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A COROA E O TRONCO

:
A escravidão e a gênese do Estado nacional brasileiro
Mário Maestri
!
Sumário: O presente artigo discute o processo de independência unitária do qual surgiria o Império do
Brasil, como sobretudo produto de pacto entre as classes dominantes escravistas das principais
províncias, realizado em defesa da manutenção da ordem escravista. Aborda a relação umbilical entre a
escravidão e a monarquia e a crise dessa última como produto da superação da organização social
escravista em 1888. Apresenta a superação da escravidão como revolução social e produtiva realizada
sobretudo, em seus momentos finais, pela convergência da população escravizada com o movimento
abolicionista radicalizado.
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Desde 1530, com o início da ocupação territorial e da plantagem açucareira nas
possessões luso-americanas, o escravismo articulou-se como forma hegemônica de produção.
No período colonial, a economia assentou-se na mão-de-obra feitorizada, primeiro nativa e, a
partir do Seiscentos, sobretudo africana. O modo de produção escravista colonial dominou as
outras formas de produção e a sociedade brasileira praticamente até 1888.1 Durante o longo  

período escravista, o mundo rural dominou o urbano. A unidade produtiva de base era o
latifúndio monocultor escravista. Ele articulava a vida econômico-social colonial. A economia
agroexportadora produzia regionalmente e dependia dos mercados internacionais para a
realização de sua produção. Não houve modificações essenciais dessa realidade no contexto da
mineração escravista. 2  

A esfera de produção natural das unidades escravistas produzia parte do que era
consumido por escravizados e escravizadores. O consumo dos livres pobres era diminuto e
tendencialmente satisfeito pela produção agrária e artesanal local. A administração
metropolitana reprimia a produção regional que substituísse as importações. Pouco sentido
tinham os `mercados internos`. O Brasil colonial constituiu mosaico de regiões produtivas semi-
autônomas. Os limitados meios de transporte e a vontade metropolitana de dificultar eventual
unitarismo americano contribuíam à atomização colonial. Até 1808, o Brasil não possuiu
imprensa. A comunicação manuscrita era precária, devido ao elevado analfabetismo e à falta de
correios nas próprias capitanias. A comunicação colonial das idéias dava-se por via oral e
interpessoal, “limitada no tempo e no espaço, e, em círculos muito restritos”. No Rio Grande do

1! . Sobre o modo de produção escravista colonial, ver: GORENDER, J. O escravismo colonial. 5 ed. São Paulo: Ática,
1988 e CARDOSO, Ciro Flamarión. “El modo de producción esclavista colonial em América”. ASSADORIAN,
Carlos Sempat. Modos de producción en América Latina. Córdoba: Pasado y Presente, 1973; sobre o momento da
transição indígenas/africanos, ver: SCHWARTZ, S.B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial.
São Paulo: Cia. das Letras, 1988. pp. 5773; sobre a escravidão indígena, ver: MONTEIRO, John Manuel. Negro da
Terra : índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994; MAESTRI, Mário. Os
senhores do litoral: conquista portuguesa e genocídio tupinambá no litoral brasileiro. séc. XVI.. 2. ed. Porto Alegre:
EdiUFRGS, 1994. 113 pp .

2! COSTA, Iraci del Nero da. Populações mineiras: sobre a estrutura populacional de alguns núcleos mineiros no
alvorecer do século XIX. São Paulo: Instituto de Pesquisas Econômicas, 1981.
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MEC. Boxer escreveu sobre o início do século 18: "A colonização ficava. O historiador britânico C. couros. 62. Tumbeiros : o tráfico de escravos para o Brasil. A comunicação social na Revolução dos Alfaiates.R. Os magnatas do tráfico negreiro: séculos XVI e XVII. 54." Devido ao sistema de ventos e de correntes atlânticas. 15001800. 5! .." A falta de comunicação devia-se à debilidade dos laços econômicos. 6 ed. p. 6! . Por outro lado. Bauru: EDUSC. 1981. 24. Durante a Colônia. E mesmo isto deve ser matizado. BOXER. p. Pouco unia o Extremo Sul à Amazônia luso-brasileira. São Luís. produzidos nas unidades escravistas das capitanias. p. por longos anos — 1573-8. 1990.]. CORREIA DE ANDRADE. etc. 1999.R. A revolução farroupilha. Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia. 2 ed. 45. em sua maior parte. “com postos de trocas de cavalos” para a correspondência oficial. CONRAD. eram exportados para a Europa — via Portugal — pelos portos de Recife. Rio de Janeiro. C. 1621-1772 — as capitanias do Norte e as do Sul foram administradas autonomamente. Rio Grande.. 6   O historiador Nélson Werneck Sodré ressalta o caráter regional dos primeiros esforços culturais sistemáticos das classes dominantes coloniais em inícios do século 18: "Os grupos estavam dispersos pelos poucos centros urbanos coloniais. a Metrópole transigia com as elites coloniais. o governo republicano organizou serviço regular de correio. Brasília. As raízes do separatismo no Brasil. De Portugal chegavam a esses portos os manufaturados europeus. BOXER. Página !2 . Para manter-se nas Américas. Manuel. Salvador de Sá : e a luta pelo Brasil e Angola. 16021686. A idade de ouro do Brasil.. 1985. limitada a um certo número de colônias vagamente relacionadas umas às outras num cinturão costeiro que se estendia do delta do Amazonas até São Vicente [. ABREU. legal ou abusiva. as capitanias luso-brasileiras viviam em verdadeira "condição de Estados estrangeiros". São Paulo: Brasiliense.1973. C. p. o senado da câmara — sob o controle das classes dominantes locais — exerceu ampla autoridade. 1608-12. 1963. Porto Alegre: EdiUFRGS. Múltiplas colônias Açúcar. São Paulo: CEN /EdiUSP. Academia de Letras da Bahia. Cf. mesmo que as funções legislativas conhecidas pelas municipalidades em Portugal fossem negadas às câmaras brasileiras. FLORES. São Paulo: Pioneira. Era grande a comunhão entre a província de São Pedro e a Banda Oriental (Uruguai). 1998. p. O Rio de Janeiro mantinha ligações mais estreitas com Luanda do que com o Pará. 4! . fumo. SALVADOR.Sul. São Paulo: EdiUNESP. apenas em 1837. ainda "às vésperas da Independência. O tráfico negreiro garantia a reprodução da população trabalhadora e articulava outras ligações sócio-econômicas entre as colônias e o exterior. Emília Viotti da Costa lembra que.36. Salvador.5 Esse   padrão agroexportador determinava fraca comunidade de interesse entre as colônias luso- americanas. etc. eram mais fortes os laços das várias 3! Cf.3   A principal razão da autonomia regional era sócio-econômica.. inicialmente. Cf. minérios. Florisvaldo. MATTOS. Não se comunicavam sequer entre si. 1976. Capítulos de história colonial. algodão. p. José Gonçalves.R.33. Moacyr. Capistrano de. os contatos marítimos entre o Pará e o Maranhão e Lisboa eram mais fáceis e usuais do que entre o Norte e o Rio de Janeiro. Capistrano de Abreu afirmou que. São Paulo: CEN. cacau.4 Apenas a ligação a uma mesma metrópole e a uma administração   colonial centralizada dava certa impressão de unidade às possessões coloniais. arroz. Robert E. sobre os assuntos municipais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

