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DIREITO PENAL III

Prof. Maurilo Sobral


INDUZIMENTO, INSTIGAÇÃO OU AUXÍLIO A
SUICÍDIO
• Art. 122 - Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:
• Pena - reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três
anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.
• Parágrafo único - A pena é duplicada:
• Aumento de pena
• I - se o crime é praticado por motivo egoístico;
• II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.
Elementos do Tipo

• Elementos objetivos:

A) Induzimento (moral)
B) Instigação (moral)
C) Auxílio (material) - O auxílio deverá ser sempre acessório.
Obs: “ Deixa de haver participação em suicídio quando o auxílio intervém diretamente
nos atos executórios, caso em que o agente colaborador responderá por homicídio.”
(CUNHA,2017, p.88)
Divergência -Omisso/comissivo?

• Nélson Hungria: “ a prestação de auxílio pode ser comissiva ou omissiva.


Neste último caso, o crime só se apresenta quando haja um dever jurídico
de impedir o suicídio”.
Elementos do tipo
• Sujeito ativo: qualquer pessoa.
• Sujeito passivo: qualquer pessoa*
• Objeto material: necessariamente uma pessoa.
• Objeto jurídico: vida.
• Elementos subjetivos: dolo. Não existe forma culposa.
• Consumação: quando a ocorrência do resultado morte e a tentativa (apesar das
discussões doutrinárias), quando resulte lesão corporal grave. Se resultar lesão leve
ou se não resultar dano, o fato é atípico.
Induzimento, Instigação ou Auxílio a
Suicídio

• Pensando o Dolo na prática:


Para a caracterização do crime do art. 122 do CP, é necessário o dolo
específico, ou seja, a intenção deliberada e manifestada de forma ativa de
criar na vítima a intenção de suicidar-se. A eventual prática de crime
patrimonial por parte dos acusados, eu indiretamente ou por via oblíqua , em
razão do vexame e constrangimento, levou o ofendido ao suicídio, não
constitui a conduta delituosa descrita naquele tipo pena (TJRS, Recurso em
sentido estrito, 70020004875)
A questão da tentativa

• Tradicionalmente, havia um entendimento de que a morte ou a lesão corporal


consistiam em condições objetivas de punibilidade e não em elemento do crime.
• Hoje, prevalece a ideia de que a morte e a lesão corporal grave são elementos do
tipo, não havendo possibilidade de tentativa, pois, mesmo a lesão corporal grave
seria caso de delito consumado. (Neste sentido: MAGALHÃES NORONHA, CAPEZ)
• Há ainda o posicionamento isolado de Bitencourt, para quem há a tentativa no
caso de o resultado ser a lesão corporal grave, consumando o tipo apenas quando
ocorre a morte da vítima.
Forma omissiva (excepcionalmente)

• Admite-se a forma omissiva excepcionalmente no caso da conduta


“auxiliar” e no caso do garante (que possui o dever de evitar o resultado) que
deixa de agir para evitar o resultado.
Causas de aumento de pena

• Motivos egoísticos
• Vítima “menor”: de um modo geral, a doutrina entende que aquela que possui 14 anos ou
mais e menos de 18. (NUCCI e BITENCOURT)
RESUMO:
-> menos de 14: homicídio
-> 14 anos ou mais e menos de 18: participação em suicídio com causa de aumento de pena
-> a partir de 18 anos: participação em suicídio
Porém, diante da indeterminação do texto, alguns autores afirmam que o prudente seria
analisar cada caso concreto (SANCHES).
Questões especiais

• Greve de fome;
• Roleta russa ou pacto de suicídio: responde por homicídio quem praticar o ato
executivo contra terceiro. Ex: Manuela e Manuel “divertem-se” com a prática de
roleta russa. Vejamos as hipóteses de resultado:
a) Cada um atira em direção à própria cabeça: havendo sobrevivente, responde pelo
delito do art. 122.
b) Apenas um deles é responsável por acionar o gatilho (ato executório): o
sobrevivente responde por homicídio (121) se for quem aciona o gatilho ou
responde pelo 122, se não for o que aciona o gatilho.
Classificação

