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Responsabilidade social empresarial

um modelo genérico para análise e orientação estratégica Vários discursos organizacionais e


ferramentas gerencias vêm sendo apresentados e oferecidos para orientar a gestão de empresas quanto
à responsabilidade social empresarial, o que pode gerar certa confusão acerca do sentido que se quer
dar à RSE . Neste capítulo, apresenta-se uma linguagem para o conceito de responsabilidade social
empresarial por meio de um modelo genérico, o qual está fundamentado em uma abordagem
conceituai sistêmica ampla para as .relações negó- cio-sociedade, resultado da revisão e discussão da
literatura contemporânea sobre responsabilidade social corporativa. Para tanto, veremos a empresa
como uma rede de relacionamentos entre stakeholders associados ao negócio, contextualizada no
tempo e no espaço, e que se encontra diante de desafios éticos e da busca pela congruência entre
discurso e prática empresarial.

Introdução

Para facilitar o entendimento e a análise das possíveis orientações estratégicas das empresas quanto à
responsabilidade social nos negócios, podemos, preliminarmente, considerar as alternativas de
orientação estratégica a seguir como representativas do foco fundamental da relação da empresa com
cada grupo de seus stakeholders. Essas orientações estratégicas podem ser combinadas entre si. O
posicionamento de cada empresa estará associado aos princípios e valores da cultura dominante em sua
gestão e do perfil cultural e legal do contexto em que ela realiza suas operações de negócio, refletindo-
se na orientação estratégica para a responsabilidade social empresarial.

Na orientação para as relações com o capital nos requisitos da lei, a responsabilidade social da empresa
é entendida como a maximização do lucro a partir do estrito cumprimento de suas obrigações definidas
e regulamentadas em lei. Essa orientação relaciona-se à visão clássica de Milton Friedman da
responsabilidade social: atender aos interesses dos acionistas atuando nos limites definidos em lei. A
responsabilidade social é vista sob seu aspecto econômico-financeiro e sob o aspecto jurídico-legal:
conciliar o que a lei obriga e o que faça aumentar os lucros para os proprietários do capital da empresa,
gerando valor para os acionistas. Cuidar do aspecto social não seria função da empresa, e sim do Estado,
ao qual caberia também desenvolver todo o aparato legal e fiscal.

Assim, a contribuição voluntária deveria partir da pessoa física, e não da pessoa jurídica, porque nesse
caso significaria um tributo sobre os lucros. Pode-se argumentar que o balanço social e o demonstrativo
de valor adicionado, quando apenas apresentam indicadores sobre o que a legislação exige no
cumprimento da atividade empresarial, são bem-vindos para esse tipo de orientação estratégica quanto
à responsabilidade social. Entretanto, em um contexto de incertezas jurídicas, econômicas e sociais,
esse tipo de orientação é arriscado, pois o que era permitido hoje pode ser proibido no futuro, e a
empresa pode não estar preparada para antecipar mudanças de posicionamento e atitude do contexto
cultural em que realiza suas operações.

A orientação para as relações com os empregados vê a responsabilidade social como forma de atrair e
reter funcionários com qualificação, promover uma boa imagem no mercado de trabalho, além de
alcançar mercados protegidos por barreiras não tarifárias, por meio de estratégias como as políticas
étnicas discutidas no Capítulo.

Para a empresa que segue essa orientação, a KS E é uma responsabilidade básica da gestão de recursos
humanos e inclui, geralmente, a adoção de códigos de conduta, de políticas de qualidade de vida no
trabalho, de participação nos lucros, de oportunidades iguais e de padrões e acordos internacionais (a
exemplo da SA 8000), que servem de parâmetro para auditorias e certificações. n 3 3 -o
Responsabilidade social

A orientação para as relações com fornecedores e compradores faz com que a responsabilidade social
mantenha-se pertinente às atividades comerciais e de operação do negócio, percorrendo a empresa e se
transpondo para a cadeia de produ- ção e consumo (ciclo de vida do produto), a exemplo do que é
apresentado no Capítulo 12.

A base é o comércio ético, seja nacional ou internacional, tanto com relação aos fornecedores —
seleção, capacitação e retenção de fornecedores éticos em suas diversas dimensões (econômica,
ambiental e social) — quanto com relação aos compradores — educação do consumidor ou comprador,
informação recíproca sobre o cuidado com a seleção, uso e descarte de produtos e serviços. U m
exemplo é o movimento de selos verdes e de rastreabilidade do produto, como é o caso do certificado
de madeira vinda de florestas com manejo sustentável do Forest Stewardship Council (FSC), movimento
este vindo principalmente a partir do mercado europeu, que está difundindo essa orientação para as
empresas atuantes no mercado internacional.