(org. P. Da Monarquia à Republica: momentos decisivos. Torino: Einaudi. Torres Rivas assinala: “A conquista e posterior colonização forjaram de cima. A consciência de nacionalidade. 1938]. 7 Nos limites das diversas regiões produtivas. Sobre esse fenômeno. Nazioni e nazionalsimi dal 1780. Página !3 . o `pacto colonial` garantira o desenvolvimento das colônias. Torres. Bauru: EdiUSC.. Em 1776-83. [1 ed. COSTA. por mais de duzentos anos. Sobre a formação do Estado da América Central.]. A América espanhola pertencera a uma mesma metrópole. o Império espanhol na América foi. 1999. a necessidade das classes proprietárias das pequenas ex-colônias de defenderem-se da Inglaterra. Em fins do século 18. Eric.107. 29. CORREIA DE ANDRADE. as elites coloniais. estavam fadadas a perderem as possessões americanas. a partir do poder colonial. Nada disso sobrepôs-se à força das tendências centrífugas dos diversos blocos geoeconômicos. uma mesma língua e uma mesma cultura. como a compreendemos hoje. as treze colônias angloamericanas tornaram-se independentes por primeiro. Nélson Werneck. objetivamente. Emília Viotti da. 1996. 65. na Europa. principalmente. O geógrafo e historiador pernambucano Manuel Correia de Andrade é claro nesse sentido: "Não se pode falar em sentimento nacional durante o longo período colonial [. p. exasperadas pelo caráter crescentemente parasitário do exclusivismo político- comercial metropolitano e conscientes do importante domínio sócio-econômico que exerciam nas suas respectivas áreas de influência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. A América espanhola explodiu em uma constelação de dezesseis Estados republicanos independentes. OS. 54. lançaramse à conquista do controle total do poder político.” 9   7! . as   classes dominantes coloniais controlavam o essencial do poder econômico-social e viviam em situação de relativa sujeição e subordinação à administração e às elites metropolitanas. uma ordem política construída sobre profundas descontinuidades econômicas. Nas Américas. PINHEIROS. incapazes de realizarem suas revoluções burguesas. religião e raça. 1987. culturais e sociais: uma nação atada por cima e solta por baixo. São Paulo: EdiUNESP. uma extensa comunidade de idioma. Os diversos projetos emancipacionistas articulavamse e ganhavam força no contexto dos espaços geoeconômicos reais preexistentes. [PBE. HOBSBAWM. Com o avanço da produção capitalista. geográficas. As raízes do separatismo no Brasil.províncias com a Europa do que entre si". ele constituía entrave ao desenvolvimento sócio-econômico do Novo e do Velho Mundo. 8! . Manuel. p. a necessidade de manter na submissão a população livre-pobre e escravizada ensejaram a formação de república federativa onde os Estados membros gozavam de ampla autonomia quanto às questões internas. Era também significativo o ideário americanista entre importantes parcelas das elites criollas hispano- americanas. que não existia. é fenômeno nascido e desenvolvido a partir do século 18." 8   Crise colonial No Oitocentos. São Paulo: Brasiliense. SODRÉ.) O Estado da América Latina. História da literatura brasileira: seus fundamentos econômicos. No passado. 564]. 5 ed. p. 4 ed. a crise do mercantilismo expressou o novo reordenamento europeu de forças. Cf. 9! RIVAS. Os grandes proprietários luso-brasileiros tinham a consciência de pertencerem às classes dominantes e ao império lusitano e não de participarem de comunidade ‘colonial brasileira’. Suas classes regionalmente hegemônicas possuíam uma mesma religião. 1969. Rio de Janeiro: Paz e Terra. apesar disso.. E. A existência de certo grau de interdependência. 1977. as nações ibéricas. das metrópoles e das classes dominantes coloniais e metropolitanas.

a historiografia tradicional apresentou o unitarismo como produto da intervenção providencial de Pedro I e de José Bonifácio.] à integração do país dentro de uma possante armadura de poderes ‘nacionais’. CORREIA DE ANDRADE. as classes dominantes locais discutiram a independência das respectivas capitanias. espaço geopolítico objetivo. o sociólogo fluminense Oliveira Viana registra a perplexidade dos analistas mais perspicazes sobre as razões da unidade nacional brasileira: "[. O Estado-nação brasileiro — monárquico. organizada em torno de Estado centralizado e autoritário. Populações meridionais do Brasil. nenhuma necessidade poderosa nos levava [. Dom Pedro encontrava-se na província do Rio de Janeiro.. Manuel.. Escreveu o historiador baiano Pedro Calmon: “À sua presença [de dom Pedro] no Brasil devemos a unidade das províncias. 207. 55. 52. ! . as ex-colônias britânicas. 11 12 ! . Também nesse caso confunde-se a Corte. primeiro movimento republicano-separatista de parcela dos atuais territórios brasileiros. do mesmo modo que proporia separar-se de Lisboa. CALMON. V.. de Pernambuco.10 Em 1710. Oliveira. São Paulo: EdiUNESP. VIANNA. 13 ! . Pedro."11   Mistério historiográfico O unitarismo brasileiro resultante da crise colonial constituiu um dos grandes ‘mistérios’ da história brasileira. a conspirações dos Jacobinos Negros almejava apenas a autonomia republicana baiana. autocrático e centralizado — resultou da necessidade das classes proprietárias das diversas ! . Em Populações meridionais do Brasil.cit. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Muitos analistas explicaram o unitarismo nacional como devido à instalação da sede da coroa lusitana na América. Bauru: EDUSC. e não no Brasil. sobretudo. p. 1972. por longos anos. p. quando da   Guerra dos Emboabas.259. Em 1798. sd. com realidade jurídico-política inexistente na época ⎯ o Brasil-nação. Carlos Guilherme. propunha a autonomia em relação ao Rio de Janeiro. Não conheceram nem mesmo o federalismo que organizou. A revolta pernambucana de 1817. Em As raízes do separatismo no Brasil. mais do que nunca. atuavam os fenômenos que resultaram na partição hispano-americana. 1973. o próprio Brasil [. conseqüentemente. M. MOTA. P. os senhores das Gerais praticamente auto-governaram-se. dom Pedro jamais saíra da província do Rio de Janeiro. As raízes do separatismo no Brasil. p. de Minas Gerais e de São Paulo contra o domínio luso.14 As ex-colônias   luso-brasileiras emergiram da independência como nação unitária. 14 Página !4 . o Brasil não existia como unidade política e econômica unitária e autônoma. Cf. não eram de brasileiros. quando as Cortes portuguesas quiseram desagregá-las e. a Revolução Pernambucana foi republicana e separatista.. São Paulo: Companhia Editora Nacional. de Bahia. Em 1817. em São Paulo. Nordeste 1817: estruturas e argumentos." 12 Durante a construção de   interpretações apologéticas do passado da nação em formação. CORREIA DE ANDRADE. Ob. As raízes do separatismo no Brasil. A Inconfidência Mineira também almejava a independência da capitania. em 1654. Em Pernambuco. 10 1999. em 1640." 13 Tal análise peca já por   anacronismo. mas de colonos do Maranhão. o já citado Manuel Correia de Andrade assinala sobre esses movimentos nativistas regionais: "Essas rebeliões não tinham um caráter nacional. ! . São Paulo: EdiUSP. História da civilização brasileira.] nada. se lá estivesse a administração real lusitana.1. como brasileiros. Até a crise da Independência. durante a guerra anti-holandesa.].. Na época. No Brasil..

as facções dominantes coloniais americanas. sem colocarem em perigo a espinha dorsal da economia colonial: a produção escravista. da manutenção do domínio de Portugal. mesmo com a instalação da administração lusitana no Novo Mundo português. em 1817. de perderem as rendas das americanas. e não apenas ao que temor à invasão francesa de Portugal. Em 1820. C. 1996. Mello. Para o norte do Brasil. sobre alguns províncias do norte. sobretudo do Nordeste e do Sul. Francisco Munis. então. no passado. Filho da Escravidão Coevo aos acontecimentos da Independência. Problema agravado pelo favorecimento dos portugueses natos praticado quando do preenchimento dos postos e cargos administrativos e honoríficos. 3 ed. reivindicações federalistas radicais e separatistas. instaladas em Lisboa. grave crise econômica. de   transmigração dos segmentos superiores de classe dominante para uma colônia. com maior intensidade. O inimigo interno Eram também fortes as tendências autonomistas e separatistas no norte. nos Tempos Modernos. Fato que se deveu também ao medo das classes dominantes lusitanas da revolução liberal e. portanto. que vivia.províncias de enfrentarem o problema da independência e da gestão constitucional de seus interesses maiores. que viam as rendas regionais tributadas e monopolizadas pela Corte instalada no Rio de Janeiro. Gonçalo de B. aumentava — e não diminuía — a distância com o centro das decisões. Fortes choques militares 15 ! . Aparentemente. semi-monopólio lusitano das atividades comerciais e mercantis. Tudo apontava para a explosão do Brasil em repúblicas organizadas a partir das antigas sub-regiões coloniais e. quando da Revolução Pernambucana. viram recolocados. importantes facções das classes hegemônicas regionais almejavam independência estranha a qualquer partição ou subordinação do poder. A revolução servil de Saint-Domingues-Haiti (1804) e os sucessos hispano-americanos eram avisos premonitórios. Porém. como o eram. ao menos por algum tempo. 15 Salvo engano. A principal questão era social. Na época. Os grandes escravizadores queriam autonomizaremse de Portugal e `nacionalizar` as atividades comerciais sem comprometer a organização social negreira. Agravava a situação o fato de que o poder central – sediado no Sudeste desde o ciclo da mineração (1763) – via-se diante de um Nordeste. como um todo. A crise final da ordem mercantilista colocava graves questões às elites luso-brasileiras: pressão do governo inglês pela abolição do tráfico transatlântico. talvez. Recife: Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano. Belo Horizonte: Itatiaia. 1917. tratou-se de único caso. que abominava a gestão semi-estrangeira do Rio de Janeiro. no centro e no sul do país. História da Revolução de Pernambuco em 1817. Antes localizado na metrópole. devido ao projeto recolonizador da revolução liberal e constitucionalista do Porto. Página !5 . o centro das decisões passou a sediar-se no Rio de Janeiro. permaneceria apenas para ser resolvida a questão da gestão absolutista do Estado. os problemas enfrentados pelas classes proprietárias nordestinas. TAVARES. A revolução de 1817 e a história do Brasil: um estudo de história diplomática. A abertura dos portos [1808] pôs fim ao exclusivismo comercial. MOURÃO. pelas elites portuguesas. mais populoso e em relativo econômico conjuntural. latejavam as tendências autonomistas entre as elites de importantes regiões. o monsenhor Muniz Tavares assinalou que a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro — 15 mil pessoas — decretara um fim indolor ao regime colonial.

