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Ponto de Vista Point of View

Teoria e prática das práticas alternativas


Theory and practice of alternatives practices

Fernando D. de Avila-Pires
Departamento de Medicina Tropical, Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro - Brasil

São abordados, os fundamentos científicos e a ética da utilização das práticas de medicina alternativa em voga no Brasil.
Ressalta-se que, em geral, o termo alternativo não é definido e que pode se referir aos princípios básicos ou aos métodos
de diagnóstico e tratamento. Sugere-se que a escolha individual de um sistema terapêutico é mais influenciada por
fatores culturais, pela tradição familiar e pela moda, do que pela análise racional dos seus fundamentos. Estabelece-se
que o que distingue realmente os diferentes sistemas são seus princípios e não suas práticas.

Medicina tradicional. Terapias alternativas. Sociologia médica.

A apresentação do Tratado único da constitu- especialistas em diferentes disciplinas rela-


ição pestilencial de Pernambuco, publicado por cionadas com a farmacognosia e a etnobotânica.
Joam Ferreyra da Rosa, em 1694, conserva sua Afirma a autora, no prefácio, ser sua a primeira
pertinência e atualidade nos dias de hoje. Sob ou- obra a tratar do ressurgimento do interesse da ciên-
tras formas, a disputa entre empíricos e racionais cia pelas plantas medicinais, "a matter of jungle
persiste, decorridos três séculos, como será visto research and laboratory search."
no presente artigo. Kreig7 relata as tentativas pioneiras de se bus-
A história do desenvolvimento das modernas car, nos arquivos e excicatas de coleções muse-
drogas e dos fármacos de que se originaram revela ológicas, registros de informações folclóricas,
o surgimento de um complexo de interações entre dados etnobotâncios e etnofarmacológicos que
pesquisa básica e tecnologia de ponta envolvendo deram as pistas para a descoberta de princípios
interesses da indústria multinacional e das políti- ativos necessários à produção de fármacos e,
cas sociais e econômicas nacionais. Por outro lado, eventualmente, à formulação de novos medica-
pode-se admitir que se atingiu os limites da inven- mentos em tempo mais curto e com menor gasto
tividade em alguns campos, envolvendo a dis- financeiro.
cussão dos direitos da propriedade intelectual, das A Segunda Guerra Mundial, dificultando ao
patentes comerciais, da ética da experimentação e mercado consumidor o acesso aos produtos de cer-
do direito humanitário à saúde e à vida. tas indústrias farmacêuticas e, a estas, as suas
Em março de 1994 surgiu o livro da jornalista fontes de matérias primas, estimulou a procura de
Kreig7, que resume, de maneira simples, agradáv- substitutos para determinadas drogas. O interesse
el e tecnicamente correta, a história da descoberta renovado pelos "produtos naturais" in natura e
e aproveitamento industrial de plantas medicinais, pela pesquisa fitofarmacológica, data daquela
nos tempos modernos. A autora participou de uma década. O sucesso clínico e financeiro da
expedição botânica no campo e reuniu infor- descoberta das propriedades das Rauwolfia, na
mações através de numerosas entrevistas com década seguinte, constituiu um dos pontos de par-

