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CURSO PREPARATÓRIO DE OBREIROS – TEOLOGIA BÍBLICA

Hermenêutica Bíblica Avançada


“A Ciência – Arte de Interpretação de Textos”
ENTENDES O QUE LÊS?

NOME: ________________________________________________________________________ DATA: ____/____/____

Prof.: Pr. Julio C Brasileiro

APERFEIÇOANDO OS SANTOS PARA A OBRA DO MINISTÉRIO EF 4.12

ANO: 2014

MATERIAL DIDÁTICO COMPLEMENTAR

APOSTILA PARA ESTUDOS INDIVIDUAIS

RESUMO DO CONTEÚDO PROGRAMÁTICO: Estudos Metodológicos de Interpretação Bíblica (Exegese e Hermenêutica) – Entendes o
Que Lês? Abordagem histórica / crítica / textual interpretativa da literatura bíblica vétero e neo-testamentária.
CURSO PREPARATÓRIO DE OBREIROS – TEOLOGIA BÍBLICA
Hermenêutica Bíblica Avançada – Entendes o que Lês?

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA – ENTENDES O QUE LÊS?

“...Apressa e esforça-te a ti mesmo para se apresentar a Deus aprovado como trabalhador sem qualquer
motivo de vergonha ou desonra e que manuseia corretamente (corta reto) a Palavra da verdade... 2 Tm
2.15” (Tradução Dinâmica)
“...E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como
pastores e mestres, visando o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do
corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao
estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo...” Ef 4.12-13 (ARA)

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou
pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo, sendo ele o resplendor da sua glória e a
expressa imagem do seu Ser Hb 1.1-4” (ARA).

Palavra do professor: Nosso Deus é um Ser que se comunica e tem total interesse que o compreendamos para o nosso próprio bem
porque Ele nos ama profundamente e sabe a falta que Ele nos faz. Nisto deve se resumir o nível de interesse de todo exegeta ou
estudioso da Palavra de Deus.

OBJETIVOS DA DISCIPLINA

Instruir e capacitar os alunos na execução prática da exegese e hermenêutica bíblica:

o Despertando nos alunos um interesse sincero e profundo no estudo sério e piedoso das Escrituras cristãs;
o Transmitindo-lhes uma gama variada e substancial de conhecimentos teóricos e práticos para o trabalho de análise consistente
e bem embasada dos textos bíblicos;
o Capacitando-os na utilização de ferramentas e recursos de pesquisa para o aprofundamento na fé, no conhecimento e serviço
da Palavra de Deus;
o Ajudando-os a se tornarem obreiros aprovados por Deus, que não têm do que se envergonhar e que manejam bem a Espada
do Espírito, a Palavra de Deus.

Observação: esta apostila foi elaborada como material didático complementar do Curso Preparatório de Obreiros com o propósito de
servir como guia para as aulas presenciais que deverão ocorrer conforme agenda do curso. O aluno deverá ler, preparar anotações com
suas dúvidas e observações detectadas durante a leitura para esclarecimentos em aula visando o enriquecimento do curso bem como a
melhor utilização do tempo disponível.

Este material servirá para que o aluno tenha um contato geral nesta área de conhecimento bíblico, fornecerá ao obreiro um panorama
geral da Palavra e servirá de literatura de apoio caso, no futuro, seja necessário no exercício do seu ministério na Igreja do Senhor.

Que o Senhor abençoe a todos.

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SUMÁRIO

HERMENÊUTICA BÍBLICA AVANÇADA ......................................................................................................................................... 6


1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................................................................... 6
1.1 Conceitos Gerais ........................................................................................................................................................ 6
1.2 Revendo Conceitos .................................................................................................................................................... 7
1.2.1 Exegese ............................................................................................................................................................. 7
1.2.2 Dupla autoria .................................................................................................................................................... 8
1.2.3 “Sensus plenior” ou Sentido Pleno ................................................................................................................... 8
1.2.4 Revelação progressiva ...................................................................................................................................... 8
1.2.5 Inspiração plena ............................................................................................................................................... 8
1.2.6 Inerrância das Escrituras................................................................................................................................... 9
1.2.7 O princípio da Analogia das Escrituras ............................................................................................................. 9
1.2.8 Texto “Descritivo”............................................................................................................................................. 9
1.2.9 Texto “Prescritivo”............................................................................................................................................ 9
1.3 Natureza das escrituras e a Natureza humana ......................................................................................................... 9
1.4 Criticismo Bíblico ..................................................................................................................................................... 10
1.4.1 Criticismo textual:........................................................................................................................................... 10
1.4.2 Criticismo histórico: ........................................................................................................................................ 11
1.4.3 Criticismo literário: ......................................................................................................................................... 11
1.5 O Contexto .............................................................................................................................................................. 12
1.5.1 Gêneros Literários .......................................................................................................................................... 12
1.5.2 Tipos de Linguagem ........................................................................................................................................ 13
1.5.3 Construção do Contexto ................................................................................................................................. 14
1.5.4 Análise Textual ............................................................................................................................................... 15
1.5.5 Os primeiros passos ........................................................................................................................................ 16
1.6 A Autoridade da Escritura ....................................................................................................................................... 18
1.7 Os princípios de interpretação de Westminster ..................................................................................................... 21
2. PALAVRA DE DEUS ACESSÍVEL ......................................................................................................................................... 24
2.1 Princípios básicos de Interpretação ........................................................................................................................ 25
2.2 O Caráter da Revelação Progressiva........................................................................................................................ 26
2.3 Os filtros ou Pré – Conceitos .................................................................................................................................. 27
3. PRATICANDO A EXEGESE ................................................................................................................................................. 28
3.1 Cuidados básicos no trabalho exegético ................................................................................................................. 28
3.2 Os recursos externos ............................................................................................................................................... 29

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3.3 O uso das línguas originais: ..................................................................................................................................... 31


3.4 As versões Bíblicas: ................................................................................................................................................. 31
3.5 Tipos de Tradução ................................................................................................................................................... 32
3.6 As concordâncias bíblicas de palavras: ................................................................................................................... 33
3.7 Ferramentas adicionais introdutórias ..................................................................................................................... 33
3.8 Quanto à Exegese Editorial: .................................................................................................................................... 34
4. SOBRE A INTERPRETAÇÃO – METODOLOGIAS ................................................................................................................ 35
4.1 A Interpretação das Palavras................................................................................................................................... 35
4.2 A Interpretação do Contexto................................................................................................................................... 36
4.3 A Interpretação Histórica ........................................................................................................................................ 37
4.3.1 Afirmações Básicas da Interpretação Histórica .............................................................................................. 37
4.3.2 O Que Se Exige do Exegeta. ............................................................................................................................ 38
4.4 A Interpretação Gramatical ..................................................................................................................................... 38
4.5 A Interpretação da Linguagem Figurada ................................................................................................................. 39
4.5.1 O uso da linguagem figurada. ......................................................................................................................... 39
4.5.2 Quando a linguagem é literal ou figurada? .................................................................................................... 39
4.5.3 A interpretação da linguagem figurada. ......................................................................................................... 41
5. ESTILOS LITERÁRIOS DA BÍBLIA ....................................................................................................................................... 43
5.1 Os Gêneros Literários do Antigo Testamento ......................................................................................................... 43
5.1.1 Composição Geral do Antigo Testamento ...................................................................................................... 43
5.1.2 A Pré-História Oral do AT................................................................................................................................ 44
5.1.3 Gêneros Literàrios dos Textos Arqueológicos ................................................................................................ 45
5.1.4 Crítica Literária ............................................................................................................................................... 46
5.2 As Narrativas do Antigo Testamento ...................................................................................................................... 47
5.2.1 O emprego das narrativas .............................................................................................................................. 47
5.2.2 A natureza das narrativas ............................................................................................................................... 47
5.2.3 Princípios de interpretação de narrativas ...................................................................................................... 48
5.2.4 Precauções finais ............................................................................................................................................ 49
5.3 As Narrativas do Novo Testamento ........................................................................................................................ 49
5.3.1 A natureza dos evangelhos ............................................................................................................................. 50
5.3.2 Hipóteses básicas para a exegese dos evangelhos ......................................................................................... 51
5.3.3 A tarefa exegética dos Evangelhos ................................................................................................................. 51
5.4 Os Textos Proféticos do Antigo Testamento ........................................................................................................... 52
5.4.1 O que é profecia ? .......................................................................................................................................... 52

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5.4.2 O propósito das profecias do V.T. .................................................................................................................. 52


5.5 A Poesia Bíblica ....................................................................................................................................................... 55
5.5.1 Formas Poéticas.............................................................................................................................................. 56
5.5.2 O Paralelismo da Poesia Hebraica .................................................................................................................. 56
5.5.3 Casos Paralelos Fora da Bíblia ........................................................................................................................ 59
5.5.4 O Texto Poético e a Exegese ........................................................................................................................... 59
6. FIGURAS DE RETÓRICA .................................................................................................................................................... 60
6.1 Metáfora ................................................................................................................................................................. 60
6.2 Sinédoque ............................................................................................................................................................... 61
6.3 Metonímia ............................................................................................................................................................... 61
6.4 Prosopopéia ............................................................................................................................................................ 61
6.5 Ironia ....................................................................................................................................................................... 62
6.6 Hipérbole ................................................................................................................................................................. 62
6.7 Alegoria ................................................................................................................................................................... 63
6.8 Fábula ...................................................................................................................................................................... 63
6.9 Enigma ..................................................................................................................................................................... 63
6.10 Tipo ..................................................................................................................................................................... 64
6.11 Símbolo ............................................................................................................................................................... 64
6.12 Parábola .............................................................................................................................................................. 65
6.12.1 Os propósitos das parábolas ...................................................................................................................... 67
6.12.2 O contexto das parábolas........................................................................................................................... 67
6.13 Símile................................................................................................................................................................... 69
6.14 Interrogação........................................................................................................................................................ 71
6.15 Apóstrofe ............................................................................................................................................................ 71
6.16 Antítese ............................................................................................................................................................... 72
6.17 Clímax ou Gradação ............................................................................................................................................ 73
6.18 Provérbio ............................................................................................................................................................ 75
6.19 Acróstico ............................................................................................................................................................. 76
6.20 Paradoxo ............................................................................................................................................................. 77
6.21 Hebraísmos ......................................................................................................................................................... 79
7. RESUMO GERAL............................................................................................................................................................... 84
8. BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA ....................................................................................................................................... 94

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HERMENÊUTICA BÍBLICA AVANÇADA

1. INTRODUÇÃO

1.1 Conceitos Gerais

O estudo sistemático da exegese bíblica representa uma etapa importante na preparação e aprendizado do obreiro cristão em que o foco
será a técnica da “Ciência – Arte” da interpretação de textos. Podemos encontrar cristãos fiéis que digam que a Bíblia não deve se tornar
objeto de estudo aprofundado, porém um guia prático de vida para todo homem que deseja se acertar com seu Criador.

Em parte esta idéia não está de fato errada, pois como poderemos perceber se observarmos sinceramente em nossas próprias vidas, um
dos grandes problemas da cristandade não está exatamente na dificuldade de compreender a vontade e a direção de Deus, mas em
cumpri-la. Normalmente já sabemos muito a respeito dos ensinamentos da Bíblia e a obediência prática é, de longe, o maior obstáculo.

Por outro lado, aprouve Deus agir em nosso favor, enquanto raça rebelde e distanciada da fonte única de vida a partir da entrada do
pecado na história da humanidade, fazendo-se conhecido revelando-se a nós através dos seus servos e por último e completamente por
meio de Seu Filho Amado. E, para garantir que, ao longo dos séculos que se seguiriam à revelação deste maravilhoso Deus, a Sua
Palavra não fosse corrompida pelos processos de transmissão oral de conhecimento por meio das tradições, Ele inspirou homens a
registrar de forma escrita este conhecimento que chegou até nós e seremos estúpidos se não buscarmos tal conhecimento.

Mas à medida que nos distanciamos cultural e cronologicamente dos fatos relatados na Palavra, sua forma de expressão, os eventos
históricos, as realidades políticas, geográficas e climáticas, mais difícil se torna para o leitor compreender com clareza determinados
pontos que são apresentados. Daí surge à necessidade da “interpretação” e da análise investigativa dos textos (a necessidade de
interpretação é ponto separado de estudo e debate).

O termo exegese é oriundo da palavra “exegeomai” que significa literalmente “conduzir de dentro para fora” e o termo hermenêutica
também é grego e significa “interpretação”. Daí surge à brincadeira de mau gosto de alguns estudiosos afirmando que quando alguém
imputa preconceituosamente suas idéias em textos bíblicos a prática que está sendo realizada é a “eisegese” (conduzir de fora para
dentro).

O mundo acadêmico e teológico atual não possui consenso muito fechado entre o uso das terminologias utilizadas para a identificação
das etapas de “Exegese” e “Hermenêutica” sendo que alguns eruditos as fundem em um único significado e outros as identificam
distintamente como matérias separadas e tratadas em foros também distintos. Outros até consideram a exegese como parte integrante
da hermenêutica, sendo que a última é composta do “pacote”: exegese + devocional + sermônica.

Neste curso, manteremos a distinção entre as disciplinas destacando que o termo “Exegese” se refere às atividades e metodologias
utilizadas para a investigação histórica e literária para a determinação o mais exata possível do estrito significado do texto bíblico.
Exegese basicamente responde ou busca resposta para a seguinte questão: O que o autor ou escritor bíblico disse (contexto básico)?
Porque ele disse isto em um dado momento ou ponto do desenvolvimento de suas idéias ou explanações (contexto literário)? (FEE,
Gordon).

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Entendemos (e trabalharemos este curso com esta premissa) de que a tarefa “Hermenêutica” se refere ao trabalho realizado para a
contextualização das mensagens e princípios bíblicos identificados para a era contemporânea dos ouvintes e leitores de seu trabalho no
sentido mais estritamente prático possível. De forma simplificada diremos que através da “tarefa exegética” o estudante da Palavra
descobre o que o escritor bíblico escreveu em detalhes para uma platéia ou público alvo específico e através da hermenêutica os
princípio e conceitos bíblicos são aplicados na vida de seus ouvintes contemporâneos. Esta distinção é importante porque a exegese
como ciência é bem mais “exata” que a hermenêutica, pois esta última encontra-se extremamente carregada do estilo, da cultura e do
cenário do pregador contemporâneo e seus ouvintes.

De certa forma a tarefa exegética é à base de pesquisa histórico – literária que resgata a mensagem transmitida pelo autor diretamente
ao seu público alvo identificando com isto as particularidades históricas e a relevância eterna no texto em questão. A partir deste ponto a
tarefa hermenêutica se utiliza o conhecimento identificado e sistematizado pela anterior (exegese) e a aplica em um contexto totalmente
distinto respeitando esta transição histórica. Esta é a base conceitual do método de interpretação histórico – crítico.

Segundo Gordon Fee, “a chave para a boa exegese está na habilidade de elaborar perguntas corretas ao texto com a finalidade de se
obter a compreensão da intencionalidade do autor. Boas questões exegéticas classificam-se em duas categorias básicas: questões de
assunto (o que ele disse) e questões de contexto (porquê ele disse)1” (itálico meu).

Exegese Hermenêutica
------------------------------------>
(eventos do séc. I registrados) (Igreja do séc. XXI)
_ Quem falou?
_ Para quem falou?
Como a informação correta do século I
_ O quê aconteceu?
afeta a Igreja contemporânea com
_ Quando?
respeito ao seu comportamento e
_ Como?
interpretação da vontade de Deus para
_ Porquê?
ela?
_ Com qual intenção?
_ Etc, etc, etc?

1.2 Revendo Conceitos

1.2.1 Exegese

É a ciência – arte da interpretação de textos que procura responder às duas questões básicas concernentes ao mesmo as quais são : 1.
O que realmente o texto diz ?, e, 2. Porque ele diz isto ?

1 FEE, Gordon D., New Testament exegesis, 1993, United Bibles Societies, 4th revised edition.

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1.2.2 Dupla autoria

Entende-se que os livros que compõem a Bíblia sagrada é o resultado da integração perfeita entre Deus e o homem, resultando
consequentemente em uma dupla autoria com a participação efetiva de ambos.

1.2.3 “Sensus plenior” ou Sentido Pleno

Baseado na idéia da dupla autoria, sugeriu-se que os textos bíblicos possuam um significado ou interpretação que vá além do
entendimento e capacidade do autor humano com aplicações universais ( lit. “sentido pleno” ). A posição mais sensata quanto a esta
questão deve ser a de que nós só estamos autorizados a admitir o “sensus plenior” em qualquer texto bíblico se a própria Bíblia o fizer
em posterior revelação, e, nunca em contrário para que não incorramos nos mesmos erros de tantos que nos precederam.

1.2.4 Revelação progressiva

“Ele, Deus, queria ser conhecido e consequentemente compreendido”.

É o processo de auto – apresentação da parte de Deus aos homens por meio da participação ativa na vida destes afim de lhes tornar
conhecido Seu caráter, personalidade, propósitos, poder, amor, etc. O ápice da revelação de Deus aos homens de forma progressiva
ocorreu na pessoa do próprio Cristo, o qual foi “Deus em carne” andando literalmente lado a lado com estes mesmos homens aos quais
Ele desejava se revelar.

Observação: A partir da teoria evolucionária de Charles Darwin, estudiosos do final do século XIX apregoaram que a Bíblia era nada mais
do que o retrato da evolução natural da religião judaica nos seus diversos períodos culminando com o cristianismo, enfim, um produto
meramente humano.

1.2.5 Inspiração plena

Segundo o testemunho da própria Bíblia, as escrituras foram “sopradas” ( gr. theopneustos) II Tm 3.16 e não é momento algum de
particular interpretação, portanto, é inconcebível pensar em Deus neutralizando o homem que foi feito à Sua imagem e semelhança ou,
dando uma idéia vaga para que ele a interpretasse = ( os dois extremos).

Na inspiração plena, como cremos, Deus guiou ( mostrou, soprou ) sobre o que escrever e o como escrever afim de ser perfeitamente
compreendido em sua própria época assim como Ele tencionava ser.

Observação : o criticismo bíblico não elimina de forma alguma tampouco subestima a inspiração das escrituras, pelo contrário, a reforça e
a estabelece pois insiste em determinar como segurança os textos originais ( os quais foram inspirados ) sem as posteriores
interferências e / ou corrupções que vieram a ocorrer no processo de transmissão escrita dos mesmos no passar dos séculos.

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1.2.6 Inerrância das Escrituras

Inerrância significa que a verdade de Deus foi transmitida em palavras que, entendidas no sentido em que foram empregadas, entendidas
no sentido que realmente se destinavam a ter, não expressam erro algum no propósito que tinham. A inspiração garante a inerrância da
Bíblia devido à sua origem que é o próprio Deus. Isto não significa que os escritores não tinham falhas, mas que foram preservados de
erros os seus ensinos. O conceito da Inerrância não contempla o processo de transmissão de texto sagrado pelos milhares de copistas
que participaram deste processo nos mais diferentes momentos da história do povo de Deus.

1.2.7 O princípio da Analogia das Escrituras

Processo de comparação entre os princípios encontrados em um trabalho exegético com o restante da palavra revelada nas Escrituras
tendo em vista o pressuposto de que a Bíblia, como Palavra de Deus, não se contradiz. O melhor intérprete da Bíblia é a própria Bíblia.
Se houver a reafirmação da verdade, a interpretação do princípio bíblico estará estabelecida. Interpretações inovadoras baseadas
apenas em filosofias, uma intrincada linha de raciocício lógico, teologia histórica ou gramática deve trazer nossa desconfiança.

1.2.8 Texto “Descritivo”

É o texto que descreve algo, narra um acontecimento sem emitir juízo de valor. O fato de algo ser relatado na Bíblia não significa que o
mesmo esteja correto ou seja regra vigente.

1.2.9 Texto “Prescritivo”

É o texto que prescreve, ou seja, ele legisla, normatiza, traz regras, estabelece prescrições, ensinamentos e mandamentos onde vemos
nas Escrituras passagens destinadas claramente à instrução e doutrinamento.

1.3 Natureza das escrituras e a Natureza humana

O ser humano é limitado à sua dimensão existencial e, consequentemente profundamente influenciado por tudo aquilo que o rodeia.
Quando vemos Deus se apresentando a este ser tão cercado de limites e de fraquezas mas ao mesmo tempo criado à imagem e
semelhança do Altíssimo Deus, devemos pois imaginar que este mesmo Deus criou mecanismos para que Ele possa ser reconhecido por
aquele que, literalmente, está aprisionado ao tabernáculo terrestre como bem disse o apóstolo Pedro.

Dentro desta idéia de que, certamente, o Criador deixou dentro de sua criação mais perfeita, i.e., o homem, algo que o permita a
percepção e o reconhecimento do mundo espiritual e, principalmente, do que é o divino. Verdadeiramente, a natureza humana é
construtivista, ou seja, ele aprende sempre com base na experiência agregada do aprendizado que o antecede.

Dúvidas existenciais e cosmológicas do tipo : _Quem sou eu ?, _De onde vim ?, Para onde eu vou ?, _Como surgiu a vida? , a idéia do
absoluto, do eterno, são inerentes à sua alma desde o seu nascimento e o impulsionam à reflexão, à meditação e à pesquisa, ou seja,
Deus colocou no ser humano o anseio da busca do auto - conhecimento e do divino bem como o testemunho de sua existência e poder.

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Desta forma podemos dizer que o homem foi, de certa forma, codificado pelo próprio Deus para receber a Sua mensagem como uma
senha de computador, e, inegavelmente, a Bíblia a contém, o que pode ser facilmente comprovado pela uniformidade de sua mensagem,
a peculiaridade e riqueza de sua história e seus textos, sua projeção profética, sua capacidade de sobrevivência e aceitação pela raça
humana por milênios a fio bem como seu poder de influência e transformação prática na vida dos homens que a conheceram

A crença na veracidade e autoridade bíblica é, em conjunto como os demais conceitos que já foram tratados um pré – suposto , pré –
conceito ou “filtro” do qual precisamos para se ter uma perspectiva adequada de Sua palavra.

1.4 Criticismo Bíblico

É o estudo e investigação dos escritos bíblicos que buscam discernir e estabelecer julgamento adequado sobre estes escritos. O termo é
derivado da palavra grega “krinô” que pode significar : julgar, discernir ou discriminar a formação de uma avaliação ou julgamento sobre
quaisquer coisas.

De forma geral , as questões de interesse desta ciência têm diretamente a ver com a preservação e transmissão do texto bíblico,
incluindo em quais manuscritos o dito texto foi preservado, sua datação, situação, relação entre eles, qual a forma mais confiável de
texto, sua origem e composição bem como quando e onde foi originado, como, porque, por quem, para quem e, em quais circunstâncias
ele foi produzido. Outros pontos de importância levados em consideração na acurada investigação, determinação e julgamento realizado
em um trabalho de criticismo são os fatores de influência que existiram durante o processo de produção do texto, quais as fontes usadas
para sua composição, bem como a mensagem do texto como em sua própria linguagem, o significado das palavras e o modo pelo qual
elas foram arranjadas na forma plena de expressão.

Como ciência complexa, se divide em diversos segmentos os quais são relatados a seguir :

1.4.1 Criticismo textual:

É o campo de estudo que procura estabelecer o palavreado original ou forma do texto tanto quanto possível. Pelo processo de
transmissão dos textos, muita coisa foi mudada e muitos erros foram cometidos durante as cópias como omissões, duplicações,
substituições e, devemos lembrar que os autógrafos nunca foram encontrados e o que possuímos são cópias de cópias de cópias...,
traduções antigas e, citações dos originais por outros autores.

Basicamente, o trabalho do criticismo textual consiste em coletar os vários escritos nos quais ele fôra preservado, determinar as
mudanças que ocorreram no palavreado e arranjo do texto, definir a significância de tais mudanças, e, se possível for, restaurar o texto
em sua forma original ou decidir qual a melhor ou mais confiável forma textual buscando estabelecer o texto mais seguro que possa
servir como base para um estudo sério e reflexão.

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1.4.2 Criticismo histórico:

É o processo investigativo que visa reconstruir a situação histórica na qual o texto foi elaborado e como ele veio a ser escrito pois, pode
ser dito que um escrito bíblico possui sua própria história a qual inclui a época e local de composição, as circunstâncias nas quais ele foi
produzido, o autor ou autores, como veio a ser escrito e os destinatários.

Uma parte crucial na determinação da história de um texto é estabelecer a data da composição do mesmo. Algumas vezes isto é possível
através de referências explícitas do próprio texto. ( Ex. Is 1.1; 6.1; Jr 1.1-3 ). Em outros casos, o texto não nos fornece nenhuma
indicação de sua datação e, nestes, ela deve ser determinada por fontes externas não bíblicas, evidências arqueológicas que forneçam
informações seguras do mesmo período relacionado a pessoas ou eventos mencionados.

Um exemplo prático disto foi a descoberta de uma inscrição que menciona Gálio, o Procônsul da Acaia que possibilitou datar com
precisão a primeira visita de Paulo a Corinto em 51 / 52 d.C. e, que disponibilizou inclusive informações extras para datar, além das
cartas aos Coríntios, também auxiliou a estabelecer com mais certeza a cronologia do N.T. como um todo.

Outro dado proeminente na investigação histórica do criticismo bíblico é o local de composição ou região de origem do material utilizado.
Em sua grande maioria, os escritos bíblicos são originados na região do Mediterrâneo, especialmente o Egito, Palestina, Síria e Ásia
Menor. O conhecimento da região geográfica na qual o escrito foi composto ou se refere nos ajudará a compreender melhor as situações
política e social, bem como esclarecer outros pontos específicos do texto.

Outro ponto muito importante a ser estabelecido é a autoria, incluindo, não somente a identidade do autor como também seu método de
composição. Muito relacionados à autoria, encontram-se na pasta de pesquisas deste segmento do criticismo bíblico a questão das
fontes empregadas para a composição daquele trabalho em questão assim como a audiência alvo daquele autor naquele texto específico
que cooperam para determinar as circunstâncias existentes em torno da produção dos mesmos e a relação existente entre autor e
destinatário.

1.4.3 Criticismo literário:

É o estudo concernente ao texto como peça literária final não se preocupando em como o texto foi escrito ou o contexto que o gerou mas,
o que podemos aprender com o que o próprio texto diz. Neste senso, o texto constitui um “mundo” o qual serve como objeto de
investigação em todos os aspectos.

O estudo da linguagem do texto inclui as palavras e seus vários significados onde a filologia, lexicografia, morfologia fornecem excelentes
ferramentas para este tipo de análise. As palavras individuais são arranjadas em unidades maiores donde o estudo cuidadoso da
gramática irá certamente lançar luz sobre o significado complexo de frases, sentenças, parágrafos, capítulos e seções. Este estudo
também vislumbra o arranjo das palavras nas sentenças ( sintaxe ) e como suas formas são mudadas ( inflexões, etc. ).

No criticismo literário são estudados o estilo literário que norteará os níveis de influência e participação das palavras no texto, a forma
literária ou gênero que nos dará o enfoque do texto real no qual ele está inserido e deve ser compreendido.

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Como podemos perceber, no estudo de uma biblioteca tão rica, diversa e, por outro lado tão distante de nós no que tange à cronologia, o
conhecimento bem fundamentado do contexto em seus mais diversos níveis certamente nos será de grande utilidade, e, desta pesquisa
e investigação séria chamada de Criticismo bíblico estará à nossa disposição uma diversidade infindável de ferramentas e materiais que
nós devemos saber valorizar e agradecer.

1.5 O Contexto

Como já foi dito anteriormente, o termo “exegese” o qual temos usado em nosso curso assim como o compreendemos, refere ao
consenso limitado referente à investigação histórica no significado do texto bíblico em seu tempo específico.

Exegese, portanto, procura responder à questões básicas de interpretação como : _ O que o autor quis dizer? E isto diz respeito não
somente sobre o que ele disse, ( o assunto em questão ), bem como o porquê ele o disse em um dado ponto ou momento (contexto
literário ). Em suma, a exegese é, primariamente, interrelacionada com a “intencionalidade”, ou seja : _ O que o autor pretendia que os
seus leitores ou destinatários originais compreendessem ? Este é seu propósito básico.

Para tanto, existem diversas regras ou formas que devem ser levadas em consideração para que nosso trabalho de investigação tenha a
maior precisão tanto quanto possível , a qual, depende também da meta que pretendemos cumprir com o nosso estudo particular de um
texto ou livro da Bíblia.

A primeira coisa que devemos notar em qualquer texto bíblico é elementar porém crucial para a compreensão final do texto alvo afim de
determinar o restante do mesmo, i.e., _ Qual o tipo de literatura com a qual estamos envolvidos no trabalho de exegese ?

1.5.1 Gêneros Literários

O Antigo Testamento é composto basicamente de 3 gêneros literários os quais são :

i. As Narrativas, as quais representam 40% de todo o texto bíblico vetero – testamentário e são histórias completas
com propósitos que pode ou não compor em termos gerais com uma exposição macro.
ii. As poesias, sendo um terço literatura hebraica ocupam papel especial na formação de sua mensagem pela forma
singular como forma os argumentos através de versos trabalhados propositadamente para tal.
iii. A profecia, que são compêndios de exortações e encorajamentos apresentados das mais diversas formas
possíveis afim de atrair a atenção de seus ouvintes como um porta voz de Deus.

O Novo Testamento é composto basicamente de 4 tipos os quais são :

i. As Epístolas, as quais a maior parte são compostas de parágrafos de argumento ou exortação. Neste ponto, o
exegeta deve aprender de modo geral a traçar a síntese do argumento do escritor de forma a compreender
qualquer sentença ou parágrafo individuais.

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ii. Os Evangelhos, por sua vez, são compostos de perícopes, i.e., unidades individuais de narrativa ou ensino, as
quais são de diferentes tipos, com diferentes características formais e estabelecidas em seu próprio contexto pelos
evangelistas.
iii. Os Atos são basicamente uma série conectada de curtas narrativas que formam uma narrativa global sob uma
perspectiva macro da narrativa geral.
iv. A Aprocalíptica – ou o livro da Revelação é, por sua vez, uma série de visões construídas cuidadosamente, as
quais, juntas formam uma narrativa apocalíptica completa.

Certamente estes tipos literários têm muita coisa em comum, porém, cada um destes gêneros possui seus problemas peculiares a nível
de exegética bem como regras específicas para cada caso.

1.5.2 Tipos de Linguagem

Outro ponto muito importante na determinação e estudo do contexto de uma determinada passagem ou livro diz respeito ao sentido das
palavras e linguagem que está sendo utilizada, que no caso dos textos bíblicos, em termos gerais podem ser de três tipos básicos, isto é,
literal, figurativa ou simbólica, a saber:

i. Linguagem Literal, os escritos que lemos devem ser entendidos tal e qual foram escritos ao pé – da – letra, como
acontecimentos históricos reais. ( Ex. Foi colocada na cabeça do Rei uma coroa ).
ii. Linguagem Figurativa e Simbólica, o texto se encontra permeado de metáforas, símiles, símbolos ou alegorias,
ou seja, não deveríamos buscar uma compreensão literal do texto. ( Ex. figurativa = _ Se você me chamar de coroa
vai ver estrelas à luz do dia., e Ex. simbólico = ....uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma
coroa de doze estrelas na cabeça ).

Observação Importante: A diferença entre estes três empregos de linguagem não está no fato de que um sentido se refere a
acontecimentos históricos reais e os outros não, pelo contrário, normalmente, todos dizem respeito a questões históricas reais, porém se
utilizam de tipos diferentes de linguagem para expressar estes fatos. Na verdade, a relação entre as idéias e as palavras é que tem um
enfoque especial.

De modo geral, o próprio texto e contexto já determinam o tipo de linguagem que está sendo adotado e nossa exegese não pode diferir à
intenção do autor e não temos o direito de fazer o texto significar em nossas mãos aquilo que ele jamais significou. (i.e. a regra áurea do
exegeta fiel ).

No uso de tais regras, devemos lembrar que nem todos os passos de interpretação que iremos estudar se aplicam igualmente a todas as
passagens bíblicas, por exemplo, em caso de questões textuais existem textos que exigem muito mais trabalho, pesquisa e cuidados do
que outros. Na verdade, o que nós precisamos fazer é nos tornarmos bastante familiarizados com a passagem a qual intendemos
interpretar e/ou esclarecer para que possamos determinar com segurança o devido peso de cada item e seus subpontos.

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1.5.3 Construção do Contexto

A chave para a boa exegese é a habilidade de se fazer as perguntas corretas ao texto de forma a obter o significado real da
intenção do autor.

