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Cristiane Seimetz Rodrigues

Flávia Valente

Aspectos Linguísticos
da Libras

IESDE Brasil S.A.


Curitiba
2011
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© 2010 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e
do detentor dos direitos autorais.

R 696a Rodrigues, Cristiane Seimetz. Valente, Flávia. / Aspectos Linguísticos da


Libras. / Cristiane Seimetz Rodrigues e Flávia Valente. — Curitiba :
IESDE Brasil S.A., 2011.
252 p.

ISBN: 978-85-387-1870-3

1. Libras. 2. Língua. 3. Linguagem. 4. Linguística. 5. Gramática. I. Título.

CDD 415

Capa: IESDE Brasil S.A.


Imagem da capa: IESDE Brasil S.A.

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Cristiane Seimetz Rodrigues

Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Federal de Santa Catarina


(UFSC). Graduada em Letras Português/Inglês pela Universidade do Extremo Sul
Catarinense. Atua como tutora de alunos surdos, orientando e revisando produ-
ções acadêmicas em nível de graduação e pós-graduação, com ênfase nas áreas
de Letras, Linguística, Tradução e Educação.

Flávia Valente

Especialista em Educação Bilíngue para Surdos pelo Instituto Paranaense de


Ensino – Maringá. Graduada em Letras Português/Inglês pelo Centro Universitá-
rio Campos de Andrade. Sua prática profissional envolve a formação continuada
dos profissionais da educação de surdos da rede estadual de Ensino do Paraná, a
valorização da participação social dos surdos e a difusão da língua de sinais.

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Sumário
Conhecendo uma língua ....................................................... 13
Linguagem versus língua ........................................................................................................ 13
Língua e comunicação animal .............................................................................................. 16
Funções da linguagem ............................................................................................................ 20
Os níveis de análise linguística ............................................................................................. 22

O status de língua da Libras.................................................. 31


A Libras enquanto língua ....................................................................................................... 31
As propriedades da língua na Libras .................................................................................. 36
Velhos, novos conhecidos: os mitos sobre a Libras ...................................................... 39
Para que estudar a Libras?...................................................................................................... 41
Sistemas de transcrição da língua de sinais..................................................................... 42

O nível fonológico .................................................................... 51


O que é fonologia? .................................................................................................................... 52
A organização fonológica da Libras ................................................................................... 53
Análise de configurações de mão ....................................................................................... 56
Para que uma fonologia da Libras? ..................................................................................... 64

O nível morfológico ................................................................. 75


O que é morfologia?................................................................................................................. 75
Processos de formação de palavras .................................................................................... 83
Flexão nas línguas de sinais................................................................................................... 90
O léxico da Libras ...................................................................................................................... 96

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O nível sintático I.....................................................................107
O que é sintaxe?........................................................................................................................107

O nível sintático II....................................................................131


Estruturas com foco e estruturas com tópico................................................................131
Estruturas negativas................................................................................................................141
Estruturas interrogativas.......................................................................................................143
Estruturas condicionais..........................................................................................................148
Estruturas relativas...................................................................................................................150

Tópicos em semântica aplicados à Libras.......................161


O que é semântica?.................................................................................................................161
Sinônimos e antônimos.........................................................................................................163
Hiponímia e hiperonímia.......................................................................................................167
Ambiguidade.............................................................................................................................168
Homonímia.................................................................................................................................170
Polissemia...................................................................................................................................172

Tempo e aspecto na Libras..................................................183


O que é tempo?........................................................................................................................183
O que é aspecto?......................................................................................................................185
Marcas de tempo na Libras...................................................................................................187
Marcas de aspecto na Libras................................................................................................192

Apontamentos úteis
ao cotidiano do tradutor-intérprete.................................203
O uso do espaço.......................................................................................................................203
A gestualidade na Libras.......................................................................................................213
Norma culta e padrão: níveis de (in)formalidade.........................................................215

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Classificadores..........................................................................227
Classificadores nas línguas faladas....................................................................................227
Classificadores nas línguas de sinais.................................................................................230
Tipos de classificadores..........................................................................................................230
Alguns empregos de classificadores na Libras..............................................................236

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Apresentação

Neste curso, caro estudante, você terá a oportunidade de refletir sobre uma
das características que separa o ser humano de qualquer outra espécie animal:
a língua. Perceberá, ao longo das discussões, que existe um fenômeno, chamado
linguagem, no qual as línguas se inserem. Entre as várias línguas existentes, há
similaridades e singularidades, o que se depreende, por exemplo, das inúmeras
comparações entre a Libras e a língua portuguesa durante o desenvolvimento
das aulas-texto contidas no seu material impresso.

Estar a par das diferenças e semelhanças entre as línguas citadas acima é uma
condição necessária para que a Libras seja respeitada quanto ao seu estatuto de
língua independente, o que lhe atribui a possibilidade de ser estudada sob um
ponto de vista científico, de modo a desmistificar quaisquer mitos ainda existen-
tes em relação a ela. Além disso, aos que pretendem se tornar usuários fluentes
dessa língua visual, é imprescindível conhecer as particularidades da Libras, as-
sunto do qual esta disciplina também se ocupa.

Assim, na primeira aula, você encontra uma discussão sobre os conceitos de


língua e linguagem a partir dos pressupostos teóricos da linguística geral. Com
o desenrolar de cada conteúdo explorado neste material, você verificará que há
perspectivas teóricas variadas a partir das quais uma língua pode ser estudada,
razão pela qual o olhar lançado para cada fenômeno aqui abordado pode variar,
apresentando mais de uma explicação possível. Todavia, também ficará clara, du-
rante este percurso, a escassez de estudos sobre a Libras. Não há erro em dizer, tal
como tratado na segunda aula, que muitos dos esforços iniciais de estudo sobre
essa língua tinham como foco comprovar que ela se trata, de fato, de uma língua.
Com esse objetivo em mente, muitos pesquisadores e linguistas se dedicaram
à tarefa de descrever/descobrir as propriedades linguísticas das línguas visuais,
ocupando-se, mormente, dos níveis fonológico, morfológico e sintático de aná-
lise, os quais são explorados nos capítulos 3, 4 e 5, respectivamente. A aula 6 se
ocupa da discussão também de elementos sintáticos, mas direciona o foco para
os fenômenos linguísticos cuja utilização requer o emprego de marcações não
manuais, uma característica muito importante de línguas visuais como a Libras.

Na sequência, a aula 7 trata de um tópico ainda pouco explorado na Libras, a


questão do significado, que, de certa forma, também é alvo de discussão quando
da exposição das categorias de tempo e aspecto nessa língua, objeto de estudo
da aula 8. As aulas 9 e 10 se ocupam de fenômenos linguísticos da Libras que não
são vistos na língua portuguesa, como o caso dos classificadores, por exemplo.
Entrecruzam-se, nessas duas aulas, os níveis de análise linguística vistos ante-
riormente, o que resulta numa exposição bastante rica linguisticamente e numa
visão de quão complexa e completa é a Libras.

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Por fim, não é demais recomendar que você, estudante, encare cada aula como
um mundo a ser desvendado, prepare-se para isso, estude com afinco, procure
estabelecer conexões com o conteúdo explorado nas aulas e os conhecimentos
acumulados sobre sua própria língua (e outras línguas que, porventura, co-
nheça), e, claro, dispa-se de qualquer “pré-conceito” sobre como uma língua deve
ser. Assim, você estará pronto para desfrutar ao máximo do material apresentado.
Bons estudos!

As autoras

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Conhecendo uma língua

As tentativas de explicação para o fenômeno da língua (ou línguas),


bem como o interesse sobre ela, são muito antigos. Não são poucos os
mitos e lendas que foram criados para justificar essa faculdade presente
na espécie humana. A narrativa contida em Gênesis é um exemplar de
uma busca sobre como explicar a origem da língua, assim como a narrati-
va da Torre de Babel, também bíblica, procura justificar o porquê de haver
tantas línguas diferentes. Em diversas culturas, houve essa busca por ex-
plicações, que, inicialmente, era suprida pelo mito. Houve um período de
milhares de anos para que a língua começasse a ser estudada sob uma
perspectiva científica. Nesse período, a humanidade lançou diferentes
olhares sobre a língua: o místico, o filosófico, o psicológico, o social, o an-
tropológico, o físico etc., até, finalmente, se chegar à ciência incumbida de
estudar a língua como um objeto em si mesma, a Linguística. É por meio
dessa ciência que serão apresentados aqui os conceitos de linguagem e
língua, de modo que você, estudante, seja capaz de compreender a dife-
rença entre esses dois fenômenos.

Linguagem versus língua


A primeira questão a ser esclarecida diz respeito à condição a que toda
definição teórica se submete. Cada linha de estudo da Linguística, em in-
teração com outras ciências, vai dar uma definição de língua que privile-
gia um de seus múltiplos aspectos. Assim, a interface entre a Linguística
e a Biologia vai preferir definir a língua como parte da dotação genética
da espécie humana; a interface da Linguística com a Sociologia vai dar
mais ênfase aos aspectos socioculturais da língua; a interface da Linguísti-
ca com a Psicologia vai definir a língua como parte da cognição humana.
Além disso, dentro de cada uma dessas interfaces, desenvolvem-se várias
teorias diferentes. E cada teoria vai preferir definir língua de uma manei-
ra especial, que esteja mais de acordo com suas hipóteses. Portanto, não
existe uma única definição de língua e linguagem que possa ser aplicada
indiscriminadamente. A definição desses conceitos precisa ser entendida,
então, no âmbito de uma teoria particular.
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Conhecendo uma língua

De forma a se poder discutir sobre língua e linguagem, optou-se pela apre-


sentação de duas propostas: a de Ferdinand de Saussure (1857-1913) e a de
Noam Chomsky. A escolha se deu em virtude de esses teóricos serem conside-
rados os grandes “divisores de água” nos estudos linguísticos do século XX, bem
como serem também os mais conhecidos e discutidos.

Tanto a teoria saussuriana quanto a teoria chomskyana não só definem língua


de uma maneira particular, mas também têm visões completamente diferentes
sobre o que é a linguagem. Para Saussure, linguagem é uma faculdade humana,
uma capacidade que os homens têm para produzir, desenvolver, compreender
a língua e outras manifestações simbólicas semelhantes a ela. Esse autor via a
linguagem como um sistema muito mais amplo e abrangente do que Chomsky,
para quem a linguagem, ou a faculdade da linguagem, expressão por ele empre-
gada, é um módulo da mente especificamente associado à língua, e não a outras
linguagens (como a pintura, a música, a dança etc.).

Outro ponto marcante nesse quesito é a falta de especificidade de Saussure


a respeito do que seria essa faculdade que ele chama de linguagem. Especifici-
dade que não faltou a Chomsky ao delimitar a faculdade da linguagem como um
módulo cognitivo independente, especificamente associado à língua. Na visão
de Chomsky, a faculdade da linguagem deve ser o objeto central do estudo de
uma teoria linguística. Posicionamento oposto ao de Saussure, para quem o
objeto da Linguística é a língua.

Saussure entende que, de todas as manifestações da faculdade da lingua-


gem, a língua é a que mais bem se presta a uma definição autônoma. Por isso,
ela ocupa um lugar de destaque entre as manifestações da linguagem, e, como
tal, deve ser tomada como base para o entendimento de todas essas outras ma-
nifestações. Daí, hoje em dia, a Semiótica, que é a ciência que estuda todas as
manifestações da faculdade da linguagem, partir sempre de análises feitas sobre
a língua. O autor argumentava, segundo Petter (2007, p. 14), que:
A linguagem envolve uma complexidade e diversidade de problemas que suscitam a análise
de outras ciências, como a Psicologia, a Antropologia etc., além da investigação linguística, não
se prestando, portanto, para objeto de estudo dessa ciência. Para esse fim, Saussure separa
uma parte do todo linguagem, a língua – um objeto unificado e suscetível de classificação.

A complexidade e diversidade de problemas, apontados por Saussure, que


suscitam a análise de outras ciências tem a ver, segundo ele, com o caráter “he-
teróclito e multifacetado” da linguagem. Por meio de tal caracterização, o autor
pretendia dar conta de que a seu ver a linguagem abrange vários domínios, é

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Conhecendo uma língua

ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica; pertence ao domínio individual e


social. Em contraposição à língua, que considerava um objeto passível de estudo
pela unidade apresentada. A língua, por sua vez, é definida pelo autor como “um
conjunto de convenções necessárias, adotada pelo corpo social para permitir o
exercício dessa faculdade nos indivíduos” (1969, p. 17, apud PETTER, 2007, p. 14).
Isso implica que, para Saussure, a língua é social e, por conseguinte, convencio-
nal, isto é, um acordo coletivo aceito entre os falantes da língua.

Esse acordo se revela, toma a forma, segundo o autor, de um sistema. Um


sistema é um conjunto organizado de elementos, que se define pelas caracte-
rísticas desses elementos, e no qual cada elemento se define pelas diferenças
que apresenta em relação a outro elemento, e por sua relação com todo o con-
junto. Cada elemento da língua se define pela diferença que apresenta quando
comparado a outro elemento. Sob essa perspectiva, na língua portuguesa “p”
se define por sua oposição a “b” e a todos os outros elementos dessa língua.
Saussure ainda trata da diferença entre língua e fala: esta seria o resultado da-
quela, sendo que a fala é considerada individual, no sentido de que apresentará
características particulares, próprias a cada falante. A língua, defende o autor, é
condição para se produzir a fala, mas não há língua sem o exercício da fala.

Após esse panorama sobre o pensamento saussureano quanto às noções de


linguagem, língua e fala, cabe dizer que, depois de Saussure, os estudos linguís-
ticos assumiram um viés eminentemente social. Posição que foi revista a partir
da divulgação das ideias de Chomsky, que ressaltavam a importância da inves-
tigação das relações entre mente e língua. Se na teoria saussuriana a língua é
considerada um objeto fundamentalmente social, na Gramática Gerativa, teoria
elaborada por Chomsky, a língua é um objeto mental.

De uma forma mais radical do que outros pesquisadores que o antecederam,


o autor parte da hipótese de que existe um módulo linguístico em nossa mente,
constituído de princípios responsáveis pela formação e compreensão das expres-
sões linguísticas, e especificamente dedicado à língua. Para ele, o foco não está
na língua propriamente dita, mas nos recursos, princípios que permitem a cons-
trução, aprendizagem de uma língua em particular. Por isso, para a Gramática Ge-
rativa, a noção de língua está fortemente associada ao estado inicial da faculdade
da linguagem e aos resultados do desenvolvimento desse estado inicial pelo con-
tato com um determinado ambiente linguístico. Essa faculdade da linguagem de
que o autor fala seria inata, todos os seres humanos nasceriam com ela. Por meio
dela é que o ser humano pode aprender uma língua – ou mais de uma –, no está-
gio de aquisição linguística, desde que seja exposto a uma dada língua.

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Essa capacidade inata apontada pelo autor leva também à diferença entre
competência linguística e desempenho linguístico. A primeira diz respeito ao
conhecimento do sistema linguístico que o falante tem de sua língua e que lhe
permite produzir o conjunto de sentenças da mesma. É um conjunto de regras
que o falante construiu em sua mente pela aplicação de sua capacidade inata
para a aquisição da língua que ouviu desde a infância. O desempenho é o com-
portamento linguístico resultante daquelas regras aliadas a outras variantes:
convenções sociais, crenças, atitudes emocionais do falante quanto ao que diz,
pressupostos sobre as atitudes do interlocutor, condições fisiológicas (de fona-
ção) etc. A competência é o que o falante, inconscientemente, sabe sobre sua
língua; o desempenho é o uso, ou melhor, é o resultado do uso que ele faz desse
saber, conhecimento. Para Chomsky, o desempenho pressupõe a competência,
mas a competência não pressupõe o desempenho.

Para encerrar essa seção, é possível dizer, com base no exposto, que as lín-
guas naturais, em número muito diversificado, são manifestações de algo mais
geral, a linguagem, e que as línguas são um meio de interpretar, organizar e
categorizar o mundo, atribuir sentido ao que está ao nosso redor, sendo que
cada língua pode focar ou realçar partes diferentes de uma mesma realidade.
Por exemplo, em países em que a ocorrência de neve é constante, os falantes
possuem, muitas vezes, palavras específicas para certos tipos de neve, o que não
é muito comum em países em que a neve não faz parte do cotidiano dos falan-
tes, os quais acabam empregando apenas uma palavra ou um menor número
de palavras relacionadas ao conceito de “neve”. Essa capacidade de interpretar
e fazer um recorte do mundo é, aliás, disponível apenas para os seres humanos,
como será visto a seguir.

Língua e comunicação animal


O estudo da comunicação animal permite avaliar, pelo confronto, a singu-
laridade da linguagem humana. Como se verá, o ser humano é a única espé-
cie a deter um sistema de comunicação, uma linguagem tão complexa, única, a
língua. Para ilustrar o problema da comunicação animal, será tomado como base
para discussão o caso das abelhas.

Segundo Petter (2007, p. 15-16), um estudo clássico sobre o sistema de co-


municação das abelhas revelou que:
[...] a abelha-obreira, ao encontrar uma fonte de alimento, regressa à colmeia e transmite
a informação às companheiras por meio de dois tipos de dança: circular, traçando círculos

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horizontais da direita para a esquerda e vice-versa, ou em forma de oito, em que a abelha


contrai o abdome, segue em linha reta, depois faz uma volta completa à esquerda, de novo
corre em linha reta e faz um giro para a direita, e assim sucessivamente. Se o alimento está
próximo, a menos de cem metros, a abelha executa uma dança circular, se está distante, realiza
uma dança em forma de oito.

Embora seja bem preciso, o sistema de comunicação das abelhas não consti-
tui uma linguagem no sentido em que o termo é empregado quando se trata de
linguagem humana. Isso por que existem diferenças entre o sistema de comuni-
cação das abelhas e a linguagem humana que coloca aquele em posição muito
distante do que pode ser considerado uma língua. Primeiramente, a mensagem
da abelha não provoca uma resposta, apenas uma conduta, portanto, não há
diálogo. Aliás, o tipo de conduta resultante – a busca pelo alimento – é sempre
a mesma. No caso da espécie humana, as respostas e condutas possíveis após
a recepção de uma mensagem são inúmeras e imprevisíveis. Essa não possibi-
lidade de mudança de conduta, em certa medida, tem relação com o fato de
que a comunicação da abelha se refere apenas a um dado objetivo, fruto da
experiência. A abelha não constrói uma mensagem a partir de outra mensagem.
A linguagem humana caracteriza-se por oferecer um substituto à experiência,
apto a ser transmitido infinitamente no tempo e espaço.

Outra diferença drástica tem a ver com o conteúdo da mensagem. Entre as


abelhas, o único conteúdo comunicado é o alimento, residindo na distância
e na direção a única variação possível. Com sua língua, o homem pode versar
sobre assuntos que vão da obtenção de alimento à reflexão sobre sua existência.
Afinal, o conteúdo da linguagem humana é ilimitado. Finalmente, a mensagem
das abelhas não se deixa analisar, decompor em elementos menores.

Na verdade, esse é o fato da linguagem humana, a língua, que mais a difere


da comunicação das abelhas. A propriedade de articulação da língua em níveis
é o que permite ao ser humano produzir uma infinidade de mensagens novas
(sentenças, textos) a partir de um número limitado de elementos sonoros distin-
tivos (os fonemas, sobre os quais se falará mais à frente). O mesmo é válido para
a Libras, que combina um número limitado de elementos visuais para produzir
mensagens novas infinitamente.

Com isso, pode-se concluir, sem medo de errar, que a comunicação das abe-
lhas não é linguagem no sentido em que se fala de uma linguagem humana.
Alguns de vocês podem estar considerando a comparação com as abelhas um
tanto “injusta”, principalmente se se lembraram dos papagaios. A essa altura,
a pergunta que alguns gostariam de fazer é: Mas e o caso dos papagaios, que
falam?

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Conhecendo uma língua

A verdade é que animais como o papagaio, a catatua etc. têm a capacidade


de imitar os sons que ouvem. E “a fala” nesses animais nada mais é do que uma
reprodução, uma cópia. Eles não são capazes de aplicar um dado enunciado
a contextos diferentes, não são capazes de inovar. Por exemplo, um papagaio
pode reproduzir perfeitamente, se as ouviu, as frases “O copo caiu” e “O menino
chegou”. Mas ele nunca, sem ter ouvido, ao contrário de uma criança de três
anos, poderia aprender a partir dessas frases e produzir “O menino caiu”. Agora,
resolvida a questão da comunicação/linguagem dos animais, é hora de conhe-
cer as características que tornam a linguagem humana – a língua – um fenôme-
no tão singular, único.

A natureza da língua: suas propriedades


Todas as línguas naturais compartilham características que lhes são únicas e
que as identificam enquanto língua, diferenciando-as de outros sistemas de co-
municação. Nesse sentido, é possível identificar, por meio dessas características, se
um dado sistema de comunicação se trata de uma língua. Entre os linguistas, há
consenso sobre algumas propriedades que estão presentes nas línguas. São elas:

 Flexibilidade e versatilidade: trata-se do fato de a língua poder ser usada


para comunicar os mais diversos conteúdos para os mais variados fins. A
linguagem humana pode ser usada para obter alimento ou simplesmente
para entreter as pessoas, pode versar sobre assuntos como política, filoso-
fia, emoções e até mesmo coisas imaginadas, que não foram experiencia-
das pelo ser humano.

 Arbitrariedade: diz respeito à característica de que não existe uma rela-


ção direta entre uma palavra (significante) e seu conceito (significado). Por
isso, não é possível determinar o significado de uma palavra apenas pela
forma que ela apresenta, da mesma forma como não é possível esperar
uma dada forma para um significado em específico. Por exemplo, nada
na forma da palavra “elefante” remete ao seu significado. Reflita que não
é possível, então, para um aprendiz estrangeiro do português conseguir
alcançar o significado da palavra “elefante” apenas entrando em contato
com a palavra. De nada adiantará a ele especular sobre a forma da palavra
para chegar ao seu significado, pensamentos como “se a palavra é grande,
deve se tratar de um objeto grande”, “se a palavra tem uma sonoridade
desagradável, trata-se de um significado igualmente desagradável” não o
ajudarão a saber qual o conceito a que determinada palavra remete.

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 Descontinuidade: pequenas diferenças na forma das palavras, por exem-


plo, podem gerar grandes diferenças no significado. Observe a diferença
entre “lata” e “pata”. A mudança de um segmento na palavra, o “p” pelo “l”,
levou a um significado totalmente diverso. Isso mostra o caráter descon-
tínuo da diferença formal entre forma e significado. Ou seja, não necessa-
riamente uma mudança pequena na forma levará a uma mudança peque-
na no significado. Na verdade, pequenas mudanças na forma (fato X foto;
vaca X faca; bola X cola) podem levar a grandes variações de significado.

 Criatividade/produtividade: característica que permite ao usuário de


uma língua produzir um número infinito de enunciados a partir de um nú-
mero limitado de elementos por meio da combinação e recombinação dos
mesmos. A língua põe à disposição de seus usuários um número determi-
nado de elementos (fonemas, morfemas, estruturas sintáticas) a partir dos
quais os usuários podem criar sentenças num número infinito. E isso mes-
mo que o usuário nunca tenha ouvido um dado enunciado em particular
antes. Isso significa que um falante do português não precisa ouvir a frase
“A casa amarela é bonita” para produzi-la. Ele pode enunciá-la após ter ou-
vido sentenças como “A casa é amarela” e “A casa é bonita”, pois empregará
a capacidade de criatividade e produtividade que a língua lhe oferece.

 Dupla articulação: as línguas se constituem da junção de elementos


menores, por isso sua análise é possível em dois planos. O do conteúdo/
significado e o da expressão/forma linguística. Assim, o primeiro plano é
constituído por unidades dotadas de sentido e a menor dessas unidades
chama-se morfema. Por exemplo: “padeiro” (pessoa que faz pão) pode
ser subdividido em [pad–] (de pão) e [–eiro] (designa a pessoa que faz
algo), em que [pad–] e [–eiro], mesmo isoladamente, remetem a um sig-
nificado. Nessa primeira articulação da linguagem, as unidades são com-
postas de matéria fônica e sentido, ou seja: significado + significante.
No segundo plano, pode-se dividir os morfemas em unidades ainda me-
nores e, nessa etapa, as unidades ficam desprovidas de sentido passando
a serem chamadas de fonemas. Assim, [pad–] pode ser analisado quanto
aos seus fonemas /p/, /a/, /d/, que, isoladamente, não possuem significado,
são apenas distintivos entre si. A dupla articulação é um fator de economia
linguística, pois com poucas dezenas de fonemas formam-se diversas uni-
dades de primeira articulação.

 Padrão: estabelece a maneira como os elementos da língua devem ser or-


ganizados na produção dos enunciados e palavras, ditando as regras para
o que pode “andar junto” e a ordem em que aparecem no enunciado ou
palavra. Desse modo, a partir das palavras “casa”, “o”, “telhado”, “quebrou”
e “da” podem ser produzidos os enunciados “O telhado da casa quebrou”,
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“Quebrou o telhado da casa”, “Da casa, quebrou o telhado” ou “Da casa, o


telhado quebrou”, todas sentenças aceitas como bem organizadas, bem
construídas por falantes do português. O mesmo não acontece com: “Da
telhado, o casa quebrou”, “Casa quebrou o telhado da”, “Da quebrou o te-
lhado casa”.

 Dependência estrutural: as línguas contêm estruturas dependentes que


permitem o entendimento da estrutura interna de uma sentença, inde-
pendente do número de elementos linguísticos envolvidos. Observe:

O prédio queimou.

O prédio da esquina queimou.

O prédio da esquina que eu vi construir queimou.

O prédio da esquina que eu vi construir quando era jovem queimou.

O prédio da esquina que eu vi construir quando era jovem queimou ontem.

Pelo fato de que uma estrutura depende da outra é que conseguimos en-
tender os enunciados acima. Como bons usuários do português, enten-
demos que “da esquina” está vinculado ao prédio da mesma forma que
“eu vi construir” e “quando era jovem”, sendo que isso não impede que o
conteúdo fundamental – “o prédio queimou” – seja compreendido.

Outro ponto a ser visitado se trata das funções da linguagem, ou seja, para
que empregamos a língua, assunto tratado na próxima seção.

Funções da linguagem
Quanto à característica da versatilidade das línguas naturais vista na seção
anterior, cabe um aprofundamento no que diz respeito às funções da lingua-
gem, isto é, os usos que podem ser feitos da linguagem verbal – língua. Quem
muito contribuiu para o estabelecimento das funções da linguagem foi Roman
Jakobson (1896-1982), que acreditava que a linguagem deve ser examinada
em toda variedade de suas funções. Para apontar as diferentes funções, o autor
levou em conta em que elemento (remetente, destinatário, referente, mensa-
gem, contato e código) do processo comunicativo por ele proposto estaria cen-
trada a comunicação:

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Conhecendo uma língua

 Função emotiva: centrada no remetente, isto é, em quem produz o que


é comunicado. A informação é repassada de forma subjetiva, do ponto de
vista do falante, de acordo com suas crenças e/ou sentimentos.

 Função conativa: centrada no destinatário, quem recebe o que é comu-


nicado. Nessa função, a intenção é estabelecer a ideia de interação com o
destinatário da comunicação. Tem por finalidade, muitas vezes, conven-
cer, persuadir, provocar algum tipo de resposta ou atitude (verbal ou não)
por parte do destinatário.

 Função referencial: centrada no referente, na informação, conteúdo da


comunicação estabelecida. Textos com essa função têm como finalidade
a transmissão objetiva da informação.

 Função poética: centrada na mensagem, na sua apresentação, sua forma


de expressão. Nela, o objetivo é criar uma forma de expressão, de uso da
língua, peculiar, inovadora, que chama atenção mais pela maneira de di-
zer do que propriamente pelo que é dito.

 Função fática: centrada no contato. Aqui a finalidade é manter o contato


entre remetente e destinatário, sendo que essa função apresenta estra-
tégias para avaliar o quanto os participantes do processo comunicativo
estão realmente interessados na comunicação estabelecida. São comuns
expressões como: “Você está escutando?”, “Entendo o que você está ten-
tando dizer”, “Como vai?”, “Tudo bem”.

 Função metalinguística: centrada no código, no próprio sistema linguís-


tico. Essa função permite que se façam reflexões sobre a língua, sobre suas
características, seus usos. É, em última análise, usar a língua para falar da
própria língua.

É importante observar, ainda, que as mensagens, comunicações, textos não


apresentam apenas uma função da linguagem, mas várias, ou mesmo todas,
só que de forma hierarquizada. Isso significa que, mesmo concorrendo em um
mesmo texto várias funções, existe uma dominante. Por fim, os textos-mensa-
gens-comunicações empregam procedimentos linguísticos e discursivos que
produzem efeitos de sentido relacionados com as diferentes funções, permitin-
do identificá-las.

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Os níveis de análise linguística


Os estudos linguísticos podem ser feitos em diferentes níveis, cada um ocu-
pando-se de uma parte do sistema linguístico, podendo abordá-las, e geralmen-
te o fazendo, de forma independente. Nesta seção, o intuito é apresentar um
panorama de cada um desses níveis, o objeto de que se ocupam (a parte do
sistema linguístico) e maneira como o tratam.

Fonética e fonologia
A fonética e fonologia são dois níveis cuja análise se entrecruza, trabalhando
a partir de um “mesmo” ponto de partida, o som. A fonética é a área da Linguísti-
ca que se ocupa da descrição e análise da massa amorfa (sem forma, que não se
distingue, indecifrável) fônica. Seu objeto de estudo é o som, como ele é produ-
zido, quais as características dos sons da fala (fones), língua, que os diferencia de
outros sons (música, barulhos, grunhidos etc.). Nesse nível não há preocupação
com significado, com o valor dos sons para uma língua em particular, apenas com
características físicas, acústicas e articulatórias da fonação (emissão dos sons da
fala). A fonologia, por outro lado, trabalha com sons, mas não apenas isso, não
apenas o som em si mesmo. Antes, está preocupada em descrever o valor de
determinados sons para línguas em particular. Na fonologia, então, estuda-se o
caráter propriamente linguístico desses sons. Isso significa que os sons são ana-
lisados em termos das relações que eles estabelecem entre si, e dos valores que
eles têm dentro de um determinado sistema linguístico.

Para identificar se um som tem ou não valor no sistema de uma língua, é


preciso descobrir se ele é capaz de distinguir significados. Se a troca de um som
por outro dentro de um mesmo contexto resultar na mudança de significado de
uma palavra, trata-se de um som que tem valor linguístico, portanto, um fonema.
Caso contrário, não havendo mudança de significado com a troca do som num
mesmo contexto, está-se diante de um fone. Desse modo, /t/ e /d/ são fonemas
porque sua alternância na palavra leva à mudança de significado, conforme evi-
dencia o par [tato] versus [dado]. Já a diferença entre a pronúncia da palavra
leite entre catarinenses [1 – em que o fonema /t/ é pronunciado com uma
espécie de “chiado”, representado pelo fone [– e paranaenses [] não é alvo
da fonologia, posto que não leva a mudança de significado, e sim objeto da fo-
nética, que vai descrever como esses dois sons são produzidos.
1
Caro aluno, a partir daqui utilizaremos nas transcrições fonéticas o Alfabeto Fonético Internacional criado pela Associação Fonética Internacional,
que se trata de uma padronização da representação dos sons da fala. Para maiores esclarecimentos a respeito dele ver o livro Introdução à Linguís-
tica II, de José Luiz Fiorin, presente nas dicas de estudo desta aula.

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Morfologia
Acima dos níveis fonético e fonológico, há o morfológico, tradicionalmente
identificado como a área responsável pelo estudo da palavra. Nesse nível, a aten-
ção recai para como os fonemas se combinam para formar morfemas e como
estes formam as palavras.

Para uma melhor compreensão, é preciso que se tenha em mente que o mor-
fema é a menor unidade significativa linguística, ou seja, uma função que une
um significante a um significado. Não esqueça de que o fonema distingue sig-
nificados, mas ele mesmo não carrega significado. Uma palavra do português
como “sim”, por exemplo, é um morfema. Ela não pode ser dividida em unidades
menores, que tenham significante e significado. Já uma palavra como “cozinhei-
ro” é composta por três morfemas: [cozinh–], [–eir–], e [–o]. Cada um desses mor-
femas apresenta um significante (a forma, o próprio morfema) e um significado
(o conceito, ideia veiculada pelo morfema): [cozinh–] significa um local em que
se cozinha; [–eir–] significa, entre outras coisas, alguém que trabalha com um
determinado objeto ou em uma dada área; e [–o] é o morfema que significa o
gênero masculino.

Muitas outras palavras do português são formadas de maneira semelhante:


confeiteiro, pedreiro, joalheiro etc. Isso leva ao fato de que estudar os morfemas,
identificá-los, saber como se unem e quais significados carregam permite en-
tender como são formadas as palavras de uma língua, permite prever que tipos
de produções de novas palavras (neologismos) são boas (respeitam as regras
de formação de palavras) numa dada língua. Por exemplo, para os falantes do
português, formações como amável, respeitável, admirável (amar + vel, e assim
sucessivamente) são consideradas como boas, pertencentes a sua língua. O
mesmo não se dá com formações como corrível (correr + vel), falável (falar +
vel), brincável (brincar + vel). O papel da morfologia, nesse caso, é explicar por
que usuários do português produzem o primeiro grupo e o aceitam como boas
formas da língua e por que o segundo grupo, embora suscetível de ser produ-
zido, não o é, e quando o é, recebe um olhar de estranhamento dos usuários do
português, que não identificam as palavras do último grupo como pertencentes
à sua língua.

Sintaxe
No nível de análise sintático, o objetivo é descobrir as regras internas da
língua que regem a estruturação dos enunciados, isto é, como as palavras se
organizam para formar sentenças. Note que não se está falando das regras da

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gramática tradicional, pautadas muito mais em noções de certo e errado, feio e


bonito, do que em apontar o que é próprio da organização de uma dada língua.
Nesse sentido, enquanto as gramáticas normativas estabelecem o que pode e
como deve ser dito, criando a norma padrão ou culta de uma língua, a sintaxe,
enquanto ciência, está interessada em apontar por que organizamos uma dada
sentença de uma maneira e não de outra. Na sua condição de ciência, de campo
de estudo filiado à Linguística, a sintaxe pode ser estudada sob perspectivas,
teorias diferentes. Dentre as várias possibilidades, destacaram-se, ao longo da
tradição dos estudos linguísticos, a análise sintática formal, cujo representante
mais conhecido é a Gramática Gerativa, e a análise funcional, expressão sob a
qual residem diferentes teorias e cuja unicidade é difícil traçar.

O gerativismo, ao eleger as regras que regem o sistema da língua como seu


objeto, dá prioridade à competência do falante e relega a outros campos do
estudo linguístico o desempenho, o uso. Com isso, essa abordagem pratica uma
separação entre conhecimento linguístico e processamento linguístico e limita-se a
estudar o primeiro, descrevendo-o como comportamentos linguísticos determi-
nados por estados da mente. Por sua vez, o funcionalismo, ao preconizar a língua
como resultado do uso comunicativo e por admitir que este envolve capacida-
des humanas de níveis mais elevados do que a capacidade linguística propria-
mente dita, permite estudar não apenas como se dá o conhecimento linguístico,
mas principalmente como ele é processado.

Semântica e Pragmática
A formação de palavras, bem como a formação de sentenças, implica na vei-
culação de significados. Estes são objeto de estudo da Semântica. O problema é
que não é fácil definir o conceito de “significado”. Além disso, como a questão do
significado está fortemente ligada à do conhecimento, outro problema que se
levanta é o da relação entre linguagem e mundo, e de que forma o conhecimen-
to se torna possível. Como não há consenso entre os linguistas sobre essas ques-
tões, há várias semânticas. Cada uma, consequentemente, elege a sua noção de
significado, responde diferentemente à questão da relação entre linguagem e
mundo e constitui, até certo ponto, uma teoria fechada, incomunicável com as
outras. Muitos linguistas gostam de fazer uma separação entre Semântica e Prag-
mática. De maneira geral, para eles, a Semântica trata da significação linguística
independentemente do uso que se faz da língua. A Pragmática, por outro lado,
teria como objeto o estudo da significação construída a partir do momento em
que a língua é posta em uso, ou seja, em uma determinada situação de fala.

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Outros linguistas preferem não estabelecer uma distinção tão clara entre as duas
áreas de pesquisa, na medida em que acreditam que a significação das expres-
sões linguísticas só se constrói por inteiro quando a língua é posta em uso.

Com isso, pode se considerar finalizado o panorama proposto sobre os níveis


de análise linguística. Convém observar a utilidade dos estudos linguísticos, em
seus variados níveis, à atuação do tradutor e intérprete. Conhecer as línguas en-
volvidas no ato tradutório, para além do conhecimento que permite que elas
sejam usadas pelo tradutor, possibilita que muitas decisões de cunho linguístico
possam ser tomadas com base em análises linguísticas, sem medo de estar in-
fringindo a constituição das línguas envolvidas no processo.

Texto complementar
E se... o mundo falasse a mesma língua
(ALMEIDA, 2002)

Imagine se, de comum acordo, todos os habitantes da Terra falassem um


só idioma. Você poderia tomar um avião no Brasil, descer no Japão e se en-
tender com todo mundo. Para alguns estudiosos, esse seria o fim de muitos
desentendimentos. A Bíblia, por exemplo, diz que a harmonia entre os povos
acabou na Torre de Babel, quando, por um castigo divino, pessoas que antes
falavam a mesma língua passaram a ter diferentes idiomas. Desde então, nin-
guém mais se entendeu, diz o texto.

Mas uma língua unificada teria vida breve. Em pouco tempo, cada grupo
selecionaria os termos adequados ao seu ambiente e à sua cultura, diferen-
ciando novamente as linguagens. Enquanto os idiomas têm entre 2 000 e
20 000 palavras, uma língua mundial precisaria de mais de 25 000 termos,
para absorver, por exemplo, as 40 palavras que os esquimós dão para a cor
branca. No Saara, essas palavras seriam abandonadas em breve. “O latim era
uma língua unificada, mas dele saíram 10 ou 12 línguas latinas”, diz o profes-
sor de Filologia Românica da USP, Bruno Fregni Bassetto. É o que explica as
diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal.

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Já houve tentativas, fracassadas, de criar uma língua universal. Filósofos


como Voltaire, Montesquieu e Descartes foram alguns dos que tentaram. Uns
achavam que o idioma único deveria ser totalmente novo. Outros, que ele de-
veria ser formado de palavras já existentes, combinadas. Mas em um ponto
eles concordavam: não é possível impor a todos uma língua já existente. O
esperanto, criado em 1887 pelo polonês Lázaro Zamenhof e hoje adotado
por três milhões de pessoas, foi o mais próximo que se chegou desse sonho.
Mas mesmo seus adeptos, espalhados por mais de cem países, o consideram
uma segunda língua, que se deve aprender sem perder o idioma natal.

A difusão dessa língua mundial seria delicada. E, com certeza, não have-
ria mistura com os idiomas locais. Onde houvesse resistência, a linguagem
original simplesmente predominaria. Trata-se de uma verdade histórica: as
línguas nunca se fundem – uma sempre predomina e a outra desaparece. Foi
o que houve na Gália, terra de Asterix e Obelix, onde viviam os celtas, com
sua própria língua. Quando os romanos conquistaram a região, impuseram o
latim, que foi adotado. Com mudanças de pronúncia e enxertos de palavras,
mas ainda latim.

Há quem defenda a tese de que já se falou um idioma universal, quando a


linguagem foi inventada pela humanidade. Mas essa é uma grande polêmi-
ca. Alguns pesquisadores acham que a raça humana surgiu na África e, dali,
se espalhou pelo resto dos continentes. Outros supõem que povos diferen-
tes surgiram em várias regiões, cada um com sua língua. No primeiro caso, as
línguas teriam uma origem comum. No segundo, não.

“Tudo o que sabemos sobre a linguagem parte do que a língua é hoje. O


resto é especulação”, diz Carlos Alberto Faraco, professor de Linguística da
Universidade Federal do Paraná. De certo, sabe-se que, no passado, houve
um povo que falava uma só língua, o indo-europeu, do norte da Índia à
Europa, com poucas exceções, como o País Basco e a Finlândia. Esse idioma
deu origem a quase todas as línguas ocidentais e a algumas orientais. Antes
disso, a controvérsia é tão grande que, no final do século XIX, os linguistas
proibiram que se discutisse o tema.

Frase

“Então, está tudo listo, Francisco. Eu levo a birra, e você, o Sauerkraut. Só


falta combinar onde vai ser o barbecue, se aí no Ceará ou aqui na Austrália.”

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Dicas de estudo
 Crônica: “Estudo científico das línguas?”, de Sírio Possenti, em A Cor da Lín-
gua, 2002, p. 33-35.
Por ser uma crônica, o texto promove, numa linguagem acessível a leigos
no assunto, discussões em torno do fazer do linguista, tentando esclarecer
qual a sua tarefa e no que ela se diferencia em relação ao trabalho do gra-
mático.
 Filme: Nell (1995), dirigido por Michael Apted.
O filme narra a história de uma jovem encontrada morando sozinha, dis-
tante do contato de qualquer outra pessoa que não fosse sua mãe, que
falecera. Entre outras coisas, aponta o choque entre o encontro de uma
pessoa “não civilizada” com o mundo “civilizado”.
O interesse particular quanto à questão da linguagem e língua recaí no
fato de que Nell, ao ser encontrada, apresenta uma linguagem verbal
muito diferente da falada pelas pessoas que a encontraram (o inglês). No
decorrer da história, o médico e a psicóloga que lidam com Nell acabam
por concluir que a linguagem que ela apresenta é, na verdade, uma “va-
riedade” do inglês, e que todas as características que atribuíam uma na-
tureza distinta do inglês falado pelos dois se devia a fatores como Nell ter
convivido apenas com sua mãe e irmã – ambas já mortas no momento em
que ela é descoberta –, à mãe de Nell ter um problema de fala ocasionado
por paralisia facial, o que acabou se refletindo na fala das filhas, e por Nell,
como é comum a muitas crianças, ter criado uma forma distinta de co-
municação que apenas ela e sua irmã conheciam, o que também acabou
sendo transportado para a sua fala, já que sua convivência se limitava a
sua mãe e irmã. O filme nos leva à reflexão, por um meio palpável, sobre
o que é uma língua, como identificá-la e como ela interfere na construção
do entendimento do mundo e cultura ao nosso redor.
 Artigo: “Fonética”, de Raquel Santana Santos e Paulo Chagas de Souza, do
livro Introdução à Linguística II, de José Luiz Fiorin, editora Contexto, 2003.
Este artigo é muito interessante para se ter uma noção introdutória a res-
peito dos aspectos próprios à Fonética tanto de línguas orais como da lín-
gua de sinais. Além desse artigo inicial há os demais que constituem uma
fonte segura da qual o aluno pode incrementar seu conhecimento sobre
as demais áreas da Linguística.

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Atividades
1. Discuta, definindo e dando exemplos, a propriedade de dupla articulação da
linguagem e por que ela gera economia para as línguas.

2. Se fonética e fonologia partem de um mesmo ponto, o som, qual a diferença


entre esses dois níveis de análise? Afinal, seria desnecessária a existência de
dois níveis para estudar o mesmo objeto.

3. Partindo do senso comum, muitas pessoas podem confundir “a fala” de um


papagaio com a língua empregada pelo ser humano ou ainda achar que a
comunicação entre animais é uma evidência de que eles possuem uma lin-
guagem equiparável à linguagem humana. Justifique por que equiparar a
linguagem animal à linguagem humana é um equívoco.

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Referências
ALMEIDA, Lizandra Magon de Almeida. E se... o mundo falasse a mesma língua.
Superinteressante, ed. 177, jun./2002. Disponível em: <http://super.abril.com.
br/cultura/se-mundo-falasse-mesma-lingua-443082.shtml>. Acesso em: 23 ago.
2010.

BARROS, Diana Pessoa de. A comunicação humana. In: FIORIN, José Luiz (Org.).
Introdução à Linguística I: objetos teóricos. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2007.

PETTER, Margarida. Linguagem, língua, linguística. In: FIORIN, José Luiz (Org.).
Introdução à Linguística I: objetos teóricos. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2007.

Gabarito
1. Resposta mínima deve contemplar que a dupla articulação da língua é um
fator de economia, pois permite que com um número limitado de fonemas
sejam construídos um número ilimitado de morfemas, material com o qual
as palavras são formadas. Deve atentar também para o fato de que a primei-
ra articulação, a morfológica, está no plano do conteúdo, posto que veicula
significado, já a segunda articulação, a fonológica, está no plano da forma, já
que não veicula significado.

2. O estudante deve reconhecer que o objeto de análise dessas áreas parece


ser o mesmo, mas não é. A fonética lida com o som apenas enquanto enti-
dade física, articulatória. Ela procura saber como são produzidos os sons da
língua humana, independentemente de eles serem distintivos na língua. A
fonologia, por outro lado, só se ocupa dos “sons” que são distintivos dentro
da língua.

3. Igualar a linguagem humana à animal é um equívoco devido ao nível de


complexidade da linguagem humana. Para demonstrar tal complexidade, o
estudante pode recorrer às propriedades das línguas naturais, que dão con-
ta de características encontradas apenas na linguagem verbal: versatilidade,
produtividade, descontinuidade, articulação em diferentes níveis etc. O que
deve ficar claro para o aluno é o nível de sofisticação que a linguagem huma-
na permite, enquanto a linguagem animal é muito limitada.

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O status de língua da Libras

Neste capítulo, a tarefa a cumprir é entender por que a Libras é uma


língua e a razão pela qual seu estudo sistemático é necessário. Para tanto,
apresenta-se um histórico da origem das línguas de sinais e da Libras. Em
seguida, as propriedades linguísticas próprias das líguas naturais são evi-
denciadas na Libras, movimento que permite desfazer certos mitos em
relação a essa língua. Por fim, após refletir sobre a necessidade de estudo
da Libras mesmo para seus usuários, é apresentado um sistema de trans-
crição cujo papel é auxiliá-lo em seus estudos sobre a natureza linguística
da Libras.

A Libras enquanto língua


Antes de se falar especificamente da Libras, cabe um retorno à origem
das línguas de sinais, seus registros históricos, para que se possa entender
como, de certa forma, o ensino das línguas de sinais em escolas determinou
o desenvolvimento dessas línguas. A seguir, após esse panorama sobre a
origem e evolução das línguas de sinais, a Libras será tratada no que diz res-
peito a sua origem específica, a sua regulamentação como língua oficial dos
surdos brasileiros e à razão pela qual ostenta o título de língua natural.

