You are on page 1of 24

"to

co A ESCOLARIZAÇÃO DE
O
Q
CRIANÇAS PSICÓTICAS

Alfredo Jerusalinsky

"De que se trata quando falo de Verwerfung?


Trata-se do rechaço, da expulsão, de um significante
primordial para as trevas exteriores, significante que a partir
de então faltará nesse nível. Esse é o mecanismo fundamental
que suponho está na base da paranóia. Trata-se de um
processo primordial de exclusão de um interior
primitivo, que não é o interior do corpo, mas o interior de um
primeiro corpo de significantes."
(Lacan, 1981, p.217)

TU)
orque deve haver escolas para ficativa, nas crianças psicóticas, a psi-
crianças psicóticas? Evidentemente, em- cose é indecidida. Aliás, é uma classifi-
bora de um modo interrogativo, esta- cação que estamos propondo: psicoses
mos fazendo uma afirmação: deve ha- indecididas como uma forma típica das
ver escolas para psicóticos. Isso quer psicoses na infância. Diferentemente do
dizer que não consideramos suficiente que acontece no sujeito adulto em
que existam hospitais-dia, instituições quem não há psicoses indecididas, essa
de internação parcial ou total, ou mes- parece ser uma formação psicopatológi-
mo consultórios para tratamentos am- ca própria da infância.
bulatoriais^. Dizíamos, então, que há uma pri-
É necessário que existam escolas. meira razão relativa às aprendizagens
Por que? Há pelo menos três razões. A dos psicóticos. Uma segunda razão, ou
primeira é a que se refere às condições um segundo grupo de razões, a
de aprendizagem ou às aprendizagens respeito da não decisão ainda da psi-
dos psicóticos. A segunda, é a que se cotização definitiva. E uma terceira
refere ao fato de que na infância a psi- razão de ordem social, que não por ser
cose, numa proporção muito significati- social é de menor importância para o
va, não está ainda totalmente decidida, sujeito psicótico individualmente con-
ou seja, numa proporção muito signi- siderado.
• Psicanalista Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre,
e da Association Freudienne Internationale. Diretor do Centro "Lydia Coriat"
de Porto Alegre e de Buenos Aires
SINCRONIA E DIACRONIA.
O INATO E O ADQUIRIDO

