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“A força do Manual do Pentateuco, de Hamilton, recém-revisado inclui sua
atenção equilibrada a todos os cinco livros do Pentateuco, bibliografias úteis e
atualizadas, exposição imparcial a debates críticos e pontos de vista opostos,
atenção a temas e insights teológicos, e um estilo claro e compreensível. 0 livro
funciona como um substancial comentário contemporâneo em volume único
sobre o Pentateuco, escrito a partir de uma perspectiva evangélica moderada
e informada.”

Dennis C'■/ .. Seminário Teológico de Princeton

“0 Manual do Pentateuco, de Hamilton, fornece um guia altamente Informativo
e de fácil acesso para os livros de Gênesis a Deuteronômio. Com base nos
melhores estudos modernos, a obra explora esses principais escritos bíblicos de
maneira que é completo e se mantém de acordo com a revelação divina. Entre a
abundância de visões conflitantes sobre as origens e o conteúdo do Pentateuco,
Hamilton oferece uma análise equilibrada e sensata, complementada
com bibliografias atualizadas.”

T. Dssmonr! Alexander, Union Theological College, Belíast

“Hamilton produziu uma segunda edição que é ainda mais útil do que a primeira
para as gerações presente e futura de estudantes da Bíblia. Ele foi bem-sucedido
ao revisar e ampliar a primeira edição com novos esclarecimentos acumulados a
partir de estudos bíblicos detalhados e de seus próprios estudos como
comentarista bíblico e professor universitário. A segunda edição mantém a força
da concisão sem falta de clareza e simplicidade sem ingenuidade do original. A
obra está transbordando de informações que mostram o equilíbrio apropriado
de comentários sobre contextos da antigüidade, teorias críticas e texto bíblico.”

Kenneth A, Mathews. Beeson Divínity School

“A segunda edição do Manual do Pentateuco, de Hamilton, segue a tradição da
primeira. A obra não é apenas um ensaio de conteúdos bíblicos, mas oferece

resumos concisos e profundos, e articulações de estudos modernos sobre o
Pentateuco, ao mesmo tempo em que também fornece a posição evangélica
tradicional sobre muitas questões difíceis que confrontam os leitores dó
Pentateuco. As bibliografias atualizadas são notáveis e proporcionam uma
orientação preciosa a estudantes universitários e seminaristas a fim de iniciarem
suas próprias pesquisas. 0 formato é agradável, com muitas subseções que
orientam a leitura, e diversas tabelas que certamente demonstrarão ser valiosas
referências e ferramentas de pesquisa.”

Peter Erns, Seminário Teoíógico de Westminster

VICTOR P. HAMILTON

Traduzido por James Monteiro dos Reis

Rio de Janeiro

CPAD

Todos os direitos reservados. Copyright © 2006 para a língua portuguesa da
Casa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho de
Doutrina.

Título do original em inglês: Handbook on the Pentateuch Baker Academic,
Grand Rapids, Michigan, EUA Primeira edição em inglês: 1982 Tradução:
James Monteiro dos Reis

Preparação dos originais: Daniele Pereira e Luciana Alves Revisão: Esdras Costa

Adaptação de capa e projeto gráfico: Eduardo Souza

CDD: 222.1 - Pentateuco ISBN: 85-263-0802-5

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida,
edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos
lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br.

SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-21-7373

Casa Publicadora das Assembléias de Deus Caixa Postal 331

20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil 2a Edição 2007

Para Shirley, minha esposa

Lista de Abreviaturas

AB

ABR

ACCS

AnBib

AOAT

AOTC

ASTI

AthR

AUSS

BA

BAR

BASOR

BBR

BETL

Bib

Biblnt

BIS

BJRL

BJS

BN

BRes

BRev

BSac

BT

BTB

BZ

BZAW

CBC

CBQ

CT

Anchor Bible

Australian Biblical Review

Ancient Christian Commentary on Scripture

Analecta bíblica

Alter Orient und Altes Testament Abington Old Testament
Commentaries Annual of the Swedish Theological Institute Anglican
Theological Review Andrews University Seminary Studies Biblical
Archaeologist Biblical Archaeological Review

Bulletin of the American Schools of Oriental Research Bulletin of Biblical
Research

Bibliotheca ephemeridum theologocarum louvaniensium Bíblica

Biblical Interpretation

Biblical Interpretation Series

Bulletin of the John Rylands University Library

Brown Judaic Studies

Biblische Notizen

Biblical Research

Biblical Review

Bibliotheca sacra

The Bible Translator

Biblical Theology Bulletin

Biblische Zeitschrift

Beihefte zur Zeitschrift fur die alttestamentliche Wissenschaft Cambridge Bible
Commentary Catholic Biblical Quarterly Christianity Today

Calvin Theological Journal Currents in Research: Biblical
Studies Encyclopaedia Judaica Evangelical Review of Theology Ephemerides
theologicae lovanienses The Evangelical Quarterly Expository Times

CTJ

CurBS

EncJud

ERT

ETL

EvQ

ExpT

FOTL

HTB

HS

HSM

HTR

HUCA

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IEJ

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ITQ

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JANES

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JB

JBL

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JES

JETS

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JNES

JNSL

JQR

JSOT

JSOTSup

JTS

KJV

LTQ

MSU

NAC

NASB

Forms of Old Testament Literature Horizons in Biblical Theology Hebrew
Studies Harvard Semitic Monographs Harvard Theological Review Hebrew
Union College Annual

Interpreters Dictionary of the Bible Supplement. Editado por G. A. Buttrick. 4
vols. Nashville, 1962.

Interpreter s Dictionary of the Bible: Supplementary Volume. Editado por K.
Crim. Nashville, 1976.

Israel Exploration Journal Israel Law Review Interpretation

Issues in Religion and Theology

International Theological Commentary

Irish Theological Quarterly

Journal of the American Academy of Religion

Journal of the Ancient Near Eastern Society

Journal of the American Oriental Society

Jerusalem Bible

Journal of Biblical Literature

Jewish Bible Quarterly

Journal of Ecumenical Studies

Journal of the Evangelical Theological Society

Journal of Jewish Studies

Journal of Near Eastern Studies

Journal of Northwest Semitic Languages

Jewish Quarterly Review

Journal of the Study of the Old Testament

Journal for the Study of the Old Testament: Supplement Series

Journal of Theological Studies

King James Version

Lexington Theological Quarterly

Mitteilungen des Seotuagints-Unternehmens

New American Commentary

New American Standard Bible

New Century Bible Commentary New English Bible

NCBC

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NIBCOT

NICOT

NVI

NJPS

NKJV

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NTS

OBT

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OTL

OTS

OtSt

PEQ

PTMS

RB

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SemeiaSt

SJCA

SJLA

SJT

SR

ST

TBT

TDOT

ThTo

TOTC

TynB

UF

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VT

New International Biblical Commentary on the Old Testament

New International Commentary on the Old Testament

New International Version New Jewish Publication Society translation New King James Version New Revised Standard Version New Testament Studies Overtures to Biblical Theology Old Testament Guides Old Testament Library Old Testament Studies Oudtestamentische Studièn Palestine Exploration Quarterly Pittsburg Theological Monograph Series Revue Biblique Religious Studies Review Restoration Quarterly Review and Expositor Revised Standard Version Studies in Antiquity and Christianity Society of Biblical Literature Dissertation Series Society of Biblical Literature Seminar Papers Society of Biblical Literature Symposium Series .

1974-Theology Today Tyndale Old Testament Commentaries Tyndale Bulletin Ugarit- Forschungen Union Seminary Quarterly Review Vetus Testamentum Supplements to Vetus Testamentum VTSup WBC WBComp WTJ ZAW ZPEB World Biblical Commentary . Green. Traduzido por J. J. Grand Rapids. Ringgren. Botterweck e H. Editado por G. G. W.Studies in Biblical Theology Sources for Biblical and Theological Study Semeia Studies Studies in Judaism and Christianity in Antiquity Studies in Judaism in Late Antiquity Scottish Journal of Theology Studies in Religion Studia Theologica The Bible Today Theological Dictionary of the Old Testament. E. T. Willis. Bromiley e D. 8 vols.

especialistas em Antigo Testamento no seminário. pela permissão de reprodução da tabela de Bernhard Anderson que aparece na página 72. minha esposa. as bibliografias foram atualizadas. a tabela aparece nas páginas 356 e 357. pela permissão para reproduzir uma tabela de Anson Rainey anteriormente publicada em Biblica. minha obra vem sendo usada como livro- texto em aulas sobre o Pentateuco. tanto para cursos de graduação como de pós- graduação. agora. agradeço a Peter Brook. Quero também expressar minha gratidão a Brian Bolger e a seus colegas da Baker Academic. Shirley. A exemplo do que acontece com novas edições. Grand Rapids. grandemente fundamentadas e enriquecidas pela colaboração de colegas eruditos. contudo. está sendo traduzido para o coreano. Agradeço também a Leigh C. por sua imensa ajuda na publicação dessa segunda edição. Por motivo semelhante. acrescentando ou revisando substancialmente o que foi escrito no início da década de 1980. Já foi traduzido para o russo e. a Baker e eu concordamos que já é hora de produzir uma nova edição. C. 1975. O mais importante. é que pude reescrever muitas partes. a Baker Book House gentilmente publicou a primeira edição de meu Manual do Pentateuco. Nessa segunda edição. em instituições educacionais por todos os Estados Unidos e pelo mundo. da editora Biblical Institute. sem qualquer diminuição de seu uso e da procura pelo público. O leitor encontrará minhas próprias deduções e constatações sobre passagens do Pentateuco. da Sociedade de Literatura Bíblica. Uma vez mais. Embora o livro já tenha sido impresso por mais de vinte vezes. 5 vols. Andersen.Westminster Bible Companion Westminster Theological Journal Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible. Além . Editado por M. Desde então. Tenney. Prefácio à Segunda Edição Em 1982. assumiu um papel imprescindível.

monografias e comentários sobre Levítico e Números possuem um volume muito menor. a estudos publicados nos últimos dez anos. Duas diretrizes guiaram a composição dessas relações. Uma rápida olhada em qualquer referência bibliográfica relacionada à pesquisa bíblica revela de imediato o enorme volume de obras produzidas anualmente sobre essa porção das Escrituras. Em primeiro lugar. Prefácio à Primeira Edição Poucas partes do Antigo Testamento foram estudadas tão a fundo pelos especialistas como o Pentateuco. Minha exploração do texto bíblico não se propõe a ser exaustiva. Por outro lado. as obras relacionadas são limitadas. Tentei. acrescentei uma bibliografia ao final de cada capítulo. Os leitores notarão de imediato que omiti áreas de grande interesse. alemão. por exemplo. socorreu-me constantemente com sua sabedoria. a obras publicadas em inglês. artigos. incentivos e percepções. Para finalizar. Creio que tal tarefa cabe . poucos estudos da recente safra tentaram reunir comentários sobre todo o Pentateuco em um único volume. as quais merecem maior exame. na maior parte das vezes. Talvez seja correto afirmar que Gênesis e Êxodo são os livros mais estudados. A maioria delas será mais que suficiente para cobrir todas as pesquisas anteriores em um campo específico. Que minhas elucubrações e as palavras que compus sejam aceitáveis diante daquEle que é minha Rocha e meu Redentor. mas poucos estudantes serão capazes de ter acesso e ler artigos em francês. Além disso. É a isso que me proponho nas páginas que se seguem. Os periódicos acadêmicos europeus e as editoras universitárias estão constantemente produzindo valiosos materiais para a pesquisa bíblica. italiano. pelo privilégio de estudar e ensinar sua Palavra em sala de aula e na igreja. que toda glória seja dada a Deus.de ajudar a produzir essa nova edição. mais exatamente. Não abordei. de modo quase que exclusivo. espanhol ou sueco. seguidos de perto por Deuteronômio. Para auxiliar o estudante que deseja ir além das reflexões aqui presentes. a questão da criação versus evolução ao tratar dos primeiros capítulos de Gênesis. limitei minhas escolhas. Apesar de toda essa pesquisa. produzir um livro de estudo que pudesse ser utilizado tanto por graduandos como por pós- graduandos.

aqui e ali. Levítico e Números tiveram um profundo impacto sobre meu entendimento do texto bíblico. gostaria de expressar minha gratidão aos professores Brevard Childs e Jacob Milgrom. pela permissão de reprodução da tabela do Dr. que aparece no capítulo 2. páginas 492 e 493. algo tão erudito como devocional. O Dr. Em especial. tanto no aspecto histórico como indutivo. e o Dr. Em vez disso. Gostaria de estender meus agradecimentos ao professor John Hayes. que aparece no capítulo 18. página 38. Não falo sobre alguns pontos de relevância histórica.mais a cientistas que a estudiosos da Bíblia. Robert Traina. Manifesto ainda minha gratidão aAlbert Vanhoye. pois ambos foram fundamentais para a realização deste estudo. editor da Bíblica. . pela permissão para a reprodução de partes de uma tabela do Dr. professor de Bíblia Inglesa no Seminário Teológico Asbury. contribuíram de forma decisiva em meus estudos. cujos respectivos estudos sobre Êxodo. desejo reconhecer o papel indispensável que minha esposa. Por esse motivo. algumas passagens do Pentateuco que são freqüentemente citadas como evidências da existência de diversos escritores nos livros de Moisés. Anderson publicada no número 97 do JBL (1978). editor do Journal of Biblical Literature. Por fim. Anson Rainer. Estou em débito com uma multidão de estudiosos. publicada na Bíblica n° 51. tinha em mente o aluno não apenas como um estudioso da Palavra de Deus. Shirley. Parece-me que o assunto já foi bastante discutido tanto por críticos como por tradicionalistas. tentei escrever algo que fosse útil tanto em sala de aula como na preparação de sermões e nos estudos de um pastor. mas também como um proclamador dessa Palavra. de onde extraí uma enorme gama de informações. Tenho grande prazer em agradecer ao Comitê de Pesquisa e Desenvolvimento Universitário da Faculdade de Asbury pela autorização para ausentar-me de minhas obrigações e pelo apoio financeiro. como a historicidade dos patriarcas e a data do êxodo. Pela mesma razão. Ao escrever este livro. que já foi meu mentor em estudos do Antigo Testamento no Seminário Teológico Asbury. e ao professor Bernhard Anderson. não separei um capítulo para falar sobre a questão das “origens” do Pentateuco. Dennis Kinlaw. limitei-me a estudar.

ela digitou todo o manuscrito e ofereceu muitas e inestimáveis sugestões.assumiu ao longo dos últimos anos. pois trabalhamos juntos de maneira efetiva.21) 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Números 26—27.10—32.36 19 20 21 Litígio e Justiça (25) 22 23 . Além de me incentivar e motivar continuamente. Sumário Quarta Parte - Números Capítulo 16 — Preparações para a Partida do Sinai Gênesis 1 Principais Comentários e Estudos sobre o Pentateuco 2 3 Preparação para a Transformação (28.

As Gerações V.1 A Criação e a Queda 1 2 3 de Adão (5.9— 9.9) . As Gerações X. As Gerações VIII. As Gerações IV. As Gerações XI. As Gerações VII.1—11. As Gerações IX.1—6.29) dos Filhos de Noé (10. As Gerações de Noé (6. As Gerações VI.8) III.

no esboço acima. VIII.27—25.1—37.4— 11.19—35. de um plano. V. A partir da terra. para ser mais exato. O que está em curso não é nada mais que os primeiros estágios de um plano divino.11) de Ismael (25.26) Sendo assim. Após algum tempo.3 (uma introdução) e 2.29) de Esaú (36.4— 50. do progeni-tor para a progênie. com cerca de três quartos do livro). seja em forma de narrativa (II. tem-se um texto unificado. IV. surge Jesus Cristo.1—2. entre a origem das nações da terra e a origem da nação eleita. A partir de Adão. cada qual iniciada por “E estas são as gerações de” (tôlêdôfy. pois se observa que as primeiras cinco ocorrências do termo tôlêdôt aparecem do capítulo 2 ao 11. da causa para o efeito. a partir de Abraão. impecavelmente organizado pelo autor. XI) ou em forma de genealogia (III. mas exatamente em duas partes um tanto quanto díspares: 1. com os cinco restantes. logo.26) e seu relevante papel na subseção VII o tornam um elo entre as histórias primitiva e patriarcal. não podemos dispensar totalmente a classificação primitiva / patriarcal. Esse movimento é observado após os títulos acima. e outra com a história dos patriarcas. surgiu Adão. surgem Abraão e sua progênie.2—50.10-26) de Terá (11. Nas palavras de . X). O desenvolvimento de cada uma das últimas dez seções transcorre da cabeceira para a foz.26). título. seguida de dez outras seções. Ainda assim. Gênesis é composto de uma introdução. de algo que está em desenvolvimento. o texto busca ressaltar essa noção de movimento. um plano que tem suas raízes na Criação.27—50. Embora não haja a expressão “e estas são as gerações de Abraão”. progredindo. das partes II a VI (2. aparecendo do 12 ao 50 (ou.de Sem (11. VII. Gênesis não se divide em duas seções (uma que traz a história primitiva.26 (com dez subseções). Em função desse padrão (introdução.1) de Jacó (37. Além do mais. IX. efeitos resultantes). VI. do ponto de vista estrutural. seu surgimento no fim da subseção VI (ver 11. com cerca de um quarto do livro.26) e VII a XI (11.12-18) de Isaque (25.

Somente dois capítulos são dedicados à história da Criação e um à entrada do pecado na raça humana. estrelas) 2 Céus 5 Peixes e pássaros 3 Terra. Por outro lado. conforme vemos na figura 1. aparecem tipos .3. tanto com implicações históricas como em relação à redenção”. nem um filho por meio do qual as promessas da aliança seriam perpetuadas). Assim. dez a Jacó e doze a José (que nem era um patriarca. Criação (1-2) A primeira coisa que chama a atenção do leitor da Bíblia é o laconismo (apenas dois capítulos) com que a história da Criação do mundo e da humanidade é contada. Os dias da segunda coluna referem-se à criação de seres extraordinários que habitam aquele ambiente. Do que eles tratam? Será útil dispormos de um resumo dos conteúdos de 1. vegetação comestível 6 Animais terrestres e o homem Dia 7 O Sábado É óbvio que os primeiros seis dias se dividem em dois grupos de três.VanGemeren2.1 a 2. nossa compreensão da Bíblia seria certamente empobrecida — ou melhor. no primeiro dia. presenciamos o fenômeno de doze capítulos para José e apenas dois para a Criação. Seria possível alguém ser. Cada dia da segunda coluna é uma extensão da contraparte presente na primeira coluna. Deus criou a luz em geral e tudo o que a produz. lua. comprometida — sem esses dois primeiros capítulos. “a expressão tôlêdôt nos permite enxergar o passado como uma série de eventos relacionados. Os dias da primeira coluna dizem respeito à criação (ou preparação) do ambiente ou habitat. no quarto dia. por assim dizer. Figura 1 Dia Dia 1 Luz 4 Luminares (sol. seis vezes mais importante que o mundo? Não obstante. A aritmética de Gênesis é impressionante. Ora. treze capítulos são dedicados a Abraão.

Apenas o sétimo. . como uma “prostituta cultuai” [38. 4. 2. No segundo dia. Comando: “Haja / Ajuntem-se / Produza”. 3. O clímax da criação é o sétimo dia. e depois. 5. além da referência a Tamar. 3.21. o dia do descanso de Deus. Cumprimento da palavra: “E houve / e assim foi”. então. Relato: “e assim foi”. 22 NVI — Nova Versão Internacional]). Ele “santificou” (o único caso de Gênesis em que vemos a importante raiz hebraica qdsh. a humanidade. no quinto dia. Tomando emprestadas as expressões de Claus Westermann2. Aos primeiros dias Ele chamou bons. Introdução: “e Deus disse”. 6. 4. Anúncio: “e Deus disse”. Deus fez o firmamento. Deus criou primeiro a terra e. Descrição do ato em questão: “e fez Deus separação / E fez Deus / E Deus os pôs / E Deus criou”. Expressão de encerramento: “e foi a tarde e a manhã”. Palavra criadora: “Haja”.específicos de luz. Uma estrutura alternativa seria: 1. No terceiro dia. as criaturas da terra. no sexto dia. O elogio divino: “E viu Deus que era bom”. Além dessa organização horizontal. Deus fez criaturas que habitassem o céu e a água. pode-se observar um padrão literário básico ao longo de Gênesis 1. Estrutura temporal: “E foi a tarde e a manhã”. Designação ou bênção: “E chamou Deus / E Deus os abençoou”. separando as águas de cima das águas de baixo. 5. Avaliação: “E viu Deus que era bom”. nora de Judá. 7. 2. a vegetação. observamos o seguinte padrão: 1.

Assim. Em quarto lugar.7).22).19). homem e mulher. ou seja. que distam cerca de 500 anos um do outro..4 (ou 4b)— 25 O trecho de Gênesis 2. contraditório quanto à seqüência da criação.3.C. discutindo 2.4-25 já foi muitas vezes descrito como um segundo relato da criação. Aqueles que defendem essa hipótese crêem que o primeiro é obra de um editor ou de editores religiosos (P) por volta da época do exílio na Babilônia (século VI a. Tais estudiosos acreditam que o segundo provém de um escritor muito mais antigo.O Vínculo entre 1.3 (ou 4a) e 2. sugere-se que. o Senhor Deus formado da terra todo animal do campo” (2. animais. a ênfase está em Deus como oleiro ou artesão: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” (2.4-25 antes de 1. com o uso de estrofes e repetições. tratava-se de dois relatos . Em terceiro.). animais. temos um relato diferente e.3. Em segundo lugar. mulher. Gênesis aparentemente traz dois relatos independentes da criação. Voltaremos a encontrar esse fenômeno de “repetição” nos debates acerca do Dilúvio. Estudiosos que aderem a essa hipótese trabalham com os textos conforme a ordem cronológica que compreendem. em que comentaristas e literatos são unânimes em afirmar que. na primeira seqüência a criação de Deus se dá principalmente pela fala: “E disse Deus: ‘Haja’. alguns intérpretes identificam uma diferença entre as características poéticas de 1. ainda que com menos freqüência entre os estudiosos de hoje.] formou uma mulher” (2. a segunda é: homem.3.1—2.) ou imediatamente após. pois. A primeira seqüência é: vegetais.. originalmente. Na segunda seqüência. criação por decreto. Em primeiro lugar.1—2. enquanto na segunda.C.1—2.1—2. mas na segunda é “Senhor Deus” (Yahweh ’Elõhim). vegetação. e a narrativa prosística da criação em 2. ele também procede de uma fonte distinta daquela que originou Gênesis 1. E houve”. Fora isso. geralmente denominado como o Jeovista (J): um escritor ou escritores anônimos de Jerusalém à época de Davi e Salomão (século X a. a ênfase é antropológica — a origem do homem.4-25. pássaros e peixes. por vezes. Existem muitas razões para essa diferenciação. além de ser um segundo relato. a primeira seqüência enfatiza a cosmogonia — origem do universo —. na primeira seqüência o nome da divindade é exclusivamente “Deus” (’Elohim). “Havendo. “E da costela [. Em quinto lugar.

no entanto. e a mulher ser a glória do homem: “O varão. ao mesmo tempo.26 Deus diga: “Façamos o homem à nossa imagem” e. “macho e [posteriormente] fêmea os criou” em 1.3. A Temática Teológica de Gênesis 1—2 O que a temática de Gênesis ensina sobre Deus A observação mais óbvia é a ênfase desses dois capítulos na unicidade de Deus. Qual seria a importância disso? Seria uma forma de a Bíblia dizer que Deus. Realmente não entendo por que não devemos supor uma unidade em Gênesis 1 —2. Deus não possui esposa ou companheira.independentes. primeiro o homem e depois a mulher). Em vez de se deparar com um bando de divindades. Há. A primeira sugere majestade e transcendência.4-25 apenas uma continuação e não uma interrupção do relato da criação.1—2. uma diferença marcante: o redator (ou redatores) desses primeiros capítulos/Vzz- taram as duas descrições da criação. um é cósmico. jamais se conseguiu estabelecer a razão de tal diferença redatorial. em seguida. Não são necessariamente contraditórias as descrições da criação divina de seres humanos de ambos os sexos (em 1.26-29. não precisa de nada nem de ninguém além de si mesmo? Todo o . a segunda.27. “um exame mais profundo após o panorama de Gênesis l”3 ou simplesmente um relato mais pormenorizado do sexto dia da criação? A ordem dos eventos apresentados no capítulo 1 é cronológica. mas a mulher é a glória do varão”. Como disse James Barr. indo da humanidade ao seu meio ambiente. porque é a imagem e glória de Deus. intimidade de envolvimento com sua criação. O capítulo 1 trata do mundo.4-25 é uma ampliação do que se lê em 1. não deve cobrir a cabeça. A maior parte da informação apresentada em 2. enquanto seu relacionamento com um casal no jardim é definido por sua posição como Yahweh 'Elõhim. é bem possível que em Gênesis 1. o outro é localizado. No que diz respeito à narrativa da criação. vez produzidos por P e J. é realmente necessário apresentar dois relatos exclusivos e contrários? Não seria 2.425. mas combinaram as duas descrições do Dilúvio. Até onde eu sei. pois. enquanto o capítulo 2 se concentra no jardim. Ao contrário dos deuses pagãos. a ordem dos eventos no capítulo 2 é lógica e tópica. Essa parece ser a leitura de Paulo em 1 Coríntios 11.7. o leitor encontra um único Deus. em sua completude. O relacionamento de Deus com o mundo está em sua posição como'Elõhim. quando ele distingue entre o homem ser a imagem e a glória de Deus. em 2.

’Elõhim. Deus fala de forma sucinta: “Eu sou Deus e não homem” (Os 11. desçamos”.restante da criação é. De um ponto de vista exegético. descobre-se que os ancestrais mais remotos eram seres divinos. Uma terceira possibilidade é que Deus esteja falando com os anjos. Quando traçamos cronologias mesopotâmicas até as eras mais remotas. Somente a unicidade de Deus faz com que palavras como “universo” e “universalidade” tenham sentido. como criatura. A quinta possibilidade diz que a expressão pode ser descrita como indicativa de uma ponderação. Gênesis 1—2 descreve a raça humana até onde é possível e.. e isso num contexto de esperança e misericórdia. o que devo fazer?” E óbvio. como Criador. em equilíbrio com o sopro divino. Um deus. conforme a nossa semelhança”. e quem há de irpor nós?” O próprio nome de Deus no capítulo 1. na criação da raça humana. que a expressão tenderia claramente para a primeira pessoa do singular. encontra o homem Adão.26 diz: “Façamos o homem à nossa imagem. Tal visão implica que. nesse caso. Então vem um abismo. Deus teve o auxílio dos anjos. incompleto e precisa buscar externamente sua plenitude. . a criação da humanidade como um todo. Se a salvação de Israel está na humanidade. há desespero. por exemplo. que lista os nomes de todos os governantes desde o surgimento do império). e o homem.9). no entanto. ao solicitar apoio e ajuda para determinado projeto. Uma segunda verdade afirmada por esses capítulos é a existência de uma diferença insofismável entre Deus. ou seja. A controvérsia nasce pelo fato de o escritor de Gênesis 1 não ter conseguido expurgar todo o adorno mitológico de que se havia utilizado. Uma outra interpretação sugere que Deus se dirige à criação. se está em Deus. que não pode ser jamais apagada. A quarta interpretação diz tratar-se de um plural majestático. não é possível afirmar que o texto refere-se à Trindade. Gênesis 1. Uma dessas é a interpretação mitológica. ainda assim. Pelo menos seis interpretações já foram dadas à palavra “façamos” nesse versículo. não arrogância. à terra.7: “Eia. por si só. Uma terceira verdade é a sua natureza plural. pois o sufixo -im indica o plural de um nome masculino.C. a qual se torna sua parceira na criação da humanidade e parte integrante da natureza humana. como quando dizemos: “Vejamos. está no plural.8: “A quem enviarei. Is 6. há esperança. Por intermédio de Oséias. talvez o principal. A diferença entre o divino e o humano foi apagada. fala com os outros deuses e os informa sobre suas intenções. na Lista de Reis Sumérios (um documento produzido por escribas sumérios pouco após 2000 ã. que Ele fala de si e consigo no plural (como em Gn 11. explicando o fato de os seres humanos guardarem certas semelhanças tanto com Ele como com os anjos. como ocorre. a corte celestial.

Além disso. Que Deus é triúno é um fato. Por fim. lua. Outro ponto interessante acerca do sol e da lua no relato de Gênesis. mas compreendidas como algo independente e trazem consigo uma aura de divindade. que aguarda para ser proclamado na revelação do Novo Testamento. quase como que uma lembrança tardia: “e fez também as estrelas” (Gn 1. a meu ver. é que são simplesmente chamados de “luminar maior” e “luminar menor”. estrelas. ou seja. Na argumentação de Otto. Para Adão. as estrelas são tratadas como algo trivial.não do plural (como em “Ocultarei eu a Abraão o que faço” [Gn 18. considerando-se a devoção a esses luminares no mundo antigo. a fim de ressaltar sua posição . leis são instituídas. do teólogo e historiador protestante Rudolph Otto. Bastarão duas ilustrações. em momento algum. A ordem da narração de Gênesis é curiosa: sol.2). as estrelas não são criadas. e. O que Otto não menciona é o fato de a santidade de Deus ser o fundamento de suas exigências morais. O tema da obra gira em torno do “sagrado” como algo característico da experiência religiosa. sendo traduzido para o inglês em 1923. sol e lua. o “sagrado” é um mysterium tremendum et fascinosum. é fundamental observar que moralidade e ética não são o mesmo que sagrado. Talvez Deus esteja se dirigindo ao seu Espírito (anteriormente mencionado em 1. Em Enuma Elish (Epopéia da Criação) a ordem é: estrelas. A sexta. da lua e das estrelas. moldando-as como um oleiro trabalha o barro. Uma é a forma como é concebido o surgimento do sol. Ele traz todas as coisas à existência pelo poder de sua Palavra. a função do sol e da lua é claramente explicada. é a explicação que vê no “nós” uma indicação de plenitude e pluralidade na pessoa de Deus. Mesmo no Paraíso. Deus disse tanto “comerás” como “não comerás”. mais plausível possibilidade. fustigado pelo anelo”. Sem esforço algum. O livro de Otto foi inicialmente publicado em alemão em 1917. Uma quarta verdade é que Deus é ético e santo. Aqui. Para utilizar a frase de Otto. produz em nosso espírito tanto o terror quanto o fascínio. Um dos livros citados com mais freqüência nessa questão é lhe Idea of the Holy (A Idéia do Sagrado).17]). Nas palavras do poeta Francis Thompson: “Fustigado pelo terror. O propósito do decálogo é mostrar a Israel sobre como viver com um Deus santo.16 —ARA). Deus não encontra. nada que se oponha ou resista a sua obra criadora. A quinta verdade manifesta nesses dois capítulos é a majestade e a soberania de Deus.

Além disso. por exemplo. Se fosse assim. Deus é sempre o sujeito. 25.21.7) e “Da costela que o Senhor Deus tomou do homem formou uma mulher” (2.de servos. 26). o verbo “fazer” (1. contudo. dos verbos utilizados em “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” (2. O “abismo” é mais exatamente uma parte inanimada da criação. do relato babilônico. sem dúvida alguma leva a essa direção. Ademais. com funções e tarefas determinadas por Deus.9.1. Embora seja um exagero dizer que esse uso do termo bara’ensine creatio ex nihilo de maneira explícita. o dragão de Isaías ou Salmos é retratado como um adversário de Deus.16 [2x]. O mais próximo que Gênesis 1 ou 2 chega desse tipo de situação é a referência a “grandes animais marinhos” (1. assim como Gênesis 1. em relação com a criação dos seres humanos. O verbo Ssâ. não são poucos nem fracos os argumentos lingüísticos que se opõem à identificação de Tiamat com tehôm. por exemplo.27. apresenta Deus cortando Raabe em pedaços e ferindo o dragão.2 ao “abismo” (tehôm) é uma alusão velada a Tíamat.13 usam a mesma palavra hebraica para “dragão” ou “monstro das águas”. não seria nem um pouco fácil enxergar alusões míticas no uso da palavra tehôm pelo autor de Gênesis. esse verbo nunca é seguido pela indicação do material utilizado. Isaías 51. As criaturas marinhas de . Uma segunda ilustração da soberania divina é a ausência de qualquer referência a enfrentamentos entre Deus e monstros ou oponentes celestiais — tema claramente predominante em Enuma Elish. Sempre que esse verbo é utilizado no Antigo Testamento. Há algo de singular no ato criador de Deus (comunicado pelo verbo bara).21 e três vezes em 1. mas também há algo de semelhante entre o que é feito por Deus e o que é feito pelos humanos (comunicado pelo verbo asã). Deve-se também observar que Gênesis 1 utiliza um outro verbo para o ato criador de Deus. O texto não suscita absolutamente nenhuma idéia de que o “abismo” seja um inimigo de Deus. Deus os “criou”. as Escrituras trazem referências a batalhas entre Deus e alguns monstros. Há muito se sugere que a referência encontrada em Gênesis 1.21 —ARA). ao contrário. enquanto Salmos 74.9 e Salmos 74.22). Ainda assim. Aliás.13-14 afirma que Deus esmagou a cabeça dos monstros das águas e fez em pedaços as cabeças do Leviatã. 51.1. O interessante é o uso da palavra hebraica bara\ que ocorre em 1. a fim de descrever sua origem. Isaías 27.7. ao contrário de bara\ é muitas vezes utilizado com um sujeito humano.

O descanso substitui o ato de criação.14) aparece em um salmo de lamentação. a linguagem e a temática mitológica são expressas com mais clareza na literatura profética e no livro de Salmos. supor que o povo de Deus estava familiarizado com a literatura mitológica de seus vizinhos.13. O objetivo é proporcionar-lhe descanso após uma semana de trabalho de criação. Por exemplo. volta a haver silêncio. a monstros que se opõem a Deus? Em primeiro lugar. No mundo criado por Deus não há mal algum. De forma semelhante. onde seria de se esperar. é quebrado. O salvador é Deus. quando a criação da humanidade é precedida por uma declaração conjunta e pelo anúncio . não criação. fora do livro de Gênesis.3).10). Onde o mal é vencido? Na criação? Não! O mal e o caos e a corrupção são vencidos no devido tempo. O seu descanso nesse dia não visa a renovar suas forças após violentos combates contra as forças do mal. há silêncio. Após a criação. O mais importante é que o contexto em que essas “batalhas” ocorrem é de redenção. cortar Raabe em pedaços e ferir o dragão (Is 51. Em segundo lugar. para que a gravidade dos argumentos do autor pudesse ser compreendida. se a figura mítica do Leviatã fosse desconhecida do público. qual seria o objetivo de o salmista em dizer: “Fizeste em pedaços as cabeças do Leviatã”? Podemos. Raabe e dragões teriam de ser inteligíveis aos ouvintes dessas palavras. as alusões a Leviatã. na redenção do povo de Deus. portanto. antes de Deus falar. em que o autor ora pelo livramento de seus inimigos.1-3). evitando-os na criação. Esse episódio pode. Esse silêncio Deus santificou (Gn 2. de forma semelhante.9) correspondem à divisão do mar Vermelho “para que passassem os remidos” (Is 51. não nos primeiros capítulos de Gênesis. que opera “a salvação no meio da terra” (SI 74. Mas o que podemos dizer sobre tais referências.Gênesis 1. geralmente por decreto em Gênesis 1. Afinal. Antes dela. O clímax da criação é o sétimo dia (Gn 2. fazer em pedaços as cabeças do Leviatã e esmagar a cabeça dos monstros das águas (SI 74.21 são criadas por Ele e chamadas “boas”. Os escritores bíblicos deliberadamente usam tais alusões míticas em um contexto de redenção.12). ser visto como uma ampliação da ênfase implícita que se dá à soberania e à majestade de Deus. O que a temática de Gênesis ensina sobre a humanidade O padrão da criação.

exemplificando a tendência generalizada à utilização de sinônimos no hebraico bíblico? Duas observações podem corroborar isso. Em 1. Em 5.26). sendo que 14 dessas vezes são nos capítulos 1 e 10 de Ezequiel. A despeito de qual seja a melhor explicação. ao abordar a concretização do trabalho de criação. mais que uma imagem figurativa. de fato. ambas as palavras são utilizadas. o que nos faz pensar sobre a relação existente entre os dois. Uma terceira sugestão é exatamente contrária à segunda. ao se referir à decisão divina de criar. Conforme se sugere.1. Nesse caso. mas imagem e semelhança.26.26. a função da palavra “semelhança” seria limitar o significado de “imagem”. em Gênesis. mas o amplificaria. é evidente que a humanidade está separada do restante da criação. tal ressalva teria o objetivo de evitar a noção de que os seres humanos são uma cópia exata de Deus. colocada sobre um pedestal. O ser humano não seria apenas uma imagem de Deus. Seriam intercambiáveis. mas por eikõn. mas apenas a semelhança de Deus. a humanidade não é criada nem como uma idéia de última hora. o profeta toma todo cuidado para não afirmar que viu Deus e seu séquito. da terra e do ar. somente “imagem” é utilizada. sugerem que é exatamente o domínio . o ser humano é.das intenções de Deus (1. Alguns estudiosos. nem é destinada à servidão para substituir divindades recalcitrantes. O trabalho manual é um privilégio concedido por Deus. “à semelhança de Deus o fez”. E o único lugar no Antigo Testamento em que os dois termos aparecem vinculados um ao outro. Nessas passagens. homoiõsis. Ao contrário da visão dos relatos pagãos que iremos examinar.27. Pode-se dar algum crédito a essa visão em virtude do fato de “semelhança” aparecer 24 vezes no Antigo Testamento. Gênesis 1 também afirma que a humanidade foi criada para “sujeitar” a terra e “dominar” sobre ela e as criaturas vivas do mar. representativo do Deus invisível. Ou seja. Dessa forma. a palavra hebraica para “semelhança” é traduzida na Septuaginta não pelo termo mais comum. E especificamente declarado que Ele criou os seres humanos à sua própria “imagem” e “semelhança”. Uma segunda possibilidade seria termos a palavra “semelhança” modificando a palavra “imagem”. o termo “semelhança” não atenuaria o conceito de “imagem”. geralmente o termo grego equivalente à palavra hebraica para “imagem”. não uma sentença ou um castigo. Mas em 1. à luz das palavras de 1.

pode-se citar alguns exemplos. Lv 25.43).17). um rei e seus súditos (SI 72. A identificação do sexo é irrelevante e certamente não tem qualquer efeito qualificador. O “ajudador” por excelência é Deus. o dia e a noite — e com certeza não há nenhuma alusão a ações abusivas ou irresponsáveis aqui.exercido sobre a humanidade que constitui a imagem de Deus (embora essa relação aponte mais uma conseqüência que uma definição). devido a preocupação com os direitos da mulher. ao longo do Antigo Testamento. Assim. Primeiro. a ordem para sujeitar e dominar diz respeito tanto ao homem como à mulher.43 e Ez 34.27 for lida como simultânea. os chefes e os trabalhadores (1 Rs 5.20).28 é aplicado em relação ao sol e à lua em 1. Nenhum dos dois participa ativamente da criação do outro.28. O mesmo verbo utilizado com a humanidade em 1. Diversas dessas passagens (por exemplo.19) não cabe aos animais (2. Em terceiro lugar.8).18-25. utilizado 24 vezes no Antigo Testamento. Curiosamente. respectivamente. há semelhança entre a origem do homem e a da mulher: ambos foram feitos a partir de elementos primitivos — pó e costela. Em segundo lugar.16 — para governarem. Não é permitido nada destrutivo e explorador.29.4) sugerem que esse domínio deve ser exercido com cuidado e responsabilidade. Entre as revelações alcançadas com esses estudos. o escritor descreve-a com uma palavra que. Implicitamente.16). o soberano de um país e uma outra nação (Lv 26. com menções mais específicas em 2. Tal relato em separado não encontra paralelo na literatura do Oriente Médio da antigüidade. muitos estudiosos pesquisam os primeiros capítulos de Gênesis em busca de pistas sobre a identidade da mulher e por princípios que regulem os relacionamentos entre os sexos. Presumivelmente. temos a mesma nuança presente em Gênesis 1. geralmente se refere a relacionamentos humanos: um amo e seu escravo (Lv 25. O . A finalidade de Eva (2. Atualmente. Eva é mencionada em “os criou” e “fêmea” em 1. Mas o que significa sujeitar e dominar? O último verbo. é utilizada de modo predominante em relação a Deus. a mulher é descrita como uma “adjutora” para Adão. Não é por acidente que em Gênesis 1 tanto homens como animais são vegetarianos.30) E extraordinário que uma grande parte da história da criação seja destinada exclusivamente ao relato da criação da mulher. com cada um tendo acesso a um tipo de vegetação (1.26-29. e não seqüencial). tanto o homem como a mulher são feitos à imagem de Deus (se a criação do homem e da mulher em 1.

Além disso. 11. A presença do Tigre e do Eufrates (Gn 2. Se for esse o caso. com certeza. mas ele fica “da banda do oriente” (Gn 2. via de regra. 2 Samuel 5. ao ver Eva pela primeira vez. mas vivem sob uma lei divina. então.13. A localização do jardim não é algo fácil de determinar. Em quarto lugar.12. “posto” lá (Gn 2. Adão diz: “Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. não no contexto da Criação.ajudador invocado na hora da necessidade é. Isso significa que as circunstâncias não influenciarão a forma de relacionamento acordado entre as partes e que. uma aliança. significando o fim de uma relação de lealdade.14.15-17).1 e 19. Um homem deve “deixar” seu pai e sua mãe e “apegar-se” a sua esposa (2. com relação a Deus (como em Jeremias 1. mas da Queda (ver 3. Já mencionei que. mais forte que aquele que clama. Palavras semelhantes aparecem em Gênesis 29.22).16).24). os quais Deus colocou em seu jardim. Enquanto uma pessoa vive de forma a honrar a Deus.20. o ser humano é único e separado de tudo o mais que Deus criou. “apegar-se”. pode também significar um compromisso com Deus em forma de aliança (como em Dt 10.8) pelo próprio Deus. conforme Gênesis 1 e 2.26-31) também limita essa singularidade (Gn 2. Uma quinta observação acerca do relacionamento entre macho e fêmea é que Gênesis claramente estabelece a subordinação do homem à mulher. significa ser expulso. na terra de Canaã. mas também a lealdade. a frase seria equivalente aos votos que atualmente fazemos: “na doença e na saúde”. um voto. termo hebraico que também pode ser traduzido por “há muito tempo”. Existem limites. Os seres humanos não são autônomos.14) sugere a Mesopotâmia. Mas a mesma passagem das Escrituras que enfatiza o caráter único da natureza humana (Gn 1. e nunca uma relação arbitrária que possa ser acomodada a caprichos ou conveniências. a localização do Éden fora . Somente ele foi formado à imagem de Deus e somente ele deve dominar. mas desafiar os limites impostos por Deus. 23). Canaã.16). O segundo verbo hebraico. O verbo “deixar” também pode ser traduzido como “abandonar”. permanece no jardim. assim como para o povo de Israel. as fronteiras estabelecidas. o primeiro (Gn 3) e o último pecado (Gn 11) da história primitiva tiveram lugar na Mesopotâmia. Precisamos também examinar a continuação disso tudo. O homem é colocado no jardim. Juizes 9. não o prejudicarão.2. Desse modo. Um casamento é.8). a partir das quais poderiamos defender a tese de que a expressão “seu osso e sua carne” não diz respeito apenas a laços sangüíneos.

Passagens que repetem a frase ou apresentam sentenças semelhantes podem ou não nos ajudar a determinar o significado de Gênesis 2—3.22 sugere uma outra possibilidade. No jardim.17. mas essa interpretação pode ser contestada. em vez . certamente morrerás”. alienando o homem de Deus. No que foi a única sentença incompleta proferida por Deus em toda a Bíblia5.39.dos limites da Palestina é mais uma ilustração da nuança internacional e universal de Gênesis 1—2. Isso sugere que a humanidade já era mortal. proibir o acesso de Adão e Eva à árvore da vida (Gn 3.15 faz referência a uma criança prometida que “manteiga e mel comerá. que nesse contexto poderia significar mortalidade (ainda que não necessariamente).17). para discernir entre o bem e o mal” (ARA). Qual seria então o significado da frase em Gênesis 2—3? Se nos prendermos ao contexto. no homem e na mulher. e viva eternamente”. não por causa do que fizera. assim é o rei. mas o relacionam à terra que Deus promete mais tarde a Abraão e à sua progênie. Moisés se refere à segunda e mais jovem geração dos israelitas como “vossos filhos. O castigo para a transgressão dessas ordens é a morte. até que ele saiba rejeitar o mal e escolher o bem”. Seria preciso propor outros entendimentos para “morte” em “no dia em que dela comeres. que torna impossível a continuação de uma caminhada intensa ao lado dEle. Deus expulsa o homem do jardim. mas ambas apresentam problemas. meu senhor.15) e abster-se de comer da “árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2. não podem ser responsabilizados por seus atos por causa da falta de discernimento moral que se espera de alguém que atinja a maturidade. isso explicaria o porquê de Deus. e tome também da árvore da vida. o homem possui uma dupla responsabilidade: lavrar a terra (Gn 2. O que significa essa frase? Será que o “mal” também habitava o jardim? “Ciência do bem e do mal” refere-se à onisciência ou a despertar sexual? Essas são as duas interpretações mais comuns oferecidas pelos estudiosos. Sailhameú é um dos poucos comentaristas que não situam o jardim na Mesopotâmia. Muito já se discutiu sobre o significado de “ciência do bem e do mal”. Em Deuteronômio 1. Acredito que “morte” signifique a perda de um relacionamento íntimo com Deus. ou seja. Isaías 7. que hoje nem bem nem mal sabem”.22. Se morte equivale à mortalidade. Em 2 Samuel 14. principalmente a última. e coma. Uma leitura mais atenta de 3. Morre algo. Em um estilo semelhante (ou seja.22). Ele diz: “para que não estenda a sua mão. falando de uma pessoa muito jovem). à luz de Gênesis 3. logo em seguida. mas por causa do que poderia fazer caso lhe fosse permitido ficar: comer da árvore da vida e tornar-se imortal. a mulher sábia exalta Davi como “um anjo de Deus.

na tradução de Gênesis feita por E. essa é a compreensão mais utilizada desde a tradução de Moffatt7 em 1922. Gênesis 3—11 indica que o ato do pecado consiste. Em primeiro lugar. Vemos seus reflexos nas traduções mais recentes. que começa com “no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus”. Podemos ver essa tendência na versão King James. no Éden. Deus estabeleceu limites para a liberdade humana.5. criou Deus os céus e a terra”. de maneira específica. Um possível respaldo a essa tradução aparece em 2. Talvez devamos nos limitar a observar que. do primeiro ato criativo de Deus (2. na New English Bibld.1 como uma sentença independente: “No princípio. New American Standard Biblê2.. como o versículo deveria ser traduzido? Existem duas possibilidades..3-31.7). desobediência. o que não chega a ser inadmissível. No caso de seguirmos a primeira possibilidade. na Reuised Standard1.de a possíveis passagens correlatas. Modernamente. na Nova Versão Internacionale na Bíblia de Jerusalém.1 como um parágrafo dependente. tentação. então. com o versículo 1 continuando no versículo 3: “E disse Deus. A.1: como o versículo deve ser traduzido e qual sua relação com 1. Como brevemente veremos. quando Deus fez o céu a e terra”. seu próprio deus) e “se retira da posição de criatura que depende e confia em seu Criador”6.4b. de forma maligna. como na versão da Bíblia judaica da New Jewish Publication Society. mas fica de todo deslocado nesse . o casal assume a responsabilidade moral por suas vidas (tornando-se. O Primeiro Versículo da Bíblia Ao menos dois problemas se formam em torno de Gênesis 1. separado do que vem antes ou depois. poderia ser: “Quando Deus começou a criar os céus e a terra” ou “No princípio. teremos de concluir que o versículo 2 é um comentário à parte. Uma é tratar o versículo 1 como uma sentença temporal e dependente. seguida por uma descrição de desolação (2.” O resultado seria uma sentença curiosamente longa e confusa.6) e. a interpretação deverá seguir a ênfase de Gênesis 3. que diz respeito a proibição. Então. Ao decidirem por conta própria o que lhes é ou não apropriado.2 e 1. nisto: ultrapassar os limites impostos por Deus. considerando 1. deserção e algum tipo de morte. Poder-se-ia então sugerir que “ciência do bem e do mal” é autonomia moral. Speiser nos comentários Anchor Biblê e na New Reuised Standard Vrsiori0. As traduções mais tradicionais apresentam Gênesis 1.

No que diz respeito aos originais. No entanto. raramente usam algum artigo e ocorrem no estado absoluto. Podemos achar mais argumentos a favor disso no verbo empregado pelo escritor . Pelo menos. Tendo-se em mente que os pagãos enfatizavam a criação a partir de matéria preexistente (por exemplo. se esse fosse o caso. no entanto. em protesto. A diferença em hebraico entre bere shít e bare shit é que o último já inclui um artigo definido: “No princípio”. Gerhard von Rad13. gramaticalmente. o problema da tradução surge logo na primeira palavra da Bíblia. pois seu sentido depende das palavras seguintes: “do Senhor”. assinalam que. em especial quando em relação a tempos remotos. embora isso possa ocorrer na tradução a fim de deixar o texto mais fluido. pode ser tanto considerada no construto como no absoluto. Uma palavra no construto. Reuised Standard. foi essa a compreensão de todas as versões mais remotas. New Jewish:. “No princípio”. em seu célebre comentário de Gênesis.capítulo. a preferência deve ser dada ao estado absoluto. “Quando”). mas não teologicamente”. Aqueles que optam pela interpretação mais moderna do versículo. como se fora um enxerto em meio a uma seqüência de frases curtas. o termo deveria ser bareshit. não é acompanhada por um artigo definido. não se pode ignorar o fato de que o escritor de Gênesis repudia esse mesmo conceito em sua declaração de abertura. o cadáver de Tiamat). Essa objeção. deve-se destacar que. No hebraico bíblico.1 é um parágrafo independente. Na frase “palavra do Senhor”. em estado construto ou estado absoluto. Por outro lado. Embora isso não traga alívio algum ao leitor. A questão é a seguinte: bereshit &stá no construto ou no absoluto? Se estiver no absoluto. “palavra” é um exemplo de construto. lutas e maquinações antecedendo a criação. com confrontos. conforme se apresenta. por exemplo. via de regra. os termos são classificados. Gênesis 1. sustenta que “pode ser que ambas as traduções sejam sintatica-mente possíveis. New English. “Senhor”. não precisam de artigo. em termos de sintaxe. no absoluto. não é inapelável. se estiver no construto. bereshit. Gênesis 1 depende dos versículos posteriores. independe e possui um significado isolado. bereshit (King James. Brevard Childs14 afirma que “compreender o versículo 1 como um parágrafo temporal deixa de levar a sério o esforço evidenciado nesse capítulo”. Aqueles que defendem a tradução tradicional argumentam que indicações de tempo em expressões adverbiais.

em especial o versículo 2. antes da era primitiva. Isso tudo nos traz ao segundo maior problema: a relação entre 1.3.em 1.1. tal atividade é sempre divina.1: bara’. dificilmente poderia ser harmonizada com a idéia de um caos preexistente.2 (3x). O mundo é resultado de uma criação. sempre que esse verbo é utilizado. Childs16 observa: “A ausência de qualquer alusão ao material utilizado. em trevas e com o Espírito de Deus se movendo sobre as águas. Elas estão resumidas na Tabela 1. Em segundo lugar.7 e em muitas outras partes da Bíblia. Tabela 1 Versículo Teoria 1 Teoria 2 Teoria 3 4 2 Uma lacuna. “é correto dizer que o verbo bara \ “criar”. . um intervalo indeterminado de tempo — a terra tornara-se sem forma e vazia (talvez por causa da expulsão de Satanás dos céus?) Situação da terra no princípio: sem forma e vazia. 6.1 com os versículos subseqüentes. O esplendor velado dessa declaração é que Deus é o Senhor do mundo. Uma visão alternativa a essa abordagem é sugerir duas criações distintas (sem qualquer “lacuna” ou “restauração”). não da reformulação de material já existente”. o objeto direto é sempre o produto criado. O versículo 1 descreve a criação a partir do nada. Duas coisas podem ser ditas a respeito dele.27 (3x). A realidade disforme que aparece nos versículos 2 e 3-31 descreve a subseqüente criação divina de um mundo consistente. 2. Esse verbo volta a ser utilizado em 1.21. juntamente com a ênfase dada à singularidade do ato de Deus. Voltando a citar Gerhard von Rad15. portanto. Pelo menos três visões principais vêm sendo propostas. 5. Situação anterior à Criação. visto que nunca está vinculado a qualquer matéria-prima. o sujeito de barã’ê sempre Deus. A primeira visão é chamada de teoria da “lacuna” ou da “restauração”. contém tanto a idéia de ausência de esforço como a idéia de creatio ex nihilo. e nunca o material utilizado na criação. Em primeiro lugar.

são principalmente pessoas. à parte da criação de Deus e contrário ao seu plano divino. Outros Relatos sobre a Criação Cada civilização antiga produziu seu próprio conjunto de literatura mitológica. Nas lendas. F. Nos mitos. supor que essa terminologia reflete um caos. os personagens são sempre deuses. por exemplo. um movimento da imperfeição para a recriação. “abismo” e “águas” encontram-se isolados. E claro que nem toda literatura antiga sobreviveu ou foi descoberta pelos arqueólogos. Derek Kidner conseguiu capturar esse contraste: “A melancolia das palavras da primeira parte do versículo 2 dá destaque ainda maior à glória crescente dos sete dias”17. da incompletude para a completude. 0 3. Essa dúvida advém do fato de nenhuma história a respeito da criação ter sido encontrada entre os escritos de . sem qualquer explicação ou comentário. em que os assuntos mais correntes eram as origens e o comportamento dos deuses (denominados mitos) ou as façanhas de heróis da antigüidade (denominadas lendas). de Deus ou o ato sobre um cosmos divino da informe. Contudo. “trevas”.segundo Narração 31 ato de Imposição gradual sequencial criação de ordem e simetria da criação. é se havia ou não algum mito acerca da criação entre os canaanitas. termos como “sem forma e vazia”. mas os deuses também possuem papéis de destaque.Quase que enigmaticamente. Uma questão controversa. não tem justificativa no texto. perfeição.

sem dispor da luz da revelação de Deus. localizada na costa oriental do Mediterrâneo. para não mencionar documentos em outros idiomas. no sentido de serem reflexões de um indivíduo (ou indivíduos) a respeito das origens. de revelações divinas: verdades que os seres humanos não podiam conhecer. Já comentei que referências veterotestamentárias a Raabe. é o moderno nome árabe da antiga Ugarit. uma história mesopotâmica sobre um Dilúvio. foi descoberta na cidade israelense de Megido.Ras Shamra. Curiosamente. grandes quantidades de textos canaanitas. por exemplo (seja suméria. em geral. Ainda assim. Desde 1929. Precisamos lembrar que Gênesis 1—2 não foi produzido pela nação chamada Israel. Trata-se. as respostas apresentadas por eles não são muito diferentes das apresentadas pela humanidade não-redimida de hoje em dia. como os da Mesopotâmia. Além disso. por parte dos adoradores de Jeová. Não é necessário discutir se esses mitos e lendas. com mitos (Baal e Anat contra Mot ou Yamm) ou lendas (Daniel e o Rei Keret). mas uma boa parte também traz uma conotação religiosa. Ras Shamra. vêm sendo descobertos lá. . Em que essas histórias contribuem para o nosso conhecimento e compreensão do Antigo Testamento? Para que deveriamos estudá-las. mais exatamente. Israel. não é preciso um conhecimento profundo ou mesmo superficial de mitologia para se compreender a mensagem de Gênesis 1—2. E em comparação com relatos de temática idêntica que surge a singularidade da mensagem e da fé bíblicas. a menos que lhes fossem reveladas do alto. Um estudo da mitologia ajuda o crente a compreender como os povos antigos tentavam responder a questões fundamentais a respeito da vida e da realidade que os cercava. estou convencido de que as implicações de Gênesis tornam-se ainda mais dramáticas quando o comparamos a outros relatos da criação. assíria ou babilônica). das tradições que cercavam tais seres fantásticos. produzidos tanto dentro como fora de Canaã. são questões políticas e econômicas. Leviatã e dragões indicam um conhecimento. O assunto desses documentos. eram conhecidos pelo povo de Deus. uma parte da Epopéia de Gilgamesh. que não por maiores informações e conhecimentos acerca de religiões e culturas antigas? Obviamente.

especialistas em escrita cuneiforme como E. como o Enuma Elish (duas primeiras palavras do poema. Embora não haja nenhuma cópia anterior ao primeiro milênio antes de Cristo. que podem ser traduzidas como: “Quando nas alturas”) e partes relevantes do Épico de Atrahasis. outro especialista em escrita cuneiforme. existem duas opiniões. acredita que a história não é mais antiga que 1100 a. a compreender um pouco o mundo de onde Deus chamou Abraão. são adaptações de mitos pagãos editados e revisados de maneira adequada. Ele é válido como um exemplo do que se cria naquela época ou é uma exceção? No que diz respeito à época em que foi escrito. limitar-me-ei a materiais oriundos da Mesopotâmia. Foi uma mudança um tanto radical: uma mudança não só geográfica. O Enuma Elish Como disse anteriormente. Ele ainda afirma que o Enuma Elish não é típico da cosmologia suméria . ou seja.No estudo a seguir. Por outro lado. que a obra foi produzida no início do período babilónico. mas também teológica e filosófica. Jacobsen acreditam. existem duas histórias da Mesopotâmia voltadas para a criação. no mínimo. G. A. sabemos que Abraão veio de Ur dos caldeus. W. Os relatos bíblicos. Quase não apresentam problemas de tradução ou de grandes trechos perdidos. Não raro. existem muitos manuscritos. Diversos motivos me levam a limitar meu estudo a textos originários dessa parte do mundo. com base em evidências internas. Abordarei essa questão de forma específica ao falar sobre o Dilúvio.C. outro é até que ponto o texto exemplifica as crenças mesopotâmicas a respeito da criação (em um período que se estende por cerca de três ou quatro mil anos). muitos estudiosos acreditam que foi exatamente dessas histórias da Mesopotâmia que se extraiu o material de Gênesis 1—2 e 6—9. Speiser e T. Em terceiro lugar. Lambert. as histórias de que falarei estão entre as mais bem preservadas da literatura antiga. Desde que foi publicada no século XIX. a mais conhecida é Enuma Elish. É mais do que provável que tais histórias tenham feito parte de sua formação. Em primeiro lugar. Uma é a época em que foi escrito. no princípio (Speiser) ou entre o meio e o fim (Jacobsen) do segundo milênio antes de Cristo. Além da interpretação. duas questões de fundamental importância aparecem sempre que se fala sobre o Enuma Elish. Conhecer especificamente esses mitos nos ajudará. conforme essa teoria. Em segundo lugar. pois foram transcritas pelas gerações posteriores para uso próprio.

Tiamat jura levar a cabo o plano assassino de Apsu e toma Kingu como seu segundo marido. são listados os cinqüenta nomes de . Ele mata Kingu e usa seu sangue para criar os humanos. e Tiamat. Anshar e Kishar. uma terceira geração. mas o deus assírio Ashur). a humanidade. e apoiada por alguns deuses solidários. Vem. está pronto para a batalha. ele manda que os deuses cativos lhe construam um lar permanente. Após ser amamentado por deusas. a terra. Os assírios do primeiro milênio aparentemente não o acharam atípico e não hesitaram em tomá-lo dos babilônios. A história termina com um banquete real. Através de sua mistura (ou acasalamento) surge uma nova geração. fazendo apenas as mudanças necessárias ao contexto em que viviam (o herói. Apsu. Tiamat. Perturbada e indignada com o fim de seu marido. Apsu planeja matar tais deuses ruidosos com a ajuda de seu servo. já não é Marduk. havia dois seres divinos: Apsu. ambos possivelmente associados ao lodo produzidos por essas águas. Antes de poder implementar seus planos. o qual gera Ea (Enki). Reflexões posteriores e um levante dos deuses encarregados dos trabalhos levam Marduk a liberá-los dos trabalhos manuais. Posteriormente. A divindade principal. Estes geram Anu. Ele recebe a responsabilidade de liderar e defender aqueles que foram marcados por Tiamat para morrer. Lahmu e Lahamu. mas um relato radical e atípico. e ele aceita o desafio.ou babilónica. Marduk elimina rapidamente Tiamat e captura Kingu e o restante da corte. no qual Merduk assume formalmente como soberano eterno. divindade feminina que personificava a água do mar. Divide o cadáver de Tiamat em duas partes: com uma parte faz o céu. deus do céu. a Babilônia. Ainda que sob protestos de sua esposa. Ea lança um feitiço sobre Apsu e o mata. por exemplo. Mummu. tem seu sono perturbado pelo barulho causado por essas divindades mais jovens. divindade masculina que personificava a água doce. Ele os substitui por uma outra criação. E quanto ao conteúdo da história? Antes da criação de qualquer coisa. Os outros deuses prometem torná-lo líder de todos os deuses caso seja bem-sucedido. Nesse momento surge o principal personagem da história: Marduk. com a outra. o horizonte. filho de Ea. Por fim. então.

ele chega a ficar assustado com a violência dos amotinados. são criados sete homens e sete mulheres. escrito.o é descrever a criação do mundo ou do homem. juntamente com barro. na melhor das hipóteses. Enlil é encarregado. Utilizando a carne e o sangue do deus morto. Em agradecimento.. os empregados recusam-se a trabalhar e rebelam-se contra Enlil. deusa da procriação. Ao todo. Seu principal objetivo é teogônico. a humanidade é criada com o auxílio de Nintu(r)/Mami. cada qual exaltando-o em um aspecto. We-ila (talvez o líder da rebelião). no máximo. mais especificamente. O épico concentra-se na terra. dos deuses cujo principal trabalho é escavar o leito dos rios Tigre e Eufrates. Enlil governava a terra e Enki governava as águas. Três deuses maiores haviam repartido o universo entre si: Anu governava os céus. As seguintes observações devem ser feitas. Apresentei apenas um esboço das duas que mais se assemelham ao Antigo Testamento. Ele sugere a criação da humanidade. vou me limitar às partes que tratam da criação. o principal objetivo do Enuma Elish nã. ou seja. ao assumir o papel de árbitro da situação. especialmente Marduk. ameaça renunciar e partir para viver no céu com Anu. Como um deus relativamente insignificante (Marduk) sai da quase obscuridade e se torna o principal deus da Babilônia? Nesse sentido. Enlil. a história é uma etiologia do deus protetor . os deuses lhe conferem o título de “senhora de todos os deuses”.Marduk. Embora sejam seus filhos. os deuses matam um dos seus. solidariza-se com os deuses pressionados com o excesso de trabalho. Trata-se. O épico começa com uma descrição do mundo anteriormente á criação da humanidade. em 1700 a. cuja supervisão é um misto de bênção e fardo. de uma história secundária. Em primeiro lugar. O Epico de Atrahasis O segundo relato a ser considerado é o Épico de Atrahasis. Uma análise dos épicos Logicamente. mais suportada que apreciada. Seguindo a sugestão de Enki. começando a chorar. Ao presenciar a intransigência dos filhos. a fim de liberá-los de sua labuta. explicar a origem dos deuses. Enki. Embora o enfoque do relato seja mais exatamente o Dilúvio. Assim como nos modernos litígios trabalhistas. existem outros relatos da criação na literatura cuneiforme. de quando nos chegam as cópias mais antigas.C.

durante as comemorações do ano novo. Marduk. com as forças da ordem. no princípio havia dois deuses: Apsu e Tiamat. o deus criador. Marduk.da Babilônia. Em terceiro lugar. enquanto nada na história nos remete necessariamente a isso. faz parte da sexta geração. Como no mito Marduk triunfava sobre Tiamat. esperava-se que a declamação anual do texto tivesse o poder de garantir a vitória sobre o caos no imprevisível mundo natural. Existem evidências de que Enuma Elish era recitado anualmente no festival de Akitu. contudo. Tiamat era associada com as forças do caos. ambas as histórias são apresentadas no contexto de um sistema politeísta. na Babilônia. o épico foi escrito com objetivos religiosos. Figura 2 Apsu e Tiamat I Lahmu e Lahamu I _ Anshar e Kishar I Anu I Ea (Enki / Nudimmud) I . Tinha- se a idéia de que as palavras certas. pudessem produzir os resultados desejáveis. nos lugares certos e nos momentos certos. E preciso. De acordo com Enuma Elish. Veja a figura número 2. atentarmos ao alerta de Lambert de que muitas conclusões foram tomadas a partir de uma leitura religiosa do épico. Em segundo lugar.

No início havia dois. o feitiço é sua expressão prática. caracteres e destinos dos deuses não diferem muito do que cabe aos humanos. surge uma parte da ordem criada. os pagãos não conseguiam ver futuro algum para seu mundo ou seus deuses. até mesmo por vingança. incapaz de agir por conta própria. Em virtude de alguma fúria impulsiva ou por razões premeditadas. mas formados a partir do cadáver de um deus massacrado. Engravidando-a. os deuses são produzidos através da atividade sexual e. Em quarto lugar. Anu produz a vegetação (e todo tipo de demônios e deuses). deus algum é soberano e ilimitado. Desse modo. no Enuma Elish. e Mummu. é suscetível a encantamentos e acaba imobilizado por um feitiço de Ea. a mesma palavra serve para “água” e “sêmen”. Diante de conselhos mutuamente excludentes. O deus. A ordem criada é. Se um mito é a expressão poética de uma religião pagã. portanto. Apsu opta pela orientação de Mummu em detrimento das palavras de sua esposa. Isso ocorre porque. que o incentiva a implementá- lo. um domínio ao qual eles devem se curvar. como no caso de Tiamat. estão sujeitos a necessidades sexuais. no paganismo. sendo assassinado em seguida. não um. Ele também fica confuso entre as palavras de Tiamat. Através da “mistura” entre os parceiros. Nesse sentido. os céus e a terra não são trazidos à existência pela palavra criadora de um deus majestoso. por conseguinte. Tiamat. é influenciado por seu conselheiro. A parte desses relacionamentos. O estudioso israelense Yehezkel Kaufmann chamava esse reino de “metadivino”. fonte da chuva —. Apsu. Ambos os relatos são como janelas que nos permitem observar os conceitos que têm de seus deuses — origem. seu ministro e conselheiro. é casado com Ki. homens contra deuses e deuses contra deuses. podendo ser invocado em ataques de deuses contra homens. a terra. deuses podem sofrer atentados ou mesmo serem assassinados. embora divino. As necessidades. Apsu fica nervoso por não o deixarem dormir. (Em sumério. . sua esposa. por sua própria natureza. o poder divino dos céus — e. que insiste em que ele desista do plano.) Anu. nem mesmo Apsu. divina.Marduk A descrição que os babilônios fazem de seus deuses é curiosa. A criação é descrita em termos de procriação. há a idéia de um reino que suplanta até mesmo o poder das divindades. caráter e destino.

mas as respostas não são fornecidas. nem nenhuma dignidade é atribuída ao ser humano. O ser humano é criado como servo. a qual foi destruída séculos mais tarde pelo rei Ezequias. Kingu. Com certeza. A criação da raça humana. Se é na verdade um adversário cósmico de Deus. a humanidade é criada para realizar um trabalho bra-çal que cabia aos deuses. que significa “praticar adivinhação”? É importante observar que informações no Antigo Testamento sobre Satanás.9. A Serpente Existem dúvidas sobre a origem etimológica denãfyãsh. A Queda (3) O capítulo 3 de Gênesis suscita questões irreprimíveis na mente do leitor. Talvez seja um exagero ver uma doutrina mesopotâmica do pecado original nesses relatos. que engana todo o mundo” (Ap 12. contudo. não como rei. sem sombra de dúvida e com clareza.2). Moisés fez uma serpente de bronze no deserto (Nm 21. tanto no Enuma Elish como no Épico de Atrahasis. não é apresentado. cujas idéias . nenhum relato detalhado a respeito da serpente. seria o produto de um implacável determinismo. que esteve anteriormente no reino angelical. mas esses episódios não poderiam servir como uma etiologia da tendência humana para o mal? Se a humanidade tivesse sido criada dessa forma. Gênesis 3 não se detém a fim de nos informar.9). um fardo contra o qual os deuses reclamavam e consideravam abaixo de sua dignidade. ela não é chamada Satanás. Ou estaria a palavra “serpente” relacionada ao verbo hebraico nafyash. ou mesmo a respeito de qualquer coisa relacionada ao mundo dos demônios. Nesse trecho. no Épico de Atrahasis. por exemplo. os humanos foram criados a partir do sangue de um deus rebelde. é a partir do sangue de We-ila (misturado com barro). NoEnuma Elish. que talvez sugira algo reluzente (“um anjo de luz”?). “cobre. menciona “a antiga serpente. bronze”. Quando nos lembramos que Israel era cercado por nações. O Novo Testamento. chamada o diabo e Satanás. sob nenhum aspecto. informações detalhadas sobre essa questão são tão improváveis quanto informações mais profundas sobre a Trindade. são extremamente escassas. pode ser considerada o clímax da história. Aliás. mas foi expuiso. o termo hebraico para “serpente”.Em quinto lugar. NoAnti-go Testamento. quando a imagem já se havia tornado um objeto de culto e adoração (2 Rs 18.4). 20. Possivelmente está relacionada à palavra nefioshet.

a “simples” ou “ingênuo”. o termo é contraposto a “tolo”. é muito parecida com a palavra que significa “nus” no último versículo do capítulo 2: ‘ãrümmim. o termo se refere ao anjo do Senhor. em dois . a palavra sãtan é utilizada de diversas maneiras (mas nunca em Gênesis 3). ou aquilo. Tudo o que o capítulo apresenta sobre aquela serpente é que ela. em Jó.32). SI 109.14 significa “traição” ou planos para assassinar. era uma das criaturas selvagens criadas por Deus.25. mas o çueele é. 11.religiosas a respeito de forças sobrenaturais incluíam crenças não apenas em deuses. não ter um nome significava ser considerado inexistente. Da mesma forma. a uma pessoa que age como um “adversário” (1 Sm 29. oponente de Deus e um intruso nas hostes angelicais (Jó). e não um nome pessoal. o que sugere tratar-se de uma boa e louvável virtude. mas a utilização de duas palavras de pronúncia e grafia semelhantes. a palavra aparece por dezoito vezes (quatorze delas em Jó 1—2).3. mas em Êxodo 21. O curioso é que. a serpente era um ser criado. A mesma palavra é utilizada em Provérbios por oito vezes (12. 27. com exceção de uma (1 Cr 21.1). ela era “astuciosa/ardilosa”. Satanás não define quem ele é. a quem Deus abomina (Jó 5. nas seguintes. “o satanás”. 1 Rs 5. a palavra é traduzida como “[pessoa] ardilosa”.8.4. Também é preciso frisar que a palavra hebraica para “astuta” utilizada em Gênesis 3. Nessa última categoria.4). Nas primeiras quatro ocorrências. ou seja.5). 2 Sm 19. ainda que com sentidos distintos. todas as outras dezessete ocorrências trazem o termo sãtan acompanhado de um artigo.12. na Antiguidade.23. 14. 15. Pv 1. Por incrível que pareça. a Satanás. Tais atributos não são intrinsecamente pejorativos.14. 13. 22.6). não um ser eterno ou divino. mas em hostes de demônios. que pode ser um “adversário” (Nm 22.1. ao contrário de qualquer outro animal.15. a correspondente feminina dessa palavra é traduzida çor “prudência” em Provérbios (por exemplo.4.16).12) e traduzida como “[pessoa] prudente”. Além disso.18. outro livro sapiencial do Antigo Testamento que foi composto em tom absolutamente oposto às passagens de provérbios. Isso indica que “o satanás” é um título. Por outro lado.16. Aliás.22. fica fácil entender o porquê de o Antigo Testamento raramente mencionar demônios. Não é de se estranhar que Jesus instruísse seus discípulos a serem tão prudentes quanto as serpentes (Mt 10.16.22. Não se chega a nenhuma grande conclusão teológica a partir disso. ‘ctrüm.23. Ele não é digno de um nome e.

A tradução Almeida Revista e Corrigida (ARC) é bastante clara: “e [ela] deu também a seu marido.14 — NVI). ou seja. depois Adão. “não morrais”.17). Nessa sentença. Eva assumiria. segue seu exemplo. pode indicar que o autor utilizou palavras-chave para costurar a narrativa. nos versículos 1. A proibição de se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal havia sido dirigida ao homem (2. como Phyllis Trible19. no versículo 3. mas sim a mulher que. durante o diálogo entre Eva e a serpente. tornou-se transgressora” (1 Tm 2. A expressão “não comereis”. São inúmeras as respostas para o porquê de Eva ter sido escolhida para ser tentada. ela e Adão estavam separados. afirmando que a mulher “tem demonstrado uma maior inclinação à astrologia e a cultos obscuros” (biblica-mente. que sugere que a história apresenta Eva como a mais desafiadora entre os dois. e ele comeu com ela” (v. o papel de teóloga-filósofa. No outro extremo se encontram as feministas moderadas. tendo sido enganada. O apóstolo Paulo declara: “E Adão não foi enganado.14?). Em parte alguma somos claramente informados . ele concorda. A mais radical é a idéia de que a tentação visou inicialmente a mulher em virtude do fato de ser o sexo mais fraco. também não se preocupa em responder a outra questão que intriga o leitor moderno: por que a serpente tentou a mulher e não o homem. Quando a serpente consegue fazê-la capitular.16. aquele mais inclinado a especulações fantasiosas. 6). o apóstolo não fala sobre o porquê de Eva ter sito tentada primeiro. racionalista agressiva e defensora de Deus. A Tentação Além de Gênesis 3 não se prestar a um maior exame da identidade da serpente. seu marido. Nessa linha. Paulo corretamente relaciona a cronologia do pecado: primeiro Eva. ao mesmo tempo. Ainda assim. No caso dos capítulos 2 e 3 de Gênesis. estaria von Rad se referindo a Ezequiel 8. calado e desinteressado. os parágrafos são primorosamente ligados. ou mesmo ambos ao mesmo tempo? Parece-me justo supor que o narrador não deseja passar a impressão de que.versículos consecutivos. o respeitado estudioso Gerhard von Rad18 precipitou-se e generalizou. Ela toma a frente.3. e “não morrereis” no versículo 4 estão no plural.

Recorrendo ao esboço de J. Stott.9). Foi estipulado um castigo em caso de desobediência. ela aprendeu com o marido. seu marido.5). que a serpente a tenha escolhido por ter recebido o mandamento de Deus através de um intermediário. então. Sem dúvida alguma existem precedentes na literatura antiga. Pode ser. Mas será que essa capacidade de diálogo. pois seu diálogo com a serpente (3. sendo o único sobrevivente de um naufrágio. mas alcançava também os animais (Gn 9. Após o Dilúvio. 3. De uma das árvores. Ao que tudo indica. Foi-lhes permitido comer de todas as árvores no jardim. R. Eva e a terra. Não faço essa observação com ironia. o porta-voz de Deus. como no caso do marinheiro egípcio que. na qual o lobo e o cordeiro viverão juntos. foi-lhes proibido comer seus frutos. Como a serpente tenta destruir tudo isso? Qual é o propósito fundamental da tentação e até que ponto isso cria um paradigma.) Talvez cause alguma surpresa o fato de Eva e a serpente poderem conversar sem o auxílio de um intérprete. encontramos o seguinte: 1. a aliança firmada por Deus não ficou restrita à humanidade. de forma a traçar o modus . chega a uma ilha e acaba entretido em uma conversa com seu único habitante. não passa de uma representação mitológica? Será que a reduzida capacidade de comunicação com os animais de que desfrutamos atualmente é um vestígio da situação que um dia realmente existiu? O pecado causou um rompimento no relacionamentos que Adão mantinha com Deus. 2. mas aqueles que receberam a palavra de Deus através de Moisés. Será que podemos acrescentar à lista o relacionamento que desfrutava com o mundo animal? Interessante o fato de os animais serem responsáveis por suas ações e comportamento (Gn 9. (Em um outro contexto. temos aqueles que cederam à tentação da idolatria e fizeram um bezerro de ouro: não foi Moisés. W. Isaías prevê uma era messiânica. uma cobra. (Será uma metáfora a respeito das nações do mundo?) Se todas essas considerações são secundárias.1-3) demonstra com clareza que ela sabia sobre a proibição.sobre como Eva ficou sabendo da proibição. alguns elementos do texto são bastante evidentes e apresentam-se de forma clara e precisa. Alguém que tivesse recebido a ordem diretamente de Deus seria menos propenso à desobediência. demonstrada pela mulher e pela serpente.

na mente de Eva. portanto. A observação de Stott20 é bastante interessante: “A provisão de Deus para Adão e Eva era perfeita. mas o homem vai além a fim de decidir por conta própria. se abrirão os vossos olhos. A tentação. 8-11) e a tentativa de jogar a culpa em um bode expiatório (vv. Deus.. não como no diálogo dos versículos 8 a 13. Era isso que a serpente precisava distorcer. dúvidas quanto à integridade de Deus. 7). as quais devem ser consideradas absurdas e irrelevantes.. 14. [. Ele sabia que a felicidade deles seria plena ao desfrutarem do que lhes era permitido. então. poderiamos mudar o título do interessante livro de J. Von Rad21 resume de forma precisa o significado dessas palavras: “A serpente oferece [. ela levanta. mas não experimentá-la com a boca”. fala. então com a mulher (v.. 12.5). a obediência à vontade do Pai estava acima de tudo. dando-lhe completa segurança. a tentação incentiva Eva a declarar sua autonomia. Não lhes faltava nada no jardim do Éden. A diferença entre Adão e Eva no jardim e Jesus no deserto é que os primeiros cederam à tentação. e sereis como Deus. O que aconteceu após Adão e Eva terem ido longe demais? Vergonha (v. “Certamente não morrereis. afastando-se do que lhes era proibido.13). mas em um monólogo: primeiro com a serpente (vv..] no dia em que dele comerdes. Tanto sua permissão como sua proibição eram fruto da mais absoluta generosidade e amor”. Phillips de Your God Is Too Small (Seu Deus É muito Pequeno) para Your GodIs Too Mean (Seu Deus É muito Malvado). malícia (vv.15). sabendo o bem e o mal” (vv. A imagem mental que ela tem de Deus sofre um ataque.. B. Como Deus é mau e cruel! A sugestão da serpente foi: “Você pode observar com os olhos. Em primeiro lugar.operandi do maligno ao longo de toda a Bíblia? A tentação possui um propósito duplo.. Deus é retratado mais como um inimigo que como um amigo.] Deus havia provido o que era bom para o homem. A tática é alterar e distorcer as palavras divinas a respeito da proibição: não comerás de nenhuma árvore do jardim. 16) e por .] a independência que capacita o homem a decidir por si mesmo o que lhe é proveitoso ou não [. Nesse contexto. Ela deve assumir uma atitude independente de quaisquer orientações que possam vir de Deus. visa a levar o homem a ultrapassar seus limites. trabalhar ali por perto com suas mãos. 4. Para Jesus. Em segundo lugar.

costumam se concentrar nos versículos 21. que o levou a ser “surpreendido pela alegria”. dádivas de amor lançadas no caminho dos seres humanos. Deus dá início à sua redenção a fim de resgatar aqueles que se perderam. quando Caim recebe uma marca de proteção antes de sair da presença de Deus. recompensa mínima pelo trabalho manual. numa tentativa de salvar um raio de luz desse capítulo. 7). Gênesis 3.15 é visto pelos cristãos como a primeira promessa — em um sentido profético — de libertação do pecado. Isso nos faz lembrar C. Assim começou a peregrinação de Lewis rumo à fé. encolerizada e determinada a ensinar àqueles patifes uma lição da qual jamais se esqueceriam. Lewis que. As vestes dadas a Adão e Eva são uma expiação imediata.fim e mais demoradamente com o homem (vv. Se não se trata de expiação. não ao presente. Os comentaristas.15. é ao menos proteção. a fim de os trazer de volta a Deus. São. Não é como se Ele estivesse determinando ou estipulando uma lei. comparar as vestes feitas por Deus com aquelas feitas por mãos humanas (v. Nem todos os comentaristas apoiam a interpretação cristológica de Gênesis 3. Seu plano? Atribuir sofrimento. assim como ocorre no capítulo 4. A Primeira Palavra de Promessa Tradicionalmente. uma indicação da preocupação e da compaixão de Deus. ou 15. miséria e frustração aos momentos mais cruciais da realização pessoal do homem e da mulher. muitos estudiosos evitam qualquer mensagem messiânica no . que literalmente significa “as primeiras boas novas”. 17-19). “e fez o Senhor Deus a Adão e a sua mulher túnicas de peles e os vestiu”. chegou à conclusão de que os motivos que tinha para não crer em Deus eram na verdade motivos ainda melhores para crer. mas como se estivesse sendo elucidativo: parto com dores. divisões familiares. Na verdade. Como um cirurgião que usa o bisturi apenas para curar. enquanto refletia nos males e desgraças do mundo. O escritor não descreve Deus como uma divindade petulante. algumas vezes chamado de proto- evangelho. Note que seu ato gracioso (vestindo o casal infrator) precede a expulsão do Éden. o versículo 15 coloca a expiação em um contexto escatológico. Em contrapartida. visando ao futuro. S. Creio não ser correto enxergarmos as palavras de Deus para Adão e Eva basicamente como um castigo. pelo menos. Tais “sentenças” não são imposições ordenadas por um Deus leviano. E tentador ver a expi-ação no versículo 21 ou. na verdade.

1). por exemplo. Westermann22.12.4.23. pede-se que os seus inimigos “lambam o pó”. Em Gênesis 3. existem pelo menos três fenômenos que.3). Em uma passagem análoga. contudo. guardar (ficar de emboscada?)”. A serpente ferirá o calcanhar da semente da mulher (um ferimento temporário e curável). E exatamente a falta de . mas a semente da mulher ferirá a cabeça da serpente (um ferimento fatal). Jesus.4). enquanto as ações da serpente e sua semente são traduzidas por um verbo que significa “emboscar”. com demasiada freqüência. considero impossível seguir a visão de Westermann e outros como ele. por extensão.20: “e o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés”. tais análises desrespeitam o significado original do texto e buscam nas entrelinhas algo absolutamente estranho às intenções do escritor. Ele se dirige aos crentes de Roma e. SI 89. tenta esmagar com sua exegese todos aqueles que apoiam interpretações já consagradas. esse versículo não aparece em parte alguma.29. O verbo hebraico para “ferir” ou “esmagar” é shüp.36). encontramos Davi cercado por promessas divinas de que ele é o começo de algo novo. mais palavras-chave sendo destacadas em outras partes da Bíblia. vêm sendo ignorados pelos comentaristas. mas o verbo utilizado não é o mesmo de Gn 3. o qual foi “nascido de mulher” (G1 4.15. deve “[reinar] até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés” (1 Co 15. Pelas razões que irei esboçar.15). Vemos.15. ele só é encontrado em Jó 9. Versões mais antigas do Antigo Testamento trazem traduções interessantes para esse verbo.25). No Novo Testamento. mas aos pés daqueles para quem ele está escrevendo (“vossos pés”). os inimigos são vistos como “escabelo” para os seus pés (SI 110. No Antigo Testamento. a começar por Lutero. a todos os seguidores de Cristo.versículo. a semente de Davi (Rm 1.17: “Porque me esmaga com uma tempestade” (ARA). Deus “ferirá” todo aquele que se opuser a Davi e/ou à sua semente (SI 89. ASeptuaginta traduz ambos os exemplos com um verbo que significa “vigiar. algo que Deus perpetuará por meio da “semente” de Davi (2 Sm 7. A Vulgata relata as ações da semente da mulher com um verbo que significa “esmagar”. e em Salmos 139. Para ele. com exceção do comentário de Paulo em Romanos 16. Em uma oração pelo rei (SI 72. Fica claro no texto que Paulo não se refere aos pés de Cristo.9).11: “decerto que as trevas me encobrirão”. Além de Gênesis 3.

mas ambas as referências. que possui apenas masculino e feminino. a descendência é praticamente sempre através do homem. é a forma masculina de um pronome de gênero neutro precedido pela palavra “semente”. Eva decerto não conseguiu compreender o sentido fundamental dessas palavras. Eva refere-se a Sete como sua “outra semente” [Gn 4. em “este te ferirá a cabeça”. o pai?) No Antigo Testamento. Nas mais de cem ocorrências desse pronome na tradução grega de Gênesis. no contexto. trata-se de um evento predeterminado. na tradução da Septuaginta. a qual foi literalmente traduzida. (Posteriormente. esse é o único caso em que o pronome não concorda em gênero com a palavra que o precede. ou talvez Sete (Gn 4. quem poderia sugerir que Abraão conseguiu enxergar a relevância a longo prazo da promessa recebida em Gênesis 12. As exceções são raras. é o próprio Deus que provoca esse embate: “E porei inimizade entre ti e a mulher”. A Septuaginta. como nos casos de Agar (Gn 16.1). considerando que o grego possui três gêneros. ou seja. Na verdade. “este”. Em primeiro lugar. esse é o único lugar do Antigo Testamento em que a palavra hebraica para “semente” ou “descendente” ocorre na terceira pessoa. não da mãe. Como a encarnação de Jesus. não é masculino. Isso quer dizer que os tradutores poderiam facilmente ter usado “isto” em vez de “este”. O filho é considerado semente do pai. nem pegará Deus de surpresa.atenção dada a eles que resulta na indiferença para com o sentido messiânico do versículo. o versículo não prevê que a semente da serpente terá a cabeça ferida.10) e Rebeca (Gn 24. com sua referência ao “esperma” da mulher (“seu espermd’)\ (Onde está o homem.15 que deixe de enfatizar o caráter messiânico do versículo incorre num grave erro de exegese. Será que ela pensou que Caim era a semente prometida (Gn 4. uma promessa que levaria pelo menos 400 anos para se cumprir ou até . ao contrário do hebraico.) Em segundo lugar.60). apontam de modo claro para mais de um indivíduo. a primeira parte do versículo proclama corajosamente que esse futuro confronto não será fortuito. creio que qualquer reflexão a respeito de Gênesis 3. portanto. mas que a própria serpente terá a cabeça ferida: “esta te ferirá a cabeça”. A singularidade da construção fica ainda mais aparente na Septuaginta.25)? Por outro lado. Pelos motivos já apresentados. Em terceiro lugar. no feminino e com um sufixo pronominal: “sua semente” ou “semente dela”.25]. Curiosamente. enfatiza o caráter “masculino” da semente da mulher. em detrimento de seu caráter neutro ou coletivo (com origem em mais de um indivíduo)23.

desfrutarmos da presença de Deus? O homem é. somos informados de que Deus colocou o homem no jardim exatamente para cobrir essa lacuna: “para o lavrar e o guardar”. Não obstante. esteja se referindo exclusivamente a Jesus. De modo apropriado. com um homem que foi na verdade expulso da presença de Deus. Adão dera a sua esposa o nome de “Eva”. na promessa de uma semente da mulher e nas palavras de juízo. cuja entrada passou a ser guardada por um querubim munido de uma espada flamejante (3. Em Gênesis 2. Até aqui venho sugerindo que em Gênesis 3. Logo antes de saberem da expulsão.15 “prevê a criação de uma linhagem real. quase todos os acontecimentos apontam para a morte. A linhagem redentora da semente de Eva começa com Sete e culmina no Messias. mas um solo agora amaldiçoado. em 2. se tiverem em seus lares um jovem especialmente rebelde já em torno de. mandado para fora do jardim.mesmo dois milênios para atingir sua plenitude? Tudo isso não quer dizer que Gênesis 3. pelo menos em sua segunda parte. Westermann25 comenta: “Apesar da desobediência do homem e da punição . o melhor a fazer pelo rapaz talvez seja expulsá-lo de casa. mas para quê? Encontramos a resposta em Gênesis 3. que possuem um propósito de redenção. Algo tão simples como uma mudança geográfica pode incentivar uma transformação.20). Tal preocupação é evidenciada no fornecimento de vestes. Para que abandonaríamos os nossos pecados se pudéssemos retê- los e. Ele continua com a função de lavrar o solo. digamos.15. vinte anos. contudo. No contexto.22-24)? Os pais sabem que.15. lemos que “não havia homem para lavrar a terra” e. A Expulsão do Jardim Será possível vermos outra evidência dessa ênfase de redenção na expulsão do homem do jardim.5. mas não impedido de cumprir a missão para a qual foi criado. Alexander24 comenta que Gênesis 3. a esposa e o solo são rompidos. há vida. ao falar de “sua semente”. deixando de lado todos os outros que nasceram entre Eva e Cristo. Os relacionamentos com Deus. por meio da qual serão revertidas as terríveis conseqüências da desobediência do homem e da mulher no jardim do Éden”.23: “para lavrar a terra. por mais difícil que isso possa ser. ainda assim. não de vingança. portanto. o enfoque de Deus é a redenção. uma palavra associada ao termo em hebraico para “vida” ou “viver” (3. então. de que fora tomado”. Lidamos.

15-21. No Novo Testamento.. Sem dúvida.19. e o cristianismo foi a descoberta de como corrigi-la [.recebida. entre outras). mas nenhum jamais tocou no relato da Queda. considerando-a antiquada. SI 51.46.5. os versículos de Paulo são o eixo daquilo que é geralmente conhecido como doutrina do pecado original.1.5.. ao longo do Antigo Testamento. deve fazer voltar à memória um comentário de G.3). referências adicionais às pessoas mencionadas em Gênesis 3. A Criação (capítulos 1—2) 2. o episódio de Sodoma e Gomorra.38) e mais algumas ao longo das epístolas de Paulo (Rm 5.] é profundamente verdadeiro afirmar que as afortunadas boas novas trazidas pelo evangelho são as novas do pecado original”. — Más notícias podem ser boas notícias! 1 GÊNESIS 1-3 . Rm 5. negativa ou absurda. Eles utilizavam. Ef 2. por exemplo. Tanto o Antigo como o Novo Testamento afirmam-na (Gn 6. Talvez a mais simples seja: 2 — História Primitiva (capítulos 1—II) 1. É curioso o fato de não acharmos. a bênção dada no ato da criação permanece intacta [. a primeira é encontrada na genealogia de Jesus (Lc 3.] Mesmo o homem que se encontra longe de Deus é sempre um homem abençoado por Deus”... Podemos esboçar o primeiro livro da Bíblia de diversas maneiras. com exceção de uma referência genealógica em 1 Crônicas 1. 1 Rs 8. K. A Queda (capítulos 3—11) . 1 Co 15. Qualquer pessoa que esteja inclinada a desprezar essa idéia. Seria de se esperar que a expulsão do jardim fosse utilizada como um paradigma nas mãos dos profetas. mas não a explicam em termos de origem teológica. a fim de convencer as pessoas a respeito das conseqüências da desobediência. Chesterton: “O homem possui uma predisposição.22.

e. A História da Criação (1.a) A causa (capítulo 3) b) Os efeitos (capítulos 4—11) 3 — A História dos Patriarcas (capítulos 12—50) 1. na qual se expressa uma totalidade através de antônimos (por exemplo: “passei por altos e baixos” ou “revirei céus e terra até encontrar”). então.4—4. José (capítulos 37—50) Esse esboço reflete com precisão o conteúdo de Gênesis. As palavras “os céus e a terra” podem ser uma figura de pensamento conhecida como antítese. A frase. A Criação dos Céus e da Terra (2. São unidades facilmente distinguíveis. I.26) 4 Criação Criação original Descrição resumida de tudo original que se desenrola nos versículos posteriores. seguirmos os pontos sugeridos pelo texto. Abraão (capítulos 12—25) 2.1— 2. afirma que tudo o que há deve sua existência a Deus. então.3) II. . mas deixa de apontar o relacionamento entre os tópicos e não contempla a progressão dos acontecimentos. Jacó (capítulos 26—36) 3. É melhor deixarmos que o próprio livro de Gênesis esboce a si mesnio.

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Caim fica aborrecido e furioso. Aqui também.24) e “hoje me lanças da face da terra” (4.. embora não seja um caso isolado. Seria talvez pelo fato de a oferta de Abel envolver um sacrifício de sangue? O Antigo Testamento. apresenta um dos primogênitos do rebanho.14). trazem uma oferta ao Senhor.16) e “o pecado jaz à porta. Deus aceita a oferta de Abel. Nem o pecado de indivíduos (Caim. toda a terra. Abel.] habitou na terra de Node. os construtores da cidade e da torre) apagam completamente a misericórdia e a soberania de Deus. acabando por assassinar o próprio irmão. contudo. como. O interessante aqui é o porquê de Deus ter aceitado a oferta de Abel. Acredito que a mesma ênfase dupla continue ao longo dos capítulos 4—11. A narrativa deve ser lida como um todo contínuo. o primeiro crime de crueldade registrado na história ocorre em um contexto de adoração. De modo curioso.8) Fica claro a inexistência de qualquer intervalo entre os capítulos 3 e 4 de Gênesis.16).16) e “e sobre ele dominarás” (4. o segundo filho. A partir daqui. onde o pecado abunda.. enfatizado pela repetição em ambos os capítulos de palavras-chave. nem o pecado de muitos (os filhos de Deus e as filhas dos homens. muito mais abundante é a graça. aparentemente agindo de forma espontânea.7 [o verbo em hebraico é o mesmo]). Lameque e Cam). por exemplo: “e conheceram que estavam nus” (3.24) e “Caim [. e para ti será o seu desejo” (4. sua mulher” (4.2 Acontecimentos Posteriores à Criação e à Queda 1 2 ça: uma palavra divina que traz tanto juízo como promessa. a história é bem conhecida. Incapaz de aceitar a decisão divina. e recusado a de Caim. Caim oferece parte de sua produção agrícola. da banda do oriente do Éden” (4. tal qual a graça e a promessa. “e ele te dominará” (3. “havendo lançado fora o homem” (3. “o teu desejo será para o teu marido” (3.7). prevê sacrifícios sem o derramamento . Fratricídio (4. “pôs querubins ao oriente do jardim do Éden” (3. Dois irmãos.1). mas rejeita a de Caim. Veremos em ação o pecado e o juízo.7) e “e conheceu Adão a Eva.

também é errado oferecer a Deus aquilo que sofre as conseqüências da sua maldição. com uma pergunta: “sou eu guardador do meu irmão?” (Gn 4. e de onde veio sua esposa. o contexto dos capítulos 2 e 3 indicam que a oferta de Caim fora rejeitada por proceder da própria terra que Deus tinha amaldiçoado (3. não haverá aceitação para ti?” (Gn 4. Teria Abel oferecido o que possuía de melhor. Ora. visto que. “Onde está Abel. confesso-me propenso a dizer que sim. ele e seus pais eram os únicos seres humanos vivos no planeta?) Como observam Herion1 e Spina2. ele tem a oportunidade de conversar com Deus. Se é errado oferecer a Deus o que nada custa àquele que oferta (2 Sm 24.17). O diálogo sutilmente tende ao sarcasmo por parte de Caim. em momento algum.7. E correto retrocedermos até Gênesis 4. Até mesmo o termo hebraico usado para a “oferta” de Caim é o mesmo utilizado para “oferta de cereais” em Levítico 2. verificamos que Deus rejeita um sacrifício ou uma oferta quando a obediência e a vida em santidade são substituídos por rituais religiosos.7) Por diversas vezes. enquanto Caim se limitara ao que lhe era conveniente? Estaria a diferença no fato de Abel ter ofertado por fé (Hb 11. Após o pecado. foram unidas depois por uma genealogia fictícia.24). Ele responde à pergunta de Deus. que traz a vantagem adicional de unir os capítulos 3 e 4. por que Caim tinha medo de ser morto por quem o encontrasse. (Entre os intérpretes.9) A resposta a essa pergunta é um enfático não. supondo na vida de Caim a mesma inconsistência que os profetas viam na vida de seus contemporâneos? Considerando a pergunta feita a ele em Gênesis 4. não é rara a sugestão de que a história de Caim e Abel era originalmente separada da história de Adão e Eva. Deus.11-13. naquela época. mas não é possível ser dogmático nessa questão. em expiação por um pecado específico e em determinadas circunstâncias.4)? Será que a oferta de Caim foi rejeitada pelo fato de não ser acompanhada de um coração justo? Talvez seja essa a idéia sugerida pela pergunta de Deus a Caim: “Se bem fizeres.de sangue quando não se trata de algo essencialmente expiatório (Lv 2 e Lv 5. a substituição de rolas e pombinhos por farinha). que até permite. quis . principalmente na literatura profética. teu irmão?”. Seria a Bíblia menos sábia naquilo que oculta que naquilo que revela? Há uma outra explicação possível para a rejeição de sua oferta.

