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A análise monetária de Wicksell

Autor(es): Ferreira, Rui Viseu
Publicado por: Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
URL URI:http://hdl.handle.net/10316.2/26101
persistente:
Accessed : 3-Aug-2018 23:27:15

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A análise monetária de Wick eH

A. INTRODUÇÃO

1. Aspectos bibliográficos

Johan Gustav Knut WrcKsELL nasceu a 20 de D ezembro
de 1851 em Estocolmo e morreu com 75 anos a 3 de Maio de
1926 (1). Foi contemporâneo de Bohm-Bowerk, Pareto,
Von Wieser, Menger, W alras, Marshall, Wagner e ainda
dos seus compatriota Davidson e Cassei, cujos trabalhos
influenciaram o seu pensamento de várias maneiras.
Em 1869, com 18 anos, começou o período de estudos,
na Universidade de Uppsala, que se estendeu durante três
décadas durante as quais obteve graus académicos em
matemática e física, direito e economia.
Wicksell começou a sua carreira académica como
matemático depois de cm 1885 ter obtido um grau
académico de altos estudos em mecânica, matemática e
física . Mas o seu interesse social e o seu desejo de trabalhar
para uma melhoria da situação da classe operária (2),

(1) Escreveu as suas obras durante os últimos 20 anos do século
passado e os primeiros 25 deste século. Neste período a Suécia era um país
pobre e atrasado. A classe trabalhadora vivia na miséria e havia uma
muito grande emigração para os Estados Unidos.
(2) De acordo com LINDAHL (1956), pág. 4. A mudança do objecto
de estudo da matemática para a economia tem a ver, no dizer de Um
(1962), com a sua preocupação com o alcoolismo que teria como causas a
pobreza, reforçada pelo aumento populacional.
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conduziu- ao e tudo da ec nomia. Naquela época não se
podia e tudar cconomi na Suéci a um ruvcl uperior já que
a ciência económica era somente en inada nas fa uldades de
direito. Assim até 1890 estudou econ mia em univer-
sidades inglesa, francesa, germânica c austríaca.
A ua preocupação inicial foi a questão populacional
endo ne te a pecto um neo-malthusiano.
O períod m i pr dutivo como economista teórico foi
entre 1890 e princípio da I Guerra Mundial cm que
escreveu a maior parte da sua obras. Entre 1890 e 1899 não
tendo uma regular po ição académica lev u a que passasse
por problema~ financeiros (3).
O seu primciro grande tratado foi publicado em 1892,
em alemão, c m o título Valor, Capital e R enda. Apesar do
reconhecimento internacional desta obra, foi recebida com
indiferença aquando da sua publicação quer na Alemanha
quer na Suécia. Uma das razõe para este facto era o
domínio, entre os cononústas alemãe , da escola histórica.
Wicksell tentou apre entar este trabalho como tese de
doutoramento na Univer idade de Uppsala, ma foi-lhe
recusado.
Wicksell virou-se então para as fmanças públicas e em
Maio de 1895 obteve um alto grau académico cm economia
política.
Nesse mesmo ano obteve também o doutoramento
com um trabalho nesta área. Em 1896 publica o seu segundo
trabalho sobre fmanças públicas. M as o lugar efectivo na
Faculdade de Filosofia de Uppsala foi-lhe recusado com o

(3) Estas dificuldades estão relacionadas com a sua reputação de
nã<H>rtodoxo em termos sociais e religiosos. Em 19010 lugar obtido na
Universidade de Iund é considerado por UHR (1951) como urna vitória
da liberdade académica.
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argumento de que a sua tese pertenci:1. à faculdade de
Direito. Sendo-lhe negada a carreira universitária sem um
grau académico em direito, obteve-o entre 1896 e 1899 com
especialização em direito fmanceiro.
Entretanto, em 1898, acabou o seu segundo tratado,
traduzido como Juro e Preços.
Wicksell serviu somente um ano como docente na
Universidade de UPPS().la, porque cm 1900 abriu um lugar
de direito financeiro e economia na Universidade de Lund.
Depois de disputar o lugar com G. Cassei obteve-o em 1901
c exerceu-o até 1916. Em 1901 publicou o primeiro volume
das suas Lições de Economia Pof{tica, que são uma refor-
mulação, com alterações na teoria do capitél.l do seu Valor,
Capital e R enda (1892). Em 1906 o segundo volume das
«Lições») foi dado a estampa, representando uma reedição
reformulada de Juro e Preços.
Quando da sua retirada do ensino muda-se para um
subúrbio de Estocolmo de onde entre 1916-1926 exerceu
uma acção decisiva nos debates económicos do seu tempo,
intervindo como um homem da ciência e não como um
político, sendo considerado o decano dos economistas
suecos. Neste período desenvolve U111 programa anti-
inflação, que vai desenvolvendo e aperfeiçoando numa série
de artigos entre 1915-1925.
Em 1925 está preocupado em rever a sua análise, que
publicou no 2. o volume das sua~ «Lições», à luz da expe-
riência sueca durante a guerra e no pós-guerra. Esta foi a sua
última contribuição para a ciência económica já que a morte
retirou-o do convívio dos vivos em 1926.
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2. A Teoria económica no tempo de Wicksell

Q uand Wick eU come ou os eu e tudos econó-
micos, por v lta de 1885, os marginalistas tinham conse-
guido impôr a ua concepções económicas. O mo da
matemática trouxe ao economistas uma metodologia
uperior ao empiri m e téril da e cola rustórica Alemã. Era
o método deduti o da uce siva apr ximações que
permitiam ao ec nomi ta ab trair- e do detalhe e in ter-
relaçõe confu a e i olar a força deci iv:\s capazes de
explicar a complexa realidade que a teoria económica
procura compreender. Mas esta teorias não estavam ainda
totalmente desenvolvidas nem coordenadas uma com as
outras, que ó veio a acontecer durante o anos noventa do
século em curso. Wicksell de empenhou um papel signi-
ficativo ne te desenvolvimento.
Depoi da rev lução marginalista de 1870, não existia
wn único istcma de economia política; todavia, todas as
escolas, s m diferença apreciáveis, partilhavam o mesmo
conceito de análise: o equilíbrio geral. A divergência incidia
sobre o pontos mel/os importantes como a modalidade
técnica para descrever o equilíbrio. É uma questão à qual
aparece ligado o nome de Walras, mas que está implícita em
Marshall e nas obras principais da e cola austríaca (Wieser,
Menger, Bohm-Bowerk).
Por volta de 1890 o edifício teórico dos marginalistas
parecia estar completo. Ma faltava-lhe a integração lógica
das diversas partes construídas pelos diversos arq uitectos.
Menger, Wieser e Bohm-Bowerk trabalhavam cada um
em especialidades separada, aparentemente incapazes de
chegar à síntese das suas teorias. Menger especializou-se na
teoria da utilidade marginal e empenhou- e numa batalha
metodológica contra a Escola Histórica Alemã, parti-
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cularmente com Schmoller. Weiser concentrou-se nos
problemas do desenvolvimento econ6mico e social s6
voltando à teoria pura cm 1913. Bõhm-Bowerk perdeu-se
com as polémicas com os marxistas e com as teorias
produtivas do juro.
Marshall e Edgeworth cm Inglaterra, aceitando a teoria
da utilidade marginal, insistiam num outro determinante, o
custo real. Marshall, por outro lado, não aceitava parte da
concepção de Bõhm-Bowerk.
A escola de Lausanne, centrada à volta de Walras e dos
seus seguidores, Pareto e Barone, parecia mais bem colocada
para a síntese devido ao método de equilíbrio geral e da
análise matemática-funcional das causas e interrelações
multiplas e mútuas. Mas, discordavam de certos aspectos da
teoria austríaca, especialmente da concepção de Bõhm-
Bowerk da produção e capital.
Wicksell resolveu-se a tentar consolidar os ganhos
fcitos pelos mais representativos da nova doutrina num
sistema coordenado; dos seus esforços resultou o tratado
Valor, Capital e Renda e mais tarde as suas Lições-I. Para
conseguir o seu objectivo utilizou como núcleo o sistema
Walrasiano, aperfeiçoando-o com os contributos dos outros
expoentes desta doutrina, cm especial na parte relativa ao
capital.

3. A teoria monetária antes de Wicksell: Walras

Todos os trabalhos dos autores marginalistas, de Bõhm-
-Bowerk a Marshall passando por Walras, são incapazes de
dar conta dos movimentos gerais dos valores c das
quantidades a que chamam de movimentos de curta
duração, de longa duração, etc .. A lei dos mercados de Say
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permanec válida. Em última análi e são as mercadoria que
e trocam contra a mercadoria. Ma e ta te e nã nos
explica porque variam preç e a quantidades da
mercadoria trocada. A fê rma de ultrapa ar e ta que tão é
intr duzir a procura de moeda. E tes autores fá-lo-ão
justapond à te ria econónúca geral uma teoria da moeda
que lhe é heter génea ou que, pelo menos, lhe é exteri r.
O fact r m netári apar ce com um multiplicador que
afecta de um mesmo coeficiente s diferente preços
relativ . De um lado temo uma te ria d preços relativos
em term ubjectiv, do outr uma te ria quantitativa da
moeda em termo mecânicos. De uma à outra, nenhuma
pas agem é pos ível. Uma conciliação puramente verbal
opera-se na afirmação de que a moeda é um véu que basta
levantar para encontrar os fenómenos reai : os movimentos
do preço absolutos não modificam os preços relativos ou as
condiçõe de pr dução, a m eda é neutra.
Vejamos em particular a teoria de um destes autores,
Walras (I). No que re peita à parte monetária limita-se a
introduzir, justap ndo à parte real, a teoria quantitativa da
moeda. De facto, WaLras considera a p:\rtir da IV edição a
moeda di tinta do numerário, uma moeda sem valor
intrúl ec e atribui a sua procura à utilidade do «service
d'approvi ionnément» que rende. Na ua construção a
m eda é um dos muitos capitais circulantes que satisfazem
«as neces idades de aprovisionamento». O consumidores-
explica Walras - u am capital circulante nas duas formas
de stocks de ben de consumo e de reserva monetária, com
vista a futuras aquisições ou investimento; os empresários
usam-no na forma de stocks de matérias-primas, bens

(1) Seguimos de perto a interpretação deste autor de FABBRINI
(1951).
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acabados e reserva monetária. A reservas monetárias são
necessárias para as aquisições de bens de consumo ou erviços
produtiv s, u para reconstituir os stocks, quando não são
sincronizávei com as venda. A procura de moeda é devia,
consequentemente, somente ao motivo transacção.
A partir desta concepçã de moeda, a reserva monetária
c mo stocks do vários bens são introduzidos no esquema
de equilíbrio geral e as quantidades oferecidas e procuradas
ão função de todos os preços, compreendend os dos
capitais circulantes e da moeda (a taxa de juro).
A análi e marginal i ta torna-se, assim, extensível à
111 eda: derivando a função utilidade determina-se a
quantidade efectiva oferecida e procurada de reserva
monetária de cada indivíduo e, por agregação, de conjunto
dos indivíduos; o «tâtonnement», mediante a variação do
preço da moeda (a taxa de juro), elimina o excedente de
oferta (ou da procura) totais.
A Walras deve reconhecer-se portanto, o mérito de
haver incluído a equação de «cash-balance» no sistema de
equilíbrio geral e de tê-la obtido com o método típico da
análise do equilíbrio, respeitando a simetria do sistema.
De f.:1.cto verifica-se uma diferença fundamental entre o
«tâtonnement» desta fase e os das fases precedentes, as que
explicam o equilíbrio da troca, da troca e da produção e da
troca, produção e capitalização. O equilíbrio monetário
vem depois de alcançado o equilíbrio de troca, produção e
capitalização e, portanto, fora do sistema de equações do
eqtúlíbrio económico geral. Durante este ajustamento
verificam-se oscilações somente num preço, o preço do
serviço de aprovisionamento da moeda, não influindo na
procura e oferta efectivas dos vários bens e não sendo
necessárias oscilações de preços nos outros mercados.
A consequência é de que os preços de equilíbrio relativos
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p dem er determinad omente n mcrcado de bens,
c m numa cc n mia c m numerári ,ma sem moeda. O
preços relativ não ã perturbad pela determinaçâo do
rúvel ab luto de equilíbri d s preç , fcctuada no
mercado mon tári .
Devid a e ta brep sição do pr cesso de formação
dos preç a te ria m nctária não é mai integrada com a
teoria da pr duçã e da capitalização e a extensão da análise
marginali ta à m eda não se verifica de facto.
O erro fundamental de Walras é de não considerar o
((real bal nce fcct», pelo qual uma alt raçã do rúvel de
preços prov ca uma variação no valor real da reserva
mon tária wn aumento u uma diminuiçã da procura de
moeda e COl1 equentemente uma repercussão obre o preço
das mercad rias. Este crro deve-se a uma inadmissível
eparação entre a equações do istema, resolvendo sepa-
radamente aquelas que determinam os preços relativos das
mercadorias daquela que determinam o rúvel absoluto.
Concluindo, Walras procura extender a análise mar-
ginalista aos Dnómenos monetário, p lo que substitui a
equação da teoria quantitativa pela equação de Cambridge.
Mas não soube ju tificar no processo dinâmico que leva ao
equilíbrio a relação desta com a troca, produção e
capitalização. A teoria monetária para Walra depois de
tanto trabalho e refmamento da análise, volta a ser a que
enunciara na primeira dição: a teoria quantitativa.

4. A teoria monetária antes de Wicksell: os ante-
cedentes

4.1. A teoria monetária é menos abstracta que a maior
parte da teoria económica, na medida cm que não pode
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evitar uma relação com a realidade, a qual não existe, de
Fc rma imediata, a maior parte das vezes na «outra» teoria
económica. Esta relação com a realidade condiciona por sua
vez a pertinência da teoria monetária. A passagem de
moeda metálica para papel moeda condiciona a teoria
m netária, mas dizer que a moeda metálica deu lugar à
moeda de crédito, não é, contudo, ir ao cerne da questão.
A alteração crucial da moeda, de moeda metálica para notas
ou depósitos bancário, é uma simples parte de um
desenvolvimento profundo, o desenvolvimento do sistema
financeir .
A maior parte dos economistas clássicos situava a sua
análise monetária numa economia representada por um
modelo de moeda metálica, quando no tempo de Ricardo o
desenvolvimento do crédito já era apreciável. Ao tentar
tratar o sistema monetário como se fosse um sistema
metálico, Ricardo estava a olhar para o passado. O sistema
monetário em termos do qual ele pensava era já, no seu
tempo, uma coisa do passado. Era o sistema em que todo o
empréstimo era de longo prazo, a taxa de juro era
inteiramente determinada pela poupança c investimento, o
nível de actividade era somente determinado pelos factores
reais do sistema, e a quantidade de moeda actuava somente
obre o nível de preços.
Houve pelo menos um dos seus contemporâneos para
quem esta análise não se ajustava na medida em que se
colocava na óptica da moeda de crédito. Este autor era
Henry THORNTON (1) e que tinha uma teoria de curto prazo
a partir da análise de uma economia de crédito. Para Hicks

(1) Escreveu A.n Ellquiry into the Nature and Effects of the Paper
Credit of Great Britain (1802), seis anos antes de qualquer dos escritos de
Ricardo. A sua teoria foi por n6s estudada a partir das referências
encontradas em Um (1962) e HICKS (1967) .
80

(1967) c te autor tem a melhor análi c do funcionamento
de um i tema de crédit entre s velhos econ mistas.
Thornt n não m nte reconheceu que nos períodos
curt a cau a monetárias podem ter efeit s reais, mas
também que num i tema de crédit o reverso pode
acontecer. A cau a re i têm efeitos m netário . O sis-
tema de crédit expandir-sc-á automaticamente se houver
causa reai a pr mover uma expansão da actividade e
contrair-se-á se h uver pânico ou se houver alterações na
procura de capital que provoquem c ntracçõe. Algumas
destas expansõe e contracções seriam desejáveis, outras não.
Assim haveria a necessidade que o sistema de crédito fosse
gerido.
E te autor parece ter influenciado Wicksell dada a
proximidade de po içõe, mas aparentemente Wicksell
nunca o leu porque nunca se lhe refere, enquanto discute
certo escritos de Tooke c Ricardo. Parece ter sido
Davidson o primeiro autor sueco seu contemporâneo a
redescobrir Thornton quando em 1916 e creveu um artigo
sobre este autor que expõe sucintamente a sua teoria do
movimento dos preços devido à divergência entre a taxa de
lucro e a taxa de juro. Ao ler este artigo Wicksell ficou
surpreendido por encontrar ideias similares às suas num
autor anterior a Ricardo.
Thornton tomou claro que a depreciação da libra-papel
foi devido à emissão de notas resultantes da máxima taxa de
desconto legal do Banco de Inglaterra ser inferior à taxa de
lucro mercantil durante as guerras napoleónicas. Como
resultado desta situação previu um processo inflacionista
cumulativo enquanto esta situação persistisse. Esta emissão
adicional de nota do Banco poderia nunca se ter tornado
excessiva mesmo com escassez derivada da guerra e uma
taxa de desconto fixa se assistíssemos a um aumento dos
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preços mai rápidos que os custos o que faria com que as
notas extras aumentassem ou mantivessem a alta taxa de
lucr .

4.2. Uma pOSlçao semelhante foi tomada por
RICARDO poucos anos depois no seu trabalho The High Price
of Bullioll (1811), argumento que se manteve com os seus
PrincipIes of PoliticaI Economy and Taxation (1817). Mas
Ricardo, pelas limitações derivadas do seu modelo ser de
moeda metálic2., nunca extendeu a sua análise em termos de
implicações para a estabilidades dos preços. Wicksell tinha
consciência da limitação do seu modelo ao referir que
Ricardo nunca o poderia ter feito ao defender o padrão-
-ouro como meio de conseguir uma moeda de valor estável.