Na orientação para a prestação de contas (accowitability), o foco é assegurar a transparência, a


comparabilidade e a confiabilidade dos resultados de desempenho em indicadores ambientais, sociais e
econômicos. Isso se consegue pela publica- ção de demonstrativos ou balanços sociais que utilizem
padrões determinados, a exemplo dos propostos por organizações certificadoras — como o modelo da
AA 1000 do Institute of Social and Ethical Accountability, do Reino Unido — ou organizações
apoiadoras/orientadoras — como o modelo recomendado pelo Instituto Ethos, pelo Instituto Brasileiro
de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pela organização Global Reporting Initiative (GRI).

No Brasil, há projetos de lei no Congresso que buscam tirar o caráter voluntário da publicação dessa
prestação de contas pelas empresas — o que vem gerando discussões calorosas, como citado no
capítulo 9. O público-alvo dos balanços sociais são o sistema financeiro e os investidores nacionais e
internacionais, que buscam a padronização de indicadores para permitir a comparabilidade entre
empresas. Na orientação para as relações com a comunidade — ação social empresarial, investimento
social privado ou benevolência empresarial, a exemplo do que é demonstrado nos capítulos 7 e 8, a
visão utilizada pode ser: a do marketing relacionado à causa social, quando se condiciona a contribuição
da empresa à venda ou consumo de determinado produto ou serviço, ou quando apenas se promove,
na mídia, a captação de recursos de doadores da sociedade, do governo e institucionais para uma causa
social; ou, alternativamente, pode ser a da inovação ou marketing social, que ocorre quando a empresa
atua com recursos próprios e de terceiros na mudança de comportamentos, valores e na efetiva
inclusão social, por meio do teste de novas tecnologias de desenvolvimento social em parcerias com o
governo e o terceiro setor.

As empresas podem atuar por meio de campanhas periódicas, apoiadas fortemente na mídia (quando
mídia é o tipo de negócio em que operam), o que facilita a captação de recursos, e/ou por meio de uma
fundação ou instituição criada especificamente para esse fim ou um departamento ou setor responsável
pela elaboração, seleção e apoio a projetos sociais. No caso da orientação para o ambiente natural, a
responsabilidade social tem como objetivo a ecoeficiência, integrando fatores como tecnologia,
recursos, processos, produtos, pessoas e sistemas de gestão.

ISO 14000 é o padrão internacional comumente utilizado para auditoria ambiental, certificação e
comércio ecossensível. A empresa também assume como sua responsabilidade a gestão de conflitos de
interesses na sociedade, com o governo, proprietários rurais, indústria, ciência e tecnologia e relações
internacionais, em torno do tema da gestão ambiental. Esse tipo de posicionamento visa atender às
necessidades do cliente, da matriz, de órgãos de financiamento e das seguradoras, bem como a
licitações, ao cumprimento da lei e às exigências do setor de negócios.

A atividade empresaria l e seu pode r de contribuição econômica , ambienta l e social: a fábrica da Nestl
é e m Arara s (SP) Líder absoluta n o mercad o de cafés solúveis e detentor a da segunda marca mais
comercializada n o mercad o total de cafés d o país que moviment a anualmente cerca de R$ 2,5 bilhões
a Nestlé Brasil part e agora para mais uma grande investida c om a abertur a d e nova fábrica em Araras,
São Paulo. D e acord o com a assessoria de imprensa, esta é a maio r e mais modern a fábrica de café
solúvel e important e base exportador a d o Grup o Nestlé, que levará Nescafé, um produt o
genuinament e brasileiro, d o Brasil para o mundo . Para Ivan F. Zurita, presidente da empresa, "essa
nova fábrica reflete a disposição e a vontade da Nestlé d e contribuir para o desenvolviment o econômic
o d o país, para a geração de emprego s e manutençã o dos índices recordes de superávit registrados.

