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180 ARTIGO A RT I C L E

Intoxicações e uso de pesticidas


por agricultores do Município de Paty
do Alferes, Rio de Janeiro, Brasil

Pesticide use and poisoning among farmers


from the county of Paty do Alferes,
Rio de Janeiro, Brazil

Isabella Fernandes Delgado 1


Francisco José Roma Pa u m g a rtten 2

Abstract Introdução

1 De p a rtamento de This survey is part of a more compre h e n s i ve O risco de efeitos adversos à saúde humana re-
Farmacologia e Tox i c o l o g i a , study on the health consequences of pesticide lacionados ao uso de pesticidas depende fun-
Instituto Nacional de
C o n t role de Qualidade em ex p o s u re . In the county (municipality) of Pa t y damentalmente do perfil toxicológico do pro-
S a ú d e , Fundação Os w a l d o do Al f e re s , Rio de Ja n e i ro St a t e , Bra z i l , 55 agri- duto, do tipo e da intensidade da exposição ex-
C r u z , Rio de Ja n e i ro, Bra s i l .
2 La b o ratório de Tox i c o l o g i a
cultural workers were interviewed on the use of perimentada pelos indivíduos e da susceptibi-
Am b i e n t a l , De p a rtamento pesticides, use of personal protective equipment, lidade da população exposta. A exposição indi-
de Ciências Bi o l ó g i c a s , Es c o l a data on health status, and symptoms related to vidual torna-se menor, e conseqüentemente o
Nacional de Saúde Pública,
pesticide ex p o s u re , disposal of agro c h e m i c a l uso de pesticidas mais seguro, à medida que
Fundação Oswaldo Cruz,
Rio de Ja n e i ro, Bra s i l . c o n t a i n e r s , and technical assistance. The most procedimentos de proteção são adotados e as
widely used pesticides were insecticides such as regras de segurança obedecidas.
C o r re s p o n d ê n c i a
Francisco José Ro m a
abamectin, organophosphate compounds, and Há indícios de que, nos países em desenvol-
Pa u m g a rt t e n p y re t h ro i d s , and fungicides such as mancozeb, v i m e n t o, o uso indevido de agroquímicos re-
La b o ratório de Tox i c o l o g i a chlorothalonil, and copper products. As a rule, presenta um sério problema de saúde pública,
Am b i e n t a l , De p a r tamento
de Ciências Bi o l ó g i c a s , Es c o l a
pesticides are handled care l e s s l y, and 92% of mas esta questão ainda não foi devidamente
Nacional de Saúde Pública, w o rkers invo l ved in the mixing, l o a d i n g , a n d estudada 1. O consumo de pesticidas tem cres-
Fundação Oswaldo Cruz. spraying of insecticides and fungicides used no cido rapidamente no Terceiro Mundo e em paí-
Rua Leopoldo Bulhões 1480,
Rio de Ja n e i ro, RJ
p ro t e c t i ve clothing or equipment whatsoeve r. ses emergentes 2, mas na maioria dos casos não
2 1 0 4 1 - 2 1 0 , Bra s i l . Some 62% of workers re p o rted at least one ill- existe controle eficaz sobre a venda e uso des-
p a u m @ e n s p. f i o c r u z . b r ness associated with mixing or spraying pesti- tes produtos, os equipamentos de proteção não
c i d e s . The most frequently re p o rted symptoms são usados ro t i n e i ra m e n t e, não há monitora-
w e re headache, n a u s e a , vo m i t i n g , d i z z i n e s s , mento da exposição ocupacional e o diagnósti-
skin irritation, and blurred vision, and 21% of co e tratamento dos casos de intoxicação são
affected workers required medical care. In more falhos 3.
than half (51%) of the cases, w o rkers re p o rt e d A incidência de intoxicações agudas por
using organophosphate insecticides from toxi- pesticidas é consideravelmente maior nos paí-
cological class I when they felt sick. ses em desenvolvimento do que nos industria-
lizados. No Reino Unido, por exemplo, são rela-
Occupational Ex p o s u re ; Pe s t i c i d e s ; Or g a n o- tados anualmente menos de vinte casos de in-
phosphorus Compounds; Occupational Health toxicações ocupacionais a organofosforados 4,
enquanto no Sri Lanka foram re g i s t radas 100

