, 1987) e seu conceito de vivência dizendo que esta é
símbolo verdadeiro da experiência plena e não mutilada da realidade plena e total.

A estrada cortava os campos como se fossem ranhaduras marrons, ocres, vermelhos, me


pareciam feridas. Em contraste: a suavidade da água que corria pelos arroios como finas
veias adocicadas que me faziam a saliva gróssa de desejo. Matos de eucaliptos
abrigavam ovelhas desgarradas enquanto o gado vagarosamente pastava nas margens
dos açudes. Em meus olhos rápidas planícies pampianas

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apresentavam-se cortadas por cerros e vales. Rochas brilhantes se projetavam para fora
da terra.

Distantes umas das outras em alguns quilômetros, viam- se casas abrigadas pela sombra
das grandes figueiras centenárias, próximo a elas galpões protegiam a alfafa cheirosa e
as rodas de chimarrão que neste entardecer se formavam para o relato dos causos.
Homens de olhar horizontalizante de pampas. Pausas longas nas falas, tempo dado entre
um e outro chimarrão. Na querência das fronteiras inexistentes, tropeiros se juntam uns
aos outros, trazendo o gado de cria, o cheiro do charque exala. A noite cai sobre o
pampa.

E assim o minuano da noite soprava Dilthey (1978, p. 55):


(Início da citação) [...] vivência é a própria vida reduzida nas suas proporções mais
diminutas e ao mesmo tempo mais fidedignamente representativas do modelo em
tamanho original [...] ao encerrar a própria vida, é, como esta, continuamente sua
própria prova.

A vida e a arte da natureza pensadas como uma produção estética no eu sujeito receptor,
um estado de pura manifestação do vital que me encaminha a outras esferas da
existência. Sair do estado já conhecido, na verdade, a produção de um novo estado, o eu
muito mais criador do que intérprete, um eu muito mais consciente, defendido por
Bachelard (200 la, p. 5) como sendo essa tomada de consciência:

(Início da citação) Um crescimento de consciência, um aumento de luz, um reforço da


coerência psíquica. Sua rapidez ou sua instantaneidade podem nos mascarar o
crescimento. Mas há crescimento de ser em toda a tomada de consciência. A consciência
é contemporânea de um devir psíquico vigoroso, um devir que propaga seu vigor por
todo o psiquismo. A consciência, por si só, é um ato humano. É um ato vivo, um ato
pleno. (Fim da citação)

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Nesse ato de consciência e percebendo que neste momento as estrelas rebordavam o céu
e os tropeiros acalmavam o galope procurando o aconchego dos pelegos, eu procuro a
reconciliação com o princípio do prazer na existência destas inúmeras paisagenS de
naturezas transitórias e descontínuas. Descobrir que cada sujeito está impregnado de um
poder estético, todos são sensíveis à arte em vivenciando-a, uma aposta na vida e numa
postura definitivamente estética.

Busco assim, na organicidade dos brilhantes cristais de sal grosso a matérica para a
vivência que proponho — quando amanhece o dia seguinte — aos seis grupos, cada um
deles com quase sessenta mulheres. Reelaborar o nível afetivo das relações e materiais,
no tocar, mexer, olhar, perguntar, explicar, amar, adorar, pois é aí que são processadas
diversas experiências, é no vivenciar que se estabelece uma relação sujeito-atividade e
se recria sujeitos-que-fazem. Sujeitos cuja consciência é dada em suas vivências, sendo
esta para Dilthey “a condição fundamental imposta pelo princípio da fenomenalidade,
para a determinação dos fatos da nossa consciência, resume-se na necessidade de eles
serem vivenciados por nós” (AMARAL apud FLORES, 1987, p. 49).

Seguido pelo curso da vida o sol foi acordado pelo som do Orim, instrumento musical
de origem oriental, que proporciona, conforme acreditam esses povos, o encontro do
sujeito com o Universo, seu som repousa no núcleo de captação e criação, na relação
entre sentimento e imagem, entre significação e manifestação, entre interior e exterior.
O som do Orim ecoava pelos corredores que eram quatro ao todo, iniciados em um
centro comum. Cada turma trabalharia em um destes corredores.

Para a meditação que prepararia corpos e *almas* para toda a seqüência de trabalhos, as
mulheres acomodaram-

Nota de canto de página para *almas*: Em dicionário dos símbolos ( CHEVALIER;


GHEERBRANT, 1998, p .31) o significado da palavra alma evoca um poder invisível:
ser distinto parte de um ser vivente ou simples fenômeno vital; material ou imaterial,
mortal ou imortal, princípio de vida, de organização, de ação; salvo fugazes apariçóes,
sempre invisível, manifestando-se somente por meio de seus atos. Por seu poder
misterioso, sugere uma força supranatural, um espírito, um centro energético. Mas
evocadora de invisível poder e provocadora de um saber, de uma crença ou rejeiçao, a
alma possui, nessa dupla qualidade, pelo menos o valor de símbolo, tanto pelas palavras
e gestos que a exprimem como pelas imagens que a representam.

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se estiradas na laje refrescante que cobria o chão. Minha alma e corpo se enchiam de
pensamentos impregnados pelas moléculas dos corpos-almas femininos que me
rodeavam. Como elaborar um discurso e discorrer uma proposta que provocasse o
despertar de paixões nessas almas-casas femininas, nesta casa que necessita ser invadida
por imaginações, pois, como no dizer de Bachelard (2000, p. 62) a imaginação
converter-se-á:

(Início da citação) No próprio centro do ciclone, é preciso superar as meras impressões


de conforto que sentimos em qualquer abrigo. E preciso participar do drama cósmico
enfrentado pela casa que luta. Todo o drama... é um teste de solidão. Deve, homem de
uma raça feliz, elevar sua coragem, aprender a coragem diante de um cosmo rude,
pobre, frio. A casa isolada vem dar-lhe imagens fortes, isto é, conselhos de resistência.
(Fim da citação)

Foi assim, que adentrando, falei do céu e da terra, das águas e do fogo, dos animais e da
natureza, dos nossos filhos e dos parentes, dos amigos e daqueles de quem guardamos
mágoas, do trabalho e de coisas que desejamos que mudem em nossa vida.
O Orim soava cada vez mais intenso, podíamos senti-lo explodindo dentro do nosso
sangue, dentro do nosso corpo, dentro do nosso coração, dentro de nossas mentes, nos
levando devagar e intensamente para lugares prediletos, únicos. Aos poucos fomos
voltando e pedi que se agrupassem de seis em seis. Cada grupo decidiria o que desenhar
num

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papel kraft de 1,20 cm x 2,00 cm. Os desenhos foram unidos e um grande tapete cobriu
o corredor. O traçado de linhas novamente me fez recordar o filósofo afirmando que
“em cada obra-de-arte opera-se um modo e maneira de ação unitária, como um traçado
interior de linhas que vão desde a repartição de massas até o menor dos ornamentos”
(DILTHEY, 1978, p. 286).

