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Teologia dos Sacramentos

I
A Instituição dos Sacramentos - Trento
=3 Que é o homem, Senhor, para vós?
Por que dele cuidais tanto assim, *
e no filho do homem pensais?
4 Como o sopro de vento é o homem, *

os seus dias são sombra que passa.

5 Inclinai vossos céus e descei, *


tocai os montes, que eles fumeguem.
6 Fulminai o inimigo com raios, *

lançai flechas, Senhor, dispersai-o!

=7 Lá do alto estendei vossa mão,


retirai-me do abismo das águas, *
e salvai-me da mão dos estranhos;
8 sua boca só tem falsidade, *

sua mão jura falso e engana.

9 Um canto novo, meu Deus, vou cantar-vos, *


nas dez cordas da harpa louvar-vos,
10 a vós que dais a vitória aos reis *

e salvais vosso servo Davi.


A instituição dos sacramentos
• Trento: “Se alguém afirmar que os sacramentos
da Nova Lei não foram todos instituídos por
Cristo nosso Senhor [...], seja anátema” (DS,
1601).

• Essa afirmação conciliar deve ser colocada em


seu ambiente histórico: trata-se de uma
proposição em polêmica direta antiprotestante.
• Os protestantes daquela época admitiam, com certeza,
como sacramentos instituídos por Cristo o Batismo e a
Eucaristia.

• A instituição dos demais sacramentos tornava-se


problemática, enquanto para a Unção dos Enfermos
negava-se absolutamente a instituição da parte de
Cristo.

• Sobre a Unção dos Enfermos, o Concílio Tridentino


afirma que este também foi instituído por Cristo e
posteriormente promulgado pelo Apóstolo Tiago (DS
1695 e 1716).
• “Esta sagrada unção dos enfermos foi instituída pelo
Cristo, nosso Senhor, como sacramento do Novo
Testamento, no sentido verdadeiro e próprio, indicado
por Marcos (cf. Mc 6,13) e, ademais, recomendado aos
fiéis e promulgado por Tiago, Apóstolo e irmão do
Senhor (Tg 5,14s)...
• Com estas palavras, [Tiago] ensina, como a Igreja
ensinou a partir da tradição apostólica aceita de suas
mãos, a matéria, a forma, o ministro próprio e o efeito
deste sacramento salutar. De fato, a Igreja entendeu que
a matéria é o óleo abençoado pelo bispo, pois a unção
representa de modo bem apropriado a graça do
Espírito Santo com que é ungida invisivelmente a alma
do doente; a forma são as palavras: ‘Por esta santa
unção...’” (DS 1695).
• Sobre a afirmação de que “todos” os sacramentos
foram “instituídos” por Cristo, dentre os próprios
escolásticos havia alguns teólogos que negavam tal
realidade.

• Mas, afinal, o que se entende por “instituição dos


sacramentos”?

• Marsili, amparado em Tomás de Aquino, em uma


“interpretação comum” dá a seguinte definição:
“Agregar a coisas sensíveis o poder de significar e de
produzir a graça” (p. 92).
• Santo Tomás, em geral seguido pelos teólogos, ao falar
da “instituição” fixa a sua atenção diretamente sobre o
efeito interior operado pelo sacramento e que ele chama
genericamente de “graça” (Sth III, q. 64, a. 1) ou
“eficácia” (Sth III, q. 64, a. 2).

• Tratando-se de um “efeito”, isso necessariamente


conduz a uma “causa”. Mas o efeito do qual se fala é a
“graça” (autoinfusão de Deus na alma - q. 64, a. 1) e
esta não pode ter outra origem senão Deus; por
conseguinte, só Deus (ou Cristo enquanto Deus - q. 64,
a. 2, ad 1,3) é o instituidor dos sacramentos.
• Em outras palavras, segundo Marsili (p. 94):
a) Sendo a intenção interna dos sacramentos dar a “graça-
autoinfusão de Deus ao ser humano” e esta não
podendo provir senão de Deus (ou de Cristo enquanto
Deus), os sacramentos são unicamente de instituição
divina.

b) Nessa instituição, além do agente principal que é Deus,


intervém como agente “instrumental principal” (em
posição de “excelência”, afirma Santo Tomás: q. 64, a.
3), a humanidade de Cristo, cuja Paixão funciona como
“causa meritório-efetiva instrumental”.
• A teologia posterior se perguntou se a “instituição” por
parte de Cristo devia ser entendida:

• Como instituição imediata: neste caso Cristo teria


instituído “pessoalmente” todos os sacramentos,
atribuindo tanto uma determinada graça quanto um
determinado rito externo a cada sacramento.

