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Paolo Ridolfi

Sem Título, 2017


Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 x 200 cm
Sem Título, 2017
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
100 x 150 cm
Sem Título, 2017
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
200 x 200 cm
Sem Título, 2017
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
200 x 200 cm
Chafariz, SIM Galeria, Brazil, 2016
[Chafariz at SIM Galeria, Curitiba, Brazil, 2016]
Sem Título, 2015
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 x 150 cm
Sem Título, 2015
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 x 150 cm
Chafariz, SIM Galeria, Brazil, 2016
[Chafariz at SIM Galeria, Curitiba, Brazil, 2016]
Sem Título, 2016
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
130 x 130 cm
Sem Título, 2016
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
130 x 130 cm
Chafariz, SIM Galeria, Brazil, 2016
[Chafariz at SIM Galeria, Curitiba, Brazil, 2016]
Sem Título, 2016
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
100 x 200 cm
Sem Título, 2016
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 x 150 cm
Chafariz, SIM Galeria, Brazil, 2016
[Chafariz at SIM Galeria, Curitiba, Brazil, 2016]
Sem Título, 2016
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
130 x 130 cm
Sem Título, 2014
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
100 x 200 cm
Sem Título, 2014
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
155 x 155 cm
Sem Título, 2014
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
80 x 80 cm
Pintura Vazia, 2014
Cobre e latão
[Copper and tin]
30 x 20 cm
Pintura Vazia, 2014
Acrílica sobre cobre
[Acrylic on copper]
60 x 40 x 10 cm
Pintura Vazia, 2014
Cobre
[Copper]
35 x 35 x 14 cm
Pintura-Vazia Ruptura, 2013
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
60 X 48 X 16 cm
Pintura-Vazia Homenagem a Fontana, 2013
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
72 X 47 X 10 cm
Transição I, 2013
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
100 X 100 cm
Concreto II, 2013
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
100 X 100 cm
Pintura ao Quadrado, SIM Galeria, Brazil, 2013
[Pintura ao Quadrado at SIM Galeria, Curitiba, Brazil, 2013]
PAOLO RIDOLFI | Fernando Cocchiarale