As questões exegéticas compreendem em duas categorias básicas, ou seja, questões relacionados ao tema ou assunto ( o que é dito),
e, de contexto ( porquê é dito), sendo que as questões contextuais se dividem em dois tipos :

i. Contexto histórico, diz respeito às circunstâncias gerais históricas do documento ( i.e., a cidade, sua geografia,
seu povo, religião, economia, etc.), e, com a ocasião específica do documento, ou seja, porquê foi escrito.
ii. Contexto literário concerne ao porquê determinada coisa foi dita em um determinado ponto no argumento ou
narrativa, ou seja, o contexto literário significa que as palavras somente devem fazer sentido dentro de frases, e,
em sua maior parte, as frases na Bíblia somente têm um significado consistente em relação às frases anteriores e
posteriores. Já, as questões relacionada ao assunto ou tema abordado são basicamente de 04 tipos :
a. Criticismo textual que é a determinação do atual (contemporâneo) palavreado do autor.
b. Dados lexicais, isto é, o significado das palavras em sua época.
c. Dados gramaticais que determina a inter-relação entre as palavras no texto.
d. Pano de fundo histórico – cultural que estuda o relacionamento existente entre as palavras, idéias ao pano
de fundo e cultura do autor envolvido e seus leitores.

O trabalho de pesquisa do contexto literário deve nos ajudar, como já foi dito, descobrir a linha de pensamento do autor, i.e., a
intencionalidade, e, de certa forma, para se fazer bem este trabalho é necessário que empreguemos traduções que reconheçam a
estrutura correta do texto em termos de poesias e parágrafos, o que não é muito normal na grande maioria das boas versões que
possuímos.

Normalmente, as versões disponíveis tratam cada verso ( editorial) como um parágrafo, e, isto tende a obscurecer a lógica do próprio
autor( Observação : em contraste com seu tipo livre de tradução as Bíblias BLH, BJ e BV apresentam as melhores formas de divisão dos
parágrafos dentre as que comumente encontramos ) . Para tanto é de suma importância que se faça uma leitura cuidadosa de todo e
qualquer texto para que a fluência do mesmo fique perfeitamente delimitado ao exegeta que precisa aprender, pelo praticar, a reconhecer
unidades de pensamento, quer sejam parágrafos ( prosa) ou linhas e seções (poesia).

De certa forma, o próprio texto tem muito a nos dizer sobre seu próprio contexto ( contexto literário), e quando estudarmos um pouco
mais profundamente a análise sintática de um texto o veremos com mais clareza, mas, a princípio, muitas vezes, a seqüência lógica do
texto demonstra sem dificuldade o quê, o porquê, o quando, o como, às vezes quem. Isto não é diferente no que diz respeito ao
significado das palavras como foi citado anteriormente, e, para isto, o uso de uma boa concordância trará muitos bons resultados no
esclarecimento das dúvidas que porventura tenhamos.

Segue abaixo gráfico ilustrativo que dos elementos que normalmente constituem o contexto normal de um texto bíblico :

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( Gráfico originalmente retirado e adaptado do livro : “Do texto à paráfrase”)

Enfim, a boa exegese caracteriza-se pela feliz combinação ou cuidadosa integração de todos estes em uma apresentação oral ou escrita
de forma compreensível, marcada não pela originalidade mas pelo claro entendimento das intenções originais do autor. Lembrem – se :
Um texto jamais pode significar aquilo que ele nunca significou.

1.5.4 Análise Textual

Na seqüência de nosso estudo, devemos agora entrar em detalhes quanto à pesquisa sistemática do contexto o qual estamos
pesquisando e tentando compreender jamais nos esquecendo do pressuposto fundamental da interpretação exegética segundo o qual “o
significado de um texto deve ser aquele o qual o autor original tinha em mente”, em detrimento dos significados que porventura
desejemos atribuir às suas palavras “, pois, se rejeitarmos este princípio, não restará critério normativo, obrigatório, que possa discernir
entre interpretações válidas e inválidas. ”

Dentro destes princípios precisamos nos ater a algumas análises criteriosas do texto as quais podemos dividir em duas etapas básicas
como se segue :

i. Análise histórico – cultural

É o estudo que vai considerar o back-ground ( pano de fundo ) do autor e destinatários afim de compreender suas alusões, referências e
propósito analisando a relação de uma passagem com o corpo todo do escrito em questão

ii. Análise literária

É o estudo que identifica a forma ou método literário usado em uma determinada passagem com vistas às várias maneiras de expressão,
como foi citado em aula anterior, ou seja, história, narrativas, cartas, poesias, apocalipses, etc. Para tanto, não podemos nos esquecer
que, antes da investigação de qualquer sentença, parágrafo, ou qualquer subseção de um documento de forma isolada, necessitamos ter
um bom senso a respeito do documento como um corpo completo de literatura. Precisamos guardar bem a seqüência de perguntas
apresentadas a seguir como tarefa contínua em nosso trabalho de exegese:

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1. Quem ? Quem é o autor ? Quem está falando ? Quem é retratado ?


2. Para quem ? A quem está falando ? A quem se dirige ? Qual o relacionamento existente ente autor(es) e destinatário(s)?
3. Quando ?
4. Onde ? Onde foi escrito ? Onde estava o autor ? Onde viviam / estavam os recipientes ?
5. Como ? Qual o tipo literário ? Qual a linguagem utilizada ?
6. Porquê ? Quais eram as presentes circunstâncias ? Que situação histórica ocasionou o escrito ? Qual era o propósito do
autor ?

Com o estudo detalhado destas questões básicas para a compreensão de qualquer texto, ( bíblico ou não), teremos condições de partir
para uma análise um pouco mais profunda e de igual importância a qual chamamos de análise literária, ou seja, _Quais os recursos de
escrita utilizados pelo autor para transmitir sua mensagem?

Neste nível estaremos observando detalhadamente dois pontos literários importantes :

1. Tema Principal - Qual é o(s) tema(s) principal(ais) ou assuntos concernentes ao texto ou livro ?
2. Linha de Raciocínio - Percebe-se facilmente a linha geral do argumento ou narrativa ?

1.5.5 Os primeiros passos

Na tarefa de responder às questões que foram levantadas até este momento, que, com certeza, estarão nos esclarecendo grande parte
de todas as nossa dúvidas a respeito do texto em estudo, existem algumas regras práticas as quais devemos nos ater afim de atingirmos
o nosso propósito.

i. Leia o texto todo de uma só vez ( em uma “sentada “).

Não há substituto para este passo no trabalho de exegese, pois, jamais devemos fazer o que uma grande maioria faz sem perceber, ou
seja, começar o trabalho de interpretação com a compilação de um “esboço explicativo” já do verso 1 do capítulo 1. Sem dúvida alguma,
o primeiro passo é ler o texto todo como um documento inteiro, ou uma carta que recebemos de um amigo.

Evidentemente, em casos de documentos ou livros maiores ou mais complexos você terá de dividi-lo em seções de leitura, mas, até para
se ter a certeza de como fazê-lo precisamos partir do princípio básico que todo e qualquer texto, com algumas exceções, ( Provérbios,
por exemplo), possuem uma “fluidez” natural e perceptível aos olhos do leitor atento.

Após este primeiro passo, retorne ao texto e faça pequenas notas a respeito das descobertas “à flor da pele” que você encontrará como
segue abaixo:

ii. Descubra tudo o que for possível sobre os recipientes.

São eles judeus ou gentios ? Ou uma combinação ? Qual a relação existente entre eles ? Existem quaisquer sugestões ou insinuações
da situação sócio – econômica dos mesmos ?

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iii. Descubra todo o possível sobre o propósito.

O autor diz explicitamente alguma coisa a este respeito ? O quê está implicado ?

iv. Note ênfases especiais sobe qualquer aspecto que emergem ao texto.

Quais palavras, grupo de palavras ou idéias que são freqüentemente repetidas ? Quais recursos pouco usuais de vocabulário você
percebeu presentes ? Quais as coisas, (se porventura são faladas em algum momento), que o texto nos informa acerca da ocasião do
mesmo ou de seu propósito ?

v. Faça um tipo de esboço anotado

Envolvendo todo o texto para revisão posterior quando seu trabalho tiver avançado um pouco mais você já pode checar, se necessário,
com literaturas secundárias as informações que você conseguiu reunir. Se houver diferenças muito consideráveis entre suas
observações e as demais fontes introdutórias disponíveis, retorne à leitura novamente para compreender as razões que ocasionaram as
diferenças.

vi. Aprenda o valor de uma boa Concordância Bíblica

Para um bom estudo do contexto, o uso de diversas versões e de uma boa Concordância Bíblica será de grande utilidade, pois uma
Concordância pode ser a principal ferramenta no estudo exegético de qualquer texto, pois, nos mostrará a forma como as palavras,
textos, expressões eram entendidas pelo povo daquela época, a repetição ou uso enfático de palavras em determinadas situações.

Comparativamente falando, os dicionários bíblicos mostram a palavra na “vitrine” enquanto que a concordância permite apreciá-la
“movimentando” no meio dos textos e contextos distintos.2

No uso de Dicionários ou Manual Bíblico é necessário o cuidado de sempre dispor de mais de uma fonte de pesquisa porque eles podem
ser tendenciosos.

No caso das versões, de forma alguma é diferente disto devido às dificuldades existentes com respeito à divisão de parágrafos, seções
bem como o relacionamento sintático das mesmas do qual falaremos em aula seguinte.

vii. Confirme os limites da passagem

Este é o trabalho onde se determina se a passagem a qual temos escolhido para nossa exegese é uma unidade auto- contida genuína .
Isto é, se estamos trabalhando por sobre uma única sentença, qual a sentença deve ser localizada como um parágrafo opu unidade de
pensamento, ou uma perícope (unidade de narrativa completa).

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Para isto, se não temos a condição de verificarmos nos textos originais a distribuição correta das idéias através dos recursos da própria
linguagem em questão, deveremos abrir mão das diversas versões que nos estão disponíveis donde poderemos decidir com mais
propriedade qual é a unidade básica de pensamento envolvida no texto.

Afim de realizarmos bem este trabalho, seguiremos os seguintes passos básicos na tentativa de esclarecer a estrutura correta da
distribuição de idéias naquele texto afim:

1. O melhor meio para tornar bem conhecido o dito parágrafo e descobrir quais as necessidades especiais na interpretação
no mesmo é simplesmente ler atenciosamente aquele texto em mais de uma versão, sendo que, o objetivo deste exercício
é tornar-se completamente familiarizado com o parágrafo e suas nuâncias .
2. Não deixa de ser interessante, no caso de passagens mais problemáticas ou complicadas, tirar-se cópias dos textos das
diversas para um trabalho sistemático de comparação entre os mesmos.
3. Marque bem as diferenças entre as traduções fazendo uma lista das mesmas com seu devido suporte.
4. Determine quais destas diferenças são exegeticamente significantes, ou seja, quais delas são meramente sinônimos ou
questões de preferência, e, quais representam realmente diferenças na significação intrínseca da mensagem comunicada.
5. Nunca se deve subestimar a importância do acesso ás línguas originais quando se trata da elaboração mais avançada de
textos biblicos complexos.
6. Neste ponto pode ser de muita utilidade montar-se uma pequena tabela de dificuldades exegéticas, se elas existirem, e,
certamente chegaremos à conclusão de que muito do se fala às vezes em termos de traduções não têm realmente
grandes diferenças na interpretação, mas, quando elas existirem teremos segurança com nossa afirmação.

2
1.6 A Autoridade da Escritura

1. Ao pretendermos abordar o assunto da autoridade e da inspiração da Sagrada Escritura, convém não esquecer que é na
própria Bíblia que freqüentemente se alude ao fato de se tratar duma mensagem diretamente outorgada por Deus. Vamos, de
seguida, aprofundar a questão, não obstante as dificuldades que possam surgir.
2. Quando se fala da autoridade da Bíblia, poderemos sem mais nem menos apelar para o testemunho da mesma Bíblia, a
confirmar a nossa afirmação? Não será demasiado recorrer logo de início a tal argumento com que possivelmente teremos de
terminar, supondo a Bíblia "juiz em causa própria"? Não irão porventura julgar-nos a pressupor uma coisa que se pretende
explicar?
3. A primeira resposta leva-nos naturalmente a confessar, que o recurso à Bíblia visa apenas uma informação e não a uma prova
cabal. Poderiam ser apresentados argumentos racionais a favor duma autoridade da Escritura, mas em última análise
aceitamos a autoridade que se baseia na fé. Mas só a aceitamos enquanto a mesma Bíblia a supõe. Por outras palavras, se a
inspiração e a autenticidade do testemunho fizerem parte, -e parte integrante-da revelação, nada obsta a que a Bíblia se nos
apresente como regra de fé e de vida. Se assim não for, em vão será a nossa fé no Livro Sagrado; em vão a confiança que

2 Extraído e adaptado de DAVIDSON, Francis, O Novo Comentário da Bíblia, Ed. Vida Nova, 2ª Edição, 1980.**, Reeditado e doado por
“Consejero Del Amor”, Versão Completa

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depositamos nos seus ensinamentos. Considerando-o, porém, como autêntica Palavra de Deus, a reclamar por si própria uma
autoridade decisiva, nada obsta a que nela depositemos toda a confiança, aceitando essa Palavra e a autoridade que ela
implica.
4. Mas, dar-se-á o caso que seja a própria Bíblia a reconhecer essa autoridade? Caso afirmativo, no que implicará essa
afirmação? No primeiro caso é tão vasta a resposta, que dificilmente a poderemos abranger. Tanto no Velho como no Novo
Testamento, não raro se alude implicitamente a uma autoridade mais que humana e, em muitos passos, até se vislumbram
alusões claras e diretas. Diz-se, por exemplo, que Moisés recebeu de Deus não só as tábuas da Lei, mas ainda outras
recomendações rituais relativas à manutenção do tabernáculo. É notória a insistência dos profetas em afirmarem que não são
autores daquilo que pregam, mas que se trata duma mensagem recebida diretamente de Deus. Jesus Cristo falou com
autoridade, porque tinha a consciência de agir como Filho Eterno de Deus, e não apenas como um pregador vulgar. Os
apóstolos não duvidaram da autoridade das suas decisões, quer no que se referia a Cristo, quer no que importava à expansão
do Cristianismo sob a orientação do Espírito Santo.
5. Poderá julgar-se que a maioria destes casos supõe uma autoridade apenas a favor duma mensagem recebida e não dum
testemunho escrito, em que a mensagem nos é entregue. É talvez o caso de os profetas ou Jesus Cristo falarem com
autoridade divina; mas, por vezes, as suas palavras não chegaram até nós em primeira mão. Essa espécie de inspiração não é,
todavia, a mesma que se supõe nos compiladores do testemunho da sua atividade e das suas doutrinas. Nesse caso, não se
pode garantir que o conteúdo da Bíblia seja uma exposição literal e perfeita das mensagens que na realidade foram
comunicadas.
6. Contra esta objeção seja-nos lícito afirmar que, sobretudo no Novo Testamento e em referência ao Velho, exige-se uma
autoridade definida para os escritos bíblicos. É doutrina que facilmente se depreende dos ensinamentos do próprio Cristo.
Recorde-se como peremptoriamente responde ao tentador com o tríplice "está escrito". No Monte da Transfiguração faz ver aos
discípulos que está escrito do Filho do Homem ter de sofrer muito e até ser reduzido ao nada. Aos judeus, que se
embrenhavam nas Escrituras, lembra-lhes que estas "testemunhavam d’Ele". Logo após a ressurreição e em sessão magna
com os discípulos, alude a todos os passos das Escrituras que a Ele faziam referência, "Na Lei de Moisés, nos Profetas e nos
Salmos", insistindo no cumprimento das profecias. Estas e outras afirmações levam-nos à conclusão de que Jesus Cristo
aceitou a inspiração e a autoridade da Bíblia, sobretudo quando davam testemunho profético da Sua Morte e Ressurreição.
Depreende-se ainda de #Jo 14.26 e #Jo 16.13 que o Senhor prometeu semelhante inspiração no caso do testemunho
apostólico, que iria continuar.
7. Ao lermos os escritos dos apóstolos, de igual modo se verifica que admitiram o testemunho da autoridade divina. Em todos os
Evangelhos é dado certo relevo às profecias inspiradas da Obra e da Pessoa de Cristo. Paulo cita com freqüência o Velho
Testamento, a cujas profecias recorre para provar aos judeus que Cristo é o verdadeiro Messias. Vejamos como #2Tm 3.16
resume toda a doutrina de Paulo, levando-nos a supor que, tendo em mente o Velho Testamento, considera-o, sem dúvida,
inspirado por Deus. Outros escritos dos apóstolos aludem inúmeras vezes ao Velho Testamento, servindo de exemplo frisante
2Pedro seguindo na esteira de 2Timóteo no mesmo testemunho a favor da inspiração da Bíblia. Em #2Pe 1.21, por exemplo,
diz que a palavra da profecia provém do seu autor originário-o Espírito Santo: "Porque a profecia nunca foi produzida por
vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo". Do mesmo Apóstolo em
#2Pe 3.16 parece provável uma alusão à autoridade divina das Escrituras, de que nos devemos aproximar com reverência e
humildade. Trata-se dum versículo particularmente interessante, pois coloca em paralelo as Epístolas de Paulo com as outras

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Escrituras, o que significa que os autores apostólicos agiam conscienciosamente ao completarem o Cânon autorizado do Velho
Testamento.
8. Rigorosamente, é certo serem pouco numerosas as alusões diretas à inspiração das Escrituras, e nenhuma se refere com
precisão à autoridade de cada um dos livros em particular. Por outro lado, se excetuarmos Esdras, Neemias, Ester, Eclesiastes,
Cantares de Salomão, Obadias, Naum e Sofonias, observamos que todos os livros do Velho Testamento são diretamente
citados no Novo; e quando se toma em consideração a atitude do Novo Testamento em tais citações, poucas dúvidas nos
restam de que expressões como esta: "Assim diz o Senhor", que encontramos na boca dos profetas, eram aplicadas aos
testemunhos da atividade profética, assim como às mensagens orais proferidas em determinadas ocasiões. A palavra escrita
era tratada como forma categórica e inspirada em que se exprimia e transmitia o conteúdo da revelação divina.
9. Quando se nos apresentam objeções a este testemunho, convém precisar os seguintes pontos básicos: -Antes de nada mais,
queremos frisar que não se trata duma teoria específica acerca da inspiração. De #Jo 14.26 e #2Pe 1.21 fácil é descobrirmos
uma dupla atividade: a do autor humano dum lado e de outro, a do Espírito que inspira, orienta e dirige. Por certo que ninguém
duvida que no fim de contas a supremacia é do Espírito; mas também é de admitir que não se verifica qualquer alteração da
personalidade e da individualidade do autor humano.
10. Em seguida, repare-se que a inspiração é considerada pelos escritores do Velho Testamento em atenção, sobretudo, à futura
atividade de Deus. O profeta prevê, não há dúvida; mas a última prova da profecia era a exatidão com que a enquadrava no
futuro plano divino. Já no Velho Testamento caía em descrédito o profeta que não previa com a devida exatidão, e no Novo, o
valor do Velho é precisamente o testemunho profético que se dá de Jesus Cristo. Se é verdade que esse testemunho apóia as
prerrogativas messiânicas de Jesus, também é verdade que a obra messiânica de Jesus supõe e exige a autenticidade das
profecias do Velho Testamento. Uma grande porção das citações desta parte da Bíblia relaciona-se com as diferentes formas
daquele testemunho profético.
11. Em terceiro lugar, aceita-se geralmente como autêntico, o entrecho histórico do Velho Testamento. Jesus Cristo, por exemplo,
alia Moisés à Lei e atribui a Davi o #Sl 110. Os apóstolos aceitaram todos os acontecimentos de vulto do Velho Testamento
desde Adão e da queda (#1Tm 2.13-14) até à travessia do Mar Vermelho (#1Co 10.1), desde a história de Balaão (#2Pe 2.16) e
da queda de Jericó (#Hb 11.30) à libertação sob os Juízes (#Hb 11.32) e aos milagres de Elias (#Tg 5.17). Em presença de
testemunho tão evidente, há quem afirme que Nosso Senhor e os apóstolos nada mais fizeram que limitar-se aos costumes do
tempo, servindo-se dos acontecimentos históricos apenas para melhor explicarem a sua doutrina. Não se pode pôr de parte a
idéia de que no Novo Testamento a crença na autoridade do Velho implica a aceitação da verdade histórica, religiosa e
doutrinal desse Livro Sagrado. Mas é justo lembrar também, que, se essa aceitação se refere só à intervenção sobrenatural do
Deus Onipotente, em parte alguma teremos mais vivo exemplo de tal intervenção do que nos fatos centrais do Evangelho
cristão, tais como a Vida, a Morte e a Ressurreição de Jesus Cristo.
12. Chama-se, por vezes a atenção para a aparente liberdade ou até arbitrariedade do Novo Testamento nas citações que
apresenta do Velho. Por um lado, utiliza-se e vulgarmente a edição grega dos Setenta (a Septuaginta), o que não raro implica
sérias divergências do texto hebraico massorético. Por outro, os versículos do Velho Testamento referem-se, com freqüência,
profeticamente a Cristo, quando uma interpretação atenta lhes dá uma aplicação original completamente diferente. A razão
baseia-se no fato de que esta liberdade sugere um conceito de inspiração mais amplo do que aquele que tradicionalmente anda
associado à Bíblia e aos seus autores. Lembre-se, todavia, o seguinte: Quanto à Septuaginta é muito provável que em certos
casos a tradução grega seja mais pura e fiel ao original do que o texto massorético. Em seguida, o principal objetivo duma

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tradução não se limita a apresentar equivalências literais, mas sim manter o sentido original. Logo, em presença de diferenças
inevitáveis na estrutura lingüística, é possível que uma tradução mais livre seja mais fiel do que a literal. Na Septuaginta os
autores do Novo Testamento utilizaram na tradução uma terminologia especial, familiar a uma grande parte dos seus leitores.
Finalmente, nalguns casos, o Espírito Santo pode ter-se servido da Septuaginta para apresentar novos aspectos da Verdade
divina, ou então dar-lhes uma aplicação mais enfática. Se necessário for, certamente que não devem ser menosprezados os
mais leves pormenores do texto original (cfr. #Gl 3.16).
13. O problema dos testemunhos proféticos não é menos importante, uma vez que, parece que se alteraram por completo o
significado e a aplicação. Com efeito, houve quem lembrasse que, conscienciosa ou inconscienciosamente, os versículos não
foram devidamente utilizados na intenção de procurar provas pormenorizadas da profecia do Cristo-Messias. À primeira vista é
racional a objeção, já que no seu contexto original muitos dos versículos parecem não ter a mínima referência àquela
prerrogativa de Jesus. Mas, embora seja uma compilação de diferentes obras, a Bíblia mantém-se como livro uno e único em
que o contexto pode ter um sentido imediato e outro mais amplo. Ultimamente toda a história de Israel se concentra em sua
plenitude no único verdadeiro Israelita, podendo-se observar através de toda aquela história os mesmos modelos da atividade
divina. Para além da referência aparentemente artificial em #Mt 2 à Raquel do Velho Testamento, fácil é descobrir um
movimento de agressão, de morte e de exílio. Este, um exemplo entre muitos. Tomados meramente como textos
comprovativos, as citações podem não ser convincentes, mas no contexto mais amplo dos divinos arcanos, põem-nos em
presença de tipos e modelos que só encontram a sua plenitude na história de Jesus Cristo.
14. Cuidado, porém, com a leitura desses textos, para que não se ultrapassem os limites impostos pela realidade. Com respeito a
autores e a datas, por exemplo, é uso recorrer-se à tradição oral, quando a Bíblia não se pronuncia. É por vezes surpreendente
a extensão do silêncio bíblico! Pouco se sabe acerca da compilação dos livros históricos do Velho Testamento; nada de
concreto sobre a data e circunstâncias dalguns livros proféticos, como Malaquias; desconhece-se o autor de muitos salmos e
do livro de Jó; não sabemos se foi Paulo o autor da Epístola aos Hebreus; se Lucas escreveu o terceiro Evangelho e os Atos;
se o quarto Evangelho pertence ao Apóstolo João, etc. Embora legitimamente se possa inferir a autoria, por exemplo, de Lucas
e João, todavia só dos textos nada se depreende. Não se esqueça, porém, da existência duma linha entre o testemunho direto
da Bíblia e a evidência segura da tradição. De resto não é difícil identificar a autoridade da Escritura com a das citações
históricas, já que são bem diferentes os seus objetivos.
15. Há ainda a acrescentar, que a Bíblia não cessa de insistir na origem e na autoridade divinas, afirmando claramente que a sua
mensagem é de Deus. Embora através de instrumentos humanos, o autor é apenas o Espírito Santo. Admite-se o sobrenatural
tanto nas falas proféticas como nos acontecimentos históricos. Nada há de distinções artificiais entre o conteúdo interior da
Palavra de Deus e a sua forma exterior. Ao apresentar-se-nos como a autêntica Palavra de Deus, a Bíblia põe-nos diante dum
problema: ou cremos ou não cremos. Se bem que outras dificuldades possam surgir em ulteriores contatos com a Bíblia, o
problema básico fica de pé, e por certo que ninguém pode ignorá-lo.

1.7 Os princípios de interpretação de Westminster

A título de ilustração, segue abaixo os princípios de interpretação bílbica redigidos em Westminster em 1647. Os puritanos escreveram
sobre esse assunto na sua Confissão de Fé.

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O capítulo I da Confissão trata das Escrituras, e neles, eles expressaram suas convicções quanto à correta interpretação das Escrituras.
Importante lembrar que trata-se de uma Confissão Reformada (Presbiteriana) e claramente reflete seu pressupostos teológicos no modo
de interpretação bíblica.

Em resumo, são estas:

1. Para evitar que Sua vontade e a verdade se perdessem pela corrupção dos homens e a malícia de Satanás, Deus fê-la
escrever nas Escrituras Sagradas. A inspiração das Escrituras resulta no fato de que elas expressam fielmente a vontade de
Deus, a verdade divina.

"Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus,
que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário
para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua
vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a
corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura
Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo" (CFW, I.1). Referências - Sal. 19: 1-4; Rom.
1: 32, e 2: 1, e 1: 19-20, e 2: 14-15; I Cor. 1:21, e 2:13-14; Heb. 1:1-2; Luc. 1:3-4; Rom. 15:4; Mat. 4:4, 7, 10; Isa. 8: 20; I Tim. 3: I5; II
Pedro 1: 19.

2. A possibilidade de conhecermos o sentido das Escrituras, sentido esse pretendido por Deus através do autor humano:

"Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é
expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela" (CFW, I.6)

3. O Espírito Santo garante a compreensão salvadora das coisas reveladas na palavra de Deus, as Escrituras

"À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens;
reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas
na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas,
as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser
observadas" (CFW, I.6; ver Catecismo Maior pergunta 4) Ref. II Tim. 3:15-17; Gal. 1:8; II Tess. 2:2; João 6:45; I Cor. 2:9, 10, l2; I Cor.
11:13-14.

4. O sentido das Escrituras é tão claramente exposto e explicado que a suficiente compreensão das mesmas pode ser
alcançada através dos meios ordinários (pregação, leitura e oração)

"Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam
ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que

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não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas"
(CFW, I.7) Ref. II Pedro 3:16; Sal. 119:105, 130; Atos 17:11.

5. Há somente um sentido verdadeiro e pleno em cada texto da Escritura e não múltiplos sentidos, e esse sentido pode ser
alcançado e compreendido pela Igreja

"A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido
de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos
que falem mais claramente" (CFW, I.9) Ref. At. 15: 15; João 5:46; II Ped. 1:20-21.

6. Exatamente porque as Escrituras não têm sentidos múltiplos é que as mesmas são o supremo tribunal em controvérsias
religiosas, aos quais a Igreja sempre deve apelar

"O Velho Testamento em Hebraico (língua vulgar do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em Grego (a língua mais geralmente
conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus e pelo seu singular cuidado e
providência conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve
apelar para eles como para um supremo tribunal" (CFW, I.8; cf. como exemplo XXIX.6). Ref. Mat. 5:18; Isa. 8:20; II Tim. 3:14-15; I Cor.
14; 6, 9, ll, 12, 24, 27-28; Col. 3:16; Rom. 15:4.

7. A vontade de Deus está claramente expressa nas Escrituras e ao alcance da igreja, de forma que a mesma pode distinguir
entre culto aceitável a Deus e os que não são.

"A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve
ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de
adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as
imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não
prescrito nas Santas Escrituras" (CFW, XXI,1)

8. Apesar dos eleitos serem humanos e pecadores, recebem de Deus o que é necessário para compreenderem as coisas de
Deus para a salvação

"Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente
pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e
transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as
coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e
determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm
mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça" (CFW X,1; ver também o Catecismo Maior, pergunta 157).

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2. PALAVRA DE DEUS ACESSÍVEL

Como tem sido dito e afirmamos também neste curso, temos a certeza de que a Bíblia não é um livro obscuro, distante, confuso e aberto
apenas para alguns iluminados do planeta Terra (idéia defendida pelos gnósticos e pelos cléricos católicos na era das trevas da Igreja),
pois do próprio Deus partiu a iniciativa de Se auto revelar. Porém este tipo de mentalidade ainda afeta a forma como muitos dos cristãos
da atualidade (inclusive obreiros preparados) achegam-se à Palavra levando-os a uma atitude bloqueada ou mística na busca do
entendimento das coisas do Senhor através das páginas das Escrituras Sagradas.

Como um caçador ou investigador desatento eles espantam as presas, pisam nas pegadas desconfigurando o ambiente original na busca
de conhecimento ou explicação para as suas dúvidas sendo que, freqüentemente, o verdadeiro significado de um texto ou mensagem
encontra-se na superfície ao alcance dos olhos, porém as pessoas cavam tanto às vezes que a terra retirada sem necessidade é tão
volumosa que encobre a mensagem pura e simples dificultando a caminhada das pessoas em direção a Cristo por excesso de
curiosidade humana.

Não há problema algum em sermos curiosos e desejarmos um conhecimento profundo a respeito das coisas de nosso Pai, mas, quando
isto se torna um fim em si mesmo, a Palavra “perde” ser poder de convencer, converter, curar, confortar, confrontar, repreender e se
torna um objeto de laboratório. Não há maior desesperança para um filho de Deus que perder um recurso ou meio de comunicação
maravilhoso provido pelo próprio Deus por causa do orgulho, a vaidade ou a cobiça. Infelizmente muitos têm conhecido esta estrada
poeirenta e deserta da perda da fé na Palavra de Deus.

“Senhor, o meu coração não é soberbo, nem os meus olhos são altivos; não me ocupo de assuntos grandes e maravilhosos demais para
mim. Pelo contrário, tenho feito acalmar e sossegar a minha alma; qual criança desmamada sobre o seio de sua mãe, qual criança
desmamada está a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre. Sl 131” (ARA).

O alvo específico da boa interpretação bíblica é bem simples: “chegar ao sentido claro do texto tanto quanto possível”. O ingrediente
mais importante para alcançar este alvo específico é o bom senso e a humildade de coração. O aprendizado de uma metodologia
reconhecida para a realização da tarefa exegética caracteriza-se apenas como uma caixa de ferramentas contendo inúmeros
instrumentos úteis e importantes para a realização de um trabalho bem feito e que promoverá a glória do Deus e a benção à Sua Igreja,
porém é apenas uma caixa de ferramentas. Alguém já utilizou uma ferramenta que se chama “martelicate” universal? Alguém já usou
uma chave de fenda como talhadeira? Se não estivermos dispostos a utilizarmos as ferramentas exegéticas corretamente cometeremos
muitos erros e o problema dos erros cometidos em relação à Bíblia é que podem ter implicação eterna. (É bom meditar nisso!)

Este curso tem por objetivo básico apresentar e oferecer aos participantes algumas ferramentas e métodos seguros para que tal trabalho
possa ser realizado sem os muitos riscos inerentes oferecidos pelas muitas deturpações da Palavra e especialmente em como utilizá-la
corretamente nas diversas e variadas situações da vida da Igreja e de nossas próprias vidas.

Jamais poderemos nos esquecer que, sem a ajuda e a presença de Deus nosso conhecimento poderá cair no vazio ou até mesmo nos
afastar da fé, pois a simples apropriação intelectual das verdades bíblicas não são garantia de salvação para ninguém, pelo contrário,

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pode através do orgulho transmitir uma falsa sensação de segurança e de autojustificação afastando-o ainda mais da graça de nosso
Deus. Não tenhamos dúvidas, o racionalismo extremo está longe de ser propósito de Deus para a vida dos Seus amados.

2.1 Princípios básicos de Interpretação

Partindo do princípio da criação, desde o ministério de Moisés, o qual foi o primeiro grande autor dos livros que vieram a compor a Bíblia
como hoje a conhecemos, entendemos que, Deus se deu a conhecer e, a Ele aprouve revelar-se aos homens de forma inteligível. Em
Sua sempiterna sabedoria com o mesmo Espírito com o qual soprou seu conhecimento aos homens por meio dos profetas, também deu
ordens para que estas palavras viessem a se perpetuar na forma escrita.