Solenemente olhávamos para os desenhos que dramatizavam nossos dias e noites, o sol
e a lua, que assumiam seu sentido em sua designação como pares, pois:

(Início da citação) Um par domina outro par, um par engendra outro par [...] De fato,
logo que um ser do mundo se vê investido de uma potência, está bem perto de se
especificar, quer como potência masculina, quer como potência feminina. Toda a
potência é sexuada. Pode mesmo ser bissexuada. Jamais será neutra, jamais, pelo
menos, permanecerá muito tempo neutra. (BACHELARD, 2001a, p. 34). (Fim da
citação)

Despejamos os cristais de sal em sacos pretos, o branco dos cristais mostrou-se ainda
mais branco. As mulheres, sentadas ao chão lavavam as mãos com o sal, brincavam de
percorrer estradas e elaborar caminhos. O ar tornou-se leve e uma brisa marinha encheu
o corredor, minha pele sentiu o gosto do sal e imaginei o quanto todos os corpos
estariam sentindo a mesma sensação.

Distribuí pequenos potes de tinta em pó, a mistura coloria o sal e uma gama infinita de
cores começava a brilhar os olhos daquelas mulheres. Lembro de ver as cores refletidas
em seus olhos como se fossem pedras das mais preciosas, vagarosamente, com prazer
que se mostrava em movimentos, andares, olhares, suspiros e palavras não ditas, elas
iam colorindo seus desenhos numa “dialética do masculino e do feminino que se
desenvolvia num ritmo da profundeza. Viajávamos do menos profundo, sempre menos
profundo (o

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masculino), ao sempre profundo, sempre mais profundo (o feminino)” (BACHELARD,


2001a, p. 56). Um tapete reluzente surgia e a matéria tirada da terra se transformava, se
iluminava, transluzia. Tudo ocorria como se figuras do mundo se levantassem sobre nós,
como se as cores dos cristais estivessem transformando os corpos em imagens, como se
as construções interpretassem atitudes e gestos, como se estivessem escrevendo suas
paixões sobre seus rostos, enchendo de beleza seus movimentos, alimentando como nos
ensina Bachelard (2001b, p. 60):

(Início da citação) As imagens serenas, dons dessa grande despreocupação que constitui
a essência do feminino, sustentam- se, equilibram-se na paz da anima. Essas imagens se
fundem num calor intimo, na constante doçura em que se banha, em toda a alma, o
âmago do feminino. (Fim da citação)

Em momentos como estes, afirmamos que os elementos constitutivos da captura estética


estão:

(Início da citação) Na trama da cotidianidade, na espera, na ruptura da isotopia que é


uma fratura, o transtorno do sujeito, o estatuto particular do objeto, a relação sensorial
entre ambos, a unicidade da experiência, a espera de uma total conjunção que virá.
(GREIMAS, 1997, p. 36-37). (Fim da citação)
Caminhamos em passos miúdos, milímetro por milímetro percorrendo o tapete que
adornava agora o corredor. Estávamos calados, nos alimentávamos com o olhar cheio de
cores, as palavras se tornavam desnecessárias. Paramos. Vimo-nos. Suores e lágrimas se
misturaram. Amamo-nos.

Dia após dia os corredores iam enchendo-se de luz, cor e formas. Passeávamos como se
estivéssemos olhando vitrinas e a cada passo vestindo os modelos expostos. As sombras
e luzes dos dias penetravam pelas janelas iluminando os rebordados tapetes, nossos
corações se enchiam de or-

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gulho e nossas naturezas poéticas se reavivavam na captação estética procedentes das


relações de estados internos com processos externos. Sobretudo isso ficava a impressão
do sublime como nas palavras que Dilthey (1978, p. 291) declara:

(Início da citação) A arte nos interpreta a parábola do fugaz, por isso, será um
verdadeiro artista aquele que nos amplia sua interpretação. Os copistas da realidade
nada ensinam que um homem sensato e bom observador já não saiba. Não são melhores
que os idealistas, que de sua parte não fazem senão repetir aquilo que a arte a muito
tempo já comunicou. (Fim da citação)

Após a vivência com o material plástico, uma outra vivência era proporcionada por
meio de reflexão, elaborada e apresentada pelas mulheres. A reflexão remete os sujeitos
ao núcleo da experiência vivida e transforma o vivido em possibilidade de mudança.
Esse tempo não só virá a exemplificar o resultado da experiência estética, mas o quanto
esta tenderá a coincidir com a experiência semiótica, isto é, as mudanças ou translações
sofridas no tempo e espaço diversificam o Universo de relações significativas.

Procurávamos alguém que soubesse viver por muitas pessoas. Que soubesse chorar na
vitória e chorar na derrota, sorrir para consolar, sorrir para agradar. Que gritasse
diante das traições e das injustiças, que soubesse o que é certo e o que é errado, que
definisse as melhores coisas das piores, que amasse seu próximo auxiliando-o. Diante
das brigas construísse a amizade. Que não fosse apenas um corpo entre muitos, mas
que fosse *gente*.

Nota de canto de página para *gente*: Alunas do Curso de Pedagogia para Formação de
professores em Serviço, Turma 32, Urcamp, janeiro de 2000.

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Mostra-se no texto o tempo que antecede a vivência e este é marcado na palavra


procurávamos, a procura e a predisposição do sujeito estará marcado pela incessante
busca. Essa busca é, para Greimas (1997, p. 40), usada como “termo figurativo, que
designa ao mesmo tempo a tensão entre o sujeito e o objeto-valor visado, e o
deslocamento daquele para este [...] o aspecto terminativo da busca corresponderá à
realização ou conjunção entre sujeito e objeto”, o eterno movimento que se torna
gerador de estados que possibilitam um sujeito predisposto a enriquecer-se na vivência.
Uma experiência que supõe os estados predispostos pelos tempos do sujeito —
duratividade —, estados de tempo de espera para um início, estados de tempo de
separação. Estados de tempo de reflexão e estados de tempo de transformação: a
narratividade. Certifica Greimas (1997, p. 93) que esses estados de tempo serão para o
sujeito a “espera do inesperado que se transforma em cada nível em espera esperada do
inesperado”.

A dialógica está clara quando as autoras propõem uma busca na definição do que é certo
e errado, do pior do melhor mas que mesmo assim aceita o outro e ama o próximo. A
fratura acontece, quando, mesmo sobre uma égide cultural busca-se um próximo para
amar, respeitar ser gente.

A semiótica trata do ser como linguagem, isto é, constituído num texto, mesmo que esse
texto seja uma vivência. Um querer ser e um dever ser são proposições que se mostram
no texto como anseios de gritos diante das traições e injustiças e, ainda, apresentam-se
com clareza num dever ser na construção de amizade e de humanidade sublinhada na
expressão gente.
Na continuação do texto vemos que os sujeitos se mostram predispostos para a nova
experiência:

Encontramos você, que não é apenas um homem, é humano, tem sentimentos, tem
coraçao.

Página 171

Que sabe falar e calar, sobretudo sabe ouvir. Que gosta de poesia, da madrugada, de
pássaros, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Encontramos você
que já foi enganado, pois todos os amigos já foram enganados. Não é puro, nem de
todo impuro, mas não é vulgar. Tem um ideal e medo de perdê-lo e no caso de não o ter,
sente o grande vazio que isto deixa. Você tem ressonâncias humanas, e seu principal
objetivo é o de ser amigo e compreende o grande vazio dos solitários. Gosta de
crianças e lastima as que não puderam nascer.

Encontramos é o estado terminativo da espera, é a palavra que as autoras marcam como


início de tempo não emoldurado em tempo cotidiano, mas sim, como forma de
escapatória ou fratura. A vivência começa a ser retomada numa reflexão sobre o êxtase
do vivenciado, é concebida em sua relação particular, em um quadro actancial, entre o
sujeito aprendente e o objeto de valor; isto é, a produção de arte. O silêncio marca a
suspensão do tempo na relação objeto-sujeito, a paralisação do espaço é também vista
através da palavra encontramos.