Por ser uma língua ágrafa, não há registro da origem da língua de sinais,
mas, possivelmente, ela se desenvolveu na mesma época que a língua
oral. Diz a lenda que os surdos eram adorados no Egito, como se fossem
deuses, porque serviam de mediadores entre os Faraós e os deuses, já que
eram tidos como seres místicos. As primeiras referências aos surdos apa-
recem na época da Lei Hebraica. Na China, os surdos eram lançados ao
mar; os gauleses os sacrificavam aos deuses Teutates; em Esparta, eram
lançados do alto dos rochedos. Na Grécia, os surdos eram encarados como
deficientes mentais e muitas vezes eram condenados à morte. Os roma-
nos viam os surdos como seres imperfeitos, e assim lançavam as crianças
surdas no rio. Mais tarde, Santo Agostinho defendia que os surdos podiam
se comunicar por meio de gestos, contudo, acreditava que os pais esta-
vam pagando por algum pecado. Até a Idade Média, a Igreja Católica acre-
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O status de língua da Libras

ditava que os surdos eram incapazes de proferir os sacramentos, diferentemente


dos ouvintes, pois não possuíam alma imortal. Em seguida, passa-se para a pers-
pectiva da razão, em que a deficiência passa a ser analisada sob a óptica médica
e científica, quando sai da perspectiva religiosa, no início do Renascimento. Foi
na Idade Moderna que Pedro Ponce de León (1520-1584), padre católico, criou a
primeira escola para surdos no Mosteiro de San Salvador (Espanha), e se dedicou
a ensinar os filhos surdos de pessoas nobres para que pudessem ter privilégios
perante a lei. León desenvolveu um alfabeto manual, que ajudava os surdos a
soletrar as palavras. Juan Pablo Bonet (1579-1629), aproveitando o trabalho ini-
ciado por León, foi educador de surdos, escreveu sobre as maneiras de ensinar
os surdos a ler e a falar, por meio do alfabeto manual. Sempre, contudo, esses
modelos tinham base oralista – gesto e oralidade, alfabeto manual e oral.

No século XVIII, Charles-Michel de l’Épée (1712-1789), um padre francês, re-


conheceu a existência da língua de sinais (antiga Língua Gestual Francesa) e
que seu desenvolvimento servia como base de comunicação entre os surdos
que se comunicavam nas ruas de Paris, utilizando a datilologia/alfabeto manual.
Fundou a primeira escola pública de surdos no mundo, o Instituto Nacional para
Surdos-Mudos em Paris, que existe até hoje com o nome de “Instituto Nacional
de Jovens Surdos”. Sua metodologia era respeitada e acreditava-se ser o modelo
correto para educação de surdos.

Thomas Braidwood (1715-1816) fundou, na Europa, a escola oralista de surdos


para correção da fala. Após muitas discussões por todo o mundo, chegou-se à
conclusão de que era possível, sim, que o surdo falasse. Baseado nisso, Jean Marc
Itard (1800-1838), primeiro médico a interessar-se pelo assunto, usou métodos
não convencionais em suas pesquisas, como: cargas elétricas, sangramentos,
perfuração de tímpanos e outras aberrações. Em abril de 1817 é fundada a pri-
meira escola para surdos permanente dos EUA, a Escola Hartford, por Thomas
Hopkins Gallaudet (1787-1851), educador, ouvinte, que acompanhado de Lau-
rent Clerc (1785-1879), surdo francês, um dos melhores alunos do Instituto para
Surdos de Paris, se tornou educador. Eles instituem nessa escola a Língua Gestual
Americana, sendo que essa instituição também existe até hoje e é considerada o
centro de pesquisas sobre surdez no mundo.

O famoso Alexander Graham Bell (1847-1922), criador do telefone, traba-


lhava na oralização dos surdos e veio a se casar com uma surda, Mabel, de fa-
mília que tinha tradição em educação de surdos na Europa, embora sua famí-
lia não aceitasse a língua gestual. No Congresso de Milão, em 1880, admite que
os surdos deveriam ser oralizados durante um ano, mas se isso não trouxesse

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resultado, poderiam, então, ser expostos à língua gestual. Durante o século XVIII,
na Europa, surgem duas tendências adversas na educação dos surdos antes do
Congresso de Milão: o método francês, chamado de gestualismo, e o oralismo,
ou método alemão. Em 1880, houve um momento obscuro na história da educa-
ção dos surdos. Foi durante o famoso congresso de Milão, com duração de três
dias, quando um grupo de ouvintes resolveu que a língua de sinais deveria ser
excluída do ensino dos surdos, sendo substituída pelo oralismo. Durante o fim do
século XIX e grande parte do século XX, o oralismo foi a técnica preferida na edu-
cação dos surdos, sendo que a luta entre o oralismo e a língua de sinais continua
até os nossos dias, o que se depreende da afirmação de Quadros (1997), em seu
livro sobre a educação de surdos e aquisição da língua de sinais, segundo a qual
a permissão ou não permissão para o uso de línguas espaciais-visuais interferiu
no processo histórico e na vida das pessoas pertencentes a comunidades surdas.

Em relação ao Brasil, não foi diferente nos séculos passados, experimentou-se


as três linhas de abordagens: oralismo, comunicação total e bilinguismo. O ora-
lismo, utilizado na década de 1960 e 1970, é o nome dado àquelas abordagens
que enfatizam a fala (da língua utilizada no país) e a amplificação da audição e
que rejeitam de maneira explícita e rígida qualquer uso da língua de sinais. Técni-
cas específicas são utilizadas para desenvolver o método do oralismo, sendo elas:
treinamento auditivo, desenvolvimento da fala e leitura labial; contudo, o fracasso
dos alunos surdos era visível. Em seguida, veio a comunicação total, cuja proposta
oralista é transformada e se consolida, não como método, mas como uma filosofia
educacional. Por não explicitar claramente procedimentos de ensino, a comuni-
cação total, na década de 1970, é incorporada, em diferentes lugares, em versões
muito variadas, caracterizando-se, basicamente, pela aceitação de vários recursos
comunicativos, com a finalidade de ensinar a língua majoritária – a língua oficial
do país, no caso, a língua portuguesa – e promover a comunicação utilizando
gesto, mímica e fala. Seguiu-se, então, a filosofia bilíngue, na década de 1980, que
possibilitaria a relação do surdo adulto com a criança surda1, permitindo, assim,
uma construção de identidade e que respeitaria a Libras – respeitar a língua do
surdo não quer dizer que se deva menosprezar a língua dominante do país, mas
apenas ter o domínio da Libras como primeira língua e, consequentemente, ter o
português escrito/falado como segunda língua.

Desse relato, já é possível compreender que a história da evolução das línguas


de sinais, inclusive a Libras, foi marcada pela intervenção autoritária, muito por
1
O modelo para criança surda deve ser um adulto surdo ou uma pessoa ouvinte que domina a Libras, para que sua identidade e sua língua
sejam formadas nos seus primeiros anos de vida. Infelizmente, as crianças surdas não têm nem a língua portuguesa oral/escrita e nem a Libras e,
consequentemente, recebem sua primeira língua atrasada. Pela nossa experiência em escola de surdos, o modelo ideal é o bilinguismo – Libras e
português escrito.

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desconhecimento, daqueles que formulavam as políticas de ensino para surdos.


Mesmo que a intenção subjacente de tais políticas fosse ajudar o surdo, o que se
fez ao proibir o ensino e o uso das línguas de sinais foi um retrocesso no processo
de crescimento dessas línguas. Imagine o quanto não se perdeu em vocabulário,
estrutura, sofisticação de conceitos “apenas” porque os surdos foram impedidos
de usar livremente sua língua natural. Os reflexos dessas políticas ainda podem
ser vistos no desconhecimento que muitos têm sobre a Libras, e não se está pen-
sando neste momento somente no ouvinte, mas também nos surdos, já que
muitos deles não têm acesso, ainda hoje, a essa língua. As línguas, orais ou de
sinais, evoluem por meio do uso, são as necessidades do dia a dia, das tarefas que
precisam ser executadas, das mensagens que precisam ser dadas que fazem com
que qualquer língua amplie seu vocabulário, cunhe conceitos novos, padronize
uma variedade de língua que será considerada a culta, entre outras coisas.

A Libras teve sua origem na Língua de Sinais Francesa por influência de Hernest
Huet, surdo francês, que chegou ao Brasil em 1856, a convite de D. Pedro II, para
fundar a primeira escola para meninos surdos, o Instituto Nacional de Educação
de Surdos (INES), que foi inaugurado no dia 26 de setembro de 1857, o qual rece-
beu o nome de Imperial Instituto de Surdos-Mudos, com o propósito de desen-
volver a educação dos surdos brasileiros. Hernest, o professor surdo, negociava
a criação do instituto de surdos através de cartas com o imperador D. Pedro II,
as quais encontram-se no Museu Imperial de Petrópolis (RJ). Aconteceu com a
Libras um processo de colonização de língua, tal como se deu entre o portu-
guês para os brasileiros. Nesse sentido, quando os portugueses vieram colonizar
o Brasil, se depararam com uma série de línguas indígenas, e mais especifica-
mente uma língua geral, usada para negociações entre as diferentes tribos. Ao
longo dos anos, por uma série de fatores que não cabe explicar neste momento,
o português de Portugal foi se mesclando a essa língua geral e, posteriormente,
recebeu influências de outras línguas como o italiano, o francês e o árabe, resul-
tando no português que hoje se fala no Brasil, o qual difere em muitos aspectos
da língua que lhe deu origem. Portanto, quando Huet chegou ao Brasil os surdos
já deviam possuir um sistema de comunicação, que se mesclou à língua france-
sa de sinais, originando a Língua Brasileira de Sinais, a qual também difere em
muitos aspectos da língua que lhe deu origem.

Como visto, a Libras tem uma história de evolução ao longo dos anos, como
qualquer outra língua natural. Assim como as línguas orais, as línguas de sinais
nascem para suprir uma necessidade de comunicação. A diferença reside no
canal de recepção e nos meios de produção, pois, devido à impossibilidade de
ouvirem uma língua falada, os surdos desenvolvem a habilidade linguística de
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O status de língua da Libras

outra maneira, fazendo uso do espaço e da visão. Então, uma língua de nature-
za espaço-visual não se configura como uma barreira perceptual no processo
de aquisição dos surdos, já que essa é a língua natural dos surdos. Todavia,
nem sempre essa condição de língua natural foi aceita em relação às línguas
de sinais. Não há muito tempo, as línguas de sinais eram vistas apenas como
gestos, mímica, um sistema de comunicação inferior, pobre, sem gramática,
cujo único proveito era expressar conceitos concretos. Essa visão só começou a
ser superada a partir da década de 1960, com a publicação, nos Estados Unidos,
do primeiro trabalho conhecido sobre línguas de sinais, por William Stokoe.

As discussões de Stokoe (1960, apud QUADROS; KARNOPP, 2004) para a


língua americana de sinais foram tomadas como ponto de partida para o
estudo de outras línguas de sinais, como a Libras. As discussões empreendi-
das pelo autor começam com a descrição da modalidade da língua, desta-
cando que suas propriedades internas correspondem a critérios colocados
por universais linguísticos e que a distinção está em sua forma de produção e
recepção: “[...] as investigações mostram que as línguas de sinais, sob o ponto
de vista linguístico, são completas, complexas e possuem uma abstrata estru-
turação em todos os níveis de análise” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 36-37).
A partir daí, o interesse pelo estudo das línguas de sinais na condição de
línguas naturais cresceu significativamente, mesmo esparsos e em pequeno
número, esses estudos levaram a uma reflexão do importante papel dessas
línguas para as comunidades surdas. As comunidades surdas, por sua vez,
viram nos estudos linguísticos das línguas de sinais um argumento científico,
entre tantos outros de ordem diversa mas de igual importância, para lhes
requerer o reconhecimento legal. O Brasil é um dos países que já oficializou a
língua de sinais de seu país – a Libras – como língua própria dos surdos bra-
sileiros. Segundo a legislação vigente, desde abril de 2002, a Libras constitui
um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comuni-
dades de pessoas surdas do Brasil, nas quais há uma forma de comunicação
e expressão, de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria. A
oficialização da Libras foi de extrema importância, e ainda é, para a luta por
políticas públicas de educação bilíngue para surdos, com a presença de pro-
fessores sinalizadores e/ou intérpretes em sala de aula. O reconhecimento
legal, no entanto, não significa que a Libras deva parar de ser estudada em
suas características linguísticas. Afinal, conhecer bem a natureza linguística
da Libras é condição necessária para o seu ensino. Portanto, na seção a seguir,
a Libras será abordada em relação às propriedades linguísticas responsáveis
por caracterizá-la como língua natural.

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O status de língua da Libras

As propriedades da língua na Libras


A Libras, na sua condição de língua natural, como visto na seção anterior, é
tão complexa e sofisticada quanto qualquer outra língua oral, apresentando as
mesmas propriedades linguísticas. Portanto, adiante são expostas as proprieda-
des linguísticas compartilhadas pelas línguas naturais e a forma como se mani-
festam na Libras.

A primeira característica apontada nas línguas naturais, contrastando com a


comunicação estabelecida por animais, é a flexibilidade e versatilidade. Ela diz
respeito às várias possibilidades de uso da língua em diversos contextos. As lín-
guas de sinais são empregadas em várias situações, cumprindo muito bem as
funções para as quais são requisitadas, como compor poesias, criar piadas, dis-
cutir política e filosofia, refletir sobre a vida, falar sobre a própria língua, falar das
coisas comuns do dia a dia etc.

A arbitrariedade dá conta de que as palavras, os sinais, são convenções sociais


acordadas entre os usuários de uma determinada língua, daí não haver relação
direta entre muitas palavras (sua forma) e o significado a que remetem. A língua
de sinais, ao contrário do que muitos pensam, apresenta palavras cuja forma não
tem relação direta com o significado. Alguns exemplos transcritos da Libras (na
última seção há um quadro explicativo sobre a transcrição empregada): PRIMO;
MULHER^BENÇÃO (mãe), CONHECER.

A questão da forma e do significado referido por ela, aliás, traz à tona a des-
continuidade: pequenas diferenças na forma das palavras, por exemplo, podem
gerar grandes diferenças no significado. Na Libras, os sinais são formados por
meio de cinco parâmetros: configuração de mão (CM), ponto de articulação (PA),
movimento (M), orientação (O) e expressão facial-corporal (EFC). A alteração de
um dos parâmetros na formação de um dado sinal resulta num sinal diferente
ou, às vezes, num sinal inexistente. Isso significa que pequenas alterações na
formação de um sinal levam a significados diferentes. Assim, os sinais APRENDER
e SÁBADO apresentam em comum CM, M, O, sendo que o parâmetro EFC não é
determinante na constituição desses dois sinais, estando a diferença apenas no
PA. O sinal de aprender é articulado em frente à testa, e o sinal de sábado, em
frente à boca do sinalizador.

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APRENDER.

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SÁBADO.

Além de a Libras permitir ao seu usuário falar sobre o assunto de seu desejo,
ela fornece inúmeras possibilidades de transferência para uma mesma informa-
ção, já que a partir de um número finito de elementos combináveis e recombi-
náveis por meio de regras também finitas, é possível elaborar um número de
sentenças infinitas. Isso é possível, inclusive, mesmo quando o usuário nunca
se deparou com uma estrutura em particular. A essa propriedade se dá o nome
de produtividade/criatividade. Desse modo, estruturas como J-O-Ã-O GOSTAR
M-A-R-I-A PORQUE ELA EDUCADA podem ser produzidas através do aprendi-
zado adquirido de outras estruturas: EU GOSTAR ELA; EDUCADA ELA; J-O-Ã-O
ESTUDARmuito PORQUE ELE INTELIGENTE.

A fim de produzir os enunciados da língua, a Libras conta com a proprieda-


de denominada de dupla articulação. A dupla articulação se refere ao fato de
as línguas se articularem em dois planos, no primeiro as formas não possuem
significado, no segundo, por meio da combinação das formas sem significado se
obtêm unidades com significado. Retomando a questão da formação de sinais,
se você pensar isoladamente na CM dos sinais de APRENDER e LARANJA, mão na
forma de “S”, CM encontrada no quadro a seguir, verá que, por si só, ela não apre-
senta significado, é apenas um elemento menor que comporá, por meio de sua
combinação com outros parâmetros, unidades maiores dotadas de significado.

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Quadro 1 – Configurações de mão usadas na representação do alfabeto


da língua portuguesa e dos números de 0 a 9

A B C D E F

G H I J K L

M N O P Q R

S T U V W X

Y Z 1 2 3 4

5 6 7 8 9 0

As combinações tratadas no parágrafo anterior não ocorrem aleatoriamen-


te, elas seguem um padrão de estruturação nos diferentes níveis – fonológico,
morfológico, sintático e semântico. Isso implica que ao usar a Libras o indivíduo
precisa respeitar as regras de combinação por ela apresentada(s). Infringir as
regras, sair do padrão da língua, resulta em sentenças agramaticais como: * ELE
ELA CONHECER. O padrão linguístico está vinculado a outra propriedade reco-
nhecida nas línguas naturais, a dependência estrutural. As línguas constroem os
enunciados por meio de estruturas dependentes que permitem o entendimen-
to da estrutura interna de uma sentença. Isso significa que certos elementos são
subordinados a outros na estrutura das sentenças. Por exemplo:

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1. * ELE ELA CONHECER

2. ELE CONHECER ELA

3. * EU GOSTAR SEMPRE MAÇÃ

4. SEMPRE EU GOSTAR MAÇÃ

As sentenças (1) e (2) são agramaticais porque não respeitam a dependência


estrutural da Libras. No primeiro caso, o objeto (ela) não pode ocupar a posição
ao lado do sujeito (ele) e antes do verbo (conhecer), pois nessa posição o sinal
não é reconhecido como objeto que completa o significado do verbo. No se-
gundo caso, o advérbio (sempre) não pode interromper a relação entre o verbo
(gostar) e o objeto (maçã).

Terminada a exposição dos motivos evidenciadores da natureza linguística


da Libras, certo de se tratar de uma língua não apenas de direito – porque se en-
contra oficializada como língua –, mas de fato, você, estudante, pode se ocupar,
mais bem fundamentado, de analisar os mitos envolvendo a Libras na sua con-
dição de língua de sinais.

Velhos, novos conhecidos: os mitos sobre a Libras


Ainda que avanços significativos tenham sido feitos no estudo da Libras e
das línguas de sinais em geral, há uma carência da disseminação desses saberes,
acarretando na existência e manutenção de algumas inverdades sobre as línguas
de sinais que são aceitas como procedentes por muitas pessoas. São os velhos e,
ao mesmo tempo, novos mitos sobre as línguas visuais. Então, o objetivo nesta
seção é avaliar alguns desses mitos, com base no exposto por Quadros e Karnopp
(2004, p. 31-37), de modo a esclarecer que se tratam de falsas afirmações e mos-
trar por que não condizem com a realidade das línguas de sinais.

O primeiro mito apregoa que as línguas de sinais seriam incapazes de expres-


sar conceitos abstratos, pois seria apenas uma mistura de gestos e mímica. Essa
concepção equivocada nasce da confusão de se entender os sinais como gestos.
Afinal, os gestos não permitem a abstração das palavras, que podem nomear
ou falar sobre algo mesmo quando esse algo não está presente, ou mesmo que
ele não exista enquanto entidade física. Mas a verdade é que os sinais são pala-
vras, eles permitem falar sobre pessoas ou objetos ausentes, sobre ideias, e não
apenas sobre coisas concretas. Os sinais das línguas visuais apresentam a mesma
possibilidade de simbolismo e abstração que as palavras das línguas orais.

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Esse primeiro mito, línguas visuais serem apenas gesto e mímica, leva ao
segundo. Posto que gestos não são arbitrários, são icônicos – isto é, sua forma
tem relação direta com aquilo a que se referem –, muitos acreditam na existên-
cia de uma única língua de sinais, falada por todos os surdos. Porém, estudos
linguísticos comprovaram que as línguas de sinais são diferentes entre si, cada
comunidade surda de um dado país apresenta vocabulário e regras gramaticais
próprias. Algumas línguas de sinais são aparentadas, têm uma origem comum,
como a Libras e a ASL, que nasceram a partir da língua de sinais francesa. Mas
isso também se verifica em línguas como o português e o italiano, originadas
do latim. Assim, ASL e Libras, como também português e italiano, compartilham
características em comum, mas em hipótese alguma seus usuários podem trocar
informações como se elas fossem a mesma língua.

Outro mito que menospreza a complexidade linguística das línguas de sinais


é o que as considera subordinadas às línguas orais, sem uma gramática organi-
zada, precisando usar seus sinais na estrutura gramatical das línguas orais. Na
verdade, como visto antes, as línguas de sinais são línguas de fato, com uma
complexa organização estrutural em todos os níveis de análise. Além disso, con-
siderar a língua de sinais subordinada a línguas orais é um equívoco, já que a
Língua Brasileira de Sinais, por exemplo, teve sua origem na língua francesa de
sinais, e a língua portuguesa de sinais, por outro lado, desenvolveu-se a partir
da língua britânica de sinais. Não se pode, convém observar, confundir emprés-
timos linguísticos com subordinação. Fosse assim, nossa língua portuguesa es-
taria subordinada ao inglês pelos termos que lhe toma emprestado e agrega, na
forma inglesa mesmo, ao vocabulário nacional brasileiro.

Por fim, para finalizar a análise de alguns mitos apontados por Quadros e
Karnopp (2004, p. 31-37), muitas pessoas pensam, por se tratarem de línguas
visuais, articuladas espacialmente, que a localização da língua de sinais no cé-
rebro deve ser do lado direito, responsável pelo processamento de informação
espacial, e não do lado esquerdo, próprio da linguagem. Essa ideia, contudo, é
derrubada por pesquisas envolvendo surdos com lesões em um dos hemisférios.
Os resultados apontam que danos no lado direito prejudicam o processamento
de informações puramente espaciais. Nesse caso, se for solicitado ao surdo, em
uma sala qualquer, que se encaminhe para o lado esquerdo da porta de saída
da sala, ele compreenderá o que deve fazer, mas não poderá executar a tarefa
por não conseguir identificar qual seria o lado esquerdo da porta. Já lesões no
lado esquerdo do cérebro afetam a produção e compreensão da língua, deixan-
do intactas as informações puramente espaciais. Nesse caso, se fosse solicitado
ao surdo a mesma tarefa, ele não a poderia executar por não compreender no
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que ela consiste. Não se pode esquecer, todavia, que tanto em línguas visuais
como orais essa questão de localização da língua é bem complexa, pois lesões
em áreas muito semelhantes nem sempre acarretam nos mesmos danos. Não
bastando isso, a literatura cognitiva aponta casos de pessoas que, afetadas por
lesões no hemisfério esquerdo na infância, especializaram o lado direito do cére-
bro para desenvolver também a função linguística, fato creditado à plasticidade
cerebral, responsável por desenvolver mecanismos compensatórios quando há
condição para tal.

Para que estudar a Libras?


A essa altura, estudante, você deve estar se perguntando “mas por que eu,
que sou usuário da Libras, tenho que estudar essa língua?”. Se você realmente
se fez essa pergunta, é porque está à procura de um motivo para tal estudo, e se
ainda não encontrou a resposta, pode construí-la a partir desta seção.

Divagando um pouco, pode-se dizer que existem muitos motivos para


alguém fazer algo. Vale lembrar, contudo, que não se está falando de algo ines-
pecífico, um “algo qualquer”, tampouco se está falando de um alguém genérico,
um “qualquer um”. A resposta que se pretende construir é para a pergunta “por
que um intérprete de Libras precisa estudar Libras?”. Está se falando, então, de um
alguém que é, ou pretende ser, intérprete de Libras, e de algo, a Libras, que é
condição necessária para o desenvolvimento dessa profissão. Portanto, a respos-
ta a que se chega é que o estudo da Libras é necessário porque indispensável ao
desempenho do intérprete. É um motivo que tem por trás uma finalidade, um
objetivo, daí o título desta seção ser “Para que estudar Libras?” e não “Por que
estudar Libras?”.

No entanto, neste ponto, você deve estar pensando, “Mas eu já sei essa língua,
eu uso essa língua, se eu não a soubesse, aí sim deveria estudá-la.” Acontece que
saber uma língua com base em seu uso não é condição suficiente para ser intér-
prete. Paralelamente, é possível fazer a seguinte reflexão. Uma pessoa que fala
a língua do país onde vive, o português, por exemplo, não pode ser considera-
da apta a ensinar essa língua se não empreendeu estudos específicos para isso.
Ser usuário de uma língua dá ao indivíduo um conhecimento intuitivo sobre
ela, conhecimento muito importante e útil, é verdade, mas que, sozinho, não é
suficiente para exercer funções, como tradutor, intérprete, professor de língua,
que exigem um conhecimento técnico, consciente e sistemático da língua a ser
traduzida, interpretada ou ensinada.
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Por conhecimento técnico, consciente e sistemático da língua, deve-se en-


tender o conhecimento construído por meio de estudo, que envolva os aspec-
tos gramaticais, morfológicos, semânticos, pragmáticos, entre outros. Mas esse
conhecimento não deve ser pensado do ponto de vista de “acúmulo de infor-
mações”, ele deve ser útil ao dia a dia do profissional, deve permitir solucionar
problemas de tradução e interpretação:
Na maioria das vezes a tradução é feita por escritores, pessoas que os editores têm mais à mão,
quando não primas pobres, os tios inválidos ou as cunhadas desocupadas destes mesmos
escritores. Mais de uma vez, o escritor empresta apenas o nome à tradução sem deitar-lhe
sequer uma olhada. Mas ainda que seja ele mesmo o autor do trabalho, nem sempre a sua
qualidade de escritor constitui uma garantia. O que normalmente acontece é um ficcionista,
um poeta ou um jornalista aceitarem traduzir um livro francês, inglês ou castelhano, pelo fato
de estarem habituados a ler obras escritas nesses idiomas. Os mais inteligentes e conscienciosos
não tardam a reconhecer a sua falta de preparo e tentam supri-la por meio de estudos, consultas a
pessoas e livros; os mais limitados vão galhardamente matando centenas de páginas, seguros
da impunidade. (RÓNAI, 1976, p. 9, grifo nosso)

Sistemas de transcrição da língua de sinais


Ao se estudar uma língua com o objetivo de conhecer suas características
estruturais, é preciso lançar mão de algum recurso que permita ao pesquisa-
dor registrá-la para posterior análise. Esse é o papel dos sistemas de transcrição,
pois permitem ao pesquisador registrar os enunciados da língua de forma que
ele os possa analisar mesmo quando não está presente no momento em que o
enunciado foi produzido. A transcrição é muito útil, além disso, porque permite
a outros pesquisadores estudarem uma língua que foi transcrita anteriormen-
te. Por exemplo, um pesquisador em particular pode fazer uma transcrição de
dados – enunciados produzidos por sinalizadores fluentes na língua – com o
intuito de estudar a morfologia da Libras. Um outro estudioso pode se valer da
mesma transcrição para analisar as regras gramaticais dessa língua. Isso é possí-
vel graças ao caráter convencional dos sistemas de transcrição.

A transcrição consiste na representação gráfica de um enunciado, por


meio de um conjunto de símbolos especiais, para fins de estudo.

Para os objetivos deste curso, você vai aprender a lidar com o Sistema de No-
tação por Palavras, criado e desenvolvido pela pesquisadora da Língua Brasileira
de Sinais Tânia Amaro Felipe, no ano de 1998. Pela clareza da transcrição, o sis-
tema foi muito aceito, não só por pesquisadores brasileiros que atuavam nesse

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período, mas também por outros que desenvolviam trabalhos com línguas de
sinais. Assim, ao longo do curso, sempre que útil às discussões, a transcrição por
notação será empregada. A seguir, há um quadro com exemplos de notações e
a convenção subjacente a cada um.

Sistema de notação por palavras Convenção


Os sinais da Libras são representados por itens
CASA lexicais da Língua Portuguesa em letras maiús-
culas.
Os sinais que são traduzidos por mais de uma pa-
CORTAR-COM-FACA lavra no português são representados pelas pa-
lavras correspondentes e separadas com hífen.
Os sinais compostos da Libras, quer dizer, aque-
les que necessitam de mais de um sinal para re-
CAVALO^LISTRA (zebra) presentar uma ideia são representados por pala-
vras do português separadas por ^.
O alfabeto manual utilizado para expressar no-
J-O-Ã-O mes que não tenham sinal na Libras são repre-
sentados letra por letra separadas por hífen.
Um sinal soletrado, quer dizer, aquelas datilolo-
gias que, por empréstimos linguísticos do por-
tuguês, receberam um movimento próprio da
N-U-N-C-A Libras e passam a pertencer a esta língua são
representados letra a letra, separadas por hífen
e de forma itálica.
Como na Libras não há marcação para gênero,
quer dizer, a notação pode estar se referindo a
AMIG@ amigo ou amiga, usa-se o símbolo @ para esta
classificação.
Marcação de sinais não manuais realizados si-
NOME interrogativa multâneos aos sinais manuais. Neste caso, uma
pergunta: qual seu nome?
Marcação de sinais não manuais realizados si-
SABER negação multâneos aos sinais manuais. Neste caso, uma
negação: não sei.

ADMIRAR exclamativo Marcação de sinais não manuais realizados si-


multâneos aos sinais manuais para denotar ad-
LONGE muito vérbio de modo ou intensificador.
ANDAR pessoa Verbos com concordância para pessoa, objeto e
ANDAR veículo animal são representados com o sujeito subscrito.
Verbos com concordância para as pessoas gra-
maticais serão representadas com o seu corres-
DAR 2s Eu dou a você.
1s pondente subscrito:
2s
PERGUNTAR 3p 1s 2s 3s = 1.ª, 2.ª e 3.ª pessoas do singular.
Você pergunta para El@s 1d 2d 3d = 1.ª, 2.ª e 3.ª pessoas do dual.
1p 2p 3p = 1.ª, 2.ª e 3.ª pessoas do plural.

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Sistema de notação por palavras Convenção


Verbos com concordância para lugar serão re-
d
ANDARe presentados com seu correspondente subscrito:
Andar da direita para esquerda. d = direita
e = esquerda
MENINA + Marca de plural pela repetição do sinal.
Frases que não respeitam as regras de estrutura-
* J-O-Ã-O M-A-R-I-A GOSTAR ção gramatical da língua são agramaticais, rece-
bem o sinal de asterisco como indicativo.

Essas são as principais notações que lhe serão úteis ao longo do curso. Agora
que você sabe um pouco mais sobre os recursos empregados no estudo da
Libras, acompanhe abaixo o relato do pesquisador sobre a experiência dele na
aquisição da Língua Brasileira de Sinais como segunda língua. Boa leitura!

Texto complementar

Aspectos relevantes na aprendizagem de Libras


como segunda língua por um adulto ouvinte
(LEITE; MCCLEARY, 2009, p. 249-253)

Entre os aspectos linguísticos relativos à aprendizagem da ASL destaca-


dos por Jacobs (1996) estão: a modalidade da língua, a datilologia ou soletra-
ção manual, os classificadores e os sinais não manuais. Além desses fatores,
a experiência da presente pesquisa demonstrou a relevância de ainda outros
aspectos: a morfossintaxe, o uso gramatical do espaço e a semântica lexical.
Passo agora a tratar resumidamente de cada um desses pontos.

Parte significativa da dificuldade na aprendizagem de línguas de sinais por


ouvintes está relacionada à diferença entre línguas como o Português, que
se apoiam fortemente na audição, e línguas como a Libras, que se apoiam es-
tritamente na visão. Por exemplo, as línguas de sinais parecem exigir um re-
finamento da visão que os ouvintes precisam desenvolver. Como os demais
colegas ouvintes, a minha tendência em meus primeiros anos de aprendiza-
gem da Libras era a de focalizar a atenção nas mãos do sinalizador em detri-
mento do rosto, perdendo uma série de informações linguísticas importan-

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tes veiculadas por esse canal. Com o tempo, observei que os surdos agiam
de maneira distinta, focalizando predominantemente o rosto e só desvian-
do o foco visual para as mãos em algumas poucas ocasiões (e.g. em alguns
casos de soletração manual). A dificuldade de acompanhar a sinalização se
agravava em contextos informais, nos quais dois ou mais surdos interagiam
ao mesmo tempo. Minha impressão era a de que os surdos acompanhavam
esse tipo de conversa sem a necessidade de redirecionamentos da cabeça e
do olhar tão frequentes e/ou intensos quanto os meus. Se esse refinamento
visual de fato existe – como alguns pesquisadores têm argumentado (e.g.
SWISHER et al., 1989) – seria fundamental que os cursos de Libras como se-
gunda língua procurassem desenvolver essa habilidade nos alunos ouvintes,
o que não ocorreu em minha experiência.

A datilologia, a soletração de palavras das línguas orais por meio do alfa-


beto manual, provou-se um elemento de facilidade apenas ilusória. Tendo
em vista que o aprendizado das configurações de mão referentes a cada
letra do alfabeto ocorre de maneira relativamente rápida e sem maiores pro-
blemas, é comum os alunos – e inclusive os professores – considerarem esse
um aspecto linguístico que não exige maior atenção nos cursos de Libras.
Contudo, como Jacobs assinala, o uso fluente da datilologia no ritmo natural
do discurso espontâneo é um dos aspectos mais difíceis de serem alcança-
dos pelos ouvintes, exigindo uma prática muito maior do que se costuma
pressupor. Em minha experiência de pesquisa, os cursos de Libras reserva-
ram apenas uma ou, no máximo, duas aulas iniciais a atividades voltadas
especificamente para a prática do alfabeto manual, demonstrando que os
próprios professores não se davam conta da complexidade e dos diferentes
usos dessa prática em seu uso proficiente da Libras.

O plano morfossintático constituiu-se num dos aspectos de maior dificul-


dade no aprendizado da Libras. Parecia bastante difundida, entre os profes-
sores, a ideia de que primeiro devemos aprender sinais isolados para depois
aprender a combiná-los, o que se revelava na estratégia de sempre intro-
duzir uma lista de sinais antes de atividades de uso da Libras em interação.
Tal visão resultou no desenvolvimento de hábitos prejudiciais por parte dos
alunos ouvintes, que se viam sem alternativa a não ser a de empregar os
sinais que eles conheciam na estrutura mais linear do português, que difere
significativamente da estrutura mais espacial da Libras. Um outro aspecto
problemático relacionado à morfossintaxe foi o ensino dos ditos “classifica-

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dores” – um aspecto das línguas de sinais que, segundo Jacobs, é de difícil as-
similação pelos ouvintes. Embora o termo classificador seja corrente entre os
professores de Libras, bem como entre muitos pesquisadores da área, vejo
hoje que ele era utilizado nas aulas como um “termo guarda-chuva” para uma
série de fenômenos da produção em línguas de sinais ainda pouco compre-
endidos. Sem uma base teórica sólida sobre a qual pudessem se apoiar, os
professores acabavam dando explicações muito pouco claras sobre o que
seriam os “classificadores”; e as atividades que supostamente deveriam tra-
balhar essa parte da gramática acabavam envolvendo produções que, para
mim, ora se assemelhavam a uma pantomima, ora pouco diferiam de sinais
convencionais da Libras.

Outra categoria da gramática das línguas de sinais de difícil aprendizagem


em minha experiência foram os sinais não manuais (i.e. movimentos do olhar,
gestos bucais, acenos e movimentos de cabeça, direcionamento do tronco,
entre outros). Como Jacobs aponta, tais sinais possuem funções linguísticas
fundamentais para a compreensão dos enunciados nessas línguas (i.e. estru-
turas de subordinação, distinção fonológica entre sinais, marcação aspectual,
entre outras). O aprendizado desses sinais não manuais, já complicado pela
sutileza com que eles aparecem no discurso espontâneo dos surdos, acabou
sendo dificultado em minha experiência devido a dois fatores principais: em
primeiro lugar, o já mencionado vício de focalizar o olhar nas mãos do in-
terlocutor, o que resultava na perda das informações faciais e corporais po-
tencialmente relevantes; em segundo lugar, a pouca ênfase com a qual esses
sinais não manuais eram explorados nos cursos frequentados, excetuando
as marcas faciais de negação, interrogação e as mudanças na orientação do
tronco para a representação de diálogos.

Um último recurso gramatical das línguas de sinais que chamou a aten-


ção pela dificuldade de aquisição foi a exploração do espaço pelo sinalizador.
Esse espaço é utilizado não somente para a referência a pessoas ou objetos no
discurso, mas também para relacionar elementos numa sentença, suprimindo
por meio desse recurso a necessidade de artigos e preposições no estabele-
cimento de certas relações gramaticais e coesivas. Com o passar do tempo,
percebi que mesmo sendo capaz de compreender o uso desse recurso pelos
professores, eu, assim como a maioria dos alunos, costumava não empregá-lo na
minha própria produção sinalizada. Em se tratando de um uso pouco comum

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O status de língua da Libras

na experiência com a língua oral – embora não ausente (e.g. QUEK et al., 2002)
– entendo que a exploração do espaço poderia ter sido mais enfatizada em
atividades com a Libras.

No âmbito semântico, as maiores dificuldades de aprendizagem se mani-


festaram em noções confusas dos professores sobre a relação entre as pala-
vras da Libras e as palavras do português, em parte por causa do modo como
as aulas eram estruturadas. De um lado, a forma descontextualizada por meio
da qual o vocabulário era ensinado nos cursos básicos sugeria a ideia equivo-
cada de que para cada palavra em português haveria um sinal em Libras de
conteúdo equivalente. De outro lado, a forma como esse mesmo vocabulário
era expandido no curso intermediário – através de exercícios em que, para
cada verbo do português, o professor apresentava uma enorme variedade
de sinais como tradução, de acordo com cada contexto frasal particular – su-
geria outra ideia, igualmente equivocada, de que para uma única palavra em
Português haveria uma enorme multiplicidade de sinais possíveis em Libras.
Ambas as formas de tratar a semântica das palavras enviesavam erroneamen-
te o meu entendimento e o de meus colegas, que vinculávamos a compreen-
são dos sinais à das palavras do português.

Dicas de estudo
 Artigo intitulado “Poesia em língua de sinais: traços da identidade surda”,
de Ronice Müller de Quadros e Rachel Sutton-Spence, do livro Estudos Sur-
dos I, organizado por Ronice Müller de Quadros, editora Arara Azul, 2006.

Esse texto permite ao leitor ter uma boa ideia da complexidade de usos
que a Libras pode desempenhar, bem como introduz o leitor no desco-
nhecido mundo da poesia surda, posto que sobre ela muito se fala generi-
camente, mas estudos, como estes, são raros. As autoras analisam compa-
rativamente duas poesias. Uma de um poeta surdo britânico, na língua de
sinais própria desse país, a outra de um poeta surdo brasileiro. Por meio de
tal comparação, as autoras evidenciam a riqueza linguística e cultural do
surdo, apontando o importante papel da língua de sinais na constituição
da identidade do sujeito surdo.

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O status de língua da Libras

 Artigo intitulado “Organização neural da língua de sinais”, de K. Emmorey,


U. Ellugi e E. Klima, do livro Língua de Sinais e Educação do Surdo, organiza-
do por M. C. Moura., A. C. Lodi e M. C. Pereira, editora da Sociedade Brasi-
leira de Neuropsicologia (SBNp), 1993.

Este texto permite um estudo em detalhe sobre a localização da Libras no


cérebro do surdo, mostrando que, tal como os ouvintes, a Libras ocupa na
mente humana o espaço – ou espaços – reservado ao processamento da
linguagem. A leitura permite desmistificar que as línguas de sinais não são
línguas, não estando, assim, associadas ao “módulo da linguagem”.

Atividades
1. Discuta a propriedade da arbitrariedade na Libras por meio dos sinais FAMÍ-
LIA, SOFRER e TEORIA.

2. Discuta o mito de que as línguas de sinais são subordinadas às línguas orais.

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O status de língua da Libras

3. O estudo da Libras é necessário mesmo àqueles usuários proficientes. Discuta


por quê.

Referências
LEITE, Tarcísio de Arantes; MCCLEARY, Leland. Aspectos relevantes na aprendi-
zagem de Libras como segunda língua por um adulto ouvinte. In: QUADROS,
Ronice Müller de; STUMPF, Marianne Rossi (Orgs.). Estudos Surdos IV. Petrópo-
lis: Arara Azul, 2009. p. 249-253.

QUADROS, Ronice Müller de. Educação de Surdos: aquisição da linguagem.


Porto Alegre: ArtMed, 1997.

QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir. Língua de Sinais Brasileira:


estudos linguísticos. Porto Alegre: ArtMed, 2004.

RÓNAI, Paulo. A Tradução Vivida. Rio de Janeiro: Educom, 1976.

Gabarito
1. A resposta deve versar sobre o fato de que não é possível fazer relação direta
entre os sinais e seus significados, daí a característica da arbitrariedade.
2. Aqui o esperado é que o aluno argumente que a Libras tem sua própria es-
trutura, expressa os significados e conceitos que o usuário quiser, não sendo,
portanto, dependente de línguas orais. Pode, inclusive, apresentar como ar-
gumento o fato de que Brasil e Portugal possuem línguas de sinais diferen-
tes, considerando que, se a língua de sinais fosse dependente realmente das
línguas orais, elas deveriam ser iguais.
3. Aqui é importante que o aluno faça um exercício de autorreflexão, chegan-
do ao ponto em que perceba que o estudo dessa língua é não só útil como
requisito necessário ao desempenho da função de intérprete de Libras.

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O nível fonológico

Uma criança em fase de aquisição linguística se assemelha a um linguis-


ta, observando o idioma, tirando conclusões, descobrindo as regras gerais e
as exceções a essas regras. No entanto, o linguista, frente à criança em aqui-
sição, vê-se em desvantagem, pois o processo da criança é natural, não há
um esforço sistemático e organizado, ela vai descobrindo sua língua mater-
na naturalmente, intuitivamente, e, sobretudo, não se vê influenciada sobre
conceitos preconcebidos em relação à língua. O linguista, por outro lado,
precisa lidar com seus “pré-conceitos”, procurar evitar que eles influenciem
a sua análise, mesmo quando se trata do estudo do próprio idioma. Ele pre-
cisa se debruçar sobre a língua estudada munido de ferramentas e teorias,
seu aprendizado sobre a língua tem muito pouco de intuitivo, posto que é
construído sistematicamente, por meio de seu esforço.

Isso é necessário porque crianças em fase de aquisição e linguistas


procuram um conhecimento linguístico diferente. Aquelas constroem um
conhecimento implícito que lhes permite usar a língua, estes, um conheci-
mento explícito de modo que possam falar sobre a língua, explicar como é
usada. “Mas o que tudo isso tem a ver com o estudo pretendido para esta
aula?”, você deve estar se perguntando.

Nesta aula, espera-se de você, estudante, um comportamento como o


do linguista, no sentido de procurar conhecer as regras de estruturação
de uma dada língua, evitando os conceitos preconcebidos e esforçando-se
por construir um conhecimento explícito daquilo que já sabe de maneira
intuitiva. A partir desta aula, sua tarefa será esforçar-se para traduzir num
saber organizado e claro o seu conhecimento intuitivo sobre a fonologia
da Libras. O objetivo é entender como se organiza a fonologia da Libras e
por que é possível falar em fonologia da Libras, já que a fonologia, a grosso
modo, é o estudo dos sons. Para tanto, é necessário discutir do que trata o
estudo fonológico em geral, pois isso permitirá desvendar por que razão
uma língua visual pode ser estudada no nível fonológico.

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O nível fonológico

O que é fonologia?
As línguas orais – o português, por exemplo – se manifestam por meio de
sons, não todo e qualquer som, mas apenas aqueles relacionados à fala. Há duas
perspectivas de estudos sobre os sons das línguas: a fonética e a fonológica. Na
primeira perspectiva, são privilegiadas as características físicas e fisiológicas da
produção do som, sem se ater à questão se esses sons são distintivos. Assim, por
exemplo, interessa à fonética descrever do ponto de vista acústico, articulatório
etc. a diferença entre os fones [d] e [d], mas não é de sua alçada discutir se
estes fones são distintivos em português. Essa última tarefa é responsabilida-
de da perspectiva fonológica, que aponta entre os inúmeros sons produzidos
no ato de fala aqueles “que a língua usa para diferenciar palavras” (MAIA, 1991,
p. 19), ou seja, os fonemas. Resumidamente, então, o objeto de estudo da fonéti-
ca é o fone e o da fonologia, o fonema. Para clarificar a distinção entre esses dois
objetos, é útil considerar o excerto abaixo:
Há várias definições de fonema [...]. O que todas elas têm em comum é ver o fonema como
uma abstração, uma entidade que se manifesta através de segmentos fonéticos mas não é
necessariamente idêntica a eles. Assim, podemos dizer que em português /t/ e /d/ são fonemas
que se realizam foneticamente como [t] ou [t] e [d] ou [d], respectivamente. (MAIA, 1991, p. 19)

Pelo citado acima, pode-se entender que os fones são as manifestações con-
cretas dos fonemas, sendo que um fonema pode ter mais de uma manifestação
fonética. Dessa forma, ao adquirir sua língua materna, uma das primeiras tarefas
da criança é aprender quais os fonemas de sua língua, ou seja, quais sons impli-
cam em palavras diferentes. E ela o faz com grande sucesso, dos dois aos quatro
anos de idade se apropria do acervo fonológico de sua língua, não importando
quão sofisticado ele seja. Pelo excerto acima, você deve entender que o trabalho
da criança, embora natural, não é exatamente fácil. Afinal, o que ela ouve todos os
dias, de seus pais, parentes, e tantas outras pessoas que a circundam, não são os
fonemas, mas sim os fones. Para ilustrar, considere palavras como julho, tomate e
toalha, que são pronunciadas de maneiras diferentes a depender de pessoa para
pessoa: [ → (julhu) → (juliu) → (tomate) →
(tomatchi) → (tumatchi)   → (toalha) →
(toalia)] → (tualha) → (tualia).

Isso significa que de todas as pronúncias que ouve, a criança deve distinguir
quais implicam em significado diferente, em que posição da palavra e a partir
disso depreender quais os fonemas de sua língua, isto é, quais as formas subja-
centes por trás dos fones. Assim, uma criança aprende, inconscientemente, que

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O nível fonológico

as pronúncias [e] e [correspondem ao fonema /e/, podendo se alternar sem


acarretar mudança de significado, desde que não estejam em posição final em
sílaba tônica, como em sede [de ter sede de algo (água, vingança etc.), e
sede [de ser sede de algo (um fã-clube, um time de futebol etc.). Frente a
isso, é preciso considerar que o linguista não dispõe do tempo da criança (dois
anos em média), nem procura um conhecimento como o dela. Afinal, se estiver
estudando a fonologia da própria língua, ele já domina seus fonemas, sabe quais
distinguem significados e quais não, mas a questão é como formular em termos
de explicações esse domínio.

Isso pode ser feito por meio da troca de um som por outro dentro de um
mesmo contexto, se o resultado for a mudança de significado da palavra, trata-se
de um fonema. Caso contrário, não havendo mudança de significado com a
troca do som num mesmo contexto, está-se diante de um fone. Assim, a troca
de /p/ por /b/ em /porrada/ leva a /borrada/, sendo que a mudança de significa-
do revela que /p/ e /b/ são fonemas. Agora, na palavra bichano, a depender da
região do Brasil ou de pessoa para pessoa, o /i/ pode ser pronunciado como [e]
ou como [respectivamentesem que haja mudança de
significado, tratando-se, portanto, de fones e não fonemas.Daqui por diante,
no estudo da fonologia da Libras, esse será o critério adotado para determinar
o que se encontra no campo fonológico e o que pertence ao fonético. Desse
modo, se a mudança de um elemento na composição de um sinal levar à mu-
dança de significado, esse elemento será tomado como um segmento fonológi-
co, senão, como uma realização fonética. Provavelmente, neste ponto, você deve
estar pensando: “Mas fonologia e fonética não estudam o som? Como analisar
a Libras, uma língua visual, nesses termos?”. Esse questionamento, estudante,
é uma preocupação válida, por isso é abordado na próxima seção, onde você
conhecerá a organização fonológica da Libras.

