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LITURGIA NO DOCUMENTO DE MEDELLIN 1

Este texto foi publicado na Revista de Liturgia na edição n. 62 de março-abril de 1984. Decidimos reeditá-lo por sua lucidez e
atualidade, sobretudo, como sinal de gratidão a Ione, que muito estudou Medellín e muito contribuiu para fundamentar a prática
litúrgica das comunidades com base nas grandes intuições desde documento da Igreja Latino-americana e caribenha.

IONE BUYST

No Capítulo 9 que trata da liturgia, o documento de Medellín afirma:


“... a celebração litúrgica coroa e comporta um compromisso com a realidade humana, com o desenvolvimento e com a
promoção...”
“A celebração litúrgica (...) traz (...) a exigência que leva a fé a comprometer-se com as realidades humanas”.
“Para que a liturgia possa proporcionar plenamente essas contribuições, é necessário (...) manter-se numa situação dinâmica
que acompanhe tudo o que houver de são no processo de evolução da humanidade; levar a uma experiência vital da união entre
a fé, a liturgia e a vida cotidiana...”
Para compreendermos o alcance destas afirmações é importante entender este capítulo a partir
do documento todo, principalmente a partir da introdução. Além disso, o documento de Melellín é
incompreensível sem a referência à constituição conciliar “A Igreja no mundo de hoje” (Gaudium et
Spes) e sem a encíclica do Papa Paulo VI “O desenvolvimento dos povos” (Populorum progressio).
Portanto, se quisermos compreender o que houve com a liturgia em e a partir de Melellín,
teremos que lembrar em grandes linhas, o que houve com a Igreja , principalmente a partir da
Gaudium et Spes. Destacaremos seis características da maneira de ser e pensar da Igreja e a cada
característica tentaremos mostrar as consequências para a liturgia.

1. Afirmação da unidade da pessoa humana

A pessoa não pode ser dividida em pedações: corpo de um lado, alma de outro; o “material”
de um lado, o “espiritual” de outro. A pessoa humana é uma unidade.
Segue daí, que ouvindo o apelo de Deus, o ser humano dá sua resposta com todo o seu ser, com
todas as dimensões de sua vida. A “religião” vai modificar a sua atitude em todos os aspectos de sua
vida: aspecto cultural, social, econômico, político...
Está excluído, portanto, todo dualismo que divide a vida da pessoa em compartimento estanques,
sem ligação uma com a outra.
Assim fica claro porque o capítulo 9 do documento de Medellín lembra que deve haver uma
união vital entre a fé, a liturgia e a vida cotidiana. A liturgia não pode continuar sendo um parêntese
“religioso” na vida do cristão. Deverá ser um momento forte, ponto de chegada e ponto de partida
ao mesmo tempo, de todas as dimensões da vida humana.

2. Afirmação da unidade da história

Não existem duas história: uma história “profana” e outra da “salvação. A salvação acontece
dentro da história “profana”, a história da humanidade. A história será história da “salvação” ou
história da “perdição” dependendo do rumo que o ser humano imprimir a esta história. Nós
acreditamos que o Cristo veio “recapitular” todas as coisas, colocando a história no rumo de Deus,
no rumo do desígnio divino. Seu mergulho na natureza humana e mais ainda sua ressurreição pela
qual arrasta atrás de si, para dentro da realidade divina, todo o cosmos, faz com que as realidades
humanas sejam introduzidas na comunhão divina. O Espírito de Cristo glorificado completa esta
obra atingindo todo o universo.
Se a Constituição conciliar sobre a sagrada liturgia, Sacrossanctum Concilium (SC)
recolocou a liturgia dentro da história da salvação, e se esta salvação se realiza dentro da única
história humana, então a liturgia não pode mais ficar alheia ao que acontece ao seu redor. Deverá ser

1
Artigo publicado na RL n. 62, março-abril 1984, p. 2-9.
colocada com os dois pés dentro da realidade histórica atual. Celebrar o mistério da nossa salvação
é celebrar a presença ativa e salvífica de Deus dentro de nossa história atual, querendo guiá-la em
direção à realização plena do plano de Deus.

