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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

BACHARELADO INTERDISCIPLINAR EM HUMANIDADES

GUSTAVO PIMENTEL NASCIMENTO

UMA ANÁLISE DA IMPRENSA GAY NO BRASIL

SALVADOR
2018

os grupos militantes brasileiros começaram a incorporar ideias dos movimentos da contracultura que estavam sendo disseminadas ao redor do mundo. No seu início. criado em 1963. p. assim como a alternativa em geral. No Brasil. 2013. em 1969. única. Jornalistas foram presos. "As primeiras publicações no país voltadas especificamente para homossexuais eram feitas de maneira artesanal. uma linguagem considerada própria e caracterizada como sarcástica e irônica. 45). O termo “subversivo”. corresponde a “que ou quem pretende perturbar ou alterar a ordem estabelecida. Com o endurecimento do regime militar. Assim. Nessa época. em uma de suas edições exibiu uma charge junto a um poema intitulado Fresca Theoria em que satirizavam homens que se reuniam na Praça Tiradentes em busca de relações sexuais no local. foi publicado também o conto homoerótico O Menino de Gouveia. p 20). A revista humorística O Malho. “grupos minoritários tendem a usar uma linguagem cifrada. 3-4) Na década de 1950. militante nem informativo. Um dos . Ele foi extinto.O surgimento da imprensa gay no Brasil Murilo Nonato mostra em seu artigo (2013). ele continha fofocas. p 18). época em que sofreu a censura do Regime Militar. adotando uma identidade textual diferenciada. Dessa forma. como frisa Péret (2011). Desse modo. apud. posteriormente ele passou a trazer reflexões no âmbito do movimento LGBT. De acordo com Péret (2011. os primeiros grupos LGBT brasileiros surgiram essencialmente por causa da grande necessidade de sociabilização que essa parcela da população possuía. A imprensa LGBT. entrevistas com travestis famosos e concursos de contos e poesias. NONATO. era considerada subversiva pelo regime militar. mimeografadas e distribuídas ou trocadas entre pessoas das diferentes turmas" O primeiro jornal LGBT foi o carioca Snob. Eles eram artesanais. e grupos paramilitares explodiram bombas caseiras em bancas que vendiam publicações consideradas subversivas" (PÉRET. começaram a surgir os jornais alternativos.. esses grupos não tinham um caráter político. Assim. (VELOSO e SANTOS. ele acabou sendo parâmetro para outros periódicos que surgiram na mesma década como o Little Darling e o Fatos e Fofocas. com tiragem limitada e. por Agildo Guimarães. De acordo com Péret (2011. posteriormente os jornais gays iriam ser criados como meios de comunicação alternativos que pudessem engajar esses grupos. pode-se entender que esses jornais utilizavam uma linguagem própria e específica desse grupo. que o surgimento do homossexual representado pela imprensa é anterior ao aparecimento de uma imprensa voltada para esse público. houve a primeira publicação abertamente homossexual no país. edições recolhidas. As primeiras aparições da figura gay na imprensa brasileira já em 1904. em definição encontrada no dicionário eletrônico de Língua Portuguesa Priberam. pela revista Rio Nu. a mídia LGBT começou na década de 1960. Entre as décadas de 1960 e 1970. 2011. uma vez que os jornais de grande circulação não davam espaço para essa pauta. por exemplo. era comum os autores usarem pseudônimos por questões de segurança. Por ter sido o primeiro. portanto. em alguns casos. Segundo Péret (2011. torturados e assassinados. revolucionário” "A imprensa alternativa foi alvo sistemático de perseguição e controle. muitos jornais dessa categoria deixavam de existir pouco tempo depois de terem sido criados. p 19). pode-se ter uma noção da tamanha repressão que a imprensa alternativa sofria no ditadura. tanto para se autoidentificar como para dificultar o entendimento por indivíduos que não participam da mesma cultura". Em 1914. pp. Cartunistas desenhavam homens femininos de forma caricata na tentativa de produzir humor.