A organização fonológica da Libras


Desde o seu surgimento, a linguística se ocupa do estudo de línguas orais. As
teorias, análises e descrições por ela fornecidas são resultado da observação de
línguas orais. Apenas muito recentemente, a partir de 1960, com o trabalho de
William Stokoe sobre a língua de sinais americana (ASL), os estudos linguísticos
voltaram seu olhar às línguas visuais. A princípio, tentou-se usar nomenclaturas

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O nível fonológico

diferentes no estudo das línguas de sinais, que não remetessem ao conhecimen-


to já produzido para as línguas orais. Mas essa tentativa foi frustrada, pois des-
necessária. Logo os linguistas se deram conta que, por se tratarem de línguas
naturais como as orais, as línguas de sinais podiam ser analisadas por meio dos
instrumentos de estudo criados pela Linguística até então, como se pode depre-
ender do excerto abaixo:
Apesar da diferença existente entre línguas de sinais e línguas orais, no que concerne à
modalidade de percepção e produção, o termo “fonologia” tem sido usado para referir-se
também ao estudo dos elementos básicos das línguas de sinais. [...] O argumento para a
utilização desses termos (fonema e fonologia) é o de que as línguas de sinais são línguas
naturais que compartilham princípios linguísticos subjacentes com as línguas orais, apesar das
diferenças de superfície entre fala e sinal. (KLIMA1; BELLUGI, 1979; WILBUR2, 1987; HULST3, 1993
apud QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 48)

É possível dizer que som e imagem são os recursos representacionais de que


se valem línguas orais e visuais para comunicar, codificar mensagens. Da mesma
forma como as línguas orais podem ser decompostas em vários níveis, desde
os com significado até o nível em que não há significado, as línguas de sinais
também podem. Assim, por exemplo, a língua portuguesa e a Língua Brasilei-
ra de Sinais formulam mensagens complexas por meio do arranjo de palavras
em frases. As palavras são formadas por meio dos morfemas, os quais se origi-
nam da combinação de fonemas. Estes são considerados as menores unidades
da língua, mas desprovidas de sentido. São esses elementos que, isolados, não
possuem significado, os responsáveis pela sofisticação de qualquer língua na-
tural, uma vez que eles, mesmo finitos, possibilitam a criação infinita de outras
estruturas. Essas unidades menores, sem significado isoladamente, os fonemas,
são encontradas na Libras, à medida que essa língua forma um número infinito
de sinais a partir de cinco elementos, portanto, finitos: os parâmetros para a for-
mação de sinais.

O primeiro parâmetro é a configuração de mão (CM), o qual diz respeito à


forma dada às mãos para a formação do sinal. Segundo Felipe (2001), a Libras
apresenta 64 CMs, as quais podem dar origem a sinais da Libras, podendo em-
pregar uma mão, duas mãos com a configuração de mão diferente, ou também
duas mãos, mas ambas com configurações de mão iguais. A seguir, você encon-
tra a relação de configurações de mão levantadas pela autora:

1
KLIMA, E.; BELLUGI, U. The Signs of Language. Cambridge: Harvard University, 1979.
2
WILBUR, R. American Sign Language: linguistic and applied dimensions. San Diego, California: College Hill Press, 1987.
3
HULST, H. V. D. Units in the analysis of signs. In: Phonology 10. Cambridge: Cambridge University, 1993.

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Configuração de Mão da Libras

(FELIPE, 2005)
1 2 3 4 5 6 7 8a

8b 9 10 11 12 13 14 15

16 17 18a 18b 19 20 21 22a

22b 23 24 25 26 27 28 29a

29b 30 31 32 33 34 35a 35b

36 37a 37b 38 39 40 41 42

43 44 45 46a 46b 47 48 49

50 51a 51b 52 53a 53b 54 55

56 57 58 59a 59b 60 61 62

63 64

O segundo parâmetro tem a ver com o espaço onde o sinal será realizado, po-
dendo ser no próprio corpo do sinalizador ou no espaço neutro (espaço “vazio”
em frente ao corpo do sinalizador, precisamente entre a cabeça e o quadril) e
pode ser chamado de ponto de articulação (PA) ou locação (L). O movimento
(M) realizado no sinal é o terceiro parâmetro, há inúmeros tipos de movimento,
alguns serão tratados na próxima seção, quando da análise de configurações
de mão. O quarto parâmetro concerne à orientação (O) da palma da mão na
realização do sinal. Ela pode estar voltada para cima, para baixo ou para o corpo
de quem sinaliza, para fora, para a esquerda e para a direita. O último parâme-
tro trata-se da expressão facial e corporal (EFC) que acompanha o sinal. Todos
esses parâmetros, sozinhos, não significam nada, são apenas distintivos entre si.
Porém, ao se combinarem, formam sinais. Sob essa perspectiva, o sinal de sauda-
de é realizado com uma mão, que assume a CM número 1 do quadro apresenta-
do por Felipe (2005). O PA é o peito do sinalizante, o M é circular, a O é da palma
para dentro e a EFC é a de uma pessoa sentindo saudade. Veja o sinal:

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SAUDADE.

Então, por meio da combinação dos cincos parâmetros é que os sinais se


formam, pois eles são os traços distintivos das línguas de sinais: “A noção de
traços distintivos nas línguas de sinais dá-se no sentido de que cada sinal passa
a ser visto como feixe de elementos básicos simultâneos, que formam uma CM,
um M e um L e que, por sua vez, entram na formação de itens lexicais” (QUA-
DROS; KARNOPP, 2004, p. 62). Desse modo, ao deixar conceitos preconcebidos
para trás, é que se pode pensar e constatar que o estudo fonológico da Libras é
tão viável quanto o de uma língua oral. Na próxima seção, com base nos concei-
tos elaborados nesta, alguns sinais serão analisados quanto à sua configuração
de mão e movimento, para que esses parâmetros, devido à sua complexidade,
possam ser mais bem explorados.

Análise de configurações de mão


Com o fim de esclarecer as possibilidades de formação de sinal a partir das
configurações de mão, seguem os exemplos:

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Configuração de mão apenas com uma mão:

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RESPONDER.

Duas configurações de mão diferentes:

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PAÍS.

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Duas configurações de mão iguais:

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FAMÍLIA.

Se você, estudante, voltar à seção anterior e procurar no quadro de configu-


rações de mão, constatará que a CM usada no sinal de responder é a de número
25. No sinal de país, a mão dominante, a que realiza o sinal empregando movi-
mento, assume a CM número 11 e a mão passiva, que serve de PA, assume a CM
número 2. Já no sinal de família, ambas as mãos usam a CM número 54.

A configuração de mão é um parâmetro muito importante para a realização


do sinal, portanto, é preciso tomar cuidado, pois qualquer engano na realização da
CM pode levar a um sinal radicalmente diferente do que se pretendia. Um exem-
plo, que não chega a ser uma mudança radical de significado, é a troca da CM 8a
pela CM 28 na realização do sinal de ontem, resultando no sinal de anteontem,
já que o PA e o M são os mesmos. Isso significa que a CM 8a e a 28 são distintivas
entre si, resultando em troca de significado quando substituídas no mesmo con-
texto. Pertencem, portanto, ao nível fonológico de análise.

Além da CM, os pontos de articulação também apresentam subdivisões. Há,


conforme Ferreira-Brito (1995), três principais PAs, cabeça, tronco e mão, sendo
que esses pontos principais apresentam subdivisões, tais como as exemplifica-
das a seguir:

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O nível fonológico

Sinal com locação nos olhos Sinal com locação na cabeça

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INTERESSE. IESDE Brasil S.A. REI.

Sinal com locação no queixo Sinal com locação na boca

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FRIO. RESTAURANTE.

Sinal com locação na testa Sinal com locação na bochecha


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INTELIGENTE. PEIXE.

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Sinal com locação no braço Sinal com locação na mão

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RIO DE JANEIRO. CIDADE.

Sinal com locação no rosto Sinal com locação no pescoço


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PALHAÇO. BANCO.

Por se tratar de um elemento distintivo, fonema, a troca de um ponto de arti-


culação também pode resultar num significado muito diferente do pretendido,
ou num sinal inexistente. Como, por exemplo, a diferença constatada entre os
sinais de trauma e de responsável, cuja CM é a mesma em ambos, assim como
o M a O e a EFC, mas muda o PA, o primeiro é feito na testa e o segundo, no
ombro.

Além disso, os movimentos que as configurações de mão adotam podem ser


do tipo sinuoso, semicircular, circular, retilíneo, helicoidal e angular, sendo possí-
vel produzi-los de forma unidirecional, bidirecional ou multidirecional. Ademais,
eles podem ser produzidos com diferentes tensões, velocidades e frequência. A
seguir, há exemplos de alguns movimentos:

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Movimento semicircular Movimento retilíneo

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RESTAURANTE. BRANCO.

Movimento sinuoso Movimento helicoidal


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MAR. ÓLEO.

Movimento circular
Movimento angular
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AEROPORTO.
ANO.

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Uma vez compreendidas as unidades distintivas que formam os sinais, já é


hora de conhecer as regras para as formações de sinais, as quais devem ser res-
peitadas toda vez que um novo sinal é inserido no vocabulário da Libras.

Restrições nas formações de sinais


Ao se pensar na formação de palavras em português, por meio da junção de
fonemas, é possível perceber que a língua segue determinados padrões, e evita
certas formações que em outras línguas são perfeitamente possíveis. Isso signi-
fica que cada língua apresenta restrições quanto à formação de palavras, per-
mitindo certas combinações e outras não. Isso também ocorre na Libras. Como
língua natural que é, ela permite certas combinações dos cinco parâmetros estu-
dados e outras não. No caso dessa língua, não apenas restrições linguísticas, mas
também físicas, como você verá, determinam as combinações possíveis entre
as unidades de configuração de mão, movimento, ponto de articulação e orien-
tação de mão na formação de sinais. Em relação às restrições físicas, algumas
são impostas pelo sistema perceptual (visual) e outras pelo sistema articulatório
(fisiologia das mãos).

Nesse sentido, as propriedades do sistema de percepção visual restringem a


produção de sinais. Uma vez que a acuidade visual é maior na área da face, é em
tal região que o interlocutor fixa o olhar. Nessa área de alta acuidade, é mais fácil
detectar pequenas diferenças em CM, PA, ou M. Fora dessa área, discriminações
visuais não são tão precisas, dependendo mais da visão periférica do que da
visão central. Certamente por essa razão, “na região facial há um grande número
de diferentes locações, comparada à região do tronco. Além disso, CM marcadas
ocorrem com maior frequência na região da face do que na região do tronco”
(BATTISON4, 1978 apud QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 78).

Os sinais produzidos com duas mãos devem respeitar, para serem considera-
dos sinais bem formados, isto é, de acordo com as regras internas da língua, duas
restrições fonológicas. A primeira restrição envolve a produção de sinais em que
as duas mãos são ativas, isto é, se movimentam. Nesse caso, a CM deve ser a
mesma para ambas as mãos, o ponto de articulação também deve ser o mesmo

4
BATTISON, R. Lexical Borrowing in American Sign Language. Silver Springs, MD: Linstok, 1978.

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O nível fonológico

ou simétrico, e o movimento tem de ser simultâneo ou alternado. Tal como se


dá no sinal de reunião, em que as duas mãos assumem a CM número 25, o PA é o
mesmo, o espaço neutro em frente ao corpo, sendo que as mãos se tocam na ex-
tremidade dos dedos selecionados na realização do sinal. Por fim, o movimento,
semicircular, é realizado simultaneamente. Confira abaixo esse sinal, que é bem
formado segundo a Condição de Simetria:

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REUNIÃO.

Na segunda restrição, chamada de Condição de Dominância, a restrição en-


volve os sinais formados com duas mãos que não assumem a mesma CM. Neste
caso, a restrição estabelece que há uma mão ativa, a que apresenta movimento
na realização do sinal, e uma mão passiva, que fica parada, servindo de ponto de
articulação para a realização do sinal. A mão passiva pode apresentar uma das
CMs a seguir:

[A], [S], [5], [B], [1], [C], [0],

Então, no sinal de votar, a mão passiva assume a CM [C], relativa a de número


51 no quadro de configurações de mão, e a ativa usa a CM número 53, conforme
mostra a ilustração a seguir:

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O nível fonológico

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VOTAR.

Sinais que não seguem a condição de dominância e de simetria são chama-


dos de agramaticais, pois infligem as regras de estruturação fonológica do sinal.
A combinação fonológica é o que permite a formação de sinais na Libras, os quais
podem ser modificados morfologicamente e servem para elaborar enunciados
nessa língua. Estes dois últimos processos serão alvo de estudo das próximas
aulas. Neste momento, interessa responder à pergunta-título da seção a seguir.

Para que uma fonologia da Libras?


Conhecer como uma língua se organiza é imprescindível para a execução de
muitas tarefas práticas e úteis, além, é claro, do prazer imanente de estudar e
apreender algo. No caso da Libras, o estudo de seu nível fonológico é útil na
sistematização de como são formados os sinais, o que pode ser usado no ensino
dessa língua, seja na condição de segunda língua ou na de primeira língua. É útil
também à elaboração de um sistema de escrita e seu respectivo ensino.

Na vida do profissional tradutor e intérprete dessa língua, conhecer sua orga-


nização fonológica pode auxiliar na aprendizagem da língua, a discriminar sinais
bem formados e mal formados, bem como a não incorrer em erro na criação de
sinais.

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O nível fonológico

Texto complementar

Libras: um estudo eletroencefalográfico


de sua funcionalidade cerebral
(ROCHA, 2010)

[...] As línguas de sinais surgem de maneira espontânea, pela utilização de


gestos e por mímicas realizadas por um grupo de indivíduos surdos (CAPO-
VILA et al., 1998). Tal grupo convenciona e desenvolve certos padrões gestu-
ais próprios para cada objeto, ação, estado psíquico e emocional. O aperfei-
çoamento de tais padrões alcança a complexidade existente em qualquer
língua falada, contendo todos os níveis linguísticos: fonológico, morfológico,
sintático, semântico e pragmático.

Para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), como para outras linguagens


por sinais, a fonologia delimita as unidades mínimas distintivas, considera-
das como fonemas, a partir da decomposição dos movimentos das mãos,
dos braços e das expressões faciais. Brito (1995) divide os fonemas manuais
em duas categorias, baseando-se nos seguintes parâmetros: primários, que
definem a configuração das mãos, sua posição em relação ao corpo (ponto
de articulação) e o movimento exercido por elas; secundários, que se refe-
rem à região de contato das mãos, à orientação das mesmas e à disposição
das palmas (para baixo ou para cima). As expressões faciais e os movimen-
tos do corpo não chegam a distinguir significados distintos, mas funcionam
como modificadores.

A morfologia da língua de sinais também pode ser segmentada em fone-


mas. Algumas palavras são formadas apenas por uma determinada configu-
ração de mão apresentada em qualquer posição do espaço, porém a maio-
ria das palavras nas línguas de sinais é formada por um conjunto visual que
pode envolver todos os parâmetros distintivos. Na sintaxe, a Libras se faz

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O nível fonológico

compreender pela ordem temporal dos constituintes durante a sinalização.


A ordem padrão é sujeito, objeto e verbo, mas como nas línguas faladas tal
ordem pode ser trocada de acordo com a topicalização desejada, contanto
que não se crie ambiguidade.

Sabe-se que no processamento e produção da fala, os falantes usam


áreas específicas do lóbulo temporal esquerdo e de áreas frontais esquer-
das. No processamento cerebral de uma língua falada o estímulo sensorial
sonoro é codificado primeiramente na área auditiva verbal, onde as informa-
ções sensoriais referentes a cada palavra fazem certos neurônios dessa área
se associarem aos neurônios da área de Broca e certos neurônios à área de
Wernicke (VAN BERKUM et al., 1999; COHEN et al., 2000; FEDERMEIER et al.,
2000; MURTA et al., 1999; PERANI et al., 1999; NI et al., 2000; ROCHA, 1999;
ROCHA, 2000; TARKIAINEN et al., 1999). As palavras que denominam uma
ação (verbo) são codificadas por neurônios da área de Broca, que representa
os movimentos dos verbos. As palavras que definem um nome (substantivo
e adjetivo) são codificadas pelos neurônios da área de Wernicke, que por sua
vez se associam com os neurônios ou das áreas visuais para composição de
um objeto, ou da área límbica para identificação de um sentimento, ou das
áreas de olfação e gustação para recriação das sensações olfativas e palatais.
Isto é, por meio de Wernicke ativam-se neurônios que estão associados às
características semânticas das palavras (DAMASIO et al., 1996).

Pode-se criar a hipótese de que os verbos são inicialmente identificados


em Broca, sendo ativadas a partir dele áreas parieto-temporais para o recru-
tamento das palavras adequadas referentes à semântica e à sintaxe de cada
verbo (ROCHA et al., 2001). Rizzolatti e Arbib (1998) propuseram que Broca
é uma área análoga a uma área frontal do cérebro dos macacos, onde os
autores encontraram “neurônios espelhos”, ou seja, células que são ativadas
quando os macacos estão executando uma ação ou quando estão apenas
observando outro indivíduo realizar uma ação semelhante. A área de Broca
possui, portanto, neurônios que respondem tanto à ação motora em si
quanto à informação sensorial associada à mesma ação, sendo ela auditiva
ou visual. No primeiro caso um neurônio representa uma ação no sistema
motor e será chamado, aqui, de neurônio de representação de ações; no se-
gundo caso representa a fonação de uma palavra e será chamado, aqui, de
neurônio de representação verbal. A proximidade desses dois neurônios na

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O nível fonológico

área de Broca facilita as conexões sinápticas entre eles, e consequentemente


cria a condição para definir a sintaxe e semântica (neurônio de representa-
ção da ação) do verbo (neurônio de representação verbal). Um modelo se-
melhante pode ser assumido para a área de Wernicke, onde neurônios que
possuem conexões com as áreas de processamento das outras sensações
físicas: visão, tato, olfato, e com as áreas de memória, do sistema límbico etc.,
possibilitariam o acesso à semântica das palavras representadas verbalmen-
te em neurônios do córtex auditivo vizinho ou mesmo em neurônios da pró-
pria área de Wernicke.

Na figura 1, por exemplo, os neurônios auditivos temporais que reconhe-


cem a forma auditiva da palavra comer, ativam neurônios na área de Broca
(come na figura abaixo) correspondentes à sua fonação e à ação representada
por esse verbo, e o reconhecimento das formas sonoras das palavras leão e
carne ativa os neurônios da área de Wernicke que dão acesso às áreas cere-
brais que reconhecem esses elementos e definem a semântica dessas pala-
vras. O neurônio de representação das ações na área de Broca estabelece re-
lações sinápticas com neurônios de representação dos nomes em Wernicke,
que representem elementos que podem estar envolvidos com a ação que o
verbo descreve. Dessa maneira, o reconhecimento do verbo comer na área de
Broca favorece a ativação dos neurônios referentes às palavras leão e comer, o
que confirma que essas palavras obedecem a sintaxe do verbo comer e fazem
parte do campo semântico da ação desse verbo.

IESDE Brasil S.A.

O leão come carne


Figura 1 – Processamento neural de uma frase.

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O nível fonológico

Além de Broca e Wernicke, há uma região específica para codificação das


palavras de função (BERKUM et al., 1999; BROWN et al., 1999). A posição de tal
área ainda não está bem definida, mas supõe-se que ela se encontra próxima
à área de Broca. Essa área é fundamental para a análise da relação das pala-
vras em uma frase, pois, fora a ordem das palavras, é por meio das conjun-
ções e preposições que podemos definir a função delas na frase. No lóbulo
frontal a ordem das palavras e as informações veiculadas pelas palavras de
função fazem com que as palavras da frase façam sentido, uma em relação à
outra, e permitam a compreensão do enunciado como um todo.

A decodificação verbal deve acessar memórias distintas para extrair signi-


ficado das informações recebidas visual ou verbalmente (SMITH et al., 1998),
algumas vezes de forma ordenada no tempo; algumas vezes de acordo com
relações espaciais definidas; algumas vezes dependendo da familiaridade
etc. (CURTIS et al., 2000; DAFNER et al., 2000; GABRIELI, et al., 1998; ELIAS et
al., 1999; HOPFINGER et al., 2000; MARSHETZ et al., 2000; SMITH et al., 1998;
ST GEORGE et al., 1999; UNGERLEIDER et al., 1998). A decodificação verbal
é, portanto, uma tarefa complicada que deve ser resolvida por um grande
número de neurônios distribuídos por quase todo o cérebro, neurônios esses
especializados em tratar os diferentes aspectos do discurso. O recrutamento
da memória, o controle da atenção, o processamento visual e a imaginação
mental envolvida nesse processo, são basicamente controlados pelo córtex
frontal, mas também envolve neurônios distribuídos por outras áreas: parie-
tal, temporal e occipital, além do hipocampo e áreas adjacentes (BREWER et
al., 1998; HENSON et al., 1999; HOPFINGER et al., 2000; KOSSLYN et al., 1999;
MCDERMOTT et al., 2000; ROCHA et al., 2001).

A literatura tem mostrado até o instante que os circuitos neurais para a


linguagem de sinais funcionam de maneira, senão idêntica, ao menos seme-
lhante no processamento cerebral da língua oral. Porém, a diferença clara
e fundamental é a natureza do estímulo sensorial. As áreas linguísticas não
sendo mais ativadas a partir da área auditiva verbal serão ativadas a partir de
áreas de processamento visual (NISHIMURA et al., 1999; SÖDERFELDT et al.,
1997; EMMOREY et al., 2001). As áreas visuais primárias se associam a área de
representação de movimento das mãos (que se encontra na região parietal
esquerda). Essa área passa a fornecer a informação necessária para Werni-
cke e Broca codificarem a ação dos verbos e a semântica dos nomes. Outras
áreas visuais serão recrutadas para a identificação da sua relação em relação

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O nível fonológico

ao corpo, ao seu formato e sua direção (ISHAI et al., 2000; KANWISHER et al.,
1997; MAUNSELL et al., 1995; NAKAMURA et al., 2000; O’CRAVEN et al., 2000;
RIESENHUBER et al., 1999; YOUNG, 1995; EMMOREY et al., 2001). Essas áreas
se acham distribuídas no córtex temporal bilateralmente. [...]

Dicas de estudo
 Descrição Fonético-Fonológica dos Sinais da Língua de Sinais Brasileira (Li-
bras), de André Nogueira Xavier. Dissertação (Mestrado) – Universidade
de São Paulo, São Paulo, 2006. Disponível em: <www.teses.usp.br/teses/
disponiveis/8/8139/tde-18122007-135347/>.

O trabalho descreve as unidades do nível fonético-fonológico da Libras,


apresentando uma descrição detalhada dos traços que caracterizam cada
um de seus segmentos.

 No Reino da Fala: a linguagem e seus sons, de Eleonora Motta Maia. 3. ed.


São Paulo: Ática, 1991.

A obra pode ser considerada um manual de introdução ao estudo da fo-


nética e da fonologia, explorando esses objetos a partir de questões co-
tidianas; o livro é de fácil leitura mesmo para os leigos no assunto, sendo,
portanto, ideal para formar uma base preparatória para estudos fonético-
-fonológicos mais especializados.

Atividades
1. A fonologia é um ramo da Linguística criado para o estudo dos sons da fala.
Discuta, então, como é possível o estudo do nível fonológico na Libras.

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O nível fonológico

2. Imagine a seguinte situação: na criação de um sinal, um grupo de intérpre-


tes e surdos propõe um sinal envolvendo a realização de um sinal com duas
mãos. As configurações de mão são diferentes e ambas apresentam movi-
mento. Sua tarefa é simular aqui a explicação que daria ao grupo sobre o
motivo desse sinal ser inapropriado.

3. Discuta, definindo (forneça o número da CM usada após identificá-la no qua-


dro de configurações de mão apresentado no texto), os cinco parâmetros de
formação de sinais, a partir do sinal de falar, ilustrado a seguir.

IESDE Brasil S.A.

FALAR.

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O nível fonológico

Referências
FELIPE, Tanya. Dicionário da Libras. 2005. Versão atualizada. Disponível em:
<www.acessobrasil.org.br/libras/>. Acesso em: 8 ago. 2010.

______. Libras em Contexto – livro do estudante/cursista. Brasília: MEC/SEESP,


2001. (Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos).

FERREIRA-BRITO, L. Por uma Gramática das Línguas de Sinais. Rio de Janeiro:


Tempo Brasileiro, UFRJ, 1995.

MAIA, Eleonora Motta. Explorando intuitivamente os sons do português. In:


______. No Reino da Fala: a linguagem e seus sons. 3. ed. São Paulo: Ática, 1991.

QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir. Língua de Sinais Brasileira:


estudos linguísticos. Porto Alegre: ArtMed, 2004.

ROCHA, Fábio Theoto. Libras: um estudo eletroencefalográfico de sua funciona-


lidade cerebral. Disponível em: <www.enscer.com.br/pesquisas/artigos/libras/
libras.html>. Acesso em: 7 set. 2010.

Gabarito
1. Resposta mínima deve contemplar o fato de que a Libras, na sua condição
de língua natural, apresenta elementos básicos, usados na composição dos
sinais, que são distinguíveis entre si e, embora não possuam significado iso-
ladamente, podem levar à mudança de significado quando alterados num
mesmo contexto, tal como são os sons para as línguas orais.

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O nível fonológico

2. O aluno deve nortear sua explicação com base nas restrições para a forma-
ção de sinais com duas mãos, reconhecendo que o sinal proposto pelo gru-
po desrespeita a Condição de Dominância, posto que ela estabelece que as
duas mãos não podem ser ativas na execução de um sinal que envolve con-
figurações de mão diferentes. Segundo essa condição, o sinal proposto deve
ter uma mão ativa, a que executa o movimento, e uma mão passiva, que
serve de ponto de articulação para a mão ativa.

3. O sinal de falar usa a configuração de mão número 11. A configuração de


mão é a forma que a mão assume na realização do sinal. Esse é o primeiro
parâmetro. O segundo parâmetro é o ponto de articulação, isto é, o local
onde o sinal é realizado. No caso do sinal exemplificado, se trata da boca. O
movimento, terceiro parâmetro, se trata do tipo de movimento aplicado ao
sinal, que neste caso é o helicoidal (por se tratar de um exemplo estático, não
é determinante que o aluno aponte o tipo de movimento). O quarto parâme-
tro é chamado de orientação, pois indica a direção da palma da mão durante
a realização do sinal. No caso de falar, a palma da mão é orientada para den-
tro, em direção à boca, de onde o sinal parte. Por fim, o último parâmetro
é a expressão facial e corporal, relacionado à expressão da face e do corpo
durante a execução do sinal. No caso do exemplo, o aluno pode arriscar, se
conhecer o sinal e/ou perceber que a boca do personagem está aberta, que
neste sinal o usuário da Libras pode simular, por meio da movimentação dos
lábios, a fala.

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O nível fonológico

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O nível morfológico

Até aqui, estudante, você já aprendeu que a Libras é uma língua natu-
ral, como qualquer língua oral, e que ela apresenta níveis de análise. Dessa
forma, o nível fonológico da Libras, assim como nas línguas orais, é com-
posto pelas menores unidades sem significado da língua, mas distintivas
entre si, sendo que a junção desses elementos menores sem significado
resulta nos morfemas, o objeto de estudo desta aula. Comparativamente
ao nível fonológico, o estudo do nível morfológico na Libras apresenta
menos material linguístico para análise. Segundo Leite (2008, p. 26), “ao
passo que a fonologia das línguas de sinais parece se constituir como um
de seus níveis mais poderosos [...], a morfologia, diferentemente, parece
ser um nível de análise significativamente limitado quando comparado
com línguas como o português”.

Essa limitação de que fala Leite é natural, não deve ser entendida de
modo negativo. Trata-se apenas da diferença entre como cada língua se
organiza. A morfologia do português, por exemplo, se comparada à do
latim, é considerada limitada, tendo em vista a riqueza morfológica dessa
língua. Todavia, se comparada à morfologia do chinês, a do português é
riquíssima, uma vez que a língua dos chineses é monomorfêmica, isto é,
todas as palavras são constituídas de um único morfema, não podem ser
segmentadas em elementos menores.

Esclarecido isso, a proposta para esta aula é que você conheça o nível
de análise morfológico de forma geral, compreenda o conceito de palavra
e se aproprie dos processos de formação de palavras na Língua Brasileira
de Sinais. Tudo isso será trabalhado com o intuito de que o conhecimento
dos fundamentos morfológicos aqui apresentados contribuam para o en-
riquecimento e emprego adequado do vocabulário da Libras.

O que é morfologia?
Geralmente, ouve-se falar de morfologia já na escola, no Ensino Funda-
mental. Nas aulas sobre gramática, a morfologia é definida como o campo

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O nível morfológico

de estudo que aborda a estrutura interna das palavras, ou, simplesmente, o campo
responsável por estudar como as palavras são formadas e quais suas classes. Em
linhas gerais, essa concepção de morfologia não está errada, pois é verdade que
o limite do universo de análise da morfologia é a palavra. Todavia, se não houver
clareza sobre o que é uma palavra, sobre como identificá-la, essa definição de
morfologia como o estudo da formação e classificação de palavras cai por terra.

Na perspectiva de Sandalo (2001, p. 182), “a existência de palavras é assumida


como uma realidade pela maioria de nós, linguistas ou não. No entanto, não é
simples definir o que é uma palavra. [...] um dos problemas básicos é identificar
critérios para definirmos as unidades básicas de estudo”. Conforme a autora, qual-
quer um assume a existência de palavras na língua. Do contrário, as pessoas não
usariam expressões como guarde as minhas palavras, medir as palavras, palavra de
rei não volta atrás, entre outras. Da mesma forma, qualquer falante do português
responderia afirmativamente à pergunta sobre se inconstitucionalissimamente é
uma palavra do português, mas diria não se tratar de uma palavra do português
a forma filocapoaderitarmo. Esse é um julgamento implícito, que permite saber
ao falante o que é e o que não é uma palavra de sua língua. Mas é preciso que
haja critérios claros ao se empreender um estudo linguístico da morfologia de
qualquer língua. Por isso, a seguir é apresentado o caminho de discussão empre-
endido por Sandalo (2001) para demilitar que critérios seriam esses.

Segundo Sandalo, identificar as palavras com o seu significado não ajuda, pois
construtor e aquele que constrói apresentam o mesmo significado, entretanto, o
primeiro se trata de uma palavra e o segundo de uma sentença. A autora argu-
menta que critérios fonológicos também não resolvem o problema de identificar
palavras, pois é “impossível elaborar um teste baseado em critérios fonológicos
que possa ser categoricamente aplicado para qualquer língua para sabermos se
estamos lidando com uma palavra ou frase” (SANDALO, 2001, p. 182).

Diante de tais impasses, critérios sintáticos são empregados para identificar


e definir o que é uma palavra, pois esses critérios, até onde se sabe, funcionam
bem em qualquer língua. Assim, uma sequência de sons somente pode ser de-
finida como uma palavra se (i) puder ser usada como resposta mínima a uma
pergunta e se (ii) puder ser usada em várias posições sintáticas (SANDALO, 2001).
Nesse sentido, maçã é uma palavra, pois serve de resposta mínima a uma per-
gunta e pode ser usada em várias posições sintáticas, tal como apontado nos
exemplos a seguir:

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O nível morfológico

1. De que fruta você gosta?

Maçã.

2. Eu prefiro maçã verde à maçã argentina.

Maçã verde é a que eu prefiro.

Com base nesses critérios, chega-se à definição de que palavra é a unidade


mínima que pode ocorrer livremente. Definido o conceito de palavra, tem-se em
mãos a unidade máxima da morfologia, já que esta se interessa por saber como
se estruturam as palavras, em identificar quais os menores elementos dotados
de significado que compõem uma dada palavra. Isso implica que as menores
unidades de estudo da morfologia são os elementos dotados de significado que
entram na formação de uma palavra, os quais são denominados de morfemas.
Sandalo (2001, p. 184) observa, após tal definição, que “apesar de muitas pessoas
afirmarem que a palavra é a unidade mínima que carrega significado, o morfema
é que o é”.

A tarefa agora é entender o que a autora quer dizer sobre “unidade mínima
que carrega significado”, para que você possa, de fato, operar com o conceito de
morfema. Para tanto, observe os exemplos abaixo:

3. Costureiro = aquele que costura.

4. Cozinheiro = aquele que cozinha.

5. Construtor = aquele que constrói.

6. Condutor = aquele que conduz.

Se perguntassem a você sobre a possibilidade de essas palavras terem sido


formadas a partir de outras palavras do português, você responderia afirmati-
vamente, por reconhecer que costureiro vem de costurar, cozinheiro de cozinhar,
construtor de construir e condutor de conduzir. Em seguida, se perguntassem, por
exemplo, que pedaço da palavra costureiro remete ao significado de “aquele que
faz algo”, presente também nos exemplos (4), (5) e (6), facilmente você identifi-
caria se tratar do pedaço -eiro. Portanto, o acréscimo de -eiro às palavras costurar
e cozinhar acarreta o surgimento de um novo significado para essas palavras: o
de que existem pessoas que costuram e cozinham, chamando atenção para a
noção de “aquele que faz X”. Com isso, você pode concluir que -eiro e -tor são

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O nível morfológico

unidades mínimas das palavras exemplificadas anteriormente que carregam sig-


nificado. O mesmo pode ser dito do pedaço que restou dessas palavras (costur-,
cozinh-, constru-, condu-), pois são eles que lhe permitem identificar o que é o “X”
que a dada pessoa faz.

No caso discutido anteriormente, as unidades mínimas portadoras de signifi-


cado apresentadas carregam um significado que remete às coisas do mundo, sig-
nificados que podem ser expressos por outras palavras, por isso elas se chamam
morfemas lexicais. Há casos em que o significado codificado pelos morfemas
não remete às coisas do mundo, mas à própria língua, indicando funções gra-
maticais, ligações entre elementos dentro da sentença, sendo, por conta disso,
chamados de morfemas gramaticais. Os exemplos a seguir dão conta desse tipo
de morfema:

7. a. Maria pegou emprestada a carteira de João e acabou perdendo a car-


teira dele.

b. Maria pegou emprestada a carteira de João pois acabou perdendo a


carteira dela.

8. a. João conseguiu um lugar para sentar.

b. João conseguiu uma cadeira para sentar.

9. a. João e eu estávamos na festa, mas João levou o bolo.

b. João estava na festa, mas eu levei o bolo.

No caso de (7a), é possível saber que foi João quem perdeu a carteira por
conta da concordância, no masculino, apresentada pelo pronome dele, em que
o -e marca o gênero masculino, ligando a carteira perdida ao João. Em (7b), pela
presença do -a no pronome possessivo, marcando gênero feminino, é possível
saber que a carteira perdida foi a de Maria. No exemplo (8), na primeira senten-
ça, tem-se a forma um acompanhando o substantivo masculino lugar quanto ao
gênero, o que muda ao se trocar lugar por cadeira, substantivo feminino que acar-
reta, por uma questão de concordância nominal, o acréscimo de -a, morfema de
gênero feminino, ao artigo indefinido um. Em (9a), o verbo estávamos concorda
com o sujeito da sentença (João e eu = nós) por meio do morfema -mos, sendo
ele o pedaço do verbo responsável por fazer a ligação gramatical entre o sujei-
to e o verbo. É por conta também dessa ligação que é possível identificar em
(9a) que o bolo foi levado por João, haja vista que o verbo levar concorda com
o sujeito de terceira pessoa do singular (João). Em (9b), os morfemas também

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O nível morfológico

fazem a ligação entre o sujeito e o verbo, conforme depreendido pelo destaque


no exemplo. Se pensar bem sobre os exemplos, você poderá concluir que neste
caso o aparecimento dos morfemas é motivado para cumprir um papel sintático
na frase, estabelecendo ligações entre os constituintes da sentença, tendo, para
tanto, que flexionar-se, no sentido de adaptação mesmo. Assim, já que esses
morfemas se adaptam, se flexionam para indicar determinadas relações sintá-
ticas, eles são chamados também de morfemas flexionais, ou apenas de flexão,
ou, para o caso específico dos morfemas que fazem concordância verbal, são
chamados também de desinência verbal.

Por fim, importa observar que, além de flexões encarregadas de informar a


pessoa e o número (isto é, se é primeira, segunda ou terceira pessoa do singular
ou do plural), por isso chamadas de flexão ou desinência número-pessoal, há
também os morfemas acrescidos aos verbos responsáveis por informar o tempo
verbal – passado, presente, futuro – da situação expressa na sentença e o modo
do verbo, se indicativo, subjuntivo ou imperativo, estes são chamados de flexão
ou desinência modo-temporal. Quando um morfema desempenha mais de uma
função gramatical, diz-se que ele é cumulativo, posto que acumula funções.

Uma vez esclarecido o conceito de “menores unidades que carregam signifi-


cado”, de morfemas lexicais e gramaticais, pode-se passar à exposição dos dois
ramos de estudo da morfologia: o derivacional e o flexional. Mas antes vale a
pena conferir o que a metodologia estruturalista tem a dizer sobre o estudo dos
morfemas de uma língua.

O estudo morfológico na perspectiva estruturalista


Para o estruturalismo, uma das preocupações da Linguística é tentar explicar
como é possível reconhecer palavras que nunca foram ouvidas e como são cria-
das palavras que nunca foram proferidas. É o conhecimento dos morfemas da
língua que torna tal explicação possível. “Assim, o problema central da Linguísti-
ca para o quadro teórico estruturalista é identificar os morfemas que compõem
cada língua falada no mundo” (SANDALO, 2001, p. 184).

De forma a cumprir tal empreendimento, uma parte central do estudo en-


volve identificar morfemas de línguas não previamente descritas, o que não é
necessariamente um obstáculo, posto que a metodologia estruturalista mostra
que não é preciso saber falar uma língua para ser capaz de identificar seus mor-
femas, sendo útil ter em mente os seguintes passos e atitudes frente à língua
estudada:
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O nível morfológico

 identifique formas recorrentes e tente observar qual é o pedaço de signi-


ficado que recorre na tradução;

 não assuma que morfemas universalmente aparecem na mesma ordem


que os morfemas do português;

 não assuma que todos os significados expressos por morfemas em sua lín-
gua nativa serão expressos em outra língua por um morfema específico;

 não assuma que sua língua nativa apresenta todos os contrastes morfoló-
gicos possíveis universalmente (SANDALO, 2001, p. 185).

No estudo da morfologia da Libras, como de qualquer outra língua, é im-


portante não esquecer desses passos de análise, pois eles auxiliam para que o
pesquisador não incorra em erro ao procurar estudar a morfologia de uma outra
língua tendo a sua como parâmetro, porque os fenômenos morfológicos se dis-
tribuem de forma diferente em cada língua: para algumas esse componente da
gramática é mais complexo, para outras não. Quanto a isso, convém considerar
que para uma língua “[...] não há nenhuma ‘vantagem’ linguística em apresentar
morfologia flexional ou desvantagem em ter morfologia predominantemente
isolante [...]”1 (PETTER, 2007, p. 61). Tendo isso em mente, parte-se agora para a
diferenciação entre morfologia derivacional e flexional, para a seguir tratar da
formação de palavras em Libras.

Morfologia derivacional
e morfologia flexional: um panorama
Segundo Sandalo (2001), a morfologia derivacional tem a característica de
alterar a categoria gramatical de uma palavra, criando uma nova palavra perten-
cente a outra classe de palavras. Considere o exemplo:

10. Nação – substantivo

Nacional – adjetivo
1
Morfologia isolante diz respeito a línguas em que as palavras são formadas por um único morfema, não podendo, portanto, serem decompostas
em unidades significativas menores. Cada palavra corresponde a um morfema. O chinês é um exemplo de língua isolante.

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O nível morfológico

Nacionalizar – verbo

Nacionalização – substantivo

As palavras nação, nacional, nacionalizar e nacionalização são derivadas,


posto que se originam de outras. De nação, forma-se nacional pela adição do
morfema -al, o que era um substantivo torna-se um adjetivo, havendo, portanto,
alteração na categoria gramatical da palavra. Com o acréscimo de -izar, o adje-
tivo nacional resulta no verbo nacionalizar, o qual, ao ser adjungido pelo mofer-
ma -ção, se transforma no substantivo nacionalização. Os morfemas que geram
novas palavras são morfemas que carregam significado lexical, nesse caso, mor-
femas lexicais, que são chamados também de morfemas derivacionais, pois o
seu papel é derivar palavras.

Há também casos na morfologia derivacional em que a categoria gramati-


cal da palavra pode não ser alterada pela adição de um morfema derivacional,
mas, então, uma nova nuance de significado que pode ser parafraseada por uma
palavra independente é adicionada. Nesse sentido, a adição de re- ao verbo es-
crever resulta no também verbo reescrever, sendo que o acréscimo de re- traz à
palavra a noção de “escrever de novo”.

Além disso, é preciso considerar que “a morfologia derivacional não é pro-


dutiva, isto é, não é qualquer morfema derivacional que pode ser adicionado a
qualquer raiz, morfemas derivacionais têm muitas restrições de coocorrência”
(SANDALO, 2001, p. 193). Restrições de coocorrência dão conta do fato de que
alguns morfemas derivacionais se ligam a algumas bases e a outras não. O mor-
fema -izar, considerado anteriormente, participa da formação de palavras como
cristianizar e oficializar, mas não é possível formar *clinizar, *medicalizar.

A morfologia flexional, por sua vez, não altera categorias, apenas fornece
formas diferentes de uma mesma palavra. A tarefa do morfema flexional é esta-
belecer ligações entre as palavras na sentença. Assim, na frase nós estudamos o
morfema -mos indica que o sujeito da frase é a primeira pessoa do plural (nós).
A morfologia derivacional, como visto no parágrafo anterior, cria novas palavras,
novos lexemas. A morfologia flexional apenas muda as formas das palavras.

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O nível morfológico

Analise:

Morfologia derivacional = Morfologia flexional =


novas palavras diferentes formas de palavras
escrevo
constituição escreves
constitucional escreve
constitucionalizar escrevemos
constitucionalização escreveis
escreves

São seis formas diferentes de uma palavra:


São quatro palavras.
escrever.

Ao contrário da derivacional, a morfologia flexional é produtiva, não apresen-


ta restrições de coocorrência. Isso significa, por exemplo, que qualquer verbo
pode ser marcado por um morfema indicando terceira pessoa do plural. Exce-
ções são muito raras, enquanto exceções na derivacional são muito frequentes.

De acordo com Quadros e Karnopp, nas línguas de sinais há descrições que


se referem tanto aos processos derivacionais como aos processos flexionais.
As autoras destacam, ainda, “que há um consenso no sentido de se entender
os processos envolvendo a combinação de aglutinação e incorporação” (2004,
p. 94). Na combinação por aglutinação, há uma organização composicional, na
qual um elemento é acrescentado a outro, num processo concatenativo. Na in-
corporação, os elementos são inseridos no interior da palavra, o que se vê não é
um acréscimo de material linguístico a uma base, mas antes uma substituição ou
troca de alguns elementos no interior da palavra. Para diferenciar, basta pensar
em como é formado o passado nos verbos do português e como se dá esse pro-
cesso em árabe.

Árabe/Incorporação Português/Aglutinação
Distinção de processos de
aglutinação e de incorporação Kataba Ele escreveu
Kutib Estava escrito

Para entender a diferença entre concatenação e incorporação de morfemas,


leve em conta que no quadro acima a última coluna corresponde à tradução dos
termos em árabe. É possível ver que em português escreveu e escrito se referem
à forma passada de escrever, pois é possível identificar um pedaço/morfema raiz
(raiz é o morfema base sobre o qual um morfema derivacional ou flexional é
adjungido) dessa palavra naquelas que sofreram acréscimo de material para ex-
pressar o passado. Mas no caso do árabe, não é possível identificar um pedaço
de palavra que sofreu acréscimo para resultar em kataba e kutib. Talvez você

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pense que isso se deva ao fato de você, provavelmente, não conhecer a língua
árabe. Todavia, isso não é determinante, basta pensar no caso das formas taked
(tomou) e taken (tomado) do inglês, mesmo que não se conheça a língua inglesa
é possível perceber que elas foram formadas a partir do acréscimo de “d” e “n” à
forma take (tomar). O que ocorre no árabe, na verdade, é que apenas as conso-
antes permanecem as mesmas (k, t, b) e que é a troca das vogais, no interior da
palavra, que determina o tempo verbal expresso.

Mais à frente serão apresentados alguns casos de formação de sinais na Libras


que ilustram tanto casos concatenativos quanto processos de incorporação de
diferentes elementos dentro dos sinais.

Processos de formação de palavras


Nesta seção, a intenção é conhecer os processos pelos quais novas palavras,
sinais, são criadas nas línguas de sinais. Para o início dessa exposição é conve-
niente considerar que:
As línguas de sinais têm um léxico e um sistema de criação de novos sinais em que as unidades
mínimas com significado (morfemas) são combinadas. Entretanto, as línguas de sinais
diferem das línguas orais no tipo de processos combinatórios que frequentemente cria palavras
morfologicamente complexas. Para as línguas orais, palavras complexas são muitas vezes
formadas pela adição de um prefixo ou sufixo a uma raiz. Nas línguas de sinais, essas formas
resultam frequentemente de processos não concatenativos em que uma raiz é enriquecida com
vários movimentos e contornos no espaço de sinalização. (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 87, grifo
nosso)

Por meio do excerto há duas afirmações possíveis sobre a criação de sinais na


Libras. A primeira delas é que o processo de incorporação de morfemas parece
ser o principal meio, posto que é o mais frequente, de criação de sinais na Libras.
A segunda afirmação depreendida é que, embora não frequentemente, proces-
sos concatenativos também são empregados na formação de novas palavras na
Libras. Além desses recursos explicitados pelas autoras, há ainda a composição,
que consiste em unir duas palavras independentes para formar uma nova pala-
vra. Em português, palavras como guarda-chuva, maltratado, benquisto ilustram
o processo de composição, os substantivos compostos como são chamados pela
gramática tradicional. Em língua de sinais, a palavra escola é formada por dois
sinais independentes casa e estudar. Esse processo é bastante comum na Libras e
em outras línguas de sinais. Nas seções a seguir, os processos de derivação, incor-
poração e composição serão aprofundados no que concerne às línguas de sinais,
uma vez que os estudos realizados sobre os referidos temas foram feitos na língua
americana de sinais (ASL), mas são descrições válidas também para a Libras.

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O nível morfológico

Derivação na língua de sinais


De maneira simplificada, pode-se assumir que a derivação na Libras consiste
em criar um novo sinal para utilizar o significado de um sinal já existente num
contexto que requer uma classe gramatical diferente. Na Libras, um exemplo
bastante comum desse tipo de processo morfológico, que se trata de concate-
nação, é o que deriva nomes de verbos.