Quando o fiel leitor se dirige aos livros de Deus, se vê envolvido na nobre tarefa de interpretá-los para seu próprio crescimento, e,
certamente, se a Deus aprouve o ato de se revelar, não foi ou é Sua intenção a de se ocultar por detrás de um conhecimento
inalcançável ou elitizado como o queriam os gnósticos no passado e sacerdotes de variadas religiões atuais.

Em sua essência, o homem é um ser culturado, limitado ao tempo e espaço, e, conseqüentemente se inserido em uma história e pano de
fundo que, de certa forma, o influencia continuamente. Vemos, portanto que quando Deus se revelou aos homens, uniu em uma única
dimensão o divino e o humano, o eterno e o passageiro, o inabalável e o destrutível. De Seu lado, os princípios de Deus são eternos,
imutáveis e de aplicação plena em todas as eras, terras e culturas, porém, no ato da revelação, Ele utilizou homens inseridos em culturas
específicas, e, O fez de forma a ser compreendido, pois do contrário seria um contra-senso ou no mínimo, um despropósito.

No decurso da Bíblia, veremos Deus tratando de situações específicas, com pessoas específicas, mas, refletindo claramente os traços de
Seu caráter, propósitos, poder, enfim, características estas que lhe são inatas e imutáveis.

Como veremos, o protagonista de toda a Bíblia é o próprio Deus, sendo ela Sua autobiografia, e os homens Seus coadjuvantes deste
grande teatro da vida real. A diferença, porém é que o próprio Deus se expôs ao juízo humano permitindo que este mesmo a escrevesse
de forma que a tornasse inegável, pois sua participação foi ativa. Aos homens, pois, coube a tarefa de receber os ensinamentos divinos,
aplicando-os às suas vidas e ajudando os seus semelhantes a fazerem o mesmo, sendo, com isso, o primeiro beneficiário desta atitude.

Cabe ressaltar que, sendo Deus o “Construtor legítimo da vida”, Ele, mais do que ninguém, sabe o que deve ser feito para o bom
desempenho da Sua criação, e, nos fornece através da Bíblia o verdadeiro “Manual do Fabricante” no que diz respeito à “ser” gente como
se deve ser na plenitude do Seu propósito inicial desde a formação da humanidade.

Este manual, sendo Palavra de Deus, tem relevância eterna falando para todas as eras e em todas as culturas, mas, como o caminho
para isto foram as palavras humanas, esta se encontra condicionada a particularidades históricas de sua revelação como: linguagem,
época, eventos, tradições e, em alguns casos a história oral que precedeu a escrita.

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2.2 O Caráter da Revelação Progressiva

A Bíblia, como um conjunto fantasticamente homogêneo, nada mais é do que: “Deus se apresentando”, ou seja, não é Deus revelando
coisas aos homens ou simplesmente comungando informações filosóficas interessantes, mas, Deus se revelando a estes através dos
séculos. Para tanto, tendo em vista que o verdadeiro conhecimento só pode ser realmente adquirido pela experiência cotidiana e pela
repetitividade, e, a intimidade só é conseguida através da participação conjunta nos problemas e lutas diárias de cada um, Ele, Deus, se
pôs lado a lado com a humanidade, disposto a amá-los e suportá-los dentro dos seus limites, aproveitou cada oportunidade ou situação
distinta para que os traços de Seu caráter e a profundidade dos Seus propósitos se tornassem conhecidos.

E, com certeza, assim Ele o fez com vistas a ser compreendido, pois do contrário, não justificaria a revelação do oculto, e, por estas
razões Ele falou na língua dos homens, para ser compreendido por Eles.

Nas religiões pagãs, sem exceção, os homens são um joguete nas mãos dos deuses, para atender seus propósitos egoístas e espúrios,
e, sempre mantêm a distância em labirintos, cavernas e dimensões protegidas por monstros mitológicos, enquanto que, na revelação do
Deus Eterno, Ele próprio tomou a atitude, sempre, para reatar a comunicação com um homem rebelde e distante. Eis que é uma grande
diferença a nosso favor.

Para meditar:

 Todos se conhecem intimamente dentro desta sala?

 Como se pode realmente conhecer alguém com profundidade?

 Como Deus se apropriou deste ponto no ato da revelação?

 Então o que é “Revelação progressiva” em nosso conceito? (De que outra forma teremos condições de conhecer de qualquer
pessoa o seu caráter, personalidade, afinidades, gostos, capacidade, interesses, enfim, a sua alma)?

 Nessa seqüência, qual é a principal figura ou protagonista do enredo bíblico?

A este processo de auto – apresentação por meio da participação ativa na vida dos homens damos o nome de “Revelação Progressiva”.
Não podemos, pois, nos esquecer que, os melindres do coração só vêm às claras se expostos às provas e experiências do dia –a – dia
como foi dito anteriormente, e, cabe notar que isso é válido quando estamos falamos de Deus tanto quanto para com os homens, seja em

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um casamento, amizade, profissionalismo, patriotismo, etc. Somente a experiência do labor diário fará florescer as realidades ocultas do
coração.

No que tange à pessoa de Deus, compreendemos que, devido à limitação da capacidade humana de aceitar e assimilar a idéia do
“divino” pela sua própria alma por estar aprisionado às dimensões materiais da vida, da carne, de seu próprio ego, e, do pecado inclusive,
é que coube a Deus quebrar as barreiras ao se aproximar por iniciativa própria, e, conseqüentemente, se revelar no âmbito da vida
humana, e, nos limites de sua capacidade, enfim, a fim de ser compreendido.

Vemos também que, ao rasgar os céus e descer pessoalmente, Ele atingiu o ápice deste processo na pessoa de Cristo, tornando – se
Deus em carne, pois, ao assumir a forma e os limites da essência humana, Deus permitiu aos homens que O vissem no mais profundo
do Seu caráter, e, de fato, Cristo o afirmou categoricamente. (Esta é basicamente a mensagem dos evangelhos, especialmente o do
apóstolo João).

Considerando-se a vida uma eterna peça teatral em constante desenrolar, temos de reconhecer que na revelação apregoada nos livros
da Bíblia possuem um único protagonista, o qual é o próprio Deus, e, que em Sua eternidade tem dado aos homens, os coadjuvantes
deste grande drama um lugar especial de Sua atenção e cuidados, e, isso também a Bíblia no – lo – diz.

2.3 Os filtros ou Pré – Conceitos

Poderíamos perguntar o seguinte : Acaso devemos ter algum pré – conceito ao estudarmos a Palavra de Deus ?

Normalmente a resposta mais comum seria: de modo algum, pois deveremos estar desprovidos de todo e qualquer pré – suposto ao
adentrarmos ao estudo da Bíblia sagrada, mas, grave engano, e, nós veremos porque. Os pressupostos são úteis no estudo de
quaisquer textos ou escritos existentes por sobre a face da terra pois eles serão a base sobre a qual as informações fornecidas serão
decodificadas como qualquer meio de comunicação compreensível que exista.

Sendo sinceros conosco mesmos, devemos reconhecer que o entendimento que conseguiremos obter do estudo de um texto bíblico
dependerá da visão que nós já possuímos acerca da natureza das escrituras. Portanto, os itens que tratamos anteriormente já são algum
tipo de “filtro” através dos quais nortearemos a nossa compreensão e assimilação daqueles textos.

Na verdade, é impossível a inexistência de tais pressuposições ou filtros a partir do momento que necessitaremos de certo conhecimento
prévio acerca da matéria que é objeto de nosso estudo para compreende-la adequadamente.

Um exemplo clássico disto, por exemplo, é que em qualquer estudo bíblico, antes de qualquer coisa precisamos estabelecer a autoridade
da Bíblia como Palavra de Deus com sua natureza singular pois, se partirmos do pressuposto que ela não passa de um compêndio de
livros que retratam a evolução natural da religião de um povo do oriente, como ensinavam os adeptos evolucionistas do final do século
passado, então não temos a menor base ou obrigação de crer em sua mensagem ou obedecê-la.

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Portanto, os pré – conceitos são indefectíveis, indispensáveis, porém precisamos ter os corretos porque certamente existem os bons e
os maus filtros como segue-se o exemplo abaixo para nossa reflexão :

Maus filtros Bons filtros


Perspectiva filosófica Dados históricos
Motivações egoístas Dados geográficos
Intolerância Dados lingüísticos / literários
Radicalismo Humildade
Culturais ( contemporânea ) Culturais ( contextuais )

3. PRATICANDO A EXEGESE

3.1 Cuidados básicos no trabalho exegético

Baseando no fato do caráter da revelação de Deus a nós, é interessante que tomemos todo o cuidado possível ao fazermos o nosso
estudo pessoal da Bíblia, pois, a história é testemunha dos muitos erros que sinceros homens cometeram no passado por estarem
presos a questões culturais, temporais e preconceitos ou pré-conceitos de sua época.

Segue aqui uma série de alertas para todos nós no desenvolvimento de qualquer trabalho exegético:

MUITO CUIDADO:

1. Ao relacionar textos distintos como um bloco único de pensamento.

2. Com a interpretação contemporânea de palavras de cunho teológico.

3. Com a busca de originalidade.

4. Com a idéia de que “tudo” foi revelado por Deus na Bíblia.

5. Ao usar textos isolados como provas irrefutáveis de suas idéias (dogmas) – a difundida utilização de “Textos-Prova” nos meios
religiosos para apóia determinada idéia ou linha teológica.

6. Com a divisão de capítulos, versos e parágrafos apresentada nos textos.

7. Com os maiúsculos e minúsculos (exegese editorial);

8. Para que o texto não venha a significar em suas mãos aquilo que jamais significou no passado.

9. Com a atenção excessiva a pequenos pontos pouco compreendidos que costumam ofuscar a mensagem completa devido ao
enfoque errado do exegeta.

10. “Normalmente perde-se a visão macro quando se prende excessivamente a detalhes”

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11. Para não ver “demais” em pouca coisa, principalmente em questões gramaticais.

12. Com a lingüística, pois, ela é dinâmica como tudo que é vivo – uma palavra ou expressão não deve ser, necessariamente presa
a significados lógicos como a matemática.

13. Para nunca desprezar o trabalho de outros.

14. Tome muito cuidado em usar o trabalho de outros (equilíbrio).

15. Com as versões, pois, de certa forma, já são uma interpretação humana dos tradutores.

16. Com as questões culturais.

17. Com a natureza “mesclada” das Escrituras (divina – humana)

18. Ao pensar que teremos resposta para todas as perguntas.

19. Com a interpretação de expressões idiomáticas.

20. Com os propósitos da nossa exegese (podemos estudar inutilmente se nossas motivações forem erradas).

21. Com a perda da fé e da piedade pela racionalização intelectual extrema.

22. Com o orgulho.

23. Com a maior barreira encontrada por todos no estudo bíblico serio – a simples e pura “OBEDIÊNCIA”.

3.2 Os recursos externos

Ler um texto com a atitude correta, ou seja, de submissão a ele e não o contrário, e, fazer as perguntas corretas a ele pode nos
levar tão perto e acertado às idéias originais do autor que podemos até nem acreditar. Em suma, para se fazer um bom trabalho
exegético, sem que se disponha de recursos acadêmicos mais profundos como, conhecimento das línguas originais, situações históricas
judaica, semítica e helenística, crítica textual e outras, precisaremos utilizar nossas habilidades e, aproveitar “positivamente” do trabalho
de outros que nos precederam, o que deve ser feito com muito cuidado e critério.

A primeira e talvez maior chave na interpretação de um texto está simplesmente em ler cuidadosamente o mesmo, e, por mais simplista
que isso possa parecer, a maioria dos erros que ocorrem neste meio dentre as pessoas que, sinceramente, estão procurando
compreender a Palavra de Deus para suas próprias vidas reside neste ponto.

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Certamente, não podemos nos esquecer que estamos nos propondo a analisar textos com a precisão e objetividade que eles
representaram para os seus receptores originais, e, quanto a isso eles levam vantagem sobre nós porque estamos distanciados destes
em no mínimo 1900 anos, e, por esta razão, faz-se-á necessário o uso de diversas ferramentas de apoio que nos estão disponíveis das
mais diversas formas.

Cabe-nos observar que, em todas estas ferramentas disponíveis é normal encontrarmos, com freqüência, uma certa dose de interferência
da linha teológica da Casa Publicadora, editora ou autor na dissertação do assunto levantado (A “exegese editorial”). Deve-se lembrar
que, sem desprezar estes trabalhos, é extremamente importante que a “interpretação da mensagem” na aplicação teológica ou individual
da mesma deva ser feita com a menor presença possível de quaisquer interferências externas.

IMPORTANTE, o uso racional destes recursos, em princípio, jamais deve visar à interpretação aplicada do texto, mas, tão somente, o
esclarecimento do contexto histórico, cultural e literário que envolve o mesmo a fim de viabilizar a compreensão fiel do que foi
proclamado. Em termos gerais, podemos e devemos usar legitimamente dos tais para levantar as seguintes dificuldades:

1. Palavras portuguesas nobres

2. História geral

3. Pesos e medidas

4. Cronologia

5. Nomes próprios

6. Palavras estranhas “religiosas”

7. Locais

8. Expressões idiomáticas

9. Dados geográficos

10. Citações de outras fontes (AT, apócrifos, LXX, os Pais, etc.).

ATENÇÃO:

De todas as formas e situações, a própria BÍBLIA jamais pode ser descartada como a primeira e mais fidedigna fonte de pesquisa para
elucidar, também estas dúvidas históricas que, podem ou não, ter cunho ou origem extrabíblico. Para tal utilização, ter em mãos uma
concordância bíblica ou até mesmo uma pequena chave será, certamente, de grande utilidade.

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O principal problema relacionado ao uso sistemático destes recursos refere-se à característica inata ao homem de julgara e compreender
as coisas normalmente presas ao seu meio de existência, e, a partir do momento que um leitor desavisado inicia uma leitura sincera de
um texto e se depara com um título editorial, uma nota de roda – pé ou comentário direcionando o raciocínio a ser apresentado,
verdadeiramente fora lançado diante de seus olhos um filtro que, dependendo de sua procedência, pode deturpar completamente o
sentido original da mesma.

Por estas e por outras é que, nunca haverá pouco cuidado no trato com tais recursos, que não deixam de nos ser necessário pela
distância histórico – cronológica – cultural que nos separa dos autógrafos originais, seus autores e recipientes. Na verdade, todo cristão
estudioso da Bíblia é um pesquisador incansável da história da humanidade que reconhece e se dobra ante o seu Autor Supremo.

3.3 O uso das línguas originais:

1. O texto hebraico do Antigo Testamento

a. Os rolos do mar morto - Consta de uma antiga biblioteca dos essênios em cavernas da Palestina do 1º século.

b. O texto massorético - Trabalho de tradução de grupos de famílias que se dedicaram à preservação do texto hebraico
em sua pureza durante um período que se estende por quase 1000 anos d.C.

2. O texto grego do Antigo Testamento

a. A LXX – A Septuaginta - Versão grega do Antigo Testamento produzido em Alexandria para os judeus que já não
conheciam o seu idioma paterno.

3. Novo Testamento grego - The greek New Testament, 4th revised edition, UBS*

4. Novum Testamentum Graece, Nestle & Aland, 26th edition*

*Estes dois textos são idênticos, resultado do trabalho incansável de homens como Kurt Aland, Mathew Black, Bruce M. Metzger e outros
na ascensão da ciência – arte da Crítica Textual já em nosso século. (A diferença básica das edições diz respeito ao enfoque do aparato
crítico tão somente).

3.4 As versões Bíblicas:

1. ARC – Almeida Revista e Corrigida, SBB. - Versão baseada no Textus Receptus (Texto Recebido) de Erasmo contendo
diversos problemas textuais devido ao número reduzido de fontes disponíveis na ocasião de sua tradução.

2. ARA – Almeida Revista e Atualizada, SBB - Versão razoavelmente literal considerada pela crítica como que de grande beleza
e precisão em seu texto. Extremamente popular no uso geral brasileiro atual.

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Hermenêutica Bíblica Avançada – Entendes o que Lês?

3. VR – Versão Revisada – JUERP - Considerada como um avanço na linguagem de tradução num trabalho realizado pela Casa
Publicadora das Igrejas Batistas.

4. BLH – Bíblia na Linguagem de Hoje, SBB - Trabalho mais recente da Sociedade Bíblica do Brasil visando atingir um nível de
tradução mais próximo da linguagem brasileira atual. É considerada quase que como uma tradução livre não devendo ser
utilizada isoladamente para estudos bíblicos mais acurados.

5. NVI – Nova Versão Internacional, IBS - Atualmente a versão mais utilizada nos países de fala inglesa considerada bastante
fiel aos textos originais, com muita fluência e rica no aparato crítico que a acompanha. É editada pela International Bible
Society, Colorado Springs, EUA.

6. BJ – Bíblia de Jerusalém, - A Bíblia de Jerusalém é a edição brasileira (1981, com revisão e atualização na edição de 2002)
da edição francesa Bible de Jérusalem, que é assim chamada por ser fruto de estudos feitos pela Escola Bíblica de Jerusalém,
em francês: École Biblique de Jérusalem.

7. MS – Matos Soares - Bela versão em português coloquial, profundamente produzida no que tange ao caráter poético das
escrituras, pecando seriamente, porém ao ser baseada no texto da Vulgata Latina.

8. Bíblia (Tradução) Novo Mundo, Torre de Vigia - Versão altamente corrompida, produzida pela Casa Publicadora dos
Testemunhas de Jeová, a Torre de Vigia. Sendo uma retradução de uma versão inglesa, representa um passo a mais na
estratégia russelita em não se prender somente a interpretações pouco exegéticas dos textos, mas também em produzir um
texto que os atendam com mais precisão em seus propósitos. É um grande risco utilizar – se de versões como estas senão
como um estudo detalhado da seita em questão.

9. BV – Bíblia Viva - Não é considerada uma versão, mas, sim, uma paráfrase dos textos bíblicos. Pode ser usada como
comentário final após o trabalho de exegese realizado.

Observações gerais quanto ao uso das versões bíblicas:

Em termos gerais, não podemos nos esquecer que, a partir do momento que não lemos a Palavra diretamente como ela fora redigida em
seus autógrafos, mas, partimos de tais trabalhos de repasse lingüístico na produção da versão em questão, já nos encontramos
envolvidos no processo de interpretação da parte de alguém que teve este acesso por nós, sendo, portanto, importante compreendermos
um pouco mais deste processo através do qual as escrituras chegaram ao nosso tempo.

3.5 Tipos de Tradução

Cabe aqui, como um adendo observarmos algumas questões no que se refere a este tipo de trabalho como segue quanto à forma de
tradução. Basicamente existem três tipos de trabalho de tradução possíveis que variam pelo propósito com a qual a mesma foi idealizada
as quais são:

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1. Tradução literal: é a forma de tradução a qual se transporta palavra por palavra dos textos originais sem se preocupar com o
significado global da frase ou expressão. Tais tipos de traduções são comumente chamadas de “interlineares“ e são úteis no
trabalho de outros tradutores e também na verificação ou análise sintática de textos complexos onde a compreensão isolada de
cada termo para o estabelecimento da mesma.(Ex: Versões interlineares).

2. Tradução dinâmica: Neste tipo de tradução impera a compreensão do sentido das palavras como que perfeitamente inseridas
no contexto literário do mesmo, procurando-se, porém manter o máximo literalismo possível para evitar o desvirtuamento da
mensagem. Normalmente a maioria das versões existentes são baseadas nesta metodologia de trabalho. O equilíbrio entre a
letra e o “espírito” da mesma são o diferencial do sucesso deste evento de tradução. (Exs: NVI, ARA, VR, ARC, BJ)

3. Tradução livre: É a forma de tradução que se liberta completamente do texto e formas originais com o propósito de explicar em
linguagem entendida como contemporânea e mais acessível aos seus leitores. São chamadas de paráfrases e são úteis no
ensino bíblico básico a principiantes, compreensão de termos religiosos desconhecidos e frases idiomáticas ou pesquisa
hermenêutica pós – exegese. Não são indicadas como base de texto para o estudo profundo de doutrinas ou temas como única
fonte de trabalho. (Exs: BV, BLH)

3.6 As concordâncias bíblicas de palavras:

1. Concordância em português

2. Concordância nas línguas originais

3.7 Ferramentas adicionais introdutórias

1. Dicionário da língua portuguesa - Deve ser usado tão somente para o esclarecimento do significado das palavras da língua
portuguesa que porventura não conheçamos, pois a linguagem escriturística costuma ser às vezes por demais nobre.

2. Léxicos - Dicionários dos radicais das línguas originais que certamente são de grande utilidade para o leitor que já possui um
conhecimento razoável das mesmas, com pequenas exceções. (ALERTA – às vezes, um pequeno entendimento de línguas
originais pode dar ao exegeta uma falsa segurança e um alicerce deficiente para uma boa exegese).

3. Dicionários bíblicos - Devem ser utilizados para o esclarecimento de nomes, locais, pesos, moedas, distâncias, palavras de
cunho religioso e histórico sem nenhuma conotação de interpretação hermenêutica do texto ou textos em questão.

4. Manual Bíblico - É certamente uma boa ferramenta para a compreensão de detalhes externos concernentes à época e
contexto do livro em estudo, dados tais que não serão encontrados às vezes com facilidade na própria literatura bíblica.

5. Atlas / Mapas / Arqueologia - Nos ajudam a ter uma visão macro da situação geográfica envolvida na narrativa ou livro em
estudo, podendo, sem dúvida, enriquecer grandemente a explanação do texto ou situação.

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6. Enciclopédias bíblicas - São compêndios voltados a sistematizar informações gerais referentes aos mais variados assuntos
ligados à revelação das escrituras sendo excelentes fontes de história geral e outros. Este tipo de ferramenta nos ajuda em
muito no entendimento do contexto que cerca os mais diversos tipos de literatura encontrados na Bíblia.

7. “Comentários” – Introdutórios Contextuais - Devem ser os últimos recursos dos quais devemos abrir mão para conferir se
nosso trabalho exegético pronto não ficou demasiadamente destoante do que a maioria dos que já estudaram aquele assunto,
texto ou livro concluíram. Devemos ter sempre muito cuidado e humildade quando chegarmos a este ponto da nossa pesquisa.

3.8 Quanto à Exegese Editorial:

Como foi dito anteriormente, no trato com as versões disponíveis em nossa língua devemos ter o cuidado de reconhecer que aquele texto
que está diante de nós já passou de certa forma por um processo de interpretação para chegar a ser impresso formalmente. Há de se
tranqüilizar que, pelas características intrínsecas à nossa língua pátria, Deus nos tem abençoado com versões maravilhosas que
traduzem com grande perfeição a palavra transmitida originalmente pelo Senhor e seus profetas, discípulos e servos no geral.

Cabe, porém observar alguns pontos importantes na qualidade dos textos que estão à nossa disposição onde devemos ter alguns
cuidados:

1. A variedade de versões

2. A divisão em capítulos e versículos

3. A divisão dos parágrafos

4. As notas de roda – pé

5. Os títulos editoriais

6. A concordância de idéias

7. A determinação dos maiúsculos

8. As Bíblias anotadas e a teologia que norteia a editora

Reconhecendo a importância do trabalho de uma exegese bem feita, pensemos no que pode acontecer se interferirmos na seguinte
seqüência:

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4. SOBRE A INTERPRETAÇÃO – METODOLOGIAS

A história da interpretação mostra-nos que a adoção do método correto de interpretação não garante necessariamente conclusões
corretas pelos usuários do método. O rabinismo, que usava o método literal, produziu várias opiniões e interpretações erradas pelo mau
emprego desse método. Logo, é necessário definir alguns princípios de interpreta-ção, mesmo depois de estabelecer o método correto,
para que o método não seja mal-aplicado e não produza conclusões infundadas.

4.1 A Interpretação das Palavras

Sabe-se sem dúvida que as palavras formam um meio de transmitir o pensamento. Toda exegese correta precisa, então, começar por
uma interpretação das próprias palavras. Horne, em sua preciosa obra Introduction to the critical study and knowledge of the Holy
Scriptures [Introdução ao estudo crítico e ao conhecimento das Sagradas Escrituras], fez um excelente resumo dos princípios a ser
empregados na interpretação das palavras.

Devemos verificar o usus loquendi, ou a noção vinculada a uma palavra pelas pessoas em geral, pelas quais a língua é falada agora ou o
era antigamente, e sobretudo na relação especial a que essa noção está vinculada. O sentido aceito de uma palavra deve ser
conservado a não ser que razões fortes e necessárias exijam que seja abandonado ou negligenciado.

Quando uma palavra tem vários significados de uso comum, devemos selecionar o que melhor se encaixa na passagem em questão, o
qual seja coerente com o caráter, com os sentimentos e com a situação conhecida do autor, de acordo também com as circunstâncias
conhecidas sob as quais ele escreveu. Embora a força do certas palavras só possa ser extraída da etimologia, não podemos atribuir, no
entanto, muita confiança a essa ciência freqüentemente incerta; isso porque o significado primeiro de uma palavra muitas vezes é bem
diferente de seu significado comum. Devemos examinar e analisar cuidadosamente as diferenças entre palavras aparentemente
sinônimas.

Os epítetos introduzidos pelos escritores sagrados também devem ser avaliados e examinados cuidadosamente, já que todos eles têm
força declarativa ou explicativa, ou servem para distinguir uma coisa da outra, ou unem essas duas características. Termos gerais às
vezes são usados em toda a sua extensão, e às vezes em sentido restrito, e ser entendidos de uma maneira ou de outra depende da
extensão, do assunto, do contexto e das passagens paralelas.

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Com relação a qualquer passagem específica, o significado mais simples — ou o que se apresenta mais prontamente a um leitor atento e
inteligente, que possua conhecimento aceitável — é com toda a probabilidade o sentido ou significado de fato. Já que a característica da
interpretação é proporcionar na nossa própria língua o mesmo discurso que os autores sagrados escreveram originariamente em
hebraico ou em grego, é evidente que nossa interpretação ou versão, para ser correta, não deve afirmar nem negar mais que os
escritores do original afirmaram ou negaram ao escrever; conseqüentemente, devemos estar mais dispostos a extrair um significado da
Bíblia do que acrescentar-lhe sentido.

Antes de chegar a conclusões sobre o sentido de um texto, para provar algo por meio dele, devemos ter certeza de que tal sentido não
contraria o raciocínio natural. (Thomas Hartwell HORNE, Introduction to the critical study and knowledge of the Holy Scriptures, I, 325-6).
Angus e Green suplementam Horne dizendo:

As palavras das Escrituras devem ser analisadas pelo seu significado comum, a não ser que se demonstre que tal significado contrarie
outras palavras da frase, o argumento ou contexto ou outras partes das Escrituras. Dos dois significados, o preferido é geralmente o mais
evidente à compreensão dos ouvintes ou leitores originários da passagem inspirada, permitindo que as formas de pensamento
prevaleçam na sua própria época, assim como as expressões figuradas, tão comuns, que não constituíam exceção à regra.

O verdadeiro significado de qualquer passagem das Escrituras, en-tão, não é cada sentido que a palavra contém, nem cada sentido
verdadeiro em si, mas o que é proposto pelos escritores do original, ou mesmo pelo Espírito Santo, apesar de entendido imperfeitamente
pelos próprios escritores... (Joseph ANGUS & Samuel G. GREEN, The Bible handbook, p. 180.) As palavras devem ser interpretadas,
então, no sentido usual, natural e literal.

4.2 A Interpretação do Contexto

O segundo grande tópico de nosso exame deve ser o contexto em que a passagem está inserida. Há certas regras que guiarão a
interpre-tação contextual. Horne as resume assim:

1. [...] um exame cuidadoso das partes anteriores e posteriores nos possibilitará apurar o significado, seja literal, seja figurado,
que melhor se adapte à passagem em questão.

2. O contexto de um discurso ou livro das Escrituras pode compreender um versículo, alguns versículos, períodos, seções,
capítulos inteiros ou todo o livro.

3. Às vezes um livro das Escrituras compreende apenas um assunto ou argumento, caso em que todo o livro deve ser relacionado
aos anteriores e aos posteriores e analisado conjuntamente com eles.

Ao examinar o contexto de uma passagem, será necessário:

1. Investigar cada palavra de todas as passagens e, à medida que a relação for formada pelas partículas, estas devem sempre
receber o significado que o assunto e o contexto exigem.

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2. Examinar a passagem inteira com muita atenção.

3. Não vincular um versículo ou passagem a um contexto remoto, a menos que concorde com ele de forma mais próxima.

4. Procurar saber se o escritor continua seu discurso, evitando a suposição de que ele passou para outro argumento, quando, na
verdade, está dando seqüência ao mesmo assunto.

5. Os parênteses que ocorrem nas Escrituras Sagradas devem ser analisados cuidadosamente, mas nenhum parêntese deve ser
interposto sem razão suficiente.

6. Nenhuma explicação deve ser admitida, a não ser a que se encaixe no contexto.

7. Quando não se encontrar nenhuma relação com a parte anterior ou posterior de um livro, tal fato deve ser aceito. (HORNE, op.
cit, I, 336ss)

4.3 A Interpretação Histórica

A terceira consideração sobre a interpretação deve ser a interpre-tação histórica, em que o contexto histórico imediato e sua influência
são analisados cuidadosamente. Berkhof nos dá uma excelente síntese de considerações nessa fase de interpretação.

4.3.1 Afirmações Básicas da Interpretação Histórica

1. A Palavra de Deus, originada de modo histórico, só pode ser entendida à luz da história. Isso não significa que tudo que ela
contém possa ser explicado historicamente. Como revelação sobrenatural de Deus é natural que contenha elementos que
transcendem os limites do histórico. Mas significa que o conteúdo da Bíblia é em grande extensão determinado historicamente
e, portanto, na história encontra a sua explicação.

2. Uma palavra nunca é compreendida completamente até que se possa entendê-la como palavra viva, isto é, originada da alma
do autor. Isso implica a necessidade da interpretação psicológica, que é, de fato, uma subdivisão da interpretação histórica.

3. É impossível entender um autor e interpretar corretamente suas palavras sem que ele seja visto à luz de suas circunstâncias
históricas. É verdade que o homem, em certo sentido, controla as circunstâncias de sua vida e determina seu caráter; mas é
igualmente verdadeiro que ele é, em grande escala, o produto do seu ambiente histórico. Por exemplo, ele é filho de seu povo,
de sua terra e de sua época.

4. O lugar, o tempo, as circunstâncias e as concepções prevalecentes do mundo e da vida em geral naturalmente emprestam
cores aos escritos produzidos sob essas condições de tempo, lugar e circunstâncias. Isso se aplica também aos livros da
Bíblia, particularmente aos que são de caráter histórico. Em todas as linhas literárias não há livro que se iguale à Bíblia no que
ela diz sobre a vida em todos os seus aspectos.

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4.3.2 O Que Se Exige do Exegeta.

Em vista do que foi dito, a interpretação histórica exige do exegeta:

1. Que procure conhecer o autor que deseja interpretar, seu parentesco, seu caráter e temperamento, suas características morais,
intelectuais e religiosas, bem como as circunstâncias externas de sua vida...

2. Que reconstrua, tanto quanto possível a partir dos dados históricos disponíveis e com o auxílio de hipóteses históricas, as
circunstâncias em que esses escritos se originaram; em outras palavras, deve conhecer o mundo do autor. Deve informar-se a
respeito dos aspectos físicos da terra em que os livros foram escritos, e considerar o caráter e a história, os costumes, a moral
e a religião do povo no meio do qual foram escritos.

3. E de fundamental importância que considere as várias influências que determinaram mais diretamente o caráter dos escritos
que se considera, tais como, os leitores originais, o propósito que o autor tinha em mente, a idade do autor, seu tipo de mente,
e as circunstâncias especiais em que escreveu seu livro.