Zoológicos..8). mas não lhe cabia guardá-lo. Dt 4.1-9). o castigo de Caim é o banimento da presença do Senhor (4.1-10. contudo. mas mesmo antes de sua execução”. Não é sem motivo que Deus.15). que protegia os ocupantes dos perigos da primeira Páscoa (Ex 12. Como observou David J. abelhas e prisões possuem guardadores.3). 19. Antes de serem expulsos (3. até que um julgamento determinasse se a morte fora premeditada ou acidental. em especial numa expressão hebraica: Caim “se levantou contra” (güm ’et) seu irmão (4. e (3) o selo na testa dos 144. fosse o guardador de seu irmão.13). Deuteronômio 19. há uma manifestação de misericórdia imediatamente anterior à manifestação de juízo. e se levanta contra ele (güm ’ãl).41-43. Adão e Eva receberam roupas (3. Não é possível conhecermos com certeza a natureza da marca de Caim.22-24). E exatamente a mesma expressão utilizada em relação a Caim. Nelas. Caim. devia amar e respeitar seu irmão. Deus pôs uma marca em Caim (seria na testa?) para impedir que ele fosse vítima da vingança de alguém (4. A exemplo do que aconteceu a Adão e Eva. nas Escrituras.15). essa cidade seria a primeira “cidade de refúgio” (Nm 35. “a graça de Deus [. “Guardar” significa “controlar. Clines. podemos compará-la (1) ao sangue nos umbrais das casas no Egito. e lhe arma ciladas. Na condição de uma marca que proporciona proteção. Sailhamer3 sugere que a marca de Caim poderia ser a cidade que construiu.9-15. alguém que cometesse assassinato poderia se refugiar de uma vingança de sangue. Considerando que logo depois de retirar-se da presença do Senhor.. havendo alguém que aborrece a seu próximo. parece ser um ato intencional.21). . Como aconteceu a eles. regulamentar e governar” — “tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” (Gn 2. e o fere na vida”. é sistematicamente chamado de “guardador de Israel”. pois Ele é o Senhor de Israel.1-10]) trata da questão do assassinato intencional. descrevendo as ações desses criminosos com as seguintes palavras: “Mas. sem dúvida.16). uma das primeiras atitudes de Caim foi construir uma cidade. A.000 fiéis (Ap 7.4). Js 20. Antes de ser expulso. (2) à marca na testa dos homens que lamentavam e gemiam por causa da queda de Jerusalém e do afastamento de Deus (Ez 9. ou qualquer pessoa.] não é revelada apenas durante e após o juízo. Esse é o seu papel. O homicídio de Caim. Como tal.11 (logo após a parte que fala sobre as “cidades de refúgio” [19. Isso fica claro no texto.que ele. São locais que devem ser controlados e supervisionados.

mas a questão é que dificilmente se acha um polígamo cuja vida não seja complicada e confusa. Não há nenhum versículo veterotestamentário que proíba a poligamia. Creio não ser exagero interpretar o registro da longevidade dessas pessoas como um reflexo da bênção divina sobre os descendentes de Sete. E claro que nenhum deles escapou à morte.22 — e isso se tal possibilidade de fato chegou a existir. Não é apenas o tempo de vida que diferencia a descendência de Caim da descendência de Sete. mas é através da semente de Sete (4. Ele se gloria em feitos macabros.32) que o plano de redenção de Deus prossegue.1- 32). mas também o refrão que constantemente acompanha a semente de Sete: “e gerou filhos e filhas”. mas cada descendente de Sete tem seu tempo de vida registrado (5.25—5. Não se faz comentário algum sobre o tempo de vida dos descendentes de Caim (4. e multiplicai-vos. em contraste com os descendentes de Caim.17-22). por mais nobres que sejam. especificamente precursores da agricultura e da pecuária (Jabal). . Ainda assim. temos ainda seu incontrolável desejo de vingança e violência. da música (Jubal) e da metalurgia (Tubalcaim). Além da infração de Lameque contra o matrimônio. A cultura secular é promovida pela linhagem de Caim. o padrão divino de um homem para uma mulher e vice-versa é desprezado. e enchei a terra”. com Agar e Sara. cada um sendo espetacularmente longo. pois a possibilidade de “viver eternamente” deixou de existir após Gênesis 3. Poligamia e Retaliação Pela primeira vez. Jacó. tais inovações não têm o poder de conter as tendências diabólicas da humanidade. São todos filhos de Lameque. ainda que não pela última.21. É paradoxal que os descendentes de Caim apareçam como pais da cultura e da indústria (4. com exceção de Enoque (5. ou os vexames nas vidas de Davi e Salomão.24). foi dito aos filhos de Sete: "Frutificai. com Léia e Raquel. Temos o exemplo de Abraão. O anúncio desse histórico cultural interrompe o relato da poligamia de Lameque e de sua rancorosa canção de vingança.22).com apenas uma minúscula alteração na preposição que acompanha o verbo. Ainda assim.

uma referência aos descendentes de Caim. Mais uma vez. observamos que a Bíblia introduz esses dois grupos sem qualquer alarde ou maiores explicações. O pai.7.29. A linguagem desse versículo faZ-nos lembrar a linguagem de Gênesis 3. O pecado seria uma infeliz mistura entre a linhagem santa de Sete e a linhagem ímpia de Caim. principalmente os capítulos 4 e 5. Apesar de estar numa forma diferente. A vantagem imediata dessa explicação é sua inter-relação com as informações dos capítulos imediatamente anteriores.1-4) Poucas passagens das Escrituras são de tão árdua interpretação como Gênesis 6. Lameque.6.O décimo indivíduo na genealogia de Sete é Noé. que estabelecem um paralelo com as filhas de diversos descendentes de Sete. Não se faz comentário algum sobre sua origem ou qualquer identificação específica.19.30).1-4.4.2). Em primeiro lugar. as únicas mencionadas até aqui nas Escrituras (5. O pior problema reside em identificar os “filhos de Deus” e as “filhas dos homens”. nesta terra que o Senhor amaldiçoou” (5. nos quais a linhagem de Caim é comparada à linhagem de Sete. Outro exemplo desse paralelismo pode ser . A maldição proferida na época de Adão seria agora retirada ou significativamente arrefecida.7.1-4. Um novo dia estava nascendo. prediz (embora não seja revelada a fonte de sua presciência) que seu filho Noé os “consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos. Temos. a inesperada menção às “filhas dos homens” (6. são correntes três possíveis identificações dos vilões e das vítimas. em que ele expressa o descontentamento e o arrependimento de Deus em relação à criação e ao comportamento da humanidade. na décima geração.17: “maldita é a terra [mesma expressão de 5.29] por tua causa. Os “Filhos de Deus” e as “Filhas dos Homens” (6.17 sucumbe diante de Gênesis 5. Entre os comentaristas.26. um grande número de exegetas antigos e modernos vêem os “filhos de Deus” como uma referência aos descendentes de Sete e em “filhas dos homens”.29 —ARA). trata-se do mesmo verbo hebraico utilizado em Gênesis 6.13.29).29: “fadiga”] obterás dela o sustento durante os dias de tua vida”. por exemplo. existem comparações bastante explícitas entre as atividades de seus descendentes e os dois grupos mencionados em Gênesis 6. Seu nome é associado com a expressão “trazer alívio e consolo” (5. em fadigas [mesma palavra utilizada em 5.10.16. Além disso. Gênesis 3.22.

4). Como exemplo cito 2 Samuel 7.1. contudo o castigo de Deus é para toda a humanidade. a narrativa diria respeito a um número limitado de pessoas. não é de todo impossível. “tomando para si” mulheres (6.19). 89. se os filhos de Deus fossem chefes de estado.17). É de se supor que. ou status. 38. essa interpretação recebe grande credibilidade. 25. Uma segunda interpretação da narrativa propõe que os filhos de Deus são governantes pertencentes a uma dinastia ancestral. teríamos uma desproporção entre um pecado cometido por algumas pessoas — ainda que nas altas esferas — e um juízo de proporções quase cósmicas. tão sedutor quanto o fruto proibido para Eva (ler Kline5). os setenta mil que morreram em Israel em virtude de o rei Davi ter feito um censo (2 Sm 24. um palácio nos versículos 1 e 2. que “tomou duas mulheres” (4.2).19. 16. Tem-se objetado que essa teoria é indefensável. Uma terceira interpretação sugere que os filhos de Deus são anjos. se o propósito de Judas 6 e 7 for apenas ilustrar o juízo divino sobre o pecado de anjos e . Tal interpretação abandona qualquer identificação com os descendentes de Caim ou Sete e aponta para algo mais ambíguo: um grupo de membros da realeza.6. tanto descendente de Sete quanto de Caim).1 (humanidade em geral) e um outro em 6. A expressão “filhos de Deus” é na verdade uma forma de denominar as hostes angelicais em Jó 1. e reputação. acabamos por constatar que elas equiparam os filhos de Deus à semente de Caim (Lameque tomou mulheres para si.7.20 e 2 Pe 2. 26. cuja existência ainda não tinha sido mencionada nos primeiros capítulos das Escrituras. por exemplo. Nesse caso. no entanto. “Casa” significa um templo nos versículos 5. a instituição da aliança davídica.6. Encontramos algum respaldo para essa posição em Judas 6 e 7 (talvez também em 1 Pe 3. Por outro lado. O pecado seria então o relacionamento sexual entre seres sobrenaturais e naturais. observo que é possível uma palavra assumir sentidos diversos em um mesmo capítulo. 27 e 29. em relação a Lameque. em que encontramos diversas nuanças para a palavra “casa”. descendente de Caim. uma dinastia nos versículos 11. 19.verificado nos filhos de Deus. 7 e 13. Em resposta.1.15. 6. As filhas dos homens seriam seu harém real. Veja. Caso o objetivo de Judas 7 seja comparar a imoralidade e as aberrações sexuais de Sodoma e Gomorra ao comportamento dos anjos mencionados em Judas 6. 2. no versículo 18. Ao seguirmos tais comparações. assim como fizeram os filhos de Deus) e as filhas dos homens aos descendentes de Sete — o contrário das explicações tradicionais (leia EslingeE).2 (homem no sentido mais restrito. pois atribui um significado para “homem” em 6. Isso. SI 29.

somente José deixa de ultrapassar a idade de 120 anos. Sugere-se que a maior falha dessa explicação reside no fato de os infratores não serem humanos. que faremos com os versículos seguintes de Gênesis 6: “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e [.. porque ele também é carne. fica claro que sua aplicação se dá a longo prazo.] arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem [. Ademais. Tera. Ele comeu. essa última crítica não é assim tão contundente. Os 120 anos podem se referir a uma redução imposta por Deus na expectativa de vida. a referência de Gênesis não parece dizer respeito a estupros ou a complacência com a luxúria desenfreada. ou então a um período de graça (anterior ao dilúvio). mas a casamentos: “e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram”. Mais uma vez. O pai de Abraão. mas de uma relação matrimonial ilícita. As vítimas são tanto os humanos como os animais. No caso de uma redução na expectativa de vida. viveu por 205 anos e o próprio Abraão viveu por 175 anos.3: “porém os seus dias serão cento e vinte anos”. O próprio Jesus nos lembra que anjos não se dão em casamento (Mc 12.. de sobre a face da terra. Não se trata de violência sexual.] E disse o Senhor: Destruirei. apesar de o juízo cair sobre esses últimos: “Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem. . a interpretação dessa parte do versículo 3 é tudo. até ao réptil e até à ave dos céus” (6.. durante o qual é contida a mão de juízo de Deus. se estivermos preparados para decifrar uma inconsistência e uma incongruência aqui. As possibilidades são duas. Embora existam conflitos na proposta de que a passagem se refere a anjos ou seres sobrenaturais. viveu por 950 anos. apresentado após esse episódio. os dois versículos não têm influência alguma em Gênesis 6. mas não morreu de imediato. No livro de Gênesis. encontrando seus indícios em 6. caso comesse do fruto proibido. porém os seus dias serão cento e vinte anos”.. Será possível percebermos aqui um leve sussurro da graça de Deus? Creio podermos ouvir essa graça. menos unânime. o homem que criei. Deus disse a Adão que ele morreria. parece-me que a sentença sugere graça.25). pois.1-4. na qual não é possível que as duas partes se tornem uma só carne.humanos. Noé.5-7)? Os infratores são seres humanos. desde o homem até ao animal. De um jeito ou de outro.

Por outro lado. editores. em Gênesis . Near Eastern Texts Relating to the Old Testament [Textos do Oriente Médio Relacionados ao Antigo Testamento] (Filadélfia: Westminster. Readings from the Ancient Near East: Primary Sources for Old Testament Study [Estudos sobre o Antigo Oriente Médio: Textos Originais para Análises do Antigo Testamento] (Grand Rapids: Baker. ele vem sendo contido. (õ) W. editor. Nova York: Paulist Press. N. C.12) A parte mais importante de todo esse trecho é a descrição do dilúvio.11. Arnold e B. e Nínive será subvertida” (Jn 3. The Context of Scripture: Monumental Inscriptions fom the Biblical World [O Contexto das Escrituras: Escritos Relevantes do Mundo Bíblico] (3 volumes.4). W. Antes da vinda de Jesus virá o “homem da iniqüidade”. Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament [Textos Antigos do Oriente Médio Relacionados ao Antigo Testamento] (3a edição revisada. J. 1997). (4) Victor H. rei de Uruk (Ereque. Old Testament Parallels: Laws and Stories from the Ancient Near East [Comparações Veterotestamentárias: As Leis e as Histórias do Antigo Oriente Médio] (2a edição. dão conta de um antigo dilúvio: a Epopéia de Gilgamesh e o Épico de Atrahasis. durante o qual Deus se detém de modo voluntário — interpretação essa que considero bastante natural — é novamente fácil discernir a graça. Matthews e D. contudo. editor. O Dilúvio (6. Benjamin. Esse comedimento por parte de Deus é análogo à mensagem de Jonas em Nínive: “Ainda quarenta dias. Hallo e K. Dessa forma. (3) John Walton.: Princeton University Press. em 2 Tessalonicenses 2. Lawson Younger. Diversas traduções desses épicos e de outros textos do Oriente Médio podem ser encontradas em livros como: (1) J. Ancient Israelite Literature in its Cultural Context: A Survey of Parallels between Biblical and Ancient Near Eastern Texts [Literatura Israelita Antiga em seu Contexto Cultural: Uma Análise Comparativa entre a Bíblia e Textos Antigos do Oriente Médio] (Grand Rapids: Zondervan.5. 2001). T. 1990). Leiden: Brill. Até aqui. 1978). Pritchard. 1977-2002). (6) B. Dois relatos extrabíblicos da Mesopotâmia. B. 1969). E. muito bem preservados. se o trecho diz respeito a um período de alívio. Beyer. Encontramos uma correspondência ainda melhor no Novo Testamento. temos a possibilidade de receber e oferecer graça. Beyerlin. Princeton. (2) W. Um alívio na repressão a esse “filho da perdição” fará com que ele seja liberto de seu confinamento. A Epopéia de Gilgamesh Assim denominado por causa de Gilgamesh.

Após as águas baixarem. Ele ainda assim conseguiu lembrar que um de seus ancestrais. Esse inimigo se chamava Enkidu. fazendo com que Gilgamesh passasse a ter um medo patológico de perder sua própria vida. Enlil ficou sabendo que dois mortais escaparam da catástrofe. Se ele ao menos pudesse encontrar Utnapistim. fazendo com que o barco de Utnapistim acabasse encalhado no topo de uma montanha. o mortal Gilgamesh recebeu uma proposta de casamento de ninguém menos que a estonteante deusa Ishtar. após uma semana de orgia com uma prostituta. o povo pediu que um de seus deuses lhe criasse um inimigo.C. Como a experiência de Utnapistim foi algo absolutamente singular. A imortalidade.. A fim de derrubá-lo. Ea contou a Utnapistim que Enlil se preparava para destruir a humanidade com um dilúvio. Os opositores se tornaram colegas e lutaram contra toda sorte de monstros malignos e celestiais. resignado com o seu destino. ele encontrou Utnapistim. causando grande indignação entre seus súditos. Por fim. Ele só foi “humanizado”. Utnapistim. seu gado. A tempestade começou e perdurou por sete dias e sete noites. portanto. O Épico de Atrahasis . ele conferiu a imortalidade a Utnapistim e a sua esposa.10. vencera a morte e obtivera a imortalidade. principalmente por causa de seu terrível histórico de casos extraconjugais! Por causa da afronta a Ishtar. Sendo-lhe negada a imortalidade. Gilgamesh era um rei tirano e brutal. mas sem vitória para nenhum dos lados. Afim de completar seu trabalho. livrando a terra da humanidade. poderia aprender o segredo e salvar sua própria vida.10) em torno de 2600 a. Em seguida ocorreu um combate entre Enkidu e Gilgamesh. que ele havia construído. voltou para sua casa.. ele saiu do barco e adorou seus deuses. Eis a história que Utnapistim conta a Gilgamesh. mas ele a recusou. alguns bens e marinheiros profissionais. em Uruk. de acordo com Thorkild Jacobsen. esse texto data de aproximadamente 1600 a. ou “civilizado”. Depois de outras frustrações. Certa feita. Disse-lhe que. deveria construir um barco e reunir sua família.C. Seguiu-se uma atribulada jornada pelas diversas partes do submundo. Enkidu morreu. restava-lhe sobreviver na mente das pessoas através da esplêndida Uruk. Ao longo dessas aventuras. Gilgamesh acabou se sentindo ainda mais desapontado. é a obra de suas mãos. Posteriormente. se fosse sábio.

mostra claras e pormenorizadas semelhanças. Exasperado por mais um fracasso. Atrahasis nos é apresentado. Atrahasis. Tratava-se de um controle de natalidade: a criação de algumas mulheres permanentemente estéreis. Após a Criação. pois os deuses tinham ficado sem se alimentar durante o dilúvio. . a criação de um demônio. Ele. a terra estava “coberta de homens”. contudo. e não era sem tempo. após 200 anos. que até mesmo os deuses ficaram em dúvida quanto à sagacidade do plano de Enlil. terminando com a seca. Será que isso significa. O que se seguiu é bastante parecido com a Epopéia de Gilgamesh. Atrahasis conseguiu impedir a praga. ofereceu um sacrifício aos deuses em agradecimento por sua sobrevivência. assim como Utnapistim. Após desembarcar. O problema foi resolvido. masAtrahasis voltou a interceder e aplacou a ira do deus ofendido. então. Enki. Enlil ordenou um dilúvio. que os hebreus pegaram o relato mesopotâmico emprestado e apenas trocaram os nomes? Não será possível que tais similaridades. Atrahasis construiu um navio resistente à tempestade. quando. cuja função era “arrebatar o bebê do colo daquela que lhe deu à luz”. que estava destinada a durar sete dias e sete noites. e a criação de diversas categorias de sacerdotisas a quem era proibido procriar. havia desaparecido. que Enlil acabou com insônia. Sua fonte de comida. não Gilgamesh. Foram tomadas algumas providências para limitar o crescimento da população mundial. os sacrifícios dos mortais. no que diz respeito à catástrofe do dilúvio. Enlil então planejou uma seca. O ciclo voltou a se repetir uma terceira vez e a punição foi uma reedição da seca. os homens se multiplicaram tão rapidamente e fizeram tanto barulho. mas. se devam ao fato de ambas se basearem em eventos históricos? Tanto a literatura da Mesopotâmia como a Bíblia mencionam o dilúvio simplesmente porque houve um dilúvio. com a exceção de que o herói é Atrahasis. Seguindo o conselho de Enki. A tempestade foi de tal forma devastadora e a aniquilação da humanidade foi tão completa. Com a ajuda de seu deus.O Épico de Atrahasis já foi examinado quando tratamos do relato da Criação. entre a Bíblia e as culturas vizinhas. Uma Análise dos Épicos Uma comparação entre os épicos de Gilgamesh eAtrahasis com Gênesis 6—9. planejou reduzir a população com uma praga. repentinamente.

caso saísse vivo daquele pesadelo. [assim como] os deuses que a habitavam. portanto. que ao transgressor seja imputada sua transgressão!” (11. Ea censurou Enlil: “Como tu. Um das vantagens do crente que lê mitologia está na compreensão sobre o que pensavam os povos antigos. é ainda mais interessante compará-las. como é posteriormente confirmado ao longo do épico. A Epopéia de Gilgamesh. no outro épico. Seu juízo foi totalmente punitivo. sem refletir. esse tipo de juízo não possui nenhum efeito terapêutico. ó herói. Além disso. agiu movido pela raiva. Enlil. sobre como respondiam às questões fundamentais da vida sem a luz da revelação. Utnapistim também levou consigo grandes quantidades de ouro e prata. Além do mais. Na Epopéia de Gilgamesh. o mais perto que alguma dessas obras chega de salvar aquele que é justo encontra-se no relato sumério do dilúvio. não diz praticamente nada sobre o motivo do dilúvio.179-181). ó mais sábio dos deuses. . embora o relato não chegue a enfatizar um vínculo entre seu caráter e seu livramento. um rei honrado e humilde. a fim de verificar como tradições diferentes trataram do mesmo assunto. por exemplo. o único a se salvar do afogamento foi Ziusudra. Tal comparação revela diferenças essenciais entre mentalidades e visões de mundo. Quando seus corações levaram os grandes deuses a trazer o dilúvio”. O único trecho pertinente é: “A cidade era antiga. não turbulência moral. E será que um dos deuses pode trazer uma catástrofe sobre a humanidade em virtude dos pecados dos homens? Afinal de contas. um cubo. foi o barulho das multidões que despertou a ira e a vingança de Enlil. Enki informou Atrahasis. de igual modo é complicado entender o porquê de um mortal ser salvo. Mais uma vez. pelo egoísmo e pelo capricho. do mesmo acontecimento. provocar a inundação? Que ao pecador seja imputado seu pecado. Após o cataclismo. os próprios deuses estão longe de ser puros. No Épico deAtrahasis.Sendo esse o caso. para as massas. o herói levou consigo marinheiros profissionais. pudeste. Nesse relato. Os maiores especialistas em escrita cuneiforme estão convencidos de que a palavra utilizada para barulho significa exatamente isso. as dimensões da nave construída pelos heróis é por demais estranha: “iguais deverão ser seu cumprimento e largura” — ou seja. Foi a habilidade e o engenho humano que mantiveram esse navio flutuando. Além de animais e sua família. Ea avisou Utnapistim dos planos de Enlil. um pequeno pé-de- meia para recomeçar.

Gênesis afirma que o dilúvio foi deflagrado pelo pecado da humanidade. “A terra.] “encheu-se a terra de violência” (6. de alguma forma complexa. ambas as histórias são desprovidas de qualquer função didática. porém. Contudo. não se trata de uma orientação destinada a produzir respeito pelos deuses.. estava corrompida” [. sem jamais tentar ultrapassar seus limites (Gênesis 3?). o termo para “corrompido(a)” dos versículos 11 e 12. Enlil deu um ultimato: cerrassem o útero. O fim do Épico de Atrahasis é ainda mais deprimente: após fracassar por três vezes. Será essa uma maneira de Deus destruir? Em vez de interromper e impedir. ao falar sobre a manifestação da ira de Deus contra o pecado. o apóstolo Paulo... mas não confiança e amor. “porque toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra” (6. mas o diálogo do texto confirma isso. mais branda que colérica. Semelhantemente.12). O que elas tentam passar e qual é o significado de sua temática? Será que.26. Uma Comparação entre os Épicos e o Relato de Gênesis Ao examinarmos o relato de Gênesis. Grande parte disso é indicado nas narrativas dos capítulos 3—5 e nos primeiros quatro versículos do capítulo 6. usa a expressão “Deus os abandonou” (Rm 2..24. Quiçá medo e suspeita.16). A isso pode-se acrescentar: “a maldade do homem se multiplicara sobre a terra [.5). no texto em hebraico.Por fim. Embora não fique claro na tradução. Pouco vale. Obviamente. Ele permite que o mal iniciado pela humanidade siga em direção a sua inevitável conclusão. é formado pela mesma raiz de “os destruirei” no versículo 13.] toda imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (6. tais histórias dizem respeito ao leitor? A Epopéia de Gilgamesh trata mais de Gilgamesh que de Utnapistim e se concentra mais na trama que antecede ao dilúvio que no livramento da catástrofe. a qual é sem dúvida mais passiva que ativa. podemos demonstrar um pouco de seu caráter único. Veja. para não concluirmos que Deus não passa de um espectador impassível .28).11). investigando os quatro pontos de contraste acima mencionados. fizessem com que toda a progênie fosse natimorta. impuses-sem o celibato. Possivelmente o seguinte princípio poderia ser extraído da história: satisfaça-se com sua situação e com aquilo que tem. por exemplo: “porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia” (Gn 15.

determina o destino. não tinha direito algum de fazer isso.20-29). nem há qualquer referência a equipamentos de navegação (a não ser que consideremos a janela no telhado.21 com 6. longe de serem absurdas. É revelador que. por onde se podiam contar as estrelas. na expressão “pesou-lhe o coração”. de um jeito ou de outro. Suas dimensões. contada ao redor das fogueiras nas gerações posteriores. o relato do dilúvio teve um profundo efeito nas gerações ulteriores. Nenhum marinheiro acompanhou Noé.] o contraste entre a fúria punitiva de Deus e sua graça que sustenta [. O caráter. assim como Acã. mas irrelevante. 7. é respectivamente anunciada a dor que Eva enfrentaria no parto e a dor que o homem sofreria ao extrair o alimento do solo. então. não um barco (6.. O . Podemos contemplar [. Pelo contrário. Interessante observar que. Nesses versículos. Antes de mais nada. em Gênesis 6. O livramento deveu-se unicamente a Deus. a primeira reação de Deus diante da iniqüida-de generalizada em sua criação não seja a fúria ou a indignação. A dor de Deus é a dor da decepção causada pelo mau comportamento da humanidade. são bastante adequadas a uma embarcação para águas oceânicas.17..] como se Deus se ajustasse à iniqüidade do homem’’3. ou podiam passar os pássaros como pombos-correio navais).9. cf. acompanhada de uma aliança com Noé no capítulo 9.5. A dor da humanidade se tornara a dor de Deus! E claro que a dor do homem e da mulher são físicas e ocorrem em conseqüência de seu próprio mau comportamento. Noé. A mesma condição que no prólogo fundamenta o juízo de Deus. Longe de ser uma história palpitante. A promessa é.17). aqueles que se salvaram não levaram nenhum bem material consigo. devemos notar que o próprio Deus sofre uma intensa dor emocional: Deus “se arrependeu” (Gn 6. Além disso.21. há um cancelamento da maldição de Deus sobre a terra (8. cf. mas o desapontamento. 3. Gerhard von Rad observa: “o versículo 21 é uma das mais notáveis declarações teológicas do Antigo Testamento: demonstra como o jeovista pode se expressar de modo decisivo e intenso nos pontos mais relevantes.6).. Noé andava com Deus” (6.diante de todo esse lamaçal. é ordenado a Noé a construção de uma arca.1). o termo hebraico procede da mesma raiz da palavra traduzida por “dor” em 3.14). revela sua graça e providência. Noé não é poupado por causa de um capricho ou favoritismo.. evidenciado pela história da vinha de Noé (9. ele “era varão justo e reto em suas gerações. mais um baú que um navio.16. Ao associar 8. no epílogo. Para ser mais exato.

Desse modo. Encontramos outro exemplo na natureza do dilúvio. uma segunda chance para a humanidade.2 (J) afirma que Noé deveria levar “sete pares” de animais limpos.12. . Eles listam os seguintes exemplos: a) 6.que Deus um dia disse a Adão (1.11 [P])? A segunda categoria citada pelos críticos a respeito da origem do relato é a clara mudança verificada no uso do nome de Deus. também em 6. ainda que com ressalvas (9. 7. Dois Relatos do Dilúvio? Já tive a oportunidade de comentar as hipóteses documentais levantadas por aqueles que criticam a origem do relato da criação. Já 7. demonstra de maneira evidente que eles não formam um texto homogêneo. A primeira categoria de observações aponta inconsistências grosseiras. Diversas observações são escolhidas a fim de apoiar essa idéia. Um segundo exemplo são as informações contraditórias quanto à duração do dilúvio. Noé é o primeiro de uma série de pessoas com quem Deus firmou essa aliança. O dilúvio. 8. ou uma explosão de águas subterrâneas (7.11). Uma é o número de animais que embarcam.20.12 [J]). são dois de cada espécie.24 [P]). mas precedente. temos um segundo começo.4. Conforme o que lemos em 6. contudo. O Deus Tbdo-poderoso escreve um bilhete para si mesmo! Eis o alcance dessa história na vida daqueles que a lêem.1).6-8.15 (todos de P).17.23). assim como em 2. Uma parte afirma que o dilúvio durou 40 dias e 40 noites (7. segundo tais críticos.2-6). Outra tradição estabelece que o dilúvio durou 150 dias (7.6 [todos de J]). Tal aliança não é exclusiva. Não esqueça que o arco da aliança no céu é para uso dele (9.28). A manutenção dessa aliança é responsabilidade de Deus. um par de animais imundos.5: “viu o Senhor”. Teria sido água do alto (7. ele diz agora a Noé (9. jamais voltaria a ser repetido (9.9.12-17). o macho e sua fêmea (as palavras usadas aqui são “homem” e “mulher”. Uma leitura superficial dos quatro capítulos.4. Gênesis 6—9 nos permite verificar de uma vez por todas a validade dessa abordagem. macho e fêmea.19.

C.b) 6. Deus..).16. se entristece. também em 8.8.12. g) 8. e outro produzido cerca de 400 anos depois (o relato dos sacerdotes. h) 9. Deus cheira seu agradável odor e a maldição sobre a terra é suspensa (8. também em 7.6-12 J . também em 9. Gênesis 6—9 pode ser dividido da seguinte maneira: 6.22. c) 7. cheira o odor dos sacrifícios.1: “abençoou Deus a Noé”.1: “lembrou-se Deus de Noé [. f) 8.20-22 [J]). (o Jeovista).11. é em alguns momentos retratado em termos bastante humanos: Ele se arrepende.13.]Deus fez passar um vento”. como uma força todo-poderosa que está acima do mundo. as duas histórias foram unidas por um editor ou editores.3b-5 P 6.12.6.20: “edificou Noé um altar ao Senhor”. por exemplo. como o temos.1: “disse o Senhor a Noé”. Daí conclui-se que originalmente existiam dois relatos do dilúvio: um cuja data provável é o século X ou IX a.17..13-16a P 8.C.1-18 [P]).5.9: “como Deus ordenara”. Uma quarta categoria afirma que o relato traz dois diferentes estilos e formas de expressão.9-22 P 7. d) 7.12 J 8. também em 7. de cerca de 550-450 a.15. Em uma terceira categoria estão as alegações de que o relato aponta para duas direções diferentes: (1) Noé oferece sacrifícios. Em um momento posterior. também em 6. e) 7.21.16: “o Senhor a fechou por fora”. (2) Deus abençoa Noé e com ele firma sua aliança (9. também em 8.16.9: “Noé andava com Deus”. Em outras situações. No texto.5-8 J 7. reconsidera posições. é retratado como um ser absolutamente sobrenatural.

2b. Os trabalhos de modernos estudiosos. Seria essa solução menos provável que atribuir “dois” aos jeovistas e “sete” aos religiosos? Da mesma forma. Os termos “dois de cada” e “sete” são mutuamente excludentes? Por que os “dois” de 6. Cyrus Gordon e Kenneth Kitchen. Em primeiro lugar.10 J 8.16b. Para Cassuto. ou seja.9. A heterogeneidade traz mais problemas que soluções.13a P 7. Para Gordon e Kitchen.1-17 P 7.20-22 J 7.20 e 7. pois ocorrem fenômenos parecidos na literatura mediterrânea antiga e seria ridículo estabelecer uma teoria sobre múltiplas fontes. algumas das supostamente reveladoras evidências de incongruência no texto não são em absoluto reveladoras.7.9 P 7. em especial no que diz respeito à parte de Gênesis que trata do dilúvio.7.24—8.15 não podem ser o número padrão de animais (um macho e uma fêmea para procri-ação. como Umberto Cascuto. E preciso fazermos as seguintes observações.13b J 7. tal divisão é duvidosa.18-21 P 7.23 J 8. pois mesmo os animais impuros seriam preservados!) levados para a arca? “Sete” diria respeito a apenas animais sacrificiais.8 J 7. a animais pertencentes a uma categoria especial.1-5 J 7.11 P Não são poucos os protestos contra essa divisão do relato do dilúvio em duas fontes distintas.22. há alguma .6 P 7. que por sinal se estende a todo o Pentateuco.14-19 P 7. criticam essa teoria em diversos aspectos. uma visão assim fragmentada não faz justiça à estrutura literária do texto.19.2a P 8.3a J 9.17 J 8.8.

ao lidarmos com o relato do dilúvio nas Escrituras. como Deus ordenara a Noé”. 7. W. Por esse motivo. "se a hipótese documental estiver correta. segundo a teoria das múltiplas fontes.12 . macho e fêmea. mas alcançar as dimensões sincrônicas do texto (o que se pode discernir a partir da forma final do texto?). pôs em dúvida essa divisão do relato do dilúvio. Anderson e G. baseado nos princípios da tradição oral. eruditos como B. o estudioso escandinavo Eduard Nielsen. Wenham estão convencidos de que. ao investigar a narrativa do dilúvio. Em quarto lugar. 7. devemos ir além de um exame analítico (dissecar o todo para chegar ao texto original) ou de uma investigação diacrônica (como as partes se uniram para formar o todo?). o que assegura que os sacerdotes (P) o escreveram: “entraram de dois em dois para Noé na arca. 6. apesar de a hipótese documental ver esse trecho como uma colagem que alterna pelo menos sete vezes de J para P. poucos versículos depois (7. atribuído por todos os críticos aos sacerdotes [P]) é dita exatamente a mesma coisa: “entraram de dois em dois para Noé na arca”. no entanto. para ilustrar. Uma repetição no mesmo documento! Qualquer um que se precipite em explicar o versículo 15 como uma inserção editorial devia primeiro lembrar a réplica de Nielsen: “E reconfortante e às vezes necessário ter um redator escondido na manga”7. Nielsen. de uma perspectiva gramatical. Como observa Andersen. conseguindo. Dessa forma. seguida por cinco meses de elevação das águas até o ponto máximo? Em segundo lugar. observa que. criar a impressão de um todo coeso”. ao examinar a estrutura gramatical do texto.6-17 forma uma unidade com uma estrutura claramente identificável. Violência na criação de Deus.11.9 foi escrito pelos sacerdotes. Por quê? Porque a palavra “Deus” ocorre no versículo.15. Francis Andersen8 foi capaz de isolar e identificar as partes que foram recortadas por aqueles que defendem uma fonte múltipla. J. Anderson nos traz o interessante esquema apresentado na figura 3. algum editor colou pedaços de versões paralelas da mesma história.inconsistência quanto à duração do dilúvio: 40 versus 150 dias? Não seria o caso de terem havido 40 dias de chuva. Figura 3 1. Em terceiro lugar. do ponto de vista gramatical.

A Maldição sobre Canaã (9. por parte do analista moderno. 8. Isso certamente não rejeita possíveis histórias independentes. no entanto. uma explicação possível. A decisão divina de preservar a ordem. Anderson não tenta utilizar essa tabela para afirmar que Gênesis 3 é um trabalho unificado. Anderson. 8.1-17 Extraído de B. certamente não poderemos pensar que o trabalho do redator foi mal feito a ponto de permitir que as mais flagrantes contradições surgissem dessa união. O início do dilúvio. 38. Fazê-lo seria considerar que os textos foram compilados por um pós-modernista! Pois é exatamente assim que muitos comentaristas têm agido. W. A elevação das águas.11-16 “ 5. 7. 9. de se chegar a uma hipótese que resguarde a dignidade do escritor original não evidencia qualquer deficiência no editor de outrora”. tratar Gênesis 6—9 como uma redação irracional e arbitrária é historicamente inadmissível.17-24 | Deus se lembra de Noé V 6. considerando que isso definiria os editores do Pentateuco como mentalmente inferiores aos filólogos modernos. Utilizado sob permissão. 8. 1978. Segundo discurso de Deus: ordem para entrar na arca. p. No entanto.20-27) .A 2. Também é moralmente inadmissível “pois a incapacidade.6-14 8. mas tal uniformidade no relato não admite a possibilidade de que Gênesis 6—9 proceda de uma única fonte? Após produzir seus próprios estudos sobre esses capítulos. Aterra é seca. Quarto discurso de Deus: as bênçãos e a aliança. 7. Wenham9 declara: “A hipótese documental só poderá ser defendida se for admitido que o mais talentoso e perfeito redator uniu textos J e P em uma unidade maravilhosa e coerente”.15-19 V 9. Primeiro discurso de Deus: a decisão de destruir. As águas do dilúvio retrocedem.1-10 á 4. sem dúvida alguma. 7. 6. “From Analisys to Synthesis: The Interpretation of Genesis 1— 11”. seria essa a explicação mais provável? E. Como disse Halpern10.13-22 A 3. Terceiro discurso de Deus: ordem para sair da arca. JBL n° 97. 8. se acreditarmos que Gênesis 6—9 é o resultado de uma edição que uniu J e P.1-5 | 7.20-22 10.

3. Embora possamos considerar que as ações de Cam não teriam acontecido caso seu pai estivesse sóbrio. Não é informado como ele ficou sabendo da culpa do filho mais novo.25 — NVI].21. Noé “soube o que seu filho menor lhe fizera”. em que Noé “descobriu-se” antes da transgressão).23. dando sua filha Léia em vez de Raquel.Temos pelo menos dois problemas aqui: a natureza do crime cometido por Cam contra seu pai e o porquê de Noé ter amaldiçoado Canaã. Compare isso com “e despertou Noé do seu vinho e soube o que seu filho menor lhe fizera” [Gn 9. com suas duas filhas.24]. constata-se que a embriaguez de Noé não é destacada em nenhuma exortação. Desse modo. contudo.22. Quando.” ao tratar de possíveis incestos. em vez do próprio Cam. ao acordar. O texto não esclarece como o sogro conseguiu enganar Jacó. em Gênesis 29.17. possamos talvez considerar as situações conseqüentes como explicações suficientes acerca da licenci-osidade. Sugere-se que o pecado de Cam foi incesto (leia Basset11). Isso explicaria o porquê da maldição de Noé contra Canaã. .) O pecado de Cam é descrito no versículo 22: “viu [ele] a nudez de seu pai”. O verbo constantemente utilizado nessas regulamentações é “descobrir” (ver Gn 9. nasceu-lhe Canaã. mas muito provavelmente o noivo estava tão bêbado. e Ló. que fala em “ver” a nudez da irmã. quando ele finalmente acorda. sempre com referência a relações heterossexuais.30-38 — deram lugar a acontecimentos detestáveis. (Poderiamos também refletir sobre a atitude de Labão. nunca homossexuais. Note que. que não foi capaz de distinguir uma irmã da outra.4). de onde lhe nasceram filhos (Gn 19. Será que o pecado de Cam foi simplesmente ver seu pai nu e posteriormente contar aos irmãos? O texto insinua mais do que isso. Existem dois outros exemplos claros de incesto em Gênesis: Rúben. recordamos que os dois incidentes envolvendo embriaguez em Gênesis — aqui e em Gênesis 19. diz a Labão: “Que foi que você me fez?” [Gn 29. pois.. Cam manteve relações com sua mãe e. E possível achar respaldo para essas teorias na parte do Pentateuco que lida com relacionamentos sexuais proibidos. com a concubina de seu pai (Gn 35. Enquanto Noé estava adormecido. Levítico 18 e 20 utiliza repetidamente a frase “não descobrirás a nudez de. 49.. dessa relação incestuosa. filho de Cam. com exceção de Levítico 20.30-38). descobrir a nudez do pai de alguém é ter relações sexuais com a mãe desse alguém.

a menos que se afirme que a referência ao filho de Cam em 9. Esse foi o único acontecimento negativo em Gênesis 3—11 no qual Deus não . Então teria sido Canaã que viu a nudez de seu avô. a história supõe o nascimento de Canaã antes do episódio. Sem e Jafé. Em segundo lugar. sendo por isso amaldiçoado.24). O segundo grande problema — o porquê da maldição sobre o neto — também impede a existência de uma solução inatacável. que aguardasse o nascimento do rebento nove meses depois e só então lançasse a maldição sobre Canaã. a história sugere que Noé se deu conta do que Cam lhe fizera logo após se recuperar de sua ressaca. Talvez a maldição tenha sido proferida contra Canaã pelo fato de ele ser o filho mais novo de Cam (10. Isso é possível.18 é um comentário explicativo sem valor cronológico. Pode-se facilmente afirmar (leia von Rad12) que as palavras “Cam é pai de” nos versículos 18 e 22 são inserções posteriores de um redator.21? Se considerarmos que o ato de Cam teve a ver com incesto. O terceiro ponto fraco dessa teoria é a falta de lógica nas ações dos dois irmãos de Cam. cobriram a nudez do seu pai”? Deveriamos ver alguma analogia entre Sem e Jafé terem coberto a nudez de seu pai com algum tipo de veste e o fato de Deus ter coberto a nudez de Adão e Eva com algum tipo de veste em 3. Em nosso estudo de Gênesis. isso só poderia significar que os irmãos se recusaram a repetir o erro do irmão mais novo. Quais as implicações de: “indo virados para trás. se a considerarmos literalmente. assim como Cam é o filho mais novo de Noé (9. essa interpretação possui três problemas. A teoria do incesto precisaria que Noé tivesse conhecimento da gravidez da esposa. se os filhos de Deus eram anjos. Isso tranqüilamente elimina o problema. a maior parte dos animais e pássaros foi tragada pelo Dilúvio por causa dos pecados da humanidade. mas através de exclusões aleatórias de partes do texto.Por mais plausível que pareça.6). Em primeiro lugar. já vimos exemplos de inocentes sofrendo por causa de um culpado: a terra foi amaldiçoada por causa do pecado de Adão e Eva. a humanidade foi punida por causa do pecado dos anjos. Já mencionei uma das possibilidades nos últimos parágrafos: Canaã é o produto de uma relação incestuosa. pronunciando de imediato sua maldição contra o neto.

9. No fim das contas. A profecia.10). a favor da tradução “habite ele [Deus] nas tendas de Sem”. através da qual Deus transmitiría seu plano redentor e a palavra da promessa. seria daquela família que sairía Abraão. mas agora Noé também o fazia.19). Em suas palavras. O relato sobre os filhos de Deus e as filhas dos homens (6. Para encontrarmos uma passagem análoga ao “Deus de Sem”. deve ser considerada uma redução da linhagem familiar. Na interpretação do versículo 27 (“Engrandeça Deus a Jafé.1-8) fica entre duas notas sobre os três filhos de Noé (5.1-9) Diversos acontecimentos em Gênesis 4—11 são precedidos e sucedidos por notas genealógicas semelhantes.18.10. Deus de Sem”. há também uma palavra de bênção. 6.42. teremos de esperar até encontrarmos o servo deAbraão. ou seja. e habite ele nas tendas de Sem”. enquanto a maioria dos escritores contemporâneos optam por Jafé (mas discordando quanto ao exato significado da frase).32. .9. Além disso. Deus já havia proferido maldições. ARA). de modo convincente em minha opinião. mas limitar as palavras de Noé a simples desejos? A primeira palavra de Noé é dirigida a Sem: “Bendito seja o Senhor.48). Walter Kaiser13 argumenta. que diz: “Deus de meu senhor Abraão” (Gn 24. O relato do dilúvio é cercado por referências à progênie de Noé (6. ou denominado Deus de um grupo maior que surge a partir de um indivíduo. O “ele” seria Deus ou Jafé? Será que a profecia de Noé indica que Jafé habitaria as tendas de Sem. Devemos observar que essa é a primeira vez na Bíblia em que Deus é chamado de “Deus de alguém”. é a primeira vez nas Escrituras que uma pessoa amaldiçoa outra pessoa.disse palavra. é de extrema importância identificarmos quem é “ele”. que os gentios seriam reunidos no redil do povo de Deus? Ou a profecia indica que o próprio Deus habitaria as tendas de Sem? A maioria dos comentaristas mais antigos identificam “ele” com Deus.12.9. Atitudes que até então eram prerrogativas de Deus. passavam a ser tomadas por mortais. além de maldição. portanto. Sob que lógica alguém poderia compreender as bênçãos e maldições divinas como decisões inescapáveis. A Torre de Babel (11. E preciso atribuir às declarações de Noé o mesmo peso e poder dado a declarações semelhantes por parte de Deus.

1-9. Essa história sobre a torre começa com a migração de pessoas do oriente (11. Esse é o conceito pagão de imortalidade. que seduziu Eva. Diversos descendentes de Sem habitaram a “montanha do Oriente” (10.O incidente da torre de Babel possui. músico. Babel (v. fazendeiro por vocação. encerrando seus dias na fazenda. No incidente da torre. O indivíduo torna-se imortal em virtude de suas habilidades. evitar que fossem dispersos pelo mundo. Ao longo de Gênesis 3—11. arquiteto e escritor. há uma correspondência entre a natureza do pecado e o tipo de juízo sobre ele. para quem era essencial se estabelecer num local fixo. não aceita essa idéia. Caim partiu para habitar a terra de Node. “o portão de Deus”. ou seja. . A correspondência entre ofensa e castigo destaca a natureza da transgressão e o caráter da justiça divina em ação. O pecado do povo não está no desejo de construir uma cidade. 11. Deus. sua memória é perpetuada por suas obras.30). que é um ato neutro e destituído de implicações morais. Deus decretou seu juízo tanto sobre o instrumento do pecado. Miller14 enfatiza que.8). escultor. acabou se tornando a “capital da confusão”. A serpente.10-32). para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (Gn 11. tornou-se um fugitivo e andarilho. levando-a a comer o que não devia.2) para a planície de Sinar.4). 9). É a motivação por trás da empreitada que salta aos olhos: “Eia. contudo. em 11. A narrativa conta que as excentricidades desses construtores levaram Deus a agir. por exemplo. o ambiente geográfico do relato fica fora da Palestina. antes e depois de seu registro. Ele nunca escolhe de forma aleatória dentre os muitos castigos possíveis. um idioma único. Ao oriente do Éden.21-31. Muito tempo após o falecimento de um artista. O jardim do Éden é no oriente (2. que fez com que todo o projeto fosse possível. Caim. ao longo de Gênesis 3—11. poeta. Mais uma vez. como sobre a intenção por trás do pecado. Seu grandioso projeto foi subitamente interrompido quando Deus lhes “confundiu a língua” e dispersou aqueles que insistiam em se tornar mais sedentários.24). terá de comer poeira pelo resto de sua vida. Podemos verificar uma grande ênfase no oriente nesses primeiros capítulos de Gênesis. a genealogia de Sem (10.16). Deus postou um querubim para impedir um retorno ao jardim (3. da banda do oriente do Éden (4. não vemos Deus tendo nenhuma reação arbitrária contra o pecado e a desobediência. A imortalidade baseia-se em uma realização. edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus e façamo-nos um nome.

seguido de uma narrativa mais pormenorizada da criação da vida humana (2.1-9). Deus opera em prol de um objetivo eterno. Em minha opinião.4.1”16. mas que tornou incompreensível a língua comum que podia ser compreendida por todos os envolvidos no projeto de construção. sinalizando o descontentamento de Deus. mas jamais desviado de seu rumo. a exemplo do que acontece com os defensores da hipótese documental. tenhamos o mesmo aqui: uma descrição geral das origens dos idiomas (10. existem duas explicações para a dispersão da humanidade: a fonte P (capítulo 10). Podemos ainda explicar a justaposição desses capítulos ao sugerirmos que dois aspectos lingüísticos distintos são aqui considerados. vimos não por uma.5). Uma terceira sugestão vem sendo oferecida por Clines: “Se o conteúdo do capítulo 10 tivesse vindo após o relato da torre de Babel.1-32) imediatamente seguida por um relato mais específico das origens desse fenômeno (11. essa última interpretação é a mais apropriada. a terra era lingüisticamente uniforme? Dificilmente! Na “tabela de nações” do capítulo anterior. tanto na ira como na misericórdia. Isso quer dizer que. Cam e Sem foram divididos “segundo as suas famílias. Nessa linha de pensamento. até aquele momento. em suas nações”. É possível que. Gênesis 4—11 . a um idioma internacional que tornava possível a cooperação e o intercâmbio entre povos de diferentes idiomas. como defende Cyrus Gordon15.A narrativa começa dizendo que toda a terra era “de uma mesma língua e de uma mesma fala”. No lugar onde se encontra. tendo um relato geral da criação do ser humano (1. Em tudo. Em contrapartida. em que a dispersão é vista como um castigo. segundo as suas línguas. visto que mais uma vez exemplifica algo consistente ao longo de Gênesis 3—11: a voz de Deus tanto no juízo como na redenção. toda a Tabela de Nações teria de ser lida a partir de uma idéia de juízo. que os filhos de Jafé. irritado pela estupidez de alguns. a afirmação do capítulo 11. e a fonte J (capítulo 11). em que a dispersão é um sinal de bênção. em suas terras. O capítulo 10 diria respeito aos idiomas e dialetos de cada povo. a “mesma língua” do capítulo 11 diria respeito a uma língua franca. a Tabela de Nações aparece como o cumprimento do mandamento divino de 9. não seria a de que Deus dividiu um idioma em muitos. mas por três vezes.26-30). Dessa forma. Alguém poderá ver um conflito entre esses dois capítulos.

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20-27.1-4. No relato do capítulo 3. 2. 6. Os resultados são: 2 Fratricídio provocado por ciúmes — 4. 3. Não há dúvida de que a propagação do pecado é descrita nesses capítulos. contudo. No capítulo 3. a humanidade renuncia aos padrões divinos. 5.8. Caim mata Abel.5. o homem e a mulher pecam e violam um relacionamento horizontal: comunhão com os outros. 4. Todos esses atos perversos demonstram um ponto comum: todos demonstram o desejo humano de ser igual a Deus (Gn 3— 11).1-9.GÊNESIS 4-11 Gênesis 3 põe em movimento uma série de fatos que têm suas raízes nos eventos no Éden.12. a maldição de Canaã. Uma cidade com uma torre até os céus — 11.23.11. Lameque. Poligamia e vingança — 4. portanto. Babel.24. observamos uma mistura de pecado e gra- . Os acontecimentos. Lascívia — 6. como atestam esses seis acontecimentos. sucedem-se um em conse-qüência do outro. filhos de Deus coabitando com filhas dos homens. Incesto (?) — 9. Após ultrapassar os limites impostos por Ele. Corrupção e violência na terra — 6.

apenas dois capítulos são dedicados ao relato da Criação.3 Abraão GÊNESIS 11. ou a demonstrar como Deus opera na história do homem. A tabela 2 demonstra isso. que naturalmente ocupam a mente do homem moderno. no entanto. se você precisa perguntar. daria uma resposta parecida com a de Louis Armstrong. Tabela 2 Passagem Bíblica Idade de Abraão Acontecimento 12. Como Deus e os humanos chegam a um acordo e entram em harmonia? As respostas estão em Levítico e em boa parte do livro de Êxodo. Em um sentido técnico.4 75 Abraão parte de Harã . Não dispomos de nenhuma informação sobre Abraão até seu 75° aniversário e. com ênfase em um período específico. Como Deus encoraja alguém que esteja enfrentando as mais sombrias circunstâncias? Vá até a história de José. O Antigo Testamento é mais teológico que filosófico. alguns eventos de sua vida são destacados. quanto aos seus últimos 75 anos de vida. atingindo partes de dois outros capítulos. A história de Abraão. Os 25 anos de fundamental importância vão dos 75 aos 100 anos. não encontramos a biografia de Abraão no livro de Gênesis e não somos capazes de traçar sua vida em detalhes. Seria isso uma pista a respeito do principal propósito das Escrituras? Sua principal função não é tratar de questões metafísicas e filosóficas. quando lhe pediram para definir o que é jazz: “Cara. Ainda assim.26-25. jamais ficará sabendo”. e apenas um ao relato da Queda. dispomos de um mínimo de dados.11 No primeiro livro da Bíblia. Como Deus tira uma pessoa do anonimato e a usa para alcançar e transformar o mundo? Olhe a vida de Abraão. contudo. Se um hebreu do passado fosse pressionado a definir Deus. estende-se por 13 capítulos de Gênesis.

por exemplo. a diferença entre “façamo-nos um nome” (11. 3.] engrandecerei [.16.. os exemplos de infidelidade suplantam facilmente os exemplos de obediência.] abençoar-te-ei [.. Abraão é contrastado com tais indivíduos perniciosos. (Curioso que uma promessa .. com Deus como sujeito: “far-te-ei [.4) e “engrandecerei o teu nome” (12.] amaldiçoarei”. Um imperativo: “Sai!” (12.3 85 Abraão habita por 10 anos em Canaã 16. Não se pode deixar escapar. Mais um verbo no futuro que.1) 2. Wolff foi bastante feliz em sua classificação gramatical das partes da passagem: 1.2).16 86 Nascimento de Ismael 17. carrega um sentido de conseqüência e obrigatoriedade: “em ti serão benditas [Gn 10—11?] todas as famílias da terra” ou “abençoarão a si mesmas”.1 137 A morte de Sara 25.. a autopromoção é contrastada com a aceitação das promessas de Deus.] abençoarei [. Cinco verbos no futuro do presente. Hans W. A transição do período pré-patriarcal para o patriarcal é marcada pelas palavras que iniciam Gênesis 12.. As maquinações humanas são comparadas à iniciativa divina.5 100 O nascimento de Isaque 23.1 99 A aliança 21..7 175 A morte de Abraão De Adão à descendência de Noé (1—11).. no original..

“E Deus os abençoou” (1. Ainda assim. Estaria o nosso futuro à nossa frente ou para trás de nós? Nossa caminhada é rumo ao futuro ou de volta para o futuro?) Nesses dois versículos. proferidas pelos lábios de Deus. não admitiriam tal correlação. “E abençoou Deus a Noé” (9. quer como verbo quer como substantivo. Alguns indivíduos tiveram (aparentemente) o mesmo nome — como. Quais são então os eventos subseqüentes na vida de Abraão? 1 O Tema da Promessa Nosso conhecimento a respeito de Abraão é limitado àquilo que encontramos nas Escrituras.22). 9. aparece por cinco vezes. o verbo hebraico utilizado é diferente do presente nesses casos) Poder-se-ia ainda associar as bênçãos de Gênesis 12.17: “maldita éa terra por causa de ti” 3. ao mesmo número de bênçãos encontradas em Gênesis 1—11: “E Deus os abençoou” (1. por exemplo.14: “maldita serás mais que toda besta” 2. pois sustentam que Gênesis 12. Wolff compara esse uso quíntuplo de “bênção” com o uso quíntuplo de “maldição” em Gênesis 1—11: 1. Aqueles que defendem a tese das fontes múltiplas. 3.1).. Assim como acontece com a maioria dos personagens bíblicos.29: “por causa da terra que o Senhor amaldiçoou” 5. nenhuma dessas pessoas é o Abraão da Bíblia.28). 5.1-3 é de J e esses cinco de P.3). não existem referências a respeito dele em nenhuma obra da época dos patriarcas.21.] os abençoou” (5.para o futuro traga um sentido de obrigatoriedade. “E abençoou Deus o dia sétimo” (2. “Macho e fêmea [. na antiga cidade de Ebla — o que atesta a antigüidade da tradição. o termo “bênção /abençoar”.11: “maldito és tu desde a terra” 4. no entanto. diga-se de passagem .2). 3.. Uma única referência ao patriarca Abraão — ou a Moisés.25: “Maldito seja Canaã” (Em 8.1-3. 4.

C a 500 a. nosso principal objetivo não é conhecermos o cotidiano do segundo milênio a. Nas palavras de Geerhardus Vos3: “Se. Até mesmo para estes. baseados em descobertas arqueológicas. talvez. passou por um processo de compilação. O importante papel desempenhado pelos patriarcas na história da redenção recebe maior destaque em Gênesis por meio de uma contínua ênfase na promessa divina. em geral também afirmam que tais relatos — misturas de fatos e lendas — foram compostas em Judá e Israel. Além disso. contudo. Tudo começa com Abraão. de acordo com a Bíblia.C. A ausência de tais referências. Tal abordagem claramente minimiza ou ignora a importância do papel dos patriarcas no livro de Gênesis: serem os primeiros canais de transmissão das promessas de Deus. personagens de parábolas ancestrais. o verdadeiro princípio do povo de Deus [. confirmam a autenticidade do ambiente cultural nas tradições patriarcais. no qual a maioria das histórias foi afastada de seu contexto e propósito original.. relutam em admitir que o que temos em mãos é pura história. histórias artificialmente localizadas em uma era longínqua. ao lermos sobre a vida de Abraão em Gênesis. Eles se tornam. Assim. desencadeou as divagações de estudiosos modernos na busca do “Abraão histórico”. indivíduos obscuros de um passado remoto e indecifrável ou. mas nada termina neles. Como tal. de onde as gerações posteriores podem extrair verdades eternas com aplicação na realidade atual. pelo contrário.C). combina a idéia de que algumas das narrativas dos patriarcas não passam de invencionices de uma época remota. mas as promessas de Deus para o futuro.] a negação de sua historicidade torna-os sem efeito”. da época da instituição da monarquia até o retorno do exílio (1000 a. . Com essa visão. seria suficiente para silenciar a multidão de especulações a respeito desses personagens da história primitiva. Em última análise.— em algum texto cuneiforme ou hieroglífico. nosso interesse é profético. Mesmo aqueles que. só vamos ter um legítimo registro histórico na narrativa “objetiva” a respeito de Davi e de sua família no “Relato da Sucessão” (2 Sm 9—20. que expressam uma opinião histórica conservadora a respeito dos patriarcas. eles [os patriarcas] são atores reais no drama da redenção. posteriormente. 1 Rs 1—2).. todas as narrativas acerca dos patriarcas teriam sido parte de uma longa tradição oral que. revisão e edição. São catalisadores de um processo e não sua conclusão. tais críticos. Isaque e Jacó. Todos os três foram instrumentos para alcançar um fim que extrapolou em muito o tempo de suas vidas.

1). “E Abrão mudou as suas tendas” (v. Em primeiro lugar há o imperativo: “Sai-te” (v.. ficaria reduzida a uma reação. 5). “Olha” (v. a segunda referência à promessa: o imperativo divino. “Levanta” (v. Tamanha ênfase retira- lhes a idéia de recompensa (algo conquistado) e atribui a noção de dádiva (algo imerecido).. partiu Abrão” (v. em 15. 2. Brevard Childs5.14-18. Ele deve agir “com justiça e juízo.não histórico. Como veremos mais adiante. Encontramos exatamente a mesma estrutura em 13.19).3).. E preciso que ele obedeça ao mandamento: “guardarás o meu concerto” (17.1-6. Logo depois vem a promessa divina: "Far-te-ei” (vv. de forma semelhante. a promessa divina. O que é isso que. “hei de [. Diversos incidentes. a vida de Abraão surge como uma curiosa combinação de fé e estupidez. A ele é ordenado: “anda em minha presença e sê perfeito” (17. revelam ausência de fé. “Assim será a tua semente” (v. 4). A terceira referência à promessa. de uma iniciativa. como um todo. demonstra o mesmo: o imperativo divino. Pode-se ao menos afirmar que todo esse mosaico de histórias diversas se mantém coeso em torno de um mesmo tema [. Sugere-se um certo vínculo entre a obediência e o cumprimento . Além disso. 6). contudo. Na maioria das vezes. seguida pela reação humana: “Assim. 14). em uma mesma perspectiva. Se o versículo 4 precedesse os versículos 2 e 3.1-3: a primeira promessa feita a Abraão (de bênçãos e crescimento). 5). combina tanto acontecimentos positivos como negativos? Gerhard von Racf respondeu a essa pergunta: “A história. “E creu ele no Senhor” (v. a promessa divina. para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (18. Isso não quer dizer que Abraão foi absolvido de toda a responsabilidade. a resposta humana. são promessas absolutas e incondicionais. 18).] farei” (vv.9). todo o propósito da passagem ficaria radicalmente diferente: as promessas poderiam ser interpretadas como conseqüências da obediência de Abraão.] aludindo constantemente à promessa de Deus”. possui um arcabouço que a sustenta e conecta: a suposta promessa para os patriarcas. sugere que a promessa proporciona “um elemento estável em meio a situações que se modificam a todo momento em um ambiente bastante conturbado”.. a resposta humana. A palavra divina. com avanços e retrocessos. Podemos ver esse aspecto particularmente destacado em 12. 15-17).1). o leitor se sente à vontade para aplaudir Abraão. o homem de fé.

35.1-6.11. Percebe-se a mesma nuança em 26. Ao listar as que se relacionam a descendentes. a menos que admitamos que. tua mulher.14- 17. terra. .10]. não em virtude da obediência de Isaque! Não estou afirmando que a obediência humana é absolutamente inválida.19).18). pode-se citar 22. Algumas dessas podem se cumprir isoladamente (“Sara. 13. Clines lista treze passagens de Gênesis a respeito da promessa de terras. 46. via de regra. palavras de promessa (12.] porquanto Abraão obedeceu à minha voz”.3).das promessas em “porquanto fizeste esta ação [. uma a Isaque (26. nem em agir com justiça? E se ele tivesse se recusado a oferecer Isaque em sacrifício? E preciso considerar que tais opções eram uma possibilidade real para Abraão.1) após ele ter recebido. 7. deve haver alguma reciprocidade..13. Essa última passagem. terá um filho” [18. Já a primeira condição apresentada aAbraão foi aos 99 anos de idade (17. Afinal. Meu argumento é que a responsabilidade humana é sistematicamente subordinada à palavra da promessa de Deus. mas. ocorrem em grupo. duas para Isaque (26. As promessas de Deus aos patriarcas cobrem as seguintes áreas: o nascimento de um filho.4). enquanto apenas uma é paraAgar (21.4. para ele. “A tua semente darei esta terra” [12.. em termos de conduta.5: “E multiplicarei a tua semente [. 7-21). Treze são dirigidas a Abraão. a presença de Deus. Clines6 cita 19 passagens de Gênesis. A primeira condição. uma promessa de aumento no número de descendentes (“multiplicarei a tua semente como as estrelas dos céus”). David J.14. Mais promessas são feitas a Abraão que a seu filho ou neto.1-3. como o escolhido do Senhor (18.3) e três a Jacó (28. mesmo em uma aliança unilateral. bênçãos. quase 25 anos depois.15-18: inclui uma promessa de bênção (“deveras te abençoarei”). Como exemplo. o aumento do número de descendentes.24) e três para Jacó (28. 15. A.] porquanto obedeceste à minha voz” (22.4...15 [também 48. é apresentada a Abraão (17.1518).] deveras te abençoarei [. e uma segunda promessa de bênçãos (“E em tua semente serão benditas todas as nações da terra”). Em termos cronológicos.. promete a multiplicação dos descendentes de Isaque por causa de Abraão. Nove dessas são dirigidas a Abraão. Abraão ouviu a primeira promessa de Deus aos 75 anos de idade (12. em diversas ocasiões. a graça de Deus foi irresistível. uma promessa de terras (“a tua semente possuirá a porta dos seus inimigos”).7].4].1).. E se Abraão não tivesse obedecido à palavra do Senhor? E se ele não tivesse crido? E se ele tivesse insistido em não andar na presença do Senhor.12. contudo. 35.

para a banda do norte. agora.17. ou dois. ao longo dos últimos 75 anos de sua vida. e do oriente. Somente a explicação divina de um intervalo de quatrocentos anos (15. E quanto a Abraão? Ele teve um filho. Is 41. viver em tendas era plenamente satisfatório (Hb 11. mas certamente desfrutou do Deus de todas as promessas. Em 13. Deus inicia comAbraão um processo cujo ápice se dará em um futuro distante.10). Isso é com certeza verdadeiro para as duas promessas que aparecem com mais freqüência. é claro. Deus dará a terra “a ti e à tua semente”. Por diversas vezes ele perguntou a Deus: “Onde está meu herdeiro?”. mas jamais perguntou: “Onde está minha terra?” Para ele. Isaque e Jacó não poderiam se cumprir ao longo da vida dos patriarcas. portanto. não a dádiva. com exceção de um pequeno terreno comprado onde sepultou sua esposa (Gn 23). E óbvio que a maior parte das promessas feitas por Deus aAbraão. a promessa da terra e a promessa de um vasto número de descendentes. nesses versículos. a saber. O próprio Deus foi escudo e recompensa a Abraão (15. Aparentemente.15. foi a sua maior recompensa. . jamais possuiu a terra como os israelitas ao tempo de Josué. Nenhum texto antigo indica que Abraão tenha visto isso dessa forma.46. Em 12. poderia ser substituído por “eu dou” (em 15.7. “a ti”. O doador.7. Sua “posse” se limitou a contemplar a terra que sua semente um dia ocuparia (“Levanta.7. Possuiu uma tenda e grande vigor.12-16) eliminou da mente de Abraão quaisquer dúvidas que pudessem existir.8.1). e do sul. ele esperava um cumprimento mais imediato da promessa.9. Mesmo o tempo verbal “eu darei”. quando lhe foi anunciado pela primeira vez em 12.4). Não sem razão. Ademais. em termos de realização pessoal. mas nenhuma terra. Abraão é mencionado por três vezes na Bíblia como “amigo de Deus” (2 Cr 20. Verdade seja dita. e uma intensa obsessão. literalmente “tenho dado”). Pelo menos é isso que percebemos em retrospecto. mas não uma miríade de descendentes. observamos variações até mesmo na forma como é feita. No que tange à promessa de terras. Abraão.18. os teus olhos e olha desde o lugar onde estás. e do ocidente”). Deus dará a terra “à tua semente”. Em 13. quantas famílias da terra foram abençoadas com ele? Uma grande bênção possuiu Abraão. todas as promessas de Deus. ele não possuiu.

No entanto. na esperança de que os egípcios a tratassem com mais consideração. a fim de fortificar o relacionamento. Quanto a essa expressão. Abraão foi fraco o suficiente para usar sua esposa. ele a convence a se identificar para os egípcios como sua irmã. nos quais o casamento é sucedido por uma relação de adoção. A. E claro que tal interpretação “salva” a sua reputação. Ela é a primeira de diversas mulheres nas Escrituras que algum homem se dispõe a sacrificar a outros homens. nem tudo é perfeito. Goshen- Gottstein7. e o silêncio de Sara também deve ser observado.Tg 2. ele implora a Deus em favor de Sodoma.23). Speiser.16-33. apenas escuta. Sara. para salvar sua própria vida. Ele não argumenta. Apesar de não tolerá-los. Como o Servo Sofredor descrito por Isaías (23. a culpa de Abraão é intensificada pelo fato de ele manter silêncio ao longo de todo o episódio. Abraão. Como uma grande mácula na história de Abraão. não sua esposa (12. Abraão surge como um indivíduo de grande fé e obediência. vale a pena consultar o estudo de M. Ninguém consegue ler isso facilmente na narrativa. Ele teria atribuído um status ainda mais elevado a Sara.10-20). Eles tinham um ótimo relacionamento. o que geralmente envolve favores . de sublime e vil. Nesse aspecto. Pego em uma situação de perigo. ele se torna um arquétipo para Jacó. Além do mais. Abraão intercede pelo transgressor (Em Gênesis 18.). vemos algumas atitudes questionáveis por parte desse herói. Homem sem Fé Em meio a todas as experiências registradas em Gênesis 12— 25. A mulher se torna primeiro esposa. então irmã. seu sobrinho “fogo de palha”. ele suporta as esquisitices de Ló.31]). Sua peregrinação tem início (Gn 12: “Sai”) e chega ao ponto de ele ser testado por Deus (Gn 22: “Oferece a Isaque”).12). pode-se explicar a tática de Abraão apelando a antigos documentos de Ur (território onde passou parte de sua vida [11. Moisés e Davi: uma curiosa mistura de sagrado e profano. Nesse meio tempo ele aparece como um modelo de paciência: recebe a promessa de um herdeiro aos 75 anos e se dispõe a esperar por quase 25 anos antes de ter a chance de trocar fraldas. A exemplo do que faz o comentarista E. mormente sua interpretação do porquê de a Septuaginta transformar expressões do modo indicativo (Abraão é aquele que ama a Deus) em particípio (Abraão é aquele amado por Deus).

16. talvez para voltar a usá-la em alguma situação catastrófica. Existe uma bibliografia incrivelmente extensa a respeito desses incidentes. ainda não passamos do “abençoarei” de 12.6-8]. Abraão fez o que foi preciso para salvar Ló.4a. descendentes). Biddle10. por meio de pragas. Ale-xander14.16) por sua sinistra participação nesse caso. anunciando que ela daria à luz Isaque.3 para “o Senhor havia abençoado” de 24. Quando Sara é “tomada” (Gn 12. Hoffmeier13. mas não como uma evidência da bênção de Deus. Abraão não faz nada. Quando ele fica sabendo que seu sobrinho Ló foi “tomado” (14. a concubina do levita e a filha do proprietário [Jz 19. Dessa feita.14). Rashkow12.15b). Uma segunda viagem para longe de casa trouxe tal oportunidade (capítulo 20). Os fins? Não se pode deixar que nenhum acontecimento lance incertezas sobre as promessas de Deus (uma grande nação. no terceiro. Deus fez o que foi preciso para salvar Sara. em 20. em 26. Exum15. Sua filosofia ética é imutável: os fins justificam os meios. o uso natural dos olhos de alguém (ênfase na sabedoria?). No primeiro caso vemos a ação de Deus na história (a lei?). imediatamente entra em ação e o resgata. o adultério é aqui evitado antes de acontecer (20. .sexuais (As filhas de Ló [Gn 19.15. mas essencialmente como compensação por Sara.24]). Robert Polzin8 chama a atenção para a forma como cada monarca inocente foi informado da verdadeira identidade da mulher. ela é tão importante quanto ele.14-16). tal filho: Isaque lançou mão do mesmo subterfúgio (capítulo 26).3. Nos planos divinos. quando o rei observou Isaque acariciando Rebeca.15). Os meios? Se necessário.19). Essa. Nesse ponto. Em 12.8. 6b). através de um sonho.17. entre seus vizinhos filisteus. Infelizmente. tal pai. vemos a revelação de Deus por meio de sonhos e visões (os profetas?). Abraão guardou para si a estratégia utilizada nessa ocasião. Niditch9. não obstante Deus tivesse dito a Abraão que sua aliança com ele era através de Sara (17. Abraão sem dúvidas obtém despojos (12. no segundo. o herdeiro prometido (17. Nada disso impede que Abraão se disponha a ceder sua esposa.10).23. Abraão mais uma vez aufere riquezas (20. Diferentemente do incidente no capítulo 12.1. 18. todavia. não é a visão de Deus a respeito de Sara. Ronning11. Seria interessante que o leitor explorasse esses estudos para reflexões posteriores. Sara é mais uma vez convencida a enganar o rei e se entregar em prol da segurança de seu marido. usar Sara como se usa um peão em um jogo de xadrez. em que se sugere que Faraó e Sara tiveram relações sexuais (12. Eichler16.

a menos que esse papel seja assumido pelo próprio Faraó. Tomar a mulher de um outro homem. dizendo “Tu és este homem” (2 Sm 12. Utilizando-se de má-fé. após algum tempo. de onde posteriormente saiu com muitas riquezas. Logo de início há a fome na terra. A antiga literatura veterotestamentária (por exemplo: Dt 28. a descida de Abraão ao Egito por causa da fome em Canaã. mas ilustrar a providência divina.7). A promessa de Deus a Abraão não pode ser . Deus aparentemente não dá atenção aos seus atos temerários. A questão maior é a promessa dada anteriormente por Deus (bênçãos e descendentes). Ainda assim. na primeira. prenuncia a ida de Israel ao Egito em virtude da fome em Canaã. Sendo assim. Para terminar o quadro. a maldição tem por alvo os israelitas desobedientes. Ele deixa o Egito com seus cofres abarrotados. por mais desprezível que seja. não haveria como se criar uma grande nação. A história na verdade ilustra um cumprimento imediato de parte das promessas de Deus: aqueles que amaldiçoam Abraão são amaldiçoados por Deus. A história não procura tecer comentários sobre o comportamento de Abraão. a esposa desonrada e sem demonstrar a menor sombra de remorso.33-36). De qualquer modo. se possível. ainda que inocentemente. visa aos não-israelitas que tentarem prejudicar o povo da aliança. aquele que lê sobre as aventuras de Abraão no Egito fica imaginando onde estaria o Natã de Abraão. partiria carregado de riquezas (Ex 12. traz repercussões catastróficas. Abraão enriqueceu. Sendo essa a idéia e a explicação para seu ardil.22-24) via a fome como uma manifestação do desagrado de Deus para com a desobediência. de onde.E possível que a falta de escrúpulos por parte de Abraão não tenha sido motivada simplesmente pelo desejo de se salvar. Na segunda.18. mas como ênfase ao relato. se não houvesse Abraão.17. Essa parte da primeira promessa de Deus a ele demonstra uma importante diferença entre a aliança com Abraão e a aliança com Israel no Sinai. Abraão pode ser considerado o arquétipo dos crentes que sentiram que Deus precisava de ajuda para livrá-los de alguma situação desconcertante e perigosa em potencial. a primeira questão em Gênesis 12 é: poderá Abraão sobreviver à fome e. como o fará? A segunda questão levantada por Gênesis 12 é: poderá Abraão sobreviver ao Egito? Talvez o questionamento do próprio Abraão fosse: poderão perdurar as promessas de Deus? Ora. O silêncio de Deus implica sua aprovação? Penso que esse silêncio não deve ser interpretado como uma insinuação de aprovação ou hipocrisia por parte de Deus.

agora é a própria Sara que toma a iniciativa. esse acontecimento é apenas mais um através do qual o venerável patriarca é testado. Assim como o pecado separou Adão de Eva.cancelada. Deve-se. com Sara como intermediária. corresponde ao que acontece quando um Abraão ou um Jacó recorrem ao fértil Egito para a solucionar a infertilidade da terra de Canaã17. Em vez de dizer: “um filho nos nascerá”. um escravo podería ser adotado como o herdeiro legal de alguém. em vez de recebido. Já na vida de Abraão. Ela é a primeira mulher na Bíblia a quem Deus faz uma promessa direta (16. em alguns momentos relaxado. outras vezes manipulador. quanto ao fato de Sara dar sua servaAgar como mulher a Abraão por causa de sua infertilidade. Talvez esses homens tenham errado em não ver a promessa de Deus como um privilégio. mesmo que a maior ameaça à mesma seja aquele que a recebeu. Agar. Com o aumento das hostilidades e das críticas mútuas. Não é difícil discernir a mesma mentalidade de Adão e Eva (16. Ainda incerto quanto à capacidade de Deus de cumprir sua promessa. Ela foi o primeiro personagem bíblico a quem o “anjo do Senhor" apareceu (16. acabou por fugir precipitadamente da casa de sua senhora. em vez de se opor. Abraão se dispõe a adotar seu servo Eliézer como herdeiro (15. assim como Jó. Ao fugir. ou pelo menos decepcionado por Ele não agir segundo seu cronograma.11b. eles dizem: “precisamos ter um filho”! Sempre que vemos os resultados das promessas de Deus como algo a ser alcançado. No caso de não existirem filhos. observar que Sara só recorre a uma substituta após viverem por 10 anos em Canaã. ele opera agora uma divisão entre Agar e Sara. uma egípcia. Voltar-se para Agar. Abraão. grávida. Se nos acontecimentos anteriores foi Abraão que deu origem ao ardil. concorda. Abraão. De forma semelhante. contudo. somente depois de ela e o marido terem feito de tudo para gerar um filho é que eles recorrem a Agar. temos à disposição todo tipo de opções.3).2. é tanto paciente como impaciente. entre Deus e uma . na busca de uma solução para a infertilidade. tenso. Incapaz de enxergar as implicações de seus atos em longo prazo.13).C.11a). datados do século XV a. Quais as conseqüências? Há uma clara desavença entre Agar e Sara. Caim de Abel e Noé de seu neto.2). mas como uma obrigação. noutros. Por fim. aconteceram a Agar alguns fatos bastante incomuns. Ela é a única pessoa do Antigo Testamento a dar um novo nome a Deus (16. às vezes passivo. encontramos precedentes na literatura cuneiforme. Abraão não oferece resistência alguma. 12). seu encontro com o anjo “é o único encontro. Reconheço que essa idéia encontra analogia nos textos cuneiformes de Nuzi. ou seja.

14). deixa Agar nas mãos de Sara e não interfere. o que impede que ambas sejam verídicas. Já em 21. longe de ser passivo. Agar não parte por conta própria. em comemoração pelo acontecido [‘Beer-Laai-Roi’ (16. Mais de uma década depois. O texto é decomposto da seguinte forma: 16. Defende-se a existência de três fontes por trás da história de Agar e Ismael. a animosidade entre as duas era ainda mais intensa (21. ela é mais vítima que vilã. Ismael nasceu quando Abraão estava com oitenta e seis anos de idade e. treze anos de idade (17.6. Abraão coloca o menino sobre os ombros de Agar (21. considerando as posses e riquezas de Abraão (21.25). Dessa vez. sente repugnância pela reação de sua esposa. o que significa que seu primeiro filho tinha quatorze ou quinze anos. em essência.1 P 16. já no capítulo 21. junto com o pão e a água. Ele se certifica de que Agar tenha suprimentos para a jornada pelo deserto. Ainda assim. Seria essa a imagem de um adolescente ou criança desprotegida? . as duas histórias entram em conflito.3 P 21.15).14)]”18. Abraão.14)! Ao ver-se diante da morte no deserto. temos. Para exemplificar essa idéia. ela “lança” o menino debaixo de uma árvore (21. ainda que em míseras quantidades. no capítulo 16. Temos evidência ainda mais clara na descrição de Ismael no capítulo 21.9-14).9-21 EU1 Os críticos afirmam que. de bom grado. Em 16. Os críticos consideram também esse texto como evidência de fontes subjacentes.11.15-16 P 16.2 J 16.mulher. que redunda em um novo nome para um lugar. Ismael devia ter.4). Abraão contava com cem anos de idade (21. Agar se comportando de maneira soberba e insolente para com Sara. no mínimo. pois a criança estava prestes a morrer de sede. mas é bruscamente expulsa juntamente com Ismael. Nessa altura. ao nascer Isaque.4-14 J 16. Abraão.

mas “confiando” Ismael à custódia de Agar? O termo “lançou”. Não há nada na tradução que nos permita inferir que a criança foi carregada sobre os ombros da mãe. é de extrema infelicidade. e o lançaram no bosque. incumbir”. rejeitam a vontade de Deus em suas vidas. numa grande cova” (2 Sm 18.20. Já aqueles que. deve-se dar crédito a Abraão pelo fato de ele se sobrepor a essas experiências negativas. encontram o auxílio e as promessas divinas.7. quer fosse criança ou adolescente. Ismael “lançou-os [os corpos dos homens que acabara de assassinar] num poço” (Jr 41.6).21). no sentido de “confiar algo a alguém. Homem de Fé Embora momentaneamente desviado pelos lapsos descritos na seção anterior.14 efetivamente sustenta a idéia de que Abraão lançou a criança sobre os ombros de Agar? O versículo. C. como se fora uma bola? Abraão. em alguma época de suas vidas. “Tomaram Absalão. ao falar da fé. com obstinação.17). também lhe deu o menino”. Não seria possível que Abraão não estivesse “pondo” coisa alguma sobre os ombros da serva de Sara. em 21.Em defesa da unidade entre os capítulos 16 e 21.15. Talvez não seja incidental que. como ocorre em Êxodo 22. shãlak. também significa “entregar”. Jr 38. H. Ismael com certeza não foi jogado no chão.10. diz que Abraão “tomou pão e um odre de água.24. e os deu a Agar. quase todos os personagens reunidos pelo autor de Hebreus 11 tenham. Tais episódios foram contratempos e interrupções momentâneas no plano de Deus para sua vida. quase sempre diz respeito à colocação de um cadáver em uma cova. chamo a atenção para os seguintes aspectos: Será que 21. pondo-os sobre o seu ombro.7). Quem se sentir disposto a defender que “dar” significa “colocar” ou “pôr” deveria lembrar que a mesma palavra hebraica. em sã consciência. procurando fazer a vontade de Deus. jogaria seu filho debilitado sob uma árvore. Aqueles que. tropeçam e caem. natan. Que mãe. cometido algum grande erro — por vezes.22. Esse mosaico de . mais de um. têm sua vontade satisfeita. “lançaram o homem na sepultura de Eliseu” (2 Rs 13. caso o objeto do verbo seja uma pessoa. O termo também pode ser empregado com alguém que está sendo colocado onde supostamente será sua cova (Gn 37. literalmente. White20 observa que o verbo hebraico usado aqui. e da coerência entre ambos.

deus da lua.. quando não houve nenhum João Batista para preparar o caminho? Abraão foi criado em um mundo idólatra e politeísta. mas por ele ter arruinado a boa recepção que tivera no Egito (12. antes de habitar em Harã” (a menos que o “disse” de Gn 12.1). Na contenda que surgiu entre os empregados. pois ambos os lugares eram centros de adoração de Sin. Não apenas foi suficientemente sensível para ouvi-la. Os capítulos que descrevem sua aliança com Abraão estão dispostos em meio a histórias envolvendo Ló: seus pastores (capítulo 13) e sua captura (capítulo 14) por um lado. O patriarca foi suficientemente perceptivo para reconhecê-la tão logo a ouviu. O registro de Gênesis não é tão claro como o encontrado em Atos 7.1 seja traduzido como “havia dito”).2. Faraó lhe ordena que volte para o lugar de onde partira. Como Deus entra na vida de alguém.20).] para a terra que te mostrarei” (12. e sua ligação com Sodoma e Gomorra por outro (capítulos 18 e 19). temos a mesma quantidade de informações sobre Ló e seu tio. Teria seu erro lhe ensinado alguma lição? E possível detectar algum sinal de mudança em sua vida? O capítulo 13 responde a essas questões afirmativamente. Abraão poderia ter solucionado facilmente a questão ao reivindicar sua autoridade sobre o sobrinho. Em momento algum ele é retratado como uma pessoa digna de crédito e louvor. Nesse trecho. A aventura de Abraão torna-se ainda mais arriscada pelo fato de ele ter sido rapidamente informado da direção a seguir. O foco desse capítulo é a rixa desenvolvida entre os pastores de Ló e os de Abraão.4). portanto. mas também sábio o bastante para obedecer a ela: “Partiu.7). Tera. de que Deus apareceu a Abraão com ele ainda “estando na Mesopotâmia. o destino. Abraão não retornou a Canaã porque a fome na terra já havia passado. Abrão. desconhecido. De certa maneira.6). pois. Afinal de . [. A instrução é clara. mas ambos habitavam tranqüilamente com cananeus e os ferezeus (13. com um mínimo de orientações e explicações: “Sai-te da tua terra. age como um papagaio encarapitado no ombro de Abraão. Seu pai. a palavra de Deus tocou Abraão sem qualquer aviso prévio. Isso não surpreende. Com demasiada freqüência.fé inclui os seguintes exemplos: Gênesis 12. Os pastores de Ló não podiam “habitar” com os pastores de Abraão (13. Gênesis 13. como Jeová lhe ordenara” (12.. peregrinou de Ur para Harã. Conviver com familiares é mais difícil que com estranhos.

contudo. rei de Salém. mas. ele se satisfaz em deixar que Ló escolha a pastagem para seu gado. Somente a captura de Ló traz Abraão para a narrativa. o capítulo relata a vitória de Abraão — com o auxílio de 318 “criados” — contra esses quatro grandes reis. Não é à toa que o termo hebraico aqui utilizado para “entregar” (piiggêri)deriva da mesma raiz de “escudo” imagen) de 15. mas agora aprendera a ser comedido ao . em muitos aspectos. o mais insólito na vida de Abraão. Em vez disso. No capítulo 13. o enfoque do capítulo havia sido o conflito familiar. lhe dissera: “amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”. no entanto. Aprimeira metade do capítulo — uma batalha entre quatro reis poderosos do leste e cinco reis menores da região do mar Morto — não tem nada a ver com Abraão. Abraão recebe de Melquisedeque uma dádiva ínfima: uma refeição. O episódio de Gênesis 14 é. Até mesmo Melquisedeque. 21-24). ele imediatamente se lançou numa missão de resgate). Manteria Deus sua promessa? Assim como Sara fora “tomada” (com as conseqüentes pragas para aqueles que a levaram). Ele. havia aceitado avidamente os bens dados pelo Faraó. pelo uso de vocábulos semelhantes. no caso de Ló. Gênesis 14. De forma peculiarmente concisa. no passado.12) por forasteiros (é preciso admitir que. Ló é agora raptado (14. Abraão. se é que podemos chamá-la assim (v. 15]) nas mãos de um grupelho de guerreiros. Infelizmente. as chances estavam contra Abraão e seu minúsculo exército. mas não daquela forma.20). Em teoria. Nossa atenção é agora atraída para um conflito internacional. ele era o mais velho e o chefe do clã. Deus. quando Sara foi “tomada”. a questão foi deixada nas mãos de Deus. Abraão não moveu uma palha. O que teria acontecido se Ló tivesse escolhido a terra que Deus iria dar a Abraão? Talvez Abraão precisasse demonstrar mais autoridade e defender seus direitos. Deus havería de sustentar todas as suas necessidades. rejeita a oferta dos despojos feita pelo rei de Sodoma (vv. vinculadas em uma unidade maior. faz uma análise rápida porém precisa do incidente: “bendito seja o Deus Altíssimo. Sua atitude trouxe resultados tão devastadores como no caso dos egípcios: uma derrota humilhante aos grandes reis (“e os feriu” [v. Eis um outro exemplo de histórias distintas sendo. Abraão não tinha vivido segundo essa filosofia durante seu tempo no Egito.1.contas. Embora delicada. que entregou os teus inimigos nas tuas mãos” (14. Nenhuma atitude de Ló poderia frustrar a promessa divina. 18).

e talvez cause surpresa sua brusca pergunta no versículo 8.1).5). “Disse-lhe mais” (15. “e falou Deus com ele.. Não seria exagero descrever esses dois capítulos como uma conversa séria.2. a cada geração. “e eis que veio a palavra do Senhor a ele” (15. e o próprio .] mas é exposto de forma programática que apenas a fé proporcionou a Abraão um relacionamento saudável com Deus”. Não lemos. as promessas de Deus a ele são mais abundantes nesses dois capítulos que em qualquer outra parte.15). mas somente aqui vemos uma referência explícita a ela.7).. apenas dois versículos após sua confissão de fé em Jeová no versículo 6) e uma exclamação (17. Em contrapartida. A resposta de Abraão.5. “E disse Deus” (17.16).18-21.18).2. Jacó ou José creram no Senhor e que tal fé lhes foi imputada por justiça.18).16. Pelo lado de Abraão.aceitar donativos. resume-se na seguinte declaração: “E creu ele no Senhor.8.16. dizendo” (17..6).9). “Disse mais Deus a Abraão” (17.16. Von Rad21 corretamente observa que “a justiça de Abraão não é conseqüência de alguma realização [. As promessas feitas a Abraão são essencialmente repetidas a Isaque e Jacó.19). A responsabilidade de Deus engloba a promessa e a execução.19). dizendo” (15. a promessa de descendentes (15. não propina. mas apenas a fé deAbraão é ressaltada. O que Abraão procurava agora era graça. 17.13. “e disse [.13). a promessa de terras (15. dessas promessas pela fé.48. 17.] E disse-lhe” (15. 17.1).4. de modo literal. não na apropriação. diante dessas grandes promessas de Deus. 17. Temos a promessa de um filho (15. “E disse-lhe” (15.3).8). Esse não é o único exemplo de fé no livro de Gênesis.. recai sobre a fidelidade de Deus de geração em geração. portanto. depois que Abraão dispôs os animais sacrificados em duas colunas. “Naquele mesmo dia.7. a promessa de bênçãos (17. A ênfase. Gênesis 15. “Disse Deus mais a Abraão” (17.18. com a renovação de suas promessas.4). e foi-lhe imputado isto por justiça” (15. “apareceu o Senhor aAbrão e disse-lhe” (17. “Então. fez o Senhor um concerto comAbrão.9). Deus fala continuamente: “veio a palavra do Senhor aAbrão em visão” (15. Por uma boa razão.8. disse aAbrão” (15. A peculiaridade do capítulo 15 é a ratificação oficial dessa aliança. o diálogo é limitado a duas perguntas (15. que Isaque. já a responsabilidade do homem é crer. Esses dois capítulos descrevem a efetiva instituição da aliança entre Deus e Abraão.19). lado a lado.

tal como os animais (sobre o significado de cortar um animal em dois.23-27) para a descrição da circuncisão feita em Abraão. no capítulo 16. Aliás. . Abraão tem oitenta e seis anos de idade. contudo. além de mais cinco (17. como parte de um ritual de aliança. do termo “Deus / ’EIõhím”. Deus.16. em 17.1-27 é a primeira ocorrência. fazem lembrar outras palavras reconfortantes.18-20) e “’É1 Rõí” (16. Ele viria a se tornar o pai dos judeus. Em primeiro lugar. logo após a derrocada de Abraão.5). Ismael e todos os machos de sua casa. Entre os capítulos 16 e 17 se passam 30 anos (em 16. transcorre uma década e meia desde a recepção da aliança. Aqueles que defendem a existência de múltiplas fontes são unânimes ao identificar as tradições por trás desses dois capítulos. Os estudiosos geralmente refutam esse ponto de vista afirmando que o capítulo 17 não é uma reprodução do capítulo 15.127 a (P) (mormente por causa do uso do termo “Deus /’Elõhim”). Abraão ainda não era o pai do filho da promessa! Temos aqui. Esse novo nome universaliza a sua experiência com Deus. na história de Abraão. Somente um versículo. especialmente em vista das não tão felizes conseqüênci-as da coabitação. compromete-se com Abraão e sua descendência a ponto de se colocar sob uma potencial maldição.Deus passou entre as colunas em forma de fogo. E impossível saber a idade de Abraão no capítulo 15. 15. Jeová se torna 'Elõhim. mas Deus reafirmando suas promessas a Abraão.1-6 é atribuído a (E). Abrão se torna Abraão.9-14).10-20). 15. de forma unilateral. leia Jr 34. Portanto. 17. de confirmação. (13. Dessa forma. Como de costume. com exceção das formas abreviadas de Eloim em nomes compostos como “’Ê1 ‘Elyôn” (14.13). até a mudança de nome e a circuncisão de Abraão. entre Abraão e Agar.7-21 a (J) (principalmente pelo uso exclusivo dos termos “Senhor / Jeová”) e 17. A intenção do ritual dificilmente poderia ser mais ousada. Dois novos itens são adicionados às promessas da aliança no capítulo 17. Caso aquele Deus de promessas não cumprisse sua palavra. Ele foi destinado a ser "pai de numerosas nações”. Tais palavras de conforto. mais que uma confirmação. 17. noventa e nove).1. seu destino seria ser desmembrado. Seis versículos são separados para essa inovação (17. Isso já era uma particularização da experiência de Abraão com Deus.14-17) dadas após outro fracasso (12.5. é utilizado para registrar a mudança.18). O segundo novo item é a introdução da circuncisão. no mesmo capítulo em queAbrão se tornaAbraão (17.

