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A agroecologia e a restauração de metabolismos orgânicos

nos sistemas agroalimentares
Paulo Petersen

Por definição, agricultura implica intervenção humana sobre o mundo natural. Em
termos técnicos, significa a conversão do ecossistema em agroecossistema. O
ecossistema é um sistema ecológico cuja reprodução é assegurada pelo trabalho da
natureza, isto é, por ciclos materiais e fluxos energéticos primariamente alimentados
pela radiação solar. Durante 95% de nossa história como espécie, nos apropriamos
dos frutos do trabalho da natureza por meio das práticas de coleta, caça e pesca. O
nível de intervenção humana sobre o ecossistema é mínimo, limitando-se, na maioria
das vezes, à extração de elementos selecionados da natureza.

O relacionamento humano com o restante do mundo natural por meio da gestão de
agroecossistemas inaugurou, há cerca de dez mil anos, um novo modo de
apropriação, alterando substancialmente os padrões de circulação de matéria e
energia nas dinâmicas socioecológicas de obtenção, distribuição e consumo de
alimentos e fibras.

Essa nova estratégia de articulação entre os processos sociais e os processos
ecológicos liberou um conjunto de potencialidades humanas que permaneciam até
então restringidas pela total dependência da vida social às dinâmicas dos
ecossistemas.

Conhecido como Revolução Neolítica, esse período da história desdobrou-se como
um processo gradual de domesticação da natureza. Se expressando tanto em nível de
espécie quanto em nível de paisagem, a domesticação se fez no sentido de canalizar
ciclos e fluxos ecológicos para o atendimento de objetivos sociais, aumentando assim
a eficiência e a segurança na obtenção de bens naturais necessários à subsistência
humana.

De acordo com as perspectivas da História Ambiental e da Economia Ecológica, esse
período histórico marca a passagem do metabolismo extrativo - ou cinegético - para o
metabolismo orgânico - ou agrário (GONZÁLEZ DE MOLINA e TOLEDO 2011) (ver
quadro 1). Embora a radiação solar permaneça como a fonte energética primária nos
metabolismos orgânicos, os processos ecológicos locais são substancialmente
alterados em relação aos padrões metabólicos extrativistas.

Quadro 1 – Metabolismo social

A ideia original de metabolismo social se deve à Karl Marx (FOSTER, 2011). O metabolismo,
segundo sua concepção, corresponde ao processo de trabalho pelo qual a sociedade humana
transforma a natureza externa e, ao fazê-lo, transforma sua natureza interna. Os efeitos do
processo de trabalho sobre a natureza interna condicionam as relações sociais de produção.
Em suas palavras, Marx ensina que acima de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e
a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu
metabolismo com a natureza (MARX, 1983, p. 149). Essa fecunda intuição no emprego de um
conceito oriundo das ciências naturais para a análise dos sistemas econômicos foi
desenvolvida nas últimas décadas por economistas ecológicos, sobretudo após as
formulações de Geogescu-Roegen (1973) sobre a natureza entrópica dos sistemas
econômicos convencionais. Segundo a perspectiva do metabolismo social, as relações entre a
humanidade com o restante da natureza são analisadas como um sistema econômico-
ecológico composto por cinco principais processos metabólicos: apropriação, transformação,
circulação, consumo e excreção. O emprego de enfoque analítico descortinou novas
perspectivas para a articulação entre as ciências naturais e as ciências sociais, deixando claro
que a ideia de metabolismo não é uma simples metáfora. Entre outros aspectos, essa nova
perspectiva interdisciplinar tem contribuído para uma melhor compreensão dos processos
históricos, demonstrando objetivamente a forte correlação entre a insustentabilidade
ecológica e a desigualdade social nos modelos de desenvolvimento dominantes (MARTINEZ-
ALIER, 2005).

Codomesticação e coprodução

Uma vez convertido em agroecossistema, o ecossistema passa a ser intencionalmente
mantido à distância de seu equilíbrio natural. Desse ponto de vista, o agroecossistema
é um sistema em desequilíbrio, cuja reprodução depende da associação recíproca e
permanente entre o trabalho humano e o trabalho da natureza. Em outras palavras, é
o resultado da coprodução entre o social e o natural (TOLEDO apud PLOEG 1993),
devendo, por isso, ser compreendido como um sistema econômico-ecológico.

Analisando por esse prisma, a agricultura pode ser definida como a gestão social de
ecossistemas ecologicamente imaturos com o objetivo de explorar economicamente
as altas taxas de produtividade primária líquida encontradas nos estágios prematuros
de sucessão ecológica.i No entanto, essa vantagem econômica alcançada com a

manutenção da imaturidade dos ecossistemas entra em conflito com a desvantagem
ecológica gerada pela interferência nos processos naturais responsáveis pela
reprodução da integridade estrutural e da dinâmica funcional da natureza. Isso porque
bondades da naturezaii essenciais à agricultura, como a fertilidade do solo (e sua
contínua regeneração) e a regulação/controle de populações de espécies
espontâneas, são reduzidas ou mesmo eliminadas com o aumento da imaturidade
ecológica dos agroecossistemas.iii

A história das agriculturas no mundo pode ser interpretada à luz dessa contínua
tensão entre a economia e a ecologia dos ecossistemas cultivados. Mazoyer e
Roudart (2001) realizaram uma brilhante análise dessa perspectiva histórica,
demonstrando como diferentes agroecossistemas do planeta foram moldados e
evoluíram a partir de dinâmicas de coprodução socioecológica. Nessas dinâmicas, o
trabalho humano e o trabalho da natureza integram-se e influenciam-se mutuamente
no sentido de mobilizar e combinar as bondades da natureza para atender
simultaneamente a objetivos ligados à produção econômica e à reprodução ecológica.

Do ponto de vista ecológico, as trajetórias históricas de inovação sociotécnica nas
agriculturas foram condicionadas pelo objetivo de balancear as vantagens e as
desvantagens da imaturidade ecossistêmica. São, portanto, construções sociais
moldadas às peculiaridades geográficas e históricas de cada agricultura. Nesse
sentido, implicam processos de inovação técnica e social informados por ciclos de
aprendizagem coletiva em nível local, envolvendo observação, interpretação,
experimentação e avaliação. Nessa ordem de ideias, a história das agriculturas pode
ser também compreendida como uma codomesticação: o humano domestica a
natureza e a natureza domestica o humano. No dizer de Toledo e Bassols (2015), são
processos de produção de culturalezas.

Nas trajetórias de codomesticação, melhores equilíbrios socioecológicos são
construídos pela permanente atualização das analogias estruturais e funcionais entre
os agroecossistemas e os ecossistemas pré-existentes. Não sem razão, as primeiras
civilizações se formaram e perduraram por séculos sobre agroecossistemas
estruturados em solos aluviais que guardam grande analogia ecológica com os
ecossistemas sobre os quais se desenvolveram.iv

Em termos territoriais, a conversão de ecossistemas florestais em agroecossistemas
foi a situação mais generalizada no planeta. O primeiro estágio técnico dessa
conversão correspondeu ao sistema de pousio, roça e queima, método que se
fundamenta na reposição da fertilidade ambiental por meio da alternância no tempo e