3. A salvação é um processo

A salvação não se realiza de uma vez por todas. O Reino é uma semente: deverá crescer até
à plenitude. Ele se realiza em parte nas realidades históricas, mas haverá de desabrochar plenamente
na parusia. É importante, portanto, não limitarmos a salvação às libertações históricas, sócio-
políticas.
De outro lado, esta semente do Reino foi jogada no chão da história. Portanto, a libertação
“integral” se constrói a partir de libertações parciais, limitadas, mas indispensáveis no processo de
crescimento do reino.
Conseguir uma rede de água num bairro carente, não é certamente alcançar a plenitude da
salvação; mas é para aquela população um sinal da presença viva, amorosa e eficaz de Deus-
salvador em seu meio.
Se a liturgia é antecipação da libertação integral, da Plenitude, ela não pode deixar de
apontar os passos certos que estamos dando hoje em direção a esta Plenitude, não pode deixar de
agradecer pelas libertações da ação libertadora de Deus no meio de seu povo. E este povo quer
celebrar seu Deus a cada passo, a cada etapa da caminhada que leva à Terra Prometida, pois “a
presença do Mistério da Salvação enquanto a humanidade peregrina até sua plena realização na
parusia do Senhor culmina na celebração litúrgica eclesial”. Por isso quem celebra a liturgia deve
necessariamente “manter-se numa situação dinâmica” e “acompanhar tudo o que houver de são no
processo de evolução da humanidade” (Medellín, cap. 9).
“Toda celebração litúrgica está essencialmente marcada pela tensão entre o que já é uma
realidade e o que não se verifica ainda plenamente... (Medellín 9,2). Na liturgia temos a
oportunidade de vivenciar, em atos simbólico-sacramentais aquilo que aguardamos, aquilo que
Deus prometeu: o amor e a partilha entre os irmãos, a igualdade e o respeito mútuo entre raças,
sexos e nações (cf. Gálatas 3,26-28), a liberdade dos filhos de Deus, a plena comunhão com Deus...
Porém, esta vivência momentânea, esta antecipação da glória celeste, não pode nos afastar das
tarefas da construção do mundo; ao contrário deve ser um estímulo para voltar ao trabalho da
construção do Reino dentro da história.

4. Ler os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus

O Espírito do Cristo ressuscitado não atua só na Igreja, mas em todas as realidades.


Portanto, a salvação não acontece só dentro da Igreja. Ela acontece também nas realidades
chamadas “profanas”. Cabe à Igreja, no entanto, desvendar, discernir, sentir... esta presença e ação
do Espírito de Deus dentro dos acontecimentos históricos atuais. Os fatos, as realidades são vistas e
analisados à luz da fé. Fatos importantes ou característicos são considerados “sinais dos tempos”,
sinais que chamam a atenção da Igreja e a interpelam: é preciso interpretá-los e discernir se são
sinais de salvação ou de perdição...
Na introdução ao documento são destacados quatro traços característicos da época de
Medellín e interpretados em seguida em relação com o desígnio de Deus: 1) “o gigantesco esforço
por uma rápida transformação e desenvolvimento” é interpretado como um “evidente sinal do
Espírito que conduz a história dos homens e dos povos”; “a vontade tenaz e apressada de
transformação” é vista como “vestígio da imagem de Deus no homem”; o fato da transformação na
América Latina procurar atingir a totalidade do homem, é visto como a “presença de Deus que quer
salvar o homem todo, corpo e alma”; por fim a passagem de condições menos humanas para
condições mais humanas” é considerada um “novo Êxodo, uma nova libertação da escravidão”,
uma nova páscoa graças ao passo de Deus que salva” e que acompanha ativamente o seu povo na
sua caminhada histórica rumo à libertação.
Trata-se de iluminar a vida com a Bíblia e a Bíblia com a vida: um determinado
acontecimento de repente desperta um novo sentido de um texto bíblico (ele próprio é interpretação
de uma acontecimento anterior), e o texto bíblico por sua vez faz perceber o sentido profundo
daquele acontecimento no Plano de Deus.
Cada celebração litúrgica, principalmente a liturgia da Palavra, deve fazer esta leitura dos
acontecimentos à luz da Palavra de Deus. Não estamos aí somente para reconhecer e agradecer um
Deus presente e atuante no passado! Precisamos perceber sua atuação salvadora no hoje da história.
Ele “fala”. Ele se revela de dentro dos acontecimentos. Por isso nenhuma celebração litúrgica pode
deixar de mencionar, fatos importantes da história atual.
A SC realçou a leitura da Bíblia na Liturgia: Medellín completa esta riqueza, ligando de
novo Bíblia e realidade, o que é próprio da tradição judaico-cristã.