O sinal SENTAR, um verbo, que se constitui de um único morfema, quando


combinado com um movimento repetido e mais curto, forma o substantivo CA-
DEIRA. Nesse caso, o sinal foi formado por um processo de derivação, em que
um morfema lexical (o sinal SENTAR) se une a um morfema gramatical (o movi-
mento). Esse processo em que um nome é derivado de um verbo é denominado
nominalização. Observe que em português cadeira não deriva de sentar, são dois
vocábulos primitivos, isto é, que não derivaram morfologicamente de outro. Isso
acontece porque as línguas são diferentes, uma língua pode escolher derivar um
nome de um verbo enquanto outra, para expressar a mesma relação semântica,
pode empregar vocábulos primitivos.

Quadros e Karnopp (2004, p. 97) explicam que, em Libras, um nome pode


derivar de um verbo por meio da repetição e do encurtamento do movimento
desse verbo. Observe a diferença nesse parâmetro, o do movimento, nos exem-
plos fornecidos a seguir:
IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

SENTAR. CADEIRA.

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IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.


OUVIR. IESDE Brasil S.A. OUVINTE.

IESDE Brasil S.A.

TELEFONAR. TELEFONE.

Nos casos ilustrados anteriormente, os sinais da direita são os primitivos, os


que dão origem aos da esquerda, chamados de derivados. Você perceberá que
os sinais da esquerda resultam da modificação do parâmetro movimento, pois
todos os outros parâmetros (configuração de mão, ponto de articulação e orien-
tação da mão) são mantidos. Então, a repetição ou reduplicação de um parâ-
metro (o movimento) do sinal base (primitivo) leva à criação de novos sinais, os
produtos (derivados) do processo de derivação.

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Em resumo, a Libras, por meio da derivação morfológica, “cria novas unidades


a partir de formas já existentes, apresentando a tendência de repetir ou mudar o
movimento na estrutura segmental da forma-base, enquanto mantém as outras
unidades – locação, configuração e orientação de mão – inalteradas” (QUADROS;
KARNOPP, 2004, p. 101).

Incorporação nas línguas de sinais


Outro processo de formação de palavras é por meio da incorporação. Na
Libras, é comum a incorporação de numeral para formar novos sinais. Nesse pro-
cesso, a configuração de mão que representa o numeral se combina com outro
morfema preso para formar um sinal. Por exemplo, no sinal de DOIS-MESES,
apenas a configuração de mão se modifica, havendo o acréscimo de um dedo
à configuração de mão utilizada para formar o sinal MÊS. Essa incorporação, no
caso do sinal de MÊS, para indicar a quantidade de meses pode ir até quatro,
conforme ilustrado:

IESDE Brasil S.A.

UM-MÊS. DOIS-MESES.
IESDE Brasil S.A.

TRÊS-MESES. QUATRO-MESES.

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O fenômeno da incorporação também se verifica em alguns sinais que têm


a negação incorporada em sua constituição. Para tanto, um dos parâmetros
do sinal é alterado, em especial o parâmetro do movimento. Em alguns casos,
altera-se somente a expressão facial do sinalizador. Os sinais NÃO-TER e NÃO-
-QUERER, verifique a seguir, são exemplos de incorporação de negação através
da alteração do movimento.

IESDE Brasil S.A.


TER. NÃO-TER.
IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

QUERER. NÃO-QUERER.

Composição nas línguas de sinais


A composição é um processo para formação de palavras que emprega expe-
dientes sintáticos, já que os compostos são formados pela justaposição de pala-
vras independentes na língua. A especificidade da formação de novos vocábulos
por meio da composição se encontra no fato de que, diferentemente da deri-
vação, ela permite categorizações cada vez mais particulares. Com base nessa
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especificidade, os compostos, ao unirem duas palavras independentes, servem


à nomeação ou à caracterização de seres, objetos, sentimentos, podendo realçar
características peculiares dos mesmos.

Nesse processo, não raro, o significado dos compostos acaba se desligando


dos elementos que os formam, isso quer dizer que o afastamento do significado
do todo do significado das partes no processo de composição é natural. Nesse
sentido, as partes do todo guarda-chuva não mantêm a mesma proximidade de
significado que as partes de guarda-roupa mantêm com o todo. Em guarda-roupa,
o significado isolado de guardar e roupa ainda está presente no composto, ainda
é possível falar numa composição de significado em que é possível ver a con-
tribuição das duas partes. Já em guarda-chuva, o significado isolado das partes
está mais distanciado do significado do composto, já que, diferentemente de
guarda-roupa, não se pode dizer que o significado de guarda-chuva é aquilo que
guarda a chuva, na verdade, é o que protege alguém da chuva, pense também
em compostos como pé de moleque, girassol, madressilva, louva-a-deus.

Entendido no que consiste a composição, é hora de você se familiarizar com


as regras morfológicas para a criação de compostos na língua de sinais. Essas
regras foram observadas durante a descrição do processo de composição na ASL e
podem ser verificadas também na Libras, como demonstra o trabalho de Quadros
e Karnopp (2004). De acordo com as autoras, que citam Liddel (1984), são três as
regras morfológicas para a formação de sinais compostos: (i) a regra do contato; (ii)
a regra da sequência única; e (iii) a regra da antecipação da mão não dominante.

A regra do contato determina que se os sinais formadores do composto apre-


sentam contato, o primeiro, o segundo ou o único contato é mantido. Assim, num
composto em que apenas o primeiro sinal apresenta contato, esse contato tende
a permanecer. Se o primeiro sinal do composto não tem contato, mas o segundo
tem, esse contato tende a ser mantido. No caso de ambos os sinais que formam
o composto apresentarem o contato, este pode permanecer nos dois sinais ou
em apenas um deles. Um exemplo dessa regra na Libras é o composto correspon-
dente a igreja (CASA^CRUZ), em que ambos os sinais apresentam contato, que é
mantido na realização do composto, como pode se verificar na ilustração:
IESDE Brasil S.A.

IGREJA.
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A regra de sequência única dá conta do fenômeno de que na composição


de sinais o movimento interno ou a repetição do movimento dos sinais isola-
dos são eliminados na composição, que apresenta apenas um movimento. Isso
é exemplificado por Quadros e Karnopp (2004) por meio do sinal para pais, que
em Libras é formado pela junção dos sinais de pai e mãe, os quais, isoladamente,
apresentam movimento repetitivo, mas no composto a repetição do movimento
de cada sinal é eliminada, observe:

IESDE Brasil S.A.


PAI. MÃE. IESDE Brasil S.A. PAIS.

Finalmente, a regra de antecipação da mão não dominante estabelece


que, em compostos envolvendo uma mão ativa e uma passiva, a mão pas-
siva antecipa o segundo sinal no processo de composição. “Por exemplo,
no sinal composto BOA + NOITE, observa-se que a mão não dominante apa-
rece no espaço neutro em frente ao sinalizador com uma configuração de
mão que envolve o sinal composto”. (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 104).
Dito de outra forma, isso quer dizer que a mão passiva não pode entrar no
sinal composto depois de a mão ativa já ter iniciado o sinal, ela tem de estar lá
desde o início, esperando o contato da mão ativa sobre ela. Analise os exemplos
fornecidos:
IESDE Brasil S.A.

BOA-NOITE.

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IESDE Brasil S.A.


ACREDITAR. NÃO-ENTENDER.

No caso do sinal BOA-NOITE, é fácil entender por que ele é composto, já que
se podem distinguir muito bem o sinal BOM e o sinal NOITE. Já em relação aos
compostos ACREDITAR (em português se trata de uma palavra simples) e NÃO-
-ENTENDER (em português equivale a uma frase) “enxergar” os sinais que os
compõem não é tão simples. Assim, repare na ilustração que o sinal ACREDITAR
é composto pelos sinais SABER + ESTUDAR e o sinal NÃO-ENTENDER é formado
pela união de SABER e NADA.

Flexão nas línguas de sinais


A Língua Brasileira de Sinais, de acordo com Quadros e Karnopp (2004), apre-
senta vários processos de flexão. Identificada, geralmente, como uma mudança
no parâmetro do movimento, o qual é visto como um acréscimo à raiz do sinal.

O primeiro caso a ser apontado é o da flexão utilizada para marcar as referên-


cias pessoais nos verbos com concordância: nem todos os verbos da Libras apre-
sentam concordância. O referente é realizado por meio da apontação para dife-
rentes locais no espaço, estabelecidos para identificá-los quando estes não estão
presentes no discurso. No caso de referentes presentes, a apontação é direcionada
para a posição real do referente. Observe os exemplos em glosas e em sinais:
IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

PAGAR PARA MIM. PAGAR PARA ELE. PAGAR PARA TI.

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PAGAR PARA ELES.

Na Libras também há, segundo as autoras, a flexão que indica o singular,


o dual, o trial e o múltiplo, trata-se, portanto, da flexão de número. Entre as
várias formas de os substantivos e verbos apresentarem a flexão de número,
uma é a diferenciação entre singular e plural, feita por meio da repetição do
sinal. No caso de verbos com concordância, a flexão de número refere-se à
distinção feita para um, dois, três ou mais referentes. Repare nos casos a seguir
a repetição do sinal:

IESDE Brasil S.A.

ÁRVORE.
IESDE Brasil S.A.

ÁRVORES.
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IESDE Brasil S.A.


ENTREGAR PARA UM. ENTREGAR PARA DOIS
INDIVIDUALMENTE.
IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

ENTREGAR PARA TRÊS ENTREGAR PARA VÁRIOS INDIVIDUALMENTE.


INDIVIDUALMENTE.

Os substantivos e adjetivos da Libras apresentam distinções para “menor”,


“mais próximo”, “muito”, “maior” etc., apresentando, portanto, na perspectiva das
autoras, a flexão de grau:

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O nível morfológico

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.


CARRINHO. CARRO.

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IESDE Brasil S.A.

CARRÃO. CASA PERTO.


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CASA LONGE.

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O nível morfológico

Além das flexões já apontadas na Libras, há em Quadros e Karnopp (2004) a


flexão para o aspecto verbal, que, grosso modo, informa como decorreu a situ-
ação referida na sentença, se durou ou não, se se repetiu etc. Essa informação é
dada também pela alteração no parâmetro movimento do sinal raiz. Observe a
diferença de sinalização entre:

IESDE Brasil S.A.


EU CRESCER, FICAR ADULTO.
IESDE Brasil S.A.

EU CRESCER progressivo, FICAR ADULTO.

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EU CUIDAR CRIANÇA DIA TODO HOJE.

IESDE Brasil S.A.

EU CUIDAR CRIANÇA HOJE.

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O nível morfológico

Em relação ao gênero, Ferreira-Brito (1995) afirma que não há marcação mor-


fológica no sinal. Fernandes (2003) enfatiza que marcação de gênero não é rele-
vante, a não ser que o gênero seja a questão em discurso. Nesse caso, são usados
os itens lexicais HOMEM ou MULHER associados aos sinais.

O léxico da Libras
Após tudo o que estudou nesta aula até aqui, você pode, estudante, ter con-
cluído que a estrutura dos sinais da Libras é complexa, por vezes compartilhando
características com as línguas orais e por vezes apresentando características que
lhe são específicas. E é isso mesmo! Agora, resta expor como se acredita que esteja
organizado o léxico da Libras. Mais uma vez um estudo desenvolvido sobre a ASL
serve de base para reflexões sobre a Língua Brasileira de Sinais na obra de Quadros
e Karnopp (2004), a qual é tomada como referência aqui também.

As autoras apresentam a seguinte proposta de organização:

IESDE Brasil S.A.


Soletração
Núcleo Léxico nativo
manual
(classificadores)
(alfabeto)

Léxico não nativo

Como você observou, a organização proposta se estabelece em termos da


relação núcleo-periferia. No núcleo estão os sinais considerados nativos, aque-
les que obedecem a todas as restrições de boa formação dos sinais (restrições
fonológicas e morfológicas). Em direção à periferia, encontram-se as palavras es-
trangeiras, os sinais não nativos, sendo que alguns destes também obedecem às
regras de formação de sinais. No extremo da periferia estão os lexemas estrangei-
ros, que respeitam minimamente as regras de estruturação de sinais na Libras.
IESDE Brasil S.A.

DIAFRAGMA.

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O nível morfológico

Sobre o léxico não nativo, as autoras indicam, ainda, que ele contém também
palavras do português que são soletradas manualmente. Como no caso de:
D-I-A-F-R-A-G-M-A.

O alfabeto manual, datilologia, é um conjunto de configurações de mão que


representam o alfabeto português. Assim, palavras do português podem ser to-
madas emprestadas e passar a fazer parte do léxico da Libras. O empréstimo
linguístico é comum a todas as línguas, o português, por exemplo, incorporou a
seu vocabulário muitas palavras de línguas estrangeiras. Por fim, você encontra
no texto complementar um panorama sobre o estado dos estudos morfológicos
no Brasil, podendo, por meio da leitura do mesmo, estabelecer a que campo da
morfologia os estudos morfológicos tratados nessa aula se dedicam.

Texto complementar
A morfologia no Brasil: indicadores e questões
(BASILIO, 1999, p. 53-57)

Enquanto disciplina linguística, a morfologia tem uma história recente no


Brasil. De menor relevância como objeto de estudo nas gramáticas tradicio-
nais, passou a ser de mais interesse no período de influência do estruturalismo.
Mas o estruturalismo descritivista foi logo suplantado na Linguística brasileira
pela Teoria Gerativa, que havia então desviado para outros componentes o
tratamento de fenômenos tradicionalmente considerados morfológicos.

Há duas fases de fundamental relevância no desenvolvimento da Lin-


guística no Brasil. A primeira, de meados da década de 1960 até os inícios da
década de 1970, corresponde aos estágios iniciais, a partir da instituição da
obrigatoriedade do ensino de Linguística em todos os cursos de Letras do
país. Na segunda fase, já em pleno desenvolvimento em virtude da demanda
constituída na década anterior, a Linguística se integra ao quadro geral das
demais disciplinas no salto de desenvolvimento da pesquisa e pós-graduação
no Brasil. Esta fase se intensifica a partir de meados da década de 1970, com
a gradual acumulação do número de mestres egressos dos primeiros pro-
gramas de Mestrado em Linguística no país e com a chegada de um certo
número de doutores em Linguística, sobretudo brasileiros, bolsistas da CAPES
e CNPq.

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O nível morfológico

Na primeira fase de desenvolvimento da Linguística no Brasil, sob a in-


fluência do estruturalismo, mormente americano, os estudos morfológicos
começam a despertar interesse. De especial relevância nesta fase são os tra-
balhos de J. Mattoso Câmara Jr. (1970, 1971) sobre a língua portuguesa e
estudos descritivos de morfologia de línguas indígenas. É de se ressaltar a
presença de cursos de morfologia no Programa Unificado de Pós-Graduação
em Linguística do Museu Nacional a partir de 1968, assim como nos Institu-
tos de Linguística da USP em 1969, quando foi fundada a Associação Brasi-
leira de Linguística.

Em meados da década de 1970, quando se consolida a segunda fase de


(intenso) desenvolvimento da Linguística no Brasil, a morfologia voltava a
ser legitimada como objeto de estudo na Teoria Gerativa, em especial os es-
tudos lexicais, com a Hipótese Lexicalista (Chomsky, 1970) e sua repercussão
imediata no estabelecimento de modelos de descrição lexical (Halle, 1973;
Jackendoff, 1975 e Aronoff, 1976). Dada a incidência da fase mais expressiva
do desenvolvimento da Linguística no país com o ressurgimento da Morfo-
logia na Teoria Gerativa, então a caminho de tornar-se hegemônica, é natural
que a Morfologia tivesse surgido como tema de certa relevância no Brasil
justamente nesta época. Pelas mesmas circunstâncias, houve uma concen-
tração inicial em questões lexicais, mormente envolvendo a nominalização.

Definida como o estudo da estrutura interna da palavra e/ou de suas va-


riações de forma, a morfologia se confronta com problemas de definição de
objeto, dada a múltipla pertinência da palavra como unidade lexical, grama-
tical, fonológica etc. Estas questões prejudicam a nitidez de um panorama
de estudos morfológicos no que tange a decisões de pertinência de estudos
particulares. Somam-se a estes problemas oriundos de proposições teórico-
-metodológicas específicas, entre os quais avultam o tratamento sintático de
fenômenos morfológicos na Teoria Gerativa e o tratamento necessariamente
não gramatical de categorias morfológicas na análise do discurso.

O quadro a ser apresentado deriva sobretudo de dois indicadores. O pri-


meiro é o produto de um levantamento de títulos e temas centrais de tra-
balhos publicados na revista DELTA., que tem o apoio oficial da Abralin. O
segundo corresponde ao cômputo das respostas a um questionário enviado
a especialistas ou eventuais pesquisadores da área de Morfologia em dife-
rentes instituições brasileiras, no qual eram solicitados dados referentes a
projetos de pesquisa em morfologia nos últimos 10 anos.

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No momento atual, a morfologia no Brasil concentra-se sobretudo em


problemas de representação lexical, dentro de uma abordagem gerativa.
Abordagens sociolinguísticas, funcionalistas e discursivas de fenômenos
morfológicos são minoritárias, assim como abordagens morfológicas de
temas flexionais. Os dados a seguir especificam essa afirmação.

De um total de 14 trabalhos de morfologia publicados na revista DELTA.


nos últimos 10 anos, 10 abordam questões lexicais e apenas quatro se dedi-
cam à flexão. Além disso, no levantamento de projetos de morfologia, obtido
junto a especialistas na área, foi constatado um total de 22 trabalhos sobre
morfologia lexical, em confronto com 6 relativos a questões morfossintáticas
e 6 dedicados a questões gerais, tais como o tratamento de clíticos e a elabo-
ração de manuais de morfologia.

O predomínio da abordagem gerativa decorre da suplantação do estrutu-


ralismo no desenvolvimento dos estudos linguísticos no Brasil e da pouca re-
levância dada à estrutura vocabular em abordagens funcionalistas. Quanto
à concentração no léxico, é possível que se deva em grande parte a interes-
ses de linguistas que lideraram a formação de novas gerações, embora deva
também ser considerado o fato de que a flexão já havia sido abordada no
período de influência dos estruturalistas.

A segunda afirmação que se pode fazer acerca da morfologia nesta


década é a do significativo desenvolvimento do interesse na área no país. É
de se ressaltar a crescente atividade editorial, tanto em títulos novos publica-
dos quanto em reedições e manuscritos em preparação. Verifica-se, outros-
sim, uma diferença de relevância da morfologia como tema em congressos e
simpósios de âmbito nacional. Em terceiro lugar, começa a surgir em alguns
programas de pós-graduação a preocupação de formar e contratar especia-
listas em morfologia e trazer professores visitantes. Esses indicadores, por
um lado, refletem um interesse maior pela morfologia na Teoria Gerativa.
O que é peculiar no caso do Brasil é o interesse em questões lexicais nem
sempre relacionadas à sintaxe.

A maior parte dos trabalhos se concentra na descrição do português. É de


se registrar, entretanto, o surgimento de pesquisas em áreas menos centrais,
tais como Aquisição da Linguagem, Psicolinguística Experimental, Afasia, Fo-
nologia Lexical, Descrição de Línguas Indígenas e Processamento de Lingua-
gem Natural, o que reforça e amplia a configuração do quadro da pesquisa
em morfologia no Brasil na última década.

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A morfologia brasileira se singulariza pelo interesse nas questões lexi-


cais. Um segundo prolongamento desta preferência é a conexão semântica.
Apesar da origem gerativa, a morfologia lexical brasileira se preocupa signi-
ficativamente com a investigação do fator semântico nos processos de for-
mação de palavras, o que certamente é uma abordagem minoritária e mar-
ginalizada na morfologia gerativa. Esta preocupação com o fator semântico
na morfologia já se manifesta no início da década de 1980, e se mantém em
várias publicações nacionais nas décadas de 1980 e 1990, assim como em
livros e outros veículos menores. Neste sentido, o interesse mais consistente
da morfologia no Brasil não se relaciona à sintaxe e à gramática, mas à se-
mântica lexical e à lexicologia.

Dicas de estudo
 Capítulo “Formação de Palavras: as várias abordagens”, do livro Teoria Lexi-
cal, de Margarida Basilio, 8. ed., São Paulo: Ática, 2007.

Recomendado a quem tem interesse sobre como a formação de palavras


é encarada nas diferentes abordagens linguísticas, podendo o interessado
eleger para si a melhor proposta explicativa para os fins de seu trabalho.

 Artigo científico intitulado “Algumas notas sobre compostos em Português


e em Libras” de Maria Cristina Figueiredo Silva e Fabíola Ferreira Sucupira
Sell. Disponível em: <www.fflch.usp.br/dl/tardes_de_ling/FIGUEIREDOSIL-
VA-SELL.pdf>.

Este artigo apresenta uma discussão aprofundada daquele que parece ser o
processo de formação de palavras mais recorrente na Libras: a composição.
Noções preliminares sobre morfologia são revistas, para o desenvolvimento
do trabalho, sob a óptica da Teoria Gerativa com base no português. É um
texto de leitura mais exigente, os não iniciados no assunto podem sentir a
necessidade de recorrer a outras fontes, mas vale a pena pelo rigor meto-
dológico e pela forte reflexão sobre se certos processos morfológicos são
realmente encontrados na Libras como se costuma apontar.

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O nível morfológico

Atividades
1. Tomando por base a exposição sobre como identificar palavras, discuta se as
formas antiético, ético e anti são palavras da língua portuguesa.

2. Defina os processos de derivação e incorporação na língua de sinais com


base na distinção entre os pares de sinais TELEFONAR/TELEFONE e TER/NÃO-
-TER ilustrados a seguir.
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TELEFONE. TELEFONAR.

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O nível morfológico

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TER. NÃO-TER.

3. Como se pode correlacionar a afirmação de Petter (2007, p. 61) de que “[...]


não há nenhuma ‘vantagem’ linguística em apresentar morfologia flexional
ou desvantagem em ter morfologia predominantemente isolante [...]” e as
atitudes frente ao estudo da morfologia de diversas línguas estabelecidas
pelo quadro estruturalista, relacionadas a seguir:
 Não assuma que morfemas universalmente aparecem na mesma or-
dem que os morfemas do português.
 Não assuma que todos os significados expressos por morfemas em sua lín-
gua nativa serão expressos em outra língua por um morfema específico.

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O nível morfológico

 Não assuma que sua língua nativa apresenta todos os contrastes mor-
fológicos possíveis universalmente.

Referências
BASILIO, Margarida Maria de Paula. A morfologia no Brasil: indicadores e questões.
DELTA., v. 15, n.º especial, p. 53-70, 1999. Disponível em: <www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0102-44501999000300003>. Acesso em: 22 set. 2010.
FERNANDES, E. Linguagem e Surdez. Porto Alegre: ArtMed, 2003.
FERREIRA-BRITO, L. Por uma Gramática das Línguas de Sinais. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, UFRJ, 1995.
FIGUEIREDO SILVA, Maria Cristina; SELL, Fabíola Ferreia Sucupira. Algumas Notas
sobre Compostos em Português e em Libras. Disponível em: <www.fflch.usp.
br/dl/tardes_de_ling/FIGUEIREDOSILVA-SELL.pdf>. Acesso em: 17 set. 2010.
LEITE, Tarcísio de Arantes. A Segmentação da Língua de Sinais Brasileira
(Libras): um estudo linguístico descritivo a partir da conversação espontânea
entre surdos. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
LIDDELL, Scott K. Think and believe: sequentiality in American Sign Language.
Language 60, p. 372-399, 1984.
PETTER, Margarida Maria Taddoni. Morfologia. In: FIORIN, José Luiz (Org.). Intro-
dução à Linguística II: princípios de análise. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2007.
QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir. Língua de Sinais Brasileira:
estudos linguísticos. Porto Alegre: ArtMed, 2004.
SANDALO, Filomena. Morfologia. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Anna Christi-
na. Introdução à Linguística. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

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O nível morfológico

Gabarito
1. O esperado é que o aluno aplique os critérios sintáticos apontados com base em
Sandalo (2001) para identificar quais dessas formas são efetivamente palavras.
O resultado a que deve chegar é que antiético e ético se tratam de palavras da
língua portuguesa, pois servem de resposta mínima a uma pergunta e podem
ocorrer em várias posições sintáticas. Já anti não se trata de uma palavra, pois
não serve de resposta mínima a uma pergunta e não pode ocorrer em várias po-
sições sintáticas. Pode ocorrer de os alunos argumentarem que anti pode ocor-
rer como resposta mínima a uma pergunta como “Você é anti ou pró-governo?”.
Caso em que o aluno não se dá conta de que está fazendo uma elipse, omitindo
governo (antigoverno) e usando o prefixo como se ele fosse a palavra contra.
Além disso, é preciso que, para ser considerado palavra, o item possa ocorrer
com certa liberdade na estrutura de uma sentença, o que não ocorre com anti.

2. Em primeiro lugar, espera-se que o estudante seja capaz de reconhecer nos pa-
res fornecidos os exemplos dos processos a serem definidos. Assim, o par SABER/
NÃO-SABER é um exemplo de incorporação, processo morfológico que consiste
em incorporar à palavra ou sinal elementos em seu interior, mas não da mesma
forma como ocorre na derivação, em que se vê um acréscimo de material à base
de uma palavra para criar outra, sendo possível delimitar na palavra ou sinal de-
rivado a base da palavra ou sinal primitivo. Esse acréscimo, com possibilidade de
identificação da base, é o que se vê no par TELEFONAR/TELEFONE, exemplo de
derivação na Libras, em que por meio da repetição do parâmetro movimento do
sinal de TELEFONAR surge o derivado TELEFONE, uma nova palavra com catego-
ria gramatical alterada, o que caracteriza o processo de derivação.

3. Resposta mínima deve versar em algum momento sobre o fato de que não se
pode estudar uma língua com preconceito, minimizando-a ou supervalorizan-
do-a por conta de sua morfologia ser próxima ou distante à da língua nativa do
pesquisador. Do ponto de vista linguístico, cada língua escolhe os recursos que
julga melhor para expressar dados conteúdos ou funções, e se não há uniformi-
dade entre as línguas isso deve ser encarado como uma prova da diversidade
linguística e respeitado enquanto característica própria, e não ser visto como
uma deficiência da língua.

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O nível morfológico

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O nível sintático I

Nesta aula, o objetivo é fornecer fundamentos sintáticos que contri-


buam para a atuação de tradutores e intérpretes da Libras, bem como
para a compreensão dos interessados em questões linguísticas sobre as
regras de estruturação da gramática dessa língua. Para tanto, discute-se
a visão de sintaxe subjacente ao trabalho de Quadros e Karnopp (2004),
obra-base para a explanação aqui elaborada sobre a estrutura sintática da
Libras. Além disso, você vai poder refletir sobre diferentes abordagens de
análise linguística. Tenha em mente, durante tal reflexão, que não existe
uma abordagem mais correta do que a outra, mas apenas explicações
mais adequadas conforme os objetivos que se tem em mente. Você verá,
por exemplo, que se a intenção for respeitar a norma culta de uma dada
língua, a Gramática Tradicional serve muito bem, no entanto, se o objeti-
vo for saber por que determinadas ordenações sintáticas são possíveis e
outras não, então ela não pode ajudar.

O que é sintaxe?
Na visão da Gramática Tradicional, conforme Berlinck, Augusto e Scher
(2003), o termo sintaxe remete à parte da gramática dedicada à descri-
ção do modo como as palavras são combinadas para compor sentenças,
sendo essa descrição organizada sob a forma de regras. Estas são obtidas
por meio do arrolamento de um grande número de autores consagrados,
a partir dos quais são listadas, sob a denominação de regras, as formas
empregadas por eles para combinar e organizar as palavras em sentenças
e as sentenças em texto. Algumas dessas regras, inclusive, são bem co-
nhecidas. Pense no caso da regra que estabelece a ordem direta (sujeito-
-verbo-complementos) para a organização dos constituintes da sentença.

Contudo, essa visão de sintaxe – entendida como regra do bem falar e


do bem escrever – para os propósitos desta aula, não interessa. Na verda-
de, interessa à discussão a ser empreendida aqui uma visão de sintaxe que
não é “uma”, mas duas. Isso porque definir o que vem a ser sintaxe varia do
ponto teórico sobre o qual o pesquisador se posiciona em relação a como
concebe as noções de linguagem e língua.
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O nível sintático I

Duas grandes correntes pelas quais as análises seguem são o formalismo e


o funcionalismo. A abordagem formalista se dedica a questões relacionadas à
estrutura linguística (natureza de seus constituintes e relação entre eles), sem
dar atenção às relações entre a língua e o contexto no qual está inserida, uma
vez que considera a língua como um objeto de estudo em si mesmo, autônomo
e autossuficiente. Por tal razão, nessa abordagem, toda análise linguística é feita
considerando-se e enfatizando-se a sentença. No funcionalismo, a língua, ou
melhor, a linguagem, é vista como um sistema não autônomo, nascido da neces-
sidade de comunicação entre os membros de uma comunidade. Em virtude de
a comunicação ser, na visão funcionalista, uma função essencial da linguagem,
determina o modo como a língua é estruturada. Por isso, nessa abordagem, a
análise da língua deve considerar tanto o falante quanto o ouvinte e as necessi-
dades da comunidade linguística.

Cada pesquisador, ao se debruçar sobre o estudo de uma dada língua, trilhará


um caminho ou outro. Em relação à Língua Brasileira de Sinais, a publicação mais
conhecida sobre sua estruturação, referência para muitos outros pesquisadores
desta língua e para a elaboração de cursos de Libras – inclusive de graduação
e pós-graduação –, é o Língua de Sinais Brasileira: estudos linguísticos, de Ronice
Müller de Quadros e Lodenir Becker Karnopp. As autoras trabalham numa pers-
pectiva formalista, mais especificamente na linha da Gramática Gerativa. Portan-
to, muito do que será abordado nesta aula deriva da leitura das autoras, que, não
se pode esquecer, olham para a Libras de um ponto de vista formal, procurando,
a partir do estudo de sentenças dela – e este é um conceito que deverá ser re-
tomado –, estabelecer quais são os constituintes desta língua e como eles se
organizam. Antes de proceder à exposição da sintaxe da Libras, é necessário que
você, estudante, familiarize-se com o programa gerativista.

Noções preliminares sobre a Gramática Gerativa


Em primeiro lugar, deve ficar claro que a Teoria Gerativa se preocupa em ex-
plicar o que chama de competência linguística do falante em oposição ao que
chama de desempenho linguístico. Isso significa, em termos bastante simplis-
tas, que o gerativismo está preocupado com a língua enquanto representação
mental, algo que está na mente do falante. Algo esse que possibilita o desem-
penho, mas é de natureza diferente da competência. O desempenho está para o
uso, para a fala, e a competência para a capacidade mental que possibilita o uso,
capacidade essa que é inata. Assim, do ponto de vista gerativista, “[o] falante de

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O nível sintático I

qualquer língua natural tem um conhecimento inato sobre como os itens lexi-
cais de sua língua se organizam para formar expressões mais e mais complexas,
até chegar ao nível da sentença” (NEGRÃO; SCHER; VIOTTI, 2007b, p. 81). É nesse
conhecimento inato, como ele se organiza e como organiza a língua, que o ge-
rativismo está interessado.

Na Teoria Gerativa, argumenta-se que todas as crianças nascem com um


dispositivo chamado de faculdade da linguagem que lhes possibilita adquirir
qualquer língua, durante o período crítico de aprendizagem1. Essa faculdade da
linguagem é uniforme para todas as crianças. Quando nascem, todas elas apre-
sentam a mesma capacidade, partem do mesmo estado inicial de aquisição da
linguagem, possuindo os mesmos mecanismos, não importa se no futuro fala-
rão Libras, chinês ou português. Somente ao serem expostas a uma dada língua,
as crianças passam a desenvolver um conhecimento específico sobre ela, conhe-
cimento esse que é fruto “da interação da informação genética que ela traz no
estado inicial de sua faculdade da linguagem com os dados linguísticos a que é
exposta” (NEGRÃO; SCHER; VIOTTI, 2007a, p. 96).

O estado inicial de que se falou acima também é conhecido como Gramá-


tica Universal, já que é entendido como o conjunto de princípios linguísticos
universais à disposição de todas as crianças via determinação genética. Alguns
desses princípios são invariáveis, se mantêm os mesmos desde o nascimento até
a etapa final de aquisição linguística, outros são flexíveis, chamados de parâme-
tros, vão se moldando conforme o input (o que ela ouve ou vê do uso da língua
das pessoas que a rodeiam) recebido pela criança. Isso tem a ver com o Modelo
de Princípios e Parâmetros, forma como a Gramática Gerativa concebe a língua e
que a leva a estudar, como seus objetivos centrais:

 a descrição do conhecimento linguístico atingido por qualquer falante de


qualquer língua;

 a caracterização da Gramática Universal; e

 a explicação dos processos que levam uma criança da Gramática Universal


para o conhecimento de sua língua (NEGRÃO; SCHER; VIOTTI, 2007a, p. 97).

Dessa forma, nas seções a seguir, você acompanhará a proposta de descrição,


elaborada por Quadros e Karnopp (2004), do conhecimento linguístico atingido pelos
1
Não há um consenso quanto à idade crítica, isto é, o limite, para que a criança adquira sua língua materna. Porém, muitos linguistas e psicolinguis-
tas indicam que há sim um período, ainda que não se possa precisar exatamente, em que a capacidade de aquisição de linguagem da criança estaria
em pleno funcionamento. Se durante tal período a criança não for exposta a uma língua (imagina-se que a idade limite esteja entre 4 e 6 anos),
vindo a entrar em contato com uma língua muito depois, ela corre o risco de nunca adquirir de modo pleno e satisfatório essa língua, apresentando
características de uma linguagem primitiva, sem complexidade.

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O nível sintático I

usuários da Libras, ou seja, a descrição da capacidade linguística dos mesmos


sobre a constituição lexical de sua língua e de como ela se organiza em estrutu-
ras complexas para formar sentenças.

A sintaxe espacial
Ao tratar da análise linguística da sintaxe da Libras, Quadros e Karnopp (2004,
p. 127) advertem que para cumprir tal tarefa é preciso que o interessado “enxer-
gue” “esse sistema que é visual-espacial e não oral-auditivo.” Em relação a isso, as
autoras argumentam: “[d]e certa forma, tal desafio apresenta certo grau de difi-
culdade aos linguistas; no entanto, abre portas para as investigações no campo
da Teoria da Gramática enquanto manifestação possível da capacidade da lin-
guagem humana” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 127).

Por ser uma língua espaço-visual, a Libras “monta” suas sentenças distribuin-
do os constituintes (sinais) de uma determinada maneira no espaço, sendo que
relações espaciais específicas são empregadas para desempenhar variados
papéis gramaticais. Um exemplo é o de identificação de referentes no discurso.
Na Libras, os referentes (eu, ele, você, nós, eles, relações anafóricas etc.), presen-
tes fisicamente ou não, são identificados por sua associação a uma localização
no espaço, sendo que diferentes recursos podem ser empregados. A seguir, são
ilustradas as possibilidades apresentadas pelas autoras:

 fazer o sinal em um local particular (nesse caso, o sinal é produzido no


local estabelecido para o referente com o qual estabelece relação);
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CASA (do João). CASA (do Pedro).

 direcionar a cabeça e os olhos (e talvez o corpo) em direção a uma locali-


zação particular simultaneamente com o sinal de um substantivo ou com
a apontação para o substantivo;
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CASA. IX (Casa).

 usar a apontação ostensiva antes do sinal de um referente específico (por


exemplo, apontar para um ponto “a” associando esta apontação com o si-
nal de CASA; assim o ponto “a” passa a referir casa);

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IX (Casa).

 usar um pronome (a apontação ostensiva) numa localização particular


quando a referência for óbvia2;
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X (Casa) NOVA.
2
Provavelmente, por óbvia as autoras querem significar que a referência é do conhecimento dos envolvidos na situação de comunicação, isto é, faz
parte do conhecimento compartilhado dos indivíduos em interação.

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O nível sintático I

 usar um classificador (que representa aquele referente) em uma localiza-


ção particular;

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CARRO CL (carro passou um pelo outro).

 usar um verbo direcional (com concordância) incorporando os referen-


tes previamente introduzidos no espaço (QUADROS; KARNOPP, 2004,
p. 126-129).

IESDE Brasil S.A.

(eu) IR (casa).

Na Libras, expressões faciais, além de sinais manuais, também podem desem-


penhar papéis gramaticais, marcando construções sintáticas específicas, sendo
chamadas de marcações não manuais. Também com base na obra de Quadros e
Karnopp (2004, p. 132), são apresentadas a seguir algumas marcações não manuais,
o papel gramatical que desempenham e o sistema de notação para elas:

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 Marca de concordância verbal por meio da direção dos olhos – notação < >do.

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< > do.

 Marca de construções com foco – notação < >mc.

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< > mc.

 Marca para negação – notação < >n.


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< > n.
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 Marca de construções com tópico por meio da elevação da sobrancelha –


notação < >t.

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< > t.

 Marca de interrogativa do tipo QU3 – notação < >qu.

IESDE Brasil S.A.

< > qu.

3
Diz respeito às perguntas feitas com pronome interrogativo (que, quem, quando e onde), por exemplo: “O que João comprou?”, “Quem não foi
para a aula ontem?” e “Onde estão meus livros?”.

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 Marca de interrogativa do tipo S/N (cuja resposta só pode ser sim ou não)
– notação < >sn.

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< > sn.

Agora que você já conhece um pouco mais do uso do espaço e outros recur-
sos para estabelecer relações sintáticas na Libras, pode se dedicar, com menos
dificuldade, à compreensão da ordem sintática nessa língua, tema da próxima
seção.

A ordem sintática na Libras


Por ordem sintática, deve-se ter em mente os possíveis arranjos que os cons-
tituintes tomam dentro de uma determinada sentença. Em outras palavras, isso
significa que a ordem das palavras pode variar dentro de uma sentença. Consi-
dere os exemplos abaixo:

(1) Eu encontrei a pessoa que você procurava por acaso. (S-V-O-Adj)

(1a) Eu, por acaso, encontrei a pessoa que você procurava. (S-Adj-V-O)

(1b) Por acaso, eu encontrei a pessoa que você procurava. (Adj-S-V-O)

(1c) Eu encontrei, por acaso, a pessoa que você procurava. (S-V-Adj-O)

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(1d) A pessoa que você procurava eu encontrei por acaso. (O-S-V-Adj)


(1e) Por acaso, a pessoa que você procurava eu encontrei. (Adj-O-S-V)
Essas são algumas possibilidades de variação da ordem dos constituintes na
língua portuguesa, considerada uma língua com pouca mobilidade se compa-
rada a línguas como o latim, alemão e a própria Libras, que mostra uma flexibili-
dade considerável na ordem das palavras. É preciso ter em mente que os consti-
tuintes citados dizem respeito ao sujeito (S), verbo (V) e objeto (O) das sentenças,
sendo que os adjuntos (Adj) não são considerados constituintes obrigatórios da
estrutura sintática. Contudo, em algumas línguas, o português por exemplo, os
adjuntos apresentam maior mobilidade, podendo ocorrer na posição inicial e
final da sentença, entre o sujeito e o verbo e entre o verbo e o objeto. Em outras,
como a Libras, essa mobilidade é um tanto limitada, os advérbios de tempo e
frequência, por exemplo, aparecem somente nas posições iniciais e finais.
A verdade é que no plano da expressão, do desempenho linguístico, cada
língua escolhe uma única ordem de palavras como dominante, que é a conside-
rada básica ou canônica em tal língua, a qual convive com outras possibilidades
de organização. Tanto no português como na Libras as sentenças SVO são muito
naturais, sendo que exemplos com essa ordem são considerados sempre grama-
ticais. Estudos (FELIPE, 1989; FERREIRA-BRITO, 1995 e QUADROS, 1999) apontam
que a ordem básica da Libras é a SVO, sendo que a variabilidade da ordem não
é aleatória. Geralmente, ela é motivada pela interação de diferentes fenômenos
sintáticos. A seguir, são apresentadas algumas das possibilidades de ordenação
diferentes da SVO encontradas em Quadros e Karnopp (2004):
 A presença de concordância verbal e marcas não manuais pode acarretar
as ordens OSV e SOV;

<TVb>do <IXa>do4 <aASSISTIRb>do (OSV)


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4
O símbolo IX representa a incorporação do referente no espaço, significa, então, que um referente como “ele” foi sinalizado pelo recurso de esta-
belecer um ponto específico no espaço para fazer menção a esse referente.

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<IXa>do <TVb>do <aASSISTIRb>do (SOV)

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FUTEBOL <IX>do <GOSTAR>do (OSV)

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<IX>do FUTEBOL <GOSTAR>do (SOV)

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 O uso de tópico altera a ordem da sentença, gerando uma estrutura OSV;

<FUTEBOL>t <JOÃO GOSTAR NÃO>n

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 O uso de construções com foco, incluindo verbos sem concordância, po-
dem gerar a ordem SOV;

EU LIVRO <PERDER>mc
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 Elevação do objeto nas construções contendo verbos com concordância


também pode gerar a ordem SOV;

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JOÃOa MARIAb aDARb LIVRO NÃO5

João não deu o livro para Maria.

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 O emprego de foco contrastivo gera a ordem VOS.

QUEM COMPRAR CARRO JOÃO OU MARIA?

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5
Nesse caso, um dos objetos internos da sentença (Maria) foi movido para antes do verbo, motivo pelo qual as autoras identificam essa estrutura
como SOV.
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COMPRAR CARRO <JOÃO>foco

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A próxima seção se ocupa em detalhar um pouco mais o comportamento
dos constituintes de sentenças que apresentam verbos com concordância e de
sentenças com verbos sem concordância.

A repercussão dos tipos de verbo na estrutura sintática


Segundo Quadros e Karnopp (2004), os verbos na Língua Brasileira de Sinais
se dividem em pelo menos duas classes:

a) Verbos sem concordância: não se flexionam em pessoa e número, são,


portanto, verbos que exigem argumentos (sujeito e objeto) explícitos, já
que não há marcas no verbo que possam identificar os argumentos da
frase. Exemplos desse tipo de verbo são: conhecer, amar, aprender, saber,
inventar e gostar. Veja como fica uma frase com um desses verbos e seus
respectivos argumentos:
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MARIA CONHECER CURITIBA.

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b) Verbos com concordância: flexionam-se em pessoa e número, apresen-


tando marcações não manuais e movimento direcional. Exemplos dessa
categoria são: dar, enviar, responder, perguntar, dizer e provocar. Agora,
observe a sinalização do exemplo abaixo:

IESDE Brasil S.A.


ONTEM EU DAR DINHEIRO ELA.

É interessante observar, neste ponto, que para análise linguística de uma


sentença a primeira coisa que se deve considerar é a presença do verbo. Iden-
tificando o verbo principal da sentença é possível perceber se os sintagmas em
seu entorno são argumentos ou adjuntos. Tirando o núcleo de um sintagma,
por exemplo, o verbo, considera-se adjunto tudo aquilo que não for argumento.
Observe a seguir a análise6 de uma sentença do português:

(2) Eu encontrei por acaso a pessoa que você procurava.

Para facilitar a análise, já que ela será feita de forma linear, é bom colocar os
constituintes na ordem direta (sujeito, verbo, objeto e adjuntos):

(3) Eu encontrei a pessoa que você procurava por acaso.

Primeiramente, há de se identificar o verbo principal, o que sustenta a sen-


tença como um todo:

6
Aqui se está empregando uma representação da estrutura diferente do sistema de representação arbórea proposto pela Gramática Gerativa, a
intenção é facilitar a sua compreensão, já que para dominar a representação gerativa de uma sentença são requeridos muitos pressupostos teóricos
que não cabem para o momento.

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(4) Eu [encontrei]verbo principal a pessoa que você procurava por acaso.

Encontrado o verbo principal, deve-se procurar por seus argumentos, ou seja,


os constituintes da sentença que saturam as posições argumentais7 do verbo
encontrar, a saber, xsujeito encontrar yobjeto:

(5) [Eu]sujeito encontrei [a pessoa que você procurava]objeto por acaso.


Observe que a posição de objeto é preenchida por uma sentença, a esse
fenômeno de uma sentença ocupar o lugar de um sintagma (algo maior, mais
complexo, fazendo as vezes de algo menor, menos complexo) chamamos subor-
dinação. É possível verificar, no exemplo acima, que restou na estrutura o sin-
tagma por acaso: ele é um adjunto. Cada sintagma pode ainda ser analisado em
constituintes menores, porém, para o que se pretende para esta aula, o que foi
exposto já é suficiente.
Essa digressão se fez necessária para instrumentalizá-lo, estudante, de forma
que você possa acompanhar o objetivo desta seção: analisar os efeitos dos tipos
de verbos (sem concordância e com concordância) sobre a ordem dos consti-
tuintes na estrutura sintática das sentenças em Libras. A partir daqui, são apre-
sentadas as possibilidades de ordenação sintática conforme o tipo de verbo se-
gundo explanação encontrada em Quadros e Karnopp (2004, p. 158-162):

 Verbos com concordância:


 Sentença apresenta mais liberdade na ordenação dos constituintes;
 As marcações não manuais são obrigatórias nos verbos com concor-
dância;
 Apresentam argumentos nulos8;
 A negação (o não) é realizada antes do verbo.

 Verbos sem concordância:


 Sentença apresenta menos liberdade na ordenação dos constituintes;
 As marcações não manuais não são obrigatórias nos verbos sem con-
cordância;
 Não apresentam argumentos nulos;
 A negação (o não) é realizada depois do verbo, no caso de verbo de um
único argumento (sujeito) ou de o objeto ter sido movido para o início
da sentença (tópico). Se o verbo apresentar objeto, o não será realizado
depois do sintagma verbo + objeto.
7
As nomenclaturas usadas também não pertencem todas à Gramática Gerativa. Para aproximar o conteúdo exposto de seu conhecimento prévio,
estudante, a posição de argumento externo está sendo identificada pela nomenclatura de sujeito e a de argumento interno, pela nomenclatura de
objeto. Nem sempre, contudo, tais posições são ocupadas por essas “funções”.
8
Algo equiparado com o que se chama de sujeito oculto na Gramática Tradicional.

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Texto complementar

Sintaxe
(LEITE, 2008, p. 28-30)

Os estudos da sintaxe da ASL e das demais LSs do mundo ganharam um


novo impulso a partir da década de 1970. Até então, a maior parte dos pes-
quisadores acreditava que a ordem das sentenças na ASL era basicamente
livre, sem restrições, tendo em vista que, em diferentes contextos discursivos,
os sinais correspondentes a sujeito e objeto apareciam posicionados de di-
ferentes maneiras em relação ao verbo. Essa visão começou a mudar a partir
de estudos que vieram destacar o importante papel dos sinais não manuais,
principalmente relativos ao rosto e à cabeça, na identificação de fenômenos
sintáticos (BAKER, 1978; BAKER; PADDEN, 1978; LIDDELL, 1978).

Em Liddell (1978), uma história repleta de personagens sem nome foi ela-
borada a fim de se verificar como orações relativas eram produzidas na ASL.
Foi solicitado a alguns surdos que lessem e memorizassem a história para, em
seguida, recontá-la em ASL. Ao notar que as expressões faciais dos narradores
pareciam estar desempenhando um papel importante, Liddell tirou fotos da
tela do televisor em cada sinal isolado. Com isso ele pôde constatar que os
sinalizadores mantinham uma expressão facial em uma posição de cabeça
particular durante todo o período em que realizavam os sinais relacionados
à relativa, configuração essa que mudava tão logo um nova predicação era
iniciada, como mostra a figura abaixo – reproduzida de Liddell (2003a, p. 54).
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“O cachorro que há pouco perseguiu o gato veio para casa”

R
RECENTE CACHORR@ PERSEGUIR GAT@ VIR CASA

Figura 1 – Expressão facial marcando e delimitando relativa na ASL.