A peculiaridade da agricultura em relação a outras atividades econômicas vem do fato de que seus objetos de trabalho são elementos (ou bondades) da natureza (PLOEG. fundamenta-se no aprimoramento do processo de trabalho no âmbito dos agroecossistemas e dos territórios rurais. 1996). a gramática da intensificação agrícola está relacionada ao contínuo aperfeiçoamento das dinâmicas locais de coprodução. ou seja. Em uma perspectiva ainda mais radical. Nos metabolismos orgânicos. corresponde à evolução das formas de integração do ser humano na natureza. Na Europa. 1993). ou seja. Colocando em outros termos. ou seja. pela sua completa supressão. na transformação. 2011). Isso significa dizer que o incremento da produção por objeto de trabalho ocorre como resultado das trajetórias de inovação nas formas de articulação entre o trabalho humano e o trabalho do restante da natureza. essa estratégia técnica permanece historicamente vigente em condições excepcionais nas quais as comunidades agrícolas dispõem de suficiente dotação territorial para reservar terras a longos períodos de pousio. ou seja. de caráter ontológico.vi Intensificação baseada no trabalho Boserup (1987) demonstrou que aumentos na densidade populacional que levassem à escassez de terra para uma dada coletividade funcionaram como gatilhos para desencadear trajetórias de inovação sociotécnica capazes de compatibilizar sustentabilidade ecológica com intensificação econômica. finalmente. na circulação e no consumo dos bens naturais.no espaço de parcelas agrícolas em diferentes graus de maturidade ecológica. na teia da vida que compõe a Biosfera (CAPRA. corresponde à evolução multimilenar e em escala planetária das relações locais de reciprocidade entre o ser humano e a natureza viva (PLOEG. essa evolução histórica foi marcada pelo contínuo encurtamento dos períodos de pousio e. Ela se expressa igualmente nas funções metabólicas realizadas na esfera social. no final da Idade Média.v Embora faça uso extensivo de recursos ambientais. . nas ações de apropriação e de excreção. Reciprocidade: mecanismo-chave nos metabolismos orgânicos A relevância da reciprocidade na organização do metabolismo orgânico não se limita aos processos de integração entre o ser humano e o restante da natureza.

214).. separar a terra do homem e organizar a sociedade de forma tal a satisfazer as exigências de um mercado imobiliário foi parte vital do conceito utópico de uma economia de mercado (POLANYI. demonstrando que. Essa grande transformação não se processou como uma ruptura histórica. a produtividade do trabalho humano monetariamente remunerado passou a ser assumida como a métrica da riqueza. o pressuposto é tão utópico em relação à terra como em relação ao trabalho. como se fossem produzidos para a venda. pela primeira vez. Além disso. juntamente com a troca mercantil e a redistribuição. Karl Polanyi (2000) analisou como as trocas mercantis passaram a exercer crescente influência na regulação dos fluxos metabólicos a partir do século XVIII em detrimento das relações de reciprocidade (entre os seres humanos e destes com a natureza). A função econômica é apenas uma das funções vitais da terra. uma economia-mundo (WALLERSTEIN. mas veio se delineando desde o início do século XVI. Desse ponto de vista. No capitalismo. o mercado formador de preços assume o papel de instituição dominante do sistema econômico. 2000 p. como decifrou Karl Marx (2014). Com isso. ou seja. a medida da riqueza social correspondia à produtividade da terra.vii O aspecto central na análise de Polanyi refere-se ao fato de que o funcionamento combinado dessas três formas de integração social depende da presença de estruturas institucionais bem estabelecidas. ou seja.. a reciprocidade é um mecanismo-chave na organização dos sistemas econômicos. a riqueza produzida passou a ser incorporada e objetivada na forma de mercadoria. a transformação histórica dos sistemas econômico-ecológicos (como os agroecossistemas) deve ser compreendida também como a evolução das estruturas institucionais responsáveis pelo funcionamento combinado dessas três formas de integração social.ix .Karl Polanyi (2012) descreveu as formas de integração social no decorrer da história. Numa sociedade assim organizada. à associação do trabalho da natureza com o trabalho humano. o trabalho humano e a terra passaram a ser concebidos como mercadorias. Nas sociedades pré-capitalistas.viii A grande transformação metabólica Em seu livro seminal A Grande Transformação. 1974). Esta dá estabilidade à vida do homem. O passo essencial para essa mudança histórica foi a criação de instituições sociais que permitiram que parcelas crescentes da natureza fossem valorizadas e intercambiadas através dos mercados. Não cabe aqui entrar em detalhes sobre as condições que proporcionaram a virada institucional que abriu o caminho para a emergência histórica e a disseminação global do capitalismo. quando começa a se estabelecer. Nas palavras de Polanyi.

esse repertório inclui o . 2015 p.. o ser humano é concebido como uma entidade autoreferencial. al. o capitalismo emerge como um novo sistema de governança do metabolismo socioecológico. Para fazer frente à exaustão dos recursos e aos mecanismos de resiliência ecológica. como a Amazônia brasileira. contrastando com as estratégias de codomesticação que prevaleceram nas sociedades históricas precedentes. 2007). fato até hoje presente em várias regiões do planeta. No entanto. mais do que um novo sistema econômico ou uma nova forma de divisão social do trabalho. assegurando a continuidade da dinâmica expansiva do capital. A ilusão metafísica do metabolismo industrial A grande transformação institucional que abriu caminho para o desenvolvimento e a rápida expansão do padrão metabólico comandado pelo capital foi erigida sobre dois axiomas metafísicos: o mito do progresso ilimitado e o antropocentrismo (GARRIDO et. 58). Em outras palavras: como uma forma peculiar de organizar a natureza (MOORE.A racionalidade econômica que se impõem a partir dessa virada institucional induz o desenvolvimento de novas formas de apropriação dos bens naturais. Por um lado. Essa perspectiva cartesiana de apreensão da realidade foi condição necessária para o estabelecimento de economias fundamentadas na ideia de dominação da natureza. não aceita ser dominada passivamente. a natureza é finita e rebelde: além de ser exaurir se explorada acima de sua capacidade de restauração.x Desse ponto de vista. Por outro.xi Cabe aqui lembrar que o período de arranque desse novo modo de produçãoxii ocorreu na era de expansionismo europeu (BRAUDEL. quando vastas extensões territoriais foram incorporadas à fronteira de apropriação por meio do extrativismo predatório (de madeira e de minerais) e da transformação de ecossistemas em agroecossistemas monocultores de grandes extensões territoriais. Essa mudança radical no metabolismo socioecológico ancorou-se em um novo paradigma intelectual fundado na separação ontológica entre a humanidade e o resto da natureza.xiii Além da expansão geográfica das fronteiras de apropriação. a natureza é concebida como uma reserva interminável de recursos a serem mobilizados para o processo econômico. 1997). alterando a escala. um amplo repertório de estratégias de apropriação das bondades da natureza foi (e permanece sendo) desenvolvido. a velocidade e o escopo das transformações dos ecossistemas. que se posiciona acima da natureza a fim de dominá-la.

Os agroecossistemas como o cenário de um teatro cartesiano A rápida disseminação do padrão metabólico industrial no mundo rural a partir da segunda metade do século 20 deve ser interpretada como um projeto político deliberadamente promovido para atender às novas exigências de reprodução do capital. a prática e a teoria (PLOEG et.. com o emprego do carvão mineral para o acionamento da máquina a vapor nas indústrias têxteis inglesas. 2000) sob o manto da modernização da agricultura.xiv Um elemento decisivo nessa trajetória histórica de apropriação foi a mobilização do trabalho/energia da natureza acumulado por meio de processos biogeológicos multimilenares na forma de combustíveis fósseis. com a garantia da produção de alimentos necessários a uma população mundial em acelerado crescimento vegetativo.xv Essa inovação tecnológica que abriu caminho para a Revolução Industrial no século XVIII representou um divisor de águas na história da humanidade. esse projeto se impôs após a II Guerra Mundial.xvii Sendo portador da promessa de superar o atraso da agricultura e do mundo rural em relação ao mundo urbano-industrial. o emprego da energia fóssil abriu caminho para o desenvolvimento de um terceiro padrão metabólico na história humana: o metabolismo industrial (GONZÁLEZ DE MOLINA. codificação e racionalização das bondades da natureza de forma a incorporá-las no processo de produção de riquezas. em síntese. TOLEDO. . 2011). dominando a política. 3) o revolvimento intensivo dos solos. com a geração de divisas para as economias nacionais e regionais e com a articulação social e econômica do setor agrícola à dinâmica geral de desenvolvimento das sociedades modernas.desenvolvimento de novos conhecimentos e tecnologias voltados à identificação. al.xvi Ao possibilitar que as atividades metabólicas se desconectassem das dinâmicas ecológicas alimentadas pela radiação solar. Desde as primeiras aplicações tecnológicas dos combustíveis fósseis. Esses efeitos combinados seriam alcançados a partir da generalização de uma nova matriz tecnológica que. A materialização dessa promessa se daria com o emprego racional das terras e dos demais recursos produtivos. dois séculos foram necessários para que o metabolismo industrial fosse plenamente estabelecido nas dinâmicas de funcionamento dos agroecossistemas. combina cinco práticas principais: 1) a fertilização química e o emprego de rações industriais e hormônios de crescimento. 2) o controle químico de insetos-praga e doenças.

