You are on page 1of 16

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE DIREITO

JÚLIA DE MORAES ARAÚJO PIRES

OS PRINCÍPIOS DO DIREITO AMBIENTAL BRASILEIRO COMO


EVIDÊNCIA DO DIREITO AMBIENTAL SER UM DIREITO
FUNDAMENTAL DE 3ª GERAÇÃO

Salvador - Bahia
2018
JÚLIA DE MORAES ARAÚJO PIRES

OS PRINCÍPIOS DO DIREITO AMBIENTAL BRASILEIRO COMO


EVIDÊNCIA DO DIREITO AMBIENTAL SER UM DIREITO
FUNDAMENTAL DE 3ª GERAÇÃO

Artigo Acadêmico
apresentado à Profa. Raissa
Pimentel Silva como
requisito parcial para a
aprovação na disciplina
DIR034 – Direito Ambiental.

SALVADOR
2018
Os Princípios Do Direito Ambiental Brasileiro Como Evidência do Direito
Ambiental Ser Um Direito Fundamental De 3ª Geração
Júlia de Moraes Araújo Pires

RESUMO: ​O presente artigo tem como objetivo investigar a conexão entre os


Princípios do Direito Ambiental Brasileiro com o conceito de Direitos
Transindividuais típicos da terceira geração de Direitos Fundamentais,
configurando, assim, o Direito Ambiental como um Direito Fundamental. Tal
pesquisa será feita com base em revisão de literatura sobre os assuntos
supracitados, além de análise dos textos legais que fundamentam tal princípio
e o direito ambiental como um todo, tais como a Lei 9.605/1998 (a Lei de
Crimes Ambientais), a Constituição Federal da República Federativa do Brasil
de 1988 dentre outros documentos legais como, por exemplo, tratados e
declarações internacionais. Dessa forma, irá concluir-se que o Direito
Ambiental é um Direito Transindividual e, por tal motivo, é considerado um
Direito Fundamental.
Palavras-chaves: ​Direito Ambiental, Cooperação Internacional, Direitos
Transindividuais

1. INTRODUÇÃO

Os Direitos Ambientais aparecem na Constituição Federal vigente do


nosso país no Capítulo VI “Do Meio Ambiente) no artigo 225, especialmente.
Como tal, não estão elencados onde geralmente se encontra a maioria dos
Direitos Fundamentais e, por tal motivo, pode surgir a discussão: seria o Direito
ao “Meio Ambiente Ecologicamente Equilibrado”1 um Direito Fundamental?
Esse é um debate extremamente relevante, justamente, pelo peso que os
Direitos Fundamentais têm no ordenamento jurídico pátrio.

1
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. ​Artigo 225 ​5 de Outubro de 1988.
Brasília, 1988
Dito isso, cabe recordar que os Direitos Fundamentais são divididos,
pela doutrina, em gerações. A primeira geração é aquela dos direitos
individuais, a segunda, dos direitos sociais e a terceira dos direitos
transindividuais.
Nesse diapasão, diversos princípios, tais como o Princípio da
Cooperação Internacional por exemplo, dão essa dimensão de
transindividualidade ao Direito Ambiental na medida em que tal princípio se
preocupa, justamente, com a ideia de que o dano ambiental não se restringe,
necessariamente, ao país onde ocorreu e pode afetar a todos os humanos da
biosfera. Por isso são direitos transindividuais, ou seja, direitos que tutelam
bens de natureza coletiva.
Dessa forma, buscou-se entender mais sobre a ideia de gerações dos
direitos fundamentais e sobre Direito Ambiental Internacional a fim de procurar
entender se os Direitos Ambientais são de fato direitos transindividuais e, mais
que isso, Direitos Fundamentais de terceira geração.