Vejamos o primeiro grupo de razões. É sabido que a consti-


tução do sujeito psíquico leva tempo mas não sabemos quanto, não
há modo de sabermos a priori até porque o tempo requerido é
mais de ordem lógica que cronológica. Estamos nos referindo à sin-
cronia da estruturação, ou seja, ao fato de que a estruturação
psíquica se produz pela incidência sincrônica da maior extensão da
cadeia significante, ou seja, do modo em que está organizado o dis-
curso para marcar a uma determinada criança na sua posição de
sujeito; isso acontece de um modo sincrônico. Poderíamos dizer
que todos os pontos da cadeia significante , o modo como ela está
organizada em termos de discurso, tocam ao mesmo tempo a essa
criança ainda que a toquem somente em um ponto. Esse ponto -
de enodamento ou de capiton - suporta todo o peso de cada uma
das intersecções virtualmente possíveis entre a cadeia significante e
o discurso, na medida em que em cada ato do dizer os pais e os
que rodeiam a criança atualizam passado e futuro, inscrevendo no
presente a filiação e o ideal aos quais se espera que a criança
responda. Se bem que isso é assim, ou seja, sincrônico, é neces-
sário o tempo diacrônico dos efeitos significantes para que essa
estrutura se consolide, se coloque à prova e adquira sua versão sin-
gular. Este enunciado que acabamos de formular apresenta ainda
muitos pontos escuros porque certamente é uma formulação ex-
tremamente condensada de um problema complexo como é a es-
truturação do sujeito. Mas, na tentativa de esclarecer alguns desses
pontos, vamos nos deter mais um pouco nesta questão da sincro-
nia e da diacronia.
É um problema antigo na psicologia e na psicanálise este
paradoxo, esta oposição, este confronto entre a sincronia e a
diacronia. Sabe-se que esta questão é quase tão antiga quanto a
psicologia contemporânea ou a psicologia moderna e, sem dúvida,
tão antiga quanto a psicanálise. Trata-se da problemática conju-
gação entre a evolução da criança e a inscrição da posição do
sujeito que nela fala. Por exemplo, a oposição entre uma psicolo-
gia evolutiva e uma psicologia genética, tomando-a em sua versão
mais apurada que é a piagetiana. Evidentemente, para J. Piaget, se
há uma diacronia construtiva no desdobramento das estruturas cog-
nitivas, as condições para esse desdobramento estão sincronica-
mente inscritas desde o começo da vida. Isso é que ele chama de
invariantes, as invariantes organizacionais e as invariantes fun-
cionais, ou seja, as invariantes estruturais e as invariantes fun-
cionais. Este assunto vamos tomá-lo somente como uma ilustração
desta questão da oposição na psicologia entre a sincronia e a
diacronia .
Piaget (1969) diz que o funcionamento mental está organiza-
do de um modo analógico ao funciona- ram, não são um invento mas uma des-
mento biológico, ou seja, é análogo, se- coberta, porque as coisas funcionam
gue os mesmos princípios lógicos, pelo assim. Este é o critério de Piaget e, por
menos no seu fundamento. Então ele sinal, o critério dos estruturalistas^ .
diz que todos os organismos vivos têm Hoje em dia, isso está em discus-
de um lado algumas invariantes. Inva- são a partir fundamentalmente dos teó-
riantes quer dizer não exatamente cons- ricos do acontecimento, ou seja, os que
tantes, mas formas de funcionar sempre introduzem uma dúvida radical nesta
iguais. Não como uma constante que determinação funcional interrogando-a
seria um multiplicador único, mas uma a cerca de que papel tem o acaso, se a
invariante, uma forma de funcionar que determinação é do lado do acaso e não
não varia. Podem variar tanto seu valor do lado da estrutura pré-formada^ .
quanto seu resultado, mas a forma de Piaget, no entanto, tem esse pon-
funcionar, não. to de vista estritamente estruturalista de
Assim, por exemplo, ele diferencia que há uma estrutura pré- formada para
dois grupos de igual hierarquia. Um, ordenar, organizar o modo de funciona-
que são as invariantes estruturais e ou- mento mental a respeito dos intercâm-
tro, que são as invariantes funcionais. bios com o meio^ .
As invariantes organizacionais ou estru- As invariantes funcionais, ele diz,
turais consistem, como ponto de parti- são duas: assimilação e acomodação. O
da, no seguinte princípio que afeta a princípio fundamental da invariante
toda matéria viva: toda matéria viva tem funcional é de que todo organismo vivo
algum modo de organização de seus cumpre funções adaptativas, ou seja,
intercâmbios com o meio,ou seja, não é tem que realizar algum trabalho para se
que a organização do intercâmbio seja adaptar ao meio. O trabalho que realiza
sempre a mesma, mas sempre há algu- tem duas direções: uma, transformando
ma forma de organização. o meio para adequá-lo à estrutura inter-
Nos seres humanos há uma forma na e outra, transformando a estrutura
de organização também. Essa forma de interna para adequá-la ao meio. A cria-
organização se caracteriza por três es- tura nasce com essa forma de funcionar,
truturas lógicas. A do grupo prático de ou seja, isso é sincrônico; embora os
deslocamentos, a dos oito agrupamen- efeitos, as conseqüências desse funcio-
tos lógicos e as estruturas do grupo ló- namento se desdobrem numa diacronia,
gico das quatro transformações ou a a forma de funcionar mesma não vai se
rede de transformações. São três estru- adquirindo aos poucos. Ele pensa que
turas lógicas analisadas pelos matemáti- isso é sincrônico e tem razão, isso é sin-
cos, oriundas da teoria do grupo mate- crônico. Se for assim, é sincrônico.
mático dos Bourbakis. Jean Piaget diz Agora, por outro lado, ele diz que
que o fato de que os Bourbakis encon- a esta sincronia, a tudo isto que está
traram, que os matemáticos encontra- dado ao mesmo tempo desde o início e
ram, nas suas pesquisas sobre lógica funciona ao mesmo tempo, ou seja, não
matemática, o mesmo que ele encon- sucessivamente, ele diz que, em opo-
trou nas suas pesquisas sobre o pensa- sição a essa sincronia há processos dia-
mento da criança, não é por acaso. Eles crônicos, ou seja há uma sucessão de
encontraram o que funciona assim. Es- estruturas. Ele diz o seguinte: a estrutu-
sas relações lógicas que eles encon- ra do grupo das quatro transformações,
traram, que estão expressas e formali- a saber, a idêntica, a recíproca, a inver-
zadas na matemática, eles as descobri- sa e a complementar, esse grupo, esse
sistema de transformações das coisas, a ele fez algumas observações sobre as
criança não nasce podendo operar diferenças individuais nos seus filhos e
desse modo. Porém, no grupo prático as confrontou com a teoria da evolução.
de deslocamentos já está contido - no Há textos de Darwin de certo interesse
nível de uma lógica prática - o grupo histórico sobre esta questão.
das quatro transformações - que se Esta controvérsia, esta oposição
constitui no nível de uma lógica do entre a sincronia e a diacronia é quase
possível -, ou seja, há uma certa sincro- tão antiga quanto a psicologia e certa-
nia. Está contido no sentido de que se mente, sem dúvida, tão antiga quanto a
o grupo prático de deslocamentos, que psicanálise. Controvérsia inevitável por-
também curiosamente não opera por que, na verdade, esta contraposição en-
quatro, mas por pares que dão oito tre sincronia e diacronia é própria dos
transformações, ou seja, são quatro pa- fenômenos humanos por essa capaci-
res, se este grupo prático de desloca- dade que temos os humanos de anteci-
mento funciona mal, vai funcionar mal, parmo-nos no tempo, anteciparmo-nos
(estamos simplificando um pouco), o aos acontecimentos no nível reflexivo
grupo das quatro transformações. ou conservar como presentes episódios
O grupo prático de deslocamentos do passado. Então essa oposição entre
é dos primeros dois anos de vida; os diacronia, entre historicidade e sincroni-
agrupamentos lógicos se constróem cidade é própria do funcionamento hu-
desde os três até os onze e dos onze, mano. Esta contradição ou este modo
doze, treze em diante, mais ou menos, paradoxal que temos de funcionar no
o grupo das quatro transformações. Ou presente mas no passado, no passado
seja, também há uma diacronia, porém, mas no futuro, no futuro mas no pre-
se o último agrupamento já está contido sente, este modo paradoxal que temos
no primeiro, o fato de ele funcionar de de funcionar , inevitável para nós, tem
modo autônomo a respeito do modo adotado formas de controvérsia. Essa é
prático do primeiro requer um desdo- a razão de terem aparecido, na história
bramento da experiência no tempo. da psicologia e da psicanálise, escolas
Esta formalização piagetiana do sincrô- evolutivistas ou teorias evolutivas que
nico e do diacrônico é a forma mais adotam o ponto de vista de que tudo é
acabada das inúmeras formas de desdo- uma aquisição progressiva diacrônica,
bramento que esta contradição entre o e outros pontos de vista que adotam a
adquirido e o inato atravessou no cam- perspectiva de que tudo é sincrônico.
po da psicologia.O quanto de inato há
já formado na criança e o quanto é
adquirido constitui uma oposição entre SINCRONIA E DIACRONIA
diacronia e sincronia. N O DISCURSO.
Poderíamos, talvez, situar o início A HERANÇA C O M O
desta discussão em Charles R. Darwin,
ou seja, com as observações de Darwin METÁFORA.
sobre as diferenças individuais^. É
sabido que Darwin, além de ser o autor Porém, sincrônico não é sempre,
da teoria da evolução, era um pensador nem na psicologia nem na psicanálise,
filosófico-científico que pretendia esten- sinônimo de inato. Por exemplo Lacan
der esta teoria, como todo grande des- e Freud, de duas maneiras diferentes,
cobridor, a outros fenômenos da cultura elaboraram respectivas teorias de sin-
e da natureza humana^ . É por isso que cronicidade da inscrição do sujeito ou
da produção da estrutura fundamental correspondência recíproca entre signifi-
do sujeito de um ponto de vista não cant^ relativos ao sentido do que pre-
inatista. Ao mesmo tempo, com seus tendemos dizer?
estudos sobre a estrutura e o funciona- Todos os fenômenos humanos pa-
mento da pulsão, sobre a temporali- decem desse paradoxo. É por isso que,
dade do inconsciente, e sobre a lógica a cada coisa que formos dizer, fica in-
do significante, conseguiram esclarecer conscientemente formulada a dúvida de
pontos cruciais dessa impasse entre o se deveríamos ou não dizê-la, pelas
diacrônico e o sincrônico, ou suas for- conseqüências que poderia provocar o
mas reducionistas de inato e adquirido. ato de dizer ou não dizer tal coisa, em
Sobretudo, quando colocam os termos função do sentido que advirá. Assim,
da herança no seu duplo sentido bio- por exemplo, há frases nas quais a su-
lógico e metafórico^ . pressão do último termo modifica tão
Por este caminho, chegamos mais evidentemente o significado de todo o
longe do que tínhamos nos proposto anterior, que se precipita ali um sentido
inicialmente, mas provavelmente deste ora cômico ora trágico, sentido do qual
modo fique melhor ilustrada a proble- o sujeito dificilmente consegue se furtar.
mática da sincronia e a diacronia. Por exemplo, suprimindo a cada vez a
Falar, esse ato tão simples de falar, última palavra temos:
também padece do mesmo paradoxo Jamais a vi com outro vestido senão o
da articulação entre diacronia e sincro- da pele arrancada daquele animal.
nia. A diacronia, é fácil percebê-la por- Jamais a vi com outro vestido senão o
que não temos outra possibilidade do da pele arrancada daquele.
que pronunciar uma palavra depois da Jamais a vi com outro vestido senão o
outra,- portanto .falar é inevitavelmente da pele arrancada.
um fenômeno diacrônico. Mas nós bem Jamais a vi com outro vestido senão o
sabemos que nada na cadeia signifi- da pele.
cante que vamos pronunciando está Jamais a vi com outro vestido senão...
desvinculado do que anteriormente dis- Jamais a vi com outro vestido.
semos ou do que depois iremos dizer. Jamais a vi com outro.
Tanto que é isso que nos permite guar- Jamais a vi.
dar a correspondência de gênero, Jamais.
número, as correspondências sintáticas, Esse exercício pode ser feito com
sem falar das correspondências paradig- qualquer texto. O que demonstra que
máticas, ou seja, de sentido arbitrário. estamos incessantemente confrontados
No que vamos dizendo, cada palavra, com uma articulação nada pacífica en-
embora pronunciada diacronicamente tre a sincronia e a diacronia de nossa
em relação às outras, do ponto de vista própria estrutura enquanto sujeitos.
lógico está intrinsecamente relacionada É fácil então supor, e quem assim
sincronicamente com seus antecedentes o faz tem toda a razão, que quando
e seus conseqüentes. Quer dizer que no não há articulação entre o sincrônico e
momento em que pronunciamos uma o diacrônico as coisas andam mal, algo
palavra está presente nela o que já dis- não funciona, e as conseqüências cos-
semos antes e o que vamos dizer de- tumam ser sérias.
pois. Se assim não fosse, como farí- Quando uma criança recebe algo
amos para conservar correspondência da ordem de uma inscrição, as conse-
de gênero e número, as correspondên- qüências do modo como isso se produz
cias sintáticas em geral e, sobretudo, a vão se estender por todo o seu futuro,
conseqüências que podem ser mais espetaculares, mais graves,
mais visíveis ou mais sutis, mas que vão se estender por toda a sua
vida. O que não quer dizer que o tipo de marca que nós estamos
chamando de inscrição consista numa predestinação. Não há pre-
destinação no ser humano, não estamos predestinados a nada - ou,
para sermos mais precisos, estamos predestinados ao nada - justa-
mente este é o nosso problema. Se estivéssemos predestinados a
algo, se realmente acreditássemos nas teorias de predestinação -
das quais já se elaboraram muitas e que tiveram muitos adeptos,
pela simples razão de que é uma grande necessidade humana que
alguém nos resolva o destino - nossas preocupações ficariam
reduzidas ao mínimo. Por sorte ou desgraça, todos os que acredi-
taram e aderiram a essas teorias de predestinação não acreditaram
o suficiente para por-se a dormir, quer dizer," se estou predesti-
nado, não faço nada, as coisas vão acontecer de todo modo".
Ninguém acreditou o suficiente nessa teoria da predestinação, nem
sequer os gregos, para adotar essa postura de passividade absolu-
ta. Na verdade, devemos dizer que alguns andaram muito próximo,
as formas extremas e mais iniciais do budismo andaram muito
perto. De fato algumas formas das religiões brahamânicas hinduís-
tas mais antigas andaram perto. Geralmente, no nascimento das
religiões, as teorias de predestinação têm mais força, justamente
porque um novo deus sempre oferece a esperança de que, de uma
vez por todas, tenha aparecido aquele que resolve nosso destino.
Mas com o decorrer da história essa função dos deuses vai-se debi-
litando^ .
Este conjunto de considerações iniciais acerca do sincrônico e
o diacrônico, do inato e do adquirido, constituem o debate geral no
qual se situa a questão das incrições primordiais. Aquelas que vão
inaugurar a possibilidade da constituição de um sujeito no filhote
humano. Entre a teologia e a biologia, a psicanálise destaca o valor
discursivo dessas inscrições. É necessário compreendermos esses
vetores extremos das manifestações da cultura para tentar desfazer
as concepções ora mítico-científicas ora mítico-religiosas das psico-
sis, e assim termos alguma chance de situar ao sujeito face à arti-
culação simbólico-real que o determina nessa posição impossível.