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USO DE PESTICIDAS EM PATY DO ALFERES 181

mil internações hospitalares/ano e mil mortes/ teção e de descarte das embalagens vazias. Após
ano em decorrência do uso indevido de pestici- uma etapa inicial de aperfeiçoamento, incluin-
das 5. Alguns autores estimam que a incidência do um teste de campo, o questionário passou
de intoxicações por pesticidas nos países me- por uma fase de validação (pré-teste), onde 18
nos desenvolvidos seja até 13 vezes maior do agricultores das localidades de Palmares, Hori-
que a observada nos países industrializados 3. zo n t e, Co q u e i ros e Gu a ribu (Paty do Alfere s )
Em b o ra se tenha uma consciência difusa foram entrevistados. Em seguida, iniciou-se a
do problema, há relativamente poucos estudos aplicação de questionários na microbacia do
sobre as condições em que ocorre a exposição Córrego do Saco – Rio Ubá, onde pro c u ro u - s e
de agricultores brasileiros a pesticidas 6,7,8,9,10,11. entrevistar todos os líderes ou “donos de terra”
O presente trabalho é parte de um estudo de todas as lavouras ativas na região, no perío-
maior, voltado para a avaliação do impacto do do de julho a outubro de 1997. A população es-
uso de pesticidas sobre a saúde de trabalhado- tudada encerra 55 agri c u l t o re s, concentra d o s
res ru ra i s, realizado da região de Paty do Alfe- em três localidades (Campo Verde, Bela Vista e
res, Rio de Janeiro. Este município tem grande Caetés) do Município de Paty do Alferes (22 o15’-
parte da sua população vivendo na área rural, 22 o30’ Sul e 43o16’-41o31’ Oeste) localizado na
é um dos maiores produtores de tomate e ole- Serra do Mar a aproximadamente 130km da ci-
rícolas do Estado 12, e usa intensamente pesti- dade do Rio de Janeiro, no Estado do Rio de Ja-
cidas, como sugerem dados da Fundação Insti- neiro. Este município compreende uma área to-
tuto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tal de 320km2, com densidade demográfica de
do início da década de 1990 13. Neste trabalho, 71,92 habitantes/km2. Essa é uma região de cli-
após discutirmos o perfil do inform a n t e, ava- ma tropical, com temperatura média anual de
liamos os pesticidas usados na re g i ã o, o em- 20oC e 610m de altitude. Há décadas a ativida-
prego de equipamentos de proteção e medidas de econômica principal da maioria de seus
de higiene, a ocorrência de sintomas de intoxi- 22.500 habitantes é a agropecuária, seguida pe-
cação durante o trabalho, o destino dado às em- lo comércio e o turismo. Dentre as lavouras en-
balagens vazias, e o tipo de orientação e assis- contradas, o tomate se destaca como a de maior
tência técnica recebida pelos usuários destes p ro d u ç ã o, constituindo o suporte financeiro
produtos. dos produtores do município. Seguem, em im-
portância de produção, as lavouras de repolho
e pimentão. Este estudo foi aprovado pelo Co-
Material e métodos mitê de Ética em Pesquisa da Fundação Oswal-
do Cruz.
Os dados foram obtidos por meio da aplicação
de um questionário com 85 itens contendo
perguntas sobre os seguintes aspectos: (1) da- Resultados e discussão
dos gerais do informante (escolaridade, situa-
ção na lavo u ra, higiene, consumo de álcool e Os dados aqui apresentados constituem um
fumo), (2) uso de pesticidas (natureza do pro- l evantamento dos produtos usados na re g i ã o,
duto, quantidade, indicações e forma de uso), das medidas de proteção individual adotadas,
(3) uso de equipamentos de proteção indivi- da armazenagem e destino das embalagens va-
dual e medidas de higiene, (4) morbidade refe- zias, da assistência técnica recebida e dos sin-
rida (estado geral de saúde, episódios de into- tomas que os agri c u l t o res associam à exposi-
xicação e sintomas associados pelo entrevista- ção ocupacional a pesticidas.
do à exposição a pesticidas), (5) destino das
embalagens vazias e (6) orientação e assistên- Caracterização da amostra
cia técnica recebida. Todas as entrevistas foram
realizadas no local de trabalho (lavoura), dura- Os dados relacionados à cara c t e rização da a-
ram em média 45 minutos e foram gra va d a s mostra estão resumidos na Tabela 1. Cinqüen-
em fita magnética. A localização de cada lavou- ta e cinco trabalhadores rurais foram entrevis-
ra foi registrada com o auxílio de um localiza- t a d o s, sendo 52 homens e três mulhere s. A
dor por satélite (Global Positioning System, Ac- classificação dos entrevistados segundo a fai-
cuner Sp o rt – Eagle Mod. 506989). Ao final da xa etária foi a seguinte: 4% têm até 20 anos de
entrevista foram visitados os locais de armaze- i d a d e, 60% entre 21 e 40 anos, 29% entre 41 e
namento de pesticidas e equipamentos de pro- 60 anos e 7% mais de 60 anos. Dos agricultores,