A fratura entre a dimensão do cotidiano e o deslumbramento que alcança o sujeito em


um acontecimento estético, a partir daí, se traduzem de forma a expressar sentimentos,
ressonâncias humanas que vão inserindo-se no discurso do sujeito atingido por este
relâmpago de manifestações externas, inseridas e misturadas às manifestações internas.
As figurações do mundo apropriam-se gramaticalmente das funções do sujeito de forma
patêmica, a narrativização da vivência enche-se de formas harmoniosas e subjetivações
estéticas. Aqui também o espírito é alcançado pelo resplendor da beleza estética:

Página 172
Encontramos você, que gosta dos mesmos gostos, que se comove quando chamamos de
amigos. Que sabe conversar de coisas simples, do orvalho, das grandes chuvas, das
recordações de infância e deixa aflorar o seu e o nosso devir. Encontramos você que
não nos deixará enlouquecer, pois lhe contaremos o que vimos de belo e triste durante
o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Encontramos você que
gosta de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada,
de mato depois da chuva de se deitar no capim.

Encontramos você que nos diz que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas
porque já se tem um amigo. Encontramos um amigo que nos fez parar de chorar, de
vivermos debruçados no passado em busca de memórias perdidas. Que nos toma em
seus braços chorando ou sorrindo e nos chama de amigos, para termos a consciência
de que ainda vivemos.

A relação entre sujeitos e o vivido, sendo fortemente sensorial, rompe com a isotopia do
cotidiano vivenciado, proporciona uma conjunção total entre o vivido na captura
estética e os estados dos sujeitos. O estremecimento que nos toma em seus braços nos
chama então para uma nova forma de perceber a vida, estabelece um novo paradigma,
pois ainda vivemos.

Minha viagem de retorno foi calma e, meu corpo-alma sentia-se privilegiado por ter tido
a oportunidade dessa “aprendência”. As paisagens transformavam-se novamente e meu
ser com prazer revia a imperfeição semiótica do vivido, Certamente eu não me sentia
mais o mesmo, estava renovado, era outro. Pensei que talvez algumas daquelas pessoas
também estivessem passando por transformações.

Página 172

Um leve desejo de querer mais pulsa no centro de meu corpo e, um raio estrondoso me
dilacera, milhões de mim em um, mais luz, mais luz! Pois:

(Início da citação) O que é que nos resta? A inocência: sonho de um retorno às fontes,
ao momento que o homem e o mundo não eram senão uma única coisa na desordem
original. A vigilante espera de uma estésis única, de um deslumbramento no qual não
estaríamos obrigados a abaixar as pálpebras. Mehr Licht! Mais Luz! (GREIMAS, 1997,
p. 95). (Fim da citação)

E a luz se faz em cada retorno, em cada leitura do trabalho produzido pelo grupo de
mulheres. Reflexões expostas, de forma a dar sentido ao sensível, com todos os sentidos
descobertos, com todas as emoções a flor da pele. Um Universo pertencente.

Visões da outra ilha

(Início da citação) Uma flor, uma fruta, um simples objeto familiar vêm repentinamente
solicitar que pensemos neles, que sonhemos perto deles, que os ajudemos a ascender ao
nível de companheiros do homem. (BACHELARD, 2001a, p. 148). (Fim da citação)

Meus sentidos estavam invadidos pelas imagens que, de um e outro lado da estrada,
tinham se formado durante a época das chuvas. As águas espalhavam-se cobrindo os
campos de um prata-chumbo, pequeníssimos verdes sombreavam e brancos pássaros
invadiam os espaços com seus delgados pescoços: parados, sem movimentos, para, de
repente investir certeiros como flechas sobre os petiscos. A visão tranqüila silenciava a
alma dos ocupantes do ônibus que rápido percorria o brilhante e negro asfalto. A luz do
sol, quando penetrava o preto, dava a impressão de que este era dominado pelas águas.

Página 174

Terra, um milagre para maravilhar-se: as grandes poças d’água, o brilho de suas cores,
suas saliências e reentrâncias, a finíssima camada de gás ao seu redor e a água, suspensa
no gás. Terra, um milagre a celebrar: “Os seres celebrados são promovidos a uma nova
dignidade de existência” (BACHELAR, 2001a, p.l49). Terra, uma imensa esfera azul e
prata, flutuando no aveludado mar do espaço, girando suavemente, como se dançasse
uma melodia inaudível pulsada pelos céus, e as águas rolando em sua dança cíclica para
novamente suspensa em vapores, liberar as chuvas renascidas, que tornarão a encher os
campos realimentando a vida.

Senti-me caminhando pela terra, afetado pelo chão contra a pele, o tato do solo vivo,
morno úmido sob meus pés, e o abraço da terra.
(Início da citação) Por vezes a realidade mais evidente dissolvia-se nas brumas,
enquanto uma ficção de estranha bizarria iluminava o espírito e o tornava
maravilhosamente sutil e lúcido. Então as vagas imagens mentais se condensavam, a
ponto de se acreditar poder tocá-las com o dedo. (BACHELAR, 2001a, p. 155). (Fim da
citação)

Apenas a uns poucos centímetros abaixo da superfície feita pelo homem, um corpo
respira: a mãe Terra. A coerência da vida com suas plantas e árvores, seus animais e
insetos, os microorganismos interagindo e dependendo dos seus respectivos atributos, as
flores silvestres germinando subitamente sobre os pampas, a interdependência da vida e
a Terra Mãe.

As imagens aqueciam-me, e é gostoso nos aquecermos quando abraçados por uma


energia que brota da natureza que nos rodeia, da mãe que nos pariu, pois por ela sou
incorporado e dela me incorporo, ambos os movimentos me fazem fluir num mundo de
bem-estar e felicidade. Mas a

Página 175

Terra feminina e grávida de transformações não tem sido pensada, as imagens e


símbolos da nossa evolução e a própria ontologia do planeta têm sido orientadas,
predominantemente para o pensar a sociedade masculina. Vários movimentos, que
surgiram no final do século XX, têm trazido uma nova “aprendência” e apelam para o
aspecto intuitivo da nossa natureza, não importando o acaso de estarmos vivendo dentro
de uma forma masculina ou feminina.