A INSCRIÇÃO DOS SIGNIFICANTES


PRIMORDIAIS
Então a quê denominamos inscrição? Conceito fundamental
para quem tenta entender alguma coisa a respeito das psicoses e
do autismo infantil. Comecemos por assinalar que estamos nos
referindo àqueles significantes primordiais constituintes de um pri-
meiro corpo, como assinala J. Lacan na citação de nossa epígrafe.
Uma inscrição ocorre quando uma mãe diz não. Ao ponto de
que se uma mãe não diz não, não há inscrição. Estamos formulan-

D
do a questão deste modo tão simples, para que não nos escape a
idéia fundamental. É claro, nessa frase, mamãe não é a mamãe de
carne e osso mas aquele agente que se encarrega de colocar em
ato isso que se chama discurso materno. É claro, também, que o
bebê não compreende em absoluto a extensão desse não, mas
padece de um modo sideral das conseqüências dessa negativa. A
que denominanos, então, discurso materno? O discurso materno é
aquele que opera a palavra de um modo tal que a torna capaz de
recortar o corpo da criança em pedacinhos, que lhe tira e "entres-
saca" pedaços. É claro, há maneiras mais cruéis e mais contempla-
tivas de fazer isso, há maneiras simbólicas de fazer isso ou ma-
neiras reais.
Não estranhem quando falamos de 'maneiras reais' porque há,
por exemplo, um caso extremo relatado por Jean Bergès que ilus-
tra esse modo real de produzir essa extração de pedaços, esse
recorte. Esse caso ocorreu quando uma mãe psicótica fez um bura-
co com uma faca no crânio de seu bebê. Curiosamente este bura-
co para ela teve um efeito 'normalizante' porque ela cumpriu a sua
função. É claro, a criança morreu, obviamente, mas ela experimen-
tou culpa. Ou seja, ela entrou no campo da castração, solicitou
castigo por seu ato e foi castigada. Cumpriu a prisão e saiu de lá
funcionando de um modo socialmente relativamente "normal".
Evidentemente tão psicótica quanto antes, mas estabeleceu através
deste ato sua simbolização da culpa e do castigo com uma metá-
fora que lhe serviu de referência possivelmente pelo resto da vida.
Continuou trabalhando, circulando socialmente, sob vigilância. Já
que ela foi parar, obviamente, em um hospital psiquiátrico regido
pelo sistema penal, um instituto psiquiátrico forense, e segura-
mente suas saídas periódicas foram autorizadas quando se com-
provou que não havia risco de periculosidade. Mas sempre foi uma
vida, digamos, vigiada^ .
Mencionamos este exemplo para que fique em evidência
como o discurso materno pode atravessar vicissitudes e operações
das mais estranhas. Quem trabalha com crianças com problemas
graves sabe que o discurso materno pode atravessar momentos de
crueldade impensáveis até nas maiores neuróticas.
Temos até aqui, então, que o discurso materno é aquele que
se exerce sob a forma de recortar o corpo da criança, recorte que
se opera dizendo não a esses pequenos objetos cuja extração, cuja
separação, será capaz de um modo imediato e direto de provocar
um esvaziamento ou uma falta. Discurso materno que é geralmente
muito mais exeqüível para a mulher, porque se os homens são
especialistas em prometer o que não têm (o falo), as mulheres são
especialistas em não dar o que têm (que obviamente não é o falo,
mas o real de seu corpo, que, no ato de negá-lo, se torna fálico).
Por essa razão, as mulheres instaladas do lado da feminilidade
exercem com muito maior comodidade isso que se chama o dis-
curso materno, por isso os homens estão sempre mais inclinados a
prometer e, por isso, exercem este dis- diz isso, começamos a registrar que
curso de um modo muito mais traba- algo nos faz falta. E por isso, quando
lhoso quando se vêem obrigados pelas fica restringida a possibilidade de sim-
circunstâncias a exercê-lo. O discurso bolizar essa falta um pouco mais longe
materno, precisamente, é aquele que que o cocô em si mesmo, que a voz em
diz não ao cocô, "cocô não", ou seja a si mesma, que o peito em si mesmo ou
instalação do controle esfincteriano, que o olho do outro em si mesmo^,
"xixi não", "peito não", "olhar não". É quando temos dificuldades de simbo-
por isso que esses pequenos objetos - lizar isso a uma certa distancia do obje-
as fezes, os excrementos, o olhar, a voz to real, então nos precipitamos na difi-
- se recortam e se destacam. Escutar culdade de manejar esses objetos no
não, já que tem coisas que a criança campo do discurso, ou gozamos sim-
não deve ouvir; olhar não, pois o olhar plesmente manejando esses objetos tal
está interditado, sendo o melhor exem- como eles são. Eis aqui o ABC da psi-
plo disso o fato de todos estarmos vesti- copatologia. E se não se procede ao
dos. deciframento desse núcleo fundamental
Somente quando alguém toma a da inscrição, a psicose e o autismo vão
seu cargo dizer não, estes pequenos permanecer no terreno mítico onde as
objetos adquirem a sua relevância. É operações de tentativa de cura nada
por isso, precisamente, que as fezes, a têm a ver com a restituição de um su-
voz, o olhar, o peito têm tanta relevân- jeito. E tampouco vai-se entender por
cia para nós, os humanos. Tanta re- que uma criança psicótica brinca com
levância que quando alguma coisa falha as suas fezes e faz quadrinhos no ba-
do ponto de vista do funcionamento nheiro, por que um pequeno bebê faz
mental, com bastante precipitação, com bolhas de saliva, ou a importância de
muita freqüência e muito rapidamente um autista brincar com a sua baba, ou
essa falha começa a se exprimir nas difi- ainda por que os garotos se esforçam
culdades de manejar esses objetos: se em descrever pequenas acrobacias com
perde o controle esfincteriano, se urina o jato de urina.
onde não se deve e se fala ou se escu- Vejamos a esse respeito uma situa-
ta o que não está aí, se escutam vozes, ção clínica: trata-se de um paciente que
se vê alucinatoriamente o que não está começou sua terapia aos quatro anos de
aí, ou se espreita compulsoriamente o idade, e que aos seis anos atravessou
que não se permite ver. uma fase que me obrigava a passar a
mangueira no pátio da clínica cada vez
que terminava a sessão porque ele en-
OS PEQUENOS cerava o pátio da clínica com o seu
OBJETOS DOS SINTOMAS cocô. Por sinal a atendente se negava
PSICÓTICOS. absolutamente a lavar esa sujeira, na
medida em que ela não compreendia
em absoluto porque que eu suportava
Estes pequenos objetos, Lacan os
isso. Mulher enérgica e decidida, inter-
chama de objetos pequenos a, recortes
pretava minha tolerância como um
que representam o modo que os huma-
signo de debilidade. Mais ainda, ofere-
nos têm de registrar a falta do objeto. Já
ceu-se repetidas vezes para "acabar
que não temos outro, temos esse, pre-
com essa porqueira em dois toques".
cisamos de uma mamãe que nos diga
Indagada acerca desses "dois Toques",
"cocô não", "peito não", "olhar não".
ela os especificava: primeiro chamar a
Então, quando temos uma mãe que nos
mãe para limpar, segundo fazê-lo autistas à escola ou a uma clínica. Essa
limpar junto com a mãe. Mal suspeitava primeira tarefa está ainda a ser cumpri-
a prestativa atendente que meu paci- da. Com a desvantagem de que a cri-
ente podia suportar a 'perda' de seu ança já padeceu "destempos" nos tem-
objeto (o cocô) na medida em que esse pos da tentativa de uma inscrição.
amplo espaço de acolhimento que a Justamente todo mundo sabe que a
clínica representava ficasse recoberto oportunidade da mamãe dizer que não
por ele. Uma equação simples, ainda a essas pequenas coisas não é in-
que malcheirosa: ficar envolvido pelo diferente, ela não pode dizer isso em
pedaço de seu corpo que se desprendia qualquer momento. Não pode introduzir
dele, já que nenhum outro se consti- esse "não" em qualquer circunstância ou
tuirá ainda como representante desses em qualquer momento porque depende
objetos, nem como seu depositário sim- de que série e em que circunstância
bólico. A atendente confiava na sua esse "não" é introduzido, o efeito que
eficácia pedagógica. Nós sabíamos que isto irá causar. Por isso as mães são
o menino, todo ele, representava uma extremamente cuidadosas no modo e
sujeira para seus pais. Essa sujeira ope- no momento de introduzir esse 'não'. E
rava como seu nome: um ato simbólico de forma alguma porque saibam de teo-
que, se fosse tomado como real, elimi- ria psicanalítica, mas porque há um
naria uma das poucas chances que tín- saber inconsciente que as orienta.
hamos de situar a palavra na dimensão
real da pulsão: no seu valor de inscrição
no corpo. Por isso, continuamos por O DIALETO ÍNTIMO
alguns meses limpando o pátio com a E O NOME-DO-PAI
mangueira no fim das sessões. Eviden-
temente, ela não sabia - nem era exigí- Nós, os terapeutas, não operamos
vel que o soubesse - o que é uma ins- de modo igual ao das mães, mas temos
crição. E muito menos que ela requer que nos inspirar no discurso materno
três tempos e não 'dois toques': pri- pelo menos quando registramos que as
meiro tempo, tomar os atos como sim- inscrições primordiais faltam, ou não
bólicos; segundo tempo, instalar a pala- estão constituídas ou estão falhas. Se
vra no real do corpo; terceiro tempo, não se constitui essa inscrição primordi-
referir essa palavra, no seu valor signi- al, esta série de inscrições primordiais,
ficante (como representante não repre- não virá a se constituir na criança um
sentativo desse recorte no corpo, dessa lugar para falar. Essa série de recortes
falta), ao discurso. tem um registro tão delicado na instân-
A atendente pressupunha já cum- cia da letra que cada família tem seu
prida a operação habitualmente a cargo sistema de nomes, um dialeto íntimo. E
do Outro Primordial (neste caso a mãe). até no discurso social, como bem se
E, a partir desse suposto, deduzia que a sabe, existe uma terminologia reservada
operação seguinte deveria ser pedagó- para essas operações de diferenciação
gica, o que no caso de ser verdadeira pulsional: o pinto, a perereca, o bum-
sua pressuposição, seria totalmente cor- bum, o popô e todas essas simpáticas
reto. Ocorre que é assim que chegam as palavrinhas, esses nomes que são extre-
crianças normalmente neuróticas à mamente relevantes e que são o melhor
escola: assujeitadas a uma inscrição exemplo do que é o Nome do Pai.
simbolicamente eficaz. Mas não é assim Vejam só a que fica reduzido o Nome
que chegam as crianças psicóticas ou do Pai: bumbum, cocô, popô, pipi, pe-
rereca, pinto, xexeca, etc.. Não é por acaso que Melanie Klein, que
costumava ter uma única entrevista inicial com os pais da criança
que analisava e depois nunca mais voltava a vê-los, nessa entrevista
inicial perguntava à mãe quais eram os nomes que familiarmente
se davam a essas partes do corpo ou aos excrementos, a todos
esses pequenos objetos. Isso quer dizer que ela, sem ter uma teo-
ria sobre o Nome do Pai nem sobre o discurso materno, (porque
ela certamente tinha uma teoria sobre a relação de objeto mas não
sobre o discurso materno nem sobre o Nome do Pai), ela, intuiti-
vamente, por sua sensibilidade clínica, apesar da dificuldade de
leitura teórica, registrava que esses pequenos significantes eram
extremamente importantes porque eles eram representantes dessas
inscrições primordiais.
Dito de outro modo, não há nome próprio sem popô, sem
xixi, sem perereca, ou sem pinto, e não porque se tenha um ou
uma mas porque designa o que se tem em oposição ao que não se
tem, marca a diferença. Se não fosse por esses pequnos 'mar-
cadores' no corpo, o patronímico não quereria dizer nada. Em-
bora o nome que se coloca se coloque arbitrariamente, o próprio
nome não é a primeira palavra que uma criança pronuncia. Ge-
ralmente é outra palavra: mamãe , dadá, o nome de um irmão ou,
às vezes de seu terapeuta e, muito rapidamente, o nome desses
pequenos objetos porque eles estão associados de modo muito
próximo a esses significantes primordiais do Nome-do-Pai, formam
parte dessa constelação denominada Nome-do-Pai, e se chamam
assim porque esses significantes suportam a parte mais pesada da
função paterna, ou seja, o trabalho de separar pedaços do corpo
para lançar ao sujeito a sua simbolização. Separa o cocô do bum-
bum para lançar o sujeito para simbolizar o cocô.