• Comum
• Material (Nelson Hungria entendia que era crime formal, mas esse entendimento não mais predomina)
• Comissivo e, excepcionalmente, omissivo.
• Delito de dano
• Instantâneo
• Doloso
• Plurissubsistente
Infanticídio

• Art. 123. Matar, sob a influência do estado puerperal, próprio filho, durante
o parto ou logo após: Pena – detenção de 2 (dois) a 6 (seis) anos.
Infanticídio

• Trata-se da conduta da mãe que, sob a influência do estado puerperal, mata


o nascente ou recém-nascido.
• O que é o estado puerperal? É o estado que envolve a parturiente durante a
expulsão da criança do ventre materno, que pode levá-la a sofrer um
colapso moral, uma liberação de impulsos. Não é alienação completa, pois,
neste caso, a conduta não seria culpável por ausência de culpabilidade.
‘É o estado que envolve a parturiente durante a expulsão da criança do ventre materno. Há profundas
alterações psíquicas e físicas, que chegam a transtornar a mãe, deixando-a sem plenas condições de
entender o que está fazendo. É um hipótese de semi-imputabilidade que foi tratada pelo legislador
com a criação de um tipo especial. O puerpério é o período que se estende do início do parto até a volta
da mulher às condições pré-gravidez.” ( NUCCI, p.665)
Infanticídio

• Julgados: “ O simples fato de matar a filha, logo após o parto, não autoriza dizer
que foi soba influência do estado puerperal. Necessário que haja provas de que a
recorrente estivesse sob forte perturbação psíquica e hormonal, sendo incapaz de
discernir e de se autodeterminar, sem forças para inibir o seu animus necandi.
Contudo, havendo documentos médicos que ateste a higidez mental da acusada
deve-se deixar a cargo do Conselho de Sentença decidir se a vítima agiu ou não sob
influência do estado puerperal, eventualmente desclassificando o crime de homicídio
para o delito de infanticídio e, caso prevaleça a tese acusatória, também a questão
relativa às qualificadoras deve ser submetida à apreciação do Tribunal do Juri.” (TJMG,
2016).
Elementos do tipo

• Sujeito ativo: somente a mãe – crime próprio.


• Sujeito passivo: somente o nascente ou recém nascido.
• Objeto material: necessariamente uma pessoa.
• Objeto jurídico: vida
• Elementos subjetivos: dolo. Não existe forma culposa.
• Elemento normativo de tempo: durante o parto ou logo após.
• Elemento normativo psicológico: influência do estado puerperal.
• Consumação: Com a morte do nascente ou recém-nascido. Admissível a tentativa.
• Comissiva/ omissivamente ( Art.13§2)
Infanticídio

• Condicionante temporal! E a prova que o filho nasceu com vida!


Infanticídio

• Estado puerperal (elemento etiológico) + Logo após o parto (elemento


cronológico) = Infanticídio.

Obs: “ Aletarmos, entretanto, que para a caracterização do infanticídio não


basta que a mãe mate o filho durante ou logo após o parto, sob a influência do
estado puerperal: é preciso, também, que haja uma relação de causa e efeito
entre tal estado e o crime, pois nem sempre ele produz perturbações
psíquicas na parturiente” (CUNHA, 2017, p.97)
Concurso de agentes no delito de infanticídio

A maior parte da doutrina entende que o estado puerperal é uma condição


pessoal que, por força do disposto no art. 30 do CP, comunica-se, permitindo,
assim, a coautoria.
Infanticídio

• Três situações para pensar o infanticídio:


• A) A parturiente e o médico executam o núcleo matar o neonato;
• B) A parturiente, auxiliada pelo médico, sozinha, executa o verbo matar.
• C) O médico, induzido ela parturiente, isolado executa a ação matar.
Art. 124: aborto praticado pela gestante ou
com seu consentimento
• Abortar é inviabilizar, de qualquer modo, a vida intrauterina (tomando medicamentos,
agredindo o ventre etc)
• Provocar aborto em si mesma (autoaborto) ou permitir que outrem lhe provoque (com
consentimento).
• Observem que as condutas aqui são:
- AUTOABORTAR
- CONSENTIR QUE OUTREM FAÇA O ABORTO
- Obs:São ações personalíssimas, que só podem ser praticadas pela gestante. Desse modo o
crime é de mão próprio, admitindo, tão-somente, a participação.
Modalidades de abortamento

• Aborto natural: ocorre de forma espontânea e não é crime.