Eu viajava para encontrar um grupo de mulheres que trabalhariam em uma vivência em


arte. Precisava motivar essas mulheres a se inspirarem e verem a si mesmas como
mulheres, a identificarem-se com a sagrada natureza, com o poder de criar e de nutrir.
Seria preciso despertar a natureza receptiva adormecida, as faculdades intuitivas para
além da mente lógica, permitindo o mundo, sendo o mundo manifesto e sentido, em
cada um de nós, com toda a sua magnífica diversidade.
Nos espaços de terra que se isolavam das águas imaginei ilhas, uma ilha que olha outra
ilha, uma ilha que não se isola em si, mas que se descobre para as outras, uma ilha que
nutre, uma ilha grávida que é luz para todos os elementos que venham dela constituir-se,
tanto homens como mulheres, tanto plantas como animais, tanto terra como águas, tanto
cor quanto forma, uma ilha que cria e ama. Uma ilha que não ama:

(Início da citação) As coisas em função de seu uso próprio o que é próprio do


masculino. São pedaços de nossas ações vivas. Mas amá-las intimarnente, por elas
mesmas, com as lentidões do feminino, eis o que nos conduz ao labirinto da natureza
íntima das coisas. (BACHELARD, 2001b, p. 30). (Fim da citação)

Eis o que nos conduz a descobrir nossas naturezas humanizadas e em conexão com os
nossos estados de alma como denota Landowski (1996, p. 23):

Página 176

(Início da citação) O espírito antes da matéria, ou seja, a forma antes da substância, os


conteúdos conceptuais — o significado — preferivelmente ao significante e aos dados
dos sentidos corporais, o inteligível anteriormente ao sensível: numa palavra, sempre o
que mais inclina para o lado da alma, de uma alma separada — liberada — do peso do
corpo. (Fim da citação)

O sol ardente engravidava a manhã com as luzes que se espalhavam pelas salas, as
mulheres preparavam-se para o trabalho em significar e dar sentido às visões da outra
ilha. Em grupos, fomos nos encontrando para pensar...e lenta-mente as ilhas iam
encontrando-se — sem saber muito bem como e por quê:

(...) a primeira idéia que surgiu foi a de individualidade, pois afinal de contas cada um
é uma ilha. No entanto todo o nosso trabalho de construção para o entendimento do
tema foi construído na base da coletividade. Precisamos de uma ou outra maneira da
construção e da idéia dos outros. Na verdade, todos somos uma ilha apreciando a visão
dos outros, mas vivendo em coletividade e cooperando mutuamente para o bem
*comum*.
Nota de canto de página para *comum*: Alunas do Curso de Pedagogia para Formação
de Professores em Serviço, Urcamp, 2001

Um caminho inicial constituía-se a partir das nossas expressões, das expressões que nos
levam a pensar o outro como vital para a integração pessoa/Universo. Pessoa que se
constitui pessoa na consciência do significado que o outro assume no momento em que
se relaciona em nossa vida e com os fatos importantes que nos ocorrem. As emoções
pessoais passam a ser coletivas, descobrimos com isso que a reflexão sobre o tema, a
partir dos grupos, nos conduz a interpretações que de algum modo estão carregadas de
pressupostos, mas que na diversidade abrem-se a novos sabe-

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res. As sabedorias e as existências que somos revelam-se, organizando um corpo que,


tomado de consciência reflexiva nos faz perceber dos sentidos originais. Os femininos
nutridores de outros femininos, terras que nutrem outras terras na troca de isotopia, isto
é, vendo o outro como legítimo outro na relação, um outro sentido para aqueles que nos
são impostos pelos sistemas dominantes, um sentido que se transforma para que
possamos amar o outro no grandioso, no resplandecente, no prover o mundo. Nossa
imaginação na viagem profunda das coisas, nos fazendo como que videntes de:

(Início da citação) Imaginação poética, manifesta em dois graus: um primário, agente


primordial de toda a percepção humana... que constitui a unificação objetiva da
percepção, pela qual o objeto — ou o mundo — é uno. O outro, secundário, que
dissolve, dispersa para unificar e, como os solve e coagula [...] reencontra a unidade do
mundo e do seu sentido além das multiplicidades. (DURAND, 1995, p. 34). (Fim da
citação)

Assim durante a construção de um sentido, para as visões da outra ilha, cada grupo foi
expressando seus sentimentos interiores e a relação destes com a vida, com a arte, com
a natureza — natureza aquática que rodeava aquelas ilhas, natureza de espaços
qualitativos que poderiam ser caminhados na imaginação. Inundando os espaços por
onde caminhavam, as mulheres poderiam, como atesta Diolé (apud BACHELARD,
2000, p. 211), viver “numa imersão inventada”. Deslocar-se “no centro de uma matéria
fluida, luminosa, protetora, densa, que era água...” as lembranças. Esse artifício bastava
para humanizar:

(Início da citação) Os olhos, os nossos olhos, um mundo de uma secura repugnante,


conciliando-as com as rochas, com o silêncio, com a solidão, com as toalhas de ouro
solar que

Página 178

caíam do céu. A própria fadiga estava amenizada. O peso apoiava-se em sonho nessa
água imaginária. (DIOLE apud BACHELARD, 2000, p. 211). (Fim da citação)

Por meio do imaginário, em encontros com as águas, o ambiente tornava-se como que
envolto numa doce e perfumada nuvem. Respirando os sentimentos, provávamos dos
gostos e percebíamos que:

(Início da citação) O lago, que nos envolvia é o próprio olho da paisagem, e que o seu
reflexo sobre as águas, será portanto a primeira visão que o universo tem de si mesmo,
que a maior beleza de uma paisagem refletida é a própria raiz do narcisismo cósmico.
(DIOLE apud BACHELARD, 2000, p. 211). (Fim da citação)

Nossos pensamentos estavam impregnados pela beleza quando descobríamos que, tanto
o lago olha a paisagem como a paisagem olha o lago; para que um e outro existam será
preciso que se projetem e admitam a existência do outro. O lago olha e, à medida que dá
forma à paisagem a transforma com movimentos e luzes; a paisagem olha o lago e nele
reflete-se. Pensávamos no outro como um legítimo outro nesta convivência, como um
outro que respeitando a si, vendo a si, respeita e assume que é, no cosmos. Nossa
natureza ilha que tem visões e é vista por outras ilhas se fez nascedouro para que assim
pudéssemos decidir por meio de um projeto, qual seria o itinerário que construiríamos e
qual o material usado para constituir este itinerário.

Buscamos dentro das organicidades oferecidas pela própria terra a matérica a ser
plastilizada e o contato com o material utilizado proporcionou-nos o reencontro de
sujeitos com o universo. Além, víamos que não há limites de possibilidades na
plastilização de materiais. Tijolos passaram a simbolizar nossos espíritos unidos numa
construção que foi dando forma a uma cidade em miniatura, mas

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que possuía todas as casas. Brotadas dos nossos seres mais íntimos, mais cotidianos...
Escolas, mercados, biblioteca, hospital e casas, muitas casas, todas coloridas e marcadas
pelos sentires de cada uma das mulheres que se simbolizavam pela imaginação
produtiva.

Assim:

(Início da citação) Através do cortejo dos símbolos o próprio arquétipo diversifica e


singulariza as mensagens do eu inconsciente. Mas símbolos e arquétipos são mediadores
da energia psíquica que constitui a psique; são a reunião dos contrários mais
fundamentais — reunião, conjunção que não é percebida por um discurso de lógica
plana —, a saber, a energia eterna da alma e as manifestações temporais que a
imaginação colhe nas percepções, as lembranças da experiência e a cultura. (DURAND,
1995, p. 36-37). (Fim da citação)

À frente da cidade, um muro foi erguido e nas várias fendas, ossos atravessados. Uma
frase destacava-se, forte e pingada de vermelho: Não desista!