2.AS GERAÇÕES DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

A ideia de gerações de Direitos Fundamentais está diretamente ligada


ao histórico desses direitos, sendo cada geração um momento histórico em que
um grupo de Direitos Fundamentais surgiram.
Dessa forma, os Direitos Fundamentais de Primeira Geração foram os
primeiros a serem positivados. Seu contexto histórico são as revoluções
liberais como a Revolução Francesa e Americana. Antes dessas revoluções, no
século XVIII, a Europa vivia o Absolutismo Monárquico e os Estados Unidos da
América eram nada mais do que 13 colônias.
Assim, o primeiros Direitos a serem conquistados e positivados era
justamente o que faltava o sistema político anterior: liberdades individuais
como, por exemplo, a liberdade e a igualdade. Basicamente, nessa geração, os
Direitos Fundamentais tem a pretensão de impor uma obrigação de não fazer
do Estado.
A Segunda Geração de Direitos Fundamentais, por sua vez, convocava
o Estado a aparecer e agir. São obrigações de fazer. O contexto de seu
aparecimento se dá com a Revolução Industrial: longas jornadas de trabalho
(até quinze horas diárias), crianças trabalhando e a ausência de um Estado,
até então liberal, para regular as questões sociais, o que causava um aumento
na desigualdade social.
Os Direitos Fundamentais de Segunda Geração são, portanto, direitos
sociais: saúde, educação, lazer, moradia, dentre outros. Mas a segunda
geração desses direitos faz algo ainda mais importante do que meramente criar
novos direitos para o cidadão e novas obrigações para o Estado: eles mudam a
forma de entender e interpretar a geração anterior.
Isso foi uma espécie de mudança de ​mindset: ​depois que eles foram
positivados, nunca mais os Direitos de Primeira Geração seriam interpretados
da mesma forma. Por esse motivo, alguns autores contestam o termo
“gerações”, preferindo o termo “dimensões dos Direitos Fundamentais”
Por fim, temos os Direitos Fundamentais de Terceira Geração. Essa é a
geração dos direitos coletivos, difusos, transindividuais. Muitas vezes
relacionado à fraternidade2 prevista nos ideais da Revolução Francesa. Nas
palavras de Gilmar Mendes3:

Já os direitos chamados de terceira geração peculiarizam-se


pela titularidade difusa ou coletiva, uma vez que são concebidos para a
proteção não do homem isoladamente, mas de coletividades, de grupos.
Tem-se, aqui, o direito à paz, ao desenvolvimento, à qualidade do meio
ambiente, à conservação do patrimônio histórico e cultural.

Dito isso, vale ressaltar que alguns autores, como Bonavides, falam de
um número maior de gerações de Direitos Fundamentais, sendo possível
encontrar na doutrina autores falando, até mesmo, em Direitos Fundamentais

2
Alguns autores associam o lema da Revolução Francesa (liberdade, igualdade, fraternidade) às
três gerações dos Direitos Fundamentais. A primeira fase, focando as liberdades individuais, a
segunda geração com enfoque no igualdade social e a terceira, por fim, mirando na fraternidade
entre os homens, direitos que objetivam tutelar à humanidade.
3
MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. ​Curso de Direito Constitucional .
10ª. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. pp. 137-138
de Sexta Geração. No entanto, para fins deste artigo, e à sombra do afirmado
por Gilmar Mendes em seu Curso de Direito Constitucional, ficaremos apenas
com a idéia das três gerações de Direitos Fundamentais.
Além disso, conforme supracitado, é importante destacar que cara
geração não só cria novos direitos mas também mudam a forma dos direitos
positivados em gerações anteriores serem encaradas e interpretadas. Essa é
uma característica dos Direitos Fundamentais conhecida como historicidade. A
cada momento os Direitos Fundamentais são analisados sob óticas distintas,
sempre em sincronia ao que está por detrás do período histórico vigente e dos
Direitos Fundamentais posteriormente positivados.

