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ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 1

2 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III


ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 3

ANTÓNIO FIDALGO e PAULO SERRA (ORG.)

Ciências da Comunicação em Congresso na Covilhã


Actas do III Sopcom, VI Lusocom e II Ibérico

Volume III

VISÕES DISCIPLINARES

UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR


4 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Actas dos III SOPCOM, IV LUSOCOM e II IBÉRICO


Design da Capa: Catarina Moura



Edição e Execução Gráfica: Serviços Gráficos da Universidade da Beira Interior


Tiragem: 200 exemplares

Covilhã, 2005

Depósito Legal Nº 233236/05


ISBN – 972-8790-38-4

Apoio:

Programa Operacional Ciência, Tecnologia, Inovação do III Quadro Comunitário de Apoio

Instituto da Comunicação Social


ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 5

ÍNDICE

Apresentação, António Fidalgo e Paulo Serra ................................................................. 9

Capítulo I
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO

Apresentação, Helena Sousa e César Bolaño ................................................................ 13


La desregulación invisible: el caso de la televisión local por ondas en España, Ángel
Badillo Matos ..................................................................................................................... 15
OV - organização virtual, Artur Castro Neves .............................................................. 25
Sociedade em rede: perspectivas de poder no espaço virtual, Bruno Fuser ............. 39
A evolução tecnológica e a mudança organizacional, Carlos Ricardo ....................... 49
Contectualización e análise da televisión de galicia no ámbito europeo de televisións
rexionais, Carmen Ciller Tenreiro .................................................................................... 57
Conhecimento e informação na atual Reestruturação Produtiva: para uma crítica das teorias
da Gestão do Conhecimento, César Bolaño e Fernando Mattos ................................ 65
As políticas audiovisuais de Portugal e do Brasil face à globalização e às propostas supra-
nacionais da União Europeia e do Mercosul, César Bolaño e Helena Sousa .......... 77
As políticas públicas de inclusão digital e seu impacto no processo de democratização
na sociedade da informação brasileira, Débora Burini ................................................. 89
Las nuevas estrategias de las radiotelevisiones públicas en las comunidades autónomas
españolas, Fernando Sabés Turmo ................................................................................... 95
A universalização do serviço telefônico no Brasil, Dr. Hans-Jürgen Michalski ..... 105
¿Reproducción de la cultura o cultura de la reproducción? Análisis económico político
de la lógica de distribución y reproducción de productos culturales en Internet, Juan
C. Calvi ............................................................................................................................. 113
Telefónica España: estrategias y perspectivas, María Antonia Martín Díez ............ 121
Audiovisual e interesse público, Manuel José Lopes da Silva ................................. 129
Os bens digitais e a dinâmica da Weightless Economy, Orlando Gomes ............... 137
O custo das não decisões na imprensa local e regional portuguesa, Paulo Ferreira .. 145
Comunicação e mercado: a lógica televisiva moçambicana, Valério Cruz Brittos e João
Miguel ............................................................................................................................... 157
O jornalismo na era dos conglomerados globais, Virgínia Pradelina da Silveira Fonseca .... 165
A representación da realidade galega na Televisión de Galicia, Xosé Soengas e Ana Isabel
Rodríguez .......................................................................................................................... 173
6 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Capítulo II
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO

Análisis de los códigos deontológico aplicables a la Comunicación Organizacional, Ana


Almansa Martínez ............................................................................................................ 181
A ética da diferença: Distribuição de bens e de oportunidades na produção do conhecimento
científico, Betania Maciel ............................................................................................... 191
La educación en género a través de las tecnologías de la información y la comunicación,
Emelina Galarza Fernández ............................................................................................ 199
Rádio Comunitária e poder local: um estudo das relações entre os poderes locais e as
novas emissoras legalizadas da região Noroeste do Estado de São Paulo, Gisele Sayeg
Nunes Ferreira .................................................................................................................. 205
A fragmentação do espaço público: novos desafios ético-políticos, João Carlos Correia .. 217
El Informe Hutton: criterios judiciales para una ética periodística, Julián Rodríguez
Pardo .................................................................................................................................. 227
O problema da ética na comunicação pública da ciência e da tecnologia: uma proposta
de manual deontológico, Marcelo Sabbatini ................................................................ 237
La necesidad de una publicidad responsable: Los conflictos ético-jurídicos del discurso
publicitario audiovisual, Mª Dolores Prieto del Pino ................................................. 245
A sociedade da comunicação ou o Mito da Mudança: implicações éticas, Maria Gabriela
Gama ................................................................................................................................. 253
Etica y responsabilidad social de la empresa. Una propuesta de comunicación y
creación de valor en las organizaciones, José Luis Fernández Fernández e Nuria
Villagra García ................................................................................................................ 259
No pântano das boas intenções: o combate à “baixaria na TV” e a ética “politicamente
correta”, Sylvia Moretzsohn ........................................................................................... 269

Capítulo III
HISTÓRIA DA COMUNICAÇÃO

Apresentação, José Augusto dos Santos Alves ............................................................ 281


Nacimento e desarrolo del nacionalismo en la prensa española y gallega, Ana María
Rodríguez Rivas ............................................................................................................... 283
Aportaciones para una historia del acontecer catastrófico, Carlos Lozano Ascencio ... 289
Comunicação no mundo lusófono - Síntese histórica da imprensa portuguesa em Goa
(Índia), Eduardo Judas Barros ........................................................................................ 299
Comunicando as Ciências ao Público. As ciências nos periódicos portugueses de finais
do séc. XVIII e princípios do séc. XIX, Fernando José Egídio Reis .................... 305
Narração e informação na gênese do jornalismo, Héris Arnt ................................... 317
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 7

Usos de la radiodifusión en España en los primeros años treinta: una patente nacional
para la transmisión de imágenes y fotografías, Francisco Javier Ruiz del Olmo .. 323
A “hidra da anarquia” à solta ou história das eleições de 1882, no Funchal, segundo
os jornais da época, Joana Gaspar de Freitas ............................................................. 331
Semiotecnias: la doble vida de los instrumentos y los signos, Luis Alonso García...341
A prensa, motor do cambio social, construtora da realidade. O papel da prensa galega
na construción da autonomía de Galiza e no fortalecemento da democracia no proceso
de Transición Política Española (1975-1981), Marcos Sebastián Pérez Pena ......... 353
Sempre en Galicia: Cinqueta anos de radio en galego, Mónica Rebolo Vázquez ... 363
As fórmulas dialogadas nas orixes do xornalismo en lingua galega, Rosa Aneiros Díaz
e Xosé López García ...................................................................................................... 371
Nas trilhas da história da comunicação: principais teorias e intersecções, Tarcyanie Cajueiro
Santos ................................................................................................................................ 381
Los nuevos resortes de la información globalizada: Del “poder simbólico” al “terror
emocional”, Tasio Camiñas Hernández ......................................................................... 389

Capítulo IV
ESTUDOS CULTURAIS E DE GÉNERO

Apresentação, Carolina Leite .......................................................................................... 399


Apresentação, Maria João Silveirinha ........................................................................... 401
Corpo-Verão: agendamento corporal na imprensa feminina, Adriana Braga ........... 403
Amas de casa y jefes de familia mexicanos: entre Urnas y Pantallas, Aimée Vega
Montiel .............................................................................................................................. 413
Políticas de identidade e estudos de recepção: relatos de jovens e mulheres, Ana Carolina
D. Escosteguy e Nilda Jacks ......................................................................................... 421
Uma única Europa? O tratamento das questões europeias em quatro jornais nacionais
(1985-2003), Ana Horta .................................................................................................. 431
Imagens periféricas: entre a hipérbole freak e a voz do subalterno, Angela Prysthon .. 441
As relações comunicativas entre Portugal, Brasil e Itália, Barbara Bechelloni ...... 451
A imaxe das mulleres reflectada pola prensa galega. O tratamento da violencia de xénero
en La Voz de Galicia e El Correo Gallego, Montserrat Pernas Bellas e Ana Belén Puñal
Rama .................................................................................................................................. 457
Ficção Nacional: a emergência de um novo paradigma televisivo, Catarina Duff
Burnai ................................................................................................................................ 465
O rádio na vida de mulheres rurais: tão importante na terra, quanto Deus no céu, Celsina
Alves Favorito .................................................................................................................. 473
La identidad cultural: Representaciones de la identidad y su interacción con la construcción
de la “mujer valenciana” en la televisión autonómica, Cristina Marqués i Ferrer ... 481
8 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Exclusão informativa: representação e representatividade dos negros e afrodescendentes


nas capas da revista Veja, Derval Golzio .................................................................... 491
Identidad cultural en las series de ficción en España, Enric Castelló .................... 499
Apuntes para el abordaje de la cultura política de los jóvenes: propuesta teórico
metodológica, María Gladys Mathieu ........................................................................... 509
Interculturalidade, Encontros e Desencontros em Universidades Virtuais, Hiliana Reis .. 517
Las mujeres y el trabajo en las series de ficción. Cambio social y narraciones televisivas,
Irene García Rubio .......................................................................................................... 525
A mulher brasileira na televisão portuguesa, Isabel Ferin Cunha ............................ 535
Comunicação e comunidade na cidade do Rio de Janeiro: as costureiras da Mangueira,
João Maia ......................................................................................................................... 555
A publicidade entre o exercício da hetero e da homossexualidade, José Luís de Carvalho
Reckziegel ......................................................................................................................... 563
Entre o espelho e a janela – A relação entre comunicação mediada e identidades sociais:
contributos do interaccionismo simbólico e da sociologia fenomenológica, José Ricardo
Carvalheiro ........................................................................................................................ 571
Imagens de mulher: o feminino no cinema brasileiro contemporâneo, Lara Lima de O.
Paiva e Maria Luiza M. Mendonça .............................................................................. 579
Cidade dos Homens e Turma do Gueto: oportunidades de inovações a partir das brechas,
Maria Ataide Malcher, Marly Camargo Barros Vidal e Maria Lourdes Motter ..... 587
Para uma revisão das identidades coletivas em tempo de globalização, Maria Immacolata
Vassallo de Lopes ............................................................................................................ 595
Perspectivas e Ficciones de Género en los Relatos de Vida de Quince Parejas de Jóvenes
de la Ciudad de México, María Adriana Ulloa Hernández ...................................... 603
Testimonios sobre violencia de género en los Talk Shows ¿Realidad o construcción?,
Mª Isabel Menéndez Menéndez ..................................................................................... 613
Discurso e construção da identidade social da lúpica, Nadia Regina Loureiro de Barros
Lima ................................................................................................................................... 623
Evolución socio-cultural en la representación mediática del hombre agresor y maltratador,
Natalia Fernández Díaz ................................................................................................... 629
2001: odisea africana en el espacio lusofono, Priamo Marratzu .............................. 635
Moçambique e Timor-Leste: onde também se fala o português, Regina Helena Pires de
Brito e Moisés de Lemos Martins ................................................................................. 641
Os grupos minorizados transformados em informação: representações, ideologias e cons-
truções da imagem de afro-brasileiros no jornalismo, Ricardo Alexino Ferreira ... 649
Retratos de mulher: um estudo das imagens visuais e sociais do feminino, Silvana Mota-
Ribeiro ............................................................................................................................... 657
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 9

APRESENTAÇÃO
António Fidalgo e Paulo Serra

“Ciências da Comunicação em Congres- Universidade Lusófona, em Lisboa, o I


so na Covilhã” (CCCC) foi a designação Encontro Luso-Brasileiro de Ciências da
escolhida, pela Direcção da SOPCOM – Comunicação, momento em que os investi-
Associação Portuguesa de Ciências da Co- gadores portugueses decidem criar a
municação, para o seu III Congresso, inte- SOPCOM – Associação Portuguesa de Ci-
grando o VI LUSOCOM e o II IBÉRICO, ências da Comunicação. Um ano mais tarde,
e que teve lugar na UBI, Covilhã, entre os em Abril de 1998, o II Encontro é organi-
dias 21 e 24 de Abril de 2004 (o LUSOCOM zado na Universidade Federal de Sergipe, no
teve lugar nos dois primeiros dias e o Brasil, incluindo investigadores de países
IBÉRICO nos dois últimos). africanos de língua portuguesa. É então que
Dedicados aos temas da Informação, se funda a LUSOCOM – Federação das
Identidades e Cidadania, os Congressos de Associações Lusófonas de Ciências da Co-
Ciências da Comunicação na Covilhã cons- municação. A terceira edição do LUSOCOM
tituíram um momento privilegiado de encon- realiza-se na Universidade do Minho, nova-
tro das comunidades académicas lusófona e mente em Portugal, em Outubro de 1999,
ibérica, fazendo público o estado da pesquisa regressando ao Brasil para a sua quarta
científica nos diferentes países e lançando edição, desta vez a S. Vicente, em Abril de
pontes para a internacionalização da respec- 2000. Depois de dois anos de pausa, o V
tiva investigação. Ao mesmo tempo, contri- LUSOCOM estreia Moçambique como país
buíram de forma importante para a conso- organizador, decorrendo em Maputo em Abril
lidação, tanto interna como externa – rela- de 2002. Apenas com uma edição, realizada
tivamente à comunidade científica, ao mun- em Málaga em Maio de 2001, o Congresso
do académico e ao próprio público em geral Ibérico de Ciências da Comunicação procura
– das Ciências da Comunicação como campo agora, pela segunda vez, juntar investigado-
académico e científico em Portugal. res e académicos de Espanha e de Portugal,
Este duplo resultado é ainda mais rele- e assumir-se assim como momento de união
vante tendo em conta que se trata de campo e debate acerca do trabalho levado a cabo
de investigação recente em Portugal. Não nos dois países. O primeiro congresso
pretendendo fazer uma descrição exaustiva SOPCOM – a Associação teve a sua criação
do seu historial, assinalem-se algumas datas legal em Fevereiro de 1998 –, realizou-se em
mais significativas. O primeiro curso de Março de 1999, em Lisboa, sendo também
licenciatura na área das Ciências da Comu- aí que, decorridos mais dois anos, viria a
nicação – na altura denominado de Comu- organizar-se o II SOPCOM, em Outubro de
nicação Social – iniciou-se em 1979, na 2001.
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da No decurso dos quatro dias em que
Universidade Nova de Lisboa, a que se decorreram os Congressos de Ciências da
seguiram o do ISCSP da Universidade Téc- Comunicação na Covilhã foram apresentadas
nica de Lisboa (em 1980) e o da UBI (em cerca de duzentas comunicações, repartidas
1989), para citarmos apenas os três primei- por dezasseis Sessões Temáticas (repetidas
ros, expandindo-se até aos actuais 33 cursos em cada um dos Congressos), a saber: Teorias
superiores do ensino público universitário e da Comunicação, Semiótica e Texto, Econo-
politécnico actualmente existentes. mia e Políticas da Comunicação, Retórica e
No que se refere aos antecedentes ime- Argumentação, Fotografia, Vídeo e Cinema,
diatos dos Congressos que tiveram lugar na Novas Tecnologias, Novas Linguagens, Di-
UBI, em Abril de 1997 realizava-se na reito e Ética da Comunicação, História da
10 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Comunicação, Estética, Arte e Design, Pu- (Capítulo III), Estética, Arte e Design
blicidade e Relações Públicas, Jornalismo, (Capítulo IV) e Comunicação Audiovisual
Estudos Culturais e de Género, Comunica- (Capítulo V); o Volume II, intitulado Te-
ção e Educação, Comunicação Audiovisual, orias e Estratégias Discursivas, compreen-
Opinião Pública e Audiências, Comunicação de as comunicações referentes a Teorias da
e Organização. Comunicação (Capítulo I), Semiótica e Texto
A publicação do enorme volume de (Capítulo II), Retórica e Argumentação
páginas resultante de tal número de comu- (Capítulo III) e Publicidade e Relações
nicações – um volume que, e a aplicar o Públicas (Capítulo IV); o Volume III,
formato estabelecido para a redacção das intitulado Visões Disciplinares, compreende
comunicações, excederia as duas mil e as comunicações referentes a Economia e
quinhentas páginas –, colocava vários dile- Políticas da Comunicação (Capítulo I),
mas, nomeadamente: i) Publicar as Actas do Direito e Ética da Comunicação (Capítulo
VI LUSOCOM e do II IBÉRICO em sepa- II), História da Comunicação (Capítulo III)
rado, ou publicá-las em conjunto; ii) Publi- e Estudos Culturais e de Género (Capítulo
car as Actas pela ordem cronológica das IV); finalmente, o Volume IV, intitulado
Sessões Temáticas ou agrupar estas em grupos Campos da Comunicação, compreende as
temáticos mais amplos; iii) Dada a impos- comunicações referentes a Jornalismo (Ca-
sibilidade de reunir as Actas, mesmo que de pítulo I), Comunicação e Educação (Capí-
um só Congresso, em um só volume, quantos tulo II), Opinião Pública e Audiências
volumes publicar. (Capítulo III) e Comunicação e Organiza-
A solução escolhida veio a ser a de ção (Capítulo IV).
publicar as Actas de ambos os Congressos A realização dos Congressos de Ciências
em conjunto, agrupando Sessões Temáticas da Comunicação na Covilhã e a publicação
com maior afinidade em quatro volumes destas Actas só foi possível graças ao apoio,
distintos: o Volume I, intitulado Estética e ao trabalho e à colaboração de muitas pes-
Tecnologias da Imagem, compreende os soas e entidades, de que nos cumpre destacar
discursos/comunicações referentes à Aber- a Universidade da Beira Interior, o Instituto
tura e Sessões Plenárias (Capítulo I), Fo- de Comunicação Social, a Fundação para a
tografia, Vídeo e Cinema (Capítulo II), Ciência e Tecnologia e a Fundação Calouste
Novas Tecnologias e Novas Linguagens Gulbenkian.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 11

Capítulo I

ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO


12 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 13

Apresentação
Helena Sousa e César Bolaño1

A economia e as políticas da comunica- recepção tenham de algum modo perdido


ção são áreas de estudo tão antigas como o relevância. Estas linhas transversais de estudo
seu próprio objecto. Tanto as telecomunica- da comunicação e dos media mantiveram (e
ções como os media tradicionais (imprensa, mantêm) toda a pertinência, mas não é mais
rádio e televisão) exigiam recursos e estes possível deixar de reconhecer as profundas e
nunca deixaram de ser analisados pelos aceleradas mutações na estrutura do campo
investidores e pelos académicos. No entanto, comunicacional. A intensa reorganização dos
tal como aconteceu noutras sub-áreas da vasta sistemas tradicionais de comunicação, o de-
inter-disciplina das Ciências da Comunica- senvolvimento de novos (e alternativos) media
ção, podemos afirmar que só de há meio à escala global (com inevitáveis interligações
século a esta parte é que se constituiu um com outros níveis de análise) e a criação de
corpo teórico verdadeiramente consistente. novos mecanismos de regulação deu um forte
O extraordinário desenvolvimento impulso aos estudos da economia e das
tecnológico dos anos 60, com as subsequentes políticas dos media e, consequentemente,
aplicações e com a intensa comercialização obrigou os académicos a desenvolver novos
ocorrida nas décadas seguintes, fez com que instrumentos analíticos para uma mais ade-
as comunicações à distância e os media as- quada compreensão da crescente complexida-
sumissem um papel sem precedentes nas de das vertentes económica e política das
economias das sociedades ocidentais. As trans- comunicações e dos media.
formações tecnológicas possibilitaram a ofer- Apesar da riqueza e da diversidade de
ta de novos produtos e serviços e os media aproximações teóricas que este sub-campo
deixam de ser equacionados (essencialmente) suscita, é hoje de particular importância o
pelo seu potencial educativo, informativo e contributo de autores que se caracterizam pela
de entretenimento. abordagem holística e que frequentemente se
Particularmente depois dos anos 80 do enquadram no âmbito da chamada Economia
século passado, teve lugar uma profunda Política da Comunicação e/ou dos Media. Entre
erosão das tradicionais estruturas de comu- muitos outros, podemos destacar Dallas Smyth,
nicação nos Estados Unidos (ex: com a Vincent Mosco, Nicholas Garnham, Graham
desagregação da AT&T e respectiva criação Murdock, Peter Golding, Moragas Spá, Janet
das «baby Bells»), no Japão (com a Wasko e Richard Collins. Mais do que iden-
privatização parcial da NTT) e na Europa tificar padrões de produção, de distribuição e
(com o fim do monopólio da maior parte dos de consumo e mais do que procurar compre-
serviços públicos de televisão, com a ender as estruturas políticas e reguladoras que
privatização das empresas nacionais de te- os possibilitam, a Economia Política da Comu-
lecomunicações e com a proliferação de nicação, com as suas assumidas preocupações
entidades reguladoras). O fim das estruturas com a justiça social, tem contribuído fortemente
tradicionais das comunicações no mundo para um entendimento profundo das estruturas
ocidental – com profundas implicações nos e das lógicas de poder subjacentes aos processos
sistemas de comunicação por toda a América de transformação de mensagens e de conteúdos
Latina, África e Ásia – fez com que a simbólicos em mercadorias.
academia redobrasse a sua atenção sobre as
questões económicas e políticas. _______________________________
Tal não significa evidentemente que as 1
Respectivamente, Universidade do Minho e
questões fundamentais que se relacionam com UFS/Brasil. Coordenadores da Sessão Temática de
os conteúdos, funções, representações e Economia e Políticas da Comunicação do VI Lusocom.
14 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 15

La desregulación invisible:
el caso de la televisión local por ondas en España
Ángel Badillo Matos1

Introducción2 1. La regulación del fenómeno de la


televisión local en España
Apenas hace días y a escasas fechas de
las últimas elecciones generales, el Ministerio Hemos definido 3 periodos regulatorios
de Ciencia y Tecnología ha aprobado el nuevo para la televisión local en España: el primero
Plan Técnico de la Televisión Digital Local3, coincide con las primeras experiencias de
con el que el ejecutivo ya saliente pretende audiovisual local, todavía sin ninguna norma
abocar a las estaciones de televisión local que ordene el sector; el segundo se abre con
por ondas hacia la digitalización de sus la propuesta del Gobierno del PSOE que se
emisiones. Éste es un paso que culmina un convertirá en la Ley 41/1995; el tercero surge
proceso que llamaremos en este trabajo de con la victoria electoral del PP y la
“desregulación invisible” de la televisión local reordenación del sistema audiovisual que,
que comienza con la llegada del Partido basándose en la implementación de la TDT,
Popular al Gobierno en 1996 y concluye, al va a hacer el Gobierno central y que se
menos momentáneamente, con la publicación extenderá hasta la modificación del texto de
del Plan Técnico en marzo de 2004 – y la 1995 a través de las leyes de acompañamiento
de los presupuestos generales del Estado para
derrota electoral de los populares en las
2003 y 2004.
elecciones generales. Estos ocho años han
supuesto para la televisión local en España
1.1 El periodo de la “alegalidad”
una verdadera transformación de un sector
más relacionado con la iniciativa pública y
La primera experiencia de televisión local
sin ánimo de lucro en la mayor parte del país4
desarrollada en España es la que se puso en
a un espacio clave para la inversión y el
marcha en Cardedeu (Cataluña), el 7 de junio
posicionamiento de los grandes grupos de de 19806 y a raíz de ella muchos otros
comunicación5. municipios pusieron en marcha emisoras
El camino que se ha recorrido en estos similares. Estas primeras experiencias son
ocho años pasa por una reformulación del herederas – en algunos casos incluso
“modelo” de televisión local propuesto por coetáneas – de las primeras radios libres: su
el Parlamento dominado por el Partido principal argumento es el del libre acceso al
Socialista Obrero Español (PSOE) en 1995 espacio radioeléctrico en nombre de las
hasta una tendencia al mercado, y en la libertades democráticas, contra el poder del
práctica a la libre ocupación de frecuencias, Estado en la administración de ese recurso7
impulsada por el Partido Popular (PP) desde y en muchos casos con el interesado apoyo
su primera llegada al Gobierno y hasta hoy. de las empresas fabricantes de tecnología
Este trabajo pretende, desde un análisis de audiovisual8. Al tiempo que en Cataluña, en
políticas de comunicación, acercarse a esta otras zonas del país se viven fenómenos de
transformación y explicarla conforme a dos televisión local ligados a pequeñas
factores: (a) la desactivación de la función productoras audiovisuales que difunden
sancionadora de la administración durante los televisión local sin permisos oficiales, tan sólo
últimos años en materia de ocupación de con el visto bueno de los Ayuntamientos,
frecuencias y (b) la reordenación de canales durante las fiestas de las localidades o como
de emisión consecuencia de la transición a manifestación de la necesidad de estructurar
la televisión digital terrenal. vías de comunicación local.
16 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

La actitud de la Administración ante este satélite, pero deja fuera la regulación de la


fenómeno colabora en la configuración de dos televisión local10. Una clave más de este
modelos diferenciados: por un lado, la cambio de perspectiva la encontramos en el
experiencia catalana, donde el mayor Plan Nacional de Telecomunicaciones 1991-
desarrollo de la sociedad civil, su articulación 2002, publicado en 1992, que se refería a
más fértil y la mayor implicación de los las previsiones del Gobierno en torno a la
Ayuntamientos genera un gran número de televisión local por ondas, que esperaba fuera
experiencias de comunicación local apartadas eliminada por un lado por el aumento de
de la legalidad – no ilegales, sino alegales, oferta producido por la llegada de las privadas
como se venía denominando a su situación y, por otro, por las actuaciones
– que contaban con el apoyo de las entidades gubernamentales tendentes a la orientación
locales e incluso autonómicas. En el resto de las experiencias de ondas hacia el cable:
de España, la situación apareció bien distinta:
aunque sí se desarrollaron a lo largo de la “El incremento de la oferta de
primera mitad de los ochenta experiencias de televisión con la puesta en servicio
televisión local, estuvieron marcadas por la de los 3 programas privados y
temporalidad – lo que en otros lugares hemos penetración de las televisiones
llamado “titiriterismo audiovisual” – y por públicas, tanto TVE como las
la actitud belicosa de la Administración autonómicas, previsiblemente
central, a través de cuya Dirección General autoeliminarán las experiencias
de Telecomunicaciones se otorgaban las incontroladas de hace unos años de
licencias para la emisión temporal. Esta televisiones locales, tanto por ondas
persecución por parte de los poderes públicos como por cables. No obstante, a lo
encuentra su reacción en el asociacionismo largo de 1992 deberá regularse la
y las reuniones sectoriales que se repiten en distribución de televisión local por
esos años en busca del reconocimiento de cable para canalizar hacia esta
la alegalidad de la actividad. modalidad las demandas todavía
En todo caso, las primeras experiencias insatisfechas, estableciéndose un
de televisión local hertziana en España distan procedimiento transitorio que permita
mucho de estar en una órbita totalmente hacer confluir hacia esta tecnología la
comercial y cuentan con una implicación televisión local por ondas”.11
municipal que varía en función de las zonas9.
El progresivo crecimiento del fenómeno El cambio de legislatura resultará
hace que la administración central empiece determinante. En un Parlamento que el PSOE
a preocuparse por su posible regulación. ya no controla con mayoría absoluta – sino
Primero, entendiendo la televisión local como con el apoyo de partidos nacionalistas
una de las “nuevas formas de televisión” que procedentes de varias comunidades
se implantarían en el futuro. Así es durante autónomas y partidarios de expandir el tejido
la gestión del ministro socialista José de comunicación local – los movimientos en
Barrionuevo. Pero su sustitución por José torno a la regulación definitiva de la televisión
Borrell coincide con el envío de esta cuestión local se suceden y empiezan a cristalizar en
al Consejo Asesor de las Telecomunicaciones, 1994 con la publicación y difusión de los
en el que presumimos que la presencia de primeros borradores de una futura norma
los operadores de televisión privada – en sobre la televisión local, una vez decidida
especial de Antena 3, beligerante en ese la separación de regulaciones para las nuevas
momento con todas las experiencias de formas de televisión (cable, satélite y local).
televisión local – condiciona un radical
cambio de actitud: a partir de ese momento, 1.2 La ley de televisión local de 1995
el Gobierno comienza – finales de 1991 –
a desmarcarse de la posible legalización del En 1994, el Grupo Federal de Izquierda
fenómeno de la televisión local: el proyecto Unida (IU) y el Parlamento de Cataluña
de ley de presupuestos para 1992 contempla presentan iniciativas legislativas para que se
el inicio de la regulación del cable y el regule la televisión local, y también lo hace
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 17

el Gobierno del PSOE. El texto presentado PSOE accedió a aproximarse al modelo


incide sobre la escasez de operadores (uno planteado por CiU valorando positivamente
por demarcación) y la preferencia por los en los concursos a las entidades sin ánimo
ayuntamientos como concesionarios, que de de lucro12, aumentó hasta 2 el número de
no ejercer esa posibilidad la cederían sólo licencias cuando fuera posible en función del
a entidades sin ánimo de lucro. Tanto los espectro siguiendo una enmienda del PNV13,
operadores como el principal partido de la aceptó las críticas al escaso plazo de
oposición, el PP, se mostraron disconformes concesión para aumentar la prórroga a los
con esta propuesta y abogaron por un número 5 años, pero sobre todo el Grupo
de operadores limitado sólo por las exigencias Parlamentario Socialista en el Congreso
de espectro. Distinguimos tres modelos en flexibilizó buena parte de las normas dejando
la concepción de la televisión local por parte mayor margen de maniobra a las comunidades
de los distintos grupos parlamentarios, a autónomas en ejercicio de sus competencias,
través del análisis de sus enmiendas al texto como pedían especialmente PNV, ERC y CiU.
del Gobierno y de sus intervenciones en las La Ley fue publicada finalmente en el
sesiones parlamentarias de tramitación del BOE como Ley 41/1995 de Televisión Local
texto: por Ondas Terrestres y finalmente planteaba
a. El modelo propuesto por el Gobierno, un modelo de televisión local (a) de servicio
municipalista y conectado con el modelo público, (b) de ámbito estrictamente local,
existente de televisión local en Andalucía, (c) con dos licencias como máximo por
próximo al cual se encuentra el propuesto municipio, (d) con prioridad para
por ERC de televisiones municipales. Este ayuntamientos y entidades sin ánimo de lucro
modelo asume la televisión local como una frente a iniciativas empresariales, (e) sin
actividad de los ayuntamientos que sólo posibilidad de emisión en cadena, (f) con 5
podría ser prestada por otro tipo de entidades años de concesión renovables – pero con la
en el caso de que las municipalidades indicación de que el modelo es provisional
prefirieran no desarrollar sus propios canales hasta la transición digital – y (g) sin necesidad
locales. Es una propuesta similar a la de un Plan Técnico nacional, sino con
concepción de las emisoras municipales de frecuencias asignadas a solicitud de las
radio en la Ley 11/1991. comunidades autónomas (es decir, como se
b. El que combina la actividad de los venía haciendo desde 1991 con las emisoras
ayuntamientos con la de los entes sociales de FM municipales). Se podría resumir el
sin ánimo de lucro, dinamizada por IU-IC marco regulatorio diseñado como la base para
y CiU. En ambos casos se trata de la creación de un tejido audiovisual
concepciones en las que la sociedad civil, provisional, condicionado a las
a través de asociaciones no lucrativas, puede transformaciones tecnológicas a corto plazo
proporcionar el servicio de comunicación del sistema audiovisual español, que tratará
local televisiva con al menos tantas garantías de impulsar el desarrollo de un audiovisual
como el ayuntamiento. local de uno o dos operadores con gran peso
c. El más fuertemente mercantilizador de de la iniciativa de las administraciones locales
la actividad es el propuesto por Coalición y que reconoce sus competencias a las
Canaria y el PP. Para ellos, la televisión local comunidades autónomas en la definición de
debería ser desarrollada, fundamentalmente, modelos más o menos desregulados en lo
por entidades mercantiles en régimen de libre referente a los contenidos.
competencia, para favorecer la creación de
un “mercado de ideas” que incrementara el 1.3 La “desregulación invisible”: las
debate democrático local. políticas públicas del Partido Popular en
El tránsito parlamentario sirvió para materia de televisión local 1996-2004
delimitar los aspectos del texto final,
especialmente por la necesidad de El texto de 1995 quedó, sin embargo, sin
negociación del Gobierno con los grupos el adecuado desarrollo legislativo. Publicado
políticos dado el reparto político del arco en los últimos días de diciembre de 1995,
parlamentario en la V Legislatura. Así, el se encontró con la victoria parlamentaria del
18 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

PP en marzo de 1996, que lo congeló. Las Mientras tanto, la Ley 41/1995 seguía sin
dos legislaturas siguientes, controladas por desarrollo, y sin él las Comunidades
el PP, verían distintas configuraciones Autónomas continuaban sin poder adjudicar
administrativas de la política en materia de las licencias. Varias autonomías realizaron
comunicación, primero con el Ministerio de desarrollos normativos complementarios a la
Fomento y después, en el segundo gabinete Ley 41/199516 – así lo hicieron Navarra,
Aznar, con el Ministerio de Ciencia y Cataluña, Castilla La Mancha y Andalucía,
Tecnología. Pocos meses después de ganar y otras como Murcia o Extremadura se
las elecciones, el Gobierno sostenido por el quedaron en puertas – pero en todo caso
PP comienza un serio intento de infructuosos. Sin embargo, a falta de un
reestructuración del sistema audiovisual camino parlamentario para la transformación
español. El 21 de febrero de 1997, el del tejido de televisión local, el Partido
Ejecutivo lanza el Plan de liberalización y Popular optó por desactivar las sanciones a
de impulso de la actividad económica14. En la ocupación del espectro. De esa manera,
él se propone la supresión del carácter de la televisión local empezó a convertirse en
servicio público de las televisiones locales tierra de nadie y las ocupaciones de frecuencia
y autonómicas, que pasarían así de un se multiplicaron ante la falta de sanciones
régimen de concesión a un proceso de y con la ausencia de normativa para emitir
obtención de la oportuna autorización reglada. legalmente. En este sentido, la reordenación
Fruto de este nuevo enfoque, el Ejecutivo de los canales de UHF para la implantación
lleva al Parlamento en febrero de 1997 un de la TDT17 – realizada en 1998 – ha tenido
Proyecto de Ley de modificación del texto un papel destacado al indicar a los
de 1995: el Proyecto de Ley propone la “ocupantes” de frecuencias cuáles iban a ser
supresión del carácter de servicio público de utilizadas para la futura televisión digital y
la televisión local, con lo que los operadores dejando los demás (salvo los ya utilizados
no necesitarían una concesión, sino para emisiones nacionales y regionales) como
simplemente una autorización administrativa. inutilizados hasta el apagón digital anunciado
El texto advierte que el límite fijado en 1995 por el Gobierno del PP para 2012. Las
de dos estaciones por municipio no tiene aproximaciones a esta cuestión mediante
sentido en este nuevo marco, y el número trabajo de campo han mostrado claramente
de operadores puede aumentarse hasta tantos cómo se ha producido la elección de canales
como permita el espectro radioeléctrico, de emisión con este factor de fondo18.
eliminando además la preferencia por los Aunque es imposible dar una referencia
Ayuntamientos en la gestión del servicio; exacta de cuántas frecuencias ocupadas por
como último rasgo importante, el texto señales de cobertura local existen en España,
propone prohibir que las televisiones locales sabemos que son muchísimas: la revista Cine
de titularidad municipal se financien a través y Teleinforme hablaba en 2001 de 1.50019,
de publicidad si lo hacen a través de los otra publicación del sector, Cinevídeo20 las
presupuestos públicos. Sin embargo, el PP cifraba en 1.20020, el diario El País ofrecía
no controlaba la mayoría absoluta en el cifras similares21. No es éste un dato fácil
Parlamento para aprobar el texto, y las de obtener, puesto que no existe ningún
propuestas de su “socio” de Gobierno en reflejo en documentos públicos procedentes
aquel momento, CiU – que defendía una del Ministerio de la ocupación de frecuencias,
estructura de la televisión local más y los estudios más minuciosos, como los de
proteccionista con la experiencia catalana de la AIMC22, reflejan tan sólo aquellas de las
emisoras sin ánimo de lucro –, suponían que existe constancia documental y un
renunciar a buena parte de esos principios. funcionamiento regular. Los censos de AIMC
Por ello del Partido Popular optó por retirar muestran sin embargo el crecimiento
el texto, aunque en los meses siguientes los sostenido del sector: el último informe de
responsables ministeriales volvieron a insistir la Asociación para la Investigación en Medios
en el deseo del Gobierno de abrir la televisión de Comunicación cifra el número de
local al mercado15. estaciones aéreas en 897, frente a las 741
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 19

que fueron censadas en 1999 y las 881 que barras o con emisiones vía satélite – en
aparecían en 1996, claro que contando en todos muchos casos financiadas por audiotex –
los casos tanto emisoras vía cable como vía frecuentemente con la intención de especular
éter23. En todo caso, el modo en el que se realiza con ellas y revenderlas a elevados precios
el estudio no permite recoger todos los casos a los operadores que deseen entrar en el
de ocupación de frecuencias, como se puede mercado… En esta situación caótica que se
ver en la nota metodológica de los estudios ha vivido en la televisión local española en
de AIMC. Pues bien, si revisamos los datos los últimos tres años, los últimos en
del censo de AIMC de 1999, sólo el 69% de incorporarse son los grandes grupos de
las emisoras existentes habían sido creadas antes comunicación, en especial Vocento (con
de 1995, como la ley exigía24. Trabajando con vocación de convertirse en un grupo que
los datos del censo de 2002, el 47% de las incorpore pequeños “multimedia regionales”
emisoras locales por ondas que hoy existen en que incluyan una estación de televisión local
España fueron creadas después de 1995 – un en los mercados en los que opera), Prisa (con
total de 244 –, frente al 44% que sobreviven la red Localia, que ya incorpora a más de 60
hoy de las creadas antes de esa fecha – 227 estaciones) y la cadena radiofónica COPE
emisoras – , más un 9% de las que (mediante Popular Televisión, que supera ya
desconocemos su año de inicio de emisiones. las 50 estaciones). La mercantilización e
Dicho de otra manera: en el plazo de 7 años, industrialización del sector en los últimos 4
entre 1995 y 2002, se crearon más emisoras años ha sido muy notable, en medio de una
– aun cuando en teoría no estaba permitido vorágine de ocupación de frecuencias y
hacerlo – que en los primeros 14 años de creación de nuevas estaciones, muchas más
existencia de este tipo de estaciones, de 1980 – no cabe duda – de las que recoge el censo
hasta el año de su regulación (Figura 1). de AIMC cuyos datos se comparan, en esta
En realidad, y dado que no se ha figura, con los expedientes abiertos por la
producido ninguna modificación de la Ley administración en los últimos años (Figura 3).
41/1995 hasta diciembre de 2002, todas las Como se aprecia en los modelos gráficos,
emisoras creadas a partir de la promulgación existe una clara desactivación de la actividad
de la ley son, estrictamente, ilegales. Las sancionadora de la Administración en materia
emisoras de televisión local posteriores al 1 de televisión local. Las razones para esta
de enero de 1995 podrían encuadrarse en reducción del número de sanciones no han
distintos tipos de infracciones de la Ley sido manifestadas por el Gobierno
General de Telecomunicaciones, que es bien públicamente, pero coinciden en el tiempo
clara respecto a la imposibilidad de utilizar con la reestructuración del sistema
frecuencias sin el correspondiente título audiovisual que propone el Partido Popular
habilitante – tanto la de 1998 como la de a través de la implementación de la Televisión
2003 tipifican como infracción la ocupación Digital Terrenal, cuyas consecuencias serán
de espectro. Sin embargo, y pese a la determinantes para la reordenación del
explosión de operadores que entran en los espectro y para la reactivación de la Ley 41/
últimos años en el mercado, las sanciones 1995 que se produce, finalmente, en el marco
a televisiones locales descienden de manera de la TDT en 2002. El PP realiza los cambios
muy significativa desde 1999 (Figura 2). a través de la Ley de Acompañamiento de
Esta situación permite la entrada de los Presupuestos Generales del Estado (tanto
centenares de nuevos operadores en el en 2002 como en 2003) y con ellos marca
mercado: algunos que disponían de estaciones la transición de la televisión local hacia la
de emisión en redes de cable saltan a ondas, TDT, cuya implantación es hoy, 6 años
otros multiplican los canales ocupados para después de su regulación, uno de los más
aumentar la cobertura más allá de la local, llamativos fracasos de las políticas de
algunos crean redes que se convierten de facto telecomunicaciones y sociedad de la
en emisoras con coberturas autonómicas información del Partido Popular. La
(como ocurre en Castilla y León con Canal publicación, apenas unos días antes de las
4 o Televisión Castilla y León), muchos otros elecciones de marzo de 2004, del Plan
ocupan frecuencias y rellenan su espacio con Técnico Nacional de la Televisión Digital
20 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Figura 1
Emisoras de televisión local creadas en España,
por año declarado de comienzo de emisiones, según la AIMC (2002)

Fuente: elaboración propia sobre datos de AIMC (2002).

Figura 2
Expedientes sancionadores a televisiones locales (1997-2002)

Fuente: elaboración propia sobre datos del Ministerio de Ciencia y Tecnología.


ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 21

Figura 3
Expedientes abiertos por la Administración y emisoras creadas por años

Fuente: elaboración propia con datos del Ministerio de Ciencia y Tecnología y AIMC (2002).

Terrestre – pendiente de publicación en el industrialización como garantía para encontrar


Boletín Oficial del Estado cuando se escribe en los mercados de comunicación operadores
este texto – plantea un futuro complicado para fuertes capaces de proporcionar un servicio
las televisiones locales, a las que se obligará atractivo y competitivo a los ciudadanos. Para
a pasar a emisión digital. El nuevo entorno ello, en los distintos ámbitos pero en especial
dibujado por el Gobierno del Partido Popular en el de las telecomunicaciones, las políticas
permite la existencia de más de mil emisoras del PP han estado orientadas – con la poderosa
en el territorio del estado español y reserva de influencia de las directrices comunitarias en
cada múltiplex local a la gestión municipal – este campo – hacia la apertura al mercado y
sólo en el caso de que los ayuntamientos así la eliminación de las barreras de entrada a
lo deseen –, lo que orienta el paisaje final de los distintos mercados de la comunicación.
la televisión local en España al modelo El ámbito de la televisión local ha vivido
también esta decidida orientación
planteado en los debates parlamentarios por el
desregulatoria pero, al contrario de lo que
PP, deja espacio a todas las emisoras existentes
ocurre habitualmente con las desregulaciones,
y aún más (si consideramos la cifra recogida
que son articuladas mediante un proceso
en el censo de AIMC), y las fuerza a una hiperreglamentarista que dispara el número
transición digital que probablemente eliminará de normas que rigen los nuevos mercados,
a las más pequeñas ante las importantes el camino hacia el mercado se ha abierto en
inversiones que los operadores tendrán que España mediante la desactivación de las
hacer para obtener la habilitación antes del 1 sanciones administrativas por ocupación de
de enero de 2006 – según las últimas espectro, lo que Bustamante ha denominado
modificaciones incorporadas a la Ley 41/1995. una situación de “pasividad cómplice de la
administración en los últimos tres años”25.
2. Conclusiones: desregulación de la En definitiva, como sugerimos en esta
televisión local y transformación hacia el investigación, la opción desregulatoria se ha
mercado articulado de una manera silenciosa, pero ha
conseguido una verdadera transformación del
La actitud del Gobierno del Partido Popular tejido audiovisual local que sin duda
en materia de telecomunicaciones y sociedad condicionará cualquier decisión política que
de la información ha estado claramente el nuevo Parlamento español quiera tomar al
orientada hacia la apuesta por la respecto en la legislatura 2004-2008.
22 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

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2
(Ed.), Comunicación y cultura en la era Una versión anterior de este trabajo se
presentó ya en el I Congreso Ibérico de
digital (pp. 213-264), Barcelona, Gedisa,
Comunicación, celebrado en la Universidad de
2002. Málaga en 2001. El marco general de esta
Comisión del Mercado de las investigación fue defendido como tesis doctoral
Telecomunicaciones, La televisión digital en la Universidad Autónoma de Barcelona, bajo
terrenal en españa. Situación y tendencias, la dirección del Dr. Emili Prado i Picó, en 2003.
Madrid, Comisión del Mercado de las 3
En el momento de redactar este texto, el
Telecomunicaciones y Consell Audiovisual de Plan Técnico se encuentra pendiente de
Catalunya, 2002. publicación en el Boletín Oficial del Estado.
4
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comunidade”, Estudios de Comunicación, 0, y aportaciones de la experiencia catalana (Trans.
169-178, 2001. ed. Vol.), Barcelona, Col.legi de Periodistes de
Navarro Moreno, J. A., La televisión Catalunya, 1991.
8
local: Andalucía, la nueva comunicación, Baget i Herms, Historia de la televisió a
Madrid, Fragua-Medea, 1999. Catalunya (Trans. ed. Vol.), Barcelona, Centre
Prado, E., & Moragas, M., Televisiones d’Investigació de la Comunicació de la Generalitat
de Catalunya, 1994.
locales: Tipología y aportaciones de la 9
Corominas and Llinés, La experiencia
experiencia catalana, Barcelona, Col.legi de catalana de radiotelevisión local: un importante
Periodistes de Catalunya, 1991. fenómeno social y comunicativo (Translator, Trans.
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ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 23

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Edition ed. Vol. 0), City, 2001; Navarro Moreno, Telecomunicaciones y Consell Audiovisual de
La televisión local: Andalucía, la nueva Catalunya, 2002.
18
comunicación (Trans. ed. Vol.), Madrid, Fragua- Durante el año 2002 se realizó un extenso
Medea, 1999; Prado and Moragas, Televisiones trabajo de campo en Castilla y León en el que
locales: tipología y aportaciones de la experiencia se demostró ampliamente este extremo. Véase
catalana (Trans. ed. Vol.), Barcelona, Col.legi Badillo, La desregulación de la televisión local
de Periodistes de Catalunya, 1991. en España: el caso de Castilla y León, Tesis
10
El País, 9 de octubre de 1991. Doctoral, Universidad Autónoma de Barcelona,
11
Dirección General de Telecomunicaciones, Bellaterra (Barcelona), 2003.
19
Plan Nacional de Telecomunicaciones 1991-2002 Teleinforme, Televisión local: un negocio
(Trans. ed. Vol.), Madrid, Ministerio de Obras en alza. Cine y Teleinforme, 41-62, 2001.
20
Públicas y Transportes, 1992. Ferreras, TV local: ante un gran reto.
12
Diario de Sesiones, Congreso de los CineVídeo 20, 14-22, 2001.
21
Diputados, Comisión de Infraestructuras y Medio El País, 20 de mayo de 2001.
22
Ambiente, 4 de octubre de 1995, p. 17437. AIMC, Censo de televisiones locales (No.),
13
Véase Boletín Oficial de Cortes Generales, Madrid, AIMC,1996; AIMC, Censo de
Congreso de los Diputados, 6 de octubre de 1995, televisiones locales (No.), Madrid, AIMC,1999;
p. 79. AIMC, Censo de televisiones locales (No.),
14
Un extracto del mencionado Plan Madrid, AIMC, 2002.
23
liberalizador puede revisarse en http:// AIMC, Censo de televisiones locales (No.),
w w w. m i n h a c . e s / G A B I N E T E P / M e d i d a s - Madrid, AIMC, 1999; AIMC, Censo de
Economicas/1997-1998/LIBER2.htm. televisiones locales (No.), Madrid, AIMC,2002.
15 24
Se puede revisar este proyecto en el Boletín El dato es de elaboración propia sobre el
Oficial de Cortes Generales, serie A, 17 de febrero censo AIMC de emisoras de televisión local de
de 1997, núm. 30-1. 1999.
16 25
Rozados Oliva, La televisión local por Bustamante, “Televisión: errores y frenos
ondas: régimen jurídico (Trans. ed. Vol.), en el camino digital” Trans.). In Bustamante
Granada, Comares, 2001. (Ed.),^(Eds.), Comunicación y cultura en la era
17
Comisión del Mercado de las Tele- digital (ed., Vol. pp. 213-264), Barcelona, Gedisa,
comunicaciones, televisión digital terrenal en 2002.
24 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 25

OV - organização virtual
Artur Castro Neves

Políticas públicas e organizações sem fins aplicações específicas de programas


lucrativos (software: Microsoft word, Netscape
navigator, o programa do call center da
Numa economia baseada nas indústrias Telecel, uma folha de cálculo de um serviço
de serviços de natureza pública ou de contabilidade, um formulário na Internet,
parapública (educação, pesquisa, formação etc…) – destinadas a suportar informação e
profissional, cultura) a intervenção do Esta- a transmiti-la, compreendendo todas as ta-
do tem uma incidência muito forte na ac- refas necessárias a essas actividades como
tividade empresarial, tornando as políticas processamento, arquivo, classificação, busca,
públicas (sobretudo aquelas que beneficiam envio, transmissão, transferência e recepção.
o capital humano) um factor determinante da Esta informação consiste na tradução em
produtividade e da competitividade econó- linguagem binária de texto, som e imagens,
micas.1 ou criação em linguagem binária de repre-
Designamos este novo paradigma da sentações daqueles ou de informação sobre
intervenção do Estado como “políticas pú- eles.
blicas” e descrevemo-lo como uma “inter- As tecnologias da informação e comu-
venção pré-competitiva” na área das infra- nicação compreendem igualmente, e por
estruturas e da qualificação profissional. O definição, sistemas de telecomunicações e a
Estado, de interventor, passa a ser construtor utilização de conteúdos media, que lhes dão
de ambientes, e da sua eficácia depende a razão de ser e explicam a sua génese. De
competitividade e segurança económica dos qualquer modo a nossa exposição centrar-se-
tecidos industriais. á em torno do conceito de informação.
As organizações sem fins lucrativos O crescimento desta mede-se não só pela
deveriam inscrever-se nesta forma de inter- capacidade de produção de tecnologias da
venção a montante do normal funcionamento informação e comunicação, mas sobretudo
dos mercados, mas a pensar nestes. pelo consumo de tecnologias da informação
A nova filosofia social fundamenta as e comunicação pelos outros sectores da vida
ventures das organizações sem fins lucrati- social.
vos como iniciativas de promoção de bens
públicos com externalidades no desenvolvi- Arquitecturas e intervenção operacional
mento de negócios privados e da economia
em geral. Ainda vão passar vários anos para A informatização de uma organização
que aqueles que apregoam o “excesso do Es- através da introdução das tecnologias da
tado” e as “ineficiências do Estado” com- informação e comunicação implica uma
preendam na prática legislativa e numa alteração das estruturas administrativas e
concepção avançada de governabilidade o que operacionais, dos métodos e dos comporta-
é um “bem público” e o papel do sector não mentos.
empresarial na promoção da competitividade Diz-se assim que a arquitectura da or-
dos tecidos sócios-económicos. ganização se deve adaptar ao modelo
informacional decorrente de como vão ac-
Tecnologias da informação e comunicação tuar as TIC:

As TIC são ferramentas electrónicas – a. Bases de dados relacionais:


materiais (hardware : PCs, modems, rooters, O primeiro passo é a digitalização ou
impressoras, cartões, chips…), programas e processamento dos conteúdos para obter uma
26 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

informação estruturada e uma documentação Após a transformação da informação e


organizada. dados em conhecimento entra-se na fase dos
sistemas de apoio à decisão que visam
O segundo passo consiste na classificação melhorar os resultados da actividade.
dos conteúdos transformando-os em dados.2 É esta avaliação que vai permitir a
redefinição de objectivos e programas.
b. Produção de conhecimentos Após a escolha e decisão, é eventualmente
A produção de conhecimentos resulta do necessário redesenhar a actividade e operar
trabalho efectuado sobre os chamados “co- a reengenharia dos processos e sistemas de
nhecimentos implícitos” na informação não fabricação.4
estruturada, contida em documentos do tipo Este conjunto de actividades costuma
de relatórios, estudos, memórias, notas e designar-se por inovação, e constitui uma área
recortes, etc.. particularmente importante na estruturação
É o terceiro passo que pressupõe a das organizações, merecendo um tratamento
extracção de conceitos e sua indexação às autónomo.
bases de dados.3
Inovação
c. Gestão dos conhecimentos, avaliação
e reengenharia Por inovação entendemos a introdução de
O conhecimento obtido passa a ser en- novos processos, bens ou serviços, visando
riquecido com a informação originada na a maximização dos resultados comerciais.5
execução das actividades da organização. A inovação como conceito da nova
economia resulta da introdução das tecnolo-
Esta informação, para poder assegurar gias electrónicas nos processos industriais, e
uma eficiente captura e recolha de informa- significa assumir estrategicamente todas as
ções sobre a actividade e experiência da consequências dessa introdução.
organização, utiliza diversos tipos de fontes Podemos assim estabelecer duas condi-
(Internet, negócios, intercâmbios), de canais ções muito importantes na organização das
(site, correio electrónico e postal) e de agentes actividades ditas “avançadas”:
(empresas cadastradas, visitantes do site, 1. introdução sistemática dos novos sis-
redes de informadores, clientes). temas de informação nas disciplinas de
Este trabalho transforma a base de dados marketing e comercialização;
num Arquivo vivo em que a distinção entre 2. capacidade operacional de organizar a
presente, passado e futuro, passa a ser fun- produção e decidir processos e produtos, em
cional e subsumida à indexação classifica- função de estratégias apoiadas na aprendi-
tória. zagem resultante da monitorização e avali-
Este Arquivo, que na linguagem banal das ação dos resultados da actividade comercial
organizações virtuais se designa por A compreensão do facto de que a defi-
datawarehouse, passa a constituir um dos nição de negócios depende da capacidade das
principais activos. empresas em compreender e adoptar as dis-
No Arquivo podem obter-se conhecimen- ciplinas que permitem transformar o saber-
tos sobre como, com quê, e quanto se pro- fazer em conhecimentos e estes em novos
duziu, quem, como, quando e onde o pro- processos ou produtos, ou seja, novos negó-
duto/serviço foi utilizado, quantas vezes, e cios, é o novo registo estratégico da activi-
com que reactividade. dade económica na sociedade da informação.
As técnicas para obtenção destes conhe-
cimentos são designadas de data research e Modelo de negócio
data mining.
Existem outras disciplinas importantes, como A actividade económica na sociedade da
o data marketing e a gestão do cliente (CRM informação, sobretudo com o desenvolvimen-
– costumer relationship management), que se to das indústrias de serviços de informação,
destinam a produzir e explorar informações tende a configurar um formato, vulgarmente
destinadas à inovação, referida mais abaixo. designado de modelo de negócio, que articu-
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 27

la em si aspectos tecnológicos, processos de electrónico) alteraram o conceito de evolu-


fabricação e características estruturais de ção tecnológica.
produtos/serviços, incluindo os modos da sua Hoje, o problema não é adquirir/impor-
exploração comercial e marketing. tar capital fixo, mas ter capacidade para
De facto, com o aparecimento das novas proceder a transformações / transferências
tecnologias de informação e comunicação, tecnológicas. Estas transformações / trans-
surgiram alterações na orgânica e logística dos ferências dependem da capacidade de assi-
negócios, impondo reengenharias tanto a nível milação do sistema educativo e de formação
da comunicação interna e externa das organi- profissional, dos sistemas nacionais de ciên-
zações, como nos seus processos de concepção cia e de inovação e ainda da organização de
e decisão, como ainda na operacionalização dos I&D industrial, a assimilar e acompanhar o
processos em toda a cadeia fabril. ritmo brutal de mudança tecnológica, cujos
É neste sentido que se pode falar em ciclos de aperfeiçoamento são por vezes
organização virtual, enquanto iniciativa semestrais.
institucional assente em redes de informação A formação ao longo da vida é um novo
e comunicação de base electrónica ao ser- conceito que responde ao paradigma da
viço de uma estratégia baseada na definição sociedade da informação e da economia
de negócios, entendendo esta última expres- baseada no conhecimento. Não cabe aqui
são como um conjunto articulado de activi- desenvolver o conceito7, mas devemos esta-
dades visando um resultado específico em belecer desde já alguns princípios:
direcção de públicos pré-seleccionados.6 1. uma organização baseada nas tecno-
logias da informação e comunicação, é por
Estratégia definição uma organização aprendente, como
resultado da regra de inovação permanente
Por estratégia entendemos o conjunto de a que está submetida
objectivos específicos de uma organização na 2. dada a difusão generalizada da infor-
prossecução do seu fim último. mação como base de toda a actividade
A estratégia traduz-se em Programas de institucional, a produtividade dos recursos
Actividades (“acções”) que integram um co- humanos depende da sua capacidade em
nhecimento adequado do terreno, ou “táctica”. comunicar e da eficiência das redes de
O modo global de operar de uma orga- comunicação
nização corresponde normalmente a uma 3. a formação (e informação8) permanen-
visão – do(s) empreendedor(es) –– do ponto te dos recursos humanos sobre as estruturas,
de onde se parte, ao ponto aonde se pre- programas de actividades, ferramentas e
tende chegar. integração ambiental da instituição, é uma
Os condicionamentos da actividade orga- necessidade normal de funcionamento.
nizada e do espírito empreendedor têm Esta área é muito importante e constitui
variado ao longo da história económica: obras um factor crítico de sucesso na produtivi-
públicas hidráulicas, fiscalidade, política de dade pela maneira como pode desenvolver
fronteira, criação de mercados internos, a capacidade cooperativa das chefias e dos
conquista colonial, etc.. restantes recursos humanos.
Hoje a principal condicionante é a con- Vamos agora tentar descrever melhor
corrência ou, mais precisamente, a capaci- como funcionam as organizações segundos
dade de competir nos mercados. os novos paradigmas da sociedade da infor-
mação.
Considerações breves em torno da expres-
são “guerra económica” II. Organização virtual

Ensino ao longo da vida Enquanto no primeiro capítulo descreve-


mos os principais conceitos operacionais da
A socialização da actividade informática sociedade da informação, dos quais decor-
e a predominância do software (programas rem consequências organizativas para o
informáticos) sobre o hardware (material conjunto da actividade sócio-económica, neste
28 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

capítulo vamos abordar, através de uma através de suportes, meios de envio e meios
análise mais ou menos desenvolvida da nossa de recepção, electrónicos.
concepção de organização virtual, o modo O grau de dependência da informação
como as organizações se devem preparar para analógica dos sistemas de informação digi-
os novos desafios. tais determina a natureza das redes electró-
nicas. (Pense-se na telecópia, num filme
Definição gravado em DVD, um concerto ao vivo em
CD, etc…)
Por organização virtual entendemos uma
organização cuja estrutura administrativa, o 3. Sistemas de gestão de conhecimentos
fluxo das suas actividades, as regras que
regem a sua comunicação tanto interna como Sistemas de gestão de conhecimentos são
externa, assentam em arquitecturas que ferramentas de pesquisa e exploração nas
derivam da estrutura das tecnologias da datawarehouse e de codificação da experi-
informação e comunicação. Diz-se assim que ência e saberes-fazer ainda não estruturados
uma organização virtual é uma organização das organizações. Estas ferramentas permi-
integrada por sistemas de informação. tem conhecer e compreender a realidade e
estão normalmente ao serviço dos órgãos de
Componentes da organização virtual decisão.
A partir destas tarefas primárias estes
As principais componentes de uma orga- sistemas integram uma avaliação geral dos
nização virtual ou avançada são: resultados a partir da análise do desempenho
e da comparação com a concorrência e com
1. Datawarehouse o que se passa nos mercados (benchmarking).
Esta avaliação é a base de apoio à decisão
As bases de dados relacionais são siste- para o ciclo seguinte de actividade, quer no
mas de arquivo de informação traduzida ou plano operacional (visando processos menos
criada originalmente em linguagem binária custosos), quer no plano dos objectivos de
(0,1), dita informação digitalizada ou numé- produção (definindo melhorar produtos ou
rica9, e classificada segundo critérios espe- criando novos produtos), segundo estratégias
cíficos. O conjunto desta informação dita que aqueles elementos permitem precisamente
“estruturada” designa-se por datawarehouse, desenhar com maior segurança.
e ao seu conteúdo dados ou data. Estas estratégias tanto podem ser de
Nos casos da “informação traduzida em redução de custos/preços para manter clien-
linguagem binária”, a informação original tes, como para reduzir margens para dissu-
encontra-se em arquivos “analógicos” ou adir a concorrência, como podem ser de novos
“físicos”. Estes arquivos, na medida em que produtos para satisfazer novas necessidades
se encontram integrados por uma organiza- dos clientes ou para entrar em novos mer-
ção virtual, têm uma estrutura dependente dos cados. Este processo de decisão, que implica
princípios classificatório e lexical do arquivo alterações operacionais nos processos (ou
digital.10 reengenharia) e alterações comerciais nos
Esta relação entre físico e virtual é uma produtos, designa-se de Inovação. Ele apoia-
das problemáticas mais fascinantes das te- se num quadro de pilotagem que reproduz
orias da sociedade da informação, e é pro- a vida da organização em tempo real e resulta
vavelmente o cerne crítico da eficácia das da sua informatização abrangente.
políticas públicas contemporâneas nas soci- A Inovação é assim o resultado da uti-
edades mais desenvolvidas.11 12 lização sistemática das tecnologias da infor-
mação e comunicação nas organizações,
2. Redes electrónicas desde os arquivos às operações e à gestão
de conhecimentos, até aos sistemas de in-
Redes electrónicas são sistemas de trans- formação de apoio à decisão (EIS- executive
missão de data ou informação digitalizada information systems).
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 29

As novas disciplinas da gestão de negócios (1) Informação interna: formação profis-


sional + CRM
Podemos definir agora uma organização Existem 3 tipos de informação no inte-
virtual mais detalhadamente: é uma organi- rior de uma organização:
zação em que as actividades, as tarefas dos a - a informação resultante das bases de
recursos humanos, os sistemas de comuni- dados ou informação estruturada
cação interna e externa, os sistemas b - a informação incluída em documentos
decisórios, são integrados por bases de dados, pouco ou não tratados electronicamente
redes e programas de comunicação electró- (como relatórios e Comunicações, actas e
nicos, cuja arquitectura decorre da utilização notas de reuniões, notas de síntese e estudos,
abrangente das tecnologias da informação e circulares e outra imprensa própria), dita
comunicação. informação não estruturada
c - a informação escondida na experiên-
a) Data management cia e no saber-fazer da organização, dita
conhecimento implícito.
As funcionalidades determinantes nestas Designa-se por gestão de conhecimentos
organizações decorrem de disciplinas novas, o programa de integração num corpo unifi-
proporcionadas pela informatização estrutu- cado dos conhecimentos implícitos e da
ral e operacional das actividades, que se informação não estruturada, devidamente
traduzem numa gestão electrónica de toda a codificados e classificados com a informa-
informação ou data management. ção estruturada das bases de dados. Este corpo
(1) Processamento de dados passa a chamar-se conhecimento explícito
A gestão da informação começa pelo ou simplesmente conhecimento.
processamento (“digitalização”) de dados, sua Existe ainda um campo específico da
classificação em arquivo, e prossegue pela
informação interna que convém relevar: os
sua circulação interna e externa.
dados relativos ao cliente.
(2) Fluxograma
Estes dados são de diversa ordem : desde
A gestão da informação traduz-se em
dados não estruturados do conhecimento
seguida no controlo da actividade através de
(implícito ou organizacionalmente implícito)
fluxograma, o que implica a produção de
do vendedor, passando pela informação
dados históricos sobre os dados existentes
externa adquirida, até aos dados passados
(que se designa por metadata, ou “dados
existentes nas bases de dados. Estes dados
sobre dados”), e que constitui a matéria prima
respeitam gostos, motivações, correlação de
dos indicadores de eficiência.
(3) Data research: data mining, data decisões de compra, regularidades, formas de
marketing pagamento, volumes de despesa, etc…
O papel da informação na cadeia de valor Se pensarmos que certos estudos apon-
determina o desenvolvimento de disciplinas tam para o facto de que conquistar um novo
centradas em pontos críticos da actividade cliente custar em média 16 vezes mais do
organizacional. Estas disciplinas apoiam-se que conservar um cliente já em carteira,
em pesquisas nas bases de dados, tanto para podemos compreender a importância destas
encontrar padrões de comportamento e/ou de informações para a cadeia de valor de uma
acontecimento, como para conhecer melhor organização.
o cliente e a actividade do cliente A disciplina que se ocupa desta activi-
dade teve um desenvolvimento espectacular
b) Disciplinas da Captura de informação nos últimos anos, e designa-se “gestão da
relação com o cliente” (CRM ––costumer’s
Existem duas fontes principais de infor- relationship management). Juntamente com
mação: as próprias actividades da organiza- o data mining, data marketing e gestão dos
ção e o mundo exterior. (Costuma-se dizer conhecimentos, é uma disciplina que resulta
em business intelligence, que 80% da infor- especificamente da utilização intensiva das
mação que se procura fora da organização tecnologias da informação e comunicação nas
existe sob alguma forma dentro dela.) organizações.
30 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

(2) Informação externa : inteligência a - inteligência competitiva (competitive


económica intelligence ou veille concurrentielle), con-
A informação existente fora de uma sistindo na exploração de informação capaz
organização com maior impacto é a relativa de tornar previsíveis os comportamentos dos
aos seguintes campos: concorrentes e ganhar assim vantagem
a - informação sobre os mercados (con- negocial nos mercados;
texto legal e fiscal, localização, acessibili- b - reengenharia, consistindo na
dades, cultura comportamental…) implementação do redesenho de processo e/
b - informação sobre clientes e fornece- ou de produtos/serviços com os objectivos
dores (variações de preços que podem afec- de rentabilização comercial.
tar a estrutura de custos, alterações na oferta,
novos entrantes, concentrações repentinas d) Infra-estrutura aprendente da organização
tornando a oferta mais imperfeita…)
c - informação sobre concorrentes ou Para lá das actividades de formação e
concorrentes potenciais (alteração na fabri- reciclagem, normais em qualquer organiza-
cação do mesmo produto ou o seu apareci- ção, designa-se por actividade aprendente o
mento em condições mais competitivas por exercício de (re)qualificação do capital
um novo fabricante…) humano, relativamente à sua experiência e
A disciplina que se ocupa desta activi- saber-fazer adquiridos, num processo “ao
dade de procura, recolha, tratamento e ex- longo da vida” articulado com o desenvol-
ploração da informação designa-se por “in- vimento do ambiente tecnológico em que se
teligência económica” (business intelligence). encontra inserido.
A gestão da informação torna-se assim Consequentemente, por organização
um sector muito importante da actividade de aprendente entende-se uma organização cuja
actividade resulta de sistemas de gestão em que
uma organização e conduz ao aparecimento
a decisão assenta na gestão de conhecimentos.
de departamentos de informação e de direc-
Compreende-se assim como a capacida-
tores de informação (CIO – chief information
de e a qualidade do capital humano são
officer).
elementos críticos de qualquer organização
O domínio de todos os níveis da infor-
para a determinação da cadeia de valor.
mação constitui assim um pressuposto de uma
boa capacidade de decisão.
Logística do comando de uma organiza-
ção virtual
c) Concorrência e capacidade de competir:
inteligência competitiva e reengenharia O quadro infra pretende representar os
fluxos de informação numa organização
É fácil concluir que o poder de decisão virtual.
de uma organização, e sobretudo o modo de
exercício desse poder é profundamente afec- A informação, as operações e a cadeia de
tado pelos sistemas informáticos. valor
A tomada de decisão em situação de
“informação assimétrica favorável” é uma A informação e respectiva comunicação
vantagem competitiva de uma organização. operacional constituem a coluna dorsal de
Por outro lado, a teoria da decisão trouxe uma organização virtual. O papel da infor-
para a ribalta a teoria dos jogos, num con- mação em todos os níveis e estádios da
texto em que, crescentemente, as decisões actividade de uma organização pode ser
devem ter em conta a previsibilidade da caracterizado da seguinte maneira:
reacção dos mercados e o comportamento dos
agentes concorrentes. A matéria prima de uma Organização
Desenvolveram-se assim duas disciplinas Virtual é a INFORMAÇÃO
estratégicas que cada vez mais acompanham,
aconselham e conduzem a decisão dos di- Todos os dados, elementos e instrumen-
rigentes das organizações, a saber: tos que dizem respeito, directa ou indirec-
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 31

tamente, à actividade de uma organização – A actividade base de uma Organização


arquivo, cartas, telecópias, mensagens elec- Virtual é a COMUNICAÇÃO
trónicas e não electrónicas, telefonemas, notas
de serviço, comunicados, notas de síntese, O modo de funcionamento normal de uma
folhas, jornais, recortes de imprensa, relató- Organização Virtual é a comunicação, ou seja,
rios, Comunicações, orçamentos, agendas, a transferência - externa ou interna ( e neste
planos, programas… - têm uma expressão caso, inclui-se o simples envio para o Ar-
electrónica, estão classificados electronica- quivo) - de mensagens electrónicas.
mente, e encontram-se registados num arqui- Estas mensagens electrónicas podem ter
vo electrónico. origem em documentos não electrónicos,
Desta definição resulta que as formas de como um relatório recebido pelo correio, e
classificação e arquivo não-electrónicos, estão terminar em suportes não electrónicos, como
dependentes das respectivas formas electró- o envio de uma carta registada pelo correio.
nicas. Por exemplo, a classificação dos do- No entanto no processo funcional da organiza-
cumentos sendo serial, uma carta, um texto ção há um momento crítico de tratamento
ou outro documento não são recuperáveis sem da informação em que tanto o suporte -
recurso aos sistemas electrónicos de classifi- ficheiro - como o conteúdo - informação
cação, onde um n.º de código ou Identificador digitalizada - da mensagem são electrónicos,
indexa a uma localização física. momento em que precisamente se impõem
os critérios estruturais e estruturantes de
O processo fundamental da Organização classificação e arquivo, sem o qual o docu-
Virtual é a MENSAGEM mento não electrónico perde toda a sua
autonomia.
A mensagem, enquanto instrumento funci- O sistema de circulação das mensagens
onal dos processos de execução das diversas traduz, e determina, o fluxograma da Orga-
tarefas, é a forma como a informação é nização Virtual.
comunicada a um destinatário ou se integra
numa tarefa. Ela permite que a informação A última – mas não a menor – das ca-
funcione tanto como matéria prima, como racterísticas da Organização Virtual é ter
produto intermediário ou como produto final. como suporte estrutural o ARQUIVO
Por exemplo, um processo verbal, ou a acta
de uma reunião ou de um telefonema, são O arquivo electrónico não tem mais a
informações que servem para preparar um função residual ou memorial típicas das
relatório, uma carta, um memo ou um discurso. empresas tradicionais, mas é antes o prin-
A mensagem é a maneira de circulação cipal instrumento de trabalho, o local de
da informação sem a qual uma organização armazenamento da matéria prima e dos seus
não funciona nem a informação se justifica. produtos intermediários e finais, e o local de
32 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

armazenamento de todos os instrumentos de telefonemas, memos, relatórios, notas de


classificação assim como das ferramentas de síntese, impressos, PVs reuniões, estudos,
trabalho. e-mails
Assim, contrariamente, às organizações
tradicionais, em que o arquivo é o destino 3. As ferramentas
último de um documento, na Organização
Virtual o arquivo é o destino inicial de todo Existem diversos tipos de ferramentas:
o documento ou informação, ou mesmo o
seu berço. e) templates
Consequentemente o REGISTO de um
documento é o acto inicial em que este se formulários de cartas, telecópias, relatórios,
torna um input institucional. de publicações, etc.