Mulheres que durante três anos davam seu suor para estarem num curso universitário.
Mulheres trabalhadoras que se animavam umas as outras para que o calor; o frio ou a
falta de dinheiro não as levasse a desistir dos sonhos de proporcionar ao mundo uma
nova jornada, um outro paradigma para a existência. Essas mulheres que:

(Início da citação) Nas últimas décadas do século XX, emergem como sujeitos sociais,
históricos e econômicos. Em menos de trinta anos, tornam-se a metade da população
economicamente ativa mundial, na medida em que a sociedade de consumo criou mais
máquinas do que machos. Seres oprimidos em oito mil anos de invisibilidade, as
mulheres começam também a exercer um papel cada vez mais determinante nas
estruturas políticas, sociais e econômicas. (MURARO, 2000, p. 15). (Fim da citação)
Página 180

Mulheres que, construindo suas visões de outra ilha, construíam símbolos, que eram,
como declara Durand (1996, p. 37):

(Início da citação) O encontro necessário de dois modos exclusivos de identidade: a


identidade do simbolizante, que localiza e encarna o sentido, e também a identidade do
simbolizado, que transcende todos os limites locais; que se situa no que a física
moderna chama de não-separabilidade. (Fim da citação)

Vimos na construção que as mulheres iam produzindo uma multidimensionalidade


eidética representada e revelada nas formas artísticas que faziam o uso de categorias
como:

(Início da citação) [...] Reto/curvo, angular/arredondado, vertical/horizontal,


perpendicular/diagonal, culminando num inventário de esquemas de formação, como
por exemplo os diferentes tipos de simetria, de perspectiva. (OLIVEIRA;
LANDOVSKI, 1995, p. 109). (Fim da citação)

Um segundo grupo preparou-se para, com suas próprias mãos transformar — a alfafa,
arame e tábuas — a matéria escolhida em continuidade de possibilidade e expressão
criadora. Envolveram-se várias pessoas na busca do material: o mercado abriu suas
portas às cinco da manhã. O motorista e o cobrador do ônibus, que levava mais de hora
viajando até a universidade, serviram como carregadores e descarregadores dos fardos
de alfafa. Como disseram as mulheres foi *“aquela festa”*.

Nota de canto de página para *aquela festa*: Alunas do Curso de Pedagogia para
Formação de Professores em Serviço, Urcamp, 2001.

(Fim da nota de canto de página)


Quase que saídos das fendas do muro e dos ossos que as atravessavam, a alfafa foi
transmutada na construção de dois imensos *anjos*. Cada um dos anjos colocava-se nos
limi-
Nota de canto de página para *anjos*: o Dicionário de símbolos (CHEVALIER;
GHEERBRANT, 1998, p. 60) apresenta os anjos como seres intermediários entre Deus
e o mundo, mencionados sobre formas diversas. Seriam seres puramente espirituais, ou
espiritos dotados de um corpo etéreo, aéreo; para Rilke, de modo ainda mais amplo o
anjo simboliza a criatura na qual surge já realizada a transformação do visível em
invisível por nós executada.

(Fim da nota de canto de página)

Página 181

tes do muro, estavam de costas para a cidade. As asas estavam abertas para o espaço
infinito e imaginávamos luzes brilhando, luzes saídas dos corpos dos anjos, luzes
projetadas sobre o paradigma do novo, do humano, do coletivo que respeita o outro em
sua essência.

Greimas (1997, p. 86) diz que:

(Início da citação) Há aqui uma coisa do mundo, uma coisa entre as coisas, com uma
utilidade evidente: fechar a casa. Porém, esta coisa é também uma divindade protetora
da casa e além disto uma obra muito bela. Participando das três dimensões da cultura —
funcional, mítica, estética — a coisa converte-se assim em objeto de valor sincrético.
Dotado de memória coletiva e individual, portador de uma significação de múltiplas
facetas que elaboram redes complexas com outros objetos, pragmáticos e cognitivos, o
objeto insere-se em todos os dias da vida agregando-lhe esplendor. (Fim da citação)

Por consenso levamo-nos a buscar nas pequenas pedras de brita a circularidade


mandálica. Os enigmas das abstrações rapidamente procuravam a forma, que se
moldando, mostrou-se como uma grande estrela. Sentíamos a energia vinda da
incessante luz formada pelas cores que se instalavam no chão, à frente do olhar dos
anjos, formando o poderoso círculo. As seis pontas da estrela, saídas de um poderoso
círculo branco, relacionavam pela sua luz sujeitos e objeto.
Víamos nesse momento que o todo nos era evocado e que:

(Início da citação) Cabemos por inteiro na redondeza do ser, que vivemos na redondeza
da vida como a noz que se arredonda em sua casca. O filósofo, o pintor, o poeta e o
fabulista deram-nos um documento de fenomenologia pura. Cabe-

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nos agora utilizá-lo para captarmos a agregação do ser em seu centro. (BACHELARD,
2000, p. 237). (Fim da citação)

Nossas corporeidades, nossos sentidos nossos pensares, estavam agora em estado de


estésis, o grande acontecimento, o caminho: o devir, o deslumbramento.

As ilhas agora pulsavam em vida. Umas e outras se olhavam, umas e outras se


iluminavam, umas e outras viajavam o cosmos e quem sabe, como as galáxias,
explodiam em milhões de outras!

Conjunções patêmicas

(Início da citação) Um clarão de eternidade baixa sobre a beleza do mundo. Sonhamos


enquanto nos lembramos. Lembramo-nos enquanto sonhamos. Nossas lembranças nos
devolvem um rio singelo que reflete um céu apoiado nas colinas. Mas a colina recresce,
a enseada do rio se alarga. O pequeno faz-se grande. O mundo do devaneio da infância é
grande, maior que o mundo oferecido ao devaneio de hoje... Nos devaneios da criança, a
imagem prevalece acima de tudo. A criança enxerga grande, a criança enxerga belo.
(BACHELARD, 2001, p. 96-97). (Fim da citação)

As palavras ecoavam com a força de um trovão, o corpo da mulher vibrava como se


todos os sinos das catedrais estivessem naquele momento tocando, seus olhos brilhavam
como as estrelas que naquela noite enfeitavam o céu, o chão fugia dos pés. O olhar
tranqüilo da mulher era surpreendente e a mais humilde das visões habitava o ventre que
se contrai e se distendia num convite para entrar nas aventuras da vida. Uma imagem
que fazia o mundo sentir-se mais inteiro e ao mesmo tempo efêmero.
De Maria — a mãe, a mulher, a senhora e soberana — e Anel — o anjo, o Fogo de
Deus, o Leão de Deus —, da união de dois seres que estabelecem a constituição do
feminino com o masculino, a integração dos opostos — corpo/alma, mate-

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ria/espírito, terra/fogo, *anima/animus* — situada na história do mundo a vir-a-ser,


nascia naquela noite, Mariel.