al. como a baixa disponibilidade de nutrientes e água nos solos. para que as variedades e raças desenvolvidas a partir dessa perspectiva de melhoramento genético expressem seus potenciais produtivos. são abandonadas. o paradigma da modernização está assentado na disseminação em larga escala de genótipos desenvolvidos em ambientes artificialmente controlados para a obtenção de elevadas produtividades. Relações de reciprocidade ecológica. e 5) a manipulação dos genomas de plantas e animais domésticos. maior resiliência frente aos efeitos de estresses ambientais. os genótipos são submetidos a uma pressão de seleção que torna dispensável o acionamento de genes que conferem maior plasticidade ecológica às variedades locais. irrigação e agrotóxicos. Essa interdependência molda o desenvolvimento de sistemas técnicos poucos flexíveis. Por essa razão. Embora cada uma dessas práticas exerça funções específicas na dinâmica ecológica dos agroecossistemas.xviii A ruptura paradigmática imposta pelo projeto de modernização pode ser sintetizada pela substituição do objetivo de domesticar pelo de dominar a natureza.4) a irrigação intensiva. para dar lugar a um padrão de relacionamento baseado na tentativa de controle unilateral do humano sobre as dinâmicas do restante da natureza. Essa forma de compreender o funcionamento ecológico dos agroecossistemas funda- se em um paradigma agronômico mecanicista que supõe a possibilidade teórica do controle total sobre as dinâmicas naturais por meio do emprego de tecnologias cientificamente definidas com o auxílio do método paramétrico. o desenvolvimento das raízes em profundidade e a associação simbiótica com organismos do .xix No entanto. ou seja.. elas só se tornam funcionais se empregadas em diferentes combinações com as demais. desenvolvidos para serem disseminados de forma universal na forma de pacotes tecnológicos (PETERSEN et. Uma expressão prática dessa mudança de perspectiva se manifesta nas novas estratégias adotadas para o manejo da agrobiodiversidade: em lugar de adaptar os genótipos de plantas e animais domesticados às peculiaridades ecológicas locais. somente possíveis em ambientes de interação simétrica. a energia e os nutrientes investidos na manutenção de estratégias fisiológicas de adaptação aos ecossistemas – por ex. Quadro 2: Alterando o metabolismo das espécies domesticadas As chamadas variedades e híbridos de alto rendimento são desenvolvidas em condições ambientais ótimas obtidas pelo emprego de fertilizantes sintéticos. condições ecológicas ótimas devem ser proporcionadas por meio do emprego das demais tecnologias que compõem os pacotes tecnológicos (Quadro 2). 2009). Dessa forma.

al. o arsenal tecnológico da modernização gera crescentes níveis de desconexão entre a agricultura e os ecossistemas locais. para que o potencial genético de alta produtividade física se manifeste nos plantios comerciais. COLBORN et. 1962. Quando aplicado no desenvolvimento de genótipos animais. Ao contrário dos aprimoramentos técnicos anteriores.. No teatro cartesiano da agricultura industrial. Por intermédio dessa mudança de enfoque. bem como a necessidade de assegurar condições ambientais artificializadas para os criatórios para que uma maior proporção da energia metabólica dos animais seja canalizada para a produção econômica. A desativação genética dessas estratégias torna os genótipos estruturalmente dependentes de condições ecológicas equivalentes às que geraram a pressão de seleção durante o processo de melhoramento genético. Duas consequências negativas de longo alcance decorrem dessa desconexão ecológica: 1) os sistemas agroalimentares tornam-se cada vez mais ineficientes no uso de energia (ACKER et. esse enfoque leva à dependência de rações e medicamentos comerciais. levando os agricultores à crescente dependência dos pacotes tecnológicos da modernização. Essa é razão pela qual a substituição das variedades locais por variedades comerciais condiciona à necessidade de mudanças correspondentes nas práticas de reposição da fertilidade e de manutenção da sanidade nos agroecossistemas.. as relações de coprodução que por milênios orientaram a evolução das agriculturas. 2000). estes devem ser realizados em condições ambientais artificialmente produzidas. al. 1997). deram lugar a um padrão metabólico estruturalmente dependente de insumos industriais e de fontes de energia não- renováveis. 2) a agricultura foi convertida em poderosa agente de toxificação da natureza (nela incluída os seres humanos) (CARSON. tornando os recursos endógenos supérfluosxx e levando os agroecossistemas a níveis de imaturidade ecológica sem precedentes. . Seguindo o script elaborado pela ciência. 2013). Por essa razão. a direção e o protagonismo da cena deixam de ser assumidos pelos próprios agricultores.solo – são canalizados para a formação dos órgãos vegetais de interesse comercial (GLIESSMAN. atores externos passam a teleguiar o desenvolvimento do cenário pela via dos mercados.

A crescente perda de autonomia da agricultura e dos agricultores é o corolário do encadeamento lógico que liga a cientificização. à mercantilização e à externalização dos agroecossistemas. Parâmetros técnicos e econômicos fornecidos pelas ciências agrárias passaram a condicionar as rotinas do processo de trabalho agrícola pela via dos mercados. 1970 apud PLOEG et. fornecedores de insumos e equipamentos. Dessa forma. 1965). A noção de agricultura moderna que se impõe reflete uma ativa negação da agricultura tradicional e da arte da localidade (SHULTZ. O efeito combinado desses processos leva a mudanças de grande alcance nas estratégias de reprodução dos agroecossistemas. bem como as peculiaridades dos ecossistemas e das sociedades do entorno perdem relevância na gestão econômico-ecológica dos agroecossistemas. Na prática. etc. Essa mercantilização multifacetada implica a externalização de operações do processo de produção com a transferência do controle de recursos produtivos para atores externos. e a jusante.al. tanto os produtos agrícolas como os recursos necessários à sua produção assumem a racionalidade da mercadoria. A ideia de modernizar a agricultura assume o sentido equivalente ao de integrar os agroecossistemas ao mercado a montante. Nos termos empregados por Ploeg (1996).. 2011). a antiga noção de arte da localidade (MENDRAS. Atividades antes coordenadas pelos agricultores e por suas comunidades com base em relações de reciprocidade são substituídas por outras dependentes de recursos e serviços mobilizados nos mercados. essa cientificização do trabalho agrícola se materializa por meio da substituição de estratégias técnicas fundamentadas na valorização de recursos endógenos por estratégias dependentes do contínuo aporte de recursos exógenos. 2004). que bem definia a Agronomia clássica. mercantilização e externalização nos agroecossistemas A construção do novo paradigma agronômico em coerência com os postulados teóricos da economia neoclássica configurou as condições históricas necessárias para a penetração da lógica do capital na agricultura. assistência técnica. Dessa forma.Cientificização. uma vez que o caráter artesanal do trabalho agrícola.. pela ampliação da escala de produção comercial. indústrias. tais como bancos. tem seu sentido teórico e prático esvaziado. o processo de modernização passa a ser assimilado como um movimento progressivo em direção a formas tecnológica e institucionalmente mais complexas e integradas da sociedade moderna (LONG e PLOEG.xxi Com isso. implicam a substituição de estratégias relativamente . pela dependência de insumos e equipamentos industriais.