• Aborto acidental: decorre de acidentes, quedas etc. Não é crime.
• Aborto criminoso -> praticado pela gestante
-> praticado por terceiro com consentimento da gestante
-> praticado por terceiro sem consentimento da gestante (mais
grave)
Elementos do tipo do art. 124

• Sujeito ativo: somente a gestante – crime de mão própria.


• Sujeito passivo: feto ou o Estado, para quem não admite que o feto seja titular de direitos.
• Objeto material: necessariamente uma pessoa.
• Objeto jurídico: vida.
• Elementos subjetivos: dolo. Não existe forma culposa.
• Consumação: morte do feto. Admite-se tentativa
OBS: porque é crime de mão própria, o terceiro que efetua o ato executório do abortamento
responde pelo artigo 126 (aborto com consentimento da gestante).
Art. 126: Provocar aborto com consentimento
da gestante
• É justamente o caso do terceiro que pratica o aborto. Assim, a gestante responde pelo
artigo 124 (consentir) e o autor responde pelo artigo 126 (provocar).
• Sujeito ativo: qualquer pessoa.
• Sujeito passivo: o feto ou o Estado (para quem não admite que o feto seja titular de
direitos).
• Elementos subjetivos: dolo. Não existe forma culposa.
• Objeto material: o feto.
• Objeto jurídico: vida
• Consumação: com a morte do feto. Admite-se tentativa.
Parágrafo único
Aplica-se:
a)Se a gestante não é maior de quatorze anos;
b)Se a gestante é alienada ou débil mental;
c)Se o consentimento é obtido mediante
fraude, grave ameaça ou violência;
Art. 125: Provocar aborto sem o
consentimento do agente.
• É a forma mais gravosa, porque aqui se atinge dois sujeitos passivos: o feto e a gestante.
• Sujeito ativo: qualquer pessoa
• Sujeito passivo: o feto e a gestante
• Elemento subjetivo: dolo. Não se admite a forma culposa.
• Objeto material: o feto e a gestante
• Objeto jurídico: vida e a integridade física da mulher.
• Consumação: com a morte do feto. Admite-se a tentativa.
Aborto Majorado pelo Resultado

• Art. 127. As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de
1/3 ( um terço), se, em consequência do aborto ou do meios empregados
para provoca-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são
duplicadas se por causa dessas causas, lhe sobrevém a morte.
Causas de aumento de pena (para os artigos
125 e 126)
• 1/3 – se houver lesão corporal grave na gestante.
• Duplicadas – se houver morte da gestante
- NOS DOIS CASOS HÁ A FIGURA DO PRETERDOLOSO.
• Atenção: as causas de aumento de pena incidem se o agente não tem dolo
sobre o resultado. Porém, se o agente quer (dolo direito) ou ao menos
assume o risco de (dolo eventual) produzir as lesões ou a morte, o caso é de
concurso formal.
Questão discutível:

• O que ocorre se, ao final da conduta, morrer a gestante, mas não morrer o feto?

DOLO NO ABORTO + CULPA NO RESULTADO MORTE

TENTADO CONSUMADO
Prado; Capez: responde pelo aborto majorado consumado, assim como no latrocínio.
Mirabete, Hungria, Fragoso: responde pelo aborto qualificado tentado. (resposta comumente
dada).
Questões importantes

• E caso da prática abortiva resta lesões corporais ou a morte da vítima, em


uma situação de gravidez inexistente?
Aborto Legal

• Art. 128. Não se pune o aborto praticado por médico:


• Aborto necessário
• I – Se não há outro meio de salvar a vida da gestante;
• Aborto no caso de gravidez resultante de estupro
• II – Se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de
consentimento da gestante ou quando incapaz, de seu representante legal.
Aborto necessário

• A) Aborto praticado por médico;


• B) O perigo de vida da gestante; (não basta o perigo para a saúde)
• C) A impossibilidade do uso de outro meio para salvá-la:
Aborto Sentimental

• Previsto no II
Configura-se quando presente:
A) Que o aborto seja praticado por médico;
B) Que a gravidez seja resultante de estupro
C) Prévio consentimento da gestante ou seu representante legal;
Deisistência Voluntária e Arrependimento
Eficaz

• O caso da gestante.