Nota de canto de página para *anima/animus*: A anima, de acordo com Jung, comporta
quatro estágios do desenvolvimento, simbolizado por Eva, coloca-se no plano do
instinto e biológico. O segundo, mais elevado, conserva seus elementos sexuais. O
terceiro é representado pela Virgem Maria, em quem o amor alcança totalmente o nível
espiritual. O quarto é designado pela Sabedoria. Qual o significado destes quatro
estágios? A Eva terrena, considerada na qualidade elemento feminino, progride em
direção a uma espiritualização. Se admitimos que tudo o que é terreno tem sua
correspondência no celeste, a Virgem Maria deve ser considerada como a face terrena
da Sophia (grego: sabedoria, ciência) que, por sua vez, é celeste. A anima é o índice
feminino do inconsciente do homem, o animus, segundo Jung, é o índice masculino do
inconsciente da mulher (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1998, p. 35-36). (Fim da nota
de canto de página)

Três anos separaram, num tempo cronológico, a noite do nascimento àquela que agora
se impunha aos olhos. A luz de um abajur de pé iluminava a cena. Em baixo do abajur
uma pequena poltrona e alguns brinquedos jogados, eram os únicos elementos que
faziam parte da dramatização. A entrada lenta e silenciosa da menina vestida em pijama
rosa. Os olhos arredondados e vivos brilhavam, os caracóis escuros dos cabelos
balançavam na alegria do corpo que feliz sentava solenemente na poltroninha, como se
esta fosse o lugar mais sagrado que o mundo até ali pudera proporcionar-lhe. Com
palavras murmuradas, em sua linguagem infantil, pegou um pequeno boneco ao colo e
lenta- mente, como se estivesse dando valor a cada movimento, foi levantando a blusa e
aproximou do seio, o rosto do pequeno boneco. Estava a menina a alimentar o mundo, e
assim como foi pela mãe alimentada, reproduzia e dava sentido aos fenômenos de
coexistência, de vida conjunta num universo que apresenta-se “aberto de espaços para
seus sistemas vivos, uns com os outros no fluir de seu viver... dinâmico, espontâneo e
recíproco, sendo este o fenômeno a que chamamos amor” (MATURANA,1999, p. 183-
184).

A inocência embalava e alimentava o amor com tal profundidade de doação, que


rompeu com todos os pensamentos teorizantes, e profundamente, dentro do coração das

Página 184

almas observantes, tocou com seu raio de fogo, para que, transformasse o cotidiano, e se
tudo o que muda lentamente se explica pela vida, “tudo o que muda velozmente se
explica pelo fogo. O fogo é ultravivo. O fogo é intimo e Universal” (BACHELARD,
1999, p. 11). Todo o Universo integrado num momento de beleza que deflagrava a Terra
Mãe, a Mãe, a menina Mãe, os femininos que nutrem e dão vida, que transformam e
transmutam, que se propõe como cápsula nasce- doura para que outros seres possam vir-
a-ser, para que outros seres possam compreender a complexidade da vida, para que
outros seres possam sentir e amar e para que estes mesmos seres possam assim lançar-
se:

(Início da citação) No centro, no âmago, no ponto central em que tudo se origina e


adquire sentido: e eis que reencontramos aí a palavra esquecida ou rejeitada, a alma. E
em seu significado estes femininos nos dizem que a alma possui uma luz interior, aquela
que uma visão interior conhece e expressa no mundo das cores deslumbrantes, no
mundo de luz do sol (BACHELARD, 2000, p. 5). (Fim da citação)

O cotidiano da sala iluminava-se da incessante luz reluzida pela alma infantil, seu
sorriso ecoava por todas as paredes e atingia, como címbalos, a alma dos observantes.
Instantaneamente mais do que representação, o sentido da existência fez-se presente na
manifestação dos espíritos encarnados, que eram sacudidos pelo ritmo entrecortado,
afirmado na conjunção total estabelecida entre a menina, os objetos e observadores.
Tudo se passava como se ali, naquele momento, uma pura imagem estivesse se
constituindo para que pudéssemos ser levados a ver a presença persuasiva do sagrado,
pois este se apresentava pana nós como se:
(Início da citação) Almejasse subjugar o cotidiano narrativizado ou narrativizavel, para
quebrar o ritmo natural de duas maneiras: transcendendo-o ou submetendo-o,
acreditando

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no frenesi do mundo ou insinuando o aniquilamento do sujeito. (GREIMAS, 1997, p.


91). (Fim da citação)

O momento seguinte me remete a uma grande sala. Cheguei duas horas antes de a
oficina de vivências em arte ser iniciada, meu propósito era estar sozinho, queria
preparar o ambiente para receber as professoras que participariam da vivência. A sala
era espaçosa, uma parede inteira construída em janelas de vidros deixava mostrar o
colorido da paisagem campesina, “a janela na casa dos campos é um olho aberto, um
olhar lançado para a planície, para o céu longínquo, para o mundo exterior...”
(BACHELARD, 1990, p. 89). Como a sala estava vazia de cadeiras sentei-me ao chão e
deixei-me, durante algum tempo, ser levado pelos sons que fluíam do aparelho de CD, e
que, sem dúvida alguma alcançavam meu espírito. Pensava na cena exibida por Manel e
nas mulheres que em breve entrariam pela única porta que dava acesso à sala, meditei.
Gostaria de motiválas na construção de suas casas-corpo, de suas casas-alma, de seus
femininos e masculinos, de suas mãe-terra, de suas mães meninas... De suas casas.

Uma a uma as mulheres iam entrando na sala, suas expressões mostravam dúvida,
ansiedade e tantos outros sentimentos que não caberiam palavras que os pudessem
descrevê-los. Ficamos em círculo e informalmente nos apresentamos. Cada um de nós
contou um pouco de si para o grupo, falamos o porquê de estar ali e quais as nossas
expectativas em relação ao trabalho que se desenvolveria. Apresentando a proposta de
vivência em arte, dividida-a em quatro partes, isto é, o corpo, as escutas, os encontros e
as construções.

O círculo de mulheres iniciou-se com uma dança de festejo, uma dança de boas-vindas a
todos os participantes. O ritmo forte marcava os passos que, pouco a pouco se tornavam
naturais. As mulheres mostravam-se à medida que o
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grupo crescia em potência, conforme o grupo expressava a necessidade do outro no


olhar o outro, no contemplamento da imagem dançante do outro. “Sentia-se que a
contemplação se desdobraria em ser contemplante e ser contemplado” (BACHELARD,
2000, p. 237); os olhos procuravam os olhos e os corpos espelhavam-se nos corpos, e
assim como a menina embalava seus sonhos na “aprendência” de ser mãe, as mulheres
consertavam suas margens expondo-se como molduras, de maneira que se tornassem
visíveis na harmonia circular, redonda.

A necessidade imediata da circularidade, todo nosso ser em sua urgente redondeza, pois:

(Início da citação) para ter a pureza fenomenológica máxima é preciso suprimir tudo o
que mascara o valor ontológico, tudo o que complicaria seu significado radical. E essa é
a condição para que a fórmula [o ser redondo] se torne para nós um instrumento que nos
permitirá reconhecer a primitividade de certas imagens do ser. Mais uma vez, as
imagens da redondeza plena ajudam a nos congregarmos em nós mesmos, a darmos a
nós mesmos uma primeira constituição, a afirmar o nosso ser intimamente, pelo interior.
Pois, vivido do interior, sem exterioridade, o ser não poderia deixar de ser redondo.
(BACHELARD, 2000, p. 237). (Fim da citação)

Aproximando os participantes num jogo que nos remete a uma cálida segurança —
quando seguros por nossos pais, caminhávamos com nossos pés apoiados sobre seus pés
— chegou-se a uma segunda dança. A brincadeira dançada permitia que algumas das
participantes testassem todo o seu equilíbrio e força, como se fossem ninhos. Outras se
faziam pássaros. Enquanto uma valsa lenta bailava pela sala, algumas mulheres voavam
carregadas por seus ninhos. Pedia para que os pares se trocassem. Deixando-se na
sonoridade da valsa, os participantes alados eram abrigados pelos com-

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panheiros como se estes fossem verdadeiramente seus ninhos, ninhos seguros, e que em
sua segurança, abrigavam não só os seus corpos abrigavam o ser. As risadas ressoavam
com o ternário da valsa e os pássaros dançavam na dança dos ninhos, os pássaros
contempladores dos ninhos, e assim, quando contemplamos o “ninho, estamos na
origem de uma confiança no mundo, recebemos um aceno de confiança, um apelo à
confiança cósmica” (BACHELARD, 2000, p. 115).