Um modelo genérico para análise e orientação estratégica quanto à RSE Propõe-se um modelo
conceituai multidimensional, relacionai e mui tidirecional para a responsabilidade social nos negócios —
MRMRSN, exibido passo a passo nas figuras 6.1 a 6.6, como modelo genérico para a análise e o
posicionamento estratégico quanto à incorporação da responsabilidade social empresarial à governança
das relações negócio-sociedade. O modelo MRMRSN , por um lado, vem auxiliar a análise sobre a
distinção entre para quem é feito o negócio, quem afeta e é afetado pelo negócio, o que é o negócio,
quem faz o negócio e quando e onde é feito o negócio1 , com vistas ã criação de agrupamentos de
relações negócio-sociedade. Por outro lado, o modelo MRMRS N procura responder até que ponto e em
que sentido a empresa pode ser considerada socialmente responsável, na medida em que incorpora três
níveis de desafios éticos para cada dimensão das relações negócio-sociedade. Finalmente, indica a
necessidade de congruência entre a orientação estratégica para a responsabilidade social e os processos
e estrutura organizacional expressos no cotidiano da empresa, congruência esta capaz de conduzir à
formação de uma comunidade de prática de atividade empresarial socialmente responsável — o
discurso e a prática coerentes entre si.
à análise sobre para quem é feito o negócio, no sentido institucional da razão de existir o segundo setor
— fins privados e recursos privados com fins lucrativos — , o modelo contempla as instituições sociais e
políticas que afetam ou são afetadas pela operação do negócio, positiva ou negativamente, quais sejam:
• as famílias e as comunidades;

• as organizações fruto da mobilização da sociedade civil — fins públicos e recursos públicos ou privados
sem fins lucrativos (fins assistenciais, fins religiosos, fins associativos, fins de defesa de diversos
interesses);

• e as organizações do Estado — fins públicos e recursos públicos, em sua configuração jurídica


específica, que, no caso brasileiro, pertencem ao Poder Executivo, Legislativo e Judiciário e à federação,
aos estados aos e municípios.

Tais instituições, como atores sociais e políticos que são, configuram um conjunto de stakeholders que
regulam e legitimam a criação, operação e término dos negócios, constituindo-se, assim, em um
agrupamento de relações afins. Para tais relações, o modelo propõe a Dimensão das Relações Político-
Sociais — Estado; famílias e comunidades; e SC O (sociedade civil organizada

Adicionalmente, consideram-se as relações do negócio com os ambientes natural e construído, que são
direta ou indiretamente afetados, por meio da rede de stakeholders associados ao negócio, pelas
escolhas ou decisões realizadas no que tange à operação do negócio. Necessariamente, na análise sobre
o que é o negócio, incluem-se as relações com fornecedores de matéria-prima e produtos processados
e, consequentemente, o impacto dessas escolhas de fornecedores sobre seus respectivos fornecedores.
Por fim, também se inserem nessa análise as relações com os demandantes intermediá- rios e finais dos
produtos gerados a partir da operação do negócio, incluindo-se aí tanto os bens quanto os serviços a
eles associados. Como resultado da análise sobre o que é o negócio, está presente, então, a Dimensão
das Relações Econômicas Objeto e Meio do Negócio, ou Relações Core Business — fornecedores;
demandantes; ambientes natural e construído; e ciência e tecnologia, conforme ilustra a Figura 6.2. Essa
dimensão representa, pois, as relações que definem o propósito social da organização e suas respectivas
relações operacionais com fornecedores, demandantes, ciência e tecnologia e com os ambientes natural
e construído impactados por sua operação.

Tais dimensões e considerações nos levam, então, a recomendar o cuidado, nas pesquisas e reflexões
sobre responsabilidade social empresarial, de olhar o contexto econômico, legal, social e ambiental em
que a empresa opera; olhar o porte da empresa (seja em termos de faturamento ou de número de
funcionários, dependendo do tipo de negócio — intensivo em capital ou intensivo em pessoal
empregado); olhar a natureza jurídica da empresa (limitada, sociedade anônima ou cooperativa); olhar a
origem do capital (nacional, estrangeiro ou combinação de várias nacionalidades, o que implica visões
culturais distintas); olhar o setor (primário, secundário ou terciá- rio); olhar o padrão de
responsabilidade social de seus concorrentes no segmento do negócio e as expectativas do público
comprador de seus produtos; olhar o grau de investimento tecnológico requerido para entrar no tipo de
negócio e o impacto ambiental ao longo do ciclo de vida do produto — o caso de uma empresa
farmacêutica, por exemplo, é diferente do de uma confecção de roupas. Um quinto elemento está
presente no modelo MRMRSN , o qual permeia todas as dimensões já descritas e diz respeito ao grau de
comunicação e de conhecimento compartilhado entre os atores sociais ou stakeholders em
determinado contexto e entre contextos temporais e espaciais.