4.3. A essência da tcoria dos anti-bulionistas e da
posição da Banking School foi que variações na procura de
investimento influem no nível de preços e nas variações
quantitativas da moeda. Thomas TOOKE foi o expoente na
divulgação desta ideia (1).
Esta observação de Tooke causou consternação. Com
base na teoria quantitativa, os períodos de aumento da
produção de ouro eram considerados períodos de elevação
de preços e queda das taxas de juro. Com o seu estudo
empírico demonstrou que os períodos de elevação dos
preços são períodos de mais elevada actividade de inves-
timento e aumento das taxas de juro e de desconto, e vice-
-versa.

(1) Escreveu Enquiry inta Currtncy PrincipIe (1846) e Histari' af
Prices and the State af Circu!atian, 1792-1856, publicado em seis volwnes
entre 1838 e 1857.
6
82

Esta aparente contradição nã foi resolvida satis-
fatoriamente até Wicks 11 o fazer no eu JIUO e Preços.
Partindo de uma situação de equilíbrio, ades oberta de
novas minas de uro aumentará a pr cura de bens de
equipament e ben de consum numa primeira fase, para
equipar as mina e atisfazer as necessidade de consumo dos
seus operários. P r i a descoberta de nova minas levará a
um aumento da xportações dos país e que não produzem o
ouro, o que provocará um aumento do preços. Como
resultado as taxas de juro «reais» aumentarão, e com elas a
procura de fundos para investir. Se s bancos estivessem a
emprestar o máximo que podiam antes da descoberta do
ouro, haverá com o aumento da procura um aumento das
taxas de juro monetárias, pelo menos no intervalo entre a
nova descoberta e a entrada do ouro como contrapartida das
exportações para crédito dos produtores de ouro.
Tooke teria razão ao afLImar que o aumento do preço
precede o amnento da quantidade de moeda e que é
acompanhado por um aumento das taxas de juro. P r outro
lado, os quantitativistas não estavam errados ao inferirem
que n? cquência da descoberta de orno, os preços subiriam e
a taxa de juro diminuiria. Contudo, esta era uma análise de
longo prazo, enquanto a de Tooke se aplicava ao curto prazo
ou à fase transitória.

4.4. A variação na procura de investimento implica
desajustamentos entre a procura e a oferta agregada e
consequentemente põe em causa a aplicação da lei de Say à
análise de curto prazo; era uma ideia profundamente
enraizada, mesmo se nem sempre claramente expressa, no
pensamento dos «não-ortodoxos» da escola clássica. Teriam
sido Sismondi e Malthus os responsáveis por esta concepção,
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cmbora utros, nomeadamente Bentham e Mill (1) tenham
contribuído para ela.
É peculiar que Wickscll, que construiu a sua teoria com
base na probabilidade e na constatação frequente de
desajustamentos de curto prazo entre a oferta e a procura
agregadas (reveladas por diferenças entre as taxas de juro real
e nominal), nunca tenha mencionado Sismondi e Malthus.
O segundo aparece referido a prop6sito da sua teoria da
população. Não surpreenderá se o seu silêncio em relação a
estes autores seja devido à sua rejeição dos estrangulamentos
devidos a uma teoria do subconsumo. Esta será prova-
velmente a r~.zão pelo qual insiste que a sua explicação da
flutuação dos preços não deverá ser tomada como uma
teoria do sobre-investimento dos ciclos econ6micos.

4.5. Outros, nomeadamente Walras, Edgeworth,
Jevons e Giffen, provavelmente influenciaram os conceitos
de Wicksell sobre crédito, bancos e velocidade de circulação
da moeda com os seus trabalhos sobre estes assuntos (2).
Contudo, a referência de Wickscll a estes escritores é
escassa, e não discute as suas posições em profundidade.

(1) JOHN STUART MILL na clnfluence of Consumption upon
Productiont (no seu Essays on UlIsettled Questiolls) apresentou uma teoria
de curto prazo. Mas é notável que 110S seus Principies (1848 - o cEssa}'»
foi publicado em 1844, mas escrito antes) não encontremos qualquer
referência à sua análise de curto prazo. HICKS (1967) considera que a teoria
do Essay não foi explicitada nos Prh"iples por ser «perigosa.. É de
salientar que a obra de Mill de 1844 surja depois da ocorrência das duas
primeiras crises de uma série de «crises de crédito. ocorridas no século XIX
em lnglaterra.
(2) LÉON W ALltAS: Théorie lIIathelllatique du BiIlet de Banque (1879)
e Théorie de la lIIonllaie (1884); EOGWORTH: Mathematical theorie of Banking
(1886); JBVONS : MOlley and the mechanism of Exchange (1875) e
lnvestigatioons in Currency and Finance (1884); GIFFBN: Essays in Finance
(1886) .
84

Finalmente vem Mar hall. Referências no Juro e Preços
(pág. 46, 76, 158 e 183) mostram que Wick cll e tava
fanúliarizado com Evidetlce mzd Memorando de Mar hall
anterior a 1886. Os comentários de Wicksell eram breves e
não realçavam nada em especial nas posições de Marshall.
No entanto, parece que Wicksell não estava a par do artigo
de Marshall «Remedies for Flutuation of General Prices»
(Março, 1887). Este artigo apresenta o essencial das posições
deste autor sobre a análi e monetária. Por outro lado,
Marshall ignorava o trabalho de Wicksell apesar das
conferência por e te proferidas em 1906 em Inglaterra e do
artigo publicado em 1907 no Economic Journal «The
influence of Interest and Prices», já que Money, Credit alld
Commerce (1922) não se refere a Wicksell.
Em Inglaterra as posições monetárias de Wicksell s6
tiveram impacto com a discussão de Keynes de Juro e Preços
no seu Tratado da Moeda (1930). Por esta razão Uhr (1962)
entende que Marshall deve ser tratado como um antecedente
de Wicksell, apesar de contemporâneos, porque nunc2. se
conseguiu emancipar da teoria quantitativa. Foi Keynes
quem pela primeira vez qualificou a análise monetária de'
Marshall comparativamente à de Wicksell como per-
tencendo a uma época mais prinútiva no desenvolvimento
da teoria monetária.

B. A TEORIA MONETÁRIA DE WICKSELL

1. O conceito de moeda

Wicksell na sua definição de moeda começa logo por se
distanciar da teoria quantitativa mecanicista quando na parte
central da sua análise, o seu tratamento do equilíbrio entre o
8S

«mercado monetário» e o «mercado de bens» emprega a
seguinte deftnição «... economically spealcing, money is a
quantity in two dimensio~ls, quantity of value on the one hand
and velocity of turnover or circulation on the other. These
two dimensions multiplied together give the efftciency of
money (Helfferich) or its power to facilitate the turno ver of
goods during a given time, in the course, for exemple, of
one consumption year» (1). Desta forma Wicksell começa
logo por abandonar a hipótese de uma velocidade de
circulação da moeda constante, hipótese esta característica
dos quantitativist2.s mecanicistas.
A distinção entre moeda e as mercadorias ordinárias
resulta do facto de a moeda, diferentemente dos outros bens
não possuir uma utilidade djrecta, somente uma indirecta, a
utilidade dos bens que pode comandar. Mais, diferen-
temente dos outros bens, a moeda não é consumida pelo seu
uso. Permanece em circulação e a sua quantidade é igual ao
agregado dos «cash balances». Como uma «quantidade de
valor», é igual ao valor real do agregado dos «cash balances».
Isto também explica o paradoxo de poupar, nomeadamente,
qua quando todos tentam aumentar os seus «cash balances»
ao mesmo tempo, ninguém tem sucesso, porque sendo dada
a quantidade, a sua taxa de circulação declina enquanto o seu
valor aumenta na medida em que descem os preços (2).
Quanto às funções da moeda importa destacar como
função principal a de meio de troca, que é a função que
permite correlacionar rácios de troca de mercadorias uns
com os outros, facilitando assim o equilíbrio do mercado.
Tomada isoladamente a sua função de meio de troca é neutra
em relação (i. é, determinada independentemente de) aos

(') WICKSELL (1906), pág. 19. Itálicos acrescentados.
(2) WICKSELL (1906), pág. 8-9 e 20.
86

preços relativ s das mercadorias cujas relações de troca ã
correlacionada p r mei daquela.
Num mercado perfeito os preços relativos são deter-
minados por wna intervenção mútua da preferência dos
conswnidor s e do cu tos de produção. Claramente, as
condições que determinam o preços relativos não deter-
minam o valor da moeda, porque preço rdativo do meio
de troca em relação a i mesmo é igual à unidade.
Desta análi e resulta a distinção entre o «mercado
monetário» e «mercado de bens» já que as força que
determinam o «valor» na duas esferas não são as mesma.

2. A velocidade de circulação da moeda

De acordo com Uhr (1962) a doutrina monetária de
Wicksell pode ser discutida do ponto de vista de se ter a
função de reserva de valor como ponto d.e partir.a (1) e apa-
recendo e tritarnente as ociada à velocidade de circulação da
moeda.
Wicksell parte de uma economia cm equilíbrio de
pleno-empre-go, presumivelmente devido ao facto de as
funções da moeda poderem ser melhor compreendidas em
circunstâncias em que não operem fora do habitual. O seu
conceito de velocidade de circulação foi expresso da seguinte
manelra:
«The period during wich any piece of money is on
average retained in the safe, between a salc and a subscquent
purchse, may be c~llc d the average period of idleness; and
the inverted value of this period of time, expressed as a wút
(say a year) will be the average velocity of circulation .. .

(1) UHR (1962) , pág. 218.
R7

Included in the circulation of money is of coursc the
transfer of money from one person to another by mcans of
loans or advances» (1).
Apesar de :? sua concepção de V não ser muito clara, a
qual s6 receberá melh r elaboração com Fisher, podemos
verifto.r que as alterações no valor de V dependem dos
motivos que alteram a procura de moeda quer através de um
enfoque macroecon6mico que ponha especial relevo nos
aspectos institucionais, quer através do comum enfoque
microeconómico (2).
Wicksdl apresenta o enfoque microecon6mico bali-
zado pelo aspecto institucional, a sua hipótese de uma
economia de crédito pura, como se veriftca dos motivos que
compõe a procura de moeda: (a) procura de dinheiro para
transacções; (b) reserva pelo motivo de precaução; (c) para
acumub.r poupanças à espera J.e oportunidades de inves-
timento; (O.) par2. liquidar grandes parcelas de capital c;
(e) para ter um fornecimento de moeda ou notas de banco
quando se torna difícil:? sua obtenção. Os motivos (a) e (b)
servem como m2.rgem de segur:?nça, enquanto os motivos
(c) e (e) serão nulos cm termos líquidos quando as poupanças
são investidas e não ocorrem pânicos fmanceiros. Final-
mente, (d), a procura para liquid~.r grandes parcelas de
capital, é vista como um imprevisível mas pouco importante
motivo. Está relacionado com sÍtu2.ções de partilha, legados
ou conflitos entre partes (3).
(I) WICKSBLL (1906), pág. 60. Wicksell dedica o cap. III, o
capítulo central em termos das hipóteses do seu argumento, ao estudo da
velocidade de circulação e ao sistema de crédito: .the velocity of
circulation of money, banking and crediu.
(2) Estes dois enfoques foram explicitados por BOISSIEU (1977) que
considera como exemplo do enfoque micro económico as análises dos
keynesianos e monetaristas .
(3) WICKSELL apresenta estes argumentos no seu Juro e Preços e vem
citado por UHR (1962), pág. 221.
Havendo indicado que V é uma função de varlas
variáveis, deixou para os outros a tarefa de investigar a sua
determinação em detalhe enquanto devotava a ua atenção
mais para os aspectos macroeconómicos, como a variação
potencial de V como parte de MV a partir do crédito,
que analisaremos de seguida.

3. O desenvolvimento do crédito como um aumento
virtual de V

Na sua análise dos aspectos institucionais, em especial
do sistema de crédito, Wicksell faz uso da constatação de
que quando os pagamentos são feitos por uma compensação
mútua, o uso da moeda diminui. A moeda que de outra
maneira teria sido usada na ausência de crédito está agora
livre. Assim o desenvolvimento do crédito aumenta a
virtual velocidade de circulação de um dado stock
monetário. Com base nesta constatação começa a ver os
sistemas monetários existentes a uma nova luz e a classi-
ficá-los de acordo com o grau de desenvolvimento do
sistema de crédito. Num extremo há uma economia de
troca pura onde não há crédito. Neste caso V depende
claramente dos hábitos de pagamento e em termos práticos
pode ser considerada uma constante e a teoria quantitativa é
válida. Logo que haja crédito, V torna-se variável ou
elástica.
Deste ponto de vista a progressiva substituição de
crédito por moeda metálica, ao afectar de forma progressiva
os pagamentos, é visualizada em termos de uma evolução
das instituições bancárias. Os bancos comerciús desen-
volvem-se, o que obvia o uso de moeda para pagamentos,
sendo esta convertida em depósitos à vista. Um banco
R9

central é criado para· centralizar as reservas dos bancos
privados. Este facto torna possível uma expansão múltipla
dos depósitos e da notas. O banco central adquire poderes
para exercer um control sobre a expansão do crédito,
principalmente pela sua habilidade em manipular a taxa de
desconto e em condicionar a política de crédito dos bancos
privados via operações de «open-market».
No mercado de crédito puro V torna-se infmitamente
elástica. Consequentemente a oferta de moeda deixa de ser
um obstáculo ao desenvolvimento económico, sujeitando-se
somente aos termos cm que os bancos centrais controlam o
crédito. Nestas circunstâncias os poderes das instituições
bancárias serão medidos pela sua capacidade para adoptarem
uma política de crédito racional, que Wickscll entende
como uma política capaz de manter o valor da moeda, a
unidade de cont;)., constante (1).

(1) JONUNG (1978), retoma a análise Wickselliana de v com ênfase
nos aspectos institucionais para determinar a procura de moeda de longo
prazo. Considerando existir urna curva de v em u no longo prazo, a parte
decrescente (1870-1920) seria explicada, de acordo com Wicksell, pelo
processo de monetarização que consiste em dois aspectos interdepen-
dentes: a) o uso crescente da moeda na sua função de meio de pagamento,
resultado da diminuição da troca em espécie e da produção para
autoconsumo; b) o crescimento dos bancos comerciais oferecendo ao
público notas e facilidades nos depósitos.
A parte crescente (1920-1970) seria explicada por (A) um aumento
da sofisticação fmanceira e (B) um aumento da estabilidade e segurança
económica. A «sofisticação fmanceira. descreve duas tendências;
primeiro, o aparecimento de um largo número de substitutos da moeda
como títulos, acções e outros activos fmanceiros; e segundo, o
desenvolvimento de vários métodos para economizar a moeda, como o
cartão de crédito, transferência de fundos por meios electrónicos ou
telefone, etc.. O aumento da estabilidade e segurança económica reduz a
procura de moeda pelos motivos precaução e reserva de valor, e está
associada ao peso crescente da segurança social e ao sucesso do modelo de
crescimento dos pós-guerra.
Assim as variações em v serianl o resultado de alterações
institucionais que provocariam substituições: primeiro a substittúção de
4. O valor da moeda pode ser afectado por variações
na velocidade de circulação

Nesta altura será útil levantar a questão de como o valor
da moeda é determinado na análi e de Wicksdl através da
função da m cda com reserva de valor que aparece
associada ao conceit de velocidade de circulação da moeda.
C ntudo, WickscU não o demomtra explicitamente. Em
vez disso pre cupa- e com o problema d vai r da moeda
d ponto de vista da procura agregada, deixando a
velocidade de circulação implícita.
Com erá evidente, o «modelo» seguinte será grosseiro
na medida em que todas as alterações de grandeza dos «cash
balances» têm de vir expres os em variações de V se
reflectem a concepção de Wicksdl sobre a função de reserva
de valor da moeda.
O modelo assume uma economia fechada operando em
livre concorrência e total utilização dos recursos. É uma
economia com um sistema de crédito puro e está
inicialmente em equilíbrio monetário, o qual, para sim-
plificar, pode ser considerado como o que tem o nível de
preços, P, associado a uma produção corrente, O, constante.
A moeda será uma «Ulúc.;>.de de conta». Em termos
agregados é a quantidade de valor multiplicada pela
velocidade de circulação - M. V. Sendo M a quantidade de
valor igual ao somatório dos «cash balances», o valor real do
qual depende a qualquer momento P, sendo e V °
constantes. Comequentemente, V = PO/M depende da

activos reais por moeda na forma de notas e depósitos e outras formas de
pagamento e de reserva de valor; segundo a substituição da moeda por
novos activos. A análise de WickseIl explicaria a parte decrescente da
curva, enquanto a parte crescente seria explicada por uma extensão desta
análise, mantendo uma grande ênfase nas alterações institucionais.
91

disposiçã da comunidade para acumular reservas de valor
na forma de moeda. A quantidade de moeda armazenada é
l/V = M/PO, com M e ° dados; um aumento na
disposição para guardar valores líquidos pode somente ter
como resultado uma redução de V c uma diminuição de P, e
VI cc-versa.