D. 1997. Página !6 . Montevideo: CNHSHH de 1825. 1976. As elites escravizadoras preocupavam-se sobretudo com a ordem social. Haïti au XVIIIe. Os pequenos Estados escravistas resultantes da divisão territorial dificilmente sobreporiam-se às crescentes pressões do governo britânico pelo fim do comércio tumbeiro. Alexandre-Stanislas. ISOLA. por questões de limites territoriais. cresceriam as dificuldades para manter a organização escravista nas regiões onde se mostrasse produtiva. ocorrera a única revolução servil que pôs fim a um Estado escravista. [The Black Jaconins. C. Cf. Torino: La Rosa Editrice. SCHOELCHER. Paris: Karthala. Os jacobinos negros: Toussaint L´Ouverture e a revolução de São Domingos. 1993. Édison. LOUVERTURE. Victor. ameaçariam a necessária submissão dos trabalhadores escravizados — o “inimigo interno” — e a defesa da continuidade da escravidão. 1975. encareceriam-se   insuportavelmente o preço dos trabalhadores feitorizados.entre tropas metropolitanas e americanas. WIMPFFEN. a Guiana Inglesa foi “cenário de uma das maiores revoltas de escravos da história do Novo 16 ! BETHEL. 17 ! . a Revolução Francesa difundira propostas de reforma política e social. F. p. os   escravos das ex-colônias hispano-americanas foram amiúde recrutados para os exércitos em luta. CARNEIRO. France: Karthala. 3 ed. sobretudo mestiças. 18 ! . Ema. Um estado de guerra generalizada facilitaria fugas e aquilombamentos maciços de trabalhadores escravizados e suas cooptações pelas facções em luta. La libertà del popolo nero. Na África. Na Europa. 1978. no Uruguai. Se as províncias brasileiras explodissem em repúblicas. 1938] São Paulo: Boitempo. importantes fenômenos internacionais agitavam a população escravizada e as classes subalternas. 2000. 18  Américas em chamas Na América luso-brasileira. EDUSP. 1982.19 Durante esses últimos   acontecimentos. Toussaint. FREITAS. Décio. Rio de Janeiro: Graal. O Quilombo dos Palmares. São Paulo. Cf. para o Norte. Em 1842. o movimento islâmico reformador de Osmã dan Fodio difundia-se entre comunidades negro-africanas envolvidas pelo tráfico dirigido ao Brasil. M. 320. os cativos aproveitaram a pugna entre os Estados coloniais e refugiarem-se no sul da Capitania. ou entre facções crioulas luso-brasileiras. La esclavitud en el Uruguay: desde sus comienzos hasta su extinción. JAMES. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. O reino negro de Palmares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.M. a crescente divisão do país em Estados escravistas e Estados abolicionistas permitiu que dezenas de milhares de cativos fugissem. Em 1923. A Abolição do Tráfico de Escravos no Brasil. cabeças senhoriais rolavam numerosas. Durante a ocupação holandesa do Nordeste (1630) e a Insurreição Pernambucana (1645-54). como o haviam feito as Guianas e as possessões hispano-americanas. FREITAS. no passado. Vie de Toussainte Louverture. quando da Independência. 1966. Palmares: a guerra dos escravos. Fora necessário longa e custosa guerra para pôr fim à confederação dos quilombos de Palmares. 2 ed. 19 ! . 17 Na primeira metade do século 19. 1954. ou para a fronteira com o Canadá. no Sul. a escravidão foi quase extinta com a incorporação dos cativos ao exército nacional.L. Siècle : richesse et esclavage dans une colonie française.16 Sem escravos novos recém-chegados da África. Nos USA. Os Estados abolicionistas acoutariam os cativos fujões. As conseqüências dessa conjuntura fizeram-se logo sentir. No Haiti. (1743-1852). Leslie. Rio de Janeiro: Americana.

Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes. Universidade de Caxias do Sul.230. Caxias do Sul. Desde 1807. de todo cativo que levantasse a mão armada contra seu senhor. p. 1977. separatistas e federalistas de importantes segmentos livres regionais foram recalcadas em prol da segurança escravista. CONRAD. O Estado-nação monárquico. e escreveu uma perspicaz História do Brasil. sem direito de apelação. Em 1822. 1972.cit. 226. os direitos dos escravizadores sobre os seus negros. os brasileiros de então não tiveram escrúpulo em eleger chefe da sua revolução libertadora o regente do Brasil. Pedro I. Brasília. africanos de sangue e escravos de nascimento. uma conspiração de massas de cunho quase moderno contra o Estado escravista. registrou os temores dos escravistas: "Quaisquer tentativas prematuras para o estabelecimento da república teriam sido seguidas de uma guerra sanguinolenta e duradoura. Armitage. São Paulo: Melhoramentos. Página !7 . John Armitage. Rio de Janeiro: José Alípio. salvo engano. os comerciantes de cativos da Corte desempenharam importante papel na vitória da solução unitarista e centralista organizada em torno de Pedro I. Em. nos seus direitos de sangue e nascimento sobre os cativos. lágrimas de sangue: a rebelião dos escravos de Demerara em 1823. p. com 21 anos. quando de “10 a 12 mil escravos se sublevaram em nome de seus ‘direitos’”. em 1828. Nos momentos da definitiva ruptura das províncias luso-brasileiros com a monarquia lusitana. a Bahia foi convulsionada por importantes revoltas servis que desembocaram na grande insurreição malê de 1835. em 1831. Escravos e senhores-de-escravos. Coroas de glória. 37-40. o príncipe português e herdeiro do trono luso. Nesse ano. até a abdicação do Imperador dom Pedro I. (18071856). Emília Viotti da. votou-se a famigerada lei que ordenava a morte. 6 ed. II. FREITAS. p. autoritário e centralizado brasileiro foi criatura da escravidão. na qual a parte escrava da população teria pegado em armas. Em um sentido simbólico. há indícios do crescimento da tensão social nesse período. pp. sua família ou seus capatazes. ao referir-se à Independência. História do Brasil: desde a chegada da real família de Bragança. É também ilustrativo o fato de que os 20 ! . 21 ! . não termos estudos gerais sobre a agitação da população escravizada no Brasil nas três primeiras décadas do século 19." 21 Velada ou abertamente. o Brasil independente e unitário surgiu sobretudo como resultado dos interesses negreiros e escravistas. 20 Apesar   de. Ela era também garantia aos senhores ainda adictos do absolutismo. Robert. A solução encontrada foi deveras conservadora: "Na sua quase unanimidade — lembra Tarquíneo de Sousa —. 1823. e a desordem e a destruição teriam assolado a mais bela porção da América Meridional. A vida de D. Ob. JOHN. comerciante inglês que chegou ao Brasil. COSTA. As veleidades republicanas. liberais. ! 22 SOUSA. Independência escravista A Independência e o unitarismo nacional deramse sob a batuta cautelosa e conservantista dos grandes plantadores e comerciantes de trabalhadores escravizados. INL. FREITAS.129. a figura do imperador expressava e representava. Décio. Décio."22   A entronização do regente assegurava os interesses do comércio lusitano no Brasil e da dinastia dos Braganças. a questão servil traspassou as discussões senhoriais sobre como   enfrentar a independência. em 1808. Vol. Octávio Tarquíneo de. 1977. 1998. eles teriam apoiado igualmente o golpe anti-liberal e anti-constitucional do Imperador. Tumbeiros.Mundo”. atemorizada com a agitação entre os trabalhadores escravizados. São Paulo: Companhia das Letras.