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No início dos estudos da ASL, Stoke et al. (1965) já haviam destacado o


fato de que algumas expressões faciais desempenhavam um papel impor-
tante, argumentando que, para que questões do tipo sim/não fossem reco-
nhecidas como tais, elas necessariamente precisavam ser acompanhadas de
uma expressão facial e posição de cabeça marcadas. Mais tarde, Bellugi e
Fischer (1973) e Baker (1976) apontaram ainda o papel do balanço da cabeça
de um lado para o outro acompanhado de uma expressão facial não neutra
na realização de orações negativas.

Wilbur (2000) propõe que as regiões superior e inferior do rosto, relativas


aos sinais não manuais, estejam relacionadas a diferentes domínios sintáti-
cos: sinais da parte superior do rosto ou a cabeça (sobrancelha, olhar, po-
sição e movimentos de cabeça) ocorreriam com constituintes maiores, tais
como orações e sentenças; sinais da parte inferior do rosto (boca, língua,
bochechas), diferentemente, se associariam com itens lexicais ou com os sin-
tagmas em que tais itens aparecem, em especial para veiculação de informa-
ções adjetivas ou adverbiais (p. 224-225).

Com o estudo de Liddell (1978) sobre as relativas, então, passa a ganhar


força a proposta de que sinais não manuais, formados principalmente por
determinadas combinações de posição da cabeça e expressão facial, ser-
viriam para delimitar constituintes gramaticais como sintagmas e orações
de maneira geral. Baker e Padden (1978), então, corroborando a relevância
dessa correlação por meio de experimentos com condicionais, argumentam
explicitamente a favor da necessidade de análise dos sinais não manuais em
investigações voltadas à delimitação dos constituintes básicos da ASL.

Tais estudos levaram muitos pesquisadores a rever a questão da ordem


dos constituintes na sentença, até então assumida como livre na ASL. Em
especial, a descoberta de dois sinais não manuais – um específico para a
marcação de tópicos, formado por uma combinação de posição da cabeça
e expressão facial, e outro para marcação de tags questions, formados por
um pronome acompanhado de um aceno de cabeça – levou Liddell a afir-
mar que a ordem da oração principal não seria variável. Ao contrário, a dis-
tribuição de sujeito e objeto seria bastante estrita e a aparente variabilidade
decorreria de dois fatores: os sujeitos e objetos poderiam ser omitidos da
oração principal quando já se mostrassem proeminentes no discurso pre-
cedente; e a oração como um todo poderia ser antecedida por tópicos e/ou
sucedida por tags pronominais quando houvesse necessidade de salientar
certos referentes do discurso (LIDDELL, 1980).

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Dicas de estudo
 Artigo científico, “O empreendimento Gerativo”, de José Borges Neto, do
livro Introdução à Linguística: fundamentos epistemológicos, de Fernanda
Mussalim e Ana Cristina Bentes. São Paulo: Cortez, 2004. v. 3.

A leitura deste texto é recomendada por apresentar a evolução das bases


teóricas do programa gerativo e suas implicações para a análise linguís-
tica. Além de fornecer um histórico dessa abordagem, a leitura do artigo
possibilita conhecer os pressupostos teóricos por trás das representações
formais elaboradas pela Gramática Gerativa.

 Artigo científico, “O funcionalismo em linguística”, de Erotilde Goreti Pezatti


do livro Introdução à Linguística: fundamentos epistemológicos, de Fernan-
da Mussalim e Ana Cristina Bentes. São Paulo: Cortez, 2004. v. 3.

Recomenda-se a leitura deste artigo para que se conheça, ao menos mi-


nimamente, uma outra abordagem de análise linguística, com suas dife-
rentes soluções para os mesmos problemas e também pelo tratamento de
questões que não interessam a uma abordagem formalista.

Atividades
1. Explane sobre a diferença entre a análise linguística da Gramática Tradicional
e da Gramática Gerativa.

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2. Discuta a abordagem formalista e a funcionalista.

3. De acordo com Leite (2008), estudado no texto complementar, a descober-


ta de qual fenômeno linguístico na ASL (língua de sinais americana) levou
muitos pesquisadores a reverem a questão da ordem dos constituintes na
sentença, até então assumida como livre na ASL? Por que esse fenômeno
motivou tal revisão?

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Referências
BERLINCK, R. de A.; AUGUSTO, M. R. A.; SCHER, A.P. Sintaxe. In: MUSSALIN, Fernan-
da; BENTES, Ana Cristina (Orgs.) Introdução à Linguística: domínios e fronteiras.
3. ed. São Paulo: Cortez, 2003. v.1.

FELIPE, Tanya Amara. A estrutura frasal na LSCB. In: Anais do IV Encontro Nacio-
nal da ANPOLL, Recife, 1989.

FERREIRA-BRITO, Lucinda. Por uma Gramática das Línguas de Sinais. Rio de


Janeiro: Tempo Brasileiro, UFRJ, 1995.

LEITE, Tarcísio de Arantes. A Segmentação da Língua de Sinais Brasileira


(Libras): um estudo linguístico descritivo a partir da conversação espontânea
entre surdos. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

NEGRÃO, Esmeralda Vailati; SCHER, Ana Paula; VIOTTI, Evani de Carvalho. A com-
petência linguistica. In: FIORIN, José Luiz (Org.). Introdução à Linguística I: ob-
jetos teóricos. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2007a.

______. Sintaxe: explorando a estrutura da sentença. In: FIORIN, José Luiz (Org.).
Introdução à Linguística II: princípios de análise. 4. ed. São Paulo: Contexto,
2007b.

QUADROS, Ronice Müller de. Phrase Structure of Brazilian Sign Language.


Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto
Alegre, 1999.

QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir. Língua de Sinais Brasileira:


estudos linguísticos. Porto Alegre: ArtMed, 2004.

Gabarito
1. Resposta mínima deve contemplar o fato de que a Gramática Normativa es-
tabelece o que é sintaxe e como se estruturam as sentenças de uma língua a
partir da elaboração de regras do bem falar e do bem escrever com base na
análise de como escritores consagrados empregam as estruturas sintáticas
da língua. A Gramática Gerativa, por sua vez, está interessada na sintaxe en-
quanto representação mental das estruturas linguísticas. Assim, na Gramáti-
ca Gerativa, interessa a análise de estruturas sintáticas tal como se acredita
que elas estejam organizadas na mente do falante.

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2. A abordagem formalista olha para a língua e formula sua análise do ponto


de vista de que a língua é autônoma, um objeto de estudo em si mesma, não
dependente do contexto, razão pela qual sua análise se detém apenas den-
tro do limite das sentenças. A visão funcional da linguagem considera que
as formas e estruturas da língua são motivadas pelas necessidades comuni-
cativas do falante. Sob essa perspectiva, a análise sintática deve considerar
o contexto comunicacional e seus participantes para estabelecer como uma
dada língua se estrutura, sendo que nessa abordagem a língua não é vista
como um objeto em si mesma.

3. A descoberta dos sinais não manuais foi o fenômeno que levou à revisão da
ideia de que a ordem dos constituintes das sentenças na ASL seria livre. Isso
ocorreu pois estudos evidenciaram que os sinais não manuais são empre-
gados para marcar estruturas sintáticas e relações entre os constituintes nas
sentenças. Desse modo, o uso de determinados sinais não manuais acarreta
ordens específicas dos constituintes.

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Como você já deve saber, estudante, na Libras as expressões faciais,


ou mais genericamente, as marcações não manuais, são empregadas
linguisticamente. Isso significa que elas apresentam funções linguísticas
próprias, identificando determinadas estruturas, como sentenças negati-
vas, interrogativas, condicionais, com tópico etc. Reconhecer os empregos
sintáticos das marcações não manuais e saber diferenciá-las no uso é uma
etapa fundamental no processo de aquisição de fluência nessa língua. Por
essa razão, a proposta desta aula é apresentar algumas das estruturas sin-
táticas mais usuais com marcações não manuais, de forma que você possa,
por meio da exposição, adquirir os fundamentos necessários para que as
construções com marcas não manuais não representem um obstáculo ao
seu processo de desenvolvimento, seja no tocante ao uso da língua, seja
quanto ao conhecimento sobre a estrutura da mesma.

Estruturas com foco e estruturas com tópico


A distinção entre as noções de tópico e foco pode ser feita, conforme
Pizzio, Rezende e Quadros (2009, p. 8), de acordo com o status da infor-
mação inserida no discurso. Assim, as estruturas com foco “introduzem no
discurso uma informação nova que pode estabelecer contraste, informar
algo adicional ou enfatizar alguma coisa”. Já o tópico cumpre o papel de
retomar o assunto sobre o qual se falará, “é uma forma diferente de orga-
nizar o discurso” (PIZZIO; REZENDE; QUADROS, 2009, p. 8). A seguir, expõe-
-se como essas estruturas são construídas na Libras.

Com base em Quadros e Karnopp (2004), pode-se afirmar que na Libras


as construções com foco envolvem diferentes propriedades:

 construções duplas em que o elemento duplicado ocupa a posição


final;

 o elemento em foco é sempre um núcleo;

 a presença de foco possibilita o apagamento do primeiro elemento


da construção dupla;
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 marcas não manuais acompanham o elemento focalizado.

Nesse sentido, as autoras afirmam que a Libras apresenta construções duplas,


sendo que os seguintes elementos linguísticos costumam ser duplicados na po-
sição de foco:

a) Verbos modais
EU PODER IR <PODER>mc

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b) Quantificadores
EU TER DOIS CARROS <DOIS>mc
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c) Verbos

EU PERDER LIVRO <PERDER>mc

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d) Pronomes interrogativos

<QUEM GOSTAR GATO>qu <QUEM>


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e) Negação

EU <NÃO IR>n <NÃO>n

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f ) Advérbios

AMANHÃ ELE COMPRAR CARRO <AMANHÃ>mc

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Observe que o elemento focado é duplicado no fim da sentença1, além disso,


ele é acompanhado, excetuando-se a negação e o pronome interrogativo – que
apresentam marcação não manual específica – pela elevação da sobrancelha. É
preciso considerar que nas construções com foco é possível apagar o primeiro
elemento da construção dupla, conforme exemplificam as ilustrações com as
respectivas glosas abaixo:

g) EU PODER IR <PODER>mc

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h) EU PERDER LIVRO <PERDER>mc

IESDE Brasil S.A.

Além disso, nas construções com foco, este recai sobre o núcleo do sintagma.
Assim, em G, o foco tomou o núcleo do sintagma verbal. O sintagma verbal é
“poder ir”, e o seu núcleo é “poder”. Resumindo, então, o foco envolve elementos
linguísticos que são núcleos de sintagmas. Eles podem aparecer duplicados ou
não e são acompanhados por marcação não manual.

1
Em Pizzio, Rezende e Quadros (2009) há a menção de que esse tipo de construção se chama de foco de ênfase, podendo ser construído também
com o apagamento do primeiro elemento duplicado, o que é tratado logo em seguida, no mesmo parágrafo.

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Vale a pena citar também, com base em Pizzio, Rezende e Quadros (2009), os
casos de foco contrastivo, em que duas informações, dadas como novas e des-
conhecidas, são colocadas em contraste:

<QUEM COMPRAR CARRO JOÃO OU MARIA>qu

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COMPRAR CARRO <JOÃO>afirm

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<QUEM ASSISTIR NOVELA ANA OU PATY>qu

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ASSISTIR NOVELA <PATY>afirm

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Nesse caso, o foco se trata do elemento considerado correto dentro do contras-


te estabelecido. Para encerrar as estruturas com foco, resta observar que apenas
em casos específicos, que apresentam restrições, o elemento focado não apa-
rece no final da sentença. Tais casos específicos têm a ver, segundo Ross (19672,
apud QUADROS; KARNOPP, 2004), com as “restrições de ilha”. Essas restrições dão
conta de que um elemento não pode ser extraído de uma certa estrutura sintá-
tica, a que apresenta estatuto de “ilha”, e deslocado na sentença. Isso se deve ao
fato de que estruturas que funcionam como ilha, isto é, se encontram isoladas
dentro de uma estrutura maior, não permitem que seus constituintes sejam mo-
vidos justamente pelo seu estatuto de isolamento. Esse é o caso quando o foco
recai sobre uma sentença relativa. De acordo com Quadros e Karnopp (2004,
p. 183), por ser considerada uma ilha, a oração relativa só pode ter o foco asso-
ciado a ela dentro da sua própria estrutura. Observe:

MULHER <BICICLETA CAIR BICICLETA>r ESTAR HOSPITAL

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2
ROSS, J. R. Constrains on Variables in Syntax. Cambridge. Massachusetts. MIT, Doctoral Dissertation, 1967.

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No enunciado anterior a oração relativa é BICICLETA CAIR, e a repetição de


BICICLETA, dentro da estrutura da relativa, marca o foco. A intenção é dizer que a
mulher caiu de bicicleta e não de qualquer outra forma, mas, devido à restri-
ção da ilha, o elemento BICICLETA não pode ser duplicado no final da sentença,
apenas no final da “estrutura-ilha”.

Diferentemente do foco, o tópico não introduz uma informação nova, antes


organiza o assunto sobre o qual o discurso versará, o que se pode verificar nos
exemplos abaixo, retirados de Pizzio, Rezende e Quadros (2009, p. 12):

<ANIMAIS>t EU GOSTO GATO

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<FRANÇA>t EU VOU

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<MARIA>t JOÃO GOSTA ELA

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Repare que, além de o elemento topicalizado estar no início da sentença, ele


é acompanhado pela elevação da sobrancelha. Nas seções a seguir, você encon-
trará mais informações sobre estruturas que apenas foram mencionadas nesta
etapa. Portanto se referências a estruturas relativas, por exemplo, foram um pro-
blema para você, na última seção há uma explicação pormenorizada à qual você
pode recorrer. A seguir, o objeto de discussão são sentenças negativas.

Estruturas negativas
A negação em Libras, de acordo com Pizzio, Rezende e Quadros (2009), pode
ser realizada por elementos manuais, NÃO, NADA, NUNCA. A negação pode, ainda,
estar incorporada aos sinais (NÃO-TER, NÃO-GOSTAR) ou ser expressa apenas por
meio da marcação não manual. Esta última, alvo de interesse nesta seção.

Segundo Arrotéia (20053, apud PIZZIO; REZENDE; QUADROS, 2009), a marcação


não manual da negação pode ser feita por meio de dois expedientes. O primeiro
recurso consiste em realizar o movimento com a cabeça de um lado para o outro,
indicando a negação. Porém esse movimento é facultativo na língua de sinais e
sua presença é motivada por fatores discursivos. A segunda forma para marcar a
negação, diferentemente da primeira, é obrigatória, uma vez que motivada por
questões sintáticas, e consiste na utilização “de expressões faciais de negação em
que há modificação no contorno da boca (abaixamento dos cantos da boca ou
arredondamento dos lábios), sempre associada ao abaixamento das sobrance-
lhas e ao leve abaixamento da cabeça” (PIZZIO; REZENDE; QUADROS, 2009, p. 9).

Arrotéia (2005, apud PIZZIO; REZENDE; QUADROS, 2009) observa que, no in-
terior da sentença, a distribuição da marca de negação com a cabeça é mais
ampla do que as expressões faciais, já que o movimento com a cabeça pode
ser realizado apenas ao lado do “não”, ou acompanhando o sintagma verbal, ou
junto com a sentença toda ou, ainda, pode ultrapassar o limite do último sinal
empregado:

a) Movimento com a cabeça se restinge ao sinal NÃO:


IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef
mc

b) Acompanha o sintagma verbal:


IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef
mc

3
ARROTÉIA, J. O Papel da Marcação Não Manual nas Sentenças Negativas em Língua de Sinais Brasileira (LSB). Dissertação (Mestrado) – Uni-
versidade de Campinas, 2005.

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c) Se estende por toda a sentença:


IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef
mc

d) Ultrapassa o limite do último sinal realizado na sentença:


mc

IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef

Uma vez que a autora lida com dois tipos de marcação não manual de nega-
ção, para organizar a análise das sentenças, a mesma optou por representar a
abrangência das marcas não manuais com linhas horizontais, acima e abaixo da
sentença, sendo que a sigla “mc” indica movimento de cabeça e a sigla “ef” indica
expressão facial. De posse dessa informação, você pode comparar os exemplos
fornecidos acima, extraídos de Pizzio, Rezende e Quadros (2009, p. 9), com os
exemplos abaixo, que evidenciam que a distribuição da marca de negação por
expressões faciais apresenta uma distribuição mais restrita, já que “elas necessa-
riamente devem coocorrer junto a todo o sintagma verbal” (PIZZIO; REZENDE;
QUADROS, 2009, p. 10):

e) IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef

f ) *IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef

g) *IX<1> NÃOef 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>a

Os asteriscos utilizados pelas autoras em F e G servem para indicar que essas


sentenças são agramaticais na Libras, dado que as expressões faciais indicativas
de negação não podem se distribuir por toda a sentença ou apenas junto à ne-
gação, mas apenas acompanhar o sintagma verbal. Por fim, as autoras afirmam
que tais marcações não manuais – as expressões faciais – acompanham os sinais
manuais para:
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(A) NINGUÉM (B) NADA NENHUM

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Estruturas interrogativas
A Libras compreende três formas distintas de formular perguntas, havendo,
portanto, uma marcação não manual diferente para cada tipo de pergunta. A
seguir, você pode acompanhar, com fundamentação na exposição de Pizzio, Re-
zende e Quadros (2009), cada tipo de estrutura interrogativa e suas respectivas
marcações não manuais:

a) Interrogativa QU (qu): são perguntas formuladas com pronomes interro-


gativos como qual, que, o que, quando, quem etc., os quais são acompa-
nhados por uma pequena elevação da cabeça, acompanhada do franzir
da testa:

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<QUEM GOSTAR MARIA >qu.

IESDE Brasil S.A.

<O QUE JOÃO SABER>qu.

b) Interrogativa S/N (sn): são perguntas que levam o interlocutor a respon-


der apenas sim ou não, são identificadas por um leve abaixamento da ca-
beça, acompanhado de elevação das sobrancelhas:

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<JOÃO COMPRAR CARRO>sn.

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<JOÃO NAMORAR MARIA>sn.

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c) Interrogativa de dúvida: como o próprio nome indica são aquelas que


expressam dúvida e desconfiança, procurando confirmar com o interlocu-
tor a veracidade ou precisão da informação. Na sua sinalização, uma ou as
duas mãos podem ser empregadas, sendo reconhecidas pelas seguintes
marcações não manuais: lábios comprimidos ou em protrusão, olhos mais
fechados e testa franzida, leve inclinação dos ombros para um lado ou
para trás.

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<JOÃO BANHEIRO TRANCADO Q-e>dúvida.

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<ESCOLA PROFESSOR ENSINAR LÍNGUA DE SINAIS Q-e>dúvida.

Como você já deve ter percebido, algumas estruturas são marcadas por ele-
mentos manuais e não manuais – o caso das perguntas Qu – ou apenas pelas
marcas não manuais – as interrogativas S/N e de dúvida. Na próxima seção, há a
discussão sobre um outro tipo de sentença, as condicionais, cuja formulação se
estabelece pela união de marcações manuais e não manuais.

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Estruturas condicionais
A partir desta seção, para que você possa acompanhar a exposição sobre
estruturas condicionais e relativas na Libras, é necessário que os conceitos de
oração principal e oração subordinada sejam compreendidos, posto que por seu
intermédio é que se obtêm as estruturas citadas. Para facilitar a discussão de tais
conceitos, a explanação toma como base, primeiramente, a língua portuguesa
e, a seguir, a Libras.

Para poder diferenciar uma oração principal de uma subordinada, antes de


mais nada, você deve saber reconhecer orações. Portanto, observe o exemplo
abaixo:

a) Eu sei que Maria não disse a verdade.

Se perguntassem a você quantas orações possui o enunciado acima, a resposta


a ser dada seria: duas orações. Mas como é possível saber que se trata realmente
de duas orações? Essa constatação tem relação com a quantidade de verbos (con-
jugados ou no infinitivo, mas que apresentam argumentos) presente no enun-
ciado. Nesse sentido, A contém dois verbos conjugados (sei, disse). Já em “Saber
matemática pode ser fundamental mesmo para pesquisas em Ciências Humanas”,
embora três vocábulos sejam verbos (saber, pode e ser), apenas dois determinam
a existência de duas orações no enunciado: saber, no infinitivo, que apresenta o ar-
gumento matemática, e pode, chamado pela Gramática Tradicional de verbo auxi-
liar, já que entra na composição da locução verbal pode ser. Cumpre observar que
para a Gramática Tradicional o verbo ser, dentro da locução, é considerado o verbo
principal. No entanto, para facilitar a identificação das orações, recomenda-se aqui
que você tome em consideração, na ocorrência de locuções verbais, o verbo cha-
mado auxiliar por conta de o mesmo apresentar conjugação.

Sendo capaz de reconhecer diferentes orações dentro de um mesmo enuncia-


do, você está apto a compreender a diferença entre orações principais e subordi-
nadas. Oração subordinada é a nomenclatura reservada às orações que desem-
penham funções sintáticas de nível menor que o de uma oração. Por exemplo, a
função sintática de sujeito é, normalmente, desempenhada por substantivos e
pronomes pessoais, como nos enunciados a seguir:

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b) A matemática pode ser fundamental mesmo para pesquisas em Ciências


Humanas.

c) Ela pode ser fundamental mesmo para pesquisas em Ciências Humanas.

Mas no enunciado “Saber matemática pode ser fundamental mesmo para


pesquisas em Ciências Humanas”, a função de sujeito foi preenchida por uma
oração, no caso “Saber matemática”, elemento linguístico de nível maior que os
que comumente ocupam essa função. Fenômeno similar é visto em A, onde a
oração “que Maria não disse a verdade” cumpre o papel de objeto de sei, o que
pode ser evidenciado pela substituição da oração, de nível maior, pelo pronome
isso, elemento de nível menor que o da oração. Nessa perspectiva, a oração prin-
cipal é aquela que apresenta uma de suas funções sintáticas preenchida pela
oração subordinada. Nesse caso, é por meio da análise da oração principal que
se pode designar qual função a oração subordinada está desempenhando.

Toda essa digressão foi feita com o intuito de que se compreenda adequada-
mente o que são estruturas condicionais, pois elas são construídas por meio do
recurso de subordinação. Considere:

d) Se fizer sol, vamos à praia.

O exemplo acima apresenta duas orações (fizer, vamos), sendo que a primeira
delas, “se fizer sol”, exprime a condição mediante a qual “vamos à praia”. Trata-se
de oração subordinada dita condicional porque exprime uma condição, a qual
poderia ser substituída por “com sol”4. Assim, a língua portuguesa apresenta ele-
mentos e estruturas sintáticas que marcam a presença da oração condicional,
a saber: o pronome “se” e a forma do subjuntivo “fizer”. Ora, a Libras também
possui seus recursos para marcar estruturas condicionais. No caso de se traduzir
o enunciado D para a Libras, o pronome condicional “se” tem um sinal equiva-
lente na Libras e a oração condicional também recebe marcas não manuais que
a identificam como tal. Observe a sinalização a seguir:

4
Caro estudante, este é um subterfúgio para ilustrar que a oração “se fizer sol” pode ser substituída por um constituinte menor que uma oração
“com sol”. Contudo, há que se fazer duas considerações sobre isso. Primeiro, nem todas as orações subordinadas podem ser substituídas por ele-
mentos menores. Segundo, “com sol”, no enunciado ofertado como exemplo, pode significar uma condição, mas também uma causa, ou seja, a ida
à praia é motivada pelo sol, bem como pode indicar outras circunstâncias, bastando que se crie contexto para as mesmas. Isso prova que, mesmo
quando possíveis, as substituições nem sempre são equivalentes em termos de significado.

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IESDE Brasil S.A.

SE FIZER SOL, VAMOS À PRAIA.

Estruturas relativas
As estruturas relativas também se tratam de orações subordinadas. Diz-se
delas que cumprem função equivalente a dos adjuntos adnominais. Isso signifi-
ca dizer que elas acompanham um substantivo atribuindo-lhe características ou
explicando algo em relação a ele. Considere:

a) A pessoa que mente sempre é vista com desconfiança.

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No exemplo A, há duas orações: “[a pessoa] que mente” e “a pessoa sempre


é vista com desconfiança”. Repare que sem a relativa “que mente”, a qual, nesse
caso, serve para caracterizar, especificando, a oração “a pessoa sempre é vista
com desconfiança” passa a ideia de que toda pessoa, sem exceção, é alvo de des-
confiança. Contudo, pelo acréscimo da relativa “que mente”, no caso do enun-
ciado proposto, a ideia veiculada é a de que as pessoas mentirosas, e não todas
as pessoas, sempre são alvo de desconfiança. Observe também que foi possível
substituir “que mente” por “mentirosas”5.

Estas estruturas são chamadas de relativas por conta do tipo de pronome


que normalmente as introduz, o pronome relativo. O papel do pronome relativo,
como o próprio termo pode denunciar, é relacionar uma oração subordinada a
um substantivo, retomando-o, motivo pelo qual o elemento “a pessoa” foi co-
locado entre colchetes na separação da oração relativa da principal. Uma boa
estratégia para reconhecer se o “que” é um pronome relativo é substituí-lo, com
sucesso, pelos pronomes relativos “o qual, a qual, cujo, cuja”.

A Libras também apresenta estruturas relativas, sendo que realiza tal constru-
ção não com o uso do pronome relativo, mas por meio de marcação não manual.
As evidências para isso advêm de um estudo realizado por Liddell (1978, apud
LEITE, 2008) em que uma história foi montada com personagens sem nomes,
sendo necessário identificá-los por intermédio de estruturas relativas. A inten-
ção de Liddell (1978) foi estudar, por meio da tradução que os surdos fizeram
dessa história, como são produzidas as orações relativas na língua de sinais ame-
ricana (ASL). Dessa forma, o autor descobriu que os surdos, ao sinalizarem os
sinais relacionados à oração relativa, mantinham uma expressão facial e posição
de cabeça particulares que se modificavam assim que uma nova oração era ini-
ciada. Isso fica evidente por meio da figura a seguir, retirada de Leite (2008), que
a reproduziu de Liddell (2003a, p. 54):
IESDE Brasil S.A.

“O cachorro que há pouco perseguiu o gato veio para casa”

R
RECENTE CACHORR@ PERSEGUIR GAT@ VIR CASA

Figura 1 – Expressão facial marcando e delimitando relativa na ASL.

5
No nível morfológico, “mentirosas” é adjetivo; no nível sintático, ele é adjunto adnominal, visto que acompanha o substantivo (nome).

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Note que a parte sublinhada da sequência de sinais presente na figura diz


respeito à estrutura relativa, que identifica quem “veio para casa”, ou seja, “o ca-
chorro que há pouco perseguiu o gato”. A Libras constrói suas relativas da mesma
maneira, como se pode verificar no exemplo abaixo:

IESDE Brasil S.A.

EU ESQUECI EM CASA O LIVRO QUE VOCÊ ME EMPRESTOU.

As informações que você obteve nesta aula sobre algumas estruturas sintá-
ticas da Libras só se tornaram conhecidas devido aos esforços de pesquisa de
linguistas e outros pesquisadores interessados em descrever o funcionamento
da ASL, Libras e outras línguas de sinais. Por essa razão, para complementar o
estudo desta aula, adiante você encontra um texto que versa sobre o início e
evolução do interesse em se estudar as línguas de sinais cientificamente, bem
como os fatores culturais, sociais e, mesmo teóricos, que ora alavancaram e ora
atravancaram o caminho de produção de conhecimento sobre essas línguas.
Boa leitura!

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Texto complementar

As línguas de sinais
(PIZZIO, 2006, p. 4-7)

A língua de sinais é a língua natural da comunidade surda. Ao contrário


do que muitas pessoas pensam, ela não é universal, e cada país possui sua
língua de sinais específica, que apresenta características distintas da língua
falada pela comunidade local. Como qualquer outra língua, possui gírias e
vocabulário diferente dependendo da região onde é usada. No Brasil, tem-se
a língua de sinais brasileira (LSB), utilizada pela comunidade surda e objeto
de estudo nesta dissertação, e também a língua de sinais indígena da tribo
Urubu Kaapor (FERREIRA-BRITO, 1995; QUADROS, 1995).

Durante muito tempo, as línguas foram consideradas apenas como gestos


ou pantomima, incapazes de expressar conceitos abstratos. Até hoje, ainda
há muito preconceito e desconhecimento sobre as mesmas, principalmente
nos lugares onde a pesquisa nesta área ainda está iniciando e há poucos pro-
fissionais pesquisando e difundindo seu trabalho, não só para a comunidade
acadêmica, como para a comunidade local em geral.

As línguas de sinais só foram reconhecidas como língua quando surgiu


um sistema de notação que pudesse representar a estrutura de seus sinais.
Segundo Hoiting & Slobin (2002). Os primeiros estudos que mencionam as
línguas de sinais datam da década de 1960, com os trabalhos sobre a língua
de sinais americana (ASL) realizados por Stokoe. Dessa forma, as pesquisas
sobre as línguas de sinais são muito recentes se comparadas às línguas fala-
das, que já possuem uma longa tradição. Além disso, a maioria delas ainda
não está totalmente descrita em seus níveis fonológico, morfológico e sin-
tático e carecem de maior investigação. Com relação à LSB, as pesquisas
linguísticas ainda são escassas, e há necessidade de mais trabalhos na área
para que se melhore a descrição da mesma. Entre os trabalhos realizados
destacam-se Ferreira-Brito (1995) e Quadros e Karnopp (2004).

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Quanto à estrutura, tanto as línguas de sinais quanto as línguas faladas


apresentam as mesmas propriedades abstratas da linguagem, mas se opõem
fortemente na sua forma na superfície. Enquanto as línguas orais são apre-
sentadas na modalidade auditivo-oral, as línguas de sinais se apresentam na
modalidade visual-espacial. Apesar dessa diferença na modalidade de per-
cepção e produção entre línguas de sinais e línguas orais, o termo “fonolo-
gia” é também utilizado para referir-se ao estudo dos elementos básicos das
línguas de sinais. Estas têm os mesmos princípios subjacentes de construção
que as línguas faladas, tendo à disposição um léxico, isto é, um conjunto de
símbolos convencionais, e uma gramática, ou seja, um sistema de regras que
regem o uso desses símbolos.

Segundo Quadros e Karnopp (2004), a diferença fundamental entre lín-


guas de sinais e línguas faladas diz respeito à estrutura simultânea de or-
ganização dos elementos das línguas de sinais. Enquanto as línguas orais
apresentam uma ordem linear (uma sequência horizontal no tempo) entre
os fonemas, nas línguas de sinais além da linearidade, os fonemas são articu-
lados simultaneamente.

Os sinais são decompostos em três aspectos ou parâmetros que não


carregam significados isoladamente. Assim, as unidades mínimas que cons-
tituem os sinais são: configuração de mão, locação da mão e movimento.
Dessa forma, uma mesma configuração de mão e um mesmo movimento, mas
com locação diferente resulta em mudança de significado formando um par
mínimo (como, por exemplo, os sinais para “aprender” e “sábado”). Pares mí-
nimos também são encontrados a partir das configurações de mãos e dos
movimentos, evidenciando, portanto, a existência das unidades sem signi-
ficado na língua que implicam em mudança de significado da palavra. Aná-
lises mais recentes das línguas de sinais adicionam mais dois parâmetros ao
estudo da fonologia de sinais: a orientação da mão e as marcas não manuais
(expressões faciais e corporais).

Quanto à morfologia, assim como as palavras em todas as línguas huma-


nas, os sinais pertencem a categorias lexicais ou a classes de palavras, tais
como nome, verbo, adjetivo, advérbio etc., as línguas de sinais têm um léxico

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e um sistema de criação de novos sinais em que os morfemas (as unidades


mínimas com significado) são combinados. Porém, as línguas de sinais se
diferenciam das línguas faladas no tipo de processos combinatórios que cria
palavras morfologicamente complexas. Nas línguas orais, as palavras com-
plexas são formadas, frequentemente, pela junção de um prefixo ou sufixo
a uma raiz. Já nas línguas de sinais, estas formas resultam, muitas vezes, de
processos não concatenativos em que um radical é enriquecido com vários
movimentos no espaço de sinalização, como é o caso dos verbos com con-
cordância (QUADROS; KARNOPP, 2004).

Em relação à sintaxe espacial, esta apresenta a possibilidade de estabele-


cer relações gramaticais no espaço, através de diferentes formas. No espaço
em que são realizados os sinais, o estabelecimento nominal e o uso do siste-
ma pronominal são fundamentais para tais relações sintáticas. Qualquer re-
ferência usada no discurso requer a especificação de um local no espaço de
sinalização (espaço definido na frente do corpo do sinalizador). Os pronomes
são realizados por meio da apontação para um local específico no espaço
(estipulado pelo sinalizador quando a pessoa estiver ausente), ou para a pró-
pria pessoa, se ela estiver presente. O sistema de verbos com concordância
também é realizado espacialmente. Os sinais desses verbos se movem no
espaço, carregando marcas para pessoa e número, através de indicações no
espaço. Além disso, especificam o sujeito e o objeto do verbo.

Conforme Bellugi et al. (1989), este uso do espaço para indicar referentes,
verbos com concordância e relações gramaticais é, claramente, propriedade
única de um sistema visual-gestual, ou seja, específico das línguas de sinais.
Esta diferença na forma de superfície entre línguas de sinais faladas possibi-
lita novas investigações acerca da percepção e produção da linguagem.

Estes são aspectos gerais comuns à estrutura das línguas de sinais. En-
tretanto, cada língua de sinais pode apresentar suas próprias regras, dife-
renciando-se em alguns parâmetros fonológicos, morfológicos e sintáticos
específicos, assim como as línguas faladas também se diferenciam nestes
aspectos.

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Dicas de estudo
 Capítulo “As marcações não manuais” da dissertação: As Marcações Lin-
guísticas Não Manuais na Aquisição da Língua de Sinais Brasileira
(LSB): um estudo de caso longitudinal, de Gisele Landra Pessini Anater.
Disponível em: <www.tede.ufsc.br/teses/PLLG0436-D.pdf>.

A leitura deste capítulo é recomendada para uma visão mais ampla dos
usos dos marcadores não manuais nas línguas de sinais, como se mani-
festam, quais funções desempenham, entre outras particularidades desse
recurso linguístico das línguas de sinais.

 Capítulo “Tópico e Foco” da dissertação: A Variabilidade da Ordem das


Palavras na Aquisição da Língua de Sinais Brasileira: construções com
tópico e foco, de Aline Lemos Pizzio. Disponível em: <www.tede.ufsc.br/
teses/PLLG0357.pdf>.

O capítulo em questão apresenta com maior detalhamento as construções


de tópico e foco na Libras, além de discutir a repercussão das mesmas na
ordem das sentenças em Libras com base na teoria de análise sintática
gerativa.

Atividades
1. Discuta a noção de oração principal e subordinada.

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2. Explique por que razão a sentença a seguir é agramatical na Libras: HOMEM


<CARRO BATER> ESTAR CADEIA CARRO .

3. É correto afirmar que certas estruturas sintáticas na Libras podem ser iden-
tificadas tanto por elementos manuais e não manuais quanto apenas por
elementos não manuais? Justifique sua resposta.

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Referências
LEITE, Tarcísio de Arantes. . A Segmentação da Língua de Sinais Brasileira
(Libras): um estudo linguístico descritivo a partir da conversação espontânea
entre surdos. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

PIZZIO, Aline Lemos. As Línguas de Sinais. In: ______. A Variabilidade da Ordem


das Palavras na Aquisição da Língua de Sinais Brasileira: construções com
tópico e foco. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina,
Florianópolis, 2006.

PIZZIO, Aline Lemos; REZENDE, Patrícia Luiza Ferreira; QUADROS, Ronice Müller
de. Língua Brasileira de Sinais II. Material didático do curso de Letras Libras a
Distância. Florianópolis: UFSC, 2009.

QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir. Língua de Sinais Brasileira:


estudos linguísticos. Porto Alegre: ArtMed, 2004.

RAMOS, Clélia Regina. Libras: a língua de sinais dos surdos brasileiros. 2003(?).
Disponível em: <www.editora-arara-azul.com.br/pdf/artigo2.pdf>. Acesso em:
18 nov. 2010.

Gabarito
1. Resposta mínima deve contemplar que orações subordinadas são aquelas
que desempenham funções sintáticas de nível menor que o de uma oração,
enquanto as orações principais são as que apresentam uma de suas funções
sintáticas preenchida pela oração subordinada.

2. O aluno deve reconhecer que a sentença é agramatical pois contém um


elemento que foi extraído de uma estrutura em ilha, uma oração relativa, e
movido para a posição de foco no final da sentença. Nesse caso, esse movi-
mento não é permitido, conforme estabelecem as restrições propostas por
Ross (1967).

3. Essa afirmação é correta. Para exemplificar o uso de marcas manuais e não


manuais simultaneamente, podem ser citadas as estruturas condicionais, as
interrogativas do tipo Qu e as sentenças negativas. Já para exemplificar o uso
apenas de marcas não manuais para distinguir estruturas sintáticas podem
ser citadas as interrogativas S/N e as estruturas relativas.

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Tópicos em semântica aplicados à Libras

A capacidade de falar uma língua demanda de seu usuário conheci-


mentos variados, dos quais ele nem sempre está consciente. Assim, para
um usuário fluente da Libras, por exemplo, há muitos mecanismos que são
recorrentemente empregados com sucesso; porém, se questionado sobre
tais mecanismos, comumente o usuário não sabe explicitá-los. Isso não é
um problema, afinal, o indivíduo pode se servir muito bem da língua sem
conhecer alguns de seus recursos de forma consciente. Contudo, explicitar
certas estratégias por meio das quais alguns efeitos de sentido podem ser
alcançados numa dada língua é um ótimo instrumento de aprendizado
para aqueles que ainda não dominam tal língua, bem como para aqueles
que precisam fazer dessa mesma língua não apenas um uso comunica-
tivo, mas um uso profissional, como é o caso de professores de línguas,
tradutores, intérpretes, revisores etc. Fundamentada nesse pensamento,
a presente aula traz como proposta alguns dos conhecimentos produzi-
dos pela área da semântica para que você, estudante, possa primar pela
clareza, organização e consecução dos objetivos de seu discurso ao usar a
Libras, seja no dia a dia ou de forma profissional.

O que é semântica?
Oliveira (2001) explica que definir o objeto de estudo da semântica
não é fácil. Uma resposta possível é que essa área dos estudos linguísticos
trata da investigação do significado. Contudo, segundo a autora, não há
consenso entre os próprios linguistas sobre o que significa o significado.
Além disso, como a questão do significado está fortemente ligada à ques-
tão do conhecimento. Outro problema que se levanta é o da relação entre
linguagem e mundo e de que forma o conhecimento se torna possível.
Não havendo acordo sobre as questões levantadas, há várias semânticas.
E cada uma elege a sua noção de significado, respondendo diferentemen-
te à questão da relação entre linguagem e mundo, constituindo, até certo
ponto, um modelo fechado, incomunicável com os outros. Essa visão é
corroborada no excerto a seguir:

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Tópicos em semântica aplicados à Libras

A definição de Semântica como área da Linguística que estuda o significado das línguas
naturais é bastante consensual. Essa definição é, no entanto, pouco esclarecedora, porque,
para entendê-la, precisamos definir, antes, o que é significado. E essa é uma tarefa árdua!
Especialmente porque os semanticistas têm diferentes visões a respeito do que seja o
significado e a significação. É por isso que podemos dizer que há semântica de todo tipo.
Há semântica textual, semântica cognitiva, semântica lexical. Há semântica argumentativa,
semântica discursiva... Todas elas estudam o significado, cada uma do seu jeito. (MÜLLER;
VIOTTI, 2007, p. 137)

Tanto para Oliveira (2001) quanto para Müller e Viotti (2007) o objeto de
estudo da semântica, o significado, carece de uma definição única, aplicável
a todos os fenômenos linguísticos que se pretenda analisar semanticamente,
motivo pelo qual os semanticistas precisam optar por qual visão de significa-
do se orientar. Para os objetivos desta aula, assume-se que “a Semântica estuda
os conceitos que construímos em nossas mentes quando estamos diante de um
signo linguístico, seja ele uma palavra, uma sentença ou um texto” (MCCLEARY;
VIOTTI, 2009, p. 4).

Mas o que se deve entender por conceito, possivelmente, é a dúvida que


paira sobre você agora. Bom, essa é uma excelente questão. Para formular sua
resposta, considere:
Existem milhões de mesas no mundo, cada uma diferente da outra: algumas maiores, outras
menores, algumas de madeira, outras de metal, algumas redondas, outras retangulares. Se o
signo “mesa” associasse uma pronúncia a uma mesa específica, nós teríamos que dizer que o
signo “mesa” tem um significado diferente para cada objeto mesa que existe no mundo. Não é
isso o que acontece. Nós todos temos, em nossas mentes, uma “ideia” de mesa, uma abstração
que nos faz saber o que é uma mesa, e que nos ajuda a reconhecer uma mesa quando estamos
diante de uma, não importa qual seja sua forma, o material de que é feito, seu tamanho, ou
qualquer outra peculiaridade que ela tenha. Essa “ideia” que temos de mesa é o conceito de
mesa. (MCCLEARY; VIOTTI, 2009, p. 3-4, grifo dos autores)

É importante observar, segundo McCleary e Viotti (2009), que a ideia de que


os autores falam não se trata de uma representação imagética do objeto con-
siderado, nesse caso, mesa, trata-se, na verdade, de uma representação mental
abstrata. Então, o ponto crucial para entender o que é um conceito reside na de-
claração de que o conceito “nos ajuda a reconhecer” objetos, coisas, fenômenos,
sentimentos. Sob essa perspectiva, é o conceito que você tem sobre as coisas
ao seu redor que lhe permite diferenciar uma chuva comum de uma chuva de
pedras (granizo), um mamífero de um anfíbio, uma mesa de uma escrivaninha
etc. Isso porque “um conceito é um princípio de categorização” (MCCLEARY;
VIOTTI, 2009, p. 8, grifo do autor), com o qual se pode organizar e significar o
mundo exterior e interior.

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Tópicos em semântica aplicados à Libras

Sinônimos e antônimos
De acordo com Pietroforte e Lopes (2007), dois termos são sinônimos quando
são intercambiáveis em determinado contexto. Para esclarecer, os autores de-
monstram que “novo” é sinônimo de “jovem” pois são intercambiáveis, um pode
ocupar o lugar do outro, no contexto “homem novo”. Porém, os autores chamam
a atenção para o fato de que não existem sinônimos perfeitos, mesmo quando
um termo pode substituir o outro no mesmo contexto. Isso porque cada termo
apresenta valores discursivos distintos:
[...] um apresenta mais intensidade do que o outro (por exemplo: adorar/amar); um implica
aprovação ou censura, enquanto o outro é neutro (por exemplo: beato/religioso) [...] um
pertence a uma variedade de língua antiga ou muito nova e outro não (por exemplo: avença/
acordo); um pertence a um falar regional e outro não (por exemplo: fifó/lamparina); um
pertence à linguagem técnica, enquanto outro pertence à fala geral (por exemplo: escabiose/
sarna); um pertence à fala coloquial e outro não (por exemplo: jamegão/assinatura); um
é considerado de um nível de língua mais elevado do que o outro (por exemplo: rórido/
orvalhado) etc. (PIETROFORTE; LOPES, 2007, p. 126)

Como se não bastasse, ao longo do discurso, o locutor pode transformar em


sinônimos palavras que não o são em outros contextos. Como exemplo, os au-
tores citam o discurso político ou econômico, em que sinônimos são criados
para substituir palavras ou expressões com valor negativo. Contudo, o contrário
também é possível, ou seja, que em determinados contextos palavras considera-
das sinônimas em outros deixem de sê-lo, como exemplo os autores empregam
o caso do trio belo, sublime e bonito, palavras que, embora possam ser usadas
num mesmo contexto, podem não ser intercambiáveis numa discussão sobre
conceitos estéticos, tal como demonstra a passagem de um manual de introdu-
ção ao estudo da filosofia que foi citada pelos autores:
O Belo decorre do equilíbrio resultante da perfeita combinação de todos os elementos
esteticamente relevantes. O Sublime da exacerbação do Belo. Ele é alcançado, segundo
Kant, quando ao Belo aliam-se elementos que trazem à consciência certa ideia de infinito. Há
nesta categoria uma grandiosidade que ultrapassa a dimensão humana. O Bonito é a forma
diminuída do Belo; é o apocaumento do Belo. Não alcança a harmonia e a realização cabal
deste. (TELES1, 1974, p. 113, apud PIETROFORTE; LOPES, 2007, p. 126)

Na Libras, por exemplo, saber quanto um sinônimo é próximo do outro de-


pende, em boa medida, da análise das marcações não manuais empregadas.
Assim, os adjetivos bonito e lindo, em português, não são sinônimos perfeitos
devido ao grau de intensidade, o qual, na Libras, é dado pela expressão facial
empregada durante a sinalização. Observe as imagens:

1
TELES, Antônio Xavier. Introdução ao Estudo da Filosofia. São Paulo: Ática, 1974.

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IESDE Brasil S.A.


BONITO. LINDO.

O mesmo fenômeno se verifica nos adjetivos gordo X obeso e educado X gentil,


como ilustrado a seguir:
IESDE Brasil S.A.

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GORDO. OBESO.

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EDUCADO. GENTIL.

Observe que o sinal realizado manualmente é o mesmo, o que muda a signi-


ficação, o que distingue os sinais de GORDO e OBESO, de EDUCADO e GENTIL, é
a expressão facial empregada, ou seja, as marcações não manuais. Note também
que esses adjetivos, tanto na Libras como no português, não são intercambiáveis
em todos os contextos, corroborando o dito anteriormente sobre não existirem
sinônimos perfeitos.

Os antônimos, por sua vez, funcionam de modo inverso aos sinônimos, uma
vez que aqueles expressam significados contrários, como novo versus velho, alto
versus baixo, rico versus pobre. Os autores observam que, assim como os sinôni-
mos, não há oposição total de significado entre antônimos. Sob essa perspecti-
va, palavras diferentes, mas com pelo menos um significado em comum, podem
ter o mesmo antônimo:
[...] “fresco” e “jovem” têm o antônimo “velho”, porque “fresco” significa, quando se refere a
alimentos, “que acabou de ser preparado, novo”. Por isso, usam-se as expressões pão fresco e pão
velho. Uma só e mesma palavra pode ter tantos antônimos quantos forem seus significados:
“preto” opõe-se a “colorido” em TV em branco e preto, a “mais claro em seu gênero” em pão
preto, “a limpo” em tinha as unhas pretas [...]. (PIETROFORTE; LOPES, 2007, p. 127)

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Tópicos em semântica aplicados à Libras

A Libras também apresenta relações de oposição de significado entre sinais.