Sendo M, por definição, igual em qualquer momento à
procura e oferta de moeda, alterações no «valor da moeda~,
i. é em P, têm que ser consideradas entre as forças que
operam sobre a disposiçã de guardar valores líquidos, ou
seja, que operam sobre a procura de moeda. Como vimos, o
maior e mais variável dos dementos da procura de moeda é
a procura líquida pelos poupadores de saldos nos quais
possam guardar o valor das suas poupanças enquanto estas
esperam a oportunidade de investimento. Num «sistema em
ordem» eSt;!. procura líquida deve ser nula.
Se o sistema não está «em ordem~, ou seja, e está em
desequilíbrio, então os dep6sitos criados a favor dos
empresários (os créditos conhecidos) podem ser superiores à
poupança acumulada .
Para facilitar a análise vamos ignorar os outros
elementos da procura de moeda, em especial os relacionados
com o motivo transacção e precaução (os motivos (a) e (b)
referidos), reconhecendo-os, no entanto, como sendo
capazes de variações independentes num sistema que esteja
cm ou pr6ximo do equilíbrio.
Assim, em equilíbrio 1 = S, ambos considerados ex-
ante; nestas circunstâncias P será constante. Mas se I excede
S ex-ante , V tem de aumentar, desde que M se mantenha
constante. O contrário acontecerá se I for menor que S,
ex-ante. Consideremos as variações de V, como sendo d V.
Então se I > S, temos:
[M (V + dV)]. l /O = P' com P' > P
92

Mas se I < S, temo :
[M (V + dV)]. 1;0 = P" com P" < P
Contud , V tem um preço de oferta, a taxa de desconto
ou taxa de juro de empréstimo, i, o qual é determinado pelos
bancos centrais. Esta taxa também determina fluxo de
saldos d poupança. Mas se bancos estão activamente
empenhad s na criação de depósitos, V pode aumentar
indefrnidamente d ponto de vista da oferta, indepen-
dentemente d"s p upança. Se V aumenta ou não para um
vaI r dado de i, para o qual o fluxo de p upanças c a
di posição para armazenar valore líquidos têm que ser
também dado, dependc da procura de investimento.
A procura de inve timento, é por sua vez, função da taxa de
retorno e perada do novo capital investido, a taxa de juro
real de Wicksell, r. Para i dado, o investimento deve
alcançar uma gr;mdeza que iguale r a i. Se, devido à inércia
ou a uma falha de política, o banco central mantém i
constante enquanto r aumenta, I excede S c a consequência é
um aumento dos preços. O aumento de P toma-se
cumulativo desde que o aumento inicial de P aumente r cada
vez mais .
Este processo cumulativo continua até o banco central,
ou uma crise, pará-lo com um aun1ento suficiente de i, ou
uma diminuição suficiente de r. Mas se em vez de um
«sistema de crédito puro» tivermos um sistema de padrão-
ouro, ao aumento cumulativo dos preços sobrevem um
dreno da liquidez interna que delapida as reservas de ouro do
banco central e força-o a parar o processo cumulativo com
um aumento da taxa de desconto.
Da tradicional teoria quantitativa da moeda pouco
ficou. NW11a economia de crédito «um aumento da
quantidade de moeda» pode somente ocorrer com o
consentimento e cooperação do banco central. Se tal
93

aumento ocorre é devido a um aumento da procura de
moeda, devido a um aumento de r relativamente a í. Ma
então o aumento da quantidade de moeda torna-se num
aumento de criação de dep6sitos, i. é, um aumento de V.
Assim Wicksdl tran forma a teoria quantiativa numa teoria
de velocidade de circulação da moeda. Como consequência
Wicksell torna claro que a ~nálise monetária tem de
proceder à desqualificação da lei de Say no curto prazo por
meio de uma análise agregada da procura-oferta. Esta
desqualificação depende da existência de um sistema
bancário, criador de moeda, que torne possível um oferta de
crédito elástica e dependente da diferença entre j e r.

5. O mercado monetário versus mercado de bens

Wicksell definiu o valor da moeda e os meios de o
medir como segue: «We mcan by value of money exact1y
the same thing as the exchange value of money, its
purchasing power as against goods and services. To us,
therefore, the vaI ue of money and the price levei are
synonymous, or more correcty, correlative ideas» (1).
Desta definição e da dupla dimensão do conceito de
moeda, decorre a necessidade de uma análise na base da
procura e oferta agregadas para determinar o valor de troca
da moeda .
A sua crítica construtiva à teoria quantiativa tomou-se
o ponto de partida para investigar as condições do equilíbrio
monetário. Entre os defeitos da teoria quantitativa ele notou
em particular o conceito uni-dimensional de moeda e o
mecanismo associado de que alterações de curto prazo na

(1) WICKSBLL (1906), pág. 129.
94

quantidade de m eda implic m alteraç-e pr p rCl nalS no
nível do preç .
Para res lver problema de c m a moeda agr gada
p de exceder u ser inferior à oferta de bens Wicksell LU
u o de categ rias di tintas tai como o «mercad de bens~ c o
«mercad monetário». A ua suge tão d dois mercados é
um frutuo o mei analítico. Keyne utiliza um método
análogo quando distingue entre «a circulação industrial~ e a
«circulação financ ira)), n Tre(/(ise 011 Money, cap. 15.
P,trl Uhr (1962) (I) a moderna contrapartida desta ideia
está para as teorias do rendimento e emprego na ênfase dada
à falta da nece ária co rdenação entre os agentes econ6-
mico que poupam e dos que tomam as decisões de investir.
No juro e Preços Wicksell analisa o «mercado de bens~
cm tcrm s de uma economia de troca pura. Uma relação
neste mercado tcm uma importância estratégica na sua
teoria, a saber. a proporção na qual a produção corrente é
dividida em «presente» ou bens de consumo c «futura» ou
bens de capital. Dada a preferência de tempo dos receptores
de rendimento ao escolherem o uso a dar ao rendimento real
tntre con umo c poupança real, a taxa de juro natural
reflecte a produtividade marginal do capital correspondente
ao investimento real de equilíbrio.
A razão da defmição de «mercado de bens» foi explicitar
que os preços relativos são deternúnados pelas condições de
produção e de consumo de que dependem. não exercendo
qualquer influência sobre o nível absoluto de preços, ou seja,
justificando a separação entre «mercado de bens» c «mercado
monetário~.
Mas para esta separação ser efectiva não era necessário
construir o mercado de bens em termos de uma economia de

(I) Pág. 226.
95

tr ca pura em moeda,já que nesta não se poderia comparar
a taxa de produtividade marginal dos diversos bens. Uma
vez monetarizado o «mercado de bens» cm termos de uma
moeda com um valor constante, Wicksell substitui a
definição de taxa natural por taxa real de juro definida em
termos de valor de troca como o valor da produtividade
marginal do capital real, o que aconteceu nas Lições-II,
pág. 190 e seguintes.
No mercado monetário as transacções seriam mediadas
pelo banco central e pelo sistema de bancos privados
independentes. Embora Wicksdl reconhecesse a xistência
de bancos de investimentos especiais, não diferenciava as suas
funções das dos bancos comerciús.
Os bancos recebiam poupanças dos recebedores de
rendimento, incluindo firmas e ('mprest~vam-nas aos
empresários-investidores a uma taxa de juro monetária, que
seria uma média das taxas de juro diferenciadas. Se os
bancos não abusassem da criação de depósitos e o público do
desinvestimento, a taxa de juro monetária tenderia a
estabelecer a competição a um nível tal que o investimento
igualasse a poupança.
A procura de fundos de investimento é determinada
pela taxa de j uro real. A oferta de crédito é elástica (devido
à variabilidade de V tornada possível pela passiva ou
deliberada criação de depósitos pelos bancos) pelo que a
oferta de fundos para investimento não precisa de ser igual a
curto prazo à poupança. Se o fluxo de poupança é dado a
uma dada taxa de juro monetária, o aumento da taJQ de juro
real aumenta a procura de fundos para investir excedendo a
poupança, e a diferença é tornada possível pela expansão do
crédito bancário.
96

6. A natureza do equilíbrio monetário

Na pr pria palavra de Wick eH, a condiçõe de
equilíbri em ambo os mercad s de ben e erviços foram
expresso c 111 segucm:
«That 1 an rate which is a direct expressioll of the real
rate, we call the n rmal rate ... The rate of it/terest at which the
dell/and for loall capital alld the st~pply of salJitlgs exactly agree,
alld Ulhich morc or less correspotlds to the expected yield on the
lIel/l!y created real capitallllill thw be the normal or llatural real
rate. It is esswtialy I'ariable. If the prospects of mployment
of capital become more promising. demand will increase
and will at fir t exceed supply; interest rates will then ris e as
the demand from entrepreneur contract until a new
equilibrium is reached at a lighthy higher rate of interest.
At the same time eqHi!ibri'/I1/ II/HSt ipso facto obtain ... itl the
market for goods (//ld serllices, so t"at II/ages alld prices remaitl
unchatlged. The sum of money incomc will then usualy
exceeel. the money value of consumption goods annualy
produced, but the excess of income - i. c. what is annualy
saved and invested in production - will not produce any
demand for pre ent goods but only for labor or land for
future production» (I) .
As im o equilíbrio no mercado monetário implica:
a) equilíbrio no mercado de bens;
b) a taxa de juro normal ou de equilíbrio no mercado
monetário; a qual mantcrá os preços estáveis no mercado
de bens.

(1) WICKSElL (1906), pág. 192-193. Itálicos acrescentados .
97

a) As condições do equi [{brio monetário

A análise de Wicksell mantém as hipóteses de livre
iniciativa e pleno emprego sem considerar o Estado na sua
componente de gastos e impostos.
A taxa de juro normal ou de equilíbrio é, como foi
mostrado, aquela que iguala a procura de fundos de
investimento (ex-ante) ao fluxo de poupança das pessoas e
empresas. Para uma dada taxa de juro monetária o
investimento é uma função da taxa de juro real de tal forma
que só se realiza para projectos que excedam ou igualem a
taxa de juro monetária. Mas em livre concorrência,
respeitando-se a condição de equilíbrio anterior, teremos
que os preços igualam os custos de produção. Conse-
quentemente, o equilíbrio monetário entre investimento e
poupança implica um equilíbrio no mercado de bens
traduzido na igualdade custo-preço.
Para que o equilíbrio monetário se mantenha (i. é, com
ausência de expansão do crédito) com ganhos adicionais no
mercado de bens, derivados de taxas de juros real superiores
nalguns sectores em relação a outros, deverá haver a dupla
coincidência de que (a) a procura de investimento se tenha
expandido na directa proporção do aumento dos ganhos, e
(b) os ganhos serão poupados na totalidade (1).
Em qualquer caso, se a condição necessária para
preservar o equilíbrio monetário é permanecer a igualdade

(I) O equilíbrio de custo igual ao preço no mercado de bens não
implica necessariamente preços estáveis e um nível geral de preços
invariante a não ser que se assuma funções de produção constantes. Se a
produtividade aumenta, o equilíbrio é igualmente preservado a preços
variando inversamente com a alteração da produtividade, com o
rendimento monetário constante ou com os preços constantes e o
rendimento monetário aumentando na proporção do aumento da
produtividade.
7
98

custo-preço n mercado de bens quando a produtividade
aumenta, i to por si 6, não garante a manutmção do
equilíbrio m netári . A condição suficiente erá (a) se o
nível de preços varia inversamente com s alterações na
produtividade, então o rendimento rcal da comunidade
deverá ser repartido para consumo e investimento na mesma
proporção que o aumento do produto nacional é feito com
base em bens de consumo e bens de investimento ou (b) se o
nível de preços é estável quando a produtividade aumenta,
então o aumento do rendimento monetário da comunidade
será repartido em poupança e consumo na proporção
adequada. Não existe, é claro, nenhuma razão para acreditar
que este duplo ajustamento será conseguido automati-
camente.

b) O equiUbrio no mercado monetário como sendo distinto
do equiUbrio dos preços relativos no mercado de bens

A distinção entre os dois mercados considerados por
Wicksell é reforçada pela natureza do equilíbrio nestes
mercados. O equilíbrio no mercado de bens foi descrito
como estável devido a forças que o trazem permanente-
mente para o equilíbrio. Mas o equilíbrio monetário é pelo
contrário descrito como (Jabide» ou neutro em carácter. Se
qualquer força, uma divergência entre i e r, mover o sistema
da sua posição de equilíbrio, este reagirá como um cilindro
num plano. A força desequilibrante levará o cilindro
cumulativamente cada vez mais longe do ponto de partida.
E se a força propulsora se esgota, o cilindro permanecerá no
ponto para onde se deslocou sem qualquer tendência para
regressar à sua posição inicial (1).

(1) WICXS.ELL (1906), pág. 196-197.
99

A principal força (por muitos anos para Wicksell, a
única) permitindo a ligação entre as forças de determinação
do valor no mercado de bens e no mercado monetário,
respectivamente, são os movimentos cumulativos de preços
enquadrados por discrepâncias entre as taxas de juro
monetária e real.
De um ponto de vista microecon6mico, indivíduos e
firmas activos no mercado de bens não têm qualquer meio
de influenciar o nível geral de preços. Somente o banco
central e o sistema bancário estão em posição de ver o
mercado monetário como um todo. Mas mesmo estes não
têm um controle directo sobre o lado da procura, ou seja,
sobre o investimento que é fllilção da taxa de juro real que é
variável e não pode ser conhecida directamente, porque as
expectativas empresariais da qual deriva não estão registadas
em nenhum sítio. Os únicos indícios são os movimentos de
preços a que dão lugar depois de algum tempo ap6s a
alteração da taxa monetária. É por isso que os bancos não
podem fazer melhor do que ajustar o nível das taxas
monetárias com um desfazamento em relação à taxa real.

7. O processo cumulativo

Na formulação apresentada, a teoria de Wicksell tem
um alcance limitado. Pode dizer-se que, por um lado, uma
situação fixa de equilíbrio supõe como condição que j = r,
e, por outro lado, o equilíbrio ficará perturbado devido a
um processo cumulativo se essa igualdade não existe. Por
conseguinte, pode-se criticar a teoria de Wicksell pela
mesma razão que a teoria quantitativa: ser estática.
Mas a teoria contém um elemento dinâmico, o facto de
q ue uma divergência entre os dois tipos de juro conduz a um
100

processo de alta u baixa. Este será p nt central. núcleo
da sua teoria confc rme a opiniã da grande mai ria dos
aut res c mo Myrdal (1956). Marjolin (1941). Magaud
(1950) e que é de ignado por processo cumulativo (I).
Wicksell entende por pr cesso cumulativo a diver-
gência acidental entre a duas taxa de jur • que provcca um
movimento geral de alta ou baixa de preços que tende a
pros eguir espontaneamente. desde que a divergência se
mantenha. A divergência entre as taxas de juro deve-se ao
facto da taxa de juro real variar em virtude da inovação.
cre cimento da população. abertura de novos mercados. etc.
Por uma destas razões a taxa real de juro aumenta enquanto
a taxa monetária permanece constante. A pr cura de
investimento aumenta pala um nível superior à oferta da
poupança voluntária e tal aumento é alimentado pela criação
de depósitos pelo sistema bancário. O aumento da procura
de investimento gera uma procura adicional de bens de
capital que aumenta os preços e provoca uma alteração na
repartição do rendimento a favor dos empresários. Os
últimos. por sua vez procuram expandir o investimento com
base na expectativa de lucros. atraindo recursos de outros
sectores nomeadamente do sector que produz bens de
consumo aumentando os salários e as rendas. Assim a
produção de bens de consumo diminui enquanto o
rendimento monetário e os gastos do consumo dos
trabalhadores e proprietários aumenta. Por isso os preços
dos bens de consumo aumentam. e este aumento por sua vez
faz elevar a expectativa de lucros na indústria de bens de
capital. Este facto induz nova expansão que leva a um
aumento dos salários e rendas com novo decréscimo da

(1) A interpretação contrária, nomedamente a de PATlNKIN (1952)
será exposta mais à frente, na secção C deste trabalho-
tOl

produção de bens de consumo c um subsequente novo
aumento nos seus preços, etc .. Este processo pode continuar
indefmidamente até a ruper-inflação acabar numa crise no
decurso da qual taxa monetária de juro aumente. Pode
aumentar acima da taxa de juro real provocando um
processo cumulativo deflacionista, ou pode aumentar para
um nível idêntico ao desta chegando-se a um novo
equilíbrio, com preços mais elevados do que na situação
inicial.
Wicksell não insiste que o processo cumulativo
necessariamente tem de terminar em crises de ruper-inflação
ou deflação; nem exclui a possibilidade de poder haver forças
que gerem eventualmente um novo equilíbrio sem crises.
Ele ficou contente por haver demonstrado que a discre-
pância entre as duas taxas «.. .is strong enough to expIain
actual price flutuations wruch manifest1y can not be due to
variations in the quantity of goleI .. .» (1).

8. A importância da análise de Wicksell

Numa certa medida, as suas conclusões aparecem como
sucedâneas da teoria quantitativa, pois que a criação de um
poder de compra complementar engendra variação nos
preços. Por sua vez, é de referenciar que este poder de
compra não resulta somente da actividade do instituto
emissor mas de toda a organização bancária. Por outro lado,
a origem destes movimentos provém da atitude dos
empresários, ou seja de um factor extra-monetário (2).

(1) WICKSELL (1906), pág. 200.
(2) Conforme MAGAUD (1960), pág. 69.
102

8.1. O pr blema fWldamental da análise de Wicksell
poderá er con iderad c mo da estabilidade dos preço c,
cm última estância, da neutralidade da moeda. Mas
enquant a teoria precedente tenderia a c n iderar a moeda
neutra por definição, Wicksell tem c nsciência da diferença
que existe entre uma economia de troca e uma economia
monetária e que, por con equência, a presença da moeda
influenciada de modo es mcial o andamento da economia,
em especial realçando os aspectos instituci nais que poten-
ciam o papel da moeda na economia, como é o ca o da
chamada economia de crédito pura.
Ao evidenciar o papel da moeda e dos factores
institucionais a da ligados introduz na análise o mercado
monetário como elemento chave da actividade económica.
A validade da lei de Say, que pode ser considerada numa
relação de complementaridade com a teoria quantitativa,
vem posta em causa na base de que a procura agregada
monetária pode ser maior que a oferta global, evidenciando,
assim, a existência de uma análise monetária macroeco-
nó mica não derivada da Cl.gregação da análise microeco-
nómica.