os ciclos biogeoquímicos são organizados na escala da paisagem rural a partir do manejo da água e da biodiversidade (viva ou morta). No primeiro caso. a reprodução torna-se estruturalmente dependente de relações técnico-administrativas estabelecidas com . A reprodução do agroecossistema é assegurada pelo investimento intensivo em trabalho qualificado informado por um acervo de conhecimentos contextualizados. 2009).autônomas e historicamente garantidas por outras dependentes das relações estabelecidas nos mercados. isso significa a substituição das dinâmicas locais de coprodução por fatores de crescimento adquiridos nos mercados. No segundo caso. Intensificação baseada no capital A incorporação do metabolismo industrial na agricultura criou as condições objetivas para que a gestão econômico-ecológica dos agroecossistemas compatibilizasse duas tendências de desenvolvimento mutuamente excludentes no curso da história: o aumento de escala e a intensificação. Além de ampliar as fronteiras de apropriação das bondades da naturezaxxii e de exploração do trabalho humano. importa ressaltar que a modernização agrícola ocorreu como uma forma de integração subordinada da agricultura e do mundo rural ao processo geral de acumulação capitalista (WANDERLEY. Essa inédita conciliação de estratégias técnico-econômicas contrastantes tornou-se possível com a substituição do trabalho (humano e extra-humano) pelo capital na reprodução dos agroecossistemas. O resultado desse estilo de gestão é a conformação de um metabolismo complexo caracterizado pela manutenção de densas redes econômico-ecológicas acionadas com forte contribuição de dispositivos de ação coletiva baseados em relações de reciprocidade. Em outras palavras. o projeto de modernização engendrou novas formas de divisão social do trabalho entre o mundo rural e o mundo urbano. conformando estilos de gestão técnico-econômica caracterizados pelo encadeamento mecânico de operações de manejo prescritas em protocolos técnicos cientificamente sistematizados fora dos contextos socioecológicos locais. Dessa forma. Analiticamente. O processo de trabalho é orientado para induzir a conformação de metabolismos simplificados caracterizados por fluxos lineares de entrada e saída de matéria e energia do agroecossistema. a reprodução é assegurada pela importação de matéria e energia de fora do agroecossistema. entre a agricultura e a indústria e entre diferentes agroecossistemas.

2009). substituição dos fatores de produção. Enquanto a ciência desenvolve os padrões tecnológicos necessários para que os mercados operem em escalas crescentes. com o incremento dos fluxos de capital e de mercadorias por todo o planeta. a inusitada expansão da economia mundial. a partir da assinatura do Acordo Agrícola da Organização Mundial . tornando obsoletos os mecanismos de reciprocidade social e ecológica. divisão social do trabalho. por consequência. justamente graças à técnica e à ciência. Configura-se assim a incorporação na agricultura das estratégias fordistas previamente adotadas na produção industrial para aumento da produtividade do trabalho: integração progressiva em circuitos comerciais. A união da tecnologia agrícola com a ciência agrícola se fez sob o comando dos mercados que. Em termos econômicos. os mercados direcionam os rumos da inovação científica e tecnológica para favorecer a crescente acumulação de capital através dos processos metabólicos que encadeiam a produção ao consumo de alimentos (PETERSEN. isso implica o aumento dos consumos intermediários e. obrigando os agricultores a combinar estratégias de intensificação e de aumento de escala a fim de obterem níveis de renda monetárias correspondentes às suas expectativas econômicas. A emergência do regime metabólico imperial A rápida disseminação do paradigma da modernização agrícola acompanhou. globalizaram-se a montante e a jusante da agricultura. o processo de trabalho agrícola passa a ser acionado pelo aporte contínuo e crescente de matéria e energia incorporadas nas mercadorias. na segunda metade do século passado.agentes externos (do mercado e do Estado). especialização produtiva e ampliação de escala. Com o crescente domínio da racionalidade mercantil sobre a governança do metabolismo dos agroecossistemas. a tendência à redução do valor agregado por objeto de trabalho. Essa dinâmica autopropelida de expansão do metabolismo industrial nos sistemas agroalimentares ganhou momentum histórico com a desregulamentação dos mercados agrícolas. Assim. as produtividades físicas da agricultura industrial tornam-se cada vez mais dependentes da mobilização de bondades da natureza apropriadas fora dos limites físicos dos ecossistemas locais. Essa lógica de gestão econômico-ecológica comandada pela relação preço/custo das mercadorias que saem e entram nos agroecossistemas tende a gerar margens de rentabilidade decrescentes.

a transformação dos padrões metabólicos dos sistemas agroalimentares viabilizada pelo aprofundamento da mercantilização do processo de trabalho agrícola e pela liberalização do comércio internacional dá mostras inequívocas de que vem alcançando seus limites sociais e ecológicos. Esse controle à distância se expressa na forma de um poder imperial exercido pelas grandes corporações do agronegócio. sob a égide do projeto de globalização neoliberal. Frente aos novos arranjos institucionais que favoreceram a intensificação dos fluxos globais de capital financeiro. 2011). Seguindo proposição conceitual de Ploeg (2008). a essência da atual fase da globalização dos mercados agrícolas refere- se à imposição de um conjunto de normas técnicas e parâmetros institucionais que favorecem o controle à distância sobre a gestão técnico-econômica dos agroecossistemas e. em escala mais ampliada. grandes conglomerados transnacionais se estruturaram por meio de aceleradas séries de apropriações de pequenas e médias empresas e fusões entre grandes empresas. os mercados assumiram crescente hegemonia na conformação dos arranjos institucionais que encadeiam a produção ao consumo de alimentos e fibras em detrimento das outras formas de integração social (sentido Polanyi).xxiv Comandada pelo e para o capital.do Comércio em meados da década de 1990. TOLEDO. correspondeu a uma intensificação sem precedentes do trânsito global de matéria e energia. Valendo-se de oferta praticamente ilimitada de crédito no mercado financeiro. . perdendo referência às especificidades socioecológicas e culturais dos territórios rurais. a crescente mobilidade do capital financeiro através dos sistemas agroalimentares verificada nas últimas décadas. 2011).xxiii Na prática. Intercâmbio desigual e fechamento das fronteiras de apropriação Ao transformarem-se no principal vetor de indução do metabolismo industrial nos sistemas agroalimentares (GONZÁLEZ DE MOLINA. dos sistemas agroalimentares. com a globalização neoliberal (BONANNO e CAVALCANTI. os sistemas agroalimentares tornaram-se uma arena propícia na qual empresas do setor agroindustrial passaram a disputar posição de hegemonia. Uma rápida redistribuição de riqueza e de poder ocorreu entre a agricultura e os setores industrial e financeiro criando as condições para a emergência de um regime agroalimentar corporativo (McMICHAEL. 2009). Com isso. as economias agrícolas desenraizaram-se.

A longa era de apropriação geradora de altas recompensas financeiras mediante investimentos relativamente baixos em trabalho deu lugar a um período histórico que combina queda acelerada nas recompensas com aumentos desproporcionais nos esforços para obtê-las (DAVIDSON et. . esse fenômeno se expressa no aumento dos preços dos insumos agrícolas e na necessidade de incremento no uso desses insumos para que a perda de fertilidade dos solos e o aumento dos desequilíbrios bióticos sejam artificialmente contrabalançados. Sintomas da acentuação dessa ruptura metabólica indicam que os sistemas agroalimentares globalizados aproximam-se de seus limites biofísicos. Como faces de uma moeda. Na prática. Embora esse processo seja ocultado pelo um paradigma econômico dominante que deliberadamente desconsidera a materialidade biofísica incorporada nos fluxos de mercadorias. um processo resultante do aprofundamento de um padrão de intercâmbio desigual entre o ser humano e o resto da natureza. Os fluxos lineares de matéria e energia que caracterizam o metabolismo industrial distanciam a apropriação da excreção no espaço e no tempo. pela progressiva exaustão das bondades da natureza apropriadas pelo processo econômico. 2014).Viabilizado materialmente pela disponibilidade de combustíveis fósseis baratos. os efeitos das mudanças climáticas globais surgem nesse momento histórico como sintomas de maior visibilidade pública dos limites de um sistema institucional que concebe a natureza como fonte inesgotável de recursos e como sumidouro ilimitado de resíduos. esses limites se expressam em dois lados complementares entre si. al.. A imposição desse padrão metabólico com o projeto de modernização agrícola e sua posterior disseminação global com o neoliberalismo fez com que os sistemas agroalimentares assumissem nas últimas décadas um papel destacado como fonte poluidora do planeta. esse desenraizamento gerou níveis sem paralelo histórico de desconexão entre os processos metabólicos de apropriação e de excreção nos sistemas agroalimentares. fazendo com que a extração predatória em uma ponta gere fluxos cumulativos de desperdício e de poluição na outra.xxvi Essa dupla pressão sobre a base ecológica dos sistemas agroalimentares corresponde a um fechamento das fronteiras de apropriação. cuja origem remonta às monoculturas coloniais do século XVI. De um lado.xxv O outro lado dos limites biofísicos corresponde ao massivo descarte na natureza de resíduos gerados pelas cadeias agroalimentares globalizadas.