As três dimensões das relações negócio-sociedade e sua contextualização na Dimensão Tempo e Espaço
estariam conectadas por um plasma de comunicação e conhecimento que permeia as trocas
estabelecidas. Conforme esse plasma se estende aos diversos nós dessa rede de relacionamentos, ou
seja, gera comunicação, passa a gerar novos estágios de conhecimento na rede de stakeholders
associada ao negócio e, consequentemente, novos estágios de consciência coletiva desses stakeholders,
possibilitando condições para uma mudança de hierarquização dos valores morais compartilhados
mutuamente.

Quanto à qualidade desse conhecimento,em termos de intensidade e freqüência, amplitude de


divulgação, diversidade de perspectivas, memória, atualidade e profundidade de reflexão, pode-se
argumentar que essa qualidade estaria condicionada à natureza do conhecimento, à sua detenção e à
acessibilidade aos meios de comunicação; tudo isso impactaria o processo de apropriação e
disseminação dos conhecimentos, novos e preexistentes, pertinentes à rede de stakeholders associados
ao negócio. Ademais, é preciso considerar que as diversas linguagens empregadas pelos diferentes
atores sociais em um mesmo contexto ou em diversos contextos í- 3 precisam ser conhecidas e
interpretadas para a efetivação do processo de comunicação e o intercâmbio de conhecimentos.

Busca-se, aqui, integrar o modelo de Enderle e Tavis3 e de Logsdon e Yuthas4 para os três níveis de
desafios éticos, a serem estabelecidos pelas empresas em suas normas sociais ou relacionais, a uma
forma plural de relações de mercado, hierárquicas e multilaterais da empresa com seus stakeholders. Os
três desafios éticos, exibidos na Figura 6.6, são parte integrante do modelo MRMRSN , sendo aplicáveis
às suas diversas dimensões de relações negócio-sociedade. Assim, para cada dimensão do modelo
MRMRSN , a empresa poderá considerar como desafio ético, alternada ou concomitantemente: cumprir
a lei; atender às expectativas atuais da sociedade no contexto em que se insere a empresa; e propor-se
a aspirar a ideais éticos, ainda não amplamente reconhecidos nas expectativas atuais de seu contexto
social. Esses três níveis de desafios éticos precisam estar contextualizados nas relações negócio-
sociedade em que a empresa opera.

Nesse sentido, em virtude da dinâmica da comunicação e difusão do conhecimento e do contexto


temporal e espacial, o que hoje e aqui pode ser classificado como nível 2 de desafio ético talvez passe a
ser nível 1 no futuro ou em outro contexto, assim como o que hoje e aqui é nível 3 de desafio ético pode
passar a ser nível 2 no futuro ou em outro contexto.

A falta d e informaçã o aos clientes o u até mesmo informaçõe s incorreta s tê m ajudado a criar uma
nov a categori a d e con - sumidores : a d e pessoas que, na luta po r seus direitos , promove m mudança
s e m produtos , serviços e até nas norma s empresariais. Por causa d e inúmera s reclamações d e
consumidores , o Instituto Naciona l d e Metrologia , Normalizaçã o e Qualidad e Industrial (Inmetro )
decidi u padroniza r a quantidad e d e tint a dos cartucho s para impressoras. A portaria , editad a e m
janeir o dest e ano, exige qu e as empresas fabricantes d e cartucho s coloquem na embalagem o
volume d e tint a em mililitros (ml). A regulamentaçã o vale par a todo s os cartucho s nacionais o u
importados , inclusive os recarregados . Segund o Mari a Manuel a Mot a do s Santos, chefe d a Divisão d
e Produto s Pré- -Medidos , d a Diretori a d e Metrologi a Legal (Dimel ) d o Inmetro , existem hoj e n o
mercad o cartucho s d e tint a para impressoras co m indicações e m gramas, milimitros , onças (padrã o
norte-americano ) e até sem indicação alguma. E o pro - blema se agravou quand o algumas empresas, e
m busca d e reduçã o d o cust o d o s produtos , diminuíram també m o conteúd o das embalagens, sem
informa r a mudanç a a o consumidor. "Entramo s e m contat o co m algumas indústrias e desco - brimo
s qu e temo s n o mercad o cartucho s d e 9 até 45 ml, mas co m embalagen s b e m semelhantes",
informa Maria Manuela.

