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Todos lembram o famoso jogo de futebol filosófico do Monty
Python. Jogam os gregos e os alemães. No time grego, Platão, Aris-
tóteles, Plotino etc. No time alemão, Kant, Hegel, Nietzsche, Becken-
bauer (é, o Beckenbauer...) etc. Marx está no banco. O juiz é Confúcio
e os bandeirinhas são... Santo Agostinho e São Tomás...*1
Pois não é apenas uma boa piada. A Filosofia Medieval é mesmo
um objeto de estudos bem estranho. Aliás, inventado muito recente-
mente. Durante tanto tempo se duvidou que houvesse mesmo Filoso-
fia Medieval que um bom historiador de meados do século passado,
Paul Vignaux, publicou, em 1938, com grande sucesso, um livro com
o título O Pensamento na Idade Média (aliás, rapidamente traduzido aqui,
em 1941). E só 20 anos depois o rebatizou como A Filosofia na Idade

* Este texto foi apresentado como abertura do primeiro seminário do Centro
de Estudos de Filosofia Patrística e Medieval de São Paulo (CEPAME) na
UFABC, no contexto das comemorações dos 20 anos do CEPAME, graças
ao honroso convite da Profa. Cristiane Negreiros Abbud Ayoub. Mantendo
seu caráter de exposição oral, abstenho-me de introduzir todas as notas e
referências textuais que, de outra forma, seriam necessárias.

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aliás. Tais estudos nos forneceram também dois livros insubstituíveis: o Index scolastico-cartésien (Paris: Vrin. !# !"#$%&'()#$)*+. Paris: Seuil. Imbach. La philosophie au Moyen Âge. Étienne Gilson. Vignaux. Mas nosso foco aqui não é nem a definição de “Filosofia Medie- val”. “a história do pensamento medieval inclui a de sua influência.. Quer dizer.$-. 1958. Penser au Moyen Âge.. P. do prefácio do segundo destes livros. 1991 (Pensar na Idade Média. como pensamos. et suivi de Histoire de la pensée médiévale et pro- blèmes contemporains. Também imediatamente tra- duzido. trocando o substantivo pelo verbo. nem a história da História da Filosofia Medieval.'('*+")". Um percurso dos mais interessantes. já em 1922. Précédé d’une Introduction autobiographique. A. para entender a necessidade da Modernidade. Ed.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! Média1. São Paulo: Editora 34. Gilson começou seus estudos lendo Descartes (outra invenção recente. De Libera. Adiantando de imediato a resposta: estuda-se Filosofia Medieval para melhor compreender a Modernidade. havia publica- do a primeira versão do seu La philosophie au Moyen Âge. Paris: Vrin. o pensamento medieval. Como diz a última frase. Como se sabe. 2004. P. 1938.)K!2L!MN!K!::?!MO. A edição mais recente. é La philosophie au Moyen Âge. ao publicar o seu Pensar na Idade Média2 (talvez o melhor livro de De Libera). Paris: Colin. mas essa do Século XIX) e é a ele que devemos a melhor edição já feita do Discurso do Método. ou antes. É discutir algo como para que serve “Filosofia Medieval”. Note-se o cuidado com que ainda evitou falar em “Filosofia Medieval”.OP . 1930). Armand Collin. 1999). Com meio século de distância. na qual qualquer leitor de Descartes se embaraça desde a primeira leitura. programática. creio. par R. 1912) e os Études sur le rôle de la pensée médiévale dans la formation du système cartésien (Paris: Vrin. como a histó- 1. que. La Pensée au Moyen Âge. Alain de Libera jogou com o primeiro título de Vignaux. Trad. 2. mas agora sobre como nós concebemos. Foi assim que percebeu a necessidade de deslindar a teia de referências genéricas “aos esco- lásticos”. por que gastar o nosso tempo com isso. P.. Vignaux. O ponto de partida é a lição do maior dos nossos historiadores da filosofia medieval. em 1991. Neves. também evitando a expressão “Filosofia Medieval”. Paris.

Nada mais contra-intuitivo. no Prefácio à Segunda Edição da Critica da Razão Pura. a necessidade da Modernidade. na exata medida em que melhor reproduz ou re- presenta. !"#$%&'()#$)*+. mas. Basta assistir ao pôr-do-sol: vemos o Sol se mover e é bem difícil provar que é a Terra que se move 3... 2012. Cito (e creio que é a primeira vez que isso acontece) a nova tradução de Fernando Costa Mattos. Mesmo a Revolução Copernicana propriamente dita. “verificar pelo menos uma vez. assumindo que os obje- tos têm de regular-se por nosso conhecimento” (B XVI).1"#%(2-3#-/%&4 ria do pensamento moderno a de suas fontes” (o que. do outro lado. à primeira vista. Aliás. Ou. diz Kant. diga-se de passagem. esta formulação lapidar é atribuída a Isaac Israeli. deixar as estrelas em repouso” (B XVII)3. Veja-se a enormidade da coisa: desde sempre se entendeu que conhecer é adequar o conhecimento ao que é conhecido. portanto. um autor egípcio de língua árabe e. Trata-se. Realmente estranho. como disse.$-. em especial.'('*+")". diz Kant. Repito: “os objetos têm de regular-se por nosso conhecimento”. verificou se não daria mais certo fazer girar o espectador e.). há tanto tempo. “É preciso”. é contrá- ria à mais imediata evidência sensível. “até hoje se assumia que todo o nosso conhecimento teria de regular-se pelos objetos”. é verdadeiro. a matemática. Petrópolis: Vozes.-(. de religião judaica. se não nos sairemos melhor. evidentemente. digamos assim (seja lá como for ou o que isso signifique). por exemplo.7&2?!VPMM! !$ . !"#$%&'()%*%(+. entender não só as fontes da Modernidade. como o fez. do Século X. está bem longe do nosso guéroutianismo de tradição. como diz Kant. Pois Kant está propondo justamente o inver- so: que “os objetos a serem conhecidos sejam regulados pelo nosso conhecimento”. Mas é um pouco mais do que isso: a compreensão dos medievais permite. Então. “não conseguindo avançar muito na explicação dos movimentos celestes sob a suposição de que toda a multidão de estrelas girava em torno do espectador. para dizê-lo no latim bárbaro da Escolástica Medieval: veritas est adequatio intellectus et rei (mal traduzindo.-*/-(0#&1. isto é. Parece do mais evidente bom senso: o conhecimento é bom. abandonar a Teoria Geocêntrica em favor da Heliocêntrica. nas tarefas da metafísica.)K!7-2?. é o projeto moderno. “a verdade é a adequação do intelecto às coisas”). Porque estranho mesmo. o que se quer conhecido. de proceder a uma nova Revo- lução Copernicana: Copérnico. mas desse modo malograram todos os esforços e a metafísica nunca pôde trilhar o cami- nho da ciência.