A realidade empírica. a partir das múltiplas e criativas formas de resistência e de luta por emancipação da agricultura camponesa.Campesinato: base sociocultural dos metabolismos orgânicos O mesmo sistema institucional que rompe os vínculos de reciprocidade entre a humanidade e o resto da natureza induz o desenvolvimento de padrões de intercâmbio desigual no interior da esfera social. ampliação e defesa de bases de recursos locais autocontroladas. a dinâmica expansiva do metabolismo industrial se faz em detrimento dos metabolismos orgânicos reproduzidos nos modos de existência e de produção da agricultura camponesa. e aquela que nos isola para sempre do mundo do passado. Em sintonia com o eminente historiador inglês. conflitos intermetabólicos. apud BERSTEIN. demonstra que a história agrária mundial não seguiu os destinos teoricamente preestabelecidos com base nos supostos do paradigma da modernização. em muitas situações. econômicos e sociais muito contrastantes entre si. No lugar de um roteiro único de desenvolvimento rural determinado pelas forças dos mercados globalizados e globalizantes. Por mais irrelevantes que essas resistências possam parecer quando analisadas isoladamente. militar. a sobreposição dos mesmos no espaço e no tempo gera conflitos territoriais ou. compostas pela articulação recíproca entre bondades da natureza e dispositivos institucionais de integração social. Tendo recebido por parte dos Estados nacionais amplo apoio político. 288-9. o que se assiste em todas as regiões do planeta é o desdobramento de trajetórias heterogêneas de desenvolvimento dos agroecossistemas influenciadas por roteiros escritos localmente. o projeto de modernização disseminou-se territorialmente gerando acelerados processos de descampesinizaçãoxxvii tanto nos países do Norte quanto nos do Sul. é a morte do campesinato.xxviii Um elemento central nessas formas de resistência e luta é a contínua construção. Na prática. em conjunto. pp. aperfeiçoamento. 1967) como um destino inelutável diante do avanço do capitalismo no campo. ideológico. 2009) a mudança mais dramática na segunda metade deste século [século 20]. suas práticas apontam caminhos consistentes para a . Como esses padrões metabólicos são organizados por princípios ecológicos. O aumento das relações de exploração do trabalho humano remunerado e da apropriação do trabalho humano não remunerado verificado nas últimas décadas é responsável pela drenagem de parcelas crescentes do valor agregado geradas na agricultura em direção aos impérios agroalimentares. Para Hobsbawm (1994. amplos círculos acadêmicos e políticos prognosticaram o fim dos camponeses (MENDRAS. no entanto. financeiro e. como propõem González de Molina e Toledo (2011).

a Agroecologia nasceu a partir da fusão de duas ciências que mantiveram entre si um relacionamento tenso durante boa parte do século 20: a . em vez de continuar se fiando na capacidade humana de dominar a natureza. FERNANDES. moldados por arranjos técnico- institucionais que organizam o trabalho humano segundo fundamentos-chave também presentes na organização do trabalho da natureza: diversidade. conceituais e metodológicos capazes de superar a cisão cartesiana da natureza entre o mundo humano e o mundo não-humano. essas memórias bioculturais permanecem vivas e ativas e apresentam-se na presente quadra histórica como elos entre o passado. Esse conjunto de fundamentos está inscrito nas memórias bioculturais (ou repertórios culturais) de famílias e comunidades camponesas. Agroecologia: ciência a serviço da recampesinização Para que a agricultura camponesa seja socialmente reconhecida e promovida. Essas práticas reproduzem metabolismos agrários relativamente autônomos e sustentáveis. Como enfoque científico. as ciências agrárias começam a incorporar a compreensão de que a agricultura é a arte da coprodução e que os camponeses são os grandes mestres dessa arte (PETERSEN. natureza cíclica dos processos. 2009). WEID. A proteção e o cultivo das mesmas são tarefas urgentes e exigem o desenvolvimento de instituições sociais informadas por uma ciência fundamentada em princípios epistemológicos. revalorizando as dinâmicas descentralizadas de coprodução que alimentaram a heterogênese do mundo por milênios (PETERSEN. Mudanças nessa direção estão em curso: em vez de continuar decretando o inexorável desaparecimento da agricultura camponesa.construção de soluções locais para os graves problemas globais gerados pelos modernos sistemas agroalimentares. agronômicos e sociológicos da modernização. as ciências sociais têm contribuído para o entendimento de que os camponeses estão entre nós para ficar. interdependência. e que o mundo estaria muito pior se eles houvessem efetivamente desaparecido. flexibilidade adaptativa. Ao mesmo tempo em que colocam em xeque os postulados econômicos. a Ciência está desafiada a abordar a realidade empírica por ângulos distintos dos propostos pela teoria da modernização. e vínculos de reciprocidade e de cooperação. sua aplicação prática no processo de trabalho agrícola favorece a reconciliação entre as (agri)culturas e as naturezas como elementos que se estruturam dialeticamente. o presente e o futuro da Humanidade. Ao contrário do diagnóstico apresentado por Hobsbawn. 2009).

multiescalar e multidimensional do enfoque agroecológico o distingue em vários sentidos do enfoque dominante no paradigma da modernização agrícola. (17) revitalizando práticas de reciprocidade social. (15) a agência social de camponeses e de suas organizações é reconhecida e desenvolvida. se fez a partir de esforços convergentes de ecólogos interessados em estudar os sistemas agrícolas e de agrônomos empenhados em aplicar a perspectiva ecológica para solucionar problemas técnicos da agriculturaxxix. Em segundo lugar. a segunda voltou-se essencialmente para o estudo dos sistemas naturais (GLIESSMAN. (18) aprimorando arranjos institucionais locais. O enfoque nessa construção é voltado essencialmente para a (2) promoção de equilíbrios ecológicos na escala da paisagem agrícolaxxx. (19) . A articulação entre as duas ciências. as interações econômico-ecológicas estabelecidas no âmbito dos sistemas agroalimentares. posteriormente. o enfoque agroecológico ampliou sua mirada. (4) estimulando trajetórias endógenas de inovação técnica que proporcionam. 2000). Wezel e Soldat (2009) realizaram uma análise histórica da Agroecologia. em uma escala ainda superior. tendo identificado já no final da década de 1920 os primeiros trabalhos acadêmicos que fazem referência à aplicação da perspectiva ecológica no manejo de cultivos agrícolas. (5) a manutenção e/ou o aumento da produtividade física de cultivos e criações e a (6) diminuição dos consumos intermediários.Agronomia e a Ecologia. Enquanto a primeira se ocupou do desenvolvimento de práticas agrícolas cada vez mais desconectadas da natureza. (8) sua apropriação pelas famílias agricultoras e (9) sua retenção no território. o que implica (13) a estruturação de redes sociotécnicas multiatores de âmbito territorial. A riqueza social assim gerada (10) realimenta a endogeneidade.xxxi Por meio desses ambientes. de forma a (3) mobilizar bens do capital ecológico territorial para o processo de trabalho agrícola. Essa característica interdisciplinar. simultaneamente. porque (12) o processo social de inovação sociotécnica não é determinado exclusivamente pelos conhecimentos provenientes da academia. Desde então. Em primeiro lugar porque (1) a construção do conhecimento agroecológico é contextualizado nas realidades agrárias onde ele será empregado. resultando na (7) produção de maior valor agregado. (14) responsáveis pela criação de ambientes sociais fecundos para o diálogo entre os saberes científico-acadêmicos e as sabedorias populares. passando a abordar as interações ecológicas entre os subsistemas de um agroecossistema e. (11) criando novas margens de autonomia para a contínua produção de novidades. (16) fortalecendo o capital social. com a produção de uma nova síntese.