Análise estrutural: Classificação da Infor- f) aplicativos


mação
ferramentas para ajudar a planificar e orçamentar
Compreende-se que, de um ponto de vista tarefas, calculadoras electrónicas, programas de
organizativo, o desenho da estrutura do simulação de negócios, de cash flow…
Arquivo seja uma prioridade.
Esta estrutura determina o sistema de g) data bases e outras aplicações de software
classificação da informação, das mensagens
e da maneira como elas são comunicadas. do tipo ANUÁRIO, REGISTER MAIL,
Vamos tratar sucessivamente cada uma des- Contabilidade, Project Management, Schedule
tes três aspectos estruturais para, em segui- Plus, Dicionários, Address Books, Correio
da, analisar os chamados elementos Interno, etc..
conjunturais: calendário, alvos e efeitos.
A informação divide-se em vários elemen- Análise conjuntural: calendário, alvos e
tos: conteúdos das mensagens (recebidas ou efeitos
enviadas), suportes desses conteúdos (cartas,
telecópias, impressos), ou tipos de mensa- A informação e os documentos, para lá
gens (Comunicações, relatórios, orçamentos, da sua classificação estrutural, devem conter
estudos, etc.), ou ainda ferramentas de tra- indicações relativas às datas da sua produ-
balho (dicionários, templates, páginas de ção, classificação e envio.
cálculo, directórios, anuários, etc.…). Por outro lado, deve haver um registo dos
Para efeitos de maior segurança na exe- produtores e receptores dos documentos, assim
cução dos sistemas de classificação a usar como um eventual relacionamento dos mesmos
parece-nos importante dar definições práti- com a agenda das actividades da organização.
cas destas três formas de informação.
1. calendário
1. Os conteúdos da Informação um documento deve ter a indicação do
conjunto das datas relativas á sua existência
Os conteúdos da Informação respeitam os desde a fabricação
dados relacionados com as diversas activi-
dades da organização, com os projectos em 2. alvos
curso e com os seus programas de trabalho um documento deve conter uma referên-
correntes. cia da pessoa que o fabricou e da(s) pessoa(s)
ou entidade(s) a que se destina (tanto no
2. Os suportes da informação sentido de envio ou recepção a partir dos
escritórios da organização)
Os suportes da informação são os diver-
sos meios que ligam a organização ao mundo 3. efeitos
exterior e que ligam os seus diversos ele- um documento deve ainda referir-se a uma
mentos internos entre si: cartas, telecópias, agenda ou programa de trabalho, e conter,
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 33

entre outros dados, a indicação das consultas Isto quer dizer que o período de transição
de que foi objecto e de uma data limite das pode prolongar-se, na medida em que o seu
tarefas que ele prevê (deadline) período de execução não depende exclusi-
vamente da realidade onde se é suposto
Tentamos, neste capítulo, descrever ana- intervir, mas depende igualmente dos ambi-
liticamente o que entendemos por informa- entes que justificam as políticas e os modos
ção, enquanto conceito construído da econo- escolhidos para introduzir determinadas re-
mia na sociedade da informação. A principal formas.
conclusão que se pode extrair é a ideia de Nesse sentido, é sem inocência que se
que a informação se encontra no centro de reconhece que os contextos estão em mudan-
todos os negócios, e determina o grau de valor ça permanente e que se aceita, finalmente, que
acrescentado em cada etapa do ciclo produ- uma política de reformas se traduz de facto
tivo. por uma política de transição permanente.
No capítulo final vamos expor alguns Propõe-se assim uma abordagem
aspectos metodológicos a ter em conta na prospectiva, por oposição a uma abordagem
elaboração e implementação de políticas meramente estratégica.
voluntaristas de fomento da sociedade da Um plano de transição deve assim:
informação na área modernização organiza- 1 - começar por definir a visão e o fim
cional das instituições, sem as quais estas último de um projecto
políticas correm o risco de encontrar resis- 2 - descrever a realidade sobre a qual vai
tências incontornáveis ou produzir conflitos intervir
negativos para o clima e ambiente de coo- 3 - avaliar a razoabilidade da interven-
peração e competitividade que a sociedade ção, e definir um programa de actividades
da informação requer para se expandir. (ou seja, os objectivos específicos)
4 - monitorizar o desempenho da execu-
Conclusão: uma política de transição ção do programa, por um lado, e a evolução
permanente do contexto, por outro lado, e rever eventu-
almente os fim e objectivos específicos.
Salvo nos casos de criação de raiz, pode
dizer-se que a decisão de implementação de Visão e fim último
uma nova organização, de novos métodos,
ou de novas actividades, ou seja, qualquer A definição destas duas rubricas deve ser
política de reformas, se traduz invariavelmen- fornecida pelo cliente e, nesse sentido, apenas
te numa política de transição.13 nos permitimos avançar ideias ultra-gerais:
Com efeito, uma intervenção reformista - criar uma organização virtual caracte-
implica agir sobre uma realidade preexistente, rizada pela transparência, credibilidade e
com o objectivo de a fazer evoluir para uma previsibilidade da sua actuação
nova situação. - criar uma organização excelente nas suas
Esta afirmação permite extrair uma pri- áreas prioritárias de actuação
meira regra da actividade reformista: uma
política para o período de transição deve ser A realidade intervencionada
concebida como uma fase da política de
implementação das reformas, e nunca como A realidade objecto de uma intervenção
um período intermediário entre a situação reformista deve poder ser descrita com todo
anterior e a situação reformada. o pormenor, incluindo uma cartografia dos
Esta distinção é essencial, porquanto seus conhecimentos, ou seja um levantamen-
permite identificar a vontade reformista. to de toda a informação existente, da expe-
Aquela regra é importante ainda por uma riência e do saber fazer acumulados.
segunda razão: durante o período de
implementação de uma reforma os contextos Programa de actividades
e os parâmetros podem alterar-se exigindo
muitas vezes ajustamentos que não são sim- É absolutamente necessário poder iden-
plesmente de pormenor. tificar a cultura existente na organização
34 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

intervencionada: os elementos ultrapassados, Pessoalmente já nos ocupamos deste


os elementos a ter em conta e os elementos assunto a propósito de uma agência gover-
a desenvolver. namental e chegamos à conclusão que exis-
Trata-se de um trabalho realista de ava- tem duas regras muito importantes:
liação que assegura a eficácia do programa 1 - a nível do Topo da organização e da
de actividades. sua Tutela é necessário uma enorme vontade
política, coerente e explícita, de introdução
4. Acções preparatórias e iniciais das reformas
Esta vontade tem que ter uma cara, com
A elaboração definitiva do programa de acesso imediato e permanente ao Topo, de
actividades deve assim ser precedida de modo a curto-circuitar, em tempo extrema-
algumas acções preparatórias: mente reduzido todas as ameaças de conflito,
ou blocagens, resultantes da introdução da
a - explicação pública do programa reforma em curso.
(advocacy policy) Este aspecto é muito importante. Somos
b - formação profissional para as novas de opinião que as situações e as realidades
missões e tarefas existentes devem ser respeitadas e atendidas,
c - introdução de instâncias de diálogo mas tal implica no entanto que as soluções
a todos os níveis sejam sempre no sentido da introdução da
reforma e nunca de uma conciliação com
Além destas acções o programa deverá interesses que se lhe opõem e pretendem
implementar sistemas de classificação e de retardá-la. Esta estratégia implica, por sua
prémio de acordo com os novos paradigmas14, vez, uma táctica de evitar sempre que pos-
a fim de tornar as pessoas cooperantes com sível a guerra16, já que a valorização do
capital humano é um factor decisivo na cadeia
as reformas em curso.
de valor.
Sendo o objectivo último a criação de uma
2 - a segunda regra a ter em conta é que
organização baseada no conhecimento, as-
a melhor solução, por definição de reconhe-
sente em arquitecturas de bases de dados e
cimento da realidade existente, é uma com-
redes cooperativas electrónicas, o papel dos
binação das duas vias (ascendente e descen-
recursos humanos é fundamental na produ-
dente)
ção de riqueza institucional, pelo que deverá
Esta articulação de dois procedimentos
haver uma preocupação sustentável de de-
diferentes justifica-se pela própria natureza
senvolvimento do capital humano.
da modernização de uma organização.
A formação ao longo da vida é uma Uma organização baseada no conhecimen-
condição vital para assegurar a exploração to e centrando a sua actividade operacional
maximizada da experiência, do saber-fazer, na inovação precisa, em primeiro lugar, saber
e do saber tout court, existentes na organi- conciliar princípios hierárquicos com práti-
zação. cas de comando (ou task force) autónomo.
Por um lado, a actividade organizacional
5. Como introduzir as reformas? depende do seu Arquivo, da forma de pro-
cessar e explorar a sua memória institucional,
Existem várias teorias sobre a introdução e da forma como serve todos os departamen-
de sistemas de informação nas organizações. tos. Isto implica uma organização piramidal.
Estas teorias pretendem sobretudo resolver Por outro lado, as operações dependem
o problema das resistências à mudança.15 de ordens e decisões que alteram em per-
Existem várias vias para introduzir a manência duas das estruturas mais vitais de
mudança numa organização: de cima para uma organização: os seus processos e os
baixo (ou bottom-up), de baixo para cima (ou produtos/serviços fabricados.
top-down), esta última com uma variante que Como vimos atrás, estas alterações resul-
é através de projectos-piloto. tam de decisões apoiadas por sistemas di-
Conforme as situações uma solução é nâmicos de análise e avaliação do posiciona-
mais recomendável do que outra. mento da organização nos mercados. Muitas
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 35

destas actividades implicam tarefas que se partilha da informação estão razoavelmente


adaptam particularmente bem à estrutura de difundidos.
comando agindo autonomamente, de base Além desta predisposição cultural é
horizontal, e necessitando uma comunicação necessário ainda poder montar um sistema
que não se coaduna com as regras de poder de formação e consciencialização generali-
hierárquico. zado, e sistemas de informação, divulgação
Esta estrutura necessita de consultar trans- e avaliação a todos os níveis, atingindo o
versalmente as bases de dados, os serviços conjunto dos agentes, desde a Administração
de clientes, os informadores ligados aos e Direcção ao enquadramento intermediário
fornecedores e distribuidores, evitando as e ao conjunto dos funcionários, de modo a
morosidades, barreiras e resistências que obter um grande grau de participação e
resultam de sistemas de dependência verti- minimizar os focos de resistência possíveis.
cal.
Por este conjunto de razões tendemos a - bottom-up -
sugerir várias maneiras de introduzir as
reformas numa organização, já que se pros- Este procedimento consiste na organiza-
seguem objectivos diversos e não há que ser ção de áreas de actividade, ou no desenvol-
fundamentalista na modificação do que existe, vimento de um projecto piloto, que possam
pela simples razão que não se pretende constituir exemplos bem sucedidos e um
introduzir um único tipo de estrutura, mas impulso à socialização dos comportamentos.
antes criar uma nova articulação de estru- A iniciativa a partir da base deve ter um
turas diversificadas. patrocinador a nível superior, que a possa
Finalmente, convém referir que os pro- defender. Este advogado deve ter capacidade
jectos-piloto são muito úteis, pois a sua para desobstruir eventuais blocagens. A ini-
verticalidade permite elaborar uma via de ciativa deve ainda ter um chefe de projecto
modernização por socialização do exemplo. totalmente empenhado na operação. A Ad-
Como é natural que as organizações ministração e a Direcção devem acompanhar
intervencionadas disponham de uma ou a execução com um espirito construtivo, de
mais áreas de excelência, estas devem ser modo a poderem decidir, logo em seguida,
consideradas como projectos-piloto reali- o lançamento de novas iniciativas ou a sua
zados, e ser objecto de um plano de generalização a toda a organização.
generalização do exemplo, enquanto áre-
as-âncora com efeitos de socialização por Monitorizar o desempenho do programa;
via dos contactos estabelecidos com outros avaliação e redefinição dos seus fim e
departamentos. objectivos
São áreas que inclusivamente podem
desempenhar um papel formativo muito O projecto de modernização, que tem de
importante. corresponder a um Fim institucional assu-
Quanto à articulação da via bottom-up mido, deve ser permanentemente
com a top-down, dever-se-á ter em conta monitorizado e avaliado pelos seus promo-
necessidades específicas de cada uma, como tores. Estes devem estar organizados em task
respectivamente: force e preparados para introduzir as cor-
recções – reengenharias – sempre que
- top-down - julgadas úteis.
Como já salientámos por duas ocasiões,
Pode ser experimentada em áreas em que estas reengenharias devem responder não só
a organização já está preparada para uma à avaliação dos resultados da reforma em
transformação radical, e quando já possui um curso, como à reconsideração da visão e fim
grau avançado de informatização das suas último da operação, que podem exigir ajus-
actividades (a todos os níveis e departamen- tamentos em função da própria evolução dos
tos envolvidos com aquela área), e o traba- contextos externos e da evolução das pro-
lho em equipa, os hábitos de cooperação e blemáticas.
36 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

6
_______________________________ Esta definição de negócio pretende encarar
1
“A Europa terá que ter uma grande sabe- a hipótese tanto de negócios comerciais como de
doria para conciliar políticas industriais activas, negócios institucionais, sem fins lucrativos.
7
ambientes pré-competitivos adequados ao fomen- Ver o nosso Memorando “Uma política
to de estratégias competitivas, e políticas comer- pública de emprego, visando o fomento da literacia
ciais e de cooperação externa favoráveis ao de- informática e do empreendorismo”.
8
senvolvimento de uma verdadeira indústria de De uma maneira geral todas as organizações
conteúdos e sua posterior internacionalização. É dispõem de um sistema de comunicação interna
por este conjunto de razões que, mais do que falar para informação das decisões da direcção e das
de processos de inovação - que cabe ao sector novas medidas tomadas. O novo paradigma da
privado decidir e implementar -, falamos das gestão informacional pressupõe que esta forma de
condições de introdução desses processos, isto é, comunicação interna não é suficiente; torna-se cada
de políticas públicas e investimentos pré-compe- vez mais necessário conceber essa comunicação,
titivos.” in “A Europa na encruzilhada não como simples informação mas como forma-
informacional: inovação e recursos humanos face ção.
9
aos modelos culturais”, ECONOMIA & Conforme se preferir, respectivamente a
PROSPECTIVA, n.º 11, Outubro 1999–Março etimologia grega ou latina.
10
2000, Lisboa, Ministério da Economia. Raul Junqueiro, no seu recente livro “A
2
A classificação resulta de um trabalho de Idade do Conhecimento” (Lisboa, Editorial Di-
análise dos “primários” ou informação do domí- ário de Notícias, 2002) descreveu, de forma
nio, seguida de uma tarefa experimental de eloquente, esta evolução: “…o mundo virtual vai
“indiciação” (para utilizar a terminologia da acabar por albergar a maioria das actividades
Engenharia dos conhecimentos). económicas que hoje se processam somente no
3
Desenvolvemos aqui o conceito de SBC- mundo real” (página 163). E, mais adiante, analisa
sistema baseado no conhecimento. Um sistema o processo logístico em causa: “Apesar da rele-
baseado no conhecimento (SBC ) assenta em co- vância do mundo virtual, ele não pode dispensar
nhecimentos analisados difíceis de: o mundo real. Pelo contrário, há uma relação de
- adquirir intimidade entre os dois…Aliás, o virtual e o físico
- estruturar são interdependentes, mas aquele será sempre
- modelar dependente deste. As economias e as sociedades
Um SBC consiste num modelo teórico não dispensam bens físicos, como a água, a
construído a partir da realidade (domínio) e a sua alimentação, o alojamento ou os combustíveis, e
capacidade de resolver problemas depende do grau mesmo o virtual assenta em infra-estruturas fí-
de abstracção do modelo. Aquela capacidade é sicas, como as redes e os equipamentos de te-
pequena quando o modelo está muito próximo da lecomunicações e de tecnologias de informação.
realidade, e tanto maior quanto mais abstracto o O comando que o virtual assume face ao físico,
modelo for. reflecte-se sobretudo no aumento dramático dos
graus de competição, que ainda por cima se
O modelo teórico de um SBC consiste numa
manifestam em mercados cada vez mais globais,
tripla descrição abstracta (sem implementação) de:
no acréscimo exponencial da produtividade e na
1 - os objectos do domínio analisado e suas
melhoria potencial da qualidade de vida. A de-
relações (modelo do domínio)
pendência das sociedades e das economias das
2 - método de resolução (modelo de racio-
actividades mais avançadas, ligadas ao tratamento
cínio ou modelo conceptual)
da informação e do conhecimento, apenas signi-
3 - relações entre conhecimentos fica que a produção de bens básicos …está a ser
O modelo teórico (no papel) deve ser progressivamente mecanizada e robotizada. A
operacionalizado em seguida, através da passa- criação de riqueza encontra-se cada vez mais
gem a uma arquitectura informática (não se trata relacionada com o conhecimento… A logística é
de uma simples codificação informática). um bom exemplo da interdependência dos dois
4
Daí a nossa definição da natureza “capital mundos.” (páginas 164-5). E a concluir: “…ape-
humano intensivo” da organização. sar da dependência do virtual em relação ao físico,
5
Abordamos o processo de inovação na nova a verdade é que aquele impõe a este um novo
economia no artigo “A Economia da Convergên- ritmo, em face da concorrência acrescida que
cia e a Indústria de Conteúdos-Media – O Estado também gera. Nesse sentido se diz que o mundo
como factor social de produção“, publicado in virtual comanda o mundo real e que este começa
ECONOMIA & PROSPECTIVA, n.º 17, Julho- a viver ao ritmo da Internet.” (página 166,
Setembro de 2001, Lisboa, Ministério da Econo- sublinhados nossos, ACN)
11
mia (ver em especial, “A socialização da inova- Queria aqui prestar homenagem ao Profes-
ção”, páginas 138-139). sor, e admirado amigo, Joaquim José Borges
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 37

13
Gouveia, cujas preocupações sobre mobilidade e Mesmo nos casos de “criação de raiz”, os
logística são reveladoras da sua perspicácia sobre recursos humanos, certos métodos de trabalho e
o que está em jogo quando se diz pretender sistemas de subcontratação devem ser considera-
desenvolver a sociedade da informação num país. dos como “dados”, e ser objecto de intervenção
A sua participação na 3ª Conferência Internaci- formativa e renegociação. Nomeadamente, em
onal “A comunidade das nações ibero-americanas relação às encomendas, a subcontratação tende a
e a sociedade da informação”, organizada em S. ser substituída por várias formas de parceria, em
Paulo pela APCNP – Associação para a Promoção resultado das práticas inovadoras do cliente, e para
Cultural do Norte de Portugal, foi especialmente as quais os fornecedores nem sempre estão pre-
importante para lançar o debate nesta área. parados. (Este facto é particularmente crítico para
12
No nosso discurso de abertura da 3ª países e regiões exportadoras de serviços de
Conferência Internacional “A comunidade das subcontratação como Portugal e, em especial, a
nações ibero-americanas e a sociedade da infor- Região Norte.)
14
mação”, em S.Paulo, a 30 de Agosto de 2001, Espírito de cooperação, de reporting, ca-
tivemos ocasião de comentar: “No fundo a so- pacidade de equacionação de problemas,
ciedade continua a ser feita de seres humanos, participacionismo crítico.
15
objectos físicos, campos e cidades. Acontece que Estas resistências podem ser de diversa
os sistemas organizativos se apoiam agora em ordem: institucionais (sindicatos, accionistas,
arquitecturas baseadas nas novas tecnologias da regulamentares, etc.) e estruturais (a mão de obra
informação e comunicação, ou seja, em progra- menos qualificada, as chefias intermediárias,
mas e redes electrónicos, ou seja ainda, na in- segmentos privilegiados no controlo logístico, da
formação digital ou data. Logística e distribuição informação, etc.).
16
física serão assim duas disciplinas destinadas a Por “evitar a guerra” entendemos encontrar
revolucionar-se e a responder ao desafio do re- soluções sociais para as crises sociais que não
lacionamento do virtual com o físico na sociedade redundem na destruição de valor relativo ao capital
contemporânea.” humano e aos conhecimentos empresariais.
38 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 39

Sociedade em rede: perspectivas de poder no espaço virtual


Bruno Fuser1

Introdução nico (automóvel, avião, eletricidade, teleco-


municações), verificou-se após uma “primei-
Os meios massivos de difusão de infor- ra modernidade”, que se associa à Revolução
mação já exerceram, nas últimas décadas, Industrial, com as estradas de ferro, ilumi-
papéis semelhantes aos de bandido e moci- nação a gás, telégrafo, telefonia, conforman-
nho, por vezes simultaneamente. Foram do uma cultura tipográfica (diacrônica e
descritos por imagens conflitantes ao extre- linear), fundamentada na escrita (ORTIZ,
mo, como se constituíssem entes maléficos 1991). Vivemos, agora, uma “terceira mo-
capazes de inocular comportamentos, siste- dernidade”, com a disseminação das TICs.
mas onipresentes e onipotentes manipuladores Estão em curso profundas mudanças de
de consciências e formadores de gostos comportamento a partir do uso constante dos
homogêneos, instrumentos de potencialização equipamentos de informática, associados à
de mercados novos e tradicionais, meios telecomunicação em grau de sofisticação até
sensíveis à manifestação do receptor, formas há pouco apenas imaginado, e em perspec-
de construção e manifestação de culturas. Por tiva de convergência tecnológica que apon-
vezes de maneira entrelaçada, tais interpre- taria para uma cibersociedade.
tações têm recebido novo e importante com- O momento de intensificação de tecnologi-
ponente com os elementos que acompanham as digitais traz consequências diversas no nível
o discurso sobre as chamadas tecnologias da do cotidiano das pessoas, em todas as esferas,
informação e da comunicação (TICs). de maneira diferenciada mas ampla. Na prá-
Tais questões têm sido objeto de discus- tica cotidiana da disseminação de informações
sões e reflexões em diversos momentos. As isso é perceptível de múltiplas formas, a ponto
consequências advindas da implantação da de ser tornar difícil a tarefa de se desenvolver
informatização de inúmeros setores da soci- qualquer atividade que não esteja total ou
edade - como a eventualidade de estarmos parcialmente inserida nos novos aparatos
vivendo em um mundo em que as relações tecnológicos de informação.
são pautadas pela virtualização, um “real”
latente, em oposição ao atual, e não ao Os impactos das TIC’s atingem o
concreto, como quer Pierre Lévy (1996) - mundo do trabalho, as formas de
encontram paralelo em outros períodos de coordenação inter e intra-empresari-
inovação tecnológica. O automóvel e os trens ais e institucionais e os modos de
já haviam, assim como a eletricidade e o consumo e de vida de milhões de
telefone, imposto novos padrões de sociabi- pessoas por todo o globo, constitu-
lidade. Hoje, no entanto, ao debatermos a indo-se em fator de importância cru-
“sociedade em rede”, a “era da informação” cial para as grandes transformações
ou a “sociedade do conhecimento”, somos por que o mundo vem passando nesta
intensamente tomados pela presença das redes virada de século (BOLAÑO, 2003).
de comunicação garantidas pela
informatização da sociedade, em todas as Essa “terceira modernidade”, própria de
esferas, desde o plano da política e do poder, uma Terceira Revolução Industrial – que tem
até o das relações humanas mais sensíveis, como uma de suas características o “peso
como a afetividade. crescente do complexo eletrônico”, como
Uma “segunda modernidade”, a da era apontou Coutinho citado por Bolaño (1999,
da cultura eletrônica, sincrônica e com p. 73) – é parte constitutiva de outro fenô-
multiperspectivas, baseada num sistema téc- meno, a globalização.
40 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Assim como a globalização não é André Parente (2000, p.171) reforça o


outra coisa senão o auge da conceito de rede:
internacionalização do capital
monopolista, a indústria cultural é o A compreensão da época em que
ponto de partida para a constituição vivemos apóia-se, cada dia mais, sobre
de uma cultura capitalista mundial que o conceito de rede. A rede atravessa
se expande (BOLAÑO, 1999, p.84). hoje todos os campos do saber – da
biologia às ciências sociais, passando
Internet e a nova cultura pelas ciências exatas -, seja como
conceito específico, em cada um
O elemento mais significativo na destes campos, seja como paradigma
implementação dessa nova cultura é, sem e imagem do mundo, ou ainda como
dúvida, a Internet. Criada em 1969 com o rede sociotécnica necessária à produ-
objetivo de garantir a comunicação militar ção do conhecimento.
e científica estratégica nos Estados Unidos,
em caso de guerra nuclear, a Internet desen- Esse pesquisador considera a rede “como
volveu-se de rede essencialmente científica, que a condição de possibilidade do movimen-
financiada por recursos públicos, para, hoje, to de uma espécie de interconectividade
uma crescente utilização comercial, em que generalizada”. Essa interconectividade seria
o comércio eletrônico (e-commerce) e os o fundamento de um novo tipo de pensamen-
negócios em rede (e-business) convivem com to, conexionista:
aplicações como correio eletrônico, grupos
de discussão, educação à distância, biblio- O conexionismo generalizado da soci-
tecas virtuais, jornalismo online, telemedicina edade das redes de computadores criou
e teleconferências. novas formas de espaço e tempo (...)
É a Internet a base da sociedade em rede, Para pensarmos a nova ordem do capital
como diz Castells: – informação, a nova cultura do digital
-, somos levados a pensar a partir de
Internet é sociedade, expressa os novos paradigmas comunicacionais
processos sociais (...) ela constitui a (PARENTE, 2000, p.168).
base material e tecnológica da soci-
edade em rede. (...) Esta sociedade em André Parente sustenta que se criam a
rede é a sociedade (...) cuja estrutura partir desses fenômenos novas perspectivas
social foi construída em torno de redes no campo da ciência, na medida em que se
de informação a partir de tecnologia implantam interações entre o observador e
de informação microeletrônica o objeto do conhecimento.
estruturada na Internet. Nesse senti-
do, a Internet não é simplesmente uma As teorias científicas e artísticas
tecnologia; é o meio de comunicação contemporâneas não pensam mais a
que constitui a forma organizativa de realidade em grupos de diferentes
nossas sociedades; é o equivalente ao objetos, separados de nós, mas em
que foi a fábrica ou a grande grupos de diferentes interações que
corporação na era industrial. A Internet incluem o observador. Quando hoje
é o coração de um novo paradigma se fala em interatividade (por ser
sociotécnico, que constitui na reali- sensório-motora) na multimídia, tra-
dade a base material das nossas vidas ta-se do que chamamos de
e de nossas formas de relação, de interatividade pobre, se comparada a
trabalho e de comunicação. O que a esta que existe e que se estabelece
Internet faz é processar a virtualidade como novo paradigma no campo do
e transformá-la em nossa realidade, conhecimento. Como conhecer sem
constituindo a sociedade em rede, que levar em conta a interação que se
é a sociedade em que vivemos estabelece com o objeto do conheci-
(CASTELLS, 2003, p.286-287). mento? (PARENTE, 2000, p.173).
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 41

Interatividade: perspectivas e limitações do que propriamente como espaço à


participação na produção de conteúdo
Essa interatividade sensório-motora a que (...) Assim, pode-se concluir que,
refere Parente é uma das características da embora haja possibilidades técnicas
Internet, assim como o conteúdo quase in- com a nova mídia de maneira
finito a que se pode ter acesso. Se a inigualável para se estabelecer uma
interatividade já está presente em outros comunicação horizontal, interativa –
meios, como o rádio e, em menor escala, a que, através de outras estratégias, seria
televisão, o retorno e a possibilidade de possível igualmente nas mídias como
participação do público alcançam (ao menos rádio, TV e impresso -, o que se vê
potencialmente) níveis muito diferenciados na nos casos estudados é a repetição de
nova mídia. De fato, jamais se chegou ao uma estrutura vertical, em que o
ponto de se instalar, em cada televisor, um usuário é levado a consumir informa-
aparelho para medir a audiência e, ao mesmo ções, não a produzi-las, muito menos
tempo, permitir ao espectador que se mani- com a possibilidade de disponibilizá-
festasse livremente em relação ao que vê. Os las nos sites em questão. Portanto,
aparelhos limitaram-se a amostragens soci- confirmam-se afirmações como as de
ológica e mercadologicamente convenientes, Samuelson (2000), segundo as quais
e a possibilidade de manifestação tem se há um enorme hiato entre os custos
restringido ou a pífios e predeterminados e as receitas dos negócios na Internet,
programas do tipo “você decide”, ou, por o que permite vislumbrar uma con-
outra via, através do pay-per-view, em que centração das empresas e a repetição
se escolhe entre algumas alternativas, de normas e regras que vigoram hoje
permeadas sempre pela ótica do consumo. na “velha economia” da comunicação.
A interatividade, vista como forma de (FUSER; SAMPAIO, 2001)
participação direta num meio, extrapolou essas
perspectivas televisivas, ou aquelas A repetição de aspectos da lógica da
radiofônicas, de participação por telefone - chamada “velha economia” no novo mundo
“que música você escolhe”. Interativo como globalizado é analisada por Octávio Ianni (1995,
telefone, a Internet disseminou o correio p.112). Para ele, embora a globalização con-
eletrônico - acrescendo-lhe a possibilidade de duza à idéia de homogeneização da cultura,
salas de bate-papo, em que se garante a
privacidade. Trouxe a possibilidade de rece- é inegável que as mais diversas
bimento, sem taxas adicionais, de mensagens modalidades de organizar a vida e o
de qualquer parte do mundo, e de qualquer trabalho, as heranças e as tradições,
tamanho ou formato, anexando-se arquivos. as façanhas e as derrotas, ou os tra-
É igualmente verdade, contudo, que a balhos e os dias, continuarão a pro-
interatividade que se pode alcançar através da duzir e a desenvolver as diferenças,
Internet dificilmente se realiza: trata-se essen- as diversidades e as polifonias.
cialmente de escolher um produto para com-
prar, participar de uma enquete que busca Ianni questiona os conceitos de identida-
traçar opiniões sobre assuntos da moda, entrar de enquanto algo estanque, inamovível. “A
num bate-papo específico ou enviar e receber identidade é ao menos em parte uma ficção
mensagens. A possibilidade de que os usu- ideológica. Por isso eu gosto da hipótese da
ários interfiram decisivamente no conteúdo de transculturação, uma identidade múltipla,
um site dificilmente é aberta. Tivemos opor- reconhecermos que somos polifônicos”, sa-
tunidade de discutir tal questão em um estudo lienta (IANNI, 1997). Polifônicos, contradi-
que buscou analisar o jornalismo online da tórios, dialéticos.
região de Campinas. Ali destacamos que:
Dilemas da globalização
A propalada interatividade surge mais
como ferramenta de segmentação, de O desemprego estrutural, a terceiro-
detecção de tendências de consumo, mundização do 1.º mundo são alguns dos
42 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

exemplos de problemas que a globalização Para o antropólogo, seria necessário


traz, na medida em que globaliza o mercado distinguir a globalização das sociedades – em
de trabalho e as forças econômicas e sociais. que assume particular papel a dimensão
econômica - da mundialização da cultura, em
Numa ótica histórica e política, dá que a questão do espaço se colocaria como
para dizer que a questão social é “um conjunto de planos atravessados por
global, hoje, e que as lutas sociais se processos sociais diferenciados” (ORTIZ,
desenvolvem no Oriente Médio, na 1999, p.62).
África do Sul, como em Londres,
Paris, Nova Iorque... e isso tudo está A civilização da modernidade-mundo
fertilizando o cenário mundial como se caracteriza pois, como sendo, si-
um vasto palco da história, tanto de multaneamente, uma tendência da
criações culturais, artísticas, conjunção e da disjunção de espaços.
econômicas, como de lutas sociais. É isso que nos faz percebê-la como
Acho que não é exagero dizer que sendo marcada por duas direções, uma
estamos entrando num novo ciclo de voltada para a homogeneização, ou-
lutas sociais (IANNI, 1997). tra, para a diversidade (...) não existe
uma oposição imanente entre ‘local’/
Esse novo ciclo de lutas sociais tem um ’nacional’/’global’ (...). Uma primei-
novo espaço, que é o espaço da sociedade ra implicação da noção de
mundo globalizada. transversalidade resulta na constitui-
Renato Ortiz reflete sobre esse novo ção de ‘territorialidades’ desvinculadas
espaço. Após ressaltar que a do meio físico” (...). Ocorre, na
desterritorialização é um dos traços essen- verdade, a constituição de uma ter-
ciais da “modernidade mundo”, Ortiz (1999)
ritorialidade dilatada, composta por
aponta para a perspectiva da existência da
faixas independentes, mas que juntam,
cidade global, “um núcleo articulador do
superpõem-se, na medida em que
capitalismo mundial”.
participam da mesma natureza. Via-
jar, deslocar-se por esses estratos é
Diante da globalização do mercado,
permanecer no interior de um tipo de
da fragmentação da produção, da
espacialidade comum a povos
deslocalização do trabalho, da flexi-
diversos.(ORTIZ, 1999, p.62-66).
bilidade das tecnologias, as institui-
ções econômicas se rearticulam, de-
terminando ‘centros’ de comando de Novas territorialidades
suas atividades planetárias (ORTIZ,
1999, p. 56). As territorialidades desvinculadas do meio
físico são discutidas também na perspectiva
Ortiz assinala que o conceito de cidade das cidades digitais,
global refere-se essencialmente à dimensão
econômica, “uma cidade só é global quando um sistema de pessoas e instituições
se encontra dinamicamente articulada ao conectadas por uma infra-estrutura de
sistema capitalista mundial” (ORTIZ, 1999, comunicação digital (a Internet) que
p.57). tem como referência comum uma
cidade real (...) A sociedade da infor-
Poderíamos imaginar uma série de mação criou o espaço virtual, uma nova
centros urbanos que, de alguma dimensão da cultura e da vida dos
maneira, preenchem essa condição. homens. Mas o espaço virtual existe
São Paulo, Osaka, Cidade do México, como uma metacidade, isto é, como
Seul e Buenos Aires, em nível regi- uma cidade universal em construção.
onal, concentram, relativamente, as O fundamento da existência das cida-
funções que definem a globalidade des é a relação e a proximidade
(ORTIZ, 1999, p. 57). humana. (ZANCHETI, 2001, p.323).
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 43

Na administração das cidades digitais tes da CD. Nesse caso, em geral, é


criam-se desafios: seus objetivos são os de utilizada uma representação sem
analogia com a cidade física, com
criar um espaço de manifestação conceitos completamente diferentes,
política e cultural das pessoas e tais como: grupo de discussão, anún-
grupos; criar um canal de comunica- cios, consulta a banco de informação,
ção entre pessoas e grupos; criar etc. (ZANCHETI, 2001, p.314)
canais de comunicação e negociação
entre a administração municipal e os André Lemos destaca que um dos objetivos
cidadãos; favorecer uma maior iden- das cibercidades é “lutar contra a exclusão
tificação dos moradores e visitantes social, regenerar o espaço público e promover
com a cidade referência; criar um a apropriação social das novas tecnologias”
acervo de informações das mais (LEMOS, 2003). Mas as limitações dessas
variadas espécies e de fácil aceso iniciativas - consideradas no âmbito europeu
sobre a cidade referência.” projetos prioritários – são analisadas por
(ZANCHETI, 2001, p.314). Castells, para quem, nos usos pelas adminis-
trações públicas, a Internet geralmente se
Outra denominação que se tem dado a restringe a um “quadro de avisos”.
esse espaço de sociabilização é o de
“cibercidades”. Lemos assinala: Em princípio, a Internet poderia ser
um instrumento de participação cida-
As ciber-cidades passam a ser pen- dã extraordinário; de informação da
sadas como formas emergentes do classe política, dos governos e dos
urbano que, pelo potencial do partidos aos cidadãos em seu conjun-
ciberespaço, poderia restabelecer o to, e de relação interativa. Poderia ser
espaço público, colocar em sinergia uma ágora política e sobre isso têm
diversas inteligências coletivas, ou escrito todos os futuristas.
mesmo reforçar laços comunitários Atualmente, na prática, há experiên-
perdidos na passagem da comunidade cias interessantes de democracia lo-
à sociedade moderna. (LEMOS, 2003) cal, curiosamente local, como a Di-
gital City, a cidade digital de Ams-
Sílvio Zancheti assinala que as cidades terdã (hoje passando por uma séria
digitais se desenvolvem sob duas perspec- crise), as redes cidadãs de Seattle, o
tivas: as analógicas e as simbólicas. Enquan- programa Iperbole em Bolonha (tam-
to aquelas estão voltadas para a bém em crise); mas, em geral, o que
referencialidade nas cidades reais, estas, as se observa é que os governos, as
simbólicas, criam novos espaços, em que essa administrações, os partidos políticos
referencialidade não está presente. confundiram a Internet com um qua-
dro de anúncios. Em geral, limitam-
Uma outra característica distintiva das se a expor dados: aqui está a nossa
CDs é a relação entre a cidade de informação para que vocês fiquem
referência (a real) e a cidade virtual sabendo o que fazemos, isso nos
(a CD). Existem pelo menos dois tipos poupa trabalho e, se desejarem, po-
de relação: uma analógica, outra dem nos dar a sua opinião. O que
simbólica. acontece é que não sabemos o que
Na relação analógica, a estrutura e se passa com essa opinião.
a organização da CD correspondem (CASTELLS, 2003, p. 279)
aos atributos físicos do espaço urba-
no, especialmente o público, da cida- Governo eletrônico
de real.
Na relação simbólica não existe a O desafio de transformar o governo
correspondência entre elementos do eletrônico, ou as cidades digitais, em espa-
espaço real da cidade e os componen- ços públicos de participação direta significa
44 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

trazer a política para o campo da comuni- a computadores, segundo dados da FGV,


dade, uma comunidade que possa se expres- cerca de 10% da população, enquanto teriam
sar através da produção de informação acesso à Internet aproximadamente 7% da
eletrônica. Castells lembra, contudo, que população –, tem-se igualmente que superar
as limitações de uso desses meios. A ponto
(...) todos os Parlamentos têm de Castells afirmar que tal desafio é maior
websites, todos os partidos têm do que o próprio acesso:
Internet em todos os países desenvol-
vidos. No entanto, são vias, repito, O que se observa, contudo, naquelas
unidirecionais de informação, para pessoas, sobretudo estudantes, crian-
captar a opinião, simplesmente para ças, que estão conectadas é que
converter os cidadãos em eleitores aparece um segundo elemento de
potenciais e para que os partidos divisão social mais importante que a
obtenham informações para ajustar a conectividade técnica: a capacidade
sua publicidade. educativa e cultural de utilizar a
Nesse sentido, o problema não é a Internet. Uma vez que toda a infor-
Internet, e sim o sistema político. (...) mação está na rede – ou seja, o
lá onde existe burocratização política conhecimento codificado, mas não
e política estritamente midiática de aquele de que se necessita -, trata-se
representação cidadã, a Internet é antes de saber onde está a informa-
simplesmente um quadro de anúnci- ção, como buscá-la, como transformá-
os. É preciso mudar a política para la em conhecimento específico para
mudar a Internet e, então, o uso fazer aquilo que se quer fazer. Essa
político da Internet pode converter-se capacidade de aprender a aprender;
em uma mudança da política em si essa capacidade de saber o que fazer
mesma (CASTELLS, 2003, p. 280). com o que se aprende; essa capaci-
dade é socialmente desigual e está
No campo da política, uma questão de ligada à origem social, à origem
pesquisa que se impõe é a de estudar de que familiar, ao nível cultural, ao nível de
maneira se dá a relação novas tecnologias educação. É aí que está, empiri-
de informação e política. camente falando, a divisória digital
neste momento (CASTELLS, 2003, p.
Em geral, temos escassíssimos exem- 266-7)
plos de prática interativa cotidiana do
sistema político com os cidadãos. Mesmo no que se refere à produção de
Portanto, as fronteiras de pesquisa que conteúdo, é importante assinalar que a pos-
gostaria de desenvolver sobre a sibilidade de se publicar material na Internet,
Internet são as seguintes: de que embora seja vasta, não foi suficiente para
maneira ela pode permitir a trazer de fato uma democratização nesse
desburocratização da política e supe- sentido.2 A produção de informação perma-
rar a crise de identidade dos governos nece nesse meio, como nos demais, bastante
que se verifica no mundo todo, a partir concentrada:
de uma maior participação permanen-
te, interativa, dos cidadãos e de uma Supunha-se que, em princípio, as
informação constante em mão dupla? tecnologias da informação e de tele-
Na realidade, isso não se produz comunicação permitiriam que qual-
(CASTELLS, 2003, p.279-80). quer um pudesse localizar-se em
qualquer lugar e prover, a partir dali,
Implementar tais novas perspectivas de o mundo inteiro. O que se observa
exercício de poder significaria superar bar- empiricamente é o contrário. Verifi-
reiras de acesso, que não podem ser deixadas ca-se uma concentração maior na
de lado. No entanto, embora existam tais indústria provedora de conteúdos de
barreiras de acesso – no Brasil, têm acesso Internet, assim como de tecnologia de
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 45

Internet, do que em qualquer outro altera significativamente o papel que é


tipo de indústria e concentra-se fun- exercido hoje pela indústria cultural. Con-
damentalmente nas grandes áreas tribui essencialmente para a manutenção dessa
metropolitanas dos principais países perspectivas a reprodução, no âmbito da
do mundo (CASTELLS, 2003, p. 263) produção de conteúdo, dos mesmos grupos
pertencentes à indústria do entretenimento e
TICs e esfera pública da comunicação, assim como a manutenção
de um padrão de televisão de massa, no
A inserção das TICs na sociedade con- Brasil, que supera amplamente a audiência
temporânea seria, para alguns pesquisadores, da televisão segmentada. Vale dizer, comple-
a origem de uma reestruturação da esfera mentarmente, que o consumo da TV por
pública. assinatura, majoritariamente, em grande
medida reproduz padrões de programação
É essa revolução que está na raiz do (cinema, futebol) já presentes na TV de
desenvolvimento das novas TIC’s, massa.
elemento central, por sua vez, na Assim, a sociedade em rede é uma re-
reestruturação da esfera pública, com alidade, mas as potencialidades de transfor-
o surgimento da televisão segmenta- mação que ela traz consigo, como destaca
da, da internet e todas as inovações Castells, efetivamente não se realizaram. As
ligadas ao conjunto dos processos de diferenças, a polifonia a que Ianni se referia
comunicação, que modificam a estru- anteriormente estão presentes. Movimentos
tura das indústrias culturais, criando como o do Fórum Social Mundial trazem à
inclusive novas, e alteram as formas tona duas perspectivas bastante distintas de
de interação e de reprodução simbó- ação, mas que podem confluir para o
lica do mundo da vida (...). Podemos questionamento de como se tem organizado
falar em uma nova mudança estrutu- a sociedade contemporânea.
ral da esfera pública, pois as novas Hardt (2003) considera que há duas
TIC’s põem em cheque o sistema tendências que buscam se contrapor à forma
global das Indústrias Culturais, vigente como se implementa a globalização: uma,
desde os anos 50, ao atingir o seu antiglobalização, de cunho nacionalista, que
núcleo central, a televisão de massa. opera através das organizações tradicionais,
(BOLAÑO, 2003) como partidos políticos, e outra, que opõe-
se a qualquer solução nacional, defende uma
Também ZANCHETI (2001) reflete so- globalização democrática, e que opera atra-
bre a criação de um novo espaço público, vés dos movimentos em rede:
virtual, a partir da implantação das novas
TICs: (...) Os movimentos organizados em
redes exercem seu poder mas não
A sociedade da informação encontra procedem por meio de oposições.
nas cidades o seu necessário e prin- Uma das características básicas da
cipal campo de desenvolvimento, e forma de rede é que dois nós não se
será nelas que ocorrerão os experi- enfrentam em contradição mas, pelo
mentos para a construção do espaço contrário, são sempre triangulados por
virtual. A idéia de cidade digital é, um terceiro e depois um quarto e um
portanto, uma conceituação prelimi- número infinito de outros na rede. (...)
nar para se descrever a construção do Tomando um ponto de vista um
espaço público virtual nos seus pri- pouquinho diferente, os movimentos
meiros estágios. que funcionam como uma esfera
pública, no sentido de poderem per-
Consideramos que, embora as TICs in- mitir a expressão completa de dife-
troduzam novas formas de sociabilidade e renças dentro do contexto comum de
tragam consigo potencialidades diversas, a trocas abertas. Mas isso não significa
forma como se dá o seu desenvolvimento não que as redes sejam passivas. As redes
46 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

desalojam as contradições e realizam, Ainda que aponte de maneira otimista


em vez disso, um tipo de alquimia ou, quanto às possibilidades de essa esfera pública
melhor, uma mudança de maré que vir a exercer um papel crítico, semelhante
transforma as posições fixas tradicio- à esfera pública liberal-burguesa anterior ao
nais nos fluxos dos movimentos. As desenvolvimento da indústria cultural, Bolaño
redes impõem sua força por meio de (2003) assinala que essa perspectiva neces-
um tipo de corrente submarina sita de uma nova postura do trabalhador
irresistível (HARDT, 2003, p. 346). intelectual:

Intelectual coletivo e hegemonia (...) o trabalhador intelectual, essa


nova camada proletarizada, deve,
Em meio às disputas pela direção a ser superando os interesses mesquinhos e
tomada por movimentos contra globalização as hierarquias que a dividem, ajudar
– ou contra a forma como se dá a globalização a organizar a luta contra a alienação
– destaca-se a importância dos meios de e pela construção de uma sociedade
comunicação, considerados por Sodré (1996, mais justa, reconhecendo o seu papel
p.73) uma espécie de ‘intelectual coletivo’ histórico de mediador no processo de
das novas tecnoburocracias gestionárias da emancipação do Homem.(BOLAÑO,
vida social. Da mesma forma como ocorria, 2003)
segundo Gramsci, com a imprensa e os
partidos políticos, os meios de comunicação Tal ação defendida por Bolaño, em que
de massa exerceriam hoje o papel de “dar deveriam se envolver os profissionais da
coerência ou homogeneidade a um grupo ciência da informação interessados na cons-
social”, ou seja, exercer a hegemonia, con- trução dessa “sociedade mais justa”, pode ser
forme destaca Sodré (1996, p.73).
entendida como a construção do que Muniz
Concorda com esse ponto de vista Caio
Sodré (1996) define como “cultura democrá-
Navarro de Toledo (1994), para quem a
tica”. Estimular uma “cultura democrática”,
hegemonia - “a conquista do consenso sobre
no entender do pesquisador, implicaria cul-
a sociedade civil” - se exerce de maneira
tivar a “expressão orgânica da pluralidade
central pelos media, “no terreno da cultura
social, restituída a cada passo da
e da ideologia”. Pontifica Toledo:
cotidianeidade pela ‘memória coletiva’”. Se
a esquerda clássica não agiu dessa forma,
Tome-se o caso dos meios de comu-
tampouco os meios de comunicação de massa,
nicação de massa (mediante os quais
se difundem e se produzem as infor- que procurariam “legitimar o novo poder
mações, os valores, as opções polí- econômico-gerencial”, significando “não
ticas e eleitorais; onde se forjam novos memória, mas amnésia coletiva”.
comportamentos sociais e hábitos Continua Muniz Sodré:
culturais etc.). É, pois, de se pergun-
tar: a mais extensa democratização dos Na realidade, o projeto de uma cul-
meios de comunicação de massa tura democrática passa necessariamen-
(públicos e privados), na vigência da te pela dimensão da Ética (em seu
ordem capitalista, permitirá a estatuto distinto da moral, do direito
veiculação, permanente e sistemática, e da estética), como experiência do
de valores antiburgueses e de uma reconhecimento da diferença
cultura política de orientação socia- (ontológica) e, portanto, dos limites
lista e popular? O que dizer ainda da das determinações institucionais; Éti-
hipótese desses meios difundirem, no ca, entendida não como de ontologia
limite, interpelações massivamente privatista, mas como fundamento da
anticapitalistas e revolucionárias? Nos liberdade humana, que possibilita a
regimes democráticos mais avançados produção livre do sentido e a inser-
nem de longe se pode vislumbrar essa ção dos sujeitos sociais em processos
possibilidade (TOLEDO, 1994, p.32). de verdade (SODRÉ, 1996, p.94).3
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 47

Consideramos que a sociedade em rede tos para a reflexão sobre os novos espaços
e as TICs trazem inúmeras perspectivas de em que ocorre a sociabilidade, espaços nos
estudo para a Ciência da Informação, seja quais co-existem diferenças e conflitos e
em termos teóricos, seja para estudo de também uma visão hegemônica, para cuja
como se desenvolve o planejamento de transformação torna-se necessária a parti-
ações de governo intermediadas ativamente cipação do número cada vez crescente de
por esse aparato sociotécnico, seja, ainda, profissionais de informação, que podem –
na verificação das múltiplas formas de re- devem? – atuar na construção de alterna-
lacionamento existentes na sociedade em tivas sociais no campo da cultura e da
rede. Neste espaço buscamos trazer elemen- comunicação.
48 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Bibliografia Ortiz, Renato, Cultura e modernidade,


São Paulo, Brasiliense, 1991.
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2003. sileira de Ciências da Comunicação,São
Bolaño, César (org.), Globalização e Paulo, Intercom, vol. XXIII, n°1, jan/jun de
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Jornais online fecham-se à interatividade, Consultado em: 04/12/2003.
trabalho apresentado no II Colloquio Italo-
Brasiliano di Scienze della Comunicazione. _______________________________
Firenze, 15-17 gennaio 2001, organizado por 1
Pontifícia Universidade Católica de Cam-
DISPO - HYPERCAMPO (Master pinas.
2
comunicazione e media) e INTERCOM (So- Mas tais visões – que acentuam as dife-
ciedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares renças, a busca de pluralidade, de expressão
da Comunicação). Resumo (“Online aberta e democrática na produção de informação
e de cultura – não são, certamente, as únicas.
newspapers close to the interactivity”) em:
Assertiva como a de Pierre Lévy é ilustrativa
h t t p : / / w w w. h y p e r c a m p o . o r g / n e w s / nesse sentido: “As mídias interativas e as co-
4_appuntamenti_colloquio.html. Visitado em munidades virtuais desterritorializadas abrem uma
04/12/03. nova esfera pública em que floresce a liberdade
Hardt, Michael. Movimentos em rede, de expressão. (...) O desenvolvimento do
soberania nacional e globalização alterna- ciberespaço já suscitou novas práticas políticas.
tiva. Em: Moraes, Dênis de (org.), Por uma São os primeiros passos da ciberdemocracia”.
Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record, (LÉVY, 2003, p.367)
3
2003. As observações de Muniz Sodré sobre
cultura democrática se aproximam bastante das
Ianni, Octavio, conferência realizada no
preocupações relativas a uma política cultural que
Seminário Internacional A Arte na Era procuram resgatar o espaço da pluralidade e da
Contemporânea, do Instituto de Artes da cidadania. Bolognesi (1996, p.233), por exem-
Unicamp, dia 08/04/1997. plo, afirma, sobre a prática da administração
Ianni, Octavio, Teorias da Globalização, petista em São Bernardo do Campo, entre 1989
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1995. e 1992: “Aquela política cultural, que procurou
Lemos, André, Ciber-cidades, em privilegiar a subjetividade, não poderia deixar de
Ciberpesquisa, Centro de Estudos e Pesquisa admitir o sujeito como cidadão. Daí, portanto,
em Cibercultura. Em: www.facom.ufba.br/ a premência em inseri-lo na organização e na
administração dessa própria política. O caráter
ciberpesquisa/. Consultado em 29/08/2003.
político, assim, complementou-se com a dimen-
Lévy, Pierre, O Que é Virtual, São Paulo, são exata da participação nos processos
Ed. 34, 1996. decisórios, mais uma maneira de demonstrar que
Lévy, Pierre, Pela Ciberdemocracia, em a ação cultural está para além do estritamente
Moraes, Dênis de (org.), Por uma Outra artístico”.
Comunicação, Rio de Janeiro, Record, 2003.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 49

A evolução tecnológica e a mudança organizacional


Carlos Ricardo1

A crise da modernidade capacidade de interacção e comunicação uns


com os outros em tempo real, instaurando
O futuro está cada vez mais no centro novas formas de cooperação no seio das
dos debates dos países industrializados avan- organizações e entre elas.
çados e o interesse crescente das oportuni- Considera-se que as inovações técnicas
dades que nos reserva é imputável à crise decorrentes dos resultados da investigação
generalizada e profunda com que as socie- independente e conduzidas pela curiosidade
dades modernas se defrontam. No que res- no domínio das ciências naturais são factores
peita às organizações, esta crise embrionária determinantes no contexto social e ambien-
faz-se sentir em vários planos cada vez mais tal. Trata-se, agora, de examinar todas as
interdependentes. Por um lado, a transforma- repercussões possíveis das tecnologias a
ção do meio ambiente das organizações diversos níveis, sendo o objectivo final li-
obriga-as a adaptar-se para sobreviver. A crise mitar as incidências negativas e maximizar
também se abate sobre o coração das orga- os eventos considerados desejáveis.
nizações e destrói, de uma forma geral, os As interacções entre evolução tecnológica
espaços organizados, provocando o desapa- e a mudança organizacional inibem toda a
recimento das convenções de aprendizagem compreensão se nos contentarmos em subs-
de cada organização. Por outro lado, a questão tituir um conceito errado por outro ou se se
da mudança tecnológica e das suas prováveis substituir o determinismo tecnológico por
repercussões não pára de aparecer no com- outra forma de determinismo social, na qual
plexo discurso sobre o futuro. as relações causa-efeito ou o domínio relativo
A percepção da relação entre evolução de um ou de outro elemento estejam simples-
tecnológica e mudança organizacional expri- mente invertidos. Em definitivo, estas formas
me-se de múltiplas maneiras, onde o de determinismo reduzem-se à questão co-
determinismo tecnológico se reveste de for- nhecida e estéril do ‘ovo e da galinha’3.
mas imaginadas ou subtis que influenciam
a maneira de pensar dos indivíduos sem que Factores determinantes da evolução
estes tenham disso consciência. Qualificar o tecnológica
aumento das NTIC de ‘revolução digital’, por
exemplo, pode ser incisivo e marcante, mas Com base nos resultados empíricos de uma
expressões deste tipo podem ocultar as série de estudos foi possível elaborar um
interacções complexas, dando a impressão quadro teórico que permita aos investigadores
subliminar de que a digitalização é o motor definir os factores organizacionais e culturais
de toda a mudança. Noções como ‘organi- determinantes da evolução tecnológica. Do
zação virtual’ ilustram este ponto de vista2. ponto de vista organizacional pode pôr-se em
As redes informáticas mundiais já per- evidência vários parâmetros que actuam sobre
mitem às empresas ligar todos os aspectos a evolução de novas tecnologias, nomeada-
relativos à calendarização, conteúdo e difu- mente, a visão prospectiva, a cultura organi-
são dos processos de desenvolvimento dos zacional e a aprendizagem organizacional.
produtos dispersos no conjunto de todo o
planeta, as quais oferecem um sistema de O papel da visão prospectiva4
transporte de dados e permitem criar um
espaço virtual em que os bens e serviços são As visões prospectivas são o reflexo das
propostos e trocados à escala global e no qual ideias relativas às futuras tecnologias partilha-
os indivíduos fisicamente separados têm das pelas comunidades, instituições e orga-
50 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

nizações envolvidas no processo de pesqui- mento, no seio de uma organização ou numa


sa-desenvolvimento. Concretizam a percep- rede de organizações. A aprendizagem, tal como
ção comum da oportunidade e a se entende neste contexto, não significa uma
implementação de ideias e projectos num formação técnica profissional ou um ensino
futuro relativamente próximo e tornam-se académico tradicional, mas a gestão de uma
assim objectivos fortes que influenciam os solução flexível ou a antecipação da mudança
mecanismos de inovação, determinando o de uma organização no seu conjunto.
processo complexo no qual estão envolvidos Esta aprendizagem encontra a sua expres-
múltiplos actores, tendo em vista a decisão são quando, por exemplo, uma organização
do prosseguimento de certas escolhas decide abandonar as estratégias e os concei-
tecnológicas e do abandono de outras. tos de gestão ultrapassados, para descobrir
As visões prospectivas do progresso téc- e promover mecanismos organizacionais
nico assumem uma tripla função: impõem uma novos ou reformados e encoraja modos de
direcção, facilitam a coordenação e agem como reflexão inéditos. A aprendizagem organiza-
forças mobilizadoras. Desempenham um papel cional traduzida em imagens e constatações
na orientação ao procurarem um ponto de originais põe em causa e transforma as
partida ao qual todos os indivíduos se podem estruturas e a cultura existentes.
referenciar para ordenar as suas percepções, A necessidade de aprender é, presentemen-
o seu raciocínio e os seus mecanismos de te, um elemento que condiciona cada vez mais
tomada de decisão duma forma que defina um o sucesso das organizações. Muitas instauram
objectivo comum para a reflexão sobre o uma cultura criada e assente em estruturas da
futuro. Asseguram a coordenação das percep- sua própria supremacia, num meio estável que
ções, dos pensamentos e dos processos de permita fazer a previsão do mercado ou de um
tomada de decisão, instaurando a compreen- produto, de um domínio técnico ou de um sector
são entre os indivíduos e as organizações, particular. As mutações aceleradas obrigam as
permitindo ultrapassar os quadros de referên- organizações a proceder a uma revisão das suas
cia divergentes e simplificando a indispensá- percepções, dos seus valores e do seu com-
vel cooperação entre estes dois grupos. Agem portamento, a fim de poder reagir rapidamente
como uma força mobilizadora, na qual estão à nova concorrência mundial. Elas devem
presentes as percepções, simultaneamente no elaborar estratégias de longo prazo que englo-
‘espírito’ e no ‘coração’ dos indivíduos5. bem processos de produção originais ou bens
e serviços novos. Se estes processos de auto-
O papel da cultura organizacional avaliação intervêm demasiado lentamente, a
organização corre o risco de ‘perder o com-
A acção que as visões prospectivas exercem boio’ do progresso técnico ou de perder adap-
sobre as inovações técnicas é, em larga medida, tação ao mercado e ver-se-á talvez na impos-
condicionada pela cultura da organização. A sibilidade de preservar a sua competitividade.
cultura organizacional pode representar, simul- A aprendizagem organizacional efectua-se
taneamente, um trunfo e uma desvantagem para ao nível dos indivíduos e dos grupos que
o sistema. Ela procura um sentimento de es- muitas vezes estão na sua origem. Todavia,
tabilidade e uma identidade aos quais os mem- esta aprendizagem não consiste apenas numa
bros da organização se podem referir, igualizando acumulação de experiências de formação
os comportamentos, que embora eficaz no independentes, mas numa aquisição colectiva
passado, se arrisca ser inadaptado ou mesmo de percepções ou de competências novas, o
travar os esforças dispendidos no sentido de que pode, na realidade, representar ‘menos’
relevar os desafios actuais. do que a soma das aprendizagens individuais
operadas no seio de uma organização, isto é,
O papel da aprendizagem organizacional6 as percepções e as competências adquiridas
pelos indivíduos não são todas transferidas para
A aprendizagem organizacional desempe- a organização no seu conjunto.
nha um papel crucial na evolução da tecnologia Por outro lado, a aprendizagem organi-
graças à sua capacidade de influenciar a di- zacional reveste muitas vezes uma dimensão
recção e o curso da investigação-desenvolvi- ‘mais vasta’ do que a totalidade dos conhe-
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 51

cimentos pessoais angariados, porque com- tamento quotidiano dos condutores e às suas
bina e amplia ao mesmo tempo os efeitos projecções individuais e colectivas sobre o
educativos, as experiências e o saber indi- que é desejável e realizável.
viduais, por via dos mecanismos quotidianos Esta visão prospectiva, em que o automó-
de cooperação e comunicação. vel domina as reflexões relativas à mobilidade,
estruturou e condicionou as políticas de trans-
Imaginar conceitos novos e explorar as porte durante décadas, podendo ser conside-
inovações rada como uma das representações tecnológicas
mais conseguidas em termos de alcance e de
As estruturas necessárias para imaginar impacto a longo prazo. Durante muitos anos,
conceitos novos e explorar plenamente as o automóvel foi o símbolo e o indicador de
inovações diferem duma empresa para outra, prosperidade individual e macrosocial. Apesar
em certos casos de forma considerável. Num das tensões e das evoluções que anunciam uma
extremo, a investigação e o desenvolvimento reestruturação da sociedade automóvel não está
efectuados em certas empresas estão separa- à vista nenhuma ruptura fundamental. A visão
dos das tarefas correntes, de forma a favo- da sociedade do automóvel disfruta hoje de uma
recer ao máximo a liberdade e a criatividade. tal omnipresença em todo o mundo, que quase
No outro extremo, podem estar intimamente cada uma das organizações que por ele se
associados ao funcionamento quotidiano, de interessaram deixaram a sua marca, encontran-
maneira a assegurar a pertinência dos produ- do a sua expressão numa aprendizagem sis-
tos resultantes da investigação aplicada. tematicamente centrada na experiência do
Como demonstram os exemplos seguin- passado.
tes, os factores descritos (visão prospectiva, O aparecimento massivo de inovações
cultura e aprendizagem organizacionais) resultantes da utilização de novas tecnologias
podem agir de forma permanente sobre a sem ligação aparente com o automóvel, tem
interacção complexa das mutações contribuído para assegurar a sua expansão a
tecnológicas e das mudanças organizacionais. nível mundial. A introdução de tecnologias da
Aqueles exemplos têm em comum dois informação e de técnicas de detecção, assim
aspectos. Em primeiro lugar, referem-se como da optoelectrónica alimenta vivas es-
ambos a uma forma particular de inovação peranças futuras. Sobrestima-se o ganho real
tecnológica: as novas tecnologias da infor- da eficiência produzida pelos acessórios que
mação e das comunicações (NTIC) e mais apelam às tecnologias da informação, mas não
precisamente a informatização e a digita- há razão para subestimar a sua real capaci-
lização do meio quotidiano. Em segundo, os dade de resolução das principais dificuldades
dois exemplos explicam claramente que uma com que hoje se confronta a sociedade do
reflexão, que se exprime exclusivamente em automóvel. A telemática oferece perspectivas
termos de determinismo tecnológico ou consideráveis para a modernização do sector
social, pode modificar ou falsear as perspec- dos transportes, admitindo-se que o automó-
tivas de desenvolvimento futuro. vel inteligente funcionando em rede seja o ele-
mento central da visão futura da sociedade
A perenidade da sociedade do automóvel: do automóvel7.
inovações sem mudança significativa Tendo em conta a direcção que os avanços
tecnológicos estão a ter, a melhor maneira de
Contrariamente às visões prospectivas os classificar seria falar de inovação estagnante
próprias das organizações, a representação da (ou estagnação da inovação), designada por
sociedade do automóvel apresenta ramifica- ‘estagnovação’ (Canzler e Marz, 1997)8.
ções muito extensas e profundas. Não apa- As inovações tecnológicas claramente
rece isoladamente como uma organização identificadas correspondem a uma aprendi-
única, mas vai buscar as suas raízes às zagem e a uma adaptação das organizações
empresas da indústria automóvel, aos gover- envolvidas. O seu carácter inovador prende-
nos e às diversas associações do ramo, assim se com o funcionamento de uma larga
como a domínios exteriores à esfera orga- variedade de novas tecnologias no domínio
nizacional como, por exemplo, ao compor- da informação e das comunicações, de forma
52 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

a estabilizar a visão actual da sociedade do adiamento dos problemas se arrisca a ser


automóvel e a explorar ao máximo a estreita adoptado como uma solução geral. Melhorar
margem de manobra existente. A introdução as estruturas tradicionais por inovações
da rede global de transmissão de dados na incrementais parece ser ‘a’ maneira de che-
máquina cria, no universo dominado por esta gar ao fim das dificuldades e os actores
visão prospectiva, um espaço para estas podem ter a impressão enganadora de que
inovações. No entanto, estes avanços o ‘pior já passou’ ou, pelo menos, de que
tecnológicos embatem no facto de que as dominam a situação. Por outro lado, a
inovações não serão de natureza a pôr fim ‘estagnovação’ encoraja os sentimentos de
às dificuldades, tendo apenas o efeito de as depressão. Apesar das inúmeras certezas
afastar ou atenuar provisoriamente, permitin- contrárias, o facto de adiar uma moderniza-
do a sua gestão mais eficaz. Apelar aos ção radical faz nascer um sentimento de mal-
computadores para resolver o problema dos estar na população. Para os responsáveis
‘engarrafamentos’ retardará o bloqueio total encarregados de definir as orientações em
do sistema de transporte nas zonas urbanas, matéria de tecnologia, torna-se cada vez mais
mas não suprimirá as suas causas. difícil não admitir que prosseguir uma ten-
A ‘estagnovação’ diminui as hipóteses de dência não constitui, a prazo, um progresso.
proceder a uma modernização radical, con- Ao mesmo tempo, a concentração de
centrando o potencial de inovação no pro- esforços sobre o aperfeiçoamento e a gene-
longamento da duração de vida dos concei- ralização de soluções médias desvia a aten-
tos actualmente dominantes, sem promover ção dos meios possíveis, ainda que difíceis
a elaboração de instrumentos inéditos para de pôr em acção, para fazer face à dimensão
resolver as dificuldades subjacentes. Quanto dos problemas. A estratégia de estabilização
mais esta tendência persistir, tanto mais difícil de uma situação difícil sem a corrigir e que
será descobrir e explorar outras soluções
implica uma aprendizagem parcial no quadro
tecnológicas para aumentar a mobilidade num
dos conceitos tecnológicos dominantes tor-
contexto social e organizacional diferente. O
nar-se-á um impasse. O sentimento de ine-
principal perigo da ‘estagnovação’ é ocultar
ficácia da ‘estagnovação’ e a percepção do
a relação que existe entre o adiamento de
seu carácter irreversível são factores que
um problema e o seu agravamento, o que
correm o risco de alimentar a morosidade em
favorece a atitude ingénua e passiva que
que ela se move.
consiste em pensar ‘que as coisas se resol-
Considerando este fenómeno, perguntamos
verão na altura necessária’.
se existem outras vias que permitam explorar
Considerando estas estratégias de inova-
ção, que prolongam a duração de uma visão as NTIC para estimular a inovação social, mais
dominante da tecnologia, por meio de uma do que simplesmente a manutenção e a re-
aprendizagem incompleta e de uma alteração forma progressiva das alianças sociais tradi-
da organização limitada, trata-se de saber se cionais. A existência de tais vias de mudança
a ‘estagnovação’ é apenas específica da perde evidência se nos voltarmos para a área
sociedade automóvel ou se este fenómeno se em que as inovações e as mutações técnicas
esconde igualmente noutras acções, visando e sociais simultaneamente se envolvem estrei-
fazer face a outras crises. É indispensável tamente e se estimulam reciprocamente, como
compreender os fundamentos da estratégia da o caso actual da rede da Internet.
‘estagnovação’, na medida em que este
processo tem incidências na visão das tec- A inovação induzida pela cooperação entre
nologias, alimentando a sua generalização um agentes: a Internet
estado de espírito prejudicial às iniciativas
que visam a gestão proveitosa da crise que O segundo exemplo das relações que
atinge a sociedade moderna. alimentam a evolução tecnológica e a refor-
Por um lado, a ‘estagnovação’ favorece ma organizacional, ilustra a forma como as
um sentimento de euforia, visto que, quanto inovações tecnológicas abrem uma via para
mais uma inovação consegue afastar a ne- novas formas de produção e de organização
cessidade de uma modernização, mais este que, por sua vez, contribuem para um novo
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 53

avanço das tecnologias A Internet poderá estar paradigmática se confirmar, a cadeia de valor
na vanguarda duma visão muito diferente do poderá ser completamente transformada numa
trabalho e da sociedade. Esta visão assenta série de actividades.
numa forma de organização, naturalmente A adopção e a propagação de uma cul-
concebida para se difundir, que passa por uma tura organizacional diferente necessitam de
estrutura de responsabilidade e de autoridade um certo intervalo de tempo. Uma verdadei-
mais descentralizada.9. ra descentralização, ultrapassando o tele-tra-
A tecnologia posta em acção pela Internet, balho que vem reduzir os espaços destinados
aperfeiçoada inicialmente no quadro do sector aos escritórios e as deslocações domicílio-
público, permite acesso gratuito e livre a uma trabalho, supõe que os indivíduos assumam
vantagem apreciável, uma norma comum que responsabilidades, desde o momento em que
permite aplicar plenamente uma lei econó- escolhem (na qualidade de produtor/consu-
mica vital, trazendo rendimentos de escala midor) os produtos preferidos até ao momento
crescentes graças às redes e ao conjunto em que imaginam (na qualidade de trabalha-
aberto de normas universais10. Comparativa- dor/dirigente de empresa) uma solução ino-
mente com modelos de organização hierár- vadora em cooperação com um cliente.
quica fortemente centralizados, que prevale- Hesitamos naturalmente em renunciar às
cem nos locais de trabalho, a Internet é um estratégias conhecidas para obter resultados
espaço (virtual) anárquico, extremamente económicos e sociais, para gerar riscos e para
descentralizado e desorganizado. É um ver- assegurar a continuidade das actividades.
dadeiro oceano de informações, percorrido Ainda que, por vezes, se trate de uma sim-
de forma não linear por hiperligações. Tor- ples questão de percepção da maneira de
na-se muito eficaz para a troca de ideias e encarar a mudança, um novo modelo pode
o estabelecimento de laços espontâneos, ser muito perturbador. As procuras da ‘re-
independentemente da distância, dos fusos ciprocidade dinâmica’ em rede, vão muito
horários ou de qualquer ideia pré-concebida. para além das funções de formação e das
A Internet demarca-se nitidamente do formas de aprendizagem privilegiada pelos
modelo industrial mais rígido de produção e estabelecimentos de ensino, os escritórios e
de consumo de massas, desenvolvendo-se num a maioria das famílias.
mundo em que os bens imateriais se revestem Apesar das possibilidades oferecidas pela
de maior importância que os bens imobiliza- Internet, é preciso ter em conta numerosos
dos de antigamente e em que a duplicação obstáculos, entre os quais figura a propensão
digital se traduz por um custo de reprodução para reintroduzir os métodos tradicionais,
marginal, praticamente nulo. Da mesma for- contentando-se em transplantar os velhos
ma, a Internet poderá transformar um número hábitos para os novos. Estas tendências con-
de dispositivos institucionais e modelos de traditórias são perceptíveis em todos os do-
comportamentos característicos, ao nível mínios, desde as empresas privadas aos or-
microeconómico, da oferta e da procura. Do ganismos públicos, que se contentam em
lado da oferta, começam a aparecer novas utilizar a Internet sem modificar os hábitos
formas de organização do trabalho, de fabrico de organização, até às iniciativas governamen-
e distribuição de produtos, de entrada no tais mal concebidas que impõem a aplicação
mercado e de cooperação. Do lado da pro- de soluções para resolver problemas ligados
cura, o consumo está a tornar-se activo. à economia do saber datadas da era industrial.
Modelos de empresas inteiramente novos A Internet prepara-se para utilização em
foram inventados, a fim de explorar de forma tempo real de formas de transmissão vídeo
rentável estas novas condições. Os particu- e fixou como objectivo futuro o desenvol-
lares e as empresas recorrem à Internet não vimento de estruturas organizacionais aber-
apenas para encontrar informações sobre os tas e de aplicações flexíveis. A cooperação
produtos existentes, mas também para pôr em entre empresas concorrentes só poderá ser
circulação a produção de artigos que con- proveitosa se a tecnologia em desenvolvimen-
ceberam. O consumidor assume, pouco a to for concebida para prevenir os monopó-
pouco, o papel determinante reservado anti- lios e procurar idênticas vantagens para o
gamente ao produtor. Se esta alteração conjunto dos fornecedores.
54 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Tendo em conta estas considerações, técnico e social para explicar a evolução


numerosos sinais anunciam o aparecimento tecnológica.
de um novo modelo de cooperação e de A comparação dos dois exemplos faz
produção, no qual as inovações tecnológicas ressaltar as diferenças e as semelhanças. Os
e a aprendizagem organizacional serão dois tipos de inovação aparecem em merca-
mutuamente indispensáveis e envolvidas num dos estabelecidos e regulamentados pelos
processo de arrastamento recíproco. poderes públicos. A indústria automóvel e a
estrutura institucional do sector das comu-
As estruturas de inovação divergentes: nicações resistem às mudanças de modelos
conclusões de aprendizagem e ao aparecimento de novos
conceitos técnicos.
Os exemplos sobre as estratégias de Esta resistência conduz a que nos inter-
inovação na indústria automóvel e no seio roguemos sobre os factores que facilitam a
da Internet deixam transparecer tendências emergência de uma visão totalmente inova-
divergentes. Enquanto a evolução tecnológica dora da tecnologia Internet deixando relati-
na indústria automóvel se reveste de um vamente inalteradas as formas de organiza-
carácter marginal que visa a conservação dos ção e as culturas no sector das comunica-
elementos essenciais representativos da so- ções. Quanto à indústria automóvel como
ciedade automóvel, a tecnologia das teleco- justificar que não tenha aparecido nenhuma
municações passa por profundas mutações nos nova visão, nem alteração radical nas formas
planos técnico e organizacional, que se de organização e culturas.
referem não apenas aos modos de produção Sem poder dar uma resposta global e
tecnológica e de coordenação mas também totalmente satisfatória a estas questões, os
aos produtos em si. A ‘estagnovação’, carac- casos permitem clarificar certos aspectos
terizada pelo adiamento incessante de uma susceptíveis de explicar a razão porque certas
modernização fundamental, opõe-se radical- inovações tecnológicas se impõem e outras
mente às reformas tecnológicas e não. Estes aspectos referem-se aos actores
organizacionais ligadas a alterações de da transformação e aos fundamentos do
modelos de aprendizagem, de criação e de contexto social e político no qual intervêm.
manutenção de novas visões revolucionárias Como referimos, a criação da Internet não
da tecnologia. resultou de organizações até então encarre-
O quadro conceptual apresentado não gadas de produzir tecnologia de transmissão
poderá revelar as causas profundas das di- internacional. O comportamento das empre-
vergências observadas nas estruturas de sas de telecomunicações, em matéria de
inovação dos sectores do automóvel e das inovação, não foi fundamentalmente diferen-
comunicações. Conceitos como visão te do da indústria automóvel. A tradição, que
prospectiva, cultura organizacional e apren- consistia em trazer para o sector melhora-
dizagem organizacional fazem ressaltar as mentos marginais, foi interrompida pela
condições empíricas susceptíveis de justifi- constituição de um novo grupo de
car a diversidade dos modos operatórios da intervenientes e pelo aparecimento de uma
evolução tecnológica. nova cultura em matéria de produção e de
De uma forma mais geral, o quadro desenvolvimento tecnológico. Este modelo
conceptual permite identificar modelos espe- concorrente deve a sua vitalidade e o seu
cíficos de mudança tecnológica e relacioná- sucesso à superioridade tecnológica dos seus
los com o meio cultural e organizacional. De produtos e ao facto de representar uma
facto, a fusão dos aspectos tecnológicos, verdadeira escolha oferecida aos utilizadores.
culturais e organizacionais pode ser consi- Contrariamente às opções propostas aos
derada como o elemento central desta abor- consumidores pela indústria automóvel, que
dagem conceptual. Ao estudar a forma de se limitam a algumas variantes (e não ofe-
interacção de um objecto técnico com ideias recem substituto para o motor de combustão),
e percepções sociais assim como com as a Internet representa uma solução de alteração
finalidades e tradições organizacionais mais fundamental à escrita tradicional, assim como
gerais, poder-se-á evitar todo o determinismo ao telefone. A expansão acelerada da World
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 55