Com seu ritmo enérgico a música espanhola sacudiu a sala. Nessa terceira dança as
mulheres soltaram-se na descoberta de outros espaços, na descoberta de outras formas
de evoluir pelo espaço, na descoberta de outras formas de preencher o espaço, pois:

Como o tempo, que não nos seria sensível não fossem os acontecimentos e as mudanças
que o escondem (e que, realizando, frustrando ou superando as expectativas dos
sujeitos, afetam a cada instante seus estados), o espaço, do mesmo modo, não surge
diante de nós, como extensão ou como jogo de relações entre os objetos que o
constelam, a não ser a partir de nós, no momento em que nos apreendemos como
presentes a nós mesmos em nossa relação com uma exterioridade, seja qual for sua
natureza. (LANDOWSKI, 2002, p. 68).

Seus corpos rolavam pelo chão desenhando suas intimidades, no próximo tempo,
expandiam-se no espaço alcançando vôos nunca antes alcançados, que exteriorizavam
os corredores e os labirintos de suas imaginações. As mulheres dançaram de suas raízes
até seus sótãos, e então, exaustas e ofegantes se atiravam ao chão, seus corpos cansados
inspiravam com leveza o oxigênio, dividido entre as participantes.

Os corpos agora aguardavam a próxima etapa. Esta foi sorrateiramente se mostrando


quando de duas em duas, as

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mulheres cochichavam e escutavam os cochichos umas das outras. Os sons faziam-se


presentes de forma onomatopaica e como música para os ouvidos ressoavam em todas
as cabeças, nas testas, nos narizes, nas bochechas. De quatro em quatro elas se
agruparam e brincaram com os sons, depois de oito em oito até que o grupo inteiro
pudesse desfrutar todos os sons. Cabeças com cabeças, ossos vibrando em sons que
criavam ondas e se transformavam em uivos, que glissavam crescentes e penetravam
todos os espaços da sala. Uma alegria inusitada instalava-se, como se jamais elas
tivessem escutado com tanta profundidade, nesta forma perceptiva descobriam que “há
uma relação de aprendizado entre as pessoas, como se fossem uma corrente de ligações
entre os diversos tipos de informações que cada um apreende na *convivência*”.

Nota de canto de página para *convivência*: Alunas do Curso de Pedagogia para


Formação de professores em Serviço, Urcamp, 2000.

(Fim da nota de canto de página)

Novamente o silêncio fez-se ouvir! Cada uma das participantes, encostando seu ouvido
sobre o peito da outra, escutou um coração que pulsava com força, uma força que
vibrava também da intimidade de se deixar ouvir pelo outro, de deixar-se descobrir
“neste caminhar, e acima de tudo na valorização do ser humano”, na valorização do
amor e do conhecer o outro, no aflorar de nossas emoções, no sentir nossa humanidade
e o sentido para a experiência do viver, porque:

(Início da citação) O que dá forma à minha própria identidade, não é só a maneira pela
qual, reflexivamente, eu me defino (ou tento me definir) em relação à imagem que
outrem me envia de mim mesmo; é também a maneira pela qual, transitivamente,
objetivo a alteridade do outro atribuindo um conteúdo específico à diferença que me
separa dele. Assim, quer que a encaremos no plano da vivência individual ou da
consciência coletiva, a emer-

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gência do sentimento de identidade parece passar necessariamente pela intermediação


de uma alteridade a ser construída. (LANDOWSKI, 2002, p. 4). (Fim da citação)

Os encontros nasceram na imagem construída por Manel quando embalava seu filhote,
presentifïcavam-se agora, quando foi sugerido que as mulheres se reunissem de duas a
duas. Uma leve canção acompanhava a ocasião. Enquanto uma das mulheres embalava,
a outra se deixava embalar na recordação dos embalos recebidos na infância, no carinho
que as mães, casas sublimes: doaram, na recordação nostálgica e tornada viva pela
vivência.

No fenômeno observado:

(Início da citação) Algo nos chega imediatamente, não se sabe o que é; nem belo, nem
bom nem verdadeiro, mas tudo de uma só vez. [...] Cognitivamente inabordável, esta
fratura na vida é, depois, suscetível de todas as interpretações: crê-se reencontrar aí a
confiante espera que a precedeu...ela dá nascimento a esperança de uma vida verdadeira,
de uma total fusão entre sujeito e objeto. Junto com o sabor da eternidade, deixa em nós
o gosto da imperfeição. (GREIMAS, 1997, p. 72). (Fim da citação)

Os femininos expunham-se nas respirações, nos olhares doces que se faziam presentes
tornando-as conscientes, conscientes de que seus olhares não olhavam mais para alguém
em particular mas sim, de que seus olhares, olhavam para algo muito maior e ao mesmo
tempo muito pequeno, que seus olhares olhavam a instauração do mundo.

No centro da sala foram colocados alguns materiais: canos de PVC, joelhos, cola de
PVC, tinta guache e pincéis. As mulheres foram convidadas a construir com os
materiais oferecidos, sua casa. Foi a partir do centro que todas as mulheres começaram a
emendar as peças de PVC, nenhuma ordem se instalou e ao olhar do observador havia
um

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completo fechamento. Todas reunidas ao centro e emendando partes com partes como se
o ser estivesse fechado dentro de si. Observa Bachelard (2000, p. 217) que:

(Início da citação) Fechado no ser, sempre há de ser necessário sair dele. Apenas saído
do ser, sempre há de ser preciso voltar a ele. Assim, no ser, tudo é circuito, tudo é
rodeio, retorno, discurso, tudo é rosário de permanências, tudo é refrão de histórias sem
fim. E que espiral é o ser homem! Nessa espiral, quantos dinamismos que se invertem!
(Fim da citação)
No movimento constante de ir-e-vir e partindo do centro, as emendas se faziam
estruturas fixas e aos poucos e sem nenhuma ansiedade as mulheres armavam a
estrutura que distintamente dava a idéia de ser uma casa. A casa prendia-se a terra,
desenhava-se em seus cantos, abria-se em suas portas e subia para o sótão. Os cantos se
tornaram importantes para a fixação do todo, percebíamos o que Bachelard (2000 p.
146) afirma que “o canto é um refúgio que nos assegura um primeiro valor do ser: a
imobilidade [...] O canto é uma espécie de meia-caixa, metade paredes, metade portas”.
Esses cantos, tão importantes na fixação da casa, se faziam neste momento, no encontro
dialético entre o interior com o exterior.