8.2. A refutação da equiproporcionalidade da varia-
ção dos preços como consequência de uma variação da
quantidade de moeda conduziu-o a examinar a hipótese de
invariabilidade da velocidade de circulação na qual se
fundamenta a teoria quantitativa. A sua crítica baseia-se
quer em aspectos microeconómicos como as preferências
por moeda e saldos de caixa reais quer cm aspectos
macroeconómicos como factores institucionais àcerca da
presença e desenvolvimento do «moderno» sistema bancário.
Este último aspecto leva-o a centrar a sua crítica à teoria
103

quantitativa no aspecto institucional ao constatar a varia-
bilidade de V associada à política creditícia.
Tal proposição leva-o ao exame da natureza do papel da
taxa de juro, distinguindo entre taxa de juro real e taxa de
juro monetári?, sendo a primeira a que iguala investimento à
poupança e corresponde ao rendimento da produção e a taxa
de juro monetária o preço do u o da moeda.
A individualização do carácter monetário da taxa de
juro permite-lhe afirmar que na presença do crédito
bancário a iguald?de entre as duas taxa.s não é mais dada por
definição mas torna-se uma condição de equilíbrio a realizar
já que a não iguale.ade influencia a economia.

8.3. O sistema bancário pode cirar moeda e a
quantid;-.de de moeda toma-se endógena. Desta forma o
sist ma bancário pode responder a uma procura de moeda
sem que haja a correspondente poupança. Poupança e inves-
timento tornam-se assim grandezas separadas que depen-
dem de sujeitos económicos sem qualquer relação entre si.
A taxa de juro monetária torna-se uma variável
exógena ao andamento do sistema, passando a depender da
administração da banca e da discricionalidade da política
creditícia. Esta taxa de jmo é também a única reguladora da
circulação monetária, pois se a oferta se adequa sempre à
procura (ex-post), esta última não tem influência sobre o
preço da moeda (falta a Wicksell uma curva de oferta de
moeda), enquanto as variações da taxa de juro monetária
têm, pelo contrário, influência sobre a procura de moeda.
A procura de moeda varia em função da taxa de juro
real e da taxa de juro monetária pelo que teremos um
aumento (diminuição) da procura de moeda para inves-
timento de cada vez que a primeira é maior (menor) que a
segunda.
1'04

8.4. À luz de tas contribuições Wick eU define o
equilíbri 111 netári c mo caracterizad pela igualdade
entre r e i. Se a duas taxa não coincidem, inve timento e
poupança deixam de c incidir, o lucro deixa de ser nulo e s
preço deixam de cr e táveis geram~. -se um processo
cwnulativo, explicado pelo mcrcado monetário, já que o
mercado de ben tem mecam mos que garantem o
equillbrio.
A existência de dois mercado é reforçada pela natureza
do equillbrio, já que é o mercado monetário que leva a um
processo de desequilíbrio cumulativo. Portanto, este
desequilíbrio só será controlado pela intervenção do sistema
bancário ao ajustar a taxa de juro monetária ao eu nível
natural. Neste ponto de equillbrio, todavia, os preços não
voltam ao nível precedente, ficando no nível que atingiram.

8.5. Da sua análi e re ulta uma inversão de ordem
causal em relação à teoria quantitativa que vai da quantidade
de moeda (exógena) para os preços e depois para a taxa de
juro(M ~ P ~ i), enquanto para Wicksell desenvolve-se da
taxa de juro para a moeda (endógena) e depois para os preços
(i ~ M ~ P). Por outro lado, e no de envolvimento da
inflação a taxa de juro tendesse a crescer, como pretendia a
tradição da época, levaria à interrupção do processo
cumulativo (1).

8.6. Por outro lado, a variação dos preços relativos e
da estrutura produtiva cm situação inRaccionária é um
problema em aberto. Uma diminuição da taxa de juro
significa, enquanto factor de capitalização, um aumento do
valor dos bens de capital que se podem produzir e isto

(1) PICOLO (1984), pág. 14.
105

constituÍrá um e tímulo a aumentar a produçã . Reali-
zar-se-á, portanto, uma pa sagem da produção menos
capitalista para a mais capitalista, com uma consequente
transferência de recurs sd sector dos bens de consumo para
sector de bens de investimento. Esta alteraçã da e trutura
produtiva, em condições de plena ocupação, provocará um
aumento dos preço dos bens de consumo; havendo uma
variação da estrutura de preços relacionada com a distri-
buição do rendimento. Os instrumentos creditícios podem
induzir, consequentemente, com a sua acção, fenómeno de
poupança forçada que levam a que os rendimentos nã
cresçam tanto como o prcç s.

8.7. Na base destas considerações é possível chegar-se
em Wicksell a uma relação entre inflação, distribuição e
acumulação, cm que a inflação precede a acumulação pois
que é aquela que sanciona a distribuição do rendimento dos
capitalistas-poupadores para os empreendedores e a des-
locação de recursos do sector de bens de consumo para o
sector de bens de investimento, fenómeno induzido pela
diferença de taxas. O processo na sua totalidade evidência,
portanto, uma integração estrutural entre aspectos mone-
tários e aspectos reais numa única dimensão (I).
A relação que se estabelece entre inflação, distribuição e
acumulação, põe em evidência a situação de desequilíbrio
como constituindo a norma de comportamento da eco-
nomia enquanto economia monetária e correspondendo ao
momentos em que a acumulação tende a acelerar-se.

(I) PICOLO (1984), pág. 16.
106

9. Os desenvolvimentos na teoria monetária de
Wicksell

As críticas à teoria de Wicksell durante a sua vida
reduzem-se a 6 questões. A primeira e a mais importante foi
a objecção de Davidson à sua norma de estabilização dos
preços como um guia apropriado da política monetária em
condições de alter ção d produtivid:tde.
As outras 5 questões foram também postas por
Davidson num contexto ou noutro. Desta, as primeiras três
foram colocadas com maior incidência independentemente
de Davidson por Ludwig Von Mi es, a quarta por
Akermam, e a quinta por ahlin. As questões centram-se
sobre (a) independência entre as taxas de juro real e
monetária; (b) a interdependência entre o mercado mone-
tário e o mercado de bem; (c) o problema da determinação
do peso absoluto do nível de preços; (d) algumas limitações
ao controle monetário pelo banco central: (e) a influência das
antecipações empresariai e a diferença nas estruturas de
mercado sobre a taxa real de juro e sobre o movimento do
nível de preço .

9.1. Examinaremos estas cinco últimas questões pri-
meiro, e de acordo com Uhr (1962) referimo-nos a eles
como «questões menores», não porque sejam menos
significativas que a questão central no debate entre Wicksell
e Davidson, mas porque exerceram uma influência menor
sobre o pensamento de Wick~ell do que a controvérsia com
Davidson.
(a) A possibilidade de divergência entre as duas taxas
de juro seria refutável se as duas taxas fossem consideradas
interdependentes de tal forma que o movimento de uma
face à outra levasse a segunda a ajustar-se ao lÚVel da
107

primeira sem um desfazamento apreciável, o processo
cumulativo deixaria de ocorrer ou seria de curta duração e
fraca amplitude.
Esta é a posição de Davidson e Von Mises que baseiam
os seus argumentos na hipótese de padrão-ouro, o que o
próprio Wicksell também estabeleceu, face à mesma
hipótese, aceitando que o processo cumulativo seria mais
curto cm tais condições que num sistema de crédito puro.
Dos argumentos apresentados por Von Mises des-
taca-se o de que a taxa de juro real seria reduzida até ao nível
da taxa de juro monetária pela formação de capital resultante
da «poupança forçada». Wicbell não exclui a sequência de
Von MisC'S ~.iscordando, contudo, da sua duração e
amplitude já que considera que a poupança voluntária
devido à descida da taxa de juro monetária não é
suficientemente compensada pela «poupança forçad:>.» resul-
tante da subida dos preços dos bens de consumo.
(b) e (c) A interdependência do «mercado monetário.
e do «mercado de bens» e a determinação do peso absoluto
dos preços relativos - uma questão metodológica.
A questão metodológica é a da rdação entre a teoria do
valor marginalista e a teoria monetária, e obviamente, não
pode ser deixada da maneira como Wicksell a deixou,
mesmo depois de ter modificado a sua posição em relação ao
facto que alterações na produção têm repercussões no
mercado monetário.
Um dos obstáculos para a fusão das duas, naquele
tempo, era o facto de a teoria do valor vir defmida cm
termos de economia de troca sem moeda. A crítica de Von
Mises constitui uma tentativa infrutífera de aplicação da
análise marginalista à teoria da moeda, procurando a fusão
da teoria do valor e da teoria monetária.
A análise de Davidson rclativamente a este problema
108

parte de uma perspectiva Ricardiaria sobre a teoria do val r
que e centrava s bre uma interpretaçã d valor em termo
de cu t reai. P rque «valor objectivo» da mercadoria
altera- e m vari, çõe na ferta d s recur os pr dutivo e
c m alteraçoc na pr dutividade deste recurso, Davids n,
não estava ati feito c ma defmição de Wick eH de valor da
m eda com recípr c de um índice do túvel de preços,
ape ar de nã ter tuna alternativa. Mai, in i tiu que o
movimento d s preç nã sã nece ariamente o resultado
de altcraçõe n valor da m eda. A pr dut vidade era
também uma fi rça que actuava de fi rma deci iva sobre o
val r bjectivo d s bcn e erviç se 11 tÚvcl geral de preços.
Haveria também utras influências com os preços rígidos e
o awncnt do grau da imperfi ições de mercado. Como
consequência, pensava que as condições afectando a
produçã e a venda da mercadorias deveriam receber uma
atenção ao túvel da teoria monetária.
(d) S bre as limitaçõe ao controle dos bancos centrais
há a referir que Akermall colocando o caso de emissão de
moeda para financiar «c.espesas improdutivas» em arma-
mento, num montante igual à poupança anual e consi-
derando que os bancos mantêm a taxa de juro normal, a
moeda aumentada não levará a um correspondente aumento
da procura. Tal só acontecerá com uma taxa de juro
«subnormal», o que conduzirá a uma procura adicional por
parte dos empresários e ao consequente aumento dos preços.
Wicksell contra-argumenta dizendo que a nova moeda
aumenta os preços imediatamente, em especial o preço dos
bens de consumo, já que a moeda compete em todos os
mercados com a pré-eJcistente. Não haverá assim. um
problema de um aumento de «idle balances» já que com o
awnento dos preços a procura de moeda aumenta. A única
maneira de as «despesas improdutivas» poderem ser con-
19

finadas no seu impact ao t tal da poupança anual seria se
fossem financiada pelo governo com empréstimos jW1tO do
público, empréstimo não admissíveis para uso colateral com
o crédito bancário. Finalmente, o desvio da poupança
privada geradora de investimento para despesas impro-
dutivas, seria compensada em parte pela poupança forçada,
resultante do aumento do preços que ocorreria apesar de os
bancos manterem as taxas «normai I).
Davidson explicita que o caso de Akerman requer que o
banco central não somente deve refrear a criação de notas e a
extensão do crédito com base nos empréstimos ao governo,
mas também aumentar a taxa de juro monetária parél um
uIvei supernormal para restringir o uso privado do crédito,
de forma que a moeda criada permaneça sem uso na medida
em que a esse nível de taxa de juro monetária os
empresários não aumentem a sua procura. Davidson realça
que se o banco central tem sucesso aumentando as taxas de
juro monetárias para prevenir aumento dos preços é o novo
potencial de capital real que paga a despesa improdutiva.
Se os bancos mantêm a taxa de juro «normal» deixando os
preços aumentar serão os bens de consumo e serviços a pagar
a factura.
(e) O impacto das expectativas empresariais e as
diferenças nas estruturas de mercado sobre a taxa de juro real
c sobre o movimento dos preços.
Ohlin atacou a distinção de Davidson entre inflação
devido a causas monetárias e outras, podendo as primeiras
(as previstas por Wicksell) ser evitadas por um ajustamento
adequado da taxa de juro. Para Ohlin, Davidson assumiu
que «o aumento de escassez das mercadorias» ·resultando da
falta de matérias-primas, declíneo da eficiência do trabalho,
tendências monopolísticas, etc., seriam (A) afectadas pela
produção de todas as mercadorias . uniformemente e (B)
110

neutra l\ pr duziriam altcraçõe in igniflcantes na partilha
do rendiment ,em relaçã à inflaçã nã relaci nada com
causas monetárias, pelo que seria preferível aceitá-la do que
tentar debelá-la.
Para explicitar a sua análise que vem introduzir factores
não monetário na explicação da inflação, contrariamente à
análise de Wics li, Ohlin parte de um aumento de preços na
indúsu-ia devido a um aumento de monop6lio neste ramo,
enquanto a agricultura permanece competitiva. Os recursos
abandonado pela indústria são aproveitados pela agri-
cultura, cujo aumento de produção compensa em parte o
declínio na indústria. Mas a produção total tende a dimi-
nuir porque o recursos transferidos para a agricultura são
utilizados com uma produtividade marginal menor do que
em relação ao seu uso anterior na indústria. O declínio na
produção tende a aumentar o nível de preços proporcional-
mente se os banco mantiverem a taxa de juro «IlOImal».
Mas diz Ohlin, a escassez não será uniforme e a
distribuição do rendimento não erá afectada unifor-
memente devido ao aumento de preços. Segwldo, mesmo
que os bancos mantenham as taxas de juro «normais», o que
implica um aumento devido ao aumento de r, o aumento
dos preços pode er cumulativo. Sê-Io ou não depende se a
trustiflcação das manufactura é feita por previsões de preços
unilaterais e Lworáveis. Se assim for, r aumenta mais do que
a escassez influenciara e inicia-se um processo cumulativo.
Desta análise surge uma crítica a Wicksell por não levar
em conta os outros factores na explicação da inflação,
factores esses que não actuam uniformemente como
pretendia Davidson.

9.2. A modiflcação da norma de política monetária
- a polémica entre Davidson e Wicksell.
111

A prescrição de wicksdl de estabilização dos preço
como uma norma para a política monetária foi contestada
por Davidson. Este esteve na base de uma polémica com
Wicksell no Ekonomisk Tidskrifl entre 1906-1909.
A posição de Davidson era que a estabilização dos
preços é somente consistente com a manutenção do
equilíbrio se a produtividade é constante, mas se a última se
altera, a norma apropriada é deixar os preços variar na
proporção inversa da alteração na produtividade. Se
tivessemos um equilíbrio inicial c a produtividade aumen-
tasse tal significava que r aumentaria e portanto os bancos
deveriam aumentar a ta~a de juro monetárié'. do mesmo
montante. Se tal s verificasse, o rendimento monetário
permaneceria constante, mas o aumento da produtividade
siglúficaria maior produção a qual teria de ser vendida a
preços menores. Se os bancos insistissem na estabilização dos
preços, teriam de reduzir i para prevenir o declínio dos
preços. Desta forma j tornava-se «subnormal~ e originava
um processo cumulativo.
É somente no ano de 1925, depois da Suécia ter testado
uma inflação severa durante a I Guerra Mundial, e depois de
Wicksell ter publicado a substância das suas próprias análise
monetária em artigos no Ekonomisk Tidskrifl entre 1918-23,
que este reconhece a pertinência destes argumentos. A sua
concepção aparece como uma admissão de que os bancos
não podem efectivamente prevenir a inflação que resulta da
«escassez de mercadorias», i. é, do equivalente de um declínio
na produtividade. causada por bloqueamento e outras
desolações causadas pela guerra (1). Ainda que Wicksell

(1) Esta posição aparece num seu artigo sobre cThe monetary
problem of the Scandinavian Countries t , traduzido e aparecendo em
apêndice ao ltJterest allJ Prices. Estas duas obras são do conhecimento do
autor através da obra de UHR (1962).
112

p c a c n iderar a norma de estabilização dos preços como
imperfeita, c n idera-a a única viável, em especial num
mundo em paz nde não haverá caU:l de «escassez de
mercadoria» relacionada c m a guerra u qualquer outra
ocasião inflacioni ta devido ao decréscim de pr dutividade.
Quant ao aumento de produtividade considerava-os tão
in ignificante c com um movimento secular, que não
alterariam equilíbrio de curto prazo. Quanto à norma de
David on con iderava-a um perfecci nismo c, mesmo
admitindo-a, a existência da competição imperfeita blo-
queava a sua aplicabilidade. A escolha seria então entre a sua
norma ou nenhuma norma.

c. PO ICIONAMENTO DA OBRA DE WICKSELL
E SEUS DESENVOLVIMENTOS NA TEORIA
MONETÁRIA

1. A interpretação tradicional da obra de Wicksell

A interpretação tradicional da teoria monetária de
Wicksdl concentrou-se na individualização de um meca-
nismo de reajustamento automático das duas taxas de forma
a preservar a não influência no longo prazo dos fenómenos
monetários sobre a economia real, na sequência das críticas
atrás apresentadas por Davidson e Von Mises.
O chefe de fila desta orientação pode er considerado
Don Patinkin (1952) (1), o qual ustcnta que num mundo
regulado pelo padrão-ouro (factor institucional abandonado

(1) No seu livro AJltecipatio"s of tlle general theory, Basil Blackwell,
1982, PAnNKIN rea[,.rma a sua tese de 1952: «it seemed to me over twenty-
five years, and continues to seem to me todaY»i (pág . 42).
113

por Wicksell a favor do sistema de crédito puro) o aumento
da procura de crédito e o consequente aumento dos preços
determinam um dreno interno das reservas dos bancos que
os induz a aumentar a taxa de juro monetária de modo a que
esta s iguale à taxa natural e faça cessar os pedidos de
crédito. De tal modo o equilíbrio seria garantido pela força
do sistema e o processo cumulativo viria a constituir um
estável processo reequilibrGl.dor que transmite a variação da
qUé'mtidade de moeda aos preços através da taxa de juro:
«Thus the operation of a cumulative process does not
imply that the system is instable, and that, after the inicial
disturbancc, it continuously moves away from an equi-
librium po ition. On the contrary, through its effects on
bank reserves, the cumula tive process in Wickseli' s analysis
plays the role of the fundamental equilibrating mechanism
forcing the banks to cleminate any discrepancy between the
rate they set and real rate, and thus restoring equilibrium to
the loan market (1)>>.
Um, outro exemplo da análise tradicional, mas menos
rígida, é a de Fabbrini (1957) que começa por dizer que a
análise de Wickseli «é um peca to, perché nelia teoria
Wicksclliana sono riuniti gli elementi essenziali per la
fusine non solo dei due indirizzi prevalenti nelia teoria
monetaria des suo tempo-quelio rappresentanto deli' equa-
zine degli sacambi c la teoria del credito e delie banche, in
base alla quale iI valore o prezzo delia moenta e iI saggio
d' interesse dei prestiti a breve termine, ma anche delia teoria
monetaria e della teoria generale del valore, eleminando la
lacuna del Walras, relativa ao 'real balance effect'» (2).