As pinturas mais recentes de Paolo Ridolfi, aqui expostas, podem ser tomadas como um sintático estrito da modernidade (interno e autorreferido) para o campo semântico, isto é,
balanço poético de sua trajetória, iniciada na década de 1980. Neste balanço, porém, o campo do sentido e da conexão do trabalho com o mundo cotidiano?
o artista não se contentou em reavaliar as conquistas visíveis daqueles trabalhos que
lhe abriram novos caminhos. Ridolfi foi além e mergulhou em direção a uma camada A resposta passa por uma pintura cujo sentido planar não resulta necessariamente num
profunda e menos evidente de seu processo criativo: aquela da articulação semântica de espaço abstrato. Ao contrário, esses quadros remetem (e seus títulos o confirmam) ao
recorrências – cromáticas, espaciais, temáticas e intuitivo- conceituais, etc.- que, em três Concreto, termo cuja ambiguidade pode designar tanto o material de construção, quanto
décadas, formaram um sentido comum, processual, subjacente à sua produção, desde o a arte concreta; aos Cobogós e Azulejos, elementos arquitetônicos indissociáveis da
florescimento inicial até o presente. parede, que o artista faz migrar para a tela por meio de seu trabalho, semantizando formas
aparentemente abstratas.
A mostra é, portanto, uma ocasião privilegiada para o mapeamento de questões
fundadoras do núcleo poético de seu trabalho, não só do ponto de vista auto-avaliativo Durante milênios, muros de templos e palácios eram praticamente o único plano pictórico
de Paolo (e dos que o vêm acompanhando criticamente), como também do daquele de disponível (murais). Foi somente na Renascença que o quadro (óleo sobre tela) substituiu-
curiosos e interessados que costumam depositar em mediações teórico-discursivas parte os, conquistando sua hegemonia absoluta.
de suas expectativas de compreensão da produção contemporânea. Em depoimento
recentemente prestado, Paolo Ridolfi afirma que: Ridolfi nos lembra dessa ligação ancestral entre pintura e arquitetura, conforme observou
Agnaldo Farias em catálogo da mostra anterior de Ridolfi na SIM. Esse padrão cromático-
Depois de tanto tempo trabalhando com a figuração, quero voltar ao primeiro assunto: planar se manifesta, inclusive, em muitas de suas fotografias iniciais, quando imagens,
apenas a arte. Na figuração há muitos elementos para serem interpretados, em Pinturas profusamente coloridas, eram registradas de modo a criar distâncias mínimas, um
Vazias apresento obras livres desses outros significados, quero valorizar cada cor, cada achatamento entre o primeiro plano e o fundo.
pincelada, a pintura em si e esvaziar as telas de qualquer narrativa [...]. É como se eu
estivesse voltando à pedra fundamental das minhas obras e anseio saber qual será a Dentre as diversas séries de pinturas expostas, todas resultantes do balanço poético feito
recepção das pessoas quanto a essa decisão. pelo artista nos dois últimos anos, algumas dão continuidade a experiências anteriores.
Não é o caso de suas Pinturas Vazias; novas, essas pinturas são a melhor expressão da
É bom, no entanto, não perdermos de vista que a pedra fundamental da produção de radicalidade do mergulho dado por Ridolfi.
Paolo, artista contemporâneo, é basicamente a mesma que alicerça a pintura moderna.
Coube paradoxalmente a Maurice Denis, pintor simbolista francês (1870-1943), a definição O título dessa série evoca diretamente o Quadrado negro sobre fundo branco, de Kazimir
de pintura mais importante do modernismo. Ela abriu o caminho que levou ao triunfo Malevitch (1878-1935), considerado, em 1913, tanto pela crítica, quanto pelo público, como
das artes abstrata, construtiva e concreta algumas décadas mais tarde. Publicada pela uma celebração do vazio.
revista Art et Critique, essa definição integrava o Manifesto Nabis, lançado nesta revista
por Denis, em agosto de 1890. As Pinturas Vazias não são, porém, planos simples. Formadas por paralelepípedos
montados e costurados com a mesma lona de suas telas, elas estão pintadas por camadas
Um quadro – antes de ser um cavalo de batalha, uma mulher nua ou qualquer anedota – é monocromáticas de tinta acrílica que ratificam seu status pictórico apesar de sua
essencialmente uma superfície plana coberta de cores reunidas numa certa ordem. tridimensionalidade flácida.

A definição de pintura proposta por Denis enfatizava, com surpreendente acuidade – se Ainda que a remissão ao Vazio atribuído a Malevitch possa não ter sido intencional, algumas
consideradas tanto a época, quanto a timidez de sua obra –, o teor planar da tela que das Pinturas Vazias de Ridolfi possuem subtítulos extraídos da história da abstração
acolhia a pintura, substantivo e essencial, em detrimento da narrativa de temas específicos, geométrico-concreta. Além disso, essas obras são submetidas às intervenções evocadas
sempre cambiantes e, por isso mesmo, impossíveis de gerar conceitos permanentes. pelos títulos que lhes foram atribuídos pelo artista: em Ruptura, nome do manifesto de
lançamento do movimento concretista paulistano, em 1952, o paralelepípedo amarelo está
Para muitos artistas do final do século XIX, a tela havia deixado de ser somente fundo rompido, descosturado; já na Homenagem a Lucio Fontana, o monocromo vermelho está
cênico para tornar-se campo de invenção formal e cromática. De maneira semelhante cortado. Mais próximos dos temas da própria arte, as Pinturas Vazias de Paolo Ridolfi
(mesmo antes da volta deliberada “à pedra fundamental” do trabalho), parte considerável parecem corresponder ao anseio do artista manifesto em seu depoimento, voltar ao
da produção de Paolo Ridolfi sempre foi marcada pela preocupação de ativar, por meio primeiro assunto: apenas a arte.
da cor, o plano pictórico.