transcendentais. nas duas outras Críticas). como somos capazes de ver. em latim. estóicos. de nossa sensibi- lidade e de nosso entendimento humanos. 1142. No entanto. dado o caráter sistemático da obra. Além disso. e não o contrário. experimentos nem tão longos assim. em armênio. em !% !"#$%&'()#$)*+. prová-lo é outra história. Aliás. devemos saber que não conhecemos. pelo menos do pon- to de vista histórico: o que chamamos de Filosofia Medieval (ao contrário da Longa Idade Média dos historiadores) pode muito bem caber em apenas dois séculos. não há necessidade interna nem espaço teórico para expor geneticamente.$-. a Terra se move (e o Mundo também: o Prefácio à Segunda Edição da Crítica é de 1787.)K!2L!MN!K!::?!MO.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! em torno do Sol. sua influência permaneceu forte- mente confinada ao trabalho de eruditos escolares (no melhor sentido da palavra). pois estabeleceram uma hegemonia milenar. a 1347. inclusive aquela preconizada por Kant. digamos. sabemos.OP . si muove.'('*+")". as causas do fracasso da metafísica. não. No longo campeonato em que jogaram peripatéticos. Acreditamos nisso mas. epicuristas e céticos de diversos matizes. fosse em grego. como nós os designa- mos. Este período corresponde quase pontualmente ao da recepção latina de Aristóteles. do mesmo modo. ou melhor. Ora. a História da Filosofia Medieval é justamente o nosso laboratório dos longos experimentos metafísicos fracassados que exigem a Revolução Copernicana. mas ler mesmo que é bom. de dois anos antes da Revolução Francesa). escolas filosóficas. historicamen- te. para o que mais for necessário. Pois. de fato. a vitória coube. Mas. mas é nesse período que acontece o que foi determi- nante para caracterizar a produção filosófica de então como um mo- mento específico da História da Filosofia e como um embate metafí- sico de novo tipo. não leu muito. O número dos peripatéticos antigos é bastante reduzido em comparação com os defensores de outras. A Antiguidade sempre respeitou Aristóteles. o que é longa e determina- damente mostrado por Kant na Crítica da Razão Pura (e. pou- cas. Vitória das mais expressivas. de. nem podemos conhecer as coisas (em si). aos platônicos. aos neoplatônicos. mas tão só as coisas tais como se dão para nós: segundo as condições de possibilidade de conhecimento. data da morte de Pedro Abelardo. Não é que antes ou depois disso não se tenha feito Filosofia durante a Idade Média. a partir do Século III. data da morte de Guilherme de Ockham.

para os latinos.. Freiburg. 19822. segundo a lição de Cícero5. em siríaco. 4. 16-40..-(. Após os tempos de Boécio. declaradamente cético acadêmico. “Conhecimento e conhecimento de si. 2007.. pp. 37 anos mais novo do que ele. João de Salisbury. simultaneamente. não é surpreendente que a leitura de Aristó- teles induza ao ceticismo? É que o ceticismo em filosofia. probabilista. Boehner. para nos restringirmos a uma única referência.$-. nos quadros de nosso Acordo USP-Cofecub. a vontade pode afirmar que. Ch. É. o Cristianismo e o Islamismo. p. E criticar o neoplatonismo podia parecer uma crítica à religião. e será o primeiro medieval latino a fazer uma crítica frontal ao neoplatonismo4.1"#%(2-3#-/%&4 árabe. já pôde ler tudo o que Abelardo tinha que dar por “perdido”. isto é. “Jean de Salisbury.'('*+")"... o neoplatonismo por excelência dos latinos. em persa. e Gilson. no Século VI. em qualquer das línguas filosóficas de então. Vier. Acontece que Abelardo praticamente não leu. O platonismo tardo-antigo. não pôde ler.-*/-(0#&1. 5. Contri- buição das teorias do conhecimento na Antiguidade Tardia e na Idade Média a uma história do sujeito”. !"#$%&'()%*%(+. etc. Ora. tema dos seminários com que ele brindou os membros do CEPAME. convive facilmente com o fideísmo em religião (“como a razão não pode conhecer.7&2?!VPMM! !& . o Judaísmo. Aliás. Petrópolis: Vozes. 54. por seiscentos anos. Se Abelardo pode servir de marco para o início de um novo período é porque foi o primeiro – cuja obra chegou até nós – a pôr em xeque essa hegemonia e.)K!7-2?. Sobre o ceticismo de João de Salisbury. em hebraico. 332. a intensificar em gran- de escala o interesse pela leitura de Aristóteles. são contemporâneos e consubstanciais à ascensão e expansão do Mono- teísmo e suas três grandes ramificações. tudo o que conheceu foi o título). o de Agostinho de Hipona.. R.”). Aristóteles (da Metafísica. História da filosofia cristã. Ph. o Ocidente desaprendeu o seu grego e Aristóteles esteve virtualmente “perdido”. Mas João de Salisbury não se torna peripatético e sim cético. ver Grellard. A recepção começa com a tradução para o latim e seu início é tão veloz que um aluno de Abelardo. não há muito tempo. !"#$%&'()#$)*+. Trad. inclusive sendo de carteirinha. Un cas médiéval de scepticisme” In Freiburger Zeitschrift für Philosophie und The- ologie. O neoplatonismo de que Abelardo e João de Salisbury se distan- ciam é justamente. o médio-platonismo e o neoplatonismo.