(1) PATlNKIN (1952), pág. 839.
(2) FABBRINl (1957), pág. 16.
8
114

Depoi chama a Wick eH de «di identc» pela ua recusa
de meter em primeiro plall estes c nceitos, intr duzind
no quadro do equilíbrio geral uma equação do tipo «cash
balance equation», explicando que a quantidade de moeda e
o «real balan e effect» têm wn papel meno directo que a
divergência entre taxas de juro.
Em seguida realça que pr ce o dinâmico que leva à
posição de equilíbri ,o chamado pr ces o cumulativo, não
é necessariamente um proce s expIo ivo, p ndo em relevo
o mecarúsmo de reaju tamento quer pela variação das taxas
quer pelo mecanismo da poupança forçada. Ma reconhece
que a tax:a de juro natural é um fenómeno transitório e
explica-o como uma repetição do err de Walra de utilizar
uma duplicação no processo de determinação dos preços e de
considerar os preços relativos sujeitos a um processo
(equilíbrio estático) e os preços monetários a um outro
processo (equilíbrio neutral) (1).
No contributo de Wicksell, Fabbrini considera inte-
ressante notar, sobretudo, o acento posto no inserimento
orgânico nos modelos económicos da procura de moeda e de
uma função da reserva líquida, em geral, que abre a via a
Robertson e a Pigou para inserirem, por sua vez, a
preferência pela liquidez, bem como haver demonstrado que
a considerada lei de Say não tem validade em todos os casos,
criando wn precedente para a análise de Keynes da «Teoria
Geral» (2).
Realça ainda que o processo cumulativo pode ser
considerado como uma «teoria rudimentar do ciclo» (3).
Qualquer de tas dua análises, mesmo a mais flexível de
Fabbrini, não leva em conta que o processo cumulativo

(I) FABBRlNl (1957), pág. 19.
(2) Ilib, pág. 20.
(3) Ilib, pág. 21.
115

Wickselliano, sendo devido a um desequilíbrio entre
poupança e investimento, mete, por isso mesmo, em
evidência que a instabilidade é relacionável com a pr6pria
característica do sistema econ6mico, já que a taxa de juro
natural varia continuamente cm relação a todos os elementos
que definam o andamento da economia e portanto os bancos
não podem, mesmo que queiram, manter a taxa monetária
permanentemente ao nível da taxa natural, pelo que pode ser
a pr6pria política creditícia dos bancos, com o seu lado
descricionário, a induzir o processo cumulativo.

2. A teoria monetária de Wicksell e a teoria
Keynesiana

Pelo menos quatro constrastes interligados são-nos
apontados por, Leijonhufud (1981), Uhr (1962) e Lindahl
(1956) entre a teoria monetária de Wicksell e a teoria do
rendimento-emprego na tradição de Keynes.
a) O factor comum entre Wicksell e Keynes é o facto
de que não se estabelece automaticamente o equilíbrio entre
o investimento e a poupança, pelo que um certo mecanismo
tem de intervir para conseguir a igualdade entre estas
grandezas. Segundo Wicksell este mecaIúsmo seria o
movimento do nível de preços através da discrepância entre
r e j. Segundo Keynes o mecanismo regulador consistia em
variações da ocupação. A teoria Keynesiana substitui a
ênfase de Wicksell no movimento dos preços via taxa de
juro por uma análise das flutuações do rendimento-emprego
nas quais as alterações no nível geral de preços têm um papel
subordinado. Movimentos no nível geral de preços são
vistos como adaptáveis em natureza e sintoma de alterações
em variáveis mais fundamentais. A sua influência é,
116

contud ,actuante bre a~ antecipaçõe empresariai, a
quais são e tratégica para a determinação d rendimento-
emprego num si tema empresarial privado. A c mparaçã
com a análise de Wick eH t rna- e mai clara se nos
lembrarmo que para e te era a quantidade de moeda
(M. V.) que era adaptativa e sint ma de flutuações no nível
d s preç . Estas flutuaçõe por ua vez eram intoma de, e
limitada por, fê rça afectand a distribuiçã do rendimento
real pelos pr prietários d factore e afectand também as
deci õe de produção empre ariai .
b) A distinção aparece agora entre o equilíbrio
monetário u de p upança e investimento (Wicksell) e o
equilíbrio do emprego, de de que seja realizável que o
primeiro po sa nã concretizar-se para nívci de actividade
muito próximo d pleno-emprego (Keynes).
A diferença teórica entre estes dois tipos de análise é
preenchida p r uma mais completa teoria da determinação
do rendiment em Keynes. Esta envolve uma explícita
análise do c n um como sendo função decrescente dos
aumentos do rendimento. Wick e11 tem pouco para dizer
àcerca do comportamento do consumo, que entra no seu
sistema como mais ou menos residual. O consumo é
«cortado~ pela «poupança forçada» quando o investimento
excede a poupança planeada, ape ar do esperado aumento
do rendimento. Expande-se forçando o desinvestimento
quando 1< S, enquanto ao me mo tempo o rendimento
diminui.
Apesar desta diferença teórica, Ohlin (1981), realça que
WickseH tratou já questões relacionadas com a gestão da
procura.
c) Se o ajustamento pelas quantidades derivado de
uma mais completa teoria da determinação do rendimento
em Keynes é a principal diferença teórica entre estes dois
117

autore, utra sub istcm destacando-se a relativa à deter-
minaçã da taxa de jur , ou eja a teoria do fundos
empre táveis e a teoria da preferência da liquidez.
Em Wicksell, o fluxo de pr cura de fundos empres-
távci governava a t~.xa de juro. O investimento e alguma
poupança adicional- embora e111 relação à última Wick-
sell fos e bastante agnóstico - eram considerados C01110
elásticos em relação à taxa d.e jur no seu modelo. Do lado
da procura es~.beleceu-se uma preferência pela liquidez
infinitamente elástic~. à taxa de juro. Do lado da oferta, a
quantidade de moeda aparece C0111 elástica num sistema de
crédit puro e jogando um papel autónomo somente se as
autoridades monetárias estão suj eitas a uma dominação fiscal
e fo u a restrições do padrão-ouro.
Temos, a sim, com Wicksell uma mais complexa
explicação do juro que resulta da síntese do tratamento
incompleto da função da. moeda como reserva de valor e a
sua interpretação da procura de moeda em termos de
velocidade-rendimento das tran acções (1).
Com Keyne , temos uma determinação da taxa de juro
através de uma análise stock-fluxo no Tratado onde a taxa de
juro tem de equilibrar um mercado que compra e vende não
só os novos títulos de aplicação de fundos mas também os já
existente. Na Teoria Geral opta por uma determinação da
taxa de juro através de um análise de stock. Esta evolução
deriva do facto de ex-post a poupança e investimento serem
iguais pelo que não podem determinar a taxa de juro.
O elemento especulativo que permanece é tornado numa
teoria explicativa da taxa de juro. Abandom.-se assim, a

(') UHR (1962), pág. 247. A teoria corrente antes de Wicksell tratava o
Investimento e a Poupança como não flexíveis e primariamente pouco
flexíveis com o rendimento, pelo menos dentro de um certo grau de
variação do rendimento.
118

teoria dos fundo empre táveis e surge a teoria da preferência
pela liquidez (1) .
Chegam s, assim, à br ve caracterização de como a
Teoria Geral corrige o erro dos clássicos: a poupança e o
investimento determinam o rmdimento, não a taxa de juro.
A oferta de moeda e a preferência pela liqt~idez determinam a taxa
de jHro, 'tão o rendimento.
Desta {; rma perdeu-se a relação da te ria da poupança-
-investimento com a teoria quantitativa. De facto com
Wicksell a análise da poupança-inv stimento era usada para
explicar C0111 uma perturbação real pode desencadear uma
expansão do sistema bancário e, por isso, um aumento de
preços em conjunto com o crescimento do stock de moeda,
via diferenciçaão de ta~s de juro nominal e real.
A restauração da teoria dos fundos emprestáveis é uma
condição essencial para se retomar a análise via disparidade
entre as taxa de juro nominal e real enquanto factor de
coordenação entre as decisões de investir e de poupar (2).
d) Quanto às medidas de política económica, a
diferença decorrente da análises destes autores leva a
enfoques diferenciados.
Wicksell usava a política monetária para restaurar e
manter o equilíbrio pela manipulação da taxa de juro
monetária. A teoria Keynesiana privilegiava a política
financeira contra-cíclica através do aumento das despesas

(I) LBI]ONHUFVUD (1981), pág. 170 e 171.
(2) !libid, pág. 195 e 196. Esta é uma conclusão que importa
destacar, no sentido de que a compreensão da estagflação dos nossos dias
poderá passar por uma teoria da poupança-investimento que leve em
conta a contribuição de Keynes referente a uma mais completa teoria da
repartição do rendimento associada à restauração da determinação da taxa
de juro pela teoria dos fundos emprestáveis, síntese esta feita pelos
modelos de crescimento com moeda do tipo Keynes- Wicksell e pela
escola de Estocolmo.
119

pública - está implícita uma coordenação apropriada com
a política monetária, já que esta última só por si não tem
efeitos anti-cíclicos.
No entanto, esta última, de forma a aliviar o peso da
política financeira e a aproximar o rendimento real dos
limites da expansão secular, da capacidade produtiva e do
aumento de produtividade secular preconizava também
medidas de longo prazo para operar em conjunto com as
medidas financeiras. Estas estão principalmente relacionadas
com o desenvolvimento dos recursos e com o aumento de
propensão ao consumo por métodos directos ou indirectos
de distribuição do rendimento. Estão implícitas nestas
medidas considerações do tipo de que se a propensão ao
consumo aumentar, o investimento para que se atinja a taxa
de pleno emprego da poupança será menor.
Embora as relações entre taxas de juro e movimentos de
nível de preços constituam o centro da atenção do trabalho
de Wicksell, para além destas e acompanhando as suas
variações existem movimentos ou alterações na procura
agregada, na distribuição do rendimento, no tamanho e
composição da produção. Quanto ao emprego, embora
pouco seja dito sobre o mesmo, estava claramente implícito
que este flutuasse com o movimento cumulativo dos preços,
contudo, não necessariamente na mesma proporção. Con-
sequentemente Wicksell não se enquadra na acusação de
Keynes de que os «clássicos» foram incapazes de lidar com o
desemprego excepto como um problema friccionaI.
120

3. O desenvolvimento da teoria monetária de
Wicksell (Davidson) pela escola de Estocolmo

Wicksell morreu em Maio de 1926. A herança da ua
doutrina monetária começou ainda e111 1924 com o estud
de Lindahl Aims of Monetary Po/icy. A egunda c ntribuição
deste autor aparece m 1930 com The MeatlS of MOIzetary
Policy que repre enta um complemento do eu ensaio de
1924. Entretanto, Myrdal publicou o eu primeiro traballlO
sobre teoria m netária em 1927, The prillci/lg problem under
cOllditioll of clzange, em que di cute a influência da incerteza
sobre a formação do preços. Quatro anos mais tarde Myrdal
re pondeu aos traballlo de Lindalll num longo artigo
«Concerning Pratical Economic Problems and the Theory
of Monetary Equilibrium: A Study of Normal Rate of
Interest in Wick ell Monetary Theory» no Ekollomisk Tids-
KriJt em 1931. Ma o seu trabalho a de tacar é um artigo
publicado nes a me ma revista em 1932, com o título «On
monetary Equilibriunll>. Ac itando a istematização de
Lindah1 da doutrina de Wicksell-David on, Myrdal apon-
tou o facto de se a teoria monetária tem de servir os fins da
política monetária, precisa de ser reformulada a começar
pdos seu conceito bá icos e incluindo o critérios de
equilíbrio monetário. Sugere, então, as modificações que
estão na origem da análise ex-ante e ex-posto
Os métodos destes dois autores neo- Wicksellianos são
diferentes. O de Lindahl é o da análise do equilíbrio
intertemporal, que reconhece ser devido a Von Hayek, e
pergunta essencialmente, tendo cm vista o conhecimento do
comportamento dos poupadores e empresários, como
influenciar as antecipações empresariais na direcção que
conduzirá a um estável funcionamento da economia ao nível
do pleno-emprego. A análise do desequilíbrio de Myrdal,
121

que foi a aceite pela escola sueca, pergllilta-se o que liga as
grandeza ex-ante, divergentes, do investimento e poupança
com a sua igualdade ex-post. As variáveis económicas são
vistas de dua perspectivas ex-ante e ex-post, e grandezas
como poupança, investimento, rendimento, ganhos e perdas
sã redefinidas, num esforço para obter o conhecimento de
como a análise ex-post resulta a partir de uma situação de
equilíbrio ou desequilíbrio ex-antc, no período estudado.
É fácil de ver que o que interessa ao economista, são
sobretudo as grandezas ex-ante, pois que as grandezas
ex-post são o resultado e não influem no comportamento
dos agentes económicos no decurso do período considerado.
Bertil Ohlin é o terceiro elemento da escola de
Estocolmo e é considerado por Steiger (1976) como o autor
desta escola que apresenta a mais completa e sistemática
teoria monetária que antecipa as conclusões da Teoria Geral
de Keynes (I). Já cm 1927, num panfleto sobre o
desemprego na Dinamarca, «Let' Start Up Production
Agaim, Ohlin, ao tempo professor em Copenhaga,
considera favoráveis os efeitos multiplicadores do finan-
ciamento por défice orçamental das obras públicas. Poucos
anos mai tarde, num relatório escrito a pedido da Liga das
Nações, The Course al1d Phases of lhe World Economic
Depression (Genebra, 1931), mostra que uma redução da
poupança pode gerar um aumento da procura e conse-
quentemente do emprego e do produto. Numa lição do
mesmo ano, «Internacional Monetary Policy and Its
Influence on the Trade Cycle», chegou a uma formulação da
«ideia básica» da teoria da preferência pela liquidez de
Keynes, mas sem considerar a procura de moeda pelo
motivo especulação.
(I) LANDGREN e PATINKlN (1978a e b) e (1982) não parilham desta
opinião conforme nota da pág. 77.
122

Outra referências a trabalh deste aut r, que apre-
entam c ntribuiçõe para a te ria económica qu antecipam
a te ria Keyne iana, p diam ser feitas, ma as mais
importante foram o en aio de 1933, «On the F rmulation
of Monetary The r~) (1) e a sua notável bra, MOlletary
Policy, p"blic Works, Subsidies (lIId Tarifs as Measlms Agaillst
Unemploymellt de Abril de 1934. Em e pecial nestes
contributo cnc ntram uma «N va Te ria Econó-
mica» (2), que antecipam illdepwdelltemellte de Keynes as
conclusões teóricas e de política económica da Teoria Geral,
in erindo- e na linha de de env lviment iniciada por
Wick eU e apr fundada por Lindahl e Myrdal.

a) A reco/lstrução de Lil1dahl pela al/álise do eqlli[{brio
iI/temporal

No en aio de 1930, Lindahl estendeu a análise de
Wickscll, n dizer de Uhr (1962), em cinco direcções
diferentes: (1) as con equência de uma redução (ou
aumento) no nível de taxas de juro monetárias pelos bancos
(II) a possibilidade de aumentar o poder de ajustamento das
alteraçõe primária na taxa de juro pela diferenciação de
taxa. ; (III) a pos ibilidade de manter os preços dos bens de
consumo constantes em face de alterações primárias por
meio da política de taxa de jur ; (IV) a possibilidade de os
fazer variar inversamente com as variações da produtividade