Da afinidade do artista com esse fundamento essencial da pintura moderna deriva,


portanto, outra questão: como a adesão de Ridolfi ao espaço pictórico planar modernista,
autorreferente, pode fundamentar a releitura autocrítica de seu trabalho, já que este
(como, por sinal, toda a produção contemporânea) quase sempre transborda do âmbito
PAOLO RIDOLFI | Fernando Cocchiarale

Paolo Ridolfi’s most recent paintings, exhibited here, can be taken as a poetic balance of From the artist’s affinity with this essential foundation of modern painting derives, therefore,
his career, which began in the 1980s. In this balance, however, the artist was not satisfied in another question: how does the accession of Ridolfi to the pictorial planar modernist
reevaluating the visible achievements of those works that had opened him new pathways. self-referential space, can support the self-critic reading of his work, since it (by the way
Ridolfi went beyond and plunged toward a deep and less obvious layer of her creative , all contemporary production) almost always overflows the strict syntactic context of
process: that of semantic articulation of recurrences - chromatic, spatial, thematic and modernity (internal and self-reported) to the semantic field (i.e.: the field of meaning and
conceptual-intuitive, etc. -, which in three decades formed a common, procedural and connection of his work with the everyday world)?
underlying meaning to its production, from the initial bloom to the present.
The answer lies in a painting whose planar meaning does not necessarily result into abstract
The show is therefore a privileged occasion for mapping the founding issues of the poetic space. Rather, these paintings refer (and their titles confirm) to the Concrete, a term whose
core of his work, not only from the self-evaluative standpoint of Paolo (and those who ambiguity can designate both the construction material, the concrete art; to Cobogós and
have been following him critically), as well as that of the curious and interested that usually Tiles, architectural elements inseparable from the wall, which the artist makes migrate to
deposit in theoretical-discursive mediations part of their expectations for understanding the screen through his work, making semantic seemingly abstract forms.
the contemporary production. In a testimony given recently, Paolo Ridolfi says.
For millennia, the walls of temples and palaces were practically the only available pictorial
After so much time working with figurative images, I want to go back to my first subject: plane (murals). It was only in the Renaissance that the frame (oil on canvas) replaced
only art. In figurative art there are many elements to be interpreted, in Empty Paintings them, winning its absolute hegemony.
I introduce works free from these other meanings, I mean to cherish each color, each
brushstroke, the painting itself, and to empty the canvases of any narrative [...]. It is as if I Ridolfi reminds us of this ancestral link between painting and architecture, as Agnaldo
were returning the cornerstone of my works and I yearn to know what will be the reception Farias has noted in catalog of previous shows from Ridolfi at SIM. This chromatic planar
of the audience regarding this decision. pattern manifests itself, including, in many of his early photographs, as images, lavishly
colored, which were recorded in order to create minimal distances (flattening) between
However, it is nice not to lose sight that the cornerstone of the production of Paolo, as a the foreground and background.
contemporary artist, is basically the same that consolidates modern painting.
Among the many series of paintings exhibited, all resulting from the poetic balance done
Paradoxically it fell onto Maurice Denis, French Symbolist painter (1870-1943), to create the by artist in the last two years, some give continuity to previous experiences. This is not the
most important definition of painting for Modernism. She opened up the path that led to the case in his Empty Paintings. New, these paintings are the best expression of the radicalism
triumph of abstract, constructive and concrete arts, a few decades later. Published by the of Ridolfi’s dive.
magazine Art et Critique, this definition was part of the Nabis Manifesto, launched in this journal
by Denis in August 1890. The title of this series evokes directly Kazimir Malevich’s Black square on white background
(1878-1935), considered, in 1913, both by critics and by the public, as a celebration of the
A painting – before being a battle horse, a nude woman or any other anecdote – is essentially void.
a flat surface covered with colors assembled in a certain order.
The Empty Paintings are not, however, simple plans. Formed by cobbles assembled and
The definition of painting proposed by Denis emphasized, with surprising accuracy (both sewn with the same canvas of his paintings, they are painted in monochromatic layers of
considered the time and the shyness of her work) the planar content of the canvas which acrylic paint to confirm their pictorial status despite its three-dimensional flaccidity.
welcomed the painting, substantive and essential, to the detriment of the narrative of
specific themes, ever-changing and, therefore, impossible to generate permanent concepts. Even though the remission to the Void attributed to Malevich may not have been
intentional, some of the Ridolfi’s Empty Paintings have subtitles extracted from the
For many late nineteenth century artists the canvas was no longer only a scenic background, history of geometric-concrete abstraction. Furthermore, these works are subjected to
but had become the field of formal and chromatic invention. Similarly (even before the interventions evoked by the titles assigned to them by the artist: Rupture, name of the
deliberate return to “the cornerstone” of his work), a considerable part of Paolo Ridolfi’s opening manifesto of São Paulo’s Concrete movement, in 1952, the yellow cobblestone is
production has always been marked by a concern to enable, through color, the pictorial broken (unwoven); in Homage to Lucio Fontana, the red monochrome is muted. Closer to
plane. the themes of art itself Paolo Ridolfi’s Empty Paintings seem to correspond to the artist’s
yearning manifest in his testimony, back to the first subject: only art.
Espiral II, 2013
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 X 100 cm
Sem Título, 2013
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
200 X 100 cm cada/each
Concreto V, 2013
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 X 150 cm
Piscina Vermelha, 2012
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 X 300 cm
Piscina Amarela, 2012
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 X 300 cm
Piscina Azul, 2012
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 X 300 cm
Piscina Vermelha, 2012
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 X 300 cm
Piscina Cinza, 2012
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 X 300 cm
Universo, 2011
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
130 X 165 cm
Sem Título, 2012
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
100 X 150 cm
Furacão, 2011
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
238 X 153 cm
POROS E ESTILHAÇOS | Agnaldo Farias