3.O DIREITO AMBIENTAL INTERNACIONAL

Para Paulo de Bessa Antunes “A preocupação fundamental do Direito


Ambiental é organizar a forma pela qual a sociedade se utiliza dos recursos
ambientais”4. E quando isso começa a ser uma preocupação de fato para a
humanidade? No fim do século XX, no contexto do pós Segunda Guerra
Mundial começam os primeiros esboços do que viria a se tornar o Direito
Ambiental Internacional.
O motivo disso é notório: começou-se a entender que as consequências
de danos ambientais ocorridos em um lugar do mundo poderiam se estender
para boa parte do planeta afetando, inclusive gerações posteriores. Exemplo
disso foi o desastre nuclear de Chernobyl, ocorrido na Ucrânia em 1986 que
espalhou radioatividade por toda a Europa e até hoje causa mortes.
Assim, chegou-se ao entendimento que “a proteção internacional do
meio ambiente deve estar ligada aos direitos do homem, sob pena de se
chegar ao assassinato do humanismo”5. Finalmente, no pós-guerra, a
humanidade começou a entender que o Direito Ambiental é um Direito que, no

4
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental, 12ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lumen Juris,
2010, p.3
5
MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de Direito Internacional público, 2.º vol., 13.ª ed. rev. e
ampl. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p. 1278.
final das contas, tutela toda a humanidade, inclusive gerações que ainda nem
nasceram.
Nesse diapasão, a Organização das Nações Unidas organizaram
diversas conferências a respeito do Direito Ambiental Internacional,
estabelecendo normas com o intuito de proteger o meio ambiente humano.
Algumas delas, inclusive, ocorreram no Brasil, que participou ativamente
dessas conferências, como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1992.
Tudo começa em Estocolmo, no ano de 1972. Ali, na Primeira
Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, começou a ser
construída a ideia de que o Meio Ambiente não era uma fonte inesgotável de
recursos.
A Rio 92, finalmente, estabeleceu que o desenvolvimento
socioeconômico deveria ser sustentável, não comprometendo o ambiente e
que os países em desenvolvimento deveriam receber apoio financeiro e
tecnológico para atingir esse objetivo. Foi seguida pela Rio +10, ocorrida em
Johanesburgo, na África do Sul (2002) e pela Rio +20, novamente no Rio de
Janeiro, em 2012.
Em 2015 ocorreu em Nova York a Cúpula de Desenvolvimento
Sustentável que definiu novos Objetivos Para o Desenvolvimento Sustentável.
Dessa forma, pode-se observar que o Direito Ambiental, com seu caráter
transindividual, passa a ser um dos grandes temas do Direito Internacional
Público, sendo amplamente debatido, em vista sua imensa relevância para a
manutenção de Direitos Humanos, Direitos Fundamentais6 e até mesmo da
existência da humanidade.

6
A diferença entre Direitos Humanos e Direitos Fundamentais é, basicamente, o plano no qual
esses direitos foram positivados. Os Direitos Humanos são consagrados pelo Direito Internacional
Público ao passo que os Direitos Fundamentais estão positivados nas Constituições dos Estados
Soberanos.
3.1. O PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

Diante do supracitado, fica claro que, após a Segunda Guerra Mundial, a


comunidade internacional passou a se preocupar cada vez mais com o Meio
Ambiente. Isso, somado à mudança na forma de ver o Direito Internacional
Público7, acabou culminando no surgimento do Direito Ambiental Internacional,
com base em normas internacionais e em organismos internacionais como a
Organização das Nações Unidas.
Dessa forma, e sempre tendo em vista o Meio Ambiente como algo que
atinge a todos os humanos e que é um recurso finito, a Declaração de
Estocolmo de 1972, em seu Princípio 24, bem como o item 7 da proclamação,
previram, pela primeira vez, tal princípio. In verbis:

7 - A consecução deste objetivo ambiental requererá a aceitação


de responsabilidade por parte de cidadãos e comunidades, de empresas
e instituições, em equitativa partilha de esforços comuns. Indivíduos e
organizações, somando seus valores e seus atos, darão forma ao
ambiente do mundo futuro. Aos governos locais e nacionais caberá o
ônus maior pelas políticas e ações ambientais da mais ampla
envergadura dentro de suas respectivas jurisdições. Também a
cooperação internacional se torna necessária para obter os recursos que
ajudarão os países em desenvolvimento no desempenho de suas
atribuições. Um número crescente de problemas, devido a sua amplitude
regional ou global ou ainda por afetarem campos internacionais comuns,
exigirá ampla cooperação de nações e organizações internacionais
visando ao interesse comum. A Conferência concita Governos e povos a
se empenharem num esforço comum para preservar e melhorar o meio
ambiente, em benefício de todos os povos e das gerações futuras.

Princípio 24. Todos os países, grandes e pequenos, devem


ocupar-se com espírito e cooperação e em pé de igualdade das questões
internacionais relativas à proteção e melhoramento do meio ambiente. É
indispensável cooperar para controlar, evitar, reduzir e eliminar
eficazmente os efeitos prejudiciais que as atividades que se realizem em

7
O Direito Internacional costumava ter normas proibitivas. A ideia era, basicamente, interferir o
mínimo possível na soberania dos Estados. Hoje, o Direito Internacional é muito mais poderoso
com mais normas impositivas, contando, inclusive, com Tribunais Internacionais.
qualquer esfera, possam Ter para o meio ambiente, mediante acordos
multilaterais ou bilaterais, ou por outros meios apropriados, respeitados a
soberania e os interesses de todos os estados

Não suficiente, tal princípio se repete em outros textos internacionais


extremamente relevantes como na Declaração do Rio de Janeiro. Nesse texto,
o princípio aparece ainda mais detalhado uma vez que, como supracitado,
nesta Convenção ficou estabelecido que os países desenvolvidos deveriam
apoiar os países em desenvolvimento na missão do desenvolvimento
sustentável. A seguir, o que ficou estabelecido, in verbis, por tal Declaração:

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e


Desenvolvimento, tendo se reunido no Rio de Janeiro, de 3 a 14 de junho
de 1992, reafirmando a Declaração da Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente Humano, adotada em Estocolmo em 16 de junho
de 1972, e buscando avançar a partir dela, com o objetivo de estabelecer
uma nova e justa parceria global mediante a criação de novos níveis de
cooperação entre os Estados, os setores-chaves da sociedade e os
indivíduos, trabalhando com vistas à conclusão de acordos internacionais
que respeitem os interesses de todos e protejam a integridade do
sistema global de meio ambiente e desenvolvimento, reconhecendo a
natureza integral e interdependente da Terra, nosso lar, proclama que:
Princípio 7. Os Estados irão cooperar, em espírito de parceria
global, para a conservação, proteção e restauração da saúde e da
integridade do ecossistema terrestre. Considerando as diversas
contribuições para a degradação do meio ambiente global, os Estados
têm responsabilidades comuns, porém diferenciadas. Os países
desenvolvidos reconhecem a responsabilidade que lhes cabe na busca
internacional do desenvolvimento sustentável, tendo em vista as
pressões exercidas por suas sociedades sobre o meio ambiente global e
as tecnologias e recursos financeiros que controlam.
Princípio 9 Os Estados devem cooperar no fortalecimento da
capacitação endógena para o desenvolvimento sustentável, mediante o
aprimoramento da compreensão científica por meio do intercâmbio de
conhecimentos científicos e tecnológicos, e mediante a intensificação do
desenvolvimento, da adaptação, da difusão e da transferência de
tecnologias, incluindo as tecnologias novas e inovadoras.
Princípio 12 Os Estados devem cooperar na promoção de um
sistema econômico internacional aberto e favorável, propício ao
crescimento econômico e ao desenvolvimento sustentável em todos os
países, de forma a possibilitar o tratamento mais adequado dos
problemas da degradação ambiental. As medidas de política comercial
para fins ambientais não devem constituir um meio de discriminação
arbitrária ou injustificável, ou uma restrição disfarçada ao comércio
internacional. Devem ser evitadas ações unilaterais para o tratamento
dos desafios internacionais fora da jurisdição do país importador. As
medidas internacionais relativas a problemas ambientais transfronteiriços
ou globais deve, na medida do possível, basear-se no consenso
internacional.
Princípio 27 Os Estados e os povos irão cooperar de boa fé e
imbuídos de um espírito de parceria para a realização dos princípios
consubstanciados nesta Declaração, e para o desenvolvimento
progressivo do direito internacional no campo do desenvolvimento
sustentável.