medieval. E Abelardo. só admite a argumentação ra- cional e exclui qualquer concessão à autoridade (como já dizia Aris- tóteles paradigmaticamente: “sou amigo de Platão. Aqui tocamos um dos temas que torna mais difícil a compreensão da Filosofia Medieval enquanto Filosofia propriamente dita: todos os seus autores são religiosos. principalmente Agostinho. o recente A legi- timação da razão: linguagem e vontade na filosofia agostiniana. assim que possível. São Paulo: Discurso / Paulus. Augustine’s De trinitate and Aristotle’s De anima in John Duns Scotus’ doctrine of intellection” In Medioevo. 2012. cristão e. A própria expressão de uma ortodoxia cristã. junto com o novo livro de Lorenzo Mammì. por exemplo (magno). claro. Burnett. Filosofia e Religião são excludentes. A Religião. do Da Trindade. por sua vez. Antes de continuar é preciso lembrar que Agostinho. no prelo.. ele também. Então. Suttgart. o livro de Moacyr Novaes.'('*+")".)K!2L!MN!K!::?!MO. 20092. Confessio fidei ad Heloisam. no fim de sua carreira eclesiástica. 8. Agostinho e as artes: dos diálogos filosóficos às Confissões. Mas ele e diversos outros autores da Antiguidade Tardia são referências tão imediatas para os medievais que estes não são compreensíveis sem a leitura de Agostinho8. Mittellateinisches Jahrbuch. Leia-se. não é. 1986. já devem estar no prelo. se apressa a dizer que nunca pretendeu trocar São Paulo por Aristóteles (literal e enfaticamente: Nolo. Ora. elabora a questão de maneira extraordinariamente bem-sucedida.”). do De magistro. 147-155. como ser simultaneamente filósofo e religioso? Agostinho. o autor das Confissões. bispo de Chartres. A razão em exercício: estudos sobre a filosofia de Agostinho7. quando atacado. Veja.OP . E. 7. 38. ou de 6. da Doutrina Cristã.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! isto é. por definição. Ed. 31. pp. mas mais amigo da verdade. Padova. metodologicamente excludentes: a Filosofia. assim como João de Salisbury nunca pretendeu deixar de ser. deve prescindir da razão e afirmar a autoridade (do “Livro” e/ou da hierarquia religiosa): o dogma expres- sa a revelação de um mistério inapreensível racionalmente e afirmado pela fé. o artigo de Gustavo Paiva sobre como não se entende o Aristóteles de Duns Escoto sem Agostinho: “One single yet ma- nifold soul. bispo católico romano de Hipona. nolo sic esse philosophus ut recalcitrem Paulo. nolo sic esse Aristoteles ut secludar a Christo6).$-. um autor do Século IV. que. Ch. da Cidade de Deus. a título de exemplo.. !' !"#$%&'()#$)*+.

1"#%(2-3#-/%&4 Boécio. ou do Pseudo-Dionísio. mas porque nada é pior. 1997. entre outros. O tribuno retornou: ‘a mim me custou bom di- nheiro comprar a cidadania’. Essa leitura. Aliás. 22. está muito longe de ser origi- nal. este número inteiro da revista é dedicado à Agostinho e sua recepção medieval. Citemos um único exemplo. Introduction aux Pensées de Marc Aurè- le. !"#$%&'()%*%(+. Imediatamente se afastaram dele os que iam torturá-lo”. já de si suficientemente indigno. para o Monoteísmo). neste caso. sabemos (e o mesmo vale. não passa de platonismo para a plebe. perguntou a Paulo: ‘Tu és cidadão romano?’ ‘Sim’.7&2?!VPMM! !( . todos são religiosos e da mesma religião (embora não do mesmo modo). como ensina Nietzsche. para Niet- zsche. e. particularmente interessante: Colish. o que seduz é justamente a possibilidade de pôr a filosofia ao alcance de todos9.)K!7-2?. !"#$%&'()#$)*+. orde- nando também que o interrogassem sob açoites a fim de averiguar o motivo porque gritavam tanto contra ele. ainda mais sem ter sido conde- nado?’ A estas palavras. Ambrose’s Patriarchs: Ethics for the common man. do que o plebeu. 24-29. para tais autores da Antiguidade Tardia e da Idade Média – Ambrósio de Milão ou Jerônimo. Paulo observou ao centurião presente: ‘Ser-vos-á licito açoitar um cidadão romano. Tomás de Aquino ou Ockham –. ‘a tenho de nas- cença’. tão aristocraticamente exigente. seja com a Filosofia posta a serviço da Teologia (como quer Tomás de Aquino). respondeu Paulo. seja com a Filosofia completada e realizada pela Religião (como quer Agostinho). Notre Dame: UP. embora fuja à percepção comum. para ilustrar o que é mesmo que significa aqui o “para todos”: “O tribuno romano mandou então recolher Paulo à fortaleza. Um pouquinho de História. O exato contrário da ética estóica. História Sagrada. A desclassificação não é simplesmente por ser platonismo. em geral. Ora.-*/-(0#&1. o centurião foi ter com o tribuno para preveni-lo: ‘Que vais fazer? Este homem é cidadão romano!’ Vindo então o tribuno. tal como descrita por Pierre Hadot em La citadelle intérieure..$-. por que são religiosos? Mais ainda: por que praticamente todos (a ressalva é quase só retórica) – incluindo os que não são mo- noteístas. como Plotino e Porfírio – são religiosos? O Cristianismo. Atos dos Apóstolos. M. 9.-(. L. Paris: Fayard. Depois de o amarrarem com as correias. disse Paulo. Além do que. ‘Pois eu’. 2005. No entanto.'('*+")".