Enquanto através de cenas, paisagens, retratos, ou por meio de soluções o estilhaçamento virtual do plano que as recebe, procedimento que, no nosso
abstratas diversas, geométricas, gestuais ou matéricas, a maioria dos pintores país, atingiu seu ápice com Athos Bulcão, referência clara do artista.
persiste no clássico objetivo de fazer com que suas telas e afrescos sublimem
as paredes na qual estão fixadas, Paolo Ridolfi, ao contrário, coloca-nos Como já sugeri, grande parte dessas novas pinturas parecem recobertas de
diante de planos estilhaçados em padrões multicoloridos, uma acumulação azulejos quadriláteros de bordas frisadas, organizados em sequências que
de pequenos losangos, círculos, quadrados, estrelas de desenhos variados; se destacam por força das linhas nítidas, incisivas e grossas que compõem
tudo tão enfaticamente material que parece projetar para fora, transbordar e as juntas que há entre eles. Há ilusão, e ela se concentra no retorcimento
escorrer pelas superfícies, dinamizando ainda mais as composições, tornando- dramático dessas composições, no enunciamento de aberturas circulares,
as ainda mais vivas pulsantes. O artista obtém esse resultado mesmo quando concêntricas, sempre tortuosas e, em alguns casos, flagrantemente perdidas.
suas telas assemelham-se a muros, desses de grandes construções, imponentes Há também aquelas cujas retículas coloridas de azulejos se modificam por
e robustos, comuns em sítios urbanos, contendo barrancos, suportando séries de recalques e reentrâncias, trançando sua superfície em formas
viadutos, atravessados por túneis e dutos pelos quais escoam águas e os geométricas, regulares, ganhando as feições semelhantes a objetos e elementos
líquidos de toda a sorte que atravessam incognitamente o chão das cidades. familiares, como correntes, tranças, gotas; e que, em função da similitude
E não deixa de ser curiosa a ideia de sobrepor a uma parede outra parede. cromática, confunde-se com o fundo, num acontecimento próximo a esses
Transpondo esse procedimento para outras linguagens, equivaleria a pensar peixes e borboletas que se fundem a pedras e troncos até, então, se mexerem,
num poeta que, em lugar de ocupar uma folha de papel em branco com palavras deixando-nos maravilhados ao testemunhar a irrupção de algo que até então
concatenadas entre si, optasse por preenchê-las com palavras soltas, apenas não sabíamos existir.
fazendo-as diversificar seus desenhos, variando entre o nítido e o borrado e
difuso; em outras palavras, que preferisse abandonar as significações que os A movimentação da superfície das pinturas de Paolo sugere a porosidade
arranjos entre elas poderiam fornecer para apresentá-las como uma nebulosa. das paredes, a possibilidade de que elas, ao invés de bloquear nossa visão, o
O que também leva-nos a um maestro que substituísse a música a ser tocada, avanço do nosso corpo, enunciem a passagem para um outro lugar, uma zona
por mais cacofônica, atonal e incidental que fosse, pedindo que cada um dos misteriosa que captura nossos olhos, fazendo-os avançar em suas entranhas.
músicos fizesse soar seus instrumentos. Simultaneamente a esses efeitos de profundidade, acontecem os jogos de
superfície, o embaralhamento e as distorções de módulos planares, recursos
O simples pensamento de uma pintura que, de certo modo, reitera e sobrepõe- que emprestam movimento ao olhar, fazendo-o se deliciar no simples percorrer
se a presença da parede em que está fixada pode levar a supor resultados ocioso, como alguém que se deixa contemplar incansavelmente o vai-e-vem
claustrofóbicos, imagens sufocantes, ainda mais se se tratar de obras de hipnótico das ondas, a ondulação lenta das chamas de uma fogueira, o batuque
grandes dimensões, como é o caso da maior parte das apresentadas nesta desencontrado de uma chuvarada sobre um teto metálico.
exposição de obras recentes de Paolo, com a qual ele inicia seu trabalho
conjunto com a jovem Galeria Sim. Basta, porém, se deter diante dessas telas O requinte dessa peculiar investigação sobre os vários modos de se ativar
para se ter uma sensação completamente distinta. Conquanto cada uma nos uma superfície plana se estende dos “azulejos” às composições povoadas por
passe a noção de coisa sólida, trata-se de uma solidez carismática, garantida linhas coloridas, curtas e ritmadas, organizadas em múltiplos matizes, numa
por cores fortes e contrastes vivos, recurso que as confere vivacidade e até singular mescla da optical art com o pop. Com essas linhas, o artista constrói
mesmo efervescência. O pintor exalta suas superfícies como planos potentes, vórtices, junta-as em pilhas, sempre para obter irradiações de alta temperatura
transbordantes, nada a ver com um elemento passivo, que é o que comumente cromática, com uma desenvoltura que há muito não se vê na paleta dos nossos
associamos a paredes e telas em branco, simples suporte de nossas ideias e artistas, nem mesmo entre seus colegas da geração 80. O resultado é um
ações. espaço dentro de um outro espaço, um produto pictórico cuja ostensiva e
contrastante relação com o espaço real nos leva a concluir sobre o estado de
Se Paolo Ridolfi, como bom pintor, logra desviar nossa atenção da parede para confusão entre o cotidiano e o maravilhoso, o banal e o insólito. Onde estamos
sua pintura, nela, como já foi dito, a planaridade típica da parede reaparece numa afinal? De que matéria somos feitos? A pintura de Paolo Ridolfi parece recuar
solução muito mais enfática e expressiva, longe da homogeneidade e a discrição momentaneamente sobre a parede na qual está estendida para, então, se
daquelas que definem os espaços domésticos e as salas de exposições de arte. projetar para fora, sobre nós, arrastando-nos para dentro dela.
Diferentemente da textura lisa, sem solução de continuidade do acabamento
habitualmente empregado, elas, coerentemente, mantêm relação com a lógica
ornamental das pinturas murais, nomeadamente as que são revestidas de
azulejos, desses pintados com padrões geométricos repetidos, passíveis de
serem combinados de modos variados; trata-se de um modo peculiar de obter
PORES AND SPLINTERS | Agnaldo Farias