Em síntese, a ideia desse princípio é basicamente que o Meio Ambiente


é responsabilidade de toda a humanidade e, como tal, faz-se de absurda
importância que todas as nações se comprometam, de alguma forma, a ajudar
a resolver o problema uma vez que todos os países ajudaram a criar o
problema através de danos ambientais ou, ainda, indiretamente.
Mas e no ordenamento pátrio, tal princípio está previsto? A Resposta é
clara: sim. Antes de mais nada, é possível observar tal princípio em nossa
Carta Magna: o artigo 4ª, inciso IX estabelece que as relações internacionais
do Brasil rege-se pelo princípio da “cooperação dos povos para o progresso da
humanidade”. De tal modo, é óbvio que um “meio ambiente ecologicamente
equilibrado” enquadra-se aqui, uma vez que não é possível vislumbrar um
progresso da humanidade sem tenhamos um meio ambiente que não seja
inóspito a nós mesmos.
Não suficiente, a Lei de Crimes ambientais, nos seus artigos 77 e 78
estabelecem que tal cooperação supracitada, como evidencia-se o título do
capítulo onde podem ser encontrados: “da cooperação internacional para a
preservação do meio ambiente”. Além de cooperar com outros países no que
se trata de crimes ambientais, o Brasil tem, também, o dever de informar
quando tais ilícitos ocorrerem.
Além de tudo isso, o Brasil ainda assinou tratados internacionais
comprometendo-se no sentido da cooperação internacional, como, por
exemplo, o Tratado de Cooperação Amazônica. Vale lembrar que, segundo o
Supremo Tribunal Federal, os tratados assinados pelo país tem valor, no
mínimo de Lei Ordinária, podendo ter posição hierárquica de Emenda
Constitucional caso aprovado com o quorum adequado.

4. OUTROS PRINCÍPIOS DO DIREITO AMBIENTAL COMO EVIDÊNCIA DO


DIREITO AMBIENTAL SER UM DIREITO TRANSINDIVIDUAL

Embora o Princípio da Cooperação Internacional seja um princípio que,


por sua própria natureza traga um clara evidência de que o Direito Ambiental é,
de fato, um Direito Transindividual (a tal ponto que chega a atingir, literalmente
todos os seres humanos do Planeta Terra), outros princípios típicos do Direito
Ambiental também evidenciam a mesma coisa.

4.1. PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE INTERGERACIONAL

Esse princípio afirma que tanto o Poder Público quanto a coletividade


tem o dever, solidário, de defender e preservar o meio ambiente
ecologicamente equilibrado para as presentes e futuras gerações. Esse é um
princípio que pode ser encontrado facilmente no artigo 225 da Constituição
Federal Brasileira que prescreve o seguinte:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente


equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade
de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.

Assim, é dever de todos proteger e defender um bem que é de todos: o


meio ambiente saudável, ecologicamente equilibrado. É um dever de todos
justamente porque o bem é coletivo: justamente uma característica que acaba
por demonstrar que o Direito Ambiental é, de fato, um Direito Transindividual,
que atinge a todos: todos têm o direito ao bem coletivo e, portanto, todos têm o
dever de protegê-lo.