Eliseu: 2 Rs 4. meigo e imutável.3-9. para citar Pascal. ele “intercede pelos transgressores”. As promessas da aliança de Deus. o leitor torna a ver o patriarca numa situação semelhante.4]).1629. como a insinuar que a religião veterotestamentária marginalizava as mulheres e as considerava insignificantes para a aliança. Abraão não exorta Sodoma a se arrepender. 12. no entanto. sua oração é semelhante às de outros intercessores (Moisés: Êx 32.33. Se sua importância se resumisse em cortar ou marcar alguma parte do corpo.50). Elias: 1 Rs 17. indelevelmente gravada na carne. Amós: Am 7. Ao fazê-lo. Fica claro que o capítulo 17 dedica-se mais à circuncisão que à mudança do nome de Abraão. com exceção da tragédia descrita no capítulo 34. um furo na orelha ou no nariz.24). Por causa de suas orações. “requereu o corte de uma parte do corpo. Por que demorou tanto para que o ritual fosse instituído? A sua circuncisão não poderia ter sido registrada no capítulo 15? Creio que o intervalo entre a instituição da aliança e a circuncisão de Abraão tem o propósito de pôr a promessa de Deus e a obrigação humana em perspectiva. Com ambos se tornando “uma só carne” (2.5-9.19-25. A circuncisão só volta a aparecer mais uma vez em Gênesis (a circuncisão de Isaque [21. apenas um precisaria ser marcado.7-9). Tal qual o Servo sofredor de Isaías 53. Gênesis 20. 34. a não ser por seus ventres. Pelo contrário. o Senhor . mas apela a Deus por misericórdia.17-23. A última está subordinada à primeira. permanecem como um refrão ao longo do livro de Gênesis.1-11. O fato de a mulher não ter uma marca correspondente em seu próprio corpo não deve ser compreendido como reflexo de uma mentalidade machista. Dt 9. 33. 6. um Deus que. conforme Ez 16.11-13.12.9. “concede a suas criaturas a dignidade da causalidade”. A relação entre a circuncisão e a aliança é expressa de modo evidente na parte do corpo escolhida.15-20. ou mesmo uma marca na mão ou na testa. Jó: Jó 42. compassivo e santo. contudo.6).12-15. A circuncisão. Após conhecer o Abraão intercessor no capítulo 18. torna-se um sinal de identificação entre Jeová e seu povo. Nm 12. 14. Abraão entra ousadamente na presença de Deus e implora por misericórdia. através da qual a promessa de Deus seria cumprida’52. Abraão passa a interceder pelos transgressores. Gênesis 18—19.31-34.A marca. Ciente de que Deus tencionava destruir Sodoma e Gomorra por causa da gravidade de seus pecados sociais e sexuais (19. bastaria um corte de cabelo.49.1-6.11-13. Samuel: 1 Sm 7. Aoração pressupõe crença e fé em um Deus que é ao mesmo tempo justo e misericordioso. Em vez de se alegrar com o que é mau (1 Co 13.

Vemos então o incrível voltar à tona. a mesma palavra aplicada com relação a Isaque nesse capítulo é utilizada para os dois servos que acompanhavam a ele e ao pai (22. à época do nascimento de Isaque (noventa anos). a quem amas”? Sim. Não é também inacreditável. Isaque é tudo. “carregando a sua cruz” [Jo 19. de seus 75 anos (12. provocada pela falsa notícia da morte de seu filho! Em todo caso. por assim dizer.5. cronologicamente. Seria ele uma criança indefesa. a atitude desleal de Abraão para com Abimeleque não o desqualificou como intercessor profético. e em sua morte trinta e sete anos mais tarde.17]) e era capaz de formular perguntas inteligentes (22.6. Isaque. pelo menos para Abraão (talvez também para o leitor). 17).2). Seria interessante saber algo sobre o período transcorrido do nascimento de Isaque até o dia em que foi oferecido em sacrifício. que Deus lhe tenha pedido para sacrificar Isaque. ele seguiu. enquanto sua própria esposa continuava incapaz de conceber? Gênesis 21—22. termo hebraico que pode definir uma criança do sexo masculino (o bebê Moisés [Ex 2. Após uma espera de quase 25 anos. aos 127 anos de idade (Gn 23. Flávio Josefo afirma que Isaque tinha vinte e cinco anos naquela época. esse número pode referir-se à idade mínima para o serviço militar ao fim do período do Segundo Templo (cinco anos a mais que os vinte anos definidos nas Escrituras [Nm 1. O incrível se tornara real. O próprio Isaque carregou a lenha para o fogo (22. . ou um homem com idade suficiente para servir como espião (Js 6. Ainda assim. o teu único filho. nasce Isaque. menos uma criança. Aparentemente.6]). 5).3.7).2]). um adolescente (José aos dezessete anos de idade [Gn 37. Acompanhamos Abraão. um adolescente curioso ou um adulto disposto? O Isaque do capítulo 22 é mencionado como um na ‘ar (“moço” [22. ele jamais perdeu de vista a primeira promessa que havia recebido de Deus: “uma grande nação” (12.4) até seu centésimo aniversário (21.5). não é irônico que as orações de Abraão tenham funcionado para curar o ventre das mulheres filistéias. Um comentário rabínico sobre Gênesis {Genesis Rabbafi) declara que Isaque tinha 37 anos naquela ocasião! Esse número baseia-se na idade de Sara. Aliás. “o teu filho.23). Apesar de seus contratempos. Em sua obra História dos Hebreus.12]). atitudes insensatas e frustrações.1). nesse episódio.restaurou a fertilidade da esposa e das concubinas de um rei pagão. Abimeleque (v.45]). Incrível que Sara ainda precisasse dos serviços de um obstetra? Sim.3. Apesar de Josefo não esclarecer a fonte dessa informação.

Nos capítulos 18 e 19, deparamos com um Abraão loquaz, tentando fazer com
que Deus reconsidere, fazendo perguntas, exigindo respostas e portando-se com
audácia. Aqui, em contrapartida, ele guarda silêncio, mantém-se passivo e segue
as orientações dadas por Deus. Será?

No que diz respeito a Abraão, George W. Coats comenta: “Ele surge com um
aspecto sobre-humano, impassível e um tanto irreal. Em momento algum se
opõe à absurda e quase insana ordem de sacrificar seu filho, como certamente
teria feito o Abraão de Gênesis 12 ou 16. Ele, pelo contrário, parece prosseguir
em sua sombria tarefa com um silêncio resignado, como se fosse um
autômato’23. Por outro lado, A. W. Tozer observa: “O escritor do texto
sagrado nos poupa de um quadro mais detalhado da agonia sofrida naquela noite,
nas encostas próximas a Berseba, quando o ancião argumentou com seu Deus.
Com todo respeito e temor, podemos imaginar aquela figura arqueada em meio a
um intenso conflito interior sob as estrelas. Com certeza, até que aquEle que é
maior que Abraão enfrentasse seu martírio no jardim do Getsêmani, nenhuma
alma humana jamais foi visitada por tamanha dor’24.

J. D. Levenson25 compreende haver um equilíbrio entre o Abraão suplicante de
Gênesis 18 e o Abraão passivo de Gênesis 22. Ele nota que essas duas
representações, quase que contíguas, “delimitam uma teologia, em que a decisão
humana não substitui o Deus insondável que tudo governa [Gn 22] nem é algo
supérfluo em uma vida de fidelidade ao Senhor [Gn 18]. Em uma
teologia dialética com tal amplitude, tanto argumentar com Deus como obedecer
a Ele podem ser atos espirituais de suma importância, embora nunca fique muito
clara a atitude a ser tomada a cada momento”. Em um outro artigo, Levenson
sugere que a diferença entre os capítulos 18 e 22 diz respeito ao contexto: “O
contexto de Sodoma e Gomorra é judicial\ enquanto o aqedah26 é sacrificial [...]
Em um contexto judicial, a morte de um inocente é um insulto; já em um
contexto sacrificial, a inocência da vítima humana não é base para protestos.
Abraão levanta a voz contra o próprio Deus ao imaginar uma execução injusta.
Ele, contudo, se dispõe a oferecer seu próprio e amado filho em sacrifício. Não
há contradição alguma no texto”27. Nesse ponto, talvez seja possível divisar uma
analogia entre o comportamento de Abraão e o comportamento de Jesus,
sobretudo quando o Cristo está no madeiro. Jesus também intercedeu pelos
pecadores (Lc 23.34), mas não aceitou a idéia de se salvar da cruz — embora a
multidão o encorajasse a fazê-lo (Lc 23.35) e Ele tivesse poder para se
libertar caso assim o desejasse (Mt 26.53). Ele se recusou expressamente a fazer

uso dessa última opção. Em outras palavras, tanto Abraão como Jesus utilizaram
o relacionamento que tinham com Deus, e a influência que advinha desse
relacionamento, em benefício dos outros e não de si mesmos — para salvar os
outros, mas não para se salvarem28.

O capítulo 22 é apresentado como um teste de Deus para Abraão. A fé do
patriarca foi testada sem a menor dúvida (“agora sei que temes a Deus” [v. 12]),
mas foi apenas mais uma dentre tantas outras situações que visavam lhe
experimentar a fé; uma fé que, já no capítulo 12, começara a ser testada: “Sai-
te”.

Em última análise, o episódio nos revela mais sobre Deus que sobre Abraão. O
clímax é: “E chamou Abraão o nome daquele lugar o Senhor proverá” (v. 14). O
nome chama a atenção para Deus, não para Abraão. Não é “Abraão conseguiu”,
mas “Deus proverá”. No fim das contas, é no caráter de Deus e na confiabilidade
da sua palavra que se baseia a fé.

Embora Abraão tenha vivido por um bom tempo após esse acontecimento, e
embora ainda haja dois capítulos e meio a respeito de sua vida, esse foi o último
diálogo travado entre ele e Deus. O patriarca recebe pela última vez a promessa
de muitos descendentes, terras e bênçãos sobre as nações da terra por causa
da sua semente (vv. 15-18).

Gênesis 24. Deus proverá. Abraão descobriu isso em Moriá. Deus proveu um
carneiro. Será que Deus iria prover uma esposa para Isaque? O mais longo
capítulo de Gênesis é dedicado a responder a essa questão. Para Abraão, a
resposta para essa pergunta é um rematado sim (v. 7). Inspirado na fé de seu
amo, o servo também entrega a busca nas mãos do Senhor (vv. 12-14 [sobre o
servo, leia Teugels]29). O acaso e a coincidência não têm vez. Para esse
casamento, Deus escolhera a esposa (vv. 14,44). Ao longo de todo o enredo,
Deus é apresentado através de outras pessoas, e não por palavras próprias. O
narrador fala a respeito de Jeová (vv. 1,21,52), a exemplo de Abraão (vv. 3,7,40),
o servo (vv. 12,27,35,42,48,56), Labão (v. 31) e Labão com Betuel (vv. 50,51).
Apesar de estarmos justificadamente acostumados a ver na história de José um
exemplo imprescindível da providência divina em ação, não devemos minimizar
a contribuição de Gênesis 24 a esse respeito. A sua maneira, Gênesis 24 fala a
respeito do Deus “Jehovah-Jireh”. Deus provê um animal para o lugar de Isaque,
embora seja um carneiro (22.13 e veja 15.9,10 para outro carneiro) em vez do
esperado cordeiro (22.7,8). Deus provê Rebeca para Isaque. Deus provê primeiro

uma rês, logo depois uma esposa, e Isaque é o beneficiado em ambas ocasiões.

Abraão no Novo Testamento

Por incrível que pareça, não há trecho algum no Novo Testamento que vincule a
quase imolação de Isaque com o sacrifício de Jesus. Talvez a analogia mais
próxima esteja nas palavras de Paulo a respeito de Deus: “nem mesmo a seu
próprio Filho poupou, antes, o entregou por todos nós” (Rm 8.32).

O que o Novo Testamento, e Paulo em especial, faz comAbraão é elevá-lo a um
modelo de fé. Em um confronto com aqueles que defendiam a justificação pelas
obras, Paulo cita Abraão como um exemplo pré-sinaítico (anterior à lei
outorgada no Sinai a Moisés) da justificação pela fé, fundamentando toda uma
defesa dessa posição em sua vida.

Perto do fim de Romanos 3, Paulo afirma que é pela fé, e somente pela fé, que
uma pessoa é justificada (3.22,27,28,30). O capítulo 4, portanto, é um exemplo
de sua tese. A justificação não vem pelas obras (4.1-8). A justificação não vem
com a circuncisão (4.9-12). A justificação não vem através do cumprimento da
lei (4.13-15). E por fé (4.16-25). Como prova disso, considere Abraão, que creu
e foi justificado (à parte de obras, circuncisão ou lei).

Então, o que é fé? Qual foi o seu efeito no caso de Abraão? De que forma ele
serve como exemplo desse princípio? Paulo nos dá nove características da fé de
Abraão (4.17-20). 2

3. Ela possui um propósito: “que seria feito pai de muitas nações, conforme o
que lhe fora dito”. A aspiração de Abraão não se limita ao desejo de ter um filho,
mas ele almeja ver a concretização dos planos de Deus em sua vida.

4. È inteligente e realista: “E não enfraqueceu na fé, nem atentou para o seu
próprio corpo”. Os fatos devem ser enfrentados, não ignorados, mas não devem
jamais nos dominar ou intimidar.

5. E inabalável: “E não duvidou [...] por incredulidade”. Não era Abraão que
possuía a fé, mas a fé que possuía Abraão.

6. E bem fundamentada: “E não duvidou da promessa de Deus”. Não é fé na
fé, ou fé em impressões pessoais, mas fé na promessa de Deus.

7. Ela fortalece: “foi fortificado na fé”. Em conseqüência, temos a edificação
do caráter.

8. Leva à adoração: “dando glória a Deus”.

9. Dá segurança: “estando certíssimo de que também era poderoso para fazer o
que tinha prometido”.

Esse é o tipo de fé que justificou Abraão. E curioso observar que, nesse mosaico,
Paulo jamais se utiliza especificamente da oferta de Isaque em sacrifício. Em vez
disso, ele se concentra em um outro importante aspecto da vida de Abraão: sua
incapacidade para a paternidade, quando tanto ele quanto Sara já estavam bem
além da idade de procriar, (veja Gn 18.12), embora Deus tivesse lhe prometido
incontáveis descendentes. De forma mais limitada, Paulo volta a apresentar
argumento semelhante em Gálatas 3.6-18.

O escritor aos Hebreus, por outro lado, se esforça para dar um panorama geral da
odisséia de Abraão (11.8-22).

1. Pela fé, Abraão obedeceu (v. 8) ao ser chamado, apesar de desconhecer seu
destino.

2. Pela fé, ele habitou na terra (v. 9), vivendo em tendas.

3. Pela fé, ele ofereceu Isaque (v. 17), de antemão seguro de que seu filho seria
ressuscitado.

A epístola de Tiago (2.21-23) também se utiliza de Gênesis 22 para respaldar a
observação de que, ao oferecer Isaque, Abraão foi justificado por obras. Foi
justificado por uma fé que produz efeito. Obras que o fizeram merecer a
salvação? Não. Obras que o marcaram como um salvo do Senhor? Sim.

Se fôssemos nos surpreender com a omissão de Paulo, em Gálatas e Romanos,
de qualquer referência clara à oferta de Isaque como exemplo de fé, deveriamos
também ficar surpresos com Hebreus. O livro de Hebreus não traz referência
alguma ao grande ato de fé de Abraão, registrado em Gênesis 15.6. Em
Hebreus 11, não lemos “pela fé, ele creu”.

A omissão de ambos os autores têm uma boa razão. Paulo usa a fé de Abraão
como uma ilustração da necessidade da fé para que nos tornemos filhos de Deus.

Logo, ele mantém seu foco na fé de Abraão em relação às dificuldades para o
nascimento de Isaque.

O escritor de Hebreus utiliza a fé de Abraão para ilustrar a fé que permeia a
caminhada diária do filho de Deus. Logo, ele não se concentra em um único
incidente ocorrido no início da peregrinação de Abraão, mas opta por uma visão
panorâmica de sua vida, começando com a primeira ordem de Deus e indo até a
última.

Gênesis 11.26—25.11 (Abraão)

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Isaque e Rebeca obtiveram mais do que pediram — gêmeos! No caso de Abraão e Sara. e de seu filho. Jacó. a tensão familiar foi provocada pela ausência de filhos. sem dúvida. As Escrituras. Ao contrário da intercessão de seu pai.|tos por vinte anos sem ter nenhum nta anos (25. a petição de Isaque resultou na gravidez de Rebeca (25. Rebeca teve cie en-de esterilidade. Ao nascerem Jacó e Esaú. o vovô Abraão já contava com 160 anos de idade e ainda tinha quinze anos pela frente. Tal qual sua sogra. Essa questão em especial se relaciona principalmente à promessa divina de muitos descendentes. respondida.20). não relatam em parte alguma um relacionamento ou um encontro entre o patriarca e seus netos. kó reagiu com agressividade e sarcasmo à infertilidade de Raquel ^(30.Abraão fez cessar a infertilidade em outras mulheres ÍP. A oração foi. Todas tiveram em comum um longo período de infertilidade. a tensão ocorre em função de haver mais de um filho. Abraão. No caso de Isaque e Rebeca. Pelo menos. Rebeca e Raquel — passaram por problemas para ter filhos.2). Já na terceira geração.21). Pois como pode se cumprir a promessa divina com a recorrência de tantos casos de esterilidade feminina? Acrescente aos problemas criados pela questão da infertilidade as outras situações . porém não em sua própria esposa. Todas as três mulheres mais importantes de Gênesis — Sara. mas jamais ofereceu uma A oração de. Isaque esperou até . contudo.

o problema surge de uma situação totalmente fora do seu controle. e temos realmente um panorama difícil de entender quanto à concretização das promessas de Deus. Ele capacita o indivíduo para vencer as dificuldades. D. Outras vezes. Podemos ver a mesma estruturação da história de Jacó no trabalho de S. procurando perceber a simetria do conjunto.2 0 P 27. Como exemplo. E claro que.19.17.exasperantes descritas em Gênesis. a ponto de a história ser encerrada entre genealogias de dois indivíduos que não fazem parte da linhagem escolhida (os descendentes de Ismael [25. mas cada um representa uma “ameaça” ao plano divino para a redenção da humanidade. Pode-se ficar zonzo ao seguir as oscilações dessas fontes no texto. que cerca a história de Jacó com duas genealogias de pessoas não-elei-tas. encontra-se o seguinte mosaico (segundo um consenso entre os estudiosos): 25. no que diz respeito a uma análise teológica. os problemas ocorrem em conseqüência de alguma atitude estúpida do patriarca. ao relacionarmos as diferentes fontes de Gênesis 25—28.1218] e de Esaú [36. tais circunstâncias inqui-etantes servem de pano de fundo para que Deus demonstre seu poder em superar obstáculos e dificuldades. Ele conclui que há uma notável coerência interna na estrutura narrativa. Não foram castigos enviados por Deus. com suas inserções editoriais e estruturas cronológicas e genealógicas. uma tal estrutura. nenhum dos principais personagens passa pela vida num “mar de rosas”. Um Abraão morto e sem filhos ou uma Sara estéril seriam uma sentença de morte sobre aquele plano divino. não significa decompor o todo em tendências isoladas (caso tenham realmente existido) e averiguar possíveis inclinações para J. Esses eventos simplesmente aconteceram. Michael Fishbane1 examina os capítulos 25 a 36 de Gênesis. Walters2. Isso incluiria a esterilidade das esposas e os muitos períodos de fome que forçaram Abraão e Isaque a correr de um lado para o outro em busca de comida. Com certeza.18 E . contudo. ressalta o chamado daqueles que Deus escolheu para levarem sua luz. Em um estimulante estudo da história de Jacó. E ou P. Sem dúvida. por vezes.1- 43]). Nessa parte das Escrituras.1-45 J 28. Sempre que as crises ultrapassam todos os limites. Isso nos sugere que um exame mais proveitoso da história de Jacó.

20.22-32 Transformação 33.1-9 P 28. Tabela 3 Referência Descrição 25.40 Conseqüências da transformação .1-33 J 28.19 J 25.10—32.11. precisamos lidar com o todo que temos em mãos.22 E 26.21-26a J 27.35 P 28.19—28.13-16 J Quer o relato tenha sido inicialmente composto e.10 J 28. Temos um panorama do ciclo de Jacó na Tabela 3.27-34 J 28.21 Preparação para a transformação 32.1—36. editado.46 P 28. então.21b J 26.34.26b P 28. quer tenha sido mesmo criado já como um texto homogêneo.12 E 28.21a E 25.25.9 Necessidade de transformação 28.

O termo em hebraico para “calcanhar” é iãqèb e o nome “Jacó”. A frase “segurava com a mão o calcanhar de Esaú não traz explicação alguma.21]). vendeu o seu direito de primogenitura” (Hb 12. e um juramento fechou o negócio (Gn 25.1-45. indicando de antemão um estilo de vida pouco recomendável. algo que o escritor de Hebreus não deixou passar: “E ninguém seja [.23 é o primeiro caso da Bíblia em que Deus respondeu a uma mulher que o buscou por esclarecimento: “E foi-se a perguntar ao Senhor” (25... por um manjar. o Jacó bebê. é um trocadilho com essa palavra. que de início atuou com ousadia. Mesmo na infância. veio à vida agarrando o calcanhar de seu irmão. Aproveitando a fome de seu irmão. Gênesis 27. é descer ainda mais. ya‘ãqõb. Aproveitar-se do próprio irmão já é bastante ruim. agora se dispunha a ser um seguidor. Esaú era um caçador habilidoso. Rebeca não se comportou melhor que Sara ou Eva. E ela que faz um plano para Jacó tomar o lugar de Esaú.23. que não deixou o varão partir até ser abençoado (32. Medo? Sentia-se ela insegura quanto a se iriam ou não acreditar nela? Receio de que Isaque não acreditasse? Teria ela crido que aquela era a única . Jacó. mas Jacó era um oportunista habilidoso. Assim como o Jacó maduro. porque ele salvará o seu povo” [Mt 1. Ele.] profano.26). e Jacó prontamente concorda em cooperar. Jacó lhe pede o direito de primogenitura em troca de um pouco de comida — um pouco de sopa ou caldo acabou virando um instrumento de barganha. em vez de tanto se esforçar para levar seu ardil a cabo.33). que de bom grado abri-riam mão de sua condição espiritual em troca de três refeições por dia no Egito. mas as implicações são claras. Gênesis 25. de uma recepção calorosa para seu irmão gêmeo. após uma luta dentro do útero. como Esaú.19-26. por sua vez. que. O nome que ele recebe é uma prolepse (como em “lhe porás o nome de Jesus.16).Necessidade de Transformação Gênesis 25. Tal qual os israelitas. mormente quando 25. já senil e fisicamente incapaz. mas deliberadamente enganar o próprio pai.22c). Jacó foi alguém egocêntrico e voltado para seus próprios interesses. Isaque. Obviamente não se trata de um gesto de amizade. mostrou-se mais do que disposto a colaborar.27-34. Não fica claro o porquê de Rebeca simplesmente não contar a Isaque sobre o oráculo que recebera sobre os filhos em 25. que enganou no capítulo 26. seria agora enganado. Esaú não vê problema em trocar sua primogenitura espiritual pela satisfação de suas necessidades gastronômicas.

46-28. Jacó engana seu pai.1020). Longe de contradizer o que é anteriormente afirmado.9 narra uma segunda trama armada por Rebeca: dessa vez o objetivo é afastar Jacó de Esaú. em Gênesis ou no restante das Escrituras. Abraão e Ló repartem a terra entre si (13. Rebeca não é a única. Abraão resgata Ló de seus seqüestradores (14. sabendo tratar-se de Jacó (28. nesse ínterim. Em J. os irmãos de José. Depois de Gênesis 21. 3.forma de garantir o cumprimento da profecia contra possíveis objeções por parte de Isaque? Porque seu favorito era Jacó? Não podemos nem ao menos ter certeza de sua motivação: se agiu em interesse próprio ou se acreditava que. Além disso. cujo comportamento não tão positivo acaba por realizar exatamente isso. Isaque não tenha censurado nem a esposa nem o filho. Ao voltar do Egito. Já minha análise do texto demonstra que isso não passa de má interpretação. por que não tentar novamente? 1 Abraão viaja com Sara para o Egito por causa da fome (12. nenhuma das mães volta a ter alguma ação registrada. ao dirigir-se a Jacó. após os respectivos capítulos. e Jacó parte com o propósito de encontrar uma esposa.9 a P.46—28. 27. a ação de Rebeca para assegurar o futuro do filho é semelhante à ação de Sara para assegurar o futuro de Isaque. agindo e levando Jacó a agir.1-18). Isaque abençoa Jacó e manda-o embora para encontrar uma esposa em Padã-Arã (28. por exemplo. Por outro lado.46).1-45 a J e 27. encontra-se com Melquisedeque (14. ele se limita a falar do futuro que Deus tem para Jacó. Querendo evitar isso a todo custo. Veja. estava cumprindo os desígnios de Deus. A tabela de fontes já apresentada mostra que os críticos atribuem 27. Aliás.1-17.1-5). é interessante que. Isaque abençoa Jacó. Depois de Gênesis 27. Se a trapaça funcionou uma vez. em vez disso. que o venderam a uma caravana de mercadores de escravos. nenhum ardil é mencionado. Sara jamais volta a encontrar Isaque. 21-24) e. Em P. Rebeca jamais volta a ver Jacó. Esaú descobre a intriga e Jacó foge de casa. alegando preocupar-se com a pureza de sua linhagem. Por quê? Os dois episódios são incompatíveis. . Rebeca lembra seu marido das impropriedades de Esaú (27.1-9). Além disso. com Esaú querendo matá-lo. Ainda que sua motivação fosse menos nobre que promover os planos divinos. 2.18-20).

A fé não é irracional. mas vai além da razão. Deus” — um Deus que dá vida aos mortos (ressurreição) e chama à existência aquilo que não existe (criação). Abraão. é oferecido em sacrifício (21—22). Um Deus assim transcende a capacidade humana. A morte de Sara (23). 9. pouco tempo depois. 2 Ela é teísta: “perante aquele no qual creu. a saber. longe de casa. Isaque nasce e.4.1-11). há uma realidade divina. pois ambos tinham perdido sua capacidade de procriar. Foi preciso ressuscitar ou criar a capacidade que tinham de produzir vida. isso é perfeitamente possível. Deus condena Sodoma e Gomorra (18—19). Foi exatamente isso que Deus teve de operar no útero de Sara e na genitália de Abraão. 2. 5. Abraão envia seu servo de volta a sua casa. creu contra a esperança”. Se há um Deus. fracassa em uma nova tentativa de enganar um rei. Deus firma uma aliança com Abraão (15). ao identificar Sara como sua irmã (20). nasce Ismael (16).) 10. (Observe que o mais longo capítulo de Gênesis aborda o assunto do casamento. . a qual é mais tarde selada com a circuncisão (17). É supra-racional: “em esperança. a fim de obter uma esposa para Isaque (24). 7. Amorte de Abraão (25. 6. Por trás da realidade humana de uma situação. 8.

18-29).12-16. saudaram-nos.11). a falha no comportamento de Jacó é inquestionável — um exemplo clássico de alguém que se apropria da vontade de Deus. Em contrapartida. após a última caçada. Deus não fala palavra. a vida de Jacó passa por muitos acontecimentos antes de Deus se revelar de maneira direta.Preparação para a Transformação (28.29).10-22. disfarçado de Esaú. A presença divina é suficiente para fazer diferença. mas a revelação não é chamada de sonho].1). avô e até mesmo Ló. em um sonho.10—32.22). Esaú e Rebeca. com Esaú (25. pelo contrário. Podemos considerá-la incomum ao compará-la com as demonstradas por seu pai. Também precisamos observar que essa é a primeira vez que vemos Jacó sozinho. com Rebeca. o Senhor disse a Abrão” (12. Foi naquele momento de solidão que Deus entrou em sua vida.17). Os capítulos acerca de Abraão se iniciam com Deus falando ao patriarca: “Ora. com seu pai. Não é correto afirmar que tais episódios na vida de Jacó querem dizer que a trapaça é digna de recompensa.7. Os fins não justificam os meios.21) Gênesis 28. Estaria Jacó predestinado a prevalecer sobre seu irmão (25. e temi” (3. Deus não repreende Jacó em momento algum. sua mãe (17. Ao longo de todo o incidente envolvendo Isaque. Em algumas ocasiões. não é fulminado por Deus nem ouve algum Natã dizendo: “Tu és o homem”. com seu pai (27. Pela primeira vez. apesar de ter sido anteriormente utilizado para chamar a atenção do rei filisteu Abimeleque [20.617). aproveitador e enganador? Mil vezes não. como Jacó (28. depara-se com: . Deus também não se manifesta durante a primeira parte da fuga de Jacó. ele estava sempre acompanhado de alguém: no útero. quando Abraão está adormecido. Eles. Deus fica frente a frente com Jacó (meio de revelação que é utilizado pela primeira vez com alguém da linhagem de Abraão [possivelmente com exceção de 15. Jacó.1-5). mas não inesperada: “E temeu” (28.31) e Esaú (32. com Esaú (25. Anterior mente. A reação de Jacó ao acordar é incomum. Ele não ouve sermões. Isso muda em Betei.23)? Sim. temos o medo de Adão: “Ouvi a tua voz soar no jardim. Isso lhe dava o direito de ser manipulador. quando diante dos anjos de Deus. Ele também temeu Labão (31.10). ofereceram ate' comida e hospedagem! Anteriormente a Jacó. De um ponto de vista ético.3]). Trata- se do medo gerado por uma consciência culpada. temeu a Deus.

Gênesis 29—31.14). Será que o ardil foi . boa parte das expressões do voto de Jacó são repetições do que Deus já lhe havia prometido. não é o caso. ressurgem na boca de Jacó como: “Se Deus for comigo. Porém Jacó. a exemplo do que fizera antes com Esaú (“Se fizeres algo por mim. 3. em “eis que estou contigo. Um “segurador de calcanhar” que fugia da ira de um irmão disposto a matá-lo”. ou seja. Suas palavras se assemelham às de Adão quando viu Eva pela primeira vez: “Verdadeiramente és tu o meu osso e a minha carne” (29. Labão é um bondoso anfitrião (29. mas pode ser cobrado quanto à veracidade de suas palavras. os comentaristas interpretam erroneamente o voto de Jacó (28. Deus não fecha acordos. ele recebe as mesmas promessas da aliança feitas a Abraão. O objetivo de um propósito divino: nos versículos 13-15. As palavras de Deus. cujo propósito certamente não é determinar os termos sob os quais se serve a Deus.20-22) como se fosse uma tentativa de barganhar com Deus. E um patrão generoso (29. Trata-se de uma má compreensão do papel dos votos na Bíblia. Algumas vezes. 2. eis o que farei por ti”). um tipo de discipulado remunerado. O ingênuo Jacó descobre. Humphreys3 aborda esse aspecto muito bem: “Devemos lembrar que Deus promete tudo isso a um homem que fugia da Terra Prometida por ter tapeado seu irmão e enganado o próprio pai. acaba tornando-se vítima de um logro nas mãos de Labão. sem dúvida e por diversos motivos. que havia dormido com Léia. passando a ser iam elo na corrente de Deus. Esse. A princípio. o enganador. Não se deve ignorar o contexto e as circunstâncias dessas promessas. Isso é feito ao deixá-lo viver os vinte anos seguintes com uma pessoa cujo caráter é muito parecido com o seu: Labão. A ironia é clara: ele vê a si mesmo em Labão. por exemplo. e não com Raquel. Deus primeiramente se revela a Jacó. para seu desapontamento. O presente da amizade divina: ele estava solitário.13). Nessa preparação para a transformação. Além disso. A graça do perdão divino: a culpa em sua vida era mais pesada que a pedra sobre a qual recostava a cabeça. e me guardar”.15) e deseja que seu sobrinho / empregado se torne seu genro (29. Então ergue um espelho para que ele possa se mirar. e te guardarei por onde quer que fores”.1.19).

12). estou eu em lugar de Deus que ao teu ventre impediu frutificar?” (30. . O terceiro e quarto filhos de Léia foram Levi e Judá (29. Jacó.25-43.6).35.23. Duas das mais importantes instituições veterotestamentárias tiveram sua origem em um casamento indesejado.24) e o narrador (29.33). “foi negativa e em forma de uma pergunta encolerizada”: “Então.34-35).22) e remove toda a vergonha (30. Deus tirou o gado de vosso pai e mo deu a mim” (31. no devido tempo. provocado por um ato de má-fé! Como comenta Gerhard von Rad5. apesar de quatro mulheres terem lhe dado 12 filhos! Tal menção. 30.23). “Deus age de modo misterioso. como não podia deixar de ser. ele cita Deus (31.20). o que foi apoiado por ambas as esposas (31.35). a essência do plano era um logro. para suas maravilhas realizar”4. Jacó ainda tinha muito o que amadurecer. O fato de Jacó ainda ser o enganador. lembra (30. Léia (29.17. ele planeja uma forma de voltar para Canaã. Raquel (30. quer fossem apenas um engodo7. o trapaceiro. nas palavras de Fretheim6. Ele é um Deus que vê (29. é demonstrado pela narrativa de 30. por parte das esposas e do narrador.16). “a obra de Deus mergulhou nas profundezas da mundanidade e escondeu-se para não ser reconhecida”.20). ouve (29. Quer Jacó acreditasse que as varas no bebedouro faziam alguma diferença (30.32. faz justiça (30. ou por Jacó estar tão bêbado que nem percebeu com quem dividia sua cama? Se a providência de Deus agiu na teofania em Betei.22) falam a respeito de Deus de forma comovente. Isso é observado quando comparamos as múltiplas e belas referências a Deus. Em uma tentativa de ludibriar Labão. Os animais de Jacó seriam os animais malhados que nascessem dos animais de uma só cor que pertenciam a Labão — algo realmente raro (ou pelo menos era no que Labão acreditava!). A fim de dar maior credibilidade a suas ações.22). ou por Léia estar usando espessos véus.possibilitado pelo fato de ser noite. levando consigo uma parte significativa do rebanho do sogro.32).33. em meio ao caos. Jacó se irou contra Raquel e disse: Acaso. De Levi veio a linhagem dos sacerdotes. recompensa (30.18). Que diferença entre isso e uma única menção a Deus por parte de Jacó. mais uma vez. disse a suas esposas: “Assim. é digno de louvor (29. De Judá veio a linhagem dos reis e. 30. com uma única referência de Jacó ao Senhor nos capítulos 29 e 30.6.31. Jesus. presenteia (30.18.37-39).9).

provocando um confronto entre Jacó e Labão. Jacó ludibria Labão. 6-8). também sozinho. 9-12). Sem dúvida. Jacó precisa encontrar Esaú ou Deus? A próxima seção responderá a essa questão. ele estava fugindo da Terra Prometida. Embora já se tivessem passado vinte anos. 3-5). O relato de 31. Jacó não é o que busca. Naquela ocasião. Mágoas demoram bastante para passar. Primeiro ele envia uma missão avançada (vv. Em seguida.35). mas o que é encontrado. sem estar inteiramente convencido de que sua segurança vem de Deus e não de si mesmo. Isso agora voltaria a acontecer. fora confrontado por Deus em Betei. apenas suposições por parte de Jacó? Deus o abençoou com um rebanho por cansa de Jacó ou apesar de Jacó? Compare isso com a riqueza que Abraão obteve ilegalmente de Faraó (12. a menos que leiamos isso no versículo 10 (w. O que é então feito dos ídolos sobre os quais Raquel. então planeja uma forma de evitar uma destruição completa nas mãos de Esaú (vv. 13-21).16). Deus não aprova todos os esquemas ardilosos de seus filhos. Deus. Será possível vermos Jacó tolerando tranqüila- mente a presença de falsos deuses no meio de seu pessoal? Gênesis 32. após um intervalo. Raquel ludibria Labão ao furtar seus ídolos domésticos (31.22-55 mostra pelo menos que Jacó e Raquel se merecem! Labão engana Jacó. Esaú continuava ressentido com as atitudes do irmão. no entanto.34. Para finalizar. ora em desespero. agora. Para pôr um fim a essa situação.30. Jacó. o carnal Jacó traça um outro estratagema. na forma de um “homem”. O tempo nem sempre soluciona relacionamentos arruinados. ou.1-21. sentou-se? E de se supor que tenha contado tudo ao marido após a partida de Labão. Em meio às trevas da noite. Transformação (32. entra numa luta corpo-a-cor-po com Jacó que .Seriam.22-32) Vinte anos antes. mas sem expressar qualquer arrependimento. era assim que pensava Jacó. que estava em período fértil. Será possível percebermos algo nas entrelinhas? Labão e Jacó se reconciliam e Labão volta para casa. ele estava voltando àquela terra. homem e Deus haviam se encontrado. com freqüência intensifica ainda mais as diferenças. tenta comprar o perdão de Esaú (vv. pelo menos. Afinal.

5. porque já a alva subiu”.15.5 e. O episódio ressalta pelo menos três características de Jacó que.14. 31.) O hebraico bíblico não raro utiliza expressões como “não se dirá mais” ou “não se chamará mais” para indicar algum tipo de metamorfose espiritual. O nome “Jacó” diz respeito tanto ao que ele é como a quem ele é.. um novo começo: “E saiu-lhe o sol” (v. 31). na qual Jesus. ao menos não de imediato. A aurora que se aproximava não era um perigo para Deus. em especial. Não é difícil recordar a conversa noturna entre Jesus e Nicodemos. mas a perna não é curada. Ele confessa ser indigno: “Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó” (v. Seu nome é mudado. dizendo: Legião é o meu nome” [Mc 5. destruiu sistematicamente as suas defesas e chegou ao cerne do problema: o coração de Nicodemos. Por esse motivo.29. 30). 19. como príncipe. 16.52]. 29b). Jacó confirma a veracidade de Êxodo 33. Um novo dia. (Poder-se-ia comparar o objeto da luta de Jacó com a declaração “E crescia Jesus em [. 6. Uma nova força: “prevaleceste” (v. pois. mas Israel. lutaste [em hebraico. certas passagens de Jeremias.6: 23.9]). e a minha alma foi salva” (v. a partir daquele momento. na qual Deus diz: “homem nenhum verá a minha face e viverá”. Seu problema é sua natureza (como Jesus em “Qual é o teu nome? E lhe respondeu.20. 3. 28).8. 28b). quais foram os resultados? 1. Um novo testemunho: “Tenho visto a Deus face a face. ’e/e com os homens e prevaleceste” (v. 31b).16-1. quase até o amanhecer (v. mas para Jacó.30). Deus diz a Jacó: “Deixa-me ir. 4. Um novo lembrete de sua própria fraqueza: “e manquejava da sua coxa” (v.dura a noite toda. Uma nova bênção: “E abençoou-o ali” (v.. sãrã] com Deus [em hebraico. 2.] graça para com Deus e os homens” [Lc 2. formaram um divisor de águas em sua vida: 1 3. 27). Após tal reação de Jacó. Verifique Gênesis 17.7. em que tais expressões destacam mudanças graças a alguma ação divina (Jr 3. 24b). . em uma luta verbal com aquele homem. Um novo nome e um novo caráter: “Não se chamará mais o teu nome Jacó.

Será que isso ocorreu porque sua paz interior o conteve? Ao ficar sabendo sobre a macabra vingança de seus filhos.57). mas também de uma nova humildade: “inclinou-se à terra sete vezes” (v. Por outro lado.35 e a Labão em 29. que “foi oprimido.16]). Siquém. Note a diferença entre o Jacó pré-Peniel. para eles. 13) — o mesmo termo hebraico aplicado a Jacó em 27. ou pelo menos dois deles: Simeão e Levi.Conseqüências da Transformação (33—36) Gênesis 33. Não havia justificativa para as ações de ambos.3]). sua motivação é verdadeira. 10. mas não abriu a boca” . filho de Hamor. seja em si ou em um ente querido — é provavelmente a mais difícil e desafiadora de todas as reações. 3b). O Esaú rancoroso e vingativo do capítulo 27 transformou-se no Esaú conciliatório do capítulo 23. peço-te. ele os repreende duramente (v. Também é preciso observar uma certa transformação que o próprio Esaú sofreu. 5). Ao presentear Esaú. Gênesis 34. reservando palavras ainda mais duras para um outro momento (49. ele foi insensível e indiferente. ao não mexer um dedo. E quanto a Jacó? Sua primeira reação ao ouvir sobre o que acontecera a Diná foi “calar-se” (v. o Jacó do capítulo 34 estava longe de demonstrar as “conseqüências da transformação” que esperamos. Diná. Os fins não justificam os meios. Fewell e Gunn8 observam que o silêncio — a capacidade de reter a própria fúria frente a um terrível sofrimento. a minha bênção” (vv. embora o próprio Jacó já houvesse defendido essa filosofia. que assumiu a liderança na direção de Esaú (“E ele mesmo passou adiante deles” [33. Ele não apenas se mostra munido de uma nova coragem. O que o Jacó “abençoado” faria naquela situação? Procuraria vingar-se? Procuraria fazer justiça com suas próprias mãos (algo que o mandamento “não matarás” condena)? Somos informados do que fizeram os filhos de Jacó.11).25 — Simeão e Levi atraíram os culpados para a morte. Se for esse o caso. e sem qualquer encontro com Deus que explicasse sua mudança de atitude. Já não há qualquer conspiração. Alguns comentaristas desaprovam a inércia de Jacó. A reconciliação entre Deus e Jacó deve ser sucedida pela reconciliação com seu irmão. Então uma nova generosidade: “peço-te que tomes o meu presente da minha mão [. que se manteve na retaguarda de sua caravana (“Passai adiante da minha face” [32. a estuprou.] Tbma... 30). Falando “enganosamente” (v. e o Jacó pós-Peniel. Jacó prenuncia o Servo sofredor do profeta. Esse capítulo relata um terrível incidente na vida da única filha de Jacó.

1994. Deus volta a afirmar que ele agora se chama Israel (vv. M. Isaque foi sepultado por “Esaú e Jacó. Fishbane3 é feliz ao fazer o seguinte comentário: “E claro que Jacó já havia recebido o nome de Israel antes (32. Indiana Studies in Biblical Literature. 5-8). Semelhante à separação entre Abraão e Ló (13. Isaque (vv. Gênesis 35.(Is 53. 7). 27-29). O afastamento deu lugar à intimidade. BRISMAN. ABRn° 17. Confirmando o que foi feito em Peniel (capítulo 32). JSOTVL 62. Deus o havia encontrado (vv. L. Israel”. 22). pp. seus filhos”. “What If Dinah Is Not Raped? (Genesis 34)”. Gênesis 36.42 (Jacó) ANDERSON. “An Exposition of Genesis XXXII”. Jacó e Esaú dão adeus um ao outro e. Raquel (vv. mas é possível que a narrativa queira indicar que foi somente após a solução de seu conflito com Esaú (Gn 33) que ele se tornou. . não o abatem. da “casa de Deus” para o “Deus da casa de Deus” (v. vemos um Jacó que foi de Betei para El-Betel. 19-36. depois vem a casa de Deus. é Esaú que deixa Jacó. primeiro vem Deus.5- 12). 1990. W. A conclusão do capítulo é adequada. B. 21- 26.10). pp. com Jacó fugindo de Esaú. o incesto cometido por seu filho mais velho. 16-21). cerca de vinte anos antes. Agora. Agora.7). onde. realmente. A presença daqueles ídolos era incompatível com a adoração de um único Deus. contudo. As “gerações de Esaú” são acompanhadas de uma última despedida entre Esaú e Jacó. Jacó manda que sejam jogados fora os falsos deuses furtados por Raquel a seu pai (vv. The Voice of Jacob: On the Composition of Genesis. e a morte de seu pai. BECHTEL. seguem caminhos distintos. Rúben (v. 1999. amigavelmente.11—36. A sensibilidade espiritual de Jacó é evidenciada aqui. A morte de sua esposa. Começamos no capítulo 28. L. Jacó volta a Betei uma segunda vez. Bloomington: Indiana University Press.29). Agora. Gênesis 25. 9. 2-4).

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1. podemos comparar os efeitos de seu ferimento à circuncisão adulta que foi experimentada pela segunda geração de israelitas. antes de entrarem na Terra Prometida e em Jerico (Js 5). mas agarrava-se para não perder. Nashville: Abingdon. (N.8). Keck e outros. L. OTL. 1024-1027. Marks. do T. p. 4 Trecho de um hino escrito por William Cowper. EncJud n° 4. em The New Interpreter’s Bible. Edição revisada. Traduzido por J. 172. pp.22)”. GABRIEL. 2001. p. No caso de serem temporários. p. ele não largou o varão (v. Uma intensa fome de Deus: “Não te deixarei ir. lutando com ele” (v. 1 A consciência de sua fraqueza: “e se deslocou a juntura da coxa de Jacó. ele agora era a vítima. 1972. contudo. p. Tal incisão era certamente dolorida e necessitava de tempo para recuperação e cura (Js 5. p. H. JJSv° 26. Vol. 26b). Louisville: Westminster John Knox. 26). . mas a de Deus só poderia ser obtida por meio de uma súplica intensa e sincera. Após sair vitorioso em suas lutas contra Esaú. é preciso admitir que. A bênção de Isaque teria sido insignificante se não fosse acompanhada da bênção de Deus. “Biology”. Em favor de Jacó. 555. se me não abençoares” (v. JBL n° 110. Independentemente de sua dor ser temporária ou permanente. Filadélfia: Westminster. E. 25b).) ■ Gênesis. 1994. 4 "Tipping the Balance: Sternberg’s Reader and the Rape of Dinah”. 1991. Isaque e Labão. Jacó sai daquele lugar com um lembrete de quem manda em sua vida. 28. 291. 1971. embora ferido. A bênção de Isaque fora conseguida de forma fraudulenta. 198. 4 "Genesis”. " M. Ele não lutava. Editado por L. 4 "Composition and Structure in the Jacob Cycle (Genesis 25.: The Character of God in the Book of Genesis.19—35. 2. 1975.

3).31) apesar dos protestos de Saul e de seus irmãos mais velhos.28). os feixes de seus irmãos se inclinavam diante do seu (37. devemos ler os sonhos de José e o fato de ele contá-los como “algo entre uma bravata de um adolescente mimado com dezessete anos de idade e sinais dados por Deus a respeito do futuro de sua família”? O comportamento de José não foi diferente do comportamento do jovem Davi. de destino divino. envia-me a mim.. a exemplo do que ocorre com “amava Isaque a Esaú [. não puderam tolerar isso. Os irmãos reagiram com raiva e inveja. W. porque era filho da sua velhice” (37. não por insolência. José lhes conta dois de seus sonhos.1). No segundo.” Seus irmãos.9). os luminares se inclinavam perante ele (37.26. Coats. Senhor. Para o José adolescente. nas palavras de G. Humphreys. Como podemos avaliar aquilo que motivava José naquele momento? Será que ele.. Os sonhos provêm de Deus. L. a revelação teve ao menos um significado: Deus tinha um plano para sua vida.9). Talvez a expressão “amava mais que” nos faça lembrar de "era mais astuta que” (3. O pai deu ao filho “uma túnica de várias cores” (ARC) ou “uma túnica talar de mangas compridas” (ARA). Ele compartilha esse fato em virtude do entusiasmo que sentia. no entanto. como afirma W. conforme o que lemos em 37. Um Jovem com um Sonho Para piorar.3. . pelo menos segundo o ponto de vista dos irmãos. “tinha sonhos grandiosos e espontaneamente se gabava deles e de seu óbvio significado perante todos os membros da família”? Ou. outra expressão que também anunciava problemas. “Eis-me aqui. Em um. Temos aqui um adolescente com senso de destino. que se dispôs a enfrentar Golias (1 Sm 17.5 José GÊNESIS 37—50 A história de José começa de forma agourenta: “E Israel amava a José mais do que a todos os seus filhos. e esse plano envolvia algum tipo de liderança.] mas Rebeca amava a Jacó” (25. E um prenúncio de problemas.

devemos nos perguntar quais os pensamentos de José durante todo aquele pesadelo. a estranhos que rumavam a uma terra sobre a qual ele nada sabia! E quanto aos planos de Deus? Como tudo isso se encaixa? . basta o texto de Juizes 8. Deus fala de modo claro com o que sonha. Ele deve ser eliminado. por seus próprios irmãos. são certamente análogos aos sonhos do José do Novo Testamento. Entres sonhos anteriores.26). o texto os identifica como “midianitas” (v. Após considerar a idéia de dar cabo do irmão. Embora tivesse em mente uma posição de liderança.9-36.13) em circunstâncias difíceis. Experiências Desagradáveis (37. que claramente identifica midianitas e ismaelitas como um único grupo. 2.20. enquanto “midianitas” seria um termo mais específico com respeito à etnia.3).24). 50. Quando o grupo chega suficientemente perto para conversar com os irmãos de José. Abimeleque (20. os viajantes parecem ser um grupo de nômades beduínos (vv. Gênesis 37. Ele também seguiu para o Egito após dois sonhos (Mt 1. Em contrapartida.10-16) e Labão (31. Parte disso estava a ponto de acontecer. 25. sucedidos por sua viagem ao Egito (uma viagem que no devido tempo redundaria na salvação de Israel [45. Os dois sonhos.12-16).5. Para derrubar a credibilidade de tal teoria.22-24. esses mercadores são chamados tanto “midianitas” como “ismaelitas”.21.20]). O que diferencia o sonho de José dos anteriormente apresentados é que.Decerto. Além disso. Poder-se-ia sugerir que o termo “ismaelita” inclui todos os viajantes nômades do norte da Arábia e sul da Palestina. “ismaelitas”. levando consigo Maria e a criança que “salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1. tal fenômeno é muitas vezes interpretado como uma indicação de duas histórias independentes acerca de José: um relato J (“ismaelitas”) e um relato E (“midianitas”). Quando os irmãos os vêem a distância. Em um único versículo. nada lhe é dito. Jacó (28. 39—41) José ainda não tinha visto tudo que Deus planejara para sua vida. ele se acha vendido como escravo. não é a primeira vez que Gênesis chama a atenção para o sonho de alguém. eles o vendem a mercadores que iam a caminho do Egito. nos dois sonhos de José. leia Kidner e Kitchen). não basta descartar José como a um impostor e ignorá-lo. Ao retornarmos à narrativa. estão os de Abraão (15. Juntamente com outros fatos presentes na narrativa. em todos os outros. era comum na antiguidade que grupos e indivíduos tivessem mais de um nome (a respeito desse fenômeno.21). 28a) (veja Longacre). Para os irmãos.

que coloca um rio cheio de crocodilos entre os dois. vamos dormir [juntos] por uma hora”. Uma das principais diferenças entre as duas histórias é o destino da esposa sedutora. Trata-se de uma ótima tradução do termo hebraico. no devido tempo. Anteriormente vítima do ódio e da inveja. mata sua esposa e a lança aos cães”. Alguns reis da antigüidade. Mas e quanto aos sonhos. Um irmão solteiro. é bem-sucedida durante algum tempo. com sua subseqüente prisão. aos planos de Deus para sua vida? Quase todos os comentaristas observam a semelhança entre essa história e o “Conto dos Dois Irmãos” egípcio. José serve a um empregador respeitável e tem um trabalho bom e seguro. Salvar Bata de Anubis exige um milagre por parte de Re. “ele chega a sua casa. Bata. um outro fator que contribui nesse cenário. a esposa tenta seduzir o cunhado: “Venha. ao pôr a culpa em Bata. porém. Isso. Não nos é informado o destino da esposa de Potifar. no relato de sua vida. vive com o irmão mais velho. Por um crime do qual é inteiramente inocente. dura apenas algum tempo. Quando Anubis descobre que sua esposa é a culpada. serviriam para ele atrair a atenção de Faraó e. mais um exemplo de Deus operando o bem a partir do mal perpetrado por humanos. A esposa. O enfoque da história é a reação de José”. mas a mesma palavra serve para “eunuco”. José seria agora vítima de uma cruel mentira. Se ele tivesse permanecido na casa de Potifar pelo resto de sua idade adulta. Curiosamente. surgir como salvador da nação e de sua própria família. trata-se apenas de uma mulher vítima do tédio e de sua própria luxúria desenfreada. Durante a ausência do marido. Nem passava pela cabeça de José que a odiosa mentira da esposa de Potifar. E até possível que Potifar tenha desconfiado da história da esposa. nunca teria captado a atenção de Faraó e jamais se tornaria uma pessoa tão influente no Egito. não tendo sido escrita para o lazer. Potifar é chamado de “oficial” de Faraó.C. a esposa de Potifar se oferece a José. exigiam que seus cortesãos mais poderosos fossem eunucos. o que explicaria o porquê de José ter sido aprisionado e não executado. entretanto. Tudo vai bem por algum tempo. Há. Nahum Sarna sugere que “o motivo desse desinteresse reside no fato de que nossa história não possui um propósito em si mesma. Possivelmente. Na ausência do marido. por razões óbvias. oriundo do século XIII a.Gênesis 39. o deus do sol. o capítulo 39 é o único capítulo em 37—50 cujo enfoque é José . José vai parar na prisão. Temos aqui. Bata recusa com veemência e foge “como um leopardo”. Anubis. e sua esposa.

1). Seu fértil e exogâmico matrimônio com a egípcia Asenate nos faz perceber que a sorte de José está a ponto de melhorar (v.46).3.2) até seus trinta anos de idade (41. José aconselha Faraó a nomear alguém para a supervisão do armazenamento de víveres e sua posterior distribuição. Aos setenta e cinco anos de idade. ele declara que “o Senhor estava com José” (vv. Após interpretá-los. Faraó escolhe José para esse serviço (v. Desse casamento nascem dois filhos. 5 [2x].8). não se lembrou de José” (v.(o que exclui o capítulo 38 e a maior parte do capítulo 49). o copeiro-mor e o padeiro-mor e interpreta-lhes os sonhos. que sugerisse a José: “Deus não disse que teus irmãos se curvariam diante de ti? E assim que Deus te trata como paga por tua obediência?” Todas as tentações estavam presentes: raiva. a presença de Jeová significou a diferença entre morte ou vida para José. Até aqui.23). 51. Assim como a presença de José significou a diferença entre a morte e a sobrevivência do Egito.52). Uma luz. 23). 2. José rapidamente nega ter um dom inato para a interpretação de sonhos (41. autopiedade. Todas as menções são do narrador. ressentimento. O nome do primeiro . começava a surgir. José faz amizade com dois servos de Faraó que haviam caído em desgraça. Como no caso dos sonhos do copeiro-mor e do padeiro-mor (40. 45). Em quatro delas. diga a Faraó que fui preso injustamente e que desejo minha liberdade (vv. Seu único pedido de auxílio é dirigido ao copeiro: por favor. mas somente ao completar cem anos ele pôde ter nos braços o filho da promessa. porém. Os dois sonhos de Faraó. que menciona “Jeová / Senhor” (vv. pessimismo. Gênesis 40. seguimos a sua vida desde os dezessete anos (37. proporcionam uma oportunidade para a libertação de José. Seus treze anos de perplexidade foram apenas a metade do que seu bisavô tivera de suportar. Abraão recebera de Deus a promessa de um filho. “O copeiro- mor. Onde estava Deus em meio a tudo isso? Será que não havia uma “serpente astuta” por perto.15). a quem ele chama Manassés e Efraim (vv. 23 [2x]). 21.16). Na prisão. Gênesis 41. vimos José mergulhar num pesadelo que duraria treze anos. Um homem prevenido vale por dois. amargura. contudo. Após um início estimulante. 14. 3 [2x]. 2.21. 41). no mínimo perturbadores. que permaneceu preso por mais dois anos (41.

Nesse meio tempo. No capítulo 42. José o pegue como escravo (44. mas também ladrões (42. enquanto os outros retornam para buscar Benjamim. Não apenas espiões. As viagens culminam com José se revelando a seus irmãos. Tanto para Faraó como para o dono da propriedade que ele supostamente invadiu. De início. Qual haveria de ser a reação de José? Será que ele os receberia de braços abertos? Iria ele deixar o passado no passado? As saudações de José podem nos surpreender. Deus Age em todas as Coisas para o Bem (42—50) Os últimos capítulos de Gênesis descrevem as viagens dos irmãos de José. O nome do segundo filho lembra que Deus faz de José um servo útil mesmo em uma terra de sofrimentos. ele foi vê-los. Em seguida. no lugar de Benjamim. H. . com Benjamim presente. mantém Simeão aprisionado. Um camponês perde suas mulas para um patife por causa de uma falsa acusação de invasão de propriedade. Hoje em dia.15-17). eles cuidam para que a esposa e a família do camponês recebam comida e suprimentos básicos.13: “esquecer das coisas que atrás ficam”. seus irmãos foram vê-lo.9). o que eles não são (42. numa tentativa de conseguir trigo. nas palavras de Filipenses 3. afirmando que só os libertaria se um deles voltasse a Canaã para trazer o irmão mais novo (42. ele acusa seus irmãos de serem espiões. José lhes enche os sacos de trigo e coloca o dinheiro no meio dos sacos. coloca-os na prisão. O esquecimento das agruras passadas e uma vida produtiva estão entre as mais seletas bênçãos divinas sobre aqueles que enfrentam vicissitudes semelhantes às de José. durante todo o processo. haviam-se passado vinte anos: treze anos no Egito. No capítulo 37. algumas pessoas chamam isso de “curar lembranças” ou. decidem em seu favor. Em terceiro lugar. o camponês se queixa com veemência. C. seguidos de sete bons anos. Desde a última vez que se avistara com seus irmãos.filho evoca o fato de que Deus o está ajudando a esquecer as mágoas do passado. entre Egito e Canaã. reconciliando-se com eles e tendo uma última chance de estar com seu pai. José volta a despedir seus irmãos. incertezas e decepções.14-34).18- 25)? Em quarto lugar.1-13). após algum tempo. Gordon fala sobre as semelhanças entre as conspirações de José e uma história do Egito Médio chamada “As Queixas do Camponês Eloqüente”. Ainda assim. Judá então implora para que. mas secretamente coloca uma valiosa taça de prata no saco de Benjamim (44. Os dois ouvem com atenção e.

. Já no fim da história. com “sabendo o bem e o mal”. mas não foi mais duro que Deus com Adão e Eva no Éden. Já o melhor texto análogo.15. da serpente.2. R. ‘planejastes’ o mal contra mim. 50. O fato de o texto tantas vezes chamar atenção para as lágrimas de José pode ser uma forma de informar o leitor de que ele não está sendo vingativo. estou eu em lugar de Deus?” (50. Dahlberg.30.20 pode também ser traduzido por “planejar”: “Vós.20 — TB [Tradução Brasileira]). O termo hebraico para “intentar” em 50. 45. de José. seus motivos não podem ser tão terríveis como parecem. A mesma palavra aparece na forma nominal em 6. porém Deus o ‘planejou’ para o bem”.5).11. na verdade. Jacó [29. trata-se de uma promessa dirigida ao povo que estava no exílio (utilizando a mesma raiz hebraica de Gênesis 6. vemos que José se recusa a ser bajulado por seus irmãos nas seguintes palavras: “Não temais. compara as palavras dele às da serpente: “sereis como Deus” (3. 43.. Essas comparações ilustram a maestria literária que permeia todo o primeiro livro da Bíblia.24. intentastes o mal contra mim. contudo. B. Alter menciona o necessário e “doloroso processo pelo qual os irmãos aceitam a responsabilidade pelo que fizeram e são levados a aceitar sua culpa”. porque.1). que mostra Deus planejando algo de bom para alguém. Gênesis já havia apresentado outras cenas de choro (Esaú [27.. Gênesis começa e termina com pessoas que planejam o mal.5: “E viu o Senhor que [. numa tentativa de vincular a temática de José com outras parecidas em Gênesis 1—11. qual seria o juízo do leitor acerca de José naquele momento? Ele foi cruel e malvado? Brincou com seus irmãos? Agiu da mesma forma que Jacó no passado? Seu objetivo era se vingar dos irmãos e fazê- los sofrer? Ele brincou de deus com eles (apesar de suas palavras em 42. No Éden.] que toda imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente”. fica em Jeremias 29. mas José chora mais que todos juntos em Gênesis 42—50 (42.18)? Antes desse episódio.. .. embora misteriosos. Ele também compara “Vós.29.4]). não são em última análise redentoras? E verdade que ele falou “asperamente” com seus irmãos.. porém Deus o intentou para o bem” (50. Esaú e Jacó [33.5 e 50. Novamente em um contexto de adversidades. porém. porventura. na verdade.11].No contexto do relato bíblico.11 — NVI).14.20): “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês [.19).] planos de fazê- los prosperar [.] planos de dar-lhes esperança e um futuro” (Jr 29.7). Devemos admitir que ele utilizou palavras ásperas e tratou-os de forma ríspida (42. 46.38]. Tais medidas. o principal objetivo de Deus era restaurar aqueles dois. Pode servir para nos comunicar que. Palavras ásperas são palavras de salvação.

.20). o texto diz respeito a todos que vivem no Egito. porém Deus o tornou em bem” (50. A história de José não se relaciona apenas a Gênesis 1—11 (conforme a análise de Dahlberg).5- 8). Em certo sentido. Seria agora uma bênção para todos os egípcios? Sendo esse o caso. definido por Deus.]Assim. mas. quer boas quer más. Ao tomar a esposa de um patriarca para seu harém. Voltaremos a vê-lo com Daniel (Dn 6. em outra parte: “Vós bem intentastes mal contra mim. na medida em que tanto essa história como os primeiros capítulos de Êxodo destacam o mesmo tema: potenciais ameaças à promessa . que os levou a se prepararem para os anos de escassez. não fostes vós que me enviastes para cá. pela longa presença de José no Egito. para a perpetuação das promessas de Deus para o povo de Deus. os egípcios teriam sido dizimados pela fome. Faraó deflagra uma erupção de pragas em sua própria casa.E como José supera as tentações que pudemos observar? Ele sempre relacionou todas as suas experiências de vida. observamos muitos exemplos do povo de Deus sendo ameaçado de extinção. senão Deus” (45. A história também relaciona Gênesis a Êxodo.5). Não fosse o sábio conselho de José.20).28. se a família com quem Deus firmou a aliança é aniquilada. ou sobre quem é o “grande povo conservado vivo” (50. isso significa que todas as suas promessas somem numa nuvem de fumaça? Exibindo grande maturidade espiritual. Antes de mais nada.12-14).5). Vemos aqui a expressão do mesmo sentimento que mais tarde aparece em Romanos 8. Já vimos um drástico cumprimento de “amaldiçoarei os que te amaldiçoarem” em Gênesis 12. Em gênesis. a graça divina sobre aqueles incrédulos é um exemplo vivido do cumprimento da promessa de Deus para Abraão: “abençoarei os que te abençoarem”.. com relevância ainda maior.10) e Paulo (Fp 1. ao plano soberano de Deus para sua vida. Deus me enviou diante da vossa face [. Ou. a “vida conservada” e o “grande povo” mencionados por José a seus irmãos certamente dizem respeito aos descendentes de Abraão. “Para conservação da vida. à promessa divina que se inicia em Abraão. O texto nos informa que ele já havia sido uma bênção para um egípcio e sua casa (39. Por outro lado. José vê a si mesmo e a suas experiências no Egito como um meio. Precisamos indagar sobre o que é a “vida a ser conservada” (45. elevar o bisneto de Abraão aos mais altos escalões da administração egípcia faz com que os egípcios sejam salvos de uma crise devastadora. Ora.

A partir de então. O que a história de José nos traz não é uma garantia. não. por vezes. Decidida a resolver a situação. Na mente de José. É possível passar do capítulo 37 para o 39. Por se recusar a aceitar sua responsabilidade. Er morre e deixa Tamar como uma viúva sem filhos. A história de José ilustra de forma poderosa o controle de Deus sobre a história humana. o mal é transformado. Quanto à sua consumação.25). ele tem três filhos: Er. Do mal pode advir o bem. mais exatamente. outras vezes. o coito interrompido (v. Onã morre. não é jamais honrada. Judá manda Tamar de volta para seu pai. como Nahum Sarna (em seu mais antigo comentário) e Eric Lowenthal. A promessa. não. assim como “visitou” Sara (21. dando à luz . Deus. Alguns comentaristas. Isaque e Jacó. contudo. Algumas vezes. porém que isso nem sempre é verdade. mas alguns requisitos são necessários. O capítulo é a respeito de Judá.divina.24. a esperança de que o bem possa surgir de todo mal. Além disso.5-10 para a lei mosaica acerca do matrimônio levirático.1). casa-se com Tamar. Como observou Jacobs: “O significado hermenêutico da história [de José] não se resume na universalidade da intervenção divina nos assuntos humanos. deixam esse capítulo totalmente de lado. passa a ser responsabilidade do segundo filho. não. contudo. intervém. Er. Deus haverá de “visitar” os irmãos de José (50. Algumas vezes Deus provê o cordeiro. com a promessa de que voltará a chamá-la quando Selá tiver idade suficiente para ter relações sexuais. levando-os então à terra de Abraão. Onã. o mais velho. Onã evita fazê-lo praticando um método de controle de natalidade. demonstra de forma incisiva que o mal pode gerar mais mal. fazendo com que o mal sempre produza o bem”. Tamar se veste como uma prostituta e acaba por seduzir o sogro. leviré o termo em latim para ‘cunhado’). filho de Jacó e irmão de José. Judá e Tamar (38) Obviamente. não há qualquer receio quanto ao cumprimento das promessas divinas. sem afetar a continuidade da história. outras vezes. a fim de preservar o nome do primogênito falecido (ver Dt 25. porém. ele está completamente convencido. Com uma mulher cananéia. outras vezes. Onã e Selá. Gênesis 38 interrompe o fluxo da história de José. gerar um filho com sua cunhada. ignorando por completo o capítulo 38. 9).

a esta altura. No capítulo 37.3). enquanto a história de José se inicia quando ele ainda é jovem”. O capítulo 38 é no microcosmo o que os capítulos 37. No capítulo 37.26). Todos os três capítulos destacam parte da roupa de alguém: a túnica de José (capítulo 37). as roupas de José. e as vestes de José (capítulo 39). no capítulo 38. na preservação da “pureza” da linhagem de Judá. Jacó é enganado. a túnica ensangüentada de José é apresentada a Jacó como prova da morte de seu filho. Não devemos ignorar o importantíssimo papel desempenhado pela nora de Judá. Curiosamente. nora. Potifar é enganado — todos por membros de suas respectivas famílias (filhos.26 usam o verbo “reconhecer” no imperativo (nakai■) (O filho de Jacó. e no capítulo 38. 39 e 50 são no macrocosmo. Judá é enganado.gêmeos. do lenço e do cajado que possuía [38. esposa).25. Mas como relacionamos isso a José? Donald Redford faz o seguinte comentário: “A única explicação plausível para a atual ordem dos capítulos é a cronológica. de Tamar. gêmeos na linhagem messiânica (Mt 1.32]. servem para provar a suposta tentativa de estupro. suas roupas de luto e seu véu de prostituta (capítulo 38). no segundo (capítulo 38). pois se passa na Palestina e. Tamar apresenta o selo. temos uma mentira sendo dita. O Judá adúltero do capítulo 38 contrasta com o José firme e fiel do capítulo 39.33. Deus executa seu plano mesmo nas piores circunstâncias. ao lhe falar sobre a túnica ensangüentada [37. lemos: “Ele a ‘reconheceu’” e “‘Reconheceu-os’ Judá”.33 como 38. no capítulo 39. No primeiro (capítulo 37). assumiu o papel de . com o fracasso de seus três irmãos mais velhos. José sobrevive a toda hostilidade e se torna a salvação física de sua família. mas não a esposa de Potifar. 38. tanto 37. nascem de uma relação incestuosa entre sogro e nora. o lenço e o cajado de Judá como prova de sua culpa. Rúben. Não poderia tampouco precedê-la. uma verdade. Zera e Peres. Simeão e Levi. não se pode deixar passar o claro contraste entre esses acontecimentos e a história de José. Esse. Tamar é bem-sucedida. ao falar com Judá sobre o dono do selo.25]).32. O capítulo 38 não poderia vir após a história de José. em ambos os casos (37. no capítulo 38. que foram arrancadas pela esposa de Potifar. Tamar. Tamar. Nos versículos seguintes. Além da necessidade cronológica. pois Judá é ancião e avô ao fim do capítulo 38. Judá já teria ido para o Egito pelo resto de sua vida.

Todavia. Alter. portanto. J. R. U. 197-218. Gros Louis e J. pode-se entender o porquê de Jacó mais tarde dizer: “poucos e maus foram os dias dos anos da minha vida” (47. S. Nova York: Basic Books. era. supondo-se que ela não era cananéia. Ackerman. 77-85. S. pp. O intercurso sexual entre Tamar e Judá. R. no outro. Brueggemann. resultado de uma miscigenação: oriundo de uma mistura de semente escolhida e não-escolhida. pp. em Missing Persons and Mistaken Identities: Woman and Gender in Ancient Israel Editado por P. em Biblical and Oriental . permite que a linhagem escolhida continue através de Judá e Tamar. Os incidentes dos capítulos 37 e 38 são ambos dores de cabeça para Jacó. ou assim acredita o pai. 1982.11”. Judah. Bird. R. Arbeitmann. Bird. Editado por J. em Congress Volumej Salamanca 1983. and Jacob”. 2. A luz de tais experiências. Battenfield. pp. Em um. pp. Gênesis 37—50 (José) Ackerman. em Literary Interpretations of Biblical Narratives. 107-112. pp. Emerton. 2000. R. Leiden: Brill. “Genesis L 15—21: A Theological Exploration”. Y. “The Story of Tamar and Judah”. 85-113. The Art of Biblical Narrative. “Tamar’s Name or Is It?” ZAWxt 112.2). 1983. pp. VTSup n° 36. 312.3) e que Isaque não quis para Jacó (28. W. 40-53. A. JETSn° 25. e não através de Judá e sua esposa cananéia (veja o comentário de Sailhamer). Seu filho sobrevivente.9). seu outro filho comete adultério. Selá.1): casou-se com uma mulher cananéia (38. Nashville: Abingdon. “A Consideration of the Identity of the Pharaoh of Genesis 47. fez algo que Abraão não quis para Isaque (24. R “The Harlot as Heroine: Narrative Art and Social Presuppositions in Three Old Testament Texts”. Minneapolis: Fortress. 341-355.primogênito em Israel. 1981. “Joseph. 137-140. L. J. Vol. Editado por K. 1977. um filho é estraçalhado e morto. 1972. 172-176. Cassuto. Isso tornava praticamente impossível a continuidade do cumprimento das promessas de Deus para Abraão e Isaque.

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Independentemente da organização utilizada em um esboço de Êxodo. após as desagradáveis experiências do capítulo 5. Moisés inicia seu ministério a partir do incidente da sarça ardente. IV. o livro de Êxodo segue o esquema esboçado na tabela 1. Ao contrário do livro de Gênesis. A reação do homem em obediência (capítulos 19—31) V. as experiências de Moisés na primeira parte do livro são análogas às experiências dos israelitas na última parte do livro (ver Smith). a narrativa de Êxodo é deliberadamente seletiva ao descrever Moisés. Quarenta anos mais tarde (At 7. que enfoca diversos personagens humanos (na parte dos patriarcas).6 Moisés 1 2 3 4 5 6 b) Da fome (capítulo 16). Deus chama Moisés para seu serviço nos capítulos 3 e 4 e renova o chamado no capítulo 6. ainda assim. nos capítulos 19 —24. as divisões básicas da estrutura do livro são bastante claras.1-27). Ambos fogem do Egito: Moisés no capítulo 2 e Israel no capítulo 12. já um octogenário. Também ao contrário do livro de Gênesis.8-16. c) Do desespero (17. Deus oferece uma aliança ao seu povo e renova sua oferta no capítulo 34. Cronologicamente. é posto em um rio dentro de uma cesta e é criado pela filha de Faraó. Transgressão e renovo (capítulos 32—-40) (segundo " Westermann) Em muitos aspectos. . O segundo capítulo do livro lida com os primeiros dois terços da vida de Moisés e.1). com poucos detalhes: ele nasce. Quatro décadas depois. Assim como ocorre em Gênesis com relação a Abraão. mata um egípcio e é forçado a fugir para o exílio em Midiã. Cerca de onze meses mais tarde. Êxodo destaca apenas um: Moisés. portanto.23). deixaram o Sinai em direção a Canaã. que abarca um considerável período de tempo (novamente do capítulo 12 ao 50) — pelo menos quatro gerações — Êxodo 19—40 cobre apenas cerca de um ano. Ambos vão a uma montanha onde Deus lhes fala: Moisés no capítulo 3 e Israel no capítulo 19. George Mendenhall. Os israelitas chegaram ao Sinai três meses após deixar o Egito (19. após as terríveis experiências do capítulo 32. 18.

desde a infância até sua experiência com a sarça ardente. cobrindo nada menos que 400 anos. comenta: “A grande importância desse relato para as origens da ideologia religiosa de Israel é denunciada pelo fato de. Tem-se.6) e épocas em que sua presença é velada.22—19. .38 11 meses Nm 10.23. Existem épocas em que Deus está perto (Is 55. então.3—40.7.21 80 anos Êx 7. Não surge ninguém que seja destacado pelas Escrituras.1 19. Com sua vida em risco.7]).30 15. A história é tanto a respeito de Deus como de José. José dá testemunho da proteção de Deus sobre ele.13 2-15. At 7. esta é a única história preservada acerca de Moisés”. não há qualquer referência explícita à atuação de Deus (sem considerar o que fica implícito na preservação e na explosão populacional de Israel no Egito [1.utilizando-se do assassinato cometido por Moisés para abordar a questão do uso da força.11 Moisés na Infância e como Refugiado (1—2) É impossível deixar de notar a diferença entre o fim do livro de Gênesis e os primeiros versículos de Êxodo em termos de atividade divina. Esse hiato é comparável ao período entre Noé e Abraão. os sete primeiros versículos de Êxodo.2 3 meses Êx 19. Durante todo esse período. São quatrocentos anos de silêncio. Tabela 4 Capítulo Duração Referência 1 400 anos Gn 15.

não devemos passar tão rapidamente pelos sete primeiros versículos de Êxodo.14. Por causa disso. levado de volta no tempo até Gênesis 46. 15. a infertilidade muitas vezes ameaçou a concretização das promessas de Deus.8: “E estes são os nomes dos filhos de Israel.7).2) e Jacó (Gn 28. e foram fortalecidos grandemente. Note que Êxodo 1.5. os egípcios começaram a se preocupar com a presença cada vez maior de israelitas. são tão somente o cumprimento das bênçãos e ordenanças de Deus a Adão (Gn 1. ele obriga-os a trabalhos braçais absurdamente excruciantes (1. portanto.8-14). também o desconhecem. há alguém.7). ordena a execução de um plano visando solucionar a situação. A linhagem da aliança passa através do novo nome dado a Jacó em Peniel. em vez disso. não “jacobitas”.1 não começa logo após Gênesis 50. Ambas as genealogias apresentam os filhos de Jacó como “filhos de Israel”.1. e foram fortalecidos grandemente” (Êx 1. Além de o novo rei egípcio não conhecer José. A exemplo do que ocorre atualmente em alguns países. Abraão (Gn 13. convencê-los de sua posição de escravos e reduzir ao máximo qualquer possibilidade de insurreição.16. em algum lugar. pelo menos como a um compatriota. Sempre que a maravilhosa bênção de Deus é derramada.3). cujo nome não é informado.26. que vieram ao Egito”. e multiplicaram-se. a fim de descrever o crescimento de Israel no Egito (“frutificaram. Aintenção era desmoralizá-los. existem inúmeros israelitas que. 17. Em Gênesis 12 —50.28). de maneira que a terra se encheu deles”).Preservado por Deus Ainda assim. Noé (Gn 9. e multiplicaram-se. é a bênção de Deus sobre seu povo que faz com que Faraó fique preocupado. Os verbos utilizados nestes sete versículos. Aqueles que se multiplicam no Egito são israelitas.1 é. as promessas de Deus aos patriarcas continuam se cumprindo. Em certo sentido. que fica desconfortável ou se exaspera. e aumentaram muito. . 46. Durante esses quatrocentos anos. o Faraó. No Egito. O leitor de Êxodo 1. Já nos primeiros capítulos de Êxodo. Afim de impedir uma potencial fuga e descartar a possibilidade de os israelitas auxiliarem o inimigo em meio a uma guerra. mormente a promessa de uma descendência numerosa. e aumentaram muito. é a superfertilidade que se transforma em uma ameaça. nos quais a população vê com desconfiança o crescimento de minorias. “os filhos de Israel frutificaram.

ao nascer. Dt 25. Uma classe de palavras fundamental em todo o livro de Êxodo é “servo.22) são ordenados pelo xenófobo Faraó. a Bíblia identifica essas duas parteiras pelo nome. são utilizadas para a preservação do povo de Deus em meio a um sério perigo. falou incógnito a seus irmãos]. Ocorrem quase cem expressões derivadas ao longo de Êxodo.Os egípcios. e o povo se dispersaria. No texto em hebraico lê-se “parteiras hebréias”. Dessa vez. Não é possível ter certeza se as parteiras eram egípcias ou hebréias. esposa de Moisés. com todo o poder reprodutivo de suas mulheres indo parar nas mãos dos egípcios”. Zípora. o resultado foi uma resistência maior. o fato de temerem a Deus não resolve a questão. 42. ele “reduziria gradualmente a população de Israel. Um rei que luta para exterminar o povo de Deus através de várias perseguições. A única diferença é que as cinco primeiras salvam os israelitas da ira de Faraó.18). mas a maioria (sessenta e sete dentre noventa e quatro) aparece entre 1. Sifrá e Puá. descobriram que o sofrimento físico apenas fortalece essas minorias religiosas (como aconteceu com os russos.18 [José. cujo propósito é preservar seu povo. salva Moisés (ou seu filho) da ira de Jeová. Qualquer insurreição ficaria impossibilitada. na antiga União Soviética). essas duas parteiras se assemelham a outras mulheres que. Curiosamente. Subseqüentemente. à filha de Faraó e à Zípora. todas oriundas de ‘-b-d. a maligna tentativa de genocídio foi frustrada pelas parteiras. Ao comentar esse estranho decreto. que em dado momento procura matá-lo. em relação a cristãos e judeus. no texto grego.1 e 15. pois os gentios também eram capazes de temer a Deus (Gn 20. raiz hebraica usada para descrever Israel.16) e um terceiro plano (1. O segundo estratagema consiste em matar. O temor de Deus foi o suficiente para dissuadi-las de obedecer cegamente às determinações de seu superior. enquanto que a última. Elas se juntam à mãe e à irmã de Moisés. Os . nesses primeiros capítulos de Êxodo.11. Em vez de capitulação.21. Ao longo de todo esse primeiro capítulo vemos um claro contraste entre os esforços de dois reis. todo menino hebreu. um segundo (1. Seus nomes parecem ser bons nomes hebraicos (da mesma forma que “Moisés” parece ser um bom nome egípcio). Moshe Greenberg observa que. e outro Rei. deixando apenas mulheres. apesar de não informar o nome de Faraó ou mesmo dos pais de Moisés no capítulo 2 (“foi-se um varão da casa de Levi e casou com uma filha de Levi”). serviço e servir”. Ademais. “parteiras dos hebreus”. De qualquer forma. caso tivesse tido sucesso. no entanto. como um egípcio. O Faraó acreditava que as mulheres não representavam perigo à segurança da nação e para sua liderança divinizada.

“nascido de”. Seu nascimento e o nome que recebeu (2. A Bíblia (Ex 2. Moisés. “filho de”). sendo que ele foi rechaçado nessa última (2. mosheh em hebraico. Assim como José havia sido empregado de Faraó. interessa-nos o significado que as Escrituras atribuem a “Moisés”.C. 2. “Moisés”.C. de Moisés e do seu povo.primeiros capítulos de Êxodo não se dedicam tanto a questão da escravidão versus liberdade. Cada um desses acontecimentos anuncia a carreira de Moisés. nos quais-ms ou — mss dizem respeito ao verbo egípcio msy.1-10). ou ao substantivo —ms.]. portanto. ou a um Deus libertador e vivificador? Deus quer resgatar seu povo de uma servidão demoníaca para um serviço prazeroso. ao descrever o modo como Jeová faz isso. Ramsés: nomes de reis egípcios durante a décima oitava e décima nona dinastias [entre os séculos XVI a. Thutmose. O destino de Israel seria servir a um deus assassino e opressor. diz respeito à tensão em torno de seu salvamento das águas do rio.11: “Todavia. Moisés acaba como filho adotivo da filha de Faraó. “Moisés” está no particípio. dizendo: Onde está aquele que os fez subir do mar com os pastores do seu rebanho? \mosheh ‘ammô]”. Além disso. Seu nome. Sua tentativa de exercer poder de polícia e então de pacificador. Se o capítulo 1 fala sobre como Deus salvou seu povo como um todo. e XX a. apesar de ela não começar até oitenta anos mais tarde.15b-22). 3. Tanto o coletivo (capítulo 1) como o indivíduo (capítulo 2) estão nas mãos de Deus. Não obstante a relação existente entre “Moisés” e elementos verbais semelhantes em nomes de Faraós (Ahmose. mas levantam a questão de “a identidade e o caráter do mestre a quem Israel deve servir”. se lembrou dos dias da antigüidade.10) relaciona “Moisés” ao verbo hebraico mãshâ\ “tirar para fora”. . o capítulo 2 dedica-se a narrar como Deus salvou uma alma de seu povo.11-15a). Sua fuga para Midiã e conseqüente casamento (2. o significado literal de màsheh é “aquele que tira para fora” ou “o tirador para fora”. Acontecimentos Importantes na Vida de Moisés Três episódios importantes acontecem na vida de Moisés: 1. Esse significado de seu nome vem à tona em Isaías 63. Êxodo “desmistifica o suposto caráter divino do governo de Faraó”.

Posteriormente. quando ele “feriu” a rocha. O verbo hebraico por trás do que o egípcio fez ao hebreu (“espancar”) no versículo 11 é o mesmo utilizado no versículo 12 para descrever o que Moisés fez ao egípcio (“assassinou”). de forma oportuna.52). Embora agisse com boas intenções (como fezAbraão com Sara.17). riãkâ (ou seja. observa que tal princípio não é absoluto em todo o Antigo Testamento). mais tarde. experimentada por Moisés no dia seguinte. 8).35. como sugere Brevard Childs. A rejeição de seu próprio povo (2. Ao observar alguns pastores que monopolizam o acesso a um poço. No capítulo 3. Moisés volta. Dessa forma. 7) e ouviu o “clamor” (v. Deus prepara seu vaso para a missão de sua vida. Deus “desceu” (v. Ela foi tocada por aquilo que viu e ouviu. matar por espancamento). ambas as partes estariam em maior número. Ele colocou-se entre um egípcio e um hebreu. O homem de Deus seguiu seus instintos naturais. ela “desceu”. Moisés se lança em seu auxílio (2. “viu” e ouviu o bebê “chorar”. a assumir o papel de árbitro.20. . A importância das ações da filha de Faraó é salientada na medida em que os verbos relacionados a ela no capítulo 2 são idênticos aos relacionados a Deus no capítulo 3. O mais importante. riãkã)\ observe 7. Moisés não é apenas quem ele é. Eis aqui uma ilustração da importância atribuída ao nome pelos hebreus (Barr.5. Antecipa. Ele deve “tirar” seu povo do Egito e levá-los até Canaã. Deus iria fazer a todos os egípcios (3.Assim como acontece a Jacó. 12. Na terra de Midiã (Arábia). Deus foi tocado por aquilo que viu e ouviu. impedindo que sete mulheres ti- • rem sua parte de água.11.12).6. também. também no Egito). viu algo (v. em que Moisés “feriu” o Nilo com sua vara. “prenuncia a truculência e a ingratidão que Moisés enfrentaria com aquele povo décadas mais tarde”. mas também o que ele é.20.12). 9) de alguém. Mais uma vez Moisés age em prol de indivíduos incapazes de se defenderem por conta própria. Seu nome é sua missão. No capítulo 2. é que aquilo que Moisés fez a um egípcio. Moisés fez justiça com as próprias mãos ao assassinar o egípcio que feria seu parente (2.14). Nesse episódio. a rejeição que sofreria aquele que é maior que Moisés (At 7. contudo. Com Abraão. Moisés volta a desferir alguns poderosos golpes (mais uma vez. e 17. contudo. interessa-nos observar Moisés no papel de defensor do oprimido.

as semelhanças entre as histórias de Moisés e José são esclarecedoras. e os anjos que apareceram diante de um grupo de pastores. Moisés. vai de príncipe a escravo. Primeiro em uma snh (capítulo 3). Como afirmou Kunin. quando Moisés canta que Deus era “[aquele] que habitava na sarça (ardente)”. conforme os desígnios de Deus. Semelhanças entre as Experiências de Moisés e Jacó Muito do que acontece a Moisés é semelhante às experiências de Jacó.1-6). Deus apareceu a Moisés de forma incandescente. Falando em lugares inesperados. Deus costuma aparecer nos locais mais inesperados. entre outras coisas. ou sarça. Ambos são irmãos mais novos que. na hora certa.Deus falou diretamente. para fazer a coisa certa. O Encontro entre Deus e Moisés (3-5) Em função desses acontecimentos e antes do comissionamento de Moisés. substituem um irmão mais velho: Jacó com Esaú e Moisés com Arão. com uma outra palavra hebraica para “arbusto”. No caso de Jacó. como em uma sarça. enquanto Moisés está relacionado a catástrofes que trazem destruição ao Egito. enquanto Moisés viveu por décadas entre eles e casou-se com uma mulher de Midiã. a palavra de Deus foi anunciada à sua mãe. As ações de José levam Israel ao Egito. Ambos se envolveram com midianitas: José foi levado por eles ao Egito. Foi próximo a um arbusto que Ele apareceu para Agar (Gn 21. depois no sny (capítulo 19). O termo hebraico para “sarça” (seneh) só aparece no Antigo Testamento aqui e em Deuteronômio 33. José vai de escravo ao segundo maior posto da nação. fazendo um importante anúncio. no sentido oposto. sobre seu primeiro encontro com Deus na sarça ardente! Essa palavra hebraica soa e faz lembrar a palavra “Sinai” {sny e snh). enquanto que Moisés. . Quão oportuno que as últimas palavras de Moisés registadas nas Escrituras sejam. que apareceu pela primeira vez a Moisés. é lançado na arena da experiência. José salva o Egito de uma catástrofe. síah) e foi em um arbusto. ocorre o episódio da sarça ardente (3.16. José obteve algum entendimento acerca de seu futuro. a fim de fazer um importante anúncio (Lc 2. talvez seja possível estabelecer uma analogia entre o anjo de Deus que apareceu no meio do nada para o pastor Moisés. por sua vez.15. enquanto as ações de Moisés tiram Israel do Egito. Por duas vezes. no meio do nada.8-20). Ele está no lugar certo. Por meio de dois sonhos.

destaca o comportamento criminoso de cada um. em ambos os casos.15b-27). e Moisés ao usurpar a posição de mediador. Deus. Em um determinado momento. ou os dias imediatamente subseqüen-tes.7-10). . e Moisés em Midiã. enquanto Moisés. ao aproveitar-se de Esaú. já a Jacó é sucedida por um casamento (Gn 29. ao matar o egípcio. é deixado à deriva em uma cesta. e Moisés. Os dois haviam agido em desacordo com a vontade de Deus: Jacó. Êx 2.2-10. “E [Jacó] temeu” (Gn 28.21). “E Moisés encobriu o seu rosto. Pelo contrário. A iniciativa do encontro. Nada estava mais longe de seus pensamentos do que Deus. a primeira reação é o medo. pertence inteiramente a Deus. No âmbito humano. a conseqüência é um exílio forçado. em ambos os casos. Posteriormente. fugitivo de sua própria casa. Moisés estava deixando o tempo passar e ficava observando as ovelhas mastigando a relva. o primeiro cenário de seus futuros casamentos tem lugar em um poço (Gn 29. em nenhum dos episódios.28). Deus confronta o transgressor: Jacó por meio de um sonho.6). a teofania de Deus a Moisés é precedida de um casamento (Êx 2. a palavra que cada um recebe é animadora e estimulante (Gn 28.17). os locais de cada manifestação divina tornaram-se sacrossantos: Betei e Sinai / Horebe. e nenhuma outra pessoa estava presente. Jacó vem ao mundo agarrando o calcanhar de seu irmão. porque temeu olhar para Deus” (Êx 3. Para ambos. Mais uma vez. e Moisés através de uma sarça ardente. Os dois homens sentem medo por causa da culpa. durante esse exílio.O nascimento de ambos. aos três meses de idade. Segundo o relato. Ambos conseguem irritar um irmão: Jacó através do logro. Nenhum dos textos indica que qualquer um deles estivesse ativamente buscando a Deus. Cada casamento é consumado enquanto o marido se encontra em uma terra estranha: Jacó em Padã-Arã. passam-se em meio a circunstância incomuns. Jacó era um refugiado.13-15. Êx 3.

1921).1-6) Intervalo Gn 29.21 Êx 3. Inexpressividade-. O que Labão é para Jacó. Faraó é para Moisés.23).. Por causa disso. seguido por um segundo encontro.7) Moisés Tenta Esquivar-se de Deus Longe de sentir-se encorajado com sua experiência na sarça ardente. No caso de Moisés.1). Faraó escarnece dele e do seu Deus (5.2).11) Ignorância'. seu primeiro encontro com Deus é. Betei é seguido por Peniel.22. nem ouvirão a minha voz.. “Quem sou eu. o próprio povo de Moisés volta- se contra ele (5.] e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?” (3. “Ah! Senhor! Eu não sou homem eloqüente [.4-18).22 Jacó em Peniel (Gn 32. Primeira Teofania Jacó em Betei (Gn 28. ocorrem intervalos não tão bem sucedidos ou espetaculares. Note que.22. que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel?” (3.7). “Eis que quando vier aos filhos de Israel [.Na vida de Jacó e Moisés. Moisés inventa uma série de desculpas que ele acredita desqualificá-lo como escolha de Deus. Jacó é enganado e só consegue escapar de seu sogro por meio de uma artimanha. “Então. respondeu Moisés e disse: Mas eis que me não crerão.13) Incredulidade-. Quem sabe Deus cometeu um erro de julgamento! Suas desculpas são: Incapacidade {ou autodepreciaçãó)'.1- Segunda Teofania 32) 7. após algum tempo. Moisés no Egito (Êx 6. Ao solicitar a libertação a Faraó. levando-o quase ao desespero (5.] porque sou .7—5.. Moisés também precisou de uma palavra de confirmação da parte de Deus (Êx 6. porque dirão: O Senhor não te apareceu” (4.1—32. entre essas experiências de revelação divina..10-22) Moisés em Midiã (Êx 3.1—7. este reage aumentando a carga de trabalho dos hebreus (5. Para Jacó.

mas “A quem pertenço?” (Conforme o que afirma o apóstolo Paulo: “Porque.. Para decepção de Moisés. nota-se que ele considera seus próprios recursos. E.12b). não posterior. mas um sinal tangível. visto que já estavam há tanto tempo refugiados no Egito. esta mesma noite. com correção.23]). Insubordinação'. E também utilizada com pessoas que enfrentam um sério perigo ou cuja chance de fracasso é grande. Talvez não seja incidental o fato de as Escrituras jamais registrarem alguém fazendo essa pergunta.10). O que ele deseja é um sinal antecipado. Mais provavelmente. ou prestes a assumi-la. frisa que ela é predominantemente utilizada com pessoas em posição de liderança. para corrigi-lo e refutar sua primeira desculpa. comenta: “O avanço do diálogo é mais visceral que racional”. sem contar com os recursos de Deus. . Como garantia. o anjo de Deus. para Moisés. D.pesado de boca e pesado de língua” (4. Deus retorque a cada escusa apresentada. como em um tipo de teste para validar seu ministério entre eles. contudo. Isso significa que. esteve comigo” [At 27.. ele estava preocupado com a possibilidade de lhe pedirem para identificar pelo nome o Deus que o enviou. jamais se pretendeu que ela significasse uma “garantia incondicional de segurança do status quo [. o Deus com quem ele conversou já estava acostumado à desculpas semelhantes. Ignorância. Gowan. “Ah! Senhor! Envia aquele que hás de enviai. Deus diz: “Eu estarei com você” (Ex 3. Childs.13 — ARA). a principal questão não é “Quem sou eu?”. Incapacidade. Felizmente para Moisés. Moisés previu que lhe seria perguntado algo que não saberia responder. Pode ser que tal preocupação tivesse sido motivada por suposições quanto à possibilidade de o nome de Deus ter sido apagado da memória dos hebreus. Deus não considera as preocupações de Moisés inválidas. não apenas a palavra do Senhor. Assim sendo. em um fascinante estudo dessa expressão (“Eu estarei com você” / “o Senhor estava com ele”) no Antigo Testamento. de quem eu sou e a quem sirvo. o sinal se tornaria evidente somente após ele arriscar a própria vida (3. Deus provê um “sinal” (3.12a). Nas várias respostas de Moisés. Logo.12 — NVI). Apesar disso. menos a mim” (4.] (ou) fosse uma expressão comum utilizada em relação a um bem-estar geral”.

podemos citar Êxodo 4. uma humilhação para Moisés. se levantou Davi com os seus homens [. Jeová. assim como Jacó (Gn 32. Para exemplificar. Da mesma forma. ou como ele é muitas vezes chamado. Êxodo 33. “Porque eu.14). por exemplo. E enorme o número de estudiosos que já trataram dessa questão. Em 1 Samuel 23. menos eu”. onde se lê: “Envia aquele que hás de enviar” (ARA). Na sintaxe hebraica. E exatamente isso que encontramos aqui: “Eu sou o que Sou” (3. com o orador no primeiro e o narrador no segundo. vemos expressões deliberadamente genéricas.25. Gordon e C. C. A mesma expressão pode transmitir não apenas indeterminação.Em resposta. Martin Noth observa: “O tipo de indefinição expressa deixa um grande número de possibilidades em aberto (‘Eu sou aquilo que quiser ser’)”. que. ou seja. significa que o Senhor não pode ser silenciado ou sua palavra abafada. Isbell) estudiosos defenderem que essa frase está na terceira pessoa e não na primeira pessoa. . Ezequiel 12.14.6). “envie qualquer outro. existem duas traduções possíveis. a tradução no versículo 14 de ’ehyeh \âshèr ’ehyeh é “eu sou o que sou”. quando o verbo da oração subordinada é o mesmo da oração principal. mas veemência. Qual o significado da resposta de Deus? Seria uma evasiva. lemos literalmente: “Então. Via de regra. de modo que deveria ser lida como “Ele é o que Ele é”. apesar de uns poucos (como.. Ao comentar sobre essa expressão em Êxodo 3. não expressa indefinição. H. Nesses dois exem- pios. “ser”. Sua palavra é imutável e indelével. e a palavra que eu falar se cumprirá”. escrevi” (Jo 19..22). falarei. surge o nome do próprio Deus. por exemplo.] e foram-se aonde puderam”. o Tetragramaton (ou seja. o tetragrama formado por quatro letras hebraicas:y-/i-w-/i). “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem me compadecer”.13. mas também veemência e realidade. E uma resposta suficiente e satisfatória para que Moisés atenda ao povo no caso de a questão ser levantada. Um texto neotestamentário semelhante pode ser encontrado na palavras de Pilatos: “O que escrevi. o Senhor. Para os principiantes. podemos definiry-h-w-h como a terceira pessoa do singular do verbo h-w-h.13.29) ou a mãe de Sansão (Jz 13. ou seja: “ele é” ou “ele será”. não tinha direito algum de indagar sobre o nome sagrado? O argumento apresentado no versículo 14b (“Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós”) demonstra que não se trata de uma evasiva.19. “foram para onde puderam ir”. ou seja.

ainda que em meio à confusão que havia no Egito. negou um dom que Deus . E visto que ele é. portanto. o Deus que revela seu nome a Moisés em Êxodo 3 e 6 toma o cuidado de proibir seu uso errado em Êxodo 30 (v. mas o que acontece se a pessoa também precisar falar e temer ficar com a língua presa ou confundir as palavras? Poderiam alguns tropeços verbais destruir os bons efeitos dos sinais sobre o povo? E interessante observar que Estevão fala sobre um Moisés “instruído em toda a ciência dos egípcios e [. o sujeito da oração subordinada deve concordar em gênero e número com a oração principal. George Knight comenta: “Deus precisou sacudir de Moisés seus raciocínios egoístas. mas não sem antes dar um alerta. Ainda assombrado pela possibilidade de ser rejeitado. Moisés precisou aprender que ninguém menos que Deus o chamava para fazer coisas absurdamente difíceis”. Incredulidade. não passa de um conectivo que liga a oração principal à subordinada. ou seja. uma mão é tomada pela lepra e então curada. que eu realmente estou”. Moisés recebeu três sinais de Deus para comprovar seu chamado divino: uma vara é transformada em cobra e então novamente em vara. o termo equivalente a “Eu sou o que Sou” seria “Eu sou ele que é”. Sendo assim.2 literalmente diz: “Eu sou o Senhor. Logo.. “Eu sou o que Sou” significa que “eu estou (com você.Nesse sentido. conhecer o nome de alguém implica em poder honrar ou desonrar esse nome. Parte dessa nuança é aventada pela tradução da Septuaginta. em hebraico. que traz “Eu sou aquele que é”. enfatiza. teu Deus. O povo de Deus é mais difícil de lidar que os inimigos do Altíssimo. ao ser derramado na terra. É claro que na sintaxe da língua portuguesa o “que” já bastaria como sujeito do verbo. devem ter sido assustadores.2-9). Exodo 20. Voltando à sintaxe hebraica. Contudo. um copo cheio de água do Nilo. ou o que Moisés demonstrou foi uma falsa humildade. Inexpressividade. O fato de Deus revelar seu nome a Moisés indica a impossibilidade de poder haver um relacionamento significativo com alguém cujo nome não se conhece.22). mas.. Moisés sugere que sua credibilidade será atacada por seu próprio povo. que [Eu] te tirei da terra do Egito. ao menos para Moisés.] poderoso em suas palavras e obras” (At 7. Ou Estevão está deliberadamente exagerando em sua exposição. onde quer que você esteja). 7). Deus se dispõe a assumir esse risco. Os dois primeiros. como Terence Fretheim. da casa da servidão”. ele está sempre presente. Em conseqüência. transforma-se em sangue (4. Uma coisa é realizar atos miraculosos.