While most painters persist, through scenes, landscapes, portraits or perhaps geometric patterns, which can be combined in various ways, a peculiar manner
through various abstract, geometric, gestural or material solutions, in the classic of obtaining the virtual shattering of the plane that contains them, a procedure
objective of making their paintings and frescoes sublimate the walls on which that in our country peaked in the works of Athos Bulcão, a clear reference to
they are fixed, Paolo Ridolfi, by contrast, puts us before shattered planes in the artist.
multicolored patterns, an accumulation of small diamonds, circles, squares, and
stars of various designs, all so emphatically material that they seem to project As already suggested, most of these new paintings seem to be covered with
outward, overflow and run down the surfaces, making the compositions even squared tiles of beaded edges, arranged in sequences that stand out by virtue of
more dynamic, turning them into vivid pulsating images. The artist achieves this sharp, incisive and thick lines that compose the junctions between them. There
result even as his paintings resemble large building walls, stately and robust, is an illusion and it is focused in the dramatic twisting of these compositions, in
like the ones common in urban sites, containing gullies, bearing the weight of the expression of ever winding concentric circular openings that are, in some
viaducts, crossed by pipelines and tunnels through which water flows off and all cases, flagrantly lost. There are also those paintings whose net of colored
sorts of liquids seep and drain unknowably into the city ground. And it remains tiles is modified by a series of bas reliefs and recesses, weaving its surface
interesting the idea of superimposing a wall onto another wall. Applying this into regular geometric shapes, gaining features similar to objects and familiar
procedure to other languages would be the equivalent to thinking of a poet elements such as chains, braids, beads, that, due to chromatic similarity, merge
who instead of filling a sheet of paper with words concatenated together, chose with the background, in a manner close to the way fish and butterflies merge
to fill them with loose words, only changing their designs, which would range with stones and logs, and then, as they move, leave us amazed at witnessing
from the clear to the blurred and indistinct. In other words, as if he preferred to the eruption of something we didn’t know existed before.
abandon the meanings that the arrangements between them could provide to
instead present them as a nebula. This also brings us to the idea of a conductor The movement on the surface of Paolo’s paintings suggests the porosity of
who would replace the music being played for a cacophonous and atonal walls, the possibility that they, instead of blocking our view, the advancement
and incidental sound, asking each musician in the orchestra to sound their of our bodies, enunciate the passage to another place, a mysterious zone that
instruments in random intervals. captures our eyes, making them advance into their guts. Simultaneously to
these depth effects surface games happen, the shuffling and the distortion of
The mere thought of a painting which somehow confirms and overlaps the planar modules, features that lend movement to our sight, making it delight in
presence of the wall on which it is affixed can lead to the assumption of its simple idle course, as someone who lets himself relentlessly contemplate
claustrophobic results, smothering images, even more so if they are very large the hypnotic coming-and-goings of waves, the slow undulation of the flames
works, as is the case of most of the works presented in this exhibition of Paolo’s of a bonfire, the mismatched beat of a downpour over a metallic roof.
recent production, with which he begins his conjoint work with the young Sim
Galeria. However, it is enough to pause in front of these paintings to feel a The refinement of this peculiar research on the various ways of activating a flat
completely distinct sensation. While each gives us the impression of something surface goes beyond only “tiling” towards the style of composition populated