Como prática social. vários órgãos das Nações Unidas divulgaram importantes documentos que. ecológica. finalmente. fornecendo simultaneamente as bases conceituais e metodológicas para o desenvolvimento de sistemas agroalimentares economicamente eficientes. uma ciência e um movimento social A Agroecologia vem se consolidando mundialmente como uma teoria crítica que formula um questionamento radical à agricultura industrial. No curso dos últimos dez anos. da soberania e segurança alimentar e nutricional. econômica e climática (IAASTD 2009. 2007). apontam para a conclusão de que o enfoque agroecológico para intensificação agrícola oferece respostas consistentes à tendência de acentuação. a agroecologia se expressa nas variadas e criativas formas de resistência e luta camponesa. a agroecologia ganhou crescente reconhecimento acadêmico e institucional. DE SHUTTER 2011. Como movimento social. 2013). alastramento global e mútuo entrelaçamento das crises alimentar. em conjunto. assim como crescentes contingentes sociais mobilizados pela defesa da justiça social. da equidade entre gêneros e de relações mais equilibradas entre o mundo rural e as cidades. Uma prática. HLPE. . a agroecologia mobiliza atores envolvidos prática e teoricamente na sua construção. (20) diversificando as atividades econômicas no território (PETERSEN. UNCTAD. socialmente justos e ecologicamente sustentáveis. a agroecologia articula sinergicamente essas três formas de compreensão.proporcionando maiores níveis de governança local sobre os mercados e. energética. da saúde coletiva. 2012. Em sua essência. da economia solidária e ecológica. essa compilação ressalta que os incrementos de produção pela perspectiva agroecológica são alcançados sem a necessidade de desmatamento para a expansão das atuais áreas agrícolas. a sua capacidade operativa e a sua incidência política. desde a crise alimentar de 2008. condensando em um todo indivisível o seu enfoque analítico. Além de confirmar a possibilidade técnica de atendimento da crescente demanda alimentar mundial sem o emprego de agroquímicos e transgênicos. al. em particular nas estratégias para construção de autonomia com relação aos mercados de insumos e de trabalho por meio da restauração dos mecanismos de reciprocidade ecológica e social. Essa é a razão pela qual. 2013). Uma extensa meta-análise de estudos conduzidos em países de todos os continentes demonstrou que a produção de base agroecológica alcança rendimentos físicos iguais ou superiores aos da agricultura industrial (BADGLEY et..

Um conflito intermetabólico em escala global Um dos principais aprendizados do estudo da história da agricultura é que a superação de um padrão de organização técnica e econômica dos agroecossistemas por outro nunca ocorreu como resultado automático das novas descobertas tecnológicas. movimentos sociais rurais reunidos na Via Campesina defendem a agroecologia como uma perspectiva para a plena realização do direito humano à alimentação. LONDRES. particularmente desde a segunda metade do século 20. mesmo quando já houvessem demonstrado capacidade dar respostas a profundos dilemas enfrentados pelas sociedades. 2007). não podem ser confundidas com a proposta agroecológica. com incremento exponencial das interações negativas entre o ser humano e o resto da natureza. manifestando o rechaço a todas as tentativas de redução da proposta agroecológica a um conjunto de tecnologias destinadas a suavizar os impactos ambientais negativos da agricultura industrial. produzida por meio de métodos ecologicamente sustentáveis. não ameaçando as bases institucionais que sustentam o regime metabólico industrial imposto pelos impérios alimentares. período conhecido como a Grande Aceleração (COSTANZA et. A adoção em larga escala de novidades técnicas costumava esbarrar em fortes obstáculos político-institucionais e culturais. . no bojo do Ano Internacional da Agricultura Familiar.Por meio de uma crítica de economia política ao enfoque produtivista e antidemocrático dos sistemas agroalimentares globalizados. Tampouco a agroecologia pode ser reduzida a uma proposta orientada a organizar um nicho de mercado de produtos orgânicos em benefício de poucos produtores e consumidores (PETERSEN. 2015). embora seja crescentemente reconhecida como portadora de respostas integradas aos riscos de colapso socioecológico gerados na era do Antropoceno. 2007). Representantes de organizações da sociedade civil presentes nos Seminários Global e Regionais sobre Agroecologia promovidos pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).. al. também ressaltaram a dimensão política da agroecologia. afirmando o conceito de soberania alimentar como o direito dos povos a uma alimentação saudável e culturalmente apropriada. que entram em voga nos debates internacionais. Nesse sentido. Essa é a razão pela qual a agroecologia permanece confinada a nichos de inovação social. e de definirem seus próprios alimentos e sistemas de produção (FFS. afirmam que as noções de agricultura climaticamente inteligente e de intensificação sustentável.

destruindo o poder imperial do capital financeiro sobre o metabolismo dos sistemas agroalimentares. uma expressão decisiva na luta de classes contemporânea. Simultaneamente. apoiar e fortalecer o desenvolvimento de um campesinato independente sempre foi imperdoável para as classes abastadas. Parafraseando Holloway (2003).xxxii Como bem assinalou Holt- Gimenez (2010). Os dois primeiros fatores geram autonomia em relação aos mercados de insumos e o último possui uma lógica de classe. a agroecologia contraria frontalmente a lógica de reprodução do capital por reduzir (ou eliminar) o uso de agroquímicos. 2012). um elemento intrínseco ao modo de produção camponês. portanto. a defesa e a governança de bens comuns em âmbito territorial. a agroecologia apoia processos de recampesinização. restaurando a precedência do trabalho sobre o capital no funcionamento metabólico dos agroecossistemas. esses caminhos ampliam as margens de manobra para transformar o mundo sem tomar o poder. essa narrativa procura atribuir um caráter estritamente técnico às soluções por ela propugnadas. Ao esvaziar o sentido social e político das crises globais convergentes (GEORGE. Desse ponto de vista. o enfoque agroecológico contribui para o enraizamento das economias rurais (sentido Polanyi) no capital social e no capital ecológico. aciona dispositivos de ação coletiva para a construção. Ao reatar os vínculos de reciprocidade nas trocas sociais e nas trocas com a natureza. Renovar os contratos natural e social Ao contribuir para restabelecer e/ou aprimorar dinâmicas de coprodução (ou de reciprocidade ecológica). são caminhos que se fazem ao caminhar. Como definiu o poeta Antonio Machado. 1995). a agroecologia aponta caminhos fecundos para o desenvolvimento rural endógeno (PLOEG.Os poderosos bloqueios institucionais ao avanço da agroecologia estão intimamente associados ao triunfo ideológico da narrativa hegemônica sobre o sistema agroalimentar globalizado. por conservar o material genético local e por depender do campesinato. formando um todo orgânico com a natureza. DIJK. favorecendo a reativação da reciprocidade social. Mas essa luta de classes em torno à agricultura e à alimentação assume formas estruturais específicas na medida em que capital e trabalho articulam- se dialeticamente. Isso foi percebido ainda no início do século . Para o autor. O conflito entre o metabolismo industrial e o metabolismo orgânico nos sistemas agroalimentares é. sempre associadas à dinâmica expansiva dos circuitos de acumulação do capital.