Separatas/Reprints: F.D. de Avila-Pires - FIOCRUZ - Av. Brasil, 4365-21045-900 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil
Recebido em 20.6.1994. Aprovado em 16.1.1995.
tida para que as grandes indústrias transnacionais um sistema médico-terapêutico - em geral sincréti-
se lançassem à busca de novas fontes de princípios co - é a ausência de critérios explícitos e de justi-
ativos no campo, e de novas sínteses, em labo- ficativas racionais. É generalizado o desconheci-
ratório. Entretanto, para cada sucesso obtido, con- mento dos fundamentos da acupuntura, da fitote-
tam-se milhares de tentativas frustadas, ao custo rapia, da cromoterapia, da homeopatia, esta última
de muitos milhões de dólares (Gerez5, 1993). oficialmente regulamentada mais popularmente
A par do interesse pelos aspectos científicos e considerada alternativa. A escolha, na maioria dos
econômicos relacianados às plantas medicinais, casos, não se baseia na avaliação crítica da coerên-
ganhou terreno uma visão idealista e romântica da cia e validade de seus princípios.
natureza, associada a um sincretismo místico, que Por outro lado, um inquérito sumário revela a
reúne elementos de filosofias e religiões orientais e persistência de crenças, crendices, tabus e precon-
crendices herdadas da Europa medieval. Um de ceitos anacrônicos em indivíduos de todas as
seus aspectos mais difundidos é o interesse pelo classes sociais, independente de escolaridade,
chamanismo ou curandeirismo e pelas práticas mesmo em centros urbanos adiantados.
curativas primitivas ou "naturais", consideradas Em 1929, Loeb8 admirava-se ao identificar
como alternativas às ditas oficiais. Entretanto, a práticas de magia negra em plena cidade de New
imprecisa e controvertida concepção popular do que York: "Such incidents seem fantastic anachro-
é natural, desafia os conceitos da química e da nisms, and yet we find the vestiges of magical
biologia. Essa concepção ressuscita idéias já practices persisting even in the commercial centers
questionadas pelos químicos ao tempo de Lavoisier of our big cities". A prática mencionada no artigo,
e definitivamente abandonados pelos biólogos, no de se suprumir a numeração do 13° piso em edifí-
século passado, juntamente com as teorias vitalistas. cios (e a 13a fileira de poltronas em aviões)
Costuma-se invocar, em favor do uso caseiro e demonstra o poder da superstição popular.
da inclusão no receituário médico de infusões de Recentemente, Coelho4 (1990) fez idêntica
plantas medicinais, o conhecimento tradicional, observação ao tratar da bruxaria entre nós:
herdado dos indígenas. Não se leva em conta que A presença, neste fim de século, na cos-
a expectativa de vida e os padrões sanitários dos mopolita Zona Sul do Rio de Janeiro, de
índios são baixos. O recurso à acupuntura, por sua categorias tradicionalmente associadas a
vez, é comumente justificado em razão da tradição sociedades tribais levanta questões não só
milenar chinesa. O uso da homeopatia é defendido sobre as noções de "absurdo" e de "razão",
por favorecer uma visão holística da pessoa e por como sobre concepções correntes de mo-
seu baixo custo, o que deixou de ser verdade nos dernidade. Observações semelhantes foram
últimos anos. feitas pelos diversos autores que, nos últi-
Dentre as razões que explicam o florescimento mos anos, vêm publicando artigos e livros
das práticas alternativas, destacam-se os proble- sobre bruxaria, religiões populares e su-
mas ocorridos com medicamentos modernos tais perstições no Brasil contemporâneo. Aliás,
como a talidomida, assim como a ineficácia de não só no Brasil. Piorry, no século passado,
certos tratamentos para os quais a alopatia ainda é citado por Ackerknecht1 (1986), reconhece
impotente. Acresce o alto custo da medicina cien- que "L'homme adore les superstitions... il
tífica, dos exames sofisticados, das intervenções est tout prêt à admettre ce qu'il ne comprend
cirúrgicas complexas e dos equipamentos moder- past et à refuter l'évidence. Les medica-
nos de diagnóstico. Um aspecto sempre criticado é ments lui plaisent. Par contre, il a horreur de
a tendência de se restringir a atenção à patologia 1'hygiéne qui est contraire a cês habitudes".
de órgãos e sistemas, desconsiderando-se os com- Em 1966, Alvarenga e col2 realizaram uma
ponentes psicológicos, emocionais e sociais da pesquisa na Faculdade de Medicina da
doença. Universidade Federal de Minas Gerais, sobre as