Cf. No interior das fronteiras ‘nacionais’. 1994. TAVARES. a historiadora pernambucana Maria de Lourdes Viana Lyra exige uma melhor interpretação do nascimento do novo Estado brasileiro como um "império". a nobreza hereditária. não podemos explicar a unidade brasileira como produto dessa interferência. Os movimentos de 1817 e de 1824 não contaram com o apoio dos proprietários de terra e de homens nordestinos. cidadãos iguais. 1976. e democratas e republicanos. Rio de Janeiro: Sette Letras. O Sobrado e o cativo: a arquitetura urbana erudita no Brasil escravista. Um manifesto revolucionário lembrava: "Patriotas pernambucanos A suspeita tem-se insinuado nos proprietários rurais: eles crêem que a benéfica tendência da presente liberal revolução tem por fim a emancipação indistinta dos homens de cor e escravos. p. relativamente pacífica. 24 ! . Em 1824. F. MAESTRI. racialmente superiores. ! 25 Apud. Mas legara graves problemas ao 23 ! . A abolição do tráfico de escravos no Brasil. de inícios do século 19 até 1850. EDUSP. Mais certo seria apresentá-la como a coroação da ordem negreira. Eles viam-se como aristocratas com direitos de sangue e. em relação aos seus pares. Maria de Lourdes Viana. a Confederação do Equador retomou os grandes objetivos da Revolução Pernambucana. A utopia do poderoso império. Outras razões contribuíram para o unitarismo nacional. sempre. o governo da Inglaterra não possuía condições para impor medidas que colidissem com os grandes interesses das elites brasileiras. 247 pp . 116-9. quanto aos seus cativos. Na época. Passo Fundo: EdiUPF. Os liberais pernambucanos acreditavam que a "base de toda sociedade regular é a inviolabilidade de qualquer espécie de propriedade. portanto. Op. e não um 'reinado'. 23   As rudes classes escravizadoras brasileiras compreendiam-se como sui generis casta hermafrodita de nobres e de cidadãos. para grande parte das classes dominantes nordestinas. Alguns autores apresentaram o império brasileiro como espécie de república coroada. a centralização do poder e dos recursos do novo Estado pela Corte sediada no Rio de Janeiro reproduzia a antiga ordem colonial. Mário . entre elas. De nada serviram as garantias de respeito à escravidão dadas pelos insurretos. São Paulo. 24   Tempos Conturbados A submissão das classes livres e proprietárias `periféricas` ao centralismo imperial e aos interesses da nova Corte foi temporária. LYRA. BETHEL. o interesse das classes dominantes da Inglaterra nessa solução." Isso era mentira. mostrando que. segundo o panfleto revolucionários. já que o surgimento de nações independentes dificultaria o recebimento da dívida luso-brasileira e a consecução dos interesses ingleses nesse canto do mundo.cit. Porém. Cf. A entronização de Pedro I permitira independência de transação e. A utopia do poderoso império : Portugal e o Brasil : bastidores da política : 1798 – 1822. pouca diferença fazia se as rendas regionais financiavam a iluminação de Lisboa ou do Rio de Janeiro. Eles temiam a agitação social e um não revelado ideário abolicionista por parte dos revolucionários. Nesse sentido. que desconheceu. 2001. Página !8 . Leslie. portanto. e portanto. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. como comprova a longa resistência dos escravistas em defesa do tráfico.25   Foram conturbadas as primeiras décadas após 1822. ccv. a república e a liberdade não eram coisas pra negros.escravizadores brasileiros tenham se inspirado — em parte — no mundo romano e não na tradição lusitana e européia. PP." Portanto. ao fundarem um 'império'.M.

Nas negociações com o governo inglês pelo reconhecimento do novo Estado. Mesmo quando não sonhavam com a independência total. Violência fiscal O governo central e as classes dominantes da Corte apoderavam-se sem pejo das rendas das províncias para financiar a administração imperial. O grande problema ‘nacional’ tinha origem econômica. Havia muito que a economia mineradora esgotara-se e não se encontrava novo produto em que empregar as multidões de trabalhadores escravizados semi-ociosos. defender seus interesses setoriais. Rio de Janeiro: Graal. Os senhores de cativos e de terra permaneciam endividados junto aos interesses mercantis lusitanos. pagar os empréstimos contratados com o governo inglês. 1979. Com o defenestramento imperial. O grande e o pequeno comércio continuavam em parte em mãos lusitanas. a economia européia vivia a depressão que se seguiu os fim das guerras napoleônicas. constituído pela centralização política e autoritária de territórios gozando de uma autonomia social e econômica objetiva. as reformas regenciais não interromperam. LEITMAN. que depôs Pedro I. degradando-se o balanço comercial. Spencer. O país inundara-se de mercadorias inglesas. Os desmandos econômicos. explodiu uma série de movimentos liberais. As concessões regenciais aproximaram do poder central as forças provinciais conservadoras. que criou sistema de assembléias provinciais fortalecidas. 125. A moeda ‘inflacionada’ aumentava a miséria dos livres pobres. crescentemente empobrecidas. separatistas que ameaçou o frágil pacto 26 ! Cf.novo Estado. etc. o aparato administrativo e as elites hegemônicas do Rio de Janeiro utilizavam o centralismo estatal para abiscoitarem as parcas rendas provinciais. As infelizes negociações concluídas por dom Pedro com o governo da Inglaterra e de Portugal para o reconhecimento do novo Estado. Pedro I comprometeu-se com a abolição do tráfico transatlântico e pactuou acordos anti-nacionais. empobreceram fortemente o erário público. a dívida internacional. Raízes sócio-econômicas da guerra dos Farrapos : um capítulo da história do Brasil no século XIX. protetor dos interesses lusitanos e comprometido com o fim do tráfico. No contexto dessa difícil situação. imperador autocrático. davam-se as condições para a gestação do Ato Adicional de agosto de 1834. federalistas e liberais de importantes facções senhoriais. diminuindo em algo o poder discricionário do governo central. a Coroa. Sobretudo. Pequenas concessões As tímidas reformas regenciais não tocavam os problemas de fundo de um Estado-nação em formação. A questão da gestão direta do Estado brasileiro pelas classes dominantes do Brasil foi resolvido com o movimento de 7 de abril de 1831. a espoliação tributária das províncias. 26 Nesse contexto de crise econômica e   exploração fiscal das províncias. elas exigiam a eleição dos presidentes provinciais e a autonomia fiscal. Nesse então. Tão longe ia a despreocupação com as os interesses das classes proprietárias provinciais que apenas em 1832 a administração central separou os impostos imperiais dos provinciais. P. acirravam-se as exigências autonomistas. Como decorrência dessa situação. O imperador comprometera-se com uma indenização milionária para seu pai e assumira a dívida lusitana feita na Inglaterra para combater a independência brasileira! A liberdade de comércio golpeara a frágil produção artesanal brasileira. os reflexos da queda dos preços das exportações eram lançados nas costas das classes subalternizadas. federalistas. Página !9 . minimamente.