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182 Delgado IF, Paumgartten FJR

27% nunca freqüentaram a escola. Dentre aque- Tabela 1


les que fre q ü e n t a ram a escola, 8% estudara m
apenas até a primeira série, 28% até a segunda, Caracterização da amostra de trabalhadores
28% até a terc e i ra, 23% até a quarta, 2% até a agrícolas estudada no Município de Paty do Alferes,
quinta, 2% até a sexta, 2% até a sétima série e Rio de Janeiro, Brasil.
2% até a oitava série do primeiro grau. A esco-
laridade máxima dos entrevistados foi o segun- n %
do grau incompleto (5%). Dos entre v i s t a d o s,
Agricultores entrevistados 55 100,0
40% são meeiros (i . e. indivíduos que plantam
Homens 52 95,0
em terreno alheio, re p a rtindo o resultado das
Mulheres 3 5,0
plantações com o proprietário), 38% donos da
t e r ra onde trabalham, 7% arre n d a t á ri o s, 7%
Faixa etária (em anos)
ocupantes (terra cedida, ocupada ou empre s-
Até 20 2 4,0
tada), 4% são empre g a d o s, 2% arre n d a t á ri o s
21-40 33 60,0
e/ou donos da terra e 2% sócios da lavo u ra. A
41-60 16 29,0
classificação de acordo com o tempo de traba-
Mais de 60 4 7,0
lho na lavoura foi a seguinte: 11% até 10 anos,
22% entre 11 e 20 anos, 31% entre 21 e 30, 20% Escolaridade
entre 31 e 40, 11% entre 41 e 50 e 5% entre 51 e Nunca freqüentaram a escola 15 27,0
60 anos. Todos os agricultores entrevistados re- Já freqüentaram a escola 40 73,0
lataram usar regularmente pesticidas nas suas Até a 1a série do primeiro grau 3 8,0
lavouras. Até a 2 a série do primeiro grau 11 28,0
Até a 3 a série do primeiro grau 11 28,0
Pesticidas usados na região Até a 4 a série do primeiro grau 9 23,0
Até a 5a série do primeiro grau 1 2,0
Os pesticidas citados pelos entrevistados e en- Até a 6 a série do primeiro grau 1 2,0
contrados nas visitas feitas aos locais de arma- Até a 7a série do primeiro grau 1 2,0
zenamento estão listados nas Tabelas 2 e 3. Fo- Primeiro grau completo 1 2,0
ram encontrados, entre inseticidas, fungicidas Segundo grau incompleto 2 5,0
e acaricidas, 36 produtos comerciais: 8 da clas-
se I (extremamente tóxico), 12 da classe II (al- Situação na lavoura
tamente tóxico), 9 da III (medianamente tóxi- Meeiros 22 40,0
co) e 7 da IV (pouco tóxico), segundo a classifi- Proprietários 21 38,0
cação toxicológica do Ministério da Agricultu- A r re n d a t á r i o s 4 7,0
ra / Mi n i s t é rio da Sa ú d e, baseada no De c re t o Ocupantes 4 7,0
98.816/90 de 11 de janeiro de 1990, que regula- Empregados 2 4,0
menta a Lei 7.802/89. Três produtos da classe Arrendatários e/ou Proprietários 1 2,0
t oxicológica I estão entre os cinco que fora m Sócios na lavoura 1 2,0
e n c o n t rados mais freqüentemente na re g i ã o :
i.e. Tamaron® em 53%, Daconil® em 47% e Or- Tempo de trabalho como
agricultor (em anos)
tho Hamidop® em 35% das 55 lavouras visita-
Até 10 6 11,0
das. Não foram encontrados herbicidas nas 55
11-20 12 22,0
lavouras visitadas.
21-30 17 31,0
31-40 11 20,0
P re p a ro e aplicação dos pesticidas
41-50 6 11,0
51-60 3 5,0
Em 100% das propriedades visitadas, observa-
mos que os agroquímicos são diluídos em tan-
ques ou tambores na própria lavoura. Dos en-
trevistados, 72% utilizam pulverizador estacio-
nário motorizado e 15% pulverizador estacio-
n á rio manual para aplicação dos pesticidas.
Somente 8% utilizam pulverizador costal. Cer-
ca de 5% dos entrevistados não estavam envol-
vidos na aplicação de pesticidas.