Em seguida. sugerindo que Arão seja o representante de Moisés.2 cita Jerusalém como uma “cidade sanguinária” (literalmente “cidade de sangue [s]”). Por que Deus procuraria matar Moisés logo após chamá-lo? Na frase “o Senhor o encontrou e o quis matar”.7. o plural de “sangue”. Antes de chegar a seu destino.8). o que justificaria seus temores. Ezequiel 22. lemos uma menção à “casa sanguinária” de Saul (literalmente “casa de sangue[s]”).efetivamente lhe dera. qual dos dois? Como Zípora. As credenciais de Arão? “Eu sei que ele falará muito bem” (4. aos pés de quem ela lançou? Seriam os pés de Moisés. Moisés encontra-se com o Senhor. Tentar. Assim. Salmos 55. precedido por um nome a ele associado em construto e designando um indivíduo ou um grupo de pessoas. sabe como reagir prontamente naquela situação? Na frase “e o lançou a seus pés”. Como bem? Pelo menos suficientemente bem para reunir apoio e recursos para a apostasia do bezerro de ouro (Ex 32)! Satisfeito por Deus tê-lo ao menos suprido de um assistente. que tenta matá-lo. O esforço de Moisés em evitar suas responsabilidades chegam ao clímax em sua quinta objeção: “Manda outra pessoa”..] procurou matá-lo” seja uma forma ancestral de dizer que Moisés ficou gravemente doente (para objeções a essa interpretação. que Moisés de fato sofresse de algum tipo de problema na fala (Tigay). simplificar . Deus.14). literal e curiosamente. “jamais implica em nada além de atos e intenções maléficas”. Moisés volta até seu sogro para dizer adeus (um tanto diferente da separação entre Jacó e Labão!) e segue para o Egito. do filho ou do agressor celestial (a ARA substitui abertamente o “o” por “Moisés”)? Que devemos entender quando Zípora fala: “me és um esposo sanguinário” (NTLH: “um marido de sangue”). Em 2 Samuel 21.10). Pode ser. Insubordinação.23 fala sobre “homens de sangue” (veja também Pv 29.. Deus cede aos seus desejos. quem é o “o”? Seria Moisés ou um de seus dois filhos? Caso fosse um filho. no entanto. É possível que a frase “o Senhor [. “Tu és um genro/esposo sanguinário”? Como comenta Frolov. Tal expressão seria análoga a “o Senhor endureceu seu coração”. (Moisés ou o primogênito de Moisés?) A passagem é extremamente confusa. leia o comentário de Childs). De modo relutante. uma midianita. Tanto a doença como o ato de desobediência estão subordinados a uma causa fundamental. lemos o mais estranho acontecimento narrado no livro de Êxodo.1. contudo. Simei amaldiçoa Davi e o chama de “homem de sangue(s)” (2 Sm 16.

uma interpretação dessas destrói qualquer analogia com as passagens anteriores “procurou/tentou” em Êxodo. sendo usadas por Deus para livrar e preservar seu povo.24: “o Senhor o encontrou [Moisés] e o quis /procurou/tentou \bãqasfí\ matar. Graças à ação rápida da esposa. circuncidando-o. Zípora assemelha-se a Raabe e Rute: três mulheres gentias que demonstram grande sabedoria e coragem. Se ela não tivesse tomado uma atitude. 4. A circuncisão é uma ordenança divina. A história claramente enfatiza a importância da circuncisão como um sinal da aliança.a frase. ao não agir como sacerdote para com seu próprio filho. Moisés (ou seu filho) seria morto. de tão envolvido com a congregação. Nas palavras das duas últimas linhas de Cantares 1.19: “volta para o Egito.6: “me puseram por guarda de vinhas. obviamente. Além disso. aparentemente por negligenciar a circuncisão de um de seus filhos (seria Gérson. soa a uma arbitrariedade exagerada para com o idioma. o qual salva Israel da ira divina. ao salvar Moisés (ou seu filho) da ira de Deus. negligencia sua própria família. a vinha que me pertence não guardei”. porque todos os que buscavam /intentavam /queriam. Se Moisés não orasse e implorasse pela misericórdia de Deus. Tamanha ira poderia ser justificada tanto pela falha de Moisés. Não se trata de um ritual a ser realizado conforme a conveniência do momento. Deus decidiu fazer no capítulo 4. 4. O ministério junto à família tem .15: “Faraó procurou/tentou [bãqash] matar a Moisés”. forçando o entendimento de alguma enfermidade física e nada mais. Moisés é atacado pelo Senhor. onde. Na primeira possibilidade. Em outras palavras. Fretheim comenta que Zípora. prenuncia o ministério de intercessão de Moisés (capítulo 32). Moisés (ou seu filho) é salvo. Zípora reage automaticamente: circuncida seu filho com uma pedra afiada e toca os pés de alguém (seria isso um eufemismo para genitália?) com o prepúcio. o que Faraó decidiu fazer com Moisés no capítulo 2. o mais velho?). trata- se do clássico caso do ministro de Deus que. Não se pergunta ao adorador se ele acha isso apropriado e importante. o sentido não é esse: 2. o povo de Israel seria morto e Deus começaria tudo outra vez com Moisés. [bãqash] a tua alma morreram”. como por seus insistentes esforços para escapar da vontade de Deus em sua vida ao longo dos capítulos 3 e 4.

o Senhor livra. em 12. o juízo é causado por uma violação dessa aliança. Como mediador da aliança.43-49). Jacó estava na expectativa de se reconciliar com Esaú. e a Páscoa. procura matar Moisés. em Êxodo 4. prenuncia a libertação de Israel do Egito. comissiona e. então.25. logo em seguida. existem outros temas análogos em Gênesis e Êxodo. encoberto pela escuridão. 12. por exemplo. A presteza de Zípora salvou Moisés e a intercessão de Moisés salvou os israelitas. livra. Em ambos os casos. como poderiam vocês?’” A utilidade da narrativa. a agilidade de Zípora salvou Moisés de Deus.26. Zípora “lançou” o prepúcio aos pés de Moisés ou de seu filho. em ambos os casos o sangue derramado protege alguém da ira de Deus. a circuncisão tem um papel fundamental (4. acima de tudo. Gordon comenta: “Ele tem o objetivo de alertar os judeus de todas as gerações: ‘Não deixem de circuncidar seus filhos! Se nem Moisés conseguiu fugir disso. Toda tentativa de se traçar distinções rígidas entre a aliança com os patriarcas e a aliança firmada no Sinai acaba neutralizada pela correspondência entre as obrigações de Moisés e Abraão. ataca alguém que está desprevenido.25. também com derramamento de sangue.24. Moisés estava voltando ao Egito para reunir-se com seus compatriotas e enfrentar Faraó. E. O sangue ali derramado.22. De forma semelhante. C.10). Assim como a atitude astuta de Raquel salvou Jacó de Labão. O Senhor. As correspondências entre esse incidente. Já vimos anteriormente que a circuncisão era o sinal da aliança especial comAbraão e sua semente (Gn 17). exterminar seu povo (Êx 32. H. em Êxodo 12. Knight levanta algumas questões interessantes: “Será que Zípora compreendia esse aspecto da aliança melhor que seu marido? . A aliança de Deus com Abraão incluiu Moisés na qualidade de filho de Abraão. são por demais interessantes. Ambas utilizam o verbo “lançar” (nãga")\ em 4. contudo. enquanto. Greenberg relaciona as temáticas desse relato e da experiência de Jacó em Peniel.8. Moisés precisa cumprir em si o sinal da aliança.29). comissiona e procura. que resultou no livramento de Moisés. 12. A respeito desse incidente. Ambos acontecem à noite (4. Um agressor divino.precedência sobre o ministério para com a congregação. Em ambos.12. vai além de uma lição com fins práticos para as gerações vindouras. a circuncisão feita por Zípora identifica Moisés e seu filho como pertencentes à descendência de Abraão. as pessoas devem “lançar” um pouco de sangue nas vergas e ombreiras das portas de suas casas. Para esse episódio. Além do mais.

Como seria de se esperar.10).28. ele se acha à beira da morte (4. as palavras na sarça ardente confirmariam a vocação de Moisés. de modo que seu marido havia desonrado tanto ela como a Deus? Seria possível que ela. Um Faraó anterior não “conhecera” José (1. Após um difícil diálogo com Deus (3.3. é obstinado. novamente verificada em alguns salmos de lamento (SI 73. há um momento de alívio (4.18-26). um dia o povo diria: “Hosana”. Diante de um outro libertador.17). Falar ao Faraó é uma tarefa muita mais grandiosa que falar ao seu próprio povo .27-31).3). Em seguida. e então. A Confirmação do Chamado de Moisés (6) Assim como o chamado de Jacó foi confirmado em Peniel (Gn 32. intuitivamente. os hebreus ficam profundamente ressentidos com seu suposto libertador (5.19-21). no dia seguinte: “Crucifica-o!” Observe a aspereza das palavras de Moisés para Deus nos versículos 22. Ele é totalmente indiferente aos apelos de Moisés (5. 20.4-18).1-6. tivesse compreendido a gravidade da revelação de que não há redenção sem o derramamento de sangue?” Pelo menos no curto prazo.23. a carga de trabalho exigida dos hebreus foi aumentada de maneira absurda (5. quando Moisés é recebido de volta e se reúne com todo o povo em um culto de adoração e louvor. Sua declaração parece ser uma combinação de desafio e ignorância. as antigas objeções não haviam morrido (Ex 6. são impedidos de “conhecer” Jeová como Jeová. Ao afirmar: “Não conheço o Senhor”.7).16-18. tal qual os patriarcas que.Cria ela que a união de um homem e uma mulher em aliança refletia a importância da própria aliança divina. no entanto. conforme 6. conhecia-o como um divino agressor. Ele já havia conhecido a Deus em meio a um debate. repúdio. O Faraó. por exemplo) e nas “confissões” de Jeremias (Jr 12. 15. a vida de Moisés não se tornou nem um pouco mais agradável. Na primeira troca de convites e recusas.30). Faraó quer dizer que não reconhece sua autoridade.12. ele dá início a uma tradição de dizer a verdade em oração. agora.8) e aquele Faraó não “conhecia” Jeová como Jeová. Moisés havia enfatizado suas próprias incapacidades. Sem dúvida. 35. Em sua raiva e perplexidade.1— 4. Que mudança de ânimo! Num dia. lisonja: no outro. Para piorar tudo.

que farás na floresta do Jordão?” [ARA]) Moisés continua por demais concentrado em resultados.1). Tabela 5 Resposta Versículo “Eu sou o Senhor” 6 1. o Senhor. também vemos o nome Jeová (por exemplo. Veja a tabela 5. Uma fica em Êxodo 6.32.1)? Existem ainda passagens que indicam certa familiaridade com o Senhor.8. Esse capítulo traz pelo menos duas questões cruciais. acompanhados por dois “eu sou”. e a Isaque. como Gênesis 12. Eva é o primeiro personagem de Gênesis a usar esse nome para Deus (Gn 4.27. mas pelo meu nome. “Eu vos tirarei” 6 Redenção 2. e a Jacó.22. era isso que o inquietava. Ele havia falhado ao falar com o povo. Gn 14. naquela altura. Deus responde a isso com sete animadores “eu farei”. logo. como por exemplo Gênesis 15. não lhes fui perfeitamente conhecido”. como poderás competir com os que vão a cavalo? Se em terra de paz não te sentes seguro.3: “E eu apareci a Abraão. 22. o Senhor disse a Abrão” (Gn 12.e. “Eu vos resgatarei” 6 .5: “Se te fatigas correndo com homens que vão a pé. O nome “Jeová” aparece sozinho ou combinado a outras palavras por 148 vezes em Gênesis. sendo que.7: “Disse-lhe mais [a Abraão]: Eu sou o Senhor”? E quanto às passagens na qual o narrador descreve o Senhor falando a Abraão como Senhor: “Ora. No discurso de Abraão. 15.31. na maioria das vezes.2.8: “edificou ali um altar ao Senhor e invocou o nome do Senhor”.30. “Eu vos livrarei” 6 3. como poderia passar sua mensagem a Faraó? (como em Jr 12. O que dizer daquelas passagens em que Deus se identifica para os patriarcas exatamente por esse nome. no discurso do narrador (noventa e seis vezes). 18.14). como o Deus Todo-poderoso.

Pode simplesmente ser uma forma de o Senhor dizer a Moisés que os patriarcas jamais compreenderam plenamente o significado do nome de Deus. “Eu vos tomarei por meu povo” 7 Adoção 5. por atos de poder e misericórdia. o conheciam. conforme a tradição sacerdotal (P). que se revelara às gerações anteriores como ’E1 Shadday (Deus Todo- poderoso). Não se justifica sugerir a existência de tradições conflitantes em Israel quanto à primeira vez que o povo de Deus o conheceu como Jeová: se nos dias dos patriarcas ou mesmo antes. sugeriu que as narrativas de Gênesis foram produzidas por contadores de história jeovistas que transformaram e reformularam tradições não jeovistas em um contexto jeovista. ao libertar de forma maravilhosa toda a nação de Israel”.4.6)? Além do fenômeno de Gênesis. Gleason Archer afirma: “Êxodo 6J3 ensina que Deus. Mas será que Moisés. “Eu serei vosso Deus” 7 6. “Eu vo-la darei por herança” 8 —► “Eu sou o Senhor” 8 Não se justifica. por exemplo. supor que todas essas passagens sejam categoricamente contraditórias a Êxodo 6. Moberly. “Eu vos levarei à terra” 8 Assentamento 7. seus pares e sucessores compreenderam o significado desse nome? Será que tamanha reviravolta teria de aguardar até que Jesus pudesse dizer: “Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste” (Jo 17. Eles. conforme a tradição jeovista (J). existem outras possíveis explicações para a afirmação de Êxodo 6.3. . ou se na época de Moisés. revelava-se agora à geração de Moisés como um Jeová zeloso de sua aliança. usavam e reconheciam como um vocábulo. sem a menor dúvida. no entanto. compilada muitos séculos após J.

é um anacronismo.20) Moisés e Arão são. Será que quatro gerações são o bastante para se cobrir quatro séculos? Além do que. Eslinger destaca que. antes de Êxodo 5.41. mas o que aqueles diriam se tivessem vivido na época dos que contam as histórias.23.2.16) I Coate (6.13 e “quatro gerações” em Gênesis 15. Em especial. conceitos ou idéias em Gênesis. afirma que José viveu o suficiente para ver seus bisnetos (José. portanto. A segunda questão crítica é a genealogia apresentada em Êxodo 6. quer pelo narrador quer por qualquer dos personagens. Essa solução. Êxodo 1. Os escritores não registraram as exatas palavras dos personagens.16. não se menciona que indivíduo algum “conheça/desconheça” Jeová. Gênesis 50. tataranetos de Jacó. abre a porta para interpretações semelhantes de outros nomes.14-27.40.14) Levi (6. Figura 4 Jacó (6. interessa-nos a linhagem de Moisés eArão. Efraim.6 fala claramente que a morte de José precedeu o nascimento de Moisés.16) ! Anrão I Moisés e Arão (6. de forma que ninguém em Gênesis literalmente “conhece” a Jeová. quatrocentos anos em Gênesis 15. Em outras palavras. Esse período de tempo é dado como 430 anos em Êxodo 12. Veja a figura 4. Essa quarta geração estava tão distante de Jacó como . passaram- se quatro gerações entre a descida ao Egito e o êxodo. Maquir e crianças cujos nomes não são mencionados). embora possível. a utilização de “Jeová/Senhor” em Gênesis.Portanto. entretanto.

A Feminist Companion to Exodus to Deuteronomy. Existem duas respostas possíveis. Num e Josué.Moisés eArão e. Por exemplo. “Divine Character and the Formation of Moral Communities in the Book of Exodus”. Esse último fato confirma a seletividade de Êxodo 6. 1993. É interessante que essa genealogia fale sobre os filhos deArão (v. Ladã. Davies e M. ed. é sucedido por Josué. J. em The New Interpreters Bible. Jerusalém: Magnes. Uma é a suposição de que a genealogia de Moisés eArão. JSOTSup n° 207.: Liturgical Press. provavelmente. 1 Crônicas 7. Birch. . Minn. The Servant of Yahweh. The Feminist Companion to the Bible n° 6.20-29 relaciona (José) Efraim. W. 1972. S. 1998. em Êxodo 6. pp. Taã. Elisama. U. Sheffield: Sheffield Academic Press. Amiúde. M. Nashville: Abingdon. pp. Cassuto.14-20. 675-981. Binz. B. cuja origem remonta a Levi. nada é dito sobre a progênie de Moisés. Beegle. D. Tela. The God of Freedom and Life: A Commentary on the Book of Exodus. ITC. Este. 25). Go Out andMeet God: A Commentary on the Book of Exodus. e não completa ou contínua. é seletiva. Sheffield: Sheffield Academic Press. cuja origem remonta a José. C. Além disso. Editado por L. 23) e sobre um de seus netos (v. G. mas profetas enviados não. “Exodus”. Rogerson. A. em The Bible in Ethics: The Second Sheffield Colloquium. A Commentary on the Book of Exodus. Isso não seria incomum nem na Bíblia nem em outras obras do mundo mediterrâneo (leia Kitchen). Moses. 119-135. Vol. Brueggemann. de onde Deus tira seus líderes com base na hereditariedade. eram mais novos que Moisés eArão. Principais Comentários e Estudos sobre Êxodo Ashby. Daniel Carroll R. Grand Rapids: Eerdmans. 1967. existem outros trechos das Escrituras que apresentam um mínimo de dez gerações entre José e Josué. Apesar disso. Editado por J. Keck e outros. Brenner. Resefe. Não temos aqui o surgimento de uma casta. 1993. Refa. W. 1994. E.14-27. Reis e sacerdotes sim. Grand Rapids: Eerdmans.. 1995. 1. Collegeville.

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O ato salvífico de Deus: libertação do sofrimento (capítulos 1—14) a) O sofrimento (capítulos 1—11).21) II.5 Revelação Divina (20.1-21) III. 17.22-27.2) III. .18) 6 Veneração Divina (25.1- 7). b) A libertação (capítulos 12—14).38) I.27) a) Da sede (15. A reação do homem em louvor (15. A ação de Deus: preservação (15.22—18.22—19. Rumo ao Sinai (15.1—40. No Egito (1.3—40.1—24.38) I. No Sinai (19. II.1—15.

] para que saibas [Faraó] que não há outro como eu em toda a terra" (sétima praga).14: “Enviarei todas as minhas pragas [.10: “Para que saibas [Faraó] que ninguém há como o Senhor.7: “E sabereis [Israel] que eu sou o Senhor. 7.2: “Para que contes [Moisés e Israel] as coisas que fiz no Egito e os meus sinais que tenho feito [o Senhor] entre eles [os egípcios]: para que saibais que eu sou o Senhor" (oitava praga).21 Essa parte de Êxodo dedica-se principalmente à descrição das pragas enviadas por Deus ao Egito (7.29: “Estenderei [Moisés] as mãos [. A principal palavra aqui é “conhecer/saber”.7 As Pragas. vosso Deus”. Como preparação. não vos ouvirá” (7.10. 12. nosso Deus” (segunda praga).22: “Para que saibas que eu sou o Senhor no meio desta terra” (quarta praga). 7.2): “Não conheço o Senhor”.. Ela aparece em: 6. a Páscoa e o Êxodo ÊXODO 7. Moisés recebe de Deus essa espantosa palavra: “Eis que te tenho posto por Deus sobre Faraó” (7. para que saibas que a terra é do Senhor” (também na sétima praga).1).17: “Nisto saberás [Faraó] que eu sou o Senhor” (na primeira praga). Deus também diz: “Faraó.29-32) e ao êxodo do Egito via mar Vermelho (ou de juncos). E antes de qualquer euforia. porém. .5: “Os egípcios saberão que eu sou o Senhor”.14—11.. 10. 8. 9. Um Deus a quem não dariam ouvidos! As Pragas A função das pragas diz respeito à palavra de Faraó (5.] e não haverá mais saraiva.4).1—15.. 9. 8..

portanto. quando for glorificado em Faraó. 12. ela aparece em um ambiente em que a liberdade foi há pouco perdida ou está a ponto de ser substituída por prisão e opressão.27.16. a exceção à raridade verificada fora de Êxodo é Ezequiel. 13. em Êxodo. 14.12. a expressão ocorre muitas e muitas vezes.6.18: “E os egípcios saberão que eu sou o Senhor. não por ouvir falar. Israel iria “saber” que ele era o Senhor Deus através de sua miraculosa provisão. nem tenciona fascinar o governante egípcio com uma exibição de milagres. A diferença entre o uso dessa expressão nesses dois livros é que. São. Dentre esses. e nos seus cavaleiros”. 60. como vemos em 16. No restante do Pentateuco. 14. no qual Deus usa a expressão ao se dirigir a Ciro.20.16. sendo que a maioria diz respeito à audiência do profeta: os exilados de Judá (por exemplo.14. As pragas não são uma vingança contra Earaó.23.4: “E serei glorificado em Faraó [.13.4.12.23).] e saberão os egípcios que eu sou o Senhor” (na travessia do mar). 49. rei da Pérsia. Ez 5.6.3. J1 2. o mais semelhante aos versículos que dizem respeito a Faraó é Isaías 45. a qual Faraó é convidado a fazer.9. contextos diametralmente opostos.28. ela é utilizada em um contexto de confinamento e opressão que está a ponto de dar lugar à liberdade. E estabelecida uma estrutura com fins didáticos.26..3. a expressão só volta a aparecer em Deuteronômio 29.7: “Para que saibais [Moisés e Israel] que o Senhor fez diferença entre os egípcios e os israelitas” (décima praga).13: 6. E claro que. Já em Ezequiel. seu uso é esporádico (1 Rs 20. Fora do Pentateuco.21. 11. 3. O Propósito das Pragas Essa ênfase no conhecimento do Senhor alça as pragas para além de sua função de castigar severamente. O propósito divino é fazer com que Faraó e seu povo — para não mencionar os israelitas — passem efetivamente a conhecer o verdadeiro Deus. Nesse livro. Is 45. Essa é a escolha que precisa ser feita. Os 2. e nos seus carros. 7. nos . No Antigo Testamento. de forma que o conhecimento seja transmitido através de observações e experiências pessoais..17).15.7.9.27.11. Conhecer ao Senhor como Senhor significa reconhecer e se submeter a sua autoridade. esse vocábulo segue sendo utilizado ao longo de Êxodo.10. Além desses trechos. O Senhor não tem a intenção de deixar no Egito um Faraó arrasado e destruído.14. No deserto.

capítulos finais, não vemos nada sobre Faraó ter dito “Agora conheço Jeová” ou
“Eu sei quem Jeová é”. Além disso, não há nada nem remotamente semelhante à
profecia de Isaías sobre o Egito: “Naquele tempo, haverá cinco cidades na terra
do Egito que falarão a língua de Canaã e farão juramento ao Senhor dos
Exércitos” (Is 19.18).

Dez pragas são registradas:

1. 7.14-25: água em sangue.

2. 8.1-15: infestação das rãs.

3. 8.16-19: insetos (ou piolhos)

4. 8.20-32: infestação das moscas (com os hebreus sendo poupados [8.22]).

5. 9.1-7: peste sobre o gado (com os rebanhos dos hebreus sendo poupados
[9.4,6]).

6. 9.8-12: úlceras sobre homens e animais.

7. 9.13-35: saraiva, trovões e raios (com exceção da área destinada aos hebreus
[9.26]).

8. 10.1-20: infestação de gafanhotos.

9. 10.21-29: três dias de densas trevas.

10. 11.1—12.36: morte dos primogênitos, tanto do povo como do gado (com
exceção dos hebreus, caso se preparassem de forma correta [12.7,13]).

Muito já se disse sobre as pragas serem diretamente voltadas para algum aspecto
específico da religião egípcia. Em diversos casos, isso é bem possível, mas em
outros fica difícil fazer essa correspondência. Na verdade, em Êxodo 12.12,
vemos o Senhor dizendo: “e sobre todos os deuses do Egito farei juízos”. Veja
também Números 33.4b: “e havendo o Senhor executado os seus juízos nos seus
deuses”. Para algumas das pragas, a correspondência é válida.

1. Hapi, o deus do Nilo, portador da fertilidade.

2. Hekt, a deusa da fecundidade com cabeça de sapo.

4. Kheper, na forma de um besouro (que talvez possamos incluir na praga das
moscas). Ele representa o ciclo diário do sol pelo céu.

5. Muitos deuses e deusas egípcias são representados zoomorficamente em
hieróglifos: Hator, representada como uma deusa com cabeça de vaca ou como
uma deusa com cabeça humana e orelhas ou chifres de vaca; Amon, rei
dos deuses e protetor dos Faraós, representado por uma figura masculina com
cabeça de carneiro ou como carneiro com uma tríplice coroa; Geb, divindade da
terra, representado como um ganso ou como uma figura humana com um
ganso na cabeça; Isis, rainha dos deuses, representada com chifres de carneiro ou
vaca na cabeça.

7. Nut, deus do céu e protetor dos mortos.

8. Serapia, protetor contra os gafanhotos.

9. Rá, personificação do sol, rei dos deuses e pai da humanidade.

10. Possivelmente Taueret, deusa da maternidade que governava sobre os
nascimentos e que, mais tarde, tornou-se uma divindade protetora do lar.

É preciso deixar claro que o texto bíblico não dá indicação alguma de que as
pragas devam ser associadas à religião e às divindades egípcias. Tais
semelhanças, portanto, devem ser coincidências. No que diz respeito à natureza
das pragas, é mais do que possível que algumas já tivessem sido experimentadas
pelos egípcios (como, por exemplo, a coloração vermelha das águas do Nilo e a
praga das rãs oriundas dos manguezais ao longo do rio). Outras foram
provavelmente inéditas, como, por exemplo, as pragas da saraiva e das trevas,
dada a quase perene estiagem e os dias ensolarados durante o ano inteiro (com
exceção dos vendavais, que rapidamente tapavam a luz do sol).

Alguns estudiosos defendem que as pragas seguem uma cronologia consistente
com o ecossistema do Egito, de forma que Êxodo 7—10 é o relato literal de uma
sucessão de fenômenos naturais (Hort). Muitos outros estudiosos repudiam
qualquer tentativa de se considerar os relatos das pragas como historicamente
precisas e verdadeiras. J. K. Hoffmeier, no entanto, levanta uma
questão interessante: se a seqüência de eventos traçada por Hort e outros para a
enchente e a estiagem anual do Nilo está correta, “como tamanha variedade de

tradições pôde ser reunida séculos mais tarde por algum redator com tanta
coerência, ainda que certamente fora da Palestina?”

Z. Zevit pesquisou possíveis analogias para as pragas em outras partes da Bíblia.
Entre o relato das pragas e a narrativa da Criação, ele descobriu expressões e
vocábulos semelhantes, o que levou-o a sugerir que Gênesis 1—2,
tematicamente, funciona como pano de fundo para as pragas. Dessa forma, por
exemplo, na praga do sangue, a expressão “sobre todo o ajuntamento das suas
águas” (Ex 7.19) corresponda “ao ajuntamento das águas” de Gênesis 1.10. Zevit
também relaciona as dez pragas às dez ocorrências da expressão “e disse Deus”
(Gn 1.3,6,9,11,14,20,24,26,28,29).

O Endurecimento do Coração de Faraó

Termos utilizados na descrição do coração de Faraó

Os termos que descrevem o endurecimento do coração de Faraó aparecem por
vinte vezes em Êxodo 4—14. Na descrição desse endurecimento, são utilizados
três verbos hebraicos: kabed, hãzaq, qãshâ. O significado básico de kãbêdé “ser
pesado”. Além de descrever o coração, a palavra kabed pode descrever os olhos
(Gn

48.10), os ouvidos (Is 6.10) ou a boca e a língua (Êx 4.10). Cada uma dessas
referências diz respeito ao mau funcionamento de um órgão em especial, quer
em virtude de idade ou doenças (Gn 48.10; Ex 4.10). Por causa disso, R. R.
Wilson afirma que, nessas passagens, o escritor “se refere a um órgão sensorial
que já não recebe estímulos externos”.

O verbo hãzad significa “ser forte, duro”. É a mesma raiz de "Ezequias”, “o
Senhor é a minha força”, e Ezequiel, “que Deus fortaleça”. Em um contexto
negativo, talvez o equivalente mais próximo em nossa língua seja “cabeça-dura”.
O verbo qãshâ significa “ser duro, severo, difícil”.

Logo abaixo, temos passagens de Êxodo que utilizam um ou outro desses
verbos. Após cada referência, a listagem traz o verbo específico utilizado e o
estado que ele assume, ou seja, Qal, Piei ou Hiphil (de maneira simples, Qal
descreve um estado: “ser...”; Piei e Hiphil descrevem uma condição ou situação
provocada: “tornar...”). A versão utilizada é a Almeida Revista e Corrigida
(ARC). No caso de haver discrepâncias entre as versões, segue juntamente o
texto da Almeida Revista e Atualizada (ARA), da Nova Versão Internacional

(NVI) e da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). Sempre que o
número de um versículo estiver entre colchetes, trata-se de sua localização no
texto hebraico, a qual diverge do texto em português.

1. 4.21: “eu endurecerei o seu coração”; “vou fazer com que ele fique teimoso”
(NTLH); hãzaq, em Piei.

2. 7.3: “endurecerei o coração de Faraó”; “farei o coração do faraó resistir”
(NVI); “vou fazer com que o rei fique teimoso” (NTLH); qãshâ, em Hiphil.

3. 7.13: “Porém o coração de Faraó se endureceu”; “o rei continuou teimando”
(NTLH); hãzaq, em Qal.

4. 7.14: “O coração de Faraó está obstinado”; “O rei está teimando” (NTLH);
kãbêd, na forma adjetiva.

5. 7.22: “o coração de Faraó se endureceu”; “continuou teimando” (NTLH);
hãzaq, em Qal.

6. 8.15 [11]: “Faraó [...] agravou o seu coração”; “Faraó [...] continuou de
coração endurecido” (ARA); “obstinou-se em seu coração” (NVI); “continuou
teimando” (NTLH); kãbêd, em Hiphil.

7. 8.19 [15]: “o coração de Faraó se endureceu”; “o coração do faraó
permaneceu endurecido” (NVI); “o rei continuou teimando” (NTLH); hazaq, em
Qal.

8. 8.32 [28]: “endureceu Faraó ainda esta vez seu coração”; “o faraó obstinou-
se em seu coração” (NVI); “o rei continuou teimando” (NTLH); kãbêd, em
Hiphil.

9. 9.7: “o coração de Faraó se endureceu”; “seu coração continuou obstinado”
(NVI); “o rei continuou teimando” (NTLH); kãbêd, em Qal.

10. 9.12: “o Senhor endureceu o coração de Faraó”; “o Senhor Deus fez com
que o rei continuasse teimando” (NTLH); hazaq, em Piei.

11. 9.34: “e agravou o seu coração”; “endureceu o coração” (ARA); “obstinou-
se em seu coração” (NVI); “Ele e os seus funcionários continuaram teimando”
(NTLH); kãbêd, em Hiphil.

12. 9.35: “o coração de Faraó se endureceu”; “Faraó, de coração endurecido”
(ARA); “O coração do faraó continuou endurecido” (NVI); Ele e os seus
funcionários continuaram teimando” (NTLH); frâzaq, em Qal.

13. 10.1: “tenho agravado o seu coração”; “lhe endureci o coração” (ARA);
“tornei obstinado o coração dele” (NVI); “fiz com que ele e os seus funcionários
continuassem teimando” (NTLH); kâÕèd, em Hiphil.

14. 10.20: “O Senhor, porém, endureceu o coração de Faraó”; “o Senhor fez
com que o rei continuasse teimando” (NTLH); hazaq, em Piei.

15. 10.27: “O Senhor, porém, endureceu o coração de Faraó”; “o Senhor fez
com que o rei continuasse teimando” (NTLH); hazaq, em Piei.

16. 11.10: “o Senhor endureceu o coração de Faraó”; “o Senhor fez com que o
rei continuasse teimando” (NTLH); hazaq, em Piei.

17. 13.15: “endurecendo-se Faraó, para não nos deixar ir”; “faraó resistiu e
recusou deixar-nos sair” (NVI); “o rei do Egito teimou em não nos deixar sair”
(NTLH); qashâ, em Hiphil.

18. 14.4: “eu endurecerei o coração de Faraó”; “Eu farei com que o rei
continue teimoso” (NTLH); hazaq, em Piei.

19. 14.8: “o Senhor endureceu o coração de Faraó”; “O Senhor fez com que
Faraó, rei do Egito, continuasse teimando” (NTLH); hâzaq, em Piei.

20. 14.17: “E eis que endurecerei o coração dos egípcios”; “Eu farei com que
os egípcios fiquem ainda mais teimosos” (NTLH); kãbêd, em Piei.

Dos três verbos, hâzaq é, o mais utilizado (11 vezes). Logo após vem kãbed(7
vezes) e qashâ (2 vezes).

Análise da Terminologia

E interessante organizar esses vinte verbos conforme o sujeito do verbo. Veja a
tabela 1.

Algumas observações podem ser feitas a partir dessa análise. Temos de admitir
que Deus, em 4.621 e 7.3, fala a Moisés: “eu endurecerei o coração de Faraó”.

Moisés ouve isso por duas vezes, antes do começo das pragas. Ainda assim, em
momento algum vemos esse anúncio suscitar protestos ou pedidos de
explicação por parte de Moisés. Já vimos nos capítulos 3 e 4 de Êxodo que

Moisés, vez ou outra, protestava ou pedia mais explicações a Deus. Aqui, no
entanto, ele é obediente.

Tabela 6

Deus como sujeito (10 referências)

kabed hãzaq qashâ

10.1 Hiphil 4.21 Piei 7.3 Hiphil

14.17 Piei 9.12 Piei

10.20 Piei

10.27 Piei

11.10 Piei

14.4 Piei

14.8 Piei

Faraó como sujeito (4 referências)

kãbêd hazaq qashâ

8.15 [11] Hiphil 13.15 Hiphil

8.32 [28] Hiphil 9.34 Hiphil

O coração de Faraó como sujeito (6 referências)

kabed hãzaq qashâ

7.14 adjetivo 7.13 Qal

9.7 Qal 7.22 Qal

8.19 [15] Qal

9.35 Qal

Seria isso um sinal de que Moisés havia aceito suas responsabilidades, estando
suficientemente confiante para não mais questionar a Deus? Ou poderiamos
supor que, ao ouvir frases tão enigmáticas, Moisés protestou ainda mais junto a
Deus? Tais sentenças não poderiam ser consideradas como anúncios dos
resultados finais?

Ao se examinar a descrição das pragas, percebe-se que todas as referências a
Deus endurecendo o coração de Faraó só aparecem mais ao fim da narrativa. Ou
seja:

1. “O coração de Faraó está obstinado” (7.14)

2. “Faraó [...] agravou o seu coração” (8.15 [11])

3. “o coração de Faraó se endureceu” (8.19 [15])

4. “endureceu Faraó [...] seu coração” (8.32 [28])

5. “o coração de Faraó se endureceu” (9.7)

6. “Porém o Senhor endureceu o coração de Faraó” (9.12)

7. “Faraó [...] agravou o seu coração” (9.34)

“o coração de Faraó se endureceu” (9.35)

8. “tenho agravado o seu coração” (10.1)

“O Senhor, porém, endureceu o coração de Faraó” (10.20)

9. “O Senhor, porém, endureceu o coração de Faraó” (10.27)

10. “o Senhor endureceu o coração de Faraó” (11.10)

E curioso observar que, somente após a sexta praga vir sobre os egípcios, temos
alguma referência a Deus endurecendo o coração de Faraó. Existem apenas duas
referências a Faraó endurecendo seu próprio coração (9.34,35) após Deus o ter
feito. Certamente, há relevância no fato de que, mesmo após Deus ter endurecido
o coração de Faraó (n° 6 [9.12]), o soberano do Egito, pelo menos mais uma vez,
foi capaz de endurecer seu próprio coração (n° 7 [9.34]). Depois disso, contudo,
é Deus, e apenas Deus, que endurece o coração de Faraó (n° 8 [10.20]; n° 9
[10.27]; n° 10 [11.10]). E como se a janela de oportunidade de Faraó tivesse se
fechado.

Moshe Greenberg captura de forma clara o problema de Faraó: “Nesse dramático
desenrolar das reações de Faraó, há um princípio dominante — a essência de sua
intransigência — a saber, a manutenção de sua soberania. Esse é o ponto crucial
da questão, o qual não pode coexistir com a autoridade de Deus. Assim, a
resistência de Faraó é o arquétipo da oposição do poder e da autoridade humana
frente às reivindicações de Deus. Sob pressão, tal poder se mostra flexível e
transigente, chegando até a recuar. De início, pede por socorro e chega a
confessar pecados e a fazer concessões. No fim das contas, porém, ele se
entrincheira em seu âmago de auto-afirmação e independência, evitando ceder
no que significaria o fim de sua reivindicação à auto-suficiência. Nesse ponto,

ele resiste, ao custo que for, até a morte”.

Teria sido um acidente? Ou as Escrituras querem dizer que Faraó, agora tão
intransigente para com Deus, havia perdido o direito de optar de forma
consciente e independente? A liberdade pode ser revogada? Faraó, pelo menos
durante algum tempo, teve controle sobre suas escolhas, mas jamais o teve sobre
as conseqü-ências de suas escolhas.

Ao enfatizarmos demasiadamente o endurecimento do coração de Faraó,
podemos deixar de considerar as diversas vezes em que Deus tentou sensibilizar
seu coração:

1. Por meio das orações de Moisés: “Rogai ao Senhor” (8.8 [4]; 9.28; 10.17);
“orai também por mim” (8.28 [24]).

2. Pelo testemunho de seus próprios mágicos: “Isto é o dedo de Deus” (8.19
[15]).

3. Levando-o a obedecer, ainda que parcialmente: “deixarei ir o povo, para que
sacrifiquem ao Senhor” (8.8 [4]); “Ide e sacrificai ao vosso Deus nesta terra [...]
deixar-vos-ei ir [...] somente que indo, não vades longe” (8.25-28 [21-24]);
“Ide [...] somente fiquem vossas ovelhas e vossas vacas” (10.24).

4. Levando-o ao arrependimento, ainda que parcialmente: “Esta vez pequei; o
Senhor é justo, mas eu e o meu povo, ímpios” (9.27); “Pequei contra o Senhor,
vosso Deus, e contra vós” (10.16). Ao juntar o “Esta vez pequei” de 9.27 e o
“continuou a pecar” de 9.34, Greenberg faz a seguinte observação:
“Ele reconhece sua culpa mas prossegue nela”. Faraó precisava ouvir a palavra
que encontramos em Mateus 3.8: “Dêem fruto que mostre o arrependimento!”
(NVI).

5. Ao dar repetidas chances a Faraó: Deus foi tão tolerante com ele como foi
com Moisés após a sarça ardente. O “não irei” de Moisés se compara ao “não os
deixarei ir” de Faraó. O fato de Deus precisar entrar em ação por dez vezes para
que Faraó cedesse não causa a menor surpresa. Afinal, no que tange aos efeitos a
longo prazo, qual foi a eficácia do Dilúvio, uma outra manifestação do juízo de
Deus, mesmo para as primeiras gerações que se seguiram?

Considerações acerca do endurecimento do coração de Faraó

No que diz respeito ao endurecimento do coração de Faraó, e a outros
acontecimentos semelhantes, Walther Eichrodt afirma:

O mais notável, entretanto, é que isso jamais conduziu a um determinismo
absoluto, isentando o homem da responsabilidade por seus atos. Em todos
os momentos, a capacidade para a autodeterminação é insistentemente
mantida. Ibda a exortação ética dos profetas baseia-se na convicção de que a
decisão pertence ao homem. Também a lei [...] baseia-se nesse pressuposto.
O postulado fundamental da liberdade moral é, portanto, encontrado em
pé de igualdade com a convicção religiosa de que Deus age eficazmente em
todas as coisas. Ademais, não há nenhuma tentativa de se harmonizar ou
combinar as duas posições. Os testemunhos das experiências com Deus no
Antigo Testamento são capazes de afirmar ambas as realidades ao mesmo tempo,
suportando a tensão existente e sem reduzir em nem um átimo a validade
incondicional de cada uma.

Aquilo que Deus juntou, que nenhum homem tente separar! No Novo
Testamento, encontramos maiores explicações sobre esse tema em Romanos 9
—11. Paulo se refere ao endurecimento do coração de Faraó (9.17,18) e ao
endurecimento de Israel (11.7,25). Segundo Eichrodt, observamos que o Novo
Testamento, a exemplo do que acontece no Antigo, apresenta tanto a soberania
divina como a liberdade moral do homem. E exatamente isso que surge da
passagem paulina.

Ao afirmar que descender fisicamente de Abraão não é suficiente para qualificar
alguém como filho de Abraão, Paulo sustenta sua tese apelando para Gênesis.
Tanto Isaque como Ismael eram filhos físicos de Abraão, mas apenas um era o
filho da promessa (9.7-9). Tanto Jacó como Esaú eram filhos de Isaque, mas
Esaú foi rejeitado a favor de Jacó (9.10-13). Paulo, portanto, falou sobre a
questão da fidelidade de Deus (9.6) mostrando o princípio da escolha divina
operando na história dos patriarcas.

Mas se Deus é seletivo, isso não implica em injustiça (9.14)? Ismael e Esaú
foram indiscriminadamente rejeitados? Ao responder essa questão, Paulo se
volta para Exodo e, em essência, diz: "se você afirmar que o Deus dos patriarcas
foi injusto, deverá afirmar o mesmo acerca do Deus de Exodo”. Aqui também
nós vemos a seletividade em ação. Para Israel, ele mostrou misericórdia;
ao coração de Faraó, endureceu-o. (Observe que, em Romanos, “misericórdia”
aparece por onze vezes, sendo que nove delas ficam nos capítulos 9—11: “9.15

[2x], 16, 18, 23; 11.30, 31 [2x], 32).

A passagem mais importante aqui é Romanos 9.17: “Para isto mesmo te levantei,
para em ti mostrar o meu poder”. Esse versículo é uma citação de Exodo 9.16. A
expressão em Exodo: “para isto te mantive” corresponde ao texto de Romanos
“para isto mesmo te levantei”. Logo, “levantar” não tem nada a ver com fazer
nascer ou criar. Mais exatamente, significa “eu não o destruí” ou “permiti que
você continuasse a viver”. Esse levantar é, em si, uma expressão da misericórdia
de Deus. A misericórdia e a firmeza de Deus são expressões da soberania divina
(Rm 9.18).

A fim de enfatizar a idéia de um Deus soberano, Paulo apela para a Criação
(Deus como oleiro) e faz diversas citações de Oséias e Isaías (Rm 9.19-29).

Aonde, portanto, tudo isso leva a humanidade? Esse é o interesse de Romanos
9.30—10.21. E importante não pararmos em 9.29. Deus é soberano, sim, mas
isso não nega a liberdade humana. Se existem judeus não justificados, isso não
se deu por sua incredulidade ter sido predeterminada, mas por que eles
“tropeçaram na pedra de tropeço” (9.32). Muitos pregadores e missionários têm
utilizado Romanos 10.14,15 (“Como, pois, invocarão aquele em quem não
creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não
há quem pregue?”) a fim de conclamar as pessoas a um maior envolvimento em
evangelismo e missões. Isso é válido como uma aplicação do texto além de
seu contexto, mas, em seu estrito contexto, Paulo levanta essa questão de forma
irônica. Os judeus a quem ele escreve haviam ouvido e Deus já lhes havia
mandado diversas mensagens; portanto, eles não podem usar a ignorância como
desculpa. Da parte de Deus, não havia faltado chamados: “Todo o dia estendi as
minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” (10.21). Temos, portanto,
lado a lado, a soberania divina e o privilégio e a responsabilidade pessoal do
homem (9.30—10.21).

Após falar sobre os judeus como indivíduos, Paulo prossegue falando sobre os
judeus como um povo, uma comunidade (Rm 11.136). Apesar de ter rejeitado
judeus individuais, Deus jamais rejeitou seu povo como um todo 11.2. Em 11.7-
25, Paulo, de forma implícita, compara o endurecimento de Faraó ao
endurecimento dos judeus. Em ambos os casos, Deus usa esse
endurecimento visando à redenção. Ele endureceu o coração de Faraó. Qual foi
o resultado? Os israelitas foram libertos do Egito. Ele endureceu os israelitas.
Qual foi o resultado? Foi permitido que os gentios participassem do Reino de

Deus. Que então é feito dos judeus, e não apenas do remanescente? Esse
endurecimento é permanente? A resposta de Paulo é um cabal não. “Todo o
Israel será salvo” (11.26) — uma magnífica expressão que Paulo nem tenta
explicar em maiores detalhes.

A Páscoa (12.1—13.16)

Êxodo 12 detalha os procedimentos a serem observados durante a Páscoa.
Maiores informações podem ser encontradas nos calendários religiosos do
Pentateuco: Levítico 23.5-8; Números 28.1625; Deuteronômio 16.1-8. Nessas
três passagens, bem como em Êxodo 12, a Páscoa é intimamente relacionada à
Festa dos Pães Asmos. O Antigo Testamento registra a celebração de cinco
páscoas específicas, além da original: os israelitas no deserto (Nm 9.1-14); em
Gilgal, depois dos israelitas entrarem em Canaã (Js 5.10-12); a celebrada por
Ezequias (2 Cr 35.1-19); a celebrada no cativeiro (Ed 6.19-22).

O termo hebraico para “Páscoa” épesah. Há também um verbo, pãsah (“passar
por cima”), usado por três vezes em Êxodo 12: “vendo eu sangue, passarei por
cima de vós” (12.13); “o Senhor passará aquela porta” (12.23); “Este é o
sacrifício da Páscoa ao Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito”
(12.27).

Afinal, qual é o significado de “O Senhor passará por cima”? Significa que Deus
se desviará das casas que estiverem marcadas pelo sangue? Encontramos uma
pista em 12.23: “o Senhor passará aquela porta e não deixará o destruidor entrar
em vossas casas para vos ferir”. Assim, “passar por cima” significa “proteger”
ou, como a NEB sugere em uma nota de rodapé, “ficar de guarda”. O próprio
Senhor iria bloquear a entrada do destruidor. Seria o protetor de seu povo, e eles
estariam seguros em sua presença.

Aqui, o mais importante é o uso do sangue. Ele devia ser extraído do corpo do
cordeiro e espargido nos umbrais e nas vergas das portas (12.7,13). Não fazê-lo
seria um desastre.

Não é de se admirar que Moisés, ao relatar as palavras de Deus a seu povo
(12.21-27), tenha se concentrado exclusivamente no papel do sangue. Como
observa Brevard Childs, “o efeito literário do discurso de Moisés foi
extremamente condensado”. Moisés não diz nada sobre a refeição em casa, o
tipo de cordeiro a ser escolhido, o momento em que ele deve ser sacrificado,

foi quebrado (Jo 19. os escravos (v. o tipo de roupas que as pessoas devem usar — e tudo isso fora incluído nas instruções de Deus a Moisés (12.11-16). o viajante (v. As duas referências explícitas a Cristo como Cordeiro Pascal.38) que deixou o Egito. Os escritores do Novo Testamento intencionalmente passam do cordeiro para o Cordeiro. Êxodo 2 não diz respeito somente ao momento da Páscoa. nosso Cordeiro” [ARA]) e 1 Pedro 1. 45) que. Os cativos resgatados já não são Israel. em vez de procurarem formular um discurso teológico sobre soteriologia. por terem os mesmos privilégios dos hebreus. mas também quem deve participar (12. Quem podia participar? Acongregação de Israel (v. 5. quando circun- cidados. A Páscoa não era algo indiscriminadamente aberto para todos. nem um único osso de Jesus. hóspede ou de passagem. estão em 1 Coríntios 5. Logo após a Páscoa. Essas distinções eram necessárias por causa da “mistura de gente” (12.sobre como a refeição deve ser preparada. gentios que tivessem abraçado a fé em Jeová. O interessante nessas passagens é que Paulo e Pedro. em vez de uma mudança geográfica.43-49). o quanto deve ser ingerido.3-10) e sobre a consagração dos primogênitos (13. é uma mudança ética. 48). o Cordeiro. que pertencia a uma outra nação mas trabalhava em Israel.19 (“um cordeiro imaculado e incontaminado”). nas epístolas do Novo Testamento. 44).7 (“Cristo.43-49) foram passadas logo após essa “mistura de gente” deixar o Egito (12. estão mais preocupados com as implicações da redenção por meio do Cordeiro para uma vida em santidade. mas o reino das trevas. ao porquê da Páscoa e a como ela deve ser observada. Assim como o cordeiro no Egito. os estrangeiros (v. 43). 45). Além de resgatar do Egito.37-39). do tipo simbólico para o personagem real. ficava algum tempo no território de Israel. A posse das novas terras representa o cumprimento das promessas de . Foi por isso que as instruções acerca da elegibilidade para participar da Páscoa (12. mas o mundo.36). os apóstolos vão além da salvação e tratam da santificação. A redenção.11). Moisés transmite mais instruções sobre a Festa dos Pães Asmos (13. o servo assalariado (v. Ou seja. Ambos os trechos enfatizam que a redenção divina tanto o tira de um lugar como leva a outro. Deus leva o povo à terra dos cananeus (vv. Quem não podia participar? O forasteiro (v. A prisão já não é a escravidão.1-13). pagão e incrédulo. de forma a se manifestar a plenitude do plano divino. 47).

crianças e jovens abaixo dos vinte anos de idade.21) Êxodo 12. debita-se a responsabilidade por números tão fantasiosos a um documento P (para aqueles que defendem essa visão).5). Uma segunda sugestão envolve a palavra hebraica 'elep. Ou seja. o eminente arqueólogo Flinders Petrie sugeria que . com os relatos da assombrosa longevidade daqueles que viveram antes do Dilúvio (leia Davies). Como devemos lidar com um número tão elevado? Êxodo 23.Deus aos patriarcas. Esse número exclui os levitas. visto que a população de Israel era muito pequena para repovoar Canaã: “Pouco a pouco os lançarei de diante de ti.17—15. além das mulheres e crianças. haja vista essa hipérbole.9 e em 1 Crônicas 21. cuja tradução mais usual é “milhar”.26 e Números 1.46. que ele representa os devaneios do último escritor. em Gênesis 5. O Exodo (13. na qual Kret sai em busca de sua esposa seqüestrada com três milhões de homens (literalmente “trezentas miríades”). 26. Dentre os documentos que originaram esse trecho. G.51. até que sejas multiplicado”.32. no presente (você) e no futuro (seus filhos). o povo de Israel haveria de testemunhar junto às crianças que Deus lhes daria (vv. Uma das possibilidades sugeridas é de que esse número não passa de fantasia. A.37 informa que seiscentos mil homens deixaram o Egito. 8. Outra sugestão é de que o número possui valor histórico. mas reflete um censo realizado durante o reinado de Davi (observe os números em 2 Samuel 24.7.) A população de Israel Muito já foi discutido sobre o número total contado pelo censo: 603. O número total dos israelitas que partiram devia ultrapassar os dois milhões. Uma vez na terra. O leitor é subitamente levado de volta a Gênesis 12. 2. O tamanho total da congregação deve ter alcançado os dois milhões de pessoas. Já em 1905. Dentre os estudiosos da Bíblia. todas as mulheres.29-30 sugere uma ação gradual de Deus para retirar os cananeus. Rendsburg compara a história cananéia com a de Ugarit. talvez até dois milhões e meio. (Veja também a tabela 12 no capítulo 16. A fidelidade divina repercute em todas as eras: no passado (seus ancestrais). a exemplo do que ocorre.14). Esse mesmo número volta a ser repetido em Êxodo 38. alguns comentaristas já ofereceram diversas explicações.550. sem qualquer valor histórico.

. essa posição foi adotada por Jacob Milgrom. Os estudiosos. todos os que podiam sair à guerra. 1 Samuel 10.7. ARA. NTLH]). Uma terceira sugestão é bastante parecida com a de Petrie.21: "fazendo chegar a tribo [shêbet] de Benjamim pelas suas famílias \mishpahaH%'. ao deixar o Egito. Para outros textos.600 pessoas (Nm 1.14. estão Juizes 6. poderiamos parafrasear Números 1.6 (NIV: “líderes”).23. na famosa batalha de Kadesh. veja Josué 22. E estamos falando dos exércitos de duas grandes potências daquela época! Em contrapartida. 12.] chefes dos clãs [elep] de Israel” [NVI] (“os cabeças dos milhares de Israel” [ARC]).3). de acordo com esse sistema.19: “apresentem-se perante o Senhor. mas uma unidade militar dentro do clã (ver Nm 1.15: “minha família [’elep] é a mais pobre em Manassés”.22 (“O mais pequenino se tornará mil” [NVI]. Assim. pelo número dos nomes dos de vinte anos para cima. as suas gerações. 1 Samuel 23.550 para 5.21. Zacarias 9. Dentre os versículos citados em apoio a essa tese. Se Ramsés II foi o Faraó retratado em Êxodo (uma possibilidade. os israelitas. Judá não teria uma população de 74. Como disse C.550. Argumentos adicionais a favor de um número menor são talvez encontrados nos registros militares do antigo Oriente Médio. pelas suas famílias. em muitos casos. Humphreys. segundo a casa de seus pais. o Faraó e o rei hitita Mouwatalli se enfrentaram com aproximadamente vinte mil homens cada (Breasted). exagerar o número de israelitas seria um tanto incoerente”. nos quais ’? lep significa “clã”..27). foram contados deles setenta e quatro unidades militares da tribo.16: “Foram esses os escolhidos [. Em todo caso. a conclusão é sempre a mesma. é interessante observar que. formado por homens . ainda que não totalmente aceita).essa palavra não deveria ser traduzida como “milhar”.27 da seguinte maneira: “Dos filhos de Judá. “se o propósito do relato de Êxodo é demonstrar o poder de Deus na derrota do exército egípcio. Esses dois últimos versículos parecem indicar que “clã” e “família” são sinônimos. mas “família”. “clã” ou “tenda”. mas um total de 74 famílias e 600 pessoas. De acordo com essa interpretação.] líderes das tribos [. têm aceitado a tradução de ’elep como “unidade militar” ou “família”.. na Síria. nas quais haviam 600 homens dispostos para a guerra”.. O número de homens (com vinte anos ou mais) presente no deserto fica reduzido de 603.26. J. Mais recentemente. George Mendenhall sugere que o termo ’elep não significa “família”. 1 Samuel 10. Números 1.30. de acordo com as suas tribos \shêbet\ e os seus clãs [7elep\” (“milhares” [ARC. Isaías 60.5. teriam aproximadamente um quarto dos exércitos egípcios e hitita.

corroboram ou debilitam a integridade da narrativa bíblica? James Barr. a fim de que os juncos cresçam. a qual ainda é mantida em todas as versões contemporâneas da Bíblia. fazendo tudo o que pode para achar uma forma de reduzir a multidão”. O povo de Deus atravessou entre duas paredes de água. doadas ao Tabernáculo pelos israelitas.3: “pondo nela o menino. Hoje em dia. Paredes de água que. quando utilizado isoladamente. A Travessia do Mar de Juncos A travessia do mar de Juncos (preferível a “mar Vermelho”. logo depois. o qual não se baseia no texto hebraico. o nome “mar de Juncos” (ou “bambuzal”) pressupõe água doce. os golfos de Aqaba e o canal de Suez). e não salgada.5: “Nisso viu o cesto entre os juncos [süp] e mandou sua criada apanhá-lo” [NIV]. . Além disso. faz supor um número bastante elevado de doadores. no entanto. sendo que a mínima é de 180 metros e a máxima é de 2.com 20 anos ou mais. as cerca de 6. Dividir o mar Vermelho não seria um evento sem importância. mas no gregoerythra thalassa e no latim mare rubrurri) é descrita como um milagre. Ler o termo hebraico yam süp como “mar de Juncos” e não “mar Vermelho” reflete o fato de que süp. refere-se a juncos ou bambuzal. ao norte. Todas essas informações. para não mencionar que tudo isso precisou ser carregado pelo deserto a partir do Egito. Ele está. Quem pensa que todos os estudiosos modernos abandonaram a tradução tradicional. E preciso supor um número suficientemente grande de israelitas para que as palavras de Faraó façam sentido: “Eis que o povo dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós” (Ex 1. o mar Vermelho tem cerca de dois mil quilômetros de extensão (incluindo. fecharam-se e afogaram os egípcios em fuga. pelo contrário. Sua profundidade média é de quase 500 metros. Sua largura varia entre 200 e 250 quilômetros. deveria ler os comentários de Gleason Archer em defesa da credibilidade dos números mais elevados. indaga se o conservador moderno “está corajosamente defendendo a inerrância bíblica. ao tratar de modo específico desse trecho de Êxodo e dos primeiros capítulos de Números.9 — ARA). Além disso.500 metros.5 toneladas de metais preciosos. a pôs nos juncos [süp] à borda do rio”. ou Êxodo 2. confiando no poder de Deus para o sustento dessa enorme multidão de forma miraculosa? Nem pensar. como em Êxodo 2.

8 — 14.7] e aquilo que realiza [Êx 7. fossem apagadas quaisquer dúvidas que os israelitas pudessem ter quanto à capacidade de Deus para libertá-los e de Moisés para liderá-los. há pouco libertado. O hino é uma ratificação do senhorio de Deus. Js 24. o Egito. Êxodo 14 se encerra com a seguinte observação: “e temeu o povo ao Senhor e creu no Senhor e em Moisés. O que para o Egito representou a destruição. no entanto. contudo. sem expressão.6) são os meios pelos quais o povo de Israel é salvo (Dt 1. perto de Port Said). O clamor transforma-se em louvor.2. Já em Êxodo 16.31]). Tal crença. Js 4. por duas vezes. Deus livrou seu povo das garras da maior potência mundial. um lago ou um riacho. Moisés é mencionado juntamente com o Senhor.Alguns teólogos concluem.1-21). com um ato divino tão magnífico. Em uma oportunidade.1—7. noutra aparece ’àdõnãy (v.3. Isso. passam ao relato da graciosa intervenção divina (aquilo que Deus planeja fazer [Êx 3. A liberdade e o pioneirismo parecem não ser tão atraentes quanto a escravidão com três refeições por dia. para o povo de Deus. 17. 21. 2). No fim do capítulo 14. nos cânticos do capítulo 15. O Tetragramaton é utilizado por dez vezes: versículos 1. o povo de Deus. como frisam Knights e Kitchen. 16. ’êl (v. Seiscentos egípcios se afogaram: um fato que não é impossível. Independentemente de ser um mar. seu servo” (v. quando parecia difícil crer que Deus estava com seu povo. não reduz de maneira alguma o caráter sobrenatural da história.1—15. Os meios pelos quais os Egípcios são afogados (Dt 11. 11. 17) e.21-24). Fretheim) assinalam que Êxodo 1. foi como um ritual de passagem rumo ao destino que lhes fora divinamente determinado. pois impressão. leva à depressão.yãh (v. 3 (2x).4.40: 2. 31). Alguns comentaristas (por exemplo.21 segue o estilo fre-qüentemente encontrado nos salmos de lamento: salmos compostos por indivíduos ou comunidades em momentos de perigo. 6 (2x). aparece a forma abreviada de Jeová. Deus seja tratado principalmente por Jeová. mas. . considerando-se a tendência dessa região a terremotos e possíveis tsunamis. e terminam com algum tipo de louvor (15. Eles começam descrevendo o problema e o clamor a Deus que ele causa (Êx 1— 2). nos louvores de Êxodo 15. Mas não foi isso que aconteceu. portanto. Moisés é deixado de lado. já sentia saudades do Egito. que os hebreus provavelmente não cruzaram o mar Vermelho ou o golfo de Suez. precisava ser expressa em palavras.1. mas algum lago de água fresca no norte do Egito (talvez a parte sul do atual lago Menzala. 2). É adequado que. Seria de se esperar que. 18.

11). o hino começa na terceira pessoa (w. derreter-se-ão [derreteram-se] todos os habitantes de Canaã. 1-5). Ele é “glorificado em santidade” (v. há uma curiosa diferença de tradução entre as versões. enquanto que a ACF as traduz no passado. até que passe [passasse] este povo que adquiriste. 6-17) e conclui voltando à terceira pessoa (w. O hino celebra não apenas os grandes atos de Deus. 1. Dessa forma. dos poderosos dos moabitas apoderar-se-á um tremor [apoderou-se um tremor]. eles estremecerão [ouviram [.. Temos abaixo o texto daARC. Nenhuma força externa pode impedir a marcha do povo de Deus. 15. com exceção do primeiro versículo listado. E um Deus de compromisso e amor constante (v..16: “Espanto e pavor cairá [caiu] sobre eles [. de um hino predominantemente dirigido a Deus. edomitas e moabitas.Ao falar de Deus. Em algumas linhas dos versículos 14-16.15: “Então. 11). Aliás. antes de mais nada. assim como os egípcios. haveríam de cair. 15.] emudecerão [emudeceram] como pedra. 13-18). Traduções como a ARC estão no futuro por tratarem de fatos que ainda não .. 2. seguido pelo texto da ACF (Almeida Corrigida e Fiel da Sociedade Trinitariana do Brasil) entre colchetes. Traduções como a ACF estão no passado porque essa é sua forma gramatical (tecnicamente. 13).. Ferir o corpo é ferir a cabeça. até que o teu povo haja passado [houvesse passado]. muda para a segunda pessoa (w. naquilo que Deus realizou. Em outras palavras. mas também sua natureza e quem Ele é. 18-21). pretérito). os príncipes de Edom se pasmarão [se pasmaram]. 15.14: “Os povos o ouvirão. tanto os atos como a natureza de Deus dão alguma previsibilidade ao futuro (vv. ó Senhor. Trata- se. o apóstolo Paulo descobriu que perseguir a igreja era perseguir a Cristo. portanto. a ARC (dentre outras) traduz a maioria dos verbos em 14-16 no futuro. Israel serve um Deus que age de forma decisiva. Filisteus. Um Faraó descobriu essa verdade já em Gênesis 12.] estremeceram]”. Mexer com o povo de Deus é por demais arriscado. Somente o pecado e a desobediência podem surgir como impedimento. ao Deus “que habita nos louvores de seu povo”. 3. Ele é incomparável (v. A ênfase é.

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2. Seria possível que suportasse tal ritmo de maneira indefinida? Poderia Israel perder seu líder.10). (1) Em 7. nem para Moisés nem para os israelitas.1 —36. eles passaram por pelo menos quatro crises: as águas amargas de Mara (15.8). 16. “não puderam beber” as águas amargas de Mara.41. em 15. (2) Em 9.18 e 22. Moisés “feriu” o Nilo com o cajado.4.13). A comemoração de 15. . (5) As pragas tinham como propósito fazer Faraó/Egito “saber que eu sou o Senhor” (7. lamúria.14.5. as cordonizes “subiram” [“apareceram”. 17. Existem diversas semelhanças de vocabulário entre esse trecho e uma seção anterior. NVI] e “cobriram" o arraial.1-7): a invasão dos amalequitas (17.11.1-21 dá lugar às reclamações de 15.27. ocorre no Antigo Testamento apenas em relatos passados no deserto (Êx 15.22-26.3. a falta dos víveres necessários (16.22-27). Ela aparece em Êxodo 15.8. uma das principais palavras encontradas nesse trecho de Êxodo. na qual as pragas são descritas.23. e outras).5.22— 17. em 15.1-21. NVI] e “cobriram” toda a terra.7.1-21. Na verdade.16. vemos uma mudança radical de ânimo e atmosfera.1-36). Um quinto problema seria o estado de saúde de Moisés. evidentemente. 29.8-16). Deus supre seu povo de maná e cordonizes para que o povo “saiba” quem os livrou e sustentou (16. em 16.13. A viagem de três meses entre Egito e Sinai não foi tranqüila. fez “chover” pão sobre o acampamento dos israelitas. 16. em 16. os gafanhotos “vieram sobre” [“invadiram”.22—18.24. em 17. (4) Em 7.27 [2x]. (3) Em 10. Quase que imediatamente depois dos louvores de 15.20.27 Após Êxodo 15. mostra-se sobrecarregado. a gratidão é substituída por lamúrias.6. que vinculam um ao outro. Aúnica vez em que o verbo aparece fora de relatos durante o tempo no deserto é em Josué 9. “não podiam beber” as águas do rio (que se haviam tornado em sangue). ele “feriu” a rocha com a vara.5. lün (“murmúrio. 36.8 As Provações no Deserto ÊXODO 15.22—18.18: “toda a congregação murmurava contra os príncipes”. Durante essa breve fração de seu itinerário.6. e em nove ocorrências correspondentes de Números (Nm 14.24. reclamação”). 17.17.2. a falta de água para beber em Refidim (17. Nm 11.15. Deus fez "chover” saraiva por todo o Egito. Ele.

Ainda assim. Um verbo-chave usado nesse trecho é nãsã. Há uma permuta entre sujeito e objeto. em Êxodo 20. sugere que a murmuração leva ao endurecimento do coração.22. Moberly observa que. 3. provar”.4]).7-13). A murmuração é um estado de espírito em que se crê que.25.4.2.2). 16.1-7.2.1). “Não mentiste aos homens. mas levantar dúvidas a respeito de um servo de Deus é levantar dúvidas a respeito de Deus (16.16.31. Deus não é suficiente. mas a Deus” [At 5. (6) na ocasião em que os levitas permaneceram fiéis a Deus e foram recompensados com o sacerdócio (Dt 33. A murmuração acompanha qualquer teste dirigido a Deus (5.4). (7) ao mencionar a permissão de Deus para que as nações provassem Israel na Terra Prometida (Jz 2. 13. Sua confiabilidade não é algo que precise ser provado. todas as outras provações ocorrem em momentos cruciais: (1) o mais importante evento na vida de Abraão (Gn 22. As implicações desses dois versículos do capítulo 17 são claras: Deus não deve ser testado.7. (2) o início do destino de Israel após sua libertação do Egito (Êx 15. Trata-se do mesmo verbo utilizado para : descrever o episódio em que Deus testa Abraão com Isaque (Gn | 22.4.3. . 33. Ele responde. como em Deuteronômio 6.31 e Salmos 26. portanto. 16. com exceção de 2 Crônicas 32. Outros pontos em que Deus “testa” (usando o mesmo verbo em hebraico) são Juizes 2. nas dificuldades.12) e sua agenda era frenética (18.8). 2 Crônicas 32.8.8).13).20). (3) a explicação do porquê do Decálogo (20. não por causa do queixume de Israel. (5) ao falar sobre a necessidade de discernimento para rechaçar os falsos profetas (Dt 13. Nessa parte. muito pouco se fez para que as petições fossem apresentadas diante de Deus com ações de graça. Deus não fica irritado. e Deus é o objeto.2.2. Ele aparece em 5. “pôr a teste. (4) em um comentário sobre os quarenta anos que Israel passou no deserto (Dt 8. por sua vez.1-27)? Ele estava esgotado (17. leva a uma perda de posição do Reino de Deus (Hb 3.1. mas a despeito de suas murmurações. ao referir-se à rebelião descrita em Êxodo 17. o verbo é utilizado duas vezes com um sentido negativo (17.2.20 (ver também Dt 8.4). com Deus como sujeito e Israel como objeto da provação. Aqui.22. Os israelitas são o sujeito.1. Salmos 26. o que.3).16).16. Nasã é utilizado de forma semelhante na conclusão do Decálogo.24.tão perigosamente perto de uma exaustão física (18.1). E claro que tais murmurações são imediatamente dirigidas a Moisés.7). O autor de Hebreus.25 e 16. 3.

26).34). Foi exatamente isso que aconteceu (16. Logo no início dessa seção.9)..11).25). a cada dia.25. Isso aconteceu em resposta à oração de Moisés. comenta: “Deus dá a Israel. a padaria de Deus tirava folga. Os israelitas.16. Dessa forma. uma água salobra ficou doce. por assim dizer.1-36). Em seguida. O amanhã e os seus problemas pertenciam a Deus. Além de restrições acerca da quantidade.] Não vos inquieteis. Na primeira praga. A única limitação determinava que a quantidade reunida deveria ser consumida no mesmo dia (16. Nesse dia. Brevard Childs.. a água se tornara em sangue.20). A península do Sinai é uma parada natural para esses animais. não a eles.18). Como era de se esperar. houve aqueles que não creram nas palavras de Moisés e os curiosos não encontraram nada (16.25. uma festa surpresa”. Nesse ponto. quando eles voam da África para a Europa na primavera e ao retornarem para a África no outono.27). Mais uma vez. Vemos tal postura refletida nas palavras de Jesus: “não andeis cuidadosos quanto à vossa vida. pois não havia maná para colher. as águas amargas ficam doces após Moisés lançar um tronco na água (15. No Novo Testamento. era-lhes também proibido apanhar maná aos sábados (16.19). O maná já foi explicado como uma secreção produzida por insetos ou piolhos ao perfurarem frutos e galhos de tamareiras.22). algumas pessoas desobedeceram e tiveram de enfrentar conseqüências embaraçosas (16. Deus fornecia. pois. entre o versículo 5 e 22. Ambos os alimentos já foram descritos como típicos em certa época na península do Sinai. Aqui. pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber [. Deus informa a Moisés (16. o suprimento diário de pão e carne veio em forma de maná e cordonizes (16. mas não vemos Moisés em parte alguma.Em primeiro lugar. o mais curioso é a orientação divina para que não armazenassem mais que o suprimento de maná para um dia (16. deviam confiar em Deus para suas necessidades físicas. cujo suco formaria em flocos ou bolas brancas (algo que dificilmente teria uma aparência suculenta!) A codorniz é o menor membro da família do faisão. dividindo essa informação com o povo. o comentário . a cada dia. Aliás. ensinou-lhes sobre como funcionava uma relação de confiança.5) que o recolhimento de maná às sextas-feiras renderia o dobro dos outros dias. bem como nos ensinamentos do Messias de que devemos pedir o pão de cada dia a Deus (Mt 6. um novo suprimento de maná a seu povo. pelo dia de amanhã” (Mt 6. extasiado.4). a água seria transformada em vinho (Jo 2. Nada podia ser deixado para o dia seguinte (16.

1. O terceiro problema é a falta de água em Refidim (17.21 traz claramente a ordem de pôr o testemunho na arca. E possível que seja exatamente com essa imagem em mente que Paulo afirma: “nossos pais [.. Estar diante de alguém indica.18..22). a água era imbebível (15.16.15.23). Êxodo 25. De qualquer forma. um Deus que.38.8. “Testemunho”.1-7). com abundância e misericórdia. refere-se às tábuas da aliança que continham os Dez Mandamentos (ver Ex 31. “todos os príncipes da congregação vieram e contaram- no a Moisés”.presente no versículo 22. Dessa forma. 10. via de regra.21. 34. Eles ficaram pasmos. o correto seja: “mas o Senhor ficou ainda em pé diante da face de Abraão”. lemos que Deus disse a Moisés: “Eis que eu estarei ali diante de ti sobre a rocha. vemos Moisés orientando Arão a colocar um pouco de maná em um jarro. em Exodo 16. 30. ao considerarem algo ofensivo a Deus. No versículo 6. supriu nossas necessidades e demonstrou sua fidelidade e graça. é tremendamente importante descobrir que. tornando-se suscetível ao dano. não privadamente (v.36).3. 1 Sm 16. por vezes.6. Gn 18. Mas. 6b). e tu ferirás a rocha”.34). Por fim. Tlido isso havia de acontecer em público.22. e beberam todos de uma mesma bebida espiritual [Ex 17]. 26.29). porque bebiam da pedra espiritual que os seguia. A solução de Deus para esse dilema não é nada comum. 32.33.34). Há pelo menos um indício de que escribas de eras mais recentes. mesmo antes de qualquer referência à colocação das leis de Deus dentro da arca. . e a pedra era Cristo” (1 Co 10.4). uma relação de subordinação e submissão (por exemplo. Na primeira vez. Deus se coloca na posição de uma rocha a ser ferida. em Gênesis 18. ainda não existe nenhum testemunho.33. Até mesmo ler que Deus ficou diante de Moisés já é surpreendente. não há água alguma. confirma a feliz surpresa que tiveram. é anunciado que o maná de Deus seria posto diante. a fim de pô-lo “diante do Testemunho” (16. “correções dos escribas” (ver Ginsbury). Um Deus que nos deu sua lei? Sim. é possível que. ou pode dizer respeito à arca na qual o “testemunho” foi colocado (ver Êx 25. em Horebe. arca ou Tabernáculo (ver Ex 27. Tais mudanças no texto são chamadas de tiqqune soferirrv.] todos comeram de um mesmo manjar espiritual [Ex 16]. tenham alterado certas passagens bíblicas. Agora. Dt 1. antes de tudo. onde se lê: “mas Abraão ficou ainda em pé diante da face do Senhor”. E claro que. sobre ou dentro da arca.22.8.

15. Já lemos por três vezes que Moisés “clamou” ao Senhor: Êxodo 14. mas a falta de fé no meio do povo: Massá e Meribá (“prova” e “contenda”).8-16). encontramos conjuntos de milagres em apenas três lugares: durante a carreira de Moisés. nos livros históricos de Samuel e Reis. mas não em grande número. Em partes extensas da Palavra. por exemplo.13-16). Moisés ainda tinha sua vara (17. Jeremias e João Batista (Mt 16. é possível que a essência do ministério de Jesus devesse ser conhecida não pela quantidade de sinais e maravilhas. foi Deus quem “ficou em pé” sobre a rocha. no princípio. . duas das três pessoas citadas pelos discípulos jamais realizaram qualquer milagre conhecido. No primeiro incidente em Refidim. Quantos milagres lemos.2) e uma vez com petições (SI 28. 15. Uma delas é a referência encontrada em Salmos a orações com as mãos erguidas: duas vezes em um gesto de adoração (SI 63. Talvez seja melhor admitirmos não saber o que Moisés estava fazendo. ou seja. nas epístolas paulinas ou universais? Na verdade. era Moisés quem devia “ficar em pé” no cume do outeiro (17. Por três vezes consecutivas.6) nas mãos (17. Agora. Aliás. A literatura de sabedoria é um claro exemplo. Deus realizara atos sobrenaturais. 134. E interessante observar onde os milagres aparecem na Bíblia. E sem dúvida intrigante que. a menção de que a posição das mãos de Moisés determinava os reveses e vitórias no campo de batalha não é explicado em termos de propósito e função.8).9). A outra razão é uma contínua percepção de Moisés como um intercessor por excelência. Milagres em excesso podem ser tão prejudiciais quanto nenhum.2). 17. mas agora o importante eram as mãos. ao longo da época de Elias e Eliseu e durante o ministério de Jesus e parte deAtos.Embora. quando Jesus perguntou: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (ele. nas profecias de Isaías ou Jeremias. cujo ministério foi repleto de milagres). como sugerem alguns estudiosos? Não estaria ele elevando o cajado aos céus em busca de auxílio divino? Por dois motivos.25.4. Deus tenha salvo os israelitas da sede e da morte. A atitude do povo ofuscou o ato de Deus. os nomes dados àquele local não fazem lembrar a bondade de Deus. sim. Ou seja. nessa ocasião. não o cajado. não há o menor sinal de milagre. não deveriamos descartar tão facilmente a explicação tradicional de que Moisés assume uma posição de intercessor. durante o período da grande tentação e no princípio da igreja. mas por algo mais. A quarta crise foi a invasão surpresa no acampamento israelita pelos amalequitas (Ex 17. Assim. Seria uma espécie de incentivo.4. Milagres.

e os amalequitas. Jetro. A primeira e a terceira crise. Por outro lado. Na segunda. aproxima-se do que é relatado em Números 11. encontram correspondência no incidente registrado em Números 20. Não é o tipo de sugestão que um administrador aceita com facilidade. Moisés mostra-se mais do que ansioso em testemunhar (18. Há. A quinta crise nesse trecho. mas não antes de os israelitas marcharem ao seu redor. diversos israelitas pereceram por causa de uma praga enviada por Deus (Nm 11.13). Seu testemunho fez com que Jetro louvasse ao Senhor.Enquanto Moisés estava no outeiro. depois da aliança (pena de morte para o adultério). Moisés foi impedido de entrar em Canaã (Nm 20.4-35. A quarta crise corresponde a uma segunda invasão dos amalequitas (Nm 14. as conseqüências do pecado eram bem mais graves que antes da aliança (compensação financeira para o pai de uma virgem que tivesse sido seduzida). aqueles que reclamavam não sofreram nenhuma retaliação. Ele foi incentivado pelos rumores de que Deus havia retirado Israel do Egito.5). Na primeira.12). ambas a respeito de água.39-45). ao contrário da primeira vez.33).8). a despeito de suas atitudes. foram vitoriosos sobre o povo de Deus (Nm 14.45). aquilo não eliminava a necessidade de combater o antagonista. segurando “o bordão de Deus” em suas mãos. contudo. a carência de comida. A diferença constatada indica que. Os muros de Jerico iriam desabar. Josué lutava embaixo (17. todos os quatro incidentes encontram paralelo na história de Israel após o povo deixar o Sinai. Jetro sugeriu que ele delegasse autoridade e não tentasse fazer tudo por conta própria. já então sob a aliança. ao acampamento israelita (Êx 18. Independentemente do que Moisés estivesse fazendo. mas não antes de os servos encherem as talhas de água. Temos aí o contexto de um Moisés sobrecarregado. O ataque dos amalequitas não foi o último problema dos israelitas. se é que podemos chamá-la assim. Jetro precisava confirmar a veracidade dos rumores. Tal qual a rainha de Sabá. O sogro de Moisés ainda firmou um novo ou mais profundo compromisso de seguir a Jeová (dependendo da interpretação dada à frase: “Agora sei”. uma enorme diferença entre as narrativas de Êxodo e Números.2-13. no versículo 11). foi causada pela visita do sogro de Moisés. Jesus pôde transformar a água em vinho. que visitou Salomão. uma outra Meribá. A segunda crise. principalmente se ele tem .

Felizmente. 1997.10b. E quanto a Moisés? Ele era por demais intransigente para aceitar conselhos? Provérbios 12. S. 91-108. Childs. JSOTSup n° 240. Ele resolveria as questões mais complicadas e as mais comuns seriam solucionadas por seus representantes. OTL. seu propósito era investigar. Sheffield: Sheffield Academic Press. Carpenter. A Provação no Deserto (Êx 15. . Theological Commentary. 28-44. 1968. Ao chegar. sua curiosidade havia sido satisfeita e suas perguntas estavam respondidas. 1977. por vezes. Carpenter.1-6). Seriam os filhos desse mundo. B. em 13. pp. TheBook of Exodus:A Criticai. Motifs and Function in the Book of Exodus”. The Land. em A Biblical Itinerary: In Search of Method. não por ouvir falar.15b diz que “o que dá ouvidos ao conselho é sábio” e. Ao partir. W. Rebellion in the Wilderness: The Murmuring Motif in the Wilderness lYaditions ofthe Old Testament. mais sábios que os filhos da luz (Lc 16. Editado por E.8)? Se em algumas ocasiões Deus falou diretamente a Moisés. Coats.um complexo de messias e compulsão em monopolizar. Moisés aceitou de bom grado a proposta de Jetro. Quando compreenderam que não conseguiriam cuidar de tudo sozinhos. que se não deixa mais admoestar” (Ec 4. Filadélfia: Fortress. Filadélfia: Westminster. sacerdote em Midiã. os apóstolos optaram por se concentrar na oração e na pregação. Também é curioso o fato de a idéia ter sido apresentada por Jetro. A narrativa se encerra com Jetro dando adeus a seu genro e voltando a Midiã. e não sussurrada por um anjo de Deus no ouvido de Moisés. G.27) Brueggemann. Coats. O ministério junto às viúvas foi delegado aos sete diáconos que atenderam claros requisitos espirituais (At 6. Essays in Honor of George W. Form and Content. W. “Exodus 18: Its Structure Style. mas porque ouvira por si mesmo — e sabia. 1974. E preciso comparar essa atitude com “o rei velho e insensato. Ele então acreditava.22—18. Nashville: Abingdon. pp. lemos “com os que se aconselham se acha a sabedoria”. temos aqui um exemplo de Deus falando através de uma outra pessoa — de alguém totalmente inesperado. E.13).

andFaith: A Study of Abraham and Jesus. G. 329-342. “Empirical Basis for the Documentary Hypothesis”. Ginsburg. Davies. Smith. Altmann. M. VTSup n° 28.i° 11. 1971b._. pp. 1420. “The ‘Desert Motif’ in the Bible and in Qumran Literature”. 1975. L. Editado por G. em Congress Volume. 135-152. TtynB n° 25. Cambridge. p. _. p. Feliks. W. [1897] Introduction to the Massoretico-Criticai Edition of the Hebrew Bible. 191-199. 1971a. 1975. C. 1966. “Manna Narrative of Exodus 16. pp. CBQv? 34. 31-63. J. 2000. D. W. Anderson. “Moses versus Amalek: Aetiology and Legend in Exodus XVII 8-16”. S. Talmon. 883. Leiden: Brill. 46-81. “Mana”. Theology. em BiblicalMotifs: Origins and Transformations. 29-41. Cambridge: Cambridge University Press. 1974. S. Edinburgh 1974. JSOTSup n° 239. “Quail”. 1966. Mass. JETSv° 18. P. pp. H. The Bible. Editado por A. J. I.1-10”. _. R. “The Wilderness Itineraries: A Comparative Study”. EncJudv. pp. Tigay. “The Wilderness Itinerary”. 1972. Moberly. pp. 1997. JBL n° 94. . Nova York: Ktav.: Harvard University Press. EncJudrl 13. Sheffield: Sheffield Academic Press. pp. Ferris. 1975. ThePilgrimagePattern in Exodus. W.

1. não raro idejitiftcado com Jebel Musa (em árabe. “e Moisés subiu” (19.25) (ver Arichea: 1989). “E relatou Moisés” (19. “a nha de Moisés’^e^m ^.3)2‘M&éb voltou” (19. implícitohS^mtao.300 metros de altura. Moisés subitr\èãfesceu essa montanha: “E subiu Moisés a Deus” (19.7. Aj^e&àr de terem chegado ao Sinai em Êxodo 19.14). os hebreus chegaram ao ai. "Erdãâ^TODmes desceu” (19. viajarem por três hi^áhs. NVI).9 A Lei e a Aliança ÊXODO 19—24 <@. Por diversas 'ezes.20).8. Moisés desceu” (19. os israelitas iriam partir até .

028 versículos.. essa palavra refere-se à riqueza real e distingue aqueles . Deus falou e Moisés ouviu (vv. Efeitos: “agora. a “agora.17). O povo de Deus. Trata-se. Malaquias 3.27 = 2. no segundo mês. A Aliança no Sinai Na primeira vez em que Moisés subiu o Sinai. uma palavra sobre responsabilidade (o que não deixa de ser um privilégio). de “o que fiz [.. 3. 26.849 versículos. apenas onze meses foram passados no Sinai. Causa: “o que fiz aos egípcios. 4). o discurso passa. do amor divino à responsabilidade humana.11 a Deuteronômio 34. Chegaram “ao terceiro ês” (Èx 19.. Em 1 Crônicas 29. Dentre quase três mil anos. Salmos 135. sereis” (v. Podemos chamar a primeira dessas frases de uma palavra sobre privilégio. 1. aos vinte do mês”. no versículo 5. Então. Ou seja. esse período abarca quase um terço do Pentateuco.] vos levei [.706 anos. Números 10. Seguramente. De acordo com Blenkinsopp. se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu concerto”. e vos trouxe a mim”. “e vós me sereis reino sacerdotal e povo santo”. de lembrar Israel da fidelidade e do cuidado divino. pois.6: 14. a terceira.18.. mas apenas para servir em um ministério de reconciliação com este mesmo mundo. é singular.1) após partirem do Egito. reflete o termo hebraico següllâ (novamente utilizado para descrever a condição privilegiada de Israel em Deuteronômio 7. se diligentemente ouvirdes a minha voz”.972 versículos. antes de mais nada. 3- 6).Números 10. Israel não havia chegado até ali por acaso ou graças a sua agressividade (v.1 a Números 10. Schramm nos apresenta os seguintes números: Gênesis 1. Passamos da causa aos efeitos. portanto. Todavia. o acampamento aos pés do Sinai durou cerca de onze meses.3 e Eclesiastes 2. trata-se de um grande e importante momento nas vidas do povo de Deus. separado do mundo.11 relata que os israelitas partiram do Sinai “no segundo ano. Êxodo 19.8.11. 2. A expressão “propriedade peculiar”.12 = 1.4. sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos”.12. Números 10. pois. Ainda assim. os eventos narrados no Pentateuco cobrem 2. a segunda. uma palavra sobre caráter. Resultados: “então.] e vos trouxe” no versículo 4. como vos levei sobre asas de águias. ou “tesouro pessoal” (NVI).2.10 = 1. dos efeitos aos resultados: “então.1 a Êxodo 18. 5).

A expressão aparece regularmente em Deuteronômio. “povo santo” (“nação santa”.5. 18). é a primeira vez na bíblia em que a palavra “santo" aparece ligada a pessoas.3]). 5. 26. 16) preparando-se para encontrar-se com Deus. O povo passou a maior parte dos três dias seguintes (v. Tudo que é ofensivo a Deus deve ser depurado.19. mas relacionada a “pessoas” em vez de “nações” (7. as pessoas deveriam se abster de ter relações sexuais (v..21.5) específicos.9).. Diante da segunda. “propriedade peculiar”. Quanto à terceira expressão. Tocá-la seria tão mortal quanto tocar em um cabo de alta voltagem.tesouros especiais conseguidos pelos reis. acima de tudo. Na segunda vez (vv. temos novamente um monólogo. 28.3) ou lugares (Ex 3. Qualquer descuido era inadmissível. Anteriormente. devem se santificar e purificar (v. enquanto Deuteronômio percebe a santidade como um fato consumado (por exemplo. A terceira vez foi precedida pela descida de Jeová do alto do monte Sinai (v. semelhante à prescrição de Paulo em 1 Coríntios 7. 14).] povo santo”). Além disso.2. 10-13). a resposta do povo se resumiu em palavras. com “peculiaf significando “próprio. o povo respondeu agindo: colocaram roupas limpas e evitaram qualquer contato com a montanha.5 e ao que Eva disse à serpente: “nem nele tocareis. . sem parar para pensar nas implicações de sua resposta. Adoradores.6: “povo santo és ao Senhor”). a ser uma comunidade de servos. Uma diferença entre os dois é que Êxodo apresenta a santidade como um objetivo e um ideal (“vós me sereis [. que leva a bacia e a toalha. mas é algo para o qual a pessoa deve se preparar com zelo e cuidado. Concordar verbalmente em obedecer é uma coisa. sob pena de serem mortos em caso de desobediência. Talvez o povo tivesse se precipitado em responder positivamente e com entusiasmo (v. NVI). Nas primeiras palavras de Deus no Sinai. A segunda frase lembra ao povo de Deus que eles são chamados para servir. aquilo que é separado e possui especial valor (que originou a tradução daARC. fora usada apenas em relação a momentos (Gn 2. Pecados conhecidos não podem ser levados deliberadamente à presença divina. para que não morrais” [Gn 3. especial”). Não se entra de qualquer forma na presença de Deus. 14. 7. A Vulgata corretamente traduz o termo porpeculiurrr. 8). purificar-se e se consagrar é outra.

a primavera e os rios. os israelitas não se sentiram tentados a fugir o mais rápido que podiam. Dessa vez. 24). Deus acrescentou restrições. aterrorizando o homem e ameaçando-o com destruição. Hebreus 12. nuvem. no monte Sinai. A força da natureza. Tal mudança. que no futuro se tornaria o sumo sacerdote. Ele não mudou.Longe de ser seu lar. Nem mesmo os sacerdotes deveriam se aproximar de Deus (v. 18-24) como uma pessoa se aproxima de Deus sob a antiga aliança. Ele não se transformou de um Deus santo em um Deus “conforme a vontade do freguês”. O Decálogo Durante todas as negociações entre israelitas e egípcios. a montanha funcionava como habitação temporária de Jeová. Como comenta Gowan: “É importante que as pessoas possam tomar precauções. 20). ameaças de morte e assim por diante).12. como o sol e a lua. E. voltou a subir a montanha (v. As pessoas foram. não significa uma responsabilidade menor. não repele. Já prenunciando o Tabernáculo.” Moisés. pela terceira vez.]. as árvores e as florestas [. mas forças naturais que irrompem de forma súbita e assustadora.. contudo.13). A presença iluminada e numinosa de Deus atrai. alertadas para não se aproximarem demais do Sinai (19. não pensaram em ficar o mais longe possível do Sinai. o topo do Sinai tornou-se o local Santo dos Santos: a santa presença de Deus estava lá. no monte Sião. raios. no monte Sinai. e sob a nova aliança. com exceção de Moisés e Arão. O lugar foi proibido a todos. fogo. pois não se trata de um perigo a ser evitado. com certeza. portanto. Começa comparando (vv. 25-29). Tudo isso. soar de trombetas e tremores de terra. Apenas Arão acompanharia Moisés. raios. quando os primeiros . Seu contato com o povo foi precedido de trovões. não visava encorajar o povo a ter grandes intimidades. é substituída por Jesus. mas algo de que se é preciso chegar o mais perto possível”. Era com seu Senhor que o povo iria se encontrar. fumaça. mas maior (vv. mas ainda é “um fogo consumidor”. como sinal da presença divina. não são fenômenos naturais com os quais o homem está familiarizado e reconhece como benéficos. apesar da tensa atmosfera que permeia todo esse capítulo (trovões..18-29 traz um curioso comentário sobre Êxodo 19. Walther Eichrodt destaca o quanto tais teofanias diferem de suas correspondentes pagãs. “Em um claro contraste com os conceitos babilônico e cananeu. Por isso. embora tenha mudado a forma como se revela. pois Deus não apenas era. uma nuvem espessa.

.] que me aborrecem [. mas mandou Moisés lhe falar. o Senhor..1. O discurso é sempre dirigido à segunda pessoa do singular.. Da mesma forma. E interessante notar que. o papel de Moisés era. a palavra de Deus acerca do Tabernáculo é revelada ao povo através de Moisés (25. ao qual Deus falou de modo direto: “Então. o de mediador.eram escravos dos últimos. onde poderiamos esperar “Eu.. 35. estamos frente a frente com a excelência ou o summum bonum da vontade de Deus para seus seguidores.] diante de mim [.22). Ele fala de si mesmo na primeira pessoa nos versículos 2-6 (“Eu sou o Senhor [. o ministério de mediação de Moisés volta a ser enfatizado: “Assim dirás aos filhos de Israel” (20. Características do Decálogo Oito dos Dez Mandamentos são proibições. No Sinai.21—23.. Sua ação é dissuasória. Ele continuou nesse papel durante a Páscoa (“Falai a toda a congregação de Israel” [12. Isso não causa surpresa.2]).] aos que me amam e guardam os meus mandamentos”).1). Deus se dirige a eles como indivíduos e não como um grupo. não do plural. antes de mais nada. sua função continuava sendo a de transmitir a palavra de Deus ao povo (“Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel” [19. O hebraico distingue claramente os dois. o Senhor.. quando lemos o decálogo.] eu.] Honra a teu pai e a tua mãe”. no que diz respeito a estilo de vida e compromisso moral? Observe a seqüência aos Dez Mandamentos: “eu falei convosco desde os céus” (20. teu Deus [... Ela é mais prescritiva que descritiva.6]). no versículo 7.3]) e o êxodo (“Fala aos filhos de Israel” [14. o “não farás” é lò’ta‘aseh\ se fosse no plural.1). lemos: “o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”. A . No versículo 4. não do Sinai. mas passa para a terceira pessoa nos versículos 7-17 (por exemplo. Deus não falou com Faraó. não terei por inocente o que tomar o meu nome em vão”). falou Deus todas estas palavras. Por outro lado. embora Deus tenha transmitido pessoalmente o Decálogo.. Somente dois escapam a essa classificação: “Lembra-te do dia do Sábado [. na revelação do Decálogo esse aspecto foi omitido. considerando o fato de que a lei é essencialmente restritiva.22). por exemplo.. Seria essa uma forma de a Bíblia nos dizer que. Nas leis dadas após os Dez Mandamentos (20.33). Moisés ouviu juntamente com o povo. dizendo” (20. Ao falar com os israelitas. seria lõ taasu.