• O caso de terceiros. - O consentimento da vítima só afasta a ilicitude no


caso de produção de lesões leves, jamais nos casos de lesões graves.
Aborto

• Questão de grande relevância atual que vem, inclusive, com disposições no projeto do novo Código Penal,
onde o abortamento passa a ser conduta não criminosa, desde que praticado até a 12ª semana de gravidez.
• A discussões ainda sobre o que se chamou de aborto eugênico, isto é, a eliminação do feto completamente
inviável. O STF decidiu, na ADPF 54, que a interrupção da gravidez de feto anencéfalo não se enquadraria
no tipo de aborto, em nenhuma de suas modalidades.
“O Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, julgou procedente a ação para declarar a
inconstitucionalidade da interpretação segundo a qual a interrupção da gravidez de feto anencéfalo é
conduta tipificada nos artigos 124, 126, 128, incisos I e II, todos do Código Penal, contra os votos dos
Senhores Ministros Gilmar Mendes e Celso de Mello que, julgando-a procedente, acrescentavam condições de
diagnóstico de anencefalia especificadas pelo Ministro Celso de Mello; e contra os votos dos Senhores
Ministros Ricardo Lewandowski e Cezar Peluso (Presidente), que a julgavam improcedente. Ausentes,
justificadamente, os Senhores Ministros Joaquim Barbosa e Dias Toffoli” Plenário, 12.04.2012
Lesão Corporal

• Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem:


Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano.
Lesões corporais e os elementos do tipo
• Todo dano à integridade física ou à saúde (alterações fisiológicas ou perturbações
psíquicas) de produzido por alguém sem que haja animus necandi (ânimo de
ceifar a vida, de matar).
• Observações sobre a autolesão*
• Sujeito ativo: qualquer pessoa
• Sujeito passivo: qualquer pessoa (com exceção das figuras qualificadas, em que se
exige uma qualidade especial da vítima: ser ascendente, descendente etc e nas
lesões graves e gravíssimas que antecipam o parto ou provocam o aborto)
• Elementos subjetivos* - animus ladendi
• Objeto material: corpo
• Objeto jurídico: integridade física e mental
OBS: Hoje são admitidas diversas formas de disponibilidade desse bem (piercings,
tatuagens, transplante em pessoas vivas etc) – A lesão leve e culposa são de ação
pública condicionada.
OBS: Violência doméstica – Lei nº 10.886/04
Tipos de lesões corporais

• Lesões leves (art. 129, caput)


• Lesões graves (art. 129, § 1°)
• Lesões gravíssimas (art. 129, § 2°)
• Lesões seguidas de morte (art. 129, § 3°)
• Lesões privilegiadas (art. 129, §§ 4° e 5°)
• Lesões culposas (art. 129, §6°)
• Lesões majoradas (art. 129, § 7°)
• Lesões domésticas (modalidade especial de lesão leve, § 9°)
• Lesões graves e gravíssimas majoradas pelo contexto doméstico (§ 10°)
Lesões leves

• É aquela definida por exclusão. Se não sobrevierem os resultados qualificadores dos parágrafos
1° , 2° e 3°, a lesão é leve.
• Não se confunde com a contravenção de ‘vias de fato’. Artigo 21 do Decreto Lei 3688 de 1941:
“Praticar vias de fato contra alguém: Pena - prisão simples, de quinze dias a três meses, ou
multa, se o fato não constitui crime. Parágrafo único. Aumenta-se a pena de um terço até a
metade se a vítima é maior de 60(sessenta) anos”.
• Os simples eritemas e a dor não são considerados lesões leves.
• Tentativa: seria possível do ponto de vista teórico, mas fica difícil de observar na prática.
• Lesão corporal leve e princípio da insignificância  necessidade de proporcionalidade entre
conduta que se pretende punir e a drasticidade da intervenção estatal.
Lesão Corporal

• Obs: A lesão corporal dolosa compõe-se:


a) Dano à integridade física ou à saúde de outrem;
b) Relação causal entre ação e resultado;
c) Animus laedendi.
Lesão corporal seguida de morte
(homicídio preterdoloso)