Wide Web explica-se em grande parte pelo forma independente mas sim misturá-los
acolhimento favorável que lhe reservaram os sistematicamente.
consumidores. As preferências dos utilizadores O potencial de inovação real das organi-
podem constituir um factor de adesão e de zações tecnológicas e organizacionais, até agora
eleição importante de conceitos tecnológicos insuficientemente desenvolvido, não reside nas
revolucionários, arrastando uma série de ino- inovações tecnológicas e organizacionais pro-
vações importantes nos planos técnico e priamente ditas, mas sim na sua fusão, a qual
organizacional. Convém reconhecer que os representa um potencial de inovação secundá-
utilizadores fazem parte integrante da plêiade rio. Da aptidão para entender este potencial e
de actores que contribuem para a difusão das da vontade de o concretizar dependerá o sucesso
inovações socialmente desejáveis. dos esforços desenvolvidos pelas organizações
Um outro aspecto posto em evidência é para elaborar estratégias que visam enfrentar
o contexto político e social em que se ins- estas crises.
crevem as diversas estratégias, em matéria Os exemplos referidos chamam a atenção
de inovação. O triunfo do modelo Internet das organizações para a existência de um tal
corresponde a uma tendência geral para a potencial de inovação secundário mostrando
desregulamentação. A dispersão das organi- claramente porque lhes é possível e neces-
zações monopolistas tradicionais de teleco- sário ligarem-se ao seu desenvolvimento,
municações favorece o aparecimento de contrariamente ao acontecido no passado. É
fornecedores que utilizam a rede local, pro- certo que as organizações sofrem a tentação
pondo serviços clássicos com tarifas mais de se abster desse potencial de inovação
vantajosas ou pondo em funcionamento novos fugindo às dificuldades inerentes, seguindo,
meios de exploração da rede. por exemplo, a via da ‘estagnovação’, uti-
O interesse que a sociedade demonstra lizando as inovações tecnológicas para es-
pelas novas formas de comunicação e ser- tabilizar e preservar as visões prospectivas,
viços digitais coincide com uma vontade as estruturas sociais e as estratégias
política de aligeirar a regulamentação do que organizacionais tradicionais.
pertencia anteriormente ao sector público. O exemplo da normalização da Internet
Estas condições não estão reunidas no sector mostra, no entanto, que esta atitude pode levar
automóvel, onde não existem actores influ- a um impasse de forma muito rápida, quando
entes para propor conceitos diferentes em outras organizações mais jovens e dinâmicas
matéria de mobilidade, nem tecnologias em combinam as inovações tecnológica e social,
concorrência, entre as quais os utilizadores apontando caminhos novos e originais. Estas
possam escolher. incursões em terreno desconhecido representam
Estes factos, conduzem aos aspectos riscos, porque nada garante que encontrarão um
organizacionais da inovação tecnológica. A sucesso durável, ainda que bem conseguidas. As
diversidade dos esquemas de inovação ilustrada organizações que ousam procurar novas vias de
pelos sectores referidos ajuda a tomar consci- desenvolvimento e de crescimento podem en-
ência do facto de que a inovação tecnológica contrar-se em caminhos para além dos balizados.
não conduz automaticamente a uma inovação A ‘estagnovação’ da indústria automóvel
organizacional. Reciprocamente, as inovações e a capacidade de inovação do sector das
organizacionais não decorrem de tecnologias telecomunicações suscitam a questão dos
novas e a emergência de novos modos de ensinamentos que podem ser retirados desta
organização não garante que sejam criadas novas análise. Apesar da crescente concorrência
tecnologias e utilizadas com sucesso. internacional que se exerce sobre as empre-
Tendo em conta a dimensão e gravidade sas, as inovações radicais são colectivamente
da crise da modernidade, as organizações não evitadas, porque constituem uma ‘ameaça’
podem permitir a entrada em exclusividade para todas as normas estabelecidas. No
de um potencial de inovação esperando que momento em que se inicia o século XXI, a
o resto das inovações acabe por se materi- tarefa para as organizações é aperceberem-
alizar. Para fazer face à crise, as organiza- se destes limites, a fim de ultrapassarem a
ções não devem explorar os potenciais de crise da modernidade e de se prepararem para
inovação tecnológica ou organizacional de os novos desafios.
56 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

7
_______________________________ O veículo do futuro deverá comportar
1
Instituto Português de Administração de três tipos de melhoramentos que atenuarão os
Marketing. impactos negativos da sociedade automóvel.
2
Evoluções como os ‘documentos hipermédia’ Em primeiro lugar, os sistemas de informação
(Coy, 1994), as’‘redes informáticas abertas’ colectivos sobre a circulação. Em segundo
(Hoffmann, 1996) e o ‘ciberespaço’ (Rheingold, lugar, o prosseguimento do desenvolvimento
1992), bem como os conceitos como ‘a simu- e introdução de tecnologias da informação
lação do universo’ (Grassmuck, 1995), mostram deverão levar à realização de sistemas de
que é impossível ter noção das caracteristicas e informação disponíveis para consulta antes de
direcções específicas da mudança por meio de empreender uma deslocação. Em terceiro
algumas fórmulas sedutoras que invocam a lugar, prevê-se a redução dos tempos de
digitalização. deslocação e do volume de circulação, atra-
3
Os estudos relativos aos grandes sistemas vés da instituição de um sistema electrónico
tecnológicos (Joerges, 1993) e às teorias das redes de tarifas de circulação ou de congestiona-
como actores (Akrich, 1992) mostram que uma mento e pela possibilidade de exploração de
tese nunca apreenderá correctamente a dinâmica sistemas interactivos.
8
específica da evolução em curso e atingirá sim- Embora isso não signifique que os modelos
plesmente um certo número de paradoxos funda- de mobilidade, datados de há várias décadas,
mentais e métodos de explicação insuficientes, se tenham sido conservados ou que sejam objecto
apenas apresentar os aspectos sociais e técnicos de uma modificação total ou mesmo postos em
desta evolução ou, em particular, como esferas causa.
9
de accção independentes mais ou menos opostas A história da génese da Internet explica como
(Latour, 1995). a tecnologia de transmissão, própria desta rede,
4
Imagens vulgarizadas como ‘auto-estradas da constitui o objectivo de um programa de desen-
informação’, ‘sociedade sem moeda’, ‘escritório volvimento à escala internacional, no qual estão
sem papel’ permitem às instituições acumular uma envolvidas as grandes indústrias do sector da
soma de experiências e de conhecimentos com- informação e das comunicações. As empresas que
binando-os de forma singular e eficaz. Não enco- concorrem para o escoamento dos seus produtos
rajam nem favorecem uma posição em detrimento e para a conquista de partes do mercado coope-
de outra, tendo por efeito fundi-los num objectivo ram estreita e proveitosamente quando se trata de
comum, para as cristalizar sob uma forma nova. transportar as inovações tecnológicas para a
5
Imagens como ‘oficina sem operário’ ou Internet.
10
‘sociedade nuclear’ suscitam fortes reações emo- As palavras de ordem da Internet são:
cionais. As visões prospectivas não solicitam cooperação e não isolamento, alargamento e não
apenas os projectos racionais, mas fazem igual- restrição. Para o testemunhar observemos a
mente apelo aos valores profundos da percepção, súbica rapidez com que os concorrentes nor-
pensamento e decisão individuais. É este aspecto malmente inconciliáveis unem os seus esforços
que explica a capacidade das visões prospectivas para fazer da Internet um espaço aberto sem
de despertar o interesse dos indivíduos e de os hiatos. Os governos nacionais e as organizações
levar a agir. internacionais mantêm-se vigilantes para que a
6
A ‘aprendizagem organizacional’ define-se Internet se torne um terreno largamente parti-
como a aquisição ou o estímulo colectivo das lhado, oferendo condições idênticas, desprovi-
percepções, competências estratégicas ou proces- do de obstáculos, ao comércio electrónico, ao
sos de reflexão inéditos dominantes, para adap- correio electrónico e à livre circulação da
tação às mutações do meio exterior. informação.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 57

Contextualización e análise da televisión de galicia


no ámbito europeo de televisións rexionais
Carmen Ciller Tenreiro1

Introducción Unha rexión sen espacio audiovisual


propio, sen capacidade de producción
Nos últimos anos os distintos países que audiovisual e sen programas de cooperación
integran Europa asistiron a unha serie de intersectorial, condénase a sí mesma á
transformacións claves que afectaron direc- progresiva pérdida de potencial no conxunto
tamente as súas políticas de comunicación. do seu desenrolo3. Desta aseveración, en
Os cambios orixinados hasta a actualidade parte, dedúcese, que un dos factores que en
contribuíron a potenciar sistemas audiovisuais maior medida impulsou a descentralización
nos que prolifera o auxe de estructuras televisiva foron os acontecementos políticos.
rexionais e locais. Que esta última desenvolveuse paralelamen-
A reivindicación política duns medios de te á descentralización político-administrativa
comunicación propios en países cunha cul- dos Estados é unha evidencia tal, como que
tura e unha lingua diferenciadas posibilitou a labor de determinados grupos políticos foi
a creación e a consolidación de sistemas a que impulsou de maneira decisiva o de-
televisivos considerados decisivos para a senrolo das televisións nas rexións, ampara-
recuperación e a normalización das naciona- da e creada na maioría dos casos pola ini-
ciativa pública.
lidades, rexións e localidades que constitúen
O obxecto da presente comunicación
a Unión Europea. Como consecuencia mais
consiste en analizar o novo panorama
directa xurdan os casos da Televisión de
audiovisual que se presenta en Galicia nos
Galicia en Galicia, a TV3 en Cataluña, Euskal
últimos años coa aparición da Televisión de
Telebista no País Vasco, S4C no País de
Galicia. En primer lugar se presenta unha
Gales, Omrop Fryslan en Holanda ou Teílifis
contextualización dos condicionantes
na Gaeilge en Irlanda. televisivos, políticos e económicos que van
De entre os diferentes procesos que se a determinar a aparición desta televisión
sucederon e que de maneira decisiva pública. A continuación, analízanse as señas
orixinaron unha nova articulación e de identidade que caracterizan a TVG e que
modificación do panorama audiovisual a identifican como canle rexional. Finalmen-
europeo, os derivados da desregulación e en te, o texto expón de que maneira todas estas
consecuencia da privatización da televisión variables están incidindo nas políticas de
son os que conseguiron quebrar máis signi- desenvolvemento do audiovisual rexional en
ficativamente o sistema de monopolio Galicia.
imperante hasta o momento. Así mesmo, e
a consecuencia da dixitalización, prodúcense Contextualización da aparición da
os fenómenos decisivos para a evolución dos Televisión de Galicia
medios de comunicación: multiplícanse as
canles televisivas e se desencadea unha nova O sistema televisivo español, marcado
manifestación do fenómeno: a converxencia desde un primer momento polo seu carácter
entre a televisión, a informática e as centralizado e público, remontase á aparición
telecomunicacións2. Existe ademáis outro da TVE en 1956. Televisión Española é unha
proceso que se desenvolveu paralelo a auxe empresa pública integrada ó Grupo RTVE,
dos mencionados espacios locais e rexionais composta á súa vez por Radio Nacional de
e qué foi adquirindo espacio en Europa a nivel España, TVE Temática y TVE Internacional.
económico, político e cultural, o da TVE presenta dúas canles hertzianas de
descentralización. ámbito estatal, TVE-1 ( La Primera ) e TVE-
58 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

2 ( La 2 ). Esta última creada en 1966, conta Baleares, La Rioja, Madrid, País Vasco,
con 17 delegacións territoriais, unha en cada Principado de Asturias, Región de Murcia)
Comunidade Autónoma, desde as que se organízanse institucionalmente da mesma
emite programación rexional. maneira: un parlamento rexional e un exe-
Como consecuencia directa do proceso de cutivo encabezado por un presidente,
desregulación en Europa, a aprobación da Ley nombrado pola cámara. En canto as
de la Televisión Privada de 1988 posibilitou competencias en materia televisiva, estas
a aparición de tres canles privados que concrétanse na posibilidade de crear e
comezaron a emitir entre finais de 1989 e xestionar as súas propias radios e
principios de 1990. Antena 3 TV, Telecinco televisións.
e Canal Plus, o único canal de pago. A aparición das televisións autonómicas
A dixitalización e a globalización en España producíronse en duas fases. Na
configúranse como procesos claves que primeira, créanse as corporación de tres
repercutiron no sistema audiovisual do es- nacionalidades históricas, que detentan o
tado español. TVE, as tres canles privadas obxectivo común e prioritario de contribuir
e todas as televisións autonómicas presentan á normalización da lingua e a cultura propias,
na actualidade emisións vía satélite. Ademáis, Euskal Itarri Telebistal no País Vasco en
recentemente Distribución de Televisión 1982, Corporació Catalana de Ràdio i
Digital-Vía Digital e a plataforma de Televisió en Cataluña en 1983 e Compañía
televisión dixital, Canal Satélite Digital que de Radio e Televisión de Galicia en 1985.
operaban de maneira independente O feito de que Galicia se vira afectada por
fusionáronse dando lugar a Digital Plus que unha capacidade financieira máis restrinxida
opera desde xullo de 2003. repercutiu indudablemente no desenrolo da
O auténtico proceso que exerceu unha televisión4.
forza descentralizadora definitiva en España A segunda fase desenvólvese entre 1986
iniciouse en 1982, a consecuencia da y 1989. No País Vasco e Cataluña poñen en
aprobación da Ley de los Terceros Canales, marcha as segundas canles de televisión,
coa posta en marcha da primeira televisión ETB2 (emite maioritariamente en castelán)
autonómica, a Euskal Televista. A en 1986 e Canal 33 (íntegramente en catalán
coexistencia no estado español de diferentes baixo un perfil especializado, deportes,
linguas autóctonas: o español ou castelán, música, cultura). En 1989 se crean as
lingua oficial do Estado; o catalán, lengua televisións autonómicas de Andalucía, Madrid
propia de Cataluña, as Illas Baleares e gran e Comunidad Valenciana. En 1989 inicia as
parte do País Valenciano e dunha pequena súas emisións a Radio Televisión Pública de
parte de Aragón; o euskera, lingua propia de Andalucía, en 1998 pon en marcha unha
Euskadi e parte de Navarra; e o galego, lingua segunda canle terrestre, o Canal 2 Andalucía.
propia de Galicia, quedou reflectido coa En 1989 inicia as súas emisións a Radio
chegada da democracia na Constitución de Televisión de Madrid. Tamén neste ano inicia
1978, na que se “reconoce y garantiza el as súas emisións o Canal 9, primer canal da
derecho de autonomía de las nacionalidades Radiotelevisió Valenciana. En 1997, comezou
y regiones que integran España” e se a emitir a segunda canle autonómica
establece un marco para a descentralización valenciana, Notícies 9. En 1998 concédese
político-administrativa, no que nun primeiro a licencia para a televisión autonómica da
momento se diferenciaron as autonomías de Comunidade Autónoma de Canarias, e no
“primeira velocidade” (Andalucía, Cataluña, 2001 comeza a emitir a Televisión
Galicia e País Vasco ) e as de “segunda Autonómica de Castilla-La Mancha.
velocidade ” (as trece restantes). Todas as “O escenario televisivo español
comunidades autónomas (17: Andalucía, completase coa posta en marcha e
Aragón, Canarias, Cantabria, Castilla-La consolidación, nos anos máis recentes das
Mancha, Castilla y León, Cataluña, televisiones locais5, xurdidas no marco dun
Comunidad Foral de Navarra, Comunidad proceso histórico de recuperación das liber-
Valenciana, Extremadura, Galicia, Islas dades democráticas”6.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 59

A Televisión de Galicia e o seu perfil de de Galicia exerceu desde os seus comezos


televisión rexional unha labor de importancia capital para o
afianzamiento dunha cultura, unha lingua, uns
Definido o contexto no que xurde a valores e a plasmación decisiva da
Televisión de Galicia no marco do sistema construcción identitaria como nacionalidade.
televisivo do Estado español, a continuación A identidade como núcleo organizador da
preséntase unha breve exposición sobre as Industria da Cultura en Europa e como activo
principais características que identifican á TVG na definición de áreas xeo-lingüísticas na
como televisión rexional. Previamente e aten- Mundialización - e no Mercado Global-
dendo á diversidade de modelos de televisión ademáis da Televisión Pública como factor
rexional que se distinguen actualmente en identitario - sobre todo nos países pequenos,
Europa, obsérvase como a TVG atópase nas situacións periféricas ou nas sociedades
ubicada baixo a denominada Televisión en proceso de normalización - son os dous
independiente de cobertura específicamente conceptos xerais que enmarcan o
rexional7, en canto que reúne unha serie de achegamento realizado ao audiovisual en
características específicas a este modelo: Galicia8.
presenta unha capacidade autónoma de A Televisión de Galicia afronta, entre
producir e emitir para a súa rexión unha outras, unha doble función principal: ofertar
programación completa e xeneralista. Dentro unha programación, e facer frente á
desta clasificación tamén aparecen incluidas financiación desta. Para isto a televisión conta
o resto das televisións autonómicas do Estado cunha serie de recursos (financiación pública)
español, así como a S4C do País de Gales que non son ni moito menos suficientes. Como
ou a Omrop Fryslân en Holanda. televisión de servicio público necesita e se
As distintas emisión televisivas da TVG presupón pertinente que estableza múltiples
vía satélite recibidas en Europa e en Amé- relacións co resto das institucións e entidades
rica, así como as do resto das televisións públicas na comunidade (administraciones
autonómicas, inclúen a sua vez a todas éstas públicas, universidades, teatros, organismos
dentro do modelo de televisión rexional deportivos, xornais ) coas que poder establecer
independente de cobertura suprarexional, acordos de coproducción y colaboración que
nacional ou internacional. Unha redunden no beneficio e a dinamización
programación específica de proximidade económica e socio-cultural de Galicia.
(consecuencia do proceso de descentra- Mais toda esta serie de colaboracións e
lización) atende a unha cobertura internaci- acordos para paliar os recursos económicos
onal a través das recentes tecnoloxías do que se precisan para facer frente ós gastos
satélite e do cabo (consecuencia da que xenera a canle non resultaron suficien-
globalización e a dixitalización). tes. En consecuencia, a TVG viuse na senda
O Parlamento de Galicia, amparándose na de perseguir outros medios de financiación:
condición de nacionalidade histórica para os ingresos publicitarios. A utilización destes
Galicia, en base ó lexislado na Ley del Tercer recursos derivaron progresivamente nunha
Canal de 1983, accede á creación da Compañía constante loita pola maximización de
de Radio e Televisión de Galicia. A xestión audiencias, o que provocou o desvío da
pública da televisión va a determinar absolu- televisión de maneira continuada dos seus
tamente os seus obxectivos e as súas priori- criterios de servicio público. Isto viuse
dades. Contribuir á normalización do idioma traducido nunhas grellas que utilizan o
a través da potenciación da idiosincrasia que entretemento como fórmula principal dos sus
caracteriza ao pobo galego se convertirá no eixo contidos de programación.
principal que articule os contidos de O reiterado incumplimiento do medio dos
programación da canle pública. Ó mesmo tempo principios básicos que debía atender como
a TVG deberase converter no motor servicio público así como unha forte presión
dinamizador da industria audiovisual na rexión, política e social, pero en definitiva, a
con capacidade para crear novos postos de transposición da Directiva de 1989, na Lei
traballo e aumentar o volumen de negocio. 25/1995 de 12 de xullo de Televisión sen
Acorde a estes principios, a Televisión Fronteiras que otorga as Comunidades
60 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Autónomas as funcións de control, inspección involucrarse de maneira máis notoria no


e imposición de sancións respecto os con- desenrolo dun modelo televisivo cunha ini-
tidos de programación das terceiras canles ciativa máis destacada que se inclina cara a
propias, así como a emisión en xullo de 2000 potenciación da producción audiovisual
do Dictamen sobre o cumplimento dos ar- autóctona9.
tigos 4 e 5 relativos a radiodifusión televisiva A continuación podemos observar unha
dunha producción maioritaria de obras relación da producción de stock producida
europeas e de produccións independentes polo sector da producción independente
durante o periodo 1997-1998 provocou nos galega na que se implicou directamente a
últimos años unha modificación da política Televisión de Galicia para ser programada
de actuación da TVG nun intento de nas súas grellas durante o ano 200110.

Documentais Nº Capitulos Reposicións Duración TOTAL


A memoria cotiá 13 3 30' 7h
Bestas 1 1 60' 1h52'
Galicia Visual 96 17 35' 54h13'
Terra e vento 22 9 60',30' 21h18'
Castelao 1 0 30' 23’19'’
Monte Alén 1 0 30' 28'
Gordura 5 0 30' 2h
O milagro dos 1 0 35' 31'
Barreiros 1 0 50' 50'
Himno Galego 1 0 55' 54'
TOTAL 112h25'

Series Nº Capitulos Reposicións Duración TOTAL


Mareas vivas 40 3 75' 1h32'
Fíos 4 1 70' 4h57'
Galicia express 19 0 40' 11h46'
Pratos
104 61 80' 132h57'
combinados
Pequeno hotel 25 0 45' 16h21'
Terra de
30 0 80' 30h06'
miranda
Avenida de
40 0 30' 17h30'
América
Comediantes 3 0 40' 1h33'
Rías baixas 29 1 80' 29h
TOTAL 245h42'

Longametraxes Nº Capitulos Reposicións Duración TOTAL


Sempre Sonxa 1 0 108' 1h48'
Galego 1 0 128’43'’ 2h08'
Dame lume 1 1 98’15'’ 3h16'
Cando o mundo
1 1 74’40 2h30'
se acabe
Dame algo 1 0 85’42'’ 1h25'
TOTAL 11h07'
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 61

A Televisión de Galicia e o impulso do autonomía considerable para xestionar os seus


audiovisual rexional propios medios televisivos, ademáis de apro-
veitar as novas posibilidades que implica a
Para 1997 foi aprobado un Plan de implantación das novas tecnoloxías, poderán
Actuación11 cunhas prioridades que atendían asistir a unha auténtica revolución económi-
á producción propia, o apoio ó sector ca, social e cultural. A diversidade de canles
audiovisual galego a través da ficción rea- e a especialización de públicos, implicará
lizada e producida en Galicia. Con un Plan ademáis a oportunidade de (re)construir as
de Ficción Feita en Galicia iniciado por la súas tradicións culturais e a súa identidade,
CRTVG en 1996, con inversións superiores a posibilidad de dinamizar as industrias
ós mil millóns das antiguas pesetas, a TVG audiovisuais rexionais a través da súa
participa en numerosos proxectos, implicación directa nos procesos de
longametraxes, sereies de ficción e documen- producción continuada, decisivos para cubrir
tais que aparecerán reflectidos máis adiante os novos contidos e programas que
nas grellas da TVG. proliferarán coa ampliación da oferta.
Paralelamente á política iniciada pola O feito que supuxo a aprobación dun texto
Televisión de Galicia nos últimos anos, que como a Lei 6/1999 do Audiovisual de Galicia
incide especialmente na potenciación da leva a pensar que os políticos concienciáronse
producción do sector audiovisual en Galicia da importancia trascendental que supón a
e que repercute de maneira directa na sua industria audiovisual en e para Galicia.
programación de cotidos de proximidade, o Galicia presenta nos comezos do novo
que consolida a sua posición como motor milenio todas as posibilidades de artellar a
clave e decisivo do sector da producción través do sector do audiovisual, as
independente; as súas redes de distribución, telecomunicacións e as novas tecnoloxías, os
ligadas ás constantes transformacións principais polos que deberán impulsar e
tecnolóxicas, presentan cada vez novos retos consolidar o seu desenrolo económico e
que alcanzan tanto ó consumo da televisión socio-cultural como nacionalidade Europea.
como ó alcance das súas emisións. Sen dúbida, todas istas potencialidades no
Por suposto sempre e cando non xurda poderán ser materializadas se non existe e
un obstáculo maior: “a ausencia de políticas se da unha implicación absoluta desde a
democráticas de comunicación capaces de Administración, fundamentalmente
comprender a importancia de ámbitos encaminada a coordinar os tres pilares bá-
rexionais e locais na Europa do futuro”12. sicos nos que se haberá de asentar cálquela
Niñas rexións que logren superar estas sector económico: a formación, a
dificultades políticas e consigan un grado de investigación e o sector industrial.
62 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

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14.538 millóns de pesetas respectivamente, la
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6
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2000. regional propuestos por Miguel de Moragas,
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Interculturalidade en Galicia, Bretaña e País Televisión de Proximidad en Europa, Universitat
de Gales; Santiago de Compostela, Unión Autònoma de Barcelona, 1999. La clasificación
Europea, Dirección Xeral XXII, Conseil distingue entre: Televisión de producción delega-
da en la región, dentro de la que se ubican los
Regional de Bretagne, CRTVG, Facultade de
centros regionales que producen programas para
Ciencias da Información da USC, Instituto una televisión nacional de la que dependen
Culturel de Bretagne, 1998. orgánicamente, además de actuar como
Ledo Andión, Margarita (edic.), Os “Esta- delegaciones informativas de éstas últimas, sin
dos Xerais da Cinematografía e do Audiovisual tener que emitir para la región en la que están
en Galicia”. Catálogo de produccións 2001- implantadas; Televisión descentralizada, en la que
2002, Universidade Santiago de Compostela, se incluyen las estructuras de centros regionales
2004. Edición bilingue galego-inglés. dependientes de una televisión nacional que
producen y emiten un informativo diario para su
López, Bernat, “La televisión en las
región, caso de los centros regionales de la TVE
regiones de Europa: una investigación ( España ); Televisión de desconexión regional,
pionera”, Zer, nº 1, 1996. que se corresponden con los centros regionales
Moragas Spà, Miquel de, de una televisión nacional que emiten en
Garitaonandía, Carmelo y López, Bernat desconexión una hora diaria o más, con una parrilla
(Eds): Televisión de Proximidad en Europa, diversificada, y con capacidad de producción
Universitat Autónoma de Barcelona, Barce- autónoma para sus propias necesidades de
programación, o bien para producir programas de
lona, 1999.
difusión nacional, como ocurre con las
Moragas Spà, Miquel de, “Espacio delegaciones de TVE en Cataluña y en Canarias;
Audiovisual y regiones en Europa”; Telos, Televisión de organización federada, que se
nº 45, Madrid, marzo- mayo, 1996. corresponde con los organismos televisivos
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 63

regionales, jurídicamente independientes pero e Portugal que apenas chega ó 43%). En España,
asociados entre sí, encargados de la gestión de un por exemplo, as canles autonómicas obtiveron
canal nacional y de producción de programas del mellores resultados que as cadeas nacionais
mismo, identificados con los organismos (Televisión Galicia atópase nun 80% en emisión
radiotelevisivos de los länder alemanes y las de obras europeas, seguida por TV 33 de Cataluña
compañías regionales privadas de Channel 3 en cunha media do 72% nos dous anos analizados,
Reino Unido; Televisión regional independiente de pola súa parte Euskal Irrati Telebista alcanza o
cobertura específicamente regional; Televisión 91’6% nesta sección). Tele 5 e Antena 3 nin
regional independiente con cobertura sequera alcanzan o mínimo obrigado. En xeral,
supraregional, nacional o internacional y Televisión obtivéronse mellores resultados na difusión de
local de influencia regional, las emisoras de difusión programas de productores independentes xa que
hertziana cuya zona de difusión e influencia alcanza Canal + chegou a un 42’6%, cifra difícil de
una parte importante de la región en que radican, alcanzar polas televisións autonómicas españolas
que sería el caso de Télé Lyon Métropole en Lyon que, na maioría dos casos non poden comprar os
en Francia, Rete 7 en Bologna en Italia. dereitos, neste sentido a televisión galega solo
8
Ledo Andión, Margarita “O Audiovisual”, obtivo un 3’6% en 1998. Sánchez, J., (tesis
en A Comunicación en Galicia 2000/ Ponencia doctoral) Audiovisual y sociedad de la información
de Comunicación, Santiago de Compostela, en las regiones: Castilla - La Mancha 1991 - 2001.
Consello da Cultura Galega, 2000. Universidad Complutense de Madrid.
9 10
Tras o análise sistemático dos informes Ledo Andión, M.(edic.) Os “Estados Xerais
presentados polos Estados membros sobre as da Cinematografía e do Audiovisual en Galicia”
normas relativas á radiodifusión televisiva de obras . Catálogo de produccións 2001-2002, Universi-
europeas e produccións independentes (un 50% dade Santiago de Compostela, 2004, pags. 48-50.
11
dos contidos difundidos deberán ser de producción Información extraída do Informe de Xestión
europea, mentres que un 10% deben ser realiza- e Contas Anuais de Televisión de Galicia, S.A.,
das por productores independentes) conclúese que 1997.
12
o promedio ponderado de obras europeas varía Moragas Spà, M. de, Garitaonandía,
según os países entre o 81,7% e o 53,3% apro- Carmelo y López, Bernat (eds): Televisión de
ximadamente (excepto no caso de Luxemburgo Proximidad en Europa, Universitat Autónoma de
– RTL Tele Lëtzebuerg – que alcanza o 100% Barcelona, Barcelona, 1999.
64 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 65

Conhecimento e informação na atual Reestruturação Produtiva:


para uma crítica das teorias da Gestão do Conhecimento
César Bolaño1 e Fernando Mattos2

A idéia de uma Sociedade Pós-industrial, tico e os serviços pessoais, esses últimos


formulada no início dos anos 70 e que praticados por empresas ou indivíduos que
manteve seu vigor até o princípio dos 80, trabalham por conta-própria. Trata-se, portan-
cedendo passo, em seguida, às noções de to, de um amplo leque de atividades, com
Sociedade da Informação e, mais recentemen- mão-de-obra de diferentes graus de qualifi-
te, Sociedade do Conhecimento, baseava-se cação e de rendimentos, para não dizer das
na constatação de mudanças significativas perspectivas de carreiras profissionais.
ocorridas na composição setorial do empre- É importante destacar, por exemplo, que
go nos paises capitalistas desenvolvidos muitas vezes atividades que atualmente estão
(queda do emprego industrial e aumento do colocadas como serviços, eram, há alguns
peso dos serviços no conjunto dos ocupados), anos, realizadas no âmbito das empresas do
como mostra a tabela 1 e na existência de setor industrial. Ou seja, há diversos casos
novas formas de trabalho (especialmente nos de profissionais que atualmente executam as
setores com alta concentração de atividades mesmas tarefas que executavam há alguns
intensivas em conhecimento). A perspectiva anos, mas não as executam mais no espaço
pós-industrialista nutre-se, portanto, das trans- do planta produtiva de uma empresa, mas
formações efetivamente promovidas pelo em escritórios ou em casa, com trabalho
capitalismo contemporâneo sobre a estrutura contratado pela mesma empresa que antes o
social, decorrentes, em grande medida, das empregava. Há também casos em que o
transformações tecnológicas e as crescentes profissional mantém-se no mesmo espaço
exigências de conteúdos de conhecimento das físico do tempo em que estava ocupado como
tarefas realizadas pelos trabalhadores, num assalariado de uma empresa do setor indus-
contexto de alterações da estrutura de em- trial, mas seu contrato de trabalho é diferente
prego e de mudanças estruturais e instituci- do caso anterior, ou seja, o trabalhador foi
onais de ampla magnitude, decorrentes do “terceirizado” e sua ocupação, estatisticamen-
enfrentamento da crise do padrão de acumu- te, entra na classificação do setor terciário.4
lação de longo período do pós-guerra. Muitas profissões ou ocupações, por outro
Tendo como referência dados deste tipo, lado, embora claramente definidas como
Bell (1973) pôde afirmar, simplesmente, que integrantes de atividades do setor de servi-
a sociedade pós-industrial é a sociedade dos ços, somente existem como conseqüência do
serviços – que passam, pois, a dominar a desenvolvimento de novas atividades indus-
produção nessas economias, assim como, no triais ou do avanço tecnológico em atividades
seu tempo, a indústria veio a suplantar a industriais já existentes.
agricultura como setor fundamental da pro- As insuficiências do conceito de Socie-
dução.3 Mas as atividades reunidas no setor dade Pós-industrial levaram autores como
de serviços, como se sabe, são residuais, ou Manuel Castells a adotar alternativamente a
seja, são classificadas por exclusão. São todas idéia de “sociedade informacional” ou sim-
aquelas que não podem ser classificadas como plesmente “informacionalismo”.
agrícolas (que incluem a extração mineral ou Assim,
vegetal) ou industriais (indústria da transfor-
mação e construção civil). Ou seja, no setor “o que é mais distintivo em termos
de serviços, incluem-se o comércio de históricos entre as estruturas
mercadorias, os serviços financeiros, aqueles econômicas da primeira e da segun-
realizados pelo setor público e as profissões da metade do século XX é a revolu-
liberais. Incluem-se também o serviço domés- ção nas tecnologias da informação e
66 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Tabela 1
Participação setorial do emprego civil em países e regiões selecionados
(em % do emprego civil total)
1960-2001

Países ou regiões 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2001
EUA
Agrícola 8,5 6,3 4,5 4,1 3,6 3,1 2,9 2,9 2,6 2,4
Industrial 35,3 35,5 34,4 30,6 30,5 28,0 26,2 24,0 22,9 22,4
Serviços 56,2 58,2 61,1 65,3 65,9 68,8 70,9 73,1 74,5 75,2
Total 10 0 100 100 100 100 100 100 100 100 100
ALEMANHA
Agrícola 14,0 10,9 8,6 6,8 5,3 4,6 3,5 3,2 2,7 2,6
Industrial 47,0 48,4 49,3 45,4 43,7 41,0 39,8 36,5 33,4 32,5
Serviços 39,1 40,7 42,0 47,8 51,0 54,4 56,7 60,2 63,9 64,8
Total 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100
FRANÇA
Agrícola 22,5 17,8 13,5 10,3 8,7 7,6 5,7 4,7 3,9 3,7
Industrial 37,6 39,1 39,2 38,6 35,9 32,0 29,6 26,5 24,2 24,1
Serviços 39,9 43,1 47,2 51,1 55,4 60,4 64,7 68,8 72,0 72,2
Total 10 0 100 100 100 100 100 100 100 100 100
JAPÃO
Agrícola 30,2 23,5 17,4 12,7 10,4 8,8 7,2 5,7 5,1 4,9
Industrial 28,5 32,4 35,7 35,9 35,3 34,9 34,1 33,6 31,2 30,5
Serviços 41,3 44,1 46,9 51,5 54,2 56,4 58,7 60,8 63,7 64,6
Total 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100
REINO UNIDO
Agrícola 4,7 3,8 3,2 2,8 2,6 2,3 2,1 2,1 1,5 1,4
Industrial 47,7 46,6 44,7 40,4 37,6 34,8 32,3 27,4 25,4 24,9
Serviços 47,6 49,6 52,0 56,8 59,7 62,9 65,5 70,5 73,0 73,7
Total 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100
G7
Agrícola 17,3 13,3 10,0 7,8 6,5 5,5 4,5 3,9 3,3 3,2
Industrial 36,7 38,0 38,2 35,7 34,5 32,0 30,3 28,5 26,7 26,1
Serviços 46,0 48,6 51,8 56,5 59,0 62,5 65,2 67,7 70,0 70,7
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100 100 100 100 100
UN. EUROPÉIA 15
Agrícola 21,3 16,8 13,5 11,3 9,5 8,4 6,4 5,1 4,3 4,1
Industrial 39,7 41,2 41,4 39,6 37,5 34,2 32,6 30,4 28,7 28,3
Serviços 39,0 41,9 45,0 49,1 53,0 57,4 60,9 64,5 67,0 67,6
Total 100,0 100 100 100 100 100 100 100 100 100
Fonte: OCDE (2002). Statistiques de la Population Active. Elaboração própria.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 67

sua difusão em todas as esferas de O fato é que a ruptura dos acordos de


atividade social e econômica, inclu- Bretton Woods, ligada aos impactos do avanço
indo sua contribuição no fornecimen- industrial alemão e japonês dos anos 60 sobre
to da infra-estrutura para a forma- a competitividade das empresas dos EUA
ção de uma economia global. Portan- redundará, com a retomada da hegemonia
to, proponho mudar a ênfase analí- norte-americana, no avanço da ortodoxia neo-
tica do pós-industrialismo para o liberal sobre os escombros do modelo de
informacionalismo”. regulação fordista e seu círculo virtuoso.
A ruptura do padrão de acumulação
A ênfase de Castells no determinismo vigente em todo o longo período expansivo
tecnológico encerra diversos problemas, do pós-guerra, tendo em vista o esgotamento
segundo alerta Garnham (2000), pois o autor do potencial dinâmico dos setores que pu-
não consegue sustentar seu argumento, se- xavam o crescimento e os limites à expansão
gundo o qual a atual Era da Informação impostos pelo endividamento generalizado
estaria sendo caracterizada por expressivos dos estados, empresas e famílias, criará as
ganhos de produtividade decorrentes do uso condições estruturais para uma
da TIC. Comparando-se os dados de ganhos financeirização geral, impulsionada pela
de produtividade média horária do trabalho política econômica da potência hegemônica
dos anos 50/60 aos dados correspondentes a partir do início dos anos 80.
atuais, percebe-se uma significativa diferen- Os impactos mais eloquentes dessas trans-
ça em favor dos indicadores dos Anos formações, sobre os mercados de trabalho,
Dourados, como se poderá notar na tabela podem ser avaliados pela evolução recente
2. Independentemente do critério pelo qual de seus diversos indicadores, que apontam
se mede a evolução comparativa da produ- para o aumento do peso do emprego de
tividade dos tempos do “capitalismo indus- caráter temporário e das ocupações em jor-
trial” aos do atual “capitalismo informa- nadas de tempo-parcial, aumento do desem-
cional”, os dados revelam que os ganhos de prego de longa duração, do desemprego dos
produtividade eram maiores no passado. jovens, etc. e rompimento do padrão de
Mas mesmo considerando o fato de que determinação salarial que havia sido conso-
nos últimos anos da década de 1990 tenha lidado durante os Anos Dourados. A partir
sido possível notar aumentos de produtivi- dos anos 80, começa a se consolidar um
dade, as observações de Garnham colocam distanciamento crescente entre a evolução dos
em evidência uma lacuna na argumentação salários reais e da produtividade (tabela 3).
de Castells: como se opera verdadeiramente Esses resultados revelam a virtual falência
a transformação do capitalismo industrial em do processo de regulação vigente sob a
capitalismo informacional? E porque esses chamada Sociedade da Informação, da qual
supostos expressivos ganhos de produtivida- o modelo japonês, de que trataremos adiante
de das novas tecnologias não se espalharam é o exemplo mais propalado.5
por toda a atividade produtiva de bens e de A mudança na natureza da concorrência
serviços? Há ainda um outro aspecto que deve capitalista leva a um progressivo ataque das
ser mencionado na crítica ao determinismo lideranças empresariais (em aliança com
tecnológico de Castells. O discurso do funcionários graduados de ministérios liga-
determinismo tecnológico tem efeito dos à área econômica, com banqueiros cen-
desmobilizador para a ação política concreta. trais e demais funcionários graduados de
Ao tomar as modificações que têm condu- atividades ligadas ao setor financeiro priva-
zido ao chamado capitalismo informacional do) ao “contrato social” estabelecido no pós-
meramente como resultantes de desdobramen- guerra (Bernard, 1994). Esse “contrato so-
tos tecnológicos, o autor despreza os con- cial”, que serviu como principal ponto de
flitos existentes entre o capital e o trabalho sustentação da construção macroeconômica
(para ele, a figura do empresário se esvai das economias nacionais nos anos 50 e 60,
em favor da sociedade em rede) e entre os passa a ser interpretado, no contexto das
diferentes Estados Nacionais (como se o finanças desregulamentadas que vigoram a
poder de cada um deles fosse semelhante). partir do final dos anos 70, como empecilho
68 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Tabela 2
Ganhos médios reais anuais de produtividade do trabalho por período
Diversas fases históricas do capitalismo

Ganhos de produtividade por período (*)


PAÍSES
1870/1913 1913/1929 1929/1938 1938/1950 1950/1973 1973/1992
Bélgica 1,2 1,8 1,0 1,2 4,5 1,9
Alemanha 1,9 1,4 1,1 -0,8 6,0 1,8
França 1,7 2,4 2,9 0,5 5,1 1,8
Itália 1,7 2,0 3,1 1,0 5,8 1,6
Holanda 1,3 2,9 -0,1 0,3 4,8 1,4
Reino Unido 1,2 1,5 -1,0 3,7 3,1 1,4
Austrália 1,1 1,3 1,1 1,6 2,9 1,0
Canadá 2,3 1,3 0,1 5,3 3,0 1,0
EUA 1,9 2,4 1,6 3,2 2,7 0,7
Japão 1,9 3,5 2,3 -0,6 7,7 2,0
Fonte: Maddison (1995).
(*) variação da produtividade média por período.

Tabela 3
Comparação entre evolução da produtividade e dos
salários horários reais na indústria de transformação (manufacturing)
Taxa de variação média anual por período (em %)
1964/1973 e 1983-1992

Produtividade (*)(A) Salário horário real (**) (B) A/B (***)


PAÍSES
1964/1973 1983/1992 1964/1973 1983/1992 1964/1973 1983/1992
EUA 3,6 2,8 1,3 0,3 2,8 8,2
Alemanha 4,0 2,4 4,8 2,7 0,8 0,9
França 5,5 2,6 4,8 1,4 1,1 1,9
Itália (1) 5,1 2,6 6,2 1,1 0,8 2,4
Reino Unido 4,2 3,6 2,9 2,5 1,4 1,5
Japão 8,5 2,24 13,87 3,13 0,6 0,7
Fonte: OECD – Main Economic Indicators, vários anos.
(*)produto industrial por assalariado.
(**) taxa de salário horário nominal na ind. transf. deflacionada pelo índice de preços ao consumidor.
(***)relação entre ganhos em produtividade e aumentos salariais reais por período considerado.
(1) neste caso, produção e emprego na construção também estão incluídos.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 69

para a melhoria das condições de competi- lho a ser explorada, mas cuja resposta não
tividade das empresas no mercado interna- pode ser dada de forma simples, tendo em
cionalizado. vista o fato de que a lógica que governa a
Uma comparação da atual reestruturação própria produção na atual “economia do
produtiva com a primeira e a segunda re- conhecimento” é, ela também, problemática
voluções industriais que marcaram, respec- e inerentemente especulativa (Bolaño, 2003).
tivamente, a instauração do modo de produ- Não serão, em todo caso, as tecnologias
ção capitalista e a passagem, grosso modo, da informação e da comunicação que garan-
do capitalismo concorrencial do século XIX tirão o dinamismo do novo modo de
para o capitalismo monopolista do século XX, regulação. Seu papel na constituição deste
permite definir o processo atual como um é absolutamente crucial, mas em outro sen-
momento fundamental de avanço da tido: são elas que permitem a subsunção do
subsunção do trabalho intelectual no capital, trabalho intelectual e a intelectualização geral
através da incorporação em larga escala das da produção e do consumo (Bolaño, 2002),
tecnologias da informação e da comunicação sem o que as próprias biotecnologias não
no processo produtivo e nas relações de poderiam ter se desenvolvido da forma e na
distribuição e de consumo (Bolaño, 2002). extensão que conhecemos hoje. A lógica da
Se, seguindo Marx, podemos dizer que as atual expansão das TIC, não obstante, tem
TIC cumprem hoje para a subsunção do sido plenamente adequada ao modelo
trabalho intelectual (e a intelectualização geral excludente adotado pelo sistema a partir da
dos processos de trabalho e de consumo que crise do fordismo.
o acompanham), papel semelhante ao desem-
penhado pela máquina-ferramenta na Revo- Para uma crítica das teorias da gestão do
lução Industrial originária, forçoso é reco- conhecimento
nhecer que ainda não se apresentou clara-
mente aquele outro elemento crucial para o Foray (2000), ao fazer a apresentação da
desenvolvimento capitalista, qual seja, um chamada Economia do Conhecimento, defi-
crescimento significativo e sustentado da ne a expressão como referindo-se, alterna-
produtividade permitindo uma massificação damente, a uma importante mudança social
da produção a ponto de garantir um amplo e a uma nova disciplina acadêmica no campo
movimento de inclusão social. da Ciência Econômica. A concepção de uma
Há dois problemas a serem considerados Crítica da Economia Política do Conhecimen-
em relação às atuais dificuldades para o to (Bolaño, 2002) refere-se precisamente à
avanço da acumulação: (1) a financeirização articulação entre esses dois fenômenos e à
da riqueza e seus efeitos sobre as decisões sua crítica, no sentido marxista do termo,
de investimento produtivo; (2) o problema realizando, assim, um trabalho de esclareci-
de criar as condições concretas para que o mento das relações essenciais que caracte-
sistema retome o seu dinamismo, ou seja, que rizam o objeto empírico e dos limites
permitam a estabilização de um novo modo imanentes da consciência burguesa a seu
de regulação capaz de garantir uma evolução respeito. Tudo o que foi dito no item anterior
articulada, de longa duração, entre a lógica serve, em última análise, a este propósito.
da produção capitalista de bens e serviços Neste item, à guisa de conclusão, podemos
e os modos de consumo e de vida das mais estender aquele esboço de empreendimento
amplas camadas da população. crítico para o campo da Gestão do Conhe-
Isso não nos permite descartar a possi- cimento, área de atuação concreta e de
bilidade da instalação de um novo modo de interface entre Ciências da Informação,
regulação inclusivo, como o que antecedeu Administração e Economia. Dados os limites
a crise atual. Nesse sentido, poderiam, por de espaço que se nos impõem aqui, limitar-
exemplo, as biotecnologias preencher aquela nos-emos à análise do artigo seminal de
necessidade fundamental de massificação do Nonaka e Takeuchi (1986), que dará origem,
consumo para a superação da crise e o mais tarde, ao seu mais conhecido livro,
deslanche de uma nova onda expansiva de campeão de vendas e de citações em todo
longo prazo? Essa é uma hipótese de traba- o mundo (Nonaka e Takeuchi, 1995).
70 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Embora o artigo se referisse a uma vão da “reengenharia” ao mais atual


pesquisa sobre os métodos de gestão do downsizing e atendem especialmente aos
desenvolvimento de novos produtos adotados objetivos de intensificação e flexibilização do
por importantes empresas do Japão e dos uso do trabalho e de racionalização e redu-
Estados Unidos da América, não há como ção de custos produtivos, com os impactos
desvincular a abordagem de uma visão dos já discutidos sobre os mercados de trabalho,
negócios ligada à inovação empresarial re- tendo em vista as citadas mudanças na
presentada pelo chamado “modelo japonês”, natureza da concorrência. O caso japonês não
vitorioso na concorrência internacional du- é diferente.
rante o período expansivo do pós-guerra nos Francis Ginsbourger apresenta bem a
mais importantes ramos da indústria que questão no seu prefácio à edição francesa (de
marcaram o período do fordismo. Lojkine 1982) do livro de Satoshi (1980), lembrando
(1995, p. 30 a 41) faz uma interessante análise que o sucesso do modelo japonês está re-
sobre o caráter de “mito mobilizador” dos lacionado não só ao protagonismo do Mi-
conceitos de “americanismo” e “niponismo”, nistério da Indústria e Comércio Exterior
à qual não precisamos voltar aqui. Ao invés (MITI), às ações seletivas dos bancos ou à
disso, vale retomar a contribuição de Kamata estrutura oligopolista dos grandes conglome-
Satoshi (1980), que nos apresentou “a outra rados (zaibatsu) que caracterizam aquela
face do milagre” japonês no momento em economia, mas também às falências e apo-
que a crise que se abateria sobre a economia sentadorias antecipadas como forma de
nipônica apenas se insinuava, com o objetivo flexibilização do famoso sistema de emprego
de localizar a nossa questão no seu contexto vitalício e do salário por antigüidade (nenko).
histórico. O ataque sistemático ao sindicalismo
É precisamente na busca obsessiva pela combativo faz parte da história do Japão
redução de custos de que se falou no item
moderno, tendo sido peça chave da admi-
anterior que se inserem todos os variados
nistração norte-americana ao final da segun-
projetos de reestruturação, notadamente,
da guerra mundial: “o Japão, diz-se, superou
através do binômio inovação produtiva-ino-
o risco de se tornar comunista em 1947-1948;
vação organizacional. No caso das inovações
para impedir o perigo, foram necessários a
produtivas, busca-se ampliar a incorporação
proibição geral das greves imposta pelo
de novos equipamentos de alto teor
General Mac Arthur, a caça às bruxas
tecnológico (em particular as chamadas
comunistas, a eliminação sistemática do
tecnologias da informação), com o intuito
sindicalismo de oposição, o fortalecimento
de tornar mais flexível tanto o processo
produtivo, quanto o uso da mão-de-obra das forças conservadoras ...” (idem, p. 14).
remanescente nas plantas produtivas, com o Assim, ao lado da estratégia dos 20 grandes
fito de ampliar continuamente os ganhos em zaibatsu, fortemente integrados, cada um
produtividade através de tecnologias altamen- deles incorporando as diferentes etapas do
te poupadoras de mão-de-obra. A processo produtivo, além de uma cabeça
reestruturação produtiva visa, portanto, tor- financeira, permitindo um protecionismo de
nar os processos de produção e de fato do mercado interno, situa-se o sistema
comercialização mais ágeis e menos custo- de sindicato de empresa obrigatório, impor-
sos6. tado dos Estados Unidos (os chamados
Esse processo de reestruturação produti- “segundos sindicatos”, que feriram de morte
va vem acoplado a processos recorrentes de o tradicional sindicalismo combativo, de
inovações organizacionais, que se baseiam em tendência socialista, estruturados segundo o
dois fatores principais, superpostos: a redu- modelo europeu, que haviam sido proibidos
ção das escalas hierárquicas na estrutura durante a guerra).7 Em 1959 haverá, segundo
ocupacional das empresas e a ampliação das Kamata, uma onda de milhares de demissões
possibilidades de uso mais flexível da mão- de “perturbadores da ordem”, fenômeno que
de-obra. As inovações organizacionais em se repetirá no período da “racionalização”
curso desde pelo menos o final dos anos 70 (“aposentadorias antecipadas, falências,
têm recebido diferentes denominações, que diminuição do poder de compra, extensão da
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 71

área de emprego precário, regressão das Os autores enfatizam o caráter de agente


compras de todo tipo, combate às interrup- de mudanças no interior da organização que
ções no processo de produção, intensifica- este novo modelo assume, ao estimular novas
ção do trabalho e aumento do horário de formas de pensamento e aprendizagem em
trabalho real” – op. cit., p. 26) que se seguiu todos os seus diferentes níveis e funções, e
à crise de 1974 a 1978. “A depuração e a não mascaram o papel central da alta gerên-
eliminação dos sindicatos de oposição, dos cia em todo o processo. A primeira das seis
elementos contestadores no seio do aparelho características do novo modelo, descritas ao
sindical, são as condições sine qua non da longo do artigo, é justamente o que eles
‘racionalização’” (ibidem) de 1979. chamam de built-in instability. Através da
É sobre este pano de fundo que se deve definição de metas extremamente desafiantes,
pensar o sucesso do modelo de gestão ja- a alta gerência evita a “anarquia” que po-
ponês, que incorporou e aperfeiçoou meca- deria decorrer de um dos atributos das equipes
nismos originalmente desenvolvidos nos de trabalho, ligado à segunda característica
Estados Unidos, transformando-os em modo (self-organizing project teams): a autonomia.
comum de operação da empresa capitalista O segundo atributo (auto-transcendência) não
no momento da crise do fordismo, em é mais do que a internalização, pelo grupo,
particular, no que nos interessa mais de perto, do “elemento de tensão” criado pela alta
os mecanismos da chamada gestão do co- gerência ao dar a este uma grande liberdade
nhecimento que, ao lado das inovações na para desenvolver um projeto de importância
organização dos processos industriais, como estratégica para a companhia, definindo, ao
os conhecidos sistemas kanban e a produção mesmo tempo, metas extremamente ambici-
just in time, constituem uma inovação orga- osas. Auto-transcendência é, não apenas a
nizacional maior, inserida no conjunto das aceitação dessas metas, mas”a never-ending
grandes transformações trazidas pela Tercei- quest for”‘the limit’, pela própria equipe, que
ra Revolução Industrial. A gestão do conhe- eleva recorrentemente os próprios desafios.
cimento em especial está diretamente ligada O terceiro atributo (cross-fertilization), en-
à subsunção do trabalho intelectual e à fim, refere-se ao aproveitamento de sinergias
renovada importância que adquire a inova- característico da ação de equipes formadas
ção tecnológica na concorrência capitalista por indivíduos com especializações variadas.
entre os grandes blocos de capital produtivo A quinta característica (subtle control),
no momento da crise do padrão de desen- para não perdemos a linha de raciocínio,
volvimento do pós-guerra, quando as estra- é precisamente definida nesse mesmo sen-
tégias de diferenciação, segmentação, tido:
flexibilização, vão no sentido de dinamizar
o consumo de camadas restritas da popula- Although project teams are largely on
ção, num ambiente de exclusão crescente. their own, they are not uncontrolled.
Esse é claramente o pressuposto dos Management establishes enough
novos métodos gerenciais, que pode ser checkpoints to prevent instability,
encontrado nas entrelinhas do trabalho de ambiguity, and tension from turning
Nonaka e Takeuchi (1986), dedicado justa- into chaos. At the same time,
mente às inovações na área do desenvolvi- management avoids the kind of rigid
mento de novos produtos no âmbito das control that impairs creativity and
grandes empresas. spontaneity. Instead, the emphasis is
Trata-se, portanto, de uma mudança sig- on ‘self-control’, ‘control through peer
nificativa no modo de regulação (ou de não pressure’, and ‘control by love’, which
regulação, se se preferir) e, agora sim, é collectively we call’‘subtle control’
preciso reconhecer, o modelo japonês apre- (Nonaka e Takeuchi, 1986, p. 143).
senta inovações importantes, ligadas em boa
medida às especificidades culturais do seu Ora, estamos precisamente nos aproxi-
mundo empresarial, com raízes mais ou mando do que caracteriza a dominação
menos remotas. capitalista do trabalho intelectual, a qual não
72 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

pode operar através de formas de coerção O que Nonaka (2001) designa como
puramente físicas. A idéia foucaultiana da saber tácito é yin (70% da informa-
passagem da sociedade disciplinar à socie- ção, individual, invisível) em relação
dade de controle encontra aqui a sua expres- ao yang explícito (30% da informa-
são mais adequada, referida à mudança ção, coletivo, visível). Por ser indi-
fundamental do capitalismo da segunda para vidualizado e não expresso, para que
o da terceira revolução industrial, conforme ele possa se adaptar, prepara-lhe uma
tivemos a oportunidade de mostrar acima, margem de manobra, uma liberdade
como em outros lugares (Bolaño, 2002). de ação, uma plasticidade e uma
Podemos expressar o problema também na fluidez. O saber tácito, tornando-se
perspectiva daquela capacidade do pensamen- explícito, coletivo e visível pela sua
to oriental, enfatizada por Pierre Fayard, de socialização e combinação, volta a se
“perceber imediatamente, não somente pela tornar tácito pela sua internalização
intuição, mas também de agir sem passar que lhe permite ser fértil ... (Fayard,
pela lentidão de um processo consciente ... 2002, p. 134).
A educação para a sensibilidade aos sinais
está inscrita na cultura japonesa. A comu- A terceira característica do novo modelo
nicação no Japão é não somente dependente (overlapping development phases) é defini-
do contexto, mas baseada sobre um não dito do como a construção, pela equipe, de um
decodificado na recepção” (Fayard, 2002, p. ritmo ou dinâmica unitária, uma sincroniza-
132). 8 Assim, “as palavras não são os ção de todos os tempos de trabalho dos
melhores veículos de comunicação: elas são diferentes elementos do grupo, com suas
muito lentas e específicas, muito limitadas diferentes funções, de modo que “the team
em seus significados. O componente tácito, begins to work as a unit. At some point, the
ao contrário, está em seu mais alto grau de individual and the whole become
desenvolvimento” (idem).9 inseparable” (Nonaka e Takeuchi, 1986, p.
A grande contribuição de Nonaka e seus 140). Qualquer semelhança com a discussão
colegas reside justamente na concepção que marxiana sobre a constituição do trabalhador
desenvolverão da separação entre conhecimen- coletivo no período da subsunção do traba-
to tácito e codificado, elemento chave da lho manual não é mera coincidência. As novas
Economia do Conhecimento (Foray, 2000) e formas de gestão do conhecimento não fa-
da subsunção do trabalho intelectual, como zem senão criar as condições para a orga-
já tivemos a possibilidade de discutir (Bolaño, nização do trabalho intelectual coletivo,
2002). As características citadas da cultura ampliando a sua produtividade, num sentido
japonesa terão sem dúvida contribuído, no seu semelhante (mas não idêntico) ao que fez a
momento, para o sucesso da economia chamada “organização científica do trabalho”
nipônica na concorrência internacional, mas anteriormente com o trabalho manual na linha
do que estamos tratando, afinal das contas, de montagem fordista. A quarta caracterís-
é de uma característica fundamental da eco- tica (multilearning) é decorrência das
nomia do conhecimento em qualquer especificidades do trabalho intelectual, que
quadrante. O “controle pelo amor”, na ver- deve estar constantemente envolvido com
dade, não é outra coisa senão a forma de processos de aprendizagem. O mesmo pode
garantir a exploração capitalista do trabalho ser dito para a sexta e última característica
intelectual, pois a mais valia já não advém (transfer of learning). Toda a discussão é
prioritariamente da extração das energias muito interessante, remetendo ao conceito
físicas, mas mentais do trabalhador. A neo-shumpeteriano de learning by doing, mas
subsunção do trabalho intelectual é, portanto, não poderá ser retomada aqui. Nosso objetivo,
a explicação marxista, no concernente ao nesta parte, é apenas ilustrar as possibilida-
processo de trabalho sob o capitalismo avan- des de crítica das teorias da gestão do
çado, da passagem para a sociedade de con- conhecimento que a matriz teórica brevemen-
trole, o que exige a atividade intelectual cons- te exposta antes oferece.
tante dos trabalhadores e a recorrente conver- Apenas algumas observações precisam ser
são do conhecimento tácito em codificado. feitas ainda. Em primeiro lugar, os autores
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 73

não se iludem, em nenhum momento, com torna-se prioridade” (Fayard, 2002, p.


o alcance de sua teoria. Deixam claro, pelo 135).”Nas palavras do próprio Nonaka:
contrário, ao final do artigo, os limites de
aplicabilidade do novo modelo, entre os quais, Ba could be thought as a shared space
vale destacar que “it may not apply to for emerging relationships. This space
breakthrough projects that require a can be physical (e.g., office, dispersed
revolutionary innovation. This limitation may business space), mental (e.g., shared
be particularly true in biotechnology or experiences, ideas, ideals) or any
chemistry” (idem, p. 145). Estamos falando, combination of them. What
portanto, da inovação corrente, rotinizada, differentiates ba from ordinary human
aquela justamente incapaz de produzir a interactions is the concept of
dinâmica shumpeteriana clássica. Não vamos knowledge creations. Ba provides a
entrar em detalhes aqui, mas é preciso dizer platform that a transcendental
que isso terá conseqüências fundamentais para perspective integrates all information
a crítica da Economia Política do Conheci- needed. Ba may alsobe thought as
mento, nos dois sentidos mencionados an- the recognition of self in all.
teriormente. According to the theory of
Em segundo lugar, vale registrar o caráter existentialism, ba is a context which
coletivo e multi-funcional do processo de harbors meaning. Thus, we consider
conhecimento no novo modelo, o que re- ba to be shared space that serves as
mete para a nossa discussão (Bolaño, 2003) a foundation for knowledge creation
sobre a constituição hoje de uma esfera (Nonaka, 1998, apud Fayard, 2002,
pública produtiva, que problematiza profun- p. 135).
damente a determinação do valor na Eco-
nomia do Conhecimento. Os autores, evi- Trata-se, portanto, de lugares físicos ou
dentemente, não chegam sequer a colocar mentais, reais ou virtuais, compartilhados.
o problema, mas o conceito de ba, desen- Infelizmente, não há lugar aqui para entrar em
volvido por Kitaro Nishida (1990) e utili- debate sobre esse conceito, que poderia ser
zado por Nonaka (1998) em outra ocasião, facilmente aplicado, por exemplo, àquela “es-
representa uma interessante intuição do fera pública produtiva” inerente ao funciona-
problema. Fayard resume assim o conceito mento da Economia do Conhecimento muito
que, segundo afirma, está na base de todas concretamente observada na pesquisa sobre o
as estratégias de criação do conhecimento Projeto Genoma Humano do Câncer da
no Japão: “lugar, espaço dividido, campo FAPESP (Bolaño, 2003). Para finalizar, lem-
magnético que é possível traduzir por cír- bremos que os autores consideram o novo
culo de convivência, ou ainda por comu- modelo como um agente em si de reestruturação
nidade de práticas ... Em qualquer nível da empresarial e, portanto, podemos dizer, de
organização tanto interno quanto externo, quebra das resistências dos trabalhadores in-
a organização dos espaços vazios – espaços telectuais no momento do avanço fundamental
de tensão, de convivência e de relações – da sua subsunção no capital.
74 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

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76 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

5
No Japão, os ganhos de produtividade, em trabalhadores a domicílio, ou são dekasagi (tra-
todos os períodos, foram ainda maiores, durante balhadores rurais que deixam a fazenda para
os Anos Dourados, do que nos demais países, em trabalhar na cidade durante o período da
grande parte devido ao processo de reconstrução, entressafra agrícola)” (Ginsbourger, 1982, p. 15).
seguido do chamado Milagre Japonês. A trajetória A origem social dos dekassegui, sabemos, mudará
revelada pelo período 1983-1992, ao contrário, é posteriormente, passando a incluir essencialmente
de queda da produtividade. Como se observa na trabalhadores estrangeiros imigrados, provenien-
última coluna, repete-se o mesmo fenômeno tes da Coréia e outros países asiáticos, mas também
ocorrido nos demais países, ou seja, diminuição do Brasil em anos mais recentes, sem que as
da diferença entre ganhos salariais reais e ganhos características do modelo se alterem em essência,
de produtividade, provavelmente já revelando a antes aprofundando-se.
8
perda do poder de barganha dos trabalhadores a Assim, citando Junichiro (1993), afirma o
partir dos 80. É importante destacar, ademais, que, autor: “uma formulação por demais explícita
diferentemente de alguns países europeus, os provoca a perda de prestígio, pois ela aparece
ganhos de salário real na indústria do Japão como a demonstração da incapacidade dos
estiveram sempre abaixo dos ganhos de produ- interlocutores de compreender por si próprios os
tividade industrial, reflexo das condições políticas sinais, que lhe são enviados, por mais tênues que
locais a que nos referiremos adiante, que reduzem sejam ... Resultam, então, capacidades de obser-
drasticamente o poder de negociação dos sindi- vação muito sutis e perigosas para fazer falar
catos. os sinais, sem que a necessidade de demonstra-
6
Coutinho (1995) sublinha que uma das ção clara e distinta se imponha e interponha”
principais características do atual estágio de (Fayard, 2002, p. 132). Segundo Fayard, uma
internacionalização da economia capitalista reside explicação para este fenômeno, parte essencial do
na “forte aceleração da mudança tecnológica, conceito de sen no sen (iniciativa pela iniciativa),
caracterizada pela intensa difusão das inovações estaria na necessidade de procurar no tempo, “por
telemáticas e informáticas e pela emergência de meio da antecipação baseada ao mesmo tempo
um novo padrão de organização da produção e no conhecimento, na sensibilidade e na excelên-
da gestão na indústria e nos serviços; padrão esse cia prática” (idem, p. 131), um paliativo para os
caracterizado pela articulação das cadeias de limites à ação impostos pelo reduzido espaço físico
suprimento e de distribuição através de redes que do arquipélago.
9
minimizam estoques, desperdícios, períodos de A utilização, no Japão, de várias escritas,
produção e tempos-de-resposta, tornando os pro- misturando-as em função das necessidades do texto
cessos mais rápidos e eficientes” (p. 21) e, em particular, a presença dos ideogramas
7
A estas condições deve-se acrescentar o chineses kanji, mais conceituais, está ligada a essa
caráter reconhecidamente dual da economia japo- relação entre sutileza, intuição e velocidade. O
nesa: “um setor industrial muito produtivo e leitor pode levar em conta apenas os ideogramas
concentrado, ao lado de uma multidão de peque- em kanji, como sinais chave para a compreensão
nas e médias empresas; emprego estável e ga- do texto, sem necessidade de ler os outros, ao
rantido para um terço da população ativa, en- contrário da leitura alfabética, que passa neces-
quanto a maioria trabalha nas pequenas empre- sariamente pela reprodução sonora do conjunto
sas, têm ocupações temporárias, como diaristas, das palavras e das frases (idem, p. 136).
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 77

As políticas audiovisuais de Portugal e do Brasil face à globalização


e às propostas supra-nacionais da União Europeia e do Mercosul
César Bolaño1 e Helena Sousa2