e tua sabedoria é inumerável’.$-. com sucesso tão intenso que a nós parece “natural” que ninguém possa ser privado de cidadania.'('*+")". boas razões filosóficas (dei apenas um exemplo. e conhecer-te. Ora. isso.. etc. saber e compreender se invocar-te é ante- rior ao louvar-te.OP . Conceda-me. vejamos como começa o livro: “‘Tu és grande. de um modo ou de outro. a Constitutio Antoniniana do im- perador Caracala. sempre com grande efeito cênico. não seria melhor que começasse por 10. o leitor nem sequer acredita em Deus. em prol da qual argu- mentaram abundantemente. do ano de 212. carre- ga em voltas a prova de seu pecado e a prova de que tu resistes aos soberbos. Mas quem poderia te invocar. em defesa deles. etc. Senhor. tornando o que era privilégio (a gosto dos aristocratas) um direito universal (como preferem os plebeus).)K!2L!MN!K!::?!MO. mas expressamente por “mendicantes”. anterior ao invocar-te. ainda em elaboração. também. menos de 200 anos depois. até repousar em ti. pois. estendeu a cidadania a todos os ha- bitantes do Império Romano. dificulta nossa vida de leitores modernos.Grande é teu poder.. pedaço qualquer de tua criação. Se pretendemos que Agostinho seja filósofo.. sem dúvida.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! Não foi a única vez que São Paulo deu esta carteirada. Vejamos: “Tu és grande. E vê-se bem a extensão dos privilégios do cidadão romano de então. Pois é este o caldo de cultura em que vicejou o Monoteísmo. Mas. defensores intransigentes e argutos da pobreza.. Quer te louvar o homem. São coisas assim que fazem Nietzsche chorar. que parece suficientemente significativo) para defender que a Filosofia. Senhor. E etc. e muito digno de louvor. porque o fizeste a caminho de ti e nosso coração é inquieto. este pedaço qualquer de tua criação. Uso a nova tradução de Lorenzo Mammì. tenha que se haver com a Religião. malgrado a natural antipatia entre elas. no entanto. Há. se não te conhece? . Agora. )* !"#$%&'()#$)*+.. Essa lenga-lenga piedosa se arrasta por meia dúzia de páginas.. para que goste de te louvar. o homem quer te louvar. Tu o incitas. Senhor”. Conhecemos bons professores de filosofia que confessam nunca ter conseguido ler as Confissões.”10. e carrega em voltas sua mortalidade. Allah arkbar! “Deus é grande”? Ora. Assim como o mais influente da Filosofia Medieval não foi feito por scholars simplemente religiosos.

N.. embora não provado (o que seria impossível). já agora sem louvação nenhuma. mas só mais lá adiante. 40. na Crítica da Razão Prática. 12.). As indicações de uma inédita revisão das relações entre razão e linguagem (“compreender se invocar-te é anterior ao louvar-te. São Paulo: Paulus. Iluminação trinitária em santo Agostinho. ao contrário.1"#%(2-3#-/%&4 provar que Deus existe? “O homem.. lá pela Terceira Meditação.'('*+")". pedaço qualquer de tua criação”? Mas. A.. anterior ao invocar-te”).. 2010.. !"#$%&'()%*%(+. Apenas para exemplificar: “nenhum leitor das Confissões negará que há sim em Agostinho um manejo inédito da noção de voluntas”. garantido que a religião esteja bem circunscrita aos limites da simples razão. “Sobre o conceito de voluntas em Agostinho”. Aristóteles. 93. C. !"#$%&'()#$)*+. como aliás. p. quem diria. Ayoub. naqueles indigestos primeiros parágrafos que mais parecem uma litania sem muito sentido (e sem qualquer re- levância filosófica)? Dê-se o tempo necessário à leitura de Agostinho12. Discurso. e um pesado ataque ao materialismo estoico. Tudo conversa fiada. uma primeria e complexa teoria da vontade11 (sem a qual difi- cilmente se pode pensar em. e conhecer-te. 2010. não podendo ter sido criado: por que o Agostinho filósofo não discute isso? Além disso. justo Nietzsche. que o mundo seja criado não passa de um dogma religioso inde- monstrável. prova que o mundo deve ser eterno. justamente tematizando a noção de “grandeza”.-(. mas segundo a ordem das razões.)K!7-2?. Mas isso tudo já está aí. o exige qualquer filósofo. e. com a “louvação” simplemente su- gerida como um interregno extrafilosófico. que Deus seja apenas pressuposto. às voltas com o “pecado”? Francamente. São Paulo. é pena que o professor não tenha se dado ao traba- lho de continuar até perceber como vão se construído desde estas páginas iniciais das Confissões uma vigorosa crítica (de inspiração ex- pressamente plotiniana) da concepção aristotélica acerca das catego- rias. com direito a retorno e re- forço do tema mais para frente.$-. No entanto. por certo. Não é o que faz Cristiane Ayoub ao mostrar como a boa compreensão de um único parágrafo de Agostinho pode exigir um livro inteiro? Cf. como diz Isabelle Koch em seu texto apresentado no IV Colóquio do GT História da Filosofia Medieval e a recepção da Filosofia Antiga. em que Deus pode até ser provado. Não é de estranhar que nosso professor tenha fechado as Confissões e voltado ao discurso claro e distinto dos modernos. que se verá que não foi nem por 11. Ou.7&2?!VPMM! )! .-*/-(0#&1.