4.2. PRINCÍPIO DEMOCRÁTICO

O Princípio Democrático são, na verdade, para Antunes, os direitos à


participação e à informação. É daqui, também, que vem a ideia de Educação
Ambiental.
Esse princípio assegura ao cidadão o direito de participar das questões
ambientais, na forma da lei, nas esferas dos três poderes: legislativo, executivo
e judiciário.
Na esfera do poder legislativo, o cidadão pode participar através de leis
de iniciativa popular (vedado ao cidadão propor projeto de emenda
constitucional, mas sendo permitido a proposição de leis ordinárias, na forma
prevista pela Constituição Federal, no seu artigo 14, inciso II), referendos e
plebiscitos.
Na via administrativa, o cidadão tem o direito à informação sobre Direito
Ambiental. O Direito à Informação é genericamente previsto no artigo 5º, XXIII
da Carta Magna e, especificamente nas questões envolvendo meio ambiente,
na lei 10.650 de 16 de abril de 2003. Além disso, o cidadão tem o poder de
opinar sobre políticas públicas através de audiências públicas.
O judiciário também é um aliado do cidadão nesse tema. Através do
Direito de Petição, previsto no inciso XXIV do artigo 5º da Constituição, o
indivíduo pode pedir ao Estado para pôr fim a uma situação de ilegalidade.
Além disso, existe a possibilidade das Ações Populares e das Ações Civis
Públicas.
Nesse princípio, o que ocorre é que há o reconhecimento da importância
das questões ambientais para a sociedade como um todo e, por isso,
indivíduos ou grupos teriam o poder de pleitear a defesa desse bem jurídico
coletivo, ainda que não seja diretamente afetado. Isto é: qualquer cidadão
poderia participar de uma audiência pública ainda que não more no local mais
afetado.
Além disso, a educação ambiental também é uma ferramenta importante
nesse debate, uma vez que prepara o indivíduo para discutir e exigir a proteção
do Meio Ambiente. Assim, inclusive, um Direito Fundamental de Segunda
Geração, a educação, toma novos aspectos de profundidade com o advento de
um Direito Fundamental de Terceira Geração, o direito a um meio ambiente
ecologicamente equilibrado.
Essas são, inequivocamente, evidências de que o Princípio Democrático
é uma faceta do Direito Ambiental ligado com seu caráter de
transindividualidade.

4.3. PRINCÍPIO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A ideia de Desenvolvimento Sustentável já foi discutida, ainda que


brevemente, no presente trabalho. Desenvolvimento Sustentável é a imagem
de que os países podem se desenvolver sem comprometer o desenvolvimento.
No ordenamento jurídico pátrio tal conceito pode ser observado ao
combinarmos os artigos 170 e 225 da Constituição: são os artigos que versam
sobre o desenvolvimento econômico e sobre o meio ambiente ecologicamente
equilibrado.
Essa interpretação em conjunto dos artigos supracitados faz sentido
quando se pensa que uma boa interpretação das normas constitucionais é uma
interpretação sistêmica, que procura entender o texto constitucional como um
todo.
Tal princípio é uma evidência do caráter transindividual do Direito
Ambiental porque o desenvolvimento também tem esse condão de atingir a
todos os Brasileiros e residentes do país.
Ora, se o desenvolvimento é uma espécie de bem coletivo que afeta a
todos nós, na medida em que determinamos que ele deve acontecer sempre
respeitando o meio ambiente, e entendendo que esse não é um recurso infinito,
estamos dando ao Direito Ambiental, também uma transindividualidade típica
dos Direitos Fundamentais de Terceira Geração.