(I) Publicado recentemente em inglês, pela revista de History of
Politicai Ecol1o/lly, Vol. 10 (3), 1978.
(2) Os conceitos «Nova Economia> e «Nova Teoria Económica>
são utilizados por STEIGER na sua tese de 1971 e são defmidos como ..uma
teoria que deriva do conceito de procura agregada para explicar as mais
essenciais determinantes do rendimento nacional e dos níveis associados de
emprego e produção>. efr. UHR (1973), pág. 244.
123

pela manipulação das taxas de juro; (V) o significado e
consistência das tripla condições do equilíbrio monetário de
Wicksell. Estes asswltos foram investigados suce sivamente
sob hipóteses alternativas como previsões perfeita e
imperfeitas, pleno-emprego, alterações autónomas na pro-
cura de bens de con umo e na poupança, alterações de
produtividade nas indústrias de bens de capital e nas
indústrias de bens de consumo.
Nos seus Études sur la théorie de la MOllnaie et du capital
aparece no entanto a contribuição fundamental de Lindahl.
Este trabalho compõe-se de três partes escritas em
momentos diferentes. Na terceira parte (1929), o autor
utiliza certas hipóteses simplificadoras que lhe permitem
introduzir sucessivamente os problemas dinâmicos no
interior do quadro estático. Na segunda parte (1930), põe
em realce um método análogo consistindo cm analisar o
processo dinâmico numa sucessão de equilíbrio temporais
entre os quais se produzem acontecimentos imprevistos
geradores de ganhos e perdas. A primeira parte, pelo
contrário, escrita cm 1939, apresenta umél. ruptura deliberada
com os métodos tradicionais. Será esta primeira parte
intitulada «Introduction dynamique à la théorie écono-
miqua que aparece na versão francesa de 1949 e que
trataremos aqui.
Para Lindahl a teoria económica deveria ser concebida
de maneira a ser aplicada à realidade. É, portanto, necessário
elaborar construções de carácter geral para serem aplicadas
aproximativamente a todos os casos reais. Tais construções
têm que ser dinâmicas.
Para construir esta «teoria real dinâmica», Lindall1
estabelece a hipótese de base que as acções dos indivíduos,
durante um certo período no futuro, representam o
acompanhamento de certos planos dados no começo do
124

período. Estes planos sã e ta.belecido em funçã de cert s
princípi a atingir e ba cad em previ õe dizend respeito
a futur , que ão por eu lad influenci d pela inter-
pretação individual d acontecimento pa sad . A difi-
culdade reside n fact de que e te planos não são
inteiramente compatíveis nem entre i, nem em relação às
condiçõe externa, de onde a surpre a para o sujeitos
económico e a neces idade de é'Justar o seu planos de
perí do em perí d .
A exposiçã de uma «teoria geral dinâmica)} com-
preende cm Lindhal dua partes: 1. ~, a teor i é'. do «planning)}
econónúco que trata do conteúdo do plano individuais dos
empresário e do princípios da sua etlteração no decurso do
lempo c 2. 2 , a «te riet do desenvolviment ec nómico» que
explica como o proces o dinâmic deriva da confrontação
dos planos d s indivíduo com resultado c com as condições
externas.
Quanto à alteração do «planning)} no decurso do tempo,
tendo em vista o de nv lvimento efectivo dos factores,
Lindahl releva a importante questão da «elasticidade das
antecipações» estudada iguetlmente por Hicks no Value alld
Cap ital.
A passagem da teoria dos «plannings)} individuais à
teoria do desenvolvimento merece algumas críticas, já que a
última e tuda um processo de caracter macroeconómico
fazendo intervir quantidades globais, obtidas por adição dos
termos microeconómicos correspondente .
A te ria do desenvolvimento, pela comparação entre o
valores «prospectivo» e «retrospectivos» (ou seja os valores
tomado no princípio e no f1l11 do período considerado) da
variáveis económicas principais, contribuíram para precisar
certas relações fundamentais (como aquela entre inve-
125

timento e poupança) que lhe permitem lançar a bases de um
métod de cálculo do rendimento nacional.
Comparando enfim a grandeza macroecon6micas
«prospectivas» e «retro pectiva », conclui que a desproporção
entre os planos t tai de investimento e de poupança pode
er con iderada a causa da diferença entre vendas efectivas e
vendas previstas.
E te esforço original de Lindahl tendo em vi ta aplicar a
noção de antecipação à análise do comportamento dos
indivíduos, das empresas ou da instituições públicas, sob a
forma de um estudo do «planning» e das suas modificações
no decurso do tempo, constituem um progresso muito
importante c de realçar na via de uma teoria mais dinâmica e
mais realista do que a de Wicksell. É de notar também uma
certa influência da divisão estabelecida por Myrdal entre ex-
ante e ex-post (1933), nesta tentativa de dinamização de
Lindahl (1939) (1).
Na sequência da dinamização da análise, Lindahl trata
os problemas monetários analisando alterações em diferentes
variáveis macroecon6micas, medidas em unidades mone-
tárias, chegando à conclusão que em cada período a porção
do rendimento nominal total que não é poupado é igual ao
total de bens e serviços em quantidade consumidos durante o
período, multiplicado pelos re pectivos preços. Expressa
esta igualdade da seguinte maneira:
E (l-s) = PQ

onde E será o rendimento nominal total, s a porção deste
rendimento que é poupado, P o nível de preços dos bens de
consumo e Q a quantidade de tais bens num certo período.

(I) De acordo com Um (1973), LINDAHL em 1934 abdicou da sua
metodologia a favor da de Myrdal.
126

Apesar d bjectiv primário da análi e de Lindahl ser
e 'plicar alteraçõe no nível de preç s e não n IÚVel de
produção fí ica, chega a re ultad s imp rtantes para a
moderna macroec n mia: (i) o u o d c nceito de
<propensã a p upan> (s) leva- a uma defmitiva distinção
entre poupança e inve timent ,ambo considerados como
vaI re esperado; (ii) esta di tinção torna neces ário dividir
rendiment agregado em poup~\1lça e con um , e a
produção agregada em investimento e pr duçã de bens de
c nsumo; (iii) a hipótese de recursos não utilizados é
introduzida, i. é, alterações na pr duçã fí ica e no emprego
ão con iderada ; (iv) <paradoxo da poupança» é resolvido,
de ac rdo com o qual reduções na poupança resultam em
novas poupanças (1).
Apesar destes re ultados, em especial a consideração de
instrumentos de análi e Keynesianos como variações da
produção e a propensão a poupar, não utiliza as variações das
quantidades como uma força geradora do equilíbrio entre a
oferta e a procura agregada. O que Lindahl mostra é que
alterações na distribuição do rendimento - não no seu valor
agregado - equilibram a poupança e o investimento, VIa
alterações dos preços.

b) Myrdal: a análise do deseq,~illbrio

O tratamento de Myrdal de uma divergência ex-ante
do investimento e poupança somente seria discernível em
termos de ganhos e perdas ex-post (semelhantes àquelas que
o processo cumulativo de Wicksell propaga) e corres-

( I) efr. STEICER (1978), págs. 423-429.
127

pondendo a uma p upança c investimento «nã inten-
cional» (1).
O equilíbrio passa a er representado pela igualdade da
poupança e investimento ex-ante. A existência desta
condição seria então regi tada como ausência de ganhos e
perdas ex-post. Desd que a ua ausência implique o
«equilíbrio do mercado monetário e desde que este implique
equilíbrio do mercado de bens», o equilíbrio monetário é
xplicitamente defmido como «... 0 estado, onde nenhuma
tendência para um desvio cumulativo existe* (2).
Para ervir estes propósitos, as condições de equiíbrio
têm de ser estabelecidas em termos de grandezas observáveis
e mensuráveis. Para o fazer parte da definição de equilíbrio
de Wicksell que especifica da seguinte forma:
«This equilibrium interest rate calls the «normal rate of
interest» and determines it with reference to quantities in
dure diffrrent spheres of price formation:
(A) productivity of the roundabout process of
production;
(B) conditions in capital market;
(C) conditions in the commodity market.
The «normal rate of interest» l1lust now, according to
Wicksell, (A) equal the marginal technical productivity of
real capital (i. e. the «real» or «natural» rate of interest);
(B) equate the supply of and the demand for savings; and,

(1) Seguiremos de perto a obra de Mvrdal, MOtletary Eqllilibriul/I,
versão inglesa de 1939 traduzida da alemã de 1933. Esta última apresenta
modificações em relação à versão sueca de 1931 (publicada em 1932), fruto
do debate com Lindahl e Ohlin entre outros. Destas destaca-se a
consideração explícita da sua metodologia em termos dos conceitos
ex-ante e ex-posto efr. OHLIN (1981), pág. 199.
(2) MYRDAL (1939) , pág. 40. Nossa tradução.
128

finall , (C) C1uarantee a table pnce level, primaraly of
c nsumpti n C1 d» (').
A) Relativamente à primeira condição de equilíbrio,
encerra a dificuldade mai imp rtante que os ucessores de
Wickseli tiveram de enfrentar, nomeadamente que a taxa de
jUl o de equilíbri eja uma taxa real.
Na elab raçã da dinâmica cc n' mica, c ntcntou-se
numa primeira fa e em justapor pura e simple mente as
explicaçõe em termos de econ mia real e economia
monetária. A riginalidade de Wick eli foi ter admitido a
p ibilidade de uma diferença durável entre a taxa efectiva e
de equilíbrio. Ma a taxa de equilíbri continua a ser uma
taxa real.
A integraçã total da moeda implica a rej ição desta
metodologia, rejeitando o raciocínio cm termo reais,
adoptando uma explicação em termo puramente mone-
tários (2).
A grande contribuição de Myrdal foi ter mostrado que
a taxa de equilíbrio - c não omente a taxa efectiva-
é W11a taxa monetária. Assim, a produtividade física de
Wickseli torna-se com Myrdal uma produtividade mone-
tária a que chama «yield» ou «ertragsquota» e que poderemos
traduzir por «rendimento» do capital real. Este rendimento
y é igual à relação entre o produto líquido ~ de um bem de
capital e o seu valor em capital~. Se considerarmos uma
firma individual, o produto líquido ( é agora igual à soma

(I) MYRDAL (1939), pág. 37-38.
(2) Numa economia a um produto e a um facto de produção não
haveria dificuldade em determinar r em termos físicos. Mas a partir do
momento em que existem vários produtos c vários factores de produção,
o cálculo em termos físicos toma-se impossível. Wicksell procura subs-
tituir a hipótese de um produto/um factor por outra que estabelece
relações fixas de preços entre factores de produção, entre mercadorias e
entre os dois. Mas esta nova hipótese é tão irreal como a primeira.
129

descontada de todas as antecipações do produto bruto b',
menos a soma descontada de todas as antecipações do custo
bruto t.!!.', menos as antecipações de alteração do valor ~', às
quais e dá um sinal positivo para o caso ordinário em que a
alteração do valor é uma diminuição do valor, uma
apreciação será considerada como uma depreciação nega-
tiva:
c' = b' - (m' + d')
, c'
Yi = - , (1)
c1

Na realidade, y, cm Wicksell, representa não o
rendimento do capital fixo, mas o rendimento dos
investimentos projectados, Y2' A ser assim é preciso
substituir c1' por rt', que representa o custo de reprodução
do capital ~eal existente. Em equilíbrio, i = Y2 e o valor do
capital é igual ao custo de reprodução (c1 = rJ A margem
de lucro q exprimindo a diferença entre Yl e pode
igualment; ser representada pela diferença entre o valor

(1) As letras maiúsculas representam os valores totais. As
minúsculas e o sinal (') designam os valores referentes a diferentes fIrmas
individuais. Os índices 1 e 2 signiftcam que estes valores se referem
respectivamente ao capital real existente ou ao novo investimento.
O desenvolvimento encontra-se em MYRDAL (1939), pág. 49 a 86.
Importa ainda realçar a relação estreita entre esta análise de Myrdal e
a eficiência marginal do capital em Keynes, que é uma relação entre o
eprospective yieldt de um bem de capital e o csupply sidet desse bem.
O eprospective yieldt, é o rendimento esperado de uma unidade
suplementar de um bem de capital. É uma soma de dinheiro
representando o produto bruto antecipado do bem de capital, menos os
custos que se espera encontrar na exploração ou produção desse bem.
O csupply pricC-t, é o preço núnimo que incitará o produtor a produzir
uma nova unidade de um bem de capital: é um custo de substituição.
VerifIca-se que tal como em Myrdal, a) os factores reais são
substituídos pelos factores monetários e b) estes são calculados por
antecipação.
9
130

antecipad d capital cu t antc:cipad de pr dução do
inve timento pr 0ectad c1 - ri (por aproxim?ção, cm
---
lugar de C2 - r:l' pr ticamente impo ível de calcular).
Sempre que CI - r I = 0, segund Wick dI, nã haverá
°
novo investimento, e Q = repres nta a primeira condição
de equilíbri .
Mas, na realidade, numa análi e dinâmica, o cquilíbri
monetári nã pode er defrnido pelo lucro nulo, e torna-se
então necessário determinar a primeira condição de
equilíbrio de acordo com as gunda e deduzir o lucro de
equilíbrio das condições de equilíbrio no mercado do
capital - a quais se exprimem pela fórmula:

B) Para Wicksdl, segundo critério de equilíbrio é o
acima indio.do: a taxa monetária é qualificada de «normal»
logo que realize a igualdade ntre oferta e procura de
poupança e entre poupança e investimento.
O conteúdo do rendimento globél.l na nova análise fica
clarificado. Indicando que C é a despe a prevista em bens de
consumo, e Yo rendimento, teremos:
y= c + W
Dado que W compreende D, a nriação do valor dos
bens de capital, toda a previsão quer fundada em motivos
objectivos (produtividade, novas descobertas) quer cm
motivos subjectivos (optimismo, pessimi mo), influencia na
determinação do rendimento, o qual passa a depender de

(I) MYRDAL (1939), pág. 92 a 107. R 2' representa o investimento
real global bruto; W, a poupança global, que compreende a poupança
propriamente dita, S, mais D, a variação do valor, antecipada, do capital
real.
131

análises ubjcctivas «ligando o presente a futuro». Por
utro lado, dada a definição de poupança, o seu crescimento
nã implicará necessariamente no esquema de equilíbrio
monetário, um aumento do capital real, em certas
circunstâncias.
Desta forma o equilíbrio ex-post entre R e W pode
resultar de uma destruiçã do rendimento, não consumido,
ou seja da poupança. Uma divergência entre (R> W)
positiva pode ser consequência de um aumento de crédito
traduzido por um aumento de V, se a moeda não aumentou
cm quantidade.
Reencontra-se o e quema de Wicksell em que o ponto
de partida é a v~ri;,.ção dos preços que provoca uma variação
da moeda cm termos de Vou uma variação de D. O pro-
cesso dinâmico que conduz ao equilíbrio «ex-post» é a
poupança forçada, W aumcnté'., porque o aumento de preços
leva certa categoria de r ndimentos a reduzir o consumo.
C) A terceira condição de equilíbrio de WickseIl- a
estabilidade do nível de preços dos bens de consumo - que
procura ligar o equilíbrio no mercado dos bens de capital ao
equilíbrio no mercado de bens de consumo, afumando a sua
lealdade ao equilíbrio económico geral, aparece nos autores
neo- Wickscllianos menos explicitad.,., devido às objecções
de Davidson de que o nível geral de preços deve ser deixado
variar no sentido inverso da produtividade.
Com efeito no esquema neo- Wickselliano os preços
vêm flXados «à priori», no início de cada período e são para o
período variáveis independentes. Não aparecendo, pois,
qualquer relação entre um certo IÚVel de preços existente em
cada período e a existência das condições para o equilíbrio
monetário nesse período na análise de Myrdal.
Desta análise resulta uma modificação da norma da
política monetária. O movimento geral de preços não é
132

nunca uniforme devid a diferença de flexibilidade c rigidez
de mercad para mercad. O movim nt de preç s
afectam a di tribuição d rendimcnt e também o nível do
rendimento, que erá o bastante para r mper o equilíbrio
monetári . A P lítica monetária deve adaptar os preços
flexívei a seu nível ab olut pr curando uma «estabi-
lização dos neg6cios». Isto significa algo diferente de
estabilizar um nível particular de preços como o dos bens de
consumo.
A contribuição principal de Myrdal para a construção
Wickselliana é a eliminaçã da noção de taxa real de juro.
A taxa de equilíbrio é por i mesma, da mesma mancira que
a efectiva, um fen6meno monetário. A duas partes da
ciência econ6mica, a teoria geral e a teoria da moeda,
tornam-se homogénea .
De extrema importância para a dinamização da nálise é
a sua oposição entre ex-ante e ex-post, permitindo a
integração na análise cx-ante da noção de antecipação na
análise econ6mica, de uma maneira formal (1).
O equilíbrio monetário aparece cm Myrdal não mais
como um instrumento de análise como em Wicksell, mas
como uma norma da política monetária.
Por fim, pela sua ênfase nos preços rígidos, fez à teori~
monetária um serviço ao reduzir a tensão de Wicksell ao
caracter instável da praticabilidade de aproximação ao
equilíbrio. Também demonstrou que a política monetária

(I) Este conceito encontra-se também em Marshall que desenvolve
0$ primeiros traços de urna construção sistemática em termos de
antecipações. Por outro lado, toda a teoria econónúca contém implícita
este conceito. Mas a sua consideração explícita bem como a sua exposição
formal é feita pela escola sueca, respectivamente com MAI.KOLM
HAMILTON em 1905 e 1909 e com MYRDAL na sua tese de doutoramento
em 1927. CARL HAMILTON (1979) conclui que a contribuição de Myrdal
foi desenvolvida independentemente do trabalho pioneiro de Hanú1ton.
133

ao promover a «estabilização dos negócios» poderia não
eliminar o desemprego numa economia em que aumenta a
competição imperfeita: o equilíbrio poderia não ser mantido
com pleno-emprego devido ao grau de competição
imperfeit2 prevalecente nos mercados dos produtos e
factores.
Na sequência da sua análise anteriormente explicitada, a
obra de Myrdal rompe com os limites da análise
Wickselliana, já que ao contrári de Lindahl, chega à noção
básica da Teoria Geral de que as variações das quantidades têm
um papel equilibrante. No seu ensaio publicado em 1932,
cap. 5, parágrafos 46-47, analisa os mecanismos do processo
depressivo, mostrando como uma redução na procura de
investimento, resulta num acréscimo do desemprego e numa
diminuição da produção, a qual, por seu lado reduz a
procura de investimento, etc ..
Myrdal utiliza também o instrumento Keynesiano
da propensão a poupar, conforme a seguinte citação:
«However, it must be noted that aggregate purchasing
power of the society, which forms de demand for
consumption goods, shrinks significantly less than does
aggregate income. This means, naturally that aggregate saving
is reduced, not on1y because of the reduction in incomes but
also an account oJ the smaller jraction saved. Thc social-
-psychological, political, and general institutional deve-
lopment of the economy of the country in an advanced
capitalistic stage tends continuously to mcrease the impor-
tance of the shifts in the use of income during a depressive
process» (1).
Desta forma podemos ver que Myrdal utiliza já em
1932 (data da publicação do original sueco no Ekonomisk