a agroecologia ilumina horizontes mais promissores para o futuro da humanidade. 2008). Embora renegada há mais de um século e meio por instituições científicas e políticas. E é também de sua natureza interna defender o contrato social. Como diz o teólogo brasileiro Leonardo Boff (2016). é necessário repactuar o contrato natural com a Terra. O principal desafio político que se apresenta nesse momento histórico está na criação de uma vontade coletiva capaz de canalizar e colocar em sinergia as forças criativas emergentes nos campos e na academia para que metabolismos orgânicos sejam restaurados com base em um contrato social que atribua centralidade ao trabalho dedicado à reprodução da vida e em pactos de convivência com o resto da natureza regulados pelas dinâmicas de coprodução e codomesticação. aquele que institui mecanismos de convivência comunitária em defesa do bem comum.20 por Chayanov. Ao contribuir para decifrar o mistério da agricultura camponesa no século 21 (PLOEG. a agricultura camponesa irrompe nesse momento histórico como a principal fiadora desse contrato entre a humanidade e o resto da natureza. Faz parte de sua natureza interna respeitar e proteger esse contrato com a natureza externa. . Essas constatações possuem consequências de amplo alcance político e epistemológico. A superação estrutural da crise agrária multifacetada que se alastra e se aprofunda globalmente exige reformulações radicais nos arranjos institucionais que regulam o metabolismo dos sistemas agroalimentares. Todo contrato presume a existência de reciprocidade e de mútuo reconhecimento de direitos entre as partes envolvidas. quando descreveu o camponês como um sujeito que constrói a sua própria existência.

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resultando em baixas taxas de acúmulo de biomassa. escalas equivalentes de desmatamento que ocorriam em séculos passaram a ocorrer em décadas ou em anos. 1992). iv Além de produzirem espécies localmente domesticadas (sobretudo cereais). Segundo o autor as diferenças regionais num território. No capitalismo. . Quatrocentos anos após. v Nesse caso. 83). as bondades da natureza correspondem ao que a economia ambiental conceitua como recursos naturais e serviços ecológicos (ou ecossistêmicos). o valor é determinado pela produtividade do trabalho remunerado na produção de mercadorias. viii As instituições são as regras do jogo em uma sociedade (NORTH. ix Cada sociedade define suas prioridades decidindo que coisas e que relações têm valor. 1990) e correspondem à parte intangível do metabolismo socioecológico (GONZÁLEZ DE MOLINA e TOLEDO. iii Quando comparados com ecossistemas de elevada maturidade ecológica.. ou seja. aquela que separa a natureza da sociedade como estratégia de preservação ambiental. ii Para os povos originários andinos. Isso significa dizer que os padrões metabólicos em uma dada sociedade são condicionados pela combinação de um hardware (a materialidade biofísica dos fluxos de matéria e energia) e de um software (as regras da organização social). das manufaturas ou do trabalho. Nos estágios sucessionais mais avançados (maior maturidade). muitas dessas comunidades vêm sendo impedidas de adotar o sistema de pousio por legislações ambientais concebidas segundo uma perspectiva preservacionista. espaço e ocupação. a partir do qual a produtividade econômica decresce. de modo a tornar mais eficaz a sua distribuição (POLANYI. 2007). a reposição de fertilidade nos agroecossistemas de agricultura aluvial se fazia pela deposição de sedimentos carreados pelas cheias dos rios. as vantagens da imaturidade ecológica dos ecossistemas são exploradas por um tempo limitado.Notas i Ecossistemas ecologicamente imaturos possuem taxas de produtividade líquida superiores às dos ecossistemas maduros. p. 2011). a mesma superfície poderia era desmatada em apenas um ano para o plantio de cana-de-açúcar na Mata Atlântica brasileira (MOORE. Para tomar um exemplo: duzentos anos foram necessários para desmatar 12 mil hectares no norte da França a partir do início do século 12. Suas regras para a produção de riqueza (e para a reprodução do poder) são condicionadas por esse julgamento ético-político socialmente consensuado.. por volta de 1650. a energia solar captada pela fotossíntese é canalizada principalmente para a reprodução do próprio ecossistema. vii Essa organização corresponde à coordenação dos movimentos de bens e serviços no interior da sociedade visando superar o efeito dos diferenciais de tempo. x Após esse período. 2012. os ecossistemas imaturos possuem ciclos de nutrientes mais abertos e exibem flutuações populacionais mais pronunciadas e imprevisíveis (DOVER e TALBOT. A peculiaridade da economia de mercado é que o reconhecimento social do trabalho e o valor dos seus produtos são determinados por uma estrutura institucional que adota o dinheiro como o principal elo de integração social. vi Embora sejam responsáveis pela conservação das paisagens rurais há gerações. Essas características ecológicas dos agroecossistemas desafiam a inventividade de agricultores há milhares de anos no sentido de desenvolverem estratégias técnicas voltadas à reposição da fertilidade ambiental e à manutenção da sanidade de cultivos e criações. o intervalo temporal entre o plantio e a colheita ou a especialização do trabalho são superados por movimentos das colheitas. A contradição dessa estratégia vem do fato de ela penalizar as comunidades que atuaram por gerações como guardiães da biodiversidade e dos serviços ecológicos associados. Esse é o momento no qual o ecossistema é deixado em pousio para que o processo de sucessão ecológica recomponha a fertilidade ambiental.

xviii Informada pelo paradigma mecanicista. xix As produtividades médias dos campos comerciais de milho norte-americanos mais que quadruplicaram entre 1935 e 1980 com o emprego das variedades híbridas (KLOPPENBURG. uma vez utilizada. Portanto. xiv A imposição global de um sistema de pesos e medidas foi condição necessária para que as bondades da natureza pudessem ser padronizadas e quantificadas. ou seja. são executados pelas mulheres. o conjunto de relações entre os agentes da produção e entre eles e a natureza. xv Metaforicamente. O alargamento das fronteiras de apropriação dependeu. não podendo ser reaproveitada posteriormente em outro processo de trabalho. sobretudo após a Revolução comunista na China. As práticas associadas à noção de agricultura de precisão são a expressão máxima da influência do paradigma mecanicista à gestão dos agroecossistemas. portanto. buscam definir os níveis ótimos de utilização de insumos. a Agronomia moderna concebe a natureza como o cenário de um teatro cartesiano que pode ser decifrado e controlado com o auxílio de funções de produção (PLOEG. nos marcos da chamada Revolução Verde. É nesse sentido que Marx (1867/2014) reconhecia a ciência moderna como uma força produtiva comandada pela lógica da reprodução do capital. Segundo a Segunda Lei da Termodinâmica (lei da entropia). a reprodução do capital depende da permanente atualização das estratégias de exploração (do trabalho humano remunerado) e de apropriação (do trabalho da natureza e do trabalho humano não-remunerado). desengarrafada. 1997). em 1949. viabilizando a valoração e o intercâmbio das mesmas por meio de regras mercantis. 1986 apud MOORE. xvii A rápida disseminação desse projeto nos países do Terceiro Mundo ocorreu a partir nos anos 1950. Fundamentadas no método paramétrico. 1978). O verde dessa revolução reflete uma contraposição ao perigo vermelho. em grande parte. os combustíveis fósseis correspondem à fotossíntese engarrafada há milhões de anos. a reprodução do capital depende da apropriação do trabalho humano não-remunerado necessário ao funcionamento do sistema econômico como um todo. i. xvi A revolução industrial pode ser compreendida como uma emergência histórica resultante da interação de dois processos: a revolução burguesa e a revolução científica. 1985). no sentido elaborado por Karl Marx (1867/2014).xi Além da apropriação do trabalho da natureza. xx Ao tornar supérfluas as variedades e raças locais. os pacotes tecnológicos da modernização desencadeiam acelerados processos de erosão genética. a energia fóssil se dissipa. sendo a primeira entendida como a imposição da racionalidade instrumental dos mercados à organização da vida social e a última como a predominância da visão da natureza como um sistema dotado de uma estrutura racional (FURTADO.e. Isso se aplica especialmente aos trabalhos dedicados à reprodução social que. xiii Cabe relembrar igualmente que esse período de rápida ampliação das fronteiras de apropriação ecológica ocorreu de forma concomitante com o aumento da fronteira de exploração social por intermédio da mobilização trabalho escravo nas colônias europeias. processo cuja denominação não deixa margem a dúvidas quanto ao seu caráter eminentemente político e ideológico. Decorre daí a crítica ao capitalismo elaborada pela Economia Feminista (MIES. tais como o sistema métrico (ALDER. xii Modo de produção. essas funções especificam relações lineares entre o emprego de níveis variados de insumos e a obtenção de níveis correspondentes de produção. 1988). Sem lugar a dúvida. da criação e da imposição de linguagens universais para a racionalização da natureza. 2015). pavimentando o caminho para o desenvolvimento das bases institucionais do capitalismo (BRAUDEL. tendo como objetivo a maximização econômica dos resultados da produção. 1995). de traços marcadamente camponeses. Dessa forma. destruindo verdadeiros patrimônios . a combinação de largas fronteiras de apropriação ecológica e de exploração social proporcionou níveis sem precedentes de acumulação de capital (e de poder). 2003). A apropriação dos frutos do trabalho camponês também exerce função importante em uma economia de mercado (WANDERLEY.