Este artigo foi produzido a partir de uma peão nacional” na produção de equipamen-
parceria iniciada na coordenação conjunta, tos é substituído pelo de um conjunto de
pelos autores, da mesa de Política e Econo- empresas oligopolistas multinacionais, im-
mia das Comunicações do congresso de 2004 plantadas no país, privilegiadas nas compras
da LUSOCOM. Reflete a preocupação co- do setor público, em troca da internalização
mum de organizar e apresentar alguns ele- do progresso técnico. Do ponto de vista da
mentos com vista a uma posterior análise questão regional, o sistema estava fundado
comparativa das estruturas de mercado e das na existência de uma empresa pública em
políticas de comunicação no grande espaço cada estado da federação, ligada à holding
latino global na perspectiva da Economia Telebrás. A Embratel, carrier de longa dis-
Política da Informação da Comunicação e da tância vinculada ao sistema, também está
Cultura. Por esse motivo, foi proposto para presente em todos os estados. Esse modelo
a mesa de Economia Política do II Encontro de articulação nacional/regional passa por
Ibérico de Comunicação. Trata-se de uma modificação significativa nos anos 80, du-
contribuição modesta e preliminar, visando rante o governo de transição de José Sarney,
um objetivo estratégico: a constituição de um com uma politização exacerbada, não apenas
pequeno coletivo de pesquisadores ibero- no que se refere à política tarifária, que
americanos interessados em aprofundar o deteriorou de forma importante a situação do
tema ulteriormente. conjunto do sistema, mas também, e prin-
cipalmente no que nos interessa, na nome-
Breve caracterização do problema para o ação da direção das empresas estaduais li-
caso brasileiro gadas à holding, deixada a cargo da nego-
ciação entre os políticos locais, sob o co-
O sistema de telecomunicações, organi- mando do governador do estado, a quem
zado em torno da holding Telebrás, tal como passa a caber, de fato, a indicação do pre-
ficou constituído, no período do regime sidente da companhia.
militar, à imagem e semelhança do modelo A reforma brasileira é determinada no
europeu, mas apresentando, em relação a este, essencial pelos mesmos fatores que impulsi-
novidades interessantes, como a autonomia onaram aquelas de outros países latino-ame-
gerencial, já nos anos 60, da empresa pú- ricanos. A opção do governo, na segunda
blica, a separação dos correios, o sistema de metade dos anos 90, no entanto, foi diferente
autofinanciamento, que colocava uma parte e sua característica fundamental é a da frag-
significativa do capital nas mãos do público mentação da Telebrás e da rearticulação re-
em geral, caracterizava-se, do ponto de vista gional das teles, aliada à privatização e aber-
da sua organização interna, por uma centra- tura à concorrência. O impacto dessa reforma,
lização e hierarquização extremas, de um constituindo toda uma nova estrutura de
lado, e pela centralidade do elemento técnico mercado, com profundas alterações nas rela-
na tomada de decisões. ções entre matriz e filial, introdução de novas
O modelo do tripé, que caracterizava a tecnologias, vem no sentido de uma transfor-
estrutura de diferentes setores industriais, mação profunda do sistema, na qual a questão
onde interagiam a empresa multinacional, o regional adquire um papel central e o pro-
capital nacional privado e o capital estatal, blema da convergência (econômica) ganha
colocava a transmissão e a pesquisa e de- uma relevância maior.
senvolvimento nas mãos do sistema estatal, No mercado de televisão, onde o sistema
enquanto que o conceito europeu de “cam- é quase totalmente privado, financiado pela
78 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

publicidade, a questão regional se apresenta de normas de extensão da regra dos 100%


tanto pelo lado do modelo de concessões para toda a TV paga.
públicas, também extremamente politizado, Mas os jornais e as emissoras de radio
característica que se radicaliza, mais uma vez, e televisão abertas, assim como o sistema
durante o governo Sarney, quanto pela es- financeiro e o setor de construção civil,
trutura do próprio oligopólio privado, mon- sempre foram área privilegiada de uma certa
tado sobre um sistema de afiliadas que burguesia nacional. A aprovação da PEC 5/
promove a articulação de interesses 2002, alterando o artigo 222 da Constituição
econômicos e políticos entre grupos nacio- Federal, aprovada com o apoio de todos os
nais e estaduais. O resultado é um modelo partidos, exceto o PDT, foi fruto de um acordo
de televisão em que a produção é extrema- que pôs fim a um debate de sete anos, graças
mente centralizada nas cabeças de rede si- a uma mudança radical de posição por parte
tuadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, da Globo, para quem o aporte de recursos
com um único caso de sucesso mais impor- externos passou a ser mais importante que
tante de empresa regional - RBS, afiliada da a defesa que a regra anterior representava
Globo. A competitividade internacional das para a sua posição hegemônica frente a
grandes redes brasileiras, especialmente a concorrentes financeiramente mais frágeis.
Globo, atesta o sucesso do modelo, do ponto Em última análise, a mudança explicita
de vista econômico, mas esconde o fracasso a atual situação de crise aberta pela expansão
do sistema educativo estatal, impedido de da televisão segmentada e de outros media,
concorrer no mercado (problema que come- como a internet, por exemplo, pelo avanço
ça a atenuar-se lentamente nos anos 80, mas da concorrência internacional trazido por
recrudesce sob o acicate da dívida e a crise esses novos setores e, sobretudo, pela im-
atual), e das emissoras locais, essencialmen- plantação generalizada do paradigma da
te limitadas à condição de retransmissoras. digitalização e elevados investimentos que
A aprovação, por outro lado, da emenda supõe. Mais uma vez, a produção legislativa
constitucional que abre a possibilidade de referenda os compromissos previamente
participação do capital estrangeiro em em- pactuados entre os atores hegemônicos. O
presas de comunicação no Brasil, é um marco problema é que a aprovação da PEC 5/2002
histórico na evolução do modelo brasileiro não foi suficiente para resolver o problema
de regulação das comunicações, promoven- das empresas de comunicação brasileiras.
do uma mudança dramática em relação a Vale lembrar que nada disso afetará de
décadas de exclusividade para o capital forma fundamental os conteúdos que são
nacional no setor de radiodifusão, fruto do oferecidos para a população brasileira nos
movimento mais recente de globalização das canais da TV aberta ou paga, já extremamen-
indústrias culturais, que levou a uma derrota te internacionalizados. No caso da TV aber-
inédita de um setor tradicionalmente prote- ta, mesmo desconsiderando o importante
gido da burguesia nacional, obrigado agora problema da internacionalização da progra-
a associar-se, por pressão do mercado, com mação infantil, o elevado índice de nacio-
as grandes empresas oligopolistas internaci- nalização da programação brasileira mascara
onais. o fenômeno da importação de formatos, que
É verdade que uma brecha já havia sido tem se acentuado recentemente, quando o
aberta na própria Lei do Cabo de 1995, que negócio dos direitos de autor passa a ser cada
permitia a participação do capital estrangeiro vez mais importante se comparado com o da
(até 49%) na propriedade das empresas, e importação de programas, dada as próprias
principalmente na regulamentação por por- características do meio e da expansão da TV
taria das tecnologias posteriores de TV paga e do paradigma da segmentação, con-
segmentada, que não respeitou aquela deter- soante às atuais tendências de desenvolvimen-
minação legal, permitindo que a propriedade to do capitalismo. O fato é que nunca houve
estrangeira de emissoras de DTH ou MMDS no Brasil uma política nacionalista em re-
fosse de até 100%, fato que acabou lação aos conteúdos, como, aliás, nunca houve
municiando o projeto do senador Ney concretamente no país uma preocupação com
Suassuna, sob o argumento da duplicidade a regulação dos conteúdos em geral ainda
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 79

que, em alguns dos mais avançados dos O Livro localiza bem o problema da
nossos instrumentos legais, a questão da necessidade de definição de uma estratégia
produção regional e independente ou da internacional do Brasil em matéria de comu-
programação cultural e educativa estivessem nicação, dando a devida ênfase para a co-
presentes, o seu resultado prático pode ser laboração latino-americana e do Mercosul.
considerado nulo em termos históricos. Infelizmente, o Livro não retoma essa im-
O próprio debate sobre o assunto prati- portante questão no capítulo sobre conteú-
camente deixou de existir no país a partir dos, apesar da clareza com que coloca, ao
dos anos 80, sem nunca ter sido seriamente apresentar justamente na questão do marco
retomado, em contraste com o que ocorre em regulatório, por exemplo, o problema das
nível internacional, onde o liberalismo dos relações internacionais e a necessidade de
EUA, que pretendem incluir a cultura nos uma estratégia nacional.
acordos da Organização Mundial do Comér- A questão regulamentar, complexa, como
cio (OMC), se opõe à tese europeia, ampla- sabemos, aborda temas próprios das leis da
mente aceita no resto do mundo, da “excep- informática e do debate sobre as políticas
ção cultural”. O direito dos povos a não industrial e de desenvolvimento, das leis de
apenas preservar a sua cultura local e na- incentivo à cultura, dos direitos autorais etc,
cional, mas também apresentá-la e divulgá- tudo isso numa situação em que a expansão
la através dos canais e mecanismos mais da internet e do projeto global de Sociedade
amplos, aparece, para estes últimos, como um da Informação favorece os países de maior
direito fundamental e condição básica de peso no cenário internacional. Ademais, os
sobrevivência na chamada Sociedade da autores reconhecem a importância do debate
Informação, que se constrói globalmente pela interno para criar um consenso em relação
ação decidida dos diferentes Estados naci- aos interesses nacionais, visando a negoci-
onais, sendo a defesa da diversidade cultural ação internacional em torno da regulamen-
tão importante e vital como a da tação do setor.
biodiversidade para o futuro humano. A existência do Livro Verde seguia essa
O Brasil chegou a fazer ao final do governo lógica, abrindo a possibilidade de ação da
de Fernando Henrique Cardoso, uma proposta sociedade civil e dos diferentes atores inte-
para a discussão do tema do audiovisual na ressados em pressionar por avanços efetivos
OMC. Além do fato de que a proposta bra- no modelo brasileiro de regulação das co-
sileira pode fazer parte de uma estratégia mais municações, o que, lamentavelmente, nunca
ampla, visando vantagens em outras áreas, ao chegou a ocorrer. Ao contrário, o governo
demarcar uma posição diferenciada para o país de Fernando Henrique Cardoso, além de
no processo global de negociação sobre a paralisar o processo que deveria levar à
liberalização dos serviços, cabe perguntar que redação do Livro Branco da Sociedade da
atores internos poderiam beneficiar da Informação, de acordo com a boa tradição
liberalização proposta pelo Brasil para o setor europeia, engajou-se, em matéria de políticas
áudio-visual.3 Até hoje, o Brasil, como a de comunicação, numa operação de salva-
metade dos membros da OMC, não assumiu mento das empresas do setor de televisão que
nenhum compromisso de liberalização no setor inclui não apenas a aprovação, no legislativo,
cultural no quadro da AGCS, ainda que o da PEC do capital estrangeiro, mas também
citado processo de abertura das empresas de um vultoso empréstimo do BNDES à
comunicação ao capital estrangeiro aponte para Globocabo, recebido como um escândalo nos
uma possibilidade efetiva de oferta brasileira meios jornalísticos e empresariais.5
nesse sentido4. Tampouco deve-se esperar mu- O novo governo brasileiro, do presidente
danças importantes decorrentes dos acordos Luis Inácio Lula da Silva, não alterará esta
do Mercosul (Bolaño, 2003 b), visto, pelos situação (março de 2004), apresentando, não
autores do Livro Verde da Sociedade da obstante, uma proposta interessante, muito
Informação no Brasil, como “uma importante diferente daquela do governo anterior, para
iniciativa de países latino-americanos”, diante a TV digital: a de um padrão próprio, em
da tendência mundial de formação de blocos parceria com a China, a Argentina e outros
e mega-mercados regionais. eventuais sócios de países do Terceiro Mundo,
80 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

como a Índia (Bolaño e Brittos, 2003). Se, no país, assunto polêmico entre as próprias
do ponto de vista de uma política industrial empresas do ramo, a depender, evidentemen-
de desenvolvimento nacional alternativa, te da situação financeira de cada uma.8 De
articulando interesses não hegemônicos em um modo geral, argumenta-se que o emprés-
nível global, a proposta é altamente defen- timo deveria ter contrapartidas em termos de
sável, é insuficiente como política de comu- transparência das contas. A esquerda parla-
nicação visando a inclusão social e a cons- mentar, às voltas com um projeto de
trução de uma esfera pública universal6. regionalização da produção, encontra-se
O debate governamental sobre o tema, diante de uma daquelas situações, raras na
neste momento, gira em torno da crise de história da regulação das comunicações no
endividamento das empresas do setor de Brasil, em que se abrem possibilidades
comunicações. Vimos que o governo efetivas de negociação que poderiam signi-
Fernando Henrique Cardoso abriu duas linhas ficar avanços concretos no sentido da demo-
de apoio possíveis: a entrada de capital cratização do setor.
externo em até 30% da propriedade das O tema é complexo e não será possível
empresas e empréstimos do BNDES. Ocorre enfrentá-lo nos limites deste trabalho. Em
que a primeira alternativa não interessa aos todo caso, vale explicitar a crescente
investidores estrangeiros, de modo que, no politização do debate atual e o retorno do
governo Lula, neste momento, o que se discurso nacionalista por parte das empresas
discute é a possibilidade de uma nova ajuda de comunicação endividadas, que defendem
daquele banco estatal ao sistema privado de o financiamento público em nome da pre-
comunicação do Brasil. Nesse sentido, servação da cultura nacional, argumento, no
manipula-se o argumento da cultura nacio- mínimo discutível, na medida em que, como
nal. Às empresas de comunicação, particu- apontado acima, a enorme concentração do
larmente a Globo, fica implícito, são as únicas setor no país, além de prejudicar a demo-
capazes de sustentar a produção cultural cracia brasileira, afeta negativamente a com-
nacional na disputa internacional. Assim, petitividade sistêmica.
contra o avanço do capital internacional no
setor, investimento público na empresa pri- Portugal na Europa: liberalizar, privatizar
vada oligopolista, que se endividou, sabe-se e re-regular
porquê: apostou em planos de expansão e de
investimento em novas tecnologias e novos Ao contrário do que ocorre com o Brasil
mercados, antes da desvalorização cambial em relação ao Mercosul, a reestruturação dos
de 1999. Não deu certo. Vem a desvalori- sistemas de comunicação em Portugal foi
zação, a crise econômica acaba se manifes- fortemente influenciada pelo desenvolvimento
tando no mercado publicitário com o fim da político e econômicos que tivera lugar no
longa euforia do Plano Real, no segundo conjunto dos países europeus e pela emer-
governo FHC, e o sistema todo vai à falên- gência de uma política (ainda que incipiente)
cia7. da União Européia para as comunicações.
Assim, a bolha especulativa das empre- As mais importantes reformas do sistema
sas de novas tecnologias afetou em cheio os midiático e das comunicações, em Portugal,
setores da comunicação no Brasil, encantado desde o período revolucionário de 1974-75,
pelo maravilhoso mundo novo propalado pela foram efetivamente levadas a cabo pelos
ideologia pós-moderna e neoliberal. O social-democratas. O governo socialista de
endividamento da Globo, por exemplo, não António Guterres herdou um sistema profun-
está relacionado com a operação da TV de damente transformado, mas com deficientes
massa, mas com investimentos realizados, a mecanismos de regulamentação e controle.
partir de 95, em TV a cabo (Net Serviços), Tendo chegado ao poder após a introdução
satélite (projeto Sky, em parceria com Rupert de reformas entendidas como irreversíveis,
Murdoch) e na Globosat. o primeiro governo de António Guterres
É nesta condição que se volta a discutir procurou essencialmente acompanhar as
a possibilidade de financiamento público pelo medidas desenvolvidas pela União Européia
BNDES, para as empresas de comunicação e melhorar instrumentos legais e entidades
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 81

reguladoras. São as reformas efetivas do Foi neste contexto nacional e internaci-


período anterior, de Cavaco Silva, portanto, onal que Cavaco Silva definiu as suas linhas
o que interessa analisar mais de perto. de ação para os media. Propôs privatizar a
Nos anos 80, decorreram na Europa imprensa que havia sido nacionalizada no
importantes mudanças que iriam ter um claro período revolucionário, liberalizar o setor
impacto em Portugal. A televisão e a rádio radiofônico, privatizar a Rádio Comercial e
estavam, até então, concentradas nas mãos dos abrir a televisão à iniciativa privada.9 A mais
Estados. A noção de serviço público na esfera complexa reestruturação, no entanto, teve
midiática foi dominante durante décadas e, lugar no setor televisivo. A abertura da
salvo raras exceções, não era permitida a televisão à iniciativa privada foi, sem dúvi-
entrada de atores privados nos media da, o aspecto mais marcante da intervenção
eletrônicos. Esta tradição, no entanto, foi posta do governo na esfera midiática. A Consti-
em causa e as pressões para abrir o mercado tuição de 1976 só permitia a existência de
a novos atores intensificaram-se. O poder televisão pública e foi apenas em 1989 que
político numa Europa então dominada por os obstáculos à entrada de operadores pri-
governos conservadores não estava disposto vados na atividade televisiva foram retirados
a aumentar as taxas de televisão e de rádio. do texto constitucional. Ultrapassado este
Os serviços públicos começavam então a sentir obstáculo, e no contexto de uma grande
dificuldades de financiamento cada vez mai- polêmica sobre o processo de atribuição de
ores. Os governos conservadores viam na freqüências, Cavaco Silva decidiu atribuir, em
redução de impostos um importante fator de 1992, duas freqüências de televisão nacio-
popularidade e as taxas de televisão tenderam nais: uma à Sociedade Independente de
a estagnar. Como os custos de produção não Comunicação (SIC), liderada por Pinto
baixavam, os serviços públicos encontravam Balsemão e outra à Televisão Independente
dificuldades em desempenhar suas funções, ao (TVI), um canal de inspiração cristã, então
mesmo tempo em que o desenvolvimento das associado à Igreja Católica.
tecnologias do cabo e do satélite fizeram com O sistema de televisão hertziana, em
que um grande número de canais de rádio e Portugal Continental, passou assim a dispor
televisão fosse tecnicamente possível, derru- de quatro canais (dois públicos e dois pri-
bando um dos argumentos frequentemente vados). Tal como no setor radiofônico, esta
utilizado pelos governos para justificar o transformação no setor televisivo não foi
reduzido número de canais disponíveis. precedida de um estudo cuidadoso sobre as
Estas transformações constituíram o pano implicações desta reforma. Todas as atenções
de fundo no qual se podem ler as reformas estavam centradas nos atores que iriam ser
estruturais que viriam a ocorrer em Portugal contemplados com estas freqüências e nas
no final dos anos 80 e no início dos anos implicações políticas de tal decisão. Ques-
90. Mas, internamente, Portugal reunia tam- tões absolutamente cruciais, como a dimen-
bém as condições indispensáveis à mudança. são do mercado publicitário, fontes alterna-
Em 1987 o país teve o seu primeiro governo tivas de financiamento dos canais, clarifica-
majoritário. A estabilidade política favoreceu ção das regras de concorrência, limites e
o crescimento econômico, o que contribuiu obrigações ao nível da programação de canais
para a expansão do mercado publicitário, públicos e privados, entre muitas outras,
possibilitando a criação de importantes pe- foram negligenciadas.
riódicos (ex: Público e Independente) dando A abertura do mercado televisivo teve um
confiança a vários atores para investirem nas grande impacto no serviço público de tele-
comunicações. Nesta fase, tornava-se também visão. A RTP passou a ter que competir pelo
cada vez mais difícil justificar a forte con- mesmo bolo publicitário com mais dois
centração dos media e das telecomunicações operadores. Tendo sido também abolida a taxa
nas mãos do Estado. Esta concentração de televisão e tendo sido vendida à Portugal
ocorrera num contexto pós-revolucionário e Telecom a sua rede de transmissores, a RTP
inúmeros líderes de opinião defendiam que sofreu uma drástica redução das suas recei-
não havia qualquer justificação para a ma- tas e um aumento das despesas, relacionado
nutenção do status quo. não só com o pagamento da transmissão de
82 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

sinal, mas também com a necessidade de interesses implicava a criação de organismos


competir pelos mesmos produtos audiovisuais autónomos. No entanto, e ainda que esta
e recursos humanos. A disputa por progra- tivesse sido a lógica que presidiu à criação
mas, formatos e estrelas inflacionou o seu do ICP, este organismo nunca se tornou
preço.10 As dificuldades financeiras da RTP verdadeiramente independente.
refletem também o sucesso comercial de um Após a criação do ICP, foi aprovada a
dos operadores privados. Dois anos e sete Lei Básica das Telecomunicações (88/89 de
meses depois de ter iniciado as suas emis- 11 de Setembro) que abriu as portas à
sões, a SIC ultrapassa o share semanal do liberalização do setor. De acordo com esta
Canal 1 da RTP. Seguindo uma agressiva lei, competia ao Estado a provisão dos
estratégia de programação, a SIC arrastou serviços básicos de telecomunicações, nome-
audiências e consequentemente uma parte adamente o telefone fixo e o telex, mas os
significativa do bolo publicitário. Dividida serviços que envolvessem o uso complemen-
quanto aos seus objetivos, a TVI não teve tar das infra-estruturas de telecomunicações
inicialmente o sucesso comercial da SIC e poderiam ser prestados por empresas públi-
enfrentou sérios problemas financeiros. cas ou privadas, desde que devidamente
Os problemas da RTP estão diretamente licenciadas. Estas previsões legais não im-
relacionados com o fato da empresa nunca pediram, no entanto, as frequentes alegações,
ter clarificado o seu papel enquanto Serviço por parte de operadores privados, de abuso
Público de Televisão. Ainda que o segundo da posição dominante por parte do Estado.
governo majoritário de Cavaco Silva tivesse Para além da abertura gradual das tele-
tentado regulamentar alguns destes aspectos, comunicações a novos atores, o segundo
fê-lo de forma inepta e sem qualquer resul- governo majoritário de Cavaco Silva enten-
tado positivo através da celebração do deu ainda que era necessário re-organizar o
Contrato de Concessão de Serviço Público setor, que compreendia na época três ope-
de Televisão, em 17 de Março de 1993. O radores públicos: os Correios e Telecomu-
governo de Cavaco Silva considerou que uma nicações de Portugal (CTT), Telefones de
televisão seria de Serviço Público enquanto Lisboa e Porto (TLP) e Marconi13. Estes
cumprisse um determinado número de tare- operadores tradicionais estavam organizados,
fas 11. Entre as inúmeras tarefas nada de por razões históricas, numa base geográfi-
concreto é apresentado relativamente à pro- ca 14, o que passou a ser entendido pelo
gramação. Não há qualquer tentativa de governo como inadequado. Por isso, foi criada
explicitar o que se pretende dizer com res- a holding Comunicações Nacionais (CN), que
peito pelo interesse do público nem por tinha a responsabilidade de coordenar o setor
exigências de qualidade e de diversidade. Sem e de o preparar para a privatização. A CN
recursos financeiros e insegura quanto aos começou a operar em 1993, compreendendo
seus objetivos, a RTP não foi capaz de cinco empresas públicas: os CTT (ramo dos
conquistar o seu espaço num mercado aberto correios), a Portugal Telelecom (PT) (ramo
aos operadores privados. das telecomunicações da antiga empresa
No plano das telecomunicações, houve CTT), a Teledifusora de Portugal (TDP), os
também grandes mudanças no tempo de TLP e a Marconi.
Cavaco Silva. Em linha com o que estava O resultado final do processo, assim
a ser discutido e aprovado na União euro- iniciado, levaria, apesar da feroz oposição da
péia, os social-democratas começaram por Marconi e de influentes figuras dentro do
criar um organismo de regulamentação do próprio governo, a uma fusão entre as quatro
setor: o Instituto das Comunicações de empresas de telecomunicações comandadas
Portugal (ICP)12. A União européia e outros pela PT. Nem o governo nem a PT, no
atores internacionais empenhados em libera- entanto, foram capazes de explicar o para-
lizar as telecomunicações argumentavam que doxo de argumentarem simultaneamente a
os estados não poderiam acumular a função favor da liberalização e da concentração das
comercial e de prestação de serviços com as empresas que levaram a cabo. Estando
funções de regulamentação do setor das consumada a concentração das várias empre-
telecomunicações. O inevitável conflito de sas públicas de telecomunicações numa só,
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 83

o próximo passo dos Social-democratas no Se na área do audiovisual e das teleco-


governo foi a privatização da PT. municações não houve mudanças de grande
De facto, quando António Guterres che- significado na condução política do setor
gou ao governo no final de 1995, as refor- durante o primeiro mandato de António
mas estruturais nas telecomunicações, no Guterres, o mesmo não pode afirmar-se em
setor televisivo, radiofónico e na imprensa relação à chamada Sociedade da Informação.
tinham sido já executadas. O programa do Pela primeira vez, um governo deu grande
governo (Assembleia da República, 1995) importância às tecnologias da informação.
demonstrava com clareza que não era inten- Argumentando que a competitividade das
ção inverter qualquer reforma e que as suas nações está intimamente ligada à forma como
propostas não passavam de tímidos retoques estas incorporam nos tecidos produtivo e
a instrumentos legais e organismos de regu- social os avanços verificados no domínio
lamentação. tecnológico e, particularmente, aqueles que
Neste sensível setor midiático, um dos se verificam na área das tecnologias da
problemas de mais difícil resolução herdado informação (Assembleia da República, 1995),
da legislatura anterior foi, sem dúvida, a RTP. o XIII governo constitucional considerou
A apressada abertura do mercado à iniciativa marca distintiva e prioridade a aposta na
privada criou grandes dificuldades à empresa definição e aplicação de uma política de
e o Secretário de Estado da Comunicação desenvolvimento das tecnologias da informa-
Social, Arons de Carvalho, dizia-se disposto ção.
a dedicar-lhe grande atenção. Foram apro- A apresentação pública do Livro Verde
vados planos de reestruturação da empresa, para a Sociedade da Informação, em 1997,
foram colocados na Direção da Informação constituiu um importante passo nesta esfera.
profissionais conhecidos pelo seu rigor e A partir de então, foi desenvolvida uma rede
independência, foi assinado um novo Con- científica nacional no sentido de aproximar
trato de Concessão do Serviço Público de os pesquisadores portugueses e incrementar
Televisão. Estas medidas não tiveram, porém, a pesquisa e desenvolvimento; foram feitos
resultados importantes servindo de arma de esforços para garantir que, dentro de poucos
combate para a oposição e para os demais anos, todas as escolas portuguesas estives-
operadores privados. sem ligadas à Internet; foram tomadas
No setor das telecomunicações, o governo medidas para facilitar a integração das
de António Guterres dizia-se, uma vez mais, empresas nas redes globais e para facilitar
disposto a dar continuidade a um trabalho que o acesso dos cidadãos às redes telemáticas.
vinha detrás. No programa do seu governo Desde a adesão de Portugal à então
(1995), ficou clara a intenção de aprofundar denominada Comunidade Económica
o processo de liberalização do mercado das Europeia, em 1986, até aos dias de hoje
telecomunicações e de garantir uma cada vez (governo de Durão Barroso), sempre houve
maior competição nestes serviços. De parti- uma grande preocupação por parte dos
cular importância foi, sem dúvida, o Decreto- executivos no sentido de fazer convergir as
lei 381-A/97, de 30 de Dezembro, que es- políticas internas com as grandes linhas de
tabeleceu um novo regime de acesso à pres- ação política e reguladora, desenvolvidas a
tação de serviços de telecomunicações. A partir partir de Bruxelas, no nível da Sociedade da
da publicação deste instrumento legal, um Informação, das telecomunicações e do
vasto número de serviços de telecomunicações audiovisual (Sousa, 1996). A União Europeia
deixou de precisar de autorização por parte conseguiu no seu passado recente desenvol-
do Instituto de Comunicações de Portugal para ver essencialmente um política coesa de te-
entrar no mercado. À exceção do telefone fixo, lecomunicações e hoje a política nacional
redes públicas e serviços que impliquem a atri- nessa matéria não escapa às determinações
buição de frequências, todos os serviços de supra-nacionais. No âmbito do audiovisual,
telecomunicações podem ser prestados, sem podemos afirmar genericamente que a UE
a autorização do ICP, apenas com o registro teve sempre mais dificuldades no desenvol-
nesta entidade reguladora do serviço a ser vimento de uma política coesa devido às
prestado15. profundas contradições internas sobre esta
84 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

matéria. Tendo claramente uma política militar de 1964 –, é fonte de dificuldades


audiovisual mais difusa, os países da União para a elaboração de um modelo de análise
têm ainda nesta esfera um considerável comparativa.
espaço de manobra. Por outro lado, a evolução das estruturas
de mercado em questão e sua integração
Nota (in) conclusiva transnacional apontam para a necessidade,
para além das políticas, de uma análise
O objetivo deste artigo foi apontar ape- comparativa também dos processos concre-
nas para o interesse de uma análise compa- tos de reestruturação nos dois setores con-
rativa das políticas audiovisuais do Brasil e vergentes do audiovisual e das telecomuni-
Portugal, face às determinações supra-naci- cações (para não falar ainda da telemática
onais de duas regiões do globo: a União e, especialmente, da Internet, que estão
européia e o Mercosul. Esta análise deverá também no centro de nossas preocupações).
contribuir para a compreensão, seja das Assim, se, no audiovisual, Portugal represen-
lógicas e dinâmicas de intervenção das es- ta, ao final das contas, o caso mais impor-
truturas transnacionais e do seu impacto no tante de sucesso internacional da Rede Globo
desenvolvimento e implementação de polí- de Televisão (Brittos, 2002), que disputa, por
ticas audiovisuais no plano nacional, como sua vez, com a Televisa e outros importantes
é o caso, especialmente de Portugal, seja dos grupos latino-americanos, como o Clarin, no
impasses e limites para a ação das autori- Mercosul, a liderança do setor no sub-con-
dades supra-nacionais, em função da exis- tinente, mas enfrentando, como também o
tência de mercados oligopólicos constituídos grupo argentino, uma crise de enormes
à base de empresas fortemente vinculadas proporções, fruto da própria reestruturação
com os poderes políticos locais e nacional, produtiva global, dos movimentos do capital
como ocorre no Brasil. financeiro internacional e da concorrência in-
No caso europeu, parte-se da hipótese de ternacional acrescida no setor (Bolaño, 2003
que, apesar de todas as dificuldades e con- b), nas telecomunicações, a privatização de
tradições da União européia no processo de Fernando Henrique Cardoso abriu as portas
desenvolvimento de uma política comum para para a penetração da PT em posição de
o audiovisual, esta entidade conseguiu avan- vantagem no Brasil, a partir de sua aliança
ços muito significativos, que podem ser com a hegemônica Telefônica espanhola,
observados analisando algumas dimensões do proprietária da melhor parte do mercado
impacto da sua intervenção em Portugal. O brasileiro, argentino e de outros paises da
mesmo não ocorre no Mercosul, o que impede América Latina. Neste caso, enfrentará a
a implantação de uma política de integração concorrência da Telecom Itália e, principal-
cultural, em grande parte por causa da forma mente, agora, ao que parece, da Telmex, nova
como se estrutura o mercado brasileiro de proprietária, até segunda ordem, da Embratel,
televisão. Essa assimetria entre as duas si- adquirida à MCI que, com isto, sai do
tuações, fruto do desenvolvimento, histori- mercado brasileiro.
camente determinado, das suas indústrias Estes são, em linhas gerais, alguns dados
audiovisuais – uma surgida da reforma do que poderão contribuir para o desenvolvimento
modelo anterior de serviço público e outra de uma análise comparativa do impacto que duas
de um importante processo de oligopolização, estruturas supra-nacionais regionais (Mercosul
que se vincula, por outro lado, às mudança e União européia) podem ter nas esferas naci-
políticas e institucionais decorrentes do golpe onais, nomeadamente no Brasil e em Portugal.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 85

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Sousa, Helena “Portugal“ in Legal Guide (Bolaño, 2003), aliada a uma política de inclusão
to Audiovisual Media in Europe, Recent Legal digital e de universalização do acesso aos novos
Developments in Broadcasting, Film, meios por parte das mais amplas camadas da
Telecommunications and the Global população, reforçando o mercado interno na área
e contribuindo para o enriquecimento e a diver-
Information Society in Europe and
sidade cultural do país, fontes primárias da com-
Neighbouring States, European Audiovisual petitividade (Bolaño & Sicsù, 2000), que tão
Observatory, Estrasburgo, 1999b. poucos têm tido a capacidade de explorar, dadas
Sousa, Helena, “Serviço Público, Tele- as características centralizadoras do sistema co-
visão Comercial e a Implementação da Lei: mercial brasileiro de televisão e a promiscuidade
Alguns Elementos para o Debate“ in Comu- que o modelo de regulação atual enseja nas
nicação e Sociedade I, Cadernos do Noro- relações entre interesses políticos e econômicos
este, Série Comunicação, Vol.12 (1-2), 1999c, nacionais e regionais no setor, ainda que alguns
p.121-130. instrumentos interessantes no sentido da demo-
cratização das comunicações estejam presentes em
Sousa, Helena e Luís António Santos
elementos específicos desse modelo, como é o caso
«RTP e Serviço Público, Um Percurso de da Lei do Cabo ou da própria Constituição Federal
inultrapassável dependência e contradição». de 1988.
In Pinto, M. et. al. A Televisão e a Cida- 4
O cronograma da OMC para a liberalização
dania, Contributos para o debate sobre o do comércio de serviços previa a apresentação de
Serviço Público, Braga, Departamento de demandas iniciais de engajamento específico, até
Ciências da Comunicação da Universidade o dia 30 de junho de 2002, e ofertas iniciais, até
do Minho, 2003. 31 de março de 2003. O site da OMC, consultado
em Março de 2004, informa que houve troca de
petições iniciais bilaterais a partir de junho de
2002 e que, entre 31 de março e 30 de outubro
_______________________________
1 de 2003, 39 países apresentaram ofertas iniciais.
Universidade Federal de Sergipe.
2 O Brasil não se inclui entre eles.
Universidade do Minho. 5
3 Segundo a revista Carta Capital, a operação
Sabemos que a competitividade do país na
de socorro à Globo, cuja dívida total atingiria os
área é questionável, na medida em que se resume
hoje basicamente ao domínio, compartido com US$ 1,3 bilhão, “pode custar ao BNDES R$ 284
outras importantes empresas latino-americanas, de milhões. Disso, R$ 125 milhões em debêntures
um segmento do mercado de exportação de de 1999 o banco troca por ações (...) Há três
produtos de ficção televisiva – como é o das anos o BNDES já entrara com outros R$ 284
telenovelas – por uma única empresa nacional, milhões. No total, sem ser feita a conta real-dólar
que controla de forma extremamente centralizada de 1999, e incluindo um financiamento de outros
a capacidade interna de produção. Todo o longo R$ 220 milhões em 1997, desde então a parceria
período de predomínio da Globo no país, iniciado com o BNDES rendeu à Globo R$ 639 milhões.
já na segunda metade dos anos 60, tem-se ca- Fora penduricalhos: R$ 58 milhões para o parque
racterizado por uma política de centralização da gráfico em 1998, outros R$ 12 milhões para o
produção que tem impedido o desenvolvimento Projac em 2001” (Carta Capital, 2002). A ope-
de uma efetiva competitividade sistêmica para o ração mais recente foi vista como um escândalo
país na área. Num momento em que se exige do pelos concorrentes da Globo e pela imprensa pelo
país um ambiente competitivo rico e diversificado fato de ter ocorrido às vésperas da votação da
para fazer frente às novas exigências impostas pelo emenda ao artigo 222 da Constituição Federal
sistema global, percebe-se que, mesmo do ponto (dando à empresa de Roberto Marinho condições
de vista econômico, o modelo é extremamente consideradas privilegiadas num futuro processo de
frágil, visto que a concentração das capacidades negociação para a entrada de sócios estrangeiros)
inovativas nas mãos de um ou poucos capitais e poucos meses antes das eleições presidenciais,
individuais reduz brutalmente a capacidade de no momento exato em que ocorriam os aconte-
resposta do país. A solução do problema passa cimentos que levaram ao rompimento da aliança
longe das políticas de salvamento acima menci- PSDB/PFL.
6
onadas e, mais ainda, de uma política de A TV digital tem também esse potencial
liberalização. Muito mais importante seria a adoção democratizador. Tudo depende do modelo de esfera
de uma política industrial para o audiovisual, capaz pública que se pretende implantar e não se
de disseminar a capacidade (econômica, financei- observou ainda, no novo governo, qualquer in-
ra e de conhecimento) de produção e difusão de teresse em mudar a estrutura do sistema brasileiro
conteúdos locais, regionais e independentes de televisão.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 87

7
Segundo Elvira Lobato, a dívida do conjunto dependente dos interesses dos governos do dia e
dos media brasileiros é estimada em R$ 10 bilhões, incapaz de garantir um tratamento equilibrado dos
tendo acumulado um prejuízo de R$ 7 bilhões diversos atores políticos. A este nível, a crono-
em 2002, R$ 5,6 bilhões (US$ 1,9 bilhões) dos logia apresenta - ainda no tempo de Cavaco Silva
quais registrados apenas pela Globopar, a holding - alguns dados reveladores. Por exemplo, a 28
das Organizações Globo. Naquele mesmo ano, a de Março de 1995, e pela segunda vez no espaço
receita líquida do setor caiu 20%, em termos reais, de menos de um mês e meio, o PCP apresentou
e 17 mil empregados foram demitidos. A euforia à Alta Autoridade para a Comunicação Social
da segunda metade dos anos 90, em que as (AACS) um protesto contra os comentários po-
empresas se endividaram em dólar para diversi- líticos na RTP, que considera ofensivos dos
ficar seus negócios e aumentar a capacidade de princípios da equidade e do pluralismo por se
produção, levou a que, em outubro de 2003, 80% resumirem a individualidades do PSD e do PS.
11
da dívida total esteja denominada em dólar e 83,5% Na cláusula 5 do contrato de 1993, pode
seja constituída de créditos a vencer no curto prazo. ler-se que a RTP fica obrigada a pautar a sua
Elvira Lobato lembra que “o grosso da dívida programação, com respeito pelo interesse do
acumulada vem de novos negócios: TV por público, por exigências de qualidade e de diver-
assinatura, telefonia e Internet. O setor imagi- sidade para assim promover o esclarecimento,
nava que haveria uma rápida convergência entre formação e participação cívica e política dos
a mídia tradicional e as telecomunicações e temia cidadãos; fica também obrigada a contribuir para
o fim da mídia impressa e a dominação do a informação, recreio e promoção educacional e
mercado pelas companhias telefônicas” (FSP, 16/ cultural do público em geral, no respeito pela
2/2004). identidade nacional e ainda obrigada a promover
8
Na mesma edição da FSP em que se publica a produção e emissão de programas educativos
o artigo citado de Elvira Lobato, faz-se uma ou formativos, especialmente os dirigidos a cri-
interessante resenha das posições das diferentes anças, minorias e deficientes auditivos
12
empresas, numa matéria intitulada “Empresas Formalmente, existia um ICP desde 1981,
divergem sobre pedido ao banco estatal”. O próprio criado pelo Decreto-lei 181/81 de 2 de Junho, mas
presidente do BNDES, referindo-se mais especi- esta entidade não passou do papel até 1989. Após
ficamente ao financiamento para a compra de papel a aprovação do Decreto-lei 283/89 de 23 de
de imprensa pelos grandes jornais brasileiros, Agosto, o ICP foi efectivamente implementado.
13
segundo a FSP (idem), mostrou desconforto em Apesar da Marconi ser considerado um
relação à possibilidade de abertura de linhas de operador público, 49% das suas acções estavam
crédito desse tipo, afirmando que não é missão nas mãos de privados.
14
do banco financiar operações para capital de giro. Os CTT prestavam serviços de telecomu-
9
Cavaco Silva entendeu também preservar um nicações em todo o país, à excepção de Lisboa
serviço mínimo de rádio e televisão e manter e Porto e prestavam serviços de longa distância
pública a agência noticiosa LUSA. Estes progra- para a Europa e Norte de África; os TLP pres-
mas do governo não deixaram também de dar tavam serviços de telecomunicações em Lisboa
considerável atenção às comunidades portuguesas e no Porto e a Marconi tinha o monopólio das
no estrangeiro e aos países de língua oficial comunicações por cabo e satélite para o resto do
Portuguesa, nomeadamente através da RTP Inter- mundo.
15
nacional (RTPi). O princípio da liberdade de estabelecimen-
10
As sérias dificuldades da RTP começaram to patente neste decreto-lei tem como principal
a sentir-se imediatamente após a entrada dos novos objetivo, a redução da burocracia e a facilitação
operadores no mercado. A 25 de Janeiro de 1995 da entrada de novos atores no mercado das te-
- como podemos confirmar na cronologia apre- lecomunicações. O decreto-lei 381-A/97 não
sentada nesta obra - o então presidente do Con- corresponde apenas ao desejo do governo de
selho de Administração da RTP, Freitas Cruz, aprofundar o processo de abertura do mercado
revelou ao jornal Público que o déficit acumulado das telecomunicações. Ele é em si mesmo a trans-
da empresa, no fecho das contas de 1994, se elevou posição de diretivas comunitárias para a legis-
a 25 milhões de contos (125 milhões de euros). lação nacional, particularmente as diretivas 96/
Se, por um lado, a reestruturação do setor 2/CE (comunicações pessoais e móveis), 96/19/
televisivo agravou seriamente a situação financei- CE (introdução de competição total no mercado
ra da RTP, por outro, a reestruturação não trouxe das telecomunicações) e 97/13/CE (quadro co-
novidades quanto à independência política da mum para as autorizações e licenças no acesso
estação de Serviço Público. Tal como no passado, ao mercado das telecomunicações) (Sousa,
a RTP continuou a ser vista como uma estação 1999b).
88 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 89

As políticas públicas de inclusão digital e seu impacto no processo


de democratização na sociedade da informação brasileira
Débora Burini1

Introdução McLuhan se materializasse e o homem, com


apenas um “clic” no mouse, tivesse acesso
Chacrinha2 há muito tempo já revelava a informações de todo o mundo.
que a comunicação era elemento fundamen- Globalização não é um fenômeno momen-
tal para as pessoas e repetia sempre, em seu tâneo e inesperado. É um processo de de-
programa, o jargão “quem não se comunica senvolvimento do capitalismo mundial que
se trumbica”. Talvez ele não soubesse a vai além da diminuição de distâncias
extensão que sua frase representaria hoje, e territoriais, mundialização da economia ou
nem poderia imaginar a importância que seria padronização de idiomas.
dada à comunicação e, em particular, à
informação na economia mundial. (...) globalização não é fenômeno
Chacrinha à parte, a verdade é que vi- recente, como se poderia supor, mas
vemos uma nova era, em que a disputa é representa um processo de larga
bem mais complexa e gira em torno de maturação, com ciclos de retração,
informações que ultrapassam fronteiras e ruptura e reorientação, em que anti-
invadem territórios numa velocidade surpre- gos costumes se mesclam com novos
endente. As chamadas “infovias” ou signos. Na atualidade, pode ser des-
“supervias” se caracterizam basicamente pelo crita a partir de algumas caracterís-
imediatismo e rapidez com que percorrem as ticas vinculadas às relações
informações para chegarem ao usuário, te- econômicas, à ideologia política, à
lespectador ou como queiram chamar esses língua predominante e aos modos de
indivíduos que permanecem do outro lado da comunicação.4
conexão.
As redes mundiais de comunicação eli- Este trabalho procura colocar em discus-
minaram muitas barreiras do espaço físico são um desses aspectos: os modos de comu-
que poderiam criar impedimentos para o nicação e sua relação com os processos de
transporte das informações; o tempo parece democratização da informação por meio de
ter diminuído e nunca esteve tão curto. políticas públicas de inclusão social, que
atendam as reais necessidades da comunida-
“A era da informação parece ter de como geradora de sua própria cultura
reduzido as distâncias da comunica- participante dos mecanismos de produção.
ção, desterritorializado os negócios e Temas como “sociedade da informação”
desconfigurado a noção de tempo ou “economia do conhecimento” tomaram,
diante de uma crescente velocidade de nos últimos anos, destaque nas organizações
interações e do fluxo de mensagens.”3 em todo o mundo. Recentemente em Gene-
bra, na Suíça, os principais representantes de
Graças à convergência digital das mídias indústrias de entretenimento e conglomera-
é possível transmitir dados, voz, imagem pelo dos de mídia mundiais reuniram-se para
celular, acessar a internet pelo telefone, enviar definir as diretrizes a serem tomadas no futuro
e-mails, assistir a vídeos, transmitir fotos, que se aproxima.
escolher o melhor ângulo de câmera no Mas, afinal, o que é Sociedade da Infor-
televisor da sala, votar no filme a que queira mação? O termo originalmente do inglês
assistir, comprar, ou se comunicar instanta- World Summit on the Information Society
neamente com pessoas geograficamente dis- (WSIS), ou Cúpula Mundial da Sociedade
tantes. É como se a “aldeia global” de da Informação, segundo o sociólogo Bernard
90 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Sorj5 é a denominação mais usual para indicar todo mundo. Eu acredito que a de-
o conjunto de impactos e consequências mocracia seja um esforço árduo, para
sociais das novas tecnologias da informação cada um, de trabalhar com as dife-
e da comunicação. Impactos e consequências renças. E é no conflito que se encon-
que podem na verdade representar uma tra a democracia, não no consenso.”8
possibilidade econômica e social capaz de
transformar e promover a integração de um No entanto, os modelos atuais de “inclu-
povo, alterando as estruturas produtivas são digital” refletem, na verdade, um
através de uma revolução tecnológica. distanciamento entre a maioria da população
mundial, que, por sua vez, colabora para o
“(...) a informação por si mesma não crescimento da chamada massa de analfabe-
tem valor algum; sua relevância tos digitais. Nesse aspecto essas políticas
depende de sua inserção no sistema reforçam a dependência econômica e prin-
de produção de conhecimento. Nesse cipalmente cultural, atrelando o acesso a uma
sentido, o conceito, também bastante mudança de atitude social. Não basta criar
disseminado, de “sociedade de conhe- mecanismos acreditando que a necessidade
cimento” [knowledge society] seria é puramente técnica operacional. A inclusão
mais adequado. Mas aqui, novamente deve passar obrigatoriamente pelo acesso ao
estaríamos nos esquecendo de que conhecimento antes do acesso às tecnologi-
todas as sociedades se fundam no as, permitindo uma escolha mais livre e
conhecimento.”6 consciente da utilização destas.

A sociedade da informação se ampara na “O giz, o quadro negro e um profes-


produção de conhecimento científico, sem o sor à frente de trinta ou quarenta
qual não haveria relação econômica. A alunos continua sendo a estrutura
globalização concentra e unifica, de certa básica da educação formal em uma
forma, essa difusão das mídias digitais. sociedade eletrônica, universal,
Para Jorge Werthein, representante da interdependente. Por outro lado, os
Unesco no Brasil, o crescimento das redes MCM9 tal como são utilizados pela
e a aplicação das tecnologias de informação sociedade de consumo constituem-se
e comunicação não garantem os fundamen- em uma “escola” mais vertical, com
tos das sociedades do conhecimento. Segun- funções muitas vezes mais alienadoras
do Werthein é preciso escolher a política sobre e massificantes que a tradicional.”10
as quais se possa ampliar o acesso justo à
educação e ao conhecimento7. Para ele, essa Nesse panorama a tecnologia permite um
tarefa é de todos e se insere no processo acesso ao meio (internet, TV digital, telefo-
coletivo de superação da exclusão digital. nia móvel) sem um conhecimento do pro-
Inclusão ou exclusão — não é uma cesso de produção da informação, impossi-
simples escolha de estar dentro ou fora da bilitando uma “leitura” representativa do que
sociedade tecnologizada. A pretensa escolha é transmitido. Reverter esse processo de
representa uma falácia na medida em que, padronização de leitura por uma ausência de
para uma escolha livre, é preciso antes um conhecimento está além do simples desen-
conhecimento livre, em que o debate, as volvimento de ferramentas tecnológicas mais
opiniões, as especificidades locais e os modernas mas sempre distantes da realidade
objetivos imediatos sejam a representação das do cotidiano.
necessidades de uma comunidade contribu- Não basta apenas depositar na
indo para uma opção alicerçada na conver- tecnologia que se apresenta a esperança da
gência das divergências. inclusão social, é preciso permanecer no
caminho buscando as finalidades humanas,
“Vivemos numa falsa concepção de assegurando à sociedade uma economia do
democracia. Buscamos muito a idéia conhecimento mais democrática, que garan-
de consenso, segundo a qual a demo- ta o desenvolvimento do país e da popu-
cracia seria o que há de comum para lação.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 91

“(...) uma nova realidade política e Apesar de existirem diferenças entre


cultural, na qual os diversos atores televisão e internet – sobretudo em aspectos
sociais – indivíduos, grupos, institui- como escolha e tempo – a televisão já não
ções, empresas – se orientam em é só televisão, uma vez que telecomunica-
função de informações, expectativas ções e televisão estão se misturando cada vez
e desejos inspirados em referências mais, e uma hora o produto oferecido pelo
globais.”11 broadcasting também vai mudar.
Diante dessa realidade, esta “nova TV”
A TV Digital passa a representar uma possibilidade impor-
tante de inclusão social da grande massa da
A presença da televisão na sociedade bra- população, que não possui acesso ao lazer,
sileira é extremamente forte. Cada vez mais educação, informação a não ser pela televi-
somos bombardeados por todos os lados com são.
informações e estímulos, nestes tempos em que A transmissão aberta, anteriormente res-
se consolida uma sociedade da informação. A trita a poucos canais, com a implementação
televisão é, de longe, o principal meio de da tecnologia digital, poderá gerar uma
comunicação privilegiado por jovens, adultos multiplicação de canais oferecidos, permitin-
e crianças, em uma realidade em que a leitura do uma democratização ao acesso da tele-
é preterida frente às mídias digitais. Estima- visão e, desta forma, abrindo a possibilidade
se que uma criança passe em média de três de manifestações culturais de variados
a quatro horas por dia em frente à TV.12 extratos da sociedade. Com esse aumento da
Hoje é inegável a importância da TV como oferta, a possibilidade de acesso ao meio de
veículo de comunicação popular, haja vista sua produção televisão também poderá crescer,
cobertura geográfica nacional, audiência re- dependendo da forma como forem
gional, autonomia de recepção, variedade e implementadas as políticas públicas de con-
qualidade técnica de programação. cessão de canais.
É na convergência da televisão com a Além disso, o potencial de interação
internet que nasce uma nova possibilidade apresentado por esse novo veículo por meio
de linguagem audiovisual que provocará do acesso múltiplo (internet-TV) permitiria
mudanças profundas na forma de produzir uma interferência dos telespectadores, tanto
e de consumir vídeos que têm como suporte no assistir como no participar do fazer,
o computador pessoal. Ao mesmo tempo, a direcionando os conteúdos para suas neces-
produção desses novos conteúdos requer altos sidades.
investimentos por parte das empresas de Mas nada disso será real se as políticas
software, hardware, entretenimento e tecno- de relacionamento social não mudarem. De
logias de transporte da informação. pouco adiantará um novo “jogo” se a grande
O desafio será encontrar formas inteli- massa dos jogadores não conhecer as regras,
gentes de apresentar conteúdos na TV Di- ou pior, se os detentores do “jogo” mudarem
gital, que conta com o sincretismo entre os as regras a todo o momento ao sabor de seus
planos visual, sonoro e verbal. interesses pessoais. Excluir a grande massa
A televisão, diferentemente do computador, da população do conhecimento do processo
fica ligada e vai retransmitindo a programação, de produção para incluí-la apenas no proces-
havendo ou não alguém para assistir. so de consumo manterá inalteradas as rela-
Broadcast, internet ou banda larga de te- ções que persistem desde a implementação
levisão a cabo, pouco importa. Equipamen- da televisão analógica no Brasil.
tos e softwares não são problemas para os A televisão digital passaria a ser apenas
produtores. mais um instrumento de dominação por parte
da classe dominante e uma novidade
“Usando hipermídias, sistemas de simu- eletrônica para o consumidor/usuário.
lação e redes de aprendizagem coope- Infelizmente o processo de manutenção
rativa cada vez mais integrados aos locais do status quo é bem mais simples que o
de trabalho, a formação profissional tende processo de desconstrução. Manter o atual
a integrar-se com a produção.”13 modelo de concessão com critérios políticos
92 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

paternalistas, excluindo grupos representati- binar a melhor maneira de conseguir uma


vos da sociedade, é fácil. Criar políticas interatividade com a presença física, que
públicas com objetivos educativos segundo ofereça acesso, disposição para gerar a
os quais simplesmente se ensina o usuário capacidade de resolver problemas, e produ-
a ser consumidor passivo também é fácil. ção dos conteúdos pela investigação da
comunidade, gerando-se, assim, o desenvol-
“(...) não se controla a comunicação vimento de conhecimento local, respeitando-
audiovisual se não se conhecerem os se as especificidades do ambiente. A garantia
mecanismos emocionais e inconscien- da participação deverá ser oriunda de inves-
tes a partir dos quais ele atua (...) o timentos na implementação das políticas
analfabetismo audiovisual é mais peri- públicas voltadas a um modelo que contem-
goso que o verbal. O analfabeto verbal ple os vários setores da sociedade (público,
é consciente de sua limitação. Não privado, ONGs, acadêmico), representando-
poderá ter acesso à informação escrita, se como uma política de Estado e evitando
mas tampouco poderá ser manipulado uma tendência “inauguralista” de governos.
por ela. O analfabeto audiovisual, no
entanto, será presa fácil da manipula- “Hoje, estamos cada vez mais cons-
ção audiovisual, porque terá acesso às cientes de que o mídium não é um
mensagens sem capacidade de análise simples “meio” de transmissão do
e, ao mesmo tempo, sem uma atitude discurso, mas que ele imprime um
de defesa, de controle.”14 certo aspecto a seus conteúdos e
comanda os usos que dele podemos
É necessário que as políticas públicas fazer. O mídium não é um simples
ofereçam a possibilidade de abertura da “meio”, um instrumento para trans-
capacidade de as pessoas realizarem sua portar uma mensagem estável: uma
própria leitura de forma autônoma, sem mudança importante do mídium
interferências. modifica o conjunto de um gênero de
A televisão aberta como a conhecemos discurso”.15
hoje não será a mesma televisão do futuro.
E não sendo mais a mesma, muda a forma Nesse sentido, desenvolver a cidadania,
de produzir televisão, a alma da televisão, estimular a reflexão e a crítica, provocar o
e mudam as relações de forças dos grupos debate, democratizar a informação são algu-
de mídia. mas das possibilidades que a televisão di-
gital poderá apresentar. Será isso quando
Considerações finais reivindicado um novo tipo de conhecimento,
um conhecimento por participação.
Não basta se ter a intenção de estabelecer Conhecer, saber manipular, entender o
uma comunicação dialógica a partir da TV modo de expressão da televisão criam uma
Digital, é preciso se estabelecer um universo competência importante no sentido de utilizá-
comum de competências comunicativas que la com eficiência na produção de conteúdos
permitam ao telespectador sua real partici- esperados pelos telespectadores envolvidos na
pação. O uso das tecnologias deverá com- comunicação.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 93

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que te cabe: entenda os interesses que estão 64-54.
4
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Informação ou da Comunicação? São Paulo,
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lo, set. 2002. 5
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6
linguagens na escola. São Paulo, Cortez, Ibid. p.35.
7
Ibid. p.10.
2000. 8
Jean Foucambert. Revista Nova Escola,
Soares, Ismar de Oliveira. Sociedade da março 1993, p.25.
Informação ou da Comunicação? São Paulo, 9
MCM, abreviação para Meios de Comuni-
Cidade Nova, 1996. cação de Massa.
94 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

10
Ynaray Joana da Silva. Meios de comu- cia: preocupação de gente grande” de 25 de
nicação e educação – o rádio, um poderoso aliado. Fevereiro de 2004 11:58h.
13
In Citelli, Adilson (coord.). Outras linguagens na Pierre Lévy. Cibercultura. trad.de Carlos
escola. São Paulo, Cortez, 2000, p.169. Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999, p.174.
11 14
Bernardo Sorj. Brasil@povo.com: a luta Joan Férres. Televisão Subliminar: sociali-
contra a desigualdade na Sociedade da Informa- zando através de Comunicações Despercebidas.
ção. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.; Brasília, trad. Ernani Rosa e Beatriz A. Neves. Porto Alegre,
DF: UNESCO, 2003, p.12. Artmed, 1998, p.273.
12 15
Maria Eduarda Mattar. Revista eletrônica Dominique Maingueneau,. Análise de textos
do terceiro setor intitulada “Mídia para a infân- de comunicação. São Paulo, Cortez, 2001, p. 71-72.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 95

Las nuevas estrategias de las radiotelevisiones públicas


en las comunidades autónomas1 españolas
Fernando Sabés Turmo2

Las radiotelevisiones autonómicas como económicamente estos nuevos canales puedan


medios de comunicación de proximidad ser desarrollados en territorios con baja
población y recursos más limitados. Sin
La creación por parte de los gobiernos embargo, tampoco es una fórmula mágica ya
autonómicos españoles de medios de que poner en marcha una corporación
comunicación públicos, fundamentalmente de autonómica supone un gran esfuerzo
radio y televisión, tuvo su momento cumbre económico.
en la década de los 80, etapa en la que se
consolidó la descentralización política y este Legislación
proceso también se trasladó a los medios de
comunicación. Un buen número de La legislación aprobada en España en los
comunidades autónomas se sumaron a esta últimos 25 años relativa a la televisión ha
iniciativa, mientras que otras quedaron sido considerable: el Estatuto Jurídico de la
relegadas tanto por los problemas políticos Radio y la Televisión (1980), la Ley de Tercer
que desencadenaron las propuestas para su Canal (1983), la Ley de Televisión Privada
formación como por las limitaciones (1988), la Ley de Televisión Local (1995),
económicas con las que partían. la regulación de las emisiones de televisión
No obstante, estamos observando en la por satélite (1992 y 1995) y cable (1995),
actualidad que este fenómeno se ha entre otras. Sin embargo, todas estas normas
reactivado. Territorios tan dispares como el no siempre, y el caso más evidente es el de
extremeño, el balear, el asturiano o el la televisión local, se han cumplido. De todas
aragonés están dando pasos más o menos maneras, para el tema que estamos analizando
firmes hacia la creación de nuevas en esta comunicación nos centraremos en el
televisiones autonómicas, aunque con Estatuto Jurídico de la Radio y la Televisión
propuestas, a priori, mucho más austeras que (1980) y en la Ley del Tercer Canal (1983).
la mayor parte de las impulsadas en los 80
y 90, pero con el objetivo de cubrir un espacio Ley 4/1980, de 10 de enero, de Estatuto de
de comunicación de proximidad que quedó la Radio y la Televisión
huérfano.
De todos modos, algunas de estas Con la llegada de la democracia se decidió
iniciativas están amparadas en grupos de otorgar un estatuto jurídico al ente público
comunicación privados, acercándose a la de Radio Televisión Española (RTVE). Se
fórmula de televisión autonómica de Canarias, aprobó el 10 de enero de 1980 y, al ser una
es decir, la subcontratación de contenidos a norma básica, necesitaba de una mayoría de
una o varias empresas privadas (en el caso dos tercios del total del Congreso de los
de Canarias a un productora controlada Diputados, lograda con los votos de la Unión
esencialmente por el grupo de comunicación de Centro Democrático (UCD), coalición que
Prisa, editor del diario El País). Ésta parece en aquel momento gobernaba el país, y el
ser la fórmula, por ejemplo, por la que se principal partido de la oposición, el Partido
está optando en Aragón, ámbito en el que Socialista Obrero Español (PSOE).
centraremos el tramo final de esta El Estatuto Jurídico de la Radio y la
comunicación. Televisión recoge en su artículo 1.2 que tanto
Es cierto que este modelo rompe, en parte, la radio como la televisión son servicios
el espíritu inicial de las radios y las públicos esenciales propiedad del Estado,
televisiones autonómicas, pero permite que pero en el artículo 2.2 señala que las
96 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

comunidades autónomas podrán gestionar un complementarias de orden técnico y


canal de televisión, previa autorización por en la presente Ley”.
ley de las Cortes Generales.
Asimismo, en el artículo 13, se añade que Esta ley significó el impulso definitivo
“RTVE, a través de su organización territorial, para que las comunidades autónomas pudieran
deberá elaborar una propuesta de disponer de un canal de televisión, aunque
programación específica de radio y televisión algunas, como es el caso de Cataluña y
que será emitida en el ámbito territorial de Euskadi, ya habían comenzado sus emisiones
la nacionalidad o región que corresponda, de forma alegal, aspecto que se convirtió en
salvaguardando el porcentaje y distribución una medida de presión para regular esta
de horas establecidas para la programación descentralización comunicativa. Existía en
nacional que el Gobierno fijará anualmente este momento en determinadas demarcaciones
a propuesta conjunta del consejo de la necesidad de contar con unos medios
administración y del director general de propios dependientes de los gobiernos
RTVE”. autonómicos, sobre todo, en aquellas zonas
El Estatuto Jurídico de la Radio y la con una lengua propia diferente al castellano.
Televisión abría la posibilidad, por un lado, Fundamentalmente estamos hablando, en un
a la descentralización comunicativa a través primer momento, de Euskadi y Cataluña y
de centros territoriales de RTVE y, por otro, posteriormente también de Galicia. Veían a
a la aparición de entes de radio y televisión estas nuevas corporaciones de medios como
autonómicos dependientes de las una herramienta que demostraba su hecho
comunidades autónomas. No obstante, éste diferencial y una forma de trasladar la
era únicamente un primer paso que debía descentralización política también a los
consolidarse posteriormente con otra ley, la medios de comunicación porque, salvando las
que regulara la concesión de canales a las distancias, los modelos escogidos repitieron
administraciones autonómicas. el planteamiento de Radio Televisión
Española. Estos medios públicos fueron
Ley 46/1983, de 26 de diciembre, reguladora utilizados como un elemento más para
del Tercer Canal de Televisión fomentar el desarrollo de las lenguas propias
y a la vez también rompían con el monopolio
El Estatuto Jurídico de la Radio y la informativo en televisión que hasta ese
Televisión recogía en el artículo 2.2 que las momento siempre había tenido el Estado a
comunidades autónomas podrían gestionar un través de las dos cadenas de Televisión
canal de televisión con el consentimiento de Española y de sus desconexiones territoriales
las Cortes Generales. Este hecho motivó que que eran catalogadas de insuficientes desde
se regulara esta transferencia de gestiones las autonomías. La Ley 46/1983 hablaba de
mediante la Ley 46/1983 de 26 de diciembre, gestión directa por parte de las comunidades
aunque sin olvidar que la propiedad del de sus radios y televisiones. Este aspecto está
servicio de televisión y radio continuaba siendo cuestionado desde hace varios años
siendo del estado (Artículo 1). con propuestas como la de la Televisión
Canaria, modelo que propone la
“Se autoriza al Gobierno para que subcontratación de la programación a una
tome las medidas necesarias para la empresa privada. En un proceso similar está
puesta en funcionamiento de un tercer el ente público valenciano, es decir, en un
canal de televisión de titularidad intento de privatización del servicio. Sin
estatal y para otorgarlo, en régimen embargo, de momento esta propuesta no
de concesión, en el ámbito territorial puede llevarse a cabo después de la sentencia
de cada Comunidad Autónoma, previa que dictó un juez y en la que indicaba que
solicitud de los Órganos de Gobierno esta privatización iba en contra de dos leyes:
de estas, y en los términos previstos la ley de Creación de la Radio Televisión
en los respectivos Estatutos de Valenciana y la Ley del Tercer Canal. No
Autonomía, en el Estatuto de Radio obstante, la dirección de este ente ha recurrido
y Televisión, en sus disposiciones la decisión. Uno de los aspectos que lleva
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 97

a dudar de este sistema es el posible control han podido crear corporaciones públicas de
desde los parlamentos autonómicos de la radiotelevisión en las autonomías, aunque sí
programación que se emite, por lo que para es cierto que los distintos gobiernos de
ello se debe articular perfectamente cual es Madrid, incluso de diferente signo político,
la forma que se establece. De todos modos, han dificultado a determinados territorios
no es sino institucionalizar y regular la desarrollar sus iniciativas comunicativas. De
participación de la empresa privada en las esta forma, observamos los problemas que
televisiones y radios autonómicas, aspecto tuvo la Televisión Canaria para comenzar sus
que también se produce en la actualidad en emisiones ya que se aseguraba que su modelo
aquellas que todavía son gestionadas de gestión podía no ser compatible con la
directamente desde los gobiernos autónomos. ley o el cierre de la experiencia de televisión
extremeña (Canal Sur Extremadura), entre
Los nuevos proyectos de corporaciones de otros.
medios autonómicos
Los proyectos de Aragón, Asturias,
España cuenta en estos momentos con Extremadura e Illes Balears
ocho corporaciones de radio y televisión
autonómicas, aunque esta cifra podría Aragón, Asturias, Extremadura e Illes
aumentar en breve si se consolidan proyectos Balears están en la actualidad en proceso de
como los de Illes Balears, Asturias, crear una televisión autonómica y en algún
Extremadura y Aragón que están en fase de caso también una radio. Estas cuatro
concreción. Las comunidades que ya cuentan comunidades están dando pasos firmes para
con radiotelevisiones propias son: Euskadi contar con estos nuevos entes. Una
(1982), Cataluña (1983), Galicia (1985), característica común tienen estos cuatro
Andalucía (1988), Madrid (1989), País proyectos y es el convencimiento de los
Valenciano (1989), Canarias (1999) y Castilla gobiernos que los impulsan, no todos del
La Mancha (2001). mismo signo político, de la necesidad de
limitar el gasto y evitar que se disparen los
“Las radios autonómicas nacen en el costes como ha sucedido en otras iniciativas
Estado español como respuesta al similares. Así, el Consejo de Ministros del
deseo de autogobierno expresado, 12 de marzo de 2004 concedió el tercer canal
reiteradamente, por los ciudadanos de de televisión a Extremadura y Baleares.
territorios históricos y regiones que Aragón está muy cerca de conseguir
se constituyen en Comunidades finalmente tener su propia televisión. En esta
Autónomas, profesionales políticos, Comunidad, de momento, solamente se
gente de la calle, intelectuales, artistas plantea este medio, aunque también es cierto
... se suman al deseo de unos medios que no se ha descartado tampoco la
propios de comunicación para cada posibilidad de contar con una radio. Todas
nacionalidad o región” (Peñafiel, las formaciones políticas parecen, al menos
1992:57). de momento, decididas a dar el respaldo
definitivo a este proyecto, aunque también
Esta afirmación queda corroborada con es probable que las discusiones lleguen en
la decisión de la puesta en marcha de sus el momento en el que se decida el modelo
corporaciones por parte de dos de las de programación y de gestión. Hay una
denominadas nacionalidades históricas 3, amplia mayoría que apostaría por la
Euskadi y Cataluña, de forma previa a la subcontratación de toda o parte de la
aprobación de la Ley del Tercer Canal y en programación a un grupo empresarial privado.
el momento en el que se estaba discutiendo Desde el Ejecutivo se baraja una fecha para
cómo redactar esta norma. Incluso, en ese el inicio de las emisiones, el 23 de abril de
momento, destacados políticos españoles 2005, coincidiendo con la festividad de San
argumentaban que estos medios autonómicos Jorge, patrón de Aragón.
sólo podían ir destinados a las comunidades Asturias se ha planteado poner en marcha
históricas. Con mayor o menor facilidad, se su radiotelevisión autonómica a finales de este
98 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

año o comienzos del próximo, aunque se de 2004 la concesión de las frecuencias por
podría retrasar por problemas legales. El ente las que emitirá la radio autonómica en las
contará con una televisión, una radio y un tres islas, atendiendo a la petición que había
portal de internet. El primer paso que se debe efectuado el Ejecutivo presidido por Jaume
llevar a cabo es el nombramiento del Consejo Matas. Asimismo, esta Comunidad también
de Administración que en principio podrá ser ha recibido la concesión del tercer canal de
elegido por mayoría simple después de que televisión.
la Ley de Acompañamiento de Presupuestos
de 2004 modificara este aspecto. La televisión aragonesa: una propuesta que
Anteriormente se necesitaba disponer de una empieza a ver la luz tras 17 años
mayoría de dos tercios del Parlamento, por
lo que se encontraba con la oposición del La historia de la Radio Televisión
Partido Popular (PP). De todos modos, este Aragonesa (RTVAR) está salpicada de
cambio podría quedar paralizado ya que el polémica desde un comienzo. Las trifulcas
Gobierno del Estado presentó el pasado 6 de entre los diferentes partidos políticos en
febrero de 2004 un recurso de relación a este asunto han sido constantes y
inconstitucionalidad contra la ley que varió se han repetido en todas las legislaturas. Pese
el sistema de elección del Consejo de a que parece que en los últimos tiempos el
Administración. Si este recurso fuera consenso puede haber hecho su aparición sí
admitido a trámite por el Tribunal habrá que estar muy atentos al momento en
Constitucional la norma quedaría suspendida el que primero se decida la forma de gestión
de forma inmediata, aunque esta paralización del ente y su programación y posteriormente
se debería ratificar o levantar en un plazo la adjudicación, si es que se produce, a algún
no superior a cinco meses. grupo o grupos de comunicación de una parte
Extremadura también está dando pasos o de la totalidad de sus contenidos. En los
para desbloquear la situación de su canal próximos meses, Aragón deberá establecer el
autonómico. Para ello, el Partido Socialista modelo de televisión que desea aplicar ya que
(PSOE) e Izquierda Unida (IU) han llegado según se ha apuntado las emisiones podrían
a un acuerdo con el fin de presentar empezar en un año.
enmiendas parciales para reformar la Ley de Se puede decir que la radiotelevisión
2000 de Creación de la Corporación aragonesa hizo su aparición el 15 de abril
Extremeña de Medios Audiovisuales. El de 1987, cuando las Cortes de Aragón
principal cambio que se propone es que si aprobaron la Ley 8/1987 de Creación,
no se puede conformar en Consejo de Organización y Control Parlamentario de la
Administración por falta de consenso sea el Corporación Aragonesa de Radio y
Consejo Asesor de Radiotelevisión Española Televisión. De todos modos, este surgimiento
en Extremadura quien asuma sus funciones. fue ficticio ya que después de 17 años los
Con este planteamiento se pretende evitar un aragoneses seguimos sin poder disfrutar de
posible veto del Partido Popular a la una televisión y de una radio propia.
conformación del Consejo de Administración El hueco que ha dejado vacante en este
y de esa forma se impediría que el proyecto tiempo la fallida RTVAR ha llevado a que
quedara de nuevo en punto muerto. varios grupos de comunicación privados
Illes Balears está perfilando su modelo pusieran en marcha su propia televisión,
de televisión y radio autonómico. El Ejecutivo algunas con vocación autonómica, aunque es
ha asegurado que las emisiones comenzarán cierto que sólo una ha llevado su señal a
el 1 de marzo de 2005 y que la lengua prácticamente toda la Comunidad: Antena
vehicular será el catalán. Sí ha dejado claro Aragón, la televisión que emite desde el
el Gobierno balear su decisión de crear edificio que se construyó en los inicios de
también una radio autonómica para la que los 90 para albergar la corporación pública
ya ha conseguido legalizar frecuencias. La que después no se creó.
Comisión de Gestión Directa de Frecuencias, La crispación ha sido la nota característica
dependiente del Ministerio de Ciencia y de todos los intentos que se han llevado a
Tecnología, aprobó el pasado 5 de febrero cabo en Aragón para poner en marcha su
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 99

radiotelevisión, una situación que podría Organización y Control Parlamentario de la


haber cambiado en la actualidad, ya que Corporación Aragonesa de Radio y
parece que todas las formaciones políticas Televisión.
están, a priori, dispuestas a dar su apoyo al
proyecto que en estos momentos está Proyectos aragoneses de televisión local con
impulsando el Gobierno autonómico, formado vocación autonómica
por el PSOE -fuerza mayoritaria- y el Partido
Aragonés (PAR). El hueco que ha dejado vacante en estos
Oficialmente no existe un modelo últimos 17 años la fallida RTVAR ha llevado
definido de cómo será la televisión pública a que varios grupos de comunicación privados
aragonesa, aunque todo parece indicar que pusieran en marcha su propia televisión,
se optará por uno similar al utilizado en algunas con una vocación autonómica, aunque
Canarias, es decir, la contratación de la es cierto que solamente una ha conseguido
programación a una o varias empresas, llevar su señal a prácticamente toda la
aunque con algunas diferencias, entre ellas Comunidad: Antena Aragón, impulsada en
podría estar el deseo del Ejecutivo autónomo estos momentos por Caja Inmaculada.
de subcontratar toda la programación con la Encontramos otros tres proyectos interesantes
excepción de los espacios informativos. De por la importancia de los grupos que los
todos modos, lo que sí es definitivo es que promueven: RTVA, Localia Zaragoza y
el edificio desde el que emitirá la televisión Localia Huesca.
aragonesa será el que se construyó para tal De todas formas, éstas no son los únicas
fin en los inicios de la década de los 90. televisiones locales en Aragón sino que en
El mismo que actualmente utiliza Antena toda la autonomía existen 25, aunque no todas
Aragón, televisión controlada por Caja ellas son profesionales y algunas son de
Inmaculada, pero en la que también participan propiedad pública.
como socios minoritarios, y algunos con
muchas ganas de dejar de serlo, Ibercaja, Antena Aragón
Heraldo y Radio Zaragoza.
En estos momentos está claro que la Desde el Grupo Rey (empresa de
intención del Ejecutivo autonómico es poder comunicación local), adjudicatario de la
contar con todos estos grupos comunicativos explotación del Centro de Producción
que tienen experiencia en el audiovisual Audiovisual ubicado en el edificio que se
aragonés, es decir, Radio Zaragoza, Heraldo construyó para albergar la televisión
y las dos cajas de ahorros (CAI e Ibercaja) aragonesa y que quedó sin uso tras fracasar
e integrarlos en su proyecto sin cerrar las el proyecto en los primeros años de los 90,
puertas a otras empresas. La forma en que se apostó en 1997 por crear su propia
buscará el acuerdo es una incógnita y a la televisión local para Zaragoza. Para ello
vez será complicado, ya que las pérdidas que decidió la compra de Zaravisión, un canal
arrastra Antena Aragón están siendo uno de que ya funcionaba en aquellos momentos.
los caballos de batalla en las conversaciones- Comenzó sus emisiones en pruebas en
negociaciones que ya se han producido. diciembre de 1997, la programación regular
También existen otros grupos interesados en la inició en el mes de febrero de 1998.
participar, como es el caso de Z a través de También se varió el nombre al operador y
El Periódico de Aragón, al igual que no es pasó a denominarse Aravisión. No obstante,
descartable la posible entrada de forma muy esta situación no se convirtió en la definitiva
minoritaria de El Diario del Alto Aragón, ya que el 21 de septiembre de 1998 se creó
publicación de la provincia de Huesca. Antena Aragón, que recibía la herencia de
Ante esta situación se encuentra en estos las dos anteriores, pero que tenía la intención
momentos el Gobierno de Aragón, pero lo de convertirse en una especie de televisión
que sí comienza a ser una realidad es que autonómica de carácter privado.
esta Comunidad contará en 2005 con una Una de las principales novedades que se
televisión autonómica, 18 años después de dio en el momento en que apareció Antena
que se aprobara la Ley 8/1987 de Creación, Aragón fue que este operador también se
100 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

podía ver en Huesca por medio de un acuerdo Localia Zaragoza


con la sociedad Tele Huesca SL, que
pertenece a Radio Huesca (Ibercaja). Desde La presencia de Localia en Zaragoza con
la capital oscense se realizaban una serie de programación propia es reciente, en concreto,
desconexiones en las que se incorporaban desde 2003. Anteriormente, sí se podía
espacios propios. Sin embargo, Tele Huesca sintonizar, aunque con una calidad mínima,
dejó de emitir la programación de Antena la parrilla generalista de esta televisión pero
Aragón el 15 de septiembre de 2001, sin desconexiones. Actualmente, están en fase
incorporándose a la red Localia. de expansión. Este proyecto de Localia
A finales de 2000, Antena Aragón sufrió Zaragoza surge después de que se rompiera
importantes variaciones en su accionariado. el acuerdo al que habían llegado Radio
En ese momento pasó a estar formado por Zaragoza y Heraldo de Aragón para crear una
los siguientes socios: Aragón de televisión de ámbito regional con el soporte
Comunicación Audiovisual SA (ACASA), programático de Localia. Este pacto llevó a
grupo de empresarios e inversores locales; que Pretesa (Prisa) y Heraldo compraran lo
Promoción, Imagen y Comunicación SA que se había conocido hasta entonces como
(PIC), filial de Estudio de Comunicación SA, Zaragoza Televisión o Canal 60, una
empresa que opera a nivel estatal; Ibercaja, televisión local zaragozana. Sin embargo, en
primera entidad financiera de Aragón; verano de 2002 comenzaron los problemas
Heraldo de Aragón, líder de la prensa y definitivamente cada empresa empezó a
regional, y Grupo Prisa, propietario de Radio preparar su proyecto televisivo en solitario.
Zaragoza. Fue en ese momento cuando
Heraldo de Aragón y Radio Zaragoza se RTVA
hicieron con el control de la red, aunque no
duró mucho este proyecto que hubiera podido Radio Televisión Aragonesa (RTVA) es
ser el precedente de la televisión aragonesa el nombre comercial de la televisión que
pública tal y como se entiende en la actualidad impulsa el grupo Heraldo de Aragón y que
ya que prácticamente todos los grandes se puede ver en buena parte del territorio
grupos de comunicación que ahora tienen su aragonés desde el 5 de marzo de 2003, aunque
propia emisora estaban alrededor de un único está destinada fundamentalmente para
proyecto, Antena Aragón. En noviembre de Zaragoza. La cadena llegó a un acuerdo con
2001, de nuevo se produjeron novedades. el Grupo Correo, con Atlas-Une y con la
Caja Inmaculada (CAI) adquirió el 50% de cadena musical MTV para completar su
ACASA, quedando la otra mitad en manos parrilla que tiene un volumen importante de
del Grupo Rey. Asimismo, Aragón de programación propia.
Comunicación Audiovisual obtuvo la mayoría
en el consejo de administración al hacerse Localia Huesca
con las acciones que estaban controladas por
PIC. Este cambio llevó a la CAI a tomar La red, que anteriormente se denominaba
el control de Antena Aragón y que tanto Radio Antena Aragón Huesca, es propiedad de Tele
Zaragoza como Heraldo quedaran Huesca SL, una sociedad perteneciente al
desplazados de la emisora. Ambos todavía grupo de Radio Huesca, controlada por
mantienen un volumen mínimo de acciones, Ibercaja. Este operador de televisión apareció
aunque han diseñado sus propios proyectos el 9 de agosto de 1998 coincidiendo con las
televisivos, primero de forma conjunta y más fiestas de San Lorenzo, patrón de Huesca.
tarde individualmente. Nació con el nombre de Aravisión, antigua
Antena Aragón realizó una apuesta denominación de Antena Aragón. Tele Huesca
importante en 2003 y decidió llevar su señal SL llegó a un acuerdo de colaboración con
a prácticamente todo el territorio aragonés, el operador zaragozano con el fin de cubrir
entre otros aspectos, con el fin de posicionarse con la programación de éste buena parte de
ante una posible subcontratación de la futura su parrilla. Sin embargo, el 15 septiembre
televisión autonómica pública. de 2001, Tele Huesca dejó de conectar con
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 101

Antena Aragón (Zaragoza) y se incorporó a espejo de un colectivo y en este sentido los


Localia. Esta emisora ha hecho una apuesta contenidos que se ofrecen deben tener un
fuerte por intentar llegar a prácticamente toda grado de calidad que permita a los habitantes
la provincia. identificarse con estos productos, tanto a nivel
de consumo como por ofrecer espacios
Tendencias de futuro de las radiotelevisiones próximos.
públicas autonómicas en España Otro aspecto relevante es la relación de
estos medios con la política. Es diferente
Uno de los principales retos que están hablar de politización que de control político.
afrontando en estos momentos y que es La politización es claramente negativa ya que
necesario que resuelvan definitivamente este supone la utilización de los medios por parte
tipo de radiotelevisiones, pero también el resto de los gobiernos de los que dependen,
de medios de comunicación públicos, es la mientras que estas radios y televisiones deben
financiación. La racionalización del gasto debe tener un control político tal y como se indica
ser fundamental para evitar que se llegue a un en las leyes aprobadas. Es necesario una
grado de insostenibilidad que impida desarrollar reforma que les lleve a funcionar como
estos y otros proyectos de comunicación auténticos medios públicos y que les permita
impulsados por las diferentes administraciones. actuar con libertad y sin estar sometidos a
Por el contrario, también hay que tener las presiones del partido político que controla
en cuenta que estas radiotelevisiones son el la institución de la que forman parte.
102 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

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mapainteractivo-emisoras-ragon/index.html), Galicia). El modelo de descentralización política
2002. adoptado en aquel momento pretendía, por un lado,
satisfacer el deseo de las nacionalidades históricas
y, por otro, permitir un desarrollo menor y más
_______________________________ lento de la autonomía para el resto de territorios.
1
El artículo 143.1 de la Constitución Española Así se consideró dos formas de acceder a la
señala que “en el ejercicio del derecho a la autonomía a través de los artículos 151 y 143.
104 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 105

A universalização do serviço telefônico no Brasil1


Hans-Jürgen Michalski2

“Telefonia é muito cara para o ci- econômico e formam o modo econômico do


dadão brasileiro.”3 conceito universal service, cujas origens são,
Miro Teixeira em geral, atribuídas à construção do mo-
(Ministro das Comunicações) nopólio privado nas telecomunicações pela
American Telephone & Telegraph (AT&T)
nos Estados Unidos (Michalski, 1997: 75-
Segundo a Lei Geral das Telecomunica- 82 e Tapia/Dalmazo, 1999). Mas, segundo
ções Brasileiras, valem para os serviços de Verhoest, as origens da noção de serviço
telecomunicações em regime público obriga- universal na Europa podem ser regressadas
ções de universalização e de continuidade, na história até o século XIX. Contudo, o
as quais a própria União compromete-se a uso desse termo só entrou recentemente no
assegurar. A lei define obrigações de resto do mundo, a partir do desencadeamento
universalização como as que objetivam da onda da liberalização. E, também, no
possibilitar o acesso de qualquer pessoa ou Brasil, ao contrário do que Tapia/Dalmazo
instituição de interesse público ao serviço de afirmam, uma política de universalização
telecomunicações, independentemente de sua recorrendo explicitamente ao termo univer-
localização e condição sócio-econômica, bem sal service não existia na época do Sistema
como as destinadas a permitir a utilização Telebrás. Não havia nenhuma necessidade
das telecomunicações em serviços essenciais de elaborar obrigações de serviços explíci-
de interesse público. O poder público tem tas sob o monopólio público anterior, pois
o dever de garantir, a toda a população, o era suposto que o estado agisse no interesse
acesso às telecomunicações, a tarifas e pre- público.
ços razoáveis, em condições adequadas e o Realmente, os critérios de serviço de
usuário tem o direito de acesso aos serviços acessibilidade, disponibilidade e qualidade
de telecomunicações, com padrões de qua- de serviço descrevem um output produto que
lidade e regularidade adequados à sua na- coincide aproximadamente com a definição
tureza, em qualquer ponto do território clássica de eficiência econômica. Produtos
nacional. Essas características do serviço ou serviços seriam, primeiro, oferecidos ao
público de telecomunicações no Brasil cor- mais baixo custo possível, isto é, refletiriam
respondem ao conceito de universalização, ótimos custos de produção (disponibilida-
tal como é definido também pela Comissão de); segundo, distribuídos otimizadamente
Européia: entre os membros da sociedade, estando
“Serviço universal significa um conjunto dadas suas rendas disponíveis (acessibilida-
definido de serviços de determinada quali- de); e, terceiro, haveria um ótimo nível de
dade que está disponível a todos os usuários inovação (qualidade). Em outras palavras,
independentemente da localização geográfi- em uma economia perfeita com mercados
ca deles e, a luz de condições nacionais de telecomunicação perfeitamente maduros
específicas, a um preço razoável.”4 não existiria necessidade de regulamentação
Esses critérios fundamentais do serviço de serviço universal. Desta perspectiva,
universal - contidos nas duas definições obrigações de serviço universais só são
citadas acima, quais sejam: a acessibilidade, incentivos reguladores para favorecer os
a disponibilidade e a qualidade do serviço efeitos que podem ser supostos a um
para todos os clientes - são termos da efi- mercado de telecomunicação competitivo e
ciência e da distribuição do bem-estar maduro.
106 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

No Brasil, as obrigações de universa- universalização do acesso telefônico. 8 As


lização serão objeto de metas periódicas, metas quantitativas para os acessos indi-
confor-me plano específico, o Plano Geral viduais estiveram fixadas somente para o
de Metas de Universalização, PGMU, ela- período de três anos, de 1999 até 2001.
borado pela Agência e aprovado pelo Poder Depois do cumprimento dessas metas pelas
Executivo. Essas metas para a progressiva concessionárias, não existem novas metas
universalização do Serviço Telefônico Fixo quantitativas, a não ser que a negociação
Comutado (STFC) prestado no regime pú- das prorrogações dos contratos das con-
blico a serem cumpridas pelas Concessi- cessionárias resulte em metas quantitati-
onárias do serviço são detalhadas, por Con- vas que possam estar em vigor a partir
cessionária, nos respectivos contra-tos de de 2006.
concessão. Tanto para os acessos individu- Todavia, o cumprimento do PGMU,
ais quanto para os acessos coletivos (Telefo- consequentemente a antecipação do cumpri-
ne de Uso Público, TUP) estão fixadas mento das suas metas, levou o Brasil a quinta
metas quantitativas exatas nos anexos do posição mundial, no que se refere a número
decreto do Presidente.5 Além disso, as con- de telefones fixos instalados. Em número de
cessionárias devem cumprir certas densi- telefones celulares, o Brasil está entre os dez
dades para telefones de uso público no fim primeiros países (Quadros, 2002: 300). O
de 2003 e de 2005. Elas deverão implan- número absoluto de acessos fixos comutados
tar também o STFC, com acessos indivi- instalados pôde ser aumentado cerca de 2,5
duais, em todas as localidades conforme um vezes num período de quase quatro anos e
cronograma em que a obrigação ao aten- meio, de julho de 1998 até novembro de 2002.
dimento depende da grandeza das locali- Nesta última data, o Brasil tinha 49.410.000
dades (medida por habitantes), diminuindo acessos, o que supera a meta em 9,5 %. O
a grandeza mínima das localidades a serem número absoluto corresponde a uma
atendidas no decorrer do tempo. Também teledensidade de 28,8, que corresponde a mais
para o acesso coletivo em localidades ainda que 2,5 vezes a teledensidade em julho de
não atendidas pelo STFC vale tal 1998.9 Quanto ao Serviço Móvel Celular,
cronograma. Cada uma dessas localidades 33.271.00 pessoas - ou 19,4 pessoas por grupo
deverá dispor de pelo menos um Telefone de 100 - dispunham de um acesso, no fim
de Uso Público (TUP), instalado em local do ano de 2002. Esse número é quase 6 vezes
acessível, vinte e quatro horas por dia, com maior do que o número de celulares em julho
capacidade de originar e receber chamadas de 1998. Além disso, o número dos TUPs
de longa distância nacional e internacio- em serviço aumentou de 547.000, em julho
nal. Tais cronogramas existem, igualmen- de 1998, para 1.367.000, em novembro de
te, para: 2002. A densidade dos TUPs por 1000
- o atendimento das solicitações de aces- habitantes nesse tempo era 8 e superou a meta
so individual, nas localidades com STFC; em 9,2 %.
- o atendimento dos deficientes auditi- Considerando os domicílios, e não os
vos e de fala, em localidades com STFC, com indivíduos, a situação da infra-estrutura de
acessos individuais; telecomunicações melhorou bastante no
- a ativação de telefones de uso público período de 1999 até 2001. A cota de posse
nos estabelecimentos de ensino regular e em dos domicílios particulares permanentes de
institui-ções de saúde, em localidades onde telefones subiu para 37,6%, em 1999, e
o serviço estiver disponível6; chegou em 2001 a 58,9 %. Além disso, 7,8
- a disponibilidade de acesso a TUP em % dos domicílios tinham acesso somente ao
localidades com STFC, com acessos indivi- celular. Com isso dois terços dos domicílios
duais.7 tinham um acesso telefônico, além de acesso
Apesar dos cronogramas, deve ser feita aos TUPs (Ministério do Planejamento, 2002).
a crítica de que o PGMU não tem uma Sem dúvida, o desenvolvimento da rede
perspectiva de longo prazo para a brasileira de telecomunicações é impressio-
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 107

nante. Mas, uma análise mais profunda do esse salto foi apenas de 11.070.000. Consi-
desenvolvimento dos números de acessos derando os aumentos nos anos singulares,
fixos instalados, revela que sua dinâmica podemos constatar que a partir de 2000 esses
diminuiu no decorrer do período de dezem- saltos dos números se reduziram. Isso vale
bro de 1998 até novembro de 2002.10 De também para a telefonia móvel. No caso dos
dezembro de 1998 até dezembro de 2000, TUPs, a evolução dos aumentos está inver-
o salto de aumento de acessos telefônicos foi tida, ou seja, os saltos aumentaram até 2001
de 16.208.000. No período seguinte, de e no ano de 2002 o número dos telefones
dezembro de 2000 até novembro de 2002, públicos diminuiu.

