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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 886.025 - CE (2006/0155527-3)

RELATÓRIO

EXMO. SR. MINISTRO ALDIR PASSARINHO JUNIOR:


Adoto o relatório de fl. 244, verbis:

"Indaiá Brasil Águas Minerais Ltda. ajuizou ação cautelar


de busca e apreensão contra Olympia Mineral Ltda., objetivando a
apreensão de garrafões de plástico da marca Indaiá em poder da
acionada.
Cumprida a medida deferida, ingressou a requerente com
ação ordinária visando impedir que a empresa-ré utilizasse ditos
garrafões na comercialização de água mineral que fornece a
consumidores.
Em sua defesa, alegou a empresa promovida que, se a
autora vende o vasilhame aos seus clientes, o mesmo passa a ser de
propriedade destes, não havendo infração às normas legais se o
consumidor trocar o garrafão, que adquiriu e pagou, por outro
contendo água mineral captada em outra fonte.
Na instrução do feito, apurado ficou que a ré não vende o
seu produto como sendo água Indaiá, pois, em cada garrafão que
utilizava colocava o rótulo com a marca Olympia, o que
impossibilitava o comprador de adquirir o produto por ela distribuído
como sendo o da marca da autora.
O MM. Juiz julgou as ações procedentes, fincando em que
a utilização dos garrafões, mesmo levando em consideração o uso de
rótulos com a marca Olympia, pode confundir o consumidor no
concernente à qualidade do produto que está adquirindo.
Apelou a vencida, alegando nulidade da sentença, por
haver decidido o dr. Juiz a quo, as duas ações em um só julgamento,
e, em relação ao mérito, pediu a reforma do decisum. "

O Tribunal de Justiça do Estado do Ceará deu provimento à apelação


da ré, Olympia Mineral Ltda, para julgar improcedente a ação, em acórdão assim
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ementado (fl. 245):

"Concorrência desleal. Não a caracteriza a utilização de garrafão


que traz colado, de maneira bem visível, a marca do produto exposto
à venda.
O garrafão de água, a exemplo do que ocorre com o botijão de gás,
pertence ao consumidor que o adquiriu como condição para que lhe
seja vendida a mercadoria nele contida.
Ação improcedente. Apelação provida. Sentença reformada."

Inconformada, Indaiá Brasil Águas Minerais Ltda. interpõe, pelas


letras "a" e "c" do art. 105, III, da Constituição Federal, recurso especial alegando, em
síntese, que se dedica ao comércio e distribuição de águas minerais extraídas de suas
fontes, fornecidas aos seus consumidores por distribuição em sua frota de veículos em
garrafões de polietileno de 20 litros cada, que "têm sempre impresso em seu corpo a
marca nominativa "INDAIÁ" e o logotipo do GRUPO EDSON QUEIROZ, em relevo,
de sua propriedade e uso exclusivo " (fl. 230); que vem promovendo os registros de
suas marcas em consonância com as leis regulamentares da espécie, titularidade essa
que lhe confere a propriedade e seu uso exclusivo, vedada a terceiros a sua
reprodução, imitação ou utilização industrial ou comercialmente, sem a sua anuência,
com apenamento inclusive criminal; que a ré, recentemente estabelecida no Estado do
Ceará, onde exerce o comércio de águas minerais mediante sistema semelhante ao da
autora, vem se apropriando indevidamente dos garrafões com a marca "INDAIÁ" e
logotipos, que se encontram em poder de fregueses e usuários, e os empregando para
venda e distribuição da água produzida em sua fonte do Sítio Francisco, em Pacotí;
que também está adicionando aos ditos garrafões o seu próprio rótulo com o
logotipo-marca "OLYMPIA", confundindo o usuário, praticando concorrência desleal
e desviando clientela.