solid, it is a charismatic solidity, guaranteed through strong colors and vivid by short and rhythmic colored lines, organized in multiple hues, in a unique
contrasts, a resource that provides them with vibrancy and even effervescence. blend of Op Art and Pop Art. With these lines the artist builds vortices, joins
The painter exalts their surfaces as powerful planes, overflowing, nothing to do them in piles, always achieving irradiations of high color temperature, with an
with a passive element, which is what we commonly associate with walls and ease that is no longer seen in the palette of our artists, even among his 80s
blank canvases, a simple bearer for our ideas and actions. Generation colleagues. The result is a space within a space, a pictorial product
whose ostensible and contrasting relationship with the real space leads us
If Paolo Ridolfi, as a good painter, manages to divert our attention from the to conclusions about the state of confusion between the everyday and the
wall to his painting, and on it, as has been said before, the typical flatness of the marvelous, the ordinary and the unusual. Where are we anyway? Which matter
wall reappears in a much more emphatic and expressive solution, far from the are we made of? A painting by Paolo Ridolfi seems to momentarily retreat on
homogeneity and discretion that define domestic spaces and art showrooms. the wall on which it is positioned and then to project itself outward over us,
Unlike the smooth texture, without the solution of continuity and the finishing dragging us into it.
normally employed, they coherently maintain a relationship with the logic of
ornamental murals, particularly those covered with tiles, painted in repeated
Diurno, 2010
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
160 X 105 cm
Coluna, 2009
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
160 X 105 cm
SIM Galeria, Curitiba, 2011
[SIM Galeria, Curitiba, Brazil, 2011]
Labirinto, 2009
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
111 X 160 cm
Noturno, 2009
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
160 X 209 cm
Composição III, 2007
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
160 X 345 cm
Self-portrait, 2008
Acrílica sobre tela
[Acrylic on canvas]
150 X 100 cm cada/each
Sem Tìtulo, 1986
Pintura sobre madeira e plástico
[Painting on wood and plastic]
70 X 130 X 5 cm
Perua, 1989
Latex sobre papel sobre tela
[Latex on paper and canvas]
200 X 100 cm
Estamos sempre “decorando” o que está a nossa volta. Se construímos We are always “decorating” that which is around us. if we build a house,
uma casa, ornamentamos as janelas e as portas; no banheiro, azulejo- we adorn its windows and doors; the bathroom, decorated from tile to
azulejo decorado; os livros, encadernados com vermelho e frisos tile; books, bound in red with golden friezes; flower ornamented dishes
dourados; as louças floridas e os copos bordados. A embalagem dos and embroidered cups. the package of yogurt, of chocolate powder, the
iogurtes, dos pós achocolatados, o papel da padaria, em tudo tem bread paper, everything always has a ruse, a whim, a bow to embellish.
sempre um fricote, uma faixinha pra enfeitar. Já os “quadros” merecem the paintings, on the other hamd, deserve special attention. Besides
atenção especial. Além de representarem o papel de “enfeite oficial”, representing the role of “ official ornamentation”, they get frames and
recebem molduras e mais molduras, tornando-se assim uma espécie de more frames, thus becoming a kind of “super ornamentation”. Golden
“superenfeite”. Dourados e prateados, assim são os trabalhos de paolo. and silver, so are paolo’s works. both the gold and the silver work
O ouro e a prata trabalham junto com os outros brilhos e retoques na together with the others glosses and touches in the super-enrichment
supervalorização de cada objeto, esbanjando o apelo visual. O plano é of each object, squandering visual appeal. the plan is to fill the eyes for
encher os olhos para uma suave ou por vezes brusca sedução. a smooth or sometimes sudden seduction.