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USO DE PESTICIDAS EM PATY DO ALFERES 183

Tabela 2

Inseticidas usados no Município de Paty do Alferes, Rio de Janeiro, Brasil.

Grupo químico Produto Substância Classe Lavouras em que


comercial química básica toxicológica foram encontrados (%)*

O rg a n o f o s f o r a d o Ta m a ro n Metamidofos I 29 (53,0)
Hamidop Metamidofos I 19 (35,0)
Elsan Fentoato I 3 (6,0)
Kilval Vamidotion II 12 (22,0)
Ortho Naled Naled II 1 (2,0)
Sumithion Fenitrotion II 2 (4,0)
Orthene Acefato III 5 (9,0)
Carbamato Diafuran Carbofurano I 2 (4,0)
Cartap Cartap II 1 (2,0)
Sevin Carbaril II 2 (4,0)
Piretróide Baytroid Ciflutrin I 3 (6,0)
Sumidan Alfa Fenvalerato I 2 (4,0)
Ambush P e rm e t r i n a II 17 (31,0)
Decis Deltametrina II 10 (18,0)
Ripcord C i p e rm e t r i n a II 6 (11,0)
Corsair P e rm e t r i n a II 5 (9,0)
Nor-trin C i p e rm e t r i n a II 2 (4,0)
Bulldock Betaciflutrin II 1 (2,0)
Outros Vertimec Abamectina III 33 (60,0)

* Total de lavouras visitadas = 55.

Tabela 3

Fungicidas e acaricidas usados no Município de Paty do Alferes, Rio de Janeiro, Brasil.

Pesticida Produto Substância Classe Lavouras em que


comercial química básica toxicológica foram encontradas (%)*

Fungicida Daconil C l o ro t a l o n i l I 26 (47,0)


Dacostar C l o ro t a l o n i l I 1 (2,0)
Rubigan Fenarimol II 7 (13,0)
Dithane Mancozeb III 24 (44,0)
Manzate Mancozeb III 11 (20,0)
Orthocide Captan III 8 (15,0)
Curzate Cimoxanil III 4 (7,0)
Benlate Benomil III 3 (6,0)
Cerconil Clorotalonil III 1 (2,0)
Cobre Sandoz Óxido cuproso IV 11 (20,0)
Funguran Oxicloreto de cobre IV 12 (22,0)
Cuprogarb Oxicloreto de cobre IV 4 (7,0)
Microzol Enxofre IV 3 (6,0)
Cercobin Tiofanato metílico IV 2 (4,0)
Thiovit Enxofre IV 1 (2,0)
Acaricida Tedion Tetradifon III 3 (6,0)
Kumulus-s Enxofre IV 3 (6,0)

* Total de lavouras visitadas = 55.