Tabela I: Aumentos absolutos dos acessos telefônicos

Periodo Acessos fixos TUPs Celulares


1998-1999 5.634.000 150.000 7.633.000
1999-2000 10.574.000 169.000 8.155.000
2000-2001 9.448.000 469.000 5.557.000
2001-2002 1.622.000 - 11.000 4.526.000
Fonte: Ministério das Comunicações, Telecomunicações: Metas. Sistema de Informações Gerências –
novembro de 2002. Cálculos próprios.

Comparando os aumentos efetivos de realidade para todos os acessos telefônicos.


acessos telefônicos no período de 2001 até Para atingir as modestas taxas de cresci-
2002 com os previstos no programa PAS- mento da teledensidade o aumento efetivo
TE, podemos constatar que existe uma dos números dos acessos teria que ser
lacuna considerável entre planejamento e maior.

Tabela II: Aumentos de acessos telefônicos previstos no programa PASTE 2000

Periodo 2002-2003 2003-2004 2004-2005


Acessos fixos comutados instalados 4.420.000 4.280.000 4.160.000
Densidade (em pontos percentuais) 2,2 2,1 2,0
TUPs 171.900 107.000 104.700
Densidade em pontos percentuais 0,9 0,5 0,5
Serviço móvel celular 8.000.000 6.999.900 5.500.000
Densidade (em pontos percentuais) 4,3 3,6 2,8
Fonte: Anatel, 2000. Cálculos próprios

Além disso, os resultados da ativados) afrouxa-se. Enquanto a planta em


universalização precisam ser relativizados se serviço aumentou, de dezembro de 2000 até
se leva em consideração que existe uma dezembro de 2001, em 6.474.000, esse
diferença considerável entre os acessos ins- aumento, durante quase o mesmo período,
talados e os em serviço. Por exemplo, em de dezembro de 2001 até novembro de 2002,
novembro de 2002, essa diferença, os cha- só foi de 1.376.000.
mados telefones ociosos, montava o notável Visto que as regiões Norte (18,3) e
número de 10.604.000, soma maior do que Nordeste (17,7) ficam, quanto à
um quinto dos acessos fixos instalados. É teledensidade, consideravelmente atrás das
claro que a teledensidade diminui se é usada regiões Sul (30,8), Sudeste (37,4) e Centro
como base dos cálculos os acessos em ser- Oeste (29,5), coloca-se obviamente a ques-
viço. Neste caso, temos uma teledensidade tão se o novo modelo das telecomunicações
só de 22,62 e não de 28,8. Também a di- vigente no Brasil será capaz de resolver a
nâmica do desenvolvimento dos terminais em questão da universalização na periferia e no
serviço (aqueles que estão efetivamente campo.
108 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Tabela III: Posse dos domicílios particulares de meios de comunicação permanentes

Norte Centro
Região Brasil Nordeste Sudeste Sul
urbano Oeste
Telefone
Em 2001 27 404 531 1 207 880 4 328 242 14 961 941 4 899 706 2 011 857
Em % 58,9 53,4 35,9 70,6 64,9 59,9
Em 1999 16 487 183 628 616 2 421 570 9 106 640 3 012 888 1 325 479
Em % 37,6 33,7 21,0 45,3 42,1 41,8
Somente
celular
móvel
2001 3 629 870 183 911 617 615 1 577 648 927 829 323 209
Em % 7,8 8,1 5,1 7,4 12,3 9,6
Fonte: Ministério do Planejamento, 2002

Dada a imensa demanda (lista de espera Outro fator contraprodutivo ao desenvol-


de 13 milhões em 1997), o Brasil pôde - vimento dinâmico da infra-estrutura de tele-
através da venda da Telebrás para empresas comunicações utilizada efetivamente é a
européias e para uma empresa norte-ameri- inadimplência considerável, que vem contri-
cana de telecomunicações, fato denominado buindo para uma taxa menor de utilização
como internacionalização passiva pelo da planta instalada. Em provisão para os
Wohlers - mobilizar os investimentos neces- chamados devedores duvidosos, já em 2001,
sários para o desenvolvimento da infra-es- as três operadoras (a Telemar, a Brasil
trutura. Até hoje, essa estratégia, que visou Telecom e a Telefônica) lançaram R$ 2
a uma rápida expansão dos serviços sem bilhões.14 A Telemar provisionou R$ 812
descuidar do interesse do retorno de capital milhões para devedores duvidosos, o equi-
dos investidores, tem se cumprido.11 Porém, valente a 5,9 % da receita bruta, e gerou
coloca-se a indagação: poderá ser mantido desligamento de cerca de 2,289 milhões de
o nível de investimentos em serviços de te- linhas, que equivalem a 15,4 % das linhas
lecomunicações para o futuro próximo, tal em serviço. Observe-se que uma linha é
como previsto no PASTE 2000? Só para o desligada somente após 90 dias de atraso no
serviço fixo estão previstos 7,7 bilhões de pagamento. No final do exercício, 945 mil
reais para 2003, 7,2 para 2004 e 6,8 para linhas encontravam-se bloqueadas por atraso
2005 (Anatel, 2000: 139).12 no pagamento, sendo que deste total cerca
Hoje podemos observar algumas indica- de 60 % com bloqueio parcial (inabilitadas
ções para uma desaceleração dos investimen- para realização de chamadas, por atraso
tos das concessionárias. Por exemplo, os superior a 30 dias) e os outros 40 % com
investimentos da Telemar para o ano de 2002 bloqueio total (inabilitadas para realização e
foram reduzidos para um quarto do realizado recebimento de chamadas, devido a atraso
no ano anterior. De um total de cerca de R$ superior a 60 dias). Com efeito, a taxa de
2,5 bilhões, devem cair R$ 1,1 na telefonia utilização da planta instalada, que nos três
móvel e R$ 1,4 na telefonia fixa, com foco anos anteriores se situou nos níveis de 89/
principalmente na melhoria da qualidade, e 92 %, reduziu-se, ao final de 2001, para 82
para iniciar os serviços de longa distância %. Mas, no ano seguinte, a lacuna absoluta
nacional e internacional e a expansão no entre linhas instaladas e a planta em serviço
mercado corporativo. Em relação aos inves- dimi-nuiu de modo que a taxa de utilização
timentos da Embratel para 2003, a expec- da planta instalada aumentasse para 86 %,
tativa é de que o volume caia dos R$ 1,1 em novem-bro de 2002.15
bilhão de 2002 para algo entre R$ 800 A Brasil Telecom cancelou, em 2001,
milhões e R$ 600 milhões.13 874,5 mil linhas em função de não pagamen-
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 109

to. No quarto trimestre de 2001, a taxa de sionárias instalem terminais, que depois fi-
cancelamento por inadimplência chegou a carão mudos. Para que famílias de baixa renda
2,8% das linhas em serviço. Ao final do ano, tenham acesso permanente ao serviço é
o total de contas a receber bruto era de R$ preciso pensar em soluções alternativas
1.374,5 milhões (ou 3,83 % da receita bruta), baseando-se num novo conceito de serviço
dos quais R$597,8 milhões estavam venci- universal. Tapia/Dalmazo (1999: 86-88) re-
dos: 20,9 % até 30 dias, 7,8 % entre 31 e metem à concepção normativa e funcional
60 dias, 4,7 % entre 61 e 90 dias e 10 % de Serviço Universal e Verhoest o concebe
vencidos há mais de 90 dias. No decorrer como serviço social. Assim, além de ser infra-
dos quatro trimestres de 2001, tanto o aviso estrutura, essencial para o desenvolvimento
de bloqueio parcial aumentou de 4.861.625 socio-econômico, os serviços de telecomu-
para 6.565.208, como o bloqueio parcial nicações são um direito social, vinculado à
efetivo aumentou de 1.766.992 para cidadania – o direito à comunicação, o direito
2.401.821. Isso vale também para o bloqueio à informação ou ao conhecimento, que é
total: O aviso desse bloqueio subiu de legitimo numa sociedade democrática. Por
1.287.675 para 2.345.850 e o bloqueio total serem meios primários para a circulação das
de 487.412 para 600.707.16 A Brasil Telecom idéias e da informação, eles têm um caráter
conseguiu melhorar a taxa de utilização da público. Na perspectiva da sociedade da
planta consecutivamente: de 81 % em de- informação, a igualdade de oportunidade e
zembro de 2000, via 85 %, em dezembro de acesso aos serviços de interesse público/
de 2001, até 89 % em novembro de 2002.17 coletivo é um valor democrático que, por
A Telefônica não divulgou informações re- vezes, até pode sobrepor-se ao interesse
ferentes à inadimplência dos seus clientes.18 individual de acumulação de riqueza. Conse-
O aumento da inadimplência, o cancela- quentemente, a ação das instituições demo-
mento de linhas e a queda na taxa de uti- cráticas deve temperar os valores da soci-
lização foram efeitos do cumprimento das edade capitalista e controlar os seus exces-
metas da própria universalização devido à sos. Nesse sentido o serviço social é um
forte expansão da planta em serviço junto tratamento preferencial de certas categorias
às classes sociais mais baixas. Os novos de usuários. Se a sociedade tem decidido
assinantes do serviço local foram basicamen- quais serviços de comunicação/informação
te famílias das classes D e E, que não são devem ter um caráter universal, ou seja, quais
capazes de financiar um telefone fixo a longo devem ser democratizados, ela tem que
prazo. Todavia, nestas classes se encontra o determinar como eles devem ser financiados.
potencial para o maior crescimento do ser- Aqui existem principalmente duas opções:
viço telefônico. Segundo a GVT, 99 % das financiamento pelas empresas privadas dos
residências da classe A já têm telefones, na serviços de telecomunicações ou pelo esta-
classe B o serviço chega a 80 % das resi- do, ou seja, pelos usuários ou renda de
dências, e na classe C ainda assim atinge 60 imposto. Se um serviço é julgado essencial
% das casas, mas na classe D alcança apenas para sociedade, pode ser legítimo subsidiar
20 % das residências e na classe E a pe- sua provisão com renda de imposto. Po-
netração é de apenas 5 %.19 Mas com receita rém, tal política não é necessariamente
média de R$ 30 mensais dedicada à conta eqüitativa, porque o imposto também é
de telefone, a família de baixa renda não imposto a não-usuários. A imposição de
chega a ser atrativa, porque os investidores obrigações de serviço na indústria pode ser
exigem um retorno de capital tanto mais mais eqüitativa. Além disso, existem razões
rápido quanto possível.20 econômicas favoráveis a um Serviço Uni-
O fenômeno da inadimplência indica que versal: ao contrário do que se diz, a
o conceito tradicional ou restrito da obrigação de universalização representa
universalização (disponibilidade) não funci- uma capacidade potencial de utilização da
ona num país em desenvolvimento e não rede e de geração de receitas, enquanto a
resolve o problema da democratização da exclusão de um número significativo de
comunicação. Para garantir uma universa- consumidores potenciais reduz essas
lização verdadeira não basta que as conces- externalidades de rede.
110 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

A sociedade brasileira se decidiu pelo pelo governo no Orçamento do Minicom, há


estabelecimento de um Universal Service menos de R$ 100 milhões disponíveis para
Fond, tal como já existe, por exemplo, nos os programas.21
EUA. Por iniciativa do deputado José Esses recursos não bastariam nem de
Pimentel do Partido dos Trabalhadores, foi longe para realizar os diversos programas ou
criado o Fundo de Universalização dos até alternativas ao conceito econômico de
Serviços de Telecomunicações - FUST. universalização. Isso superaria até todas as
Segundo a lei nº 9.998, de 17 de agosto de receitas do FUST que corre o risco de acabar,
2000, o FUST tem por finalidade proporci- se o grupo de trabalho do Ministério das
onar recursos destinados a cobrir a parcela Comunicações que estuda as alternativas que
de custo exclusivamente atribuível ao cum- permitam executar os programas do fundo
primento das obrigações de universalização, não tiver sucesso. Só para subsidiar a conta
que não possa ser recuperada com a explo- telefônica das famílias de baixa renda, uma
ração eficiente do serviço. Os recursos do das linhas mestras anunciadas inicialmente
FUST têm que ser aplicados em consonância no Programa Telecomunicações, o governo
com o plano geral de metas para teria que gastar R$ 5 bilhões anualmente -
universalização de serviço de telecomunica- R$ 20,00 mensalmente para 18 milhões de
ções ou suas ampliações. Pelo menos trinta residências sem telefone.22
por cento dos recursos do FUST devem ser Outras alternativas seriam
gastos para programas, projetos e atividades - eliminar os impostos que incidem sobre
executados pelas concessionárias do STF118 as contas telefônicas das famílias que gastam
C nas áreas abrangidas pela SUDAM (Su- apenas os pulsos incluídos na assinatura
perintendência do Desenvolvimento da Ama- mensal, o que reduziria a conta entre 20 e
zônia) e SUDENE (Superintendência do 40 %, dependendo do valor do ICMS (Im-
Desenvolvimento do Nordeste), e de dezoito posto sobre Circulação de Mercadorias e
por cento, no mínimo, para tais em educa- Serviços) estadual,
ção. - uma tarifa específica para as classes de
O FUST está em vigor desde 2.1.2001 baixa renda e
com uma alíquota de 1 % sobre a receita - um programa de estímulo às conces-
líquida mensal das empresas de telecomuni- sionárias para o desenvolvimento de planos
cações. No início do ano 2003, o FUST especiais para esses assinantes.23
contou com cerca de R$ 2 bilhões porque Ainda não se nitidiza se o governo petista,
o Governo Cardoso não conseguiu realizar que vem formulando uma nova política de
nenhum dos sete progra-mas previstos (Pro- telecomunicações, opta por tais alternativas
grama Educação, Programa Saúde, Programa ou vai continuar o caminho do governo
Bibliotecas, Programa de Atendimento a Cardoso. Visto que os contratos das conces-
Deficientes, Programa Telecomunicações, sionárias serão renegociados neste ano, o
Programa para Regiões Remotas e de Fron- governo Silva tem pelo menos uma boa
teira, Programa Segurança Pública). Hoje, os oportunidade de estabelecer novas metas
recursos correm o risco de permanecer no obrigatórias de universalização dos serviços
caixa do Tesouro Nacional para fazer supe- de telecomunicações. Se ele quer democra-
rávit fiscal. O orçamento do governo deste tizar o serviço telefônico verdadeiramente, ele
ano previu apenas R$ 120 milhões do FUST não deve assustar-se com medidas de dis-
para aplicação nos programas, de uma arre- tribuição da renda mesmo quando elas se
cadação prevista de R$ 576 milhões. oponham ao conceito clássico de
Contabilizando o recente corte de 30 % feito universalização.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 111

Bibliografia cia tecnológica. Uma análise comparada,


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Fiuza, Eduardo Pedral Sampaio / Neri, _______________________________
1
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Janeiro, IPEA, julho de 1998. 3
Miriam Aquino, Miro afirma que a telefonia
Lei nº 9.472, de 16 de julho de 1997 é muito cara, Telecom Online 6.1.2003.
4
(Lei Geral de Telecomunicações Brasileiras). “Universal service means a defined set of
Lei nº 9.998, de 17 de agosto de 2000 services of specified quality which is available
(Fundo de Universalização dos Serviços de to all users independently of their geographic
location and, in the light of specific national
Telecomunicações – FUST).
conditions, at an affordable price.” (citado segun-
MC, Telecomunicações: Metas. Sistemas do Verhoest, 2000: 599).
de Informações Gerenciais – Novembro 2002. 5
Decreto nº 2.592, de15 de maio de 1998.
Michalski, Hans-Jürgen, Der 6
Nestes três casos diminuem os prazos
Telekommunikationskomplex. Politische máximos para o atendimento das solicitações no
Ökonomie der Technik- und decorrer de tempo.
7
Infrastrukturentwicklung in der Aqui o cronograma estabelece distâncias
Telekommunikation, Marburg: BDWI, 1997. máximas entre os TUPs e os usuários decrescen-
do no decorrer do tempo.
Ministério do Planejamento, Orçamen- 8
Mesmo a perspectiva do programa PASTE
to e Gestão e Instituto Brasileiro de atinge só até o ano de 2005, em que a teledensidade
Geografia e Estatística – IBGE, Diretoria deve ser 32,6 – um número sem compromisso
de Pesquisas, Departamento de Emprego e (Anatel, 2000).
Rendimento, Pesquisa Nacional por Amos- 9
A teledensidade é, no caso dos acessos
tra de Domicílios. Síntese de Indicadores individuais, um número entre 0 e 100 que indica
2001, Rio de Janeiro, 2002. o número dos telefones por 100 habitantes.
10
Mortimore, Michael, Corporate Além disso, o número de acessos instala-
strategies for FDI in the context of Latin dos, divulgado pela Anatel, estava superestimado,
não refletindo nem de longe a base instalada. Isto
America´s New Economic Model, in: World
porque, a Agência considera o número de acessos
Development, Volume 28, Issue 9, September que poderiam ser disponibilizados nas centrais
2000, p. 1611-1626. telefônicas dos espelhos. Se contar apenas a base
Quadros do Nascimento, Juarez, das concessionárias (incluindo as regionais CTBC
Universalização das comunicações e da Telecom e Sercomtel), a planta de terminais
informática, in: Paulo dos Reis Velloso, João instalados no Brasil cai consideravelmente. Miriam
(Coordenador), Brasil e a Economia do Aquino,. Menos de 100 mil usuários por mês se
Conhecimento, Rio de Janeiro, José Olympio, incorporaram à planta neste semestre, Telecom
2002, p. 297-302. Online 25.10.2002.
11
Tapia, Jorge Ruben Biton / Dalmazo, Da perspectiva do capital estrangeiro essa
estratégia não é sem risco, como, por exemplo,
Renato A., O significado do serviço univer-
para a Telefônica (Mortimore, 2000).
sal frente à liberalização das telecomunica- 12
Enquanto os investimentos em serviços fixos
ções e à Sociedade da Informação, in: Tapia, devem diminuir em R$ 2 bilhões - de R$ 8,8
Jorge Ruben Biton / Rallet, Alain, Teleco- bilhões em 2002 a R$ 6,8 bilhões em 2005, os
municações, desregulamentação e convergên- investimentos em serviços móveis devem aumen-
112 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

22
tar em R$ 1,4 bilhões - de R$ 6,4 bilhões em No caso do subsídio às famílias de baixa
2002 a R$ 7,8 bilhões em 2005. renda, os critérios de utilização dos recursos
13
Fatima Fonseca, Inadimplência na Telemar foram modificados em relação à proposta inicial.
deve se manter alta ainda este ano, Telecom Enquanto, primordialmente, teriam integralmen-
Online 5.3.2002 e, Carmen Lúcia Nery, Mercado te as contas telefônicas bancadas pelos recursos
aguarda balanço da Embratel com otimismo, do FUST, o programa do antigo governo esta-
Telecom Online 30.1.2003. beleceu mais tarde que o dinheiro do FUST será
14
Carmen Lúcia Nery, Operadoras querem utilizado para custear 50% da assinatura básica,
reduzir prazo para bloquear telefone, Telecom que é o valor fixo mensal das contas telefônicas.
Online 14.6.2002. A habilitação, a outra metade da assinatura e o
15
A Telemar atingiu, em novembro de 2002, que exceder da franquia serão pagos pelos
17,570 milhões de acessos fixos comutados ins- usuários. O subsídio só atingirá famílias cujas
talados enquanto a planta em serviço, no mesmo renda per capita não seja superior a meio salário
período, foi 2,533 milhões de linhas menor. mínimo. Há 1,122 milhão de famílias de baixo
Carmen Lúcia Nery, Antecipação de metas, poder aquisitivo (com renda per capita inferior
inadimplência e reestruturação societária derru- a meio salário mínimo) que deverão ser aten-
bam lucro da Telemar, Telecom Online 4.3.2002; didas com acessos individuais. O então ministro
Wanise Ferreira, Desligamentos no primeiro tri- chegou a anunciar que 32 milhões de pessoas
mestre 2002, Telecom Online 26.4.2002 e MC, seriam atendidas. Ele estudou a pos-sibilidade
Telecomunicações: Metas. Sistemas de Informa- de os recursos do FUST serem utilizados para
ções Gerenciais – Novembro 2002. Telemar. pagar, por um período, a habilitação e a assi-
16
Brasil Telecom S.A., Annual Report 2001, natura básica. Os usuários só pagariam o trá-
Versão eletrônica, p. 11, 74. fego. Cristiana Nepomuceno, Planejamento
17
Cálculos próprios, segundo MC. garante liberação de R$ 612 mil-hões para
18
Telecom Online No. 164 março 2002. telecomunicações, Telecom Online 24.6.2002 e
19
Cristiana Nepomuceno, Brasil terá, em breve, Miriam Aquino, Cidades com menos de 100
70 milhões de telefones, Telecom Online 14.8.2002. habitan-tes terão telefones públicos com dinhei-
20
Gazeta Mercantil 23.8.2001, p. 1. ro do FUST, Telecom Online 1.10.2002.
21 23
Cristiana Nepomuceno, Governo analisa Wanise Ferreira, Telecom Online No. 164
possibilidade de nova lei para o FUST, Telecom março 2002; Cristiana Nepomuceno, Conselho da
Online 13.2.2003; a mesma. Programas do FUST Anatel começa a fechar hoje textos que vão à
poderão contar com recursos complementares, consulta pública, Telecom Online 12.12.2002 e
Telecom Online 9.1.2003 e Carmen Lúcia Nery, a mesma. Mesmo com todos os recursos. FUST
Bittar vê dificuldades para liberação de recursos não será suficiente para atender programas,
do FUST, Telecom Online 17.1.2003. Telecom Online 20.2.2003.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 113

¿Reproducción de la cultura o cultura de la reproducción?


Análisis económico político de la lógica de distribución
y reproducción de productos culturales en Internet
Juan C. Calvi1

Introducción la reproducción de estos a través de la


aplicación del copyright2.
El presente trabajo analiza, desde la Para comenzar a delimitar nuestro marco
perspectiva teórica que brinda la economía de análisis, proponemos algunas
política de la comunicación, la información definiciones de Industrias Culturales (I.C.),
y la cultura, las nuevas condiciones de entre otras, las que señalan su carácter
distribución y reproducción de información industrial como “un conjunto de ramas,
en general y de productos culturales en segmentos y actividades industriales
particular que imperan hoy en Internet. productoras y distribuidoras de mercancías
Tomando en cuenta que Internet es con contenidos simbólicos, concebidas por
esencialmente un sistema técnico diseñado un trabajo creativo, organizadas por un
para distribuir y reproducir todo tipo de capital que se valoriza y destinadas
información que sortea cualquier barrera a finalmente a un mercado de consumo, con
su intercambio y a su libre acceso, esto una función de reproducción ideológica y
conlleva indefectiblemente una serie de social” (Zallo, 1988: 26). En la misma
inconvenientes, no solo técnicos sino línea, podemos definir a las I.C. como “toda
actividad de producción y distribución de
fundamentalmente económicos y político-
un producto simbólico (que integra un
normativos, a aquellas empresas que
trabajo intelectual, artístico o creativo),
controlan distintos sectores de las Industrias
organizada de acuerdo al principio de
Culturales y que intentan mercantilizar sus
separación entre productor y producto y
productos en la Red.
entre concepción y ejecución, dentro de una
Una de las principales características de
división técnica del trabajo para producirlo”
Internet es que la distribución de un archivo
(Lacroix, 1986) 3 . Y en términos de
informático - susceptible de contener reproducción seriada de un trabajo
información bajo cualquier forma, incluida simbólico, las I.C. pueden comprenderse
la de un producto cultural, como veremos como una serie de creaciones simbólicas
más adelante - se realiza a través de que, reproducidas en numerosas copias en
múltiples vías reproduciéndose a sí mismo, soportes materiales e inmateriales, están
con un coste de distribución y reproducción destinadas al encuentro de sus receptores
nulo, y posibilitando la disponibilidad de (Benjamin, 1981; Bustamante y otros,
dicho archivo en la Red tantas veces como 2003).
haya sido distribuido y reproducido. A estas Las I.C. poseen una serie de rasgos
características las denominamos, específicos que las diferencian de otros
parafraseando a Walter Benjamin sectores de la producción industrial, y las
(Benjamin, 1981), las condiciones de definiciones citadas destacan su
reproductibilidad de los productos característica esencial, esto es, la naturaleza
culturales en Internet. Estas condiciones de simbólica del trabajo que incorporan. Este
reproductibilidad plantean hoy una serie de trabajo intelectual, artístico o creativo, con
problemas a las empresas que intentan una forma estética o cultural determinada
imponer modelos de acceso restringido a (novela, canción, película, etc.), tiene como
sus productos, para poder así resultado final un producto cultural (libro,
comercializarlos, e intentan a la vez disco, película, periódico, programa de
controlar el intercambio, la distribución y radio o televisión, etc.), de naturaleza
114 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

sígnica y simbólica (texto, audio, imagen- y fundamentalmente, en base al desarrollo


movimiento o vídeo). de economías de escala (ahorro de costes
Ahora bien, en base al análisis de varios de producción e incremento de los beneficios
autores (Bustamante y otros, 2003; Flichy, proporcionalmente al aumento del mercado
1982; Garnham, 2000; Lacroix y Tremblay, de consumo), lo cual conlleva
1997; Miège, 1989; Newman, 1991; indefectiblemente a la concentración de los
Williams, 1975; Zallo, 1988), podemos mercados nacionales e internacionales de
señalar algunos de los problemas de consumo cultural.
realización económica como mercancías que Debido a la dificultad para integrar el
presentan los productos culturales, y las trabajo simbólico en una lógica de
lógicas fundamentales 4 sobre las cuales producción industrial, la necesidad de una
operan los distintos sectores de las I.C. para innovación constante de esa producción y
resolverlos, lo cual determinará a su vez los la aleatoriedad de la demanda, los grandes
límites y posibilidades de mercantilización grupos productores-editores, que
de estos productos tan particulares en denominamos genéricamente grupos
Internet. multimedia, dejan parte de la fase de
Los productos culturales presentan dos innovación en manos de pequeñas empresas,
características derivadas de su naturaleza compañías y grupos. En la mayoría de los
simbólica: 1) poseen un valor de uso casos, cuando el producto cultural presenta
ilimitado que no se agota ni destruye con ciertas garantías de éxito, los grupos
su uso o consumo, y 2) presentan diversos multimedia adquieren los derechos de
problemas de realización económica como reproducción, distribución y explotación
mercancías (valor de cambio). comercial (copyright) de ese producto
Los problemas de realización económica directamente a los autores o a las pequeñas
como mercancías que presentan estos productoras; controlando de ese modo tanto
productos se derivan principalmente de la los medios de reproducción como los canales
aleatoriedad del valor simbólico de la de distribución, acceso y comercialización
creación artística, esto es, de la dificultad del mismo. De este modo, la estructura de
para predecir su consumo. Dicho en otros los grandes grupos productores-editores
términos, por ejemplo, un productor musical presentan cierta apertura en la fase de
nunca podrá predecir el éxito o el fracaso producción pero una gran concentración en
del disco que está por lanzar al mercado, la fase de distribución y comercialización.
aunque puede recurrir a diversas estrategias En este sentido, la hegemonía de los
para mitigar esa incertidumbre, tales como grupos multimedia se basa no tanto en la fase
el control de amplios canales de distribución de producción como en la concentración y
del producto, el despliegue masivo de el control de los canales de distribución,
marketing y publicidad, y también reproducción, comercialización y acceso, y
recurriendo al despliegue de un ‘catálogo’ el dominio de los mercados de consumo de
de productos (o ‘economía de alcance’) de sus productos (Miguel, 1993; Zallo, 1988).
modo que el éxito de un producto De esta manera, los productores-editores se
recompense el fracaso de los otros. Pero aún aseguran las necesarias economías de escala
así, la realización económica del producto y alcance para sus productos, lo cual conlleva
cultural como mercancía es incierta5. de forma inevitable a la constitución de
Esto conlleva la necesidad de una monopolios u oligopolios que dominan
innovación constante de la producción amplios sectores de la producción y
cultural (más que cualquier otro producto distribución cultural (Miguel, 1993; Newman,
industrial), lo cual dificulta la 1991; Quirós y Sierra, 2001).
estandarización inherente a todo proceso de
producción industrial, en base a una Las lógicas fundamentales de las
estructura económica de altos costes de Industrias Culturales
producción del original y costes reducidos
de reproducción de copias, con costes Como ha sido ampliamente comentado,
marginales por consumidor complementario6, correlativamente al desarrollo de las I.C.,
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 115

se han ido estableciendo diferentes tipologías es directa, en base al pago por parte del
para caracterizar las formas instituciona- consumidor del producto cultural obtenido.
lizadas que adquieren los distintos sectores 2. Lógica de Flujo (Flow): es la emisión
que las componen. continua de productos culturales a través de
La mayoría de los autores citados parten un soporte inmaterial (redes de difusión
del reconocimiento de dos ‘lógicas’ (o analógica o digital, y eventualmente
modelos) generales de industrialización y registrables en soportes materiales
mercantilización de la cultura: una basada analógicos o digitales) con el objetivo de
en la reproducción y distribución de copias crear una audiencia indiferenciada de
individuales del producto cultural, y otra
espectadores. Su forma de financiación es
basada en la difusión masiva en continuo
indirecta por medio de la publicidad,
del prototipo original. Ambas lógicas, sobre
recursos fiscales e impuestos (canon) o el
las cuales se articulan y organizan los
patrocinio. Este modelo es característico de
distintos sectores de las I.C., se denominan
la radiotelevisión pública y comercial.
lógica Editorial y lógica de Flujo7:
1. Lógica Editorial (Publishing): es la Habría una tercera lógica, denominada
fijación en un soporte material (analógico ‘Prensa’ (Press), derivada de la lógica de
o digital) e inmaterial (redes digitales) de flujo, cuyo producto es un periódico o diario,
un trabajo simbólico (artístico, intelectual y su objetivo es crear una audiencia dado
o creativo) cuyo resultado es un producto que se financia indirectamente a través de
cultural único, que será reproducido en la publicidad, y también directamente en
forma seriada (soporte material) o distribuido base al pago por producto, porque éste es
por unidad (soporte inmaterial) para ser comprado regular y directamente por el
vendido directamente a los consumidores. consumidor.
Este modelo es característico de los sectores El siguiente cuadro resume las principales
del libro, revistas, discos, películas, características de las lógicas Editorial y de
videojuegos, etc. Su forma de financiación Flujo:

Cuadro 1: Las lógicas Editorial y de Flujo

Lógica Editorial Lógica de Flujo


Soporte material Soporte inmaterial
Reproducción en serie de numerosas (o eventualmente registrable
copias odistribución por producto sobre soporte analógico o digital)
Producto único o por demanda Programación en forma continua
Financiación indirecta:
Financiación directa:
oferta gratuita financiada por publicidad,
pago por producto
patrocinio, recursos fiscales
Función Central
Editor/Productor Programador
Distribución
Distribución continua punto-masa Distribución discontinua punto-masa
Cadena Económica
Organización neo-artesanal Grupos industriales
Mercados de consumo
Segmentados Indiferenciados
Fuente: (Lacroix y Tremblay, 1997; Miège, 2000)
116 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

De acuerdo a estas dos lógicas básicas de Por otra parte, este complejo proceso
organización de la producción cultural, implica la integración y unificación de
podemos establecer dos tipos generales de diversos canales de distribución hacia una
productos culturales (Flichy, 1982): (1) el plataforma común, el encuentro entre formas
‘producto editorial’ o ‘mercancía cultural’, y contenidos diversos (texto, imagen, audio,
que comprende a aquellos productos vendidos vídeo), la integración de distintos modelos
en un mercado (discos, libros, películas), y de financiación (por publicidad, pago directo
(2) la ‘cultura del flujo’, que comprende a o por suscripción, por consumo o por tiempo),
aquellos productos caracterizados por la y la fusión de mercados diferenciados
continuidad y la amplitud de su difusión (hogares, empresas, ocio, entretenimiento y
(televisión, radio y prensa). negocios) (Bustamante, 1999).
Ahora bien, esta tipología fue establecida Ahora bien, Internet, que es el espacio
a finales de los años 70, y aunque la división donde se desarrolla nuestro análisis, es el
fundamental entre lógica editorial y de flujo único sistema que integra los dos tipos de
sigue siendo operativa, según algunos de los redes actualmente predominantes, esto es, las
autores citados, a partir del desarrollo del redes de distribución de productos culturales
sector audiovisual en los últimos años, estas y las redes de telecomunicaciones (Garnham,
categorías se volvieron mucho más complejas 2000; Newman, 1991):
(Lacroix y Tremblay, 1997; Richeri, 1993). A) Las redes verticales de una vía (top-
Así, con el desarrollo de las redes de down/one-way) o redes de distribución
televisión por cable, satélite y ahora las ‘punto-masa’, analógicas y/o digitales:
nuevas redes de televisión digital terrestre, distribuyen productos culturales tales como
asistimos al ascenso de una nueva lógica, periódicos y revistas, libros, discos, películas
denominada ‘lógica de club’ o ‘lógica de y también productos audiovisuales (a través
acceso’8, basada en el acceso discriminado de sistemas de cable, antena o satélite). La
a la nueva oferta audiovisual a partir del pago característica principal de estas redes es que
de productos y/o la suscripción a servicios la distribución se realiza desde un punto
de valor añadido por parte de los usuarios- central hacia una masa de usuarios,
consumidores (Lacroix y Tremblay, 1995, consumidores, clientes, espectadores, etc.
1997). Esta nueva lógica, derivada de la B) Las redes horizontales de dos vías
lógica de flujo, se aplica a través de distintos (point to point/two ways) o redes de
modelos de acceso como ‘Pagar para Ver’ distribución ‘punto-punto’, analógicas y/o
o PPV en el sector audiovisual, o a través digitales: distribuyen información
de distintos modelos de pago por productos directamente entre los usuarios de las mismas,
y servicios de valor añadido en las redes de tales como las redes de telecomunicaciones
telecomunicaciones, aunque también se o las redes informáticas. La característica
verifica de manera creciente su aplicación en principal de estas redes es que la distribución
otros sectores de la comunicación y la cultura. de la información se produce de forma
descentralizada, directamente entre los
La reproducción de productos culturales usuarios y no desde un punto central.
en Internet La red Internet, que integra los dos
modelos de distribución (punto-punto y
En el actual contexto de convergencia punto-masa), plantea así nuevos problemas
creciente entre la industria de las a los ya clásicos de la economía de estas
telecomunicaciones, la industria informática, redes, donde los grupos multimedia deben
los distintos sectores de las I.C. e Internet, resolver cómo transformar en mercancía sus
tendente a conformar nuevas ‘redes-mercado’ productos culturales, cómo fijarles un precio,
de valorización y explotación de todo tipo cómo establecer modelos de acceso a los
de productos y servicios de información, mismos y cómo comercializarlos.
cultura y comunicación, la ‘lógica de club’ El consumo cultural en Internet es una
se constituye en la forma predominante de cuestión de acceso (Lacroix y Tremblay,
acceso a la producción cultural (Lacroix y 1997), y el elemento clave para los grupos
Tremblay, 1997; Richeri, 1993). productores-editores radica en el control de
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 117

amplios canales de distribución, de acceso punto-masa) diseñado para sortear toda


y comercialización de sus productos. De este barrera a su circulación y a su libre acceso,
modo, la lógica de acceso se constituye en y es a la vez un sistema de reproducción10
una estrategia fundamental para estos grupos de información, dado que la distribución de
en Internet, donde se verifica de manera un archivo informático de un ordenador a otro
creciente los intentos por imponer modelos genera una copia de sí mismo, con un coste
de pago por contenidos de todo tipo, incluidos de distribución/reproducción nulo, y
productos culturales como discos, películas, posibilitando la disponibilidad de dicho
prensa, libros, videojuegos, etc. archivo en la Red tantas veces como haya
Sin embargo, las nuevas condiciones de sido distribuido y reproducido.
reproductibilidad de los productos culturales Hoy, la mayoría de los procesos de
en Internet, plantearán nuevos problemas a producción industrial de bienes culturales son
las empresas que controlan distintos sectores digitales11, y dada la naturaleza simbólica de
de las I.C., las cuales intentan instaurar su contenido (texto, audio, imagen, vídeo),
modelos de acceso restringido dentro de un éste puede ser registrado, distribuido y
sistema diseñado para la distribución, el reproducido en múltiples canales, soportes y
intercambio, la reproducción y el libre acceso sistemas digitales, o separado de su soporte
a la información. Y si bien existe la digital original (CD, DVD, etc.) y manipulado
posibilidad de que Internet sea regulada (y de diversas maneras (Bettetini y Colombo,
probablemente lo será en un futuro cercano) 2001; Calvi, 2002).
para facilitar las operaciones comerciales de Las condiciones de reproductibilidad en
los principales grupos productores-editores Internet hacen que los productos culturales
que controlan los distintos sectores de la distribuidos/reproducidos bajo la forma de
producción cultural, sin embargo, hoy se archivos informáticos, por ejemplo a través
verifica que la mayoría de las actividades que de los Sistemas P2P, sean recursos libres y
se desarrolla en la Red está relacionada con gratuitos difíciles de convertir en mercancías
la búsqueda, la distribución, el intercambio culturales, y por tanto de realizar
y la reproducción libre de productos culturales económicamente. Ello se debe principalmente
fuera de toda lógica mercantil, como por a las dificultades para controlar su
ejemplo, a través de los llamados Sistemas distribución, imponer modelos de pago por
de Intercambio de Usuario a Usuario o ‘Peer acceso a los mismos o imponer el derecho
to Peer’ (P2P). exclusivo de su reproducción por medio del
Tal como intuyeran tempranamente los copyright.
principales teóricos de la Escuela de Frankfurt Así, los productos culturales que circulan
en sus trabajos sobre la incipiente a través de estos sistemas se constituyen en
industrialización de la cultura (Adorno, 1991; recursos culturales abundantes, gratuitos y
Adorno y Horkheimer, 1994; Benjamin, compartidos (Quéau, 2000), por los cuales
1981), el eje del proceso de industrialización no hay que pagar para obtenerlos ni para
y mercantilización de la cultura es la cederlos, y por lo tanto resistentes a su
reproductibilidad técnica de la obra de arte, conversión en mercancías.
transformada en producto cultural a partir de El proceso de distribución, intercambio y
la inserción del trabajo simbólico en un reproducción de productos culturales en
proceso mecanizado que permite su Internet, se inscribe dentro de la contradicción
reproducción en serie. Nuestro análisis, histórica entre el desarrollo de nuevas
partiendo de esta perspectiva, se basa en las tecnologías y soportes de reproducción y las
características fundamentales que distinguen I.C. Y dadas las condiciones de
a los productos culturales de cualquier otro reproductibilidad que plantea Internet, esta
producto industrial - la naturaleza simbólica contradicción se desarrolla de una manera
de su contenido - y en las nuevas condiciones más radical, poniendo en cuestión no sólo
de su reproductibilidad en Internet. un régimen de propiedad sobre los productos
Recordemos una vez más que, desde sus culturales, sino también fundamentalmente la
orígenes, Internet es un sistema de lógica dominante de producción y acceso a
distribución de información9 (punto-punto y la cultura.
118 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

No obstante, estas nuevas condiciones de distribuyen, intercambian y reproducen


reproductibilidad no están determinadas sólo productos culturales en Internet se articulan
por su componente técnico. Así, partimos del a partir de sistemas informáticos. Y si bien
axioma de que todo sistema de información el componente técnico de estos sistemas no
se define por la articulación entre tecnología, determina la ‘cultura de la reproducción’ de
contenidos, modos de financiación y usos productos culturales, sí define los límites
sociales (Flichy, 1993). Y en este sentido, dentro de los cuales se desarrollan los usos
entendemos que son las condiciones de esos sistemas, dado que las condiciones
tecnológicas, económicas, políticas y sociales tecnológicas determinan lo que puede hacerse
en conjunto las que determinan el desarrollo, o no con las tecnologías de reproducción y
la lógica y los usos de los sistemas de los sistemas de información en general
información en general y de Internet en (Garnham, 2000; Newman, 1991).
particular (Murdock, 1998; Newman, 1991; En resumen, desde nuestra perspectiva
Williams, 1975). teórica, no son las condiciones técnicas en sí
Dado que nuestro análisis se centra en este las que determinan la lógica de distribución,
sistema informático sobre el cual se articula intercambio y reproducción de productos
una determinada lógica de distribución y culturales en Internet, sino un complejo proceso
reproducción de productos culturales, no es tecnológico, económico, político y social dentro
fácil evitar el determinismo tecnológico, del cual se desarrollan los sistemas técnicos
puesto que las redes de usuarios que y se articulan los usos sociales de los mismos.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 119

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1
Universidad Complutense de Madrid.
sociologique, Presses de l’Université de 2
Utilizamos aquí, provisoriamente, la primera
Quebec, Montreal, 4(2), 5-18. acepción del concepto copyright como el derecho
Lacroix, J.-G., y Tremblay, G. (1995). exclusivo que detenta un sujeto (autor,
Les autoroutes de l’information: un produit productores-editores u otros) a la reproducción y
de la convergence. Saint-Foy: Presses de distribución de copias de un producto cultural,
l’Université du Québec. aunque más adelante profundizaremos sobre este
120 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

concepto desde una perspectiva histórico-crítica teórica de la economía política de la comunicación


(cfr. 5.4.1). y la cultura (Bustamante, 1999; Flichy, 1982;
3
“The industrialization of culture involves any Garnham, 2000; Huet y otros, 1978; Lacroix y
activity of production, distribution and difussion Tremblay, 1997; Miège, 1989; Zallo, 1988), y en
of symbolic productions (integrating an intellectual general es atribuida al trabajo pionero de P. Flichy
work), organised in accordance with the principles (Flichy, 1982). No obstante, una noción
of separation between producer and product and aproximada de estos dos modelos también puede
between conception and execution, as well as the encontrarse en Raymond Williams: Television,
technical division of the tasks“ (Lacroix, 1986: technology and cultural form, cap. 4:
6). ‘Programmnig: distribution and flow’, Schocken
4
Entendemos por lógica la “forma dominante Books, Londres, 1975.
8
de industrialización y mercantilización de la Concretamente, la lógica de club o acceso
cultura en un momento histórico determinado, la es “el resultado del uso de tecnologías de
cual es el resultado de la articulación entre la comunicación, como las telecomunicaciones, como
producción, la programación o la edición, y las medio de acceso a productos culturales y de
funciones de difusión o distribución (de productos comunicación” (Lacroix y Tremblay, 1997: 63).
9
culturales)” (Lacroix y Tremblay, 1997: 53). El concepto de ‘información’ adquiere mayor
5
La distinción entre el proceso de pertinencia en el campo de estudios de la
industrialización de un producto cultural y su producción cultural a partir de la posibilidad de
realización económica como mercancía es digitalizar cualquier tipo de información y
pertinente, tal como señalan Lacroix y Tremblay distribuirla a través de cualquier tipo de canal o
(Lacroix y Tremblay, 1997) por cuanto: “The terms soporte digital (Lacroix y Tremblay, 1997).
10
‘commodification’ and ‘industrialization’ are used Utilizamos el verbo reproducir como acción
so often that authors sometimes do not even bother de ‘replicar, copiar o duplicar’ y no de ‘ejecutar’
to define them. As such, they tend to become catch- un programa informático.
11
words. Without going into a long conceptual Entendemos por digitalización la
discussion, we use ‘industrialization’ to refer the codificación en lenguaje binario (0 y 1) de
presence of three factors in the field of cultural cualquier tipo de información o contenido, sea
and communication production: significant capital este texto, audio, imagen o video, dando como
investment and valorization, mechanized resultado un ‘archivo informático’ que puede ser
production and division of labour. For its part, manipulado por un sistema informático (Abbate,
‘commodification’ refers to the process of 1999; Murdock, 2000). Un archivo informático
transforming (subjecting to the laws of the tiene una identificación única formada por un
marketplace) objects and services into ‘nombre’ y una ‘extensión’. El nombre del
commodities, that is, into products having both archivo es escogido por el usuario, mientras que
use value and exchange value. ‘Commodification’ la extensión viene por defecto determinada por
is a more encopassing process than el formato del archivo, que indica el tipo de
‘industrialization’ and does not necessarily entail contenido del mismo, tal como texto, audio,
the use of industrial production techniques” imagen o video. Por ejemplo, los archivos de
(Lacroix y Tremblay, 1997: 68-96). texto pueden tener la extensión ‘txt’, los de audio
6
No aumenta el coste de producción, por ‘MP3’, las imágenes ‘jpg’ o los de video ‘MPG4’
ejemplo, de un programa de televisión, al añadirse (Calvo, 2003; Panama COM, 2003). Los archivos
un espectador más. informáticos pueden contener productos
7
Esta tipología básica es utilizada por la culturales, tales como un libro, un disco, una
mayoría de los autores que trabajan el concepto película, un videojuego, etc., o cualquier otro tipo
de Industrias Culturales desde la perspectiva de contenido o información digitalizable.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 121

Telefónica España: estrategias y perspectivas


María Antonia Martín Díez1

La gran enseñanza que nos ofrece internacional. En estos últimos años, el


Telefónica de España es la de una empresa cambio en el panorama mundial ha sido
que tradicionalmente había tenido las extraordinario. Mencionemos sólo estos datos:
características de ser local y que, desde a) Termina el monopolio de la AT & T
mediados de los años ochenta a mediados en los Estados Unidos (1984).
de los noventa, se convirtió en una formidable b) La Organización Mundial de Comercio
empresa internacional. Está presente en 50 liberaliza el amplio sector de las
países y tiene más de ochenta millones de comunicaciones en sus países miembros
clientes. Según Mª Dolores García Dotor, (1997).
Directora de Foros y Conferencias Telefónica, c) Terminan los monopolios en Europa.
S.A., la organización está integrada por un Telefónica se lanza entonces a operar el gran
equipo de 161.500 personas. Se han elevado cambio que, en nuestros días, le caracteriza.
las líneas de servicio de junio de 2001 a junio Dicho cambio resulta inteligible desde que
de 2002 en un 2,3%, los clientes de móviles aparecieron en los mercados las siguientes
en un 19,4% y los de televisión de pago en tendencias :
un 8,5%. Como eje de su estrategia, telefónica 1ª) La diversificación de la oferta. Los
se ha propuesto liderar la revolución digital, servicios multimedia se lanzan y se
centrándose en la satisfacción de los clientes, multiplican con la finalidad de conseguir
la innovación de productos y servicios, la espacios en el mercado. Se espera con ello
diversificación geográfica y de negocios, el obtener grandes beneficios.
reforzamiento de los contenidos y las redes 2ª) Se realizan los estudios de mercado
y un modelo de crecimiento rentable que con el ánimo de utilizar al máximo las
procure flujos de caja y rentabilidades posibilidades que ofrece.
crecientes.(2003:57-58)2 3ª) Se internacionalizan las actividades.
La presente comunicación va a analizar Los mercados nacionales están ya totalmente
cuáles han sido las características más ocupados. Es necesario superar el estrecho
relevantes de dicho cambio. En primer lugar marco en el que se encuentran limitados.
es necesario hablar de las motivaciones que Las transformaciones a las que nos
impulsaron a realizar una transformación de referimos pueden ser analizadas con detalle.
tan gran envergadura. Fueron estas tres: Lo que ha hecho Telefónica en estas dos
1) La entrada, en el mundo de la telefonía últimas décadas, ha sido convertirse en una
de nuevas tecnologías como la fibra óptica operadora global de telecomunicaciones. El
y la digitalización. proceso de modernización ha pretendido
2) La posibilidad de ofrecer más servicios alcanzar amplios niveles de desarrollo y de
a los clientes. Para realizar dicha oferta, calidad capaces de competir en un área
Telefónica de España se sentía estimulada por internacional dentro de un sector liberalizado.
la competencia que le hacían otras empresas. Aquella Compañía Telefónica Nacional de
3) El hecho de la globalización: en las España, fundada en 1924, como monopolio,
dos últimas décadas ha aumentado como empresa privada en régimen de
considerablemente la interrelación entre las concesión, con importante control público,
economías antes encerradas en los ámbitos fue nacionalizada en 1945, siendo el Estado
nacionales protegidos por sus propias el principal accionista.
fronteras. La Compañía ha funcionado sobre la base
Estas innovaciones han llevado consigo de un contrato hecho con el Estado en 1946.
un fuerte crecimiento de la comunicación En 1991 el contrato se modificó iniciándose
122 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

así, la privatización que llegó a ser total en en cuenta, la gestión de los recursos humanos
el mismo año. y la política de reducción de costos. Ello llevó
Otro aspecto importante de la evolución consigo toda una estrategia de
de Telefónica fue el originado por la entrada reestructuración de Telefónica. De particular
de España en la Comunidad Europea, hecho interés es la acción llevada a cabo en el año
que se produjo en 1986. Ello llevó a la 1997. Es el año en que la empresa se
promulgación de la Ley de Ordenación de convierte en la primera empresa española
las Telecomunicaciones de 1987. Se siguió dedicada a ofertar servicios de comunicación
con el monopolio de la telefonía de voz en un sector mundialmente muy influyente.
abriéndose a los otros servicios. Dicha ley, Telefónica va a llegar a ser un importante
sin embargo, quedó desfasada al cabo de motor de actividad económica. Un gran
pocos años y tuvo que ser reformada. En 1993 generador de riqueza y un gran creador de
el Consejo de Ministros de la Unión Europea empleo. Debido al establecimiento de otra
liberalizó el sector de telecomunicaciones. Compañía en el mismo sector - Retevisión
-, dedicada a prestar servicio telefónico,
Hacia la gran expansión Telefónica se vio obligada a ocupar un papel
mucho más amplio como operadora global
A partir de 1989 se inició la expansión no sólo nacional sino internacional. A la línea
de Telefónica, con Cándido Velásquez (J.J. de los negocios tradicionales de
Fernández: 2000:79)3 Los rasgos evolutivos telecomunicaciones (telefonía básica),
pueden concretarse de la siguiente forma: Telefónica añadía las telecomunicaciones
1 - aumento considerable de la demanda interactivas y multimedia y los negocios
de usuarios (mayor número de líneas y de audiovisuales. Con respecto a la expansión
utilización de las mismas). de Telefónica en América Latina, la empresa
filial, Telefónica Internacional (TISA), se
2 - ampliación de la infraestructura
introdujo en las compañías de telefonía de
(digitalización de la red; introducción de la
Argentina (impulsando en este país
fibra óptica).
especialmente la televisión por cable), Brasil
3 - modernización (tecnologías digitales;
(Telefónica fue la primera empresa extranjera
telemática).
que entró en este campo introduciéndose en
4 - adaptación a la liberalización del sector
Telebrás, la compañía más importante de la
de acuerdo con las normas de la Comunidad
región), Chile. Colombia, Venezuela, Perú y
Europea. Puerto Rico. Se aprovechó la corriente
5 - competencia con otras empresas. privatizadora que tuvo lugar en los países
A partir de 1996, el carácter empresarial latinos del continente americano. Las
de Telefónica que establecía como centro de empresas estatales fueron vendidas tanto para
su actividad la atención al cliente, logró unos afrontar el problema de la deuda como para
niveles de calidad ciertamente modélicos. Se vincularse a la filosofía liberal del desarrollo
introducía con ello una nueva estrategia y predominante enlas dos últimas décadas del
una nueva política. Ello estaba en relación final de siglo. Telefónica Internacional ha
con el ambiente de competencia que se había realizado un gran esfuerzo de implantación
establecido tras la aplicación de las normas en mercados exteriores. Con el objetivo de
comunitarias. Era una cuestión de hacer negocio ha destacado en ofertar lo
mantenimiento del liderazgo e, incluso – a siguiente: servicios integrados (voz, vídeo,
más largo plazo -, de supervivencia. Al hablar móviles, multimedia), transmisión de señales
de clientes, Telefónica se refería a estos cinco y comunicaciones empresariales.
grandes grupos: gran público, empresas, TISA representó para Telefónica, en la
usuarios de telefonía móvil, clientes de década de los noventa, un factor de
América, clientes de otros países. crecimiento muy importante (el 15% de sus
Telefónica entraba así en el ámbito de ingresos totales en el año 1996). En el año
los grandes negocios multimedia y de los 1997, TISA gestionaba cerca de doce millones
audiovisuales. Todas las líneas de acción de líneas de telefonía básica y el número de
tuvieron como objetivo el desarrollo de los clientes de televisión por cable ya pasó del
negocios. Había que tener, por consiguiente, millón. En el año 1997, en relación con el
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 123

año anterior, 1996, el beneficio obtenido se Los criterios con los que Telefónica se
incrementó el 12, 5 %. En el año 2000 se lanzó con fuerza a invertir en el sector
lanzó en Latinoamérica la Operación Verónica audiovisual fueron los siguientes: a) invertir
(OPA: Ofertas Públicas de Adquisición), lo en sectores que agrupen servicios de
que permitió un ahorro de 89.033 millones telecomunicación y entretenimiento. b)
de pesetas que habrían ido a manos de los invertir en la industria, la distribución, y el
accionistas. La operación produjo un fuerte empaquetamiento de contenidos
saneamiento financiero. Las operadoras fijas audiovisuales.
y móviles de Latinoamérica aportaron Con esos criterios Telefónica se lanzó en
108.451 millones de pesetas. Destacó entre primer lugar al mercado de la televisión
ellas la brasileña Telesp con 30.032 millones. digital. En enero de 1997 constituyó la
En Marruecos, Telefónica Inter empresa Distribuidora de Televisión Digital
Continental obtuvo dos licencias de móviles. (DIS), popularmente conocida como Vía
Se realizaron, además, notables inversiones Digital –Televisión de Pago -. El gobierno
en la construcción de la red. Durante los años español apoyó decididamente dicho
2000 y 2001, Telefónica Inter Continental se lanzamiento. La participación de Telefónica
lanzó a operar en todo el continente europeo en la empresa fue del 35%. Telefónica
(UMTS) con una estrategia priorizadora de aprovechó esta irrupción extendiéndola a la
los mercados de Reino Unido, Alemania, telefonía fija, Internet, pago por visión …,
Francia, Italia y Suiza. También Telefónica etc. De esa forma, las inversiones por cable
Inter Continental entró en Turquía por medio quedaron más rentabilizadas. La sociedad que
de concesiones de telefonía móvil. agrupa y gestiona las participaciones de
Telefónica S. A. en el mercado de servicios
Actividades multimedia audiovisuales español y latinoamericano se
llamaba Telefónica Media y posteriormente
Al establecerse con carácter de operadora Grupo Admira. Telefónica consiguió ser, de
global, Telefónica se lanzó a aprovechar los esa forma, una de las mejores compañías del
enormes avances tecnológicos: utilización de mundo en producción, tenencia y difusión de
la misma red para transmitir a la vez, datos, contenidos y servicios audiovisuales en el–
imágenes y voz; transmisión de información –ámbito parlante hispano – portugués. Llega
con más calidad, mayor cantidad y más a cerca de seiscientos millones de clientes
rapidez. Ello ha llevado consigo el desarrollo potenciales.
de numerosas industrias: informática,
electrónica, operadoras por cable, La Televisión
entretenimiento … etc.
Todos los servicios multimedia se han Telefónica adquirió el 25% del capital de
mostrado muy capaces de ser motores de una Antena 3 Televisión S. A. Al aumentar de
gran actividad industrial en muchos campos. esa forma su capital, el banco Central Hispano
Integran a compañías de microelectrónica y y el Banco de Santander, Telefónica llegaba
de software, a operadoras de redes tanto de a controlar Antena 3. Como que Antena 3
telefonía como de televisión por cable y a estaba presente en Sogecable (73%) y en
compañías empaquetadoras de programas y Gestora de Medios Audiovisuales Futbol S.
de servicios. Por último integra un A (GMAF), que pertenecía a Antena 3,
variadísimo juego en relación con la Telefónica participó en las dos plataformas
propiedad de las creaciones y de los digitales existentes.
programas. Toda esa gran operación tenía detrás un
Todos los factores y los elementos que notable trasfondo político en el que estaba
forman el amplísimo campo de los muy presente el ministro de Fomento Rafael
multimedia están sometidos a una gran Arias Salgado. El gobierno, ocupado por el
movilidad. Las compañías forman entre ellas partido popular se abría paso en los medios
alianzas, realizan fusiones, crean filiales, se digitales a través de Vía Digital encabezada
introducen muy agresivamente en los por Telefónica. La oposición (PSOE), se
mercados. defendía desde Sogecable. Telefónica
124 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

adquirió, en Argentina, Telefé (Televisión Entre todos los ingresos destacaban los de
Federal S.A), que cuenta en el país con siete telefonía básica que resultaba más atractiva
cadenas de televisión que llegan a siete debido a los servicios complementarios que
millones de hogares argentinos. También ofertaba (Info Vía, contestador automático…),
adquirió la cadena Telearte, desarrollando a lo que aumentó el consumo.
la par productoras de contenidos En diciembre de 1998 Telefónica creó la
audiovisuales y con estructuras similares a empresa Terra – llamada luego también Terra
las de España. Networks-, para proveer – en los países de
lenguas española y portuguesa -, accesos y
La Radio servicios de Internet. Un año más tarde contaba
con más de .300. 000 suscriptores. A la propia
Telefónica tuvo en España: Onda Cero, dinámica de crecimiento se unió la de la
Cadena Voz y un conjunto de 219 emisoras adquisición de otros grupos como Olé, en
propias y asociadas. Onda cero llegó a situarse españa. ZAZ, en Brasil, Infovía, en Guatemala
como la cuarta cadena de audiencia en e Infosel, en México. Y también, la de vincular
España. Hoy sin embargo, en una situación a Terra Networks diversas filiales que ya tenía
de quiebra técnica mantiene su futuro unido Telefónica como CTC Internet, de Chile, e
a Antena 3 y un conflicto con Telefónica tras Internet de Telefónica del Perú. También entró
el laudo arbitral a favor de Blas de Otero. Telefónica, por medio de Internet, en el
Telefónica mantiene en Argentina las cadenas mercado estadounidense, para usuarios de
de AM y FM de Radio Continental. habla hispana. De esa forma llegó a ser líder
en el mercado latinoamericano de Internet.
La producción de contenidos Terra tiene, como empresa, unas
características muy originales y singulares que
Telefónica participa en España en varias la diferencian claramente de otros grupos
sociedades de producción como son como son similares:
ST-Hilo, GMAF, Audiovisual Sport y 1 - Ocupa un área geográfica todavía
Lolafilms, y en Argentina participa en Torneos bastante desierta y por ello resulta adecuada
y Competiciones y en Patagonik Film Group. para el rápido y gran crecimiento. Son más
La principal empresa del grupo es Endemol, de veinte los países en dicha área, con una
primera productora europea de contenidos. población de cerca de 600 millones de
habitantes.
Sistemas y Servicios Audiovisuales 2 - Cuenta con un equipo gestor de
Internet altamente profesionalizado.
La Sociedad que Telefónica creó para 3 - Dentro de su marco multinacional
estar presente en ese campo se llama ofrece muchos contenidos y respuestas locales
Telefónica Servicios Audiovisuales (TSA) y cubriendo la insatisfecha demanda en lenguas
participa en Hispasat. TSA desarrolla española y portuguesa. Su máxima favorita
actividades en servicios audiovisuales, es “pensar global, actuar local”. El número
sistema audiovisuales y servicios de de empleados de Terra está muy repartido.
producción. La expansión internacional de Sólo el 13 % de ellos está ubicado en España.
PSA se ha producido en Argentina, Brasil, 4 - Ofrece toda la cadena propia del
Chile y Perú. Internet desde el acceso hasta el comercio
Los resultados de dicho esfuerzo fueron electrónico.
los siguientes. Según datos de 1998, 5 - Une, a su crecimiento propio, tal como
Telefónica ofrecía sus servicios a 35, 5 hemos expresado antes, una amplia política
millones de clientes. Más de la mitad de ellos de adquisiciones.
se encontraban en América Latina. Las Debido a todo ello, la salida a Bolsa de
acciones de Telefónica cotizaban en las Bolsas Terra consiguió una revalorización inicial
extranjeras de Nueva York, Frankfurt, París muy fuerte. Sin embargo Terra Lycos no
y Londres. obtuvo rentabilidad hasta el último trimestre
En 1997, los ingresos de Telefónica del 2003. Actualmente se encuentra en fase
alcanzaron los 2.363.102 millones de pesetas. de reestructuración con la creación de nuevas
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 125

operativas, como la división de Contenidos conjunto operacional fue legalmente separado


y la de Innovación, Tecnología y Desarrollo. en una pluralidad de empresas. La
Telefónica reducir los gastos de esta empresa coordinación de las diversas entidades se
de forma drástica, acelerando la rentabilidad hacía desde un núcleo corporativo.
de esta filial.(El Mundo: 2004-p.)4
Las dos principales actividades de Terra El organigrama
son la provisión de acceso y los portales.
La provisión de acceso: Fue establecida El nuevo director de Telefónica desde
con una política muy atractiva de prestación junio de 1996, Villalonga, reestructuró el
de acceso gratuito. Utiliza una amplia organigrama de la empresa entre 1996 y 1998.
variedad de medios: telefonía fija, móvil, El Organigrama respondía a las siguientes
cable, satélite …etc), para promover servicio ideas rectoras:
de comunicaciones con Internet. 1) Configurarse como empresa multina-
El portal: Ofrece publicidad y comercio cional.
electrónico. Realiza muchas transacciones 2) Configurarse como operadora de todos
comerciales. Numerosas grandes empresas los medios de comunicación.
muy conocidas por el gran público (El Corte 3) Ser capaz de competir con las demás
Inglés, Mexicana de Aviación, Servicaixa), empresas de su área y de sus especialidades.
se han vinculado a Terra para la utilización Estas ideas rectoras necesariamente tenían que
del comercio electrónico. influir en el organigrama. El primer paso que
se dio fue hacer una división de las unidades
La organización de Telefónica como de negocio que quedaron convertidas en
empresa cinco. A saber - Empresas – Gran público
– Móviles – Telefonía internacional –
De acuerdo con los que realizan estudios Internacional.
desde la perspectiva empresarial, Telefónica, A ellas había que añadir dos unidades de
en la década de los ochenta era una empresa recursos compartidos: - Infraestructuras y
grande, burocratizada en exceso, diversificada recursos. Ambas con la finalidad de ofrecer
por medio de un sistema de departamentos. servicios comunes a las cinco unidades de
Su estructura estaba muy jerarquizada negocio. Los complicados niveles
destacando en el conjunto la macrocefalia. organizativos existentes quedaron reducidos
Los cambios que quisieron hacerse venían a estos cuatro, todos ellos situados debajo
impulsados desde perspectivas mucho más del Subdirector General establecido en
dinámicas y flexibles. Se veía necesario Madrid: 1 - Director 2 - Gerente 3 - Jefe
imponer un sistema más descentralizado, la 4 - Supervisor. Se pretendía con ello, más
delegación de poder, la reducción del número flexibilidad, más eficacia, más fluidez en las
de escalones intermedios, la anticipación a relaciones.
los cambios y la potenciación de un mayor El Grupo Telefónica desde 1998 quedó
sentido del negocio. Era necesario abrirse a articulado desde un Centro Corporativo
mayores y más imaginativas iniciativas. Era (llamado Telefónica S. A). De él dependen
necesario eliminar las rémoras de la gran las siguientes empresas filiales: - Telefónica
burocracia a la que había ayudado tanto la de España – Telefónica móviles – Telefónica
protección del monopolio. Se necesitaba, internacional – Telefónica media. – Telefónica
sobre todo, un cambio de cultura en todos intercontinental – Telefónica interactiva ––
los que trabajaban en la empresa, desde la Telefónica Data.
cúspide hasta la base. Se trataba de conseguir La llegada de Cesar Alierta presenta
mayor productividad. A los empleados se les modificaciones a esta estructura ya desde su
fue inculcando una filosofía de entrega a la discurso inicial, ante la Junta General de
empresa, de competitividad, de sumisión Accionistas, el 15 de junio de 2001 al señalar
ideológica, que fue fuertemente criticada por que “el conjunto de compañías productoras
os analistas. Una de las características de la de contenidos de Telefónica Mediaentre las
nueva organización fue la transmisión de que se encuentra Endemol, junto con Terra
algunas de las actividades a filiales. El Lycos, jugarán un papel central en la
126 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

estrategia de convergencia de Telefónica hacia telefonía y de la comunicación. Por razones


lo que se ha definido como “nueva media”.5 culturales, Telefónica ha tenido grandes
El cambio de denominación de Telefónica facilidades para entrar en los países del área
media por el de Admira, aprobado por el geográfica mencionada.
Consejo de Administración de la compañía 3ª) A partir de la gran capacidad existente
(6-septiembre de 2001) y su estructuración (capital, experiencia, redes, tecnología,
en tres áreas de negocio: televisión en abierto capacidad humana), se ha lanzado a competir
y radio, contenidos y televisión de pago, en otros medios de comunicación como la
presagiaban la decisión actual.6 Tras la fusión Televisión, la Radio, la producción de
digital con Sogecable y la venta de las contenidos y los sistemas y servicios
acciones de Antena3 y Onda Cero, el grupo audiovisuales. Sin embargo, en los medios
quedaba concentrado a la producción de audiovisuales no ha sabido crear una marca
contenidos. Endemol, comprada dos días de identidad propia, pese a gozar de los
antes de la salida de la presidencia de favores del partido en el poder ofreciendo
Villalonga (24 de julio de 2000) se convierte meras inversiones sin política ideológica.
en la pieza clave de Admira y ésta pasa a 4ª) Ha seguido una política de compra
engrosar la división de Telefónica Contenidos. de empresas preexistentes y de creación de
otras nuevas que diversificaran y
Conclusión descentralizaran lo que antes ofrecía una
empresa sola.
El gran éxito de Telefónica en su 5ª) Toda esa operación de
transformación realizada convirtiéndose de engrandecimiento y globalización lo ha hecho
una empresa local en una gran multinacional con un serio sentido de la eficiencia,
se explica por diversas razones: modernizando la acción empresarial,
1ª) Era la única empresa especializada en procurando el mayor rendimiento del empleo,
unos servicios cuya demanda ha subido haciendo mucha propaganda … etc.
mucho en breve tiempo con una gran cantidad Telefónica ha pasado de estar en el
de ofertas de amplísimos y diversos tipos. segundo grupo de empresas de
Telefónica no ha tenido en España una gran telecomunicación con GTE, cinco Bell
competencia que le pudiera perjudicar. Lo regionales y Sprint a ser la quinta empresa
único que ha hecho ha sido extender las de telecomunicación mundial. Mostrando una
manos para coger los frutos que, con facilidad capacidad de liderazgo que viene a colaborar
se le ofrecían. Eso sí, lo ha hecho de forma sus estrategias y a constatar que también en
imaginativa y creadora. Ha sabido preparar España, las empresas de telecomunicación
los instrumentos adecuados para que la presentan unos resultados muy superiores a
captación de las necesidades clientelares que las empresas multimedia.7 Tras el triunfo del
se multiplicaban en rápido crecimiento se Partido Socialista en las pasadas elecciones
hiciera a manos llenas. se han querido ver incertidumbres en el futuro
2ª) Lo mismo que hizo en España se de Telefónica. El ofrecimiento de Alierta de
realizó también en los países mantenerse en la presidencia no sería
latinoamericanos. Dichos países se suficiente garantía de continuidad sino
encontraban en una situación menos estuviera precedida por dos décadas de la
desarrollada que la de España en lo que misma política de desarrollo y el deseo de
respecta a las materias y los servicios de la querer ser un medio global.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 127