Crime preterdoloso ou preterintencional é aquele no qual há duplicidade de


elemento subjetivo: dolo no resultado antecedente e culpa no resultado
consequente (BRADÃO, C. Curso de direito penal. 2010, p. 132)

-> No caso, há dolo na produção da lesão corporal e culpa na produção da morte. Se


houver dolo (direito ou eventual) em relação ao resultado morte, responde o agente
por homicídio.
Lesão corporal seguida de morte (homicídio
preterdoloso)
• Magalhães Noronha: “ É no §3 do Art. 129 onde melhor o código define o crime
preterdoloso ou preterintencional. O verbo resultar indica o texto de causalidade
material entre a ação do agente e o eento morte, e as expressão não quis o
resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo, excluem taxativamente o dolo direto
e eventual.”

• Obs: O caso fortuito, ou a imprevisibilidade do resultado, elimina a configuração do


crime preterdoloso, respondendo o agente apenas pelas lesões corporais.
Lesões graves (§1°)
I- Incapacidade para ocupações habituais por mais de 30
dias:
-> ocupações habituais: não são apenas as laborais, podendo
ser tudo aquilo que fazia parte do hábito diário da vítima; é
preciso que as atividades sejam lícitas.
-> Necessidade do exame de corpo de delito complementar
após os trinta dias da data da lesão. Natureza do prazo:
material, contando-se conforme o artigo 10 do CP.

II- Perigo de vida: a vida da vítima deve ter passado por efetivo
perigo. A probabilidade de morte é real. (obs: claro que se o
desejo do agente era matar, mas não conseguiu, responde por
homicídio tentado).
Lesões graves (§1°)
III- Debilidade permanente de membro, sentido ou função: debilidade é a redução da
capacidade funcional. Permanente é a que não desaparece com o decorrer do tempo.
ATENÇÃO: o fato de haver tratamento reabilitador não descaracteriza a lesão grave.
• Membros: apêndices de corpo
• Sentidos: funções perceptivas do mundo exterior
• Função: atividade desempenhada por vários órgãos: respiratória, digestiva, circulatória,
secretora, locomotora, reprodutora
• Órgão: parte do corpo humano que tem determinada função
IV – Aceleração de parto:
Antecipação do nascimento. É necessário que o feto nasça com vida, pois, do contrário,
responde o agente por aborto.
É necessário ter conhecimento da gravidez.
Lesões gravíssimas (§2°)

I- Incapacidade permanente para o trabalho


• Refere-se a qualquer trabalho e não ao trabalho específico da vítima
• Trabalho: atividade laboral lucrativa
• É irrelevante que a vítima se apresente clinicamente curada: se a incapacidade
restou comprovada, a lesão é gravíssima
II- Enfermidade incurável:
Doença que advém das lesões e que são consideradas no momento atual da ciência
como não passíveis de cura.
III – Perda ou inutilização de membro, sentido ou função
• Perda: mutilação (violência)/amputação(cirurgia)
• Inutilização: perda da capacidade funcional
Questões difíceis:
- Órgãos duplos: olhos, rins, orelhas: a perda de um deles é
caracterizada como debilidade permanente (lesão grave)
- Perda de um dedo da mão: Damásio de Jesus também considera
como debilidade permanente (lesão grave), mas a perda da mão ou
do braço é considerada perda de membro.

IV- Deformidade permanente:


• Precisa ser visível e expor necessariamente a vítima a uma
humilhação, vexame.
V- Aborto: o resultado aborto é culposo e a pessoa não pode ter
desejado ou assumido o risco de produzi-lo. Se isso ocorre, ela
responde pelo concurso entre lesão corporal e aborto.
O agente precisa saber da gravidez.
Jurisprudência aplicada
• Perda de dentes: não é considerado como deformidade permanente (lesão gravíssima), mas pode ser o caso de
debilidade permanente, desde que fiquei comprovada a perda da capacidade da função mastigatória.