justamente aquela que mais intensamente se empenhou na possibili- dade do desenvolvimento de uma ciência de inspiração neoplatônica )) !"#$%&'()#$)*+. Não por acaso. submetido a um cânon retórico que já não é o nosso.OP . em primeiro lugar. Diga-se de passagem. eliminava qualquer possibilidade de ciência. como certos seminários recentes do CEPAME não nos deixam esquecer. para os letrados. mesmo que. Aristóteles é extraordinariamente sedutor por. mas politicamente suicida. só não comentou. islâmico de religião.. incomoda.$-. e propôs a diferenciação entre Filosofia. Quando. da geração imeditamente posterior a de Abelardo. expressamente. veio a ser o filósofo mais lido da História.. recuou imeditamente para uma posição cética. este africano pardo de língua latina. Agostinho pelo menos escreve bem. na forma de intermináveis cadeias silogísticas. mas em defesa da Ética (com maiúscula. o espanhol de língua árabe Averróis de Córdoba. Voltemos aonde estávamos quando começamos a falar do caráter religioso dos filósofos medievais. que a religiosidade desses filósofos tardo-antigos e me- dievais nos incomoda.)K!2L!MN!K!::?!MO. fornecer um paradigma científico inegavelmente superior ao do neo- platonismo. porque nem mesmo leu. para os incultos. às vezes. Repetindo: o primeiro intelectual latino medieval a ler o novo Aristóteles que chegava da Espanha (nota benne: da Espanha). a linguagem angé- lica. e Religião. O Comentador por excelência de Aristóteles. na prática. o amálga filosófico-reli- gioso de então. abrangendo universos tão distantes quanto o do cristão romano Agostinho (do Século IV) e o do mulçumano persa Avicena (do Século XI). João de Sa- lisbury é considerado o último dos mestres da Escola de Chartres. enquanto as infindáveis páginas dos escolásticos. pôr à prova a paciência de qualquer um.'('*+")". a Política de Aristóteles. não em nome da Religião. o faz. Tomás de Aquino ataca violentamente o que chama de “averroísmo”.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! acaso nem apenas por razões religiosas que Agostinho. mais tarde. que. a de Aristóteles) e da Política. Filosoficamente consequente. podem. digamos. em particular de ciência natural. Agora. João de Salisbury. sobre. Não era para menos: o primeiro aristotélico medieval (para usar a datação Ociden- tal). Ca- rência fatal. de fato. percebeu claramente o quanto a perspectiva aristotélica se afastava do neopla- tonismo em que se pensava o monoteismo. Averróis.

com um arsenal crítico dos mais nutridos. entre especialistas..-*/-(0#&1. inclusive do próprio aristotelismo. está até traduzido: John Duns Scotus.$-. portanto. ambiente pro- pício para os peripatéticos. Paris: Les Belles Lettres. !"#$%&'()%*%(+. éds. E mais. Note-se: quase se impôs completamente. apesar da excelência de seus filósofos). Paris: Les Belles Lettres. claro14). pelo menos a parte aparentemente narrativa. Questions on the Metaphysics of Aristotle. Censure et liberté intelectuelle à l’université de Paris (XIIIe-XIVe siècles). portanto. da metafísica em geral. E a tradicional coletânea de artigos organizada por Wilks. O custo tanto do confronto com os neoplatônicos (cuja filosofia nasce de uma reação platônica ao aristotelismo. J.. Wolter. certamente só um profissional é capaz de ler as mil páginas das Questões Sutilíssimas sobre a Metafísica. 2 vols. 14. B. 1997.-(. de João Duns Escoto15. Enfim. Em especial quando Alberto Magno e seu grande aluno. que conheceu do próprio mestre. na Universidade. como diz o título tradicional.'('*+")". [1984] 1997. 15.. G. The World of John of Salisbury. a obra de Aristóteles se constrói em confronto com o platonismo de primeira água. pelo papel determi- nante da Ética e da Política. já armado contra ele) quanto da “conversão do Cris- tianismo” a uma acepção peripatética (portanto. L’École de Chartres. porque a disputa não teve espaço para refugiar-se apenas 13. Pena que ainda falte uma digressão: o embate se deu na Escola. Transl. et Picard- -Parra. lograram redefinir a compreensão intelectual do Cristianismo em chave antes aristotelizante (não exatamente aristo- télica) do que neoplatônica (façanha não relizada nas duas outras grandes seitas monoteístas. New York: The Franciscan Institute. ed. !"#$%&'()#$)*+.7&2?!VPMM! )" . Para quem quiser se aventurar. M. Vejam-se. por exemplo. Oxford: Blackwell. 2005.1"#%(2-3#-/%&4 antes da recepção de Aristóteles13. O recurso à autoridade exigido pela religião cobra seu preço: sobre a inten- sidade e virulência do controle exercido sobre os intelectuais medievais. Etzkorn and A.)K!7-2?. Enquanto qualquer um (exceto alguns professores de filosofia) é capaz de ler as Confissões. estamos voltando ao nosso tema. consulte-se o brilhante livro de Luca Bianchi.. C. O que não é sem con- sequências. ou melhor. com pretensões de ciência) exigiu uma revisão geral. Théologie et cosmologie au XIIème siècle. Isto é. a hegemonia aristotélica se impõe quase comple- tamente. M. os textos compilados em Lemoine. Malgrado as resistências (e as muitas proibições da censura eclesiástica. Em segundo lugar. 1999.. Tomás de Aquino.