4
_______________________________ La Gaceta de los Negocios. “Terra prevé
1
Universidad Europea de Madrid. suprimir hasta un 10% de su plantilla”. Madrid.
2
Mª Dolores García. 2003. “Informe de la 30 de marzo de 2004, p.16.
5
sociedad de la información”.- Juan Benavides y Discurso presidencial ante la Junta General
Nuria Villagra (eds.).-Públicos, instituciones y de Accionistas de Telefónica S.A. de César Alierta:
problemas en la comunicación del nuevo milenio.- 15 de junio de 2001.
6
Madrid.- Fundación General de la Universidad Rosa del valle Valero.- 2003.- “De Telefónica
Complutense, pp. 57-58. Media a Admira”. Ámbitos. nº9 y 10.- p. 45.
3 7
Juan José Fernández .- 2000.- ¡Que informen Edward S. Herman y Robert W.McChesney.-
ellos!.- Madrid.- Huerga & Fierro Editores, p. 79. 1999.- Los medios globales.- Madrid.- Cátedra, p. 188.
128 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 129

Audiovisual e interesse público


Manuel José Lopes da Silva1

I. Introdução educação, divertimento) que forme os con-


sumidores para uma convivência cidadã,
A falência do Mercado AV em respeitar saudável e enriquecedora, ou seja socialmen-
os Direitos dos cidadãos a uma boa comu- te responsável.
nicação, leva a uma reflexão sobre o que é Um conhecimento comum partilhado,
o Interesse Público nessa área. base da comunidade nacional, é alheio aos
Académicos e Associações Cívicas esta- conteúdos comerciais que recorrem largamen-
beleceram os seus quadros de referência, que te a conteúdos adquiridos no mercado inter-
permitem identificar os valores da sociedade nacional.
que estão na base daquele Interesse. A criação de comunidade que o mercado
Através dos Documentos da EU sobre AV é incapaz de resolver, é também condi-
Política da Comunicação e do Contrato de ção fundamental para o desígnio político de
Concessão do SPTV português podem iden- promover a democracia. Sem o diálogo social
tificar-se os valores que devem ser respei- isento de constrangimentos económicos, sem
tados, englobados na Ideia de Interesse concessões ao populismo e à vulgaridade, não
Público que referimos. é possível falar de verdadeira vivência da
Verificando-se a necessidade de rever os democracia.
mecanismos de Regulação, completou-se re- Por todas estas razões, e com a finalidade
centemente uma actualização da Directiva de estabelecer uma alternativa ao actual
TSF, incidindo mais nas questões da Infor- sistema de mercado, foi-se desenvolvendo a
mação e da Publicidade do que nos proble- convicção de que é importante criar um
mas dos conteúdos. quadro de referência dos Media que defenda
Há no entanto uma grande insatisfação os interesses fundamentais dos cidadãos,
dos cidadãos em relação à evolução para uma embora não sendo por eles directamente
Sociedade da Informação que, podendo explicitado, em torno da ideia de “ Interesse
contribuir para a promoção geral da socie- Público”.
dade, pode todavia leva-la a degradar-se. 2. A dificuldade em abordar a questão do
À Cimeira Mundial para a SI contrapõe- Interesse Público resulta do facto das expec-
se criticamente uma Sociedade Civil emergen- tativas da sociedade que o fundamentam não
te, talvez o facto mais significativo do come- poderem ser expressas pessoalmente.
ço do milénio no domínio da Comunicação. No entanto é fácil, em certos domínios
públicos como o Ensino, a Saúde ou a
II. Interesse público Segurança Social exprimir tais expectativas
até em índices como a percentagem de
1. O funcionamento do Mercado literacia, as filas de espera nos Hospitais, ou
Audiovisual exibe disfunções que têm sido os níveis das pensões de reforma.
estudadas pela Teoria Económica. E todos sabemos muito bem o que, em
Trata-se das designadas “externalidades” termos gerais, podemos beneficiar da actu-
que resultam dos Media induzirem a soci- ação global dos sistemas nos domínios re-
edade ao culto da violência, sexismo e mau feridos.
gosto, por um lado, mas também da infor- Quando porém abordamos o problema do
mação ser um “bem de mérito”, ou seja, só Interesse Público no sistema Audiovisual, aí
é conhecido depois de utilizado. já se revela a dificuldade que referimos,
Além disso o mercado audiovisual não porque se trata de oferecer à sociedade bens
pode proporcionar informação (actualidade, intelectuais dificilmente mensuráveis dado o
130 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

seu carácter essencialmente intelectual e - Os Media devem dar prioridade, na sua


estético. Informação, às notícias relacionadas com os
No caso do Serviço Público de Rádio e povos em desenvolvimento da sua área
TV ( SPRTV) uma primeira constatação se geopolítica.
pode fazer : a sua característica fundamental Vemos desde já que há valores de na-
deve ser a qualidade, surgindo porém ime- tureza exclusivamente ética e outros de
diatamente a questão de saber o que ela é. natureza ético-política, que convém exami-
Podemos afirmar numa perspectiva nar com mais detalhe.
alargada, que o Interesse Público de RTV Mas a Sociedade Civil, através das
exige que, antes de tudo, a qualidade se Associações Cívicas, também manifesta as
oriente pelos valores da sociedade, não só suas expectativas acerca do comportamento
respeitando-os mas sobretudo promovendo- do AV no respeito pelo Interesse Público.
os. Uma associação de utentes dos Media,
3. Para conhecer os valores que a soci- a ACMedia, manifesta como prioritários
edade persegue com um mínimo de exacti- alguns fins como a protecção dos direitos e
dão podemos recorrer aos resultados das interesses dos consumidores dos Media,
investigações dos académicos ou às decla- promover e fazer respeitar os valores huma-
rações de intenção das Associações Cívicas. nos, culturais e éticos, fomentar actividades
È uma via aceitável para abordar o proble- de natureza cívica, cultural e educativa,
ma, embora se reconheça que quer os incrementar a existência de Observatórios de
Académicos quer as Associações poderão não Qualidade, intervir nos Códigos de Conduta,
ser, nalguns casos, intervenientes desinteres- apoiar o desenvolvimento da auto-regulação
sados. dos órgãos de comunicação, contribuir para
Os investigadores dos media consideram o funcionamento de um verdadeiro SPRTV.
que os valores da sociedade dependem do A ACMedia sintetiza em três pontos o
modelo em que esta se fundamenta, existin- quadro de referência para a sua actuação:
do vários modelos identificados: o Autori- defesa dos valores humanos e culturais,
tário, o Liberal, o da Responsabilidade Social negociação duma Ética na CS e promoção
ou o Soviético (também o do Desenvolvi- de Leis adequadas. Face a este quadro de
mento ou o Participativo segundo Mac Quail). referência das Associações Cívicas e ao
Cada um dos modelos assenta no seu anterior proposto pelas instâncias de Inves-
quadro de valores, mas uma leitura transver- tigação, podemos desde já concluir que os
sal desses quadros permite identificar alguns actuais sistemas de Comunicação de Massa
valores comuns (Rosengren, Carlsson, de base concorrencial propõem conteúdos
Tågerud): (programas no caso da RTV) que não só não
- Os Media devem evitar ofender os satisfazem os Interesses dos cidadãos como
valores morais e políticos dominantes. até, frequentemente, estão contra eles.
- Ataques inaceitáveis às Autoridades ou
ofensas contra os códigos morais são con- III. Política da Comunicação na EU
siderados actos criminosos.
- Os Media no seu conjunto devem ser 4. A política das comunicações de massa
pluralistas e reflectir a diversidade da soci- definida pela Conferência Ministerial
edade, dando acesso aos vários pontos de Europeia em Praga e Tessalónica tem como
vista e aos direitos de resposta. horizonte fundamental o reforço da cidada-
- Os Media devem evitar o que possa nia numa sociedade democrática.
induzir ao crime, violência ou desordem civil, Sendo um instrumento das políticas
ou ofender os grupos minoritários. nacionais, tem de se fundamentar porém no
- Os Media devem proporcionar uma respeito pelo interesse público, sem o que
visão completa e objectiva da sociedade e os Media podem condicionar negativamente
do mundo. a participação cidadã.
- Os Media devem dar prioridade nos Um valor fundamental referido nos do-
seus conteúdos à cultura nacional e à lin- cumentos da Conferência é o da Liberdade
guagem própria. dos Media, sem a qual não há democracia,
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 131

e que de alguma maneira assegura outros 6. Outro instrumento fundamental de


valores relevantes: o pluralismo de opiniões regulação do AV em Portugal é o recente
e a diversidade da comunicação. Contrato de Concessão Geral do SPTV
É referida várias vezes a importância do (Setembro de 2003) feito com a Rádio e
respeito pela Declaração dos Direitos do Televisão de Portugal.
Homem, instrumento político que nos nossos Este documento invoca a Resolução 1,
dias defende a dignidade da pessoa humana. de 12/94 sobre o “Futuro do SPRTV” adop-
Numa linha que promove o desenvolvimento tada na 4ª Conferência Ministerial Europeia
intelectual desta, é frequentemente citada a a que já nos referimos.
necessidade do promover a criação artística Aí se afirmas a função vital do SPRTV
em cada país como actividade apropriada à que deverá ser uma fonte de programas
afirmação da identidade nacional. alternativa à TV comercial, como o Interesse
Outro valor frequentemente invocado é público impõe, devendo ser garantida a
o da coesão social, posta frequentemente em existência duma Televisão Nacional de re-
cheque por alguma programação. Referem- ferência tendo como base a legitimidade do
se sobretudo os programas que incitam à SPTV que se deve caracterizar pela afirma-
violência gratuita, à pornografia, ao mau gosto ção duma identidade própria.
ou à intolerância como os que mais atentam Na Cláusula 5ª (Obrigações Gerais da
contra a solidariedade entre as pessoas. Concessão) estabelece-se que a Concessio-
Por isso se fazem apelos à adopção de nária deve assegurar uma programação de
políticas de protecção dos Menores que se qualidade, equilibrada e diversificada, que
a desenvolvem por várias vias. contribua para a formação cultural e cívica
5. A primeira via que todos privilegiamos dos telespectadores, promovendo o pluralismo
é a da auto-regulação, ou seja, a da adopção político, religioso, social e cultural, e o acesso
de critérios de auto-contenção internos dos de todos os telespectadores à informação, à
Media, e da co-regulaçao, que levanta a cultura, à educação e ao entretenimento de
questão dos Códigos de Conduta. qualidade.
Há de facto uma grande insistência da E na Cláusula 6ª (Obrigações da Progra-
Conferência Ministerial na urgência em serem mação do SPTV) entre outras obrigações, a
assinados, em todos os países, Códigos de de contrariar a tendência para a uniformiza-
Conduta que respeitem o direito dos utentes ção e massificação da oferta televisiva,
dos Media a programas de qualidade, não proporcionando programas não directamente
massificantes nem embrutecedores. ditados pelos objectivos da exploração co-
Mas outra via, fundamental quando falha mercial (por exemplo índices da audiência).
a primeira via, é a da hetero-regulação, ou Ainda nesta mesma cláusula se exige a
seja duma regulação imposta pela sociedade. adopção duma Ética de antena que claramen-
A eficácia da regulação social ( do Estado) te recuse a violência gratuita, a exploração
depende de dois parâmetros fundamentais, em do sexo ou que, de qualquer modo, atente
primeiro lugar da existência duma boa Lei contra a dignidade devida à pessoa ou contra
da RTV, e depois do bom funcionamento dum os demais direitos fundamentais, com a
Órgão de regulação apropriado. protecção em especial dos públicos mais
Está em curso a reestruturação do siste- vulneráveis, designadamente crianças e jo-
ma de regulação do AV português fundindo vens.
num único órgão os anteriormente existen- 7. Verificamos que os Ministros europeus
tes: o ICS, a AACS a ANACOM. têm perfeita consciência dos abusos da
Aparentemente o poder político pretende comunicação que o sistema comercial, de base
manter no seu controlo o novo órgão, o que concorrencial, da RTV tende a suscitar.
é desaconselhável dado o desprestígio da E nos vários documentos que produziram
AACS, que se revelou incapaz de defender apelam para a regulação, para a auto-con-
os valores da sociedade e permitiu que as tenção dos operadores comerciais, por um
programações da RTV comercial descessem lado, e por outro para o estabelecimento
a níveis inconcebíveis. sustentado dum SPRTV responsável.
132 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Como porém vamos ver a seguir, estas 9. Em termos gerais considera-se que a
declarações de intenção não chegaram a directiva deve ser melhorada nos domínios
suscitar uma verdadeira regulação do AV na da Informação, da Produção de Programas
Europa. e da Publicidade, tendo até em conta a
Mas também a nível mundial se expri- evolução imposta pelas NTIC. No entanto o
mem críticas apelando a uma ética da co- domínio da “Protecção de Menores e da
municação que defenda os interesses dos Ordem Pública” é considerado suficientemen-
cidadãos. te coberto pela directiva, apenas se sublinhan-
Vemos assim que nas políticas europeias, do a necessidade urgente de implementar em
e particularmente na portuguesa são acaute- todo o espaço europeu a adopção de Instru-
lados os Interesses fundamentais dos utentes mentos de auto e co-regulação dos operado-
dos Media concretizando alguns pontos do res.
quadro que estabelecemos no nosso anterior O artigo 22 faz uma distinção pouco clara
ponto 3. entre programas “susceptíveis de prejudicar
gravemente o desenvolvimento dos menores
IV. A regulação do AV (e que deverão ser banidos) e os susceptíveis
de apenas os prejudicar (e que poderão ser
8. O mais recente documento da EU sobre transmitidos em certas condições).
esta questão fundamental saiu em Dezembro A maioria dos interessados que comen-
de 2003 e trata de “O futuro da Política tou a questão da proibição de programas que
europeia de Regulação AV” e é enviado pela contenham incitamento ao ódio (em razão da
Comissão ao Parlamento Europeu. raça, do sexo ou da nacionalidade) declarou-
Começa-se nele por reconhecer o papel se satisfeita com a actual formulação da
central dos Meios AV nas democracias disposição.
modernas, no seu funcionamento e na de- Ora estas conclusões não deixam de ser
finição e transmissão de valores. E sendo surpreendentes se recordarmos a profunda
assim é vital para esta “indústria cultural” insatisfação sobre a programação do AV, que
que os operadores desfrutem dum ambiente todos dias exibe rubricas que não respeitam
político claro e previsível, propício às suas o Interesse Público, como aqui é definido,
estratégias. e que é manifestada por amplos sectores da
Mas o que de facto se pretende é que sociedade civil na Europa, e também par-
a Política comunitária do AV promova o tilhada por inúmeros grupos Cívicos a nível
desenvolvimento do sector designadamente mundial.
através da realização do mercado interno
neste domínio, apoiando simultaneamente V. Crítica da sociedade civil
objectivos primordiais de Interesses Geral,
tais como a diversidade linguística e cultu- 10. A “ Cimeira Mundial da Sociedade
ral, a protecção de menores, a dignidade da Informação” que se realizou de 10/12 de
humana e a defesa dos utentes. Dezembro de 2003 em Genebra foi rodeada
Ora a compatibilidade do Mercado com de grandes expectativas, intensas negociações
o Interesse Geral sempre foi difícil e con- políticas e posteriores frustrações. Tinha sido
tinua a sê-lo. Como sabemos a directiva “TV difundido um “Projecto de Declaração de
sem Fronteiras” é considerada como o ins- Princípios” em que os “ representantes dos
trumento fundamental para o que se designa povos do mundo se comprometiam a adoptar
por “ Nova governança dos Media AV medidas que favorecessem o progressivo
europeus”, e acabou de ser sujeita a uma estabelecimento da designada Sociedade da
ampla revisão. Informação, considerado o desafio mundial
Realizou-se uma muito alargada consulta do novo milénio”.
aos agentes sócio-políticos do sector (que Reclamava-se uma SI para todos, deven-
também nos abrangeu), e é interessante reflec- do-se trabalhar para aumentar o acesso à
tir um pouco sobre os seus resultados para ter infra-estrutura e às tecnologias da IC, assim
uma percepção da evolução que o problema como o acesso à informação e ao conheci-
da regulação AV está a ter no espaço europeu. mento, para criar capacidades, promover a
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 133

confiança e a segurança no que toca às NTIC, família, que constitui o grupo natural e
criar um ambiente habilitador a todos os fundamental da sociedade.
níveis, desenvolver e ampliar as aplicações O Projecto sublinha a importância dum
das TIC, promover e respeitar a diversidade Serviço Público correctamente prestado, a par
cultural (fomentar o desenvolvimento dos da promoção e incremento dos investimentos
Meios de Comunicação), abordar os aspec- privados.
tos éticos da SI e alentar a cooperação in- Estas preocupações éticas resultam direc-
ternacional e regional. tamente do empenho manifestado no início
Há um apelo claro para que se permita do Projecto de Declaração em promover as
a prestação correcta de um serviço Público metas da Declaração do Milénio de que tanto
em todos as circunstâncias. A criação dum se falou, com o fim de alcançar um mundo
“ambiente habilitador” impõe o império da mais pacífico, justo e próspero.
Lei apoiado numa regulamentação (incluin- A Declaração de Princípios finalmente
do a auto-regulação) essencial para suscitar aprovada adoptou uma exposição mais sin-
a confiança e segurança. tética do que do Projecto, deixando todos
A SI deve apoiar as condições (econó- insatisfeitos.
micas, sociais) propícias ao bom governo O capitulo final do documento intitula-
democrático, sendo particularmente a Internet se “Para uma SI para todos baseada num
indispensável a uma boa governança da conhecimento partilhado” e manifesta clara-
sociedade. mente o idealismo que presidiu à redacção
No domínio da identidade e diversidade da Declaração, mas o documento no conjun-
culturais, a sua defesa é um imperativo ético, to é parco de medidas concretas.
inseparável do respeito pela dignidade humana. Verificaram-se supressões significativas
O desenvolvimento de conteúdos nacio- sendo a mais emblemática a da referência a
nais que se ajustem às necessidades nacio- valores como o Bem Comum, a Verdade ou
nais e regionais fomentará o desenvolvimen- a honestidade. E desapareceu também a re-
to sócio-económico e estimulará a participa- ferência ao Serviço Público, sendo substituída
ção de todas as partes interessadas. pela vaga expressão Domínio Público.
A expansão dos media estimulada pelas É natural que este resultado tenha desi-
NTIC cria novas oportunidades, mas também ludido muitos actores sociais a nível mun-
novas responsabilidades aos profissionais do dial. Por isso as Organizações da Sociedade
sector pelo que se impõe sejam formuladas civil adoptaram a sua própria Declaração que
normas éticas e profissionais que respeitem expressa uma visão alternativa e propostas
os valores da sociedade. próprias.
11. As dimensões éticas são tratadas num Vemos que a Cimeira defende valores
parágrafo especial do Projecto de Declara- claramente abrangidos pela nossa ideia de
ção. Afirma-se assim que a SI, em confor- Interesse Público, pena é que os compromis-
midade com a Declaração Universal dos sos redutores contidos nos documentos ofi-
Direitos do Homem deverá respeitar a paz, ciais assinalem a debilidade da vontade
reger-se por valores de liberdade de expres- política dos líderes mundiais, traduzida pela
são, de consciência e de religião, assim como ausência na Cimeira dos Chefes de Estado
por outros valores como a liberdade, a igual- ou de Governo da maioria das nações influ-
dade, a solidariedade, a tolerância, o respeito entes do mundo.
pela natureza e a responsabilidade compar- 12. Foi proclamada simultaneamente com
tilhada. Na SI revestem particular interesse a Declaração de Princípios da CMSI a
valores como a verdade, a honestidade, a “Declaração da Sociedade Civil na CMSI-
justiça, a dignidade humana e o respeito pelos Construir Sociedades da Informação que
valores morais, sociais e religiosos de todas atendam às necessidades humanas”, que é
as sociedades. iniciada sugestivamente com a afirmação “nós
E ainda neste parágrafo se afirma que a homens e mulheres de distintos continentes,
SI deveria ter plenamente em conta os re- contextos culturais, perspectivas, experiênci-
quisitos éticos e morais, deveria prestar a as e conhecimentos técnicos, actuando como
maior protecção e assistência possível à membros de diferentes audiências e de uma
134 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

emergente sociedade civil mundial, consideran- A criação de capacidades humanas na SI/


do que é fundamental a participação da soci- C exige pessoas competentes no conhecimen-
edade civil na 1ª Cimeira organizada pelas NU to dos MI/C, e a par do ensino deve promo-
sobre questões de informação e ver-se a investigação a todos os níveis de modo
comunicação…apresentamos na presente De- adequado ao emprego social das TIC.
claração a nossa visão, como convite a par- Também a Internet e outros serviços
ticipar no presente diálogo e a colaborar globais devem ser orientados não por grupos
connosco na definição do nosso futuro comum”. privados mas pela comunidade internacional
São apresentados os Princípios e os no seu conjunto (governo mundial).
desafios fundamentais como o da Justiça Em conclusão, são as pessoas que fun-
Social, de Desenvolvimento sustentado damentalmente constituem e conformam as
centrado no ser humano, abrangendo a sociedades, (e as SI/C não são uma excep-
erradicação da pobreza, a cidadania global, ção), estando os Direitos humanos no centro
a justiça de género, a importância da juven- da visão do documento.
tude, o acesso à Informação, a alfabetização Para atingir os objectivos fixados pela
básica, o desenvolvimento de soluções de TIC Cimeira deve criar-se uma Comissão, dispon-
sustentáveis e comunitárias. do-se os autores deste Documento a trabalhar
Um princípio fundamental invoca os com boa fé com os responsáveis oficiais.
Direitos Humanos começando pela liberdade Também neste documento, mesmo mais
de expressão, o direito à privacidade, à que no anterior, se faz ao fim e ao cabo,
participação nos assuntos públicos, os direi- a defesa do Interesse Público.
tos dos trabalhadores, o dos povos indígenas,
os das mulheres, os do Menino, os das VI. Perspectiva final
pessoas incapacitadas, o regimento e o
império da Lei.
13. O mundo da Comunicação manifesta
Na área da Cultura, Conhecimento e
de forma evidente, o tipo de evolução que
Domínio Público o documento reivindica a
está a sofrer a sociedade ocidental. Ela
protecção da diversidade cultural e linguís-
curiosamente contraria o prognóstico de
tica, a liberdade dos MC, a defesa e a
Habermas sobre a evolução do
divulgação do domínio público, do conhe-
“spätkapitalismus” , prognóstico que aliás não
cimento mundial.
contempla a emergência duma nova Socie-
Sublinha que os SPRTV têm que desem-
dade Civil a nível mundial.
penhar a importante função de garantir a
É no entanto muito claro que só um
participação de todos na SI/C.
Estes Meios de Comunicação Públicos SPRTV revalorizado, ainda poderá compen-
devem transformar-se em organizações que sar a erosão devastadora suscitada pelo actual
ofereçam um SP com independência editorial. modelo do AV sobre os valores que funda-
No domínio do “ambiente habilitador” mentam o Interesse Público no campo da
reclama-se o acesso equitativo, justo, e aberto Comunicação.
aos conhecimentos e aos recursos de infor- Porém a Sociedade Civil vai muito mais
mação, princípio fundamental da sociedade. longe, reclamando uma nova Justiça Social
Também um governo transparente e res- e um Desenvolvimento sustentado centrado
ponsável, a ética empresarial, as práticas no ser humano.
financeiras das empresas do sector da Co- É assim posto em causa o actual modelo
municação e o comportamento ético dos MCS do AV baseado em Operadores Comerciais
adquirem importância particular neste con- que orientam a sua actividade exclusivamen-
texto, sendo importante que se adoptem te pelo lucro.
Códigos e Normas éticas e se estabeleçam A Sociedade Civil exige que esta moti-
mecanismos de supervisão eficazes. vação dos Operadores de TV dê antes lugar
A alfabetização, o Ensino e a Investiga- a políticas da comunicação que promovam
ção são considerados fundamentais nas so- a dignidade da pessoa, oferecendo progra-
ciedades do Conhecimento, devendo as NTIC mas não massificantes, intoxicantes ou sim-
associar-se aos métodos tradicionais plesmente embrutecedores.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 135

Bibliografia Thompson, Kenneth (Ed.), Media and


Cultural Regulation, Sage Pbl., London,
Blumler, Jay G. (Ed.), Television and the 1997.
Public Interest, Sage Publ. London, 1992.
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Television, University of Luton Press, Luton, _______________________________
1
1996. Professor Jubilado da Universidade Nova de
McQuail, Denis, Media Performance, Lisboa, Presidente Honorário da ACMedia.
Sage Publ., London, 1993.
136 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 137

Os bens digitais e a dinâmica da Weightless Economy1


Orlando Gomes2

Introdução significativa destas propriedades é a rivali-


dade: o uso do bem por um indivíduo
Uma das características fundamentais do inviabiliza o usufruto dessa mesma unidade
sistema económico é a mudança. Os bens em simultâneo por parte de qualquer outro
produzidos, os meios de transacção e as indivíduo.
preferências de consumo tendem a alterar- A evolução recente do sistema económi-
se no tempo. Certamente que as decisões de co leva-nos contudo à constatação que algo
um consumidor em qualquer país desenvol- mais do que a escala e frequência das tran-
vido são hoje muito diferentes das decisões sacções económicas está a mudar. Há uma
que um qualquer indivíduo tomava há 500 vertente imaterial das transacções, ligada a
anos no sentido de maximizar a sua utili- um tipo particular de bens e serviços que
dade, porque a variedade e quantidade de bens apresentam características distintivas face ao
à disposição é muito diferente, porque as comum dos bens privados, que começa a
formas de acesso ao mercado se alteraram, ganhar um peso decisivo nas trocas. Os bens
porque a estrutura do mercado de trabalho digitais ou bens-conhecimento têm introdu-
sofreu alterações com implicações no mon- zido ao longo dos últimos anos uma vertente
tante e na forma dos rendimentos obtidos. imaterial na actividade económica que se
Da mesma forma, uma dada empresa enfren- manifesta a todos os níveis: nas trocas e
ta no mundo contemporâneo outro tipo de portanto na organização e estrutura dos
exigências e oportunidades desconhecidas no mercados, na produção, no que respeita às
passado. No entanto, a essência dos proble- técnicas que permitem racionalizar e tornar
mas económicos de consumidor e produtor mais eficiente o processo produtivo e tam-
não se modificou apesar da diferença de bém à inovação, desde novas formas de
escala e complexidade das transacções eco- gestão até novas variedades de bens e ser-
nómicas ser tremenda. viços ou sofisticação das existentes, e mes-
Como sempre, o problema de decisão do mo ao nível do consumo, essencialmente no
consumidor continua a ser a maximização da que toca às alterações no cabaz tipo de bens
utilidade do consumo perante uma restrição e serviços adquirido pelos consumidores; este
orçamental que limita as suas escolhas e o cabaz inclui cada vez mais bens com as
problema do produtor consiste, ainda e características dessa nova realidade imaterial
sempre, em gerir receitas e custos no sentido ou intangível.
de maximização do lucro. Na verdade, a Se é inegável a emergência e reforço de
dimensão do sistema económico alterou-se, uma economia do conhecimento, em que as
mas a sua natureza não. A razão para a actividades imateriais ganham protagonismo
imutabilidade da essência dos problemas e a qual é sem dúvida knowledge-driven,
económicos reside no facto de a generalida- como o indica por exemplo o estudo de
de dos bens que hoje transaccionamos não Murteira, Nicolau, Mendes e Martins (2001)
diferir significativamente do tipo de bens no que respeita à realidade económica por-
trocados em épocas anteriores. A mais re- tuguesa, já não será tão líquido aquilo que
quintada peça de vestuário hoje produzida a economia do conhecimento e os bens nela
difere no tipo de recursos usados para a sua transaccionados significam em termos de
execução e na tecnologia de produção face configuração de uma nova economia e como
à pele de leopardo usada pelo mais remoto a esta deverá estar associada uma nova forma
dos nossos antepassados, mas as suas pro- de pensar a realidade; a questão central
priedades económicas são idênticas. A mais relaciona-se com a avaliação daquilo que é
138 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

novo no sentido de perceber se é necessário são hoje mais do que nunca uma parcela
alterar a estrutura teórica no sentido de importante do consumo da generalidade das
perceber os novos fenómenos, ou se pelo famílias, ou seja, se até determinado ponto
contrário a teoria existente é suficientemente na nossa história recente os indivíduos
rica e flexível para continuar a dar indica- consumiam bens materiais contendo conhe-
ções fiáveis sobre o modo como os indiví- cimento, cada vez mais o próprio conheci-
duos produzem, transaccionam e consomem. mento é consumido como um bem final.
O conteúdo do artigo encontra-se resu- Alguns exemplos a este nível tornaram-se
mido em seguida. A secção II aborda a triviais: hoje consumimos videojogos,
natureza da weightless economy e dos bens software informático, imagens e música
nela transaccionados; a secção III descreve digitais, serviços de telecomunicações e
de forma breve uma possível estrutura de acesso a conteúdos na Internet da mesma
modelização para a economia dos bens di- forma que acedemos ao conjunto de bens
gitais e a secção IV conclui. materiais que sempre fizeram parte do nosso
cabaz de compras, desde a alimentação ao
A economia do conhecimento e os bens vestuário.
digitais c) Transacções. Uma terceira esfera onde
a weightless economy deve ser enquadrada
Para melhor entender a importância da é a de transferência de posse dos bens de
intangibilidade observe-se separadamente as quem os produz para quem os consome. Na
três questões fundamentais do sistema eco- realidade, a nova economia não só contri-
nómico: buiu no campo da eficiência produtiva e
a) Produção. Do ponto de vista produ- revolucionou a estrutura do consumo. Tam-
tivo, os bens-conhecimento podem ser asso- bém serviu, e esta até talvez seja a mutação
ciados à revolução tecnológica que as novas mais evidente, para que surgissem novas
tecnologias da informação e da comunicação formas de organização de mercados, ou seja,
(TIC) têm vindo a permitir. A evolução para que as trocas assumissem novas formas
conseguida ao nível da eficiência e da pro- de concretização. A este nível será impor-
dutividade pode ser destacada como tante perceber o que mudou ao nível da
quantitativamente mais significativa que as eficiência nas transacções, ou seja, se os
resultantes de revoluções tecnológicas ante- ganhos de informação conseguidos e a con-
riores, mas o que é facto é que, como Quah seguir são significativos e compensam even-
(2001) salienta, do ponto de vista qualitativo tuais entraves que a nova economia pode
não haverá nesta revolução nada de radical- produzir ao nível da concorrência e portanto
mente novo; há um paralelismo entre esta da eficiência dos mercados.
e outras grandes mutações tecnológicas do A weightless economy não estará ligada
passado, donde as TIC podem ser encaradas apenas às TIC e à Internet, mas esta é uma
ao mesmo nível daquilo que a invenção da das suas faces mais visíveis. Instrumento de
roda ou o conjunto de inovações que per- comunicação de mais rápido crescimento de
mitiram a primeira fase da revolução indus- sempre, a Internet mais do que simplesmente
trial trouxeram para a estruturação da orga- um meio de comunicação unilateral (como
nização económica que hoje temos; o são a generalidade dos meios de comu-
b) Consumo. A emergência da nova nicação) constitui-se como um mercado,
economia, economia imaterial ou weightless tendo em conta uma definição ampla que se
economy, como Quah (1998) a designou, possa tomar deste; de facto, a Internet fun-
inova face a outros momentos da evolução ciona como um sistema de informação
do sistema económico precisamente porque biunívoco, em que produtores e consumido-
não se limita a reflectir-se em mais um res podem interagir.
incremento rápido e substancial de produti- Ao encarar a Internet como um mercado,
vidade. Do lado da procura uma outra re- é conveniente olhar para as premissas que
volução tem vindo a suceder. Os bens-co- fazem dos mercados estruturas mais ou menos
nhecimento são muito mais que meros novos concorrenciais ou mais ou menos concentra-
factores produtivos. Os bens-conhecimento das. Apesar dos ganhos extraordinários ao
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 139

nível da informação, que configuram um rísticas do bem torna difícil a concretização


elemento fundamental para que os mercados das transacções, uma vez que em qualquer
se aproximem de uma situação de concor- processo de troca existem interesses
rência perfeita, é preciso não esquecer o conflituantes entre vendedor e comprador que
reverso da medalha – ao proporcionar mer- efectivamente introduzem dificuldades ao
cados globais, a Internet incentiva a concen- nível da assimetria de informação.
tração e a sobrevivência apenas daqueles que Para Quah (2002) os bens distintivos da
se encontram acima de uma determinada weightless economy podem ser designados por
dimensão. Esta é outra das características bens digitais e definem-se de forma genérica
fundamentais da nova economia, que pelo como sequências de zeros e uns com valor
aumento da dimensão e pelo tipo de acti- económico (ou bitstrings). Os bens digitais
vidades e de meios que envolve promove corresponderão então àquilo que pode ser
economias de escala e por conseguinte codificado e enviado de um local para o outro
mercados concentrados onde domina um sem necessidade de transferência física.3 Os
pequeno número de empresas. Mercados bens digitais são então aqueles que nos
concentrados significam regra geral uma habituamos a armazenar no nosso computa-
menor eficiência, dado que as propriedades dor pessoal e a enviar para outros via Internet,
de fluidez (livre entrada e saída de empresas sejam fórmulas químicas, sequências de
no mercado) e atomicidade (a incapacidade DNA, teoremas matemáticos, música e
das empresas dada a sua pequena dimensão imagens digitais, software de trabalho ou de
para assumirem outro papel que não o de entretenimento. Um cuidado a ter consiste
price-takers) são corrompidas em desfavor em não confundir, o que nem sempre é fácil,
do consumidor e dos concorrentes de menor o bem digital com o seu suporte físico. A
dimensão. generalidade dos bens digitais é
Diversos estudos empíricos, como Freund
transaccionada num objecto físico; por exem-
e Weinhold (2002) e Brown e Goolsbee
plo, um CD é um objecto físico e portanto
(2002) entre outros, enfatizam os ganhos de
pode ser enquadrado do ponto de vista da
informação que a Internet possibilita, mesmo
análise económica na abordagem tradicional
que não seja através dela que as transacções
sobre bens privados. No entanto, a música
se concretizem (para a generalidade dos
que nele se encontra gravada é um bem digital
consumidores a Internet será mais uma
com características peculiares que em segui-
espécie de páginas amarelas onde se procura
da são descritas.
dados para basear as decisões de compra do
São as seguintes cinco as propriedades
que um supermercado em que não só se
comparam preços como se procede simulta- que Quah (2002) identifica para os bens
neamente à transacção). Outros estudos, como digitais:
o de Smith, Bailey e Brynjolfsson (2000), 1) Não rivalidade. Os bens privados, alvo
apontam os efeitos perversos que podem de transacção no mercado, são rivais, ou seja,
resultar de um meio como a Internet. Ela pode o respectivo consumo elimina a sua existên-
representar uma forma de discriminar preços cia. Os bens digitais, por seu lado, podem
via diferenciação de bens e envolve proble- ser consumidos por um agente sem que isso
mas de informação assimétrica, no sentido implique que o mesmo bem não irá conti-
em que quem nela coloca informação tem nuar disponível na íntegra para um outro
a capacidade de controlar e manipular essa agente, ou para o mesmo numa situação
informação. A este nível, a Internet poderá posterior. A não rivalidade não é propriedade
funcionar como um mercado relativamente exclusiva dos bens digitais; qualquer bem
eficiente para os bens da nova economia, que público ou semi-público assume esta propri-
sendo bens digitais podem ser avaliados à edade, como a defesa nacional ou o forne-
distância sem que se perca muita informação cimento de electricidade. Mas não deixa de
sobre o que eles efectivamente são, mas para ser verdade que é também uma propriedade
os bens da economia tradicional, a avaliação dos bens digitais: o acesso de alguém a um
das suas propriedades à distância pela mera videojogo não corrompe a possibilidade de
descrição por parte do produtor das caracte- uso posterior por outrem.
140 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

2) Expansibilidade infinita. Os bens que nos habituamos a observar para a ge-


digitais, como outros bens, têm custos de neralidade dos bens económicos. Logo, parece
produção; mas ao contrário da generalidade urgente rever teorias de localização de ac-
dos bens não têm custos de expansão. Após tividades e de comércio.
produzida uma unidade do bem, a quanti- 5) Recombinação. Os bens digitais po-
dade disponível pode ser aumentada arbitra- dem ser recombinados, no sentido em que
riamente sem custos adicionais e de uma a informação necessária para a produção de
forma praticamente instantânea. Num jogo uns pode ser reconvertida com facilidade de
para Playstation 2 ou para X-Box o custo modo a dar origem a outro bem digital (por
encontra-se concentrado na concepção da exemplo, a informação contida numa notícia
primeira unidade; para as restantes, a cópia de jornal pode ser utilizada para produzir uma
é imediata e praticamente a custo nulo. peça televisiva).4
Esta propriedade tem implicações enor- As cinco propriedades prévias possibili-
mes sobre o funcionamento e a estrutura dos tam uma distinção formal entre a economia
mercados. Primeiro, porque os custos de dos bens digitais e a economia dos bens não
concepção são regra geral elevados, os digitais. É um pouco por este caminho que
mercados de bens digitais caracterizam-se por se procura ir na secção seguinte, com par-
uma forte concentração do lado da oferta, ticular ênfase sobre a utilidade do consumo
ou, de outro modo, trata-se de indústrias onde na presença de bens digitais. Um dos aspec-
proliferam rendimentos crescentes à escala tos fundamentais a salientar é que a ideia
e portanto poucos produtores podem existir. de bitstrings (sequências de zeros e uns) tem
Em segundo lugar, estes mercados só sobre- um duplo significado: diz respeito às carac-
vivem se houver mecanismos de exclusão terísticas físicas dos bens digitais, como se
face à cópia; a definição clara de direitos mencionou, mas também ao modo como estes
de autor e copyrights são um elemento central bens vão ser encarados do ponto de vista da
para que a economia dos bens digitais pro- teoria económica.
lifere, o que é evidente pelo facto de o custo Fundamentalmente, faz sentido desde já
estar concentrado na geração da unidade reter dois pontos:
número 1. 1º: os bens digitais possuem caracterís-
3) Discrição. Associado à ideia de ticas que os demarcam claramente dos bens
expansibilidade infinita encontra-se o conceito alvo da análise económica tradicional;
de discrição, que nos diz em relação aos bens 2º: a economia em que vivemos é numa
digitais que só interessa do ponto de vista parcela cada vez mais significativa uma
da sua utilização unidades inteiras do bem. economia de bens digitais.
Em particular interessará uma unidade intei-
ra do bem (já que a partir daí outras podem A dinâmica da economia digital
ser reproduzidas). Menos de uma unidade não
tem qualquer utilidade: meia ideia de nada A teoria da utilidade para bens privados
serve, metade da informação contida num é uma das peças basilares da ciência econó-
software, ou num código genético ou numa mica. Com o trabalho de Arrow e Debreu
fórmula de um medicamento não terá qual- (1954) o modo como os consumidores enca-
quer uso. Só têm utilidade de facto unidades ram o processo de escolhas de consumo tendo
inteiras do bem. por base as respectivas preferências pode ser
4) A-espacialidade. Não é completamen- sintetizado num pequeno conjunto de axiomas
te correcto dizer que um bem digital uma que sustentam o tratamento analítico do pro-
vez produzido está disponível em toda e blema do consumidor representativo.5
qualquer localização. No entanto, os bens Entre estes axiomas, o axioma da
digitais podem ser considerados a-espaciais convexidade das preferências não é verifi-
no sentido em que desrespeitam a distância cado para bens digitais. Tal acontece devido
física. Praticamente no mesmo tempo e com essencialmente a duas das propriedades que
o mesmo custo o bem digital pode ser se verificou serem verdadeiras para os bens
difundido a curta ou a longa distância. Esta digitais: a discrição e a expansibilidade
propriedade colide de forma óbvia com aquilo infinita.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 141

A propriedade de discrição diz que os bens de capital (1) é semelhante à originalmente


digitais só são relevantes do ponto de vista avançada por Solow (1956) e Swan (1956) para
do consumo para quantidades inteiras (meia explicar o processo de crescimento económico.
ideia ou metade de um código genético não Para chegar à função objectivo do pro-
traduzem qualquer utilidade para quem os blema (à função utilidade) repare-se que
consome). Por outro lado, a expansibilidade existe uma variável rendimento na econo-
infinita significa que ao indivíduo basta mia, mas deste apenas uma parte é
adquirir uma unidade do bem podendo consumida, num montante c(t). A variável
posteriormente reproduzi-la indefinidamente. c(t) representa assim o nível total de con-
A par da propriedade física que permitiu sumo em cada momento de tempo, abarcan-
definir os bens digitais como bitstrings, do do este nível de consumo bens digitais e
ponto de vista da utilidade do consumo um bens não digitais. Considere-se que os bens
cabaz de bens digitais é também uma sequên- não digitais podem ser contabilizados atra-
cia de zeros e uns, dado que só duas pos- vés de uma única variável homogénea, x(t),
sibilidades interessam quanto à posse do bem: e admita-se um conjunto de bens digitais
a posse de uma unidade integral ou a posse z i (t), no intervalo [0,n], de modo que
de nenhuma unidade integral. n
No que concerne à teoria da utilidade x (t ) = c(t ) − ∫ pi .zi (t ).di , com p i o
0
poder-se-á ignorar quaisquer quantidades de
preço de cada bem digital (variáveis exógenas
um bem digital zi diferentes de 0 ou 1 e
à análise) e zi(t)∈{0,1}.
portanto considerar um conjunto Z={0,1} tal
De modo a permitir a tratabilidade ana-
que z i∈Z. Para variáveis definidas num
lítica do modelo ir-se-á considerar uma função
conjunto discreto como Z as preferências não
de utilidade aditivamente separável. Para o
serão convexas. A não convexidade coloca
bem não digital considera-se uma função
problemas ao tratamento analítico do proble-
CIES (constant intertemporal elasticity of
ma de maximização da utilidade do consu-
substitution) comum a este tipo de proble-
mo, mas não o inviabiliza. Em seguida tra-
mas de optimização:
tar-se-á tal problema considerando um cená-
rio dinâmico e por conseguinte um problema
− ( θ − 1)
de controle óptimo.
De modo a admitir um cenário dinâmico U[ x (t )] =
[ n
1 − c(t ) − ∫ pi .zi (t ).di
0 ] , θ >1
ou intertemporal suponha-se a seguinte regra θ −1
para a geração de rendimento numa econo- (2)
mia:
Para os bens digitais a forma funcional
k«(t ) = A.k (t )α − c(t ) − δ .k (t ) , k(0)=k0 da função de utilidade a adoptar é:
dado. (1)
1/ ρ

Na equação (1), A é um índice de


tecnologia, α∈(0,1) é a elasticidade produto-
U[ z1 (t ),..., zn (t )] = [∫0
n
u( zi ) ρ .di ] ,

capital e δ a taxa de depreciação do capital.


A variável k(t) representa a quantidade de 0, zi < 1
u( zi ) =  , 0 < ρ < 1(3)
capital físico em cada momento de tempo
ui , zi ≥ 1
t e c(t) corresponderá à variável consumo real
(também em cada momento t). O nível de com ui o nível de utilidade de cada bem
rendimento surge na equação como digital.
correspondendo a uma função de produção Interessará então trabalhar com a função
neoclássica de rendimentos marginais do de utilidade (4).
capital decrescentes. Quanto a
k«(t ) ≡ dk (t ) / dt define o acréscimo tem- U[c(t )] = U[ x (t )] + U[ z1 (t ),..., zn (t )]
poral da variável k(t). A regra de acumulação (4)
142 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

O problema de controle óptimo em em ordem ao tempo, obter-se-á uma expres-


consideração corresponderá à maximização são para a evolução temporal da variável
do fluxo intertemporal de funções U, consumo:

+∞
− σ .t 1
Max ∫ U[c(t )].e
0
.dt (5) c«(t ) =
θ
[
. α . A.k (t )− (1−α ) −

onde o parâmetro σ>0 é uma taxa de des-


][ ]
n
conto reveladora de que a utilidade presente
é mais valorizada que a utilidade futura. Este
(σ + δ ) . c(t ) − ∫ pi .zi (t ).di
0
problema de maximização encontra-se sujei- (10)
to à restrição de recursos (1). Fazendo uso de (1) e (10), na situação
O problema de controle óptimo definido de longo prazo os seguintes valores de
é geralmente designado por modelo de equilíbrio são encontrados:
Ramsey (1928), o qual estabelece uma re-
lação entre consumo presente e consumo
1 /(1− α )
 1−α  
futuro (a acumulação de capital hoje permite
o consumo futuro) que revela a tensão (k , c ) =  σα+. Aδ  1
;  .σ +
α α
.δ .k 
 

existente entre o objectivo final que é con-
(11)
seguido via consumo e o instrumento neces-
sário para o atingir que é a poupança e o
Perante os resultados em (11), o bem
correspondente investimento. A única novi-
homogéneo não digital será consumido no
dade introduzida nesta estrutura é a consi-
estado de equilíbrio na quantidade
deração de bens digitais no cabaz de con-
sumo do consumidor representativo que se
subentende existir. 1 1−α 
x =  .σ +
n
Utilize-se as técnicas de optimização .δ .k − ∫ pi .zi .di
α α  0
dinâmica, em particular o princípio de
Pontryagin, para resolução do modelo. Ao (12)
problema de óptimo corresponde o seguinte
Hamiltoniano de valor corrente: com zi , i ∈ [0,n], o valor de equilíbrio
de cada bem digital, que como sabemos
[
ℵ(t ) = U[c(t )] + q(t ). A.k (t )α − c(t ) − δ .k (t ) ] assumirá o valor zero ou o valor um.
(6) O resultado (12) limita-se a estabelecer
uma relação de longo prazo entre quantida-
com q(t) uma variável de co-estado ou preço- des consumidas de bens não digitais e os bens
sombra do capital físico. As seguintes con- digitais adquiridos pelo consumidor. É evi-
dições de óptimo são verdadeiras: dente o trade-off que se estabelece: a sequên-
cia de zeros e uns representada por zi
− σ .t
lim q(t ).e .k (t ) = 0 (condição de influencia decisivamente o valor de x que
t → +∞
se define no conjunto de números reais
transversalidade) (7)
positivos.
−θ

[ n
ℵc = 0 ⇒ c(t ) − ∫ pi .zi (t ).di
0 ] = q(t )
O modelo que se propôs procurou essen-
cialmente sublinhar que apesar da natureza
distinta dos bens transaccionados na economia
(8)
do conhecimento, o problema fundamental de
q«(t ) = σ .q(t ) −ℵk ⇒ q«(t ) = escolha do consumidor pode continuar a ser
equacionado sob uma perspectiva de
[
= (σ + δ ) − α . A.k (t )− (1−α ) .q(t ) (9)] maximização intertemporal do consumo, estru-
tura recorrentemente utilizada para perspectivar
Diferenciando a condição de óptimo (8)
o funcionamento do sistema económico.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 143

Conclusão bém pelo modo como podem ser consumi-


dos: a utilidade no consumo de bens digitais
Os bens digitais possuem características pode ser reduzida à utilidade de consumir
que os distinguem dos bens que são geral- ou não uma unidade inteira e completa do
mente utilizados para descrever os processos bem.
económicos de produção, transacções e con- Não obstante os bens digitais poderem
sumo. A não rivalidade, a expansibilidade ser do ponto de vista económico facilmente
infinita, a discrição, a a-espacialidade e a distinguidos dos bens privados para os quais
recombinação permitem a distinção clara entre diferentes quantidades representarão regra
estes bens e outros bens económicos, o que geral diferentes níveis de utilidade, na rea-
tem consequências sobre o modo como de- lidade a existência e relevância crescente dos
vemos olhar para a realidade económica, bens conhecimento no sistema económico não
principalmente quando é cada vez mais evi- altera a filosofia de base dos problemas
dente que os bens digitais ou bens-conheci- fundamentais que a ciência económica abor-
mento detentores das referidas propriedades da. Como se constatou, o problema da uti-
têm vindo a ganhar de forma bastante rápida lidade do consumidor é o mesmo quer se trate
peso no conjunto das transacções económicas, de bens digitais ou não, no sentido em que
nomeadamente nos países mais desenvolvidos. cabe ao agente representativo maximizar a
A primeira consequência da diferente utilidade dada a respectiva restrição
natureza dos bens digitais sobre a forma como orçamental. Assim sendo, muda a natureza
se analisa o sistema económico respeita à não dos bens, mas não a natureza do problema.
convexidade das preferências quando em No modelo intertemporal desenvolvido,
causa estão bens digitais. A não convexidade as escolhas que se fazem dependem da
significa que a teoria da utilidade que a utilidade atribuída ao consumo de cada bem,
ciência económica desenvolveu ao longo das seja ele digital ou não, e da capacidade
últimas décadas necessita de ser adaptada a produtiva, que no caso dinâmico evolui no
uma nova classe de bens que são bitstrings tempo de acordo com a capacidade de in-
não apenas pela sua forma física mas tam- vestimento e produção.
144 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Bibliografia Tools and Research. Cambridge, Mass.: MIT


Press.
Arrow, Kenneth J. e Gérard Debreu Solow, Robert M. (1956). “A Contribution
(1954). “Existence of Equilibrium for a to the Theory of Economic Growth.”
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Brown, Jeffrey R. e Austan Goolsbee Swan, Trevor W. (1956). “Economic
(2002). “Does the Internet Make Markets Growth and Capital Accumulation.”
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Insurance Industry.” Journal of Political
Economy, vol. 110, nº 3, pp. 481-507. _______________________________
Freund, Caroline e Michael Weinhold 1
Este artigo foi escrito no âmbito do projecto
(2002). “The Internet and International Trade A Economia Digital e do Conhecimento, apoiado
in Services.” American Economic Review, vol. pelo Instituto Politécnico de Lisboa, a quem se
92, nº 2, pp. 236-240. agradece o apoio financeiro prestado. Agradece-
Jehle, Geoffrey A. e Philip J. Reny (2001). se ainda à organização e participantes no terceiro
congresso da Associação Portuguesa de Ciências
Advanced Microeconomic Theory. Second
da Comunicação (SOPCOM) [II congresso ibé-
edition. Boston: Addison Wesley Longman. rico], e em particular ao Dr. Pedro Braumann, pelos
Murteira, Mário; Isabel Nicolau; Vivaldo valiosos comentários sobre o conteúdo do artigo.
Mendes e António Martins (2001). Serviços Este texto encontra-se publicado no volume IX,
Informacionais e Transição para a Econo- nº 2, da revista Economia Global e Gestão.
mia do Conhecimento em Portugal. Lisboa: 2
Escola Superior de Comunicação Social e
GEPE e IAPMEI. Unidade de Investigação em Desenvolvimento
Quah, Danny (1998). “A Weightless Empresarial [UNIDE/ISCTE].
3
Economy.” The UNESCO Courier, December. A ficção científica já há muito fez do próprio
homem um bitstring. O teletransporte da série
Quah, Danny (2001). “Technology
Startrek proporcionava esta propriedade. Na re-
Dissemination and Economic Growth: Some alidade os bens físicos e os seres vivos não têm
Lessons for the New Economy.” CEPR esta propriedade, mas uma parcela crescente dos
working paper. factores de produção, bens intermédios e bens de
Quah, Danny (2002). “Digital Goods and consumo final pode efectivamente ser
the New Economy”. Working paper. London: “teletransportado”.
4
LSE Economics Department. Em relação à notícia de jornal esta é um bom
Ramsey, Frank (1928). “A Mathematical exemplo na distinção entre bem digital e o res-
Theory of Saving.” Economic Journal, vol. pectivo suporte físico. A notícia em si é um bem
digital, que possui as cinco características apon-
38, pp. 543-559.
tadas. O papel em que está impressa será um bem
Smith, Michael D.; Joseph Bailey e Erik
privado, com as características de rivalidade e
Brynjolfsson (2000). “Understanding Digi- excludabilidade que sabemos que estes possuem.
tal Markets: Review and Assessment.” em 5
Ver Jehle e Reny (2001) para a enumeração
E. Brynjolfsson e B. Kahin, eds., e explicação pormenorizada do significado destes
Understanding the Digital Economy: Data, axiomas.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 145

O custo das não decisões na imprensa local e regional portuguesa1


Paulo Ferreira

Introdução à imprensa escrita local e regional, cerca de


900 títulos devidamente registados no Ins-
Quando, em 1995, Jacques Chirac esco- tituto de Comunicação Social. Com tanto
lheu a imprensa regional para publicar uma jornal, os acontecimentos dignos de nota
carta onde apresentava as razões da sua foram tão exíguos? As decisões tomadas pelos
candidatura à liderança do Estado francês, proprietários dos títulos e pelo Estado rela-
não o fez por mera simpatia para com estes tivamente à marcha do sector foram assim
órgãos de comunicação social. Fê-lo porque tão escassas?
sabia que a imprensa regional francesa tem Não espanta se, como faremos adiante,
20 milhões de leitores, o dobro dos que olharmos para as principais características da
preferem a imprensa nacional. imprensa local e regional e para o conteúdo
Nunca em Portugal se assistiu a um facto das decisões que sobre ela foram tomadas
semelhante. O anúncio de candidaturas a desde 1975.
cargos relevantes é invariavelmente forjado E volta a espantar se analisarmos o que
na imprensa nacional. O que faz sentido, na dizem dois estudos de opinião sobre a
medida em que, ao contrário do que acontece imprensa local e regional portuguesa. O
em França e em muitos outros países euro- primeiro, realizado em 2000 pelo Instituto
peus, a imprensa local e regional portuguesa de Pesquisa e Opinião de Mercado (IPOM)3,
vive genericamente mergulhada numa pro- mostra que 1.600 dos 2.859 entrevistados
funda letargia. liam, na altura do trabalho, mais jornais
Os dados que se conhecem sobre a regionais que nacionais. Isto é: cerca de 56
realidade do sector parecem atestá-lo à por cento da amostra então escolhida optava
saciedade, como adiante se verá. Mas se por ler notícias de âmbito regional em
dúvidas sobrassem sobre esta abulia que, no detrimento das de âmbito nacional, o que
limite, contagia e distorce o chamado espaço evidencia bem uma das principais característi-
público (um espaço democrático de expres- cas deste tipo de imprensa: “a estreita so-
são da cidadania, de interacção e de inter- lidariedade com a estrutura social local”
comunicação social, seguindo aqui o sentido (Alves, 1990: 242).
em que Habermas o concebia), bastaria olhar Em Outubro de 2003 ficaram a conhecer-
para a apresentação cronológica dos factos se as conclusões de um outro estudo sobre
mais relevantes ocorridos no campo da a imprensa regional, este da Marktest4. Mais
comunicação e dos media portugueses no de metade (50,9 por cento) dos inquiridos
período que vai de 1995 a 1999. Nesse referiu ler ou folhear jornais regionais. Ainda
“contributo para a memória e leitura da assim, o número de pessoas que têm algum
segunda metade dos anos 90, no que aos tipo de contacto com os jornais nacionais
media e à comunicação diz respeito” (Pinto ditos de informação geral (64,7 por cento)
et al, 2000:11), são elencadas 1325 referên- é superior aos leitores que contactam com
cias a notícias sobre este campo vindas a lume a imprensa regional (50,9 por cento).
nos principais órgãos da imprensa nacional. Alguma coisa parece não bater certo. Se
Quantas falam sobre a realidade dos media os estudos científicos mostram de forma
regionais? Sessenta e seis (66). Contas fei- evidente a importância da imprensa local e
tas, menos de 5 por cento do total2. regional, por que razão não tem ela visibi-
A percentagem espanta? Sim e não. lidade na leitura cronológica a que aludimos?
Espanta, se tivermos em consideração que A resposta talvez esteja no facto de os estudos
existem em Portugal, só no que diz respeito apenas mostrarem as potencialidades da
146 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

imprensa local e regional. Não falam das do ensaio: Mais do que incentivar o desen-
suas dificuldades e, por isso mesmo, não volvimento da imprensa local e regional, as
podem retratar a fraca qualidade da esma- políticas – ou a falta delas – definidas para
gadora maioria dos títulos. Acima de tudo, este sector pelos vários Governos têm
não explicam – nem era esse o objectivo – coarctado a sua evolução.
o atraso estrutural em que o sector se en- Esta discussão é tanto mais relevante
contra. Podem ser estas, entre outras, as quanto se sabe que o anterior e o actual
razões que explicam a quase ausência de Governo5 (os XV e XVI Governos constitu-
referências aos media regionais na cronolo- cionais formados pela coligação PSD/CDS-PP)
gia. têm vindo a prometer a realização de uma
O objectivo deste ensaio passa, justamen- verdadeira reforma estrutural no sector. Mas
te, pelo debate que nos pode conduzir às não a queríamos iniciar sem falarmos das
causas e as consequências do hiato entre a características da imprensa local e regional.
quantidade e qualidade na imprensa local e Agarraremos depois aquelas que nos parecem
regional portuguesa. O que atrás fica escrito ser as duas decisões mais relevantes sobre o
permite-nos assumir que a esmagadora sector – elaboração do Estatuto da imprensa
maioria dos títulos está longe de fazer o que local e regional e decisão de reduzir o porte-
se lhe pede: ser pago de que beneficiava, até aí a 100 por cento,
a maioria dos títulos – para entender quem
“um canal de transmissão de mensa- foram os actores e que movimentações en-
gens capaz de desempenhar um papel cetaram para alcançar os objectivos.
activo na“‘fabricação de ideias’ den- Dada a amplitude da reforma prometida
tro de uma comunidade em cujo seio pelo anterior e pelo actual Executivo, lan-
cresceu a nossa cultura pessoal” çaremos um olhar sobre o que é até agora
(Mathien, 1983:32). conhecido, para tentar perceber se, de facto,
as prioridades e o processo de decisão se
Desde logo, porque, em boa medida, a inverteram.
sua sobrevivência tem sido assegurada muito Só então arriscaremos dizer alguma coisa
à custa dos apoios que o Estado tem na conclusão do ensaio.
disponibilizado. Citemos apenas dois exem-
plos: dos 900 títulos, 645 beneficiam de Características da imprensa local e regi-
apoios estatais; e, só entre 1999 e 2003, foram onal
gastos mais de 89 milhões de euros em ajudas.
Independentemente de outros factores que Deixamos para um artigo sobre esta
podem contribuir para o entendimento desta mesma matéria submetido para publicação na
situação, este artigo irá centrar a sua atenção Revista Comunicação e Sociedade, número
na dimensão política do problema, por en- temático relativo à Economia Política da
tendermos que aí se situa o cerne dos pro- Comunicação, a análise do conceito de
blemas. Neste sentido: as políticas desenha- imprensa local e regional em Portugal e o
das, desde o primeiro Governo Constituci- debate sobre o papel que ela pode desem-
onal, para a comunicação social e regional penhar numa altura em que a deriva pós-
não têm incentivado a procura da qualidade, moderna e globalizadora obriga a reintroduzir
mas antes a manutenção da mediocridade. no debate a importância das identidades
Mais: em vez de falarmos na tomada de culturais e das comunidades locais e regi-
decisões, talvez seja mais relevante referir onais.
as não-decisões, tão escassas são as medidas Interessa-nos agora olhar para algumas
que, no seu conjunto e pelo seu alcance, das suas características, de modo a perce-
deixam antever a definição clara de uma bermos de que realidade falamos quando
política para o sector. As leituras indicam- falamos da imprensa local e regional.
nos que o trabalho de Steven Lukes (“Power: Os dados disponíveis no Instituto de
a Radical View”) sobre a tomada de decisão Comunicação Social mostram o seguinte:
é decisivo para tentarmos sustentar minima- i) Há 900 títulos de publicações perió-
mente a hipótese que nos guiará ao longo dicas;
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 147

ii) O número de jornais diários não partirmos para aí, importa, contudo, perceber
ultrapassa os 30; do que falamos quando falamos da tomada
iii) A periodicidade mais comum é a de decisões. O que é, afinal, decidir? Num
mensal, seguida da semanal; processo de tomada de decisões, que valores
iv) O conjunto de tiragens médias situa- e circunstâncias fazem pender a balança para
se perto dos 4.500 exemplares. Metade dos um dos lados e não para o outro? A não tomada
jornais com direito a porte-pago (645 no total) de decisões pode ser ela mesma uma decisão?
não vai além dos 2.500 exemplares; Quem intervém no processo decisório e quem
v) Só 8 por cento dos jornais tem tira- tem poder para tomar decisões?
gens acima dos 10.000 exemplares; O interesse pelo estudo das decisões tem
vi) Só 23 por cento das empresas em Herbert Simon um dos principais
jornalísticas tem contabilidade organizada percursores. Logo a seguir à II Guerra
vii) Só dez empresas ultrapassam os 500 Mundial, Simon procurou mostrar que os
mil euros de vendas anuais de publicidade. modelos matemáticos usados até então para
No documento que serviu de base à estudar as decisões eram insuficientes, ad-
apresentação da reforma dos media regionais, vogando que o importante é analisar o in-
o secretário de Estado com a tutela do sector divíduo (o decisor) e a organização onde ele
no XVI Governo Constitucional, Feliciano se insere. Por isto: na medida em que a
Barreiras Duarte, divulgou mais dados – uns decisão contém em si uma proposta de acção,
actualizam os do ICS e outros são novos e ela perceber-se-á tanto melhor quanto me-
relevantes. lhor pudermos identificar os actores nela
Assim: envolvidos.
i) A maioria dos jornais tem uma situ- Ou seja: a decisão não é mais que
ação económica débil;
ii) A tiragem média é de 4 mil exem- “o instante final de um processo que
plares; se inicia um tempo antes, muitas vezes
iii) A periodicidade mais frequente é a num momento difícil de identificar.
mensal (43%), seguida da semanal (30%) e Esse momento é aquilo a que muitas
da quinzenal (23%); vezes se chama o estímulo da deci-
iv) Apenas 15% da tiragem é vendida em são” (Camões, 1997: 81).
banca;
v) 281 dos títulos que recebem porte-pago Podemos igualmente falar de um “con-
não têm um único profissional com contrato junto de acções e factores dinâmicos que
de trabalho. começa com a identificação de um estímulo
para a acção e termina com o consenso ou
O exercício da decisão envolvimento para a acção” (idem,
ibidem).”Importa reter nestes conceitos uma
Por que razão se chegou a este estado? outra variável. É que, havendo muitos
O olhar que lançamos, no artigo da Revista intervenientes no processo de decisão, os
Comunicação e Sociedade a que aludimos factores externos são inequivocamente rele-
acima, sobre as políticas de informação dos vantes.” O ambiente muitas vezes pode
governos portugueses que se seguiram à também decidir” (idem, ibidem).
Revolução do 25 de Abril mostra que sempre Simon identificou dois tipos de decisões:
a imprensa local e regional foi uma espécie programadas ou de rotina e não programa-
de parente pobre dessas mesmas políticas. das. A tipologia clássica opta por uma clas-
Mesmo quando, com os Governos de Cava- sificação que nos parece mais rigorosa:
co Silva, a pulsão liberalizadora viu chegado i) decisões estratégicas (grande impacto
o seu tempo, o sector não deixou de ser a longo prazo, envolvendo muitos membros
olhado com o mesmo paternalismo de sem- e todos os níveis organizacionais);
pre. ii) decisões tácticas (impacto de médio
Essa realidade é evidente quando se prazo);
analisam as decisões mais relevantes que iii) decisões operacionais (impacto de
foram tomadas sobre o sector. Antes de curto prazo);
148 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Para a discussão que nos interessa aqui Lukes recorre aos trabalhos de Bachrach
levar a cabo deve acrescentar-se a importân- e Baratz6 e de Matthew Crenson7 para nos
cia dos aspectos políticos na tomada de explicar que estamos perante um processo
decisão: os jogos de poder, os grupos de em que
influência, os lobbies e a defesa dos seus
interesses. Veremos mais à frente como uma “os pedidos de mudança (...) podem
das principais decisões sobre a imprensa ser sufocados mesmo antes de serem
regional – o corte no porte-pago – tem todos verbalizados. Ou ‘mortos’ antes de
estes condimentos. subirem à arena da tomada de de-
cisões. Ou, falhando todas estas
O contributo de Lukes coisas, destruídos durante o estágio
da tomada de decisões no processo
Se o trabalho de Herbert Simon é im- político” (Lukes, 1974: 18, 19).
portante pela sua componente pioneira, o
contributo que Steven Lukes deu para o Do que se trata, no fundo, é de reco-
entendimento da tomada de decisões no nhecer que estamos perante assuntos de fron-
âmbito do exercício do poder é igualmente teira no espectro político. Ora, Bachrach e
de enorme relevância. Baratz consideram fundamental identificar
A primeira constatação de Lukes é esta: essas questões, na exacta medida em que
para perceber o exercício do poder, não basta a sua não colocação na agenda pode dizer
analisar as práticas facilmente observáveis. muito do poder político em causa e dos
A sua tese é a de que o poder tem três interesses que giram em torno de si.
dimensões: Mais: para os mesmos autores, a ideia
i) Visão unidimensional. A análise dos de que o poder na tomada de decisões só
é observável quando o conflito é aberto
processos de decisão faz-se através do es-
também se aplica à análise das não-deci-
tudo do comportamento dos vários protago-
sões.
nistas sociais. O que interessa é perceber
“Se não há conflito, aberto ou encober-
quem fez impor o seu ponto de vista e por
to, a presunção só pode ser a de que há
que razão o que conseguiu impor. Ou seja:
um consenso, caso em que a existência de
só podemos chegar a conclusões quando o
não-decisões é impossível”, escrevem os
conflito e a luta pelo exercício do poder são
autores, citados por Lukes (Lukes, 1974: 19).
abertos e observáveis.
Matthew Crenson é ainda mais lapidar.
ii) Visão bidimensional. O poder tem duas
A sua tese é basicamente esta: a análise das
faces: a tomada de decisões e a não tomada não-decisões é mais relevante do que a
de decisões. Neste último caso, evita-se a análise das decisões, visto que estas não nos
acção sobre questões em relação às quais não dizem nada sobre os grupos e os problemas
importa decidir, maneira de afastar da agen- que foram postos de lado na vida política
da pública as matérias mais complexas e de uma determinada comunidade. A sua
problemáticas para o exercício do poder. perspectiva agrada a Lukes, que a cataloga
iii) Visão tridimensional. Nas duas visões como estando na fronteira entre as segunda
anteriores, a noção de conflito está sempre e a terceira dimensões do poder.
presente. Ora, a melhor forma de exercer o Seja como for, Steven Lukes prefere
poder passa por eliminar o conflito, estágio aquilo a que chama uma concepção “radi-
a que corresponde justamente a visão tridi- cal” do poder, que tende para a eliminação
mensional. do conflito no exercício do mesmo. As
A nossa proposta inicial passava por leituras feitas sugerem-nos outra ideia, que
considerar que a imprensa regional e local tentaremos aprofundar na conclusão do
de Portugal tem sido vítima da não tomada trabalho: no caso dos media regionais e
de decisões. O que nos obriga, tendo por certo locais em Portugal, o exercício da não
que a sua operacionalização em termos ci- decisão não é paradoxal com a eliminação
entíficos não é fácil, a olhar com um pouco do conflito no exercício do poder. É com-
mais de cuidado para as não decisões. plementar.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 149

Pela política dentro É que a definição de imprensa regional


constante do Estatuto, a partir da qual se
Defendemos no início do trabalho que as lançam as bases para esta “política”, confun-
decisões mais relevantes e de carácter estri- de conceitos básicos. A definição mete no
tamente político tomadas até hoje no que diz mesmo saco realidades distintas. Um sema-
respeito aos medias regionais e locais se nário que, por exemplo, se edita num deter-
prenderam com a elaboração do Estatuto da minado concelho de Trás-os-Montes mas que
Imprensa Regional e com o corte no porte- cobre, com o contributo de jornalistas pro-
pago. Tentaremos agora sustentar esta ideia. fissionais, os distritos de Vila Real e
A análise de todos os programas dos Bragança, não é igual a um outro que, apesar
vários Governos constitucionais desde o 25 de editado no mesmo concelho, publica
de Abril até hoje (que fazemos na Revista apenas e só notícias dessa localidade e sem
Comunicação e Sociedade a que aludimos o contibuto de jornalistas profissionais. As
acima) é um bom ponto de partida. Desde duas realidades estruturalmente distintas. E,
logo, porque nos ajuda a elucidar a questão sendo assim, talvez mereçam “políticas”
central deste ensaio. Com mais ou menos distintas.
espaço nos vários Diários da República onde ii) Na mesma altura da publicação do
os programas são publicados, há um fio Estatuto, a tutela do sector estava entregue
condutor claro e evidente nas preocupações a Marques Mendes, então secretário de Estado
dos executivos: apoiar sempre, através da adjunto do ministro adjunto e para os As-
atribuição de subsídios, a imprensa regional suntos Parlamentares. Ora, Marques Mendes,
e local. em 1987, no encerramento do II Congresso
É no XI Governo Constitucional – o da Associação de Imprensa Não Diária, tinha
segundo dos Governos de Cavaco Silva – que sobre a imprensa regional e local esta visão:
se decide aprovar o Estatuto da Imprensa “A imprensa regional assume-se por mérito
Regional (Decreto Lei nº106/88, de 31 de próprio, com a carolice, o salutar amadorismo
Março), “através do qual o Governo reco- e a invulgar dedicação que são próprios de
nheceu formalmente o inegável interesse quem sente, com sinceridade, o que vive, o
público deste sector da comunicação social” que exerce, o que faz e o que realiza”8. O
(Silva, 1995: 24). O que se pretendia com “salutar amadorismo” pode bater certo com
o Estatuto? a “imprensa regional de melhor qualidade”
que o então primeiro-ministro, vislumbrava?
“Consagrar, de modo explícito, o iii) O comentário de Cavaco Silva ao
apoio do Estado à afirmação da Estatuto é elucidativo quanto à visão que o
imprensa regional, designadamente Governo tinha sobre os media regionais e
pela criação de instrumentos de ajuda locais. Porque nos parece muito redutor
à reconversão tecnológica e moder- considerar que a atribuição cega de subsídios
nização das suas estruturas e equipa- possa ser considerada uma política.
mentos. Ao longo destes anos, foram É, porém, no seu segundo Governo de
já mais de 400 os jornais regionais Guterres (XIV Constitucional) que se tomará
beneficiados, e os projectos de inves- a decisão que, provavelmente, mais abalou
timento concretizados permitiram que o sector desde o 25 de Abril.
hoje, de forma objectiva e inegável, Quando assumiu, em 1995, o lugar de
o País disponha de uma imprensa secretário de Estado da Comunicação Social
regional de melhor qualidade, mais no primeiro Governo de António Guterres,
pujante e com crescente afirmação Alberto Arons de Carvalho encontrou “um
social e cultural” (idem, ibidem). sector que, a par com alguma gente nova com
arrojo e com ideias, tinha muita gente aco-
Há três reparos que, a nosso ver, ajudam modada, muita gente que estava à frente de
a perceber o que está por detrás desta de- jornais regionais para manter uma tradição
cisão. familiar, sem nenhuma visão empresarial”9.
i) O Estatuto contém um erro susceptível Mais do que isso: “Também tive a noção
de desvirtuar as boas intenções do Governo. que havia um sistema de auxílios do Estado
150 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

que afastava a imprensa regional da procura hipótese senão procurar apoios no Parlamen-
da qualidade. O porte-pago a 100 por cento to. Foi o que fez. Mas também aí encontrou
fazia com que houvesse muitos jornais que gigantes resistências. Da Esquerda à Direita,
tinham uma tiragem ditada pela relação com praticamente todos os partidos se opunham
os anunciantes e não pela relação com os à medida. Todos, excepto o Bloco de Esquer-
leitores. Eram jornais praticamente gratuitos, da. Para “espanto” (sic) do secretário de
em grande parte”10. “Chegava a ser assus- Estado, os bloquistas permitiram, com os seus
tador. As pessoas viajam pelo país, vão aos votos, que a medida passasse no Parlamento.
quiosques comprar os jornais nacionais e não O novo diploma entrou em vigor em
encontram o jornal da terra. Como o porte- Março de 2001. Aplicado a publicações cujo
pago permitia que a distribuição fosse toda peso não ultrapasse as 200 gramas, o De-
feita, de borla, pelo correio, os jornais locais creto-Lei 56/2001 determina que a expedi-
não tinham visibilidade” nas bancas. ção passa a ser comparticipada em 95 por
O secretário de Estado decidiu que era cento se o jornal for enviado para um as-
tempo de alterar este estado de coisas e sinante residente no estrangeiro. No que diz
pugnar pela “moralização” (sic) do sector. E respeito à expedição para território nacional,
isso só se podia fazer alterando as regras do passavam a beneficiar de uma
porte-pago. comparticipação de 80 por cento nos custos
O processo conheceu duas fases. Numa os jornais que tenham cinco profissionais ao
primeira, quando o Governo era minoritário, seu serviço (três deles jornalistas) e com
a proposta enviada à Assembleia da Repú- tiragem média de 5.000 exemplares e com
blica não colheu a simpatia dos grupos periodicidade igual ou inferior à trissemanal;
parlamentares, que a viam como um entrave os jornais com pelo menos três profissionais
ao futuro da imprensa regional e local. ao seu serviço, dois dos quais jornalistas, e
Com a conquista, nas legislativas de 1999, tiragem média de 3.000 exemplares e com
de 115 deputados (no limiar da maioria periodicidade superior à trissemanal e igual
absoluta), o PS passou a ter outras condições ou inferior à semanal; os jornais com pelo
para fazer aprovar diplomas na Assembleia menos dois profissionais, um deles jornalis-
da República. Arons de Carvalho voltou à ta, e uma tiragem média de 1.000 exempla-
carga. Percorreu o país de lés-a-lés, falou com res; e os jornais com apenas um profissional
todas as associações do sector em busca de ao seu serviço e uma tiragem média de 1.000
apoios, tentou sensibilizar outra vez alguns exemplares e com periodicidade superior à
partidos da oposição (nesta segunda etapa já semanal e igual ou inferior à quizenal. Depois
não abordou o PSD. Com o CDS/PP não de uma fase de adaptação, em Janeiro de 2002
chegou a conversar em nenhuma altura), o Decreto-Lei passou a ser integralmente
escreveu a todos os directores dos órgãos de aplicado. Os valores de ajuda no porte-pago
comunicação social regional e local, expli- passaram a ser de 60 e 80%, consoante as
cou as suas razões na imprensa nacional e situações.
nalguns media locais e regionais. E por que razão foram reduzidos os
Apesar disso, a medida governamental apoios? Porque o Governo entendeu que as
provocou fragorosos protestos vindos de regras do jogo estavam falseadas, uma vez
praticamente todas as associações ligadas à que muitos jornais regionais e locais, poden-
imprensa regional e local. Em sucessivos do utilizar gratuitamente os serviços dos CTT,
comunicados enviados para os filiados e em enviavam milhares de exemplares para casa
sucessivas reuniões onde se juntavam os de pessoas que nem sequer eram assinantes
associados, o argumento foi sempre o mes- do jornal. O que trazia óbvias vantagens:
mo: o repúdio veemente do “sistema de exibiam-se tiragens elevadas junto dos anun-
aplicação e comparticipação” do porte-pago, ciantes e dos poderes locais, de modo a atrair
por este pôr “em causa a sobrevivência de mais publicidade, mesmo que nem um exem-
muitos jornais regionais, locais e para as plar sequer da publicação fosse colocado à
Comunidades”. venda nas bancas.
Com a esmagadora maioria da imprensa Falta, contudo, a parte politicamente mais
regional local contra si, Arons não tinha outra relevante desta história. É que Arons de
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 151