Convém analisar, inclusive, com base no excerto anterior, o caso do sinal de
NOVO. Em português, quando se quer dizer que alguém é jovem, é possível
dizer que esse alguém é novo. Assim, em português, os vocábulos jovem e novo
são sinônimos. Essa relação não se mantém na Libras; para dizer que alguém é
jovem é preciso empregar o sinal específico JOVEM, e não NOVO, representados
na ilustração abaixo:

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.


JOVEM. NOVO.
Se o sinalizador empregar o sinal NOVO, estará cometendo uma sentença
inadequada do ponto de vista semântico, já que esses sinais remetem a refe-
rentes diferentes. O sinal JOVEM remete apenas ao conceito de seres humanos
ou animais de pouca idade, enquanto o sinal de NOVO remete ao conceito de
pouco tempo de uso de algo, algo recém-fabricado ou adquirido ou também
a pessoas que chegaram recentemente a um lugar, empresa, profissão etc. De
forma que você entenda melhor esses usos, analise o emprego dos sinais citados
nas frases a seguir:

1. JOÃO COMPRAR CARRO NOVO AMANHÃ. (João vai comprar um carro


novo amanhã)

2. TRABALHAR FÁBRICA 2 SURD@ NOV@. (Dois surdos novos estão traba-


lhando na fábrica)

3. ESCOLA TER MUIT@ INTÉRPRETE JOVEM. (A escola tem muitos intérpretes


jovens)

4. PESSOA JOVEM GOSTAR ESPORTE RADICAL SEMPRE. (Pessoas jovens sem-


pre gostam de esportes radicais)
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Tópicos em semântica aplicados à Libras

Em português, o adjetivo jovem não pode substituir novo, mas o inverso é


possível, sendo que para ambos pode-se empregar como antônimo a palavra
velho. Em Libras, de modo diferente, não há contexto em que novo possa entrar
em lugar de jovem, nem o contrário, com o adendo de que existe um antônimo
para o sinal JOVEM e um antônimo para o sinal NOVO, tal como demonstrado:

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.


Sinal antônimo de JOVEM = VELHO1 Sinal antônimo de NOVO = VELHO2

Infelizmente, não há notícias de estudos semânticos sobre a Libras, razão que


impede a afirmação – porque, por enquanto, não há estudo demonstrativo disso
– de que também na Libras “uma só e mesma palavra pode ter tantos antônimos
quantos forem seus significados” (PIETROFORTE; LOPES, 2007, p. 127).

Ainda há, de acordo com Pietroforte e Lopes (2007), antônimos que expres-
sam oposições gradativas e há antônimos que expressam oposições polares.
Assim, morto versus vivo representa uma oposição polar, já pequeno versus
grande representa uma oposição gradativa, posto que sua aplicação depende
do ponto de vista de quem os emprega e do recorte que fará do contínuo dos
limites que separam esses conceitos, o que também pode ser dito sobre a Libras.
Com isso, fica claro que, apesar de os dicionários trazerem listas de sinônimos e
antônimos, essas relações só ficam suficientemente claras no contexto e que é
preciso ter cuidado ao se empregar esses recursos semânticos.

Hiponímia e hiperonímia
As noções de hiponímia e hiperonímia tratam das relações semânticas que
podem ser estabelecidas entre dois conceitos, um mais restrito, específico, do-
minado por outro, mais geral:
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Tópicos em semântica aplicados à Libras

A hiperonímia e a hiponímia são fenômenos derivados das disposições hierárquicas de


classificação próprias do sistema lexical. Há significados que, pelo seu domínio semântico,
englobam outros significados menos abrangentes. Na taxionomia animal, por exemplo,
mamífero engloba felino, canídeo, roedor, primata etc. (PIETROFORTE; LOPES, 2007, p. 128)

Conhecer esse tipo de fenômeno é útil, pois permite ampliar o vocabulário


à medida que se estuda as relações hierárquicas entre diferentes conceitos de
um mesmo campo semântico, e suas possíveis relações com outros domínios
conceituais:
Nesse tipo de disposição hierárquica, há uma relação entre significados englobantes e
englobados de acordo com o domínio semântico de cada termo da classificação. O significado
de animal é englobante dos significados de réptil, aves e mamíferos, cujos significados são
englobados por ele. O significado de mamífero, por sua vez, é englobante em relação aos
significados de roedor, cetáceo, felino, canídeo, marsupial e primata, seus englobados.
(PIETROFORTE; LOPES, 2007, p. 129)

Conhecer um fenômeno como esse faz parte das exigências para que alguém
possa se considerar fluente numa dada língua e, além do mais, é uma boa fer-
ramenta para auxiliar intérpretes, durante interpretações simultâneas ou con-
secutivas, já que abre a possibilidade de o intérprete explorar o recurso de em-
pregar conceitos mais genéricos em lugar de longas listas de termos específicos
que nem sempre são necessários. Por exemplo, imagine as seguintes situações.
Primeiro, numa conferência sobre bem-estar e saúde, o conferencista diz que
é importante primar pela ingestão de fibras, comendo maçã, banana, laranja,
goiaba, abacaxi, alface, couve-manteiga, almeirão etc. Segundo, numa conferên-
cia sobre emagrecimento, o palestrante explica que a banana e o abacate não
beneficiam uma dieta de emagrecimento. No primeiro caso, o intérprete pode,
pois não há perda de conteúdo, substituir a lista enumerada pelo palestrante por
conceitos mais gerais: frutas e verduras. Já no segundo exemplo, essa troca não
pode ser feita, pois afetaria todo o conteúdo da mensagem, passando uma infor-
mação errônea.

Ambiguidade
Grosso modo, a ambiguidade pode ser definida como o efeito de sentido
causado por expressões linguísticas que apresentam mais de um sentido, ela
pode ser causada por fatores sintáticos ou semânticos. Observe:

O vândalo bateu na velha de bengala.

Essa sentença, assim, sem contexto, apresenta pelo menos duas interpreta-
ções: (i) o vândalo bateu numa velha que estava de bengala e (ii) o vândalo bateu
com a bengala na velha. Essa é uma ambiguidade sintática – daí o desinteresse
da Semântica por esse tipo de ambiguidade –, posto que os sentidos possíveis
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emanam não da expressão “de bengala”, mas de seu posicionamento na estrutu-


ra frasal. O contrário se dá com o exemplo a seguir:

Passei a tarde na rede, jogando.

Sem contexto, essa sentença também apresenta duas leituras, tendo em vista
que em português a palavra rede pode apresentar variados significados:
1. Instrumento de pesca de malhas. 2. Tecido fino de malha, com que as mulheres envolvem
o cabelo; redinha. 3. Artefato para descansar ou dormir, preso pelas duas extremidades em
árvores etc. 4. Por ext. Conjunto de cabos telefônicos ou elétricos de uma cidade. 5. Por ext. A
canalização de água, esgoto, gás etc. 6. Por ext. O conjunto de estabelecimentos, agências etc.,
para atender ao público. (MELHORAMENTOS, 2005, p. 438)

A duplicidade de sentido da sentença acima deriva de uma característica pró-


pria do vocábulo rede. Assim, rede pode ser entendida como o local sobre o
qual a pessoa está deitada, jogando qualquer espécie de jogo, ou como internet,
acepção nova, derivada da expressão Rede Mundial de Computadores, jogando
qualquer jogo online. A questão é que a ambiguidade pode ser um recurso dese-
jado ou indesejado, daí a necessidade de reconhecê-la, de forma que seu empre-
go (ou não) corresponda às intenções discursivas do enunciador. Numa piada,
ou em textos publicitários, por exemplo, a ambiguidade é um rico recurso a ser
explorado, já em textos informativos ela, geralmente, não é bem-vinda.

Na Libras, a ambiguidade pode se manifestar sintática e semanticamente. Não


é incomum um usuário neófito da Libras ser flagrado empregando o recurso da
anáfora ou o sistema pronominal de forma equivocada, gerando, assim, duplici-
dade de sentido para o receptor da mensagem. São fenômenos sintáticos que, se
mal empregados, levam a uma indeterminação do referente, como no exemplo:

EL@ SAIR EL@ ONTEM.

Durante a sinalização dessa sentença, se o sinalizador apontar para o mesmo


lugar no espaço, ou apontar para um lugar no espaço onde um referente não foi
previamente introduzido, levará seu receptor a tomar um referente equivocado
ou a não saber de que referente se trata. Isso deve-se ao fato de o sistema pro-
nominal e a anáfora na Libras serem construídos por meio da apontação para
um espaço determinado no entorno de sinalização. Dessa forma, para realizar o
pronome EL@, o sinalizador pode escolher um ponto no seu espaço de sinaliza-
ção e apontar para ele toda vez que quiser fazer menção ao mesmo referente.
Todavia, se o pronome EL@ for usado com um referente diferente, o sinaliza-
dor deve apontar para um novo ponto no seu espaço de sinalização. Da mesma
forma, ao introduzir referentes novos no discurso, o sinalizador deve marcá-los,

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identificá-los, associando-os a pontos específicos no espaço, de modo a sempre


que apontar para um determinado ponto, que foi preestabelecido, ele estará
fazendo menção ao referente introduzido naquele espaço específico.

Em relação à possibilidade de ambiguidade na sentença anterior, ela se equi-


para ao que acontece em português, no caso de sentenças como a seguir:

João combinou de ir ao jogo com Pedro, mas ele não disse se gostou do jogo.

Repare que a ambiguidade existe porque o pronome “ele”, nessa situação,


não explicita qual referente deve ser resgatado, se João ou Pedro (João ou Pedro
pode não ter dito se gostou do jogo). Na Libras, o uso inadequado do espaço
para introduzir e resgatar referentes tem efeito semelhante. Imagine que na tra-
dução dessa sentença, por equívoco, o sinalizador introduz os referentes “João”
e “Pedro” no mesmo ponto do espaço, e, na sequência do discurso, empregando
anáfora, aponta para o mesmo ponto de modo a retomar um dos referentes pre-
viamente introduzidos, porém, como foram dois os referentes marcados naque-
le mesmo espaço, o receptor não tem como saber a qual dos dois o sinalizador
se refere, o que resulta numa indeterminação do referente.

No nível semântico, a ambiguidade é um efeito de sentido que pode ser causa-


do por vários fenômenos, como a homonímia e a polissemia, explorados nas seções
a seguir, onde você encontrará exemplos de ambiguidade semântica na Libras.

Homonímia
A homonímia tem a ver com a coincidência que há na forma de algumas
palavras, as quais apresentam significado distinto. Nesse caso, elas podem ter
a mesma escrita e/ou pronúncia, mas os significados a que remetem são dife-
rentes. Esse fenômeno é geralmente explicado diacronicamente, isto é, olhando
para o passado da língua, investigando de onde essas palavras se originaram,
o que revela, muitas vezes, que nas línguas de onde se originaram elas tinham
formas e significados distintos, mas ao se incluírem numa nova língua, no pro-
cesso de evolução desta, acabam ficando com a mesma forma, como demonstra
o caso indicado abaixo:
A manga da camisa tem sua origem no latim manica, que quer dizer “parte da vestimenta que
recobre os braços”, já manga fruta tem sua origem no tâmul mankay, que quer dizer “fruto
da mangueira”. Ambas têm origem distintas, com significado2 e significantes3 diferentes. No
entanto, a partir de uma sonorização que transforma o fonema /k/ em /g/, em português elas
passam a ter significantes idênticos. (PIETROFORTE; LOPES, 2007, p. 129)

2
Equivale a dizer conceito.
3
Equivale a dizer a forma como o conceito é expresso, sequência de sons ou sinais.

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A boa notícia é que geralmente a confusão que os homônimos poderiam


causar é desfeita pelo contexto em que os mesmos são empregados. Sob essa
perspectiva, são homônimos na Libras os sinais de laranja e sábado, ambos com
a mesma realização:

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.


LARANJA. SÁBADO.

Quando os homônimos são escritos e pronunciados da mesma forma em por-


tuguês, eles são chamados de homônimos perfeitos. Homônimos perfeitos na
Libras correspondem a sinais “idênticos”, isto é, sinais que apresentam a mesma
forma de sinalização, mas possuem significados diferentes, como o par PIADA X
ENGRAÇADO, representado abaixo:
IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

PIADA. ENGRAÇADO.

Num dicionário, palavras homônimas têm entradas separadas, cada uma


é apresentada de maneira independente, com seu significado próprio, como
retrata a imagem fornecida, onde há uma entrada para manga (de camisa) e
manga (fruta):
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(MELHORAMENTOS, 2005, p. 319. Adaptado.)


manequim manta

Ma.ne.quim sm 1 Boneco que repre- Ma.ni.e.tar vld 1 Atar as mãos de. 2


senta uma figura humana. 2 Medida Algemar, prender. 3 fig. Constranger,
para roupas feitas. s Modelo. tolher.

Ma.ne.ta (ê) adj+s Pessoa a quem falta Ma.ni.fes.ta.ção sf Expressão pública


um braço ou uma das mãos. de opiniões ou sentimentos coletivos.

Man.ga¹ sf Parte do vestuário que cobre Ma.ni.fes.tan.te adj+s Que manifesta


ou entra em uma manifestação.
o braço.
Ma.ni.fes.tar vtd 1 Tornar manifesto,
Man.ga² sf Fruto da mangueira.
público. 2 Mostrar, revelar. vpr 3 Dar-se
Man.ga.ba sf Fruto da mangabeira. a conhecer; revelar-se, traduzir-se. 4
Exprimir-se, mostrar opinião.
Man.ga.bei.ra sf Pequena árvore da fa-
mília das Apocináceas, comum nas res- Ma.ni.fes.to adj Claro, evidente, pú-
tingas e cerrados brasileiros. blico. sm 1 Declaração pública. 2
Documento escrito que expõe uma
Man.ga.ção sf Zombaria, gozação. declaração.

Man.ga-lar.ga adj+sm Diz-se do cavalo Ma.ni.lha sf Tubo de barro vidrado,


de raça no Brasil. pl: mangas-largas. usado em canalizações.

Figura 1 – Duas entradas de manga em dicionário.

Pelo que foi discutido nesta subseção, chega-se à conclusão de que, ao se


empregar sinais homônimos, é sempre necessário ter em mente que o contexto
deve estar suficientemente claro para que o interlocutor entenda a mensagem
transmitida.

Polissemia
Um outro fenômeno linguístico que está relacionado à ambiguidade semân-
tica é a polissemia, que pode ser definida tal como segue:
Na polissemia, a um único significante correspondem vários significados: por exemplo, ao
significante vela correspondem os significados “objeto para iluminação formado de um pavio
constituído de fios entrelaçados, recoberto de cera ou estearina”; “peça que causa a ignição
dos motores”; “pano que, com o vento, impele as embarcações etc. (PIETROFORTE; LOPES,
2007, p. 131)

Segundo os autores, a polissemia pode ser explorada por meio do uso da


mesma palavra com significado diferente, como na conhecida frase de Pascal: “O
coração tem razões que a própria razão desconhece.” No primeiro emprego da
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palavra razão, o significado em jogo é o de “motivos”, no segundo, o significado


pretendido é o da “capacidade de julgar, raciocinar”. A polissemia tem a ver com
o fato de um mesmo signo poder ser usado em contextos distintos, como retra-
tam os exemplos empregados por Pietroforte e Lopes (2007, p. 132):

a) A babá tomou a mão da criança (segurou).

b) Os EUA tomaram Granda (ocuparam).

c) Agora ele só toma água (bebe).

d) A Cidade Universitária toma vários alqueires (ocupa).

e) Depois que ele virou universitário, tomou um ar insuportável (assumiu).

Isso é uma mostra de que “[a] linguagem humana é polissêmica, pois os


signos, tendo um caráter arbitrário e ganhando seu valor nas relações com os
outros signos, sofrem alterações de significado em cada contexto” (PIETROFOR-
TE; LOPES, 2007, p. 132). Em relação a esse fenômeno na Libras, já há uma disser-
tação, da área da tradução, intitulada ”A questão da padronização linguística de
sinais dos atores-tradutores surdos do curso de Letras-Libras: estudo descritivo
e lexicográfico do sinal ‘cultura’”, na qual a pesquisadora discute, além da varia-
ção linguística no uso do sinal – alguns atores-tradutores empregavam variantes
regionais – a polissemia da palavra cultura em português e o desafio que tal
fenômeno impõe à tradução.

Essa preocupação de como lidar com a polissemia durante a tradução também


é tratada por Rónai (1976):
A polissemia faz com que a uma palavra do idioma A correspondam duas palavras no idioma B.
À nossa palavra “relação” podem corresponder duas palavras em francês, relation e rapport, nem
sempre substituíveis. Por outro lado, ao adjetivo francês simple correspondem em português
“simples” e “singelo”. (RÓNAI, 1976, p. 19, grifo do autor)

Pode-se dizer que a polissemia é um desafio para tradutores e também para


os usuários iniciantes ou não tão fluentes na Libras, posto que nem sempre na
Libras um sinal carrega todos os significados que a palavra equivalente pode
assumir no português. Em relação a isso, vale considerar se, nas frases abaixo, a
palavra fraco em português pode ser traduzida, em todos os casos, para o sinal
FRACO:

1. Meu cachorro está fraco, doente.

2. A aula dele está fraca, não gostei.

3. Essa sopa está fraca, sem vitaminas.

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Nos enunciados (1) e (2), o sinal FRACO pode substituir a palavra fraco, o
mesmo não ocorre no enunciado (3). Nele a palavra fraca daria a noção de ruim
e não de que a sopa em questão tem carência de vitaminas, o que seria um caso
a se pensar se ainda se trata de polissemia ou um uso inadequado de sinais.
Mesmo assim, o significado de FRACO em (1) e (2) demonstra que na Libras esse
sinal é polissêmico, posto que pode apresentar mais de um significado depen-
dendo do seu contexto de uso.

Diferentemente de palavras homônimas, as polissêmicas apresentam apenas


uma entrada no dicionário, haja vista se tratarem da mesma palavra, apenas com
vários significados possíveis, os quais se manifestarão em contextos específicos.
Aliás, o dicionário é uma ferramenta muito útil não só para aprender a distinguir
homonímia de polissemia, mas também para incrementar seu vocabulário por
meio do estudo de sinônimos e antônimos e ainda desvendar relações de campo
semântico entre os vocábulos. Você apenas não encontrará muita ajuda nos di-
cionários quanto ao fenômeno da metáfora, principalmente nos dicionários da
Libras. A metáfora, de todo modo, não é algo que possa ser sempre registrado
nos dicionários, afinal, trata-se de um fenômeno dinâmico. Entretanto, algumas
metáforas acabam por se “cristalizar” na língua, tornando-se passíveis de escrutí-
nio linguístico, tal como proposto em relação a algumas metáforas da Libras no
texto complementar desta aula. Boa leitura!

Texto complementar

Metáfora na LSB: debaixo dos panos


ou a um palmo de nosso nariz?
(FARIAS, 2001, p. 193-196)

Os atos de fala estão recheados de diferentes usos da metáfora como


atividade humana. É o ser humano utilizando-se de ferramentas cognitivas
para se expressar. Somente o contexto determina se CARNE está significan-
do a carne propriamente dita ou ESTAR-PESSOALMENTE-EM-ALGUM-LUGAR
/ AO-VIVO!

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Enfim, se o item está empregado em seu sentido mais ou menos comum
ou se está no domínio fonte ou alvo – metafórico. As construções metafóri-
cas apresentadas no corpus da parte II foram legitimamente geradas na LSB.
Elas diferem consideravelmente daquelas construídas por ouvintes, falantes
nativos de LP. De forma bastante precisa, essa evidência confirma que a visão
pragmática que os indivíduos têm do mundo inclui concepções culturais e
sociais as quais não são as mesmas partilhadas pelos falantes de todas as
línguas, independentemente de partilharem o mesmo espaço físico, como é
o caso das pessoas surdas que possuem experiência de mundo diferenciada
da dos ouvintes.

O corpus metafórico encontrado na LSB, efetivamente, demonstra uma


riqueza de itens lexicais que expressam unidades complexas de pensamen-
to, na maioria das vezes, relacionados a “ideias”. Tais ideias complexas, sub-
jacentes aos itens da LSB, assemelham-se a ideogramas – símbolos gráficos,
imagens convencionais ou desenhos que representam um objeto ou uma
ideia, não um fonema ou uma sílaba, mas uma ou mais unidades de sentido
(HOUAISS, 2001).

A análise dessas unidades evidencia que vários desses itens e/ou fraseo-
logismos da LSB têm fraseologismos equivalentes na LP e, especialmente
aqueles mais idiomáticos, cuja metáfora é semelhante nas duas línguas em
questão, apontam para empréstimos da LP à LSB.

Isso ocorre, provavelmente, devido ao contato das duas línguas, ou seja,


um fato até certo ponto previsível, visto que uma comunidade surda, falante

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da LS, é multicultural e o contato de duas culturas parece influenciar o léxico


de ambas. É provável que, à medida que a LSB vá se socializando e pene-
trando mais nos ambientes ouvintes, esse fenômeno acarrete empréstimos
linguísticos, também, da LSB para a LP, um percurso natural de duas línguas
em contato.

Um neologismo, e também um empréstimo, em LS pode, como os modis-


mos, se perderem ou serem incorporados à língua. Caso haja a incorporação,
um neologismo ou empréstimo pode passar pelo processo de lexicalização.
Curiosamente, boa parte dos fraseologismos registrados com metáfora equi-
valente nas duas línguas, parece ser contemporânea aos fraseologismos da
LP. Entretanto, alguns já caíram em desuso na LP, mas aparecem vivos na LS.

Ainda a respeito dessas unidades complexas, há indícios de que as com-


binações fixas na LSB não são muitas. Essa hipótese se põe com base na
quantidade reduzida de combinações fixas encontradas na LSB, mas é posta
em xeque diante do conhecimento incipiente que a pesquisadora tem da
LSB. Para elucidar as combinações realmente fixas na LSB, faz-se necessário a
gravação de horas de eventos interativos entre surdos, o que demanda uma
pesquisa específica sobre o tema.

Outra hipótese para essa ocorrência pode ser atribuída à modalidade


visual-espacial e ao caráter sintético das LS, que permitem a articulação de
ideias em itens lexicais – grosso modo, propriedades avaliadas por muitos
como marcas de língua pobre e simplificada, principalmente por que um
único item numa LS, por vezes, exige uma frase completa ao ser traduzido
para uma língua oral. Entretanto, essa configuração das LS é riquíssima e
altamente complexa, pois possibilita a realização sequencial e simultânea
de constituintes “fonológicos”. Na LP, esse fenômeno ocorre no processo de
formação de palavras por aglutinação – constituintes fonológicos e morfo-
lógicos se aglutinam e formam uma unidade lexical simples. Dessa forma,
um único item lexical é capaz de apresentar uma simultaneidade e complexi-
dade enorme de sentidos. Esse fenômeno ecoa na argumentação de Stumpf
(2002, p. 67), que sustenta que “conceitos que nós surdos passamos a usar
seguidamente em língua de sinais brasileira e precisam de vários sinais para
explicar acabam por dar origem a um novo sinal. Por exemplo, a palavra dis-
ciplina. Falávamos aula de história, aula de português etc., agora temos um
sinal para disciplina”.

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Foram identificadas metáforas que flutuam entre um item e um fraseolo-


gismo, questão que corrobora a hipóte-

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se de Stumpf (2002) e endossa o surgi-
mento dos neologismos em LS. Na
constituição discursiva de um neologis-
mo que se baseia em uma ideia, em LS,
muitas vezes ele surge numa formação
fraseológica que aos poucos se modifica
e se lexicaliza num único item lexical. Por
exemplo, foram encontrados, no corpus,
a frase QUEBRAR CARA – não ilustrada
nesse trabalho – e o item QUEBRAR-A-
QUEBRAR-A-CARA.
CARA. Representam, respectivamente, a
constituição fraseológica, discursiva e
transitória de uma ideia que parece caminhar para a lexicalização em uma
unidade lexical simples, de um empréstimo linguístico da LP para a LSB.

À luz dessa hipótese, pode-se dizer que os fraseologismos da LSB esta-


riam, ainda, no nível da discursivização, uma vez que formas lexicalizadas e
gramaticalizadas tendem a se cristalizar, nas LS, por meio de uma unidade le-
xical simples. Esses itens que cristalizam ideias em unidades lexicais com um
único significante, porém com significado amplo e complexo, está sendo de-
nominado, neste trabalho, de “ideativo” – relativo a ideia ou ideias, etimologi-
camente, ideado (HOUAISS, 2001). Essa ideia, conceito ou unidade complexa
de pensamento que não corresponde, morfologicamente, a uma das classes
de palavras conhecidas da gramática tradicional, parece ocupar uma posição
de “verbo leve”– aquele sem valência, que perde seu significado e passa a ser
utilizado com função gramatical – e/ou simplesmente interjetiva.

Uma vez que esses verbos abarcam um conceito geral, amplo, que se
aproxima de uma ideia, talvez fosse possível falar em “categoria ideativa”.
Por outro lado, os itens em questão podem simplesmente ser tratados como
meros itens léxico-gramaticais de uma língua sintética, cuja modalidade per-
mite sobrepor estruturas complexas, conceptualizadas e/ou metaforizadas
no espaço, em contraste com uma língua mais analítica como é o caso da
LP. Embora a maioria dos dados gerados se referirem diretamente a um item
lexical, também foram encontrados alguns fraseologismos que representam
uma formação relativamente estável em LSB. Para sustentar a hipótese que

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ora se elege, esses itens ideativos com representação fraseológica podem ser
transitórios, por estarem no nível do discurso e, ainda, não lexicalizados. Todas
essas hipóteses emergentes das reflexões a respeito do corpus, carecem de
estudo mais aprofundado para que possam ser confirmadas ou refutadas.

Uma outra hipótese a ser testada a respeito da lexicalização das unida-


des complexas em um único item lexical pode estar associada ao nível de
proficiência do falante de LSB: o surdo com maior grau de proficiência na
LSB usaria mais expressões ou itens ideativos que surdos com menor grau
de proficiência na LSB, ou mais especificamente, aqueles que têm formação
mais bimodal. Esse processo parece ocorrer de forma semelhante com ou-
vintes no processo de aquisição da LS.

Por fim, se vier a ser confirmada e generalizada a evidência de Stumpf


(2002, p. 67) de que a LS tem uma tendência a transformar paráfrases em
um único item lexical, será plausível afirmar que um fraseologismo em LS
tem uma tendência a se cristalizar na forma de um item lexical, processo
facilitado pela modalidade da língua – visual-espacial – e por seu caráter de
estrutura morfossintática “sobreposta”. Essa hipótese encontra respaldo no
princípio da economia linguística que, grosso modo, sustenta que o falante
tende a não explicitar informações estruturais consideradas redundantes.

Dicas de estudo
 Dissertação de mestrado, “A metáfora na LSB e a construção dos sentidos
no desenvolvimento da competência comunicativa de alunos surdos”, de
Sandra Patrícia Farias.

Leitura recomendada para os que pretendem ter uma visão detalhada da


metáfora e de como ela se manifesta na Libras. Além disso, a leitura vale a
pena pelas metáforas exploradas pela pesquisadora, as quais podem ser-
vir como uma espécie de fonte de consulta.

 Livro Introdução à Semântica: brincando com a Gramática, de Rodolfo Ilari,


7. ed. São Paulo: Contexto, 2009.

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O livro traz de forma bastante descontraída e em linguagem acessível a


leigos assuntos pertinentes da semântica que influenciam na competên-
cia discursiva de qualquer falante. Embora trate especificamente do por-
tuguês, é um bom ponto de partida para entender alguns importantes
fenômenos semânticos e estendê-los ao estudo da Libras, ainda carente
de pesquisas nesse nível de análise.

Atividades
1. Discuta a definição de semântica.

2. Discorra sobre hiperonímia e hiponímia com base na relação entre os concei-


tos de animal, réptil, ave, mamífero, gato, cachorro, morcego e homem.

3. Fundamentando-se no texto complementar desta aula, discuta se a Libras


apresenta metáforas que lhes são próprias.

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Referências
FARIAS, Sandra Patrícia de. Metáfora na LSB: debaixo dos panos ou a um palmo
de nosso nariz? ETD – Educação Temática Digital, Campinas, v. 7, n. 2, p. 179-
199, jun. 2006.

MCCLEARY, L.; VIOTTI, E. Semântica e Pragmática. Material didático do curso de


Letras Libras a Distância. Florianópolis: UFSC, 2009.

MANGA. In: MELHORAMENTOS dicionário de língua portuguesa. São Paulo: Me-


lhoramentos, 2005.

MÜLLER, Ana Lúcia de Paula; VIOTTI, Evani de Carvalho. Semântica formal. In:
FIORIN, José Luiz (Org.). Introdução à Linguística II: princípios de análise. 4. ed.
São Paulo: Contexto, 2007.

OLIVEIRA, R. P. Semântica. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Anna Christina. In-


trodução à Linguística. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

PIETROFORTE, Antonio Vicente Seraphim; LOPES, Ivã Carlos. A semântica lexical.


In: FIORIN, José Luiz (Org.). Introdução à Linguística II: princípios de análise. 4.
ed. São Paulo: Contexto, 2007.

REDE. In: MELHORAMENTOS dicionário de língua portuguesa. São Paulo: Melho-


ramentos, 2005. p. 438.

RÓNAI, Paulo. A Tradução Vivida. Rio de Janeiro: Educom, 1976.

Gabarito
1. Resposta mínima deve contemplar que embora não exista consenso sobre
o que seja o significado, é comum identificar a semântica como a área da
linguística dedicada ao estudo do significado.

2. O esperado é que o aluno reconheça as relações hierárquicas entre esses


conceitos e aponte que a hiperonímia, representada no topo da hierarquia
apresentada pelo conceito de “animal”, consiste em conceitos mais amplos,
gerais, capazes de englobar outros mais específicos, a hiponímia, como ma-
mífero, ave e réptil em relação a animal, ou como gato, cachorro, morcego e
homem em relação à categoria de mamífero.

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3. Como resposta mínima o aluno deve reconhecer que em sua pesquisa Farias
encontrou construções metafóricas legitimamente geradas na LSB, que se
diferenciam consideravelmente daquelas construídas por ouvintes, falantes
nativos de LP, e que são tomadas por empréstimo, fenômeno que ocorre en-
tre quaisquer línguas em contato.

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Tempo e aspecto na Libras

Expressar-se numa língua implica situar-se num “aqui” e “agora”, o que


em Linguística se chama de característica dêitica da linguagem. Para esta
aula, o alvo de interesse reside no “agora” do falante e seus interlocutores.
Esse “agora” de que se fala, caro aluno, não é o seu agora – enquanto lê
este texto –, mas um marco de referência no tempo para indicasr relações
de sucessão e antecedência, ou melhor, para registrar como os usuários de
uma dada língua percebem e organizam essas relações. Nesta aula, você
encontrará uma discussão sobre como o tempo físico é tratado linguisti-
camente, passando, portanto, pela análise das categorias linguísticas de
tempo e aspecto. A visão apresentada prioriza a manifestação desses fe-
nômenos na Libras, mas também recorre a exemplos do português para
uma melhor compreensão. Ao término da aula, o esperado é que você
conheça as categorias de tempo e aspecto e possa empregá-las adequa-
damente, conforme seus objetivos discursivos.

O que é tempo?
Para entender a categoria de tempo, é preciso, em primeiro lugar,
deixar bem claro que ela tem a ver com o tempo físico – sucessão dos dias,
das horas, dos anos –, mas não é o tempo físico. Não se trata, portanto, de
falar da indicação de datas, anos e horas, mas sim sobre como os usuários
de uma dada língua organizam a sucessão dos fatos, situações dentro de
seu discurso. Observe uma estrofe da música a seguir:

Armas químicas e poemas


Engenheiros do Hawaii
Eu me lembro muito bem
como se fosse amanhã
o Sol nascendo sem saber o que iria iluminar
eu abri meu coração

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como se fosse um motor


e na hora de voltar
sobravam peças pelo chão
mesmo assim eu fui à luta
eu quis pagar pra ver
aonde leva essa loucura
qual é a lógica do sistema

Na estrofe transcrita, salta aos olhos a combinação de “Eu me lembro muito


bem” com “como se fosse amanhã”. Isso porque o esperado seria “Eu me lembro
muito bem, como se tivesse sido ontem”1. A surpresa acontece porque a com-
binação se dá entre uma afirmação se referindo a lembranças de eventos pas-
sados (Eu me lembro muito bem) e uma afirmação que estabelece como ponto
de referência para as lembranças um tempo futuro (como se fosse amanhã).
Essa licença poética vai de encontro à forma como o falante do português está
acostumado a organizar os eventos dos quais fala. Repare, estudante, que a es-
trofe organiza uma série de situações diferentes umas em relação às outras sem
empregar datas ou horários específicos e, mesmo assim, é possível saber que
situação antecedeu ou precedeu a outra. A situação de lembrar é considerada
simultânea ao momento de enunciação – presente –, mas se refere a situações
anteriores. Assim, o nascer do sol, o abrir o coração, o sobrar peças pelo chão na
hora de voltar, o ir à luta, o querer pagar pra ver são todas situações anteriores
a “Eu me lembro muito bem, como se fosse amanhã”. O nascer do sol, por sua
vez, é simultâneo ao abrir o coração, que é anterior a sobrar peças pelo chão. Ir
à luta é posterior ao nascer do sol, ao abrir o coração, ao sobrar peças pelo chão,
mas é, também, anterior a lembrar muito bem. Querer pagar pra ver é anterior
a ir à luta, ou seja, primeiro há o desejo de pagar pra ver e depois se vai à luta,
sendo que querer pagar pra ver é anterior a lembrar-se muito bem e, ao mesmo
tempo, posterior ao nascer do sol, ao abrir o coração e ao sobrar peças pelo
chão. Depois disso, você deve estar pensando “Ufa, quantas relações de ‘antes’,
‘depois’ e ‘simultâneo’”. É verdade, são muitas mesmo e complexas – embora
no dia a dia sejam compreendidas muito facilmente – e todas reflexo de uma
organização temporal linguística.

1
O que equivale ao popular “Parece que foi ontem”, empregado pelos usuários do português para expressar que fatos do passado ainda estão bem
nítidos em sua memória.

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O compositor não precisou se valer de tantos “anterior” e “posterior” – ao con-


trário da explicitação aqui proposta para os eventos contidos em sua música
– para relatar as situações de uma forma organizada do ponto de vista “passa-
do-presente-futuro”. Isso porque o português, assim como a Libras, possui uma
categoria linguística chamada tempo, que serve para organizar os eventos no
discurso com base na relação entre três momentos básicos de referência tem-
poral: Momento da Fala, Momento do Evento e Momento de Referência2. Nesse
sentido, o momento de composição da música foi o momento de fala de seu
compositor, momento com o qual a situação “lembrar-se muito bem” é simul-
tânea, e o restante é anterior, acontece antes do momento de fala (composição
da música). Com isso, o momento de fala, é possível estabelecer as noções de
passado, presente e futuro. O que é simultâneo ao momento de fala (também
se diz válido no momento de fala) é presente, o que é anterior é passado e o
que é posterior é futuro. Com base nisso, pode-se, finalmente, delimitar que a
categoria de tempo envolve a localização da situação proferida em relação ao
momento da enunciação (fala), tratando-se, de modo geral, da codificação das
noções de presente, passado, futuro e suas subdivisões. Por localizar o momen-
to da situação em relação ao momento da enunciação, o tempo se caracteriza
como uma categoria dêitica3. O aspecto, como você verá a seguir, não envolve
a localização das situações em relação ao momento da enunciação, sendo, por-
tanto, uma categoria não dêitica.

O que é aspecto?
Embora relacionados à codificação linguística de um mesmo fenômeno físico,
aspecto e tempo se distinguem pelos significados que expressam. O aspecto,
conforme Comrie (1976), Costa (2002), Corôa (2005) e Travaglia (2006), é respon-
sável pela expressão do tempo interno ao fato, enquanto o tempo é responsável
pela expressão do tempo externo ao fato. Por tempo externo ao fato, deve-se
compreender a propriedade linguística de localizar as situações em relação ao
momento de fala, assim, elas são anteriores (passado), simultâneas (presente) ou
posteriores (futuro) ao momento de fala. O tempo interno, por conseguinte, não
orienta a localização da situação no eixo do tempo (passado-presente-futuro)
com base em uma referência exterior à situação (o momento de enunciação),
antes, preocupa-se em olhar para como o tempo decorre no interior da situação.
Observe algumas definições de aspecto segundo os autores mencionados no
início do parágrafo:
2
A descrição da codificação linguística do tempo por meio desses três momentos foi elaborada por Reichenbach (1947).
3
Categorias dêiticas são aquelas cujo significado só pode ser determinado se tomado o momento da fala e quem fala como pontos de partida para
a interpretação. Pense, por exemplo, no pronome eu. Para determinar a quem, de fato, o pronome se refere, é preciso saber quem o pronunciou. Da
mesma forma, a palavra “aqui” muda de referente conforme o lugar onde está a pessoa que a pronuncia, motivo pelo qual o “aqui” das autoras desta
aula no momento de sua escrita não é o mesmo “aqui” de cada estudante durante a leitura da mesma.

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Aspecto é a categoria linguística que informa se o falante toma em consideração ou não a


constituição temporal interna dos fatos enunciados. [...] (COSTA, 2002, p. 21)

Aspecto é uma categoria [...] através da qual se marca a duração da situação e/ou suas fases, sendo
que estas podem ser consideradas sob diferentes pontos de vista, a saber: o do desenvolvimento,
o do completamento e o da realização da situação. (TRAVAGLIA, 2006, p. 40)

[...] o aspecto verbal é uma propriedade da predicação que consiste em representar os graus
do desenvolvimento do estado de coisas aí codificado, ou, por outras palavras, as fases que ele
pode compreender. (CASTILHO, 2002, p. 83)

Contribuem, ainda, com as definições anteriores, a asserção de Comrie (1976)


de que o aspecto, enquanto um valor semântico observado em diversas línguas,
caracteriza-se como as diferentes maneiras de se ver a constituição temporal in-
terna de uma situação e a de Corôa (2005) que estabelece que o aspecto está
relacionado à quantificação de subeventos de um evento. Apesar das diferenças,
um traço em comum é percebido nas caracterizações da categoria: expressão da
estrutura temporal interna de uma situação (envolvendo, normalmente, valores
como duração e fases de desenvolvimento). Para que você entenda melhor a
que se refere a “estrutura temporal interna de uma situação”, compare os exem-
plos abaixo:

 Estive procurando você essa tarde.

 Procurei você essa tarde.

Tanto A quanto B relatam uma mesma situação: “procurar você”. No entanto,


quem pronuncia A pretende relatar também que a situação de procura se es-
tendeu no tempo, durou, ou mesmo se repetiu; enquanto B não dá conta sobre
se a procura se estendeu ou se repetiu. Note que essa interpretação advém das
formas como o verbo foi empregado em cada sentença. Todavia, não só a forma
dos verbos influencia na interpretação sobre a duração de uma situação, o pró-
prio verbo, na forma infinitiva, muitas vezes, já carrega informações sobre dura-
ção ou não duração das situações. Pense no caso da oposição entre procurar e
encontrar: o primeiro, naturalmente, denota uma ação que toma tempo, é preci-
so “gastar tempo” para procurar; já encontrar não demanda que se gaste tempo
(o tempo é gasto na procura, não no encontro), encontrar é o que os estudiosos
sobre aspecto chamam de verbo pontual, isto é, sua concretização não leva a
uma extensão da situação ao longo do tempo.

A discussão diz respeito ao problema da expressão aspectual, que consiste,


basicamente, em se o tempo interno é codificado nas línguas via expediente
morfológico (flexão – conjugação do verbo) ou lexical, a própria significação do
verbo no infinitivo e de advérbio. É o embate entre as noções de aspecto (marca-
do via morfologia) e Aktionsart (marcado lexicalmente), respectivamente. Algu-
mas línguas apresentam apenas uma das possibilidades, o português apresenta

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ambas, assim como a Libras, de acordo com Finau (2004, 2008). Frente a isso, a
pergunta que se coloca é o que considerar na análise? Aspecto ou Aktionsart? A
resposta para isso deve ser determinada pelo objeto e os objetivos da análise,
razão pela qual há trabalhos que se ocupam apenas em discutir a caracterização
aspectual dos morfemas ou apenas a caracterização de advérbios e lexemas ver-
bais e há aqueles que se concentram no estudo da interação entre esses objetos,
numa análise chamada de composicional, haja vista que se preocupam como a
língua compõe os valores aspectuais que descrevem como o tempo decorre no
interior das situações. As considerações sobre a categoria de aspecto na Libras
encontradas nesta aula trabalham com a perspectiva composicional de análise,
sendo que se considerada como oposição básica da categoria de aspecto os
valores:

Perfectivo – apresenta a situação com limite inicial e final, sendo, por isso,
percebido como um todo fechado em si mesmo, sem possibilidade de refe-
rir desenvolvimento interno, fases ou duração de uma situação (Maria amou
João, Pedro chegou tarde, João segurou o cachorro quando viu o gato invadir
o pátio);

Imperfectivo – apresenta a situação sem limites, sendo, por isso, percebido


como em desenvolvimento, com a capacidade de referir as fases ou duração de
uma situação (Maria amava João, Pedro chegava tarde, João segurava o cachorro
quando viu o gato invadir o pátio).

Marcas de tempo na Libras


Na Libras, segundo Finau (2008), o estabelecimento dos marcos temporais
passado, presente e futuro pode ser feito por operadores temporais específicos e
também por meio de advérbios. Entre os operadores temporais específicos estão
os sinais de PASSADO e FUTURO, sendo que sua realização, conforme a autora,
parece se valer de linhas temporais imaginárias situadas no espaço de sinaliza-
ção. Para compreender essas linhas imaginárias distribuídas no espaço de sina-
lização, é preciso considerar que o tronco do sinalizador é o marco zero da linha
temporal, pois é bem próximo ao tronco do sinalizador que se realizam os sinais
relativos a situações válidas para o momento de fala, isto é, situações presentes.
A partir do marco zero, o tronco do sinalizador, que marca o momento de fala, é
que se orientam os outros dois marcos temporais. Nessa perspectiva, situações
futuras são sinalizadas bem à frente do tronco, enquanto situações passadas são
sinalizadas atrás, tal como procuram representar as figuras a seguir:

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Figura 1 – Posição do Figura 3 – Posição do
Figura 2 – Posição do
tronco do sinalizador tronco do sinalizador
tronco do sinalizador
ao relatar situações ao relatar situações
ao relatar situações
presentes. futuras.
passadas.

O interessante, tal como revela Finau (2008), é que os sinais de PASSADO e


FUTURO podem marcar, além da categoria tempo, a de aspecto, isso por meio de
modificações no parâmetro de realização desses sinais, o que a autora considera
como flexões empregadas para marcar gradações aspectuais:
O sinal de PASSADO, por exemplo, pode acontecer com uma ampliação do espaço de realização,
mais para trás do ombro e com uma expressão facial que reforça o valor de um evento ter
acontecido “há muito tempo” em um passado mais distante, não ontem ou apenas no passado
mais próximo. Essa ampliação do espaço para a realização desse sinal também aparece para
marcar um futuro mais distante, com o movimento em arco sendo estendido para cima da
cabeça do sinalizador. (FINAU, 2008, p. 260)

No que se refere ao uso dos advérbios para organizar os tempos presente,


passado e futuro, Finau (2008) cita como exemplo os sinais de AMANHÃ, ONTEM
e ANTEONTEM e afirma que para a realização e interpretação desses sinais, não
há a necessidade de se recorrer a uma linha temporal imaginária:
Aliás, as duas formas ocorrem em posições muito próximas. O que pode estar sendo empregada,
na verdade, é uma ligação entre movimentos direcionados para trás e/ou para baixo com o
tempo passado e movimentos direcionados para cima e/ou para frente com o tempo futuro,

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mas não necessariamente para trás do corpo ou para a frente do corpo. Já o tempo presente é
denotado por realizações próximas ao tronco ou pela ausência de movimentos cujas direções
sejam essas para passado e futuro. (FINAU, 2008, p. 261)

A organização temporal na Libras ainda conta com os sinais de ANTES e


DEPOIS, os quais marcam não só a categoria temporal, mas também a aspectual.
Ambos os sinais são realizados com as duas mãos, sendo que a mão direita em
L toca, com o polegar, a palma da mão esquerda, que permanece aberta e na
posição vertical. A diferença entre os sinais, para expressar a relação “antes” ou
“depois”, fica por conta do movimento realizado: se o significado pretendido é
anterioridade (antes), a mão direita se move para trás, descrevendo um meio cír-
culo; porém, se o significado a ser alcançado é a posterioridade (depois), a mão
direita se move para frente, descrevendo também um meio círculo.

As noções de passado e futuro também podem ser expressas por meio de


variantes dos sinais de ANTES e DEPOIS, sendo a direção do movimento para
frente ou para trás, mais uma vez, a responsável por determinar o valor temporal
em jogo. Agora, os sinais variantes de ANTES e DEPOIS são realizados com as
duas mãos abertas, na horizontal, com as palmas para dentro. O movimento,
para trás ou para frente, desenha um círculo no espaço de sinalização (ver fi-
guras a seguir). Para significar anterioridade, a mão direita é movida para trás
e para baixo ao redor da esquerda por duas vezes. Por meio da inversão desse
movimento, chega-se à sinalização para expressar posterioridade. Nesse proces-
so, pode acontecer de o tronco todo ser movido para acompanhar a direção do
sinal. Além disso, conforme Finau (2008), a indicação de valores aspectuais di-
ferentes dos contidos nos sinais raízes (sem variação, flexão) pode ser efetuada
por modificações nos parâmetros configuração de mãos, expressão facial e mo-
vimento, este com uma ampliação do espaço de realização, conforme represen-
tado nos exemplos a seguir, retirados de Finau (2008, p. 262):
IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

LOGO-DEPOIS. MUITO-DEPOIS. POUCO-ANTES.

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Conforme a autora, as noções de passado ou futuro próximo e de passado


ou futuro distante nos sinais de ANTES e DEPOIS são dadas pela modificação da
expressão facial e pela amplitude do movimento em círculo. Observe que movi-
mento amplo indica distância temporal e movimento curto implica proximidade
– ilustração retirada de Finau (2008, p. 263-264):

IESDE Brasil S.A.


MUITO-DEPOIS AGORA PIETRO MARTINES

IESDE Brasil S.A.


COMEÇAR VOLTAR QUARTA SÉRIE

“Muito tempo depois, agora na Pietro Martines, recomecei a quarta série.”

A sequência de imagens apresentadas acima corresponde à sentença “Muito


tempo depois, agora na Pietro Martines, recomecei a quarta série”, em que o pri-
meiro sinal expressa, pela conjunção da amplitude do movimento e pela expres-
são facial bem marcada, a noção de um intervalo de tempo fechado no passado,
mas que esse intervalo ocorreu muito tempo depois em relação a uma referên-
cia temporal não explícita na sentença.

Além dessas relações temporais de passado, presente e futuro, a Libras ainda


pode marcar intervalos de tempo e frequência de situações por meio do sinal
SEMPRE, “realizado com a mão direita articulada em V, na posição horizontal e
movida em um balanço para cima e para baixo” (FINAU, 2008, p. 264). De acordo

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com a autora, para expressar iteratividade (a situação se repete com muita fre-
quência, em oposição a situações semelfactivas4), o sinal pode ser realizado com
as duas mãos, no mesmo lugar, mas sem intensificar a expressão facial, tal como
representado abaixo a partir de Finau (2008, p. 264):

IESDE Brasil S.A.