Spencer L. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves. prosseguiam como feitores dos próprios cativos. pois bem sabe que esta pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro. particularmente de gente branca da província ou índios. de. o que permitiria o pronto fim da revolta. a partir dos anos 1830. abarracamento. Página !10 . Os problemas postos pelos numerosos cativos arrolados nas filas farroupilhas para o fim dos combates comprova não serem infundadas as restrições dos escravizadores a movimentos regionais armados. 1978. Astolfo. Passo Fundo: EdiUPF. enquanto concedia quartel aos liberais e aos balaios. Caxias ordenou que atacasse os farrapos. Astolfo. invariavelmente. "Memória histórica da revolução da província do Maranhão". em maior ou menor grau. Porém. Cf. A questão dos cativos libertados para lutar nas tropas farroupilhas foi resolvida por acordo entre o barão de Caxias. Balaiada. Pasquale Di. Em Porongos desarticulou-se a infantaria negra farroupilha. São Paulo: Ática. Rio: Bedeschi. por alto oficial farroupilha. Elas aceitavam subservientes o tacão do centralismo imperial para não porem em perigo a ordem escravista. esclarece quem eram os verdadeiros inimigos das classes dominantes escravistas. PAOLO. São Paulo. mesmo quando eles fossem os grandes privilegiados das rebeliões. 28 ! . devido à mesma razão que levou à derrota os movimentos pernambucanos de 1817 e 1824. 1990. Foi o desenvolvimento da cafeicultura escravista fluminense. Para não arriscarem a perder seus negros. munições. p. 1996. antifederalista e centralizadora que abriu caminho ao Segundo Reinado. Uma história do Rio Grande do Sul: o Império. Modelo político dos farrapos. quando setores livres pobres e trabalhadores escravizados incorporavam-se a eles. Maria Januária Vilela. as tropas imperialistas caíram sobre os 1. SANTOS. capturando-lhes a bagagem.J. estandartes. a Regência Una de Pedro de Araújo Lima iniciou a reação antiliberal.28 Na Balaiada. A Balaiada. No ataque morreram cem lanceiros negros. em grande parte em prol da Corte. A Balaiada e a insurreição de escravos no Maranhão.1946. SERRA. Moacyr. 29 ! . 27   As classes liberais iniciavam os movimentos regionais e os desertavam. Claudete Maria Miranda. frustraram-se. Novo Bloco Hegemônico O principal eixo do novo bloco social era a classe dos cafeicultores. principal 27 ! DIAS. 29   Em novembro de 1837. Mário. D. Em poucas décadas. Rio de Janeiro: Garnier. Revolução Farroupilha. O novo governo constituiu-se a partir da aliança dos representantes dos ricos senhores de terras e de trabalhadores escravizados das principais zonas cafeicultoras e açucareiras — Rio de Janeiro. SERRA. que cimentou o matrimônio entre monarquia e escravismo.G. o rigor com que o futuro barão e   duque de Caxias tratava os cativos revoltados. Em carta a um seu oficial. 1946. 1979. 1983. armas.unitarista de 1822. e que massacrasse sobretudo os combatentes negros: "No conflito. FLORES. movimentos como a Cabanagem. Rio de Janeiro: GRAAL. MAGALHÃES.200 soldados rebeldes. Na madrugada de 14 de novembro de 1844. 1865. os barões do café. Balaios e bem-te-vis : a guerrilha sertaneja. Bahia e Minas Gerais. 2000. Raízes sócio-econômicas da Guerra dos Farrapos: um capítulo da História do Brasil no século XIX. 2 ed. poupe o sangue brasileiro quando puder. 32. Rio de Janeiro: Badeschi. chefe das tropas imperialista. Belém: CEJUP. A Balaiada. arquivos. etc. Os comerciantes de trabalhadores da Bahia e sobretudo da Corte participavam no novo bloco social dominante." O chefe máximo imperialista alertava seu oficial que os soldados negros farroupilhas seriam desarmados previamente. A força das partes sobrepunha-se ao débil todo. Cabanagem: a revolução popular da Amazônia. LEITMAN. Porto Alegre: Mercado Aberto. MAESTRI. e o general farroupilha David Canabarro. no serro de Porongos. a última peça de artilharia farrapa e 280 infantes negros. 3ª ed. in: Opúsculos históricos e literários.

–. 1984. Cf. econômica. no mundo das representações ideológicas e das instituições políticas. a abolição do tráfico transatlântico teve conseqüências econômico-sociais determinantes. Uma imensa parte dos habitantes do Império não estava apenas despida de direitos democráticos. expressando a oposição desta última à ordem burguesa: "Os brasileiro [. Hipólito José da Costa [1774-1823] deixava claro a incongruência da independência com escravidão. A concentração da população servil nas 30 ! . Um terço dos títulos nobiliários. etc. Por alguns anos." 31 O falso liberalismo imperial encobria o autoritarismo e o governo despótico de   uma classe semicolonial de escravistas.35. SILVA. o liberalismo propõe a organização da sociedade a partir de normas que organizem a liberdade individual de iniciativa – política. Eduardo. fora casos singulares. foi concedido a cafeicultores. Como vimos. sendo considerada absolutamente não-cidadã. alijadas da nacionalidade. de um homem – o imperador – sobre os seus súditos. não sobre a produção capitalista.. o princípio da superioridade/autoridade. 1985. Porto Alegre: Martins Livreiro. O crescimento das rendas auferidas com a exportação do café e com a importação de trabalhadores escravizados permitiu que fosse aliviada a pressão fiscal sobre as províncias periféricas. Antes expatriados através do tráfico. Nordeste e Sudeste para o Centro-Sul. pp. O Império assentava-se. em antítese essencial da ordem liberal-burguesa. a cafeicultura ressentiu a falta de trabalhadores. distribuídos nos 66 anos de monarquia. de origem portuguesa. constitucionalmente. 30 A estabilidade   do Segundo Reinado foi comumente apresentada como produto da pretensa clarividência política de Pedro II ou do inexistente liberalismo das instituições imperiais. devido às condições de existência. a população escravizada não alcançava a reproduzirse naturalmente. Ela deveu-se à pujança da expansão da cafeicultura e à perfeita interpretação pela Monarquia das necessidades do escravismo no Brasil. comissários e banqueiros envolvidos com a produção cafeicultora escravista. visto não haver correspondência necessária entre os dois princípios. Brasília. A família real. Verônica Aparecida Martini. A África e o tráfico transatlântico forneciam os braços necessários à produção servil. Com o fim do tráfico transatlântico. mas sobre a ordem escravista. 31 ! Apud MONTI. regulada apenas pelas leis e determinações da produção e do mercado capitalista. Editor do Correio Brasiliense e defensor acerbo do liberalismo. O abolicionismo: sua hora decisiva no Rio Grande do Sul: 1884. os capitais gastos na compra de cativos passaram a ser investidos sobretudo no Rio de Janeiro e São Paulo.pilar da Segundo Reinado.. 51. ou hão de resolver-se a não ter consigo a escravidão. mas não democrático. expressava ideológica e simbolicamente a proposta de um Estado-nação onde as classes trabalhadoras escravizadas eram. INL. Propõe-se que o Estado imperial fosse liberal. das cidades para as fazendas escravistas. Página 1! 1 .] devem escolher entre estas duas alternativas: ou eles nunca hão de ser um povo livre. a alta crescente do preço do trabalhador escravizado e a gênese de população livre pobre garantiram a transferência da população servil do Norte. Em 1850. Barões e escravidão: três gerações de fazendeiros e a crise da estrutura escravista. trespassada por uma grande dualidade estamental – a existência de homens livres e escravizados. transformaramse na classe nacionalmente hegemônica. Ensejado pela gênese do capitalismo e pela destruição da ordem estamental feudal. a autoridade social despótica e anti-liberal do senhor sobre o cativo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p. gerada pelo nascimento. Apesar do novo revisionismo historiográfico apologético sobre a família dos trabalhadores escravizados. refletia e fortalecia.

São Paulo: Global. como no Pará e no Ceará. até os fins dos anos 1880. Os trabalhadores escravizados não lutavam mais pateticamente sós. 33 Os cafeicultores fluminenses e paulistas constituíam a facção social hegemônica no   país. como forma hegemônica de trabalho. de um importante movimento. Passo Fundo: EdiUPF. Em inúmeras regiões e províncias. 1982. Página !12 . Cf. A luta centenária dos cativos passou a encontrar apoio em facções sociais livres. Em setembro de 32 ! . sentindo o fortalecimento do abolicionismo. o escravismo passou de forma dominante a forma subordinada de produção e fortaleceram-se formas de trabalho livre. 1982. 2 ed. COSTA. importantes facções sociais viviam à margem ou em contradição com o escravismo. absoluta e relativamente. inicialmente emancipacionista e. 33 ! . e o exercício do mal- chamado “poder moderador” foram justificativas e recursos com os quais se postergou o fim da ordem negreira. Nesse sentido. a Lei dos Sexagenários (1885). expressada através da gestão governamental do Imperador e da Regente. 32   Fim do consenso No Brasil. apoiando o abolicionismo apenas após a Abolição. como nos USA. 2000. A vitória do Norte na Guerra da Secessão. A ação centralizadora do Estado monárquico escravista. COSTA. não se dissolvesse o nó que bloqueava o desenvolvimento da sociedade brasileira. por primeira vez. vinte anos mais tarde. A abolição. nos anos 1860.zonas cafeicultoras gerou fenômenos sociais revolucionários. contribuiu para que. Basta lembrar que a Guerra do Paraguai (1864-70). e atrasou a superação do escravismo e o desenvolvimento da produção livre no Brasil. Da senzala à colônia. Isto permitiu que o escravismo permanecesse nacionalmente vigente mesmo quando processo objetivo de desescravização já ocorrera em diversas regiões. Emília Viotti. Quando a manutenção da ordem escravista mostrou- se inviável. Cf. a massa escravizada iniciou o abandono maciço e pacífico das fazendas paulistas. os cafeicultores paulistas converteram-se ao emigrantismo. Fortaleciam-se o movimento abolicionista. por longos anos. e no Rio Grande do Sul. Insurreição Escrava Em inícios do primeiro semestre de 1887. sobretudo. São Paulo: Ciências Humanas. em 1984. a Lei do Ventre Livre (1871). em 1865. A Igreja permaneceu negreira até o dia seguinte. em geral. Sentindo a nova situação. e seus setores radicalizados. e o desenvolvimento da opinião antiescravista européia explicam também o surgimento. em especial. O Estado monárquico escravista reservou-se a questão servil e impediu que a instituição fosse juridicamente abolida regionalmente ali onde deixara praticamente de existir. A segunda morte de Castro Alves: genealogia crítica de um revisionismo. O trabalho cativo decaía. e passou a reivindicar relações contratuais de trabalho. que teve na poesia de Castro Alves sua mais límpida expressão ideológico- cultural. econômica e socialmente. O processo de desescravização determinado pela mortalidade e envelhecimento da população escravizada diminuía a sua importância e aumentava a do trabalho livre. Emília Viotti da. apesar de dominar a produção cafeicultora. abolicionista. retardou a divisão do Brasil em territórios escravistas e não-escravistas antagônicos. coração da atividade produtiva. o Partido Republicano Paulista aderiu ao abolicionismo. em 1883. Não é aqui o momento de analisar as manobras com que as instituições monárquicas mantiveram em pé. a ordem escravista.