Carvalho teve também que gerir e ultrapas- e Fevereiro de 2001 e idênticos meses
sar os temores dentro do próprio Governo, de 2002, o que revela que nem mesmo
onde imensos colegas o alertaram para o o fim do período transitório, que
sarilho em que se estava a meter e, sobre- decorrera desde Março até ao fim do
tudo, para as consequências que daí podiam ano, provocou qualquer diminuição
advir para o Executivo. De tal modo que, significativa no número de jornais ou
quando o diploma subiu a Conselho de mesmo na circulação” (Carvalho,
Ministros, acabou por ser aprovado por um 2002: 115, 116).
fio. Um fio que é, parece-nos, de uma enorme
relevância para o que nos propusemos aqui Os dados de que dispõe o actual
discutir. governante com a tutela do sector (Feliciano
Os ministros, conta o secretário de Es- Barreiras Duarte, secretário de Estado adjun-
tado, temiam que o país profundo se ergue- to do ministro da Presidência) corroboram
se contra o Governo, depois de posto em o facto. “Poucos títulos desapareceram e na
prática o corte no porte-pago. No meio da circulação existem mesmo alguns números
discussão, um deles avançou um argumento que mostram um aumento”11. Pode pergun-
decisivo: se era certo que a aprovação da tar-se: a dura luta travada por Arons de
medida causaria danos ao Executivo, não era Carvalho de nada valeu? Ou será que os
menos certo que esses danos seriam menores números apenas provam que uma medida não
quanto menos fossem os jornais locais e faz uma política?
regionais a levantar-se contra o Governo. Por Segunda: apesar dos exíguos efeitos da
isso, havia que avançar rapidamente com o “moralização” encetada no Governo socia-
corte e esperar que alguns jornais locais e lista, estava “partida a pedra”, se nos é
regionais desaparecessem. Assim, a luta dos permitida a expressão, necessária para o
proprietários das publicações seria feita com lançamento de uma verdadeira reforma no
uma tiragem limitada. Caso não se optasse sector.
por essa via, seria feita com uma tiragem Relevante é, desde logo, o facto de o
ilimitada e, ainda por cima, sustentada pelo programa do XV Governo Constitucional
Governo. voltar a acentuar a defesa da imprensa re-
Isto é: a decisão final do Governo foi gional pelo lado dos apoios. “O Governo quer
tomada não porque o Executivo estivesse assegurar que o recente processo de concen-
convencido da bondade da medida, ou de que tração de empresas coexista de forma har-
ela beneficiaria, no futuro, a imprensa local moniosa com as iniciativas de pequena e
e regional, mas porque o que interessava em média dimensão, regionais e locais. Isso
minimizar os danos. Evitar o conflito. significa defender um regime de concorrên-
cia e definir um quadro de apoio a algumas
Novo Governo, novas regras actividades de maior risco, como é, por
exemplo, o caso da imprensa regional”.
O tempo encarregar-se-ia de provar duas Sucede que este chapéu é apenas uma pe-
coisas. quena parte do que o Governo de coligação
Primeira: meses volvidos sobre a redu- PSD/CDS-PP promete fazer com a imprensa
ção do porte-pago, era já claro para Arons local e regional.
de Carvalho que, além da “moralização”, a Na verdade, este modelo proteccionista
medida não tinha surtido o efeito desejado. não parece bater certo com o “modelo
empresarial” que o Governo quer pôr em
“Os dados mais recentes dos CTT marcha no sector. E que fica mais claro
demonstram que o número de exem- quando se olha para o programa do XVI
plares distribuídos baixou pouco, se Governo Constitucional. “Será implementado
os compararmos com os anteriores à um sistema de apoios que obedeça a aspec-
entrada em vigor da lei. A quebra de tos de maior racionalidade, com melhor
tráfego postal de jornais regionais, de gestão por parte das empresas e do Estado,
acordo com os dados dos CTT, limi- criando-se as condições para que a comu-
tou-se a cerca de 15% entre Janeiro nicação social regional e local se afirme como
152 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

um forte instrumento de coesão nacional e gional, ainda que não o faça de supetão. A
de promoção do desenvolvimento do país à melhor prova é a sua atitude em relação ao
escala regional, distrital e local”. Mas a famigerado porte-pago. “Nunca o porte-pago
“redução do peso do Estado na comunicação voltará aos 100%. Bem pelo contrário, ele
social regional e local será feita depois de irá diminuir paulatinamente”, assegura o
um período de transição durante o qual os governante.
apoios serão mais diversificados e mais Relevante para esta discussão é o facto
adequados às exigências do sector, designa- de Barreiras Duarte “ter sido avisado” por
damente na área da formação e da inserção vários colegas do Governo da embrulhada em
de profissionais, visando o surgimento de que se iria meter. “Achavam que eu devia
grupos empresariais de âmbito regional de ter procurado fazer o tradicional: reunir com
média dimensão, gerando condições para que as associações do sector e decidir de forma
os órgãos de comunicação se possam mo- a não criar grandes problemas”. Não há
dernizar e fazer face a uma situação que, no melhor maneira de evitar o conflito.
futuro, terá mais mercado e menos Estado”. O Conselho de Ministros de 7 de Ou-
“O modelo assente na carolice e no apoio tubro de 2004 acabou por aprovar vários
do Estado está perto da falência”, entende projectos de Decreto-Lei sobre o sector.
Barreiras Duarte. Por isso, “há que escolher A reforma divide-se, genericamente, em
caminhos alternativos. Tínhamos dois pos- cinco diplomas (um deles dedicado à Lei da
síveis: ou caminhávamos para o modelo Rádio) e é complementada com cinco deci-
liberal (o Estado saía do sector e o mercado sões administrativas. Vejamos, de forma
fazia a selecção), ou ficaríamos no meio sintética, as linhas mestras que interessam à
termo, optando pelo modelo empresarial. imprensa local e regional:
Optámos por este”.
E em que se traduz este modelo? “Na i) Alteração do regime dos incentivos
necessidade de melhorar a qualificação do lançando uma única medida que visa:
sector, de aprofundar a empresarialização e - Incentivo à criação de parcerias estra-
de permitir que o Estado dê apoios premi- tégicas
ando o mérito e aqueles que são profissio- - Requalificação de infra-estruturas
nais. Os jornais e as rádios vão ter oportu- - Gestão e valorização profissional
nidade de receber de forma maciça, num - Desenvolvimento tecnológico e multi-
período transitório de três anos, novos apoi- média
os para que se criem as condições mínimas - Difusão do produto jornalístico
para que o sector se profissionalize”. Findo - Expansão cultural e jornalística nas
esse período, subentende-se, o mercado fará comunidades portuguesas
a selecção. - Introdução de um critério diferenciador
Um plano de formação para o sector entre regiões mais e menos desfavorecidas.
(apostas na gestão empresarial, no marketing
e publicidade, na maquetagem, em anima- ii) Diploma do porte-pago
dores de rádio, entre outras coisas), a criação - É adoptado o princípio de que se trata
de instrumentos de apoio à contratação de de um apoio à leitura (assinantes) e não aos
jornalistas profissionais, a elaboração de um jornais, como acontecia até aqui
plano nacional de promoção da leitura, uma - Novo regime reduz a comparticipação
majoração dos apoios para os media locais média do Estado para 50% dos custos de
e regionais do interior do país estão entre expedição, contra os actuais 80%
as medidas que o Governo conta pôr em - Após os três anos de transição previs-
prática. tos, as publicações que não tenham qualquer
Estamos já bem longe do modelo pro- requisito de profissionalização perdem o
teccionista que o Governo propõe no seu porte-pago.
programa. Na verdade, o modelo, embora
híbrido, tem, no limite, uma forte compo- iii) Publicidade do Estado
nente liberal, na medida que o Estado propõe - Nas campanhas de valor superior a 15
o seu afastamento da imprensa local e re- mil euros, passa a ser obrigatório destinar
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 153

25% desse valor à comunicaçãoo social a melhor – senão a única – forma de ajudar
regional e local. Actualmente, o valor é de ao seu desenvolvimento. Trata-se, a nosso ver,
15% para campanhas superiores a 100 mil de uma atitude errada, mas que não nos
euros. espanta, visto que, se nos ficarmos apenas
pelo exercício do poder dos últimos deten-
iv) Alteração ao Código da Publicidade tores da tutela do sector, percebemos que
- Os boletins pertencentes à administra- raramente houve uma ideia clara – uma po-
ção local não podem ter publicidade, salvo lítica, enfim – sobre o que fazer para criar
se forem empresas municipais. no país condições para o desenvolvimento
sério de jornais locais e regionais, equilibran-
v) Decisões administrativas complemen- do quantidade e qualidade.
tares A definição de uma política para o sector
- Apoio à contratação de profissionais. não se pode nunca resumir, parece-nos, ao
O Estado suporta parcialmente os salários desenho, mais ou menos bem gizado, de um
durante três anos, sendo depois os jornalistas modelo de apoios do Estado. Não se trata
contratados em definitivo pelas empresas de defender o fim das ajudas. Fazê-lo de
- Plano de formação descentralizado para supetão seria seguramente contraproducente.
diversas áreas Trata-se, isso sim, de perceber que os de-
- Plano e campanha para incentivar a safios que se colocam aos jornais locais e
leitura da imprensa regionais só podem ser ultrapassados estu-
- Protocolo com a Agência Lusa em que dando, um a um, os problemas que os afec-
o Estado subsidia o serviço orientado para tam e definindo, a partir daí, uma política
as necessidades dos meios locais e regionais clara que os ajude a crescer em tamanho e
- Criação de um portal ao serviço da importância.
comunicação social regional e local. É, obviamente, mais cómodo – e poli-
ticamente mais interessante – distribuir sub-
Com estas medidas, o Estado conta sídios. Mas isso não faz, como temos vindo
combater a pulverização do sector e espera a notar, uma política. Mais: tende a preju-
que entre 50 a 100 meios locais e regionais dicar quem investe com seriedade em pro-
fiquem pelo caminho (não se sabe se a curto, jectos jornalísticos, porque mantém artifici-
médio ou longo prazo, o que faz alguma almente o que naturalmente o mercado re-
diferença para avaliar o impacto pretendido jeitaria.
com a reforma). Também por isso, os títulos Não nos parece, por isso, abusivo con-
criados nos cinco anos imediatamente a seguir cluir que o actual estado da imprensa regi-
à entrada em vigor da nova lei não terão onal e local portuguesa é tributário da au-
direito a qualquer tipo de apoio do Estado. sência de uma política digna desse nome para
o sector. E mesmo quando alguma decisão
Conclusão estratégica (para recorrer à tipologia clássi-
ca) se toma sobre ele (caso do porte-pago),
Recordemos a hipótese de trabalho que percebemos, pela movimentação dos actores,
decidimos lançar no início do ensaio: mais que estamos a falar, para regressar a Lukes,
do que incentivar o desenvolvimento da de uma decisão que fica na fronteira entre
imprensa local e regional, as políticas – ou a visão bidimensional e a visão tridimensi-
a falta delas – definidas para este sector pelos onal do poder. Porquê? Porque os vários
vários Governos têm sido um factor de Governos sabiam que a questão, trazida para
constrangimento à sua evolução. a agenda pública, podia causar grande
A análise dos programas de Governo e celeuma (visão bidimensional), como causou.
das circunstâncias em que foram tomadas Mesmo assim, quando se tratou de tomar uma
algumas das mais importantes decisões sobre decisão tão importante, o que prevaleceu foi
a imprensa regional e local portuguesa per- o argumento a favor da minimização do
mite concluir que, sobre este sector, sempre conflito (visão tridimensional).
os Governos tiveram uma visão limitada, Quando olhamos, por exemplo, para os
consubstanciada no facto de verem nos apoios nossos vizinhos espanhóis (Espanha tem
154 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

apenas 213 jornais locais e regionais, contra As perguntas são legítimas: a qualidade e o
os 900 portugueses), percebemos bem a número de leitores da imprensa local e regional
importância que os media regionais e locais subiram? Não. Subiu o número de títulos (40%),
ali têm. A evolução neste e noutros países mas baixou o índice de leitura (11%).
fez-se com o apoio do Estado, mas nunca As mudanças previstas pelo actual Go-
na dependência do Estado. O caso mais verno parecem, contudo, abrir uma porta por
paradigmático é, porventura, o dos países onde possa entrar ar fresco para imprensa
nórdicos. Apesar dos excelentes índices de local e regional. Ainda assim, o aviso feito
leitura, o Estado continua a apoiar os jornais. pelos colegas de Barreiras Duarte quanto aos
Sucede que esses apoios não são dados, as “perigos” que as mudanças encerram traz de
mais das vezes, para os títulos sobreviverem, volta a tentativa de eliminar o conflito na
mas sim para crescerem. tomada de decisões.
Em Portugal acontece exactamente o Era bom que assim não fosse. É que, neste
contrário. Em bom rigor, o Estado é “dono” tempo em que a “crise de esperança” nos
de uma boa parte dos 900 títulos da impren- enreda “num quotidiano higienizado e atolado
sa local e regional, porque sem as suas ajudas no indiferentismo e absentismo políticos”
eles muito provavelmente não sobreviveri- (Pinto et al, 2003: 9,10), a imprensa local
am. e regional, além de tudo o mais, pode ser
E é mau “dono”, acrescente-se. Tomemos um instrumento decisivo para impedir que
apenas como exemplo o porte-pago (uma se enruguem ainda mais as nossas identida-
singularidade nacional, na medida em que, des pessoais e comunitárias e que se reganhe
com excepção de França – onde a a importância da cidadania e da intervenção
comparticipação do Estado é de apenas 30% e participação na esfera pública.
– não existe apoio idêntico em toda a Se, um dia, um candidato à presidência
Europa). Entre 1991 e 2003, foram gastos da República portuguesa decidir anunciar a
mais de 208 milhões de euros. E entre 1999 sua disponibilidade na imprensa local e
e 2003 despenderam-se mais de 89 milhões regional, estaremos seguramente mais perto
de euros em incentivos directos e indirectos. desse desejável patamar.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 155

Bibliografia Pinto, Manuel et al, A comunicação e os


media em Portugal (1995-1999), cronologia
Alves, Aníbal Augusto, “Imprensa local e e leituras de tendências, Braga, Edição do
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vol.3. Braga, Universidade do Minho, 1990. da Universidade do Minho, 2000.
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em destaque”, in Cadernos do Noroeste, serviço público, Braga: Edição do Departa-
vol.4. Braga, Universidade do Minho, 1991. mento de Ciências da Comunicação da
Alves, Aníbal Augusto, “A informação Universidade do Minho, 2003.
construída”, in Cadernos do Noroeste, vol.5. Programas dos Governos Constitucionais
Braga, Universidade do Minho, 1992. de Portugal: I a XVI, Apresentação e Debate,
AR – Divisão de Edições, Lisboa.
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Silva, Aníbal Cavaco, As reformas da
decisão numa organização municipal: estudo
década, Venda Nova, Bertrand Editora, 1995.
exploratório”, Factos & Ideias, II Série, Vol.
1, nº1, pp. 79-99, 1997.
Carvalho, Alberto Arons, Valerá a pena _______________________________
desmenti-los?, Coimbra, Minerva, 2002. 1
Este texto resulta de uma investigação ainda
Congressos da Associação de Imprensa em curso tendo em vista a apresentação de uma
Não Diária, volumes I a VI. tese de Mestrado na Universidade do Minho.
2
Dowding, Keith M., Rational Choice and O trabalho é de enorme relevância, não só
Political Power, England, Edward Elgar porque, para o período em análise, nada de análogo
existe em Portugal, mas também porque permite
Publishing Company, 1991. perceber as grandes linhas de força e as decisões
Esteves, João Pissara, “Comunicação re- tomadas neste campo, na medida em que a
gional e local em Portugal: a situação da compilação foi feita nos jornais “Expresso”,
imprensa e os grandes desafios do audio- “Diário de Notícias” e “Público”, publicações que,
visual”, in Cadernos do Noroeste, vol.3. pelo seu carácter, tendem a dar mais visibilidade
Braga, Universidade do Minho, 1990. às grandes decisões políticas.
3
“A imprensa regional em Portugal – elemen-
García, Xosé López, A prensa local e
tos para a gestão estratégica e planeamento
comarcal en Galicia, Lugo, Edicións Léa, publicitário”.
1992. 4
“Bareme Imprensa Regional”, realizado pela
García, Xosé Lopez et al, “El valor social Marktest.
5
de la información de proximidad”, Revista À data em que este texto foi concluído, o
Latina de Comunicação Social, número 7, Governo PSD/CDS-PP encontrava-se já em ges-
Julho de 1998, La Laguna (Tenerife), tão, na sequência da dissolução do Parlamento
decidida pelo Presidente da República.
URL: http://larazillo.com/latina/a/ 6
“The two faces of power”, American Political
68xose.htm. Science Review, 56, 1992, pp. 947-52
García, Xosé Lopez, “La información de 7
The un-politics of air pollution: a study of
proximidad en la sociedad global”, Revista non-decision making in the cities, Baltimore e
Latina de Comunicação Social, número 13, Londres, The Johns Hopkins Press, 1971
8
Janeiro de 1999, La Laguna (Tenerife), “II Congresso da Associação de Imprensa
URL: http://larazillo.com/latina/a1999c/ Não Diária – Aposta no Futuro”, Lisboa, 1998
9
140xose.htm. As citações usadas doravante e atribuídas
García, Xosé Lopez, “La comunicación a Arons de Carvalho resultam de uma entrevista
feita em Dezembro de 2001, no âmbito da recolha
del futuro se escribe con L de local”, Revista
de materiais para a elaboração de uma tese de
Latina de Comunicação Social, número 34,
mestrado sobre esta matéria. A reprodução do
Outubro de 2000, La Laguna (Tenerife) conteúdo da entrevista está devidamente autori-
URL: http://www.ull.es/publicaciones/la- zada.
tina/aa2000kjl/w34oc/41xose.htm 10
Hoje, o conjunto de incentivos do Estado
Lukes, Steven, Power: A Radical View, à comunicação social está divido em dois: incen-
Londres, MacMilan Press, 1974. tivos directos (modernização tecnológica; forma-
156 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

11
ção e qualificação profissional; criação de con- Todas as declarações atribuídas a partir daqui
teúdos na Internet; inovação e desenvolvimento a Feliciano Barreiras Duarte resultam de uma
empresarial; incentivos específicos; e incentivos entrevista feita em 22 de Janeiro de 2003 no âmbito
à edição de obras sobre comunicação social) e da recolha de materiais para a elaboração da tese
incentivos indirectos (porte-pago). O porte-pago de mestrado. O uso dessas declarações neste
leva, de longe, a fatia de leão. trabalho foi devidamente autorizado.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 157

Comunicação e mercado: a lógica televisiva moçambicana


Valério Cruz Brittos1 e João Miguel2

Introdução conquistar a opinião pública. As entidades


da sociedade civil, embora de forma tímida,
Contemporaneamente, com o desenvolvi- também se mobilizaram em busca de
mento sem precedentes das tecnologias da in- agendamento e debate de assuntos menos-
formação e da comunicação (TIC), o campo prezados pelas elites econômica e política,
da mídia se tornou um lugar privilegiado de como é o caso das desigualdades sociais e
luta por publicização das demandas sociais. da pobreza nas periferias das grandes cida-
A centralidade do campo midiático acontece des e nas zonas rurais.
numa altura em que o capitalismo assumiu O surgimento de novas emissoras de TV,
uma nova fisionomia, enfaticamente do setor privado, na década de 90 marca esta
globalizada, e revela-se marcado pelo nova fase, da Multiplicidade de Oferta, ainda
neoliberalismo e seus ditames de desregulação em processamento, na medida em outras
e privatização, com o consequente enfraque- operadoras abertas e comerciais estão entran-
cimento do poder estatal. Essa tendência do do no cenário. É com base nesse pressuposto
capitalismo contemporâneo beneficia a um que urge compreender a lógica da TV
pequeno grupo de corporações que intervêem moçambicana no âmbito da economia de
diretamente a partir do exterior, resultando daí mercado. A reflexão, margeada pela Econo-
a transnacionalização e a oligopolização. Essa mia Política da Comunicação, é pertinente,
conjuntura faz com que países não centrais, na medida em que permite captar as relações
particularmente os africanos, permaneçam dominantes/dominados tanto das grandes
numa situação desfavorável, herdada dos instituições internacionais, quanto do
tempos da colonização e que tenderá a se empresariado nacional centrados no lucro, em
perpetuar enquanto continuarem nas armadi- detrimento de interesses da coletividade.
lhas do Fundo Monetário Internacional (FMI)
e do Banco Mundial. A maioria dos países A nova fisionomia do capitalismo
africanos não faz senão direcionar boa parte
dos seus recursos para pagar a dívida externa, Uma nova fase do capitalismo pode ser
em detrimento de políticas públicas e sociais demarcada como tendo início nos três de-
deveras urgentes nesses países. É justamente cênios finais do século XX. Imbricam-se
dentro deste contexto global e particular que globalização e neoliberalismo, numa conflu-
se insere a mídia em Moçambique. ência estratégica modeladora do capitalismo
O fenômeno televisivo moçambicano, a contemporâneo. As medidas previstas no
partir do momento em que foi adotada a receituário de desmontagem de grande parte
economia de mercado e publicada a Lei 18/ das atividades estatais, com seu repasse à
91 de 10 de agosto, a Lei da Imprensa, iniciativa privada, são adotadas como con-
incorporou-se na dinâmica do capitalismo dição necessária para a plena efetivação do
contemporâneo. O empresariado nacional, movimento globalizante. Em alto grau a
formado em boa parte pelos membros do globalização insere-se num panorama de
grupo governista, e o empresariado expansão do capital (na verdade, inerente ao
transnacional passaram a utilizar esse meio próprio capitalismo), paulatinamente sendo
como alavanca de rentabilização de seus abertos e ocupados novos espaços para in-
negócios. Os políticos, agora com diversida- versão, pelas corporações transnacionais,
des ideológicas, de acordo com a nova dinâmica complementada – com uma inten-
Constituição, também perceberam que, quanto sidade crescente – pelo livre fluxo de recur-
mais visibilidade, mais chances tinham de sos diretamente financeiros. A política
158 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

neoliberal ganha dimensão, desde os anos 70, através dos quais a classe dominante
contribuindo através de liberalização, controla os meios de distribuição
privatização e desregulamentação, o que cultural. Diferentes contradições es-
permite novos lugares para os capitais. Para tarão em jogo, contradições que
a viabilização disso tudo, é primordial o papel necessitam ser especificadamente
exercido pela tecnologia, especialmente os analisadas em cada caso.4
satélites e as redes terrestres de transmissão
de dados, auxiliares no funcionamento (sin- Relativamente ao audiovisual, o mundo
cronizado) dos mercados. todo atravessa um período de transição,
De um ponto de vista estrutural, a admitindo-se variáveis que vêm se sobrepon-
globalização deve ser entendida como a forma do progressivamente, como a segmentação, o
atual de um processo mais antigo de transfor- pagamento pelos serviços, a amplitude de
mações profundas do capitalismo em nível produtos ofertados e a digitalização. Confor-
mundial, no interior do qual os aspectos me Giuseppe Richeri, o setor televisivo en-
econômicos, ligados à expansão do capital fi- frenta atualmente muitas dificuldades, desta-
nanceiro internacional e de transna-cionalização cando-se o contínuo incremento dos custos de
do capital produtivo, articulam-se a outros, de produção, também porque os programas devem
ordem política e cultural. “A chamada ter cada vez mais atrativos técnicos e expres-
globalização é um elemento da atual transfor- sivos para conquistar a audiência, em uma
mação do sistema capitalista em âmbito mun- situação de crescente concorrência; o forte
dial que, tomado isoladamente ou numa pers- aumento dos preços dos direitos de emissão,
pectiva monodisciplinar, tende a tornar-se uma sobretudo para os produtos de ficção e para
das palavras de ordem da ideologia neoliberal”.3 os eventos; a progressiva fragmentação do
Este fenômeno tem sido não raro fetichizado, público, devido ao aumento dos canais e às
dimensões dos distintos mercados nacionais,
devendo-se buscar sua elucidação a partir da
que limitam a capacidade de pagar com
Economia Política Marxiana. Tal dinâmica
publicidade os custos dos programas; e o
assenta-se sob dois pontos, a existência de um
crescimento das normas que reduzem as fontes
sistema financeiro internacional funcionando
de financiamento do setor.5 Para que um bem
essencialmente fora do controle dos Estados
simbólico seja assimilado, aceito e consumido
nacionais e a mundialização do sistema produ-
por um dado tempo pelo receptor, a diferen-
tivo, resultado também de um processo histórico
ciação do produto hoje requer maior elabo-
cujas origens próximas estão na crise do modelo ração estético-expressiva, o que não pode ser
de desenvolvimento do pós-guerra. alcançada sem intervenção de uma grande
No âmago desta realidade do capitalismo soma de recursos.
contemporâneo, os processos culturais e É em meio a esse contexto global que se
comunicacionais, majoritariamente circulan- formou o mercado televisivo moçambicano,
do sob a forma de mercadoria, podem ser justamente numa fase em que o novo marco
desenvolvidos através de diversas formas de regulatório da mídia preconizava uma
financiamento: pluralidade de opiniões, diferentemente do
período anterior quando os órgãos de comu-
[...] sob o capitalismo, os meios da nicação deveriam se orientar de acordo com
produção cultural podem ser forneci- os princípios marxista-leninistas. O advento
dos tanto na forma mercadoria, como da economia de mercado e o surgimento de
parte da acumulação do capital (ex.: outras operadoras comerciais marcaram o
discos); quanto parte do processo de início da fase da Multiplicidade da Oferta, cujo
realização de outros setores da eco- processo ainda está em formação, na medida
nomia capitalista (ex.: publicidade); em que outras emissoras estão ingressando no
quanto diretamente através da renda cenário.
dos capitalistas (ex.: patrocínio das
artes); quanto através do Estado. Cada A TV e a Multiplicidade da Oferta
um dos meios acima de distribuição
do excedente para a esfera cultural A concorrência deve ser considerada além
afetará diferenciadamente os meios dos métodos de disputa, constituindo-se no
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 159

processo de enfrentamento dos vários capi- abertas e duas por assinatura, estas ainda
tais, ou seja, no motor básico da dinâmica privilégio de poucos. Isto tem forçado a TV
capitalista, fundando teoricamente a análise aberta, principalmente nos últimos tempos,
dinâmica dos mercados no capitalismo. Dito com a introdução de novas operadoras, a
de outra forma, sem concorrência - e não repensar e a reestruturar a sua grade de
livre concorrência, uma exceção no jogo programação, o que desemboca na inserção
capitalista – não haveria o próprio capita- de programas majoritariamente lúdicos, com
lismo, pois é através dela que os capitais finalidade de garantir maior audiência e o
participam do sistema sócio-econômico. Não faturamento publicitário daí decorrente.
é um mecanismo de preço de mercado to- Bustamante já havia se dado conta dessa
mado como dado ou um ajustamento às tendência ao afirmar que a curto e médio
posições de equilíbrio, mas um processo prazos a programação televisiva está clara e
interativo entre unidades econômicas, visan- necessariamente marcada por um
do a apropriação privada dos lucros e o conservadorismo e repetição imprescindíveis
correspondente aumento do valor de capital.6 para manter a fidelidade do público e o atrativo
Cada mercado terá um padrão de concor- para os anunciantes, diante de mudanças que
rência específico, que será redefinido com base supõem um rico perigoso.9 A predominância
nos elementos estrutura produtiva e estratégias da lógica mercadológica na práxis das ope-
de concorrência. O padrão de concorrência radoras de TV moçambicanas é comprovada
característico de uma dada estrutura de mer- pela análise feita à programação, às estruturas
cado, por sua vez, se resolve no nível das e aos mecanismos de funcionamento das duas
barreiras à entrada.7 Se a estrutura produtiva principais emissoras do país que representam
refere-se às questões próprias de cada merca- os dois setores, o público e o privado, a
do, as estratégias de concorrência dizem res- Televisão de Moçambique e a Televisão
peito às decisões de cada corporação frente às
Miramar, respectivamente.
particularidades do setor. Esses fatores permi-
tem a passagem ao plano das estruturas de
a) as grades de programação
mercado, conceito unificador de indústria e
Numa indústria televisiva, o resultado final
mercado, para captar suas especificidades,
do trabalho realizado é a programação
definidas considerando-se os ramos de atividade
disponibilizada ao telespectador. Toda a or-
que possuem uma dada individualidade.
ganização e todo tipo de investimento que as
São cinco as classes de estruturas de
mercado, segundo a tipologia dinâmica de emissoras televisivas empreendem tem em
Possas, que, por sua vez, incorpora os avan- vista essa finalidade, e, a partir daí obter lucro,
ços de Sylos-Labini e Maria da Conceição que advém dos anúncios publicitários inseri-
Tavares: oligopólio concentrado, oligopólio dos na programação. A Miramar, comercial,
diferenciado, oligopólio misto, oligopólio e a TVM, com seu caráter misto, ao orde-
competitivo e mercado competitivo.8 A es- narem as suas grades, levam em conta esse
trutura própria das indústrias culturais é o aspecto. Assim, o fluxo não é aleatório, mas
oligopólio diferenciado, onde a disputa acon- é montado de modo a prender o maior nú-
tece devido à diferenciação do produto, mero possível de pessoas à tela. Para que isso
havendo um esforço competitivo centrado em aconteça e, principalmente, para fazer face à
publicidade, comercialização e inovação, não concorrência, as emissoras optam por produ-
sendo habitual, portanto, a concorrência em tos que apresentam menos riscos, com garan-
preços. A natureza das barreiras à entrada não tia de retorno, em termos de faturamento. Essa
se prende a economias técnicas, nem ao tendência contemporânea da mídia esbarra com
volume mínimo de capital, mas sim às a pretensão da regulação do setor segundo a
economias de escala de diferenciação, liga- qual os meios massivos devem contribuir para
das à persistência de hábitos e marcas. a informação, formação, defesa dos valores
culturais, identidade cultural. Tendo sido
A lógica televisiva moçambicana selecionada a programação correspondente a
semana 3 a 9 de agosto de 2003 obteve-se
O contexto atual do setor televisivo em o seguinte quadro, de acordo com as cate-
Moçambique conta com quatro operadoras gorias estabelecidas:
160 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Quadro 1: Categorias de análise estabelecidas

Categorias Televisão de Moçambique Televisão Miramar


Nacional 61h.15min - 55,9% 60h.00min - 43,2%
Internacional 48h.25min - 44,3% 77h.00min - 56,8%
Informativo 27h.05min - 24,7% 09h.00min - 06,5%
Educativo 14h.35min - 12,8% 00h.00min - 00,0%
Cultural 10h.05min - 09,1% 00h.00min - 00,0%
Entretenimento 53h.35min - 48,6% 72h.20min - 52,5%
Religioso 00h.00min - 00,0% 62h.06min - 43,2%
Inédito 90h.13min - 76,1% 135h.30min - 99,6%
Reprise 18h.47min - 23,9% 01h.30min - 01,4%
Fonte: Cálculos dos autores.

Se abordar assuntos de interesse nacional Em termos de programas informativos, a


é um dos requisitos para a consolidação da emissora pública reserva 24,7% para servi-
unidade nacional, a TVM tem observado esse ços noticiosos, reportagens, magazines e
aspecto, na medida em que 55,9% da sua debates, o que pode ser destacado como
programação é produzida dentro país. Não se positivo. A emissora também criou o progra-
poderia esperar outra coisa de uma operadora ma Ver Moçambique, para trazer a realidade
pública, a qual, segundo Felisbela Lopes, “deve das províncias ao conhecimento do público,
ser uma janela aberta contra a exclusão, con- o que ainda falta nas demais produções
tribuindo para a integração social e cultural, telejornalísticas, centralizadas nos aconteci-
a fim de garantir a coesão nacional”.10 Porém, mentos da capital do país e em número
boa parte dessa programação é repetição reduzido notícias da capital provincial de
(23,9%), resultando daí, muitas das vezes, um Sofala, a segunda maior cidade de
desinteresse por parte do telespectador, que, Moçambique.
tendo assistido a um certo programa, não tem Dentro da categoria informativo, merece
interesse em vê-lo novamente, ainda mais em uma especial atenção o programa Espaço
curto espaço de tempo. Programas que impli- público, produto que vai ao ar aos domingos,
quem poucos gastos e com qualidade poderiam com uma duração de 60 minutos. Um tema
ocupar espaços reservados às reprises. de interesse público é escolhido pela produção.
Já a Televisão Miramar, com bastante Geralmente tratam-se de assuntos relacionados
tempo de antena, 137 horas semanais, conta com problemas municipais. Em seguida essa
com uma programação nacional com menos equipe desloca-se para locais onde as pessoas
da metade do total, ou seja, 43,2%, sendo são abordadas para opinar sobre a questão. As
que diversos programas de cunho religioso instituições responsáveis pela solução das
ocupam boa parte daquilo que é produto questões em causa também dão a sua versão.
nacional. De um universo de 57 horas e 16 O público tem mostrado nesse programa uma
minutos em que a Miramar disponibiliza aos maturidade democrática desconhecida pelo
seus telespectadores assuntos de caráter poder executivo, acostumado a procurar solu-
religioso, quase todo é reservado aos relatos ções independentemente da comunidade, que
de pessoas supostamente beneficiadas por é lembrada nos períodos eleitorais.
curas milagrosas ou então aos cultos ou Miramar Notícias, Jornal da Miramar e
orações feitos pelos bispos. Da programação Jornal da Record são tudo, em termos in-
proveniente da Rede Record, do Brasil, conta formativos, o que a Televisão Miramar dis-
principalmente com os cultos shows promo- ponibiliza para os telespectadores, o que
vidos em estádios e grandes templos, com corresponde a 6,5%. Do total desse tempo,
a presença de numerosas pessoas. Feitos na somente um quarto trata da atualidade na-
linguagem televisiva, esses espetáculos têm cional, sendo que apenas uma média de 2
tudo para captar interesse da audiência. minutos noticia fatos de fora de Maputo. As
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 161

notícias do Brasil, com maior destaque, e as fé evangélica compartilhada pela Universal


do resto do mundo são obtidas diretamente e outras igrejas. Isso quer dizer que mais de
da Record, o que dá a sensação de estar diante 90% dos moçambicanos não vêem suas
da emissora brasileira, na medida em que as manifestações religiosas visibilizadas pela
notícias não são editadas. Miramar.
A TVM, com uma porcentagem razoável Por sua vez, a TVM, a partir do momento
de programas informativos (24,7%), precisa, que aumentou mais três horas diárias na sua
ainda, fazer que essa informação seja o programação, gasta 12,8% do seu tempo
reflexo do país como um todo e também com semanal em programas como Telescola, Es-
que assuntos de um Moçambique real venham tórias de vovô, Mosaico artístico, Masseve,
à tona, o que tem sido dificultado pelos etc, o que mesmo sendo algo positivo, fica
dirigentes, acostumados aos tempos aquém do que se espera de uma televisão
monopartidários, em que a Frelimo sonegava pública. Segundo Helena Sousa, “apesar das
a informação real e disponibilizava os dados profundas alterações que os sistemas
que tendessem a imprimir uma boa imagem televisivos nacionais sofreram na última
da sua governação. Já a Miramar, de acordo década, continua a esperar-se que cumpram
com o levantamento, não prima nem pela determinadas funções sociais, nomeadamente
quantidade e nem pela qualidade: o Jornal de educação, de socialização, de construção
da Record (programa brasileiro) reproduzido de identidade nacional, etc.”;12 isso sem dis-
integralmente pela emissora comporta muita tinguir o setor público do privado. Eviden-
informação sem importância imediata para os temente a TV pública tem obrigações acres-
moçambicanos. cidas, já que a função pedagógica e a inte-
A ausência de programação educativa e gração cultural nacional são tradicionalmente
cultural, agregado ao fato da insuficiência de reconhecidas como preocupações de um ser-
programas informativos na Televisão Mira- viço público na área da comunicação social.
mar, causa estranheza, não obstante ser uma Entretenimento (52,5%) e atividades
emissora privada. Esses tipos de programas religiosas da Igreja Universal do Reino de
(culturais e educativos), eminentemente de Deus (43,2) dividem boa fatia da grade de
interesse público, poderiam merecer um lugar programação da Televisão Miramar. Esses
na grade da emissora, mesmo que fosse em programas são majoritariamente produzidos
horas de menos audiência (day-time), o que pela Record, o que, de certa forma, não
não iria comprometer os objetivos lucrativos proporciona gastos amiúde necessários para
que norteiam qualquer operadora do gênero. uma boa produção televisiva. Porém,
Nieto é da opinião de que deve haver uma objetivos lucrativos não deveriam sobrepor-
boa relação entre as finalidades comercial e se aos interesses dos moçambicanos.
as necessidades da coletividade nos meios de Se o objetivo é analisar como uma
comunicação. Assim, será garantida a sobre- operadora pública, a TVM e outra privada,
vivência da mídia e a comunidade vai se a Miramar, se relacionam com a questão do
beneficiar de um espaço público.11 Constata- bem comum, que, a priori, deveria nortear
se que se privilegia apenas os crentes da as suas práticas, refletindo-se numa progra-
Universal, razão de sustento da emissora, e mação diversificada e agregadora, os resul-
se deixa de lado os princípios previstos pela tados ainda estão distantes desse ideal. Isto
lei, nos quais os meios de comunicação social porque a TVM, enquanto emissora pública,
devem contribuir a preservação da pluralidade precisa dar mais passos com vistas a forne-
cultural e garantir a unidade nacional. Além cer um verdadeiro serviço público. Essa tarefa
de Pare de sofrer, Casos reais e Em busca tende a ser obstaculizada pela lógica de
de amor, produtos destinados aos crentes da consumo, da demanda, adotada pela TV
Igreja Universal, a Miramar até poderia pública com finalidade de concorrer com o
incluir programas religiosos, mas teria que setor comercial. A Miramar, com bastante
observar os princípios democráticos, inclu- tempo de antena, deveria começar a se
indo, assim, a variedade de manifestações preocupar também com vários moçambicanos
religiosas existentes no país. Em não crentes da Igreja Universal do Reino de
Moçambique, 7,8% da população professa a Deus, nos moldes consagrados pelo artigo 4
162 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

da lei de imprensa e também como se espera, encontram em pleno gozo dos seus direitos
em qualquer parte do mundo, dos meios de civis e políticos.13 O diretor executivo é o
comunicação, na direção de que contribuam segundo na estrutura da Miramar. Nas suas
para o bem das pessoas, ao ser concedido mãos está a responsabilidade administrativa
espaço hertziano pelo Estado. para funcionamento da emissora. Esse cargo
é exercido por um brasileiro, que também é
b) estruturas e funcionamento bispo da Universal, auxiliado por pessoas de
Em termos empresariais, a TVM apresenta confiança entre bispos e outras da Universal.
uma estrutura mais complexa em relação à As barreiras político-institucionais logra-
Miramar. Conta com maior número de profis- das pela TVM ao longo da sua história fazem
sionais e um patrimônio superior a todas as dela uma empresa com vantagem em relação
operadoras de TV existentes no país. O pre- às concorrentes do setor privado. A prova
sidente do conselho de administração, nome- disso é que, enquanto a Miramar enfrenta
ado pelo primeiro ministro, é instância máxima problemas financeiros, a TVM registra um
da emissora pública. Abaixo deste estão os três crescimento incontestável, através de
diretores executivos, sendo que um deles é eleito abrangência da maioria das cidades e loca-
pelos trabalhadores. Fazem parte do corpo lidades, do aumento de horas de antena e
diretivo sete diretores. Na empresa pública as de profissionais. Isso faz com que a estrutura
decisões importantes são tomadas em conse- empresarial seja mais complexa. A busca de
lho. A cada diretoria corresponde uma catego- estabilidade faz com que a procura pela
ria de trabalhadores. O setor da informação é empresa pública seja maior.
o mais saliente. O seu diretor, por vezes
associado ao partido no poder, chega a ser mais Considerações conclusivas
conhecido do que o próprio PCA. As vagas
na TVM são preenchidas mediante concursos
A partir do momento em que se estabe-
públicos e as remunerações obedecem aos
leceu o mercado moçambicano de televisão
mesmos critérios de todo o sistema de funci-
houve uma preocupação, por parte da TVM
onalismo público do país.
e das outras emissoras, em organizar as suas
Na televisão Miramar existem duas ca-
grades de modo a fidelizar o telespectador o
tegorias de trabalhadores: a) os que lidam
mais tempo possível. A Miramar ao emitir
com a questão religiosa, os pastores, na sua
produtos novos, disponibilizados pela Record
maioria brasileira; b) e aqueles que traba-
conheceu momentos de crescimento de audi-
lham no departamento de jornalismo, na parte
ência. Esse fato foi estancado pela emissora
técnica, além dos apresentadores dos progra-
mas Domingo da criança e programa mu- pública que, beneficiada das barreiras políti-
sical Aventura. Os jornalistas, na sua mai- co-institucionais logradas ao longo da sua
oria, têm o nível médio obtido na Escola de história, reestruturou a sua programação,
Jornalismo, que, por muito tempo, foi a única incrementando mais programas populares, ou
instituição que formava os profissionais da seja, trocou a lógica da oferta pela procura.
comunicação social no país. Os trabalhado- Assim, a TV pública moçambicana continua
res da Miramar reclamam por maior parti- sendo a emissora mais preferida pela audi-
cipação na vida da empresa e por melhoria ência. A Miramar, que em 2000 estava co-
das condições em matéria de remuneração. nhecendo um franco crescimento, se mostra
Nos últimos tempos a Miramar perdeu al- incapaz de fazer frente a TVM. O funciona-
guns profissionais atraídos por boas condi- mento e a forma como estão estruturadas as
ções de trabalho e por melhores salários duas TVs, enquanto organizações empresari-
existentes em outras emissoras. ais, ilustram as particularidades vivenciadas
No topo da hierarquia da emissora se por cada operadora. Os aspectos analisados
encontra o diretor geral da Rede Comunitária demonstram que a lógica mercadologia per-
Miramar. Segundo a legislação do setor, a passa toda a dinâmica das duas empresas na
chefia do setor, deverá pertencer a instituições atual fase da Multiplicidade da Oferta, ainda
ou associações moçambicanas e cidadãos em formação, dentro de um contexto global
moçambicanos residentes no país que se do capitalismo contemporâneo.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 163

Bibliografia Comunicação, Braga, v. 12, n. 1-2, p. 121-


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são comercial e implementação da lei: alguns 13
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Sociedade 1, Cadernos do Noroeste, Série artigo 6.
164 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 165

O jornalismo na era dos conglomerados globais


Virgínia Pradelina da Silveira Fonseca1

Introdução é uma série de situações estáveis, pontuadas


em intervalos raros por eventos importantes
O presente ensaio visa refletir sobre as que ocorrem com grande rapidez e ajudam
implicações para a atividade social chamada a estabelecer a próxima era estável.
jornalismo da introdução das novas tecno- A profundidade das transformações que
logias de comunicação e informação e do vêm ocorrendo no mundo desde o final do
regime de acumulação pós-fordista nas in- século passado, mais precisamente a partir
dústrias da mídia jornalística contemporânea. da década de 1990, permite a Manuel Castells
Para isso, primeiramente, faz-se uma breve (2000), por exemplo, sustentar a hipótese de
discussão quanto à estrutura social emergen- revolução com base nesse conceito singular
te no início do século XXI. A seguir, dis- de Gould. Ao constatar a emergência de uma
corre-se sobre as distintas concepções de nova estrutura social – uma “sociedade em
jornalismo vigentes ao longo da história da rede” –, o catedrático de sociologia e
imprensa brasileira e, por fim, argumenta-se planejamento urbano e regional da Univer-
em favor da hipótese de que, sob o regime sidade da Califórnia, Berkeley, acredita que
de acumulação flexível em vigor, opera-se o momento atual constitui um desses raros
uma transformação na natureza do jornalis- intervalos na história. Um intervalo que teria
mo, uma nova concepção começa a tomar começado a se configurar a partir do
forma. surgimento das novas tecnologias de comu-
A perspectiva geral de análise é a da nicação e informação e da reestruturação
Economia Política da Comunicação, particu- mundial do capitalismo, nos anos 1970 e
larmente da vertente da Escola Francesa de 1980, respectivamente. Esses eventos, arti-
Regulação. culados, estariam implicando profundas
mudanças nos mais diversos âmbitos da vida
Estrutura social emergente e dando origem ao que ele denomina de
“sociedade em rede”, uma estrutura global
A transição do século XX para o século capitalista e informacional.
XXI ocorre marcada por transformações tão Mesmo que não tomada no sentido clás-
profundas na estrutura das sociedades, espe- sico de ruptura, entretanto, a idéia de revo-
cialmente das sociedades capitalistas ociden- lução como representação das transformações
tais, que nos é permitido pelo menos con- em curso nesta transição de séculos é con-
siderar a hipótese de estarmos diante de uma troversa. Autores oriundos de outras matri-
revolução. São transformações de natureza zes de pensamento negam seu caráter revo-
econômica, social, política e cultural, que lucionário. Nicholas Garnham2 (2003) argu-
atingem a todos – indivíduos, sociedades, menta que tais transformações não configu-
nações, estados – e todos os contextos so- ram revolução, mas mudanças lentas, que vão
ciais, embora com diferentes impactos. ocorrendo por camadas, sobrepondo-se umas
A idéia de revolução aqui utilizada não às outras, em contextos em que coexistem
tem o sentido clássico de ruptura. Até porque situações antigas e novas, estas minando
a história nos tem demonstrado que o pro- aquelas e vice-versa. David Harvey (2001),
cesso de mudança social ocorre muito mais também de tradição teórica distinta de
por acúmulos, por continuidades, que por Castells3, ao discorrer sobre modernidade e
rupturas. É utilizada no sentido gradualista pós-modernidade na cultura, dedica parte
proposto pelo paleontólogo Stephen J. Gould considerável de sua pesquisa sobre as ori-
(1980), quando diz que a história da vida gens da mudança cultural às transformações
166 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

políticoeconômicas do capitalismo do final lembra que elas mantêm uma grande seme-
do século XX. lhança com todas as generalizações socioló-
Harvey (2001) não se detém sobre a gicas mais ambiciosas que, mais ou menos
questão específica das novas tecnologias, mas na mesma época, anunciam novidades quan-
sustenta a existência de algum tipo de re- to à chegada, ou à inauguração, de um novo
lação necessária entre a ascensão de formas tipo de sociedade, totalmente nova, cujo nome
culturais pósmodernas, a emergência de mais famoso seria “sociedade pós-industri-
modos mais flexíveis de acumulação do al”, proposto por Daniel Bell. Lembra,
capital e um novo ciclo de “compressão do entretanto, que essa nova sociedade também
tempo-espaço” na organização do capitalis- pode ser conhecida como sociedade da in-
mo. Assim, levanta a hipótese da emergência formação, sociedade das mídias, sociedade
de um novo regime de acumulação – o de eletrônica ou high-tech, entre outras deno-
Acumulação Flexível, ou Pós-Fordista 4. minações. Tais teorias, segundo o autor,
Segundo o autor, o novo regime começa a teriam a missão ideológica de demonstrar que
se estruturar a partir de 1973 precisamente, a nova formação social não mais obedeceria
data em que teria início um processo de às leis do capitalismo clássico, isto é, o
substituição do regime de acumulação primado da produção industrial e a luta de
Fordista, em vigor nos países capitalistas classes. Por isso, tais teorias encontrariam
avançados no período que vai do final da resistência veemente dos pensadores da tra-
Segunda Guerra Mundial, em 1945, ao início dição marxista. A exceção entre esses seria
da década de 1970. o economista Ernest Mandel. Para este, a nova
Mesmo que não estejam de acordo quan- formação social – que denomina de Capi-
to a se estar ou não vivenciando um período talismo Tardio – nada mais é do que um
de revolução, ainda que o termo tenha sig- estágio do capitalismo, o mais puro do
nificados diferentes para neo-marxistas e qualquer dos momentos que o precederam
weberianos, o fato é que a maioria dos (Jameson, 1996).
analistas sociais contemporâneos reconhece Sem pretender encontrar consensos para
a existência e a profundidade das mudanças o que é por natureza controverso, o que se
que marcam o finaldo século XX e os quer ressaltar é que as transformações em
primórdios do século XXI nas sociedades curso estão a determinar a próxima era estável
ocidentais. em todas as formas de manifestação da vida
Em razão disso é que se é levado a inferir humana, da economia à política, da organi-
que estamos de fato nos defrontando com a zação do Estado à cultura. Atingem pessoas,
construção de um novo paradigma de orga- empresas, instituições, estados, movimentos
nização social, receba ele a denominação que sociais, organizações de todo gênero. E
for, seja ele identificado pelos critérios que podem ser tomadas como indícios de uma
melhor contemplar os objetivos de uns e revolução, desde que entendamos por revo-
outros pesquisadores. O período histórico que lução o aumento repentino e inesperado de
começa a se configurar nas últimas décadas aplicações tecnológicas que transformam
do século XX pode ser nomeado sociedade processos de produção e distribuição, criam
em rede ou capitalismo informacional (Ma- novos produtos e mudam decisivamente a
nuel Castells), pós-industrialismo (Daniel localização das riquezas e do poder no mundo
Bell), pósfordismo (David Harvey), pós- (Castells, 2000).
modernismo (Fredric Jameson), capitalismo
tardio (Ernest Mandel), ou mesmo pode As concepções de jornalismo no Brasil
indicar o fim da história (Francis Fukuyama).
O certo é que se trata da emergência de um Historicamente o jornalismo é uma prá-
paradigma, um novo modelo, que se estru- tica social que constitui um dos elementos
tura em torno das tecnologias de informação de formação da opinião pública. Organizada
e comunicação e de um capitalismo de modo capitalista, a mídia jornalística é
reestruturado e mundial. parte da esfera pública onde se vai formatar
Ao discorrer sobre as teorias a respeito esse fenômeno de difícil definição chamado
do pós-moderno, Fredric Jameson (1996) opinião pública. Apesar da imprecisão
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 167

conceitual, entretanto, nestes tempos regidos sa, por sua vez, nada mais seria que o corpo
pelas idéias de visibilidade e de transparên- material do jornalismo, sua base tecnológica
cia, a opinião pública constitui um fator de (rádio, tv, jornal) indispensável para a divul-
referência a orientar a ação de governos, gação de informações, capaz de multiplicar
empresas, movimentos sociais, partidos po- e transportar a mesma informação em pro-
líticos, organizações não-governamentais etc. porções de espaço e de tempo radicalmente
Dos ideais do Iluminismo e da Revolu- diferentes da comunicação interpessoal direta
ção Francesa, o jornalismo herdou o papel ou dos métodos artesanais (Genro Fi-
de mediador, de intérprete dos fatos/eventos/ lho,1989).
fenômenos da atualidade considerados rele- Conforme os registros historiográficos, o
vantes. O conceito que regula essa prática conceito que subjaz à prática social jorna-
social, no entanto, foi se modificando ao lismo no Brasil assume distintas configura-
longo do tempo, condicionando e sofrendo ções ao longo do tempo, de acordo com a
os condicionamentos dos períodos históricos forma como a atividade se organiza
e contextos singulares em que foi e é exer- institucionalmente. Essa organização
cido. As Quatro Teorias da Imprensa5, for- institucional, por sua vez, caminha parale-
muladas por Siebert, Schramm e Peterson em lamente, ou até mesmo subordinada, à
1956, permitem-nos compreender essa mo- estruturação do capitalismo em âmbito na-
dificação, na medida em que constituem cional.
“enfoque normativo sobre a forma de fun- No princípio, podemos dizer até que o
cionamento dos meios de comunicação de tipo de imprensa que conhecemos não tinha
massa nos diferentes tipos de sociedade” características lhe fossem próprias, isto é, as
(Kunczik, 1997, p. 74). características não eram da imprensa, mas do
No Brasil, conheceu-se a imprensa tar- período histórico. Não havia um conceito de
diamente em relação às outras nações, in- jornalismo por trás da atividade artesanal de
clusive latino-americanas.6 Foi só no século reproduzir textos impressos. Conforme Nel-
XIX, quando a família real portuguesa trans- son Werneck Sodré (1983), os jornais publi-
feriu-se para a colônia, em 1808, que tive- cados refletiam o ardor apaixonado do de-
mos a impressão e a circulação dos dois bate político que se travou primeiro em torno
primeiros periódicos que inauguram a his- da questão da Independência e depois quanto
tória da imprensa brasileira: o Correio à estrutura do Estado-Nacional a ser molda-
Braziliense, feito em Londres por Hipólito da a partir da separação de Portugal. Os
José da Costa, e a Gazeta do Rio de Janeiro, pasquins, tipo de periodismo que vicejou no
jornal oficial produzido na Imprensa Régia período que vai da Regência até o final da
sob rígido controle da Coroa. primeira metade do século XIX, são exem-
O conceito de jornalismo, contudo, não plos disso. Sua linguagem panfletária, viru-
se define no mesmo momento em que se lenta, difamatória, sua periodicidade irregu-
implanta a imprensa no Brasil. Francisco lar e produção artesanal, entre outras carac-
Rüdiger (2003) nos alerta para a possibili- terísticas, são próprias mais da fase histórica
dade de haver imprensa sem que haja o que da imprensa. Tratava-se de um tipo de
correspondente jornalismo. Argumenta que jornalismo político, mas de vozes descone-
pode haver imprensa literária, sindical, re- xas, sem uma causa a lhes unificar a ação.
ligiosa, humorística, sem que estas possibi- Tinham tais características, segundo o his-
litem o exercício do jornalismo. O alerta do toriador, por absoluta impossibilidade de
historiador se faz em razão da necessidade ostentarem outras, uma vez que serviam a
de se distinguir entre conceitos que facilmente público pequeno, de nível baixo, usando as
podem ser confundidos. O autor designa armas que a época oferecia e permitia – a
jornalismo a prática social componente do injúria e a difamação. A educação estava em
processo de formação da opinião pública que, estado rudimentar, o ensino era pouco difun-
dotada de conceito histórico variável confor- dido, havia uma massa de analfabetos e os
me o período, pode estruturar-se de modo que sabiam ler não compreendiam as ques-
regular nos mais diversos meios de comu- tões públicas Eram formais e vazios, numa
nicação, da imprensa à televisão. A impren- época em que a educação era tida como
168 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

adorno. “A única linguagem que todos com- Essa breve recuperação histórica justifi-
preendiam era mesmo a da injúria” (Sodré, ca-se pela necessidade de se buscar o con-
1983, p. 157). ceito de jornalismo subjacente às distintas
Apesar disso, o autor sustenta que o pe- formas de organização institucional que o
ríodo Regencial (1831-1840) constitui um jornalismo brasileiro vem experimentando ao
momento de ascensão liberal entre o Primeiro longo do tempo. Exceto no período em que
e o Segundo Reinado, quando os valores os jornais foram lançados diretamente pelo
nacionais se afirmam e em que prevalecem Estado ou por ele subsidiados, no seio do
algumas características de regime republicano, processo de estruturação do Estado-Nacio-
como eleições, primazia do legislativo sobre nal, pode-se afirmar que o desenvolvimento
o executivo, e ampla liberdade de imprensa. da imprensa jornalística no Brasil caminha
O período de conciliação que se inicia no rastro do desenvolvimento do capitalismo
com a união de conservadores e liberais em nacional, confirmando a tese habermasiana6
torno da figura de D. Pedro II, na primeira a respeito do desenvolvimento da imprensa.
fase do II Império, a partir de 1840, é marcado O esforço para se organizar como em-
pelo recuo da luta política e pela aproxima- presa foi a alternativa primeiro de jornalistas
ção com a literatura. Muitos dos principais e depois de empresários da comunicação para
representantes do Romantismo brasileiro se livrarem do controle de grupos políticos,
tornam-se conhecidos do público e se con- do aparelhamento dos periódicos por parte
sagram como grandes escritores na labuta das dos grupos em disputa pelo poder. A Pro-
oficinas artesanais onde se produziam os víncia de São Paulo, que após a proclama-
jornais da época. Machado de Assis, José de ção da República se transforma em O Estado
Alencar e Joaquim Manuel de Macedo são de São Paulo, Jornal do Brasil e Correio
exemplos bastante significativos. do Povo, para citar apenas três, são repre-
A luta política através dos jornais só é sentativos desse esforço de produzir jornais
retomada nas últimas décadas do século XIX, comprometidos apenas com os interesses do
quando todas as instituições brasileiras, como público, ainda que esse fosse um objetivo
o escravagismo, o latifúndio cafeeiro, a Igreja apenas retórico. No caso de O Estado de São
e o próprio regime monárquico passam a ser Paulo, alguns analistas asseguram que seu
questionados. Esse período, que começa no discurso de independência servia para dar
final dos anos 1860 e se estende até as últimas maior credibilidade às lutas do Partido
décadas, é especialmente importante porque Republicano na fase das reformas. Já o Jornal
é quando se encontra no Brasil, pela primei- do Brasil acolhia o pensamento conservador
ra vez, uma organização do jornalismo em de Rodolfo de Souza Dantas e Joaquim
termos empresariais. É na década de 1870 Nabuco, este um notório monarquista, na
que vamos encontrar os primórdios de uma primeira fase do regime Republicano (Bahia,
imprensa jornalística de caráter empresarial. 1990). E o Correio do Povo, como bem
A Província de São Paulo, fundado em observa Rüdiger (2003), resultou da percep-
1875, é o primeiro jornal brasileiro a ser ção de seu fundador, Caldas Júnior, de que
organizado como empresa. O negócio é o caráter político do jornalismo não preci-
resultado da iniciativa de um grupo de sava ser explícito. A organização empresa-
comerciantes, fazendeiros, empresários e rial, entretanto, contribui para dar viabilida-
jornalistas de São Paulo. Embora seus fun- de econômica às publicações e,
dadores tivessem vínculos inegáveis com o concomitantemente, para instituir um regime
Partido Republicano, apresenta-se ao público jornalístico, ou um conceito para o jornalis-
como independente e comprometido com uma mo. O conceito de que jornalismo significa
organização empresarial. O mesmo ocorre fornecer periodicamente informação de
com o Jornal do Brasil, de 1891, no Rio atualidade.
de Janeiro, e com o Correio do Povo, de É esse o conceito que passa a vigorar a
1895, no Rio Grande do Sul. De forma que partir do momento em que se desenvolve de
podemos localizar as raízes da grande im- forma mais sistemática a grande imprensa
prensa brasileira fincadas no final do século brasileira que se consolida no século XX. Até
XIX, embora só se consolidem no século XX. então, a imprensa foi ou literária ou ins-
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 169

trumento político. Da década de 1920 em de novos títulos e as reformas gráficas,


diante vários novos títulos vão surgir (O editoriais e administrativas implementadas
Globo, Folha de São Paulo, revista O por publicações já consolidadas, como o
Cruzeiro, Revista do Globo etc.), configu- próprio Jornal do Brasil, no final dos anos
rando definitivamente o ingresso do jorna- 1950, irão caracterizar um período de mo-
lismo brasileiro numa fase empresarial. dernização da imprensa jornalística. Essa
O desenvolvimento técnico e organizaci- modernização, caracterizada pelo crescente
onal dessa imprensa das primeiras décadas empresariamento e profissionalização, vai
do século XX, considerada por alguns como preparar a mídia jornalística para o ingresso
representativa dos primórdios de uma indús- na era das indústrias culturais, o que ocorre
tria cultural, vai acompanhar os avanços e a partir do final da década de 60, consoli-
os recuos da ordem capitalista nos demais dando-se plenamente nos anos 70.
setores da economia nacional. Quando o A constituição das empresas de comuni-
cenário era de estagnação econômica, como cação do Brasil em indústrias culturais é
na República Velha, essa estagnação se fenômeno vinculado ao ingresso do País na
reproduziu na imprensa jornalística. Os jor- fase monopólica do capitalismo internacio-
nais eram graficamente feios e editorialmen- nal (Ortiz, 1991; Taschner, 1992; Lopes,
te desinteressados das questões políticas, mais 1994; Lattman-Weltman, 2003), processo de
ocupados da própria sobrevivência do que “modernização” econômica coordenada pe-
com a formação de uma opinião pública. los sucessivos governos militares pós-1964.
À medida que o desenvolvimento capi- A fase monopólica do capitalismo bra-
talista vai se acentuando, depois que se sileiro, da mesma forma que ocorre nos países
começam a colher os resultados das políticas de capitalismo avançado, realiza-se sob re-
inspiradoras da Revolução de 30, gimes de acumulação distintos. Nos anos 70
aprofundadas nos governos que se sucedem, e 80, sob o fordismo. Nesse período, obser-
esses avanços também se refletem na orga- va-se a plena subordinação do jornalismo à
nização das empresas jornalísticas e na lógica capitalista. A partir dos anos 90, sob
qualidade dos jornais. o pósfordismo, o regime de acumulação
A década de 1960 é marcada por grandes dominante no início do século XXI, tem-se
transformações na imprensa. Ao ser adqui- um aprofundamento dessa subordinação,
rido por Otávio Frias de Oliveira e Carlos desse caráter mercadológico da informação,
Caldeira Filho, em 1962, o grupo Folha da que passa a ser um dos instrumentos de lucro
Manhã começa a se constituir como um e poder mais importantes nas sociedades
grande complexo de indústria cultural. Em contemporâneas.
1966, para fazer frente à concorrência das
Folhas, o grupo O Estado de São Paulo lança O jornalismo na nova estrutura social
o vespertino Jornal da Tarde, com caráter
absolutamente inovador para os padrões da O objetivo deste paper é refletir, à luz
época. E, no mesmo ano, a Editora Abril lança da bibliografia, sobre as transformações no
a revista Realidade, que se torna uma refe- jornalismo decorrentes da introdução de dois
rência na grande reportagem, seguida depois novos fatores a provocar mudanças na or-
por Veja, de 1968, revista semanal de infor- ganização social: as novas tecnologias de
mações de maior circulação no País até os comunicação e informação e a expansão em
dias de hoje. escala mundial de um novo regime de acu-
Os novos títulos vêm se juntar à série mulação capitalista – o regime pós-fordista,
de publicações que vinham das décadas ou de acumulação flexível (Harvey, 2001),
anteriores, como as da rede de Diários e processo que vai se acentuar no Brasil a partir
Emissoras Associados, de Assis dos anos 1990, tendo continuidade nestes
Chateaubriand, e do grupo Última Hora, de primeiros anos do século XXI.
Samuel Wainer. No Rio Grande do Sul, dois Na fase que melhor se delineia a partir
novos jornais serão lançados na mesma da última década do século XX, os conglo-
década: a unidade gaúcha do Última Hora, merados de comunicação, em escala mun-
em 1960, e Zero Hora, em 1964. A profusão dial, começam a enfrentar um profundo
170 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

processo de reestruturação, deixando de se tadores (internet) e desta para as mídias


reportar aos mercados internos apenas para tradicionais (Garnham, 2003). Quanto ao
se dirigir para um mercado capitalista de jornalista, emerge a figura do profissional
âmbito global. A partir dessa conjuntura, multimídia, o experto 7, profissional com
começa a ganhar contorno um novo desenho múltiplas habilidades, capaz de produzir
na institucionalização das mídias em geral. informação com estrutura e linguagem apro-
Uma nova onda de concentração (de propri- priadas para todos os suportes técnicos.
edade e de capital) está levando à formação Sustenta-se a hipótese de que as trans-
de oligopólios transnacionais. formações técnicas e econômicas que atin-
Acredita-se que as implicações dessas gem as organizações da mídia jornalística ao
mudanças sobre a atividade social chamada longo do tempo transformam não apenas a
jornalismo precisam ser analisadas num sua organização institucional, suas rotinas de
quadro teórico amplo, que permita compre- produção e o perfil dos jornalistas, como
ender as restrições encontradas por este para transformam também – e principalmente –
cumprir seu papel histórico – o de intérprete a natureza do jornalismo. Por conta disso,
e analista da realidade - diante das contin- a nova concepção de jornalismo em emer-
gências impostas por uma organização gência neste início do século XXI, cuja
institucional subordinada às regras e à lógica denominação ainda está por ser formulada,
das distintas etapas do desenvolvimento distancia-se da idéia de mediação. Pela
capitalista brasileiro. necessidade de fornecer o máximo de infor-
Que implicações há para o jornalismo a mações precisas num tempo cada vez mais
introdução da lógica do regime de acumu- comprimido, o jornalista afasta-se - ou é
lação pós-fordista nas indústrias da mídia? levado a renunciar - da sua condição de
Como isso se reflete na organização das mediador, daquele que relata, explica, inter-
empresas, nas rotinas de produção e na preta e analisa questões de interesse público
concepção do jornalismo? Que atributos são para a sociedade, contribuindo para a for-
exigidos dos jornalistas nesse novo ambien- mação da opinião pública. O padrão que
te? parece se delinear é o de um jornalismo
Do ponto de vista organizacional, entra- basicamente informativo, prestador de servi-
se na era das fusões, que dão novo impulso ços, subordinado totalmente à lógica capi-
à concentração de propriedade (vertical, talista da corporação que o explora como
horizontal, cruzada e em cruz) e de capital. negócio. Além disso, esse padrão serve a
Trata-se da era das convergências – interesses ideológicos de classe, talvez menos
tecnológica e financeira. Novas empresas explícitos, mas nem por isso menos influ-
surgem (e desaparecem) da noite para o dia entes. A concentração de propriedade e de
como resultado da associação de capitais das capital (oligopólios transnacionais) leva ao
mais diversas origens (nacionalidades e controle da informação (produção, armaze-
setores), integrando as mais variadas plata- nagem, disponibilidade e acesso) e, conse-
formas técnicas. Ingressa-se na era dos quentemente, ao controle de poder nas so-
conglomerados transnacionais, que integram ciedades contemporâneas. Como observa
o sistema capitalista global. O jornalismo, Lima (1999), as sociedades contemporâneas
concebido como produto - assim como a são centradas na mídia, que tem o poder de
informação e os bens de consumo simbólico construir a realidade, a longo prazo, por meio
em geral - é mercadoria, fator de lucro no da representação dos diferentes aspectos da
mercado capitalista global. vida humana.
Quanto às suas rotinas de produção, entre
muitas outras inovações, observa-se o São sociedades que dependem da
surgimento do jornalismo on line e a atu- mídia – mais do que da família, da
alização das notícias em “tempo real”, um escola, das igrejas, dos sindicatos, dos
exemplo da compressão do espaço-tempo de partidos etc. – para a construção do
que fala Harvey (2001), assim como a conhecimento público que possibili-
convergência das mídias tradicionais (rádio, ta, a cada um dos seus membros, a
tv, jornal) para a rede mundial de compu- tomada cotidiana de decisões. Por isso
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 171

não se pode reduzir a importância das Para concluir, ressalta-se que a discussão
comunicações apenas à transmissão de desse tema não interessa apenas a jornalistas
informações [...]. Elas não são canais e a pesquisadores do campo, mas a toda a
neutros. Ao contrário, são construto- sociedade, pelas implicações que apresenta
ras de significação. (Lima, 2001, p. para a democracia e para a diversidade
113). política e cultural no Brasil e no mundo.
172 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

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lítica. São Paulo: Ed. Fundação Perseu autoritária, surgida da filosofia estatal do abso-
Abramo, 2001. lutismo, no século XVI; a teoria liberal, que teve
seu auge no século XIX; a teoria da responsa-
Lopes, Maria Immacolata Vassalo. Pesqui-
bilidade social e a teoria comunista soviética
sa em Comunicação: formulação de um modelo (Kunczik, 1997, p. 74-79).
metodológico. São Paulo: Loyola, 1994. 6
O México conheceu a imprensa em 1539;
Kunczik, Michael. Conceitos de jorna- o Peru, em 1583; as colónias inglesas (Guiana
lismo: Norte e Sul. São Paulo: Editora da e Trinidad & Tobago), em 1650 (SODRÉ, 1983).
USP, 1997. 7
No sentido atribuído por Bobbio, de inte-
Ortiz, Renato. A moderna tradição bra- lectual-técnico, que detém os conhecimento ade-
sileira: cultura brasileira e indústria cultu- quados para alcançar determinado fim. (Bobbio,
ral. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. 1997, p. 118-119).
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 173

A representación da realidade galega na Televisión de Galicia


Xosé Soengas e Ana Isabel Rodríguez1

Este estudio é resultado dun proxecto de determinados feitos, extralimitando así as


investigación do Departamento de Ciencias funcións propias dun xornalista.
da Comunicación da Universidade de O tratamento estético dos contidos da
Santiago de Compostela, no que se analizan TVG segue os mesmos criterios, sempre
os contidos dos informativos. Para esta encamiñado a favorece-la imaxe das personas
comunicación en concreto tomouse como próximas ó poder e a deteriora-la daqueles
obxecto de estudio a Televisión de Galicia, sectores que exercen como oposición. A
e analizáronse os informativos do mes de desigualdade de trato que reciben os
novembro de 2003, utilizando o método da diferentes líderes políticos e mailos diversos
semana composta. O resultado da sectores socioeconómicos é evidente. Moitas
investigación é ben ilustrativo. veces a imaxe convírtese nun aliado do texto
A visión que da a Televisión de Galicia para reforza-la censura ou ese enfoque
da nosa comunidade a través dos seus artificial encamiñado a construir un discurso
informativos non reflicte a auténtica realidade predeterminado.
política, económica e social do país e, polo O fomento dos tópicos costumbristas e
tanto, a emisora non cumple o papel de a implantación dunha liña conservadora
servicio ós cidadáns que lle corresponde a ensombrecen os aspectos comprometidos,
un medio de comunicación público. O contestatarios, novidosos e progresistas que
tratamento informativo dos contidos dos case nunca son recollidos nos informativos
Telexornais está orientado para fabricar unha porque chocan coa política conservadora do
imaxe irreal do país, silenciando ou Goberno.
deformando aqueles acontecementos que Como resultado desta liña informativa, a
perxudican á Xunta de Galicia e, ó mesmo sociedade galega recibe, a través da Televisión
tempo, potenciando todos aqueles feitos que de Galicia, unha imaxe sesgada e uniforme
engrandecen ó Goberno do PP ou que que corresponde ás liñas xerais de actuación
desgastan á oposición. da Xunta de Galicia e que non reflicten a
A falta de pluralidade informativa auténtica realidade da sociedade galega. Así,
reflíctese no tratamento desigual que se lles a TVG deixa de cumplir as funcións propias
da ós diferentes suxeitos informativos, en dun medio de comunicación público e perde
función da súa afinidade coa liña política a súa esencia ó poñerse ó servicio do Goberno
gobernante, tanto desde o punto de vista da Xunta de Galicia.
cualititativo como cuantitativo. En termos absolutos e porcentuais, e
O organigrama establecido e as rutinas según os datos obtidos das unidades
implantadas nos procesos de producción da informativas (100 pezas) e tempos analizados
información da TVG fomentan o control (2 h. 34’28”), pódese deducir que, como era
absoluto dos contidos desde os postos de esperar, o peso informativo de Galicia nos
directivos, impedindo ós redactores a noticieros da TVG é predominante (54% das
posibilidade de traballar con liberdade, pezas e 52% do tempo) fronte ó resto de
especialmente naquelas noticias que se contidos de carácter nacional (35% das
consideran delicadas, maiormente as de índole noticias e 30% do tempo) e mesmo
política. O necesario control de calidade que internacional (11% de pezas e 18% do tempo).
lles corresponde facer ós directivos case Desde este punto de vista, pódese dicir que
sempre deriva nun control político, cumplindo a TVG sí que cumple unha das súas funcións
indicacións precisas do Goberno sobre o que é a de dar prioridade á información da
tratamento que se lles debe dar a
174 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

comunidade autónoma. Precisamente as referentes ó PP e máis ó Goberno da Xunta


principais razóns que se argumentaron no seu reflexan claramente a afinidade política da
momento cando se crearon as televisións TVG. E esta política informativa compróbase
autonómicas foron a contribución á doblemente ó analizar todos aqueles temas
normalización linguística e preservar as relacionados cos partidos da oposición,
identidades culturais fronte ós contidos especialmente co PSOE.
xeneralistas de TVE, onde quedaban moi Nos temas que non son de índole política
mermadas todas aquelas informacións que tiñan tamén se aplican criterios semellantes. Existe
un interés específico para unha comunidade, unha tendencia a potenciar aquelas
pero que non acadaban a suficiente entidade informacións que, indirectamente, favorecen
informativa como para interesar a unha a imaxe do Goberno da Xunta ou ben que
televisión estatal. Pero este cumplimento é só perxudican á oposición.
aparente, porque aínda que a información Os temas que non interesan ó Goberno
referente a Galicia é a que ten maior presencia, da Xunta, ben por razóns políticas,
esta porcentaxe, como se verá logo, ten uns económicas, ideolóxicas ou incluso
contados ben definidos, a veces monocolor, que estratéxicas son directamente silenciados.
non reflexan a pluralidade política nin a Esta é outra das razóns polo que se aprecia
diversidade cultural que hai en Galicia. unha reiteración temática, facendo un énfasis
Un simple análise cuantitativo non permite extraordinario en determinados feitos, mentras
apreciar tódalas particularidades que logo se que non aparecen recollidos outros aspectos
atopan cando se fai un despece que configuran a realidades política,
pormenorizado, atendendo xa ós contados, ós económica e social galega. Por exemplo, non
enfoques informativos e ó tratamento se fai referencia a problemas ecolóxicos, á
específico de cada noticia. Por exemplo, aínda precariedade dalgunhas infraestructuras,
que nalgúns casos a presencia dos partidos especialmente as autoestradas e as vías férreas
nos telexornais é equitativa, logo prodúcese e tampouco se analiza a difícil situación
o desequilibrio no tratamento informativo, xa dalgunhas zonas rurais ou as consecuencias
que o tratamento de tódalas informacións da desindustrialización.