4. Além do mais, deve transportar-se mentalmente ao primeiro século A.D, e às condições orientais. Deve colocar-se na posição
do autor, e procurar entrar em sua alma até que seja capaz de viver sua vida e pensar seus pensamentos. Isso significa que ele
deve guardar-se do erro de querer transferir o autor para os dias presentes e fazê-lo falar a linguagem do século vinte... (Louis
BERKHOF, Princípios de interpretação bíblica, p. 120-1)

4.4 A Interpretação Gramatical

A quarta consideração sobre a interpretação deve ser a interpretação gramatical da língua em que a passagem foi originariamente
escrita. Isso, é claro, não pode ser feito sem o conhecimento das línguas originais. Elliott e Harsha, traduzindo Cellerier, declaram a regra
básica:

O intérprete deve começar seu trabalho pelo estudo do sentido gramatical do texto, com o auxílio da filologia sagrada. Como em todos os
outros escritos, o sentido gramatical deve ser o ponto de partida. O significado das palavras deve ser apurado tendo em vista o uso
lingüístico e a conexão. (Charles ELLIOTT & W. J. HARSHA, Biblical hermeneutics, p. 73)

Terry acrescenta: "Interpretação gramatical e interpretação histórica, quando entendidas corretamente", diz Davidson, "são sinônimas. As
leis especiais da gramática, segundo as quais os escritores sagrados aplicaram a língua, resultaram de circunstâncias específicas;
somente a história nos leva de volta a essas circunstâncias. Não foi criada uma nova linguagem para os autores das Escrituras; eles
se adaptaram à língua do país e da época. Suas composições não teriam sido inteligíveis de outra maneira. Tomaram o usus
loquendi como o encontraram, modificando-o, naturalmente, pelas relações internas e externas em meio às quais pensavam e
trabalhavam." O mesmo escritor também observa: "O sentido histórico-gramatical é composto pela aplicação das considerações
históricas e gramaticais. O grande objeto a ser verificado é o usus loquendi, usando a lei ou os princípios da gramática universal que
formam a base de toda língua [...] É o usus loquendi dos autores inspirados que forma o objeto dos princípios gramaticais reconhecidos e

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seguidos pelo expositor [...] chegamos a um conhecimento do usus loquendi específico pela via da investigação histórica... “ (Milton S.
TERRY, Biblical hermeneutics, p. 203-4.)

Terry descreve bem a metodologia e a intenção do método histórico-gramatical. Ele diz: ... podemos citar o histórico-gramatical como o
método mais recomendado ao julgamento e à consciência dos estudiosos cristãos. Seu princípio fundamental é extrair das próprias
Escrituras o significado preciso que os escritores queriam transmitir. Ele aplica aos livros sagrados o mesmo princípio, o mesmo processo
gramatical e exercício de bom senso e de raciocínio que aplicamos a outros livros.

O exegeta histórico-gramatical, munido de qualificações intelectuais, de instrução e morais adequadas, aceita-rá as afirmações da Bíblia
sem preconceito ou favoritismo adverso e, sem ambição de provar que sejam verdadeiras ou falsas, investigará a linguagem e o
significado de cada livro com independência destemida. Ele aprenderá o linguajar do escritor, o dialeto específico que ele usou, e seu
estilo e modo peculiar de expressão. Ele pesquisará as circunstâncias sob as quais o autor escreveu, os modos e costumes de sua
época e o propósito ou objetivo que ele tinha em mente.

Observação Importante: O exegeta tem o direito de supor que nenhum autor sensato seria propositadamente incoerente consigo mesmo,
nem buscaria surpreender ou enganar seus leitores. (Ibid., p, 173). Isso contraria qualquer noção de bom senso no que tange à
efetividade da comunicação humana.

4.5 A Interpretação da Linguagem Figurada

Um grande problema que o intérprete enfrenta é a interpretação da linguagem figurada. Como as passagens proféticas freqüentemente
usam a linguagem figurada, essa forma de comunicação deve ser estudada com cuidado.

4.5.1 O uso da linguagem figurada.

Sabe-se em geral que a linguagem figurada é usada tanto para embelezar uma língua quanto para transmitir idéias abstratas por meio de
transferência.

É uma necessidade do intelecto humano que fatos ligados à mente ou à verdade espiritual se revistam de linguagem emprestada de
coisas materiais. A palavras exclusivamente espirituais ou abstratas, não podemos impor nenhuma concepção definida.

E Deus se digna a atender a nossa necessidade. Ele nos leva a um novo conhecimento por meio daquilo que já nos é conhecido. Ele Se
reve-la de formas já conhecidas. (ANGUS $ GREEN, op., cit, p. 215)

4.5.2 Quando a linguagem é literal ou figurada?

O primeiro problema que O intérprete enfrenta é saber se a linguagem é literal ou figurada. As implicações São expostas por Horne:
Então, para entender completamente a linguagem figurada das Escrituras, é requisito, em primeiro lugar, procurar saber o que realmente
é figurado, para não considerar literal o que é figurado, o que faziam muitas vezes os discípulos do nosso Senhor e os judeus, e para não

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perverter o significado literal com uma interpretação figurada; e, em segundo lugar, quando apurarmos o que realmente é figurado,
interpretar isso corretamente e apresentar seu sentido verdadeiro. (HORNE, op. cit, i, 356.)

Uma regra simples para distinguir o literal do figurado é dada por Lockhart, que diz: Se o significado literal de alguma palavra ou
expressão faz sentido em suas associações, é literal; mas, se o significado literal não faz sentido, é figurado. (Clinton LOCKHART,
Principies of interpretation, p. 49). Mais adiante o mesmo autor acrescenta: Já que o literal é o significado mais comum de uma palavra e
ocorre, portanto, mais freqüentemente que o figurado, qualquer termo será conside-rado literal até que haja boa razão para uma
compreensão diferente [...] O significado literal e mais comum da palavra, se coerente, deve ser preferido ao significado figurado ou
menos comum. (Ibid., p. 156.)

Assim, o intérprete procederá com base na pressuposição de que a palavra é literal a menos que haja boa razão para concluir o
contrário. Hamilton, que defende o uso da interpretação alegórica na profecia, confirma a mesma conjectura.

... uma boa regra para seguir é aquela em que a interpretação literal da profecia deve ser aceita, a não ser que:

1. as passagens contenham linguagem obviamente figurada, ou

2. o Novo Testamento autorize a interpretação em outro sentido além do literal, ou

3. uma interpretação literal contradiga verdades, princípios ou afirmações reais contidas em livros não-simbólicos do Novo
Testamento.

Outra regra clara é que as passagens mais claras do Novo Testamento em livros não-simbólicos são a norma para a interpretação
profética, em lugar de revelações obscuras e parciais contidas no Antigo Testamento. Em outras palavras, devemos aceitar as partes
claras e simples das Escrituras como base para extrair o significado das mais difíceis. (Floyd HAMILTON, The basis of millennial faith, p.
53-4)

Geralmente será bastante inconfundível quando a linguagem for figurada. Fairbairn diz: ... deve-se notar que, na grande maioria dos
casos em que a linguagem é figurada, esse fato aparece na própria natureza da linguagem ou da relação na qual ela se encontra. Outro
tipo de passagens em que a metáfora é também, em grande parte, fácil de detectar é quando predomina a chamada sinédoque.(
PATRICK FAIRBAIRN, Hermeneutical manual, p. 138)

O mesmo autor continua anunciando princípios pelos quais podemos saber se uma passagem é literal ou figurada. Ele diz: O primeiro
deles é que a linguagem é figurada quando se diz algo que, considerado ao pé da letra, muda a natureza essencial do assunto
mencionado. Um segundo princípio aplicável a tais casos é que, se a linguagem considerada literalmente contiver algo incongruente ou
moralmente impróprio, o sentido figurado, e não o literal, deve ser o correto. Uma terceira direção pode ser acrescentada: quando ainda
temos razão para duvidar se a linguagem é literal ou figurada, devemos procurar solucionar a dúvida consultando passagens paralelas
(se houver) que tratem do mesmo assunto em termos mais explícitos ou mais extensos.(Ibid)

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Para solucionar esse problema, Cellerier escreve: Essa investigação não pode ser alcançada com sucesso unicamente pela ciência
intelectual. Sensatez e boa fé, percepção crítica e imparcialidade também são necessárias. Algumas indicações gerais são tudo o que
pode ser dado em relação a isso. a) A priori. E grande a probabilidade de que a linguagem seja figurada nas passagens poéticas ou nos
provérbios e também nos discursos oratórios e populares. Em geral essa probabilidade aumenta quando se supõe justamente que o
escritor tenha sido induzido pela situação, assunto ou objetivo a fazer uso de tal linguagem. Há uma probabilidade do mesmo tipo, mas
muito mais forte, quando a passagem examinada é animada e parece fazer alusão a objetos de outra natureza, b) A posteriori. Há uma
probabilidade ainda maior quando o sentido literal seria absurdo [...] Todas essas probabilidades, no entanto, ainda são insuficientes. E
necessário examinar a passagem com muito cuidado, de modo crítico, exegético e fiel. O sentido figurado deve ser apoiado por todos
esses processos antes de poder ser tomado como a verdadeira interpretação. (ELLIOTT & HARSHA, op. cit., p. 144-5.)

Todo o problema de diferenciar a linguagem figurada da literal foi bem resumido por Terry, que comenta: Raramente é necessário e, até
mesmo, pouco praticável, estabelecer regras específicas para saber quando a linguagem é usada de modo figurado ou literal. Um
princípio hermenêutico antigo e muito repetido é que as palavras devem ser entendidas no seu sentido literal, a não ser que tal
interpretação implique uma contradição manifesta ou um absurdo. Devemos observar, no entanto, que esse princípio, quando reduzido à
prática, torna-se simplesmente recurso à razão de cada homem. E o que para um parece absurdo e improvável pode ser para outro muito
simples e coerente [...] Deve haver referência ao caráter e ao estilo geral do livro em causa, ao plano e ao propósito do autor e ao
contexto e à extensão da passagem em tela. Atenção especial deve ser dada ao uso dos escritores sagrados, como determinado pela
comparação de todas as passagens paralelas. Os mesmos princípios gerais pelos quais apuramos o sentido histórico-gramatical aplicam-
se também à interpretação da linguagem figu-rada, e jamais devemos esquecer que os trechos figurados da Bíblia são tão certos e
verdadeiros quanto os capítulos mais comuns. Metáforas, alegorias, parábolas e simbologias são formas divinamente escolhidas para
expressar os oráculos de Deus, e não devemos achar que seus significados sejam tão vagos e incertos que não mereçam ser
descobertos. Em geral, cremos que as partes figuradas das Escrituras não são tão difíceis de entender quanto muitos imaginam. Por
meio de uma discriminação cui-dadosa e judiciosa, o intérprete deve procurar identificar o caráter e significado de cada figura específica e
explicá-la em harmonia com as leis comuns da linguagem e com os antecedentes, a extensão e o plano do autor. (TERRY, op. cit, p. 159-
60)

Cooper formulou uma regra para sabermos quando interpretar li-teral ou figuradamente. Ele diz: Quando o sentido normal das Escrituras
faz sentido, não busque outro; assim, considere cada palavra em seu significado primário, normal, comum e literal, a não ser que os fatos
do contexto imediato, estudado à luz de passagens relacionadas e verdades estabelecidas e fundamentais, indiquem claramente o
contrário. (David L. COOPER, The God of Israel, p. iii.). Esse pode muito bem tornar-se o axioma do intérprete.

4.5.3 A interpretação da linguagem figurada.

O segundo problema decorrente do uso da linguagem figurada é o método a ser usado para interpretar o figurado.

Devemos observar desde o princípio que o propósito da linguagem figurada é oferecer alguma verdade literal, que pode ser transmitida
pelo uso de metáforas mais claramente que de qualquer outra maneira. O sentido literal é de maior importância que as palavras literais.
Chafer afirma isso:

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O sentido literal das palavras empregadas numa metáfora não deve ser entendido como o significado da metáfora, mas sim como o
sentido pretendido pelo uso do metáfora. Em todas essas ocorrências há, então, apenas um significado. Em tais casos o literal não é o
sentido. Em relação a isso Cellerier diz: "A revelação [...] está carregada de formas populares fortemente influenciadas por hábitos do
Oriente, ou seja, de formas metafóricas, poéticas e parabólicas que transmitem significado diferente do sentido literal das palavras. Mas
mesmo assim não há dois significados, o literal e o metafórico. Apenas o metafórico é o significado real; o literal não existe como
significado; ele somente é o veículo do anterior; não contém em si nenhum resultado, nenhuma verdade. Há, portanto, apenas um
significado verdadeiro [Ma. d'Hermen., p. 41]". (Rollin T. CHAFER, The science of biblical hermeneutics, p. 80-1)

Horne arrolou uma extensa lista de regras para apurar corretamente o significado implícito de qualquer metáfora:

1. O significado literal das palavras deve ser conservado, mais nos livros históricos das Escrituras que nos poéticos.

2. O significado literal das palavras deve ser desprezado, caso seja impróprio ou implique uma impossibilidade, ou quando
palavras, tomadas pelo sentido estrito, contenham algo contrário aos preceitos doutrinários ou morais transmitidos em outras
partes das Escrituras.

3. Devemos inquirir em que sentido a coisa comparada e aquilo a que ela é comparada concordam respectivamente, e também
em que sentido elas têm alguma afinidade ou semelhança.

4. O significado de uma passagem figurada será conhecido se a semelhança entre as coisas ou os objetos comparados for tão
clara que seja percebida imediatamente.

5. Já que, nas metáforas sagradas, certa proposição geralmente é a principal coisa exibida, o significado de uma metáfora será
ilustrado pela análise do contexto de uma passagem na qual ela ocorre.

6. O significado de uma expressão figurada geralmente é conhecido com base em sua explicação pelo próprio escritor sagrado.

7. O significado de uma expressão figurada pode ser apurado pela consulta de passagens paralelas, nas quais a mesma coisa é
expressa de forma correta e literal, ou na qual a mesma palavra ocorre, e assim o significado pode ser prontamente extraído.

8. Analisar a história.

9. Analisar a conexão da doutrina, assim como o contexto da passagem figurada.

10. Ao especificar o significado transmitido por uma metáfora, a comparação jamais pode ser estendida em demasia, ou a qualquer
coisa que não possa ser aplicada corretamente à pessoa ou à coisa representada.

11. Na interpretação das expressões figuradas em geral, e naquelas que ocorrem particularmente nos trechos morais das
Escrituras, o significado de tais expressões deve ser regulado por aquelas que são simples e claras.

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Por último, ao explicar a linguagem figurada das Escrituras, é preciso ter cuidado para não usar a aplicação de códigos modernos, pois
os habitantes do Oriente muitas vezes associam a idéias certos atributos expressos de maneira totalmente diversa da que normalmente
ocorre a nossa mente. (HORNE, op. cit, i, 356-8.)

Observamos com base nessas regras que os mesmos princípios fundamentais aplicados a qualquer outra linguagem se aplicam também
à interpretação da linguagem figurada. O uso da linguagem figurada não exige interpretação não-literal. A mesma sã exegese exigida em
outros lugares se faz mister nessa área.

5. ESTILOS LITERÁRIOS DA BÍBLIA

3
5.1 Os Gêneros Literários do Antigo Testamento

Os escritores do AT foram inspirados por Deus, 2 Timóteo 3.16. Ao inspirar, Deus falava por homens escolhidos, 2 Pedro 1.20-21. No seu
escrever e editar o conteúdo do nosso AT esses homens eram inspirados (sob a influência especial do Espírito de Deus) para registrarem
a revelação que lhes fora dada de várias maneiras. Assim, os seus escritos são inspirados.

Pelo mesmo Espírito esses escritos tornam-se iluminados a nós que temos fé e assim também nos inspiram. Atualmente se usa "inspirar"
mais no sentido emotivo esquecendo de falar devidamente em iluminação(sentido instrutivo) proveniente do Espírito da Bíblia.

O AT como palavra (mensagem) de Deus escrita, é um compêndio de literatura proveniente do antigo Oriente Médio. É assim que
devemos iniciar a nossa caracterização do aspecto humano da Bíblia, sempre levando em consideração também o seu aspecto divino
(inspiração).

5.1.1 Composição Geral do Antigo Testamento

O AT consta de 39 livros diversos, e assim é uma coleção literária (aspecto humano).

a. Foi escrito em duas línguas semitas antigas (Gênesis 10.21 e 26) o hebraico e o aramaico. Somente Daniel 2.4-7.28,
Esdras 4.8-6.18 e Jeremias 10.11 foram escritos em aramaico (sírio antigo, cf. Dt.26.5; Gênesis. 25.20), o resto em
hebraico, língua irmã, a língua de Canaã, Is. 19.18.
b. Portanto, é uma coleção de literatura proveniente do Antigo Oriente Próximo( de cerca de 1400 a 200 antes de
Cristo).
c. Se não fosse assim, seria necessário a Deus repetir toda esta obra para cada nova geração e língua.
d. Significa tudo isto que ao descobrirmos o sentido do relato para o antigo povo de Israel, em face da sua língua e
ambiente cultural e histórico, é que sentiremos de maneira mais tocante, sob a iluminação do Espírito, a sua
mensagem vital e autêntica para nós.
e. Deve-se salientar ainda que as porções mais antigas do conteúdo do AT, antes de serem colocadas na sua forma
final, eram transmitidas oralmente e depois fixadas em escrito. As narrativas de Gênesis parecem-nos um caso em

3 Texto extraído e adaptado de: O Novo Comentário da Bíblia por F. Davidson, Ed Vida Nova

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questão. Um exemplo claro implica-se em Jeremias 36.2. Todas as mensagens do profeta da época de 627 a 605
antes de Cristo são referidas. Ele teria gravado na memória suas mensagens, muitas encontrando-se em forma
poética.
f. Os dez mandamentos foram esculpidos em tábuas de pedra, Êxodo 31.18. Moisés teria preservado "O Livro da
Aliança" em alguma forma de "livro", Êxodo 24.4,7. Também a conservação do "Livro da Lei" encontrado no templo
em 621 antes de Cristo, II Reis 22-23, é exemplo adicional da tendência de formar "livros", possivelmente rolos de
pergaminhos como no caso de Jeremias 36. A arqueologia nos mostra que blocos de barro foram usados mais
comumente naquela antigüidade mais remota.
g. Assim a tradição oral e aquela escrita teriam coexistido lado a lado por séculos, sendo que no período do exílio
babilônico(após 586 a.C.), e especialmente no período de Esdras(c.458 a.C.) em relação à Lei, teriam sido as duas
empregadas para produzir a forma original final dos livros. A evidência, contudo, leva a crer que as porções centrais
do conteúdo fossem conservadas o quanto possível em forma escrita através dos séculos desde a época de Moisés
em diante, cf. Ex 17.14; 24.7; Nm 33.2; Dt 27.3; 31.9, 24-26; Js 1.8; 23.6; 24.26; I Rs 2.3; II Rs 22.8; 23.25; Ed 3.2; Ne
8.1-3; 11.13.

5.1.2 A Pré-História Oral do AT

A pré-história oral e escrita teria relação principalmente aos livros do AT que tratam do período pré-exílico - o Pentateuco, os livros
históricos, os profetas pré-exílicos, e porções de livros como, por exemplo, Salmos e Provérbios.

a. A pré-história escrita. Moisés, segundo Ex 24.4,7, escreveu o "Livro da Aliança", o qual teria existido em separado
até tornar-se uma das formas empregadas pelo autor do Livro de Êxodo. Josué 10.13 refere-se a outro antigo livro-
fonte, "O livro dos justos", em que o autor teria se baseado em parte. I Reis 11.41 menciona uma das fontes escritas
do seu autor, "O Livro da História de Salomão". II Reis 1.18 refere-se ao "Livro da História dos Reis de Israel". A
crítica literária referida em baixo era a primeira das disciplinas do alto criticismo a surgir nos tempos modernos(séc.18
d.C.) e se preocupa principalmente com a investigação das fontes literárias refletidas no atual texto.
b. A pré-história oral. É interessante notar que Ex 15 relata "O Cântico de Moisés", o qual ele e o povo entoaram ao
Senhor. O assunto celebrado é o livramento de Israel do exército de Faraó. Ex 14 contém um relato prosaico do
mesmo acontecimento. É lógico, na base das dicas do texto, que o cântico fosse preservado tanto em forma oral
como escrita, e também que fosse preservado por grupos de sacerdotes ligados, através dos séculos, a um ou mais
dos santuários em Israel.

A pré-história dos livros mais antigos do AT, portanto, tem ocupado o interesse dos estudiosos no século 20. Assim se desenvolvia o
estudo das formas típicas de fala que jazem atrás do texto e servem de dicas para entender algo da origem e do uso na comunidade de
Israel do bloco do conteúdo. Na vida de uma comunidade existiam determinadas situações típicas que se repetiam com regularidade,
sendo muitas vezes ligadas a certo lugar e determinada época. Tais situações (Sitz im Lebem, ou "contexto vital") teriam incluído o
julgamento, o culto divino, festas religiosas, etc. em certos lugares como Siquém e Jerusalém. A forma de expressão era determinada
pelo correspondente Sitz im Lebem e ela se realizava mediante fórmulas e gêneros literários fixos. Esta disciplina, não muito prática é

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chamada de a crítica das formas e desenvolveu-se depois da crítica literária. Ela tem dado seus melhores resultados no estudo dos
Salmos. Dois nomes importam quanto à sua origem: Hermann Gunkel e Sigmund Mowinckel.

A crítica literária do AT tem suas raízes no humanismo da Renascença e da Reforma Protestante, embora surgisse historicamente no
racionalismo europeu do século 19. A preocupação principal da disciplina é situar o autor na sua época à luz da marcha da história.

Esta disciplina tem servido para desafiar a tese tradicional de Moisés como autor do pentateuco em si, por exemplo, achando o
pentateuco composto no período do exílio babilônico na base de quatro extratos(documentos) surgidos em diferentes grupos em Israel e
em épocas diferentes.

A crítica literária também tem procurado elucidar os documentos ou extratos usados pelos autores dos outros livros do AT, como por
exemplo, no caso dos livros de Samuel, os Salmos, Eclesiastes, Cânticos, Jonas, Isaías, Daniel e Zacarias.

Perante o fato do surgimento arqueológico de textos variados provenientes tanto em Israel como dos povos vizinhos dele, os estudiosos
têm se preocupado em comparar a literatura do AT com aquela das descobertas. O resultado tem sido promissor, embora haja sempre
radicais tanto liberais como conservadores quanto à interpretação de tais comparações.

5.1.3 Gêneros Literàrios dos Textos Arqueológicos

Os gêneros literários dos textos arqueológicos se dividem, semelhante ao AT, em duas categorias principais: prosa e poesia.

a. As subcategorias da prosa( a forma natural de falar, por oposição ao verso) são geralmente entendidas como
incluindo: 1) narrativa. 2) parábola. 3) fábula. 4) alegoria. 5) sermão. 6) história curta. 7) discurso. 8) oráculo e 9)
ensaio.
b. O debate entre os estudiosos relaciona-se principalmente à subcategoria de narrativa. As descobertas arqueológicas
mostram historiografia, mito, conto-folclórico, lenda, saga e material jurídico. Será que no AT contamos com mito,
conto, lenda e saga? Os mais liberais têm dito que sim, mas ultimamente a maioria dos eruditos têm chegado à
seguinte conclusão típica exemplificada por Bentzen: "No Antigo Testamento... só encontram-se restos e adaptações
de material mitológico", porque o mito não teve condições favoráveis em Israel devido à sua ligação com o politeísmo
(cf. Is 27.1, 51.9; Ez 29.3; Jr 51.34; Sl 74.13,14; 104.26; Is 14.12-15; Ez 28.12-15; Gênesis 1-2).

As subcategorias da poesia (a arte de se expressar em verso que muitas vezes emprega a linguagem figurada e bem expressiva para
descrever a beleza ou o sentido da coisa).

1) Pelo menos uma terça parte do AT é de poesia.

2) Foi somente em 1753 d.C. que essa poesia foi pela primeira vez nos tempos modernos examinada e descrita.

As principais categorias da poesia do AT são:

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Canções.

1. Nupciais - Cantares de Salomão.

2. Fúnebres - lamentações.

3. Hinos - Os Salmos 42-46, 92, 124, 147.

4. Populares - I Samuel 18.7(resumo da canção popular).

5. Bênçãos e Maldições("palavras patriarcais’) - Gênesis 12.1-3; 14.19-20; 22.16-18 48.15-16; 49.2-27 cf. Gênesis 3.14-19;
4.23-24; 9.25-27.

6. A sentença - uma só linha poética, Gênesis 10.9; I Samuel 10.12.

7. O Enigma - Jz 14.14.

8. O Provérbio - O livro de Provérbios, cf. Jr 18.18.

9. Poemas diversos - Os Salmos, a maior parte de Jó é poesia dramática.

Segundo Robert Lowth (o estudo de 1753 d.C.) e os estudiosos posteriores, a poesia hebraica tem duas características básicas que se
mostram numa grande variedade por todo o AT:

a) paralelismo, ou "rima", de pensamento.

b) várias seqüências de sílabas tônicas e átonas(ritmo).

Tem se desenvolvido outras disciplinas além da crítica literária e das formas.

5.1.4 Crítica Literária

a. A crítica da história das tradições ocupa-se dessas duas a fim de traçar a história pré-canônica dos vários blocos
homogêneos de material(tradições) para entender melhor a história religiosa e teológica que teriam produzido a tradição. É
disciplina difícil e não é muito prática.
b. A crítica canônica, uma das mais novas a surgir, visa entender os livros do AT à luz da história da sua canonização e lugar no
cânon como sendo Escritura Sagrada para o judaísmo e a Igreja. Quais os valores que os antigos judeus, por exemplo, teriam
achado no livro de Jonas para incluí-lo no cânon entre os profetas? Salienta-se a necessidade de olhar para a totalidade de um
livro bíblico ao invés de somente analisar as tradições separadas refletidas nele. O livro todo, na forma em que se encontra e
na divisão canônica da qual faz parte, importa como palavra de Deus para a Igreja. Esta disciplina é mais promissora do que

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algumas outras da alta crítica e foi motivada por uma reação contra a esterilidade espiritual e prática de muita coisa na alta
crítica.

5.2 As Narrativas do Antigo Testamento

5.2.1 O emprego das narrativas

A Bíblia contém mais do tipo de literatura conhecido como narrativa do que qualquer outro tipo literário reconhecido, sendo que, só o V.T.,
o qual representa mais de 75 % da escritura bíblica é composto de pelo menos 40 % de pura escrita no estilo de narrativa,
representando, desta forma, o tipo mais comum de literatura individualmente falando.

Os seguintes livros do A.T. são compostos em sua grande maioria ou totalidade de matéria narrativa : Gênesis, Josué, Juizes, Rute, 1 e 2
Samuel, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Daniel, Jonas e Ageu. Além disto, Êxodo, Números, Jeremias, Ezequiel, Isaías e Jó contém
porções narrativas substanciais. No N.T., grandes porções dos quatro Evangelhos e quase a totalidade de Atos também são narrativa.

5.2.2 A natureza das narrativas

i. O que são ?

As narrativas são histórias que podem ser simples ou complexas, com personagens e tramas específicas, e, no caso bíblico, verídicas.
Elas nos contam acerca de coisas que aconteceram mostrando-nos Deus operando no dia-a-dia do Seu povo, glorificam-no e nos
ajudam a compreendê-lo melhor e dar o devido valor a Ele, como também, nos dão um quadro de Sua providência e proteção. Por outro
lado nos fornecem ilustrações vívidas de muitas outras lições que nos são importantes para nossas vidas. (No processo da revelação
progressiva é, literalmente, Deus “andando e vivendo” no meio dos homens, onde, as narrativas ensinam por meio da experiência de
outros com Deus )

ii. Os três níveis das Narrativas

Nos ajudará muito no estudo das narrativas, (especialmente do Antigo Testamento, as quais são o objeto desta matéria), reconhecer que
a história está sendo contada em três níveis, os quais são :

a. O nível superior (1º): é aquele do plano universal inteiro de Deus englobando toda a humanidade em Seu eterno
propósito através da Sua criação.
b. O nível intermediário (2º): centralizando-se em Israel como meio de revelação de Deus aos homens, e, fique-se
claro este Seu propósito no que tange à escolha de Israel como nação separada das demais “por um tempo”.
c. O nível inferior (3º): onde se acham as centenas de narrativas individuais que juntas perfazem os dois outros
níveis.

Observação : cada narrativa individual é, pelo menos parte da narrativa no nível intermediário, isto é, a história de Israel em relação ao
mundo, que por sua vez, faz parte da narrativa ulterior, ou superior da criação de Deus e Sua luta pela redenção dos homens. Esta

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narrativa superior vai além dos limites do V.T. através do Novo Testamento pelo qual pode se confirmar a palavra apostólica que diz que
a revelação anterior era a sombra do que haveria de vir, e, o que veio foi Cristo como revelação plena da vontade de Deus.

iii. O que as narrativas “não são”


a. Não são apenas histórias acerca de pessoas que viveram no período do Velho Testamento, mas, o que Deus operou para
e por meio daquelas pessoas. Como foi falado no início deste curso, Deus é o protagonista da trama desenvolvida nas
narrativas bíblicas.
b. Não são alegorias ou histórias cheias de significados ocultos, apesar de nem sempre sermos informados de todas as
coisas que aconteceram, como, para quê ou porquê aconteceram. Com certeza, o essencial estará lá.
c. Elas não respondem a todas as nossas perguntas nem tratam e todos os assuntos referentes à vida dos seres humanos
ou do próprio Deus. Normalmente são limitadas àquilo que está sendo enfocado naquela narrativa específica, e, o estudo
honesto do contexto envolvido em muito nos ajudará a compreendê-las.
d. Elas nem sempre ensinam de modo direto, portanto, repassar seus ensinamentos de forma pura e simples como se
fossem leis pode nos levar muito distante do propósito de Deus e de seu autor humano. Em termos gerais, as narrativas
nos dão um tipo de conhecimento mediante contato direto com a obra de Deus no seu próprio mundo ( contextualizado) o
que sempre estará nos ensinado sobre Sua natureza que é imutável. ( ver contexto );
e. Cada narrativa ou episódio individual não possui necessariamente uma lição moral individual como se cada citação, evento
ou declaração tivesse uma mensagem especial para o leitor. De forma geral, as narrativas podem ser interpretadas como
as parábolas que possuem uma mensagem global para uma unidade inteira, e, não como cada parte individual da mesma.
Devemos analisá-las como uma unidade e não como uma grande colcha de retalhos ou atomisticamente.

5.2.3 Princípios de interpretação de narrativas

a. Geralmente uma narrativa do A.T. não ensina diretamente uma doutrina, não é o seu propósito básico.
b. Normalmente elas ilustram doutrinas ensinadas de modo proposicional em outros lugares. ( entenda-se propósito)
c. Elas registram o que aconteceu, não necessariamente o que deveria ter acontecido. Nem toda narrativa tem uma moral da
história, identificável ou individual.
d. O que as pessoas fazem nas narrativas nem sempre são um bom exemplo para nós, aliás, freqüentemente são o
contrário.
e. As personagens das narrativas estão longe de ser perfeitas bem como suas ações.
f. Nem sempre a narrativa nos informa se aquilo que aconteceu foi bom ou mau, porém, a Bíblia estará nos fornecendo em
outros lugares as informações necessárias de modo direto ou categórico para que façamos o correto julgamento da
história com base no que Deus nos ensinou.
g. Todas as narrativas são seletivas e incompletas, isto é, o que realmente aparece é tudo o que o autor inspirado considerou
relevante para que soubéssemos.
h. As narrativas não respondem a todas às nossas perguntas. Têm propósitos limitados, específicos e particulares.
i. As narrativas podem ensinar de modo explícito, declarando algo de modo claro, ou implícito, ao subentender alguma coisa
sem declará-la abertamente.

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j. Deus é o herói de todas as narrativas bíblicas.

5.2.4 Precauções finais

É muito comum as pessoas encontrarem na Bíblia lições que não se encontram lá, especialmente nas narrativas que muitas vezes não
falam diretamente ao leitor o que ele espera ouvir e seu espírito religioso inquieto não admite que isto ocorra, então, atribuem ao texto as
noções que eles próprios já trazem afim de se reafirmarem diante de suas consciências.

A Bíblia, realmente contém tudo o que o cristão precisa saber para sua vida em termos de orientação da parte de Deus, mas nem sempre
contém respostas específicas tanto quanto as pessoas gostariam que ela tivesse, e, isto, normalmente é a fonte de todas as más
interpretações que conseguimos encontrar por aí.