AS EQUAÇÕES FREUDIANAS E
A SUBSTITUIÇÃO DE OBJETO.

É essa uma das grandes descobertas freudianas que se expri-


mem nas suas famosas equações: fezes = falo, fezes = presente,
fezes = dinheiro, ou a outra série substitutiva, penis = falo = filho,
onde o último significante tem uma potencialidade substitutiva
muito mais larga do que o primeiro. Opera-se uma amplificação
semântica ao mesmo tempo em que se produz um certo apaga-
mento do aspecto representacional do objeto substituído, ou seja,
vai-se abrindo a possibilidade simbólica. A extensão dos efeitos de
significância desse objeto evidentemente muda do cocô ao dinhei-
ro.Assim também acontece do pênis ao falo, e da falta de pênis ou
da pereça ao filho. 'Perereca' parece ser uma boa escolha como sig-
nificante, porque no fim das contas ela passa o tempo todo pulan-
do de uma posição a outra, representando nisso a posição pul-
sional feminina: fazer mil acrobacias para disfarçar a castração que
ela supõe real. Ou, na frase de J.Lacan onde não há um sujeito porque não foi
(1984), "fazer tudo e mais um pouco produzida essa separação destes frag-
com nada". mentos do corpo. Porque é assim que a
Essa equações não operam se não criança vivência esses cortes; quando
se articula essa inscrição primordial na lhe tiram o peito da boca é como se lhe
direção desse lançamento simbólico. arrancassem a boca, e quando faz cocô
Dito de outro modo, para que o objeto é como se separasse um pedaço de seu
não fique sendo ele mesmo e somente corpo. É por isso que as crianças em
ele mesmo, é necessário transformar co- geral não aceitam pacificamente o des-
cô em dádiva. E isso as mães sabem mame, a hora de fechar os olhos (leia-
fazer muito bem... Por isso é que não se: separa-se do olhar do Outro) para
vacilam, e embora saibam que seu bebê dormir, ou tomam os devidos cuidados
é incapaz de compreendê-lo tudo, o para começar seus experimentos esfinc-
supõem falante.Se ele diz:" Aaaaaah !", terianos, pedem penico, ou seja, tentam
a mãe diz: " Está me chamando!" Onde não perder esses objetos.
ela escutou que a estava chamando ? Se As crianças autistas ficam tomadas
a mãe diz que ele emitiu um som em Mi no real do objeto e é por isso que se
Bemol, estamos diante de um grave apegam de um modo absoluto e persis-
problema, porque é necessário que ela tente a quase qualquer coisa que as
tome essa voz como do âmbito da pa- impacte do ponto de vista físico e que
lavra. Ou seja, colocar o seu filho na chame sua atenção, ou seja, que gere
posição de escuta quando na verdade uma descontinuidade física na superfí-
ele não sabe escutar mas apenas ouvir, cie indiferenciada de seu corpo. É por
e escutar seu filho quando na verdade isso que são capazes de passar um ano
ele não produz realmente nada que inteiro esfregando o dedo sobre uma
possa ser escutado, apenas ouvido. Essa pequena ruga de uma folha de papel,
sutil mas decisiva diferença de função sobre a aspereza de uma superfície ou
entre perceber a voz - ouvir, e diferen- se balançando na frente de uma luz
ciar a palavra - escutar. provocando, assim, uma variação lumi-
nosa. Não podem chegar mais longe do
que isso porque não há inscrição desses
DIFERENÇAS DE objetos, eles não têm nome, não foram
ESTRUTURA ENTRE separados de seu corpo e, por isso
mesmo, não há corpo, pelo menos não
PSICOSE E AUTISMO há no mesmo sentido que nós o con-
cebemos. O objeto não é simbolizável,
Se a criança não for situada deste
e por isso não há substituição.
modo em relação aos objetos, não ha-
verá diversidade de objetos, quer dizer, É claro que os psicóticos recebem
seu interesse ou sua relação ficará toda uma certa marca, uma certa inscrição,
capturada nesses pequenos represen- mas o problema é que esta inscrição
tantes do real do objeto. O que a dei- não pode chegar muito longe pois a
xará girando ao redor do cocô, do xixi, receberam de um modo tal, esta marca
de seus membros, de sua pele, de seu foi feita com tal material significante
toque, de seu olhar, do impacto da luz que o elástico simbólico não pode se
em seus olhos ou em sons reiterativos, esticar ou se estica muito pouco. A série
ou seu labirinto que o informa de seus que se pode estender a partir do cocô
movimentos, etc. É evidente que esta- não chega nunca no dinheiro - toman-
mos falando do autismo, esta posição do a equação freudiana - ou o elástico
simbólico que eu posso estender a par- colocar a criança numa dificuldade radi-
tir da sua amarração na castração não cal de poder fazer exercício de suas
chega nunca no filho de um homem, ou conseqüências, apesar de ter recebido
seja, a equação pênis-falo- filho não se tal inscrição. Dito de modo mais sim-
constitui. Às vezes o penis mal chega ples, não basta ensinar a manejar os ta-
no falo, ou o cocô mal chega no pre- lheres para que a criança se sinta em
sente. As equações que Freud elaborou condições de comer sozinha. O que vai
assinalam pontos de estação relevantes determinar se a criança vai se sentir ou
numa caminhada significante que é não em condições de comer sozinha é
muito mais extensa do que esse trecho o quanto de reconhecimento ou o
de três termos por ele assinalados. Na quanto de narcisismo ela pode recupe-
verdade a série significante que vai des- rar nesse ato, no reconhecimento de
se pequeno objeto a ser recortado e seus pais, o quanto se reconhece como
inscrito, até o termo mais algébrico que legítimo agente do exercício da técnica
represente esse objeto, essa série é dos talheres. É assim que há muitas cri-
infinita. O que Freud sublinha é que anças que dominam perfeitamente a
vale a pena marcar algumas estações técnica de manejo dos talheres mas não
delicadas dela, ou seja, momentos trau- comem sozinhas. E para falarmos do
máticos da elaboração dessa passagem. que ilustra isto de um modo escancara-
Levando em conta que os psicóti- do, temos os pacientes adolescentes
cos recebem esta inscrição de tal ma- com quadros psicóticos anoréxicos, on-
neira que o elástico não se estica muito, de não há dúvida de que o exercício
se o leitor teve a paciência de nos técnico do garfo e da faca não falta, mas
acompanhar até aqui, seguramente es- a mãe tem que dar-lhe de comer na
tará se perguntando, a essas alturas dos boca porque senão o paciente não co-
desdobramentos de nosso texto, o que me, e às vezes nem com a intervenção
tem haver o sincrônico e o diacrônico da mãe.
com tudo isso. A razão fundamental de Com isso, pode-se ver que a
que chamássemos a atenção para o questão da inscrição é bastante mais
sincrônico e o diacrônico reside em que complexa do que essa formulação que
no modo como venham se produzir propusemos no início de nosso texto,
essas inscrições primordiais já estará quando, a modo de introdução, mar-
contido, até um certo ponto, o nível de camos o ponto de partida da inscrição
possibilidade ou impossibilidade da quando uma mãe diz não. A operação é
extensão semântica, o nível do estica- bastante mais complexa e tem, eviden-
mento simbólico possível. Agora bem, temente, conseqüências mais duradou-
esse modo, ou seja, as condições intro- ras e mais complicadas do que simples-
duzidas para que a inscrição possa mente oportunizar sua contrapartida
operar como tal, depende de que os mais freqüentemente manifesta sob a
pais desta criança reconheçam como forma aparente de uma simples rebel-
legítimo o fato dela estar marcada desse dia.
modo. Ou seja, que o fato de a criança A estas alturas já é possível perce-
ter incorporado essa inscrição tem que ber que nessa diacronia de colocar uma
funcionar de um modo tal que ela se palavra atrás da outra, de colocar o sig-
torne legítima agente do exercício das nificante presente depois do signifi-
conseqüências dessa inscrição. Essas cante cocô, e o significante dinheiro de-
condições são de uma natureza, exten- pois do significante falo e assim suces-
são e complexidade tais que podem sivamente, que nessa diacronia do pro-
gressivo distanciamento dessa versão reconhecer sua legitimidade, ou seja, se
original e primordial do objeto, há, po- lhe colocaram obstáculos, em cada
rém, uma sincronia que faz seu efeito. confronto com um novo objeto esses
Esta sincronia que se adverte quando obstáculos serão reeditados. Não há
registramos que já nos primeiros movi- outra possibilidade.
mentos dessa inscrição se aninham as
condições ou pré-condições da exten-
são semântica, do nível de esticamento
PARTICULARIDADES
simbólico que, apartir desse pequeno DAS APRENDIZAGENS
objeto recortado de uma tal maneira,
NAS PSICOSES
poderá vir a se produzir. Não é que
nessa inscrição primordial já esteja con-
É por isso que os psicóticos têm
tido que o filho será engenheiro quími-
dificuldade para aprender, e não por-
co, - isso seria da ordem da predesti-
que não são inteligentes. É sabido que
nação -, nem sequer se ele vai ter con-
alguns psicóticos são mais inteligentes
dições ou não de chegar a ser enge-
que muitos neuróticos normais, o que
nheiro, se ele vai ser aprovado na esco-
rapidamente vem demonstrar que a
la secundária, nem tampouco se ele vai
inteligência não é equivalente à sim-
aprender a ler.
bolização, por mais que a Piaget pareça
Nessa inscrição primordial nada de que sim^. Não é porque certamente há
sua aprendizagem está pré determina- delírios paranóicos que são de um nível
da. A única coisa que está estabelecida de abstração maravilhoso, abstração re-
é algo assim como o vasilhame, pior flexionante da melhor. Há delírios pa-
ainda, uma forma, uma sombra ainda ranóicos que são do melhor nível de
por cima recalcada. Uma sombra de abstração reflexionante mas eles fracas-
uma forma do vasilhame onde ele vai sam na simbolização porque precipitam
encaixando os objetos que a experiên- no real. As alucinações também podem
cia da vida vai lhe oferecer. Os pais e os ser governadas por uma lógica reflexio-
mestres, sabendo disso, vão oferecendo nante, é assim que os dispositivos me-
às crianças experiências de vida porque cânicos e os aparelhos imaginados por
sabem muito bem que com as inscri- esquizofrênicos reproduzem de um
ções primordiais, uma vez chegando as modo surpreendente relações lógicas
condições de simbolização, a apren- do aparelho mental com se fossem uma
dizagem não está garantida. Assim é colocação em máquina do modo como
que os professores se preocupam tam- pensamos. Por sinal, em última instân-
bém em elaborar uma boa didática, ou cia, essa máquinas não servem para
seja, uma boa técnica de apresentação nada ,ou seja, são totalmente equiva-
dos objetos que permita perceber as lentes ao real de nosso pensamento que
suas diferenças, seus valores, suas qua- tampouco serve para coisa alguma.
lidades, suas relações, suas analogias, Assim devemos considerar as coisas se
suas características, etc. É claro que em levarmos em conta que o pensamento é
cada objeto que a criança for indagar e o exercício que fazemos entre o nasci-
investigar vai estar presente essa moda- mento e a morte na esperança de que
lização que aquela inscrição primária sirva para produzir uma separação
estruturou. Ou seja, que se para uma infinita entre uma ponta e a outra. Isso
criança foram colocadas, nessa ins- sempre fracassa; assim, daqui a cem
crição primária, pré-condições e exigên- anos, quem vai saber o que que nós
cias demasiadamente complexas para pensamos? Em última instância, para
cada um, sem tomarmos a entidade sidade que vai inspirar toda inquietação
coletiva do sujeito, para cada um, o cognoscente, ou seja, toda curiosidade
pensamento é exatamente igual a essas de conhecer. Seria ali, então, que se
máquinas esquizofrênicas, não serve organiza qualquer coisa que pudesse
em última instância para nada. ser chamada de 'pulsão epistemofílica',
Isso demonstra a estranha virtude talvez como uma forma na qual a pul-