Em contrapartida. categóricas). O que nos interessa aqui é como ele determina a diferença entre ambas no que diz respeito ao propósito. principalmente em seções que abordam questões legais ou de culto. John Bright analisou as ocorrências dessas duas formas de expressar proibições no Antigo Testamento. eles são intrinsecamente imutáveis. sem qualquer implicação futura. Os Dez Mandamentos não estão sujeitos a serem revistos ou revisados por alguma assembléia consultiva. (2) com a partícula negativa/íTacom- panhando um verbo em tempo imperfeito (geralmente reproduzida na Septuaginta por ou. Oito décimos do Decálogo são proibições apodícticas (ou seja. a primeira forma aparece apenas duas vezes. tendo a . Jamais obsoletos. em que uma proibição é freqüentemente justificada por um motivo: “não te ponhas a caminho com eles [. colocadas na segunda pessoa do singular. O propósito da aliança é criar um novo relacionamento.conduta na comunidade é regulada através da proibição de determinadas ações. A primeira forma predomina na literatura de sabedoria..] Porque os pés deles correm para o mal” (Pv 1.. nos quatro capítulos de Êxodo que se ocupam das leis da aliança (21—23. A segunda forma é.15. mas absolutos. Quanto à diferença de nuança entre elas. a opção utilizada no Pentateuco. que possa revogá-los conforme sua conveniência. de forma clara. lõ Tom um verbo no imperfeito expressa uma proibição categórica. Sob o aspecto lingüístico. Brevard Childs comenta: “A lei define a santidade exigida do povo da aliança [. enquanto a segunda é utilizada 55 vezes. Essa forma diz respeito a ordens e situações específicas.16).] avaliar-se a santidade. forçosa tanto no presente como no futuro. O propósito da lei é regular ou perpetuar um relacionamento existente através de uma ordenação. juntamente com o imperativo ou aoristo subjuntivo). Nessa mesma linha.. concluiu que ’alcom o imperativo é a menos categórica. 34). junto a um verbo no futuro do indicativo).. Assim. O Propósito do Decálogo George Mendenhall lista seis diferenças entre a aliança e a lei. O idioma hebraico tem duas formas de expressar uma proibição: (1) com a partícula negativa ’al acompanhando o verbo no imperativo (em geral reproduzida na Septuaginta por me. Não é por acaso que as leis do Decálogo sobre proibições tenham sido expressas com a maior ênfase possível no idioma hebraico.

um anjo teve de dizer: “Não temais” (Lc 2. que Deus veio para provar-vos [testar-vos] e para que o seu temor esteja diante de vós. Existem apenas duas passagens no Antigo Testamento em que lemos sobre provação divina (com o verbo hebraico nãsâ). temos um Advogado para com o Pai. temos as leis. Qual é. mas não trazem também promessas? Seriam os mandamentos mais que um código imposto pelo Altíssimo? Deus. O propósito do Decálogo é claramente explicado em 20. portanto. Abraão. As palavras do anjo são as mesmas de Moisés: “Não temais”.10). Nenhum relacionamento saudável pode se basear apenas no medo.20 e Abraão em Gênesis 22 é de especial importância. A glória do Senhor.20 como “Não temais. Eles são a lei. A relação entre Êxodo 20. A expressão faz lembrar 1 João 2.1: “vos escrevo para que não pequeis”. . Eis o que são. os Dez Mandamentos de Deus.20: “Não temais. Abraão foi testado e. Hans W. outro. para que não pequeis”. se alguém pecar. ao dar o Decálogo ao seu povo. o propósito evidenciado por elas é produzir “temor de Deus” naquele que é testado. O propósito de Deus. além de prover a lei. pois. o Justo”. não provê também capacidade para cumpri-la? Por sua própria conta. impede que se dê à aliança uma interpretação moralista”. Qual é o medo que fenece e qual o que permanece? O que não tem lugar é o temor no sentido de terror e pavor. tornou-se um modelo ou exemplo a ser seguido por Israel. para acalmá-los. Então. o medo a ser incentivado? E temor no sentido de obediência à lei revelada por Ele. Esse é o padrão de Deus. Um tipo de medo é condenado.9. ninguém é capaz de viver de acordo com tal padrão. mas as palavras de João são a respeito da compaixão divina: “e.natureza divina como padrão. ao obedecer. O capítulo 19 de Êxodo trata da instituição da aliança. Ele traduz Êxodo 20. é “para que não pequeis”. Jesus Cristo. que apareceu aos pastores no nascimento de Jesus. Wolff compilou e analisou todas as passagens sobre o “temor de Deus” em Gênesis e Êxodo. indispensável. para que não pequeis”. portanto. A oração de Agostinho vai direto ao ponto nesse aspecto: “Ordena o que tu queres e realiza o que ordenaste”. que Deus veio para provar-vos e para que o seu temor opere em vós. demonstrou que temia a Deus. Israel seria agora testada por intermédio do Decálogo. no capítulo 20 e seguintes. e sua obediência aos mandamentos evidenciaria seu temor a Deus. encheu-os de temor (tiveram grande temor) e.

Já Deuteronômio 5. Deuteronômio 5. nas tradições protestante e judaica. acerca dos pais. enquanto Êxodo 20.11 fundamenta o Sábado no descanso após os seis dias de criação. A segunda divergência encontra-se no quinto mandamento. lê-se “guardar”. respeito ao nome do Senhor). Além disso. te ordenou” e insere mais uma expressão. Mais uma vez. teu Deus. 4-6) são consideradas um único mandamento e. cinco e dez. constituem o segundo mandamento. nas tradições protestante e judaica. Ainda no judaísmo. A lista é essencialmente uma duplicata. como se pode ver nas muitas estruturas de diferentes tradições religiosas. em Deuteronômio 5.2: “Eu sou o Senhor. no décimo mandamento. mas com curiosas variações de palavras nos mandamentos quatro. distintos (17a.15 baseia o Sábado no êxodo de Israel do Egito.21 reverte essa ordem e acrescenta “campo” à lista de intocáveis. Nas tradições católica e luterana. não cobiçarás).12. Nas tradições católica e protestante. usarei aqui o sistema geralmente usado nas tradições protestantes. depois. há uniformidade na maioria das tradições protestantes. a esposa do próximo. Em toda e qualquer referência a mandamentos específicos. que te tirei da terra do Egito”. O segundo mandamento (v. juntamente com uma explicação: “como te ordenou o Senhor. nas tradições católica e luterana se divide em dois. 17. A forma exata de separar e diferenciar essas dez palavras ainda é alvo de muitas indagações. Somente no judaísmo. dez: “não cobiçarás a mulher do teu próximo”). ausente em Êxodo: “para que te vá bem”. O que. teu Deus. Êxodo 20. Êxodo 20. Fora isso. 3) e “Não farás para ti imagem de escultura” (vv.4 e Êxodo 34. Essa diferença continua até o nono (ou oitavo) mandamento (contra o falso testemunho). o primeiro mandamento é Êxodo 20.28.17 . juntas. é o último mandamento (v.13. formando o nono e o décimo (nono: “Não cobiçarás a casa do teu próximo”. as orientações acerca de “Não terás outros deuses” (v. 10. Deuteronômio acrescenta a frase “como o Senhor. 17b). Em terceiro lugar.6-21. esse versículo é considerado um prólogo ao decálogo. o quarto mandamento é “lembrar” o Sábado. Em Êxodo.A Estrutura do Decálogo Os Dez Mandamentos são mencionados (em hebraico) como as “dez palavras” em Deuteronômio 4. os versículos 3-6 são considerados o primeiro mandamento. Do terceiro ao décimo mandamento. corresponde ao terceiro.17 proíbe primeiro cobiçar a casa do próximo e. teu Deus”. O Decálogo de Êxodo é reproduzido em Deuteronômio 5. 7.

de todo o teu coração. Os quatro primeiros tratam do relacionamento com Deus.hamad\ a mulher do teu próximo.37). Isso não seria uma profanação do amor? O amor não é algo a ser voluntariamente dado? Ao colocar o amor em um contexto de exigência ou mesmo de imposição.5: “Amarás o Senhor. teu Deus. a vida de uma pessoa se deve a ambos. mas adorar a outros deuses além de Deus. Jesus dá a entender que o amor por Deus e pelo próximo se baseia na vontade. muito provavelmente significa “além de mim”. não em emoções. Talvez seja significativo que o mandamento acerca dos pais seja o primeiro no âmbito interpessoal (ver Cassuto 1967: 246). Jesus prosseguiu falando: “e o segundo. É bastante óbvio que a intenção dos quatro primeiros mandamentos difere da intenção dos outros seis. A falta de amor entre irmãos impede a possibilidade do amor de Deus e torna obscura qualquer expressão de amor por Deus (uma das mensagens de 1 João). Apesar de não lhe pedirem maiores esclarecimentos. é" Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22. e de toda a tua alma. Isso condensa em uma única oração os últimos seis mandamentos. “diante de mim”. Jesus citou Deuteronômio 6. Essa poderosa expressão. e não desejarás [’ãwâ\ a casa do teu próximo”. Ao contrário do . oitavo. A tentação de Israel (nossa?) não é tanto deixar Deus de lado para servir a outros deuses. semelhante a este. sétimo. Ao ser perguntado sobre o mais importante mandamento (como se eles pudessem ser organizados hierarquicamente). nono e quinto. Até mesmo a ordem em que eles são citados é interessante: sexto. Observe que Jesus insiste que o amor pode ser determinado.39).usa “cobiçar” (hamad) para os dois objetos (“Não cobiçarás a casa / a mulher do teu próximo”) e Deuteronômio 5. Ocorre uma guinada do Criador para o procriador. mas apenas sobre o segundo grupo.21 utiliza dois verbos diferentes: “não cobiçarás [. enquanto os outros seis regulam relacionamentos interpessoais. Interpretação do Decálogo O primeiro mandamento é “Não terás outros deuses diante de mim”. o rico perguntou: “Quais?” Jesus não disse nada sobre os quatro primeiros mandamentos. o que reduziu o primeiro mandamento a uma única frase. e de todo o teu pensamento” (Mt 22. Logo após ser orientado por Jesus sobre o cumprimento do mandamento como requisito para a vida eterna.

. Jesus “mandou” que seus seguidores “amassem uns aos outros” mas. é necessário haver limites de velocidade nas rodovias de hoje em dia. Temos de admitir que é permitida uma arte religiosa com forte significado simbólico (haja vista os adornos no Tabernáculo e no Templo). (Não foi uma palavra para os moabitas ou filisteus. é um “objeto visível que representa algo invisível. O povo de Deus não pode permitir que nada nem ninguém tenha maior prioridade em suas vidas. A Bíblia está repleta de paródias sobre a idolatria. são ilegais. ou de qualquer divindade. por vezes. algo presente representando algo ausente [. Por isso não temos. mandamento algum que diga: “Não saltarás de precipícios”. Os últimos capítulos de Isaías estão cheios delas. mas imagens de Deus.segundo mandamento. O segundo mandamento é “Não farás para ti imagem de escultura. Abraham Heschel traça uma diferença entre símbolos “reais” e “convencionais”.] de forma que aquele que possui a imagem possui o deus”. Um símbolo “real”. visto que sua ausência faria com que muitos motoristas utilizassem as vias públicas como pistas de corrida particulares. mas sobre orientações. A religião veterotestamentária é iconoclasta. e ocupar o topo da lista. preconizam atitudes que não fazem parte de nossa natureza. atraente. Tb-das as vezes em que os patriarcas ou Moisés falaram “face a face” com Deus. seria um mandamento inútil.. Por outro lado. O mandamento de não se adorar outros deuses não teria qualquer sentido sem que tal possibilidade existisse e fosse. os mandamentos que não versam sobre proibições. Logicamente.) Por semelhante motivo. faz supor a existência de membros que têm realmente uma tendência a se curvar perante substitutos de Deus. manipular ou abusar uns dos outros. possivelmente escolheremos apenas ignorar. mas por alguma associação. em Isaías . Só o fato de tal proibição existir. Por exemplo. Utilizando a bandeira nacional como exemplo de um símbolo “convencional”. que claramente fala sobre “como” adorar. A menos que os humanos tivessem uma propensão nesse sentido. por exemplo. ele comenta que esse tipo de representação exprime uma realidade não por quaisquer características intrínsecas. relação ou convenção sugerida pelo símbolo. por outro lado. esse fala sobre “a quem” adorar. nem por uma vez deram qualquer pista daquilo que viram ou de sua aparência. não é necessário proibir ou desencorajar procedimentos que não interessem à maioria das pessoas. se formos deixados por nossa conta. mas para aqueles que haviam abraçado um relacionamento em aliança com Deus.

1. que tal deus pode ser controlado e manipulado. Eles colocam seus ídolos sobre os lombos dos animais. Ter acesso a uma imagem de Deus sugere. em . Ademais. fúteis e insignificantes. ou usar algo que deve ser adorado”. os deuses são valiosos. A palavra hebraica para “vão”. Napier. Por meio desse relato. O terceiro mandamento é “Não tomarás o nome do Senhor. “a base fundamental para o Sábado. tomar o nome de Deus em vão é usar seu divino nome em relação a coisas desimportantes. Ao que tudo indica. o senso comum de que o mandamento proíbe jurar falsamente em um tribunal é válido. Já vimos que Êxodo relaciona o Sábado ao descanso no sétimo dia após a criação. de certa forma. Os válidos interesses dos seis dias anteriores são momentaneamente postos de lado para o que Herman Wouk ani-madamente chama de “uma pausa para uma mágica revigorante”. a proibição aqui não se limita a blasfêmias e vulgaridades no sentido moderno. equivale a tomar o nome de Deus em vão. Talvez a melhor definição de idolatria pertença a Agostinho: “Idolatria é adorar algo que deve ser usado. Por quê? Estariam os deuses em perigo? As pessoas são responsáveis pela segurança de seus deuses? Se as pessoas não cuidarem de seus deuses em tempos de dificuldades. Humberto Cassuto enfatiza a relação entre o Sábado. D. mas as palavras falsas”. O quarto mandamento é “Lembra-te do dia do sábado. aqui utilizada. seu filho. Elton Trueblood afirma: “A pior blasfêmia não é o sacrilégio. seu criado. Por isso. Em outras palavras. no sentido de “não ter substância. seu gado (mesmo os animais observam o Sábado) e o hóspede. não ter valor”. Deus diz ao seu povo: “Vocês não me carregam nas costas. teu Deus. e as sete criaturas vivas chamadas a observá-lo: você. lemos sobre os babilônios fugindo da Babilônia com a invasão de Ciro. que é o sétimo dia. que seja simplesmente perfunctória.2. Como observa B. sua serva. Childs afirma que “para o santificar” é um Piei factitivo em hebraico.46. deriva de uma raiz que significa “estar vazio”. quem o fará? Embora feitos pelas pessoas. Sou eu que carrego vocês nas costas”. mas não encerra o caso. Já se discutiu mais do que se deveria sobre os diferentes motivos apresentados em Êxodo e Deuteronômio. enquanto Deuteronômio o relaciona à saída do Egito. em vão". para o santificar”. Qualquer invocação do nome de Deus ou menção de seu nome. sua filha.

os “sétimos” dias (ou seja: o sétimo. o vigésimo primeiro. o rei tinha de se submeter a todo tipo de precauções (por exemplo. e o vigésimo oitavo dias do mês) tinham as características de um dies nefastus (em babilônio. Israel não estava só na observância de dias especiais e sagrados. nenhum trabalho deve ser feito. Era claramente motivado por razões inteiramente diferentes e considerado um dia de azar. principalmente. Ao contrário dos dias de sacrifício público. mas também estabelece uma ponte para os outros seis. etc. estrangeiros e todos aqueles que. não oferecer sacrifícios. mas é impossível odiar e honrar. üm nuh libbie. Pode-se odiar e obedecer. em Êxodo. O quinto mandamento é “Honra a teu pai e a tua mãe O que um leitor da Bíblia poderia esperar é “Obedeça a teu pai e a tua mãe”. Veja Números 29. O quarto mandamento não apenas está relacionado aos dois primeiros. Por diversas . quando todo trabalho árduo e penoso é proibido (meleket cfôõdâ). não achariam descanso. Em Deuteronômio. 28. de outra forma. somente no Sábado e no Yom Kipur / Dia da Expiação todo trabalho deve ser posto de lado (kolmelãkâ). Obedecer. Nesse dia. Eichrodt escreve: Na Babilônia. pois somente no décimo quinto dia se parava de trabalhar na Babilônia. De certa forma. o décimo quarto. eram tomados cuidados especiais. a criação do mundo”. esse quarto mandamento é uma seqüência natural dos dois primeiros (e parcialmente os resguarda). os quais tratam dos relacionamentos interpessoais no meio da comunidade. é mais fácil que honrar. a criação de um povo. sendo necessário pacificar os deuses (donde deriva seu nome. A gravidade da ordem é reforçada pela escolha do verbo “honrar”.ambos os enunciados do mandamento. Não há qualquer menção a uma pausa geral em todas as atividades. contudo. O Sábado é um presente de Deus para todos — crianças.). escravos.7 e Levítico 23. e isso nada tinha a ver com festas e celebrações. é criação. Nesses dias.3. Não foram poucas as análises sobre uma possível correspondência entre o Sábado bíblico e o shapattu babilônico. ümu limnu). e. “dia da pacificação do coração”) e aplacar sua fúria com todo um dia de penitência e oração. não subir a sua carruagem. A correta observância do Sábado impede que as pessoas idolatrem seu próprio trabalho e compromissos.

Curiosamente. a relação entre os dois está na idéia de que observar o Sábado é uma forma de honrar a Deus e. de forma indireta. Isso não quer dizer que os pais são dignos de adoração. 43.27: o vingador do sangue que matar um homicida procurado.23). como “intencionalmente” ou “por erro e não com intento”. ele é usado com Deus como objeto (1 Sm 2.2).23). nem todas as mortes seriam proibidas (como a pena de morte por determinados crimes ou a participação em guerras).37). O sexto mandamento é ‘Não matarás”. Is 24. e descreve como Deus deve ser adorado (SI 22. não será culpado do sangue. Dessa forma. e o anterior a inviolabilidade do lar. indicado pelo acréscimo de algum qualificativo. mas também disse: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10. Deus proíbe que uma pessoa mate outra e também que tire a própria vida.9.9.vezes. a melhor tradução seria “não assassinarás”. exceções. Jesus estendeu o sexto mandamento para incluir sentimentos de cólera. principalmente ao considerarmos a partícula negativa lõ’.15. há apenas um caso claro de suicídio no Antigo Testamento. Outra ilustração disso é encontrada em Números 35.20. Davi. Caim o fez pessoalmente. ainda que em ordem oposta. Sua admoestação é: “Concilia-te depressa com o teu adversário”.23.30.12. maus- tratos verbais ou impropérios contra outras pessoas (Mt 5. Como em Levítico 19. Se o último mandamento defendia a inviolabilidade da vida. Essas são. 86.10. os mandamentos sobre guardar o Sábado e honrar pai e mãe estão juntos. Em outras palavras.21-26).15). 50. cometidos por raiva ou ganância. O sétimo mandamento é “Não adulterarás”.3. Pv 3. portanto.23. Mc 7.4. Tanto Deus como os pais são dignos de honra. também Paulo o fez em Efésios 6. esse mandamento . como parte dos “outros deuses” proibidos no primeiro mandamento. Esse termo hebraico é ocasionalmente traduzido por “glorificar”. Jesus citou e corroborou o quinto mandamento (Mt 15. SI 50. mas apenas os homicídios desnecessários. Os pais. Possivelmente. Alguns estudiosos traduziram esse verbo como “assassinar”. contudo. O significado normal é homicídio doloso (com intenção de matar). Is 29. Vez ou outra. o verbo descreve um homicídio culposo. o deAitofel (2 Sm 17. fora da cidade de refúgio.13. corresponde a honrar os pais. seriam deuses por demais impotentes.

O oitavo mandamento é “Não furtarás”. As infrações listadas no Decálogo são representativas. Existem dez mandamentos. suprirá todas as vossas necessidades” (Fp 4. O oitavo mandamento refere-se ao despojo dos bens de alguém através do furto ou roubo. será possível percebermos o porquê desse mandamento vir entre o oitavo e o décimo. A lascívia é um sentimento possessivo que busca a autogratificação. A infidelidade traz consigo a pior das conseqüências. sejam simplesmente uma extensão da lei sobre adultério. a aplicação original desse mandamento dizia respeito a testemunhos falsos em juízo ou em transações oficiais e negócios em geral. sem que haja qualquer compromisso ou obrigação mútua. Suspeita-se que passagens como Levítico 20. além da física (Mt 5. englobando a concupiscência dos olhos. O direito de propriedade é confirmado. vou tomar isso de você”. logo. Veja o comportamento de Davi com Bate-Seba. exclui a possibilidade de usá-lo como um manual ou livro-texto. Jezabel e a vinha de Nabote. nem é algo com que se brincar. não mil ou dez mil. O mandamento combate a filosofia do “o que é seu é meu. Se observarmos a história sobre Acabe. e condena-se qualquer tentativa de se conseguir algo de graça. O mandamento diz respeito a roubo de bens e.10-21. E um sentimento que reduz a outra pessoa a um objeto. O antídoto contra o roubo aparece nas palavras de Paulo para a igreja de Filipos: “O meu Deus. mas tal promessa cobre apenas necessidades. não ganância. não exaustivas. além da ausência de punições. Jesus expandiu essa restrição. Devemos.protege a inviolabilidade do casamento. a seqüestros. O nono mandamento é “Não dirás falso testemunho”. A limitação do Decálogo a dez enunciados. que tratam de comportamentos sexuais proibidos. portanto. Um casamento não é apenas um relacionamento de conveniência. segundo as suas riquezas. provavelmente. Muito provavelmente. São o que von Rad chamou de “placas de sinalização às margens da grande estrada da vida”. enxergar seu valor permanente nos princípios básicos e limites que ele promove. O nono versa sobre tomar o que é de alguém através de um falso .27-30).19). considerando os preceitos desse mandamento (de que falsas acusações e testemunhos fraudulentos podem ser utilizados para tomar do próximo aquilo que lhe pertence por direito).

Quarto: “Lembra-te do dia do sábado. enquanto os outros mandamentos tratam de atos específicos e visíveis. Não apenas os atos possuem conseqüências morais. certamente morrerá”. Segundo: “Não farás para ti imagem de escultura”. Em Êxodo 31. O décimo. Difamação é algo que podemos ver já em Gênesis 3. dos cinco primeiros. Não é por acaso que Tiago afirma que a língua é piromaníaca.15.3). então. recorremos a Paulo para uma contrapartida da proibição expressa no mandamento: “cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Fp 2. Quinto: “Honra a teu pai e a tua mãe”. torna-se a mais letal das armas na destruição de uma comunidade. conseqüências quase catastróficas após o incidente com o bezerro de ouro (Êx 32). O segundo aspecto diz respeito aos meios pelos quais é possível estabelecer a culpa e condenar alguém por cobiça.17: “O que . pelo menos. O décimo mandamento é “Não cobiçarás”.. mas também o que se pensa e sente. pode causar um incêndio. Primeiro: “Não terás outros deuses”. sobre cobiçar o que pertence a outrem. que levante dúvidas sobre a integridade do caráter de alguém. para o santificar”. é possível ter uma interpretação mais ampla e genérica. temos: “o sétimo dia é o sábado do descanso [. Mais uma vez. Obviamente. temos: “O que sacrificar aos deuses e não só ao Senhor será morto”. teu Deus. Em Êxodo 22.20. Fica claro que esse mandamento difere em pelo menos dois aspectos dos nove primeiros ou. Compare isso a Êxodo 21.15. Tal atitude refrearia a tentação de se prestar falso testemunho. Se não for controlada. Inicialmente. Observe o restante do versículo: “porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”.. Os nove primeiros mandamentos não têm problema algum nesse sentido. O mandamento compreende qualquer conversa mal-intencionada. em vão”. Desgovernada. Terceiro: “Não tomarás o nome do Senhor.testemunho. proposital ou não. ele parece proibir uma postura bastante íntima e subjetiva. Temos.] qualquer que no dia do sábado fizer obra.

A conotação desse verbo.1-3.12: “Quem ferir alguém. que tal explicação não se baseia tanto na exegese do texto.22: "Quando um homem for achado deitado com mulher casada com marido. que testificou falsidade contra seu irmão.] morrerá / será morto”)? Um versículo assim seria surpreendente. encontramos a possibilidade de violações e explicações sobre suas conseqüências. A isso. Suspeita-se. O primeiro é o mesmo utilizado por duas vezes em Êxodo 20. e os arrebatam”. conforme o que se lê em Deuteronômio 7. Compare isso a Êxodo 21. que morra. Em Êxodo 22.ferir /amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe certamente morrerá”.... nem os tomarás para ti”. Essa é a história de Eva. os dois verbos utilizados para “cobiçar” no Decálogo de Deuteronô-mio (Dt 5.16: “E quem furtar algum homem e o vender [. sendo a testemunha falsa testemunha.. ambos morrerão”. Após o Decálogo. Além disso. “e cobiçam campos. Sétimo: “Não adulterarás”..] certamente morrerá”..17: hãmad. mas no desejo de compreender a proibição em termos que possam levar ao cumprimento da lei.25. Já o segundo é 7zwâ\ “não desejarás /almejarás a casa do teu próximo”. sem qualquer .. contudo. Alguns exegetas já sugeriram que o verbo “cobiçar” envolve tanto atos como emoções. Nono: “Não dirás falso testemunho”. Oitavo: “Não furtarás”. compare Deuteronômio 22. temos: “Se alguém furtar boi ou ovelha [. Acabe e Jezabel em relação à vinha de Nabote. e pela ovelha. Compare isso a Deuteronômio 19. Acã. Eis o padrão que se percebe: o Decálogo traz proibições e exortações cristalinas. “a prata e o ouro que estão sobre elas não cobiçarás.18. quatro ovelhas”.21) são diferentes. Sexto: “Não matarás”.] por um boi pagará cinco bois.] aquele que cobiçar [. O último mandamento não podia estar incluso nesse padrão (“Não cobiçarás [. mas não faltam narrativas em apoio a essa idéia.21. implica emoções.. e Miquéias 2. Veja também Êxodo 21.19: “e eis que. far-lhe-eis como cuidou fazer a seu irmão”. ele também certamente morrerá”. Judas Iscariotes. então. sinônimo de hãmad em Deuteronômio 5. mas sem qualquer referência a penalidades em caso de violação.2.

é bastante enfática em demonstrar que Moisés não passa de um porta-voz da verdade. O Livro da Aliança (20. vemos mais uma vez Moisés atuando em um ministério de mediação: “Assim dirás aos filhos de Israel” (20.relação com atos externos. que Deus transmitiu diretamente ao povo. Já tivemos a oportunidade de buscar nas palavras de Paulo algumas reformulações positivas dos mandamentos. Voltamos a apelar para ele e. haja cobiça? Eis a raiz do problema. Ao contrário do Decálogo.7: “e tomou o livro do concerto [Livro da Aliança (ARA)] e o leu aos ouvidos do povo”. Quem duvidaria de que. A Bíblia.33) O título dado a essa seção foi extraído de Êxodo 24. Ainda assim. É o mais abrangente de todos os mandamentos e inclui o que está ausente no restante do Decálogo. É. os Dez Mandamentos do capítulo 20 são a carne. Talvez seja esse o motivo para esse mandamento estar no final. dispensável. Como observa Childs. mas apenas um mensageiro. anacrônico e. por exemplo. aqui caberia a máxima de Pedro. “a revisão presente em Deuteronômio apenas explicitou um lado mais subjetivo da proibição. mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.22). portanto. difícil conceber esses três capítulos como um manancial para pregações expositivas. Comem a carne e jogam fora as espinhas. Aliás. a “eterna palavra de Deus”. recorremos à epístola aos Fili-penses: “já aprendi a contentar-me com o que tenho” (Fp 4. que diz: “a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum. sendo jamais aquele que a criou. Eis a diferença entre dominar seus desejos e ser escravo deles. o qual já estava presente no mandamento original”. intragável.21—23. roubos e mentiras. por trás de tantas mortes. e especialmente essa parte de Êxodo. adultérios. mais uma vez. Tipos de Leis no Livro da Aliança . O fato de não aparecer tal hierarquia no texto em si não vem ao caso. muitos cristãos lêem os capítulos 21—23 de Êxodo como se estivessem comendo peixe. os três capítulos seguintes são os ossos — desedificante. Nessa mesma analogia.11).21). Ele não é nem autor nem revisor.

3. idolatria. 10.5. como feitiçaria.33. Leis diversas sobre questões religiosas e sociais.18-26). 7. Lei sobre a retidão no tribunal. agressões verbais e físicas contra os pais e seqüestros. Lei sobre a destruição de plantações.7-15). no qual cai um animal desatento (21. as leis são as seguintes: 1.16. 4. com a obrigação de restituição por parte do infrator (22. 12.6).35. A lei sobre a sedução de uma virgem. opressão contra estrangeiros e usura (22.1-4). sendo que a culpa também alcança o proprietário negligente (21. (21. Proibição do furto.34). com a culpa recaindo sobre o dono do animal agressor no caso de as precauções necessárias não terem sido tomadas (21. tanto por parte das testemunhas como por parte do juiz (23.18-31). A lei sobre o boi que escorneia e pisoteia um ser humano até a morte. 5.1-9).17). A proibição de assassinatos. 11. 9. Leis sobre tomadores de empréstimos e pessoas que se encontram responsáveis pelos bens de outrem (22. seja por causa do pastar de um animal ou em virtude de uma queimada (22. 2. Leis com sanções para quem ferir ou aleijar outras pessoas: um próximo. . 6.1-11).36).22-26). Proibição dos ídolos e a lei acerca do altar (20.12-17). 8. A lei sobre servos e servas.28-32). um servo. bestialismo. com intercurso sexual antes do casamento (22. A lei sobre o poço descoberto. A lei sobre o animal que é mortalmente ferido por outro. Todas infrações passíveis de pena de morte (21. 13.Nessa seção. uma mulher grávida (infrações cuja punição não inclui pena de morte) (21.

17. Proibição de se cozer o cabrito no leite de sua mãe (23.14.17). passa ..20-33).. o código começa com leis apodícticas (20.16. Leis sobre o Sábado (23. no caso de uma ocorrência legítima.] Não subirás também por degraus ao meu altar”. Conseqüentemente. 16. Ou seja. porém.18.12. A apódose. Entre os capítulos 21. uma infração é descrita e apresentada por expressões como “quando” ou “se”: “quando brigarem”.10-13). A partir de 22. até 23.1 e 22. Assim. pode não ser fútil observar que a primeira e a última tratam de assuntos semelhantes. há um claro padrão na forma literária em que as leis são formuladas.17. a maioria delas possui uma prótese: um trecho que aborda a situação em questão de forma específica. “se alguém ferir a seu servo”.] e morrerem debaixo da sua mão [prótase]. Os regulamentos começam e terminam com um chamado à adoração. Via de regra. a qual traz o devoto diretamente à presença de Deus: adoração do jeito certo (a lei acerca do altar) e na hora certa (as três festas anuais). trata dos direitos das partes envolvidas. Anteriormente. certamente será castigado [apódose]”. Esse tipo de lei é geralmente considerado uma lei casuísta. Epílogo (23. pode dizer respeito a uma transação legítima: “quando adquirires um servo hebreu". as leis são redigidas em uma estrutura condicional (as exceções são os versículos 21. Normalmente. Não raro são citadas ressalvas ou circunstâncias atenuantes. Convocação para a celebração de uma festa a ser realizada três vezes por ano (23.14-19a). Apesar de não haver nenhum padrão especial nessa seqüência.19b). vemos a volta das leis apodícticas: “A feiticeira não deixarás viver”.22-26]) é redigida de forma bastante semelhante a um dos Dez Mandamentos: “deuses de prata ou deuses de ouro não fareis para vós [. Observe que a primeira (a lei sobre o altar [20. 15.. A segunda parte da lei se chama apódose. Embora seja perda de tempo procurar algum significado nessa seqüência de leis.15.19. As vezes. já me referi a esse tipo de lei por leis apodícticas.. detalha as conseqüências da violação: “Se alguém ferir a seu servo ou a sua serva [. em vez de generalizar. uma lei casuísta aplica-se a uma situação específica.22-26).

por exemplo.18—23. no primeiro e segundo milênios a.1—22.).) Uma Comparação entre os Códigos Legais Bíblico e Não-bíblico É interessante compararmos a lei bíblica com leis de outras nações que. passa por dois de caráter positivo e conclui com cinco mandamentos negativos. as leis casuístas.1—22. Trata-se do primeiro código legal conhecido na história (aproximadamente 2050 a.1 abre a se-qüência dizendo: “São estas as leis {mishpãtim\ que você proclamará ao povo” (NVI). O livro de Jó.22-26. Êxodo 21. Êxodo 24. porém. todas casuístas. (O Decálogo começa com três mandamentos proibitivos. enquanto o meio difere de ambos. Código de Ur-nammu. 2. As mais relevantes. Tal observação deve nos alertar contra um exame muito apressado do texto.3 começa dizendo: “Quando Moisés se dirigiu ao povo e transmitiu-lhes todas as palavras Sflebãrím\ e ordenanças [mishpatím\ [leis] do Senhor”. existiram em algum momento à parte do restante do código.debarim) refere-se às leis apodícticas de 20. sendo inseridas posteriormente por um redator. Código de Eshnunna. com a parte central em aramaico. Cyrus Gordon ressalta o estilo presente na literatura do Oriente Médio na anti-güidade. essa é a visão que impera entre os estudiosos da Bíblia. que haja uma outra solução. e floresceu entre a queda de Ur e a época de Hamurabi. É possível. mas a um lugar.19.17.18—23.C. com poesia no meio.).17) e retorna às leis apodícticas (22.C.C.19). Não seria possível encontrarmos a mesma estrutura no Livro da Aliança? O princípio e o fim possuem estilo idêntico. começa e termina como prosa.para leis casuístas (21. 22. e apenas pequenas porções foram recuperadas.17.. Suas leis. Possui um prólogo e vinte e nove leis. já o livro de Daniel começa e termina em hebraico. enquanto que “palavras” (. são: 1. Foi escrito em sumério. assim chamado por causa do primeiro rei da terceira dinastia de Ur (aproximadamente 21002000 a. são as mais antigas já . A cidade ficava localizada perto da atual Bagdá. Seu nome não se deve a alguém. estavam em volta de Israel.1—22. Nesse cenário. uma possível conclusão a ser deduzida é que 21. Aliás. incluindo partes da Bíblia. em ordem cronológica. Muitos comentaristas sugerem que a palavra “leis” (míshpãtím) refere-se aos regulamentos casuístas de 21. sessenta e uma no total.

O código é formado por três partes principais: um prólogo.escritas em babilônico e datam de cerca de 1980 a. novamente com uma estrutura casuísta.C. e é o mais famoso código legal extra-bíblico. O fato dessas leis existirem não significa que eram usadas por tribunais ou juizes na manutenção da justiça. praticamente ignoradas.. nem eram citados ou mesmo seguidos para a solução de disputas judiciais. Assim como o Lipit- Ishtar. As Leis da Assíria Média. com 100 leis cada uma. reinou entre 1792 e 1750 a. Leo Oppenheim diz: “Esse código [Hamurabi] [. Essa questão é bem esclarecida por dois assiriologistas. O Código de Hamurábi. “eles [tais códigos legais] não eram utilizados para estabelecer um critério comum de culpabilidade.C. O código data de aproximadamente 1930 a. na verdade. Foi escrito em babilônico. é formado por três partes: prólogo. Foram preservadas em plaquetas de barro que são da época do rei Tiglath-Pileser (1115-1077 a. Inéditas em códigos anteriores. sendo todas casuístas. cortar um nariz ou um dedo.. estudioso da civilização hitita. declara que “é possível que a primeira compilação das leis hititas tenha sido feita no reino de Telipinu (1525-1500 a. completas e incompletas. deve ser considerado uma expressão literária das responsabilidades sociais do rei e de sua consciência da diferença existente entre a realidade e aquilo que se almejava como ideal”.). Cerca de 116 leis foram encontradas em onze tábuas diferentes.] não demonstra qualquer relacionamento direto com as práticas legais daquela época. As leis são divididas em duas tábuas.C. leis e epílogo. as leis e um epílogo.. Seu conteúdo. sobreviveram. as penas muitas vezes incluíam formas de mutilação como. Eram. 5.).C. O código legal hitita. Seu nome vem de um governante da primeira dinastia em Isin (aproximadamente 2000-1900 a. Ou. mas Harry Hoffner. 3. 4. Um total de trinta e oito leis. mas sua origem remonta há quase trezentos anos antes disso. mas eram estudados nas escolas [. por exemplo. para citar William Hallo. E também escrito em sumério. uma das importantes cidades-Estado que surgiram após a queda de Ur. Possui 282 leis casuístas. Sua data precisa não é conhecida. Sexto rei da primeira dinastia da Babilônia.C.. 6. Código de Lipit-Ishtar. Esses códigos jamais assumiram o papel de lei vigente.C.] e devem ter . assim como o Código de Eshnunna. em muitos de seus principais aspectos.)”.

artigos 170. Vamos às semelhanças. parágrafo Io: “Se um homem matar. 171: “Quando a primeira esposa de um homem lhe dá filhos e sua escrava também lhe dá filhos. Portanto. alguém que não pertence ao povo de Israel aconselha sobre como conduzir a aplicação da justiça: Jetro. haveria de ser tratada como filha. de Exodo. por exemplo. o fato de algumas leis bíblicas partilharem dos mesmos preceitos que outros códigos da antigüidade no Oriente Médio não deveria causar surpresa ou levantar suspeitas. mas pela tradição.7-11. Um exame dessas leis demonstra. opinião pública e até mesmo o senso comum. A lei sobre mulheres escravas Para fins de ilustração. ele também certamente morrerá” — não apresenta grande diferença do código sumério Ur- nammu.12 — “Quem ferir alguém. e qualquer infração desses termos por parte do senhor ou do marido resultariam em sua liberdade. Childs conseguiu estabelecer uma correspondência (ou correspondências) entre os códigos pagãos e cada item do Código da Aliança. Em primeiro lugar. Exodo 21. diversos comportamentos proibidos pelo Código da Aliança seriam proibidos em qualquer sociedade antiga. seja em uma lei semelhante ou absolutamente igual”. presente em Exodo 21. ao longo de . caso se tornasse nora de seu senhor. como o assassinato. Código de Hamurabi.influenciado a educação de escribas e juizes”. As diretrizes que regiam as decisões legais não eram determinadas nos códigos. ou com as leis de Deuteronômio. se o pai. em alguns casos. Outras são surpreendentemente semelhantes às de Exodo. caso não agradasse a seu possível marido. que morra. usarei a lei sobre a filha que é vendida pelo pai como escrava. caso cassasse com seu senhor. um posterior casamento de seu marido não diminuiria seu status em nenhum aspecto. Seus termos são bastante diferentes dos aplicáveis aos escravos: ela não seria liberta após seis anos. quer na forma do problema apresentado quer no aspecto destacado. deveria ser devolvida à família. Westbrook observa: “Mais da metade das leis presentes no Código da Aliança acha correspondência em um ou mais códigos cuneiformes. deverá ser morto”. apenas com alterações de terminologia. a poucos capítulos de distância (Ex 18). Em segundo lugar. uma correspondência quase literal com alguma lei do Código da Aliança. o sogro midianita de Moisés (leia Olson 1996: 262). Por pelo menos duas razões.

artigo 31: “Se um homem tirar a virgindade da criada de outro homem.. respectivamente. artigo 34: “Se uma serva do palácio entrega seu filho ou filha para ser criada por um oficial do palácio ou do templo. Código de Hamurabi. 147: “Uma esposa estéril.] após sua morte. mas tanto a escrava como sua prole receberão alforria. tomá-la por esposa e gerar com ela filhos e. A lei sobre o boi escorneador . ele deverá reembolsar o dinheiro pago pelo comprador e resgatar a sua escrava”. Em ambas as leis.. mas a mulher fica com um filho ou uma filha”.toda sua vida disser uma única vez “meus filhos” aos filhos da escrava [. a criança deverá ser devolvida à mãe”. no caso de uma separação. Os filhos do primeiro casamento não perdem seu direito à herança. e seus filhos sobrevivem. após algum tempo [. Código de Eshnunna. com filhos nascidos tanto do primeiro como do segundo casamento. artigos 25. os filhos da escrava não terão direito a uma parte dos bens de seu antigo senhor”. para resgatar um débito vencido. O artigo 171 lida com uma situação oposta no relacionamento entre o pai e os filhos gerados pela escrava: “Se ele jamais disser [a eles] meus filhos”. artigos 146. Os artigos 32 e 33 lidam. Código de Lipit-Ishtar.] a família se separar. artigo 119: “Se um homem. com o casamento entre um escravo e uma mulher livre e com o casamento entre um escravo e uma escrava. O artigo 26 cobre o casamento de um viúvo e uma escrava. Código Hitita. os filhos da escrava não terão direito algum a parte da herança. o homem recebe todas as crianças.. os filhos da esposa e da escrava terão direito a partes iguais na divisão dos bens do pai”.. artigo 31 (tábua 01): “Se um homem livre amar uma escrava e coabitar com ela. que dá a seu marido uma serva por mulher. não poderá vendê-la por dinheiro caso a escrava dê filhos em seu lugar”. 26: “Se um homem se casa com uma mulher que lhe dá filhos. e a criada permanecerá propriedade de seu senhor”. as conseqüências são as mesmas do artigo 31. deverá indenizá-lo em um terço de uma mina de prata. depois tem filhos com uma escrava e dá a liberdade à escrava e a seus filhos. Código de Hamurabi. Código de Eshnunna. vende por dinheiro a sua escrava que lhe tem dado filhos.

35. mas se o boi assassino já for conhecido por sua agressividade. (2) uma lei intermediária que trata da pessoa descuidada que abre um poço e não o cobre. Vejamos a lei sobre o boi escorneador de Êxodo 21.28-32) e o caso de um boi que escorna um outro boi (21. e ele escorna até a morte um membro da aristocracia. Código de Eshnunna. o proprietário deverá pagar a metade de uma mina de prata”. Código de Eshnunna. o dono também será executado.28-32). o dono do boi deverá pagar dois terços de uma mina de prata”. artigo 251: “Se o boi de alguém é agressivo. mas sua carne não pode ser consumida. casos semelhantes no Código de Eshnunna aparecem . (3) quando um boi escorna um outro boi (21.28-36. Se o boi de alguém cair em um buraco aberto por outra pessoa. o prejuízo será repartido entre os dois. Contudo. Nenhuma culpa é atribuída ao dono do boi. Por outro lado.34). Código de Hamurabi. o qual acaba matando um homem. tal pessoa deverá indenizar o dono do boi. mas este não toma providências para lhe cobrir os chifres ou amarrá-lo.35.36). e o conselho de sua cidade notifica o proprietário de que seu boi é um escorneador. Finkelstein percebe uma grande diferença em Êxodo entre o caso de um boi que escorna um ser humano (21. este não toma providências para mochar o animal. os donos de ambos deverão dividir entre si tanto o preço do boi vivo como o valor do boi morto”. Na prática. O detalhe é que. o assunto envolve três leis que são apresentadas como uma: (1) o caso de um boi que escorna um homem (21. seu dono deverá assumir todo o custo. é apedrejado até a morte.33. matando o boi uma pessoa. se o mau temperamento do animal for notório e ficar comprovada a negligência do dono. artigo 250: “Se um boi escornar e matar um transeunte.36). Se o boi de alguém matar o boi de outra pessoa. dando ocasião a que um boi nela caia e se machuque (21. se um boi chifra uma pessoa. não caberá nenhum processo judicial”.Bastará apresentarmos mais um exemplo das semelhanças entre os códigos bíblico e não-bíblico. artigo 53: “Se um boi escorna um outro e o mata. Vejamos as semelhanças: Código de Hamurabi. artigo 54: “Se um boi é conhecido por sua agressividade e. apesar de as autoridades levarem o problema ao proprietário.

Isso explica o porquê de os códigos de Hamurabi e Eshnunna se limitarem a multar o dono de um boi assassino. a palavra de Deus não ia além das práticas dos povos da época. a justiça não é satisfeita por uma multa. o proprietário é sentenciado à morte (Êx 21. enquanto. porém.5. Mesmo nos pontos de maior semelhança. A inexistência de tal analogia. no Código da Aliança. enquanto esse assunto só é abordado no fim do Código de Hamurabi (278-282). como vimos. não significa que podemos equiparar todos os códigos legais do antigo Mediterrâneo. caso a família da vítima aceite. “o dono do boi deverá pagar dois terços de uma mina de prata” (Eshnunna. Tome. Diferenças entre o Código Bíblico e os Códigos Não-bíblicos Fique bem entendido que a maior parte das leis bíblicas encontra correspondência na literatura pagã. ele também é condenado à morte (Êx 21. Nos códigos de Hamurabi e Eshnunna. poderá ser comutada pela imposição de uma indenização exorbitante (Êx 21. levantaria suspeitas acerca da integridade das leis bíblicas. por exemplo. no caso de o dono não ter dado ouvidos aos alertas sobre os perigos oferecidos pelo animal. Êxodo 21. a única preocupação é a compensação financeira para a família da vítima: “o proprietário deverá pagar a metade de uma mina de prata” (Hamurabi. opressão) e incentivaram outras (por exemplo: justiça. Observa-se também uma nítida importância dada às leis que tratam dos escravos. 251).21.28 exige a morte do boi (conforme Gênesis 9. as diversas leis a respeito do boi escorneador. compaixão pelos pobres). como a de Êxodo 21. A grande diferença. e não sua presença. Note o extremo valor dado à vida humana. 54).26. Israel não tinha monopólio algum e. Decerto. existem claras diferenças entre a lei bíblica e não-bíblica.29).20. é a pena bem mais severa prevista em Êxodo. Versículos inteiros lidam quase que exclusivamente com privilégios de escravos e compensações devidas pelos donos.30). . Danos causados a pessoas são mais relevantes que danos causados a propriedades. caso o servo tenha sido agredido ou maltratado (21.32).27. Em contrapartida. Além disso. E justo esclarecer que todas as sociedades e culturas sempre vetaram determinadas práticas (por exemplo: assassinato.sem qualquer interrupção.29).33. não raro.34. Isso. manifestações de cólera.111. Quando se trata da vida de alguém. Já a sentença de morte do proprietário. não se pode desprezar o fato de que as leis sobre escravidão estão logo no início do Código da Aliança.6) e proíbe o consumo de sua carne. Nesses aspectos.

lançando mão de contatos. é a posição crucial que é assumida por Deus nessa seção de Êxodo. em Mateus 5. O próprio Livro da Aliança (ver Êx 23. Em primeiro lugar. Em outras palavras.21). com exceção de Êxodo 21. tais penas atingem proporções epidêmicas. Tal dicotomia não podia estar mais longe da verdade. a Saul. abordam apenas agressões de membros da aristocracia contra seus pares. disse o . nas leis da Assíria Média.5) exorta as pessoas a se esforçarem para ajudar os inimigos. Por outro lado. vemos punições em forma de mutilações físicas. 226.C. em poder dos filisteus (1 Sm 31. dente por dente”. que encontra paralelo nos artigos 197 (“um osso por um osso”) e 200 (“um dente por um dente”) do Código de Hamurabi. ou a amputação da mão (218. ou seja. no primeiro milênio a. em termos de um estudo comparativo. É principalmente por causa da referência de Jesus a essa lei.. Ambas as leis.9). Prisioneiros de guerra podiam ser tratados da mesma maneira. ao serem intimidados por Naás. a remoção do olho (193). dente por dente). a retirada da língua (192). Cabe concluir que as diferenças entre leis bíblicas e não-bíbli-cas não devem ser indevidamente exageradas (ver Jackson 1973a) ou minimizadas. A sanção não deve jamais exceder o que está prescrito para o crime (impedindo que pobres e desfavorecidos sejam prejudicados por um castigo excessivo). contudo.25). aos habitantes de Jabes-Gileade.Em parte alguma do Código da Aliança. acompanhada de uma má compreensão do objetivo da citação. Deus é o autor dessas leis: “Então. cortar a orelha de um escravo (205). Sem considerar qualquer lei específica. impõe o corte de metade do cabelo (127). nem ficar aquém do que a lei determina (impedindo que os mais abastados escapem à lei. O que a lei em Êxodo efetivamente ensina é o princípio da isonomia.38-48. passando da mera preocupação de se fazer justiça para uma atitude de amparo voluntário ao opressor. Mesmo o Código de Hamurabi.4. o amonita (1 Sm 11. o aspecto mais importante a ser observado. E verdade que as Escrituras apregoam “olho por olho. enquanto o segundo prega o perdão. O que Jesus faz no sermão da montanha é engrandecer nossa reação frente ao mal. Trata-se da famosa lex talionis.2).24. posição social e dinheiro).23-25: “olho por olho.4). no território dos amonitas (2 Sm 10. que muitas pessoas supõem que o trecho distingue os espíritos do Antigo e do Novo Testamento: o primeiro prega a vingança. para certas infrações. a pena deve corresponder ao crime (olho por olho. dente por dente” (Êx 21. Veja o que ocorreu a Sansão nas mãos dos filisteus (Jz 16. que todos são iguais perante a lei. 253). aos soldados de Davi.

representando justiça igual para todos. É bem verdade que a pedra que contém o Código de Hamurabi possui. Mesmo assim. não se estende ao escravo (Ex 21. eles são tratados como inferiores às pessoas livres.2). Além disso.27).23). as palavras “me” ou “eu” aparecem sete vezes). “Eis que eu envio” (23.27).Senhor a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel” (Êx 20. não alcançava as escravas. “Estes são os estatutos que lhes proporás” (Êx 21.22-26. Deus se cala. mas se um escravo é morto pelo dono. Não obstante os privilégios concedidos aos escravos. 20.13): “te tenho ordenado” (23.20— 23.22-26 e 22. “vos tenho dito” (23. tanto no prólogo como no epílogo. sobretudo em 20. Considerando o papel degradante a que as mulheres eram expostas nos cultos de fertilidade do antigo Oriente Médio. será preciso ainda assim registrar que mesmo o Livro da Aliança contém injustiças. a não ser em caso de violência física (Ex 21. uma imagem em alto-relevo de Hamurabi recebendo de Shamash. deus sol e deus da justiça. o que dá a lei. A expressão “certamente morrerá” não é utilizada.20). “eu certamente ouvirei o seu clamor” (22.24) (somente nesse trecho. o seu mediador. Temos também “ordenar-te-ei um lugar” (21. excluí-las desses festivais não significava .13).22). quando elas atuavam como prostitutas-cultuais. então desaparece. Tal privilégio.15).27).22).26.19: “falei convosco desde os céus” (20. homem. essa última questão não funciona necessariamente como prova de uma postura misógina por parte dos patriarcas do Antigo Testamento. Mesmo na proclamação das leis. mas ele mesmo fala na primeira pessoa por diversas vezes. deveria ser solto após seis anos (Ex 21.24).1). a incumbência de escrever o código. ao que tudo indica. O lex talionis. Somente os homens podiam viajar em função das festas religiosas que ocorriam três vezes por ano (Ex 23.7). Em contrapartida. “não justificarei” (23. são exaltadas as autoridades de Shamash e Marduk. Moisés. “eu o ouvirei” (22. “Um altar de terra me farás” (20. Deus não apenas encarrega Moisés de falar. “vos matarei” (22. a exemplo de seu código legal. O mesmo também vale para os outros códigos. O assassinato é um delito dos mais graves e passível de morte (Ex 21. as mulheres ficavam de fora. em nenhuma das 282 leis vemos um deus falando. Se desejarmos enfatizar que Israel.12). e volta a aparecer rapidamente antes do fim. este “certamente será castigado” (Ex 21. O escravo. Ao contrário do que algumas pessoas afirmam. em sua parte superior.17). alcançou uma sensibilidade superior à de seus vizinhos.20). assume uma posição de subordinação a Deus.

levanta dúvidas sobre a integridade do povo.23. logo ao chegar ao Sinai. aqui representado pelo altar.rebaixá-las a um status inferior. na verdade.8). como nos asseguram os eventos do capítulo 32.15. tal qual fizera em 17. 7). No caso de estarem.4). em especial. demonstrando uma obediência simbólica. Esse ritual.3b. Tal procedimento era. enquanto a presença feminina era opcional. tenha se precipitado em afirmar: “Tudo o que o Senhor tem falado faremos” (Êx 19. 24. podemos também concluir que esse primeiro “sermão da montanha” prenuncia um outro “Sermão da Montanha” mais completo. A fim de fechar o pacto da aliança. A Cerimônia de Ratificação da Aliança Não basta simplesmente ouvir a palavra do Senhor. Em seguida. 7b)! Foi um compromisso assumido de modo totalmente sincero e sem a menor sombra de dúvida (tal qual o compromisso de Pedro: “Senhor.5. Eles pensavam estar preparados para corresponder ao convite feito por Deus em Êxodo 19. Ele confia na palavra que empenharam. mais sua escrita (24. tal profissão de fé provou ser efêmera. estou pronto a ir contigo até à prisão e à morte”). uma forma de proteger e valorizar sua honra e dignidade como seres humanos. Ele não será . e providencia que as pessoas certas ofereçam sacrifícios ao Senhor (o termo hebraico para “altar” significa “local de sacrifícios”). digamos. compromete-se com seu povo. grávidas ou amamentando. mas duas vezes (Êx 24. Moisés. o povo confirmou sua anuência e futura fidelidade à palavra do Senhor — e não uma. Por outro lado. tudo que um versículo como o 23. a outra metade é asper- gida sobre o povo. poderiam ficar de fora da celebração. provavelmente evidencia o compromisso assumido por ambos os lados nesse novo relacionamento.3a. Pode ser que o povo. De forma unânime. Metade do sangue dos animais sacrificados é lançado sobre o altar. Não é suficiente ouvi-la sem pô-la em prática. No entanto. Nem é aceitável que se concorde com indiferença.6: “Agora. pois. temos o anúncio do Decálogo e a arbitragem do Código da Aliança através de Moisés (Êx 20. Se o Livro da Aliança é superior ao Código de Hamurabi. O Senhor. se diligentemente ouvirdes a minha voz”.17 afirma é a obrigatoriedade do compareci- mento masculino. Ainda assim. em momento algum. Moisés ergue um altar ao pé da montanha.

A glória de Deus. Moisés foi então separado de seu grupo (24. setenta e quatro homens foram separados dentre o povo (Ex 24. como um fogo consumidor. Logo após a cerimônia.31-36). ungiu e consagrou todo o povo da aliança para seu serviço. O sangue do sacrifício foi primeiro aspergido sobre o altar e então sobre Arão e seus filhos (Ex 29. em 40. uma aliança era muitas vezes selada e celebrada com uma refeição (como nas festas de casamento de hoje em dia).. o povo se compromete. 6) e então sobre o povo (v. e beberam”. ele foi impedido de entrar.11). e a glória do Senhor enchia o tabernáculo”. Da mesma forma. Primeiro. E interessante comparar essa situação.2234. viveu uma experiência única. Pode haver uma outra explicação para esse ritual. certamente. .30).35. Lv 8. Moisés foi admitido dentro da nuvem divina. Afinal.11b. o pico da montanha era o Santo dos Santos. Para Moisés. Deus.9). no Tabernáculo.10.infiel. a ponto de renunciar a si mesma pelo bem da relação”. 8). antes de consagrar uma (pequena) parte de seu povo (os sacerdotes) para servi-lo. a única forma de harmonizar essas duas situações (permissão concedida. Lv 8. Como seria de se esperar. nenhum diálogo é registrado. Ele entrou sozinho e. ao ser admitido no Sinai. Sua visão da arca era impedida por um véu / cortina. 18) ao subir a montanha.54. O que ocorre em seguida nos traz de volta ao ambiente do capítulo 19. mas somente após esperar seis dias. não para vê-lo. No Sinai.30 e 34. é possível haver uma relação madura sem um compromisso mútuo? Janzen afirma: “O sangue implica uma vida totalmente comprometida com a aliança. Além disso. Todas as vezes em que ele entrou no Tabernáculo foi para ouvir a Deus. 29. O único outro momento em que isso ocorre é na consagração dos sacerdotes. onde lemos: ‘Moisés não podia entrar na tenda da congregação. Em seguida. permissão negada) é supor que Moisés. Na prática. A expressão utilizada é espantosa: “viram o Deus de Israel [.12). Moisés ficou livre para subir a montanha com um seleto grupo de pessoas.21.. porquanto a nuvem ficava sobre ela. Como é indicado em Gênesis 26. portanto.] viram a Deus” (Ex 24. com o coração disparado. singular e irreproduzível. em que Moisés “entrou no meio da nuvem” (v. em ambos os episódios os personagens se alimentam (Ex 24. participaram de um banquete celestial: “comeram. em que o sangue é primeiro espargido sobre o altar (v. abraçou a montanha e Moisés.

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até a implementação (35—40).11). Análise Histórica Wellhausen baseou suas conclusões nas seguintes considerações. Ele afirmava que. foi revisada. Ele alegava que o relato de Êxodo sobre o Tabernáculo é uma ficção. a qual se estende por dezesseis capítulos. passando por interrupções e atrasos por causa da apostasia (32—34). concordam em construir um local de adoração portátil. no fim. O Tabernáculo (25—31. a última parte importante de Êxodo (a lidar com o Tabernáculo) parece decepcionante e até monótona para muitos leitores contemporâneos do Antigo Testamento. Começa com as orientações divinas sobre a construção (25—31). usando o Templo de Salomão como modelo.10 O Tabernáculo. Entre duas seções (25— 31 e 35—40). durante o exílio. passa-se da instrução (25—31). na verdade. mas não abandonada. para que Deus possa habitar entre eles. até a conclusão final da incumbência divina (35— 40). Pode-se até perceber que o livro de Êxodo começa e termina com os israelitas construindo alguma coisa. do fim do século XIX. há a seção que fala sobre uma adoração repreensível e a construção/prática do que Deus não deseja para seu povo (32—34). a história havia sido formada em um período posterior. pela interrupção (32— 34). manter-se-ia interessado em seu conteúdo. excetuando talvez um decorador ou um arquiteto? Apesar disso. A tese de Julius Wellhausen. Ou seja. Quem. o Bezerro de Ouro e a Renovação da Aliança ÊXODO 25—40 Muito provavelmente. No princípio. no que tange ao Tabernáculo. após fazer algumas observações sobre esses capítulos. são forçados a construir cidades-ce-leiro para Faraó (1. e que tal edificação jamais chegou a existir durante o período no deserto. 35—40) O interesse dos estudiosos. praticamente deixando de lado a análise teológica. que lidam com a correta adoração de Deus e a construção do que Deus deseja para seu povo. as Escrituras nos dão uma detalhada descrição do Tabernáculo. tem se concentrado em questões históricas. Em primeiro .

O que vemos aqui é uma construção bem menor.711 chegou a funcionar como local oficial de adoração e como local de onde Deus falava a seu povo.16).22. Scott a respeito do sistema de medidas hebraico e seus equivalentes modernos.22). Tal escassez de citações suscitou dúvidas em sua mente quanto à veracidade da existência de um Tabernáculo no deserto. portanto.7 11. na hipótese de esse relato ser de fato essencial.51. todas se limitam a identificar os locais em que foi erguido na Palestina (Js 18.36 (além de 3.052 quilos de bronze. versículos como Êxodo 12. basicamente.7. Em segundo lugar. não no meio do acampamento. como Êxodo nos leva a crer. localizada do lado de fora.2. Realmente existem poucas referências e. quantidades suficientes de tecidos e metais? Sem dúvida. Os detalhes de Êxodo 25—31 e 35—40 são. 19.14).13. Além disso. 11.1. descartados como exageros concebidos por sacerdotes ao descreverem uma tenda não tão espetacular. Segundo informações de R. Não seria possível que essa tenda tivesse sido construída em função da idolatria verificada no capítulo anterior.920 quilos de prata e 2.3) deixam claro que eles não saíram do Egito de mãos vazias. O argumento ganha ainda mais peso se considerarmos que Salomão. em vez de utilizar trabalhadores locais. B. no meio do deserto. Deus havia falado sobre retirar sua presença do meio do povo por causa da idolatria e . substituindo uma mais permanente localizada no meio do acampamento (Moberly 1983: 63-66)? No parágrafo anterior (33. Wellhausen notou o silêncio quase total nas Escrituras sobre o papel do Tabernáculo após a conquista da Terra Prometida. Wellhausen questionou se os israelitas possuíam as habilidades necessárias para trabalhar tais metais no deserto. os estudiosos modernos têm se afastado do total ceticismo de Wellhausen nesse assunto.21-31 apresenta um inventário da quantidade de ouro. temos pouco menos de seis toneladas de metal. contudo.21. Êxodo 38. indagar se a tenda mencionada em Êxodo 33. prata e bronze utilizados. No total. é possível crer que os israelitas tivessem. muito tempo depois. para não mencionar as partes de engenharia e carpintaria. 1 Sm 1. Childs calculou que a construção do Tabernáculo consumiu 862 quilos de ouro. como vemos no importante texto de Êxodo 33.35. 2. 2. É possível.lugar. Por diversas razões. foi obrigado a importar artesãos fenícios para supervisionar a construção do Templo (1 Rs 7. Hoje em dia. o consenso é de que provavelmente existia algum tipo de tenda do santuário no tempo de Moisés. Y.

lermos por duas vezes que a tenda estava “fora do acampamento”. Por isso. o que pode indicar que os sacerdotes realizavam suas cerimônias de pés descalços (lembre-se da ordem divina para gue Moisés e Josué tirassem seus sapatos na presença de Deus (Ex 3. Será casual esse número de peças? As vestes utilizadas por aqueles que oficiavam as cerimônias no Tabernáculo eram em número de oito. a hipótese de serem dois fenômenos distintos — e nenhum texto de Êxodo exige que sejam intercambiáveis — elimina a necessidade de incontáveis conjecturas em uma reformulação da história do Tabernáculo (Feinberg 1975: 582). Análise Teológica A partir das descrições apresentadas nesses capítulos de Êxodo.40-42]). o manto do éfode [28. o peitoral do juízo [28.15).da iniqüidade qué demonstravam. Essa última possibilidade é defendida por uma minoria. em um único versículo (v. sem contar que é dito que ela ficava “afastada/bem longe do arraial”. De qualquer forma. se considerarmos que os querubins esculpidos são parte do propiciatório. Figura 5 . duas descrições mutuamente excludentes do mesmo fato) ou diferenciar as duas construções em termos de propósito e procedência. talvez devéssemos enxergá-la nesse contexto. tiaras e calções de linho [28.6-12]. Diversas sugestões já foram feitas na tentativa de ou unir o suntuoso Tabernáculo de P à simples tenda de E (ou seja. uma mitra [28.5. Temos no Tabernáculo sete peças de mobília. cintos. Js 5.31-35].15-30].36-38]). A única parte do corpo humano que ficava descoberta eram os pés. podemos tecer as seguintes observações acerca do Tabernáculo. Quatro só podiam ser usadas pelo sumo sacerdote (o éfode [28. O fato de. e quatro eram reservadas aos sacerdotes (túnicas. 7). reforça tal interpretação dessa tenda no contexto mais amplo dos capítulos 32 e 33.

.

assim como o Decálogo.23-30 Mesa dos Pães 37. O Tabernáculo.7. 2). com destaque para o v.42. Logo.1-7. uma grande demonstração de generosidade por parte do povo (36.23.31. Foi..26.1-5 Santo dos Santos Propiciatório 25. Ao contrário de muitos ministros que várias vezes imploram e bajulam por dinheiro. foi revelado diretamente por Deus. não ponderadas e discutidas. Ela aparece dez vezes no capítulo 39 (vv. Por isso.17-22 Propiciatório 37. a ordem de execução difere da ordem das instruções. Os materiais necessários para o Tabernáculo e as vestes sacerdotais deviam ser doados de bom grado pelo povo.32.5. Veja a tabela 7. A expressão também aparece por duas vezes no capítulo 36 (vv. as ordens de Deus são para ser cumpridas e executadas. mas a doação era voluntária (25. não é de se estranhar que encontremos freqüentemente a expressão: “ele [ou ‘eles’] fizeram [ou ‘colocaram’] [. 1. sem dúvida.43) e oito vezes no capítulo 40 (vv.6-9 dos Santos Lugar Santo Mesa dos Pães 25.10-16 Lugar . mas não de forma sistemática. Tabela 7 Instrução Execução Santo Arca 25. Moisés teve de impedir que o povo continuasse doando.21. Ele foi o único arquiteto.27. A resposta ao apelo de Moisés foi sensacional. Já nos trechos que descrevem a efetiva construção. 16.25.29.21. 1.] como o Senhor ordenara a Moisés” nos últimos capítulos de Êxodo.19.32).5).29.2-7)! A descrição do mobiliário do Tabernáculo começa pelas peças do centro e prossegue para as mais externas. A ninguém foi imposto uma dívida ou parte nos custos.Deus não delegou a responsabilidade de projetar o Tabernáculo a nenhum comitê consultivo ou de construções..10-16 Arca 37.

17-24 Pátio Altar de 27. da Proposição da Proposição Santo Candelabro 25.1—27. no capítulo 25. o mais curioso é o intervalo de dois capítulos (28—29) entre as instruções sobre a construção do altar do incenso (30.19) 6 o funcionamento do Tabernáculo (27.25-28 Pátio ' Incenso Externo Bronze Externo V Lugar Santo Altar do 30..1-8V / Altar do 37. Ao contestar estudiosos que vêem nesse parágrafo uma interpolação feita posteriormente.8).20— 30.1-7 Lugar Incenso Bronze Santo Pátio Pia 30.8 Pátio Externo Externo Na coluna da esquerda.] não pode ser usado como desculpa para uma estratificação das fontes”.7. O próprio texto pode ser capaz de nos explicar o porquê de a descrição do altar do incenso..1-10) e a ordem anterior acerca do mobiliário.1-10^ Altar de 37. A mesma explicação se aplica ao fato de a pia no pátio ser .] mas tal fenômeno [. O altar do incenso está no segundo grupo por ser descrito segundo sua função (30. estar separada das descrições de outros objetos sagrados.38)..31-40 Candelabro 37..17-21 Pia 38. Jacob Milgrom observa que as orientações de Deus para Moisés podem ser separadas em dois grupos: os planos para o Tabernáculo (25. Menahem Haran observa: “É claro que a forma literária em que P nos chega não satisfaz os requisitos de uma estrutura exemplar [.

essas varas não deviam jamais ser retiradas das argolas (25. não passa de especulação. Um ouro de qualidade inferior foi utilizado nas imagens.39) e o altar do incenso (30.] de modo que a presença de Deus se torna primordial.. A tradição da ‘casa’ [. juntamente com estofo azul.17-21). O uso da prata se limitava a objetos como a base dos pilares próximos ao véu ou o encaixe dos pilares em torno do pátio (27. o propiciatório (25.1). posteriormente erguido. Essa mesma graduação se aplica aos tecidos. 30.38.31). O Lugar Santo tem o dobro do tamanho do Santo dos Santos. Esse último é um cubo com dez cúbitos de lado.. que separa o Lugar Santo do Santo dos Santos.6. púrpura e carmesim (26. Enxergar um significado oculto em cada mobiliário.17).4. o altar e a pia que ficam no pátio são feitos de bronze ou cobre (27. Ele é feito principalmente de estofo azul. nas argolas e nas varas (usadas para carregar objetos como a arca). a mesa dos pães da proposição (25. Respondo a isso com uma outra pergunta: ‘Será que o Antigo Testamento evidencia tal tensão? É realmente possível perceber tal desconforto no testemunho das Escrituras? A descrição do Tabernáculo traz sim um simbolismo.. Walter Brueggemann declara: “A antiga tradição da ‘tenda’ exprime a mobilidade e a liberdade de Deus. os esforços modernos para se estabelecer uma superioridade da tenda ou do Tabernáculo sobre o Templo. A escolha dos metais indica um grau maior ou menor de santidade: quanto mais importante o objeto. Lugar Santo e do Santo dos Santos): a arca (25.2. As cortinas do Tabernáculo são exatamente o oposto: seu material principal é o linho fino retorcido. juntamente com linho fino (26. quando sua utilização e propósito são esclarecidos.] enfatiza a presença de Jeová no meio de Israel [. No caso da arca. O termo “ouro puro” só é utilizado em relação a objetos na parte interna do Tabernáculo (ou seja. vêm . Por outro lado. mas precioso é o metal utilizado. O tecido mais importante é o véu.15).36. tecido.3).descrita apenas nos capítulos 26—31 (30. sufocando a liberdade divina”. O comprimento do pátio é o dobro de sua largura.31. parecem culpados da mesma acusação. Por fim. púrpura e carmesim. em vez de exegético.11).. O próprio texto de Êxodo devia nos servir de alerta contra uma excessiva interpretação alegórica do Tabernáculo. o candelabro (25. As dimensões simétricas confirmam isso. Paralelamente.24).10).17). corrediças e cores.

11. e o mesmo valia para o equivalente no Tabernáculo (Lv 16. J. Não devemos deixar passar despercebido que a primeira pessoa a ser cheia do Espírito de Deus não foi um patriarca. que correlação poderia existir entre o Sinai e o Tabernáculo? Aparentemente. é um arquétipo do Tabernáculo. Kearney relaciona sete discursos de Deus nos capítulos 25—31 (25. Além disso. 30.31). convém organizar as passagens como fiz na figura 3. Algumas dessas analogias parecem forçadas. mas um artesão.22. P.7).3. Joseph Blenkinsopp une os dois livros. Correspondências entre as Passagens da Criação e do Tabernáculo Ao falar sobre a história de José em Gênesis. principalmente as que dizem respeito aos dias/discursos seis e sete. apontando as analogias entre cada dia e seu respectivo discurso sobre o Tabernáculo em Êxodo. 30.as cortinas de pêlos de cabra (26. Mesmo contemplar o cume do Sinai era um pecado punível com a morte (Ex 19.34. 31. supervisor do projeto do Tabernáculo. Êx 31. Ao primeiro. Correspondências entre o Monte Sinai e o Tabernáculo Afora a conexão entre o Tabernáculo e a Criação. De forma um tanto diferente.21). Bezalel. somente Arão podia entrar. 31. isolando frases análogas a respeito da Criação e do Tabernáculo. tanto na criação do mundo como na criação do Tabernáculo (Gn 1. 30. Êxodo 32—33 é a queda. um legislador. os dois livros são ligados pela referência ao “Espírito de Deus”. entre a Criação e o Tabernáculo.1. Somente os sacerdotes podiam . Nessa linha. Êxodo 25—31 é criação. possivelmente até o perímetro da nuvem [24. O que o pico do monte Sinai é em 19—24. mais especificamente. 30. somente Moisés podia subir. pude mostrar algumas analogias entre o começo e o fim do livro de Gênesis. Utilizando a tese de Blenkinsopp como um guia.17. Josué. enquanto outras aparentam ter validade. relatada nos capítulos 19—24.2.2). um profeta ou um juiz.12) aos sete dias da Criação.13]). Êxodo 34—40 é a restauração. no último.1. Alguns estudiosos já sugeriram haver uma semelhança entre o início de Gênesis e o fim de Êxodo ou. mas não puderam ir além. a experiência de Israel com Deus no Sinai. 35. Arão e setenta anciãos puderam ir até parte do caminho na subida do Sinai (Josué foi um pouco mais longe que os outros. o Santo dos Santos é em 25—40.

Moisés “não podia entrar na tenda da congregação” (40.2) E abençoou Deus o dia sétimo Então. Moisés ergueu um altar e todo o povo se reuniu ali. que tinha Assim. e eis que a feito. pois. A presença de Deus.3) Em segundo lugar. os céus. mas. foi possível entrar na presença divina. agora estava sobre o Tabernáculo.43) (Gn 2. Moisés acabou a obra (Ex 40. e a glória do Senhor encheu o tabernáculo” (40.33) feito (Gn 2. o Tabernáculo perpetua o monte Sinai. quando a mesma glória divina envolveu o Tabernáculo. e a nuvem o cobriu por seis dias” (24.31) fizeram (Ex 39. .1) Havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra. Ao fim da revelação no Sinai. No Sinai. lemos: “e a glória do Senhor pousou sobre o monte Sinai. a presença de Deus foi inicialmente impenetrável. O restante do povo ficou “ao pé do monte” (24. Moisés os abençoou (Ex 39. no Tabernáculo. e todo Assim. o Tabernáculo é uma versão ainda mais intensa do monte Sinai. Em primeiro lugar. como o Senhor ordenara.entrar no Lugar Santo. Moisés toda a obra.34). que se manifestara uma vez no Sinai.18). mas não puderam ir além.35).4). onde o povo levava seus sacrifícios. e a terra. temos a parte da frente do pátio. assim a (Gn 1. No cume do monte. Moisés “entrou no meio da nuvem” (24. se acabou toda a obra do tabernáculo o seu exército foram acabados da tenda da congregação (Êx 39. e eis que era muito bom tinham feito. Figura 6 E viu Deus tudo quanto tinha Viu. “a nuvem cobriu a tenda da congregação.16): quando o Tabernáculo foi concluído.32) (Gn 2. No Tabernáculo.43) Assim.

deixar o Sinai para trás não significa abandonar o Deus do Sinai. e seu sumo sacerdote é Jesus Cristo. Assim. a santidade findaria. Para o autor de Hebreus. no Tabernáculo. O Bezerro de Ouro e a Renovação da Aliança Êxodo 32 narra a forma como Arão e os israelitas. O Sinai foi um casamento. o crente é atraído para uma maior intimidade com Deus. mas . “A Santa Cidade. os tecidos caros ou a presença dos levi-tas. (Apocalipse 21. Deus disse: “E habitarei no meio dos filhos de Israel e lhes serei por Deus” (29. fizeram um bezerro de ouro aos pés do monte Sinai.) O Tabernáculo celestial é maior e mais perfeito. Como tal. No monte. mas podem carregar uma tenda transportável. Em quarto lugar. portanto. Se Deus partisse. Deus disse: “Eu os escolhi”. A interpretação que o Novo Testamento faz do Tabernáculo tem. “a principal cabeça de ponte da doutrina da encarnação no Antigo Testamento”. O Tabernáculo é um lugar onde Deus e o povo podem conviver mais próximos.Em terceiro lugar. pois não é feito por mãos humanas (Hb 9.43-46). na ausência de Moisés. não o ouro. o Tabernáculo é um prolongamento do monte Sinai. não uma. cuja presença no Sinai ficava restrita ao cume e envolta em nuvens. Os israelitas não têm como levar o monte consigo ao levantar acampamento. O Deus. E claro que é exatamente essa presença divina que traz santidade ao Tabernáculo. Deus.14: “o Verbo se fez carne e habitou [estabeleceu seu Tabernáculo] entre nós”. agora habita entre nós na pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.11). o início de uma relação. em um ato de evidente apostasia. a nova Jerusalém” e o Santo dos Santos são as duas únicas estruturas descritas nas Escrituras com o feitio de um cubo.16 estabelece a mesma relação. Eram as mesmas pessoas que há pouco tinham dito. o Tabernáculo ou a tenda representam o Tabernáculo celestial. o Tabernáculo completa o monte Sinai. como comenta Davies. o Tabernáculo é. dois ângulos: a habitação de Deus em Jesus na encarnação e a habitação de Deus nos céus.42.19: “porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele [no Filho] habitasse”). E um lugar onde Deus se encontra com seu povo (29. Em ambos os casos. Cl 1.43). seria agora o Deus que habita no meio de seu povo. que já habitou em meio a seu povo em uma edificação. O Tabernáculo só é santo por ser o local de habitação de um Deus santo. após o qual os cônjuges devem começar a viver juntos.

16)..3) e na construção (32. Deus concorda: “Então o Senhor Deus mudou de idéia/arrepen-deu-se do mal que dissera e não fez cair sobre o seu povo a desgraça que havia prometido” (32. As semelhanças entre Arão e Adão. porventura.24b]). 7). Diante de suas súplicas.24). teu irmão? Eu sei que ele falará muito bem [. quase que da noite para o dia. que assumiu a liderança na coleta de materiais (32. o levita. será o teu profeta” (7. Arão surge claramente como o vilão da história. Já nos dias anteriores ao êxodo. essa interpretação ignora um dos pontos que ficam claros no capítulo: o contraste entre o fiel Moisés e o conspirador Arão. Pascal disse: “Deus instituiu a oração para conceder a suas criaturas a dignidade da causalidade”. e comi” [Gn 3.] ela me deu da árvore.3. invocando as promessas de Deus aos patriarcas e a glória do seu nome”..22). “Arão.12]. ele insiste para que Deus não leve a cabo seus planos de destruir seu povo (32. são óbvias. Ele ainda tem o descaramento de tentar encobrir sua própria participação naquele fiasco: “Deram-mo [o ouro].14. antes de mais nada. e lancei-o no fogo” [Ex 32. Moisés é um herói. e eu o lancei no fogo.22).4) do bezerro da idolatria — e tudo como se fosse uma legítima prática religiosa (32. e saiu este bezerro” (32. teu irmão. em Gênesis 3. assume o papel de intercessor. mas que o relato pressupõe que o bezerro realmente surgiu pronto das chamas (veja Loewenstamm). Sua declaração de obediência fora esquecida. Para piorar as coisas.5. Seria muito difícil tal coisa acontecer e. o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios como em que se obedeça à palavra do Senhor?” (1 Sm 15. Moisés chega . além disso.. Ele realmente demonstrou seus talentos! Arão falava tão bem e de maneira tão convincente. Ele. Com uma audácia dificilmente vista no Antigo Testamento. “deram-mo [o outro]. Yehezkel Kaufmann observa que Moisés “não tenta evitar a ira de Deus. ao ser confrontado por seu irmão mais novo. Alguns estudiosos evitam afirmar que Arão estava mentindo. mas intercede em favor do povo.] ele te será por boca” (4.duas vezes: “todas as palavras que o Senhor tem falado faremos” (24. Nessa intercessão.12).1). Crentes convertidos e comprometidos caíram em desgraça. exortando-os ao arrependimento. Arão não titubeia em jogar a culpa no povo em geral: “tu sabes que este povo é inclinado ao mal” (32.6)! O ambiente era perfeito para um profeta entrar e dizer: “Tem.2. Ambos afirmaram terem feito o que fizeram porque uma outra pessoa os incitou e deu-lhes algo (“A mulher [. Se Arão é um vilão. o Senhor falara a Moisés a respeito de Arão: “Não é Arão. Certa feita.14)..

32. Como tal.8.29) ensinam que Deus. jamais precisa se arrepender de pecados. contudo. ele misturou água ao pó e ordenou que o povo bebesse (32. O que Deus faz em Êxodo 32 é. Após queimar e moer o bezerro de ouro. ele não deixa de liderar o povo até a terra de Canaã apesar de pecarem em suas murmurações. embora soberano. O Antigo Testamento usa o verbo riãham (arrepender? ceder? mudar de idéia?) por 34 vezes com Deus como sujeito. Como Master nos faz lembrar.6.3. 1 Sm 15. lançou ao solo as tábuas feitas e gravadas por Deus. Um Deus que. Permanece um tanto misteriosa a forma como. O que Deus diz a Moisés sobre o futuro de Israel. alguém poderia (1) queimar ouro ( a . como vemos em Êxodo 32 e Amós 7. Ao ver aquele cenário. mas dá valor às nossas intercessões e é imutável em seu amor e misericórdia. não é rígido e inflexível. 26. lemos que Ele arrependeu-se do “mal” (não do pecado!). em um impulso de raiva não muito diferente da atitude de Jesus no Templo. semelhante à expressão de Paulo em Romanos 9. Deus está disposto a libertar os israelitas com ou sem a cooperação de Faraó e. Jn 3. não podemos usar o texto para concluir que. Nas outras trinta e poucas passagens que falam sobre Deus se arrependendo. contudo. segundo o versículo 20. portanto. Ele não apresenta desculpas para a atitude do povo. por exemplo. mais misericórdia que mudança de opinião (Master 2000). É preciso evitar extremos na interpretação do que ocorre aqui. onde escreveste os nomes dos que são teus” (32. Ele também nunca se arrepende de ter escolhido Davi (SI 110. Por um lado. por meio da intercessão.4).3. nos capítulos 15—18. expressa mais a ameaça de um juízo que um decreto. decidido e obediente para liderar seu povo para fora do Egito. Deus pode ser persuadido com um bom argumento a ver as coisas da nossa forma e a fazer aquilo que faríamos se fôssemos Deus. no capítulo 32.19.10). ao contrário dos seres humanos.9. é traduzido por “calamidade” ou “desastre”.3). o que. Dois textos (Nm 23. então tira o meu nome do teu livro. certamente teria desistido do Moisés dos capítulos 3—6.30). Êxodo 32 deve ser visto segundo o contexto e o argumento do livro como um todo. Nos capítulos 7—14. Deus se arrepende em resposta à intercessão de alguém pelo culpado. Por outro lado. Em outros momentos. é um convite e um estímulo a uma intercessão profética por parte de Moisés. o registro do arrependimento de Deus em Êxodo 32 indica que Ele. é mais que um intercessor. fosse aberto a mudar de idéia e estivesse procurando alguém entusiástico. Moisés. se não quiseres perdoar. Deus se arrepende do mal em resposta ao arrependimento de alguém (por exemplo: Jr 18. Algumas vezes. em versões como a NVI.ao ponto de arriscar seu próprio relacionamento com Ele: “Porém.

As intercessões de Moisés começam no capítulo 32 e seguem pelo capítulo 33. A recusa de Deus em continuar no meio do povo é reforçada pela “tenda fora do acampamento”.. O objetivo é minimizar a concessão parcial que fora feita. Talvez o bezerro estivesse em uma caixa de madeira ou sobre um pedestal de madeira.30). seria obrigada a beber água (presumivelmente) da pia de bronze misturada ao pó do chão do Tabernáculo. porém. tampouco a questão entre Moisés e Deus. Na presença do povo e deArão. O propósito de Moisés. Apesar de tudo. queimado e moído e misturado à água. ele é crítico. Ele a deixava de lado e .7-11). Childs conseguiu captar as implicações do pedido de Moisés: “Deus havia dito: ‘Irá a minha presença contigo’. aonde somente Moisés podia ir (33.15). 13.11-31 e Êxodo 32 é que ambos abordam a traição em uma relação de caráter exclusivo: a esposa (possivelmente) adúltera e a Israel idólatra (ver Janzen 1990: 607).3) e “Irá a minha presença contigo” (33. intercessor e apaziguador. Ele pede a Deus: “rogo-te que agora me faças saber o teu caminho [.26-29)? Outro ponto que estabelece uma analogia entre Números 5. não é claramente exposto.11-31). Em vez de destruir o povo. mas bem podia ser uma forma/tentativa de separar os inocentes dos culpados. Deus havia se afastado. O texto. A resposta de Deus continuava dirigida exclusivamente ao próprio Moisés. feroz e agressivo.18). Se a questão entre Deus e Israel não estava encerrada. a esposa de cuja fidelidade o marido desconfiasse. ao fazer o povo beber a mistura. ele assume o papel de mediador. não dá nenhuma indicação clara de que isso tenha acontecido. Deus manda Moisés continuar a liderá-lo.34. não são nenhum mistério. Na presença de Deus. a fim de reivindicar a totalidade do que se deseja. é a redenção e a recuperação do povo que mais interessa a Moisés (32. não nos faças subir daqui’. senão como os Levitas saberi-am a quem matar (Ex 32. tornando-o em pó e (3) transformar em pó o que já havia sido queimado.. Aliás. Já os motivos que levaram Moisés a ordenar que “bebessem” o ouro. (2) moer esse ouro. Em uma outra situação (Nm 5.14).] Rogo-te que me mostres a tua glória” (vv. que efetivamente te-ria sido carbonizado. mas envia um substituto para sua presença (32. Moisés respondeu: ‘Se a tua presença não for conosco. É difícil não perceber o gritante contraste entre “eu não subirei no meio de ti” (33. Beber tal porção have-ria de provocar algum tipo de manifestação física em função da culpa. 33.menos que “queimar” signifique aqui “derreter”). o verdadeiro objetivo de Moisés é revelado quando ele volta a repetir ‘eu e o teu povo’.

17.23). Ao chegarmos ao capítulo 34. a qual é refletida em textos como Números 14. já estamos preparados para uma renovação da aliança. nem Moisés está tentando se afastar de suas funções. Em seguida. Os versículos 10-26 são palavras de Deus para todo o Israel. a resposta é: “Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti [ou seja. de forma semelhante ao que fez Elias em Horebe/Sinai. Especialmente interessante é a lei presente em 34.18. Deus misericordioso e piedoso”.] ninguém suba contigo [.. temos uma amostra selecionada de leis. 32.26). Joel 2. Jeremias 32. essa lei parece tratar .11-13). uma revelação visual] e apregoarei o nome do Senhor diante de ti [ou seja. vemos a figura de um “anjo” em destaque (23. a revelação de um conceito] (33. 31.2.. era a vez de Moisés ficar em uma fenda da rocha e vislumbrar rapidamente as costas de Deus (33.6). Deus é visto naquilo que faz e em seus atos. o Senhor perante a sua face. As expressões utilizadas lembram Êxodo 19: “prepara-te para amanhã [..15. nos versículos 17-26.1. Para o primeiro. 33.2-5).2). muitas vezes mencionada nas tradições judaicas como “os treze atributos de Deus”.20-23.] perdoa a nossa iniqüidade e o nosso pecado e toma-nos pela tua herança” (34.6: “Passando. Anteriormente. Deus ordena total intolerância com todas as formas de adoração pagã (vv. 145..13. Agora. pois. tanto do Decálogo (34.] nem ovelhas nem bois se apascentem defronte do monte [. Em primeiro lugar. Ambos os pedidos de Moisés são respondidos. o próprio Deus havia se posicionado sobre a rocha em Horebe (17.9). Neemias 9.17: “Não farás para ti deuses de fundição”. uma espécie de versão condensada do Código daAliança presente em 20. o Senhor. Em seguida.insistia em uma resposta que incluísse o povo”. não há arrogância alguma. Naum 1.17.8. clamou: Jeová.34.3... 11-16). Moisés continuava preocupado com sua congregação: “vá agora o Senhor no meio de nós [. vemos uma descrição do caráter de Deus.22—23.18. Embora seja semelhante aos dois primeiros mandamentos do Decálogo.] o Senhor desceu numa nuvem” (34.. “rogo-te que agora me faças saber o teu caminho”. Para o segundo. Salmos 86. quando o Senhor por ele passou (1 Rs 19. A promessa é então interrompida e retomada em 34.23. “Rogo-te que me mostres a tua glória”.8. Aqui.21) como do Livro daAliança (34.. Em ambas.19). Ele se identifica de forma plena com seu povo. a resposta é: “Irá a minha presença contigo”.19. 130. Não poderia haver vínculos com incrédulos. Jonas 4.

nem estava ciente de qualquer transformação. que o incidente com o bezerro não deveria se repetir. Dozeman (2000: 29) faz o seguinte comentário: “A autoridade não é própria de Moisés. inclusive de seu irmão mais velho e sacerdote. mas é separado de seus semelhantes. A humanidade é um reflexo de Deus.especialmente do que aconteceu com o bezerro de ouro no capítulo 32. Arão. mas se deve a seu papel como canal dos ensinamentos divinos”. E a única pessoa através de quem a glória de Deus resplandece. em outras palavras.30. o escritor tenha escolhido um verbo relacionado a chifres a fim de lembrar o be-zerro/touro de ouro do capítulo 32. 29. Os versículos 29-35 dividem-se em dois grupos distintos: o que aconteceu naquela ocasião específica (vv. Esse dificilmente seria o caso. com o rosto todo empolado a ponto de parecer ter chifres. O capítulo encerra-se com Moisés descendo do Sinai com o rosto resplandecente — fato esse que é de pronto evidente a todos.30).29. brilhava” (vv. Todo o argumento da história enfatiza que ele apenas refletia a glória de Deus”. de alguma forma. porém jamais igual. no capítulo 34. Ele não havia se tornado uma divindade. Foi exatamente aí que Israel pecou ao fazer o bezerro de ouro: fez um ídolo proibido e uma festa religiosa em sua homenagem. Tudo isso era um dom divino. . Quando o texto diz que o rosto de Moisés “resplandecia. alguns estudiosos têm sugerido que o que aqui acontecia é que ele vestia uma máscara com chifres ou que. Aliás. sempre que Moisés entrasse na presença de Deus e mediasse a revelação divina para Israel (w. 29-33) e o que aconteceria em todas as ocasiões futuras. ficava desfigurado por causa de exposição excessiva à glória de Deus (Propp). Moisés não se torna um deus. Childs (1974: 619) observa: “O relato bíblico preocupa-se em demonstrar que o brilho divino no rosto de Moisés não deve ser entendido como um tipo de metamorfose. É provável que. é essa a afirmação no Salmo 8: os seres humanos foram feitos um pouco menores que Deus e coroados com glória e honra. e o único através de quem a palavra de Deus é transmitida. para descrever a face resplandecente de Moisés. com exceção do próprio Moisés (34.35). 34. por causa de seu carisma ou personalidade.35). de sua descida com as tábuas no capítulo 32 (v. 15)! Uma face alegre e iluminada em lugar de um rosto em fúria. o verbo utilizado sugere “receber chifres”. Por esse motivo. Essas proibições e advertências se encaixam em uma ou outra dentre duas categorias gerais: a proibição da apostasia ou o cumprimento do calendário religioso. E como é diferente a sua descida com as tábuas. ou seja. Deus disse.

em cuja face brilha a glória de Deus (2 Co 4. Prophecy and Canon: A Contribution to the Study of Jewish Origins. E. com cara descoberta.Deus o tornou aquilo que o povo queira que o bezerro fosse: um mediador e representante da presença divina (Moberly 1983: 109). 1975. 35—40) Abrahams. ao utilizar-se desse incidente (2 Co 3. 1962. ZAWn0 83. “Tabernacle”. SJCA n° 3. 1976. refletindo. R. Feinberg. HBTrl 16. 292-300. pp. Elnes. B. “Tabernacle”. como um espelho. pp. O apóstolo Paulo. Gutmann. Theological Commentary. Jr. “Tabernacle”. pp. 1994. 1971.7-18). C. pp. 1992. 498-506. I. pp. 1977. 54- 79. G. . Notre Dame. W. Brueggemann. que já foi exclusivo de um extraordinário servo de Deus. Bib n° 38. Filadélfia: Westminster. S. IDBVL 4. entre outras coisas. EncJudrl 15. 169-180. “Creation and Tabernacle: The Priestly Writers’ ‘Environmentalism’”. ensina que todos os discípulos de Jesus refletem a glória de Deus (“nós. Cross. 572-583. JBLVL 98. 1979. pp. Jerusalém: Nelson Glueck School of Biblical Ar chaeology of Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion. J. 22-30. _. TheBook of Exodus: A Criticai. em Temples and High Places in Biblical Times. E.6). pp. ABDVL 6. Childs. Davies. Ind. Blenkinsopp. “The Structure of P”. Biran. OTL. está agora ao alcance até do menor seguidor do Messias. “The History of the Ark”. “Tabernacle”. 1971. 679-688. O Tabernácuio (Êx 25—31. pp. pp. a glória do Senhor”). Tamanho privilégio. 1974. “The Priestly Tabernacle in the Light of Recent Research”. 275-292. Freidman. F. 161185. J. Editado por A. Henton. “Trajectories in OT Literature”. 144-155.: University of Notre Dame Press. ZPEBTT 5. pp. M. 1981. E.

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18 (funções de sacerdotes e levitas. leis sobre ordenação de sacerdotes (8—10) . todavia. é um título bastante apropriado para esse livro bíblico. possui esse nome por tratar exclusivamente dos levitas. e ofertas para seu sustento).5-26. no tocante às cidades dos levitas. leis sobre sacrifícios (1—7) 2.32.1—4. Por outro lado. a qual se encontra relacionada ao Ano do Jubileu: “Mas. “Levítico” seria um nome mais adequado para Números — caso “Levítico” estivesse especificamente relacionado aos levitas. 31. encontramos em Levítico apenas uma breve referência aos levitas. Levítico se divide de forma natural em cinco unidades: 1. 3. 17. direito perpétuo de resgate terão os levitas. 22).1-4 (cidades dos levitas). 8—10.33). Deve-se admitir que referências a “sacerdotes” abundam por todo o livro (na verdade.47-53 (censo dos levitas). Em vez disso.47 (espólios de guerra para os levitas). Alguns capítulos. tratava-se de um termo mais genérico. dedicam-se com exclusividade a questões sacerdotais (por exemplo. “instruções para os/dos sacerdotes”. 21. Como tal. são 194).33. importantíssimo livro central do Pentateuco. Em certo aspecto. havendo feito resgate um dos levitas. Essa interpretação concorda com o nome pós-bíblico e rabínico de Levítico. temos capítulos ou seções inteiras dedicadas ao papel dos “levitas”: 1. a casa comprada e a cidade da sua possessão sairão no jubileu. 35. aliás. E muito provável que o termo que intitula o terceiro livro do Pentateuco na Septuaginta grega e na Vulgata latina não era originalmente utilizado nesses idiomas para denominar os levitas como um grupo específico de sacerdotes.11 0 Sistema de Sacrifícios LEVÍTICO 1—7 Poder-se-ia supor que Levítico.57-62 (censo dos levitas). Em Números.17. 26. portanto. porque as casas das cidades dos levitas são a sua possessão no meio dos filhos de Israel” (25. 7 (em especial os versículos 4 e 5). 8. relacionado a tudo que dizia respeito ao sacerdócio. 2. então. que étorat kohahirrr. 16 (uma revolta instigada pelos levitas contra Moisés).49 (funções dos levitas). às casas das cidades da sua possessão.1-3 (o nome de Arão é escrito no bordão de Levi). E.

vinte começarem com a expressão “falou o Senhor a Moisés”. através de sacrifícios (1—7) e por meio do sacerdócio (8—10). e (2) como alcançamos a santidade (11—27). A natureza divina do texto é enfatizada pelo fato de. O que é precisamente compreendido por vida em santidade ficará mais claro à medida que estudarmos o livro.3. Para começar. Em Êxodo. A Exhaustive Concordance (Concordância Completa). Não há sinal algum de qualquer influência de outros sistemas religiosos. 5. A aliança já fazia parte do passado. pelo menos no que tange à imponência de seu vocabulário. falando sobre como Deus deve ser adorado. Em Levítico. em grande parte. em vez de no começo. por intermédio da higiene (11—16) e da santificação (17—27). Levítico evoca Israel a ter uma vida de santidade. de James Strong. e o casamento. cinqüenta delas entre os capítulos 19 e 27. é a postura e o relacionamento adequados. ao local onde Deus deveria ser adorado: no Tabernáculo. As exceções são os capítulos 2. leis sobre votos (27) Norman Geisler1 sugeriu que Levítico fosse compreendido como um livro subdividido em duas partes: (1) como nos aproximamos do Altíssimo (1—10). Levítico dá continuidade ao tema. 3. A última seção de Êxodo dedica-se. Levítico deixa claro que seu texto foi divinamente revelado. leis sobre santidade física e moral (17—26) 5. 7. 10 e 26. Strong também cita dezessete ocorrências do verbo . a ênfase é o local. Levítico é endereçado a membros de uma comunidade de fiéis. leis sobre impurezas físicas e morais (11—16) 4. o qual procurou impor à comunidade aquilo que considerava adequado para se adorar a Deus. já firmado. dentre os vinte sete capítulos do livro. Mais que qualquer outro livro do Antigo Testamento. vale notar que a palavra “santo” aparece mais nesse que em qualquer outro livro da Bíblia. Alguns desses simplesmente dão continuidade ao assunto do capítulo anterior ou trazem a mesma expressão ao longo do capítulo.2 lista noventa ocorrências de “santo” em Levítico. Tampouco se percebe indícios de que o texto foi composto por algum comitê de liturgia. estava em pleno curso. baseada na KJV. 9.