no caso de Tomás de Aquino. até as últimas conse- quências. )# !"#$%&'()#$)*+. É verdade que o Cristianismo é platonismo para a plebe. o aristotelismo perde terreno justamente para o ce- ticismo.).. Intr. de evidenciá-las) quanto. principalmente.. em particular. tinha razão. embora muito mais cuidadosamente do que na proposta de Averróis. recusando pela base o pro- grama de Alberto Magno e Tomás. Gradativamente. tendo como pano de fundo a relação com a Religião. aliás. No caso de Guilherme de Ockham. um ceticismo ainda não assumido. nenhuma metafísica podia apresentar-se como ciência. afinal. São Paulo: Martins Fontes. Averróis. mas com a contrapartida de. acerca da concepção de metafísica. por seu fervor religioso. diz ele. em particular. Resumindo. Não por acaso.$-.) e. de Libera. afrouxar as amarras metafísicas tradicionais da física. o próprio mote da Modernidade. com o seu mote de ciência para os homens de razão (rationabilis) e a religião para os homens apenas racionais (rationales)16. O que traz a vantagem de desonerar ainda mais intensamente a física do lastro metafísico tradicional (“não.. Discurso decisivo. Separação que deu em Teologia. li- berar tanto a metafísica de teias ontoteológicas (ou. 2005 (texto que. como o de Nicolau de Autrécourt (“nunca terá 16.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! no terreiro religioso (como aconteceu. que se define justamente pela autonomia das esferas.. A. Fasl al-maqal. a Física não é a ciência das coisas naturais”. estamos falando em separação. os lati- nos não conheceram). Cf. pois foi aquilo no que melhor investiu sua vasta capacidade filosófica. que. desnaturalizar a ética e a política.. Ao fim. O que se fez foi separar Filosofia e Religião. Foi obra de gerações de especialistas escolásticos que. em particular. De início. tema e termo aristotélicos que foi cap- turado pela Religião.)K!2L!MN!K!::?!MO. o embate entre a recepção medieval de Aristóteles e a tradição neoplatônica se deu nos quadros profissionais da Escola. Hanania. A. o que é o mesmo. terminou em separação entre Razão e Fé.'('*+")". Ao custo tanto do irracionalismo da fé (que tanto tem nos cus- tado até hoje) quanto da realidade da ciência (parece que Kant come- ça a assomar no horizonte. como nos albores de sua recepção. R. e não houve jeito de inventar um “aristotelismo popular”. no caso da tra- dição mulçumana). Tr.OP . disputaram com enorme volume de argumentos. de certo modo.

o de João Duns Escoto e o de Guilherme de Ockham. Courtine. nas quais qualquer leitor de Descartes se embaraça desde a primeira leitu- ra. este mote moderno desconhecido pelos escolásticos)18. nas suas. tal como pensada até então.7&2?!VPMM! )$ . apontando como a metafísica. contemporâneo um pouco mais moço do renascentista Montaigne. como a mi- nuciosa revisão dos “Três Caminhos”. não se mostrou redutível a sistema. entendemos que a dúvida com que se iniciam as Meditações é tudo menos retórica: entendemos a necessidade (enfatizemos “necessidade”) de cada um dos argumentos contra o conhecimento advindo dos sentidos (todos fartamente tematizados pela Escolástica19).-(. Mais tarde.-F. J. Cf. com o ceticismo da Douta Ignorância.)K!7-2?. não mais Disputas. dá início aos seis grossos volumes de suas Disputas Metafísicas. mas. Nicholas of Autrecourt: His Correspondence with Master Giles and Bernard of Arezzo.-*/-(0#&1. O método era outro. começo canônico dos nossos cursos de Filosofia. então com enorme sucesso. restou que outro filósofo. Suarez et le système de la métaphysique. depois de acompanhar o longo e trabalhoso processo filosófico que se inicia com a recepção de Aristóteles. este francês. 1994.1"#%(2-3#-/%&4 passado pela boca de Aristóteles uma proposição verdadeira”) e de Bernardo de Arezzo (ambos ainda da geração de Ockham)17. principalmente. 1990. nas objeções (recorrendo à autoridade de Agostinho). Cf. o de Tomás de Aquino. 19.$-. diz. Ed. “Se o conhecimento intelectivo é recebido das coisas sensíveis”. O que é mesmo que quer dizer “realidade objetiva”? Agora. as críticas às categorias 17. “sistema”. lá estão as referências genéricas “aos escolásticos”. Mas. L. Note-se que o rápido “in- terregno” cético do Renascimento dura quase tanto quanto o período de 200 anos de floração da Escolástica medieval. M. simplemente carece de sistema (literalmente.. agora não mais apenas contra a ciência. !"#$%&'()%*%(+. Paris: PUF.'('*+")". e sua contraposição à tradição neoplatônica. mas Meditações Metafísicas. em meados do Século XII. que “de tudo o que senti- !"#$%&'()#$)*+. O primeiro moderno a fazer o balanço geral do resultado. e pela ordem das razões. 18. que ensanguentam a Europa por 30 anos). propusesse começar tudo de novo. no auge das Guerras de Religião. Para culminar nos Ensaios de Michel de Montaig- ne. Então. o espanhol Francisco Suárez. as Meditações Metafísicas. Leiden: Brill. quando nos pomos a ler pela primeira vez. contra o fideísmo (não por acaso. de Rijk. de Nicolau de Cusa. Um único e notório exemplo: o artigo 6 da questão 84 da Primeira Parte da Suma de Teologia.