Afim de evitar esta tendência segue alguns dos principais erros que ocorrem na interpretação bíblica, especialmente das narrativas:

a. Alegorização: ao invés de se aterem ao significado claro do texto, procuram nas entrelinhas palavras ou mensagens
ocultas que imaginam existir relegando ao texto outro significado que não o apoiado pelo contexto natural do mesmo.
b. Descontextualização: o perigo ocasionado pela falta do conhecimento dos contextos integrais históricos e literários,
concentram-se nas narrativas pequenas e individuais e se perdem no emaranhado de suas próprias idéias fazendo com
que um texto signifique qualquer coisa que se queira.
c. Seletividade: atenção excessiva a detalhes, escolha de palavras e frases para concentrar seu estudo sem prestar a
devida atenção ao restante do documento perdendo assim o alcance global da passagem.
d. Combinação falsa: a famosa colcha de retalhos na formação de uma pregação ou mensagem catando aqui e ali
pequenos trechos desconexos afim de apoiar uma determinada idéia.
e. Redefinição: a tentativa de fornecer emoção ou mais espiritualidade a um texto com dificuldades de compreensão. É
muito complicado tentar transformar Davi em um perfeito modelo de cristianismo.
f. Autoridade extracanônica: é muito comum buscar a contra - prova de idéias utilizando de outras fontes que não a própria
Bíblia sem as quais, alega-se não alcançar o verdadeiro significado da mensagem divina. Este método normalmente é
utilizado por seitas que pregam as mais diversas bizarrias a respeito de Deus e evocam autoridade para fazê-lo baseado
em fontes de origem espúria ou duvidosa.
g. Erro de alvo: nenhuma narrativa da Bíblia foi escrita especificamente acerca de mim ou de você, mas da personagem
supra citada e, espera-se que com seus erros e acertos nós possamos tirar lições úteis para nossa vidas conhecendo
Deus através da forma como Ele se envolveu na vida daquelas pessoas.

5.3 As Narrativas do Novo Testamento

Os Evangelhos e o livro dos Atos dos apóstolos também são, basicamente, compostos de narrativas estando, portanto, intimamente
relacionados com as informações até agora fornecidas sobre as mesmas, porém, existem certas peculiaridades acerca destes dois
gêneros citados que serão tratadas separadamente.

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Antes de buscar as respostas contextuais na interpretação dos evangelhos, que, por natureza, compreendem um tipo específico de
narrativas encontradas na literatura bíblica, faz-se necessário levantar algumas notas preliminares acerca da natureza deste gênero, o
qual requer a articulação de certas articulações sobre os materiais utilizados e o inter-relacionamento existente entre eles.

Antes de buscar as respostas contextuais na interpretação dos evangelhos, que, por natureza, compreendem um tipo específico de
narrativas encontradas na literatura bíblica, faz-se necessário levantar algumas notas preliminares acerca da natureza deste gênero, o
qual requer a articulação de certas articulações sobre os materiais utilizados e o inter-relacionamento existente entre eles.

5.3.1 A natureza dos evangelhos

Diferentemente às epístolas, que serão estudadas posteriormente, os escritores dos evangelhos têm dois ou três contextos histórico –
dimensionais relacionados ao contexto literário imediato. Isto é, eles estão agora, (no seu tempo), dando ou recebendo de forma escrita
permanente os ditos e narrativas sobre Jesus (nível1), aquilo que lhes é disponível do que foi preservado na tradição das Igrejas (nível
2), bem como as suas próprias contribuições (nível 3) de seleção, arranjo e adaptação das informações recebidas. ( Esta é, basicamente,
a maior dificuldade existente na interpretação dos evangelhos )

Um exemplo desta distância entre as fontes e o arranjo bem como da tradição oral existente naquele período é a citação paulina em I Co
11.23 “eu recebi do Senhor aquilo que também vos entreguei” ( escrito em 54 d.C.) com Lc 22.17-20 ( escrito +/- 75 d.C.).

O processo exegético deste tipo de literatura pode se tornar um pouco mais complexo pelo fato de ser em número de quatro, dos quais,
os três primeiros têm algum tipo de inter-relacionamento literário.

Baseados nos dois fatores citados sobre os evangelhos, ou seja, que eles possuem duas ou três dimensões contextuais diferentes e, que
formam um grupo de quatro proponentes a relatar algo acerca da história de Jesus necessitamos estabelecer algumas hipóteses afim de
nortear o trabalho exegético que se segue, as quais serão citadas nos itens abaixo.

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5.3.2 Hipóteses básicas para a exegese dos evangelhos

a. É razoável assumir que durante o período de transmissão oral as unidades individuais de material (perícopes),
composições de narrativas e ditos, sermões, discursos, foram transmitidas livre e independentemente uns dos outros.
Similarmente, podemos admitir que muitas coisas e ditos foram preservadas como ensinos per si e, freqüentemente
transmitidas separadas de seu contexto histórico original, (é interessante o uso que Paulo faz de tais fontes em I Co 7.10
e 9.14).
Precisamos entender que o presente arranjo é em larga escala o resultado do trabalho inspirado dos próprios evangelistas.
Isto pode ser mais bem compreendido e confirmado se verificarmos , por exemplo, que os ditos coletados por Mateus em
10.5-42 apresentadas como instruções para os servos do Reino são estabelecidas por Lucas em situações
completamente diferentes na seguinte seqüência : Lc 9.2-5; 10.3; 12.1-12; 6.40; 12.2-9; 12.51-53; 14.25-27; 17.33; 10.16. (
Normalmente, a tentativa de relacionamento ou paralelismo sinótico dos evangelhos de forma cega ou radical é danosa
para a interpretação dos mesmos – note-se, isto foi feito muitas vezes pelos copistas bem intencionados que não
conseguiam admitir a supostas discrepâncias encontradas por eles. )
b. Um segundo ponto importante a ser levado em consideração, é que, a princípio, nenhum dos evangelhos foi originalmente
escrito afim de ser lido simultaneamente com qualquer outro (com a possível exceção do livro de João conforme nos relata
Clemente de Alexandria). Por outro lado, é certo dizer que os chamados evangelhos sinóticos não foram escritos
totalmente isolados entre si, pois, em sua grande maioria, os estudiosos do criticismo bíblico aceitam que: 1º - Marcos foi o
primeiro a ser escrito, 2º - que Mateus e Lucas independentemente usaram os escritos de Marcos para a compilação de
seus próprios trabalhos, 3º - que Mateus e Lucas também tiveram acesso a uma grande quantidade de outros materiais
de pesquisa da tradição da Igreja, alguns dos quais eles tiveram em comum, mas, provavelmente, não como uma única
fonte.
c. Os evangelistas por si mesmos selecionaram, arranjaram e adaptaram estes materiais, não simplesmente para gravar ou
preservar a vida e os ensinos de Jesus, mas, também, para apresentá-los aos seus leitores com as características
distintas de seu próprio assunto e pontos de vista.
d. É muito importante relembrar que, em momento algum colocamos a inspiração divina em dúvida na compilação destes
trabalhos, pelo contrário, reconhecemos piamente que Deus os inspirou, e, interessa-nos profundamente conhecer as
razões, propósitos que O levaram a conduzir estes homens a realizar tal trabalho.

5.3.3 A tarefa exegética dos Evangelhos

Dada a natureza dos evangelhos e estas três hipóteses básicas para a sua interpretação, precisamos reconhecer que a primeira tarefa
na exegese de um texto inserido nos evangelhos é compreender aquela passagem no contexto adequado à mesma. Porém isto tem dois
aspectos: em primeiro lugar, o evangelista está registrando a vida e ensino de Jesus, e, neste ponto do trabalho de exegese é procurar
“ver” o que ele compreendeu ter sido dito ou então ter acontecido num dado momento, mas, em segundo lugar, visto que ele selecionou e
compilou daquela forma, nós também precisamos encontrar o seu significado no presente contexto daquele evangelho e daquela
passagem na qual o assunto foi apresentado.

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5.4 Os Textos Proféticos do Antigo Testamento

Em se tratando dos gêneros literários nos quais a Bíblia foi redigida, de modo algum nos enganamos que os livros proféticos contam das
partes mais difíceis no que tange à interpretação de sua mensagem e à perfeita aplicação de seus ensinos, porém, diferentemente das
parábolas, a dificuldade aqui encontrada diz respeito aos mal - entendimentos quanto à sua função e forma.

5.4.1 O que é profecia ?

A primeira dificuldade nasce na compreensão prévia confirmada pelos dicionários modernos de que profecia é “o prenúncio ou predição
daquilo que ainda há de acontecer”. Quanto aos cristãos em termos gerais, referem-se à palavra profecia somente para as supostas
predições acerca da vinda de Jesus, o juízo final, e outros assuntos afins.

A grande verdade porém é que jamais fôra a preocupação de qualquer profeta a predição de eventos muito distantes de sua própria
época, mas, dentro do sóbrio significado de seu nome, profeta, significa literalmente : “aquele que fala adiante”, “arauto”, “o que fala em
nome de alguém”. (gr. pro + efê + tês = hó profêtês).

Estatisticamente, o ministério dos profetas pode decepcionar muita gente pois, certamente, menos que 2% da profecia do A.T. é
messiânica, menos que 5% descreve algo explicitamente acerca da Nova Aliança, e, menos que 1% descreve eventos ainda muito
distantes no porvir.

É certo que os profetas anunciavam o futuro, mas, usualmente era o futuro imediato da nação de Israel, Judá e de outras nações em
derredor . Portanto, uma das chaves para a compreensão das profecias é olhar para trás, para os eventos que são o nosso passado mas
representavam o futuro próximo daquele povo que os ouvia.

Precisamos compreender que, (1) ver os profetas como preditores de coisas futuristas é perder de vista sua função primária que era falar
em prol de Deus, ou, em nome de Deus para seus próprios contemporâneos, e, (2) os livros proféticos são em sua grande maioria uma
coletânea de oráculos falados por toda uma vida em um ministério profético, nem sempre na ordem cronológica original e,
freqüentemente, sem os indícios históricos relacionados. Desta forma, para se estudar corretamente os profetas devemos aprender a
pensar em oráculos como um corpo de pensamento dentro de uma mensagem completa.

5.4.2 O propósito das profecias do V.T.

Para entendermos melhor o que Deus deseja nos transmitir através dos livros proféticos, devemos ter uma clara compreensão da função
dos profetas em Israel :

i. Eles eram os mediadores para fazer cumprir a aliança

Deus não somente deu a lei como um padrão de comportamento para o povo judeu como também a fazia cumprir. Os profetas são,
necessariamente os Seus mediadores na busca do cumprimento desta aliança, e, isto nós veremos por todo o período dos reis onde se
concentra a maior parte da atividade profética vetero - testamentária.

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As bênçãos ou maldições que os profetas vieram a proclamar não eram de forma alguma invenção deles, mas, o puro e simples relato de
coisas que o próprio Deus os avisara insistentemente durante todo o período de desenvolvimento da Lei na época de Moisés.

ii. A mensagem dos profetas não era deles mas de Deus.

Deus é quem os levantava e os comissionava, sendo que sua forma mais comum na entrega da mensagem ao povo era : _ “Assim diz o
Senhor.” Portanto, aquilo que lemos nos profetas não é simplesmente a visão de determinado profeta em relação ao povo ou situação
específica, mas, o que Deus queria transmitir para aquele povo.

Não era uma tarefa nada fácil comunicar uma mensagem como : _ Se deixem dominar pelos Babilônios porque Deus está do lado deles.
Afinal, soaria muito anti – patriótico ou uma traição explícita, assim como outros trabalhos realizados por estes corajosos homens que
andaram na contra – mão de seu tempo em prol da vontade de Deus.

iii. A mensagem dos profetas não era original.

Os profetas, como já foi dito anteriormente, foram inspirados por Deus para apresentar o conteúdo de promessas e advertências que
primariamente foram apresentadas por Moisés, portanto, estudar os livros proféticos em busca de originalidade, novidades ou
mensagens ocultas aos seres mortais é incorrer em sério erro de interpretação.

Os profetas variaram substancialmente a forma como entregaram as suas mensagens aos homens com o propósito de serem
compreendidos, cridos e obedecidos. Seu trabalho consistia em fazer valer os termos da Aliança de Deus como Seu povo em situações
específicas em que uma ou mais circunstâncias estavam direcionando as pessoas para longe de Deus.

iv. Os dois contextos:

Para a perfeita compreensão de um livro profético devemos visualizar a realidade de dois contextos básicos que norteiam todo este tipo
literário da Bíblia sagrada. O primeiro deles diz respeito à um contexto amplo, ou maior que envolve a era deles e o segundo toca a
oráculos específicos dentro de um período completo de profecia.

Praticamente todo o período de grande fomento profético não remonta mais do que três séculos (entre 760 e 460 a.C.), onde, aqueles
anos eram caracterizados por basicamente três coisas:

(1) transtornos políticos, militares, econômicos e sociais sem precedentes,

(2) um nível enorme de infidelidade religiosa e desrespeito para com a aliança mosaica original, e,

(3) mudanças das populações e das fronteiras nacionais.

Nestas circunstâncias Deus se ocupou em falar ao povo de uma forma muito contundente visando sempre o arrependimento e o retorno
deste povo ao seu Deus.

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Este conjunto de informações formam o lastro básico para a concepção correta do contexto histórico macro, geral com respeito à época
dos profetas e as situações que motivaram o seu trabalho.

Por outro lado, cada oráculo profético foi entregue num contexto histórico específico. Em suma, Deus falou através dos seus profetas a
pessoas num determinado tempo e lugar, e, em determinadas circunstâncias. O conhecimento da data, do auditório, e da situação
envolvida contribui substancialmente à capacidade do leitor de compreender uma determinada mensagem encontrada nos livros dos
profetas.

v. Pensar em oráculos:

Ao chegarmos na leitura exegética de tais livros, a primeira coisa que precisamos aprender a fazer é : “Pensar em oráculos”, isto é, no
entendimento de que uma palavra só faz sentido dentro de frases, as frases só fazem sentido inseridos em parágrafos e na seqüência
que já foi citada anteriormente. Da mesma forma, as profecias são transmitidas em oráculos completos e, somente desta maneira
poderemos compreender perfeitamente o que o profeta queria transmitir àquele povo e, consequentemente também a nós em nosso
tempo num bom trabalho de exegese e hermenêutica.

Para se entender bem um texto profético, é preciso estudar e conhecer a fundo o movimento profético em Israel, um período que vai de
Amós (por volta de 760 a.C.) a Malaquias (460 a.C.). Em outras palavras, o contexto histórico é fundamental.

Para muita gente, a função de um profeta é prever o futuro. Os profetas também faziam isto, em nome de Deus (IPe 1.12), mas nunca
deixavam de falar diretamente a seus contemporâneos. Eles se dirigiam às situações específicas de seu tempo, o que requer do
intérprete que entenda o contexto em que os profetas atuaram. A intenção deles não era satisfazer a curiosidade em relação do futuro, e
sim influenciar a situação presente do povo. Mais do que predizer, sua função era proferir ou proclamar. A profecia não era
necessariamente e sempre o anúncio de um plano eterno imutável. Muitas profecias eram condicionais, segundo o princípio enunciado
em Jr 18.7-10: "se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe"
(v.8).

Num certo sentido, os profetas revelavam ao povo o seu pecado. Visto sob outra ótica, o que faziam era lembrar ao povo a aliança de
Deus (Êx 20). A resposta esperada era arrependimento, fé, amor e obediência.

vi. O contexto literário

Além do contexto histórico, também é importante observar o co-texto ou contexto literário. Na prática, importa superar a tentação de isolar
versículos ou partes deles e considerar os parágrafos. Isso pode ser descrito como "pensar em oráculos" (FEE e STUART, 1984, p.163),
pois oráculos são a "forma" da mensagem profética. Esses oráculos podem ter a forma de um "processo jurídico" (rib, no hebraico), como
o de Is 3.13-26, ou de um "ai", como em Hc 2.6, 9. Podem ainda ser uma promessa ou oráculo de salvação (Am 9.11-15, Os 2.16-22, Is
45.1-7, Jr 31.1-9).

vii. A linguagem

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Além do contexto, a interpretação dos profetas passa pela linguagem. Existe muita poesia nos textos proféticos, a começar pela primeira
profecia, Gn 3.15, que tem algo do colorido do jardim onde foi anunciada. Traduções como a NTLH, para não falar da própria Bíblia
Hebraica, imprimem os textos poéticos como poesia, isto é, sem preencher as linhas, o que ajuda o leitor a identificar o gênero desses
textos.

A linguagem metafórica, também presente nas profecias, não deixa de veicular e comunicar verdades; só que ela faz isso do seu jeito. E
essa linguagem precisa ser respeitada, evitando-se, assim, uma leitura demasiadamente literal.

Um exemplo é a promessa feita a Abraão (Gn 22.17). O cumprimento literal ou imediato está registrado em Nm 23.10 e IRs 4.20. O
cumprimento espiritual se dá com o novo povo de Deus em Cristo. O cumprimento final ou celestial está anunciado em Ap 7.9. Outro
exemplo é a promessa da reconstrução do Templo (Is 44.28). O cumprimento imediato ou literal se deu com Zorobabel (Zc 4.9). O novo
Templo espiritual é a igreja (Ef 2.21,22; ICo 3.16). O Templo escatológico está anunciado em Ap 21.3,22.

Algumas profecias são literais no AT, mas têm um cumprimento espiritual no NT. É o caso da aliança que Deus fez com Davi, em 2Sm
7.14. A promessa do descendente de Davi que estabelece o reino e edifica uma casa ou Templo ao nome do Senhor se cumpre
espiritualmente no ministério de Cristo. Por outro lado, existem profecias de caráter mais figurado que se cumprem ao pé da letra, no NT.
Este é o caso de Is 7.14 ("a virgem conceberá"), Sl 2.7 ("tu és meu filho"), Sl 22.16 ("traspassaram-me as mãos e os pés"). Os 6.2 ("ao
terceiro dia"). No caso de Os 6.2, "ao terceiro dia", no contexto do AT, quer dizer "em breve" ou "logo". No NT, se cumpre ao pé da letra.

5.5 A Poesia Bíblica

A poesia da Bíblia não se limita aos chamados "livros poéticos", que compreendem os livros de: Jó, Salmos, Cântico dos Cânticos,
Lamentações, Provérbios e Eclesiastes; porque uma parte também dos "livros proféticos" apresenta-se sob forma poética, sobretudo num
ou outro passo, por vezes brevíssimo. Há quem suponha, que essa poesia se inspira no "livro das guerras do Senhor" (#Nm 21.14), ou
no "livro do Reto" (#Js 10.13; 2Sm 1.18; 1Rs 8.12-13) que eram coleções de poesia contemporânea. Alguns autores foram mais longe, e
chegaram até a delinear os elementos duma métrica primitiva, que se encontraria desde o Gênesis até aos livros de Samuel. Outros
ainda descobriram uma espécie de métrica saturnina nesses primeiros livros da Bíblia. São casos muito discutidos, a que neste resumido
estudo não podemos dar o devido desenvolvimento.

Não só o Velho, mas também o Novo Testamento inclui um elemento poético, nem sempre estudado com atenção. São bem conhecidos
os cinco cânticos natalícios de Lucas, e melhor ainda o prólogo de João, provavelmente baseado num hino cristão. Os sermões e as
sentenças de Jesus refletem, também, a métrica hebraica, no dizer de vários entendidos. C. H. Dodd, por exemplo, afirma que
"mostrando-se Jesus como profeta, é fácil de crer que falasse em verso, como os profetas ao proferirem seus oráculos".

Também as Epístolas do Novo Testamento parece conterem fragmentos de poesia. Primitivos cânticos cristãos inspiraram talvez #Fp 2.6
e segs., #Ef 5.14 (dum hino batismal?) e o "mistério da piedade" em #1Tm 3.16.

Finalmente, encontra-se também cheio de cânticos o último livro do Novo Testamento, mas não podemos, por agora, estudar "a métrica
do Apocalipse", que exigiria um trabalho mais profundo.

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5.5.1 Formas Poéticas

As duas características da poesia bíblica são: o ritmo do pensamento e o ritmo do som. Quanto a este último, é o que normalmente se
usa na nossa língua, e que aparece quase sempre na forma regular de sílabas acentuadas ou não, numa ou várias linhas, chamados
versos, as mais das vezes rimadas. Na poesia bíblica, o ritmo do som depende quase exclusivamente da seqüência regular de sílabas
acentuadas. No que respeita às não acentuadas, é difícil pronunciarmo-nos, pois se desconhece que papel poderiam desempenhar
essas sílabas. "A questão mais difícil da métrica hebraica", escreve o douto A. Bentzen, "é o problema do número de sílabas não
acentuadas permitidas num texto". Aquilo a que chamamos rima é largamente compensado na poesia hebraica por outra espécie de
ritmo-o ritmo de pensamento ou de sentido, que é o paralelismo, já utilizado pelos poetas do Egito, da Mesopotâmia e de Canaã.

São clássicas duas obras de autores ingleses que, como ninguém, aprofundaram este assunto. Trata-se de Leituras acadêmicas sobre a
poesia sagrada dos hebreus, obra publicada em latim em 1753 por Robert Lowth, professor de poesia em Oxford e mais tarde bispo de
Londres; e Formas da poesia hebraica, devida a Jorge Buchanan Gray, professor de hebraico no Colégio Mansfield, e que apareceu em
1905.

5.5.2 O Paralelismo da Poesia Hebraica

O paralelismo hebraico toma várias formas, que só exemplos práticos poderão demonstrar. Seja o primeiro caso o do paralelismo
perfeito, que se dá quando uma linha ou dístico se compõe de duas partes perfeitamente correspondentes. Repare-se em "Israel não tem
conhecimento, O meu povo não entende" (#Is 1.3), onde Israel corresponde a meu povo e não tem conhecimento a não entende. Como
as duas partes são sinônimas, tem esta forma de paralelismo o nome de paralelismo idêntico. Outro caso é o paralelismo antitético, em
que uma das partes é contrária à outra. #Pv 15.20 apresenta-nos um exemplo concreto.

"O filho sábio alegrará a seu pai,

Mas o homem insensato despreza a sua mãe."

Outro caso de paralelismo é o chamado "simbólico", porque uma das partes utiliza o sentido literal e a outra o figurado. Veja-se o #Sl
103.13 (com três sílabas acentuadas em cada parte):

"Como um pai se compadece de seus filhos,

Assim o Senhor se compadece daqueles que O temem".

Podemos ainda considerar um outro paralelismo, mais extenso, cruzado ou quiástico, como no #Sl 30.8-10:

"A Ti, Senhor clamei, e ao Senhor supliquei. Que proveito há no meu sangue quando desço à cova? Porventura Te louvará o pó?
Anunciará ele a tua verdade? Ouve, Senhor, e tem piedade de mim, Senhor; sê o meu auxílio".

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Aqui, a primeira parte corresponde à quarta, e a segunda à terceira. É o que mais ou menos se verifica nas palavras de Jesus, a que #Mt
7.6 faz referência:

"Não deis aos cães as coisas santas, Nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, Não aconteça que eles (os porcos) as pisem com os
seus pés, E, voltando-se, eles (cães) vos despedacem."

Citamos apenas casos de paralelismo perfeito, de versos com o mesmo número de sílabas acentuadas. Mas há que admitir ainda o
paralelismo imperfeito, onde, por exemplo, uma das unidades de pensamento numa parte não tem correspondência na outra. Vejamos o
caso do #Sl 1.5, em que o verbo "não subsistirão" da primeira parte não tem correspondência na segunda:

"Pelo que os ímpios não subsistirão no juízo,

Nem os pecadores na congregação dos justos".

Conserva-se, todavia, o número de sílabas acentuadas, porquanto "juízo" tem uma sílaba nessas condições, e "congregação dos justos"
duas. Do mesmo modo em #Is 1.3: "O boi conhece o seu possuidor, E o jumento a manjedoura do seu dono", onde, na segunda parte
não há correspondência do verbo da primeira, mas dá-se a lei da compensação, pois, enquanto "manjedoura do seu dono" tem duas
sílabas acentuadas, "o seu possuidor" não tem mais que uma. Este fenômeno, também chamado "paralelismo imperfeito com
compensação", é com freqüência usado na poesia bíblica. Por vezes o paralelismo é tão imperfeito, que nos fica apenas a compensação,
ou melhor, como lhe chama Lowth "o paralelismo sintético" ou, no dizer de Gray, "paralelismo formal".

Na realidade não se trata de qualquer paralelismo; há somente ritmo de som e não ritmo do pensamento. Sirva de exemplo o #Sl 27.6:

"Também a minha cabeça será exaltada. Sobre os meus inimigos que estão ao redor de mim".

Neste caso são três as sílabas acentuadas em cada parte, mas sem qualquer espécie de paralelismo de sentido.

De outras vezes, com o paralelismo imperfeito e sem compensação, são de observar os versos de extensão desigual, seguindo no
entanto determinadas regras, mais ou menos equivalentes à nossa métrica e em que as sílabas acentuadas se alternam na razão de 4
por 3. É o que podemos constatar na descrição do caos em #Jr 4.23-26:

"Observei a terra, e eis que estava assolada e vazia;

e os céus, e não tinham a sua luz.

Observei os montes, e eis que estavam tremendo;

e todos os outeiros estremeciam.

Observei e vi que homem nenhum havia,

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e que todas as aves do céu tinham fugido.

Vi também que a terra fértil era um deserto,

e que todas as suas cidades estavam derribadas diante do Senhor".

Mas a forma mais corrente do "paralelismo imperfeito sem compensação" é a que alterna 3 por 2 versos, e toma o nome de qin’ah ou
métrica "de endecha", freqüente no livro das Lamentações. Admire-se o seguinte caso em #Lm 3.1:

"Eu sou o homem que viu a aflição

pela vara do seu furor".

Mas não se limita só a este tipo de poesia, pois pode servir para exprimir uma esperança confiante, como no #Sl 27.1:

"O Senhor é a minha luz e a minha salvação;

A quem temerei?

O Senhor é a força da minha vida;

de quem me recearei?".

Nas palavras de Jesus não raro se encontram casos destes.

Há ainda a considerar o "paralelismo gradativo", quando um membro (ou parte dum membro) duma linha é repetido na outra, sendo este,
ponto de partida para um novo membro. Veja-se como se iniciam os primeiros versículos do #Sl 29, com a repetição do "Dai ao Senhor",
ou ainda o #Sl 92.9:

"Pois eis que os teus inimigos, Senhor, eis que os tens inimigos perecerão; serão dispersos todos os que praticam a iniqüidade".

Este caso não deixa de ter um interesse particular, pela semelhança que apresenta com o poema épico dedicado a Baal, descoberto
entre as inscrições do Ras Shamra:

"Eis que os teus inimigos, ó Baal, eis que os teus inimigos destruirás, eis que tu destruirás os teus inimigos".

Há um autor que a este propósito cita um trístico do poema de Aqhat ou Dan’el, cujo conteúdo lembra o do #Sl 21.4:

"Pede vida a Aqhat, meu filho; pede vida e eu ta darei, Vida imortal, e eu ta concederei".

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O caso do #Sl 92.9 é digno de registro, não só como exemplo de paralelismo gradativo, mas como modelo de trístico e não dístico. O
esquema rimático é 3 por 3 por 3. É o que se dá no #Sl 24.7-10:

"Levantai, ó portas, as vossas cabeças;

Levantai-vos, ó entradas eternas,

E entrará o Rei da Glória..."

Apresenta-se-nos aqui uma série de quatro trísticos, formando duas curtas estrofes.

A presença de estrofes na poesia bíblica tem sido muito discutida, pelo fato de se encontrarem aqui e ali vestígios duma disposição
estrófica. É o caso dum estribilho repetido, como no #Sl 42 e no #Sl 43 (que em princípio formavam um só), mostrando que as estrofes
terminam respectivamente nos versos 5 e 11 do primeiro e no 5 do segundo. Outro exemplo é a profecia de #Is 9.8; #Is 10.4 (com #Is
5.25 e segs.), onde se destaca o estribilho: "Com tudo isto não se apartou a Sua ira, mas ainda está estendida a Sua mão". Também nas
palavras de Jesus poderíamos encontrar exemplos deste caso.

A disposição estrófica é também freqüente noutros esquemas acrósticos da poesia bíblica, como no #Sl 119, que consta de vinte e duas
estrofes, tendo cada uma oito "dísticos".

5.5.3 Casos Paralelos Fora da Bíblia

Já fizemos alusão ao paralelismo de alguns exemplos de poesia bíblica, relacionados com trechos de poemas de Canaã descobertos em
Ras Shamra. Foi o estudo destes documentos (de cerca do ano 1400 A. C.), que veio esclarecer as circunstâncias em que se
desenvolveu a poesia hebraica. Tais documentos vieram pôr de lado a teoria de Gunkel, segundo a qual os trechos de poesia bíblica
foram compostos numa data relativamente posterior, uma vez que já passara o período da poesia-balada. Admite-se que o cântico de
Débora (#Jz 5) seja praticamente contemporâneo dos acontecimentos que descreve (cerca do ano 1150 A. C.). Quanto aos outros
poemas, a que a Bíblia atribui uma data anterior, é de supor que pertençam a essa data, sobretudo à luz dos documentos de Ras
Shamra. É assim, que na sua forma original tais poemas devem ter sido escritos no séc. XIII A. C., como o cântico de Moisés (#Êx 15) e
as profecias de Balaão (#Nm 23-24).

A propósito ainda do paralelismo da poesia bíblica com a de outras civilizações, convém destacar as numerosas semelhanças entre o #Sl
104 e o Hino a Aton do rei do Egito Akhnaton (c. 1377 -1360 A. C.). Mas, a par destas e doutras semelhanças, abundam as diferenças,
particularmente a que distingue de todas as outras poesias a nossa poesia bíblica, que vem a ser o monoteísmo de Israel.

5.5.4 O Texto Poético e a Exegese

Tem-se procurado corrigir os textos poéticos do Velho Testamento, para adaptá-los a um determinado esquema métrico. Mas, atendendo
às múltiplas combinações métricas que se nos apresentam, não é fácil formular uma regra que agradasse a todos, se bem que, no caso
dos acrósticos alfabéticos seja de admitir, que em princípio fossem completos, apesar de qualquer alteração. Quanto à possibilidade de

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restaurar o texto original no que se refere ao número de sílabas acentuadas nos membros, como no caso de #Jr 4.23-26, em que as
palavras finais "diante do furor de Sua ira" se omitem muitas vezes por não se adaptarem ao ritmo de 4 por 3, e serem consideradas
como um acréscimo em prosa. Nada, porém, se pode afirmar de positivo.

Por outro lado, o reconhecimento das formas básicas da poesia bíblica, sobretudo do paralelismo, ajuda-nos a melhor interpretar o texto,
quando o autor faz duas afirmações não contraditórias.

Mas, o que acima de tudo convém frisar no estudo da métrica bíblica, é que ficamos a compreender melhor o texto das Escrituras, quer
dizer, mais perfeita será a exegese da Bíblia.

4
6. FIGURAS DE RETÓRICA

Vimos na "primeira regra" que para a correta compreensão das Escrituras é necessário, na medida do possível, tomar as palavras em
seu sentido usual e comum, o que, devido à linguagem usual e figurada da Bíblia e seus hebraísmos, não significa que sempre devem
ser tomadas ao pé da letra. Também já observamos que é preciso familiarizar-se com esta linguagem para chegar a compreender, sem
dificuldade, qual seja o sentido usual e comum das palavras. Para que o leitor consiga em parte esta familiaridade, exporemos em
seguida uma série de figuras e hebraísmos, com seus correspondentes exemplos, que precisam ser estudados detidamente e repetidas
vezes. Como veremos, as figuras retóricas da linguagem bíblica são as mesmas que em outros idiomas; e não é tanto para seus nomes,
um tanto estranhos, quanto para os exemplos que lhes seguem, que chamamos a atenção.

6.1 Metáfora

1. Esta figura tem por base alguma semelhança entre dois objetos ou fatos, caracterizando-se um com o que é próprio do outro.

Exemplos: Ao dizer Jesus: "Eu sou a videira verdadeira", Jesus se caracteriza com o que é próprio e essencial da videira; e ao dizer aos
discípulos: "Vós sois as varas", caracteriza-os com o que é próprio das varas. Para a boa interpretação desta figura, perguntamos, pois:
que caracteriza a videira? ou, para que serve principalmente? Na resposta a tais perguntas está a explicação da figura. Para que serve
uma videira? Para transmitir seiva e vida às varas, a fim de produzirem uvas. Pois isto é o que, em sentido espiritual, caracteriza a Cristo:
qual uma videira ou tronco verdadeiro, comunica vida e força aos crentes, para que, como as varas produzem uvas, eles produzam os
frutos do Cristianismo. Proceda-se do mesmo modo na interpretação de outras figuras do mesmo tipo, como por exemplo: "Eu sou a
porta, eu sou o caminho, eu sou o pão vivo; vós sois a luz, o sal; edifício de Deus; ide, dizei àquela raposa; são os olhos a lâmpada do
corpo; Judá é leãozinho; tu és minha rocha e minha fortaleza; sol e escudo é o Senhor Deus; a casa de Jacó será fogo, e a casa de José

4 Texto extraído de: BRASILEIRO, Julio C. Apostila Curso de Exegese e Hermenêutica Bíblica – A Arte / Ciência de Interpretação de
Textos. Seminário Bíblico Nacional. Ano 2002

Texto extraído de: LUND, E. Hermenêutica; Regras de Interpretação das Escrituras. Traduzido por Etuvino Adiers da 7ª edição do original
castelhano. Ed Vida. 1968. Miami, Flórida. p 75

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chama e a casa de Esaú restolho", etc. (João 15:1; 10:9; 14:6; 6:51; Mat. 5:13,14; 1 Cor. 3:9; Luc. 13:32; Mat. 6:22; Gên. 49:9; Sal. 71:3;
84:11; Obadias 18.)