Muito pouco desse livro é dedicado somente ao clero (as exceções são os capítulos 8—10. Não há. Para que não se pense que Levítico trata de uma santidade exigida com exclusividade. Os cinco sacrifícios são: 1. “holocausto”. Deve-se também notar que os pecados descritos nos capítulos 1—7 não constituem uma lista exaustiva. em hebraico. Esses primeiros capítulos de Levítico se concentram nos sacrifícios/ ofertas particulares em comparação aos da coletividade. aparece 150 vezes em Levítico (cerca de 20% de todas as ocorrências no Antigo Testamento). ou pelo menos principalmente. Veremos. no entanto. ou seja. encontramos a maioria entre os capítulos 19 e 27 (quatorze ocorrências). A oferta pacífica ou de sacrifício pacífico (3): semelhante a um banquete .8) ou de bebidas (29. por exemplo. Descrição dos Sacrifícios Os primeiros sete capítulos se dedicam à descrição dos sacrifícios ordenados por Deus. e não um ideal inalcançável. 3. utilizando as concordâncias em hebraico de Mandelkern ou Evan-Shoshan.38-41). seja em uma estrutura verbal. descobriremos. parcialmente. que alguns sacrifícios não têm nada a ver com pecado e expiação.“santificar”. Levítico. Adorar sem sacrifício é algo inconcebível. sacrifícios feitos com mais freqüência pelo israelita comum. e. e 21. Na Septuaginta. Se nos concentrarmos exclusivamente na raiz hebraica g- d-sh. os quais dizem respeito à manutenção do relacionamento entre a humanidade e a divindade. A oferta completamente queimada (1): chamada. A oferta de manjares (2): nesse caso. 2. não apenas de uma hierarquia religiosa. dos sacerdotes. O restante do livro é dirigido a todo o povo.16). que alguma forma dessa raiz. tanto o sacrifício (um ato exterior) como a penitência (uma postura interna) são de responsabilidade do pecador.1— 22. Uma santidade ao alcance de todos. Sempre que o pecado provoca uma ruptura entre Deus e a humanidade.7. portanto. nominal ou adjetiva. é preciso deixar claro que o que temos é de fato o contrário. 16. nada nesses capítulos sobre oferta de incenso (Êx 30. trata de uma santidade exigida de todos. mais uma vez. a que era composta exclusivamente de cereais. de õlâ: “aquela que sobe”.

4.9. Há uma segunda diferença entre as duas categorias de sacrifícios.14—6. Nenhum dos três primeiros é relacionado à ocasião ou infração específica que o exija. 3. A oferta pela culpa ou expiação (5.16.12. Os três primeiros pontos chegam ao ápice da narrativa com o impacto de tais sacrifícios diante de Deus.20. 1.9. 1.13. mas enfatiza a necessidade de reparação. sentir prazer” [o mesmo verbo por trás do nome “Noé”.18.35.21 (manjares) 3. a expressão aparece apenas em 4. 6. 4. logo. Pode-se perceber de imediato a diferença existente entre os itens 1-3 e 4-5. sacrifícios oferecidos a Deus em louvor e ação de graças.29]).26.31.17 (holocausto) 2.16 (pacífica) Em relação aos dois últimos sacrifícios.2. Estes. trata-se de um tipo especial de oferta pelo pecado. a narrativa se desenvolve em função do resultado que terão em Deus: para Ele. em Gn 5. Já no relato dos dois últimos sacrifícios.15. Devem ser atos espontâneos.13 (pecado) 2.10. tornam-se “um cheiro suave/agradável ao Senhor” (dez referências). e lhe/lhes será perdoado”. E . 5. relaxar. 1. uma única frase ocorre repetidamente na narrativa dos dois últimos sacrifícios: “o sacerdote por ele/eles fará propiciação.31. sentir-se confortável. Em contrapartida. 6. quando ofertados. 5. Deus sente prazer.5. 5. O termo hebraico para “agradável” deriva do verbo nüah (“descansar.7 (culpa) Nos três primeiros sacrifícios. 2.7): é também um sacrifício pelo pecado cometido. Ao receber tais ofertas.para selar uma aliança.13): um sacrifício de arrependimento por pecados cometidos. A oferta pelo pecado (4—5. o texto se desenvolve em função do resultado do sacrifício sobre aquele que faz a oferta: a pessoa é perdoada. é um aroma agradável.

o procedimento é outro. surge na narrativa bíblica uma terceira diferença entre essas duas categorias sacrificiais. Além disso. aos utensílios metálicos e artefatos doados ao tesouro do santuário. A expressão “coisas sagradas” poderia se referir ao mobiliário sagrado do Tabernáculo (como. em 1.8. por fazer contra algum deles o que não se deve fazer” (4. O mesmo procedimento é seguido na oferta pelo pecado dos príncipes ou chefes tribais (4. ou espremido (mâsâ [1. a importante frase “lhe será perdoado” não aparece aqui. Um pouco é “espargido” (nesse trecho.5. o pecado e o perdão.11. o altar interno). 3. O restante é derramado (shapak) à base do . pecados de omissão. aqui. lemos que a oferta de holocausto é para a “expiação” de um indivíduo. os últimos dois sacrifícios se relacionam a ocasiões específicas: “Quando alguém pecar por ignorância contra qualquer dos mandamentos do Senhor. não no âmbito das leis proibitivas. sem sombra de dúvida. Nos primeiros três sacrifícios (aliás. embora os dois pareçam essencialmente sinônimos) por sete vezes sobre o véu que separa o Lugar Santo do Santo dos Santos. somente na oferta de holocaustos e na pacífica). mas deve-se observar que a frase “para que seja aceito por ele” ocorre apenas aqui e não é encontrada nas ofertas pela culpa ou pelo pecado. o sacerdote “põe” (nâtarí) parte dele sobre os chifres do altar e “derrama” (shapaM) o restante na base. às primícias das colheitas e dos animais. aos dízimos. por exemplo. de bronze (1. em vez de espargir (zâraq) o sangue contra o lado do altar de bronze. Por outro lado. Parte é posto (nâtarí) sobre os chifres do altar do incenso (ou seja.15]) contra o lado do altar. o sangue é levado pelo sacerdote até a tenda da congregação. Nesses casos.13).2 — ARA).15).claro que. nas coisas santíssimas”). Nm 4. Contudo. Os assuntos abordados são. o segundo.34). ao contrário dos três primeiros.25) e na oferta pelo pecado de um cidadão comum (4. A partir dessas peculiaridades. Fica evidente que os últimos dois sacrifícios.4: “Este será o ministério dos filhos de Coate na tenda da congregação. Tal distinção seria o uso do sangue. em vez de zâraq. o verbo para espargir énãzâ. o sangue do animal é lançado/espargido (zâraq) pelos sacerdotes sobre o altar externo.30. A oferta pela culpa também trata de infrações inadvertidas. e assim por diante.4. têm natureza propiciatória e expiatória. Já no caso de oferta pelo pecado do sacerdote ou pelos pecados de toda a congregação.2. mas “nas coisas sagradas do Senhob’ (5. Esse sacrifício cobre violações inadvertidas das leis proibitivas de Deus. O primeiro cobre pecados oriundos de atos cometidos.

8 Pela culpa (lx): 7. que significa literalmente “trazer para perto”). a palavra hebraica para “oferta” (qorbân.4.32.4. (Já adiantando a exposição acerca do Dia da Expiação [16].3. derivado do verbo qâraB) aparece muito mais na descrição dos três primeiros sacrifícios que em relação ao dois últimos: Holocaustos (4x): 1. 5.1. 7. mas quase ausente nos dois últimos.7.8 (2x) Manjares (7x): 2.13) Ofertas pacíficas (12x): 3.14. de bronze (4.1 (2x).13 (2x). A palavra traduzida por “oferta” aparece vinte e quatro vezes nos três primeiros. nesse dia.14. jamais consumida.25.13) Ofertas pacíficas (15x): 3. 5. não podemos deixar de notar que.7.3. Além disso. mas somente quatro vezes nos dois últimos.3 (2x).6.3 Semelhantemente. Levítico 6.8.7 (2x).16.11 Pela culpa (nenhum) Assim. A primeira expressão a ser destacada nos três primeiros é o “trazer.18. oferecer” sacrifícios perante o Senhor (iqârab.7).14 (MT8 6. Esse verbo ocorre nos seguintes exemplos: Holocaustos (6x): 1.10.14. cujo sangue tenha sido levado até a tenda da congregação. 6. o sangue da vítima do sacrifício é levado até o interior do Santo dos Santos [16.15].2.16.20 (MT4 6.30 proíbe especificamente o consumo da carne de animais sacrificados. 7. Nesse caso. 7.6.10.16-18). “aquilo que é trazido para perto”.29 Pelo pecado (3x): 4.23.12.28.12.11.1 (2x). a oferta deverá ser queimada por completo. mas apenas quatro vezes em obrigatórios e expiatórios.29 Pelo pecado (4x): 4.14.14.15.5. Esse é o modo de a Bíblia dizer que.14.20 (MT8 6. maior será a infração. A preponderância no uso desse verbo/palavra na descrição de sacrifícios .13. o verbo traduzido por “apresentar/oferecer” um sacrifício diante de Deus aparece vinte e oito vezes em sacrifícios voluntários e não expiatórios.altar externo. quanto mais importante for o infrator.14 (2x).12.12 (2x). o que não é permitido em nenhum dos rituais sacrificiais descritos em Levítico 1—7.14 (2x) Manjares (8x): 2.13.) Uma quarta diferença é o conjunto de palavras bastante fre-qüente na descrição dos três primeiros sacrifícios.5-7.1. 6.

1—6. outra do clero. a primeira frase de 6.1—6.8—7. Veja a tabela 8. Até aqui. quando e se necessário.relacionados à devoção e ação de graças.1—6. Levítico não começa com a restauração junto a Deus. e não em sacrifícios que servem como preâmbulo para um pedido de perdão. Em vez disso. seria mais exatamente um modo de expressar a forma e a dinâmica do relacionamento de alguém com Deus.2. os oficiantes.38. Uma parte trata do laicato. relativa ao relacionamento entre o sistema sacrificial. em 6. em 1. mas sim com louvores.8—7. Tabela 8 1. Qualquer irresponsabilidade de uma ou outra parte torna o sacrifício inválido. e as instruções suplementares sobre os sacrifícios.7 detalha principalmente as responsabilidades daqueles que apresentam as ofertas. Com certeza.38 Holocaustos Holocaustos . passando então ao louvor de sua pessoa. Duas observações devem ser feitas: 1. não é à toa que Levítico 1. por isso lemos. evidenciando a oferta como parte do ato de entrar em sua presença. passando então à possibilidade de restauração. Há uma outra conexão entre eles que precisa ser mencionada. em 1. “fala aos filhos de Israel”.7. porém com ofertas cujo objetivo é expressar a devoção a Deus.7 6.8—7. Instruções acerca dos Sacrifícios A segunda observação tem a ver com a ordem dos sacrifícios nos dois segmentos.38 trata das responsabilidades daqueles que celebravam as cerimônias.9 é: “Dá ordem a Arão e a seus filhos”. pode indicar que o seu principal propósito não é a expiação. por esse motivo.1—6. 6.7 não inicia com ofertas que visam ao perdão de pecados. vimos quatro importantes diferenças entre sacrifícios que podem ser chamados de voluntários e aqueles que podemos chamar de propiciatórios ou expiatórios.

a oferta pelo pecado precede o holocausto — uma seqüência diferente de tudo o que vimos em Levítico 1—7 — que é então sucedida pela oferta de movimento (pacífica) (8. . Arão começa com um sacrifício pelo pecado. Pelo pecado Pelo pecadoX Pela culpa Pela culpa Pacíficos Anson Rainey6 chamou o primeiro grupo de seqüência didática: um tipo de classificação pedagógica em que os sacrifícios se encontram organizados segundo uma associação lógica ou conceituai.Manjares Manjares Pacíficos.18-21. O segundo agrupamento ele chama de seqüência administrativa. Ele a chama de seqüência de procedimentos. O segundo é organizado por ordem de freqüência. Creio que Rainey8 discerniu corretamente uma terceira ordenação nesses sacrifícios. O texto bíblico não indica nenhuma progressão do mais importante ao menos importante ou vice-versa. 17) e pacífica (vv. a exemplo do que acontece com a listagem das virtudes do fruto do Espírito apresentada por Paulo no Novo Testamento.2229). Levítico 1—7 não tenta.8-11. passando então a um holocausto (9. holocausto (v. A oferta de alimentos precede aquelas que visam ao perdão do pecado.12-14). 18-21). por exemplo (8). Apontar alguns desses sacrifícios como a essência do pensamento bíblico e considerar outros como de menor importância é injustificável. A seqüência dos sacrifícios do povo era: pelo pecado (v. Gordon Wenham7 sugere que o primeiro grupo é orientado por motivações teológicas. em momento algum. 16). 15). A fim de fazer expiação por si mesmo. manjares (v. organizá-los sob algum tipo de hierarquia. indo dos sacrifícios diários aos opcionais.14-17. O capítulo seguinte abrange o início da carreira de Arão como sumo sacerdote. E mais uma vez interessante observar a seqüência estabelecida. Na cerimônia de ordenação dos sacerdotes. segundo a qual os detalhes administrativos dos sacrifícios foram inscritos nos registros do templo.

Na purificação do Templo de Ezequias. uma melhor tradução da expressão hebraica seria “oferta pela purificação”. passando aos holocaustos (vv.A ordem é apresentada de forma clara no caso do nazireado. 25-30) e então aos outros sacrifícios (w. possui ressalvas. em geral traduzido por “oferta” (sobre esse vocábulo. na maioria das vezes em que alguém apresenta uma oferta “pelo pecado”.17-23).14. A questão é que o pecado deve ser resolvido logo de início. a ordem é: holocausto. oferta pelo pecado e oferta pacífica (Nm 6. a qual é apresentada no início de seu ministério (Nm 6. 16. O sacrifício pelo pecado é sistematicamente prioritário. atentar para os comentários apresentados acima). holocausto e oferta pacífica (vv. a tradução “oferta pelo pecado” é mais justificável em Levítico 4.20- 24). assim como acontece com o sacrifício “pelo pecado” apresentado pela mãe que acabou de parir (Lv 12. sem que haja confissão. Falar sobre consagração e comunhão com Deus. Os adoradores se aproximam com suas ofertas ou com a oferta de Deus. contudo. Por exemplo: a oferta “pelo pecado” dos nazireus.15). certamente não está relacionada a nenhuma falta cometida. é impossível e inadmissível. do hino Rock ofAges.6.10 pouco tem a ver com Levítico. O significado da oferta A oferenda apresentada é freqüentemente descrita como uma qorbân.7).24-30 (MT9 6. O sentimento trazido pela estrofe “nada trago em minhas mãos”. Essa afirmação.17). fica clara a inexistência de vínculo com alguma transgressão. Elementos Comuns entre os Sacrifícios A maioria dos sacrifícios prescritos em Levítico possui diversos denominadores comuns: O adorador apresenta uma oferta O adorador jamais entra na presença de Deus de mãos vazias. após essas duas passagens.14).13 e 6. De certa maneira. 31- 35). A partir da perspectiva do que deve ser levado ao Senhor.1—5. Todavia. temos primeiro a oferta pelo pecado (2 Cr 29. mas a seqüência seguida pelo sacerdote é: oferta pelo pecado. O que nos leva a tal raciocínio é o fato de que. Essa palavra é utilizada pelo menos uma vez para .

O cenário para a mensagem do Novo Testamento não podia ser mais belo e ideologicamente adequado (ver 1 Pe 1. eram oferecidos cereais. Abraão (17. Vez por outra.9). Iravam-se sempre que viam o povo de Deus sendo fiel no cumprimento dos rituais.11). uma tradução mais literal seria “algo trazido para perto”. Ela aparece 38 vezes em Números. A mesma palavra hebraica usada na descrição do animal para o sacrifício.21-24..6. E bem sabido que os profetas invectivavam contra o excesso de sacrifícios.C. pode descrever Noé (Gn 6. ou seja. é respondida em Levítico. com exceção da oferta pela culpa. A descrição da oferenda As oferendas. Essa posição é defendida em passagens como Isaías 1. A questão: “L possível haver proximidade e intimidade entre Deus e a humanidade?”. O sacrifício não pode jamais ser usado como cortina de fumaça para a depravação moral. mas não em suas vidas pessoais. A palavra. sem defeito algum. ou qualquer outro adorador que espere entrar na presença de Deus (SI 15.4). A oferta de grãos. parece transferir sua ênfase do animal sacrificial sem imperfeições físicas (Levítico) para o servo sacrificial: uma pessoa sem impurezas morais. 39 em Levítico (sendo que 31 vezes entre os capítulos 1 e 7) e apenas mais duas vezes no resto do Antigo Testamento (vemos também uma transliteração dessa palavra em Mc 7. chegando ao século VI. Ainda assim. Em vez de “oferta”. Já no fim do século VII a. em sua maior parte. são animais domesticados. estão relacionados ao fato de como alguém pode viver próximo de Deus.C.2).19).6-8 — vozes que ecoam a partir dos séculos VIII e VII a. Os sacrifícios. portanto. O próprio Antigo Testamento. Jó (12. Miquéias 6. parece depender do poder aquisitivo de quem faz o sacrifício. E isso não é tudo: os animais oferecidos deviam ser perfeitos.1). cabritos ou ovelhas. voltamos a ver o mesmo conceito em Jeremias . tâmim. somente o que há de mais caro e valioso é oferecido a Deus. Oséias 6. em termos de sacrifício. Levítico e Números detêm o monopólio do seu uso. portanto.11-17. Amós 5. touros.descrever cada tipo de sacrifício. abrange tanto a pureza física como a pureza moral. ao contrário da de animais. A disciplina exterior deve ser acompanhada por santidade interior. Essa é com certeza a mensagem de Isaías 53: o servo que levou nossas dores e foi ferido por nossas transgressões e iniqüidades sem nem ao menos abrir a boca.

Não são feitas exigências absurdas às pessoas de menos recursos.1-15). mas sim o sacrifício. ou uma ave (v. uma cordeira (v.6]). que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo [não morto ou vivo. Os centavos da viúva podem equivaler aos milhões do abastado. cegos ou doentes.1). mas que se desenrola em ordem decrescente de proeminência.17]). A Oferenda Depende dos Recursos do Ofertante Na maioria dos sacrifícios em Levítico. tornou-se com o tempo a oferta de holocausto das pessoas mais pobres. 10). que desprezais o meu nome” [1.3. 14). O princípio parece ser o seguinte: as ofertas não são iguais. por exemplo).7). em condições tão ruins que o povo não ousaria dar a um de seus príncipes (1. e. 23). ao fazê- .. Nos sacrifícios para expiação.14).17).8]) e suas vidas impuras (“Enfadais ao Senhor” [2. já um cidadão comum pode apresentar uma cabra (v.]. Os animais apresentados eram aleijados. mas seus sacrifícios a Deus eram imperfeitos (“ó sacerdotes. O holocausto.(6.16.8b). Os sacrifícios de seu povo são proporcionais ao que receberam. santo e agradável a Deus” (Rm 12. que encontramos a mais clara analogia ao tema da vítima sem máculas para o sacrifício. vemos uma graduação semelhante.. Tal ênfase na pureza da vítima para o sacrifício não está muito distante do discurso de Paulo: “Rogo-vos [. por exemplo. profeta posterior ao exílio. do príncipe ou de autoridade requer um bode (v. mas morto e vivol]. pode ser um touro (1. O Ofertante Participa no Ritual A pessoa que traz a oferta não se porta como um espectador passivo. uma ovelha ou um cabrito (v.3-5). Talvez seja na mensagem de Malaquias. porém participa ativamente no ritual. a vítima a ser apresentada depende do poder aquisitivo e da posição do ofertante. Não vemos sinal algum de que Deus deseja espoliar seus fiéis. Jacob Milgrom sugere que a oferta de manjares. Ela apresenta a vítima para o sacrifício. 28). As oferendas do povo não estavam apenas incompletas (“vós me roubais” [3. em especial no famoso sermão do templo (7. 32) ou aves (5. a oferta pelo pecado do sacerdote ou de todo o povo requer um novilho (4. o único sacrifício a não envolver animais. Assim.20. E o apóstolo acrescenta que só nos é possível conseguir isso “pela compaixão de Deus”. Tais sentimentos aparecem até mesmo no livro de Salmos (ver 51.

Qual é. há aqui uma analogia. a qual.4. a imposição de mão sobre o animal significa que ele é um substituto. 3. a imposição de mãos traduz propriedade. todavia aplicar uma certa pressão. sendo.23. geralmente. supor que o que temos aqui é uma transferência do pecado. As Responsabilidades do Adorador .14) ou maldições e juízos (Lv 24.14).] tomei os levitas em lugar de todo primogênito entre os filhos de Israel” (Nm 8. como seria possível alguém ao mesmo tempo apresentar e impor as mãos sobre uma oferta de farinha ou grãos? Além disso.” (Lv 16.] arrimou-se” neles. inaplicável a ofertas de cereais.9. Dt 34. não é oferecido a Deus como sacrifício.. Se. 4. em Juizes 16.29. a mesma encontrada em Lv 1—7) os levitas à congregação.. de fato. sâmak. Ao contrário do que se poderia esperar. simplesmente relata o procedimento e evita dar qualquer justificativa.15. Números 8. que passa do adorador para a vítima do sacrifício? Não necessariamente. do meio dos filhos de Israel.13.. a imposição de mãos (ou seja. esse procedimento é limitado a ofertas de sangue. Ele é enviado para o deserto. Tendo “mãos” como objeto.21) Esse bode. na descrição de como Sansão alcançou os dois pilares centrais do templo filisteu e “abraçou-se” a eles..24. abro mão de minha propriedade”.29.18). nada acontece ao animal. portanto.. Em primeiro lugar.10 é talvez o texto que mais se aproxima dessa realidade. Há pelo menos dois motivos para tal procedimento não ser utilizado nas ofertas de manjares. “[. No ritual do Dia da Expiação. a imposição das mãos de Arão sobre o bode vivo significa a transferência de pecados: “E Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo [. então. E uma forma de o ofertante dizer: “Eis minha dádiva. Esses últimos assumem o papel de primogênitos da congregação: “Porquanto eles. Em outras partes das Escrituras. Podemos.9). Ele não é imolado. A palavra hebraica para “pôr / impor (a mão)”.] e os porá [pecados. O verbo aparece. o propósito da imposição de mãos? Levítico 1—7 não se preocupa em responder a essa questão.. mais que apenas tocar. por exemplo. impõe as mãos sobre os levitas.13..2. Moisés “apresenta” (a raiz é q-r-b. me são dados.8. contudo.lo. minha oferenda. em lugar de todo aquele que abre a madre [.. sendo sua carne consumida ou queimada. no entanto. por sua vez. implica. iniqüidades e transgressões] sobre a cabeça do bode. esse verbo aparece 24 vezes no Antigo Testamento. ou com delegação de poderes (Moisés com Josué em Nm 27.16. das duas) está relacionada à transmissão de bênçãos (Gn 48.4. Muito provavelmente.33). coloca sua mão sobre a cabeça do animal (1.

portanto. para fazer expiação pela vossa alma. em geral. é o adorador e não o sacerdote que mata o animal (cortando-lhe a garganta?). A justificativa é encontrada em Levítico 17. dependendo do sacrifício envolvido. sem qualquer comentário ou análise teológica. porquanto é o sangue que fará expiação pela alma”. para percebermos alguns dos problemas peculiares a esse versículo. 3.8.11: “Porque a alma da carne está no sangue. sendo que trinta e seis delas em Levítico.2. porquanto o sangue pode expiar conforme o valor da vida.12. Basta compararmos as diversas traduções. De modo curioso. tem-se uma oferenda irrevogavelmente dada a Deus e.11. pois é o sangue que serve como pagamento aceitável pela vida (tirada).5.Após o animal ser trazido ao local de adoração. pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar. por vontade própria e em seu benefício. e eu vo-lo dei para servir de expiação por vossas vidas sobre o altar. (Levine12) A essência da vida da carne está no sangue. Depois de matar a vítima.13.69. o adorador é responsável por esfolar e esquartejar o animal.11 a importância dessa imolação (e subseqüente queima) reside no fato de que ela torna a oferta inútil para qualquer coisa. Para Roland de Vaux. Aparece por oitenta e quatro vezes no Antigo Testamento. propostas por competentes estudiosos de lingüística hebraica. A cerimônia é descrita de forma simples. Seu uso é.13). a não ser a incineração. A palavra hebraica traduzida por “matar” é shahat. As Responsabilidades do Sacerdote O sangue da vítima é recolhido e espargido em torno ou sobre o altar interno ou externo. restrito ao ritual da imolação. designei-a (para ser posta) sobre o altar para servir como pagamento aceitável. e eu.5-7). Dessa forma. além de lavar-lhe as entranhas (1. Levítico 1—7 não indica em parte alguma a relevância desse ato ou o papel do sangue no ritual. (Brichto13) .15. Essa tarefa cabe especificamente ao sacerdote (1. Porque a vida da carne está no sangue. impossível de ser utilizada de forma profana. 4.

mas tão-somente a idéia de que sacrifício envolve morte. 3. queimados sobre o altar pelo sacerdote.21.11 e o contexto em que está inserido.12.5. O mesmo é válido para a oferta de manjares (2. partes específicas do animal. (Milgrom14) Pois a vida da carne está no sangue. O termo transparece a voracidade com que o fogo consome.11).5). gradual e controlada. (Rainey15) Talvez seja temerário afirmar que Levítico 17.10. limpo e dessangrado. em Levítico. à oferta pelo pecado do sumo sacerdote ou de toda a comunidade. pois é o sangue. o qual apresenta restrições à matança indiscriminada de animais? E o que dizer a respeito desses versículos lidarem com ofertas de manjares (17.2.26. esquartejado. Não causa surpresa que tais sacrifícios. . O Sacrifício e seu Significado Após o animal ser oferecido. Para descrever a queima de carne animal “do lado de fora do arraial”. 17. o único sacrifício que não tem nada a ver com expiação e perdão de pecados? Quiçá a ênfase excessiva no papel do sangue em Levítico 1—7 busque destacar não a substituição em si. Por que Levítico 1—7 não faz referência alguma a tal raciocínio? Por que não vemos nenhum 17.9. como vida. Esse verbo está limitado. sendo mais bem traduzido por “incinerar”.16). “os ardentes”) (4.17.19. O texto hebraico constantemente utiliza o verbo q- t-r para fazer a descrição da queima sobre o altar. que expia.9. são colocadas sobre o altar e queimadas (1.35). no entanto. imolado.16: 4. Eu a dei sobre o altar para fazer expiação por suas almas.1-16.11. e fui eu que o designei para ser apresentado no altar como expiação por suas vidas. em contraste com q-t-r. pois é o sangue que expia em virtude da vida (que há nele). 8.13.31. Que se deve. ou mesmo ele inteiro.17. serapim. uma queima mais lenta.Pois a vida da carne é o sangue.11 nos capítulos 1—7? Qual a relação entre 17.11 pode servir como base para uma teoria acerca do sacrifício como sendo de caráter substitutivo. o hebraico utiliza o termo mais comum para “queima”: s-r-p (como em serafim. sejam descritos como “aroma agradável ao Senhor”. 9.

No caso da oferta pelo pecado do sacerdote ou da congregação. todo o animal era queimado (1. Ele chama tais frases de “reminiscências lingüísticas petrificadas”.15-21). a carcaça e o resto das entranhas eram queimadas fora do arraial como lixo (4.3. cita frases ou idéias idênticas nos escritos dos profetas.9. eles teriam combatido tal conceito.3-5).11. Além disso.26.31-35).8).2: “e andai em amor. Yehezkel Kaufmann16 apresentou a melhor explicação. Eis por que as advertências quanto a “comer sangue” aparecem no contexto de ofertas pacíficas (3. mas não quando a oferta era pelo pecado de cidadãos comuns. fica claro que o sacerdote não podia comer carne oriunda da oferta pelo pecado.14). Na oferta pelo pecado.8-10). 17. 7. Aliás.16. Esse é o único caso em que tal permissão é concedida.12. como também Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós. com exceção da pele.10. Parte da oferta de manjares era voltada para a alimentação do sacerdote (2.12. e outra é dada aos sacerdotes (7.10. quer seu. que ia para o sacerdote (7. Isso incluía algumas partes das entranhas e a gordura que envolvia as entranhas (4. Nos holocaustos. maior é o pecado. cressem que o sacrifício era alimento para a divindade. Trata-se do único sacrifício em que a carne é utilizada de diversas formas. Se as pessoas.27.13). os profetas e legisladores — que não apoiavam essa idéia — dificilmente utilizariam expressões que reforçassem o que consideravam um erro grosseiro. Vemos aqui mais um exemplo do mesmo princípio: quanto mais proeminente é o pecador.18). em cheiro suave”. O Destino Dado à Vítima do Sacrifício Vários procedimentos eram adotados com relação aos sacrifícios. O terceiro emprego é o mais incomum: a pessoa que faz a oferta também come parte do sacrifício (7. em geral. . A oferta pacífica é singular. e então acrescenta: O fato de os profetas clássicos terem se sentido livres para usar tais expressões é a maior prova de sua inocência. como uma fonte de alimentação? Teríamos aqui os vestígios de um mito? Em minha opinião. 6.depreender de uma frase assim? Os sacrifícios eram comida para Deus. Uma parte é incinerada sobre o altar (3. em oferta e sacrifício a Deus.17. À luz dos sacrifícios como um aroma agradável a Deus. parte do animal era queimada sobre o altar pelo sacerdote. quer da congregação (6.30).21). podemos compreender melhor o modo como Paulo fala da morte de Cristo em Efésios 5.

tendo sido testemunha de algo que viu ou soube. Quando cruzamos limites que não sabíamos existir (4.1-3): “Se alguém pecar porque. a sala do banquete é tão importante na adoração como o santuário. mas não em 5.. Quando pensamos que nossa insignificância nos justifica (4. “por ignorância”. o adorador deve se certificar de que retirou todo o sangue. Quando impensadamente banalizamos aquilo que é sagrado (5.. Quando deixamos de fazer algo que é certo (5.18). não o declarou..2...” (NVI) 7.. 2.3.13.14-16): “Quando alguém cometer um erro. Levítico 4.” (NVI) 3.4]).1-12): “Quando alguém pecar sem intenção. E o único caso em que Deus convida seu povo a entrar em sua presença e participar da mesa.14. “de modo inadvertido”..13 afirma que corremos o risco de pecar intencionalmente de sete maneiras diferentes (devo essa exposição a meu colega Lawson Stone): 1.22.4-13): “Se alguém impensadamente jurar fazer algo bom ou mau.4] e “o souber depois” [vv. A expressão é aplicada aos quatro níveis de oferta pelo pecado (4. e também à oferta pela culpa (5.Ao comer a carne. Em outras palavras. com Ele e uns com os outros.” (NVI) 5.. apesar de vermos frases como “ainda que lhe fosse oculto” [vv. O Perdão do Pecado Já mencionei que os dois últimos sacrifícios — pecado e culpa — lidam exclusivamente com o perdão do pecado..22-26): “Quando for um líder que pecar sem intenção.1—5. Quando acompanhamos os atos da comunidade (4.27-35): “Se for alguém da comunidade que pecar sem intenção.27. pecando sem intenção em qualquer coisa . Ambos servem para o perdão de transgressões cometidas “inconscientemente”. Quando agimos ou falamos por impulso (5.” (NVI) 6.” (NVI) 2.. Quando pensamos que nossas responsabilidades servem como desculpa (4. ou “sem intenção”.” (NVI) 4. 3. fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do Senhor... Ainda assim. existem ressalvas.13-21): “Se for toda a comunidade de Israel que pecar sem intenção.1- 13.

A primeira é que o sistema de sacrifícios do Antigo Testamento estabelece regras apenas para pecados acidentais.consagrada ao Senhor. 30. Embora essa seja uma linha de pensamento sedutora. injúria ao SENHOR.15) A análise desse sacrifício em especial foi feita de maneira primorosa por Jacob Milgrom. quer acidentais quer deliberados. pode-se suspeitar de que tais conclusões estejam baseadas em uma exegese falha.” (5.” (NVI) Duas conclusões podem ser extraídas daí. assim como o crente neotestamentário. não para aqueles que são deliberadamente cometidos. há algo no sistema sacrificial que se opõe à idéia de não existir perdão para pecados deliberados? Encontramos uma pista ao examinarmos a oferta pela culpa (5.. pode afirmar que “onde o pecado abundou. tanto premeditado como involuntário. O crente veterotestamentário.31). Antes de mais nada.. assim como o Novo.. Além dos textos em Levítico.17 O que faço aqui é basicamente seguir seu raciocínio.. como tentarei demonstrar rapidamente. qual o objetivo de se tratar especificamente de pecados inadvertidos? Por que Levítico faz tal distinção? Seria a forma de o Antigo Testamento demonstrar que o pecado.27-31 fala de maneira clara que existem meios de expiação para aqueles que pecam de forma inadvertida. muitos estudiosos cristãos de Levítico concluíram que é exatamente nesse ponto que emerge a superioridade do sacrifício de Cristo. que é também introduzida pelo seguinte comentário: “Quando alguma pessoa cometer uma transgressão e pecar por ignorância. superabundou a graça” (Rm 5. Em conseqüência dessa primeira assertiva. pois sua morte trouxe expiação absoluta — purificação de todos os pecados.] e a sua iniqüidade será sobre ela” (vv.. quer seja dos naturais quer dos estrangeiros. e tal alma será extirpada do meio do seu povo [. mas então acrescenta: “Mas a alma que fizer alguma coisa à mão levantada. Mesmo a alegação de que não há dispositivo sacrificial em Levítico para pecados deliberados pode ser questionada de modo bastante sério.. é terrível e ofensivo diante de Deus.14— 6. repudia com veemência qualquer postura de indiferença para com as leis.7). mas uma verdade tão bela não deve ser deturpada e considerada uma licença para pecar. e não uma oportunidade para esse mesmo Deus exibir suas capacidades? O Antigo Testamento. Números 15. . Voltando a Levítico 1—7.20). qualquer pecado.

que se encontra em Números 5. ou19 “não é o pecador voluntário que é excluído do sacrifício expiatório.14-16 e 5. Nova e crucial no texto de Números é a informação de que a confissão é essencial no caso de um pecado deliberado. Para aumentar ainda mais o problema. ou: “Porque.26). E a falta de confissão e arrependimento que impede o apóstata de ser restaurado a uma comunhão redentora com Cristo. já não resta mais sacrifício pelos pecados” (10. podemos recorrer a uma variante de Levítico 5.17-19) ou um outro ser humano (6.16.14—6. 7).5]) numa tentativa de comprovar sua inocência ou encobrir seu flagrante pecado.. Deverá vir após o convencimento da culpa e ser sucedida pela reparação do mal causado (v.Esses sacrifícios partilham de um denominador comum: todos cobrem casos em que o pecado cometido resulta em algum tipo de perda para uma outra pessoa em relação a algo de sua propriedade. Casos em que.. alguém se recusa a devolver o que lhe foi confiado para guarda. Confira: “Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados. Um exame das situações específicas abordadas em 6. depois de termos recebido o conhecimento da verdade.. é parte essencial desse sacrifício (ver 5.6). Citando Milgrom:18 “Uma compreensão mais correta desse postulado sacerdotal [ou seja..1-4).3. que somente transgressores involuntários têm direito ao sacrifício expiatório] seria que esse sacrifício é vedado ao pecador impenitente”.] provaram a boa palavra de Deus [. Por esse motivo. A parte prejudicada ou injustiçada pode ser o próprio Deus (como vemos nos casos apresentados em 5.] e recaíram sejam outra vez renovados para arrependimento.. [. acrescida de 20 %. se pecarmos voluntariamente. O pecado então passa para a mesma categoria dos pecados involuntários e pode ser expiado. Dizer isso é repetir o que vemos na epístola aos Hebreus.1-7. 6. rouba alguém ou mente a respeito de ter encontrado algo que outra pessoa havia perdido.. o pecador mente (“jura falsamente” [6.7. são essas as áreas cobertas por 6. a reparação. dificilmente poderia ser chamado de pecado involuntário! Ainda assim. por exemplo. . A fim de solucionar esse dilema (como os pecados voluntários podem ser perdoados?).1-7 (pecados contra uma outra pessoa) demonstra que tais pecados não podem ser cometidos de forma inadvertida.4..6-8. mas o que não se arrepende”. pois assim. de novo crucificam o Filho de Deus e o expõem ao vitupério” (6.5).

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6).9.7.1—6.7. mas de forma clara já não fazem parte do laicato. tudo ocorre publicamente. 7-9). e os capítulos 35—40 narram sua implementação.38 não se limita a detalhar as informações dadas em Levítico 1. ou seja. Além desse trecho. temos Levítico 8. 5.4. os sacerdotes.27.17. a seção de implementação..35).34.] como o Senhor lhe ordenara”.13. no entanto.29.1. qualifica o sacerdote a executar suas funções e qual a origem disso tudo? A Ordenação dos Sacerdotes (8) No capítulo 8.33. 14-29).5. O que.5. A mudança de instrução para implementação é clara em ambos os casos: o Tabernáculo. pois [. paramentos (vv. Todos os passos visam à consagração. 3. e Levítico 8.21.9.29.21. Vemos ainda. o que implica: banhos (vv. mas acrescenta orientações específicas quanto às obrigações dos sacerdotes nas cerimônias dos sacrifícios.12 A Ordenação Sacerdotal LEVÍTICO 8—10 Já disse que Levítico 6. utiliza-se da mesma fraseologia: “Fez.17. nessa ordem (vv. holocaustos.31 (as vestes sacerdotais). De modo semelhante.36. Por ainda não terem sido ordenados. As instruções para essa cerimônia e investidura são encontradas em Êxodo 29.4. unção com azeite (vv.21. nesse estágio.26. em Êxodo 25—31 e 35—40.25.8—7.23.32 (a instauração do Tabernáculo). e o sacerdócio. Para ser mais exato.29. Tais ofertas são especificamente pelo pecado. a cerimônia ocorre em Levítico 8.21. já vimos essa expressão ser utilizada de maneira muito ampla. Como observa Klingbeil1.29. 10-13) e ofertas de sacrifícios. nos dois casos.13. em ambas as . Principalmente em Êxodo 39 e 40.36 (a ordenação de sacerdotes). em cada um desses três capítulos lemos por sete vezes que Moisés ou alguém fez “conforme o Senhor lhe ordenara”: Êxodo 39. não podem oferecer sacrifícios. em Êxodo 28 e 29.19.. 40. “à porta da tenda da congregação” (vv. Levítico 8. e ofertas pacíficas ou pela ordenação.4. A estrutura literária é semelhante à verificada nos trechos sobre o Tabernáculo em Êxodo. Os capítulos 25—31 apresentam instruções sobre o Tabernáculo. encontram-se em uma situação intermediária ou liminar. no amplo pátio aberto que leva à entrada da tenda interna.

32.29. havia de estar (v.33. mais uma vez. Juizes 17.16- 20). 3) no lugar santo de Deus e andarem sinceridade (15.19- 34. As palavras hebraicas para “consagração”. Essa mesma expressão. Com o sangue do carneiro. relacionada à ordenação de sacerdotes. o significado de tal passagem? Diria respeito ao salário que o sacerdote deve receber. os quais lidam com a partilha de despojos. 29.12 e 1 Reis 13. não apenas nesse capítulo.4)? Não era ele que. O verbo “ordenar” advém de uma expressão hebraica que significa “encher a mão”: millêyad.5. “um preenchimento”. o uso do sangue é mais extensivo que na oferta pacífica de Levítico 3.10. aparece em Êxodo 28.22-29. porquanto por sete diaso Senhor encherá vossas mãos”. digno® de nota.1. Por . Diversos aspectos são. contudo. A oferta pela ordenação é examinada em 8. a superioridade do profeta sobre o sacerdote é reafirmada no próprio tratado sobre o sacerdócio”.35.33.2)? A expressão para “ordenar” aparece em 8. por excelência. Daí temos o comentário de Jacob Milgrom3: “Surpreendentemente. como sugerem Vaux4 e Cody5? Tal inferência é feita com base nos textos cuneiformes de Mari.9) e o modo incorreto de realizá-las (Lv 10. E por que essas partes do corpo? Ele não precisava ser especialmente sensível ao Senhor e capaz de ouvir a palavra de Deus? O sacerdote não era aquele que precisava de mãos limpas para entrar na presença de Deus.41.seções.2. 32. o polegar de sua mão direita e o de seu pé direito. Números 3. traduzido na Septuaginta como “plenitude” ou “perfeição”.33. o modo correto de celebrar as cerimônias (Lv 8. mas nos dois seguintes. um contraste entre a forma certa e a errada de fazer algo: como adorar a Deus (Ex 25—31) e como não adorar a Deus (Êx 32). Tornar-se sacerdote.9. como sugere o salmista (SI 24. Qual seria. significa ter as mãos cheias. até ao dia em que se cumprirem os dias do seu suprimento. e Arão seu subordinado (ver Wenham2). ao direito de reter parte dos rendimentos e ofertas trazidas ao santuário. 21. Esse versículo pode ser lido da seguinte forma: “Também da porta da tenda da congregação não saireis por sete dias.3. em paralelo com Êxodo 29. Levítico 16. portanto. “ordenação” e “ordenar” estão intimamente relacionadas. Um segundo aspecto interessante é o fato de que. Moisés é o supervisor. Em primeiro lugar. A palavra para “consagração é millüim. em especial. molha-se a ponta da orelha direita do sacerdote.

Quer lidemos aqui com adoção. imaculado” (seria um sim da parte de Deus?) Alguns estudiosos (como Kaufman6) têm defendido que o Urim e o Tumim são uma exclusividade do Israel veterotestamentário. 14-35). Será possível que encher as mãos do sacerdote simbolize o fato de que sua vida deveria ser preenchida apenas por coisas santas? Sacerdócio é uma responsabilidade. 1 Samuel 14.21.. adaptação ou inovação.9. A respeito de Calebe.11.65. os sacerdotes deviam tratar dos negócios de seu Pai. Tal qual Jesus.30.8. A palavra “Urim” está relacionada ao verbo hebraico “amaldiçoar” (seria um não da parte de Deus?).” Isso significa que ele tomou um punhado (como em Levítico 2..2: “tomará dela um punhado”. Duas peças um tanto enigmáticas são o Urim e o Tumim (v. lê-se literalmente: “Ele encheu completamente [a si mesmo] do Senhor”. 1013).8. possivelmente pedras. 5-9). weqamas missam melô aumsd) ou que era a celebração de seu primeiro sacrifício? O verbo hebraico “encher” também é utilizado em contextos não-sacerdotais quando. e a queimou sobre o altar. e “Tumim” com um verbo hebraico que significa “ser perfeito. O que quer que fossem. Esdras 2. A ordenação dos sacerdotes era uma cerimônia pública (8. Moisés diz: “porquanto perseverou em seguir ao Senhor” (Dt 1. Tem-se o consenso de que eram duas peças. mas antes que Arão e seus filhos pudessem ser ungidos (vv.14. É interessante especular acerca do significado de Levítico 9. voltam a ser mencionadas em Êxodo 28. A expressão volta a ser usada para descrever o nível da devoção de Calebe em Números 32. mais uma vez. Outros (como Lipinski7) têm sugerido a existência de similitudes em religiões pagãs. ou que qualquer sacrifício pudesse ser oferecido (vv.3.63 e Neemias 7. Em hebraico. Walther Eichrodt8 apresenta um ponto de vista bastante perspicaz: . não um passatempo. Talvez seja impossível descobrir de forma precisa as origens da expressão hebraica. 28. as quais serviam para tirar a sorte e possibilitavam que o sacerdote recebesse orientações de Deus.exemplo: escravos tomados como despojos de uma cidade conquistada “enchem a mão” {mil qati) dos conquistadores.6. Números 27.41. Deuteronômio 33. e a sua mão encheu \wayemalle kappd[ dela. 8).4). a ênfase do texto é uma total consagração à obra de Deus.17: “E fez chegar a oferta de manjares.36).12 e Josué 14. era importante que Arão recebesse todo o paramento sacerdotal apropriado (vv.

Somente nos versículos 15-21 ele passa a atuar como celebrante. Antes que Deus pudesse ministrar através deles. O capítulo também lembra ao sacerdote que. aquilo que. Depois de passar por isso. na religião de Jeová. assim como a circuncisão ocorre no oitavo dia. hoje. a menos que seu relacionamento com Deus esteja em perfeita ordem. antes que Arão e seus filhos pudessem fazer qualquer coisa.8-11) e então um holocausto . apesar de exercer um ofício santo e possuir ordens sagradas. Os versículos 1-14 dizem respeito ao próprio Arão. algo precisou ser feito por e para eles. foi Moisés quem desempenhou um papel ativo. ele apresentou uma oferta por seu próprio pecado (9. Destas. O ministério de Arão em favor dos outros começou “ao oitavo dia” (v. Arão e seus filhos foram absolutamente passivos — conduzidos. receberam de Moisés algumas instruções finais. 1). Em outras palavras. Foram então de novo ungidos e. Arão estava pronto para o primeiro sacrifício em favor da congregação*. O Início do Ministério Sacerdotal (9) O capítulo 8 descreveu a ordenação e consagração de Arão e seus filhos ao longo de sete dias. Levítico 9 parece enfatizar que o ministério do sacerdote junto às outras pessoas é inútil. Mais uma vez. para se conhecer a vontade de Deus. após sete dias de vida fora do útero. mas insuficiente (8. em muitos casos. Todo o processo deve ser repetido antes que o sacerdote recém-ordenado possa assumir como mediador. lavados. o texto refere-se a um momento de restauração ou a um momento de separação e transição. vestidos. Dessa forma. O fato de ter havido holocausto e uma oferta pelo pecado na consagração de Arão é bom. ele ainda é um ser humano falho. ungidos — e Moisés ofereceu três sacrifícios diferentes em favor deles. que precisa ser constantemente purificado. setenta ocorrem em contextos de algum tipo de adoração. qualquer controle do sacerdote sobre as decisões divinas e o conseqüente desenvolvimento de uma ciência divinatória incompreensível ao homem comum estariam para sempre impossibilitados. contudo. o mais simples possível. chamaríamos de ritual de passagem (ver Klingbeil9). terá de esperar até a segunda metade do capítulo 9. foi preciso ministrar para eles.14-21). A expressão “sete dias” aparece oitenta e cinco vezes no Antigo Testamento. por fim. e. Ao longo do capítulo 8. nada além disso seria jamais absorvido em seu sistema: um dispositivo. Isso.Temos aqui a clara indicação de que.

A glória de Deus. de holocausto. já é bastante difícil.17). que de tão grave merecia a morte? Não temos como responder a essa questão de forma precisa. 3.23).28. uma remota obediência! Somente após serem alcançadas as necessidades do próprio Arão.4) e João (Ap 1. louvor e submissão — “o que vendo todo o povo. Talvez para tornar a situação ainda mais dramática. se concentra no juízo divino. Moisés mandou que Arão oferecesse um bezerro por seu pecado e um carneiro em holocausto (vv. portanto. A ordem dos eventos no capítulo 9 segue as determinações de Moisés: sacrifícios pelo sacerdote. Perder dois filhos. Paulo (At 9. o carneiro. o aparecimento da glória de Deus. ofereceram “fogo estranho” ao Senhor e pagaram com a própria vida. As duas primeiras são promessas (“aparecerá”). que. seu cumprimento (“apareceu”). 12-14). fez com que toda a congregação caísse prostrada em adoração. a última. ele pôde assumir o papel que lhe era reservado diante da congregação.13)? O bezerro fazia lembrar uma recente desobediência. Além disso. Daniel (8. manifestada em todo seu esplendor. 24). Observe a repetição de “hoje o Senhor vos aparecerá” ou “a glória do Senhor vos apareceu”. E um carneiro? Não foi um carneiro que Deus deu a Abraão para tomar o lugar de Isaque (Gn 22.8). de manjares e pacífica (9. ambos sacerdotes. Qual foi exatamente a natureza do pecado de ambos. Ele supervisionou a apresentação de quatro ofertas de sacrifício perante Deus: pelo pecado. Procedimentos Corretos e Incorretos (10) O capítulo 9 encerra ressaltando a adoração. Que impacto levamos. Um bezerro? O último bezerro que Arão tinha visto fora (aquele) o bezerro de ouro que fizera no sopé do monte Sinai (Ex 32). Dois dos filhos deArão. 2. nos versículos 4. Veja Ezequiel (1. sacrifícios pela congregação.15-21). 6). Nadabe e Abiú. pelo menos no início. 6 e 23.17). a Arão e seus dois filhos sobreviventes foram proibidas quaisquer demonstrações públicas de tristeza ou lamento pelos parentes falecidos (v. adoração. ao passarmos ao capítulo 10. Em pelo menos três oportunidades.(w. o capítulo sugere que as ofertas de sacrifícios fazem com que a presença de Deus se aproxime. O mesmo ocorre na vida de indivíduos. Diversas . jubilou e caiu sobre as suas faces” (v.

Será que Nadabe eAbiú estavam bêbados? Teriam entrado no santuário sem lavar as mãos? Seriam eles oportunistas e conspiradores que diziam: “Quando morrerão esses dois velhos (Moisés e Arão) para que possamos controlar a comunidade?”? Talvez o erro estivesse em algum ritual realizado de forma inadequada. H.33).. por exemplo. temos o registro de que Arão devia ensinar todos os estatutos do Senhor ao povo de Israel (v. C. 11). Entre esses dois momentos. é chocante ler sobre dois dos filhos de Arão fazendo algo que o Senhor não ordenara..5. Fazer (isso) algo que o Senhor “não ordenara” é algo.. Moisés. uma fornalha”. J. Nessa linha.3. Esse ponto de vista é adotado por grande parte dos estudiosos modernos. em vez de vir do altar externo [.15-23). Haran1’-aventam que o pecado cometido foi acender o incenso com um outro fogo que não aquele disponível sobre o altar.] a brasa veio de uma fonte ‘profana’ [. envolveu-se em uma discussão comArão acerca dos dois filhos que lhe restaram: Eleazar e Itamar (10. Milgrom12 traduz a expressão como “brasa não autorizada” e faz a seguinte observação: “Isso pode apenas significar que. fora de Levítico 10.C.] ou ‘externa’ [. nem tudo estava resolvido. Robinson13 vai mais além. um comentário homilético escrito na Palestina. nem nunca determinou a prática de adultério ou desonestidade (29. Leviticus Rabbah.16-20). restrito a Jeremias (ver Beal e Linafelf4). G. E difícil deixar passar a ironia da situação: ele fracassou com sua própria família e foi incapaz de ensinar-lhe! Os dois filhos falharam na oferta do sacrifício pelos pecados do povo. J. Baseando-se em passagens que proíbem acender um fogo no Sábado (Ex 35.31. Após os muitos exemplos do capítulo 8. desde os tempos dos escritos rabínicos até hoje. Nm 15..35). Desobedecer e se afastar do que foi revelado por Deus pode ter resultados catastróficos..2. Entretanto. com Moisés realizando o que o Senhor mandara.. 19.sugestões já foram feitas. com adoração idólatra”. no século V a.. Nesse . tenta explicar o fato. Laughlin10 e M. O ponto enfatizado pela narrativa é que sacerdotes seguem ordens. ele conclui: “Isso pode indicar que o crime em questão tem a ver com apostasia. Deus jamais ordenou que alguém sacrificasse seu filho ou filha (Jr 7.32-36) — pecado digno de pena de morte — e outras que mencionam o uso de fogo na adoração de falsos deuses (Jr 44. logo em seguida.] como. 32.

Sheffield: JSOT Press. Priesthood and Cult in Ancient Israel JSOTSup n° 125. podendo abrir as comportas para uma volta às crenças e práticas de magia. todo material utilizado em rituais de purificação era destruído após o uso. BIBB.29). A. M. não. jamais inaceitável. com exceção daqueles relacionados a pecados graves. B. suas palavras “tais coisas me sucederam” indicam que seus dois filhos não desobedeceram ao ritual por rebeldia (como Nadabe e Abiú). Dessa forma. 19-32. Ao aceitar essas explicações. necessário. Apesar de furioso com o pecado de omissão cometido pelos dois filhos restantes.26. BEAL. G. T. Segundo evidências do antigo Oriente Médio. 1991. “Nadab and Abihu Attempt to Fill a Gap: Law and Narrative in . Semeiaví 69-70. o pranto pelo luto é saudável. mas eles se recusaram a fazê-lo (10. Todavia. 1995. pp. por que tal omissão levou a uma discussão tão acalorada? Creio que Milgrom15 analisa a questão corretamente: Quando o código sacerdotal prescreve que todo chatfã ’t. S. conseqüentemente. Embora seja difícil determinar a essência da explicação de Arão (será que a morte de seus filhos e seus cadáveres poluíram o santuário e. levantam a suspeita de que tinham medo de fazê-lo. T. Seus irmãos. Embora o lamento público seja proibido para o sacerdote. quando Arão e seus filhos queimam o chatta’t<àm vez de comê-lo. o sacrifício devia ser comido pelos sacerdotes (6. Eleazar e Itamar. dá-se um gigantesco passo para se desentranhar os elementos mágicos e demoníacos do ritualismo israelita. Israel dá início a um conceito novo e radicalmente diferente: o santuário não é purificado por nenhum poder intrínseco ao ritual. a fim de que seus poderes não fossem usados em rituais de magia negra. K.17). D. Moisés ficou “satisfeito” com a explicação dada por Arão. Ao exigir que achatfãi fosse comida.caso. mas por causa das circunstâncias daquele momento: a perda dos dois irmãos. e LINAFELT. “Sifting for Cinders: Strange Fire Leviticus 10:1- 5”. Levítico 8—10 ANDERSON. o sacrifício?). e OLYAN. Moisés demonstrou que nem todo erro pode ser avaliado de forma simplista e resolvido de maneira rotineira por mecanismos legalistas. mas apenas pela vontade de Deus. deve ser comido pelos sacerdotes. Nadabe e Abiú foram incinerados por seu pecado.

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1995. .14 “Sifting for Cinders: Strange Fire Leviticus 10:1-5”. p. 1976. p. VTn° 26. 15 “Two Kinds of hattaT. 337. 25. Semeia n° 69 a 70.

Nem são distinções elaboradas em conjunto por Arão.10). Podemos perceber que as duas primeiras não são intercambiáveis. sou puro”. é tanto celebrante como educador.. 14).13 Puro e Impuro LEVÍTICO 11—15 Em meio ao capítulo 10. E claro que nada nem ninguém é santo sem ser limpo e puro. não são exatamente sinônimos. e (4) “limpo/puro” (tâhôr) — em especial as duas últimas. Existem versículos nos quais Deus diz: “Santos sereis. Eleazar e Itamar.” (vv.. Eles devem ensinar aquilo que Deus falou a Moisés (v. “Santo” e “limpo/puro”. tanto liturgista como instrutor. sou santo”1. 13) ou “falou o Senhor a Moisés” (12.] ensinar [. portanto. Moisés podia ouvir sozinho. porque eu. porque eu. algo ou alguém que seja “profano” pode ser puro ou impuro. Por outro lado. enquanto . Duas falam do que é desejável (santo e limpo/puro). E questionável se o oposto mais exato de “santo” é “profano” ou “impuro”. apesar de a Bíblia chamar Deus de “santo” (qodes). fica claro que Arão está subordinado a Moisés. não é idéia de Arão.. 11). O mesmo acontece com “profano” e “imundo/impuro”.10. as duas palavras positivas.] todos os estatutos que o Senhor lhes tem falado. Mesmo aqui. 10. Arão. vosso Deus.. o Senhor. somos informados de que uma das funções do sacerdote é “fazer diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo.11) O sacerdote.. e [. Os capítulos começam com “falou o Senhor a Moisés e a Arão” (11. vosso Deus. (2) “profano” (hôt)\ (3) “imundo/impuro” (tamey. puro e impuro. Nada nem ninguém pode ser santo e impuro ao mesmo tempo. aparecem quatro palavras-chave hebraicas. pois. que se destacam ao longo dos cinco capítulos: (1) “santo” (çõdes). nunca o chama de “puro” (tâhôr). Não existe versículo em que se leia: “Puros sereis. Em Levítico 10. apenas na companhia de Moisés.. duas do que é indesejável (profano e imundo/impuro). que se segue nesses três capítulos. o Senhor. Alguns afirmam que “profano” é o melhor antônimo (ver Lv 10. A distinção entre sagrado e profano.

juntamente com o sacerdote.8: 14.26. embora permitida.18. visto que toda impureza punha em risco o que é santo e tudo a ele relacionado”. onde vemos a frase “o sacerdote por ele fará expiação” (12. Essa diferenciação pode ser observada quando comparamos o uso do verbo kâpar (“fazer expiação por”) na parte que se refere a sacrifícios (1—7) e na que diz respeito a pureza/impureza (11—15).6). As impurezas “permitidas”. o nascimento de uma criança. passam pelos devidos rituais. E preciso ter em mente que impureza não é sinônimo de ini-qüidade. ela vem seguida da frase “e este lhe será perdoado” (4.31. mas. Na seção que fala sobre sacrifício.7.53. não era necessariamente incentivada e devia ser evitada ao máximo.30).outros defendem “imundo/impuro”. são declarados limpos (sempre na voz ativa — não se diz que eles “foram limpos”). morte e agonia da morte. De imediato.16. podemos perceber que nenhuma fruta ou vegetal é apontada como inaceitável.13.26. O vasto número de situações e atos que levam à impureza são perfeitamente normais e naturais: refeições. En» contrapartida.20. Cinco áreas são examinadas na tabela 9. 15. esse é “ser limpo” (12. os efeitos são mínimos (“até à tarde”) e de curta duração. 14.29.18.31. As “proibidas”4 se diferenciam por serem oriundas de “malversação das impurezas permitidas ou de outras infrações morais”.19. Esse grupo maior é chamado por Wright de impurezas “permitidas’53.7.20.20. seu adversário é a impureza (tameY.8. Miller5 prefere o termo “toleradas”.21. excrementos humanos. Aqueles que possuem pecado precisam ser perdoados (sempre na voz passiva). mas apenas certos tipos de carne. No caso das impurezas permitidas. sempre que ela é seguida por um verbo.35. 5. intimi-dades sexuais com o cônjuge. com exceção de 5.53). sempre que vemos a frase “o sacerdote por ele fará expiação”. na seção que fala acerca da pureza/impureza. bastando que a pessoa se banhe ou lave as roupas. apesar de a iniqüidade produzir impureza. Miller conseguiu um interessante meio- termo: “embora o oposto da santidade seja o comum ou o profano (Ao/). com especial atenção às frases que o acompanham. pois “alguma impureza. aqueles que se encontram impuros. o que podiam ou não comer.6. Animais Puros e Impuros (11) Todo o capítulo 11 é dedicado a uma única questão: o regime alimentar de Israel. Vemos a base disso na primeira . enfermidades e infecções.10.

29). 23: 29-38: 4-8: 10-12: insetos transmitida a outros proibidos proibidos alados objetos por proibidos “animais rasteiros” 39-40: transmitida a uma pessoa via animais terrestres 45-47: conclusão 45: justificativa . Tabela 9 Referência Referência Referência Referência Referência 13-23: 24-40: impureza 41-44: 1-8: 9-12: pássaros e transmitida pelo animais animais peixes insetos contato com terrestres alados animais imundos ou mortos rasteiros 13-19: 24-28: transmitida a uma 41-44: 1-3: 9: pássaros pessoa via animais não- permitidos permitidos proibidos proibidos comestíveis. O mesmo é válido para criaturas da terra e do ar (v. 30). ser-vos-ão para mantimento” (Gn 1. 20.orientação de Deus para a alimentação humana: “Eis que vos tenho dado toda erva que dá semente e que está sobre a face de toda a terra e toda árvore em que há fruto de árvore que dá semente.

2).) Uma nova sugestão vem sendo apresentada pela antropóloga Mary Douglas.. não se encontram no texto bíblico. Os animais imundos também são alvo da misericórdia divina. ilustra esse aspecto: “Esses estatutos procuram nos treinar no controle do apetite [. E improvável que animais de aparência repulsiva sejam servidos à mesa. Sugestões que. Muito já se disse para justificar a lista de animais puros e impuros. Talvez a razão citada com mais freqüência seja a higiênica.. assim como. Um deles é o argumento moral. Pelo menos quatro argumentos são repetidamente apresentados. por exemplo. segundo as ordens de Deus. tomo 3.: “As leis sobre a alimentação são morais. para a abstinência 46-47: exposição resumida A humanidade passou de herbívora a carnívora somente após o Dilúvio (9. de modo geral.]. ela recorreu ao critério morfológico listado em Levítico 11. os costumes pagãos quanto ao luto. pois se abster do consumo de sangue aplaca a inclinação do homem para a violência ao incutir-lhe aversão por derramamento de sangue”. E interessante observar que Noé. filósofo e teólogo judeu do século XII. Uma segunda explicação é a estética. os aventais de folhas de figueiras foram substituídos por túnicas de peles (3. Alguns animais são automaticamente eliminados por serem mais propensos a transmitir doenças. Apenas depois de a serpente ser amaldiçoada. Animais associados a religiões pagãs eram tabu em Israel. p. Inicialmente. todo alimento proibido pela Torá possui algum efeito nocivo ou danoso sobre o corpo humano” {Guide to the Perplexed[Guia para os Perplexos]. um judeu egípcio do século I a. .C. 48. Maimonides.21). Uma terceira razão é a teológica.3-5). Essa abordagem aparece em uma citação deAristeas. levou para a arca tanto animais limpos como imundos (7.

O melhor exemplo se encontra no capítulo que examinamos. tais criaturas. Jacob Milgrom9 justificadamente afirma: “Não são muitos os estatutos da Bíblia que se fazem acompanhar da exigência de santidade. quer por terem características próprias de um outro ambiente ou por lhes faltarem traços característicos”. Douglas6 afirma: “Ele [o código acerca dos alimentos] rejeita criaturas anômalas. não comereis carne despedaçada no campo. O testemunho pessoal de Ezequiel demonstra que esse assunto não era banal . de Levítico 11 (vv. os pobres. a palavra “santo” não está muito distante.23.21). 20.14 — ARA). Não é difícil transferir esse critério de anomalia do animal para o ser humano. portanto. Não é por acaso que. nenhum apresenta tal exigência com a mesma ênfase dos relacionados à alimentação”. São também destruídas no Dilúvio (Gn 7. mas fazem parte do processo de recriação pós-diluviano (Gn 8.21.25.Mamíferos com casco fendido e ruminantes eram permitidos. todas as vezes que ordenanças acerca do alimento aparecem no Pentateuco. porque eu sou santo”. Cada um desses versículos.17). As criaturas aquáticas deviam possuir barbatanas e escamas. por ter levado a humanidade a desobedecer e se afastar de Deus (Gn 3.25). O mesmo acontece com a serpente. representam as “vítimas da predação”. Em Êxodo 22. As espécies puras precisavam possuir todas as características essenciais de sua classe (Douglas7).31. Dt 14. Desses. o crente anômalo. especialmente 11. proíbe a ingestão dessas criaturas. Deixando de lado qualquer interpretação alegórica. quer por viverem em dois ambientes.44: “vós vos santificáreis e sereis santos. elas são criadas por Deus e chamadas “bom” (1. todavia. lemos: “E ser-me-eis homens santos.31-33. é possível pensar em uma outra possível explicação para a proibição do consumo de criaturas rastejantes: um tipo de culpa por associação. Não comer tais criaturas faz-nos lembrar justiça e compaixão para com aqueles que não transitam em meio à sociedade predominante. quer sejam terrestres.26. aos cães a lançareis” (ver também Lv 20.21). Se Deus rejeita animais que não possuem importantes características distintivas em sua espécie. Cada uma dessas criaturas “anda sobre o ventre \gâhôn\” (Lv 11.46). Para Douglas8. Em trabalhos mais recentes. vulneráveis e não-predadoras. Em Gênesis 1. que foi condenada por Deus a “rastejar sobre [seu] ventre” todos os dias de sua vida.42). oprimidos e marginalizados pela sociedade. ou seja. aquáticas ou voadoras. com exceção do 21.24. Douglas concentrou-se nas criaturas “rastejantes” proibidas.41-44. maior rejeição demonstrará em relação àquele que tenta viver em dois mundos.

8 — NVI) com o “nunca” de Atos 10. Em todas as ocorrências. A declaração de Pedro. após a circuncisão da criança. representa uma maior preocupação com a segurança da filha recém-nascida e sua potencial fertilidade. a tenda da congregação é sua primeira parada (v. ela deve ficar isolada por uma semana (v. É de extrema importância notar que a santidade de uma pessoa é demonstrada por seu comportamento à mesa. 6). Tais ofertas. embora convidado à mesa do rei. 2).para os judeus (Ez 4.14).16. Daniel. o Mestre o repreende no versículo seguinte. 4). escolheu respeitar as restrições alimentares (Dn 1. Em primeiro lugar. Pedro. mesmo após tornar-se um seguidor de Jesus e ser cheio do Espírito Santo no Pen-tecostes. Somente após — nunca antes ou durante — esses quarenta ou oitenta dias de purificação.19.14). Trata-se de uma santidade çosta em prática no ambiente familiar e na intimidade do lar. não conseguia abandonar as proibições de Levítico 11 (At 10. visto existirem boas chances de que no futuro ela mesma seja mãe. a mãe oferece ao Senhor um holocausto e uma oferta pelo pecado. portanto.8). o período de reclusão da mãe é dobrado (de uma para duas semanas. muito provavelmente. com refeições dignas da realeza. Não parece ser uma afronta ao gênero feminino. E uma santidade vivida mesmo quando não há ninguém olhando. Feministas que censuram o desequilíbrio patriarcal de grande parte do Antigo Testamento citam o fato de que. permanece isolada por mais um mês (v. no nascimento de uma menina. indicam que o sexo é pecaminoso e que a procriação é uma transgressão e requer expiação? Se esse fosse o caso.20). tanto do homem como .33 — NVI) e “nunca lavarás os meus pés!” (Jo 13. de trinta e três dias para sessenta e seis dias).22 — NVI). Não fica claro o porquê de o nascimento de uma menina duplicar o período de purificação da mãe. Podemos observar que. é seu quarto “nunca” dito a Jesus. 6. É um desrespeito para com Deus levar algo impuro a seu templo. “eu nunca te abandonarei!” (Mt 26. Impureza Oriunda do Parto (12) Esse capítulo lida com os procedimentos a serem seguidos pela mãe após o nascimento de seu filho. é desrespeitoso fazer algo impuro entrar em um outro templo: o corpo de uma pessoa (1 Co 3. Ao findar o prazo. em relação aos dejetos humanos. Da mesma forma. “nunca comi coisa alguma comum e imunda”. A extensão de prazo. Levítico 12 estaria contradizendo tudo o mais que as Escrituras ensinam sobre esse assunto. Compare Pedro dizendo “Isso nunca te acontecerá!” (Mt 16.

. não trilharás [.10. na qual os riscos do parto foram grandemente reduzidos pela medicina moderna e seu mistério desfeito pelo conhecimento biológico. Ao declarar a nova mãe como impura (em termos médicos mais modernos. e contra o Estrangulador do Cordeiro. o holocausto e a oferta pelo pecado também são exigidos (15. Podemos seguramente supor que a palavra “lepra” é um termo genérico que abrange diversas doenças de pele. sabemos que os dias que antecedem o nascimento.): “Sortilégios contra Voadores [demônios alados?]. (contra) Sasm. sejam extirpados! Agora! Imediatamente. filho de Padrishisha. observa: “Em uma sociedade como a nossa. Dennis Kinlaw10. Lepra (13. 14) Dois capítulos inteiros de Levítico são dedicados à lepra. quem pode afirmar que alguns desses costumes não são necessários para restaurarmos a ‘magia’ e a santidade de tais eventos?” Tanto pelos registros históricos como por nossa própria vivência. Seria por demais ridículo e absurdo vincular qualquer dessas ocorrências a um pecado na vida da pessoa envolvida. contudo. . seu diagnóstico (13) e purificação (14). deusas. as religiões pagãs defendem o uso de feitiços e encantamentos para repelir espíritos demoníacos. isolamento cerimonial como meio de proteger duas pessoas).30). Uma contaminação durante o nazireado também requer esses dois tipos de sacrifício (Nm 6. o deus. Ê o fluxo de sangue posterior ao parto que traz a impureza. Na casa em que eu entrar. o momento do nascimento e os dias imediatamente posteriores são carregados de expectativa e ansiedade.da mulher. E muito mais correto descrever essas ofertas como rituais de purificação.11).13- 15. não entrarás. É claro que muitos desses rituais são desconhecidos nas igrejas cristãs de hoje ou nas maternidades. por exemplo. a inscrição fenícia encontrada em um amuleto de Arslan Tash.p2. ó demônios da noite [. Veja..C. sendo que grande parte não oferecia risco de contágio (para estudos da expressão hebraica para “lepra”. O caminho que eu trilhar. Levítico procura proteger e resguardar tanto a mãe como a criança de qualquer mal (ver Levine11)- Diferentemente desse ritual (ou seja.] Contra os Voadores: do quarto escuro... uma esperança de que tudo corra bem com a criança recém-nascida e a mãe. no norte da Síria (século VII a.29. “suscetível”).

pureza e impureza. Sawyer15 e Wilkinson16).2-8). E importante notar que o objetivo desse ritual não é limpar a doença. ou seja. micoses e putrefação dos tecidos. O sacerdote também . Hulse14.1-59: diagnóstico 14.1-57: limpeza e mais diagnóstico 1-28. A tabela 10 traz um esboço das áreas abordadas nessa seção de Levítico.3: “Se a praga da lepra do leproso está curada” (ARA). A palavra para “imundo” ou “impuro” aparece mais de 280 vezes no Antigo Testamento. portanto.leia Harrison13. A fim de remover a “impureza” e ser reintroduzido na comunidade. Tabela 10 Referência Referência 13. Essa intenção fica bastante clara em 14. A palavra hebraica para “limpo” ou “puro” aparece mais de 200 vezes no Antigo Testamento. mas testificar que (ela) a doença já foi curada. as seções que lidam com sacerdotes nas Escrituras versam sobre questões ligadas à pureza. limpeza e imundice. não terapêutico. o leproso deve participar de um ritual processado em três fases. ocorre uma cerimônia (14. Dessas. 38-39: pele 1-32: ritual de reabilitação 24-37: cabelo 32-53: diagnóstico de lepra nas casas 40-44: couro cabeludo 45-46: quarentena 47-59: vestes deterioradas 54-57: resumo do texto Como seria de se esperar. No primeiro dia. simbólico e religioso. incluindo até mesmo fungos. O ritual é. O fato de a doença em questão poder afetar tanto roupas como construções parece implicar uma variedade de significados. Noventa e três ocorrências (cerca de 43% do total) encontram-se em Levítico ou Números. 182 (cerca de 64% do total) encontram-se em Levítico e Números (ver os gráficos na obra de Neusner17).

Como no caso de uma mulher após o parto.9. E extremamente difícil. Além disso. o mesmo verbo grego assume nuanças claramente éticas: Atos 15. o cego e o aleijado eram curados. se não impossível.19 ensinam que Deus pode atingir alguém com lepra em punição pelo pecado. repulsiva e embota os sentidos.16-21. Efésios 5. Levítico afirma que a lepra é semelhante a ele. Era semelhante no sentido de impedir que a pessoa participasse dos cultos a Deus. 10-32).não atua como médico ou curandeiro. 2 Coríntios 7. as exigências dos sacrifícios são revistas caso o leproso seja pobre. mas não um pecado em si ou um sinal do pecado. em Israel.9. exigia-se um período de isolamento para aqueles que apresentassem manchas no corpo. do que é expelido pela região . mas. e do rei Uzias. O ostracismo era substituído pela comunhão. Deus diz a seu povo: “se derem ouvidos aos seus mandamentos e obedecerem a todos os seus decretos. no mínimo. é um agente eclesiástico de saúde pública (Milgrom18). Tem-se então uma segunda cerimônia no sétimo dia (14. como ele. Muitos milagres de Jesus envolveram leprosos. a lepra é traiçoeira.C. não trarei sobre vocês nenhuma das doenças que eu trouxe sobre os egípcios”. E claro que. agora com foco na oferta dos devidos sacrifícios. penetrante.9-11 e 2 Crônicas 26. progressiva. 1 João 1. Em outros contextos. um comentário homilético e rabínico produzido em torno do século V a.26.8. Aoferta de sacrifícios permitia que a pessoa voltasse a participar das atividades da comunidade.9) e uma terceira no oitavo dia (vv. em 2 Cr 26. Tiago 4. De modo curioso.26. mas conceitos muito mais antigos). defender a tese de que a lepra é um “tipo” de pecado na Bíblia. em Nm 12. Seria um grande erro pensar que o Antigo Testamento considera a lepra como uma conseqüência do pecado (apesar de relatos como o caso de Miriã.2. Em Êxodo 15.7. Impurezas e Dejetos Humanos (15) Essa seção de Levítico trata. apresentarem a lepra como uma manifestação do juízo divino). mas o leproso era “limpo” (katharizô). Como em Levítico 1—7. Não é difícil compreender o porquê de os alegoristas terem feito essa analogia (são interpretações tão antigas como Leviticus Rabbah. de forma específica. Isso demonstra de maneira clara que Deus pode enviar doenças como juízo contra o pecado. passagens como Números 12.

] ao sacerdote (v. à porta da tenda da congregação” (v.2a) (B) emissões anormais masculinas (vv. Emissões normais masculinas (vv. Emissões normais femininas (vv. 1.. 14). 16-17) (D) intercurso sexual (v. não é ordenado que a mulher entre “perante o Senhor”. visto que já foi mencionado no caso do homem. e [dá-los] [. 1. 19-24) (B) emissões anormais femininas (vv. ou reflete o fato de que a mulher não era admitida na presença do Senhor na mesma medida que o homem (Wegner19). 2b-15) (C) emissões normais masculinas (vv. 29). entrar “perante o Senhor.21). um banho é suficiente para remover a impureza (vv. 1-15) 2.15. Emissões anormais masculinas (vv.. 16-18) 3. Um homem devia “tomar” seus animais para o sacrifício. para a segunda e terceira emissões. Ao contrário do homem. 25-30) (A) resumo (vv. Emissões anormais femininas (vv. é preciso haver uma oferta de sacrifícios (vv. 14. 18. 25-33) Observe que. Deixar de mencionar que a mulher entra “perante o Senhor” indica tratar-se de algo evidente.30). Uma forma mais precisa de esboçar esse capítulo seria a seguinte: (A) introdução (vv. com rituais diferentes para o homem e a mulher. No caso da primeira e da quarta. 18) (C) emissões normais femininas (vv. à porta da tenda da congregação.genital. Uma mulher devia “tomar” seus animais para o sacrifício e “levá-los ao sacerdote. 31-33) Essa maneira de compreender a estrutura do capítulo destaca o versículo 18 . 19-24) 4.29.

] Cria em mim. Jesus não disse “minhas roupas te salvaram”. doenças e nascimentos de crianças. Em nenhuma outra circunstância se dá importância à conquista e preservação da pureza”. Deus também prometeu purificar Israel de todas . vimos que a mesma palavra grega é utilizada tanto para purificação da lepra como para purificação do pecado. Esse assunto volta à superfície quando Jesus cura a mulher com fluxo de sangue (Mc 5. No caso de Levítico 15.. Por exemplo.10). Isso. sendo o único que aborda a intimidade entre marido e mulher. o Antigo Testamento já havia ampliado a idéia de pureza para além da questão ritual.25-34). Com exceção dos regulamentos alimentares. e lida. separareis os filhos de Israel das suas imundícias. tal abstinência opõe-se à maioria das outras religiões do antigo Oriente Médio. com impurezas masculinas e femininas. em certo sentido. Surpreendentemente. Em relação a esse raciocínio. meu comportamento sexual. considerando que a relação sexual produz impureza em ambos os parceiros. contudo.31: “Assim. Para resumir. Como observa Levine?0. Na seção sobre a lepra. a oração de Davi em certa ocasião foi: “Purifica-me [. ao mesmo tempo. ó Deus. um resumo de toda a ideologia acerca da pureza pertinente aos sacerdotes. não é uma inovação do Novo Testamento. principalmente se um dos cônjuges planejasse ir ao santuário. nem “eu te salvei”. Tudo que se relaciona à pureza é importante em função do culto religioso.. mas de exercício da fé. para que não morram nas suas imundícias. Esse tipo de regulamento é explicado em 15. um coração puro” (SI 51. em um único versículo. Ela queria tocar suas roupas. contaminando o meu tabernáculo. porém não foram as vestes de Jesus que fizeram diferença.. que está no meio deles”. onde “tudo relacionado à sexualidade tinha uma função no cerimonial e no culto religioso”. Jacob Neusner21 afirma: “Temos aqui. pureza é uma questão tanto física como moral. Mesmo os momentos mais íntimos de um casal são influenciados por suas crenças religiosas.] e ficarei puro [.7. o sexo era proibido logo antes do Sábado. mas a fé da mulher.como o principal do capítulo. Em outras palavras. O que Ele disse foi “tua fé te salvou”. incluindo o conceito de inocência moral. quase todas as categorias de pureza ou impureza detalhadas em Levítico 11—15 não podem ser classificadas como éticas ou morais.. Aquilo em que creio determina. Não se trata de superstição. todas essas leis se aplicam a situações normais e inevitáveis: emissões corporais.

Geerhardus Vos22 fez uma consideração bastante perspicaz. Daedeliusvi 101. Purification. Levítico 11—15 BRIN. ExpTv. ergue uma barreira entre Deus e a humanidade. _. 136-139. M. L. diretamente da linguagem ritual. 1972. A única solução divina é a purificação. em Studies in the Pentateuch. VTSup n° 41. JQRYÍ 68. 1985. Londres: Routledge & Kegan Paul. An Analysis of Concepts of Pollution and Taboo.as maldades e restaurá-lo (Ez 36. o discurso veterotestamentário sobre purificação moral extrai seu vocabulário. A. 1990. “Levitical Leprosy: Uncleanness and the Psyche”. DOUGLAS. “Pollution. JSOTR 59. A impureza moral. Filadélfia: Fortress. Editado por J. pp. B. FIRMAGE. 1-15. Leiden: Brill. 1987-1988. G. pp. 1966. _.L° 99. pp. ele declara: “Deus ensina as pessoas a sentir. Old Testament Theology in a Canonical Context. 1999. “The Biblical Dietary Laws and the Concept of Holiness”. _. 134-175. em The Word of the Lord Shall Go For th: Essays in PLonor of David . 1993. Leviticus as Literature. CHILDS. pp. a mesma vergonha e constrangimento de serem excluídos do ritual religioso”. 1975. 84-91. Qual a força dessa utilização? Em minha opinião. Emerton. Ao explicar essa relação. M.33). “Firstlings ofUnclean Animais”. DAVIES. 3-23. 177-208. “Deciphering a Meai”. E. Oxford: Oxford University Press. 1977. _. and Purgation in Biblical Israel”. Londres: Routledge & Kegan Paul. T. Implicit Meanings: Essays in Anthropology. Assim. Purity and Danger. de forma sistemática. “The Forbidden Animais in Leviticus”. em relação ao pecado. S. FRYMER-Kensky. 61-81. pp. tal qual a física. pp. B. pp.

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271.272. Jewish. JSOTSup n° 125. 730. 266.) 2 The Religion of Ancient Israel. 1 Levítico 19. JSOTW 59. 291. 7 Ibid. 6 Implicit Meanings: Essays in Anthropology. JPS Torah Commentary. R. Louisville: Westminster John Knox. Ind. Olyan. “Unclean and Clean (OT)”. andIslanc Perspectives. Vol. Weiss e J. Londres: Routledge & Kegan Paul. pp. 8 “The Forbidden Animais in Leviticus”. 150-181. Editado por G. 284.. 10 “Laws Concerning Uncleanness”.A Response to Jacob Milgrom”. Winona Lake. 1993. “The Spectrum of Priestly Impurity”. Sheffield: JSOT Press. p. p. Firmage. Mo. Filadélfia: The Jewish Publication Society. _. 729-741. B. p. 1969.Intn° 17. M. pp. pp. 1963. em Priesthoodand Cult in Ancient Israel. em Beacon Bible Commentary. pp. 1990. Welch. 2000. p. 3 “Unclean and Clean (OT)”. 5 The Religion of Ancient Israel. 18. do T. pp. _. p. 355. p. Louisville: Westminster John Knox. 249. W. . A. 1992. Editado por E. 1992. 733. 9 “The Biblical Diet Laws as an Ethical System”. 193-198.2.: Eisenbrauns. 1989. ABDn° 6. Anderson e S. (N. ABDn° 6. 1.292. Kansas City. 2000. G.: Beacon Hill Press. 1991. p. em Religion and Law: Biblical. 4 Ibid. 11 Leviticus: The Traditional Hebreu) Text with the New JPS Translation. 1975..

1978. pp. p. pp. 20 Leviticus: The Traditional Hebrew Text with the New JPS Ihanslation. 13 “Leprosy”. SJTrT 31. 20. 1962. vol. VTn° 26. 87-105. 2. Kyle McCarter. R. Editado por W. Hallo e K. 18 Leprosy”. p. em The Context of Scripture: Monumental Inscriptions from the Biblical World. 222. 182. p. Filadélfia: The Jewish Publication Society. pp. 17 The Idea ofPurity in Ancient Judaism. pp. Lawson Younger Jr. 153-166. 1975. 26. 19 WEGNER. 22 Notes on Biblical Theology. pp. IDBrl 3. 15 “A Note on the Etymology of saraaf. pp. EncJudxt 11. Kugler.96. pp. em The Book of Leviticus: Composition and Reception. . pp.. With a Critique and a Commentary by Mary Douglas. Leiden: Brill. 1948.223. VTSup n° 93.12 Tradução feita por P. W. “Leprosy and Leviticus: A Problem of Semantics and Translation”. A. 1997-2002. 2003. 153-170. With a Critique and a Commentary by Mary Douglas. 35. J. JPS Torah Commentary. 1989. 1977. Leiden: Brill. PEQrl 107. 111-113. SJLA n° 1. 92. 1976. 1973. 451-465. 1973. 14 “Nature of Biblical Leprosy and the Use of Alternative Medicai Terms in Modern Translations of the Bible”. Leiden: Brill. “ ‘Corning before the Lord’\ The Exclusion of Women from the Public Domain of the Israelite Priestly Cult”. SJT n° 30. 241-245. Rendtorff e R. p. 21 The Idea ofPurity in Ancient Judaism. Editado por R. 3 vols. Leiden: Brill. Grand Rapids: Eerdmans. SJLA n° 1. 1971. 16 “Leprosy and Leviticus: The Problem of Description and Identification'.

A Visão dos Críticos sobre o Dia da Expiação A maioria dos comentários se dedica a dissecar a estrutura literária do capítulo 16. que o Dia da Expiação tenha surgido bem mais tarde na história de Israel — não apenas após o exílio. Esse registro cronológico estabeleceu as bases do que se tornaria um padrão para o início dos dias santos no judaísmo: o entardecer do dia anterior. afirmam os críticos.32. E muito provável.14 0 Dia da Expiação O segundo elemento singular é a menção. sua localização no texto é flagrantemente anacrônica. como tal. que o Antigo Testamento descreve assim. mas após a época de Esdras e Neemias! . não existia na época de Moisés. A primeira é que o Dia da Expiação. em 23. Equivaleria a afirmar que existia um dia em memória de Martin Luther King Jr. na época de Abraão Lincoln. de que esse dia deveria ser observado “Desde o entardecer do nono dia do mês até o entardecer do dia seguinte” (NVI). mas duas conclusões acerca de seu texto são aceitas por quase todos os críticos. E o único dia especial. incluindo o Sábado. Ou seja.

o leitor é informado de que o Dia da Expiação deve ser observado anualmente. análises da estrutura literária e dos fatos não foram capazes de produzir nenhum resultado satisfatório. divisível em diversas tendências literárias. A que conclusão isso nos leva? O autor dessa última parte é. 29). entretanto. Uma segunda razão para discernirmos uma mescla de fontes nesse capítulo é a conclusão. que o capítulo. que é Tishrei5 (v. já à primeira vista. Em geral. o fato em si de que o capítulo esteve envolvido em um elaborado processo de crescimento é geralmente reconhecido e aceito. nos versículos 29-34. poderia alguém . Ele. nada nos livros históricos ou nos textos proféticos. É um material de tal forma complexo que. menciona esse dia. mas aqui encontramos no fim. Nenhum texto anterior ao exílio. por exemplo. Dentre as razões que levaram a essa idéia. Ainda assim.Essa interpretação em particular se baseia principalmente no argumento do silêncio (ver de Vaux). sem sombra de dúvida. A segunda conclusão amplamente aceita é a de que Levítico 16 forma uma unidade bastante heterogênea. sem. que parece ser uma adição posterior. contudo. há a ocorrência de repetições ou palavras com diferentes origens. nesse caso. O comentário de Martin North4 ilustra bem esse aspecto: Fica evidente. em sua forma atual. (Tomando um exemplo do Novo Testamento. Por isso. no décimo dia do sétimo mês. os versos 11-28 seriam uma descrição mais detalhada dos mesmos eventos. de quanto a tradição do Natal e da Páscoa mudaram ao longo dos séculos. um leitor curioso recorreria aos comentários de Yehezkel Kaufmann2 e Jacob Milgrom3. portanto. Uma história que deixou suas marcas na curiosa falta de continuidade e unidade do todo. jamais alterar sua essência. Além das outras informações. lemos o versículo 6: “Arão oferecerá o novilho da oferta pela expiação. a existência de duas tradições? Não seria possível considerar os versículos 6-10 como um esquema geral dos acontecimentos? Assim. a data ou o dia em que o ritual deve ser realizado aparece no início da seção. que será para ele. E possível. até aqui. Isso não significa negar que o Dia da Expiação tenha passado por modificações ao longo do tempo e que Levítico 16 representa uma prática religiosa já próxima do fim do período bíblico. outro que não aquele que descreve os festivais de Levítico 23. Lembremo-nos. A repetição comprova. não existia naquela época. e. no mínimo. considerar esse argumento de forma hesitante. e fará expiação por si e pela sua casa”. o que é repetido no verso 11. é resultado de uma longa história.

o santuário e o povo. não do sangue de algum animal (Hb 9. 16). Hebreus 9 afirma que Jesus rompeu esse modelo. “Arão oferecerá o novilho da oferta pela expiação.. E interessante observar que não somente pessoas..24 foi provavelmente escrita por outra pessoa? Seqüência ou localização não parecem ter muito a ver com autenticidade.] oferta pela expiação.] fará expiação por si mesmo [. O santuário precisava ser limpo.] e o santificará” (v. 20). pois.. Levítico 16 enfatiza alguns conceitos de extrema importância.. pelo menos no que diz respeito às frases principais. e a tenda da congregação. A expiação se aplica a três áreas nesse capítulo: o sumo sacerdote.argumentar de forma convincente que.... insiste na absoluta necessidade de o sacerdote graduado sanar em primeiro lugar seus próprios erros. 6. portanto. como algo que rasteja até a presença divina por causa dos pecados do povo de Deus. Jesus não tinha pecados a serem confessados. 33). e munido de seu próprio sangue. 19). Considerar um sumo sacerdote acima disso seria impensável e herético.23. e o altar” (v. acabado de expiar o santuário. a oração registrada em 1 Téssalonicenses 5. Veja os seguintes versículos: “Assim.. nem precisava fazer expiação por si mesmo. que será para ele [.17). Utilizando-se de repetições.] e fará expiação por ele” (v. Não anualmente. repetida sete vezes.24). fará expiação pelo santuário” (v. “e o purificará [. O julgamento. envolvendo e encardindo os . “Havendo. a frase “por si”. Estaria o Antigo Testamento sugerindo que o pecado é quase tangível.] e fará expiação por si [. Dessa forma. mas apenas uma vez Ele entrou no lugar santo. que é para ele [. mas até objetos inanimados precisam de expiação nesse dia.] que será para ele. começa efetivamente pela casa de Deus (1 Pe 4.1114).11. sairá ao altar [. 18). também expiará a tenda da congregação e o altar” (v.. Antes que ocorra qualquer cerimônia relacionada à redenção...] e fará expiação por si” (vv. e fará expiação por si [. como as orações de Paulo costumam aparecer no início e no meio das epístolas. o que Jesus fez...17.. o sumo sacerdote deve tratar de seus próprios pecados. “Então.) Aspectos da Expiação Talvez não seja incidental o fato de que a expressão hebraica para “Dia da Expiação” é literalmente “dia de expiações”. “expiará o santo santuário.

a fim de evitar a idéia de que o ritual em si é.?). Principalmente na literatura litúrgica. por outro lado. Em Levítico. cobrir” (ver Fitzmyer8). logo antes de “sacerdotes” e “todo o povo”). semelhantemente fará expiação pelos sacerdotes e por todo o povo da congregação” (kapâr seguido pela preposição ‘al. Levine9 considera que Levítico e escritos correlatos evitam construções com o verbo kapâr acompanhado de um objeto direto. encontrado em Qumrari7 (século II a. O que mais nos interessa aqui é a forma como a língua hebraica lida com o objeto que vem após esse verbo. A. apagado ou purificado) como polido (por exemplo. quando o pecado é coberto). de modo automático. Uma sugestão não tão extravagante propõe que o seu significado seja “esfregar”.] expiará a tenda da congregação e o altar \kapâr seguido de objeto direto. podem ser objetos diretos do verbo kapâr sem preposição alguma. mas não a força causadora. A cerimônia é um pré-requisito. no qual se encontram apenas uns poucos versículos de Levítico 16.utensílios sagrados do santuário? O uso do verbo hebraico kâpar. o substantivo é precedido por alguma preposição ou locução prepositiva: “por”.33 ilustra a diferença entre os dois casos: “expiará o santo santuário [. A pessoa não é o objeto dos rituais de expiação — o sangue não é derramado ou lançado sobre a pessoa —. Os atuais estudiosos da língua hebraica preferem “limpar” a “cobrir”. o objeto desse verbo é o sacerdote. Algo pode tanto ser limpo (por exemplo.. nunca Deus. há grande discordância quanto às nuanças do verbo. Entre os estudiosos do hebraico. mas sua beneficiária. Quando o objeto é uma pessoa. Levítico 16. pelo menos. E o próprio Deus que perdoa e concede expiação. indicado pela partícula et. eficaz. “em benefício de”.. fazer expiação”. “expiar. no caso de uma pessoa. B.C. O Uso do Sangue . vemos de modo raro uma pessoa como objeto do verbo kapâr. Importante observar que o Targum6 de Levítico. traduz a palavra hebraica kappôret (“propiciatório”) como a palavra aramaica ksy\ que significa “tampar. São apenas meios para se alcançar um fim. intraduzível]. Objetos inanimados. “com respeito a”. é notável.

11. /_ sangue da oferta de holocausto (1.13). a parte mais reservada do Tabernáculo. com o restante sendo derramado no altar interno (16.. e não aparecem em nenhuma outra parte desse livro. apenas duas encontram-se nesse trecho um tanto extenso das Escrituras.. o sangue é levado ao Santo dos Santos. Como tal.Ao examinarmos Levítico 1—7. Gerhard von Rad10 observa que.16 e 21. As expressões bíblicas são “dentro do véu [.5. no Dia da Expiação.2.30). carrega consigo uma idéia de revolta ou rebelião.15). Essas partes são Levítico 16.25. O que temos de diferente em Levítico 16 é que. Von Rad também afirma que “ela \pesha\ é inegavelmente a palavra mais grave para o pecado. considerado pelos críticos como P. em especial nos lábios dos profetas”.18. Figura 7 sangue da oferta pelo pecado no Dia da Expiação (16.. o sangue ser levado à parte mais sagrada do Tabernáculo. A figura 7 esclarece os procedimentos mencionados nesses versículos. e somente neste dia.. nos versículos 16 e 21. sangue da oferta pelo pecado de príncipes e pessoas comuns (4.15). das 86 ocorrências dessa palavra no Antigo Testamento. \ .] sobre a face [.19).8. sangue do sacrifício pacífico (3.] perante a face do propiciatório” (vv. Poder-se-ia tentar imaginar o porquê de. A palavra é extraída de uma linguagem relativa à política e a relacionamentos internacionais. 1215).14. Talvez a resposta esteja em uma palavra fundamental que aparece nesse capítulo: “transgressões”. verificamos referências freqüen-tes ao uso do sangue em sacrifícios para expiação. naquele dia em especial.