5. Assumir a transformação do continente

A Gaudium et Spes tirou a Igreja de seu narcisismo (deixou de olhar só para si mesma), para
lançá-la como Serva, a serviço do Reino no mundo, a serviço da pessoa situada historicamente,
como ser social e político. Pedia que os discípulos de Cristo assumissem como suas “as alegrias e as
esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” e fosse uma força ativa na resolução dos
problemas que afligem a humanidade.
A Encíclica Populorum Progressio do Papa Paulo VI dada ao público um ano antes da
conferência de Medellín, havia reconhecido que o maior problema do momento histórico era “a
universalidade da questão social”, o abismo crescente entre os “povos da opulência” e “os povos da
fome”. Era preciso equilibrar a balança, fazer justiça aos povos do terceiro mundo, acabar com a
fome e a miséria. Por isso, o papa dirigia “um apelo solene a uma ação organizada para o
desenvolvimento integral do homem e para o desenvolvimento solidário da humanidade”.
Enquanto isso, na América Latina já se começava a desconfiar que a teoria do
desenvolvimento não ia levar a nada, ou melhor, que só serviria para enriquecer mais ainda os
países ricos e deixar mais miseráveis ainda os países pobres.
Nasceu então a teoria da dependência: a situação de injustiça e desigualdade é causada pela
situação de dependência sócio-política-econômica-cultural do Terceiro mundo. O único caminho
eficaz para um mundo justo e equilibrado é o caminho da libertação deste jugo de dominação.
Os setores mais oprimidos dos povos latino-americanos procuravam agir com os meios a seu
alcance: greves, luta armada, oposição aos regimes de força...
Dentro deste quadro, então, é que a Conferência de Medellín assumiu a bandeira da
“transformação” da América Latina, no sentido da libertação da dependência e dominação,
superando assim as duas noções de subdesenvolvimento comuns na época: o subdesenvolvimento
como atraso técnico e o subdesenvolvimento que seria superado pela interdependência das nações.
Conclamou todos os cristãos “obrigados por suas responsabilidades batismais e pela gravidade do
momento” a colaborar ativamente, em todos os setores, para que se realizasse o quanto antes esta
transformação libertadora (ou libertação transformadora).
E a liturgia em tudo isso? Sendo ela “centro e raiz” de toda a vida de uma comunidade
cristã, “fonte e ponto alto” de toda a vida da Igreja e estando os cristãos engajados na libertação
transformadora, “a celebração litúrgica coroa e comporta um compromisso com a realidade
humana, com o desenvolvimento e com a promoção...” (cap. 9).
Na prática, isto só é possível se esta realidade é explicitada dento da celebração, se são
comentados e assumidos em preces, em ação de graças, as ações libertadoras, as vitórias e os
fracassos, as dificuldades encontradas, as novas estratégias do inimigo... Não é assim que sempre
rezaram os nossos antepassados judeus e cristãos? Não é assim que nos ensina a Bíblia?
Mais ainda: o texto da introdução identifica o verdadeiro desenvolvimento (definido por
Paulo VI como “a passagem de condições menos humanas para condições mais humanas”) com o
processo pascal. É o passo do Senhor que salva como outrora passou pelo povo de Israel libertando-
o do opressor egípcio. Sendo a liturgia toda ela pascal, deverá expressar também este aspecto da
grande Páscoa de Jesus.