Afirma-se que, quanto mais dimensões e quanto mais elementos dessas dimensões são incorporados ao
conceito, mais ampla passa a ser a própria definição de responsabilidade social empresarial, mais
profunda passa a ser a mudança nos negócios e mais radical passa a ser a transformação das relações
negócio-sociedade. Nesse sentido, uma estratégia de gestão ou um programa específico de
responsabilidade social empresarial que beneficie simultaneamente os stakeholders presentes nas
relações negócio-sociedade das Dimensões de Produção e Distribuição "Internas", Político-Sociais e de
Core Business, por meio da adoção de desafios éticos dos níveis 1 , 2 e 3 apresentaria um largo escopo
quanto ao seu impacto positivo sob os aspectos econômico, ambiental e social.

Por outro lado, por seu amplo escopo, sua elaboração, implementação e avaliação requereriam grande
capacidade de gestão estratégica da rede de relacionamentos. Para tanto, entende-se relevante o apoio
de sistemas de co - municação e de conhecimento, de forma que haja difusão e memória dos múltiplos
eventos e expectativas, além da avaliação contínua da estratégia ou programa por meio da mensuração
em indicadores quantitativos e qualitativos. A Figura 6.7 ilustra as combinações possíveis dos três
desafios éticos aplicados ao Vetor Comunicação e Conhecimento, à Dimensão de Relaçõe s Político-
Sociais, à dimensão de Relaçõe s Core Business e à dimensão de Relaçõe s de Produção e Distribuição
"Internas", sempre mostrando que o contexto temporal e espacial interfere nas expectativas sociais e
hierarquias de valores morais dos stakeholders relacionados à empresa.

Para ser sustentável, a estratégia de responsabilidade social empresarial precisa ser internament e
consistente em cada dimensão das relações negócio-sociedade. Ademais, a multidirecionalidade dos
impactos das relações negócio-sociedade é expressa pela interpenetração das diversas dimensões e por
sua contextualização na Dimensão Tempo e Espaço, a qual, para representar esse fator, tem o formato
de várias pontas indicando as diversas possibilidades de amplitude e direção para a contextualização
temporal e espacial. Isso indica que não basta uma empresa querer ser socialmente responsável se não
houver a corresponsabilidade dos seus parceiros fornecedores, dos demandantes dos seus produtos, do
governo em suas políticas tributárias, públicas e macroeconômicas, do sistema financeiro ao buscar
investir e apoiar empresas socialmente responsáveis e, fundamentalmente, se a lógica ou racionalidade
do mercado apenas entender que o sucesso de uma empresa é o montante de lucro de seus acionistas,
desconsiderando como esse lucro foi atingido.
Propõe-se que a Dimensão Core Business seja considerada a mais impactante e multiplicadora para
além da empresa; assim, busca-se mudar a lógica de mercado ao longo da rede de negócios
fornecedores e compradores — upstream e downstream. Parte-se do pressuposto de que as relações
comerciais precisam compartilhaias normas sociais em seus contratos formais e informais para que
possam ser mantidas ou repetidas e, portanto, são fundamentadas na hierarquia de valores morais do
mercado e nos requisitos legais do contexto em que a empresa atua.

Tal pressuposto também se aplicaria aos contratos pertinentes às relações de apropriação e


disseminação do conhecimento científico e tecnológico e às relações de apropriação e de impacto sobre
os recursos dos ambientes natural e construído. Um a vez que tais contratos, formais ou informais,
estão conectados às relações de compra e venda de bens e serviços para a operação dos negócios, o
mercado de bens e serviços precisaria compartilhar condutas pró-responsabilidade social, ou seja, seria
preciso construir mercados responsáveis em sua lógica de valoração do sucesso da atividade
empresarial, de seleção e compra de produtos, seleção e compra de tecnologias de produção e
concepção de produtos, bem como no apoio ao desenvolvimento de fornecedores de produtos
socialmente responsáveis.