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184 Delgado IF, Paumgartten FJR

Equipamento de proteção i n f o rm a r. Com relação à compra dos pestici-


e medidas de higiene d a s, 28% compra ram com base na indicação
do ve n d e d o r, 25% tive ram indicação de outro
Dos entre v i s t a d o s, 92% inform a ram não usar agricultor e 21% do dono da terra onde traba-
qualquer tipo de equipamento de proteção in- lham. O restante fez a escolha dos pesticidas de
dividual para preparar e/ou aplicar os pestici- acordo com a indicação da EMATER-RIO (6%),
das. Esta situação tem sido observada em estu- de um agrônomo (4%) ou sócio (4%) e 8% não
dos realizados em outras regiões do nosso país tiveram nenhum tipo de indicação. 4% não sou-
7,9,11. Os motivos alegados para não usar equi- beram informar. Quanto ao cálculo da quanti-
pamentos de pro t e ç ã o, i . e . “falta de costume” dade de pesticida usada por aplicação, 57% o
(29%), “são desconfortáveis” (22%), “são quen- f i ze ram de acordo com o rótulo, mas 13% dos
tes” (18%), “dificultam o trabalho” (16%), “cus- entrevistados não sabiam informar as concen-
tam caro” (16%), também foram semelhantes trações de pesticidas usadas. Os outros agricul-
aos descritos em outros levantamentos 13 . t o res calculavam após receber orientação do
Quanto às medidas de higiene pessoal, 98 % re- vendedor (8%), de outro agricultor (8%), de um
lataram que lavam as mãos e 77% inform a ra m agrônomo (4%) ou da EMAT E R-RIO (2%). 8%
que tomam banho logo após a aplicação e/ou calcularam a quantidade de pesticida necessá-
p re p a ro de pesticidas. 77% dos entre v i s t a d o s ria para cada aplicação por experiência própria
re l a t a ram que as roupas que vestem quando e 68% disseram ter aprendido a usar pesticidas
preparam e/ou aplicam os pesticidas são sepa- com outro agricultor.
radas das roupas da família para lavagem. Dos
a g ri c u l t o res que lavam em separado a ro u p a Morbidade referida
usada na aplicação e/ou no preparo do pestici-
da, 48% inform a ram que o fazem para evitar Dos entrevistados, 62% informaram já ter “pas-
contaminação com o veneno e outros 36% por sado mal” ao preparar e/ou aplicar pesticidas.
causa do “forte mau cheiro” que impregna o te- Os sintomas citados pelos entrevistados são re-
cido. 12% lavam a roupa no local de trabalho. lacionados na Tabela 4, destacando-se: dor de

Armazenagem e destino
das embalagens vazias
Tabela 4
Dos entre v i s t a d o s, 52% guardam as embala-
gens de agroquímico em local tra n c a d o. Não Sintomas que os agricultores relataram ter
existe na região uma prática única com relação apresentado durante e/ou logo após a preparação
ao descarte das embalagens de pesticidas. Dos e/ou aplicação de pesticidas na lavoura.
55 entrevistados, 15% guardam para posterior Paty do Alferes, Rio de Janeiro, Brasil.
reciclagem a ser realizada pela prefeitura, 13%
e n t e r ram, 11% queimam, 8% deixam na pró- n %
pria lavoura e 6% reúnem os restos e jogam na
Agricultores entrevistados 55 100,0
mata. 45% dos entrevistados disseram utilizar
Relataram já ter “passado mal” 34 62,0
mais de uma forma de descarte: 23% queimam
Relataram nunca ter “passado mal” 21 38,0
(plástico) ou enterram (vidro), 6% queimam ou
Agricultores que apresentaram 34 100,0
reúnem os restos e jogam na mata (vidro), 6%
sintomas
queimam ou deixam na lavo u ra (vidro), entre
Dor de cabeça 24 71,0
outros.
Enjôo 17 50,0
Diminuição da visão 13 38,0
Orientação e assistência técnica
Vertigem/tonteira 12 35,0
Irritação da pele 10 29,0
En t re os entre v i s t a d o s, 62% disseram não ter
Perda de apetite 8 24,0
recebido assistência técnica em 1996, mas 11%
Tremores 5 15,0
re c e b e ram visita da Em p resa de Assistência
Vômitos 5 15,0
Técnica e Extensão Ru ral do Estado do Rio de
Crise alérgica (espirro) 2 6,0
Janeiro (EMATER-RIO), 8% do vendedor de pro-
Diarréia 2 6,0
dutos agrícolas da região e 4% da Empresa Bra-
Dores no peito 2 6,0
s i l e i ra de Pesquisa Agro p e c u á ria (EMBRAPA ) .
Secura na garganta 1 3,0
Outros 4% receberam visita de um engenheiro
Nervosismo 1 3,0
agrônomo autônomo e 2% da Se c re t a ria de
A g ri c u l t u ra do município. 6% não soubera m