M.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! escolásticas (fartamente levantadas por eles mesmos. só pode ser assim. Trad. como no sono e na demência. 2009. uma nova Física. Cf. Isto é. Koyré. Rio de Janeiro: Forense / UnB. 1993. Estudos de história do pensamento científico. São Paulo. pp. é claro.'('*+")". Sim. não somos capazes de distinguir pelos sentidos se sentimos os próprios sensíveis ou suas imagens falsas. ora. a nossa. Estudos acerca da recepção medieval dos Segundo Analíticos. causa naturalmente no intelecto. A passagem citada por Tomás está na nona das 83 Questões. embora não provável. do Cogito etc. além. que se tenha intuição mos pelo corpo. 2001. Já para uma abordagem correta. mesmo quando não estão presentes os sentidos. Como os termos supõem. afinal. Portanto. A. uns contra os outros). inicialmente publicada nos Cader- nos de Trabalho do CEPAME. 14-27. do método. ele não foi inventado por Descartes). )% !"#$%&'()#$)*+. pp. Claro. Rio de Janeiro: Forense. publicado nos anais do V Colóquio do GT História da Filosofia Medieval. II(2). por Alfredo Storck. o termo mental que é seu efeito. de Agostinho. Garschagen. e que ela tem de colocar-se à frente. 21. senão. a Física não é a ciência das coisas naturais. Cito de acordo com a tradução de Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento. In Aristotelis Analytica posteriora. incorreremos em todas as aporias tão minuciosamente disputadas pelos medievais. D. substituem. etc.OP . mas é possível. a Física Moderna.. em primeiro lugar. “Ockham e a teoria aristotélica da ciência”. é a ciência das proposições cujos termos supõem pelas coisas naturais”.$-. Mais a necessidade de uma nova Física. na mente as coisas naturais? É que a intuição – mas que conceito é este para um aristotélico? – das coisas faz nascer. a necessidade da figura do Deus Enganador (não.. 177-206. porque. M. fazendo pastiche de uma discussão “ockhamiana”21: “não. veja-se o texto de Carlos Eduardo de Oli- veira. e forçar a natureza a responder às suas perguntas em vez de apenas deixar-se conduzir por ela” (B XIII). diz Kant. cuja fundamentação. Porto Alegre: Linus. mas nada pode ser estabelecido se não for distinguido do falso” etc. 20.)K!2L!MN!K!::?!MO. ainda no Segundo Prefácio: a Física que compreende “que a razão só entende aquilo que ela mes- ma produz segundo seu projeto. Exemplifiquemos. Da crise simultânea da Metafísica e da Física antigas (velha e boa tese de Alexandre Koyré20) nasce. recebemos suas imagens. conclui-se que “a verdade não deve ser esperada dos sentidos”: Et sic concludit quod non est expectanda veritas a sensibus. Id. 1982. é a verdadeira preten- são de Descartes e a sua novidade. Do mundo fechado ao universo infinito. com os princípios de seus juízos segundo leis constantes. etc. Ramalho. Trad.

Fernández. diziam os chamados mertonianos. Introdução de F. não é uma lógica. a nossa. de meados do Século XII ao fim do Século XIV. pois. então não é impossível que o termo mental não seja causado por uma coisa existente. 113-135. de outro lado.. o artigo de Carolina J. cujo resultado.. S. tarefa do fí- sico23. no prelo. Lohr. etc. Cheneval e R.-(. Prólogos dos Comentários de obras de Aristóteles. nossas bibliotecas têm os comentários da Física de Aris- tóteles de 17 autores diferentes (podemos contar). São Paulo: Discurso / Paulus. Etc. enfim está para ser publicado: Tomás de Aquino. New York. portanto. !"#$%&'()#$)*+. !"#$%&'()%*%(+.. não é. então qual o fundamento de tal física tão distante das coisas? Ela não o tem e o termo “fundamento” não faz parte do léxico filosófico (sic). Pois foi neste embate que se reduziu a Física antiga (e medieval) às suas aporias intransponíveis (causa da percepção de Copérnico de que era necessário renunciar ao geocentrismo). salvo melhor juízo. 2010. e deve ser fasci- nante compará-los.7&2?!VPMM! )& . uma hipótese sustentada pela coerência interna entre pressupostos e conclusões? Não. Quanto a nós. 24. Caroti. Ou então. Imbach. digamos. um número bem pequeno em relação à totalidade dos comentários remanescentes (houve quem tenha contado.. Ademais.1"#%(2-3#-/%&4 de coisa não existente. La nouvelle physique du XIVe siècle. só para a tradução dos prólogos (apenas dos prólogos) dos comentários filosóficos de Tomás de Aquino. como Charles Lohr24).'('*+")".. Traditio. ninguém o fez25. etc.. Apresentação de Carlos E. de Oliveira. Ch. 1967-1974 (a mera descrição dos títulos. éds. et Souffrin. fizemos um número intermi- nável de seminários. se estende por quase 600 páginas).)K!7-2?. não temos critério de distinção. 1997. H.. o melhor é calcular proporções. embora tão trabalhoso que.. 23. Mas Aristóteles não proíbe misturar os gêneros? Ora. Sim. P. coletiva. pp. 25. até hoje.$-. Curitiba / São Carlos. “Medieval latin Aristotle commentaries”.. boa parte dos quais inéditos. uma relação real22. a relação de causa e efeito não pode ser. mas.. doispontos. uma extraordinária proeza que só vicejou nesta tradição. Tarefa puramente negativa? Não.. o objeto formal da matemática é distinto do da física. De Averróis para frente. Então é uma lógica. Firenze: Olschki. a da Filosofia: sem a Física antiga e sua 22. nos anais do VI Colóquio do GT História da Filosofia Medieval: “Contingência e necessidade na causalidade ex- terna segundo Ockham: argumentos para revisar a interpretação dominante”. Trad. 7(1).-*/-(0#&1. E não. porque sobrou a ideia de ciência e de ciência da natureza. Cf.

Mittellateinisches Jahrbuch. tomar a Filosofia Medieval principalmen- te como parte das condições de possibilidade da Modernidade. para ser levada a sério. sim. quando. Tr. estão tão mortas quanto a própria Antiguidade ou a Idade Média. Ou seja. tanto quanto nós. como. de Tomás de Aquino. perenidade da Filosofia contra sua historicidade. de Duns Esco- to. cada uma de suas afirmações. 31. na nossa mesma insuperável arena. segun- do a relojoaria dos sistemas (ou das ordens arquitetônicas). ao invés de “Filosofia Medieval”. R. que no CEPAME temos usado nosso tempo há já vinte anos? Referências bibliográficas: ABELARDO. Ed. de Libera. de Henrique de Gand. Razão pela qual o trabalho de fato come- ça na sequência. a consistência das articulações. afinal. por exemplo. dogmático e oco. algu- ma. pela análise dos textos. mas integran- do-a à gênese da Modernidade. na verdade.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! crítica medieval não haveria nenhuma Física Moderna. como é mesmo que se pode sustentar a remissão à História etc. mais uma vez. é. Com certeza faz pensar que. Fasl al-maqal. AVERRÓIS. Hanania. É verdade.. Nem Crítica da Razão. ainda que o resultado tenha inegável interesse filosófico. é tarefa coletiva e de- manda o tempo necessário. Nem Metafí- sica nem crítica da Metafísica. por- tanto. Ora. mas esta é apenas uma celebratória exposição inau- gural. não parece ir além do campo das críticas conservadoras da Modernidade. “Confessio fidei ad Heloisam”. de Averróis. São Paulo: Martins Fontes.$-. Doutro ponto de vista. A. Burnett. a do nosso tempo histórico. etc. Não é por acaso que haja quem prefira falar em “Filosofia na Idade Média”.'('*+")". de Anselmo. nos voltamos para o texto mesmo de Agostinho (de Boécio. desqualificá-la. Claro que é possível atualizar a obra de seus autores.)K!2L!MN!K!::?!MO. A. Nada mais incorreto. Ch. Suttgart. Intr. A tarefa de conduzir corretamente o trabalho filosófico. Não é assim. Esta exposição é um sobrevoo. cada passagem. de Ockham). distinguindo-a categorialmente da Modernidade.OP . Hannah Arendt faz com Agostinho (mesmo sendo de origem judia e não-reli- giosa) ou como Alasdair MacIntyre faz com Aristóteles (quer dizer. assim como a Filosofia Antiga. pretendendo preservar uma certa. de Abelardo. 2005 )' !"#$%&'()#$)*+. 1986. etc. com Tomás de Aquino). A Filosofia Medieval. estão. deveria mostrar. ao micros- cópio e não ao telescópio como foi feito aqui. Discurso decisivo.