SEMPRE.

Para indicar um intervalo de tempo fechado, isto é, aspecto perfectivo, o sinal


de SEMPRE é realizado com um movimento que avança para frente a partir de
um ponto localizado no espaço, veiculando a interpretação “desde... até...”. Por
outro lado, para denotar um intervalo de tempo aberto, aspecto imperfectivo
cursivo, esse mesmo sinal tem seu movimento intensificado, fazendo com que a
mão avance ainda mais adiante do corpo, e é acrescido de uma expressão facial
diferente da constatada para o SEMPRE que marca intervalo fechado.

Para a marcação do ponto final de um evento em um intervalo de tempo,


Finau (2008) aponta também o sinal ATÉ. Este pode marcar o final de um interva-
lo de tempo que se inicia no passado e culmina no presente ou no futuro, bem
como pode indicar o ponto terminal de um intervalo de tempo iniciado no pre-
sente e que termina no futuro. Por essa razão, afirma a autora, esse sinal “sempre
aparece acompanhado de mais uma marca, por exemplo, os sinais temporais
como HOJE, ONTEM, AMANHÔ (FINAU, 2008, p. 265). Os intervalos de tempo no
passado e futuro também podem ter sua extensão restringida pela ocorrência
dos sinais PASSADO e FUTURO juntamente com o QUANDO, como evidenciam
os exemplos recolhidos em Finau (2008, p. 266-267):
4
Nomenclatura empregada na literatura aspectual para designar situações que ocorrem uma única vez, que não se repetem.

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Tempo e aspecto na Libras

1. PASSADO/QUANDO COMEÇAR FÉRIAS EU VONTADE DEPRESSA VIAJAR.


“Quando chegaram as férias, eu fiquei ansiosa para viajar.”
“Chegaram as férias, eu fiquei ansiosa para viajar.”

2. FUTURO/QUANDO COMEÇAR FÉRIAS EU VIAJAR.


“Eu viajarei quando começarem as férias.”

3. ORALISMO 1sSOFRER FUTURO IDADE/QUANDO COMEÇAR VINTE E SEIS


ABRIR SINAIS
“Com oralismo eu sofria, quando aos 26 anos comecei me abrir para os
sinais.”

Por fim, ao terminar sua exposição sobre os sinais de tempo na Libras, a autora
avalia que:
Os exemplos apresentados até aqui, neste capítulo, já seriam suficientes, pelo menos, para
repensar a ideia de que a Libras tem um número reduzido de sinais para expressar tempo –
geralmente, os sinais PASSADO, PRESENTE e FUTURO. Como demonstrado com esse grupo de
advérbios e expressões adverbiais, já é possível perceber que o emprego desses elementos
dá conta não só das leituras temporais, mas também participam do arranjo aspectual nas
sentenças por meio da flexão morfológica. Além disso, esses exemplos ainda evidenciam que a
observação da direção do movimento pode ser uma proposta mais adequada para descrever a
referência temporal na Libras do que apenas a hipótese da linha imaginária de tempo. (FINAU,
2008, p. 267)

Marcas de aspecto na Libras


Em seu estudo sobre os sinais de tempo e aspecto na Libras, Finau (2004)
considera que são basicamente três os valores aspectuais expressos na Libras: o
perfectivo, imperfectivo e iterativo.

O perfectivo, segundo a autora, denota situações pontuais, isto é, que não


apresentam duração, sendo que são situações marcadas como acabadas. Por
outro lado, o imperfectivo descreve situações prolongadas, quer estejam em
curso ou não, apresentando subtipos: incoativo ou inceptivo (apresenta o prin-
cipiar de uma ação), o cessativo ou conclusivo (apresenta a ação na fase final) e
o cursivo (apresenta a situação em desenvolvimento). A iteratividade exprime
situações repetidas que ocorrem regularmente durante um período de tempo, o
qual pode ser delimitado ou não.

Quanto à marcação desses valores, a Libras pode expressá-los diretamente


pelos verbos, utilizando-se de alguns recursos como a alteração dos movimen-
tos dos sinais em sua frequência, intensidade, duração, amplitude e direção.

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A marcação pode ocorrer ainda por meio de advérbios e, até, por adjetivos e
substantivos, que também sofrem alteração no seu padrão de movimento. A
título de ilustração apresentamos, a seguir, exemplos desses recursos emprega-
dos para a marcação dos valores aspectuais expostos anteriormente:

 Imperfectivo – o sinal da situação expressa torna-se mais lento e contí-


nuo, sendo que a direção, geralmente, é mudada de direta para semiarco.
O parâmetro expressão facial também é modificado. O início ou o final
da situação pode ser marcado por uma expressão, como por exemplo, o
emprego do sinal começar adjungido a outro sinal como trabalhar codifica
o aspecto inceptivo.

 Iterativo – para este valor, os sinais têm realização mais rápida e ocorrem
com mais modificações do parâmetro configuração de mãos e articulação
de braços. A alteração da direção do sinal, de reto para semiarco, também
é frequente. Não há marca para pontuar a finalização da repetição da si-
tuação, a não ser que ela seja devidamente quantizada, pela composição
sentencial.

 Perfectivo – aqui, a formação de sinais é feita com movimentos abruptos


e retos.

Além disso, similar ao que se dá em português, é possível notar que a aspec-


tualidade das sentenças em Libras pode ser alterada pela interação dos diferentes
recursos para expressão do aspecto. Assim, uma sentença cujo predicado verbal
(verbo no infinitivo e seus complementos) apresenta valor lexical perfectivo (um
evento fechado em um intervalo de tempo), pode, ao receber uma flexão imper-
fectiva (evento aberto em um intervalo de tempo, do qual é possível referir a du-
ração interna ou fases), ser interpretada como uma sentença imperfectiva. Para
exemplificar esta possibilidade, segue exemplo retirado de Finau (2004, p. 105-
106):

4. EU EX MINHA ANTES FAMÍLIA FALAR+flexão RESOLVER...neg AGORA ACEITAR


ESTUDAR. (Antigamente, eu não aceitava o que minha família falava, ago-
ra eu aceito estudar)

Em (4), explica a autora, como o predicado FALAR se refere a uma situação an-
terior ao momento de enunciação, já que o predicado é delimitado pelos opera-
dores EX e ANTES, a princípio, ele é visto como um predicado fechado, perfectivo.
Contudo, durante a sinalização, esse predicado recebe uma flexão, que se trata de
uma flexão imperfectiva, razão pela qual a sentença tem interpretação imperfectiva.

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Também existe a possibilidade de um predicado ser imperfectivo e ter sua imper-


fectividade realçada pela flexão aplicada a ele, como no caso a seguir:

IESDE Brasil S.A. Adaptado.


Figura 4 – Verbo crescer.

A imagem acima é um recorte na sinalização da frase EU CRESCER+flexão


CASA BAIRRO C-A-M-P-O C-O-M-PR-I-D-O BAIRRO EU CASA MUITO-ANTES
CRESCER+flexão (Eu fui crescendo no bairro Campo Comprido. Eu fui crescendo
nessa casa há muito tempo). Observe que a flexão de imperfectividade é marca-
da pela amplitude do sinal e pela expressão facial do sinalizador, o que reafirma
a imperfectividade já contida no verbo crescer, posto que ele denota uma situa-
ção que demanda tempo e apresenta fases para se desenvolver. Claro que uma
flexão perfectiva, se essa fosse a intenção do sinalizador, poderia ser aplicada ao
mesmo verbo. Isso implicaria num sinal realizado de forma abrupta, sem ampli-
tude de movimento, dando a entender que não é objetivo do enunciador des-
tacar a constituição temporal interna da situação de crescer. A análise composi-
cional é que permite identificar como os vários marcadores aspectuais podem
interagir para levar um dado valor aspectual para uma sentença. Como também
se verifica no valor iterativo da sentença abaixo:

5. MAMÃE PERGUNTAR+flexão(3x) MOTO VER. (Perguntei, perguntei para ma-


mãe: você viu a moto?) IESDE Brasil S.A. Adaptado.

MAMÃE PERGUNTAR+ flexão (3x) MOTO VER


Figura 5 – Sinalização da sentença (5).

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Na sentença (5), a oração MAMÃE PERGUNTAR apresenta um predicado per-


fectivo, visto que a situação de perguntar, lexicalmente, denota uma situação
que não se desenvolve no tempo. Ou seja, só se tem uma pergunta, quando, de
fato, ela é feita, quando ela chega a seu ponto terminal, motivo pelo qual se trata
de um predicado fechado. Contudo, ao sinalizar esse predicado, o enunciador
lhe aplicou uma flexão imperfectiva, repetindo o sinal de PERGUNTAR três vezes,
dando a entender que ele fez a pergunta a sua mãe mais de uma vez, caracteri-
zando aspecto iterativo para a sentença.

Frente a isso, Finau (2004) avalia que para a análise da marcação do aspecto
na Libras deve-se considerar: a quantização dos argumentos verbais, valores se-
mânticos temporais e aspectuais dos verbos e flexões gramaticais (movimentos,
configuração de mão, expressões faciais, articulação de braço), o que se consti-
tui numa análise composicional, conforme discutido na seção sobre categoria
aspectual.

Como visto ao longo desta aula, tempo e aspecto são categorias linguísticas
com as quais organizamos o tempo físico. Saber empregá-las é de suma impor-
tância para ser compreendido pelos usuários da Libras e também para, se for
o caso, realizar traduções adequadas da Libras para o português e vice-versa.
Então, no texto complementar desta aula, você encontra um relato de pesquisa
sobre o uso de marcas aspectuais imperfectivas na interpretação de uma narra-
tiva do português para a Libras e uma análise sobre em que medida elas foram
empregadas adequadamente. Boa leitura!

Texto complementar
Marcas aspectuais na interpretação simultânea:
um problema de percepção?
(SILVA; RODRIGUES, 2010, p. 101-104)

Selecionamos três marcas aspectuais imperfectivas presentes na narrativa


para comparar com a produção de sinalização dos participantes. A primeira
delas foi a expressão seguiam acenando que é um marcador aspectual imper-
fectivo, ou seja, denota um evento aberto que, diferentemente de acenaram,

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que é fechado, implica numa continuidade da ação durante os demais even-


tos que se sucedem. Na língua portuguesa, tal colocação implica dizer que
não houve fim marcado para a ação de acenar, ela é apresentada apenas do
ponto de vista de seu desenvolvimento (progressão), sua continuidade. Na
sinalização dos participantes, não encontramos nenhum sinal acrescentado
ao verbo para dar a ideia de continuidade.

A sinalização efetuada veiculou apenas o significado de acenar, havendo


assim alteração do discurso original. Alguns participantes fizeram processo
anafórico e incorporação do personagem, usaram recursos de expressões
faciais diferenciadas para marcar o sujeito do verbo acenar, porém a imper-
fectividade não foi contemplada na sinalização. Houve casos em que o sinal
foi executado mais de uma vez, o que tanto na língua portuguesa quanto
na Libras denota repetição, aspecto iterativo. Todavia, esse não era o valor
aspectual pretendido pela expressão seguiam acenando.

Sabe-se que como os participantes da amostra são intérpretes profissio-


nais e conhecedores da Libras, não fariam o sinal de seguir (C.M. A, mão di-
reita é colocada pouco abaixo da mão esquerda em movimento retilíneo, no
espaço neutro), pois infringiriam os padrões gramaticais da língua. Contudo,
se não houve nenhuma outra tentativa de marcação, há que se refletir sobre
o nível de percepção desta sutileza da língua portuguesa. Um bom começo
seria procurar respostas a perguntas como: o que levou os intérpretes a en-
tenderem que esta perífrase do português pode ser semanticamente equi-
valente a um único sinal na Libras? O que levou os intérpretes a dispensarem
quaisquer recursos para completar a ideia de uma situação em progressão,
desenvolvimento?

Muitas podem ser as respostas. Uma hipótese é o fator tempo, pois como
o processo interpretativo é dinâmico e acelerado, o profissional acaba esco-
lhendo fazer menção à essência da fala em detrimento aos detalhes que a
perfaz. No entanto, isso não dissolve a indagação a respeito do grau de per-
cepção dos intérpretes quanto a sua própria língua materna. O que nos faz
pensar se havendo oportunidade de ter acesso com antecedência ao texto,
estudando-o e preparando-se para a interpretação, qual seria a sinalização?
Haveria marcação aspectual? Ou os intérpretes continuariam entendendo
que seguiam acenando é sinônimo de acenaram?

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Tempo e aspecto na Libras

Outra sentença analisada foi sempre com o sol batendo forte em sua cabeça,
aqui a intenção era verificar se o intérprete percebe a presença e importância
do advérbio sempre nesta frase, já que ele é o responsável pelo caráter imper-
fectivo (durativo) do enunciado. Dos sete participantes, apenas dois usaram
o sinal de sempre, os demais atentaram apenas para a situação em si, des-
considerando sua duração. Diferente do primeiro caso, aqui dois intérpretes
marcaram o aspecto, então a reflexão a ser feita é por que os demais não o
fizeram? Atrevemo-nos, em nossa hipótese, a pensar que os intermediadores
do processo comunicativo estão selecionando o que avaliam ser relevante
do discurso do outro. Então, o questionamento que ora se propõe é: quais
critérios estão sendo empregados para decisão de que categorias gramati-
cais importantes da língua-alvo possam ser omitidas da língua fonte?

A terceira marcação aspectual destacada foi a da sentença o calor continuava


insuportável. Dos sete participantes observados, cinco sinalizaram enfati-
zando apenas o calor, foram extremamente expressivos para demonstrar a
intensidade daquele estado. Apenas dois utilizaram o sinal de continuar para
marcar o valor aspectual de continuidade pretendido na sentença em portu-
guês. Este sinal é derivado do sinal raiz “sempre” que tem um movimento de
braço para frente. Sua flexão se dá com a sinalização sem que haja este elevar
do braço para longe do corpo, mas mantendo o sinal sempre marcando o
lugar de continuação. Se dois intérpretes realizaram o sinal de continuava,
devemos investigar as razões pelas quais os outros cinco não o produziram.

Além das marcas enfocadas na análise, pudemos perceber que a dura-


ção expressa mais diretamente em construções adverbiais como durante
45 longos minutos chamou muito a atenção dos intérpretes, sendo inclusive
muito presente na sinalização dos profissionais. Sendo facilmente percebi-
da, pois se trata de uma duração codificada lexicalmente pelo recurso de
palavras como durante e longos minutos, essa duração foi fielmente marcada
na Libras. De modo similar, intensificadores que se sobressaíram no discurso
oral, como calor infernal, foram apropriadamente adjetivados na Libras com
aumento da expressão facial e alongamento do sinal. Isso reforça nossa hipó-
tese de que certas coisas chamam mais atenção do que outras durante o ato
interpretativo, sendo que cada intérprete, inconsciente ou conscientemente,
elege o que deve ou não ser interpretado na língua-alvo. Evidentemente, há
outras questões de ordens linguísticas e interpretativas por trás do fenôme-
no da marcação aspectual que precisam ser exploradas mais detidamente.

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Tempo e aspecto na Libras

Dicas de estudo
 Livro O Aspecto em Português, de Sônia Bastos Borba Costa, Editora Con-
texto.

Tendo em vista que a categoria de tempo geralmente é, ainda que mini-


mamente, explorada nos cursos de Educação Básica e Superior, recomen-
da-se uma leitura mais aprofundada sobre a categoria de aspecto, geral-
mente inexplorada e, portanto, desconhecida. O livro de Costa se constitui
como um bom ponto de partida para os que se interessam pelo estudo
aspectual e sobre como a categoria se manifesta em português.

 Artigo científico “As marcas linguísticas para as categorias tempo e aspecto


na Libras”, de Rossana Finau, do livro Estudos Surdos III, organizado por Ro-
nice Müller de Quadros, Editora Arara Azul, 2008.

A partir desse texto, elaborado com base na pesquisa de doutorado da


autora, é possível entender um pouco mais os mecanismos temporais e
aspectuais da Libras, servindo também como fonte de aprendizado para
os sinais e recursos empregados nessa língua para marcar as categorias
citadas.

Atividades
1. Discorra sobre a diferença entre as categorias de tempo e aspecto.

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Tempo e aspecto na Libras

2. Discuta o problema da expressão aspectual.

3. Discorra sobre os recursos linguísticos que a Libras emprega para estabele-


cer as relações entre passado, presente e futuro numa linha temporal imagi-
nária.

Referências
CASTILHO, A. Aspecto verbal no português falado. In: ABAURRE, Maria Bernarde-
te; RODRIGUES. Angela (Orgs.). Gramática do Português Falado – novos rumos.
Campinas: Unicamp, 2002. p. 83-121. v. VIII.

COMRIE, B. Aspect. Cambridge: Cambridge University Press, 1976.

CORÔA, M. L. O Tempo nos Verbos do Português: uma introdução à sua inter-


pretação semântica. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

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Tempo e aspecto na Libras

COSTA, S. B. B. O Aspecto em Português. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2002.

FINAU, Rossana Aparecida. Os Sinais de Tempo e Aspecto na Libras. Tese (Dou-


torado em Estudos Linguísticos) – Setor de Ciências Humanas, Universidade Fe-
deral do Paraná, Curitiba, 2004.

______. As marcas linguísticas para as categorias tempo e aspecto na Libras. In:


QUADROS, Ronice Müller de (Org.). Estudos Surdos III. Petrópolis: Arara Azul,
2008.

REICHENBACH, H. Elements of Symbolic Logic. New York: Macmillan Company,


1947.

SILVA, Lídia da; RODRIGUES, Cristiane Seimetz. Marcas aspectuais na interpreta-


ção simultânea do português para a língua de sinais brasileira (Libras). Revista
Eletras [online]. Curitiba, v. 20, jul./2010. Disponível em: <www.utp.br/eletras/
textos/Artigo_livre_20.2_Marcas_aspectuais_na_interpretacao_simultanea_
do_portugues_SILVA_RODRIGUES.pdf>. Acesso em: 17 nov. 2010.

TRAVAGLIA, L. C. O Aspecto Verbal no Português: a categoria e sua expressão.


4. ed. Uberlândia: EDUFU, 2006.

Gabarito
1. Resposta mínima deve compreender que ambas as categorias estão relacio-
nadas à codificação do tempo físico, mas se diferenciam pelo fato de que o
tempo expressa o tempo externo ao fato, localizando as situações no eixo
temporal de acordo com o momento de fala. Já o aspecto expressa o tempo
interno ao fato, dando conta sobre se as situações se desenvolveram ao lon-
go do tempo ou não.

2. O problema da expressão aspectual diz respeito a se considerar se a catego-


ria de aspecto é expressa via expediente morfológico ou lexical. Tal proble-
ma representa o embate entre as noções de aspecto e Aktionsart, respecti-
vamente, o que leva os pesquisadores da área a se perguntar em qual, entre
ambos, considerar em sua análise, resposta que só pode ser encontrada
levando-se em conta o objeto analisado e os objetivos da pesquisa.

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Tempo e aspecto na Libras

3. O aluno deve reconhecer que a questão solicita que ele identifique o uso dos
sinais PASSADO e FUTURO, cuja realização é efetuada conforme uma linha
vertical imaginária que atravessa o tronco do sinalizador. Se o sinal é o de
PASSADO, ele será produzido para trás da linha tronco, se o sinal for FUTU-
RO, ele será produzido adiante da linha tronco, sendo que a centralização do
tronco durante a sinalização veicula noções temporais presentes.

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Apontamentos úteis ao
cotidiano do tradutor-intérprete

Para esta aula, está reservada a exposição e reflexão sobre fenômenos


linguísticos específicos das línguas de sinais. Nesse sentido, se os tópicos
aqui abordados encontram “equivalentes” nas línguas orais, são de nature-
za, e muitas vezes, funcionamento diverso. Alguns fatos, como você verá,
nem sequer apresentam um “equivalente” distante. Neste momento, inte-
ressa observar as particularidades das línguas de sinais e, consequente-
mente, da Libras nos seus diferentes níveis de análise, pois, conforme você
poderá constatar, alguns fenômenos linguísticos das línguas de sinais se
manifestam de forma interdependente e em mais de um nível de análise,
com papéis diferenciados em cada nível. Por motivos de análise linguística
e exposição didática, os conteúdos tratados são apresentados de maneira
independente, mas você perceberá, estudante, como eles se entrelaçam.

O uso do espaço
Por serem línguas espaço-visuais, os usuários das línguas de sinais em-
pregam o espaço linguisticamente. Por meio dele, relações fonológicas,
morfológicas, sintáticas e semânticas podem ser estabelecidas. Contu-
do, esse espaço de que se fala não é todo e qualquer espaço, mas sim o
espaço empregado para a articulação dos sinais, o qual compreende uma
área definida à frente do corpo, que se estende do topo da cabeça do sina-
lizador até o seu quadril, como representado na ilustração a seguir:

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Apontamentos úteis ao cotidiano do tradutor-intérprete

IESDE Brasil S.A. Adaptado.


z

100

y
-100 100

80

Figura 1 – Representação do espaço de sinalização.

A ilustração acima pretende representar o espaço empregado como recur-


so linguístico nas línguas de sinais. Convém observar que ele abrange o próprio
corpo do sinalizador. Nessa perspectiva, a realização de um mesmo sinal em
pontos diferentes do espaço, como você constatará mais à frente, pode resultar
na menção a referentes diferentes. Isso implica que nas línguas de sinais o espaço,
enquanto elemento da língua, não pode ser empregado de forma aleatória, pois,
nesse caso, perderia sua função linguística. Desde o nível fonológico até o semân-
tico, existem certos preceitos que devem ser respeitados durante o uso do espaço
como elemento linguístico, é desses preceitos que esta seção se ocupa.

No nível fonológico, tal como afirmam Pizzio et al. (2010), os sinais podem
ser articulados em diferentes espaços, seja no corpo do sinalizador, seja no
espaço neutro em frente ao seu tronco. Cada espaço empregado na articula-
ção de um determinado sinal precisa ser mantido, posto que, às vezes, mesmo
diferenças mínimas na porção de espaço comumente empregada para um
dado sinal podem levar à mudança do sinal pretendido. Um exemplo disso é
a diferença entre os sinais de TRABALHAR e PRIMO. O primeiro é realizado no
espaço neutro em frente ao sinalizador, na altura do peito, o segundo é reali-
zado no corpo, na altura da cintura, porém, como envolvem a mesma configu-
ração de mão e o mesmo tipo de movimento, há que se ter cuidado para não
realizar o sinal TRABALHAR no espaço determinado para PRIMO, e vice-versa.

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Apontamentos úteis ao cotidiano do tradutor-intérprete

Abaixo você pode constatar a diferença no espaço de sinalização dos sinais cita-
dos a ser respeitada:

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.


TRABALHAR. PRIMO.

Já no âmbito sintático, o espaço apresenta mais de uma função possível. Ele


pode, por exemplo, ser utilizado para estabelecer relações anafóricas ou de con-
cordância entre os elementos da sentença. Além disso, outra característica pecu-
liar é que em determinados usos do espaço a informação gramatical é produzida
simultaneamente com o sinal:
Esses mecanismos envolvem a incorporação, considerado um mecanismo produtivo na ASL e
usada, por exemplo, para expressar localização, número, pessoa; e o uso de sinais não manuais,
como movimentos do corpo e expressões faciais. O uso de tais mecanismos é verificado
também na Libras [...]. (QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2010, p. 2)

Bellugi et al. (19881, apud QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2010) apontam


também como fenômenos sintáticos que se valem do espaço na ASL (Língua
de Sinais Americana) as nominalizações, o sistema pronominal e a concordân-
cia verbal. Ainda segundo pesquisa de Bellugi e Klima (19822, apud QUADROS,
PIZZIO; REZENDE, 2010) o uso do espaço é verificado na constituição de elemen-
tos dêiticos na ASL, os quais formam a base para outros elementos linguísticos,
como o sistema de pronomes, a concordância verbal e relações gramaticais
dentro da sentença. A constituição desses elementos dêiticos se dá pela apon-
tação para lugares específicos no espaço, os quais remetem a referentes diferen-
tes. O mesmo se vê na Libras:

1
BELLUGI, U. et al. The acquisition of syntax and space in young deaf signers. In: Language Development in Exceptional Circumstances. Churchill
Livingston, 1988.
2
BELLUGI, U.; KLIMA, E. S. The acquisition of three morphological systems in American Sign Language. Papers and Reports on Child Language
Development 21, 1-35.a Palo Alto, CA: Stanford University Press, 1982.

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Apontamentos úteis ao cotidiano do tradutor-intérprete

Os nominais introduzidos no discurso da Libras podem ser associados a pontos específicos


no espaço da sinalização. Esses pontos no espaço passam a fazer referência aos referentes
que o introduziram. Essa associação dos referentes com um local no espaço é chamada de
Determinante Nominal. O uso adequado dos Determinantes Nominais é o primeiro passo para
o estabelecimento da concordância verbal e para o uso dos demais mecanismos sintáticos
espaciais. (QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2010, p. 3)

Os nominais de que as autoras falam são o que você, estudante, deve conhe-
cer por substantivo. O termo nominais é empregado porque é isso que esses
elementos são – nomes. Pense nas palavras casa, gato, time, Curitiba, João, morte,
vida, todas elas nomeiam algo – seja objeto, ser, lugar ou evento da natureza.
Na Libras, quando um nominal é introduzido no discurso, por exemplo, casa, ele é
introduzido num ponto específico do espaço determinado pelo sinalizador. Es-
tabelecida essa relação com um ponto no espaço, toda vez que o sinalizador
quiser se referir a esse mesmo nominal introduzido anteriormente no discurso,
ele empregará a apontação para o espaço que havia determinado para tal refe-
rente, como no exemplo abaixo:

IESDE Brasil S.A.

CASA. IX (casa).

A associação entre nominais e um ponto no espaço pode ocorrer, conforme


Quadros, Pizzio e Rezende (2010), tanto com referentes presentes quanto com
referentes não presentes no contexto do discurso. Com referentes presentes, a
apontação para eles é o que os introduz no discurso, tal como acontece no esta-
belecimento dos pronomes de primeira e segunda pessoa. Nesse caso, é a pró-
pria localização do referente no espaço (aquilo sobre o qual o sinalizador fala)
que determina para qual ponto do espaço o sinalizador deve apontar. Observe:

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IESDE Brasil S.A. Adaptado.


Sinalizante Sinalizante Sinalizante

Receptor Receptor

Receptor

Figura 2 – Pronomes usados com referentes presentes.

A ilustração representa o estabelecimento de formas pronominais com refe-


rentes presentes, isto é, primeira (eu) e segunda (tu/você)3 pessoa. Desse modo,
a localização no espaço do receptor da mensagem é que determina para onde
o sinalizador deve apontar para empregar o pronome tu/você. Igualmente, para
empregar o pronome eu, para se referir a si mesmo, o sinalizador deve apontar
para o próprio peito, conforme demonstrado na figura acima.

Quanto ao emprego dos pronomes de terceira pessoa, as relações estabele-


cidas são mais complexas, posto que eles desempenham funções anafóricas e dêi-
ticas e podem envolver referentes que não estão presentes durante a produção
do discurso. Em relação à diferença do uso da apontação e do espaço no caso de
o referente estar presente ou não, tem-se que:
Os pronomes de terceira pessoa usados para fazer referência às pessoas que estejam presentes
no contexto do discurso são sinalizados apontando-se diretamente ao referente. Quando o
referente não estiver presente, ou temporariamente ausente, a apontação é direcionada a
um local espacial arbitrário, ao longo do plano horizontal, defronte ao corpo do sinalizador.
Da mesma forma, a apontação pode ser usada para referir a objetos e lugares no espaço.
A referência anafórica requer que o sinalizante aponte (olhe ou gire o corpo) a um local
previamente estabelecido, isto é, após a introdução de um nominal correferente a um ponto
estabelecido no espaço, este ponto no espaço referir-se-á àquele nominal, mesmo depois de
outros sinais serem introduzidos no discurso. (BELLUGI; KLIMA, 19824; PETITTO, 19875; LOEW,
19846, apud QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2010, p. 4)

Para melhor compreender o estabelecimento de referência à terceira pessoa


com referentes ausentes, analise a ilustração a seguir:

3
Embora as gramáticas tradicionais indiquem o você como pronome de tratamento – e não como pronome pessoal –, que corresponde à forma de
terceira pessoa (o verbo concorda no singular – você vai), no português do Brasil ele é usado como pronome pessoal de segunda pessoa em muitas
variedades linguísticas regionais, como na variedade de Curitiba, São Paulo, Mato Grosso do Sul etc. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, o
que se observa é a convivência entre as duas formas (tu/você), sendo que alguns falantes desses estados ainda fazem diferenciação entre o uso de
você como pronome pessoal e como pronome de tratamento.
4
Op cit. 1-35.
1 Palo Alto, CA: Stanford University Press.
5
PETITTO, L. On the autonomy of language and gesture: evidence from the acquisition of personal pronouns in American sign language. In: Cog-
nition. Elsevier Science Publisher B.V.V.27. 1987. p. 1-52.
6
LOEW, R. Roles and Reference in American Sign Language: a development perspective. University of Minnesota: Doctoral Thesis. 1984.

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Interlocutor

João Maria

Receptor
Figura 3 – Pronomes usados com referentes ausentes.

Observe que “João” e “Maria” não estão presentes durante a conversa entre in-
terlocutor e receptor. Então, para se referir a eles, o sinalizador escolhe um ponto
no espaço à sua direita para fazer menção a “João” e um ponto à sua esquerda
para fazer menção a “Maria”. Nesse caso, a escolha do local para apontação é
arbitrária, isto é, não há uma causa que motive o uso do espaço à direita para
referir “João” e à esquerda para referir “Maria”. Todavia, daí não se deve concluir
que os pontos associados aos referentes não presentes são distribuídos aleato-
riamente no espaço:
Conforme Loew (1984:15), um sinalizante não distribui os pontos aleatoriamente no espaço,
pois existem restrições na seleção do local. Raramente os pontos são estabelecidos de forma
arbitrária, pois o sinalizante sempre procurará associar o local real do referente ao local no
espaço. Os pontos serão arbitrários com referentes abstratos. Podem também ser para
referentes descritos individualmente não interagindo com outros. Os pontos arbitrários
também são usados se o sinalizante desconhecer a relação espacial real relevante para falar
sobre alguém ou alguma coisa. Os pontos arbitrários são estabelecidos em um local neutro do
espaço da sinalização e, em geral, são distribuídos no espaço de forma a serem amplamente
diferenciados. Os pontos podem estar acima ou abaixo do espaço neutro relacionados com a
localização “real” dos referentes. Veja que este “real” depende sempre da perspectiva de quem
está produzindo e vendo os sinais. (QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2010, p. 5)

De acordo com Quadros, Pizzio e Rezende (2010), Baker e Cokely (1980, p.


206-209), por meio de figuras, demonstraram muito bem as relações espaciais
para referentes presentes e não presentes, apontando o uso do olhar como de-
terminante para identificar a referência pronominal empregada pelo sinalizador.
A seguir você encontra uma sequência de figuras retiradas de Quadros, Pizzio
e Rezende (2010) que pretende esclarecer o uso do espaço para estabelecer as
formas pronominais da Libras. Analise-as com calma, repare na disposição do
interlocutor e do receptor, bem como na representação dos demais envolvidos
no contexto discursivo. Considere que o emprego do olhar – representado pela
linha pontilhada – sempre indica a pessoa com quem o interlocutor trava o diá-
logo, já a linha não pontilhada indica para quem o interlocutor está apontando:

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A

C B

Sinalizante

Figura 4 – Pronome de segunda pessoa (tu/você).

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A A

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C B C B

Sinalizante Sinalizante
Figura 5 – Pronome de terceira pessoa (ele/ela). Figura 6 – Pronome de segunda pessoa (tu/
você).
A
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C B

Sinalizante
Figura 7 – Pronome de primeira pessoa do
plural (nós).

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Como você pode depreender da sequência de figuras apresentadas, as lín-


guas de sinais têm formas diversas de estabelecer os referentes em pontos es-
pecíficos ao redor do corpo do sinalizante. Segundo Quadros, Pizzio e Rezende
(2010), a contribuição de Baker e Cokely (1980) em relação a essa propriedade
da ASL – que se estende a outras línguas de sinais, como a Libras – foi de apontar
as regras que devem ser respeitadas no estabelecimento de pontos no espaço
como recursos de referência:
Por exemplo, se o sinalizante quiser descrever um evento passado e quiser contar algo
relacionado a tal evento, ele estabelecerá um local no espaço havendo relação entre os
participantes, o tempo e o evento no local real. Este é chamado por Baker e Cokely (op.cit: 223)
de Princípio Real. Quando o local do evento, pessoa ou objeto é desconhecido, o Princípio Real
não pode ser seguido. Assim, estabelecem-se locais observando-se um padrão alternado [...].
Se o receptor estiver à esquerda ou à direita, os locais serão estabelecidos no lado oposto [...].
Nesses casos aplica-se o Princípio de ordem dos referentes com localizações desconhecidas.
(BAKER; COKELY, 1980, p. 224, apud QUADROS, PIZZIO, REZENDE, 2010, p. 9)

As figuras a seguir exemplificam o que é dito pelas autoras no excerto


anterior:

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Ref. 2 Ref. 1

Sinalizante
Figura 8 – Representação de referentes com localização desconhecida
por meio do padrão alternado.

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Ref. 2

Ref. 1

Sinalizante
Figura 9 – Representação de referentes com localização desconhecida por
meio do uso do lado oposto.

Ainda com relação ao uso do espaço para referentes, Quadros, Pizzio e Rezen-
de (2010) apresentam a proposta de Liddell (2000), que apresenta três tipos de
usos do espaço nas línguas de sinais:

(i) espaço real – o referente que se procura representar participa do ambien-


te físico real no qual ocorre a situação de comunicação;

(ii) espaço token – o referente que se pretende representar diz respeito à ter-
ceira pessoa, são referentes não presentes na situação de comunicação,
representados sob a forma de um ponto fixo no espaço físico;

(iii) espaço sub-rogado – o referente tem relação com uma cena de evento
que já tenha acontecido ou está por acontecer, sendo representado visu-
almente por uma espécie de encenação.

O uso do espaço, além de ser muito importante para instaurar o recurso da


referência pronominal e da anáfora, é imprescindível também no emprego de
verbos direcionais que apresentam concordância, que, em relação ao ponto do
espaço tomado, é realizada do seguinte modo:

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a) 1.ª pessoa: próximo ao corpo do sinalizante;

b) 2.ª pessoa: na direção do receptor determinado pelo contato do olhar com


o receptor real ou marcado discursivamente;

c) 3.ª pessoa: o marcador de concordância terá o mesmo ponto no espaço


neutro assinalado à 3.ª pessoa (PADDEN, 19837, p.15, apud QUADROS, PI-
ZZIO, REZENDE, 2010, p. 13).

De acordo com Quadros, Pizzio e Rezende (2010, p. 14), como exemplo desse
tipo de verbo na Libras pode-se citar ENTREGAR. A concordância, assim como a
indicação de referentes, excetuando a primeira pessoa (que é fixa), pode tomar
diversas possibilidades de localização no espaço. Considere, a seguir, os exem-
plos fornecidos pelas autoras a partir da concordância do verbo ENTREGAR:

IESDE Brasil S.A.


eu - ENTREGAR - você eu - ENTREGAR - ele (a) ele(a) - ENTREGAR - eu

IESDE Brasil S.A.

você - ENTREGAR - você você - ENTREGAR - ele(a) ele(a) - ENTREGAR - eu

Note que o sujeito e o objeto do verbo ENTREGAR são marcados a partir do


ponto de onde parte o sinal e do ponto onde ele culmina. Se o sinal parte do
corpo do próprio sinalizador, o sujeito é EU, se o sinal parte de um ponto no
7
PADDEN, C. Interaction of Morphology and Syntax in ASL. 1983. Dissertation (Doctoral) - University of California, San Diego, 1983.

212 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


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espaço associado à terceira pessoa, o sujeito é ELE(A). Da mesma forma, se a reali-


zação do sinal termina no corpo do sinalizador, o objeto do verbo é EU (equiva-
lente em português a para mim ou me, a depender do contexto) onde parte o
sinal e do ponto onde ele culmina. As autoras observam também que:
Com alguns outros verbos que apresentam concordância é a orientação da palma da mão que
indica o sujeito e/ou objeto da sentença. Isso normalmente ocorre com verbos que usam as
duas mãos. Em tais casos há uma mão dominante e a orientação dessa mão determinará as
relações gramaticais. Na Libras o mesmo fenômeno é observado com verbos como AJUDAR
e ENSINAR. A orientação desses verbos estará voltada para o interlocutor (2.ª pessoa) ou para
quaisquer outras pessoas do discurso seguindo os possíveis espaços reais, tokens ou sub-
-rogados. (QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2010, p. 14)

Finalmente, ainda no campo da concordância verbal, o espaço é utilizado


para marcar uma ação realizada por duas pessoas ou dois objetos ao mesmo
tempo, são os chamados verbos recíprocos, em que ambas as mãos são empre-
gadas, como ilustram as imagens abaixo:

IESDE Brasil S.A.

“Eles se olharam” “Nós nos olhamos”


Figura 10 – Uso do espaço para fazer a concordância dos verbos recíprocos.

A seguir, você encontra o uso dos gestos nas línguas de sinais como recurso
linguístico. Como você poderá constatar, entrecruzam-se aí também a questão
do espaço e da apontação, a qual é um gesto.

A gestualidade na Libras
Os gestos não são uma particularidade das línguas de sinais, haja vista que
nas línguas orais os gestos também são empregados durante a produção da fala.

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., 213


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Todavia, apenas nas línguas de sinais se pode dizer que os gestos ganham estatu-
to linguístico, enquanto nas línguas orais eles apenas acompanham o conteúdo
verbal do que está sendo dito. Nas línguas de sinais também há gestos sem valor
linguístico, que apenas acompanham, como se fossem um complemento, o con-
teúdo verbal sinalizado. Para exemplificar este emprego, relembre a discussão
sobre o estabelecimento dos pronomes pessoais na Libras, realizado por meio do
gesto de apontação. Esse é um caso em que o gesto não acompanha o conteúdo
verbal, ele é o conteúdo verbal, e, nesse caso, ele deixa de ser um gesto e passa a
ser encarado como um sinal, um signo linguístico próprio das línguas de sinais.

Segundo Anater (2009), o processo de incorporação de gestos como signos


linguísticos nas línguas de sinais é muito frequente e tem motivado pesquisas e
discussões na tentativa de definir quanto de linguístico ou de gestual há nesses
elementos:
A primeira pesquisadora a tentar identificar as diferenças entre gestos e sinais foi Emmorey (1990).
Para ela, a maior diferença está em os sinais não serem produzidos de maneira livre, idiossincrática
ou espontânea. Mesmo que alguns gestos possuam regularidades, para ser incorporado à
LS precisa ser entendido e analisado do ponto de vista de um sinalizante. É comum também
a produção dos gestos faciais ou corporais que são articulados simultaneamente aos sinais
manuais (muito comum de serem realizados em narrativas). Os sinalizantes produzem gestos
manuais que são alternados com os sinais e esses gestos são frequentemente icônicos, podendo
também ser metafóricos e tendem a ser mais convencionais, com propriedades específicas de
tempo, mesmo que não tenham relação com um sinal lexical. (ANATER, 2009, p. 32)

De acordo com Anater (2009, p. 31), para um gesto chegar ao patamar de


sinal, ele passa por um processo de gramaticalização, “o qual, nas LSs, acontece
de maneira peculiar, uma vez que gramaticalizar um gesto ou uma marca não
manual é, em princípio, uma possibilidade única e exclusiva das línguas de mo-
dalidade gesto-visual”.

Como dito anteriormente, a relação de sinais e gestualidade leva à discussão


dos limites entre o que é linguístico ou gestual nos gestos, mas também em rela-
ção a muitos sinais. Essa discussão ocorre em função de quão motivados – icôni-
cos – são certos sinais, levando ao questionamento da transparência do signo e
do significado e seus limites. Sobre a origem, motivação e iconicidade de certos
sinais, vale a pena considerar a explicação que se segue:
A organização dos sinais nas línguas de sinais se mistura com a organização dos gestos, pois se
apresentam na mesma modalidade, diferentemente das línguas faladas. Nessas línguas,
quando analisamos um sinal, observamos as formas com que se apresentam as mãos e os
movimentos associados a elas. Os gestos são visuais e representam a ação dos atores que
participam da interação por meio da imitação do ato simbolizando as relações com as coisas.
As línguas de sinais aproveitam esse potencial dos gestos trazendo-o para dentro da língua,
fazendo com que sinais visuais representem palavras envolvendo a organização da língua. Um
exemplo produtivo dessa característica é o uso de classificadores. Este fenômeno linguístico é

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uma representação visual de objetos e ações de forma quase que transparente, embora
apresente características convencionadas de forma arbitrária. Parece que houve um processo
do gestual para o gramatical, mantendo algumas das características do primeiro e tornando-se
parte do sistema linguístico das línguas de sinais. (QUADROS; PIZZIO, REZENDE; 2009, p. 15)

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Muitos sinais são influenciados pela
forma visual concreta dos objetos a que se
referem, tal como o sinal de CASA, ilustrado
ao lado. É nesse sentido que se fala de iconi-
cidade, posto que a forma linguística (signi-
ficante) do sinal é motivada pela identidade
visual do objeto ao qual o signo (significante
+ significado) faz referência. Quadros, Pizzio
e Rezende (2009) trazem o relato sobre o CASA.
estudo de Klima e Bellugi (1979), no qual a possível iconicidade de alguns sinais,
em diferentes línguas de sinais, é analisada detalhadamente. A conclusão a que
a pesquisa chegou foi que mesmo em sinais que se parecem visualmente com o
objeto a que fazem menção a natureza do significante é considerada arbitrária, tal
como a dos demais sinais que não apresentam tal similaridade. Para explicar a con-
clusão da pesquisa de Klima e Bellugi (1979), as autoras Quadros, Pizzio e Rezende
(2009), com base em Quadros (1997), afirmam que:
[...] apesar de apresentarem certa transparência para um determinado grupo de usuários, para
outro não indica o objeto em si. Diferentes línguas de sinais apresentam variadas formas de
representar os objetos lexicalizando-as, isto é, submetendo a representação visual às condições
de formação de palavras que são específicas de sua língua. Assim, um sinal que tipicamente
é melhor representado gestualmente com duas mãos, poderá ser representado com uma
única mão porque nesta língua essa determinada classe tipicamente utiliza uma única mão.
Ou seja, a ideia que está sendo discutida aqui é a de que a gestualidade das línguas de sinais
é submetida às regras dessas línguas quando passa a fazer parte da língua. Os demais gestos
são apenas gestos, assim como encontrados nas línguas faladas.

A questão do emprego do espaço e da gestualidade e a forma como são ex-


ploradas pelo sinalizador são importantes critérios, como se verá na próxima
seção, para determinar se uma dada sinalização se aproxima ou se distancia do
que se poderia chamar de uma forma culta/padrão da Libras.

Norma culta e padrão: níveis de (in)formalidade


Atualmente, não se pode dizer que exista uma norma culta da Libras registra-
da em alguma gramática prescritiva, como há a norma culta do português, deter-
minada por gramáticas prescritivas e pela literatura nacional. No entanto, qual-
quer sinalizador fluente da Libras que conviva num meio social letrado, que tenha
um grau de instrução superior ao ensino básico e/ou que represente ou conheça

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representantes e pesquisadores das comunidades surdas não deixa de avaliar a


sinalização de outras pessoas em termos de nível de formalidade – formas de si-
nalização mais próximas do que se poderia chamar um padrão culto da Libras – e
informalidade – formas de sinalização mais distantes desse padrão culto virtual.

Claro que com os avanços do surdo e dos usuários da Libras nos mais diversos
campos do saber e de atuação política, artística etc. uma norma culta da Libras
se encontra em processo de formação, a qual espera-se, num futuro não muito
distante, seja registrada. Mas, se não há ainda um instrumento a consultar que
seja o exemplo de norma culta a ser seguido ou não – isso depende das circuns-
tâncias em que se dá a comunicação –, como os usuários da Libras, descritos
anteriormente, julgam a formalidade ou informalidade de um discurso?

Em Silva, Rodrigues e Lima (2008), parte-se do pressuposto da composicio-


nalidade entre os fatores linguísticos, supralinguísticos e extralinguísticos para
determinação da variação discursiva nos níveis de formalidade e informalidade
dos usuários da Libras. Os fatores linguísticos se verificam na aderência das pres-
crições normativas dos constituintes fonológicos, morfológicos, semânticos,
sintáticos bem como no uso de vocabulários menos prosaicos. Os fatores su-
pralinguísticos se manifestam pela altura vocal, entonação, eloquência, oratória,
e, como a Libras apresenta uma produção gestual, é necessário averiguar sua
equiparação ao parâmetro movimento (tamanho e velocidade) e à proporção
do campo de enunciação, ou seja, o espaço neutro utilizado (local de sinalização,
em frente ao corpo). Desse modo, existe uma tendência em associar discursos
informais a sinalizações que se valem de um maior campo espacial para produ-
zir os sinais, estabelecer os referentes e marcar a concordância. Tanto é assim
que a recomendação que intérpretes e tradutores surdos recebem ao proceder
na tradução do português para a Libras em contextos formais é que apenas o
espaço compreendido na área em frente ao corpo, do topo da cabeça ao nível
do quadril, seja explorado, de forma que quanto menores forem os movimentos
do corpo, tanto melhor. Exemplificando: para colocar um referente à sua direi-
ta, o intérprete não precisa dar um passo para a direita, deslocando-se de sua
localização inicial, mas apenas fazer uma leve torção do tronco para direita e
“colocando” aí os referentes. A gestualidade excessiva, o recurso à pantomima e
encenação também são vistos como índice de discursos informais.

Por fim, os fatores extralinguísticos se constituem das reações corporais do


sinalizador, adequação da sua vestimenta à situação de interação e, se possí-
vel, de modo a contrastar com o ambiente onde a comunicação verbal tomará
lugar, e o nível de intimidade entre os envolvidos no ato de comunicação. Essas
são características que também se verificam no estabelecimento de situações de
comunicação formal e informal nas línguas orais. Desse modo, tanto em línguas
orais quanto em línguas de sinais, determinar quão próximo ou distante se deve
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ficar da norma culta da língua passa por fatores como: com quem se fala, onde se
fala, o que se fala e quais os objetivos a serem alcançados na conversa, se é uma
situação de comunicação que se pretende perene ou não, entre outros.

Texto complementar
Gestualidade
(LEITE, 2008, p. 33-41)

Até os estudos de Stokoe (1960), a própria Linguística não havia escapado


do senso comum no modo como enxergava o meio de comunicação dos
surdos. O que chamamos “língua de sinais” era antes tido como uma forma
de linguagem universal, icônica e/ou pantomímica, sem o tipo de estrutura-
ção que sabemos ser característico das línguas humanas. Desde os estudos
de Stokoe, então, um esforço considerável por parte dos pesquisadores das
LSs tem sido feito no sentido de demonstrar que essas línguas, assim como
as LOs, compartilham as propriedades básicas das línguas naturais, como
produtividade e a arbitrariedade (SAUSSURE, 1970).