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USO DE PESTICIDAS EM PATY DO ALFERES 185

cabeça (71%), enjôo (50%), diminuição da vi- ram que não usam qualquer tipo de equipa-
são (38%), ve rt i g e m / t o n t e i ra (35%), irri t a ç ã o mento de proteção individual quando pre p a-
da pele (29%), perda de apetite (24%), tremores ram e aplicam pesticidas. A cena típica é o la-
(15%), vômitos (15%), crise alérgica (6%), diar- v rador com as vestes habituais de trabalho –
réia (6%), dores no peito (6%), secura na gar- i.e. boné (81%), calça comprida (74%) e camisa
ganta (3%) e nervosismo (3%). A nossa obser- de mangas curtas (58%), descalço (49%) e sem
vação in loco sugere que o entrevistado (“líder” l u va ou qualquer proteção para a face – segu-
ou “dono da terra”) não diferia dos demais tra- rando a mangueira com que aplica o pesticida
balhadores quanto ao contato, hábitos e cuida- (conhecido na região como “remédio para plan-
dos no manuseio dos pesticidas. Assim sendo, tas” ou “veneno”). Nestas condições, a porta de
possivelmente este quadro de morbidade refe- e n t rada para os org a n o f o s f o rados é uma áre a
rida pode ser extrapolado para o conjunto de descoberta de pele que corresponde a aproxi-
trabalhadores de Paty do Alferes. madamente 30% da superfície total do corpo –
Dos 34 lavradores que “passaram mal” en- i.e. cabeça e pescoço: 6,8%, braço e antebraço:
quanto trabalhavam com pesticidas, 21% pro- 16,4% e mãos: 6,9% da superfície corporal, pa-
c u ra ram atendimento médico em posto de ra o homem de 175cm de altura, 78kg de peso e
saúde ou hospital e 24% inform a ram não ter 1 , 9 2 m 2 de área corporal total (estimativa ba-
tomado qualquer providência. A automedica- seada em dados de Spear et al. 14). Po rt a n t o, é
ção com leite (42%), analgésicos (27%), chás p rov á vel que a exposição ocupacional aos in-
medicinais (9%) e azeite doce (6%) aparece en- seticidas organofosforados seja importante na
t re as iniciativas re f e ridas pelos agri c u l t o re s. região.
Entre os 34 indivíduos que relataram ter “pas- De n t re os 62% dos entrevistados que re l a-
sado mal”, 21% não souberam identificar os t a ram ter “passado mal” durante e/ou logo
produtos que usavam, 30% mencionaram estar após o pre p a ro e/ou aplicação de pesticidas,
usando Ta m a ron®, 9% o Elsan®, 6% o Ort h o 21% tiveram de procurar atendimento médico
Hamidop®, 6% o Kilval®, 3% o Hostathion® e no posto de saúde ou hospital. Entre os sinto-
3% o Me o t h rin®, todos inseticidas do gru p o mas referidos merecem destaque a “dor de ca-
dos organofosforados da classe toxicológica I, beça”, o “enjôo”, a “tonteira/vertigem”, a “irrita-
com exceção do Kilval® (classe II). Rubigan® e ção da pele” e a “diminuição da visão”. A “irri-
Decis® (classe II) foram citados três vezes e tação da pele” é um sintoma local que, em me-
Daconil® (classe I), Ambush® e Kilval® (classe nor ou maior grau, pode ser causado por quase
II) foram citados duas vezes. todos os pesticidas encontrados na região. Os
Os produtos que estavam sendo usados pe- outros sintomas (“dor de cabeça”, “enjôo”, “ton-
los lavradores quando procuraram atendimen- t e i ra / ve rt i g e m” e “diminuição da visão”) são
to médico foram: Hostathion® (classe I), Da- pouco específicos, mas são compatíveis com
conil® (classe I), Ta m a ron® (classe I), Ort h o i n t oxicações agudas leves ou moderadas cau-
Hamidop® 600 (classe I), Rubigan® (classe II), sadas por inibidores da colinesterase (e . g . o r-
Ambush® (classe II), Decis 25CE® (classe II), ganofosforados). Episódios de intoxicação leve
Ki l val® (classe II) e Ve rmitec® (classe III). Na ou moderada por organofosforados podem, in-
maioria dos casos (79%), os entrevistados rela- clusive, ser confundidos com estados gripais. É
taram que voltaram e/ou ainda trabalham com interessante notar que, em mais da metade dos
os mesmos produtos que usavam quando “pas- casos (51%) em que os lavra d o res identifica-
saram mal”. ram os pesticidas que usavam quando “passa-
Em todas as 55 lavouras visitadas no Muni- ram mal”, foram citados inseticidas organofos-
cípio de Paty do Alferes são usados pesticidas, forados da classe toxicológica I.
em particular os inseticidas e fungicidas. Entre Após análise dos dados apresentados neste
os inseticidas utilizados com maior freqüência trabalho, alguns aspectos tornam-se evidentes
e n c o n t ra-se a a b am e ct in a, os org a n o f o s f o ra- como, por exemplo, o uso intenso de pesticidas
dos metamidofos e vamidotion e os piretróides o rg a n o f o s f o rados de classe toxicológica I (ex-
p e rm et r in a, c ip e rm et r in a e d e lt am et r in a. Os tremamente tóxicos) e a falta de uso de equipa-
fungicidas mais usados são o ditiocarbamato mentos de proteção individual pelos agriculto-
mancozeb, o clorotalonil e os diferentes produ- res que pre p a ram e aplicam estes pro d u t o s.
tos à base de cobre. Nestas condições pode-se antecipar que a ex-
Pa rt i c u l a rmente preocupante é o uso fre- posição por via dérmica é importante e medi-
qüente dos inseticidas organofosforados meta- das relativamente simples e baratas, como o uso
midofos e vamidotion (classes toxicológicas I e de luvas e camisas de manga comprida, pode-
II), já que estes compostos são bem absorvidos riam desde já reduzi-las substancialmente.
por via dérmica, e 92% dos lavra d o res re l a t a-