que têm os psicóticos de nos revelar as são generaliza a falta de seu objeto.
coisas como elas são, enquanto nós, Portanto, se há uma falha na inscrição
neuróticos, somos mestres em disfarçá- primordial e se ela se realiza sob a for-
las. É por isso que o psicótico pode ma de forcluir, ou seja obturar, qualquer
andar nu pela rua e o neurótico, a não curiosidade sobre as transformações
ser que seja uma candidata a atriz no simbólicas desse objeto, se não houver
festival de Cannes, não. Além disso só o transformações simbólicas, a criança
faz se sua "roupagem" for das boas, ou não tem o que perguntar, não tem para
seja, se tem o que oferecer ao olhar do onde dirigir sua interrogação porque o
outro. Então, se na relação com cada objeto já está aí, cocô é cocô e acabou
objeto vai se reeditar inevitavelmente a a história. Não há espaço para indagar
modalização da relação de objeto que que posição esse objeto tem na cadeia
se inscreveu de modo primordial, isso simbólica do Outro. É por isso que não
quer dizer que nessa diacronia da apre- há conhecimento propriamente dito se
sentação sucessiva dos objetos e dos o enunciado que o sustenta não tem
significantes há algo de sincrônico uma posição simbólica. É um conheci-
porque a mesma estrutura vai se repe- mento que poderá estar ordenado do
tir. É o que Freud diz quando analisa a ponto de vista da lógica pura mas ofer-
curiosidade sexual da criança pela cena ece a cada passo o equívoco de o outro
primária, essa curiosidade que se insta- supor um simbólico, quando, em ver-
la tão precocemente e que faz com que dade, está se referindo a um real. É por
uma criança de dois anos todas as isso que um tal conhecimento, assim
noites levante de sua cama e vá até a limitada a extensão semântica de seu
cama de papai e mamãe querendo enunciado, não sustenta nenhuma pos-
entrar no meio, não porque queira se- sibilidade de produzir um exercício de
pará-los mas porque quer averiguar o pesquisa. Qualquer indagação sobre as
que há no meio, o que acontece ali; relações do significante com o real é
essa curiosidade que faz com que cri- desnecessária porque o real já está ali.
ança coloque o dedo em todos os bura- Pelo contrário, se trata de defender o
cos e queira espreitar por'todas as fe- sistema de pensamento das invasões
chaduras ou por todas as frestas. Essa devastadoras do real. Por isso há psicó-
espreita é irresistível para elas porque ticos que não cessam de produzir autô-
do outro lado, seguramente, deve estar nimos, como também há os que instru-
o segredo do que a mãe lhe diz para mentalizam sua capacidade de raciocí-
não olhar. Então ela vai olhar para ver nio lógico ao serviço de construir um
se vê, e senão for nessa fresta será na sistema fechado de pensamento, que
próxima e assim sucessivamente, e tam- gira ao redor de alguma metáfora, não
bém, se não puder ver, talvez consiga paterna, mas de uma certa extensão
tocar alguma pista relativa ao segredo, simbólica. Trata-se, em todos os casos,
que, em última instância, - nós o sabe- de estabelecer um certo status quo-com
mos - é a cena primária. o real. Esse tipo de solução funciona
como uma lagartixa devorando seu pró-
Freud (1973) diz que é essa curio-
prio rabo. Portanto teríamos que nos pontos de referência que mobilizem seu
perguntar se isso mereceria o nome de desejo de aprender, sua curiosidade. O
conhecimento, embora, certamente, se- que quer dizer metáfora não paterna?
ja um efeito dessa função imaginária do Quer dizer descobrir uma série signifi-
Eu que chamamos 'cognitiva'. cante com suficiente peso de significan-
Perceba-se que não estamos di- cia na vida do sujeito psicótico para
zendo que não há conhecimento no servir de referencia para um conjunto
psicótico, mas indagando das dificul- mais ou menos extenso de significações
dades e especificidades de sua consti- possíveis, de tal modo que, atuando
tuição. Por sinal, também estamos assi- como substituição parcial de Nome-do-
nalando seus limites. Pai forcluido, permita ao sujeito em
É aí que surge uma primeira razão questão um certo nível de circulação
para que existam escolas para psicóti- social e, também, de resolução de sua
cos porque não é o mesmo que ensinar angústia siderativa.
uma criança que estruturalmente já tem Agora, evidentemente, a substitui-
constituída a sua curiosidade. É claro ção não vai funcionar de modo tão
que aqui surge a pergunta: é possível extenso, flexível, estável ou persistente
ensinar alguém que não tenha consti- como aquelas originárias. Fabrica-se
tuída essa curiosidade primordial? Prima uma referência que lhe serve para inter-
facie, não. Então, uma segunda pergun- pretar uma série de situações e circuns-
ta: é possível constituir formas de pro- tâncias, mas que além desse círculo de
mover curiosidades parciais, fragmen- situações e circunstâncias não lhe diz
tárias, que permitam a essa criança as- nada. Então temos que fabricar outras e
sim constituída como sujeito, falida na outras e outras..., ou seja, uma con-
sua constituição simbólica, que ela strução delirante, outra construção deli-
possa aprender algumas coisas se bem rante e outra... Das quais ficamos situa-
que esses conhecimentos não possam dos como garantias, como fiadores, na
ser generalizados e tenham um uso de transferência.
uma extensão mais curta? Sim, isso sim. A justificação ética de apelarmos a
Mas é evidente que um professor que esse recurso, a essa montagem, reside
não esteja em condições especializadas em que, em última instância, até mesmo
de trabalhar de um modo um pouco as construções simbólicas neuróticas
diferente, no sentido de que leve em (chamadas de normais), são delirantes.
conta que essa criança não está nessa Acontece que os delírios neuróti-
posição de curiosidade como todas as cos têm duas características que lhes
outras, vai fracassar. permitem movimentar-se como se fos-
Então, temos que é difícil para sem normais na sociedade. A primeira
uma criança psicótica aprender em uma característica é que o delírio neurótico
escola comum. O que imediatamente coincide com o sintoma social prevale-
traz à tona a questão de se a criança cente. Se os neuróticos vivessem em
psicótica deve ser segregada da comu- uma sociedade psicótica, seriam seres
nidade escolar e ir a uma escola onde estranhos. Por isso nos hospitais psi-
se reúnam somente todos os psicóticos.' quiátricos, quando trabalhamos ali, os
A resposta é: às vezes sim, às vezes não. loucos formam uma comunidade e nos
Depende de que grau de extensão te- olham como bichos raros porque nós
nham as metáforas não paternas que pensamos num código diferente do
cada criança psicótica em particular deles. A segunda razão que permite aos
poderia vir a constituir, para encontrar neuróticos circularem mais ou menos
normalmente na sociedade é que seu de identificação imaginária, de especu-
delírio é coletivo, eles participam de larização com o outro. Isso porque a
delírios coletivos. Eles tem esse 'cuida- criança até a puberdade está submetida
do', a religião que praticam é coletiva. aos riscos da ruptura do espelho no
Se é uma religião compartilhada so- qual se reconhece. Risco que se nota
mente por dois já fica suspeito. "Eu e muito bem quando uma criança muito
minha mulher inventamos uma reli- nova perde seus pais. Temos como
gião", aí fica suspeito. recente e bem próximo exemplo os
seqüestras de crianças filhos de mili-
tantes revolucionários na Argentina du-
A INCLUSÃO DE rante a ditadura militar, e que agora, na
CRIANÇAS AUTISTAS adolescência, estão chegando às con-
sultas porque o apagamento ou a que-
E PSICÓTICAS NA ESCOLA
bra do espelho no qual estas crianças se
COMUM reconheciam acarretou para elas conse-
qüências psíquicas graves. Nessa mes-
Bem, dizíamos, acerca da inclusão ma direção, é bem conhecido por nós
da criança psicótica na escola comum, que quando uma criança, por razões
que isso era viável, às vezes sim, às familiares, se encontra obrigada a con-
vezes não, dependendo da extensão, da viver com um parente psicótico, isso
flexibilidade, da proliferação desses ar- tem conseqüências para ela. Isto não
remedos de função paterna que ela quer dizer que ela se transforme em
consiga fabricar, geralmente com a aju- psicótica, mas certamente terá bons
da de outros. É evidente então que padecimentos neuróticos. Costumamos
numa escola para psicóticos ou numa receber em consultas de adultos os e-
escola onde haja psicóticos, - porque feitos tardios dessas vicissitudes infantis.
não tem por que ser somente para eles, Então não parece razoável pensar
é necessário que haja alguém que seja que não haverá alguma conseqüência
capaz de interpretar essa fragmentação para crianças neuróticas que não têm
de sua simbolização e ajudá-lo a consti- outra imagem de reconhecimento que
tuir novas metáforas ali onde as suas aquela do semelhante neurótico se elas
próprias não alcançam. Por outro lado forem submetidas a um convívio cotidi-
devemos considerar que há formas da ano com formas extremamente agressi-
psicose tão incômodas para os neuróti- vas da psicose. Por mais que sejamos
cos, para as crianças neuróticas, que partidários da não segregação dos psi-
estas mal suportam o convívio com cóticos, não podemos, geralmente, res-
essas formas da psicose. E geralmente ponder a esse questionamento tão co-
as crianças neuróticas na escola estão mum dos pais, quando uma criança
num momento de sua vida que, embo- que tem problemas graves é incluída
ra dentro normal, do comum e corrente, junto com seu filho 'normal' e o pai
atravessam situações delicadas, pelo expressa a preocupação de se isso não
simples fato de estarem numa idade em fará mal a seu filho.
que as elaborações primordiais ainda se Devemos confessar que nós so-
encontram em curso, e a possibilidade mos partidários da integração, sem
de se confrontarem com formas extre- dúvida, mas que quando surge, na tur-
mamente estranhas e distoantes da ma que nossos próprios filhos freqüen-
própria imagem - situada num seme- tam, uma criança com problemas gra-
lhante - coloca em questão os pontos ves, imediatamente nos perguntamos se
isso não terá conseqüências para nossos filhos. Geralmente ten-
demos a subestimar os efeitos, a disfarçá-los ou até a responder
para nós mesmos que a consistência fálica de nossos filhos será
suficiente para resistir ao choque. Como sempre, quando ficamos
acuados, a última solução é narcísica. Porque cabe nos perguntar-
mos se não será essa uma secreta tentativa de que nossos filhos se-
jam tão terapeutas quanto nós?. E, como nossos filhos costumam
entender muito bem disso, acabam sendo terapeutas dessas cri-
anças. Nas supervisões e análises de profissionais que se dedicam
aos problemas graves da infância encontramos essas manifestações
com farta freqüência e, no que me diz respeito, confesso que tudo
o que acabo de manifestar num tom geral eu poderia dizê-lo em
nome próprio também. Porém, para quem procede de modo psi-
canalítico, seja analista ou não, esta observação serve para nos pre-
venirmos de não nos centrarmos em qualquer referência narcísica
para a tomada de decisões clínicas a este respeito. A pergunta que
precisamos nos formular, para orientar nossas prescrições neste
campo, é a seguinte: em que posição ficará a criança psicótica ou
autista perante o discurso, se ela for incluída numa escola com tal
ou qual caraterística?
Aqui surge uma necessidade de decidirmos caso a caso quem
é que pode participar da vida escolar comum e quem é que requer
uma escola para psicóticos. E os que requerem uma escola para
psicóticos, evidentemente, são uma minoria, mas isso não quer
dizer que não existam em número suficiente para justificar uma
atividade específica que os auxilie. Até aqui, a primeira das razões
de por que devem existir escolas para psicóticos parece-nos mais
ou menos demonstrada.