para casos de sublevação e questionamento maciços da ordem. que causou a morte de um dos perseguidores e muitos feridos de ambos os lados. os despiram e espancaram. o Clube Militar pedia respeitosamente à Regente que o Exército não interviesse mais na captura de fujões. COSTA. A população escravizada não sustentava mais a expansão das necessidades da cafeicultura e dificultava um ingresso maciço de imigrantes europeus capaz de formar o exército de reserva necessário ao estabelecimento de um regime de produção apoiado em relações livres e contratuais. Os últimos anos da escravidão no Brasil. reconvertiam-se ao trabalho livre. BAKOS. em geral sob a condição da prestação de trabalho. por sete anos. O caráter multitudinário do movimento servil e o apoio com que ele contava entre setores da população livre. Rui Barbosa quis apenas pôr fim às reivindicações de indenização.36   Mais tarde. São Paulo: IPE-USP. Nos últimos meses." 35 O incidente teve grande repercussão e a radicalização dos trabalhadores   escravizados rendeu frutos. A aceleração das transformações sócio-econômicas em curso desde a abolição do tráfico internacional. SANTOS. as fugas multiplicavam-se e assumiam um novo caráter. senhores de terras exauridas e de grandes plantéis de negros. São Paulo: IPE-USP.. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. INL. R. os fazendeiros sul-rio-grandenses haviam manumitido seus negros. Com menos força. 35 ! . esse processo sentiu-se em outras regiões do Brasil. 36 ! .. a fuga de escravos aumentou durante esses meses. SANTOS. 18851888... 18851888. Página !13 .. Porto Alegre: Mercado Aberto.34   Neste ínterim. 34 ! Cf. sobretudo urbana. os fazendeiros de Campinas começam a alforriar seus cativos desde que trabalhassem gratuitamente até 1890. 18501888. perto da cidade de Itu [. Ou seja. O abolicionismo: 1884. com a destruição das provas legais de propriedade. Desde 1884. escravizadores e ‘forças da ordem’. que dominaram seus oponentes.. mesmo os renitentes escravistas do Rio de Janeiro. tornavam-se um sério entrave a sua expansão. Cf. Verônica. E. Op.cit. Op. Dias após. 1982. Ronaldo Marcos dos. terminou com uma vitória para os escravos.1887. Margaret. ao mandar que se queimassem os registros dos cativos do ministério das finanças.. Ob.]. Da senzala à colônia. mulheres e crianças.V. 1980. pleiteavam apenas a abolição da instituição com indenização. trabalhadores escravizados. ali onde a escravidão subsistia. Resistência e superação do escravismo na província de São Paulo. CONRAD. em 26 de outubro. RS: Escravismo e Abolição. Tempos de crise Nos últimos anos da escravidão.cit. Brasília. já que as fazendas paulistas. 1975. CONRAD. 18501888. de sustentáculo da produção do Brasil. armados com pistolas. Os últimos anos da escravidão no Brasil. sem pagamento. restringindo a utilização das forças armadas a situações em que a ‘ordem’ se encontrasse ameaçada. levaram os cafeicultores a abandonarem veleidades restauradora e a abraçarem a proposta de importação de trabalhadores estrangeiros. fugiram de uma fazenda do município de Capivara. "Em meados de outubro — escreve o historiador estadunidense Robert Conrad — cerca de 150 homens. 1980. Em poucos meses. o próprio desenvolvimento da produção cafeicultora e da economia nacional entrara em contradição com as relações sociais escravistas que. MONTI. Ronaldo Marcos dos. facas e machados. semi-desertas de cativos. a produção escravista cafeicultora encontrava-se destruída.cit. A batalha que se seguiu contra a polícia. Resistência e superação do escravismo na província de São Paulo. No Rio de Janeiro. entre outros. R. no contexto de violento confronto entre abolicionistas.

Anteriormente. política. Clóvis. agudizadas devido ao agir social. ensejara que. insurreições. “Mas. O movimento negro organizado tem rejeitado a Abolição como momento histórico essencial por não ter resgatado. Servidão negra : Porto Alegre: Mercado Aberto. A Europa – sobretudo a Itália recém-unificada – contava com importante população rural excedente. 2002. mas não suficientes. a sociedade no Brasil e dominara as formas de produção subordinadas. MAESTRI. R. desbloqueava-se o impasse em que vivia a cafeicultura e a sociedade brasileira. 164. Rebeliões na senzala: quilombos. apoiada pelos abolicionistas. “Escravidão. se disto se desprende que a divisão de classe tem certa justificativa histórica. 1959. pp. ruía. ! 39 KARL MARX . permitida pelo alto nível do desenvolvimento tecnológico e científico alcançado pela sociedade. o escravismo exigia idealmente que se apresentassem no mercado cativos apenas suficientes para suprirem as necessidades da produção.em 1850. A revolução abolicionista Aceita-se o caráter essencial da Abolição mas questiona-se sua interpretação como revolução social a partir da idéia de que a revolução deve. Miséria da filosofia. Nem que seja em forma embrionária. a instituição que governara. trabalhadores livres reproduziam-se naturalmente e vendiam sua força de trabalho a preços vis. Tal concepção peca por anacronismo. para sempre. é especificidade da transição do modo de produção capitalista. sobre a necessidade da superação escravista: MOURA.37 Como vimos. Pp. 49-54. Benjamin. Mário. [1956] Introduções e notas de MAESTRI. pp. guerrilhas. luta de classes. 47-74.85-93. 38 A contradição entre o caráter altamente socializado do trabalho na   indústria moderna e a apropriação privada dos frutos desse trabalho produz as condições necessárias. transição”. São Paulo: Zumbi. compreendendo a necessidade da destruição do poder burguês. já que os produtores inativos seriam sustentados pelos negociantes ou pelos escravistas e não podiam ser deixados a sua sorte. era necessário   construir exército de trabalhadores que excedesse às necessidades da produção. 1988. Nos dez anos imediatamente posteriores à Abolição. abrindo caminho para novas relações de produção baseadas no trabalho livre. Mário. 1976. como os trabalhadores livres. In: O escravo gaúcho: resistência e trabalho. econômica e socialmente os ex-cativos e seus descendentes. Muito logo. a fim de iniciar a extinção das próprias classes. emancipar totalmente as classes subalternas. & PONGE. Com a Abolição. em 1887-8. A revolução abolicionista – que teve como principal agente os trabalhadores escravizados e os abolicionistas radicalizados – deu o golpe de misericórdia na instituição. Cf. MAESTRI. PÉRET. para que as classes oprimidas transitem de situação de classe em si para uma de classe para si. como nas regiões mais avançadas do mundo. o desenvolvimento objetivo da produção e da sociedade capitalista é condição necessária à construção da nova ordem. São Paulo: Grijalbo. M. 38 ! . as contradições entre as relações sociais de produção escravistas e o próprio desenvolvimento da economia. por mais de três séculos. Porto Alegre: EdUFRGS. Página !14 . 2 ed.39   A possibilidade da classe dominada ter clara consciência de suas necessidades históricas e metamorfosear-se em classe dominante. sobretudo paulista. sempre. Cf. para que a transição se completasse. ao interpretar o passado a partir de uma ótica capitalista de análise. Porto Alegre: EdiUFRGS. Tardiamente. O quilombo de Palmares. 1993. abrissem período revolucionário que se concluiu com a destruição da produção escravista – ainda que tardia – devido à ação direta da massa servil. esta vale apenas para um determinado 37 ! . mais de um milhão de trabalhadores estrangeiros ingressaram no Brasil.