6.2 Sinédoque

2. Faz-se uso desta figura quando se toma a parte pelo todo ou o todo pela parte, o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-
versa.

Exemplos: Toma a parte pelo todo o Salmista ao dizer: "Minha carne repousará segura" (versão revista e corrigida), em lugar de dizer:
meu corpo ou meu ser, que seria o todo, sendo a carne só parte de seu ser (Sal. 16:9).

Toma o todo pela parte o Apóstolo quando diz da ceia do Senhor: "todas as vezes que . . . beberdes o cálice", em lugar de dizer
beberdes do cálice, isto é, parte do que há no cálice. (1 Cor. 11:26).

Tomam também o todo pela parte os acusadores de Paulo ao dizerem: "Este homem é uma peste e promove sedições entre os judeus
esparsos por todo o mundo"; significando, por aquela parte do mundo ou do Império romano que o Apóstolo havia alcançado com sua
pregação. (Atos 24:5.)

6.3 Metonímia

3. Emprega-se esta figura quando se emprega a causa pelo efeito, ou o sinal ou símbolo pela realidade que indica o símbolo.

Exemplos: Vale-se Jesus desta figura empregando a causa pelo efeito ao dizer: "Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos", em lugar de
dizer que têm os escritos de Moisés e dos profetas, ou seja o Antigo Testamento. (Luc. 16:29.)

Emprega também o sinal ou símbolo pela realidade que indica o sinal quando disse a Pedro: "Se eu não te lavar, não tens parte comigo".
Aqui Jesus emprega o sinal de lavar os pés pela realidade de purificar a alma, porque faz saber ele mesmo que o ter parte com ele não
depende da lavagem dos pés, mas da purificação da alma. (João 13:8).

Do mesmo modo João faz uso desta figura pondo o sinal pela realidade que indica o sinal, ao dizer: "O sangue de Jesus, seu Filho, nos
purifica de todo pecado", pois é evidente que aqui a palavra sangue indica toda a paixão e morte expiatória de Jesus, única coisa eficaz
para satisfazer pelo pecado e dele purificar o homem. (1 João 1:7.)

6.4 Prosopopéia

4. Usa-se esta figura quando se personificam as coisas inanimadas, atribuindo-lhes os feitos e ações das pessoas.

Exemplos: O apóstolo fala da morte como de pessoa que pode ganhar vitória ou sofrer derrota, ao perguntar: "Onde está, ó morte, o teu
aguilhão?" (1 Cor. 15:55). Emprega o apóstolo Pedro a mesma figura, falando do amor, e referindo-se à pessoa que ama, quando diz: "o
amor cobre multidão de pecados" (1 Ped. 4:8). Como é natural, ocorrem com freqüência estas figuras na linguagem poética do Antigo

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Testamento, dando-lhe assim uma formosura, vivacidade e animação extraordinárias, como por exemplo ao prorromper o profeta: "Os
montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas."

Convirá observar que em casos como estes não se trata somente de uma mera personificação das coisas inanimadas, mas de uma
simbolização pelas mesmas, representando nesta passagem os montes e outeiros pessoas eminentes, e árvores pessoas humildes; uns
e outros de regozijo louvando ao Redentor ante seus mensageiros. (Isaías 55:12.)

Outro caso de personificação grandiosa ocorre no Salmo 85:10,11, onde se faz referência à abundância de bênçãos próprias do reinado
do Messias nestes termos: "Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos céus a
justiça baixa o seu olhar."

6.5 Ironia

5. Faz-se uso desta figura quando se expressa o contrário do que se quer dizer, porém sempre de tal modo que se faz ressaltar o sentido
verdadeiro.

Exemplos: Paulo emprega esta figura quando chama aos falsos mestres de os tais apóstolos, dando a entender ao mesmo tempo que de
nenhum modo são apóstolos. (2 Cor. 11:5; 12:11; veja-se 11:13.)

Vale-se da mesma figura o profeta Elias quando no Carmelo disse aos sacerdotes do falso deus Baal: "Clamai em altas vozes . . . e
despertará", dando-lhes a compreender, por sua vez, que era de todo inútil gritarem. (1 Reis 18:27.)

Também Jó faz uso desta figura ao dizer a seus amigos: "Vós sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria", fazendo-os saber que
estavam muito longe de serem tais sábios. (Jó 12:2.)

6.6 Hipérbole

6. É a figura pela qual se representa uma coisa como muito maior ou menor do que em realidade é, para apresentá-la viva à imaginação.
Tanto a ironia como a hipérbole são pouco usadas nas Escrituras, porém, alguma ou outra vez ocorrem.

Exemplos: Fazem uso da hipérbole os exploradores da terra de Canal quando voltam para contar o que ali haviam visto, dizendo: "Vimos
ali gigantes . . . e éramos aos nossos próprios olhos como gafanhotos... as cidades são grandes e fortificadas até aos céus." (Núm. 13:33;
Deut. 1:28). Daí se vê que os exploradores falavam como se costuma entre nós ao dizer uma pessoa a outra, por exemplo: "Já lhe avisei
mil vezes", querendo dizer tio somente: "Já lhe avisei muitas vezes."

Também João faz uso desta figura ao dizer: "Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma
por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos."

Não só se empregam determinadas palavras em sentido figurado nas Escrituras, mas às vezes, textos e passagens inteiros; assim é que
achamos o uso da alegoria, da fábula, do enigma, do símbolo e da parábola, figuras que ocorrem também em outra classe de literatura.

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6.7 Alegoria

1. A alegoria é uma figura retórica que geralmente consta de várias metáforas unidas, representando cada uma delas realidades
correspondentes. Costuma ser tão palpável a natureza figurativa da alegoria, que uma interpretação ao pé da letra quase que se faz
impossível. Às vezes a alegoria está acompanhada, como a parábola, da interpretação que exige.

Exemplos: Tal exposição alegórica nos faz Jesus ao dizer: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá
eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne... Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida
eterna", etc. Esta alegoria tem sua interpretação na mesma passagem da Escritura. (João 6:51-65.)

Outra alegoria apresenta o Salmista (Salmo 80:8-13) representando os israelitas, sua trasladação do Egito a Canaã e sua sucessiva
história sob as figuras metafóricas de uma videira com suas raízes, ramos, etc., a qual, depois de trasladada, lança raízes e se estende,
ficando porém mais tarde estropiada pelo javali da selva e comida pelas bestas do campo (representando o javali e as bestas poderes
gentílicos).

Ainda outra alegoria nos apresenta o povo israelita sob as figuras de uma vinha em lugar fértil, a qual, apesar dos melhores cuidados,
não dá mais que uvas silvestres, etc. Também esta alegoria está acompanhada de sua explicação correspondente – "Porque, a vinha do
Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do Senhor", etc. (Isa. 5:1-7).

6.8 Fábula

2. A fábula é uma alegoria histórica, pouco usada na Escritura, na qual um fato ou alguma circunstância se expõe em forma de narração
mediante a personificação de coisas ou de animais.

Exemplos: Lemos em 2 Reis 14:9: "O cardo que está no Líbano, mandou dizer ao cedro que lê está: Dá tua filha por mulher a meu filho;
mas os animais do campo, que estavam no Líbano, passaram e pisaram o cardo." Com esta fábula Jeoás, rei de Israel, responde ao
repto de guerra que lhe havia feito Amazias, rei de Judá. Jeoás compara-se a si mesmo ao robusto cedro do Líbano e humilha a seu
orgulhoso contendor, igualando-o a um débil cardo, desfazendo toda aliança entre os dois e predizendo a ruína de Amazias com a
expressão de que "os animais do campo pisaram o cardo".

6.9 Enigma

3. O enigma também é um tipo de alegoria, porém sua solução é difícil e abstrusa.

Exemplos: Sansão propôs aos filisteus o seguinte: "Do comedor saiu comida e do forte saiu doçura" (Juízes 14:14). A solução se
encontra no sobredito trecho bíblico.

Entre outros ditos de Agur, encontramos em Prov. 30:24 o enigma seguinte: "Há quatro coisas mui pequenas na terra, que, porém, são
mais sábias que os sábios." Este enigma tem também sua solução na mesma passagem em que se encontra.

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6.10 Tipo

4. O tipo é uma classe de metáfora que não consiste meramente em palavras, mas em fatos, pessoas ou objetos que designam fatos
semelhantes, pessoas ou objetos no porvir. Estas figuras são numerosas e chamam-se na Escritura sombra dos bens vindouros, e se
encontram, portanto, no Antigo Testamento.

Exemplos: Jesus mesmo faz referência à serpente de metal levantada no deserto, como tipo, prefigurando a crucificação do Filho do
homem. (João 3:14.)

Noutra ocasião Cristo se refere ao conhecido acontecimento com Jonas como tipo, prefigurando sua sepultura e ressurreição. (Mat.
12:40.)

Paulo nos apresenta o primeiro Adão como tipo, prefigurando o segundo Adão, Cristo Jesus; e também o cordeiro pascoal como o tipo do
Redentor. (Rom. 5:14; 1 Cor. 5:7.) Sobretudo, a carta aos Hebreus faz referência aos tipos do Antigo Testamento, como, por exemplo, ao
sumo sacerdote que prefigurava a Jesus; aos sacrifícios que prefiguravam o sacrifício de Cristo; ao santuário do templo que prefigurava o
céu, etc. (Heb. 9:11-28; 10:6-10).

Muitos abusos têm sido cometidos na interpretação de muitas coisas que parecem típicas no Antigo Testamento. Assim é que folgamos
em aconselhar: 1° – Aceite-se como tipo o que como tal é aceito no Novo Testamento; 2° – recorde-se que o tipo é inferior ao seu
correspondente real e que, por conseguinte, todos os detalhes do tipo não têm aplicação à dita realidade; 3° – tenha-se presente que às
vezes um tipo pode prefigurar coisas diferentes, e 4° – que os tipos, como as demais figuras, não nos foram dados para servir de base e
fundamento das doutrinas cristãs, mas para confirmar-nos na fé e para ilustrar e apresentar as doutrinas vivas à mente.

6.11 Símbolo

5. O símbolo é uma espécie de tipo pelo qual se representa alguma coisa ou algum fato por meio de outra coisa ou fato familiar que se
considera a propósito para servir de semelhança ou representação.

Exemplos: O leão é considerado o rei dos animais do bosque; assim é que achamos nas Escrituras a majestade real simbolizada pelo
leão. Do mesmo modo se representa a força pelo cavalo e a astúcia pela serpente. (Apoc. 5:5; 6:2; Mat. 10:16.)

Considerando a grande importância que sempre tiveram as chaves e seu uso, nada há de estranho que viessem a simbolizar autoridade
(Mat. 16:19).

Recordando que as portas dos povoados antigamente serviam como uma espécie de fortaleza, compreendemos por que, em linguagem
simbólica, venha a representar força e domínio. (Mat. 16:18).

Tão numeroso é este tipo de símbolos que cremos conveniente colocar os mais comuns em seção à parte.

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Quanto a fatos simbólicos, para representar a morte do pecador para o mundo e sua entrada numa vida nova pela ressurreição espiritual,
temos a imersão e saída da água, no batismo. Representa-se também, como sabemos, a comunhão espiritual com Jesus e a
participação de seu sacrifício na celebração da Ceia do Senhor. (Rom. 6:3,4; 1 Cor. 11:23-26.)

6.12 Parábola

6. A parábola é uma espécie de alegoria apresentada sob forma de uma narração, relatando fatos naturais ou acontecimentos possíveis,
sempre com o objetivo de declarar ou ilustrar uma ou várias verdades importantes.

Exemplos: Em Lucas 18:1-7 expõe Jesus a verdade de que é preciso orar sempre e sem desfalecer, ainda que tardemos em receber a
resposta para aclarar e imprimir nos corações esta verdade, serve-se do exemplo ou parábola de uma viúva e um mau juiz, que nem
teme a Deus nem tem respeito aos homens. Comparece a viúva perante o juiz pedindo justiça contra seu adversário. Porém o juiz não
faz caso; mas em razão de voltar e molestá-lo, a viúva consegue que o juiz injusto lhe faça justiça. E assim Deus ouvirá aos seus "que a
ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los".

Uma parábola que tem por objetivo ilustrar várias verdades, temo-la no Semeador (Mat. 13:3-8), cuja semente cai na terra em quatro
pontos diferentes; necessitando cada um sua interpretação. (Vejam-se versos 18-25.) Outra parábola que ilustra várias verdades é a do
João, no mesmo cap. vers. 24-30 e 36-43. Várias verdades são aclaradas também pelas parábolas da ovelha perdida, da dracma perdida
e do filho pródigo (Luc. 15). Outro tanto sucede com a do fariseu e o publicano e outras (Luc. 18:10-14).

Quanto à correta compreensão e interpretação das parábolas, é preciso observar o seguinte:

1° – Deve-se buscar seu objetivo; em outras palavras, qual é a verdade ou quais as verdades que ilustra. Encontrado isso,
tem-se a explicação da parábola, e note-se que às vezes consta o objetivo na sua introdução ou no seu término. Outras vezes se
descobre seu objetivo tendo presente o motivo com que foi empregada.

2° – Devemos ter em conta os traços principais das parábolas, deixando-se de lado o que lhes serve de adorno ou para
completar a narrativa. Jesus mesmo nos ensina a proceder assim na interpretação de suas próprias parábolas. Como existe perigo de
equivocar-se neste ponto, vamos aclará-lo chamando a atenção para a de Lucas 11:5-8. Nesta parábola Cristo ilustra a verdade de que é
necessário orar com insistência, valendo-se do exemplo de uma pessoa que necessita de três pães. É noite e vai pedi-los emprestados a
um amigo seu que já tem a porta fechada e está deitado, bem como os seus filhos. Este amigo preguiçoso não quer levantar-se para dá-
los, mas, por força da insistência e importunação no pedido, o homem consegue o que deseja.

É fácil ver que aqui é o homem necessitado e suplicante quem nos oferece o bom exemplo e representa o cristão na parábola.
Igualmente fácil é entender que seu amigo representa Deus. Porém, que absurdo seria interpretar tudo o que se disse do amigo,
aplicando-o a Deus, a saber, que tem a porta fechada, estão ele e seus filhos deitados e, sendo preguiçoso, não quer levantar-se! É
evidente que esta parte constitui o que chamamos adorno da parábola e que se deve deixar de lado, por não corresponder e se aplicar à
realidade. Observemos, pois, sempre a totalidade da parábola e suas partes principais, fazendo caso omisso de seus detalhes menores.

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3° – Não se esqueça de que as parábolas, como as demais figuras, servem para ilustrar as doutrinas e não para produzi-las.

Como mestre no ensino e com palavras que marcavam as pessoas como jamais acontecia, Jesus se utilizou de diversos meios para
transmitir a sua palavra aos homens que constantemente o rodeavam. Para tanto ele se utilizou de todos os recursos dos quais dispunha
para atingir seu intento de revelar Deus e Sua boa nova.

Como premissa no estudo da Palavra compreendemos que Deus, em momento algum pretendia ocultar a Sua mensagem à humanidade,
o que seria um contra-senso à idéia de revelação de Sua parte.

Uma das partes mais importantes do método de ensino de Jesus foram as parábolas, (sem esquecer o seu uso no V.T.), e, isso faz com
que seu estudo seja imperativo para nós, se queremos fazer um bom trabalho de exegese nos textos bíblicos.

Encontramos portanto nos livros da Bíblia todos os tipos imagináveis de recursos didáticos como: ditos de sabedoria, cânticos, poesia,
quiasmo, material profético, hipérbole, ironia, metáfora, paradoxo, etc, sendo que, dois dos mais simples artifícios literários utilizados
pelos autores bíblicos são as “símiles” e as “metáforas” .

Símile – é uma comparação expressa com o uso típico de palavras do tipo “como” ou “semelhante”. Neste evento de linguagem a ênfase
recai sobre algum ponto de similaridade previamente lançado entre duas idéias, grupos, ações. Na símile, o sujeito e a coisa com a qual
ele está sendo comparado são mantidos separados por uma linha clara, como por exemplo : o reino dos céus não é um grão de
mostarda, mas, se assemelha a um grão de mostarda em determinados aspectos que ficarão claramente definidos no desenvolvimento
daquela trama.

Metáfora – é uma comparação não expressa, isto é, ele não usa as palavras semelhante ou como, porém, o sujeito e o objeto de
comparação estão entrelaçados. Um exemplo disto ocorre quando Jesus diz : _Eu sou o pão da vida, ou, _ Vós sois a luz do mundo.
Convém notar que, neste caso, o autor destas palavras não tenciona que elas sejam tomadas literalmente. Devido à sua natureza
compacta, tanto nas símiles quanto nas metáforas o autor tem em mira acentuar um único ponto como um ilustrativo prático da
mensagem que se deseja transmitir.

Na seqüência deste raciocínio podemos entender a Parábola como uma símile ampliada onde a comparação vem expressa, e o sujeito
e a coisa comparada mantém-se à distância . Por semelhante modo podemos entender a Alegoria como uma metáfora ampliada onde a
comparação não vem expressa e sujeito e objeto de comparação se encontram entrelaçados durante a apresentação da mesma.

Em termos gerais, a parábola, a qual é o objeto do nosso presente estudo, tem seu prosseguimento mantendo sua história e sua
aplicação distintas, ou, em geral, a aplicação acompanha a história. Já no caso das alegorias a interpretação é trazida junta de seu
próprio conteúdo.

Como podemos concluir, uma parábola é uma história relatada que se coloca ao lado da mensagem real que se pretende transmitir afim
de fornecer um ilustrativo útil para a compreensão dos ouvintes ( como um recurso áudio – visual, a parábola fornece para a audiência
uma imagem vívida de coisas já que lhes são comuns para que se possa aprender mais facilmente através da associação de idéias ).

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Obs.: O estilo singular de uma parábola deve indicá-la como tal, e não, como muitos pensam, se existe ou não alguma afirmação no texto
garantindo que se trata ou não de uma porção narrativa parabólica, o que, aliás, nem é muito normal esperar-se que este tipo de
asserção seja feita em textos de quaisquer natureza.

Uma parábola verdadeira será pura e simplesmente uma história com começo e fim, possui um enredo e de forma geral uma lição, sendo
que, como propósito básico elas foram contadas afim de serem compreendidas. A parábola como um todo é a mensagem, contada para
dirigir-se aos ouvintes e cativá-los, afim de fazê-los parar e pensar acerca de suas próprias ações no dia-a-dia. Um bom exemplo disto se
encontra na parábola relatada em Lc 7.40-42 onde Jesus, literalmente arma um cenário para levar um homem religioso de sua época a
pensar nos seus conceitos de vida (ver Lc 7.36-50). Neste caso poderemos perceber que a parábola dispensou qualquer tipo de
explicação adicional pois, tanto o fariseu quanto a mulher entenderam a moral da história, e, esta é a força de uma parábola (esta é a
marca registrada das parábolas ).

6.12.1 Os propósitos das parábolas

Como lidam diretamente com a realidade da vida e crença das pessoas, as parábolas conseguem com sucesso atingir as seguintes
metas as quais elas se prestam:

a. Conseguem revelar a verdade de forma inteligível.


b. Conseguem gravar mais profundamente na memória das pessoas devido ao exemplo prático do qual elas se utilizam.
(perpetuidade do ensino)
c. Conseguem trazer à tona o senso moral das pessoas diante de situações reais, ou seja, produzir reação. (lembremo-nos
de Davi)
d. Conseguem confrontar profundamente aos que se portam como antagônicos ou que resistem o óbvio. (todo ser humano
tem uma certa medida de senso prático)
e. Conseguem ocultar daqueles que decidem resistir o verdadeiro significado da mensagem de Deus. (seu orgulho os
destinará para os sentidos mais distantes, improváveis, ou, simplesmente reforçará a sua descrença)
f. De uma forma interessante, as parábolas mais do que transmitir uma mensagem, elas evocam uma resposta dos seus
ouvintes sendo a própria resposta a palavra que ela intencionava transmitir.

6.12.2 O contexto das parábolas

Como foi falado anteriormente, em especial sobre os evangelhos, é necessário bastante cuidado exegético na leitura das parábolas,
principalmente no que tange ao contexto daquelas passagens.

Com respeito às parábolas podemos dissecar o estudo do contexto das mesmas geralmente pesquisando-os em três níveis, os quais
são:

a. o contexto imediato – informações histórico culturais que esclareçam satisfatoriamente os dados fornecidos na mesma (
pesos, moeda, geografia, cultura, expressões idiomáticas, questões políticas e/ou religiosas, etc.)

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b. o contexto imediato do relato da parábola – que situação, pergunta, confronto que gerou aquela parábola. Normalmente
este ponto, se é disponível no texto, esclarece praticamente todas as dúvidas referentes à mesma.
c. o contexto literário – o que pretendia o autor quando inseriu esta parábola em seu trabalho e, especialmente naquele
ponto de sua narrativa. ( Seletividade).

Com certeza ainda há muito o que se dizer a respeito deste método tão presente na literatura bíblica, mas, até mesmo pela falta de
espaço para tanto, é deveras importante compreender que, dentro da premissa básica de que Jesus ou outros que se utilizaram deste
meio para transmitir suas mensagens, eles o fizeram para atingir fins bem claros e dirigidos. Tentar responder questões doutrinárias
complexas tendo como único, este tipo de literatura é tão perigoso quanto a alegorização destas porque estará, mais uma vez,
desvinculando o autor do texto no que diz respeito a seu propósito.

Segue abaixo listagem das maioria das parábolas reconhecidas de Cristo nos Evangelhos com suas referências cruzadas nos sinópticos.
Vale observar que o maior número de parábolas encontram-se no evangelho de Lucas e que a listagem abaixo não representa consenso
de todo os estudiosos em função da classificação de determinadas passagens bíblicas.

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6.13 Símile

A figura de retórica denominada símile procede da palavra latina "similis" que significa semelhante ou parecido a outro. A palavra é
definida da seguinte maneira pela Enciclopédia Brasileira Mérito: "Semelhante. Analogia; qualidade do que é semelhante; comparação de
coisas semelhantes." A Bíblia contém numerosos e belíssimos símiles, que, quais janelas de um edifício, deixam penetrar a luz e
permitem que os que estão em seu interior possam olhar para fora e contemplar o maravilhoso mundo de Deus. A metáfora consiste em
denominar uma coisa empregando o nome de outra, na esperança de que o leitor ou o ouvinte reconhecerá a semelhança entre o sentido
real e o figurado da comparação. O Senhor Jesus empregou com respeito a Herodes o qualificativo de aquela raposa, o que constitui
uma metáfora. Se houvesse dito que Herodes era como uma raposa, teria empregado a figura retórica denominada símile, mas neste

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caso, teria faltado força à sua declaração. A palavra raposa ajustava-se tão bem ao astuto rei, que o Senhor não necessitou dizer que
Herodes era como uma raposa. No símile se emprega para a comparação a palavra como ou outra similar, enquanto na metáfora se
prescinde dela.

Exemplos:

"Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem." (Símile.)

"Como o pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem." (Símile.)

"Pois ele conhece a nossa estrutura, e sabe que somos p6." (Metáfora).

"Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce; pois, soprando nela o vento,
desaparece; e não conhecerá daí em diante o seu lugar." (Símile.) (Salmo 103:11-16.)

Outra série de símiles se encontra em Isaías, capítulo 55. Nos versículos 8-11 temos símiles de rara beleza, como por exemplo: "Como
os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos; e os meus pensamentos
mais altos do que os vossos pensamentos."

"Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus, e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra e a fecundem e a
façam brotar para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim
vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a designei."

"Os símbolos escolhidos", diz-nos o Dr. Delitch em seu Comentário Bíblico de Isaías, "têm profundo significado alusivo. Assim como a
neve e a chuva são causas imediatas de crescimento, e também da satisfação que proporcionam os produtos colhidos, assim também a
Palavra de Deus abranda e refresca o coração humano, transformando-o em terreno fértil e vegetativo. A Palavra de Deus proporciona
também ao profeta – o semeador – a semente para semear, a qual traz consigo o pão que alimenta a alma. O homem vive de toda
palavra que sai da boca de Deus". (Deut. 8:3.)

Outros dois símiles eficazes relativos ao poder da Palavra de Deus se encontram em Jeremias 23:29 que diz assim: "Não é a minha
palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que esmiúça a penha?" Compare a poderosa metáfora de Hebreus 4:12.

O profeta Isaías em 1:18, mediante dois símiles familiares, dá a conhecer as promessas de Deus relativas ao perdão e à limpeza. "Ainda
que os vossos pecados são como a escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim, se
tornarão como a lã."

O profeta Isaías nos diz também que "Os perversos são como o mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e
lodo." O mesmo profeta compara os justos a um jardim regado e um manancial inesgotável. (57:20 e 58:11).

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Nada é mais inconstante que as ondas marinhas impulsionadas pelo vento. A elas compara o apóstolo Tiago (1:6) o crente variável e
vacilante, que oscila entre a fé e a dúvida. "Peça com fé, em nada duvidando; pois o que duvida d semelhante à onda do mar, impelida e
agitada pelo vento." A tradução deste versículo para o inglês, feita por Moffatt, e vertida livremente para o português, diz assim: "Somente
peça com fé, sem duvidar jamais, porque o homem que duvida é como a onda do mar, que gira em redemoinho e flutua, impulsionada
pelo vento."

Os símiles da Bíblia são quais gravações formosas e de grande valor artístico, que acompanham as verdades, que sem este auxílio
seriam captadas fracamente e esquecidas com facilidade.

6.14 Interrogação

A palavra interrogação procede de um vocábulo latino que significa pergunta. Mas nem todas as perguntas são figuras de retórica.
Somente quando a pergunta encerra uma conclusão evidente é que é uma figura literária. A Enciclopédia Brasileira Mérito define a
interrogação da seguinte maneira: "Figura pela qual o orador se dirige ao seu interlocutor, ou adversário, ou ao público, em tom de
pergunta, sabendo de antemão que ninguém vai responder."

Exemplos: "Não fará justiça o Juiz de toda a terra?" (Gên. 18:25). Isso equivale a dizer que o Juiz de toda a terra fará o que é justo. "Não
são todos eles espíritos ministradores enviados para serviço, a favor dos que hão de herdar a salvação?" (Hebreus 1:14). Neste versículo
o ministério nobre dos anjos se considera um fato incontrovertível. As interrogações que se encontram em Rom. 8: 33-35 constituem
formosos exemplos do poder e do uso desta figura literária. A mente, em forma instintiva, vai da pergunta à resposta em atitude triunfal.
"Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou
antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será
tribulação, ou fome, ou nudez, ou perigo ou espada?"

"Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem?" Estas palavras equivaliam a dizer: "Judas, tu entregas o Filho do
homem com um beijo." (Lucas 22:48).

No livro de Jó há muitas interrogações. Aqui temos alguns exemplos: "Porventura não sabes tu que desde todos os tempos, desde que o
homem foi posto sobre a terra, o júbilo dos perversos é breve, e a alegria dos ímpios momentânea?" (Jó 20:4, 5). "Porventura
desvendarás os arcanos de Deus, ou penetrarás até a perfeição do Todo-poderoso?" (Jó 11:7). A resposta de Deus do meio de um
redemoinho (caps. 38-40) está expressa em sua maior parte por meio de interrogações.

6.15 Apóstrofe

A apóstrofe se assemelha muito à personificação ou prosopopéia. A palavra apóstrofe procede do latim apostrophe e esta do grego apo,
que significa de, e strepho, que quer dizer volver-se. O vocábulo indica que o orador se volve de seus ouvintes imediatos para dirigir-se a
uma pessoa ou coisa ausente ou imaginária. A Enciclopédia Brasileira Mérito nos proporciona a seguinte definição: "Figura usada por
orador, no discurso; consiste em interrompê-lo subitamente, para dirigir a palavra, ou invocar alguma pessoa ou coisa, presente, ausente,
real ou imaginária. O emprego desta figura, na eloqüência, produz grandes efeitos sobre as paixões que o orador procura transmitir aos

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ouvintes." Quando as palavras são dirigidas a um objeto impessoal, a personificação e a apóstrofe se combinam, como por exemplo, em
1 Cor. 15:55, e em algumas outras passagens que seguem:

Exemplos: "Que tens, ó mar, que assim foges? e tu, Jordão, para tornares atrás? Montes, por que saltais como carneiros? e vós colinas,
como cordeiros do rebanho? Estremece, ó terra, na presença do Deus de Jacó, o qual converteu a rocha em lençol de água e o seixo em
manancial" (Salmo 114:5-8). A seguir temos outro exemplo que combina a personificação com a apóstrofe: "Ah, Espada do Senhor, até
quando deixarás de repousar? Volta para a tua bainha, descansa, e aquieta-te" (Jeremias 47:6). Uma das apóstrofes mais extraordinárias
e conhecidas é o grito do angustiado Davi, por motivo da morte de seu filho rebelde: "Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão!
Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!" (2 Sam. 18:33). As palavras dirigidas ao caído monarca da Babilônia
(Isaías 14:9-32) constituem uma das apóstrofes mais vigorosas da literatura.

A apóstrofe, empregada por oradores hábeis, é na maioria dos casos a forma mais eficiente e persuasiva da retórica.

"Inclinai os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca" (Deut. 32:1). Estas palavras nos fazem lembrar de
Jeremias que disse: "Ó terra, terra, terral ouve a palavra do Senhor" (Jeremias 22:29). Constitui uma forma mui enfática de reclamar
atenção e realçar a importância do que se fala.

Em Números 21:29 é onde encontramos uma das primeiras menções na Bíblia desta figura retórica: "Ai de ti, Moabe! Perdido estás, povo
de Camos!" Aqui a palavra é dirigida à devastadora terra de Moabe como se estivesse presente. No famoso cântico de Débora e
Baraque, é dirigida a palavra aos reis e príncipes ausentes e dominados, como se estivessem presentes: "Ouvi, reis, dai ouvidos,
Príncipes. Eu, eu mesma cantarei ao Senhor; salmodiarei ao Senhor Deus de Israel" (Juízes 5:3).

Por motivos de espaço, só apresentaremos duas apóstrofes mais. Ambas procedem dos lábios do Mestre. A incredulidade, a indiferença
e a resistência das cidades que haviam sido testemunhas da maior parte de sua maravilhosas obras o fizeram exclamar: "Ai de ti,
Corazim! ai de ti, Betsaida! porque se em Tiro e Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se
teriam arrependido com pano de saco e cinza . . . Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até o céu? Descerás até o inferno!" (Mateus
11:21,23). Quem não compartilha a angústia do Salvador, quando exclama: "Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os
que te foram enviados! quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não
o quisestes!" (Mateus 23:37). Nestes últimos exemplos se combinam a apóstrofe e a prosopopéia.

6.16 Antítese

Este vocábulo procede da palavra latina antithesis e esta de palavras gregas que significam colocar uma coisa contra a outra. A
Enciclopédia Brasileira Mérito nos dá a seguinte definição: "Inclusão, na mesma frase, de duas palavras, ou dois pensamentos, que
fazem contraste um com o outro." Trata-se de uma figura de retórica muito eficaz que se encontra em muitas partes das Escrituras. O
mau e o falso servem de contraste ou fundo que di realce ao bom e o verdadeiro.

Exemplos: O discurso de despedida de Moisés (Deut. 27 a 33) consiste numa notável série de contrastes ou antíteses. Note-se a que se
encontra em Deut. 30:15 que diz: "Vê que proponho hoje a vida e o bem, a morte e o mal." Temos aqui um contraste ou antítese dupla.

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Também no versículo 19: "Os céus e a terra tomo hoje como testemunhas contra ti que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição
(duas antíteses); escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência."

O Senhor Jesus apresenta em seu Sermão da Montanha numerosas antíteses. Note-se a que aparece em Mateus 7:13,14: "Entrai pela
porta estreita (larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz para a perdição e são muitos os que entram por ela) porque estreita é a
porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela." O Senhor Jesus estabelece contraste ou
antítese entre a porta estreita e a larga; entre o caminho estreito e o largo; entre os dois destinos, a vida e a destruição e entre os poucos
e os muitos. Temos aqui uma quádrupla antítese. Entre os versículos 17 e 18 se contrasta a árvore má e seus maus frutos com a árvore
boa e seus bons frutos. Nos versículos 21 a 23 o Senhor efetua um contraste entre duas pessoas: uma professa obediência à vontade
divina, sem praticá-la, enquanto a outra realmente pratica a obediência. A seguir ilustra a diferença mediante uma extraordinária e
múltipla antítese. (Versículos 24-27.)