Entretanto, mais que uma reação aos aspectos crendices a respeito da natureza humana e o papel
criticáveis da prática médica dita oficial, tidos do curso de medicina na correção de conceitos
erradamente como inerentes aos princípios da errôneos e concluíram que ..."o curso médico não
alopatia, a preferência crescente pelos sistemas tem produzido modificações nos alunos no sentido
alternativos envolve características curiosas, reve- de diminuir o número de crenças sobre a natureza
ladoras de nossa formação cultural. humana."
O primeiro fato que se torna evidente quando No que diz respeito à escolaridade, como
se analisam as razões que conduzem a escolha de critério de racionalidade e de pensamento lógico, o
que se constata é que os cursos não têm sido bem cada uma delas: há enfermidades que podem ser
sucedidos em tornar operacionais os conceitos curadas com tratamentos ou medicamentos con-
aprendidos, de maneira a permitir o exercício de vencionais e outras que precisam ser exorcizadas
julgamentos críticos com base nos princípios da através de ritos mágicos.
metodologia científica. Os povos indígenas desenvolveram, também,
Exemplo recente é o artigo publicado por códigos e sistemas judiciários e acumularam co-
Palmeira10 (1990), em defesa da utilização de nhecimentos de engenharia e arquitetura. Por que
práticas alternativas de terapia. Nele, má-prática é não se pensa em utilizar os mesmos argumentos,
considerada inerente aos princípios da medicina como o barateamento de custos, o acesso de todos e
dita oficial. A medicina científica é associada a um a simplificação dos procedimentos, instituindo-se
"paradigma mecanicista dominante", que excluiria tribunais de justiça alternativa ou técnicas de enge-
os fatores sociais. O autor externa a atitude de nharia e arquitetura alternativas? Práticas proces-
desconfiança ou de insatisfação com o rigor cres- suais, magistrados, prisões, arbítrio, demandas e
cente das exigências éticas, que hoje retardam o penas diferenciadas são comuns a todas as civiliza-
reconhecimento e registro oficial de fármacos e ções, em qualquer estágio. Mas, mesmo com a
medicamentos, adotados com o objetivo de se evi- perspectiva de se acelerarem os procedimentos e
tar a repetição do desastre da talidomida. Assim, desafogar os tribunais dificilmente tal proposição
aquele autor defende a acupuntura e outras práti- seria aceita na nossa sociedade letrada.
cas, cuja eficácia independeria da demonstração Na verdade, a fundamentação teórica é o que
empírica dos seus resultados. distingue diferentes sistemas, e não as práticas.
Na verdade, o "saber tradicional" é empírico, Fórmulas químicas e fórmulas mágicas podem ser
na concepção literal do termo. O conhecimento usadas da mesma maneira, mas diferem nos seus
milenar, por sua vez, pode ser cumulativo ou fundamentos.
imutável. A antigüidade não o torna essencial- Quatrocentos anos antes de Cristo, Hipócrates
mente verdadeiro. questionou a origem mágica ou sobrenatural da
Quanto à questão da herança cultural dos indí- doença, tanto ao nível individual como popula-
genas, há certos pontos a considerar. cional ou epidêmico.
Na América do Sul, como em outros conti- Nascida na Grécia clássica, a civilização oci-
nentes, as populações nativas congregam-se em dental desenvolveu, a partir da revolução indus-
nações distintas que diferem nos costumes, nos trial, processos tecnológicos, isto é, técnicas
sistemas lingüísticos e na organização social; que derivadas da aplicação de princípios teóricos.
migraram de uma região para a outra, muitas Esses princípios, por sua vez, sofrem revisões e
vezes, no curso da história, encontrando animais e reformulações periódicas e devem ser testados
plantas novos para elas e que, nem sempre, tive- através de uma metodologia rígida, que se con-
ram tempo de aprender a reconhecer. Tribos dis- vencionou chamar de científica, que busca elimi-
tintas especializaram-se em diferentes atividades: nar erros de interpretação e comprovar obser-
na fabricação de artefatos, na construção de casas vações, de maneira objetiva e imparcial. Quando
e embarcações, na caça ou na pesca. A cultura e os as teorias deixam de explicar os fatos que se vêm
conhecimentos não são distribuídos de maneira a descobrir, são rejeitadas e substituídas por
uniforme entre as tribos, como também não o novos paradigmas. A partir da revolução científi-
foram entre os povos que desenvolveram a civi- ca iniciada no século XVI, abandonaram-se as
lização oriental e ocidental. Hoje, malgrado a cir- superstições e dogmas na explicação científica,