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(1):180-186, jan-fev, 2004


186 Delgado IF, Paumgartten FJR

Resumo Colaboradores

Este trabalho é parte de um estudo mais amplo sobre I. Delgado contribuiu nas etapas de aplicação dos
as conseqüências para a saúde da exposição a pestici- questionários, de análise dos dados obtidos e na ela-
das. Em 1997, no Município de Paty do Alferes, Rio de boração do texto do artigo. F. Paumgartten participou
Ja n e i ro, 55 agricultores foram entrevistados sobre o da análise dos dados obtidos nos questionários e da
uso de pesticidas, equipamentos de proteção e medi- elaboração do texto do artigo.
das de higiene, ocorrência de intoxicações, destino das
embalagens vazias e o tipo de orientação técnica rece-
bida pelos usuários destes pro d u t o s . Os pesticidas
mais usados foram inseticidas como a abamectina, os Agradecimentos
compostos organofosforados e os piretróides, e os fun-
gicidas como o mancozeb, o clorotalonil e produtos à Este trabalho foi financiado com recursos do PADCT-
base de cobre . En t re os tra b a l h a d o res envolvidos no FINEP (CIAMB). Francisco José Roma Pa u m g a rt t e n
preparo e/ou aplicação de pesticidas, 92% informaram recebe bolsa de pesquisa do Conselho Nacional de
não usar qualquer tipo de equipamento de pro t e ç ã o Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
individual. 62% dos agricultores entrevistados infor-
m a ram já ter “passado mal” ao pre p a rar ou aplicar
pesticidas. Os sintomas mais freqüentemente citados
foram dor de cabeça, enjôo, vômitos, ve rt i g e m ,i r r i t a-
ção da pele e visão embaçada. Destes agricultore s ,2 1 %
necessitaram de assistência médica e em mais da me-
tade dos casos (51%), em que os lavradores identifica-
ram os pesticidas que usavam quando “p a s s a ra m
m a l ”, f o ram citados inseticidas organofosforados da
classe toxicológica I.

Exposição Ocupacional; Praguicidas; Compostos Or-


ganofosforados; Saúde Ocupacional

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