Nosso Senhor Jesus dá por concluído seu maravilhoso discurso escatológico (referente às coisas finais, como a morte, o juízo e o estado
futuro) nos capítulos 24 e 25 de Mateus, empregando gradação ou clímax de caráter antitético.

Em 2 Cor. 3:6-18, Paulo estabelece um contraste entre o Antigo Pacto e o Novo, entre a Lei e o Evangelho, empregando para isso uma
série notável de antíteses que podem ser convenientemente preparadas em colunas paralelas. Em Rom. 6:23 o apóstolo Paulo contrasta
"morte" com "vida eterna" e o "salário do pecado" com o "dom gratuito de Deus". "Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom
gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor."

Em 2 Cor. 6:8-10 ele nos proporciona uma série de antíteses relacionadas com sua própria experiência e nos versículos 14-16, mediante
antíteses cuidadosamente selecionadas, demonstra a loucura do cristão que se agrilhoa ao mundo. Em 1 Cor. 15:35-38 dá por terminado
seu poderoso argumento relativo à ressurreição mediante um abundante número de antíteses, semelhante à descarga de uma
metralhadora.

6.17 Clímax ou Gradação

A palavra clímax ou gradação procede do latim climax e esta do grego klimax que significa escala, no sentido figurado da palavra. A
Enciclopédia Brasileira Mérito nos proporciona a seguinte definição da palavra gradação: "Concatenação dos elementos de um período
de modo a fazer com que cada um comece com a última palavra do anterior; amplificação, apresentação de uma série de idéias em
progressão ascendente ou descendente. Também se diz clímax." O essencial é que exista avanço ou progresso na oração, parágrafo,
tema, livro ou discurso. A maioria dos sermões bem preparados têm mais de uma gradação, e terminam mediante uma gradação final de
caráter extraordinário.

A gradação pode consistir em umas poucas palavras ou pode estender-se por todo o discurso ou livro. Pode consistir em palavras soltas,
preparadas de tal maneira que levem a mente em progressão gradual ascendente, ou pode consistir em uma série de argumentos que
explodem em triunfal culminação, como o argumento incontrovertível da ressurreição em 1 Cor., capítulo 15. O grande capitulo dá fé,
Hebreus 11, d um exemplo de um longo e poderoso clímax ou gradação.

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Exemplos: O capítulo oitavo de Romanos é um maravilhoso clímax ou gradação. Começa com os vocábulos "nenhuma condenação", e
termina dizendo que "nenhuma criatura nos poderá separar". Para criar este poderoso clímax ou gradação, o apóstolo emprega uma
série de gradações. Temos aqui uma delas: "Porque não recebestes o espírito de servidão para viverdes outra vez atemorizados, mas
recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos
de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofrermos, para que
também com ele sejamos glorificados" (Versículos15-17).

Temos aqui os degraus da escala: (1) Estamos expostos ao espírito de servidão e temor; (2) temos sido adotados; (3) ao compreender os
lagos que nos unem a Deus, qual crianças sussurramos a palavra Aba, que significa Pai, em aramaico; (4) até o Espírito dá testemunho
da verdade e realidade desta nova relação; (5) porém os filhos são herdeiros, e também o somos nós; (6) somos herdeiros de Deus, o
mais rico de todos; e (7) estamos no mesmo pé de igualdade com Jesus, seu Filho, que é herdeiro de todas as coisas (Heb. 1:2); e se
sofremos com ele, (8) também seremos glorificados com ele.

Temos em seguimento outra figura de gradação. Nos versículos 29-30 notamos como o Apóstolo ascende cúspide após cúspide:
conheceu, predestinou, chamou, justificou, glorificou. Depois de haver alcançado esta altura, poderá o Apóstolo continuar subindo? Sim,
leia os versículos 31-39. Note-se a base de nossa completa e absoluta confiança e segurança: (1) "Se Deus é por nós, quem será contra
nós?" (2) Se nos deu livremente seu Filho para que morresse por nós, como nos poderá negar a graça ou bênção de que necessitamos?
(3) Quem nos acusará, posto que é Deus quem nos justifica? (4) Quem se atreverá a condenar-nos, quando Cristo morreu para nos
salvar? (5) Está agora à destra de Deus como nosso Advogado para interceder por nós. (6) Quem nos separará do amor que Cristo tem
para conosco? Separar-nos-á por acaso (a) a tribulação, (b) angústia, (c) perseguição, (d) fome, (e) nudez, (f) perigo, (g) ou espada?
Depois de haver alcançado este plano, o apóstolo se detém o suficiente para poder citar o Salmo 44:22, para demonstrar que em época
remota o povo escolhido sofreu o martírio por amor de Deus, insinuando assim que estamos preparados para a mesma prova. Sim,
nestes conflitos fazemos mais que vencer. Logo, nos versículos 38 e 39 se eleva a alturas que produzem vertigens, chegando logo a uma
das gradações mais grandiosas de toda a literatura.

Recordemos também que no caso de Paulo não se tratava de um desdobramento oratório. Tratava-se da plena confiança e profunda
convicção de seu coração, e ficou demonstrada em sua própria vida vitoriosa (2 Cor. 11:23-27) e morte (2 Tim. 4:6-8).

Notem-se também os admiráveis e eloqüentes clímax ou gradações em Isaías, capítulos 40 e 55; também em Efésios 3:14-21. Leia-se
também Filipenses 2:5-21.

Temos aqui um exemplo da arenga de Cícero dirigida contra Verres: "É um ultraje encarcerar um cidadão romano; açoitá-lo é um crime
atroz; dar-lhe morte é quase um parricídio; mas CRUCIFICÁ-LO, de que o qualificarei? Estas palavras lançam luz no que respeita aos
Atos 22:25-28.

O anticlímax é o contrário do clímax ou gradação e é a miúdo empregado por escritores inexperientes. Consiste em descer do sublime ao
ridículo ou colocar ao final do escrito ou discurso as frases de menor importância.

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6.18 Provérbio

Este vocábulo procede das palavras latinas pro que significa antes e verbum que quer dizer palavra. Trata-se de um dito comum ou
adágio. O provérbio tem sido definido como uma afirmação extraordinária e paradoxal. Os Provérbios do Antigo Testamento estão
redigidos em sua maior parte em forma poética, consistentes em dois paralelismos, que geralmente são sinônimos, antitéticos ou
sintéticos. O livro dos Provérbios contam grande variedade de Provérbios, adivinhações, enigmas e ditos obscuros. Neste último sentido
da palavra usa-se o provérbio por duas vezes consecutivas em João 16 (25,29). Em João 10:6 temos a mesma palavra grega, mas ali foi
traduzida como parábola. Alguns provérbios são parábolas abreviadas ou condensadas; outros, metáforas; outros, símiles; e outros se
têm estendido até formar alegorias.

Em sua Introdução ao livro dos Provérbios, escrito em hebreu, o Dr. T. J. Conant faz o seguinte comentário: "A sabedoria ética e prática
mais remota da maioria dos povos da antiguidade se expressava em ditos agudos, breves, expressivos e enérgicos. Enfeixavam, em
poucas palavras, o resultado da experiência comum, ou das considerações e observações individuais. Pensadores e observadores
agudos, acostumados a generalizar os acontecimentos experimentais e arrazoar com base em princípios básicos, expressavam o
resultado de suas investigações mediante apotegmas ou seja ditos breves e sentenciosos, os quais comunicavam alguma instrução ou
pensamento engenhoso, alguma verdade de caráter moral ou religioso, alguma máxima relativa à prudência ou conduta, ou às regras
práticas da vida. Tudo isto era manifestado mediante termos destinados a despertar atenção, ou estimular o espírito de investigação ou
as faculdades do pensamento, e em forma que se fixava com caracteres indeléveis na memória. Converteram-se, assim, em elementos
integrantes da forma popular de pensar, tão inseparáveis dos hábitos mentais do povo como o próprio poder de percepção."

O propósito dos Provérbios é afirmado assim na introdução ao Livro dos Provérbios (1:2-6): "Para aprender a sabedoria, e o ensino; para
entender as palavras de inteligência; para obter o ensino do bom proceder, a justiça, o juízo, e a eqüidade; para dar aos simples
prudência, e aos jovens conhecimento e bom siso: ouça o sábio e crespa em prudência; e o entendido adquira habilidade para entender
provérbios e parábolas, as palavras e enigmas dos sábios."

Exemplos: "Médico cura-te a ti mesmo" (Lucas 4:23). Este deve ter sido um dito comum em Nazaré. Aplicava-se a princípio, a médicos
atacados de enfermidades físicas, os quais tratavam de curar delas a outros. Jesus compreendeu que seus antigos conhecidos da cidade
de Nazaré, motivados pela incredulidade, empregariam essas palavras contra ele, se não realizasse em Nazaré milagres tão
maravilhosos como os que havia efetuado em Cafarnaum. O Senhor respondeu aos seus pensamentos que ainda não se haviam
transformado em palavras, com outro provérbio, que constitui uma defesa própria: "Nenhum profeta é bem recebido em sua própria
terra." Esta parece ser a interpretação condensada do provérbio que diz: "Não há profeta sem honra senão na sua terra, entre os seus
parentes, e na sua casa." (Marcos 6:4; Mateus 13:57.) Jesus demonstra a verdade de sua declaração ao referir-se à história de Elias (1
Reis capítulos 17 e 18) e de Eliseu (2 Reis, 5:1-14).

Contra os mestres apóstatas e reincidentes que semeavam a ruína naquela época, o apóstolo Pedro emprega com grandes resultados
dois fatos, que todos deviam ter observado, condensados num provérbio, a saber: "O cão voltou ao seu próprio vômito; e: a porca lavada
voltou a revolver-se no lamaçal" (2 Pedro 2:22). A interpretação é evidente, e não é difícil encontrar exemplos para ilustrar a verdade,
mesmo em nossos dias. (Compare Provérbios 26:11, onde a primeira parte deste duplo provérbio se aplica com respeito a um néscio e
sua necessidade.)

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Advertências:

(1) Deve-se ter muito cuidado no que respeita à interpretação de provérbios, e em particular, no referente àqueles que não são
fáceis de entender e interpretar. Quiçá estejam baseados em fatos e costumes que se perderam para nós.

(2) Dado que os Provérbios podem ser símiles, metáforas, parábolas ou alegorias, é bom determinar a que classe pertence o
provérbio a ser interpretado. Figuras diferentes podem combinar-se para formar um provérbio. Por exemplo, em Prov. 1:20-33, a
sabedoria é personificada e se apresenta o provérbio na forma de uma parábola com sua aplicação. Leia também Eclesiastes 9:13-18.

(3) Estude o contexto, isto é, os versículos que precedem e seguem ao texto, os quais são amiúdo a chave da interpretação, como
sucede nos casos acima mencionados.

(4) Quando houverem fracassado todas as tentativas destinadas a aclarar o significado, é melhor ficar na expectativa até que se
receba mais luz sobre o assunto.

(5) Não empregue como prova textos, provérbios ou outras Escrituras, cujo significado não possa determinar, embora favoreçam a
doutrina que você mantém.

(6) Aproveite a ajuda que proporcionam os comentaristas eruditos no estudo das Sagradas Escrituras; eles conhecem os idiomas
originais e podem proporcionar as conclusões a que chegaram os eruditos sagrados mais famosos.

(7) Acima de tudo, ore pedindo a iluminação divina.

6.19 Acróstico

A palavra acróstico procede dos vocábulos gregos que significam extremidade ou verso. Temos vários exemplos de acrósticos no Antigo
Testamento. O mais notável é o Salmo 119, com seus 176 versos. Contam 22 estrofes, e cada uma delas corresponde a uma letra do
alfabeto hebraico. Há oito linhas duplas em cada estrofe.

Cada uma das oito linhas na primeira estrofe começa com uma palavra cuja primeira letra é Aleph, a primeira do alfabeto hebreu. A
primeira palavra de cada uma das oito linhas duplas na segunda estrofe começa com Beth, a segunda letra do alfabeto, e assim
sucessivamente, até o fim. Canta-se em louvor da Palavra de Deus e de seu Autor. É impossível trasladar esta característica singular do
original à versão portuguesa, mas a tradução de João Ferreira de Almeida (revista e corrigida) indica o acróstico, colocando em ordem as
letras hebraicas e seus nomes respectivos no começo das estrofes ou seções. No idioma hebraico esta forma constitui uma verdadeira
ajuda para a memória. Dado que os salmos eram escritos para serem cantados sem livros, e posto que se aprendiam e recitavam de
memória na escola, esta disposição alfabética constituía uma grande ajuda para aprender este capitulo, o mais longo da Bíblia.

Os Salmos 25 e 34 têm vinte e dois versículos em português, e o mesmo número de estrofes em hebraico: uma para cada letra do
alfabeto, tomadas em ordem. Nos Salmos 111 e 112, cada um dos versículos o estrofes está dividido em duas partes, seguindo a ordem

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do alfabeto. Os últimos vinte e dois versículos do capítulo final dos Provérbios começam com uma letra do abecedário hebraico, em
ordem alfabética.

A maior parte das Lamentações de Jeremias estão escritas em acrósticos, e alguns dos capítulos repetem cada uma das letras, uma ou
mais vezes.

Temos aqui um modelo posterior de acróstico, em tradução livre e outro experimento operando com o nome de Jesus:

J_esus, que na cruz seu sangue deu. J_usto

E_ a dor e o desdém por mim sofreu E_terno

S_entenciado foi pela turba cruel S_alvador

U_ltrajado bebeu o amargo fel U_nico

S_ocorre-me e faz-me sempre fiel. S_enhor

Os cristãos da primeira Igreja, como o evidenciam as catacumbas na cidade de Roma, empregavam comumente acr6sticos nos epitáfios.
Um dos símbolos favoritos e secretos de sua fé imutável sob o fogo da perseguição era o desenho de um peixe. A palavra grega
equivalente a peixe era ichthus. O alfabeto grego consta de caracteres que nós representamos mediante duas letras. Desta maneira th e
ch são letras simples no alfabeto grego. Ao recordar este fato, o peixe simbólico era lido da seguinte maneira:

I Iesous Jesus
Ch Christos Cristo
Th Theou de Deus
U Huios Filho
S Sôter Salvador

6.20 Paradoxo

Denomina-se paradoxo a uma proposição ou declaração oposta à opinião comum; a uma afirmação contrária a todas as aparências e à
primeira vista absurda, impossível, ou em contraposição ao sentido comum, porém que, se estudada detidamente, ou meditando nela,
torna-se correta e bem fundamentada. A palavra procede do grego e chega a nós por intermédio do latim. Está formada de dois

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vocábulos, para, que significa contra e doxa, opinião ou crença. Soa ao ouvido como algo incrível, ou impossível, se não absurdo. Nosso
Salvador empregou com freqüência esta figura entre seus ouvintes, com o objetivo de sacudi-los de sua letargia e despertar seu
interesse.

Exemplos:

(a) "Vede, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus." (Mat. 16:6; Mar. 8:14-21 e Luc. 12:1.) Os discípulos pensaram
que o Senhor falava do fermento do pão, porque se haviam esquecido de levar pão consigo. Jesus lhes censurou a falta de compreensão
até que finalmente entenderam que o Senhor se referia às más doutrinas e à hipocrisia dos fariseus e saduceus. (Mat. 16:12.)

(b) "Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos." (Mat. 8:22; Luc. 9:60.) Esta foi a extraordinária resposta que nosso
Senhor deu a um dos candidatos ao discipulado, que não compreendia o que significava seguir ao Senhor, e se propunha primeiro
sepultar seu pai. Aqueles que estão mortos no sentido espiritual da palavra, podem assistir aos funerais dos que têm falecido no aspecto
físico. Outro desejava seguir ao Senhor Jesus, mas queria primeiro despedir-se dos de sua casa. Nosso Senhor compreendeu que a
consagração tinha algum defeito, igual ao primeiro caso citado, e portanto replicou por meio da parábola: "Ninguém que, tendo posto a
mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus" (Lucas 9:61,62). Desta maneira o Senhor Jesus fez que as pessoas
compreendessem a importância que tinha o ser seu discípulo e o pregar o evangelho.

(c) "Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?" E estendendo sua mão para seus discípulos, disse: "Eis minha mãe e meus
irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai, esse é meu irmão, irmã e mãe." (Mateus 12:4650; Marcos 3:31-35; Lucas 8:19-
21.) Mediante este procedimento notável nosso Senhor inculcou a doutrina da relação espiritual mais elevada.

(d) "Se alguém vem a mim, e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida,
não pode ser meu discípulo" (Mateus 14:26). Este paradoxo constitui um hebraísmo, tal como foi explicado na página 29. Se esta
declaração fosse tomada em forma literal, constituiria uma completa contradição com outras Escrituras que nos ensinam que devemos
amar a nossos familiares. (Efésios 5:28, 29 e outras.)

(e) "Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdoará; e quem perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, salvará."
(Marcos 8:35; Mateus 16:25j Lucas 9:24.) Mediante este paradoxo extraordinário, o Senhor faz que seus seguidores compreendam o
valor da alma, e a perda terrível que experimentam aqueles que morrem sem esperança. Ao mesmo tempo o Mestre ensina que a melhor
maneira de empregar a vida é servindo a Deus. As páginas da história missionária estão cheias de exemplos que ilustram o grande
princípio que o Senhor Jesus enunciou neste paradoxo. Em outro paradoxo (Marcos 9:43-48), o Senhor demonstra que é melhor sofrer a
perda de um dos membros de nosso corpo do que nos rendermos à tentação e ficarmos perdidos para sempre.

(f) "Coais o mosquito e engolis o camelo!" (Mateus 23:24). A peça mais notável de invectiva da literatura é a lançada pelo
Senhor contra os escribas e fariseus hipócritas de seu tempo. Consiste em uma série de oito amargos presságios pronunciados contra
eles, pouco antes de sua morte (Mateus 23:13-33). O Senhor Jesus os denomina "guias cegos" que cuidadosamente coam o mosquito,
mas engolem o camelo. O versículo precedente nos mostra as diferenças sutis que faziam no que respeita à interpretação da lei, e quão

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escrupulosos eram para dar dízimos da hortelã, do endro e do cominho que cresciam em suas hortas e logo omitiam os assuntos mais
importantes "da lei: a justiça, a misericórdia e a fé".

(g) "E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino dos céus."
(Mateus 19:24; Marcos10:25; Lucas 18:25.) Este paradoxo maravilhou os discípulos, fazendo-os perguntar: "Quem pode ser salvo?" O
contexto nos proporcionará ajuda. O Senhor Jesus acabava de finalizar sua entrevista com o jovem rico, que depois se havia afastado
triste. Nessas circunstâncias, o Senhor Jesus fez o seguinte comentário a seus discípulos: "Um rico dificilmente entrará no reino dos
céus." Esta conversação se realizava em idioma aramaico, a língua que o povo comum da Palestina empregava séculos antes e depois
do nascimento de Cristo. Muitos comentaristas eminentes afirmam que os evangelhos foram no princípio escritos em dito idioma e daí
traduzidos para o grego.

O Dr. Jorge M. Lamsa explica que a palavra aramaica gamla pode significar uma corda grossa, um camelo ou uma viga, e afirma que a
palavra camelo é uma tradução errada, primeiro do aramaico para o grego e posteriormente para outras línguas, entre elas o português.
Acrescenta o Dr. Lamsa que o que o Senhor Jesus quis dizer foi o seguinte: "Mas eu vos digo, que trabalho mais leve é passar uma
corda grossa pelo fundo de uma agulha, que entrar um rico no reino dos céus." Estas palavras soam mais razoáveis que a costumeira
explicação, segundo a qual, depois que as portas da cidade se fechavam, o camelo poderia passar por uma abertura muito menor na
muralha, porém tinha que deixar sua carga, e depois ajoelhar-se. Trata-se de uma formosa ilustração do que deve fazer o jovem rico;
mas surge a pergunta se isso realmente é o que o Senhor queria dizer ou não? O versículo 26 indica que Jesus quis dizer que se tratava
de uma impossibilidade. Pouco antes o Senhor havia dito: "Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como
crianças, de modo algum entrareis no reino de céus" (Mateus 18:3). Trata-se aqui de outro paradoxo, similar ao anterior. Ambos os ditos
são contrários à opinião comum, e por esta razão se denominam paradoxos. A crença geral era que os ricos e os que ocupavam
posig6es elevadas estavam mais seguros do céu. Com respeito às riquezas, o Dr. H. A. W. Meyer faz o seguinte comentário: "O perigo
de não alcançar a salvação por causa das riquezas não reside nestas, consideradas em si mesmas, mas na dificuldade que tem o
homem pecador de colocar essas riquezas à disposição de Deus." (1 Cor. 1:26-26.)

(h) Os exemplos acima mencionados foram tomados das palavras de Jesus. Podem-se obter outros numerosos exemplos nas
Sagradas Escrituras. Temos aqui um do apóstolo Paulo que diz: "Porque quando sou fraco, então é que sou forte." Isto é, débil ou fraco
em mim mesmo, mas poderoso ou forte no Senhor e em sua fortaleza, tal como o estabelece com clareza o contexto. (2 Cor. 12:10;
Efésios 6110).

6.21 Hebraísmos

Por hebraísmos entendemos certas expressões e maneiras peculiares do idioma hebreu que ocorrem em nossas traduções da Bíblia,
que originalmente foi escrita em hebraico e em grego. Como já dissemos, alguns conhecimentos destes hebraísmos são necessários
para poder fazer uso devido de nossa primeira regra de interpretação.

Exemplos:

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1° - Era costume entre os hebreus chamar a uma pessoa filho da coisa que de um modo especial a caracterizava, de modo que
ao pacífico e bem disposto se chamava filho da paz; ao iluminado e entendido, filho da luz; aos desobedientes, filhos da desobediência,
etc. (Veja-se Luc. 10:6; Efés. 2:2; 5:6 e 5:8.)

2° - As comparações eram expressas às vezes, mediante negações, como, por exemplo, ao dizer Jesus: "Qualquer que a mim
me receber, não recebe a mim, mas ao que me enviou", o que equivale à nossa maneira de dizer: O que me recebe, não recebe tanto a
mim, quanto ao que me enviou; ou não somente a mim, mas também ao que me enviou." Devemos interpretar da mesma maneira
quando lemos: "Não procuro (somente) a minha própria vontade, e, sim, a daquele que me enviou; trabalhai, não (só) pela comida que
perece mas pela que subiste para a vida eterna; não mentiste (somente) aos homens, mas a Deus; não me enviou Cristo (tanto) para
batizar, mas (quanto) para pregar o evangelho; nossa luta não é contra o sangue e a carne (somente), e, sim, contra os principados . . .
contra as forças espirituais do mal", etc. (Mar. 9:37; João 5:30; 6:27; Atos 5:4; 1 Cor. 1:17; Efésios 6:12.)

Como já dissemos em outra parte, o amar e aborrecer eram usados para expressar a preferência de uma coisa a outra; assim é que ao
ler, por exemplo: "Amei a Jacó, porém me aborreci de Esaú", devemos compreender: preferi Jacó a Esaú. (Rom. 9:13; Deut. 21:15; João
12:25; Luc. 14:26; Mat. 10:37).

3° - Às vezes os hebreus, apesar de se referirem tão-somente a uma pessoa ou coisa, mencionavam várias para indicar sua
existência e relação com a pessoa ou coisa a que se referiam, como, por exemplo, ao dizer: "A arca repousou sobre as montanhas de
Ararat", o que equivale a dizer que repousou sobre um dos montes Ararat. Do mesmo modo que, ao lermos em Mateus 24:1 que "se
aproximaram dele os seus discípulos para lhe mostrar as construções do templo", sabemos que um deles (como intérprete do sentimento
dos outros) lhe mostrou os edifícios do templo; e ao dizer (Mateus 26:8) que "indignaram-se os discípulos (pela perda do ungüento),
dizendo: para que este desperdício?", sabemos por João que foi um deles, a saber: Judas, que sem dúvida, expressando o pensamento
dos demais, disse; "Para que este desperdício?" Ao dizer também. Lucas que os soldados chegaram-se a Jesus, apresentado-lhe
vinagre na cruz, vimos por Mateus que foi um deles que realizou o ato. (Gên. 8:4; Juízes 12:7; Mateus 24:1; Marcos 13:1; Lucas 23:36;
Mateus 27:48.)

4° - Com freqüência usavam os hebreus o nome dos pais para denotar seus descendentes, como, por exemplo, ao dizer-se
(Gên. 9:25): "Maldito seja Canaã", em lugar dos descendentes de Canaã (excetuando-se, é claro, os justos de seus descendentes).
Muitas vezes usa-se também o nome de Jacó ou Israel para designar os israelitas, isto é, os descendentes de Israel. (Gên. 49:7; Salmo
14:7; 1 Reis 18,17,18.)

5° - A palavra "filho" usa-se, às vezes, como em quase todos os idiomas, para designar um descendente mais ou menos
remoto. Assim é que o sacerdotes, por exemplo, se chamam filhos de Levi; Mefibosete se chama filho de Saul, embora, em realidade
fosse seu neto; do mesmo modo Zacarias se chama filho de Ido, sendo seu pai Berequias, filho de Ido. E assim como "filho" se usa para
designar um descendente qualquer, do mesmo modo a palavra "pai" se usa às vezes para designar um ascendente qualquer. Às vezes
"irmão" se usa também quando somente se trata de um parentesco mais ou menos próximo; assim, por exemplo, chama-se Ló irmão de
Abraão, embora em realidade fosse seu sobrinho. (Gên 14:12-16.) Tendo presentes tais hebraísmos, desaparecem contradições
aparentes. Em 2 Reis 8:26, por exemplo, se chama a Atalia, filha de Onri, e no verso 18, filha de Acabe, sendo em realidade filha de
Acabe e neta de Onri.

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Além dos hebraísmos referidos, ocorrem outras singularidades na linguagem bíblica, certos quase-hebraísmos, que precisamos conhecer
para a correta compreensão de muitos textos. Referimo-nos ao uso peculiar de certos números, de algumas palavras que expressam
fatos realizados ou supostos e de vários nomes próprios.

Exemplos:

1° Certos números determinados usam-se às vezes em hebraico para expressar quantidades indeterminadas.

"Dez", por exemplo, significa "vários", como também este número exato. (Gên. 31:7; Daniel 1:20.)

"Quarenta" significa "muitos". Persépolis era chamada "a cidade das quarenta torres", embora o numero delas fosse muito maior. Tal é,
provavelmente, também o significado em 2 Reis 8:9, onde lemos que Hazael fez um presente de 40 cargas de camelos de bens de
Damasco a Eliseu. Talvez seja este também o significado em Ezequiel 29:11-13.

"Sete" e "setenta" se usam para expressar um número grande e completo, ainda que indeterminado. (Prov. 26:16,25; Salmo 119:164;
Lev. 26:24). É-nos ordenado perdoar até setenta vezes sete para dar-nos a compreender que, se o irmão se arrepende, devemos sempre
perdoar-lhe. Os sete demônios expulsos de Maria denotam, talvez, seu extremado sofrimento e ao mesmo tempo sua grande maldade.

2° - Às vezes usam-se números redondos nas Escrituras para expressar quantidades inexatas. Em Juízes 11:26 vemos, por
exemplo, que se coloca o número redondo de 300 por 293. Compare-se também cap. 20:46, 35.

3° - Às vezes faz-se uso peculiar das palavras que expressam ação, dizendo-se de vez em quando que uma pessoa faz uma
coisa, quando só a declara feita; quando profetiza que se fará, se supõe que se fará ou considera feita. Às vezes manda-se também fazer
uma coisa quando só se permite que se faça.

Em Lev. 13:13 (no original), por exemplo, diz-se que o sacerdote limpa o leproso, quando apenas o declara limpo. Em 2 Cor. 3:6 lemos
que "a letra (significando, a lei) mata", quando na realidade só declara que o transgressor deve morrer.

Em João 4:1,2, diz-se que "Jesus" batizava mais discípulos que João, quando só ordenava que fossem batizados, pois em seguida
lemos: "(se bem que Jesus mesmo não batizava, e, sim, os seus discípulos.)" Lemos também que Judas "adquiriu um campo com o
preço da iniqüidade", embora só fosse proveniente dele, entregando aos sacerdotes o dinheiro com que compraram dito campo. (Atos
1:16-19; Mateus 27:4-10). Assim compreendemos também em que sentido consta que "o Senhor endureceu o coração de Faraó", ao
mesmo tempo que lemos que Faraó mesmo endureceu seu coração; isto é, que Deus foi causa de seu endurecimento oferecendo-lhe
misericórdia com a condição de ser obediente, porém se endureceu ele mesmo, resistindo à bondade oferecida. (Êxodo 8:15; 9:12;
compare-se Rom. 9:17.)

Ao dizer o Senhor ao profeta Jeremias (1:10): "Hoje te constituo. . . para arrancares . . . para destruíres e arruinares", etc., não o colocou
Deus para executar estas coisas, mas para profetizá-las ou proclamá-las. Neste sentido também Isaías teve de tornar "insensível o
coração deste endurece-lhes os ouvidos e fecha-lhes os olhos" (Isaías 6:10).

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Como prova de que o idioma hebraico expressa em forma de mandamento positivo o que não implica mais que uma simples permissão,
e nem sequer consentimento, de fazer uma coisa, temos em Ezequiel 20:39, onde diz o Senhor: "Ide; cada um sirva os seus ídolos agora
e mais tarde", dando-se a compreender linhas adiante que o Senhor não aprovava tal conduta. O mesmo acontece no caso de Balaão o
dizer-lhe Deus: "Se aqueles homens (os príncipes do malvado Balaque) vierem chamar-te, levanta-te, vai com eles; todavia, farás
somente o que eu te disser"; dizendo-nos o contexto que aquilo não era mais que uma simples permissão de ir e fazer um mal que Deus
absolutamente não queria que o profeta o fizesse. (Núm. 22:20.) Caso semelhante temos provavelmente nas palavras de Jesus a Judas,
quando lhe disse: "O que retendes fazer, faze-o depressa" (João 13:27).

4° - Na interpretação das palavras das Escrituras, é preciso ter presente também que se faz uso mui singular dos nomes
próprios, designando-se às vezes diferentes pessoas com um mesmo nome, diferentes lugares com um mesmo nome e uma mesma
pessoa com nomes diferentes.

Pessoas diferentes designadas com um mesmo nome. Faraó, que significa regente, era o nome comum de todos os reis do Egito desde
o tempo de Abraão até à invasão dos persas, mudando-se depois o nome de Faraó pelo de Ptolomeu. Abimeleque, que significa meu pai
e rei, parece haver sido o nome comum dos reis dos filisteus, como Agague, o dos reis dos amalequitas e Ben-Hadade dos sírios e o de
César dos imperadores romanos. César Augusto (Lucas 2:1) que reinava ao nascer Jesus, era o segundo que levava este nome. O
César que reinava ao ser crucificado Jesus, era Tibério. O imperador para o qual apelou Paulo e a quem tanto se chamava Augusto
como César, era Nero. (Atos 25:21). Os reis egípcios e filisteus parecem ter tido um nome próprio além do comum, como os romanos.
Assim é que lemos, por exemplo, de um Faraó Neco, do Faraó Ofra e de Abimeleque Aquis. (Veja-se o prefácio ao Salmo 34; 1 Samuel
21:11.)

No Novo Testamento se conhecem diferentes pessoas sob o nome de Herodes. Herodes o Grande, assim chamado na história profana,
foi quem, sendo já velho, matou as crianças em Belém. Morto este, a metade de seu reino, Judéia e Samaria inclusive, foi dada a seu
filho Arquelau; a maior parte da Galiléia, a seu filho Herodes o Tetrarca, o rei (Lucas 3:1; Mateus 2:22); e outras partes da Síria e Galiléia
a seu terceiro filho Filipe Herodes. Foi Herodes o Tetrarca quem decapitou a João Batista e zombara de Jesus em sua paixão. Ainda
outro rei Herodes, a saber, o neto do cruel Herodes o Grande, matou ao apóstolo Tiago, morrendo depois abandonado em Cesaréia. Foi
diante do filho deste assassino de Tiago, chamado Herodes Agripa, que Festo fez Paulo comparecer. O caráter deste rei era muito
diferente do de seu pai, e não confundi-los é de importância para a correta compreensão da História. Levi em Marcos 2:14 é o mesmo
que Mateus. Tomé e Dídimo são uma mesma pessoa. Tadeu, Lebeu e Judas são os diferentes nomes do apóstolo Judas. Natanael e
Bartolomeu são também os nomes de uma mesma pessoa.

Lugares diferentes designados com um mesmo nome. Duas cidades chamam-se Cesaréia, a saber Cesaréia de Filipe, na Galiléia, e
Cesaréia situada na costa do Mediterrâneo. A esta última, porto de mar e ponto de partida para os viajantes, que saíam da Judéia para
Roma, refere-se constantemente o livro dos Atos.