As salas, os quartos, os banheiros e cozinha se fazem presentes no imaginário,


desenhavam-se e construíam-se ao redor dos corpos que fluíam designando-se para
assim fazer-se espaço do ser, um espaço para a humanização do ser que vem situar-se
“nos valores estéticos, isto é, no nível da invenção dos ritmos, dos símbolos, da arte”
(DURAND, 1995, p. 140); as cores começavam a vibrar sobre as formas que mostravam
paixões, sentimentos, emoções, sonhos, seduções. Os verdes, vermelhos, amarelos,
lilases, azuis e tantos outros reformavam atitudes, vidas. Assim:

Página 191

(Início da citação) Ao identificar-se com o objeto artístico, ao passar a viver uma outra
realidade, ao transitar para um novo plano enunciativo, o sujeito descarrega o peso da
realidade cotidiana. Por isso, a *catarse* insere-se numa fratura da cotidianidade,
fazendo o sujeito viver um evento extraordinário. A catarse não se refere a esta ou
àquela paixão singular, mas ao descarregar-se da vida ordinária, para viver uma outra
vida... Por meio da fruição do objeto artístico, do prazer que ele proporciona, o sujeito
liberta-se do peso da cotidianidade. (FIORIN apud LANDOWSKI; FLORES, 1987, p.
106). (Fim da citação)

Nota de canto de página para *catarse*: A catarse é a liberação daquilo que gera o
desequilíbrio, com vistas à reequilibração. Existem duas grandes interpretações da
noção aristotélica. A primeira entende que a purgação é a vivência pelo expectador,
durante a tragédia, da situação do herói, o que leva e à experiência do terror e da
piedade, de tal forma que aprende a distanciar de si esses estados patêmicos. A segunda
é que a vivência das dores das personagens propicia o alívio das próprias tensões.

Observe-se que para Aristóteles, certamente por estar analisando a tragédia, somente os
estados passionais disfóricos poderiam produzir a catarse (FIORIN, 1999, p. 106).

(Fim da nota de página)

De mãos dadas, passeamos observando a construção e tendo esta como centro. A


marcha era lenta e antes de tudo sentida nos olhares que se trocavam e na emoção que
se instituía. Era o puro prazer de deixar-se levar pela arte que se apresentava, pelo
prazer de sentir-se vivo, a capacidade de ir além do que se pode dizer, a concretização
de símbolos que faziam sentido.

Em um estado de suspensão do tempo, na estesia que se vivia, falávamos, nossas falas


estavam cobertas de lágrimas que alegres lavavam os rostos: “trabalhamos com nosso
corpo, com nossa mente, com nossa alma. Tudo isso se fundiu ao prazer de estarmos
vivos. Emoções, criatividade, desprendimento, *sensibilidade*.” Uma total conjunção
entre sujeitos e objetos, entre sujeitos e sujeitos.

Nota de canto de página para *sensibilidade*: A catarse é a liberação daquilo que gera o
desequilíbrio, com vistas à reequilibração. Existem duas grandes interpretações da
noção aristotélica. A primeira entende que a purgação é a vivência pelo expectador,
durante a tragédia, da situação do herói, o que leva e à experiência do terror e da
piedade, de tal forma que aprende a distanciar de si esses estados patêmicos. A segunda
é que a vivência das dores das personagens propicia o alívio das próprias tensões.
Observe-se que para Aristóteles, certamente por estar analisando a tragédia, somente os
estados passionais disfóricos poderiam produzir a catarse (FIORIN, 1999, p. 106).

A casa era devir. As casas devir; constituídas de todas as confidências que ali se
apresentavam, constituídas pelo

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meio termo que estas vinham a representar entre o micro-cosmo do corpo e o cosmo.
Assim, assevera Durand (1997, p. 243-244):

(Início da citação) A casa é labirinto tranqüilizador, amado, apesar do que pode no seu
mistério subsistir de ligeiro temor... A casa inteira é mais do que um lugar para viver, é
um vivente. A casa redobra, sobredetermina a personalidade daquele que a habita [...] A
intimidade deste microcosmo vai redobrar-se e sobredeterminar-se como se quiser.
Duplicado pelo corpo, ela vai tornar-se isomórfica do nicho, da concha, do tosão e
finalmente do colo materno [...] A casa é, portanto, sempre a imagem da intimidade
repousante, quer seja templo, palácio ou cabana. (Fim da citação)

Tudo se passou como se ali, durante a vivência em arte, as imagens estivessem se


constituindo e levadas a ver a presença verdadeira e persuasiva do sagrado nas casas-
corpo, nas casas-alma, nos femininos e masculinos, na mãe- terra, na mãe menina... nas
casas.

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Janeiro: Record, 2000.
Página 195

SOBRE OS AUTORES

Organizadora:

Irene Gaeta Arcuri — Psicóloga (PUC-SP) clínica, arteterapeuta, doutoranda em


Psicologia Clínica PUC-SP Mestre em Gerontologia. Especialização em Práxis
Artísticas e Terapêuticas pela Faculdade de Medicina (USP). Docente, supervisora e
orientadora da Famosp (Faculdade Mozarteum de São Paulo) Curso de Pós-Graduação
em Arteterapia. Organizadora da coleção Gerontologia (Vetor Editora) e de vários livros
na área de Psicologia, Gerontologia e Arteterapia.

Autores:

Carlos Théo Lahorgue — Bacharel em Música, Arteeducador pela Urcamp.


Arteterapeuta, Chicago, EUA. Mestre em Educação, UFRGS. Membro do NIETE-
UFRGS e Professor da Pós-Graduação (Especialização) em Arte Terapia do ISEPE-
CENTRARTE/POA e da Universidade de Passo Fundo, RS. Professor de Filosofia da
Arte e Teoria e Crítica da Arte, Urcamp. Analista Técnico do SESI-RS.

Mônica Guttmann — Psicóloga (PUC-SP), arteterapeuta e escritora. Especialista em


Arteeducação e Arteterapia. Professora do curso de formação em Arteterapia do
Instituto Sedes Sapientae. Autora e ilustradora de livros voltados ao público infantil.
Publica artigos, contos e ilustrações em revistas e criadora de materiais pedagógicos
para escolas e outras instituições. Autora dos seguintes livros: Armando, Os sonhos de
Armando, O tempo de

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Armando, Quero te contar uma história, Sementes de carinho para o seu ninho, Gê, o
jardineiro do planeta Gemini, Shimshon, Deixando nascer um sonho, A lata de
sentimentos e A lata da imaginação.

Patrícia Pinna Bernardo - Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento


Humano (USP), Mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP), Psicóloga (USP) e Artista
Plástica (FAAP). Psicoterapeuta e Arte-terapeuta de crianças, adolescentes e adultos,
Coordenadora de cursos e Oficinas de Criatividade, Supervisora de atendimentos
clínicos e institucionais, Coordenadora de Grupos de Estudos de Mitologia Criativa e
Psicologia Junguiana, Professora Universitária (Psicologia, Pedagogia, Musicoterapia,
Artes Plásticas), Coordenadora e Professora da Pós-Graduação em Arteterapia da Unip.

Tânia Maria José Aiello Vaisberg — Professora Livre-Docente pelo Instituto de


Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Orientadora dos Programas de Pós-
Graduação em Psicologia Clínica da USP e da Pontifícia Universidade Católica de
Campinas. Coordenadora da “Ser e Fazer”: Oficinas Psicoterapêuticas de Criação e
Presidente do NEW (Núcleo de Estudos Winnicottianos).

Walmir Cedotti — Psicanalista, Arteterapeuta, Consultor em Desenvolvimento


Humano para Empresas e Artista plástico. Diversos trabalhos publicados na área
editorial como escritor, articulista, ilustrador e produtor gráfico. Pesquisa a cosmovisão
das sociedades indígenas. E consultor da Uniwos — Desenvolvimento Humano.

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