(1) MYRDAL (1939), pág. 164. Itálicos acrescentados.
Tidskrift) d i d . in trument analíticos de Keyne da teoria
Geral : Cl) a variaçã das quantidade e b) , pr pcn ã a
p upar.

c) Bertil Oh Ii/l
(.1. A pr pó it dos problemas da balança de
pagamento e da teoria do comércio internacional, cm doi
artigos de 1921 n Ekollomisk Tidskrift, c m de envol-
vimentos mais c n i tente na ua di sertação de 1924 obre a
te ria do cOlUérci internacional, e retom do uceSSl-
amente na ua famo~a c ntr vérsi com Keyne s bre
°
problema da indemniz ções alemãs no EcOIl lIIic jotmtaI em
1929 bem com no seu conhecido livr ltltemaciottaI and
III teregiona I Trade, publicado em 1933, ma acabado em
1930, Ohlin descreve um do fWlChmento d? «Nova Teoria
Económica», a procur,. ~gregada ou análise agregada do
rendimento-de pesa, compar:,.nd alteraçõe na procura
agregadt\ monetária (de pe a agregada) c lU o valor
agregado da oferta de ben e erviços.
N a equência desta análise nos finais da década de 1920,
quando começou a di~cutir a política de emprego durante as
depressões, facilmente extendeu a análi e da procura
agregada para analisar variaçõe do emprego e da produção.
Assim, num artigo intitulado «Misdirected Thrifo> no
Stockholms- Tidmillgen, de 11 de Novembro de 1927, Ohlin
rejeita a propo ta da redução das despesa públicas durante
uma depressão. Esta posiçã era, contudo, ainda tímida
como tran parece 11 um utro artigo de 1928 no mesmo
jornal com o título «The Liberal State of the Future», onde
considera o aumento dos tra balhos públicos propostos pelos
liberais ingleses difíceis de executar. Mas no ano seguinte as
suas dúvidas desvanecem-se com o programa eleitoral de
135

Lloyd. George. Num artigo, «Lloyd GeOlge and Unem-
ployment», no mesm j mal cm 4 de Abril de 1929,
escreveu: <I![ it is conceded that new private initiatives will
reduce unemployment, thel1 it is dificult to ullderstand why
public ones should net do the ame» (1).
Stciger (1976) resume-Ilos a análise de Ohlin nos finais
da década de 1920: <cA suming an economy with unem-
ployment and not fully used productive capacities, Ohlin
clearly sh ws the condition sine qua non for an expansion of
outpout and employment: a rise of the'aggregate buying
power', (ilib) in rc1ation t the aggrcgate volume of output
brought about by credit-financed, aditional public-works
expeditures» (2) .

c2. Mas Ohlin não somente se refere aos efeitos
directos dos trabalhos públicos mas também aos seus efeitos
indirectos (pelo consumo dos trabalhadores), indo inclu-
sivamente mais longe mostrando que a poupança necessária
para a expansão do inve timento scrá criada pelo aumento
de rendimento criado pelos trabalhos públicos. Finalmente,
Ohlin considera os limites desta política expansionista: o
risco de deterioração da balança de pagamentos, devido ao
aumento das importações em relação às exportações, como
resultado do aumento do «poder de compra agregado~.
Quanto à fWlção poupança a sua análise é desenvolvida
a propósito de uma discussão com Akennan em Agosto de
1932 no Det Eko/'lomist L/gel, n. o 3, no artigo «The Problem
of Rising Prices».
A análise de Ohlin com ênfase na política fmanceira
como instrumento contra o desemprego e crítica em relação
a dificuldades para financiar os empréstimos necessários à
(I) Citado por STBIGBR (1976). pág. 349.
(2) Pág. 350.
136

execução dos trabalhos públicos, tem suportes documcntai~
nos trabalhos publicado cm 1933 (1).
c3. O trabalh de Ohlin publicados em 1933
(o ensai n Eko/lomisf Tidskrift, «Ou the Formulatioll of
Monetary The ry») e em 1934 ( seu fam s relatório para
comité ueco sobre desempreg com título, MOlletary
Policy, Public Works, Subsidies, alld Tariffi (/s Me(/sures Against
Utlemploymel1t) eon tituem a mai acabada obras de Ohlin
sobre a teoria de uma cc no mia monetária, em que o ensaio
de 1933 con titui um antecedente d relatóri de 1934 (2).
Para Ohlin cm 1933, a produção fí ica era uma variável.
As suas variações estã descritas explicitamente nos
parágrafos 6 a 8. O parágrafo 6 trata das alterações de preços
através de uma análi e sequencial e ex:amina o caso de uma
redução da propensão a poupar. O resultado desta redução
pode ser a expansão da produção física, do emprego e um

(I) cfr. STB1GBR (1976), pág. 351. O trabalho dos autores da escola
de Estocohno que apresenta de forma mais sistemática a ênfase na poütica
financeira como instrwnento anti-Jepressivo é o famoso anexo ao
orçamento do governo social democrata de 1933, onde Myrdal analisa o
orçamento do governo em pelo menos três perspectivas - na sua
dimensão financeira, de estabilização e de bem estar social.
Por esta altura Lindah1 também defendia ideias idê nticas,
nomeadamente na lição, cPublic Works in Time ofDepression., dada em
Novembro de 1932 na Sociedade Económica de Estocohno, onde
aprofunda a análise de Means oi MOlletary Po/icy (1930). Uma exposição
detalhada do artigo de 1932 pode encontrar-se em UHR (1977).
A escola de Estocohno foi influenciada nesta questão pelo the Minory
Report de SIDNEY e BEATRICE WBBB de 1909 e por um artigo de
HAMn.TON de 1914. Em 1925 também o economista sueco Bagge
argumentou a favor de uma variação do investimento contracÍclica.
Cfr. UHR (1973) e Om.IN (1981) .
Assim, a influência decisiva de Keynes sobre a escola de Estocolmo a
propósito da poütica financeira anti-àepressiva, defendida por Landgren,
parece não se confirmar, já que é somente em 1929 que aparece cCan
Lloyd George Do It?, escrito por KEYNEs e HENDBRSON. Sobre esta
questão veja-se UHR (1973) , STBIGER (1976) e (1978) e OHLIN (1981) .
(2) STEIGER (1978) , pág. 432.
:1:37

volume superior de poupança. No parágrafi 7 num
processo idêntico de aumento de preços chega à conclusão
de que e poderá chegar a um aumento da produção cm
resposta a um aumento da procura. No parágrafo 8 a
produção contrai-se em resposta a uma c ntracção da
procura.
A análise de Ohlin nã é uma análise do equilíbrio
resultante de hipóteses simplificadoras, como cm Keynes.
Keynes parte da hipótese de que o aumento da produção de
bens de consumo não leva a um aumento endógeno no
volume de investimento. A sua hipótese acerca do
desenvolvimento dos salário também é especial, na medida
em que o aumento do desemprego levará a uma baixa do
salário real. Não con idera ainda variações de preços na
parte central da sua análise, aparecendo estas somente no
capítulo 21. Evitando estas hipóteses simplificadoras Ohlin,
trabalha na tradição da análise de Wickseli, levando em
conta as contribuições de Lindahl e Myrdal, não evitando as
consequências da (lcedbacks» sobre as variações de preços.
Assim a diferença entre Wickseli e Ohlin quanto ao
processo cumulativo é que para o primeiro este era uma
interacção entre preços e rendimento somente e para O
último uma interacção entre preços, produção física e o
rendimento (2).
Aliás o próprio Ohlin (1981) expõe dest;'l. maneira as
potencialidade do modelo de Wickseli: « Wickseli saw that
Say's law was untenable. He also realized the importance
of investment management and above ali the necessity of
distinction between savings and investment. His attention
was concentrated on price development, but bis cumulativc

(1 ) Cfr. OHLIN (1981) , pág. 222.
(2) BREMS (1978) , pág. 399.
138

pro ces induced scanty comment on vanatlOn in output.
The rea oning c uld ca ily bc extendcd to cover simuI-
tane m change in real nati nal income and in commodity
price levds and wage lc eis» (1).

c4. O relatório de 1934 tem trê partes. A parte I é um
desenvolvimento d ensaio de 1933. A parte II é uma
sistemátic."'\ e clara análi e da p lítica monetária, trabalh ~
públic s, ubsídios, e tarifas c mo medida para gerar a
expan ão ec nómica. A parte III - a m:>.is pequena da~
três - trata de medidas relativas ao de emprego estrutural
em indústria específlcas ou regiões geográficas.
De ta forma livro de 1934 pode ser visto como uma
aplicação do artigo de 1933 ao problema do desemprego (2),
em que apre enta uma série de definições sobre os conceitos
utilizados que não e encontram no artigo de 1933, que
conjuntamente com uma melhor sistematização das ideias,
toma mal clara e preci a a ênfase na produção física como
variá eI.

c5. Para Brems (1978) o artigo de 1933 aplica dois
instrumentos analíticos Keynesianos: a) a produção física
como variável e b) a propensão a poupar. No relatório de
1934, Ohlin, aplica doi imtrumentos de análise keynesianos
adicionais: c) a ideia básica da preferência pela liquidez;
ti) o multiplicador; e fmalmente um não keynesiarto;
e) o acelerador. A preferência pela liquidez seria uma

(I) Pág. 219.
(2) Na opinião de BREMS (1978), o próprio Ohlin deveria partilhar
desta interpretação, senão não se justificaria que tenha reproduzido o
artigo de 1933 na parte I, com 77 páginas , de um livro com 176 páginas.
Para um resumo pormenorizado do relatório veja-se BRBMS (1978), e
STEICER (1978).
desc berta de Ohlin, ma sem considerar a procura de
m eda pelo motivo especulação. Já acelerador e o
multiplicador são descobertas de outros, mas o seu uso
clctn nstra a característica dinâmica da :lIlálise de Ohlin.
Steiger (1978) di corda da conclusão de Brem~ de que
OWin tenha chegado a uma elaboração da teoria da
preferência pela liquidez. Para este autor, OWin chega a uma
«armadilha da liquidez» e de forma nenhuma utiliza na sua
análise o motivo especulativo de procura de moeda. Em vez
disso c ntinua a utilizar uma «teoria do fundos empres-
táveis» como o cu artig cl.e 1937 no Ecollolllic Joumal, a
prop6sito da sua controvérsia com Keynes, o demonstra (1).
Importa ainda acrescentar que a utilização da propensão
a poupar se faz na tracl.ição de Lindahl e Myrdal, i. é, o rácio
que as pessoas pwsam manter entre poupança e rendimento
esperado, um rácio ex-ante que é distinto do ex-post, como
demonstra a seguinte citação: «Imagine that people decide to
reduce thcir aving sharply, so demand for consumer's
goods will rise ... the deci ion to reduce aving may not be
accompanied by a tightening credito If 50, investment
dem~.nd will at first be :J.llowc0. to go in a usual.. . and the
rising investment demand of the consumers' goods indus-
tries will eventually bring about an increase in toraI
investment. Total satJing, then, is /lol reduced b'4l O/I lhe cOHtrary
illcreased, despi te the fact that consumption is up. What
ntakes this possible is expallding output» (2).

(1) O artigo de 1937 no Ec0/101llic Journal é a obra de Ohlin mais
conhecida dos leitores de língua inglesa, porque a única divulgada até
muito recentemente. Para STEIGER (1978), pág. 435 representa um
sumário dos cap. 1 e 2 do seu relatório de 1934. A excepção é a segunda
metade do parágrafo 8 onde desenvolve a sua teoria dos fundos
emprestá veis.
(2) Itálicos acrescentados . OHLIN (1933), versão inglesa do Hisfory
(lf Politica I Ecollol/ly (1978), pág. 368.
140

Steiger (1978) de taca que n relatóri de 1934, cap. 1
e tá mai de a rd c m a terminol gia de Lindah.l e M yrdal
que ensaio de 1933. Nomeadamente utiliza os termos
ex-am e ex-po t intr duzidos por Myrdal e que a definição
de propen ã utilizada é a que c cnc ntra definida cm
LindahI (1929) (1).
Por fim uma referência ao us do multiplicador. O hlin
(19 1) reconhece que tant elc como Myrdal foram
influenciados pel artigo de Kahn no Ecollomic jOlmwl de
1931, Home Investmcnt and Empl ymentl>.

d) CO/lclusão

Analisaremos em primeiro lugar as contribuições da
escola de Estocolmo quanto à introdução da expectativas e
quanto ao método. Em s guida abordaremos a questão da
antecipação da condu ões e imtrumentos analíticos Keyne-
sian s da Teoria Geral.

d.l. A qualificações da análise de Wicksell foram
possíveis devido principalmente ao método utilizado pelos
seguidores de Wicksell, por um lado e à introdução das
expectativas, por outro.
Do ponto de vi ta met dológico, aparece como central
o reconhecimento que os indivíduos não formulam os seus
planos de consumo e de investimento, nem os metem em
execução na ba e dos preços e dos rendimentos «de
equilíbrio» determinados no mercado. Os indivíduos
formulam os seus planos e metem-nos em execução na base
dos preços correntes, das expectativas dos preços (entre os

(1) Pág. 433.
141

quais está a taxa de juro) e do créditos futuro. Ma tais
expectativa podem resultar infundada e nem sempre é
possível efectuar a revisã depois do plano entrar em
execução, de que resulta um equilíbrio «ex-post» que não é
necessariamente coincidente com o eqtúlíbrio económico
geral à Walras.
O modelo da escola de Estocolmo representa um
primeiro passo para a análise do processo económico como
um processo contínuo, mas con erva a ficção do «período»
da análise de Walras - ainda q ue definido de um modo
novo - isolável no fluxo dos acontecimentos históricos.
Reconhece-se por um lado a) que os preços correntes não
representam mais que um equilíbrio provisório, temporário,
entre oferta e procura, que pode esconder situações de
desequilíbrio efLctivas; b) que as expectativas podem não
estar de acordo com os «planos» pelo que o equilíbrio
contínuo no tempo, fazendo coincidir «expectativas» e
~planos» como consequência de uma previsão perfeita,
anulando praticamente o tempo, deixa de verificar-se na
realidade; c) a noção de equilíbrio tem, contudo, um certo
valor, pelo que nos limites possíveis os indivíduos procuram,
num certo período de actividade, compatibilizar os seus
planos com as expectativas.
Se do ponto de vista da alínea c) há ainda uma análise do
processo económico descontínua, por outro lado as alíneas a)
e b) aproximam a análise da realidade concreta, onde o
processo económico é contínuo. A defmição de um
«período» diverso na c cola sueca é uma tentativa de síntese
entre as duas análises (1).
O critério fundamental para defmir o «período» é que
este deve ser tal que não consinta qualquer alteração
(1) Para o desenvolvimento do tratamento do tempo veja-se
MAGAUD (1950) cap. III , pág . 92 a 110.
142

Iwltária no plan de pr duçã (' on um . Produtorc c
con umid re pr curam, durante interval de temp entre
início d~ um ped d e o u es i pedod $, realizar
mais po ível plan e tabelecid n iní io de cada
períod . Todavia plan nã podem re lizar-se com-
pletamente, razã p rque temo a divergência entre
previ õe ' e realiz,\ções, u enda ex-ante e a venda ex-posto
Diferentemente d e quema de equilíbrio geral, o preço
fixad s n iníci de ada período nã a eguram eq uilíbrio
entre a quantidade procurada e ferecida (ex-ante).
Outra hipóte e relativa ao períod é a unicidade deste,
relativamente à alteraçã nas variáveis, ou seja, a ausência de
«lags», que implicariam difi rentes períodos de ajustamento.
Em outras palavra, s vários período estão separados entre
si por «ponto n tempo», no quai c m ba e na hipótese
irreal de um particular quadro ill titucional, se reagrupam
t das a variações das variáveis económica .
No que diz respeito à introdução da expectativas na
análi e, a outra contribuição dos neo- Wickscllianos, para
não se entrar em considerações vagas e imprecisas e ver-se
sfumar não omente o esquema do equilíbrio monetário,
temos de introduzir hipóteses como a de que a expectativas
são defmidas e de elasticidade igual à unidade, para que a
construção po a merecer o título de esquema lógico. No
caso de expectativas defmidas e de elasticidade igual a zero,
significa que são fixadas independentemente dos preços
correntes, o que faz com que qualquer variação dos preços
correntes seja temporária.
Se para todos os bens e para todos os empresários a
elasticidade das expectativas são iguais à unidade, uma
alteração nos preços correntes fazem variar os preços
esperados na mesma proporção, o que provocará uma
expansão de todos os planos produtivos. Se também as
143