5.CONCLUSÃO

A Terceira Geração dos Direitos Fundamentais, nascidos no contexto do


pós-guerra tem como principal característica a transindividualidade, a tutela de
direitos coletivos e difusos que interessam a todos e todas, inclusive à
gerações que ainda nem sequer nasceram.
A proteção do meio ambiente ecologicamente equilibrado, previsto no
artigo 225 da Constituição Federal, tem todas as características supracitadas,
como fica evidenciado no caráter transindividual dos princípios supracitados.
Tais princípios são o que norteiam o Direito Ambiental como um todo,
Direito esse que nasce justamente para garantir a proteção e defesa do meio
ambiente ecologicamente equilibrado.
Sendo assim fica claro que ter um meio ambiente saudável é um Direito
Fundamental de Terceira Geração e o Direito Ambiental, como um todo, são
normas-regras e princípios que objetivam a efetividade desse Direito
Fundamental.
É justamente porque o meio ambiente ecologicamente equilibrado é um
Direito Fundamental de Terceira Geração que o Direito Ambiental, como um
todo, é um Direito marcado pela transindividualidade.
O bem jurídico tutelado por ele é coletivo, difuso e, por isso, relevante
para todos os humanos do planeta Terra: até mesmo os que ainda não
nasceram. Sem um meio ambiente ecologicamente equilibrado não há vida na
Terra e é por esse motivo que ele deve receber o ​status ​de Direito
Fundamental e ter a proteção do artigo 60 da Constituição, constituindo-se,
assim, como uma cláusula pétrea.
6.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 12ª. ed. Rio de Janeiro:


Lumen Juris, 2010. 960 p.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do


Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 2018. 292 p.

______. Lei n. 9.604, de 12 de fev. de 1998. Dispõe sobre as sanções


penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio
ambiente, e dá outras providências.

GALBIATTI, Paula Silveira. O Princípio Da Cooperação No Direito


Ambiental Internacional E Sua Aplicação No Brasil. ​Revista Jurídica Luso
Brasileira​, Lisboa, n. 4, p. 1303-1334, jan. 2015. Disponível em:
<http://www.cidp.pt/publicacoes/revistas/rjlb/2015/4/2015_04_1303_1334.pdf>.
Acesso em: 06 jul. 2018.

JUNIOR, Nilson Nunes da Silva. ​Segunda dimensão dos direitos


fundamentais . Disponível em:
<http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.ph
p?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=7433>. Acesso em: 06 jul. 2018.

KHAN, Gulnaz. ​Veja fotos tiradas em visitas ilegais à Zona Morta de


Chernobyl​ . Disponível em: <https://www.nationalgeographicbrasil.com/viagem
-e-aventura/2018/01/veja-fotos-tiradas-em-visitas-ilegais-zona-morta-de-cherno
byl>. Acesso em: 07 jul. 2018.

MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. A proteção internacional dos direitos


humanos e o Direito Internacional do meio ambiente. ​Revista Amazônia Legal
de estudos sócio-jurídico-ambientais , Cuiabá, n. 1, p. 169-196, jan. 2007.
Disponível em: <http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/32790-
40564-1-PB.pdfRevista>. Acesso em: 6 jul. 2018.

MELLO, Celso D. de Albuquerque. ​Curso de Direito Internacional


público​, 2.º vol., 13.ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Renovar, 2001

MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. ​Curso de


Direito Constitucional​ . 10ª. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. 324 p.

OLIVEIRA, Marcelo Henrique Matos. Considerações sobre os direitos


transindividuais. ​Cognitio Juris​, João Pessoa, Ano I, Número 2, agosto 2011.
Disponível em <http://www.cognitiojuris.com/artigos/02/06.html>. Acesso em:
18 de Julho de 2018

UNIDAS, Organização das Nações. ​Conferências de meio ambiente e


desenvolvimento sustentável: um miniguia da ONU​. Disponível em:
<https://nacoesunidas.org/conferencias-de-meio-ambiente-e-desenvolvimento-s
ustentavel-miniguia-da-onu/>. Acesso em: 07 jul. 2018.