El anti-During. independeria da ação objetiva dos trabalhadores. 1978. [Traduzimos] 41 ! STAERMAN. Madrid: Akal. Conceito de modo de produção. e será varrida pelo pleno desenvolvimento das forças produtivas modernas. Ao propor a transição do escravismo ao feudalismo como resultado da luta de classes. semelhante às primeiras revoluções burguesas. La transición del esclavismo al feudalismo.” Fazer e saber Quanto menos desenvolvido é o nível das forças produtivas materiais de uma sociedade. p. Se assim tivesse sido. ora aberta. 1981. Da falta de consciência e da não emancipação social das classes revolucionárias pré- capitalistas não se deduz que apenas o proletariado tenha desempenhado papel revolucionário nas transições inter-modais. barão e servo. no contexto de relações sociais de produção dadas. fenômeno essencial na interpretação marxiana da história. Apud. pp. menos desenvolvida é a consciência possível dos agentes sociais sobre o processo que protagonizam. M. FIORAVANTE. Staerman assinalou: "Os movimentos revolucionários de escravos e de colonos.”40   Violentamos os limites históricos dos fenômenos sociais ao exigirmos as mesmas determinações – consciência e emancipação social – para transições inter-modais pré- capitalistas. 59. envolvidos numa luta ininterrupta. em sua essência. ainda que essa transição se tenha dado essencialmente devido às múltiplas e inexoráveis formas de oposição do trabalhador escravizado ao escravismo. 73-88. E. Em O manifesto comunista. ora disfarçada.al. Marc et. numa palavra. já que a transição entre os modos de produção. Foi precisamente a impossibilidade de demarcar um momento preciso para a superação do escravismo romano que levou historiadores a apontarem as invasões bárbaras como causa de sua crise. a história da luta de classe. Homens livre e escravo. A divisão em classes se apoiou na insuficiência da produção. ao máximo. minimamente. sempre estiveram em constante oposição.M.tempo. E. et al. “Hipóteses sobre a natureza e as leis de evolução do modo de produção asiático”. E. opressores e oprimidos. o "frágil nível de desenvolvimento das forças produtivas determinou a extrema lentidão desses processos. patrício e plebeu. BLOCH. Paz e Terra. misturados às invasões de tribos e de povos exteriores ao Império. a história das sociedades classistas não seria. uns aos outros. que determinou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade. não culminaram em uma revolução única e vitoriosas." 41   A transição de um regime social pré-capitalista a um outro pode maturar ou efetuar-se com tamanha lentidão que os próprios coevos tenham. F. para determinadas condições históricas. consciência muito superficial dessa transição. GODELIER. [traduzimos] Página !15 . ou com o declínio comum das classes em luta. Isto não determina. Maurice. mestres e companheiros. Engels e Marx propunham: "A história de toda a sociedade até hoje é a história de lutas de classes. que as ações dos agentes históricos deixem de ter efetividade social simplesmente porque não têm consciência das origens e sentidos últimos de seus atos. ! 40 ! ENGELS." Segundo a célebre historiadora soviética da escravidão clássica. "La caída del regimen esclavista". Rio de Janeiro.

"Na época da instalação feudal. Portugal: Presença. Ob. Eles permitiram a gênese de um Estado liberal antidemocrático – a República Velha. como um todo. plena ou parcial. tanto a dos grandes proprietários de terra. 59. 1793-1795. aparentemente. os trabalhadores escravizados brasileiros dissolveram a principal contradição que emperrava o desenvolvimento da formação social brasileira e obtiveram a liberdade jurídica e o direito à cidadania. O que não quer dizer que o trabalhador escravizado não estive diretamente envolvido e interessado nessa transição. O aparente limite desses ganhos. Servus que não é servus Tal foi lentidão da crise e superação do escravismo romano que o produtor direto no modo de produção feudal. A revolução inglesa de 1640. Da ótica dos cativos e da própria história. Bourgeois et bras nus. Christopher. sobretudo visto de uma ótica contemporânea. e que o explorava sem piedade. um abismo separa relações contratuais e relações escravistas de trabalho. não tenha significado importante avanço histórico. Os bras-nus franceses metamorfosearam-se no proletariado francês. O historiador marxista Christopher Hil lembra: "Mas o fato de os homens falarem e escreverem utilizando uma linguagem religiosa não devia impedir- nos de compreender que existe um conteúdo social por detrás do que." 42   O trabalhador escravizado não necessitava ter consciência. não dilui o caráter revolucionário que a transição e essas conquistas constituíram. que determinaram transição inter-modal. 
 42 ! STAERMAN. continuou sendo denominado da mesma forma que havia sido quando da produção escravista clássica – servus. da sua oposição ao trabalho feitorizado e à ordem que o organizava. o trabalhador ligado à gleba. 22] ! 44 GUÉRIN. as classes revolucionárias. como a dos cultivadores dependentes. nada disso significa que aquelas lutas e revoluções. France: Gallimard. 1977. p. penando sob a exploração do senhor feudal. Página !16 . Martins Fontes: Brasil. [traduzimos] 43 ! HILL. são idéias puramente teológicas. A falsa consciência dos agentes desses sucessos não anula seu caráter revolucionário. uma grande parte da qual estava constituída por escravos adscritos a terra. Porém. 1848 e 1871. na época. 1973. Daniel. na sua forma mais deprimida.cit. que se rebelou em 1830. Também por essas razões. Nos modos de produção pré-capitalistas. contra a ordem que ajudara a construir. criaram as condições para a superação da velha organização e obtiveram parcos ganhos na nova ordem. 44   Com a destruição da escravidão. as formas e os caminhos da luta de classes nas sociedades pré-capitalistas são complexos e singulares. Os produtores diretos do escravismo clássico tornaram-se servos. as classes mais interessadas na vitória dos métodos de exploração mais avançados eram as classes em formação. A guerra civil inglesa de 1640 desenvolveu-se sob clima de dissidência religiosa." 43   O Velho e o Novo Também é uma especificidade da transição capitalismo/socialismo que os principais agentes do processo revolucionário tornem-se classes hegemônicas para iniciarem o processo de dissolução classista. para que sua ação contra o escravismo tivesse efeito social.