culação ampla e rápida da informação através de passando as teorias a ser baseadas em observações
livros, filmes, vídeos, cursos, viagens, traduções, e fatos verificáveis.
rádio e televisão, não existe uma "cultura do civi- Em qualquer avaliação crítica da prática da
lizado" como não existe também uma unidade cul- medicina moderna e do emprego de recursos te-
tural "indígena" ou aborígene. rapêuticos, não se pode deixar de levar em conta
Diferentes grupos nativos desenvolveram, por o impacto da descoberta e o sucesso do uso cor-
sua vez, sistemas teóricos que integram e interpre- reto das sulfas, antibióticos, antimaláricos,
tam os conhecimentos factuais ou empíricos. Estes anestésicos, insulina, anti-histamínicos, anticoa-
sistemas, como muitos dos "civilizados", reúnem e gulantes, corticosteróides, neurolépticos, antide-
combinam elementos naturais e sobrenaturais. pressivos, hipoglicemiantes, diuréticos, hipoten-
Objetos, seres vivos e doenças podem participar sores. Em todas as cidades em que os serviços de
das duas naturezas, com certos componentes de saúde são bem organizados, reduziu-se a morta-
lidade materna e perinatal, e aumentou a expecta- Também aqui, somente o método científico per-
tiva de vida. Doentes crônicos têm seu sofrimen- mite uma explicação demonstrável.
to aliviado, e doenças de origem genética podem As dificuldades de regulamentação começam
ser detectadas, e muitas vezes, corrigidas. Não com o controle sanitário (e de qualidade) de chás
cabe aqui listar exaustivamente as conquistas da e ervas que são oferecidos à venda, inclusive em
ciência, da tecnologia e da técnica que nos per- farmácias, e que vêm se constituindo em fontes
mitem, não apenas sobreviver, mas desfrutar de de intoxicação por vírus, bactérias e fungos con-
razoável nível de qualidade de vida, quando com- taminantes. A presença de duzentas ou trezentas
parada a de nossos avós. Tudo isso graças ao substâncias associadas ao princípio ativo deseja-
desenvolvimento de uma metodologia rígida de do pode causar problemas colaterais. A identifi-
comprovação de eficácia, nascida no século XIX cação taxonômica das plantas utilizadas é, geral-
com a medicina experimental de Claude Bernard, mente, duvidosa, e as dosagens, difíceis de serem
Pasteur, Henle e Koch. controladas.
Até 1930, os recursos terapêuticos disponíveis Fica, assim, a dúvida, se a medicina alternativa
eram escassos, poucos seguros e menos eficazes. contemplaria a adoção de um sistema completo de
Pouco a pouco definiu-se o ideal de se poder dis- teoria e prática em seu contexto holístico ou limi-
por de drogas cada vez mais específicas e com tar-se-ia, apenas, a recomendar uma maneira alter-
menos efeitos colaterais indesejáveis. nativa de utilizar substâncias ou compostos sob a
Ora, aqueles que propõem a oficialização de forma de infusões, sem sintetizá-los, isolá-los,
uma medicina alternativa não esclarecem se se purificá-los ou dosá-los com precisão.
referem a práticas ou a teorias alternativas. A exigência da demonstração científica ou ri-
Deixam de levar em conta que as práticas das gorosa da eficácia de um tratamento ou de uma
medicinas nativas ou tradicionais correspondem e proposição teórica é aconselhada pela cautela, pelo
integram-se a estruturas teóricas próprias. Quando respeito ao paciente, pela ética e pelas implicações
se colhem certas plantas em determinadas épocas legais de um ato não embasado em sólidas evidên-
do ano ou em certas horas do dia e segundo certos cias de sua eficácia e segurança.
ritos, obedecem-se a preceitos de uma crença par- Em resumo, tudo parece indicar que movi-
ticular e sistematizada. A dinamização home- mentos em prol da medicina alternativa reve-
opática, os meridianos chineses, o castigo divino, lam, de fato, profunda ignorância dos funda-
o equilíbrio dos humores, constituem sistemas mentos da química, da biologia, de seus princí-
alternativos teóricos, que não se conformam às pios teóricos, de sua história e de suas apli-
exigências da demonstração pelo método científi- cações e um desprezo ou desconfiança relativos
co. O método que constitui, talvez, a maior ao raciocínio lógico.
descoberta de todos os tempos. E como já advertia Rui Barbosa, em
Ele não constitui o único caminho na busca do 1882 (Barbosa3, 1942, Oliveira9, 1988) no
conhecimento, nem pretende sê-lo. A arte, a caso do ensino universitário. O vício essen-