CRIMINAL. RECURSO ESPECIAL. LESÃO CORPORAL. PERDA DE DENTES. DEFORMIDADE OU DEBILIDADE


PERMANENTES NÃO VERIFICADAS. LESÃO CORPORAL DE NATUREZA GRAVE. AUSÊNCIA DE PERÍCIA.
NECESSIDADE DE REVOLVIMENTO DE MATÉRIA DE PROVA. IMPOSSIBILIDADE. RECURSO NÃO CONHECIDO.
I. Hipótese em que a vítima, ao levar um soco na boca em meio a uma briga com colega, perdeu dois dentes inferiores. II.
Impossibilidade de equiparação da hipótese dos autos, de amolecimento e perda de dois dentes em razão de um soco
desferido na boca em meio a uma briga, com casos de mutilações de membros, de
nariz ou orelhas, de cicatrizes grandes advindas de queimaduras a fogo ou por substâncias químicas, ocasionadas de forma
violenta e dolosa, que só podem ser revertidas através de cirurgia plástica.
III. Caracterização da qualificadora que necessita da aferição de critérios de índole subjetiva.
IV. A deformidade permanente apta a caracterizar a qualificadora no inciso IV do § 2º do art. 129 do Código Penal,
segundo parte da doutrina, precisa representar lesão estética de certa monta, capaz de produzir desgosto,
desconforto a quem vê ou humilhação ao portador, não sendo qualquer dano estético ou físico. Embora se
entenda que a deformidade não perde o caráter de permanente quando pode ser dissimulado por meios artificiais,
ela precisa ser relevante.
V. Hipótese em que há possibilidade de realização de intervenção odontológica capaz de minimizar o resultado da lesão, que
embora mantenha o seu caráter de definifitiva, a vítima não será considerada uma pessoa deformada.
VI. Possibilidade de enquadramento na hipótese de debilidade permanente de função prevista no inciso III, § 1º do
mesmo art. 129 do Código Penal, porém, diante da ausência de qualquer laudo pericial atestando eventual perda
parcial da função, não se pode proceder ao enquadramento pretendido.
VII. Para considerar a lesão como causadora de debilidade permanente seria preciso incursionar pela prova ou quiçá
produzi-la nesse sentido tanto para defini-la em termos fáticos quanto para determinar a extensão de seus efeitos físicos, o
que é inviável em sede especial, diante do óbice da Súmula 07/STJ.
VIII. Recurso não conhecido. (STJ, REsp 1220094 / MG, Ministro GILSON DIPP, DJe 09/03/2011)
Resumo
LESÕES GRAVES LESÕES GRAVÍSSIMAS
Incapacidade para as ocupações Incapacidade permanente para o
habituais, por mais de 30 dias trabalho
Perigo de vida Enfermidade incurável
Debilidade permanente de membro, Perda ou inutilização de membro
sentido ou função sentido ou função
- Deformidade permanente
Aceleração do parto Aborto
Lesões corporais culposas

• O código não traz graduação das lesões quando provocadas culposamente.


Porém, é incontestável que alguns resultados culposos são mais graves que
outros. Dessa forma, essa questão pode ser analisada pelo juiz quando da
aplicação da pena.

• Art. 129, § 8°: hipótese de perdão judicial, assim como se dá no homicídio


culposo.
Lesões majoradas
§ 7° do CP: Aumenta-se a pena de um 1/3, se ocorrer quaisquer das
hipóteses do artigo 121, § 4°.
Lembrando...
-> Para as lesões culposas a pena é aumentada se:
1) Inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício – nesta
hipótese, o agente conhece a regra técnica, mas não a observa por
negligência ou imprudência. Ex: caso de uma técnica de
enfermagem que ministra um remédio na veia do paciente ao
invés de ministrar soro (existe uma regra que consiste em verificar
a substância, mas ela não a observa, por negligência).
2) Omissão de socorro à vítima
3) Não procura diminuir as consequências de sua ação
4) Foge para se furtar ao flagrante.
-> Para as lesões dolosas, a pena é aumentada:
Se a vítima é menor de 14 anos ou maior de 60.
Lesões corporais privilegiadas

É, em verdade, uma lesão corporal sobre o qual recaem causas de diminuição de


pena. Hipóteses:
- relevante valor social
- relevante valor moral
- domínio de violenta emoção (difere da atenuante geral do artigo 65, III) + injusta
provocação da vítima
Obs: para se adequar a essa última hipótese, é necessário que o ação do agente se
desenrole imediatamente após à injusta provocação da vítima e, ainda, que o agente
esteja efetivamente dominado por essa violenta emoção.
Aplicação das causas de diminuição de pena

Discussão doutrinária: essas privilegiadoras se aplicam a todos os tipos de lesões?