34). Observe a freqüência da palavra “todas” antes de palavras relacionadas ao pecado: “todas as iniqüidades dos filhos de Israel e todas as. 18b). Nem o altar de bronze externo nem o altar interno para o incenso podem ser usados como principal receptáculo para o sangue. dizem: “Perdoa. 21). com o restante sendo derramado no altar externo (4. praticamente todo tipo de pecado. Na verdade. “Jeová providenciou um dispositivo legítimo e confiável para que Israel pudesse ser restaurado a um relacionamento pleno com Jeová”. foi possivelmente essa semelhança que elevou a tradição judaica mais recente (como. por exemplo.6. Jacó. O Dia da Expiação é o que Kawashima13 chamou de “sistema de escoamento cultuai”. pois. o sangue é levado o mais perto possível da presença de Deus.16. a transgressão [NVI: erros] de teus irmãos e o seu pecado. tal qual muitas comunidades que. Esse tipo de pecado é exatamente o oposto do pecado cometido de modo inadvertido. “de todos os seus pecados” (v. José fora enviado ao Egito.17). trata-se de um dia em que se remove.7b. O Bode Emissário (Expiatório) . quer por sacrifício quer por libertação. 21). em sua misericórdia. afirmando citar seu falecido pai. Como disse Brueggemann14.] todos os seus pecados” (v. porque te fizeram mal.18). nos Jubileus12} a relacionar a história de José ao Dia da Expiação. agora. 30).sangue da oferta pelo pecado do sacerdote e da congregação (4. como o bode expiatório era enviado ao deserto. Seus irmãos. rogamos-te que perdoes a transgressão [NVI: pecados] dos servos do Deus de teu pai” (Gn 50. Assim como em Levítico 16 temos o único capítulo da literatura sacerdotal no qual a palavra “transgressão” aparece por duas vezes e próximas uma da outra (16. Por esse motivo.7. visto que se lida com o pecado em sua mais evidente manifestação.. “sereis purificados de todos os vossos pecados” (v. permitem que se joguem no lixo coisas que normalmente não seriam permitidas.. no Dia da Expiação. Assim como naquele dia os irmãos de José buscaram seu perdão para seus pecados e transgressões. a história de José apresenta um outro exemplo em que o termo surge por duas vezes sucessivas (embora a NVI encubra esse aspecto).17. separou um dia do ano para as pessoas descarregarem todo lixo e sujeira de suas vidas. os israelitas devem buscar o perdão para seus pecados de transgressão no Yom Kippur. uma ou duas vezes por ano. suas transgressões [. Deus. rogo-te. Como registra Carmichael11.

Para a ARC.29) A importância tipológica desse evento é esclarecida em Hebreus 6.20). O problema da interpretação pode ser identificado ao compararmos as traduções da ARC e da NVI nos seguintes versículos: 16. quando o adorador “confessa” seus pecados pessoais. cujo reduto é o deserto. Ao contrário dos procedimentos descritos em 1—7. .) Essa idéia de carregar o pecado para longe é o precedente do discurso de Isaías sobre o Servo Sofredor.A apresentação do sangue da oferta imolada pelo pecado é apenas metade da cerimônia do Dia da Expiação. para o qual o bode vivo é enviado. Um dos bodes para expiação do pecado era mantido vivo (vv.8: “E Arão lançará sortes sobre os dois bodes: uma sorte pelo Senhor e a outra sorte pelo bode emissário” (ARC). para enviá-lo ao deserto como bode emissário” (ARC).10: “Mas o bode sobre que cair a sorte para ser bode emissário apresentar-se- á vivo perante o Senhor.10. A idéia é que a forma mais eficiente de se livrar do mal é banindo-o de volta para sua origem. O sacerdote então “confessa” as transgressões e pecados de Israel.5. a palavra hebraica se refere ao próprio bode. éArão e não o adorador que coloca suas mãos sobre a cabeça do bode (v.20. E com a mesma idéia que surge a exclamação de João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus. que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.19. e será enviado para Azazel no deserto” (NVI). que “nossas dores levou sobre si” (Is 53. 21). a palavra hebraica azazelé a denominação de um indivíduo (ou lugar?). A diferença entre as duas versões é óbvia.4) e “levou sobre si o pecado de muitos” (Is 53.12). Para a NVI. 5. A outra metade é mais uma vez exclusiva dessa ocasião especial. Assim. nesse ritual. para fazer ex-piação com ele. 9. provavelmente demoníaco.7-14. Temos mais uma vez um procedimento que difere de Levítico 5. “Mas o bode sobre o qual caiu a sorte para Azazel será apresentado vivo ao Senhor para fazer propiciação. (O leitor deve notar que o conceito de “levar ou carregar” e “perdoar” são expressos pelo mesmo verbo em hebraico. 16. A tradução da NVI leva a melhor entre a maioria dos estudiosos. a interpretação mais aceita descreve Azazel como um poder sobrenatural. O bode então “leva sobre si” as iniqüidades para o deserto. “E lançará sortes quanto aos dois bodes: uma para o Senhor e a outra para Azazel” (NVI).

Em certo momento. Azazel. como está registrado em Gênesis 6. Em primeiro lugar. temos “demônios” [NTLH] (mesma palavra utilizada em Levítico 17. em Mateus 12. de onde a ARC tira o termo “bode emissário [expiatório]”? Em primeiro lugar. 10.6. vincular homenagens a demônios do deserto com o mais sagrado dos rituais realizados no templo. Azazel é preso por Rafael e lançado em um deserto sombrio. trata-se de uma . Em 1 Enoque. 13. H. Levítico 17. lidando com vestígios de um mito que jamais foi censurado pela história religiosa de Israel? E possível crermos que parte crucial de um acontecimento tão importante. 9. Dentre as criaturas mencionadas. A segunda fonte de apoio para a identificação de Azazel como uma força demoníaca é encontrada na literatura apócrifa.7).43 e Lucas 11. desejou as filhas dos homens (ver 1 En 8. portanto.1. apresentar o Shemá16? Então. portanto. Não estaríamos. Gordon Wenham15 cita uma observação de J. em 1530.15. Em certo sentido.7 se refere à oferta de sacrifícios a “demônios” iseirirri) em campo aberto. ao falar sobre a destruição que Deus traria sobre Edom. A tradução “bode emissário” surge pela primeira vez na tradução inglesa das Escrituras de Tyndale.24. Uma terceira referência a demônios como alvo de adoração é verificada em 2 Crônicas 11.1). na qual o profeta.7) e a “bruxa do deserto” [NTLH] (“fantasmas” ARC): um demônio noturno e feminino conhecido por seus encantamentos. incluía despachar um animal para o esconderijo do demônio? A esse respeito. A passagem citada com maior freqüência é Isaías 34. Hertz. independente de sua origem. Azazel é identificado como o líder dos anjos que. no capítulo seguinte. em determinado capítulo. onde ele apresenta o termo “bode emissário”. portanto. que acredito ser bastante precisa: “A oferta de sacrifícios a “sátiros” [demônios] é mencionada como um crime odioso no capítulo imediatamente seguinte (17. A visão do deserto como habitação de espíritos malignos também aparece no Novo Testamento.14.4-8. temos alguns poucos versículos no Antigo Testamento que sugerem a crença de que o deserto era habitado por demônios. afirma que a terra se tornaria um deserto povoado por pássaros e feras selvagens. Não se pode. o bode que parte. a palavra hebraica azazelé formada por duas palavras semíticas: o termo hebraico para “bode” e o verbo ara-maico para “ir”. Poderiam as Escrituras.São dois os lugares onde em geral encontramos apoio a essa idéia. falar acerca da ação de Baal sobre a tempestade e. o bode expiatório. é o bode que vai.

A idéia dos versículos 29 e 31 é de que o Dia da Expiação deve funcionar como um Sábado. Não é sacrificado e escapa à morte. a crítica de Levine baseia-se principalmente na tradução de Levítico 16. sendo libertado no “deserto”. porém. Leia também Levítico 23. As cerimônias no Tabernáculo eram corretas e determinadas por Deus. “aquele mandado embora em liberdade” (v. 10)... Azazel. E quanto ao povo? Mantém-se numa postura passiva. E claro que isso não significa autoflagelação nem nada parecido. Como Kaufmann18 constata. sem qualquer envolvimento? Certamente que não.excelente tradução no que diz respeito ao contexto. E Arão que seleciona os dois bodes. 10 e 26 de três formas diferentes. impõe sua mão sobre a cabeça do bode vivo e imola o outro bode como oferta pelos pecados do povo. mas é sacrificado. mas sem que Azazel produza mal algum [. Ao contrário do outro bode. para os leigos. traduz a palavra hebraica nos versículos 8. “Amenos que o pecado seja expurgado. quanto ao conceito de “afligir" a própria alma no Dia da Expiação. por exemplo. juntamente com auto-exame e transparência. a ira mortal de JHWS/pode ser despertada.10 e defende uma finalidade muito mais mágica e misteriosa que a destacada por Kaufmann no ritual. porém em cumprir um mandamento de Deus”. As pessoas não apenas devem se abster de trabalhar. um lugar onde o bode pode sobreviver muito melhor que a ovelha (ver Douglas17). mas sua .27-32. que não sobrevive. 26).] o valor do ritual não está em exorcizar algum poderoso poder demoníaco. em sendo o destino do bode. 8. essa foi a compreensão de muitas das versões mais antigas. Em segundo lugar. mas também “afligir/negar a si mesmas”.) A Função do Povo A congregação desempenhava apenas uma parte mínima nas cerimônias. jejum e arrependimento. esse sobrevive. como a Septuaginta e a Vulgata. “o bode separado para ser liberto” (v. Significa que o Dia da Expiação. semelhantes: “aquele mandado embora” (vv. (Em relação à interpretação dada por Kaufmann a Azazel. Arão é o único a entrar no santuário. A Septuaginta.10). devia ser um dia nacional de oração. não desempenha papel algum.

Minneapolis: Fortress. 1980. Maaraun’ 1(1). W. o Dia da Expiação (23.eficiência dependia de serem acompanhadas com verdadeira contrição por parte da comunidade. Dispute. pp. Vol. 167-182. Portanto. VTSup n° 93. Filadélfia: Westminster. acerte-se com Deus e deixe-o remover tudo que se opõe a Ele. ambos no sétimo mês. E o único festival em Levítico 23 que apregoa alegria. então. por sete dias” (v. “Azazel”. não é uma religião que se limita à abnegação e autodisciplina. 2003. 5-23. pp. pp. porém há mais que isso. 2000. BRUEGGEMANN. tudo o que você estragou. em The Book of Leviticus: Composition and Reception. OTL. J. contudo. Baker. Nesse evento. não é à toa que. Traduzido por J. EncJudvh 6. 1971. 1961-1967. Rendtorff e R. F. Com certeza. Advocacy. 1978. S. CARMICHAEL. FITZMYER. Tais aspectos fazem parte do todo. pp.26-32) é imediatamente sucedido pela Festa dos Tabernáculos (23. EICHRODT. Theology of the Old Testament: Testímony. M. 2 vols. Leiden: Brill. 40). Jr. afirma Levítico. aproveite a festa! Levítico 16 AHITUV. 121-141. Time and Status in the Priestly . “The Go-Away Goat”. JBLVL 99. “The Targum of Leviticus from Qumran Cave 4”. Kugler. Em parte alguma vemos a Bíblia aceitar a idéia de que seus rituais são ex opere operato. Editado por R. 1. W. A. _. H. DOUGLAS. O caminho para Deus. “The Aramaic Language and the Study of the New Testament”. GORMAN. VTYL 50. lemos “vos alegrareis perante o Senhor. no calendário sagrado descrito em Levítico 23. vosso Deus. pp. A.3344). 1997. Theology of the Old Testament. “The Origin of the Scapegoat Ritual”. 111-119. C. 130-131. 5-21. e. The Ideology of Ritual: Space. pp.

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p. pp. Traduzido por M. 18 The Religion of Israel. 1960. 114. Greenberg. 121-141.Leiden: Brill. Chicago: Universitr of Chicago Press. . 2003.

44. em 17—27. invertem a ordem cronológica de P e H.45. Essa “descoberta” foi feita ao fim do século XIX pelo estudioso alemão August Klostermann. num nível não verificado nos capítulos 1—16. com exceção do 27. sugerindo que as tradições dos sacerdotes são anteriores ao Código de Santidade. o leitor encontra uma clara ênfase na santidade como estímulo de conduta e estilo de vida. Poderiamos considerar isso uma . Alguns estudiosos de hoje. A essa parte de Levítico ele deu o nome de Heiligkeitsgesetz. em vez de JEDP3. Assim. Aqueles que defendem essa tese se afastam de modo inevitável da data tradicionalmente atribuída aos textos de P. todas as referências a “santo/santificado/sagrado/consagrado” nesses capítulos dizem respeito ao santuário. sendo apenas posteriormente enxertado em P. a órbita mais restrita de santidade de 1—16 é ampliada a fim de abarcar todos os israelitas. passando-os de um período posterior ao exílio babilônico para um período imediatamente posterior à construção do Templo de Salomão. Em contrapartida. de modo que a H suplementaria. Não obstante opiniões pessoais contrárias a essa abordagem dos últimos capítulos de Levítico. predominava o consenso de que o Código de Santidade havia aparecido primeiro e que os Sacerdotes [P] haviam-no juntado depois a seus próprios escritos. Além disso. a observação é com certeza válida. P. já existiram em algum momento como um código legal independente. senão “corrigiria”. Até pouco tempo. “Código de Santidade” (habitualmente designado nos dias de hoje com o símbolo “H”).15 Um Manifesto de Santidade LEVÍTICO 17—27 Os críticos consideram que esses últimos capítulos de Levítico. graças à interpretação vanguardista de Knohl1. a fim de formar o que atualmente conhecemos como a segunda metade de Levítico. que faz referência à santidade demonstrada pelo povo de Deus naquilo que comem ou não. tal qual o Livro da Aliança é considerado uma inserção no texto de Êxodo. acaba-se com uma teoria JEPD2. A única exceção é 11. Nesses últimos capítulos.

porque eu sou santo” (11. sou santo” (19. o principal enfoque de 1—16 é a forma como o povo de Deus deve adorá-lo: no santuário sagrado de Deus. apropriando-se dos recursos disponibilizados por esse Deus para que tal objetivo seja alcançado. fazem uso da raiz. 21 e 23 empregam a raiz com mais freqüência (66 das 85 ocorrências). porque eu. E obvio que. tornando-a um estilo de vida que incumbe a todos.7). Nessa relação. o Senhor. no contexto de sua mensagem cristã para uma comunidade de crentes (ver 1 Pe 1. os últimos onze apresentam uma utilização bem mais extensa de palavras derivadas de q-d-s. Nos capítulos 17—27. “Santos sereis. sem qualquer alteração. Comentei anteriormente que a raiz hebraica q-d-s aparece 150 vezes em Levítico (como verbo. 22. Aqueles que adoram a um Deus santo desejam uma vida santa.26). “e ser-me-eis santos. “vós vos santificáreis e sereis santos.45).“laicização” da santidade .2): “santificai-vos e sede santos. porque eu. sou santo” (20. por exemplo. Veja a tabela 11. Nenhum dos dois primeiros capítulos dessa seção. vosso Deus” (20. Como era de se esperar. o enfoque principal não é tanto a maneira como o povo de Deus deve adorá-lo. Tabela 11 Capítulo (s) Ocorrência Total 1—16 65 17—27 85 150 . Sua divisão ao longo do livro é interessante. em relação aos dezesseis primeiros capítulos. Em Levítico. pois eu sou o Senhor.15. O fato de esses versículos não estarem restritos àquela época nem obscurecidos por uma revelação mais ampla é evidenciado pela liberdade de Pedro ao utilizá-los. (em ordem decrescente) os capítulos 27. mas o modo como devem viver. 17 e 18. substantivo ou adjetivo). vosso Deus.16). o povo de Deus recebe por diversas vezes chamados à santidade em forma de ultimato.44. Temos. o Senhor. por meio do ministério de seus servos consagrados/santos.

vosso Deus” ou “porque eu. não vemos Moisés ouArão dizendo em parte: “Sereis santos porque Deus é santo”. falando de forma direta na primeira pessoa. Em Levítico. sou santo”.17 0 18 0 19 5 20 7 21 13 22 19 23 12 24 3 25 2 26 2 27 22 85 Nos quatro exemplos citados no parágrafo anterior. Não é por acaso que essas ordens são sempre dadas pelo próprio Senhor. observamos que cada chamada à santidade vem acompanhada por uma sentença explicativa: “pois eu sou o Senhor. E o próprio Deus que estabelece um . o Senhor.

mas também deseja levá-lo a um estilo de vida digno daqueles que servem a um Deus santo. Ele é a origem e a fonte de tudo que é santo. diz: “Portanto. a qual volta a ser abordada nesses capítulos de Levítico. Tais textos. existem partes correspondentes entre si. Tem-se. Apesar de todas as diferenças de enfoque entre os capítulos 1—16 e 17—27. não Moisés! Seria um grande erro ler alguma dessas sentenças como ameaças: “È melhor ser santo. Certamente. os capítulos 8—10 (ministério sacerdotal) estão relacionados aos 21— 22 (regras sacerdotais). Embora Êxodo tenha sua ênfase no âmbito da salvação e da libertação.6..7). “creiamos [. poderemos ver o que exatamente está envolvido nessa vida em santidade.31)... senão. Jesus. Ele busca nos atrair. Entre os dois conjuntos de capítulos. contudo.] segundo o seu mandamento” (3. Dentre outras.7). e Pedro cita a Deus. são acompanhados por medidas a serem adotadas para a remoção dessas impurezas. E claro que escolher uma maneira profana de vida tem suas conseqüências. o que Levítico afirma é que apenas Deus é intrin-secamente santo. as circunstâncias que .] nos amemos [. E lógico que a frase “sereis santo como Deus é santo” não significa sermos tão santos quanto Deus. “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo.!” Em vez disso. 22. assim como ele é justo” (3.padrão. como também ele é puro” (3. os capítulos 11—15 (vida limpa) combinam com os trechos 18—20 e 26—27 (vida santa). é preciso também perceber as semelhanças.3 e a última em 22.48). além de muitas outras entre elas. não sempre. a primeira situação envolvendo impurezas aparece em 5. Deus não apenas liberta o povo do cativeiro. A medida que caminharmos por eles. ele também estabelece as bases para a santificação (ver Êx 19. exibindo sua própria natureza como modelo e referência.2. os capítulos 1—7 (atos de adoração).23).4-8. Além disso. Vemos muitas dessas comparações em 1 João: “se andarmos na luz. diz-nos Levítico.. mas não são todas idênticas. devemos lê-las como convites divinos. há outros temas comuns a ambas as seções. Em certo aspecto. habitualmente.6). Em Levítico.. “Aquele que diz que está nele também deve andar como ele andou” (2.3). que correspondem aos 23—25 (momentos da adoração). “Quem pratica justiça é justo. sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5. Deus. Além desses. como ele na luz está” (1. A expressão é vista por toda a Bíblia. por exemplo. por exemplo. vemos relatos recorrentes de situações que tornam a pessoa impura/imunda. não procura nos intimidar e assustar a fim de levar-nos à santidade..

Como disse Menahem Haran5. Em segundo lugar.47).3. “extirpar”. Como menciona Kugler4. Embora não achemos forma alguma da raiz hebraica q-d-s nesse capítulo em particular. esse uso do verbokârat.5. 23. 25. O capítulo 16 trata da mais sagrada utilização para o sangue: introduzi-lo no Santo dos Santos. 8. 19.10. que lida com a prática da santidade. Há um mínimo de explanações e questões ritualísticas. sai ou toca o corpo de alguém.4.9. aparecer em 18—25 (18.27). mas com Cautela (17) Como não podia deixar de ser. a impureza relatada em 1—16 diz respeito. treze vezes (17.17.10.22. Apesar da mesma frase. 20.35. já pudemos observar em outros contextos das Escrituras (ver a explanação sobre Levítico 11) a santidade vinculada à escolha dos alimentos consumidos.29.32). ambos destacam a utilização do sangue (de um animal).29 é o primeiro versículo do livro a afirmar que o assunto em questão diz respeito a todos: “nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós”.20. 22. Como deve o crente comer carne (um item para poucos) e a que lugar deve levar seus sacrifícios? .26. 20. a expressão “pro- fanar o nome de Deus” aparece por seis vezes em 17—27 (18. Para mencionar uma segunda frase. essa parte de Levítico. 18. em 17—27.23.16. já a impureza tratada em 17—27 lida principalmente com o que a pessoa faz com seu próprio corpo.21. Em primeiro lugar. porém nenhuma vez em 1—16. 21. 20.2. em sua maior parte.6.10. aparece apenas quatro vezes (7.29).12.3.33. ou algo semelhante. 17—27 é o único trecho em que o verbo aparece em sua forma mais severa: “eu [Deus] a extirparei do seu povo” (17.3. ao que entra. Em 1—16. 23.15). 24. 22. começa com algumas regras alimentares. Isso pode explicar a existência de penalidades para infrações nessa área: o infrator devia ser “extirpado” (ou a descendência do infrator era interrompida ou a pessoa era impedida de se reunir a seus pais na vida após a morte). Comendo Carne.6). A sucessão entre os capítulos 16 e 17 parece ser proposital.12.18. 19.produzem impurezas em 17—27 parecem mais graves que as relacionadas em 1 —16.14. Levítico 17 ilustra isso. 19. enquanto.34.6. Além disso. as leis dessa parte de Levítico dizem respeito a assuntos cotidianos da comunidade e/ou do indivíduo. Por outro lado.18.2.3.10. O capítulo 17 fala de seu uso mais profano: ingeri-lo ao comer carne.13.21.22. Levítico 16.8. 20.25. 22. é no capítulo 17 que ela aparece com mais freqüência (vv.5.

vale a pena pesquisar o interessante comentário de Yehezkel Kaufmann7. em Deuteronômio 12.] quando todos viviam próximos ao santuário. A segunda restrição acerca do abate de animais era que. Efetivamente. o assunto é a imolação de animais especificamente para sacrifícios diante de Deus. nenhum animal sacrificial devia ser imolado fora do santuário (vv. tal impedimento já vinha desde Gênesis 9. o assunto é o abate de animais para consumo. já não era viável que todo abate estivesse restrito ao Tabernáculo. antes de qualquer consumo. O que Levítico proíbe. em Levítico 17. Isso teria forçado que todos que vivessem longe do santuário se tornassem vegetarianos”. ao se reunirem em Jerusalém para deliberar sobre o que era necessário aos cristãos não-judeus.. Essa regra já tinha aparecido em Levítico (3.4). como em Dt 12.. Na verdade.21: “comerás dentro da tua cidade” (ARA). então.3-7] podia vigorar [. e sentimentos similares em Deuteronômio 12. a lei estaria proibindo a ingestão de carne para a maior parte de Israel. Após se estabelecerem. Em primeiro lugar. Tratava-se da essência daquele organismo. com certa estranheza ou. Equivalería a dizer que a missa só poderia ser celebrada na Basílica de São Pedro. não beber. A visão de críticos que consideram P posterior a D é encarada.26.) E possível harmonizar as duas passagens se compreendermos que.17. No deserto. A proibição se refere a comer. Apenas uma casa era a casa de Deus. pelo menos. 7. (No tocante a esse tópico.16. enquanto. 3. Deuteronômio permite. mas não . único e separado de tudo o mais no acampamento. Deus ensinou ao povo que o Tabernáculo era um lugar especial. Não se podia oferecer sacrifícios de forma indiferente e casual. dos católicos que vivessem longe de Roma? Gordon Wenham6 é feliz ao comentar que “Tal lei [ou seja. Levítico 17. como durante a peregrinação pelo deserto. terem deixado de lado a observância das regras alimentares de Levítico e Deuteronômio. o sangue. todo sangue deveria ser drenado. Muito já se discutiu acerca do contraste entre esses dois versículos e Deuteronômio 12.15: “poderás matar e comer carne nas tuas cidades” (ARA). em qualquer lugar que o adorador considerasse apropriado ou conveniente. Isso poderia explicar o porquê de Tiago e os outros apóstolos. não apenas aos israelitas.São feitas duas restrições principais. aqui. como uma regra sacerdotal que poderia ser rotulada como um rematado absurdo.4 e dizia respeito a toda a humanidade. O que seria feito.23).

33 e Ezequiel 33. em que o sangue era oferecido a divindades subterrâneas8 . Práticas religiosas proibidas. Dessa forma.3).6). Israel não estabelece seus padrões sexuais a partir de Canaã ou Egito.2-5).13) ou (b) ter negada a vida no mundo vindouro. Talvez isso diga respeito a um ritual pagão. como feitiçaria e adivinhação. 3). “não farás” e “não faças”. onde. por seres humanos.20. ou ao erro de se derramar sangue no chão em vez de sobre o altar. Os critérios morais.29). pode-se ter uma idéia do entendimento e . e a segunda. o texto não queira dizer que Deus põe fim à vida dessa pessoa. o texto enfatiza que a conduta dos israelitas deve ser moralmente superior a de seus vizinhos pagãos (18. 2).a proibição do sangue (At 15. 3.10-16]). O capítulo 19 está igualmente cheio de frases com “farás”. Mais uma vez. Discute-se muito se Levítico 19. no entanto. Nesse comentário de Cyrus Gordon9. Essa tradução.6). não são firmados pelos incrédulos. que regulam a vida em comunidade dos crentes.20.32. portanto. Para relações sexuais ilícitas. E possível que. Ser “extirpado”. A mesma expressão aparece em 1 Samuel 14.21]). no caso de culto a Moloque (20.26 fala sobre o mesmo assunto: “Não comereis coisa alguma com sangue”. ficando impedida qualquer reunião entre a pessoa e seus ancestrais. são punidas com morte pelas mãos de Deus (20. ao dizer que Deus “extirpa” alguém (vv.17-19]) ou ausência de filhos (“sem filhos morrerão” [20.25. ou diretamente por Deus. se a comunidade eventualmente falhar.5. morte nas mãos de Deus (“serão extirpados” [20. O capítulo 20 contém penalidades para todas as infrações referidas nos capítulos 18 (sexuais) e 19 (religiosas). a idéia de santidade é formulada tanto de forma positiva como negativa. após lermos que “o povo da terra o apedrejará com pedras” (v. considerando que a primeira é efetuada por Deus. Pureza Sexual (18—20) O capítulo 18 está repleto de frases com “não farás”. é bastante liberal. Isso é especialmente verdadeiro para os versículos 2 e 3. pode ser diferente de “ser morto”. Tais sanções incluem pena de morte pelas mãos do povo. Ser “extirpado [por Deus]” poderia ser (a) perder a posteridade (SI 109. a pena podia ser a morte nas mãos da comunidade (“certamente morrerão” [20. encontramos a seguinte frase: “e [eu] o extirparei do meio do seu povo” (v. O hebraico diz simplesmente: “Não comereis sobre o sangue”.

18 declara: “E não tomarás uma mulher com sua irmã. ARA). a falta de limites”. descobrindo a sua nudez com ela na sua vida”. ver 2 Rs 23. por acaso. ver 2 Sm 13. 21.10): “e eu visitei nela a sua iniqüidade. ou seja. 6-18). Abraão casou-se com Sara. A maior parte do capítulo 18 se dedica a listar relações incestuosas (vv. John Oswalt10 observa: “O raciocínio por trás desses princípios morais [de Levítico 18 e 20] não é apenas uma reação a um estilo de vida que. sacrificar crianças a Moloque. Trata-se de uma prova indireta da antigüidade das tradições patriarcais.16-30).25. tais atividades eram mais exatamente proibidas por derivarem e surgirem de uma cosmovisão radicalmente oposta à defendida pela Bíblia [. mas vemos outros delitos sexuais (vv. Ao falar sobre a questão da homossexualidade. “Guardai. nem sempre houve proibição. contudo. Isso. ainda mais considerando que as pessoas retratam seus deuses como semelhantes a si mesmas? Seria um equívoco concluir que tais proibições eram essencialmente reações contra práticas dos vizinhos de Israel. 20). Se isso descreve a vida de seres divinos. 19). zombarias e maneirismos homossexuais”.. subornos. não era partilhado pelos hebreus [. Elas representam uma perspectiva comum tanto em relação ao sexo como ao mundo. 22). 19-23): relações sexuais com uma mulher durante o período menstruai (talvez por não servir para reprodução?) (v.] não descobrirás”. A gravidade dos delitos relacionados nos capítulos 18 e 20 é expressa pelo uso do verbo “vomitar” em ambos — o mesmo verbo utilizado para descrever o que o peixe fez com Jonas (Jn 2. passou a ser ilegal (ver Kaufmann11).9 afirma: “Anudez de tua irmã [. para afligi-la.. Nota-se que. Levítico 18. pois. 23). sua meia-irmã (Gn 20. adultério (v. bestialismo (v.].da abordagem dadas às questões sexuais pelas religiões pagãs: “O estudante moderno não deve cometer o erro de pensar que os orientais da antigüidade tinham qualquer dificuldade em conciliar a idéia de divindade com a prática de trapaças. será que a vida das pessoas comuns ficava muito atrás.].12.... todos os meus . Levítico 18. e ela vomitou os seus moradores” (18. um deus adorado por alguns dos vizinhos de Israel (v. Ainda assim. para pelo menos dois dos relacionamentos proibidos nos versículos 6-18. O que foi um dia legal.10).. foi exatamente o que fez Jacó (Gn 29. quando Tamar diz a seu irmão Amnom: “Ele [rei Davi] não me negará a ti”).13. homossexualismo masculino (v.

14. 14).. é mentiroso”.31). Tg 2.10. 11-18. acerca da santidade (19). Lc 10.30. Essa oração aparece 14 vezes nesse capítulo (enquanto cinco vezes no 18 e apenas duas vezes no 20). passa de declarações apodícticas contra o sexo ilícito (18) para outras. Mc 12. Pouco se fala nesse capítulo sobre questões privadas ou particulares de uma vida reclusa.33. Ele é citado nove vezes no Novo Testamento (Mt 5.15. O mesmo sentimento está contido em versículos como 1 João 4. as crianças (v. fala-se do sacerdote como ser humano e cidadão.33. o capítulo 19 é uma coletânea de leis rituais e morais.39.9. Levítico. Deus (vv. De maneira básica. o próximo e a paren-tela (vv. 9. os mais velhos (v.19.34). Cada seção indica uma reação diferente por parte de quem vive em santidade: obediência aos pais e a Deus. O uso repetitivo dessa frase enfatiza o fato de que essas leis estão enraizadas em Deus e em seu santo caráter. 4-8.. estar acima da tentação da injustiça. A santidade envolve o relacionamento com os pais (v. A santidade é definida nesses capítulos em termos de santidade social. a terra (vv. O forasteiro não deve ser psicologicamente excluído.43. 32).] para que vos não vomite a terra.26-28. dizer a verdade. não basta amar o próximo como a si mesmo. os pobres e estrangeiros (vv.34). 29). respeito pelos mais idosos. 22. não são o produto de alguma assembléia ou facção teológica. sem muito alarde.estatutos [. 19. O versículo mais memorável desse capítulo é o 18b: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”.8). Rm 13. Pureza Sacerdotal (21—22) Nesses dois capítulos. deve-se também amar desconhecidos e viajantes como a si mesmo (vv. 19). 19. ela é demonstrada de forma mais clara nos relacionamentos do indivíduo. 20-22). as mulheres (vv. 33.31.23-25)e os deficientes (v.22). atenção às necessidades físicas dos mais pobres. Os . G1 5. os animais (v. vosso Deus”. para a qual eu vos levo para habitar nela” (20. 3).36). Em outras palavras. sendo que muitas se encerram com a frase: “Eu sou o Senhor. porém. igualmente apodícticas.27.20: “Se alguém diz: Eu amo a Deus e aborrece a seu irmão.35. Conforme Levítico 19.

15. que animais imperfeitos são inaceitáveis para o sacrifício (22.1-9). Todos esses regulamentos têm em comum o fato de que Deus “santifica/torna santo” o sacerdote (21.10-16). 22. o sacerdote fica proibido de comer dos sacrifícios. casamento (21. As Festas Sagradas (23) Pessoas podem ser santas.1-9).16-24). em qualquer época. sumo sacerdote: morte e luto (21. as restrições são ainda mais rígidas nesse último aspecto (21. o chamado de Deus à santidade deve ser indubitavelmente exemplificado na vida daqueles que “[levam] os utensílios do Senhúr”12.10-15). portanto. antes de tratar qualquer outro fato relativo ao sacerdócio. o indivíduo fica impedido de exercer o sacerdócio (21.13-15). E vemos a mesma ordem tanto para o sacerdote como para o sumo sacerdote — sacerdote: morte e luto (21. permanentes na maioria dos casos. deve ser “santo”.10-12). seja dissociar a fé bíblica de qualquer tipo de adoração ou contato corn os mortos — uma idéia que predominava no antigo Oriente Médio e uma prática em que os sacerdotes tinham um papel de grande importância.16. depois a morte e o luto. ao iniciar por restrições quanto por quem o sacerdote podería prantear (no caso do sumo sacerdote. Essa seção adiciona certos dias e festas do . aborde primeiramente morte.23. como a congregação conseguirá demonstrar uma vida santa? Nessas regras para os sacerdotes. Era de se esperar que a ordem fosse inversa: primeiro o casamento. A santidade diz respeito ao relacionamento do indivíduo com sua família. no caso de deformidades físicas. enquanto temporariamente imundo. Se estes não estabelecerem um padrão. Sacerdotes podem ser santos.seguintes aspectos são salientados: a limitação do número de pessoas pelas quais o sacerdote pode guardar luto e o tipo de mulher com que ele pode se casar (21. E bem possível que o objetivo de Levítico 21. Lugares e construções específicas podem ser santos.32). no caso do sumo sacerdote.7).1-6).8. o luto e então o casamento. De um modo geral. O sacerdote.17-30). conforme a explicação encontrada em 13-15 (22. quais membros da família do sacerdote têm o direito de comer das coisas sagradas (22. E curioso que o capítulo 21. E claro que. nem mesmo por seus próprios pais!). cônjuge e empregados domésticos.9. casamento (21. vemos mais uma vez que a santidade não é alcançada por meio de um afastamento da sociedade. tais padrões são exclusivos e aplicados apenas ao clero de Israel. e também a sua própria aparência física.

não era permitido absolutamente trabalho algum. O Lugar Santo e o Nome Santo (24) Em relação ao Tabernáculo.30. a Sexta-Feira Santa ou a Páscoa por um período tão longo! O Senhor então enviou dois interessantes profetas. O povo de Deus. Era um momento em que as famílias deviam ficar unidas. o qual recebe sua parte na colheita antes de qualquer outro (vv. Hora de demonstrar generosidade e ajudar os pobres (v. feliz. chegou-lhe um novo pastor chamado Reverendo Festas! Ambos os nomes falam da promessa e da fidelidade de Deus. excetuando-se trabalhos mais leves que eram realizados. a Páscoa e a Festa dos Pães Azimos (vv. Esses dias santos eram para ser felizes. ou seja. porém.25. Afirmar que todos os dias são santos provavelmente redundaria no conceito de que nenhum dia é santo.21. 28. a oferta das primícias que crescem na primavera. 40). 3). 3) e no Dia da Expiação (vv. 3) e anual (vv. Será mesmo? Podemos ter certeza de que ele não nos esqueceu? O segundo foiAgeu: “o festivo” ou “minhas festas”. conforme Levítico 23. Dentre elas temos o Sábado (v. 23. a Festa das Trombetas (w. feita pelos agricultores a Deus na forma de um feixe de trigo. 26-32).8. Na maior parte desses dias. ao menos na Festa das Semanas ou Pentecostes. 4-8).35.. O primeiro é a . Imagine. 33-44). o Pentecostes ou a Festa dos Tabernáculos. 22). 9-14). embora perverso. Já no Sábado (v. E possível ser santo e ao mesmo tempo infeliz. ou. 15-22). todo trabalho era suspenso (vv. Freqüentemente. Um foi Zacarias: “lembrado de Deus” ou “o Senhor lembrou”. a Festa dos Tabernáculos (vv. e não o contrário. Podemos ver parte da importância dessas festas judaicas nos profetas pós-exílicos. por exemplo. devia se alegrar “perante o Senhor” (v.36). cujos nomes simbolizavam a mensagem que traziam. os dois conceitos são mantidos isolados um do outro. deixar nas mãos de Deus o controle de nossa agenda semanal (v. Parte de uma vida em santidade é. tudo que se relacionava à profissão ou ao meio de vida do indivíduo. 7. Imagine um cristão que fosse impedido de celebrar o Natal. ao redor da casa. após setenta anos sem celebrar nenhuma festa.calendário à lista.31).24). O povo de Deus viveu cativo durante setenta anos. orientando nosso trabalho a partir da adoração. não celebrou a Páscoa.. Durante três quartos de século. a Festa das Semanas ou Pentecostes (vv. dois pontos são mencionados. o Dia da Expiação (vv. 4-44).

8-55). que esses procedimentos na tenda da congregação devem ser observados “continuamente” (tâmid)\ ou seja. 1-7). Jacob Milgrom13 comenta-.11 afirma que o Ano Sabático é para o bem do pobre.20..necessidade de se utilizar azeite puro na iluminação do Tabernáculo (vv. a . 14. ampliando sua aplicação a fim de atender tanto o estrangeiro como o israelita (v. Ela aparece logo após o relato do blasfemo que é apedrejado até a morte por seu crime. O capítulo encerra-se com uma seqüência de leis. Os Anos Sabático e do Jubileu (25) Dois importantes anos são discutidos nesse capítulo: o Ano Sabático (vv. no caso dos versículos 1-4 (o acendimento do menorá do anoitecer ao alvorecer). Não apenas erradicou-se toda diferença entre poderosos e indefesos. deviam ser substituídos todo Sábado (vv.23.16). consistindo em 12 pães de trigo (pelas doze tribos) arrumados em duas fileiras de seis unidades. ver Ex 21.. Tal infração exigia pena de morte. a qual era aplicada pela comunidade e não por um verdugo encapuzado (vv. 22). Especialmente interessante é o ressurgimento da lex talionis para quem é aleijado por uma outra pessoa (vv. no caso dos versículos 5-9 (quando os sacerdotes comem os pães sagrados). Deuteronômio 15. Aprendem também a confiar em Deus para suas necessidades ao longo desse período. 19. 10-16). Nem sempre é ilegal tirar uma vida humana. Êxodo 23. O cerne do Ano Sabático é deixar a terra descansar a cada sete anos. 1-4). a cada cinqüenta anos. todos os dias. O segundo são os pães da propiciação que.10. A santidade autêntica suplanta todo paroquialismo e preconceitos tão característicos de uma vida iníqua. 17). mas também entre israelitas e não-israelitas”. E bastante óbvio o porquê de a primeira dessas leis. Vemos então a história de um homem mestiço que blasfemou contra o Nome (vv. Como disse Kawashima. Ao deixar a terra descansar por um ano a cada sete. a cada sete anos. Outros aspectos são mencionados em outras partes das Escrituras. que fala sobre o crime cometido por uma pessoa ao matar outra (v. Lemos. tal qual lhes é concedido semanalmente.24).1-11 diz que é para os devedores e para o perdão de suas dívidas. e semanalmente.] ser estendida ao estrangeiro é uma das grandes realizações morais da legislação sacerdotal. vir aqui. presente do Senhor a seu povo. por quatro vezes. e o Ano do Jubileu (vv. 5-9). “[o fato de] aquela lex talionis [. precisa vez por outra de um descanso sabático. o povo de Deus é lembrado que a terra.

27. nada é semeado. caso a pobreza o forçasse a se entregar como escravo.20[2x]. Ao parente daquele que. Ele é o Deus da terra e das relações econômicas.19. 10).31. 54). 25-55) sem qualquer compensação ao presente dono. trabalhadores. Tal como no Ano Sabático.28.25.31.30. O verbogâ’al(“resgatar”) e os substantivosgoel e^«//«(“resgatador” e “resgate”) só voltam a aparecer em Levítico no capítulo 27 (nove vezes: vv. 24.26[2x]. cabia resgatar as dívidas daquela pessoa (vv.19.promessa presente nos versículos 5-7 de que todos (proprietários. Deus coloca seu povo em uma situação potencialmente ainda mais devastadora. 13. Era também proibido ao credor cobrar juros ou lucrar com a hospedagem de tal pessoa (vv. providenciando o dobro do suprimento diário no sexto dia para que sobrevivessem durante o sétimo. resgatar e resgatador” dezoito vezes (vv. por uma ou outra razão ficasse pobre.15. característica essa que não é aparente na tradução em português). 52. 13. 35-38). cujo som anuncia o início do Ano do Jubileu. quando todas as coisas vivas partilhavam da generosidade de Deus. na qual as pessoas precisam confiar nEle. Os versículos 24-55 usam as palavras “resgate.51. a terra devia descansar (vv. No quadragésimo nono e no qüinquagésimo ano. E se o quadragésimo oitavo ano tivesse sido um ano de seca? Iria Deus sustentá-los por três difíceis anos (como nos versículos 20 e 21)? Há um paralelo entre essa história e o relato de Êxodo 16. 49[3x].31). quando Deus instrui seu povo a não recolher maná no Sábado. evoca Gênesis 1.35-38. As propriedades vendidas deviam ser devolvidas ao proprietário original (vv.47-55). que pode ser igualmente traduzida por “carneiro” ou “chifre de carneiro”.32. O nome “Jubileu” é uma transliteração da palavra hebraica yobel(v.33. 11. Encontramos o embasamento teológico disso no versículo 23: “porque a terra é minha”. não é um ano de fome. escravos.48[2x].12). A propriedade das terras devia ser equilibrada a cada cinqüenta anos. mas uma época em que todos retornam ao paraíso graças à fiel provisão divina para a necessidade de todos. Misturadas a todas essas referências a . de maneira bem mais ampla que no Ano Sabático. animais) comeriam a mesma comida. O Ano Sabático. e não era permitido que o devedor fosse tratado como escravo. portanto.33 — na verdade. doze vezes se contarmos os versículos em que a raiz aparece duas vezes (w. uma comida que cres-ceria naturalmente durante oAno Sabático. 25-28. No Ano do Jubileu.

6) e. acima de tudo.9)! Reconciliar-se com Deus é precondição para que haja reconciliação com irmãos e irmãs. a presença de Deus (v. em especial os pobres.52. a verdadeira santidade transborda sobre os relacionamentos interpessoais — nesse caso. Obviamente.54). sim. mas não animais puros que podem ser ofertados.50. 2. 3-13) versus o estilo de vida que traz a ira de Deus (vv. 23-29). Por outro lado. Pessoas podem ser resgatadas (vv. não é uma mera coincidência (25. 1-8).31. Existe então espaço na fé do Antigo Testamento para uma “dessantificação” legítima? Esse capítulo responde que. 9-13). 14-46). por exemplo. que esperar até o próximo Ano do Jubileu. em certos casos. Mais uma vez. As bênçãos possuem três aspectos: chuva suficiente para a colheita (v. não sua feitura. fome e canibalismo.24-55. recuperar uma propriedade tão logo a situação financeira o permita ou ter um parente próximo que o faça. Esse capítulo funciona para Levítico tal qual Deuteronômio 27 e 28 funciona para Deuteronômio. Os Dois Caminhos (26) Os dois caminhos são uma comparação entre o estilo de vida que traz as bênçãos de Deus (vv. principalmente se faltam décadas. cujas conseqüências são pragas. 28[2x]. no Dia da Expiação. a uma transformação de todos os outros relacionamentos”. Levítico 26 poderia ser chamado de o “apelo” de Levítico. encontramos algumas esparsas ao Ano do Jubileu (vv. .40. Ronald Sider14 acertadamente comenta: “O fato de a trombeta que anuncia o Ano do Jubileu soar antecipadamente. Somente animais impuros podem ser resgatados (vv. 1. uma reconciliação genuína com Deus leva. endividados ou escravizados. a lei do resgate parece ser uma opção melhor que o Ano do Jubileu.30. Parece preferível. 4).33. paz na terra (v. inevitavelmente. 11). A ira de Deus inclui circunstâncias que vão de enfermidades e doenças (v 16) até a guerra (vv.resgates em 25. Votos Religiosos (27) Seria mais exato dizer que esse capítulo lida com o cancelamento de votos religiosos.

O dízimo das colheitas pode ser resgatado. Terras podem ser resgatadas (vv.15. Traduzido por J. 5. O capítulo 26 anunciou os votos de Deus para o povo. Baker. 1961-1967. Nenhuma “coisa consagrada” (pessoa. 13. Theology ofthe Old Testament.31). Somente os primogênitos impuros podem ser resgatados (w. 26. Não há nada como: “Aquele que fizer um voto em especial receberá minha bênção”. No âmago da religião e da santidade. Levítico se encerra com o inestimável privilégio de atos puros de adoração e devoção a Deus. mas também aos capítulos 1—26.46 soa como uma conclusão. 2 vols. O capítulo 26 se concentra em recom-pensas/punições para a obediência/desobediência. Já no 27 não há uma única palavra sobre recompensas. dando algo ou alguém a Deus. tal qual o casamento. não apenas aos capítulos 17—26. Nada seria mais apropriado que dedicar o capítulo seguinte aos votos do povo para Deus. Filadélfia: Westminster. mas tão-somente pelo amor por Deus e seu santuário. OTL. se a pessoa desejar recuperar o que havia sido dado a Deus.29). pois podem ser oferecidos ao Senhor (como no item 2). 7. 30-33). mas não o dízimo dos animais (vv. W.15). 6. Casas podem ser resgatadas (vv. deverá acrescentar 20% ao valor do item (vv. 4. Essa deve ser a forma de a Bíblia dizer que o compromisso de um voto. “ser assumido de forma negligente ou imprudente”. temos promessas e compromissos: de Deus para mim e de mim para Deus. Vol. não deve. é ainda assim um fantástico e adequado adendo. 14. como sugerem muitos estudiosos. pois Levítico 26. 16-25). 28. .27. Em cada caso. Caso seja um adendo. 1. pp. animal ou terra) pode ser resgatada (vv. 270-282.27). O Código de Santidade (Lv 17—27) EICHRODT. motivados não por qualquer promessa de prosperidade (aliás. O capítulo pode ser um adendo aos capítulos 17—26.3. você ficaria 20% mais pobre).19.

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QUARTA PARTE Números .

C. aquela faixa de terra quase desabitada entre Egito e Canaã. vir entre os relatos dos espias/batedores (13—14) e o da rebelião de Corá (16). São poucos os que discordam dessa visão. e o censo dos levitas.”). A visão de R. o mesmo poderia ser dito sobre o título do quarto livro. Como tal. qualquer esboço que lhe seja imposto terá de ser reconhecido como amplamente subjetivo e arbitrário”. em certos aspectos. “Números” vem de Numeri\ na Vulgata. “Levítico” parece um título estranho para o terceiro livro do Pentateuco. O deserto.1—10. as listas dos censos. A medida que atravessassem essa zona intermediária “entre a libertação e o desterro”1. A. o deserto representaria para Israel ótimas possibilidades ou grandes problemas. é o cenário geográfico de Números. era um lugar onde o povo aprofundaria sua confiança no poder de Deus para suprir suas necessidades. onde vemos Israel entrar em Êxodo 15. narrativo . mas tais capítulos não são a regra de Números. Ele defende a tese de que todo material em Números — ritualístico. extraído da quarta palavra do texto hebraico de Números 1. nos capítulos 3 e 4). os comentaristas tentam justificar o porquê de o capítulo 15.. Levine (1976: 634) o vê como “o menos coerente dos livros da Torá”. contagens e listas de números ao longo desse livro (como. dos capítulos 1 e 26. Dentan2 é semelhante: “Considerando que o livro não é de fato coeso nem foi composto de acordo com qualquer plano lógico ou predeterminado. extraído de Arithmoi. Para citar ao menos um exemplo. ou duvidaria das capacidades e recursos de seu Deus. legal. com certeza. no deserto. Na Bíblia Hebraica.10 Se. É quase um consenso que o livro de Números deixa muito a desejar e é por demais enigmático na apresentação de seu material.22. Por esse motivo.16 Preparações para a Partida do Sinai NÚMEROS 1. um compêndio de leis diversas.1 (“Falou mais o Senhor a Moisés. da Septuaginta. por exemplo.. dentre eles está Brevard Childs. B. o título desse livro é “No Deserto”. Existem.

Moriarty9 sugere 22.21 - Partida do Sinai e chegada a Cades. Tabela 12 Duração Referência Referência Cruzada .9. Gray7 encerra a segunda seção em 21.13. Sinto-me mais inclinado a aceitar a avaliação de Childs que a defendida por aqueles que vêem Números como uma coletânea aleatória de materiais J4. G.e até mesmo as informações estatísticas — gira em torno do tema universal da santidade.. no segundo mês. o livro de Números mantém uma interpretação sacerdotal unificada da vontade de Deus para seu povo. a qual é exposta em um nítido contraste entre o santo e o profano”.1 — Preparações para a partida do Sinai. 10. Childs3 observa: “Apesar da diversidade de assuntos e da complexa estrutura literária. no deserto do Sinai [. nas notas editoriais. L.22: “Todo o povo de Israel saiu da cidade de Cades”. 1. que a nuvem se alçou de sobre o tabernáculo da congregação”. C. B.1: “Falou mais o Senhor a Moisés.11: “no segundo ano. principalmente.] no primeiro dia do segundo mês. 20. 20.1—10. finaliza a segunda seção em 21. Noth como R. F. A New Oxford Annotatecl Bible (Nova Bíblia Anotada Oxford)8. Dentan concluem a segunda seção em 20. A tabela 1 lista a cronologia de cada seção. E5 e. aos vinte do mês. 1. P6. Talvez seja melhor começar observando as divisões internas do livro. E preciso notar que não há consenso entre os comentaristas em relação ao ponto de término da segunda seção e início da terceira.11—20.1 como a conclusão dessa unidade. Tanto M.22—36.. com base nas informações geográficas e cronológicas. no segundo ano da sua saída da terra do Egito”.13.13 - Jornada de Cades para Moabe. 10.

do 26 ao 36. Nos demais versículos de 1-25. Um outro contraste entre as duas unidades é que muitos israelitas morrem ou sofrem em 1—25. com Deus tendo de começar novamente. provavelmente devem ser creditadas à segunda geração. a segunda geração. para Olson. Tal interpretação seria mais provável que crer na possibilidade de esta primeira geração de israelitas ser triunfante — uma geração sob o juízo de Deus e destinada a ser destruída em pouco tempo. sendo que todos mostram a segunda parte em condições mais favoráveis que a primeira. Quanto às vitórias registradas em 1—26 — os relatos da destruição de Arade em 21. 1 2.11—20.1—10. sugere dividir Números em duas seções.11 38 anos 10. 1996. os quais entrariam em Canaã sob a liderança de Josué e para quem Deuteronômio foi escrito. em diversos estudos (1985. 11. Assim. W. discorda de Olson.22—36.38. A primeira parte cobre a geração de israelitas que saiu do Egito. 1997).21) de confrontos. Números fala sobre a morte do que é velho (1—25) e o nascimento do que é novo (26—36). Israel tentou evitar (13. A outra parte cobre a geração que nasceu no deserto. a segunda. No único embate militar posterior ao capítulo 26.21 Nm 33.13 Nm 33. Lee10. Utilizando como chave os dois censos dos capítulos 1 e 26. Ele sugere que.20 dias 1.31-32) ou fugir (20. No primeiro conflito militar travado pelos israelitas em 1—25. eles venceram (31).1-3 e a vitória sobre Seom e Ogue em 21. sua primeira unidade é definida do capítulo 1 ao 25. em vez do capítulo 26.21-35 —.10 Nm 1.33: “feriu o Senhor o povo com uma praga muito grande-.1.1-3 que marca a transição da primeira para a segunda geração. dos quais ninguém conseguiu chegar a Canaã (com exceção de Josué e Calebe). 10. Dt 1. o que não é visto em 26—36. W. empreendido pela segunda geração de israelitas em 26—36. é 21.45). eles perderam (14. Existem alguns fortes contrastes entre 1—25 e 26—36. Pereceram no deserto por causa de sua incessante desobediência e pecaminosidade.38 (data da morte de Arão) 6 meses 20. em um interessante estudo.3 Dennis Elson. .

16. 8. leste e oeste.. Existem. 25.1-3).10: “eis que Miriã era leprosa como a neve”.3).4-16). 9.1 a 10. 6. Israel estava sendo enviada como ovelha entre lobos. Ela vai de 1.49: “E os que morreram daquela praga foram catorze mil e setecentos”. Os israelitas ainda não haviam se mudado geograficamente do Monte Sinai. Posições ao norte. ao varão israelita e à mulher”. 10. O censo devia incluir todos os homens da idade de vinte anos para cima. 4. 12.] morreram de praga perante o Senhor”.8: “e [Finéias] os atravessou a ambos. Denominei a primeira unidade de Números “Preparações para a Partida do Sinai”. O censo foi realizado (1.47-54).17-46). o material apresentado nos primeiros dois capítulos de Números não se equipara ao impacto criado pelos trovões e pela fumaça que haviam envolvido o Sinai. Foram então designadas áreas para cada uma das tribos ao redor da tenda da congregação.. sul. todavia. 14. “todos os que saem à guerra em Israel” (1. para ajudá-lo nesse trabalho (1. seriam inevitáveis.35: “saiu fogo do Senhor e consumiu os duzentos e cin-qüenta homens”. Será que passamos do miraculoso para o comum. seguidos pela revelação da vontade de Deus. Deus nomeou um representante para cada tribo.1-34).25. para preservação ou conquista. alguns aspectos que merecem nossa atenção. mas os levitas foram deixados de fora (1.9: “E os que morreram daquela praga foram vinte e quatro mil”. Moisés foi orientado por Deus para fazer um censo da congregação de Israel (1. 20.28: “morreu Arão ali sobre o cume do monte”.32: “E a terra abriu a sua boca e os tragou”.10. O encontro . 7. 16. Ações militares. com exceção dos levitas.3. 5. 16. Quais foram essas preparações para a partida? O Censo e a Organização das Tribos (1—2) No que diz respeito à emoção e ao efeito dramático imprimidos no leitor. do sublime para o banal? Nesses dois capítulos. que deveriam ser observadas quer em marcha quer acampados (2.37: “aqueles mesmos homens [.

30. E há mais.34. a fim de vê-los concretizar o destino que lhes preparou.40.26. a atitude que diz: “farei isso ou aquilo do meu jeito”.36. 47-54) que surge esse tema em particular. Vemos aqui que a iniciativa do censo foi de Deus. S.28. a todo custo. Violar a responsabilidade do outro leva à morte. Números 2 está organizado em nossas Bíblias .24. portanto. 1-46). a comunidade toda poderia sofrer o juízo de Deus. Um inimigo poderia destruí-los. Dois versículos depois nós lemos: “os levitas se acamparão ao redor do tabernáculo do Testemunho.53). o desmonte e a montagem do Tabernáculo.3).3. vemos uma terrível observação: “o estranho que se aproximar morrerá” (1. A presença de Deus sobre. O que aguardava Israel é salientado pela frase “capazes de ir à guerra”. mas a ira de Deus também podia fazê-lo! Precisavam evitar. nenhuma atitude semelhante à atribuída por Joabe a Davi em seu censo: “mas por que deseja o rei. Deus não opera à parte de seu povo. entre e à frente de seu povo ao longo do caminho não torna supérflua a necessidade de um exército preparado. Somos informados de que os levi-tas não são contados no censo das tribos não sacerdotais.1. Moisés não teve um repentino desejo de aumentar o número de militares. Como disse G. a qual ocorre por quinze vezes no primeiro capítulo (w. com informações adicionais no texto paralelo de 1 Cr 21.32.2). não podiam descuidar dos confrontos que estavam por vir (vv.18. 3. em Moisés.51 —ARA). como foi dele a iniciativa de mandar batedores para espiar a terra de Canaã (13.que já haviam tido com os amalequitas (Êx 17. E no último parágrafo do capítulo 1 (vv.45).22. mas por meio dele. mas também não podiam negligenciar ou serem indiferentes em sua adoração a Deus (vv 4754).38. para que não haja ira sobre a congregação dos filhos de Israel.20. Ogden11. com o dever de deter qualquer um que tentasse violar alguma proibição com respeito ao Tabernáculo.8-16) lhes dava uma idéia das experiências que viriam. Não se detecta. Em seguida. Mencionei anteriormente a existência do tema da santidade em Números. Os levitas atuavam como guardas sacerdotais. Se o intruso não fosse impedido. este negócio?” (2 Sm 24. Os israelitas. mas será que eles são deixados completamente de lado? Números atribui três responsabilidades aos levitas: o transporte.42. pelo que os levitas tomarão a si o cuidar [ou tomarão a si a função de guardar’] do tabernáculo do Testemunho” (1. meu senhor.

34: uma declaração de obediência] Dois Censos Levíticos (3—4) A maioria do conteúdo desses dois capítulos é dedicado à descrição da quantidade de levitas e de suas responsabilidades. de os leitores encontrarem os resultados do primeiro censo. Em torno dela ficavam Moisés e os sacerdotes (leste). entre Gade e Simeão. . deviam arcar com as conseqüências. entre Aser e Naftali. tanto montada como desmontada.1-2: instruções para o acampamento (2 versículos) 2. entre Benjamim e Manassés. Há uma forma correta de adorar a Deus que. quando ofereceram fogo estranho perante o Senhor [.17: os levitas e a tenda no meio (1 versículo) 2. 2. Antes. são saudados com a lembrança dos dois filhos de Arão. pelo sul (7 versículos) 2.38). através da tenda no meio do acampamento.32-33: resumo e totais (2 versículos) [2.10-16: Rúben. no lado leste (7 versículos) 2.. Mas isso não é tudo.25-31: Dã. O capítulo 3 destaca por mais duas vezes a sinistra ameaça de destruição para aqueles que transgredissem na adoração a Deus: “e o estranho que se chegar morrerá” (vv.4). Em vez disso. pelo norte (7 versículos) 2. entre Issacar e Zebulom.3-9: Judá. Caso contrário.. pelo oeste (7 versículos) 2.4). incluindo os levitas.] e não tiveram filhos” (3. que “morreram perante o Senhor. Nadabe e Abiú. a expressão apenas significa “exceder certos privilégios” ou “usurpar as responsabilidades de outra pessoa” ou “ultrapassar os limites”. sem confundir as duas coisas. deviam saber o que deviam e não deviam fazer.51) como para sacerdotes (3. os levitas gersonitas (oeste) e os levitas meraritas. com três tribos por trás de cada um desses grupos. Jacob Milgrom12 demonstra de forma convincente que a tradução “se chegar” ou “se aproximar” não é o que o texto está proibindo. os levitas coatitas (sul).18-24: Efraim. Os israelitas. 10. traz conseqüências desastrosas tanto para leigos (1. ao ser desrespeitada.modernas de forma a enfatizar a importância da presença de Deus entre seu povo. contudo.

não suporta .. raramente vimos Números perder a oportunidade de inserir.19). 15. no capítulo 4. Por esse motivo.23.] todo varão da idade de um mês para cima”.149)? Na verdade. Não é exagero traduzir “obra/serviço” (4.20) caso ultrapassassem os limites de sua atuação. no capítulo 1.31. observa-se que os coatitas morreriam (vv. Cabia-lhes carregar as “coisas santas” do Tabernáculo (vv. Deus. é estipulada uma idade de admissão ao serviço. envolve a montagem. O próprio texto declara os motivos para tal limitação em Números 4. 5-14)! Estes atuam no transporte.47) como “extenuante trabalho físico”. trinta anos.4-20. depois da adolescência e do princípio da idade adulta.35.43. cinqüenta anos. e antes de alcançar uma idade avançada. Primeiro.14-39.15: “Conta os filhos de Levi [.3. As responsabilidades são divididas em três e repartidas entre os filhos de Levi. o segundo se limita a contar aqueles com idade entre trinta e cinqüenta anos. portanto. O primeiro.39. E curioso que. começa com aqueles ainda em tenra infância e não possui limite de idade. Uma pista que nos ajuda a enxergar essa diferença é encontrada no primeiro censo em 3. desmontagem e transporte do tabernáculo. não havia restrição alguma de idade. em sua santidade. Devíamos então supor que os levitas incluídos no primeiro censo estavam sendo destinados a um serviço pelo resto de suas vidas? Sendo assim.Por que foram realizados dois censos levíticos (3. o segundo censo inclui aqueles “da idade de trinta anos para cima até aos cinqüenta anos” (4. o segundo censo incluía levitas que seriam recrutados para um ministério com limite de idade: após os trinta anos.24.18.30. não no desmonte. 4. a idade mínima para servir como levita no santuário seja trinta. algum lúgubre lembrete sobre as conseqüências da desobediência. a idade mínima para admissão no exército seja vinte. o efetivo trabalho de desmontar as partes mais sagradas do Tabernáculo era função de Arão e de seus filhos. especificamente. Por outro lado.27. 15. não podendo ser de modo algum realizado pelos coatitas (vv.3). As responsabilidades dos coatitas são detalhadas em 4. enquanto. em meio a relatos estatísticos e atribuições de tarefas. Por esse motivo. e uma idade de aposentadoria. a fim de tornar a ordenança coercitiva. os dois são bastante distintos entre si..33. Em contrapartida. Para servir na obra do Senhor são necessários dez anos a mais de maturidade que para servir no exército do Senhor. Pelo menos até aqui. O trabalho descrito é físico e. Em segundo lugar. são acrescentadas duas informações.

Mantendo o Acampamento Santo (5) O livro de Números começa com dois capítulos dedicados aos leigos de Israel (1 —2). os levitas (3—4). podem cair mais longe. tanto na determinação de posições como de funções. Trata-se da habitação de Deus e tudo deve ser cumprido e executado conforme suas orientações. eis o . pelo menos. a exemplo do que acontecia com os coatitas. Os primeiros quatro capítulos enfatizam a santidade do Tabernáculo. sendo que em cada seção vemos o clero desempenhando um importante papel. Uma vez que o conceito esteja claro. abençoam o povo (vv. presidem rituais acerca de mulheres suspeitas de adultério (vv. principalmente quando ele ou ela se preparam para encerrar o voto (6. ou que usurpar a função de outrem fosse passível de pena capital. o material eram as tábuas e colunas. O segundo grupo de levitas são os gersonitas (vv. Lidam com questões envolvendo impurezas (5.1-21). Não se vê aqui qualquer indicação de que. 29-33). na falta do ofendido ou de algum familiar. Os primeiros quatro capítulos foram positivos: ‘aqui é o seu posto de trabalho. Vê-se que os coatitas tinham o maior privilégio e também as maiores responsabilidades. eles guardavam uma parte do Tabernáculo.1-4). por meio de orações. muito é cobrado. O terceiro grupo de levitas são os meraritas (vv. 4. 21-28).49). Sua função era principalmente carregar as cortinas do Tabernáculo ou. e outros dois voltam a lidar com o povo em geral (5—6). Aqueles que sobem mais alto. 2.51. 3. guardar os carros em que eram carregadas.34. 5-10).54. que era carregado em carros. A quem muito é dado. 22-27). Não é por acaso que todos esses quatro capítulos terminam com a mesma frase: “Assim fizeram os filhos de Israel [ou Moisés]. é natural que o texto siga essa mesma diretriz nos vários regulamentos que ajudam a manter o acampamento santo. desempenham um importante papel na vida dos nazireus. Nesse caso. conforme tudo o que o Senhor ordenara” (1. podem ser beneficiados pela restituição devida pelo pecado contra alguém (vv. Como os gersonitas. 11-31).isso de modo algum. eles trabalhassem sob ordens dos sacerdotes. depois há mais dois dedicados ao clero.

Uma nova informação é acrescida nesse parágrafo. O marido suspeitava da infidelidade. para provar o contrário. 11-31) prossegue no tema da preservação da santidade em meio ao povo de Deus. pois pecar contra outro filho de Deus é pecar contra o próprio Deus. que dizer dos pecados deliberados e seus destrutivos efeitos? Essa questão é tratada em 5. Tudo isso vinha antes do ritual de expiação realizado pelo sacerdote. Portanto. Sempre que surgia um pecado no seio da comunidade. não utiliza a expressão “enviada/viverá fora do arraial”). nem a mulher era pega em uma situação . que ao contrário de Lv 13. Longe disso! A indenização devia ser entregue ao sacerdote e ao santuário (vv. Em contrapartida.46). Somente tendo conhecimento de preceitos assim. Se a vítima do crime morresse sem deixar parentes. 8-10). assim como todo aquele que padeceu de algum tipo de fluxo (como em Lv 15. acrescida de 20%. O terceiro parágrafo do capítulo (vv.. Aquele que pecasse contra o próximo devia arrepender-se e confessar seu pecado.7). este devia ser abertamente reconhecido pelo pecador.1-4).que você deve fazer’.] Confessará o pecado que cometer” —. preparando o caminho para uma restauração plena tanto com o ofendido como com Deus. E claro que a pessoa não era executada. As pessoas impuras deviam ser excluídas.5-10 (em essência. mas exilada da comunidade. um aprimoramento da oferta pela culpa em Lv 5. A confissão oral era indispensável — “tal pessoa é culpada [. podemos apreciar de maneira integral os atos de Jesus ao “tocar” um leproso (Mc 1. o leproso foi expulso (como em Lv 13. Vemos mais uma vez a mesma idéia: o acampamento de Deus deve ser um local sagrado e puro.. condenada à morte como um coatita. não é difícil acreditar que tenham protestado: “Senhor. Se os discípulos estavam presentes para ver isso.14—6. Números 5 apresenta uma ênfase negativa. Não seriam tolerados desvios dos planos divinos por parte de levitas ou leigos. Lida com a expulsão daqueles que profanaram ou depreciaram o caráter sagrado do acampamento. tivesse encostado a palma da mão na pele de um dos discípulos — provavelmente Pedro? Se certos tipos de impurezas físicas maculam o acampamento de Deus (5. isso não cancelava a obrigação de reparar o erro. A questão aqui é um suposto ou real adultério por parte de uma esposa. acabaste de te contaminar!” Não seria possível que Jesus.41). assim como a restituição. do que fora tirado ou roubado. mas não havia qualquer testemunha.

embaraçosa.

O parágrafo anterior versa sobre um pecado real entre duas pessoas. Este discute
um potencial pecado entre dois cônjuges. Um aspecto que liga 5.5-10 com 5.11-
31 é que ambos lidam com infidelidade: infidelidade para com Deus em 5.6 e
infidelidade para com o cônjuge em 5.12. Em ambos os casos, o hebraico
expressa o ato de infidelidade commã‘almaal(substantivo e verbo cognatos), que
carrega a idéia de se cometer um sacrilégio contra alguém ou de se trair a
confiança de alguém. É fascinante que mesmo a suspeita de um pecado precise
ser investigada. Se a suspeita não desse em nada, nenhuma providência seria
tomada; mas se fatos anormais e perturbadores viessem à tona, eles deveriam ser
enfrentados.

O leitor contemporâneo das Escrituras pode olhar para essa história e ter dúvidas
quanto à legitimidade dessa prática. Por que apenas a esposa suspeita era levada
a juízo? E se a esposa desconfiasse de infidelidade por parte do marido? Havia
opções para ela? Por outro lado, será que esse procedimento dava ao marido o
direito de fazer sua esposa passar por tamanha prova sempre que lhe viesse à
mente a suspeita de uma possível aventura? Havia ela de beber as intragáveis
“águas amargas” apenas para satisfazer a curiosidade do esposo?

As seguintes observações devem ser feitas. Em primeiro lugar, podemos
seguramente supor que o marido só recorria a esse expediente se não
conseguisse esclarecer suas suspeitas. Dúvidas inquietantes não se desfazem no
ar e, nesse caso, algo deve ser feito. Não é provável que fosse permitido a um
marido ciumento de modo exagerado testar continuamente sua esposa. S.
K. Sherwood13 levanta a possibilidade de essa lei jamais ter sido posta em
prática de forma efetiva. Aliás, as Escrituras não registram nenhum caso de sua
aplicação. Se, no entanto, fosse utilizada. Sherwood comenta que, após uma
exposição tão vergonhosa de acordo com a lei, ainda que a esposa fosse
declarada inocente, não apenas perderia seu respeito e dignidade no meio da
comunidade, mas também o marido. Em conseqüência, qualquer marido pensaria
muito antes de fazer sua esposa passar por tal provação.

Em segundo lugar, não é exato dizer que a esposa era submetida a um
julgamento por ordálio14. A acusada não era forçada a enfiar sua mão em água
fervente, nem devia andar descalça sobre pregos ou ter sua cabeça mergulhada
na água. Esses eram os testes utilizados em julgamentos por ordálio. O artigo
132 do Código de Hamurabi, por exemplo, em uma situação semelhante a de

Números 5.11-31, diz: “Se um dedo acusador é apontado para a esposa de
alguém por causa de outro homem, mas a mulher não foi encontrada deitada com
esse outro homem, ela deverá pular no rio em consideração a seu marido”. Ou
seja: se fosse culpada, afundaria e se afogaria; se fosse inocente, sobrevivería.
No Código de Hamurabi, o perigo é bastante real; em Números, é hipotético. (Na
verdade, que significam as palavras de Números 5.27 que dizem: “a água
amaldiçoante entrará nela para amargura, e o seu ventre se inchará, e a sua coxa
descairá”? Seria atrofia física, esterilidade ou o quê?). Outro aspecto que afasta a
idéia de um julgamento por ordálio é que, em um tal julgamento, a pessoa
é considerada culpada a menos que prove sua inocência. Como comentam H. C.
Brichto15 e J. Sasson16, o ritual de Números 5 é exatamente o oposto: ele julga a
inocência da acusada, não sua culpa. Frymer-Kensky17 frisa que, nos verdadeiros
julgamentos por ordálio, a decisão do deus invocado era manifesta de imediato,
ao contrário do que ocorre em Números 5.

Uma terceira observação advém do parágrafo anterior. Longe de aviltar a
mulher, obrigando-a a atender todos os caprichos de um marido leviano, o
procedimento promove exatamente o contrário. Após observar a posição muitas
vezes inferior da mulher no Antigo Testamento, Brichto18 comenta: “O ritual [...]
é um estratagema em favor da esposa. Ele propõe que o marido prove o que
alega ou se cale”. Ao suspeitar de sua esposa, o marido deve ter coragem
suficiente para pôr em ação um mecanismo que estabelece a verdade de uma
forma ou de outra. Se não tiver coragem para passar da suposição à prática,
deverá abandonar as acusações e interromper quaisquer insinuações.

O Nazireu (6)

Com exceção dos versículos 21-27, que falam sobre a bênção aarônica, todo esse
capítulo é dedicado a uma descrição do nazireado. Estamos familiarizados com
essa atividade graças a brilhantes personagens das Escrituras que foram nazireus.
Dentre eles, temos pessoas notáveis como Sansão, Samuel e João Batista (Lc
1.15). Pessoas que foram líderes em suas épocas. Sansão e Samuel
foram extraordinários profetas e líderes militares do exército de Israel contra os
filisteus. Em seus atos, lembram mais soldados profissionais que membros de
uma comunidade monástica.

Em Números 6, contudo, não vemos nenhum desses aspectos positivos. O
capítulo se concentra em descrever o que os nazireus não podem fazer, em vez

de abordar o que devem fazer. Entendo que isso está de acordo com a ênfase
vista até agora em Números, no que diz respeito à exigência divina de santidade.
As leis de Deus não devem ser evitadas. Além disso, dado o uso por todo
o capítulo de frases como: “Enquanto for nazireu” (v. 4, NVI), “Durante todo o
período de sua separação para o Senhor” (v. 5, NVI), “no dia em que se
cumprirem os dias do seu nazireado” (v. 13) e “Esse é o ritual do voto de nazireu
[...] de acordo com a sua separação” (v. 21, NVI). Números 6 trata basicamente
do nazireado temporário e não de nazireus vitalícios, como Sansão e
Samuel. Podemos fazer um paralelo para os dias de hoje com missionários que
trabalham em projetos de curta duração e missionários de tempo integral.

Três restrições eram impostas aos nazireus. Primeiro, deviam se abster de vinho,
bebida forte, vinagre, uvas e suco de uvas. Em segundo lugar, não podiam cortar
os cabelos. Em terceiro lugar, deviam evitar qualquer contato com cadáveres,
ainda que de familiares. Os nazireus deviam ser disciplinados quanto ao apetite,
ter aparência característica e ser cuidadosos quanto a suas companhias.

Se um nazireu se contaminasse em um contato acidental com um cadáver, era
obrigado a passar por procedimentos de expiação (vv. 9-12). Também, ao
encerrar o voto de nazireado, o indivíduo devia apresentar uma oferta de
holocausto, uma pelo pecado e outra pacífica. As ofertas eram apresentadas na
seguinte ordem: pecado, holocausto e pacífica (vv. 13-20).

O capítulo 5 começa com uma observação acerca da presença de impuros no
acampamento de Deus. Tais pessoas deviam passar por uma quarentena, tanto
homens como mulheres (5.3). O capítulo então continua asseverando: “Quando
homem ou mulher fizer algum de todos os pecados humanos...”, e prossegue
falando sobre relacionamentos conjugais. Da mesma forma, o voto de nazireado
estava aberto “tanto ao homem como à mulher”. Nenhum dos sexos tem
exclusividade quanto a essa posição.

O fato desse serviço ser possível tanto para homens como para mulheres torna-se
ainda mais espantoso quando se percebe que. no que diz respeito às proibições
impostas ao nazireu, há grande semelhança com proibições impostas ao sumo
sacerdote em relação a escalões inferiores do sacerdócio. Um nazireu devia, por
exemplo, evitar qualquer contaminação advinda do contato com o corpo de um
familiar morto (Nm 6.7). Isso também valia para o sumo sacerdote (Lv 21.11),
mas não para sacerdotes comuns (Lv 21.1-4). O nazireu devia se abster de
substâncias inebriantes (Nm 6.4). Isso também valia para Arão e seus filhos

quando entravam na “tenda da congregação” (Lv 10.9). No que tange à proibição
de se cortar o cabelo, o sumo sacerdote também estava sujeito à proibição
análoga (Lv 10.6; 21.10) e sua cabeça era ungida com óleo (Lv 21.10; Êx 29.7).
Ninguém era impedido de assumir o nazireado por causa de sexo, diferentemente
dos ministérios sacerdotal e levítico, para os quais apenas o homem estava
qualificado.

Talvez o último parágrafo, a bênção aarônica nos versículos 21-27, esteja
vinculado às informações sobre o nazireado pela observação de que o nazireu
devia ser “santo [...] ao Senhor” (v. 8). Isso também é válido para os sacerdotes.
Eles deviam ser “santos ao seu Deus” (Lv 21.6,7 - NVI). Ademais, a seção
acerca dos nazireus começa com “Fala aos filhos de Israel” (v. 2). AArão e seus
filhos, Moisés é orientado a dizer: “Assim abençoareis os filhos de Israel” (v.
23).

E importante notar que não é Arão que abençoa. Ele não é o autor, mas o
transmissor da bênção. E o Senhor, e somente o Senhor (perceba que o
Tetragrammaton é utilizado por três vezes na bênção), que abençoa. O Senhor se
ocupa de “abençoar e guardar” seu povo. O verbo “abençoar” é bastante
conhecido dos leitores da Bíblia. Já o significado do verbo “guardar” é menos
conhecido. Esse verbo aparece cerca de 450 vezes na Bíblia e, segundo Paul
Riemann19, “não vemos nenhum caso em que a guarda de um ser humano por
outro esteja claramente expressa em uma aliança ou mesmo que seja admissível
como obrigação social”. O Senhor, e somente o Senhor, é aquele que guarda.

Ele também faz “resplandecer o seu rosto” e “levanta o seu rosto” sobre seu
povo. E muito interessante a possibilidade de que, envolvida nessa bênção,
tenhamos a utilização deliberada da figura de um tribunal. Deus, como um rei,
concede de forma graciosa uma audiência a seus súditos. Ele não se mostra
indiferente. Em outras partes das Escrituras, a expressão “levantar o rosto”
é utilizada em um sentido bastante específico. Em Jó 42.8,9, lemos: “Meu servo
Jó orará por vocês; eu aceitarei a oração dele [...] e o Senhor aceitou a oração de
Jó” (NVI). Em ambos os casos, “aceitar” é literalmente “levantar o rosto”. Para
Deus, “levantar seu rosto” sobre seu povo significa aceitá-los, exibir sua face em
um sorriso, dar-lhes um olhar de aprovação. De maneira semelhante, Jacó
esperava que os presentes enviados ao irmão fizessem com que Esaú o
“aceitasse”; literalmente, que ele “levantasse sua face” para Jacó (Gn 32.20
[MT20 v. 21]). Em contrapartida, “descair o semblante” é “franzir o cenho” (ver
Gn 4.6 e Jr 3.12).

E curioso observar que, em hebraico, a extensão de cada uma das três linhas da
bênção aumenta em duas palavras a cada linha:

v. 24: O-Senhor te-abençoe e-te-guarde (3 palavras)

v. 25: O-Senhor faça-resplandecer o-seu-rosto sobre-ti e-tenha-misericórdia-de-ti
(5 palavras)

v. 26: O-Senhor sobre-ti levante o-seu-rosto e-te dê a-paz (7 palavras)

Talvez a seqüência descrita em Números 1—6 seja um processo de causa e
efeito. Havendo obediência e compromisso com uma vida de santidade (1.1—
6.21), o resultado é a presença de um Deus abençoador (6.22-27).

“Ofertas perante o Senhor” (7.1—10.10)

As informações contidas no capítulo 7 antecedem as informações nos capítulos 1
—6 por um mês. Moisés terminou a construção do Tabernáculo no segundo ano,
no primeiro mês, ao primeiro do mês (ver Ex 40.17). Já Números 1 está datado
de um mês mais tarde: no segundo ano, no segundo mês, ao primeiro do mês.
Há. contudo, uma associação entre o fim do capítulo 6 e o início do 7. O capítulo
6 encerra-se destacando o que Deus quer para seu povo: o 7 enfatiza o que o
povo quer fazer para Deus. O Deus que abençoa no fim do capítulo 6 é o Deus
que recebe no capítulo 7. O fato de os dons de Deus precederem as ofertas a
Deus demonstra que qualquer oferta a Ele é uma resposta às dádivas divinas, não
um meio de obter suas bênçãos.

O capítulo 7 é o mais longo do Pentateuco e trata das ofertas dos príncipes das
tribos para o Senhor. Os versículos 12-88 identificam cada líder tribal e a oferta
trazida ao Tabernáculo, começando pela tribo de Judá e terminando com a de
Naftali. Em todos os relatos, o indivíduo não devia trazer apenas utensílios (uma
bandeja de prata ou um vaso de ouro), mas também vários animais para as
seguintes ofertas: manjares, holocaustos, pelo pecado e pacíficas, sempre nessa
ordem. Adorar a Deus não é lhe dar uma gratificação, mas entrar em comunhão
por meio do sacrifício.

A parte do capítulo 7 que trata das ofertas (vv. 12-88) é mais uma vez precedida
por uma informação que deixa bem clara a seriedade e a importância da
santidade de Deus (vv. 1-11). Coube aos líderes de Israel fornecer os carros para

o transporte do equipamento do Tabernáculo (vv. 1-8), porém as “coisas
santíssimas” ficavam de fora, pois deviam ser levadas nos ombros dos
coatitas (v. 9). Números 4.1-15 deixa claro que os coatitas não deviam desmontar
as “coisas santíssimas”, mas que essa tarefa pertencia aos sacerdotes. Além
disso, as “coisas santíssimas” não podiam ser empilhadas em cima de carros,
porém seu transporte devia ser feito por humanos.

O capítulo conclui (v. 89) com a informação de que Deus falou a Moisés a partir
do Santo dos Santos. O texto simplesmente diz: “Moisés ouvia a voz” (NVI). O
texto não diz que ele viu ao Senhor. A comunhão de Deus com Moisés é
auditiva, não visual. O Senhor é ouvido, não visto, porque Moisés não entra no
Santo dos Santos. Ele se detém na cortina/véu que separa o Lugar Santo do
Santo dos Santos. Não restam dúvidas de que Deus se comunicou com Moisés
de um modo único, que não vemos em relação a mais ninguém; porém, mesmo
para ele, havia restrições.

O capítulo 8 fala sobre a consagração dos levitas. O trecho é bastante semelhante
a Levítico 8, que fala sobre a ordenação dos sacerdotes aarônicos, mas traz uma
diferença fundamental. Os sacerdotes, ao serem ordenados, são
“consagrados/santificados” (Ex 29.1,21,23; Lv 8.12,30). Os levitas, ao iniciarem
seu ministério, são “purificados” (Nm 8.7[2x],15,21[2x]). Uma possível relação
entre os capítulos 7 e 8 reside no fato de que ambos falam sobre “dádivas”. O
capítulo 7 descreve as ofertas feitas pelo povo a Deus (ver 7.3); o 8 descreve as
dádivas de Deus para seus sacerdotes, ou seja, os levitas (ver 8.19). A descrição
do culto de consagração propriamente dito (w. 5-22) é precedida por um curto
parágrafo (w. 1-4), o qual relembra a responsabilidade dos sacerdotes aarônicos
no acendimento das lâmpadas do Tabernáculo (ver Ex 25.31-40; 27.20,21; Lv
24.2-4). E, portanto, a segunda vez que Números utiliza um trecho dirigido aos
sacerdotes como prefácio de informações para os levitas (4.5-15a: sacerdotes;
4.15b-49: levitas).

O ritual de consagração dos levitas é quase exclusivamente uma cerimônia de
purificação. Os levitas precisam de “purificação” (vv. 6,7[2x],15,21). Eles
devem “se purificar” (v. 21). São obrigatórias uma oferta de holocausto e outra
pelo pecado (v. 12). De forma muito semelhante ao animal para o sacrifício, os
levitas substituem o primogênito e, como tal, recebem imposição de mãos (vv.
10,11,16,18). Eles possuem a função de evitar que a ira divina destrua Israel (v.
19) e fazem isso repelindo todo e qualquer invasor (ver 1.53; 18.5).

Jacob Milgrom21 explicou o raciocínio por trás da ênfase expiatória da
consagração dos levitas. Sua explicação se concentra no uso da palavra hebraica
para trabalho/ministério/serviço/ ofício, nos versículos 11, 15, 19, 22, 24, 26:
“Eu diria que ‘serviço’, no capítulo 8 de Números, significa todo tipo de trabalho
de remoção [...] Somente essa visão poderia explicar a necessidade dos rituais de
purificação que acompanham o culto de iniciação dos levitas. A realização do
serviço de guarda, tanto perto como longe do Tabernáculo, envolve contato com
o santuário. As operações de remoção, considerando que a manipulação direta
do santuário é função exclusiva dos levitas, exigiríam aspersões purificadoras
e sacrifícios”.

Ao revisar o conteúdo dos capítulos de Números em função do alvo da
mensagem, temos o seguinte: 1—2: leigos; 3—4: clero; 5— 6.21: leigos; 6.22-
27: clero; 7.1-89: leigos; 8: clero.

Números 9.1-14 traz-nos de volta aos leigos e, em especial, à questão do
adiamento da Páscoa. Em certos casos, a Páscoa pode ser observada um mês
mais tarde; ou seja, no segundo mês em vez de no primeiro (vv. 3,5,11). Quais
motivos, porém, são válidos para o adiamento da Páscoa? Duas situações são
listadas. Se alguém estiver longe de casa, em viagem, ou ficar impuro por
haver tocado um morto (v. 10), o adiamento é inevitável. Recusar-se a observar a
Páscoa por qualquer outra razão faz com que o acusado seja “extirpado” do meio
do povo. Eis, uma vez mais, aquele sinistro tom de aviso e alerta. Se você estiver
impuro e, portanto, indigno de estar na presença de Deus, adie a Páscoa. Caso
contrário, não tente se esquivar de suas responsabilidades para com Deus na
adoração.

O fornecimento de informações acerca da celebração da Páscoa, logo antes de o
povo sair do Monte Sinai em direção a Canaã. corresponde à mesma seqüência
de informações sobre a primeira Páscoa (Ex 12.1-28), passada logo antes de o
povo deixar o Egito rumo ao Monte Sinai (Ex 12.29-51). Em ambas as ocasiões,
antes que o povo de Deus possa seguir em frente, é preciso celebrar o dia em que
Deus passou por eles sem tocá-los.

A conclusão do capítulo 9 é bastante parecida com a do 6. No capítulo 6, o
trecho destaca a presença divina que abençoa. É a face de Deus que brilha. No
capítulo 9, o trecho enfatiza (vv. 1523) a presença divina que orienta. Uma
nuvem que pairava no ar indicava o local do acampamento. Ao subir, a nuvem
indicava a direção a ser seguida pelos israelitas. O uso contínuo da

palavra “nuvem” nesses versículos (a palavra aparece onze vezes nos w. 15-23)
indica que os israelitas viajavam sob a luz do dia, quando as nuvens são visíveis
no céu (ver, contudo, o v. 21b). E óbvio que teria feito mais sentido viajar
principalmente sob a cobertura da noite, tanto para se protegerem dos inimigos
como do sol escaldante do deserto. Deus, no entanto, raramente se deixa prender
pela lógica e pela praticabilidade do homem.

O trecho encerra-se fazendo referência a duas trombetas de prata (10.1-10). Tais
instrumentos deviam ser utilizados em determinadas festas, no início do ano,
para reunir a congregação ou para levantar acampamento. Os versículos 5-7
frisam que as trom-betas soavam um tipo de alarme, semelhante a uma sirene
militar. Dessa forma, as trombetas seriam mais para emergências que para
música ou adoração. Os instrumentos musicais tinham um papel quase
insignificante no ministério sacerdotaP2. O livro de Levítico, que se dedica em
grande parte à questão da adoração individual e comunitária, principalmente nos
capítulos 1—16, não faz qualquer menção a música.

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2002. Minn. University of Califórnia Publications. p. Traduzido por M. 1972. Berit Olam. University of Califórnia Publications. pp. VTn° 34. p.18. HUCA n* 46. recorrendo a meios como o duelo. 66. se perecesse. a água fervente. Se o acusado sobrevivesse era inocente. 483. Numbers. 16 “Numbers 5 and the ‘Waters of Judgment’”. 22 Veja KAUFMANN. . Berkeley: University of Califórnia Press. 1. 24. Near Eastern Studies n° 14. p. 17 “The Strange Case of the Suspected Sotah (Numbers V 11-31)”.) 15 “The Case of the Sota and a Reconsideration of Biblical Law”. p. era culpado. p. Collegeville. 67. n' 271. Vol. 1970. 1. The Encroacher and the Levite: The Term Aboda. 17. The Religion of Israel. (N. p. 1975.: Liturgical Press. 1984. do T. 18 “The Case of the Sota and a Reconsideration of Biblical Law”. do T. 1970. HUCA n' 46. Deuteronomy. Berkeley: University of Califórnia Press. 13 Leviticus. 251. 1975. BZri 16. 14 Prova judicial apelando para o juízo de Deus. p. Near Eastern Studies n° 14. 1970. Greenberg.12 Studies in Levitical Terminology. o ferro em brasa. 146. 74. Studies in Levitical Terminology. 19 “Am I My Brother’s Keeper?” IntrL 24. (N. Y.) 21 “The Encroacher and the Levite: The Term ‘Aboda”. 20 Texto Massorético. Vol.

11. 1 11. .1: “o fogo do Senhor ardeu entre eles e consumiu os que estavam na última parte do arraial”. n° 304.Chicago: University of Chicago Press. 1960. p.

já tinham ouvido muita coisa..1.37.17 Do Sinai a Cades NÚMEROS 10. Ele compara essa frase com “essas são as gerações de.22. 13. Agora. diz Moisés a seu sogro midianita.1. 14. 21. A partida do Sinai. lembre-se de que Josué enviou espiões a Jerico. 19. As outras cinco ocorrências estão em Números: 10. pois. Houvera abundância de instruções.21 Os israelitas. 20.22. 17.12.20. Quem era então o guia de Israel: a presença divina na nuvem de fogo. a passagem demonstra a relevância atribuída pela Bíblia tanto ao esforço divino como ao esforço humano como sendo fundamentais na promoção da vontade de Deus. Sete dessas frases — “e eles partiram de.”. contudo. Até surpreende um pouco o fato de Moisés chamar seu sogro.” em Êxodo e Números. Tiago e João. foi algo singular.. Os israelitas levariam consigo lembranças que jamais esqueceriam. com especial destaque para o 31).” — encontra-se em Êxodo: 12. 15.10. era chegada a hora de levantar o acampamento e partir. regulamentos e exortações. Para um outro exemplo da mesma realidade.1. servir para revigorar o povo de Deus ao lhe permitir um conhecimento mais profundo do Senhor. Hobabe ou ambos? No caso de serem ambos. que aparece por dez vezes em Gênesis. O cenário descrito em 10.2.11—12. Devia. desde sua chegada ao Sinai. a presença de Deus claramente manifesta e todos com grandes expectativas de conquistas em mente. logo após Deus ter . para acompanhá-los ao deixarem o Sinai (vv. assim como o Monte da Transfiguração não foi o objetivo final de Pedro. tanto de Moisés como de Deus..11-36 é dramático e vibrante: bandeiras tremulando. em Josué 2. porém.1.16) Frank Cross1 faz notar a proliferação da frase “e os filhos de Israel partiram de. 22.2. O Sinai não era o destino geográfico que Deus havia preparado para seu povo.. 29-32.11—20. 16. de olhos nos servirás”.. Hobabe. “tu sabes que nós nos alojamos no deserto. Da Marcha à Lamúria (10.. porém.

No segundo. a ânsia do “populacho” por carne já era uma outra questão. não há nenhuma passagem subseqüente que destaque alguma contribuição sua. vemos uma reclamação geral acerca de “desgraças/dificuldades". Primeiro. um fogo feriu o povo (11. Miriã contestou tanto a perspicácia de Moisés na escolha de uma esposa como a credibilidade de sua relação exclusiva com Deus (12). vemos Jeová sendo honrado. uma praga se alastrou (11. O leitor é. Se. Hobabe aceitou acompanhá-los (o que não é de forma alguma assegurado pelo texto).1-3). pego de surpresa pelo choque brusco dos capítulos 11 e 12. O papel de Moisés em cada um desses incidentes é bastante interessante. mas não o sogro de Moisés. Somente as orações de intercessão de Moisés puseram fim ao castigo (11. após uma primeira recusa. o maná. O propósito imediato desses acontecimentos é contrastar o Deus que está presente em seu acampamento para abençoar (1—10) com o Deus que está presente em seu acampamento para julgar grupos ou indivíduos que tentem destruir a harmonia da comunidade (11— 12). No primeiro. Na terceira situação.33) e uma acusadora tornou-se leprosa (12. vemos um grotesco espetáculo de discórdias.10 ele ficou “aborrecido/descontente”.10). porém. até mesmo a morte era- . Por esse motivo. as quais recebem a devida reação do juízo de Deus. Não fez perguntas nem repreendeu ninguém.garantido a vitória de Israel em Josué 1 (“Ninguém se susterá diante de ti”). Nas passagens seguintes. Sentiu-se confuso e já não desejava qualquer responsabilidade por aquela congregação ingrata e insensível. Em vez de um clima de otimismo e bravura. O Senhor respondeu com um fogo consumidor que atingiu as extremidades do acampamento.434). A forma da palavra hebraica utilizada (o Hithpael) pode sugerir que não se trata de um evento isolado. lamúrias. Em seguida.1). insatisfeitos com um cardápio limitado a apenas um prato. depressão e confusões. mas de um padrão comportamental. Moisés entendeu as reclamações do povo e as lembranças da comida do Egito como uma acusação contra ele. Se. em 11. Moisés “orou”. então. O texto nos dá três cenas diferentes desse desastre. em 11.2. Diante da perspectiva de continuar com o ministério como estava. ele teve sucesso como intercessor. o povo clamou a Deus por refeições variadas (11.

Apalavra hebraica para o “vento” que trouxe as codornizes (v. queria que aquilo parasse (v. assim como uma vela não perde nada de sua chama ao acender outra vela2. não havia problema. que se encontravam no acampamento (v. houve um preço a ser pago. A rigidez é difícil de ser superada. Foi. Deus então derramaria sobre eles do “Espírito” que pusera em Moisés. 26). ao dizer: “Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor pusesse o seu Espírito sobre eles!” (Nm 11. contudo. as quais em pouco tempo trouxeram uma terrível praga. Deus providenciou setenta anciãos para repartir com ele o fardo da liderança. 25): rüah. Tal postura transparece nas palavras do discípulo João para Jesus: “Mestre. todavia não os eximiu do erro. . não teve uma visão tão limitada quanto a de Josué. Tudo isso se sucedeu na tenda da congregação (w. A resposta de Deus para Moisés (vv. pois então veriamos como se sentiría!”) Deus satisfez a compulsão do povo por comidas mais saborosas. E como se Moisés tivesse “Espírito” mais do que suficiente para compartilhar. adotando sua forma de pensar. mas mandou sobre eles uma doença terrível” (NVI). O alívio veio no fato de Moisés já não precisar agir sozinho. Se Moisés queria parar. 15). mas o espírito não pode ser confinado a um cômodo. uma praga se abateu sobre o povo (v. Enquanto ainda mastigavam seus deliciosos bocados. porque não te segue conosco” (Lc 9. Moisés. também uma palavra de repreensão. Ele não era indispensável. todavia.29 — NVI). mas sim a presença do Espírito divino. 28). fazendo-os profetizar (v. Números 11. Murmuração é contagioso.lhe preferível (v. (Pouquíssimos comentaristas tratam a declaração de Moisés no versículo 29 como carregada de cinismo: “Quem dera todo o povo de Deus fosse profeta e passasse pelas mesmas aflições que suporto. Apenas os dons do Espírito de Deus podiam explicar as habilidades de Moisés.15: “Deu-lhes o que pediram. ao contrário de Êxodo 16. e lho proibimos. porém. demonstra um espírito verdadeiramente universal. ou de uma catástrofe levar ao extermínio. Josué. 16-23) trouxe tanto alívio como repreensão. 31). 33). Deus aceitou. Sua própria porção do Espírito não foi reduzida pelo ocorrido. Eldade e Medade.49). mas devia antes escolher setenta pessoas da congregação. quando o rüah divino entra em ação. Como no comentário de Salmos 106. Moisés rebaixou-se ao nível de sua congregação. O Espírito também desceu sobre outros dois. 16b.4-34 mostra claramente o potencial de uma bênção levar ao êxtase. Moisés. também designa o “Espírito” que repousou sobre os setenta anciãos. vimos um que em teu nome expulsava os demônios.24). ortodoxo.

por parte de Moisés. em especial os vv. A acusação parece partir mais de Miriã que de Arão. em 11. no feminino (vemos a mesma construção em Juizes 5. Arão pediu misericórdia somente a Moisés (w.7: “Vi as tendas de Cusã em aflição. em vez de forçar a suposição de que o texto em Números 12 diz respeito a um segundo casamento de Moisés. Moisés sabia tudo sobre alguém se tornar leproso por ter feito ou dito algo desagradável a Deus.12).O terceiro incidente se encontra no capítulo 12. Ele havia se casado com uma mulher “cuxita” (12.1: “E cantou Débora e Baraque”. Se no 11 Moisés foi indiretamente provocado. porém.4-34. Números 12. em que Moisés desposa Zípora.) Robinson3 chega a chamar Arão de “fantoche de Miriã”.1-3 como em 11. as cortinas da terra de Midiã tremiam”. uma região que corresponde a Midiã. então. que voltou a interceder em oração (v.1). 11. contra Moisés?" (12. Ele adotou uma política de . pela terceira vez.1-16.7). 13).1. Miriã e Arão contra Moisés”. Tanto em 11. em Habacuque 3. Deus ouviu o povo se queixando (v. se o termo “cuxita” significar tez negra ou uma mulher etíope.1-3.21. Por outro lado. Moisés ouviu as queixas do povo (v. cujas orações aliviavam as sentenças divinas. não tivestes temor de falar contra o meu servo. cancelá-las. o que temos aqui é um ataque direto. Esse pode ter sido o motivo de Miriã ficar leprosa. sem. diz literalmente: “E ela falou. De modo curioso. A escolha de uma esposa.4-34 era Deus que estava sendo atacado. Em 11. 10) e disse isso a Deus. pois 12. em 12. Isso concordaria perfeitamente com Êxodo 2. 1) (e falou sobre isso com Moisés?). Moisés estava sendo atacado.8) Cross4 comenta que. Voltamos. ao Moisés de 11. apesar de Arão também ser implicado quando Deus disse: “por que. pois. foi o primeiro alvo de insinuações. como em geral vemos na Bíblia. Não há expressão alguma de protesto contra Miriã ou Arão. não do plural. no hebraico. Ele passara por isso ao tentar se esquivar. 6.1 pode estar apenas dizendo que a esposa de Moisés pertencia a uma tribo de Cusã. de ir obedientemente ao Egito (Ex 4.1-9. O verbo encontra-se na terceira pessoa do singular.1-3. a história faz com que “a pele branqueada de Miriã seja um castigo em especial adequado por ela ter reprovado a esposa cuxita”. a midianita.