DE C O M O UM FALSO IGUALITARISMO
PODE ACABAR EM SEGREGAÇÃO
Preferimos falar agora da terceira razão antes da segunda,
para faciliatar nossa demonstração. Essa terceira razão, que qualifi-
camos como de ordem social, é relativamente simples. Lembremos,
para começar, que o hospital psiquiátrico é a estação final do trem
da psicoses. Nós, terapeutas, tentamos sempre que o psicótico
desembarque antes de chegar à parada final, mas que ele consiga
ou não fazê-lo depende de muitas circunstâncias (o unwelt, na
denominação de S. Freud), mas também, e fundamentalmente, do
modo como foram realizadas aquelas inscrições originárias, do
modo como elas vieram ou não a se confirmar na adolescência. E,
do ângulo terapêutico, depende da possibilidade de nós en-
contrarmos alguma maneira de mudar algo na posição fantasmáti-
ca que esteve reservada a esse filho no discurso parental, durante
o transcurso de sua infância. Se conseguirmos mudar a posição fan-
tasmática que esse filho ocupa no discurso parental, teremos uma
grande chance de que ele desembarque em grupos de crianças menores do que
bem antes dessa parada final, seja elas, em função dessa suposta equiva-
porque a sua estrutura se transformou e lência entre crianças de quatro anos
ele deixou, então, de ser psicótico - o com características autísticas e portanto
que em alguns casos, antes da puber- com perturbações no seu desenvolvi-
dade, é possível - , seja porque sua psi- mento, e crianças, por exemplo, de dois
cose se articulou de um modq tal que anos com caraterísticas neuróticas nor-
não o impede de funcionar social- mais. Os indubitáveis benefícios desse
mente. Essas opções - que não são convívio podem se anular na medida
fáceis de se produzirem - poderão per- em que tal prática fique ao serviço de
mitir-lhe descer do trem que conduz os mascarar a patologia em curso e, com
psicóticos ao exílio manicomial antes isso, a criança fique subtraída à inter-
de chegar ao fim da linha. venção clínica imprescindível, prolon-
Quando uma criança é pequena e gando desse modo o retardo em sua
é psicótica, as insuficiências simbólicas estruturação psíquica, cultivando um a-
ou as restrições de simbolização (origi- diamento que pode acabar no cancela-
nadas na forclusão, parcial ou total da mento definitivo da sua possibilidade
Função Paterna) que caracterizam a sua de compartilhar o discurso social.
psicose, confundem-se ou tendem a se Os benefícios desse convívio se
confundir com as insuficiências das a- derivam do fato de que as crianças
prendizagens, sobre tudo nas crianças neuróticas oferecem chances às psicóti-
pequenas. Que uma criança não saiba cas, às vezes pela via do mimetismo, às
fazer isto ou aquilo ou que não consiga vezes pela via da identificação, de to-
articular sua relação com o outro, isto mar alguns traços circulantes no discur-
tende a ser indistintamente explicado so grupai para articular formas de sim-
por ela ser ainda pequena e não pela bolização, metáforas não paternas, que
sua psicose. Assim, é comum que algo lhes permitam participar da vida social
que não é próprio da condição de de um modo um pouco mais plástico.
infans, de não falante - por exemplo, Isto de fato acontece, ainda que não
uma criança de quatro anos que não sempre, pois depende do grau de isola-
fala - seja tomado como equivalente à mento. Isto quer dizer que não se pode
condição de infans de uma criança de generalizar, como uma prescrição uni-
um ano e meio que ainda não fala. versal, para que todas as crianças autis-
Como, além do mais, geralmente a cri- tas ou psicóticas freqüentem o jardim
ança psicótica de três ou quatro anos comum. Certamente há crianças autistas
faz cocô nas calças e usa fraldas, ou não que podem ficar completamente perdi-
pasou do alimento líquido ao sólido, ou das e brutalmente isoladas, na ausência
não consegue se distanciar da mãe, etc, de alguém que possa se dedicar exclu-
há uma tendência em se estabelecer sivamente a elas. Mas há uma série de
uma série de equivalências entre essa crianças psicóticas e alguns pós autistas
criança e o infans. Em outros termos, que, graças a intervenções clínicas pre-
suas manifestações psicóticas são con- coces, conquistam uma possibilidade
fundidas com expressões normais de de aproveitar de uma certa convivência,
um bebê que, na realidade, já não mais de uma certa identificação que, ainda
existe. que contingente, lhes permite circular
Paradoxalmente, isto permite que socialmente. As marcas residuais dessa
muitas crianças psicóticas e autistas fre- experiência de confronto com um dis-
qüentem as escolas comuns enturmadas curso que não faz deles objetos de
exclusão (no autismo), ou pertencimen- numa instituição na qual trabalhamos:
to fálico do Outro Primordial (nas psi- um adolescente psicótico de dezoito
coses), tendem a constituir uma espécie anos com uma posição completamente
de reservatório de significantes que fun- infantil, completamente apaixonado por
cionam de modo diferente daqueles até uma terapeuta ocupacional, perseguiu-
ali inscritos, o que permite sua imple- a, sem roupa, pelo corredor. Então, ela
mentação para o processo de recupe- perguntou, na supervisão de equipe:
ração, e que funcionam como verda- "Até onde devemos suportar ?"
deiros pontais na direção da cura. Em- Bom, eis aqui o problema do limi-
bora as significações possam continuar te que, por sinal, não é meramente o
determinadas pela forclusão, esse con- problema de por limites, de dizer não,
tato com um mundo significante que mas de resolver em que situação esse
funciona na referência a um pai (seja lá limite deve ser colocado para que cum-
qual for), parece funcionar, nas crianças pra alguma função de transformação de
psicóticas, como uma janela de luz uma coisa em outra coisa. Se não for
aberta nessas trevas exteriores em que assim, não é no sentido próprio um li-
foi lançado aquele significante primor- mite. D.W.Winnicott dizia que o limite é
dial que fora rechaçado^ . o que transforma uma coisa em outra
Até aí, então, socialmente não ha- coisa, senão não constitui limite mas
veria razão para que houvesse escolas somente uma imposição. Nesse ponto
para psicóticos, e sim exatamente o ele tinha toda razão. Ou seja, não é sim-
contrário. Porém, quando chegamos à plesmente dizer que não, porque se dis-
adolescência a coisa se complica. To- sermos simplesmente não, a coisa (no
mamos a adolescência porque é o outro sentido propriamente freudiano) con-
extremo da situação. A coisa se compli- tinua a mesma, e, por tanto, teremos
ca precisamente porque se o psicótico que continuar a dizer que não o tempo
que foi psicótico sempre, desde criança, todo, ou ter um cassetete na mão.
ou o autista que foi autista desde cri- As questões se complicam na ado-
ança e que agora é um pós autista ou lescência por esse motivo: porque já
um psicótico, se eles vão produzir seus não é mais possível tomar esses atos
atos como infans ainda, seus atos não como brincadeira, ainda que quem os
serão tomados como os de uma criança execute os conserve no campo de uma
pelo discurso social. Dito de outro relação infantil do significante com o
modo, se uma criança de três anos r e a l ^ . Estamos falando até agora
abaixa as calças no pátio, é uma brin- daqueles que foram reconhecidos como
cadeira infantil, mas se um psicótico de psicóticos desde muito cedo, que atra-
dezoito anos faz a mesma coisa, do vessaram sua infância como psicóticos,
ponto de vista do discurso social isto já muitos deles encefalopatas, com pro-
não é mais uma brincadeira. Ainda que blemas de lesões cerebrais, etc. Ainda
nós, terapeutas, sejamos capazes de quando se trata de sujeitos que estão
perceber quanto de infantil ainda resta nesta situação, a partir da conclusão da
nesse ato, nem mesmo as terapeutas puberdade e início da adolescência, se
mais heróicas suportam a perseguição suas formas psicóticas forem muito dis-
de seu excitado paciente de dezoito crepantes das formas que o discurso
anos pelo pátio da escolas. Estamos nos social suporta, ou seja, se tendem a
referindo a uma situação cômica que produzir situações que são tomadas
evocamos facilmente porque se trata, como atos reais pelo discurso social, as
no caso, de um acontecimento recente soluções terapêuticas que se abrem são
evidentemente as de internação, ou em porção, pela norma social. E efetiva-