-> aplica-se apenas às graves/gravíssimas e seguidas de morte (Bitencourt); Mirabete/Capez (inclui as leves)

Por que há essa discussão?


• Diminuição de pena
§ 4° Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da
vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço.
• Substituição da pena
§ 5° O juiz, não sendo graves as lesões, pode ainda substituir a pena de detenção pela de multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis:
I - se ocorre qualquer das hipóteses do parágrafo anterior;
II - se as lesões são recíprocas.
Substituição de pena no caso das lesões leves

• No caso das lesões leves, o juiz pode substituir e pena de detenção pela de
multa:
- Se ocorrer quaisquer das causas de diminuição de pena previstas no § 4°
(relevante valor social ou moral do motivo e reação imediata a injusta
provocação da vítima)
- Se as lesões são recíprocas
Violência doméstica
Apesar de referir a violência, o tipo se restringe à lesão corporal.
“§ 9o Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão,
cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou,
ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de
coabitação ou de hospitalidade: (Redação dada pela Lei nº 11.340, de
2006)
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos. (Redação dada pela
Lei nº 11.340, de 2006)
§ 10. Nos casos previstos nos §§ 1o a 3o deste artigo, se as circunstâncias
são as indicadas no § 9o deste artigo, aumenta-se a pena em 1/3 (um
terço). (Incluído pela Lei nº 10.886, de 2004)
§ 11. Na hipótese do § 9o deste artigo, a pena será aumentada de um
terço se o crime for cometido contra pessoa portadora de deficiência.”
Violência doméstica
• LESÃO LEVE: aplica-se o § 9º
• LESÃO GRAVE OU GRAVÍSSIMA: aplica-se o § 10º
• Sujeito ativo e passivo: possuem relação de parentesco e/ou de coabitação.
• Sujeito passivo: no caso da primeira parte do § 9: cônjuge, companheiro, ascendente, descendente ou
irmão. No caso da segunda parte, qualquer pessoa, desde que haja relação de coabitação ou hospitalidade.
• LESÃO LEVE PRATICADA CONTRA PESSOA COM DEFICIÊNCIA NO ÂMBITO DOMÉSTICO - § 9º
• LESÃO GRAVE OU GRAVÍSSIMA CONTRA DEFICIENTE NO CONTEXTO DOMÉSTICO?
“§ 11. Na hipótese do § 9o deste artigo, a pena será aumentada de um terço se o crime for cometido contra
pessoa portadora de deficiência.”
Violência doméstica

• Sujeito ativo e passivo: possuem relação de parentesco e/ou de coabitação.


• Sujeito passivo: no caso da primeira parte do § 9: cônjuge, companheiro,
ascendente, descendente ou irmão. No caso da segunda parte, qualquer
pessoa, desde que haja relação de coabitação ou hospitalidade. No caso do
§ 11, o sujeito passivo é pessoa com deficiência.
Decisão do STF na ADI 4424

• Decisão: O Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, julgou procedente a ação
direta para, dando interpretação conforme aos artigos 12, inciso I, e 16, ambos da Lei nº
11.340/2006, assentar a natureza incondicionada da ação penal em caso de crime de
lesão, pouco importando a extensão desta, praticado contra a mulher no ambiente
doméstico, contra o voto do Senhor Ministro Cezar Peluso (Presidente). Falaram, pelo
Ministério Público Federal (ADI 4424), o Dr. Roberto Monteiro Gurgel Santos, Procurador-
Geral da República; pela Advocacia-Geral da União, a Dra. Grace Maria Fernandes
Mendonça, Secretária-Geral de Contencioso; pelo interessado (ADC 19), Conselho Federal
da Ordem dos Advogados do Brasil, o Dr. Ophir Cavalcante Júnior e, pelo interessado (ADI
4424), Congresso Nacional, o Dr. Alberto Cascais, Advogado-Geral do Senado. Plenário,
09.02.2012.