Um a vez refletida e definida, segundo o modelo MRMRSN , a orientação estratégica para a


responsabilidade social empresarial, restaria conhecer e avaliar como essa orientação é aplicada de fato
pela empresa, ou seja, qual é a prática do discurso. Para isso o modelo MRMRS N propõe que haja uma
política interna de implementação da orientação estratégica definida, por meio de equipe
multidisciplinar e multidepartamental, para rever a estrutura e os processos organizacionais: o desenho
e concepção dos produtos e do processo de produção, o sistema de gestão ambiental, o sistema de
remuneração, o processo decisório no campo estratégico, tático e operacional, a política de
comunicação e governança das relações negócio- -sociedade, a estratégia de marketing, o sistema de
auditoria interna, a política de compras e desenvolvimento de fornecedores, a política de orçamento
empresarial e de administração financeira e prestação de contas. Entretanto, somente uma auditoria
social feita de modo independente entre os stakeholders da empresa pode avaliar se, de fato, além da
revisão da estrutura e processos organizacionais, estão ocorrendo mudanças capazes de favorecer uma
cultura organizacional congruente com tais estruturas e processos.

Enfim, a auditoria deve avaliar se a empresa não é só racionalidade, mas pensamento, emoção e
espiritualidade congruentes. Para tanto, é preciso construir uma orientação estratégica para a
responsabilidade social empresarial, definir novas configurações na estrutura e processos
organizacionais e permitir a formação e o desenvolvimento de uma comunidade de prática das pessoas
que operam e convivem nas relações com a empresa, comunidade esta que possa sustentar e refletir,
de forma dinâmica, os valores de tal orientação estratégica. Diversas abordagens encontradas na revisão
da literatura para o conceito de responsabilidade social empresarial podem ser identificadas no modelo

O sistema de avaliação de desempenho deve estar relacionado ao modelo que a empresa adota quanto
à amplitude de suas responsabilidades diante de seus diversos stakeholders. Propõe-se um roteiro
básico para o autoconhecimento e posicionamento estratégico da empresa quanto à responsabilidade
social nos negócios. ROTEIR O PARA AUTOCONHECIMENT O 1) Qu e valores e princípios a empresa
adotará quant o a sua responsabilidade social diante d e seus públicos (stakeholders)? H3 "d S. B a)
acionistas e investidores; o | •g Ü b) agentes financeiros; F •— ° £ c) pessoas físicas e jurídicas
contratadas para trabalhar pela empresa; oj "O -f-J CO S l d) concorrentes ; QJ .O ' nj O 1/1 § e) parceiros
privados, estatais e não governamentais; IRT OJ f) cadeia de compradores/consumidore s (diretos e
indiretos); g) cadeia d e fornecedore s (diretos e indiretos); h) ambient e local, regional, nacional e
mundial; i) comunidad e local; j) govern o federal, estadual e municipal; k) gerações futuras d e
stakeholders (impacto a longo prazo). 2) Com o a empresa conhece, mensura e analisa os impactos de
suas políticas estraté- gicas e operações em termo s d e aspectos econômicos , sociais e ambientais? 3)
At é qu e pont o a empresa vai formalizar e divulgar suas intenções de condut a diante d e seus públicos,
n o que diz respeito ao quant o ela considera os aspectos ambientais, econômico s e sociais de suas
decisões e operações (código d e condut a da empresa)? 4) Quais serão os critérios para avaliar o
desempenho total e o sucesso dos negócios operados pela empresa? a) aspectos econômico-
financeiros, pela contabilidade clássica dos demonstrativos analisada pelo mercado financeiro e de
investimentos; b) aspectos de desempenho da produção: • economia de recursos ambientais, humanos,
financeiros, materiais e patrimoniais; • eficiência na relação entre produção e recursos utilizados; •
eficácia para atingir as metas de produção; efetividade para atingir a satisfação dos benefícios do
produto/serviço e os objetivos estratégicos do negócio; c) aspectos de satisfação nas relações de
trabalho: • satisfação das pessoas físicas e jurídicas quanto ao desempenho da empresa no atendimento
de suas expectativas de relação de trabalho; • tendimento dos requisitos legais no trato da empresa
com seus diversos stakeholders, programas de melhoria, além dos requisitos legais, no balanceamento
de aspectos econômicos, sociais e ambientais na operação dos negócios da empresa; d) aspectos de
contribuição da empresa para o desenvolvimento de uma sociedade sustentável: análise do ciclo de vida
do produto e gestão dos processos quanto a seu impacto social, ambiental e econômico para a
sociedade; • educação do consumidor e demais stakeholders quanto a consumo e emprego
responsáveis pelos insumos e produtos associados ao negócio; promoção da produção responsável ao
longo da cadeia de fornecedores e compradores associada ao negócio da empresa; promoção e
aplicação de pesquisas e fóruns para o emprego de processos de produção e consumo sustentáveis.