• Ou como instituição mediata: neste caso Cristo,


manifestada a sua vontade de conferir a graça por meio
de um rito sacramental, teria deixado aos apóstolos ou à
Igreja o poder de determinar o número e o modo dos
sacramentos.
• Segundo Marsili, “os teólogos, normalmente,
consideram que o cânon tridentino deve ser
interpretado em favor de uma ‘instituição
imediata’ da parte de Cristo” (p. 95).

• Pergunta-se ainda se a determinação do rito


sacramental em relação a uma determinada graça
deve ser considerada:
• Como determinação genérica: Cristo teria, por exemplo,
estabelecido que a Eucaristia deveria ser uma
comunicação da graça (conteúdo) através do sinal do
alimento (rito);

• Como determinação específica: Cristo teria estabelecido (no


mesmo exemplo) que na Eucaristia a graça (conteúdo)
deveria ser comunicada no sinal-alimento do pão e
do vinho (rito);

• Como determinação nos particulares: Cristo teria


estabelecido (mesmo exemplo) que na Eucaristia a
graça (conteúdo) deveria ser comunicada no sinal-
alimento do pão ázimo e do vinho de uva (rito).
• Uma definição primária de “instituição”: “Instituir quer
dizer atribuir certa força e potência a uma determinada
coisa, como acontece com as leis” (p. 96).

• O sacramento é pensado como uma “lei”, ou seja,


como algo que manifesta certa vontade (graça) e a torna
eficaz.

• A vontade de salvação é própria de Deus; portanto, só


Deus pode instituir o sacramento, e ele o faz
escolhendo dentre as coisas sensíveis as que melhor se
adaptam para especificar o dom da graça. (e Cristo? E a
sua Paixão?)
Batismo
• Mt 28,19 tem seu paralelo com Mc 16,16. Nesse último,
o contexto e o conteúdo essencial não diferem dos de
Mt 28,19, ainda que o Batismo apareça mais
diretamente como uma “necessidade” do que como
uma “ordem”.

• Jo 3,5-8 – nascer da água e do Espírito... Jo 1,33 -


Batizar com água... Batizar no Espírito.
• O confronto dos textos joaninos deixa claro que
“nascer da água e do Espírito” corresponde a “batizar
no Espírito”.

• At 2,38 – o primeiro Batismo conferido por Pedro


Eucaristia
• São quatro os textos (Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc
22,19-20; 1Cor 11,23-25) nos quais se fala da
“instituição” da Eucaristia.

• Paulo fala de uma “instituição” quando diz: “De fato,


eu recebi do Senhor o que também vos transmiti (v. 23).
O “ensinamento”, em grego parádosis, em latim é
traduzir por traditio (“tradição-transmissão”), mas que
tem um equivalente muito exato na palavra institutio, que
significa justamente “transmissão doutrinal pela vida do
ensinamento”.
• De toda a narração da “instituição” da Eucaristia
em 1Cor 11,23-25 podemos tomar as palavras
“fazei isto”, repetidas nos vv. 24 e 25. Se nos
limitarmos a elas, teremos “instituição” no
sentido entendido por Santo Tomás, isto é, a
atribuição, a uma coisa sensível, de um
determinado valor, neste caso mediante uma
ordem. Estaremos praticamente diante da
instituição de uma lei.
Catequese batismal
• Jo 1,19-26
• Marsili, (p. 101ss) – diversos textos bíblicos.