6. Não basta falar: é preciso agir

A introdução ao documento lança um apelo importante: “não basta refletir, obter maior
clareza e falar. É preciso agir. Esta não deixou de ser a hora da Palavra, mas tornou-se com
dramática urgência a hora da ação. É o momento de inventar com imaginação criadora a ação a ser
realizada, e sobretudo, levá-la a término com a audácia do Espírito e o equilíbrio de Deus”
[introdução, p. 5-6]
A Gaudium et Spes já havia afirmado a importância da atividade humana no plano salvífivo. Deus
conta com a colaboração humana. A salvação operada por Cristo é completada por obra do Espírito
Santo que impulsiona o agir humano. Portanto, o cristão não pode ficar aguardando a salvação de
braços cruzados: deve agir, deve assumir o compromisso junto com os irmãos. Sempre lemos na
carta de são Tiago que “a fé sem as obras é morta”. Sempre os cristãos procuraram pôr em prática as
palavras do Evangelho. Porém, agora não se trata mais de qualquer tipo de prática: é preciso uma
ação eficaz, libertadora, capaz de remover, pela força do amor, as gritantes injustiças e opressões,
fruto do pecado. A fé exige de nós uma práxis. E a práxis se torna o critério de nossa fé, a
motivação de nossa oração, o ponto de partida e de chegada de nossa catequese, evangelização e
teologia...
O método ver-julgar-agir usado pela Ação católica, assumido pela Gaudium et Spes, divulgou-se e
foi ensinando aos poucos como relacionar fé e vida, liturgia e política, oração e ação, o eterno e o
histórico, amor a Deus e amor aos irmãos...
A SC havia insistido na participação ativa, plena e consciente de todo o povo na liturgia. Medellín
nos pede esta mesma participação na construção de um continente livre, justo e fraterno. A
participação consciente e plena na liturgia exige a participação na ação libertadora. Sem a ação, a
nossa fé é estéril, e a nossa celebração litúrgica puro ritualismo. É por isso que, na perspectiva de
Medellín, a liturgia comporta um compromisso com a libertação dos povos latino-americanos.
“Essa celebração para ser sincera e plena deve conduzir tanto às diversas obras de caridade e ao
auxílio mútuo, como à ação missionária e às várias formas de testemunho cristão” (cap 9,3).
Fechemos o documento de Medellín e percorramos as celebrações litúrgicas celebradas em
nosso país... Quantos continuam celebrando “como antigamente”, como se nunca houvesse
acontecido nem Medellín, nem Gaudium et Spes, nem o Concílio Vaticano II! As mudanças havidas
são periféricas: altar voltado para o povo, o português no lugar do latim, o povo ativo nos cânticos...
mas a liturgia continua separada da vida, principalmente da vida sociopolítica. Os “caros fiéis” são
mantidos na ignorância: nunca tiveram a oportunidade de ouvir falar das grandes preocupaçoes do
Vaticano II, de Medellín, de Puebla, dos documentos da CNBB... Enquanto isso, os cristãos
conscientes, formados talvez em algum grupo de jovem, ou antigamente na ação católica..., não
encontram na celebração litúrgica o alimento que tanto procuram para a sua prática.
Felizmente, também podemos dizer: quantos podem celebrar a gora, principalmente nas
comunidades eclesiais de base, uma liturgia viva, entrosada na caminhada libertadora do povo!
Quanta criatividade, quanta participação, quanta seriedade no compromisso, quanta conversão,
quanta solidariedade vivida e celebrada.
Certamente, o que nos falta é um aprofundamento maior sobre como relacionar fé e vida na
liturgia. É uma questão teórico-prática que aguarda a colaboração dos teólogos liturgistas na prática
litúrgica do povo cristão.

Ione Buyst, doutora em liturgia, autora de muitos livros, articulista desta revista desde a primeira
edição.

Bibliografia
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3. BOFF, Leonardo. A libertação em Puebla. In Sedoc 11, abril de 1979, col. 1093 – 1118.
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6. CNBB. Documento dos bispos brasileiros, assembleia geral extraordinária, Itaíci, 18 a 25 de
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7. CNBB, NORDESTE II. La Marcha del Pueblo de Dios em América Latina. In: Sedoc 10,
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8. CROATTO, J. Severino. Êxodo, uma hermenêutica da liberdade. São Paulo, Paulinas, 1981
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9. GUTIERREZ, Gustavo. Teologia da Libertação, perspectivas. Petrópolis, Vozes, 1975.
10. PAULO VI. O desenvolvimento dos povos. 5ª edição. Petrópolis, Vozes, 1968 (Documentos
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11. SOBRINO, Jon. Ressurreição da verdadeira Igreja, os pobres, lugar teológico da eclesiologia.
São Paulo, Loyola, 1982.