casa ou no hospital psiquiátrico. Porque mente isso acaba tendo um efeito tera-
o jovem psicótico, com toda a sua apa- pêutico porque, do lado do discurso
rência civilizada, rodeado dos mais mo- social, cura esse discurso de seu horror
dernos conceitos de integração e não à psicose, ou cura, numa certa propor-
discriminação, tanto da parte de seus ção, às vezes mínima, às vezes maior, às
pais quanto dos terapeutas envolvidos, vezes num efeito apenas circunscrito à
andando pela rua vai levantar o dedo comunidade escolar ou ao bairro onde
na cara do boxeador que mora na es- a escola está, cura, dizíamos, um certo
quina e levar um soco que fará com número de preconceitos. Nesse sentido
que acabe no hospital, ou vai querer podemos lembar algumas experiências
parar o trânsito, brincando de policial, e das equipes de escolas para psicóticos
será atropelado por um carro, ou vai ou autistas, ou mesmo daquelas dedi-
andar nu e ser preso por atentado con- cadas aos deficientes mentais, quando
tra a moral. Então, para onde mandá-lo, saem a passear pelas vizinhanças com
qual é seu lugar? Se for parar no hos- seus paciente-alunos. Registra-se quase
pital psiquiátrico, estaria indo cedo invariavelmente um acolhimento pro-
demais porque na adolescência existem gressivo e uma crescente disponibili-
chances ainda, em função do caracter dade dos vizinhos para "ajudar" na tra-
re-fundante dos traumas próprios da balhosa tarefa de abrir brechas de
adolescência^ , de virem a se produzir comunicação dessas crianças ou adoles-
novas inscrições que modifiquem até centes com o âmbito social. A circu-
certo ponto o modo do funcionamento lação por pequenas lojas e "botecos", e
psicótico. até mesmo por prédios e casas de vizi-
nhos vai se tornando lentamente
viável A conquista de uma certa po-
A IMPORTÂNCIA DO pularidade aparece em nome do fato de
SIGNIFICANTE ESCOLA que "eles são os da escola aqui do
lado", e não há dúvida de que as rea-
É aí que a figura da escola vem a ções seriam muito diferentes se se trata
calhar porque a escola não é social- de "os do manicômio"; o significante,
mente um depósito como o hospital como sempre, pode se decisivo. Porque
psiquiátrico, a escola é um lugar para escola é coisa de criança, no final das
entrar e sair, é um lugar de trânsito. contas se esses meninos e meninas têm
Além do mais, do ponto de vista da re- problemas mas estão na escola, seus
presentação social, a escola é uma insti- atos viram artes. Se gritam demais, se se
tuição normal da sociedade, por onde aproximam demais, pulam demais, co-
circula, em certa proporção, a normali- mem demais, põem a mão onde não
dade social. Portanto alguém que fre- devem, são simplesmente meninos e
qüenta a escola se sente geralmente meninas, seguramente o são porque
mais reconhecido socialmente do que vão na escola. Quem sai do manicômio
aquele que não freqüenta. É assim que não tem esse benefício na leitura social.
muitos de nossos psicóticos púberes ou Essa razão social muito simples nos leva
adolescentes reclamam que querem ir à a pensar que é interessante que existam
escola como seus irmãos precisamente escolas para psicóticos.
porque isso funcionaria para eles como Agora vejamos a segunda razão. A
um signo de reconhecimento de serem segunda razão é do seguinte teor, é a
capazes de circular, numa certa pro- razão fundamental pela qual o trata-
mento de um psicótico tem que ser ne- e desajustes, e esse analista optou por
cessariamente interdisciplinar e não indicar aos pais que não era momento
multidisciplinar. A cura da psicose não propício para incorporá-lo na escolari-
pode passar exclusivamente nem pela dade. E isto permaneceu assim até o
psiquiatria, nem exclusivamente pela momento daquele relato, aos oito anos.
psicanálise, nem pela terapia ocupa- Ao terminar seu relato de um caso
cional, fonoaudiologia, nem exclusiva- psicanaliticamente tratado- sem dúvida
mente por lugar nenhum, nunca. Isso de modo brilhante, com interpretações
não quer dizer que um psicótico tenha invejáveis, que nós teríamos gostado
que ter quinze terapeutas. muito de ter feito - eu lhe perguntei: "e
ele vai à escola?" - uma pergunta ingê-
nua, inocente, sem nenhuma intenção
A FUNÇÃO COGNITIVA interpretativa. Pensei que ele ia respon-
N Ã O É AUTÔNOMA NEM der "sim, mas tem dificuldades...". Mas
não. O analista, como resposta, contou
AUTOMÁTICA isso: que ele tinha optado por contra-
indicar a freqüência à escola. Então eu
Dizíamos que a segunda razão pa-
indaguei: " bom, mas e a aprendizagem
ra a existência de escolas terapêuticas
dele?". Ele concluiu: "disso eu não me
para psicóticos reside num princípio da
ocupo". Eu compreendo isso, porque
cura. Vamos dar um exemplo para ficar
evidentemente não pode se ocupar de
mais claro. Uma vez um colega analista,
tudo, e além do mais, na posição trans-
que não trabalha de um modo interdis-
ferenciai de analista, ele não pode pro-
ciplinar e que trabalha com crianças,
duzir atos pedagógicos. Então ainda
me contou por generosidade, para fazer
insisto:" Mas eu não pergunto se você
um intercâmbio entre nós, um caso
se ocupa, eu pergunto se propõe que
muito interessante de um menino que
alguém se ocupe". E vem seu revide:
começou um tratamento com ele quan-
"Eu considero que a restituição da po-
do tinha quatro anos. Apresentava-se na
tencialidade simbólica, ou seja, a resti-
época com uma psicose e agora, nesse
tuição da posição de inscrição sucessiva
momento do relato, o menino já tinha
que lhe permita simbolizar é o funda-
oito anos e tinha deixado de ser psicóti-
mental, o resto vai crescendo. Minha
co. Essa última afirmação não é cem
resposta: "não, não vai crescer". Não é
por cento segura, já que teríamos que
uma derivação automática, porque o
esperar até adolescência para nos certi-
que durante oito anos ficou como saldo
ficarmos disto, mas poderíamos dizer
negativo na apropriação lógica do obje-
que era uma afirmação com boas chan-
to, este deficit lógico que se acumulou
ces de ser verdadeira. Pelo menos, cer-
durante oito anos não vai se saldar
tamente, o menino - ou melhor, o
automaticamente como num passe de
sujeito - aos oito anos não era o mesmo
mágica só pelo fato de ele agora dispor
que aos quatro. Evidentemente, dos
de uma posição que lhe permita sim-
quatro aos oito ele atravessou o mo-
bolizar. Ele vai ter que viver as exper-
mento de iniciação escolar com a idade
iências e passar pela experimentação
em que isso acontece. E efetivamente
que não atravessou, justamente porque
ele havia começado a ir à pré-escola,
não estava em condições de fazê-lo. E
não tinha ido antes a nenhum jardim de
se alguém não se ocupa de abrir-lhe
infância. Então, como era de se esperar,
caminho nessa direção, ele sozinho não
quando começou a freqüentar a pré-
vai poder. E, o que é ainda pior, vai
escola, apresentou muitas dificuldades
tropeçar com uma defasagem com relação às outras crianças de
oito anos. Uma defasagem que pode se tranformar numa ferida
narcísica, ou numa perda melancolizante. Porque ele vai tropeçar
com o fato de que o objeto do conhecimento, que seus pares con-
struíram nesses anos todos em que ele esteve dedicado a refazer
sua posição subjetiva, funciona para ele como um objeto definiti-
vamente perdido, já que essa desvantagem em relação aos outros
se lhe apresenta como se fosse irredutível. Ou seja, um objeto per-
dido que doravante vai acompanhá-lo sempre. A partir disto, ele
terá boas chances de se transformar num melancólico da apren-
dizagem, com as subseqüentes relações agressivas com os repre-
sentantes imaginários de sua perda, sejam eles objetos de conheci-
mento ou pessoas. Bem diferente seria sua situação se alguém
tivesse tido a paciência e dedicação de lhe ensinar na língua "es-
trangeira" que, por ser psicótico, ele falava. Nesse caso, os traços
residuais daquele objeto fragmentar de sua psicose, cultivados na
dimensão significante pelos mestres especializados, aquela lógica,
embora exercitada numa inevitável direção delirante ou autôni-
m a ^ , poderiam ser capturados no après coup dessa função sim-
bólica nele recentemente inaugurada. A sutura de sua desvan-
tagem em relação a seus pares seria, então, seguramente mais
provável. Esta é uma segunda e, em nosso parecer, decisiva razão
pela qual devem existir escolas para psicóticos.