D. A defesa do tráfico negreiro. como edifício sem fundamentos. por sessenta e seis anos sustentáculo político-institucional da organização social escravista do Brasil independente. licença para passar. de disposições tradicionais e da conservação de grande parte do espírito e da organização do antigo regime". RICCI. Extinguia-se igualmente a classe dos trabalhadores escravizados. em 1888. por mais de sessenta anos a Monarquia dos Braganças – os grandes proprietários de trabalhadores escravizados. morria a consciência da “insurreição contra o cativeiro” e nascia o mito da “abolição da escravatura”. É uma outra ironia histórica – que encontra parte de sua explicação na indigência sóciocultural dos extrabalhadores escravizados – que a vitória abolicionista tenha sido registrada pela memória dos cativos e de seus descendentes como outorga e não como conquista. extinguiase e metamorfoseavase a classe que sustentara.R. A decadência da cafeicultura fluminense inviabilizava aquela província como centro de poder: as elites paulistas começavam a pedir. Leitura. A assinalada impossibilidade histórica da emancipação social dos ex-escravos. julho de 1988. Robert Conrad recorda que os abolicionistas radicais viam o fim do escravismo como um passo em direção de uma real democratização social. da dispersão do movimento de reforma radical depois da queda do Império em 1889 e da consolidação. a submissão da população escravizada. sem muita cerimônia. nos anos seguintes. Minas Gerais e Espírito 45 ! . 8(86). apesar de ainda serem muito fortes as reivindicações federalistas. a manutenção da ordem escravista eram problemas que passavam da preocupação das elites para as páginas da História. o Partido Republicano pronunciara-se em favor do federalismo e mantivera-se silencioso sobre a questão servil. Uma interpretação que a historiografia tradicional fortaleceu e normalizou. em boa parte. Com a Abolição. Maria Lúcia S. O fim do escravismo dissolvera as condições que haviam gerado e sustentado o centralismo monárquico. Já em 1888. o fracasso deste projeto foi o resultado "de uma poderosa reação dos antigos proprietários de escravos nos meses que se seguiram à Abolição. Para ele. defender-se do movimento republicano arregimentando as massas negras e miseráveis urbanas paridas. Um primeiro passo Em Os últimos anos da escravatura no Brasil. caía por terra a monarquia dos Braganças. São Paulo. não significa que a Abolição não pudesse ter-se dado em condição mais favoráveis aos ex-cativos. com a Guarda Negra. Após a aprovação da Lei do Ventre Livre. Não deixa de ser uma ironia histórica que o Primeiro [1822-1831] e Segundo Reinados [1840-1889] tenham arrancado suas forças da defesa intransigente do escravismo e que o Terceiro tenha tentado. pp. São Paulo. Novas formas de produção e novas classes sociais exigiam novas e mais complexas formas de dominação. 67. "A Guarda Negra e a Republica".O. Publicação Cultural da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. As antigas tendências separatistas haviam-se arrefecido no contexto do desenvolvimento de incipientes mas reais laços nacionais. ! Novas formas de dominação No ano seguinte à Abolição. Página !17 . 45  A Abolição – movimento revolucionário pré-capitalista – foi produto sobretudo do agir escravo em aliança com as facções abolicionistas radicalizadas. cafeicultores escravistas do Rio de Janeiro. pelo fim da escravidão. Quando do manifesto republicano de 1870. Cf.

186. 1990. na “Fala do Trono”. cada província deveria realizar a reforma “mais ou menos lentamente”. Robert E. Entre as reformas que propunha – voto secreto e ampliação do colégio eleitoral. Na chefia da pasta da Fazenda. em defesa da escravidão. ! 48 Cf. Anteriormente. no interesse público. Rui Barbosa suspendeu o apoio à por ele denominada “lavoura andrajosa”. o Imperador reivindicara a aprovação de lei que regularizasse “a propriedade territorial” e facilitasse a “aquisição e cultura das terras devolutas”. desde que não sejam cultivadas pelos donos”. sobretudo: CONRAD. Nos anos seguintes. etc. . uma convenção republicana. etc. 47   A adesão de fazendeiros empobrecidos expropriados de seus cativos ao republicanismo não determinou que suas reivindicações fossem atendidas pelo governo republicano. liberdade de culto e de ensino. – destacava-se a aprovação de uma “lei de terras” que facilitasse o acesso da terra “respeitando o direito de propriedade”. 97-99. Robert E. São Paulo: Ática. Página !18 . “A pós-abolição: a reação dos fazendeiros e a queda do Império”. [ex.46 Com a Abolição. Ob. em 3 de agosto. Canudos : o povo da terra. jamais materializado. A escravidão reabilitada. O ingresso crescente de fazendeiros no Partido Republicano reforçou seu caráter escravista e socialmente conservador e diluiu o peso e a importância no movimento de republicanos democratas e anti-escravistas. respeitando o direito de “indenização”. São Paulo: Ática. teria apressado a conspiração republicana. 46 ! Sobre a adesão dos escravistas ao republicanismo. reivindicava lei que concedesse ao governo o “direito de expropriar.Santo aderiram ao partido. Foram as classes cafeicultoras em expansão que dominaram o novo Estado. casamento civil. ver. um dos maiores centros escravistas do país. Contra-revolução republicana Em junho de 1889. as terras que confinam com as ferrovias. pp. 48 Os recursos públicos disponíveis foram investidos no financiamento do ingresso   no país de trabalhadores livres europeus. caracterizada pelo historiador Robert Conrad como uma verdadeira “contra-revolução”. José do Patrocínio. garantindo uma forte expansão da produção. A vitória esmagadora dos liberais. A escravidão reabilitada. em Itu. e não na indenização de plantadores decaídos. líderes republicanos paulistas como Prudente e Morais e Campos Sales intervieram.cit. criando as condições para implementar as reformas propostas. 1995. VILLA. “A pós-abolição: a reação dos fazendeiros e a queda do Império”. formava-se o gabinete liberal-reformista do visconde de Ouro Preto. maior autonomia provincial. a adesão   maciça de fazendeiros cafeicultores conservadores ao movimento republicano serviu como ferramenta de pressão em favor do pagamento de uma indenização pelos cativos perdidos. com 33 delegados. ativamente. Cristiano Ortoni. CONRAD. Jacob. O gabinete de Ouro Preto havia reservado 86 mil contos de réis para empréstimos à lavoura – um quarto do orçamento. [ex. P. Jacob. o Partido Republicano assumia plenamente o caráter conservador e oligárquico que o caracterizaria na República Velha. Em abril de 1872. se eles chegassem ao governo. Marco Antônio. reafirmou que a questão servil não era responsabilidade dos republicanos mas que. Nesse momento. em geral donos de cativos. Na ocasião. Antônio Bento. 183.datilografado]. nos debates parlamentares.datilografado] 47 ! Cf. GORENDER. P. GORENDER. geralmente provenientes das frágeis classes intermediárias – Luís Gama. A pouca atenção dada às reivindicações federalistas e a simples referência à reforma da estrutura dominante da propriedade fundiária selaram a sorte do Terceiro Reinado.

emancipasse as classes subalternas nacionais. O federalismo era também forma de deixar que os estados empobrecidos soçobrassem em sua miséria. a revolução abolicionista49   criava as condições para que. O novo Estado brasileiro assumia essência profundamente conservadora. A escravidão reabilidada. com sua proposta de ditadura científica das elites. No contexto de uma transição efetuada desde as alturas sob a batuta das elites nacionais. Cf. a eventual repetição dessas jornadas. Jacob. Desbloqueando o grande entrave ao desenvolvimento da sociedade brasileira de então. Brasília. sobretudo no Norte. Mário. pp. a nova ordem institucional assumiu o caráter que manteve praticamente imutável até o fim da República Velha. A burguesia brasileira. O centralismo imperial nascera devido à escravidão e perdera sentido quando ela terminara. exigiu formas ideológicas mais refinadas. a dependência aos mercados externos para a venda das mercadorias e compra dos manufaturados. CNPq. 1999. v. 1981. Capítulo 9. Manuel Correia de (Org). democrática e popular. Seminário Internacional. no sentido atual do termo. 49 ! . O caráter agro-exportador-latifundiário da produção. que teve entre seus principais defensores intelectuais como Nina Rodrigues. n. No contexto da república liberal e elitista brasileira. num patamar histórico e social mais elevado. Em importantes regiões do Brasil. A coroa e o tronco: escravidão e o Estado nacional brasileiro. o positivismo comtiano. A gênese de novas classes e de novas formas de produção. Mário. Oliveira Viana. GORENDER. In: ANDRADE. 1990.2. Jacob. São Paulo: Brasiliense. P. RS. justificou o monopólio do poder das classes dominantes. associados ao trabalho livre. no Nordeste e no Centro Sul. em favor de toda a sociedade. 3. Página !19 . no futuro. concluindo a “revolução burguesa no Brasil”. 49-77. permitiam uma ampla autonomia dos estados da federação. A Revolução Abolicisonista. 2001. Ainda mais que a autonomia econômica regional interessava agora aos grandes estados hegemônicos. o “racismo científico”. Ágora (UNISC). exigia novas formas de dominação política e ideológica. 188. a subalternização das classes populares. 7-33. Euclides da Cunha. Recife: Fundação Joaquim Nabuco. federalista e elitista e nulamente republicana. Santa Cruz do Sul. categoria inexistente na organização social escravista. p. propunha que apenas as elites etnicamente brancas tinham condições de ascenderem ao poder. O golpe Militar de 15 de Novembro de 1889 lançou por terra o edifício monárquico já sem fundamentos. determinada pelo fim da produção escravista. Além do apenas moderno: Brasil séculos XIX e XX. [Uma versão inicial desse texto foi publicada em: MAESTRI. Gilberto Freyre. No sul do Brasil. A Primeira Constituição Republicana sancionaria o novo re-ordenamento nacional de forças e novas formas de dominação. ! MAESTRI. GORENDER. São Paulo: Ática. 2001. A República surgia de determinações sociais e políticas mais profundas. A Escravidão e a gênese do Estado Nacional Brasileiro. unificando juridicamente as classes subalternas.