São Paulo: Discurso / Paulus. 1997.. Firenze: Olschki. 1999).-*/-(0#&1.-(. “Ockham e a teoria aristotélica da ciência”. New York. BOEHNER. COLISH. Crítica da Razão Pura. M. Leiden: Brill. L’École de Chartres. Freiburger Zeitschrift für Philosophie und Theologie. Petrópolis: Vozes. C. LEMOINE. Paris: Seuil. História da filosofia cristã.. 40. Iluminação trinitária em santo Agostinho. NOVAES. Rio de Janeiro: Forense. 1999. M.. P. Ambrose’s Patriarchs: Ethics for the common man. A. !"#$%&'()%*%(+. !"#$%&'()#$)*+. M. A. Introduction aux Pensées de Marc Aurèle. 1990. Ch.. “Jean de Salisbury. LOHR. ______... N. L. L.. KANT.. É. Trad. Paris: Les Belles Lettres. São Paulo: Editora 34. Discurso. Do mundo fechado ao universo infinito. I. M. 2010. e GILSON. A. A razão em exercício: estudos sobre a filosofia de Agostinho. “Contingência e necessidade na causalidade exter- na segundo Ockham: argumentos para revisar a interpretação do- minante”. In STORCK. 113-135. 2012. São Paulo: Paulus. Ch. Vier. 2005.. “Medieval latin Aristotle commentaries”. J. F. Trad. M. M. P. La citadelle intérieure. Porto Alegre: Linus. et PICARD-PARRA.. éds. R. Trad. Notre Dame: UP. de Rijk. Neves. Petrópolis: Vozes. GRELLARD.. (org. C. C. Estudos de história do pensamento científico. 1991 (Pensar na Idade Média. Ramalho.7&2?!VPMM! )( . pp.$-. 2010. Ed. éds. P. H. D. Suarez et le système de la métaphysique.)K!7-2?. COURTINE.).-F. 1982.. BIANCHI. A.. doispontos. 2005. Paris: PUF. Ph. 2001. 1967-1974. Théologie et cosmologie au XIIème siècle. et SOUFFRIN. 1997. I.. C. 7(1). Curitiba / São Carlos. Estudos acerca da recepção medie- val dos Segundo Analíticos. KOYRÉ. “Sobre o conceito de voluntas em Agostinho”. Un cas médiéval de scepticisme”. NICOLAU DE AUTRECOURT. OLIVEIRA. CAROTI. Paris: Les Belles Lettres. 2007 HADOT. Mattos. L. 54. La nouvelle physique du XIVe siècle. Censure et liberté intelectuelle à l’université de Paris (XIIIe-XIVe siècles). Trad. DE LIBERA. São Paulo. In Aristotelis Analytica posteriora. 2009. Nicholas of Autrecourt: His Correspondence with Master Giles and Bernard of Arezzo. KOCH.1"#%(2-3#-/%&4 AYOUB. Garschagen. FERNÁNDEZ. Rio de Janeiro: Forense / UnB. 1994. S. Penser au Moyen Âge... Traditio. Paris: Fayard.'('*+")". 1982. Trad. J. 2009. Freiburg. 2010.

J. q. D. Imbach. II(2). Apresentação de Carlos E. Padova. SCOTUS. ed.. C. La Pensée au Moyen Âge.OP . M. Paris. A. The World of John of Salisbury. TOMÁS DE AQUINO. "* !"#$%&'()#$)*+. pp. Ed. 1997. “One single yet manifold soul. TOMÁS DE AQUINO. São Paulo. Augustine’s De trinitate and Aristotle’s De anima in John Duns Scotus’ doctrine of intellection”. Trad. B. J. no prelo.$-. R. P. Questions on the Metaphysics of Aristotle. São Paulo: Discurso. Nascimento.. G.'('*+")". VIGNAUX. ______. Cheneval e R. 84”. New York: The Franciscan Institute. Cadernos de Trabalho do CEPAME. La philosophie au Moyen Âge. Introdução de F. Wolter. 2012. Prólogos dos Comentários de obras de Aristóteles. In: Medioevo. Précédé d’une Introduction autobiogra- phique. Etzkorn and A. de Oliveira. Ia. V.Q($R!S-3+($!T$%U/9(! PAIVA. coletiva.. Armand Collin. “Suma de Teologia. Imbach. Transl. [1984] 1997.)K!2L!MN!K!::?!MO. 1993. par R. Trad. Oxford: Blackwell. WILKS. G. 2004. et suivi de Histoire de la pensée médiévale et problèmes contemporains. 14-27. 38.. Paris: Vrin. 2 vols. 1938.