Também se mencionam duas Antioquias: a da Síria, onde Paulo e Barnabé iniciaram seus trabalhos e onde os discípulos pela primeira
vez foram chamados de cristãos; e a da Pisídia, à qual se faz referência em Atos 13:14 e em 2 Tim. 3:11. Também há vários lugares
chamados Mispa no Antigo Testamento como o de Galeede, de Moabe, o de Gibeá e o de Judá. (Gên. 31:47-49; 1 Sam. 22:3; 7:11;
Josué 15:38).

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Um mesmo nome que designa a uma pessoa e a um lugar. Magogue, por exemplo, é o nome de um filho de Jafé, sendo também o nome
do país ocupado pela gente chamada Gogue, provavelmente os antigos citas, hoje chamados tártaros (Ezeq. 38; Apoc. 20:8), dos quais
descendem os turcos.

Uma mesma pessoa e um mesmo lugar, com nomes diferentes. Horebe e Sinai são nomes de diferentes picos de uma mesma
montanha, Porém às vezes um ou outro destes nomes designa a montanha inteira.

O lago de Genesaré chamava-se antigamente Mar de Cinerete, depois Mar da Galiléia ou Mar de Tiberíades. (Mateus 4:18; João 21:1.) A
Abissínia moderna se chama Etiópia e às vezes Cuxe, designando este último nome, sem dúvida, a maioria das vezes, Arábia ou Índia,
Grécia chama-se tanto Javã como Grécia. (Isaías 66:19; Zac. 9:13; Dan. 8:21.) Egito chama-se às vezes, Cão, outras Raabe. (Salmo
78:51; Isaías 51:9.)

O Mar Morto se chama às vezes Mar da Planície, por ocupar a planície onde estavam as cidades de Sodoma e Gomorra; Mar do Este,
em função de sua posição para o Leste, contando desde Jerusalém, e ainda Mar Salgado. (2 Reis 14:25; Gên. 14:3; Josué 12:3). O Nilo
chama-se Sibor, porém com mais freqüência o Rio, cujos nomes também às vezes designam outros rios.

O Mediterrâneo se chama às vezes o Mar dos Filisteus, que viviam em suas costas; outras, Mar Ocidental; outras, e com mais
freqüência, Mar Grande. (Êxodo 23:31; Deut. 11:24; Num. 34:6,7). A Terra Santa chama-se Canaã, Terra de Israel, Terra de Judéia,
Palestina, Terra dos Pastores e Terra Prometida. (Êxodo15:15; 1 Sam. 13:19; Hebr. 11:9.)

Um cuidadoso conhecimento do referido uso peculiar dos nomes próprios não só favorece a correta compreensão das Escrituras em
geral, como faz desaparecer virias contradições que a ignorância encontra em diferentes passagens bíblicas.

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7. RESUMO GERAL

Objetivo

O propósito deste resumo é apresentar de forma sistemática os principais conceitos normalmente estudados em Interpretação Bíblica na
forma de perguntas e respostas para facilitar o estudo do aluno.

1. O que é “Exegese”?
É o processo metodológico de investigação histórica e literária utilizado para resgatar, na forma mais exata possível, a mensagem
transmitida pelo autor diretamente ao seu público alvo identificando com isto as particularidades históricas e a relevância eterna no texto
em questão. Através da “tarefa exegética” o estudante da Palavra busca descobrir o que o escritor bíblico escreveu em detalhes para
uma platéia ou público alvo específico na busca da “intencionalidade” do autor.

2. Quais as principais questões que a tarefa exegética busca responder?


O que o autor ou escritor bíblico disse (contexto básico)?

Porque ele disse isto em um dado momento ou ponto do desenvolvimento de suas idéias ou explanações (contexto literário)?

3. O que é “Hermenêutica”?
A tarefa “Hermenêutica” se refere ao trabalho realizado para a contextualização das mensagens e princípios bíblicos identificados para a
era contemporânea dos ouvintes e leitores de seu trabalho no sentido mais estritamente prático possível. Através da hermenêutica os
princípios e conceitos bíblicos identificados por meio da investigação histórica e literária da tarefa exegética são aplicados na vida da
Igreja contemporânea (de nossos tempos) utilizando o conhecimento identificado e sistematizado pela tarefa anterior (exegese) e a aplica
a este contexto totalmente distinto respeitando esta transição histórica.

4. Segundo Gordon Fee, qual é a chave para a boa exegese?


“A chave para a boa exegese está na habilidade de elaborar perguntas corretas ao texto com a finalidade de se obter a compreensão da
intencionalidade do autor.” Boas questões exegéticas classificam-se em duas categorias básicas: questões de assunto (o que ele disse) e
questões de contexto (porquê ele disse).

5. Qual é a regra áurea do exegeta bíblico (intérprete)?


Do ponto de vista exegético, um texto jamais deve significar na interpretação do leitor aquilo que jamais significou nas mãos de quem o
redigiu originalmente.

6. Qual é o alvo específico da boa interpretação bíblica?


Chegar ao sentido claro do texto tanto quanto possível.

7. Em que se caracteriza a “boa” exegese bíblica?


A boa exegese caracteriza-se pela feliz combinação ou cuidadosa integração de todos os dados e informações obtidas em uma
apresentação oral ou escrita de forma compreensível, marcada não pela originalidade, mas pelo claro entendimento das intenções
originais do autor.

8. Quem é o verdadeiro protagonista da Bíblia Sagrada? Explique sua resposta.

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O protagonista de toda a Bíblia é o próprio Deus, sendo ela a Sua autobiografia. Os homens são Seus coadjuvantes deste grande teatro
da vida real onde o próprio Deus se expôs ao juízo humano permitindo que este a escrevesse de forma que a tornasse inegável, pois sua
participação foi ativa.

9. Explique com suas palavras o que é Revelação Progressiva?


É o processo de auto – apresentação progressiva da parte de Deus aos homens por meio da participação ativa na vida deles. Esta foi a
forma adotada por Deus para que o homem pudesse conhecer o seu caráter (do próprio Deus), sua personalidade, afinidades, gostos,
capacidade, interesses, etc.

10. Onde o processo de Revelação Progressiva atingiu seu ápice? Explique sua resposta.
Ao rasgar os céus e descer pessoalmente, Deus atingiu o ápice deste processo na pessoa de seu Filho Jesus Cristo, tornando – se Deus
em carne. Ao assumir a forma e os limites da essência humana, Deus permitiu aos homens que O vissem no mais profundo do Seu
caráter, e, de fato, Cristo o afirmou categoricamente.

11. Explique a representação gráfica abaixo:

Representa a Palavra de Deus revelada aos homens, que por essência tem relevância eterna falando para todas as eras e em todas as
culturas. Mas como o caminho utilizado para esta revelação foram as palavras humanas, esta (a Palavra de Deus) se encontra
condicionada a particularidades históricas de sua revelação como: linguagem, época, eventos, tradições e, em alguns casos a história
oral que precedeu a escrita. O trabalho exegético busca o equilíbrio entre estas duas realidades distintas.

12. Cite alguns recursos externos que podem ser usados para o trabalho de pesquisa e estudo exegético dos textos
bíblicos de maior complexidade.
Dicionário da língua portuguesa - Deve ser usado tão somente para o esclarecimento do significado das palavras da língua
portuguesa que porventura não conheçamos, pois a linguagem escriturística costuma ser às vezes por demais nobre.

Léxicos - Dicionários dos radicais das línguas originais que certamente são de grande utilidade para o leitor que já possui um
conhecimento razoável das mesmas, com pequenas exceções. (ALERTA – às vezes, um pequeno entendimento de línguas originais
pode dar ao exegeta uma falsa segurança e um alicerce deficiente para uma boa exegese).

Dicionários bíblicos - Devem ser utilizados para o esclarecimento de nomes, locais, pesos, moedas, distâncias, palavras de
cunho religioso e histórico sem nenhuma conotação de interpretação hermenêutica do texto ou textos em questão.

Manual Bíblico - É certamente uma boa ferramenta para a compreensão de detalhes externos concernentes à época e
contexto do livro em estudo, dados tais que não serão encontrados às vezes com facilidade na própria literatura bíblica.

Atlas / Mapas / Arqueologia - Nos ajudam a ter uma visão macro da situação geográfica envolvida na narrativa ou livro em
estudo, podendo, sem dúvida, enriquecer grandemente a explanação do texto ou situação.

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Enciclopédias bíblicas - São compêndios voltados a sistematizar informações gerais referentes aos mais variados assuntos
ligados à revelação das escrituras sendo excelentes fontes de história geral e outros. Este tipo de ferramenta nos ajuda em muito no
entendimento do contexto que cerca os mais diversos tipos de literatura encontrados na Bíblia.

“Comentários” – Introdutórios Contextuais - Devem ser os últimos recursos dos quais devemos abrir mão para conferir se
nosso trabalho exegético pronto não ficou demasiadamente destoante do que a maioria dos que já estudaram aquele assunto, texto ou
livro concluíram. Devemos ter sempre muito cuidado e humildade quando chegarmos a este ponto da nossa pesquisa.

13. O que é um texto “Descritivo”?


É o texto que descreve algo, narra um acontecimento sem emitir juízo de valor. O fato de algo ser relatado na Bíblia não significa que o
mesmo esteja correto ou seja regra vigente.

14. O que é um texto “Prescritivo”?


É o texto que prescreve, ou seja, ele legisla, normatiza, traz regras, estabelece prescrições, ensinamentos e mandamentos onde vemos
nas Escrituras passagens destinadas claramente à instrução e doutrinamento.

15. Como o reconhecimento de que: “...a Bíblia não é um livro obscuro, não é um livro distante, confuso e aberto apenas
para alguns iluminados do planeta Terra” e também de que “Deus é um Deus que se comunica” deve afetar nossa perspectiva
no trabalho exegético?
O reconhecimento de que a Bíblia não é um livro obscuro e distante e que Deus é um Deus que se comunica deve nos dar a
tranqüilidade e certeza de que, na maioria das vezes, a mensagem da Palavra revelada está acessível a todo aquele que a buscar com
diligência e temor não exigindo iluminações especiais e que o verdadeiro significado da revelação normalmente será encontrado na
superfície de forma simples.

16. Explique o conceito de “Dupla Autoria”.


A reprodução dos textos bíblicos ocorreu com a participação ativa de dois autores simultâneos, sendo o primeiro, o Espírito Santo que
inspirou (soprou) o desejo de registrar de forma escrita as mensagens que o Senhor lhes dava além do próprio texto em questão sem
contudo anular a presença humana na elaboração dos textos com seus estilos próprios, cultura, conhecimentos adquiridos. É o produto
perfeito do enlace da mente divina com a humana alinhados num único propósito de revelar aos homens a própria pessoa de Deus.

17. O que é “Sensus plenior” ou Sentido Pleno


Baseado na idéia da dupla autoria, sugeriu-se que os textos bíblicos possuam um significado ou interpretação que vá além do
entendimento e capacidade do autor humano com aplicações universais ( lit. “sentido pleno” ). A posição mais sensata quanto a esta
questão deve ser a de que nós só estamos autorizados a admitir o “sensus plenior” em qualquer texto bíblico se a própria Bíblia o fizer
em posterior revelação, e, nunca em contrário para que não incorramos nos mesmos erros de tantos que nos precederam.

18. É possível que um texto bíblico tenha mais de um sentido? Sim ou não? Explique sua resposta.
Sim, é possível. Uma revelação apresentada na Palavra (especialmente nos Profetas) poderá possuir uma mensagem específica para o
povo da época do autor e um significado “ulterior” com cumprimento profético em um segundo momento em que o próprio profeta não
tinha visão. Isto somente é possível devido à Dupla autoria dos textos bíblicos, pois os dois sentidos estão vinculados respectivamente
aos seus dois autores distintos.

19. O que é o princípio da Analogia das Escrituras?

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É o processo de comparação entre os princípios encontrados em um trabalho exegético com o restante da palavra revelada nas
Escrituras tendo em vista o pressuposto de que a Bíblia, como Palavra de Deus, não se contradiz. O melhor intérprete da Bíblia é a
própria Bíblia. Se houver a reafirmação da verdade, a interpretação do princípio bíblico estará estabelecida.

20. Faça a distinção entre linguagem Literal, Figurativa ou Figurada e Simbólica:


Literal, os escritos que lemos devem ser entendidos exatamente como foram redigidos (“ao pé da letra”) como acontecimentos
históricos reais (Ex.: Jesus enviou os discípulos para o outro lado do mar e subiu ao monte para orar).

Figurativa ou figurada, o texto de encontra permeado de figuras de linguagem, metáforas, símiles, símbolos, tipos ou alegorias
e, por esta razão, não devemos buscar uma compreensão literal do texto (Ex.: Jesus disse: Eu sou a porta, aquele que por entrar por
mim, entrará, sairá e encontrará pastagem).

Simbólica, compreende a forma de redação literária caracterizada pelo uso de figuras simbólicas para a representação de
verdades que se deseja expressar (Ex.: ...viu sair do mar uma besta-fera de dez chifres e um dos chifres blasfemava contra do Deus dos
céus enquanto crescia tornando-se maior e mais poderoso que os outros nove chifres).

21. O que é o contexto geral de um texto?


É o conjunto de eventos, fatos, informações, conhecimentos, dados culturais, sociais, políticos, religiosos, etc que compõem
conjuntamente o cenário ou pano de fundo histórico e literário (background) de um texto auxiliando na compreensão de sua mensagem e
de seus propósitos originais.

22. O que é o contexto histórico?


Diz respeito às circunstâncias gerais históricas do documento (i.e., a cidade, sua geografia, seu povo, religião, economia, política, etc.), e,
com a ocasião específica do documento, ou seja, porquê foi escrito.

23. O que é o contexto literário?


Concerne ao porquê determinada coisa foi dita em um determinado ponto no argumento ou narrativa, ou seja, o contexto literário significa
que: palavras somente devem fazer sentido dentro de frases. Em sua maior parte, as frases na Bíblia somente têm um significado
consistente em relação às frases anteriores e posteriores.

24. O que é Criticismo Bíblico?


É a ciência que estuda e investiga os escritos bíblicos buscando discernir e estabelecer julgamento adequado sobre estes escritos no que
tange à sua origem, palavreado original, estilo literário seus propósitos, etc.

25. O que é Criticismo textual?


É o campo de estudo que procura estabelecer o palavreado original ou forma do texto tanto quanto possível. Pelo processo de
transmissão dos textos, muita coisa foi mudada e muitos erros foram cometidos durante as cópias como omissões, duplicações,
substituições e, devemos lembrar que os autógrafos nunca foram encontrados e o que possuímos são cópias de cópias de cópias...,
traduções antigas e, citações dos originais por outros autores.

26. O que é Criticismo histórico?


É o processo investigativo que visa reconstruir a situação histórica na qual o texto foi elaborado e como ele veio a ser escrito pois, pode
ser dito que um escrito bíblico possui sua própria história a qual inclui a época e local de composição, as circunstâncias nas quais ele foi
produzido, o autor ou autores, como veio a ser escrito e os destinatários.

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27. O que é Criticismo literário?


É o estudo concernente ao texto como peça literária final não se preocupando em como o texto foi escrito ou o contexto que o gerou mas,
o que podemos aprender com o que o próprio texto diz. Neste senso, o texto constitui um “mundo” o qual serve como objeto de
investigação em todos os aspectos

28. Quais são os elementos que constituem o contexto literário normal de um texto bíblico?

29. Cite algumas “perguntas” que devem ser feitas ao texto durante a Análise Literária no levantamento contextual:
Quem? Quem é o autor? Quem está falando? Quem é retratado?

Para quem? A quem está falando? A quem se dirige?

Qual o relacionamento existente ente autor (es) e destinatário(s)?

Quando?

Onde? Onde foi escrito? Onde estava o autor? Onde viviam / estavam os recipientes?

Como? Qual o tipo literário? Qual a linguagem utilizada?

Porquê? Quais eram as presentes circunstâncias? Que situação histórica ocasionou o escrito?

Qual era o propósito do autor?

30. Existem bons e maus filtros na elaboração de um trabalho exegético. Cite exemplos de ambos os filtros:
Maus Filtros Bons Filtros
Perspectiva Filosófica Dados Históricos
Motivações Egoístas Dados Geográficos
Intolerância Dados Lingüísticos / Literários
Radicalismo Humildade
Culturais (contemporâneos) Culturais (contextuais)

31. Qual o principal recurso exegético externo deve ser utilizado para a elaboração de um estudo bíblico sério? Porque?

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O principal recurso exegético externo é a Concordância Bíblica de Palavras. Por meio da Concordância bíblica temos oportunidade de
“ver” as palavras e expressões bíblicas “se movendo” nos textos bíblicos de forma dinâmica e pode nos auxiliar muito na compreensão
da intencionalidade do autor..

32. Quais as categorias principais que se dividem os textos arqueológicos?


Prosa e poesia.

33. O que é “prosa” e quais suas subcategorias?


1) narrativa. 2) parábola. 3) fábula. 4) alegoria. 5) sermão. 6) história curta. 7) discurso. 8) oráculo e 9) ensaio.

34. O que é “poesia” e quais suas subcategorias?


É a arte de se expressar em verso que muitas vezes emprega a linguagem figurada e bem expressiva para descrever a beleza ou o
sentido da coisa.

As principais categorias da poesia do AT são:

1. Nupciais - Cantares de Salomão;

2. Fúnebres – lamentações;

3. Hinos - Os Salmos 42-46, 92, 124, 147;

4. Populares - I Samuel 18.7(resumo da canção popular).

5. Bênçãos e Maldições("palavras patriarcais’) - Gênesis 12.1-3; 14.19-20; 22.16-18 48.15-16; 49.2-27 cf. Gênesis 3.14-19; 4.23-24; 9.25-
27.

6. A sentença - uma só linha poética, Gênesis 10.9; I Samuel 10.12.

7. O Enigma - Jz 14.14.

8. O Provérbio - O livro de Provérbios, cf. Jr 18.18.

9. Poemas diversos - Os Salmos, a maior parte de Jó é poesia dramática.

35. O que é Crítica Canônica?


A crítica canônica, uma das mais novas a surgir, visa entender os livros do AT à luz da história da sua canonização e lugar no cânon
como sendo Escritura Sagrada para o judaísmo e a Igreja. Quais os valores que os antigos judeus, por exemplo, teriam achado no livro
de Jonas para incluí-lo no cânon entre os profetas? Salienta-se a necessidade de olhar para a totalidade de um livro bíblico ao invés de
somente analisar as tradições separadas refletidas nele. O livro todo, na forma em que se encontra e na divisão canônica da qual faz
parte, importa como palavra de Deus para a Igreja. Esta disciplina é mais promissora do que algumas outras da alta crítica e foi motivada
por uma reação contra a esterilidade espiritual e prática de muita coisa na alta crítica.

36. O que é uma “Perícope”?


São unidades de textos individuais autocontidos de narrativa ou ensino. São caracterizadas por textos curtos, porém completos com:
introdução, desenvolvimento e conclusão próprios, vinculados ou não com as demais perícopes que formam o texto como um todo. Os
evangelhos são organizados na forma de compilação de inúmeras perícopes.

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CURSO PREPARATÓRIO DE OBREIROS – TEOLOGIA BÍBLICA
Hermenêutica Bíblica Avançada – Entendes o que Lês?

37. O que é uma “Metáfora”?


Figura de linguagem muito utilizada na literatura bíblica e caracterizada pela “comparação não expressa”. Nas metáforas as palavras:
semelhante ou como não são utilizadas, e o sujeito, coisa ou objeto da comparação estão entrelaçados entre si pela exposição da própria
figura. Ex.: Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

38. O que é uma “Símile”?


Figura de linguagem também muito utilizada na literatura bíblica neotestamentária e caracterizada pela “comparação expressa”. Nas
símiles é típico o uso das palavras: semelhante ou como, e o sujeito, coisa ou objeto da comparação são mantidos separados entre si.
Normalmente na símile a ênfase da comparação recai sobre algum ponto específico de similaridade entre as idéias apresentadas,
grupos, seres ou objetos. Ex.: O reino de céus é semelhante a um homem que compra um campo...

39. O que é uma “Alegoria”?


É uma “metáfora ampliada” que, por conceito, entrelaça a história relatada e seu significado possuindo diversos pontos de comparação
não necessariamente concentrados ao redor de um núcleo. Em uma alegoria é possível que cada detalhe do objeto de comparação
tenha um significado específico relacionado a algum outro detalhe do sujeito a quem se aplica a comparação proposta pela alegoria.

40. O que é uma “Parábola”?


É uma “símile ampliada” que, por conceito, não entrelaça a história relatada e seu significado possuindo normalmente um único ponto
central de comparação concentrando as figuras apresentadas ao redor de um núcleo. A parábola possui normalmente um único foco e os
detalhes são significativos apenas quando relacionados com esse núcleo. Funciona quase que como uma antítese das Alegorias. Uma
parábola verdadeira será pura e simplesmente uma história com começo e fim, possui um enredo e de forma geral uma lição, sendo que,
como propósito básico elas foram contadas a fim de serem compreendidas. A parábola como um todo é a mensagem, contada para
dirigir-se aos ouvintes e cativá-los, afim de fazê-los parar e pensar acerca de suas próprias ações no dia-a-dia.

41. Cite alguns propósitos básicos das Parábolas neotestamentárias:


Conseguem revelar a verdade de forma simples e inteligível.

Conseguem gravar mais profundamente na memória das pessoas devido ao exemplo prático do qual elas se utilizam.
(perpetuidade do ensino).

Conseguem trazer à tona o senso moral das pessoas diante de situações reais, ou seja, produzir reação. (lembremo-nos de
Davi).

Conseguem confrontar profundamente aos que se portam como antagônicos ou que resistem o óbvio. (todo ser humano tem
uma certa medida de senso prático).

Conseguem ocultar daqueles que decidem resistir o verdadeiro significado da mensagem de Deus. (seu orgulho os destinará
para os sentidos mais distantes, improváveis, ou, simplesmente reforçará a sua descrença).

42. Quais são os três níveis contextuais passíveis de estudo nas parábolas neotestamentárias? Explique cada um deles.
Contexto genérico – Informações histórico – culturais que esclareçam satisfatoriamente os dados fornecidos na mesma (pesos,
moeda, geografia, cultura, expressões idiomáticas, questões políticas e/ou religiosas da época, etc);

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Hermenêutica Bíblica Avançada – Entendes o que Lês?

Contexto imediato do relato da parábola – que situação, pergunta, confronto que gerou aquela parábola. Normalmente este
ponto, quando disponível no texto, esclarece praticamente todas as dúvidas referentes à mesma;

Contexto literário – o que pretendia o autor (escritor) quando inseriu esta parábola em seu trabalho e, especialmente naquele
ponto de sua narrativa (conceito da Seletividade dos Evangelhos).

43. O que é a “Alegorização”?


Método de interpretação que toma fatos relatados em uma determinada narrativa ou unidade de texto e aplica um significado
contemporâneo a cada um dos elementos que se sobressaem ao texto dando a este texto uma significação de total e aparente
desvinculo com os propósitos originais do texto. Na alegorização o intérprete parte do pressuposto que o verdadeiro significado de um
texto jaz abaixo das palavras de uma forma não aparente. Nesta metodologia, o autor é freqüentemente “anulado” pelo intérprete.

44. O que é um “Tipo e o Antítipo bíblico”?


O “Tipo” é uma relação representativa que certas pessoas, instituições ou eventos de um período histórico mais antigo têm com pessoas,
instituições ou eventos respectivamente em uma outra época posterior no que tange à história da salvação. A prefiguração como:
“pessoa, evento típico é caracterizado como o “Tipo” e seu cumprimento profético posterior é o “Antítipo”.

45. O que são as Narrativas?


As narrativas são histórias que podem ser simples ou complexas, com personagens e tramas específicas, e, no caso bíblico, são
verídicas. Elas nos contam acerca de coisas que aconteceram mostrando-nos Deus operando no dia-a-dia do Seu povo, glorificam-no e
nos ajudam a compreendê-lo melhor e dar o devido valor a Ele, como também, nos dão um quadro de Sua providência e proteção. Por
outro lado nos fornecem ilustrações vívidas de muitas outras lições que nos são importantes para nossas vidas. (No processo da
revelação progressiva é, literalmente, Deus “andando e vivendo” no meio dos homens, onde, as narrativas ensinam por meio da
experiência de outros com Deus).

46. Quais são os níveis das Narrativas?


a. O nível superior (1º): é aquele do plano universal inteiro de Deus englobando toda a humanidade em Seu eterno propósito através da
Sua criação.

b.O nível intermediário (2º): centralizando-se em Israel como meio de revelação de Deus aos homens, e, fique-se claro este Seu
propósito no que tange à escolha de Israel como nação separada das demais “por um tempo”.

c.O nível inferior (3º): onde se acham as centenas de narrativas individuais que juntas perfazem os dois outros níveis.

47. Dê alguns exemplos do que NÃO são as Narrativas?


Não são apenas histórias acerca de pessoas que viveram naquele período, mas, o que Deus operou para e por meio daquelas
pessoas.

Não são alegorias ou histórias cheias de significados ocultos, apesar de nem sempre sermos informados de todas as coisas
que aconteceram, como, para quê ou porquê aconteceram. Com certeza, o essencial estará lá.

Elas não respondem a todas as nossas perguntas nem tratam e todos os assuntos referentes à vida dos seres humanos ou do
próprio Deus.

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Normalmente são limitadas àquilo que está sendo enfocado naquela narrativa específica, e, o estudo honesto do contexto
envolvido em muito nos ajudará a compreendê-las.

48. O que são os Evangelhos?


São um estilo literário único na história, escrito por testemunhas diretas (Mateus e João) ou indiretas (Marcos e Lucas) da vida de Cristo
com o propósito de relatar de forma relativamente ordenada fatos acerca da vida de Jesus e de seus ensinamentos que culminaram com
a sua morte no Calvário e sua ressurreição ao terceiro dia. No geral o estilo literário predominante nos Evangelhos é o gênero narrativo.
Os evangelhos são compilações das histórias e ensinamentos de Cristo que registraram na forma escrita os ensinamentos e pregações
apostólicas caracterizando-se como a base doutrinária para todo o restante da literatura neotestamentária. São organizados de forma
mais temática que cronológica por meio de perícopes.

49. O que são os Sinópticos?


São os evangelhos redigidos por Mateus, Marcos e Lucas que apresentam ao mesmo Jesus Cristo histórico, porém com três “óticas”
distintas. Seus relatos giram em torno de Jesus de forma semelhante, utilizam na maioria das vezes as mesmas fontes de informação,
relatam os acontecimentos e ditos de Jesus de forma ordenada, porém visam um foco diferente conforme o público alvo de cada um.

50. Cite alguns dos principais erros que ocorrem na interpretação das narrativas:
Alegorização : procurar nas entrelinhas palavras ou mensagens ocultas que imaginam existir relegando ao texto outro
significado que não o apoiado pelo contexto natural do mesmo.

Descontextualização : pela falta do conhecimento dos contextos integrais históricos e literários, concentram-se nas narrativas
pequenas e individuais e se perdem no emaranhado de suas próprias idéias.

Seletividade : atenção excessiva a detalhes, escolha de palavras e frases para concentrar seu estudo sem prestar a devida
atenção ao restante do documento perdendo assim o alcance global da passagem.

Combinação falsa : a famosa colcha de retalhos na formação de uma pregação ou mensagem catando aqui e ali pequenos
trechos desconexos a fim de apoiar uma determinada idéia.

51. Explique o estilo literário adotado por Lucas no Livro de Atos dos Apóstolos.
É o estilo literário do tipo narrativo conforme os padrões da historiografia helenística (Tucídides 460 – 400 aC). Possuía teor histórico
conservando registros, relatos ou elaborando crônicas do passado cronologicamente ordenados, porém tinha como propósito principal
apresentar uma agradável leitura, utilizada para entreter, encorajar, informar, moralizar e oferecer uma apologética de determinado
assunto.

52. O que são “Epístolas”?


São arautos literários públicos elaborados na forma de cartas com o propósito de divulgar informações gerais de interesse da
comunidade, exortar ou corrigir desvios ou erros ocorridos. Na maior parte são compostas de parágrafos de argumento ou exortação.
Normalmente as epístolas possuíam teor de aclamação oficial. Eram escritos práticos e podiam ser direcionados para uma comunidade
inteira ou um segmento da mesma. Boa parte da literatura neotestamentária é composta de epístolas destinadas às Igrejas em
desenvolvimento para a exortação, alerta, encorajamento ou para disciplina específica de pessoas ou situações. (Ex.: Romanos, I e II
Coríntios, Efésios, Gálatas, Filipenses, Tiago, etc).

53. O que são “Cartas Verídicas”?

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São correspondências com caráter mais particular e dirigida a pessoas específicas ou grupos seletos os quais possuíam maior nível de
intimidade com o autor. São caracterizadas pela presença mais constante de expressões de afeto e cumplicidade entre estas pessoas.
No Novo Testamento, existem exemplos de Cartas Verídicas apesar da carga teológica e exortativa de tais cartas como: I e II Timóteo,
Tito, Filemon.

54. Porque as epístolas são consideradas documentos ocasionais?


Porque são documentos que foram produzidos sob demanda, ou seja, ocasiões específicas de conflito, pecados, problemas, dúvidas e
necessidades provocaram a intervenção do escritor por meio da elaboração de tais cartas que deveriam ser lidas com a Congregação,
com caráter normativo e deveriam ser até mesmo compartilhadas com outras Igrejas no sentido preventivo do problema.

55. O que é “teologia de tarefa”?


É o tipo de ensino teológico normalmente apresentado nas epístolas por ser específico e caracterizado pela utilização pragmática dos
ensinos teológicos. Nas epístolas encontramos um maior número de ensinamento teológico com ênfase prática. Podemos afirmar de
forma metafórica que nas epístolas as filosofias teológicas são encarnadas na vida humana e podemos vê-la em movimento (em ação).

56. O que é a literatura “Apocalíptica”?


Estilo literário surgido ainda no período veterotestamentário nos tempos dos profetas Daniel, Ezequiel, Zacarias e partes de Isaías. É uma
literatura impressionista caracterizada pela utilização intensa de figuras de linguagem e símbolos para apresentar a luta do bem contra o
mal. O propósito básico da literatura apocalíptica é a exortação e encorajamento em tempos de crise e derrota aparente e seus métodos
alegóricos serviam para ocultar do conhecimento dos inimigos o verdadeiro teor da correspondência contida.

57. Quais estilos literários distintos são combinados na Apocalíptica de João?


O Apocalipse neotestamentário é uma combinação harmoniosa de três estilos literários distintos sendo:

o apocalíptico com um ambiente fantasioso de anjos, bestas, animais, dragões, etc;

a profecia com sua característica clara de porta voz de Deus aos homens;

a carta ou epistola como documento ocasional elaborado para fins de exortação e encorajamento congregacional.

58. Cite algumas figuras de linguagem ou símbolos utilizados freqüentemente na literatura apocalíptica:
Formas de fantasia como besta com dez chifres, uma mulher vestida do sol, etc;

Uso extremado do simbolismo dos números.

Representação dos eventos e poderes do ponto de vista fenomenológico.

59. Qual é a raiz mestra para a interpretação da literatura apocalíptica?


É a literatura profética vetero-testamentária especialmente conforme encontrada nos livros de Ezequiel, Daniel, Zacarias e partes de
Isaías onde o assunto núcleo de toda a apocalíptica era o julgamento e a salvação futura dos justos de Deus.

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8. BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

FEE, Gordon D. & Douglas Stuart, Entendes o que lês?, 1997, Ed. Vida Nova, 2ª edição;

VIRKLER, Henry A., Hermenêutica Avançada, 1998. Ed. Vida, 2ª edição;

VIERTEL, Weldom E., A interpretação da Bíblia, 1979, JUERP, 2ª edição;

HÖRSTER, Gerhard, Introdução e Síntese do Novo Testamento, 1993, Editora Evangélica Esperança;

LUND, E & P.C. Nelson, Hermenêutica, 2001, Ed. Vida;

FEE, Gordon D., New Testament Exegesis, 1993, united Bibles Societies, 4th revised edition;

BOST, Brian Jay & Álvaro Pestana, Do texto à paráfrase, 1992, Ed. Vida Cristã;

BOYER, Orlando S., Pequena Enciclopédia Bíblica, 1994, Ed. Vida, 2ª edição;

STOTT, John R. W., A mensagem de Atos, 1994, ABU Editora S/C, 1ª edição;

BRASILEIRO, Julio Cezar. Exegese Bíblica: A Ciência-Arte da Interpretação de Textos. Belo Horizonte: Seminário Bíblico Nacional,
2002, 61p

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