No restante da Bíblia. 18. e apenas para morrer (20. Por sua vez. Com demasiada freqüência. A chave da bem-sucedida liderança de Moisés pode ser aplicada a todos os servos de Deus que exerceram lideranças: ele tanto possuía um ministério liberalmente partilhado com outras pessoas. mas também em seu caráter: ele era muito “manso” (v. Não levantaram dúvidas apenas em relação à singularíssima esposa. 16.1b). Moisés e Arão parecem se dar muito bem ao longo do restante do livro de Números (13. E somente com Moisés que Deus fala face a face.33. Embora as Escrituras ensinem o sacerdócio de todos os crentes. 15. como um ministério para o qual Deus o separou e capacitou de forma especial.1. Essa é a única vez em que esta palavra aparece no singular na Bíblia Hebraica.36-40. 6-8). o texto relata um ministério que Moisés compartilhou com outras pessoas. os . enfoca a singularidade do seu ministério (vv.2) Seria ele o único canal de revelação? Cabia a ele o monopólio das declarações divinas? Moisés era o vigário de Deus na terra. como observa Ackerman5. Trata-se de um recurso divino cujo monopólio não pertence a Moisés.1—10. No 11. visto que Deus derramou do mesmo Espírito de Moisés sobre setenta anciãos. Aliás.1-11. por exemplo.1- 7. Isso faz com que Deus passe da bênção para o juízo.6. O capítulo 11 de Números mostra um aspecto de Moisés diferente do ressaltado no capítulo 12.10). esses relatos e aqueles que o sucedem perpetuam o tema de 1. Hoje em dia. 3). por sua vez. Ele não é especial apenas em relação ao ministério.26. vimos estudos críticos preocupados em discernir duas histórias distintas tanto no capítulo 11 (as codornas e os anciãos) como no 12 (a esposa de Moisés e o relacionamento dele com Deus). vemos tais histórias combinadas de forma não muito ordenada.26.41-50.16-22. mas também em relação ao relacionamento especial que tinha com Deus: “Porventura. O caráter sagrado da comunidade é contestado quando sua estrutura é ferida por conflitos e implicâncias.11: a necessidade absoluta de santidade no meio do povo de Deus. O capítulo 12.5. um tipo de figura papal? A resposta de Deus é simples: sim (vv. 19. 14.11.8. Miriã só volta a aparecer uma vez em Números. 17. 6-8). 20. Como já disse Brevard Childs6. falou o Senhor somente por Moisés?” (12. Veja. ela aparece no plural e se refere aos “aflitos” que clamam a Deus.3. após o capítulo 12. não parecem ensinar que todos os crentes são profetas.silêncio frente a seus acusadores.2.2.

Tem-se o relato original. e aborda sua forma final. o povo teve de realizar todo o trabalho de pesquisa e investigação. cerca de 65 quilômetros ao sul da Berseba de Abraão) a Canaã. que investiga a pré-história do texto. uma comida e um líder. indo até o norte de Canaã (13. os espiões examinam apenas a região sul do Neguebe e a área de Hebrom (13.30 [J/E. por Moisés ao não aceitar sua função. . Subseqüente-mente.1—14. poupando todo o tempo e o embaraço envolvidos nessa aventura. com sua origem rastreada até J e E. e por Miriã e Arão ao criticarem Moisés. Por fim. Pode-se imaginar que Deus bem podia ter dado as informações sobre Canaã diretamente.21 [P])? Foi apenas Calebe que se opôs a uma posição pessimista (13. Os críticos atuais concordam de maneira unânime que esses dois capítulos são um entrelaçamento de duas histórias. Dessa forma. Devemos notar que o plano original de Deus era: “E falou o Senhor a Moisés.4]. à entrada de Hamate”. que vai além de uma abordagem genética das Escrituras. Em estudos assim.15) Esses dois capítulos discutem o envio de espiões a partir de Cades ou Cades- Barnéia (na fronteira sul de Canaã [Nm 34. Em cada narrativa vemos um plano principal: Deus está dando a Israel a Terra Prometida de Canaã. Então. Digno de aplausos é o profundo trabalho de David Jobling7. o pesquisador que dá especial destaque à história das tradições.24 [J/E]). O critério que leva à suposição da heterogeneidade do texto é a presença de repetições claras que se excluem mutuamente. Falam também sobre os relatos trazidos de volta e suas repercussões.30 [J/E]). há uma reação de Deus com o propósito de restaurar a união. ou foi Calebe e Josué (14.22 [J/E]).estudos de George Coats. ou percorrem toda a terra de Canaã “até Reobe. ou Calebe e Josué (14. a semelhança temática entre os dois capítulos se torna evidente.6 [P])? Apenas Calebe ha- veria de entrar na Terra Prometida (14. a história foi reformulada e suplementada por uma outra narrativa — essa com origem em P. A vontade de Deus é que haja um povo. os quais são grandemente influenciados por Martin Noth. Devemos Subir ou não? (13. vemos um plano contrário. e os instigadores são punidos. instigado pelas pessoas que se opõem a marchar. Mesmo assim. dizendo: Envia homens que espiem a terra de Canaã”. a fim de determinar a conveniência em atacá-la. pela multidão que protesta contra a comida.

de examinarmos essa questão.1-7a P 13.39-45 J/E É discutível. eles invariavelmente erram. a todo momento. contudo. Ainda assim.26-38 P 13. essas críticas podem parecer tão convincentes que são aceitas como inteiramente verdadeiras. Lewis comenta sobre os críticos que analisam seus livros. Lewis sobre todo o campo da crítica bíblica. E por essa mesma razão. Ele diz que. que fala sobre como um antigo livro foi escrito. são confrontados com costumes.7b-20 J/E 13. S.4 J/E 14. vale a pena relembrar a advertência de C. em todas as tentativas de responderem a questões sobre o porquê de ele ter escrito algo.22-24 J/E 14.1-3 P 14. Antes. Marcos [o evangelista] . áreas não tratadas ou explicadas de modo direto pelo autor. Tratando de maneira específica da questão da “reconstituição”.exãe& Cristãs)9. estruturas literárias e premissas básicas que erudição alguma poderia capacitar qualquer homem vivo a conhecer com a mesma intimidade. Lewis diz10: A excelência em julgamento e empenho que se precisaria atribuir aos críticos da Bíblia teria de ser quase super-humana. ou seja.5-10 P 13. formações religiosas. considerando que.27-31 J/E 14. para um leitor desinformado.21 P 14. que as repetições sejam de fato contraditórias. porém. lembre-se. expressões idiomáticas. Em Chrislian Beflections(Reí \.11-25 J/E 13.ou uma reformulação de J/E?])? A reconstituição dos críticos (com mínimas variações) é aproximadamente a seguinte8: 13. suas influências ou o propósito de suas palavras. os críticos da Bíblia jamais podem ser considerados como absolutamente errados. segurança e instintividade que um crítico pode conhecer minha obra.25-26 P 14. características raciais e sociais.

ou seja. são os espias que se demonstram pessimistas. Que significaria “Neguebe” para espiões hebreus que só haviam conhecido dois lugares na vida. e a de Josué e Calebe no segundo é compreensível.] exceto Calebe. Quando eles encontrarem Pedro. filho de Jefoné. não seria de modo tão fácil aceita como um testemunho independente”. O passo seguinte seria isolar as duas histórias (como fizemos acima. caso sejam de fato isso. Isso foi o mais longe a que os críticos tradicionais chegaram. Uma manifestaçã..30 — NVI)? Até que ponto devemos insistir em “nenhum de vocês [. A salvação de Calebe é comparada à perdição dos espiões incrédulos (14. As repetições. filho de Num”? Será que Moisés e Arão também foram condenados por esse incidente? Certamente que não. trataria a seguinte passagem: “Nenhum de vocês entrará na terra que. aquele espírito de morbidez já se havia apossado de toda a congregação.24). Existiram outras explicações de igual modo viáveis? E pouco provável que os doze espiões viajassem juntos. exceto Calebe. parece possível que um segundo relato tenha sido acrescentado ao mais antigo. Operações clandestinas requerem separação. Não devíamos. A salvação de Calebe e Josué é nitidamente contrastada à da “má congregação” (14. o Egito e parte da península do Sinai? Será que “Neguebe” não dizia respeito a Canaã. então.está morto. seguindo o consenso existente).27. comenta: “A posição de Calebe seria certamente mais eficaz. A lógica nos força a perguntar se Números 13—14 realmente possui contradições. A. por exemplo. no 14.o de Josué. acerca do capítulo 13. No capítulo 13. Vertentes mais recentes têm tentado levantar hipóteses quanto às implicações desse processo editorial (ver. definindo o todo pela parte? Termos a reação de Calebe no primeiro dia. por ter uma relação mais íntima com Moisés. haverá questões mais urgentes a serem discutidas. poderiam denunciar tal estrutura.. No caso de Números 13—14.30). tentar extrair dessas “contradições” tudo o que é possível ou está implícito? De que. McEvenue11). e Josué. com mão levantada. e Josué. jurei dar-lhes para sua habitação. MacRae12. filho de Jefoné. portanto. filho de Num” (14. . mas.

23. 2). 28- 30). mas seus ocupantes são ainda maiores (vv. Deus impõe punição imediata (v. Fretheim13 destaca que o povo. os israelitas estavam empatados: uma vitória antes do Sinai (Ex 17. mas não seus iguais (vv. 2) e conseguem o que desejam (v. Deus ameaça destruir esse povo (vv. O fruto da terra é enorme (vv.37). 3) e seu desejo é concedido: “Nenhum de vocês entrará na terra” (v. de forma que Deus concedeu o resultado desejado ou. O povo fala sobre voltar ao Egito (14.1-5) ou lutar para conquistar Canaã (vv.23. Nestes. Deus pergunta: “Até quando sofrerei esta má congregação. exclusão da Terra Prometida (14. T. De forma semelhante. por pragas e pela lepra. que murmura contra mim?” (v. O povo não deseja ser levado por Deus a “essa terra” (v. Moisés lhe implora para não fazê-lo (vv. o pecado da incredulidade trouxe destruição sobre o acampamento de Deus: morte pelo fogo. mas o de Calebe é positivo (13. os dois capítulos estão repletos de contrastes.27b).2533). 6-9).32. o resultado do pecado da incredulidade nesses dois capítulos é desastroso: morte imediata (14.24. Os incrédulos quiseram apedrejar Moisés. já nos acostumamos àquelas situações que requerem a pena de morte por uma violação das normas de . Arão. 42). Josué tenta convencer o povo de que “o Senhor é conosco” (v.34). 19). 10). 37) e promete punição após algum tempo (vv.8-14) e uma derrota após o Sinai. O capítulo 13 se concentra na reação negativa dos espias.31. 30 - NVI).25) levaram a quarenta anos de juízo (14. 11. 13-19). E. ironicamente. Eles dizem que querem morrer lá mesmo no deserto (v.45).28: “farei a vocês tudo o que pediram” (NVI). quanto a serem homogêneos ou compostos? Em primeiro lugar. 29. mas também deverão sofrer pela incredulidade de seus pais (v. conseguiu o que queria. morte prematura. enquanto o 14 enfoca a reação negativa de toda a congregação. mas eles descobrem que não é bem assim (v. Em seus embates contra os amalequitas. O relato dos espiões é derrotista e separatista. Moisés buscou perdão e absolvição para seus antagonistas (v.34).29. deveria ser óbvio que eles dão continuidade ao argumento das narrativas dos capítulos 11 e 12. 27) Calebe e Josué entrarão em Canaã. como Jeová diz em 14.22. Quarenta dias de espionagem em Canaã (13.30) e derrota no campo de batalha (14. 32).O que se pode dizer sobre esses dois capítulos em sua forma final.33). 31). Calebe e Josué (v. O narrador diz: “todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contraArão” (v. 33). Os filhos dos espiões incrédulos entrarão em Canaã (v. Nos estudos do Pentateuco que realizamos até aqui.12). Mais uma vez. 9). 28.

a importância adquirida posteriormente pela franja pode ser avaliada em duas referências de Mateus: “a orla da sua [de Jesus] veste” (9. como Noé em uma geração mais antiga. sem qualquer relação visível com o que vem antes ou depois. girando em torno de pecados inadvertidos ou motivados pela ignorância (vv.5 - NVI). Aqui. e não apenas pessoas específicas em meio a um grupo maior. Números 15 parece estar relacionado a seu contexto imediato de diversas formas. vitória contra a hostilidade. Possivelmente. 17-21): informações repetidas e complementares sobre a oferta pelo pecado. contudo. manjares e pacíficas [vv.comportamento aceitáveis. A fé desses líderes na integridade da promessa de Deus deu. são impedidos de entrar na arca e na Terra Prometida. temos toda a congregação sendo acusada de incredulidade. espremida entre relatos de suas contendas com a liderança da Igreja Católica Romana. 22-31). mas por . a Noé.. um caso de pena de morte pela violação do Sábado (especificamente por recolher lenha [vv. e. temos assassinato. desvios sexuais e contato físico ilícito com o santuário. 16—18). 37-41). no entanto. vitória sobre o sarcasmo. Assim como Noé teve certamente de suportar a opinião da maioria das pessoas em sua época.. Outras Rebeliões contra Moisés (15—18) O capítulo 15 interrompe de maneira abrupta a seqüência de Números. a colocação de franjas nas bordas das vestes (vv. a oferta das primícias (vv. serve como uma pausa no drama apresentado. Apenas uns poucos escapam incólumes. Os injuriosos e os incrédulos. 1-16]). Desprezar a localização do capítulo como uma invasão e inserção sem sentido é. injustificável. a Calebe e Josué. E uma unidade completamente dedicada a questões de adoração e encontra-se comprimida entre casos de maledicência contra Moisés (13—14. o mesmo aconteceu a Calebe e Josué. imagine uma elaborada dissertação de Lutero sobre a preparação do vinho para a eucaristia. No judaísmo. Dentre elas. Cinco questões são abordadas nesse capítulo: informações adicionais sobre os primeiros três sacrifícios detalhados em Levítico (ofertas de holocaustos.20) e “eles [os escribas e fariseus] fazem [. Para comparar. idolatria. A aplicação da justiça é dirigida a indivíduos que infringem normas da aliança. 32-36]). por outro lado.] as franjas de suas vestes bem longas” (23.

Ele será “extirpado”.22-26) como do indivíduo (vv.22). . levita da tribo dos coatitas. são raríssimas as expressões de gratidão e louvor! Toda a questão do pecado involuntário. mesmo assim.30-31. Unindo-se a dois leigos. no início do capítulo 15. e. 27-29). de sua família (12) e dos espias (13). Se uma vida em santidade é o objetivo de Deus para seu povo.que isso seria preciso e qual o efeito de tal pausa?14 Teríamos aqui uma associação de idéias? O capítulo 14 lidava com o pecado da congregação. Corá partiu para atacar Moisés (16. via a oferta pelo pecado. Para tais. não são expiatórios. e mais a duzentos e cin-qüenta proeminentes varões da congregação. O cenário descrito em 13. não completamente. também aqui. Até aqui. 16. Somente as orações intercessórias de Moisés salvam os transgressores (14. sobre aquele que “peca atrevidamente”? Para esse já não há expiação. As franjas costuradas nas vestes são uma forma de o Senhor dizer a Israel que eles devem ser santos para seu Deus. sim. Não é possível que. vemos mais críticas a Moisés. 14 e 16. 30). A essa lista. Ou os incidentes dos capítulos 13—14 são uma clara ilustração do que é dito em 15. os capítulos em torno desses trechos exibem o exato oposto desse estilo de vida. O instigador da revolta foi Corá. mas esse não era o objetivo de Deus nem sua última palavra. tanto da congregação (15.40). não há sacrifício. 22-26) provê. lemos: “Quando entrardes na terra das vossas habitações” (v. tenhamos evidências de uma estrutura de contrastes? No fim do capítulo 14. acrescenta-se então a oposição dos sacerdotes (16). Juízos. o 15 (vv. dados a Deus em gratidão e louvor. mas voluntários e espontâneos. 14 e 16 diz respeito ao segundo tipo. Israel se vê incapaz de atacar Canaã e desiste de invadi-la pelo sul (vv. não com uma santidade moralista. é nitidamente contrastada com a do pecado cometido “com a mão levantada/atrevidamen-te” (v. mas com uma santidade firmada na obediência (15. toda oposição contra ele tinha partido da congregação (11).13-19. Em Números 13. Datã e aAbirão. expiação para toda a congregação.1-16. Com o início do capítulo 16. 39-45). abordados em 15.3). 2). Os primeiros três sacrifícios das leis levíticas.

54).8-10. tenha juntado forças com dois leigos da tribo de Rúben. a fim de que não houvesse uma punição generalizada. Anrão. eram irmãos. ou seja.17). logo atrás deles.14-25. porém seria justificada ou deturpada? Em certo sentido. Ele não disse: “Ouvi agora.“Moisés tem por acaso o monopólio da santidade?”. caberia ao Senhor distinguir entre o profeta e o mentiroso. ou do grande peixe que engoliu o infiel Jonas (Jn 1. 5-7). o pai de Moisés. Números 3. Corá está absolutamente certo.12). ou dos hinos cantados por Moisés e Miriã. Corá era apenas o porta-voz de um grupo maior. Pois foi exatamente isso que aconteceu: Corá e sua parentela foram engolidos pela terra (vv. 22). continua no capítulo 16. Também é compreensível que Corá. que engoliu os bordões dos egípcios (Ex 7. teu Deus”). contudo. O motivo por trás do protesto de Corá é esclarecido em 16. ou da morte sendo tragada pela vitória de Cristo (1 Co 15.6 (“E vós me sereis [. que deviam impedir que a “ira” (qetsep) de Deus se abatesse sobre a comunidade por causa de uma conduta .6 (“Porque povo santo és ao Senhor. Logicamente. pessoas que acreditam merecer mais do que possuem.. mas também egos inflados.8). filhos de Levi” (16. Por que se contentar em ser vigário de uma paróquia quando se pode conseguir o bispado? Deus não demonstrou a mesma paciência de Moisés e quis resolver o impasse de uma vez por todas (v.10). e o pai de Corá. com o antagonismo de seu primo-irmão por parte de pai. sendo que ambos eram filhos de Coate. perguntou Corá. Todo o povo de Deus é santo. um dos três filhos de Levi. Além dessa passagem. A oposição dos irmãos de Moisés.29 nos informa que os coatitas deviam acampar ao sul do Tabernáculo e que.12). Toda cena bíblica de “engolição” ocorre em um contexto de vitória e juízo divino. 21). o confronto era de um contra muitos. podemos lembrar o cajado de Arão. Moisés teve ainda mais dificuldades em engolir os impropérios de Corá pelo fato de este ser seu primo-irmão. Como no Carmelo. Reprimindo qualquer impulso de defender-se. é irônico que os levitas. Isar. O próprio Deus dissera isso em Êxodo 19. intercederam pelo transgressor (v. um levita coatita. 31-33). Conforme o que lemos em Êxodo 6. que celebravam o fato de a terra ter tragado Faraó e suas tropas (Ex 15. mas limitada ao culpado. acampava a tribo de Rúben (Nm 2. Corá”. como Deuteronômio 7.. no capítulo 12. Não é apenas o sofrimento que aproxima as pessoas. A crítica é dura. Moisés e Arão. Moisés então disse: “Ouvi agora. Moisés se dispôs a deixar o assunto para Deus julgar (vv.] povo santo”) e em outras passagens. Como na disputa entre Elias e os profetas de Baal no monte Carmelo (1 Rs 18).

Não se vê aqui nenhuma idéia de sacerdócio para todos os crentes. para que não morram. após verem a terra engolir todos os colaboradores de Corá e a incineração de 250 homens que ofereciam incenso. Eram eles. Ainda assim.22 é a primeira ocorrência de “iralqetse/3’ em Números desde 1. 40). 13. 3. Uma autoridade havia sido estabelecida. limites foram determinados.inadequada (Nm 1. ao contrário da atitude do apóstolo Paulo. “senhor. ministérios definidos e cada atividade tinha sido regulamentada. 13b — NVI]) faz lembrar palavras que Moisés ouvira anteriormente de seu próprio povo: “Quem te tem posto a ti por maioral e juiz sobre nós?” (Ex 2. 3. 16. acabassem como alvo da ira divina em virtude da sua própria conduta: “ficarás tu irado [çetsep] contra toda a comunidade quando um só homem pecou?” (Nm 16.. que deriva do verbo sara. Datã e Abirão.3: “Eles [a tribo de Levi] [.14) A palavra hebraica sara. que não for da descendência de Arão. Números volta a enfatizar o fato de que Deus designou responsabilidades específicas para grupos específicos. que deviam estar prostrados sobre seus rostos. Já encontramos essa advertência em especial em Números 1. Uma das características da murmuração é que ela é altamente contagiosa.14).22 — NVI) Como comenta Magonet15.11). O que disseram (“E ainda quer se fazer chefe sobre nós?” [v. Moisés teria de suportá-la de novo.7).. O pecado de Corá teve dois aspectos.38. Mais uma vez. afirma: “porque não aprendi a contentar-me com o que tenho” (ver Fp 4. A seriedade dessa organização é reforçada em 18. chefe” (ver Magonet16).10. se chegue para acender incenso perante o Senhor” (v. A destruição de Corá e seus comparsas ficou “por memorial para os filhos de Israel. e não Moisés e Arão. 4.13. hesitassem em continuar com sua murmuração. não é fácil interromper as . reclamaram do estilo de liderança de Moisés e consideraram-no ineficiente (vv. nem vós [Arão e os sacerdotes]” (conforme 18. nem do altar. Consistiu numa atitude desafiadora e na realização de tarefas que não lhe cabiam. líderes da facção política da revolta. que pensava ser bem superior aos outros. A reclamação de Datã e Abirão contra Moisés é diferente da de Corá. Este via Moisés como alguém arrogante.20. O problema surge quando um grupo. príncipe.51.53).53. “tornar-se príncipe/assenhorar-se”.14 emprega o cognato sar. Êxodo 2.] não se aproximarão dos utensílios do santuário. nem eles. aparece apenas em Números 16. para que nenhum estranho. Após já tê-la enfrentado de perto. Seria de se esperar que os sobreviventes.

por pessoas que foram ainda assim exterminadas. para o bem dessa pessoa. 46- 48 [Hebraico: 17. da morte de Corá. a reação do povo diante da terra se abrindo. Arão. Moisés imita aqui a sua esposa. e. em diversos aspectos. minha linha de argumento deve muito a Jacob Milgrom18. pasmas e aterrorizadas. o sacerdote. usou um ritual estabelecido por Deus para salvar seu povo. então.1-35 = Hebraico: 16. Com o caso do cajado de Arão que floresceu. no outro. como a comunidade poderia verdadeiramente adorar se a casa de Deus fosse enxergada como uma armadilha que atrai desatentos para a morte certa? No que se segue. Moisés. Sentiam-se tão ansiosas de se aproximar do santuário como Daniel de entrar na cova dos leões.reclamações de uma turba quando elas assumem proporções de uma avalanche. a aceitação da oferta de incenso (16. da praga e da confirmação divina sobre a vida de Arão? As pessoas estavam chocadas.12]).28])? Acredito que o propósito do capítulo 18 seja demonstrar a resposta de Deus frente a esse surto de medo e desapontamento. cuja reação rápida o salvou da ira divina (Ex 4. 41 [em hebraico. a aceitação da vara (17. Há uma enorme diferença entre oferecer incenso em nome de outra pessoa. Português: 16. Arão foi o instrumento de libertação. Afinal de contas. o profeta. Por incrível que pareça. a intercessão de Moisés salva-os agora do completo caos (vv.11-13]).6]). .36-50 = Hebraico: 17. Moisés foi acusado por algo que Deus tinha feito: “Vós matastes o povo do Senhor” (v.16-28] está.25). Qual foi. 20]) define aquele a quem Deus escolheu como sacerdote. (A divisão dos capítulos 16 e 17 na Bíblia Hebraica é diferente das traduções em português. A palavra-chave é “aceitar”. Português: 16. Em um caso. O tema da eleição divina ecoa tanto no capítulo 16 como no 17.1-35.7) define aquele a quem Deus escolheu como santo.1-15. intercedeu em oração para salvar seu povo. Moisés voltou a apaziguar a ira de Deus. Mesmo após ter sido vítima de difamação. tenta-se consolidar sua posição de preeminência. Português: 17.5 [MT v. 27. A decisão coube a Deus e sua clara resposta devia ter sufocado novas murmurações. 47 [Hebraico: MT17 17. A oferta de incenso de Arão (v.12.16-28. Por que procurariam apressar a própria morte (17. O capítulo 17 [MT 17. 17. feita para a expiação dos renegados. e oferecer incenso a fim de se promover e alardear seus próprios méritos.13 [MT vv. é claramente diferente da oferta feita no capítulo 16.1-13 = Hebraico: 17. seguindo as instruções de Moisés. Dessa vez. relacionado às informações que o precedem.) Assim como salvou o povo anteriormente.

20-32).5: “para que não haja outra vez furor sobre os filhos de Israel”. Deus comunica a maior parte dessas informações diretamente aArão. Lemos que. Ou será que “eles [os levitas] levarão sobre si a sua [dos israelitas] iniqüidade”? Ou seja. levariam a culpa pelos pecados dos leigos. Mais adiante lemos que “os levitas administrarão o ministério da tenda da congregação e eles levarão sobre sba sua iniqüidade” (18.. aos sacerdotes. O propósito disso é declarado em 18. há uma tentativa de limitar o impacto destrutivo ao clero. está dizendo que os levitas. essa importantíssima doutrina seria abrandada para o bem do povo. Deus só revela suas instruções diretamente aArão em Números 18. vicariamente.8. “e eles levarão sobre si a sua iniqüidade”. Será que “eles [os levitas] levarão sobre si a sua [própria] iniqüidade”? E possível. declara: Embora a doutrina da responsabilidade coletiva seja um pilar da teologia sacerdotal (P) para todos os pecados cometidos contra Deus. no que diz respeito ao santuário. Em geral. 25).1. Milgrom19. Eis aqui a magnitude do consolo oferecido aos apavorados israelitas: daquele momento em diante. 1-19) e levitas (vv. após defender a terceira interpretação. é dito: “levareis sobre vós a iniqüidade do santuário [. Essa mudança tem provavelmente uma explicação prática. O assunto dos versículos 25-32 é o dízimo que Arão e seus colegas sacerdotes recebem dos levitas.1-7 (o mesmo vale para os vv. Fora Levítico 10. Números 18. uma parte leva a culpa da outra parte. 21-23) é aliviar a preocupação do povo. Trata-se de um terceiro sem interesses diretos na questão. é problemática. Deus fala com Moisés. com especial destaque para os versículos 21-23. A interpretação da frase-chave em 18. ou com Moisés e Arão ao mesmo tempo. O capítulo 18 fala sobre privilégios e deveres de sacerdotes (vv.21) . 8 e 20.O propósito de 18. Se for esse o caso. que diz respeito a questões internas do clero. que então fala aArão ou ao povo. de forma que pudessem adorar no santuário sem qualquer temor. ao falar sobre o dízimo dos dízimos que os levitas deveriam dar aos sacerdotes.23.. para Moisés.23). Quem devemos identificar por “eles” e “sua”? Será que “eles [os israelitas] levarão sobre si a sua [própria] iniqüidade”? Dificilmente.1).1—20. Deus revela esse assunto. Os Dois Tipos de Impureza (19. Somente mais para o fim do capítulo (v. Deus fala com e através de Moisés.] a iniqüidade do vosso sacerdócio” (18. pois ele não se beneficiaria desse dízimo.

49 [MT 17. no capítulo 20 (vv. que fala sobre purificação da contaminação oriunda da proximidade ou do contato físico com um morto. Os capítulos 16—18 voltam a falar sobre a ira divina no presente.23). com a situação imediata. destacando o poder de Deus para limpar as impurezas do povo.22) ou por erros no recolhimento do dízimo (18. para o momento em que Israel estivesse estabelecida na Palestina20. e o capítulo 15 traz regras para o culto futuro (15.15.21). As vítimas incluem Corá e seus colegas insurgentes (16. mas não vemos essa orientação ser dada em Números 19 para a mesma situação.12. a qual é sacrificada fora do acampamento.3. Arão se coloca entre os mortos e os vivos (16.27. Acontecimentos do presente.13 [MT 17. Talvez a “discrepância” se deva ao fato de Números 5 lidar com o acampamento no deserto. o 19 dispõe rituais para o futuro. é importante observarmos que esse capítulo. De certa forma. A temática da morte sobressai nos capítulos anteriores (16—18). Por quê? Não seria o caso de recorrermos à teoria da diversidade de fontes? Não necessariamente.O capítulo 19 enfoca um tipo de impureza: a impureza ritual que é contraída ao se tocar (vv. os capítulos 11—14 falam sobre o juízo divino no presente.28]) e a possibilidade de morrer por causa de uma invasão (18. 1. enfatizando que a graça de Deus cobre o pecado do homem.16) ou se aproximar (v. 11-13.35). O ritual envolve o espargimento de sangue de uma novilha ou uma vaca. Números 5. Vemos o medo da morte (17.700 mortos pela praga (16. em geral catastróficos. teremos então um padrão perceptível para essa parte de Números.13]). são sucedidos por um capítulo a respeito do futuro. As cinzas da novilha/vaca incinerada são misturadas com água e espargidas sobre a pessoa impura no terceiro e no sétimo dias após a contaminação (19.7. Essa não é a primeira vez que ouvimos falar.' além dos 14. sobre contaminação através de contato com um cadáver. em Números. nos capítulos 16—17. Uma pessoa contaminada pelo contato com um cadáver tem a possibilidade de ser purificada. Se esse for o caso. 14) de algo morto. Assim.48 [MT 17. para o qual Deus providenciou meios de redenção. e as mortes de Miriã e Arão.22-29). Datã. ou seja. Logicamente. enquanto Números 19 está voltado apenas para o futuro: “Isto lhes será por estatuto perpétuo” (19.17-19).3 diz explicitamente que “todos os imundos por causa de contato com algum morto” devem ser expulsos do acampamento.2.21.32). a impureza causada pelo contato com um cadáver é semelhante a .14]). Abirão e muitos outros. está entre o registro das mortes de Corá.

29. Ele é impedido de entrar na Terra Prometida. Dessa forma. Quando o povo tinha problemas.2].outras impurezas adquiridas. embora não seja assim chamada. A acusação em 20. Tal omissão parece classificar essa impureza como não tão grave. O segundo tipo de impureza. alguém com emissões corporais anormais [Lv 15. pode ser comparada às outras impurezas que exigem uma semana de purificação (a mãe. porém. portanto não entrariam na Tbrra Prometida. portanto não entraram na Terra Prometida. Poderiamos parafrasear esse versículo da seguinte forma: “Somente a ti escolhi como líder dentre o povo. portanto. por exemplo. com o Hiphil de ’ãman seguido pela preposição be.) não foi repetido por seus descendentes. de que qualquer pessoa envolvida em tais circunstâncias é impura por sete dias.15. ao contrário do que acontece em Números 11. logo após dar à luz [Lv 12.1-7). Curiosamente. ao final do período de purificação. todas as vossas injustiças visitarei sobre vós” (Am 3. Em todas essas situações.2). pois. portanto. no mínimo. diz respeito à reclamação quanto à falta de água (conforme Ex 17. O texto não esclarece a exata natureza do pecado de Moisés e Arão. e isso custaria caro. mas também não a aborda de forma paranóica e obcecada. A instrução de 19. tal qual em Nm 20.28]). a pessoa que possui uma doença infecciosa na pele [Lv 14. Números 19 evita extremos: não trata a morte de forma negligente. mas sim Moisés.6-8. Não é isso o que temos aqui. teus pecados serão punidos”.30). O termo hebraico para “crer” é o mesmo com que Deus acusa seu povo em 14. como Deus disse: “não me crestes a mim. uma oferta pelo pecado/purificação (Lv 12. nem por Arão e Moisés. muito mais se lhe pedirá”21. 12). mas quem oraria por Moisés? Tinha ele um mediador a quem recorrer? Essa história. 22-29). para me santificar diante dos filhos de Israel” (v.8].6.19.12 diz simplesmente: “Porquanto não me crestes a mim”. 15. Moisés intercedia por eles.14.1) e Arão (vv. a pessoa deve apresentar.11. O que Abraão fez (Gn 15. 14.11: “E até quando me não crerão por todos os sinais que fiz no meio deles?” A primeira geração não havia confiado/crido em Jeová. Poder-se-ia aplicar a Moisés a seguinte declaração de Deus: “De todas as famílias da terra a vós somente conheci. Moisés e Arão não creram/confiaram em Jeová.12. O imbróglio ocorre entre os registros das mortes de Miriã (Nm 20. o povo não sofre conseqüência alguma. ilustra o princípio do “ao que muito se lhe confiou. O texto não .13.

308-317. vem a história de como Israel. pp. M. ele bateu duas? Ele falou de forma muito dura com o povo (“Ouvi agora. 10:35-36”. G. rebeldes”) é a mesma que Jeová lança contra Arão e Moisés (“porquanto rebeldes fostes à minha palavra” [v. W. tentou conseguir a permissão do rei de Edom para atravessar seu território (20. 348-355. 1979. Cambridge. Ele golpeou a rocha em vez de falar com ela? Em vez de bater uma vez na rocha. 1974. 47-80. “Why Is Miriam Also among the Prophets? (And Is Zipporah among the Priests?)”.: Harvard University Press. “The Inverted ‘Nuns’ at Numbers 10:35-36 and the Book of Eldad and Medad”. Introduction to the Old Testament as Scripture. COATS. . Moisés continuou a liderar seu povo apesar das más notícias que recebera. B. JBL n° 95. LEIMAN. CROSS. 2002. Filadélfia: Westminster. rebeldes”)? Se essa última sugestão for o motivo — o que é bastante improvável — a acusação lançada por Moisés contra seu povo (“Ouvi agora. 135-152. JBL n° 93. CBQ n° 34. JBL n° 121. “Wilderness Itinerary”. Quem são então os maiores rebeldes: a congregação ou aqueles separados por Deus para a liderança da congregação? Logo após a seção que fala sobre Moisés ter sido rejeitado por Deus. pp. S. Z.11-36 CHILDS. quando lhe foi negada a oportunidade de liderar o povo até a terra de Canaã. S. Seu ministério continuou até que Deus dissesse: “até aqui virás e não mais adiante”.14-21). 122-124. Mass. B. 24b]). Ele não é imediatamente substituído nem passa a se esquivar do ministério. 1973. “More on the Inverted Nuns of Num. pp. 1972. F. 1976. pp. Números 10. ainda sob a direção de Moisés. Números 11—12 ACKERMAN. LEVINE. Canaanite Myth and Hebrew Epic: Essays in the History of the Religion of Israel. pp.entra em detalhes quanto àquilo que evidenciou a falta de confiança de Moisés.

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. University of Califórnia Publications. 1971. Berkeley: University of Califórnia Press.14 CAINE. 16 Ibid. (N. “The Encroacher and the Levite: The Term ‘Aboda’”. 32. “Numbers. 1250. 10. 1. J.48b. 1970. do T. Studies in Levitical Terminology. 7. 15 “The Korah Rebellion”. 20 MILGROM. p. EncJudxf 12. 21 Lc 12. 1982. JBL n° 97. Book of’. p. p. pp. JSOTv? 24.. “Studies in the Temple Scroll”. 19 Ibid. do T. pp. I. 18-35. Near Eastern Studies n° 14. (N. p. J. Vol. 516. 1978.) 18 MILGROM. 17 Texto Massorético.) .33.

O primeiro é uma batalha com alguns cananeus na região do Neguebe. Eleazar.35) O capítulo 21 nos apresenta três conflitos.38. Alguns dos Primeiros Conflitos e Vitórias (20. que em tudo cooperou sem nada questionar. Em conluio com Moisés. Abraão devia “tomar” Isaque. Ambos estavam preparados para dizer adeus a um parente próximo. subir com eles o monte Hor e transferir as vestes de sumo sacerdote de Arão para Eleazar. Arão não “creu” em Deus (20. com palavras de advertência e exortações. porém é Moisés que recebe a informação da morte iminente deArão.50.18 De Cades a Moabe NÚMEROS 20. Moisés já havia perdido um parente. simboliza a dinâmica desse quadragésimo ano de jornada no deserto: a transição da geração do êxodo para seus filhos. Os israelitas são salvos da dominação ao fazer . Ele é orientado a “tomar” Arão e seu filho.1). Pode de certa forma surpreender.13 Essa unidade começa com a narrativa da morte deArão (20. corresponde a Moisés. que sem questionar cooperou integralmente. contudo. Não vemos. mas “rebelou-se” contra sua ordem (20.24) — ambos os verbos estão na segunda pessoa do plural. Moisés estava plenamente consciente das razões para a morte de Arão. Acena lembra Abraão e Isaque em Berseba (Gn 22). um evento que volta a ser lembrado em 33. que nada sabia sobre o propósito da missão. Abraão. Essa transferência da liderança sacerdotal de pai para filho.12).39 e Deutero-nômio 32. da primeira para a segunda geração.22—21. nem se aproveitou ele da oportunidade para pregar.2229). no masculino. A história mais uma vez reflete um tema que predomina em Números: o pecado não pode ser negligenciado. sua irmã Miriã (20.22—36. e levá-lo ao monte Moriá. indicação alguma de que Moisés se sentisse obrigado a expor de modo público tais razões.

rei dos amorreus (21. Tais verbos. não a geração condenada de Êxodo.8). Tozer. E fácil verificar que o Novo Testamento estabelece um paralelo com esse evento: “E. enfrentam mais batalhas no caminho para Moabe. como disse A. providenciou socorro para o problema. e de Ogue. os israelitas reclamam da falta de comida e água (21. O termo hebraico aqui utilizado para “serpente” é o mesmo de Gênesis 3. Além disso. contudo. a pessoa devia olhar para ela. A fé. o povo confessa: “Havemos pecado. um tema que logo viria a ocupar todo o capítulo 30.24-37 para uma outra narrativa]). é a segunda geração que leva o crédito por essa vitória. Mais uma vez. que é também utilizada na descrição das criaturas angelicais que estavam no templo na visão de Isaías (Is 6.15). Salta aos olhos a ausência de Moisés nessa batalha.7).“um voto” ao Senhor (21. são sinônimos.33-35 [ver Deuteronômio 3. Diante da possibilidade de morte por picada de cobra. A presença dessa serpente de bronze não garante proteção contra os ataques. Deus manda “serpentes arden-tes/venenosas”.1-11 para uma outra narrativa]). para que todo aquele que nele crê não pereça. Deus não manda água ou comida.2132 [ver Deuteronômio 2. mas Deus não retira as serpentes. é diferente do problema.12 acerca de sua exclusão de Canaã. embora semelhante. Ao ser picada.4-9). é “a contemplação de uma alma diante de um Deus . A resposta de Deus é interessante.2). assim importa que o Filho do Homem seja levantado.14. O segundo conflito traz alguns desdobramentos interessantes. Os israelitas dizem: “ora ao Senhor que tire de nós estas serpentes” (21. porém serve como tratamento. W. rei de Basã (21. por parte de Seom. aqui. Faraó disse: “Rogai ao Senhor que tire as rãs” (Êx 8. e pedem para que a praga seja retirada”. Logicamente. As expressões utilizadas lembram uma situação semelhante em Êxodo. Ele providencia uma cura: uma serpente ardente a ser erguida numa vara. como Moisés levantou a serpente no deserto. o verbo “olhar” é substituído por “crer”. como também (ainda!) não baniu todo o pecado. Ele. Deus não se livrou das serpentes. mas tenha a vida eterna” (Jo 3. Moisés ora. Dessa vez. No Novo Testamento. um socorro que. Israel é obrigada a lutar não apenas entrar na Terra Prometida. em um claro sinal de que sua importância entrou em decadência após as palavras de Deus em 20. Antes que Moisés possa dizer ou fazer qualquer coisa. Já a palavra hebraica para “ardentes/vene-nosas” é sãrãp.2). mas também para chegar até ela.

mas a importância desse trecho se deve a duas seções poéticas encontradas na unidade. Em vez de pedir “tire de nós estas serpentes”. na maioria das vezes. em vez de derrotá-los. chamaremos. Em vez de fontes hipotéticas. O relato da primeira batalha se estende por doze versículos. A segunda seção. 14. O povo de Deus não tinha interesse algum no território de Seom. o rei Ezequias fez essa mesma serpente de bronze em pedaços. Em vez de insistir no assunto. como Moisés fizera com os edomitas (Nm 20. enquanto a segunda utiliza apenas três. Lc 9. ou ao menos seguir orando: “tire de nós as atitudes que não glorificam e honram seu nome”. sendo que a narrativa da batalha contra Seom é bem mais rica em detalhes. passar para o controle de Israel.21. Uma é a citação de um livro perdido identificado como “Livro das Guerras do Senhor” (vv. 17. Nesse incidente em especial. Muito tempo depois. A jornada em si não traz nada de especial. Os samaritanos agiram tal qual Seom. por conveniência.salvador’1. porém. Seus olhos estavam postos em outra coisa: uma terra melhor. Bastaria um simples “sim” para que todo o problema fosse evitado. Quis passar por uma aldeia samaritana. temos o surgimento da idolatria em sua forma mais perniciosa. Jesus repreendeu aqueles que desejavam exatamente isto (Lc 9. Séculos mais tarde. de “Cântico do Poço” (vv. porém isso lhe foi negado. com especial destaque para Hesbom. talvez o povo tenha se equivocado na oração. Jesus tomou um caminho alternativo. eles de-veriam ter orado. 33-35).51-56). tudo o que os israelitas desejavam era atravessar (não lembra a temática de O Peregrinol'1') e alcançar um melhor destino.18).4). mas Seom recusou-se a permitir. Seom vê suas cidades. Com essa finalidade. mas não veneradas. Eles querem alívio. não transformação. “da qual o artífice e construtor é Deus” (Hb 11. . rei dos amorreus (vv.10-20. 21-32).56). Jesus se viu em uma situação semelhante. rei de Basã (vv. teimando em dizer “não". Em Números 21. temos aqui a evidência de uma fonte real por trás do Pentateuco. O restante do capítulo descreve o confronto entre Israel e Seom. As dádivas de Deus para nossa cura devem ser utilizadas. mas. melhor que um confronto. pois ela passara a ser objeto de idolatria (2 Rs 18. e Ogue. Dar a volta é. temos o roteiro do restante da jornada de Israel no deserto.15).10). Quando as bênçãos de Deus passam a ser adoradas.

ele baseia suas conclusões nas diferenças entre os relatos de Números e Deuteronômio. Ao contrário do que vemos em Números. ao menos em parte. de onde saíram os relatos de Deuteronômio 2 e Juizes 11 (J.19-26. Uma diferença relevante é “Então.21) versus “Então.21-31 é uma adaptação posterior (John Van Seters). um versículo-chave. Existem dois outros relatos bíblicos da batalha contra Seom: Deuteronômio 2. 27-30). a narrativa como um todo. E uma descrição mais detalhada da vitória de Seom sobre Moabe ou descreve a vitória de Israel sobre Seom? De qualquer forma. afirma que ganhos podem se tornar perdas e novas fronteiras podem cair. Os israelitas não tiveram escolha. Seom.] a Seom” (Dt2. Efetivamente existem diferenças. os estudiosos chegam a uma de duas possíveis conclusões: (1) Números é o relato original. mas também vê todo o episódio como sendo uma ficção! Em parte. Roland de Vaux). havia agora entregue suas conquistas. e em especial o poema. mandei [Moisés] mensageiros [. 29). contudo..26).21-31 e não assume papel algum na narrativa.23). o que fizeram muito bem. Quem mandou mensageiros a Seom. observamos que Moisés não é de modo algum mencionado em Números 21. Moisés ou o povo? Além disso. Teimosia não passa de estupidez. cujo conteúdo. Quem é. Não há dúvida de que o poema apresenta grandes dificuldades de tradução. O acontecimento é encerrado justificado pela recitação de um poema (vv. Seria possível traduzir a palavra hebraica rriõshelim por “insultador”? Além disso. a NVI traz “E por isso que os poetas dizem”. a TB3 traz “Pelo que dizem os recitadores de poemas”.. é confuso. fala sobre Seom ter anteriormente capturado Hesbom dos moabitas (v. a não ser reagir militarmente. por exemplo. o relato de Deutero-nômio 2 está . 27)? AARC traz “os que falam em provérbios”. R.24-37 e Juizes 11. Israel mandou mensageiros a Seom” (Nm 21. que recita esse poema (v. (2) o relato de Deuteronômio é o mais antigo dos três e Números 21. Van Seters não apenas considera o relato de Números posterior ao Deuteronômio.Possivelmente. Barlett. Israel teria feito o mesmo com os amorreus se Seom não tivesse se apressado a pôr o exército em ação (21. Ao tentar relacionar as três narrativas. o versículo 30. como indicam as divergências entre versões mais antigas e mais modernas da Bíblia.

no-lo deu diante de nós” (v. Zipor. ser freqüen-temente citado. teria apenas um papel secundário na conquista da terra (ver Coatd’). esposo de Zípora e líder de Israel? “Zipor” significa “pássaro”.12). que estava morto. Não fica claro o porquê de o pai de Balaque.repleto de referências a atos de Deus. “porquanto o Senhor. enquanto os . teu Deus. 31). começarei a pôr um terror e um temor de ti diante dos povos” (v 25). o que torna esses episódios contestáveis em seu aspecto histórico”.12. no qual Moisés é informado por Deus de que sua atitude fora inaceitável. seculariza o que relata”. soberano de Moabe. haver outra razão para Números dar tão pouco destaque às atuações de Deus e Moisés. mas não seria possível que o objetivo fosse comparar Balaque. 33). ou que algo sem um caráter ideológico possui valor histórico? Não compreendo a lógica dessa argumentação. “E o Senhor me disse: ‘Eis aqui. logo se trata do filho de um pássaro contra o marido de um pássaro. De maneira simbólica. Moisés estava impedido de entrar na Terra Prometida (20.. 24). “Neste dia. uma razão que fizesse justiça ao contexto mais amplo? A história de Seom não está exatamente desvinculada do incidente com a rocha. tal qualArão (20. “E o Senhor. Baseados em que podemos afirmar que algo ideológico é desprovido de valor histórico. a qual deixou em pânico Balaque. nos entregou diante de nós” (v. No início de Números. endurecera o seu espírito e fizera obstinado o seu coração” (v. tenho começado a dar-te Seom e a sua terra diante de ti’” (v. Os israelitas eram precedidos por sua reputação. Balaão. O silêncio acerca do papel de Moisés em Números 21.] contende com eles em peleja” (v. 30). o Adivinho (22—24) Essa parte em especial do livro de Números está entre as mais conhecidas de todo o livro. Israel tinha agora se tornado em “enaquins" e “nefilins”. [. Moisés. O que podemos extrair dessas diferenças? Van Seters4 chega a afirmar que Números. Veja o que temos apenas em Deuteronômio: “eis aqui na tua mão tenho dado a Seom. era Israel que temia o povo da terra (13. 36)..29).33). filho de Zipor e líder de Moabe. no entanto. Deixa-me perplexo a afirmação de Van Seters de que esses relatos “possuem um elevado caráter ideológico. a Moisés. “tudo isto o Senhor. nosso Deus. portanto. nosso Deus. Não poderia.21-30 pode ser um reflexo do incidente em 20. “no mínimo.

Balaão teria agido precipitadamente contra seu animal de carga. aceita a oferta de Balaque e vai para Moabe nas costas de uma jumenta para ser recebido com hosanas e ramos de palmeiras. menos para Balaão.17). próximo ao Eufrates. Simão. suas preocupações se assemelham às do Faraó opressor em Êxodo (Êx 1. o mágico.22)! Talvez não estivesse claro para Balaão que.12). Ele devia lançar uma maldição contra os israelitas. de início.18. quando a delegação retorna com uma oferta ainda mais generosa. se enfurece por Ele ter ido (22. temos uma viagem de aproximadamente 650 quilômetros. Balaque envia uma mensagem urgente a Balaão.5).19). Balaão também exclama: “Pequei”. realmente. Quando em apuros. caso o aceitasse. O episódio com a jumenta de Balaão (22. para onde iriam os moabitas? Onde poderíam encontrar segurança? Ir à guerra era uma opção arriscada.31). Deus permite que Balaão siga com os mensageiros. como um bem qualquer. que é. O trabalho de Balaão. . Para Balaque. Para tornar a oferta o mais tentadora possível. como se fosse um prato em um cardápio (At 8. seria bastante simples. Com isso em mente. Israel tinha ansiado por voltar ao Egito. Se foi a Petor que Balaque enviou sua delegação. Pessoas aterrorizadas só conseguem se expressar por meio de hipérboles. Em 22. Frente a frente com o divino. tal qual Josué perante o anjo do Senhor (Js 5. porém. Por trás dessa conduta há a idéia de que o poder religioso pode ser comprado.10). quando Deus permite.19).moabitas eram os gafanhotos. talvez o único trunfo restante seja a feitiçaria. pensou que o poder do Espírito Santo podia ser comprado por dinheiro. Numa situação assim. não significa que esteja necessariamente aprovando.7. negociável.7). que teria levado cerca de um mês para ser completada. um tanto distante de Moabe. mas. bons adivinhos não são baratos! Balaão. E. Balaão rejeita a oferta conforme orientação de Deus (22. dois versículos depois. imobilizando-os e deixando-os vulneráveis a um ataque de Balaque. só restou a Balaão cair prostrado sobre seu rosto (22. O curioso é que. Balaão parece enrolar um pouco (22. Sua confissão é semelhante à confissão do povo no capítulo anterior: “Havemos pecado” (21. Ao falar nesses termos sobre os israelitas. que vive em Petor.14). Balaque ofereceu um pagamento quase que irresistível (22.21-35) soa engraçado para qualquer um.9. Não fora a manifestação física do anjo do Senhor.20. Na época dos apóstolos. os israelitas eram tão numerosos que ele dizia: “eis que cobre a face da terra” (22. após alguma resistência.

21-23. bendições. o peixe de Jonas. Nada indica que ele estivesse sendo dissimulado com Balaque e que. em Números 22—24. o galo de Pedro e o jumentinho de Jesus. parece mal perceber o milagre da fala. “que me fizeste?” (23. O que Balaque ouve de Balaão é exatamente o oposto do que esperava ouvir. enquanto que a pergunta sincera da jumenta é esclarecer uma confusão. “Balaão. não maldição. não posso traspassar o mandado do SENHOR.7-10. em sua ira. 24. O caso mais próximo com a jumenta de Balaão é a serpente que seduz Eva (Gn 3). cada um levando um maior desconforto a Balaão. o tempo todo. o que pode prover mais um vínculo com a seção anterior de Números: a canção entoada pelos mõshelim (21. cada um levando um maior desconforto a Balaque. Números 22 e Gênesis 3 são os únicos relatos do Antigo Testamento em que animais se comunicam por meio da fala. fazem lembrar a importância da “árvore da ciência do bem e do mal” em Gênesis 2—3. A pergunta da jumenta a Balaão. não imprecações. O termo hebraico para isso é mashal. Ninguém ficou mais surpreso que o próprio Balaão. Essas quatro mensagens são chamadas de “parábola/palavra/dis-curso”.18-24. Como comenta Robert Alter6.15-24. São palavras de bênção. Talvez devéssemos ver uma correlação entre os três episódios com Balaão e a jumenta (22. contudo.13-26. “que te fiz eu?” (22. os animais desempenham importantes papéis nos dramas bíblicos.24. são perguntas. Em Gênesis 3. só desejasse abençoar Israel.26- 28).11).3-9. mas o propósito da pergunta capciosa da serpente é promover dúvidas e confusão.27).1-12.13). e os três episódios com Balaão e Balaque (23.27-24. 23. Essa história traz dois eventos igualmente miraculosos e ambos tem a ver com a . 24.25.14). fazendo bem ou mal de meu próprio coração” (24. tanto da jumenta como da serpente. sai-se da bênção para a maldição. Não raro. Os três primeiros oráculos são dados a pedido de Balaque e o último é dado espontaneamente. O resto da história envolve Balaque e Balaão. os leões de Daniel. não param por aqui7. “Ainda que Balaque me desse a sua casa cheia de prata e ouro. Vêm-nos à mente o cordeiro de Abraão. As semelhanças entre os dois capítulos. com o último entregando quatro profecias: 23. na medida em que as profecias sobre o futuro de Israel iam ficando mais generosas. As primeiras palavras.Balaão não demonstra nenhum espanto com a capacidade de fala de sua jumenta. 23.28). é o inverso da pergunta de Balaque a Balaão. como se estivesse acostumado a ter disputas domésticas diárias com suas mulas”. vai-se da maldição para a bênção. As palavras de Balaão para Balaque.

mas agora vejo”8.4b). que dispunham apenas de uma revelação incompleta (uma estrela nos céus).2): uma apontando para Davi e outra apontando para Jesus. Balaão até . mas apenas conduz as palavras que Balaão deve falar. Devemos notar.17.17) e com os dois discípulos que. que. Duas línguas foram divinamente tocadas. antes de tocar-lhe a língua. Balaão. pelo contrário. Deus toca os olhos de Balaão e os abre (22. escribas) não o fizeram. Ele se referiu ao Senhor como “meu Deus” (22. em vez de um vomitador de blasfêmias sobre Israel.16).1-12).18) e reconheceu seu anjo (22. Balaão era o que nos tempos de Jesus se denominava mago. como no caso de Ciro. Todos esses podiam cantar “Eu estava cego. contudo. pois um encontro com Deus tem o potencial de abrir-nos os olhos. Como um adivinho não pertencente ao povo de Israel. Essa história expressa algo de grande importância na fé do Antigo Testamento: Deus não guia a história se opondo continuamente aos projetos abraçados pelo homem. E verdade que Deus guia aqueles que não o conhecem.16) e “pôs uma palavra na sua boca” (23. enquanto que aqueles que dispunham integralmente das Escrituras reveladas (Herodes. Mt 2. sem saber. conhecia o Senhor ou pelo menos ouvira falar dele. pelo menos não de berço e criação. Sua profissão era abominação em Israel. Raymond Brown10 compara Balaão aos “magos” que trouxeram presentes para o Cristo recém-nascido (Mt 2. Ele usou o nome “Jeová/SENHOR” por treze vezes e Deus falou com ele (22. Balaão parecia saber mais sobre o futuro de Israel que o próprio Israel. Mt 2. Falando sobre o discurso de Balaão (com a aprovação de Deus).5. Aparentemente. Um foi Deus ter feito a jumenta de Balaão falar: outro foi transformar Balaão em um arauto de bênçãos. Todos vieram do oriente (Nm 23. Não interrompe seu caminho nem faz cair sobre ele a ira divina. Deus fez o mesmo com Hagar (Gn 21.31). Ele.fala. Já os magos. Em ambos os casos. Balaão não era israelita. O Senhor encontrou-se com Balaão (23. é como se homem agisse conforme seus próprios planos. rei da Pérsia (Is 45.20).9.19). caminharam com o Cristo ressurrecto até Emaús e com ele sentaram à mesa (Lc 24. adoraram o Cristo que havia nascido.31). Deus dá uma revelação aos gentios.1) e seguiam ou falavam de uma importante estrela (Nm 24. deixa o homem agir. Gerhard von Rad9 afirma: Deus permite que o feiticeiro siga em frente. contudo.7.12. Muito provavelmente.31). sumo sacerdotes. Balaão não era monoteísta. com os servos de Eliseu quando estavam cercados pelo inimigo (2 Rs 6.

embora as Escrituras falem sobre gentios que conheciam a Deus intimamente. eles nada sabem das maquinações de Balaque e Balaão. Alguns intérpretes. o santo”. alude a esse mesmo ponto.2). Ele provavelmente odiava os israelitas — sentimento esse demonstrado por sua atuação na apostasia de Israel em Baal-Peor (Nm 25. na medida em que dizem respeito a questões e valores contemporâneos: aqui. devemos observar que Balaão não faz referência alguma a outros deuses. Os . não estando geograficamente envolvido. em suas últimas observações sobre “Balaão. Além disso. não apenas Moisés. Seom e Hesbom. vem mantendo um silêncio ensurdecedor”. Zannoni11. Em primeiro lugar. a nova Israel. adeptos de uma religião pluralista. e o relacionamos à sentença de condenação sobre Moisés.demonstrou alguma transformação espiritual na medida em que ia descartando as velhas práticas pagãs que dominava (24. o incrédulo. Isso pode explicar o porquê de. na época atual. nação alguma o conhecia. 31. George Coató2.1). Pelo que se pode entender. de citarmos a história como um ponto para o pluralismo e a tolerância e atacarmos o confessionalismo e dogmatismo. E.16). sem nada falar sobre o incidente com Balaão em Números 22-24. nessa história em especial. é preciso recordar o comentário de Yehezkel Kaufmann13 de que. O que ele diz sobre Israel não representa (necessariamente) suas próprias opiniões sobre o assunto. enquanto que a igreja. nos primeiros capítulos de Deuteronômio. de Números 21. porém. Ele só reconhecia o Jeová de Israel. conhecia o conteúdo dos oráculos de Balaão. também é dito que fora Israel. adepto de uma outra religião (ou sem religião alguma). afirma: “não é segredo que. Antes. ao discutir as “implicações da história para a igreja”. Assim. E claro que. fala a verdade de Deus. com o incidente envolvendo Arade. O Espírito de Deus estava sobre ele (24. Qual a relação entre essa história e o contexto maior de Números? Dois pontos parecem evidentes. Moisés está claramente ausente nesses três capítulos e não desempenha papel algum em todo o episódio. Esse último ponto suscita a questão de como Moisés. Seu papel continua secundário na história de Balaque e Balaão. Moisés voltar a contar a história dos espias de Números 20 e os relatos das batalhas contra Seom e Ogue. A. têm tomado esse aspecto como um dos pontos de maior importância nesse relato. mas todo o povo de Israel fica de fora. Vimos o mesmo no capítulo 21. instituições seculares vêm “pregando o evangelho”.

de Jeovistas e Eloístas. Seu sucesso nessa empreitada foi tão absoluto como fora seu fracasso em tentar amaldiçoar Israel. quando Balaão foi pego por seu envolvimento no desastre de Baal-Peor.. por abençoar a Israel e falar sobre a prosperidade que a aguardava. talvez até de um messias (24. Números 31. O que precisavam era promover um profundo exame de consciência sempre que vissem em seu meio um espírito de crítica. com uma real capacidade de se auto-extinguir. quase que o tempo todo. (Uns poucos estudiosos. Não era aí que estava o perigo em potencial. Segundo a história.17?). Onde a maldição fracassou. a moabita. fonte essa que Van Seters data do fim do período pós-exílico. Albright em sua análise lingüística dos oráculos de Balaão). como Van Seters14. um ataque frontal saiu vitorioso. Israel não tinha por quê temer os encantamentos de um feiticeiro internacional. Por outro lado. devemos observar outra correlação. atribuem todo o trecho de Números 22-24 a fonte Jeovista [com exceção da narrativa da jumenta e algumas outras passagens]. vêem essa questão como sendo absurda.críticos. Foi de lá que Josué enviou os dois espiões (Js 2. a sedução prevaleceu. Rute. ele seria favorecido. Voltando à relação entre o relato e Números.) Os quatro oráculos antecederíam toda a narrativa por um ou dois séculos (se concordarmos com as conclusões de W. como seria de se esperar. parte de sua defesa tenha sido relatar seus oráculos a Moisés (como sugere Seerveld15). casos em que a existência de Israel corre perigo — mas por quê? Sistematicamente. F. as razões para uma potencial destruição vinham sendo internas: Israel vinha sendo seu pior inimigo. considerando que toda a história é oriunda do século IX ou VIII a.C. do outro lado do rio. Números vinha relatando (e assim prosseguirá).16 nos conta que Balaão maquinou um plano para envolver os israelitas sexualmente com as “filhas de Moabe”. que fica a leste do Jordão e quase em frente a Jerico. . Ele deve ter pensado que. Baal-Peor (25) Israel havia chegado em Sitim. Onde a abordagem indireta falhou. insatisfação e maledicência. talvez se possa afirmar que. Comparar isso com as ameaças de Balaão é como comparar um câncer com um leve mal-estar estomacal.1). exibe mais adiante um extraordinário contraste com as mulheres moabitas de Números 25. ou seja.

21 — NVI].9]. Quase tudo que Balaão disse sobre Israel (por exemplo: “eis que este povo habitará só” [23.4). está com eles” [23. Por que o Senhor especificou que os “cabeças do povo” fossem executados? Duas possibilidades nos vêm à mente.20. Em ambos os acontecimentos as conseqüênci-as foram trágicas. Is 3. o que Moisés ordena não tem nada a ver com o que Deus tinha mandado. visto que no hebraico bíblico a expressão “filhas de”. os . os inocentes eram aqueles que dispunham de poder no meio da sociedade mas não o exerceram — ou seja. surge uma aliança profana entre os filhos de Deus e as filhas dos homens (Gn 6.10-12).17]) é desmentido pela imoralidade do capítulo 25.27] e a ira de Balaque se acende contra Balaão [24.5 — NVI]. a ira de Deus se acende contra Balaão [22.16).2. 9). É possível imaginar que haja alguma confusão no texto. “O Senhor. “Que boas são as tuas tendas. Nesse caso. 5). É ainda mais lamentável que o relato de envolvimento sexual entre Israel e estrangeiros venha logo após profecias de grandes bênçãos. mais do que felizes em se envolverem com as filhas de Moabe (possivelmente virgens. pode significar mulheres solteiras [Gn 36. (Na história sobre Balaão e Balaque. embora os críticos considerem que tanto o versículo 4 como o 5 são de origem não-P16 em Números. creio não haver problema algum no desenvolvimento lógico da história. mas a narrativa indica que suas repercussões teriam sido bastante mitigadas se os mandamentos divinos tivessem sido seguidos.10]. Considerando-se o texto tal como é. Em outras palavras. Dessa forma. Moisés ordena aos juizes: “Então Moisés disse aos juizes de Israel: “Cada um de vocês terá que matar aqueles que dentre os seus homens se juntaram à adoração a Baal-Peor [deus de fogo]” (v.1-4). a ira de Balaão se acende contra sua jumenta [22. Aqui. o seu Deus. 4b) não o foram (v. teríamos mais uma exemplo de Moisés tentando melhorar os planos de Deus. ou pelo menos revisá-los (ver Nm 20.24. 9). na qual o inocente sofre as conseqü-ências.22]. 2 Sm 1. seguidas do nome de um lugar. A primeira reação de Deus é de ira contra Israel. Foi exatamente por Moisés não ter seguido as palavras de Deus que muitos que poderiam ter sido poupados (v. ó Jacó!” [24. Alguns estudiosos estranham que Moisés tenha ignorado uma ordem direta de Deus: “Toma todos os cabeças do povo e enforca-os ao SENHOR diante do sol” (25.Os israelitas novamente refletem sua insensibilidade para com questões morais e espirituais.) A ira divina acaba levando ao surgimento de uma praga (v. Pode ser um exemplo de punição vicária. “uma estrela procederá de Jacó” [24. proferidas por um estrangeiro.

Além disso.6).10. e o indivíduo vindicador. Ou pode ser que os “cabeças do povo” fossem efetivamente os líderes do que acabara de acontecer.) Aqui. Os três têm em comum o desejo apaixonado de viver e defender a verdade da fé.7). Cosbi.14. é identificada como oriunda de uma importante família midianita (v. os profetas de Baal. que significa “mentira. o enfoque do texto é o indivíduo transgressor não o povo. Balaão usou esse mesmo verbo em 23. quando disse: “Deus não éhomem. trata do ato de iniquidade de um israelita. Sendo esse o caso.10. Ao afirmar que Finéias é “zeloso/ciumento” do Senhor.3. serviria como um exemplo desse princípio em operação (ver Milgrom18).14). Por três vezes (3. a mulher na história.13). (Os defensores da teoria das fontes não chegam a um acordo sobre essa parte do capítulo ser ou não de origem P. a rápida reação de Finéias é bastante compreensível. o simeonita (v. O crime de Zinri foi levar uma mulher midianita até “o interior da tenda” (ARC. G1 1. dos quais um é identificado como Zinri. . o texto o relaciona a esse mesmo traço em Elias (1 Rs 19. portanto. De Vaux:" traduz essa palavra por “barraca. Deve-se também notar que a mesma palavra é usada na descrição de Saulo de Tarso. 8 — NVI). Seu nome vem da raiz semítica/hebraica kãzab.19. não Moisés e os juizes. 14). e da reação espontânea de um outro israelita. 15). Números afirma que uma das responsabilidades do sacerdócio era “matar qualquer pessoa não autorizada que se aproximasse” das coisas santas do Tabernáculo. antes de se tornar cristão (At 22. os seguidores de Jesus. tenda ou alcova” e sugere que ela pode ter sido usada em relação à prostituição religiosa. engano”. do versículo 6 ao 15. Muito provavelmente as filhas de Moabe tentariam seduzir os líderes. O texto comenta duas vezes sobre o zelo de Finéias (vv. Isso pode implicar que o ato tenha sido perpetrado perto do santuário de Israel. 18. 11. “enquanto eles choravam diante da tenda da congregação”. o Messias). para que minta \kãzabY. Tbdo romance ocorreu diante de Moisés e do povo. neto de Arão. Finéias. A palavra hebraica para “interior da tenda” só é utilizada aqui em todo Antigo Testamento. Mais da metade do capítulo. supostamente para manter relações sexuais. Zinri. ARA: “tenda”) (v. Fp 3.pecados dos filhos sendo punidos nos pais.38. além de plena disposição para realizar atos violentos contra aqueles que acreditam prejudicá-la (Zinri e Cosbi. Essa passagem.

e Finéias. como o SENHOR ordenara (à primeira geração de) israelitas que saíra do Egito”.46-48).Essa parte do capítulo também serve para compararmos Moisés. As duas exceções são as tribos de Simeão. Os espias haviam dito: “não somos capazes de tomar a terra": Deus dizia: “Tomarão a terra”. imagine um candidato à presidência que escolhe seu companheiro de chapa e membros de gabinete antes mesmo da realização das primárias. Esse censo inclui os descendentes dos israelitas que saíram do Egito (v 4b) e que eram da idade de vinte anos ou mais. que rapidamente entrava em ação.200 (1. O propósito imediato desse levantamento é produzir dados estatísticos para a partilha da terra após sua conquista (vv. “estes foram os israelitas que saíram do Egito”. que tentava modificar as orientações divinas. 11). e Manassés. A frase da NVI. E difícil não entender como repreensão as palavras de Deus para Moisés: “Finéias [. O Segundo Censo e Questões acerca de Heranças Imediatamente após um ato de apostasia (capítulo 25). Israel inicia confiantemente suas preparações sem sentir que está se precipitando. já é um fato curioso. 52-56).700 (26.1. A visão de Deus para o futuro era diferente da visão dos espias. exceto Calebe e Josué. a idade mínima para inclusão no primeiro censo.200 (26.. Isso.23) para 22. Jz 1. E Finéias que faz expiação por Israel (v.14). o que explicaria a queda nos números (ver Josué 19.35) para 52. pois os versículos 64-65 dizem expressamente que ninguém dessa geração. não pode dizer respeito à primeira geração. 13). apesar de Manassés ter crescido (leia Josué 17. Moisés não tem envolvimento algum.11. que assim deteve a praga divina. Anteriormente. Moisés tinha feito ex-piação por Israel (Ex 32.30) e exortadoArão a fazer expiação pelo povo (Nm 16. Os totais de cada tribo são bem próximos aos constatados no capítulo 1.3). vem um censo mais detalhado. A população da tribo de Simeão possivelmente uniu-se a de Judá. 16. considerando-se a formidável oposição que tinham pela frente. evidenciando que não houve grande crescimento ou queda populacional. cuja população cresceu de 32. Pode-se resumir o versículo 4 dizendo “o povo da idade de vinte anos para cima. cuja população caiu de 59.] desviou a minha ira de sobre os filhos de Israel” (v. por si só. Aqui.34). estavam entre eles. semelhante ao descrito no capítulo 1. Para uma breve comparação. Com esse intuito. que fala sobre o problema cada vez .300 (1..

mas apenas cinco filhas (Nm 27. (2) a celebração da Páscoa fora do tempo certo (Nm 9. tinha morrido sem deixar filhos homens. tais revelações sempre complementavam o que fora dado no Sinai. especialmente o versículo 8). nem cobria exaustivamente todos os tópicos possíveis.1) — fato esse que já tinha sido observado no censo (26. especialmente o versículo 34). mas não contato. Qual seria a solução para tamanho problema? É a quarta e última vez. Os outros três são (1) o blasfemo (Lv 24.33). nos livros de Levítico e Números.16-28). criaram um problema. Talvez o papel inferior da mulher seja enfatizado aqui até mesmo pela construção utilizada em hebraico. Zelofeade. mas. especialmente o versículo 12). Há um outro caso em Números no qual uma pessoa “chega diante" 0qãrab lipnê) de Moisés: quando aqueles que se tinham contaminado pelo contato com um cadáver se aproximam dele. Em ambos os casos. 8). há proximidade. contudo. A palavra de Deus é simples e direta. Tanto os contaminados como as filhas de Zelofeade devem manter certa distância. pode ser comparada às duas mulheres/meretrizes que buscaram a decisão legal de um homem (rei Salomão) quanto à verdadeira maternidade de um bebê (1 Rs 3. sem jamais contradizer ponto algum. não herdavam propriedades (Dt 21. aos irmãos .15- 17). (3) o transgressor do Sábado (Nm 15.2 — NVI). Esses incidentes demonstram que a revelação de Deus para seu povo não era necessariamente um “pacote fechado”.maior de Manassés: muitas pessoas para um único lugar. havia espaço para revelações adicionais na medida da necessidade. a depender das circunstâncias. via de regra. Ainda assim. Uma nova lei estava sendo introduzida: heranças não cabiam exclusivamente aos filhos. de forma que precisaram estender suas fronteiras). que surge uma questão ainda não tratada pelas leis existentes e para a qual Moisés busca o conselho de Deus. Os resultados do censo. Essa delegação de cinco mulheres.32-35.10-23.4 simplesmente diz que as filhas “chegaram diante” igãrab lipnê) de Eleazar. mas era uma situação diferente.15). O problema é que mulheres. Lemos que as filhas de Zelofeade “aproximaram-se” (qãrab) e “se prostraram” {lipnê) perante Moisés e o sacerdote (Nm 27. podiam ser transmitidas às filhas (v. Josué 17.1-14. visto que o pai ainda estava vivo.1. Havia uma família cujo pai. Deviam elas então ficar sem patrimônio algum? E verdade que as três filhas de Jó receberam uma herança (Jó 42. ao comparecerem perante um homem em lugar público (“à porta da tenda da congregação”) a fim de obterem uma decisão legal. Além das revelações claras e resolutas de Deus.

O fato da questão ser abordada nesse ponto de Números é bastante natural. As filhas de Zelofeade são nomeadas sucessoras de seu pai. A segunda metade do capítulo lida com a preparação de Josué para substituir Moisés (27. não sendo apenas uma medida temporária (v. A primeira geração estava fadada e perecer no deserto. ele também deixa claro que a regra não se aplica apenas àquela exceção. Veja mais uma vez a perspectiva de um futuro garantido. aos tios do falecido (v. Assim como ocorre com o censo e o incidente com as filhas de Zelofeade. (O idioma hebraico não diferencia maiús-culas e minúsculas. da mesma forma. mas no aspecto funcional. 23)? Deus descreve Josué no versículo 18 como um “homem em quem há o Espírito”. por causa de seus pecados. Essa lei vigoraria para todas as gerações vindouras. para que “não seja como ovelhas que não têm pastor” (v.do falecido (v. Não eram qualificações humanas que recomendavam Josué para a tarefa. Moisés também precisava de um herdeiro. Como observa Sakenfeld19. 18). O censo do capítulo 26 prevê a ocupação da Palestina. mas se estende a toda as mulheres que. 10) ou ao parente vivo mais próximo (v. Deve-se notar que Moisés comenta com Deus sobre a necessidade de um sucessor (v. 17). da mesma maneira. Seu espírito de magnanimidade transparece em sua preocupação com Israel. Josué era um novo líder para uma nova geração. ou “varão no qual reside o espírito” ou “homem em quem está o Espírito”. 11b). O zelo de Moisés não é evidenciado por sua reação à ordem divina para que impusesse “sua mão” (singular) sobre Josué (v. Até o fim. 11). Ele fora preparado de forma sobrenatural. no futuro. 16). 9). O primeiro líder. pois nele estava o Espírito (v. ele mantém um espírito pastoral. revela uma visão otimista do futuro. a nomeação de Josué também serve como uma garantia do lugar para onde Deus estava levando seu povo. quando então impôs “suas mãos” (plural) (v.17-23). não biológico. viessem a enfrentar circunstâncias semelhantes. ficaria de fora da terra prometida junto com a primeira geração.) Com “espírito” em . O censo havia detalhado a Segunda geração. Deus havia levantado uma segunda geração para pôr os pés na terra prometida. A inovação jurídica do capítulo 27. e ainda que sob juízo divino. apesar do incidente reforçar a mensagem de que as mulheres só herdam propriedades na ausência de um filho homem. 18).

quer em sua rotina diária (Nm 28. Ao todo.9.] todos perderam a coragem” — NVI) e 5. Trata-se. Nos estudos sobre Levítico. Isso.letras minúsculas. que faz referência ao dom/ espírito de Bezalel para supervisionar o projeto do Tabernáculo. flor de farinha. semanal (28. Elas estão listadas na coluna da esquerda da tabela 1.11 (“Quando soubemos disso [. As ofertas de Israel ao Senhor deviam ser em animais.16—29. Um Calendário Religioso e Votos (28—30) Os primeiros dois capítulos dessa unidade descrevem detalhadamente os vários sacrifícios que Israel devia oferecer ao Senhor. a segunda geração é lembrada de que “meus tempos estão nas tuas mãos” (SI 31.2. Lv 23.. de uma manifestação de louvor e gratidão. Deus não chama e então capacita. Algumas vezes. não tem como principal propósito a expiação. Dt 16.. mas capacita e. vimos que a oferta em holocausto. 34. ou a quantidade específica de produtos. são destacadas oito ocasiões diferentes.1-44.10). há um número específico e decrescente de animais para cada dia.10-19. A adoração precisava pontuar a vida de cada israelita. Vemos o mesmo em Gênesis 41. quarenta por cento do total de carneiros e trinta e seis por cento do total de cordeiros.] desanimaram-se e perderam a coragem de enfrentar os israelitas” - NVI). com as passagens correspondentes em um dos outros calendários religiosos do Pentateuco (Êx 23.38. para a Festa dos Taberná-culos.40). ou em Êxodo 31.18-24.. chama. Em ambos os casos. “espíritoIrâatf é sinônimo de “coragem”. ou mesmo iniciado por letra maiúscula. então. O número de animais ofertados em holocausto superam os sacrificados como oferta pelo pecado na razão aproximada de 40 para 1. que menciona o espírito/dom de José para a interpretação de sonhos. mensal (28. mais exatamente. azeite e vinho.11-15) ou ao longo do ano (28. Os capítulos 28—29 fornecem o número exato de animais.1-17). portanto. . assinala a principal característica da adoração judaica.1-8). a serem ofertado em cada evento.15). Somente essa festa consome aproximadamente sessenta por cento do total de bezerros. Os sacrifícios de animais estão listados na tabela 14. Deus provavelmente se refere ao dom/espírito de Josué para a liderança.. como em Josué 2.] souberam [. ao contrário da oferta pelo pecado.. Também é interessante notar que.. Nos capítulos 28— 29.1 (“Todos os reis amorreus [.

9- Oferta do Sábado 12* 21* 1-3* 10 .3-8 Oferta diária 42) 2) 28. com certa surpresa que lemos. Em Números 27.1-17 19 24 (29.1-44 16. enquanto ela ainda vivia junto ao pai (w. (A alusão a votos no fim do capítulo 29 [v. Números determina políticas a serem seguidas pelos israelitas após se estabelecerem na Palestina. E. a qual aparece por três vezes nesses calendários. Tabela 13 Números Êxodo Êxodo Levítico Deuteronômio 23.38- 1) 28. ainda que estes tenham sido feitos antes do matrimônio.10. a última parte dessa seção. 10-12). 3-5). um marido também pode anular os votos de sua esposa.) Semelhantemente. que um pai tem o poder de invalidar os votos feitos ao Senhor por uma filha solteira (w. 9). 39] promove uma suave transição para uma discussão mais ampla sobre esse assunto no capítulo 30.18- 28-29 23. Escapam dessa regra a viúva e a divorciada (v. portanto. A terra seria dividida (26). no capítulo 30. não esteja presente em Números 28—29.34. quando de suas considerações acerca das festas dos pães ázimos. A quarta regra desse capítulo prescreve que um marido pode anular qualquer voto feito por sua esposa. tal qual vimos nos capítulos imediatamente anteriores. os “direitos das mulheres” já haviam sido abordados. E algo curioso que a expressão “Três vezes no ano todos os teus varões aparecerão diante do Senhor”. se ele o fizer no dia em que tomar conhecimento do voto (w.1-11. Pentecostes e Tabernáculos. Josué assumiria a liderança e a vida do povo estaria envolta em adoração (28—29). 6-8).Mais uma vez.

Oferta da Páscoa e da festa 18- 15 5-8 1-8 25 dos 20.11- 15 Oferta do princípio do mês 4) 28.7- 26-32 11 Oferta do Dia da Expiação 8) 29. A observância do Sábado é imposta. Tabela 14 Tipo de Oferta Holocausto Pecado . 16b 22b 13-15 38 Tabernáculos 39-43 Nenhuma oferta é prescrita.Pentecostes (Festa 22a.12.Oferta da festa dos 33-36.16.25 pães ázimos Oferta de 5) 28.1-6 Oferta de Ano Novo 23-25 7) 29. 16a 15-22 9-12 31 das Semanas/dia das 26 primícias) 6) 29.3) 28.26.

Frequência Ovelha Ocasião Anual Bezerros Carneiros Macho Cordeiros 1) Diário manhã 365 1 tarde 365 1 2) Sábado 52 2 3) Princípio 12 2 1 7 1 do mês 4) pães ázimos 7 2 1 7 1 5) Pentecostes 1 2 1 7 1 6) Ano novo 1 1 1 7 1 7) Dia da 1 1 1 7 1 expiação 8) Tabernáculos 1 .

Tipo de Oferta

Holocausto Pecado

Freqüência Ovelha

Ocasião Anual Bezerros Carneiros Macho Cordeiros

Primeiros dia 13 2 14 1

Segundo dia 12 2 14 1

Terceiro dia 11 2 14 1

Quarto dia 10 2 14 1

Quinto dia 9 2 14 1

Sexto dia 8 2 14 1

Sétimo dia 7 2 14 1

Oitavo dia 1 1 7 1

Totais anuais 113 37 1.093 30

A tabela 1 é baseada no trabalho de Anson Rainey. The Order of Sacrifices in
Old Testament Ritual Texts (A ordem dos sacrifícios nos textos ritualísticos do
Antigo Testamento), bibliografia, 1970, pp. 492,493. Utilizado conforme
autorização. Os totais das colunas de carneiros e ovelhas foram alterados.

Há uma única coisa em favor da mulher: se o marido ou o pai se opuserem ao
voto, deverão manifestá-lo no mesmo dia em que tomarem conhecimento do
voto da filha ou da esposa (w 5,8,12,14). Postergando tal manifestação, o homem
assumirá a culpa da mulher: “ele levará a iniqüidade dela” (v. 15). O direito de
cancelar o voto da mulher (filha, esposa) parece reforçar a liderança do homem
(pai, marido) nos tempos veterotestamentários. Deve-se, contudo, acrescentar
mais duas observações. Primeiro, o motivo de um pai/marido poder anular o
voto de sua filha/esposa reside no fato de que, na maioria dos casos, a
responsabilidade de cumpri-los recairia, em última análise, sobre o pai/marido,
visto que a grande maioria dos votos era cumprido através de um sacrifíciú0. Em
segundo lugar, a exemplo do que ocorre com muitos outros preceitos legais no
Antigo Testamento, não achamos um único caso na Bíblia em que um pai/marido
tenha realmente cancelado o voto de uma filha/esposa. Ana, por exemplo, fez
um voto para entregar seu filho, Samuel, para o serviço do Senhor (1 Sm 1.11).
Elcana, supostamente, poderia tê-lo cancelado, mas não o fez. Não é difícil
imaginar que a filha de Jefté gostaria de ter o direito de cancelar o voto feito pelo
pai (Jz 11.30,31)!

Os Últimos Acontecimentos em Moabe (31—36)

Resumirei rapidamente os últimos eventos relatados em Números. A primeira
subseção relata a ordem de Deus para uma guerra santa contra Midiã (capítulo
31), em retaliação por terem seduzido Israel e levado o povo a atos de
prostituição e idolatria (e a quarta vitória militar de Israel [21.1-3; 21.21-31;
21.22-35]). O objetivo era executar a “vingança” de Deus contra Midiã
(31.2,3). “Vingança” não significa desforra ou ressentimento, mas sim
uma legítima expressão de autoridade divina quando essa autoridade é
desafiada21. Dois interesses dominam esse capítulo. Um é o cuidado com a
pureza ritual dos soldados (vv. 19-24,50): um tema exaustivamente abordado em
diversos contextos em Números. Em um capítulo que, de resto, é repulsivo, no
qual apenas meninas virgens podiam ser poupadas (v. 18; Jz 19.21) e nem
mesmos ga-rotinhos recebiam clemência (v. 17; Ex 1.16), Números chama
a atenção para o fato de que a guerra é uma atividade contaminadora. Rotulando

tal conceito de “uma concepção ética sofrível”, Niditch22 declara: “Números 31
exibe uma verdadeira ambivalência no que diz respeito à ética de guerra. A causa
é santa, a guerra é ritualizada, mas a matança contamina. Dessa forma, aquele
que vai à guerra seguindo os rituais deve, ao voltar, passar por separação,
purificação e sacrifícios para a expiação”. O segundo interesse é a determinação
de um percentual do espólio de guerra que cabería ao santuário e aos levitas (vv.
25-54). Os soldados contribuíam com 0,2 % da sua parte, enquanto que o resto
do povo devia contribuir com 2% do que lhes coubesse.

A segunda subseção é o capítulo 32. Vários territórios a leste do Jordão são
destinados às tribos de Rúben, Gade e metade da tribo de Manassés, com a
condição de que ajudem as outras tribos na conquista de Canaã. Para que Canaã
fosse conquistada, todo povo de Deus devia participar. Não havia lugar para
espectadores, apenas para soldados. Tanto no capítulo 31 como no 32, Moisés se
enfurece com as falhas do povo. Em 31.14, ele se ira porque o povo não levou a
guerra até onde devia. Em 32.14, ele se ira (ou acredita que Deus ficará furioso)
porque as tribos a leste do Jordão não parecem dispostas a combater, ao lado de
seus compatriotas, a oeste do Jordão.

A terceira subseção é o capítulo 33: uma descrição pormenorizada (pelo menos
nos versículos 1-49) do itinerário de Israel do Egito até as planícies de Moabe.
Esse é o único capítulo voltado principalmente para o passado e, como tal, está
cercado de informações voltadas para o futuro. É verdade que a narrativa do
capítulo não conta com nenhum comentário ou considerações homiléticas, mas
os fatos falam por si mesmos. O Deus que vinha orientando o povo continuaria a
guiá-los, mas isso não deveria fazer com que eles se tornassem relapsos, o que
nos leva a exortação dos versículos 50-56. A possibilidade de “espinhos” no
futuro de Israel (v. 55) faz lembrar a convicção de que haveriam espinhos no
futuro de Adão (Gn 3.18).

A quarta subseção é o capítulo 34. Ele descreve os limites da Terra Prometida
(vv. 1-15) e identifica os indivíduos que deveríam supervisionar a divisão das
terras entre as tribos (vv. 16-29). O mais interessante é notarmos a expansão da
fronteira norte até Hamate (v. 8 [um pouco ao norte da tradicional
cidade fronteiriça de Dã]) e a expansão da fronteira sul até Cades-Barnéia (v. 4
[um pouco ao sul da tradicional cidade fronteiriça de Berseba]). Muito
provavelmente, a fronteira norte-sul “desde Dã até Berseba” cobria apenas as
terras cultiváveis. Igualmente interessante é não haver menção de terras a leste
do Jordão (v. 12); o que é bastante curioso, considerando que o relato vem logo

após duas tribos e meia terem pedido para se estabelecerem a leste do Jordão
(32). Tudo isso é um tanto irrelevante para Moisés e ele não toma parte alguma
no processo. Seu sucessor já havia sido selecionado, mas ainda é ele que
transmite as instruções de Deus. Ele ainda era o líder!

A quinta subseção é o capítulo 35. Uma vez em Canaã, os israelitas deviam
erguer quarenta e oito cidades levíticas (vv. 18), bem como seis cidades de
refúgio (vv. 9-15), para onde aquele que matasse alguém, sem querer ou por
engano, poderia fugir e escapar do vingador do sangue (vv. 16-34; Ex 21.13).
Mais uma vez, a preocupação central aqui expressa diz respeito a pureza
e santidade. Se as regras divinas para a vida cotidiana não fossem seguidas, a
terra seria profanada (v. 33) e contaminada (v. 34).

A última subseção é o capítulo 36, que fala sobre os possíveis problemas que
poderíam advir no caso da herança da família não ir para um homem, mas para
uma mulher. E se a mulher despo-sasse um homem de outra tribo (v. 3)?
Sakenfeld23 comenta que “a posse de terras cultiváveis tornaria qualquer mulher
extremamente desejável como esposa”. A exemplo do que ocorre no capítulo 27,
uma nova lei é formulada para atender essa necessidade. O casamento intertribal
passou a ser proibido à mulher que fosse herdeira (vv. 6-8). Posteriormente, as
filhas de Zelofeade são apontadas como exemplos de obediência (vv. 10-12).
Com esse revigorante registro, que difere dos muitos modelos patéticos
e medíocres que vimos até aqui, Números chega ao fim. O fato de ficarem
satisfeitas em desposar os filhos de seus tios (v. 11) demonstra a existência de
uma relação bem mais positiva que a de Moisés com seu primo-irmão Corá
(capítulo 16).

Aparentemente, 36.1-13 poderia ser encaixado logo após 27.111 (regras sobre
heranças para mulheres e, logo em seguida, as opções de casamento para tais
mulheres). Como poderiamos explicar a separação entre os capítulos 36 e 27?
Será que os anciãos levaram algum tempo meditando sobre o decreto de Moisés
no capítulo 27 ou, de imediato, perceberam que a solução do problema
apresentado criaria um outro a ser resolvido? Não poderiamos ter aqui o que os
estudiosos chamam de inclusio, ou seja. uma espécie de grupo de expressões
semelhantes, via de regra envolvendo repetições, que cercam um discurso
determinado nas Escrituras e ressaltam algum ponto teológico (como no Salmo
8. que começa e termina com o mesmo versículo, enfatizando a majestade do
nome de Deus)? Os dois relatos acerca dessas cinco filhas “cercam as exortações
intermediárias com ilustrações da vida real, as quais demonstram a prática da

confiança em Deus’24. As mulheres não são passivas, mas destemidas. Crêem
que a fidelidade a Deus, e não o sexo do indivíduo, garantem a bênção da terra
para a próxima geração. Ao contrário do assim chamado filho pródigo (Lc
15.12), elas não pedem para imediatamente receber sua parte nas propriedades,
mas esperam o tempo de Deus.

Números 20.22—21.35

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jamais contemplaria a possibilidade de se retratar quanto a essa afirmação.12). 3ÍO estava absohii anu>nte correto quando disse: “não há lite para fazer livr^ ^Bc 12. Se ele tivesse conhecido apenas os estudos soh^è)|feüteronômio. Em comparação que já foi produzido. sobre Levítico ou Nú<pi#S$|j)os estudos sobre Deuteronômio foram e continuam a 'mais vastos. . por exemplo.19 Lembrar o Passado DEUTERONÔMIO 1 .

por sua vez. boa parte ou da . Somente em duas áreas de estudos vemos algo que se aproxima da unanimidade. então. Atribuir a autoria desse livro a Moisés foi a forma que o autor encontrou para tentar atribuir certo grau de santidade ao texto e às idéias defendidas. E e P. não possui quase nada identificado como J. Deuteronômio é considerado como uma espécie de excentricidade. ele usa o pseudônimo do lendário Moisés. Por isso.Análises de Deuteronômio Em relação ao restante do Pentateuco. Deuteronômio. A Hipótese Documental Parte da razão pela qual devemos considerar Deuteronômio separadamente do restante do Pentateuco tem a ver com as diversas alegações da Hipótese Documental. Torna-se compreensível. à parte de artigos sobre temas em Deuteronômio e literatura deuteronômica. Estudiosos chegam a essa conclusão a despeito de Deuteronômio. mas referências às suas atividades como escritor são mínimas. embora “elementos mosaicos” surjam aqui e acolá. Muito pelo contrário. quase nada de D está presente nesses quatro livros bíblicos.9). E e P estão misturadas entre si de Gênesis a Números. bem menos influente. Tem-se. Não são poucos os que defendem que Moisés é autor de parte. o porquê de encontrarmos artigos que percorrem de Gênesis a Números. Este último ponto de forma nenhuma sugere que o livro de Deuteronômio é visto pelos exegetas como uma unidade homogênea. mas não deve ser considerado como representativo do todo. Em vez de usar seu próprio nome. prossegue essa visão. oquerigmc^ de Deuteronômio deve ser visto como parte da teologia do Pentateuco. Um desses “resultados garantidos” diz que Deuteronômio não é uma obra de Moisés. sua teologia e temática são nitidamente diferentes das de seus vizinhos do Pentateuco. Contudo. por exemplo: “E Moisés escreveu esta Lei” (31. O leitor poderá até mesmo encontrar comentários homiléticos e exegéticos que percorrem de Gênesis a Números em apenas um volume. Antes de mais nada. Um dos princípios básicos desta teoria é que as fontes hipotéticas J. dentre todos os livros do Pentateuco. ser o que mais resolutamente reivindica ser obra de Moisés. O Pentateuco está repleto das falas de Moisés.

É comum que os estudiosos contemporâneos. Harrison. A. escreveram Deuteronômio usando Moisés como . mas também de Êxodo a Números — uma observação válida que vai contra as tendências dos estudos de Deuteronômio do Século XX. Em outras palavras. Eles são acompanhados por escritores judeus.C. O segundo ponto de consenso. Os trabalhos de Brevard Childs e Robert Polzin (ver a bibliografia). E a questão está longe de ser concluída. A análise de De Wette para Deuteronômio foi a seguinte: O livro foi escrito após as reformas de Josias. refletem uma nova tendência nos estudos de Deuteronômio. presente em nossas Bíblias. K. L. após esboçarem os “assuntos em questão”.maior parte do texto. Kitchen. Thompson — todos mencionados na bibliografia ao final do capítulo. Inúmeras análises têm tentado identificar o texto primitivo de Deuteronô-mio.). Alguns. Manley. Segai4. que está relacionado à autoria. o núcleo original ao qual foram feitos acréscimos. seja através de crítica canônica (Childs) ou da análise estrutural (Polzin). simpatizantes das reformas do rei (por exemplo: centralização do culto e abolição de rituais pagãos). ou simplesmente os capítulos de 12— 26 com breves introdução e conclusão. Tais escritores incluem eruditos protestantes conservadores. M. Aqueles que já trataram desse assunto têm tomado os capítulos de 5—26 e 28 como o núcleo do livro. deveria conter não apenas Deuteronômio. S. Seu trabalho sobre Deuteronômio. Kline. Schultz e J. R. como P. M. A. como as partes se relacionam entre si e com o todo. No que diz respeito a Deuteronômio. Craigie. Max Margolis5. C. T. Uma posição bastante semelhante é defendida por Cyrus Gordon6. K. como J. ou seja. Por caminhos semelhantes. mostrou a direção a um grande número de especialistas bíblicos. H. De Wette como sendo um dos precursores das atuais análises