Aduz que moveu ação cautelar de busca e apreensão e ação


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cominatória de obrigação de não fazer, julgadas procedentes em 1ª instância, impedida
a ré de utilizar os aludidos garrafões, sob pena pecuniária de R$ 50,00 por unidade
apreendida; em 2º grau a decisão foi reformada pelo Tribunal de Justiça, com a
improcedência das ações.

Sustenta a recorrente que o aresto estadual negou vigência aos arts. 59


e 175 da Lei n. 5.772/1971 (Código da Propriedade Industrial) e 196 do Código Penal,
constituindo o ponto nodal da controvérsia "se é permitido a uma empresa
comercializar seus produtos em recipientes com marcas de outrem? " (fl. 234), ao que
responde negativamente.

Destaca a proteção que a lei brasileira confere à marca e ao seu uso


exclusivo, que de resto assim é em todo o mundo, de modo a coibir a "pirataria
industrial, o enriquecimento sem causa " (fl. 236).

Diz, mais, que embora as empresas que atuam no segmento estejam


obrigadas a receber vasilhames de outras marcas, isso não importa em autorização para
a sua utilização, devendo promover a destroca com a sociedade detentora da marca
impressa no garrafão, lembrando o que ocorre com os recipientes transportáveis para
uso de gás liquefeito de petróleo (GLP), onde assim se processa a comercialização,
preservando-se o direito de cada um, de conformidade com o art. 13 da Portaria n. 843,
de 31.10.1990, do Ministério da Infra-Estrutura.

Sem contra-razões (fl. 263).

O recurso especial foi admitido na instância de origem pelo despacho


presidencial de fls. 258/260.

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Parecer da douta Subprocuradoria-Geral da República às fls. 268/271,
pelo Dr. Henrique Fagundes Filho, no sentido do não-conhecimento do recurso.

É o relatório.

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VOTO

EXMO. SR. MINISTRO ALDIR PASSARINHO JUNIOR


(Relator): Trata-se de recurso especial, aviado pelas letras "a" e "c" do permissivo
constitucional, interposto contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará,
que julgou improcedentes ações cautelar de busca e apreensão e cominatória de
obrigação de não fazer movidas por Indaiá Brasil Águas Minerais Ltda. contra
Olympia Mineral Ltda, onde a autora, ora recorrente, objetivava fosse impedida a ré de
se utilizar de garrafões por ela produzidos para comercialização de seu produto como
vazilhames da água mineral originária de fonte da ré e por esta oferecida ao mercado
consumidor.

É apontada ofensa aos arts. 59 e 175 da Lei n. 5.772/1971 (Código da


Propriedade Industrial) e 196 do Código Penal, a par de dissídio jurisprudencial.

Com relação à letra "c", tenho que não se configura a divergência,


porquanto não foi trazido à colação sequer um único julgado em confronto.

No tocante à letra "a", melhor sorte não socorre a autora.

Efetivamente, faltou o indispensável prequestionamento, deixando a


recorrente de opor embargos declaratórios para provocar a expressa manifestação da
Corte estadual a respeito, atraindo, conseqüentemente, a incidência das Súmulas n. 282
e 356 do Pretório Excelso.

Não fora isso, o aresto a quo serviu-se de prova pericial e calcou-se


em outros elementos fáticos dos autos, concluindo que não correspondia à realidade a
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assertiva de que a ré não adquirira garrafões próprios; que aplicara sobre os
vazilhames rótulo de sua marca e assim também os lacrara para consumo; que a
propriedade dos garrafões é do consumidor que paga por eles e após os troca nos
postos pagando apenas pelo conteúdo líquido como no caso dos botijões de gás; que a
comercialização dos recipientes é livre; e que há nítida diferenciação entre os produtos
impedindo a confusão do consumidor (fls. 246/248).

Nessas circunstâncias, para se chegar a conclusão diversa,


notadamente considerando-se que a tese jurídica deixou de ser delineada com precisão
pela falta de prequestionamento, somente com o reexame fático, vedado a esta Corte
ao teor da Súmula n. 7.

Ante o exposto, não conheço do recurso especial.

É como voto.

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