Atraído pelos olhos, traído pela mente, fica o espectador diante do altar, Attracted by the eyes, betrayed by the mind, the spectator stands before
onde paolo propõe sua arte. O “Peixe e a Sereia” vindos das lendas, “Soy the altar, where paolo proposes his art. “The fish and the mermaid”
loco por ti América”, assuntos ao nosso redor, frases que ecoam por come from legends, “soy loco por ti america”, subjects from around us,
aí e rebatem nas telas. As mãos obedecendo a impulsos incessantes, phrases echoing all around and bounce on the canvases. hands obeying
deixam suas marcas em cada parte, cada detalhe de quase artesanato ceaseless impulses leave their mark on every part, on every detail of
dessa arte do extremo, do exagero. O artista está imerso em seu papel, this almost handicrafted art of the extreme, of the excess. The artist
fuxicando os recantos e limites da arte. A trajetória pretendida está is immersed in his role, digging deep into the nooks and limits of art.
exposta, a estética particularizada, o traço singularizado. Está tudo aí, The intended path is exposed, the aesthetic particularized, the line is
Inclusive a assinatura, de Paolo . singular. It’s all there, including Paolo’s signature .

Leda Catunda Leda Catunda

Texto para o convite da exposição individual Text for the Invitation for the Solo Exhibition
Casa Triângulo - 1989 Casa Triângulo - 1989
Céu de Lata, 1989
Metal sobre tela
[Metal on canvas]
80 X 40 X 6 cm
Transfigurações, Museu de Arte Municipal de Curitiba - MuMA, Curitiba, 2013
[Transfigurações at Museu de Arte Municipal de Curitiba - MuMA, Curitiba, Brazil, 2013]
Retrato III, 1991
Pintura sobre madeira e plástico
[Painting on wood and plastic]
90 X 50 cm
Brasões, 1992
Metal
50 x 25 cm cada/each
Violino, 1990
Metal
80 x 40 x 20 cm
PAOLO RIDOLFI
Nasceu em Maringá, 1962 [Born in Maringá]
Vive e trabalha em Maringá [Lives and works in Maringá, Brazil]

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS [SOLO SHOWS]