que visa. sendo isso muito frequente em programas humorísticos. alguns homossexuais que se encaixam em um determinado perfil são privigeliados. da censura e da demanda reprimida por pornografia. que também abrangia questões dos direitos de outros movimentos sociais. especialmente voltado ao público homossexual masculino. Segundo Péret (2011). é preconceituosa. que eram vendidas de forma clandestina. p. que protestaram contra a opressão e intolerância contra os homossexuais na cidade. aproveitando a onda da redemocratização e do fim da censura prévia”. A partir de então. sobretudo jovens. lançados nos anos 2000. o primeiro jornal gay de circulação nacional. que ganhou fama por expor homens famosos pelados. surge o Lampião da Esquina. em 1978. No entanto. 109) Outro aspecto atual dessa mídia é o erotismo. os programas de televisão. másculo. perfil este que é: homem. também possui longo histórico de utilização da imagem do homossexual para reforçar estereótipos e estimular o machismo e a discriminação contra gays. com alto poder aquisitivo e discreto. a mídia brasileira tende a representar pessoas LGBTs de uma forma extremamente preconceituosa e sensacionalista. (Perét. Outra revista que ficou muito conhecida foi a G Magazine. lésbicas e travestis. “o jornal diferenciava-se pelo caráter político que tinha. Assim. p. Lima (2007). Ela aconteceu no dia 28 de julho de 1969 em Nova York e foi protagonizada pelas pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn. Esse confronto ocorrido em Stonewall marcou o movimento gay tanto nos Estados Unido quanto no mundo em geral. a data mais importante do calendário para esse movimento. Esse poder de consumo gay funciona como uma barreira que . fugindo do seu âmbito puramente sexual. designar a “consolidação de um mercado de serviços específicos para o público gay”. 2011. como mulheres e negros. A imprensa LGBT na atualidade Nos dias atuais. Ao contrário das publicações da década de 1960. atribui esse surto pelo interesse à pornografia ao fim da distensão política. branco. ela circulou de 1997 até 2008. mais recentemente. segundo Péret (2011). quase sempre. 2011. A abordagem. esse jornal era comercializado nas bancas das grandes cidades. O Lampião ampliou a perspectiva da discussão sobre a homossexualidade e abraçou a militância. essa tendência passou a se fortalecer a partir de veículos como Júnior e DOM. Desde o século XIX. houve o surto da indústria pornográfica.marcos desse movimento foi a revolta de Stonewall. A data que ocorreu tal conflito. principalmente televisivo. O humor. da repressão. No final da década de 70. histórias escandalosas e crimes envolvendo homossexuais enchem as páginas dos jornais brasileiros e. Um conceito que surgiu nesse contexto foi o dinheiro rosa. o movimento homossexual passou a ser um movimento identitário. esse mercado criou uma sensação falsa de aceitação por parte de alguns grupos. que é uma tradução da nomenclatura norte-americana pink money. (NASCIMENTO. 28 de junho de 1969 se tornou o dia do Orgulho Gay. 15) Nesse contexto. homofóbica e sensacionalista. e com adefesa de plataforma política.

O portal pertence ao grupo Mix Brasil”. uma vez que muitos sites e portais misturavam conteúdo jornalístico com um forte apelo erótico. era incitado a consumir e se comportar de acordo com o padrão dominante do homossexual masculino.restringe as identidades sexuais e de gênero que se manifestam na sociedade. 11) . A internet foi fundamental nesse processo. o segmento mostrou seu desejo em apostar no erotismo de corpos esculturais. Segundo Nonato (2013. Essa nova fase possibilitou que o público LGBT tivesse acesso à um maior leque de conteúdo específico e também vários sites de entretenimento. é notório que o termo evidencia a limitação dessas publicações. Entre eles está. p. as publicações voltadas para esse público seguem diretrizes capitalistas e reforçam a estrutura social da heteronormatividade. em 1993. teoricamente tem a intenção de abordar publicações voltadas para todas as identidades: gays. branco. Todavia. A limitação da imprensa e a exaltação da heteronormatividade O termo Imprensa Gay. sempre o indivíduo do sexo masculino. o primeiro portal gay da América Latina. O foco no homossexual homem. 2013. respeitando um padrão de beleza hegemônico. esse período coincidiu com a expansão da indústria pornográfica que se tornou altamente lucrativa. Enquanto era o único portal gay produzindo para esse espaço chegou a alcançar 300 milhões de visualizações. Um corpo heterossexualizado. lésbicas. transexuais. é a forma como o capitalismo administra esse universo. Isso não se dá por acaso. O que ilustra muito bem o papel importante que a internet teve na época. Principalmente com a produção de revistas a partir da década de 90 e os sites voltados para os LGBTs. heternormativo. etc. O homossexual. utilizando os seus mecanismos potentes com toda a força. p. a criação do Mix Brasil. “Brasil é pioneira em vários aspectos. já que privilegia um determinado grupo. masculinos. cis. 13) Ooo . O desenvolvimento do “mercado gay” também proporcionou novas formas de experimentação de conteúdo para o público com o advento da internet. travestis. bem-sucedido justifica de forma inconsciente a denominação Imprensa Gay. (NONATO. Porém.