(xpectativas do comumid [es, relativamente ao rendI-
mento e aos preços, têm uma elasticidade igual à unidade, o
relançamento do rendimento corrente levará a expectativas
de rendimento futuro mais elevado e a uma despesa dos
consumidores acrescida, c mentindo novos aumentos de
preços e justificando a per pectiva favorável do empre-
sários.
A tentativa de se considemr hipóteses sobre as expec-
tativas, mais próxima da realidade económica, tem uma
importância crucial pois conduz a um método de análise
diverso do método do equilíbrio geral estático, abrindo o
caminho a uma análise dinâmica.
A tendência para um desvio cumulativo poderá ter a
ver com uma destas causas: (I) exterior e objectiva (alteração
na produtividade, na população, nos recursos produtivos);
b) de natureza psicológica (alterações nas expectativas);
c) intervenção da política económica, em particular da
política monetária, pelo eft ito que exerce sobre a taxa de
juro, na distribuição do rendimento, volume de pou-
pança, etc.
Desta forma foi debelada .\ mais grave lacuna de
Wicksell, no entender de Fabbrini, que foi a de ter aplicado
um esquema estático a problemas de natureza essencialmente
dinâmica como a moeda e o ciclo (1).
A reformulação do esquema de Wicksell acentua o
carácter de processo cumulativo, enquadrando-o num
esquema dinâmico e utilizando um método mais con-
sentâneo, um método periódico que considera as variáveis
ex-ante e ex-posto
Em síntese podemos dizer que as «previsões» tendem a
assumir uma importância crescente até ao ponto que o

(1) FAllBRlNI (1957), pág. 56.
144

parâmetro fWldamental de Wick dI de divergência entre.
taxa de juro natural e monetária - e portanto, de
diverC1ência entre investimento e poupança - é sub tituído
pelo parâmetro da c ncordância da previ ões (e do planos)
de t da a v~íria categoria de agentes ec n6micos.
A im, na formulação definitiva c mais geral d
processo umulativ e te ba eia-se em forças end6gena ,
explicadas por c mbinaçõe particulares do fact res reais e
prevlSlonais. a pr ce so cwnulativo é devido a um
si temátic afa tamento numa certa direcção das cir-
cunstância reais e da expectativas exi tentes no início do
período.
De ta {; rma muitas teorias do ciclo econ6mico tiveram
uma da principais fontes de in pi ração no esquema
Wick emano, o qual pode ser considerado como uma teoria
do ' ciclos convergentes, alimentada por acontecimentos
ex6genos ou de ciclos com tendência explosiva.

d.2. Deixámos para final a questão de aber em que
medida a análise da escola de Estocolmo, ultrapassando os
limite da análise de Wicksell de con iderar somente
variações de preços, antecipou a teoria e a política
econ6mica subjacente à Teoria Geral de Keynes. Esta
questão tem subjacente a da existência da pr6pria escola de
Estocolmo bem como se a contribuição de ahlin não foi já
influenciada por Keynes.
Começaremo pela questão da existência da escola de
Estocolmo, que agregue num todo coerente e evolutivo as
contribuições de Lindahl, Myrdal e ahlin. Do exposto,
parece possível concluir-se que a análise de ahlin explici-
tando variações da produção se insere numa linha eVOlutiva
que beneficia em especial da contribuição de Lindahl sobre
a «propensão a poupar» e da análise de Myrdal baseada na
145

consideração do valor dos agregados ex-ante e ex-posto
A estas contribuições deve juntar-se as conclusões do
trabalh anterior de Ohlin, nomeadamente a análise da
oferta/procura agregadas, que usara nos seus estudos sobre
economia internacional. Toda esta análise, englobando as
diversas contribuições, mantem-se fiel à problemática
wick elliana de explicar variações no nível de preços, mas
ultrapassa-a, como consequência das contribuições assi-
naladas, na medida em que estas levam à consideração de
variações na produção e emprego com carácter sistemático
(já que com carácter eventual estas teriam sido consideradas
por wicksell) (1).

(1) Landgren e Pati.nkin não partilham desta opuuao, argu-
mentando o primeiro que foi Keynes quem influenciou decisivamente os
trabalhos de Ohlin de 1933 e 1934, já que considera que as novidades da
escola de Estocolmo foram desenvolvimentos do The Means of Prosperity
(1933) de Keynes. Para Um (1973), pág. 246, esta conclusão não leva em
linha de conta os trabalhos dos autores desta escola anteriores a 1927, bem
como materiais que s6 ficaram disponíveis ap6s a tese de Landgren
apresentada em 1960. É de notar que a análise deste autor não rejeita a
importância da análise de Ohlin antecipando a Teoria Geral, mas
desqualifica-a na medida em que se baseia na influência de uma obra
anterior de Keynes, negando a existência da escola de Estocolmo, como
estando na origem de uma linha evolutiva do pensamento econ6mico que
levou Ohlin e em menor escala Myrdal a antecipar a .revolução
Keynesianv.
A posição de PATINKIN (1982) vai no sentido de não negar as
contribuições apontadas a Lindahl, Myrdal e Ohlin mas em desqualificá-
las por tratarem da variação da produção no âmbito de uma análise mais
global que teria como objectivo principal a análise da variação dos preços,
seguindo a tradição de Wicksell, pelo que devem ser comparáveis com o
Tratado e não com a Teoria Geral de Keynes. Na minha opinião a melhor
resposta a esta pretensão de Patinkin é um argumento de Ohlin (1981) que
pergunta se as variações das quantidades s6 serão válidas sob hip6teses
simplificadoras, nomeadamente a da não vari.abilidade dos preços?
Patinkin baseia-se, para estabelecer a conclusão apresentada, num
artigo de Lindahl de 1953, publicado no Economic Record em 1954 com o
título, .An Keynes' economic system», em que apresenta a escola de
Estocolmo como não tendo trabalhado com variações das quantidades. Se
10
146

Mas esta c nclusão nã deve er largada no sentido de
que, pelo facto de a escola de Estocolm trabalhar não s6
com variaçõe d preço mas também da quantidade, ta
apresenta uma análi e mai rica do que a de Keynes pois que
a consideração subjacente de que a análise deste é estática,
implica confundir Keyne com os «Keynesianos» d
diagrama de 45 0 e das curvas IS/ LM (3).
Por fim importa realçar que c se p de concluir que a
escola de Estocolmo, através de Myrdal e Ohlin, antecipa a
Teoria Geral, de maneira nenhuma fizeram uma apre-
sentação tão sistemática e clara num sistema coerente como a
que se encontra na obra fundamental de Keynes.

o faz LindaW ignora as suas próprias contribuições, de Myrdal e de Ohlin.
efr. OHl.lN (1978) .
Estaria incompleto o debate da influência de Keynes na escola de
Estocolmo sem uma referência a Wigforss, um camador da ciência
económica» com formação linguística e que foi ministro das fmanças
durante vários anos e como tal responsável pelo primeiro orçamento
sueco que advogava à politica de obras públicas [manciadas por défices
orçamentais, no ano de 1933. Sobre este autor Landgren e Steiger estão de
acordo que em Econol/lic Crises, de 1931 , chega a muitos resultados da
eNova Economia-: a poupança ajusta-se ao investimento ex-post pela
variação do rendimento, efeitos multiplicadores, preferência pela liquidez
em relação ao investimento de poupanças para baixas taxas de rendimento
e de juro, e uma forte ênfase em programas de retoma com base em
financiamento por défices , sem que estes prejudicassem o investimento
privado em períodos de subutilização de recursos. ef. Um (1977) ,
pág. 255.
Wigforss diz-se influenciado ora pela <tradição de pensamento do
partido social democrata sueco. ora por Keynes e pelo partido liberal
inglês. De qualquer maneira é de salientar a semelhança de um modelo de
Steiger representativo deste autor com o de Hicks eMr. Keynes and the
elassics.. Este facto parece resultar da não influência do método de
Wicksell já que Wigfross não possuía formação académica em economia.
De qualquer maneira, a análise deste autor parece ser independente da da
escola de Estocolmo, apesar de Myrdal, ser já nos fmais da década de 20
um activo membro do partido de Wigfross.
(2) efr. BRBMS (1978).
(3) Sobre esta distinção veja-se FBlUU!lBA (1982).
147

d.3. Terminamos expondo as semelhanças e diferenças
entre as conclusões das análises de Estocolmo e Cam-
bridge (1):
(1) Diferenças em relação à velha teoria
- a gestão da procura agregada;
- crítica à lei de Say;
- a análise da procura e oferta agregada está na origem
do uso das despesas públicas fmanciadas por défice como
remédio contra o desemprego;
- a grande influência da incerteza quanto ao futuro;
- em geral uma redução dos salários durante a
depressão, num país isolado, não gera grande aumento do
emprego;
- uma diminuição da disposição para poupar durante a
depressão, levará, ceteris paribus, a um aumento do
investimento e a um aumento do volume de poupanças;
- conceitos ex-post que permitem considerar a quan-
tidade poupada sempre igual aos novos investimentos, toma
obvio que há sempre suficiente «fmanciamento» para o
investimento feito com ajuda de défices.
b) Outros méritos da escola de Estocolmo
- ter apontado a importância da ordem dos acon-
tecimentos num processo em expansão e contracção, bem
como da velocidade de reacção;
- contribuição para a teoria do juro na óptica da teoria
dos fundos emprestáveis;
- mais atenção às condições de oferta nas diferentes
indústrias;
- o uso de um método mais dinâmico, devido aos
conceitos ex-ante e ex-post, ao estudo em simultâneo da
variação de preços e quantidades e à consideração de
«feed backs».
(1) OffiIN (1981). pág. 216-218 e pág. 226.
14

4. As variações dos preços relativos: a análise de
Von Hayek

4.1. Von Hayek com. Wicksell procura a rigem da
cri e na flutuaçõe da taxa de jur m netária. Mas se para
Wick ell e ta flutuaçõe provocam um moviment no
nível geral de preços, para Von Hayek ela alteram as
relações entre o diferente preços rdativo . Von Hayek não
pensava que o m vimento de preços p dessem provocar
um desequilíbri geral se todos estivessem orientados no
mesmo sentido, ao c ntrário da variação do preços relativos
que provocam alterações na estrutura de pr dução de tal
Jorm.a que somente estes podem explicar todas as rupturas
do equilíbrio económico.
É ao estudo do preços relativos que se consagra Von
Hayek na sua bra Prix et Prodtlctioll (1931). Ele reagrupa os
elementos fundamentai do pensamento de Marshall, de
Bõhm-Bawerk e de Wicksell mas inverte os seus pontos de
vista sobre o problema do equilíbrio económico geral.
Conserva a distinção entre uma economia real e uma
economia monetária, mas em lugar de partir da primeira
para a segunda, postula pelo contrário que as flutuações
monetárias se repercutem na estrutura real da economia por
intermédio dos preços.
Na análi e monetária, Von Hayek, admite os postulados
Wicksellianos. O desequilíbrio explica-se por repercussões
das flutuações monetárias na estrutura real da economia, mas
este desequilíbrio não se explica por uma intervenção directa
da moeda, é preciso passar pela intermediação da taxa de
juro. Numa economia real, a taxa natural assegura a todo o
momento o equilíbrio entre poupança e investimento, numa
economia monetária este equilíbrio é rompido pela
disparidade das taxas.
149

Só que a partir daqui Hayek rejeita as conclusões de
Wicksell de que a disparidade de taxas provocará um
movimento no ruvel geral de preços pois considera que este
não é suficiente para explicar os desequilíbrio. Assim, Von
Hayek, considera ainda que a disparidade de taxas estão na
rigem dos cicl s ma pen a que não é o nível geral de
preços que joga o papel decisivo. A disparidade de ta~s
pr vocará divergência entre os preços relativos dos dife-
rente estádio da produção e serão estas divergências entre
os preço relativ s que provocam os desequilíbrios.
Se a quantidade de moeda aumenta, a taxa monetária:
diminui e os empresários encontram perspectivas de sobre-
-lucro na produtividade marginal do capital e nas diferenças
de taxas. Os empresários pedem emprestado capital c
tornam-se compradores no mercado de bens de produção;
o preço destes bens têm então tendência para aumentar,
reforçada por um segundo fenómeno que acentua a
tendência: os preços dos bens de consumo diminuem
relativamente aos dos ben de produção enquanto que os
produtores de bens de consumo vêm os seus custos
aumentarem devido a uma procura acrescida de mão de
obra e das matérias primas por parte dos produtores de bens
de produção.
Ora Von Hayek como Wicksell estabelecem a hipótese
de pleno-emprego, o que signif1ca a ausência total de
disponibilidade de factores de produção. Os produtores de
bens de consumo para fazer face à baixa dos seus lucros (em
virtude da baixa dos preços relativos e da alta dos seus custos)
racionalizam-se e tornam-se compradores por seu lado de
bens de produção.
Assim neste último mercado, uma dupla procura faz-se
sentir: a dos empresários que investem tendo em vista novas
produções e os produtores de bens de consumo que se
150

tomam compradore de bens intermediários para diminuir
os seus custo .

4.2. Hayek utiliza a teoria austríaca do capital para
proceder a uma definição microecon6mica original dos
bens. Considera como diferentes dois produtos pertencendo
a dois estádios di tintos do processo de produção. A partir
desta análise chega à distinção entre «bens especilicos» e «bens
não específicos» consoante sejam empregues num único
estádio de prod ução ou susceptíveis de múltiplos usos em
estádios diferenciados de produção (1).
O nosso objectivo na análise deste trabalho de Von
Hayek foi somente o de situá-lo no desenvolvimento da
análise de Wicksel1, ao explorar a hipótese da possibilidade
de variações nos preços relativos. Não é, consequentemente,
pertinente para o presente estudo o desenvolvimento da sua
teoria de produção c do capital, de qualquer forma um
ponto de distinção em relação à análise de Wicksell. Desta
forma, concluiremos, realçando que, como corolário da
análise de Hayek, este não acreditava na utilização da política
monetária para suprimir as flutuações da conjuntura, pelo
que Von Hayek insista numa condição do equilíbrio
económico anterior a Wicksell, a invariabilidade da
quantidade de moeda.

5. O posicionamento da obra de Wicksell na teoria
monetária

O esquema seguinte apresenta de forma sintética o
posicionamento da obra de Wicksell na teoria monetária.

(1) HAYEK (1931), na versão francesa de 1975, pág. 139 a 141.
151

Começa por mostrar que Wicksell a partir da «velha» teoria
quantiativa da moeda desenvolveu uma análise com base na
relação Poupança-Investimento, que vai dar origem às
chamadas teorias da Poupança-Investimento que domi-
naram o pensamento econ6mico desde o princípio do
século e que teve como expoente máximo Keynes.

Teoria qnantitativa
~----~I ~,______~
!
Wicksel - (Davidson)
1
Fisher
:-----tt 1
l
Lindahl
Hawtrey
Robertson
Hayek

Keynes (Tratado)
Myrdal
Ohlin t
Keynes (Teoria Geral)

Teorias da
Poupança - Investimento Friedman

Figura 1 (I)

Até Friedman restaurar a teoria quantitativa, a análise
da Poupança-Investimento dominou a teoria monetária
durante este século. Todos os defensores desta análise des-
cendem da teoria de Wicksell que analisa as alterações
do nível de preços (ou do rendimento nominal) em termos
de poupança e investimento, consubstanciada num desajus-
tamento de taxas de juro nominal e real. O uso da análise

(I) Esquema reproduzido, em parte, de LEI]ONHUFVUD (1981),
pág. 133.
152

da P upança-Inve timent para anali ar a flutuações d-
rendiment é um demcnt essencial de difc renciação em
relação a m netarista. Na variant m n tari t da teoria
quantitativa, p upança e investimento tem a ver com a
afectação d pr dut ma nada a v r c ma d terminação
do rendimento ou lÚVel geral de preços.
A e cola de E t c 1m Austríaca também des-
cendem da análi e de Wicksell. Só que enquanto a escola de
E tocolmo de nv lveu a análise de Wicksell no entido da
introduçã da expectativas na análi e económica reforçand
a análi e do pr cesso económic como wn processo
contínuo, debelando, assim, a grave lacuna de Wicksell
que foi ter aplicado Wl1 esquema estático a problemas de
natureza e cncialmente dinâmica, a escola Austríaca, com
Hayek, preocupa- e com as flutuações na taxa de juro e suas
con equência nos preços r lativo como factor explicativo
dos de equilíbrio.
A análi e de Keynes representa o desenvolvimento de
uma terceira vi~. de de nvolvimento da teoria da Poupança-
-Investinlento de Wick ell. Por um lado, tal como a escola
de Estocolmo, este autor desenvolv a hipótese de
ajustamento pelas quantidades ao desenvolver uma teoria do
rendimento mai completa. Por outro lado, abandona a
teoria do fundo mprestáveis o que acarreta consigo a
impossibilidade de a decisões de poupança e de inves-
timento serem coordenadas pela taxa de juro. Em sua
substituição urge a teoria da preferência da liquidez, que diz
que a procura c oferta de moeda determinam a taxa de juro,
já que a Poupança e o Investimento não o podem fazer pois
são sempre iguais. Assim a contribuição de Wicksell per-
deu-se e com ela a hipótese dinâmica que é fWldamental à
teoria quantitativa, de que o excesso de procura de moeda
determina o nível dos preços.
153

. Concluindo, diremos que numa épocá em que o n·ível
de preços flutua bastante e em que se assiste ao restaurar da
teoria quantitativa, a consideração da ligação, de acordo com
Wickscll, e levando em conta os desenvolvimentos da escola
de Estocolmo entre a teoria da Poupança-Investimento e a
teoria dos fundos emprestáveis que permite à taxa de juro
coordenar as decisões de poupança e de investimento,
aparece como uma }úpótese a considerar, inserida num
esquema analítico que integre em simultâneo variações de
preços e de quantidades.

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R UI VISEU FERREIRA