2016 Chafariz, SIM Galeria, Curitiba, Brasil
2014 Transfigurações, MuMA, Museu Municipal de Arte de Curitiba, Brasil
2013 Pintura ao Quadrado, SIM Galeria, Curitiba, Brasil
2013 Paolo Ridolfi e Cris Agostinho, Teatro Calil Haddad, Maringá, Brasil
2011 Paolo Ridolfi, SIM Galeria, Curitiba, Brasil
2000 Paolo Ridolfi, Museu Helenton Borba Cortes, Maringá, Brasil
1992 Paolo, Casa Triângulo, São Paulo, Brasil
1988 Paolo, Casa Triângulo, São Paulo, Brasil
1988 Objetos, Sala Miguel Bakun, Curitiba, Brasil

EXPOSIÇÕES COLETIVAS [GROUP SHPWS]


2016 Com olhos de criança, MuMA - Museu Municipal de Arte de Curitiba, Curitiba, Brasil
2015 I Biennial of Asunción, Asunción, Paraguay
2013 Parque de Transgressões, SIM Galeria e Simões de Assis Galeria de Arte, Curitiba, Brasil
2013 Fogo Fátuo, SIM Galeria, Curitiba, Brasil
2011 Mostra Inaugural SIM Galeria. Curitiba, Brasil
2010 O Estado da Arte, Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, Brasil
2009 Experiências Contemporâneas, Espaço Cultural Marcantonio Vilaça, Brasília, Brasil
2009 As Ilhas, Museu Helenton Borba Cortes, Maringá, Brasil
2008 Imãs, Casa Andrade Murici, Curitiba, Brasil
2008 Terrenos Mirantes, Espaço Piloto (UNB), Brasília, Brasil 1989 Coleção Particular de Eduardo Brandão, Casa Triangulo, São Paulo, Brasil
2007 Arredores, Paisagens Poéticas, Museu Helenton Borba Cortes, Maringá, Brasil 1987 Espaço Arte 1, Sala de Exposições do Teatro Guairá, Curitiba, Brasil
2006 Retratos, MAC, Curitiba, Brasil 1987 4 Artistas de Maringá, Galeria Banestado, Curitiba, Brasil
2002 Entre Cores e Reflexos II, Assembléia Legislativa do Paraná, Curitiba, Brasil
2002 Nós, Espaço Arte Cultura Brasil Telecom, Curitiba, Brasil COLEÇÕES [COLLECTIONS]
2002 A Carne, Museu Helenton Borba Cortes, Maringá, Brasil MON – Museu Oscar Niemayer, Curitiba, Brasil
2001 Quatro Elementos, Galeria Santa Imagem, Maringá, Brasil MAC – Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, Brasil
1999 Quatro x Quatro, Museu Helenton Borba Cortes, Maringá, Brasil MUMA - Museu Municipal de Arte de Curitiba, Brasil
1997 Cristina Agostino / Paolo, Casa da Cultura (UEL), Londrina, Brasil Coleção Eduardo Leme, São Paulo, Brasil
1995 Suíte Vollard Picasso, Exposição Itinerante, Brasil Coleção Marco Antônio Vilaça, São Paulo, Brasil
1994 Uma Coleção de Objetos Perigosos, Espaço Berman , Todeschini Plaza, Curitiba, Brasil Coleção Raul Forbes, São Paulo, Brasil
1992 A mostra da Casa Triângulo, São Paulo, Brasil Coleção Rodrigo Barroso, Curitiba, Brasil
1992 Um Olhar Sobre o Figurativo, curadoria de Leonilson, Brasil
1991 Reflexão dos Anos 80, MAC, Curitiba, Brasil PRÊMIOS [AWARDS]
1991 Projeto Parceiros do Tiête- SESC, São Paulo, Brasil 2004 15º Salão Paranaense Da Paisagem
1991 Casa Triangulo, Centro de Conveniência Cultural de Campinas, Brasil 1997 12º Salão Paranaense Da Paisagem
1991 Casa Triângulo, Visita ao Museu Guido Viaro, Brasil 1991 48º Salão Paranaense
1990 Mostra Comemorativa de Aniversário da Casa Triangulo, São Paulo, Brasil 1991 6º Salão Paranaense Da Paisagem
1990 Objetos, Casa Triangulo, São Paulo, Brasil 1990 5º Salão Paranaense Da Paisagem
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