Pode-se dizer que esse esforço não foi em vão e que, hoje, o estatu-
to linguístico das LSs já se mostra amplamente aceito, pelo menos dentro
da comunidade linguística. Como visto nas seções acima, que trazem uma
amostra pequena porém ilustrativa do que tem sido feito na área, os pesqui-
sadores das LSs foram capazes de demostrar de que maneira os diferentes
níveis de análise que integram o estudo das LOs podem se manifestar em
línguas de modalidade distinta. Tal demonstração, contudo, não esteve livre
de excessos. No esforço de conferir estatuto científico às LSs, algumas carac-
terísticas patentes do uso dos sinais, tais como a gradiência, a iconicidade e
a motivação foram varridas para debaixo do tapete, em favor de análises que
valorizavam a discrição e a arbitrariedade típicas das gramáticas normativas
e descritivas tradicionais das LOs.

É interessante notar, nesse sentido, que o questionamento sobre o caráter


puramente discreto e arbitrário da gramática das LSs não tenha partido do
próprio campo, tendo sido impulsionado pelo desenvolvimento de teorias
emergentes no âmbito das próprias LOs, em análises sobre a relação entre
língua e gesto (e.g. Kendon, 1980; McNeill, 1992) e língua e cognição (e.g.
Langacker, 1987; Lakoff e Johnson, 1991).

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Das próprias LOs, em análises sobre a relação entre língua e gesto (e.g.
Kendon, 1980; McNeill, 1992) e língua e cognição (e.g. Langacker, 1987, 1991;
Lakoff; e Johnson, 1980; Lakoff, 1987; Fauconnier, 1985). Dessas teorias emer-
gem algumas lições que tiveram um impacto profundo sobre os estudos das
LSs: a) a gestualidade é parte integrante do uso vivo da língua e revela-se
intimamente relacionada aos aspectos prosódicos e semânticos da fala; b)
a arbitrariedade do signo não implica uma ausência de motivação, mas sim
o papel da convenção sempre seletiva que cada comunidade linguística faz
de sua experiência; e c) todo o nosso conhecimento abstrato (incluindo o
gramatical) é construído sobre um conhecimento mais primitivo e concreto
que, por sua vez, é construído a partir de nossa interação corporal e social
com o mundo.

Livres dos mitos e preconceitos sobre a relação entre língua e gesto, e


livres da responsabilidade de ter que demostrar que as LSs eram iguais às
LOs em todos os seus níveis de análise, muitos pesquisadores da área inicia-
ram então uma investigação séria sobre as possíveis diferenças entre LSs e
LOs, e os resultados têm trazido uma nova luz sobre problemas que perma-
neceram por muito tempo obscuros na área – além de contribuir com uma
nova perspectiva sobre questões relacionadas às próprias LOs.

Como consequência, hoje dispomos de uma perspectiva renovadora


sobre a fonologia, a morfologia, a sintaxe e prosódia das LSs, que pode ser
contraposta a um olhar sobre a gramática marcadamente enviesado pela
cultura ocidental, culta e letrada.

Na fonologia, a análise revolucionária de Stokoe sobre a capacidade re-


combinativa de unidades mínimas dos sinais permaneceu em sua essência
inalterada, com exceção das reformulações necessárias para dar conta da se-
quencialidade dos sinais.

E, consequentemente, dos processos fonológicos e morfológicos observá-


veis. Contudo, alguns pesquisadores têm hoje questionado a natureza dessas
unidades mínimas, ou traços, que entram na composição do sinal: seriam eles,
de fato, destituídos de sentido, embora capazes de distinguir sentidos?

A figura 1 a seguir mostra três sinais da Libras: ÁRVORE, PENSAR e FATIAR.


Olhando-os, é impossível negar a sua dimensão icônica. Em ÁRVORE, pode-
mos identificar o solo (representado pela mão passiva), o tronco (represen-
tado pelo antebraço da mão/braço ativo) e a copa (representada pela mão
ativa), o que revela a alta iconicidade da configuração das mãos e da sua dis-

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posição espacial. Em PENSAR, podemos identificar, pelo lugar em que o sinal


é realizado, a região à qual atribuímos o ato de pensar (representada pela
própria cabeça), o que revela a alta iconicidade do ponto de articulação. Em
FATIAR, podemos identificar o objeto cortante (representado pela configura-
ção de mão ativa em “B”), o objeto cortado (representado pela mão passiva
em “C”) e ação de cortar (representada pelo movimento da mão ativa, em re-
lação à mão passiva), o que revela a alta iconicidade não apenas da configu-
ração de mão, mas também do movimento do sinal e do ponto de articulação
(a lateral da mão passiva).

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ÁRVORE. PENSAR.

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FATIAR.

Figura 1 – Sinais da Libras com alto grau de iconicidade.

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Esse processo de construção de sinais fazendo uso de recursos icônicos


é altamente produtivo nas LSs, e está também presente nas LOs, embora de
maneira bem mais limitada (TAUB, 2000). Taub propõe, então, um “modelo
de construção analógico” para dar conta desse fenômeno produtivo, que
envolve três dimensões distintas: seleção de imagem, esquematização e
codificação.

[...]

O incrível potencial de representação icônica nas LSs parece poupar essas


línguas da necessidade de construir sentidos por meio de recursos pelos
quais esses dois domínios sejam relativamente simples nas LSs, quando
comparados às LOs de maneira geral. Essa rica exploração icônica da ges-
tualidade e do espaço imediato para a veiculação de sentidos nas LSs tem
servido de base de explicação para dois outros importantes fenômenos re-
lativos a esses âmbitos de análise: os verbos indicadores e os verbos descri-
tivos (LIDDELL, 2003a).

Verbos indicadores são também conhecidos como “verbos direcionais”,


“verbos de concordância”, “verbos de flexão”, entre outros. Trata-se de verbos
que indicam o sujeito e o objeto da ação pela maneira como o seu movimen-
to e orientação são realizados no espaço. Por exemplo, o sinal CONTAR, em
sua forma de menção, parte do corpo do sinalizador em direção ao espaço
neutro. Contudo, essa forma nunca é encontrada na sinalização natural, em
que “aquele que conta” e “aquele para quem algo é contado” devem obriga-
toriamente ser indicados por meio do direcionamento do sinal no espaço. No
caso de os referentes do sujeito e objeto estarem presentes no ato de enuncia-
ção, o ponto de partida e de chegada do sinal levará essa presença física dos
referentes do verbo em consideração. No caso de o referente estar ausente,
um local no espaço será utilizado para localizá-lo, e, a partir daí, esse local será
utilizado como ponto de referência para o direcionamento desses verbos.

Sob a perspectiva linguística majoritária no campo das LSs, de acordo com


a qual toda fonte de significado provém de morfemas, verbos dessa natureza
são considerados verbos de concordância. A proposta é a de que o verbo con-
corde com o sujeito e o objeto por meio da alteração do ponto de articulação
inicial e final do sinal, cada um deles considerado um “morfema de concordân-
cia”. Problemas nesse tipo de análise emergem quando se tenta descrever sis-
tematicamente os locais para onde os sinais são direcionados (LIDDELL, 1990).

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Segundo Liddell, cada verbo desse tipo carrega, como parte de sua especifica-
ção lexical, uma determinada altura em relação ao corpo do falante de onde
ele deve partir, e uma determinada altura no corpo do interlocutor para onde
deve apontar. Em situações enunciativas concretas, portanto, cada sinal deverá
ser apontado de maneira gradiente no espaço com a altura dos interlocutores
presentes – ou mesmo dos interlocutores que, embora ausentes, estejam re-
presentados no espaço imediato.

Tomemos como exemplo o sinal OBEDECER da Libras, cujos pontos inicial


e final envolvem a região da testa. Contextualizando numa fala do tipo “Você
precisa me obedecer” (i.e. OBEDECERX→Y PRECISAR, considerando-se “x” o
referente sujeito e “y” o referente objeto), esse verbo irá assumir diferentes
pontos de articulação no espaço dependendo, por exemplo, de os referen-
tes correspondentes a “x” e “y” serem da mesma altura ou não, estarem de
pé ou sentados etc. Cada situação enunciativa particular irá determinar, de
acordo com as características do ambiente, portanto, uma dimensão grama-
tical convencional, discreta e regrada (relativa à configuração de mão, ponto
de articulação, movimento e orientação dos verbos), que é modificada por
uma dimensão gestual, gradiente e ad-hoc, que se mostra intimamente atre-
lada a cada situação enunciativa particular – de uma maneira similar à que
ocorre com pronomes como “ele” acompanhados de gesto de apontamento
no português. Tal análise, ao ressaltar a importância do gesto na veiculação
de sentidos na Libras, desloca o fenômeno relativo a esses tipos de verbos do
campo morfossintático para o campo da dêixis de pessoa.

[...]

Dicas de estudo
 Capítulo da “A linguagem verbal e a linguagem cinésica na comunicação
humana”. da dissertação: A Complementaridade entre Língua e Gestos nas
Narrativas de Sujeitos Surdos, de R. C. Correa. Disponível em: <www.tede.
ufsc.br/teses/PLLG0299-D.pdf>.
Com a leitura desse texto, o aluno interessado poderá se aprofundar na
relação entre elementos gestuais e linguísticos nas línguas de sinais e tam-
bém nas línguas orais.

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 Artigo científico: “Mecanismos de coesão textual visual em uma narrativa


sinalizada: língua de sinais brasileira em foco”. Estudos Surdos IV. Petrópolis,
de Ronice Müller de Quadros e Marianne Rossi Stumpf da editora Arara
Azul, 2009.

A leitura do texto é recomendada por explorar, mesmo que de forma


preliminar, o uso do espaço como recurso para a construção da coesão
e coerência textual em discursos da Libras. Em relação a Libras, é um dos
primeiros textos que procura trazer à tona os elementos empregados para
“amarrar” as sentenças na Libras em forma de texto.

Atividades
1. Em relação ao uso do espaço como recurso linguístico, qual fenômeno da Li-
bras, construído por meio do espaço, está na base da constituição do sistema
pronominal e da concordância verbal. Exemplifique.

2. Discuta se os sinais na Libras são icônicos ou arbitrários.

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3. Discorra sobre como o emprego do espaço e da gestualidade influenciam no


julgamento do nível de formalidade dos discursos da Libras.

Referências
ANATER, Gisele Iandra Pessine. As Marcações Linguísticas Não Manuais na
Aquisição da Língua de Sinais Brasileira (LSB): um estudo de caso longitudi-
nal. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianó-
polis, 2009. 160 p.

BAKER, C.; COKELY, D. American Sign Language: a teacher’s resource text on


grammar and culture. Silver Spring, MD: TJ Publishers, 1980.

KLIMA, E. ; BELLUGI, U. The Signs of Language. Cambridge: Harvard University


Press, 1979.

LEITE, Tarcísio de Arantes. Gestualidade. In: LEITE, Tarcísio de Arantes. A Segmen-


tação da Língua de Sinais Brasileira (Libras): um estudo linguístico descritivo
a partir da conversação espontânea entre surdos. Tese (Doutorado) – Universi-
dade de São Paulo, São Paulo, 2008.

LIDDELL, S. K. Indicating verbs and pronouns: pointing away from agreement.


In: EMMOREY, K; LANE, H. An Anthology to Honor Ursula Bellugi and Edward
Klima. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 2000, p. 303-320.

LILLO-MARTIN, D.; KLIMA, E. S. Pointing out differences: ASL pronouns in syn-


tactic theory. In: FISCHER, S. D.; SIPLE, P. Theoretical Issues in Sign Language
Research, Vol. I: Linguistics. Chicago, IL: The University of Chicago Press, 1990,
p. 191-210.

PIZZIO, Aline Lemos; REZENDE, Patrícia Luiza Ferreira; QUADROS, Ronice Müller
de. Língua Brasileira de Sinais II. Material didático do curso de Letras Libras a
Distância. Florianópolis: UFSC, 2009.

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PIZZIO, A. L. et al. Língua Brasileira de Sinais III. Material didático do curso de


Letras Libras a Distância. Florianópolis: UFSC, 2010.

QUADROS, R. M. de. Educação de Surdos: a aquisição da linguagem. Porto


Alegre: Artmed, 1997.

QUADROS, R. M.; PIZZIO, A. L.; REZENDE, P. L. F. Língua Brasileira de Sinais I. Ma-


terial didático do curso de Letras Libras a Distância. Florianópolis: UFSC, 2009.

_______. Língua Brasileira de Sinais IV. Material didático do curso de Letras


Libras a Distância. Florianópolis: UFSC, 2010.

SILVA, Lídia da; RODRIGUES, Cristiane Seimetz; LIMA, Keila Valério de. Níveis de
(in)formalidade na Língua Brasileira de Sinais. Florianópolis, 2008. Anais do II
Sinpel. Disponível em: <http://sinpel.pbwiki.com>. Acesso em: 17 ago. 2010.

Gabarito
1. Trata-se dos elementos dêiticos, que são construídos pela apontação para
lugares específicos no espaço, os quais remetem a referentes diferentes. As-
sim, apontar para si mesmo resulta no uso do pronome EU, apontar para
o receptor da mensagem resulta no uso do pronome de segunda pessoa,
apontar para quem ou o que é objeto da conversa entre sinalizador e re-
ceptor implica no uso do pronome de terceira pessoa. Da mesma forma, em
verbos direcionais (com concordância) a direção de realização do sinal indica
o sujeito e o objeto do verbo. Como exemplo, pode-se citar a concordância
de ENTREGAR em que o sujeito é a terceira pessoa (El@) – o sinal parte do
ponto estabelecido como referente a terceira pessoa – e o objeto indireto
a segunda pessoa (tu/você) – o sinal culmina no ponto do espaço em que o
receptor se encontra.

2. Os sinais pertencentes à Libras, na condição de signos linguísticos, são ar-


bitrários. Isso independentemente de apresentarem forma linguística se-
melhante à do objeto que fazem referência, já que, como afirmam Quadros,
Pizzio e Rezende (2009), a representação visual dos objetos, ao ser lexicaliza-
da, respeita as condições de formação de palavras específicas de cada língua,
ou seja, a gestualidade que motiva a criação de certos sinais é submetida a
regras, as quais são arbitrárias.

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3. Resposta mínima deve contemplar que existe uma tendência em associar


discursos informais a sinalizações que se valem de um maior campo espacial
para produzir os sinais, estabelecer os referentes e marcar a concordância,
bem como o emprego de gestualidade excessiva, pantomima e encenação.

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Classificadores

A língua de sinais possui um recurso linguístico encontrado em outras


línguas – orais e de sinais – que não encontra equivalente na língua por-
tuguesa, trata-se dos classificadores. Para poder entender no que consiste
esse recurso linguístico, a proposta desta aula é percorrer as definições
desse fenômeno em línguas orais, nas quais ele foi primeiramente obser-
vado, e, a seguir, ver como se manifesta na Libras.

Esse ponto do estudo linguístico da Libras é considerado um dos mais


difíceis, criou-se, inclusive, algum misticismo em torno deste assunto. To-
davia, não há o que temer, pois, ao longo desta aula, você perceberá que o
emprego dos classificadores é, sim, um recurso muito importante e muito
usado na Libras, mas que para ser aprendido é necessário empenho, de-
dicação e atenção.

Classificadores nas línguas faladas


De modo a compreender a natureza dos classificadores nas línguas
orais, toma-se como base de referência o texto de Felipe (2002). Num
primeiro momento, a autora busca diferenciar línguas classificadoras de
línguas não classificadoras. Para tanto, retoma a questão de como o ser
humano concebe o mundo, como o organiza e lhe atribui sentido:
[...] o universo é representado através de palavras que estão em classes que se
combinam para expressar entidades, que são mostradas como coisas, eventos,
qualidades em um contexto. Há línguas com sistemas mais complexos para mostrar,
fono-morfo-sintático-semântico-pragmaticamente, estas entidades e, por isso, fazem
outras sub-classificações separando as coisas em animadas (pessoas, animais) e
inanimadas (não pessoas, coisa, veículos); estas coisas podem ser ainda reclassificadas
quanto ao gênero (masculino, feminino, neutro), quanto ao número (singular, dual, trial,
plural; unidade, grupo); quanto à visibilidade ou proximidade em relação ao emissor
(perto, mais ou menos distante, distante / visível, não visível /aqui, aí, lá), quanto ao
formato, à consistência, ao tamanho, quanto ao caso (nominativo, acusativo, genitivo
etc.), quanto ao papel temático (agente, paciente etc.); os eventos são reclassificados
em ações, processos e estados, podendo ser mostrados também em relação ao modo,
tempo, aspecto, e seu sistema de flexão para concordância com seu(s) argumento(s).
(FELIPE, 2002, p. 1)

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Classificadores

Fundamentada no excerto anterior, Felipe (2002) declara que se chamam lín-


guas de classes nominais ou não classificadoras as que encrustam as classes e
subclasses mencionadas anteriormente em palavras, nomes. Já as línguas classi-
ficadoras são as que, além de terem itens lexicais para categorias como nomes,
verbos, pronomes etc., apresentam uma morfologia específica e obrigatória para
indicar algumas das classes e subclasses encontradas no trecho anterior. Nesse
sentido, a primeira coisa a se destacar é que os classificadores têm a ver com o
sistema morfológico das línguas.

O conceito de línguas classificadoras, segundo a autora, emergiu de pesqui-


sas linguísticas que observaram línguas de famílias indígenas, africanas, aus-
tralianas e asiáticas, por meio das quais se descobriu que muitas eram dotadas
de sistemas de morfemas obrigatórios para classificar outras propriedades não
mencionadas pelas gramáticas tradicionais (desinências para gênero, número,
pessoa e caso para os nomes, adjetivos e pronomes, e desinências para número,
pessoa, tempo, modo e aspecto para os verbos).

Avaliando as pesquisas elaboradas com estas línguas, Felipe (2002) observa


que existe uma restrição quanto a se aplicar a nomenclatura língua classificadora:
[a]nalisando estas pesquisas, pode-se perceber que todas têm mostrado também que
os classificadores, enquanto categoria semântica, podem ser realizados, na estrutura de
superfície, ou como item lexical ou como morfema, mas somente estão sendo denominadas
línguas classificadoras as que têm um sistema de morfemas obrigatórios, ou seja, um sistema
de gramemas formantes presos ou dependentes. (FELIPE, 2002, p. 2)

Com a evolução dos estudos sobre as línguas classificadoras, atualmente o


termo classificador é empregado, às vezes, destacando-se apenas seu caráter
morfológico, sem se especificar seu papel semântico-sintático em um determi-
nado contexto e o que tal estrutura representa para o sistema linguístico onde
ocorre. De acordo com Felipe (2002), este é o posicionamento de Dubois et al.
(1993, p. 112)1, que estabelece: “Chama-se classificador um afixo utilizado, em
particular nas línguas negroafricanas, para indicar a que classe nominal pertence
uma palavra (Sin.: índice de classe).”

Essa definição, observa a autora, menciona apenas uma família de língua como
exemplo e não esclarece que tipo de afixo pode ser um classificador. Motivo pelo
qual a autora recorre ao estudo de Allan (1977) para determinar a natureza dos
classificadores, o qual emprega dois critérios para identificar classificadores:

a) eles se realizam como morfemas na estrutura de superfície2 sob condições


específicas;

1
DUBOIS, J. et al. Dicionário de Linguística. São Paulo: Cultrix, 1993.
2
Estrutura de superfície é um termo específico à teoria da Gramática Gerativa. Para efeitos práticos, considere que se trata da sentença pronunciada
pelo falante.

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Classificadores

b) eles têm significado, já que os classificadores denotam alguma caracterís-


tica saliente ou imputada a uma entidade que é referida por um nome.

Além dos critérios de identificação de classificadores, Allan (1977), ao pes-


quisar mais de cinquenta línguas classificadoras, chegou à conclusão de que os
sistemas de classificadores encontrados constituem um conjunto completo e
universal em línguas que foram agrupadas em quatro tipos:
1. l ínguas de classificador numeral – são línguas em que um classificador é obrigatório em
muitas expressões de quantidade e em expressões anafóricas e dêiticas como, por exemplo,
a língua thai;

2. l ínguas de classificador concordante – são línguas em que os classificadores são afixados


(geralmente prefixos) aos nomes e seus modificadores, predicados e pró-formas como, por
exemplo, em muitas línguas africanas (bantu e semibantu) e australianas;

3. l ínguas de classificador predicativo – são línguas que possuem verbos classificadores que
variam seu radical de acordo com as características das entidades que participam enquanto
argumentos do verbo como, por exemplo, os verbos de movimento/localização em Navajo,
Hoijer (1945), e verbos classificadores em outras línguas athapaskan;

4. l ínguas de classificador intralocativo – são línguas nas quais classificadores nominais são
embutidos em expressões locativas que obrigatoriamente acompanham nomes em muitos
contextos. Existem apenas três línguas: toba, uma língua sul-americana, eskimo e dyirbal,
uma língua do noroeste da Austrália. (FELIPE, 2002, p. 3)

A autora também considera a possibilidade de variação de número de classi-


ficadores nas línguas, sendo que são sete as categorias que podem ser encontra-
das: (i) material; (ii) formato; (iii) consistência; (iv) tamanho; (v) localização; (vi) ar-
ranjo e (vii) quantia. Ademais, os classificadores podem combinar duas ou mais
dessas categorias, que também podem ser subdivididas.

Após o levantamento e revisão bibliográfica das pesquisas que lidam com


línguas classificadoras, Felipe (2002) chega à seguinte consideração:
Pode-se concluir, a partir de todas estas pesquisas apresentadas, que existe uma certa
regularidade em relação à utilização dos classificadores associados aos tipos de língua
classificadora e, embora as pesquisas tenham apontado diferentes tipos de classificadores,
eles estão associados a uma função morfossintática, já que o processo de classificar, através
deles, se dá ou como acréscimo a um radical nominal ou verbal, ou como uma derivação
interna de raiz, ou mesmo em todos os elementos da frase, como nas línguas classificadoras
coordenantes. Nessa perspectiva morfossintática, estes morfemas classificadores podem ser
vistos como marca de concordância de gênero, ou de número, ou de caso, ou de lugar. (FELIPE,
2002, p. 6)

O estudo das línguas classificadoras orais e seus tipos de classificadores leva-


ram alguns linguistas, ao analisar línguas de sinais, a identificar também nelas o
uso de classificadores. A próxima seção se ocupa em discutir como o fenômeno
se manifesta nas línguas de sinais.

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Classificadores

Classificadores nas línguas de sinais


Assim como no estudo dos classificadores das línguas orais, no estudo das
línguas de sinais também há diferentes propostas de tipologia de classificado-
res e de explicações para as funções exercidas pelos mesmos. O consenso, de
acordo com Felipe (2002), está em se considerar classificador certas configura-
ções de mãos que funcionam como morfemas que marcam determinadas carac-
terísticas de um objeto nas línguas de sinais. Todavia, os enfoques com que são
tratados estes morfemas (algumas configurações de mão) são divergentes:
� K lima & Bellugi et al. (1979) apresentaram um sistema de configurações de mãos que seriam
classificadores na ASL, ou seja, as configurações de mãos especificariam uma característica
do objeto ou do modo como se seguraria um objeto;
� K egl (1985) apresentou estas configurações como sendo clíticos formantes das raízes
verbais, existindo o clítico de proeminência e o de fundo;
� P adden (1990) apresentou verbos classificadores, que possuem configurações de mãos
que concordam com o sujeito ou objeto na frase, mas não especificou qual seria este tipo
de concordância;
� P edersen & Pedersen (1983) preferem o termo pró-forma em vez de classificador como
Edmondson (1990) que, analisando o fenômeno na língua de sinais dinamarquesa, concluiu
que as configurações nos verbos de movimento e localização seriam morfemas que
caracterizariam os referentes, de modo icônico, em situações estáticas ou dinâmicas, já que
a iconicidade estaria mais em relação às categorias animado/inanimado, dimensionalidade,
orientação, entre outras, do que em relação à forma. (FELIPE, 2002, p. 7)

A autora destaca que tais pesquisas divergem na medida em que, ao tratarem


dos classificadores, apresentam seus aspectos fonológicos, ou morfológicos, ou
sintáticos, seja na condição de afixos ou de itens lexicais. Não é simples encon-
trar uma única definição para classificadores, portanto, para os fins desta aula e
para seu aprendizado contínuo da Libras, fica estabelecido que classificador nas
línguas de sinais consistem em configurações de mãos que servem para marcar
certas funções sintáticas (concordância verbal, por exemplo) e para descrever/
categorizar entidades e objetos em classes como animado X não animado,
humano X animal, direção, tipo de movimento etc. Logo mais, com a exposição
dos tipos de classificadores na Libras e seu emprego, a questão sobre o que é um
classificador nas línguas de sinais tende a se esclarecer.

Tipos de classificadores
Nesta seção, são apresentadas duas propostas de tipologia de classificadores
nas línguas de sinais. A primeira é a de Supalla (1986)3 encontrada no texto de
Felipe (2002) e a segunda é uma adaptação/melhoramento da primeira, encon-
trada em Pizzio et al. (2010).

3
SUPALLA, T. The Classifier System in American Sign Language. Offprint from Colette Grai (ed.) Noun Classes and Categorization. Typology Stu-
dies in Language 7. Philadelphia: John Benjamins Publishing Co., 1986.

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Classificadores

Supalla (1986, apud FELIPE, 2002, p. 7-8) estabelece como tipos de classifi-
cadores:

a) Especificadores de tamanho e forma: são configurações de mãos que


representam vários aspectos do referente. Esses classificadores foram
subdivididos em especificadores de tamanho e forma estáticos: objetos
longos, redondos etc.; e especificadores de tamanho e forma em traço: a
mão, movendo-se no espaço, traça as linhas do referente em duas ou três
dimensões. Um exemplo é o que acontece com o sinal BOLA. Classificado-
res podem ser usados para determinar o tamanho, o formato da bola, sua
textura. Assim, uma bola de basquete ganha classificadores diferentes dos
de uma bola de vôlei, assim como diferem os classificadores empregados
para referir uma bola de futebol americano e uma bola de futebol.

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BOLA DE BASQUETE. IESDE Brasil S.A.

BOLA DE FUTEBOL.

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Classificadores

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BOLA DE VÔLEI.

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BOLA DE FUTEBOL AMERICANO.

b) Classificador semântico: são configurações de mãos que representam


os referentes enquanto categorias semânticas: classificadores de objetos
com pernas (pessoa, cachorro, aranha etc.); classificadores de objetos ho-
rizontais, verticais etc. Um exemplo disso é a expressão da diferença entre
usar uma escada rolante e uma escada convencional para alcançar o an-
dar superior de algum prédio. No primeiro caso, a mão em cinco, voltada
para baixo, é deslizada, no ar, de baixo para cima, com os dedos imóveis.
Já no segundo, com a mesma configuração de mão e mesmo movimento
de baixo para cima, os dedos se movimentam, simulando o galgar dos
degraus.

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c) Classificador corpo: todo o corpo do emissor pode ser usado para re-
presentar seres animados, sendo essa classe uma marca de concordância
nominal. Nesse caso, o sinalizador usa o corpo todo para representar ima-
geticamente a expressão de animais, robôs, seres humanos.

d) Classificador parte do corpo: a mão ou alguma outra parte do corpo do


emissor é usada para representar uma parte do corpo do referente. A parte
do corpo é uma localização. Este tipo de classificador foi dividido em: espe-
cificadores de tamanho e forma de parte do corpo (dentes na boca, listras
de um tigre) e classificadores dos membros (mãos e antebraço; pernas e
pé). Por exemplo, o punho fechado em S representa a cabeça, de onde de-
riva uma das possibilidades do sinal SIM – a mão fechada balança para cima
e para baixo em referência ao movimento afirmativo feito com a cabeça.
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SIM.
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e) Classificador instrumento: uma representação mimética ou visual-geomé-


trica do instrumento mostra o objeto sendo manipulado, mas este não é
diretamente referido. Este tipo foi subdividido em: classificador mão como
instrumento – usados para contrastar os vários meios que a mão interage
com objetos sólidos de tamanho e formato diferentes; classificadores fer-
ramenta – usados para operar ferramentas manualmente.

f ) Morfemas para outras propriedades de classes de nomes: usados para


mostrar consistência e textura (líquido e gasoso, macio e rugoso etc.); inte-
gridade física (quebrado, despedaçado etc.); quantidade (coleção, muitas
pessoas etc.); posição relativa (uma pessoa acima de outra, status etc.).

Observe que o último tipo proposto por Supalla (1986, apud FELIPE, 2002)
é uma espécie de “conglomerado”, pois aí entra o que sobrou e que é de difícil
classificação, definição.

Pizzio et al. (2010) apresentam cinco tipos de classificadores encontrados na


Libras, os quais podem envolver apenas uma mão ou ambas. São eles:

1. Classificadores descritivos – descrições visuais de acordo com a imagem


dos objetos e seres. São consideradas características como: som, tamanho,
textura, paladar, tato, cheiro, “olhar”, sentimentos ou formas visuais, bem
como a localização e ação incorporada ao classificador. Essas descrições
podem ser feitas em até três dimensões. Na dimensional, dimensões de-
terminadas e adequadas com a imagem do que é visualizado são dadas.
Na bidimensional, o dobro das dimensões determinadas são dadas em
relação ao que se visualiza, adequando-as à imagem do objeto. Na tridi-
mensional, são dadas as três dimensões do que se visualiza, causando a
impressão de penetração do relevo visual. Com esse tipo de classificador,
a depender do contexto, uma ou as duas mãos podem ser usadas. Nessa
categoria, também estão incluídos os classificadores descritivos locativos,
os quais consistem em determinar a localização de um objeto ou ser em
relação ao outro durante o relato de uma ação.

2. Classificadores especificadores – segundo as autoras, a função destes é


descrever visualmente a forma, o tamanho, a textura, o paladar, o cheiro,
os sentimentos, o “olhar”, os “sons” do material, do corpo da pessoa e dos
animais. Há também os classificadores que especificam elementos gaso-
sos. Contudo, isso não permite que se diferencie claramente este tipo do
apresentado anteriormente. Mais uma prova de que a categoria dos clas-
sificadores merece muitas pesquisas ainda.

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3. Classificadores de plural – serve para indicar a pluralidade do referente a


que se está fazendo menção. Nesses casos, a configuração de mão substi-
tui o objeto em si, sendo repetido várias vezes. Por exemplo, para falar de
livros numa estante ou de uma biblioteca, como ilustra a imagem a seguir:

IESDE Brasil S.A.


BIBLIOTECA.
4. Classificadores instrumentais – remetem à forma como uma ferramenta
ou instrumento é usado, imitando a ação desempenhada pelo instrumen-
to ou com o instrumento. Observem no sinal de escrever no papel e escre-
ver no computador, apresentados abaixo:
IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

ESCREVER NO PAPEL. ESCREVER NO COMPUTADOR.

5. Classificadores de corpo – empregados para representar, por meio do


corpo do sinalizador, como acontece uma ação que envolve seres anima-
dos. Nesse caso, o sinalizador reproduz a expressão corporal do ser de
quem está falando. Imagine, por exemplo, a diferença entre a representa-
ção do andar de um gato para o de um elefante.
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Alguns empregos de classificadores na Libras


Neste momento, de forma que você possa acompanhar as discussões apresen-
tadas sobre os papéis dos classificadores na Libras, segue abaixo uma relação das
configurações de mão que podem ser empregadas no uso dos classificadores:

Configurações de Mão

IESDE Brasil S.A.


1 2 3 4 5 6 7

8 9 10 11 12 13 14

15 16 17 18 19 20 21

22 23 24 25 26 27 28

29 30 31 32 33 34 35

36 37 38 39 40 41 42

43 44 45 46 47 48 49

50 51 52 53 54 55 56

57 58 59 60 61

Figura 1 – Relação das configurações de mão da Libras.

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O uso de classificadores pode suscitar questões relacionadas à área semânti-


ca. Dessa forma, há casos de homonímia entre classificadores, posto que um clas-
sificador pode apresentar diferentes significados, embora apresente a mesma
forma. Como nos exemplos ofertados por Pizzio et al. (2010, p. 32):

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.


PESSOA DEITAR NORMAL. PESSOA CAIR.

IESDE Brasil S.A.


IESDE Brasil S.A.

PESSOA DORMIR MAL. TROCAR LUGAR CAMA.

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Classificadores

IESDE Brasil S.A.


PERNAS LEVANTAR
PARA CIMA NA CAMA.

IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.


PESSOA OLHAR PARA CIMA. PESSOA DESFILAR.

IESDE Brasil S.A.

PESSOA PASSAR POR CIMA DA PONTE.

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Além de estar associado a diferentes significados, o emprego de classifica-


dores também se relaciona à sintaxe à medida que permite os processos de in-
corporação de argumentos e complementos dos verbos. Assim, conforme Pizzio
et al. (2010, p. 32-33), referentes como prato e rosto na posição de objeto direto
podem ser incorporados, resultando em formas verbais como:

IESDE Brasil S.A.


LAVAR PRATO.

IESDE Brasil S.A.

COMER PIPOCA.
IESDE Brasil S.A.

IESDE Brasil S.A.

LAVAR ROSTO. COMER SANDUÍCHE.


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Também as categorias de modo e aspecto podem ser incorporadas, por meio


de classificadores, à forma dos verbos. Uma possibilidade apresentada pelas
autoras se trata dos diferentes modos (entendidos como maneira) e aspectos
com que as situações verbais podem ser descritas. No caso de ANDAR-DEVAGAR,
ANDAR-DEPRESSA, ANDAR-DISTRAÍDA etc., a configuração de mão empregada
é a 49, em que os dedos, voltados para baixo, simulam cada um desses modos
de andar/caminhar. Em Libras, essas formações correspondem a um sinal com
alteração morfológica, em português, a mesma significação é expressa apenas
por meio de frases.

A possibilidade de incorporação também se verifica, de acordo com Pizzio et al.


(2010), com os locativos, uma vez que é possível realizar, simultaneamente à
forma verbal, o lugar onde a ação ocorre. Então, ao se traduzir para a Libras uma
frase como “o avião bateu no prédio”, o sinalizador utilizará as duas mãos. Uma
assumirá a CM 4, com a palma da mão voltada para baixo, a outra mão assumirá a
CM 39. Para realizar o sinal, a mão com a CM 39 deve ficar levantada, com o braço
fazendo parte do sinal, de forma que a configuração em 4 desenha uma trajetória
em semicírculo até bater (tocar) o braço em que a mão assumiu a CM 39.

Por fim, as autoras citam as diferenças efetuadas pelo emprego dos classifica-
dores no nível morfológico:

Descrição dos sinais: CM 45 – moeda com diferentes formas e tamanhos.

Descrição dos sinais: CM 57 em direção para frente com diferentes movimen-


tos (ondulante, plano, zigue-zague, esburacada etc.).

Também vale a pena, na tentativa de esclarecer a interação entre diferentes


classificadores, recorrer a um exemplo empregado por Leite (2008, p. 42):

IESDE Brasil S.A.

Figura 2 – Exemplo típico de um verbo descritivo que representa o movimento e a localização


na Libras.

Analisando o exemplo, que se trata de uma narrativa que relata o trabalho de


um agricultor subindo e descendo (mão direita) de uma árvore (mão esquerda)
para colher peras, o autor afirma que cada um dos aspectos que entram na com-
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posição desse sinal são tomados, em boa parte das pesquisas sobre línguas de
sinais, como morfemas classificadores:
A configuração de mão em “V2”, da mão direita, seria um morfema para seres animados,
como humanos e animais; a configuração da mão em “5”, da mão esquerda, um morfema para
objetos compridos verticais, como árvores; o movimento de cima para baixo, um morfema
para movimento descendente; o movimento interno de alternância dos dedos – que pode ser
mais bem observado no vídeo –, um morfema para o tipo de movimento ao descer da árvore;
os pontos de articulação inicial e final da mão direita (quadro 1 e 4), outros morfemas para o
local inicial e final da ação realizada; e assim por diante. (LEITE, 2008, p. 42)

Não é exagero dizer que o uso dos classificadores é um dos aspectos linguísti-
cos mais empregados por surdos e usuários fluentes da Libras para avaliar quão
fluente outra pessoa é nessa língua. Nesta aula, a intenção foi expor a você, caro
aluno, o fundamental sobre o uso dos classificadores, a base a partir da qual você
poderá desenvolver novos conhecimentos, teóricos e, principalmente, práticos.
Aproveite, sempre que possível, o contato com surdos e usuários fluentes da
língua para desenvolver esse importante recurso linguístico, que lhe será útil
em inúmeras situações comunicativas. À frente, você encontra, no texto com-
plementar, o emprego de classificadores como marcadores de gênero no siste-
ma de flexão dos verbos da Libras, numa interface entre os níveis morfológico e
sintático. Boa leitura!

Texto complementar
Sistema de flexão verbal na Libras:
os classificadores enquanto
marcadores de flexão de gênero
(FELIPE, 2002, p. 12-14)

[...]

3. A flexão verbal na Libras


Cada língua, a partir de uma Gramática Universal, possui a sua gramática
particular. As estruturas fono-morfo-sintáticas são portanto idiossincrasias
linguísticas específicas a cada língua, assim cada língua tem seu sistema de
flexão formado por morfemas presos ou livres que são relevantes para a sua
sintaxe e suas regras transformacionais.

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Classificadores

A partir do exposto anteriormente, pode-se sistematizar um sistema de


flexão específico para a Libras.

Em trabalhos anteriores, Felipe (1988, 91a, 93a) apresentou alguns verbos


da Libras que possuem concordância, e eles foram denominados direcionais,
seguindo uma nomenclatura americana: Friedman, Fischer, Padden, Suppala,
entre outros. Aqui, nesta pesquisa, eles serão agrupados de maneira diferente.

1.1. Flexão número-pessoal


No sistema de flexão verbal da Libras há o parâmetro direcionalidade que é
um marcador de flexão de pessoa do discurso. Por exemplo, quando se diz “eu
pergunto para você” a direção do movimento é do emissor para o receptor, pri-
meira e segunda pessoas respectivamente; se a frase é “você pergunta a mim”
a direção é a oposta, e se a frase for “eu pergunta a ele”, a direção será para um
ponto convencionado para a terceira pessoa do discurso (FELIPE, 1988). Este
sistema é o mesmo para todos os verbos que possuem esse tipo de flexão.

Nesta flexão para pessoa do discurso, pode-se dizer que a desinência que
concorda com o sujeito e o objeto é simultânea à raiz-M verbal porque este
tipo de flexão é expresso pela direcionalidade (caminho “path”) da Raiz-Movi-
mento, mas há também uma sequencialidade, já que sempre o ponto inicial
concorda com o sujeito agente e o final com o objeto-objetivo. Exemplos:

1. 1sPERGUNTAR2s “eu pergunto a você”,

2. 2sPERGUNTAR1s “você me pergunta”,

3. 3sPERGUNTAR1s “ela me pergunta”,

1.2. Flexão para locativo


Além do parâmetro direcionalidade, o ponto de articulação também é um
tipo de flexão verbal porque pode concordar com a localização nos verbos
que possuem uma valência com locativo intrínseco. Para se compreender
esta flexão verbal, precisa-se fazer uma distinção em relação a este parâme-
tro porque há dois tipos de ponto de articulação a serem considerados: o
ponto que faz parte da configuração sígnica do verbo, que é somente traço
distintivo, estando somente em um plano fonológico da língua, e um morfe-
ma que tem uma função e um significado morfo-sintático-semântico. Nesse
segundo caso, o ponto de realização sígnica é um local real ou convenciona-
lizado onde o movimento termina e este locativo é marca de concordância

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Classificadores

com um argumento do verbo, ou seja, é um sintagma de preposição obriga-


tório. São verbos que começam ou terminam em um determinado lugar que
se refere ao lugar de uma pessoa, coisa, animal ou veículo, que está sendo
colocado, carregado etc. Portanto, o ponto de articulação marca a localiza-
ção. Alguns desses verbos podem ter também classificadores.

Exemplos:

4. MESAk COPO coisa-arredondadaCOLOCARk “colocar copo na mesa”.


5. CABEÇAk ATIRARk. “eu atiro na minha cabeça”.
6. MESAi COPO objeto-arredondadoCOLOCARi “eu coloco o copo na mesa”(9).

1.3. Flexão para gênero


Assim, na Libras, os classificadores são formas que, substituindo o nome
que as precedem, podem vir junto ao verbo para classificar o sujeito ou o
objeto que está ligado à ação do verbo. Portanto os classificadores na Libras
são marcadores de concordância de gênero: PESSOA, ANIMAL, COISA.

Os classificadores para PESSOA e ANIMAL podem ter plural, que é marca-


do ao se representar duas pessoas ou animais simultaneamente com as duas
mãos ou fazendo um movimento repetido em relação ao número.

Os classificadores para COISA representam, através da concordância, uma


característica dessa coisa que está sendo o objeto da ação verbal, exemplos:

7. pessoaCAIR, veículoCAIR, coisa-redondaCAIR, coisa-planaCAIR,

8. coisa-fina-e-longaCAIR; (10);

9. pessoaANDAR, veículoANDAR/MOVER, animalANDAR ;

10. COPO MESAk objeto arredondadoCOLOCARk;


11. 2 CARRO veículoANDAR-UM-ATRÁS-DO-OUTRO (md)
veículoANDAR (me);

12. M-A-R-I-A A-L-E-X pessoaPASSAR-UM-PELO-OUTRO (md)


pessoaPASSAR (me).

A configuração de mão, como foi visto anteriormente, também em rela-


ção a outras línguas de sinais, quando associada a verbos classificadores, é
uma flexão de gênero, que pode ser sincretizada a um quanta.

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Classificadores

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B B B B C

G L L L O

V X 1 3 3

4 5 5 5

Figura 1 – Morfemas classificadores da Libras.

Concluindo, pode-se esquematizar o sistema de concordância verbal, na


Libras, da seguinte maneira:

1. concordância número-pessoal parâmetro pessoal

2. concordância de gênero e número parâmetro configuração de mão

3. concordância de lugar parâmetro ponto de articulação

Dicas de estudo
 Artigo científico de Zilda Gesueli: “A narrativa em língua de sinais: um olhar
sobre classificadores”, do livro Estudos Surdos IV. Organizado por Ronice
Müller de Quadros e Marianne Rossi Stumpf. Petrópolis: Arara Azul, 2009.

Neste texto, a autora analisa o papel dos classificadores na constituição de


narrativas em Libras. É, portanto, uma proposta de olhar diferenciada, posto

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Classificadores

que ela se preocupa não apenas em descrever o funcionamento grama-


tical dos classificadores, mas antes em analisar como funcionam discursi-
vamente. O texto é uma excelente leitura para quem pretende ampliar a
visão sobre como, quando e onde empregar os classificadores.

 Artigo científico: “Pedagogia Visual/Sinal na Educação dos Surdos”, de Ana


Regina e Souza Campello, do livro Estudos Surdos II. Organizado por Roni-
ce Müller de Quadros e Gladir Perlin, Editora Arara Azul, 2007.

Embora o foco da autora seja a educação de surdos, a leitura do texto é


interessantíssima do ponto de vista linguístico pois, ao abordar o relato
de uma experiência de prática de ensino visual, a autora fornece também,
ainda que não entre especificamente nesse assunto, um valioso material
de análise e reflexão sobre o uso de classificadores para tecer explicações,
para passar o conteúdo das disciplinas de uma forma compreensível ao
aluno surdo. É uma oportunidade excelente de analisar como os classifi-
cadores podem e devem ser usados.

Atividades
1. Discorra sobre os quatro tipos de línguas classificadoras estabelecidas por
Allan (1977) e de que forma ele chegou a esse quadro.

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Classificadores

2. Correlacione a tipologia de classificadores das línguas de sinais elaborada


por Supalla (1986) à elaborada por Pizzio et al. (2010) para a Libras, de forma
a identificar quais tipos são previstos em ambas.

3. Utilizando como base de discussão o exemplo retirado de Leite (2008), discu-


ta a possibilidade ou não de interação entre diferentes classificadores.

Referências
ALLAN, K. Classifiers. Language, 53: 285-311, 1977.

FELIPE, T. Sistema de flexão verbal na libras: os classificadores enquanto marca-


dores de flexão de gênero. Anais do Congresso Nacional do INES, 2002. Dis-

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Classificadores

ponível em: <http://librasemcontexto.org/producao/ClassifemLIBRASINES2002.


pdf>. Acesso em: 27 nov. 2010.

LEITE, Tarcísio de Arantes. Gestualidade. In: _______. A Segmentação da Língua


de Sinais Brasileira (Libras): um estudo linguístico descritivo a partir da conver-
sação espontânea entre surdos. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo,
São Paulo, 2008.

PIMENTA, N.; QUADROS, R. M. Curso de Libras 1. 2. ed. Rio de Janeiro: LSB Vídeo,
2007.

PIZZIO, A. L. et al. Língua Brasileira de Sinais III. Material didático do curso de


Letras Libras a Distância. Florianópolis: UFSC, 2010.

SUPALLA, T. The Classifier System in American Sign Language. In: Grai, C. Noun
Classes and Categorization. Typology Studies in Language 7. Philadelphia:
John Benjamins Publishing Co., 1986.

Gabarito
1. Para chegar à sua classificação de quatro tipos de línguas classificadoras,
Allan (1977) analisou mais de cinquenta línguas e, por meio das regularida-
des encontradas, agrupou essas línguas em quatro grupos distintos:

 línguas de classificador numeral: são línguas em que um classificador é


obrigatório em muitas expressões de quantidade e em expressões anafó-
ricas e dêiticas como, por exemplo, a língua thai;

 línguas de classificador concordante: são línguas em que os classifica-


dores são afixados (geralmente prefixos) aos nomes e seus modificadores,
predicados e pró-formas como, por exemplo, em muitas línguas africanas
(bantu e semibantu) e australianas;

 línguas de classificador predicativo: são línguas que possuem verbos


classificadores, que variam seu radical de acordo com as características
das entidades que participam enquanto argumentos do verbo como, por
exemplo, os verbos de movimento/localização em Navajo, Hoijer (1945), e
verbos classificadores em outras línguas athapaskan;

 línguas de classificador intralocativo: são línguas nas quais classifica-


dores nominais são embutidos em expressões locativas que obrigatoria-
mente acompanham nomes em muitos contextos. Existem apenas três

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Classificadores

línguas: toba, uma língua sul-americana, eskimo e dyirbal, uma língua do


noroeste da Austrália.

2. Como resposta mínima o aluno deve identificar os tipos de classificadores


encontrados em ambas as propostas: classificador de corpo e instrumento.
Uma resposta mais detalhada e crítica pode se ocupar em verificar em que
medida os tipos não mencionados diretamente por Pizzio et al. (2010) abri-
gam os classificadores descritos por Supalla (1986). Por exemplo, os tipos
chamados de classificador descritivo e especificador pelas autoras parecem
abranger os tipos identificados como classificador semântico, especificado-
res de tamanho e forma e morfemas para outras propriedades de classes de
nomes propostos por Supalla (1986).

3. Resposta mínima deve contemplar que é possível, sim, a interação entre di-
ferentes classificadores num mesmo sinal. É desejável que o estudante se
utilize do comentário do autor, citado na aula, sobre o exemplo para elencar
pelo menos dois usos diferentes de classificador na realização de um mesmo
sinal.

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Classificadores

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Anotações

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