45 e 46). assegurando dessa forma o controle e a capacidade de apropriação das riquezas geradas nas etapas de produção. os fluxos de matéria e energia e os fluxos de capital conformam uma totalidade orgânica. para fazê-lo circular no circuito financeiro. xxviii Essa capacidade resistência camponesa ao avanço dos processos de mercantilização na agricultura foi identificado ainda no primeiro quarto do século 20 por Chayanov (1981 [1924]).15 e 17). com a mobilização de recursos minerais – combustíveis fósseis. viabilizada pela normatização de procedimentos técnicos cientificamente caucionados e por regras político-institucionais impostas de forma indiferenciada a distintos contextos socioambientais e culturais. xxv O surgimento de plantas espontâneas tolerantes aos herbicidas e de microrganismos patogênicos resistentes aos antibióticos talvez sejam os exemplos mais visíveis da capacidade de reação da natureza aos mecanismos de dominação ecológica impostos pelas tecnologias da agricultura industrial. xxiii Na prática. refere-se à crescente mercantilização dos agroecossistemas de gestão camponesa. empregando apenas os fatores de produção à sua disposição. na qual um fluxo implica o outro. sob a égide do capitalismo. de eutrofização de corpos d’água e de emissão de gases de efeito estufa. . descongelando-o de suas aplicações fixas. em razão da qual a agricultura tradicional. b) a lógica de linha de montagem imposta no encadeamento entre a produção e o consumo de alimentos. bem como a eliminação da cobertura vegetal nativa para a expansão de monoculturas em vastos territórios concorrem para os altos níveis de contaminação tóxica. é incapaz de crescimento. a função básica da circulação financeira é a de retransformação do capital.. xxi Theodore Shultz. apesar da riqueza da terra ou da intensidade de seu trabalho. xxii Além da continuidade da expansão horizontal das fronteiras de apropriação com a incorporação de novos territórios à racionalidade econômica da agricultura capitalista. 1965: pp. viabilizados pela desregulamentação dos mercados internacionais. De acordo com Delgado (2012 pp. Desse ponto de vista.. o projeto de modernização permitiu que as fronteiras também se expandissem em sentido vertical. Diante dessa rebelião da natureza. (SHULTZ. xxvii Os processos de descampesinização ocorrem quantitativa e qualitativamente. xxiv A mobilidade do capital possibilita a conversão do capital investido em bens materiais em dinheiro para sua posterior transferência a outras aplicações.. segundo o qual.bioculturais construídos no decorrer de milhares de anos em todas as regiões do planeta a partir do trabalho parcimonioso de agricultores em sua íntima interação com as dinâmicas da natureza. […]O propósito deste estudo é mostrar que há uma base econômica lógica. água e rochas fornecedoras de nutrientes – através dos fluxos metabólicos. o que especifica e assegura o poder imperial sobre o metabolismo dos modernos sistemas agroalimentares é a conjugação de dois princípios ordenadores: a) os fluxos financeiros globais. os agroecossistemas tornam-se cada vez mais dependentes de insumos (e energia) externos para que as quedas de produtividade nas lavouras e criatórios comerciais sejam evitadas (ao menos temporariamente). Segundo Ploeg (2008). de processamento e de distribuição de alimentos. O segundo. O primeiro caso corresponde à disseminação agroecossistemas geridos pela lógica capitalista em territórios antes ocupados por agroecossistemas geridos pela lógica camponesa. um dos mais proeminentes teóricos do paradigma da modernização explicita essa concepção já nas primeiras linhas de seu mais conhecido livro: o homem que exerce atividade agrícola de maneira idêntica à de seus antepassados não pode produzir muitos alimentos.. xxvi A intensidade energética – e química – do metabolismo industrial. os impérios alimentares se materializam na conquista de territórios que mantinham relativa autonomia na regulação de seus sistemas agroalimentares e os articula por meio dos fluxos metabólicos comandados pela lógica do capital financeiro.

esses ambientes sociais podem ser assimilados a nichos de inovação. Colocando o dedo na ferida. xxxi Segundo a Perspectiva Multinível de análise de transições sociotécnicas. a convergência e o alastramento de crises não podem ser compreendidos sem que seja considerado o progressivo fechamento das fronteiras de apropriação das bondades da natureza resultantes da acumulação ilimitada do capital. xxix A Agroecologia fundamenta-se no emprego de genótipos adaptados aos contextos socioecológicos locais para a estruturação de agroecossistemas biologicamente diversificados e complexos. a agroecologia fundamenta-se em uma crítica radical à epistemologia mecanicista responsável pela consolidação de uma representação da natureza nas ciências agrárias incompatível com as racionalidades econômico-ecológicas presentes da agricultura camponesa. mas sintomas de desequilíbrios sistêmicos. tais como a incidência de insetos-praga e organismos patogênicos. Por meio dessas estratégias. Se o capitalismo é uma economia de custos não pagos. as deficiências de nutrientes. uma vez que essa designação contribui para ocultar as estruturas de poder efetivamente responsáveis pelos efeitos negativos da emergência histórica e disseminação global do metabolismo industrial. a radiação solar. reduzindo ou eliminando a necessidade do aporte de insumos externos para a reprodução dos agroecossistemas. É nesse sentido que MOORE (2015) chama a atenção para a imprecisão conceitual da chamada era do Antropoceno. como redes sociotécnicas multi- atores que se diferenciam dos ordenamentos prevalecentes no regime sociotécnico dominante. . 2004). plantas espontâneas e microrganismos patogênicos) são valorizados no processo de trabalho agrícola. configurando-se como espaços protegidos onde novidades podem amadurecer por meio de ciclos sucessivos de experimentação e aprendizado (Wiskerke e Ploeg. Esses problemas específicos são considerados fatores limitantes da produtividade física e devem ser resolvidos por tecnologias específicas passíveis de generalização para os mais diversos contextos socioecológicos por meio dos pacotes tecnológicos. não são diretamente governados por eles (PLOEG. xxx O enfoque dominante nas ciências agrárias orienta-se para solucionar problemas específicos dos agroecossistemas. compostos por policultivos. 276). xxxii A forma como a origem de uma crise é conceituada relaciona-se aos meios escolhidos para enfrentá- la. 2013). O enfoque do manejo agroecológico está voltado ao estabelecimento e à manutenção de processos ecológicos locais capazes de reproduzir a fertilidade sistêmica. as contas estão vencendo (Idem p. sistemas agroflorestais. ou seja. A agroecologia parte da compreensão de que esses problemas não são causas. Segundo esse ponto de vista. a água e os nutrientes localmente disponíveis e os processos naturais de regulação biótica (de populações de insetos- praga. Desse ponto de vista. integração cultivos-criações e outras estratégias voltadas ao estabelecimento de sinergias e complementariedades entre os componentes bióticos.embora os agroecossistemas de gestão camponesa sejam influenciados pelo contexto capitalista em que operam. o autor se pergunta se não seria mais adequado designar esse período histórico de Capitaloceno. de água e de outros fatores de crescimento.