• Conclusões...
• No NT o Batismo é apresentado não como um
“sinal” novo, mas como parte de um ambiente
bíblico preexistente
• Na religião judaica, o Batismo é um fato
messiânico, uma propriedade do Messias;
entretanto, tendo sido prevista ainda desde a
criação do mundo, foi antecipada com a
circuncisão... Para Cristo, portanto, existem já
alguns sinais batismais, os quais o NT são a
consequência, ou melhor, a continuação dos
sinais do AT.
• A todo esse conjunto de “sinais batismais proféticos”,
relacionados ao Mistério de Cristo em virtude da fé,
Cristo dá um conteúdo próprio; todavia, não se trata de
algo “absoluto”, mas que está ligado aos conteúdos
precedentes, ou seja, tanto os “sinais” do AT quanto a
“realidade” de Cristo.

• O cumprimento desses sinais, o momento em que


assumem o seu conteúdo real, acontece com o
cumprimento do Mistério de Cristo na Páscoa.
Catequese eucarística
• Referência à Páscoa judaica;

• “O pão dado por Cristo é ‘cumprimento’ do fato da


carne no deserto. Este, com efeito, nada mais quer ser
do que a mesma carne-corpo de Cristo que Cristo ‘dará
pela vida do mundo’. Assim, ao contrário dos hebreus
do deserto, que nem haviam acabado de comer toda a
carne e já tinham morrido, aqueles que comem a “carne
do Filho do Homem terão a vida” (MARSILI, p. 112).
Conclusão sobre a “instituição” dos
Sacramentos
• Na tentativa de explicar a afirmação tridentina de que “todos” os
sacramentos foram “instituídos” por Cristo, os teólogos
recorrem à Sagrada Escritura;

• “Como tais ordens ou poderes não são localizáveis claramente


para todos os sacramentos em particular, os teólogos se
esforçam por demonstrar que Cristo é sempre instituidor dos
sacramentos mesmo quando, na falta de claros testemunhos,
creem poder falar de uma ‘instituição mediata’, quando Cristo teria
se servido dos apóstolos para efetuá-la, depois de ter-lhes dado
uma ordem mais genérica de comunicar com ‘sinais’ adequados a
sua graça” (MARSILI, p. 113).
• Nesses estudos, o risco é reduzir a reflexão a uma visão
unicamente jurídica: quer-se saber, com efeito, a que
“sinais”, livremente escolhidos por Cristo, ele teria “anexado
uma graça santificante”.

• Por isso, a instituição dos sacramentos por parte de


Cristo não pode e não deve ser vista na linha de uma
“promulgação jurídica” de um “sinal sacramental”, isto
é, de uma promulgação que por lei estabelece qual deva
ser a composição do sinal sacramental, para que a este
possa ser anexada a graça que Cristo quer dar.
• Portanto, a instituição dos sacramentos deve ser
vista na linha da “realidade”, ou seja, que
consiste simplesmente em colocar num plano de
realização aquilo que já existia em determinados
sinais no plano do anúncio profético.

• Cristo, ao dar os sacramentos, não pretende


outra coisa a não ser dar aos seres humanos, que
crerem nele, o meio para inserirem na história da
salvação, em âmbito de “realização” ou de
“atuação”.
• De fato, a história da salvação existe em dois
momentos, dos quais um é o anúncio expresso em fatos
ou palavras, que são “sinais da salvação futura”; o outro
é a realidade que esses “sinais” encontram em Cristo.
Nesse sentido, Cristo é o “grande sacramento da
salvação”, isto é, aquele no qual a “salvação é
significada-realizada-tornada presente”. Essa “salvação
real-presente” é necessariamente reservada por Cristo a
todos os seres humanos, e assim aqueles mesmos
“sinais” que antes dele “anunciavam a salvação futura”
agora, depois dele, “anunciam-realizam a salvação
tornada realidade” nele.
• Ler p. 115-116.

• “Afirmamos, portanto, que a instituição dos sacramentos


deve ser entendida como o ato com o qual Cristo,
realizador da salvação, deu plenitude e realidade a alguns
sinais já preexistentes e que já estavam em relação – na
função de anúncio – com a história da salvação”
(MARSILI, p. 116).