Ámbito xeográfico da información (nº pezas)

Ámbito xeográfico da información (tempo)


ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 175

Das 100 informacións estudiadas, 54 ó que se traduce nunca presencia nos


pezas tratan temas galegos, 35 nacionais e telexornais casi testemuñal, cando en
11 internacionais, o que en tempos se traduce realidade, como xa se mencionou antes, unha
en 1 h.24’11” de contidos sobre Galicia, das razóns da creación das televisións
49’26” nacionais e 29’54” internacionais. autonómicas foi precisamente o fomento da
Analizando a estructura dos informativos cultura e a conservación das identidades.
da TVG no mes de novembro de 2003, Este desquilibrio temático, en certa
obsérvase que a maior concentración temática medida, ven derivado dunha inercia
se produce en torno á sección de Sociedade establecida que consiste en priorizar dun xeito
cun 52% das noticias e un 53% do tempo sistemático as noticias de contido político
observado. Cómpre destacar que se consideran ainda que moitas veces carezan de interés
incluidos os sucesos que equivalen a 35% das informativo. O actual sistema de
pezas da sección. O segundo bloque temático funcionamento dos medios púiblicos, onde
de maior importancia nos telexornais da TVG os partidos políticos, extrapolando
corresponde ós asuntos políticos co 35% das inxustificadamente unha normativa creada
pezas e do tempo analizados. Por último para espacios de propaganda electoral esixen
inclúense as seccións de Economía (10% das case diarimente unha presencia proporcional
informacións e 9% do tempo) e de Cultura a súa representación parlamentaria,
con apenas presencia nestes noticieiros (3%). desnaturaliza os contidos dos telexornais, pois
O desequilibrio entre as seccións é este criterio obriga a descartar temas
evidente. Resulta significativo, por exemplo, interesantes para poder incluir informacións
a pouca importancia que se lle da á cultura, completamente rutinarias.

Estructura informativa: seccións (noticias)

Estructura informativa: seccións (tempo)


176 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Analizando as seccións, destacan: da política galega con respecto á política


Sociedade con 52 pezas e 1h.22’29” (delas, nacional ou internacional queda mermada en
18 pezas son de sucesos, con 14’28”); Política canto a número de pezas e minutos de
(35 pezas e 53’22”), Economía (10 pezas e información ofrecidos (46% das pezas e 36%
13’04”) e Cultura (3 pezas e 4’06”). do tempo do bloque político). Datos que neste
Facendo unha prospección específica dos caso concreto contradín o inicialmente
contidos de carácter político, como principal afirmado sobre a presencia global da realidade
motivo de análise desta comunicación, galega claramente superior a contidos de corte
obsesérvase unha presencia desigual dos nacional ou internacional. Motivo de análise
diferentes partidos políticos e institucións nos pormenorizado é, polo tanto, o por qué da
noticieiros da TVG, moitas veces sen atopar un menor presencia da política galega nestes
elemento obxectivo que xustifique esa diferencia. noticieiros, fronte á política nacional e
De novo empregando unha técnica internacional, dun lado; e doutro, o
descriptiva en temos absolutos en canto ós protagonismo das diferentes forzas políticas,
datos obtidos da observación dos informativos do goberno da Xunta e das institucións
televisivos, pódese deducir que a presencia galegas.

Presencia da política galega na información da TVG (pezas)

Presencia da política galega na información da TVG (tempo)

Gráficos que trasladan a termos (11%) e o PPdeG (16%). Pero estes


porcentuais datos absolutos sobre a presencia porcentaxes, que poderían aparentar unha
da Política galega (16 pezas e 19’33”), e da certa pluralidade, contradinse logo co
Política nacional e internacional (19 enfoque informativo aplicado a cada partido
informacións e 34’) nos informativos da TVG. político, que, en realidade, é donde se
Cómpre precisar que, aínda que advirten as verdadeiras tendencias e onde
maioritaria (31% do tempo do bloque queda reflexada a política informativa da
político), a información institucional adquire TVG.
especial relevancia na mostra analizada A análise tamén variaría lixeiramente ó
debido á conmemoración dunha efeméride adoptarse unha medición relativa,
concreta como o 25 aniversario da considerando nun bloque unitario o tempo
Constitución española. Destaca, pola contra, concedido ó PP, ó Goberno da Xunta e ás
a superior presencia do BNG (26%) sobre institucións por canto se atopa un trasfondo
o Goberno galego (16%), o PSdeG-PSOE político monocolor fronte á oposición.
ECONOMIA E POLÍTICAS DA COMUNICAÇÃO 177

Presencia dos partidos, Goberno e institucións na información política galega


(tempo)

O gráfico reflexa o peso da información o PPdeG pasa a se-la forza claramente


institucional (5’55”); así como a presencia dominante na información política diaria da
do BNG (5’10”), o Goberno (2’51”), o canle autonómica que, ademáis, ofrece un
PSdeG-PSOE (1’56”) e o PP (3’41”). De tratamento desigual ós líderes políticos, por
considerarse información “monocolor” os canto os representantes da oposición apenas
contidos referentes ó Goberno, as Institucións aparecen de xeito directo (non hai apenas
e ó PP, obsérvase un claro predominio deste declaracións dos líderes do PSdeG-PSOE nin
partido sobre a oposición (PP: 11’57”, fronte do BNG), fronte á presencia directa de líderes
ós 5’10” do BNG e o 1’56” do PSdeG- do PPdeG relacionados con tarefas de
PSOE). goberno; do que se deduce que a imaxe
Algúns dos valores cuantitativos expostos pública que se traslada desde a TVG á
con respecto á información política ofrecida sociedade galega sobre PPdeG se fai en
pola TVG veñen a confirmar en gran medida termos claramente positivos (eficacia de
as reflexións de partida desta investigación, xestión, propostas, poder, etc.), fronte á imaxe
por canto se reflicten no enfoque tanto que se ofrece dos partidos na oposición
estético como de tratamento que a canle (propostas e líderes silenciados, problemas
autonómica lle aplica a cada formación internos desde o punto de vista partidista,
política. O “silencio” informativo ó que se etc.).
somete ó PSdeG-PSOE contrasta, sen Á marxe da manipulación xa referida,
embargo, co protagonismo do BNG como pódese concluir que os informativos da TVG
partido con maior presencia na crónica constrúen sistemáticamente unha imaxe en
política da TVG, mesmo por diante do positivo do PP e do Goberno da Xunta cunha
PPdeG. Sen embargo, adoptando unha carencia casi absoluta de posturas críticas cara
perspectiva conxunta en canto a medición de as institucións públicas. Ó mesmo tempo, a
forzas políticas desde tódolos puntos de vista homoxeneización temática e as preferencias
analizados (institucións, gobernos e partidos), continuas merman a diversidade.
178 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Bibliografía Barcelona. 1992.


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1
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DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 179

Capítulo II

DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO


180 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 181

Análisis de los códigos deontológico aplicables


a la Comunicación Organizacional
Ana Almansa Martínez1

Existen dos palabras griegas que dan distintas disciplinas de la comunicación, para
sentido al término ética: ethos (costumbre) no dividir esfuerzos en el terreno ético.
y êthos (cuadra de animales, carácter o Máxime en una sociedad como la actual
manera de ser). A partir de estos significados, (sociedad del conocimiento), que ha
el término ha evolucionado hasta lo que hoy evolucionado a tal velocidad que no ha sido
entendemos por ética: “ciencia filosófico- posible aún definir suficientemente sus
normativa y teórico-práctica que estudia los problemas.
aspectos individuales y sociales de la Las distintas definiciones de ética
persona, a tenor de la moralidad de los actos coinciden en que ésta ha preocupado a los
humanos”2. Exposición un poco más amplia seres humanos desde el origen de la
que la recogida por el Diccionario de la Real civilización misma y aún hoy es objeto de
Academia 3 , que se refiere a la ética debate. Como señalan Wilcox, Autt, Agee y
únicamente como “parte de la filosofía que Cameron 6 , “los profesionales de las
trata de la moral y de las obligaciones del relaciones públicas tienen el dilema adicional
hombre”. de tener que tomar decisiones que satisfagan
Pinto de Oliveira y Neva4 conjuntan los al interés público, al empresario, el código
conceptos de ética y comunicación, para ético profesional de la organización y sus
llegar a la conclusión de que “la ética de valores personales”. Es fácilmente
la comunicación social se encamina y define comprensible, cualquier actividad de
como el proyecto de una orientación libre relaciones públicas, por estar proyectadas
y responsable del proceso y del sistema de hacia el exterior, debe satisfacer el interés
la información en sí misma y del conjunto general; por estar ligada a una entidad u
de la sociedad”. organización también debe agradar en ese
Esta comunicación está dedicada, contexto; por estar englobada dentro de una
precisamente, a la ética en la comunicación actividad (las relaciones públicas) debe
organizacional, al repaso de los esfuerzos pro- responder a los códigos deontológicos de la
ética que suponen los códigos deontológicos. profesión, de los que hablaremos más
Evidentemente, la existencia de códigos no adelante; y, además, no debe entrar en
acaban con los conflictos éticos que puedan conflicto con los valores personales de
tener lugar pero, sin duda, suponen un avance quienes ejercen la profesión. Hacer coincidir
en este sentido. Por ello, hemos creído todo lo anterior no siempre resulta tan sencillo
oportuno ofrecer un análisis de las principales como debiera.
normas deontológicas aplicables en el ámbito No obstante, Grunig y Hunt7 sugieren dos
de las relaciones públicas en las principios éticos básicos en el ejercicio de
organizaciones. las relaciones públicas: los profesionales
tienen toda la intención de ser éticos, honestos
Ética en la comunicación y dignos de confianza en su quehacer
cotidiano y las acciones de estos profesionales
En comunicación debemos hablar de una no debe tener consecuencias negativas para
ética de las relaciones públicas 5, de la terceros, si es posible. Estos autores delegan
publicidad, del periodismo, de la imagen o la mayor responsabilidad a los “profesionales
audiovisual, concretándose en códigos éticos”, que son los que tienen que
concretos (de organizaciones profesionales, relacionarse y llevar a cabo las gestiones
de medios de comunicación, etc.). Es necesarias para que el trabajo resultante no
necesario potenciar las relaciones entre las colisione con los intereses de las distintas
182 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

partes implicadas. Es decir, para que las En cualquier caso, la ética debe ser un
relaciones públicas consigan un status compromiso personal de cada uno de los
profesional, se necesitan programas de profesionales de la comunicación en general
formación académica específicos, y de las relaciones públicas12 en particular.
reconocimientos por parte de la sociedad, Efectivamente, al igual que sucede en otras
responsabilidad individual y compromiso profesiones, cualquier persona puede vivir
para atenerse a los códigos establecidos que situaciones en las que se plantee conflictos
protegen al interés público. Es obvio que para éticos. Para salir de ellos deberá tener sus
poder definir como profesional el ejercicio propios umbrales morales13, No se puede
de cualquier labor, éste debe acogerse a justificar la falta de responsabilidad ética
principios éticos. En el caso de los gabinetes personal transfiriendo el problema a la
de comunicación, también. sociedad14. Es decir, un comunicador no
Resulta clave que estas personas sean puede ampararse en los problemas éticos de
auténticos profesionales, es decir, que tengan una profesión para intentar justificar sus
la formación específica necesaria y conozcan comportamientos poco adecuados.
la forma adecuada de trabajar en el ámbito Al relaciones públicas le ayudarán a
de las relaciones públicas en general y de ejercer dignamente su trabajo las normas
los gabinetes de comunicación en particular. deontológicas de su profesión. Es cierto que
En este ámbito, como en otros ligados a la estos códigos no agotan el tema de la ética,
comunicación, el “intrusismo” está pero por lo menos suponen un paso, una
perjudicando al buen hacer de los auténticos materialización, el establecimiento de unos
profesionales. Precisamente es la ética la que mínimos. Existen códigos de ética – llamados
distanciará a un profesional del que no lo también deontológicos o de conducta
es, ya que el profesional conocerá las normas profesional - en las organizaciones
aceptadas para el buen ejercicio de su labor. profesionales y también algunas empresas
Incluso se puede defender la deseable cuentan con códigos éticos propios. Estas
inseparabilidad de la comunicación y la ética. normas suelen ser asumidas por los
En esta línea, Parés y Maicas8 argumenta profesionales al formar parte de las
que la ética de la comunicación debe asociaciones. Sin embargo, uno de los
convertirse en el objetivo principal de una problemas con los que se encuentran en la
teoría de la comunicación, pues entiende que actualidad es la forma de hacer cumplir ese
son dos enfoques a considerar conjuntamente código y qué hacer con quienes no lo
(uno no debería ir sin el otro, aunque la respetan. El debate está abierto, especialmente
realidad nos demuestre que no siempre es el cómo poder hacer efectivas determinadas
así). Y aquí entra en juego la propia sanciones (por ejemplo, impedir el ejercicio
credibilidad9. Un comunicador no ético (con de aquella persona que, en reiteradas
comportamientos poco éticos) acabará por ocasiones, ha incumplido el código), qué
perder toda la credibilidad, mientras que uno personas están capacitadas para imponerlas
que sí lo sea, con el trabajo constante, irá y qué organismos deben llevarlas a cabo.
comprobando cómo crece su reconocimiento. Hasta ahora, casi ninguna asociación habla
O sea, resulta absolutamente necesario obrar en su código de sanciones y, en que caso
éticamente para inspirar confianza y de que lo haga, suelen ser multas o la
credibilidad10. Pero la cuestión no es tan expulsión de la agrupación.
sencilla y no depende únicamente de la buena En este último caso, también cabe
voluntad del profesional. Grunig y Hunt11 preguntarse si es adecuado que castigue la
conceden gran importancia al “profesional organización profesional o debería trasladarse
ético”, pero cabe plantearse hasta qué punto a otras esferas, ya que, al ser voluntaria la
éste podrá imponer su ética, por ejemplo, en pertenencia a estas organizaciones, en la
la organización para la que trabaja. Y es que, mayoría de los casos una sanción se salva
cada vez más, el profesional de la dejando de pertenecer al colectivo que castiga.
comunicación se ve sometido a presiones En el caso de que intervenga organismos a
políticas, económicas o empresariales, contra otro nivel, habría que plantearse cuáles y
las que poco puede hacer individualmente. cómo.
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 183

Figura 1 - Código Deontológico de la PRSA

CÓDIGO DE ESTÁNDARES PROFESIONALES PARA LA PRÁCTICA


DE LAS RELACIONES PÚBLICAS DE LA PUBLIC RELATIONS SOCIETY AMERICA

1. Todo miembro deberá conducir su vida profesional en función del interés público.

2. Todo miembro deberá ejemplificar elevados estándares de honradez e integridad en


cumplimiento de su doble obligación frente a su cliente o empresario y al proceso democrático.

3. Todo miembro deberá actuar con justicia frente al público, con sus clientes y empresarios,
actuales o pasados, y con sus colegas profesionales, con el debido respeto al ideal de libre
pensamiento y a la opinión de los demás.

4. Todo miembro deberá cumplir con los estándares más exigentes de precisión y verdad, evitando
reclamaciones extravagantes o comparaciones injustas, y deberá reconocer cuáles son las ideas
que ha adoptado de otros.

5. Ningún miembro deberá, conscientemente, divulgar información falsa o engañosa, debiendo


actuar con prontitud para corregir cualquier comunicación errónea de la que sea responsable.

6. Todo miembro deberá evitar participar en cualquier práctica que tenga como fin corromper la
integridad de los canales de comunicación o de los procesos de gobierno.

7. Todo miembro debe estar preparado para identificar públicamente el nombre el cliente o
empresario en nombre del cual emit

8. Todo miembro deberá evitar utilizar a cualquier individuo u organización que sirva o represente
una causa determinada, o que profese ser independiente y no sesgado, pero que de hecho esté
sirviendo a otros o a intereses ocultos.e una comunicación.

9. Ningún miembro podrá garantizar un objetivo con resultados específicos que están fuera del
alcance de su control directo.

10. Ningún miembro deberá representar intereses contrapuestos, o que entren en conflicto, sin el
expreso consentimiento de los afectados, ofreciendo toda la información sobre los hechos.

11. Ningún miembro se pondrá en una posición en la que sus intereses puedan estar en conflicto
con los del empresario o cliente, u otros, sin haber informado previamente sobre dichos intereses.

12. Ningún miembro aceptará minutas, comisiones, obsequios ni ninguna otra consideración de
nadie excepto los clientes o empresarios cuyos servicios atiende, sin expreso consentimiento y con
pleno conocimiento del hecho.

13. Todo miembro deberá salvaguardar escrupulosamente la intimidad y privacidad de clientes u


empresarios actuales, antiguos o potenciales.

14. Ningún miembro dañará la reputación profesional intencionadamente de ningún otro colega.

15. Si un miembro tiene pruebas que otro miembro es culpable de prácticas ilegales, injustas o no
éticas, incluyendo aquellas que violen este Código, el miembro está obligado a presentar con
prontitud la información a las autoridades pertinentes de la Sociedad, para que se emprendan las
acciones siguiendo el procedimiento establecido en el artículo XII del Reglamento.

16. Todo miembro que sea llamado a testificar en un procedimiento en virtud de este Código está
obligado a presentarse, salvo que sea liberado de esta obligación por motivo de fuerza mayor por
el tribunal.

17. Todo miembro deberá, con la mayor brevedad posible, evitar toda relación con cualquier
organización o individuo si esta relación implica un comportamiento contrario a los artículos de este
Código
Fuente: Wilcox, Autt, Agee y Cameron15
184 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Asimismo, en relaciones públicas se ha EE.UU. es encomiable, porque aquellas


reclamado en múltiples ocasiones la necesidad personas sancionadas verán dañada su
de establecer licencias para poder ejercer la imagen, algo a tener en cuenta en el sector.
profesión, de crear colegios profesionales. Es en éste campo, en el de hacer constar
Edward L. Bernays ha sido uno de los públicamente quiénes son las personas que
máximos defensores, aunque la mayoría no trabajan correcta ni éticamente, en el que
considera que la colegiación serviría de poco, los códigos deontológicos tienen su mayor
en tanto en cuanto el hecho de no estar margen de maniobra. Lo lógico sería que no
colegiado no impide ejercer las relaciones se contratara a ningún profesional con
públicas. sanciones serias y/o repetitivas, aunque esto
Los argumentos16 de quienes defienden no está en manos de las asociaciones
la existencia de licencias se basan en que profesionales sino de los contratantes.
éstas supondrían una protección para los Otra organización con código ético es la
públicos y para los auténticos profesionales Internacional Association of Business
de las relaciones públicas, ya que se les Communicators (IABC), que cuenta con
diferenciará del resto (sólo podrán contar con socios en 52 países distintos. Su código
licencia las personas preparadas). Y quienes deontológico insiste en la ética profesional
están en contra entienden que, puesto que de quien ejerce las relaciones públicas y en
es difícil definir las relaciones públicas, más la necesidad de satisfacer también el interés
espinoso es aún crear una ley significativa público (ver figura 2). Este organismo
y consideran complicado que sean agencias internacional no impone sanciones, sino que
externas quienes decidan la concesión, al hace un llamamiento informal a quienes
tiempo que también critican que la licencia violan el código. La IABC recurre más bien
ocasionaría problemas constitucionales a la concienciación de sus miembros mediante
relacionados con la libertad de expresión y la publicación de textos sobre ética, la
de opinión. formación (seminarios, etc.), así como hace
Por su parte, Noguero17 plantea que, por firmar a todos los aspirantes a formar parte
desgracia, actualmente se puede ejercer la de la organización una declaración de que
profesión sin ningún impedimento ético (una aceptan el código.
vez que no vulnere normativas legales). Esto La International Public Relations
sucede, en gran medida, porque no se crean Association (IPRA) también estableció en los
comisiones de control en la mayoría de las años 60 su código ético. En este caso también
asociaciones profesionales y, cuando existen, se habla de sanciones18: “toda violación de
no se da a conocer públicamente su actuación. este código por uno de sus miembros en el
Pero, a pesar de las deficiencias, los ejercicio de su profesión siempre y cuando
existencia de códigos deontológicos, sea probada ante la Juntas considerará como
generalmente en asociaciones profesionales, falta grave que lleva consigo una sanción
suponen un paso adelante en el afianzamiento adecuada”. El Institute of Public Relations
de la ética. Por ello, se deben destacar códigos de Gran Bretaña apoya los códigos del IPRA,
como el de la Public Relations Society of aunque también establece su propio código
America (PRSA), que cuenta con normativa de conducta profesional19, en el que se avisa,
deontológica desde principios de la década en el caso de infringirlo, de advertencias al
de los cincuenta y sanciona a los miembros socio implicado y de posterior aviso al
que lo violan (ver figura 1). La PRSA puede instituto, si las practicas continúan.
reprimir, suspender o expulsar (éste es el Asimismo, la Confederación Europea de
máximo castigo) al miembro que no cumple Relaciones Públicas aprobó en 1978 el
las normas del código. Sin embargo, no puede Código Europeo de Deontología Profesional20.
impedir que esta persona siga trabajando se En este organismo está representada
relaciones públicas. Únicamente prohíbe que prácticamente la totalidad de las asociaciones
forme parte de la sociedad. Además, no tiene existentes en Europa que agrupan a los
potestad para amonestar a aquellos profesionales de relaciones públicas. Respecto
profesionales que no están asociados. A pesar a la violación del código, éste recoge en el
de las dificultades, la política de PRSA en Capítulo II: “el profesional de las relaciones
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 185

Figura 2 - Código de Ética para los profesionales de la comunicación de


international association of business communicators (IABC)

1 - Los profesionales de la comunicación realzan 7 - Los profesionales de la comunicación revelan


la credibilidad y dignidad de su profesión la auditoría de cualquier expresión que tomen de
practicando una comunicación honrada, a otros, e identifican las fuentes y objetivos de toda
tiempo y sincera, y fomentan el libre flujo de la la información divulgada al público.
información esencial en función del interés
público.
2 - Los profesionales de la comunicación 8 - Los profesionales de la comunicación
divulgan información precisa y corrigen con protegen la información confidencial y, al mismo
prontitud cualquier comunicación errónea de la tiempo, cumplen con todos los requisitos legales
que puedan ser responsables. para la revelación de información relativa a la
riqueza de terceros.
3 - Los profesionales de la comunicación 9 - Los profesionales de la comunicación no
comprenden y apoyan los principios de libertad utilizan información confidencial obtenida como
de expresión, libertad de asociación, y acceso a resultado de sus actividades profesionales para
un mercado de ideas abierto, y actúan en su beneficio personal, y no representan intereses
consecuencia. contrapuestos o en conflicto sin la autorización
por escrito de los afectados.
4 - Los profesionales de la comunicación 10 - Los profesionales de la comunicación no
respetan los valores y creencias culturales y aceptan regalos o pagos secretos por servicios
participan en actividades de comunicación justas profesionales de ninguna persona que no sea
y equilibradas que fomentan y realzan el cliente o empresario.
entendimiento mutuo.
5 - L o s p r o f e s i o n a l e s d e l a c o m u n i c a c i ó n s e 11 - Los profesionales de la comunicación no
niegan a participar en cualquier actividad que garantizan los resultados que están más allá de
puedan considerar poco ética. su alcance.
6 - Los profesionales de la comunicación 12 - Los profesionales de la comunicación son
obedecen las leyes y las políticas públicas que honrados no sólo con terceros, sino, aún más
gobiernan sus actividades profesionales, y importante, con ellos mismos como individuos;
respetan el espíritu de todas las leyes y ya que todo profesionales de la comunicación
normativas; en caso de que alguna ley o política busca la verdad y se dice a sí mismo, ante todo,
pública fueses violada, por la razón que fuere, la verdad.
actuarán con prontitud para enmendar la
situación.
Fuente: Wilcox, Autt, Agee y Cameron22

públicas debe respetar el Código Nacional recientemente un código de conducta (figura


de conducta profesional, así como las leyes 5), con la intención de que “la transparencia
del país donde ejerza su profesión”, dejando presida todos los actos de comunicación”,
muy abierto el tema de las posibles sanciones. porque”“la comunicación sin valores, o es
En el Capítulo III se concluye que ”cualquier propaganda o es manipulación”, según el
profesional que permita una violación del presidente de Dircom Antonio López24 .
código, será considerado él mismo como
infractor del código” (figura 3: Código A modo de conclusión
europeo de deontología de las RR.PP,
Black21). La reflexión sobre deontología y
En España, la Asociación de Empresas transparencia en el ejercicio de las relaciones
Consultoras en Relaciones Públicas y públicas apremia, máxime cuando parece
Comunicación (ADECEC) cuenta con un evidente que el futuro de la profesión pasa,
código de ética23 (figura 4) en el que se necesariamente, por interiorizan una conducta
establecen las pautas de cómo trabajar ética26.
correctamente las relaciones públicas y no Sin ética, no se consigue credibilidad ni
se refiere a las actuaciones que la el respeto de los públicos. Rigor,
organización podría llevar a cabo contra los transparencia y fluidez son tres factores
socios que violen el código. También la condicionantes en la creación de imagen de
asociación Dircom ha elaborado cualquier organización o colectivo. Las
186 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Figura 3 - Código europeo de deontologia de las RR.PP.


Capítulo 1 Respecto de la opinión pública y de los órganos de formación
Art. 1.- Se considera profesional de Art. 14.- El espíritu de este código y las normas que preceden, especialmente los
RR.PP., según los términos del artículos 2, 3, 4 y 5, implican, por parte del profesional de relaciones públicas, la
presente código – obligados por él- preocupación constante del derecho a la información y del deber de informar,
cualquier miembro de una asociación teniendo en cuenta los límites del secreto profesional y el respeto de los derechos
nacional admitido por ella como tal, y de la independencia e iniciativa de los órganos de información.Art. 15.-
conforme a sus criterios o a los Cualquier tentativa de engañar a la opinión pública o a sus representantes, queda
establecidos por la ley, o por los totalmente prohibida. Las informaciones deben ser facilitadas gratuitamente y sin
reglamentos oficiales nacionales. contrapartida clandestina por su utilización o publicación.Art.16.- Si se considera
necesario conservar la iniciativa y el control de la difusión de una información, de
acuerdo con las especificaciones del presente código, el profesional de relaciones
públicas puede recurrir a la compra de espacio o de tiempo, siguiendo las normas,
prácticas y usos en esta materia.
Capítulo 2 Respecto de los colegas
Art. 2.- En la práctica de su profesión, el profesional de relaciones públicas se Art. 17.- El profesional de relaciones
compromete a respetar los principios enunciados en la Derechos del Hombre y, públicas debe abstenerse de cualquier
en particular, la libertad de expresión y la libertad de prensa, que se concentra en competencia desleal respecto a sus
el derecho de toda persona a la información. Asimismo, se compromete a actuar colegas. Debe abstenerse, también de
de acuerdo con el interés general y a no atentar contra la dignidad ni la integridad cualquier acto o de cualquier palabra
de la persona.Art. 3.- En su conducta profesional, el profesional de relaciones que pueda menospreciar la reputación o
públicas debe dar prueba de su honestidad, de integridad intelectual y de lealtad. el trabajo de un colega, vinculado, en
Se compromete, muy especialmente, a no utilizar cualquier comentario y/o este caso, por el artículo 19 b) de este
información que, según su conocimiento o creencia, sean falsos o engañosos. Con código.
este mismo espíritu, ha de tener cuidado en evitar la utilización, aún
accidentalmente, de prácticas o de medios incompatibles con el presente
código.Art. 4.- Las actividades de relaciones públicas deben ejercerse
abiertamente, deben ser fácilmente identificables, llevar una clara mención de su
origen y evitar que induzcan a error a terceros.Art.5.- En sus relaciones con otras
profesiones u otras ramas de la comunicación social, el profesional de relaciones
públicas debe respetar las reglas y los usos profesionales propios de cada una de
ellas, en la medida en que éstas no sean incompatibles con la ética de la profesión.
El profesional de rr.pp. ha de tener mucho cuidado en realizar una recta y
moderada publicidad personal. El profesional de relaciones públicas debe respetar
el código nacional de conducta profesional, así como las leyes del país donde
ejerza su profesión.
Capítulo 3 Respecto de la profesión
Obligaciones profesionales y específicas. Respecto de los clientes y Art. 18.- El profesional de relaciones
contratantes públicas debe abstenerse de cualquier
Art. 6.- Salvo acuerdo expreso de los clientes o contratantes, el profesional de práctica que pueda perjudicar la
relaciones públicas no podrá representar intereses conflictivos o en reputación de la profesión. Ha de
competencia.Art. 7.- En la práctica de su profesión, el profesional de relaciones abstenerse, especialmente, de causar
públicas está obligado a la más estricta discreción. Debe respetar daño, por ataques desleales o por
escrupulosamente el secreto profesional y abstenerse, en particular, de revelar violación de los estatutos y de las
cualquier información confidencial que posea de sus clientes o contratantes normas de orden interno, a la existencia
pasados, presentes o potenciales, o de hacer uso de la misma, sin haber obtenido misma, al buen funcionamiento y al
una autorización expresa.Art. 8.- El profesional de relaciones públicas que tuviere buen nombre de la asociación nacional
intereses que pudiesen entrar en conflicto con los de su cliente o contratantes a la cual pertenece.Art. 19.- La
debe revelarlos tan pronto como sea posible.Art.9.- El profesional de relaciones preservación de la imagen de la
públicas no puede recomendar a sus clientes o contratantes los servicios de profesión es responsabilidad de cada
cualquier empresa u organización en la que posea intereses financieros, uno en particular, por tanto, el
comerciales o cualesquiera otros, sin haberlo advertido previamente.Art.10.- El profesional de relaciones públicas tiene
profesional de las relaciones públicas no puede hacer contratos con un cliente o el deber moral, no solamente de
contratante con garantía de resultados cuantificados.Art. 11.- El profesional de las respetar él mismo el presente código,
relaciones públicas no puede aceptar remuneración por sus servicios más que en sino de: participar personalmente en su
forma de salario o de honorarios, y de ninguna manera puede aceptar cualquier difusión y en su mejor conocimiento;
pago u otras compensaciones materiales que estuvieran vinculados a resultados informar a las autoridades disciplinarias
profesionales cuantificados.Art. 12.- El profesional de relaciones públicas no competentes sobre las violaciones
puede aceptar, por sus servicios a un cliente o a un contratante, cualquier efectivas o presuntas de las que tenga
remuneración de terceros, como descuentos, comisiones o pagos en especies, noticia; contribuir, en la medida de sus
salvo acuerdo del cliente o contratante.Art.13.- Cuando la ejecución de un trabajo posibilidades a la ejecución de las
de relaciones públicas pueda comportar faltas profesionales graves e implicar una resoluciones, así como a la aplicación
conducta contraria a los principios de este código, el profesional de relaciones efectiva de las sanciones pronunciadas
públicas debe tomar las medidas oportunas para advertir inmediatamente a su o decididas por las susodichas
contratante y hacer todo lo posible para que éste respete las normas autoridades.Cualquier profesional que
deontológicas de la profesión. Si el contratante persiste en sus intenciones, el permita una violación del código, será
profesional está obligado siempre a respetar el código, independientemente de considerado él mismo como infractor del
las consecuencias que de ello se deriven. código.
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 187

Figura 4 - Código Ético de ADECEC

1 - Las empresas asociadas tiene la obligación de proporcionar y mantener un trato justo e


impecable con sus clientes, sean actuales o no, como con sus colegas asociados (consultorías) y
el público en general y deben respetar el interés de la sociedad en la realización de sus actividades.

2 - Las empresas asociadas deben ajustarse a los cánones de la libre competencia, pudiendo
ofrecer sus servicios a clientes potenciales por libre iniciativa o bien a petición de los mismos,
siempre que no exista coacción sobre el cliente para prescindir de sus servicios ya contratados a
otra empresa.

3 - Las empresas asociadas, manteniendo una línea de respeto hacia sus colegas asociados, no
menospreciarán la reputación o profesionalidad de cualquier consultoría en relaciones públicas y
comunicación bajo ningún concepto o situación, ni en el caso específico de trabajo conjunto,
posterior o anterior para un mismo cliente.

4 - Las empresas asociadas no se implicarán en actividades que corrompan o tiendan a corromper


la integridad de los canales de comunicación pública o la legislación.

5 - las empresas asociadas no incurrirán en ninguna actividad que pueda perjudicar el prestigio de
la Asociación o la totalidad de sus objetivos, siendo el primordial promover y enaltecer la práctica
de la consultoría en relaciones públicas y comunicación en España y como representantes de
España en cualquier organismo extranjero.

6 - Las empresas asociadas deberán negociar y acordar los términos de los servicios ofertados
sobre la base de la viabilidad de los recursos ofrecidos, siendo éstos de cualquier índole.

7 - Las empresas asociadas tendrán la posibilidad de participar en concursos planteados por


clientes, siempre que los proyectos de estos concursos sean remunerados por igual entre los
concursantes y el cliente haya previamente informado del nombre de todos los aspirantes al
concurso.

8 - Las empresas asociadas, al margen de percibir los honorarios correspondientes a sus servicios
al cliente, pueden percibir honorarios, comisiones y otras compensaciones de terceras personas
vinculadas a los servicios prestados al cliente.

9 - las empresas asociadas y sus directivos pueden informar al cliente de la tendencia de las
acciones e intereses financieros en empresas en su competencia.

10 - Las empresas asociadas aceptan el compromiso de mantener la confidencialidad de los


servicios prestados, así como la información derivada de estos servicios, tanto de antiguos clientes
como de los actuales, salvo expresa autorización de los mismos.

11 - Las empresas asociadas no difundirán intencionadamente información falsa o tergiversada y


tienen la obligación de velar por el mantenimiento íntegro y veraz de la información para que no
se puedan perjudicar los intereses y la práctica de la consultoría en relaciones públicas y
comunicación.
Fuente: ADECEC 25
188 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Figura 5 - Código de Conducta de DIRCOM

Los profesionales integrados en la Asociación de Directivos de Comunicación


entienden que el ejercicio de la comunicación
S e a s i e n t a e n l o s p r i n c i p i o d e l i b e r t a d d e Deberá respetar la diversidad cultural, los
expresión e información y en el derecho de v a l o r e s s o c i a l e s v i g e n t e s y l a s d i f e r e n t e s
réplica (amparados en la constitución) creencias religiosas
Deberá realizarse con responsabilidad y
Asume y reconoce el derecho de los ciudadanos
eficacia, sin que el trabajo ofrecido o el mensaje
a estar informados de cuantos asuntos pudieran
emitido pueda crear expectativas o garantizar
afectarles, directa o indirectamente, en el
resultados inalcanzables para la organización o,
presente o en el futuro
en su caso, para el cliente
Deberá desempeñarse con independencia,
Está dirigido a proporcionar la información
respetando la crítica responsable, ofreciendo
adecuada que afecte al entorno de la compañía
datos y argumentos para el convencimiento,
o institución para la que trabaja y atender las
evitando la descalificación, la falacia y el conflicto
demandas externas que no vayan en contra de
de intereses, siempre de acuerdo con la
los legítimos intereses de aquellas
legislación vigente
Es un medio para generar conocimiento, obtener
Requiere el conocimiento de los valores sociales
la confianza de los destinatarios a través de una
vigentes, de las técnicas más adecuadas y de las
información veraz y contrastable, para que las
tecnologías más eficaces, en cada momento,
organizaciones sean responsables de sus
para el cumplimiento de los fines de cada
acciones y consecuentes con el alcance e
empresa, proyecto, organización o cliente
impacto que puedan producir en la sociedad
Está al servicio de las personas, como
consumidores, usuarios, empleados, Debe responder siempre al origen de la
ciudadanos..., y de las organizaciones, para información, identificado y contrastando las
favorecer el entendimiento entre las partes y fuentes responsables y los fines con los que se
constituye un medio de creación, desarrollo y genera el mensaje
promoción de opiniones
Deberá realizarse con honestidad, integridad y
CÓDIGO DE CONDUCTA DIRCOM
transparencia
Fuente: Dircom (www.dircom.org)

asociaciones profesionales tanto de relaciones la profesionalización y que se hacen


públicas como de periodistas, que trabajan progresos. En este sentido, aseguran que
frecuentemente estos ámbitos, deberían “sólo cuando la mayoría de los profesionales
aplicarlos a ellos mismos, para el actúe de forma ética, quedará claro cuando
reconocimiento social de su trabajo y otros no lo hagan. Sólo entonces aquellos
profesión. Porque sin credibilidad, con una que no las practican (las relaciones públicas)
mala imagen entre los públicos, difícilmente reconocerán que las relaciones públicas
podrán trabajar ni directores de comunicación constituyen una profesión ética”. Asimismo,
ni periodistas. Por eso, ética y comunicación los autores insisten en que “la solución parece
deben contemplarse de forma conjunta, ser la formación de futuros profesionales de
inseparable. las relaciones públicas en habilidades y
Para concluir este estudio, podemos conocimientos que les ayuden a ser una
recordar las palabras de Grunig y Hunt27, que fuerza ética en la organización para la que
reconocen se está en las primeras fases de trabajan”.
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 189

3
Bibliografía Real Academia Española :ÄDiccionario de
la Lengua Española, Madrid, Espasa Calpe, 1992,
ADECEC: El libro práctico de la p. 924.
4
Comunicación y las Relaciones Públicas. El Pinto de Oliveira, C.J. y Neva, J.: Éthique
de la communication sociale. Vers un ordre
porqué y el cómo de una profesión
humain de l’information dans le monde, Fribourg
apasionante, Barcelona, Folio, 1997. (Suisse), Ed. Universitaires, 1987, p. 43
Benito, A. (dir.): Diccionario de Ciencias Reproducimos esta definición por parecernos una
y técnicas de la comunicación, Madrid, Ed. de las más significativas, aunque existen otras
Paulinas, 1991. muchas. Por ejemplo, Wilcox, Autt, Agee y
Berton, L.: “Avoiding media Land Cameron (2001: 61) ofrecen una definición de ética
Mines”, en The Public Relations Strategist, y comunicación de fácil aplicación al mundo de
verano 1997, pp. 12-21. los gabinetes. Consideran que “la ética hace
Black, S.: Las Relaciones Públicas. Un referencia al sistema de valores por el que una
factor clave de gestión, Barcelona, Colección persona determina qué es lo que está bien, y qué
está mal, qué es justo o injusto. Se muestra
Esade, 1994.
mediante el comportamiento moral en
García, M. M.: Las Relaciones Públicas, circunstancias específicas. La conducta de un
Madrid, Libsa, 2000. individuo no sólo se mide en función de su
Grunig, J. E. y Hunt, T.: Dirección de conciencia, sino también en función de algunas
Relaciones Públicas, Barcelona, Gestión normas de aceptabilidad que se han definido desde
2000, 2000. el punto de vista social, profesional o de
Noguero, A.: “Comentaris sobre ètica i organización”.
5
comunicació social”, en AA.VV.: Ética i Las normas éticas se reflejan en los códigos
comunicació social, Barcelona, Generalitat de deontológicos. Así existen códigos éticos de las
Catalunya, 1993, pp. 81-82. relaciones públicas, del periodismo, de la
publicidad, del cine, además de contar muchos
Parés i Maicas, M.: Introducción a la
medios de comunicación (radios, televisiones,
comunicación social, Barcelona, ESRP-PPU,
periódicos...) con códigos propios.
1992. 6
Wilcox, D. L., Autt, P. H., Agee, W. K. y
Pito de Oliveira, C.J. y Neva, J. : Éthique Cameron, G. T.: Relaciones Públicas. Estrategias
de la communication sociale. Vers un ordre y tácticas, Madrid, Addison Wesley, 2001, p. 62.
humain de l’information dans le monde, 7
Grunig, J. E. y Hunt, T.: Dirección de
Fribourg (Suisse), Ed. Universitaires, 1997. Relaciones Públicas, Barcelona, Gestión 2000,
Ricarte, J.M. : “Reflexiones sobre tres 2000, pp. 141-142.
8
puntos éticos”, en AA.VV.: Ética i Parés i Maicas, M.anuel: Introducción a la
comunicació social, Barcalona, Generalitat de comunicación social, Barcelona, ESRP-PPU, 1992,
pp. 331-344.
Catalunya, 1993, pp. 79-80. 9
Uno de los principales elementos de
Seitel, F. P.: Teoría y práctica de las credibilidad que poseen los responsables de
relaciones públicas, Madrid, Prentice Hall, 2002. comunicación es la verdad, puesto que sin ella
Simon, R.: Relaciones Públicas. Teoría no existe confianza de los periodistas y esa relación
y Práctica, Méjico, Editorial Limusa, 1996. se verá limitada en gran medida. Desde esta
Tomas, C. M.: “Ética , credibilidad y perspectiva, Berton (1997: 16) señala que si se
relaciones públicas”, en Barquero Cabrero, miente a un periodista, éste nunca más volverá
J.D.: Manual de relaciones públicas a creer a su fuente (en este caso, al comunicador
empresariales e institucionales, Barcelona, de la organización).
10
Gestión 2000, 1999, pp. 153-166. Tomás, C. M.: “Ética, credibilidad y
relaciones públicas”, en Barquero Cabrero, J.D.
Wilcox, D. L., Autt, P. H., Agee, W. K. y
(1999): Manual de relaciones públicas
Cameron, G. T. : Relaciones Públicas. Estrategias empresariales e institucionales, Barcelona, Gestión
y tácticas, Madrid, Addison Wesley, 2001. 2000, 1999, pp. 153-166.
11
Grunig, J. E. y Hunt, T.: Dirección de
Relaciones Públicas, Barcelona, Gestión 2000,
_______________________________ 2000, pp. 141-142.
1 12
Universidad de Málaga (España). En este sentido, el código deontológico de
2
Benito, A. (dir.): Diccionario de Ciencias la Public Relations Society of America (PRSA)
y técnicas de la comunicación, Madrid, Ed. señala en su artículo 4 “todo miembro deberá
Paulinas, 1991, p. 560 cumplir con los estándares más exigentes de
190 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

16
precisión y verdad, evitando reclamaciones Simon, R.: Relaciones Públicas. Teoría y
extravagantes o comparaciones injustas, y deberá Práctica, Méjico, Editorial Limusa, 1996, pp. 466-
reconocer cuáles son las ideas y expresiones que 467.
17
ha adoptado de otros”. Asimismo, el art. 5 añade Noguero, A.: “Comentaris sobre ètica i
que “ningún miembro deberá, conscientemente, comunicació social”, en AA.VV.: Ética i
divulgar información falsa o engañosa, debiendo comunicació social, Barcelona, Generalitat de
actuar con prontitud para corregir cualquier Catalunya, 1993, pp. 81-82.
18
comunicación errónea de la que sea responsable”. Según se establece en el Código de Atenas
No es el único código ético de RR.PP. que recoge de la IPRA, recogido en García (2000: 146-151).
19
este tipo de cuestiones. El código de la García, M. M.: Las Relaciones Públicas,
International Association of Bussiness Madrid, Libsa, 2000, pp. 151-155.
20
Communicators (IABC) dedica varios artículos a Recogido en Black (1994: 246-250). El
la verdad y la honradez. El número 1 dice Código de Lisboa se adoptó oficialmente en 1978
textualmente “los profesionales de la en la ciudad portuguesa y fue modificado en el
comunicación realzan la credibilidad y dignidad mismo lugar en 1989.
21
de su profesión practicando una comunicación Black, S.: Las Relaciones Públicas. Un
honrada, a tiempo y sincera, y fomentan el libre factor clave de gestión, Barcelona, Colección
flujo de la información esencial en función del Esade, 1994, 246-250.
22
interés público”. El artículo 2 aclara que “los Wilcox, D. L., Autt, P. H., Agee, W. K. y
profesionales de la comunicación divulgan Cameron, G. T.: Relaciones Públicas. Estrategias
información precisa y corrigen con prontitud y tácticas, Madrid, Addison Wesley, 2001, pp. 70-
cualquier comunicación errónea de la que puedan 71.
23
ser responsables”. Y concluye el artículo 12: ”los Reproducido en ADECEC (1997: 345-358).
24
profesionales de la comunicación son honrados López, en una entrevista en prnoticias.com,
no sólo con terceros, sino, aún más importante, el 10 de abril de 2003, entiende que, además
con ellos mismos como individuos; ya que todo de los códigos, resulta imprescindible que los
profesional de la comunicación busca la verdad comunicadores asuman el compromiso de la
y se dice a sí mismo, ante todo, la verdad”. transparencia y la ética.
13 25
Simon, R.: Relaciones Públicas. Teoría y ADECEC: El libro práctico de la
Práctica ,Méjico, Editorial Limusa, 1996, pp. 461- Comunicación y las Relaciones Públicas. El
462. porqué y el cómo de una profesión apasionante,
14
Ricarte, J.M.: “Reflexiones sobre tres puntos Barcelona, Folio, 1997, pp. 357-358.
26
éticos”, en AA.VV. : Ética i comunicació social, Seitel, F. P.: Teoría y práctica de las
Barcelona, Generalitat de Catalunya, 1993, pp. 79- relaciones públicas, Madrid, Prentice Hall, 2002,
80. p. 104.
15 27
Wilcox, D. L., Autt, P. H., Agee, W. K. Grunig, J. E. Y Hunt, T.: Dirección de
y Cameron, G. T.: Relaciones Públicas. Estrategias Relaciones Públicas, Barcelona, Gestión 2000,
y tácticas, Madrid, Addison Wesley, 2001, p. 65. 2000, p. 146.
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 191

A ética da diferença: distribuição de bens e de oportunidades


na produção do conhecimento científico
Betania Maciel1

Nossa pesquisa baseia-se em uma análise sobre ética dominante em nossas sociedades.
de conteúdo da informação sobre as mulhe- Portanto forma-se parte do debate sobre os
res e sua participação nas revistas científicas valores e sobre como deve ser uma ética que
Nature e Science nos anos de 1993, 1996 nos permita avançar no caminho para a busca
e 1999. Objetiva-se analisar manifestações enfim do desenvolvimento.
do interesse renovado ao longo de uma Este debate é para clarificar e interessar
década sobre a questão social e as dimensões a crítica e a ética da justiça, apresentando
éticas que pressupõe a perspectiva de gêne- o resultado de que nenhuma delas é neutra,
ro, cuja característica particular é de uma nem universal, questionamos a existência de
narração sobre pesquisadoras que contribu- uma ética para o público – a da justiça e
íram para a produção do conhecimento ci- outra para o privado – a do cuidado. A partir
entífico invadindo espaços variados de in- destas críticas tratamos de propor novos
vestigação. critérios válidos para mulheres e homens,
O debate sobre a ética e a justiça tem tanto na vida pública e na vida privada, que
o interesse para diferentes setores na soci- integrem de modo adequado as duas éticas.e
edade. Temos visto planificado atualmente integram de modo adequado as duas éticas.
que os estudos de gênero na produção de Além desse aspecto pode ajudar a ver o
conhecimento científico tiveram uma maior caráter coletivo dos problemas que se apre-
atenção e conseqüentemente na década pas- sentam com mais freqüência e discutirmos
sada pelos movimentos de luta pelos direitos a partir da moral que aplicamos individual-
iguais entre as diferentes minorias sociais, mente, mas que possui caráter social.
o espaço dentro da sociedade de todos sem Objetivamos analisar manifestações do
diferença de sexo na busca não só do co- interesse renovado ao longo de uma década
nhecimento científico, mas também e prin- sobre a questão social e as dimensões éticas
cipalmente na produção desse conhecimen- que pressupõe a perspectiva de gênero, cuja
to. característica particular é de uma narração
A teoria dominante do desenvolvimento sobre pesquisadoras que contribuíram para a
moral não refletiu no desenvolvimento dos produção do conhecimento científico inva-
indivíduos da espécie humana, apenas acei- dindo espaços variados de investigação.
tava-se que o que o homem produzia cien- Considera-se a capacidade de influência dos
tificamente era de verdade a verdade, o mass media sobre o conhecimento. Conclui-
conhecimento em contrapartida ao conheci- se que esta pode variar segundo os temas
mento que a mulher apresentava, conside- escolhidos e que em certos meios de comu-
rando que era incapaz travar o desenvolvi- nicação a influência é maior ou menor, o que
mento do raciocínio moral das mulheres. É distingue as notícias e a sua centralidade, pois
um exemplo de como algo que é elaborado quanto menor é a experiência direta que as
pelos homens, geralmente se aceita como pessoas têm de um determinado tema, mais
universal, e consequentemente isso é ponto essa experiência dependerá dos mass media
determinante. para se obterem informações e os quadros
Se existe ou não diferenças entre gênero representativos dessa área temática.
e juízo moral e se acaso existe de verdade Seguimos os passos indicados, correspon-
que postura apresenta a crítica feminista e dentes à análise de conteúdo e encontramos:
crítica feminina sobre esse tema? Que rela- O universo constituído por todas as
ção existe nessas diferenças? Está relacio- notícias e reportagens sobre mulher e ciên-
nado com outras críticas que se realizam cia.
192 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Seleção da mostra de materiais. houve uma obrigação em utilizar o termos


Seleção das fontes: Revistas Nature e em inglês para que houvesse uma identifi-
Science. cação internacional única.
Seleção dos anos: 1993 1996 e 1999. Sua tradução literária ao português seria
Seleção de gêneros: todos. “fixação da agenda” ou “estabelecimento da
Seleção da unidade de análise: as notí- agenda”, utilizamos para compreensão geral
cias e reportagens cujo tema principal seja também a palavra “pauta”.
a mulher na ciência. Em castelhano foi citado em algumas
Geração das categorias de análise e traduções menos artificiais como “estabele-
proposta de quantificação. cimento ou fixação dos repertórios temáticos
O tratamento do tema principal da uni- de preocupação”. Mas, esta alternativa de
dade de análise foi desenvolvido, levando em tradução muito extensa não foi cultivada nos
conta os seguintes indicadores. Em primeiro estudos de comunicação na Espanha.
lugar se cuidava de identificar o tema prin- Outra opção da tradução seria a que
cipal, o assunto central do texto para depois constitui a expressão “tematização da reali-
estabelecer uma lista dos mesmos e calcular dade” ou “fenômeno de tematização”. Tais
em que assunto está centrado, a cobertura expressões têm sido utilizadas na Itália,
da matéria. Trata-se nesse caso de um in- primeiro, e na Espanha, depois para intro-
dicador aberto, que foi codificado, posteri- duzir as reflexões do novo funcionalismo-
ormente. Valorizamos a natureza positiva, estrutural alemão (Nikolas Luhmann) sobre
negativa ou neutral do acontecimento, em o mesmo fenômeno, abordado a partir de uma
lugar do caráter de tratamento propriamente perspectiva muito mais profunda e nada
dito, deste modo tentamos amenizar os empirista. Esta outra forma teórica de apre-
problemas da validade derivada da definição sentar a discussão sobre o fenômeno tem
daqueles atributos. Assim, adotamos uns levado a refletir alguns pensadores e comen-
critérios de codificação já utilizados em outros taristas como Saperas (1987) que se tratava
estudos (Kepplinger e Weisbecher, 1992). de dois efeitos diferentes embora estejam
Estes critérios são: positivo quando se refere relacionados. Uma breve análise da questão
a êxitos em campo político, econômico e permite concluir que o fenômeno é
social (extensão de um conflito internacio- exatamente o mesmo. Ainda que o enfoque
nal, democratização de um país, estabilidade positivista ou da teoria sociológica analisem
econômica, avanços médicos) ou, melhoria a partir de perspectivas distintas.
de acontecimentos negativos, (aumento de Aprofundando um pouco essa idéia há que
mulheres em universidades), negativo sem lembrar que a expressão “tematização” é
aparecerem atos violentos (terrorismo, guer- utilizada em diversas publicações francesas
ra, maus tratos), enfermidades ou mortes, para traduzir diretamente os trabalhos de
crise econômica, conflitos sociais ou políti- “agenda-setting” dos pesquisadores
cos, controvérsias entre indivíduos ou gru- positivistas. Os próprios autores italianos
pos, acidentes, catástrofes, e neutral para como Agostini (1948) introduziram o termo
acontecimentos que não podem ser classifi- “tematizzazione” para explicar a análise de
cados em nenhuma das outras categorias. Os Luhmann, também empregam como referên-
mesmos processos seguem, no caso, um cia geral para comentar os trabalhos empíricos
contexto relevante. norte-americanos.
A expressão agenda-setting é um termo Uma primeira conclusão que pode esta-
denominado com bastante êxito por belecer-se, portanto, é que o fenômeno da
comunicólogos norte-americanos e já trans- “tematização” e o da “fixação da agenda
cendeu toda bibliografia internacional até ser temática” é uma mesma coisa, ainda que
reconhecido e obrigado como termo de distinguindo logo entre as aproximações
referência comum. É um termo que está na puramente empíricas ou as teóricas.
língua inglesa e veicula em todos os outros A conveniência de localizar uma expres-
territórios sem necessitar tradução. Na são em castelhano ou em outra língua pode
Espanha houve propostas de mudanças, mas ser entendida como uma coisa natural, mesmo
hoje por razões que informaremos a seguir que não seja uma tradução literal.
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 193

Portanto o efeito agenda-setting tal e Leod, Mc Combs e seus seguidores desde


como é citado em toda bibliografia especí- o final dos anos 60. Sugere ele, que as idéias
fica de comunicação é entendida em nossa de diversos autores, partindo de variadas
pesquisa como seu sentido real, ou seja, a especializações de alguma forma já haviam
orientação, condução ou canalização que as identificado o fenômeno.
mentes dos cidadãos sofrem a partir de um O próprio grupo de Mc Combs reconhe-
repertório de temas de preocupação pública, ce sua inspiração direta na frase de Cohen
em detrimento de outros que não são men- e cita referências de outros autores remon-
cionados ou destacados, como conseqüência tando-se aos anos vinte. Diferentes formas
da seleção prévia de assuntos que realizam de comentar esse fenômeno vão criando novas
os “mass media”. O citado Agostini (1948), referências isoladas que apresenta algo de
afirma que os meios atuam “canalizando a lógico. Que o princípio de “agenda-setting”
atenção do público”. não podia ser um descobrimento localizado
A idéia chave deste poder canalizador dos e tardio, como inicialmente sugerem os tra-
meios foi perfeitamente sintetizado por balhos de McLeod, McCombs e Shaw.
Cohen, McCombs e Shaw. Estudiosos do Para contrastar esse pensamento sobre as
fenômeno agenda-setting. idéias dos efeitos dos mas media apresen-
A hipótese de agenda-setting (Shaw, taremos uma breve referência cronológica e
1979) defende que: esquemática de diversos autores que de
alguma forma fizeram referências ao fenô-
“Em conseqüência da ação dos jor- meno que o mass media provoca na soci-
nais, da televisão e dos outros meios edade.
de informação, o público sabe ou 1896. William James em The Principles
ignora, presta atenção ou descura, of Psychology formula pela primeira vez a
realça ou negligencia elementos es- idéia de que a audiência é formada por uma
pecíficos dos cenários públicos. As familiaridade com a informação que recebe.
pessoas têm tendência para incluir ou (Roger, E. y Dering, J., 1988). Esta idéia será
excluir dos seus próprios conhecimen- posteriormente desenvolvida por Lippmann
tos aquilo que os mass media inclu- e Park.
em ou excluem do seu próprio con- Em 1922 Walter Lippmann em seu cé-
teúdo. Além disso, o público tende a lebre Public Opinion concretamente no ca-
atribuir àquilo que esse conteúdo pítulo “O mundo exterior e as imagens de
inclui uma importância que reflete de nossa mente” e “A lista que a imprensa realiza
perto a ênfase atribuída pelos mass para orientar a atenção dos leitores”. Como
media aos acontecimentos, aos pro- caso real narra variados exemplos sobre a
blemas, às pessoas (SHAW, 1979. convivência pacífica de ingleses, franceses
p.96). (tradução nossa). e alemães em ilhas dispersas no Pacífico,
entre 1914 e 1917, até a chegada tardia a
Como afirma Cohen, (1963:13) se é certo alguns pontos sobre “A Grande Guerra”
que a imprensa, (Lippmann, 1974).
Em 1922-1925 Robert Ezra Park, um dos
“(...) pode, na maior parte das vezes, precursores da escola sociológica de Chica-
não conseguir dizer às pessoas como go, em seu Inmigrant Press and its Control
pensar tem, no entanto, uma capaci- (1922) e em sua obra mais célebre The City
dade espantosa para dizer aos seus (1925), comenta o poder da imprensa para
próprios leitores sobre que temas o estabelecimento de certa ordem de prefe-
devem pensar qualquer coisa”. (tra- rências na capacidade de discriminação nos
dução nossa). temas apresentados pelo público (Roger, E.
e Dering, J., 1988).
A citada frase de Cohen proporciona um Nos anos 20-30 Harold Laswell em seus
debate sobre a paternidade da perspectiva das diversos trabalhos pressupõe a capacidade de
pesquisas sobre o papel e efeitos dos mass estabelecer uma seleção temática por parte
media mesmo reconhecendo o núcleo de Mc dos mass media (Saperas, 1987).
194 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

Em 1938 o Comitê de especialistas en- Em 1959 o casal Kurt e Gladys Lang em


carregado pelo Parlamento Britânico de ela- The Mass Media and Voting, comenta: “os
borar um Plano de Política Econômica (o qual meios forçam a atenção até certos temas. Eles
entre outras coisas propõe-se a criação do constroem a imagem pública das imagens
British Press Council) declara no informe que: políticas. Constantemente apresentam objetos
talvez a influência da imprensa deva ser que sugerem o que devem pensar sobre eles
estimada, considerando-a como o organismo os indivíduos, o que devem saber e o que
que determina os temas de conversação diária devem sentir”(McCombs, M.; Shaw, D., 1972).
do homem da rua, e com ele o conteúdo desse Em 1961 o clássico jogo de palavras de
elemento impreciso que é a opinião pública Cohen entre o que pensar e sobre o que
(Ddader, 1990). pensar havia sido sugerido por dois indi-
Em1944 Lazarsfeld, Berelson e Gaudet, cadores da sociologia da comunicação de
no citadíssimo People’s Choice, citam o poder massas na Grã Bretanha (McQuail, 1987).
dos meios para estabelecer a estrutura dos Em 1963 a referida frase de Cohen é
temas (McQuail, 1987). citada no The Press and Foreign Policy
Em 1947 a Comissão Hutchins sobre a (McQuail, 1987).
liberdade de imprensa (EUA) cujo informe A exposição cronológica apresentada
surgirá o novo enfoque da teoria da respon- anteriormente mostra com claridade que
sabilidade social, refere-se a homogenização quando McCombs e Shaw popularizam em
das notícias como conseqüência da atenção 1972 o têrmo agenda-setting e seu esquema
relacionada a uma série de temas (Roger, E. teórico-metodológico, não fizeram somente
e Dering, J., 1988). retomar e condensar uma instituição sobre
Em 1948 Lazarsfeld e Merton, em sua o papel e efeitos dos meios de dilatada mesmo
Mass Communication, Popular Taste and que dispersa tradição.
Organized Social Action, concebem a seleção Como assinalam Roger, E. e Dering, J.,
temática dos meios como o resultado da (1988), a contribuição de McCombs e Shaw
influência de grupos de poder e grandes consiste na realidade em apresentar de forma
companhias, que exerceriam uma sutil forma mais destacada a referida hipótese, em ini-
de controle social (Lazarsfeld, P. e Merton, ciar uma linha de pesquisa continuada, com
R., 1960). novas aportações dos mesmos autores e de
Em 1952 James Davis em Crime News outros muitos, em formar a idéia de um
in Colorado Newspapers, publicado no processo e não somente de uma questão de
American Journal of Sociology, combina já efeitos dos meios, inclusive realizar uma
análise de conteúdo com a amostra e as denominação, agenda-setting, que vai ser
variáveis do mundo real - os mesmos ins- divulgada mundialmente. A nova perspectiva
trumentos metodológicos atuais – para com- vai provocar além do mais que os acadêmicos
da comunicação de massas – ao menos os de
provar empiricamente a mesma hipótese
inspiração anglosaxônica – situem este enfoque
popularizada por McCombs e Shaw em 1972
no centro de toda sua especialidade e che-
(Roger, E. e Dering, J., 1988).
guem a redescubrir por este caminho o velho
Em 1956 Wright Mills, em seu mais
tema da formação da opinião pública.
famoso trabalho, La elite Del Poder, esta- Considerando a formulação clássica da
belecia como axioma que os meios não só hipótese de agenda-setting inscreve-se na
fornecem informação, mas também guiam linha que vai de Lippmann aos Lang e a
nossas experiências (Mills, 1973). Noelle Neuman:
Em 1958 Norton Long, em um artigo
publicado em The American Journal of “A hipótese do agenda-setting não
Sociology, escrevia: “em um sentido o pe- defende que os mass media preten-
riódico é a máquina motriz que coloca a dam persuadir (...). Os mass media,
agenda territorial. Esta determina em grande descrevendo e precisando a realidade
parte o que vai estar falando as pessoas, que exterior, apresentam ao público uma
dados consideram verdadeiros e como pen- lista daquilo sobre que é necessário
sam as pessoas organizar os problemas e as ter uma opinião e discutir (...). O
situações” (Severin, 1979). pressuposto fundamental do agenda-
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 195

setting é que a compreensão que as standard em relação ao qual a nova infor-


pessoas têm de grande parte da re- mação é confrontada para lhe conferir o seu
alidade social lhes é fornecida, por significado. Esse standard inclui o quadro de
empréstimo, pelos mass media” referência e as necessidades, crenças e ex-
(SHAW, 1979. p. 96 - 101). (tradução pectativas que influenciam aquilo que o
nossa). destinatário retira de uma situação comuni-
cativa” (Roberts, 1972: 366). Neste quadro,
As hipóteses de agenda-setting levanta- por conseguinte, a formação da agenda do
das terão um caminho extenso a percorrer público vem a ser o resultado de algo muito
até que possamos obter uma resposta defi- mais complexo do que mera estruturação de
nitiva sobre todo processo que vai desde a uma ordem do dia de temas e problemas por
ocorrência do fato até o leitor. Considerando parte dos mass media.
que a notícia realça a diversidade existente A capacidade de influência dos mass
entre a quantidade de informações, conhe- media sobre o conhecimento do que é tra-
cimentos e interpretações da realidade soci- tado e é relevante varia segundo os temas.
al, apreendidos através do mass media. Em certos meios de comunicação a influên-
Portanto é imprescindível a realização de cia é maior ou menor. O que distingue as
questionários e entrevistas com leitores das notícias mais influenciáveis das menos
revistas estudadas, com a finalidade de influenciáveis é a sua centralidade. Quanto
contrapor as informações e verificar se as menor é a experiência direta que as pessoas
notícias correspondem à realidade das mu- têm de um determinado tema, mais essa
lheres cientistas. experiência dependerá dos mass media, para
Nas sociedades industriais de capitalismo se obterem informações e os quadros repre-
desenvolvido, em virtude da diferenciação e sentativos dessa área temática. Por exemplo:
da complexidade social e, também, em vir- As pessoas não necessitam dos mass media
tude do papel central dos mass media, foi para terem um conhecimento vivido sobre
aumentando a existência de fatias e de aumento de preços de um produto. Estas
“pacotes” de realidade que os indivíduos não condições, quando existem, invadem a vida
vivem diretamente nem definem quotidiana das pessoas. A experiência direta,
interativamente no nível da vida quotidiana, imediata e pessoal de um problema, torna-
mas que “vivem”, exclusivamente, em fun- o suficientemente evidente e significativo para
ção de ou através da mediação simbólica dos fazer com que a influência cognitiva dos mass
meios de comunicação de massa. (Grossi, media se expanda A variável da centralidade
1983:225). deve, portanto, ser considerada como um dos
fatores de intervenção da agenda-setting.
“O modo de hierarquizar os aconte- Outra observação pertinente diz respeito
cimentos ou os temas públicos impor- a um mecanismo posterior de agenda-setting,
tantes, por parte de um sujeito, as- para além do “perfil baixo” e do “perfil alto’:
semelha-se à avaliação desses mesmos a omissão, a não cobertura de certos temas,
problemas feita pelos mass media, a cobertura intencionalmente modesta ou
apenas se a agenda dos mass media marginalizada que alguns assuntos recebem.
for avaliada num período longo de Este tipo de agenda-setting funciona, certa-
tempo, como um efeito cumulativo” mente, para todos os mass media, para lá das
(Shaw, 1979: 102). (tradução nossa). diferenças técnicas, jornalísticas, de lingua-
gem, pelo simples fato do acesso a fontes
A hipótese de agenda-setting defende alternativas àquelas que garantem o forne-
também que os mass media são eficazes na cimento constante de notícias, ser bastante
construção da imagem da realidade que o difícil e oneroso.
sujeito vem estruturando. “Essa imagem – Este é o aspecto acadêmico. O interesse
que é simplesmente uma metáfora que re- que temos é mostrar como as teorias se
presenta a totalidade da informação sobre o tornam sempre a favor dos homens, fala-se
mundo que cada indivíduo tratou, organizou muito em humanismo e pouco se vê na prática
e acumulou – pode ser pensada como um e como resultado a mídia tem pouco divul-
196 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

gado sobre essa participação segundo os tendência no mundo contemporâneo.


estudos de agenda-setting. Cresce globalmente o contingente
Poucos pesquisadores científicos mascu- feminino que atua na empresas de
linos tem-se preocupado em abordar esse periódicos, agências de publicidade,
tema e divulgar essa efetiva participação, departamentos de relações públicas e
podemos destacar um brasileiro que sempre indústrias audiovisuais”. (Marques de
tem divulgado em livros, revistas, sites e até Melo, 2003).
mesmo realizado e promovido congressos
científicos abordando e enaltecendo a par- A seguir concluímos o trabalho com
ticipação da mulher brasileira na produção alguns pontos que consideramos importante
de conhecimento científico especificamente registrar encontrados através desse estudo.
nas Ciências da Comunicação como é o caso A ética da justiça se baseia na aplicação
do Professor Doutor José Marques de Melo de princípios morais abstratos (formalismo).
titular da Cátedra Unesco de Comunicação É importante a imparcialidade, olhar para o
da Universidade Metodista de São Paulo e outro como um outro genericamente prescin-
presidente da Associação Ibero-americana de dindo de suas particularidades como indiví-
Comunicação (Ibercom). duo (imparcialidade). Por estas característi-
cas, todas as pessoas racionais devem coin-
“As mulheres representam hoje a cidir quando na solução de um problema
grande maioria do alunado nas facul- moral.
dades de comunicação social. Exis- A ética ocupa-se de como chegar às regras
tem indícios de que elas ocupam já mínimas de convivência, de marcar os pro-
uma posição predominante, assim cedimentos que devem seguir para chegar a
mesmo, no corpo docente dessas resultados justos, sem pronunciasse sobre os
instituições acadêmicas”. (Marques de resultados. Portanto pode-se dizer que algo
Melo, 2003). é bom em geral, somente se foi seguido às
normas, os procedimentos éticos da justiça.
Quem deter um olhar mais direto na Podemos observar que a produção de
trajetória da comunidade internacional das conhecimento e a participação da mulher
ciências da comunicação não ficará surpre- sempre foram esquecidas ao longo da his-
endido ao tomar conhecimento das posições tória, não se levou em conta os diversos
conquistadas pelas mulheres pesquisadoras na aspectos da formação da consciência e a ética
estrutura do poder acadêmico. Estes postos dentro do ponto de vista analisado.
alcançados são fruto da luta incessante que Não se pode falar da voz da mulher
as líderes feministas desenvolveram durante independentemente das diferenças que atra-
os anos 90. vessaram toda a história das mulheres, in-
dependente dos critérios que foram adotados
“A ascensão da mulher no mercado e da forma que foi analisada a sua partici-
de trabalho comunicacional é uma pação dentro da história da ciência.
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 197

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198 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III
DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO 199

La educación en género a través de las tecnologías


de la información y la comunicación
Emelina Galarza Fernández1

Las Tecnologías de la Información y la cuenta las más importantes tendencias de la


Comunicación (TIC) son, per se, de vital nueva sociedad de servicios puede y debe
importancia en la sociedad actual, pero aún ayudar a transmitir determinados valores con
más cuando las articulamos con las ciencias el fin, repetimos, de conseguir un desarrollo
humanísticas. La necesidad de promover el equilibrado de la personalidad del individuo
desarrollo de un marco de conciencia en la frente al resto de sus conciudadanos. La
comunidad sobre la cuestión de la igualdad transferencia de unos valores ve multiplicado
de género mediante una educación sistemática su efecto cuando es realizada desde la infancia
catalizada a través de las TIC es fundamental – etapa vital de absorción y asunción
para proporcionar a las mujeres y los hombres desprovista de prejuicios entorpecedores–,
del mañana un pilar más sobre el que educando a los menores en estas aquellos.
construir una sociedad ecuánime y progresista Como reza un aforismo sueco, “no se puede
digna del siglo XXI. enseñar a un perro viejo a sentarse”. Sobre
Las TIC sirven para ejercer de manera todo los padres, la escuela y los profesores,
activa un gran poder; casi nada ni casi nadie apoyándose en la lógica ética del respeto y
tiene tanta influencia hoy en día: ni la escuela, de la diversidad, son los que, en definitiva,
ni la familia, ni la Universidad. El uso que pueden desandar las tramas del entendimiento
de él se hace sirve, voluntaria o vulgar o de la comprensión falsa, débil,
involuntariamente, para propiciar la creación prejuiciosa, etc... de la realidad con que se
de un estado de conciencia. Huelga obviar van impregnando los más jóvenes con la
que los que corren son tiempos proto– cultura de la TV y de los videojuegos de
tecnológicos, vista la progresión de los ordenador.
avances científicos y su inmediata aplicación En otros términos, el proceso educativo
socio–comercial, y que debemos preparar a será tanto más completo cuanto más opere,
la gente para ello y del modo más crítico. atienda y estimule, con todos los instrumentos
En esta “sociedad del conocimiento” a su alcance, sobre los distintos aspectos de
(Sakaiya,1994), pues, sólo serán creadores o la complejidad humana. Retomando el
productores de valor–conocimiento quienes concepto de la Dra. Fainholc, definimos a
posean “internamente” los medios o la Tecnología Educativa Apropiada como la
herramientas para su producción o
recreación. Al objeto de poder hablar del uso organización integrada de personas,
eficiente de las tecnologías de información significados, conceptualizaciones,
en la educación tenemos que abordar el asunto procedimientos, artefactos simples y/
de la parte sustantiva de los contenidos o equipos complejos electronificados,
divulgados. pertinentemente adaptados, a ser
Abrir la educación y a los educandos a utilizados para la elaboración,
la recepción y a los efectos de medios implementación y evaluación de
variados, simultáneos y heterogéneos, se programas, proyectos y materiales
adivina como una forma única de propiciar educativos que tienden a la promoción
la formación de personas maduras, amplias del aprendizaje contextuado de un
de mente y miras, aptas para recibir y modo libre y creador.
absorber sensibilidades, informaciones o
conocimientos sin restricción de códigos o A esta definición dada se incorporaría,
fuentes. Utilizar los nuevos tipos de por tanto, el atributo “valorativa”, es decir,
procesamiento de la información y tener en tecnología educativa no solamente
200 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume III

constreñida al traslado de un programa Para conseguir lo dicho, los poder