UMA CONTROVÉRSIA INEVITÁVEL

Três razões que se conjugam trabalhosamente, por um lado,


com os perigos da discriminação e da marginalização, e, por outro
lado, com uma dura resistência familiar e social. Uma dura resistên-
cia freqüentemente formulada ora num falso democratismo que
confunde uma questão de sintoma com uma questão de direito, ora
num igualitarismo puramente imaginário, muito mais destinado a
satisfazer o narcisismo dos pais ou as aparências políticas do que
as verdadeiras necessidades clínicas das crianças que padecem
destas dificuldades. •

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund (1973). Un recuerdo infantil de Leonardo da Vinci. In-. Obras
completas, v.2, Madrid, Biblioteca Nueva [1910].

LACAN, Jacques (1981). Las Psicosis, Seminário III. Buenos Aires, Paidós.

LACAN, Jacques (1984). Aún, Seminário XX. Buenos Aires, Paidós.

PIAGET, Jean (1969). Biologia y Conocimento. Madrid, Siglo XXI.


NOTAS

(Este texto está inspirado num seminário proferido no Instituto de Psicologia


da Universidade de São Paulo, em 1996.)

1 KUPFER, M. Cristina, A presença da Psicanálise nos dispositivos institu-


cionais de tratamento da psicose. Estilos da Clínica. São Paulo, Instituto de
Psicologia da USP, ano 1, n. 1, 1996, p. 24-30.

2 Ver em DOSSE, Francois, História do Estruturalismo, São Paulo, Ensaio -


UNICAMP, 1994, vol.2, ps. 98 e 336, comentário sobre a posição clássica de
J. Piaget no estruturalismo e sua proximidade com as posições de Lucien
Goldmann.

3 Veja-se BADIOU, Alain, Sujeito e infinito, filosofia e política. Acontecimiento.


Buenos Aires, publicação coletiva "A pesar de todo" da Escuela Portena, n. 5,
1973- E também, Para uma nova teoria do sujeito, do mesmo autor.

4 Veja-se GRÉCO, Pierre. O Estruturalismo. Ciências Humanas. Buenos Aires,


CEAL, 1967.

5 Há pelo menos duas de suas obras que apontam nas direções aqui comen-
tadas: The variations of Animals and Plants under Domestication, del868, e
também The Expressions of the Emotions in Man and Animals, de 1872.

6 É plausível pensar que esta inquietação darwiniana tem sua origem nas
preocupações e na obra de seu avô Erasmus (1731-1802), médico, naturalista
e poeta inglês que sempre oscilou nos limites entre a ciência e a metafísica,
tentando explicar as relações entre a permanência e as mudanças no campo
biológico.

7 Note-se que, neste aspecto, tanto Lacan quanto Freud chegam bem mais
longe que J.Piaget no que se refere aos determinantes do pensamento no
sujeito, já que J. Piaget considera a herança somente nos seu desdobramentos
de geral e específica. Veja-se novamente PIAGET, Jean (1969). Biologia y
Conocimiento, op. cit.

^ Veja-se CAMPBELL, Joseph (1993). El héroe de las mil caras. Psicoanálisis


dei mito. México, Fondo de Cultura Econômica [ 19491- E do mesmo autor, Las
máscaras de Dios. Madrid, Alianza Editorial, 1991.

9 Caso relatado fragmentarmente pelo Dr. Jean Bergès em seminário proferi-


do em Buenos Aires, em 1984. Não é um caso de exceção já que ele responde
à dinâmica freqüente do ato criminoso praticado por psicóticos.

10 Ou bem da colagem do olho do outro no olho próprio, na formação


esquizofrênica. Lembre-se, como exemplo, o ato de arrancar os próprios olhos
praticado pela personagem do filme "Betty Blue". Ou quando a cena interdi-
tada fica colada nos próprios olhos, no caso do pesadelo que revela o auto-
engano d o neurótico, na metáfora clássica de Édipo furando seus olhos.
H É necessário fazermos notar que o conceito de simbolização ao qual esta-
mos nos referindo é próprio da psicanálise, e se diferencia marcadamente do
conceito de simbolização proposto por Jean Piaget.

12 Ver LACAN, Jacques. Las psicosis, Seminário 3, op.cit, p. 216 e seguintes.

13 Considerando a questão de um m o d o mais estrito, nem sempre que


aparece a erótica nas psicoses ela tem um caráter regressivo. Há momentos
em que tais manifestações constituem tentativas de penetrar no m u n d o adul-
to cavando um lugar de reconhecimento de seu ato (sexual) no discurso
social. Por sinal, a forclusão da lei simbólica, devido à oclusão da Função
Paterna, devolve violentamente esses atos - produzidos inicialmente como
uma tentativa simbólica - a uma dimensão puramente real, o que retorna o
gozo às suas formas primodiais, ou seja novamente infantis. Talvez isso
explique parcialmente a cara de satisfação, ou bem de tranqüilidade beatífica,
que se observa em psicóticos, q u a n d o são punidos juridicamente, após terem
cometido atos q u e conseguiram horrorizar a seus semelhantes. Tratar-se-ía ali
de um certo sucesso na tentativa de conseguir um estatuto simbólico para seu
ato.

13 JERUSALINSKY, Alfredo. Traumas de Adolescência. ImVários (1997).


Adolescência, entre o passado e o futuro. Porto Alegre, Artes e Ofícios.

14 Neste ponto tomamos como referência a vasta experiência desenvolvida


neste sentido por nosso já falecido colega Dr. Paulo C. Brandão, que costu-
mava dizer q u e o verdadeiro limite da clínica ou da escola, q u a n d o traba-
lhamos com crianças gravemente perturbadas, não são suas paredes mas o
bairro. Tomando o bairro, é claro, como circunscrição discursiva da cultura.

15 Referimo-nos aqui aos autônimos, ou seja aos significantes q u e geram seu


próprio sentido sem depender dos outros sgnificantes para estabelecer sua sig-
nificação