filosofia, a religião e muitas outras formas de ativi- cial entre nós "é que" o pouco da ciência
dade intelectual envolvem questões que não se que se ensina segue métodos que levam a
sujeitam à verificação pelo método científico. decorar e repetir e nunca a desenvolver a
Implicam em conhecimentos não cumulativos. capacidade de pensar e analisar. Estas facul-
Admira-se um artista primitivo, mas ninguém dades vão produzir, então, doutores inca-
admitiria hoje, nem premiaria, um "cientista primi- pazes de ver a natureza presente, mas
tivo". Certos campos da ciência não admitem a capazes de sustentar, com todas as pompas
verificação popperiana. Mas, nos casos em que é da oratória, as hipóteses mais inverificáveis
aplicável, constitui o único método capaz de sobre a existência do incognoscível.
embasar a atribuição de responsabilidade legal e Três mil anos de tradição não legitimam uma
de justificar decisões de maneira segura, e etica- prática nem confirmam o valor de uma proposição.
mente aceitável. Duvido que Hanemann con- Milenar ou moderno, o que importa é o método de
seguisse a aprovação de sua teoria perante uma se obter e comprovar o conhecimento.
banca de exame de mestrado, nos dias de hoje. Resta discutir o direito de escolha dos sis-
Por sua vez, os resultados das práticas podem temas terapêuticos do cidadão, que envolve con-
ser explicados segundo diferentes sistemas teóri- vicções de natureza religiosa e o grau de infor-
cos. O ritual da coleta de plantas pode ser justifi- mação sobre ditos sistemas, que deve permitir
cado por razões mágicas ou fitoecológicas. uma opção racional. Para a enorme parcela da
população que não passa do nível escolar do Enfim, já Thomas Huxley advertia, em
primeiro grau e a grande proporção que pode 1878 (Huxley 6 ) que A mon avis la connais-
chegar ao término do curso universitário com for- sance en chaque matière est utile dans la
mação e informação deficientes, a escolha de mesure selon laquelle elle tend à donner au
métodos de tratamento é, em geral, influenciada public des idées justes, d'oú dépend la recti-
por razões nem sempre fundamentadas no co- tude des actions, et à écarter les idées fauss-
nhecimento de causa e freqüentemente fundadas es, qui ne sont pas le fondament le moins
na fé, na tradição oral familiar, nas correlações notable et la source la moins féconde de
apressadas e não comprovadas entre medicação e tous les écarts dans la pratique. Comme en
cura, mas reforçada pela memória seletiva, que dépit des assertions de la masse des gens
guarda as ocasiões que confirmam aparentemente positifs, le monde est, après tout, absolu-
os sucessos e esquece os insucessos. ment governé par les idées, et très souvent
Os sistemas populares caracterizam-se pelo par les idées le plus extravagantes et les plus
sincretismo de noções antagônicas e pela tendên- téméraires, il importe au plus haut point que
cia à rejeição da racionalidade. As explicações nos théories, même celles qui se rapportent
são, em geral, vagas ou indefinidas. aux objects les plus éloignés de notre vie
Os riscos a que se expõem os que adotam journalière, soient vraies autant que possi-
essas posições são vários. Certas plantas de uso ble et autant que possible exemptes d'erreur.
tradicional podem ter propriedades insuspeitadas:
o boldo, utilizado para problemas de estômago
contém, na verdade, um poderoso analgésico que Agradecimentos
pode mascarar sintomas de uma enfermidade
grave. A toxidez não está restrita aos medica- Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento
mentos alopáticos. São vegetais e naturais o ópio, Científico e Tecnológico (CNPq) pela concessão
a cocaína, a estricnina e grande número de de Bolsa do Pesquisador (1-A). À Adriana Mohr,
alcalóides. pelos comentários.

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Abstract
So-called alternative medical practices, now favored in Brazil, are discussed in terms of their methods and rationale.
Cursory inquiries show that personal choices of diagnostic and therapeutic systems is made, usually, on the basis of
family tradition, cultural inheritance, and fashion, and not upon a critical examination of the principles upon wich the
alternatives are based. In general, a syncretic approach combining conflicting elements from different systems is
adopted. In contrast, the author shows that the actual differences between the systems lie in their foundations
principles, not in their practices.

Medicine, traditional. Alternative therapies. Sociology, medical.